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<p>A História dos Bancos no Brasil</p><p>Das casas bancárias aos conglomerados financeiros</p><p>Concepção, organização, edição e texto final</p><p>Alexis Cavicchini</p><p>Textos principais</p><p>Alexis Cavicchini</p><p>Fernando Cerqueira Lima</p><p>Editor Assistente</p><p>Fernando Mello</p><p>Colaboradores de textos</p><p>Alexis Mendonça</p><p>André Siqueira</p><p>Antônio Izaias da Costa Abreu</p><p>Carlos Daniel Coradi</p><p>Fernando Mello</p><p>Guilherme Lenz</p><p>João Hélio de Moraes</p><p>Marco Antonio Fichtner</p><p>Ricardo Figueiredo Lima</p><p>Ubiratan Solino</p><p>Consolidação dos balanços</p><p>Carlos Daniel Coradi</p><p>Revisão</p><p>Felipe Batista</p><p>Melanie Siqueira</p><p>Edição de Arte</p><p>Antônio Humberto</p><p>Gesiel Dias</p><p>Juliana Affonso</p><p>Ubiracy Junior</p><p>Projeto Cultural - Lei Rouanet</p><p>Bernardo Dinis</p><p>Salete Gondim</p><p>Kelly Marques</p><p>Fotografias</p><p>Adrian Pingston</p><p>Antônio Izaias da Costa Abreu</p><p>Daniel Renault</p><p>Enebe Produções Fotográficas SC</p><p>David Croll</p><p>João Musa</p><p>Melanie Siqueira</p><p>Nair Benedicto</p><p>Paula Filizola</p><p>Rômulo Fialdini</p><p>Sérgio Zacchi</p><p>Bancos de Imagens</p><p>Agência Dreamstime, Agência PhotoDisc e Agência Zero Hora.</p><p>O nome do fotógrafo e da agência aparecem como crédito na fotografia ou em destaque na foto. As artes e</p><p>ilustrações feitas nas páginas do livro com material bruto de uso genérico da PhotoDisc contratualmente</p><p>devem ser creditadas a PhotoDisc que consolida todos os direitos dos fotógrafos.</p><p>Acervos Particulares</p><p>Ari Waddington, Antônio Izaias, AC Pereira Pinto, Família Agudo Romão, Gustavo Monteiro e Paulo Bodmer</p><p>Acervos de Instituições Públicas e Privadas</p><p>Agência Brasil, Aggrego, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Nacional, Associação Comercial</p><p>do Rio de Janeiro, Associação Comercial de São Paulo, Biblioteca Mario de Andrade SP, Biblioteca Nacional</p><p>do Rio de Janeiro, Centro Cultural do Banco do Brasil, Centro de Memória da Bovespa, Galeria dos</p><p>Presidentes do Banco Central, Memória do ABN AMRO REAL, Memória do Bradesco, Memória Itaú,</p><p>Ministério das Relações Exteriores, Museo Nacional de Bellas Artes (Buenos Aires, Argentina), Museu da</p><p>CAIXA, Museu da República, Museu de Valores do Banco Central do Brasil, Museu Histórico Nacional,</p><p>Museu Nacional de Belas Artes, Museu Paulista da USP e Pinacoteca.</p><p>Outros créditos</p><p>As imagens do Jubileu da Rainha Vitória e da coleção do Palácio de Windsor são gentilmente liberadas pelo</p><p>governo do Reino Unido, pelo ato da Crown Copyright Artistics Works. As imagens por nós escaneadas na</p><p>fonte ou que recebemos digitalizadas dos museus e outras instituições, só recebem o crédito do acervo.</p><p>© 2007 - Todos os direitos de textos consolidados em nome de Alexis Cavicchini</p><p>Edição e impressão</p><p>COP EDITORA LTDA.</p><p>Rua Baronesa do Engenho Novo, 189 - Rio de janeiro - RJ</p><p>Tel. (5521) 2501-2001 - www.suma.com.br</p><p>História</p><p>Bancos</p><p>Brasil</p><p>dos</p><p>no</p><p>A</p><p>Das casas bancárias aos</p><p>conglomerados financeiros</p><p>Alexis Cavicchini Teixeira de Siqueira</p><p>Concepção, organização, edição e texto final</p><p>Além de extensa pesquisa bibliográfica, o Escrever este livro, foi também uma</p><p>livro foi muito enriquecido com dezenas de oportunidade de avaliar, com a isenção do</p><p>entrevistas, que geraram mais de cem horas de tempo e da história, a formidável visão que</p><p>gravações, com banqueiros e autoridades do teve Octávio Gouvêa de Bulhões em 1964, ao</p><p>sistema financeiro, que ainda estão em atividade prever que os bancos brasileiros teriam</p><p>ou fazem parte da história viva dos bancos. cinqüenta anos para se preparar, se unir e</p><p>Em virtude de o material ser muito crescer, antes que os bancos americanos e</p><p>extenso, procuramos nos concentrar no europeus, que eram limitados a espaços</p><p>principal e só isso gerou 350 páginas! regionais, conseguissem derrubar as</p><p>Como na maior parte das histórias legislações existentes e iniciassem um forte</p><p>escritas, o foco foi centrado sobre os processo de concentração.</p><p>vencedores e o que fizeram para manterem Foi também a oportunidade de ligar a</p><p>as suas instituições vivas em um período de história de homens brilhantes, com</p><p>forte concentração bancária. excepcional visão para a estratégia, a</p><p>Hoje, quando se faz uma análise organização e a operação dos seus negócios,</p><p>superficial da situação dos bancos e de seus desde o BB de Mauá a Lima Neto; do “Banco</p><p>excelentes lucros, em geral se esquece da dos Pobres” a Maria Fernanda Coelho; de</p><p>fortíssima competição e das turbulências Clemente a Aloysio de Faria e Fábio Barbosa;</p><p>políticas e econômicas do país, que levaram a João, Walter e Pedro Moreira Salles; José</p><p>quebra, intervenção ou incorporação de Magalhães Pinto; Alfredo Egydio, Eudoro</p><p>milhares de diferentes empresas do mercado Villela, Olavo e Roberto Setubal; Amador</p><p>financeiro nos últimos cinqüenta anos, entre Aguiar, Lázaro Brandão e Márcio Cypriano;</p><p>prestadoras de serviços, distribuidoras, entre outros, que souberam enfrentar as</p><p>corretoras, pequenos, médios e grandes adversidades e serem ousados para identificar</p><p>bancos. as oportunidades, medir os riscos e tomar as</p><p>Os números impressionam e mostram decisões certas.</p><p>como foi difícil para os que hoje são os Agradeço a todos dirigentes atuais e</p><p>maiores bancos do país sobreviverem e passados, das instituições públicas e do</p><p>crescerem em um ambiente crítico, em que mercado financeiro, que me dedicaram uma</p><p>erros de visão ou de implementação das parte de seus dias, com entrevistas,</p><p>estratégias nunca foram perdoados: sempre informações e documentos, que permitiram</p><p>geraram o fim das empresas. reconstituir a história dos bancos.</p><p>AGRADECIMENTOS</p><p>Agradeço, também, às assessorias de preparou a introdução histórica da obra</p><p>imprensa e marketing dos bancos, enquanto dediquei-me ao restante.</p><p>ABN AMRO REAL, BRADESCO, ITAÚ e a Porém, o brilho da obra se deve ao</p><p>CAIXA, que foram extremamente gentis conjunto de amigos com as mais diferentes</p><p>durante todo o processo de aprovação da experiências no mercado financeiro, que</p><p>Lei Rouanet e nos ajudaram a viabilizar a colaboraram com seus textos — e recebem</p><p>obra, com apoio cultural e patrocínio. crédito no livro, ou deram entrevistas,</p><p>As ilustrações desse livro são, na maior informações e acesso a documentos e</p><p>parte, fotografias do mais destacado acervos, tanto particulares como de</p><p>fotógrafo de artes de São Paulo, Rômulo instituições públicas e privadas.</p><p>Fialdini, com acervos dos principais museus A todos, e em particular ao meu amigo</p><p>do país. Ele e as suas assistentes, assim como Eduardo Aguinaga, que deu a idéia para a</p><p>os demais fotógrafos, artistas e ilustradores, criação da obra e aos nossos companheiros</p><p>permitiram fazer com que este livro ficasse João Carlos Aleixo Ramos, Paulo Faria e</p><p>mais bonito e de leitura mais agradável. Douglas Iberê Gilson,</p><p>Para mim, foi uma grande satisfação</p><p>dividir a maior parte dos textos deste livro O MEU MUITO OBRIGADO!</p><p>com Fernando Carlos de Cerqueira Lima que</p><p>Alcides Tápias Gustavo Loyola</p><p>Antonio Francisco de Lima Neto Henri Penchas</p><p>Antônio Jacinto Mathias Leopoldo Rodrigues Geraldo</p><p>Antonio Quintella Kleber Moreira</p><p>Ary Waddington Lázaro Brandão</p><p>Armando Fernandes Jr. Maílson da Nóbrega</p><p>Carlos Brandão Marcilio Marques Moreira</p><p>Carlos Langoni Márcio Cypriano</p><p>Eduardo Aguinaga Márcio Santos Souza</p><p>Elmo Camões Maria Fernanda Ramos Coelho</p><p>Erich Willner Mário Celso Coutinho</p><p>Ernane Galvêas Olavo Setubal</p><p>Fábio Barbosa Pérsio Arida</p><p>Fernão Bracher Rauber Xavantes</p><p>Frank Cox Moore Roberto Setubal</p><p>Gustavo Franco Ruy Barreto</p><p>Alexis</p><p>Em especial, agradeço ao Exmo. Presidente do Banco Central,</p><p>, assim como a toda sua equipe e aos seguintes</p><p>banqueiros e executivos:</p><p>Henrique Meirelles</p><p>SUMÁRIO</p><p>12 80</p><p>16</p><p>86</p><p>22</p><p>92</p><p>39</p><p>114</p><p>30 102</p><p>44 125</p><p>64 132</p><p>70 144</p><p>Prefácio</p><p>Henrique Meirelles</p><p>Bancos: Tendências, Oportunidades e Desafios</p><p>Capítulo 1</p><p>Antecedentes:</p><p>Uma breve história dos bancos</p><p>Capítulo 2</p><p>O sistema monetário colonial</p><p>Capítulo 3</p><p>O primeiro banco</p><p>Capítulo 4</p><p>Centralização vs. descentralização bancária,</p><p>criação do segundo Banco do Brasil</p><p>Capítulo 5</p><p>Caixa Econômica Federal: nome que significa</p><p>desenvolvimento</p><p>Capítulo 6</p><p>A expansão dos bancos nacionais e a entrada</p><p>dos bancos ingleses</p><p>Capítulo 7</p><p>As Crises de 1857 a</p><p>bancos comerciais que operavam</p><p>do Brasil de Mauá. em outros estados. Foi banco emissor</p><p>As disputas entre os dois bancos até 1866, quando o Tesouro Nacional</p><p>acabaram servindo de pretexto para a recebeu o monopólio de emissão.</p><p>fusão. “Em 1853, esses dois bancos se O limite estabelecido para essas</p><p>hostilizavam de forma a impressionar. emissões foi de duas vezes o que</p><p>Por mais de uma vez, eles, ao invés de possuísse de encaixe (ou “fundos</p><p>se auxiliarem, quiseram criar realizáveis”), composto por barras e</p><p>dificuldades à marcha transacional um moedas de ouro, mas também de notas</p><p>do outro, apresentando reciprocamente do Tesouro. No início de suas</p><p>ao troco grande porção de bilhetes” atividades, o governo ajudou o banco,</p><p>(ANDRADA, 1923). tomando empréstimos externos. A</p><p>O projeto foi brevemente discutido dificuldade em aumentar esse fundo</p><p>no Parlamento, que exatamente um levou o banco a, posteriormente,</p><p>mês depois o aprovou. E, no dia solicitar — e obter — autorização para</p><p>seguinte à sua aprovação, foi emitir mais do que o dobro do possuído</p><p>sancionado pelo Imperador. Assim, na forma de encaixes.</p><p>pelo decreto n. 683 de 5 de julho, Mesmo sendo contrário à fusão,</p><p>nasce o segundo Banco do Brasil, com Mauá teve de aceitá-la. Foi convidado a</p><p>capital de 30 mil contos e autorização fazer parte da diretoria, mas recusou o</p><p>para funcionar durante 30 anos. Esse cargo, preferindo abrir, logo em</p><p>capital foi realizado com a soma dos seguida, outro banco — a casa bancária</p><p>capitais dos dois bancos e a emissão de Mauá, Mac Gregor & Cia —, sem,</p><p>novas ações, que chegaram a ser contudo, vender as ações que possuía</p><p>negociadas com ágio. Tinha faculdade no novo banco formado após a fusão. A</p><p>emissora para bilhetes à vista e ao casa bancária de Mauá foi, até quebrar</p><p>portador, realizáveis em moeda em 1875, forte concorrente do Banco</p><p>corrente, ou seja, em metais, ou em do Brasil, tendo criado sucursais em</p><p>papel-moeda emitido pelo Tesouro. outras cidades brasileiras e no Uruguai.</p><p>O PRIMEIRO PROCESSO DE FUSÃO BANCÁRIA NO BRASIL</p><p>Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá</p><p>Litografia de Sébastien Augustien Sisson,</p><p>fim da década de 1850</p><p>Associação Comercial do</p><p>Rio de Janeiro</p><p>41</p><p>CAPÍTULO IV BANCOS NO BRASIL</p><p>O BREVE RETORNO À PLURALIDADE EMISSORA</p><p>O Banco do Brasil manteve-se fortemente a economia brasileira. As</p><p>como único banco emissor apenas exportações caíram e o mil-réis teve</p><p>até 1857. Neste ano, Souza Franco, seu valor depreciado, sendo cotado</p><p>nomeado ministro da Fazenda, impôs abaixo do par, isto é, do valor</p><p>— durante um recesso parlamentar estabelecido pelas regras do padrão-</p><p>— a pluralidade emissora, ouro — nunca propriamente</p><p>autorizando diversos bancos no Rio cumpridas no Brasil. Muitos políticos</p><p>de Janeiro e em outras praças a atacaram a “liberalidade” dos</p><p>emitirem bilhetes (PELAEZ & SUZIGAN, bancos, julgando-a responsável pela</p><p>1976). Como as notas emitidas por crise (PELAEZ & SUZIGAN, 1976).</p><p>esses bancos só circulavam nas Os novos bancos emissores</p><p>respectivas regiões onde eles continuaram a emitir, obedecendo às</p><p>funcionavam, ocorreu a mesmas regras impostas ao Banco do</p><p>regionalização da emissão, o que Brasil, até 1860, quando foi editada</p><p>significou maior flexibilidade no a Lei dos Entraves. A partir de</p><p>sentido de adequar a oferta de então, sua faculdade emissora foi</p><p>moeda à sua demanda. restringida, e, em 1866, o governo</p><p>Na mesma ocasião em que novos determinou que só as notas do</p><p>bancos passaram a ter o direito de Tesouro poderiam circular. O</p><p>emitir notas, porém antes de monopólio de emissão do Tesouro só</p><p>começarem a exercê-lo, eclodiu uma veio a ser quebrado em 1889,</p><p>crise internacional que abalou durante o Encilhamento.</p><p>Cédula de 100 mil réis</p><p>“Vista do Porto do Rio de</p><p>Janeiro” Detalhe do verso da</p><p>cédula de 100 mil réis do</p><p>Banco da Répública</p><p>do Brasil, 1893.</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>42</p><p>CAPÍTULO IV BANCOS NO BRASIL</p><p>O industrial e banqueiro Irineu Outro setor em que o</p><p>Evangelista de Souza, conhecido como Barão se destacou foi o</p><p>Barão de Mauá, nasceu em 1813, no Rio bancário, onde fundou, em</p><p>Grande do Sul, na cidade de Arroio 1851, o segundo Banco</p><p>Grande, e morreu em Petrópolis, em do Brasil, nascido em um</p><p>1889. lançamento público de</p><p>ações, com capital Símbolo dos empreendedores</p><p>subscrito de 1.200 brasileiros, foi um “self-made man”,</p><p>contos de réisascendendo de uma condição social</p><p>bastante simples para a de homem mais No ano seguinte,</p><p>rico do País. em 1852, Mauá fundou</p><p>o banco Mauá e a Mac Em 1824, depois de estudar em um</p><p>Gregor & Cia, que tinha internato em São Paulo, aos 11 anos,</p><p>filiais nas principais começou a trabalhar em uma casa</p><p>cidades brasileiras e comercial de tecidos, onde ocupou a</p><p>também na França, Inglaterra função de caixeiro. Em 1830, após a</p><p>e Estados Unidos. Outro banco falência do antigo patrão, foi contratado</p><p>bastante atuante que contava com a pela empresa de importação escocesa de</p><p>participação de Irineu foi fundado em Richard Carruthers, onde aprendeu inglês</p><p>1857, no Uruguai: o Banco Mauá y Cia. e contabilidade.</p><p>Com o banco, Mauá ajudou a reestruturar Quando Carruthers mudou-se para a</p><p>a dívida pública uruguaia.Inglaterra, em 1839, Irineu Evangelista</p><p>No seu apogeu, Mauá controlava oito assumiu a administração da empresa.</p><p>das dez maiores empresas do Brasil. E nas Após uma viagem de negócios para a</p><p>únicas duas que não controlava — o Inglaterra, voltou ao Brasil convencido de</p><p>Banco do Brasil e a Estrada de Ferro que o País também deveria industrializar-</p><p>Dom Pedro II — ele tinha algum tipo de se.</p><p>participação acionária. Sua fortuna atingiu, Em 1844, com a decretação da tarifa</p><p>em 1867, o valor de 115 mil contos de Alves Branco, percebeu que aquele era o</p><p>réis, enquanto o orçamento do Império momento adequado para a realização de</p><p>Brasileiro para aquele ano era de 97 mil suas ambições, e adquiriu uma fundição</p><p>contos de réis.em Niterói, na antiga província do Rio de</p><p>Suas idéias abolicionistas e liberais e a Janeiro. Transformou a fundição em</p><p>forte oposição à Guerra do Paraguai estaleiro, e já em 1846, um ano após a</p><p>fizeram com que ele entrasse em atrito compra do estabelecimento, ele havia se</p><p>com forças políticas no Brasil e no transformado no maior empreendimento</p><p>Uruguai. As suas instalações passaram a industrial do País, empregando mais de</p><p>ser alvo de sabotagens e seus negócios mil pessoas e produzindo, além de navios,</p><p>também foram abalados com a legislação engenhos, postes de iluminação, peças</p><p>que reduziu taxas de importação sobre para artilharia e canos de ferro, entre</p><p>máquinas, ferramentas e ferragens. outros.</p><p>Finalmente, foi obrigado a abrir falência Outro investimento seu foi a</p><p>em 1875, pedindo moratória de suas Companhia de Navegação do Amazonas,</p><p>dívidas. fundada em 1852. Mauá, no entanto,</p><p>Ele dedicou-se então à corretagem de desistiu do empreendimento pouco tempo</p><p>café até morrer, em 1889, a poucas depois, quando, em 1853, foi concedido a</p><p>semanas da Proclamação da República, estrangeiros o direito a navegar por rios</p><p>tendo recuperado a reputação e parte da brasileiros que desembocassem no</p><p>sua fortuna.Amazonas.</p><p>O BARÃO DE MAUÁ</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO IV</p><p>43</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>Caixa Econômica Federal:</p><p>nome que significa desenvolvimento</p><p>AS PRIMEIRAS CAIXAS ECONÔMICAS</p><p>A partir do início dos 1830 algumas instituições denominadas “caixa econômica” foram criadas. Algumas delas</p><p>tiveram curta duração, outras sobreviveram pelo menos até o final da Monarquia e pelo menos uma outra foi</p><p>transformada em banco. Sua função, explicitada em seus estatutos, era a de fomentar a poupança popular.</p><p>A primeira caixa econômica foi aberta no Rio de Janeiro em 1831. Foi formada por livre associação e não era</p><p>fiscalizada pelo governo. Destinava-se a “oferecer à classe laboriosa e poupada meios de acumular capitais</p><p>por entradas repetidas de pequenas quantias e de os aumentar com o lucro proveniente de seu emprego.”</p><p>Ficava aberta de domingo a domingo, das 9 às 13 horas, recebendo depósitos que</p><p>aplicava exclusivamente</p><p>em apólices da dívida pública. Geralmente essas apólices eram emitidas com valores muito abaixo do par, o</p><p>que tornava sua remuneração muito atraente. Os rendimentos, após descontadas as despesas</p><p>administrativas, eram distribuídos semestralmente.</p><p>Faliu em 1859, porque a política de austeridade fiscal então adotada havia elevado fortemente o preço das</p><p>apólices. O lucro foi realizado, mas a sociedade encerrou suas atividades.</p><p>Nos anos seguintes foram criadas instituições semelhantes na Bahia, Alagoas, Minas Gerais e São Paulo.</p><p>A LEI DOS ENTRAVES</p><p>A primeira sede da</p><p>Caixa Econômica</p><p>emprestada</p><p>pela Câmara do</p><p>Senado, no Rio,</p><p>em gravura</p><p>publicada no</p><p>livro Brazil and</p><p>Brazilians, dos</p><p>reverendos James</p><p>Fletcher e D.P.</p><p>Kidder (Boston, 1866).</p><p>Biblioteca Nacional</p><p>Apenas em 1860, quando da</p><p>promulgação da chamada Lei dos</p><p>Entraves, é que as caixas econômicas</p><p>foram regulamentadas. Mesmo aquelas</p><p>constituídas nos anos 30 só tiveram seus</p><p>estatutos definitivamente aprovados após</p><p>essa Lei.</p><p>Na ocasião, as caixas econômicas</p><p>existentes foram praticamente estatizadas</p><p>e rigidamente reguladas no tocante às</p><p>suas captações e aplicações. Elas</p><p>passavam a ser “dirigidas e administradas</p><p>gratuitamente por diretores nomeados</p><p>pelo governo”; não poderiam fazer outra</p><p>operação que não fosse a de receber a</p><p>prêmio semanalmente valores não</p><p>excedentes a 50$ por cada depositante; e</p><p>os recursos recebidos seriam entregues à</p><p>“estação de fazenda que o governo</p><p>designar (...) e vencerão os juros de 6%</p><p>desde o dia de sua entrada. Os juros</p><p>serão acumulados semestralmente, e a</p><p>retirada só poderá ter lugar com prévio</p><p>aviso do depositante, feito com</p><p>antecedência de oito dias pelo menos.”</p><p>Em janeiro do 1861 foi criada a</p><p>Caixa Econômica da Corte, o “Banco</p><p>dos Pobres”, como o descreveu o Barão</p><p>do Rio Branco.</p><p>Essa instituição, que evoluiu para se</p><p>tornar a Caixa Econômica Federal,</p><p>iniciou suas operações em novembro</p><p>daquele ano. Treze anos mais tarde, foi</p><p>autorizada a criação de outras caixas</p><p>econômicas. A Caixa Econômica da</p><p>Corte abriu agências em diversas cidades</p><p>da província, em particular nas situadas</p><p>ao longo do Vale do Paraíba, onde se</p><p>concentravam as fazendas de café.</p><p>Em 1874 foi criada a Caixa</p><p>Econômica do Rio Grande Sul. Nos anos</p><p>seguintes, o mesmo se</p><p>deu nas capitais</p><p>das províncias</p><p>de São Paulo,</p><p>Minas Gerais,</p><p>Bahia, Ceará</p><p>e Pernambuco,</p><p>entre outras.</p><p>A ORIGEM DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL</p><p>Antônio Izaias</p><p>A Lei 3.141, de 1882 aprovou a</p><p>construção deste prédio destinado a</p><p>ser a primeira sede própria da Caixa</p><p>Econômica Federal do Brasil, muito</p><p>embora essa já funcionasse desde 4</p><p>de Novembro de 1861. Em 28 de</p><p>Março de 1884, foi lançada a pedra</p><p>fundamental da obra que foi</p><p>inaugurada três anos mais tarde, em</p><p>26 de janeiro de 1887. Em 1940, o</p><p>edífico deixou de ser a sede da</p><p>Caixa Econômica, passando a</p><p>abrigar a Pretoria. A partir de</p><p>1975, foi submetido a obra de</p><p>reforma, concluída em 1979, ano</p><p>que nele se instalou a Procuradoria-</p><p>Geral do Estado, a qual ali</p><p>permanece até os nossos dias.</p><p>Acervo: Des. Antônio Izaias</p><p>46</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>Os primeiros estabelecimentos de filantrópico é notado até mesmo no nome.</p><p>penhor surgiram na Itália, no final da Socorro provém da expressão “suc-</p><p>Idade Média, e nasceram com finalidades curriere”, que significa “vir em auxílio”,</p><p>sociais de auxílio financeiro. A pietá e piedade provém de “pius” cujo</p><p>nomenclatura provém do francês significado é “de coração puro”.</p><p>“pignorem”, que significa: palavra ou ato Com o passar do tempo, a maioria</p><p>que assegura o cumprimento de um dos Montes de Pietá foi desaparecendo,</p><p>contrato ou compromisso. devido a problemas financeiros internos;</p><p>As primeiras instituições de penhor, porém, as casas de penhor, que derivam</p><p>chamadas de Montes de Socorro em dos Montes de Pietá, continuaram a</p><p>Portugal, e Montes de Pietá na Itália, não existir e a prosperar.</p><p>cobravam juros, e tinham caráter As casas de penhor, tal como os</p><p>assistencial, de filantropia. O caráter montes de socorro aceitavam bens.</p><p>AS ORIGENS DOS MONTES DE SOCORRO E DO PENHOR</p><p>Paralelamente à abertura de cada Assim como as Caixas Econômicas,</p><p>caixa econômica era também criado um os Montes de Socorro eram também</p><p>Monte de Socorro, sendo ambas as considerados instituições filantrópicas.</p><p>entidades administradas por um mesmo Entretanto, como observou Herculano</p><p>Conselho Inspetor e Fiscal. Borges da Fonseca, “ocorria aí um</p><p>O Montes de Socorro concediam contra-senso, visto que as classes</p><p>empréstimos sob garantia de penhor de menos favorecidas dificilmente</p><p>jóias, objetos de valor ou sob caução de poderiam possuir bens de valor e muito</p><p>títulos da dívida pública. Concorriam menos títulos mobiliários”. Somente no</p><p>dessa maneira com as centenas de início do século XX que permitida a</p><p>casas de penhor (“casas de prego”, concessão de empréstimos com garantia</p><p>como se dizia) que cobravam juros de utensílios de trabalho e de uso</p><p>extremamente elevados. doméstico.</p><p>OS MONTES DE SOCORRO</p><p>Vista da cidade de Florença</p><p>Crédito da Pag. 47</p><p>D. Pedro II (1825-1891).</p><p>Imperador do Brasil</p><p>de 1841 a 1889.</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>Os primeiros Montes de Pietá</p><p>nasceram nas principais</p><p>cidades do norte da Itália no</p><p>final da Idade Média, sendo</p><p>que os principais estavam em</p><p>Florença, na época a cidade</p><p>mais rica da região.</p><p>As instituições, aos poucos,</p><p>foram perecendo,</p><p>descapitalizadas pela inflação</p><p>e pela falta de pagamentos.</p><p>Em pouco tempo, os italianos</p><p>perceberam que o penhor</p><p>poderia ser transformado em</p><p>um negócio interessante: eram</p><p>empréstimos de pequeno</p><p>valor, com juros cobrados</p><p>antecipadamente e com</p><p>garantia real na mão do</p><p>emprestado que, no caso de</p><p>inadimplência, colocava o</p><p>produto a venda.</p><p>CAPÍTULO V</p><p>48</p><p>A EVOLUÇÃO DO PENHOR</p><p>Documento original que criou a</p><p>Caixa Econômica da Corte em</p><p>12 de Janeiro de 1861.</p><p>Arquivo Público Nacional</p><p>Condecoração da Ordem Militar de</p><p>Nosso Senhor Jesus Cristo</p><p>Fialdini</p><p>Museu de Valores do Banco Central</p><p>do Brasil</p><p>As casas de penhor, diferentemente O Rio de Janeiro e o Brasil tinham</p><p>dos montes de socorro, cobravam juros, muitas casas de penhor privadas, que</p><p>e geralmente os cobravam também eram chamadas de “Belchior”,</p><p>antecipadamente, sobre o valor do devido à primeira casa de penhor do</p><p>principal, ou empréstimo original. Rio, fundada por um empresário de</p><p>No Brasil do século XIX, havia nome Belchior. Eram também chamadas</p><p>diversas casas de penhor privadas, que de “casas de prego” por exibirem as</p><p>também eram chamadas casas de prego, jóias penhoradas em pregos para os</p><p>as quais cobravam juros altos. As possíveis compradores. As casas de</p><p>primeiras casas de prego do Brasil foram prego privadas cobravam juros de 4%</p><p>criadas no Rio de Janeiro, onde até hoje ao mês, enquanto o Monte Socorro</p><p>é muito comum a operação de penhor. cobrava 9% ao ano.</p><p>O Monte de Socorro da Corte foi Os contratos de empréstimo sob</p><p>criado em 1861, pelo mesmo decreto penhor eram válidos por quatro meses e</p><p>que fundou a Caixa Econômica, podiam ser renovados por mais quatro</p><p>assinado por Dom Pedro II. Cobrava meses. Porém, se, findo tal período, a</p><p>juros menores que as casas de penhor dívida não fosse paga pelo cliente, os</p><p>privadas e visava a atender bens penhorados iam ser vendidos em</p><p>especialmente às classes menos leilão.</p><p>favorecidas financeiramente; e era a Dom Pedro II assinou, em 1874, o</p><p>única instituição financeira a auxiliar os Decreto 5594, autorizando a criação de</p><p>escravos, que podiam poupar suas Montes de Socorro nas províncias do</p><p>economias para comprar sua Carta de Império Brasileiro. A Caixa Provincial</p><p>Alforria. de São Paulo, instalada em 1875, foi a</p><p>Como o Monte de Socorro da Corte primeira.</p><p>cobrava juros muito menores do que os Em 1934, o penhor se tornou</p><p>juros das casas de penhor privadas, foi monopólio da Caixa Econômica, em</p><p>um grande sucesso desde o início, decreto assinado por Getúlio Vargas.</p><p>quando aceitava apenas os penhores</p><p>de Em 1937, o banco passou a aceitar</p><p>diamantes, prata ou ouro. Os juros praticamente qualquer objeto como</p><p>obtidos pelos empréstimos de penhor penhor, porém, a partir de 1991,</p><p>ajudavam a Caixa Econômica. voltaram a ser aceitas apenas jóias.</p><p>Na época da inauguração da Caixa Atualmente, a Caixa Econômica</p><p>Econômica e do Monte de Socorro da também opera uma modalidade de</p><p>Corte, a poupança não era tão comum Micro Penhor, com empréstimos de até</p><p>no Brasil quanto o empréstimo a penhor. R$ 600,00 (seiscentos reais).</p><p>49</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>POUPANÇA</p><p>Ilustração das Páginas: 48-49</p><p>Engenho de Mandioca</p><p>Modesto Brocos, 1892</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>A mandioca foi padronizada como</p><p>valor de renda líquida anual do</p><p>eleitorado quando foi elaborada a</p><p>primeira tentativa de Carta</p><p>Constitucional do Brasil, em 1823.</p><p>A produção de mandioca era</p><p>destinada, principalmente a</p><p>alimentação de escravos e produção</p><p>de farinha.</p><p>A dimensão da produção de</p><p>mandioca, portanto, definia a</p><p>riqueza provável dos homens de</p><p>posse na época.</p><p>A produção de farinha, em geral,</p><p>era feita por escravos.</p><p>A Caixa Econômica, desde sua reforçar abertamente esta posição, com</p><p>fundação, em 1861, por Dom Pedro II, a campanha da semana do pé-de-meia,</p><p>mostrou sua vocação para a poupança. realizada entre 17 a 24 de junho</p><p>Seu objetivo, de acordo com o daquele ano.</p><p>imperador, era servir de banco para os A iniciativa, que foi um grande</p><p>mais humildes, possibilitando que estes sucesso, partiu do então presidente da</p><p>juntassem economias. Caixa Econômica no Rio de Janeiro,</p><p>O testemunho mais pungente dessa Francisco Solano, e atraiu a atenção</p><p>função social é o fato de muitos escravos popular devido, especialmente, à</p><p>só terem conseguido comprar suas distribuição de dez mil cofrinhos que</p><p>liberdades devido a cadernetas de foram dados aos que abrissem contas</p><p>poupanças que abriram na Caixa em favor de um menor.</p><p>Econômica. O sucesso foi tão grande que o</p><p>Esse fato é bem ilustrado pela banco continuou a fazer campanhas nos</p><p>história da escrava Margarida Luiza, mesmos moldes e continuou a distribuir</p><p>que, em 16 de novembro de 1861, cofrinhos até os anos 1960.</p><p>apenas 12 dias após a Caixa Econômica A poupança, até 1964, funcionava</p><p>ter começado as suas operações, abriu basicamente da mesma maneira de</p><p>uma caderneta de poupança. Em 1865, quando ela tinha sido instituída de forma</p><p>ela encerrou a conta, retirando 352.542 oficial pelo governo, 104 anos antes,</p><p>réis, com os quais comprou a sua pagando juros de 6% ao ano. Com a</p><p>alforria. promulgação da lei 4.380, de julho</p><p>A poupança da Caixa Econômica daquele ano, a poupança passou a</p><p>Federal foi fundada também, como render também uma correção monetária.</p><p>instrumento moralizador, pois se Hoje, a remuneração da poupança é</p><p>considerava, na época, o caráter dos dada pela TR (Taxa Referencial de</p><p>brasileiros — de um modo geral — Juros) da data de aniversário do</p><p>como sendo excessivamente perdulários depósito, mais um juro de 0.5% ao mês.</p><p>e pouco previdentes. A remuneração da Caderneta de</p><p>Assim, o hábito de poupar e a Poupança é conhecida quando a TR é</p><p>moderação fazem parte do divulgada. Essa remuneração é regulada</p><p>posicionamento da Caixa Econômica, pelo Governo Federal e padronizada em</p><p>desde então, sempre se opondo à todas as instituições financeiras.</p><p>propaganda feita por outros anunciantes Os depósitos feitos em poupança até</p><p>e veículos, que estimulem o consumo. o valor de R$ 20.000,00 são garantidos</p><p>A intenção do banco de incentivar a pelo fundo garantidor de crédito, o que</p><p>cultura da poupança sempre procurou contribui ainda mais para o grau de</p><p>estimular os mais jovens a poupar. Em segurança que o aplicador tem ao</p><p>1933, a Caixa Econômica passou a investir na poupança.</p><p>UM BOM INVESTIMENTO!</p><p>Com a redução da Selic, a</p><p>poupança está se tornando</p><p>novamente um investimento</p><p>muito atraente devido à</p><p>isenção de imposto de renda e</p><p>de imposto sobre operações</p><p>financeiras.</p><p>Nos últimos seis anos, o</p><p>número de poupanças vem</p><p>crescendo de forma mais</p><p>rápida que o número de contas</p><p>correntes. Enquanto no</p><p>período o número de contas</p><p>correntes cresceu 37%, o</p><p>número de poupanças teve um</p><p>aumento de 50,01%.</p><p>A Caixa Econômica Federal é</p><p>o maior depositário e</p><p>incentivador desse tipo de</p><p>investimento, com mais de 32</p><p>milhões de contas-poupança, e</p><p>depósitos totais que</p><p>ultrapassam os R$ 33 bilhões.</p><p>Sem dúvida, o grande número</p><p>de contas-poupança se deve ao</p><p>fato de que o banco não</p><p>estabelece um valor mínimo</p><p>para que o cliente abra uma</p><p>conta.</p><p>52</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>AS CAIXAS ECONÔMICAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX</p><p>As caixas econômicas superaram o período de instabilidade econômica que se verificou logo após o fim da</p><p>Monarquia, com o Encilhamento, e a posterior política de austeridade, e expandiram suas atividades ao longo das</p><p>primeiras décadas do século XX.</p><p>A crise de 1929 e a Revolução de 1930, entretanto, acarretaram inicialmente um clima de insegurança e</p><p>incerteza que teriam atingido a credibilidade das caixas econômicas, sofrendo estas um movimento excepcional de</p><p>saques, como ocorreu com a maioria dos bancos.</p><p>Algumas instituições financeiras, inclusive as caixas econômicas, foram forçadas a suspender temporariamente os</p><p>saques, ou pelo menos criaram dificuldades para isso. Entretanto, passado o período de maior agitação política e</p><p>com a economia voltando a crescer, o receio dos depositantes quanto à possibilidade de resgatar suas economias</p><p>dissipou-se. Assim como ocorrera durante a primeira década republicana, as caixas econômicas foram capazes de</p><p>superar mais um período de turbulências.</p><p>Até o início da década de 30 do Com a nova regulamentação,</p><p>século passado, os depósitos de objetivava-se padronizar e diversificar</p><p>poupança das caixas econômicas eram suas operações. Foram criadas carteiras</p><p>automaticamente repassados para o de hipotecas sobre imóveis urbanos,</p><p>Tesouro Nacional. Parte desses que ganharam papel de destaque entre</p><p>recursos era dirigido para atender às suas operações ativas. Entretanto, não</p><p>necessidades dos Montes de Socorro. foram autorizadas a conceder</p><p>Entretanto, a preocupação do Governo empréstimos hipotecários com garantia</p><p>em mobilizar poupança financeira com de imóveis agrícolas. É interessante</p><p>o objetivo de promover a atividade notar que data dessa época a distinção</p><p>econômica levou-o a promover entre as funções do Banco do Brasil,</p><p>profundas transformações nas caixas mais voltado à agricultura, e da Caixa</p><p>econômicas. Econômica, que assumia um perfil</p><p>O decreto nº 24427, de 19 de urbano.</p><p>junho de 1934, redefiniu o papel das</p><p>caixas econômicas no Brasil. Essas</p><p>instituições, nascidas com objetivos</p><p>previdenciários e filantrópicos, foram</p><p>transformadas em intermediários</p><p>financeiros. Seus dirigentes, que até</p><p>então exerciam suas funções</p><p>gratuitamente, passaram a ser</p><p>remunerados. Embora mantivessem</p><p>autonomia administrativa, foi instituído</p><p>o Conselho Superior das caixas</p><p>econômicas federais para orientar e</p><p>fiscalizar suas atividades.</p><p>TRANSFORMAÇÃO DAS CAIXAS ECONÔMICAS</p><p>EM INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS</p><p>Vista da Sala onde em maio de</p><p>1922 na agência central na Rua</p><p>Dom Manoel, 25 - Rio de Janeiro,</p><p>onde trabalhavam os escriturários</p><p>da Caixa Econômica. Na fila do</p><p>centro, estão dois futuros</p><p>presidentes da instituição: na mesa</p><p>da frente, Ary Ovicio de Almeida</p><p>Rego e na terceira mesa, Jeronymo</p><p>Pinheiro de Castilho</p><p>53</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>Associação Comercial do Rio de Janeiro</p><p>O MONOPÓLIO SOBRE AS OPERAÇÕES DE PENHOR E A LOTERIA FEDERAL</p><p>Ainda como parte das mudanças, as atividades ao longo do restante da</p><p>caixas econômicas foram autorizadas a década.</p><p>realizar operações sob caução de títulos Em 1934, o saldo de seus</p><p>não apenas federais — como já faziam empréstimos atingia um montante</p><p>— mas também com títulos estaduais e equivalente a 6% dos empréstimos do</p><p>municipais. Empréstimos consignados conjunto dos bancos comerciais. Em</p><p>em folha de pagamento, que já vinham 1940, essa proporção alcançava</p><p>sendo</p><p>realizados desde 1931, 10,5%. A expansão foi mantida na</p><p>continuaram a ser concedidos. década de 1940 e nos primeiros anos</p><p>Além disso, receberam o monopólio da década seguinte: entre 1947 e</p><p>sobre operações de penhor e passaram 1954, os ativos das caixas econômicas</p><p>a operar a Loteria Federal. federais cresceram cerca de 30% em</p><p>Tais mudanças permitiram que as termos reais e dobrou o número de</p><p>caixas econômicas federais suas agências, que atingiu a marca de</p><p>expandissem fortemente suas 300 em 1954.</p><p>Durante o primeiro Governo Vargas,</p><p>todas as instituições públicas</p><p>passaram por um processo de</p><p>modernização e adaptação aos</p><p>novos tempos.</p><p>A Caixa Econômica, em particular,</p><p>foi muito beneficiada por essas</p><p>mudanças, com a introdução de</p><p>uma gestão mais profissional, da</p><p>modernização dos processos de</p><p>trabalho e de novos produtos.</p><p>Como resultado, em apenas seis</p><p>anos, de 1934 a 1940, o saldo de</p><p>empréstimos efetuados pelo banco</p><p>quase dobrou: subiu de 6% para</p><p>10,5% dos empréstimos totais feitos</p><p>pelos bancos comerciais.</p><p>54</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>As loterias nasceram como com seus enormes impostos à capitania,</p><p>instituições filantrópicas, em meados do o recurso da loteria foi usado em outras</p><p>século XV, nas cidades de Florença, ocasiões para concluir o prédio da</p><p>Veneza e Milão. Elas nasceram com o Câmara.</p><p>intuito de levantar dinheiro para A prática logo se espalhou pelo</p><p>construções e ajudar aos pobres. Os seus território nacional para ajudar obras</p><p>acertadores ganhavam títulos de terras. sociais; explodindo o número de</p><p>Em pouco tempo, diversos estados concessões com a chegada da Família</p><p>europeus passaram a utilizá-la. Real em 1808.</p><p>No Brasil, o primeiro sorteio de que Em 1831, D. Pedro I emitiu um</p><p>se tem notícia ocorreu em 1784 em decreto proibindo o funcionamento de</p><p>Ouro Preto. loterias, o que não foi respeitado. Coube</p><p>A Igreja considerava jogo como a D. Pedro II mudar essa situação. O</p><p>pecado e a justiça o criminalizava. Decreto nº 357 de 27 de abril de 1844,</p><p>Devido a isso, qualquer tipo de jogo era foi assinado “a fim de não desacreditar</p><p>proibido na Corte portuguesa e, esse meio de favorecer os</p><p>conseqüentemente, em sua colônia. estabelecimentos úteis com aumento da</p><p>Apesar de tal proibição, Dona Maria renda pública”, regularizando o</p><p>I autorizara uma loteria para ajudar a funcionamento delas.</p><p>Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Os primeiros anos da República não</p><p>Foi possível ao governador da Capitania conduziram muitas modificações à</p><p>das Minas Gerais, portanto, obter estrutura das loterias. Em 1899, porém,</p><p>autorização para realizar uma loteria no elas foram incluídas no Orçamento</p><p>Brasil. Federal através da classificação da</p><p>O objetivo era arrecadar dinheiro receita proveniente dos concursos. Esta</p><p>para a construção da Cadeia Pública e Lei (nº640 de 14 de novembro) dizia:</p><p>de um novo prédio para sediar a “Dito de 2% sobre o capital das loterias</p><p>Câmara dos Vereadores de Vila Rica federais e 4% sobre as estaduais e mais</p><p>(Ouro Preto). 5% de selo adesivo sobre o valor do</p><p>O sorteio da loteria durou quatro bilhete ou fração de bilhete de loteria</p><p>dias, em meio a festas. Para a realização exposto à venda, cobrado por</p><p>do concurso, três mil bilhetes foram estampilha”. A lei não explicitava onde</p><p>feitos à mão. Cada bilhete era retirado os recursos deveriam ser aplicados</p><p>de uma urna, lido em voz alta o nome No primeiro Governo Vargas, o</p><p>do comprador, e então verificado no regulamento nº 21.143, de 10 de março</p><p>livro de registros. Simultaneamente, um de 1932, garantia à União um controle</p><p>outro papel era retirado de uma urna ao rígido e permitia um processo mais</p><p>lado, com papéis premiados ou em transparente, com o produto líquido da</p><p>branco. Como a Corte portuguesa extração se destinando exclusivamente a</p><p>repassava pouco do que era arrecadado obras de caridade.</p><p>A LOTERIA FEDERAL</p><p>Bilhetes da Loteria emitidos pela</p><p>Caixa Econômica.</p><p>Museu da CAIXA</p><p>55</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>AS OUTRAS LOTERIAS DA CAIXA</p><p>Em 1961, durante o Governo Jânio tinha como destino os programas de</p><p>Quadros, ano do centenário da Caixa assistência à família, infância e</p><p>Econômica, a instituição recebeu o adolescência, educação física e</p><p>monopólio da loteria. Com isso, o atividades esportivas e educacionais.</p><p>sorteio adquiriu maior credibilidade e a A concorrência das loterias de</p><p>demanda por bilhetes cresceu em número da Caixa Econômica, foi em</p><p>volume. parte responsável pela queda de</p><p>popularidade da Loteria Esportiva. A</p><p>Loto foi lançada no Brasil como forma</p><p>Envolto no clima de vitória e de captação de recursos no campo</p><p>entusiasmo despertados pelo futebol na social. Em 1982, a Loto atingiu todo o</p><p>Copa de 1970, o então general- território nacional e, em 1988, foi</p><p>presidente Médici aprovou o Decreto-Lei lançada a Sena. Durante as décadas</p><p>nº594, instituindo a Loteria Esportiva. seguintes também foram instituídas a</p><p>Seguindo o exemplo de concursos Teimosinha, a Surpresinha, a Supersena</p><p>semelhantes na Itália (Totocalcio) e em Dupla Chance, a Loteria Instantânea, a</p><p>Portugal (Totobola), a Loteca não Quina, a Trinca, o Trevo da Sorte e a</p><p>promovia sorteios, como a loteria de MegaSena, sendo a última a que mais</p><p>bilhetes, mas somava os pontos do recebe apostas.</p><p>apostador que acertasse os resultados A Loteria, é um importante</p><p>dos jogos de futebol do final de semana. catalisador social que capta um volume</p><p>A Loteca organizou-se sob o expressivo de recursos, repassados pelo</p><p>domínio da Caixa Econômica Federal, banco para o Governo Federal que os</p><p>premiando o jogador que acertasse os aplica em ações sociais relacionadas ao</p><p>resultados de 13 partidas. Desde o financiamento estudantil, à cultura, ao</p><p>início, parte da arrecadação da Loteca desporto e ao fundo penitenciário.</p><p>A LOTERIA ESPORTIVA E</p><p>LOTERIAS DE NÚMERO</p><p>Bilhete</p><p>Museu da CAIXA, Brasília</p><p>INTERNACIONALIZAÇÃO</p><p>DO PROCESSAMENTO</p><p>Com o início do processo em</p><p>2005, tendo sua fase de</p><p>substituição do terminais</p><p>encerrada em agosto de 2006</p><p>a CAIXA assumiu todo o</p><p>controle dos processos do</p><p>sistema de loteria CAIXA.</p><p>Com o novo modelo, a CAIXA</p><p>assume a integração e a gestão</p><p>dos fornecedores e a</p><p>integração dos processos. Com</p><p>isso, pode aumentar a</p><p>concorrência para os serviços</p><p>que serão licitados e reduzir</p><p>custos, evitar desperdícios e</p><p>melhorar a operação das</p><p>Loterias; pode ainda</p><p>implementar políticas de</p><p>produtividade, estimulando a</p><p>eficiência do sistema como um</p><p>todo.</p><p>Para o cliente, os benefícios</p><p>serão: a ampliação do número</p><p>de terminais na rede lotérica;</p><p>equipamentos mais modernos</p><p>tornando mais eficiente o</p><p>atendimento.</p><p>56</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>As reformas do sistema financeiro banco dominava cerca de 50% desse</p><p>realizadas no período 1964-7 e, em mercado. Mais da metade de seus</p><p>particular, a instituição da correção empréstimos eram direcionados ao setor</p><p>monetária a partir de 1965 levaram a uma habitacional, em especial para o então</p><p>reversão na situação financeira do banco. chamado “segmento de mercado”, ou</p><p>Já em 1970, as cadernetas de seja, para a aquisição de imóveis pela</p><p>poupança superavam os depósitos à vista classe média, através de repasses às</p><p>como fonte de recursos das caixas sociedades de crédito imobiliário.</p><p>econômicas. O banco cresceu</p><p>proporcionalmente mais do que o</p><p>conjunto do sistema financeiro: entre</p><p>1965 e 1976, sua participação no total</p><p>dos empréstimos ao setor privado elevou-</p><p>se de cerca de 3% para 8%.</p><p>As 22 caixas econômicas federais</p><p>então existentes foram unificadas em</p><p>1969, surgindo então a Caixa</p><p>Econômica Federal tal como é</p><p>presentemente constituída nos dias de</p><p>hoje. Embora não fosse formalmente um</p><p>banco comercial, manteve a autorização</p><p>de captar depósitos à vista, sobre os</p><p>quais não incidiam recolhimento</p><p>compulsório. Essa forma de captação,</p><p>entretanto, representava uma parcela</p><p>decrescente de seu passivo, caindo para</p><p>cerca de 5% dos depósitos totais em</p><p>1980. A mais importante fonte de</p><p>recursos era a caderneta de poupança,</p><p>sendo que em meados dos anos 1970 o</p><p>ENFRENTANDO</p><p>UM PERÍODO ADVERSO</p><p>O período de aceleração inflacionária verificado na segunda metade dos anos 50 até 1964 repercutiu</p><p>negativamente nas operações ativas e passivas das instituições financeiras em geral e das caixas econômicas em</p><p>particular. O limite máximo de 12% imposto pela Lei da Usura para a remuneração dos depósitos a prazo</p><p>implicou uma forte queda dos depósitos de poupança e o aumento relativo dos depósitos à vista. Em dezembro</p><p>de 1964, os depósitos à vista representavam mais de 90% do total de depósitos captados. Conseqüentemente,</p><p>houve redução nos empréstimos habitacionais relativamente aos de curto prazo.</p><p>A CAIXA E AS REFORMAS DE 1964-1967</p><p>A CAIXA COMO AGENTE</p><p>FINANCEIRO NO FUNDO</p><p>DE APOIO SOCIAL</p><p>A atribuição da CAIXA como</p><p>agente financeiro do Governo</p><p>na área social veio com o</p><p>Fundo de Apoio ao</p><p>Desenvolvimento Social (FAS).</p><p>O banco também começa a agir</p><p>no ramo de educação quando</p><p>inicia a operacionalização em</p><p>1976 do Crédito Educativo</p><p>Universitário, criado pelo MEC</p><p>e destinado a jovens que</p><p>queriam ingressar na carreira</p><p>universitária e não tinham como</p><p>arcar com os custos de uma</p><p>faculdade particular.</p><p>Em 1999, o Programa de</p><p>Crédito Educativo foi</p><p>substituído pelo Programa de</p><p>Financiamento Estudantil</p><p>(FIES). Atualmente, são 1.370</p><p>Instituições de Ensino Superior</p><p>credenciadas, com mais de</p><p>400.000 estudantes</p><p>beneficiados. Só em 2006,</p><p>concedeu R$ 379.568.777,89</p><p>de crédito aos estudantes de</p><p>baixa renda, para que</p><p>pudessem fazer um curso</p><p>superior e conquistar melhores</p><p>oportunidades no mercado de</p><p>trabalho.</p><p>Crianças e Casas</p><p>Tarsila do Amaral</p><p>Serigrafia 23x3 cm</p><p>Museu da CAIXA, Brasilia</p><p>57</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>O SFH (Sistema Financeiro da Frente a pressões de setores</p><p>Habitação) foi formulado com o objetivo organizados, o governo concedeu, em</p><p>de ser o principal mecanismo para o duas ocasiões, subsídios aos mutuários</p><p>financiamento de imóveis residenciais que reduziram os valores pagos nas</p><p>no Brasil. prestações e levaram ao agravamento</p><p>O sistema foi instituído pela Lei do chamado “rombo do FCVS” (Fundo</p><p>4380/64, que também criou o Banco de Compensação de Variações</p><p>Nacional da Habitação, como órgão Salariais).</p><p>central orientando e disciplinando a A crise se verificou também no que</p><p>habitação no País. se refere à captação de recursos. O</p><p>Na montagem do sistema, foi governo instituiu alterações na correção</p><p>essencial a Lei 5170 de 1966, que monetária que trouxeram perdas para</p><p>criou o FGTS. O sistema previa a os poupadores e, portanto, reduziram o</p><p>captação dos recursos, o empréstimo incentivo aos depósitos de poupança.</p><p>para a compra de imóveis residenciais e Por outro lado, o aumento do</p><p>a reaplicação do dinheiro. Parte dos desemprego significou a</p><p>recursos também seriam captados com descapitalização do FGTS, que chegou</p><p>os fundos provenientes das cadernetas a registrar um volume de saques</p><p>de poupança. superior ao de arrecadação.</p><p>O objetivo era implantar um sistema A crise atingiu o sistema em cheio e</p><p>no qual não haveria a necessidade de restringiu as possibilidades da política</p><p>financiamento por parte do Tesouro de habitação. O impacto foi tão forte</p><p>Nacional. Esperava-se que as aplicações que o número de financiamentos</p><p>desses recursos na construção civil habitacionais concedidos em 1984</p><p>gerassem retornos financeiros correspondeu à terça parte do número</p><p>suficientes para remunerar as de 1980.</p><p>cadernetas de poupança e o FGTS.</p><p>O SFH dependia, desta forma, do</p><p>adimplemento das prestações por parte</p><p>dos mutuários para poder se auto-</p><p>financiar. O sistema funcionou bem de</p><p>1971 a 1981.</p><p>No entanto, a crise do petróleo</p><p>ocorrida no início da década abalou a</p><p>situação financeira de muitos</p><p>mutuários, com uma queda dos</p><p>salários — que geraram, por sua vez,</p><p>um aumento muito expressivo na</p><p>inadimplência.</p><p>Foto de São Paulo</p><p>CRISE DO SFH NO INÍCIO DOS ANOS 80</p><p>ABSORÇÃO DO BNH</p><p>EM 1986</p><p>Em novembro de 1986,</p><p>ocorreu uma das mais</p><p>importantes modificações na</p><p>CAIXA.</p><p>Pelo Decreto n. 2291 de</p><p>26/11/86, o Banco Nacional</p><p>da Habitação foi extinto e</p><p>todos os seus direitos e</p><p>obrigações foram incorporados</p><p>pela CAIXA, que assumiu os</p><p>ativos e os passivos do BNH,</p><p>assim como a administração</p><p>do Fundo de Garantia por</p><p>Tempo de Serviço (FGTS) e do</p><p>FCVS, além dos diversos</p><p>programas habitacionais e de</p><p>saneamento básico até então a</p><p>cargo de BNH.</p><p>A partir de então, a CAIXA</p><p>tornou-se definitivamente a</p><p>mais importante instituição</p><p>responsável pelos</p><p>financiamentos habitacionais e</p><p>de desenvolvimento urbano do</p><p>Brasil. Ademais, a absorção</p><p>dos funcionários do BNH</p><p>contribuiu para a manutenção</p><p>e até mesmo o aprimoramento</p><p>das atividades com fins sociais</p><p>da CAIXA.</p><p>Entretanto, ao herdar o espólio</p><p>do BNH, a CAIXA herdou</p><p>também os problemas do</p><p>banco, em particular o elevado</p><p>índice de inadimplência dos</p><p>empréstimos concedidos para</p><p>a habitação popular e para</p><p>projetos de infra-estrutura</p><p>urbana.</p><p>A crise sobre a construção civil foi</p><p>se agravando entre os anos de 1981</p><p>e 1984. A atividade continuou em</p><p>uma situação difícil até o fim da</p><p>década de 90, quando iniciou um</p><p>lento processo de retomada.</p><p>A inflação baixa e a disponibilidade</p><p>de crédito de longo prazo</p><p>provavelmente alavancarão muito a</p><p>indústria no decorrer dos próximos</p><p>anos.</p><p>58</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>INFLAÇÃO E INSTABILIDADE</p><p>A aceleração do processo perfil patrimonial no qual predominam</p><p>inflacionário, intercalado por planos de ativos de longo prazo.</p><p>estabilização que constantemente Superada essa fase, e com a</p><p>representavam mudanças nos índices inflação retornando com índices cada</p><p>de indexação, acarretou uma vez mais elevados, a Caixa Econômica,</p><p>diminuição relativa das atividades como as outras instituições bancárias,</p><p>voltadas aos financiamentos de longo beneficiou-se com ganhos de float.</p><p>prazo da Caixa Econômica e maior Ainda mais importante para seu</p><p>atuação como banco comercial. Essa fortalecimento foi o fato de passar a</p><p>tendência foi mais acentuada a partir receber com exclusividade os depósitos</p><p>de 1989, quando passou a atuar como judiciais. A importância destes como</p><p>banco múltiplo. fonte de recursos, assim como o lucro</p><p>Em 1990, o Plano Collor, ao obtido em suas atividades de banco</p><p>proceder ao “confisco” das aplicações comercial, tem permitido ao banco</p><p>financeiras, atingiu negativamente o manter os subsídios dos programas</p><p>conjunto do sistema financeiro, e em sociais, especialmente em habitação e</p><p>particular a Caixa Econômica, dado seu saneamento básico.</p><p>Em junho de 2001, foi instituído o A reestruturação patrimonial do banco</p><p>Programa de Fortalecimento das permitiu o saneamento de seus ativos de</p><p>Instituições Financeiras Federais, entre as baixa qualidade e também como seu</p><p>quais está a Caixa Econômica Federal, com enquadramento às exigências do Acordo</p><p>o objetivo de enquadrá-las às normas da Basiléia, como os demais bancos</p><p>estabelecidas pelo Banco Central privados.</p><p>concernentes ao Acordo de Basiléia e que O plano de reestruturação estabeleceu</p><p>incluía uma nova classificação das também um novo modelo de gestão que</p><p>operações de crédito, a partir da qual é inclui a garantia de equilíbrio operacional</p><p>exigida uma provisão para possíveis perdas.</p><p>e a implementação de um sistema de</p><p>O desequilíbrio patrimonial do banco,</p><p>controles internos.</p><p>em grande parte resultado de decisões</p><p>Desde então, o banco voltou a obter</p><p>impostas por governos anteriores, foi</p><p>significativos índices de retorno, em corrigido pela transferência de créditos de</p><p>grande parte pelo resultado de suas difícil retorno e de baixa liquidez para a</p><p>operações de banco comercial, ao mesmo recém-criada Empresa Gestora de Ativos</p><p>tempo em que mantém-se como principal (Emgea); e pela troca de ativos de pouca</p><p>instituição voltada ao atendimento das liquidez e baixa remuneração por títulos</p><p>demandas por financiamento habitacional do Tesouro Nacional, além do aumento de</p><p>(em particular das classes de renda mais capital pela compra, pelo TN, de dívidas</p><p>baixa) e de saneamento básico.do banco com o Banco Central.</p><p>REESTRUTURAÇÃO PATRIMONIAL</p><p>FEIRÕES DA CASA PRÓPRIA</p><p>Com o seu primeiro evento</p><p>realizado em 2005, os feirões da</p><p>casa própria são uma excelente</p><p>oportunidade de negócios para a</p><p>CAIXA, seus parceiros do</p><p>mercado imobiliário e futuros</p><p>mutuários. Nos feirões é possível</p><p>ao cliente fechar o negócio,</p><p>conhecer o imóvel e dar entrada</p><p>nos papéis do financiamento.</p><p>Nos feirões da casa própria os</p><p>interessados na compra de um</p><p>imóvel vão encontrar</p><p>oportunidades de negócios para</p><p>a aquisição de novos, usados e</p><p>imóveis na planta. As unidades</p><p>oferecidas pela própria CAIXA</p><p>(imóveis adjudicados, ou seja,</p><p>que foram retomados de antigos</p><p>mutuários por falta de</p><p>pagamento), pelas construtoras e</p><p>incorporadoras, além de</p><p>corretoras têm a garantia de</p><p>financiamento, que pode chegar</p><p>a até 100% do valor do imóvel.</p><p>As linhas de financiamento para</p><p>a casa própria da CAIXA</p><p>atendem a todas as faixas de</p><p>renda familiar, possuem prazo</p><p>de pagamento de até 20 anos e</p><p>prestações decrescentes.</p><p>O 1º Feirão da Casa Própria foi</p><p>realizado pela CAIXA em 2005.</p><p>Mais de 350 mil pessoas</p><p>visitaram os estandes montados</p><p>nas feiras. Foram assinados</p><p>4.363 contratos de compra de</p><p>imóveis, no montante de R$</p><p>261 milhões. Mais de 22 mil</p><p>propostas de financiamento, no</p><p>valor de R$ 1,41 bilhão foram</p><p>encaminhadas às agências da</p><p>CAIXA.</p><p>No 2º feirão, realizado no ano</p><p>passado, 14 cidades foram</p><p>beneficiadas com o evento. Mais</p><p>de 540 mil pessoas passaram</p><p>pelas feiras. Foram fechadas</p><p>8.338 aquisições de imóveis, no</p><p>valor de R$ 374 milhões. As</p><p>agências da CAIXA finalizaram</p><p>40.975 propostas de</p><p>financiamento, no valor de R$</p><p>1,92 bilhão.</p><p>59</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>BALANÇO SOCIAL DA</p><p>CAIXA ECONÔMICA</p><p>As tabelas nesta página</p><p>mostram a dimensão do</p><p>trabalho da Caixa Econômica</p><p>em serviços prestados aos</p><p>cidadãos brasileiros e ao</p><p>governo em 2004 e 2005.</p><p>Os números impressionam. Só</p><p>os programas Bolsa Família,</p><p>Bolsa Escola e Auxílio Gás</p><p>somaram R$ 169,4 bilhões.</p><p>60</p><p>Caixa do cidadão brasileiro</p><p>Discriminação</p><p>Transferência de Renda</p><p>Benefícios do Trabalhador</p><p>Crédito Bancário</p><p>Habitação/Saneam. e Infra - Financiamentos (*)</p><p>Habitação/Saneam. e Infra - Repasses</p><p>Outros repasses</p><p>Total</p><p>2004 2005</p><p>5.165</p><p>59.304</p><p>25.774</p><p>7.701</p><p>1.245</p><p>1.027</p><p>100.216</p><p>6.484</p><p>63.695</p><p>35.718</p><p>8.674</p><p>1.629</p><p>1.061</p><p>117.261</p><p>R$ milhões</p><p>17%</p><p>Serviços prestados ao Governo</p><p>Bolsa Família</p><p>Bolsa Escola</p><p>Auxílio Gás</p><p>PETI</p><p>Cartão Alimentação</p><p>Outros</p><p>Total</p><p>2004</p><p>Qtde Valor</p><p>47.518.163</p><p>62.393.441</p><p>69.073.592</p><p>1.385.923</p><p>3.448.028</p><p>4.866.292</p><p>188.685.439</p><p>3.352</p><p>936</p><p>518</p><p>59</p><p>172</p><p>128</p><p>5.165</p><p>2005</p><p>Qtde Valor</p><p>80.733.926</p><p>40.286.851</p><p>48.417.525</p><p>1.460.123</p><p>1.161.306</p><p>1.583.417</p><p>173.643.148</p><p>5.301</p><p>604</p><p>363</p><p>60</p><p>58</p><p>97</p><p>6.484</p><p>R$ milhões</p><p>Benefícios ao Trabalhador</p><p>Seguro-Desemprego</p><p>Pagamento FGTS</p><p>Pagamento Prog. Econômicos</p><p>Pagamento Previdência Social</p><p>PIS</p><p>Total</p><p>2004</p><p>Qtde Valor</p><p>20.326.373</p><p>18.549.589</p><p>7.031.911</p><p>34.456.923</p><p>22.834.968</p><p>103.199.764</p><p>7.045</p><p>22.089</p><p>10.868</p><p>16.623</p><p>2.679</p><p>59.304</p><p>2005</p><p>Qtde Valor</p><p>22.223.934</p><p>20.273.904</p><p>3.179.282</p><p>40.532.889</p><p>23.124.051</p><p>109.334.060</p><p>8.532</p><p>25.950</p><p>5.075</p><p>20.802</p><p>3.336</p><p>63.695</p><p>R$ milhões</p><p>(*) Incluído Construcard</p><p>Transferência de Renda</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>A Caixa Econômica Federal obteve 2005. Em habitação, foram aplicados</p><p>em 2006 lucro líquido de R$ 2,39 R$ 13,850 bilhões, sem considerar os</p><p>bilhões. Esse resultado supera em mais de R$ 380 milhões de consórcio e</p><p>15,45% o lucro líquido de 2005, que mais R$ 3,739 bilhões em saneamento</p><p>foi de R$ 2,07 bilhões. Parte expressiva e infra-estrutura.</p><p>do lucro líquido, no montante de R$ Esses resultados, que mostram “um</p><p>1,145 bilhão, é destinada ao Tesouro banco eficiente, moderno e lucrativo”,</p><p>Nacional a título de dividendos e juros como foi definido pela própria</p><p>sobre capital próprio. Diretoria, não inibe o aspecto social da</p><p>O ano de 2006 trouxe um retorno instituição como gestora de programas e</p><p>de 26% sobre o patrimônio líquido, que fundos sociais do Governo.</p><p>cresceu 15% sobre o saldo de 2005, O banco é o principal agente do</p><p>passando de R$ 7,952 bilhões para R$ governo no programa de Aceleração do</p><p>9,182 bilhões. Em dezembro de 2006, Crescimento (PAC). Cerca de 20% dos</p><p>o Índice de Basiléia, que mede os ativos investimentos do programa serão</p><p>ponderados pelo risco, estava em geridos pela instituição.</p><p>25,29%. Como principal agente dos</p><p>O saldo das operações de crédito programas sociais do governo, o banco</p><p>cresceu 23% no ano, enquanto as viabilizou, no ano passado, a</p><p>receitas dessas operações subiram 19%. transferência de R$ 7,528 bilhões para</p><p>No final de 2005, o saldo das os brasileiros de baixa renda, via Bolsa</p><p>operações de crédito alcançava R$ Família. A maioria dos beneficiários é</p><p>37,195 bilhões, saltando para R$ da região Nordeste do País, que</p><p>45,689 bilhões no final do ano passado. recebeu R$ 4,038 bilhões. Nos</p><p>Em 2006, o banco concedeu R$ pagamentos de FGTS, PIS, seguro-</p><p>45,649 bilhões em crédito comercial, desemprego e outros, foram gastos R$</p><p>volume 30,1% superior ao realizado em 72,54 bilhões no período.</p><p>A CAIXA HOJE</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>O esporte nacional recebeu R$ superior e a conquistar melhores</p><p>260.838.342,92, que foram destinados oportunidades no mercado de trabalho.</p><p>ao Ministério do Esporte e aos Comitês São cerca de 400.000 estudantes</p><p>Olímpico e Paraolímpico Brasileiros. beneficiados.</p><p>A seguridade social recebeu R$ R$ 121.441.013,83 foram</p><p>719.964.715,02 para garantir destinados ao Fundo Nacional de</p><p>benefícios previdenciários aos cidadãos. Cultura para a preservação, o</p><p>O Programa de Financiamento desenvolvimento e a divulgação da</p><p>Estudantil (FIES) recebeu R$ riqueza cultural de nosso País.</p><p>379.568.777,89 para possibilitar aos O Fundo Penitenciário Nacional</p><p>estudantes de baixa renda a (FPN) recebeu R$ 127.228.914,13</p><p>oportunidade de fazer um curso para investir na segurança dos cidadãos.</p><p>VALORES TRANSFERIDOS PELA LOTERIA DA CAIXA</p><p>PARA PROGRAMAS SOCIAIS NO ANO DE 2006</p><p>O ano de 2006 foi marcado</p><p>pela inclusão de três novas</p><p>ações: as campanhas "Fome</p><p>de Leitura", "Aquecendo</p><p>Corações" e o Projeto CAIXA</p><p>ODM; representando</p><p>importantes passos para</p><p>estreitar o relacionamento com</p><p>as comunidades onde o banco</p><p>atua e criar espaços de</p><p>discussão para questões como</p><p>políticas públicas, participação</p><p>cidadã, co-responsabilidade,</p><p>controle social e</p><p>desenvolvimento sustentável.</p><p>Para 2007, as perspectivas são</p><p>manter o volume de recursos</p><p>aplicados em 2006, ampliando</p><p>e consolidando os espaços de</p><p>atuação do Projeto CAIXA</p><p>ODM, por meio do fomento às</p><p>parcerias entre instituições</p><p>públicas, privadas e a</p><p>sociedade civil organizada.</p><p>As campanhas "Com a Sua</p><p>Ajuda Esta Saudade Pode Ter</p><p>Fim", "Fome de Leitura",</p><p>"Aquecendo Corações" e</p><p>"Transforme Este Natal Você</p><p>Também" serão relançadas em</p><p>2007.</p><p>Entre os principais programas</p><p>desenvolvidos no decorrer de</p><p>2006, se destaca o projeto</p><p>CAIXA Fome Zero, que foi</p><p>criado em 2003, com o</p><p>objetivo de reunir os esforços</p><p>da instituição para participar da</p><p>luta do Governo e da sociedade</p><p>no combate à fome e à</p><p>pobreza, de forma a garantir</p><p>aos brasileiros o pleno exercício</p><p>da cidadania e de seus direitos,</p><p>tendo como principais vertentes</p><p>o Programa Fome Zero, do</p><p>Governo Federal e os Objetivos</p><p>de Desenvolvimento do Milênio</p><p>(ODM).</p><p>As iniciativas do Projeto</p><p>CAIXA Fome Zero são:</p><p>apoio ao fundo de combate e</p><p>erradicação da pobreza. Em</p><p>quatro anos, o projeto CAIXA</p><p>Fome Zero arrecadou R$ 2,4</p><p>milhões para o Fundo de</p><p>Combate e Erradicação da</p><p>Pobreza.</p><p>61</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO V</p><p>Promover a melhoria continua da qualidade de vida da sociedade, intermediando</p><p>os recursos e negócios financeiros de qualquer natureza, atuando, prioritariamente, no</p><p>fomento ao desenvolvimento urbano e nos segmentos de habitação, saneamento e</p><p>infra-estrutura, e na administração de fundos, programas e serviços de caráter social.</p><p>• Direcionamento de ações para o atendimento das expectativas da sociedade e dos clientes.</p><p>• Busca permanente de excelência na qualidade de serviços.</p><p>•</p><p>Equilíbrio financeiro em todos os negócios.</p><p>• Conduta ética pautada exclusivamente nos valores da sociedade.</p><p>• Respeito e valorização do ser humano.</p><p>VISÃO DE FUTURO</p><p>A CAIXA será refêrencia mundial como banco público integrado, rentável,</p><p>socialmente responsável, eficiente ágil, e com permanente capacidade de renovação.</p><p>Manterá a liderança na implementação de políticas públicas e será parceira</p><p>estratégica dos governos estaduais e municipais.</p><p>Consolidara sua posição como o banco da maioria da população brasileira, com</p><p>relevante presença no segmento de pessoa jurídica e excelente relacionamento com</p><p>seus clientes.</p><p>Será detentora de alta tecnologia da informação em todos os canais de atendimento</p><p>e se destacará na gestão de pessoas, reconhecidas em seu mérito, capacitadas e com</p><p>desenvolvido espírito publico.</p><p>Manterá relacionamentos sólidos, coesos e inovadores com parceiros competentes e</p><p>de forte compromisso social.</p><p>VALORES</p><p>MISSÃO</p><p>64</p><p>CAPÍTULO 6</p><p>A expansão dos bancos nacionais</p><p>e a entrada dos bancos ingleses</p><p>65</p><p>Nascer do dia na Lagoa</p><p>circa 1912 - Rio de Janeiro</p><p>Óleo sobre tela de</p><p>Luís Graner (1867-1929)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>A expansão das atividades dos bancos acionistas não só do BRHRJ, como de</p><p>prosseguiu ao longo da segunda metade do outros bancos. Seguindo a prática dos</p><p>século XIX. Principalmente por iniciativa demais bancos brasileiros, o banco</p><p>de grandes comerciantes, foram criados pagava juros de 4% pelos depósitos à</p><p>“bancos de depósitos e de desconto”, cujas vista e, usualmente, de 6% para depósitos</p><p>operações se assemelhavam aos atuais a prazo. Suas taxas de desconto, portanto,</p><p>bancos comerciais. Alguns desses bancos eram elevadas, pois tinham de ser levados</p><p>emitiram notas, principalmente no período em conta não só o spread necessário para</p><p>1857-1860. terem lucro em condições normais, mas</p><p>No Rio de Janeiro, além da casa também os níveis de inadimplência que,</p><p>bancária de Mauá, destacavam-se o já normalmente elevados, tendiam a</p><p>Banco Rural e Hipotecário e o Banco aumentar nos períodos de crise.</p><p>Comercial e Agrícola . O Banco Comercial e Agrícola foi</p><p>O Banco Rural Hipotecário do Rio de criado em 1857, também como</p><p>Janeiro (BRHRJ) surgiu em 1854, na sociedade anônima e tendo como</p><p>forma de sociedade anônima, com capital principal acionista e presidente o Barão</p><p>de 8.000 contos, pouco depois de Vassouras. Sediado no Rio de Janeiro,</p><p>aumentado para 16.000 contos. Seu abriu agências em outras cidades</p><p>principal acionista era José Pedro da fluminenses. Embora concedesse alguns</p><p>Mota Saião, o Barão de Pilar. Apesar do empréstimos hipotecários, suas operações</p><p>nome, a principal operação ativa do ativas não se diferenciavam muito das</p><p>banco era o desconto de letras com praticadas por outros bancos de capital</p><p>penhor mercantil e caucionadas. nacional, estando concentradas no</p><p>Atendia, fundamentalmente, às demandas desconto de letras de comerciantes e dos</p><p>de comerciantes e comissários do café, sem se comissários.</p><p>envolver diretamente em empréstimos rurais Outros bancos e casas bancárias</p><p>nem lastreados em hipotecas. foram abertos no Rio de Janeiro e em</p><p>Os cafeicultores eram financiados outras praças, destacando-se Salvador e,</p><p>pelos comissários e eram estes que desde a década de 1870, algumas</p><p>negociavam diretamente com os bancos cidades do estado de São Paulo, para</p><p>— de fato, vários comissários eram onde já se dirigia a lavoura cafeeira.</p><p>(GUIMARÃES, 1999)</p><p>A EXPANSÃO DOS BANCOS DE CAPITAL NACIONAL</p><p>66</p><p>Marina do porto do Rio de Janeiro,</p><p>fundo da cédula de 500 mil réis</p><p>emitida pelo Banco da</p><p>República do Brasil</p><p>Fialdini</p><p>Museus de Valores do</p><p>Banco Central</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VI</p><p>5OS BANCOS INGLESES</p><p>MERCADO: Situado no antigo</p><p>terreiro do Paço, atual Praça XV de</p><p>Novembro, exatamente no local</p><p>onde hoje existe o prédio da Bolsa</p><p>de Valores.</p><p>Cartão transparente Meteor,</p><p>circulado em 1902 e editado por</p><p>Ortigão&Grimmer.</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>67</p><p>No século XIX, a economia brasileira Rio de Janeiro era o principal, por onde</p><p>tinha seu dinamismo determinado pelo era exportada a maior parte da safra de</p><p>comércio exterior. O principal parceiro café e por onde entrava a maior parte</p><p>comercial do Brasil era a Inglaterra, maior das importações.</p><p>importadora de café e outros produtos O Rio de Janeiro era também a cidade</p><p>primários, e exportadora de produtos por onde se fazia a maior parte dos</p><p>industriais diversos, como bens de consumo pagamentos de empréstimos recebidos do</p><p>e equipamentos. O comércio internacional exterior e pagos ao exterior. Assim, notícias</p><p>era dominado por comerciantes de obtenção de um empréstimo — o que</p><p>estrangeiros, com capacidade de financiar significava recebimento de libras e/ou de</p><p>tanto a importação quanto a exportação. ouro — tendiam a apreciar o câmbio. Nos</p><p>Na sua atividade econômica principal, o momentos em que eram pagos juros e/ou</p><p>comércio exterior, o Brasil era dividido em amortizados os empréstimos, havia a</p><p>regiões e seus respectivos portos, cujas tendência de desvalorização do mil-réis.</p><p>vidas econômicas dependiam da produção Momentos cruciais desse movimento de</p><p>e exportação de produtos distintos: açúcar e capitais eram proporcionados pelas</p><p>algodão no Nordeste (Salvador e Recife), finanças externas de todas instâncias</p><p>café no Sudeste (Rio de Janeiro e Santos) e governamentais. O Império fazia essa</p><p>carne no Sul (Porto Alegre). movimentação através de bancos. Obter</p><p>Havia mercados mundiais para cada esse negócio abria a possibilidade de</p><p>um desses produtos, e, assim, informações dominar o mercado de câmbio.</p><p>corretas sobre tendências futuras desses Um banco ativo em operações de</p><p>mercados representavam grande vantagem câmbio devia, portanto, ter agências em</p><p>para os que operavam com câmbio. todos os portos, para se aproveitar das</p><p>De um modo geral, os portos de diferenças registradas na cotação da</p><p>Santos e Porto Alegre registravam libra esterlina, assim como para usar as</p><p>superávits nas contas externas. Salvador diferentes datas de entradas e saídas de</p><p>e Recife registravam déficits. O porto do divisas a seu favor.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VI</p><p>A ORIGEM DO LONDON AND BRAZILIAN BANK</p><p>A decisão de abrir um banco para comerciantes interessados em negócios</p><p>operar no Brasil foi tomada em uma no Brasil. Os bancos ingleses logo</p><p>reunião feita no dia 1º de maio de abriram filiais nos principais portos do</p><p>1862, nas dependências do escritório País e passaram a concorrer com os</p><p>da Robert Benson & Co., em Londres, bancos brasileiros e os bancos de</p><p>por representantes de duas empresas investimento sediados na Inglaterra.</p><p>comerciais e de uma família de Pela própria natureza de seus</p><p>banqueiros. Apostavam na idéia de que negócios, essas instituições tinham</p><p>“o rápido crescimento das relações como maior fonte de receita as</p><p>comerciais entre Brasil e Grã-Bretanha operações cambiais. Os bancos</p><p>e os vultosos investimentos de capital ganhavam com a cobrança de tarifas e</p><p>britânico em empreendimentos no também com arbitragem, ou seja,</p><p>Brasil ensejam o estabelecimento de aproveitando-se das diferenças</p><p>uma Companhia em Londres verificadas entre as cotações de moedas</p><p>executando negócios bancários no estrangeiras nos mercados de câmbio</p><p>Brasil”. brasileiro e londrino.</p><p>Na Inglaterra, os procedimentos Os bancos mantinham contato diário</p><p>para abrir o banco (London and com suas matrizes e, assim, possuíam</p><p>Brazilian Bank) foram rápidos. No dia vantagem considerável sobre os</p><p>19 de maio, o banco foi registrado, concorrentes no tocante a informações</p><p>abriu uma conta de redesconto no sobre o comportamento desses</p><p>Banco da Inglaterra e já tinha sede mercados no exterior. Podiam tirar</p><p>própria e correspondentes em Paris, vantagem nas operações de câmbio não</p><p>Nova Iorque e Hamburgo. apenas porque eram mais capazes de</p><p>No Brasil daquela época a coisa era obter informação, mas também pela</p><p>mais difícil. Demorou alguns meses até maior facilidade de obter divisas.</p><p>serem superadas certas demandas — Possuíam elevados encaixes</p><p>algumas</p><p>legítimas, como a exigência de em moeda estrangeira e,</p><p>capital mínimo. A agência do Rio de através de</p><p>Janeiro abriu suas portas em fevereiro correspondentes no</p><p>de 1863. Foram remetidas moedas de exterior, podiam,</p><p>ouro (dobrões e soberanos) e tomadas mais facilmente,</p><p>200 mil libras de empréstimo junto ao descontar títulos</p><p>Banco do Brasil para ajudar na em praças</p><p>abertura do capital em território européias e</p><p>brasileiro. remeter ou</p><p>Dois anos depois foi criado outro internalizar</p><p>banco inglês — o Brazilian and moeda estrangeira.</p><p>Portuguese Bank — também por</p><p>Rainha Vitória no seu</p><p>jubileu de 50 anos</p><p>Foto oficial do Governo</p><p>Britânico</p><p>A Inglaterra em 1862</p><p>A Inglaterra foi o primeiro país</p><p>a se industrializar, e, em 1862</p><p>era a nação mais rica do</p><p>mundo, com a maior frota</p><p>e o maior mercado de serviços</p><p>financeiros. O Reino Unido</p><p>era um Império poderoso, que</p><p>dominava a Índia e vastas</p><p>Regiões na África, Ásia,</p><p>América e Oceania. "império</p><p>onde o sol nunca se põe". A</p><p>Rainha Vitória foi o símbolo</p><p>dessa época, auge do Reino</p><p>Unido.</p><p>68</p><p>Detalhe da cédula de</p><p>100 mil réis, painel reverso,</p><p>com o Jardim Botânico</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VI</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>DIVISÃO DO MERCADO BANCÁRIO</p><p>Verificava-se, na época, uma Os bancos de capital nacional, com</p><p>espécie de divisão do trabalho entre os exceção do Banco do Brasil e da casa</p><p>bancos estrangeiros e os de capital bancária de Mauá, operavam apenas</p><p>nacional. localmente e suas práticas eram</p><p>Os bancos estrangeiros estavam consideradas “atrasadas” pelos padrões</p><p>voltados quase exclusivamente para o internacionais: as decisões quanto a</p><p>financiamento do comércio externo — empréstimos eram quase sempre</p><p>exportação de café e outros produtos baseadas em relações pessoais e,</p><p>primários e importações de quase tudo. freqüentemente, beneficiavam seus</p><p>Detinham, praticamente, o monopólio próprios acionistas, o que levava os</p><p>das operações de câmbio, cuidando das bancos a oferecerem juros elevados na</p><p>remessas, recebimentos de cambiais, captação de depósitos à vista e a</p><p>etc. As transações vinculadas ao conceder empréstimos sem prazo</p><p>comércio interno eram preteridas pelos definido.</p><p>bancos estrangeiros.</p><p>No caso das exportações, embora</p><p>estas fossem constituídas de produtos</p><p>agrícolas, os bancos não financiavam</p><p>diretamente a lavoura, mas sim as</p><p>empresas comerciais que dominavam</p><p>essa atividade, em sua maioria também</p><p>estrangeiras.</p><p>Os bancos nacionais descontavam</p><p>títulos gerados por atividades voltadas</p><p>ao mercado interno.</p><p>Essa atitude, tão criticada à época</p><p>por políticos nacionalistas, refletia não</p><p>somente a regionalização da atividade</p><p>bancária, mas, também, de acordo</p><p>com os ingleses, as diferenças culturais.</p><p>Entre 1836 e 1853, as emissões de papel tornaram-se cada vez mais</p><p>importantes, na medida em que a população e a economia cresciam, exigindo mais</p><p>meio circulante, enquanto escasseavam os metais preciosos.</p><p>Como o direito de emitir foi franqueado a bancos privados e praticamente não</p><p>havia controle nesse sentido, passaram a circular livremente, junto com as emissões</p><p>bancárias, letras, vales e recibos.</p><p>PLURALIDADE BANCÁRIA Cédula unifacial impressa no</p><p>Maranhão em tipografia, 1854</p><p>Fialdini</p><p>Museu de Valores do Banco Central</p><p>do Brasil</p><p>69</p><p>CAPÍTULO VI</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>As crises de 1857 a 1875, a Guerra</p><p>do Paraguai e o fim do Império</p><p>A crise de 1857 originou-se com a mesmo tempo em que tinha seus fundos</p><p>queda do preço internacional das disponíveis reduzidos, o banco ficaria em</p><p>commodities, verificada no segundo situação cada vez mais frágil. Em</p><p>semestre do ano. Nos Estados Unidos, fevereiro de 1858, a cotação de mercado</p><p>houve um pânico bancário que ocasionou do mil-réis havia caído para 23d.</p><p>aumento das importações de ouro. Essa Como prevalecia, na época, a noção</p><p>maior demanda pelo metal foi direcionada de que o País devia se manter dentro das</p><p>principalmente para Londres, o mais regras do padrão-ouro, tanto a diretoria</p><p>importante centro financeiro da época. do Banco do Brasil quanto os membros</p><p>Preocupado com a perda de suas do governo discutiram a melhor forma de</p><p>reservas, o Banco da Inglaterra elevou fazer com que a moeda nacional</p><p>substancialmente a taxa de desconto. O retornasse à paridade oficial, isto é, 27d.</p><p>6mercado financeiro londrino atraiu fluxos por mil-réis . Houve desavenças, com o</p><p>de metais de várias partes do mundo, governo recusando-se a adotar as medidas</p><p>inclusive do Brasil, onde as notícias sobre propostas pelo banco e vice-versa.</p><p>a crise chegaram em novembro. O Banco do Brasil decidiu,</p><p>Comerciantes ligados ao comércio exterior unilateralmente, suspender a</p><p>trataram de resgatar, em ouro, as notas conversibilidade de suas notas. O ministro</p><p>emitidas pelo Banco do Brasil — embora da Fazenda, Souza Franco, apelou então</p><p>autorizados, os demais bancos brasileiros ao amigo Barão de Mauá, que se</p><p>ainda não haviam começado a emitir as comprometeu a comprar todas as divisas</p><p>próprias notas. que o mercado demandasse a 25 ½ d.,</p><p>Os empréstimos externos passaram a usando, para isso, a filial de seu banco na</p><p>não ser renovados. Isto significava que os Inglaterra. Na prática, a casa bancária de</p><p>devedores deveriam dispor de divisas Mauá assumiu a função até então</p><p>(ouro ou libras esterlinas) para pagar as confiada ao Banco do Brasil. Em meados</p><p>dívidas. Mesmo elevando a taxa de daquele ano, a crise internacional já havia</p><p>redesconto, o Banco do Brasil viu suas sido debelada e os comerciantes voltaram</p><p>reservas de divisas diminuírem. Por lei, o a contar com o financiamento externo de</p><p>banco era obrigado a trocar suas notas à suas exportações e importações.</p><p>taxa oficial, que então era de 27d. por Aumentou a oferta de divisas e caiu a</p><p>mil-réis. O banco encaminhou um pedido demanda por ouro. Em agosto de 1858,</p><p>ao governo para emitir mais notas, com o a taxa de câmbio era de 26d. por mil-</p><p>que poderia atender às crescentes réis, o Banco do Brasil retomou a</p><p>solicitações de outros bancos. O problema conversibilidade de suas notas e a crise</p><p>é que, aumentando as emissões ao foi dada como encerrada.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VII</p><p>Durante o Segundo Império, os bancos brasileiros enfrentaram crises severas em três ocasiões: 1857, 1864</p><p>e 1875. As crises de 1857 e de 1875 foram motivadas por razões externas, enquanto a de 1864 deveu-se à</p><p>política econômica extremamente recessiva adotada. O Banco do Brasil teve papel de destaque nessas três</p><p>crises, através de operações de redesconto. Em cada uma das crises, a relação entre o Banco do Brasil e os</p><p>bancos privados variou de acordo com as condições políticas e econômicas.</p><p>CRISE DE 1857</p><p>“Batalha Naval do Riachuelo”,</p><p>séc. XIX</p><p>Óleo sobre tela de Vitor Meirelles</p><p>(1832-1903)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>A Batalha do Riachuelo, travada em</p><p>11 de junho 1863, foi um dos</p><p>episódios mais marcantes da fase</p><p>inicial da Guerra do Paraguai</p><p>(1864-1870). Duas divisões da</p><p>Marinha Imperial comandadas,</p><p>respectivamente, pelo chefe de</p><p>divisão Francisco Manoel Barroso</p><p>da Silva, depois Barão do</p><p>Amazonas, e pelo capitão de mar-e-</p><p>guerra Segundino de Gomensoro,</p><p>desbarataram uma esquadra</p><p>paraguaia que deveria romper o</p><p>bloqueio naval imposto ao Paraguai</p><p>pela Tríplice Aliança.</p><p>Este quadro é uma cópia de um</p><p>outro idêntico que havia sido</p><p>pintado por encomenda do Governo</p><p>Imperial para a Exposição de</p><p>Filadélfia (1876). O original perdeu-</p><p>se, por acidente, na viagem de</p><p>retorno.</p><p>72</p><p>Nota: a notação d. significa “divisas”.</p><p>Naquele período estas “divisas”</p><p>eram em ouro ou libras esterlinas,</p><p>usadas para pagar as dívidas</p><p>CRISE DE 1864</p><p>Uma das conseqüências da crise de depósitos nas agências dos bancos.</p><p>1857 foi o crescimento do “metalismo”: A imprensa da época registrou</p><p>muitos consideraram que os problemas intervenções da polícia tentando acalmar</p><p>cambiais tinham sido decorrentes das os ânimos.</p><p>“emissões desenfreadas” proporcionadas A reação do Banco do Brasil, dessa</p><p>pela pluralidade emissora. As idéias de vez, foi imediata. Três dias após a quebra</p><p>Souza Franco perderam espaço para</p><p>a da Casa Souto, o banco suspendeu a</p><p>retórica mais conservadora, e o resultado conversibilidade e foi generoso na</p><p>foi a Lei dos Entraves, em 1860. A concessão de redesconto. Mesmo os</p><p>política monetária restritiva adotada no maiores bancos — inclusive o de Mauá e</p><p>início da década causou contração dos o Banco Rural Hipotecário — receberam</p><p>meios de pagamento. Tal aperto foi sentido ajuda do Banco do Brasil, que então</p><p>especialmente no Rio de Janeiro, onde se cumpria uma função que não lhe era</p><p>concentrava o mercado financeiro, em atribuída formalmente, a de emprestador</p><p>função da saída de moeda para os estados de última instância.</p><p>do Nordeste, que viviam um momento de A pronta ação do banco impediu uma</p><p>expansão provocado pela elevação do quebra generalizada, mas não a falência</p><p>preço do algodão decorrente da Guerra da Casa Souto e de mais três outras, cujo</p><p>Civil Americana. passivo total era superior à moeda em</p><p>Apenas o Banco do Brasil possuía circulação. As emissões do Banco do</p><p>agências em Salvador e Recife. O nível de Brasil nas operações de socorro às</p><p>atividade econômica foi reduzido no Rio instituições bancárias representaram um</p><p>de Janeiro e, em 1862, várias firmas aumento de cerca de 70% do meio</p><p>quebraram e houve um princípio de crise circulante .</p><p>bancária, com grandes saques de Os dois bancos ingleses, que também</p><p>depósitos. As casas bancárias endividaram- receberam apoio, embora reduzido, do</p><p>se com o Banco do Brasil e disputaram Banco do Brasil, nada sofreram, chegando</p><p>depósitos oferecendo juros altos. O mesmo a se beneficiarem com a</p><p>problema de liquidez foi agravado pelo transferência de depósitos dos correntistas</p><p>fato de muitas das aplicações feitas pelas de outros bancos, já que eram</p><p>instituições bancárias serem de longo prazo considerados mais seguros.</p><p>e de retorno duvidoso. Passada a crise, os bancos assumiram</p><p>Em setembro de 1864, a maior casa posições mais cautelosas. Reduziram</p><p>bancária em atividade no Rio de Janeiro, substancialmente as operações de desconto</p><p>a Casa Souto, fechou subitamente suas e aumentaram as aplicações em apólices</p><p>portas. Criou-se o pânico, com corrida dos do Governo. Tal reação foi reforçada com</p><p>clientes para efetuarem saques em outras o início da Guerra do Paraguai, em 1866,</p><p>instituições. quando o governo decretou o monopólio</p><p>Naqueles tempos, corrida bancária era da emissão do Tesouro e, com as finanças</p><p>uma expressão aplicada no sentido literal: crescentemente em dificuldade, emitiu</p><p>cidadãos desesperados tentando sacar seus considerável soma de títulos.</p><p>(SCHULZ, 1996)</p><p>EMISSÃO ÚNICA PELO</p><p>TESOURO NACIONAL</p><p>Em 1862, frente a total falta de</p><p>controle sobre as emissões do meio</p><p>circulante, o Governo Imperial</p><p>restringiu ao Banco do Brasil a</p><p>responsabilidade e os benefícios de</p><p>emissor único.</p><p>Dois anos depois, em 1864, a</p><p>autorização foi transferida para o</p><p>Tesouro Nacional.</p><p>73</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VII</p><p>CRISE DE 1875</p><p>Até o final da guerra da Guerra do de divisas para aquele país. A crise atingiu</p><p>Paraguai, em 1870, a política monetária o Brasil em 1875, mas o Governo,</p><p>foi expansionista, estando o Governo mais inicialmente, manteve a política monetária</p><p>preocupado em financiar seus gastos do contracionista. Várias casas comerciais</p><p>que com a taxa de câmbio, que chegou a faliram, enquanto os bancos, por</p><p>cair para 17d. Terminada a guerra, o precaução, reduziram os empréstimos.</p><p>objetivo voltou a ser o retorno à paridade O Banco do Brasil, sem poder de</p><p>legal de 27d. Começou um período de emissão, nada podia fazer nessa ocasião.</p><p>aperto monetário que perdurou até o fim Pressionado, coube ao governo emitir para</p><p>do Império de D. Pedro II. socorrer alguns bancos. A escolha dos</p><p>Na primeira metade da década de bancos a serem socorridos parece ter</p><p>1870, a economia se recuperou, com o sofrido influência política. O Banco Rural e</p><p>incremento das exportações, mas o meio Hipotecário do Rio de Janeiro, cujo</p><p>circulante foi reduzido com o gradual segundo maior acionista era o Banco do</p><p>recolhimento das notas antes emitidas pelo Brasil, foi salvo. À Casa Bancária Mauá foi</p><p>Banco do Brasil. O resultado foi a recusada ajuda, vindo esta a quebrar. Até</p><p>valorização do câmbio, tendo o mil-réis, já hoje, se discutem as razões dessa recusa,</p><p>em 1873, atingido a cotação desejada pelo mas deve-se ressaltar que a instituição</p><p>Governo. Entretanto, no mesmo ano, comandada por Mauá, como de resto</p><p>estourou nova crise internacional, acontecia com muitos bancos que</p><p>considerada por muitos historiadores a quebraram — e também com bancos que</p><p>mais grave do século XIX. Repetiram-se vieram a quebrar em outras ocasiões —</p><p>os fatos ocorridos em 1857: aumento da assumira posições ilíquidas, de retorno</p><p>taxa de juros na Inglaterra e transferência longo e incerto.</p><p>“Retrato de D Pedro II”, 1875</p><p>Óleo sobre tela de Delfim da</p><p>Câmara (1834-c.1916)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>“Assalto de la cuarta coluna a</p><p>Curupayti”</p><p>Óleo sobre tela, 1898</p><p>Candido Lopez</p><p>Museo Nacional de Bellas Artes,</p><p>Buenos Aires - Argentina</p><p>74</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VII</p><p>O processo de crise que se abateu</p><p>nas instituições bancárias privadas tem</p><p>início com a promulgação da Lei nº</p><p>1083 de 1860, a chamada Lei dos</p><p>Entraves.</p><p>O episódio conhecido como Crise</p><p>do Souto, em 1864, quando o governo</p><p>deixou de honrar seus pagamentos</p><p>junto a este banco, ajudou a colocar</p><p>pânico no mercado, levando diversos</p><p>bancos a falirem em um período muito</p><p>curto, já que não tinham como honrar</p><p>os resgates solicitados pela população,</p><p>receosa com os acontecimentos (o</p><p>passivo dos bancos era maior do que o</p><p>total do meio circulante na época). Os</p><p>bancos, incluindo a Sociedade Bancária</p><p>Mauá, MacGregor & Cia, tiveram que</p><p>recorrer ao Banco do Brasil, através do</p><p>mecanismo de redesconto e caução,</p><p>para fazer frente aos passivos que</p><p>cresciam.</p><p>Era a crise econômico-financeira</p><p>que se agravava em conseqüência dos</p><p>pesados gastos do governo com a</p><p>Guerra do Paraguai, influenciando o</p><p>mercado financeiro como um todo.</p><p>Para fazer frente aos pesados</p><p>déficits a que se acometeu oriundos da</p><p>campanha militar, o Governo Brasileiro</p><p>agiu logo de imediato para conter a</p><p>crise que se alastrava. O primeiro passo</p><p>foi retirar do Banco do Brasil o</p><p>privilégio da emissão de títulos do</p><p>governo e passá-los pra a tutela do</p><p>Tesouro Nacional, em 1866. Esta</p><p>atitude visava a eliminar os custos dos</p><p>juros que o Governo tinha de pagar ao</p><p>Banco do Brasil para financiar o déficit</p><p>fiscal crescente com a guerra.</p><p>Os custos da Guerra do Paraguai</p><p>giraram em torno de 614.000 contos</p><p>de réis (NOGUEIRA, 1988) e levaram o</p><p>Governo a um aumento significativo do</p><p>seu endividamento, tanto interno</p><p>quanto externo. O crescente</p><p>MAUÁ E AS PERDAS FINANCEIRAS DA GUERRA DO PARAGUAI</p><p>Dom Pedro II (1831-1889)</p><p>O reinado de Dom Pedro II,</p><p>incluindo o período de</p><p>regência (1831-1840) durou</p><p>quase 60 anos.</p><p>As finanças públicas foram</p><p>colocadas em ordem. Os</p><p>gastos do governo, e mesmo os</p><p>da família do Imperador, eram</p><p>modestos. Dava-se grande</p><p>valor ao dinheiro público e os</p><p>impostos eram baixos. Até a</p><p>Guerra do Paraguai, as</p><p>finanças do País eram</p><p>organizadas e houve um</p><p>considerável crescimento</p><p>econômico, pela expansão da</p><p>produção de café.</p><p>A descentralização, o tamanho</p><p>do País e a necessidade de</p><p>meios circulantes em</p><p>diferentes regiões foi uma</p><p>oportunidade para a criação</p><p>de vários bancos, com a</p><p>permissão para emitir dinheiro</p><p>em diversas cidades</p><p>brasileiras.</p><p>A Guerra do Paraguai e os</p><p>custos da guerra, como previu</p><p>Mauá, provocaram o fim do</p><p>império.</p><p>75</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VII</p><p>(Continua na página 78)</p><p>endividamento externo acabou por ser</p><p>uma ferramenta crucial para as</p><p>dificuldades enfrentadas pelo maior</p><p>industrial e banqueiro da época, o</p><p>Barão de Mauá.</p><p>A guerra também teve um custo alto</p><p>em vidas: somente do lado brasileiro é</p><p>estimado que sucumbiram cerca de 33</p><p>mil pessoas. No total é estimada a</p><p>perda de mais de 200 mil vidas em</p><p>decorrência do conflito.</p><p>7Um dos maiores críticos da guerra ,</p><p>Irineu Evangelista</p><p>de Souza, industrial</p><p>e banqueiro de muito poder, sofreu</p><p>enormemente com a crise financeira</p><p>que eclodiu junto com o conflito no</p><p>Prata. Acreditava que as crescentes</p><p>dívidas contraídas pelo Governo trariam</p><p>conseqüências no sistema financeiro, o</p><p>que, de fato, ocorreu.</p><p>A posição de Mauá, também</p><p>compartilhada pelo Barão do Rio</p><p>Branco, fazia todo o sentido, pois a</p><p>guerra talvez pudesse ter sido evitada</p><p>por meios diplomáticos.</p><p>Entretanto, a elite agraria da época,</p><p>para quem terra significava “riqueza e</p><p>poder”, queria uma “revanche” com os</p><p>hispânicos, pois não se conformava</p><p>(desde Pedro I) com a perda da</p><p>Província Cisplatina.</p><p>Os projetos de investimentos do</p><p>Barão de Mauá também se chocavma</p><p>com os interesses dos investidores</p><p>estrangeiros, que pressionaram o</p><p>Governo por mudanças na condução da</p><p>política econômica. Uma delas foi a</p><p>tarifa Silva Ferraz, que reduziu as taxas</p><p>de importação sobre máquinas e</p><p>ferramentas, atingindo em cheio os</p><p>Páginas 76-77</p><p>“Passagem do Chaco”, 1871</p><p>Óleo sobre tela de Pedro Américo</p><p>(1843-1905)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>negócios do Barão.</p><p>O aumento de impostos (sem contar</p><p>direitos aduaneiros de exportações e</p><p>importações) promovido durante os 5</p><p>anos da guerra foi da ordem de 50%.</p><p>Isso teve um impacto direto sobre os</p><p>negócios de Mauá, pois o aumento da</p><p>carga tributaria afetou mais aos</p><p>industriais e comerciantes do que aos</p><p>fazendeiros, que contavam com</p><p>bastante influência política e, por esse</p><p>motivo, não foram tão prejudicados.</p><p>Tendo que recorrer a empréstimos</p><p>no Banco do Brasil para equilibrar sua</p><p>instituição financeira e seus</p><p>negócios, Mauá se viu</p><p>fragilizado e, sofrendo</p><p>diversos atos de</p><p>sabotagem, acabou</p><p>vendo seus</p><p>negócios ruírem.</p><p>Pelo lado</p><p>político, várias</p><p>intrigas</p><p>levaram à</p><p>perda de</p><p>credibilidade</p><p>junto a parceiros</p><p>estrangeiros. Assim,</p><p>Mauá não teve mais</p><p>caixa para gerir seus</p><p>negócios, sendo</p><p>obrigado a se desfazer</p><p>de suas empresas, vindo</p><p>o Banco Mauá a fechar</p><p>as suas portas em 1875.</p><p>O Brasil recebeu,</p><p>após o fim da geurra</p><p>uma extensão de área</p><p>correspondente à</p><p>perda do Uruguai.</p><p>78</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>A passagem do Chaco foi uma</p><p>manobra do Exército Imperial</p><p>Brasileiro iniciada em 26 de</p><p>Julho de 1867, cujo objetivo</p><p>era surpreender o exército</p><p>paraguaio. O general retratado</p><p>é Osório.</p><p>(Detalhe da tela de Pedro Américo).</p><p>CAPÍTULO VII</p><p>80</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>O padrão ouro</p><p>81</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>O sistema de padrão ouro consiste em metal automaticamente; não</p><p>basicamente na proporção existente deveria haver restrições às importações e</p><p>entre o volume de moeda corrente e a exportações; os bancos centrais</p><p>quantidade de ouro disponível na tinham que estar aptos a vender ou</p><p>economia. A idéia de adotar tal sistema comprar quantias ilimitadas a um preço</p><p>baseia-se no controle relativo da oferta dado; e o estoque de ouro deveria</p><p>de moeda que ele possibilita, devido ao constituir a base de reserva para a oferta</p><p>lastro em metal, despertando a projeção de moeda.</p><p>de que desta maneira a inflação é A necessidade de haver uma base</p><p>controlada, removendo incertezas que sólida para o comércio entre os</p><p>possam reduzir a confiança para se diferentes países produziu uma rápida</p><p>comerciar e investir. Além disso, o aceitação do padrão ouro no final do</p><p>padrão ouro constitui um parâmetro século XIX.</p><p>estável de equiparação entre as taxas Ao final do primeiro conflito</p><p>cambiais de diversos países. mundial, a Inglaterra perdia sua</p><p>Foi a Inglaterra que originalmente condição de potência hegemônica e</p><p>desenvolveu o padrão ouro, nas centro financeiro internacional para os</p><p>primeiras décadas do século XIX, a Estados Unidos. O ouro, em grande</p><p>partir do sistema monetário bimetalista, parte retirado de circulação, era</p><p>em que a prata exercia, conjuntamente, gradativamente substituído pelo dólar</p><p>a função de meio de circulação e cujo empréstimo financiava as próprias</p><p>medida de valor. exportações norte-americanas.</p><p>As descobertas de grandes jazidas O volume de moeda corrente em</p><p>na Califórnia e em Klondike-Yukon, diversos países perdia sua paridade com</p><p>aliadas à introdução de inovações o nível de reservas do metal e as taxas</p><p>tecnológicas no processo de extração do de câmbio tampouco eram fixas.</p><p>metal, contribuíram decisivamente para Simultaneamente, a inflação passava a</p><p>o incremento na produção, favorecendo, constituir um fenômeno dramático na</p><p>no início da década de 1870, a Alemanha, Áustria e Hungria.</p><p>generalização do sistema em outros A reconstrução do sistema de padrão</p><p>países como Alemanha, Holanda, ouro que ocorreu em meados da década</p><p>França, etc. de 1920 teve o dólar como ponto de</p><p>O comércio internacional referência básico para o realinhamento</p><p>apresentava-se cada vez mais estimulado das outras moedas. Na Inglaterra,</p><p>pelo padrão ouro, cujo êxito cessavam-se as restrições às exportações</p><p>pressupunha quadro condições básicas: dos metais e reiniciavam-se as operações</p><p>as moedas deveriam ser conversíveis de vendas por parte do Banco Central.</p><p>b)</p><p>c)</p><p>d)</p><p>a)</p><p>O PADRÃO OURO</p><p>Diversas commodities, como gado, terra e trigo, já serviram como sistema monetário, porém o ouro e a prata</p><p>sempre foram os que mais se destacaram. Devido a sua raridade, beleza, densidade e resistência à corrosão,</p><p>tornando-o durável, entre outras características favoráveis, o ouro é uma commodity que foi escolhida por</p><p>comerciantes como uma medida mercantil comum. O ouro substituiu a prata em vários períodos da História.</p><p>Foi no século XIX entretanto, que sua expansão tornou-se mundial.</p><p>Fabrizio Argonauta / Dreamstime</p><p>As primeiras noticías sobre a</p><p>descoberta do ouro no Brasil</p><p>datam de 1590 e ocorreram</p><p>na Serra do Jaraguá em São</p><p>Paulo. O desenvolvimento</p><p>da extração no estado, porém,</p><p>não prosseguiu com destaque.</p><p>Durante o período colonial</p><p>as regiões brasileiras que mais</p><p>produziram ouro ficavam</p><p>em Minas Gerais, Goiás e</p><p>Mato Grosso.</p><p>No final do séc. XVII</p><p>começaram a ser criados</p><p>e desenvolvidos centros de</p><p>mineração e a extração</p><p>atingiu seu auge até</p><p>Meados do séc. XVIII.</p><p>CAPÍTULO VIII</p><p>82</p><p>GOLD BULLION STANDARD,</p><p>BRETTON WOODS E GOLD POOL</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Gold Bullion Standard comércio internacional corroboravam o</p><p>O ouro moeda gradativamente papel do ouro como meio de pagamento e</p><p>desaparecia de circulação e o padrão ouro fundo de reservas.</p><p>assentava-se sobre novas bases. O sistema, A dinâmica do mercado do ouro já se</p><p>agora denominado “Gold Bullion encontrava, como atualmente,</p><p>Standard”, oferecia as mesmas vantagens intrinsecamente articulada às variações das</p><p>do anterior, sem incorrer em despesas de cotações das moedas estrangeiras,</p><p>cunhagem do metal e tendo o dólar como principalmente o dólar.</p><p>reserva. Em 1960, as expectativas de</p><p>Durante a Grande Depressão, o desvalorização da moeda norte-americana</p><p>padrão ouro entrou novamente em acionaram uma ciranda especulativa em</p><p>colapso. Com o objetivo de atenuar os torno do ouro no mercado londrino,</p><p>efeitos da crise, vários países impunham provocando uma elevação dos preços. O</p><p>tarifas restritivas e desvalorizavam suas dólar tornou-se conversível em ouro não só</p><p>moedas introduzindo, inclusive, taxas de através da demanda dos Bancos Centrais,</p><p>câmbio múltiplas como forma de regular como também dos especuladores.</p><p>uma certa seletividade das importações.</p><p>Tais procedimentos culminaram na Gold Pool</p><p>desvinculação completa entre as diversas Formalizou-se então um acordo</p><p>paridades do ouro com as moedas. denominado “Gold Pool”, através do qual</p><p>o Banco da Inglaterra deveria comprar e</p><p>Bretton Woods vender o metal de modo a manter seu</p><p>Somente após a Segunda Guerra preço estabilizado, enquanto que aos</p><p>Mundial, o Acordo de Bretton Woods, em outros países integrantes (EUA, Suíça.</p><p>1944, e o estabelecimento do FMI, Bélgica, França e Alemanha) caberia</p><p>traduziam as necessidades de reformulação contribuir com o fornecimento de ouro</p><p>do sistema monetário internacional, para a venda ou, via sistema de cotas,</p><p>visando à normalização das atividades repartir as compras.</p><p>econômicas e das relações comerciais</p><p>1875, a Guerra do</p><p>Paraguai e o fim do Império</p><p>Capítulo 8</p><p>O padrão ouro</p><p>Capítulo 9</p><p>Capítulo 10</p><p>Capítulo 11</p><p>Capítulo 12</p><p>Capítulo 13</p><p>Capítulo 14</p><p>Capítulo 15</p><p>A primeira década republicana: Encilhamento,</p><p>estabilização e crise bancária</p><p>O desenvolvimento bancário nas três primeiras</p><p>décadas do século XX</p><p>Da crise de 1929 ao final da Segunda</p><p>Guerra Mundial</p><p>Oportunidades em tempo de guerra</p><p>A Sumoc e o setor bancário no pós-guerra</p><p>(1945 a 1953)</p><p>Um mercado cinza: crise, inovações e muitas</p><p>irregularidades de 1954 a 1963</p><p>As reformas de 1964-65 e a formação de</p><p>conglomerados financeiros</p><p>160</p><p>168</p><p>186</p><p>200</p><p>214</p><p>220</p><p>226</p><p>230</p><p>240</p><p>254</p><p>276</p><p>290</p><p>306</p><p>329</p><p>a</p><p>348</p><p>Capítulo 16</p><p>Capítulo 17</p><p>O mercado de Capitais</p><p>Capítulo 18</p><p>Capítulo 19</p><p>Capítulo 20</p><p>Capítulo 21</p><p>Capítulo 22</p><p>Capítulo 23</p><p>O processo de concentração bancária</p><p>Período 1980-1985: A crise externa e os</p><p>ganhos com float e arbitragens</p><p>O Plano Cruzado: sucessos e fracassos</p><p>1987 a 1989: do Plano Bresser ao</p><p>Plano Verão e a reforma de 1988</p><p>Do Plano Collor em 1990 a posse de</p><p>Itamar em 1992</p><p>Plano Real: o bem sucedido plano</p><p>de estabilização</p><p>Plano Real: a reestruturação bancária</p><p>Capítulo 24</p><p>Capítulo 25</p><p>Capítulo 26</p><p>Capítulo 27</p><p>Capítulo 28</p><p>Anexos</p><p>Liquidações e intervenções no mercado</p><p>financeiro e ações do Banco Central no</p><p>período de 1994 a 2006</p><p>Os bancos estrangeiros no Brasil:</p><p>de 1964 ao pós Plano Real</p><p>A internacionalização bancária</p><p>A expansão global do mercado de capitais, dos</p><p>hedge funds e da desintermediação financeira</p><p>A visão dos Presidentes</p><p>Henrique Meirelles,</p><p>Presidente do Banco Central do Brasil</p><p>Bancos:</p><p>Tendências, Oportunidades e Desafios</p><p>Os avanços na economia brasileira demonstram que o País já possui os fundamentos de grau de</p><p>investimento, indicando um potencial ciclo de crescimento sustentável e de investimentos, onde a atuação</p><p>das instituições financeiras é essencial para tornar realidade tal perspectiva. Em um ambiente global</p><p>caracterizado pela estabilidade e liquidez, a indústria de serviços financeiros se beneficia do aumento da</p><p>integração econômica e financeira.</p><p>Foto: Paulo Giandalia / Valor / Agência O Globo</p><p>No Brasil, o sistema financeiro</p><p>provou sua resiliência, absorvendo os</p><p>choques dos anos 90 e dos primeiros</p><p>anos do século XXI. Ao mesmo tempo, a</p><p>estabilização econômica e a abertura</p><p>externa, com a conseqüente influência</p><p>sobre a concorrência e o crescente fluxo</p><p>de capitais externos, resultam em novas</p><p>oportunidades e desafios para um sistema</p><p>financeiro eficiente, capitalizado, rentável</p><p>e solvente. Nesse novo ambiente, o</p><p>Banco Central do Brasil também evoluiu,</p><p>aprimorando os instrumentos de</p><p>execução da política monetária, regulação</p><p>prudencial e supervisão, com o objetivo</p><p>principal de controlar a inflação, reduzir</p><p>o risco sistêmico e aperfeiçoar a</p><p>disciplina de mercado.</p><p>A crescente integração internacional</p><p>proporciona a oferta de produtos e</p><p>serviços financeiros globais e permite</p><p>uma maior eficiência na alocação de</p><p>capital. Essa tendência deve se fortalecer,</p><p>reduzindo custos operacionais e</p><p>aproveitando sinergias. A integração,</p><p>contudo, facilita a disseminação de</p><p>choques financeiros entre os países,</p><p>requerendo que as autoridades adotem</p><p>uma abordagem de regulação e</p><p>supervisão integrada e consolidada.</p><p>O processo de integração aumenta,</p><p>portanto, a complexidade do papel da</p><p>autoridade supervisora e requer um maior</p><p>grau de cooperação entre os países de</p><p>origem e destino dos recursos e o</p><p>estabelecimento de regulação prudencial</p><p>que observe os mesmos princípios, a</p><p>exemplo daquelas emanadas do Comitê</p><p>de Supervisão Bancária de Basiléia. O</p><p>Comitê de Basiléia deve ter um papel</p><p>crescente nos diversos matizes associados</p><p>à supervisão, incluindo critérios para</p><p>requerimento de capital regulamentar,</p><p>melhores práticas de gestão de riscos,</p><p>princípios de governança corporativa,</p><p>compliance, lavagem de dinheiro,</p><p>contabilidade e auditoria, e sistemas de</p><p>pagamentos eficientes.</p><p>A convergência a recomendações,</p><p>princípios, padrões e práticas</p><p>internacionais de alta qualidade consiste</p><p>em um dos elementos-chave para a</p><p>eficiente alocação e utilização de recursos</p><p>econômicos, reduzindo o custo de capital e</p><p>a possibilidade de arbitragem regulatória.</p><p>Com a integração internacional e a</p><p>interdependência da economia mundial, os</p><p>intermediários financeiros precisam operar</p><p>em um ambiente competitivo, com regras</p><p>claras e equilibradas.</p><p>Henrique Meirelles,</p><p>presidente</p><p>do Banco Central do Brasil</p><p>Engenheiro (Escola Politécnica</p><p>da Universidade de São Paulo),</p><p>mestre em Ciências da</p><p>Administração (Universidade</p><p>Federal do Rio de Janeiro /</p><p>Coppead, tese defendida em</p><p>1978). Programa de</p><p>Administração Avançada da</p><p>Universidade de Harvard,</p><p>Boston, EUA (1984). Doutor</p><p>Honoris Causa (Bryant College,</p><p>Rhode Island, EUA, 1997).</p><p>Presidente do Banco Central do</p><p>Brasil desde janeiro de 2003.</p><p>Funções executivas exercidas:</p><p>Diretor Superintendente da</p><p>Boston Leasing, de 1975 a</p><p>1978. Vice-Presidente do</p><p>BankBoston, no Brasil, de</p><p>1978 a 1981. Primeiro Vice-</p><p>Presidente do BankBoston, no</p><p>Brasil, de 1981 a 1984.</p><p>Presidente do BankBoston, no</p><p>Brasil, de 1984 a 1996.</p><p>Presidente mundial do</p><p>BankBoston Corporation, em</p><p>Boston, EUA, de 1996 a</p><p>1999. Presidente do Global</p><p>Banking no FleetBoston</p><p>13</p><p>Outra clara tendência é a</p><p>continuidade da inovação no</p><p>desenvolvimento de produtos financeiros.</p><p>Um bom exemplo é o intenso uso de</p><p>instrumentos de securitização, que</p><p>proporcionam a transferência de ativos e</p><p>os riscos associados, com conseqüente</p><p>melhora na alocação de capital e</p><p>alavancagem para novas operações.</p><p>No Brasil, por exemplo, o fundo de</p><p>investimento em direitos creditórios</p><p>(FIDC) está se tornando um dos</p><p>principais veículos de captação. A</p><p>tendência é de contínuo crescimento</p><p>desses instrumentos, utilizando como</p><p>“lastro” não somente operações de</p><p>crédito direto ao consumidor, com</p><p>destaque recente para os “consignados”,</p><p>mas expandindo para créditos já em</p><p>“default”, créditos imobiliários, créditos</p><p>de arrendamento mercantil, e os</p><p>relacionados ao agronegócio.</p><p>O supervisor deve permanecer alerta</p><p>e atento ao uso disseminado de tais</p><p>mecanismos de securitização e a potencial</p><p>concentração nos mercados de crédito.</p><p>Além do risco de concentração, o uso de</p><p>produtos financeiros inovadores e</p><p>complexos, tais como derivativos de</p><p>crédito e títulos lastreados por ativos,</p><p>permite que riscos tradicionalmente</p><p>assumidos e adequadamente geridos por</p><p>instituições financeiras reguladas sejam</p><p>transferidos para agentes não</p><p>inteiramente capacitados para absorvê-los.</p><p>Portanto, o processo de repartição do</p><p>risco entre entidades diversas exige um</p><p>elevado grau de coordenação entre as</p><p>várias entidades supervisoras no País.</p><p>Outro desafio é o desenvolvimento do</p><p>segmento das microfinanças. O processo</p><p>de inclusão bancária (bancarização)</p><p>demandará esforço e criatividade dos</p><p>reguladores, mediante o estabelecimento</p><p>de incentivos para que as instituições</p><p>financeiras fortaleçam a atuação no</p><p>segmento, a criação de alternativas de</p><p>acesso aos produtos e serviços financeiros</p><p>(a exemplo dos correspondentes</p><p>bancários no Brasil), a redução da</p><p>assimetria de informações (com a captura</p><p>e armazenamento de informações em</p><p>sistemas próprios ou compartilhados), a</p><p>disponibilidade de instrumentos de</p><p>crédito a custos coerentes com a</p><p>capacidade dos tomadores e a</p><p>implementação de sistemas de gestão de</p><p>riscos específicos, entre outros aspectos.</p><p>A bancarização, além de contribuir</p><p>para o desenvolvimento econômico,</p><p>mediante a inserção econômico-financeira</p><p>da população, também tem repercussões</p><p>importantes sobre a eficácia da política</p><p>monetária. Em um ambiente de</p><p>estabilidade é importante que o maior</p><p>número possível de indivíduos tenha</p><p>acesso aos instrumentos de poupança e</p><p>de crédito, fortalecendo o mecanismo de</p><p>transmissão da política monetária.</p><p>BRASIL</p><p>O avanço da consolidação fiscal no</p><p>Brasil tende a reduzir a necessidade de</p><p>financiamento do Estado (razão dívida/PIB)</p><p>Financial, em</p><p>Já em 1967, o processo praticamente</p><p>internacionais. Determinou-se que os se repetia em função, porém, da</p><p>países membros deveriam fixar a relação desvalorização da libra esterlina. Julgava-se</p><p>entre o valor de suas moedas e o preço do a moeda norte-americana sobrevalorizada</p><p>ouro, não se exigindo, entretanto, que e a demanda especulativa se expandia. Os</p><p>houvesse correspondência entre o volume Bancos Centrais dos países do “Gold</p><p>de moeda corrente e o nível de reservas Pool” acordaram entre si a retomada das</p><p>do metal. O preço oficial do ouro foi operações, após o fechamento da Bolsa de</p><p>fixado em US$35 a onça-troy, que eram Londres, que ficaria temporariamente</p><p>convertidos em moeda nacional à taxa excluída do mercado, devendo encontrar</p><p>cambial do dia. sua própria cotação. As condições do</p><p>Os países ditavam sua política cambial mercado se normalizaram com a expansão</p><p>vis-à-vis ao dólar, calculando a cotação do da produção sul-africana e com a pressão</p><p>ouro em função da taxa de câmbio dos países europeus, através do FMI, para</p><p>desejada. Como revelava-se repetidamente, se estabelecer um limite mínimo ao preço</p><p>os momentos de intensificação do do ouro em Londres.</p><p>DEMANDA DE OURO PARA</p><p>JOALHERIA EM 2005</p><p>Índia</p><p>Europa</p><p>Turquia</p><p>USA</p><p>Oeste da ÁsiaChina</p><p>Oriente Médio</p><p>Índia</p><p>Turquia</p><p>Oriente Médio</p><p>Europa</p><p>Oeste da Ásia</p><p>China</p><p>USA</p><p>26</p><p>8</p><p>8</p><p>8</p><p>8</p><p>12</p><p>30</p><p>Fonte: GFMS</p><p>MAIORES</p><p>PRODUTORES</p><p>DE OURO</p><p>PROD. ANUAL</p><p>África do Sul</p><p>USA</p><p>Austrália</p><p>China</p><p>Russia</p><p>Peru</p><p>Canadá</p><p>Indonésia</p><p>Usbequistão</p><p>Nova Guiné</p><p>Gana</p><p>Tanzânia</p><p>Brasil</p><p>Mali</p><p>Chile</p><p>343</p><p>262</p><p>258</p><p>217</p><p>182</p><p>173</p><p>129</p><p>114</p><p>84</p><p>75</p><p>58</p><p>48</p><p>42</p><p>39</p><p>39</p><p>Ton.</p><p>Fonte GFMS</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VIII</p><p>83</p><p>A produção de ouro convergia para reservas de dólares e de ouro (20%)</p><p>o mercado “livre”, comprometendo as dos países membros. O fundamental</p><p>possibilidades de incremento da nesse ponto é que os ECU's, podendo</p><p>liquidez internacional. Ademais, os se constituir num ativo internacional de</p><p>Bancos Centrais, tendo em vista a reserva, eram lastreados, mesmo que</p><p>disparidade entre os preços, evitavam parcialmente, em ouro.</p><p>utilizar suas reservas como meio de Em última instância, a expansão das</p><p>pagamento. atividades comerciais – em grande</p><p>O que se processava na realidade era magnitude viabilizada pelo ouro –</p><p>uma redução relativa da importância da sobrepôs-se à capacidade efetiva de o</p><p>função do ouro enquanto reserva de ouro lastrear o fluxo mercantil. Não se</p><p>garantia do Fundo Monetário, abolindo- comportando mais como padrão</p><p>se os preços oficiais e acentuando-se o monetário internacional, vetor de</p><p>papel dos Direitos Especiais de Saque. O conversão ou lastro financeiro formal, o</p><p>FMI não mais exigia que fossem ouro ainda é uma reserva de valor</p><p>definidas as taxas de câmbio das moedas fundamental, um lastro financeiro e uma</p><p>em termos de ouro. garantia internacional por excelência, e,</p><p>A evolução da função do ouro não menos importante, uma excepcional</p><p>adquiriu um novo rumo com a alternativa de investimento.</p><p>inauguração do Sistema Monetário O ouro que lastreava as ECU’s e as</p><p>Europeu, em 1979, através da criação novas compras pelos europeus hoje</p><p>dos ECU's (European Currency Units), representam 22% das reservas do</p><p>contrapartida dos depósitos das BCE.</p><p>O MERCADO LIVRE</p><p>Os fatores políticos também exercem influência sobre o mercado. Em 1972, nos EUA, o presidente Nixon</p><p>tendo em vista sua reeleição, preconizava um aquecimento da demanda como forma de recuperar o ritmo das</p><p>atividades num cenário mundial recessivo. Isso forçou os Bancos Centrais da Europa e do Japão a comprarem</p><p>enormes volumes de dólares, ao invés de valorizarem suas moedas de câmbio (o que poderia comprometer as</p><p>exportações e agravar a recessão). O preço do ouro no mercado “livre” se distanciava cada vez mais do preço</p><p>oficial, o que alimentava a especulação, baseada na expectativa de reajuste do preço oficial.</p><p>SERRA PELADA</p><p>Em 1980, o Brasil viveu uma</p><p>das maiores corridas do ouro</p><p>de todos os tempos. Havia</p><p>imensas minas de ouro sendo</p><p>exploradas, especialmente no</p><p>Pará, em Serra Pelada. A</p><p>principal delas era uma mina</p><p>isolada e enorme, com 1.200</p><p>metros de diâmetro em que</p><p>trabalhavam mais de 80 mil</p><p>homens. Era tão grande a</p><p>quantidade de minérios e a</p><p>expectativa com a mina, que o</p><p>presidente João Figueiredo,</p><p>determinou a CAIXA a atuar</p><p>na compra de ouro no local.</p><p>A produção se exauriu pelos</p><p>métodos primitivos de</p><p>exploração que eram</p><p>empregados e ocorreram</p><p>sérios conflitos entre os</p><p>mineiros e a CVRD, que</p><p>recuperou a posse da mina.</p><p>Em 1984 foram extraídas,</p><p>aproximadamente, 350</p><p>toneladas do metal na região</p><p>aurífera do Pará.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VIII</p><p>84</p><p>Destaques</p><p>Os Estados Unidos é o</p><p>país que possui a</p><p>maior das reservas</p><p>Em ouro: 67,5%.</p><p>O que explica:</p><p>1. Parcialmente, a</p><p>razão de tanta</p><p>confiança no dólar e</p><p>em aplicações na</p><p>dívida pública</p><p>americana.</p><p>2. A razão dos</p><p>políticos conservadores</p><p>americanos, sempre</p><p>que podem,</p><p>defenderem a volta do</p><p>padrão ouro.</p><p>Perceba que após os</p><p>EUA, a Itália é o</p><p>segundo país a ter</p><p>elevados estoques de</p><p>ouro como percentual</p><p>(59,4%) das reservas.</p><p>O que também dá</p><p>alguma tranqüilidade</p><p>aos financiadores da</p><p>imensa dívida pública</p><p>italiana.</p><p>Entre os 15 maiores</p><p>produtores de ouro no</p><p>mundo, só os EUA</p><p>mantêm expressiva</p><p>reserva de ouro.</p><p>Em suma, apesar de</p><p>estar nas “sombras” o</p><p>mercado de ouro</p><p>continua muito ativo.</p><p>Os estoques de ouro</p><p>do Banco Central</p><p>Europeu, Alemanha,</p><p>França, Itália,</p><p>Holanda, Espanha,</p><p>Portugal e demais</p><p>países que adotam o</p><p>Euro como moeda de</p><p>circulação, alcançaram</p><p>11.864 toneladas. As</p><p>reservas de ouro na</p><p>área do Euro são</p><p>portanto, quase 50%</p><p>superiores as dos</p><p>EUA.</p><p>10</p><p>10</p><p>8,7</p><p>7,7</p><p>7,6</p><p>7,2</p><p>7,1</p><p>6,9</p><p>6,8</p><p>2,3</p><p>3,2</p><p>3,3</p><p>-1</p><p>3,9</p><p>1,9</p><p>16,6</p><p>0,1</p><p>0,1</p><p>13</p><p>***Banco de Compensações Internacionais**Comunidade Econômica e Monetária da África do Sul</p><p>55</p><p>49</p><p>40</p><p>37</p><p>36</p><p>35</p><p>35</p><p>28</p><p>26</p><p>22</p><p>21</p><p>17</p><p>16</p><p>15</p><p>14</p><p>14</p><p>14</p><p>13</p><p>13</p><p>12</p><p>3,30</p><p>6,90</p><p>6,90</p><p>7,90</p><p>0,70</p><p>3,40</p><p>3,80</p><p>26,60</p><p>20,10</p><p>2,10</p><p>1,30</p><p>1,70</p><p>15,90</p><p>5,50</p><p>0,10</p><p>0,3</p><p>0,7</p><p>28,6</p><p>3,3</p><p>16,7</p><p>1,1</p><p>8,1</p><p>8</p><p>4,9</p><p>1,4</p><p>13,1</p><p>2,7</p><p>2,8</p><p>2,4</p><p>9,1</p><p>PaísRank % Res. Possuídas</p><p>em ouro PaísRank % Res. Possuídas</p><p>em ouro</p><p>Ton.</p><p>de Ouro</p><p>Ton.</p><p>de Ouro</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>8</p><p>9</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>21</p><p>22</p><p>23</p><p>24</p><p>25</p><p>26</p><p>27</p><p>28</p><p>29</p><p>30</p><p>31</p><p>32</p><p>33</p><p>34</p><p>35</p><p>36</p><p>37</p><p>38</p><p>39</p><p>40</p><p>Estados Unidos</p><p>Alemanha</p><p>FMI</p><p>França</p><p>Itália</p><p>Suíça</p><p>Japão</p><p>BCE</p><p>Holanda</p><p>China</p><p>Espanha</p><p>Taiwan</p><p>Portugal</p><p>Rússia</p><p>Índia</p><p>Venezuela</p><p>Reino Unido</p><p>Áustria</p><p>Líbano</p><p>Bélgica</p><p>Argélia</p><p>Filipinas</p><p>Suécia</p><p>Líbia</p><p>Arábia Saudita</p><p>Singapura</p><p>África do Sul</p><p>Turquia</p><p>Grécia</p><p>Romênia</p><p>Polônia</p><p>Indonésia</p><p>Tailândia</p><p>Austrália</p><p>Kuwait</p><p>Egito</p><p>Dinamarca</p><p>Paquistão</p><p>Cazaquistão</p><p>BIS*</p><p>*União Econômica e Monetária do Oeste da África</p><p>8.134</p><p>3.428</p><p>3.217</p><p>2.857</p><p>2.452</p><p>1.290</p><p>765</p><p>720</p><p>717</p><p>600</p><p>473</p><p>423</p><p>408</p><p>387</p><p>358</p><p>357</p><p>311</p><p>303</p><p>287</p><p>228</p><p>189</p><p>174</p><p>171</p><p>155</p><p>144</p><p>143</p><p>127</p><p>124</p><p>116</p><p>108</p><p>105</p><p>103</p><p>96</p><p>84</p><p>80</p><p>79</p><p>76</p><p>67</p><p>65</p><p>60</p><p>67,5</p><p>52,4</p><p>NA</p><p>59,3</p><p>59,4</p><p>35,2</p><p>1,4</p><p>22,2</p><p>52,4</p><p>1,2</p><p>42,8</p><p>2,5</p><p>58,2</p><p>3,5</p><p>3,8</p><p>18,1</p><p>10,1</p><p>36,7</p><p>29,1</p><p>27,1</p><p>NA</p><p>4,6</p><p>13,9</p><p>9,9</p><p>6,4</p><p>6,8</p><p>1,6</p><p>9,5</p><p>3,8</p><p>66,7</p><p>7,4</p><p>3,7</p><p>4,5</p><p>2,6</p><p>2,9</p><p>11,3</p><p>5,6</p><p>2,9</p><p>9</p><p>10,8</p><p>RESERVAS OFICIAIS DE OURO 2005</p><p>41</p><p>42</p><p>43</p><p>44</p><p>45</p><p>46</p><p>47</p><p>48</p><p>49</p><p>50</p><p>51</p><p>52</p><p>53</p><p>54</p><p>55</p><p>56</p><p>57</p><p>58</p><p>59</p><p>60</p><p>61</p><p>62</p><p>63</p><p>64</p><p>65</p><p>66</p><p>67</p><p>68</p><p>69</p><p>70</p><p>71</p><p>72</p><p>73</p><p>74</p><p>75</p><p>76</p><p>77</p><p>78</p><p>79</p><p>80</p><p>Finlândia</p><p>Bulgária</p><p>WAEMU3**</p><p>Malásia</p><p>Eslováquia</p><p>Peru</p><p>Bolívia</p><p>Equador</p><p>Marrocos</p><p>Nigéria</p><p>Ucrânia</p><p>Bielorrússia</p><p>Chipre</p><p>Coréia</p><p>Brasil</p><p>República Tcheca</p><p>Antilhas Holandesas</p><p>Jordânia</p><p>Camboja</p><p>Colômbia</p><p>El Salvador</p><p>Gana</p><p>Letônia</p><p>Eslovênia</p><p>Myanmar</p><p>CEMAC5***</p><p>Guatemala</p><p>Tunísia</p><p>Irlanda</p><p>Sri Lanka</p><p>Bahrain</p><p>Nepal</p><p>Bangladesh</p><p>Mongólia</p><p>Canadá</p><p>México</p><p>Aruba</p><p>Argentina</p><p>Macedônia, FYR</p><p>Lituânia</p><p>6,1</p><p>5,8</p><p>5,5</p><p>5,2</p><p>4,7</p><p>4</p><p>3,5</p><p>3,5</p><p>3,4</p><p>3,2</p><p>3,1</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO VIII</p><p>85</p><p>86</p><p>CAPÍTULO 9</p><p>A primeira década republicana:</p><p>Encilhamento, estabilização e</p><p>crise bancária</p><p>87</p><p>No final do período monárquico,</p><p>a</p><p>abolição da escravidão provocou crise na</p><p>lavoura cafeeira fluminense. Os escravos</p><p>serviam como garantia dos créditos</p><p>concedidos aos cafeicultores. Desde o</p><p>Congresso Agrícola de 1872, já prevendo</p><p>que o regime escravocrata seria extinto,</p><p>havia forte pressão por mudança na</p><p>política monetária, com os fazendeiros</p><p>exigindo maior liberalidade para a atuação</p><p>dos bancos.</p><p>“Capital e braços” eram as palavras de</p><p>ordem: “capital” significando crédito fácil e</p><p>“braços”, a demanda por facilidades na</p><p>busca de imigrantes para trabalharem em</p><p>suas fazendas (SCHULZ, 1996). Em 1888, foi</p><p>aprovada reforma bancária com o objetivo</p><p>de descentralizar a emissão, isto é, a</p><p>criação de bancos emissores no Rio de</p><p>Janeiro e em São Paulo.</p><p>O governo emprestaria determinada</p><p>quantia de dinheiro aos bancos, sobre a</p><p>qual não seriam cobrados juros. Os bancos</p><p>poderiam repassar esse dinheiro, a juros</p><p>de 6%, na forma de empréstimos</p><p>hipotecários aos fazendeiros, desde que</p><p>entrassem com parte igual no negócio. A</p><p>reforma consistia, principalmente, numa</p><p>tentativa de angariar o apoio político dos</p><p>senhores de escravos do Rio de Janeiro à</p><p>Monarquia, mas havia duas razões</p><p>econômicas que as justificavam: por um</p><p>lado, a economia vinha crescendo, graças</p><p>principalmente ao aumento da produção e</p><p>dos preços do café; por outro, crescia a</p><p>demanda por moeda, não apenas porque</p><p>os ex-escravos passariam a receber</p><p>salários, mas também pela rápida</p><p>expansão da economia paulista.</p><p>Ainda durante o governo chefiado pelo</p><p>Visconde de Ouro Preto, essa política</p><p>começou a ser implementada. Em</p><p>setembro, o governo aprovou a criação de</p><p>um banco de emissão lastreada em ouro, o</p><p>Banco Nacional.</p><p>O primeiro ministro da fazenda do</p><p>período republicano, Ruy Barbosa,</p><p>aprofundou a reforma, com o aparente</p><p>objetivo de consolidar o apoio da elite à</p><p>recém-proclamada República.</p><p>Nos primeiros meses de 1890, outros</p><p>bancos foram autorizados a emitir: o</p><p>Banco dos Estados Unidos do Brasil, que</p><p>Ruy Barbosa pretendia transformar no</p><p>principal banco do País, o Banco do Brasil</p><p>e mais quatro bancos regionais.</p><p>Originalmente a emissão seria</p><p>lastreada em ouro. A queda da</p><p>Monarquia gerara, porém, crise de</p><p>confiança dos credores externos e queda</p><p>da taxa de câmbio.</p><p>Reconhecendo que em tal situação os</p><p>bancos não emitiriam notas, foi autorizada</p><p>a emissão com lastro em títulos do</p><p>Tesouro, como acontecia, na época, nos</p><p>Estados Unidos.</p><p>Paulatinamente, outros bancos também</p><p>receberam permissão para emitir, nas</p><p>mesmas condições. Também como parte</p><p>da reforma bancária, aos bancos foi</p><p>concedido o direito de efetuar não apenas</p><p>operações típicas de banco comercial</p><p>emissor, mas também de bancos de</p><p>investimento, podendo subscrever títulos e</p><p>ações. Além disso, podiam possuir e</p><p>administrar empresas e diversos tipos de</p><p>empreendimento.</p><p>Para muitos historiadores e</p><p>economistas, Ruy Barbosa tinha visão</p><p>desenvolvimentista — vivia-se, na época,</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>A PRIMEIRA DÉCADA REPUBLICANA:</p><p>ENCILHAMENTO, ESTABILIZAÇÃO E CRISE BANCÁRIA</p><p>8No início da Era republicana, a economia brasileira foi marcada pela crise do Encilhamento .</p><p>“Encilhamento” é uma expressão do mundo do turfe, e significa o momento final antes da largada dos</p><p>cavalos. Em apenas três anos, o País viveu uma inflação elevada e conheceu um dos mais famosos</p><p>episódios de euforia e débâcle da Bolsa de Valores. O papel desempenhado pelos bancos no</p><p>Encilhamento foi crucial.</p><p>A PRIMEIRA REPÚBLICA E</p><p>A SUBSTITUIÇÃO DO REAL</p><p>PELO CRUZEIRO</p><p>(1889 - 1930)</p><p>Com o advento da República,</p><p>o Governo Federal tornou-se o</p><p>único emissor de cédulas e</p><p>moedas no período e uma das</p><p>suas atribuições foi substituir o</p><p>Real por novas moedas que</p><p>esperava serem sempre fortes:</p><p>o cruzeiro e o cruzado.</p><p>Rua 1º de Março, 1907</p><p>Óleo sobre tela</p><p>Gustavo Dall’ara (1865-1923)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>Com uma cena simples, o</p><p>artista retratou a rua comercial</p><p>mais importante do centro da</p><p>cidade do Rio de Janeiro na</p><p>época, onde ficava a sede do</p><p>Banco do Brasil.</p><p>CAPÍTULO IX</p><p>88</p><p>um momento de grandes expectativas em</p><p>relação ao futuro do País — e queria usar</p><p>os bancos como elemento central do</p><p>financiamento da economia, seguindo a</p><p>experiência alemã de estímulo à formação</p><p>de “bancos universais”.</p><p>Entretanto, a Lei permitia que as ações</p><p>de uma empresa pudessem ser negociadas</p><p>em Bolsa com apenas a décima parte de</p><p>seu capital integralizado. Muitos bancos</p><p>emitiram para financiar o capital de</p><p>empresas, criadas em boa parte por eles</p><p>mesmos, inclusive ações dos próprios</p><p>bancos. Depois, emprestavam suas notas</p><p>para que os investidores comprassem mais</p><p>ações dessas empresas. Assim que o preço</p><p>das ações subia</p><p>(o movimento</p><p>de alta era</p><p>facilitado pelas</p><p>emissões) o</p><p>banco as</p><p>vendia. Muitas</p><p>dessas</p><p>empresas nem</p><p>chegaram a ser</p><p>de fato criadas,</p><p>e em certos</p><p>casos a atitude</p><p>dos bancos não</p><p>passava de</p><p>mera fraude.</p><p>Em</p><p>dezembro,</p><p>numa manobra</p><p>política, e com o objetivo de centralizar e</p><p>controlar a emissão, houve a fusão do</p><p>Banco Nacional e do Banco dos Estados</p><p>Unidos do Brasil, criando-se assim o</p><p>Banco da República.</p><p>Em poucos meses, esse novo banco</p><p>comprou o direito de emissão de outros</p><p>bancos, inclusive do Banco do Brasil.</p><p>No ano seguinte, ocorreu a fusão do</p><p>Banco da República com o Banco do</p><p>Brasil, nascendo daí o Banco da República</p><p>do Brasil.</p><p>O forte aumento do meio circulante,</p><p>além de ter estimulado a especulação com</p><p>ações, provocou também, como não</p><p>poderia deixar de ser, a subida de preços,</p><p>o que contrariava os interesses de todos os</p><p>que recebiam rendimentos nominais fixos,</p><p>como os assalariados em geral e os</p><p>funcionários públicos, incluindo os</p><p>militares.</p><p>Nesse período, a taxa de câmbio caiu</p><p>pela metade, o que era atribuído por uns</p><p>às emissões desordenadas, e por outros à</p><p>ação especulativa dos bancos estrangeiros.</p><p>A euforia acabou em 1892, e ocorreu um</p><p>grande número de falências naquele ano e</p><p>nos seguintes. Cabe ressaltar que, de fato,</p><p>algumas empresas</p><p>industriais</p><p>surgiram na</p><p>ocasião, e houve</p><p>forte aumento da</p><p>importação de</p><p>máquinas e</p><p>equipamentos.</p><p>Durante os anos</p><p>seguintes, a</p><p>pressão política</p><p>passou a ser em</p><p>favor da</p><p>austeridade</p><p>econômica. Muitos</p><p>defendiam o</p><p>retorno ao padrão-</p><p>ouro, qual seja,</p><p>27d. Em 1892,</p><p>estava em 12d. Para se atingir essa meta,</p><p>era necessário seguir uma política</p><p>deflacionista, equilibrando o orçamento e</p><p>reduzindo a oferta de moeda.</p><p>Em 1893, entretanto, as turbulências</p><p>políticas impuseram dificuldades fiscais,</p><p>e a emissão de moeda aumentou. No</p><p>governo de Prudente de Morais (1894-</p><p>1898), a política econômica foi se</p><p>tornando cada vez mais austera. Em</p><p>1896, o Tesouro assumiu o monopólio</p><p>de emissão, mas o País enfrentou uma</p><p>Biblioteca Nacional</p><p>Agitação durante o encilhamento</p><p>O Encilhamento</p><p>Ruy Barbosa foi um dos mais</p><p>brilhantes juristas do País. Seu</p><p>desempenho como financista</p><p>entretanto, não foi dos</p><p>melhores. Em sua passagem</p><p>como Ministro da Fazenda</p><p>provocou a primeira grande</p><p>crise econômica vivida no</p><p>período republicano. O</p><p>Governo Provisório</p><p>Republicano, através do seu</p><p>Ministro da Fazenda, Ruy</p><p>Barbosa, em 17 de janeiro de</p><p>1890, autorizou a emissão de</p><p>papel moeda, com lastro em</p><p>apólices da dívida pública ou</p><p>moedas de ouro, por bancos</p><p>emissores em diferentes</p><p>regiões do País. Na época,</p><p>realmente havia necessidade</p><p>de aumento do meio</p><p>circulante, em virtude do</p><p>aumento na produção de café,</p><p>a imigração e a incipiente</p><p>industrialização em alguns</p><p>centros urbanos.</p><p>Entretanto, era total o</p><p>descontrole na emissão de</p><p>moedas, financiamentos a</p><p>novas empresas e compra de</p><p>Continua na página seguinte</p><p>Ruy Barbosa (1849-1923)</p><p>Jornalista, escritor, deputado e</p><p>Ministro da Fazenda do Brasil</p><p>em 1889. Entre diversas ações</p><p>de grande importância para o</p><p>país, promoveu a Reforma</p><p>Geral do Ensino, em 1881; foi</p><p>um dos principais</p><p>articuladores da campanha</p><p>abolicionista; um dos</p><p>protagonistas da Proclamação</p><p>República; e um dos redatores</p><p>da Constituição de 1891.</p><p>Associação Comercial do Rio de Janeiro</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO IX</p><p>89</p><p>crise econômica provocada pela queda</p><p>do preço internacional das matérias-</p><p>primas, inclusive do café. O mil-réis</p><p>chegou a ser cotado a 10d. O período de</p><p>aperto fiscal e de restrições monetárias</p><p>atingiu o ponto culminante durante a</p><p>gestão de Joaquim Murtinho como</p><p>ministro da Fazenda de Campos Sales</p><p>(1898-1902). Em 1898, foi negociado</p><p>um funding-loan, renegociando-se a</p><p>dívida externa em troca de políticas de</p><p>extrema austeridade. Houve deflação,</p><p>com redução do volume de moeda em</p><p>circulação.</p><p>O governo reduziu substancialmente</p><p>seus gastos e obteve equilíbrio</p><p>orçamentário. A taxa de câmbio</p><p>começou a valorizar, não apenas pela</p><p>redução da oferta da moeda, mas</p><p>também pela obtenção de expressivos</p><p>superávits comerciais, frutos do aumento</p><p>das exportações — graças à subida do</p><p>preço do café — e cortes nas</p><p>importações. Como não poderia deixar</p><p>de ser, a política monetária</p><p>extremamente restritiva, adotada ao</p><p>mesmo tempo em que a moeda</p><p>apresentava forte valorização, levou</p><p>grande número de empresas à falência e</p><p>atingiu os poucos bancos que</p><p>sobreviveram ao período pós-</p><p>Encilhamento. Em 1900, estourou uma</p><p>das mais graves crises bancárias da</p><p>9nossa história . Uma lei aprovada em</p><p>1899 proibia que o Tesouro Nacional</p><p>socorresse os bancos. Um ano depois, foi</p><p>publicado o Decreto de 26/02/1900,</p><p>estabelecendo que o banco saldaria sua</p><p>dívida com o Tesouro. O valor era de</p><p>186.000 contos de réis, a serem pagos</p><p>ao longo de 18 anos. Foi aplicada taxa</p><p>de desconto de 6% ao ano, totalizando</p><p>exatos 50.000 contos a serem pagos,</p><p>metade à vista e o restante escalonado</p><p>pelos dois anos seguintes.</p><p>Acordos semelhantes foram assinados</p><p>com os outros bancos, excluindo-se os</p><p>bancos ingleses, que não possuíam dívidas</p><p>com o Governo. Apesar do desconto</p><p>aplicado às dividas, os bancos</p><p>encontravam-se impossibilitados de saldá-</p><p>las em curto prazo, pois seus ativos</p><p>estavam aplicados, de acordo com</p><p>relatórios apresentados à época, em</p><p>debêntures e ações de empresas</p><p>praticamente falidas, em sua maioria</p><p>surgidas durante o Encilhamento.</p><p>O Banco da República, o maior de</p><p>todos, pediu ajuda de 50.000 contos de</p><p>réis ao Tesouro, que foi negada. Em</p><p>compensação, entregou ao Banco 300.000</p><p>libras esterlinas. O Banco não podia saldar</p><p>seus compromissos com moeda</p><p>estrangeira, portanto tratou de negociá-las</p><p>no mercado. Em conseqüência, a taxa de</p><p>câmbio apresentou súbita elevação, talvez</p><p>por manobra dos bancos ingleses, que</p><p>então dominavam esse mercado.</p><p>Boatos sobre essas negociações e os</p><p>negócios do Banco da República no</p><p>mercado de câmbio deram início a um</p><p>autêntico pânico bancário, com os</p><p>depositantes procurando sacar seus</p><p>depósitos e transferi-los para os bancos</p><p>ingleses, os únicos considerados seguros.</p><p>Oito bancos suspenderam seus</p><p>pagamentos, entre eles o Banco Rural e</p><p>Hipotecário do Rio de Janeiro, o Banco</p><p>da Bahia e o Banco da Lavoura e do</p><p>Comércio. Apenas este último reabriu</p><p>suas portas. O Banco da República,</p><p>reconhecido como grande demais para</p><p>falir — para se usar um termo atual —</p><p>acabou finalmente socorrido, mas agora</p><p>sob intervenção do Governo, que</p><p>substituiu sua Diretoria por pessoas por</p><p>ele indicadas.</p><p>O Banco da República permaneceu</p><p>como banco privado, mas sua</p><p>administração passou às mãos do Estado.</p><p>Em 1905, após longa negociação</p><p>com seus acionistas, foi estatizado e</p><p>mudou seu nome para Banco do Brasil,</p><p>que mantém até os dias de hoje.</p><p>ações. O clima, como se</p><p>denominou na época, era</p><p>alucinante como num</p><p>“encilhamento”. O resultado</p><p>final foi uma crise sem</p><p>precedentes, que custou tempo</p><p>e dinheiro para que os demais</p><p>governos republicanos a</p><p>resolvessem. A principal</p><p>solução foi a criação da Caixa</p><p>de Conversão no Governo</p><p>Rodrigues Alves (1902-1906).</p><p>A CAIXA DE CONVERSÃO</p><p>Em 1906, o presidente</p><p>Rodrigues Alves inaugurou a</p><p>Caixa de Conversão, com o</p><p>objetivo de dar credibilidade à</p><p>moeda, que havia se</p><p>deteriorado durante o período</p><p>do Encilhamento. As cédulas</p><p>da Caixa eram conversíveis e</p><p>garantidas por lastro formado</p><p>em moedas de ouro nacionais</p><p>ou estrangeiras. Com isso, o</p><p>País conviveu com duas</p><p>espécies de papel-moeda: o</p><p>inconversível do Tesouro e o</p><p>conversível da Caixa. O</p><p>resultado foi excelente, e</p><p>durou até 1920.</p><p>ESTATIZAÇÃO DO</p><p>BANCO DA REPÚBLICA</p><p>Em 1905 o Banco da</p><p>República foi estatizado e</p><p>mudou o seu nome para</p><p>Banco do Brasil, que</p><p>mantém até o dia de hoje</p><p>Colheita de café em Araraquara,</p><p>calotipia em preto e branco,</p><p>publicado em Lembrança</p><p>de São Paulo</p><p>G. Gaelensly (circa 1902)</p><p>Biblioteca Nacional Rio de Janeiro</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO IX</p><p>90</p><p>91</p><p>92</p><p>CAPÍTULO 10</p><p>O desenvolvimento bancário nas três</p><p>primeiras décadas do século XX</p><p>93</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>AS TRANSFORMAÇÕES DA ECONOMIA</p><p>E DA ATIVIDADE BANCÁRIA</p><p>Nas três primeiras décadas do século XX, a economia brasileira passou por profundas transformações</p><p>econômicas, se diversificou e iniciou um processo de industrialização. Superado o período de crise que</p><p>culminou com a quebra de diversos bancos em 1900, e a reorganização do Banco do Brasil em 1905, os</p><p>bancos sobreviventes assumiram postura mais cautelosa, restringindo suas atividades àquelas típicas de</p><p>bancos comerciais, concedendo crédito de curto prazo, ao mesmo tempo em que abandonavam suas</p><p>aplicações em ativos reais e investimentos de longa maturação. As casas bancárias e os bancos</p><p>modernizavam-se, unificando sua contabilidade e profissionalizando sua administração (TRINER, 1996).</p><p>A estatização do Banco do Brasil e Essas características, evidentemente,</p><p>sua gradual transformação em banco não desapareceram de um momento</p><p>central — de fato, mas não de direito — para outro, e os comissários ainda</p><p>trouxeram mais segurança às instituições desempenharam papel importante,</p><p>bancárias, estimulando a criação de ainda que mais reduzido, no</p><p>novos bancos. Nesse período, começou financiamento dos fazendeiros nas</p><p>a emergir um autêntico sistema bancário primeiras décadas do século XX.</p><p>no Brasil, já que, até então, os bancos Gradualmente, porém, a atividade</p><p>atuavam isoladamente e tinham caráter bancária foi encarada como negócio à</p><p>estritamente local, à exceção do Banco parte, ou seja, surgiu a profissão de</p><p>do Brasil e dos bancos estrangeiros. banqueiro. Bancos continuaram a ser</p><p>No século XIX — excetuando-se o abertos por comerciantes, mas na</p><p>período do Encilhamento até a recriação medida em que as transações de caráter</p><p>do Banco do Brasil — os bancos eminentemente financeiro se</p><p>atuavam basicamente como peça na expandiam, ganhavam vida própria. Até</p><p>engrenagem do setor exportador. Não a crise de 1929, a atividade bancária</p><p>havia separação nítida entre as permaneceu vinculada às atividades</p><p>atividades comerciais dos acionistas e a agrícolas, em particular da economia</p><p>atividade bancária propriamente dita. cafeeira.</p><p>Eram criados por comerciantes e A expansão agrícola propiciou o</p><p>administrados para atender às suas crescimento de diversas atividades</p><p>necessidades. Os negócios eram urbanas, comerciais e industriais,</p><p>realizados a partir de relacionamentos diversificando a demanda por crédito e</p><p>pessoais, abrangendo círculos restritos gerando poupanças que eram aplicadas</p><p>de negociantes e investidores. nos bancos. Tal transformação foi</p><p>O crédito agrícola se processava consolidada na década de 1930, mas</p><p>indiretamente, através dos comissários e começou ainda no período da República</p><p>das casas comerciais envolvidas com o Velha, principalmente pelos anos 1920</p><p>comércio exterior. (SAES, 1996).</p><p>Porto de Santos</p><p>Distante 70 km da cidade de</p><p>São Paulo, o porto de Santos é</p><p>o maior da América Latina.</p><p>Ganhou destaque somente</p><p>após as obras de saneamento</p><p>da região e a nova construção</p><p>feita por Gafreé e Guinle, que</p><p>garantiram a concessão do</p><p>porto da Cia. Docas de Santos</p><p>de 1890 até 7 de setembro de</p><p>1980. Foi viabilizado,</p><p>inicialmente, pelas exportações</p><p>de café.</p><p>Vista do Porto de Santos, 1920</p><p>Benedito Calixto (1853-1927)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Paulista da USP</p><p>94</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO IX</p><p>Restaurante</p><p>Rústico na Exposição</p><p>Nacional de 1908, no Rio de</p><p>Janeiro.</p><p>Cartão postal litografado a cores e</p><p>editado pela Compania Litográfica</p><p>Hartman-Reichenbach.</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>AS ATIVIDADES INICIAIS DO NOVO BANCO DO BRASIL</p><p>O primeiro Banco do Brasil foi Nesse mesmo ano, por orientação</p><p>criado para emitir dinheiro, mesmo do Governo e pressão das Associações</p><p>sem lastro, e fornecer recursos à Corte Comercias, o banco comprometeu-se,</p><p>de Portugal, recém-chegada ao Brasil. no prazo de três anos, a abrir agências</p><p>Foi fechado em 1829 por Dom Pedro em todos os estados — esta promessa</p><p>I, “por excesso de emissões para demorou um pouco mais para ser</p><p>atender às necessidades do Erário e cumprida.</p><p>erros, irregularidades e fraudes Em 1906, o governo instituiu a</p><p>cometidas pela Diretoria”. Caixa de Conversão, que emitia notas</p><p>Em 1838, comerciantes do Rio de conversíveis. O objetivo dessa medida</p><p>Janeiro fundaram o primeiro banco era estabilizar a taxa de câmbio. A</p><p>privado do País, com bom desempenho Carteira de Câmbio do Banco do</p><p>durante alguns anos, mas que, sem Brasil operava no sentido de induzir o</p><p>permissão para emitir moeda, acabou mercado a praticar a taxa</p><p>se fundindo com um segundo Banco do estabelecida pelo governo para a</p><p>Brasil, criado pelo Visconde de Mauá conversão das notas emitidas pela</p><p>em 1851. Dessa fusão, em 1853, Caixa, inicialmente estabelecida em</p><p>surgiu o Banco da República, que foi 16 dias. De fato, no período em que</p><p>estatizado em 1905, dando origem ao esse esquema funcionou — até 1914</p><p>atual Banco do Brasil. — a taxa de câmbio apresentou</p><p>Nos três primeiros anos após a variações consideravelmente</p><p>criação do novo Banco do Brasil, agora inferiores às que vinha apresentando</p><p>instituição oficial, as atenções de sua até então.</p><p>Diretoria foram no sentido de sanear a A presença de um banco estatal</p><p>carteira de ativos . O trouxe também mais segurança aos</p><p>banco recebera o monopólio dos bancos privados nacionais, o que se</p><p>recebimentos e pagamentos do Governo refletiu na diminuição gradual da</p><p>no exterior e a exclusividade da conta proporção de encaixes mantidos por</p><p>do Tesouro Nacional. Em 1907, 75% esses bancos em relação aos depósitos</p><p>do volume de cambiais eram .</p><p>negociados pelo banco. Em 1910, Dessa forma, puderam expandir</p><p>vários bancos já mantinham depósitos seus empréstimos, pelo menos nos</p><p>voluntários no Banco do Brasil. períodos de normalidade econômica.</p><p>(PACHECO, 1973)</p><p>(TRINER, 1996)</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>95</p><p>A REAÇÃO DOS BANCOS ÀS CRISES DE 1914 E 1920-21</p><p>Nas épocas de crise, naturalmente, os cresceu, em alguns anos, mais de 10%.</p><p>bancos tornavam-se mais cautelosos; — Conforme alguns autores, ao término da</p><p>aumentava a sua preferência pela liquidez, guerra, o País teria se tornado em grande</p><p>para usar a expressão de Keynes. Em parte auto-suficiente em bens de consumo</p><p>101914, o receio de que, com a Guerra pouco sofisticados . Essa diversificação da</p><p>Mundial, a moeda nacional sofresse forte produção foi fator de estímulo à expansão</p><p>queda provocou uma corrida aos bancos, dos bancos, seja através da criação de</p><p>com objetivo de comprar ouro. As novas instituições, seja pelo crescimento da</p><p>exportações e as importações já vinham rede de agências.</p><p>caindo, e, com elas, as receitas do Retomadas as atividades, mas ainda</p><p>Governo, que pediu um empréstimo no auge da crise, em 1914, os bancos</p><p>externo para segurar o câmbio. Como isso assumiram uma postura defensiva,</p><p>não foi possível, devido ao início da reduzindo as operações de desconto e de</p><p>guerra, e frente à crise bancária e a empréstimo e elevando o nível das</p><p>ameaças de falências, o Governo decretou reservas, que chegou a 50% dos</p><p>feriado nacional de 3 a 15 de agosto. depósitos. Com essas decisões, evitavam a</p><p>Os bancos e a Caixa de Conversão repetição de eventos da crise de 1900,</p><p>também fecharam as portas nesse período. como a quebra de instituições importantes.</p><p>Para reduzir os impactos da crise e elevar Na segunda metade da década de 1910,</p><p>a liquidez, o Governo voltou a emitir papel- as operações bancárias retornaram à</p><p>moeda, o que acontecia pela primeira vez normalidade.</p><p>desde 1898. Parte da emissão foi Em 1920-1921, eclodiu nova crise</p><p>repassada pelo Banco do Brasil. internacional, com reflexos na economia</p><p>A desvalorização do câmbio, com a brasileira. A retração econômica gerou, nos</p><p>conseqüente queda das importações e bancos, reações semelhantes às ocorridas</p><p>proteção dos produtores nacionais, em 1914: reduziram as operações ativas e</p><p>acarretou mudanças positivas na economia, elevaram as reservas. Essa atitude, que</p><p>porque favoreceu a diversificação da pode ser encarada como racional, foi</p><p>produção e a exportação de produtos percebida por setores da população como</p><p>agrícolas, gerando forte crescimento falta de patriotismo, ou falta de autoridade</p><p>industrial. A partir de 1915, a economia monetária capaz de impor medidas</p><p>recuperou-se, e a produção industrial anticíclicas eficazes .(TRINER, 1996)</p><p>O BB e a Caixa de Conversão</p><p>até os últimos anos da</p><p>Primeira República</p><p>O presidente Arthur Bernardes</p><p>(1922-1926), em 1923,</p><p>novamente transferiu para o</p><p>Banco do Brasil o poder de ser</p><p>o único emissor de notas e</p><p>restringiu a emissão,</p><p>provocando uma deflação.</p><p>Washington Luiz (1926-</p><p>1930), presidente sucessor,</p><p>prosseguiu com as reformas na</p><p>área financeira, buscando a</p><p>estabilização cambial através</p><p>do aumento das reservas de</p><p>ouro. A emissão de notas foi</p><p>novamente transferida para a</p><p>Caixa de Estabilização, em</p><p>1926, que propunha trocar os</p><p>bilhetes do Tesouro Nacional e</p><p>cédulas próprias por barras ou</p><p>moedas de ouro.</p><p>A crise econômica provocada</p><p>pela superprodução de café e</p><p>a drástica redução na sua</p><p>demanda pelo maior</p><p>importador, os Estados Unidos</p><p>(em forte recessão desde o</p><p>“crash” da Bolsa de Nova</p><p>Iorque, em 1929), levaram ao</p><p>fim da Primeira República e as</p><p>atividades da Caixa foram</p><p>encerradas em 1929.</p><p>Cédula de 200 mil réis emitida</p><p>pela Caixa de Conversão</p><p>Fialdini</p><p>Museu de Valores do Banco</p><p>Central do Brasil</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>96</p><p>O CRESCENTE PAPEL DO BANCO</p><p>DO BRASIL COMO BANCO CENTRAL</p><p>Em 1920, representantes das Bancos e de câmaras de compensação de</p><p>associações do comércio, indústria e cheques no Banco do Brasil. A Inspetoria</p><p>agricultura queixaram-se da escassez de foi criada não só para disciplinar a</p><p>dinheiro e de crédito. Despertou o atividade bancária, mas, principalmente,</p><p>sentimento de que era necessário criar um para “prevenir e coibir o jogo sobre o</p><p>banco central independente, como era câmbio”. A partir de então, foram</p><p>comum em países desenvolvidos, para impostas as primeiras regras para</p><p>regular a atividade bancária e conduzir a funcionamento dos bancos, como</p><p>política monetária de acordo com as exigências de capital mínimo. Em 1931, a</p><p>necessidades da economia, em linha com Inspetoria foi incorporada ao Banco do</p><p>a chamada “doutrina do crédito Brasil.</p><p>legítimo” . A Câmara de Compensação do Banco</p><p>Como conseqüência dos debates que do Brasil, que começou as operações no</p><p>se seguiram, foi criada, em fevereiro de Rio de Janeiro — e que, rapidamente,</p><p>1921, a Carteira de Redesconto do Banco também operava em São Paulo, Santos,</p><p>do Brasil, impondo-se regras claras de Porto Alegre, Recife e Salvador —,</p><p>acesso a esse recurso, o que significava a estimulou o uso de cheques e, portanto, a</p><p>oficialização do maior banco público participação dos bancos no sistema de</p><p>brasileiro como emprestador de última pagamentos.</p><p>instância. Já naquela crise, o Banco do Em 1922, ao Banco do Brasil foi</p><p>Brasil socorreu bancos em dificuldades, entregue o monopólio da emissão, mantido</p><p>embora isso não tenha impedido que até 1926. Nesse ano, decidiu-se pelo</p><p>alguns deles encerrassem as atividades, retorno à ortodoxia e criou-se a Caixa de</p><p>inclusive dois bancos estrangeiros. No Estabilização, nos moldes da Caixa de</p><p>médio prazo, contribuiu para que os Conversão de 1906-1914, ou seja,</p><p>bancos de capital nacional, em épocas de emissão lastreada e notas conversíveis.</p><p>normalidade econômica, pudessem</p><p>manter Políticas conservadoras foram adotadas</p><p>menor proporção de reserva, sem que isso para permitir a estabilidade do câmbio. A</p><p>os tornasse mais frágeis. crise de 1929, tal como ocorrera em</p><p>Dois outros marcos institucionais de 1914, provocou o fechamento da Caixa de</p><p>relevo para os bancos daquele período Estabilização e a volta das emissões de</p><p>foram a criação da Inspetoria Geral dos papel-moeda pelo Tesouro Nacional.</p><p>(NEUHAUS, 1975; FRITSCH, 1992)</p><p>Apólice da Dívida Pública</p><p>Ao centro do anverso da cédula ao lado é apresentada a fachada do prédio da Caixa de Conversão.</p><p>O prédio da Caixa de Conversão foi inaugurado em 1906 pelo então Presidente Rodrigues Alves,</p><p>na antiga Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro.</p><p>É um belo prédio, com fachada de cantaria, proveniente da pedreira da Urca, pavimento térreo e</p><p>colunata nos dois pavimentos superiores, formada por 34 colunas de mármore branco de carrara.</p><p>O prédio foi assumido pelo Banco Central, logo depois da sua criação e lá funcionou a sede do</p><p>Departamento do Meio Circulante.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>97</p><p>A CRIAÇÃO DOS BANCOS ESTADUAIS</p><p>O primeiro banco a se tornar o que praticamente indisponível, pelos altos</p><p>atualmente é denominado “banco riscos envolvidos. Os primeiros a surgir</p><p>estadual” foi o Banco de Crédito Real foram os dos estados de Minas Gerais,</p><p>de Minas Gerais, mais conhecido como São Paulo e Espírito Santo. Buscou-se,</p><p>Credireal. Foi criado em 1889 e inicialmente, atrair a participação do</p><p>aproveitou-se dos recursos oferecidos capital estrangeiro. Os estados ofereciam</p><p>pelo Visconde de Ouro Preto, isentos de diversos benefícios, como isenções</p><p>juros e repassados a 6% como crédito fiscais e garantias de juros. Em 1909 e</p><p>hipotecário para os produtores mineiros 1911, firmas francesas criaram bancos</p><p>de café. Durante o Encilhamento, com a denominação “hipotecário e</p><p>recebeu autorização para operar como agrícola” naqueles três estados</p><p>banco comercial. Em 1908, voltou a se Além de crédito à</p><p>concentrar em crédito agrícola, firmando agricultura, financiavam também obras</p><p>acordo com o governo estadual para públicas, embora em menor escala.</p><p>apoiar a política de valorização do café, Em função da crise de 1914 e das</p><p>mas suas operações eram, oscilações cambiais subseqüentes, esses</p><p>majoritariamente, de descontos de letras. bancos tiveram de contar com sucessivos</p><p>Em 1912, teve seu controle acionário apoios dos estados, recebendo também</p><p>assumido pelo Governo de Minas. ajuda do Tesouro Nacional e do Banco</p><p>Outros bancos estaduais surgiram do Brasil. Acabaram comprados pelos</p><p>também nessa época (COSTA NETO, 2004). governos estaduais em troca das dívidas</p><p>A criação desses bancos nasceu do que haviam assumido.</p><p>esforço dos respectivos governos de O Banco Hipotecário e Agrícola de</p><p>propiciar aos produtores rurais, São Paulo foi tornado oficial em 1926,</p><p>especialmente cafeicultores, acesso ao quando passou a ser denominado Banco</p><p>crédito hipotecário e agrícola, antes do Estado de São Paulo (Banespa).</p><p>(COSTA</p><p>NETO, 2004).</p><p>Foro de Juiz de Fora</p><p>Cartão postal editado por Leon de</p><p>Rennes e circulado em l908.</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>98</p><p>Houve forte expansão dos bancos nacionais, Entretanto, as reformas do período 1920-21</p><p>principalmente na década de 1920. Os bancos afetaram negativamente seu desempenho. Ao se</p><p>paulistas, gaúchos e mineiros foram os que mais criar a Carteira de Redesconto, um dos objetivos era</p><p>cresceram, tendo o Rio de Janeiro registrado fortalecer os bancos de capital nacional. E a</p><p>diminuição na participação no conjunto do sistema regulamentação bancária, que veio acompanhada da</p><p>bancário . Tal queda refletia a perda de criação da Inspetoria Geral dos Bancos, atingiu os</p><p>importância relativa da economia fluminense. bancos estrangeiros de duas formas: em primeiro</p><p>Entre 1920 e 1929, os depósitos em bancos lugar, porque pela primeira vez os bancos</p><p>sediados na Capital Federal caíram de 51% para estrangeiros receberam tratamento diferenciado,</p><p>35%. Nesse cálculo, estão incluídos os depósitos no com imposições consideradas por eles demasiadas</p><p>Banco do Brasil, o maior banco do País, com sede rígidas, como a obrigatoriedade de internalizar</p><p>na cidade. divisas e só operar após terem integralizado 50% do</p><p>O crescimento dos bancos paulistas foi capital, com o montante depositado no Tesouro</p><p>expressivo . Em 1906, havia apenas dois Nacional ou no Banco do Brasil; e, em segundo</p><p>bancos na capital e cinco no interior. Os cinco lugar, porque, pelo menos se forem levados em</p><p>bancos estrangeiros (dois ingleses, dois alemães e conta os relatos da época, eram eles os maiores</p><p>um italiano) detinham 57,6% dos depósitos. Em responsáveis — e os que mais se beneficiavam —</p><p>1928, a situação tinha se invertido. com especulações e oscilações no mercado de</p><p>O estado de São Paulo contava com oito bancos câmbio, que passou a ser fiscalizado pela Inspetoria.</p><p>privados — mais o Banespa — na capital e 20 Os dados são significativos. Entre 1920 e 1930,</p><p>bancos no interior que, em conjunto, detinham a participação dos bancos estrangeiros no total de</p><p>78,6% dos depósitos totais. Estavam registradas depósitos captados no Rio de Janeiro era de 43,1%.</p><p>mais 45 pequenas casas bancárias, não incluídas no Dez anos depois, a participação havia caído para</p><p>cálculo. Outro dado significativo era que o Banco do 30,1%. No estado de São Paulo, no mesmo período,</p><p>Brasil, que em 1918 tinha apenas quatro agências a queda foi ainda mais acentuada, de 74,4% para</p><p>em todo o estado, passou a contar com 16 em 1927. 18,38% .</p><p>Também nos anos 1920 começam a se destacar</p><p>os bancos mineiros . Entre 1920 e</p><p>1925, foram criados 14 bancos e 16 casas</p><p>bancárias. Três desses bancos tinham mais de dez</p><p>agências . A maioria deles era sediada</p><p>nas regiões de produtos de exportação, mas também</p><p>havia bancos em Juiz de Fora e em Belo Horizonte.</p><p>Os bancos estrangeiros cresceram em número:</p><p>dos seis existentes em 1906, passaram para 23 em</p><p>1927 e caíram para 20 em 1930 — destes, o único</p><p>restante é o Citibank.</p><p>(COSTA, 1978)</p><p>(SAES, 1986)</p><p>(COSTA, 1978)</p><p>(COSTA, 1978)</p><p>(COSTA, 1978)</p><p>CRESCIMENTO DOS BANCOS PRIVADOS NACIONAIS</p><p>E DECLÍNIO DOS BANCOS ESTRANGEIROS</p><p>Participantes da Semana de Arte Moderna em 1922. Apesar</p><p>da sua importância futura, o evento não recebeu, quando de</p><p>sua realização, o devido crédito da população brasileira.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>99</p><p>Cia. Industrial Sul Mineira, fábrica</p><p>de tecidos em Itajubá, Minas</p><p>Gerais.</p><p>Cartão postal editado por Luís de</p><p>Lima Vianna (Rua Silva Manoel, 88,</p><p>Rio de Janeiro).</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>A ASCENSÃO DOS BANCOS MINEIROS</p><p>Desde o Tratado de Methuen principal elite intelectual do País na</p><p>(1703), que abriu o mercado lusitano época. Instituições como o Colégio</p><p>para a indústria têxtil inglesa em troca Caraça, a Escola de Engenharia de</p><p>da introdução do vinho português no Mineração de Ouro Preto e a Escola de</p><p>mercado inglês, a indústria têxtil mineira Agronomia de Viçosa, que deu origem à</p><p>ficou impedida de se desenvolver. O atual Universidade Federal de Viçosa,</p><p>ouro mineiro, cujo início da exploração além da expansão dos cursos normais,</p><p>ocorreu na mesma época, serviu para aumentaram sensivelmente o nível de</p><p>cobrir o superávit favorável à Inglaterra. educação em Minas. Com isso, foi</p><p>Entretanto, com a vinda da Família possível introduzir inovações que</p><p>Real para o Brasil, em 1808, essas impulsionaram o desenvolvimento</p><p>restrições foram superadas, porque econômico do estado.</p><p>havia interesse em fortalecer a economia Uma das principais foi a tecnologia</p><p>da antiga Colônia, agora parte do Reino de refrigeração, que permitiu uma forte</p><p>Unido de Portugal, Brasil e Algarves. expansão na indústria láctea e no</p><p>Nas primeiras décadas do século XIX, processamento de carnes.</p><p>registraram-se tentativas de montagem O estado se tornou o grande</p><p>de fábricas no estado. Em 1837, surgiu abastecedor de queijos, leite e carnes</p><p>a Companhia Industrial Mineira, que, de para o mercado do Rio de Janeiro</p><p>e</p><p>forma incipiente, chegou a produzir outras regiões. Além disso, havia em</p><p>tecido. Minas uma boa produção de café, na</p><p>No início do século XX, começaram época distribuída por todo o estado,</p><p>a surgir em Minas diversas empresas de embora concentrada na parte sul.</p><p>pequeno e médio portes, especialmente Todo este ambiente de pujança</p><p>na área têxtil. Já na década de 1920, impulsionou o mercado bancário e deu</p><p>77 fábricas de tecidos estavam em origem aos principais bancos da época.</p><p>operação em diversos municípios Em Minas estava a sede de dois dos</p><p>mineiros. maiores bancos privados do seu tempo:</p><p>Esta nascente industrialização foi o Banco da Lavoura de Minas Gerais e</p><p>possível, pelo investimento em educação o Banco Comércio e Indústria de Minas</p><p>existente no estado, que formava a Gerais.</p><p>LI</p><p>BE</p><p>R</p><p>TA</p><p>S</p><p>Q</p><p>U</p><p>Æ</p><p>S</p><p>E</p><p>R</p><p>A</p><p>TAMEN</p><p>O estado de Minas Gerais</p><p>possuía o maior número de</p><p>praças bancárias do País. Isso</p><p>se devia não somente ao</p><p>desenvolvimento da indústria</p><p>bancária, como também ao fato</p><p>de existirem um grande</p><p>número de municípios no</p><p>estado.</p><p>Esse desenvolvimento bancário</p><p>de Minas, que começou na</p><p>década de 1920, deu um</p><p>impulso para que os bancos</p><p>mineiros se mantivessem na</p><p>liderança desse mercado de</p><p>1935 a 1964, quando São</p><p>Paulo assumiu o seu lugar.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>100</p><p>Após a Primeira Guerra Mundial,</p><p>Belo Horizonte foi sede de um vigoroso</p><p>crescimento demográfico, comercial e</p><p>industrial. O capital de Minas Gerais,</p><p>originado a partir do comércio, do campo</p><p>ou de benefícios do Estado, migrou em</p><p>grande parte para a recém-instituída</p><p>capital. Nesse cenário, em 1925, nasce o</p><p>Banco da Lavoura de Minas Gerais.</p><p>Sob o comando de Clemente Faria,</p><p>filho de fazendeiro de Pedra Azul (MG),</p><p>91 subscritores, entre amigos e</p><p>conterrâneos, constituíram o capital</p><p>originário, completamente mineiro. O</p><p>banqueiro era conhecido por sua grande</p><p>habilidade com negócios. Iniciou a</p><p>carreira de comerciante, ainda quando</p><p>estudava Direito, vendendo cadeiras</p><p>para engraxates. Juntou capital no</p><p>comércio de balanças de pesar, vendeu</p><p>prédios, fundou a Companhia Mineira de</p><p>Diversões, chegou a deputado estadual.</p><p>A proximidade de Faria com a</p><p>economia popular o inspirou a inovar,</p><p>criando uma seção de pequenos depósitos,</p><p>com grande aceitação. Desta maneira, o</p><p>Lavoura foi o primeiro banco a ter como</p><p>clientela, além dos comerciantes e</p><p>industriais, o povo em geral.</p><p>Nesse sentido, a localização de sua</p><p>sede também era estratégica: um pequeno</p><p>prédio na Rua Caetés, por onde se</p><p>expandia, o comércio na capital mineira.</p><p>Ou seja, um local por onde muitas</p><p>pessoas passavam. Somente em 1930</p><p>seria inaugurada a primeira agência, em</p><p>Conselheiro Lafaiete (COSTA, 2002).</p><p>O Banco da Lavoura, segundo</p><p>Aloysio Faria, filho de Clemente,</p><p>funcionava como uma cooperativa de</p><p>crédito, onde “qualquer um que</p><p>quisesse tomar empréstimo teria de ser</p><p>cooperado”. Mas, diferentemente dos</p><p>outros bancos da época, não exigia</p><p>avalista. Emprestava a negócios</p><p>pequenos, confiando nas pessoas. Essa</p><p>natureza deu ao banco grande</p><p>popularidade.</p><p>De acordo com Costa (2002), a ação</p><p>do Lavoura em Belo Horizonte foi o</p><p>primeiro forte golpe na agiotagem local,</p><p>que explorava as camadas populares.</p><p>Trata-se do primeiro banco de varejo</p><p>brasileiro. Dentro deste cenário, o</p><p>Lavoura foi galgando, desde sua</p><p>fundação, uma trajetória de ascensão</p><p>contínua, até culminar na consagração de</p><p>maior banco privado nacional, em 1947.</p><p>João Moreira Salles era um</p><p>revendedor de café e correspondente</p><p>bancário que transitava pelas cidades</p><p>do Sul de Minas Gerais e Mococa, em</p><p>São Paulo, durante os primeiros anos</p><p>do século XX. Fazia a ligação entre</p><p>produtores e importadores de</p><p>mercadorias dos grandes centros e as</p><p>lojas do interior. Era proprietário da</p><p>Casa Comercial Moreira Salles.</p><p>Em duas décadas, o negócio</p><p>cresceu, e, em 1924, na cidade de</p><p>Poços de Caldas, interior mineiro,</p><p>surgia a seção bancária da casa. A data</p><p>foi marcada pela obtenção da carta</p><p>patente, necessária para instituições</p><p>que tinham na atividade financeira</p><p>apenas um de seus departamentos.</p><p>Nesta época, o departamento bancário</p><p>de Moreira Salles representava cerca de</p><p>13 bancos e tinha pouco mais de 200</p><p>clientes, para os quais realizava,</p><p>sobretudo, operações de cobrança, mas</p><p>também de saques, depósitos, desconto</p><p>de títulos, câmbio, pagamentos e</p><p>transferências (COSTA, 2002).</p><p>A CRIAÇÃO DO BANCO DA LAVOURA</p><p>A CASA COMERCIAL MOREIRA SALLES</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO X</p><p>101</p><p>102</p><p>CAPÍTULO 11</p><p>Da crise de 1929 ao fim da</p><p>Segunda Guerra Mundial</p><p>103</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>IMPACTOS DA CRISE DE 1929 SOBRE OS BANCOS</p><p>No Brasil, a recessão foi mais branda</p><p>e durou menos que na maioria dos</p><p>países: a economia apresentou sinais</p><p>positivos já em 1932, assim</p><p>permanecendo até o final da década.</p><p>Ainda mais importante para nossa</p><p>história bancária, não chegou a haver</p><p>crise dos bancos. De acordo com o</p><p>relatório do Banco do Brasil de 1930,</p><p>apenas uma instituição bancária foi</p><p>forçada a fechar as portas, o Banco</p><p>Pelotense, cujo processo de concordata</p><p>foi assumido pelo governo do</p><p>Rio Grande do Sul.</p><p>Num texto clássico, Celso Furtado</p><p>explicou o comportamento da</p><p>economia brasileira daquele período</p><p>como resultado da adoção de uma</p><p>política anticíclica inconsciente: o</p><p>Governo Federal e alguns governos</p><p>estaduais — especialmente São Paulo —</p><p>aumentaram os gastos, com a finalidade</p><p>de solucionar problemas políticos, com o</p><p>que acabaram por impedir queda muito</p><p>pronunciada da demanda agregada. O</p><p>Brasil teria, portanto, adotado políticas</p><p>tipicamente keynesianas alguns anos</p><p>antes de o próprio J.M. Keynes ter</p><p>publicado sua “Teoria Geral”, em 1936.</p><p>pouco sofreram com a crise e</p><p>apresentaram rápida recuperação. Em</p><p>1930, o volume da moeda em circulação</p><p>registrou queda de pouco mais de 10%,</p><p>em grande parte provocada pelo resgate</p><p>das notas conversíveis emitidas pela</p><p>Caixa de Estabilização. Na tentativa de</p><p>manter a taxa de câmbio estável, e</p><p>possivelmente contando com o fato de</p><p>que a crise seria passageira e que</p><p>haveria como manter o programa de</p><p>estabilização, o Governo preferiu atender</p><p>aos pedidos de resgate das notas. Esses</p><p>pedidos só não foram maiores porque o</p><p>Banco do Brasil mantinha em encaixe</p><p>(1959) boa parte das notas emitidas pela Caixa.</p><p>Entretanto, as emissões de papel-</p><p>moeda realizadas para financiar o</p><p>aumento dos gastos compensaram a</p><p>saída de circulação das notas</p><p>conversíveis. De fato, o financiamento</p><p>das lutas políticas e da política de</p><p>sustentação do preço do café via emissão</p><p>de papel-moeda resultou em elevação do</p><p>meio circulante já a partir de 1931.</p><p>Da mesma forma, não chegou a</p><p>ocorrer corrida bancária. Não há estudos</p><p>aprofundados sobre as razões desse</p><p>comportamento aparentemente tranqüilo</p><p>O sistema monetário e os bancos dos bancos e de seus clientes.</p><p>A crise de 1929 teve impacto devastador no sistema bancário dos países centrais nos primeiros anos da</p><p>década de 1930. Nos EUA, por exemplo, verificou-se pânico bancário que,</p><p>entre 1929 e os primeiros meses de 1933, provocou a quebra de cerca de seis mil bancos. Em 6 de março</p><p>de 1933, foi decretado feriado bancário nacional. Naquele ano e no ano seguinte, o governo americano fez</p><p>serem aprovadas no Congresso medidas que acabaram por compor o que se denomina “rede de proteção”,</p><p>em particular o seguro de depósitos bancários e depósitos de poupança, afastando, desde então, o risco de</p><p>“corridas bancárias” como a que aconteceu nos anos 1929-1933 e já havia acontecido em outras ocasiões.</p><p>Antigo Prédio do Tesouro Nacional</p><p>Cartão postal editado no início do</p><p>século XX pela Casa Staffa (Rua do</p><p>Ouvidor, 127, Rio de Janeiro).</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>104</p><p>A diretoria do Banco do Brasil, da República, acudiu com presteza a</p><p>entretanto, apresentou, no relatório todas as solicitações legítimas de crédito</p><p>anual divulgado em abril de 1930, que se fizeram no País.</p><p>versão muito auto-elogiativa: o banco Comparecendo a Santos num</p><p>teria atuado como autêntico Banco momento em que ninguém</p><p>emprestava</p><p>Central ao socorrer os bancos com dinheiro sobre café, começou a fornecer</p><p>dinheiro e com promessas de mais livremente quaisquer quantias com a</p><p>dinheiro. garantia de conhecimentos, na base de</p><p>Essa versão dos fatos, até hoje não Rs 40$000 por saca.(...) Essa situação</p><p>desmentida, leva a crer que a atitude teria provocado o pronto</p><p>das autoridades financeiras brasileiras restabelecimento da confiança na praça</p><p>se encaixava perfeitamente na visão, de Santos e determinou que todos os</p><p>hoje predominante, de que deve haver bancos de São Paulo, com a solidez de</p><p>um banco central capaz de atuar como seus recursos, voltassem a nela operar</p><p>emprestador de última instância, ou com franqueza.”</p><p>seja, um banco central preocupado em Pelo que se pode depreender desse</p><p>evitar a conflagração de pânicos Relatório, o Banco do Brasil tinha claro</p><p>bancários. seu papel de banco dos bancos,</p><p>Um episódio ocorrido em Santos, curiosamente num momento em que,</p><p>em outubro de 1929, é esclarecedor. formalmente, não exerceria esse papel.</p><p>Como conseqüência da crise A linguagem usada no Relatório</p><p>internacional, caíram bruscamente os poderia ser considerada, mesmo hoje</p><p>preços de nossos produtos de em dia, sofisticada: “O Banco do Brasil</p><p>exportação, particularmente do café, e não interveio apenas com seu auxílio</p><p>haviam praticamente secado as fontes material, mas amparou também, com</p><p>de financiamento externo. A seu prestígio moral, todas as praças do</p><p>expectativa, já anterior à deflagração da País, no intuito de harmonizar muitas</p><p>crise, era de que a situação externa situações difíceis...”.</p><p>poderia se tornar desfavorável, já que a De qualquer maneira, a crise de</p><p>política de sustentação de preços do 1929 e a subseqüente recessão mundial</p><p>café vinha sendo financiada afetaram fortemente a economia</p><p>parcialmente por empréstimos tomados brasileira. A renda nacional, em termos</p><p>no exterior, contratados por alguns nominais, caiu mais de 10% em 1930 e</p><p>estados e pelo Instituto do Café de São no ano seguinte. Mas, em termos reais,</p><p>Paulo. Portanto, no final de 1929, no a queda da renda não ultrapassou</p><p>interior daquele estado, e 3,0%, em função da deflação ocorrida</p><p>particularmente em Santos “se formou no período. Portanto, comparada com a</p><p>uma situação de pânico (...). O Banco de outros países, a crise da economia</p><p>do Brasil, por ordem do Sr. Presidente brasileira foi bem mais amena e sua</p><p>O BANCO DO BRASIL ATUANDO COMO BANCO CENTRAL</p><p>A crise de 1929 nos EUA</p><p>Após a Primeira Grande</p><p>Guerra, os Estados Unidos se</p><p>transformaram na maior</p><p>economia mundial. De maior</p><p>devedor (US$ 3 bilhões),</p><p>passou a maior credor (US$</p><p>11 bilhões).</p><p>O forte e dinâmico</p><p>crescimento do país, que</p><p>passou a ser responsável por</p><p>quase 42% do PIB mundial,</p><p>estimulou o preço das ações</p><p>nas bolsas, que subiram de</p><p>forma exponencial até 24 de</p><p>outubro, quando um grande</p><p>movimento de realizações não</p><p>encontrou compradores e o</p><p>valor das ações caiu em queda</p><p>livre. Poucos dias depois, no</p><p>dia 29, os preços já haviam</p><p>caído mais de 80% e,</p><p>praticamente, não havia</p><p>compradores.</p><p>O resultado foi a mais forte</p><p>crise da economia americana.</p><p>Quatro mil bancos e 85 mil</p><p>empresas faliram no intervalo</p><p>de poucos meses. Como</p><p>conseqüência, a demanda por</p><p>café do Brasil caiu</p><p>bruscamente. E, sendo os</p><p>EUA o país que mais</p><p>importava o produto brasileiro,</p><p>a situação dos cafeicultores e</p><p>de todo o comércio</p><p>relacionado tornou-se crítica.</p><p>Como consequência, houve</p><p>recessão na economia</p><p>brasileira, o que criou</p><p>condições para a ascensão de</p><p>Getúlio Vargas em 1930.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>105</p><p>106</p><p>107</p><p>POLÍTICAS INTERVENCIONISTAS</p><p>Embora se tenha mantido reduziam suas operações ativas. A relação</p><p>essencialmente agrária e dependente da encaixes/depósitos, que era de 23% em</p><p>produção e exportação de café, a meados de 1927, subira para o nível de</p><p>economia brasileira sofreu profundas 37% no início de 1930 .</p><p>transformações após a Revolução de 30 e Em dezembro de 1930, decidiu-se</p><p>durante todo o regime Vargas. Verificou-se pela reabertura da Carteira de</p><p>expressivo crescimento das atividades Redesconto do Banco do Brasil (Cared),</p><p>urbanas, em particular do setor industrial, que havia sido formalmente fechada</p><p>que recebeu a proteção da forte quando o banco tornou-se emissor de</p><p>desvalorização da moeda registrada na moeda em 1922. Boa parte das emissões</p><p>década de 1930. O período caracterizou- ocorridas nos anos subseqüentes</p><p>se, também, pela significativa presença do correspondeu, de fato, às solicitações de</p><p>Estado na economia. Tal cenário redesconto feitas ao Banco do Brasil e</p><p>influenciou a evolução do setor bancário. apoiadas com recursos do Tesouro. As</p><p>A preocupação inicial era com a solicitações de numerário da Cared eram</p><p>situação da agricultura e a possibilidade de prontamente atendidas pelo Tesouro</p><p>ocorrer número excessivo de falências. A Nacional. Inicialmente, essas operações</p><p>brusca queda no preço e nas exportações eram destinadas exclusivamente a</p><p>de café levara a uma situação em que os financiar o setor cafeeiro, mas foram, em</p><p>cafeicultores passavam por sérias 1932, expandidas a outros setores,</p><p>dificuldades para cumprir seus inclusive o de indústrias manufatureiras.</p><p>compromissos com os bancos. Em As operações da Cared contribuíram</p><p>resposta à crise, os bancos comerciais, também para, no auge da crise, manter a</p><p>especialmente os de capital nacional, estabilidade do setor bancário e assegurar</p><p>haviam elevado consideravelmente suas seu posterior crescimento.</p><p>reservas, ao mesmo tempo em que</p><p>(NEUHAUS, 1975)</p><p>Carregadores de café no porto de</p><p>Santos, primórdios do século XX,</p><p>tendo ao fundo a loja Gran Café de</p><p>España. Cartão Postal editado por</p><p>M. Pontes & Cia , rua 15 de</p><p>Novembro 15, Santos.</p><p>Coleção Paulo Bodmer</p><p>O embarque de café no porto de</p><p>Santos se dava, nos primórdios do</p><p>século XX, através de braços fortes,</p><p>carregadores que conseguiam levar</p><p>nos ombros até 5 sacos de 60 kg</p><p>cada, como é o caso do de camisa</p><p>listrada de vermelho.</p><p>Café, 1935</p><p>Óleo sobre tela de</p><p>Cândido Portinari (1903-1962)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>A ECONOMIA E O</p><p>CAFÉ EM 1935</p><p>Em 1935, quando Portinari</p><p>pintou o quadro “Café”, a</p><p>mais importante atividade</p><p>econômica do Brasil era a</p><p>agricultura cafeeira.</p><p>A participação do café nas</p><p>exportações era de 72%.</p><p>Entretanto, outras atividades</p><p>estavam crescendo, como a</p><p>indústria e diversas culturas</p><p>agrícolas, principalmente o</p><p>algodão.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>108</p><p>ÍNDICES DE</p><p>EMPRÉSTIMOS/DEPÓSITOS</p><p>BANCÁRIOS, 1928-1936</p><p>1928</p><p>1929</p><p>1930</p><p>100</p><p>107</p><p>103</p><p>Fonte: Banco do Brasil. Relatório de 1946.</p><p>Empréstimos Depósitos</p><p>77</p><p>77</p><p>65</p><p>1931</p><p>1932</p><p>1933</p><p>1934</p><p>1935</p><p>1936</p><p>103</p><p>111</p><p>121</p><p>127</p><p>138</p><p>136</p><p>67</p><p>74</p><p>69</p><p>72</p><p>82</p><p>92</p><p>MOEDA EM CIRCULAÇÃO,</p><p>1924-1937</p><p>1924</p><p>1925</p><p>1926</p><p>1927</p><p>1928</p><p>1929</p><p>1930</p><p>2 964</p><p>2 707</p><p>2 569</p><p>3 012</p><p>3 382</p><p>3 395</p><p>2 845</p><p>Fonte: Banco do Brasil. Relatório de 1946.</p><p>Em milhões</p><p>de cruzeiros</p><p>Índice:</p><p>1935/39 = 100</p><p>67</p><p>61</p><p>58</p><p>68</p><p>77</p><p>77</p><p>65</p><p>1931</p><p>1932</p><p>1933</p><p>1934</p><p>1935</p><p>1936</p><p>1937</p><p>2 942</p><p>3 239</p><p>3 037</p><p>3 157</p><p>3 612</p><p>4 050</p><p>4 550</p><p>67</p><p>74</p><p>69</p><p>72</p><p>82</p><p>92</p><p>103</p><p>ESTÍMULO À EXPANSÃO DO CRÉDITO E</p><p>À CARTEIRA DE MOBILIZAÇÃO BANCÁRIA</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>Em junho de 1932, preocupado com Em dezembro de 1933, foi adotada</p><p>o fato de que “o retraimento do crédito mais uma importante medida para aliviar</p><p>impedia o desenvolvimento das fontes de a situação do setor agrícola, ainda</p><p>riqueza do País [e que] esse retraimento fortemente endividado. A Lei do</p><p>era em parte resultante da política de Reajustamento Econômico reduziu as</p><p>previsão que os bancos se viram dívidas de fazendeiros e pecuaristas em</p><p>compelidos a seguir em face da crise 50%, em troca de garantias reais.</p><p>mundial”, o governo instituiu a Carteira de Aos credores eram entregues apólices</p><p>Mobilização Bancária, administrada pelo do Governo, de 30 anos de prazo e</p><p>Banco do Brasil. O objetivo era obrigar os rendendo 5% de juros ao ano. Esses</p><p>bancos comerciais a depositarem no credores eram, em grande parte, os</p><p>Banco do Brasil</p><p>as reservas que tinham bancos privados, que, indiretamente,</p><p>em excesso a 20% dos depósitos. Esses foram beneficiados, porque as apólices</p><p>recursos podiam ser solicitados caso o podiam ser oferecidas à Camob como</p><p>volume de saques reduzissem os encaixes garantia dos empréstimos de longo prazo</p><p>do banco a um nível inferior a 15% dos que esta concedia aos bancos.</p><p>depósitos à vista ou 10% dos depósitos a Ao longo da década de 1930, cresceu</p><p>prazo. Os bancos podiam oferecer em o sentimento de que o País precisava se</p><p>garantia títulos descontados com prazo industrializar.</p><p>entre 5 e 10 anos de vencimento. Como O setor industrial registrava taxas de</p><p>os títulos eram de longo prazo, os bancos crescimento elevadas. Dada a</p><p>puderam reduzir os prazos médios de impossibilidade de contar com o mercado</p><p>empréstimos, aumentando a liquidez. de capitais para obter recursos, os</p><p>Os primeiros bancos a usar o industrialistas dependiam dos bancos para</p><p>mecanismo foram os que tinham mais financiar seus empreendimentos.</p><p>empréstimos problemáticos. Na prática, a Demandavam a criação de um banco</p><p>criação da Camob reforçava o papel especializado para o setor.</p><p>Banco do Brasil como emprestador de Em uma solução de compromisso, foi</p><p>última instância, já que seus recursos só criada, em 1936, a Carteira de Crédito</p><p>poderiam ser destinados a pagamentos Agrícola e Industrial, administrada pelo</p><p>para os depositantes. Banco do Brasil.</p><p>109</p><p>O resultado desse conjunto de nacionais privados, cujo crescimento foi</p><p>medidas, ao mesmo tempo em que se muito superior ao dos bancos</p><p>verificava a retomada do crescimento estrangeiros.</p><p>das atividades econômicas, foi Entretanto, o papel de destaque,</p><p>possibilitar aos bancos comerciais a nesse período, sempre coube ao Banco</p><p>redução dos seus níveis de encaixes e o do Brasil. Na primeira metade dos anos</p><p>aumento de suas operações de 1940, seus ativos representavam, em</p><p>empréstimos. Já em 1935, a proporção média, entre 40% a 50% do conjunto</p><p>encaixe/depósitos havia caído para 9,7% do sistema bancário. Havia uma nítida</p><p>e o saldo dos descontos e empréstimos divisão de tarefas: bancos comerciais</p><p>era cerca de 35% superior ao verificado operavam através de descontos de curto</p><p>no final de 1930. prazo, enquanto o Banco do Brasil, além</p><p>Essa tendência manteve-se até o final de operações típicas de banco comercial,</p><p>da guerra. Os dados da tabela na página oferecia crédito de longo prazo, atuando</p><p>a seguir mostram o expressivo como um autêntico banco de fomento.</p><p>crescimento dos empréstimos e dos</p><p>depósitos e a queda acentuada nos níveis</p><p>de reservas dos bancos nacionais. A</p><p>tabela é também interessante para</p><p>revelar diferenças entre o</p><p>comportamentos dos bancos nacionais —</p><p>incluindo o Banco do Brasil — e o dos</p><p>bancos estrangeiros. Estes, cuja</p><p>participação na captação de depósitos à</p><p>vista caiu de 26,5% em 1930 para</p><p>8,5% em 1944, em ambos os anos têm</p><p>uma relação empréstimos/depósitos</p><p>muito inferior a dos bancos nacionais.</p><p>Esses dados corroboram as queixas,</p><p>comuns à época, de que sua atividade</p><p>principal continuou sendo a participação</p><p>nos mercados de câmbio, e de que</p><p>pouco contribuíam para o financiamento</p><p>das empresas.</p><p>A política de apoio quase irrestrito</p><p>aos bancos, representada pela carteira</p><p>de redescontos e, principalmente, pela</p><p>Camob, permitiu o crescimento</p><p>acelerado das atividades dos bancos</p><p>Alguns bancos estaduais continuaram</p><p>a oferecer créditos hipotecários a</p><p>agricultores. Entre 1930 e 1945, foram</p><p>criados seis bancos estaduais, em sua</p><p>maioria na região nordeste. O desejo dos</p><p>estados de abrirem seus próprios bancos</p><p>teria sido amortecido pelo fato de que o</p><p>Banco do Brasil possuía agências em</p><p>todo o território nacional, e, assim, podia</p><p>melhor atender às necessidades locais.</p><p>A distribuição regional dos bancos</p><p>comerciais alterou-se especialmente pelo</p><p>forte crescimento de alguns bancos</p><p>mineiros. O Rio de Janeiro, apesar de</p><p>sua declinante participação na economia</p><p>nacional, manteve-se como o principal</p><p>centro bancário, seguido de muito perto</p><p>pelo estado de São Paulo.</p><p>Entretanto, o setor bancário mineiro</p><p>passou a ocupar o terceiro lugar,</p><p>substituindo o estado do Rio Grande do</p><p>Sul. Os bancos mineiros foram os</p><p>primeiros a se expandir fora do estado</p><p>originário.</p><p>A EVOLUÇÃO DO SISTEMA BANCÁRIO PRIVADO</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>110</p><p>Bancos Nacionais e Estrangeiros:</p><p>Empréstimos, Caixa, Capital e Depósitos</p><p>Empréstimos & Letras Descontadas</p><p>Caixa</p><p>Caixa</p><p>Capital</p><p>Depósitos à Vista</p><p>Bancos Estrangeiros</p><p>Empréstimos & Letras Descontadas</p><p>Caixa</p><p>Capital</p><p>Depósitos à Vista</p><p>Bancos Nacionais & Estrangeiros</p><p>Capital</p><p>Depósitos à Vista</p><p>Bancos Nacionais</p><p>Empréstimos & Letras Descontadas</p><p>Fonte: Geraldo de Beauclair Mendes de OLIVEIRA. “A expansão</p><p>do crédito e industrialização no Brasil, 1930-1945”.</p><p>5.962</p><p>896</p><p>918</p><p>41.353</p><p>2.800</p><p>2.991</p><p>4.441</p><p>652</p><p>780</p><p>2.391</p><p>39.346</p><p>2.490</p><p>2.883</p><p>26.029</p><p>520 1.981</p><p>138 108</p><p>860 2.406</p><p>3. 251 28.437</p><p>1930 1944</p><p>216 310</p><p>BANCO COMÉRCIO E INDÚSTRIA</p><p>Entre 1940 e 1944, o Banco do</p><p>Comércio e da Indústria de Minas Gerais</p><p>assumiu o posto de maior banco privado</p><p>de capital nacional.</p><p>BANCO DA LAVOURA</p><p>Outro banco privado que se</p><p>destacava na época era o Lavoura, que,</p><p>na época, já era capitalizado e bem</p><p>sedimentado em Minas Gerais. Havia</p><p>passado incólume pela crise cafeeira de</p><p>1929, já que não trabalhava diretamente</p><p>com o produto, e se aproveitado dela</p><p>encampando bancos e casas bancárias</p><p>afetados, sobretudo do sul de Minas</p><p>(COSTA, 2002). Em 1936, abriu uma</p><p>agência no Rio de Janeiro e, no ano</p><p>seguinte, em São Paulo. Em 1945, além</p><p>dessas, já dispunha de 48 agências em</p><p>Minas, três no estado do Rio e uma no</p><p>Espírito Santo.</p><p>BANCO ECONÔMICO</p><p>No bojo dos primeiros movimentos</p><p>econômicos surtidos com a vinda da</p><p>Corte portuguesa para o Brasil, surgiu,</p><p>em 1834, a Caixa Econômica da Cidade</p><p>da Bahia, fruto da união de 171</p><p>cidadãos baianos.</p><p>A missão da instituição era receber e</p><p>gerir depósitos da comunidade local,</p><p>tendo um papel social bastante intenso.</p><p>Em 1893, a caixa deu origem a uma</p><p>instituição bancária: o Banco Econômico</p><p>da Bahia. Sua atuação, porém, continuou</p><p>limitada, em torno do lema “Economia,</p><p>perseverança e socorro nas</p><p>dificuldades” (SOUZA, 2003).</p><p>Somente no início da década de</p><p>1940, ainda durante a Segunda</p><p>Grande Guerra, o Econômico iniciou</p><p>um vigoroso processo de</p><p>expansão, através da</p><p>modernização de seus serviços</p><p>e da criação de novas</p><p>agências. A função social e o</p><p>foco naturalmente popular</p><p>se mantiveram durante</p><p>toda sua existência.</p><p>O governo do estado desempenhou</p><p>importante papel no desenvolvimento</p><p>bancário mineiro através de seus bancos</p><p>estaduais, em particular o Banco de</p><p>Crédito Real, mencionado no capítulo</p><p>anterior, que se manteve entre os</p><p>maiores bancos brasileiros.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>Detallhe da nota de 200 mil réis</p><p>da Caixa de Conversão</p><p>111</p><p>OUTROS BANCOS PRIVADOS NA ÉPOCA</p><p>BANCO DA BAHIA Em pouco tempo, só o Banco do</p><p>O Banco da Bahia foi a única grande Brasil movimentava mais dinheiro em</p><p>instituição bancária, fora de São Paulo, câmbio do que o Banco da Bahia.</p><p>a perceber a oportunidade que foi o</p><p>fechamento dos bancos estrangeiros no</p><p>mercado paulista. Sua história é muito</p><p>antiga quando comparada a dos atuais</p><p>bancos.</p><p>Durante a guerra, era um banco</p><p>regional, porém, o seu principal acionista,</p><p>Clemente Mariani, percebeu que, se</p><p>contratasse os principais executivos de</p><p>câmbio dos bancos alemães e italianos,</p><p>poderia, em pouco tempo, ter o mais</p><p>rentável negócio bancário naquela época.</p><p>Contratou-os e organizou três grandes</p><p>operações de câmbio: uma em São Paulo,</p><p>que atendia ao estado e à região sul; uma</p><p>no Rio de Janeiro; e outra na Bahia.</p><p>BANCOS ESTRANGEIROS</p><p>Os bancos estrangeiros, que já vinham</p><p>tendo seu crescimento restringido desde os</p><p>anos 1920, foram submetidos à política de</p><p>nacionalização bancária explicitamente</p><p>adotada no período, motivada</p><p>principalmente pelos problemas crônicos</p><p>no balanço de pagamentos que</p><p>caracterizaram a década de 1930.</p><p>Durante</p><p>a guerra, por motivação</p><p>política, foram fechados dois bancos</p><p>alemães e um banco japonês. Entre 1942</p><p>e 1945, o número de estabelecimentos</p><p>estrangeiros — incluindo matrizes e</p><p>agências — caiu de 80 para 39.</p><p>A guerra significou o fim</p><p>de importantes bancos</p><p>alemães e italianos e uma</p><p>oportunidade para os</p><p>bancos nacionais.</p><p>Título do Brasilianische</p><p>Bank for Deutschland</p><p>Acervo Gustavo Monteiro</p><p>Uma nova moeda, o cruzeiro</p><p>O real e o seu múltiplo de</p><p>Mil-réis foi a moeda brasileira</p><p>até 5 de outubro de 1942,</p><p>quando se instituiu o Cruzeiro.</p><p>A nova moeda foi criada para</p><p>sanear e uniformizar o meio</p><p>circulante (ainda conviviam,</p><p>como meio de troca, diferentes</p><p>moedas emitidas desde o início</p><p>da República). A nova</p><p>unidade correspondia a mil</p><p>réis.</p><p>Os planos para a modificação</p><p>foram idealizados pela Caixa</p><p>de Estabilização, que</p><p>pretendia, com o Cruzeiro, ter</p><p>uma moeda conversível em</p><p>ouro, que respondesse por</p><p>todo o meio circulante. O</p><p>Decreto 4791 instituiu o</p><p>Cruzeiro, unidade dividida em</p><p>centavos, concretizando a</p><p>adoção do sistema decimal de</p><p>pesos e medidas no campo</p><p>monetário.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>112</p><p>CASA COMERCIAL</p><p>MOREIRA SALLES</p><p>Em 1931, a Casa Comercial Moreira</p><p>Salles se transformou em Casa Bancária.</p><p>A emancipação significou uma</p><p>mudança considerável: agora havia</p><p>uma instituição financeira propriamente</p><p>dita, e não apenas um departamento</p><p>específico.</p><p>Em 1933, Walther Moreira Salles</p><p>herdou a Casa Bancária de seu pai, que</p><p>passou a se dedicar exclusivamente à</p><p>revenda de café.</p><p>O mundo vivia a crise econômica da</p><p>década de 30, e o Brasil também foi</p><p>afetado. As exportações diminuíram e</p><p>como nos Estados Unidos, o Governo</p><p>passou a intervir mais na economia.</p><p>O governo implementou o plano de</p><p>sustentação dos preços do café,</p><p>financiado pela expansão monetária e</p><p>pelo imposto de exportação, para deter</p><p>os efeitos da superprodução do café.</p><p>O plano foi bem sucedido e atenuou</p><p>os efeitos da diminuição da receita de</p><p>exportação, e a moeda voltou a expandir.</p><p>Café ainda era o grande negócio,</p><p>embora o Governo procurasse incentivar</p><p>a diversificação econômica, para tornar o</p><p>país menos dependente da monocultura</p><p>cafeeira. Houve controle das</p><p>importações, com maiores taxas</p><p>alfandegárias, obrigando o consumidor a</p><p>comprar produtos nacionais, o que</p><p>favoreceu as indústrias brasileiras.</p><p>A Gestão Walter Moreira Salles</p><p>Sob o seu comando, a casa cresceu</p><p>ainda mais e, em 1940, se fundiu a</p><p>Associação Comercial do Rio de Janeiro</p><p>Walther Moreira Salles</p><p>(1912-2001): empresário,</p><p>banqueiro, diplomata, ministro da</p><p>Fazenda do Governo João Goulart e</p><p>fundador da União de Bancos</p><p>Brasileiros (UBB / Unibanco).</p><p>duas outras instituições: a Casa Bancária</p><p>Botelhos e o Banco Machadense.</p><p>Com isso, no mesmo ano, recebeu</p><p>carta patente e se tornou Banco Moreira</p><p>Salles (COSTA, 2002). A primeira filial no</p><p>Rio de Janeiro — Distrito Federal da</p><p>época — foi inaugurada menos de um</p><p>ano depois da fundação.</p><p>O banco começa a se expandir em</p><p>São Paulo, seguindo o rastro do café, e,</p><p>logo no ano seguinte a Diretoria se muda</p><p>para a cidade.</p><p>Em 1945, o Banco Moreira Salles já</p><p>possuía 34 agências, 17 delas em</p><p>território paulista.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XI</p><p>113</p><p>114</p><p>CAPÍTULO 12</p><p>Oportunidades em tempo de guerra</p><p>115</p><p>116</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XII</p><p>O BANCO BRASILEIRO DE DESCONTOS</p><p>Em 1943, com um capital de dez Foi uma inovação radical para a época.</p><p>milhões de cruzeiros, sede em Marília e Até então, os gerentes ficavam em salas</p><p>seis agências distribuídas nas cidades de fechadas, para não sofrerem pressão dos</p><p>Getulina, Rancharia, Pompéia, Garça, clientes que fossem indesejáveis.</p><p>Tupã e Vera Cruz, o Bradesco — Banco O sucesso do banco e a confiança</p><p>Brasileiro de Descontos — iniciou as suas que o banqueiro adquiriu, pela coragem</p><p>atividades. em ajudar os negócios dos imigrantes e</p><p>Naquele tempo, banco era um em honrar os seus compromissos, o</p><p>ambiente restrito e serviam-se dele apenas permitiu transferir a sede do banco para</p><p>pessoas de posses. O banqueiro Amador a capital de São Paulo em janeiro de</p><p>Aguiar mudou esse costume. Nas 1946, sabendo que na expansão do</p><p>agências do Bradesco, eram atendidos o negócio, na Capital, já começaria com</p><p>lavrador, o pequeno comerciante, o clientes fiéis. São Paulo era o estado certo</p><p>charreteiro, os imigrantes japoneses, para os bancos que queriam crescer.</p><p>italianos e alemães assim como o prefeito Além da expansão agrícola e dos</p><p>ou o dono do cinema. Qualquer um que grandes negócios com café, o crescimento</p><p>quisesse guardar dinheiro ou pedi-lo industrial foi de 14% ao ano, no período</p><p>emprestado. No caso dos imigrantes, de 1933 a 1939 e, após uma pequena</p><p>devido às leis que restringiam as atuações desaceleração em 1940, voltou a se</p><p>dos estrangeiros no País, Amador Aguiar expandir a taxas ainda maiores.</p><p>se propôs a ajudá-los, e realmente o fez. Porém, o Rio de Janeiro, Capital</p><p>Em um negócio heterodoxo, através Federal, era a mais importante praça</p><p>do banco, se podia comprar, vender e financeira da época, e um banco que</p><p>receber trigo, remédios, combustível, quisesse crescer precisava ter uma</p><p>peças de reposição, maquinários, em presença na capital e um bom</p><p>suma, tudo o que fizesse uma empresa relacionamento com o Banco do Brasil —</p><p>funcionar, em qualquer uma das suas que, na prática, funcionava como o Banco</p><p>agências. Central, através da Carteira de</p><p>Aguiar percebeu que colocar o Redesconto. Desta maneira, logo que</p><p>gerente na “linha de frente” da agência surgiu a oportunidade, em 1948, Amador</p><p>facilitava o seu relacionamento com os Aguiar comprou o Banco Mobilizador de</p><p>clientes e o obrigava a tomar decisões Crédito S.A., na cidade do Rio de</p><p>rápidas e acompanhar de perto o negócio. Janeiro.</p><p>Em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o governo criou a Coordenação de Mobilização</p><p>Econômica, que adotou medidas de represália econômica contra empresas e cidadãos alemães, italianos e</p><p>japoneses. A principal dessas medidas foi a liquidação dos bancos cujas matrizes estivessem em países inimigos.</p><p>Os bancos alemães e italianos tinham forte presença no País. O sucesso desses bancos se devia ao fato de existirem</p><p>no Brasil grandes colônias de imigrantes e seus descendentes, provenientes dos países que constituíam o “Eixo”.</p><p>Foram liquidados alguns grandes bancos, como o Alemão Transatlântico, o Francês e Italiano, o Germânico da</p><p>América do Sul e outros que atendiam a suas “colônias”, assim como a importantes empresas do país. Esses</p><p>bancos eram muito fortes nas operações feitas no mercado interno e eram praticamente imbatíveis em câmbio.</p><p>O fechamento desses bancos deixou uma multidão de clientes desassistidos, abrindo espaço para que novos</p><p>empreendedores entrassem na atividade bancária.</p><p>Abrir um banco era fácil e rápido. Entre julho de 1944 e junho de 1945, por exemplo, foram fundados 327</p><p>bancos, muitos deles constituídos sem capital.</p><p>Sorriso em tempo de guerra.</p><p>Getúlio e Roosvelt, em pintura de</p><p>Raymound Neilson, retratando a</p><p>visita de 1943.</p><p>Museu da República</p><p>Cartaz do Departamento de</p><p>Imprensa e Propaganda</p><p>Acervo Gustavo Monteiro</p><p>Até hoje a figura de</p><p>Getúlio é polêmica.</p><p>Os sorrisos apresentados na</p><p>primeira ilustração mostram</p><p>apenas uma de suas muitas</p><p>faces, o cartaz da DIP é mais</p><p>sombrio.</p><p>117</p><p>Nasceu em 11 de fevereiro de igualdade de oportunidades e da</p><p>1904, em Ribeirão Preto, São Paulo, e realização pessoal e coletiva, a</p><p>passou a infância em Monte Alto e Fundação mantém atualmente 40</p><p>Sertãozinho, no interior paulista. Seus escolas, instaladas prioritariamente em</p><p>pais eram João Antônio de Aguiar e regiões de acentuadas carências</p><p>Silva e Maria Coelho de Aguiar e Silva. socioeconômicas, em todos os estados</p><p>Seu primeiro emprego foi o de brasileiros e no Distrito Federal. Em</p><p>tipógrafo, em Sertãozinho, aos 14 anos 2006, proporcionou a mais de 108 mil</p><p>de idade. Trabalhando nessa profissão, alunos ensino totalmente gratuito,</p><p>percorreu as cidades de Ribeirão Preto incluindo os cursos de educação de</p><p>e Bebedouro, sempre em São Paulo. jovens e adultos e educação profissional</p><p>Aos 21 anos, ingressou como aprendiz básica. Ao longo dos seus 50 anos, os</p><p>no Banco Noroeste do Estado de São seus cursos regulares e os de</p><p>Paulo S.A., em Bebedouro. De lá capacitação profissional já formaram</p><p>partiu para a unidade da empresa em mais de 662 mil alunos. A Fundação</p><p>Birigüi, onde permaneceu até 1943, concedeu a Amador Aguiar, o Título</p><p>passando por todos os escalões da Honorífico de Presidente Emérito.</p><p>carreira bancária, até alcançar um Amador Aguiar dedicou-se também</p><p>cargo na Diretoria. às atividades de agricultor e pecuarista,</p><p>Em 1944, ingressou como diretor e possuiu fazendas em diversos estados,</p><p>no Banco Brasileiro de Descontos S.A. como São Paulo, Minas Gerais, Paraná,</p><p>(antiga denominação do Banco Goiás e Pará. Ocupou também o cargo</p><p>Bradesco S.A.), instituição que sucedeu de presidente honorário da Associação</p><p>a Casa Bancária Almeida & Cia., de de Preservação da Vida Selvagem.</p><p>Marília, interior de São Paulo. Faleceu em 24 de janeiro de 1991.</p><p>Foi diretor-secretário, diretor- Amador Aguiar costumava dizer</p><p>gerente, diretor-superintendente e, em que “todo o meu sucesso pessoal eu</p><p>1963, assumiu a Presidência do banco atribuo à asma. Eu não dormia á noite</p><p>e das empresas da organização. e por isso lia tudo sobre as atividades</p><p>Exerceu o cargo de diretor-presidente bancárias. Assim superei muitos</p><p>até 1981 e de presidente do Conselho funcionários mais letrados do que eu”.</p><p>de Administração até 12 de fevereiro Apesar de um funcionário, Laudo</p><p>de 1990. Recebeu o Título Honorífico Natel, ter sido governador de São Paulo</p><p>de “Presidente Emérito da Organização e do seu relacionamento intenso com as</p><p>Bradesco”, em reconhecimento a tudo principais lideranças e políticos do País,</p><p>o que fez por ela e pela coletividade, Aguiar, pelo formidável conjunto do</p><p>com seus magníficos exemplos de seu trabalho, até hoje foi pouco</p><p>trabalho, talento e honradez, homenageado, pois sempre pautou sua</p><p>sintetizados no lema da casa: “Só o vida por repudiar demonstrações de</p><p>trabalho produz riquezas”. culto à personalidade. Mesmo assim, é</p><p>Criada sob sua inspiração, a nome de uma estação de ônibus em</p><p>Fundação Bradesco, pilar principal da Vila Yara (bairro de Osasco) e dá nome</p><p>ação social da organização, tem a a uma faculdade e a uma maternidade</p><p>finalidade de promover, com elevado no mesmo município. Além disso, em</p><p>padrão, a formação educacional de maio de 2006, a Companhia Vale do</p><p>crianças, jovens e adultos. Consciente Rio Doce batizou uma usina</p><p>de que a educação está na origem da hidrelétrica com o seu nome.</p><p>“Só o trabalho produz riquezas”</p><p>AMADOR AGUIAR</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XII</p><p>118</p><p>119</p><p>Acervo Bradesco</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XII</p><p>O BANCO CENTRAL DE CRÉDITO – ORIGEM DO ITAÚ</p><p>1. O Banco Sul Americano</p><p>Luiz de Moraes Barros, advogado formado pela</p><p>Faculdade de Direito do Largo de São Francisco,</p><p>amigo de Alfredo Egydio, possuía uma administradora</p><p>de imóveis na década de 1930 e uma extensa rede de</p><p>amizades e relações em São Paulo. Era neto de um</p><p>senador e sobrinho-neto de Prudente de Moraes.</p><p>Além disso, a família participou da fundação do</p><p>Banco Comercial do Estado de São Paulo, da</p><p>Companhia Paulista de Seguros e da Usina de Açúcar</p><p>Esther. Com o fechamento do Francês e Italiano,</p><p>procurou a sua cúpula e negociou com eles a</p><p>estruturação de um novo banco.</p><p>O Sul Americano nasceu em 31 de julho de 1943,</p><p>tendo Luiz de Moraes Barros como Diretor</p><p>Superintendente e como principais acionistas o seu</p><p>irmão Herman, João Baptista Leopoldo Figueiredo e</p><p>diversos diretores e funcionários graduados da</p><p>Companhia Paulista de Estradas de Ferro.</p><p>Foi aproveitada parte da equipe e da experiência</p><p>do Francês e Italiano, e mudada a sede para o centro</p><p>de São Paulo. O banco foi o pioneiro na Avenida</p><p>Paulista.</p><p>No dia 2 de janeiro de 1945, foi inaugurado o Banco Central de Crédito S.A.</p><p>O fundador, Alfredo Egydio de Souza Aranha, já era um empresário e advogado de sucesso. Foi advogado do</p><p>Banco Francês e Italiano para a América do Sul, e era vice-presidente da Companhia Brasileira de Seguros, que,</p><p>até 1942, se denominava Companhia Seguradora Ítalo-Brasileira. Em 1943, havia vendido a sua Fiação</p><p>Tecelagem São Paulo, e estava capitalizado.</p><p>Além disso, já conhecia o mercado bancário, por ter sido presidente da Caixa Econômica de São Paulo, e</p><p>possuía uma excepcional rede de relações comerciais, políticas e pessoais. A família Souza Aranha havia se</p><p>estabelecido na região de Campinas no século XVIII e construindo relacionamentos de amizades e parentesco com</p><p>praticamente toda a elite paulista.</p><p>O novo banco iniciou as suas atividades na sede de um banco japonês que foi fechado durante a guerra, e os</p><p>principais funcionários eram oriundos do Francês e Italiano para a América do Sul. Seis meses após a fundação</p><p>do banco, foi aberta a primeira filial — naturalmente, em Campinas, por conta da origem dos Souza Aranha e por</p><p>ser a cidade a segunda mais rica do estado.</p><p>Dois meses depois, já era criada a terceira agência, em São João da Boavista. Não era uma cidade importante,</p><p>mas oferecia facilidades para Alfredo Egydio, uma vez que, sendo um dos maiores criadores de gado leiteiro na</p><p>região, conhecia todos os potenciais clientes. Nomeou como diretor-gerente o seu amigo José Osório de Oliveira</p><p>Azevedo, que pertencia a tradicional família local.</p><p>O banco foi crescendo e, em 1952, seu nome foi alterado para Federal de Crédito, pois o Governo já</p><p>considerava a criação de um Banco Central. De modo que, na década seguinte, iniciou um processo de fusões e</p><p>incorporações, até a consolidação do Itaú, cujo núcleo foi formado por mais três instituições. Para melhor entender</p><p>a origem do banco, vale conhecer uma breve história delas.</p><p>2. O Banco Itaú</p><p>3. O Banco da América</p><p>Em 1937, José Balbino Siqueira e Joaquim Mário</p><p>Meirelles criaram, em Itaú, distrito de Pratópolis,</p><p>Minas Gerais, a Companhia de Cimento Portland Itaú.</p><p>Após o fechamento dos bancos estrangeiros, em 1943,</p><p>perceberam que seria excelente terem um negócio no</p><p>ramo financeiro.</p><p>No dia 23 de dezembro do mesmo ano fizeram a</p><p>Assembléia de Constituição do banco, com um capital</p><p>de 50 milhões de cruzeiros, que era muito expressivo</p><p>para a época. Começaram a contratar pessoal e a</p><p>organizar a estrutura do banco no ano seguinte,</p><p>abrindo as portas no dia 7 de setembro de 1944, data</p><p>escolhida para coincidir com uma festa nacional.</p><p>O presidente era Balbino Siqueira, que contratou</p><p>Antonio Gonçalves, homem experiente na área</p><p>financeira, como Diretor-Superintendente.</p><p>Em 1944, Herbert Levy abriu, em São Paulo, o</p><p>Banco da América, que cresceu muito rápido,</p><p>evoluindo para o banco paulista com o maior número</p><p>de agências urbanas. Mais de 20 anos depois de sua</p><p>fundação, o América seria integrado ao grupo formado</p><p>pelo Federal de Crédito, Sul Americano e Itaú. Assim,</p><p>estaria consolidada a base do Banco Itaú. O processo</p><p>de construção desse império, no entanto, detalharemos</p><p>mais adiante.</p><p>120</p><p>Apólice da Cia. Ítalo-Brasileira de</p><p>Seguros Gerais, empresa que</p><p>caminhou paralela ao BCC e hoje</p><p>constitui a Itaú Seguros.</p><p>121</p><p>ALFREDO EGYDIO DE SOUZA ARANHA</p><p>Fundador do Banco Central de banco, que se consolidou apoiado na</p><p>Crédito, Alfredo Egydio de Souza Aranha reputação dos fundadores e na</p><p>sempre foi um homem decidido. Nascido competência da equipe, concentrou suas</p><p>em 1894, em uma família tradicional primeiras atividades na receita proveniente</p><p>paulista, fez parte do grupo de da produção de café.</p><p>empreendedores que, com seu Com a aquisição da Fazenda Paraíso,</p><p>pioneirismo, visão e trabalho árduo, localizada em São João da Boa Vista, em</p><p>fizeram com que o Brasil, essencialmente 1945, Alfredo Egydio passou a se</p><p>agrícola do início do século XX, se interessar pela pecuária de leite, tendo</p><p>tornasse uma potência econômica. O importado gado holandês puro-sangue e</p><p>banco que inaugurou em 2 de janeiro de empregado técnicas de reprodução e</p><p>1945, ao lado de Aloysio Ramalho</p><p>Boston, EUA, de</p><p>1999 a 2002. No mesmo</p><p>período, no FleetBoston,</p><p>acumulou as funções de</p><p>Presidente de Financial</p><p>Services Bank, de 1999 a</p><p>2000; do Wholesale Bank, de</p><p>2000 a 2001; e, também,</p><p>Sênior Executive do</p><p>FleetBoston em Nova Iorque,</p><p>Metropolitan Area, NY, EUA,</p><p>2001. Presidente da</p><p>Associação Brasileira das</p><p>Empresas de Leasing, em São</p><p>Paulo, de 1981 a 1984.</p><p>Presidente fundador da</p><p>Federação Latino-Americana</p><p>de Leasing. Diretor Executivo</p><p>da Febraban, em São Paulo,</p><p>de jan/1989 a set/1996.</p><p>Presidente da Associação</p><p>Brasileira de Bancos</p><p>Internacionais, em São Paulo,</p><p>de 1989 a 1996. Presidente</p><p>da Câmara Americana de</p><p>Comércio, em São Paulo, de</p><p>fev/1995 a fev/1997. Membro</p><p>do Conselho da Bolsa de</p><p>Mercadorias e Futuros, em São</p><p>Paulo, de mar/2001 a</p><p>dez/2002. Membro do</p><p>Conselho das Américas, em</p><p>Nova Iorque, EUA, de</p><p>fev/2002 a ago/2002. Diretor</p><p>da Câmara de Comércio</p><p>Brasil-EUA, em Nova Iorque,</p><p>EUA, de jan/2001 até hoje.</p><p>Funções acadêmicas exercidas:</p><p>Membro do Conselho</p><p>Consultivo do Reitor da</p><p>Faculdade de Administração</p><p>Pública da Universidade de</p><p>Harvard (Dean's Council at the</p><p>Kennedy School of</p><p>Government), em Cambridge,</p><p>EUA, de abr/1998 até hoje.</p><p>Membro do Conselho</p><p>Consultivo do Reitor da</p><p>Faculdade de Administração</p><p>do Massachusetts Institute of</p><p>Technology, MIT, (Dean's</p><p>Advisory Council of the Sloan</p><p>School of Management); em</p><p>Cambridge, EUA, de</p><p>mar/1999 até hoje. Membro</p><p>do Comitê Consultivo da</p><p>Iniciativa de Governança</p><p>Corporativa da Harvard</p><p>Business School, (Advisory</p><p>Committee of the Global</p><p>Corporate Governance</p><p>Iniciative of Harvard Business</p><p>School); em Boston, EUA, de</p><p>14</p><p>e expandir o crédito privado. Conjugada à</p><p>estabilidade econômica e à crescente</p><p>presença de investidores internacionais, a</p><p>expectativa é de uma maior participação</p><p>do crédito doméstico privado no PIB.</p><p>A inflação baixa e estável e taxas de juros</p><p>moderadas devem impulsionar a</p><p>demanda de crédito no País,</p><p>particularmente no segmento imobiliário e</p><p>no agronegócio. Além disso, devemos</p><p>experimentar significativo crescimento das</p><p>operações de varejo, investimento,</p><p>atividades de seguro, administração de</p><p>recursos e private banking.</p><p>Ao mesmo tempo, estamos</p><p>constatando um maior desenvolvimento</p><p>do mercado de capitais e de instrumentos</p><p>financeiros corporativos privados para o</p><p>financiamento de investimentos de longo</p><p>prazo, considerando especialmente as</p><p>crescentes indústrias de fundos de pensão</p><p>e seguros e o apetite de investidores</p><p>internacionais.</p><p>Em conseqüência, o mercado</p><p>secundário tende a se fortalecer, com</p><p>robustez e maior liquidez. Finalmente, o</p><p>processo de inclusão bancária em</p><p>andamento deve ser concretizado. Todo</p><p>esse processo de aumento do crédito</p><p>demandará atenção das instituições</p><p>financeiras no desenvolvimento de</p><p>sistemas prudentes e eficientes de gestão</p><p>de riscos, adequadamente monitorados e</p><p>administrados, relacionando as exigências</p><p>regulamentares com práticas internas de</p><p>gestão e aumento da transparência.</p><p>Um dos principais desafios brasileiros</p><p>é a manutenção de políticas</p><p>macroeconômicas sólidas e consistentes</p><p>voltadas para o controle da inflação e um</p><p>mercado flexível e eficiente de câmbio</p><p>flutuante, como elementos cruciais para</p><p>criar as bases do desenvolvimento</p><p>sustentável. Essas políticas são também</p><p>cruciais para evitar o surgimento de</p><p>desequilíbrios e amenizar o impacto de</p><p>choques na economia, de modo a manter</p><p>a estabilidade econômica e financeira.</p><p>Aliadas a essas políticas, a regulação</p><p>prudencial e a supervisão eficiente, com</p><p>foco no risco, previnem que eventos</p><p>isolados se convertam em crises</p><p>financeiras de grande magnitude que</p><p>afetem a condução da política monetária.</p><p>Os anos de estabilidade econômica e</p><p>financeira geraram um ambiente de alta</p><p>liquidez e, juntamente com a crescente</p><p>importância das transações internacionais,</p><p>elevaram o referencial em termos de</p><p>manutenção da estabilidade financeira</p><p>global para os formuladores de política e</p><p>supervisores em todo o mundo. A</p><p>eficiência no processo de intermediação</p><p>financeira demanda condições de</p><p>competitividade baseadas na adoção de</p><p>regras igualitárias de atuação, aumento da</p><p>segurança, disponibilidade de</p><p>instrumentos modernos de gestão do</p><p>risco, e redução de custos.</p><p>abr/1998 até hoje. Membro do</p><p>Conselho Consultivo da Escola</p><p>de Administração do Boston</p><p>College (Board of Advisors of</p><p>the Carroll School of</p><p>Management); em Chestnut</p><p>Hill, Massachusets, EUA, de</p><p>nov/2000 até hoje. Membro do</p><p>Conselho de Trustees do</p><p>Conservatório da Nova</p><p>Inglaterra, em Boston, EUA,</p><p>de jun/1998 a jan/2003.</p><p>Membro do Conselho</p><p>Consultivo do Centro para</p><p>Assuntos Latino-Americanos</p><p>da Universidade George</p><p>Washington, em Washington</p><p>DC, EUA, de nov/2000 a</p><p>jan/2003. Presidente do</p><p>Conselho da Associação Viva o</p><p>Centro. Presidente Fundador</p><p>do Conselho da Fundação</p><p>Travessia. Conselheiro da</p><p>Fundação Padre Anchieta.</p><p>Deputado Federal, por Goiás,</p><p>eleito em outubro de 2002.</p><p>Henrique Meirelles,</p><p>Presidente do Banco Central do Brasil</p><p>15</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>Antecedentes: uma breve história</p><p>dos bancos</p><p>OS PRIMEIROS BANQUEIROS</p><p>Discute-se até hoje as origens dos</p><p>bancos. A versão mais difundida é a de</p><p>que os bancos surgiram a partir da ação</p><p>dos ourives, detentores de estoques de</p><p>ouro e prata, mas esta idéia não passa</p><p>de uma supersimplificação da realidade</p><p>histórica. De fato, muitos ourives</p><p>ingleses, congregados em Londres,</p><p>tornaram-se banqueiros privados.</p><p>Outros “banqueiros” foram os coletores</p><p>de impostos que emprestavam os</p><p>fundos que recolhiam dos contribuintes,</p><p>antes de remetê-los ao Tesouro.</p><p>Entretanto, muito mais importantes</p><p>do que os ourives e os coletores de</p><p>impostos foram os grandes mercadores,</p><p>que, gradualmente, se especializaram</p><p>no lado financeiro dos seus negócios.</p><p>Em muitos casos, o mercador</p><p>arquitetava modos de fazer pagamentos</p><p>e de receber dinheiro de outros centros</p><p>comerciais e acabava recebendo</p><p>pedidos para fazer o mesmo para outros</p><p>mercadores. “O padrão geográfico da</p><p>atividade bancária sempre esteve ligado</p><p>ao comércio”(KINDLEBERGER, 1974).</p><p>O historiador francês Jacques Le</p><p>Goff (1991) apresenta mais detalhes. O</p><p>mercado financeiro, na Idade Média,</p><p>era dominado por três tipos de</p><p>financistas, em escala crescente de</p><p>importância: os lombardos, os agentes</p><p>de câmbio e os “cambistas”, sendo</p><p>estes os autênticos “mercadores-</p><p>banqueiros”.</p><p>Na época, esses banqueiros estavam</p><p>concentrados nas cidades de Veneza,</p><p>Florença, Milão e Gênova.</p><p>Os lombardos concediam</p><p>empréstimos de curto prazo, de valores</p><p>relativamente baixos, em que a dívida</p><p>era condicionada ao penhor. Seus</p><p>clientes “raramente são grandes</p><p>personagens” e são freqüentemente</p><p>“importunados em suas práticas, alvo</p><p>de hostilidade pública e privada”.</p><p>Os agentes de câmbio, além da</p><p>atividade de câmbio de moedas, eram</p><p>verdadeiros intermediários financeiros,</p><p>já que aceitavam depósitos e faziam</p><p>empréstimos. Seus clientes — e eles</p><p>mesmos — ocupam posição de destaque</p><p>na sociedade. A origem da expressão</p><p>banco tem sido atribuída aos agentes de</p><p>câmbio italianos, que trabalhavam em</p><p>lojas, chamadas “banchi”, situadas ao</p><p>ar livre de frente para a rua.</p><p>Acima dos banchi estavam os</p><p>cambistas, ou mercadores-banqueiros.</p><p>Sem abandonar suas atividades no</p><p>comércio atacadista internacional,</p><p>“acrescentam uma atividade financeira</p><p>múltipla: comércio de letras de câmbio,</p><p>aceitação de depósitos e operações de</p><p>crédito, participação em várias</p><p>'sociedades', a prática de seguro”(LE</p><p>GOFF, 1991).</p><p>Esses mercadores expandiram as</p><p>atividades bancárias para as principais</p><p>praças onde faziam negócios. Em</p><p>Londres, a rua onde se estabeleceram,</p><p>que passou a ser chamada de</p><p>“Lombard Street”, ainda hoje é a</p><p>principal rua da “City” londrina.</p><p>"Il Ritorno del Bucintoro al Molo il</p><p>Giorno dell’Ascensione”</p><p>(O Retorno do Bucintoro ao Molhe</p><p>no dia da Ascensão), 1732.</p><p>Óleo sobre tela de Canaletto</p><p>(1697-1768), pintor italiano</p><p>conhecido por retratar as paisagens</p><p>de Veneza. Coleção Real Palácio de</p><p>Windsor</p><p>18</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO</p><p>Foz, inseminação artificial. Em 1951, mandou</p><p>cresceu, incorporou outras instituições e se trazer da Suíça as instalações e</p><p>transformou no Banco Itaú como o equipamentos do Moinho São Paulo, que</p><p>conhecemos hoje. fundou em Campinas, para trabalhar com</p><p>Alfredo Egydio começou sua carreira técnicas modernas para a época, que</p><p>na vida pública. Filho de um senador, foi permitiam melhor aproveitamento dos</p><p>promotor na cidade paulista de São Roque grãos. No mesmo ano, Alfredo Egydio</p><p>e trabalhou como advogado na capital. constituiu a Duratex, também com</p><p>Ingressou na política em 1919, sendo tecnologia importada, dessa vez da Suécia.</p><p>eleito deputado na Assembléia Estadual de A empresa, que produzia chapas de</p><p>São Paulo por três legislaturas seguidas. madeira e foi pioneira na industrialização</p><p>Depois desse período, ocupou somente um de eucalipto, teve sua primeira fábrica</p><p>cargo no Governo, como diretor da Caixa inaugurada em Jundiaí, em 1954. Durante</p><p>Econômica Federal. a década de 50, participou do Conselho</p><p>A partir da Revolução de 30, Alfredo Consultivo e de Administração da Vemag</p><p>Egydio deu início a uma ampla atuação e da Willys, primeiras montadoras de</p><p>como empreendedor, com atividades em automóveis do País.</p><p>diversas áreas. Fundou o jornal “A A área social também interessava</p><p>Razão”, em que defendia seus ideais muito a esse homem culto e viajado. Já</p><p>políticos. Em 1935, juntamente com um nos anos 1940, havia apoiado o padre</p><p>grupo de empresários, adquiriu a Saboya de Medeiros na implantação da</p><p>Companhia Ítalo-Brasileira de Seguros Faculdade de Engenharia Industrial (FEI).</p><p>Gerais, da qual assumiu a Vice- Outro exemplo é a criação da instituição</p><p>Presidência. A empresa, que foi filantrópica “Nossa Casa”, que dirigiu em</p><p>nacionalizada pelo governo durante a parceria com a mulher, dona Umbelina.</p><p>Segunda Guerra Mundial, mudou o nome Alfredo Egydio de Souza Aranha morreu</p><p>para Companhia Seguradora Brasileira e em 31 de maio de 1961. Seu sobrinho,</p><p>permanece hoje como a Itaú Seguros. Olavo Setubal, deu continuidade à veia</p><p>O Banco Central de Crédito foi criado empreendedora da família, e hoje preside</p><p>com recursos que ele havia obtido com a o Conselho de Administração do Itaú</p><p>venda da Fiação e Tecelagem São Paulo, Holding. Sua neta, Milú Villela, é</p><p>adquirida no final dos anos 1920. O novo presidente do Instituto Itaú Cultural.</p><p>Pioneirismo, visão e trabalho</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XII</p><p>122</p><p>Acervo Memória Itaú</p><p>123</p><p>CRESCIMENTO DA REDE BANCÁRIA</p><p>No período correspondente ao da Em meio a essa profusão de bancos,</p><p>Segunda Guerra Mundial, registrou-se uma foram criados os dois bancos que mais</p><p>forte subida da taxa de inflação, para os tarde vieram a se tornar os dois maiores</p><p>padrões da época. No período 1941-45, a conglomerados financeiros do País.</p><p>taxa anual de crescimento do nível geral Em 1943, em Marília, cidade do</p><p>de preços não foi inferior a 10%. O interior de São Paulo, surgiu o Banco</p><p>crescimento da inflação, combinado com Brasileiro de Descontos (Bradesco). Em</p><p>as facilidades existentes para se abrir um 1945, foi fundado, em São Paulo, o</p><p>banco comercial — principalmente casas Banco Central de Crédito. Nas três</p><p>bancárias, cujas exigências de capital eram décadas seguintes, em razão de uma série</p><p>baixas — possibilitou a criação de centenas de fusões e aquisições, teve seu nome</p><p>de instituições. Estima-se que, entre 1939 modificado algumas vezes, assumindo a</p><p>e 1945, o número de bancos e casas denominação atual de Banco Itaú em</p><p>bancárias quase dobrou, passando de 277 1973.</p><p>para 509.</p><p>Tal crescimento, em tão curto espaço</p><p>de tempo, foi, em grande parte, artificial. Em 1944, nasceu, em Santa Rita do</p><p>Muitas dessas instituições foram criadas Sapucaí, interior de Minas Gerais, o Banco</p><p>com a finalidade de participar da Nacional. Sua origem está relacionada ao</p><p>especulação imobiliária verificada em grande banco mineiro da época, o</p><p>diversos centros urbanos naquele período. Lavoura, e à influência política de seus</p><p>Contavam também com o apoio de órgãos fundadores.</p><p>da administração indireta para se No ano de 1943, José de Magalhães</p><p>expandirem. Relatos da época dão conta Pinto era demitido da Diretoria do Banco</p><p>de que era possível abrir um banco sem da Lavoura: imposição governamental,</p><p>que o banqueiro possuísse previamente os porque havia assinado o Manifesto dos</p><p>recursos necessários para cumprir as Mineiros contra a ditadura de Vargas. Sem</p><p>exigências de capital mínimo. Tais recursos o emprego, cotizou-se junto a amigos para</p><p>eram muitas vezes obtidos por meio de compor o capital inicial do que seria o</p><p>empréstimo. Banco Nacional. Liderava os amigos o</p><p>Uma vez obtida a carta patente, o Coronel Francisco Moreira da Costa,</p><p>banqueiro buscava depósitos junto a criador da UDN mineira, irmão do ex-</p><p>institutos de previdência, caixas presidente Delfim Moreira (COSTA, 2002).</p><p>econômicas e outras autarquias, Futuro governador de Minas em</p><p>oferecendo juros compensadores. (1960), Magalhães Pinto conduziu o banco</p><p>com êxito, aproveitando-se de sua força</p><p>política. Depois da morte do seu sócio,</p><p>No período, vigorava a Lei da Usura, levou a sede do banco para o Rio de</p><p>instituída em 1933, que limitava a taxa de Janeiro e mudou o nome para Banco</p><p>juros a no máximo 12% ao ano, o que Nacional S.A., que chegou a ser o</p><p>estimulava esses institutos a buscarem segundo maior banco privado brasileiro,</p><p>melhor remuneração. Os depósitos eram, entre 1957 a 1964. Anos mais tarde,</p><p>então, aplicados principalmente em estando o banco em situação bastante</p><p>operações imobiliárias . difícil, foi incorporado pelo Unibanco.</p><p>ORIGEM DO BANCO NACIONAL</p><p>• LEI DA USURA</p><p>(PACHECO, 1973)</p><p>José de Magalhães Pinto,</p><p>nasceu em Santo Antônio do</p><p>Norte, MG, em 28 de junho de</p><p>1909. Morreu no Rio de</p><p>Janeiro, em 6 de março de</p><p>1996.</p><p>Começou sua vida profissional</p><p>aos 16 anos no Banco</p><p>Hipotecário de Minas. Aos 17</p><p>anos, era gerente da agência.</p><p>Em 1943, era diretor do</p><p>Banco da Lavoura, sendo</p><p>demitido por assinar o</p><p>“Manifesto dos Mineiros”</p><p>contra a ditadura de Vargas.</p><p>Em 1944, fundou o Banco</p><p>Nacional de Minas Gerais, foi</p><p>governador de Minas de 1961</p><p>a 1966, duas vezes deputado</p><p>federal e ministro das relações</p><p>exteriores, entre 1967 e 1969.</p><p>Ocupou outros cargos públicos</p><p>e beneficentes.</p><p>Ministerio das Relações Exteriores-Galeria dos Ministros</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XII</p><p>124</p><p>CAPÍTULO 13</p><p>A Sumoc e o setor bancário</p><p>no pós-guerra (1945 a 1953)</p><p>125</p><p>A CRIAÇÃO DA SUMOC E A POLÍTICA MONETÁRIA</p><p>Ao final da Segunda Guerra</p><p>Mundial, a economia brasileira</p><p>enfrentava um surto inflacionário, cujas</p><p>origens, segundo a maioria dos</p><p>economistas da época, era a excessiva</p><p>expansão do crédito. O Banco do</p><p>Brasil, através de suas carteiras,</p><p>concedia crédito com liberalidade,</p><p>apoiado pelo Tesouro Nacional.</p><p>Operavam ainda mais de 500 bancos e</p><p>casas bancárias, alguns deles</p><p>fomentando atividades especulativas,</p><p>particularmente em operações</p><p>imobiliárias .</p><p>Em 1930, o Governo Provisório</p><p>contratou o consultor inglês Oto Niemeyer</p><p>para estudar o nosso sistema bancário e</p><p>propor a alternativa para a criação de um</p><p>Banco Central</p><p>. O projeto foi feito e entregue</p><p>denominando a instituição de Banco de</p><p>Reservas do Brasil.</p><p>O projeto foi abandonado, mas</p><p>manteve a discussão da necessidade</p><p>de se criar no Brasil um banco central.</p><p>Posteriormente, em 1944, na</p><p>conferência internacional de Bretton</p><p>Woods, da qual o Brasil participou,</p><p>houve consenso sobre a conveniência</p><p>de os países possuírem uma autoridade</p><p>monetária independente, capaz de</p><p>controlar a emissão de moeda e</p><p>disciplinar as atividades. Otávio</p><p>Bulhões, que participou da conferência,</p><p>voltou convencido de que essa era uma</p><p>reforma imprescindível no sistema</p><p>financeiro brasileiro.</p><p>Entretanto, o estabelecimento de</p><p>um banco central no Brasil, nos moldes</p><p>clássicos, era considerado politicamente</p><p>inaceitável naquele momento.</p><p>Os setores produtivos vinham sendo</p><p>(PACHECO, 1973)</p><p>(CORAZZA, 2006; NEUHAUS,</p><p>1975)</p><p>financiados pelo Banco do Brasil, cujas</p><p>operações eram</p><p>integralmente bancadas</p><p>pelo Tesouro Nacional, que contavam</p><p>com o apoio da Carteira de Redesconto</p><p>(Cared) e da Caixa de Mobilização</p><p>Bancária (Camob), ambas administradas</p><p>pelo Banco do Brasil. A interrupção</p><p>abrupta desse esquema de financiamento</p><p>poderia causar a desestruturação da</p><p>atividade econômica, tanto agrícola</p><p>quanto industrial, e desestabilizar o</p><p>sistema bancário.</p><p>A criação da Superintendência da</p><p>Moeda e do Crédito (Sumoc), em</p><p>fevereiro de 1945, representou uma</p><p>solução de compromisso. A Sumoc era</p><p>encarada como uma etapa no caminho</p><p>da criação de um verdadeiro banco</p><p>central, em data não estipulada.</p><p>A Sumoc assumiu as atribuições da</p><p>Cared e da Camob e passou a receber</p><p>com exclusividade os depósitos dos</p><p>bancos. Exerceu funções atualmente</p><p>desempenhadas pelo Conselho</p><p>Monetário Nacional: ditar normas para</p><p>as atividades bancárias — podendo</p><p>inclusive intervir nos bancos —,</p><p>determinar as condições de acesso ao</p><p>redesconto quanto a volume e taxas a</p><p>serem cobradas, estabelecer depósitos</p><p>compulsórios, orientar a política de</p><p>câmbio, entre outras. A execução dos</p><p>serviços da Sumoc era contratada com</p><p>o Banco do Brasil.</p><p>Durante seus quase 20 anos de</p><p>existência, as ações da Sumoc não</p><p>representaram mudança significativa nos</p><p>resultados da política monetária. A</p><p>expansão dos meios de pagamentos, de</p><p>fato, auxiliava a política de crédito do</p><p>Governo. Diz o Art. 8º da Lei n. 7.293</p><p>que criou a Sumoc: “No fim de cada ano</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>Antiga sede do Ministério da</p><p>Fazenda, onde funcionaram as</p><p>Caixas de Conversão e Amortização</p><p>e a Superintendência da Moeda e</p><p>Crédito.</p><p>“Construído em 1890, este</p><p>prédio em estilo eclético</p><p>apresenta fachada de cantaria</p><p>trabalhada com estilos</p><p>geométricos e ornada com</p><p>estátuas de autoria de</p><p>Rodolpho Bernardelli. O</p><p>portão de bronze da entrada,</p><p>fabricado em Lisboa, abre-se</p><p>para o saguão do primeiro</p><p>andar, onde uma delicada</p><p>escadaria dá acesso ao</p><p>segundo pavimento. O seu</p><p>interior, luxuosamente</p><p>decorado, ostenta móveis de</p><p>madeira de lei, belíssimos</p><p>vitrais, medalhões retratando</p><p>figuras ilustres da época, e três</p><p>grandes painéis pintados por</p><p>Antonio Parreiras: ‘A</p><p>Inconfidência’, ‘A chegada’ e</p><p>‘A partida’.</p><p>Do livro: “Palácios e Fóruns</p><p>do Judiciário do Rio de</p><p>Janeiro”</p><p>Desembargador Antônio Izaias</p><p>Antônio Izaias</p><p>126</p><p>financeiro, se as rendas auferidas pela</p><p>Superintendência da Moeda e do crédito</p><p>não derem para cobrir os encargos</p><p>decorrentes da execução do contrato [com</p><p>o Banco do Brasil] (...), a diferença será</p><p>atendida e classificada, dentro do</p><p>respectivo exercício, à conta de crédito</p><p>especialmente aberta no Ministério da</p><p>Fazenda para tal fim”. Isto significava que</p><p>o esquema de financiamento montado na</p><p>década de 1930 não seria alterado.</p><p>De fato, embora a responsabilidade</p><p>da emissão de moeda fosse oficialmente</p><p>atribuída ao Tesouro Nacional, a “conta</p><p>de crédito especialmente aberta” mantida</p><p>pela Sumoc dava ao Banco do Brasil o</p><p>poder de emissão através das operações</p><p>da Cared e, em menor escala, da Camob.</p><p>Em tese, o governo buscava financiar</p><p>seus déficits de maneira não-</p><p>inflacionária, emitindo títulos que podiam</p><p>ser descontados pelos bancos na Cared.</p><p>Assim, os recursos obtidos pela venda</p><p>dos títulos retornavam à circulação</p><p>através de operações bancárias.</p><p>Considerando-se o período 1945-</p><p>1964 como um todo, a política</p><p>monetária adotada pela Sumoc</p><p>acomodou-se às necessidades do setor</p><p>público e aos interesses de setores</p><p>econômicos privados beneficiados com</p><p>a política de crédito direcionado.</p><p>As discussões em torno das políticas concluiu que a chave para o</p><p>de desenvolvimento se estendiam desde crescimento estava no investimento em</p><p>a década de 1930, mas foi em 1952, infra-estrutura, especificamente nos</p><p>durante o segundo governo de Getúlio setores de transporte e de energia</p><p>Vargas, que uma medida mais concreta elétrica.</p><p>foi adotada: a criação do Banco O BNDE nasceu sob esta orientação</p><p>Nacional do Desenvolvimento e investiu no reaparelhamento de</p><p>Econômico (BNDE). portos e ferrovias, no aumento da</p><p>Com o órgão, a economia registrou capacidade de armazenamento e na</p><p>índices de crescimento historicamente ampliação do potencial elétrico do País.</p><p>elevados, apesar de a inflação Tornou-se o maior fomentador de</p><p>apresentar tendência de alta ao longo grandes projetos em nível nacional.</p><p>dos anos 1950, processo que se Em 1971, o órgão deixou de ser</p><p>acelerou nos primeiros anos da década uma autarquia e foi enquadrado como</p><p>seguinte. empresa pública federal, com</p><p>Antes da criação do banco, porém, personalidade jurídica de direito</p><p>estudos sobre como desenvolver a privado, vinculado ao Ministério do</p><p>economia brasileira foram feitos pela Desenvolvimento, Indústria e Comércio</p><p>chamada Comissão Mista Brasil-Estados Exterior.</p><p>Unidos. Organizada em 1950, era Nos anos 1980, a letra “S” foi</p><p>integrada por técnicos brasileiros e adicionada à sigla BNDE, e o órgão</p><p>norte-americanos, e tinha como objetivo passou a ter o nome Banco Nacional de</p><p>analisar projetos a serem financiados. Desenvolvimento Econômico e Social,</p><p>Em seu relatório final, a Comissão BNDES.</p><p>A CRIAÇÃO DO BNDE</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>127</p><p>A ATUAÇÃO DA SUMOC COMO ÓRGÃO SUPERVISOR</p><p>A atuação da Sumoc teve reflexos</p><p>práticos mais contundentes na área bancária</p><p>que na política monetária. A supervisão</p><p>bancária foi aprimorada e a fiscalização das</p><p>instituições financeiras mais intensa.</p><p>Havia preocupação em solucionar os</p><p>problemas herdados com a súbita elevação</p><p>do número de bancos e casas bancárias</p><p>ocorrida na primeira metade da década de</p><p>1940. Muitas dessas instituições eram frágeis,</p><p>mal administradas e algumas existiam apenas</p><p>com propósitos especulativos.</p><p>A cada momento em que a política</p><p>monetária era um pouco mais apertada,</p><p>surgia a ameaça de crise bancária</p><p>generalizada. Tal ameaça chegou algumas</p><p>vezes perto de se concretizar, e, nessas</p><p>ocasiões, a Sumoc teve de agir com</p><p>cautela, cumprindo o papel de emprestador</p><p>de última instância, através das operações</p><p>da Camob. Um motivo de preocupação</p><p>estava no fato de que era comum a prática</p><p>de redesconto entre os bancos. A quebra</p><p>de um deles, principalmente de maior</p><p>porte, poderia gerar efeitos em cadeia,</p><p>atingindo outros bancos.</p><p>Objetivando o saneamento do sistema</p><p>bancário, já a partir do início de suas</p><p>atividades, em 1945, a Sumoc restringiu</p><p>a concessão de novas cartas patentes e de</p><p>licenças para a abertura de novas</p><p>agências. Além disso, regulamentou o</p><p>processo de intervenção e liquidação de</p><p>bancos.</p><p>Os diretores dos bancos passaram a</p><p>responder solidariamente pelas obrigações</p><p>assumidas.</p><p>Em 1953, às instituições bancárias</p><p>foi vedado o acesso à concordata</p><p>preventiva. Os bancos passaram a ter de</p><p>fornecer dados estatísticos a respeito de</p><p>suas operações, permitindo melhor</p><p>acompanhamento da situação do setor.</p><p>A instituição de depósitos</p><p>compulsórios, ainda que em níveis</p><p>reduzidos, exigia dos bancos uma atitude</p><p>mais conservadora. A atuação da Sumoc</p><p>na supervisão e fiscalização dos bancos</p><p>era incipiente, quando comparada aos</p><p>padrões atuais, mas ainda assim</p><p>representava um avanço em relação à</p><p>situação anterior.</p><p>Produto Interno Bruto, 1945-1964</p><p>Preços Correntes</p><p>(1) (2) (3)</p><p>133,8</p><p>168,0</p><p>185,0</p><p>215,0</p><p>250,0</p><p>297,9</p><p>377,6</p><p>440,6</p><p>524,1</p><p>693,5</p><p>829,1</p><p>1133,0</p><p>1394,0</p><p>1679,0</p><p>2304,0</p><p>3206,0</p><p>4749,0</p><p>7778,0</p><p>14129,0</p><p>27453,0</p><p>0,487</p><p>0,612</p><p>0,674</p><p>0,783</p><p>0,911</p><p>1,085</p><p>1,375</p><p>1,605</p><p>1,909</p><p>2,526</p><p>3,020</p><p>4,13</p><p>5,08</p><p>6,12</p><p>8,39</p><p>11,68</p><p>17,30</p><p>28,33</p><p>51,46</p><p>100,00</p><p>+ 18,9</p><p>+ 25,7</p><p>+ 10,1</p><p>+ 16,2</p><p>+ 16,3</p><p>+ 19,1</p><p>+ 26,7</p><p>+ 16,7</p><p>+ 19,0</p><p>+ 32,3</p><p>+ 19,6</p><p>+ 36,6</p><p>+ 23,0</p><p>+ 20,4</p><p>+ 37,2</p><p>+ 39,1</p><p>+ 48,1</p><p>+ 63,8</p><p>+ 81,7</p><p>+ 94,3</p><p>Bilhões de</p><p>cruzeiros</p><p>1964=</p><p>100,0 relativa</p><p>Variação</p><p>Ano</p><p>1945</p><p>1946</p><p>1947</p><p>1948</p><p>1949</p><p>1950</p><p>1951</p><p>1952</p><p>1953</p><p>1954</p><p>1955</p><p>1956</p><p>1957</p><p>1958</p><p>1959</p><p>1960</p><p>1961</p><p>1962</p><p>1963</p><p>1964</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>128</p><p>CRISES BANCÁRIAS E REDUÇÃO DO NÚMERO DE BANCOS</p><p>A política de saneamento bancário bancos foram liquidados e a Camob se viu</p><p>da</p><p>Sumoc, implantada durante todo o novamente forçada a pedir ajuda ao</p><p>período, ajuda a explicar a redução do Tesouro para socorrer bancos em</p><p>número de bancos e casas bancárias dificuldade e evitar o pânico</p><p>verificada desde 1946. As instituições .</p><p>mais frágeis tiveram maiores Entre 1945 a 1952, a rede</p><p>dificuldades de sobreviver quando a bancária já tinha sido reduzida de 509</p><p>política monetária adotada foi mais para 404 matrizes de bancos e casas</p><p>conservadora, e muitas quebraram a bancárias. Apesar dessa redução e da</p><p>cada um desses episódios . ação fiscalizadora da Sumoc, muitas das</p><p>O primeiro deles ocorreu logo após o instituições ainda em operação</p><p>fim da guerra. Em 1946, a taxa de apresentavam elevado grau de</p><p>11redesconto foi elevada de 6% para 8% . fragilidade, principalmente as que se</p><p>Alguns bancos de pequeno porte que envolviam com especulação imobiliária.</p><p>dependiam do redesconto tiveram Em 1952, relatando o resultado de</p><p>dificuldades em atender as exigências do uma inspeção realizada pela Sumoc em</p><p>depósito compulsório ou tiveram seus 70 bancos, Walther Moreira Salles,</p><p>cheques devolvidos, por falta de fundos, então diretor-executivo do órgão,</p><p>pela Câmara de Compensação do Banco afirmou que, em relação a 37 deles,</p><p>do Brasil. A intervenção da Sumoc foi “foram desvirtuados seus objetivos</p><p>pronta, nomeando interventores. Naquele sociais e econômicos, já pela</p><p>ano e no seguinte vários bancos tiveram congelação dos recursos aplicados,</p><p>decretada sua liquidação extra-judicial. próprios, oficiais ou do público, em</p><p>Com o intuito de evitar que a crise se inversões imobiliárias ou em operações</p><p>alastrasse, a Camob socorreu diversos de longo prazo, não raro deferidas em</p><p>bancos em dificuldades. Para essas elevada percentagem a entidades</p><p>operações de socorro, o Ministério da ligadas à pessoa dos seus diretores, já,</p><p>Fazenda precisou emitir moeda, a pedido finalmente, pelo comprometimento</p><p>do Banco do Brasil. Em 1948, o mesmo daqueles recursos em empréstimos de</p><p>cenário se repetiu, com ameaça de corrida recuperação morosa ou mesmo</p><p>bancária. Novas intervenções ocorreram, duvidosa...”</p><p>(FIGUEIREDO</p><p>FILHO, 2005)</p><p>(COSTA, 1978)</p><p>(FIGUEIREDO FILHO, 2005).</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>A industrialização em São Paulo.</p><p>Arquivo Público do</p><p>Estado de São Paulo</p><p>129</p><p>A LEI DA USURA E O CRESCIMENTO DA INFLAÇÃO</p><p>Na segunda metade da década de origem, onde conheciam melhor os</p><p>1950 e nos primeiros anos da seguinte, clientes e as taxas cobradas eram mais</p><p>a vigência da Lei da Usura em um atraentes. O esquema dos mineiros</p><p>ambiente de crescente inflação funcionou bem até os bancos paulistas</p><p>implicava taxas de juros reais negativas. começarem a pedir “reciprocidades” ou</p><p>Os bancos conviveram com essa aumento dos depósitos por parte dos</p><p>situação cobrando juros como tomadores de empréstimos.</p><p>determinava a Lei, mais uma taxa de Como resultado, pouco a pouco, foi</p><p>abertura de crédito. A composição das diminuindo a participação relativa dos</p><p>duas taxas permitia que os bancos bancos mineiros. O único a perceber,</p><p>conseguissem juros compatíveis com as na época, que deveria dar crédito em</p><p>suas operações.</p><p>todas as praças em que estivesse</p><p>Além disso, passaram a pedir</p><p>atuando, adotando a postura dos</p><p>reciprocidade dos clientes em</p><p>bancos paulistas, foi o Banco Nacional, depósitos. Essas mudanças começam a</p><p>que, com essa postura, ganhava marcar o início do declínio dos grandes</p><p>mercado aceleradamente.bancos mineiros, e a ascensão dos</p><p>A Lei da Usura foi positiva para os paulistas.</p><p>bancos mais agressivos, por dois O Banco da Lavoura, o Comércio e</p><p>motivos. Primeiramente, porque as Indústria e, em menor escala, a Casa</p><p>taxas de juros cobradas nas operações Bancária Moreira Salles, além de outros</p><p>ativas eram teoricamente negativas, mineiros, eram os grandes bancos da</p><p>mas, em termos reais, era positiva pela época, e começavam a se expandir para</p><p>cobrança das taxas de abertura de outras praças, como o Rio de Janeiro e</p><p>São Paulo. crédito. Em segundo lugar, porque o</p><p>Entretanto, os bancos mineiros custo médio de captação caía à medida</p><p>usavam as agências fora de Minas que a inflação aumentava.</p><p>Gerais quase que exclusivamente para a Nesse sentido, quanto mais se</p><p>captação de negócios. As operações de elevava a inflação, maior era o</p><p>crédito eram feitas nos seus estados de “spread” bancário, garantindo, assim, a</p><p>CONFISCO CAMBIAL E INÍCIO DOS ANOS DAS CINZAS</p><p>oEm 1953, com a instrução n 70, a econômicas.</p><p>Superintendência da Moeda e do O resultado prático, além do fato de</p><p>Crédito (Sumoc) introduziu o confisco ter tirado dinheiro dos exportadores de</p><p>cambial, fixando um valor mais baixo café, foi uma multiplicação de</p><p>para o dólar recebido pelos operações fictícias e um aumento</p><p>exportadores e vendendo-o a um valor exponencial de aventureiros e pessoas</p><p>maior aos importadores. A diferença inescrupulosas no trato dos negócios,</p><p>ficava com o Governo, para financiar que se refletiu de forma muito intensa</p><p>projetos de diferentes áreas no ambiente político e econômico dos</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>130</p><p>O forte crescimento da economia cafeeira no Francisco Romão, que já eram cafeicultores em São</p><p>norte do Paraná permitiu que os bancos Bamerindus Paulo, a “abrirem fazendas” no norte do Paraná.</p><p>e Bradesco promovessem uma grande expansão. Resultado: Jeremia se tornou o maior cafeicultor do</p><p>Para compreender melhor essa relação, entretanto, é País e Romão, o número dois.</p><p>necessário entender a trajetória do café na região. O café do norte do Paraná tomava dois rumos</p><p>O projeto de colonização da Companhia de principais. Parte seguia para o sul, em direção ao</p><p>Terras do Norte do Paraná foi a mais bem sucedida Porto de Paranaguá, o que chamou a atenção do</p><p>experiência brasileira de expansão agrícola. Os Bamerindus para a oportunidade de crescimento</p><p>primeiros estudos foram feitos em 1924 pela missão com os depósitos dos cafeicultores. Outra parte</p><p>de banqueiros ingleses que vieram ao Brasil a fim de seguia por caminhão, atravessava a balsa o rio</p><p>renegociar a dívida brasileira. Na ocasião, Tiabagi e seguia até Rancharia, onde as Comissarias</p><p>perceberam que, ao sul de São Paulo, havia uma compravam e enviavam o café, por trem, até o porto</p><p>grande extensão de terras, de excepcional de Santos.</p><p>qualidade, que poderia se transformar em um O presidente do Bradesco, Amador Aguiar,</p><p>rentável empreendimento em “Real State”. mantinha uma agência em Rancharia e,</p><p>Compraram, inicialmente, 1.200.000 hectares na rapidamente, percebeu a quantidade de dinheiro</p><p>região e, em 28 de junho de 1935, a Estrada de que o café movimentava no norte do Paraná. Em</p><p>Ferro São Paulo-Paraná chegava a Londrina. Os lotes pouco tempo, abriu uma grande frente no estado,</p><p>eram relativamente pequenos e foram vendidos para com agências pioneiras, onde os gerentes tinham</p><p>brasileiros e imigrantes das mais diversas grande autonomia e eram incentivados a assumirem</p><p>nacionalidades. riscos. Isso foi um dos principais impulsos para o</p><p>O sucesso fez com que a Cia. de Terras estendesse crescimento inicial do Bradesco.</p><p>o projeto até Maringá, Cianorte e outras localidades. O Bamerindus também aproveitou esse</p><p>Mais ao norte, Ricardo Lunardelli comprou, da viúva crescimento e, por ter a sede no estado, foi</p><p>do embaixador Macedo Soares, outra imensa gleba de fortalecendo os laços com os clientes locais ao longo</p><p>terra, que retalhou e começou a vender, ao contrário dos anos. Com isso, ganhou forte posição de</p><p>da Cia. de Terras, em grandes propriedades. Daí, mercado e escala no estado, o que lhe permitiu</p><p>futuramente, surgiriam as cidades de Alvorada, iniciar uma bem sucedida expansão em nível</p><p>Centenário, Porecatu e outras. nacional. Hoje, é o HSBC que usufrui dessa rede de</p><p>Lunardelli motivou o irmão Jeremia e o amigo boas relações sedimentada pelo banco no Paraná.</p><p>A EXPANSÃO DOS BANCOS NO NORTE DO PARANÁ</p><p>Cafezais no norte do Paraná, circa 1958 / Francisco Agudo Romão</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIII</p><p>131</p><p>132</p><p>CAPÍTULO 14</p><p>Um mercado cinza: crise,</p><p>inovações</p><p>e muitas irregularidades de 1954 a 1963</p><p>133</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>Em 1954, Eugênio Gudin assumiu o Ministério da Fazenda e adotou medidas recessivas. O aperto do crédito</p><p>gerou novo ciclo de quebra de bancos. O anúncio da liquidação do Banco Nacional Interamericano, sediado na</p><p>capital paulista e que tinha 39 agências, provocou acentuada evasão de depósitos, principalmente de bancos de</p><p>menor porte. A crise se agravou no ano seguinte, quando o Banco do Distrito Federal foi liquidado. Chamada</p><p>novamente a intervir para evitar uma corrida bancária de maiores proporções, a Camob socorreu um grande</p><p>números de bancos e transferiu os depósitos de pequenos correntistas dos bancos liquidados para o Banco do</p><p>Brasil . No final de 1955, o número de instituições bancárias havia caído para 366.</p><p>Ressalte-se que não foram apenas as tentativas de impor políticas de estabilização que causaram quebra de</p><p>bancos. Além da fragilidade de muitos deles, as sucessivas crises e corridas bancárias induziam os correntistas</p><p>de pequenos bancos a transferirem depósitos para instituições de maior porte, principalmente Banco do Brasil.</p><p>(FIGUEIREDO FILHO, 2005)</p><p>UM MERCADO CINZA</p><p>Manchete do Jornal Última Hora.</p><p>Acervo: Antônio Carlos Pereira Pinto</p><p>O Suicídio de Getúlio tornou ainda</p><p>mais complicada a situação politica</p><p>que já era difícil antes da sua morte.</p><p>TURBULÊNCIA POLÍTICA E ECONÔMICA</p><p>Entre os anos de 1954 e 1963, possuía uma estrutura industrial</p><p>ocorreu uma profunda mudança nos complexa e variada.</p><p>valores morais e éticos no País. As</p><p>transformações já vinham ocorrendo</p><p>em função do crescimento desordenado</p><p>das cidades e da perda dos vínculos Ao assumir a Presidência, Juscelino</p><p>pessoais e informais entre os moradores Kubitschek propôs ao Congresso a</p><p>dos centros urbanos que estavam em construção de uma nova capital no</p><p>grande expansão, como São Paulo, planalto central.</p><p>Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto A negociação com o Legislativo foi</p><p>Alegre, Recife e Salvador, entre outros. demorada e muito cara ao País e à</p><p>imagem de JK. Iniciou-se um processo</p><p>de troca de favores entre o Executivo e</p><p>o Legislativo — que perdura até hoje</p><p>JK empolgava o País com uma —, e o projeto passou.</p><p>plataforma desenvolvimentista, que A Lei 2874 foi aprovada pelo</p><p>colocou em prática assim que assumiu Congresso e sancionada pelo presidente</p><p>o Governo, com o seu Plano de Metas. em 19 de setembro de 1956, criando</p><p>O presidente adotou medidas ousadas: Brasília.</p><p>abriu a economia brasileira ao capital San Tiago Dantas, um dos mais</p><p>estrangeiro e tornou isentos os impostos brilhantes juristas do País, preparou a</p><p>de importação máquinas e Lei da NovaCap, que permitia ao</p><p>equipamentos industriais, entre outros. Tesouro emitir o que fosse preciso para</p><p>O programa permitiu que se a construção da nova capital, sem</p><p>acelerasse a industrialização do País, autorizações do Congresso ou restrições</p><p>principalmente em São Paulo, que já orçamentárias. Com isto, as denúncias</p><p>O DESCONTROLE FINANCEIRO</p><p>E O INÍCIO DA INFLAÇÃO</p><p>A SITUAÇÃO SE AGRAVA NO</p><p>GOVERNO DE JUSCELINO</p><p>Gávea Golf</p><p>Circa 1928</p><p>Lucílio Albuquerque (1877-1939)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>GETÚLIO VARGAS</p><p>Getúlio, ao mesmo tempo que</p><p>cultivava uma imagem</p><p>popular, matinha hábitos</p><p>sofisticados. O único esporte</p><p>que realmente gostava e</p><p>praticava era o golfe.</p><p>134</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>de corrupção que acompanhavam eram recrutados para os bancos os jovens</p><p>Juscelino desde que era governador de que conhecessem um pouco de Português</p><p>Minas se multiplicaram, e a situação foi e as quatro operações básicas da</p><p>piorando ao longo das obras. Matemática. A maior parte dos</p><p>funcionários, inclusive os gerentes, tinha o</p><p>curso primário. Todo o trabalho, mesmo a</p><p>A capital foi construída de forma contabilização bancária, era ensinado</p><p>acelerada e a qualquer preço: em vidas dentro das agências.”</p><p>humanas e em recursos financeiros. O Nos bancos mineiros, que no conjunto</p><p>eram os maiores do País, o critério era resultado foi o início de um forte processo</p><p>contratar os funcionários que tivessem o inflacionário que durou quase cinqüenta</p><p>primário completo e, preferencialmente, anos para ser debelado.</p><p>fossem do interior de Minas, onde</p><p>acreditavam que o nível de ensino e os</p><p>padrões morais eram melhores do que nas A situação dos bancos, por um lado,</p><p>grandes cidades.era extremamente favorável. O crescimento</p><p>Em 1961, Olavo Setubal iniciou a da economia alavancava todos os ativos.</p><p>reestruturação do Banco Federal de Por outro lado, tinham o produto mais</p><p>Crédito (atual Itaú) e, na sua avaliação, desejado na época por empresários sérios</p><p>descobriu algo que para ele era que queriam alavancar seus negócios e</p><p>surpreendente: a maior parte dos gerentes por uma miríade de aventureiros que</p><p>não tinha sequer o curso primário</p><p>queriam enriquecer a qualquer custo.</p><p>completo. Eram pessoas que aprenderam</p><p>Nesse novo ambiente, os bancos</p><p>a profissão na prática, começando muitas</p><p>apresentavam uma grande fragilidade: o</p><p>vezes como contínuos e subindo</p><p>baixo nível educacional dos funcionários, gradualmente.</p><p>situação que era geral entre os bancos. A Quando Setubal estabeleceu que</p><p>condução dos negócios, a necessidade de ninguém seria admitido sem o curso</p><p>modernização, a concessão de crédito e ginasial completo, os seus gerentes ficaram</p><p>todos os aspectos da nova atividade estarrecidos: acreditavam que não seriam</p><p>bancária exigiam um pessoal com melhor capazes de contratar novos funcionários.</p><p>nível cultural. A situação era idêntica em todos os</p><p>O depoimento de Alcides Tápias demais bancos, exceto no Banco do Brasil.</p><p>mostra como era o processo de seleção no A nova conjuntura econômica e social,</p><p>Bradesco, que já era o maior banco de transição e mais complexa em relação</p><p>privado na época: ao período anterior, quebrou muitos</p><p>“Ingressei no Bradesco em 1957, com bancos e forçou os demais bancos a serem</p><p>15 anos de idade em uma agência urbana mais cautelosos nas concessões de créditos</p><p>na capital de São Paulo. Na época, o nível e muito seletivos nas fusões e compras de</p><p>educacional no País era muito baixo e outros bancos.</p><p>CINQÜENTA ANOS EM CINCO</p><p>OS BANCOS NO PERÍODO</p><p>Juscelino Kubitschek</p><p>(1902-1976)</p><p>Kubitschek foi presidente do</p><p>Brasil entre 1956 e 1961. Seu</p><p>governo foi marcado pela</p><p>construção de Brasília e pelo</p><p>Plano de Metas. Juscelino</p><p>nasceu em Minas Gerais e</p><p>formou-se em Medicina. Antes</p><p>de ser presidente, exerceu</p><p>outros cargos, tais como</p><p>prefeito de Belo Horizonte, e</p><p>governador de Minas. O Plano</p><p>de Metas era um projeto de</p><p>desenvolvimento econômico,</p><p>cujo lema era “50 anos em 5”,</p><p>e procurava aumentar a</p><p>industrialização brasileira, com</p><p>investimentos estatais e</p><p>privados, especialmente no</p><p>setor de automóveis. A</p><p>construção de Brasília, que</p><p>consumiu muitos recursos, e</p><p>as grandes emissões de moeda</p><p>aumentaram a inflação e o</p><p>déficit.</p><p>San Tiago Dantas</p><p>Criou as idéias de política</p><p>externa independente, que</p><p>visavam a desarmamentos e</p><p>coexistência pacifica e</p><p>competitiva, defesa dos preços</p><p>dos produtos primários e</p><p>cooperação econômica</p><p>internacional para o progresso</p><p>dos países subdesenvolvidos.</p><p>Durante o Governo João</p><p>Goulart, foi ministro das</p><p>relações exteriores e reatou as</p><p>relações diplomáticas entre</p><p>Brasil e União Soviética. Em</p><p>1963, foi indicado pelo</p><p>presidente para a Fazenda,</p><p>onde teve uma postura de</p><p>incentivo à indústria.</p><p>Com o Golpe Militar, foi</p><p>deposto de seu cargo público,</p><p>e morreu poucos meses depois.</p><p>135</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>Outro destacado executivo que imóveis ou aplicavam em fundos da</p><p>começou a sua carreira na década de Caixa Econômica, que pagava juros</p><p>1950 é Ary Waddington. Ele tem um mínimos. Algumas aplicações ficavam</p><p>depoimento interessante, que caracteriza até 35 anos depositadas na Caixa sem</p><p>como era o mercado na época. que retirassem o principal.</p><p>No entender de Waddington, o Os investidores sabiam que, do</p><p>mercado financeiro do Encilhamento até dinheiro aplicado na Caixa Econômica, o</p><p>1964 foi composto de</p><p>“aventureiros, ganho era mínimo ou nulo, mas o</p><p>com pessoas mal preparadas para o que Governo Federal lhes dava a garantia de</p><p>faziam e muitas pessoas desonestas. poderem contar com o dinheiro. Os</p><p>A ética no mercado era mínima, e os casos de falcatruas e escândalos se</p><p>potenciais investidores, com medo dos multiplicavam, envolvendo grandes</p><p>banqueiros, compravam terrenos, agentes do Brasil e do Exterior”.</p><p>O DEPOIMENTO DE ARY WADDINGTON</p><p>A EXPANSÃO DAS NOTAS</p><p>PROMISSÓRIAS</p><p>AGRAVA-SE A SITUAÇÃO</p><p>das matrizes para honrar os</p><p>compromissos das suas subsidiárias</p><p>Os bancos eram pequenos e no Brasil.</p><p>fragmentados e o volume de dinheiro</p><p>emprestado era o que podiam contar</p><p>suas agências. Algumas empresas nacionais</p><p>Nesse período as grandes empresas começaram a fazer o mesmo. Porém, a</p><p>européias vieram para o Brasil e, partir de 1958, os problemas</p><p>dispunham de pouco capital de giro, pois começaram a surgir com as notas</p><p>as suas matrizes estavam em processo de promissórias. Quebravam empresas como</p><p>recuperação — no Pós-Guerra, em seus a Jugon, no mercado de café — e as</p><p>países de origem. Faltava dinheiro para “filipetas” — que financiavam o mercado</p><p>essas empresas, que não conseguiram de carros usados. Foram dois grandes</p><p>levantar no Brasil os fundos de que escândalos, entre outros, que abalaram o</p><p>precisavam junto ao mercado bancário. eixo Rio-São Paulo.</p><p>Começaram, então, a usar um A Mannesman era, na época, a maior</p><p>recurso que era limitado a pequenas emissora de notas promissórias. Era tão</p><p>empresas: a emissão de Notas grande a aceitação das suas notas, que</p><p>Promissórias, que eram avalizadas pelos existia um mercado secundário dos seus</p><p>seus Diretores. Com isso passaram a papéis — com cotação diária nos jornais.</p><p>levantar dinheiro com os investidores em Em 1963, os negócios da</p><p>geral, que eram, basicamente, pessoas Mannesman não iam bem e a empresa</p><p>físicas. não conseguia caixa para pagar o</p><p>A operação com Notas Promissórias, principal e os juros das notas.</p><p>de 1955 a 1958, tornou-se volumosa, A situação foi se agravando até o</p><p>pois empresas como a Mannesman, a grande estouro da Mannesman, em</p><p>Bausch & Lomb, Ericsson e outras, 1964. A empresa começou a atrasar</p><p>passavam grande credibilidade, pelo seu sistematicamente os pagamentos, até que</p><p>negócio, pela marca e pela garantia os bancos começaram a protestar as</p><p>subsidiária que, imaginava-se, haveria notas promissórias da siderúrgica.</p><p>Ary Waddington nasceu em</p><p>25/08/1932 no Rio de Janeiro.</p><p>Formou-se na Faculadade</p><p>Nacional de Economia, atual</p><p>UFRJ, e fez Pós-Graduação no</p><p>Conselho Nacional de Economia</p><p>e no New York Finance</p><p>Institute.</p><p>Em 1950 iniciou sua carreira no</p><p>Escritório Henrique Guedes de</p><p>Mello, Corretor de Fundos</p><p>Públicos.</p><p>Em 1957, criou a Famosa</p><p>Investimentos, com Guedes de</p><p>Melo, Pedro Leitão da Cunha e</p><p>seu irmão Helênio Waddington.</p><p>A empresa era especializada em</p><p>gestão de carteiras e</p><p>underwritting.</p><p>Em 1965, foi para o Grupo</p><p>Moreira Salles, como Diretor da</p><p>Credibras. Em 1970 foi</p><p>contratado como Diretor do</p><p>Banco Aymoré de Investimentos</p><p>ABN, onde ficou até atingir a</p><p>idade compulsória de</p><p>aposentadoria. Posteriormente foi</p><p>Vice-Presidente da Transbrasil e</p><p>Vasp, Senior Cousellor da</p><p>A.T.Kearney, da Value Partners</p><p>e de Global Visions Strategies,</p><p>foi Presidente da Anbid em</p><p>1980</p><p>Atualmente, é dono de um</p><p>Resort em Búzios, membro do</p><p>Conselho de diversas empresas</p><p>de capital aberto, do comitê de</p><p>autitoria da Ambev (SOX) e</p><p>consultor financeiro.</p><p>136</p><p>A FINASA E O MERCADO DE LETRAS DE CÂMBIO</p><p>No período de 1958-1959, a Finasa passaram a</p><p>experiência financeira mais bem ser distribuídas por</p><p>sucedida foi implementada pelo Dr. várias outras</p><p>Gastão Vidigal (filho), através da instituições</p><p>Finasa. financeiras, criando</p><p>O jovem banqueiro percebeu que o maior mercado</p><p>poderia contornar a “Lei da Usura”, de distribuição de</p><p>vendendo letras de câmbio com letras de câmbio da</p><p>descontos sobre o valor de face. época. A margem</p><p>Conseguindo, desta forma, encontrar a de comissão era</p><p>taxa de juros que era atraente para os boa para todos os</p><p>investidores. participantes.</p><p>As letras de câmbio eram emitidas A Finasa</p><p>por um prazo de até seis meses, que conseguiu, na</p><p>era imenso, pois os bancos, na época, época, que quase</p><p>concentravam as suas operações em todas as instituições</p><p>trinta dias, cobrando 1% de juros ao paulistas se</p><p>mês, mais 2% de “comissão”, que era transformassem em</p><p>liberada para a abertura de crédito. distribuidoras dos seus papéis, e por</p><p>A inovação da Finasa, que hoje, muito tempo era quase absoluta no</p><p>quase cinqüenta anos depois, é simples, mercado. Com o tempo, a Finasa foi</p><p>por ter sido incorporada ao mercado há perdendo mercado. O caráter</p><p>tanto tempo, era a seguinte: autoritário de Gastão Vidigal em</p><p>1. A letra de câmbio era emitida pela resolver os pequenos atritos que</p><p>empresa que precisava do empréstimo. sempre ocorrem na distribuição de</p><p>2. A financeira dava um “aceite” à qualquer produto foi afastando os</p><p>letra de câmbio, funcionando como parceiros, que passaram a distribuir os</p><p>avalista e devedor solidário, honrando a seus próprios produtos, ou por outros</p><p>operação, em caso de falta do devedor. com os quais mantinham melhor</p><p>3. Nessas condições, as letras da relação comercial.</p><p>A EXPANSÃO DAS LETRAS DE CÂMBIO</p><p>É interessante destacar que os início, mas permitiram que esses grupos</p><p>grandes bancos da época demoraram a tivessem grande expansão. Exceto a</p><p>criar as suas financeiras. As que Ipiranga, que foi liquidada pelo Banco</p><p>surgiram — Bozano, Ipiranga, Safra — Central, o Safra e o Bozano foram</p><p>eram de instituições muito pequenas no extremamente bem sucedidos.</p><p>Gastão Vidigal (1889-1950).</p><p>Foi advogado, deputado federal por</p><p>São Paulo, entre 1935 e 1946,</p><p>ministro da Fazenda e fundador do</p><p>Banco Mercantil de São Paulo S/A.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>137</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>ONDE OS BANCOS COMERCIAIS ESTAVAM GANHANDO DINHEIRO</p><p>Os negócios com notas promissórias • A maior dificuldade dos bancos era</p><p>e a distribuição das letras de câmbio, a administração, pois faltava gente</p><p>principalmente da Finasa, garantiam especializada e o nível educacional da</p><p>uma rentabilidade à parte. população era muito baixo.</p><p>A situação geral era a seguinte: • Em 1960/1961, começaram a surgir</p><p>• Total de depósitos à vista de quase as Sociedades de Crédito e</p><p>50% do PIB. O número de bancos era Financiamento e as Sociedades de</p><p>muito grande, mais de 500 bancos, em Investimento, que começaram a financiar</p><p>geral regionalizados. O único grande direto os consumidores da incipiente</p><p>banco era o Banco do Brasil, que indústria automobilística e de</p><p>respondia por quase 40% do mercado. A eletrodomésticos, como televisores e toca-</p><p>concorrência era muito grande em alguns discos.</p><p>lugares e quase nenhuma para bancos • As Financeiras colocavam letras de</p><p>que tinham nichos regionais. Exceto o câmbio e com essa captação era feito o</p><p>Banco do Brasil, não havia nenhuma financiamento de bens duráveis e</p><p>instituição bancária realmente nacional. semiduráveis.</p><p>OS BANCOS MINEIROS</p><p>Até 1960, os bancos ganhavam dinheiro quase que exclusivamente com intermediação financeira de curto</p><p>prazo, em geral trinta dias. Havia algumas poucas e pequenas operações de câmbio, e os empréstimos</p><p>agrícolas eram feitos quase que exclusivamente pelo Banco do Brasil, que também operava, com sucesso,</p><p>uma carteira industrial.</p><p>Os mineiros eram os principais Vale ressaltar que o Banco da Lavoura</p><p>bancos privados na época. Em 1947, de Minas Gerais foi o primeiro banco</p><p>por exemplo, o Banco da Lavoura havia privado brasileiro a desembarcar no</p><p>se consagrado o maior banco particular exterior: em 1958, abriu escritórios em</p><p>nacional em volume de depósitos. Bem Nova Iorque e Paris (COSTA, 2002).</p><p>definido no mercado mineiro e do Junto ao Lavoura, o Banco</p><p>sudeste, tinha iniciado um processo de Comércio e Indústria era outro banco</p><p>expansão pelo território nacional, de destaque. Os principais executivos</p><p>criando agências em Goiás, Bahia, Rio de ambas as instituições</p><p>tinham</p><p>Grande do Sul, Pernambuco, Paraná e excelente visão comercial, o que</p><p>Alagoas. Em 1950, já atingia Belém do proporcionava uma formidável</p><p>Pará e Macapá. Ao final de 1957, expansão. Porém, já começavam a</p><p>contava com 376 agências espalhadas demonstrar uma fragilidade que foi</p><p>por todo País (COSTA, 2002). explorada pelos seus concorrentes: as</p><p>A liderança no Brasil e na América agências de São Paulo e Rio de Janeiro</p><p>Latina foi mantida até 1964, eram usadas apenas para levantarem</p><p>excetuando os anos de 1951 e 1952. depósitos.</p><p>138</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>Como a direção desses bancos não processo de avanços mais agressivos.</p><p>conhecia o mercado do Rio de Janeiro Comprou a Brazilian Warrant e, com</p><p>e São Paulo, ou tinha medo de delegar ela, a fazenda Cambuhy — o maior</p><p>aos seus gerentes a decisão, a maior empreendimento agrícola diversificado</p><p>parte dos empréstimos era feita em em área contínua do Estado de São</p><p>Minas Gerais, onde os diretores desses Paulo desde os anos 20 —, a</p><p>bancos conheciam o “caráter” e a exportadora de café E. Johnston e</p><p>situação do negócio de cada um dos todas as demais empresas que faziam</p><p>tomadores dos financiamentos. parte do grupo (COSTA, 2002).</p><p>Esse princípio para a concessão do O número de agências cresceu</p><p>crédito era compreensível. Porém, na vertiginosamente, de modo que, em</p><p>medida em que, por exemplo, o Banco 1960, contabilizava 177 unidades,</p><p>Itaú, mesmo centralizando a decisão de sendo 88 em São Paulo. Em 1964, o</p><p>crédito, concedia-o em cada agência, e grupo teria já 191 agências.</p><p>o Bradesco delegava a concessão ao Mais uma grande fusão aconteceria</p><p>gerente, os bancos mineiros, com então: em 1967, o Banco Moreira</p><p>exceção do Nacional e do Moreira Salles incorporou o Banco Agrícola</p><p>Salles, continuaram a perder Mercantil, também conhecido como</p><p>participação fora de seu estado. Agrimer, um dos maiores bancos</p><p>Somente após a cisão no Banco da</p><p>nacionais, ainda que mais concentrado</p><p>Lavoura, em 1971, Aloysio de Faria</p><p>na região sul do País. Nascia, neste percebeu que o mercado bancário se</p><p>momento, a União de Bancos deslocava para São Paulo e que, se não</p><p>Brasileiros, nova denominação adotada atendesse aos seus clientes, em todas as</p><p>pelo Moreira Salles, com inspiração no modalidades de serviços, perderia, em</p><p>estrangeiro UBS, Union des Banques pouco tempo, ainda mais espaço para</p><p>Suisses.os bancos paulistas. Transferiu a sede</p><p>O UBB começou com 333 agências para São Paulo e mudou o nome para</p><p>— a maior rede do Brasil —, mais de Banco Real. Manteve-o como um banco</p><p>um milhão de correntistas e 8.570 de grande destaque até a data em que</p><p>funcionários. Estava presente em nove decidiu vendê-lo para o ABN-AMRO.</p><p>estados e 242 municípios. Em 1969, já Já o Banco Moreira Salles, desde a</p><p>figuraria como o segundo maior banco década de 1940 com forte presença em</p><p>privado brasileiro (COSTA, 2002).São Paulo, não teve problemas. Pelo</p><p>Em 1975, seria adotado o nome contrário, estava em ascensão. Seu</p><p>Unibanco para todas as empresas que sócio-fundador, Walther Moreira Salles,</p><p>compunham o grupo. Uma série de havia sido nomeado diretor da Sumoc</p><p>fusões, aquisições, incorporações e em 1952.</p><p>expansões ocorreriam, principalmente</p><p>na década de 90. Em 2006, o</p><p>Unibanco, gerido por Pedro Moreira</p><p>Salles, um dos filhos de Walther,</p><p>Como reflexo da política ocupava a quinta colocação no ranking</p><p>desenvolvimentista da década de 50, o de bancos privados nacionais por</p><p>Grupo Moreira Salles iniciou um ativo.(EFC, 2007)</p><p>UNIÃO DE BANCOS BRASILEIROS</p><p>(UBB), POSTERIORMENTE</p><p>UNIBANCO</p><p>139</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>AS AQUISIÇÕES DO BRADESCO DE 1961 A 1965</p><p>Em 1961, o Banco Bradesco havia se</p><p>fortalecido e apesar das turbulências</p><p>políticas, comprou dois outros bancos: o</p><p>banco Cícero Prado e o Banco Comercial</p><p>do Estado de Goiás. Amador Aguiar</p><p>começava a consolidar no Banco a idéia</p><p>de que, independente da situação política,</p><p>o banco deveria sempre avaliar o seu</p><p>negócio internamente, ter flexibilidade e</p><p>agilidade em se adaptar ao que acontecia</p><p>na economia brasileira, já que essa era</p><p>uma variável fora do controle do banco.</p><p>Essa direção foi fundamental em todo</p><p>o processo de expansão do Bradesco e</p><p>para o seu comportamento nas dezenas</p><p>de crises na economia brasileira, quando,</p><p>apesar do seu tamanho, sempre manteve</p><p>a agilidade.</p><p>O Bradesco foi aberto com o capital</p><p>de Cr$ 10 milhões. Embora fosse uma</p><p>grande quantia de dinheiro, era pouco</p><p>quando comparado com o capital dos</p><p>grandes bancos.</p><p>Amador Aguiar, percebeu que poderia</p><p>PULVERIZAÇÃO DO CAPITAL,</p><p>CAPITALIZAÇÃO DO BANCO E</p><p>RESPEITO AO ACIONISTA</p><p>MINORITÁRIO</p><p>aumentar o capital do banco vendendo</p><p>ações para correntistas e aplicadores em</p><p>renda fixa que procuravam uma</p><p>rentabilidade de 1% ao mês. Começou,</p><p>portanto a vender ações do banco para</p><p>esses clientes e com isso multiplicou a</p><p>base de acionistas e o capital do banco.</p><p>As vendas das ações eram feitas com</p><p>cuidado, para que não ocorresse a</p><p>concentração nas mãos de poucos</p><p>acionistas. Na época, quem ganhava muito</p><p>dinheiro e possuíam grandes somas para</p><p>investimentos eram os produtores e</p><p>comerciantes de café. Aguiar cuidava</p><p>pessoalmente de evitar que o "pessoal do</p><p>café" formasse uma grande posição</p><p>acionária no banco, pois tinha medo de</p><p>perder o controle acionário do banco, que</p><p>na época era garantido por pequena</p><p>margem.</p><p>Além disso, Amador Aguiar possuía</p><p>um grande respeito por esses acionistas</p><p>minoritários, que o ajudaram a</p><p>aumentar o capital do banco e pagava</p><p>dividendos que garantissem pelo menos</p><p>os 12% ao ano aos investidores, criando</p><p>uma filosofia de respeito ao acionista</p><p>minoritário que se mantém até hoje e</p><p>talvez seja uma das mais sólidas no país.</p><p>Até 1965 o Bradesco adquiriu cinco bancos:</p><p>1948</p><p>1954</p><p>1959</p><p>1965</p><p>1965</p><p>Banco Mobilizador de Crédito S.A</p><p>Banco Nacional Interamericano S.A. (BBI)</p><p>Banco Popular do Brasil S.A</p><p>Banco Brasileiro de Goiás S.A.</p><p>Banco Corrêa Ribeiro S.A.</p><p>As aquisições permitiram uma expansão saudável</p><p>para o Bradesco, principalmente na compra do</p><p>Interamericano que possuia a sua rede</p><p>de agências urbanas na cidade de São Paulo.</p><p>140</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>O BANCO HOLANDÊS UNIDO E A CRIAÇÃO DA AYMORÉ</p><p>INÍCIO DAS ATIVIDADES</p><p>NO BRASIL</p><p>O FUNDO DE INVESTIMENTO</p><p>DO BHU</p><p>O BHU ATÉ 1964</p><p>O BHU PÓS-1964</p><p>mercado, o BHU contratou Ary</p><p>Waddington, que possuía experiência</p><p>O ABN AMRO Bank é um dos mais em mercado de capitais e um excelente</p><p>antigos bancos estrangeiros no País, grupo de relacionamento, como é</p><p>tendo iniciado as suas atividades por aqui importante na atividade bancária.</p><p>em 1917, com o nome de Banco</p><p>Holandês da América do Sul.</p><p>Atualmente, o Brasil é o terceiro maior</p><p>mercado onde atua a organização, logo Em pouco tempo, o BHU se tornou</p><p>depois da Holanda e dos Estados Unidos. líder de mercado em IPO, disputando</p><p>com o Unibanco, empresa a empresa,</p><p>cada negócio.</p><p>O banco iniciou suas atividades em O resultado obtido pelo BHU foi</p><p>torno das empresas holandesas e alemãs memorável, pois o seu principal</p><p>que faziam negócios no Brasil. Por concorrente era muito forte na área de</p><p>afinidade, também atendia a pessoas mercado de capitais.</p><p>físicas que trabalhavam nessas empresas O Unibanco havia comprado, no início</p><p>e suas famílias. Entretanto, sempre foi, da década de 60, o Fundo Crescinco de</p><p>durante esse período, um banco Investimento, do grupo Rockfeller, que foi</p><p>especializado em atacado e câmbio. pioneiro na área de mercado de capitais</p><p>no Brasil, com grande estrutura e pessoal</p><p>experiente, como Roberto Teixeira da</p><p>Com a reforma bancária, a Direção Costa e Thomas Zinner.</p><p>do banco percebeu que o mercado de O BHU, por sua vez, contava com</p><p>capitais cresceria expressivamente, em Ary Waddington, seu jovem assistente</p><p>função dos benefícios fiscais que eram Kleber Moreira e uma equipe mínima,</p><p>concedidos para empresas e pessoas porém muito motivada, que aproveitava</p><p>físicas. rapidamente todas as oportunidades</p><p>Com o objetivo de desenvolver esse que surgiam nesse novo mercado.</p><p>DOS IPOS AO</p><p>FINANCIAMENTO DE TERMOS</p><p>Com o mercado de capitais crescendo todas as operações de termos eram</p><p>muito, devido a entrada de novos lastreadas com a compra de ações a vista.</p><p>investidores, o financiamento de termos, A operação era muito rentável e</p><p>tornou-se um excelente negócio para o segura, pois o BHU evitava a</p><p>BHU que se transformou no grande concentração do negócio, através de</p><p>financiador de termos na época. Como o uma política em que pulverizava o risco</p><p>banco sempre foi muito conservador, por papel e por corretora.</p><p>141</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>O financiamento de veículos</p><p>usados e o impulso nas vendas</p><p>da indústria automobilística</p><p>Automóveis novos na década</p><p>de 1960 eram muito caros, e</p><p>as suas vendas eram limitadas</p><p>pela falta de liquidez no</p><p>mercado de usados,</p><p>depreciando muito o preço do</p><p>veículo, que, em geral, era</p><p>vendido pelo potencial</p><p>comprador de um carro novo.</p><p>A entrada da Financeira</p><p>Aymoré no setor de veículos</p><p>usados revolucionou o</p><p>mercado. Os financiamentos</p><p>aumentaram a liquidez e o</p><p>valor dos veículos. Com isso,</p><p>as próprias montadoras</p><p>passaram a anunciar os carros,</p><p>entre outros atributos, como</p><p>uma “reserva de valor”. Ainda</p><p>hoje, o valor do veículo usado</p><p>é uma referência na hora da</p><p>troca.</p><p>A FINANCEIRA AYMORÉ</p><p>A principal atividade do banco operações realizadas no passado recente.</p><p>comercial continuava sendo as operações A proposta era entrar com força no</p><p>no atacado. Porém, animado com os mercado de carros usados, que, na época,</p><p>resultados na área de investimento e eram vendidos no Rio Janeiro, em São</p><p>percebendo a expansão que ocorria no Paulo e em outras cidades pelos chamados</p><p>financiamento de bens duráveis, o banco “picaretas” — termo que era utilizado para</p><p>começou a avaliar a compra de uma denominar pequenos negociantes, com</p><p>financeira. E a oportunidade surgiu com a cinco ou seis carros, em média, que se</p><p>Aymoré. reuniam em alguns pontos, na rua ou em</p><p>A financeira foi criada entre 1963 pela torno de praças, para comprarem e</p><p>antiga Biscoitos Aymoré, que era do venderem carros usados.</p><p>Moinho Inglês. Foi criada pelo moinho Atarian entrou firme no negócio. Foi</p><p>como um planejamento fiscal, que permitia um choque. Ninguém antes, no banco,</p><p>financiar os seus clientes pelo prazo de 60 poderia imaginar o BHU financiando</p><p>ou 90 dias sem usar o selo, obrigatório na carros usados no mercado de picaretas.</p><p>época. Após seis meses, Atarian mostrou</p><p>Os ingleses resolveram sair do Brasil. resultados fantásticos.</p><p>E, em 1969, o Banco Holandês comprou A principal característica da Aymoré</p><p>a financeira. O objetivo inicial era financiar passou a ser o foco em veículos usados. Só</p><p>carros “Zero Km”, geladeiras e eventualmente eram financiados carros</p><p>eletrodomésticos. Em pouco tempo, novos. A principal razão era a margem de</p><p>começaram a ter problemas: a lucro com o financiamento de usados ser</p><p>inadimplência era muito alta e a muito maior e, mesmo que a operação</p><p>recuperação, do crédito ou do bem, era fosse frustrada (o cliente não pagasse na</p><p>muito baixa. data), havia opções para os clientes.</p><p>Havia, em particular, muitos créditos Podiam pagar as multas — e em algumas</p><p>para a compra de geladeiras, cujo valor, épocas elas eram suficientes para cobrir</p><p>na época, era relativamente elevado. A uma folha de pagamento inteira da</p><p>recuperação do bem, quando não pago, Aymoré — ou, na pior das hipóteses, o ter</p><p>era impossível. o carro retomado. Atarian desenvolveu o</p><p>O BHU resolveu mudar a direção da mercado e passou o cargo ao seu</p><p>operação e contratou um jovem diretor, sucessor, Osório Santos, em um momento</p><p>que foi Arthur Roberto Atarian, para dar que, devido ao sucesso da Aymoré,</p><p>um novo rumo aos negócios. Atarian era começaram a entrar os concorrentes. Os</p><p>um paulista que conhecia muito bem o primeiros foram a Finasa e a Martinelli.</p><p>mercado de automóveis. Havia trabalhado Entretanto, Osório conseguiu ampliar</p><p>na Financeira da Ford, inclusive nos EUA. rapidamente a rede de distribuição da</p><p>Conhecia, portanto, como poucos, as financeira e criou um excelente sistema de</p><p>operações das financeiras e o mercado de atendimento aos clientes e rapidez na</p><p>automóveis. aprovação de crédito, que tornaram a</p><p>Em função da sua experiência, ele Aymoré a maior e mais rentável financeira</p><p>propôs um plano que deixou temerosa a do País. Até hoje, a financeira do grupo</p><p>direção do banco, que ainda estava está entre as três maiores e mais rentáveis</p><p>sofrendo com a inadimplência das do país.</p><p>142</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XIV</p><p>TECNOLOGIA BANCÁRIA E PROCESSO DECISÓRIO</p><p>Muito do sucesso dos dois maiores pessoal e o processo de "abrir a agência</p><p>bancos privados brasileiros de hoje se na manhã seguinte com a ficha do</p><p>deve a decisões acertadas tomadas no cliente atualizada "era melhor, mais</p><p>final da década de 50. rápido e impressionava o cliente com a</p><p>Olavo Setubal sistematizou modernidade do banco.</p><p>detalhadamente o Itaú e centralizou as Apesar do diferencial no processo</p><p>decisões, sobretudo as que envolviam decisório, os dois bancos foram muito</p><p>custo e a concessão de crédito. bem sucedidos ao terem a visão do</p><p>O Bradesco, por sua vez, optou pela trabalho nos bancos ser muito</p><p>descentralização. A filosofia de Amador burocratizado e exigir muitas pessoas</p><p>Aguiar era de que “quem quebra banco ou a mecanização. O Bradesco foi a</p><p>é diretor e não o gerente”. E a decisão primeira empresa privada a ter um</p><p>de crédito era realmente tomada pelo computador no Brasil.</p><p>gerente. Porém, mantinha os controles Em 1962, recebeu um IBM B</p><p>estreitos e para isso, saiu na frente na 1401, o primeiro equipamento no país</p><p>mecanização e só mais tarde os a operar com fita magnética - antes os</p><p>concorrentes se alertaram para essa computadores trabalhavam com cartões</p><p>vantagem. perfurados.</p><p>Na concepção de Amador Aguiar, O Itaú também elegeu a IBM como</p><p>era fundamental investir na sua parceira em tecnologia e a mantém</p><p>mecanização, pois se economizava em até hoje. IBM 1401 - (1962)</p><p>143</p><p>144</p><p>CAPÍTULO 15</p><p>As reformas de 1964-65 e a</p><p>formação de conglomerados financeiros</p><p>145</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>LINHAS GERAIS DAS REFORMAS FINANCEIRAS</p><p>A discussão de projetos sobre reforma financeira no Brasil recomeçou em 1947, com o projeto do ministro</p><p>12Correia e Castro, encarregado da Reforma Bancária pelo presidente Dutra . O governo entendia que o sistema</p><p>bancário, baseado em bancos pequenos e frágeis, não acompanhava as transformações estruturais de uma</p><p>economia que se industrializava.</p><p>A proposta inicial incluía a criação do Conselho Monetário e do Banco Central, além de instituições especializadas</p><p>— Banco Hipotecário, Banco Rural, um banco para exportação e um banco industrial. Seriam sociedades de</p><p>economia mista que incorporariam os institutos existentes de cada área, como o Instituto do Açúcar e do Álcool, o</p><p>Departamento Nacional do Café, etc.</p><p>O projeto não foi aprovado, mas o debate prosseguiu no Congresso, tendo os deputados Daniel Faraco, em 1954,</p><p>e Nogueira da Gama, em 1962, apresentado emendas. Havia divergências quanto à composição do Conselho</p><p>Monetário, sobre a necessidade de serem criadas as instituições especializadas e sobre o futuro papel do Banco</p><p>do Brasil, mas consenso quanto ao papel normativo do Conselho Monetário e executivo do Banco Central.</p><p>Mário Schardong-BDZH</p><p>Na foto aparecem três generais que</p><p>ocuparam a Presidência da</p><p>República: Castelo Branco de pé,</p><p>Costa e Silva no banco traseiro e</p><p>Ernesto Geisel no banco da frente,</p><p>em visita a Porto Alegre em 22 de</p><p>maio de 1964.</p><p>Denio Chagas Nogueira</p><p>presidente do Banco Central</p><p>de 12/04/1965 a 21/03/1967</p><p>O GOLPE DE 1964 E A CRIAÇÃO DO BANCO CENTRAL</p><p>O golpe militar, em 1964, com a estavam paralisadas em todo o País;</p><p>derrubada do governo João Goulart, - milhares de falcatruas proliferavam no</p><p>apressou o processo de modernização do mercado financeiro, envolvendo bancos,</p><p>sistema financeiro brasileiro. empresas e aventureiros em geral.</p><p>Em maio de 1964, Octávio Gouvêa de Nesse ambiente, Octávio Bulhões</p><p>Bulhões, então ministro da</p><p>Fazenda, reuniu os assessores mais próximos e</p><p>nomeou comissão extraparlamentar para concluiu que era condição imprescindível</p><p>elaborar o projeto que serviu de subsídio para o financiamento da dívida pública e</p><p>para novos debates no Congresso. O o crescimento econômico do País, que o</p><p>projeto foi enviado à sanção em 23 de mercado financeiro fosse reorganizado e</p><p>dezembro e promulgado como Lei 4.595 saneado. O primeiro passo seria a</p><p>no dia 31 de dezembro de 1964. reorganização do mercado e, em seguida,</p><p>Ary Waddington, que fez parte desta “pouco a pouco e de forma implacável</p><p>comissão, declara o seguinte: iriam ficando para trás os “esqueletos”</p><p>“O Dr. Bulhões, quando voltou do acordo dos incompetentes e dos desonestos”.</p><p>de Bretton Woods, já tinha claro o que Em linhas gerais, a Lei 4.595 criou o</p><p>deveria ser feito para modernizar o Banco Central do Brasil, que assumiu</p><p>sistema financeiro brasileiro. certas funções da Sumoc, incorporando a</p><p>Quando tomou posse como ministro, o Carteira de Redesconto, a Camob e a</p><p>mercado financeiro estava abalado por Carteira de Câmbio do Banco do Brasil.</p><p>escândalos, falcatruas e aventureiros. Ao novo Banco Central foram atribuídas</p><p>Os principais fatos eram os seguintes: as funções de emissor de moeda,</p><p>- a Mannesman havia deixado de pagar execução dos serviços de meio circulante,</p><p>as suas notas promissórias, lesando operações de redesconto, recebimento</p><p>milhares de investidores; dos depósitos compulsórios e voluntários</p><p>- centenas de incorporações imobiliárias dos bancos — exceto do Banco do Brasil,</p><p>146</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>Octávio Gouvêa de Bulhões</p><p>Ministro da Fazenda</p><p>em 15/04/1964 a 16/03/1967.</p><p>No plano superior Octávio Bulhões</p><p>com Teófilo de Azeredo Santos,</p><p>presidente da Febraban no plano</p><p>abaixo.</p><p>Octávio Gouvêa de Bulhões foi</p><p>ministro da fazenda em 1964,</p><p>formulou a estratégia de</p><p>apressar a concentração</p><p>bancária no Brasil, para que o</p><p>País, em 50 anos, tivesse três</p><p>grandes bancos capazes de</p><p>serem “players” internacionais.</p><p>Bulhões acreditava em que o</p><p>sistema fragmentado de bancos</p><p>regionais dos EUA - e</p><p>nacionais da Europa demoraria</p><p>de 40 a 50 anos para começar</p><p>a se concentrar.</p><p>Seus pensamentos sobre a</p><p>Teoria de Escala e a</p><p>necessidade da concentração</p><p>bancária no Brasil</p><p>influenciaram quase todos os</p><p>presidentes do Banco Central</p><p>desde a sua fundação.</p><p>Associação Comercial do Estado do Rio de Janeiro.</p><p>depositário das reservas internacionais,</p><p>entre outras.</p><p>O papel de formulador de política</p><p>monetária e de crédito em geral, antes</p><p>desempenhado pela SUMOC, foi</p><p>reservado ao Conselho Monetário Nacional</p><p>(CMN), então presidido pelo ministro da</p><p>Fazenda e integrado pelos presidentes do</p><p>Banco Central e do Banco do Brasil, além</p><p>de seis representantes do setor privado</p><p>13nomeados pelo Presidente da República .</p><p>Desde então, o CMN tem sido o órgão</p><p>responsável pelas decisões relativas à</p><p>política monetária e cambial, além de</p><p>normatizador de todo o sistema financeiro.</p><p>O Banco Central é o órgão executor, que</p><p>“cumpre e faz cumprir” as determinações</p><p>do CMN.</p><p>Uma das propostas que vinham sendo</p><p>discutidas antes da reforma era a</p><p>transformação do Banco do Brasil em</p><p>Banco Central, abandonando as</p><p>atividades de banco comercial. Embora a</p><p>orientação do Governo fosse de estimular</p><p>a iniciativa privada, entendeu-se que, pela</p><p>sua posição de destaque, tal alternativa</p><p>“seria inconveniente aos interesses</p><p>nacionais, pois privaria o Governo de um</p><p>organismo aparelhado para exercer</p><p>importante ação direta de suplementação</p><p>da rede bancária privada, na distribuição</p><p>seletiva de crédito às atividades</p><p>econômicas” .</p><p>Portanto, optou-se pela manutenção</p><p>de algumas das atribuições históricas</p><p>do Banco do Brasil, a maioria delas só</p><p>revogadas na década de 1980: agente</p><p>financeiro do Tesouro Nacional;</p><p>principal executor dos serviços</p><p>bancários de interesse do Governo</p><p>Federal, inclusive autarquias; executor</p><p>dos serviços de compensação de</p><p>cheques; arrecadador dos depósitos</p><p>voluntários das instituições financeiras;</p><p>executor do serviço da dívida pública</p><p>(ANDREZZO, 1999)</p><p>consolidada; e financiador do comércio</p><p>exterior.</p><p>Considerando que era necessário</p><p>estabelecer uma política de direcionamento</p><p>de crédito, e que os bancos comerciais não</p><p>teriam condições, pelo menos inicialmente,</p><p>de atender às exigências de uma economia</p><p>que, esperava-se, iria se desenvolver</p><p>rapidamente, a reforma dedicou espaço</p><p>também aos setores habitacional e</p><p>industrial, carentes de financiamento de</p><p>longo prazo.</p><p>Prevaleceu o princípio da</p><p>especialização financeira, nos moldes do</p><p>sistema financeiro então em vigor nos</p><p>Estados Unidos: foram criados diferentes</p><p>tipos de instituição financeira que teriam</p><p>funding específico e direcionariam recursos</p><p>exclusivamente a certas finalidades.</p><p>O sistema financeiro brasileiro passaria</p><p>então a ser formado por subsistemas</p><p>especializados.</p><p>147</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA</p><p>SISTEMA BANCÁRIO FRAGMENTADO</p><p>O propósito das reformas, que em condições de liderar o desejado</p><p>previam a segmentação do sistema projeto de desenvolvimento</p><p>financeiro, baseava-se, pelo menos . Em 1964, funcionavam 336</p><p>parcialmente, no fato de que o novo bancos, o que representava uma</p><p>Governo avaliava de maneira crítica o significativa redução do número de</p><p>desempenho até então dos bancos matrizes em comparação com os 509</p><p>comerciais. A estrutura do sistema bancos existentes no imediato pós-guerra,</p><p>bancário era extremamente mas a concentração não foi acompanhada</p><p>fragmentada. pelo surgimento de grandes bancos.</p><p>Havia número considerável de Com raras exceções, o que</p><p>bancos e muitos deles, criados por meio aconteceu foi o desaparecimento de</p><p>de processos espúrios, já vinham sendo instituições, com poucas incorporações</p><p>liquidados. Na visão oficial, não estariam e fusões ao longo do período.</p><p>(MINELLA,</p><p>1988)</p><p>Os dados mostram que o sistema maior parte detinham 64% do total de</p><p>bancário à época das reformas de depósitos à vista.</p><p>1964-65 continuava, portanto, As autoridades financeiras</p><p>extremamente fragmentado. A preocupavam-se particularmente com o</p><p>participação percentual dos cinco fato de, nos anos 1950 e início dos</p><p>maiores bancos no total de depósitos à anos 1960, os bancos terem se</p><p>vista captados pela rede bancária — expandido de maneira linear, por meio</p><p>excluindo-se do cálculo o Banco do de abertura de agências para aproveitar</p><p>Brasil — tinha crescido apenas de os ganhos com a inflação. A</p><p>20,7% em 1950 para 22,4% em expectativa, portanto, era que</p><p>1958, mas declinada para 20,9 em enfrentariam problemas com a queda</p><p>1967 . Apesar da queda dos índices inflacionários. Além disso,</p><p>do número de instituições, o sistema como a lucratividade dos bancos</p><p>bancário apresentava baixo grau de advinha em boa parte da inflação,</p><p>concentração, quando se compara, por poucos bancos enxergavam a</p><p>exemplo, com os dados relativos ao ano necessidade de reduzir seus custos e de</p><p>de 1979, quando os cinco bancos de se modernizar.</p><p>(MACARINI, 2007)</p><p>Cidade de Deus</p><p>Osasco, SP</p><p>Sede do Bradesco</p><p>A criação de um centro</p><p>administrativo, a baixo custo e</p><p>instalações espartanas, ao</p><p>mesmo tempo em que adotava</p><p>soluções inovadoras na área de</p><p>gestão e crédito, deu ao</p><p>Bradesco uma formidável</p><p>vantagem competitiva, que ele</p><p>soube aproveitar, mantendo</p><p>um investimento maciço, em</p><p>racionalização e mecanização</p><p>do trabalho e na</p><p>informatização, sendo o</p><p>primeiro banco no Pais a usar</p><p>um computador.</p><p>Essa estrutura permitiu ao</p><p>banco criar uma “linha</p><p>industrial”, que foi</p><p>imprescindível para o sucesso</p><p>do banco, nas suas aquisições</p><p>e no seu crescimento orgânico.</p><p>Acervo Bradesco</p><p>148</p><p>TEORIA DE ESCALA</p><p>Segundo o pensamento predominante a relação capital próprio/depósitos não</p><p>na época, os bancos poderiam se poderia ultrapassar de 1 para 10, quando</p><p>beneficiar de ganhos de escala: bancos de a média então prevalecente era de 1 para</p><p>maior porte poderiam obter ganhos 15. Tais normas podem ser entendidas</p><p>proporcionalmente maiores do que os como aperfeiçoamento</p><p>da regulação</p><p>bancos menores, graças à redução de prudencial, mas, indubitavelmente,</p><p>custos unitários. Uma das explicações contribuíam para induzir ao processo de</p><p>oficiais para a prática de elevadas taxas de concentração.</p><p>juros bancárias na época era a de que os Os bancos perceberam que, para</p><p>elevados custos dos bancos impediam a alavancar os negócios, ou mesmo para não</p><p>redução dos juros. Para o Governo, era sucumbir, precisariam crescer, e para isso</p><p>preciso reduzir os juros, por pelo menos a única alternativa era incorporar outros</p><p>duas razões: juros mais baixos bancos através de aquisições ou de fusões.</p><p>estimulariam o crescimento econômico — Um obstáculo foi retirado: a lei exigia</p><p>que então era prioridade — e porque o a reavaliação dos ativos imobilizados além</p><p>diagnóstico oficial era de que havia dos índices de correção monetária, a parte</p><p>inflação de custos, dos quais os juros que ultrapassasse a correção monetária</p><p>faziam parte. estava sujeita a taxação do Imposto de</p><p>A concentração bancária, com a Renda, o que onerava a fusão</p><p>concomitante formação de bancos de . Foi estabelecido incentivo fiscal</p><p>grande porte, tornou-se, portanto, política através do Decreto-Lei nº 1.182, de 16</p><p>explícita do governo em 1967, mas de julho de 1971, e criada a COFIE</p><p>algumas medidas adotadas antes (Comissão de Fusão e Incorporação de</p><p>apontavam nessa direção. A circular 18, Empresas), para apreciar processos de</p><p>de 7 de dezembro de 1965, limitava concentração de empresas e também de</p><p>autorizações para a abertura de novas bancos.</p><p>agências, para todo o ano de 1966, a</p><p>apenas duas por banco. Em 1970 e nos</p><p>anos seguintes, novas resoluções apertaram</p><p>ainda mais a possibilidade de crescimento</p><p>orgânico dos bancos, ao suspenderem a</p><p>autorização para a abertura de agências, a</p><p>não ser em casos excepcionais, como em</p><p>áreas ainda não providas de bancos —</p><p>chamadas de agências pioneiras.</p><p>Também em dezembro de 1966,</p><p>foram expedidas normas regulatórias que</p><p>tornavam mais difícil a vida dos pequenos</p><p>bancos: aumento de capital, redução dos</p><p>índices de imobilização e estabelecido que</p><p>(PÉCOLA,</p><p>1996)</p><p>Ruy Aguiar da Silva Leme</p><p>presidente do Banco Central</p><p>de 31/03/1967 a 12/02/1968</p><p>Ao lado do processo de fusões e</p><p>incorporações, o</p><p>desenvolvimento da área de</p><p>processamento de dados foi</p><p>outro fator decisivo para a</p><p>evolução do Itaú. Nos anos 70,</p><p>o banco dispunha de uma das</p><p>quatro maiores centrais de</p><p>processamento de dados</p><p>computação do País e da maior</p><p>rede particular de comunicação,</p><p>para contato entre as agências.</p><p>A importância do processamento</p><p>levou à construção de um</p><p>prédio de 60 mil metros</p><p>quadrados em São Paulo, o</p><p>Centro Técnico Operacional.</p><p>Centro Técnico Operacional</p><p>Banco Itaú, São Paulo-SP</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>149</p><p>EUDORO VILLELA</p><p>Eudoro Villela, o homem que</p><p>substituiu o fundador Alfredo</p><p>Egydio de Souza Aranha na</p><p>presidência do Banco Itaú</p><p>tinha múltiplos interesses.</p><p>Médico de formação, Eudoro</p><p>Libânio Villela dedicou-se ao</p><p>longo da vida a atividades</p><p>relacionadas com a pecuária,</p><p>industrialização de madeira,</p><p>moinho de trigo, ração animal,</p><p>louças, válvulas industriais e</p><p>reflorestamento.</p><p>Eudoro Villela nasceu na</p><p>cidade paulista de Vargem</p><p>Grande do Sul em 1908 e se</p><p>formou pela Universidade</p><p>Federal do Rio de Janeiro, no</p><p>início da década de 30. Como</p><p>médico, trabalhou no Instituto</p><p>Oswaldo Cruz, no Rio de</p><p>Janeiro, e foi bolsista da</p><p>Fundação Curie, na França,</p><p>onde publicou diversos</p><p>trabalhos científicos.</p><p>No segmento bancário, sua</p><p>experiência teve início em</p><p>1959, no Banco Federal de</p><p>Crédito. Dois anos depois,</p><p>tornou-se presidente do banco,</p><p>cargo que ocupou até 1975.</p><p>Ao completar 68 anos de</p><p>idade, passou a liderar o</p><p>Conselho de Administração do</p><p>Banco Itaú.</p><p>Com Maria de Lourdes de</p><p>Arruda Villela, teve os filhos</p><p>Milú Villela e Alfredo Egydio</p><p>Arruda Villela. Eudoro Villela</p><p>faleceu em 2001.</p><p>MERCADO DE CARTAS PATENTES</p><p>Como a concessão de cartas observou que “um grande número de</p><p>patentes havia sido interrompida ainda empresas pequenas está</p><p>pela Sumoc, era preciso comprá-las. desaparecendo, não porque elas sejam</p><p>Foi criado assim autêntico mercado de antieconômicas ou ineficientes. Elas</p><p>cartas patentes, cujo valor elevou-se estão desaparecendo porque as grandes</p><p>fortemente. Vender um banco passou a instituições pagaram por elas um preço,</p><p>ser um negócio atraente. Tão atraente, visando a posicionamentos futuros.</p><p>que chegou a gerar acirradas disputas Teriam, teoricamente, a possibilidade</p><p>entre os acionistas dos bancos que se de sobreviver, mas o preço é que as</p><p>candidatavam à venda. derrubou” (MACARINI, 2007).</p><p>Segundo Olavo Setubal, “houve Na segunda metade da década de</p><p>brigas familiares para vender, porque o 1960 e na primeira metade da década</p><p>preço era tão alto, que os membros não seguinte, as operações de aquisição</p><p>interessados na empresa queriam foram fundamentais para que ocorresse</p><p>realizar seu capital” (MACARINI, 2007). a desejada formação de grandes</p><p>A expansão dos bancos processou- bancos. Entre 1964 e 1976, as</p><p>se rapidamente através da incorporação absorções responderam por um terço</p><p>de outros bancos. Algumas fusões do crescimento dos bancos Bradesco e</p><p>ocorreram entre bancos que pertenciam Real, por cerca de metade nos casos</p><p>a um mesmo grupo controlador. A dos bancos Nacional, Bamerindus e</p><p>grande maioria dos bancos que deixou Unibanco, chegando a ser responsáveis</p><p>o mercado foi, de fato, absorvida por por mais de 90% da expansão do</p><p>outros. Olavo Setubal, do Itaú, Banco Itaú (MACARINI, 2007).</p><p>O Itaú, como o conhecemos hoje, outro para fazer uma fusão. E esta foi</p><p>deve o seu crescimento ao trabalho de a escolha, pois somaria ativos e</p><p>equipe que Olavo Setubal organizou a aumentaria o capital do novo banco.</p><p>partir de 1959 no Banco Federal de Até então, nenhuma fusão havia</p><p>Crédito, fundado por seu tio, Alfredo ocorrido entre os bancos. Pesquisando</p><p>Egydio e presidido por Eudoro Villela. os existentes, o Federal encontrou no</p><p>Em 1964, o Federal de Crédito já Itaú o parceiro certo. Um banco</p><p>tinha implantado um sistema idôneo, sério e sem passivos perigosos.</p><p>racionalizado de gestão e controles Nas negociações, manteve-se o</p><p>que era muito avançado para a época. atual presidente do Itaú, Jorge Oliva,</p><p>O banco, nos cinco anos em que bem como o nome, Itaú.</p><p>Setubal esteve à frente, pulou do 56ª A fusão mostrou que os resultados</p><p>posição para a 32ª entre os bancos foram bons para os acionistas das duas</p><p>oficiais (COSTA 2002). instituições.</p><p>A “teoria de escala” exigia que os Em setembro de 1964, o novo</p><p>bancos crescessem. Mas a expansão banco, Federal Itaú, passou a ter uma</p><p>era difícil, devido ao complexo rede de 135 agências em São Paulo,</p><p>processo de concessão de cartas Minas, Paraná, Mato Grosso,</p><p>patentes. Guanabara e Distrito Federal. Deixou,</p><p>As opções do Federal eram portanto, de ser um banco regional e</p><p>incorporar um outro banco, o que o começou a entrar na disputa por</p><p>deixaria descapitalizado, ou procurar escala de uma forma efetiva.</p><p>A EXPANSÃO DO BANCO ITAÚ</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>150</p><p>Enebe Produções Fotográficas S.C.151</p><p>OLAVO SETUBAL</p><p>Olavo Setubal é um industrial e com algum outro banco para nos</p><p>banqueiro brasileiro. Foi responsável pelo desenvolvermos’. Tinha que ser uma</p><p>crescimento e expansão do Banco Itaú, fusão, porque não tínhamos recursos para</p><p>do qual é um dos maiores acionistas e comprar um banco. O Federal de</p><p>presidente do conselho, além de Crédito, nessa época, tinha um capital de</p><p>presidente da holding do grupo, a Itaúsa. US$ 1 milhão. Hoje, uma quantia</p><p>Ao longo de sua carreira, também irrisória. E resolvemos, portanto, escolher</p><p>exerceu cargos políticos: foi prefeito da um banco da maneira mais racional</p><p>capital paulista e durante um curto possível, o que sempre caracterizou o</p><p>período, em 1985, comandou o meu comportamento”. E assim foi feita a</p><p>Ministério das Relações Exteriores, por fusão com um banco mineiro chamado</p><p>indicação de Tancredo Neves. Itaú, primeiro grande passo na</p><p>Antes de entrar para</p><p>a vida bancária, consolidação do Banco Itaú como o</p><p>Olavo Setubal já havia trabalhado na conhecemos hoje.</p><p>Duratex e dirigia com sucesso a indústria Em 1969, surgiu a oportunidade de</p><p>Deca. Em 1959, foi convidado a nova fusão. Durante as negociações,</p><p>participar da Diretoria do Banco Federal Olavo Setubal ouviu exposição de Luís</p><p>de Crédito, instituição que originou o Itaú. Carlos Ferreira Levy, então diretor do</p><p>O convite partiu do presidente do banco, Banco da América, três possíveis</p><p>Alfredo Egydio de Souza Aranha, seu tio, problemas para a concretização do</p><p>que sentia a necessidade de reestruturar a negócio: o nome, a situação acionária e a</p><p>instituição, preparando-a para os novos posição da Diretoria. Segundo relato do</p><p>tempos que se aproximavam. próprio Ferreira Levy, Setubal teria</p><p>Por quase dois anos, o novo diretor respondido: “Nome não tem importância;</p><p>analisou o banco de seu gabinete na a gente acerta. Diretoria não tem</p><p>agência central. Ele conta que sua conversa: junta a diretoria de vocês e com</p><p>primeira preocupação era conhecer a a nossa e não se fala mais nisso.</p><p>instituição: “Comecei vendo tudo que era Problema de ação também não tem,</p><p>feito no Banco. Desde o caixa, a porque vocês têm ações pulverizadas e</p><p>contabilidade e toda a atividade nós também não temos nenhum grande</p><p>administrativa. Depois de um ano acionista, de modo que esse problema</p><p>passando por todos os departamentos, eu não existe. E a fusão aconteceu: Banco</p><p>comecei a escrever as normas, que foram Itaú América”.</p><p>publicadas por circular”. Quando o banco completou 60 anos,</p><p>A respeito da estratégia que o banco em 2005, Olavo Setubal mandou uma</p><p>adotou para crescer, Setubal conta como mensagem aos funcionários: “Lembro-me,</p><p>um dia levou o assunto ao então com orgulho e satisfação, da história deste</p><p>presidente Eudoro Villela: ‘Estamos com banco que vi nascer, crescer e se</p><p>uma estrutura maior que a do banco. Não fortalecer. Convido todos a continuar</p><p>podemos manter essa estrutura. Temos de nesta caminhada e construir um futuro</p><p>tomar uma decisão: ou dividimos a que tenha a marca dos valores e</p><p>estrutura ou aumentamos o banco. Eu princípios que nos conduziram até aqui.</p><p>proponho que nós façamos uma fusão Um futuro de sucesso para todos nós”.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>152</p><p>João Musa</p><p>153</p><p>A FUSÃO DO FEDERAL ITAÚ COM</p><p>O SUL AMERICANO EM 1966</p><p>1969: FEDERAL ITAÚ SUL AMERICANO COM AMÉRICA</p><p>Em 1966, o Federal Itaú se fundiu imenso. Dessa forma, assim que deixou a</p><p>com o Sul Americano. O fundador do Presidência do Banco do Brasil, ele</p><p>Sul Americano foi o empresário Luiz de assumiu o novo Federal Itaú Sul</p><p>Moraes Barros, que, na época da fusão, Americano.</p><p>era o presidente do Banco do Brasil. O Sul Americano possuía 54 agências</p><p>O capital financeiro do Sul Americano e era um banco moderno, que já utilizava</p><p>era relativamente pequeno: apenas Cr$ um computador IBM. Isso facilitou o</p><p>2.652 milhões (U$ 1,2 milhões), processo de fusão, que resultou numa</p><p>enquanto o do Federal era Cr$ 12.375 nova instituição com 184 agências e uma</p><p>milhões (U$ 5,5 milhões). Entretanto, o posição mais destacada no mercado</p><p>capital político de Moraes Barros era nacional, ainda muito fragmentado.</p><p>Banco Federal de Crédito</p><p>Acervo Memória Itaú</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>Os bancos eram cada vez mais resistências no Banco da América.</p><p>pressionados a fazerem fusões e Então, mais uma vez o Federal</p><p>incorporações, sendo muitas delas mal seguiu a diplomacia de Moraes</p><p>sucedidas culminando com demissões Abreu. O presidente do Federal,</p><p>em massa dos que não se incorporavam João Nantes, cordialmente, cedeu a</p><p>aos conceitos dos novos dirigentes. Presidência do novo banco a Herbert</p><p>Nesse ambiente, no início de 1969, Levy. O nome da instituição, que</p><p>o Federal Itaú Sul Americano foi estava longo demais, foi reduzido</p><p>procurado por Luis Carlos Levy, filho para Itaú América.</p><p>de Herbert Levy, fundador do Banco O novo banco passou a ter um</p><p>da América, manifestando interesse em capital de 30 milhões de cruzeiros</p><p>uma fusão. novos (U$ 7,6 milhões) e uma rede</p><p>O Federal e a sua equipe, pelo jeito com 274 agências. Com a fusão, no</p><p>com que conduziram os processos fim de 1969, o Itaú ocupava o 7º</p><p>anteriores — honrando todos os seus lugar, entre os 130 maiores bancos</p><p>compromissos de fusão — ganharam oficiais e privados e depósitos, com</p><p>confiança e respeito. um total de 660,4 milhões de</p><p>Entretanto, havia algumas cruzeiros (US$ 153,2 milhões).</p><p>154</p><p>AS INCORPORAÇÕES DO ITAÚ EM 1970, 1973 E 1974</p><p>Em fevereiro de 1970, o Itaú que foi complicada, pois uma parte das</p><p>incorporou o Banco Aliança, que nasceu ações pertencia à Sociedade Financeira</p><p>da liquidação de bancos estrangeiros Portuguesa, uma empresa estatal.</p><p>durante a Segunda Guerra. Entretanto, Setubal e José Carlos</p><p>O Deutschbank fora vendido a um Moraes Abreu conseguiram comprar a</p><p>usineiro, mas manteve todas as empresas participação de José Adolpho, mantendo</p><p>alemãs como suas clientes. O banco a Sociedade Financeira Portuguesa como</p><p>possuía 35 agências, sendo 15 no acionista. Com a incorporação do Banco</p><p>nordeste. Foi uma incorporação de Português, o Itaú tornou-se o segundo</p><p>pequeno porte, mas ampliou a presença grupo privado por depósitos no país,</p><p>do Itaú na região, que era importante com mais de 2 bilhões de cruzeiros</p><p>em espectro nacional. (US$ 327 milhões).</p><p>Três anos depois o Itaú fez uma Assumiu, ainda, a liderança por</p><p>importante aquisição: o Banco Português número de agências entre os bancos</p><p>do Brasil. A instituição tinha como privados, com 468 agências, em relação</p><p>controlador o empresário José Adolpho às 456 do Bradesco. A compra do</p><p>da Silva Gordo, com 64% das ações Banco Português também proporcionou</p><p>através da Companhia Santista de ao Itaú criar um embrião em Portugal.</p><p>Participações. Também na ocasião da compra, o banco</p><p>O banco entrou em dificuldades e o passou a chamar-se simplesmente Itaú</p><p>ministro da Fazenda, Delfim Netto, (pedra preta em tupi-guarani), nome</p><p>pressionou-o para que arranjasse um escolhido tendo em vista sua força em</p><p>comprador. O Itaú entrou na negociação, termos de comunicação (COSTA, 2002).</p><p>Posição Banco Depósitos</p><p>Ranking dos maiores bancos comerciais brasileiros em 1970*</p><p>(por captação de depósitos à vista)</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>do Brasil</p><p>Est. de São Paulo</p><p>Bradesco</p><p>NCr$ 13 bilhões (US$ 2,95 bilhões)</p><p>NCr$ 1,4 bilhão (US$ 318 milhões)</p><p>NCr$ ão 1,2 bilh (US$ 272 milhões)</p><p>NCr$ 1 bilhão (US$ 227 milhões)</p><p>NCr$ 690,5 milhões (US$ 156 milhões)</p><p>NCr$ 681,5 milhões (US$ 154 milhões)</p><p>NCr$ 660,4 milhões (US$ 150 milhões)</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>Nordeste do Brasil</p><p>União de Bancos</p><p>Lavoura de Minas</p><p>Itaú América</p><p>José Carlos Moraes Abreu</p><p>Advogado, formado pela Faculdade</p><p>de Direito do Largo São Francisco,</p><p>da Universidade de São Paulo, em</p><p>1944. Iniciou sua vida profissional</p><p>como advogado de empresas, tendo</p><p>atuado para a Deca e a Duratex. No</p><p>Banco Itaú, deu início à sua carreira</p><p>como Diretor Jurídico em 1961. Em</p><p>1966, ocupou a Vice-presidência</p><p>Executiva. Em 1978, assumiu a</p><p>Diretoria Geral do Banco Itaú. Em</p><p>1985, passou a Diretor Presidente e</p><p>Diretor Geral do Banco Itaú, onde</p><p>permaneceu até 1990. Atualmente,</p><p>é diretor geral da Itaúsa e vice-</p><p>presidente do Conselho de</p><p>Administração do Banco Itaú</p><p>Holding Financeira.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>Nair Benedicto</p><p>155</p><p>Paulo Lira, presidente do Banco</p><p>Central de março de 1974 a março</p><p>de 1979.</p><p>A COMPRA DO BANCO UNIÃO COMERCIAL EM 1973</p><p>De acordo com Henri Penchas, essa Brasília, na sala de Paulo Lira, então</p><p>foi a compra com o maior impacto presidente do Banco Central,</p><p>sobre a organização Itaú como a negociando com José Luís Bulhões</p><p>conhecemos hoje. Pedreira, que representava os</p><p>O BUC pertencia ao grupo Soares controladores do BUC. Setubal define a</p><p>Sampaio, dono da Petroquímica União, compra como uma “decisão audaciosa,</p><p>em São Paulo. Em 1971, a família porque a dimensão da absorção pediu</p><p>comprou o Banco Irmãos Guimarães e, um esforço gigantesco”.</p><p>em seguida, o Brasul, o Comercial de O Itaú assumiu,</p><p>I</p><p>O MAIS CHARMOSO BANCO</p><p>Para os economistas, talvez o mais</p><p>charmoso banco do mundo seja o Banco</p><p>da Inglaterra, fundado em 1694.</p><p>Entender suas origens ajuda a</p><p>esclarecer os estreitos vínculos que</p><p>sempre existiram entre bancos e governos</p><p>em geral, bem como as origens do nosso</p><p>primeiro banco em particular.</p><p>De acordo com John Clapham, a</p><p>criação do Banco da Inglaterra pode ser</p><p>explicada de duas maneiras: como uma</p><p>obra do acaso ou como um evento que</p><p>ocorreria mais cedo ou mais tarde, ainda</p><p>que não exatamente da maneira como</p><p>ocorreu ( .</p><p>Pode-se dizer que foi uma obra do</p><p>acaso porque se, em 1694, a Inglaterra</p><p>não estivesse em guerra, dificilmente o</p><p>seu governo teria autorizado a criação de</p><p>uma instituição bancária com tantos</p><p>privilégios. Por outro lado, a necessidade</p><p>de se estabelecer na Inglaterra um banco</p><p>público, a exemplo dos que já</p><p>funcionavam em outras partes da Europa,</p><p>vinha sendo debatida desde meados do</p><p>século XVII.</p><p>Até o século XVII, havia, em países</p><p>como Holanda, Espanha e Itália, três</p><p>tipos de “banco”. Havia os “bancos para</p><p>segurança e conveniência”, que recebiam</p><p>depósitos em moeda do público —</p><p>inclusive grandes comerciantes —, sendo</p><p>os pagamentos feitos meramente por meio</p><p>da transferência escritural desses</p><p>depósitos. Eram bancos organizados, em</p><p>sua grande maioria, por prefeituras, sem</p><p>finalidade lucrativa, com o único objetivo</p><p>de facilitar a transferência de dinheiro.</p><p>Em tese, não concediam empréstimos. O</p><p>CLAPHAM, 1944)</p><p>mais famoso deles foi o Banco de</p><p>Amsterdã, fundado em 1609.</p><p>Outro tipo de banco era o que extraía</p><p>renda do Estado. Operavam como</p><p>associações de credores: faziam</p><p>empréstimos a governos e tratavam de</p><p>recolher a renda proveniente desses</p><p>empréstimos. Destacou-se, entre estes, o</p><p>Banco de Gênova, criado em 1407 por</p><p>autorização do doge daquela cidade-</p><p>estado.</p><p>Finalmente, um terceiro tipo de banco</p><p>combinava as funções exercidas por</p><p>bancos como os de Amsterdã e o de</p><p>Genova, acrescida de uma outra função</p><p>que viria a se tornar a mais importante: a</p><p>de emissão de notas bancárias, ou seja,</p><p>de papel-moeda. O Banco da Inglaterra</p><p>encaixava-se nessa classificação. Antes</p><p>dele, apenas o Banco da Suécia pode ser</p><p>considerado como um banco público</p><p>emissor de notas, o que fez apenas</p><p>durante três anos a partir de 1661.</p><p>Se a situação financeira do governo</p><p>inglês no final do século XVII não fosse</p><p>tão precária, talvez a idéia de criação de</p><p>um banco emissor não tivesse</p><p>Adrian Pingstone</p><p>Sede do Banco da Inglaterra em</p><p>Threadneedle Street,</p><p>Londres (2004)</p><p>O Banco da Inglaterra é</p><p>conhecido como o primeiro</p><p>banco central. Fundado em</p><p>1694 como uma sociedade</p><p>anônima privada, deteve o</p><p>monopólio de emissão de</p><p>moeda em Londres na época</p><p>da guerra contra a França e</p><p>atuou como aparato bancário</p><p>do governo inglês. Com isso,</p><p>passou a exercer duas das</p><p>funções clássicas de um Banco</p><p>Central. Anos depois, com a</p><p>proliferação de pequenos</p><p>bancos rurais, serviu como</p><p>financiador de suas garantias</p><p>e, em seguida, começou a</p><p>fazer liquidações de saldos</p><p>entre os depósitos mantidos</p><p>por outras instituições, criando</p><p>o modelo dos sistemas de</p><p>compensação bancária.</p><p>Tornou-se, assim, banco dos</p><p>bancos, outra função</p><p>fundamental de Banco Central.</p><p>Somente em 1946 o Banco da</p><p>Inglaterra assumiu</p><p>oficialmente o cargo de</p><p>instância máxima o sistema</p><p>financeiro inglês, ao ser</p><p>estatizado. Serviu de molde</p><p>para diversos bancos centrais</p><p>do mundo.</p><p>19</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO I</p><p>prosperado. Em 1672, altamente</p><p>endividado, o governo suspendera</p><p>temporariamente o pagamento dos juros</p><p>de seus títulos, que começavam então a</p><p>circular como moeda. O calote parcial</p><p>da dívida provocou, naturalmente, a</p><p>desconfiança quanto à sua capacidade de</p><p>honrar a dívida.</p><p>Dessa forma, o movimento na direção</p><p>de emissão de papel-moeda pelo Tesouro</p><p>inglês foi abortado.</p><p>Na década de 1690, as necessidades</p><p>de financiamento público elevaram-se</p><p>ainda mais, já que o país entrou em</p><p>guerra contra a França. A suspensão dos</p><p>pagamentos dos títulos da dívida tinha</p><p>levado à ruína os dois maiores bancos</p><p>privados londrinos, mas prevalecia um</p><p>forte sentimento de que abrir um banco</p><p>era um bom negócio.</p><p>Mais do que isso, havia uma espécie</p><p>de febre de negócios, de idéias sobre</p><p>como ganhar dinheiro abrindo empresas</p><p>“caçadoras de tesouros”, como se dizia.</p><p>Entre 1692 e 1695, mais de 150 dessas</p><p>empresas foram estabelecidas, a maioria</p><p>das quais teve vida breve. Uma das</p><p>empresas criadas naquele período, mas</p><p>que sobreviveu, foi o Banco da Inglaterra.</p><p>Quem propôs ao parlamento a sua</p><p>criação foi o escocês William Paterson. A</p><p>proposta consistia, basicamente, em</p><p>conceder um empréstimo de 1,2 milhão</p><p>de libras ao governo, em troca da</p><p>autorização para a incorporação, via</p><p>lançamento de ações, de um banco. O</p><p>lançamento foi um sucesso instantâneo:</p><p>em dez dias todo o capital havia sido</p><p>subscrito, tendo os acionistas entregue</p><p>25% do valor de suas ações em cash (o</p><p>“Sir Isaac Newton”, 1702</p><p>Óleo sobre tela de Godfrey Kneller</p><p>(1646-1723)</p><p>National Portrait Gallery - Londres</p><p>Newton foi um homem de</p><p>múltiplos talentos: filósofo, físico,</p><p>matemático e, entre outras</p><p>coisas, um financista que</p><p>revolucionou o sistema monetário</p><p>inglês. Em 1696, foi nomeado</p><p>Warden of the Mint (cargo que</p><p>hoje equivaleria a Secretário</p><p>Geral da Casa da Moeda) e, em</p><p>1699, foi promovido a Master of</p><p>the Mint, permanecendo no</p><p>cargo até sua morte, em 1727.</p><p>A Royal Mint, na época,</p><p>funcionava como o Tesouro do</p><p>Reino Unido e Newton, em</p><p>1717, mudou o padrão da libra</p><p>esterlina de prata para ouro.</p><p>Criou, na prática, o “Padrão</p><p>Ouro” e estabeleceu a libra</p><p>esterlina como referência, o que</p><p>durou até o acordo de Bretton</p><p>Woods, após a Segunda Guerra</p><p>Mundial.</p><p>Com o tempo, a parte</p><p>“financeira” da Mint se</p><p>transformou no HM Treasury e</p><p>suas funções ficaram</p><p>subordinadas ao Chancellor of</p><p>the Echequer (Ministro da</p><p>Economia e das Finanças na</p><p>Grã-Bretanha).</p><p>que, na época, queria dizer moedas de</p><p>ouro). Passadas duas semanas, o governo</p><p>já estava gastando parte das libras</p><p>emprestadas.</p><p>As trocas de favores entre o banco e</p><p>o governo permaneceram por gerações.</p><p>Em 1694, o Parlamento concedeu licença</p><p>para que o banco funcionasse por 11</p><p>anos, após os quais o parlamento poderia</p><p>exercer a opção de dissolvê-lo, desde que</p><p>o banco recebesse um aviso prévio de um</p><p>ano e seu dinheiro de volta. Entre 1694</p><p>e 1844, a licença para funcionar foi</p><p>renovada nove vezes e, quase sempre,</p><p>porque o Estado estava passando por</p><p>sérios apertos financeiros. Nesses</p><p>momentos, como na ocasião em que foi</p><p>criado, empréstimos foram trocados por</p><p>privilégios ( .</p><p>Nos anos seguintes, a coroa inglesa</p><p>continuou com problemas financeiros e o</p><p>banco continuou a aumentar seu capital e a</p><p>emprestá-lo ao governo. Em 1770, obteve o</p><p>monopólio da emissão de notas em Londres.</p><p>Até o final da década seguinte, suas notas</p><p>valiam tanto quanto ouro, podendo ser</p><p>resgatadas à vista pelo valor de face e, por</p><p>essa razão, raramente o eram.</p><p>Os bancos privados que atuavam na</p><p>capital do império britânico não mais podiam</p><p>conceder empréstimos emitindo notas, que</p><p>foram substituídas pelos depósitos.</p><p>Generalizou-se daí o uso de cheques e,</p><p>assim, desenvolveu-se o sistema bancário,</p><p>que passou, gradualmente, a ter no Banco</p><p>da Inglaterra seu emprestador de última</p><p>instância, ou, como se diz atualmente, seu</p><p>banco central, embora tenha se conservado</p><p>como banco privado até 1946.</p><p>BROZ, 2004)</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO I</p><p>20</p><p>A POLÍTICA DE CUNHAGEM</p><p>CAPÍTULO 2 O sistema monetário colonial</p><p>Entre 1435 e 1911, a unidade</p><p>de conta em Portugal e suas</p><p>colônias foi o real. Ao longo</p><p>de quase todo esse período, o</p><p>real também foi uma moeda</p><p>corrente. Em 1500, ano em que</p><p>Cabral descobriu o Brasil, não</p><p>circulavam em Portugal moedas de 1</p><p>real, de 10 reais, ou de qualquer outro</p><p>valor em reais; o real tão-somente</p><p>servia de padrão de medida dos preços</p><p>e era utilizado na grande maioria dos</p><p>contratos. Às moedas correntes, de</p><p>curso legal, eram atribuídos</p><p>assim, todo o</p><p>São Paulo, as financeiras Brascred, passivo do BUC e parte do ativo, pois</p><p>Investcred, e Univest, mais o bancos de não ficou com os créditos de liquidação</p><p>investimento Investbanco. duvidosa ou contratados anormalmente,</p><p>O processo de compra havia obtido deixados à responsabilidade do Banco</p><p>grande apoio político, pois a Central. Além disso, o Itaú ficou</p><p>organização foi montada para ser responsável pelo prejuízo do BUC e por</p><p>presidida por Roberto Campos, um sua dívida externa. Em troca, recebeu a</p><p>economista e funcionário de carreira do estrutura do BUC, com 250 agências,</p><p>Itamaraty que havia ocupado diversos enquanto as do Itaú somavam 468.</p><p>cargos públicos, mas sem nenhuma Finda a incorporação, o Itaú distanciou-</p><p>experiência como banqueiro privado. se de seus concorrentes, firmando-se na</p><p>Além disso, como ele coloca sem posição de segundo maior banco</p><p>rodeios no seu livro de memórias, privado brasileiro, atrás apenas do</p><p>“Lanterna na Popa”, levava uma vida Bradesco (COSTA, 2002).</p><p>que não condizia com o que se espera</p><p>de um banqueiro.</p><p>O BUC, no final de 1973, era o</p><p>sétimo banco comercial privado por</p><p>volume de depósitos; contudo, atingiu</p><p>esta posição pelo inchaço e pela</p><p>superposição de diversas instituições</p><p>financeiras, não conseguindo unidade</p><p>interna, operacional e em termos de</p><p>direção. Em seu passivo, carregava</p><p>uma dívida de US$ 50 milhões,</p><p>contratada junto a bancos estrangeiros,</p><p>para efetivar a compra de outros</p><p>Bancos (COSTA, 2002).</p><p>Mas Roberto Campos havia sido o</p><p>primeiro ministro do planejamento do</p><p>Governo Militar, e a sua imagem</p><p>precisava ser preservada. De modo que</p><p>Mário Henrique Simonsen convocou</p><p>Olavo Setubal e José Carlos Moraes</p><p>Abreu para que iniciassem as</p><p>negociações. Ficaram dois dias em</p><p>Galeria do Banco Central</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>Acervo Memória Itaú</p><p>Agência do Banco União Comercial</p><p>156</p><p>Amador Aguiar começava a Antonio Bornia, “o banco confiava no</p><p>consolidar no Bradesco a idéia de que, colono e liberava o crédito na base da</p><p>independente da situação política, o confiança, sem exigir cadastro ou coisa</p><p>banco deveria sempre avaliar o seu parecida.”</p><p>negócio internamente, ter flexibilidade O Bradesco avançava no mercado,</p><p>e agilidade em se adaptar ao que principalmente nas carteiras de</p><p>acontecia na economia brasileira, já desconto e cobranças, com uma política</p><p>que essa era uma variável fora do descentralizada e muito baseada nos</p><p>controle do banco. gerentes.</p><p>Essa direção foi fundamental em A filosofia de Amador Aguiar era de</p><p>todo o processo de expansão do banco que "— Quem quebra banco é diretor e</p><p>e para o seu comportamento nas não o gerente, logo, todas as</p><p>dezenas de crises na economia concessões de crédito devem ser</p><p>brasileira, quando, apesar do seu decididas por eles gerentes, que</p><p>tamanho, sempre manteve a agilidade. conhecem bem as fichas cadastrais e o</p><p>Além da compra de outros bancos, cliente. Nós só devemos referendar ou</p><p>o Bradesco teve uma fantástica alertar se tivermos alguma informação</p><p>expansão orgânica, direcionando novas que ele não tenha — mas a decisão</p><p>agências para os mercados em final é dele.” E assim o era.</p><p>expansão. Dessa forma, cresceu muito Os riscos do Bradesco eram</p><p>em São Paulo e no norte do Paraná, pulverizados. O Banco se focava em</p><p>onde foi o primeiro banco privado a pequenas e médias empresas, com</p><p>oferecer crédito agrícola na região. O Amador Aguiar combinando uma</p><p>critério que se usava para a concessão extraordinária visão de banqueiro com</p><p>de crédito era audacioso, mas seguia-se a de administrador, mecanizando,</p><p>a máxima de Amador Aguiar de confiar informatizando e, sobretudo,</p><p>no gerente. E deu certo. Segundo padronizando procedimentos.</p><p>AS AQUISIÇÕES DO BRADESCO</p><p>ASSOCIAÇÃO DO BRADESCO COM BANCOS</p><p>INTERNACIONAIS EM 1973</p><p>No início da década de 1970, os baratas, o Bradesco se associou ao</p><p>repasses de dinheiro externo, através The Sanwa Bank do Japão e a um</p><p>das operações 63 e da Lei nº 4131, conjunto de bancos europeus: a</p><p>estavam em expansão e a margem era Deutsch Bank (alemão), a Societé</p><p>atraente. Com o intuito de aumentar a Generale (da França), ao AMRO</p><p>capitalização do Bradesco e ter acesso (Holanda) e ao Creditanstalt, da</p><p>a linhas de internacionais mais Áustria.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XV</p><p>157</p><p>AS COMPRAS DO BRADESCO NO PERÍODO</p><p>DE 1965 A 1973</p><p>No curto período de 1965 a 1973, que o banco incorporado passasse a</p><p>o Bradesco aproveitou as vantagens operar exatamente de acordo com os</p><p>oferecidas pelo Banco Central e seus padrões.</p><p>acelerou o processo de compra de Havia “times” para cada uma das</p><p>outros bancos. operações ou fases da incorporação.</p><p>Adquiriu diretamente 15 bancos, Em 1973, por exemplo, o Bradesco</p><p>entre os quais, o Banco da Bahia, que comprou o Banco Mineiro do Oeste.</p><p>tinha comprado anteriormente outros Esse foi, também, um negócio que</p><p>quatro bancos. O Banco Central superou as expectativas do Bradesco,</p><p>aprovou e incentivou as aquisições, pois pois os ativos do banco eram bons e o</p><p>o Bradesco estava capitalizado com os Bradesco expandiu as suas operações</p><p>lucros obtidos e com o capital no mercado bancário de Minas. Na</p><p>pulverizado de novos acionistas. época da incorporação, um time entrou</p><p>O Bradesco, na época, já estava no banco de investimentos e outro time</p><p>com uma boa presença em São Paulo e assumiu as operações do banco</p><p>no norte do Paraná. A compra dos comercial.</p><p>bancos no sul, — em particular a Como as operações e os</p><p>compra do INCO, permitiu que o banco procedimentos já estavam detalhados,</p><p>ganhasse escala e capacidade de todo o processo de mudança era muito</p><p>continuar crescendo e comprando rápido: da troca do letreiro nos bancos</p><p>outros bancos. O Bradesco aprendeu aos procedimentos de controle e</p><p>rápido que montando “times” e tendo relacionamento com os clientes. As</p><p>todas as operações padronizadas e decisões, nos casos em que não</p><p>processos bem definidos, podia estivessem padronizadas, eram rápidas</p><p>incorporar novos bancos e, em um e tomadas pelo gerente, como Amador</p><p>prazo relativamente curto, fazer com Aguiar gostava.</p><p>1965</p><p>1965</p><p>1967</p><p>1967</p><p>1967</p><p>1967</p><p>1968</p><p>1971</p><p>1971</p><p>1971</p><p>1972</p><p>1972</p><p>1973</p><p>1973</p><p>1973</p><p>Banco Brasileiro de Goiás S.A.</p><p>Banco Corrêa Ribeiro S.A.</p><p>Banco Brasileiro de São Paulo S.A. (Ex-Banco Cícero Prado S.A.)</p><p>Banco Mercantil de Pernambuco S.A.</p><p>Banco Segurança S.A.</p><p>Banco Porto-Alegrense S.A.</p><p>Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S.A.</p><p>Banco Agrícola da Alta Mogiana S.A.</p><p>Banco Nova América S.A.</p><p>Banco Vilarino S.A.</p><p>Banco de Crédito Comercial S.A.</p><p>Banco dos Importadores e Exportadores do Ceará S.A.</p><p>Banco Mineiro do Oeste S.A.</p><p>Banco Mineiro do Oeste de Investimentos S.A</p><p>Banco da Bahia S.A.</p><p>Aquisições do Bradesco entre 1965 e 1973</p><p>158</p><p>Arquivo Bradesco</p><p>159</p><p>160</p><p>CAPÍTULO 16</p><p>O processo de concentração bancária</p><p>161</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVI</p><p>Nesse período, a quantidade de enquanto em 1979 essas duas posições</p><p>agências por banco privado aumentou, eram preenchidas por bancos privados.</p><p>em média, de 34,5 em 1969 para Um dado que sugere uma mudança</p><p>100,9 em 1979, apesar de o número em relação ao que ocorrera no período</p><p>total de agências ter apresentado 1946-1964 é quanto à participação dos</p><p>crescimento muito baixo. A partir de maiores bancos no conjunto do setor</p><p>meados da década, o número de bancário. Os 10 maiores bancos</p><p>bancos nacionais privados manteve-se (exclusive o Banco do Brasil) elevaram</p><p>relativamente estável até a reforma de sua participação no total de depósitos à</p><p>1988, que permitiu a criação de bancos vista de 34% para 64% entre 1964 e</p><p>múltiplos — em 1979, havia 68 bancos 1979. Em 1964, os depósitos no</p><p>comerciais privados em operação. Banespa representavam 4,6% do total;</p><p>A concentração do capital bancário em 1979, a captação de depósitos do</p><p>levou a profunda mudança no ranking Bradesco correspondia a 15% do total</p><p>dos maiores bancos brasileiros, como captado por todos os bancos.</p><p>mostra a tabela</p><p>abaixo. A subida</p><p>mais espetacular</p><p>foi a do Banco</p><p>Itaú, que em 1964</p><p>ocupava a 32ª</p><p>posição, passando</p><p>para a segunda</p><p>posição em 1979</p><p>(Kretzer, 1996). Outra</p><p>mudança a se</p><p>ressaltar é em</p><p>relação aos dois</p><p>maiores bancos:</p><p>em 1964, eram</p><p>bancos públicos,</p><p>Posição 1964 1979</p><p>Ranking dos maiores bancos comerciais brasileiros*</p><p>(por captação de depósitos à vista)</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>8</p><p>10</p><p>9</p><p>Banespa</p><p>Crédito Real de MG</p><p>Lavoura (Real)</p><p>Bradesco</p><p>Mercantil de SP</p><p>Moreira Salles (Unibanco)</p><p>Comind</p><p>Estado de Minas Gerais</p><p>Estado da Guanabara</p><p>Nacional</p><p>Bradesco</p><p>Itaú</p><p>Banespa</p><p>Nacional</p><p>Unibanco</p><p>Banerj</p><p>Bamerindus</p><p>Mercantil de SP</p><p>Nordeste</p><p>Real</p><p>* Inclui bancos privados e públicos, exceto o Banco do Brasil Fonte: Kretzer (1996).</p><p>A DEFESA DO PROCESSO DE CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA</p><p>Dado o espírito desenvolvimentista e nacionalista então predominante, a concentração bancária era</p><p>defendida, ou pelo menos aceita, nos meios governamentais e empresariais, por pelo menos três razões além</p><p>dos possíveis benefícios obtidos com ganhos de escala: a necessidade de criação de bancos suficientemente</p><p>grandes para ter em caráter nacional; preparar os bancos nacionais para competirem com os bancos</p><p>estrangeiros; e ter bancos privados com capacidade de competir com o Banco do Brasil (MINELLA, 1988).</p><p>O processo de concentração bancária durou até meados dos anos 1970. Entre 1966 e 1974, ocorreram</p><p>178 processos de aquisição e fusão. Nesse período, o número de bancos privados de capital nacional caiu</p><p>de 269 para 72. Verifica-se, portanto, que as absorções foram responsáveis por quase 90% da redução dos</p><p>bancos, um profundo contraste com o que ocorrera desde 1946 até as reformas de 1964-65, quando os</p><p>bancos, em sua grande maioria, simplesmente quebravam.</p><p>Celso Pupo Rodrigues / Dreamstime</p><p>162</p><p>Talvez um dos pontos mais fracasso, em pouco tempo, da</p><p>importantes a destacar nas reformas de especialização financeira. O estímulo,</p><p>1964-65 foi a intenção, na origem, de embora não proposital, à entrada de</p><p>fazer dos bancos de investimento o 'aventureiros' no setor bancário acabou</p><p>elemento central do sistema financeiro, também por gerar alguns “escândalos</p><p>ou seja, fazer com que o mercado de financeiros” nos anos 1970</p><p>capitais se constituísse na principal fonte protagonizados por empresários</p><p>de financiamento do crescimento originalmente proprietários de financeiras</p><p>econômico — particularmente por (COSTA, 1999).</p><p>disponibilizar créditos de longo prazo. Tais instituições foram</p><p>Aos bancos comerciais estava regulamentadas originalmente em 1945,</p><p>destinado o mercado de crédito de curto denominadas então Sociedades de</p><p>prazo tradicional — um papel secundário, Financiamento, e expandiram-se</p><p>embora importante. Também nesse rapidamente (ALMEIDA, 1980). Até a</p><p>aspecto haveria uma aproximação com o reforma de 1964, concentravam suas</p><p>chamado “modelo americano”, aplicações no financiamento de capital de</p><p>considerado o que mais se encaixa no giro das empresas e constituíam-se em</p><p>modelo de estrutura financeira “baseada alternativa aos financiamentos dos bancos</p><p>no mercado de capitais”. comerciais.</p><p>Foram criados incentivos para o Desde 1959, quando receberam a</p><p>surgimento de bancos de investimento. denominação atual, passaram a emitir</p><p>Conscientes das dificuldades de atrair letras de câmbio com deságio, que se</p><p>empresários interessados no negócio, tornaram sua principal fonte de recursos.</p><p>inclusive pela quase nenhuma tradição na O número de sociedades financeiras</p><p>área, as autoridades ampliaram o leque registradas na SUMOC elevou-se de 33</p><p>de negócios disponíveis dos bancos de em 1952 para 91 em 1961. Em 1966</p><p>investimento, que foram então chegaram a operar 291 financeiras. Em</p><p>autorizados a atuar também como 1964, seus empréstimos ao setor privado</p><p>varejistas no mercado de capitais, já representavam 6,6% dos empréstimos</p><p>conceder empréstimos de médio e longo dos bancos comerciais.</p><p>prazo e ainda entrar no então crescente No início dos anos 1960, prosperava</p><p>ramo de crédito direto ao consumidor, um mercado paralelo — ilegal — de</p><p>que em tese estaria reservado às letras de câmbio, negociadas por</p><p>financeiras. Também lhes foi concedido empresas sem autorização da SUMOC,</p><p>inicialmente o monopólio de emissão de que ofereciam rendimento acima do</p><p>certificados de depósito bancário (CDB). permitido às SCFI. Com a queda da</p><p>A mistura das atividades de banco de inflação desde a política de estabilização</p><p>investimento com as das financeiras, imposta pelo primeiro governo militar,</p><p>inclusive com a transformação de esse mercado entrou em crise e abriu</p><p>financeiras em bancos, foi um dos fatores espaço para o rápido crescimento do</p><p>que contribuíram para o mercado regular representado pelas</p><p>CENTRALIZAÇÃO BANCÁRIA E A FORMAÇÃO</p><p>DOS PRIMEIROS CONGLOMERADOS FINANCEIROS</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVI</p><p>163</p><p>financeiras e as letras de câmbio</p><p>regulamentadas.</p><p>As autoridades procuraram restringir</p><p>a prática de deságio, por receio de que</p><p>representassem uma antecipação da</p><p>inflação e também porque o deságio</p><p>acabava por elevar a taxa de juros, mas</p><p>as letras de câmbio continuavam a ter</p><p>ampla aceitação.</p><p>Em 1965, a mesma política de</p><p>concentração aplicada aos bancos foi</p><p>aplicada às financeiras. Foi exigido</p><p>capital mínimo que tornava praticamente</p><p>impossível a continuidade de operação da</p><p>maioria delas. Em 1966, com o intuito</p><p>de incentivar o crescimento dos bancos</p><p>de investimentos, estes foram autorizados</p><p>a emitir letras de câmbio, sem que, ao</p><p>mesmo tempo, tivessem de direcionar os</p><p>recursos assim captados para o crédito ao</p><p>consumidor.</p><p>Essas duas medidas incentivaram</p><p>empresários de financeiras de maior</p><p>porte a criar conglomerados, formando</p><p>bancos de investimento, mas mantendo</p><p>suas financeiras. Em seguida, alguns</p><p>desses grupos adquiriram pequenos</p><p>bancos comerciais, o que lhes dava</p><p>acesso ao redesconto.</p><p>Tanto no caso de possuir bancos de</p><p>investimento como bancos comerciais,</p><p>criava-se ainda mais uma forma de</p><p>ampliar as fontes de captação, já que em</p><p>1967 foi instituída a Resolução 63, que</p><p>permitia o repasse de recursos externos.</p><p>O acesso ao mercado externo de recursos</p><p>passara a ser explicitamente incentivado,</p><p>aproveitando-se da farta liquidez</p><p>internacional existente naquele período, o</p><p>que contribuía para redução dos juros</p><p>médios da intermediação financeira,</p><p>como desejava o governo.</p><p>Empréstimos do Sistema Financeiro ao</p><p>Setor Privado por Emprestador Final</p><p>(saldos em fim de período - participação % no total)</p><p>*Oficiais e privados; **Empréstimos brutos menos repasses</p><p>Fonte: Lembruber, Antonio Carlos. Uma Análise Quantitativa do Sistema Financeiro no</p><p>Brasil. Rio de Janeiro: IBMEC, 1978.</p><p>Banco do Brasil</p><p>Bancos Comerciais *</p><p>Sistema Monetário</p><p>Financeiras</p><p>Bancos de Investimento</p><p>BNH **</p><p>SCI</p><p>APE</p><p>CEF</p><p>Caixas Estaduais</p><p>BNDE **</p><p>B.Desenv. Estaduais</p><p>Outros</p><p>Sistema não Monetário</p><p>Total Geral 100,00</p><p>3,24</p><p>-</p><p>-</p><p>-</p><p>-</p><p>3,77</p><p>33,30</p><p>53,03</p><p>86,33</p><p>0,57</p><p>6,00</p><p>-</p><p>0,09</p><p>13,67</p><p>1963 1967 1975</p><p>100,00</p><p>9,93</p><p>4,60</p><p>1,85</p><p>1,19</p><p>-</p><p>3,75</p><p>25,25</p><p>49,04</p><p>79,29</p><p>1,39</p><p>2,52</p><p>0,18</p><p>0,29</p><p>25,71</p><p>1971</p><p>100,00</p><p>57,22</p><p>11,99</p><p>9,58</p><p>5,77</p><p>3,93</p><p>0,56</p><p>4,77</p><p>22,32</p><p>34,90</p><p>1,97</p><p>2,79</p><p>1,13</p><p>0,28</p><p>42,78</p><p>100,00</p><p>10,37</p><p>10,90</p><p>2,03</p><p>5,95</p><p>1,36</p><p>7,4</p><p>22,90</p><p>28,39</p><p>51,29</p><p>2,44</p><p>5,42</p><p>2,47</p><p>0,24</p><p>48,71</p><p>Daniel Renault</p><p>A atuação de Delfim Neto na pasta underwriting do tipo best effort, isso a</p><p>da Fazenda foi na direção oposta ao uma época em que cresciam</p><p>espírito das reformas de 1964-5. Já nos vertiginosamente os negócios nos</p><p>anos finais da década, esses bancos mercados de ações.</p><p>voltavam a ter papel de destaque no Também na área de seguros os</p><p>bancos aumentaram sua participação. No conjunto do sistema financeiro. Havia</p><p>ramo segurador, os bancos passaram, a motivos claros para os banqueiros</p><p>partir de 1966, a receber os prêmios dos tradicionais assumirem uma posição</p><p>seguros vendidos pelas seguradoras. Essas mais agressiva. A queda da inflação,</p><p>medidas, mais o fato de que alguns juntamente com a instituição da correção</p><p>bancos cresciam em tamanho graças a monetária provocara uma forte redução</p><p>aquisições e fusões, contribuíram para que,</p><p>da participação</p><p>relativa dos depósitos à</p><p>em pouco tempo, os bancos comerciais,</p><p>vista no total dos haveres financeiros.</p><p>ou grupos controlados por bancos</p><p>Verificava-se, em conseqüência, forte comerciais, se destacassem entre as mais</p><p>expansão de outros tipos de instituição - importantes instituições de diversos</p><p>não só as financeiras e os bancos de segmentos do mercado financeiro.</p><p>investimento, mas também das A conglomeração fez com que a</p><p>sociedades de crédito imobiliário, queda da participação dos bancos</p><p>apoiadas na rápida aceitação das comerciais no conjunto do sistema</p><p>cadernetas de poupança pelo público. financeiro não significasse uma perda de</p><p>Alguns exemplos de medidas tomadas importância relativa dos grandes bancos.</p><p>para permitir maior espaço para o • Em 1977, praticamente todos os</p><p>crescimento dos bancos são citadas a seguir: grupos bancários de maior possuíam</p><p>• Em julho de 1966 os bancos pelo menos uma empresa financeira</p><p>comerciais foram autorizados a emitir operando em outro segmento.</p><p>CDB, quebrando o monopólio dos Financeiras controladas por bancos</p><p>bancos investimento. comerciais já eram responsáveis por</p><p>• Em março de 1969, foi permitida a mais de 60% das emissões de letras</p><p>participação de instituições financeiras de câmbio os primeiros anos da</p><p>no capital de outras instituições década de 1970, sobrando para as</p><p>financeiras. financeiras independentes pouco mais</p><p>• Em fevereiro de 1970, o Banco de 10% desse mercado.</p><p>Central liberalizou as operações de • Em 1978, vinte e três dos trinta e</p><p>crédito pessoal em relação a juros e oito bancos de investimentos eram</p><p>prazos, possibilitando que ligados a bancos comerciais.</p><p>concorressem diretamente com as • Em 1975, cinco das dez maiores</p><p>financeiras. seguradoras faziam parte de</p><p>• Em setembro de 1970, passaram a conglomerados controlados por bancos</p><p>poder participar de operações de Comerciais.</p><p>CONGLOMERADOS FINANCEIROS</p><p>FORMADOS A PARTIR DE BANCOS COMERCIAIS</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVI</p><p>166</p><p>O FIM DO “MILAGRE ECONÔMICO” E O INÍCIO DAS</p><p>INTERVENÇÕES DO BANCO CENTRAL NOS BANCOS</p><p>Segundo Guido Mantega (2001), “após o princípio de risco no mercado financeiro,</p><p>um longo período de crescimento Simonsen não titubeou. Recebeu sinal</p><p>desregrado durante a gestão de Delfim verde de Geisel (que até possuía algumas</p><p>Neto, o mercado financeiro apresentava economias depositadas no banco) e aplicou</p><p>uma série de problemas que iriam a Lei nº 6.024, sancionada no apagar das</p><p>estourar logo nos primeiros dias da gestão luzes do Governo Médici” (MANTEGA, 2001).</p><p>do novo Ministro da Fazenda. Delfim A referida lei é a que regula as</p><p>Neto estimulara a criação de grandes intervenções e liquidações de instituições</p><p>conglomerados financeiros, muitos dos financeiras, tendo estendido a todo tipo de</p><p>quais haviam crescido muito rapidamente, instituição financeira o instituto da</p><p>não estavam assentados em bases sólidas liquidação extrajudicial. O Banco Central</p><p>e haviam se aventurado em interveio no Banco Halles, ressarcindo</p><p>empreendimentos de risco na esteira da apenas os depósitos até o equivalente a 50</p><p>euforia do “milagre”. O maior problema salários mínimos. Esse pagamento foi feito</p><p>dos bancos mais ousados era captar utilizando-se recursos da reserva</p><p>recursos financeiros no mercado a curto monetária, um fundo alimentado pela</p><p>prazo e emprestá-los a longo prazo, arrecadação do imposto sobre circulação</p><p>quando não investi-los nas empresas do financeira (IOF). A intervenção no Halles</p><p>próprio grupo (...) com longos prazo de provocou um princípio de crise bancária,</p><p>maturação.” que se agravou com o anúncio, logo a</p><p>Mantega explica os problemas seguir, das dificuldades do Banco União</p><p>enfrentados por alguns desses bancos Comercial (BUC). Preocupado com as</p><p>em 1974: a crise do petróleo estreitou conseqüências de possível crise sistêmica,</p><p>fortemente a liquidez internacional, o governo editou o Decreto-Lei 1.342, em</p><p>levando a um súbito aumento das taxas agosto de 1974, que autorizava o Banco</p><p>de juros internacionais. Central a utilizar os recursos da reserva</p><p>O mesmo aconteceu no Brasil, quando monetária para promover o saneamento de</p><p>o novo ministro, Mário Henrique instituições financeiras sem que precisasse,</p><p>Simonsen, apertou a política monetária em necessariamente, decretar a liquidação</p><p>resposta à crise. Bancos de investimento, .</p><p>com forte captação de recursos externos Era a chamada “intervenção branca”,</p><p>via operação 63, viram-se subitamente que tinha por objetivo encontrar uma</p><p>com problemas de rolarem seus débitos “solução de mercado” para bancos</p><p>externos, ao mesmo tempo em que viam insolventes.</p><p>aumentar o custo da rolagem de suas O Banco Central podia assim usar</p><p>dívidas que contraíram no país em esses recursos para recompor o patrimônio</p><p>momentos mais favoráveis. “Não fazia nem de instituições financeiras inadimplentes,</p><p>um mês que Simonsen estava sentado na assumindo os prejuízos e protegendo os</p><p>cadeira de Ministro da Fazenda quando a credores. O BUC foi o primeiro de uma</p><p>diretoria do Banco Halles confessou ao série de bancos absorvidos por outros</p><p>presidente do Banco Central a sua situação bancos tendo o Banco Central coberto o</p><p>de insolvência. Determinado a reintroduzir prejuízo. O BUC foi absorvido pelo Itaú.</p><p>(LUNDBERG, s.d.)</p><p>Guido Mantega</p><p>Nascido em Gênova, Itália, é</p><p>economista e doutor em Sociologia</p><p>pela USP, professor universitário</p><p>desde 1981, com profícua produção</p><p>acadêmica. Teve um de seus livros</p><p>prefaciados pelo ex-presidente</p><p>Fernando Henrique Cardoso, com</p><p>quem atuou na Cebrap. A partir de</p><p>1993, trabalhou como assessor para</p><p>assuntos econômicos de Lula. Em</p><p>2002, coordenou a parte econômica</p><p>do Programa de Governo do Partido</p><p>dos Trabalhadores. Foi ministro do</p><p>Planejamento, Orçamento e Gestão</p><p>e presidente do BNDES antes de,</p><p>em 2006, assumir o Ministério da</p><p>Fazenda do Governo Lula.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVI</p><p>Roosewelt Pinheiro/Abr</p><p>167</p><p>168</p><p>CAPÍTULO 17</p><p>O mercado de capitais</p><p>169</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>A primeira bolsa brasileira foi porém, ficava aberto diariamente até as</p><p>criada no Rio de Janeiro, durante o 21h, sendo um ponto de encontro para</p><p>Império. Em seguida, nas províncias os mais diferentes negócios.</p><p>do Rio Grande do Sul, Bahia, A Bolsa Livre acabou sendo</p><p>Maranhão e Pará foram organizadas encerrada em outubro de 1891, durante</p><p>instituições similares. a crise do Encilhamento, com o mercado</p><p>As capitais localizadas nas cidades voltando a operar somente em 24 de</p><p>portuárias eram maiores e mais janeiro de 1895, por iniciativa da</p><p>desenvolvidas do que São Paulo, e Associação Comercial de São Paulo,</p><p>nelas já havia um intenso comércio de ainda uma entidade sem proteção oficial.</p><p>moedas estrangeiras, títulos e outras Em 7 de junho de 1890, Campos</p><p>operações financeiras. Salles, então presidente do Estado,</p><p>Em 1890, a situação estava aprovou o regulamento da bolsa e, em</p><p>mudando, o café correspondia a 70% dezembro de 1896, sancionou a Lei nº</p><p>das exportações nacionais, sendo que 479, criando a profissão e fixando o</p><p>São Paulo comercializava 50% do número de corretores em 22, sendo 15</p><p>café mundial. A população da capital na capital e 7 em Santos. O governo</p><p>era relativamente pequena, pouco nomeava e demitia os corretores e era</p><p>mais de 60 mil habitantes, mas proibido qualquer negócio fora do pregão.</p><p>reinava uma euforia na cidade por A bolsa cresceu com São Paulo,</p><p>conta do dinheiro do café. e muitos negócios, fora do pregão,</p><p>Era o ambiente ideal para a eram feitos na base da confiança, e</p><p>formação de uma bolsa. E isto foi feito funcionavam.</p><p>em 23 de agosto de 1890, quando 94 A partir do início da Segunda Grande</p><p>corretores que atuavam independentes Guerra, a situação começou a mudar. A</p><p>da ação do Estado se reuniram e cidade cresceu e as pessoas já não se</p><p>fundaram a Bolsa de São Paulo. conheciam. Os princípios de ética</p><p>A maioria dos sócios fundadores começaram a diminuir em todos os setores</p><p>eram negociantes de grande prestígio na da sociedade — queria-se ganhar dinheiro</p><p>cidade, e os seus nomes se encontram,</p><p>rápido e, preferencialmente, muito.</p><p>hoje, em muitas das ruas de São Paulo, A maior parte dos corretores,</p><p>como João Brícola, Joaquim Eugênio de principalmente em São Paulo,</p><p>Lima, Júlio Mesquita e Luís Berrini. conseguiu manter um comportamento</p><p>A bolsa abriu em alta! O primeiro inatacável, porém, no Rio de Janeiro e,</p><p>pregão negociou Letras da Câmara em menor escala, em Santos, os</p><p>Municipal e ações do Banco da Lavoura. problemas começaram a se multiplicar</p><p>O pregão funcionava por apenas não só nas corretoras, mas em todas as</p><p>meia hora, entre 14h e 14h30. O local, áreas do mercado financeiro.</p><p>O INÍCIO DAS BOLSAS NO BRASIL</p><p>Avião final dos anos 60;</p><p>“Avião” que substituiu a corbeille</p><p>em 1967, Palácio do Café.</p><p>Acervo Bolsa de Valores</p><p>de São Paulo</p><p>FORMATO DOS PREGÕES</p><p>1895-1934: Idade da Pedra</p><p>Neste período os corretores</p><p>apregoavam suas ofertas de compra</p><p>e venda no recinto da Bolsa, as</p><p>quais só poderiam ser consolidadas</p><p>mediante a declaração em voz alta</p><p>de "fechado", ao que era seguido</p><p>do preenchimento e assinatura do</p><p>boletim do negócio. Após a</p><p>verificação do presidente da Bolsa,</p><p>este mandava inscrever nas pedras</p><p>do local a referida operação.</p><p>1934-1967: Corbeille</p><p>Do francês "cesta", foi o modelo de</p><p>organização inspirado pela Bolsa de</p><p>Paris. Adquiriu diversas</p><p>configurações no decorrer de seus</p><p>mais de 30 anos de funcionamento.</p><p>Inicialmente, quando da</p><p>inauguração da sede no Palácio do</p><p>Café (1934), constitui um círculo</p><p>composto por três anéis, sendo que</p><p>diante do primeiro ficavam</p><p>dispostos os corretores em suas</p><p>cadeiras pessoais, anunciando suas</p><p>ofertas de compra e venda, no</p><p>segundo ficavam a postos seus</p><p>auxiliares de pregão, e no terceiro</p><p>os demais interessados; ao centro</p><p>permaneciam os funcionários da</p><p>Bolsa encarregados da emissão dos</p><p>boletos (papeletas) nos quais</p><p>dispunham os negócios realizados.</p><p>As cotações eram grafadas numa</p><p>lousa com diz.</p><p>1967-1972: Avião / Roda</p><p>As cadeiras em torno da corbeille</p><p>tornaram-se insuficientes para as</p><p>novas demandas, dentre elas o</p><p>crescimento econômico e, via lei</p><p>federal, a substituição dos 50</p><p>corretores oficiais por 134</p><p>sociedades corretoras. Construiu-se</p><p>então 3 balcões de aço inox, cuja</p><p>disposição lembrava o formato de</p><p>um avião, rendendo-lhe este</p><p>apelido. Quatro monitores de vídeo</p><p>apresentavam cotações de ações,</p><p>num período onde a informação</p><p>Acervo Bovespa</p><p>Contínua</p><p>170</p><p>O MERCADO DE CAPITAIS NA DÉCADA DE 50</p><p>A década de 1950 foi marcada por duvidava-se da viabilidade da</p><p>centenas de emissões fraudulentas de colocação.</p><p>títulos e ações, incorporações O resultado, porém, foi um grande</p><p>imobiliárias paralisadas e até a venda sucesso. As vendas das ações eram</p><p>de um banco que só tinha “vales” e feitas de porta em porta, para</p><p>“filipetas no cofre”. Entretanto, duas investidores na qualidade de pessoas</p><p>experiências foram decisivas e físicas. Os dois fundos inovaram por</p><p>mostraram que havia espaço para a terem uma gestão muito profissional,</p><p>criação de um mercado de capitais seguindo os padrões norte-americanos,</p><p>sério no País. A primeira foi o e por introduzirem um conceito de ética</p><p>investimento no Brasil do Grupo Ibec que era pouco comum na época. Pode-</p><p>(Rockfeller), que criou o Fundo se dizer que Hans Horsh (principal</p><p>Crescinco e começou a realizar executivo do Crescinco na época),</p><p>operações de Underwritting, forçou uma mudança no padrão ético</p><p>Administração de Fundos e Carteiras do mercado de capitais brasileiro.</p><p>de Investimentos. O sucesso do Ibec O mercado começou a perceber que</p><p>trouxe ao Brasil o Deltec, de outros a máxima de Calvino, “a honestidade</p><p>investidores americanos, que seguiu a gera bons negócios”, também dava</p><p>mesma estratégia do primeiro entrante. lucros abaixo da linha do Equador.</p><p>Alguns Underwrittings, como o da Posteriormente, os dois fundos</p><p>Willys Overland fizeram grande (Ibec e Deltec) foram absorvidos pelo</p><p>sucesso. BIB (Banco de Investimento do Brasil),</p><p>A Willys era um pequeno fabricante do grupo Moreira Salles, atual</p><p>de automóveis na área de Detroit, que Unibanco.</p><p>quebrou durante o processo de A absorção desses fundos e dos</p><p>concentração da indústria seus jovens executivos, como Tomas</p><p>automobilística nos EUA. Zinner, Roberto Teixeira da Costa,</p><p>Alguns investidores e ex-diretores entre outros, deu um grande diferencial</p><p>da empresa resolveram aproveitar os para o grupo Moreira Salles.</p><p>incentivos oferecidos para a instalação O BIB (Banco de Investimentos do</p><p>da indústria automobilística no Brasil e Brasil) foi, durante duas décadas, líder</p><p>transferiram para São Paulo os seus indelével na sua área de atuação.</p><p>ativos. Entretanto, a empresa era Só começou, realmente, a disputar</p><p>completamente descapitalizada. Logo, o mercado a partir de meados da década</p><p>Underwritting das ações no Brasil era de 1970, com a Aymoré (ABN-AMRO)</p><p>crucial para que a Willys pudesse, de na área de ações e investimentos e, com</p><p>fato, entrar em operação no País. o Safra, nos repasses de dinheiro do</p><p>Devido à situação da empresa e ao BNDES (principalmente Finame) e de</p><p>pequeno mercado de ações brasileiro, outras linhas públicas.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>eletrônica passou a disputar espaço</p><p>com aquela grafada na lousa com</p><p>giz. Três balcões na parte de trás</p><p>completavam a estrutura. Tais</p><p>balcões permitiam que os negócios</p><p>iniciados e não fechados por</p><p>corretores no avião, pudessem ser</p><p>neste espaço anexo continuados sem</p><p>interrupção do andamento do</p><p>pregão. O avião não foi muito</p><p>popular, mas era inviável o retorno</p><p>da corbeille. Optou-se por uma roda</p><p>simples, substituindo o avião, e</p><p>mantiveram-se os postos de</p><p>negociação da parte posterior do</p><p>recinto. Pouco depois restaram</p><p>apenas estes postos, que foram</p><p>aumentados em número.</p><p>Déc. 70 e 80: Pregão Eletrônico</p><p>Em 1972 a Bolsa transferiu-se para</p><p>a primeira sede própria, na rua</p><p>Álvares Penteado. As novas</p><p>instalações e o sistema de divulgação</p><p>eletrônica das cotações (em terminais</p><p>espalhados pela Bolsa)</p><p>modernizaram o pregão. Os negócios</p><p>eram registrados em papéis</p><p>perfurados e com espaços em branco</p><p>para serem preenchidos, que eram</p><p>teleprocessados. Os dados eram</p><p>divulgados em painéis em tempo</p><p>real. Na década de 80 o SPOT</p><p>(Sistema Privado de Operações por</p><p>telefone) e a disseminação do</p><p>telefone sem fio complementaram o</p><p>rol de inovações tecnológicas que</p><p>marcaram esta época.</p><p>1990-2004: CATS e MEGA</p><p>BOLSA</p><p>O Computer Assisted Trading</p><p>System (CATS), adquirido a partir</p><p>de acordo com a Bolsa de Valores</p><p>de Toronto, revolucionou o pregão</p><p>da Bovespa. O pregão viva-voz</p><p>tornou-se mais dinâmico com o uso</p><p>dessa ferramenta tecnológica. Os</p><p>operadores do CATS podiam</p><p>comprar e vender ações de</p><p>quaisquer partes do mundo que</p><p>também operassem com esse</p><p>sistema. O palco do novo formato do</p><p>pregão, a partir de 1992, foi o</p><p>prédio do antigo Banco Comind, na</p><p>Rua XV de Novembro. Em 1997</p><p>entrava em operação o novo</p><p>sistema, o MEGA BOLSA. Pregão</p><p>viva-voz e negociação eletrônica</p><p>ainda conviviam, mas pouco tempo.</p><p>2004: Pregão Eletrônico</p><p>A Bovespa deixa definitivamente de</p><p>apregoar viva-voz e passa a realizar</p><p>todo o processo de negociação por</p><p>meio eletrônico.</p><p>Formatos dos pregões (continuação da pág.170)</p><p>171</p><p>172</p><p>IMPACTOS DA CORREÇÃO MONETÁRIA</p><p>A INTRODUÇÃO DA ORTN EM JULHO DE 1964</p><p>Parte da discussão sobre a reforma Por essa razão, os bancos</p><p>do sistema financeiro dizia respeito à comerciais dominavam amplamente o</p><p>necessidade de elevar as taxas de conjunto do sistema financeiro. A</p><p>poupança financeira. A partir da instituição da correção monetária</p><p>segunda metade dos anos 1950, as estimulou a emissão de diversos outros</p><p>altas taxas de inflação, combinadas com tipos de instrumento de poupança</p><p>a vigência da Lei da Usura, que financeira e, com isso, permitiu a</p><p>impunha um limite máximo de 12% ao expansão de instituições financeiras</p><p>ano à taxa de juros, desestimulavam as não-bancárias. A conjugação de</p><p>aplicações financeiras. Em 1963, os elevadas taxas de inflação com a Lei da</p><p>meios de pagamento, no conceito Usura praticamente impedia o</p><p>estreito</p><p>de M1 (papel-moeda em poder financiamento não-inflacionário — ou</p><p>do público mais os depósitos à vista nos seja, por meio de emissão de títulos —</p><p>bancos comerciais) compunham a dos déficits orçamentários. Estes eram</p><p>quase totalidade do total de haveres cobertos por emissão de moeda, o que,</p><p>financeiros. evidentemente, alimentava a inflação.</p><p>Em julho de 1964, foi lançado um era depreciado.</p><p>título público com cláusula de correção Mesmo sendo corrigidos</p><p>monetária: as Obrigações Reajustáveis monetariamente, esses títulos forçaram</p><p>do Tesouro Nacional, ORTN. Uma o Governo a estimular sua aceitação,</p><p>tentativa de recuperar a confiança do com a obrigatoriedade de comporem a</p><p>público nos títulos públicos, que nos reserva técnica das seguradoras e</p><p>anos anteriores apresentavam atrasos serem parte dos recolhimentos</p><p>no pagamento e cujo valor de mercado compulsórios dos bancos.</p><p>Lei nº 4.728, de 16 de julho de 1965</p><p>A Lei nº 4728 foi o instrumento fundamental na reforma do mercado de capitais.</p><p>Acreditava-se que o mercado de capitais seria a grande alavanca para o financiamento de médio e longo prazos</p><p>para as empresas brasileiras. O sistema financeiro nacional estaria destinado a tornar-se “baseado no mercado”,</p><p>como nos EUA e na Inglaterra, e não mais um modelo “baseado em bancos”, como até hoje são, embora cada</p><p>vez menos, os da Europa Continental e do Japão. Os objetivos dessa lei, de acordo com sua Exposição de Motivos,</p><p>foram: estabelecer padrões de conduta para se aumentar a confiança do público no mercado; conceder incentivos</p><p>para que as empresas abrissem seu capital; e criar novas instituições financeiras e fortalecer as já existentes.</p><p>Com a nova lei, em fevereiro de 1966 foram regulamentados os bancos de investimento, criados para cumprir o</p><p>papel de atacadistas — subscritores de títulos e valores mobiliários. Para as corretoras e as distribuidoras foi</p><p>definida a função de varejistas do mercado.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>Corbeille no Pátio do Colégio, déc.</p><p>40; Corbeille Instalada no edifício</p><p>Palácio do Café no Pátio do Colégio</p><p>(1934-1967).</p><p>Centro de Memória da Bovespa</p><p>173</p><p>O PAGAMENTO DA DÍVIDA DESDE O IMPÉRIO</p><p>Assim que assumiu a sua posição O projeto foi aprovado e o Banco</p><p>dentro Banco Central, Carlos Brandão Central fez a maior operação de compra</p><p>propôs que se pagasse todo o estoque de de títulos públicos até a data,</p><p>dívida pública emitida desde o Império e desembolsando uma quantia relativamente</p><p>não honrada pelos governos. A proposta, a pequena e reconquistando a confiança dos</p><p>princípio, pareceu indecorosa ao Governo, investidores. O mercado recebeu o</p><p>que não queria saber de aumentar os seguinte recado: “as coisas agora são</p><p>gastos públicos e menos ainda de pagar diferentes”.</p><p>dívidas que desde 1918 não eram pagas, O volume de títulos comprados foi</p><p>apesar de haver um decreto de 1967 que tão grande, que o Banco Central</p><p>autorizava o resgate dos títulos vencidos. precisou usar todos os cofres fortes do</p><p>Carlos Brandão os convenceu de que Banco do Brasil e de dezenas de outras</p><p>se precisava reconquistar a confiança dos instituições financeiras no Rio de</p><p>investidores nos títulos da dívida pública Janeiro e em São Paulo.</p><p>federal e melhorar a imagem do Governo Após essa operação bem sucedida,</p><p>Federal como tomador de empréstimos. E, Brandão foi enviado para um estágio no</p><p>como a inflação havia sido muito grande Federal Reserve Bank de Nova Iorque,</p><p>de 1918 até a data, o Tesouro poderia de onde voltou, pouco tempo depois,</p><p>resgatar os títulos pelos seus valores com todas as apostilas e manuais de</p><p>históricos, sem corrigir os que estivessem operações que foram disponibilizados</p><p>atrelados à libra esterlina ou ao ouro, pois pelos americanos. Mandou traduzir o</p><p>os compromissos do Governo deveriam ser material e começou a colocar em</p><p>referendados em moeda nacional. prática o que lhe recomendaram.</p><p>Apesar da intenção do governo em Como o presidente da Ceplac era o</p><p>criar um mercado de massa para a ministro da Fazenda e o vice, o diretor</p><p>dívida pública, todas as suas iniciativas da Cacex — que, obviamente, não</p><p>foram frustradas até 1969, quando tinham tempo para cuidar dos</p><p>Ernane Galvêas, então presidente do problemas da produção cacaueira —,</p><p>Banco Central, nomeou Carlos Brandão Brandão se tornou, de fato, o principal</p><p>como principal executivo da dívida executivo do projeto. Nos doze anos em</p><p>pública. Carlos Brandão era funcionário que esteve à frente da Ceplac, Carlos</p><p>do Banco do Brasil, onde entrou em Brandão promoveu a modernização na</p><p>1953 por concurso público. Três anos produção e comercialização da</p><p>depois, por sugestão de Ernane Galvêas, indústria cacaueira. Montou Centros de</p><p>então diretor da Cacex, foi nomeado Pesquisa, deu treinamento ao pessoal</p><p>primeiro-secretário da Ceplac — uma da produção, pesquisou novas</p><p>nova organização que tinha por objetivo variedades, melhorou a</p><p>recuperar a produção cacaueira no sul comercialização. Em suma, foi o único</p><p>do Bahia, em época de crise. programa das culturas tradicionais do</p><p>Carlos Brandão tinha pouco tempo País (café, cacau e cana-de-açúcar) que</p><p>de banco, mas era um funcionário conseguiu excelentes resultados para a</p><p>diferenciado no Banco do Brasil, pois, lavoura, com custos ínfimos, quando</p><p>naquela época já possuía um curso de considerados os gastos tidos com as</p><p>Administração. Por essa qualificação, demais. Com tal mérito, era a pessoa</p><p>trabalhava diretamente com Galvêas. certa para assumir a dívida pública.</p><p>GERÊNCIA DA DÍVIDA PÚBLICA</p><p>E OPEN MARKET EM 1969</p><p>Ernane Galvêas,</p><p>Banco Central de 21/02/1968 a</p><p>15/03/1974 e de 17/08/1979 a</p><p>18/01/1980</p><p>presidente do</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>174</p><p>A orientação do Federal Reserve</p><p>(Banco Central dos EUA) era que ele</p><p>desenvolvesse o mercado através das</p><p>corretoras e distribuidoras, pois os bancos</p><p>eram muito voltados para a sua clientela e</p><p>“não fariam mercado”, isto é,</p><p>comprariam grandes quantidades de</p><p>títulos públicos e os manteriam, só</p><p>resgatando à medida que houvesse</p><p>demanda pelos clientes. As corretoras,</p><p>por outro lado, estariam comprando e</p><p>vendendo títulos diariamente a cada</p><p>oportunidade ou a cada arbitragem que</p><p>pudessem fazer. Com isso, o mercado</p><p>teria liquidez.</p><p>Dessa forma, ao chegar ao Brasil,</p><p>procurou conversar com os grandes</p><p>corretores da época, mas não os sentiu</p><p>com muito apetite para dívida pública.</p><p>O mercado de câmbio e a bolsa em</p><p>alta, até meados de 1970, tomavam</p><p>todas as atenções dos grandes</p><p>corretores. Procurou então dois</p><p>empreendedores, que, ainda muito</p><p>jovens, haviam se convertido nos</p><p>grandes negociadores das notas</p><p>promissórias da Mannesman:</p><p>Jorge Paulo Lehman e Julio Bozzano.</p><p>Os dois haviam quebrado com o</p><p>estouro da Mannesman. Porém, tinham</p><p>a reputação limpa, pois foram lesados</p><p>assim como milhares de aplicadores</p><p>naqueles papéis.</p><p>Quando lhes propôs que entrassem</p><p>firme no novo negócio, Lehman disse que</p><p>não tinha dinheiro nem confiança</p><p>bastantes para se expor em grande</p><p>volume no mercado de dívida pública,</p><p>pois já havia sido “escaldado” com a</p><p>Mannesman. Júlio Bozzano, por sua vez,</p><p>NOVAS OPORTUNIDADES PARA</p><p>CORRETORAS E DISTRIBUIDORAS</p><p>Carlos Brandão, presidente do</p><p>Banco Central de 15/03/1979 a</p><p>17/08/1979</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>estava feliz com a Bolsa de Valores e as</p><p>suas atividades na financeira e disse que</p><p>também era “gato escaldado”. Carlos</p><p>Brandão lhes garantiu que já havia pago a</p><p>dívida pública passada e pagaria a nova.</p><p>Além disso, daria liquidez ao mercado.</p><p>Eles concordaram e logo em seguida</p><p>outros participantes começaram a entrar.</p><p>Com isso, Carlos Brandão começou,</p><p>pouco a pouco, a interessar novas</p><p>corretoras e distribuidoras e a colocar</p><p>ORTNs com prazos de resgate de 1 a 5</p><p>anos, cobrindo todos os déficits, além de</p><p>importantes investimentos da União.</p><p>175</p><p>UMA BONANÇA PARA AS CORRETORAS</p><p>A União estava feliz por financiar de compensação dos clientes, que já</p><p>todos os seus déficits e as corretoras eram informatizadas</p><p>no Bradesco.</p><p>ainda mais felizes. A alavancagem de O sistema depois da sua concepção é</p><p>aplicações em relação ao capital próprio como um “ovo de Colombo”. O banco</p><p>da maior parte das corretoras era fazia a compra de um lote de títulos</p><p>superior a 30 e os lucros estonteantes. públicos e os repassava, em diferentes</p><p>Entretanto, em virtude de Carlos partes, para cada um dos clientes,</p><p>Brandão não ter procurado os bancos usando o sistema de conta-corrente.</p><p>para que aderissem à dívida pública, O Banco Central considerava, na</p><p>quase todos, a princípio, ficaram época, impossível que as operações</p><p>afastados do negócio. Uma das poucas fossem controladas e pediu ao Bradesco</p><p>exceções foi o Bradesco, que havia que comprovasse sua capacidade de</p><p>encerrado as atividades do Banco controlar as operações. Ficou surpreso e</p><p>Popular e do Banco Interamericano, assustado com a produção de mais de</p><p>transformando suas patentes no Banco 100 quilos de listagens de computador</p><p>de Investimentos do Bradesco. com os nomes, valores e operações de</p><p>O Bradesco percebeu a grande cada cliente.</p><p>oportunidade que seria o mercado de O motivo da surpresa e do espanto é</p><p>capitais e imprimiu um ritmo acelerado que, na época, o Banco Central não</p><p>nos negócios com os Fundos 157, que possuía as informações organizadas</p><p>eram um atraente incentivo fiscal para as daquela forma.</p><p>pessoas físicas comprarem ações. O que prevalecia no mercado era um</p><p>Como havia poucas empresas nas sistema de troca de “boletas” de compra</p><p>Bolsas de Valores, na época e venda, em cores diferentes para se</p><p>concentradas nos mercados do Rio de diferenciar as operações. As corretoras e</p><p>Janeiro e de São Paulo, havia uma bancos arquivavam essas cópias, que</p><p>grande oportunidade para o lançamento eram conferidas pelo próprio Banco</p><p>de novas empresas. O preço das ações Central, que usava o mesmo método.</p><p>subiu 500% entre 1968 e 1970. Quando o Banco Central recebeu as</p><p>A demanda atraente e a necessidade listagens, percebeu que ele estava muito</p><p>de capital das empresas permitiram que defasado e precisava se modernizar.</p><p>o Bradesco fizesse o lançamento da Por outro lado, na medida em que o</p><p>Gerdau, da Sadia e de outras empresas, Banco Central se convenceu de que</p><p>que conseguiram, com o capital obtido, ampliar o mercado para outros bancos</p><p>ter um formidável impulso de era bom — pois aumentava a base para</p><p>crescimento e hoje são expoentes no a colocação da dívida —, viu que</p><p>mercado de capitais. publicar era bom e seguro, desde que se</p><p>O Bradesco notou, em 1969, que o distribuísse a dívida pública em milhares</p><p>banco também poderia ter ganhos de aplicadores, usando o sistema de</p><p>expressivos com os negócios da dívida conta corrente com os clientes, como</p><p>pública, como já acontecia entre as havia feito o Bradesco.</p><p>corretoras. Como o Bradesco já estava Pouco a pouco, os bancos foram</p><p>informatizado, foi idealizado um sistema aumentando a sua participação na dívida</p><p>em que se poderia pulverizar a captação pública até conseguirem a posição</p><p>em milhares de contas, usando as contas hegemônica que hoje mantêm.</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>Registro de Negociação, início dos</p><p>anos 70; Registro de negociação</p><p>com giz (1895-1972), início da</p><p>década de 70 no Palácio do Café.</p><p>Perceba em detalhe a direita da</p><p>foto, o primeiro monitor a ser usado</p><p>em pregão. As operações</p><p>continuavam sendo registradas com</p><p>giz, enquanto era introduzida a nova</p><p>tecnologia.</p><p>Centro de Memória da Bovespa</p><p>176</p><p>No início da década de 1970, a pediram que cancelassem as “boletas</p><p>demanda por novas ações, provocada de operação”. Os que não sabiam da</p><p>inicialmente pelos incentivos fiscais e história ficaram estupefatos com a</p><p>posteriormente pela euforia que tomou irresponsabilidade. Houve um misto de</p><p>conta do mercado, era tão grande que gargalhadas, confusões e pequenas</p><p>qualquer ação que se lançasse era brigas no pregão, com referências não</p><p>vendida. Um caso interessante é o da muito elogiosas às mães de alguns dos</p><p>Merposa, que foi citado espontaneamente autores da brincadeira.</p><p>por seis entrevistados para este livro. A brincadeira, naturalmente,</p><p>A primeira parte da história é contada vazou para a imprensa e o resultado,</p><p>exatamente da mesma forma por todos os como não poderia deixar de ser,</p><p>que ouvimos — os seis primeiros e os “arranhou” a imagem do mercado,</p><p>demais a quem fizemos a pergunta que queria continuar se</p><p>específica, pois vivenciaram o fato. profissionalizando, crescer e deixar</p><p>A segunda parte tem pequenas para trás a imagem ruim que se criou</p><p>variações, de acordo com quem conta, da década de 1950.</p><p>pois não foi presenciada por nenhum A segunda parte da história,</p><p>deles. Todos ouviram a história por contada através de terceiros, é a</p><p>terceiros, por estarem, na época, em seguinte, com pequenas variantes:</p><p>início de carreira. A história é a Os corretores mais antigos do Rio</p><p>seguinte: de Janeiro ficaram furiosos com a</p><p>Um grupo de operadores de pregão história. E avaliaram que aquela</p><p>da bolsa do Rio de Janeiro, entre 1969 brincadeira provocaria (como de fato</p><p>e 1970, apostou que seriam capazes de ocorreu) um descrédito no mercado e</p><p>fazer o lançamento de qualquer ação um forte movimento baixista.</p><p>com sucesso, pois o mercado comprava Procuraram saber a quem podia</p><p>qualquer coisa. interessar a queda no preço das ações e</p><p>No dia combinado, começaram o encontraram dois possíveis</p><p>lançamento das ações da Merposa, de interessados: Marcelo Leite Barbosa e o</p><p>acordo com todas as praxes da época. Comendador Jabour.</p><p>E o lançamento foi um sucesso, com os Na época, Marcelo Leite Barbosa</p><p>preços subindo de forma estonteante. era o maior e mais rico corretor do</p><p>No fim do dia, os operadores que País. A sua corretora era maior e mais</p><p>começaram o negócio disseram que forte do que a maior parte dos</p><p>tudo era uma brincadeira, que a bancos.</p><p>João Jabour era o maior acionista Merposa era a Merda em Pó S.A., e que</p><p>individual do Banco do Brasil e uma os compradores eram uns tolos — e</p><p>No início da década de 1970,</p><p>os preços das ações tiveram</p><p>excepcional valorização,</p><p>provocada por um conjunto de</p><p>fatores positivos:</p><p>1. O benefício fiscal do Fundo</p><p>157, que subitamente inundou</p><p>o mercado com dinheiro novo.</p><p>2. A escassez de papéis.</p><p>3. A reorganização do Estado</p><p>no Brasil, com inflação e juros</p><p>em queda.</p><p>4. A expectativa de que o País</p><p>iria crescer muito e, junto com</p><p>ele, as empresas, os lucros e os</p><p>dividendos pagos aos acionistas.</p><p>Na mesma velocidade em que</p><p>surgiu, o processo de alta foi</p><p>interrompido e deu lugar a uma</p><p>onda longa e duradoura de</p><p>baixa, devido ao seguinte</p><p>processo:</p><p>A falta de conhecimento técnico</p><p>levava a uma precificação</p><p>exagerada e, freqüentemente,</p><p>errada no preço dos papéis.</p><p>Banco do Brasil, por exemplo,</p><p>era negociado a mais de 55 de</p><p>P/L, enquanto Bradesco, que já</p><p>era o maior banco privado do</p><p>País, muito rentável e pagando</p><p>dividendos regularmente, era</p><p>negociado com P/L de 2. No</p><p>mesmo período, o Banco Itaú,</p><p>em grande crescimento, era</p><p>quase desconhecido no</p><p>mercado.</p><p>A falta de estrutura do</p><p>mercado para atender a uma</p><p>“massa” de novos clientes.</p><p>A desorganização das</p><p>custódias, que deu margem a</p><p>um grande número de</p><p>falcatruas.</p><p>A inexistência de uma</p><p>legislação que protegesse</p><p>adequadamente o acionista</p><p>minoritário permitiu que muitas</p><p>empresas desrespeitassem de</p><p>forma acintosa os acionistas</p><p>minoritários.</p><p>A queda na Bolsa, na década</p><p>de 1970, e os prejuízos dos</p><p>acionistas minoritários levaram</p><p>a um trauma que os jovens</p><p>investidores e administradores</p><p>de carteira, hoje, dificilmente</p><p>conseguem entender.</p><p>Foi abortado um processo que</p><p>daria outra dimensão ao</p><p>mercado de capitais e à</p><p>economia brasileira.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>O CASO MERPOSA</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>177</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>das pessoas mais ricas do País. Tinha empurrão inicial e a bola vai rolando e</p><p>negócios em todas as áreas. Em aumentando cada vez mais. A bola de</p><p>imóveis, construiu bairros inteiros para neve aumentou 102,3% em seis meses.</p><p>alugar, no Rio de Janeiro e</p><p>em outras Não é emocionante?”</p><p>capitais. Marcelo ouviu atentamente até o fim</p><p>Aparentemente, Marcelo e Jabour e disse: “essa é a coisa mais estúpida</p><p>acreditavam que a baixa viria e que eu já ouvi. Pelo que eu sei, bola de</p><p>começaram a vender grandes lotes de neve só desce morro abaixo, e eu</p><p>ações, mas o mercado absorvia tudo! E duvido que vocês e o Citibank movam</p><p>eles colocavam mais. Estavam um dedo para segurar o mercado que</p><p>vendendo, para fazer caixa e vai cair”. Pouco a pouco, foi o que</p><p>recomprarem a posição com a baixa ocorreu. Os grandes corretores foram</p><p>que esperavam que ocorresse. vendendo as suas posições em ações e</p><p>Marcelo e Jabour foram chamados o Comendador Jabour ria sozinho.</p><p>para uma reunião com a Direção da Foi entrevistado durante o período</p><p>Bolsa do Rio e com os corretores de baixa, quando ele virou o maior</p><p>insatisfeitos. comprador do mercado. Perguntaram-</p><p>Jabour avisou que não era corretor lhe por que ele estava comprando</p><p>e nada tinha a fazer. Além disso, tinha quando todos estavam vendendo e a</p><p>um compromisso na mesma data em resposta foi a seguinte:</p><p>São Paulo.</p><p>Marcelo compareceu, ainda que “Eu sou uma pessoa de bom coração,</p><p>atrasado. Os corretores, muito irritados, que sempre gostou de ajudar os outros.</p><p>o acusavam de ter planejado todo o Quando eles querem vender, eu</p><p>negócio, pois estava interessado na compro, quando eles querem comprar,</p><p>queda, e ele negava tudo. Por fim, eu vendo. Com isso, Deus tem me</p><p>admitiu que contava com a queda, mas ajudado muito.”</p><p>nada tinha a ver com o ocorrido.</p><p>Nesse momento, um corretor O FIM DA CORRETORA LEITE</p><p>exaltado disse que ele estava errado, BARBOSA</p><p>pois até os investidores estrangeiros Marcelo morreu com pouco mais de</p><p>estavam acreditando e investindo no 60 anos. Foi uma grande perda. Sem o</p><p>Brasil, e, para isso, apresentou uma seu líder, a corretora perdeu a direção</p><p>propaganda do Citibank, na Veja de e os jovens que o cercavam montaram</p><p>16/04/1971, p.28. diversas instituições financeiras, que</p><p>Mostrou a revista e leu em voz alta prosperaram.</p><p>para todos: Quase todos, porém, pelos fatos</p><p>“O Citybank introduziu no Brasil o relatados e por outros que ocorreram</p><p>esporte da bola de neve. Você coloca posteriormente, ficaram com a fama —</p><p>uma quantia de dinheiro no Fundo de injusta para a maior parte deles — de</p><p>Investimento e assim você dá um serem a “banda podre do mercado”.</p><p>-25</p><p>-5</p><p>0</p><p>Grandes Quedas na Bolsa</p><p>de 20/10/87 a 10/01/95 (méxico III)</p><p>variança %</p><p>4.000</p><p>3.500</p><p>3.000</p><p>2.500</p><p>2.000</p><p>1.500</p><p>1.000</p><p>500</p><p>0</p><p>3</p><p>0</p><p>/0</p><p>4</p><p>/7</p><p>0</p><p>3</p><p>0</p><p>/0</p><p>4</p><p>/7</p><p>1</p><p>2</p><p>9</p><p>/1</p><p>0</p><p>/7</p><p>1</p><p>2</p><p>8</p><p>/0</p><p>4</p><p>/7</p><p>2</p><p>3</p><p>1</p><p>/1</p><p>0</p><p>/7</p><p>2</p><p>3</p><p>0</p><p>/1</p><p>0</p><p>/7</p><p>0</p><p>2</p><p>3</p><p>/0</p><p>3</p><p>/7</p><p>3</p><p>A curva do índice nacional das Bolsas</p><p>entre 1960 e 1973</p><p>Índice das bolsas</p><p>-20</p><p>-15</p><p>-10</p><p>1</p><p>0</p><p>/0</p><p>1</p><p>/9</p><p>5</p><p>-</p><p>M</p><p>éx</p><p>ic</p><p>o</p><p>II</p><p>I</p><p>2</p><p>1</p><p>/0</p><p>1</p><p>/9</p><p>4</p><p>-</p><p>M</p><p>éx</p><p>ic</p><p>o</p><p>I</p><p>0</p><p>4</p><p>/0</p><p>4</p><p>/9</p><p>4</p><p>-</p><p>B</p><p>a</p><p>ix</p><p>a</p><p>N</p><p>. Y</p><p>.</p><p>2</p><p>1</p><p>/0</p><p>3</p><p>/9</p><p>0</p><p>-</p><p>P</p><p>la</p><p>n</p><p>o</p><p>C</p><p>o</p><p>ll</p><p>o</p><p>r</p><p>2</p><p>0</p><p>/1</p><p>0</p><p>/8</p><p>7</p><p>-</p><p>C</p><p>ra</p><p>sh</p><p>N</p><p>. Y</p><p>.</p><p>178</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>No período de 1971 a 2001, o pelo acesso das pessoas físicas que, com</p><p>mercado de capitais, foi aos poucos se as novas tecnologias, diminuindo</p><p>profissionalizando, treinando pessoal nos expressivamente o custo das transações,</p><p>bancos de investimentos e corretoras e se tornaram-se atraentes para as corretoras.</p><p>beneficiando do fluxo de dinheiro O trabalho de divulgação do</p><p>proveniente dos fundos de pensão, mercado de capitais para pessoas</p><p>previdência e seguradoras, que exigiam um físicas, feito em um esforço conjunto da</p><p>tratamento diferenciado em relação à Bovespa, das corretoras e dos analistas,</p><p>seriedade com que deveriam ser tratados teve um formidável impulso com</p><p>pelas empresas onde colocavam o dinheiro. Raimundo Magliano, e continua dando</p><p>Os investidores, pessoas físicas, eram resultados: a participação das pessoas</p><p>poucos e “maltratados” pelas corretoras, físicas nos negócios em bolsa cresceram</p><p>que estavam focadas nos grandes expressivamente nos últimos anos,</p><p>clientes, quase todos institucionais, e no dando liquidez e aumentando a</p><p>mercado de renda fixa. valorização das ações.</p><p>O mercado cresceu lentamente e O fortalecimento do mercado de</p><p>pouco no período de 30 anos, em um ações e debêntures no Brasil e a</p><p>processo de crises, em alguns momentos facilidade de acesso ao mercado</p><p>associadas à economia brasileira e em internacional de dinheiro, por sua vez,</p><p>outros à situação dos emergentes e a mudaram a forma com que as grandes</p><p>crises em Nova Iorque. Entre outras, empresas compõem os seus fundos e</p><p>provocadas pela especulação e a falta de estão fazendo com que esse segmento de</p><p>controles, como no caso Naji Nahas, que mercado use cada vez menos os fundos</p><p>“quebrou” a Bolsa do Rio e teria tradicionais do mercado bancário.</p><p>arrastado a Bovespa, não fosse a O mercado de “corporate”, portanto,</p><p>providencial ajuda do banqueiro — e exceto nos negócios dos bancos de</p><p>grande investidor — Pedro Conde. investimentos, onde as margens são</p><p>Após o ano de 2001, o mercado de muito atraentes (pelo volume envolvido),</p><p>capitais entrou em uma fase de está se reduzindo para os bancos</p><p>crescimento sustentado, quando os comerciais, que procuram compensar</p><p>analistas e investidores perceberam que, essa perda de negócios diretos com</p><p>pelo menos na economia, o Governo negociações que envolvam toda a</p><p>Lula daria continuidade ao que começou “cadeia” de fornecedores e clientes, ou</p><p>no Plano Real. uma parte importante dessas relações.</p><p>Essa avaliação, correta, associada à A tendência é que esses elos de</p><p>ampla liquidez internacional, que já interesses comuns, como ocorre, por</p><p>havia valorizado as bolsas em todo o exemplo, entre as financeiras dos bancos</p><p>mundo, com múltiplos de preços das e as grandes redes de varejo, se tornem</p><p>ações muito mais elevados, levaram a mais freqüentes, compensando, pelo</p><p>uma retomada firme e consistente que se financiamento direto aos clientes e</p><p>mantém até 2007 e deve continuar nos fornecedores, a redução na demanda de</p><p>próximos anos, ainda que ocorram crédito pelas grandes empresas.</p><p>algumas “ondas” de realizações, como é Essa tendência, pelo menos no prazo</p><p>normal após as grandes altas. que se consegue prever, é benéfica para</p><p>O mercado tende a continuar os bancos, que obtêm, nessas operações</p><p>crescendo, com os fundos de clientes de varejo, uma margem de lucro</p><p>institucionais, investidores estrangeiros e expressivamente maior.</p><p>30 ANOS DE CONSOLIDAÇÃO E UMA BRILHANTE VALORIZAÇÃO!</p><p>238,1</p><p>194,7</p><p>146,5</p><p>114,6</p><p>97,3</p><p>BOVESPA</p><p>Valorização Acumulada%</p><p>desde jan/2003</p><p>2003 0504 06 07*</p><p>Até junho de 2007 tomando</p><p>dezembro de 2002 como base</p><p>da comparação o Ibovespa</p><p>teve uma valorização</p><p>acumulada de 238,1%. Um</p><p>resultado estupendo!</p><p>179</p><p>180</p><p>181</p><p>A atual onda de aberturas de capital telecomunicações para o Brasil.</p><p>na Bolsa de Valores, e a maior utilização</p><p>de outros instrumentos de mercado por LIDERANÇA NOS BANCOS</p><p>parte das empresas brasileiras para a DE INVESTIMENTOS</p><p>captação de recursos, tais como as Ao contrário do que ocorreu com os</p><p>debêntures, tem acirrado a concorrência bancos no varejo, onde as lideranças</p><p>no lucrativo segmento de bancos de conquistadas, no decorrer dos últimos</p><p>investimento. cinqüenta anos, foram se consolidando em</p><p>Além disso, a combinação de juros torno de poucos bancos, com</p><p>internos em queda, real valorizado e relativamente poucas mudanças no ranking</p><p>inflação controlada, desperta cada vez mais das instituições, nos bancos de</p><p>o apetite dos investidores estrangeiros por investimentos a única certeza é a</p><p>ativos brasileiros. O saldo em aplicações mudança.</p><p>de fundos de investimento foi estimado, no Como o negócio dos bancos de</p><p>final de 2006, em R$ 800 bilhões, o que investimentos exige pessoas com o perfil</p><p>mostra o tamanho e a maturidade do muito diferente de quem trabalha no</p><p>mercado brasileiro. varejo, os grandes bancos, só tiveram</p><p>As emissões de debêntures também destaques, quando os executivos à frente</p><p>tiveram destaque assim como operações de dos seus bancos de investimentos (ou das</p><p>leasing, fusões e aquisições,</p><p>que tiveram suas áreas de mercado de capitais) tinham</p><p>um desempenho espetacular. talento para o negócio e, além disso, eram</p><p>O mercado de ações também continua suficientemente ousados para contrariarem</p><p>em efervescência, e, em 2007, até o as “normas e cultura” estabelecidas pelo</p><p>momento da edição deste livro, nada banco comercial.</p><p>menos que 41 empresas já tinham aberto Foi assim, em épocas diferentes, por</p><p>capital na bolsa. Para se ter idéia da exemplo, com Roberto Teixeira da Costa,</p><p>bonança, a capitalização bursátil da bolsa Thomas Zinner, e Israel Vanboin no</p><p>brasileira ultrapassou no final de junho a Unibanco; com Ary Waddington no Banco</p><p>marca histórica de US$ 1 trilhão. Aymoré (ABN AMRO); com Mário</p><p>Os bancos de investimento estão Teixeira e Roger Agnelli, no Bradesco,</p><p>voltando aos tempos de pujança, que não para citar apenas alguns desses nomes que</p><p>se via desde o final da década de 90, que fizeram à diferença.</p><p>teve o advento das privatizações, que Em geral, sempre que esses</p><p>trouxeram mais de US$ 26 bilhões para profissionais, exatamente pelo talento,</p><p>investimentos em infra-estrutura e foram deslocados para outras áreas, o</p><p>BANCOS DE INVESTIMENTOS</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>Class.</p><p>2006</p><p>Banco Sede</p><p>Ativo</p><p>Total</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Oper. de</p><p>Crédito</p><p>(</p><p>milhões)</p><p>em R$</p><p>Tit. e Val.</p><p>Mobiliários</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Depó-</p><p>sitos</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>8</p><p>9</p><p>10</p><p>Alfa de Investimento</p><p>Credit Suisse</p><p>BB Investimento</p><p>Bes Investimento</p><p>Fidis</p><p>Merrill Lynch</p><p>HSBC Investment Bank</p><p>Standard</p><p>Safra Investimento</p><p>Banif</p><p>3854,3</p><p>1493,5</p><p>0,0</p><p>929,3</p><p>1084,6</p><p>122,1</p><p>0,0</p><p>340,9</p><p>0,0</p><p>155,5</p><p>4732,6</p><p>2352,8</p><p>1159,2</p><p>1654,6</p><p>97,4</p><p>1202,7</p><p>6,2</p><p>382,3</p><p>44,9</p><p>204,4</p><p>2548,0</p><p>614,5</p><p>0,0</p><p>0,0</p><p>1160,3</p><p>0,0</p><p>0,0</p><p>48,3</p><p>0,1</p><p>23,9</p><p>SP</p><p>SP</p><p>DF</p><p>SP</p><p>SP</p><p>SP</p><p>SP</p><p>SP</p><p>SP</p><p>SP</p><p>9701,1</p><p>9445,7</p><p>2300,3</p><p>1870,6</p><p>1646,2</p><p>1375,7</p><p>951,4</p><p>579,4</p><p>374,2</p><p>334,1</p><p>Patrim.</p><p>Líquido</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Receita Int.</p><p>Financ.</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Res. bruto</p><p>Int. Financ.</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Var.</p><p>( m )e %</p><p>755,5</p><p>1.206,2</p><p>1.812,1</p><p>112,1</p><p>358,1</p><p>397,5</p><p>780,1</p><p>122,0</p><p>289,0</p><p>39,5</p><p>1.152,1</p><p>1.504,7</p><p>131,5</p><p>245,8</p><p>186,7</p><p>107,0</p><p>91,0</p><p>74,4</p><p>45,1</p><p>38,8</p><p>8,9</p><p>46,4</p><p>8,5</p><p>4,4</p><p>-10,2</p><p>92,0</p><p>-21,3</p><p>80,3</p><p>38,5</p><p>634,4</p><p>126,4</p><p>437,4</p><p>102,1</p><p>52,8</p><p>95,8</p><p>4,4</p><p>91,0</p><p>35,2</p><p>44,8</p><p>1,1</p><p>OS 10 MAIORES BANCOS DE INVESTIMENTOS</p><p>DIFERENTES CUTURAS</p><p>As culturas nos bancos de</p><p>varejo, bancos de</p><p>investimentos, financeiras e</p><p>seguradoras, entre outras, são</p><p>muito diferentes.</p><p>Os atributos de uns podem ser</p><p>defeitos de outros. Esses</p><p>corpos não devem se</p><p>aproximar, pois se</p><p>contaminam e perdem foco.</p><p>O processo de concentração</p><p>que ocorre nos bancos</p><p>americanos se dá em dois</p><p>sentidos:</p><p>1. Do secular conservadorismo</p><p>bancário que preconiza que o</p><p>valor do banco é igual à</p><p>qualidade do ativo — que é</p><p>função da cultura do banco.</p><p>2. Segmentação e separação</p><p>na gestão das diferentes áreas</p><p>do mercado financeiro e de</p><p>seguros.</p><p>Sculpies / Dreamstime</p><p>Plataforma de petróleo, depois dos</p><p>bancos, as companhias de pretróleo</p><p>são as maiores empresas de capital</p><p>aberto do mundo.</p><p>182</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>Result</p><p>Operac.</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Equival.</p><p>Patrim.</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Result.</p><p>Líquido</p><p>(em R$</p><p>milhões)</p><p>Alavan-</p><p>cagem</p><p>(em</p><p>pontos)</p><p>Imobili-</p><p>zação</p><p>(em %)</p><p>Liquidez</p><p>corrente</p><p>(em</p><p>pontos)</p><p>Custo</p><p>Operac.</p><p>(em</p><p>pontos)</p><p>Rentab.</p><p>Operac.</p><p>(em %)</p><p>Rentab.</p><p>do PL</p><p>(em %)</p><p>Class.</p><p>2006</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>8</p><p>9</p><p>10</p><p>109,6</p><p>981,7</p><p>700,0</p><p>35,6</p><p>75,2</p><p>86,4</p><p>127,2</p><p>23,6</p><p>224,3</p><p>3,8</p><p>38,0</p><p>236,9</p><p>504,2</p><p>5,5</p><p>0,0</p><p>53,1</p><p>30,7</p><p>0,0</p><p>0,0</p><p>4,2</p><p>87,3</p><p>576,8</p><p>624,0</p><p>25,0</p><p>62,7</p><p>72,9</p><p>99,7</p><p>17,1</p><p>148,1</p><p>4,2</p><p>11,84</p><p>6,83</p><p>0,27</p><p>15,68</p><p>3,60</p><p>2,46</p><p>0,22</p><p>3,75</p><p>0,29</p><p>7,47</p><p>51,9</p><p>53,1</p><p>47,9</p><p>47,8</p><p>0,1</p><p>26,5</p><p>24,3</p><p>1,9</p><p>0,0</p><p>81,9</p><p>0,97</p><p>0,99</p><p>0,95</p><p>1,29</p><p>1,70</p><p>1,50</p><p>0,64</p><p>1,31</p><p>4,39</p><p>1,57</p><p>0,49</p><p>0,11</p><p>0,18</p><p>0,42</p><p>0,24</p><p>0,67</p><p>0,07</p><p>0,60</p><p>0,09</p><p>1,16</p><p>14,5</p><p>81,4</p><p>38,6</p><p>31,7</p><p>21,0</p><p>21,7</p><p>16,3</p><p>19,4</p><p>77,6</p><p>9,5</p><p>11,6</p><p>47,8</p><p>34,4</p><p>22,3</p><p>17,5</p><p>18,3</p><p>12,8</p><p>14,0</p><p>51,2</p><p>10,7</p><p>Crédito da pág. 185</p><p>Pregão XV anos 90; Pregão dos</p><p>anos 90, sede da XV de Novembro,</p><p>negociação viva-voz e divulgação</p><p>eletrônica.</p><p>O pregão viva-voz foi substituído em</p><p>2004 pelo pregão eletrônico.</p><p>banco perdeu o foco no segmento e oportunidades. Em conseqüência, nos</p><p>perdeu a liderança ou participação de próximos anos as lideranças nesse</p><p>mercado. segmento podem ser muito diferentes.</p><p>Atualmente, a liderança nesse Os estrangeiros acreditam que não.</p><p>mercado, por ativos, está concentrada em Avaliam que o mercado de investimentos é</p><p>apenas três bancos, onde apenas o internacional e eles já acumularam</p><p>terceiro, o BB, tem uma expressiva rede expertise e capacidade de distribuição que</p><p>de varejo. lhes garantem uma excepcional vantagem</p><p>O segundo lugar é ocupado pelo competitiva.</p><p>CREDIT SUISSE, que absorveu o antigo Os nacionais avaliam que podem fazer</p><p>Garantia, conseguindo melhorar a sua uma distribuição igual a dos concorrentes</p><p>eficiência e controlar os riscos, adotando e contam com um relacionamento mais</p><p>um padrão sofisticado de gestão, mesmo próximo dos clientes no Brasil.</p><p>para os bancos estrangeiros. Com isso, é o</p><p>segundo banco em ativos e em O BRADESCO</p><p>rentabilidade, mantendo um excepcional O Bradesco agrupou a área de</p><p>resultado. mercado de capitais e outras no BBI para</p><p>Os demais bancos, exceto pelo "dar foco nesse segmento", como nos</p><p>SAFRA, são estrangeiros. Os ativos totais relatou Márcio Cypriano, e iniciou uma</p><p>do SAFRA, em relação ao seu potencial, política agressiva de contratação de</p><p>são pequenos. Contudo, sua rentabilidade profissionais experientes no mercado.</p><p>em 2006, superior a 50% do patrimônio, Montou uma excelente estrutura que se for</p><p>faz jus ao seu prestígio e capacidade de ousada e interagir com a base de clientes</p><p>atuar como banqueiro de investimento. do banco comercial poderá dar bons</p><p>resultados em pouco tempo.</p><p>O QUE ESPERAR DOS GRANDES</p><p>BANCOS BRASILEIROS E OUTROS ITAÚ BBA</p><p>ENTRANTES? Ciente de que o negócio de bancos de</p><p>Durante os últimos anos os grandes investimentos é muito diferente do banco</p><p>bancos brasileiros estiveram com o foco de varejo, o ITAÚ BBA, que já tinha os</p><p>concentrado em distribuição de massa e se negócios geridos em separado, sai do</p><p>descuidaram com o que acontecia no balanço consolidado da Itaú Holding e</p><p>segmento dos bancos de investimentos. ganha vida contábil independente. Essa</p><p>Os lucros desses bancos em 2005 e mudança vai provocar uma expressiva</p><p>2006 os despertaram para as alteração no ranking.</p><p>Centro de Memória da Bovespa</p><p>183</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVII</p><p>Em 5 de novembro de 2002 o que segmentação das atividades, que se</p><p>parecia ser mais uma incorporação transformou na chave para o crescimento</p><p>revelou-se uma operação nova no acelerado que o banco experimentou nos</p><p>mercado brasileiro. Depois de um ano e últimos tempos.</p><p>meio de negociações sigilosas, o Banco A constituição de unidades de</p><p>Itaú realizou a fusão de sua área negócios criou as condições para que o</p><p>corporate com o Banco BBA Creditanstalt Itaú, de um grande banco de varejo, se</p><p>criando o maior banco de atacado do tornasse um conglomerado financeiro</p><p>Brasil, o Itaú BBA. “multinegócios”.</p><p>Operando de forma autônoma e com Ao longo dos anos, foram</p><p>controle compartilhado, o novo banco veio incorporadas diversas instituições de</p><p>reforçar a segmentação do Itaú nas posicionamento mercadológico</p><p>atividades de banco de investimento e que diferenciado, detentoras de expertise em</p><p>envolvem grandes corporações. operações financeiras e segmentos mais</p><p>O negócio com o Banco BBA sofisticados, tanto no mercado nacional</p><p>Creditanstalt incluiu o Banco BBA e suas quanto no internacional.</p><p>subsidiárias no país e no exterior, ao A continuidade na operação dessa</p><p>preço total de R$ 3,3 bilhões. O alto estratégia ocorreu em 1995, com a</p><p>valor e o ineditismo da solução compra do Banco Francês e Brasileiro,</p><p>surpreenderam o mercado, mas, cuja plataforma propiciou a constituição</p><p>observado em perspectiva, o negócio se do Itaú Personnalité, focado nos clientes</p><p>explica pela capacidade do Itaú em pessoa física de renda elevada. Com a</p><p>desenhar cenários e se preparar para eles. ampliação do portfólio de operações</p><p>Um exemplo dessa estratégia foi a proporcionada com a associação</p><p>com o</p><p>aposta na estabilização econômica, que BBA, o Itaú acabou chegando à liderança</p><p>viria com o sucesso do Plano Real. Desde em segmentos como o das grandes</p><p>os anos 80, diversas providências corporações e administração de recursos.</p><p>procuraram ajustar a instituição para o Em 2006, cerca de 1.100 grupos</p><p>fim da inflação. A racionalização de econômicos eram atendidos pelo</p><p>custos, foi uma delas. A outra, foi a Itaú BBA.</p><p>BBA: UM NOVO CENÁRIO PARA O ITAÚ</p><p>A reorganização societária, iniciada instituição tem como principais</p><p>em novembro de 2002 e aprovada pelo subsidiárias o Banco Itaú, dedicado ao</p><p>Banco Central em 27 de fevereiro de varejo, e o Banco Itaú BBA, que atua</p><p>2003, permitiu ao banco atingir esse na área de atacado.</p><p>novo patamar de atuação. A estratégia que combina</p><p>As empresas e os vários negócios crescimento com diversificação de</p><p>financeiros ficaram sob o controle do atividades prosseguiu por meio de</p><p>Banco Itaú Holding Financeira. A nova diversas conquistas nos anos seguintes.</p><p>CRESCIMENTO E DIVERSIFICAÇÃO COM O ITAÚ HOLDING</p><p>COMPRAS E</p><p>ASSOCIAÇÕES DO ITAÚ</p><p>A compra do Banco Fiat</p><p>fortaleceu a posição do Itaú no</p><p>mercado de financiamento,</p><p>leasing e consórcio de</p><p>automóveis. Ainda em 2003, a</p><p>participação em seguros foi</p><p>reforçada com a aquisição do</p><p>Banco AGF e da AGF Vida e</p><p>Previdência, além das</p><p>carteiras de seguros de vida e</p><p>previdência da AGF Brasil</p><p>Seguros.</p><p>A área de financiamento ao</p><p>consumo experimentou forte</p><p>expansão em 2004, com o</p><p>início das operações da</p><p>financeira do Itaú, a Taií. O</p><p>conceito da primeira loja</p><p>aberta no centro de São Paulo,</p><p>identificada pelo visual</p><p>moderno e atendimento</p><p>diferenciado, chegaria a 186</p><p>pontos-de-venda do país dois</p><p>anos depois. Ainda em 2004,</p><p>uma parceria com o Grupo</p><p>Pão de Açúcar levou à</p><p>formação da Financeira Itaú</p><p>CBD. O objetivo é ampliar a</p><p>oferta de serviços e produtos</p><p>aos clientes da rede com a</p><p>instalação de unidades da</p><p>franquia Taií nos</p><p>supermercados Pão de</p><p>Açúcar, Extra, CompreBem e</p><p>Sendas. Em outra associação</p><p>para o crédito ao consumidor,</p><p>fundou-se a Financeira</p><p>Americanas Itaú (FAI), que</p><p>atenderá os clientes dos</p><p>magazines Lojas Americanas e</p><p>Americanas Express, além dos</p><p>compradores da rede virtual</p><p>Americanas.com.</p><p>No segmento de cartões de</p><p>crédito, o Itaú potencializou</p><p>em 2004 sua participação</p><p>nesse produto, que apresenta</p><p>uma das maiores taxas de</p><p>crescimento no mercado</p><p>financeiro para pessoas físicas.</p><p>Ao mesmo tempo em que</p><p>adquiriu 50% da participação</p><p>na Credicard, maior emissora</p><p>de cartões no Brasil, passou a</p><p>controlar 100% das ações da</p><p>Orbitall, empresa líder no</p><p>processamento para o mercado</p><p>de cartões de crédito.</p><p>184</p><p>185</p><p>186</p><p>CAPÍTULO 18</p><p>Período 1980-1985:</p><p>a crise externa e os ganhos</p><p>com float e arbitragens</p><p>187</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO XVIII</p><p>Em 1979, o segundo choque do de juros sobre a dívida pública com a</p><p>petróleo, conjugado com uma súbita impressão de mais dinheiro e colocação</p><p>elevação das taxas de juros internacionais, de nova dívida. Nessa situação de</p><p>provocou o aumento da inflação — que inflação crescente, o float do dinheiro dos</p><p>elevou-se de 77,2% naquele ano para clientes em depósitos à vista aplicados em</p><p>110,2% em 1980 — e aprofundou os títulos da dívida pública permitiriam um</p><p>déficits externos em conta corrente, ganho extraordinário, à medida que a</p><p>tornando necessária a adoção de políticas inflação e os juros subissem. Essa</p><p>de ajuste para enfrentar tanto a escalada conjuntura perdurou de 1980 até o Plano</p><p>inflacionária como as restrições externas. Cruzado, que foi a primeira tentativa séria</p><p>Em 1980, Delfim Netto voltou ao posto de combate à inflação. Nesse ínterim, o</p><p>de principal gestor da economia brasileira e governo perdeu o foco de longo prazo,</p><p>sem considerar os sinais que vinham do ficou imobilizado tentando resolver os</p><p>exterior, como o aumento dos preços problemas da dívida externa. A política</p><p>internacionais do petróleo e dos juros recessiva continuou nos anos seguintes,</p><p>internacionais, gerou um clima de “euforia com quedas do PIB em 1982 e 1983.</p><p>desenvolvimentista” e deu condições para A entrada de dinheiro externo, que</p><p>era mínima, estancou em 1982, após o que a economia crescesse de forma</p><p>México parar de pagar os juros e o acelerada. A idéia dominante era de que “o</p><p>principal sobre a dívida externa. Com Brasil é imune à crise externa”. Como</p><p>isso, o Governo “mergulhou” cada vez resultado, o PIB cresceu 9,1% em 1980.</p><p>mais na situação da dívida externa, Entretanto, no início de 1981, já</p><p>manteve um padrão de gastos estava claro que o País caminhava para a</p><p>incompatível com a situação de crise, os recessão e que o crédito externo iria</p><p>juros reais aumentaram expressivamente diminuir. E o pior: com os preços do</p><p>e a inflação subiu do patamar médio de petróleo e os juros internacionais subindo</p><p>100% ao ano, de 1980 a 1982, para de forma contínua, haveria um impacto</p><p>235% a.a. em 2005.muito forte sobre as contas externas do</p><p>Nessa situação, os bancos comerciais País, devido à dependência do petróleo</p><p>iniciaram uma frenética expansão em importado e aos juros pagos sobre a</p><p>busca do aumento nos depósitos à vista e dívida externa. A política monetária e os</p><p>novos clientes. As corretoras se</p><p>juros mudaram de forma abrupta em</p><p>alavancaram enormemente no mercado de</p><p>1981. Como conseqüência, o PIB caiu</p><p>dívida pública, com a complacência do</p><p>3,4% no ano. A primeira queda de Banco Central, que precisava, cada vez</p><p>produto no Brasil em mais de 50 anos. mais aumentar a colocação de dívida</p><p>Os bancos perceberam que, com o pública. Os bancos de investimentos, assim</p><p>governo gastando sem medir as como os estrangeiros, por sua vez,</p><p>conseqüências e sem poder tomar procuravam resolver os problemas</p><p>dinheiro no exterior, o custo do dinheiro cambiais dos seus clientes com arbitragens</p><p>subiria muito no mercado interno. O e soluções criativas que mantivessem um</p><p>Governo Central e os estados teriam de canal aberto com o mercado financeiro</p><p>financiar os seus déficits e o pagamento internacional.</p><p>PERÍODO 1980-1985: A CRISE EXTERNA E</p><p>OS GANHOS COM FLOAT E ARBITRAGENS</p><p>“Eu vi o mundo e ele começava no</p><p>Recife” (Detalhe) circa 1929</p><p>Cícero Dias</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>188</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>A EXPANSÃO EM BUSCA DE NOVOS CLIENTES</p><p>O período de 1980 até 28 de inaugurações. A demanda por móveis</p><p>fevereiro de 1986, de um modo geral, era tão grande que o Bradesco montou</p><p>foi uma época de ouro para os bancos uma marcenaria em Campinas. Havia</p><p>brasileiros, onde os eventuais erros um kit padrão de móveis, cofres,</p><p>eram encobertos pelos altos ganhos números de arquivos, manuais de</p><p>inflacionários. Aproveitando o contexto, operação e segurança. O maior</p><p>o Bradesco saltou na frente dos outros problema era recrutar e treinar mão-de-</p><p>e, sem medir custos, iniciou uma obra na velocidade que o negócio exigia.</p><p>corrida para a abertura de novas A preocupação com custos era</p><p>agências, utilizando-se do ganho com o mínima, já que os ganhos com a</p><p>dinheiro barato dos depósitos à vista. inflação e as aplicações financeiras</p><p>Abrir novas unidades virou uma cobriam qualquer desperdício. Os</p><p>atividade industrial, feita em série. demais bancos começaram a seguir o</p><p>Todas pareciam com “caixotes”, Bradesco, mas não conseguiam ter a</p><p>diferenciavam-se apenas pelo tamanho, mesma velocidade. Além disso, ao</p><p>que se adequava ao terreno e ao procurarem fazer agências mais bonitas</p><p>potencial de cada ponto. Tudo era ou diferenciadas, perdiam em tempo e</p><p>padronizado para se ter rapidez nas em altos custos com instalações.</p><p>BRADESCO</p><p>Acervo Bradesco</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>189</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>PERFIL DE LÁZARO BRANDÃO</p><p>Nascido em 15 de junho de 1926, em Bradesco. É presidente da Mesa Regedora</p><p>Itápolis, São Paulo. Formado em e diretor-presidente da Fundação</p><p>Administração de Empresas e Economia, Bradesco; presidente do Conselho de</p><p>iniciou a carreira em 1942, como Administração e diretor-presidente da</p><p>escriturário na Casa Bancária Almeida & Fundação Instituto de Moléstias do</p><p>Cia., embrião</p><p>do Bradesco. Aparelho Digestivo e da Nutrição</p><p>Passou por todas as etapas da carreira (Fimaden). Além dessas atividades, é</p><p>bancária, sendo eleito Diretor pela presidente do Conselho de Administração</p><p>instituição, em janeiro de 1963, e diretor da Bradespar S.A. e membro do Conselho</p><p>vice-presidente executivo em 1977. de Administração do Banco Espírito Santo</p><p>Sucedendo ao fundador do banco, S.A., com sede em Lisboa, Portugal.</p><p>Amador Aguiar, em 1981 assumiu a Foi diretor-presidente do Sindicato dos</p><p>Presidência da Diretoria e, em fevereiro Bancos nos Estados de São Paulo, Paraná,</p><p>de 1990, cumulativamente, a Presidência Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vice-</p><p>do Conselho de Administração. Em março presidente da Diretoria da Federação</p><p>de 1999, entendendo ter chegado o Nacional dos Bancos (Fenaban), membro</p><p>momento, indicou o vice-presidente Márcio do Conselho Diretor da Federação</p><p>Artur Laurelli Cypriano que ocupava na Brasileira de Bancos (Febraban),</p><p>época a Presidência do BCN, como seu presidente do Conselho de Administração</p><p>sucessor na Presidência da Diretoria, do Fundo Garantidor de Créditos (FCG),</p><p>permanecendo na Presidência do Conselho presidente do Conselho de Administração</p><p>de Administração. da Cibrasec, Companhia Brasileira de</p><p>Participa também da Administração Securitização, e membro do Conselho</p><p>das demais empresas da Organização Consultivo da VBC Participações S.A.</p><p>AS TRANSFORMAÇÕES DO BANCO COM LÁZARO BRANDÃO</p><p>Lázaro de Mello Brandão é um tecnológicas do sistema financeiro em</p><p>homem de personalidade determinada. uma época de reserva de mercado.</p><p>Sua trajetória no Bradesco, iniciada Em sua gestão, fortaleceu o plano</p><p>em 1942, aos 16 anos, como de crescimento do banco, com a</p><p>escriturário na agência de Pompéia, expansão da rede de agências em todo</p><p>interior de São Paulo, foi marcada por território nacional e por meio de</p><p>uma gestão de eficiência que aquisições de outras instituições</p><p>consolidou o Bradesco na posição de financeiras. Em sua gestão, o Bradesco</p><p>banco privado líder no País. tornou-se o primeiro banco a usar</p><p>“Seu” Brandão, como é chamado computador, a desenvolver cartão</p><p>pelos executivos e colaboradores do magnético e a oferecer aos seus clientes</p><p>banco, é um banqueiro de grandes a possibilidade de realizar transações</p><p>decisões. Sempre esteve à frente das financeiras pelo sistema instantâneo,</p><p>iniciativas pioneiras do Bradesco com em toda sua rede de agências.</p><p>lançamento de produtos e serviços Dedicação e empenho marcam o</p><p>sempre antecipando tendências cotidiano de Lázaro de Mello Brandão.</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>190</p><p>191</p><p>Acervo Bradesco</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>Matriz Itaú Buenos Ayres</p><p>O ITAÚ</p><p>O Itaú, tendo crescido sua rede por</p><p>meio de fusões e incorporações,</p><p>demorou um pouco a iniciar a</p><p>expansão das agências. Seguindo a</p><p>máxima de Olavo Setubal, todo projeto</p><p>deveria ser cuidadosamente avaliado.</p><p>Porém, assim que tomaram a decisão,</p><p>a expansão foi muito rápida. Cada</p><p>oportunidade dada pelo Banco Central</p><p>era aproveitada para a abertura de uma</p><p>nova agência. O processo seguiu até</p><p>1985, quando o Itaú estava com 1.027</p><p>agências e 87.473 funcionários. Se por</p><p>um lado o Itaú demorou em dar uma</p><p>arrancada para a instalação de novas</p><p>agências, por outro lado implantou o</p><p>banco eletrônico, com grandes</p><p>investimentos em automação, o</p><p>marketing aproveitou a iniciativa e</p><p>conseguiu comunicar aos clientes a</p><p>imagem de um banco moderno e</p><p>tecnologicamente desenvolvido. Além</p><p>disso, continuou fazendo investimento</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>em bancários com um nível cultural</p><p>superior à média de mercado e iniciou</p><p>a construção, em 1982, do Centro</p><p>Empresarial Itaú Conceição, consciente</p><p>de que um conglomerado financeiro do</p><p>porte que se vislumbrava para o Itaú,</p><p>exigiria um centro administrativo</p><p>moderno. O banco também se</p><p>expandiu na área internacional, com a</p><p>dinamização dos departamentos de</p><p>câmbio e comércio exterior.</p><p>Abriu agências em Nova Iorque e</p><p>Buenos Aires e escritórios em Londres</p><p>e Santiago do Chile, em 1981, e nas</p><p>Ilhas Caiman em 1982.</p><p>Acervo Memória Itaú</p><p>192</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>No início da década de</p><p>1980, ainda era o único</p><p>banco que realmente tinha</p><p>uma cobertura nacional.</p><p>Apoiado na imagem de</p><p>segurança e eficiência e</p><p>ancorado nas contas</p><p>governamentais, possuía</p><p>um float gigantesco. Em</p><p>função disso, os seus</p><p>ganhos começaram a se</p><p>multiplicar em uma</p><p>velocidade estonteante — e</p><p>quase no mesmo ritmo os</p><p>seus custos.</p><p>O banco, pela sua</p><p>escala e por ser, na prática,</p><p>o “banco central” do Brasil</p><p>por muitos anos, sempre</p><p>teve a melhor mão-de-obra</p><p>bancária do País e, para</p><p>isso, mantinha um</p><p>excepcional padrão de</p><p>benefícios e salários.</p><p>Porém, embora contasse</p><p>com um corpo técnico e</p><p>gerencial de primeiro nível,</p><p>as suas decisões com</p><p>freqüência eram políticas e</p><p>não contribuíam para os</p><p>bons resultados do banco.</p><p>Esses três bancos seguiram no “rastro” ganho com a aplicação financeira do float</p><p>do Bradesco. Isto significava abrir novas dos depósitos era tão alto que dispensava</p><p>agências, sem medir custos, assim que o maiores cuidados em medir custos. O</p><p>Banco Central acenava com a importante era a expansão, e quanto mais</p><p>possibilidade. O raciocínio era simples: o rápido melhor.</p><p>NACIONAL, BAMERINDUS E BANCO ECONÔMICO</p><p>BANCO DO BRASIL</p><p>Agência do Banco do Brasil em Brasília - 1980 - Centro Cultural Banco do Brasil</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>193</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>BANCOS ESTRANGEIROS</p><p>O PLANO BRADY</p><p>Com a crise externa e, travavam o risco tomando os dólares,</p><p>principalmente, depois da crise do repassando para o Banco Central ávido</p><p>México em 1982, os bancos estrangeiros, por moeda estrangeira — que convertia</p><p>repentinamente, ficaram sem recursos os dólares em moeda local e com esses</p><p>para emprestar e ainda precisavam se recursos os bancos estrangeiros</p><p>esforçar para receberem o seu dinheiro, passaram a financiar capital de giro.</p><p>principalmente do Governo. No decorrer da década de 80, o</p><p>Na tarde de 20 de dezembro de spread foi ficando imenso, pois os</p><p>1982, nos salões do Plaza Hotel de Nova bancos estrangeiros captavam no</p><p>Iorque, em uma reunião tumultuada com exterior a um custo relativamente baixo,</p><p>centenas de banqueiros, chegou-se a um e financiavam no Brasil, em moeda</p><p>primeiro acordo de reescalonamento da local, com uma margem sem igual em</p><p>dívida externa brasileira. nenhuma parte do mundo.</p><p>Fez-se o primeiro acordo, mas Como bancos brasileiros, devido a</p><p>“dinheiro novo”, de fato, não vinha mais crise externa, não tinham acesso a</p><p>para o País. Foi um dilema para os linhas internacionais, esse foi um filão</p><p>bancos estrangeiros no Brasil. A questão para os bancos estrangeiros, que, no</p><p>era: o que fazer para manter as “pacote” negociado com os clientes,</p><p>operações enquanto não temos fluxo de ainda conseguiam excelentes</p><p>dinheiro novo? Rapidamente reciprocidades em outros negócios,</p><p>encontraram uma oportunidade. como era comum no mercado bancário</p><p>da época.</p><p>COMPRA DE CÂMBIO FUTURO Os bancos estrangeiros também</p><p>Logo após a moratória, os bancos procuraram os negócios internacionais</p><p>brasileiros não tinham acesso a linhas que devido à crise eram difíceis para os</p><p>externas. Essa situação se transformou bancos brasileiros. As operações</p><p>em uma oportunidade para os bancos financeiras com as Agências de Créditos</p><p>estrangeiros que começaram a comprar Internacionais, como Eximbank, Coface,</p><p>o direito ao câmbio de exportações Hermes e outros, viraram na prática um</p><p>futuras. Faziam a compra e logo oligopólio dos bancos estrangeiros.</p><p>O Plano Brady foi lançado no final F. Brady, na época secretário do</p><p>da década de 80 como forma de Tesouro norte-americano. Os títulos que</p><p>reestruturar a dívida externa de alguns foram emitidos pelo Plano Brady</p><p>países emergentes. Entre seus pilares, ficaram conhecidos como Bradies.</p><p>estava a troca de bônus antigos por No final da década de 90, com as</p><p>novos e a securitização da dívida dos últimas crises relacionadas à dívida</p><p>países envolvidos, o que permitiu que o externa que ocorreram na Rússia e no</p><p>risco de default da dívida fosse repartido</p><p>outros nomes, com valores</p><p>estabelecidos em reais. Por</p><p>exemplo: a mais importante</p><p>moeda de ouro era o cruzado,</p><p>que correspondia a 400 reais, ou</p><p>réis; entre as moedas de prata,</p><p>sobressaía o vintém, cujo valor era de</p><p>20 reais; e o ceitil era de cobre e valia</p><p>um sexto de real.</p><p>Até 1797, quando, pela primeira</p><p>vez, houve emissão de papel-moeda em</p><p>Portugal, o sistema monetário</p><p>português era bimetálico. O estado</p><p>determinava o preço do ouro e da prata</p><p>pago pelas casas de moeda para cunhar</p><p>os metais. Havia, a qualquer momento,</p><p>uma relação oficial, fixa, entre os</p><p>valores desses dois metais, ainda que</p><p>tal relação fosse modificada à</p><p>medida que os valores de</p><p>mercado do ouro e da prata</p><p>eram alterados.</p><p>Ouro e prata podiam ser</p><p>amoedados livremente nas casas da</p><p>moeda portuguesas, respeitados os</p><p>preços oficiais e pagos os custos de</p><p>cunhagem e os direitos do monarca</p><p>(senhoriagem)¹. Tinham poder</p><p>liberatório irrestrito. As peças mais</p><p>famosas, principalmente as de ouro,</p><p>chegaram a circular em outras</p><p>regiões do mundo, de acordo</p><p>com seu valor intrínseco. Da</p><p>mesma forma, circulavam em</p><p>território português moedas de</p><p>variadas procedências,</p><p>principalmente moedas de prata da</p><p>Espanha e de suas colônias americanas.</p><p>Também circulavam moedas de</p><p>cobre. Sua emissão era feita</p><p>exclusivamente pela Coroa, geralmente</p><p>parcimoniosa em relação à cunhagem,</p><p>porque o cobre tinha outras aplicações</p><p>importantes, como, por exemplo,</p><p>fabricação de peças de canhões, navios,</p><p>etc. O valor nominal das moedas de</p><p>cobre era baixo, mas mesmo assim muito</p><p>superior ao seu valor intrínseco, ou seja,</p><p>praticamente constituía uma “moeda</p><p>subsidiária” ou uma “moeda de troco”.</p><p>“Venezia” (Veneza), 1760-1773</p><p>Óleo sobre madeira</p><p>Francesco Guardi (1712-1793)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>"Lavage du minerai d'or près</p><p>de la montagne Itacolumi"</p><p>(Lavagem do minério de ouro,</p><p>perto da montanha Itacolomi,</p><p>em Ouro Preto) - Litografia de</p><p>Johan Moritz Rugendas (1802-</p><p>1858), gravada em Paris por</p><p>A. Joly e É. Wattier.</p><p>Biblioteca Municipal Mário de</p><p>Andrade, São Paulo - SP</p><p>ANTES DOS BANCOS E DAS NOTAS BANCÁRIAS</p><p>No início do século XIX, toda a moeda circulante no Brasil era moeda-mercadoria ou, mais especificamente,</p><p>moeda-metálica: moedas de ouro, de prata e de cobre. A circulação monetária era restrita. Desde meados do</p><p>século XVIII, a produção aurífera na região das Minas Gerais vinha caindo e a Casa da Moeda produzia cada</p><p>vez menos moedas de ouro. Havia escassez de moedas de prata e de cobre. Essa situação de penúria monetária</p><p>não era diferente na Europa e nas Américas, mas em alguns países podia ser parcialmente compensada pela</p><p>circulação de dinheiro de papel, na época constituído basicamente de notas emitidas por bancos.</p><p>23</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>A segunda metade do moeda espanhola de maior circulação —</p><p>século XVII foi de crise passassem a correr a peso, isto é, de</p><p>econômica na Europa, o acordo com seu valor intrínseco.</p><p>que levou a uma forte Os dirigentes portugueses</p><p>queda dos preços do pretendiam unificar o</p><p>açúcar e de outros valor de sua moeda não</p><p>produtos só na metrópole como</p><p>exportados pelo em “todas as conquistas”.</p><p>Brasil. Os déficits Com essa lei, os detentores de</p><p>comerciais eram moedas no Brasil ficaram,</p><p>parcialmente cobertos com subitamente, mais pobres. A reação</p><p>saída de metais. As práticas popular à promulgação da Lei de 4 de</p><p>monopolistas da Companhia Geral do agosto de 1688 suscitou os chamados</p><p>Comércio e o sistema de frotas “motins da moeda”, ocorridos nas</p><p>contribuíam ainda mais para a diversas capitanias.</p><p>deterioração da balança comercial, No início dos anos 1690, foram feitos</p><p>portanto, para a evasão da prata diversos apelos para que fosse permitida</p><p>e do ouro. a abertura de uma casa da moeda</p><p>A resposta das em Salvador, com o propósito de</p><p>autoridades coloniais era cunhar moeda provincial, cujo</p><p>solicitar autorização valor extrínseco fosse</p><p>para “levantar a superior ao da moeda</p><p>moeda”, ou seja, corrente no reino. Tais</p><p>elevar o valor nominal pedidos, cujo principal</p><p>em relação ao valor argumento era que a falta de</p><p>intrínseco. Isso significava moeda estava prejudicando</p><p>desvalorizar a moeda, seriamente os negócios — e, portanto,</p><p>mecanismo até hoje utilizado para os ganhos da Fazenda Real —, foram</p><p>evitar a perda de divisas. A Lei de 4 de finalmente aceitos em 1694.</p><p>agosto de 1688 agravou profundamente No ano seguinte, começou a operar</p><p>esse quadro. Ela determinava o a primeira Casa da Moeda no Brasil,</p><p>levantamento de 20% das moedas de em Salvador, posteriormente transferida</p><p>ouro e de prata e que as patacas — para Rio de Janeiro e Recife.</p><p>A ESCASSEZ DE MOEDA NO SÉCULO XVII NO BRASIL</p><p>Entre as primeiras incursões holandesas, nos anos 1620, até o início dos trabalhos da Casa da Moeda, em</p><p>1695, houve crescente escassez de moeda metálica no Brasil². Até as primeiras décadas do século XVII, o</p><p>comércio com Buenos Aires constituía a nossa principal fonte de suprimento de moeda de prata, produzida em</p><p>Potosi, hoje cidade boliviana. Esse fluxo de moeda foi interrompido na década de 1640, quando as minas de</p><p>Potosi entraram em declínio e Portugal iniciou a Guerra da Restauração contra a Espanha.</p><p>Páginas 23 e 24 - Moedas</p><p>XII Florins, 1645, Ouro</p><p>Batida em Recife pela Companhia</p><p>Privilegiada das Índias Ocidentais</p><p>Holandesas.</p><p>XIII Florins, 1645, Ouro</p><p>Batida em Recife pela Companhia</p><p>Privilegiada das Índias Ocidentais</p><p>Holandesas.</p><p>XXX Florins,</p><p>Moeda de Prata, 1654</p><p>Batida após a capitulação dos</p><p>Holandeses.</p><p>III Florins, 1646, Ouro</p><p>Batida em Recife pela Companhia</p><p>Privilegiada das Índias Ocidentais</p><p>Holandesas.</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>24</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO II</p><p>AS DESCOBERTAS DE OURO NAS MINAS GERAIS</p><p>Em 1702, já tendo sido iniciada a de moedas e circulação de ouro em pó.</p><p>exploração de ouro nas Minas Gerais, a Mais tarde, após forte oposição dos</p><p>Casa da Moeda voltou a funcionar no mineiros, foi estabelecida uma Casa da</p><p>Rio de Janeiro, cunhando a partir de Moeda, em 1730, sendo proibida a</p><p>então unicamente a chamada moeda circulação de ouro em pó. A descoberta</p><p>nacional, que por lei só poderia circular de muitas moedas falsificadas e casas</p><p>em Portugal. da moeda clandestinas levou a Coroa a</p><p>A descoberta e o início da produção fechar a Casa da Moeda, proibir a</p><p>em grande escala de ouro não circulação de moedas, abrir novas casas</p><p>representaram uma melhoria súbita do de fundição e permitir novamente o uso</p><p>problema da escassez de moeda, de ouro em pó como meio de</p><p>quando comparada à situação pagamento a preço oficial.</p><p>estabelecida durante os trabalhos da A situação no Rio de Janeiro, no</p><p>casa da moeda. De fato, deu-se tocante à circulação monetária no</p><p>praticamente o oposto, embora o século XVIII, ainda está por ser</p><p>impacto tenha sido diferenciado plenamente esclarecida.</p><p>regionalmente. Inicialmente, a pouca moeda de</p><p>Um primeiro efeito negativo da prata no Rio produzida foi levada para</p><p>súbita abundância de ouro foi a forte São Paulo. Além disso, como as</p><p>elevação do valor da prata. moedas de ouro eram de alto valor,</p><p>Quase toda a cunhagem realizada ficava difícil fazer certos pagamentos.</p><p>na Bahia e em Pernambuco, quando lá Às vezes, para pagar em ouro, três</p><p>funcionou a Casa da Moeda, no final do soldados recebiam a mesma moeda de</p><p>século XVII, foi de moedas de prata, as salário, que depois tinham de vender</p><p>quais, mesmo tendo tido seu valor para dividir o resultado. A pouca</p><p>nominal estabelecido acima daquele circulação de moeda de prata deve ter</p><p>corrente em Portugal, ainda assim causado problemas desse tipo em todo</p><p>passaram a ser oficialmente o Brasil.</p><p>subvalorizadas a partir do momento em A moeda de cobre, por ser de valor</p><p>que aumentou a oferta de ouro. Essas muito reduzido e ter poder liberatório</p><p>moedas de prata, portanto, foram muito restrito, não era capaz de</p><p>entesouradas. compensar a ausência da prata. O</p><p>As conseqüentes transformações problema maior eram os constantes</p><p>econômicas e demográficas ocorridas déficits comerciais do Brasil com</p><p>México, a solução utilizada foi muito</p><p>entre uma base maior de credores. semelhante à do Plano Brady, com a</p><p>O primeiro país a adotar o Plano securitização de títulos e a</p><p>Brady foi o México, em 1989. A reestruturação da dívida.</p><p>Argentina aderiu ao plano em 1992 e o O Governo do México foi o primeiro</p><p>Brasil em 1994, no governo FHC. A a saldar sua dívida em títulos do Plano</p><p>rodada inicial do Plano Brady envolvia Brady, no ano de 2003. O Governo</p><p>um total de 12 países, a maioria latino- brasileiro, por sua vez, resgatou todos os</p><p>americanos. títulos do plano Brady de sua emissão</p><p>O plano foi nomeado em em 2006, eliminado esses títulos do</p><p>homenagem ao seu idealizador, Nicolas estoque da dívida externa brasileira.</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>194</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>MORATÓRIA DE 1982: TRAUMAS E LUCROS</p><p>A moratória de 1982 criou um problemas. A principal foi o Uruguai</p><p>trauma enorme. A dívida brasileira começar a fazer importações de outras</p><p>estava bem escalonada. Paulo Lira e praças e a exportar para o Brasil como</p><p>Fernão Bracher tinham feito um grande se fosse da Aladi. Apesar dos pequenos</p><p>trabalho de organização no Banco defeitos, o crédito compensatório foi um</p><p>Central. Entretanto, a moratória do instrumento magnífico durante o período</p><p>México criou um clima emocional nos de crise, permitindo que o Brasil,</p><p>bancos americanos, que nivelou os efetivamente, começasse a fazer negócios</p><p>problemas ao Brasil e de todos outros com o resto da América Latina.</p><p>países da América Latina à situação</p><p>mexicana. Isso acabou gerando três boas 2. Os pequenos bancos regionais</p><p>oportunidades para os bancos americanos, que tinham, em média, de</p><p>estrangeiros instalados no Brasil: US$ 5 milhões a US$ 6 milhões de</p><p>empréstimos feitos no País, em geral</p><p>1. Como toda a América Latina através de “empréstimos sindicalizados”,</p><p>deixou de ter dólares para referendar os em que entravam com parte dos</p><p>seus negócios internacionais, a Aladi fez recursos, resolveram fazer um “writte</p><p>um acordo de comércio que permitia off” da dívida brasileira. Isto é, eliminar</p><p>crédito de compensação entre os países. dos seus balanços todos os créditos</p><p>Com isso, podia-se fazer operações referentes a “Brasil”. Com isso, os</p><p>internacionais sem o uso de moedas bancos que estavam no Brasil — e,</p><p>fortes. Isso gerou um aumento expressivo portanto, podiam medir melhor o risco e</p><p>do comércio regional na América Latina, até repassá-lo para outros investidores —</p><p>e em particular na América do Sul. começaram a comprar esses créditos.</p><p>A compensação era feita entre os Inicialmente, a menos de US$ 0,10 por</p><p>bancos centrais. Eram créditos cada dólar de principal: os juros que</p><p>escriturais e, o mais importante, todo eventualmente estivessem acumulados</p><p>risco era assumido pelos bancos centrais. vinham como “bonificação”.</p><p>Essa nova condição financeira</p><p>começou a viabilizar os negócios de 3. Além disso, devido às limitações</p><p>exportações e com eles o câmbio. Para cambiais geradas pela crise, os bancos</p><p>os bancos era uma situação duplamente de investimentos desenvolveram muitas</p><p>vantajosa: eliminava o risco-país e o risco operações criativas para exportadores e</p><p>de crédito. Essa medida financeira foi importadores que precisavam viabilizar</p><p>que permitiu o grande impulso — após a os seus negócios. Quando isso ocorria, os</p><p>moratória — que viabilizou o crescimento bancos conseguiam um bom spread no</p><p>das exportações e importações via negócio, com risco zero, já que as</p><p>mercado latino- americano. operações eram concluídas entre os</p><p>Naturalmente, também ocorreram bancos centrais.</p><p>Carlos Geraldo Langoni,</p><p>presidente do Banco Central de</p><p>18/01/1980 a 05/09/1983</p><p>A GESTÃO DE CARLOS</p><p>LANGONI NO BC</p><p>Carlos Langoni assumiu, em</p><p>janeiro de 1980, a Presidência</p><p>do Banco Central no meio de</p><p>um turbilhão da crise</p><p>internacional que já se formava.</p><p>Recebeu da gestão de Paulo Lira</p><p>um banco extremamente bem</p><p>organizado por Fernão Bracher,</p><p>em relação à dívida externa, e</p><p>de Carlos Brandão, sucessor de</p><p>Paulo Lira, um mercado de</p><p>dívida pública já bem</p><p>desenvolvido, ainda concentrado</p><p>nos corretores, ávidos por</p><p>maiores alavancagens e taxas de</p><p>juros ascendentes.</p><p>Como teve uma formação</p><p>monetarista, subiu muito os</p><p>juros reais e concentrou todas</p><p>as suas atenções na situação</p><p>da dívida externa.</p><p>Affonso Celso Pastore, presidente</p><p>do Banco Central de</p><p>05/09/1983 a 14/03/1985</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>195</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>A EVOLUÇÃO DA ECONOMIA</p><p>Em 1984, a economia começou a se com o Fundo Monetário Internacional,</p><p>recuperar, crescendo 5,7% naquele ano com o qual o País assinou várias “cartas</p><p>e 8,3% em 1985. A política de de intenção”, nenhuma delas cumpridas</p><p>contenção da demanda e incentivo às à risca.</p><p>exportações gerava resultados desde O Governo continuou a gastar sem</p><p>1982, com a balança comercial medir as conseqüências. Com isso, a</p><p>apresentando saldo positivo, revertendo taxa anual de inflação praticamente</p><p>a situação deficitária que começara em dobrou, superando o patamar de 220%</p><p>1974, por ocasião do primeiro choque naqueles dois anos, empurrada pela</p><p>do petróleo. maxidesvalorização de 30% decretada</p><p>Por outro lado, a dívida externa em fevereiro de 1983.</p><p>elevara-se significativamente: de US$ O comportamento do nível geral dos</p><p>53,8 bilhões em 1980 para US$ 95,9 preços havia se tornado o foco central</p><p>bilhões em 1985. As diretrizes básicas da preocupação não só do Governo, mas</p><p>da política passaram a ser negociadas de todos os segmentos da população.</p><p>IMPACTOS DA ECONOMIA SOBRE O SETOR BANCÁRIO</p><p>O comportamento dos bancos encontraram crescente dificuldade em</p><p>acompanhou a evolução da economia. refinanciar seus passivos</p><p>No período 1981-83, os bancos . Outra modificação ocorrida na</p><p>comerciais reduziram o crédito ao setor economia que trouxe reflexos para os</p><p>privado. Essa redução deveu-se não só bancos foi a redução na captação de</p><p>a uma postura mais cautelosa dos depósitos à vista. Entre 1980 e 1985,</p><p>bancos, como acontecera em outros tal participação caiu de 30,5% para</p><p>períodos quando a demanda se 16%, ao mesmo tempo em que os</p><p>retraíra, mas ao fato de o Governo ter depósitos a prazo elevaram de 10,3%</p><p>estabelecido um forte para 21,9%, respectivamente.</p><p>contingenciamento do crédito. Essa mudança representou um</p><p>Entretanto, cresceu o saldo das aumento do custo médio de captação</p><p>operações de empréstimos ao setor dos bancos e um acirramento na</p><p>público, principalmente os concorrência por depósitos. De 1979 a</p><p>direcionados às empresas públicas, 1984, o número de agências dos</p><p>consideradas mais seguras. bancos comerciais privados saltou de</p><p>O mesmo se deu com os bancos 6.863 para 8.843, com a média de</p><p>comerciais oficiais, que em dezembro agências por banco elevando-se de 100</p><p>de 1984 concentravam cerca de dois para 138.</p><p>terços de seus empréstimos ao setor Nesse período, também os bancos</p><p>público — enquanto essa proporção, públicos estaduais e federais</p><p>para os bancos privados, era de expandiram consideravelmente suas</p><p>aproximadamente 25%. O aperto redes, mas a participação dos bancos</p><p>monetário e a maxidesvalorização de privados no total de captação de</p><p>1983 atingiram particularmente os depósitos aumentou de 53,9% para</p><p>bancos estaduais, que a partir de então 60,5% .</p><p>(SALVIANO,</p><p>2004)</p><p>(TEIXEIRA, 1985)</p><p>Francisco Roberto André Gros,</p><p>presidente do Banco Central de</p><p>11/02/1987 a 30/04/1987 e</p><p>17/05/1991 a 16/11/1992</p><p>Elmo de Araújo Camões,</p><p>presidente do Banco Central de</p><p>09/03/1988 a 22/06/1989</p><p>Fernando Milliet de Oliveira,</p><p>presidente do Banco Central de</p><p>05/05/1987 a 09/03/1988</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>Galeria do Banco Central do Brasil</p><p>CAPÍTULO XVIII</p><p>196</p><p>BANCOS NO BRASIL</p><p>Quanto mais subiam os índices de Nessa conjuntura de elevada inflação,</p><p>preço, maior a demanda do público por os bancos nacionais privados procuraram</p><p>aplicações que proporcionassem ao mesmo inovar, atendendo às demandas da</p><p>tempo liquidez e rentabilidade. Mas nem a população por aplicações</p><p>na colônia após a descoberta de ouro Portugal, que representavam fator</p><p>trouxeram ainda uma nova dimensão, importante e permanente de escoamento</p><p>agora regional, para o problema da do ouro, situação que veio a se agravar a</p><p>escassez de moeda. partir do declínio</p><p>Nas Minas, foram constantes as da produção de</p><p>mudanças nas regras de circulação ouro.</p><p>monetária. Houve proibição de entrada</p><p>Barras de Ouro</p><p>Mato Grosso, séc. XVII</p><p>Minas Gerais e Goiás,</p><p>séc. XIX</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>25</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO II</p><p>AS CASAS DE FUNDIÇÃO</p><p>NO BRASIL</p><p>Foi com o objetivo de evitar o</p><p>contrabando de ouro e obrigar o colono</p><p>a pagar os tributos que o Governo</p><p>Português criou as Casas de Fundição</p><p>no Brasil. Todo o ouro deveria ser</p><p>encaminhado a essas repartições, onde</p><p>era derretido e transformado em barras,</p><p>sendo separado o “quinto”, tributo que</p><p>equivalia a 20% do produto. As Casas</p><p>de Fundição, em geral, não dispunham</p><p>de uma estrutura organizada. Poucos</p><p>eram os meios de produção: pequenas</p><p>forjas, foles movidos por escravos,</p><p>balanças grandes, mas de pouca</p><p>precisão.</p><p>A primeira Casa de Fundição</p><p>brasileira foi criada por volta de 1580,</p><p>em São Paulo. Era encarregada da</p><p>arrecadação de tributos sobre a</p><p>mineração promovida na vila de</p><p>Jaraguá. Recolhia o ouro extraído pelos</p><p>mineiros, purificava-o e transformava-o</p><p>em barras. Depois de “quintadas” – isto</p><p>é, retirados delas os tributos –, essas</p><p>barras de ouro eram cunhadas, como</p><p>comprovante do pagamento do quinto, e</p><p>então devolvidas ao portador, junto a</p><p>um comprovante, expedido pela Casa</p><p>(ARRUDA, 1986).</p><p>Nas barras ficava gravado o selo</p><p>real, que tinha a finalidade de facilitar o</p><p>controle sobre o metal produzido na</p><p>região. Desta maneira, legalizado, o</p><p>ouro poderia circular. Acredita-se,</p><p>contudo, em que as sonegações</p><p>aconteciam, mesmo com tais medidas.</p><p>Um Provedor ficava responsável por</p><p>cada Casa de Fundição, sendo auxiliado</p><p>por fundidores, cunhadores, escrivães,</p><p>ensaiadores, meirinhos, tesoureiros e</p><p>fiscais.</p><p>Por volta de 1650, duas novas</p><p>casas de fundição foram instaladas na</p><p>Capitania de São Vicente: uma em</p><p>Paranaguá, outra em São Vicente. No</p><p>entanto, com o começo do Ciclo do</p><p>Ouro em Minas Gerais, em 1691, essas</p><p>casas não podiam mais atender toda a</p><p>demanda.</p><p>Assim, em 1695, foi criada em</p><p>Taubaté “a Casa dos Quintos”, que, em</p><p>1697, passaria a se chamar Casa de</p><p>Fundição de Taubaté. O ouro extraído</p><p>das Minas Gerais deveria ser levado até</p><p>lá, de onde seguiria para o porto de</p><p>Paraty. Taubaté era uma localização</p><p>privilegiada: ficava ao longo do Caminho</p><p>Real, o que a tornou ponto de referência.</p><p>Com a ação das bandeiras paulistas, a</p><p>cidade se transformou num importante</p><p>centro de descobertas auríferas.</p><p>A seguir, por volta de 1701, foi</p><p>instalada a Oficina Real dos Quintos do</p><p>Rio das Velhas, local que parece se</p><p>situar na cidade de Sabará, em Minas</p><p>Gerais (ARRUDA, 1986).</p><p>SABARÁ: CASA DE MUITAS</p><p>FUNDIÇÕES</p><p>A Casa de Fundição de Sabará foi</p><p>uma das mais importantes na história</p><p>monetária da colônia, devido a sua</p><p>grande produção. Foi criada em 1725,</p><p>extinta em 1736, restabelecida em</p><p>1751, e definitivamente abolida em</p><p>1803. O seu prédio se conserva até hoje</p><p>e nele está instalado o Museu do Ouro</p><p>de Sabará.</p><p>No decorrer do século XVIII,</p><p>numerosas outras Casas de Fundição</p><p>foram criadas em Minas Gerais, Bahia,</p><p>Mato Grosso e Goiás. Mas em 1737,</p><p>por conta da adoção do sistema de</p><p>capitação para tributar a mineração,</p><p>todas foram extintas. Com a volta do</p><p>Quinto, em 1751, foram restabelecidas.</p><p>Nessa ocasião, várias casas foram</p><p>criadas onde antes não existiam.</p><p>No final do século XIX, devido à</p><p>decadência das jazidas auríferas, as</p><p>Casas de Fundição começaram a ser</p><p>abolidas. A de Goiás foi a última delas,</p><p>em 1834 (ARRUDA, 1986).</p><p>A SITUAÇÃO MONETÁRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XIX</p><p>Em passagem de seu livro “A auto-suficientes, era restrita a</p><p>Política Monetária no Brasil”, Pandiá circulação monetária.</p><p>Calógeras (1960) afirma que quando D. Papel-moeda não fazia parte do meio</p><p>João VI desembarcou no Brasil, em circulante do Rio de Janeiro, embora</p><p>1808, a colônia estava, em termos de circulasse papel-moeda em Lisboa e na</p><p>circulação monetária, dividida em três cidade do Porto. No final do século</p><p>regiões. A primeira compreendia as XVIII, chegaram a circular, como</p><p>cidades portuárias mais importantes moeda, “bilhetes de extração”, emitidos</p><p>(especialmente Rio de Janeiro, Salvador no Distrito Diamantino de Minas, que</p><p>e Recife), onde se concentrava o deviam ser cobertos por futuras</p><p>numerário e onde mais se remessas da metrópole. Lançados pela</p><p>transacionava com a Metrópole. Nas primeira vez em 1771, esses títulos</p><p>Minas Gerais, usava-se ouro em pó e foram, durante alguns anos, resgatados</p><p>moedas de cobre nos pagamentos, à vista, o que levou a circularem fora da</p><p>porque era proibida a circulação de Capitania e até mesmo a serem</p><p>moedas de prata e de ouro. Por fim, entesourados. Aos poucos, perderam a</p><p>nas outras partes do Brasil, em que confiança do público, dada a crescente</p><p>predominavam grandes propriedades dificuldade de resgate.</p><p>“Resposta de Tiradentes à comutação</p><p>da pena de morte dos inconfidentes”,</p><p>Óleo sobre tela de Leopoldino de Faria</p><p>(1836-1911)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>Vista de Sabará</p><p>Jupiára, 2000</p><p>Des. Antônio Izaias</p><p>28</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO II</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO II</p><p>Bilhete de dois mil réis de</p><p>emissão do Banco do Brasil,</p><p>Centro Cultural Banco do Brasil</p><p>Essa ausência de bancos tem sido a elite pensante portuguesa já vinha</p><p>explicada de diversas maneiras por estudando as possíveis vantagens de se</p><p>historiadores e economistas. Talvez a criar um “banco nacional” nos moldes</p><p>explicação mais correta seja a de que, da “velha senhora”, como os ingleses</p><p>dada a forma como eram financiados o gostam de chamar seu banco central.</p><p>comércio, a lavoura e a indústria, não Entretanto, à diferença do que</p><p>havia necessidade de bancos. Os ocorreu no episódio britânico, o período</p><p>grandes comerciantes concediam crédito de tempo decorrido entre a</p><p>entre si e para os demais segmentos, no apresentação, pela primeira vez, de uma</p><p>que se convencionou chamar de “cadeia proposta concreta, e a decisão de</p><p>de crédito”. estabelecer o tal banco, foi bastante</p><p>A breve descrição das razões para a curto, pouco superior a uma década.</p><p>criação e o crescimento inicial do Banco</p><p>da Inglaterra mostra que a decisão de</p><p>criar um banco para auxiliar o Estado,</p><p>adotada por D. João VI, não foi original.</p><p>Certamente inspirada no estudo da</p><p>experiência de outros países europeus,</p><p>Mas a idéia em si é bem mais antiga,</p><p>tendo sido defendida em 1622 por</p><p>Duarte Gomes Solis, um dos precursores</p><p>do pensamento econômico português, e</p><p>pelo padre (e economista) Antônio</p><p>Vieira, em 1646 (CARDOSO, 1997).</p><p>MOEDAS E BANCOS NO BRASIL</p><p>Os bancos só surgiram no Brasil no início do século XIX. Esta é uma herança dos</p><p>nossos colonizadores: até então, também não havia bancos em Portugal. De fato, o</p><p>primeiro banco estabelecido em todo o império português foi o Banco do Brasil,</p><p>que começou a funcionar no Rio de Janeiro em 1809 (FRANCO, s.d.). No Reino,</p><p>foram necessários mais quinze anos para que, em 1824, entrasse em operação o</p><p>Banco de Lisboa, que mais tarde passou a se chamar Banco de Portugal.</p><p>“D. João VI”, 1816</p><p>Óleo sobre tela de Jean-</p><p>Baptiste Debret (1768-1848)</p><p>D. João VI (1767-1826): Rei</p><p>de Portugal, Brasil e Algarves.</p><p>Com a invasão de Portugal</p><p>pelas tropas napoleônicas em</p><p>1807, transferiu sua Corte</p><p>para o Brasil. Em 1815,</p><p>elevou a colônia à condição de</p><p>reino, tendo se tornado Rei de</p><p>Portugal com o falecimento de</p><p>sua mãe. Voltou para Portugal</p><p>em 1821 e veio a morrer em</p><p>1826, aos 59 anos.</p><p>29</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>O primeiro banco</p><p>A CHEGADA DA CORTE E O PRIMEIRO BANCO</p><p>A chegada do Príncipe Regente e</p><p>seus cerca de 10 mil acompanhantes</p><p>no Rio de Janeiro significaria não</p><p>apenas a introdução de novos hábitos à</p><p>vida da cidade, mas também</p><p>súbito</p><p>aumento das demandas financeiras.</p><p>O incremento do comércio, por si</p><p>só, já tornaria necessário elevar a</p><p>quantidade de moeda na economia: a</p><p>elevação do nível de atividade</p><p>econômica fazia aumentar a demanda</p><p>por moeda.</p><p>O estabelecimento da Corte na</p><p>capital da colônia implicava também, e</p><p>principalmente, o agravamento da</p><p>situação das finanças públicas: era</p><p>preciso pagar os salários da nova</p><p>burocracia, além dos gastos gerais da</p><p>Corte. Não era possível arrecadar mais</p><p>impostos, nem tomar emprestado</p><p>dinheiro suficiente para cobrir essas</p><p>despesas, mesmo porque não havia</p><p>muita moeda metálica disponível.</p><p>O alvará de Rodrigo Coutinho</p><p>apresenta três circunstâncias para a</p><p>criação do banco. A primeira e mais</p><p>importante está relacionada às</p><p>necessidades de financiamento do</p><p>setor público. Uma segunda razão tem</p><p>a ver com a inadequação do meio</p><p>circulante. Havia pouca moeda</p><p>metálica, e circulavam, como uma</p><p>espécie de papel-moeda, os “bilhetes</p><p>da alfândega”.</p><p>A terceira circunstância incluía “os</p><p>obstáculos que a falta de giro dos</p><p>signos representativos dos valores</p><p>põem ao comércio, devendo ser quanto</p><p>antes removidos, animando e</p><p>promovendo as transações mercantis</p><p>dos negociantes desta e das mais</p><p>praças dos meus domínios e senhorios</p><p>com o estrangeiro”.</p><p>As operações que o banco a ser</p><p>criado estava autorizado a realizar</p><p>eram típicas dos bancos nacionais</p><p>estabelecidos em outros países, e</p><p>definiam o Banco do Brasil com</p><p>amplas atribuições para atuar, a um só</p><p>tempo, como banco de desconto, de</p><p>depósitos, de emissão e de câmbio:</p><p>faria “desconto mercantil de letras de</p><p>câmbio sacadas ou aceitas por</p><p>negociantes de crédito, nacionais ou</p><p>A VINDA DA CORTE</p><p>A vinda da corte portuguesa</p><p>para o Rio de Janeiro, em</p><p>1808, constituída por</p><p>aproximadamente 15 mil</p><p>pessoas, exigia crescentes</p><p>gastos com a implantação da</p><p>nova administração, enquanto</p><p>a produção de ouro diminuía</p><p>nas Minas Gerais.</p><p>FINANÇAS E POLÍTICA</p><p>O ano de 1808 foi o da mudança da Corte Portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, uma antiga idéia</p><p>finalmente realizada por pressão da invasão francesa. Para a história bancária, 1808 foi um ano</p><p>particularmente marcante porque, em 12 de outubro, foi publicado o alvará de criação do primeiro banco</p><p>que viria a funcionar no Brasil, aliás, o primeiro banco a ser criado em todo o império português, incluída a</p><p>própria metrópole³.</p><p>Em 1800, ainda morando em Portugal, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, exercendo o cargo hoje equivalente</p><p>ao de ministro da Fazenda, estava mais preocupado em encontrar soluções para o problema do financiamento</p><p>privado do que público. Por isso, propunha a criação de “caixas de circulação e crédito”, para estimular a</p><p>agricultura e o comércio e assim reforçar a exploração do recursos existentes no Brasil .(CARDOSO, 1997)</p><p>“Independência ou Morte”, 1888</p><p>Óleo sobre tela de Pedro Américo</p><p>(1843-1905)</p><p>Museu Paulista da Universidade de</p><p>São Paulo</p><p>32</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>estrangeiros”; receberia “depósitos de</p><p>toda e qualquer coisa de prata, ouro,</p><p>diamantes ou dinheiro”; seria um</p><p>banco de emissão, autorizado a “emitir</p><p>letras ou bilhetes pagáveis ao portador</p><p>e à vista, ou a um certo prazo de</p><p>tempo, com a necessária cautela, para</p><p>que jamais estas letras, ou bilhetes,</p><p>deixem de ser pagos no ato da</p><p>apresentação, sendo a menor quantia</p><p>por que o banco poderá emitir uma</p><p>letra ou bilhete, a de 30$000”; e</p><p>poderia realizar operações de câmbio,</p><p>operando no “comércio das espécies</p><p>de ouro e prata sem que se intrometa</p><p>em outro algum ramo do comércio ou</p><p>de indústria conhecida, ou</p><p>desconhecida”.</p><p>Conceder privilégios a bancos</p><p>nacionais era prática comum na</p><p>Europa, e não seria diferente no caso</p><p>do Banco do Brasil. Havia privilégios</p><p>quanto à exclusividade no recebimento</p><p>de certos recursos: o banco receberia</p><p>comissão pela venda de produtos cuja</p><p>negociação era exclusiva da Fazenda</p><p>Real, como diamantes e pau-brasil;</p><p>receberia todos os depósitos judiciais e</p><p>extra-judiciais de prata, ouro, jóias e</p><p>dinheiro; e receberia todos os</p><p>empréstimos feitos pelo cofre dos</p><p>órfãos e ordens terceiras e irmandades</p><p>que até então eram feitos a</p><p>particulares, vantagem considerável</p><p>levando-se em conta que essas</p><p>instituições eram praticamente as</p><p>únicas que concediam empréstimos.</p><p>Um tipo de privilégio</p><p>particularmente importante dizia</p><p>respeito à aceitação de suas notas: “em</p><p>todos os pagamentos que se fizerem à</p><p>Real Fazenda serão contemplados e</p><p>recebidos como dinheiro os bilhetes do</p><p>dito banco, pagáveis ao portador à</p><p>vista, e da mesma forma se distribuirão</p><p>pelo Erário Régio nos pagamentos das</p><p>despesas do Estado”. Em suma, as</p><p>notas emitidas pelo banco teriam curso</p><p>legal no âmbito do setor público e,</p><p>portanto, sua demanda estava</p><p>inicialmente garantida.</p><p>Por fim, dentre os privilégios</p><p>concedidos ao banco e seus acionistas,</p><p>cabe destacar que “toda penhora ou</p><p>execução, assim fiscal, como civil,</p><p>sobre as ações do Banco, será nula e</p><p>proibida”, e que “os falsificadores de</p><p>letras, bilhetes, cédulas, firmas ou</p><p>mandatos do banco serão castigados</p><p>como os delinqüentes de moeda falsa”,</p><p>o que na época significava estar sujeito</p><p>à pena de morte.</p><p>REINO UNIDO</p><p>A elevação do Brasil a</p><p>categoria de Reino Unido de</p><p>Portugal e Algarves, em 1815,</p><p>representou o reconhecimento</p><p>da sede do governo no Brasil e</p><p>aumentou ainda mais as</p><p>despesas públicas.</p><p>Os gastos com a</p><p>administração, a insuficiência</p><p>de arrecadação de impostos,</p><p>as guerras externas e as</p><p>revoluções internas, causaram</p><p>um grande déficit ao Tesouro,</p><p>que passou a emitir sem lastro</p><p>metálico, desvalorizando a</p><p>moeda e provocando a</p><p>inflação.</p><p>Ilustração dos Arcos da Lapa</p><p>atribuída a Leandro Joaquim</p><p>(1738-1798)</p><p>Gravura “au pochoir” a partir</p><p>do óleo sobre tela.</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas</p><p>Artes</p><p>33</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>Dom Pedro I</p><p>(Imperador do Brasil</p><p>de 1822 a 1831)</p><p>Ao assumir o trono, em 1822,</p><p>o Imperador encontrou os</p><p>cofres vazios e uma imensa</p><p>dívida pública.</p><p>Os conflitos com os</p><p>portugueses, a Guerra</p><p>Cisplatina, a Confederação do</p><p>Equador e a implantação do</p><p>Império exigiram grandes</p><p>recursos do Tesouro que,</p><p>apesar da crise na produção</p><p>de ouro, não havia organizado</p><p>uma estrutura alternativa de</p><p>arrecadação para a cobertura</p><p>das suas despesas.</p><p>Essa situação gerou uma crise</p><p>na balança comercial que</p><p>durou quase quarenta anos,</p><p>contribuindo para a evasão das</p><p>moedas de ouro e prata</p><p>remanescentes dos últimos</p><p>tempos do período colonial e</p><p>do começo da independência.</p><p>BANCO DO BRASIL: AS DIFICULDADES INICIAIS</p><p>Apesar de todos esses benefícios, que notas. Uma opinião corrente era a de que</p><p>foram concedidos pelo período de 20 a falta de moeda se devia ao excesso de</p><p>anos, poucos se prontificaram a se tornar emissões e do deságio. O raciocínio era o</p><p>acionistas do banco. Inicialmente, o capital mesmo por trás da chamada lei de</p><p>previsto era de 1.200 contos de réis, Gresham, segundo a qual a moeda má</p><p>correspondentes a 1.200 ações de um expulsa de circulação a moeda boa. Ou, o</p><p>conto cada uma. Quando abriu suas que vem a ser o mesmo, a moeda</p><p>portas, em dezembro de 1809, apenas oficialmente sobrevalorizada expulsa de</p><p>100 ações haviam sido subscritas. Tudo circulação a moeda subvalorizada. A</p><p>indica que os primeiros anos do Banco do “moeda má” era a emitida pelo Banco do</p><p>Brasil não foram muito prósperos. Ainda Brasil, enquanto a “moeda boa”</p><p>em 20 de outubro de 1812, quando o correspondia às moedas metálicas.</p><p>total subscrito não passava de 126 contos, Oficialmente, as notas tinham o mesmo</p><p>o governo decidiu que o Real Erário valor das moedas metálicas. Por exemplo,</p><p>entrasse “como acionista nos cofres do para pagamentos de impostos no valor de</p><p>Banco do Brasil com o produto de algumas um conto de réis, era possível pagar quer</p><p>novas imposições, por espaço de 10 anos com moedas metálicas daquele valor, quer</p><p>consecutivos, sem que das entradas que se com notas cujo valor de face em reais</p><p>realizarem nos primeiros cinco anos haja somassem um conto de réis. Contudo,</p><p>nos</p><p>de perceber lucro algum”. As “novas pagamentos privados, exigiam-se valores</p><p>imposições” eram impostos dos mais mais elevados em notas do que em</p><p>variados tipos: sobre o uso de carruagens moedas metálicas. Todos, portanto,</p><p>(de quatro rodas), 12$800 por ano; por procuravam fazer pagamentos com notas e</p><p>cada “loja, armazém ou sobrado, em que guardar as moedas — isto é, entesourá-las.</p><p>se venda por grosso e atacado, ou a Outra explicação para a falta de moeda</p><p>retalho, e varejado”, os mesmos 12$800, e o ágio era que a balança comercial</p><p>também pagos por cada proprietário de brasileira passara a ser crescentemente</p><p>navio de três mastros, além de 5% sobre a deficitária a partir de 1814.</p><p>venda de navios. Muito pouco era Evidentemente, os fornecedores</p><p>arrecadado com esses tributos, mas a estrangeiros não aceitavam notas do Banco</p><p>iniciativa constituía mais um incentivo à do Brasil como pagamento por seus</p><p>participação de acionistas privados. produtos; só letras de câmbio ou moedas.</p><p>As emissões de notas mantiveram-se A importância do ano de 1814, no</p><p>dentro de limites razoáveis até 1813: entender de Franco (s.d.), se deve ao fato</p><p>foram emitidas notas no valor de 460 de que neste ano Napoleão foi derrotado, o</p><p>contos, das quais haviam sido resgatadas que possibilitou o levantamento do</p><p>notas no valor total de 260 contos. Em bloqueio comercial da Europa pela</p><p>1813, portanto, circulavam cerca de 200 Inglaterra.</p><p>contos em notas do BB. Mas, entre 1814 e Verificou-se, a partir de então, forte</p><p>1821, o banco colocou em circulação aumento das importações brasileiras de</p><p>7.152 contos sem que houvesse ocorrido produtos europeus. A emissão de notas</p><p>qualquer resgate. aumentava o poder aquisitivo e,</p><p>Pouco antes da Independência, já indiretamente, estimularia as importações,</p><p>ecoavam queixas quanto à falta de moeda as quais, por sua vez, causavam a saída de</p><p>metálica e à existência de deságio nas metais para a Europa.</p><p>D. Pedro I (1798-1834)</p><p>Promoveu a Independência,</p><p>outorgou a primeira Constituição</p><p>Brasileira, em 1824 e abdicou do</p><p>trono para tornar-se Pedro IV em</p><p>Portugal.</p><p>34</p><p>Associação Comercial do Rio de Janeiro</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>Após a partida de seu pai, D. Pedro “sacrifícios”. Deu-se, então, um início</p><p>I parece ter ficado assustado com a de pânico, uma “extraordinária e</p><p>responsabilidade de gerir o Banco do perene concorrência ao cofre da</p><p>Brasil. Ainda não sabia o quanto este remissão das ditas notas”; em outras</p><p>viria a lhe ser útil quando escreveu a D. palavras, houve uma corrida bancária.</p><p>João VI, em 17 de julho de 1821, Essa “concorrência” aumentou</p><p>lamentando que “as dívidas deste Erário consideravelmente logo que Sua</p><p>andam, ao Banco, por doze milhões e Majestade, pelo decreto de 7 de março,</p><p>pouco (...) O Banco, que se prestava e declarou a sua retirada, e da sua Real</p><p>ainda se presta, já se torce” . Família, para o Reino de Portugal.</p><p>Naquele mesmo mês, suspendeu-se Enquanto alguns — possivelmente</p><p>a conversibilidade dos bilhetes. Em 28 portugueses retornando a Lisboa na</p><p>de julho, foi adotado um tabelamento comitiva de D. João VI — promoviam</p><p>dos trocos, que estabelecia exatamente uma “tumultuosa concorrência ao</p><p>quanto de moedas de prata e de cobre</p><p>banco para troco de suas notas (...)</p><p>seriam entregues em retorno das notas</p><p>para convertê-las em metais que</p><p>que fossem apresentadas para troco.</p><p>pudessem ser usados em outros países,</p><p>Tratava-se de uma tablita: quem</p><p>onde as notas não tinham uso”, outros entregasse uma nota de 1:000$ recebia</p><p>detentores de notas o faziam porque 150$ em prata, 50$ em cobre e os</p><p>“temiam que no futuro próximo elas se restantes 800$ em notas, ou seja, uma</p><p>tornassem inconversíveis” .nota de 20$ “rendia” 4$400 em prata,</p><p>Tal temor, registre-se, não era uma 1$600 em cobre e 14$ em notas.</p><p>novidade, nem infundado. Segundo o Notas de valor inferior a 20$ eram</p><p>próprio José Lisboa, a diretoria do resgatadas exclusivamente em cobre —</p><p>banco “tinha licença para dispor dos no período 1809-1822, a Casa da</p><p>seus fundos a seu bel prazer e para Moeda cunhou muitas destas moedas.</p><p>cometer quantas prevaricações José Antonio Lisboa, que em 1830</p><p>quisessem”, o que pôs em risco a ocupou brevemente a pasta da</p><p>saúde financeira da instituição. Outra Fazenda, publicou, em 1821, alguns</p><p>comentários sobre a situação do Banco corrida, em setembro de 1817, teria</p><p>do Brasil. sido abortada graças à prisão de dois</p><p>Nos dois primeiros meses daquele detratores do banco (um negociante e</p><p>ano, a movimentação política tinha um corretor, que foram denunciados</p><p>afetado a credibilidade das notas do por comentários pouco airosos sobre o</p><p>banco, “que sempre haviam girado uso do dos fundos do banco) e pelos</p><p>com suficiente crédito, e se trocavam “horrorosos sacrifícios para a compra</p><p>em toda parte sem dificuldade alguma, de metais”. Medidas que, somadas a</p><p>ou com muito pouca”. No Rio de “rigorosa espionagem”, permitiram ao</p><p>Janeiro, os cariocas temiam que o banco sobreviver “pacificamente, e</p><p>governo adotasse medidas que como pôde, prosseguindo sua marcha,</p><p>forçassem a população a ter de fazer sempre tenebrosa”.</p><p>(FRANCO, s.d.)</p><p>(FRANCO, s.d.)</p><p>O BANCO DO BRASIL E A INDEPENDÊNCIA</p><p>José Bonifácio de Andrada e Silva</p><p>(1763-1838)</p><p>Foi o principal responsável pela</p><p>independência do País e o primeiro</p><p>ministro das Relações Exteriores de</p><p>1822 a 1823</p><p>35</p><p>Ministério das Relações</p><p>Exteriores - Galeria dos Ministros</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>PROBLEMAS FINAIS DO BANCO DO BRASIL</p><p>Após a Independência, as emissões deságio até mesmo em relação às</p><p>do Banco Central passaram a refletir moedas de cobre. Mas outras razões,</p><p>principalmente as necessidades como os constantes déficits na balança</p><p>financeiras do governo decorrentes das comercial, poderiam igualmente ser</p><p>despesas com as lutas separatistas, apontados como responsáveis pela</p><p>inicialmente reprimidas no Nordeste e deterioração das contas externas. Nem</p><p>no Norte (1823), mas que se faltavam explicações éticas, como as</p><p>estenderam no Sul e que resultaram na denúncias das falcatruas praticadas por</p><p>separação da Cisplatina, em 1828. As seus diretores, além do fato de que</p><p>emissões do banco ajudaram a financiar elevados dividendos eram pagos aos</p><p>o esforço de reconhecimento da acionistas de um banco tecnicamente</p><p>Independência nas províncias do falido — em 1828, o dividendo foi de</p><p>Norte/Nordeste, mas serviram também quase 20% sobre o capital, com o</p><p>para financiar uma guerra extremamente detalhe de que eram pagos com notas</p><p>impopular no Sul. De qualquer forma, o emitidas pelo próprio banco para este</p><p>resultado foi que o saldo das notas do fim.</p><p>Banco do Brasil em circulação, de Até hoje, se discute se foi uma boa</p><p>9.170 mil contos em 1822, elevou-se idéia fechar o Banco do Brasil em</p><p>para 21.355 mil contos em 1828, ano 1829. Para Pandiá Calógeras (1960), a</p><p>em que foi decretada, pelo Parlamento, liquidação do banco teria sido “o mais</p><p>a proibição de novas emissões. grave erro financeiro do Primeiro</p><p>O Banco do Brasil foi liquidado em Reinado”.</p><p>1829. Os debates políticos que Para os que se opunham ao</p><p>antecederam essa decisão começaram em Imperador Pedro I, entretanto, fechar o</p><p>1826, tão logo o Parlamento foi aberto. banco servia a seus propósitos, e assim</p><p>Os que se opunham à renovação do foi feito.</p><p>alvará de funcionamento do banco eram O encerramento das atividades do</p><p>os mesmos que se opunham a D. Pedro Banco do Brasil não abalou a estrutura</p><p>I. Não faltavam explicações econômicas, de crédito direcionado ao setor</p><p>como a idéia de que o excesso de privado, já que era reduzida a atividade</p><p>emissões era responsável pela do banco no desconto de letras</p><p>desvalorização cambial e pela saída de privadas.</p><p>circulação das “boas moedas” de prata e Talvez esta seja a principal razão de</p><p>de ouro, que teriam sido exportadas ou ter havido muito pouca oposição, por</p><p>entesouradas. De fato, as notas do Banco parte da opinião pública, à decisão de</p><p>do Brasil chegaram a circular com acabar com o banco.</p><p>Moeda de Ouro, 1822; “Peça</p><p>da Coroação” 6.400</p><p>réis</p><p>D. Pedro I (1822-1831)</p><p>Moeda de Ouro, 1823</p><p>6.400 réis, D. Pedro I</p><p>(1822-1831)</p><p>Moeda de Ouro, 1832</p><p>6.400 réis</p><p>D. Pedro II (1831-1889)</p><p>Moeda de Ouro, 1841</p><p>10.000 réis</p><p>Pedro II (1831-1889)</p><p>Moeda de Ouro, 1849</p><p>20.000 réis</p><p>D. Pedro II (1831-1889)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>36</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>com autorização do Governo Provincial,</p><p>mas que não chegou a operar, pois foi</p><p>imposto um limite de 6% de juros</p><p>anuais às taxas de empréstimos,</p><p>enquanto as taxas praticadas na região</p><p>eram bem superiores.</p><p>Em meados da década de 1840,</p><p>também foram criadas instituições</p><p>semelhantes no Pará, no Maranhão e</p><p>na Bahia — esta, a maior de todas.</p><p>Teriam sido, com exceção do Banco da</p><p>Bahia, apenas “pequenas associações</p><p>que eram mais caixas de auxílio mútuo</p><p>de comerciantes amigos que bancos”</p><p>(FARIA, 1933).</p><p>Em 1838, no Rio de Janeiro,</p><p>O surgimento de bancos privados</p><p>deveu-se às exigências gerais do</p><p>comércio das províncias. O primeiro</p><p>deles, que funcionou de 1836 a 1839,</p><p>foi o do Ceará, com incentivo das</p><p>autoridades da província não apenas</p><p>sob a forma de subscrição de ações,</p><p>mas também na concessão de poder</p><p>liberatório para os bilhetes que emitia,</p><p>que passaram a ser aceitos nas estações</p><p>públicas locais.</p><p>Embora a Constituição previsse que</p><p>apenas o Parlamento Nacional podia</p><p>legislar sobre a moeda em geral,</p><p>também em Pernambuco chegou a ser</p><p>criado um banco emissor de bilhetes,</p><p>OS PRIMEIROS BANCOS PRIVADOS</p><p>Após o fechamento do primeiro Banco do Brasil, o País ficou alguns anos sem qualquer banco. Em 1833, o</p><p>governo tentou criar uma instituição, mas não houve interessados em subscrever as ações. Apenas no final</p><p>da década 1830 começou a criação de bancos, a partir de iniciativas privadas, embora muitas vezes</p><p>contando com o apoio do Governo.</p><p>37</p><p>Porto do Rio de Janeiro, 1884</p><p>Óleo sobre tela de Giovanni</p><p>Castagneto (1851-1900)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Nacional de Belas Artes</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>“capitalistas desta cidade resolveram</p><p>nela fundar um novo banco, que viesse</p><p>tornar menos difíceis as condições</p><p>quase intoleráveis impostas às</p><p>atividades locais pela inexistência desse</p><p>gênero de estabelecimentos”</p><p>(CALÓGERAS, 1960). Surge, então, um dos</p><p>mais famosos bancos criados na capital</p><p>do Império, o Banco Comercial do Rio</p><p>de Janeiro, que, durante mais de uma</p><p>década, exerceu importantes funções</p><p>bancárias praticamente sem</p><p>concorrência na praça.</p><p>O Banco Comercial foi estabelecido</p><p>com o capital de 1.000:000$ (mil contos</p><p>de réis), aumentado, posteriormente,</p><p>para 5 mil contos. Suas operações</p><p>incluíam receber depósitos e descontar</p><p>letras com prazo inferior a quatro meses.</p><p>Fazia cobrança e operações de câmbio,</p><p>além de negociar, por conta própria,</p><p>títulos do governo. É interessante notar</p><p>que entre as operações mencionadas em</p><p>seus estatutos, estão “fazer</p><p>adiantamentos em conta-corrente sobre</p><p>garantias individuais”.</p><p>A função mais polêmica era a</p><p>emissão. Em 1838, quando foi</p><p>lançado, seus estatutos previam que o</p><p>banco poderia vir a ser de emissão,</p><p>mas, quando se deu a aprovação</p><p>oficial, o que só ocorreu quatro anos</p><p>depois, essa possível prerrogativa lhe</p><p>foi retirada. O Banco poderia, como de</p><p>fato fez, emitir bilhetes, chamados</p><p>vales, que circulavam privadamente,</p><p>mas eram aceitos nas “estações</p><p>públicas” como ocorrera com o Banco</p><p>do Brasil original e com o Banco do</p><p>Ceará.</p><p>Em 1847, o Banco Comercial</p><p>emitia, em vales, apenas metade de seu</p><p>limite legal, que era de 1/3 de seu</p><p>capital. Uma explicação para isso era</p><p>que o governo o obrigava a emitir vales</p><p>de valor mínimo de 500 mil réis,</p><p>quantia muito elevada, o que tornava os</p><p>vales pouco demandados.</p><p>O Banco da Bahia, cujos vales</p><p>tinham valor nominal de 100 mil réis,</p><p>emitia até o limite permitido de mil</p><p>contos de réis, ou seja, metade do</p><p>capital subscrito em 1847. Em ambos</p><p>os casos, circulavam como dinheiro e,</p><p>graças ao “crédito” dos bancos,</p><p>raramente eram postos para troco.</p><p>Entretanto, a maior parte do lucro</p><p>do Banco Comercial não se deveria às</p><p>emissões de vales, mas ao spread</p><p>bancário, considerado excessivo: no</p><p>período entre 1838 e 1847, o banco</p><p>subsiste principalmente do lucro das</p><p>somas depositadas e da diferença entre</p><p>o juro de 4% a 4,5% que por elas</p><p>paga, e o 6% a 7% que carrega ao</p><p>Tesouro e aos descontadores dos efeitos</p><p>(SOUZA FRANCO,</p><p>1848).</p><p>BANCOS NO BRASILCAPÍTULO III</p><p>“Procissão Marítima”</p><p>Óleo sobre tela de Leandro</p><p>Joaquim (1738-1798)</p><p>Fialdini</p><p>Museu Histórico Nacional</p><p>38</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>Centralização x descentralização</p><p>bancária, criação do segundo</p><p>Banco do Brasil</p><p>Detalhe da nota de Cz$ 1.000</p><p>lançada em 29 de Setembro de</p><p>1987, onde vemos a Rua 1º de</p><p>Março, antiga Rua Direita, com</p><p>base em foto de 1905. No anverso,</p><p>retrato de Machado de Assis e</p><p>trecho do manuscrito “Esaú e Jacó”</p><p>Fialdini</p><p>Museu do Banco Central do Brasil</p><p>Do lado estritamente financeiro, o</p><p>Banco Comercial do Rio de Janeiro “não</p><p>financiava a produção. Funcionava mais</p><p>como uma caixa central de descontos</p><p>para os grandes comerciantes do que</p><p>como impulsionador da agricultura. (...)</p><p>Irineu Evangelista, com seu banco</p><p>diferenciado (...) tomava dinheiro de</p><p>aplicadores que se viram, de repente,</p><p>sem as opções tradicionais, e o</p><p>emprestava a produtores necessitados a</p><p>custo muito menor do que eles tinham</p><p>até então. (...) A chegada do Banco do</p><p>Brasil [de Mauá] despertou o</p><p>concorrente de seu sono. No primeiro</p><p>ano de atividade, o novo banco emitiu</p><p>nada menos que 1.500 contos de letras.</p><p>O Banco Comercial, para sobreviver,</p><p>teve de seguir o mesmo caminho: em</p><p>1852, suas emissões saltaram para 257</p><p>contos” (CALDEIRA, 1995).</p><p>Nos debates travados ao longo do</p><p>século XIX, havia duas posições em</p><p>conflito. De um lado, havia os “papelistas”,</p><p>como Bernardo de Sousa Franco, que</p><p>propunham a existência de vários bancos</p><p>de emissão concorrendo entre eles, e que a</p><p>emissão não necessariamente deveria ser</p><p>lastreada em metais. Do outro lado, havia</p><p>os “metalistas”, que defendiam a</p><p>centralização da emissão de notas</p><p>4conversíveis em um só banco (SAES, 1986) .</p><p>Em 1853, o “metalista” Joaquim José</p><p>Rodrigues Torres, o Visconde de Itaboraí,</p><p>assumiu o Ministério da Fazenda. Ele</p><p>associava a abundância de crédito e a</p><p>prática de juros baixos, resultantes da</p><p>concorrência entre os bancos, com agitação</p><p>e especulação. A elevação dos juros seria</p><p>necessária para trazer de volta à circulação</p><p>o “capital circulante que foi procurar</p><p>melhor mercado”.</p><p>CENTRALIZAÇÃO X DESCENTRALIZAÇÃO BANCÁRIA</p><p>Banco Comercial x Banco do Brasil de Mauá</p><p>O novo ambiente econômico resultante do fim do tráfico negreiro internacional e a aprovação do Código</p><p>Comercial em 1850, assim como o fim da instabilidade política nos estados do Sul, proporcionaram certa euforia</p><p>na economia: as importações legais e o preço internacional do café aumentaram, o que possibilitou maior receita</p><p>com impostos. Muitos capitais, até então dedicados a financiar, diretamente ou através de quotas, a importação</p><p>de escravos africanos, passaram a buscar fontes alternativas de rendimento. A atividade bancária foi uma delas.</p><p>Em 1851, Irineu Evangelista de Souza, Barão e depois Visconde de Mauá, criou seu primeiro banco, com o</p><p>sugestivo nome de Banco do Brasil. O capital do banco foi fixado em 10.000$000. Metade foi integralizada logo</p><p>no primeiro ano, a outra metade no ano seguinte. Era, portanto, o maior banco então em operação no Brasil.</p><p>Fachada da sede do Banco do</p><p>Brasil, 1856.</p><p>Litografia de P. Bertichen</p><p>Centro Cultural Banco do Brasil</p><p>Edifício localizado na esquina da</p><p>Rua da Alfândega com a Rua da</p><p>Candelária, no Centro do Rio de</p><p>Janeiro, onde funcionou o Banco do</p><p>Brasil.</p><p>40</p><p>CAPÍTULO IV BANCOS NO BRASIL</p><p>Itaboraí logo encaminhou um projeto Recebeu o privilégio exclusivo de</p><p>que criava um novo Banco do Brasil, a ter suas notas recebidas nas “estações</p><p>ser formado a partir da fusão dos dois públicas”. Nos anos seguintes,</p><p>grandes bancos então existentes no Rio transformou em agências suas alguns</p><p>de Janeiro, o Banco Comercial e o Banco dos</p>