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<p>4 Artrocinemática Movimento osteocinemático, 27 Movimento osteocinemático Sensação final, 27 Movimento 28 Comumente, o movimento articular é imaginado como um osso movendo- se sobre o outro e causando movimentos como flexão, extensão, Terminologia do movimento adução e rotação. Esses deslocamentos, que são realizados sob controle vo- acessório, 28 luntário, são frequentemente descritos como movimento clássico, fisioló- Mobilização da articulação, 28 gico ou osteocinemático e foram descritos no Capítulo 1. movimento osteocinemático pode ser ativo ou passivo. A amplitude de movimento ativo Formato da ocorre quando os músculos se contraem para deslocar as articulações ao articular, 30 longo de sua amplitude de movimento. Quando movemos nossas articula- Tipos de movimento ções durante o dia, estamos realizando ativamente movimentos osteocine- artrocinemático, 30 máticos. A amplitude de movimento passiva ocorre quando uma articula- Regra convexo-côncava, 31 ção é movimentada passivamente ao longo de sua amplitude de movimento. Quando um profissional de saúde mobiliza passivamente uma articulação Posições da superfície articular de um paciente ao longo de sua amplitude de movimento, isso geralmente (congruência articular), 32 é feito com o propósito de manter ou a amplitude de movimento Pontos-chave, 34 (p. ex., técnica de estiramento) ou para determinar a natureza da resistência que o profissional sente no final da amplitude de movimento. Esta última é Autoavaliação, 35 denominada sensação final de uma articulação. Sensação final Sensação final é o tipo de resistência que o profissional de saúde sente ao aplicar discreta pressão após levar a articulação do paciente até o final de sua amplitude passiva de movimento. Foi descrita pela primeira vez por James Cyriax, que usou esse princípio para identificar qual tecido era responsável pela limitação de movimento adicional no final da amplitude de movimento de uma articulação. A sensação final pode ser normal ou anormal. Existe sensação final nor- mal quando existe amplitude passiva de movimento plena em uma articula- ção e o movimento é limitado pela(s) estrutura(s) anatômica(s) esperada(s) para essa articulação em particular (p. ex., osso, cápsula, músculo e ligamen- to). Sensação final anormal ocorre quando dor, defesa muscular, edema ou anatomia anormal interrompem o movimento articular. Quando é percebi- da sensação final anormal, isso pode ajudar a identificar o "tecido responsá- vel", ou seja, o tecido que está provocando a disfunção. Os três tipos de sensação final normal são macio, firme e rígido (ou duro). Uma sensação final macia ocorre quando a massa muscular é comprimi- da e, às vezes, é denominada aproximação de tecidos moles. Por exemplo, a flexão do cotovelo é interrompida pela aproximação do antebraço e do bra- Isso é evidente sobretudo em pessoas com músculos bem desenvolvidos ou extremamente Uma sensação final firme resulta de tensão nos</p><p>28 Parte 1 Fundamentos de Cinesiologia Clínica e Anatomia ligamentos, na cápsula e/ou nos músculos circundantes e de rebote é sentido no final da existe amplitude distúrbio de movimento interno é percebida como uma parada firme do movimento que quando de um pouco" com pressão aumentada. Essa é a sen- uma De modo articulação, geral, ocorre como ruptura da cartilagem. sação final mais comum e, de modo geral, é qualificada de acordo com tipo de tecido que limita movimento (p. ex., sensação final firme sensação final fir- Movimento artrocinemático me capsular, sensação final firme ligamentar). Os exem- plos seriam rotação medial e lateral do ombro, extensão do Outra maneira de abordar movimento articular da é quadril e do joelho e dorsiflexão do tornozelo. A sensação minar que ocorre nas superficies articulares definido articu- final dura é caracterizada por limitação abrupta e rígida à movimento artrocinemático é como movimentação articular passiva que não cede ao aumen- lação. maneira como as superfícies articulares adjacentes se to da Isso ocorre quando osso entra em contato locam uma sobre a outra durante movimento articular com osso no final da amplitude de movimento e, às vezes, osteocinemático. Portanto, o movimento osteocinemático é descrita como sensação final Um exemplo seria a denominado movimento articular e o movimento artro- extensão do cotovelo quando olécrano ósseo entra em é cinemático é chamado movimento da superfície articular contato com a fossa do Qualquer um dos três tipos de sensação final normal Terminologia do movimento acessório pode ser considerado anormal se ocorrer na articulação errada ou se ocorrer no ponto errado da amplitude de mo- A terminologia pode gerar alguma confusão porque vários vimento, A sensação final capsular firme é normal para a especialistas usam os termos de modo algo diferente. Com rotação lateral do Aproximação de tecido mole é a isso em mente, existem dois tipos de movimento nemático acessórios que precisam ser descritos: aqueles sensação final normal para a flexão do cotovelo. Portanto, uma sensação final capsular firme na flexão do cotovelo é que ocorrem durante o movimento ativo e aqueles que ocorrem durante o movimento passivo. Nenhum dos dois considerada anormal. Uma sensação final capsular firme está sob controle voluntário, mas ambos são necessários na flexão do cotovelo pode ser consequente a encurtamen- to capsular após usar um aparelho gessado longo no mem- para que ocorra movimento funcional normal. Os movi- bro superior. Uma sensação final endurecida pode resultar mentos componentes são os pequenos movimentos arti- culares artrocinemáticos que acompanham o movimento de estruturas ósseas anormais (p. ex., osteófitos) que limi- osteocinemático ativo. Por exemplo, a cabeça do úmero tam o movimento articular. precisa deslizar inferiormente para o ombro fazer flexão Alguns tipos de sensação final sempre são considerados plena. côndilo medial da tíbia desliza anteriormente so- anormais e ocorrem quando dor, defesa muscular, edema bre o côndilo medial do fêmur durante os últimos graus ou anatomia anormal interrompem o movimento articular. de extensão do joelho. A superfície articular do primeiro As sensações finais anormais podem ser descritas como osso metacarpal desliza posteriormente sobre trapézio infiltração, contratura muscular, vazia e bloqueio elástico. durante a abdução do polegar. Nenhum desses movimen- Esses termos podem ser empregados para explicar a fonte tos componentes pode ser feito independentemente; eles da limitação do movimento articular. Sensação final infil- precisam acompanhar movimentos osteocinemáticos para trada costuma ocorrer nas condições agudas associadas a que ocorra movimento articular normal. Jogo articular é edema de tecidos moles, como imediatamente após uma o movimento artrocinemático que acontece entre superfi- entorse grave do tornozelo ou sinovite. A sensação é de cies articulares quando uma força externa cria movimento uma "esponja molhada" e mole. Contratura muscular é a passivo na articulação. Seja o movimento acessório ativo defesa muscular reflexa durante movimento. Trata-se de (movimento componente) ou passivo (jogo articular), os uma resposta protetora observada na lesão aguda. A palpa- movimentos artrocinemáticos que resultam podem ser ção do músculo revelará espasmo muscular. A capacidade descritos pelos termos rolamento, deslizamento e rotação, do profissional de palpar sensação final normal e diferen- que serão definidos adiante. ciar alterações da sensação final normal é importante na proteção das articulações durante exercícios da amplitude de movimento. Sensação final vazia ocorre quando o mo- Mobilização da articulação vimento provoca dor considerável e paciente impede que Se um movimento acessório for limitado, geralmente ocor- o profissional mova a articulação além do ponto re redução do movimento da articulação. A mobilização Visto que o profissional não leva a articulação até final da articulação é uma técnica na qual é aplicada uma força de sua amplitude de movimento fisiológica, não há manei- externa à articulação de um paciente com o propósito de ra de saber se existe limitação além do ponto de dor ou gerar um movimento oscilatório passivo ou estiramento determinar o tipo de tecido que seria a causa de qualquer sustentado entre as superfícies A mobiliza- limitação potencial. No bloqueio elástico, um movimento ção articular pode ser usada para restaurar a mobilidade</p><p>Capítulo 4 Artrocinemática 29 articular ou aliviar dor oriunda de estruturas articulares. Quando essa técnica é empregada para restaurar a amplitu- de de movimento, a força é aplicada mais comumente pela geração de movimento artrocinemático na direção da res- Uma articulação que apresenta um padrão capsular de restrição de movimento (ver Capítulo 3) é aquela que frequentemente se manifesta como redução do jogo articu- Figura 4.2 A força de compressão provoca aproximação articular, ou seja, diminui a distância entre as superfícies lar e será tratada com mobilização articular para distender a cápsula articular. Outra técnica para restaurar a mobi- lidade é a manipulação com impulso de alta velocidade e baixa amplitude. Essa técnica envolve a mobilização da articulação em alta velocidade ao longo de uma amplitude calculada e minimamente além do ponto onde termina o jogo articular. As duas técnicas estão além dos propósitos desta obra. Forças do movimento acessório Ao realizar a mobilização articular, três tipos principais de Figura 4.3 A força de cisalhamento provoca deslizamento entre as força são usados para criar movimento entre as superfícies superfícies articulares no qual as extremidades ósseas se movem pa- ralelamente umas às outras, mas em sentidos opostos. articulares: tração, compressão e cisalhamento. As forças de tração provocam afastamento (distração) articular, ou seja, a distância entre as faces articulares aumenta (Figura 4.1). Carregar uma mala de viagem pesada ou ficar depen- de outra pessoa na extremidade proximal da falange média durado em uma barra acima do nível da cabeça provoca com o polegar e o dedo indicador. A seguir, segure a extre- distração nas articulações do ombro, do cotovelo e do pu- midade distal da falange proximal com o polegar e o dedo nho. É possível demonstrar isso em outra pessoa seguran- indicador da outra mão. Com a articulação IFP discreta- do o dedo indicador na extremidade proximal da falange mente flexionada, mova suas duas mãos em um movimen- média com o polegar e o dedo indicador. A seguir, move-se to oposto para cima e para baixo. Esse movimento descreve a articulação proximal (IFP) para uma po- o deslizamento anteroposterior da articulação interfalângi- sição discretamente flexionada (posição não trancada, as ca proximal (uma força de cisalhamento). superfícies articulares não estão congruentes e a cápsula As forças de inclinação e torção são, na verdade, com- articular está relaxada) e puxa-se delicadamente em dire- binações de forças. Inclinação ocorre quando uma força ções opostas. Essa descrição e outras que serão apresenta- que não é vertical é aplicada, resultando em compressão das visam ilustrar as várias forças e não constituem uma no lado côncavo e distração (afastamento) no lado convexo descrição de técnica terapêutica. É crucial ter cuidado ao (Figura 4.4). Forças rotatórias ou de torção envolvem des- realizar esses movimentos. locamento angular. Uma força tenta deslocar uma extremi- As forças de compressão provocam aproximação arti- dade ou parte em torno de um eixo longitudinal enquanto cular, ou seja, diminui a distância entre as superfícies ar- a outra força está fixa ou se deslocando na direção oposta ticulares (Figura 4.2). Fazer flexão de braço no chão ou na (Figura 4.5). cadeira promove aproximação das superfícies das articula- do ombro, do cotovelo e do punho. As forças de cisalhamento provocam um movimento de deslizamento no qual as superfícies articulares se movem paralelamente (Figura 4.3). Usando as posições apresenta- das quando foi descrita distração, segure o dedo indicador Força de tração Força de compressão Figura 4.1 A força de tração provoca afastamento (distração) articular, Figura 4.4 A força de inclinação provoca compressão de um lado e ou seja, aumenta a distância entre as superfícies articulares. tração do outro lado.</p><p>30 Parte 1 Fundamentos de Cinesiologia e Anatomia Falange proximal Osso metacarpal Côncava Convexa das articulares ósseas de uma Figura 4.5 Força rotatória ou de torção é um movimento giratório. Figura 4.6 ovoide Formato articulação (MCF) de um culação da mão. Do ponto de vista por que essas forças de mo- vimento acessório são relevantes? As forças de distração, deslizamento, inclinação e torção são, com frequência, uti- lizadas para ajudar a restauração da mobilidade articular, enquanto aproximação pode ajudar na promoção de esta- Osso bilidade da articulação. metacarpal Formato da superfície articular Anterior Lateral Para compreender artrocinemática, é preciso reconhecer Medial Convexa Posterior que o tipo de movimento que ocorre em uma articulação depende do formato das superfícies articulares dos ossos. A maioria das articulações tem uma extremidade óssea côncava e uma extremidade óssea convexa (Figura 4.6). Osso trapézio Uma superfície convexa é arredondada para fora, como se fosse um montículo, enquanto uma superfície côncava é "escavada", como uma toca. Figura 4.7 Formato das superfícies ósseas de uma articulação selar Todas as superfícies articulares são ovoides ou selares. articulação CMC do polegar. Uma articulação ovoide tem dois ossos que formam uma relação Por exemplo, na articulação me- uma superfície é côncava (falange proxi- Rolamento é a revolução de uma superfície articular sobre mal) e a outra é convexa (ver Figura 4.6). A maioria das outra. Novos pontos em cada superfície entram em contato articulações sinoviais é ovoide. Em uma articulação ovoide durante o movimento (Figura 4.8). Os exemplos incluem a uma extremidade óssea é, em geral, maior que a extremi- superfície do sapato de uma pessoa no chão durante a deam- dade óssea adjacente. Isso possibilita maior amplitude de bulação ou uma bola rolando no assoalho. Deslizamento movimento sobre uma superfície articular menor, que re- um movimento linear de uma superfície articular paralela duz as dimensões da articulação. ao plano da superfície articular contígua (Figura 4.9). Em Em uma articulação selar (ou seja, em formato de outras palavras, um ponto em uma superfície articular en- sela), cada superfície articular é côncava em uma direção tra em contato com novos pontos na superfície e convexa na outra. A articulação carpometacarpal (CMC) A lâmina do patim de um patinador no gelo (um ponto) do polegar é, talvez, o melhor exemplo de articulação selar deslizando na superfície gelada (muitos pontos) demons- (Figura 4.7). O osso carpal (trapézio) é côncavo na direção tra o movimento de deslizamento. Rotação é o movimento anteroposterior e convexo na direção medial-lateral. pri- giratório da superfície articular móvel sobre a superfície meiro osso metacarpal que se articula com esse osso carpal adjacente fixa (Figura 4.10). Essencialmente o mesmo pon- tem o formato oposto: é convexo na direção anteroposterior e côncavo na direção medial-lateral. A Figura compara to em cada superfície permanece em contato um com 0 formato dessa articulação com o formato de duas batatas outro. Um exemplo desse tipo de movimento seria um pião fritas empilhadas uma sobre a outra. girando em uma mesa. Se o pião permanecer perfeitamen- te vertical, ele gira em um local. Os exemplos no corpo se- Tipos de movimento artrocinemático riam qualquer movimento rotacional puro (relativamente tal como o úmero girando na cavidade Os tipos de movimento artrocinemático são rolamento, da durante a rotação medial e a rotação lateral do deslizamento e rotação. A maioria dos movimentos arti- ombro ou a cabeça do rádio girando no capítulo do úmero culares envolve uma combinação desses três movimentos. durante a pronação e a supinação do antebraço.</p><p>Capítulo 4 Artrocinemática 31 Fêmur Rolamento apenas Rolamento Côndilos Deslizamento do fêmur Figura 4.8 Movimento de rolamento de uma superficie articular sobre Novos pontos em cada superficie fazem Tíbia Vista lateral A B Figura 4.11 Rolamento e deslizamento dos côndilos do fêmur sobre os côndilos da tíbia na articulação do joelho. seja necessário para utilizar todas as superfícies articulares disponíveis e, assim, produzir a amplitude de movimento plena em um determinado ponto, é o deslizamento simul- Figura 4.9 Deslizamento movimento linear de uma superfície arti- tâneo que impede que uma superfície articular "escape" cular paralela a outra superfície articular Um ponto em uma superfície dos limites da outra superfície articular antes de o movi- entra em contato com novos pontos na outra mento articular ser completado. A articulação do joelho é um exemplo de como rolamento e deslizamento interagem para manter as superfícies articulares alinhadas (Figura 4.11). Quando um indivíduo levanta de uma cadeira, os côndilos convexos do fêmur começam a rolar anteriormen- te sobre os côndilos côncavos da tíbia. Todavia, os côndilos da tíbia têm muito menos superfície articular do que os côndilos do fêmur e, por causa da grande amplitude de fle- xão e extensão possível no joelho, o fêmur rolaria para fora da tíbia se os côndilos do fêmur não deslizassem ao mes- mo tempo posteriormente sobre a tíbia. Além disso, existe um importante componente de rotação que é necessário durante a última parte da extensão do joelho. A natureza e a direção dessa rotação serão discutidas com detalhes no Capítulo 19. Regra convexo-côncava Figura 4.10 Rotação giro de uma superfície articular sobre outra. mesmo ponto em cada superfície permanece em contato. conhecimento do formato de uma superfície articular (côncava ou convexa) é importante porque o formato de- termina o movimento. A regra convexo-côncava descreve como as diferenças no formato das extremidades ósseas A análise da direção do deslizamento de uma exigem que as superfícies articulares se desloquem de um cie articular durante o movimento funcional do corpo é modo específico durante o movimento articular. A regra importante porque um deslizamento é, com frequência, expressa a correlação entre a osteocinemática e a artroci- o movimento artrocinemático que é introduzido passi- nemática para um dado movimento. Para a análise apro- vamente pelo profissional de saúde durante a técnica de priada do elo entre esses dois tipos de movimento é preciso mobilização articular. Todavia, é preciso lembrar que du- o movimento em dois locais: a superfície articular do osso rante o movimento articular normal o deslizamento geral- em movimento (artrocinemática) e a extremidade distal/ mente é acompanhado por Embora rolamento oposta do osso em movimento (osteocinemática).</p><p>32 Parte Fundamentos de Cinesiologia Clínica e Anatomia A regra é descrita da seguinte forma: uma ticular côncava desliza sobre uma superficie convexa fixa na mesma direção da extremidade distal do osso em Por exemplo, a parte distal do osso metacarpal é convexa e a parte proximal da falange proximal é côncava convexa (Figura 4.12). Durante a extensão de um dedo da mão (a deslizando para baixo partir de uma posição de flexão do dedo da mão), a su- articular côncava da falange proximal se move na mesma direção da extremidade distal da falange proximal enquanto se desloca sobre o osso metacarpal convexo fixo. Nesse caso, a superfície articular da falange proximal des- Segmento do corpo liza posteriormente (artrocinemática), enquanto a falange movendo-se para cima proximal também está se estendendo posteriormente atra- através do plano vés do plano sagital Em resumo, a su- frontal (abdução) perfície articular côncava desliza na mesma direção da extremidade distal do mesmo segmento Por outro lado, uma superfície articular convexa desli- zará sobre uma superfície côncava fixa na direção opos- ta à da extremidade distal do osso em movimento. Por Figura 4.13 A superfície convexa desliza na direção oposta da extre- exemplo, a cavidade glenoidal da escápula é côncava e a midade distal do em cabeça do úmero (com a qual se articula) é convexa (Figura 4.13). Durante a abdução do ombro, a superfície convexa da cabeça do úmero se move para baixo (na direção oposta o cotovelo esquerdo. Observe que enquanto o antebraço da) à extremidade distal do úmero que se move para cima. (segmento ósseo) se move para cima, o punho cerrado (su- Portanto, a superfície articular convexa desliza na direção perfície articular) desliza para baixo. Em outras palavras, oposta à da extremidade distal do mesmo segmento a superfície convexa desliza na direção oposta à da extre- Existe uma maneira visual fácil de lembrar essa regra. midade distal (oposta) do mesmo segmento ósseo. Repita Para representar uma articulação, cerre o punho esquerdo a ação com a mão direita em concha se movendo na altura e encaixe-o na mão direita em concha. A mão esquerda re- do punho. Eleve o cotovelo direito e observe que a mão presenta a superfície articular convexa de um osso. ante- direita em concha está deslizando para cima e sobre a mão braço esquerdo representa o A mão direita em concha esquerda. A superfície côncava (mão direita em concha) representa a superfície côncava do outro osso. Mantenha desliza na mesma direção da extremidade distal (oposta) as mãos no mesmo nível, o punho retificado e, enquan- do mesmo segmento ósseo (antebraço direito). to a mão esquerda gira na mão direita em concha, eleve Uma análise conceitual do movimento usa a regra con- vexo-côncava para determinar se os movimentos da super- fície articular estão ocorrendo na "mesma" direção ou na Superfície côncava direção "oposta" à da extremidade distal do segmento ós- deslizando posteriormente seo. A Tabela 4.1 identifica as etapas para tal análise. Embora a análise conceitual do movimento seja de na- tureza teórica, é útil para a realização de uma análise clí- Osso metacarpal Falange proximal nica real que equipara movimentos artrocinemáticos e os- teocinemáticos verdadeiros. Vale mencionar que os movi- mentos artrocinemáticos são expressados pela designação da direção real do deslizamento da superfície articular. A Tabela 4.2 mostra um guia passo a passo da realização de Segmento ósseo uma análise clínica do movimento. movendo-se posteriormente através do plano Posições da superfície articular (congruência axial (extensão) articular) Congruência articular descreve quão bem as superfícies ar- Figura 4.12 A superfície côncava desliza na mesma direção da extre- ticulares se encaixam. As superfícies de uma articulação midade distal do osso em movimento. Nesse exemplo, os dois tipos são congruentes em uma posição e incongruentes em todas de movimento estão ocorrendo posteriormente. as outras posições. Quando uma articulação é congruente,</p><p>Capítulo 4 Artrocinemática 33 Tabela 4.1 Etapas para realizar uma análise conceitual do ETAPAS 1. as superfícies 2. Identificar o segmento 3. Identificar se 4. Determinar se a superfície articulares e identificar ósseo mais móvel movimento é convexo articular mais móvel qual é convexa e qual é (geralmente mais sobre côncavo ou deslizará na mesma côncava distal) côncavo sobre convexo direção ou na direção oposta à do resto desse osso Exemplo 1: Cavidade glenoidal A cabeça do úmero é A cabeça do úmero se A cabeça do úmero desliza articulação do (côncava) mais móvel move na cavidade na direção oposta da extremidade distal do ombro Cabeça do úmero glenoidal da escápula (convexa sobre côncava) úmero (convexa) Exemplo 2: Osso metacarpal A falange proximal é mais A falange proximal A falange proximal desliza (convexo) móvel côncava se move no osso na mesma direção da Articulação MCF Falange proximal metacarpal convexo extremidade distal da (côncavo sobre convexo) falange distal (côncava) Tabela 4.2 Etapas para realizar uma análise clínica do movimento. ETAPAS 1. Escolher um movimento 2. Identificar a direção real 3. Identificar o movimento osteocinemático que a articulação na qual o osso se move artrocinemático que ocorre pela consiga realizar quando esse movimento descrição da direção real na osteocinemático ocorre qual a superfície articular está (Essas etapas podem ser repetidas deslizando (p. ex., deslizamento para qualquer movimento anterior, posterior, lateral ou osteocinemático que a articulação medial) consiga realizar) Exemplo 1: articulação do Abdução do ombro Movimento superior do Deslizamento inferior da cabeça do ombro úmero úmero Exemplo 2: articulação Flexão da articulação MCF Movimento anterior da Deslizamento anterior da MCF falange proximal extremidade proximal da falange proximal as superfícies articulares apresentam contato máximo uma muito mais provável que a articulação do joelho submetida com a outra, estão firmemente comprimidas e são difíceis a uma força lateral quando está estendida (posição tranca- de separar. Os ligamentos e a cápsula que mantêm a articu- da) seja lesionada do que quando está em uma posição fle- lação na posição estão tensos. Isso é conhecido como po- xionada ou semiflexionada (posição não trancada). Além sição trancada. Habitualmente, ocorre em um extremo da disso, quando uma articulação está edemaciada, não pode amplitude de movimento. Por exemplo, se você colocar seu ser movida para a posição trancada. joelho na posição plenamente estendida, é possível deslo- Em todas as outras posições, as superfícies articulares car manualmente a patela um pouco para os lados e para são incongruentes. A posição de incongruência máxima é baixo e para cima. Todavia, o joelho estiver flexionado, não denominada posição não Também é denomina- é possível mover o joelho. Assim, a posição trancada da da posição de repouso. Partes da cápsula e dos ligamentos articulação do joelho é a flexão do joelho. Outras posições de sustentação estão relaxadas. Há congruência mínima trancadas são dorsiflexão do tornozelo; flexão metacar- entre as superfícies articulares. Pode ocorrer separação pofalângica e extensão do cotovelo, do punho, do quadril, passiva adicional das superfícies articulares nessa posição. do joelho e das articulações A Tabela 4.3 Como os ligamentos e as estruturas capsulares tendem a mostra uma lista mais detalhada das posições trancadas estar mais relaxados, as técnicas de mobilização articular das articulações. são mais bem aplicadas na posição de repouso. Essa posi- Quando a estabilidade e a integridade dos ligamentos e ção possibilita o rolamento, a rotação e o deslizamento ne- das estruturas capsulares são testadas, a articulação geral- cessários para o movimento articular normal. A Tabela 4.3 mente é colocada na posição trancada. Por causa das carac- mostra uma lista mais detalhada das posições de repouso terísticas da posição trancada, a articulação frequentemen- de algumas articulações e compara essas posições com as te está nessa posição quando é lesionada. Por exemplo, é posições trancadas.</p><p>34 Parte 1 Fundamentos de Cinesiologia Clínica e Anatomia Tabela 4.3 Comparação das posições e de repouso das Posição de repouso Posição Ponto médio entre flexão e extensão Processos articulares das vértebras Extensão Boca discretamente aberta (espaço livre) Dentes cerrados Do ombro de abdução, 30° de adução horizontal Abdução e rotação lateral Acromioclavicular Braço relaxado ao longo do corpo na Braço abduzido a anatômica Do cotovelo 70° de flexão, 10° de supinação Extensão Umerorradial Extensão plena e supinação Cotovelo flexionado antebraço supinado Radiulnar proximal 70° de flexão, de supinação 5° de supinação Radiocarpal (punho) Neutra com discreto desvio ulnar Extensão com desvio ulnar Carpometacarpal Ponto médio entre abdução/adução e flexão/ N/A extensão (dedos Flexão discreta Flexão plena das mãos) (polegar) Flexão discreta Oposição plena Flexão discreta Extensão plena Quadril Extensão plena e rotação medial* de flexão, 30° de abdução e discreta rotação lateral Joelho Extensão plena e rotação lateral da tíbia de flexão Talocrural (tornozelo) Dorsiflexão máxima 10° de flexão plantar, ponto médio entre inversão e eversão máximas Extensão plena Neutra Extensão plena Flexão discreta "Alguns autores incluem Adaptada de Magee, DJ: Orthopedic Physical Assessment, ed WB Saunders, Philadelphia, 2002, p 50, com permissão. Algum jogo articular pode ser evidenciado nessas po- Os tipos de movimento artrocinemático são sições de repouso. O jogo articular é o movimento passivo deslizamento e rotação de uma superfície articular sobre a outra. Visto que não se trata de movimento voluntário, é crucial que os músculos De acordo com a regra côncavo-convexa, as superfi- estejam relaxados e que seja aplicada força externa por um cies articulares côncavas deslizam na mesma direção profissional treinado para demonstrá-lo. da extremidade distal do mesmo segmento ósseo, en- quanto as superfícies convexas deslizam na direção oposta à da extremidade distal do mesmo segmento ósseo Pontos-chave Quando uma articulação é congruente, encontra-se A sensação final normal pode ser descrita como ma- na posição Quando a articulação é incon- cia, firme ou dura gruente, está na posição não trancada ou de repouso A sensação final anormal pode ser descrita como ós- Para mobilizar uma articulação podem ser usadas sea, infiltrada, vazia, bloqueio elástico ou espasmo forças de distração (afastamento), deslizamento, incli- muscular nação ou torção formato da articular pode ser ovoide ou A aproximação articular pode ser usada para promo- selar ver estabilidade articular.</p><p>4 Artrocinemática 35 Autoavaliação a. Flexão e extensão do ombro são tipos artrocinemá- e. Se essas batatas fritas representassem uma articula- tico ou osteocinemático de movimento? ção, formato da articulação seria ovoide ou selar? b. A distração (afastamento) do ombro é um tipo ar- 7. Você segura uma moeda de 25 centavos sobre sua bor- trocinemático ou osteocinemático de movimento? da e a faz girar lentamente até outro lado da mesa. 2. Qual seria o tipo de sensação final no extremo da am- Que tipo de movimento artrocinemático é esse? plitude de flexão do joelho? 8. Coloque uma moeda de 25 centavos na mesa e dê-lhe 3. A partir da posição anatômica, flexione o um peteleco, deslocando-a através da mesa. Isso seria a. úmero está se movendo sobre a escápula ou a es- representativo de qual tipo de movimento artrocine- cápula está se movendo sobre o úmero? mático? b. A extremidade proximal do úmero é uma superfície 9. Ao comparar uma moeda de 25 centavos com uma articular côncava ou uma superfície articular con- moeda de 5 centavos, você constata que a moeda de 25 vexa? centavos é Marque com um lápis as posições de A cavidade glenoidal da escápula tem uma 6 e 12 na moeda de 25 centavos. Coloque a moeda cie convexa ou uma superfície côncava? de 5 centavos na mesa e role a moeda de 25 centavos d. A superfície côncava está deslizando sobre uma su- sobre a superfície da moeda de 5 centavos, começando com a moeda de 25 centavos na posição de 6 na bor- perfície convexa fixa ou a superfície convexa está da da moeda de 5 centavos. deslizando sobre uma superfície côncava fixa? a. A moeda de 25 centavos alcançará a borda da mo- e. A superfície da articulação está deslizando na mes- eda de 5 centavos antes de alcançar a posição de ma direção ou na direção oposta à da extremidade distal do osso em movimento? 12 h? 4. Identificar a(s) força(s) acessória(s) ocorrendo nas se- b. Qual movimento artrocinemático você precisará guintes atividades: usar na moeda de 25 centavos, além do rolamen- a. Na articulação do ombro quando a pessoa se incli- to, de modo que a posição de 12 h possa alcançar o na sobre a mesa com os cotovelos estendidos lado oposto da moeda de 5 centavos? b. Na articulação do joelho quando um jogador de fu- 10. Segure um lápis verticalmente com a ponta de grafi- tebol americano é atingido na face anterior da tíbia te apoiada na mesa. Segurando a extremidade oposta C. Na articulação do cotovelo ao pegar uma extremi- entre o polegar e o dedo indicador, role o lápis entre dade de uma mesa esses dedos, mantendo a ponta de grafite em contato com a mesa. Que tipo de movimento artrocinemático d. No punho ao abrir um pote é representado? e. Nos ombros de uma criança quando ela é balançada 11. Partindo do pressuposto que os músculos têm compri- por adultos que seguram suas mãos mento normal, que tipo de sensação final ocorreria se 5. A articulação temporomandibular (ATM) (mandíbu- o tornozelo dessa pessoa fosse dorsiflexionado? la) está na posição trancada quando os dentes estão cerrados ou quando a boca está discretamente aberta? 12. Uma pessoa se inclina para baixo para tocar chão no plano sagital. 6. Em termos de congruência articular, descrever como uma pilha de batatas fritas Pringles se encaixa (ver a. Que tipo de força é aplicada à parte anterior da vér- tebra? Figura 13.2). Colocar duas batatas fritas empilhadas na sua frente com a extremidade longa virada para b. Que tipo de força é aplicada à parte posterior da você em uma posição anteroposterior. Considerar as vértebra? superfícies articulares de cada batata frita em contato 13. Um homem sentado em uma cadeira se vira para olhar uma com a outra: atrás dele. Que tipo de força está sendo aplicada à co- a. formato anteroposterior da superfície inferior da luna vertebral? batata frita superior é côncavo ou convexo? 14. Qual é o formato das superfícies da articulação meta- b. formato anteroposterior da superfície superior (MCF)? da batata frita inferior é côncavo ou convexo? 15. Quando a superfície articular do primeiro metacarpal O formato medial-lateral da superfície inferior da desliza posteriormente sobre osso trapézio durante a batata frita superior é côncavo ou convexo? abdução do polegar, isso é considerado um movimen- d. formato medial-lateral da superfície superior da to osteocinemático ou um movimento artrocinemáti- batata frita inferior é côncavo ou convexo? co? Por (continua)</p><p>36 Parte 1 Fundamentos de Cinesiologia Clínica e Anatomia Autoavaliação (continuação) 16. Com base nas etapas descritas no Quadro 4.1, analisar d. segmento ósseo mais móvel desliza na mesma di- o movimento na articulação do cotovelo: reção ou na direção oposta à do resto do osso? a. Nomear as superfícies articulares e identificar se 17. Para as duas etapas seguintes, selecionar flexão do cada articulação é côncava ou convexa. (Não se pre- tovelo como o movimento a ser analisado: ocupe com os nomes reais dos marcos; usar extre- a. Identificar a direção do movimento do osso durante midade "proximal" e "distal") a flexão do cotovelo b. Identificar o segmento ósseo mais móvel. b. Identificar o movimento artrocinemático que C. movimento é côncavo sobre convexo ou convexo re por meio da descrição da direção na qual a su- sobre côncavo? perfície articular está deslizando.</p>