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Psicologia social principais temas e vertentes

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<p>PSICOLOGIA SOCIAL</p><p>PRINCIPAIS TEMAS E VERTENTES</p><p>CLÁUDIO VAZ TORRES / ELAINE RABELO NEIVA</p><p>E COLABORADORES</p><p>P676 Psicologia social [recurso eletrônico] : principais temas e</p><p>vertentes / Cláudio Vaz Torres, Elaine Rabelo Neiva</p><p>[organizadores]. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre :</p><p>Artmed, 2011.</p><p>Editado também como livro impresso em 2011.</p><p>ISBN 978-85-363-2652-8</p><p>1. Psicologia social. I. Torres, Cláudio Vaz. II. Neiva, Elaine</p><p>Rabelo.</p><p>CDU 316.6</p><p>Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>2011</p><p>Versão impressa</p><p>desta obra: 2011</p><p>CLÁUDIO VAZ TORRES / ELAINE RABELO NEIVA</p><p>E COLABORADORES</p><p>PSICOLOGIA SOCIAL</p><p>PR INC IPA IS TEMAS E VERTENTES</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>© Artmed Editora S.A., 2011</p><p>Capa</p><p>Tatiana Sperhacke</p><p>Ilustração da capa</p><p>©iStockphoto.com/Ace_Create</p><p>Preparação do original</p><p>Elisângela Rosa dos Santos</p><p>Editora Sênior – Ciências humanas</p><p>Mônica Ballejo Canto</p><p>Projeto e editoração</p><p>Armazém Digital® Editoração Eletrônica – Roberto Carlos Moreira Vieira</p><p>Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à</p><p>ARTMED® EDITORA S.A.</p><p>Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana</p><p>90040-340 Porto Alegre RS</p><p>Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070</p><p>É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,</p><p>sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,</p><p>foto cópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.</p><p>SÃO PAULO</p><p>Av. Embaixador Macedo Soares, 10.735 - Pavilhão 5 - Cond. Espace Center</p><p>Vila Anastácio 05095-035 São Paulo SP</p><p>Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333</p><p>SAC 0800 703-3444</p><p>IMPRESSO NO BRASIL</p><p>PRINTED IN BRAZIL</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>cláudio vaz torres (org.). Ph.D. em Psicologia pela California School of Professional Psychology,</p><p>san Diego, califórnia, eUa. Pós ‑doutorado em Marketing pela Griffith University, austrália. Pós‑</p><p>‑doutorado em Pesquisa e Psicologia transcultural pela University of sussex, inglaterra. Professor</p><p>do Departamento de Psicologia social e do trabalho do instituto de Psicologia na Universidade</p><p>de Brasília, onde também atua como professor do Programa de Pós ‑Graduação em administra‑</p><p>ção. Um dos fundadores do grupo de estudo e pesquisa em comportamento de consumo da</p><p>Universidade de Brasília – consuma/UnB. É membro e contribui ativamente com a International</p><p>Association for Cross ‑cultural Psychology, International Academy for Intercultural Research, The</p><p>American Psychological Association (Divisão 52) e sociedade interamericana de Psicologia.</p><p>elaine rabelo neiva (org.). Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília. Professora do</p><p>Departamento de administração da Universidade de Brasília. atua no Programa de Pós ‑graduação</p><p>em Psicologia social, do trabalho e das Organizações – PstO. Fundadora do grupo de Pesquisa</p><p>inovare da Universidade de Brasília. É membro da International Association of Applied Psychology</p><p>(Divisão 1) e da sociedade interamericana de Psicologia.</p><p>Psicologia pela Universidade de Brasília.Bacha‑</p><p>rel em Psicologia e Psicóloga pela Universida‑</p><p>de Federal de são carlos. tem experiência do‑</p><p>cente em cursos de graduação em Psicologia</p><p>e administração de empresas. Pesquisadora</p><p>e consultora em Psicologia do trabalho e das</p><p>Organizações, incluindo tópicos relacionados</p><p>a administração de empresas.</p><p>ana lúcia galinkin. Pós ‑Doutora em Psicologia</p><p>social pela Universidade rené Descartes, Paris,</p><p>França. Doutora em sociologia pela Universi‑</p><p>dade de são Paulo. mestre em antropologia</p><p>social pela Universidade de Brasília. Psicóloga</p><p>pela Universidade Federal de minas Gerais.</p><p>Professora associada ii no Programa de Pós‑</p><p>‑Graduação em Psicologia social do trabalho e</p><p>das Organizações, Universidade de Brasília.</p><p>angela Maria de oliveira almeida. Psicóloga</p><p>pe la Universidade de são Paulo. mestre em Psi‑</p><p>cologia da educação, pela PUc/sP. mestre em</p><p>Psicologia do Desenvolvimento pela Univer sité</p><p>catholique de Louvain. Doutorado em Psicolo‑</p><p>gia pela Université catholique de Louvain. Pro‑</p><p>aUtOres</p><p>amália raquel Perez ‑nebra. Psicóloga e Dou‑</p><p>tora em Psicologia social, do trabalho e das</p><p>Organizações pela Universidade de Brasília.</p><p>estágio doutoral na Universidad autónoma de</p><p>madrid. Professora do centro Universitário de</p><p>Brasília – UniceUB. Fundadora e coordenadora</p><p>do Grupo consuma – Grupo de estudo e Pes‑</p><p>quisa em comportamento do consumidor.</p><p>amanda zauli. Graduada em Desenho indus‑</p><p>trial pela escola superior de Desenho indus‑</p><p>trial – esDi, da UerJ. atuou como tutora de</p><p>cursos de graduação e de pós ‑graduação em</p><p>educação a distância no centro de educação a</p><p>Distância da Universidade de Brasília – ceaD/</p><p>UnB. especialista em Desenvolvimento Ge‑</p><p>rencial. mestre em Gestão social e trabalho.</p><p>Doutoranda em Psicologia social, do trabalho</p><p>e das Organizações (PstO) na Universidade de</p><p>Brasília.</p><p>ariane agnes corradi. Doutoranda no interna‑</p><p>tional institute of social studies, Universidade</p><p>erasmus rotterdam, Países Baixos. mestre em</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>fessora associada i da Universidade de Brasí‑</p><p>lia. coordenadora do Laboratório de Psicologia</p><p>social do Desenvolvimento. Diretora do centro</p><p>internacional de Pesquisa em representações</p><p>e Psicologia sociais.</p><p>áurea de Fátima oliveira. Professora do insti‑</p><p>tuto de Psicologia da Universidade Federal de</p><p>Uberlândia. Doutora em Psicologia pela Uni‑</p><p>versidade de Brasília (UnB). Leciona nos cursos</p><p>de graduação em Psicologia e administração,</p><p>e pós ‑graduação lato sensu e strito sensu.</p><p>bartholomeu t. tróccoli. Possui Licenciatura</p><p>em Psicologia pelo instituto Paraibanos de edu‑</p><p>cação. Psicólogo pelo instituto Paraibanos de</p><p>educação. mestre em Psicologia social pela</p><p>Universidade Federal da Paraíba. mestre e</p><p>Doutor em Personality and social Psychology</p><p>pela University of Wisconsin, madison. Profes‑</p><p>sor associado i da Universidade de Brasília.</p><p>coordenador do Laboratório de Pesquisa em</p><p>avaliação e medida – LabPam da UnB.</p><p>carlos eduardo Pimentel. Psicólogo. mestre em</p><p>Psicologia social pela Universidade Federal da</p><p>Paraíba. Doutorando em Psicologia social, do</p><p>trabalho e das Organizações na Universidade</p><p>de Brasília. Bolsista do cnPq.</p><p>christin ‑Melanie vauclair. Professor na Univer‑</p><p>sity of Kent, canterbury, inglaterra. Doutor pelo</p><p>centre for applied cross ‑cultural research, vic‑</p><p>toria University of Wellington, nova Zelândia.</p><p>recebeu o prêmio German study award, Ham‑</p><p>burger Koerber stiftung, por seu trabalho no</p><p>desenvolvimento de treinamento para gerentes</p><p>alemães que trabalham no Brasil.</p><p>Hartmut günther. estudou psicologia nas uni‑</p><p>versidades de Hamburg, alemanha (1966 ‑67) e</p><p>de marburg, alemanha. Psicólogo pelo albion</p><p>college, michigan, eUa. mestre em Psicologia</p><p>experimental (aec) pela Western michigan</p><p>University. Doutor em Psicologia social pela</p><p>University of california at Davis. Professor ti‑</p><p>tular na Universidade de Brasília.</p><p>Helga cristina Hedler. Doutora em Psicologia</p><p>social, do trabalho e das Organizações pelo</p><p>instituto de Psicologia da Universidade de</p><p>Brasília. Professora na Universidade católica</p><p>de Brasília – UcB, no curso de mestrado em</p><p>Gestão do conhecimento e da tecnologia da</p><p>informação. Professora convidada do curso</p><p>de especialização em Gestão da Qualidade do</p><p>instituto de educação superior de Brasília.</p><p>Hugo rodrigues. Psicólogo pela Universidade</p><p>de Brasília (bacharelado e licenciatura). mestre</p><p>em Psicologia social, Organizacional e do tra‑</p><p>balho. Dou torando pela mesma instituição.</p><p>Jaqueline gomes de Jesus. Doutora em Psico‑</p><p>logia social, do trabalho e das Organizações</p><p>pela Universidade de Brasília. Professora em</p><p>diferentes instituições de ensino superior e in‑</p><p>tegrante do conselho nacional de combate à</p><p>Discriminação, vinculado à Presidência da re‑</p><p>pública. assessora técnica da secretaria na‑</p><p>cional de Políticas sobre Drogas.</p><p>José augusto dela coleta. Psicólogo pela Uni‑</p><p>versidade de são Paulo, ribeirão Preto. Doutor</p><p>em Psicologia pela Fundação Getúlio vargas,</p><p>em suas obras o desenvolvimento</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 27</p><p>de uma psicologia social comprometida com</p><p>a realidade social latino -americana. Para ele</p><p>(1989), a construção teórica em psicologia</p><p>social deve emergir dos problemas e confli-</p><p>tos vivenciados pelo povo latino -americano,</p><p>de forma contextualizada com sua história.</p><p>No Brasil, as primeiras publicações</p><p>com foco na análise de questões psicosso-</p><p>ciais começaram a surgir na década de 1930</p><p>(Bomfim, 2003). Contudo, a instituciona-</p><p>lização da psicologia social ocorre apenas</p><p>em 1962, quando o Conselho Federal de</p><p>Psicologia, por meio do Parecer no 403/62,</p><p>criou o currículo mínimo para os cursos de</p><p>psicologia, estabelecendo, assim, a obriga-</p><p>toriedade do ensino da psicologia social.</p><p>A partir de então, e até os anos de</p><p>1970, a psicologia social psicológica norte-</p><p>-americana foi a dominante, tal como ocor-</p><p>reu no restante da América Latina. Uma</p><p>das obras adotadas nos cursos de psicologia</p><p>social durante esse período, que expressa</p><p>tal tendência, é o livro Psicologia social, de</p><p>Aroldo Rodrigues, publicado pela primeira</p><p>vez em 1972. Seu autor também foi o res-</p><p>ponsável pelo desenvolvimento de uma pro-</p><p>fícua linha de pesquisa em psicologia social</p><p>psicológica no país, a qual foi divulgada em</p><p>uma série de artigos publicados em perió-</p><p>dicos nacionais e estrangeiros ao longo dos</p><p>anos de 1970 e 1980.</p><p>A partir do final da década de 1970, os</p><p>psicólogos sociais brasileiros também parti-</p><p>cipam ativamente do movimento de ruptura</p><p>com a psicologia social tradicional ocorrido</p><p>na América Latina. Assim, a partir da publica-</p><p>ção, em 1984, do livro organizado por Silvia</p><p>Lane e Vanderley Codo, intitulado Psicologia</p><p>social: o homem em movimento, sucederam-</p><p>-se vários outros manuais brasileiros de psi-</p><p>cologia social (Campos e Guareschi, 2000;</p><p>Jacques et al., 1998; Lane e Sawaia, 1994;</p><p>Mancebo e Jacó -Vilela, 2004) na perspecti-</p><p>va da psicologia crítica.</p><p>Outra importante contribuição a tal</p><p>movimento foi a fundação, em 1980, da</p><p>Associação Brasileira de Psicologia Social</p><p>(ABRAPSO), estabelecida com o propósito</p><p>de redefinir o campo da psicologia social e</p><p>contribuir para a construção de um referen-</p><p>cial teórico orientado pela concepção de que</p><p>o ser humano constitui -se em um produto</p><p>histórico -social, de que indivíduo e socieda-</p><p>de implicam -se mutuamente (Jacques et al.,</p><p>1998).</p><p>No que tange à breve história da psi-</p><p>cologia social brasileira, cabe registrar, por</p><p>fim, o desenvolvimento dos cursos de pós-</p><p>-graduação stricto ‑sensu no país a partir da</p><p>década de 1980. Esses cursos exerceram im-</p><p>portante papel na estruturação de diferen-</p><p>tes linhas de pesquisa na área de psicologia</p><p>social, orientadas por paradigmas e tendên-</p><p>cias diversificadas, bem como no incremen-</p><p>to da produção científica brasileira em psi-</p><p>cologia social.</p><p>considerações Finais</p><p>A revisão dos eventos que marcaram a his-</p><p>tória da psicologia social contemporânea re-</p><p>vela que, no século XIX, as reflexões sobre</p><p>o indivíduo e a sociedade desenvolveram -se</p><p>no contexto da psicologia e da sociologia,</p><p>sem que houvesse a preocupação com o</p><p>estabelecimento de limites sobre a nature-</p><p>za do conhecimento psicossocial. No início</p><p>do século XX, ocorre uma nítida separação</p><p>entre esses dois campos do conhecimento,</p><p>com a subdivisão da psicologia social, que</p><p>se situava na interface dos dois, em psico-</p><p>logia social psicológica e psicologia social</p><p>sociológica, que passam a ter suas próprias</p><p>questões centrais, suas teorias e seus méto-</p><p>dos (House, 1977).</p><p>No contexto da psicologia social psico-</p><p>lógica que se desenvolveu a partir de então,</p><p>o indivíduo sempre esteve no centro das</p><p>principais perspectivas teóricas e dos temas</p><p>de pesquisa. Desse modo, as teorias e os</p><p>programas de pesquisa que lidavam com os</p><p>fenômenos grupais ou coletivos, trabalhan-</p><p>do com conceitos relacionais, acabaram por</p><p>sofrer uma solução de descontinuidade e ti-</p><p>veram pouco impacto na área. Tal tendência</p><p>individuocêntrica amparou -se na concepção</p><p>da psicologia como uma ciência natural em-</p><p>pírica e, com o passar do tempo, revelou-</p><p>-se incapaz por si só de explicar o compor-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>28 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>tamento social em todas as suas nuances</p><p>(Pepitone, 1981).</p><p>Ainda assim, durante muito tempo, os</p><p>livros de psicologia social adotados nos cur-</p><p>sos de psicologia abordavam, em sua maio-</p><p>ria, apenas a psicologia social psicológica, o</p><p>que fez com que a psicologia social socioló-</p><p>gica tenha permanecido, ao longo de várias</p><p>décadas, com menos peso do que a psicolo-</p><p>gia social psicológica no âmbito da psicolo-</p><p>gia (Jackson, 1988). Entretanto, a crise por</p><p>que passou a psicologia social psicológica</p><p>nos anos de 1970 contribuiu para modificar</p><p>substancialmente esse quadro.</p><p>Devido a isso, a psicologia social psico-</p><p>lógica, sem abandonar os temas tradicional-</p><p>mente estudados, passou por uma correção</p><p>de rumos e prosseguiu na expansão de seu</p><p>corpo de conhecimentos. Paralelamente, fo-</p><p>ram surgindo novos olhares sobre antigos</p><p>tópicos (como, por exemplo, no caso do</p><p>estudo da identidade e das relações inter-</p><p>grupais), novos tópicos de estudo (como,</p><p>por exemplo, a análise das influências da</p><p>cultura sobre o comportamento social, pela</p><p>psicologia transcultural) e um maior esforço</p><p>de aplicação dos conhecimentos sociopsico-</p><p>lógicos na resolução dos problemas sociais</p><p>(Jackson, 1988).</p><p>Acrescente -se a isso o fato de que a</p><p>psicologia social sociológica ressurgiu com</p><p>nova força, levando um número cada vez</p><p>maior de psicólogos sociais a recorrer ao in-</p><p>teracionismo simbólico e a outros modelos</p><p>psicossociológicos como estrutura de refe-</p><p>rência teórica de suas pesquisas. Além disso,</p><p>novos e diversificados paradigmas teóricos e</p><p>metodológicos, que têm como traço em co-</p><p>mum a crítica aos pressupostos da psicologia</p><p>social tradicional, desenvolveram -se e vêm</p><p>sendo designados de psicologia social crítica</p><p>ou pós -modernas (Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Por fim, as últimas décadas assistiram à in-</p><p>ternacionalização da psicologia social e à</p><p>consequente produção de um conhecimen-</p><p>to psicossocial cada vez mais expressivo na</p><p>Europa e na América Latina.</p><p>A psicologia social contemporânea</p><p>pode ser assim considerada uma disciplina</p><p>plural que convive com várias tendências.</p><p>Nesse sentido, DeLamater (2003) enfatiza</p><p>que a psicologia social consiste hoje em um</p><p>campo que se situa na interface da psicolo-</p><p>gia e da sociologia, buscando compreender</p><p>a natureza e as causas do comportamento</p><p>social humano, partindo do pressuposto de</p><p>que o contexto intraindividual e o social in-</p><p>teragem mutuamente, influenciando e sendo</p><p>influenciado pelo comportamento individu-</p><p>al. Orientados por tal perspectiva, os manu-</p><p>ais de psicologia social mais recentes têm</p><p>procurado contemplar as várias vertentes</p><p>nas quais a disciplina atualmente se desdo-</p><p>bra, na tentativa de contribuir para a cons-</p><p>trução de um conhecimento psicossocial de</p><p>natureza científica e capaz de ser aplicado à</p><p>realidade social dos novos tempos.</p><p>reFerências</p><p>ADORNO, T.W.; FRENKEL-BRUNSWIK, E.; LE-</p><p>VINSON, D.J.; SANFORD, R.N. The autoritarin</p><p>personality. New York: Harper, 1950.</p><p>AGUILAR, M.A.; REID, A. (orgs.). Tratado de psico‑</p><p>logia social: perspectivas socioculturales. Barcelona:</p><p>Anthropos, 2007.</p><p>ÁLVARO, J.L.; GARRIDO, A. Psicologia social:</p><p>perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo:</p><p>McGraw-Hill, 2007.</p><p>ALLPORT, G.W. The historical background of mo-</p><p>dern social psychology. In: LINDZEY, G. (org.).</p><p>Handbook of social psychology. 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New York: Springer-Verlag: 1986.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>O objetivo deste livro é apresentar a diver-</p><p>sidade de estudos e abordagens que carac-</p><p>terizam a psicologia social brasileira, mos-</p><p>trando seus enfoques divergentes, algumas</p><p>vezes complementares, que foram construí-</p><p>dos a partir de posições teóricas e políticas</p><p>que procuram gerar conhecimentos bastante</p><p>aplicáveis</p><p>à realidade nacional, sem descon-</p><p>siderar os temas clássicos da psicologia so-</p><p>cial e possibilidades de estudos ainda pouco</p><p>explorados no Brasil.</p><p>A psicologia social se beneficia de</p><p>teo rizações oriundas dos grandes sistemas</p><p>psicológicos (behaviorismo, gestalt, psica-</p><p>nálise, etc.), mas também apresenta teori-</p><p>zações próprias, desenvolvidas a partir das</p><p>pesquisas realizadas nos últimos 60 anos.</p><p>O campo ainda apresenta microteorias, não</p><p>desenvolvendo algo mais global e pretensio-</p><p>so na explicação do comportamento huma-</p><p>no no contexto social. Contudo, vários fe-</p><p>nômenos psicossociais foram identificados e</p><p>analisados, enfatizando -se os fatores que os</p><p>influenciam. Nas últimas quatro décadas, a</p><p>psicologia social tem sido totalmente domi-</p><p>nada pela psicologia social -cognitiva, com</p><p>preponderância de estudos que avaliem os</p><p>fenômenos sociais sob a perspectiva indivi-</p><p>dual. Em uma das chamadas “crises da psi-</p><p>cologia social”, nos anos de 1960 e 1970,</p><p>os estudos se envolveram mais com fenô-</p><p>menos que abarcassem a interação e a rela-</p><p>ção entre os indivíduos. Essa crise consistiu</p><p>em uma crítica e autocrítica dos psicólogos</p><p>sociais acerca da validade dos métodos uti-</p><p>lizados em suas pesquisas, preponderante-</p><p>mente experimentais, da relevância social</p><p>de seus resultados, além da ética envolvi-</p><p>da em alguns de seus experimentos. Essas</p><p>críticas permanecem até hoje, envolvendo,</p><p>inclusive, movimentos dissidentes no Brasil,</p><p>como a psicologia social crítica. Este livro</p><p>tem por objetivo, além de apresentar os te-</p><p>mas da psicologia social clássicos, abordar</p><p>outras vertentes de estudo que envolvem os</p><p>fenômenos grupal e cultural e, dessa forma,</p><p>mostrar como a psicologia social tem con-</p><p>tribuído para a compreensão do homem no</p><p>contexto social.</p><p>Como forma de realizar tal empreendi-</p><p>mento, este capítulo foi construído para</p><p>apresentar a psicologia social no Brasil, rea-</p><p>lizando uma retrospectiva histórica e apre-</p><p>sentando dados sobre a situação atual dessa</p><p>área no Brasil. Ao final do capítulo, há uma</p><p>discussão mais acurada sobre os objetos da</p><p>psicologia social, bem como dos objetivos</p><p>do livro, ressaltando a diversidade de obje-</p><p>tos que são motivadores de pesquisa e as</p><p>teorizações que fundamentam as pesquisas</p><p>realizadas.</p><p>a Psicologia social no brasil:</p><p>uM Pouco de História</p><p>Segundo Bomfim (2004), o curso pioneiro</p><p>em psicologia social no Brasil foi ministrado</p><p>2</p><p>PsicOLOGia sOciaL nO BrasiL: Uma intrODUçãO</p><p>elaine rabelo neiva</p><p>cláudio vaz torres</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>32 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>por Raul Briquet (1935), seguido pelo tra-</p><p>balho de Arthur Ramos. Na década de 1930,</p><p>surgiram os primeiros cursos superiores em</p><p>psicologia social, cabendo a Raul Carlos</p><p>Briquet o pioneirismo docente. Médico, nas-</p><p>cido em São Paulo em 1887, foi responsável</p><p>pela cadeira de psicologia social na Escola</p><p>Livre de Sociologia e Política de São Paulo.</p><p>Desse curso, resultou uma publicação do</p><p>primeiro livro acadêmico em psicologia so-</p><p>cial, editado em 1935. O livro foi estrutura-</p><p>do em duas partes: a primeira versa sobre</p><p>as contribuições da sociologia, da biologia</p><p>e da psicologia; a segunda, denominada de</p><p>especial, traz temáticas específicas acerca</p><p>da psicologia social, tendo o autor realizado</p><p>uma análise dos fatores psíquicos que moti-</p><p>vam o comportamento social, o instinto, o</p><p>hábito, as três formas de identidade social</p><p>(sugestão, imitação e simpatia), a inteligên-</p><p>cia e a vida social.</p><p>O segundo curso de psicologia social</p><p>foi ministrado em 1935, por Arthur Ramos</p><p>– médico, nascido em Alagoas em 1903 –,</p><p>e resultou na edição do livro Introdução à</p><p>Psychologia Social, publicado em 1936, na</p><p>Escola de Economia e Direito da extinta</p><p>Universidade do Distrito Federal. Para ele,</p><p>a psicologia social era uma disciplina entre</p><p>a psicologia e a sociologia que necessitava</p><p>de maiores delimitações de seu campo, com</p><p>crescente importância, embora seus métodos</p><p>e objetivos ainda não estivessem claros. Na</p><p>sua visão, caberia à psicologia social estudar</p><p>as bases psicológicas do comportamento so-</p><p>cial, as inter -relações psicológicas dos indi-</p><p>víduos na vida social e a influência total do</p><p>grupo sobre a personalidade. Vale notar que</p><p>tal diferenciação ainda é discutida por auto-</p><p>res mais atuais, como Sampson (1985), que</p><p>defende a psicologia social como área que se</p><p>localiza entre um contínuo bipolar de para-</p><p>digmas do conhecimento, cujos polos foram</p><p>por ele denominados como Individualismo</p><p>Autocontido e Individualismo Abrangente.</p><p>A diferenciação entre eles é feita com base</p><p>nos critérios de:</p><p>1. compreensão do limite entre o self e o</p><p>“outro”;</p><p>2. crença sobre o grau de controle do am-</p><p>biente sobre o comportamento humano;</p><p>3. visão excludente versus visão includente</p><p>do self.</p><p>Talvez pelas influências da impreci-</p><p>são do objeto sofrida em outros países, à</p><p>psicologia social caberia o estudo das bases</p><p>psicológicas do comportamento social, das</p><p>inter -relações psicológicas dos indivíduos</p><p>na vida social e da influência dos grupos</p><p>sobre o indivíduo. Para Ramos, a psicologia</p><p>social, uma disciplina entre a psicologia e a</p><p>sociologia, estava em crescente importân-</p><p>cia, embora não tivesse seus métodos e ob-</p><p>jetivos ainda claros. A imprecisão no objeto</p><p>refletia, e era reflexo, da imprecisão em sua</p><p>própria nomeação, sendo denominada como</p><p>interpsicologia, psicologia social, psicologia</p><p>coletiva, psicologia das raças, psicologia dos</p><p>povos, psicologia das massas ou psicologia</p><p>das seitas. O próprio Ramos nomeava o pro-</p><p>fissional da área ora como psicossociólogo,</p><p>ora como sociopsicólogo.</p><p>A articulação entre a psicologia social e</p><p>antropologia social configurou -se como uma</p><p>contribuição do curso de Ramos, fundamen-</p><p>tada nos escritos de Malinowski (1917),</p><p>Franz Boas (1932) e Lévy -Bruhl (1922). Sua</p><p>visão se pautava na ideia de psi cologia so-</p><p>cial comparada, com uma perspectiva cultu-</p><p>ralista, originária da antropologia cultural,</p><p>e em função de seu ponto de vista cultural,</p><p>complementaria e questionaria o critério</p><p>evolucionista linear, explicando a evolução</p><p>psicológica dentro de suas culturas.</p><p>Segundo Bomfim (2004), Briquet e</p><p>Ramos forneceram um panorama geral da</p><p>psicologia, acentuando as contribuições do</p><p>behaviorismo, da psicanálise e do gestaltis-</p><p>mo, tratando de forma semelhante temas</p><p>como a sugestão, a imitação, a simpatia, a</p><p>opinião pública, a censura e a propaganda,</p><p>os dois últimos pontos claramente influen-</p><p>ciados pelo zeitgeist da época. A fundamen-</p><p>tação de Ramos para a psicologia social se</p><p>pautava na motivação biológica, no hábi-</p><p>to, na aprendizagem social, nas estruturas</p><p>instintivo -afetivas, nas reações da persona-</p><p>lidade, na interação mental, na interferên-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 33</p><p>cia, no conflito e nos desajustamentos psi-</p><p>cossociais, sem relegar temas como a vida</p><p>dos grupos, a relação entre o individual e o</p><p>social, a psicologia da cultura, a estrutura</p><p>da mentalidade primitiva, a lógica afetiva</p><p>e sua relação com o pensamento mágico-</p><p>-simbólico, as esferas primitivas da realidade</p><p>e a sobrevivência das estruturas primitivas.</p><p>Metodologicamente, Ramos também</p><p>propunha a utilização de várias formas de</p><p>coleta de dados, tais como medidas fisioló-</p><p>gicas e morfológicas, os métodos biográfi-</p><p>cos, os métodos de autorrelato e impressão</p><p>pessoal, os questionários e entrevistas e os</p><p>testes. Entre os vários pontos de congruên-</p><p>cia dos dois cursos, ressalta -se a visão pa-</p><p>norâmica da psicologia social presente tanto</p><p>no curso de Ramos como no de Briquet.</p><p>Essa abordagem abrangente seria con-</p><p>trastada, na década de 1940, em um tercei-</p><p>ro curso, ministrado por Donald Pierson,</p><p>na Escola Livre de Sociologia e Política da</p><p>Universidade de São Paulo. O referido cur-</p><p>so foi registrado no livro Teoria e Pesquisa</p><p>em Sociologia (1945), uma coletânea de</p><p>artigos sobre sociologia e ecologia humana</p><p>(Bomfim, 2004).</p><p>Segundo Bomfim (2003a), três fatores</p><p>fazem parte do contexto de evolução da psi-</p><p>cologia social no Brasil: os relacionados com</p><p>os avanços de áreas afins, como a sociologia,</p><p>a antropologia, a educação, a história social e</p><p>a própria psicologia; o progresso da psicolo-</p><p>gia social em países da Europa, nos Estados</p><p>Unidos e na América Latina, e, ainda, as con-</p><p>dições históricas e econômicas mundiais, es-</p><p>pecialmente, as condições nacionais, que se</p><p>caracterizavam por demandas sociais de co-</p><p>munidades, grupos e movimentos sociais, ofe-</p><p>receram rumos para a teorização e as pesqui-</p><p>sas no campo do conhecimento psicossocial.</p><p>Na década de 1950, as demandas de-</p><p>senvolvimentistas tornam -se mais premen-</p><p>tes no país, sustentadas por crenças de que</p><p>um parque industrial forte proporcionaria a</p><p>qualidade de vida do Brasil, de que a indus-</p><p>trialização e a urbanização levariam à qua-</p><p>lificação dos recursos humanos, construin-</p><p>do um país moderno e desenvolvido, com</p><p>maior ênfase no setor educacional. Assim,</p><p>foram criados órgãos como o “Conselho</p><p>Nacional de Pesquisas” (CNPq), em 1951, a</p><p>“Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão</p><p>do Ensino Secundário” (CADES), em 1954,</p><p>e o “Serviço de Educação de Adultos”, em</p><p>1957. Segundo Bomfim (2004), esse mo-</p><p>mento foi importante para a psicologia</p><p>social, pois possibilitou as primeiras teses</p><p>de doutorado com temáticas comprometi-</p><p>das com essa perspectiva, como a tese de</p><p>Carolina Bori, que versava sobre a Análise</p><p>dos Experimentos de Interrupção de Tarefas</p><p>e da Teoria da Motivação na obra de Kurt</p><p>Lewin (1943), e a tese de Dante Moreira</p><p>Leite, sob o título de Caráter Nacional do</p><p>Brasileiro (1954), que analisou a visão do</p><p>que seja o “brasileiro” em diferentes obras</p><p>representativas do chamado “pensamento</p><p>social brasileiro”, apontando, nelas, caracte-</p><p>rísticas conservadoras ou progressistas.</p><p>A psicologia social, no início dos anos</p><p>de 1960, foi atravessada por uma crise que</p><p>questionava seu caráter teórico e ideológi-</p><p>co, colocando em cheque tanto sua meto-</p><p>dologia como as teorizações utilizadas, pois</p><p>muitos consideravam que a psicologia não</p><p>havia desenvolvido uma base sólida de co-</p><p>nhecimentos estruturada na realidade social</p><p>e nas vivências cotidianas. Sua teorização</p><p>era centrada, segundo Krüger (1986), no</p><p>cognitivismo (relevo aos fatores cognitivos</p><p>do indivíduo), no experimentalismo como</p><p>método de pesquisa, no individualismo (ou</p><p>seja, na análise dos fenômenos sociais a par-</p><p>tir da perspectiva do indivíduo), no etnocen-</p><p>trismo (já que este modelo de indivíduo era</p><p>o estabelecido na cultura norte -americana),</p><p>no uso de microteorias (ou seja, na inves-</p><p>tigação de microespaços do social) e, final-</p><p>mente, na perspectiva a -histórica, já que o</p><p>“homem” considerado nesses estudos seria</p><p>um ser humano presente em todos os tem-</p><p>pos e espaços. Essa crise teórica, de caráter</p><p>internacional, residiu principalmente nas</p><p>dúvidas sobre o método experimental e so-</p><p>bre sua adequação à complexidade e às exi-</p><p>gências do objeto de estudo, pois as regras</p><p>do comportamento humano, contrariamen-</p><p>te às das ciências naturais, não podem ser</p><p>estabelecidas definitivamente, uma vez que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>34 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>elas se alteram em função das circunstân-</p><p>cias culturais e históricas.</p><p>Ao final da década de 1970, esse mo-</p><p>vimento se intensifica na América Latina,</p><p>em oposição à psicologia social psicológica</p><p>norte -americana, marcada pelo experimen-</p><p>talismo e pela perspectiva individual, em</p><p>busca de uma psicologia social mais voltada</p><p>para os problemas políticos e sociais que a</p><p>região vinha enfrentando. Estimulados pela</p><p>arbitrariedade dos regimes militares e pela</p><p>grande desigualdade social do continente,</p><p>esses psicólogos sociais iriam defender uma</p><p>ruptura radical com a psicologia social tra-</p><p>dicional (Spink e Spink, 2005).</p><p>Um autor considerado representante</p><p>dessa nova perspectiva na psicologia so-</p><p>cial latino -americana é Martin -Baró (1942-</p><p>-1989), psicólogo e padre jesuíta espanhol,</p><p>radicado em El Salvador, que defende em</p><p>suas obras o desenvolvimento de uma psico-</p><p>logia social comprometida com a realidade</p><p>social latino -americana. Para Martin -Baró</p><p>(1989), a teorização em psicologia social</p><p>deveria ser contextualizada na história da</p><p>região, marcada por problemas e conflitos</p><p>vivenciados pelo povo latino -americano.</p><p>Assim, nasce uma tendência designada</p><p>como uma psicologia social crítica (Álvaro e</p><p>Garrido, 2007) ou psicologia social histórico-</p><p>-crítica (Mancebo e Jacó -Vilela, 2004), que</p><p>aglutina diferentes posturas teóricas, como</p><p>o socioconstrucionismo (Gergen, 1997),</p><p>a análise do discurso (Potter e Wetherell,</p><p>1987) e a psicologia marxista, entre outras.</p><p>Na esteira desse movimento, surgem, na</p><p>América Latina, diversos manuais de psico-</p><p>logia social organizados segundo a perspec-</p><p>tiva crítica (como, por exemplo, Aguilar e</p><p>Reid, 2007; Cordero, Dobles e Pérez, 1996;</p><p>Montero, 1991), bem como algumas asso-</p><p>ciações de psicologia social.</p><p>No Brasil, até os anos de 1970, a psi-</p><p>cologia social psicológica norte -americana</p><p>também esteve dominante, de modo seme-</p><p>lhante ao que ocorreu no resto da América</p><p>Latina. Uma das obras bastante adotada</p><p>nos cursos de psicologia social durante esse</p><p>período, e que expressa tal tendência, é o</p><p>livro Psicologia social, de autoria de Aroldo</p><p>Rodrigues, publicado pela primeira vez em</p><p>1972. Aroldo Rodrigues foi o responsável</p><p>pelo desenvolvimento de inúmeras pesqui-</p><p>sas, publicadas em periódicos nacionais e</p><p>estrangeiros entre 1970 e 1980, em psico-</p><p>logia social psicológica no país. No restante</p><p>da América Latina, contudo, surge a obra</p><p>Psicología Social de las Américas (Kimble,</p><p>Hirt, Díaz -Loving, Hosch, Lucker e Zárate,</p><p>2002), que faz uma união entre a psicolo-</p><p>gia social psicológica e a psicologia social</p><p>crítica ou histórico -crítica, sob um diferente</p><p>enfoque.</p><p>A partir da década de 1970, o campo</p><p>da psicologia continuava crescendo, com a</p><p>implantação dos primeiros cursos de mes-</p><p>trado específicos em psicologia social na</p><p>Pontifícia Universidade Católica de São</p><p>Paulo, os quais geraram dissertações com</p><p>temáticas voltadas à realidade brasileira. A</p><p>produção literária também aumentava, com</p><p>uma grande ênfase nas traduções dos livros</p><p>estrangeiros.</p><p>No Brasil, outros psicólogos aderiram</p><p>ao movimento da psicologia social crítica,</p><p>segundo Bonfim (2003a), discutindo e ana-</p><p>lisando as diferenças individuais, grupais e</p><p>das comunidades e questionando seu papel</p><p>político. Os argumentos principais afirma-</p><p>vam que as investigações deveriam se esten-</p><p>der do individual para o social e levar em</p><p>conta o político e o econômico, no sentido</p><p>de se obter uma compreensão apropriada da</p><p>evolução da psicologia contemporânea e da</p><p>vida social.</p><p>Segundo Bomfim (2003b), pelo fato</p><p>de a psicologia social no Brasil crescer em</p><p>meio às conturbações políticas e sociais in-</p><p>ternas, houve também uma preocupação</p><p>com o caráter aplicado da psicologia so-</p><p>cial com ações pautadas em intervenções</p><p>em comu nidades e em organizações com</p><p>e sem fins lucrativos. Cresceram, também,</p><p>nas empresas e nas instituições brasileiras,</p><p>as práticas de dinâmica de grupo e de inter-</p><p>venção psicossociológica, que privilegiavam</p><p>as relações interpessoais, empresariais e/ou</p><p>terapêuticas. Houve, ainda, um crescente</p><p>aumento no número de cursos de psicologia</p><p>criados no país. Nesses cursos, as produções</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 35</p><p>como Relações Humanas: psicologia das re‑</p><p>lações interpessoais (1978), de Agostinho</p><p>Minicucci, e Psicosociologia das Relações</p><p>Pú blicas (1975), de Cândido de Andrade,</p><p>podem ser citados como outras obras nacio-</p><p>nais da área.</p><p>O movimento de ruptura com a Psi-</p><p>cologia Social tradicional se tornou forte</p><p>no Brasil a partir do final da década de</p><p>1970, com a publicação, em 1984, do livro</p><p>organizado por Silvia Lane e Wanderley</p><p>Codo intitulado Psicologia Social: o homem</p><p>em movimento. A partir dele, outros manu-</p><p>ais brasileiros de psicologia social tiveram</p><p>o mesmo enfoque (Campos e Guareschi,</p><p>2000; Jacques,</p><p>Strey, Bernardes, Guareschi,</p><p>Carlos e Fonseca, 1998; Lane e Sawaia,</p><p>1994; Mancebo e Jacó -Vilela, 2004, entre</p><p>outros). De acordo com Bomfim (2003),</p><p>Lane fez seguidores e iniciou teorizações</p><p>características de psicólogos sociais sócio-</p><p>-históricos, que produzem artigos criticando</p><p>o Estado e o modo neo -liberal de produção</p><p>que tem um forte impacto na construção</p><p>de subjetividades. Segundo Lane e Codo</p><p>(1984), a psicologia deve assumir um ca-</p><p>ráter de compromisso com a criação da</p><p>consciência entre os atores sociais, consi-</p><p>derando principalmente o contexto da luta</p><p>de classes.</p><p>Silvia Tatiana Maurer Lane e Aniela</p><p>Ginsberg foram professoras fundadoras do</p><p>Programa de Estudos Pós -Graduados em</p><p>psicologia social da PUC -SP, o primeiro cur-</p><p>so de mestrado e doutorado da área a fun-</p><p>cionar no Brasil, entre 1972 e 1983, em que</p><p>a psicologia social tornou -se uma disciplina</p><p>(teórica/prática) referendada em pesquisas</p><p>empíricas sobre os problemas sociais brasi-</p><p>leiros. Segundo Bomfim (2003), os textos</p><p>desenvolvidos por professores e autores es-</p><p>colhidos são adotados como bibliografia bá-</p><p>sica em muitos cursos de psicologia do Brasil</p><p>e, também, em concursos públicos na área</p><p>da saúde e educação. Receberam o prêmio</p><p>outorgado pela Sociedade Interamericana</p><p>de Psicologia (SIP), em julho de 2001.</p><p>Outro evento importante para a psi-</p><p>cologia social foi a fundação da Associação</p><p>Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO),</p><p>que se ocupa, em especial, da vinculação</p><p>científica de pesquisas desenvolvidas com</p><p>base na perspectiva da psicologia social</p><p>crítica. A ABRAPSO foi estabelecida em ju-</p><p>lho de 1980 com o propósito de redefinir o</p><p>campo da psicologia social e de contribuir</p><p>para a construção de um referencial teórico</p><p>orientado pela concepção de que o ser hu-</p><p>mano se constitui em um produto histórico-</p><p>-social, de que indivíduo e sociedade se im-</p><p>plicam mutuamente (Jacques et al., 1998),</p><p>o que contribuiu para a consolidação do mo-</p><p>vimento.</p><p>Além do aumento da produção de ar-</p><p>tigos e de dissertações de mestrado, foram</p><p>criados os primeiros cursos de doutorado</p><p>específicos nessa área e defendidas as pri-</p><p>meiras teses nos cursos instituídos, e a cria-</p><p>ção das associações científicas promoveu o</p><p>debate científico de modo sistemático, por</p><p>meio de encontros com a categoria em dife-</p><p>rentes eventos científicos.</p><p>Nesse período, a psicologia social no</p><p>Brasil, de acordo com Bomfim (2003b),</p><p>buscou autonomia científica, por meio de</p><p>um conjunto de atividades: crescimento</p><p>expressivo da produção publicada, detalha-</p><p>mento das temáticas como educação, saúde,</p><p>comunidade, trabalho, etc., inclusão de ou-</p><p>tras perspectivas teóricas e de objeto como</p><p>(representações sociais, relações de gêne-</p><p>ro, movimentos sociais, etc.) inseridos em</p><p>estudos contextualizados em comunidades</p><p>carentes, além de publicação de estudos e</p><p>de ampliação da divulgação de aplicações</p><p>da psicologia social.</p><p>Segundo Bomfim (2004), Pinel (2005),</p><p>Camino (2006) e Lima (2009), a psicolo-</p><p>gia social brasileira foi marcada por duas</p><p>tendências em oposição, representadas</p><p>por Aroldo Rodrigues e José Augusto Dela</p><p>Coleta (empirista, adotando uma aborda-</p><p>gem mais de experimental -cognitiva, pre-</p><p>ocupada com processos individuais que se</p><p>relacionam com o contexto social) e Silvia</p><p>Lane (marxista e sócio -histórica). As discor-</p><p>dâncias teóricas e metodológicas presentes</p><p>neste campo evidenciaram não apenas posi-</p><p>ções antagônicas em relação a temas impor-</p><p>tantes no campo da psicologia social, mas</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>36 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>também deram visibilidade a alguns autores</p><p>que representavam essas rivalidades.</p><p>De maneira geral, alguns argumentos</p><p>que resumem as críticas e posições de am-</p><p>bos os lados podem ser levantados:</p><p>a) A psicologia social baseia -se em um mé-</p><p>todo descritivo e experimental, ou seja,</p><p>um método que se propõe a descrever e</p><p>relacionar aquilo que é observável, fatual.</p><p>É uma psicologia que organiza, dá nome</p><p>aos processos observáveis dos encontros</p><p>sociais.</p><p>b) Tem seu desenvolvimento comprometido</p><p>com os objetivos da sociedade norte-</p><p>-americana do pós -guerra, que precisava</p><p>de conhecimentos e de instrumentos que</p><p>possibilitassem a intervenção na realida-</p><p>de, de forma a obter resultados imedia-</p><p>tos, com a intenção de recuperar a nação,</p><p>garantindo o aumento da produtividade</p><p>econômica. Os temas mais desenvolvidos</p><p>estiveram centrados na compreensão do</p><p>indivíduo, desconsiderando fatores que</p><p>sejam característicos da relação interpes-</p><p>soal e social.</p><p>c) Os métodos experimentais trazem pers-</p><p>pectivas reduzidas do contexto social, o</p><p>que gera um conhecimento centrado no</p><p>indivíduo, nos processos sociocognitivos,</p><p>partindo de uma noção estreita do social.</p><p>Este é considerado apenas como a relação</p><p>entre pessoas – a interação pessoal – e</p><p>não como um conjunto de produções hu-</p><p>manas capazes de, ao mesmo tempo em</p><p>que vai construindo a realidade social,</p><p>construir também o indivíduo.</p><p>d) Por outro lado, a psicologia social crítica</p><p>tornou esse debate relacionado a toma-</p><p>das de posições políticas, o que produziu</p><p>uma psicologia social comprometida com</p><p>as lutas sociais, engajada com as mu-</p><p>danças sociais que seriam resultantes do</p><p>empoderamento das classes populares e,</p><p>ao mesmo tempo, um tanto quanto mani-</p><p>queísta e dicotomizada, sobretudo no que</p><p>se refere aos aportes metodológicos.</p><p>e) Além do maniqueísmo, existem os ar-</p><p>gumentos que consideram as pesquisas</p><p>“qualitativas como frouxas metodologica-</p><p>mente e sem validade” (Bauer e Gaskell,</p><p>2004, p. 35), além da impossibilidade</p><p>de estipular explicações causais sobre o</p><p>comportamento humano.</p><p>f) Outro argumento se fundamenta nas te-</p><p>orizações com pouco respaldo empírico,</p><p>de caráter metateórico, que se sustentam</p><p>em visões ideológicas de mundo e de ser</p><p>humano. Essas teorizações se tornam</p><p>difíceis de serem transformadas em</p><p>problemas científicos, muitas vezes se</p><p>tornando uma repetição de discursos.</p><p>Segundo Camino (2006), um olhar</p><p>mais apurado a respeito desse aspecto de-</p><p>monstrará que, no cerne deste problema,</p><p>encontra -se a questão do tipo de explicação</p><p>mais adequado ao comportamento humano.</p><p>Esse debate tem tomado a forma de dua-</p><p>lismos, como, por exemplo, subjetividade-</p><p>-objetividade, natureza -cultura, explicação-</p><p>-compreensão, individual -social, quanti-</p><p>tativo -qualitativo, etc. Nesse debate, esco-</p><p>lher um polo dos dualismos significa neces-</p><p>sariamente negar a relevância ou o poder</p><p>heurístico do outro. Ainda para Camino</p><p>(2006), a primeira dessas concepções tem</p><p>como ponto de partida o lugar central ocu-</p><p>pado pelo indivíduo e seus processos intra-</p><p>psíquicos para a explicação dos fenômenos</p><p>sociais. Essa concepção, denominada na</p><p>atualidade de psicologia social psicológica,</p><p>coloca a psicologia social como um ramo da</p><p>psicologia geral. A segunda, denominada de</p><p>psicologia social sociológica, tem suas ori-</p><p>gens no pensamento psicossocial presente</p><p>na sociologia e preconiza, como objeto de</p><p>estudo da psicologia social, o social. Dito em</p><p>outros temos, na primeira, o social seria o</p><p>adjetivo, e, na segunda, o social seria o pró-</p><p>prio substantivo.</p><p>Enfim, envolvida em discussões sobre</p><p>a natureza do objeto, definido por uns como</p><p>societal, ou, por outros, como a introjeção</p><p>do social no indivíduo, o campo específico</p><p>da psicologia social é o campo da articula-</p><p>ção de diferentes níveis de análise, desde os</p><p>processos cognitivos até os níveis culturais.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 37</p><p>a Psicologia social no brasil HoJe</p><p>Para que seja desenhado um retrato da psi-</p><p>cologia social no Brasil, serão apresentados</p><p>os dados da pesquisa de redes sociais de</p><p>pesquisadores da pós -graduação em psicolo-</p><p>gia no Brasil, realizada por Neiva e Corradi</p><p>(2008). Serão apresentados e discutidos os</p><p>dados sobre a pesquisa no que tange aos</p><p>pesquisadores da área de psicologia social.</p><p>A classificação dos pesquisadores por área</p><p>foi feita por meio da análise do Currículo</p><p>Lattes dos pesquisadores.</p><p>A partir da clas-</p><p>sificação, foi traçada uma rede com os pes-</p><p>quisadores que foram classificados na área</p><p>de psicologia social, demonstrando as cone-</p><p>xões da área.</p><p>A pesquisa foi realizada em 2007, por</p><p>meio de um questionário eletrônico, que foi</p><p>respondido por vários pesquisadores que se</p><p>encontram vinculados a programas de pós-</p><p>-graduação no Brasil na área de Psicologia.</p><p>A base de dados para identificar os respon-</p><p>dentes dos questionários foi elaborada a</p><p>partir dos dados disponíveis nas bases do</p><p>CNPq, da CAPES e da Associação Nacional</p><p>de Pesquisa e Pós -graduação em Psicologia</p><p>no Brasil – ANPEPP. Os dados dos respon-</p><p>dentes foram validados pelos Coordenadores</p><p>dos Programas de pós -graduação em psico-</p><p>logia vinculados a ANPEPP. Novos nomes</p><p>de pesquisadores poderiam ser inseridos no</p><p>banco de dados a partir dos vínculos indica-</p><p>dos pelos pesquisadores que respondiam ao</p><p>questionário.</p><p>A pesquisa teve por objetivo caracte-</p><p>rizar as redes de pesquisadores brasileiros</p><p>e estrangeiros (com conexões com brasilei-</p><p>ros) envolvidos com a pós -graduação em</p><p>psicologia. O questionário online usado para</p><p>a pesquisa envolveu questões sobre as ca-</p><p>racterísticas das redes sociais sob o ponto de</p><p>vista dos atores (pesquisadores). Os temas</p><p>do questionário foram relações existentes</p><p>entre os pesquisadores, tipo de conteúdo</p><p>transacionado nas relações entre pesquisa-</p><p>dores, tais como participação em bancas,</p><p>publicações conjuntas, realização de pesqui-</p><p>sas ou apresentações de trabalhos, etc.</p><p>A pesquisa contou com o apoio da</p><p>ANPEPP (Associação Nacional de Pesquisa e</p><p>Pós -graduação em Psicologia) para realizar</p><p>o contato com os pesquisadores e divulga-</p><p>ção da pesquisa.</p><p>De forma resumida, pode -se conside-</p><p>rar que a amostra da pesquisa foi constituí da</p><p>por:</p><p>•	 395	pesquisadores	 que	 responderam	à</p><p>pesquisa, sendo que 350 responderam</p><p>completamente.</p><p>•	 2.787	indicações	de	pesquisadores	entre</p><p>membros de Grupos de Trabalho (GTs)</p><p>de 2006 da ANPEPP, outros pesquisadores</p><p>no Brasil e pesquisadores estrangeiros.</p><p>•	 1.344	pesquisadores	foram	indicados	no</p><p>bojo das 2.787 indicações totais.</p><p>Para separar os pesquisadores perten-</p><p>centes a essa rede social, foi elaborada uma</p><p>classificação dos pesquisadores por meio</p><p>do Currículo Lattes. A classificação, por</p><p>meio do autorrelato, indicado pelo Lattes,</p><p>demonstra uma ampla possibilidade de ob-</p><p>jetos que são classificados como objetos da</p><p>psicologia social, enfatizando desde temas</p><p>bastante aplicados como comportamentos</p><p>do consumidor, violência, pesquisa transcul-</p><p>tural e construção da subjetividade até estu-</p><p>dos com temas de aplicação menos visível,</p><p>como atribuição de causalidade e erros de</p><p>julgamento, etc.</p><p>A rede de psicologia social possui ca-</p><p>racterísticas muito peculiares. Trata -se de</p><p>uma rede com 403 atores (dos 1.344 atores</p><p>participantes da pesquisa), constituindo a</p><p>rede com maior número de atores dentre as</p><p>subáreas da psicologia. Os 403 atores envol-</p><p>veram 522 indicações de relacionamentos</p><p>realizados entre os pesquisadores da rede</p><p>social. Considerando o número de relações</p><p>existentes sobre as relações possíveis, a den-</p><p>sidade da rede é de 0,4%, considerando -se</p><p>seus 403 atores. O índice de coesão da rede</p><p>está em torno de 0,8%, enquanto que a dis-</p><p>tância média entre os atores (distância geo-</p><p>désica) é de 2,3 atores. Ou seja, cada pes-</p><p>quisador da rede precisa, em média, de 2,3</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>38 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>contatos intermediários para se relacionar</p><p>com qualquer ator da rede social. O diâme-</p><p>tro (maior distância entre atores) da rede de</p><p>psicologia social é de 9 atores. Mais da me-</p><p>tade da rede apresenta uma distância entre</p><p>2 e 5 atores, conforme mostra a Tabela 2.1.</p><p>A densidade diz respeito à proporção entre</p><p>os vínculos possíveis e os vínculos existen-</p><p>tes na rede social. A coesão aborda o grau</p><p>de fragmentação da rede que permite des-</p><p>conexões ou quebras entre relacionamentos</p><p>possíveis. A distância geodésica aborda as</p><p>distâncias entre os atores que podem exigir</p><p>intermediários para que as conexões entre</p><p>as pessoas ocorram, ou seja, a distância geo-</p><p>désica aborda quantas pessoas são necessá-</p><p>rias para que um ator acesse outros atores.</p><p>O diâmetro é formado pela maior distância</p><p>geodésica da rede social.</p><p>De maneira geral, pode -se avaliar</p><p>que é uma rede satisfatoriamente conecta-</p><p>da, considerando -se seu tamanho, com um</p><p>conjunto de relações consideráveis, não se</p><p>tratando das redes com maiores índices de</p><p>fragmentação, ou menores índices de coe-</p><p>são e densidade. Há uma distância média</p><p>entre atores relativamente baixa para o ta-</p><p>manho da rede, e o diâmetro também não</p><p>é alto, para uma rede com tais proporções,</p><p>principalmente se levarmos em conside-</p><p>ração os resultados das outras redes (ver</p><p>Neiva e Corradi, 2008). Existiram redes com</p><p>distância geodésica em torno de 3 atores e</p><p>diâmetro em torno de 9 atores, com número</p><p>de atores ligeiramente inferior ao da rede</p><p>de psicologia social (em torno de 220 e 280</p><p>atores).</p><p>Não se trata de uma rede social com</p><p>subgrupos dispersos, voltados para redes</p><p>sociais com pesquisadores estrangeiros (net‑</p><p>working internacional) e pouca imersão na</p><p>rede nacional. Na rede de psicologia social,</p><p>há uma distribuição de pesquisadores es-</p><p>trangeiros (76 estrangeiros para 307 atores</p><p>nacionais, o que caracteriza 19% dos 403</p><p>pesquisadores da rede social). Os conteúdos</p><p>mais trocados pelos atores seguem a ten-</p><p>dência predominante em todas as subáreas</p><p>da psicologia, pois os conteúdos trocados</p><p>pelos autores, em sua maioria, são partici-</p><p>pação em bancas de dissertações e teses e</p><p>participação em simpósios e mesas redondas</p><p>em congressos. Há uma tendência pequena</p><p>para realização de pesquisas conjuntas e pu-</p><p>blicações em coautoria.</p><p>Verificou -se a presença de 35 cliques.</p><p>Os cliques constituem subgrupos na rede</p><p>que se caracterizam por relações recíprocas</p><p>entre os pesquisadores. Trata -se de uma rede</p><p>com um conjunto relativamente inferior de</p><p>subgrupos ou panelinhas, o que abre espaço</p><p>para uma endogenia menor dos subgrupos</p><p>quando consideradas as demais redes das</p><p>subáreas da psicologia (existem redes com</p><p>38 ou 37 cliques e 220 a 300 atores).</p><p>A Figura 2.1 apresenta uma ilustração</p><p>das relações entre os pesquisadores classifi-</p><p>cados como psicólogos sociais, além de es-</p><p>pecificar os tipos de papéis apresentados pe-</p><p>los pesquisadores e o formato geral da rede</p><p>social. É uma rede que apresenta quatro</p><p>pesquisadores totalmente desconectados da</p><p>rede social. Alguns atores indicados como</p><p>conectores centrais, estabelecendo elos den-</p><p>tro dos subgrupos (marcados em cinza cla-</p><p>ro), outros atores que desempenham o pa-</p><p>pel de expansores de fronteiras, conectando</p><p>subgrupos diferentes (marcados em branco)</p><p>e atores que atuam em função dupla (conec-</p><p>tores e expansores, simultaneamente, mar-</p><p>cados em preto).</p><p>tabela 2.1</p><p>Frequências da distância geodésica</p><p>Frequência Proporção</p><p>1 402.000 0,182</p><p>2 449.000 0,203</p><p>3 465.000 0,211</p><p>4 329.000 0,149</p><p>5 245.000 0,111</p><p>6 156.000 0,071</p><p>7 98.000 0,044</p><p>8 48.000 0,022</p><p>9 17.000 0,008</p><p>Fonte: Ucinet.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 39</p><p>Uma análise preocupante ocorre quan-</p><p>do são consideradas as características da</p><p>rede social de pesquisadores em psicologia</p><p>social no que diz respeito aos papéis desem-</p><p>penhados pelos atores na rede social.</p><p>A rede apresentada pela Figura 2.1 ilus-</p><p>tra a divisão desses atores no que diz respeito</p><p>aos papéis que eles representam na rede so-</p><p>cial. Desses 403 atores, apenas 22 (5,46%,</p><p>marcados em preto) atuam como expansores</p><p>de fronteiras, responsáveis por realizar a co-</p><p>nexão entre os subgrupos diferentes das re-</p><p>des sociais. São atores que mostram a possi-</p><p>bilidade de intercâmbio entre os vários atores</p><p>que representam tendências diferenciadas na</p><p>rede social. Outros três atores (0,74%, mar-</p><p>cados em branco) realizam o papel de conec-</p><p>tores centrais, que se encarregam de manter</p><p>conectados os membros dos subgrupos da</p><p>rede.</p><p>O conector central repassa conteúdos</p><p>transacionados entre os próprios membros</p><p>do subgrupo. Alguns atores atuam em ambos</p><p>os papéis (conectores e expansores). No caso</p><p>da psicologia social, são 11 atores, ou 2, 73%</p><p>(cinza escuro), do grupo de pesquisadores.</p><p>Considerando -se os dados apresenta-</p><p>dos no parágrafo anterior, a rede de psico-</p><p>logia social possui mais possibilidades de</p><p>crescimento do que possibilidades de forta-</p><p>lecimento das relações internas. São muitos</p><p>Figura 2.1</p><p>representação da rede de psicologia social e os papéis de seus atores.</p><p>1807</p><p>1203</p><p>957</p><p>833</p><p>559</p><p>874</p><p>802</p><p>681</p><p>111</p><p>840</p><p>585</p><p>583</p><p>12871726</p><p>1637</p><p>1519</p><p>1133</p><p>1665</p><p>1065</p><p>1055</p><p>1061</p><p>1775</p><p>1775</p><p>1719 1146</p><p>1660</p><p>1855</p><p>1059</p><p>1551 1134</p><p>1835</p><p>1522</p><p>1814</p><p>1689</p><p>1062</p><p>1242</p><p>1456</p><p>1620</p><p>1138</p><p>1445</p><p>800</p><p>824</p><p>750</p><p>926</p><p>608 929</p><p>735</p><p>809</p><p>560 596</p><p>782</p><p>480</p><p>475</p><p>901</p><p>778</p><p>578</p><p>978</p><p>932</p><p>979</p><p>279</p><p>578</p><p>667</p><p>946</p><p>951</p><p>813</p><p>968</p><p>519</p><p>464</p><p>976</p><p>667</p><p>503</p><p>918</p><p>953</p><p>938</p><p>697</p><p>575</p><p>507</p><p>512</p><p>696</p><p>707</p><p>856</p><p>854</p><p>855</p><p>884</p><p>967 963</p><p>950</p><p>986</p><p>766</p><p>799</p><p>906</p><p>95</p><p>526</p><p>915</p><p>511</p><p>297</p><p>773</p><p>922</p><p>781</p><p>872</p><p>877</p><p>793</p><p>962</p><p>909</p><p>965</p><p>772</p><p>899</p><p>883</p><p>548</p><p>837738</p><p>934</p><p>973</p><p>512</p><p>644</p><p>637</p><p>974</p><p>566958</p><p>904</p><p>862</p><p>729</p><p>752859</p><p>596</p><p>537</p><p>792490</p><p>720</p><p>975</p><p>902</p><p>558</p><p>569</p><p>907</p><p>878</p><p>757</p><p>628</p><p>853</p><p>000</p><p>666</p><p>642</p><p>923</p><p>938</p><p>89</p><p>889</p><p>603</p><p>633 485</p><p>504 740</p><p>500</p><p>166</p><p>777</p><p>470</p><p>940</p><p>927</p><p>84</p><p>896</p><p>623</p><p>1661</p><p>1262</p><p>1036</p><p>1269 1279</p><p>1798</p><p>1787</p><p>1475</p><p>1169</p><p>1588</p><p>1739</p><p>1707</p><p>1361</p><p>1023</p><p>1010</p><p>1112</p><p>1902</p><p>1037</p><p>1071</p><p>1040</p><p>1465 1469</p><p>1106</p><p>1708</p><p>1839</p><p>1779</p><p>1899</p><p>1888</p><p>1554</p><p>1137</p><p>1368</p><p>1476</p><p>1348 1857</p><p>1836</p><p>1469</p><p>1011</p><p>1692</p><p>1804</p><p>1328</p><p>1367</p><p>1107</p><p>17701770</p><p>1901</p><p>1115</p><p>1107 1417</p><p>1361</p><p>1362</p><p>1291</p><p>1117</p><p>1172</p><p>1265</p><p>1233 1691</p><p>1624</p><p>125016641993</p><p>1500</p><p>1802</p><p>1134 1769</p><p>1646</p><p>1606</p><p>1607</p><p>1426</p><p>1151</p><p>1853</p><p>1006</p><p>1867</p><p>1074</p><p>1515</p><p>1108</p><p>1679</p><p>1070</p><p>1766</p><p>1073</p><p>1713</p><p>1797</p><p>1670 10</p><p>1238</p><p>1545</p><p>1516 1060 1336 1349</p><p>1513</p><p>1805</p><p>2126</p><p>1118</p><p>7151109</p><p>1590</p><p>1608</p><p>1029</p><p>1789</p><p>8</p><p>1341</p><p>1816</p><p>1479</p><p>1027</p><p>1767</p><p>1716</p><p>1596</p><p>1728</p><p>1009</p><p>1000</p><p>1114</p><p>1085</p><p>1347</p><p>1018</p><p>1224 1084</p><p>1799 1295</p><p>1325</p><p>1614</p><p>1124</p><p>1319</p><p>1605</p><p>1602</p><p>1592</p><p>1843</p><p>1047</p><p>1030</p><p>1765</p><p>1371</p><p>5555</p><p>1230</p><p>1327</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>40 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>atores (33 ao todo) realizando as atividades</p><p>de conexão entre as partes mais diferen-</p><p>ciadas da rede, enquanto que um número</p><p>bem menor (14 ao todo) realiza as ativida-</p><p>des de repasse de conteúdos, de materiais e</p><p>de informações entre os membros de seus</p><p>subgrupos. Os conectores centrais são extre-</p><p>mamente importantes, porque estão preo-</p><p>cupados com a manutenção das conexões</p><p>internas, e não com a expansão delas. Outro</p><p>fator mais preocupante diz respeito ao fato</p><p>de que a maioria dos conectores centrais</p><p>rea liza duplo papel como expansores e co-</p><p>nectores ao mesmo tempo.</p><p>Considerando -se também os papéis</p><p>representados por esses atores, apenas</p><p>11,17% (45) deles são bolsistas do CNPq,</p><p>o que se traduz no menor índice de bolsis-</p><p>tas quando comparadas todas as subáreas</p><p>da psicologia. Outro questionamento bas-</p><p>tante pertinente a área de psicologia social</p><p>diz respeito ao menor número de bolsistas</p><p>presentes na área. Tendo em vista que os</p><p>bolsistas são escolhidos por critérios de pro-</p><p>dutividade científica, pode existir uma baixa</p><p>produção nas pesquisas em psicologia social</p><p>no país.</p><p>A Figura 2.2 ilustra a distribuição dos</p><p>psicólogos sociais pelo território nacional.</p><p>De acordo com Neiva e Corradi (2008), um</p><p>dos fatores que interferem no aproveitamen-</p><p>to e na produção da rede está relacionado à</p><p>Figura 2.2</p><p>Distribuição dos pesquisadores por estado/região.</p><p>Legenda:</p><p>Pesquisadores estrangeiros</p><p>Pesquisadores de outras áreas do conhecimento</p><p>Pesquisadores do Sul</p><p>Pesquisadores de São Paulo</p><p>Pesquisadores do Centro ‑Oeste</p><p>Pesquisadores do Nordeste</p><p>Pesquisadores do Rio de Janeiro</p><p>Pesquisadores de Minas Gerais</p><p>Pesquisadores do Espírito Santo</p><p>Pesquisadores do Norte</p><p>559</p><p>833</p><p>957</p><p>1203</p><p>1807 1347</p><p>1646</p><p>1030</p><p>1047</p><p>1716</p><p>1767</p><p>1027</p><p>1596</p><p>503</p><p>1009</p><p>985</p><p>1728</p><p>720 971</p><p>738 966</p><p>976</p><p>792</p><p>556</p><p>457</p><p>904 903</p><p>464</p><p>103</p><p>902</p><p>558 988</p><p>793</p><p>647 638</p><p>569</p><p>907907</p><p>996</p><p>889</p><p>929 957</p><p>633</p><p>603</p><p>781</p><p>923</p><p>878</p><p>628</p><p>757</p><p>666</p><p>877</p><p>608</p><p>872</p><p>843</p><p>824</p><p>585</p><p>531</p><p>840</p><p>518</p><p>583</p><p>681</p><p>896</p><p>927</p><p>485</p><p>926</p><p>802</p><p>800</p><p>797</p><p>965</p><p>909</p><p>782</p><p>979901</p><p>480</p><p>678</p><p>899</p><p>967</p><p>940</p><p>750</p><p>874</p><p>475</p><p>470</p><p>551</p><p>905</p><p>978</p><p>95</p><p>958</p><p>883</p><p>465</p><p>519</p><p>813</p><p>466</p><p>771</p><p>492 946 951</p><p>493 740</p><p>799</p><p>766</p><p>906</p><p>586</p><p>915</p><p>526</p><p>963</p><p>884</p><p>500</p><p>809</p><p>773</p><p>560</p><p>880</p><p>882771</p><p>642</p><p>922</p><p>550</p><p>511</p><p>504</p><p>888</p><p>778</p><p>112</p><p>974</p><p>548</p><p>537</p><p>151</p><p>512</p><p>837</p><p>934</p><p>1000 1008</p><p>1426</p><p>1607</p><p>1653</p><p>1606</p><p>1115</p><p>1107</p><p>1117 1172 1364</p><p>1362</p><p>1291</p><p>1367</p><p>1500</p><p>1074</p><p>1059</p><p>1053</p><p>1061</p><p>1735</p><p>1775</p><p>1262</p><p>1166</p><p>1006</p><p>1901</p><p>1417</p><p>1102</p><p>1899</p><p>1114</p><p>1770</p><p>1169</p><p>1475</p><p>1554</p><p>1361</p><p>1665</p><p>1768</p><p>1602</p><p>1739</p><p>1888</p><p>1839</p><p>1779</p><p>1265</p><p>1269</p><p>1279</p><p>1037</p><p>1069 1106</p><p>1592</p><p>1071</p><p>1787</p><p>1805</p><p>1233</p><p>1057</p><p>1591</p><p>1141</p><p>1348</p><p>1679</p><p>1667</p><p>1126</p><p>1242</p><p>1130</p><p>1287</p><p>1445</p><p>1551</p><p>1031</p><p>1824</p><p>1469</p><p>1456</p><p>1836</p><p>1523</p><p>1857</p><p>1835</p><p>1116</p><p>1689</p><p>1660489</p><p>1070</p><p>1670</p><p>1515</p><p>1765</p><p>1531</p><p>1465</p><p>1040</p><p>1238</p><p>1476</p><p>1343</p><p>1769</p><p>1023</p><p>1319</p><p>1109</p><p>1590</p><p>1588</p><p>1608</p><p>1323</p><p>1230</p><p>1327</p><p>1139</p><p>1803</p><p>1108</p><p>1124</p><p>1123</p><p>1029 1664</p><p>1593</p><p>1112</p><p>1110</p><p>1118</p><p>1624</p><p>1295</p><p>707</p><p>495</p><p>1816</p><p>1479 1614 1516</p><p>1336</p><p>1349</p><p>1063</p><p>1513</p><p>1804</p><p>1133 1065</p><p>1692</p><p>1328</p><p>1620</p><p>1665 1855 1719</p><p>1146 1134</p><p>1726</p><p>1519</p><p>1637</p><p>1138</p><p>1545</p><p>1661</p><p>1798 1702</p><p>1014</p><p>1368</p><p>1119</p><p>1018 1867</p><p>1224</p><p>1084</p><p>854</p><p>925 667</p><p>729</p><p>752</p><p>952</p><p>578</p><p>918</p><p>859</p><p>911</p><p>861</p><p>855</p><p>507</p><p>1799</p><p>1121</p><p>1667</p><p>1902</p><p>1789</p><p>1583</p><p>1764</p><p>644 637</p><p>973</p><p>575</p><p>697</p><p>938</p><p>856</p><p>1341</p><p>696</p><p>1797</p><p>1713</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 41</p><p>proximidade geográfica e à distribuição de</p><p>recursos.</p><p>Os 403 atores estão distribuídos entre</p><p>6 pesquisadores da região norte, 44 do nor-</p><p>deste, 46 de São Paulo, 20 de Minas Gerais,</p><p>46 do Rio de Janeiro, 3 do Espírito Santo,</p><p>34 da região centro -oeste e 42 da região sul.</p><p>A região sudeste precisou ser dividida na</p><p>pesquisa em função da alta concentração de</p><p>pesquisadores. Ainda entre esses 403 atores,</p><p>96 (ou 23,82%) são pesquisadores estrangei-</p><p>ros e 76 (ou 18,86%) de outras áreas do co-</p><p>nhecimento (sociologia, antropologia, etc.).</p><p>Trata -se de uma rede com índices medianos</p><p>de presença de pesquisadores estrangeiros e</p><p>de pesquisadores de outras áreas, quando a</p><p>rede é comparada com outras subáreas da</p><p>psicologia. A Figura 2.2 ilustra essa distribui-</p><p>ção por estados/regiões brasileiras.</p><p>É uma rede com pesquisadores dis-</p><p>tribuídos em todo o território nacional,</p><p>realidade diferente de outras áreas da psi-</p><p>cologia como Desenvolvimento, Processos</p><p>Psicológicos Básicos e Escolar e Educacional,</p><p>que possuem uma quantidade maior de pes-</p><p>quisadores entre os estados de São Paulo e</p><p>o sul do país (Neiva; Corradi, 2008). A loca-</p><p>lização geográfica pode ser mais importante</p><p>que as atividades de networking para se ter</p><p>acesso a recursos de pesquisa (concentra-</p><p>ções de pesquisadores por Estado). Contudo,</p><p>considerando -se as inferências sobre produ-</p><p>ção feitas a partir do número de bolsistas na</p><p>rede, a rede de psicologia social pode estar</p><p>mais preocupada em realizar networking do</p><p>que em fomentar produção em grupo, tão</p><p>necessária à construção do conhecimento.</p><p>De acordo com Neiva e Corradi (2008),</p><p>os fatores que mais influenciam o desenvol-</p><p>vimento de parcerias entre os pesquisadores</p><p>brasileiros são a abordagem teórica, a abor-</p><p>dagem metodológica e as afinidades pesso-</p><p>ais, o que parece se reproduzir na área de</p><p>psicologia social.</p><p>Existem algumas razões a serem con-</p><p>sideradas para que não ocorra colaboração</p><p>entre os pesquisadores ou para que a colabo-</p><p>ração não se transforme em produtos cien-</p><p>tíficos. Essas razões podem se concretizar</p><p>em interesses aparentemente similares que</p><p>não se mostram como tais na prática; dife-</p><p>rentes abordagens teóricas e metodológicas</p><p>que não permitem que a parceria se efetive</p><p>na prática, pois a colaboração requer tempo</p><p>e energia (recursos individuais escassos),</p><p>especialmente entre estranhos (mérito/</p><p>reconhecimento) e depende de condições</p><p>geográficas que tornam a colaboraçao</p><p>mais</p><p>difícil quando potenciais colaboradores são</p><p>geograficamente muito distribuídos, como é</p><p>o caso da rede de psicologia social.</p><p>O nível de cooperação também pode</p><p>ser definido pela área à qual o pesquisador</p><p>pertence. Estudos de Storer, Carpenter e</p><p>Frame, Gordon e Lodahl (Balancieri et al,</p><p>2005) mostram que as ciências básicas e na-</p><p>turais apresentam um índice maior de coope-</p><p>ração do que as ciências aplicadas e sociais.</p><p>Katz e Martin (1997) mostram que expe-</p><p>rimentalistas tendem a colaborar mais do</p><p>que teóricos. Alguns trabalhos demonstram</p><p>que os trabalhos individuais predominam</p><p>na área de humanidades, como Poclación e</p><p>Noronha (2002) e Newman (2004).</p><p>Enfim, essa dispersão de objetos e essa</p><p>distribuição geográfica pode se concretizar</p><p>em uma rede social da área que mantém</p><p>um potencial considerável de contatos para</p><p>uma rede com tal tamanho, mas a produção</p><p>nacional pode ficar comprometida.</p><p>teMas de Pesquisa e Pós ‑graduação</p><p>eM Psicologia social no brasil</p><p>Dos 58 programas de pós -graduação em</p><p>funcionamento atualmente no Brasil, 9</p><p>adotam o termo psicologia social em sua</p><p>nomenclatura formal. Os programas que se</p><p>dedicam ao estudo de temas da psicologia</p><p>social foram agrupados no Quadro 2.1. É</p><p>importante ressaltar que todas as regiões</p><p>brasileiras possuem algum programa que se</p><p>dedica aos temas da psicologia social, além</p><p>de envolver importantes universidades bra-</p><p>sileiras no Rio de Janeiro, em São Paulo, no</p><p>Distrito Federal e no nordeste.</p><p>Os 307 pesquisadores brasileiros clas-</p><p>sificados como pertencentes à subárea da</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>42 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>psicologia social foram objeto de uma aná-</p><p>lise de conteúdo quanto a seus temas de</p><p>pesquisa e uma classificação desses temas,</p><p>realizadas por três pesquisadores. Os temas</p><p>encontrados e classificados se encontram na</p><p>Tabela 2.2.</p><p>Os temas mais frequentes, de acor-</p><p>do com as classificações dos currículos dos</p><p>pesquisadores, foram: construção social</p><p>da subjetividade; atividade, consciência,</p><p>identidade, afetividade, emoções, lingua-</p><p>gem e pensamento sob a perspectiva sócio-</p><p>-histórica; história, representações sociais e</p><p>cultura e construção da cidadania e inclu-</p><p>são social. Dentre os temas mais frequentes,</p><p>dois dizem respeito a fenômenos no nível</p><p>individual sob a perspectiva social, e os dois</p><p>últimos dizem respeito a fenômenos que</p><p>ocorrem mais no nível social.</p><p>Quando se olha para essa diversidade</p><p>de temas e para a ambivalência entre temas</p><p>que ora retratam aspectos individuais, ora</p><p>retratam aspectos mais coletivos, retorna -se</p><p>à questão sobre qual é o objeto da psicologia</p><p>social.</p><p>Enfim, o que é o social da psicologia</p><p>social? A psicologia tenta explicar compor-</p><p>tamento. Comportamento é algo observável.</p><p>Para onde olhar quando se quer compreender</p><p>os mecanismos usados para explicar o com-</p><p>portamento manifesto? A psicologia sempre</p><p>teve uma relação ambivalente com o social.</p><p>Essa divisão entre psicologia e as outras ci-</p><p>ências sociais possui origens remotas e leva-</p><p>ram à dessocialização da psicologia social e</p><p>a despsicologização das demais ciências so-</p><p>ciais. Emile Durkeim (2002) afirma que o</p><p>fenômeno sociológico não pode ser reduzi-</p><p>do ao fenômeno psicológico, por outro lado,</p><p>Floyd Allport (1920, 1924) definiu a psicolo-</p><p>gia social como uma ciência dos indivíduos,</p><p>e Gordon Allport (1954), seu irmão, definiu</p><p>a psicologia social como o estudo de como os</p><p>pensamentos, os sentimentos e os comporta-</p><p>mentos dos indivíduos são influenciados pela</p><p>presença de outros imaginários ou atuais.</p><p>A ideia das causas dos comportamen-</p><p>tos serem originárias nas mentes dos indi-</p><p>víduos tornou -se especialmente prevalente</p><p>depois da revolução cognitiva, e o social</p><p>passou a ser visto como fonte de informação</p><p>(Baerveldt, 2004). Alguns fatores compli-</p><p>cadores, como cultura e fatores históricos,</p><p>foram completamente negligenciados ou</p><p>transformados em processos cognitivos co-</p><p>letivos (Gardner, 1985).</p><p>quadro 2.1</p><p>reLaçãO DOs PrOGramas De Pós ‑GraDUaçãO em PsicOLOGia sOciaL nO BrasiL</p><p>Programa universidade</p><p>Psicologia social Pontifícia Universidade católica de são Paulo</p><p>Psicologia social Universidade estadual do rio de Janeiro</p><p>Psicologia clínica e social Universidade Federal do Pará</p><p>Psicologia social Universidade Federal da Paraíba</p><p>Psicologia social e institucional Universidade Federal do rio Grande do sul</p><p>Psicologia social, do trabalho e das organizações Universidade de Brasília</p><p>Psicologia social Universidade de são Paulo</p><p>Psicologia social FUF</p><p>Psicossociologia de comunidades e ecologia social Universidade Federal do rio de Janeiro</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 43</p><p>Quando a psicologia social e a cogni-</p><p>ção social definem o “social”, há uma indica-</p><p>ção usual do social como variável indepen-</p><p>dente e do comportamento como variável</p><p>dependente. Além da tradição experimental</p><p>na psicologia social, principalmente nos es-</p><p>tudos norte -americanos, há também os estu-</p><p>dos correlacionais, especialmente na forma</p><p>da psicologia transcultural (abordada mais</p><p>adiante), que transforma a cultura como</p><p>uma fonte de variáveis independentes para</p><p>compreender comportamentos, atitudes,</p><p>sentimentos ou características individuais</p><p>(Gardner, 1985). Contudo, quais são as vari-</p><p>áveis dependentes e independentes quando</p><p>o pesquisador está interessado no que ocor-</p><p>re “entre as pessoas” em um determinado</p><p>contexto? Como estudar e compreender o</p><p>que ocorre em uma conversa ou diálogo?</p><p>Os métodos experimentais ou correlacionais</p><p>conseguem cobrir essa dimensão específica</p><p>do social?</p><p>O próprio Gordon Allport (1937), en-</p><p>tre suas diversas aproximações inovativas</p><p>ao estudo da psicologia humana, utilizava-</p><p>-se de escritas pessoais e das criações artís-</p><p>ticas dos indivíduos. Nem ele, autor da defi-</p><p>nição mais psicológica de psicologia social,</p><p>era restritivo quanto aos métodos e aborda-</p><p>gens metodológicas do fenômeno psicosso-</p><p>cial (Nicholson, 2000). Conforme ressaltado</p><p>anteriormente, Allport (1954) define que a</p><p>psicologia social tenta entender e explicar</p><p>como os pensamentos, os sentimentos e os</p><p>comportamentos dos indivíduos são influen-</p><p>ciados pela presença atual, imaginada ou</p><p>implícita dos outros. Todavia, na realidade,</p><p>a psicologia social não se interessa apenas</p><p>tabela 2.2</p><p>relação de temas indicados pelos pesquisadores da área de psicologia social</p><p>temas nº de pesquisadores</p><p>construção da cidadania e inclusão social 31</p><p>estudos sobre gênero, raça e idade 22</p><p>cotidiano e participação social 15</p><p>cultura e diversidade 12</p><p>construção social da subjetividade 49</p><p>comportamento, relacionamento e interação social 11</p><p>atividade, consciência, identidade, afetividade,</p><p>emoções, linguagem e pensamento sob as perspectivas</p><p>antropológica e sócio ‑histórica 37</p><p>aspectos teóricos e metodológicos ligados à psicologia social 11</p><p>Psicologia política e movimentos sociais 13</p><p>estudos sobre a violência 23</p><p>trabalho e ação social 14</p><p>Processos sociocognitivos e psicossociais (atribuição de</p><p>causalidade, erros de julgamento, etc.) 9</p><p>História, representações sociais e cultura 33</p><p>valores humanos e cultura 12</p><p>Psicologia ambiental 7</p><p>estudos sobre justiça social 8</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>44 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>em como o indivíduo é influenciado por ou-</p><p>tros ou por seu meio. Fica clara a preocupa-</p><p>ção dos psicólogos sociais atuais sobre como</p><p>o meio (e os outros!) são influenciados pelo</p><p>indivíduo. A psicologia social é, de fato, uma</p><p>via de mão -dupla.</p><p>De acordo com Markus e Zajonc</p><p>(1985), no Handbook of Social Psychology,</p><p>o definidor do social é a reciprocidade e a</p><p>intersubjetividade, ou seja, o social não é</p><p>somente um fator de certo estímulo, mas é</p><p>alguma coisa que acontece entre pessoas, na</p><p>interação. Isso coloca diversos desafios para</p><p>a tradição empírica individualista da psico-</p><p>logia social, o que coloca questionamentos</p><p>sobre o fato de a psicologia experimental</p><p>colocar indivíduos separados em algumas</p><p>condições</p><p>experimentais e isso trazer gran-</p><p>des explicações sobre o que acontece entre</p><p>as pessoas. Por outro lado, os estudos cor-</p><p>relacionais precisam avançar nas formas de</p><p>estudo sobre o que as pessoas compartilham</p><p>e quais pessoas compartilham certos arran-</p><p>jos, convenções e acordos.</p><p>Gold e Douvan (1997) propõem uma</p><p>integração nos estudos da psicologia social,</p><p>destacando uma integração de teorias e da-</p><p>dos empíricos e uma integração de objetos.</p><p>Não se trata de considerar que a psicologia</p><p>social tenha um único objeto, mas seus obje-</p><p>tos individuais (a introjeção do outro) e so-</p><p>ciais (compartilhamento, o que forma e de-</p><p>fine o grupal e o coletivo) possuem origem,</p><p>natureza e repercussão no indivíduo, embo-</p><p>ra não se resuma ao psicológico. A integra-</p><p>ção possui foco na interação entre o social e</p><p>o psicológico. Isso está relacionado às pes-</p><p>soas e seus ambientes sociais. Esse tipo de</p><p>psicologia social é vital às ciências sociais,</p><p>porque a natureza de ambos, indivíduos e</p><p>ambiente social, depende fortemente desse</p><p>encontro. Segundo Gold e Douvan (1997),</p><p>os psicólogos sociais estiveram perdidos, e</p><p>a crise continua em função das frequentes</p><p>posições antagônicas presentes entre pes-</p><p>quisadores. Segundo esses mesmos autores</p><p>(1997), a psicologia social não pode aspirar</p><p>à descoberta de leis universais devido à na-</p><p>tureza dessa ciência. A psicologia social é o</p><p>estudo das influências recíprocas das pesso-</p><p>as e de seus ambientes sociais, com ênfase</p><p>nas relações entre os eventos e “entre” as</p><p>pessoas e seus ambientes sociais. Em função</p><p>desse foco dualístico (pessoas e ambiente</p><p>social), torna -se difícil encontrar leis uni-</p><p>versais, pois as disciplinas limítrofes dificil-</p><p>mente alcançam leis universais. A missão</p><p>da psicologia social de explicar a influência</p><p>recíproca do psicológico e do contexto social</p><p>das realidades coloca as leis universais em</p><p>cheque.</p><p>eM busca de conclusões...</p><p>A maioria dos modelos estudados pela psico-</p><p>logia social foi desenvolvida principalmente</p><p>nos Estados Unidos e em países da Europa</p><p>Ocidental, destacadamente o Reino Unido.</p><p>Tais modelos enfocam prioritariamente o</p><p>indivíduo em diversos contextos, tais como</p><p>organização, escola, família ou convívio so-</p><p>cial, inserido em um contexto nacional ou</p><p>cultural, e tentam explicar o comportamento</p><p>por meio dos valores e das metas individu-</p><p>ais (Triandis, 1994). Como resultado dessa</p><p>ênfase no indivíduo, boa parte da pesquisa</p><p>em psicologia social realizada nas últimas</p><p>três décadas tem ignorado as diferenças</p><p>culturais e nacionais nos valores e crenças</p><p>das pessoas, e como essas diferenças afetam</p><p>seu comportamento cotidiano. Contudo, o</p><p>rápido desenvolvimento no ambiente or-</p><p>ganizacional e a globalização do mercado</p><p>de trabalho não podem mais ser ignorados</p><p>(Earley e Erez, 1997). Tais processos têm</p><p>um impacto direto na vida de indivíduos co-</p><p>muns, em sua motivação, comportamento,</p><p>desempenho e demais resultados. Logo, é</p><p>necessário confrontar as diferenças cultu-</p><p>rais de necessidades pessoais, normas para</p><p>comportamento e valores, para citar alguns.</p><p>O que parece estar faltando é uma literatura</p><p>que integre os contextos culturais e nacio-</p><p>nais nos quais diferentes pessoas vivem com</p><p>modelos teóricos desenvolvidos em países</p><p>muito específicos nos quais a ênfase no in-</p><p>divíduo é clara. As pesquisas desenvolvidas</p><p>nesses países – que representam menos de</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 45</p><p>um quinto da população mundial quando</p><p>levamos em consideração sua orientação in-</p><p>dividualista, comparados aos outros quatro</p><p>quintos da população que têm uma orienta-</p><p>ção coletivista – podem não estar refletindo</p><p>com adequação as preferências culturais e,</p><p>consequentemente, podem estar propondo</p><p>modelos de explicação da realidade que têm</p><p>sua eficácia reduzida.</p><p>A proposta deste livro é trazer uma</p><p>perspectiva integradora para o objeto da psi-</p><p>cologia social, considerando -se a produção</p><p>de pesquisa nacional e outras possibilidades</p><p>de estudo não presentes na realidade brasi-</p><p>leira, sem ignorar as contribuições clássicas</p><p>da psicologia social. Portanto, aqui serão</p><p>abordados vários temas que foram tangen-</p><p>ciados pela literatura científica brasileira.</p><p>Afinal, o que você irá encontrar neste livro?</p><p>o que você irá</p><p>encontrar neste livro?</p><p>Como poderemos notar no decorrer do livro,</p><p>de uma forma geral, os psicólogos sociais</p><p>investigam alguns fenômenos da psicologia</p><p>social que merecem destaque, especialmen-</p><p>te por serem considerados “clássicos” na</p><p>área. Dentre eles, vemos a proliferação de</p><p>pesquisas em estudos sobre a percepção da</p><p>pessoa; a influência social; o preconceito</p><p>e a discriminação; e a atribuição de causa.</p><p>Diversas dessas tradições de pesquisas serão</p><p>exaustivamente abordadas neste livro, com</p><p>especial enfoque em trabalhos realizados no</p><p>país.</p><p>De acordo com o levantamento de</p><p>temas dos pesquisadores, esses processos</p><p>cognitivos têm recebido uma atenção res-</p><p>trita dos pesquisadores, pois somente nove</p><p>pesquisadores se dedicam a tal empreendi-</p><p>mento na literatura brasileira, em contrapo-</p><p>sição, a literatura internacional oferece uma</p><p>vasta gama de descobertas nessa área. É</p><p>mister relembrar diretamente algumas des-</p><p>sas pesquisas clássicas, sobretudo pelo fato</p><p>de que todas, embora tratem de fenômenos</p><p>distintos, trazem consigo uma similaridade.</p><p>Essa similaridade é a base de um argumen-</p><p>to que será desenvolvido mais adiante nos</p><p>próximos capítulos sobre relacionamentos</p><p>entre grupos e contatos intergrupais.</p><p>Dentre esses temas já tradicionais de</p><p>pesquisa, os psicólogos sociais interessados</p><p>na percepção da pessoa buscam determinar</p><p>a maneira pela qual as pessoas fazem julga-</p><p>mentos sobre os outros e como elas contro-</p><p>lam o julgamento que os outros fazem delas.</p><p>O primeiro caso é conhecido como formação</p><p>da impressão, e o segundo, como gerencia‑</p><p>mento de impressão. A formação de impres-</p><p>são e outros tipos de julgamento social são</p><p>afetados por processos e estruturas cogni-</p><p>tivas. Dentre elas, algumas são ressaltadas</p><p>a seguir, aliadas a uma breve apresentação</p><p>dos pontos mais pesquisados:</p><p>1. Os “esquemas” (ou schemata) e protótipos.</p><p>As pessoas desenvolvem esquemas, ou</p><p>redes de informação que são organizadas</p><p>e mentalmente interconectadas, basea-</p><p>das nas experiências pessoais e sociais</p><p>anteriores e, então, usam tais esquemas</p><p>para julgar situações atuais. As pesquisas</p><p>sobre os esquemas demonstraram que</p><p>as pessoas tipicamente prestam mais</p><p>atenção às evidências que confirmam os</p><p>esquemas que já existem: elas interpretam</p><p>a informação e os eventos de uma forma</p><p>consistente com seus esquemas e também</p><p>tendem a se lembrarem mais daquelas in-</p><p>formações que são consistentes com seus</p><p>esquemas (p. ex., Cohen, 1981; Rothbart,</p><p>Evans e Fulero, 1979). Já os protótipos re-</p><p>presentam outro tipo de estrutura mental</p><p>e se referem a modelos que criamos sobre</p><p>as qualidades típicas de certos grupos ou</p><p>categorias (p. ex., líderes, criminosos,</p><p>idosos).</p><p>2. A heurística. Para facilitar o processa-</p><p>mento e uso das grandes quantidades</p><p>de informação a que as pessoas estão</p><p>expostas no cotidiano de suas vidas, elas</p><p>desenvolvem “regras de conduta”, ou</p><p>heurística. Tversky e Kahneman (1974)</p><p>fizeram a distinção entre dois tipos de</p><p>heurística, ambos os quais podem enviesar</p><p>a formação de impressão e outros julga-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>46 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>mentos sociais. Quando estamos usando</p><p>a heurística representativa, o julgamento</p><p>que fazemos sobre alguém é baseado na</p><p>similaridade que essa pessoa tem com um</p><p>membro “típico” de um grupo (p. ex., “ela</p><p>se veste e se parece como uma advogada;</p><p>logo, ela deve ser uma advogada”). A heu-</p><p>rística de disponibilidade é a tendência de</p><p>se utilizar aquela informação que é mais</p><p>facilmente acessada na memória. Por</p><p>exemplo, Srull e Wyer (1980) encontra-</p><p>ram que os participantes de sua pesquisa</p><p>tinham uma maior tendência a interpretar</p><p>situações sociais ambíguas como uma</p><p>“situação hostil” quando</p><p>eram expostos a</p><p>palavras que sugeriam hostilidade (p. ex.,</p><p>briga, discussão) antes de analisarem a</p><p>situação. Embora a heurística nos auxilie</p><p>em nossa convivência diária, ela também</p><p>pode levar a erros de julgamento, uma</p><p>vez que faz com que as pessoas ignorem</p><p>informações importantes. Por exemplo, a</p><p>falácia do comum (base rate fallacy) é a</p><p>tendência a ignorar informações que se</p><p>relacionam a características ou eventos</p><p>que ocorrem com frequência na população</p><p>(p. ex., crianças de rua).</p><p>3. Exemplares e abstrações. O estudo da</p><p>formação de impressão sob uma perspec-</p><p>tiva cognitiva revelou que exemplares e</p><p>abstrações são contribuintes importantes</p><p>às impressões que formamos dos outros</p><p>(Sherman e Klein, 1994). Exemplares são</p><p>comportamentos concretos que são apre-</p><p>sentados por uma pessoa. Eles são particu-</p><p>larmente importantes durante os estágios</p><p>iniciais da formação de impressão. À</p><p>medida que cresce nossa experiência com</p><p>uma pessoa, nossas impressões são mais</p><p>determinadas por abstrações mentais, as</p><p>quais são derivadas de observações repeti-</p><p>das do comportamento daquela pessoa.</p><p>4. Traços centrais. As principais pesquisas</p><p>sobre o tema foram desenvolvidas por</p><p>Asch (1946), que notou que certos traços</p><p>centrais influenciam a impressão dos</p><p>outros. Uma pessoa descrita como “inte-</p><p>ligente, habilidosa, determinada, prática</p><p>e cuidadosa” tende a ser percebida mais</p><p>positivamente do que uma descrita como</p><p>“inteligente, habilidosa, fria, determinada,</p><p>prática e cuidadosa”. De acordo com Asch,</p><p>isso ocorre porque o termo “fria” é um</p><p>traço central, que carrega mais peso do</p><p>que outros traços, uma vez que ele fornece</p><p>uma informação única, que é associada a</p><p>um grande número de características.</p><p>5. Efeito de primazia. Quando alguém se</p><p>confronta com informações discrepan-</p><p>tes sobre uma pessoa, sua impressão é</p><p>normalmente mais influenciada pela in-</p><p>formação que é apresentada em primeiro</p><p>lugar, e tal fenômeno foi chamado “efeito</p><p>de primazia”. Contudo, sob certas circuns-</p><p>tâncias, o “efeito recente” pode acontecer.</p><p>Se uma atividade irrelevante acontece</p><p>entre a apresentação de duas informações</p><p>conflituosas sobre uma pessoa, ou se o</p><p>indivíduo é avisado para não fazer um</p><p>julgamento imediato, a informação mais</p><p>recente sobre a pessoa terá maior impacto</p><p>sobre a formação da impressão.</p><p>6. Atração física. A aparência física tem</p><p>um impacto poderoso na formação da</p><p>impressão. Por exemplo, há maior ten-</p><p>dência a se perdoar crianças atrativas por</p><p>uma transgressão do que crianças pouco</p><p>atrativas (Dion, 1972). Crianças atrativas</p><p>também são julgadas mais favoravelmente</p><p>em termos de QI e de sucesso acadêmico</p><p>futuro (Clifford e Walster, 1973).</p><p>7. Estigma. Indivíduos estigmatizados são</p><p>aqueles que possuem características que</p><p>não são valorizadas por um grupo social.</p><p>Hoje em dia, os estigmas incluem algumas</p><p>deficiências físicas e mentais, além de</p><p>fatores como pobreza ou obesidade. As</p><p>respostas às pessoas estigmatizadas são</p><p>afetadas por fatores como a visibilidade</p><p>do estigma e crenças sobre a habilidade da</p><p>pessoa em controlar o estigma. Por exem-</p><p>plo, as reações a pessoas infectadas com</p><p>HIV tendem a ser mais negativas quando</p><p>a aquisição do vírus se deu em decorrên-</p><p>cia de comportamento sexual promíscuo</p><p>do que quando o vírus foi adquirido por</p><p>transfusão sanguínea.</p><p>8. Contexto social. A formação de impressão</p><p>também é influenciada pelo contexto</p><p>social. Essa influência foi demonstrada</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 47</p><p>por Rosenhan (1973), que utilizou, em</p><p>sua pesquisa, oito “pseudopacientes”,</p><p>que se internavam em instituições para</p><p>tratamento mental com a queixa de que</p><p>estavam ouvindo vozes. Uma vez admi-</p><p>tidos nos hospitais, os pseudopacientes</p><p>paravam imediatamente com os supostos</p><p>sintomas e agiam normalmente quando</p><p>interagindo como outros pacientes ou com</p><p>os empregados do hospital. Embora mais</p><p>de um terço dos verdadeiros pacientes</p><p>afirmavam que os pseudopacientes eram</p><p>sãos, todos, com a exceção de apenas um</p><p>dos pseudopacientes, foram diagnostica-</p><p>dos com esquizofrenia. Os resultados do</p><p>estudo de Rosenham indicaram que os</p><p>comportamentos tendem a ser percebi-</p><p>dos de forma consistente com o contexto</p><p>social no qual eles aparecem.</p><p>Já os psicólogos sociais interessados</p><p>em gerenciamento de impressão (ou auto-</p><p>apresentação) identificaram várias estra-</p><p>tégias (ou táticas comportamentais) que</p><p>são usadas pelas pessoas para criarem uma</p><p>imagem ou identidade aceita socialmente.</p><p>Um dos métodos mais comuns de gerencia-</p><p>mento de impressão ficou conhecido como</p><p>engraçamento (Snyder, 1987). Esse método</p><p>refere -se a táticas que pessoas com pouco po-</p><p>der social usam para aumentar ou melhorar</p><p>sua imagem aos olhos de outra pessoa que</p><p>tem mais poder social do que elas e, assim,</p><p>reduzir a diferença de poder entre as duas.</p><p>Engraçamento inclui as técnicas de “melho-</p><p>ramento” ou “aumento”, tanto de si mesmo</p><p>como dos outros. Exemplos dessa técnica são</p><p>o elogio e a concordância. Outros métodos</p><p>de gerenciamento de impressão são a inti-</p><p>midação, a autopromoção, a exemplificação</p><p>(convencer os outros de que o indivíduo é</p><p>uma boa pessoa) e suplicação (convencer os</p><p>outros de que o indivíduo merece ou tem</p><p>necessidade de algo).</p><p>Segundo Snyder (1987), as pessoas</p><p>também se diferenciam em termos de auto‑</p><p>monitoramento, ou quanto a sua habilidade</p><p>ou necessidade de gerenciar a impressão</p><p>que outras pessoas formam delas. Indivíduos</p><p>com alto automonitoramento analisam a si-</p><p>tuação social através de seu “self público” e</p><p>então se esforçam para adequá -lo à situa-</p><p>ção. Essas pessoas são excepcionalmente</p><p>boas em determinar quais comportamentos,</p><p>atitudes, etc. são desejáveis socialmente ou</p><p>esperadas em situações diferentes. Elas tam-</p><p>bém são extremamente sensíveis às técnicas</p><p>de gerenciamento de impressão utilizadas</p><p>pelos outros e, consequentemente, usam</p><p>essas mesmas técnicas em seu favor. Por</p><p>outro lado, indivíduos com baixo automo-</p><p>nitoramento tentam alterar a situação para</p><p>adequá -la a seu self público. Essas pessoas</p><p>são guiadas principalmente por suas pró-</p><p>prias crenças e valores.</p><p>Outro tema bastante pesquisado, mas</p><p>com pouca investigação no Brasil, de acordo</p><p>com o levantamento de temas (11 pesqui-</p><p>sadores se dedicam a investigar o compor-</p><p>tamento, o relacionamento e a interação</p><p>social), se refere à influência social. Tal</p><p>número se mostra ainda mais reduzido se</p><p>focarmos somente na influência social. Esta</p><p>ocorre quando as atitudes ou comportamen-</p><p>tos de uma pessoa são o resultado direto ou</p><p>indireto de pressão social. As respostas mais</p><p>comuns à pressão social são a conformida-</p><p>de, a concordância e a obediência. A confor-</p><p>midade, por exemplo, ocorre quando uma</p><p>pessoa muda suas ações para corresponder</p><p>às ações de outras pessoas como resposta à</p><p>pressão social indireta real ou imaginada.</p><p>Ela pode envolver a aceitação pública ou</p><p>privada de comportamentos, de atitudes ou</p><p>de crenças. Em outras palavras, os compor-</p><p>tamentos aparentes de uma pessoa podem</p><p>refletir ou não suas atitudes e crenças inter-</p><p>nas. A conformidade começou a ser pesqui-</p><p>sada por Sherif (1935), que usou o efeito</p><p>autocinético, ou fenômeno da percepção no</p><p>qual um ponto estacionário de luz parece</p><p>mover -se em uma sala escura. Sherif pediu</p><p>aos participantes esua pesquisa que dessem</p><p>estimativas de quanto o ponto de luz tinha</p><p>se movido. Quando eles faziam estimativas</p><p>sozinhos, encontrou -se uma grande variân-</p><p>cia na posição do ponto de luz. Contudo,</p><p>quando esses participantes eram colocados</p><p>em um grupo, observou -se um “efeito de</p><p>convergência”, ou seja, depois de escutar</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>48 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>a estimativa dos outros membros do grupo</p><p>(na verdade, assistentes de pesquisa), os</p><p>participantes se conformavam com relação</p><p>à norma imposta pelo grupo. Asch (1958)</p><p>fez uma pesquisa similar, mas substituiu o</p><p>efeito autocinético por uma tarefa não am-</p><p>bígua. Foi pedido aos participantes de</p><p>rio de Janeiro. Foi professor da Universidade</p><p>Federal Fluminense e aposentou ‑se como Pro‑</p><p>fessor titular da Universidade Federal de Uber‑</p><p>lândia. Professor em cursos e programas de</p><p>graduação, mestrado e Doutorado nas áreas de</p><p>Psicologia, educação, administração e enfer‑</p><p>magem ministrando as disciplinas relacionadas</p><p>à Psicologia social, Psicologia Organizacional e</p><p>do trabalho, metodologia de investigação cien‑</p><p>tífica. Professor na Universidade de Uberaba no</p><p>campus de Uberlândia, mG.</p><p>Maria cristina Ferreira. Doutora em Psicologia</p><p>pela Fundação Getúlio vargas, rio de Janeiro.</p><p>Pós ‑Doutora em Psicologia transcultural pela</p><p>victoria University of Wellington, nova Zelân‑</p><p>dia. Professora titular da Universidade sal‑</p><p>gado de Oliveira. coordenadora do mestrado</p><p>em Psicologia dessa instituição. É membro e</p><p>contribui ativamente com a International As‑</p><p>sociation for Cross ‑cultural Psychology, The</p><p>American Psychological Association e com a</p><p>sociedade interamericana de Psicologia.</p><p>Maria de Fátima de souza santos. Psicólo‑</p><p>ga pela Universidade Federal de Pernambu‑</p><p>co. Doutora em Psicologia pela Université de</p><p>toulouse le mirail. Professora associada ii da</p><p>Universidade Federal de Pernambuco, no De‑</p><p>partamento de Psicologia e da Pós ‑Graduação</p><p>em Psicologia.</p><p>Marilia Ferreira dela coleta. Psicóloga pela</p><p>Universidade Federal Fluminense. mestre pela</p><p>Universidade de Brasília. Doutora em Psicolo‑</p><p>gia pela Universidade de Brasília. Professora do</p><p>instituto de Psicologia da Universidade Federal</p><p>de Uberlândia, onde atua no programa de Pós‑</p><p>‑graduação em Psicologia e no curso de gra‑</p><p>duação em Psicologia. membro associado Ple‑</p><p>vi aUtOres</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>no da sociedade Brasileira de Psicologia, tendo</p><p>assumido cargo na Diretoria em duas gestões.</p><p>Mirlene Maria Matias siqueira. Psicóloga pela</p><p>Universidade de Brasília. mestre em Psicologia</p><p>pela Universidade de Brasília. Doutora em Psico‑</p><p>logia pela Universidade de Brasília. Pós ‑doutora</p><p>como docente visitante em 2010 na Universida‑</p><p>de de coimbra. mestre em Psicologia Organi‑</p><p>zacional e do trabalho (WOP ‑P) do Programa</p><p>erasmus mundus. Presidente da comissão Or‑</p><p>ganizadora do iv cBPOt. Professora titular na</p><p>Universidade metodista de são Paulo.</p><p>onofre rodrigues de Miranda. administrador</p><p>de empresas pela Universidade de Brasília.</p><p>especialista em Gestão e Desenvolvimento</p><p>da educação Profissional pelo senac e UnB.</p><p>mestre em Psicologia social e das Organiza‑</p><p>ções pela UnB. Doutor em Psicologia social,</p><p>do trabalho e das Organizações pela UnB. Pro‑</p><p>fessor titular do curso de administração Geral</p><p>e mBa em Gestão estratégica da Faculdade</p><p>cambury.</p><p>Patrícia nunes da Fonsêca. Doutora em Psico‑</p><p>logia social pela Universidade Federal da Paraí‑</p><p>ba. Professora do Departamento de Psicopeda‑</p><p>gogia da Universidade Federal da Paraíba. Líder</p><p>do núcleo de estudos em Desenvolvimento Hu‑</p><p>mano, educacional e social (neDHes). membro</p><p>da sociedade Brasileira de Psicopedagogia.</p><p>ronald Fischer. Professor (senior Lecturer)</p><p>na victoria University of Wellington, nova Ze‑</p><p>lândia. membro do centre for applied cross‑</p><p>‑cultural research. Doutor pela Universidade de</p><p>sussex, inglaterra. editor associado do Journal</p><p>of Cross ‑Cultural Psychology. seu trabalho com</p><p>valores e pacificação recebeu em 2010 o prê‑</p><p>mio Otto Klineberg intercultural and internatio‑</p><p>nal relations award agraciado pela society for</p><p>the Psychological study of social issues.</p><p>sinésio gomide Júnior. Psicólogo. mestre e</p><p>Doutor em Psicologia pela Universidade de</p><p>Brasília. Professor associado na Universidade</p><p>Federal de Uberlândia.</p><p>solange alfinito. Doutora em Psicologia so‑</p><p>cial, do trabalho e das Organizações pela Uni‑</p><p>versidade de Brasília. mestre em economia de</p><p>empresas pela Universidade católica de Brasí‑</p><p>lia. Professora no Departamento de adminis‑</p><p>tração da UnB, onde também atua como pro‑</p><p>fessora do Programa de Pós ‑Graduação em</p><p>administração. membro do grupo de estudo e</p><p>pesquisa em comportamento do consumidor</p><p>da Universidade de Brasília – consuma/UnB.</p><p>taciano l. Milfont. mestre em Psicologia social</p><p>pela Universidade Federal da Paraíba. Ph.D. em</p><p>Psicologia social e ambiental pela University</p><p>of auckland, nova Zelândia. Professor (senior</p><p>Lecturer) na victoria University of Wellington,</p><p>nova Zelândia, onde também atua no Centre</p><p>for Applied Cross ‑Cultural Research. Já rece‑</p><p>beu prêmios internacionais por suas pesquisas</p><p>e desde 2010 faz parte do corpo editorial do</p><p>Journal of Environmental Psychology.</p><p>túlio gomes da silva Mauro. mestre pelo De‑</p><p>partamento de Psicologia social do trabalho e</p><p>das Organizações da Universidade de Brasília.</p><p>atua como consultor em Gestão de Pessoas</p><p>e Desenvolvimento Organizacional. Professor</p><p>do Departamento de Psicologia da Universida‑</p><p>de Paulista – UniP.</p><p>valdiney v. gouveia. Doutor em Psicologia</p><p>social pela Universidad complutense de ma‑</p><p>drid, espanha. Professor associado do Depar‑</p><p>tamento de Psicologia na Universidade Federal</p><p>da Paraíba, atuando como professor e orienta‑</p><p>dor na gradua ção e pós ‑graduação (mestrado</p><p>e Doutorado). Pesquisador 1B do cnPq. É fun‑</p><p>dador e membro do grupo de pesquisas Bases</p><p>normativas do comportamento social.</p><p>aUtOres vii</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>sUmáriO</p><p>Parte I</p><p>Fundamentação</p><p>1. Breve história da moderna psicologia social ................................................ 13</p><p>Maria Cristina Ferreira</p><p>2. Psicologia social no Brasil: uma introdução ................................................. 31</p><p>Elaine Rabelo Neiva e Cláudio Vaz Torres</p><p>3. métodos de pesquisa em psicologia social .................................................. 58</p><p>Hartmut Günther</p><p>Parte II</p><p>o indivíduo</p><p>4. cognição social .............................................................................................. 79</p><p>Bartholomeu T. Tróccoli</p><p>5. normas sociais: conceito, mensuração e implicações para o Brasil ........ 100</p><p>Cláudio Vaz Torres e Hugo Rodrigues</p><p>6. conhecendo a si e ao outro: percepção e atribuição de causalidade ....... 134</p><p>José Augusto Dela Coleta e Marilia Ferreira Dela Coleta</p><p>7. influência social e poder .............................................................................. 153</p><p>Ronald Fischer e Christin ‑Melanie Vauclair</p><p>8. atitude e mudança de atitudes .................................................................... 171</p><p>Elaine Rabelo Neiva e Túlio Gomes Mauro</p><p>9. estratégias de mensuração de atitudes em psicologia social ................... 204</p><p>Carlos Eduardo Pimentel, Cláudio Vaz Torres e Hartmut Günther</p><p>10. Preconceito, estereótipo e discriminação ................................................... 219</p><p>Amalia Raquel Pérez ‑Nebra e Jaqueline Gomes de Jesus</p><p>11. atração e repulsa interpessoal .................................................................... 238</p><p>Jaqueline Gomes de Jesus</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>Parte III</p><p>o grupo e o contato intergrupal</p><p>12. identidade social e alteridade ...................................................................... 253</p><p>Ana Lúcia Galinkin e Amanda Zauli</p><p>13. contato intergrupal: conflito realístico, privação relativa e equidade ....... 262</p><p>Solange Alfinito e Ariane Agnes Corradi</p><p>14. a teoria das representações sociais ............................................................ 287</p><p>Angela Maria de Oliveira Almeida e Maria de Fátima de Souza Santos</p><p>15. valores humanos: contribuições e perspectivas teóricas ......................... 296</p><p>Valdiney V. Gouveia, Patrícia Nunes da Fonsêca, Taciano L. Milfont e Ronald Fischer</p><p>16. cultura, valores humanos e comunicação nas relações intergrupais ....... 314</p><p>Onofre Rodrigues de Miranda e Helga Cristina Hedler</p><p>17. aplicações da psicologia social às organizações ....................................... 340</p><p>Sinésio Gomide Júnior, Áurea de Fátima Oliveira e Mirlene Maria Matias Siqueira</p><p>Índice ....................................................................................................................... 356</p><p>10</p><p>seu</p><p>experimento que julgassem qual de um con-</p><p>junto de três linhas tinha o mesmo tamanho</p><p>de uma quarta. Embora não houvesse uma</p><p>resposta correta, Asch notou que, quando os</p><p>participantes eram colocados junto com um</p><p>grupo de confederados, a maioria de suas</p><p>respostas se conformava com as respostas</p><p>dos assistentes de pesquisa, mesmo quan-</p><p>do essas respostas estava claramente incor-</p><p>retas.</p><p>Já a concordância ocorre como uma</p><p>resposta a um pedido direto de um grupo</p><p>ou pessoa em particular. Pesquisas sobre os</p><p>“profissionais da concordância” mostram</p><p>que essas pessoas usam, basicamente, seis</p><p>estratégias (Cialdini, 1993): reciprocida-</p><p>de, consistência, validação social, amizade,</p><p>autoridade e criação de limites. Segundo</p><p>Cialdini, alguns estudos mostraram que os</p><p>vendedores tendem a obter mais concordân-</p><p>cia ao enfatizarem as consequências negati-</p><p>vas de não se comprar o produto.</p><p>Outro tema investigado no campo da</p><p>influência social diz respeito à obediência.</p><p>Ela acontece quando uma pessoa se subme-</p><p>te à demanda de uma autoridade. Os expe-</p><p>rimentos conduzidos por Milgram (1963)</p><p>tornaram -se pesquisas clássicas na área da</p><p>obediência. Embora os estudos de Milgram</p><p>tenham sido criticados por problemas éti-</p><p>cos e metodológicos, eles continuam sendo</p><p>vistos como uma demonstração poderosa</p><p>da influencia social. Neles, os participantes</p><p>foram informados que seriam os “professo-</p><p>res”, enquanto que outra pessoa (na verda-</p><p>de, um assistente de pesquisa) seria o “alu-</p><p>no”. A tarefa do professor seria a de fazer</p><p>com que o aluno se lembrasse de uma lista</p><p>de palavras. Contudo, toda vez que o aluno</p><p>cometesse um erro, o pesquisador ordenava</p><p>ao professor que desse uma descarga elétri-</p><p>ca no aluno, sendo que cada choque subse-</p><p>quente tinha uma descarga elétrica maior. O</p><p>objetivo da pesquisa de Milgram era saber</p><p>se os participantes concordariam em obede-</p><p>cer à autoridade (o pesquisador), mesmo se</p><p>essa obediência resultasse em dor a outra</p><p>pessoa.</p><p>No início dos experimentos, o profes-</p><p>sor e o pesquisador estavam juntos em uma</p><p>sala, enquanto que o aluno era colocado</p><p>em outra sala, da qual não podia ser visto,</p><p>mas de onde podia ser ouvido. Para avaliar</p><p>o efeito de fatores situacionais, Milgram fez</p><p>alterações posteriores nas condições expe-</p><p>rimentais. Ele aumentou, por exemplo, a</p><p>proximidade entre o aluno e o professor, e</p><p>observou que, quanto mais próximo o alu-</p><p>no estava do professor, menor a tendência</p><p>do professor em obedecer ao pesquisador.</p><p>Contudo, na maioria das condições, os pro-</p><p>fessores concordavam em dar choques elé-</p><p>tricos nos alunos, mesmo quando eles grita-</p><p>vam em desespero. O mais interessante foi</p><p>que, em resposta a um questionário que foi</p><p>mandado meses depois aos participantes,</p><p>84% deles disseram que estavam extrema-</p><p>mente felizes em terem participado da pes-</p><p>quisa.</p><p>Como serão apresentados neste livro,</p><p>diversos outros temas investigados na psi-</p><p>cologia social se tornaram clássicos na área.</p><p>Dentre eles, outra tradição de pesquisa des-</p><p>tacada neste capítulo diz respeito ao precon‑</p><p>ceito e à discriminação. O tema do preconcei-</p><p>to e da discriminação possui uma dedicação</p><p>maior dos pesquisadores brasileiros, na</p><p>medida em que 22 pesquisadores indicam</p><p>que estudam gênero, raça e idade, objetos</p><p>diretamente relacionados ao preconceito e</p><p>à discriminação.</p><p>O preconceito refere -se a atitudes into-</p><p>lerantes, injustas ou negativas com relação a</p><p>um indivíduo simplesmente por que esse in-</p><p>divíduo pertence a um grupo, enquanto que</p><p>a discriminação refere -se a comportamentos</p><p>negativos, injustos ou agressivos com rela-</p><p>ção a membros de um grupo em particular.</p><p>Vários conceitos se relacionam à explicação</p><p>dos preconceitos e da discriminação.</p><p>Dentre esses conceitos, destaca -se a es‑</p><p>tereotipia. Estereótipos são “esquemas” diri-</p><p>gidos a grupos inteiros e contêm impressões</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 49</p><p>simplificadas, rígidas e generalizadas com</p><p>relação aos membros de tais grupos. Os es-</p><p>tereótipos têm um forte efeito na maneira</p><p>pela qual a informação social é processada:</p><p>a informação relacionada a um estereótipo</p><p>que foi ativado é processada mais rapida-</p><p>mente; as pessoas prestam mais atenção às</p><p>informações que são consistentes com seus</p><p>estereótipos; informações que são inconsis-</p><p>tentes com um estereótipo são normalmente</p><p>negadas ou refutadas. Embora o estereótipo</p><p>possa ser considerado como um processo</p><p>natural que previne contra uma sobrecarga</p><p>cognitiva, por meio da redução de grandes</p><p>quantidades de informação para um núme-</p><p>ro maneável de categorias, ele torna -se pro-</p><p>blemático – ou seja, leva ao preconceito e à</p><p>discriminação – quando os traços atribuídos</p><p>a um grupo são predominantemente negati-</p><p>vos, quando a pessoa que está estereotipan-</p><p>do é dogmática e não acomoda suas crenças</p><p>a novas informações, ou quando o estereóti-</p><p>po gera uma profecia autorrealizadora.</p><p>Os estereótipos podem ser mantidos</p><p>por vários processos, incluindo a correlação</p><p>ilusória, que é uma tendência a per ceber</p><p>uma forte relação entre duas variáveis,</p><p>normalmente distintas. A correlação ilusó-</p><p>ria contribui para a estereotipia quando se</p><p>supõe que uma característica negativa se</p><p>aplica a todos ou a grande parte dos mem-</p><p>bros de um grupo, porque essa característi-</p><p>ca foi exibida por um ou poucos membros</p><p>do grupo.</p><p>Já o conceito de personalidade auto‑</p><p>ritária foi introduzido após a Segunda</p><p>Guerra, por um grupo de cientistas inte-</p><p>ressados em antissemitismo (Adorno et al.,</p><p>1950). Segundo Adorno, o preconceito e a</p><p>discriminação estão relacionados a certas</p><p>características de personalidade, especial-</p><p>mente com o autoritarismo. Esses cientistas</p><p>criaram uma Escala F, ou escala de fascismo</p><p>(F Scale), que avalia nove componentes do</p><p>autoritarismo (p. ex., agressão autoritaris-</p><p>mo, superstição, estereótipos, etc.), sendo</p><p>que cada um desses componentes corres-</p><p>ponde a uma das funções do ego, superego</p><p>ou id. Segundo Adorno, altos níveis de auto-</p><p>ritarismo refletem um ego fraco, um supere-</p><p>go rígido e externalizado, e um id primitivo</p><p>e forte. Observou -se que um alto escore na</p><p>Escala F está associado ao preconceito, as-</p><p>sim como a intolerância por ambiguidade,</p><p>o conservadorismo político e social e um</p><p>clima de família que enfatiza uma ideologia</p><p>tradicional.</p><p>O preconceito e a discriminação tam-</p><p>bém estão associados à crença de que um</p><p>grupo representa uma ameaça direta ao</p><p>bem -estar de um indivíduo. Essa explicação</p><p>é reforçada pelo fato de que, historicamente,</p><p>os incidentes de violência racial aumentam</p><p>durante períodos de depressão econômica.</p><p>Sears (1988) desenvolveu a ideia de racismo</p><p>simbólico (ou moderno). Essa noção propõe</p><p>que o preconceito e a discriminação estão</p><p>menos fortes e presentes do que costuma-</p><p>vam estar, que eles realmente representam</p><p>uma forma de resistência às mudanças ra-</p><p>ciais, e que estão baseados em um sentimen-</p><p>to moral de que negros e outras minorias</p><p>violam valores tradicionais como a ética do</p><p>trabalho. Os racistas simbólicos negam seus</p><p>preconceitos e atribuem os problemas so-</p><p>ciais e econômicos dos grupos minoritários</p><p>a fatores internos (p. ex., pouco esforço ou</p><p>disciplina). Recentemente, a noção de racis-</p><p>mo moderno também tem sido aplicada ao</p><p>gênero. Segundo Swim (1995), o sexismo</p><p>moderno é caracterizado pela negação da</p><p>discriminação contra a mulher e pelo res-</p><p>sentimento com relação às demandas por</p><p>igualdade social.</p><p>Finalmente, em seu livro A Natureza</p><p>do Preconceito, Allport (1954) argumenta</p><p>que o preconceito intergrupal cresce de uma</p><p>combinação de fatores históricos, culturais,</p><p>econômicos, cognitivos e de personalidade,</p><p>e propõe que, uma vez que o preconceito</p><p>tem determinantes múltiplos, o enfoque em</p><p>apenas um deles não vai levar a uma com-</p><p>preensão ou resolução total do problema.</p><p>Allport nota, contudo, que as várias causas</p><p>do preconceito são internalizadas pelo indi-</p><p>víduo e, consequentemente, é o indivíduo</p><p>que se engaja em práticas discriminatórias,</p><p>podendo este aprender</p><p>a agir de maneiras</p><p>mais igualitárias e não discriminatórias. Em</p><p>termos de intervenções, Allport sugere que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>50 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>nem sempre o “senso comum” deve preceder</p><p>o “senso de direito”, e que leis que proíbam</p><p>a discriminação podem ser eficazes mesmo</p><p>quando não refletem o consenso público.</p><p>Além do preconceito e da discrimina-</p><p>ção, outro tema bastante investigado e que</p><p>será bem detalhado no presente livro são os</p><p>estudos sobre atribuição de causa. O termo</p><p>atribuição se refere ao processo de deter-</p><p>minar ou inferir a razão pela qual um com-</p><p>portamento ocorre. Uma importante parte</p><p>do trabalho sobre atribuição foi feita por</p><p>Heider (1958), cuja teoria sugere que nós</p><p>naturalmente desenvolvemos teorias sobre</p><p>as causas do comportamento. A pesquisa</p><p>desenvolvida por Heider e outros acadê-</p><p>micos mostrou que as atribuições de causa</p><p>podem ser descritas em termos de algumas</p><p>dimensões. Essas dimensões formam de fato</p><p>uma taxonomia, que pode ser utilizada para</p><p>entender ou atribuir causas do comporta-</p><p>mento. Assim, o comportamento pode ser</p><p>atribuído a características disposicionais</p><p>(internas) do indivíduo, assim como o hu-</p><p>mor, as habilidades ou o desejo, ou também</p><p>pode ser atribuído a fatores situacionais (ex-</p><p>ternos), tais como características da tarefa,</p><p>da situação social ou do ambiente físico. As</p><p>reações humanas podem ser, ainda, o resul-</p><p>tado de fatores percebidos como estáveis ou</p><p>constantes, ou de fatores instáveis ou tem-</p><p>porários. Além disso, os indivíduos perce-</p><p>bem que alguns comportamentos têm efei-</p><p>tos específicos (que envolvem um número</p><p>limitado de eventos, condições ou outros fe-</p><p>nômenos), enquanto que outros têm conse-</p><p>quências globais (ou seja, afetam uma gran-</p><p>de variedade de fenômenos). Finalmente, as</p><p>pessoas entendem que algumas causas do</p><p>comportamento estão sob o controle do in-</p><p>divíduo (p. ex., esforço, atenção), enquanto</p><p>que outras são incontroláveis (p. ex., apti-</p><p>dão, sorte). Esses critérios, segundo Heider,</p><p>são responsáveis por atribuições de culpa</p><p>aos atores do comportamento, ou então à</p><p>alocação de recompensas aos mesmos.</p><p>Um achado consistente da pesquisa so-</p><p>bre atribuição de causa é que observadores</p><p>tendem a superestimar o papel dos fatores</p><p>disposicionais e ignorar o papel dos fatores</p><p>situacionais quando eles estão inferindo a</p><p>causa do comportamento de um indivíduo.</p><p>Por exemplo, um observador tende a atri-</p><p>buir o fracasso de um indivíduo na execução</p><p>de uma tarefa mais como um resultado da</p><p>falta de inteligência ou habilidade do indiví-</p><p>duo do que como um resultado de uma ca-</p><p>racterística da tarefa em si (isto é, da dificul-</p><p>dade). Essa falha na atribuição é conhecida</p><p>como erro fundamental de atribuição, e tem</p><p>sido usada na explicação de vários fenôme-</p><p>nos, tais como as atribuições defensivas da</p><p>crença em um mundo justo – tendência que</p><p>as pessoas têm em considerar a vítima como</p><p>a causa de seu próprio infortúnio (Lerner,</p><p>1966).</p><p>Notem, porém, que as pesquisas na</p><p>perspectiva da psicologia transcultural so-</p><p>bre atribuição de causa sugerem que a ten-</p><p>dência a superestimar o papel dos fatores</p><p>disposicionais é uma característica limitada</p><p>a culturas individualistas (p. ex., países do</p><p>Norte Europeu, Estados Unidos). Pesquisas</p><p>desenvolvidas com culturas mais coletivis-</p><p>tas (p. ex., China, Índia) encontraram que</p><p>os membros dessas culturas tendem a fa-</p><p>zer atribuições mais situacionais. Segundo</p><p>Morris e Peng (1994), essas diferenças se</p><p>relacionam às teorias implícitas sobre o</p><p>comportamento social: enquanto as culturas</p><p>individualistas adotam uma teoria sobre o</p><p>comportamento social centrada na pessoa,</p><p>as culturas coletivistas tendem a aderir a</p><p>uma teoria centrada na situação.</p><p>Assim, é importante agora elaborar</p><p>um pouco mais sobre o conceito de culturas</p><p>individualistas e coletivistas, além do papel</p><p>da psicologia transcultural na explicação</p><p>desses termos. A presença de temas como</p><p>cultura e diversidade (12 pesquisadores) e</p><p>valores humanos e cultura (12 pesquisado-</p><p>res) mostram que os pesquisadores estão</p><p>descobrindo essa perspectiva de pesquisa no</p><p>Brasil. Tal perspectiva reflete uma tendên-</p><p>cia internacional de realização de pesquisas</p><p>transculturais.</p><p>Conforme dito anteriormente, todas (e</p><p>outras) pesquisas clássicas da psicologia so-</p><p>cial trazem em si uma similaridade: a maio-</p><p>ria delas foi originalmente desenvolvida em</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 51</p><p>países individualistas. É interessante notar,</p><p>contudo, que o simples fato de essas pesqui-</p><p>sas terem sido originadas em países indivi-</p><p>dualistas faz com que elas tragam consigo</p><p>um viés também individualista, que se refle-</p><p>te nos sujeitos recrutados para as pesquisas,</p><p>na escolha de método utilizado, e até mes-</p><p>mo no próprio fenômeno estudado. O que</p><p>talvez seja mais interessante de se observar</p><p>é que tudo isso ocorre pelo simples fato de</p><p>que esses pesquisadores também carregam</p><p>consigo características individualistas! Ora,</p><p>é claro que todas as manifestações culturais</p><p>desse tipo (como, por exemplo, o individu-</p><p>alismo) são parte de um fenômeno social</p><p>maior, a cultura. Se a cultura pode ser en-</p><p>tendida como lentes que distorcem a reali-</p><p>dade e nossa compreensão do mundo, então</p><p>é importante perguntarmos até que ponto</p><p>essas pesquisas e seus resultados têm apli-</p><p>cação direta a outros grupos, assim como</p><p>as culturas coletivistas, das quais o Brasil</p><p>é um exemplo citado na literatura (p. ex.,</p><p>Triandis, 1995).</p><p>Mas, afinal, o que são essas “mani-</p><p>festações culturais” citadas anteriormente?</p><p>Para que possamos discuti -las, é necessário</p><p>antes entender o que está por trás do con-</p><p>ceito de cultura. O conceito de cultura vem</p><p>sendo profundamente discutido por mui-</p><p>tos autores (p. ex., Hofstede, 1993; Smith</p><p>e Bond, 1999; Triandis, 1994) que acabam</p><p>por defini -lo de forma diferente e, em al-</p><p>guns casos, complementar. O dicionário da</p><p>Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de</p><p>Holanda apresenta uma definição de cul-</p><p>tura bastante geral e que, de certo modo,</p><p>representa uma síntese das diversas defi-</p><p>nições existentes na literatura científica.</p><p>Nele, a cultura é apresentada como “com-</p><p>plexo dos padrões de comportamento, das</p><p>crenças, das instituições e de outros valores</p><p>espirituais e materiais transmitidos coletiva-</p><p>mente e característicos de uma sociedade”.</p><p>Essa noção parece ser complementar àquela</p><p>apresentada por Kluckhohn (1962), de que</p><p>a variável cultura pode ser dividida entre</p><p>elementos objetivos (expresso nos artefatos</p><p>produzidos por grupos sociais) e subjetivos</p><p>(valores, crenças e normas desses grupos).</p><p>Seguindo a proposta de Kluckhohn, parece</p><p>claro que o maior interesse da psicologia</p><p>social esteja nos elementos subjetivos da</p><p>cultura. Todavia, vários são esses elementos</p><p>subjetivos, o que acaba por tornar o concei-</p><p>to muito amplo para a utilização científica.</p><p>Esse ponto tem sido discutido por diversos</p><p>autores (p. ex., Smith, Bond e Kagitçibasi,</p><p>2006), que defendem o “desempacotamen-</p><p>to” do conceito de cultura, ou seja, a ne-</p><p>cessidade de se identificar, precisar e isolar</p><p>esses elementos subjetivos para que, então,</p><p>eles possam ser utilizados como variáveis de</p><p>pesquisa.</p><p>Em um esforço para “desempacotar”</p><p>(Smith e Bond, 1999) a cultura, além de</p><p>identificar estruturas valorativas que permi-</p><p>tam o estabelecimento de uma diferenciação</p><p>entre as culturas, Geert Hofstede coletou</p><p>dados em mais de 50 países, investigando</p><p>a experiência de trabalho, a estabilidade, a</p><p>formação de equipes e outras variáveis li-</p><p>gadas ao contexto organizacional. Uma das</p><p>mais importantes descobertas de seu estu-</p><p>do é que a cultura pode ser utilizada como</p><p>uma variável causal e preditora. Sua pesqui-</p><p>sa demonstrou que os povos têm intenções</p><p>diferentes, dão atribuições diferentes para a</p><p>mesma situação e até mesmo se comportam</p><p>de maneira diferente por causa do grupo</p><p>cultural do qual fazem parte. Para Triandis</p><p>(1994), as pesquisas de Hofstede fornecem</p><p>um conjunto</p><p>de padrões de comparação por</p><p>meio dos quais outros estudos podem ser</p><p>organizados conceitualmente. Smith, Bond</p><p>e Kagitçibasi (2006) também ressaltam que,</p><p>no trabalho de Hofstede, a cultura nacional</p><p>é conceituada em termos de seu significado,</p><p>o que tornou apropriado o estudo das cultu-</p><p>ras por meio do levantamento dos valores</p><p>em amostras representativas dos membros</p><p>de cada uma dessas culturas.</p><p>Em seu trabalho, Hofstede (1980, 1983,</p><p>1984, 1991, 1993) identificou a variação de</p><p>quatro dimensões culturais. Essas quatro di-</p><p>mensões são: masculinidade -femininidade,</p><p>evitação das incertezas, distância do poder</p><p>e individualismo -coletivismo. Discussões</p><p>extensas e revisões sobre essas dimensões</p><p>são apresentadas por Smith e Bond (1999),</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>52 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Smith, Bond e Kagitçibasi (2006) e Torres</p><p>(2009), dentre outros. Aqui, nós nos limi-</p><p>taremos a apresentar uma breve descrição</p><p>dessas dimensões, relacionando -as aos obje-</p><p>tivos deste capítulo.</p><p>A masculinidade é encontrada em so-</p><p>ciedades que têm uma grande diferenciação</p><p>sexual, enquanto a feminilidade é uma ca-</p><p>racterística de culturas em que a diferen-</p><p>ciação sexual é mínima. Hofstede (1980)</p><p>também encontrou que países femininos en-</p><p>fatizam mais a qualidade de vida do que o</p><p>investimento em uma carreira ou no traba-</p><p>lho, enquanto que o contrário é verdadeiro</p><p>para culturas masculinas. Já a evitação das</p><p>incertezas, a segunda dimensão, é refletida</p><p>em uma ênfase nos comportamentos rituais,</p><p>nas regras e na estabilidade no emprego. O</p><p>autor observou altos índices de evitação das</p><p>incertezas em culturas que apresentam altos</p><p>níveis de estresse, e que se correlacionam</p><p>negativamente com a necessidade de alcan-</p><p>ce de metas. Hofstede observou que países</p><p>com alta evitação das incertezas tendem a</p><p>ser mais ideológicos e menos pragmáticos</p><p>no que se refere à tomada de decisão do que</p><p>países com baixa evitação das incertezas.</p><p>A distância do poder, sua terceira di-</p><p>mensão, se refere à extensão em que mem-</p><p>bros de uma cultura aceitam a desigualda-</p><p>de de poder e o quanto eles percebem a</p><p>distância entre aqueles com poder (p. ex.,</p><p>chefes) e aqueles com pouco poder (p. ex.,</p><p>subordinados). A distância do poder reflete</p><p>a base sobre a qual o líder tem poder sobre</p><p>o subordinado (Smith e Bond, 1999). Em</p><p>culturas com alta distância do poder, as re-</p><p>gras e as normas sociais são construídas pe-</p><p>los superiores e determinadas pelos líderes.</p><p>Em culturas com baixa distância do poder,</p><p>as regras tendem a ser consensuais, e, logo,</p><p>os subordinados estão mais diretamente en-</p><p>volvidos em sua elaboração. É interessan-</p><p>te notar que, quanto maior a distância do</p><p>poder, maior a conformidade em torno de</p><p>uma norma social (Smith, Dugan, Peterson</p><p>e Leung, 1998).</p><p>Finalmente, o individualismo -coleti-</p><p>vis mo, a outra dimensão identificada por</p><p>Hofstede, reflete a extensão na qual os gru-</p><p>pos enfatizam metas pessoais ou grupais.</p><p>Hofstede (1983) observou que membros</p><p>de culturas individualistas tendem a se fo-</p><p>car “em seu próprio trabalho”, enquanto</p><p>que membros de culturas coletivistas dão</p><p>preferência às metas grupais. Para Singelis,</p><p>Triandis, Bhawuk e Gelfand (1995), o com-</p><p>portamento social em culturas coletivistas</p><p>é mais bem predito por normas sociais e</p><p>obrigações, enquanto que, em culturas indi-</p><p>vidualistas, o comportamento social é mais</p><p>bem predito por atitudes e outros proces-</p><p>sos internos. Smith e Schwartz (1997) en-</p><p>contraram evidências empíricas para essa</p><p>afirmação. Alguns autores (p. ex., Triandis,</p><p>1995) propõem que a dimensão cultural</p><p>individualismo -coletivismo é essencial para</p><p>a análise de uma cultura, e um grande nú-</p><p>mero de pesquisas (p. ex., Egri e Herman,</p><p>2000; Triandis e Gelfand, 1988) demonstra-</p><p>ram a influência dessa dimensão no compor-</p><p>tamento de membros de um grupo cultural.</p><p>Outro esforço de desempacotamento</p><p>da cultura foi realizado por uma série de es-</p><p>tudos desenvolvidos por Shalom Schwartz</p><p>e colaboradores. Esses estudos (p. ex.,</p><p>Schwartz, 1994) identificaram 56 valores e</p><p>construíram um questionário no qual os res-</p><p>pondentes devem indicar o quanto cada um</p><p>desses valores age como um princípio guia</p><p>de suas vidas. Até esta data, respostas indi-</p><p>viduais foram obtidas em mais de 80 paí-</p><p>ses, incluindo todas as regiões do mundo.</p><p>Quando analisados em termos de culturas</p><p>nacionais, os resultados demonstram, com</p><p>notável consistência, que as relações espa-</p><p>ciais das médias dos itens podem ser suma-</p><p>rizadas como pertencentes a 7 domínios ou</p><p>dimensões. Schwartz nomeou essas dimen-</p><p>sões como: igualitarismo, conservadorismo,</p><p>hierarquia, domínio, autonomia afetiva e</p><p>autonomia intelectual. É importante notar,</p><p>ainda, que os estudos dessas dimensões de-</p><p>monstraram que sua estrutura é consistente</p><p>em diferentes culturas, ou seja, que a mes-</p><p>ma relação estrutural dos valores se repete</p><p>nas diferentes culturas pesquisadas.</p><p>Estudos como o de Hofstede e</p><p>Schwartz nos dizem que as culturas podem</p><p>ser entendidas em termos de significados e</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 53</p><p>que, por isso, é apropriado estudá -las por</p><p>meio da avaliação dos valores de amostras</p><p>representativas de membros de cada cultu-</p><p>ra. Vale reforçar, porém, que, pelo fato de</p><p>duas nações se diferirem em termos de uma</p><p>dada dimensão de valores, não é lógico se</p><p>inferir que, porque essas duas culturas se</p><p>diferenciam dessa forma, então quaisquer</p><p>dois membros dessas culturas também irão</p><p>se diferenciar da mesma maneira. O nível</p><p>de análise cultural não pode ser perpassa-</p><p>do para o nível de análise individual. Além</p><p>disso, as pesquisas de Hofstede e Schwartz</p><p>também demonstraram que há significados</p><p>consistentes entre culturas. As polaridades</p><p>que emergiram do estudo de Schwartz (con-</p><p>servadorismo versus autonomia; domínio e</p><p>hierarquia versus igualitarismo) podem ser</p><p>entendidas como fortes reminiscentes das</p><p>dimensões de Hofstede de individualismo-</p><p>-coletivismo e distância do poder, respecti-</p><p>vamente.</p><p>Todavia, talvez um dos pontos mais</p><p>importantes a ser frisado sobre todas essas</p><p>dimensões é que elas não são absolutas. Em</p><p>outras palavras, nenhuma cultura pode ser</p><p>classificada simplesmente como individua-</p><p>lista ou hierárquica. Uma cultura tem alto</p><p>grau de individualismo ou de hierarquia em</p><p>relação a outra cultura. Tais manifestações</p><p>culturais são, dessa forma, puramente re-</p><p>lacionais. O Brasil, por exemplo, pode ser</p><p>considerado como coletivista em relação</p><p>aos Estados Unidos, mas, seguramente, é</p><p>individualista quando comparado à nossa</p><p>vizinha Colômbia (Hofstede, 1984). Já na</p><p>teoria de Schwartz, quando comparado à</p><p>Europa Ocidental, o Brasil tem altos es cores</p><p>em hierarquia e baixos em autonomia in-</p><p>telectual. Quando comparado aos Estados</p><p>Unidos, o Brasil também apresenta maio-</p><p>res escores em autonomia intelectual, com</p><p>os EUA apresentando maiores escores em</p><p>autonomia afetiva. A dimensão de domínio</p><p>parece ser maior para os EUA, enquanto o</p><p>Brasil apresenta maior escore para harmo-</p><p>nia. Todavia, quando comparado a países</p><p>da Ásia, da África e do Oriente Médio, o</p><p>Brasil apresenta uma posição praticamente</p><p>inversa!</p><p>Esse tipo de comparação e estudo é</p><p>o mote da psicologia transcultural, que,</p><p>conforme citado anteriormente, é uma das</p><p>abordagens da psicologia social que vem</p><p>ganhando reconhecimento na comunidade</p><p>acadêmica brasileira. Os psicólogos trans-</p><p>culturais, tradicionalmente, trabalham com</p><p>ferramentas como questionários, escalas e</p><p>entrevista/observação estruturada e têm</p><p>uma predominância quantitativa em suas</p><p>análises e opções metodológicas, as quais,</p><p>com uma orientação empírica, objetivam a</p><p>testagem de diferenças entre amostras de</p><p>nações e/ou grupos étnicos. Assim como</p><p>outros representantes da psicologia trans-</p><p>cultural no restante do mundo, os pesqui-</p><p>sadores brasileiros (ou seja, Alvaro Tamayo,</p><p>Valdiney Gouveia, Maria Cristina Ferreira,</p><p>Cláudio Torres, dentre outros) que têm</p><p>interesse nessa abordagem da psicologia</p><p>social, procuram tipicamente o estabeleci-</p><p>mento da variância explicada por valores</p><p>culturais. Também como seus colegas de</p><p>outros países, esses pesquisadores tendem</p><p>a publicar em revistas como o Journal of</p><p>Cross ‑Cultural Psychology da International</p><p>Association for Cross ‑Cultural Psychology,</p><p>embora revistas nacionais (p. ex., Brazilian</p><p>Administration Review – ANPAD; Revista</p><p>Psicologia: Organizações e Trabalho, da</p><p>SBPOT) também têm publicado artigos com</p><p>essa ênfase. Vale notar que os pesquisadores</p><p>representantes da psicologia transcultural</p><p>se diferenciam daqueles da psicologia inter-</p><p>cultural, uma vez que os representantes do</p><p>segundo grupo estão mais preocupados com</p><p>a relação interpessoal entre membros de di-</p><p>ferentes grupos culturais. Já os pesquisado-</p><p>res voltados para a psicologia cultural têm</p><p>uma preocupação maior com os processos</p><p>por meio dos quais a cultura é transmitida</p><p>entre os membros do grupo.</p><p>Finalmente, vale uma nota de alerta:</p><p>conforme destacado, grande parte da psi-</p><p>cologia social foi originalmente desenvol-</p><p>vida principalmente nos Estados Unidos e</p><p>no Reino Unido. Isso se reflete nos manuais</p><p>de psicologia social utilizados em diversos</p><p>cursos introdutórios em grandes centros</p><p>acadêmicos no mundo. O Manual de Baron</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>54 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>e Byrne (1994), talvez um dos livros -texto</p><p>mais utilizados nos Estados Unidos, contém</p><p>por volta de 1.700 citações. Todavia, ape-</p><p>nas um pouco mais de 100 delas se referem</p><p>a estudos desenvolvidos fora dos Estados</p><p>Unidos. Já o livro -texto de Hogg e Vaughan</p><p>(1995), um dos mais conhecidos e utiliza-</p><p>dos na Europa, contém mais de 500 citações</p><p>de estudos feitos fora dos Estados Unidos,</p><p>de um total de 2 mil referências utilizadas</p><p>na obra. Contudo, a maioria dessas 500</p><p>citações se refere a estudos conduzidos na</p><p>Europa Ocidental, na Austrália e na Nova</p><p>Zelândia, ou seja, todos países individua-</p><p>listas, pelo menos quando comparados à</p><p>América Latina! Esses dados demonstram a</p><p>urgente necessidade de que o leitor, ao bus-</p><p>car os conhecimentos da psicologia social,</p><p>também exercite a habilidade da tradução.</p><p>Mas não a tradução da língua inglesa, que,</p><p>afinal de contas, pode ser considerada como</p><p>a Língua Franca da área, ou o Latim dos</p><p>nossos tempos. O que é necessário é uma</p><p>tradução cultural. Nem tudo o que lemos e</p><p>estudamos pode ser diretamente aplicado a</p><p>nossa realidade. Nem tudo que é produzido</p><p>no, aproximadamente, um quinto do mundo</p><p>que é individualista é diretamente aplicável</p><p>aos quatro quintos restantes do mundo, que</p><p>é coletivista.</p><p>Além da perspectiva da psicologia</p><p>transcultural, a perspectiva sociológica e</p><p>antropológica e dos estudos que se funda-</p><p>mentam sobre a teoria das representações</p><p>sociais serão abordados neste livro, pois são</p><p>objeto de atenção de vários pesquisadores</p><p>sociais brasileiros, principalmente com uma</p><p>interface grande com a psicologia escolar</p><p>e educacional. Conforme retratado pelo</p><p>levantamento de temas, os temas história,</p><p>representações sociais e cultura (abordados</p><p>por 33 pesquisadores), estudos sobre vio-</p><p>lência (23 pesquisadores), construção social</p><p>da subjetividade (49 pesquisadores) e ativi-</p><p>dade, consciência, identidade, afetividade,</p><p>emoções, linguagem e pensamento sob a</p><p>perspectiva antropológica e sócio -histórica</p><p>(37 pesquisadores) são preponderantes no</p><p>contexto brasileiro.</p><p>Enfim, o objetivo deste livro é mostrar</p><p>as diversas tendências e temas presentes na</p><p>psicologia social no Brasil, alguns bastante</p><p>explorados, outros com possibilidades de</p><p>exploração ainda não tomadas por psicólo-</p><p>gos da área. Outra vocação do livro está na</p><p>apresentação das várias formas de estudo</p><p>da influência recíproca dos indivíduos e dos</p><p>ambientes sociais. Tal estudo muitas vezes</p><p>requer abordagens diferenciadas e respeito</p><p>ao conhecimento produzido pelo outro di-</p><p>ferente. Esperamos que os leitores aprovei-</p><p>tem!</p><p>reFerências</p><p>ADORNO, T.; FRENKEL-BRUNSWICK, K.; LEVIN-</p><p>SON, D.; SANDFORD, R. The Authoritarian Perso‑</p><p>nality. New York: Harper & Row, 1950.</p><p>AGUILAR, M. A.; REID, A. (Org.). Tratado de</p><p>psicologia social: Perspectivas socioculturales.</p><p>Barcelona: Anthropos, 2007.</p><p>ALLPORT, F. Social psychology. Psychological Bul‑</p><p>letin, v. 17, p. 85–94, 1920.</p><p>ALLPORT, F. Social psychology. Boston: Houghton</p><p>Mifflin, 1924.</p><p>ALLPORT, G. Personality: a psychological interpre-</p><p>tation. Oxford: Holt, 1937.</p><p>ALLPORT, G. W. The Nature of Prejudice. Reading:</p><p>Addison-Wesley, 1954.</p><p>ÁLVARO, J. L.; GARRIDO, A. Psicologia social:</p><p>Perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo:</p><p>McGraw-Hill, 2007.</p><p>ASCH, S. E. 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Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1984. v. 1-3.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>A psicologia social estuda a relação recípro-</p><p>ca entre o indivíduo e seu meio social: de</p><p>um lado, trata do impacto que as</p><p>pessoas</p><p>exercem em seus amigos, familiares, colegas</p><p>e até em desconhecidos. Por outro, estuda a</p><p>maneira como cada um de nos é influencia-</p><p>do pelos outros no que diz respeito a nossos</p><p>sentimentos, experiências e comportamen-</p><p>tos. Essa relação recíproca entre o indivíduo</p><p>e um dado meio social sempre diz respeito</p><p>a algum objeto, espaço, ideia, pessoa (a si</p><p>próprio, ao meio social ou a terceiros) so-</p><p>bre os quais se tem atitudes, experiências ou</p><p>disposições comportamentais. Este capítulo</p><p>trata de algumas das maneiras de se estudar</p><p>esse triângulo e de se chegar a explicações e</p><p>compreensões dos fenômenos da interação</p><p>social.</p><p>Como o conteúdo deste livro sugere,</p><p>a psicologia social estuda um grande nú-</p><p>mero de assuntos e envolve um número di-</p><p>versificado de abordagens metodológicas.</p><p>Entretanto, podemos afirmar que são três</p><p>os caminhos principais para se estudar e se</p><p>compreender o comportamento humano3</p><p>no contexto da psicologia social empírica:</p><p>1. observar o comportamento que ocorre</p><p>naturalmente no âmbito da vida real;</p><p>2. criar situações artificiais e registrar o com-</p><p>portamento diante de tarefas definidas</p><p>para estas situações;</p><p>3. perguntar às pessoas sobre o que fazem,</p><p>pensam ou experienciam acerca de algo</p><p>no passado, no presente ou no futuro.</p><p>Cada uma dessas três famílias de téc-</p><p>nicas para conduzir estudos empíricos – ob-</p><p>servação, experimento e levantamento de</p><p>dados – apresenta vantagens e desvantagens</p><p>distintas (Kish, 1987). Tais vantagens estão</p><p>ligadas à qualidade e à utilização dos dados</p><p>obtidos e devem ser consideradas pelo pes-</p><p>quisador quando este for escolher o método</p><p>mais apropriado para um determinado obje-</p><p>tivo de pesquisa. Não obstante as variações</p><p>dentro de cada uma dessas três grandes</p><p>áreas, podemos afirmar que o ponto forte</p><p>da observação é o realismo da situação estu-</p><p>dada; que o experimento possibilita tanto a</p><p>randomização de características das pessoas</p><p>estudadas quanto inferências causais; e que</p><p>o levantamento de dados, especialmente por</p><p>amostragem, isto é survey, assegura melhor</p><p>representatividade e permite generalização</p><p>para uma população além da estudada.</p><p>No presente capítulo, apresentamos</p><p>um tour d’horizon dessas principais manei-</p><p>ras de estudar a relação recíproca entre o in-</p><p>divíduo e o meio social. Como fio condutor,</p><p>consideramos uma série de pesquisas sobre</p><p>um mesmo tema – comportamento pró ‑social</p><p>– para demonstrar o uso de diferentes mé-</p><p>todos dentro da psicologia social, bem como</p><p>3</p><p>mÉtODOs De PesQUisa em PsicOLOGia sOciaL</p><p>1</p><p>Hartmut günther</p><p>Não é distante, somente parece como se fosse.</p><p>(Berra, 1998, p. 100)2</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 59</p><p>seus pontos fortes e fracos. Após delimitar o</p><p>fio condutor, comportamento pró -social, ini-</p><p>ciamos com observações gerais sobre pesqui-</p><p>sa social e tecemos algumas considerações</p><p>sobre procedimentos qualitativos e quanti-</p><p>tativos. A seguir, trataremos de análise de</p><p>conteúdo, de observações, de experimentos</p><p>e de levantamento de dados. Concluímos o</p><p>capítulo com algumas considerações sobre a</p><p>divulgação dos resultados de pesquisa.</p><p>o Fio condutor:</p><p>coMPortaMento Pró ‑social</p><p>enquanto obJeto de estudo</p><p>– O que faria se encontrasse um milhão</p><p>de dólares?</p><p>– Procurava encontrar a pessoa que</p><p>perdeu o dinheiro e, caso fosse pobre,</p><p>devolveria.</p><p>(Berra, 1998, p. 59)</p><p>O comportamento pró -social assume</p><p>muitas variantes. Pode ser material ou espi-</p><p>ritual, pode basear -se em altruísmo, egoís-</p><p>mo, reciprocidade ou aprendizagem de</p><p>normas sociais (Aronson, Wilson e Akert,</p><p>2002). É fácil verificar que as pessoas va-</p><p>riam quanto a sua disposição para ajudar</p><p>o outro. A variação está no ato em si: pas-</p><p>sar o sal na mesa fora do alcance do outro,</p><p>entregar um objeto que caiu despercebido,</p><p>oferecer o assento no ônibus lotado, deixar</p><p>um pedestre passar, desviar o caminho para</p><p>dar carona a alguém, doar sangue, dar con-</p><p>forto ao próximo, interferir em uma briga</p><p>para proteger aquele que parece ser o mais</p><p>fraco, para citar apenas alguns atos de aju-</p><p>da. Mas a variabilidade também está na ra-</p><p>pidez da resposta, na disposição de ajudar</p><p>a “qualquer” pessoa, ou somente determi-</p><p>nados indiví duos, na disposição de ajudar</p><p>sob “qualquer” circunstância, ou somente</p><p>em determinadas situações. Além do mais,</p><p>a decisão de ajudar dependerá</p><p>1. de fatores individuais: gênero, idade,</p><p>educação;</p><p>2. de fatores circunstanciais: hora, local,</p><p>tempo disponível;</p><p>3. de fatores sociais: a presença de outras</p><p>pessoas, isto é, alternativas de ajuda;</p><p>4. da avaliação do custo pessoal, por exem-</p><p>plo, no caso da interferência em uma</p><p>briga, qual a chance de ser bem -sucedido</p><p>ou de apanhar por sua vez, ou, até a ex-</p><p>pectativa de retribuição futura?</p><p>Até este ponto, fizemos uma reflexão</p><p>em nível de senso comum a respeito do tópico</p><p>em questão. Podemos prosseguir discutindo</p><p>o assunto com amigos ou colegas sem che-</p><p>garmos a conclusões que possam nos permi-</p><p>tir entender, predizer e controlar o compor-</p><p>tamento em questão. Para realizar pesquisa</p><p>de maneira sistemática na psicologia social,</p><p>devemos delimitar nosso assunto e chegar</p><p>a perguntas mais específicas. O processo de</p><p>delimitação implica que escolhemos entre as</p><p>possíveis razões mencionadas anteriormen-</p><p>te para realizar uma pesquisa sistemática.</p><p>Por exemplo, qual a relação entre gênero</p><p>e ajuda, levando em conta o esforço neces-</p><p>sário, as circunstâncias e o esforço exigido?</p><p>Importante, como primeiro passo, será uma</p><p>revisão da literatura sobre o tema.</p><p>Uma busca realizada em janeiro de</p><p>2008, usando somente a palavra -chave</p><p>helping behavior, produziu 2.286 referên-</p><p>cias a artigos em revistas científicas no site</p><p>www.scirus.com; aproximadamente 11 mil</p><p>referências diversas no site Google scholar;</p><p>934 referências a artigos no PsychInfo da</p><p>American Psychological Association e 16 no</p><p>site www.scielo.org, neste caso, com o ter-</p><p>mo equivalente em Português. Esse exemplo</p><p>aponta que o uso do termo -chave relacio-</p><p>nado ao conceito global de comportamento</p><p>pró -social já nos rende muitas indicações.</p><p>Repetir a busca com outros termos, tais</p><p>como pro ‑social behavior ou altruism, deverá</p><p>resultar em mais referências, além de dupli-</p><p>catas. Antes e além de delimitar as referên-</p><p>cias assim obtidas, seja em termos do tipo de</p><p>ajuda, do contexto, das pessoas envolvidas,</p><p>entre outros aspectos, é importante escolher</p><p>os termos -chave com cuidado: embora, nes-</p><p>te exemplo, ajuda, caridade, cortesia, apoio</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>60 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>e seus correspondentes em outras línguas</p><p>façam parte do conceito mais amplo chama-</p><p>do comportamento pró ‑social, começar com</p><p>um termo em vez de outro pode nos enca-</p><p>minhar em direções bastante distintas. Cabe</p><p>salientar que não é aconselhável limitar a</p><p>busca a estudos em um determinado inter-</p><p>valo de tempo (p. ex., os últimos 10 anos) e</p><p>rotular o que foi publicado antes de uma de-</p><p>terminada data de “velho” ou superado. No</p><p>caso concreto, ao usar o limite de 10 anos</p><p>estar -se -ia ignorando estudos importantes</p><p>realizados na década de 1960, como, por</p><p>exemplo, os estudos de Berkowitz e Daniels</p><p>(1964), Bryan e Test (1967), Darley e</p><p>Latané (1968), Epstein e Hornstein (1969)</p><p>ou Latané e Darley (1968).</p><p>alguMas observações gerais</p><p>sobre Pesquisa social</p><p>Você deve ter cuidado quando não sabe</p><p>para onde vai, porque pode ser que não</p><p>chegue lá. (Berra, 1998, p. 102)</p><p>Fenômenos sociais podem ser estuda-</p><p>dos a partir do referencial teórico e com mé-</p><p>todos de diferentes áreas do conhecimento.</p><p>A pesquisa social baseada em múltiplos mé-</p><p>todos tem uma longa tradição nas ciências</p><p>sociais. Em 1933, Lazarsfeld, Jahoda e Zeisel</p><p>publicaram um estudo sobre os desempre-</p><p>gados de Marienthal, um vilarejo perto de</p><p>Viena, Áustria. Os autores, respectivamente,</p><p>sociólogo com doutorado em matemática</p><p>aplicada, psicóloga social com doutorado</p><p>em psicologia geral e cientista social com</p><p>um doutorado em ciências sociais e outro</p><p>em direito, faziam</p><p>parte do centro de pes-</p><p>quisa em psicologia econômica. Neurath</p><p>(1983) observa que o que tornou esse tra-</p><p>balho um clássico “foi a então relativamente</p><p>nova combinação entre observação quali-</p><p>tativa e análise de dados qualitativos” (p.</p><p>124). Enquanto Mayring (2002) cita partes</p><p>do estudo de Lazarsfeld e colaboradores</p><p>como exemplos de diferentes vertentes da</p><p>abordagem qualitativa, o próprio Lazarsfeld</p><p>insistiu na combinação de vários métodos</p><p>(vide Lazarsfeld, 1944, p. 60).</p><p>O conceito exemplar deste capítulo,</p><p>comportamento pró ‑social, interessa tanto</p><p>à psicologia, pelo viés do comportamento</p><p>em nível individual, quanto, por exemplo,</p><p>à sociologia, no que se refere ao comporta-</p><p>mento cooperativo entre grupos, ou, ainda,</p><p>à ciência política no contexto de assistên-</p><p>cia internacional. Entretanto, não apenas</p><p>resultados encontrados em áreas de conhe-</p><p>cimentos correlatos acerca de um mesmo</p><p>tema contribuem para uma compreensão</p><p>mais aprofundada. Igualmente importan-</p><p>te é estar aberto para abordagens teóricas</p><p>e metodológicas diversas de uma mesma</p><p>área.</p><p>Duas palavras -chave caracterizam a</p><p>abordagem metodológica implícita no es-</p><p>tudo de Lazarsfeld e colaboradores: multi-</p><p>método e triangulação. O primeiro termo</p><p>dispensa definição, e o segundo é definido</p><p>por Vogt como “usando mais do que um mé-</p><p>todo para estudar a mesma coisa” (1993, p.</p><p>234). Podemos acrescentar, com Sommer e</p><p>Sommer (2002, p. 6), que usar procedimen-</p><p>tos múltiplos é melhor do que usar apenas</p><p>um, que múltiplos olhares dentro de uma</p><p>área como a psicologia social não somente</p><p>são desejáveis, mas se fazem necessários,</p><p>vez que constituem operações convergen-</p><p>tes (Webb, Campbell, Schwartz e Sechrest,</p><p>2000).</p><p>Começamos o capítulo com uma refe-</p><p>rência a Kish (1987) e a seu alerta de que,</p><p>ao escolher um ou outro método de pesqui-</p><p>sa, o pesquisador estará, necessariamente,</p><p>fazendo um compromisso em relação ao re-</p><p>sultado final de seu trabalho: aceita as van-</p><p>tagens e as desvantagens de um método em</p><p>vez destas de outro método. Implícito nessa</p><p>constatação é a recomendação de se utili-</p><p>zar mais de um método ao estudar um tema</p><p>qualquer, visto que, por si só, cada uma das</p><p>abordagens se mostra incompleta. Brewer</p><p>e Hunter (1989) afirmam que pesquisa de</p><p>campo, levantamento de dados, experimen-</p><p>tação e pesquisa não reativa constituem</p><p>os principais métodos das ciências sociais.</p><p>Indicando a possibilidade de, sempre que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 61</p><p>possível, adotar -se uma estratégia de pes-</p><p>quisa multimétodos, estes autores – como</p><p>Kish – apontam que:</p><p>interpretar os resultados de qualquer um</p><p>desses métodos é tarefa incerta na melhor</p><p>das hipóteses. A maior fonte de incerteza</p><p>é que qualquer estudo que utiliza apenas</p><p>um único tipo de método de pesquisa [...]</p><p>deixa de lado hipóteses rivais não testadas</p><p>[...] que colocam em questão a validade</p><p>dos achados do estudo. (p. 14)</p><p>Sommer e Sommer resumem diferen-</p><p>tes abordagens (veja Quadro 3.1) e apon-</p><p>tam, ainda, as seguintes vantagens de se</p><p>utilizar de mais de um método como pesqui-</p><p>sador: quando um procedimento não pode</p><p>ser utilizado por razões fora do controle do</p><p>pesquisador, ou por falta de recursos, em</p><p>termos de tempo, dinheiro ou número de</p><p>pessoas para realizar um determinado estu-</p><p>do, a utilização de mais de um método ofe-</p><p>rece flexibilidade ao lidar com dificuldades.</p><p>Mesmo havendo diferentes maneiras</p><p>de se usar os métodos para pesquisar fenô-</p><p>menos sociais, há alguns pontos em comum</p><p>que precisam ser levados em conta para se</p><p>aumentar a probabilidade de se chegar a re-</p><p>sultados úteis. Agregando as considerações</p><p>de Grunenberg (2001), de Mayring (2002),</p><p>de Miles e Huberman (1994), bem como</p><p>as de Steinke (2000) acerca de critérios de</p><p>qualidade de pesquisa social, seguem algu-</p><p>mas exigências – formuladas em termos de</p><p>perguntas – para uma análise sobre até que</p><p>ponto uma pesquisa pode ser considerada</p><p>de boa qualidade (Günther, 2006).</p><p>as perguntas da pesquisa</p><p>são claramente formuladas?</p><p>O primeiro passo para conduzir uma pes-</p><p>quisa é definir e delimitar a pergunta de</p><p>pesquisa. Quanto maior a clareza sobre o</p><p>que se quer saber, maior a chance de se</p><p>quadro 3.1</p><p>OPções De PesQUisa sOciaL</p><p>Problema abordagem técnica de pesquisa</p><p>Obter informação confiável sob condições estudar pessoas em experimento laboratorial,</p><p>controladas um laboratório simulação</p><p>Descobrir como as pessoas se comportam Observá ‑las Observação sistemática</p><p>em público</p><p>Descobrir como as pessoas se comportam solicitar que Documentos pessoas</p><p>na sua vida privada mantenham um diário</p><p>Descobrir o que as pessoas pensam Perguntar às pessoas entrevista, questionário,</p><p>escalas de atitudes</p><p>identificar traços de personalidade ou administrar um teste testes psicológicos</p><p>habilidades mentais estandardizado</p><p>identificar padrões em material escrito tabulação sistemática análise de conteúdo</p><p>ou visual</p><p>compreender um evento não usual investigação detalhada estudo de caso</p><p>e demorada</p><p>Descobrir o que as pessoas fizeram avaliar documentos Pesquisa de arquivos</p><p>no passado públicos</p><p>Referência: Sommer e Sommer (2002, p. 6)</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>62 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>obter êxito em uma pesquisa. Uma revi-</p><p>são de literatura sobre o assunto em ques-</p><p>tão ajuda no início de qualquer pesquisa.</p><p>Considerando -se nosso exemplo de com-</p><p>portamento pró -social, uma pergunta ge-</p><p>ral poderia ser: quem ajuda quem, como</p><p>e sob quais circunstâncias? Para chegar a</p><p>perguntas mais específicas, pesquisáveis, é</p><p>necessário operacionalizar as quatro partes</p><p>dessa pergunta geral: o quem ajuda pode</p><p>se referir a pessoas de determinado gênero,</p><p>idade, educação ou nível socioeconômico.</p><p>O quem recebe ajuda, idem. O como pode</p><p>variar em termos de prontidão, isto é, aju-</p><p>dar de maneira espontânea versus solicita-</p><p>do, generosa versus de forma avarenta. Já</p><p>as circunstâncias podem variar em termos</p><p>de ambiente ou do tipo de ajuda necessá-</p><p>ria. Desta maneira, podemos chegar a per-</p><p>guntas do tipo: “Os jovens ajudam mais aos</p><p>jovens do que aos idosos em situações de</p><p>emergência de rua?”, “Sob quais condições,</p><p>desconhecidos intervêm em um assalto?”,</p><p>“Os motoristas com carros com adesivos re-</p><p>ligiosos se mostram mais cordiais no trân-</p><p>sito?”</p><p>Operacionalizar variáveis</p><p>Após ter -se delimitado a pergunta, será ne-</p><p>cessário operacionalizar as variáveis por</p><p>meio das quais os conceitos serão pesqui-</p><p>sados. No exemplo anterior, os termos jo-</p><p>vens e idosos se referem a faixas etárias, e</p><p>podem ser operacionalizadas em termos de</p><p>idade em anos. O conceito ajudar é que pre-</p><p>cisa de uma definição e operacionalização</p><p>mais detalhada. O nível de ajuda, no caso</p><p>de um assalto, pode variar, por exemplo, en-</p><p>tre: gritar para chamar atenção de qualquer</p><p>um por perto, chamar alguém competente,</p><p>como a polícia, intervir pessoalmente. Outra</p><p>variável a definir seria a rapidez, isto é, o</p><p>tempo em segundos após a verificação da</p><p>existência de uma emergência. Outras variá-</p><p>veis que precisam ser operacionalizadas são</p><p>“situação de emergência!”: estamos falando</p><p>de quais emergências – agressão física, aci-</p><p>dente, desorientação, agressão verbal? No</p><p>caso de adesivos religiosos, que forma de</p><p>cordialidade seria esperada?</p><p>explicitou ‑se a teoria que pode</p><p>ser derivada dos dados e utilizada</p><p>em outros contextos?</p><p>Uma distinção importante entre pesquisa</p><p>de natureza qualitativa e exploratória ver‑</p><p>sus pesquisa quantitativa e inferencial é que</p><p>um objetivo central da primeira consiste na</p><p>tentativa de se chegar a uma teoria por meio</p><p>de um processo indutivo. Uma pesquisa de</p><p>cunho quantitativo e inferencial visa confir-</p><p>mar uma teoria já existente, representando,</p><p>assim, um processo dedutivo. Seja qual for</p><p>a natureza da pesquisa, é importante espe-</p><p>cificar qual a teoria que orienta nossa pes-</p><p>quisa, no caso de investigação quantitativa.</p><p>No caso de pesquisa qualitativa, é mais im-</p><p>portante, ainda, deixar explícito para o lei-</p><p>tor onde esperamos chegar ao realizar</p><p>uma</p><p>pesquisa exploratória.</p><p>o delineamento da pesquisa</p><p>é consistente com o objetivo</p><p>e as perguntas?</p><p>Como apontado acima, a escolha do delinea-</p><p>mento de pesquisa, isto é, a opção por uma</p><p>abordagem observacional, experimental, de</p><p>levantamento de dados ou uma análise de</p><p>conteúdo deve ser consequência da pergun-</p><p>ta de pesquisa a ser respondida. Não cabe</p><p>modificar uma pergunta para que esta se</p><p>adapte a um método preferido.</p><p>os construtos analíticos</p><p>foram bem explicitados?</p><p>Conceitos como altruísmo ou disposição para</p><p>ajudar são chamados construtos hipotéticos,</p><p>isto é, algo que existe teoricamente, mas não</p><p>é observável diretamente. Que alguém pode</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 63</p><p>ser considerado altruísta ou ter disposição</p><p>para ajudar é inferido a partir de observa-</p><p>ções de comportamento diretos – no caso,</p><p>vendo este alguém concretamente ajudando</p><p>alguém, ou indiretos – analisando as respos-</p><p>tas numa escala de atitudes, por exemplo.</p><p>Assim, a questão que se coloca é: o compor-</p><p>tamento observado ou as atitudes expressas</p><p>permitem inferências acerca do altruísmo</p><p>ou da disposição de ajudar?</p><p>os procedimentos metodológicos</p><p>são bem documentados?</p><p>Todos os passos de uma pesquisa precisam</p><p>ser descritos e explicitados. Quem foram as</p><p>pessoas observadas, entrevistadas, partici-</p><p>pantes dos experimentos? Quais foram os</p><p>instrumentos e equipamentos utilizados?</p><p>Quais foram os procedimentos para a cole-</p><p>ta de dados? A descrição dos participantes</p><p>precisa ser suficientemente completa para</p><p>que se possa saber como foram recrutadas</p><p>e quais suas características. O detalhamento</p><p>dos instrumentos e dos procedimentos deve</p><p>permitir que outros pesquisadores possam</p><p>replicar o estudo. Há de se observar, en-</p><p>tretanto, que estudos fora do laboratório</p><p>sempre sofrerão do fator “circunstâncias</p><p>sócio -históricas”, razão pela qual não são to-</p><p>talmente replicáveis (Gergen, 1973). Ainda</p><p>assim, descrever o método usado em uma</p><p>pesquisa permite ao leitor avaliar as inter-</p><p>pretações dos dados oferecidas pelo autor e</p><p>considerar possíveis explicações alternativas</p><p>– veja “A discussão dos resultados” a seguir.</p><p>os instrumentos</p><p>são fidedignos e válidos?</p><p>Há várias maneiras de registrar comporta-</p><p>mento: ficha de observação, check ‑list, esca-</p><p>la de atitudes, testes de competência, para</p><p>mencionar as mais importantes. Esses ins-</p><p>trumentos têm em comum o objetivo de re-</p><p>gistrar e, assim, refletir de maneira mais fiel</p><p>o comportamento sob investigação. Nesse</p><p>sentido, precisam satisfazer dois critérios de</p><p>qualidade: fidedignidade e validade, sendo</p><p>que o segundo não existe sem o primeiro.</p><p>Fidedignidade</p><p>Fidedignidade diz respeito à consistência</p><p>da medição repetida de um mesmo objeto</p><p>sob circunstâncias semelhantes (Vogt, 1993;</p><p>Yarenko, Harari, Harrison e Lynn, 1986).</p><p>Uma balança poderia ser considerada fide-</p><p>digna se, pesando um mesmo objeto várias</p><p>vezes, indicasse o mesmo peso. Medidas</p><p>psicológicas, que, por parte do medidor, exi-</p><p>gem interpretação de eventos, como seria o</p><p>caso de uma observação, ou que, por parte</p><p>da pessoa avaliada, permitem um processo</p><p>de aprendizagem, como seria o caso de um</p><p>teste de conhecimento, correm o risco de ser</p><p>menos fidedignas. Medidas psicológicas cuja</p><p>aplicação e interpretação não dependem da</p><p>competência do aplicador e que contêm re-</p><p>gistros (perguntas, itens, observações) es-</p><p>tandardizados tendem a ser mais fidedignas</p><p>– veja Pasquali (1999) para maiores deta-</p><p>lhes, inclusive maneiras de como calcular o</p><p>índex de fidedignidade que varia entre zero</p><p>e um.</p><p>Validade</p><p>Mesmo sendo fidedigno, um instrumento</p><p>não é, necessariamente, válido. Validade</p><p>trata da correspondência entre o que um</p><p>instrumento pretende medir e do constru-</p><p>to hipotético que está sendo investigado.</p><p>Mesmo se o balanço mencionado registre</p><p>de maneira fidedigna o peso em libra, não</p><p>seria um instrumento válido se o objetivo</p><p>fosse verificar o peso em quilogramas. Um</p><p>teste de conhecimento não seria válido</p><p>como instrumento para averiguar inteligên-</p><p>cia – (Campbell e Stanley, 1963). Há de se</p><p>salientar que, enquanto existem medidas</p><p>quantitativas e genéricas do grau de fide-</p><p>dignidade de um instrumento, a validade de</p><p>um instrumento representa um julgamento</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>64 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>essencialmente qualitativo e específico para</p><p>cada situação estudada.</p><p>adotaram ‑se regras explícitas</p><p>nos procedimentos analíticos?</p><p>os procedimentos analíticos</p><p>são bem documentados?</p><p>Os procedimentos de análise de dados preci-</p><p>sam ser, igualmente, explícitos e explicitados.</p><p>No caso de procedimentos quantitativos, tal</p><p>detalhamento frequentemente está implí-</p><p>cito no procedimento estatístico escolhido.</p><p>Entretanto, especialmente no caso de proce-</p><p>dimentos qualitativos, como, por exemplo,</p><p>uma análise de conteúdo, a explicitação e a</p><p>documentação de procedimentos analíticos</p><p>são indispensáveis. Novamente, tais explica-</p><p>ções fazem -se necessárias para que o leitor</p><p>possa acompanhar, compreender e, se for o</p><p>caso, replicar os passos analíticos.</p><p>os dados foram coletados em todos</p><p>os contextos e tempos e com todas as</p><p>pessoas sugeridas pelo delineamento?</p><p>A preocupação subjacente é a randomiza-</p><p>ção de contextos, tempos e pessoas. Espe-</p><p>cialmente no caso de pesquisa “exemplar”,</p><p>a partir da qual queremos realizar inferên-</p><p>cias acerca de outros ou “todos” os demais</p><p>contextos ou pessoas, devemos selecionar</p><p>alguns eventos ou pessoas que podem ser</p><p>considerados representativos. Como foi feita</p><p>tal seleção – randomicamente, sistematica-</p><p>mente, aleatoriamente, “a dedo”? Somente</p><p>quando tal seleção é feita randomicamente</p><p>podemos argumentar que nossos resultados</p><p>podem permitir inferências para outros con-</p><p>textos, tempos, pessoas além dos estudados.</p><p>Caso contrário, sempre fica a pergunta, “será</p><p>que o que foi encontrado não é um simples</p><p>reflexo daquela situação, daquele tempo,</p><p>daqueles participantes?” Se o procedimen-</p><p>to que tivermos selecionado der margem a</p><p>essa pergunta, a utilidade de nossos resulta-</p><p>dos de pesquisa estará comprometida.</p><p>Randomização</p><p>Assim sendo, uma questão fundamental de</p><p>qualquer pesquisa em pírica é se os resulta-</p><p>dos poderiam ter sido alcançados por acaso</p><p>ou se são consequência de algum artefato</p><p>de seleção. O livro clássico de Campbell e</p><p>Stanley (1963) continua sendo a referência</p><p>para verificar até que ponto um determina-</p><p>do delineamento, especialmente experimen‑</p><p>tal, pode ser considerado verdadeiramente</p><p>randômico ou não, e quais as implicações de</p><p>violar as pressuposições da randomização.</p><p>No caso de levantamento de dados, diferen-</p><p>tes planos de amostragem (Kish, 1965) po-</p><p>dem ajudar a tratar o problema da rando-</p><p>mização. No caso de estudos de observação,</p><p>bem como que utilizar técnicas de análise de</p><p>conteúdo, existem possibilidades de rando-</p><p>mizar situações, segmentos de observações</p><p>ou de textos.</p><p>o detalhamento da análise leva</p><p>em conta resultados não esperados</p><p>e contrários ao esperado?</p><p>A vantagem da abordagem experimental é</p><p>a de permitir maior controle sobre os pro-</p><p>cedimentos e as circunstâncias da pesqui-</p><p>sa, excluindo, assim, variáveis estranhas e</p><p>indesejáveis. Uma vez que tal delimitação</p><p>frequentemente resulta em pesquisa “artifi-</p><p>cial”, faz -se um contraste com a abordagem</p><p>observacional, que inclui explicitamente “to-</p><p>das” as variáveis de uma pesquisa (Günther,</p><p>2006). Mas, mesmo no caso de experimen-</p><p>tos, é necessário mostrar flexibilidade e re-</p><p>gistrar eventos inesperados. O exemplo pri-</p><p>mordial para tal flexibilidade é a pesquisa</p><p>de Pavlov, pesquisador de fisiologia que es-</p><p>tudou a salivação em cachorros. Quando se</p><p>deparou com reações inesperadas nos ani-</p><p>mais, mudou o rumo de suas investigações</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 65</p><p>e chegou a estudar o condicionamento con-</p><p>dicional, que seria chamado, posteriormen-</p><p>te, de condicionamento clássico (Boring,</p><p>1957).</p><p>a discussão dos resultados</p><p>considera</p><p>possíveis alternativas de interpretação?</p><p>Foi afirmado anteriormente que, quanto</p><p>mais específica a pergunta, quanto mais</p><p>detalhada a hipótese sob estudo, mais ex-</p><p>pectativas para uma determinada classe de</p><p>resultados. Mesmo assim, é importante não</p><p>fechar os olhos para explicações alternati-</p><p>vas, especialmente quando os resultados</p><p>encontrados não correspondem ao espera-</p><p>do. Por outro lado, é importante precaver -se</p><p>contra resultados incongruentes em termos</p><p>das teorias conhecidas. Não vale argumen-</p><p>tar que a ciência “tradicional” ou os méto-</p><p>dos positivistas não conseguem dar conta</p><p>dos resultados não usuais encontrados.</p><p>os resultados estimulam ações –</p><p>básicas e aplicadas – futuras?</p><p>Existe uma longa discussão acadêmica sobre</p><p>a importância relativa da pesquisa dita apli-</p><p>cada versus a pesquisa básica. Sem querer</p><p>alongar essa temática neste momento, cabe</p><p>citar a observação de Lewin acerca do as-</p><p>sunto:</p><p>O maior calcanhar -de -aquiles da psico-</p><p>logia aplicada tem sido o fato de que,</p><p>sem ajuda teórica apropriada, ela teve</p><p>de seguir o método dispendioso, inefi-</p><p>ciente e limitado de ensaio e erro. Muitos</p><p>psicólogos que trabalham hoje em dia</p><p>em um campo aplicado têm consciência</p><p>aguçada de uma cooperação estreita en-</p><p>tre a psicologia teórica e a aplicada. Isto</p><p>pode ser conseguido na psicologia, como</p><p>aconteceu na física, se o teórico não trata</p><p>dos problemas aplicados com pretensiosa</p><p>antipatia ou com medo de problemas</p><p>sociais; e se o psicólogo aplicado se der</p><p>conta de que não existe nada mais prático</p><p>do que uma boa teoria. (1997, p. 288)</p><p>Participantes da pesquisa</p><p>Definida a pergunta da pesquisa e especi-</p><p>ficadas as características dos participantes,</p><p>precisa -se refletir sobre o acesso à amostra</p><p>de pessoas. Onde e como serão recrutados?</p><p>No caso de observação do comportamento,</p><p>em que locais serão feitas as observações?</p><p>As pessoas vão saber que estão sendo obser-</p><p>vadas? No caso de um experimento, onde</p><p>serão recrutados os participantes? No caso</p><p>de entrevistas, questionários ou aplicação</p><p>de escalas e testes, onde e como as pessoas</p><p>serão abordadas ou recrutadas: na rua, em</p><p>locais como shoppings, escolas, rodoviárias,</p><p>em seus locais de trabalho ou em suas ca-</p><p>sas? Caso as características pessoais – como</p><p>gênero, idade, educação, natureza do traba-</p><p>lho – sejam parte da pergunta de pesquisa,</p><p>é necessário ter acesso a participantes com</p><p>determinadas características.</p><p>Procedimentos, instrumentos</p><p>e análise de dados</p><p>Mais do que simplesmente os participantes,</p><p>são os procedimentos e os instrumentos que</p><p>diferenciam as técnicas de pesquisa que se-</p><p>rão apresentadas a seguir. Não somente pre-</p><p>cisam ser escolhidas em função da pergunta</p><p>específica de uma pesquisa, mas também do</p><p>que é factível, e do tipo de inferência que</p><p>almejamos. O tipo de análise de dados, por</p><p>sua vez, é consequência direta da pergunta,</p><p>dos participantes e dos procedimentos.</p><p>análise dos resultados</p><p>O escopo deste capítulo não permite abor-</p><p>dar, em qualquer nível de profundidade, a</p><p>análise dos dados coletados durante a pes-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>66 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>quisa. Cabe fazer, inicialmente, uma distin-</p><p>ção entre estatística descritiva e inferencial.</p><p>A estatística descritiva relata a distribuição</p><p>dos dados por meio de tabelas e gráficos.</p><p>Tabelas apresentam frequências e percen-</p><p>tagens em termos numéricos, enquanto</p><p>gráficos permitem visualizar a distribuição</p><p>dos dados (Nicol e Pexman, 1999, 2003).</p><p>Entretanto, a distribuição de frequências, as</p><p>aparentes diferenças entre grupos ou even-</p><p>tuais relações estabelecidas por meio de ta-</p><p>belas e gráficos necessitam de uma resposta</p><p>à seguinte pergunta: aqueles resultados são</p><p>sistemáticos ou se chegou a eles por acaso?</p><p>Realizando poucas observações em um úni-</p><p>co local, dificilmente será possível fazer afir-</p><p>mações sobre o comportamento das pessoas</p><p>em geral. O mesmo ocorre se entrevistamos</p><p>apenas nossos amigos ou pessoas que estão</p><p>convenientemente disponíveis. É por meio</p><p>de estatísticas inferenciais que podemos sa-</p><p>ber até que ponto os resultados são sistemá-</p><p>ticos ou foram obtidos por acaso (Bisquerra,</p><p>Sarriera e Martínez, 2004; Dancy e Reidy,</p><p>2006; Siegel e Castellan, 2006).</p><p>abordageM quantitativa</p><p>versus qualitativa</p><p>Noventa por cento do jogo é 50% mental.</p><p>(Berra, 1998, p. 69)</p><p>Apontamos acima três caminhos prin-</p><p>cipais para realizar pesquisa no contexto</p><p>das ciências sociais: observação, experimen-</p><p>tos e levantamento de dados. Antes de tra-</p><p>tar cada um deles individualmente, convém</p><p>ressaltar o que eles têm em comum. O que</p><p>une os mais diversos métodos e técnicas de</p><p>pesquisa incluídos nessas três grandes famí-</p><p>lias de abordagem é o fato de todos partirem</p><p>de perguntas essencialmente qualitativas</p><p>(Günther, 2006). Qualquer pesquisa parte</p><p>da constatação de que as pessoas variam, se</p><p>comportam de maneira diferente. Isso traz</p><p>à tona a pergunta a respeito da razão pela</p><p>qual existe esta variabilidade. Como lidar</p><p>com ela? Quais as suas implicações? Estas</p><p>perguntas exigem, por sua vez, respostas</p><p>qualitativas. A variabilidade existe por essa</p><p>ou aquela razão. Tem essas ou aquelas im-</p><p>plicações. Na tentativa de se partir de uma</p><p>pergunta qualitativa e de se chegar a uma</p><p>resposta qualitativa, há dois caminhos, não</p><p>necessária e mutuamente excludentes: o de</p><p>procedimentos qualitativos e o de procedi-</p><p>mentos quantitativos.</p><p>Procedimentos qualitativos</p><p>Procedimentos qualitativos tendem a ser in-</p><p>dutivos e exploratórios: sem partir de hipó-</p><p>teses formais e explícitas, tenta -se construir</p><p>um referencial teórico a partir de dados</p><p>coletados essencialmente por meio de ob-</p><p>servações, incluindo, aqui, registros de com-</p><p>portamento, tais como documentos, diários,</p><p>filmes e gravações que registrem manifes-</p><p>tações humanas observáveis. Em segundo</p><p>lugar, a análise desses dados costuma ser</p><p>interpretativa, usando -se técnicas de análise</p><p>de discurso e de análise de conteúdo (Bauer</p><p>e Gaskell, 2002).</p><p>Os pesquisadores que usam métodos</p><p>qualitativos recorrem, frequentemente, à</p><p>clássica afirmação de Dilthey (1894) “expli-</p><p>camos a natureza, compreendemos a vida</p><p>mental” (Hofstätter, 1957, p. 315). Querem</p><p>salientar que visam compreender a vida</p><p>mental e, portanto, utilizam métodos – qua-</p><p>litativos – apropriados para a psicologia. Já</p><p>os pesquisadores que usam métodos quan-</p><p>titativos, argumentam que explicar e com-</p><p>preender não são processos antagônicos, e</p><p>que a vida mental faz parte dos fenômenos</p><p>naturais.</p><p>Procedimentos quantitativos</p><p>Para explicar o comportamento humano no</p><p>contexto da psicologia social, a abordagem</p><p>quantitativa tende a ser dedutiva e confir-</p><p>matória, partindo de uma teoria. Parte de</p><p>expectativas explícitas ou hipóteses formais</p><p>para verificar a existência de diferenças ou</p><p>relações nos fenômenos sociais, para testá-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 67</p><p>-las desta maneira. Em segundo lugar, não</p><p>se restringe a métodos observacionais, mas</p><p>tenta, sempre que possível, realizar a coleta</p><p>de dados, em qualquer dado contexto, de</p><p>maneira sistemática, e de tal forma que seja</p><p>possível recorrer a técnicas da estatística in‑</p><p>ferencial para questionar se os dados cole-</p><p>tados e analisados, bem como os resultados</p><p>aos quais se chegou dessa maneira são, de</p><p>fato, sistemáticos ou se poderiam ter sido</p><p>encontrados por acaso. Para chegarmos a</p><p>conclusões científicas, é desejável, se não</p><p>necessário, que possamos apontar a contri-</p><p>buição dos diferentes antecedentes ao com-</p><p>portamento de nosso interesse e eliminar os</p><p>acontecimentos randômicos e os obtidos por</p><p>acaso como possíveis explicações.</p><p>A seguir, apresentam -se quatro abor-</p><p>dagens de pesquisa, sendo duas de nature-</p><p>za mais descritiva – a análise de conteúdo</p><p>e a observação – e duas de natureza mais</p><p>inferencial – experimento e levantamento</p><p>de dados.</p><p>análise de conteúdo</p><p>Na realidade, não falei tudo aquilo que</p><p>eu disse. (Berra, 1998, p. 9)</p><p>A análise de conteúdo é uma entre vá-</p><p>rias técnicas</p><p>de pesquisa usadas para des-</p><p>crever e sistematizar o conteúdo de comuni-</p><p>cações pictóricas, escritas ou verbais (Vogt,</p><p>1993). A técnica pode ser utilizada com</p><p>material visual (filme, vídeo, desenhos, ilus-</p><p>trações, obras de artes plásticas), com ma-</p><p>terial impresso (jornais, revistas, livros, do-</p><p>cumentos pessoais) e com registros verbais</p><p>(entrevistas e questionários). Idealmente,</p><p>nos dois primeiros casos, a seleção do ma-</p><p>terial é randômica, embora frequentemente</p><p>sejam usadas amostras de conveniência, isto</p><p>é, material ao alcance do pesquisador.</p><p>No caso de nosso projeto hipotético/</p><p>ilustrativo sobre comportamento de aju-</p><p>da, imagine que colecionamos relatos de</p><p>ocorrências de ajuda nos jornais desde que</p><p>começamos a pensar em um estudo sobre</p><p>esse assunto, mesmo antes de efetuar uma</p><p>revisão sistemática da literatura especia-</p><p>lizada. Recortamos artigos sobre pessoas</p><p>que prestaram ajuda, avisamos a nossos</p><p>amigos que estávamos interessados no as-</p><p>sunto. Pedimos a eles que, sempre que en-</p><p>contrassem algo interessante, recortassem</p><p>tal notícia. Colecionamos não somente ar-</p><p>tigos sobre ajuda prestada, mas também</p><p>sobre ajuda negada. Quando chegamos a</p><p>um número razoável de artigos, decidimos</p><p>começar com a análise do conteúdo desses</p><p>artigos. Ressaltamos anteriormente que,</p><p>quanto maior clareza sobre o que queremos</p><p>saber, mais chance de êxito obteremos em</p><p>uma pesquisa. Entretanto, em um primeiro</p><p>momento de coleta de material documen-</p><p>tal, podemos coletar “qualquer” material</p><p>que encontramos, o que nos encaminharia</p><p>para procedimentos mais qualitativos, ou,</p><p>pelo menos, sem formular hipóteses especí-</p><p>ficas. Já em um segundo momento, quando</p><p>sabemos de fontes confiáveis para material</p><p>documental, é possível formular hipóteses e</p><p>buscar trechos de textos, desenhos ou ima-</p><p>gens de maneira sistemática.</p><p>Procedimentos</p><p>Os sujeitos nesta modalidade de pesquisa</p><p>não são pessoas propriamente ditas, mas</p><p>material produzido por ou sobre elas. Por</p><p>exemplo, no caso de relatos na imprensa es-</p><p>crita sobre eventos de ajuda prestada ou ne-</p><p>gada, os recortes constituem as unidades de</p><p>análise. Cada recorte descreve uma situação</p><p>e fala das pessoas envolvidas, do local, das</p><p>circunstâncias do evento. Assim, cada relato</p><p>pode ser classificado em termos de atribu-</p><p>tos, tais como fonte (nome do jornal), data,</p><p>confiabilidade da fonte e detalhamentos do</p><p>conteúdo.</p><p>O procedimento em si consiste na análi-</p><p>se do conteúdo dos artigos. Günther (2006)</p><p>apresenta uma sistematização dos procedi-</p><p>mentos de uma pesquisa qualitativa.</p><p>O instrumento para uma análise de</p><p>conteúdo pode ser um programa de com-</p><p>putação por meio do qual se sistematize e</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>68 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>analise o material coletado (p. ex., AtlasTI</p><p>ou MAXqda).</p><p>vantagens desse método</p><p>Observamos anteriormente que, “quanto</p><p>maior clareza sobre o que queremos saber,</p><p>mais chance de êxito em uma pesquisa”.</p><p>Entretanto, e especialmente no início de um</p><p>conjunto de pesquisas, existe menos clareza</p><p>sobre o que pode ser investigado no decor-</p><p>rer do projeto. Assim, nesse momento ini-</p><p>cial, uma abordagem mais aberta, especu-</p><p>lativa, pode ser mais útil para se começar a</p><p>entender um dado assunto. Cabe aqui uma</p><p>distinção feita por Kidder e Fine (1987) en-</p><p>tre a pesquisa qualitativa com a letra Q mai-</p><p>úscula, que envolve observação participante</p><p>e pesquisa de campo etnográfica. Pesquisa</p><p>qualitativa com a letra q minúscula, por ou-</p><p>tro lado, refere -se à coleta de dados aberta,</p><p>mas que faz parte de uma pesquisa estrutu-</p><p>rada em termos de objetivo e procedimento.</p><p>Em outras palavras, a vantagem da pesqui-</p><p>sa inicial, aberta, é a de dar apoio inicial a</p><p>ideias para pesquisas subsequentes.</p><p>desvantagens</p><p>Como frisamos anteriormente, ao tentar</p><p>chegar a explicações sobre fenômenos so-</p><p>ciais, deve -se atentar à pergunta “mas será</p><p>que os resultados foram obtidos na base de</p><p>eventos não randômicos?” Quanto maior o</p><p>número de eventos arquivais usados para a</p><p>análise de conteúdo, maior será a dificulda-</p><p>de de responder a essa pergunta de maneira</p><p>convincente.</p><p>observação</p><p>Você pode observar muito coisa só olhan-</p><p>do. (Berra, 1998, p. 95)</p><p>A vantagem da observação é estar</p><p>diante do comportamento que interessa, não</p><p>precisando falar com as pessoas sobre seus</p><p>pensamentos ou intenções. Além do mais,</p><p>não sendo um intruso, você não interfere</p><p>no comportamento, nem provoca reatância</p><p>nas pessoas observadas (Webb, Campbell,</p><p>Schwartz, Sechrest e Grove, 1981). Em ge-</p><p>ral, os estudos de observação não exigem</p><p>muito equipamento, mas sim tempo, já que</p><p>pode demorar até que surja o comportamen-</p><p>to de interesse. A seguir, comentaremos três</p><p>tipos de observação: informal, sistemática e</p><p>participante.</p><p>É por meio de observações informais</p><p>que registramos o que acontece em torno de</p><p>nosso meio social e ambiental. Sem catego-</p><p>rias preestabelecidas nem hipóteses formais,</p><p>esse tipo de observação se aproxima mais</p><p>dos estudos qualitativos. Tais observações</p><p>são importantes na fase inicial de qualquer</p><p>pesquisa e constituem a base para formular</p><p>perguntas sistemáticas acerca de determina-</p><p>do comportamento.</p><p>Em estudos de observação sistemática,</p><p>utiliza -se algum esquema de categorias para</p><p>classificar os comportamentos de interesse.</p><p>Os comportamentos podem ser enumerados</p><p>em termos de frequência, de intensidade, de</p><p>pessoas envolvidas (só, em díade ou grupo),</p><p>das características das pessoas, etc. Os re-</p><p>gistros podem ser realizados em planilhas,</p><p>check ‑lists, gravados ou filmados. Havendo</p><p>dois observadores, é possível verificar até</p><p>que ponto há concordância entre ambos.</p><p>Enquanto que em estudos de obser-</p><p>vações informais e sistemáticas as pessoas</p><p>observadas podem nem saber que são ob-</p><p>jetos de estudo, a observação participante</p><p>explicita que os sujeitos fazem parte de um</p><p>estudo e que estão sendo observados. O pes-</p><p>quisador torna -se parte da vida dos obser-</p><p>vados. Quando tal delineamento é factível,</p><p>o estudo se torna mais ético, à medida que</p><p>as pessoas do estudo sabem que estão sendo</p><p>observadas e por quem estão sendo observa-</p><p>das. Entretanto, a presença explícita de um</p><p>observador pode provocar reatância entre</p><p>os sujeitos da pesquisa, ficando a dúvida de</p><p>até que ponto as pessoas observadas estão</p><p>se comportando de maneira autêntica e não</p><p>encenando algum comportamento que acre-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 69</p><p>ditam ser o esperado por parte do pesquisa-</p><p>dor. Especialmente no caso de uma observa-</p><p>ção de duração mais longa, recomenda -se a</p><p>observação participante, já que a presença</p><p>demorada de um estranho desconhecido</p><p>pode provocar desconfiança e reatância,</p><p>pois os observados tendem a se acostumar</p><p>com o a presença do pesquisador conhecido</p><p>e o ignorarem mais facilmente.</p><p>exemplos de estudos observacionais</p><p>Conforme comentado anteriormente, os</p><p>estudos observacionais são custosos em</p><p>termos de tempo, já que podem demorar</p><p>até que o comportamento de interesse pos-</p><p>sa surgir. Diante desse problema, Silva e</p><p>Günther (2001) criaram “oportunidades de</p><p>ajudar” em um ônibus lotado, no sentido</p><p>de verificar quem entre os passageiros sen-</p><p>tados se ofereceria para segurar um pacote</p><p>de um passageiro em pé. Outros estudos</p><p>que criaram “oportunidades de ajudar”</p><p>para poder observar mais sistematicamen-</p><p>te eventuais comportamentos pró -sociais</p><p>são os de Levine e colaboradores (Levine</p><p>e Norenzayan, 1999; Levine, Norenzayan e</p><p>Philbrick, 2001).</p><p>um estudo hipotético</p><p>No caso de um estudo hipotético sobre com-</p><p>portamento pró -social, podemos pensar em</p><p>observar o comportamento dos pedestres</p><p>em um determinado trecho que apresenta</p><p>irregularidades, talvez buracos, impedi-</p><p>mentos por causa de uma construção ou</p><p>de carros mal estacionados. Qual seria o</p><p>comportamento de ajuda no sentido de dar</p><p>preferência a pessoas com problemas de lo-</p><p>comoção, ajudar mães com carinho de bebê</p><p>e situações semelhantes? Será que existem</p><p>alguns padrões de cortesia ou ajuda?</p><p>Procedimentos.</p><p>sUmáriO</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>Parte I</p><p>Fundamentação</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>introdução</p><p>A psicologia social é uma disciplina relati-</p><p>vamente recente, já que adquiriu tal status</p><p>apenas no começo do século XX, razão pela</p><p>qual alguns dos que contribuíram para a</p><p>construção de seu passado ainda estão vi-</p><p>vos e atuantes em suas respectivas áreas de</p><p>investigação. Um rápido exame dessa curta</p><p>história evidencia que, desde o início, essa</p><p>área da psicologia social foi marcada por</p><p>uma relativa falta de consenso acerca de seu</p><p>objeto de estudo. Ainda assim, é possível ob-</p><p>servar que o binômio indivíduo -sociedade,</p><p>isto é, o estudo das relações que os indiví-</p><p>duos mantêm entre si e com a sociedade ou</p><p>a cultura, esteve frequentemente no centro</p><p>das preocupações dos psicólogos sociais.</p><p>No entanto, a ênfase maior dada ao</p><p>indivíduo ou à sociedade irá acompanhar a</p><p>evolução da teorização no campo da psico-</p><p>logia social desde os seus primórdios, levan-</p><p>do à caracterização de duas diferentes mo-</p><p>dalidades da disciplina: a psicologia social</p><p>psicológica e a psicologia social sociológica.</p><p>A psicologia social psicológica, segundo a</p><p>definição de Gordon Allport (1954), que se</p><p>tornou clássica, procura explicar os senti-</p><p>mentos, pensamentos e comportamentos do</p><p>indivíduo na presença real ou imaginada de</p><p>outras pessoas. Já a psicologia social socio-</p><p>lógica, segundo Stephan e Stephan (1985),</p><p>tem como foco o estudo da experiência so-</p><p>cial que o indivíduo adquire a partir de sua</p><p>participação nos diferentes grupos sociais</p><p>com os quais convive. Em outras palavras,</p><p>os psicólogos sociais da primeira vertente</p><p>tendem a enfatizar principalmente os pro-</p><p>cessos intraindividuais, enquanto os da se-</p><p>gunda tendem a privilegiar as coletividades</p><p>sociais.</p><p>A história “oficial” da psicologia social</p><p>foi contada, durante muito tempo, nos ca-</p><p>pítulos dos Handbooks of Social Psychology,</p><p>escritos por Gordon Allport e sucessiva-</p><p>mente publicados nos anos de 1954, 1968</p><p>e 1985 com ligeiras modificações. Contudo,</p><p>o trabalho de Allport tem sofrido críticas</p><p>(Apfelbaum, 1992) associadas ao fato de</p><p>ser uma história parcial, que ressalta ape-</p><p>nas as raízes da psicologia social psicológi-</p><p>ca, procurando assim legitimar tão somente</p><p>os pressupostos teóricos e metodológicos</p><p>de parte da comunidade científica que atua</p><p>no âmbito dessa modalidade de psicologia</p><p>social. Publicações mais recentes (Álvaro e</p><p>Garrido, 2007; Farr, 1999; Jahoda, 2007;</p><p>Vala e Monteiro, 2004) têm procurado supe-</p><p>rar tais limitações ao abordar as raízes não</p><p>apenas da psicologia social psicológica, mas</p><p>também da psicologia social sociológica e de</p><p>outras vertentes que, ao longo do tempo, fo-</p><p>ram desenvolvendo -se em outras partes do</p><p>mundo, de forma independente da corrente</p><p>dominante que era praticada sobretudo nos</p><p>Estados Unidos.</p><p>O presente capítulo tem como objetivo</p><p>realizar uma revisão descritiva e cronológi-</p><p>ca dos principais eventos apontados como</p><p>marcantes no desenvolvimento das diferen-</p><p>tes modalidades nas quais se desdobra a</p><p>moderna psicologia social, como forma de</p><p>1</p><p>Breve História Da mODerna PsicOLOGia sOciaL</p><p>Maria cristina Ferreira</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>14 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>contextualizar suas origens, sem ter a pre-</p><p>tensão de esgotar o assunto. Nesse sentido,</p><p>inicia -se com a abordagem dos autores que,</p><p>na segunda metade do século XIX, desen-</p><p>volveram reflexões sobre temas que exer-</p><p>cerão significativa influência na construção</p><p>da nova disciplina para, em seguida, tecer</p><p>comentários sobre as obras que assinalaram</p><p>a sua fundação. Posteriormente, discutem-</p><p>-se os desdobramentos que ocorreram nos</p><p>Estados Unidos, na Europa e na América</p><p>Latina, para, à guisa de conclusão, trazer</p><p>algumas reflexões acerca do estado atual</p><p>da psicologia social. Cumpre ressaltar que</p><p>a excelente revisão histórica de ambas as</p><p>vertentes da psicologia social, realizada por</p><p>Álvaro e Garrido (2007), mostrou -se funda-</p><p>mental à elaboração do presente capítulo.</p><p>os Precursores</p><p>da Psicologia social</p><p>A expressão “psicologia social” foi utilizada</p><p>pela primeira vez em 1908, ou seja, no iní-</p><p>cio do século XX, em dois diferentes livros,</p><p>razão pela qual esse ano é considerado por</p><p>muitos como a data de fundação da discipli-</p><p>na. Porém, ao longo do século XIX, quando</p><p>os limites entre a sociologia e a psicologia</p><p>ainda não eram muito claros, foram publi-</p><p>cadas várias obras nas quais o indivíduo e a</p><p>sociedade já eram abordados e discutidos.</p><p>Seus autores eram pensadores oriundos de</p><p>vários campos do saber, como, por exemplo,</p><p>a filosofia, a antropologia, a biologia, etc.,</p><p>já que naquela época o papel profissional do</p><p>psicólogo social ainda não havia sido insti-</p><p>tuído. Entre esses, merecem destaque os es-</p><p>tudos de Darwin e Spencer, na Inglaterra, os</p><p>estudos de Wundt, na Alemanha, e os estudos</p><p>de Durkheim, Tarde e Le Bon, na França.</p><p>os precursores da psicologia</p><p>social na inglaterra</p><p>A teoria da evolução de Charles Darwin</p><p>(1809 -1882) é considerada uma das mais</p><p>poderosas e populares inovações do século</p><p>XIX, tendo exercido grande influência sobre</p><p>a psicologia. Em 1859, Darwin publica a</p><p>obra Origem das espécies, na qual desenvolve</p><p>a tese da seleção natural (Boeree, 2006a).</p><p>Segundo ela, na briga pelos escassos recur-</p><p>sos da natureza, somente as espécies com</p><p>maior capacidade de adaptação às varia-</p><p>ções da natureza conseguiram sobreviver e</p><p>reproduzir -se. Darwin acreditava, portanto,</p><p>que o ser humano constitui -se como o pro-</p><p>duto final de um processo evolucionista que</p><p>envolveu todos os organismos vivos, ou seja,</p><p>um animal social que desenvolveu maior ca-</p><p>pacidade de se adaptar física, social e men-</p><p>talmente às mudanças ambientais e sociais.</p><p>Para ele, então, haveria uma continuidade</p><p>entre as espécies humanas e não humanas.</p><p>Tempos depois, Herbert Spencer</p><p>(1820 -1903), fundamentando -se na teoria</p><p>da seleção natural, converte -se em um dos</p><p>principais líderes do movimento conhecido</p><p>como darwinismo social, sendo dele a ex-</p><p>pressão “sobrevivência do mais adaptado”.</p><p>No livro Princípios de psicologia, publicado</p><p>em 1870, ele aplica as ideias de Darwin so-</p><p>bre o desenvolvimento da espécie humana</p><p>ao desenvolvimento de grupos, socieda-</p><p>des e culturas, enfatizando a existência de</p><p>uma continuidade entre ambos (Boeree,</p><p>2006a). Seu principal argumento era o de</p><p>que as nações e os grupos étnicos podiam</p><p>ser classificados na escala evolucionista de</p><p>acordo com o seu grau de desenvolvimento,</p><p>organização, poder e capacidade de adap-</p><p>tação. Desse modo, os povos mais civiliza-</p><p>dos e avançados em termos culturais eram</p><p>hierarquicamente superiores aos povos mais</p><p>atrasados no que tange à escala evolucio-</p><p>nista. As abordagens de Darwin e Spencer</p><p>exerceram forte influência na psicologia dos</p><p>instintos, praticada ao início do século XX</p><p>por alguns psicólogos sociais, conforme se</p><p>verá mais à frente.</p><p>o precursor da psicologia</p><p>social na alemanha</p><p>Wilhelm Wundt (1832 -1920) é o principal</p><p>representante da psicologia dos povos, que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 15</p><p>surgiu na esteira do movimento de reunifi-</p><p>cação da Alemanha e que tinha como foco o</p><p>estudo dos principais atributos em comum</p><p>que definiam o caráter nacional ou o pensa-</p><p>mento coletivo do povo alemão (Mcgarty e</p><p>Haslam, 1997). Suas ideias, entretanto, so-</p><p>freram uma considerável evolução ao longo</p><p>de sua carreira. Assim é que, inicialmente,</p><p>ele defendia que a psicologia científica de-</p><p>veria ser vista como uma ciência natural que</p><p>se ocupava do estudo da mente, isto é, dos</p><p>processos mentais básicos (sensação, ima-</p><p>gem e sentimentos). Para Wundt, esse tipo</p><p>de investigação deveria ser conduzido por</p><p>meio da introspecção, ou seja, mediante a</p><p>auto -observação rigorosa e controlada do</p><p>modo pelo qual esses fenômenos ocorriam</p><p>(Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Em virtude dessas preocupações, Wundt</p><p>criou em 1879, na cidade de Leipizig, o pri-</p><p>meiro laboratório de psicologia do</p><p>Os sujeitos desta pesqui-</p><p>sa seriam as situações de encontro e de inte-</p><p>ração de pessoas estranhas entre si no ponto</p><p>problemático. O registro consiste em anotar</p><p>o número de pessoas, suas características</p><p>(sexo, idade aproximada) e seu comporta-</p><p>mento na situação. Para tanto, uma ficha</p><p>de observação que permita anotar os dados</p><p>relevantes de uma maneira que não chame</p><p>atenção será preparada. Preferencialmente,</p><p>haverá dois observadores independentes, o</p><p>que permitirá estabelecer a fidedignidade</p><p>das observações pelo estabelecimento do</p><p>grau de concordância entre as observações</p><p>dos dois pesquisadores.</p><p>vantagens e desvantagens</p><p>Como apontado acima, a vantagem de estu-</p><p>dos observacionais é o realismo da situação</p><p>estudada, algo não alcançável em estudos</p><p>experimentais, de levantamento de dados</p><p>ou aqueles que utilizam material arquival.</p><p>Há de se destacar, ainda, que comporta-</p><p>mento não acontece em um vazio, isto é,</p><p>depende não somente de fatores internos,</p><p>subjetivos, mas do contexto social e físico,</p><p>o que Barker e colaboradores (Barker, 1968;</p><p>Schoggen, 1989; Sommer e Wicker, 1991)</p><p>chamaram de behavior setting. Entre as des‑</p><p>vantagens, deve -se mencionar o alto custo</p><p>de tempo, especialmente, em se tratando de</p><p>comportamentos de pouca frequência. Em</p><p>segundo lugar, a falta de controle sobre o</p><p>surgimento da situação de interesse signifi-</p><p>ca ausência de randomização e generaliza-</p><p>ção. Além do mais, quanto mais complexo</p><p>o comporta mento e/ou a situação dentro</p><p>da qual o comportamento acontece, mais</p><p>trabalhoso serão o registro e a análise dos</p><p>dados (Scott, 2005).</p><p>Cabe ainda mencionar alguns livros</p><p>que tratam especificamente de técnicas ob-</p><p>servacionais. Fagundes (1993) apresenta um</p><p>texto didático de observação sistemática, en-</p><p>quanto Danna e Matos (1996) se propõem a</p><p>ensinar, de maneira básica, como observar</p><p>o comportamento humano. Esses dois livros</p><p>concentram sua atenção no comportamento</p><p>imediato das pessoas sendo observadas, já o</p><p>artigo de Pinheiro, Elali e Fernandes (2008),</p><p>considera a interação entre as pessoas e o</p><p>ambiente, inclusive os resquícios do com-</p><p>portamento das pessoas no ambiente.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>70 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>exPeriMento</p><p>Não sei qual o melhor jeito, mas nenhum</p><p>é ruim. (Berra, 1998, p. 84)</p><p>O experimento, especialmente em sua</p><p>modalidade laboratorial, é um delineamen-</p><p>to no qual o pesquisador tem controle so-</p><p>bre algumas das condições sob as quais a</p><p>pesquisa está sendo realizada, bem como</p><p>controle sobre algumas das variáveis que</p><p>acredita que possam causar o fenômeno</p><p>estudado. As variáveis sob controle do ex-</p><p>perimentador são chamadas variáveis inde-</p><p>pendentes (VI). O fenômeno sob estudo é</p><p>definido como variável dependente (VD).4</p><p>Uma distribuição randômica dos sujeitos da</p><p>pesquisa entre as condições experimentais e</p><p>de controle de uma pesquisa é o requisito</p><p>mínimo para uma pesquisa ser considera-</p><p>da um experimento verdadeiro (Campbell</p><p>e Stanley, 1963). Uma importante variante</p><p>é o experimento natural, situação na qual</p><p>as condições experimentais e de controle</p><p>não foram preparadas pelo experimentador,</p><p>mas por condições alheias e, desta manei-</p><p>ra, não estão sob o controle do pesquisador.</p><p>Silbereisen (2005) relata uma série de ex-</p><p>perimentos naturais sobre mudanças sociais</p><p>e desenvolvimento humano em decorrência</p><p>da reunificação alemã. Este acontecimento</p><p>permitiu aos psicólogos comparar, em for-</p><p>ma de experimento natural, comportamen-</p><p>tos e expectativas de vida entre os cidadãos</p><p>de um mesmo país após ter vivido sob dois</p><p>regimes políticos distintos durante 40 anos.</p><p>Campbell e Stanley apontam uma série de</p><p>aspectos que afetam a qualidade de um ex-</p><p>perimento. Entre eles, cabe mencionar aqui</p><p>os seguintes.</p><p>randomizar sujeitos</p><p>O controle sobre a distribuição aleatória de</p><p>participantes da pesquisa entre as diferentes</p><p>condições experimentais é crucial para que</p><p>se possa atribuir a essas eventuais causas o</p><p>fenômeno sob estudo. Sem essa distribuição</p><p>aleatória, não há como assegurar que foi a</p><p>exposição à situação experimental que cau-</p><p>sou determinado comportamento, e não al-</p><p>guma circunstância alheia a ele.</p><p>reduzir variabilidade externa</p><p>À medida que o experimentador tem con-</p><p>trole sobre as condições experimentais, cabe</p><p>tentar reduzir a variabilidade externa e in-</p><p>desejada. Em outras palavras, se o objetivo</p><p>de uma pesquisa for verificar a diferença</p><p>entre jovens de sexo masculino e feminino</p><p>no que diz respeito a determinado compor-</p><p>tamento, convém manter outras variáveis,</p><p>como, por exemplo, classe social, nível edu-</p><p>cacional ou idade, o mais homogêneo possí-</p><p>vel. Isto quer dizer, dever -se -ia chamar para</p><p>participar do experimento apenas jovens de</p><p>uma mesma classe social, de um mesmo nível</p><p>educacional e de uma mesma idade, já que</p><p>uma variabilidade não controlada em tais</p><p>fatores poderia influenciar o comportamento</p><p>em questão.</p><p>especificar/limitar o comportamento</p><p>Da mesma maneira como a variabilidade</p><p>entre os fatores antecedentes deve ser con-</p><p>trolada, é importante especificar e delimi-</p><p>tar bem o comportamento sob estudo. Por</p><p>exemplo, em vez de falar simplesmente em</p><p>“comportamento de ajuda”, convém opera-</p><p>cionalizar tal comportamento: comporta-</p><p>mento de abrir a porta para uma senhora</p><p>(Moser e Corroyer, 2001), levantar -se e ofe-</p><p>recer um assento em um ônibus, etc.</p><p>reatância à situação</p><p>experimental e ética de pesquisa</p><p>Uma diferença importante entre observação</p><p>e levantamento de dados por questionário</p><p>ou entrevista é que a observação garante</p><p>maior validade ecológica do comportamen-</p><p>to, enquanto entrevistas e questionários</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 71</p><p>permitem explorar melhor as razões para</p><p>determinadas ações. Qual a situação do</p><p>experimento nessa distinção? Muitos ex-</p><p>perimentos constituem uma oportunidade</p><p>para se observar comportamento, mesmo</p><p>que a situação não tenha validade ecoló-</p><p>gica. Por outro lado, sendo uma situação</p><p>artificial, os experimentos provocam re-</p><p>atância semelhante a dos levantamentos</p><p>de dados nos participantes, que se per-</p><p>guntam: “o que é que o experimentador</p><p>quer de mim, realmente?” Dependendo da</p><p>questão de pesquisa, o experimento pode</p><p>incluir o engano do participante. Embora</p><p>o exemplo mais famoso para iludir os par-</p><p>ticipantes seja o experimento de Milgram</p><p>(1963), muitos estudos experimentais im-</p><p>plicam em alguma forma de encenação para</p><p>esconder o verdadeiro objetivo do estudo.</p><p>Adair, Dushenko e Lindsay (1985) relatam</p><p>que 81% dos autores de estudos publicados</p><p>em 1979 na mais prestigiosa revista da psi-</p><p>cologia social, o Journal of Personality and</p><p>Social Psychology, relataram alguma forma</p><p>de esclarecimento pós -experimental para</p><p>os participantes de um estudo envolvendo</p><p>alguma forma de encenação e engano. O</p><p>argumento principal em favor de tal proce-</p><p>dimento é que os experimentos tratam de</p><p>comportamentos socialmente normatizados</p><p>(seja positivamente, por exemplo, de ajuda,</p><p>ou negativamente, por exemplo, de agres-</p><p>são). Assim, não seriam viáveis se o parti-</p><p>cipante soubesse o verdadeiro objetivo da</p><p>pesquisa. Neste sentido, os estudos experi-</p><p>mentais de ajuda de Darley e Latané (1968;</p><p>Latané; Darley, 1968) ou de Silva e Günther</p><p>(1999) somente puderam ser realizados por</p><p>meio de encenação. Por outro lado, há de</p><p>se tomar cuidado em respeitar a dignidade</p><p>e a integridade física e psicológica dos par-</p><p>ticipantes de qualquer pesquisa: na medida</p><p>do possível, deve -se fornecer explicações</p><p>aos participantes sobre a pesquisa, se não</p><p>antes do início, sem dúvida, após sua con-</p><p>clusão, além de não expor os participantes a</p><p>qualquer desconforto desnecessário – o fim</p><p>científico não justiça os meios – veja Artigo</p><p>16 do Código de Ética do Conselho Federal</p><p>de Psicologia (2005).</p><p>um estudo hipotético</p><p>No caso de nosso estudo imaginário de</p><p>ajuda, idealizamos uma réplica de experi-</p><p>mentos clássicos de Darley e Latané (1968;</p><p>Latané e Darley, 1968). A questão em ambos</p><p>os estudos foi</p><p>a potencial interferência da</p><p>presença de outras pessoas na decisão indi-</p><p>vidual de prestar ajuda, sendo a hipótese de</p><p>que, quanto maior o número de transeuntes,</p><p>menor a probabilidade de ajuda por parte de</p><p>qualquer pessoa. A variável independente</p><p>em ambos os estudos foi o número de pesso-</p><p>as presentes além do sujeito da pesquisa. No</p><p>caso do estudo de Darley e Latané, uma pes-</p><p>soa invisível precisava de ajuda, e o sujeito</p><p>fez parte de um grupo formado entre uma e</p><p>quatro outras pessoas. Já no experimento de</p><p>Latané e Darley, a emergência estava visível,</p><p>e o sujeito estava ou sozinho ou na presença</p><p>de duas outras pessoas.</p><p>Pergunta/hipótese da pesquisa</p><p>O número e as características de outras pes-</p><p>soas influenciam a probabilidade de prestar</p><p>ajuda por parte de uma pessoa do sexo femi-</p><p>nino versus do sexo masculino?</p><p>Procedimentos</p><p>Os sujeitos dessa pesquisa imaginária serão</p><p>convidados para uma entrevista sobre a vida</p><p>no campus da universidade. A entrevista será</p><p>realizada ou de forma individual ou em for-</p><p>ma de grupo focal, isto é, na presença de mais</p><p>dois ou quatro confederados. Os sujeitos va-</p><p>riam de gênero. No caso de grupo focal, os</p><p>membros variam igualmente, de tal manei-</p><p>ra a ter grupos do mesmo sexo e grupos nos</p><p>quais o sujeito é homem (ou mulher) e os</p><p>confederados são mulheres (ou homens).</p><p>Quanto ao procedimento. A entrevista</p><p>será realizada ao ar livre e a certa distância</p><p>dos prédios da universidade para se asse-</p><p>gurar um ambiente tranquilo. No decorrer</p><p>da entrevista, acontecerá uma emergência a</p><p>poucos metros dali.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>72 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>O registro da variável dependente será</p><p>feito por um observador alheio e aparen-</p><p>temente desassociado da entrevista, ano-</p><p>tando o tempo que levou para o sujeito</p><p>notar a emergência, bem como seu compor-</p><p>tamento.</p><p>vantagens desse método</p><p>O procedimento nesta pesquisa supõe cin-</p><p>co condições randômicas: sujeito sozinho,</p><p>sujeito com dois confederados do mesmo</p><p>sexo, com dois confederados do sexo opos-</p><p>to, com quatro confederados do mesmo sexo</p><p>e com quatro confederados do sexo aposto.</p><p>À medida que os sujeitos são distribuídos</p><p>randomicamente entre as cinco condições,</p><p>será possível estabelecer uma relação causal</p><p>entre a condição da entrevista e a proporção</p><p>de sujeitos em cada condição de ter presta-</p><p>do ajuda.</p><p>desvantagens</p><p>Bons experimentos em psicologia social de-</p><p>pendem do grau em que os cenários experi-</p><p>mentais controlados são plausíveis para os</p><p>sujeitos, especialmente a medida que preci-</p><p>sam de certo grau de engano. No caso desse</p><p>exemplo, o engano consistirá de fazer o su-</p><p>jeito acreditar que faz parte de uma entre-</p><p>vista e que a emergência foi suficientemente</p><p>crítica para merecer uma possível interven-</p><p>ção de sua parte.</p><p>levantaMento de dados</p><p>Nunca responda a uma carta anônima.</p><p>(Berra, 1998, p. 93)</p><p>Entrevistas (Günther, I., 2008) e ques-</p><p>tionários (Günther, H., 2008) constituem</p><p>maneiras de perguntar às pessoas sobre o</p><p>que elas fazem, pensam, sentem, tanto no</p><p>momento, quanto no passado e no futuro.</p><p>A entrevista foi caracterizada por Bingham</p><p>e Moore (1959) como uma conversa com</p><p>objetivo. Essa consideração aplica -se,</p><p>igualmente, ao questionário, definido com</p><p>“um conjunto de perguntas sobre um de-</p><p>terminado tópico que não testa a habilida-</p><p>de do respondente, mas mede sua opinião,</p><p>seus interesses, aspectos de personalidade</p><p>e informação biográfica” (Yaremko, Harari,</p><p>Harrison e Lynn, 1986, p. 186). A definição</p><p>do questionário deixa aberta a forma da</p><p>interação entre pesquisador e participante</p><p>– pode ser individual ou em grupo, face a</p><p>face, via correio ou via internet, sendo que</p><p>a aplicação individual e face a face de um</p><p>questionário pode se tornar uma entrevis-</p><p>ta estruturada. Entretanto, a observação</p><p>de Bingham e Moore é fundamental – seja</p><p>qual for a forma da interação, o pesquisa-</p><p>dor deve lembrar que está conversando com</p><p>outro ser humano, ele não está “extraindo”</p><p>informação de maneira impessoal. Uma vez</p><p>que não há muito controle sobre os par-</p><p>ticipantes de um experimento ou de uma</p><p>situação de observação, técnicas de amos-</p><p>tragem podem ser utilizadas de tal manei-</p><p>ra a se obter amostras de participantes de</p><p>uma população determinada. Por exemplo,</p><p>em um estudo observacional, a pesquisa</p><p>se limita às pessoas que circulam em um</p><p>determinado local; em um estudo experi-</p><p>mental, a pesquisa se limita às pessoas que</p><p>concordam em participar do experimento.</p><p>Tendo informação sobre as características</p><p>de uma população (p. ex., todas as matrí-</p><p>culas de alunos ou todos os endereços de</p><p>um bairro), é possível obter uma amostra</p><p>randômica de participantes a serem en-</p><p>trevistados ou para os quais se envia um</p><p>questionário. Além do mais, por meio de</p><p>questionários e entrevistas, é possível saber</p><p>dos estados subjetivos, das atitudes, das</p><p>opiniões, das justificativas das ações toma-</p><p>das por parte dos participantes de uma pes-</p><p>quisa. Entretanto, da mesma maneira que</p><p>a reatância ao processo de pesquisa cons-</p><p>titui um problema no caso do experimen-</p><p>to, perguntas, especialmente a respeito de</p><p>assuntos sensíveis, nem sempre produzem</p><p>respostas autênticas.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 73</p><p>um estudo hipotético</p><p>Pergunta/hipótese da pesquisa. No caso</p><p>de nosso estudo imaginário de ajuda, con-</p><p>sideramos um estudo sobre a participação</p><p>em organizações voluntárias. Quais são as</p><p>características, quais são as motivações para</p><p>que uma pessoa se engaje em uma ação de</p><p>solidariedade? Além do mais, será que a</p><p>oportunidade de ajudar aumenta a atitude</p><p>favorável de se engajar em uma ação de aju-</p><p>da voluntária?</p><p>Procedimentos. Os sujeitos dessa pes-</p><p>quisa, alunos universitários de ambos os</p><p>sexos e de cursos humanistas (psicologia e</p><p>serviço social), técnico (engenharia mecâ-</p><p>nica e matemática) e da saúde (médicos,</p><p>enfermeiras) serão convidados para uma</p><p>entrevista sobre a vida no campus da uni-</p><p>versidade.</p><p>Procedimentos</p><p>A entrevista será realizada de forma indivi-</p><p>dual, em um espaço reservado para tal ati-</p><p>vidade. No caminho para sala de entrevista,</p><p>parte dos alunos passa por uma situação que</p><p>implica em ajuda, por exemplo, uma pessoa</p><p>deixa cair um objeto. Desta maneira, criam-</p><p>-se três grupos de sujeitos:</p><p>a) encontrar uma oportunidade para ajudar,</p><p>sendo que o participante da pesquisa, de</p><p>fato, ajuda;</p><p>b) encontrar uma oportunidade para ajudar,</p><p>sendo que o participante da pesquisa, de</p><p>fato, não ajuda;</p><p>c) não encontrar uma situação de ajuda.</p><p>Os grupos (a) e (b) constituem uma mani-</p><p>pulação experimental, o grupo (c) constitui</p><p>um grupo de controle.</p><p>O instrumento de pesquisa consiste em</p><p>um questionário com perguntas sobre a qua-</p><p>lidade de vida em geral, a qualidade de vida</p><p>no campus da universidade e a disposição da</p><p>pessoa de se engajar em uma atividade vo-</p><p>luntária na universidade, por exemplo, doar</p><p>sangue durante a semana universitária.</p><p>vantagens e desvantagens</p><p>do levantamento de dados</p><p>A principal vantagem do uso de questioná-</p><p>rios e entrevistas consiste na possibilidade</p><p>de explorar atitudes, opiniões, razões para</p><p>fazer ou não fazer determinadas coisas, algo</p><p>impossível no caso de observação ou méto-</p><p>dos não intrusivos, já que estes, por defini-</p><p>ção, excluem o contato com os participantes</p><p>da pesquisa.</p><p>considerações Finais</p><p>O jogo não terminou até que tenha termi-</p><p>nado. (Berra, 1998, p. 121)</p><p>Há de se enfatizar que pesquisar e pu-</p><p>blicar na ciência são as duas faces da mes-</p><p>ma moeda; uma não vale sem a outra. Cabe</p><p>lembrar que publicar uma pesquisa quer</p><p>dizer “torná -la pública”. Uma pesquisa que</p><p>não for publicada, não contribuirá para a</p><p>ciência, sequer existirá. A pesquisa e a pu-</p><p>blicação são interdependentes da concep-</p><p>ção da pesquisa como processo cíclico, que</p><p>passa pelas seguintes fases (Tavares e Diniz,</p><p>1993):</p><p>1. Selecionar um objeto de pesquisa e definir</p><p>a problemática, considerando -se resulta-</p><p>dos de pesquisas anteriores.</p><p>2. Relacionar a problemática a teorias e a</p><p>pesquisas</p><p>anteriores.</p><p>3. Formular hipóteses.</p><p>4. Identificar os elementos do método (vari-</p><p>áveis, relações, medidas, procedimentos,</p><p>população, critérios, estatística a utili-</p><p>zar).</p><p>5. Implementar o estudo e coletar os da-</p><p>dos.</p><p>6. Analisar os dados.</p><p>7. Interpretar e relacionar os resultados</p><p>à problemática original, às teorias e às</p><p>pesquisas referidas.</p><p>8. Apresentar resultados, sugerir estudos,</p><p>receber retroalimentação da comunidade</p><p>científica.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>74 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>9. Selecionar um objeto de pesquisa e definir</p><p>a problemática, levando em consideração</p><p>resultados de pesquisas anteriores (fecha-</p><p>mento do ciclo).</p><p>Sendo a publicação o outro lado da</p><p>pesquisa, em um relato, explicitam -se os</p><p>passos desse processo cíclico da pesquisa, e</p><p>o próprio relato tem caráter cíclico. O ter-</p><p>mo relato de pesquisa está sendo utilizado</p><p>genericamente para incluir desde trabalhos</p><p>em nível de graduação até teses de doutora-</p><p>do e publicações em revistas especializadas;</p><p>aplica -se a trabalhos baseados em dados em-</p><p>píricos, em dados secundários, bem como a</p><p>resenhas de literatura. Não cabe entrar em</p><p>detalhes sobre como preparar um relato de</p><p>pesquisa, entre as muitas publicações sobre</p><p>o assunto, apontamos apenas duas: algu-</p><p>mas dicas preparadas por Günther (no pre-</p><p>lo) e o Manual de Publicação preparado pela</p><p>American Psychological Association (2001;</p><p>2010).</p><p>notas</p><p>1. A elaboração deste trabalho teve apoio do</p><p>Conselho Nacional de Desenvolvimento Cien-</p><p>tífico e Tecnológico (CNPq).</p><p>2. As citações ilustrativas no início das seções</p><p>deste capítulo são oriundas de um livro de</p><p>Yogi Berra, jogador de beisebol conhecido por</p><p>suas observações pouco convencionais.</p><p>3. Usamos o termo comportamento de maneira</p><p>genérica para nos referir tanto a comporta-</p><p>mentos quanto a experiências subjetivas, tais</p><p>como atitudes, sentimentos e emoções.</p><p>4. Esta nomenclatura – VI e VD – persiste mesmo</p><p>no contexto de experimentos naturais e de</p><p>levantamento de dados, mesmo considerando-</p><p>-se que estas são situações em que o pesqui-</p><p>sador não tem controle sobre as variáveis.</p><p>reFerências</p><p>ADAIR, J. G.; DUSHENKO, T. W.; LINDSAY, R. C.</p><p>Ethical regulations and their impact on research</p><p>practice. American Psychologist, v. 40, p. 59-72,</p><p>1985.</p><p>AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION.</p><p>Manual de publicação da American Psychological</p><p>Association. 4. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2001a.</p><p>AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION.</p><p>Publication manual. 6th ed. Washington, DC:</p><p>Autor, 2010.</p><p>ARONSON, E.; WILSON, T. D.; AKERT, R. M. Psico‑</p><p>logia social. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos</p><p>e Científicos Editora, 2002.</p><p>ATLAS.TI. Disponível em: <www.atlasti.de>.</p><p>BARKER, R. G. Ecological psychology: Concepts</p><p>and methods for studying the environment of</p><p>human behavior. Stanford, CA: Stanford U Press,</p><p>1968.</p><p>BAUER, M. W.; GASKELL, G. (Ed.). Pesquisa quali‑</p><p>tativa com texto, imagem e som. Um manual prático.</p><p>Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.</p><p>BERKOWITZ, L.; DANIELS, L. R. Affecting the</p><p>salience of the social responsability norm: Effects</p><p>of past help on the response to dependency re-</p><p>lationships. The Journal of Abnormal and Social</p><p>Psychology, v. 68, p. 275-281, 1964.</p><p>BERRA, Y. The Yogi book: I didn’t really say</p><p>everything I said. 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Hillsdale, NJ: Erlbaum,</p><p>1986.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>Parte II</p><p>O indivíduo</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>Cognição social refere -se aos proces-</p><p>sos cognitivos por meio dos quais as pessoas</p><p>compreendem e explicam as outras pessoas</p><p>e a si mesmas. Essa compreensão ocorre de</p><p>forma instantânea, quase automática, mas</p><p>também pode envolver considerações e aná-</p><p>lises detalhadas e lentas. Quando considera-</p><p>mos a complexidade das pessoas, a primeira</p><p>característica que chama a atenção na cogni-</p><p>ção social é a rapidez com a qual compreen-</p><p>demos e julgamos os outros. Essa rapidez de</p><p>julgamento tem seu preço: embora sejamos</p><p>bons avaliadores em geral, também comete-</p><p>mos inúmeros erros quando julgamos o que</p><p>são os outros e o que somos nós. Talvez o</p><p>estudo da cognição social possa ajudar -nos</p><p>a diminuir esses erros melhorando nosso</p><p>autoconhecimento e nossa capacidade per-</p><p>ceptiva e interpretativa dos outros.</p><p>Plano do caPítulo</p><p>Este capítulo começa pela definição e evo-</p><p>lução da inteligência social humana e intro-</p><p>dução aos componentes básicos (schemas</p><p>e atribuições) dos processos da cognição</p><p>social. A inteligência social humana surgiu</p><p>junto com o aumento do número de mem-</p><p>bros dos primeiros grupos de hominídeos.</p><p>Os humanos desenvolveram “teorias da</p><p>mente” para que pudessem julgar os com-</p><p>portamentos dos outros, especialmente</p><p>os comportamentos de reciprocidade. Os</p><p>schemas dizem respeito aos conteúdos (es-</p><p>truturas de conhecimentos armazenados na</p><p>memória) de nossa cognição social. As atri-</p><p>buições são respostas às indagações das cau-</p><p>sas dos comportamentos que observamos e</p><p>tentamos compreender.</p><p>Na segunda parte do capítulo, analisa-</p><p>remos os diferentes processos da cognição</p><p>social: atenção, memória e inferência. Cada</p><p>um desses componentes é analisado em ou-</p><p>tras áreas da psicologia, tais como a psicolo-</p><p>gia cognitiva, mas também são, com ajustes</p><p>e adaptações, fundamentais para nossa au-</p><p>tocompreensão e para nossa compreensão</p><p>dos outros.</p><p>cognição social:</p><p>coMPreenden do os outros</p><p>De uma forma direta e simples, a cognição</p><p>social pode ser definida como o pensar do</p><p>indivíduo a respeito de si próprio e dos ou-</p><p>tros. Entretanto, embora a ênfase inicial</p><p>tenha sido no pensar (cognição), os psicó-</p><p>logos sociais também procuram associar</p><p>sentimentos e comportamentos à cognição</p><p>social. O estudo das relações entre nossos</p><p>pensamentos a respeito dos outros e de nos-</p><p>sos sentimentos, avaliações, emoções e com-</p><p>portamentos deu origem à distinção entre a</p><p>“cognição quente” versus “cognição fria”,</p><p>bem como à visão pragmática que relaciona</p><p>a cognição ao comportamento: as ações são</p><p>causadas pelos processos mentais envolvi-</p><p>dos no pensamento.</p><p>4</p><p>cOGniçãO sOciaL</p><p>bartholomeu t. tróccoli</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>80 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Pensar sobre os outros é a atividade</p><p>central de nossas vidas. Todos nós somos</p><p>psicólogos amadores, pois estamos constan-</p><p>temente explicando nossas ações e as ações</p><p>dos outros. Quando, por exemplo, alguém</p><p>nos agride verbalmente em resposta a uma</p><p>observação qualquer que acabamos de fazer,</p><p>entendemos imediatamente que essa pessoa</p><p>“pode ter se sentido ofendida ou ameaçada</p><p>pela minha posição”. Estamos apenas reco-</p><p>nhecendo que o outro possui uma crença</p><p>(acredita que tenho alguma intenção) e um</p><p>desejo (quer evitar algo que considera nega-</p><p>tivo). A explicação das ações como resulta-</p><p>dos das crenças e desejos é o que define a</p><p>chamada “psicologia senso comum” ou “psi-</p><p>cologia leiga”.</p><p>A psicologia leiga é produto do perío-</p><p>do formativo da espécie humana, período</p><p>que começou depois da separação da linha-</p><p>gem humana da linhagem dos chipanzés</p><p>há cerca de 6 milhões de anos1. Ambientes</p><p>diferentes colocam problemas adaptativos</p><p>diferentes, exigindo diferentes adaptações.</p><p>Para compreender a evolução da mente hu-</p><p>mana, o ambiente social da espécie é mais</p><p>importante do que o ambiente físico. Como</p><p>os outros primatas, nossos ancestrais viviam</p><p>inicialmente em pequenos grupos – mas que</p><p>foram ficando maiores com as consequentes</p><p>estruturas sociais cada vez mais complexas</p><p>–, nos quais as questões colocadas pelas</p><p>interações eram tão importantes quanto a</p><p>sobrevivência aos predadores. Quais os pro-</p><p>blemas adaptativos enfrentados por nossos</p><p>ancestrais? Vários autores (p. ex., Evans e</p><p>Zarate,</p><p>1999; Buss, 2005) sugerem os se-</p><p>guintes:</p><p>•	 Evitar	predadores</p><p>•	 Achar	a	comida	certa</p><p>•	 Formar	alianças	e	amizades</p><p>•	 Ajudar	crianças	e	parentes</p><p>•	 Entender	a	mente	dos	outros</p><p>•	 Comunicar	‑se	com	os	outros</p><p>•	 Selecionar	parceiros	sexuais</p><p>Todos esses problemas colocaram</p><p>obstáculos cruciais para a sobrevivência de</p><p>nossa espécie, e o modelo predominante na</p><p>psicologia evolucionista atual defende que</p><p>a seleção natural provocou o surgimento de</p><p>módulos mentais responsáveis pela supera-</p><p>ção desses obstáculos (Cosmides e Tooby,</p><p>1992; Buss, 2005). O modelo da mente</p><p>modular propõe que a mente é composta</p><p>de vários módulos que se comunicam e in-</p><p>teragem como uma estrutura inata que se</p><p>desenvolveu naturalmente e de forma se-</p><p>melhante aos órgãos biológicos. Para a psi-</p><p>cologia evolucionista, os diversos módulos</p><p>mentais são adaptações que surgiram para</p><p>resolver problemas adaptativos, permitindo</p><p>a sobrevivência e a reprodução de nossa es-</p><p>pécie. Alguns módulos surgiram já nos an-</p><p>cestrais de nossos ancestrais e são comparti-</p><p>lhados com outros animais; outros são bem</p><p>mais recentes e resultaram de adaptações</p><p>a ambientes radicalmente diferentes dos</p><p>ambientes de outras espécies. De qualquer</p><p>maneira, os módulos não param de evoluir</p><p>e todos foram se modificando durante o pe-</p><p>ríodo formativo da espécie humana.</p><p>Os problemas colocados pelo ambien-</p><p>te social foram inicialmente compartilhados</p><p>pelos humanos assim como por todos os ou-</p><p>tros primatas. A luta por recursos escassos</p><p>poderia ser enfrentada com o surgimento de</p><p>coalizões formadas por dois ou três mem-</p><p>bros da espécie. No entanto, após a sepa-</p><p>ração de nossa linhagem da linhagem dos</p><p>chipanzés, o tamanho dos grupos humanos</p><p>foi aumentando cada vez mais, criando um</p><p>valor também cada vez maior para a estra-</p><p>tégia de formação de alianças e coalizões.</p><p>A associação com outros em busca de for-</p><p>mação de amizades passou a ser tão im-</p><p>portante quanto saber escolher a comida</p><p>certa ou possuir a habilidade para detectar</p><p>predadores. Mas a formação de alianças é</p><p>uma tarefa difícil, porque envolve questões</p><p>de altruísmo recíproco: a troca de favores só</p><p>funciona se forem observadas regras do tipo</p><p>“ajudo você agora e você me ajuda depois”.</p><p>Existe sempre o risco de que um membro da</p><p>aliança fique com os benefícios sem contri-</p><p>buir com nenhum dos custos envolvidos.</p><p>O problema da não reciprocidade é</p><p>tão grave que a espécie que não desenvolver</p><p>mecanismos para enfrentá -lo não sobrevive.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 81</p><p>A questão é simples: o membro da espécie</p><p>que não colabora com o pacto do altruísmo</p><p>recíproco tem mais chances de sobreviver</p><p>e reproduzir do que os que são facilmente</p><p>enganados. Genes que favorecem esse tipo</p><p>de comportamento vão ficar cada vez mais</p><p>frequentes no pool genético da espécie e,</p><p>eventualmente, todos serão egoístas e não</p><p>altruístas. Como ninguém mais vai ajudar</p><p>ninguém, as alianças se desfazem, ficando</p><p>impossível viver em grupos.</p><p>Não surpreende, portanto, que todas</p><p>as espécies que vivem em grupos descobri-</p><p>ram mecanismos para enfrentar a questão</p><p>dos membros egoístas e aproveitadores. Ao</p><p>analisar as soluções encontradas por diver-</p><p>sas espécies, Axelrod propôs, na década de</p><p>1980 (p. ex., Axelrod, 1984), a existência</p><p>de três condições, que, quando implemen-</p><p>tadas, neutralizam o problema dos apro-</p><p>veitadores: (1) organismos encontram os</p><p>mesmos organismos repetidas vezes; (2)</p><p>organismos podem reconhecer aqueles que</p><p>já encontraram antes, diferenciando -os dos</p><p>que são totalmente estranhos; e (3) orga-</p><p>nismos possuem memória suficiente para</p><p>lembrar de como aqueles que já encontra-</p><p>ram os trataram nesses encontros prévios.</p><p>Por que a existência dessas três condições</p><p>elimina o risco do altruísmo não correspon-</p><p>dido? Porque os aproveitadores podem ser</p><p>punidos e os cooperadores podem ser re-</p><p>compensados. Quem se recusou a retornar</p><p>os favores pode ser punido com a expulsão</p><p>do grupo ou com a recusa de qualquer ajuda</p><p>posterior. Quem cooperou e retribuiu pode</p><p>ser recompensado com ajuda contínua na</p><p>hora da necessidade.</p><p>Todas as três condições foram surgindo</p><p>em nossos ancestrais hominídeos ao longo</p><p>de seu período formativo. A interação contí-</p><p>nua entre eles demonstrava que a existência</p><p>desses grupos só era possível porque a evo-</p><p>lução tinha projetado tanto módulos sofisti-</p><p>cados de reconhecimento facial quanto uma</p><p>boa memória para interações sociais. Todos</p><p>nós somos extremamente sensíveis ao altru-</p><p>ísmo recíproco e mantemos uma espécie de</p><p>“contabilidade social” para cada conhecido</p><p>ou amigo. Se nossos registros indicam que</p><p>alguém tem feito menos bem por nós (ou</p><p>nossos amigos de alianças cooperativas) do</p><p>que o fazemos por ele, então, na próxima</p><p>vez que houver uma solicitação de ajuda,</p><p>nos sentiremos bem menos inclinados – ou</p><p>mesmo nos recusaremos – a ajudar. Essa</p><p>contabilidade social também envolve me-</p><p>canismos mentais complexos, porque exige</p><p>que, de alguma maneira, sejam atribuídos</p><p>diferentes valores para diferentes ações.</p><p>Quando uma pessoa doa seu bem para outra</p><p>que está necessitada, os valores associados</p><p>a essa ação de cooperação e a consequente</p><p>retribuição vão depender de outros fatores</p><p>contextuais. Neste caso, a contabilidade so-</p><p>cial levará em conta, por exemplo, a situa-</p><p>ção econômica de quem fez a doação ou</p><p>empréstimo: a bondade de uma pessoa rica</p><p>é valorizada de uma forma bem diferente da</p><p>bondade de quem tem muito pouco e faz um</p><p>grande sacrifício em favor do outro. O valor</p><p>da ação também vai depender do custo para</p><p>o doador e do benefício para o receptor da</p><p>ação, mas os custos e benefícios de qualquer</p><p>ato de bondade não podem ser fixados pre-</p><p>viamente, pois dependem do contexto no</p><p>qual ocorrem2.</p><p>Esse é o ponto principal para a apre-</p><p>sentação da cognição social. Nós humanos</p><p>desenvolvemos sistemas sociais complexos</p><p>que só podem funcionar – no sentido do</p><p>sucesso reprodutivo e da sobrevivência da</p><p>espécie – se alicerçados em sistemas cogni-</p><p>tivos igualmente complexos que se manifes-</p><p>tam em nossa inteligência social.</p><p>cresciMento dos gruPos</p><p>HuManos e o surgiMento</p><p>da inteligência social</p><p>No período entre 6 milhões a 150 mil anos</p><p>atrás, o tamanho médio dos grupos hominí-</p><p>deos saltou de cerca de 50 para 150 mem-</p><p>bros. Como já abordamos anteriormente, à</p><p>medida que os grupos foram aumentando,</p><p>vários módulos dedicados às trocas sociais</p><p>foram evoluindo, favorecendo a formação</p><p>de alianças estáveis que mantiveram os gru-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>82 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>pos sociais coesos (o que também pode ser</p><p>observado nos vários tipos de primatas). No</p><p>caso dos humanos, entretanto, a evolução</p><p>fez surgir um módulo bastante complexo e</p><p>sofisticado: o “módulo de leitura da mente”,</p><p>isto é, o módulo mental que permitiu que</p><p>fizéssemos suposições ou inferências sobre o</p><p>que as outras pessoas estão pensando, tendo</p><p>por base suas ações, palavras e comporta-</p><p>mentos3.</p><p>Grupos maiores exigem mais capa-</p><p>cidade de memória para acompanhar os</p><p>comportamentos dos outros, bem como</p><p>capacidades de raciocínio social bem mais</p><p>sofisticadas, que possibilitem manter equi-</p><p>líbrios delicados entre lealdades e amiza-</p><p>des conflitantes. Nesse ponto, já estamos</p><p>considerando estratégias e jogos políticos</p><p>bastante sofisticados, nos quais mentiras,</p><p>promessas, jogos de cena e até mesmo sin-</p><p>ceridade e franqueza, ajudam -nos a manter</p><p>nossos amigos e a enganar nossos inimigos.</p><p>Aos poucos, surgem os psicólogos amadores</p><p>armados com uma “teoria da mente”: uma</p><p>teoria sobre como a mente humana funcio-</p><p>na. O principal axioma dessa teoria afirma</p><p>que as ações são causadas por processos</p><p>mentais, tais como crenças e desejos.</p><p>A explicação do surgimento da teoria</p><p>da mente dentro de uma perspectiva evo-</p><p>lucionista de adaptação à seleção natural</p><p>e sexual implica que a psicologia leiga não</p><p>é uma invenção cultural. Ela é uma parte</p><p>inata, herdada, da mente humana, que se</p><p>desenvolve nos primeiros anos de vida até</p><p>estar completa por volta dos 4 anos e meio.</p><p>Nessa idade, a criança já consegue passar</p><p>nos “testes de falsa crença”:</p><p>Uma psicóloga apresenta dois bonecos</p><p>à criança. Os bonecos, chamados Sally e</p><p>Ana, estão em um quarto de uma casa de</p><p>brinquedo, junto de uma cama onde há</p><p>almofadas. Primeiro, a criança observa</p><p>Sally colocar alguns doces debaixo de</p><p>uma almofada para logo em seguida sair</p><p>do quarto. Enquanto Sally está fora, Ana</p><p>tira os doces debaixo da almofada e os</p><p>coloca em seu bolso. Quando Sally volta</p><p>ao quarto, a psicóloga pergunta à criança</p><p>“Onde Sally pensa que os doces estão?”.</p><p>Antes dos 4 anos e meio, a criança respon-</p><p>de “no bolso da Ana” o que é uma resposta</p><p>típica de quem ainda não desenvolveu</p><p>uma teoria da mente. A criança não tem a</p><p>noção de que os outros podem ter crenças</p><p>diferentes de suas próprias crenças. Ela</p><p>acha que todas as outras pessoas acredi-</p><p>tam no que ela acredita. E ela acredita no</p><p>que ela viu: Ana colocou os doces no bol-</p><p>so. Portanto, Sally também tem a mesma</p><p>crença. Após os 4 anos e meio, a resposta</p><p>muda radicalmente: “Sally acredita que os</p><p>doces estão debaixo da almofada”.</p><p>Com o surgimento da teoria da mente,</p><p>a criança já compreende que outras pesso-</p><p>as podem manter crenças que são diferen-</p><p>tes das suas e que também podem manter</p><p>crenças que são falsas. Só então a criança</p><p>pode tentar manipular outras pessoas por</p><p>meio da indução de falsas crenças, isto é, só</p><p>então a criança aprende a mentir. E sem a</p><p>capacidade para mentir, não é possível jogar</p><p>os jogos políticos necessários para a vida em</p><p>grupos sociais.</p><p>linguageM e altruísMo recíProco</p><p>Nossos ancestrais adquiriram a capacidade</p><p>para usar linguagens complexas e sofisti-</p><p>cadas antes de deixar a África há cerca de</p><p>100 mil anos. Na década de 1950, Noam</p><p>Chomsky demonstrou que seria impossível</p><p>para as crianças aprenderem uma língua de</p><p>forma tão rápida apenas com os estímulos</p><p>dados pelos pais e pelo ambiente cultural.</p><p>A criança só aprende uma língua porque</p><p>ela nasce pré -programada para este tipo de</p><p>aprendizagem. Por que então nossos ances-</p><p>trais desenvolveram mais essa capacidade</p><p>inata? Qual o problema adaptativo supera-</p><p>do com o uso da linguagem?</p><p>A teoria mais comum sugeria que a lin-</p><p>guagem é um sistema de comunicação que</p><p>evoluiu para ajudar nossos ancestrais na caça</p><p>e na defesa contra os predadores. De acordo</p><p>com essa teoria, a função da linguagem era</p><p>a de troca de informações sobre o ambiente</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 83</p><p>físico e ecológico, uma vez que sons são bem</p><p>mais eficazes do que sinais visuais na escuri-</p><p>dão da noite e através de longas distâncias.</p><p>Essa teoria, entretanto, foi contestada por</p><p>Robin Dunbar (2004), quando propôs que</p><p>a função básica da linguagem é a troca de</p><p>informações sobre o ambiente social. Mais</p><p>uma vez, a questão do altruísmo recíproco</p><p>está na raiz de uma nova proposição para</p><p>um mecanismo inato. Em grandes grupos,</p><p>o altruísmo recíproco só funciona quando</p><p>existe informação suficiente sobre quem é</p><p>ou não é de confiança. Com grupos cada vez</p><p>maiores, não é possível distinguir – apenas</p><p>por meio da experiência direta, pessoal –</p><p>entre os aproveitadores e os que cooperam.</p><p>Sem a linguagem, isto é, sem um sistema de</p><p>comunicação sofisticado, os grupos não po-</p><p>deriam crescer, ficando bastante limitados</p><p>no número possível de membros. Existe um</p><p>limite no número de pessoas que um indi-</p><p>víduo pode manter relações físicas diretas</p><p>e constantes para que possa estimar qual a</p><p>probabilidade de cooperação futura4.</p><p>Para Dunbar (2004), a linguagem evo-</p><p>luiu para ajudar nossos ancestrais na ob-</p><p>tenção de informações sobre quem merece</p><p>ou não confiança, principalmente quando</p><p>não ocorre uma reciprocidade direta. Na</p><p>reciprocidade indireta, o indivíduo é altruís-</p><p>ta com outra pessoa na esperança de esta-</p><p>belecer sua reputação como generoso e de</p><p>confiança. Esse é um bom exemplo em que</p><p>a linguagem ajuda na troca de informações</p><p>sociais, permitindo que os humanos usufru-</p><p>am das vantagens de se viver em grandes</p><p>grupos. Daí o fascínio humano pela fofoca:</p><p>ela é a forma mais eficaz de comunicação</p><p>para se obter informações sobre a confiabili-</p><p>dade dos outros.</p><p>características gerais</p><p>da cognição social</p><p>Até agora, estabelecemos as bases evoluti-</p><p>vas de algumas das características do fun-</p><p>cionamento do cérebro humano, que surgi-</p><p>ram como adaptações às primeiras questões</p><p>colocadas pelas interações sociais de nos-</p><p>sos ancestrais. Agora, descrevemos alguns</p><p>dos princípios que norteiam os estudos da</p><p>cognição social: (1) o indivíduo como um</p><p>avarento cognitivo; (2) orientação para os</p><p>processos; (3) pessoas como agentes cau-</p><p>sais; (4) percepção mútua; (5) centralida-</p><p>de do eu; (6) qualidade da percepção; (7)</p><p>orientação pragmática (tático - motivada); e</p><p>predominância dos processos automáticos</p><p>(indivíduo como ator -ativado).</p><p>1. O indivíduo como um avarento cognitivo.</p><p>As pessoas não gostam de pensar muito,</p><p>exceto quando acham que é necessário.</p><p>Elas procuram fazer render ao máximo</p><p>o pouco do esforço cognitivo que conse-</p><p>guem exercer. Devido a essa tendência,</p><p>Fiske e Taylor (1991; 2008) definiram as</p><p>pessoas como “avarentas” no uso de seus</p><p>recursos cognitivos. Não que as pessoas</p><p>não consigam realizar trabalhos cogniti-</p><p>vos complexos. Elas o fazem quando eles</p><p>são importantes e necessários. Mas o mun-</p><p>do é muito complicado, especialmente as</p><p>outras pessoas e, frente a essa realidade,</p><p>é melhor utilizar “atalhos cognitivos”,</p><p>buscar simplificações e aproximações, em</p><p>vez de proceder com análises minuciosas e</p><p>bem fundamentadas. Vários dos processos</p><p>que serão analisados mais adiante estão</p><p>relacionados com a “sovinice cognitiva”</p><p>das pessoas.</p><p>2. Orientação para processos. A abordagem</p><p>da cognição social sempre utilizou a abor-</p><p>dagem predominante na psicologia cogni-</p><p>tiva, na qual os processos cognitivos são</p><p>descritos como processos computacionais:</p><p>as pessoas recebem informações (input),</p><p>codificam o que receberam, armazenam</p><p>na memória, recuperam da memória para</p><p>realizar inferências e para gerar produtos</p><p>(output). A psicologia cognitiva tende a</p><p>definir os processos cognitivos como for-</p><p>mados por estágios sequenciais. O mesmo</p><p>ocorre na cognição social. A sequência</p><p>atenção → memória → julgamento, bem</p><p>como outras sequências paralelas (atenção</p><p>→ julgamento ou atenção → memória)</p><p>são alguns dos principais referenciais</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>84 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>des critivos da psicologia cognitiva e da</p><p>abordagem da cognição social.</p><p>3. Pessoas como agentes causais. Parte funda-</p><p>mental da teoria da mente que recebemos</p><p>por meio de nossa herança evolutiva é a</p><p>percepção de que as pessoas são agentes</p><p>causais. Percebemos as pessoas como</p><p>sendo impulsionadas internamente em</p><p>direção a suas ações e objetivos. Sentimos</p><p>que os outros possuem agendas internas,</p><p>não observáveis. Isso faz com que as</p><p>pessoas fiquem bem mais interessantes</p><p>e complexas como alvos de percepção e</p><p>julgamento.</p><p>4. Percepção mútua. Outra característica que</p><p>torna as pessoas interessantes e nossa</p><p>percepção sobre elas em algo bem mais</p><p>complexo, é que elas também retornam a</p><p>percepção afetando o observador. Nossos</p><p>impulsos naturais para compreender e</p><p>explicar os outros se misturam com o</p><p>que percebemos como a percepção e o</p><p>julgamento deles a nosso respeito. A cog-</p><p>nição social é uma percepção mútua, um</p><p>processo de mão dupla.</p><p>5. Centralidade do eu. Uma das consequên-</p><p>cias do processo de mão dupla mencio-</p><p>nada no item anterior é que a percepção</p><p>de outra pessoa envolve o eu de quem</p><p>percebe. O observador olha para outra</p><p>pessoa e termina por também perceber a si</p><p>próprio. As reações que a pessoa julga per-</p><p>ceber nos outros também define o que ela</p><p>é: a adequação de seus comportamentos,</p><p>opiniões e crenças, da maneira de vestir,</p><p>etc. A centralidade do eu do observador</p><p>é inevitável.</p><p>6. Qualidade da percepção. Todas as carac-</p><p>terísticas mencionadas até o momento</p><p>chamam a atenção</p><p>para a questão da</p><p>exatidão e da qualidade do processo de</p><p>observação de fenômenos não observá-</p><p>veis. Traços não observados são difíceis de</p><p>comprovar, e este é também um grande</p><p>problema em áreas como a psicologia da</p><p>personalidade, por exemplo. Nas áreas</p><p>da avaliação psicológica, são utilizados</p><p>modelos e análises estatísticas comple-</p><p>xas em busca de algum tipo de validação</p><p>dos traços não observados que possam</p><p>descrever as pessoas. Qual a qualidade</p><p>da psicologia leiga? Embora cometamos</p><p>muitos erros, é evidente que, em média,</p><p>chegamos a interpretações razoáveis, uma</p><p>vez que conseguimos conviver razoavel-</p><p>mente bem. Uma das razões está no uso</p><p>de opiniões alheias como técnica de va-</p><p>lidação de nossos julgamentos. É sempre</p><p>possível confrontar nossa percepção com</p><p>a percepção de um amigo em comum em</p><p>busca de algum respaldo coletivo.</p><p>7. Orientação pragmática (tático ‑motivada).</p><p>Seguindo William James, um dos lemas</p><p>enfatizados na cognição social é que o</p><p>“pensamento tem por objetivo a ação”</p><p>(Fiske e Taylor, 1991, 2008). Como ana-</p><p>lisamos anteriormente, esta característica</p><p>está profundamente alicerçada em nossa</p><p>história evolutiva. O pensamento social</p><p>das pessoas surgiu em função do planeja-</p><p>mento, da preparação e do ensaio prévio</p><p>para as interações do indivíduo com seu</p><p>grupo social de alianças e amizades. O</p><p>indivíduo é um tático -motivado ao pensar</p><p>para agir, escolhendo entre várias estraté-</p><p>gias políticas e sociais que garantam suas</p><p>alianças e reciprocidade mútua. Para Fiske</p><p>e Taylor (1991):</p><p>O contexto pragmático social do pensar</p><p>sobre os outros significa que a cognição</p><p>social tanto é causa quanto efeito da in-</p><p>teração social. A ligação com a interação</p><p>social significa que (a) a qualidade e a</p><p>exatidão das percepções das pessoas são</p><p>suficientes para os propósitos do dia a dia;</p><p>(b) elas constroem significados baseados</p><p>nos traços, estereótipos e histórias mais</p><p>úteis (convenientes e coerentes); e (c)</p><p>seus objetivos determinam como pensam.</p><p>(Fiske, 1995, p. 157)</p><p>8. Predominância dos processos automáticos</p><p>(indivíduo como ator ‑ativado). Nos últimos</p><p>anos, outro modelo do ser humano tem</p><p>surgido na cognição social. O modelo</p><p>indivíduo como ator -ativado considera</p><p>que há uma predominância de processos</p><p>afetivos e comportamentais automáticos,</p><p>isto é, não acessíveis à consciência. A qua-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 85</p><p>se maioria das ações do tático -motivado</p><p>não acontece como fruto de deliberações</p><p>conscientes. Pelo contrário: associações</p><p>inconscientes, ativadas em milésimos de</p><p>segundos, ativam/preparam (priming</p><p>effects) cognições, avaliações, afetos, mo-</p><p>tivações e comportamentos (Dijksterhuis</p><p>e Bargh, 2001; Fazio e Olson, 2003).</p><p>eleMentos da cognição social</p><p>As pessoas usam suas estruturas cognitivas</p><p>para chegar a uma compreensão rápida e</p><p>bastante satisfatória a respeito dos outros e</p><p>de si mesmas. Quais são os elementos que</p><p>formam os conteúdos das estruturas cogni-</p><p>tivas? São dois os elementos principais que</p><p>preenchem nossas estruturas cognitivas:</p><p>schemas e atribuições.</p><p>Schemas</p><p>Os schemas são estruturas cognitivas com-</p><p>postas de conhecimentos sobre conceitos,</p><p>objetos ou eventos, representados por seus</p><p>atributos e pelas relações entre esses atri-</p><p>butos (Fiske, 1982; Fiske e Neuberg, 1990),</p><p>os quais expressam pré -concepções ou teo-</p><p>rias sobre conceitos, objetos ou eventos. No</p><p>nosso caso, os schemas que nos interessam</p><p>são pré -concepções ou teorias a respeito</p><p>das outras pessoas e de nós mesmos. Você,</p><p>por exemplo, provavelmente tem um sche‑</p><p>ma sobre o que é uma pessoa extrovertida:</p><p>quais são suas principais características? O</p><p>que ela faria em uma situação tensa? É uma</p><p>pessoa confiável? Amiga? Prestativa? Emo-</p><p>cionalmente Instável? Barulhenta? Por pos-</p><p>suir um schema “pessoa extrovertida”, você</p><p>responde facilmente a estas perguntas por-</p><p>que você tem uma série de pré -concepções</p><p>sobre ela. Para os psicólogos cognitivistas,</p><p>um schema não passa de um termo com-</p><p>plicado para representar esse conjunto de</p><p>conhecimentos ou pré -concepções. Pré-</p><p>-concepções possuem muitos elementos,</p><p>informações conectadas entre si, formando</p><p>uma teoria sobre “pessoa extrovertida” ou</p><p>sobre quaisquer outros conceitos, objetos ou</p><p>eventos. Uma implicação é que você pode</p><p>não ter um schema sobre um conceito ou</p><p>algo em particular.</p><p>Quais são os tipos de schemas? No</p><p>exemplo acima, temos um schema de pessoa</p><p>extrovertida. Mas as pessoas também pos-</p><p>suem todo tipo de schemas sobre traços de</p><p>personalidade (estável, agressivo, cordial),</p><p>ou de pessoas em uma determinada situa-</p><p>ção (comportamento em um restaurante,</p><p>na sala de aula, no cinema). Neste caso, te-</p><p>mos o equivalente a scripts que descrevem</p><p>ou prescrevem como a pessoa deve se com-</p><p>portar em certas situações. Outros tipos são</p><p>os schemas sobre objetivos sociais (vingança,</p><p>sedução, ajuda) e os schemas sobre papéis</p><p>sociais que contêm os comportamentos e os</p><p>atributos que esperamos de determinadas</p><p>pessoas que ocupam posições sociais (che-</p><p>fes, líderes, administradores, professores,</p><p>estudantes de graduação, estudantes de</p><p>pós -graduação, membros de uma quadrilha,</p><p>políticos, etc). Os schemas sobre papéis são</p><p>schemas equivalentes a estereótipos.</p><p>Schemas sobre o próprio eu (self ‑sche‑</p><p>mas) constituem a base de nosso autoconcei-</p><p>to, mas também pode ser que não tenhamos</p><p>nenhum schema sobre uma determinada di-</p><p>mensão de nosso eu. Se você nunca foi do</p><p>tipo esportivo, por exemplo, não há como</p><p>ter uma rede de conhecimentos e de pré-</p><p>-concepções sobre esse componente de seu</p><p>eu. Como os self ‑schemas são bastante elabo-</p><p>rados, tendemos, entre outras coisas, a nos</p><p>lembrar mais de informações que nos dizem</p><p>respeito do que de informações que nos são</p><p>indiferentes. (Kihlstrom, Cantor, Albright,</p><p>Chew, Klein e Niedenthal, 1988).</p><p>Qual, então, são as funções dos sche‑</p><p>mas? Schemas influenciam a maneira como</p><p>codificamos, relembramos e julgamos as</p><p>informações que temos acesso sobre con-</p><p>ceitos ou eventos. Os schemas também di-</p><p>rigem nossa atenção para determinados as-</p><p>pectos das informações a que temos acesso.</p><p>Um exemplo retirado de uma pesquisa de</p><p>Owens, Bower e Black (1979) serve para</p><p>ilustrar as funções dos schemas. Nessa pes-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>86 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>quisa, três grupos de participantes leram</p><p>cada um uma versão do seguinte relato:</p><p>Cris(tina) acordou sentindo -se enjoada</p><p>novamente e ficou pensando se poderia</p><p>estar grávida. Como iria dizer ao professor</p><p>que ela estava namorando? E a questão</p><p>do dinheiro ainda era outro problema...</p><p>Cris foi para a cozinha, tirou a chaleira do</p><p>armário, fez café, olhou o café e decidiu</p><p>adicionar um pouco de leite e açúcar.</p><p>Depois, vestiu -se e foi ao médico. Quando</p><p>chegou ao consultório do médico, Cris foi</p><p>examinada inicialmente pela enfermeira,</p><p>que procedeu com os exames prelimina-</p><p>res rotineiros. Cris subiu na balança, e a</p><p>enfermeira registrou seu peso. O doutor</p><p>entrou na sala, examinou os resultados</p><p>desses procedimentos, sorriu e disse</p><p>“Bom, parece que todas as minhas ex-</p><p>pectativas foram confirmadas.” Cris foi</p><p>embora e, quando foi chegando à sala de</p><p>aula, decidiu sentar -se na primeira fila.</p><p>Cris entrou na sala e sentou -se. O pro-</p><p>fessor foi para frente da sala e começou</p><p>sua aula. Durante toda a aula, Cris não</p><p>conseguiu se concentrar no que estava</p><p>sendo dito. A aula parecia não terminar</p><p>nunca. Mas, finalmente, terminou. Como</p><p>o professor foi cercado pelos alunos logo</p><p>após a aula, Cris saiu rapidamente da</p><p>sala. No final daquela tarde, Cris foi a</p><p>uma recepção no departamento e ficou</p><p>olhando para ver quem estava lá. Cris foi</p><p>até o professor, querendo conversar com</p><p>ele, sentindo -se um pouco nervosa sobre o</p><p>que dizer. Um grupo de pessoas começou</p><p>a jogar alguns jogos. Cris foi até uma mesa</p><p>onde estavam refrigerantes e salgadinhos.</p><p>O lanche estava bom, mas Cris não se</p><p>interessou por conversar com as outras</p><p>pessoas presentes. Depois</p><p>de certo tempo,</p><p>Cris decidiu ir embora. (Owens, Bower e</p><p>Black, 1979 apud Fiske, 1995, p. 163)</p><p>Um dos três grupos da pesquisa de</p><p>Owen e colaboradores (1979) leu esta ver-</p><p>são da história. Agora, considere a mesma</p><p>história com uma introdução diferente,</p><p>substituindo as primeiras linhas até os três</p><p>pontinhos (...): “Cris(tiano) acordou se per-</p><p>guntando quanto peso tinha ganho até o</p><p>momento. O treinador de seu time de fute-</p><p>bol tinha dito que ele só seria escalado para</p><p>o próximo jogo se ganhasse bastante peso e</p><p>passasse no teste antidoping. A pressão era</p><p>muito grande...” Continue com a mesma</p><p>história já transcrita acima. Para o terceiro</p><p>grupo, grupo controle, não foi fornecida</p><p>nenhuma introdução, e a história se inicia</p><p>depois dos três pontos (...).</p><p>Entre a primeira e a segunda versão da</p><p>história, o significado muda radicalmente</p><p>por conta dos schemas ativados. Na primei-</p><p>ra, temos o schema “gravidez indesejada” e,</p><p>na segunda o schema “candidato a atleta”.</p><p>Essa mudança radical ocorre porque nossos</p><p>schemas para as duas situações levam a dife-</p><p>rentes codificações e à ativação de conheci-</p><p>mentos e reações emocionais adicionais que</p><p>trazem para o que está escrito. Por exem-</p><p>plo, para entender melhor a influência do</p><p>schema “gravidez indesejada” da primeira</p><p>história, imaginemos que nossa persona-</p><p>gem tivesse tido oportunidade de conversar</p><p>com o professor. Como ela estaria se sen-</p><p>tindo em uma situação dessas? Ansiosa?</p><p>Desconfortável? Você não acha que teria</p><p>sido melhor ter combinado um encontro</p><p>com o professor em outro momento em vez</p><p>de tentar conversar na recepção? Cristina</p><p>ficou feliz quando descobriu que aumen-</p><p>tou de peso desde a última consulta? E na</p><p>segunda versão da história, como Cristiano</p><p>estava se sentindo com relação a seu pro-</p><p>fessor? Por que queria falar com o professor</p><p>na recepção? Como ele estava se sentindo</p><p>em relação a seu peso? Qualquer pessoa que</p><p>tenha schemas ativados por essas histórias</p><p>é capaz de compreendê -las, preenchê -las,</p><p>imaginar caminhos e cenários alternativos,</p><p>e assim por diante.</p><p>Para analisar mais ainda o papel dos</p><p>schemas, Owen e colaboradores (1979) so-</p><p>licitaram, meia hora depois da leitura, que</p><p>os participantes relatassem de memória</p><p>tudo que tinham lido nas histórias, pro-</p><p>curando ser o mais fiel possível ao relato</p><p>original. Os resultados mostraram que os</p><p>dois grupos, cujas histórias ativaram sche‑</p><p>mas distintos, relembraram mais detalhes</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 87</p><p>na ordem correta e com menos erros e</p><p>acréscimos de informações extras do que o</p><p>grupo de controle. Os schemas ativados di-</p><p>rigem a atenção das pessoas para detalhes</p><p>cruciais, guiam a memória e influenciam o</p><p>julgamento.</p><p>A rapidez com a qual as pessoas jul-</p><p>gam as outras acontece porque o julga-</p><p>mento é feito automaticamente on ‑line. Os</p><p>schemas permitem que façamos julgamentos</p><p>e avaliações simplificadas, polarizadas e au-</p><p>tomáticas. Somos apresentados a alguém</p><p>que nunca vimos antes e, imediatamente,</p><p>temos reações positivas ou negativas já a</p><p>partir do momento que começamos a re-</p><p>ceber informações (tom de voz, aparência,</p><p>postura, conteúdo do que diz). Acontece</p><p>que, quando encontramos alguém que ati-</p><p>va algum schema ligado a outra pessoa ou</p><p>evento, ocorre uma reação ou transferência</p><p>das mesmas reações de julgamento para a</p><p>pessoa que acabamos de conhecer – sem que</p><p>tenhamos nenhuma consciência disso. Pode</p><p>ser até que o novo conhecido não nos lem-</p><p>bre ninguém em particular, mas venha de</p><p>categorias de pessoas (ocupação, etnia, lo-</p><p>cal de nascimento) sobre as quais temos for-</p><p>tes reações afetivas ou de opinião (Andersen</p><p>e Cole, 1990; Fiske, 1982; Devine, 1995).</p><p>A categoria mais forte que existe é “nós”</p><p>versus “eles”, uma divisão inter -grupos que</p><p>sempre desencadeia julgamentos positivos</p><p>para o nosso grupo e negativos para os de</p><p>fora (Brewer, 1979; Mullen, Brown e Smith,</p><p>1992). Não é de surpreender, portanto, que</p><p>cada um de nós provoque reações tão diver-</p><p>sas nas outras pessoas.</p><p>Os schemas afetam nossa atenção, me-</p><p>mória e julgamentos, mas não são as úni-</p><p>cas influências em nossos pensamentos a</p><p>respeito dos outros. Afinal, também temos</p><p>outras evidências e informações que perce-</p><p>bemos ou recebemos de outras fontes. Os</p><p>schemas atuam em confronto com as evidên-</p><p>cias; e o equilíbrio que surge dependerá de</p><p>vários fatores. Em algumas situações, nossa</p><p>motivação – quando temos pouco tempo,</p><p>sobrecarga cognitiva, cansaço, por exemplo</p><p>– nos leva a uma predominância de nossos</p><p>schemas sobre as evidências (Brewer, 1988;</p><p>Fiske e Neuberg, 1990; Gollwitzer, 1990;</p><p>Hilton e Darley, 1991). Em outras situações,</p><p>os fatores que influenciam esta relação são</p><p>a congruência entre schemas e dados (Fiske,</p><p>Neuberg, Beattie e Milberg, 1987) e o valor</p><p>diagnóstico dos dados (Hilton e Fein, 1989;</p><p>Leyens, Yzerbyt e Schadron, 1992). Trata-</p><p>-se, de fato, de uma questão de superação</p><p>de nossos schemas e estereótipos em função</p><p>dos dados e informações a respeito de uma</p><p>determinada pessoa em particular. Os fa-</p><p>tores que podem diminuir a influência dos</p><p>schemas e estereótipos são mais atenção e</p><p>mais motivação para que possamos ir além</p><p>das reações automáticas altamente influen-</p><p>ciadas por nossos schemas.</p><p>atribuições</p><p>Os schemas são definidos como um dos dois</p><p>elementos básicos da cognição social. O ou-</p><p>tro são as atribuições. As pessoas são perce-</p><p>bidas como agentes causais e é importante</p><p>saber como elas atribuem causas aos com-</p><p>portamentos dos outros e a seus compor-</p><p>tamentos. Não só atribuímos causas, como</p><p>essas atribuições têm profundas influências</p><p>sobre nossas reações afetivas e comporta-</p><p>mentos futuros. Esta é a razão pela qual as</p><p>atribuições são parte fundamental de nossos</p><p>pensamentos a respeito dos outros e de nós</p><p>mesmos. Quando atribuímos disposições ou</p><p>traços como causas de comportamentos ob-</p><p>servados, fornecemos toda informação ne-</p><p>cessária para ficar armazenada no schema</p><p>relativo aos traços, comportamentos e rea-</p><p>ções afetivas em questão.</p><p>Weiner (2000; 2005) propõe duas teo-</p><p>rias para explicar as atribuições de causas</p><p>a que o indivíduo recorre para explicar os</p><p>próprios comportamentos (teoria da atribui‑</p><p>ção intrapessoal) e os comportamentos dos</p><p>outros (teoria da atribuição interpessoal).</p><p>Embora os modelos atribucionais de Weiner</p><p>tenham sido desenvolvidos para explicar</p><p>questões motivacionais nos comportamen-</p><p>tos de desempenho, vamos utilizar suas pro-</p><p>posições para descrever como as atribuições</p><p>de causalidade são realizadas pelas pessoas</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>88 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>quando tentam entender a si próprias e/ou</p><p>entender os outros.</p><p>Teoria da atribuição intrapessoal</p><p>O processo de atribuição de causas que o in-</p><p>divíduo realiza para explicar e compreender</p><p>seu comportamento é desencadeado a partir</p><p>de eventos considerados negativos, inespe-</p><p>rados ou importantes. A Figura 4.1, a seguir,</p><p>apresenta uma adaptação do modelo da</p><p>Teoria da Atribuição Intrapessoal de Weiner</p><p>(2000, 2005). Nesse modelo, eventos que</p><p>significam a obtenção ou não de algum ob-</p><p>jetivo provocam automaticamente reações</p><p>afetivas positivas (alegria, felicidade) ou</p><p>negativas (tristeza, frustração). Essas emo-</p><p>Figura 4.1</p><p>teoria de atribuição intrapessoal.</p><p>(Baseado em Weiner, 2005).</p><p>Tipos de causas e</p><p>suas consequências</p><p>Aptidão: expectativa alta de</p><p>sucesso; emoções positivas.</p><p>Esforço: boas expectativas de</p><p>sucesso; emoções positivas +</p><p>determinação + precaução.</p><p>Habilidade: boas expectativas de</p><p>sucesso; emoções positivas +</p><p>incerteza quanto à habilidade.</p><p>Sorte, acaso, ajuda: baixa expec‑</p><p>tativa de sucesso; emoções ime‑</p><p>diatas positivas, mas passageiras.</p><p>Tipos de causas e</p><p>suas consequências</p><p>Falta de aptidão: expectativa</p><p>muito baixa de sucesso; emoções</p><p>negativas (vergonha, humilhação,</p><p>embaraço).</p><p>Baixo esforço: boas expectativas</p><p>de sucesso; emoções negativas</p><p>passageiras (baixa autoestima,</p><p>culpa).</p><p>Falta de habilidade: expectativas</p><p>moderada de</p><p>sucesso; emo‑</p><p>ções negativas substituídas por</p><p>apreensão.</p><p>Falta de sorte, acaso ruim, falta</p><p>de ajuda: expectativa positiva</p><p>cautelosa de sucesso; emoções</p><p>negativas, mas passageiras.</p><p>Evento</p><p>Positivo</p><p>Evento</p><p>Negativo</p><p>Se o evento foi</p><p>inesperado, negativo</p><p>ou importante,</p><p>então ocorre uma</p><p>busca por causas que</p><p>podem ser descri‑</p><p>tas em um espaço</p><p>tridimensional:</p><p>•	 Locus</p><p>•	 Estabilidade</p><p>•	 Controlabilidade</p><p>Se positivo:</p><p>•	 Feliz</p><p>Se negativo:</p><p>•	 Tristeza</p><p>•	 Frustração</p><p>Alcançou</p><p>objetivo</p><p>Não alcançou</p><p>objetivo</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 89</p><p>ções ocorrem sem interferência cognitiva.</p><p>Só a partir dessas reações emocionais é que</p><p>o processo de atribuição é desencadeado</p><p>se o evento ocorrido for considerado pelo</p><p>indivíduo como negativo, inesperado ou</p><p>muito importante. De acordo com Weiner,</p><p>as causas atribuídas ao comportamento que</p><p>resultou no alcance ou não dos objetivos do</p><p>indivíduo (aptidão inata, sorte, ajuda dos</p><p>outros, etc.) podem ser enquadradas em um</p><p>espaço tridimensional composto pelas di-</p><p>mensões locus (interno ou externo), estabili‑</p><p>dade (estável ou instável) e controlabilidade</p><p>(controlável ou incontrolável).</p><p>Vamos supor, por exemplo, que o indi-</p><p>víduo acaba de ser aprovado em um concur-</p><p>so público. Devido à importância do evento,</p><p>desencadeia -se um processo atribucional</p><p>no qual a questão é atribuir uma causa ao</p><p>evento “fui aprovado no concurso”. Por uma</p><p>série de fatores, que não discutiremos aqui,</p><p>o indivíduo termina considerando que sua</p><p>aprovação foi consequência de sua grande</p><p>competência inata. O indivíduo atribui sua</p><p>aptidão à causa do que ocorreu. Nesse caso,</p><p>ele fez uma atribuição que pode ser defini-</p><p>da no espaço tridimensional como interna,</p><p>estável e incontrolável. Interna porque é pro-</p><p>priedade dele, estável porque é permanente</p><p>e constante, e incontrolável porque ele já</p><p>nasceu com elevada capacidade cognitiva</p><p>e intelectual que são características inatas.</p><p>Vamos contrastar agora esse tipo de atri-</p><p>buição com a atribuição de outro candidato</p><p>que, embora também tenha sido aprovado,</p><p>considerou que tudo aconteceu em razão de</p><p>seu esforço. Diferentemente do primeiro in-</p><p>divíduo, temos uma causa interna, não está‑</p><p>vel e controlável.</p><p>São as seguintes algumas das atribui-</p><p>ções mais comuns com suas respectivas de-</p><p>finições no espaço tridimensional:</p><p>•	 Aptidão: interna, estável, incontrolável</p><p>•	 Esforço: interna, instável, controlável</p><p>•	 Habilidade: interna, instável, contro-</p><p>lável</p><p>•	 Acaso: externa, instável, incontrolável</p><p>•	 Ajuda: externa, instável, incontrolável</p><p>•	 Sorte: externa, instável, incontrolável</p><p>Para Weiner, o enquadramento das cau-</p><p>sas no espaço tridimensional (locus, estabi-</p><p>lidade e controlabilidade) é de fundamental</p><p>importância, porque os tipos de atribuições</p><p>causais possuem diferentes consequências</p><p>motivacionais que se manifestam nas expec-</p><p>tativas e reações afetivas das pessoas. E são</p><p>essas expectativas e emoções que Weiner</p><p>considera como os principais determinantes</p><p>das ações motivacionais. Um fracasso atri-</p><p>buído à falta de aptidão, por exemplo, leva</p><p>a sentimentos de vergonha, humilhação e</p><p>embaraço, além de nenhuma expectativa de</p><p>que será possível reverter a situação no futu-</p><p>ro. Afinal, o fracasso decorreu de uma causa</p><p>interna, estável e incontrolável. Já um fra-</p><p>casso atribuído à falta de esforço, também</p><p>provoca emoções negativas (baixa autoesti-</p><p>ma, culpa), mas que são passageiras. Além</p><p>do mais, as expectativas para um sucesso no</p><p>futuro ainda permanecem: a causa do fra-</p><p>casso foi interna, instável e controlável. Na</p><p>Figura 4.1, estão listadas estas e outras con-</p><p>sequências motivacionais que ocorrem em</p><p>função das expectativas para o futuro e das</p><p>reações afetivas do indivíduo.</p><p>Teoria da atribuição interpessoal</p><p>Os mesmos mecanismos são desencadeados</p><p>quando ocorre nossa percepção em relação</p><p>aos outros. O comportamento do outro nos</p><p>chama a atenção e desencadeia uma busca</p><p>automática por uma causa. Assim como no</p><p>caso da percepção do próprio comportamen-</p><p>to, as causas que atribuímos aos comporta-</p><p>mentos dos outros também são classificadas</p><p>dentro da mesma tridimensionalidade.</p><p>Nesse ponto, ocorrem grandes dife-</p><p>renças entre os dois tipos de atribuição.</p><p>Primeiro, na atribuição intrapessoal, o indi-</p><p>víduo sempre enquadra o evento como algo</p><p>que correspondeu ou não a seus objetivos.</p><p>Os eventos podem ser resumidos como su-</p><p>cesso ou fracasso provocando reações afe-</p><p>tivas positivas ou negativas de imediato e</p><p>sem a participação de processos cognitivos.</p><p>O mesmo não ocorre na atribuição interpes-</p><p>soal. Os eventos podem ser os mais diversos,</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>90 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>tais como sucesso ou fracasso em tarefas,</p><p>doenças, pedidos de ajuda, etc. Mas, qual-</p><p>quer que seja o evento, é desencadeada uma</p><p>atribuição de causas – que, da mesma forma</p><p>que na atribuição intrapessoal, podem ser</p><p>descritas em função do locus, estabilidade</p><p>e controlabilidade –, com a diferença que a</p><p>dimensionalidade da causa é usada apenas</p><p>para considerar o outro como responsável</p><p>ou não pelo evento. Isto é, o observador</p><p>atribui ou não a responsabilidade pelo que</p><p>ocorreu ao indivíduo observado e só então</p><p>sente a reação afetiva de raiva (o indivíduo</p><p>é percebido como responsável) ou simpatia</p><p>(o indivíduo não é percebido como respon-</p><p>sável).</p><p>Na Figura 4.2, encontram -se as sequên-</p><p>cias envolvidas na atribuição interpessoal</p><p>considerando -se algumas das causas mais</p><p>comuns. Se acompanharmos as duas primei-</p><p>ras linhas dos dois conjuntos da Figura 4.2</p><p>– fracasso em uma tarefa por falta de esfor-</p><p>ço ou por falta de aptidão –, veremos que o</p><p>modelo prevê duas reações afetivas opostas</p><p>com consequências comportamentais igual-</p><p>mente distintas. Para o mesmo evento, o ob-</p><p>servador sente raiva ou simpatia e procede</p><p>com comportamentos opostos.</p><p>Comparando os dois modelos das</p><p>Figuras 4.1 e 4.2, podemos observar que</p><p>atribuições de falta de esforço como causa</p><p>de um fracasso, por exemplo, levam a re-</p><p>ações afetivas e comportamentais opostas.</p><p>Quando se trata do indivíduo, a atribuição</p><p>de pouco esforço – em contraste com a atri-</p><p>buição de falta de aptidão –, resulta em sen-</p><p>timentos moderadamente negativos e pas-</p><p>sageiros, bem como em comportamentos de</p><p>persistência e esperança de sucesso no futu-</p><p>ro. Já para um observador, ocorre o oposto:</p><p>Figura 4.2</p><p>teoria da atribuição interpessoal.</p><p>(Baseado em Weiner, 2005).</p><p>Evento Causa Reação</p><p>comportamental</p><p>Fracasso	em	 Falta	de	esforço</p><p>uma tarefa Reprimenda</p><p>Câncer do pulmão Comportamento Condenação</p><p>por ser fumante irresponsável</p><p>Responsável Raiva</p><p>Não apareceu Alcoolismo Abandono</p><p>no trabalho</p><p>Retaliação</p><p>Agrediu uma Intencional</p><p>pessoa maldade</p><p>Fracasso	em	 Falta	de	aptidão	 	 	 Decide	não</p><p>uma tarefa recriminar</p><p>Cego de Inata sem Nenhuma</p><p>nascimento controle condenação</p><p>Não Simpatia</p><p>responsável</p><p>Faltou	a	escola	 Resfriado	forte	 	 	 Ajuda</p><p>Agressão Esbarrou sem Nenhuma</p><p>querer retaliação</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 91</p><p>a atribuição de falta de esforço a um fracas-</p><p>so provoca raiva e comportamentos negati-</p><p>vos quando contrastado com a atribuição de</p><p>falta de aptidão. Esta provoca sentimentos</p><p>de simpatia e comportamentos compreensi-</p><p>vos ou de ajuda.</p><p>Processos da cognição social</p><p>Schemas e atribuições, objetos dos dois úl-</p><p>timos tópicos, são os conteúdos sobre os</p><p>quais formamos nossas impressões. Neste</p><p>e nos próximos dois tópicos, considerare-</p><p>mos os três principais processos que operam</p><p>sobre os schemas e as atribuições: atenção,</p><p>memória e inferência.</p><p>atenção</p><p>A atenção é constituída por dois outros pro-</p><p>cessos: codificação e consciência. Na codi-</p><p>ficação, transformamos toda estimulação</p><p>que nos atinge através do(s) sentido(s) que</p><p>atendemos no momento, em algo que toma-</p><p>mos consciência e guardamos temporaria-</p><p>mente ou permanentemente em nossa me-</p><p>mória. Consciência é aquilo de que temos</p><p>conhecimento em um determinado momen-</p><p>to. Podemos ficar quietos e estar cientes de</p><p>nossas cognições, dos ruídos externos, das</p><p>sensações que o ambiente provoca em nosso</p><p>corpo, e assim por diante.</p><p>A atenção pode então ser definida</p><p>como a codificação e a consciência de estí-</p><p>mulos internos ou externos a nosso organis-</p><p>mo. A principal característica da atenção é</p><p>que ela é limitada. Não podemos atender a</p><p>todos os estímulos que nos atingem; temos</p><p>que nos restringir a uma pequena parte a</p><p>cada momento. Como nossa atenção é bas-</p><p>tante limitada, ela tem que ser bem sele-</p><p>tiva.</p><p>Na cognição social, a seletividade da</p><p>atenção é importante porque os objetos do</p><p>pensamento social, os outros e nós mes-</p><p>mos, são muito complexos e multifacetados.</p><p>Nossa atenção seletiva, portanto, já esta-</p><p>belece propriedades únicas aos conteúdos</p><p>de nossa cognição social (schemas e atri-</p><p>buições). Só podemos perceber e lidar com</p><p>aquilo que percebemos e, até certo ponto,</p><p>com aquilo de que temos consciência.</p><p>Sendo a atenção seletiva, quais os fa-</p><p>tores que a influenciam? Um dos principais</p><p>é a saliência do estímulo. Se estivermos em</p><p>um ambiente onde existe um excesso de es-</p><p>timulação, nossa atenção será dirigida para</p><p>estímulos que são salientes no ambiente.</p><p>Claro que podemos ter nossa atenção to-</p><p>talmente voltada para alguma preocupação</p><p>premente e não prestamos mais atenção ao</p><p>ambiente. Neste caso, entretanto, a saliên-</p><p>cia é de nossos problemas e pensamentos</p><p>internos. A saliência é determinada pelo</p><p>contexto imediato do estímulo. Uma pessoa</p><p>alta em uma festa tem uma saliência bem</p><p>diferente de um jogador bem alto em um</p><p>time de basquetebol.</p><p>Dois outros fatores ajudam na captu-</p><p>ra da atenção da pessoa. O primeiro são os</p><p>schemas. Qualquer comportamento que vá</p><p>de encontro ao conhecimento prévio que</p><p>temos de papéis ou schemas de pessoas vai</p><p>chamar nossa atenção. A inconsistência com</p><p>o schema chama a atenção. Fiske (1995),</p><p>por exemplo, descreve um professor que</p><p>decide ir dar aula vestido de palhaço como</p><p>um caso típico de contraste entre o compor-</p><p>tamento e o schema de papel de professor.</p><p>O segundo fator que provoca a saliência do</p><p>estímulo são os objetivos do observador na-</p><p>quele determinado momento. Esses objeti-</p><p>vos ajudam a focalizar a atenção, tornando</p><p>saliente aquilo que lhe está relacionado.</p><p>Quais as consequências da saliência?</p><p>O que está saliente assume uma importância</p><p>maior do que outros estímulos não salientes,</p><p>inclusive, em termos de causalidade. Isto é,</p><p>as atribuições de causalidade das pessoas</p><p>vão sofrer influência do que é mais saliente</p><p>para elas. Os estímulos salientes passam a</p><p>ter maior probabilidade de assumir o papel</p><p>causal principal em um determinado con-</p><p>texto. Uma determinada pessoa que chame</p><p>a atenção do observador, por exemplo, vai</p><p>ganhar mais crédito e parecer mais influen-</p><p>te do que os outros que não chamaram tanta</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>92 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>atenção, simplesmente porque o observador</p><p>prestou mais atenção a esta pessoa. Uma</p><p>maior atenção também tende a polarizar ou</p><p>exagerar as avaliações do observador a res-</p><p>peito da pessoa saliente. Se quem observa</p><p>gosta da pessoa sendo observada, o gostar</p><p>aumenta mais ainda. Se não gosta, também</p><p>aumenta o não gostar. As avaliações ficam</p><p>polarizadas. Finalmente, maior saliência</p><p>também aumenta a probabilidade de a pes-</p><p>soa ser lembrada posteriormente. Aumenta</p><p>a probabilidade de ela ficar registrada na</p><p>memória de quem observa.</p><p>Quaisquer que sejam as razões para</p><p>que prestemos mais atenção a certas pessoas</p><p>ou aspectos dessas pessoas, a principal con-</p><p>sequência é que a atenção vai mudar a ma-</p><p>neira como julgamos e interagimos com elas.</p><p>Boa parte do que pensamos sobre os outros</p><p>acontece on ‑line, automaticamente, em uma</p><p>velocidade muito grande. A atenção influen-</p><p>cia enormemente que tipo de informação</p><p>teremos para fundamentar nossa compreen-</p><p>são dos outros ou de nós mesmos.</p><p>Memória</p><p>Pesquisas que investigaram as memórias</p><p>sobre outras pessoas demonstraram que os</p><p>objetivos, envolvimento do observador e a</p><p>impressão geral formada pelo conjunto de</p><p>informações, têm um grande impacto sobre</p><p>o quanto nos relembramos posteriormen-</p><p>te (Devine, Sedikides e Fuhrman, 1989;</p><p>Hamilton, 1981; Hamilton, Katz e Leirer,</p><p>1980; Srull, 1983). Ao tentar memorizar in-</p><p>formações sobre outra pessoa é bem mais efi-</p><p>caz tentar formar uma impressão ou descri-</p><p>ção geral dela do que tentar gravar pedaços</p><p>isolados de informação, tais como descrições</p><p>de traços de personalidade. Por exemplo, se</p><p>descrevemos para você uma pessoa como</p><p>ousada, convencida, distante e teimosa, a</p><p>melhor estratégia é tentar formar uma im-</p><p>pressão geral desse tipo de pessoa (imagine</p><p>uma pessoa descrita por esses adjetivos), e</p><p>não tentar memorizar cada adjetivo ou usar</p><p>truques mnemônicos do tipo “memorize as</p><p>primeiras letras de cada adjetivo tentando</p><p>formar uma sigla”. Por que é mais fácil dessa</p><p>forma? É mais fácil por causa da integração</p><p>das informações, em um todo coerente, da</p><p>formação de ligações entre os traços descri-</p><p>tivos da pessoa (a ligação entre teimosia e</p><p>ousadia reforça mais ainda a impressão ge-</p><p>ral, por exemplo). Quanto mais traços e mais</p><p>ligações, melhor a memorização.</p><p>Além disso, quanto mais o observa-</p><p>dor está envolvido com a pessoa observada</p><p>e quanto mais relevante para o observador</p><p>é a impressão (autorreferente) geral do ou-</p><p>tro, melhor será sua memória. A criação de</p><p>certa empatia (tentar se colocar no lugar do</p><p>outro) ajuda mais ainda a relembrar infor-</p><p>mações sobre outra pessoa. Estranhamente,</p><p>tentar se colocar no lugar do outro ou, me-</p><p>lhor ainda, antecipar uma interação com a</p><p>pessoa (como poderíamos lidar com alguém</p><p>que é ousado, convencido, distante e teimo‑</p><p>so?) é ainda melhor em termos mnemônicos</p><p>do que interagir de fato com a pessoa. Em</p><p>uma interação real você estaria decidindo</p><p>também sobre seu comportamento, além</p><p>de tentar formar uma impressão a respei-</p><p>to do outro. Você estaria muito ocupado</p><p>(Hastie, Ostrom, Ebbesen, Wyer, Hamilton</p><p>e Carlston, 1980; Srull e Wyer, 1989; Wyer</p><p>e Srull, 1984).</p><p>inferência</p><p>A questão da inferência na cognição social</p><p>diz respeito ao que fazemos com a informa-</p><p>ção que obtivemos por meio dos processos</p><p>de atenção e retenção (memória). Como fa-</p><p>zemos para ir além da informação de que</p><p>dispomos? Qual a qualidade de nossas in-</p><p>ferências? Qual a qualidade de nossos jul-</p><p>gamentos?</p><p>Para determinar a qualidade de nossas</p><p>inferências e julgamentos precisamos nos re-</p><p>ferir a questões normativas. A pergunta pas-</p><p>sa a ser “Qual a qualidade de nossas inferên-</p><p>cias e julgamentos quando comparadas com</p><p>o que é sugerido por princípios normativos</p><p>ou padrões de qualidade?” (Nisbett e Ross,</p><p>1980; Kahneman, Slovic e Tversky, 1982;</p><p>Gilovich, 1991; Sutherland, 1992; Goldstein</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 93</p><p>e Hogarth, 1997; Baron, 2000; Gigerenzer,</p><p>2000; Gigerenzer e Selten, 2001; Gilovich,</p><p>Griffin e Kahneman, 2002).</p><p>As respostas obtidas nas pesquisas re-</p><p>alizadas nas últimas décadas não têm sido</p><p>muito boas. Diferentes pesquisadores têm</p><p>demonstrado que os mesmos processos cog-</p><p>nitivos, sociais e motivacionais responsáveis</p><p>pelas grandes realizações da inteligência e</p><p>julgamento humanos também estão envolvi-</p><p>dos em falhas e distorções que vão dos sim-</p><p>ples aos grandes erros de julgamento. Não</p><p>se trata de falta de informação ou de educa-</p><p>ção. A superutilização ou a má aplicação de</p><p>nossas capacidades cognitivas é que causam</p><p>os problemas. Eles constituem os custos ine-</p><p>vitáveis de nossos poderes cognitivos porque</p><p>os problemas de inferências e de julgamen-</p><p>to ocorrem quando utilizamos nossas capa-</p><p>cidades cognitivas no limite e sem o auxílio</p><p>de um bom conhecimento normativo. Este</p><p>último ponto tem levado vários autores a</p><p>questionarem as conclusões pessimistas das</p><p>últimas décadas de pesquisa. Afinal, a má</p><p>qualidade de nossas inferências e julgamen-</p><p>tos não tem impedido o sucesso adaptativo</p><p>mundo,</p><p>tendo ali realizado uma série de experimen-</p><p>tos com o objetivo de estudar os processos</p><p>mentais básicos, além de ter fundado o pri-</p><p>meiro periódico de psicologia experimental.</p><p>Tais ações levaram -no a ser considerado o</p><p>fundador da psicologia experimental.</p><p>Com o passar do tempo, porém, Wundt</p><p>sentiu necessidade de estudar os proces-</p><p>sos mentais mais complexos ou superiores,</p><p>como a memória e o pensamento, tendo</p><p>constatado que o método experimental não</p><p>era adequado a tal estudo. Assim, propôs</p><p>uma distinção entre a psicologia experimen-</p><p>tal, responsável pelo estudo dos processos</p><p>mentais básicos, e a Völkerpsychologie (psi-</p><p>cologia dos povos), dedicada ao estudo dos</p><p>processos mentais superiores por meio do</p><p>método histórico -comparativo. Com isso,</p><p>ele estabelece uma clara distinção entre os</p><p>fenômenos psicológicos mais externos, que</p><p>estariam na periferia da mente, e os fenô-</p><p>menos mais profundos, que constituiriam a</p><p>mente propriamente dita (Álvaro e Garrido,</p><p>2007).</p><p>Em sua Völkerpsychologie, Wundt toma</p><p>a mente como um fenômeno histórico, um</p><p>produto da cultura e da linguagem de um</p><p>determinado povo, que não poderia ser ex-</p><p>plicada em termos individuais, mas sim em</p><p>termos coletivos. Por essa razão, detém -se</p><p>no estudo da língua, da arte, dos mitos e</p><p>dos costumes, como forma de compreender</p><p>a mente. Em síntese, haveria uma íntima</p><p>relação entre a mente humana e a cultura,</p><p>entre o indivíduo e o contexto cultural no</p><p>qual ele se desenvolve. Desse modo, a psico-</p><p>logia deveria estudar as produções mentais</p><p>coletivas originadas das ações de conjuntos</p><p>de indivíduos se quisesse chegar à mente</p><p>humana (Farr, 1999). A psicologia dos po-</p><p>vos de Wundt exerceu influência principal-</p><p>mente sobre a psicologia social sociológica,</p><p>em virtude da ênfase atribuída à questão da</p><p>determinação sócio -histórica do indivíduo e</p><p>ao uso da metodologia não experimental.</p><p>os precursores da psicologia</p><p>social na França</p><p>Conforme já mencionado, entre os pre-</p><p>cursores da psicologia social na França</p><p>encontram -se Durkheim, Tarde e Le Bon.</p><p>Emile Durkheim (1858 -1917) é considerado</p><p>um dos fundadores da sociologia, tendo</p><p>publicado várias obras nas quais aborda a</p><p>evolução da sociedade, os métodos da socio-</p><p>logia e a vida religiosa. No livro intitulado</p><p>Representações individuais e representações</p><p>coletivas, publicado em 1898, ele desenvolve</p><p>o conceito de representações coletivas (Melo</p><p>Neto, 2000), que exerceu significativa influ-</p><p>ência sobre a psicologia social europeia. Para</p><p>ele, as representações coletivas (como a re-</p><p>ligião, os mitos, etc.) constituem -se em um</p><p>fenômeno ao nível da sociedade e distinto</p><p>das representações individuais, que estão no</p><p>nível do indivíduo. Nesse sentido, postula</p><p>que os sentimentos privados só se tornam</p><p>sociais quando extrapolam os indivíduos e</p><p>associam -se, formando uma combinação</p><p>que se perpetua no tempo, transformando-</p><p>-se na representação de toda uma sociedade.</p><p>As posições de Durkheim influenciarão so-</p><p>bretudo o psicólogo social Serge Moscovici,</p><p>que, muitos anos depois, desenvolve a teo-</p><p>ria das representações sociais.</p><p>Gabriel Tarde (1843 -1904), na obra</p><p>As leis da imitação, publicada em 1890, de-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>16 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>fende que a vida social tem como mecanis-</p><p>mo básico a imitação (Karpf, 1932). Desse</p><p>modo, qualquer produção individual, surgi-</p><p>da sob a forma de uma invenção ou desco-</p><p>berta, propaga -se na vida social por meio da</p><p>imitação, uniformizando -a. Para ele, as ini-</p><p>ciativas individuais constituem -se em uma</p><p>invenção, enquanto as uniformidades da</p><p>vida social associam -se à imitação, que con-</p><p>siste, portanto, em uma socialização da ino-</p><p>vação individual. Avançando em suas pro-</p><p>posições, o autor ressalta que as pessoas de</p><p>status inferior costumam imitar as de maior</p><p>status, que o processo de imitação começa</p><p>lentamente e com o tempo se acelera e que</p><p>a cultura nacional é imitada antes da estran-</p><p>geira (Álvaro e Garrido, 2007). As ideias de</p><p>Tarde exercerão influência no trabalho de</p><p>Ross, que publicou um dos primeiros livros</p><p>de psicologia social.</p><p>Em 1895, Gustav Le Bon (1814 -1931)</p><p>publicou o livro Psicologia das multidões</p><p>(Melo Neto, 2000), que exerceu significa-</p><p>tiva influência nos trabalhos de vários psi-</p><p>cólogos sociais posteriores. Nesse livro, o</p><p>autor defende a tese de que as massas ou</p><p>multidões constituem -se em seres psíquicos</p><p>de características diferentes dos indivíduos</p><p>que as compõem. Nesse sentido, quando</p><p>eles se juntam às massas, perdem suas ca-</p><p>racterísticas superiores e sua autonomia,</p><p>passando a ser regidos por uma alma cole-</p><p>tiva, com características independentes das</p><p>de seus membros, além de mais primitivas</p><p>e inconscientes. As multidões seriam, assim,</p><p>as responsáveis pelo fato de os sujeitos per-</p><p>derem sua individualidade e passarem a</p><p>fazer parte de um todo com características</p><p>totalmente distintas das partes que o com-</p><p>põem.</p><p>Segundo Le Bon, ao se encontrar em</p><p>uma multidão, o indivíduo sufoca sua per-</p><p>sonalidade consciente e passa a ser domi-</p><p>nado pela mente coletiva da multidão, que</p><p>é capaz de levar seus membros a apresen-</p><p>tar comportamentos unânimes, emocionais</p><p>e desprovidos de racionalidade. Em outras</p><p>palavras, as pessoas perdem sua capacidade</p><p>de raciocínio e tornam -se altamente suges-</p><p>tionáveis, o que as leva a cometer atos de</p><p>barbárie que não praticariam se estivessem</p><p>sozinhas.</p><p>Quando enfatiza a irracionalidade das</p><p>multidões, Le Bon estabelece um vínculo en-</p><p>tre a psicologia social e a psicopatologia, ao</p><p>qual se contrapõe a psicologia social psicoló-</p><p>gica de base cognitiva, surgida nos anos de</p><p>1970 (Farr, 1999). Por outro lado, a questão</p><p>da sugestão ou influência social, implícita na</p><p>psicologia das multidões, posteriormente se</p><p>converterá em objeto de atenção da psicolo-</p><p>gia social psicológica de base experimental.</p><p>No entanto, o estudo da mente grupal e do</p><p>comportamento das multidões propriamen-</p><p>te dito, foco central da obra de Le Bon, so-</p><p>mente será resgatado mais recentemente,</p><p>por autores como Moscovici e colaboradores</p><p>(McGarty e Haslam, 1997).</p><p>a Fundação da Psicologia social</p><p>No início do século XX, a psicologia social</p><p>começa a adquirir o status de uma discipli-</p><p>na independente, e seu centro de gravidade</p><p>começa a mudar da Europa para os Estados</p><p>Unidos (Jahoda, 2007). Duas obras, publica-</p><p>das no ano de 1908, irão marcar a fundação</p><p>oficial da psicologia social moderna: Uma</p><p>introdução à psicologia social, de William</p><p>McDougall, e Psicologia social: uma resenha</p><p>e um livro texto, de Edward Ross (Pepitone,</p><p>1981). Cumpre registrar, porém, que esses</p><p>dois autores, embora fossem contemporâne-</p><p>os e tivessem usado a expressão psicologia</p><p>social nos títulos de seus livros, não estavam</p><p>falando do mesmo assunto.</p><p>Edward Ross (1866 -1951) era um so-</p><p>ciólogo norte -americano que, influenciado</p><p>pelas obras de Tarde e de Le Bon, caracte-</p><p>rizou a psicologia social como o estudo das</p><p>uniformidades de pensamentos, crenças e</p><p>ações decorrentes da interação entre os seres</p><p>humanos (Pepitone, 1981). Segundo Ross,</p><p>os fenômenos subjacentes a essa uniformi-</p><p>dade são a imitação, a sugestão e o contá-</p><p>gio, o que explicaria a rápida uniformidade</p><p>verificada entre as emoções e as crenças das</p><p>multidões. Embora Ross tenha especificado</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 17</p><p>algumas variáveis que interferem na suges-</p><p>tão (como, por exemplo, o prestígio da fon-</p><p>te), sua análise da vida social humana não</p><p>se reverteu no desenvolvimento de um mo-</p><p>delo teórico formal, tendo ele se limitado a</p><p>organizar observações extraídas da história,</p><p>da literatura e do trabalho de outros auto-</p><p>res.</p><p>McDougall (1871 -1938), por outro</p><p>lado, era um psicólogo britânico que foi</p><p>fortemente influenciado pelas concepções</p><p>de Darwin e Spencer sobre a evolução. Sua</p><p>obra gira em torno do conceito de instinto,</p><p>ressaltando a importância de certas carac-</p><p>terísticas inatas e instintivas para a vida so-</p><p>cial. Segundo</p><p>e reprodutivo de nossa espécie. E os proble-</p><p>mas surgem quando nossas inferências são</p><p>confrontadas com padrões de qualidade</p><p>nem sempre explicitados de forma relevante</p><p>e pertinente à linguagem cognitiva cotidia-</p><p>na, adaptada ao mundo real (Gigerenzer e</p><p>Selten, 2001; Gigerenzer, 2000). Temos que</p><p>ter cautela quando julgamos nossas capaci-</p><p>dades inferenciais. Afinal, lidamos com um</p><p>mundo que se apresenta como um conjun-</p><p>to de dados confusos, frequentemente ale-</p><p>atórios, incompletos, não representativos,</p><p>inconsistentes, secundários, de difícil com-</p><p>preensão. São justamente nossos sucessos e</p><p>fracassos para lidar com este tipo de dados</p><p>que revelam a grande capacidade do racio-</p><p>cínio juntamente com suas limitações de jul-</p><p>gamento e de racionalidade.</p><p>E quais são as principais limitações?</p><p>Elas podem ser agrupadas em algumas ca-</p><p>tegorias: interpretação de dados aleatórios,</p><p>de dados incompletos e não representativos,</p><p>à profecia autorrealizante de ver o que já se</p><p>esperava ver.</p><p>Interpretando dados aleatórios</p><p>Tendemos a “ver” ordem onde não existe ne-</p><p>nhuma e percebe mos um processo coerente</p><p>atuando onde existe apenas a presença do</p><p>acaso (os testes psicológicos projetivos se</p><p>aproveitam dessa propensão). Relacionada</p><p>a esta percepção de ordem, consideramos</p><p>que eventos aleatórios são por definição</p><p>aqueles eventos que não apresentam ordem</p><p>“aparente”, isto é, são eventos que têm uma</p><p>aparência “desordenada”. Uma das pesqui-</p><p>sas de Tversky e Kahe man (1973) ilustra</p><p>bem essa tendência. Estudantes foram soli-</p><p>citados a avaliar a probabili dade relativa de</p><p>três sequências de nascimentos de meninos</p><p>(H) e meninas (M), considerando os primei-</p><p>ros seis bebês nascidos em um determina-</p><p>do dia no hospital da cidade. As sequências</p><p>apresentadas aos estudantes foram as se-</p><p>guintes:</p><p>1. H H H H H H</p><p>2. H H H M M M</p><p>3. M H H M M H</p><p>A probabilidade de ocorrência de cada</p><p>uma das três sequências é quase idêntica. No</p><p>entanto, a maioria dos sujeitos da pesquisa</p><p>escolheu a sequência (3) como a que apre-</p><p>senta a maior probabilidade de ocorrência.</p><p>Considerando o que sabem sobre a distri-</p><p>buição de nascimentos e sobre o processo</p><p>de geração do evento aleatório, as pessoas</p><p>julgam a terceira sequência como a mais re-</p><p>presentativa. A segunda sequência tem uma</p><p>aparência muito “ordenada” e a primeira</p><p>representa menos ainda uma sequência ale-</p><p>atória: ela não reflete a aleatoriedade do</p><p>processo de nascimento nem a distribuição</p><p>dos sexos na população. O mesmo ocorre na</p><p>chamada “falácia do jogador”. Após observar</p><p>uma longa sequência de números baixos em</p><p>um lançamento de dados, o jogador tende</p><p>a acreditar que o próximo será um número</p><p>alto porque tal resultado tornaria a sequên-</p><p>cia geral dos eventos mais “representativa”</p><p>de uma sequência aleatória.</p><p>Para Kahneman, Slovic e Tversky (1982)</p><p>é o heurístico da “representatividade” que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>94 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>se encontra na raiz da percepção errônea de</p><p>sequências aleatórias. Esses heurísticos são</p><p>atalhos cognitivos que simplificam e facili-</p><p>tam a inferência e o julgamento. As pessoas</p><p>recorrem a esse heurístico quando conside-</p><p>ram que os efeitos devem se assemelhar a</p><p>suas causas (grandes efeitos exigem grandes</p><p>causas, efeitos com plexos decorrem de cau-</p><p>sas complexas); que eventos que estão inter-</p><p>ligados devem aparentar essa inter ligação e</p><p>que exemplares devem aparentar semelhan-</p><p>ça com a categoria da qual fazem parte (p.</p><p>ex., um psicólogo deve ter a “aparência” do</p><p>protótipo representativo do psicólogo).</p><p>Muitas vezes o julgamento baseado na</p><p>representatividade é um julgamento corre-</p><p>to. Outras vezes, porém, o uso excessivo da</p><p>representatividade leva a julgamentos errô-</p><p>neos. Nem todos os psicólogos têm “cara” de</p><p>psicólogos e alguns grandes efeitos (p. ex.:</p><p>epidemias) possuem causas praticamente</p><p>invisíveis (p. ex.: vírus). Mas, qual a relação</p><p>do heurístico com a questão da aleatorieda-</p><p>de? No caso do lançamento de uma moeda,</p><p>por exemplo, o aspecto mais saliente é o</p><p>conjunto de resultados que deve produzir –</p><p>espera -se uma divisão meio a meio com 50%</p><p>de caras e 50% de coroas. Ao examinar uma</p><p>sequência de resultados, esse aspecto salien-</p><p>te dos 50% – 50% é comparado automati-</p><p>camente com a sequência que se obteve. Se</p><p>a sequência estiver grosseiramente dividida</p><p>em 50% – 50% perceberemos um processo</p><p>aleatório – isto é, a sequência “representa”</p><p>uma distribuição aleatória. Qualquer outra</p><p>divisão provoca julgamentos de não aleato-</p><p>riedade. O erro está em não saber que isso</p><p>é o que deve ocorrer só a longo prazo. A “lei</p><p>dos grandes números”, de acordo com os</p><p>estatísticos, assegura a ocorrência de uma</p><p>divisão 50/50 somente após um grande nú‑</p><p>mero de lançamentos da moeda. Para poucos</p><p>lançamentos, sequências “desequilibradas”</p><p>são perfeitamente possíveis.</p><p>A “ilusão do agrupamento” manifesta-</p><p>-se em várias outras formas. Pessoas que</p><p>trabalham em maternidades observam uma</p><p>série de nascimentos de meninos seguidos</p><p>por uma série de nascimentos de meninas</p><p>e terminam por atribuir tais eventos a vá-</p><p>rias forças misterio sas do tipo “fases da</p><p>lua”. As pessoas também “percebem” uma</p><p>face na lua, São Jorge lutando contra o dra-</p><p>gão, canais em Marte, ou, para as que são</p><p>religiosas, todo tipo de imagens em panos,</p><p>madeiras, nuvens, árvores e no campo. São</p><p>simplesmente exemplos de sequências alea-</p><p>tórias, mas que não possuem a “aparência”</p><p>aleatória.</p><p>Interpretando dados incompletos</p><p>A reação mais comum das pessoas a qual-</p><p>quer atitude um pouco mais cética sobre a</p><p>veracidade de crenças e fenômenos consiste</p><p>no relato de um testemunho próprio ou do</p><p>depoimento dado por outra pessoa. Reações</p><p>como “Conheço alguém que ficou bom de-</p><p>pois que colocou este amuleto debaixo do</p><p>travesseiro”, são as respostas favoritas das</p><p>pessoas que acreditam em práticas e crenças</p><p>alternativas: “Eu vi acontecer”. “Minha vizi-</p><p>nha ficou completamente curada”. “Acontece</p><p>o tempo todo com muita gente”.</p><p>O que estas afirmações possuem em</p><p>comum é a apresentação de evidência po-</p><p>sitiva que justifica e explica a convicção</p><p>da pessoa. Mas o problema com esse tipo</p><p>de evidência é que não é suficiente para a</p><p>comprovação de nenhum fenômeno. Casos</p><p>de pacientes que relatam terem ficado cura-</p><p>dos com a ajuda de tratamentos pela ho-</p><p>meopatia ou tratamento espiritual existem</p><p>aos milhares, mas não constituem evidência</p><p>suficiente de que esses tratamentos interfe-</p><p>riram ou promoveram a remissão de alguma</p><p>doença ou condição. Ainda seria necessário</p><p>levar em conta, por exemplo, o número de</p><p>pacientes que apresentaram remissão sem o</p><p>recurso aos tratamentos (receberam um pla-</p><p>cebo acreditando que era o tratamento ver-</p><p>dadeiro), os que não apresentaram melhora</p><p>alguma mesmo recorrendo aos tratamentos,</p><p>e os que não melhoraram, mas também</p><p>não foram tratados (mas acreditavam que</p><p>tinham sido tratados). A Tabela 4.1 a seguir</p><p>apresenta graficamente os grupos que de-</p><p>vem ser observados para que possamos tes-</p><p>tar a eficácia de um tratamento. São quatro</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 95</p><p>as evidências necessárias e suficientes para</p><p>que possamos julgar e inferir.</p><p>Para verificarmos corretamente se o</p><p>tratamento leva à cura, teríamos que com-</p><p>parar as quatro informações das condições</p><p>A, B, C e D. Mas não é isso que as pesso-</p><p>as fazem (cf., Crocker, 1981). O que mais</p><p>chama nossa atenção são as condições “A”</p><p>e “B”, pois confirmam que “pacientes foram</p><p>tratados e foram curados” e “pacientes não</p><p>foram tratados e não foram curados”. Na</p><p>verdade, as pessoas terminam por observar</p><p>apenas a condição em que existe um bom</p><p>número de casos positivos para concluir</p><p>que o tratamento funciona. Infelizmente, a</p><p>evidência da condição A é necessária, mas</p><p>não é suficiente. Cognitivamente, é bem</p><p>mais fácil lidar com a confirmação positi-</p><p>va, já que encerra toda evidência necessária</p><p>para a ocorrência de um julgamento. Já as</p><p>informações das celas B e C, isoladamente,</p><p>não dizem lá muita</p><p>coisa – exceto quando</p><p>fazemos um grande esforço de análise e as</p><p>consideramos juntas com as outras duas ce-</p><p>las. Como conciliar esses fatos com o “avaro</p><p>cognitivo” que somos?</p><p>Finalmente, outras pesquisas indicam</p><p>igualmente que a excessiva suscetibilidade</p><p>das pessoas à confirmação positiva é apenas</p><p>um dos aspectos da questão. As pessoas não</p><p>gostam do papel de “advogado do diabo” e</p><p>procuram ativa e deliberadamente apenas os</p><p>dados que confirmem suas crenças e julga-</p><p>mentos (cf. Skov e Sherman, 1986; Snyder e</p><p>Swann, 1978; Trope e Bassok, 1982).</p><p>Profecia autorrealizante</p><p>A profecia autorrealizante ocorre quando</p><p>nossa expectativa termina por provocar o</p><p>próprio comportamento que originalmente</p><p>antecipamos. Imagine uma situação em que</p><p>acreditamos que alguém é antipático e hos-</p><p>til. Nosso comportamento em direção a essa</p><p>pessoa vai com certeza refletir nossa expec-</p><p>tativa, podendo então provocar respostas</p><p>que comprovam o que é esperado. Pesquisas</p><p>indicam que profecias dessa natureza são</p><p>muito comuns em situação de aprendiza-</p><p>do, nas quais o professor não acredita na</p><p>capacidade do aprendiz. Por não acreditar,</p><p>termina agindo de uma forma que provoca,</p><p>induz a não aprendizagem do aluno. Nesse</p><p>caso, ocorreu uma profecia autorrealizante</p><p>porque existiu algum mecanismo que trans-</p><p>formou a expectativa em ação confirmató-</p><p>ria (muitas vezes inconsciente por parte de</p><p>quem tem a expectativa inicial). Sem esse</p><p>mecanismo, não existe profecia autorrea-</p><p>lizante. Ao provocarmos a realização de</p><p>nossas expectativas, terminamos por basear</p><p>tabela 4.1</p><p>situações que devem ser investigadas para que se possa verificar a suposta</p><p>relação entre cura de doenças e os tratamentos homeopáticos ou espirituais</p><p>Pacientes curados Pacientes não curados</p><p>receberam tratamentos a B</p><p>receberam placebo c D</p><p>cada cela deve ser preenchida com o número de casos observados de acordo com as condições das marginais:</p><p>a = número de pacientes que receberam os tratamentos e foram curados</p><p>B = número de pacientes que receberam os tratamentos e não foram curados</p><p>c = número de pacientes que não receberam os tratamentos (mas acreditavam que sim, pois receberam um</p><p>placebo) e foram curados</p><p>D = número de pacientes que não receberam os tratamentos (mas acreditavam que sim, pois receberam um</p><p>placebo) e não foram curados</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>96 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>nossos julgamentos sobre informações que</p><p>não estariam disponíveis se não tivéssemos</p><p>provocado o surgimento delas em primeiro</p><p>lugar. Lidamos com o que observamos sem</p><p>considerar como as coisas seriam diferentes</p><p>se tivéssemos agido diferentemente.</p><p>Outras profecias são apenas aparente-</p><p>mente autorrealizantes e ocorrem quando</p><p>nossas expectativas alteram as circunstân-</p><p>cias que impedem ou limitam as ações da</p><p>outra pessoa – ações que poderiam descon-</p><p>firmar nossas expectativas. Suponha que al-</p><p>guém ache você agressivo e se afaste evitan-</p><p>do todo tipo de contato. Como você poderá</p><p>mostrar que a crença e a expectativa do ou-</p><p>tro em relação a você não são verdadeiras?</p><p>Ele vai continuar achando você agressivo</p><p>porque já achava antes e nada de novo vai</p><p>desconfirmar essa crença.</p><p>Problemas inferenciais: o que fazer?</p><p>Embora os estudos sobre os fundamentos</p><p>de nossa cognição social possam transmitir</p><p>uma visão pessimista da qualidade de nos-</p><p>sos julgamentos e inferências, duas obser-</p><p>vações devem ser consideradas. Primeiro,</p><p>a maneira como pensamos sobre os outros</p><p>é boa o suficiente para que consigamos so-</p><p>breviver razoavelmente bem em sociedade.</p><p>Com a prática advinda da experiência e</p><p>da maturidade, chegamos a um ponto em</p><p>que, na maioria das vezes, conseguimos</p><p>negociar de forma relativamente adequada</p><p>nossos relacionamentos sociais. Apesar dos</p><p>heurísticos, vieses, atenção limitada e me-</p><p>mória seletiva, conseguimos nos adaptar e</p><p>aprender com nossos erros e com os erros</p><p>dos outros.</p><p>Segundo, é esta possibilidade de apren-</p><p>dizagem e de aperfeiçoamento que deve ser</p><p>explorada quando se considera a qualidade</p><p>de nossos julgamentos e inferências. Vários</p><p>estudos demonstraram que é possível melho-</p><p>rar nossos julgamentos e evitar parte dos vie-</p><p>ses e erros que cometemos (Cheng, Holyoak,</p><p>Nisbett e Oliver, 1986; Fong, Krantz e Nisbett,</p><p>1986; Nisbett, Krantz, Jepson e Fong, 1982;</p><p>Tróccoli, 2005; ver também Gigerenzer e</p><p>Selten, 2001; Gigerenzer, 2000).</p><p>coMentários Finais</p><p>A cognição social compreende estudos sobre</p><p>como percebemos, processamos, armazena-</p><p>mos e usamos informações que recebemos</p><p>de nosso mundo social. Nos últimos 20</p><p>anos, surgiram revistas e livros especializa-</p><p>dos contendo centenas de pesquisas sobre</p><p>como pensamos a respeito de nós e dos ou-</p><p>tros (p. ex., Hamilton, 2005; Fiske e Taylor,</p><p>2008). Não só isso, mas novas teorias, ques-</p><p>tões e metodologias (p. ex., a neurociência</p><p>cognitiva social) também surgiram como</p><p>consequência do estudo do fenômeno social</p><p>a partir da perspectiva da cognição social. A</p><p>cognição social, então, deve ser considerada</p><p>não como mais um tópico da psicologia so-</p><p>cial, mas como uma abordagem nova sobre</p><p>seus diversos tópicos (cf., Devine, Hamilton</p><p>e Ostrom, 1994). A psicologia social abran-</p><p>ge uma grande variedade de tópicos, tais</p><p>como atitudes, agressão, altruísmo, amor,</p><p>percepção interpessoal, tomada de decisões</p><p>e relações grupais, entre outros. A cognição</p><p>social é uma novidade conceitual e metodo-</p><p>lógica que introduz as questões cognitivas</p><p>subjacentes aos tópicos tradicionais da psi-</p><p>cologia social. Em todas as áreas de estudo</p><p>da psicologia social, as pessoas processam</p><p>informações do mundo social; a questão é</p><p>compreender como a informação está sendo</p><p>processada e usada quando desenvolvemos</p><p>atitudes, reagimos agressiva ou altruisti-</p><p>camente, como decidimos e participamos</p><p>dos diversos grupos sociais. Neste capítulo,</p><p>apresentamos de forma bem resumida um</p><p>pouco dessa nova abordagem. Esperamos</p><p>que o incentivo tenha sido suficiente para</p><p>que você continue descobrindo os novos ho-</p><p>rizontes da cognição social.</p><p>notas</p><p>1. Considera -se que esse período formativo</p><p>durou até cerca de 150 mil a 100 mil anos</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 97</p><p>atrás, quando nossos ancestrais saíram da</p><p>África e começaram a colonizar o mundo. A</p><p>partir da saída da África, o tempo tem sido</p><p>muito curto (100 mil anos ou cerca de 5 mil</p><p>gerações) para a evolução produzir quaisquer</p><p>mudanças significativas em uma espécie. Isto</p><p>implica que toda a história do surgimento da</p><p>civilização e cultura humana (a agricultura só</p><p>surgiu há 10 mil anos) é irrelevante quando se</p><p>trata de compreender a mente humana. Como</p><p>nossas mentes não evoluíram em um mundo</p><p>de cidades de tecnologia avançada, temos</p><p>cérebros da “idade da pedra” vivendo em um</p><p>mundo de alto desenvolvimento tecnológico.</p><p>Descontando todos os problemas decorrentes</p><p>desse fato, não podemos deixar de reconhecer</p><p>a tremenda capacidade adaptativa de nosso</p><p>cérebro.</p><p>2. Embora não seja nosso objetivo discutir a</p><p>questão do altruísmo e da cooperação, de-</p><p>vemos acentuar que estes comportamentos</p><p>não evoluíram apenas nas situações com base</p><p>estritamente recíproca. O biólogo William</p><p>Hamilton (1964) demonstrou que a grande</p><p>ocorrência de altruísmo não recíproco em</p><p>todo o reino animal (relações pais e filhos e</p><p>entre outros parentes, por exemplo) só pode</p><p>ser compreendida quando se considera que</p><p>a unidade fundamental da evolução não é o</p><p>organismo, mas o gene individual. O altruísmo</p><p>não recíproco só ocorre entre organismos ge-</p><p>neticamente relacionados: parentes próximos</p><p>compartilham muitos genes, e os genes que</p><p>predispõem o indivíduo a ajudá -los estão,</p><p>na verdade, ajudando suas próprias cópias.</p><p>Posteriormente, o biólogo Richard Dawkins</p><p>(1989) popularizou e aperfeiçoou essa teoria</p><p>em seu livro antológico O Gene Egoísta.</p><p>3. Outras espécies desenvolveram sistemas</p><p>semelhantes. A separação radical entre a</p><p>espécie humana e espécies não humanas de-</p><p>nuncia o que Dawkins (2003, cap. 3) chama</p><p>de</p><p>“mente descontínua”, isto é, a crença em</p><p>uma separação radical quando o que existe</p><p>é uma diferenciação gradual e, às vezes, até</p><p>sutil entre nós e outros animais, tais como os</p><p>chipanzés.</p><p>4. Isto é o que ocorre entre os chimpanzés, que</p><p>dedicam boa parte do tempo livre ao comporta-</p><p>mento de grooming. No grooming, os chimpan-</p><p>zés se limpam retirando parasitas e pedaços de</p><p>sujeiras presos nos pelos daqueles com os quais</p><p>mantêm alianças. Existem evidências indicando</p><p>que, na necessidade, há maior probabilidade</p><p>de ajuda por parte daqueles que são compan-</p><p>heiros de grooming. O aumento dos grupos</p><p>humanos para cerca de 150 membros, em mé-</p><p>dia, tornou inviável a manutenção das alianças</p><p>com base em cooperações diretas e mútuas.</p><p>Não haveria tempo para outras atividades,</p><p>além de ser extremamente cansativo manter</p><p>esse tipo de relacionamento com todos os out-</p><p>ros membros de grupos tão grandes. Dunbar</p><p>considera que o equivalente nos hominídeos</p><p>foi à evolução da linguagem para a transmis-</p><p>são de informação verbal, principalmente por</p><p>meio das fofocas. Uma implicação é que os</p><p>meios modernos de comunicação a distância</p><p>(e ‑mails, salas de bate -papo na internet, etc.)</p><p>jamais substituirão inteiramente a necessidade</p><p>humana de boas conversas ao pé do ouvido.</p><p>reFerências</p><p>ANDERSEN, S. M.; COLE, S.W. “Do I know you?”:</p><p>The role of significant others in general social</p><p>perception. Journal of Personality and Social</p><p>Psychology, v. 59, p. 384-399, 1990.</p><p>AXELROD, R. The evolution of cooperation. New</p><p>York: Basic Books, 1984.</p><p>BARON, J. Thinking and deciding. 3rd ed. New York:</p><p>Cambridge University Press, 2000.</p><p>BREWER, M. B. In-group bias in the minimal inter-</p><p>group situation: A cognitive-motivational analysis.</p><p>Psychological Bulletin, v. 86, p. 307-324, 1979.</p><p>BREWER, M. B. A dual process of impression. In:</p><p>SRULL, T. K.; WYER JR, R. S. (Ed.). Advances in</p><p>Social Cognition. Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1988.</p><p>v. 1, p.1-36.</p><p>BUSS, D. M. 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In: TESSER, A. (Ed.).</p><p>Advanced Social Psychology. New York: McGraw-</p><p>Hill, 1995. p. 217-235.</p><p>FISKE, S. T.; NEUBERG, N. L.; BEATTIE, A. E.;</p><p>MILBERG, S. J. Category-based and attribute-</p><p>based reactions to others: Some informational</p><p>conditions of stereotyping and individuating pro-</p><p>cesses. Journal of Experimental Social Psychology,</p><p>v. 23, p. 399-427, 1987.</p><p>FONG, G. T.; KRANTZ, D. H.; NISBETT, R. E. The</p><p>effects of statistical training on thinking about</p><p>everyday problems. Cognitive Psychology, v. 18, p.</p><p>253-292, 1986.</p><p>GIGERENZER, G.; SELTEN, R. (Ed.). Bounded</p><p>rationality. The adaptive toolbox. Cambridge: The</p><p>MIT Press, 2001.</p><p>GIGERENZER, G. Adaptive thinking. Rationality</p><p>in the real world. New York: Oxford University</p><p>Press, 2000.</p><p>GILOVICH, T. How we know what isn’t so: The</p><p>fallibility of human judgment in everyday life. New</p><p>York: Free Press, 1991.</p><p>GILOVICH, T.; GRIFFIN, D.; KAHNEMAN, D. (Ed.).</p><p>Heuristics and biases. The pschology or intuitive</p><p>judgment. New York: Cambridge University Press,</p><p>2002.</p><p>GOLDSTEIN, W. M.; HOGARTH, R. M. (Ed.). Rese‑</p><p>arch on judgment and decision making. New York:</p><p>Cambridge University Press, 1997.</p><p>GOLLWITZER, P. M. Action phases and mind-sets.</p><p>In: HIGGINS, E. T.; SORRENTINO, R. M. (Ed.).</p><p>Handbook of Motivation and cognition: Foundations</p><p>of social behavior. New York: Guilford, 1990. v. 2,</p><p>p. 53-92.</p><p>HAMILTON, D. L. Organizational processes in</p><p>impression formation. In: HIGGINS, E. T.; HER-</p><p>MAN, C. P.; ZANNA, M. P. (Ed.). Social Cognition:</p><p>The Ontario Symposium. Hillsdale, NJ: Erlbaum,</p><p>1981. v. 1, p. 135-160.</p><p>HAMILTON, W. D. The genetical evolution of</p><p>social behavior. Journal of Theoretical Biology, v.</p><p>7, p. 1-52, 1964.</p><p>HAMILTON, D. L. (Ed.). 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Judg‑</p><p>ment under uncertainty: Heuristics and biases.</p><p>Cambridge: Cambridge University Press, 1982.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 99</p><p>KIHLSTROM, J. F.; CANTOR, N.; ALBRIGHT, J. S.;</p><p>CHEW, B. R.; KLEIN, S. B.; NIEDENTHAL, P. M.</p><p>Information processing and the study of the self.</p><p>In: BERKOWITZ, L. (Ed.). Advances in experimental</p><p>social psychology. New York: Academic Press, 1988.</p><p>v. 21, p. 145-180.</p><p>LEYENS, J. Ph.; YZERBYT, V.Y.; SCHADRON, G.</p><p>The social judgeability approach to stereotypes.</p><p>European Review of Social Psychology. New York:</p><p>Wiley, 1992. v. 3, p. 91-120.</p><p>MULLEN, B.; BROWN, R.; SMITH, C. Ingroup bias</p><p>as a function of salience, relevance, and status: An</p><p>integration. European Journal of Social Psychology,</p><p>v. 22, p. 103-122, 1992.</p><p>NISBETT, R.; ROSS, L. Human inferences: Strategies</p><p>and shortcomings</p><p>of social judgment. New Jersey:</p><p>Prentice-Hall, 1980.</p><p>NISBETT, R. E.; KRANTZ, D. H.; JEPSON, C.;</p><p>FONG, G. T. Improving inductive inference. In:</p><p>KAHNEMAN, D.; SLOVIC, P.; TVERSKY, A. (Ed.).</p><p>Judgment under uncertainty: Heuristics and biases.</p><p>New York: Cambridge University Press, 1982. p.</p><p>445-462.</p><p>OWENS, J.; BOWER, G. H.; BLACK, J. B. The</p><p>“soap-opera” effect in story recall. Memory and</p><p>Cognition, v. 7, p. 185-191, 1979.</p><p>SKOV, R. B.; SHERMAN, S. J. Information-gathering</p><p>processes: Diagnosticity, hypothesis-confirmatory</p><p>strategies, and perceived hypothesis confirmation.</p><p>Journal of Experimental Social Psychology, v. 22, p.</p><p>93-121, 1986.</p><p>SNYDER, M.; SWANN, W. B. Hypothesis-testing</p><p>processes in social interaction. Journal of Perso‑</p><p>nality and Social Psychology, v. 36, p. 1202-1212,</p><p>1978.</p><p>SRULL, T. K.; WYER, R. S. JR. The role of category</p><p>accessibility in the interpretation of information</p><p>about persons: Some determinants and implica-</p><p>tions. Journal of Personality and Social Psychology,</p><p>v. 37, p. 1660-1672, 1989.</p><p>SRULL, T. K. Organizational and retrieval process</p><p>in person memory: An examination of processing</p><p>objectives, presentation format, and the possible</p><p>role of self-generated retrieval cues. Journal of</p><p>Personality and Social Psychology, v. 4, p. 1157-</p><p>1170, 1983.</p><p>SUTHERLAND, S. Irrationality. Why we don’t</p><p>think straight! New Jersey: Rutgers University</p><p>Press, 1992.</p><p>TRÓCCOLI, B. T. Uma abordagem do Ensino da Es-</p><p>tatística Vinculada ao Indivíduo e ao Mundo Real.</p><p>In: BOCK, A. M. B.; VARGAS, H. M.; ROMERO, J.</p><p>A. M. (Org.). Psicología, Educación y Sociedad</p><p>en México y Brasil: Un Compromiso Social para</p><p>América Latina. Jesús Hernández Garibay: México,</p><p>2005. p. 307-332.</p><p>TROPE, Y.; BASSOK, M. Confirmatory and diag-</p><p>nosing strategies in social information gathering.</p><p>Journal of Personality and Social Psychology, v. 43,</p><p>p. 22-34, 1982.</p><p>TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Availability: A</p><p>heuristic for judging frequency and probability.</p><p>Cognitive Psychology, v. 5, p. 207-232, 1973.</p><p>WEINER, B. Intrapersonal and interpessonal</p><p>theories of motivation from an attributional pers-</p><p>pective. Educational Psychology Review, v. 12, p.</p><p>1-14, 2000.</p><p>WEINER, B. Motivation from an attributional</p><p>perspective and the social psychology of perceived</p><p>competence. In: ELLIOT, A. J.; DWECK, C. S. (Ed.).</p><p>Handbook of Competence and Motivation. New</p><p>York: Guilford Press, 2005. p. 156-172.</p><p>WYER, R. S.; SRULL, T. K. Handbook of social cog‑</p><p>nition. Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1984. v. 1-3.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>introdução</p><p>Este capítulo trata a respeito de como as</p><p>normas sociais podem ser utilizadas para a</p><p>compreensão do comportamento humano,</p><p>bem como do modo como a cultura pode</p><p>influenciar essa relação, apontando diver-</p><p>sos exemplos de como esse conceito pode</p><p>ser operacionalizado. Vale adiantar que to-</p><p>dos esses temas terão como mote a cultura</p><p>do Brasil, e a operacionalização das normas</p><p>– como medida e conceito – será focada a</p><p>nossa população, visando colaborar com</p><p>uma psicologia social brasileira, para o bra-</p><p>sileiro.</p><p>Com isso em mente, podemos come-</p><p>çar com a metáfora sugerida por Candido</p><p>(1972) para discutir a cultura nacional do</p><p>brasileiro. Para ele, o Brasil pode ser repre-</p><p>sentado pela figura de uma grande família,</p><p>na qual existem algumas regras formais</p><p>mais um consenso com relação a autorida-</p><p>de paterna. Essa interpretação do Brasil tem</p><p>evidências em alguns estudos empíricos.</p><p>Schwartz (1994) observou que brasileiros</p><p>apresentam baixo escores em autonomia</p><p>intelectual e emocional (relacionadas com</p><p>a dimensão individualismo de Hofstede,</p><p>1980), e altos escores em conservação e</p><p>hierarquia (correlacionados com a noção</p><p>de distância de poder proposta pelo mes-</p><p>mo autor). De modo similar, Friedlmeier</p><p>(1995), comparando teorias implícitas de</p><p>educadores, encontrou que brasileiros en-</p><p>fatizam a conformidade e a adaptação. Em</p><p>seu estudo, Strohschneider e Güss (1998)</p><p>encontraram que estudantes colegiais bra-</p><p>sileiros têm uma alta tendência em aceitar</p><p>qualquer situação como dada e não ques-</p><p>tionar sobre suas causas quando uma situ-</p><p>ação mal definida e ambígua é apresentada</p><p>para eles. Relacionadas com os resultados</p><p>de Friedlmeier (1995) e de Strohschneider</p><p>e Güss (1998), diversos pesquisadores (p.</p><p>ex., Droogers, 1988) sugeriram que um im-</p><p>portante conceito para entender o modo de</p><p>ver o mundo do brasileiro está associado ao</p><p>termo jeitinho. Podemos entender o jeitinho</p><p>como uma forma “especial” de se resolver</p><p>algum problema ou situação difícil, ou como</p><p>uma solução criativa para alguma emergên-</p><p>cia, seja sob a forma de conciliação, de es-</p><p>perteza ou de habilidade. Quando se julga</p><p>que está tudo irremediavelmente perdido,</p><p>que daquela vez não tinha realmente saída,</p><p>tudo magicamente se resolve, por meio do</p><p>jeitinho. É uma maneira especial de se resol-</p><p>ver o problema, eficiente e rápida. Espera-</p><p>-se que essa forma possa produzir resulta-</p><p>dos em curto prazo, não importando que</p><p>a solução seja definitiva ou não, ideal ou</p><p>provisória. Juntos, esses resultados sugerem</p><p>que, no contexto do brasileiro, existe muito</p><p>pouco espaço para a participação na reso-</p><p>5</p><p>nOrmas sOciais: cOnceitO, mensUraçãO</p><p>e imPLicações Para O BrasiL</p><p>cláudio vaz torres</p><p>Hugo rodrigues</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 101</p><p>lução de problemas e que a participação na</p><p>tomada de decisão não é muito encorajada.</p><p>Para Ettorre (1998), pouca participação nas</p><p>decisões organizacionais pode ser devida</p><p>ao fato de as organizações brasileiras terem</p><p>uma política de gerentes paternalistas, que</p><p>devem fornecer uma cultura protetora. Ele</p><p>sugere que “gerentes brasileiros confundem</p><p>responsabilidade com os negócios da com-</p><p>panhia” (Ettorre, 1998, p. 12).</p><p>Ettorre (1998) também notou que</p><p>existe uma grande quantidade de improvi-</p><p>sação e criatividade empresarial no Brasil.</p><p>Contudo, ele sugere que essas práticas ge-</p><p>renciais podem mudar em um futuro próxi-</p><p>mo devido à grande onda de privatizações</p><p>que ocorreram nos anos de 1990 e 2000 nas</p><p>indústrias brasileiras. Pois, como já observa-</p><p>do (Droogers, 1988), as estruturas político-</p><p>-sociais do Brasil ainda estão se formando. E</p><p>é esperado que as organizações privatizadas</p><p>possam requerer uma nova classe de execu-</p><p>tivos que sejam habilidosos em mudanças</p><p>organizacionais (Santos, 1998), especial-</p><p>mente para reduzir problemas organiza-</p><p>cionais, tais como aqueles encontrados em</p><p>companhias brasileiras que operavam com</p><p>27% de produtividade quando comparadas</p><p>com suas semelhantes norte -americanas</p><p>(Ettorre, 1998). Isso sem falar do impacto</p><p>da globalização e da maior conscientização</p><p>do consumidor nacional, que é diferente dos</p><p>outros consumidores e exige de modo dife-</p><p>rente.</p><p>É importante que qualquer mudan-</p><p>ça ou manutenção das práticas gerenciais</p><p>sejam sensíveis à cultura. Ettorre (1998)</p><p>observou que qualquer pessoa que faz ne-</p><p>gócios no Brasil precisa aprender a cultura</p><p>brasileira. Da mesma maneira, qualquer</p><p>prática organizacional deve levar em con-</p><p>sideração a cultura em questão, no caso, a</p><p>brasileira. Modelos organizacionais ou de</p><p>predição/controle de comportamento norte-</p><p>-americanos e/ou europeus não podem ser</p><p>aplicados diretamente no contexto brasilei-</p><p>ro sem se levar em consideração as diferen-</p><p>ças culturais que, no caso do brasileiro, são</p><p>fortemente influenciadas por normas sociais</p><p>(Rodrigues, 2007).</p><p>O uso de práticas organizacionais com</p><p>uma forte influência individualista e, por</p><p>isso, com pouco suporte das normas so-</p><p>ciais, pode ativar sentimentos antagonistas</p><p>nos brasileiros. Por exemplo, os brasileiros</p><p>tendem a considerar que os líderes devem</p><p>ocupar uma alta posição de poder na hierar-</p><p>quia da sociedade. Desse modo, eles podem</p><p>entender que o interesse da gerência em</p><p>incentivar a participação dos funcionários</p><p>na tomada de decisão como uma mensa-</p><p>gem indireta, que comunica a ideia de que</p><p>o líder deseja compartilhar o poder. Nesse</p><p>caso, compartilhar a tomada de decisão</p><p>pode fazer</p><p>com que um brasileiro conside-</p><p>re que o líder não tem poder legítimo (ou</p><p>competência), e que, por isso, não é mere-</p><p>cedor de ser um líder. (Nogueira, Torres e</p><p>Guimarães, 2001; Torres, 2009). Esse pode</p><p>não ser o caso em outro país, especialmente</p><p>um país individualista, onde a maioria dos</p><p>estudos sobre liderança são desenvolvidos.</p><p>Mesmo a utilização de achados em outras</p><p>culturas coletivistas como uma aproximação</p><p>para a cultura brasileira pode ser um erro.</p><p>Pois, como Pearson e Stephan (1998) no-</p><p>tam, os brasileiros tendem a ser passionais</p><p>e emocionais, uma característica que não é</p><p>compartilhada pela maioria das culturas co-</p><p>letivistas da Ásia. Desse modo, não apenas</p><p>pessoas de culturas individualistas podem</p><p>ter dificuldades em compreender as reações</p><p>emocionais de brasileiros, mas também pes-</p><p>soas de diferentes culturas coletivistas (p.</p><p>ex., asiáticas).</p><p>Alguns pesquisadores (p. ex., Graham,</p><p>1985; Smith et al., 1998) consideram que,</p><p>quando se discute coletivismo, os estudos</p><p>vêm superenfatizando os dados de culturas</p><p>asiáticas. Esses mesmos pesquisadores vêm</p><p>alegando que esses dados podem não refletir</p><p>a estrutura das culturas latino -americanas,</p><p>apesar de ambos serem considerados como</p><p>culturas coletivistas (Hofstede, 1980). Por</p><p>exemplo, Graham (1985) encontrou uma</p><p>larga diferença em vigor e franqueza em ne-</p><p>gociações na América Latina, quando com-</p><p>paradas com as japonesas.</p><p>Essas diferenças culturais refletem di-</p><p>ferentes sistemas sociais, que, por sua vez,</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>102 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>podem ser explicados e entendidos devido</p><p>à natureza regulatória das normas sociais.</p><p>Compreender melhor o funcionamento das</p><p>normas sociais pode contribuir para a cons-</p><p>trução de um corpo teórico mais adequado</p><p>para entender o comportamento social do</p><p>brasileiro, bem como para fornecer uma li-</p><p>nha de guia para adequar modelos vindos</p><p>de outras culturas.</p><p>norMas sociais</p><p>Na psicologia social, existe uma longa dis-</p><p>cussão sobre o poder preditivo e explicativo</p><p>das normas sociais, bem como sobre qual</p><p>seria sua estrutura e definição. Alguns au-</p><p>tores (p. ex., Krebs e Miller, 1985; Marini,</p><p>1984; Darley e Latané, 1970 apud Kallgren,</p><p>Reno e Cialdini, 2000) consideram o con-</p><p>quadro 5.1</p><p>POKER FACE: Uma eXiGÊncia cULtUraL</p><p>a universalidade das expressões facial das emoções foi indicada pela primeira vez por Darwin</p><p>(1998) na emblemática obra: “a expressão das emoções no homem e nos animais”. contudo,</p><p>ekman (2003) ressalta que, na época, sua argumentação foi desconsiderada, bem como durante</p><p>os anos seguintes, em função dos paradigmas predominantes, que enfatizavam explicações em</p><p>função da socialização e desprestigiavam as que utilizassem de padrões inatos da espécie. Ou</p><p>seja, as normas sociais vigentes no meio acadêmico da época não facilitaram a disseminação</p><p>desse conhecimento.</p><p>contudo, hoje, autores como: ekman e Friesen (2003); elfenbein e ambady (2003); matsumoto</p><p>(1990); smith, Bond e Kagitçibasi (2006) – dentre outros – colocam que a demonstração de deter‑</p><p>minadas emoções através do uso de uma mesma estrutura muscular para cada tipo de emoção é</p><p>um fenômeno universal, capaz de fornecer um mapa reconhecível por todos da reação emocional</p><p>que os indivíduos têm a diferentes estímulos do dia a dia, indicando o modo adequado – em</p><p>função de respostas evolutivamente construídas – de reagir. Por exemplo, simplificadamente, é</p><p>mais seguro aproximar ‑se de uma pessoa que reagiu à sua presença contraindo o zygmaticus</p><p>maior do que quando esta mesma pessoa está com esse músculo relaxado, mas com o levator</p><p>labii superioris contraído. ekman (2003, 2006, 2009) coloca que no primeiro caso a pessoa estaria</p><p>demonstrando alegria, felicidade; mas expressaria ódio, nojo no segundo.</p><p>algumas culturas exigem que determinadas emoções não sejam demonstradas, pelo menos</p><p>não o tempo todo ou em todos os contextos. Friesen (1972 apud smith, Bond e Kagitçibasi, 2006)</p><p>– em sua tese de doutorado – demonstrou que, durante a exposição de um vídeo que mostrava</p><p>uma amputação, quando sozinhos, japoneses (analisados como coletivistas) demonstravam o seu</p><p>desconforto com a cena do mesmo modo que estadunidenses (individualistas).</p><p>entretanto, quando acompanhados por um experimentador a reação ao vídeo muda‑</p><p>va. americanos continuavam expressando‑se do mesmo modo, mas os japoneses evitavam</p><p>demonstrar o desconforto através da não demonstração de emoções ou com risos. tal au‑</p><p>tor ressalta que existe uma norma cultural, no Japão, que recomenda que afetos negativos</p><p>não devam ser demonstrados em público e que nos estados Unidos haveria outra, que enfa‑</p><p>tizaria a sua demonstração real, sem – neste caso – maximizar. cabe colocar que as estraté‑</p><p>gias utilizadas são definidas por matsumoto (1990, 1992) e Gross (1998 e 2002) como de re‑</p><p>gulação de emoção. acrescentando que, de acordo com o primeiro, tal regulação ocorre em</p><p>função da obrigação em conforma‑se a uma norma social específica – a regra de expressão.</p><p>Pesquisas recentes indicam um padrão específico sobre o que deve ser demonstrado, maximiza‑</p><p>do ou suprimido em cada cultura e que tal fato é determinado por normas sociais. indicando que</p><p>a poker face, o ato de não demonstrar uma emoção, mesmo quando ela é intensa, não é apenas</p><p>uma estratégia para ganhar num jogo de azar, mas – muitas vezes – uma necessidade cultura.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 103</p><p>ceito vago, muito geral e inadequado para a</p><p>verificação empírica. Outros autores (p. ex.,</p><p>Berkowitz, 2004; Prentice e Miller, 1993,</p><p>1996; Cialdini, Reno e Kallgren, 1991;</p><p>Lapinski e Rimal, 2005) consideram normas</p><p>um conceito central para o entendimento</p><p>do comportamento social humano (Kallgren</p><p>et al., 2000). Os principais aspectos dessa</p><p>discussão se referem à definição desse cons-</p><p>truto e de sua capacidade de predizer com-</p><p>portamentos e intenções.</p><p>Com relação ao primeiro ponto (de-</p><p>finição do conceito), a literatura está cada</p><p>vez mais próxima do consenso de que a nor-</p><p>ma se refere a aspectos descritivos (isto é, o</p><p>que é feito, o comportamento mais popular)</p><p>e a aspectos injuntivos (isto é, o que todos</p><p>deveriam fazer). Essa distinção, feita há</p><p>mais de 50 anos, foi recuperada por Cialdini</p><p>(Cialdini e Goldstein, 2004; Cialdini e Trost,</p><p>1998; Cialdini et al., 1991; Reno et al.,</p><p>1993; Kalgreen et al., 2000) e vem sendo</p><p>amplamente utilizada por diversos pesquisa-</p><p>dores (p. ex., Ajzen, 2002; Lapinski e Rimal,</p><p>2005). Um outro aspecto relevante dessa</p><p>discussão é o de se normas são capazes de</p><p>predizer comportamento, ou pelo menos in-</p><p>tenção em se comportar.</p><p>Com relação à capacidade preditiva,</p><p>esse ponto parece estar relacionado a fato-</p><p>res culturais (Trafimow e Fishbein, 1994),</p><p>ao comportamento em si e ao setting onde</p><p>ele ocorre (Lapinski e Rimal, 2005; Wallace</p><p>et al., 2005). Esses fatores podem predizer</p><p>quais comportamentos são mais influen-</p><p>ciados por normas sociais. Neste caso, pa-</p><p>rece haver uma espécie de tradeoff entre</p><p>normas sociais e atitudes na explicação do</p><p>comportamento humano (Rodrigues, 2007;</p><p>Bomtempo e Rivero, 1992; Wallace et al.,</p><p>2005), sendo a relação desses dois constru-</p><p>tos vital para a compreensão do comporta-</p><p>mento humano (Ajzen, 1991). A literatura</p><p>tem buscado cada vez mais descobrir que</p><p>(ou quais) tipo(s) de comportamento é(são)</p><p>mais influenciado(s) por atitudes ou normas</p><p>sociais (Fekadu e Kraft, 2002), curiosamen-</p><p>te tentando predizer quais fatores serão os</p><p>melhores preditores para escolher norma</p><p>ou atitude como o melhor preditor, devido a</p><p>um viés cultural que será mais bem discuti-</p><p>do adiante. Como exemplos, temos Wallace</p><p>e colaboradores (2005), que, em uma re-</p><p>cente metanálise, verificaram que a existên-</p><p>cia de pressão social de algum tipo (isto é,</p><p>presença de outros importantes, ambientes</p><p>com fortes normas) diminuía bastante o</p><p>poder preditivo de atitudes, e Bontempo e</p><p>Rivera (1992), que realizaram uma metaná-</p><p>lise indicando que, em países coletivistas,</p><p>as</p><p>normas subjetivas tinham mais peso do que</p><p>as atitudes na equação da teoria do compor-</p><p>tamento racional.</p><p>A despeito dessas discussões, as normas</p><p>sociais têm sido bem -sucedidas em interven-</p><p>ções e estudos, tais como: redução da quan-</p><p>tidade de lixo jogado no chão em lugares</p><p>públicos (p. ex., Cialdini, 2003), prevenção e</p><p>diminuição da ocorrência de alcoolismo em</p><p>colégios e universidades (Borsari e Carey,</p><p>2003), medição da aceitação de comporta-</p><p>mento agressivo (Henry, Cartland, Ruchross</p><p>e Monahan, 2004), redução da quantidade</p><p>de fumo consumido (Linkenbach e Perkins,</p><p>2003 apud Berkowitz, 2004), agressão se-</p><p>xual (Bruce, 2002, apud Berkowitz, 2004),</p><p>preferência por diferentes marcas de cerve-</p><p>ja (Yang, Allenby e Fennel, 2002), atrações</p><p>que devem estar presente em um parque</p><p>ecológico (Manning e Kamp, 1996), estilos</p><p>de liderança (Torres, 2009), para citar ape-</p><p>nas alguns.</p><p>Neste capítulo, discutiremos o con-</p><p>ceito de normas sociais, bem como as par-</p><p>ticularidades associadas a esse conceito.</p><p>Serão apresentadas diferentes definições e</p><p>modelos de normas sociais, como elas são</p><p>construídas e como interagem com outros</p><p>processos sociais, contribuindo para a expli-</p><p>cação do comportamento humano.</p><p>Entretanto, antes de apresentar a defi-</p><p>nição de normas sociais, é importante notar</p><p>que (de modo similar ao que acontece com</p><p>o conceito de cultura) diferentes autores</p><p>vêm enfatizando diferentes aspectos des-</p><p>se construto em suas definições e modelos</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>104 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>de normas sociais. Lautmann (Feldman,</p><p>1991) realizou uma extensa análise de mais</p><p>de cem definições de normas e valores e</p><p>observou que todas explicavam as normas</p><p>como uma obrigação coletiva ou algum</p><p>tipo de dever. Jackson (1966, 1975) consi-</p><p>dera as normas sociais como um contínuo</p><p>de comportamentos e as respectivas sanções</p><p>e recompensas associadas a sua realização.</p><p>Emmerich, Goldman e Shore (1971) defi-</p><p>nem norma como crença compartilhada de</p><p>como o indivíduo necessita agir com relação</p><p>aos outros. Essa pode ser a maior diferença</p><p>entre as normas e os valores: valores não se</p><p>referem apenas a comportamento, mas tam-</p><p>bém a uma grande gama de outros objetos</p><p>(tais como opiniões e objetivos) e não indi-</p><p>cam o que é obrigatório, mas sim o que é</p><p>desejável.</p><p>deFinições e estudos</p><p>sobre norMas sociais</p><p>Feldman (1991) considera que normas se-</p><p>riam regras estabelecidas pelos grupos pra</p><p>regularizar o comportamento de seus mem-</p><p>bros. Para Porras e Robertson (1992), nor-</p><p>mas são padrões de condutas, aplicáveis</p><p>aos membros do grupo. Já Cialdini e Troost</p><p>(1998) consideram o construto como fon-</p><p>tes de informação prescritivas (isto é, como</p><p>deveria ser) e descritivas (isto é, como está</p><p>sendo) sobre qual comportamento realizar</p><p>em determinadas situações. Gold (1997)</p><p>notou que Durkheim distingue entre o ter-</p><p>mo coletivo “norma social” e sua contra-</p><p>parte psicológica, a “representação social”.</p><p>Para Gold, existe uma necessidade urgente</p><p>de mecanismos que permitam a tradução</p><p>do conceito de normas sociais do ponto de</p><p>vista sociológico para o psicológico. É possí-</p><p>vel que o estudo de normas pela perspectiva</p><p>da psicologia social possa fornecer tais me-</p><p>canismos. Nessa área da psicologia, regras</p><p>e papéis fornecem a regulamentação nor-</p><p>mativa das organizações sociais, que, por</p><p>sua vez, fazem contato com indivíduos por</p><p>meio de componentes de regulamentação</p><p>normativa da personalidade. Desse modo,</p><p>regras e papéis provêm meios para a cone-</p><p>xão entre organizações sociais e indivídu-</p><p>os. Considerando que uma regra, ou papel,</p><p>podem ser definidos como um conjunto de</p><p>normas de conduta (Gold, 1997), podemos</p><p>observar como as normas interagem na di-</p><p>nâmica da psicologia social. Mais adiante</p><p>será discutida a importância das normas so-</p><p>ciais para a psicologia e o quanto essa área</p><p>carece de maiores estudos e atenção.</p><p>Gold (1997) defende que normas va-</p><p>riam em sua generabilidade, e que nem todo</p><p>valor social pode ser entendido como uma</p><p>norma social. Apenas quando as normas fo-</p><p>rem universais, elas poderão ser entendidas</p><p>como valores. Gold diferencia entre papéis</p><p>sociais e normas. Um papel social consiste</p><p>em um conjunto de normas, ou “um conjunto</p><p>de obrigações e privilégios que se aplicam aos</p><p>ocupantes de determinadas posições sociais”1</p><p>(Gold, 1997, p. 72). Desse modo, quando</p><p>normas relacionadas entre si são agrupadas,</p><p>um papel social é criado. Normas, por outro</p><p>lado, prescrevem como determinadas pesso-</p><p>as de um certo grupo (p. ex., pessoas ocu-</p><p>pando um determinado papel na sociedade)</p><p>se comportam para receber aprovação de</p><p>seus colegas, ou para evitar sanções sociais.</p><p>Outros pesquisadores encontraram suporte</p><p>para a diferenciação entre normas e papéis</p><p>(p. ex., Bond, 1991). Além do mais, normas</p><p>são parte do sistema de crenças de qualquer</p><p>grupo. Uma norma é apenas social quando é</p><p>compartilhada por dois ou mais indivíduos;</p><p>e eles concordam (sendo conscientes dessa</p><p>concordância) que alguém, em uma posição</p><p>social particular, precisa agir e sentir de uma</p><p>determinada maneira. As normas sociais são</p><p>usadas para prescrever e descrever padrões</p><p>de comportamento, sendo caracterizadas</p><p>por imperativos morais.</p><p>Para Miler e Prentice (1996), uma</p><p>nor ma social é um atributo de um grupo,</p><p>po dendo ser considerada tanto descritiva</p><p>ou prescritiva para os membros. Indivíduos</p><p>podem se comparar com relação às normas.</p><p>Esses autores diferenciam entre normas lo-</p><p>cais e globais. Para eles, normas locais são</p><p>“padrões relativos” construídos de acordo</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 105</p><p>com as necessidades de pequenos grupos</p><p>em situações específicas (p. ex., inferidos</p><p>da situação) em vez de recuperados da me-</p><p>mória. Por outro lado, os indivíduos trazem</p><p>normas globais (ou “padrões absolutos”)</p><p>para qualquer contexto social, sendo que es-</p><p>sas normas influenciam a avaliação de suas</p><p>experiências.</p><p>Quando Milles e Prentice discutem</p><p>normas locais, sua ênfase é a autoavaliação</p><p>do indivíduo. Eles acreditam que as nor-</p><p>mas locais “simplesmente influênciam a ex‑</p><p>periência psicológica do indivíduo”2 (Miller e</p><p>Prentice, 1996, p. 803). Segundo essa pers-</p><p>pectiva, normas locais são estudadas, em</p><p>sua maioria, a partir de um nível individual</p><p>de análise. Aqui, a ênfase é no indivíduo que</p><p>está comparando alguém – ou ele mesmo –</p><p>com o grupo. Embora quando falamos sobre</p><p>normas locais, continuamos falando sobre</p><p>(pequenos) grupos, o foco de investigação</p><p>parece estar direcionado para as razões in-</p><p>dividuais para a autoavaliação. Nesse caso,</p><p>a norma se torna uma das ferramentas dis-</p><p>poníveis que os indivíduos utilizam para</p><p>comparar e avaliar sua posição relativa a</p><p>um grupo.</p><p>Entretanto, quando normas globais são</p><p>discutidas, o nível de análise muda para o</p><p>que Gold (1997) chamou de “fronteira” en-</p><p>tre o indivíduo e o ambiente da organização</p><p>social e cultural. A ênfase não é mais apenas</p><p>no nível individual. Normas globais devem</p><p>chamar a atenção do pesquisador para um</p><p>sistema mais amplo, no qual as necessidades</p><p>do indivíduo estão em constante interação</p><p>com a dinâmica da sociedade e da cultura.</p><p>Algum suporte para a diferenciação</p><p>entre normas locais e globais propostas por</p><p>Miller e Prentice (1996) é encontrado na li-</p><p>teratura. Por exemplo, Nisan (1987) exami-</p><p>nou a construção de normas morais em 60</p><p>garotos e garotas de 1a e 4a séries em Israel.</p><p>Ele observou a existência de duas orienta-</p><p>ções distintas para as normas sociais: uma</p><p>na qual o critério para o julgamento social</p><p>dos comportamentos era a consequên cia</p><p>destes para os outros envolvidos (isto é, em</p><p>um nível “micro”, envolvendo apenas os</p><p>membros de um pequeno grupo); e outra</p><p>nas quais as normas parecem ter uma vali-</p><p>dade absoluta (isto é, em um nível “macro”,</p><p>incluindo todos os membros da sociedade).</p><p>A distinção entre essas duas orientações é</p><p>congruente com a diferenciação proposta na</p><p>teoria de Miller e Prentice (1996).</p><p>Para Jackson (1966a), a cultura</p><p>não é</p><p>apenas concreta, mas um sistema de ideias</p><p>padronizadas, mesmo se parcialmente ma-</p><p>nifestas em termos concretos. Esse autor ob-</p><p>servou que uma maneira de entender a cul-</p><p>tura de um povo é por meio de suas normas.</p><p>quadro 5.2</p><p>a esPeciFiciDaDe Das nOrmas sOciais</p><p>tendemos a considerar as normas de nossa cultura como algo universal, sendo que muitas vezes</p><p>isso simplesmente não condiz com a realidade. Por exemplo, durante a socialização do brasileiro,</p><p>este aprende que arrotar à mesa é considerado com um gesto de má educação. no entanto, para</p><p>alguns grupos culturais mais exóticos (no sentido antropológico do termo), arrotar é um sinal de</p><p>que a comida estava boa. em algumas culturas, o luto é demonstrado com o azul, ou mesmo com</p><p>o branco, e não com o preto. Durante o período do império, no Brasil, as casas possuíam uma</p><p>grande bacia na qual se despejava uma solução antisséptica no interior, para servir de alvo e pon‑</p><p>taria ao exercício de escarrar em público. eram as escarradeiras, populares em toda sala de visita</p><p>das casas mais abastadas, onde o dono da casa e seus convidados podiam “escarrar” durante as</p><p>festividades (antunes, Waldman e moraes, 2000).</p><p>essas são apenas algumas especificidades culturais, que podem ser descritas em termos de</p><p>normas sociais. são comportamentos específicos que, devido a seu significado em cada cultura (a</p><p>cada tempo), podem ou não ser passíveis de uma sanção por parte da sociedade.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>106 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Sarbin (em Jackson, 1966a) define normas</p><p>como uma unidade de cultura, significando</p><p>que as normas podem ser entendidas como</p><p>um componente de cultura. Assim, uma vez</p><p>que as normas podem ser compreendidas</p><p>como uma unidade de cultura, então po-</p><p>dem ser conceitualizadas como um padrão</p><p>abstrato de ideias que são aprendidas pelos</p><p>membros de um sistema social (Jackson,</p><p>1966a). Nessa óptica, a definição de cultura</p><p>leva à definição de norma.</p><p>Jackson (1966a) também considera</p><p>como requerimento para a definição de nor-</p><p>ma social que esta seja considerada um con-</p><p>ceito interacional ou suprapessoal, e não um</p><p>conceito de ordem individual, tal como a ati-</p><p>tude. Esse requerimento é necessário, pois a</p><p>norma – como qualquer atividade grupal or-</p><p>ganizada – requer um mínimo de consenso</p><p>e um processo para alcançar a objetividade.</p><p>Desse modo, o autor define normas sociais</p><p>como “a distribuição de prescrições pelos ou‑</p><p>tros, para a gama de comportamentos que os</p><p>atores podem realizar em uma determinada</p><p>situação”3 (Jackson, 1966a, p. 35). Desse</p><p>modo, percebe -se que não é possível utilizar</p><p>a concepção de normas em um nível indi-</p><p>vidual de análise, sendo preferível o nível</p><p>cultural ou grupal.</p><p>Sherif (1968, apud DeRidder, Schrui-</p><p>jer e Tripathi, 1992) define “grupo” co mo</p><p>uma unidade social que consiste de um nú-</p><p>mero de indivíduos que</p><p>a) em um dado momento do tempo, têm</p><p>papéis e relacionamentos com status</p><p>entre si,</p><p>b) e que possui um conjunto de valores ou</p><p>normas (compartilhados) que regulam a</p><p>atitude e o comportamento dos membros</p><p>individuais, pelo menos no que se refere</p><p>à consequência destes.</p><p>Atitudes, sentimentos, aspirações e ob-</p><p>jetivos compartilhados que caracterizem as</p><p>identidades dos membros são relacionados</p><p>a essas propriedades, especialmente às nor-</p><p>mas e aos valores comuns para o grupo.</p><p>Quando se pretende estudar o com-</p><p>portamento humano, é importante obser-</p><p>var que aquilo que as pessoas fazem é fre-</p><p>quentemente mais importante do que o que</p><p>elas dizem. Como notado por Hall (1973),</p><p>se uma pessoa recebe informações sobre</p><p>as normas de diferentes culturas, ela pode</p><p>ajustar seu comportamento para agir de</p><p>acordo. Contudo, Hall (1977) sugere que,</p><p>quando ocorre o contato entre duas cultu-</p><p>ras, entender e aceitar a realidade da cultu-</p><p>ra local (p. ex., normas sociais) não é uma</p><p>tarefa fácil, é algo que precisa ser vivido, e</p><p>não lido ou planejado. Uma pessoa pode re-</p><p>latar conhecer e respeitar as normas de uma</p><p>certa cultura e, mesmo assim, nem sempre</p><p>conseguir agir de acordo com esse conheci-</p><p>mento. Entretanto, quando é necessário agir</p><p>de acordo com ele, a tarefa se torna mais</p><p>plausível de ser realizada.</p><p>Uma outra maneira de entender as nor-</p><p>mas sociais é por meio da conceitualização</p><p>de Fishbein e Ajzen (1974; Ajzen e Fishbein,</p><p>1980) de normas subjetivas. Apesar desses</p><p>autores afirmarem que as normas subjetivas</p><p>não são iguais às normas sociais, mas sim</p><p>uma pressão social percebida, esse constru-</p><p>to é capaz de captar a influência das normas</p><p>na atitude que as pessoas mantêm com rela-</p><p>ção a um determinado comportamento e à</p><p>realização do comportamento em si. Apesar</p><p>de a concepção de normas sociais ser mais</p><p>adequada se considerada como um contí-</p><p>nuo de comportamentos com as respectivas</p><p>sanções e recompensas associadas a sua</p><p>realização (Jackson, 1966, 1975; Torres,</p><p>2009), podendo ser de natureza descritiva</p><p>e prescritiva (Hagger e Chatziarantis, 2005;</p><p>Fekadu e Kraft, 2002), a utilização desse</p><p>conceito pode trazer uma nova luz a ques-</p><p>tões associadas ao entendimento e à previ-</p><p>são do comportamento humano.</p><p>Contudo, apesar de não serem o mes-</p><p>mo construto, a semelhança entre as nor-</p><p>mas sociais e a norma subjetiva extrapola a</p><p>semelhança de nomes. Como a norma sub-</p><p>jetiva é relativa à realização de um único</p><p>comportamento, pode -se dizer que a nor-</p><p>ma social é constituída de diversas peque-</p><p>nas normas subjetivas. Diferentemente das</p><p>normas sociais, a norma subjetiva assume</p><p>um aspecto muito mais prescritivo do que</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 107</p><p>descritivo, uma vez que – como já colocado</p><p>– a norma subjetiva se refere à percepção</p><p>do indivíduo com relação à aprovação/re-</p><p>provação de se realizar um comportamento,</p><p>ao passo que a norma social também serve</p><p>como um padrão de comparação para deci-</p><p>dir se algo é ou não adequado, ou perten-</p><p>cente a um determinado grupo ou categoria</p><p>(Prentice e Miller, 1996).</p><p>A operacionalização originalmente</p><p>proposta por Fishbein e Ajzen (1974; Ajzen</p><p>e Fishbein, 1980) reflete principalmente</p><p>o aspecto prescritivo da norma, mais co-</p><p>nhecido como norma injuntiva (Hagger e</p><p>Chatziarantis, 2005). Conforme menciona-</p><p>do anteriormente, a norma não depende</p><p>apenas de aspectos injuntivos, pois, como</p><p>apontado por Cialdini e Goldstein (2004) e</p><p>Cialdini e Trost (1998), principalmente em</p><p>situações de ambiguidade, o indivíduo bus-</p><p>ca realizar o comportamento mais realizado</p><p>(popular) com base na crença de que este</p><p>seria o comportamento mais socialmente</p><p>aceito. Esse fenômeno também é conheci-</p><p>do como heurística de maioria (Anderson,</p><p>1996), ou norma descritiva.</p><p>quadro 5.3</p><p>cOmPOnentes Das nOrmas sOciais</p><p>e ae, vamos nessa?</p><p>O que faria com que pessoas “normais” saíssem do conforto de suas casas para correrem riscos e</p><p>muitas vezes serem submetidas a situações de desconforto? e ainda por cima pagando caro por isso?</p><p>será que o praticante de turismo de aventura não pensa em nada disso quando planeja suas férias?</p><p>Um estudo realizado por rodrigues (2007) pode fornecer algumas respostas a essas pergun‑</p><p>tas. esse autor pesquisou os determinantes da intenção de se praticar turismo de aventura em</p><p>duas culturas distintas, mais especificamente, a brasileira e a norte ‑americana.</p><p>em primeiro lugar, foi identificado que o praticante de turismo de aventura – nessas duas</p><p>culturas – está consciente desses aspectos e pensa quando está planejando suas férias. em suma,</p><p>são crenças que fazem parte da atitude que eles possuem com relação a essa modalidade. esse</p><p>fato não é novidade, sendo, inclusive, bastante óbvio. Pessoas com uma alta atitude podem dar</p><p>pouco valor a aspectos ditos negativos (p. ex., desconforto e insetos) ou valorizar aquilo que a</p><p>maioria das pessoas consideraria negativo (p. ex., perigo). Logo, a resposta àquelas perguntas</p><p>deve estar associada à atitude que mantemos com relação à realização do comportamento, já que</p><p>reflete a intensidade e a valência de avaliações afetivas</p><p>que mantemos com relação aos compor‑</p><p>tamentos que realizamos.</p><p>contudo, quando se analisou a relação da atitude com a intenção de praticar turismo de aven‑</p><p>tura na população brasileira, a correlação é, no máximo, desanimadora, diferentemente do que</p><p>acontece na amostra norte ‑americana, na qual a atitude pôde ser considerada como um dos de‑</p><p>terminantes da formação da intenção de se praticar essa modalidade de turismo.</p><p>Para os brasileiros, a melhor preditora de intenção foi justamente as normas subjetivas, so‑</p><p>bretudo o componente injuntivo das normas (versus o componente descritivo). isso significa que,</p><p>tendo uma alta ou baixa atitude, para o brasileiro, a pressão social para realizar algo ou não é um</p><p>determinante muito mais forte do que a avaliação afetiva individual.</p><p>resumindo, enquanto na população norte ‑americana as respostas àquelas perguntas no iní‑</p><p>cio deste texto estão mais ligadas a aspectos atitudinais, na população brasileira o mesmo não</p><p>é verdade. Para os brasileiros, a realização desse tipo de comportamento se deve muito mais a</p><p>aspectos normativos do que atitudinais.</p><p>Pesquisas como essa apontam para a necessidade de se analisar os determinantes da reali‑</p><p>zação dos comportamentos específicos em cada grupo cultural. a não realização desse fato pode</p><p>levar a erros de compreensão, tais como atribuir explicações atitudinais para a realização de um</p><p>comportamento como a escolha da modalidade de férias do brasileiro.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>108 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Devido a essa confusão sobre os di-</p><p>ferentes tipos de normas, a norma subjeti-</p><p>va merece uma discussão mais profunda.</p><p>Inicialmente definida como a percepção da</p><p>pressão percebida em realizar ou não um de-</p><p>terminado comportamento (Fishbein e Ajzen,</p><p>1974), Cialdini e Trost (1998) acrescentam</p><p>que são cognições compartilhadas que po-</p><p>dem afetar o comportamento de um indiví-</p><p>duo, dependendo de características pessoais</p><p>(isto é, automonitoramento, locus de contro-</p><p>le), situacionais (Ehrhart e Naumann, 2004)</p><p>e da cultura (Bomtempo e Rivero, 1992).</p><p>Entretanto, conforme apontado por</p><p>outros autores (p. ex., Lapinsky e Rimal,</p><p>2005; Fekadu e Kraft, 2002), o conceito,</p><p>como pensado originalmente, não é capaz</p><p>de lidar com todos os aspectos da influência</p><p>normativa. Ajzen (1991, 2002) afirma que</p><p>a norma subjetiva é o somatório do produto</p><p>entre a percepção das crenças mais salientes</p><p>da probabilidade de que um certo compor-</p><p>tamento seja aprovado ou desaprovado por</p><p>uma pessoa ou grupo referente com a mo-</p><p>tivação que o indivíduo tem em se confor-</p><p>mar nesse referido comportamento. Apesar</p><p>de essa definição ser realmente mais seme-</p><p>lhante à definição de normas injuntivas,</p><p>Ajzen (2002) considera que a norma sub-</p><p>jetiva deva incluir os aspectos das normas</p><p>sociais propostos por Cialdini e colaborado-</p><p>res (Cialdini e Goldstein, 2004; Cialdini e</p><p>Trost, 1998; Cialdini et al., 1991; Reno et</p><p>al., 1993; Kalgreen et al., 2000), que suge-</p><p>rem que estas são baseadas tanto no aspecto</p><p>injuntivo (isto é, o que deve ser feito) quan-</p><p>to no aspecto descritivo (isto é, o que todos</p><p>estão fazendo), sendo que pode haver uma</p><p>maior prevalência de uma sobre a outra.</p><p>estudos sobre normas</p><p>Normas sociais vêm sendo estudadas por ou-</p><p>tras disciplinas além da psicologia social. Por</p><p>exemplo, Monteil (1994) notou que o estu-</p><p>do da aquisição e da construção das normas</p><p>sociais é uma área de convergência entre a</p><p>psicologia social e a do desenvolvimento.</p><p>Além do mais, normas vêm sendo estudadas</p><p>por outras ciências sociais além da psicolo-</p><p>gia, tais como a antropologia e a sociologia</p><p>(p. ex., Komarovsky, 1973). Contudo, neste</p><p>capítulo enfatizaremos como as normas po-</p><p>dem ser utilizadas para entendermos como</p><p>diferentes comportamentos se manifestam</p><p>em diferentes culturas.</p><p>Para DeRidder, Schruijer a Tripathi</p><p>(1992), as normas devem ter uma impor-</p><p>tância primária para a psicologia, pois, da</p><p>existência de normas sociais, provém a base</p><p>para a comunicação intra e entre grupos.</p><p>Essa importância é ainda mais marcante</p><p>em culturas como a brasileira, que tem as</p><p>normas sociais como um importante fator</p><p>de determinação de pensamento e compor-</p><p>tamento, podendo, inclusive, ter uma influ-</p><p>ência maior do que as atitudes (Rodrigues,</p><p>2007). Dentre os estudos que vêm utilizando</p><p>o conceito ou testando teorias psicológicas</p><p>que utilizam o conceito de normas sociais,</p><p>pode -se destacar, por exemplo, a investiga-</p><p>ção feita por Wellen, Hogg e Terry (1998)</p><p>sobre quais seriam os efeitos das normas</p><p>sociais dos membros de um determinado</p><p>endo grupo4 na relação entre a atitude e o</p><p>comportamento. Esses autores encontraram</p><p>que essa relação varia em função da saliên-</p><p>cia do pertencimento ao grupo. Seu objeti-</p><p>vo era testar a teoria da Identidade Social</p><p>(Tajfel e Turner, 1978), e seus achados suge-</p><p>rem que as normas do endogrupo influen-</p><p>ciam a tomada de decisão, fazendo com que</p><p>indivíduos que tenham o pertencimento ao</p><p>grupo como mais saliente tomem a decisão</p><p>com base mais em normas sociais do que os</p><p>que têm um pertencimento menos saliente.</p><p>A despeito de diversos estudos bem enco-</p><p>rajadores, que sugerem o uso de normas</p><p>sociais para o teste de teorias psicológicas</p><p>(isto é, Smith e Bond, 1999; Smith, Bond</p><p>e Kagitçibasi, 2006), observa -se que diver-</p><p>sas teorias são desenvolvidas na parte “oci-</p><p>dental”5 do mundo (isto é, principalmente</p><p>Estados Unidos e Europa), onde as pesqui-</p><p>sas apontam uma menor influência das nor-</p><p>mas sociais. Em determinadas situações,</p><p>essa influência pode ser até bem marcante,</p><p>podendo obscurecer a influência de outros</p><p>construtos, tais como a atitude (Wallace,</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 109</p><p>Paulson, Lord e Bond Jr., 2005; Bomtempo,</p><p>Lobel e Triandis, 1995). Contudo, poucos</p><p>modelos ou teorias são testados – ou desen-</p><p>volvidos – em outras culturas. Desse modo,</p><p>a norma social tende a não receber muita</p><p>atenção, mesmo em outras culturas. Para</p><p>Smith, Bond e Kagitçibasi (2006), essa li-</p><p>mitação da psicologia social não ameaça</p><p>apenas a generalização de nossas teorias,</p><p>mas também os estudos planejados para</p><p>testá -las, mesmo utilizando, ou não, o con-</p><p>ceito de normas sociais. Além disso, Walker</p><p>e Gibbins (1996) afirmam que o estudo de</p><p>normas sociais é essencial para a psicologia.</p><p>Eles sugerem que esse construto pode ser</p><p>mais importante do que outros construtos</p><p>relacionados às ciências sociais. Além do</p><p>mais, quando DeRidder e colaboradores</p><p>(1992) observaram que pouca atenção foi</p><p>dada para o conceito de normas sociais,</p><p>eles também notaram que poucos estudos</p><p>relataram a importância das normas sociais</p><p>em diferentes culturas. Suh, Diener, Oishi e</p><p>Triandis (1998), por exemplo, compararam</p><p>a importância da emoção versus normas no</p><p>que se refere à satisfação com a vida entre</p><p>61 países individualistas e coletivistas. Eles</p><p>encontraram que, em culturas coletivistas,</p><p>normas sociais e emoções são fortes pre-</p><p>ditoras de satisfação, enquanto que, para</p><p>países individualistas, as emoções foram</p><p>preditores muito mais fortes do que as nor-</p><p>mas. Infelizmente, estudos que levam em</p><p>consideração as normas sociais de culturas</p><p>diferentes da norte -americana não são mui-</p><p>to comuns na literatura de psicologia (ou</p><p>outras ciências sociais).</p><p>construção das normas</p><p>Diferentes perspectivas argumentam como</p><p>as normas sociais surgem nos sistemas so-</p><p>ciais de cada cultura. Todas fornecem expli-</p><p>cações para o comportamento normativo,</p><p>sendo que a maior diferença está no tipo de</p><p>comportamento que é suscetível às pressões</p><p>normativas arbitrárias.</p><p>Em uma perspectiva societal, as nor-</p><p>mas são culturalmente específicas e capri-</p><p>chosas, e o poder de cada norma é derivado</p><p>somente do valor que ela tem para aquela</p><p>cultura na qual ela opera. Sanções como leis</p><p>surgem para manter tais normas. Os defen-</p><p>sores dessa perspectiva argumentam que o</p><p>estabelecimento da norma vem do reforça-</p><p>mento e da punição dos comportamentos</p><p>que são repetidamente realizados no</p><p>dia a</p><p>dia (Cialdini e Trost, 1998). Entretanto, ela</p><p>não explica o surgimento das normas que</p><p>aparentemente são aleatórias, tais como o</p><p>vestiário. É uma norma social a utilização,</p><p>pela parte dos homens, de ternos e gravatas,</p><p>mesmo em países tropicais como o nosso,</p><p>e essa prática era comum mesmo em uma</p><p>época em que não havia ar -condicionado.</p><p>Em uma perspectiva funcional, as</p><p>normas se desenvolvem para encorajar ou</p><p>restringir comportamentos relacionados ao</p><p>desenvolvimento do grupo (Sherif, 1936</p><p>apud Cialdini e Trost, 1998). Schaller e</p><p>Latané (1996) argumentam que sistemas</p><p>de crenças culturalmente compartilhados,</p><p>tais como estereótipos e normas, se desen-</p><p>volvem de um modo muito similar à seleção</p><p>natural: em que, por meio de processos de</p><p>comunicações, indivíduos indicam padrões</p><p>de comportamentos que são efetivos, rele-</p><p>vantes e informativos, para determinadas</p><p>situações. Normas bem -sucedidas seriam</p><p>adaptativas à “sobrevivência” nesses contex-</p><p>tos. Elas comunicam como adquirir status,</p><p>se afiliar com outros, adquirir comida, etc.</p><p>Para Gold (1997), as organizações</p><p>sociais influenciam os indivíduos, por meio</p><p>do processo da socialização. A função da</p><p>socialização seria a de implantar motivos</p><p>(isto é, razões pelas quais os indivíduos</p><p>mudariam suas ações) e recursos (isto é,</p><p>expectativas) apropriados para os indivídu-</p><p>os em seu ambiente social. A socialização é</p><p>um conceito -chave quando se estuda a cons-</p><p>trução de normas nas ciências sociais. Pode-</p><p>-se afirmar que a socialização é a matéria-</p><p>-prima para o aspecto regulatório de regras</p><p>e papéis, e a conformidade para com as</p><p>normas é o aspecto central do processo de</p><p>socialização. A construção de normas so-</p><p>ciais é uma operação inerente ao processo</p><p>de socialização.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>110 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Um dos modos pelos quais grupos e</p><p>pessoas constroem suas normas é por meio</p><p>da observação do comportamento de ou-</p><p>tros que pertencem à mesma categoria so-</p><p>cial com a qual estes se identificam – ou</p><p>gostariam de pertencer –, realizando um</p><p>certo discernimento com relação as conse-</p><p>quências reforçadoras de se comportar ou</p><p>não de acordo com o esperado (Prentice e</p><p>Miller, 1996; Cialdini e Trost, 1998; Gold,</p><p>1997). Deste modo, Gold (1997) coloca que</p><p>a conformidade depende, em grande par-</p><p>te, da aprovação social, esteja ela presente</p><p>ou seja ela apenas imaginária. Cialdini e</p><p>Goldstein (2004) e Cialdini e Trost (1998)</p><p>destrincham a necessidade de aprovação</p><p>social e defendem que a conformidade às</p><p>normas sociais obedeceria a três motivações</p><p>diferentes. A primeira seria o interesse em</p><p>acertar, em realizar o comportamento cor-</p><p>reto. Geralmente essa motivação ocorre em</p><p>indivíduos em situações de ambiguidade,</p><p>mas com interesse em emitir o comporta-</p><p>mento mais adequado. Nessa situação, eles</p><p>seguiriam o comportamento realizado (o</p><p>que acreditam ser realizado) pela maioria.</p><p>Staub (1972) observou que, em situações de</p><p>emergência, não apenas as expectativas nor-</p><p>mativas, mas também a percepção de como</p><p>as outras pessoas entendem a aplicação da</p><p>norma naquela situação específica, parecem</p><p>afetar fortemente o comportamento dos en-</p><p>volvidos.</p><p>Outra motivação seria a de construir</p><p>e manter relações sociais. Em situações em</p><p>que os indivíduos buscam pertencer a um</p><p>novo grupo, ou permanecer em seus gru-</p><p>pos, eles buscam padrões compartilhados</p><p>de comportamento. Esses padrões são mui-</p><p>tas vezes transmitidos oralmente, mas tam-</p><p>bém por meio da observação e inferência</p><p>dos comportamentos dos outros membros</p><p>dos grupos. Como exemplo, podemos citar</p><p>Buffalo e Rodgers (1971), que observaram</p><p>que o comportamento de delinquentes ju-</p><p>venis é contra suas próprias normas morais</p><p>(que seriam surpreendentemente social-</p><p>mente aceitáveis e desejáveis) e se compor-</p><p>tam com base em sua percepção de quais</p><p>seriam as normas de seus colegas. Nesse</p><p>exemplo, o interesse em pertencer/perma-</p><p>necer no grupo faz com que eles se compor-</p><p>tem de maneiras muitas vezes diferente do</p><p>que todos no grupo acreditam. Isso ilustra o</p><p>quanto, não apenas as normas sociais, mas a</p><p>percepção das normas comportamentais dos</p><p>outros e de grupos relevantes, é igualmente</p><p>importante, pois o modo como as pessoas</p><p>pensam sobre os outros é um processo im-</p><p>portante da construção da norma. Torres</p><p>(2009) defende que, uma vez que o concei-</p><p>to de cultura se refere – também – ao modo</p><p>como as pessoas “vêm” o mundo, ou à per-</p><p>cepção compartilhada da realidade, pessoas</p><p>do mesmo grupo cultural podem não endos-</p><p>sar as mesmas normas sociais, mas prova-</p><p>velmente percebem e entendem o compor-</p><p>tamento dos outros de modo similar.</p><p>A terceira motivação seria a de manter</p><p>um autoconceito positivo. Muitas vezes as</p><p>pessoas precisam manter certas caracterís-</p><p>ticas para poder construir socialmente sua</p><p>autoimagem (isto é, “macho”, advogado,</p><p>adulto). Arndt e colaboradores (2002) rea-</p><p>lizaram um estudo indicando que pessoas</p><p>com a autoestima mais instável e mais fo-</p><p>cada em atributos extrínsecos tendem a</p><p>se conformar mais à opinião da maioria e,</p><p>muitas vezes, chegam a se desvalorizar para</p><p>se adequarem à norma. O ser humano em-</p><p>prega uma grande variedade de estratégias</p><p>para se proteger, como, por exemplo, o falso</p><p>consenso, que é uma maneira de proteger</p><p>o self (Berkowitz, 2004). Prentice e Miller</p><p>(1996) afirmam também que existem situ-</p><p>ações em que o indivíduo diminui as rea-</p><p>lizações de um objeto de comparação para</p><p>poder manter sua autoestima.</p><p>Nessa divisão da necessidade de apro-</p><p>vação social – como outros conceitos na psi-</p><p>cologia e nas ciências sociais –, é esperada</p><p>uma elevada covariância. Contudo, a divi-</p><p>são não é meramente um recurso didático,</p><p>apresentando uma considerável validade</p><p>empírica (Cialdini e Trost, 1998; Cialdini</p><p>e Goldstein, 2002). É obvio – e esperado –</p><p>que todas essas motivações estejam presen-</p><p>tes na situação real em que o comportamen-</p><p>to ocorre. Muitas vezes é possível inclusive</p><p>o conflito dessas motivações (isto é, acertar</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 111</p><p>versus pertencer), pois muitas vezes o am-</p><p>biente pode suportar motivações opostas.</p><p>Nessas situações, o comportamento baseado</p><p>em normas é baseado em diferentes pistas</p><p>situacionais que ativam diferentes tipos de</p><p>normas (Cialdini et al, 1991).</p><p>Staub (1972) afirma que toda situação</p><p>tem uma multiplicidade de normas gerais e</p><p>de pistas situacionais que podem acionar os</p><p>comportamentos apropriados. Esse ponto</p><p>de vista é defendido também por Cialdini e</p><p>colaboradores (Cialdini et al., 1991; Reno</p><p>et al., 1993; Kalgreen et al., 2000) em uma</p><p>série de estudos de campo envolvendo jogar</p><p>lixo no chão. Sua hipótese central era a de</p><p>que a norma (não importa o tipo) não iria</p><p>afetar o comportamento, a não ser que ela</p><p>fosse feita saliente na situação, ou seja, ela</p><p>seria dependente da ativação no ambien-</p><p>te. Esses pesquisadores encontraram que,</p><p>tornando a norma injuntiva saliente (por</p><p>meio da manipulação de placas e cartazes),</p><p>a quantidade de lixo jogada no chão dimi-</p><p>nuiu, não importando a quantidade de lixo</p><p>no ambiente. Entretanto, tornando a norma</p><p>descritiva mais saliente (por meio da mani-</p><p>pulação da quantidade de lixo no ambien-</p><p>te), só conseguiram diminuir a ocorrência</p><p>desse comportamento em ambientes limpos</p><p>quando um assistente de pesquisa jogava</p><p>lixo no chão, pois, em situações em que o</p><p>ambiente estava sujo, jogar lixo no chão</p><p>aumentava a quantidade de lixo jogado no</p><p>chão, o que não chamava atenção (e, logo,</p><p>não tornava a norma saliente). Esses autores</p><p>também observaram que a ativação das nor-</p><p>mas tinha um certo caráter transituacional,</p><p>pois a norma ativada em um cenário conti-</p><p>nuava efetiva em um outro. Esses dados são</p><p>semelhantes aos encontrados por Solomon</p><p>Ash (1991 apud Cialdini e Goldstein, 2004;</p><p>Bond e Smith, 1996) em seus estudos sobre</p><p>conformidade.</p><p>É importante ressaltar que compor-</p><p>tamentos como a contrução e o estabeleci-</p><p>mento de normas só podem acontecer pelo</p><p>encontro</p><p>de duas ou mais pessoas (Gold,</p><p>1997). Para a contrução de normas, Miller</p><p>e Prentice (1996) notaram que os indiví-</p><p>duos começam com alguma representação</p><p>de pensamentos, emoções e comportamen-</p><p>tos de outros em seu ambiente. Prentice e</p><p>Miller (1996), propõem que os indivíduos,</p><p>quando constroem normas sociais, levam</p><p>em consideração as causas de seus próprios</p><p>comportamentos quando analisam o quanto</p><p>o comportamento dos outros reflete as es-</p><p>colhas que estes fazem. Além deste aspecto</p><p>inferencial da construção das normas, esses</p><p>autores observaram que, durante seu estabe-</p><p>lecimento, estas podem às vezes ser formal-</p><p>mente codificadas. Contudo, é mais comum</p><p>que sua comunicação e reforçamento ocor-</p><p>ra de modo menos explícito. Por exemplo,</p><p>Gold (1997) argumenta que a linguagem é</p><p>adquirida e mantida substancialmente pelos</p><p>mesmos processos que as normas sociais.</p><p>Indivíduos são socializados a agir de acordo</p><p>com seu grupo linguístico, e o reforçamen-</p><p>to de seu grupo social é frequentemente um</p><p>processo sutil (Hall, 1973).</p><p>Feldman (1991) sugere quatro dife-</p><p>rentes maneiras para a construção das nor-</p><p>mas. Para esse autor, elas podem ser desen-</p><p>volvidas:</p><p>a) por um líder de um grupo social, para</p><p>garantir a sobrevivência do grupo;</p><p>b) por um acontecimento crítico na história</p><p>do grupo, clarificando quais compor-</p><p>tamentos seriam consistentes com os</p><p>valores do grupo;</p><p>c) pelos primeiros comportamentos exibidos</p><p>no grupo, indicando rotina;</p><p>d) e por comportamentos que já ocorriam</p><p>antes da formação do grupo, mas que</p><p>são considerados como padrões de um</p><p>determinado tipo de indivíduo (isto é,</p><p>auto categorização).</p><p>Existe uma considerável concordância</p><p>na literatura no que concerne ao período da</p><p>vida em que as principais normas sociais de</p><p>uma cultura são construídas. Wardle (1992)</p><p>propôs um modelo para explicar o desen-</p><p>volvimento de uma identidade birracial</p><p>saudável entre crianças. De acordo com seu</p><p>modelo, o desenvolvimento das normas so-</p><p>ciais e valores ocorria no “Estágio 1” de seu</p><p>modelo, que compreende as idades de 3 a</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>112 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>7 anos. De mesma forma, Pataki e Painter</p><p>(1994) notaram que a construção de nor-</p><p>mas sociais para a amizade e o pertenci-</p><p>mento ocorre quando a criança está na 3a</p><p>série, com idades entre 7 e 8 anos. Esses e</p><p>outros estudos aparentemente indicam que</p><p>as normas e valores que são moldados e en-</p><p>dossados nessa primeira infância tendem</p><p>a acompanhar os indivíduos pelo resto de</p><p>suas vidas. Desse modo, normas relativas a</p><p>diferentes comportamentos podem vir a ser</p><p>desenvolvidas também nos primeiros rela-</p><p>cionamentos das crianças com seus pais. É</p><p>importante citar que o desenvolvimento de</p><p>normas sociais só ocorre em um determi-</p><p>nado contexto cultural. Como mencionado</p><p>anteriormente, um indivíduo sozinho não</p><p>pode construir uma norma. Ele (ou ela)</p><p>precisa de contato com outros indivíduos,</p><p>precisa saber (ou imaginar) quais são as ex-</p><p>pectativas do outro naquela situação espe-</p><p>cífica e precisa perceber como este entende</p><p>como as normas se aplicam nessa situação</p><p>específica.</p><p>É importante ressaltar que a norma</p><p>é um construto com uma essência pre-</p><p>dominantemente regulatória na realiza-</p><p>ção de dife rentes comportamentos. In de-</p><p>pendentemente do modo como é construí-</p><p>da, sua formação sempre vai depender de</p><p>uma considerável da influência da cultura</p><p>no desenvolvimento da cultura no grupo</p><p>(Triandis, 1994).</p><p>normas versus cultura</p><p>Diversos autores (p. ex., Gold, 1997;</p><p>Bomtempo e Rivera, 1992; Wallace et al.,</p><p>2005; Triandis e Suh, 2002) consideram que</p><p>há uma relação entre normas sociais e cul-</p><p>tura. Vários autores consideram que a defi-</p><p>nição de cultura inclui a noção de crenças</p><p>e normas compartilhadas (Lehman, Chiu</p><p>e Schaller, 2004; Wan, Chiu, Peng e Tam,</p><p>2007; Smith, Bond e Kagitçibasi, 2006).</p><p>Gold (1997) afirma que, quando indivíduos</p><p>compartilham as mesmas crenças e possuem</p><p>uma “consciência de consenso” (p. 120),</p><p>uma cultura pode ser observada. Esse autor</p><p>nota que uma forte definição de cultura é</p><p>aquela que tem aspectos normativos para</p><p>os diferentes papéis, e que implica em uma</p><p>condição na qual “todos devem” (p. 123),</p><p>significando que a definição de normas seria</p><p>intrínsica à definição de cultura.</p><p>Rohner (1984 apud Smith e Bond,</p><p>1999) propõe que não devemos distinguir</p><p>entre os conceitos de cultura e sistema so-</p><p>cial. Ele define um sistema social em termos</p><p>de “os comportamentos de diversos indiví-</p><p>duos dentro de uma população culturalmen-</p><p>te organizada, incluindo seus padrões de in-</p><p>terações social e redes de relacio namentos</p><p>sociais” (p. 127). Como discutido anterior-</p><p>mente, a maioria das definições de cultura</p><p>se baseia na análise dos compor tamentos</p><p>e ações de seus membros. Uma vez que a</p><p>definição de normas se refere a quais com-</p><p>portamentos “devem” ser feitos em uma si-</p><p>tuação, pode -se entender com clareza como</p><p>as normas sociais estão claramente inseri-</p><p>das na definição de cultura. Deste modo,</p><p>estudando -se o mesmo sistema social, em</p><p>diferentes culturas, podermos inferir como</p><p>as diferentes culturas entendem esses com-</p><p>portamentos, e o que significa o comporta-</p><p>mento ideal em cada cultura.</p><p>Em culturas diferentes, Smith e Bond</p><p>(1999) observaram que indivíduos (de dois</p><p>países diferentes) podem desempenhar</p><p>papéis sociais idênticos em suas culturas.</p><p>Entretanto, eles frequentemente têm dife-</p><p>rentes históricos em cada grupo de culturas,</p><p>o que irá afetar o modo como eles desem-</p><p>penham seus papéis em cada cultura. Desse</p><p>modo, o mesmo papel pode ser definido de</p><p>modo similar em cada cultura, mas as nor-</p><p>mas que guiam o comportamento dos atores</p><p>sociais podem ser diferentes. Por exemplo,</p><p>dois indivíduos podem ter exatamente o mes-</p><p>mo cargo (p. ex., analista de produção) com</p><p>as mesmas atribuições (isto é, mesma descri-</p><p>ção de cargo) em duas culturas, mas Payett e</p><p>Morris (1995) observaram que o modo como</p><p>esses indivíduos executam suas tarefas está</p><p>atrelado à cultura. É necessário estudar os</p><p>diferentes contextos culturais desses indiví-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 113</p><p>dios para poder entender o que cada norma</p><p>social implica em cada contexto.</p><p>Smith e Bond (1999) consideram,</p><p>ainda, que o conceito de cultura é muito</p><p>abrangente para o uso científico. Cultura é</p><p>um conceito capaz de lidar com uma grande</p><p>gama de variação do comportamento e pen-</p><p>samento humano. No entanto, qual aspecto</p><p>da cultura é responsável pela variação em</p><p>uma parte específica do comportamento hu-</p><p>mano? Afirmar que qualquer diferença entre</p><p>dois grupos específicos é devido à cultura é</p><p>de pouca utilidade prática e científica, pois,</p><p>ao final, não se sabe o que realmente cau-</p><p>sou a diferença (Smith, Bond e Kagitçibasi,</p><p>2006; Dimaggio, 1997).</p><p>Além disso, considerando que a cultura</p><p>só pode ser medida indiretamente, por meio</p><p>das crenças, valores e normas compartilha-</p><p>das que a constitui (entre outros construtos),</p><p>e que existe uma considerável dificuldade</p><p>em mensurar (indiretamente) essas crenças,</p><p>valores e normas em sua completude, uma</p><p>solução para o estudo de culturas pode ser</p><p>da escolha de um dos componentes, como</p><p>a norma. O uso do conceito de norma pode</p><p>nos ajudar a especificar os estudos de cul-</p><p>tura. Uma outra vantagem é que se trata de</p><p>um conceito que é diretamente relacionado</p><p>a um comportamento observável.</p><p>normas e dimensões culturais</p><p>Revisando os estudos relativos à noção de</p><p>self, Smith, Bond e Kagitçibasi (2006) en-</p><p>contraram que estudos realizados em cultu-</p><p>ras mais coletivistas apresentam resultados</p><p>diferentes daqueles realizados em culturas</p><p>mais individualistas. Participantes de cultu-</p><p>ras mais coletivistas (p. ex., Brasil) tendem</p><p>a perceber os outros e a si mesmos em ter-</p><p>mos mais situacionais. Uma vez que as nor-</p><p>mas se relacionam com o comportamento</p><p>apropriado para uma situação específica, e</p><p>que indivíduos de uma cultura mais coleti-</p><p>vista tendem a perceber a si nos termos da</p><p>situação, então há uma</p><p>ele, os instintos apresentam</p><p>três componentes: a percepção, que leva o</p><p>indivíduo a prestar atenção aos estímulos</p><p>relevantes a seus instintos; o comporta-</p><p>mento, responsável por levar o indivíduo a</p><p>manifestar condutas destinadas a satisfazer</p><p>seus instintos; e a emoção, que faz com que</p><p>os instintos estejam associados a estados</p><p>emocionais positivos ou negativos (Boeree,</p><p>2006b).</p><p>Propôs ainda uma classificação dos</p><p>instintos em primários, de segunda ordem</p><p>e pseudoinstintos (Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Os instintos primários são em número de</p><p>sete e associam -se a emoções. Entre eles, es-</p><p>tão, por exemplo, a fuga, associada ao medo,</p><p>e o combate, associado à raiva. Os instintos</p><p>secundários são em número de quatro e</p><p>mostram -se importantes para a vida social,</p><p>como, por exemplo, o instinto gregário. Já</p><p>os pseudoinstintos são em número de três e</p><p>interferem nas interações entre as pessoas,</p><p>como no caso da imitação, por exemplo. Os</p><p>estudos de McDougall são considerados pre-</p><p>cursores das teorias motivacionais, que pos-</p><p>teriormente se tornarão objeto de investiga-</p><p>ção de alguns psicólogos sociais (McGarty e</p><p>Haslam, 1997).</p><p>No momento em que a psicologia co-</p><p>meça a se definir como uma disciplina in-</p><p>dependente, a publicação concomitante das</p><p>obras de Ross e McDougall, estando situadas</p><p>uma no âmbito da psicologia e outra, no âm-</p><p>bito da sociologia, pode ser vista como uma</p><p>evidência da separação entre a psicologia</p><p>social psicológica e a psicologia social socio-</p><p>lógica que se avizinhava. A partir do início</p><p>do século XX, ambas as correntes sofrerão</p><p>grande impulso nos Estados Unidos, ainda</p><p>que trilhando direções distintas. Nesse sen-</p><p>tido, acompanharemos inicialmente a evolu-</p><p>ção da psicologia social psicológica para, em</p><p>seguida, trilharmos os caminhos percorridos</p><p>pela psicologia social sociológica ao longo</p><p>do século XX.</p><p>o desenvolviMento da</p><p>Psicologia social Psicológica</p><p>nos estados unidos</p><p>Nas primeiras décadas do século XX, os</p><p>Estados Unidos assistem à ascensão do beha-</p><p>viorismo, segundo o qual uma psicologia</p><p>verdadeiramente científica deveria estudar</p><p>e explicar apenas o comportamento humano</p><p>observável, sem considerar construtos men-</p><p>tais não observáveis, como a mente, a cog-</p><p>nição e os sentimentos (McGarty e Haslam,</p><p>1997). Com isso, os psicólogos sociais pro-</p><p>gressivamente abandonam as explicações</p><p>do comportamento social em termos de</p><p>instintos, bem como o uso da introspecção,</p><p>passando a adotar uma psicologia social</p><p>eminentemente experimental e focada no in-</p><p>divíduo (Jahoda, 2007). Consequentemente,</p><p>a divisão entre psicologia social psicológica</p><p>e sociológica aprofunda -se na medida em</p><p>que a psicologia passa a ser vista muito mais</p><p>como uma ciência natural do que como uma</p><p>ciência social (Pepitone, 1986).</p><p>Cumpre registrar, porém, que o primei-</p><p>ro experimento em psicologia social ocorreu</p><p>ainda no século XIX, tendo sido conduzido</p><p>por Tripplett em 1897 (Rodrigues, 1972).</p><p>Esse experimento foi realizado com crianças</p><p>que foram solicitadas a enrolar um anzol o</p><p>mais rapidamente possível, sozinhas ou na</p><p>presença de outras crianças que faziam a</p><p>mesma tarefa. Os resultados mostraram que</p><p>elas agiam muito mais rapidamente quan-</p><p>do estavam acompanhadas do que quando</p><p>estavam sozinhas, lançando assim as bases</p><p>do estudo do fenômeno de facilitação social,</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>18 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>que ainda hoje é um dos temas de interesse</p><p>da psicologia social psicológica.</p><p>Entretanto, é somente em 1924 que</p><p>surge o livro -texto de psicologia social de</p><p>Floyd Allport (1890 -1978), considerado um</p><p>dos mais famosos psicólogos sociais beha-</p><p>vioristas da época (Pepitone, 1981). O autor</p><p>contrapõe -se ao estudo da consciência cole-</p><p>tiva ou mente grupal pela psicologia social,</p><p>por acreditar não ser possível a existência</p><p>de uma mente comum a várias pessoas, de</p><p>modo similar ao que ocorre com um indi-</p><p>víduo particular. Além disso, ele considera</p><p>que a psicologia social faz parte da psicolo-</p><p>gia do indivíduo e não da sociologia e, como</p><p>tal, deve ocupar -se do estudo das influên-</p><p>cias do comportamento do indivíduo em ou-</p><p>tras pessoas e das reações a tais influências</p><p>(Karpf, 1932).</p><p>Allport desenvolve uma série de expe-</p><p>rimentos sobre facilitação social, demons-</p><p>trando que os grupos nos quais as pessoas</p><p>estavam juntas, mas trabalhando individual-</p><p>mente, em tarefas mentais ou perceptuais,</p><p>apresentavam melhor desempenho do que</p><p>pessoas que estavam sozinhas realizando o</p><p>mesmo tipo de tarefa. Com sua obra, ele de-</p><p>fine, portanto, os limites da psicologia social</p><p>psicológica como uma disciplina objetiva e</p><p>de base experimental (Jones, 1985).</p><p>Nos anos de 1920, inicia -se também</p><p>o estudo das atitudes, sob a coordenação</p><p>de Thurstone e colaboradores, que desen-</p><p>volveram uma metodologia própria para a</p><p>investigação do referido construto, toma-</p><p>do como um fenômeno mental (McGarty e</p><p>Haslam, 1997). Esse trabalho pioneiro sus-</p><p>citou o desenvolvimento de várias outras</p><p>técnicas para a mensuração das atitudes.</p><p>Tais técnicas, aliadas à sofisticação cada vez</p><p>maior do método experimental, garantirão</p><p>o status científico da psicologia social psico-</p><p>lógica ao longo das décadas subsequentes</p><p>(Graumann, 1996).</p><p>a segunda guerra Mundial</p><p>Com a escalada do nazismo na Europa e a</p><p>Segunda Guerra Mundial, muitos cientistas</p><p>imigraram para os Estados Unidos. Além dis-</p><p>so, os psicólogos sociais foram convocados a</p><p>cooperar na resolução dos problemas sociais</p><p>provocados pela guerra. Tais fatos influen-</p><p>ciarão sobremaneira os novos rumos toma-</p><p>dos pela psicologia social psicológica no pe-</p><p>ríodo que vai da década de 1930 à década de</p><p>1950. Nesse sentido, os psicólogos europeus</p><p>trarão para a psicologia norte -americana a</p><p>perspectiva do gestaltismo, que substituirá</p><p>o behaviorismo até então dominante. Para</p><p>o gestaltismo, as propriedades perceptivas</p><p>de um objeto formavam uma gestalt, isto</p><p>é, um todo que apresentava características</p><p>distintas da soma das partes que o consti-</p><p>tuem (McGarty e Haslam, 1997). Entre os</p><p>psicólogos sociais europeus que, nos anos</p><p>1940, desenvolveram trabalhos influencia-</p><p>dos pelas ideias do gestaltismo destacam-</p><p>-se Muzar Sheriff (1906 -1988), Kurt Lewin</p><p>(1890 -1947), Fritz Heider (1896 -1988) e</p><p>Solomon Asch (1907 -1996).</p><p>Com o objetivo de explorar as condições</p><p>e os fatores que levam à formação e à perma-</p><p>nência das normas sociais, Sheriff (1936) de-</p><p>senvolveu vários experimentos. Neles, uma</p><p>pessoa era solicitada a fazer julgamentos de</p><p>estímulos ambíguos (o quanto uma luz em</p><p>um quarto escuro se movia, quando na rea-</p><p>lidade estava parada), individualmente ou</p><p>na presença de outras pessoas. Observou -se</p><p>que a pessoa, ao tomar conhecimento dos</p><p>julgamentos feitos pelos demais (norma so-</p><p>cial), antes ou depois do próprio julgamento,</p><p>tendia a convergir para a norma do grupo e a</p><p>desconsiderar a própria norma.</p><p>Lewin era um psicólogo judeu que</p><p>imigrou para os Estados Unidos em 1933 e,</p><p>juntamente com seus colaboradores (Lewin,</p><p>Lippitt e White, 1939), desenvolveu pesqui-</p><p>sas sobre o clima grupal, nas quais estudou</p><p>experimentalmente, em grupos reais, a in-</p><p>fluência dos estilos de liderança no compor-</p><p>tamento do grupo. Os resultados levaram -no</p><p>a concluir que o papel do líder era central</p><p>para o funcionamento do grupo, já que di-</p><p>ferentes estilos de liderança provocavam ní-</p><p>veis distintos de produtividade e agressão.</p><p>Lewin (1943) também propôs a teoria de</p><p>campo, na qual o grupo era visto como um</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 19</p><p>campo de forças que tinha primazia sobre</p><p>suas partes, isto é, sobre seus membros. Ele</p><p>inaugurou ainda um programa a que deno-</p><p>minou de pesquisa -ação, cujo objetivo era</p><p>avaliar o comportamento dos membros de</p><p>grupos da comunidade e colaborar com sua</p><p>mudança de atitudes e comportamentos.</p><p>Em contraste com a posição de Allport</p><p>e de outros psicólogos sociais experimen-</p><p>tais, para quem o grupo representava tão</p><p>somente uma variável externa que</p><p>considerável chance</p><p>deles se apoiarem mais em normas sociais</p><p>ao escolherem como se comportar em uma</p><p>dada situação. Essa hipótese vem encontran-</p><p>do algumas evidências de sua validação (p.</p><p>ex., Smith et al., 1998). Então, por exem-</p><p>plo, seria plausível considerar que o protó-</p><p>tipo de um líder em uma cultura coletivista</p><p>seria aquele que dá maior valor para suas</p><p>normas sociais. Por outro lado, um líder em</p><p>uma cultura individualista poderá ser mais</p><p>bem identificado como aquele que fornece o</p><p>que está faltando para a realização de tare-</p><p>fas, ou de funções relacionadas com relacio-</p><p>namentos. Também podemos observar que</p><p>as normas podem ser usadas para explicar</p><p>e justificar o ponto de vista da organização</p><p>como superior, para reafirmar o direito da</p><p>administração definir qual é o ponto de vis-</p><p>ta que irá prevalecer em uma dada situação</p><p>(Izraeli e Jick, 1986).</p><p>A relação entre seres humanos e as</p><p>dimensões culturais é uma via de “mão</p><p>dupla”, na qual os indivíduos e o ambien-</p><p>te moldam um ao outro. Hall (1969) afir-</p><p>ma que pes soas influenciam a norma de</p><p>seu grupo cultural e são influenciadas por</p><p>ela. Ele também propõe que as normas, de</p><p>modo similar às leis (isto é, uma forma de</p><p>norma mais estruturada), são essenciais</p><p>para a sobrevivência de uma cultura e para</p><p>a manutenção das pes soas em uma cultura.</p><p>Leis e normas podem ser criadas por várias</p><p>razões. Como observado pelos autores, des-</p><p>de os tempos do Código de Hamurabi (1700</p><p>a.e.c.),6 existe “a necessidade de reforçar leis</p><p>que substituam os costumes tribais” (Hall,</p><p>1969, p. 167). Desse modo, pode -se notar</p><p>que as normas sociais sempre fizeram parte</p><p>de qualquer grupo social, podendo ser de-</p><p>monstradas por suas dimensões culturais.</p><p>Quando indivíduos de diferentes cul-</p><p>turas entram em contato, eles vivenciam as</p><p>diferentes normas que se aplicam a cada um.</p><p>Contudo, diversas dificuldades podem ocor-</p><p>rer, levando ao fracasso na leitura correta da</p><p>norma que se aplica a cada um. Gerando di-</p><p>versos mal -entendidos. Contudo, quando o</p><p>contato passa a ocorrer com maior frequên-</p><p>cia, elas passam a compreender melhor o</p><p>comportamento do outro (Hall, 1969).</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>114 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>desviando das normas</p><p>Um grupo social pode reforçar normas por</p><p>diferentes motivos. Estes podem ser meca-</p><p>nismos para aumentar a predição dos com-</p><p>portamentos de seus membros, uma forma</p><p>de expressar os valores do grupo (para jus-</p><p>tificar as atividades do grupo para os mem-</p><p>bros), ou mesmo uma forma de especificar</p><p>as fronteiras do grupo, facilitando sua so-</p><p>brevivência (Feldman, 1991).</p><p>DeRidder, Schruijer e Tripathi (1992)</p><p>forneceram um quadro integrativo para en-</p><p>tender a relação entre grupos étnicos em</p><p>uma sociedade e entre grupos em organiza-</p><p>ções que precisam coexistir por longo perío-</p><p>do de tempo: a Teoria de Violação da Norma.</p><p>Essa abordagem é baseada na observação de</p><p>que, através dos anos, cada grupo existente</p><p>desenvolve normas implícitas e/ou explícitas</p><p>que estipulam como seus membros devem</p><p>agir e reagir frente a membros dos outros</p><p>grupos. Membros de cada grupos conhecem</p><p>essas normas. Geralmente, os membros dos</p><p>grupos assumem tacitamente que as normas</p><p>são respeitadas. Desse modo, a violação de</p><p>uma norma por um membro de um grupo é</p><p>considerada como um potente fator ativador</p><p>de um negativo comportamento intergrupal.</p><p>A severidade das sanções do grupo é</p><p>uma função do grau de desvio e da relevân-</p><p>cia da norma (Triandis, 1994). As culturas</p><p>aparentemente diferem na extensão em que</p><p>uma norma em particular é considerada</p><p>relevante para seus membros. Por exem-</p><p>plo, embora todas as culturas reconheçam</p><p>o conceito de equidade, esta norma não é</p><p>igualmente relevante em todas as culturas.</p><p>Replicando estudos clássicos de psicologia</p><p>social no Brasil, Rodrigues (1992) encon-</p><p>trou que a teoria de equidade tem algumas</p><p>limitações nesse país. No Brasil, o compor-</p><p>tamento em si é reconhecido, não o produ-</p><p>to ou o resultado do comportamento. Os</p><p>brasileiros tendem a dar mais valor para</p><p>os comportamentos envolvidos na tarefa</p><p>do que ao processo envolvidos na execução</p><p>da mesma, e a atribuir um menor valor ao</p><p>produto final obtido pela tarefa. Essa prefe-</p><p>rência parece ser consistente com a suges-</p><p>tão de que as pessoas em países coletivistas</p><p>tentam distribuir os recursos de modo que</p><p>a solidariedade endogrupo possa ser manti-</p><p>da, e tendem a distribuir as recompensas de</p><p>modo que seja justo para todos os membros</p><p>dos endogrupos (Triandis, 1994). Por outro</p><p>lado, Hall (1969) sugere que normalmen-</p><p>te “norte -americanos (sic) aparentemente</p><p>dirigem sua atenção mais diretamente ao</p><p>conteúdo do que à estrutura e à forma” (p.</p><p>183). É interessante notar que essas normas</p><p>se tornam muito mais claras quando os indi-</p><p>víduos se desviam delas (Derider, Schruijer</p><p>e Tripathi, 1992). Desse modo, no exemplo</p><p>anterior, os brasileiros podem se tornar mais</p><p>conscientes do valor que dão ao comporta-</p><p>mento quando interagem com alguém que</p><p>não é da mesma cultura, e que dá mais va-</p><p>lor ao produto da tarefa, violando a norma</p><p>brasileira.</p><p>quadro 5.4</p><p>DiFerenciaçãO Das nOrmas entre cULtUras</p><p>então, como vai a família?</p><p>as normas tendem a ser diferentes nas diversas culturas. Por exemplo, archer e Fitch (1994) obser‑</p><p>varam que, em diversas organizações norte ‑americanas, a norma é falar muito pouco sobre a família</p><p>de alguém, pois tal exposição implica em obscurecer uma importante linha entre o que é público</p><p>ou privado na vida das pessoas, ou mesmo privilegiar a família em detrimento do trabalho. Já em</p><p>organizações latino ‑americanas, pode ser considerado não educado não perguntar sobre a família</p><p>de alguém.</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 115</p><p>norMas sociais e</p><p>o conceito de situação</p><p>Normas podem ser entendidas nos termos</p><p>de o que uma pessoa supostamente deve fa-</p><p>zer em uma determinada situação por causa</p><p>de sua posição/status social. Se as normas</p><p>são definidas como o comportamento ide-</p><p>al de um indivíduo, determinado por sua</p><p>posição ou situação, o que faz com que seu</p><p>comportamento se torne independente do</p><p>comportamento de outras pessoas? Como</p><p>as normas se tornam recíprocas? Jackson</p><p>(1966a) sinaliza que a falta de possibilida-</p><p>des dedutivas dificulta o estudo sobre re-</p><p>gras, normas e papéis. Para esse autor, na</p><p>psicologia social, fala -se sobre “conceitos-</p><p>-ideias”, como self, grupo e norma social,</p><p>quadro 5.6</p><p>nOrmas sOciais e caracterÍsticas cULtUrais</p><p>amor de mãe é sagrado?</p><p>mãe é aquela pessoa que cuida de nós desde o ventre, e, por isso, se cria com ela um vínculo</p><p>“místico e mágico”, que faz com que todas as ações que esta toma com relação aos filhos seja</p><p>sempre um ato de amor geralmente proposital. contudo, uma mãe é uma pessoa como qualquer</p><p>outra. e por isso é capaz de fazer tudo o que pessoas são capazes de fazer. Diversos autores, das</p><p>mais diversas áreas (p. ex., Walzer, 1996; chase; rogers, 2001) vêm indicando que a maternidade</p><p>é socialmente construída, e que não há nenhuma outra base para explicar o comportamento que</p><p>não estruturas sociais. Desse ponto de vista, a maternidade é um sistema social, com todas as im‑</p><p>plicações que isso traz no que se refere a diferentes culturas. Logo, o “amor” de uma mãe de uma</p><p>cultura não é maior ou menor, nem melhor ou pior. O próprio amor é um sistema social, regulado</p><p>por diferentes normas em cada cultura.</p><p>entretanto, como todo sistema governado por normas, este está sujeito a pessoas que fogem</p><p>à realização dos comportamentos tidos como aceitáveis. isso significa que, dar à luz não é sufi‑</p><p>ciente para ter “amor de mãe”, o que é uma escolha (que pode ou não ser realizada), moldada</p><p>socialmente, regulada por normas sociais.</p><p>quadro 5.5</p><p>nOrmas e aPrenDiZaGem De LinGUaGens</p><p>o que você quer dizer com isso?!?</p><p>aprender uma outra língua é importante para fazer negócios em uma outra cultura. mas, como</p><p>observado por diversos autores (p. ex., Hall, 1969; Pinker, 2007), linguagem é mais do que apenas</p><p>exercia</p><p>influência sobre os indivíduos que dele par-</p><p>ticipavam, a concepção de Lewin de que o</p><p>grupo tem uma dinâmica própria, não re-</p><p>dutível à soma das partes que o compõem,</p><p>soou como bastante original e teve grande</p><p>impacto nas discussões teóricas travadas na</p><p>época (Pepitone, 1981). Seus engenhosos</p><p>experimentos trouxeram a realidade social</p><p>para dentro do laboratório e converteram-</p><p>-se em um modelo paradigmático de pesqui-</p><p>sas sobre processos e estruturas grupais que</p><p>eram ao mesmo tempo empíricas e teóricas</p><p>(Smith, 1961).</p><p>Os trabalhos seminais de Heider</p><p>(1944, 1946, 1958) lançaram as bases con-</p><p>ceituais de duas linhas de pesquisa que do-</p><p>minarão as décadas subsequentes. Nas pu-</p><p>blicações de 1944 e 1958, ele estabelece os</p><p>fundamentos das teorias de atribuição, ao</p><p>defender a ideia de que, em suas relações</p><p>interpessoais, o indivíduo percebe o outro</p><p>e suas ações como um todo organizado e,</p><p>por essa razão, tende a procurar as causas</p><p>do comportamento do outro, como forma</p><p>de tornar o mundo social mais organizado,</p><p>estável e previsível. Para tanto, utiliza -se</p><p>de fatores pessoais, internos (capacidade,</p><p>esforço, etc.) ou de fatores impessoais, ex-</p><p>ternos (sorte, situação, etc.). Já no artigo de</p><p>1946, Heider constrói os pilares das teorias</p><p>da consistência cognitiva ao propor o princí-</p><p>pio do equilíbrio cognitivo, segundo o qual</p><p>as pessoas tendem a manter sentimentos e</p><p>cognições coerentes sobre um mesmo objeto</p><p>ou pessoa, de modo a obter uma situação</p><p>de equilíbrio. Quando esse equilíbrio se des-</p><p>faz, elas vivenciam uma situação de tensão</p><p>e procuram restabelecê -lo mediante a mu-</p><p>dança de algum dos elementos da situação.</p><p>Asch (1946) coloca -se contra a posição</p><p>adotada pelos psicólogos sociais adeptos do</p><p>behaviorismo, procurando aplicar os princí-</p><p>pios gestaltistas no campo da percepção de</p><p>pessoas, que até hoje consiste em uma das</p><p>áreas centrais de estudo da psicologia so-</p><p>cial psicológica. Segundo ele, ao formarmos</p><p>uma impressão sobre uma pessoa, construí-</p><p>mos um todo organizado sobre ela, uma im-</p><p>pressão que difere do somatório de todas as</p><p>suas características pessoais. Os trabalhos</p><p>de Sheriff, Lewin, Heider e Asch exerceram</p><p>forte influência sobre toda uma geração de</p><p>seguidores que fizeram a história da psico-</p><p>logia social psicológica nas décadas subse-</p><p>quentes.</p><p>o período do pós ‑guerra</p><p>O período do pós -guerra constituiu -se em</p><p>uma fase de intensa produção pelos psi-</p><p>cólogos sociais da época, estimulada pela</p><p>continuação dos esforços de cooperação</p><p>empreendidos durante a guerra e pela cons-</p><p>tatação por parte das entidades militares e</p><p>governamentais de que as ciências sociais e</p><p>comportamentais estavam preparadas para</p><p>colaborar no gerenciamento dos comple-</p><p>xos problemas humanos daquele período.</p><p>Desse modo, nas duas décadas seguintes à</p><p>Segunda Guerra Mundial, a psicologia so-</p><p>cial psicológica converte -se em um campo</p><p>científico produtivo, com bases solidamen-</p><p>te estabelecidas, e torna -se responsável por</p><p>uma série de pesquisas inovadoras, talento-</p><p>sas e cada vez mais sofisticadas do ponto de</p><p>vista metodológico, as quais desencadearão</p><p>o surgimento de novas direções de pesquisa</p><p>e teorização (Jackson, 1988).</p><p>Com o intuito de melhor compreender</p><p>as razões que levaram pessoas aparente-</p><p>mente normais e civilizadas a cometer hor-</p><p>rores contra outros seres humanos durante</p><p>a guerra, Theodor Adorno (1903 -1969)</p><p>dedica -se ao estudo dos tipos de persona-</p><p>lidade. Ele pertencia à Escola de Frankfurt</p><p>– nome utilizado para designar o Instituto</p><p>de Pesquisa que funcionava na Universidade</p><p>de Frankfurt – e, a exemplo de outros emi-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>20 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>nentes psicólogos já citados, também imi-</p><p>grou para os Estados Unidos durante a</p><p>guerra. Logo após o término do conflito, irá</p><p>publicar, juntamente com outros membros</p><p>de sua equipe (Adorno, Frenkel-Brunswik,</p><p>Levinson e Sanford, 1950), a obra A perso‑</p><p>nalidade autoritária, na qual defende a tese</p><p>de que o preconceito contra as minorias so-</p><p>ciais em geral (bem como o antissemitismo,</p><p>em particular) está associado a um tipo de</p><p>personalidade autoritária, caracterizado por</p><p>traços de rigidez de opiniões, adesão a valo-</p><p>res convencionais e intolerância.</p><p>Outra consequência do período do</p><p>pós -guerra foi o ressurgimento do interesse</p><p>pela pesquisa sobre atitudes. Enquanto na</p><p>primeira fase da pesquisa sobre o tema o</p><p>foco era a mensuração das atitudes, confor-</p><p>me já apontado, nessa nova fase os psicólo-</p><p>gos sociais se concentrarão na investigação</p><p>experimental da mudança de atitudes.</p><p>Tais estudos iniciaram -se ainda nos</p><p>tempos de guerra, sob a liderança de Carl</p><p>Hovland (1912 -1961), com o objetivo de</p><p>verificar os efeitos de filmes bélicos e de</p><p>programas de treinamento do exército norte-</p><p>-americano sobre as atitudes dos soldados.</p><p>Terminada a guerra, Hovland e colaborado-</p><p>res (Hovland, Jonis e Kelley, 1953) desenvol-</p><p>veram um extenso programa de pesquisas ex-</p><p>perimentais sobre comunicação e persuasão,</p><p>com o intuito de elucidar as influências das</p><p>características do comunicador (como, por</p><p>exemplo, seu prestígio, seu grau de credibili-</p><p>dade, etc.), da mensagem (como, por exem-</p><p>plo, seu conteúdo) e da audiência (como, por</p><p>exemplo, suas características de personalida-</p><p>de) na mudança de atitudes. Esses estudos</p><p>fizeram com que as atitudes tivessem um</p><p>papel central na psicologia social psicológi-</p><p>ca durante os anos de 1960, tendo ocupado</p><p>maior espaço do que qualquer outro tópico</p><p>nos livros -texto da época (McGuire, 1968).</p><p>Contudo, nos anos de 1970, esse interesse</p><p>entrou em declínio com a consequente ascen-</p><p>são do cognitivismo.</p><p>Uma terceira consequência do pós-</p><p>-guerra foi o impulso que as investigações</p><p>sobre grupos receberam, especialmente pe-</p><p>las mãos de Solomon Asch (1907 -1996), que</p><p>anteriormente havia realizado estudos sobre</p><p>a formação de impressões, e Leon Festinger</p><p>(1919 -1989). Tais pesquisas constituíram as</p><p>bases da teorização sobre influência social e</p><p>processos intragrupais, temas presentes na</p><p>maior parte dos modernos manuais de psi-</p><p>cologia social psicológica.</p><p>Na sequência dos estudos iniciados</p><p>por Sheriff nos anos de 1930, Asch (1952)</p><p>dedicou -se a pesquisas sobre a influência</p><p>social, procurando avaliar a influência da</p><p>pressão do grupo sobre o julgamento dos in-</p><p>divíduos. Em contraste com os experimen-</p><p>tos de Sheriff, nos quais os estímulos eram</p><p>ambíguos, ele usou estímulos sem nenhuma</p><p>ambiguidade (comparação de linhas de va-</p><p>riados tamanhos com uma linha de tama-</p><p>nho padrão). Ainda assim, seus experimen-</p><p>tos demonstraram que, quando uma pessoa</p><p>tem certeza de que seu julgamento está cor-</p><p>reto, mas é confrontada com uma maioria</p><p>que fez um julgamento errado, ela tende a</p><p>se conformar com essa maioria e mudar seu</p><p>julgamento, seja porque realmente passa a</p><p>acreditar que estava enganada em seu julga-</p><p>mento e que a maioria é que estava correta,</p><p>seja porque tem necessidade de ser aceita</p><p>pelo grupo.</p><p>Os estudos de Asch sobre conformida-</p><p>de suscitaram uma série de desdobramentos</p><p>posteriores, relacionados à investigação dos</p><p>diferentes fatores que influenciavam tal fe-</p><p>nômeno, além de inspirar os experimentos</p><p>clássicos de Milgram (1965) sobre obediên-</p><p>cia à autoridade. Em tais experimentos, o</p><p>autor demonstra que os indivíduos sentem-</p><p>-se tão submissos à autoridade do experi-</p><p>mentador que, atendendo às suas instru-</p><p>ções, são capazes de ministrar choques cada</p><p>vez mais fortes em uma determinada pessoa</p><p>(por causa de erros que ela vai simulando</p><p>cometer durante o desempenho de uma</p><p>tarefa), apesar de ela demonstrar que está</p><p>sentindo dores cada vez piores.</p><p>Festinger (1954) recebeu influências de</p><p>Lewin, tendo publicado uma das primeiras</p><p>teorias formais em psicologia social – a teoria</p><p>da comparação social –, com base nos resul-</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 21</p><p>tados de uma série de experimentos destina-</p><p>dos a testar hipóteses sobre as pressões para</p><p>a uniformidade que ocorrem</p><p>nos grupos. De</p><p>acordo com essa teoria, as pessoas, quando</p><p>não têm um padrão objetivo de comparação,</p><p>sentem necessidade de se comparar com os</p><p>demais membros de seu grupo e confirmar</p><p>que eles têm crenças e habilidades seme-</p><p>lhantes às suas, o que as faz se sentirem mais</p><p>seguras. Quando, por outro lado, surge um</p><p>membro com opinião divergente, o grupo</p><p>faz pressão para que ele mude essa opinião</p><p>e conforme -se às regras grupais e, caso isso</p><p>não aconteça, rejeita -o, levando esse mem-</p><p>bro a escolher outros grupos de comparação.</p><p>A teoria de Festinger foi submetida a inú-</p><p>meros desdobramentos, especialmente por</p><p>Shachter (1959), que desenvolveu uma sé-</p><p>rie de experimentos sobre a necessidade de</p><p>comparação de experiências emocionais.</p><p>No final dos anos de 1950 e ao longo</p><p>dos anos de 1960 e 1970, as pesquisas sobre</p><p>mudança de atitudes e sobre processos gru-</p><p>pais foram progressivamente sendo substi-</p><p>tuídas pelas teorias de base cognitiva. Nesse</p><p>sentido, as teorias da consistência domina-</p><p>ram a década de 1960, sob a influência do</p><p>princípio do equilíbrio cognitivo de Heider</p><p>(1946). Entre elas, merece destaque a teo-</p><p>ria da dissonância cognitiva de Festinger</p><p>(1919 -1989), que antes já havia desenvolvi-</p><p>do a teoria da comparação social.</p><p>De acordo com Festinger (1957), as</p><p>pessoas tendem a buscar a harmonia ou a</p><p>congruência entre suas crenças e atitudes.</p><p>Desse modo, quando são induzidas a emitir</p><p>atitudes contrárias às suas crenças, entram</p><p>em dissonância cognitiva, o que lhes causa</p><p>desconforto e as leva a mudar suas crenças</p><p>ou atitudes, de modo a alcançar novamente</p><p>a congruência. Assim, por exemplo, se uma</p><p>pessoa fuma e sabe que isso é prejudicial à</p><p>saúde, ela poderá resolver essa dissonância</p><p>parando de fumar (mudança de atitude) ou</p><p>buscando informações de que fumar não é</p><p>prejudicial à saúde (mudança de crenças).</p><p>A teoria da dissonância suscitou, nas</p><p>décadas seguintes, um volume considerá-</p><p>vel de pesquisas experimentais rigorosas,</p><p>destinadas a testar seus pressupostos sobre</p><p>as inconsistências, contradições, tensões ou</p><p>perturbações da harmonia cognitiva que</p><p>movem o comportamento social, bem como</p><p>sobre os diferentes fatores que interferiam</p><p>na redução ou não da dissonância. Apesar</p><p>de ter sido também alvo de críticas, ela foi a</p><p>principal responsável pelo desenvolvimento</p><p>da psicologia social psicológica nas décadas</p><p>seguintes (Rodrigues, Assmar e Jablonski,</p><p>2000).</p><p>À medida que o interesse pelas teo-</p><p>rias da dissonância e do equilíbrio decaía,</p><p>a pesquisa sobre as teorias da atribuição au-</p><p>mentava, tendo marcado os anos de 1970</p><p>e 1980. Essas teorias desenvolveram -se a</p><p>partir dos trabalhos de Heider (1944, 1958)</p><p>sobre as relações interpessoais e têm como</p><p>principal objetivo a investigação acerca do</p><p>modo pelo qual as pessoas inferem causas</p><p>sobre o próprio comportamento e sobre o</p><p>comportamento das outras pessoas, isto é,</p><p>o que as leva a concluir que o responsável</p><p>pelo comportamento é o próprio indivíduo</p><p>ou a situação. Tais preocupações foram in-</p><p>tensamente exploradas nas obras de Jones e</p><p>Davis (1965), Kelley (1967), Ross (1977) e</p><p>Weiner (1986), sendo as responsáveis pelo</p><p>fato de, ainda hoje, as teorias atribuicionais</p><p>constituírem -se em importante campo de</p><p>estudo e pesquisa da psicologia social psi-</p><p>cológica.</p><p>As teorias da atribuição representam</p><p>também a consolidação definitiva do cogni-</p><p>tivismo, que se tornou, a partir dos anos de</p><p>1980, a perspectiva dominante na psicolo-</p><p>gia social psicológica atual. Tal abordagem</p><p>focaliza -se na compreensão da cognição so-</p><p>cial, isto é, do processamento da informa-</p><p>ção social, baseado no pressuposto de que</p><p>o comportamento social pode ser explicado</p><p>por meio dos processos cognitivos a ele sub-</p><p>jacentes (Fiske e Taylor, 1984). Ela se volta</p><p>para o estudo da categorização dos objetos</p><p>sociais, ou seja, para a análise das estraté-</p><p>gias que as pessoas utilizam para formar</p><p>impressões, crenças ou cognições sobre os</p><p>estímulos sociais que as rodeiam (o próprio</p><p>indivíduo, bem como outras pessoas, grupos</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>22 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>e eventos sociais), e do modo pelo qual tais</p><p>categorias afetam seu comportamento.</p><p>a crise da psicologia social</p><p>O período que vai do pós -guerra aos anos de</p><p>1970 é visto por alguns autores (Apfelbaum,</p><p>1992) como a era de ouro da psicologia</p><p>social, em função da grande evolução ob-</p><p>servada na construção e na verificação de</p><p>teorias, assim como na elaboração de pro-</p><p>cedimentos metodológicos e estatísticos</p><p>cada vez mais sofisticados. Com o passar do</p><p>tempo, porém, o modelo de pesquisa -ação</p><p>orientado para a comunidade e para o estu-</p><p>do dos grupos, introduzido por Lewin ainda</p><p>nos anos de 1930, foi sendo paulatinamente</p><p>abandonado e substituído pela investigação</p><p>de fenômenos e processos eminentemente</p><p>intraindividuais, de natureza cognitiva.</p><p>Tendo como meta última a investiga-</p><p>ção das leis universais capazes de explicar</p><p>o comportamento social, a psicologia social</p><p>psicológica estrutura -se progressivamente</p><p>como uma ciência natural e empírica, que</p><p>desconsidera o papel que as estruturas so-</p><p>ciais e os sistemas culturais exercem sobre</p><p>os indivíduos (Pepitone, 1981). É nesse</p><p>contexto que a década de 1970 assistirá ao</p><p>surgimento da chamada “crise da psicologia</p><p>social”, que marcará em definitivo os novos</p><p>rumos tomados pela psicologia social psico-</p><p>lógica a partir de então.</p><p>A crise da psicologia social ou “era das</p><p>dúvidas” surgiu, portanto, em consequência</p><p>da excessiva individualização da psicologia</p><p>social psicológica e dos movimentos sociais</p><p>ocorridos nos anos de 1970 (como o femi-</p><p>nismo, por exemplo), tendo se caracteriza-</p><p>do pelo questionamento das bases concei-</p><p>tuais e metodológicas da psicologia social</p><p>psicológica até então dominante, no que</p><p>tange à sua validade, relevância e capacida-</p><p>de de generalização (Apfelbaum, 1992). Os</p><p>questionamentos voltam -se principalmente</p><p>à sua relevância social, isto é, ao fato de</p><p>essa vertente da psicologia social usar uma</p><p>linguagem científica cada vez mais neutra</p><p>e afastada dos problemas sociais reais e,</p><p>consequentemente, desenvolver modelos e</p><p>teorias que não são capazes de contribuir</p><p>para a explicação da nova realidade social</p><p>que surgia. Além disso, criticava -se a artifi-</p><p>cialidade dos experimentos conduzidos em</p><p>laboratório, a falta de compromisso ético de</p><p>seus mentores e a excessiva fragmentação</p><p>dos modelos teóricos (Jones, 1985).</p><p>Tais críticas suscitaram grande resis-</p><p>tência da comunidade científica estabeleci-</p><p>da à época. No entanto, contribuíram para</p><p>o movimento de internacionalização da psi-</p><p>cologia social, responsável pelo desenvolvi-</p><p>mento de uma psicologia social europeia,</p><p>mais preocupada com o contexto social,</p><p>e, mais recentemente, de uma psicologia</p><p>latino -americana.</p><p>o desenvolviMento da</p><p>Psicologia social sociológica</p><p>nos estados unidos</p><p>Durante o século XIX, as questões psicos-</p><p>sociais estiveram entre as preocupações de</p><p>filósofos, sociólogos e psicólogos europeus</p><p>e norte -americanos. No início do século XX,</p><p>porém, os sociólogos sentiram a necessida-</p><p>de de se diferenciar dos psicólogos sociais</p><p>que, no contexto da psicologia, passaram a</p><p>adotar o behaviorismo como paradigma e a</p><p>praticar uma psicologia social psicológica</p><p>que aos poucos se tornava cada vez mais in-</p><p>dividualista. Surge então a psicologia social</p><p>sociológica, cuja principal vertente é o inte-</p><p>racionismo simbólico e que tem, nas figuras</p><p>de Charles Cooley (1864 -1929) e George</p><p>Mead (1863 -1931) seus mais notáveis pre-</p><p>cursores.</p><p>os precursores da psicologia</p><p>social sociológica</p><p>Cooley era um sociólogo que recebeu in-</p><p>fluências de Spencer, tendo defendido uma</p><p>concepção evolucionista da mente e da so-</p><p>ciedade. Em sua obra Natureza humana e</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes 23</p><p>ordem social, datada de 1902, ele ressaltou</p><p>a influência do ambiente social na configu-</p><p>ração da natureza humana e, consequen-</p><p>temente, da natureza da identidade ou</p><p>self</p><p>(Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Ao explicar a formação da identidade,</p><p>Cooley usa a expressão “eu refletido no es-</p><p>pelho” para designar o fato de que tal for-</p><p>mação está eminentemente associada ao</p><p>modo pelo qual a pessoa imagina que apa-</p><p>rece diante das outras pessoas, assim como</p><p>ao modo pelo qual ela imagina que as outras</p><p>pessoas reagem a ela e aos sentimentos daí</p><p>decorrentes, que podem ser de orgulho ou</p><p>de decepção. Em outras palavras, segundo</p><p>o autor, o indivíduo, ao interagir com as ou-</p><p>tras pessoas, torna -se consciente da imagem</p><p>e dos sentimentos que essas outras pessoas</p><p>nutrem por ele, isto é, elas atuam como um</p><p>espelho no qual o indivíduo se vê.</p><p>Para Cooley, o desenvolvimento da</p><p>identidade ocorre no contexto da intera-</p><p>ção com os outros e por meio do uso da</p><p>linguagem e da comunicação. Tais formula-</p><p>ções serviram de base a desenvolvimentos</p><p>posteriores, tendo influenciado Mead, que</p><p>também adota a expressão “eu refletido no</p><p>espelho” ao discorrer sobre a identidade.</p><p>Mead era um filósofo norte -americano</p><p>que estudou por algum tempo com Wundt</p><p>em Leipizig, o que teve grande influência</p><p>em sua obra. Posteriormente, ele passou a</p><p>dar aulas de filosofia em Michigan, onde</p><p>conviveu com Cooley, que na época estava</p><p>escrevendo sua tese de doutorado, e depois</p><p>em Chicago, onde permaneceu até a sua</p><p>morte. Suas aulas de psicologia social foram</p><p>posteriormente compiladas no livro A men‑</p><p>te, o eu e a sociedade: do ponto de vista de</p><p>um behaviorista social, publicado após a sua</p><p>morte, em 1934 (Farr, 1999).</p><p>A linguagem desempenha um papel</p><p>fundamental no pensamento de Mead, a</p><p>ponto de ele considerar o ato comunicativo</p><p>como a unidade básica de análise da psi-</p><p>cologia social. Segundo ele, a linguagem é</p><p>um fenômeno inerentemente social e, con-</p><p>sequentemente, as atitudes e os gestos só</p><p>adquirem significado por meio da interação</p><p>simbólica. É, portanto, no contexto das rela-</p><p>ções sociais que a comunicação e a expres-</p><p>são tornam -se possíveis, bem como a possi-</p><p>bilidade de uma pessoa prever a reação do</p><p>outro a seus atos, isto é, de assumir o papel</p><p>do outro (Jahoda, 2007).</p><p>Analisando a emergência desse pro-</p><p>cesso na infância, Mead enfatiza a impor-</p><p>tância dos jogos infantis, em virtude de eles</p><p>permitirem à criança assumir o papel dos</p><p>outros (outro significativo) ou dos membros</p><p>da sociedade em que vive (eu generaliza-</p><p>do). Com isso, ela passa a ter consciência</p><p>de si mesma, formando assim a sua própria</p><p>identidade, que reflete a internalização das</p><p>normas e dos papéis presentes em sua co-</p><p>munidade (Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Em síntese, para Mead, o indivíduo</p><p>é produto do desenvolvimento das pesso-</p><p>as em sociedade e estrutura -se por meio</p><p>do processo de interação simbólica, que</p><p>leva as pessoas a tomarem consciência de</p><p>si próprias, mediante a perspectiva dos de-</p><p>mais membros de seu grupo social. Ele si-</p><p>tua, portanto, a formação da identidade no</p><p>campo das relações interpessoais, da organi-</p><p>zação social e da cultura ao postular que o</p><p>sujeito apropria -se do conjunto de padrões</p><p>comuns a diferentes grupos socioculturais</p><p>para desenvolver seu próprio eu (Stephan e</p><p>Stephan, 1985).</p><p>Mead é considerado um behaviorista</p><p>social, porque, ainda que defendesse o es-</p><p>tudo do comportamento observável, consi-</p><p>derava que este era apenas um meio para</p><p>se chegar à experiência interna do indivíduo</p><p>(Álvaro e Garrido, 2007). Suas proposições,</p><p>apesar de terem recebido várias críticas,</p><p>exerceram forte influência no desenvolvi-</p><p>mento da psicologia social sociológica, ten-</p><p>do dado origem a duas diferentes correntes</p><p>teóricas: a escola de Chicago e a escola de</p><p>Iowa.</p><p>a escola de chicago</p><p>Durante os anos de 1930 e 1940, as ideias de</p><p>Mead não tiveram grande impacto. Caberá,</p><p>porém, a Herbert Blumer (1900 -1987), em</p><p>Chicago, nos anos de 1950, e a Manford</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>24 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>Kuhn (1911 -1963), em Iowa, nos de 1960,</p><p>reacenderem o interesse pela temática.</p><p>Blumer era um sociólogo que, após a morte</p><p>de Mead, assumiu seu curso anual de aulas</p><p>de psicologia social, tendo cunhado de in-</p><p>teracionismo simbólico a posição defendida</p><p>por Mead. Segundo ele, o uso da expressão</p><p>derivou -se da ênfase na compreensão do</p><p>modo pelo qual as pessoas interagem com as</p><p>outras usando símbolos. Desse modo, o in-</p><p>teracionismo simbólico pode ser visto como</p><p>uma forma sociológica de psicologia social</p><p>iniciada em Chicago por Blumer, a partir de</p><p>sua interpretação da obra de Mead.</p><p>Segundo Blumer (1969), os principais</p><p>pressupostos do interacionismo simbóli-</p><p>co são os seguintes: a pessoa interpreta o</p><p>mundo para si própria, atribuindo -lhe sig-</p><p>nificado; o comportamento não é uma re-</p><p>ação automática a um dado estímulo, mas</p><p>sim uma construção criativa derivada da</p><p>interpretação da situação e das pessoas que</p><p>nela se encontram; a conduta humana é im-</p><p>previsível porque os significados e as ações</p><p>dependem de cada situação, enquanto a in-</p><p>terpretação das situações e a construção do</p><p>comportamento são processos que ocorrem</p><p>durante a interação social.</p><p>A escola de Chicago costuma ser iden-</p><p>tificada com a abordagem qualitativa de pes-</p><p>quisa, talvez porque Blumer fosse da opinião</p><p>que o estudo do comportamento humano</p><p>deveria ser conduzido por meio de métodos</p><p>próprios que, em vez de impor estruturas</p><p>ao indivíduo, fossem capazes de captar as</p><p>realidades subjetivas construídas em cada</p><p>situação (Stephan e Stephan, 1985). Na rea-</p><p>lidade, porém, a escola de Chicago primou</p><p>pelo ecletismo metodológico, tendo usado</p><p>abordagens quantitativas e qualitativas na</p><p>tentativa de estudar cientificamente a rea-</p><p>lidade social e resolver os problemas sociais</p><p>que a cidade de Chicago enfrentou nos anos</p><p>de 1930 e 1940, tais como o aumento da</p><p>imigração, da criminalidade e da violência</p><p>(Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>A esse respeito, vale destacar a pes-</p><p>quisa realizada por Thomas e Znaniecki</p><p>(1918), com o objetivo de analisar as ati-</p><p>tudes de imigrantes poloneses, na qual uti-</p><p>lizaram a análise de documentos, cartas e</p><p>histórias de vida para traçar um perfil da</p><p>situação social desses imigrantes, segundo</p><p>a sua própria perspectiva (Álvaro e Garrido,</p><p>2007). Em contrapartida, Bogardus (1925),</p><p>outro membro da escola de Chicago, desen-</p><p>volveu a primeira escala para a medida de</p><p>atitudes, numa evidência de que ambos os</p><p>tipos de metodologia ali conviviam (Álvaro</p><p>e Garrido, 2007).</p><p>a escola de iowa e a psicologia social</p><p>sociológica na atualidade</p><p>Conforme já mencionado, Kuhn (1964) é</p><p>um dos principais representantes da esco-</p><p>la de Iowa, responsável pela continuidade</p><p>do interacionismo simbólico ao longo dos</p><p>anos de 1960. Ele, no entanto, distancia -se</p><p>mais das ideias de Mead do que a escola de</p><p>Chicago. Nesse sentido, defendia a utiliza-</p><p>ção dos mesmos métodos de pesquisa das ci-</p><p>ências naturais, tendo testado algumas das</p><p>proposições de Mead e abandonado outras,</p><p>por considerá -las não passíveis de serem</p><p>submetidas à verificação empírica.</p><p>Além disso, ele postulava que o self e</p><p>a sociedade dependiam da estrutura social.</p><p>Desse modo, afirmava que as expectativas</p><p>da sociedade a respeito do desempenho de</p><p>determinados papéis limitavam as intera-</p><p>ções sociais ao exercer influência sobre as</p><p>concepções que as pessoas desenvolviam</p><p>acerca de si próprias e dos outros, sobre</p><p>as definições das situações e sobre os sig-</p><p>nificados que as pessoas construíam. Kuhn</p><p>(1964) destaca, porém, o papel ativo do in-</p><p>divíduo nesse processo, na medida em que é</p><p>ele quem escolhe os papéis a desempenhar,</p><p>podendo também modificá -los.</p><p>Orientados predominantemente pela</p><p>perspectiva do interacionismo simbólico, e</p><p>usando primordialmente a observação par-</p><p>ticipante como método, aliada ao uso de</p><p>entrevistas, os psicólogos sociais adeptos da</p><p>corrente sociológica prosseguiram, nos anos</p><p>subsequentes, investigando temas como a</p><p>interação face a face, os processos de socia-</p><p>lização, a formação e o desenvolvimento da</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>PsicOLOGia sOciaL: PrinciPais temas e vertentes</p><p>25</p><p>identidade, o comportamento desviante e o</p><p>comportamento coletivo.</p><p>Novos desdobramentos teóricos tam-</p><p>bém foram surgindo com o tempo, entre os</p><p>quais podem ser citadas a escola dramatúr-</p><p>gica de Goffman (1985) e a teoria da identi-</p><p>dade de Stryker (1980). Goffman deteve -se</p><p>na análise da interação face a face, consi-</p><p>derando seus participantes como atores</p><p>que podem ser mais ou menos eficazes no</p><p>desempenho de seus papéis. Stryker, por</p><p>sua vez, propõe que a identidade apresen-</p><p>ta múltiplos componentes, os quais se en-</p><p>contram associados aos diferentes papéis</p><p>desempenhados pelo indivíduo, sendo que</p><p>alguns componentes são mais salientes e,</p><p>por essa razão, mais evocados nas situações.</p><p>Esses desdobramentos contribuíram para a</p><p>revitalização da psicologia social sociológi-</p><p>ca que, durante certo tempo, permaneceu</p><p>à margem da psicologia social psicológica,</p><p>dominante no cenário acadêmico da psi-</p><p>cologia.</p><p>o desenvolviMento da</p><p>Psicologia social na euroPa</p><p>No ano de 1964, quando a psicologia so-</p><p>cial psicológica já estava firmemente esta-</p><p>belecida nos Estados Unidos, foi criado no</p><p>país um Comitê Transnacional, sob o patro-</p><p>cínio do Social Science Research Council,</p><p>com o objetivo de promover a internacio-</p><p>nalização da psicologia social (Moscovici e</p><p>Marková, 2006). Em sua formação inicial,</p><p>o comitê era composto por seis psicólogos</p><p>norte -americanos e dois europeus, sob a</p><p>presidência de Leon Festinger. Suas primei-</p><p>ras iniciativas foram no sentido de fomen-</p><p>tar o desenvolvimento da psicologia social</p><p>na Europa, razão pela qual promoveu a</p><p>realização de vários encontros científicos e</p><p>treinamentos para os psicólogos sociais eu-</p><p>ropeus, nos quais os conhecimentos por eles</p><p>produzidos começaram a ser divulgados. O</p><p>Comitê Transnacional exerceu também um</p><p>papel ativo na construção e na consolida-</p><p>ção da Associação Europeia de Psicologia</p><p>Experimental.</p><p>Nos anos de 1960, em vários países eu-</p><p>ropeus, os psicólogos já realizavam pesquisas</p><p>psicossociais, mas foi ao final da década que</p><p>começaram a ser realizados esforços mais sis-</p><p>temáticos, não apenas por parte do Comitê</p><p>Transnacional, mas também por meio de ou-</p><p>tras iniciativas mais isoladas, dirigidas à in-</p><p>tegração dos psicólogos sociais europeus em</p><p>uma comunidade científica atuante. Assim</p><p>é que, desde os anos de 1970, a psicologia</p><p>social europeia vem crescendo progressiva-</p><p>mente em tamanho e influência.</p><p>Apesar de ela ter caminhado inicial-</p><p>mente lado a lado com a psicologia social</p><p>psicológica, começou rapidamente a adqui-</p><p>rir sua própria identidade e a demonstrar</p><p>maior preocupação com a estrutura social.</p><p>Nesse sentido, os temas de estudo mais fre-</p><p>quentes entre os psicólogos sociais europeus</p><p>são as relações intergrupais, a identidade</p><p>social e a influência social, que remetem</p><p>a uma psicologia dos grupos (Graumann,</p><p>1996). Entre os principais representantes</p><p>dessa moderna psicologia social europeia,</p><p>destacam -se Henri Tajfel (1919 -1982) e</p><p>Serge Moscovici.</p><p>Tajfel (1981) procurou enfatizar a</p><p>dimensão social do comportamento indivi-</p><p>dual e grupal, postulando que o indivíduo</p><p>é moldado pela sociedade e pela cultura.</p><p>Apoiando -se em tal perspectiva, desenvol-</p><p>veu a teoria da identidade social, por meio</p><p>da qual defende que as relações intergrupais</p><p>estão intimamente relacionadas a processos</p><p>de identificação grupal e de comparação so-</p><p>cial.</p><p>Moscovici (1976), retomando os estu-</p><p>dos sobre influência social, que até então se</p><p>preocupavam exclusivamente com os efeitos</p><p>da maioria dos membros do grupo, isto é,</p><p>com as pressões para a conformidade, intro-</p><p>duz na área o conceito de influência das mi-</p><p>norias, tendo realizado investigações com o</p><p>intuito de averiguar a inovação e a mudança</p><p>social introduzida por essas minorias. Outro</p><p>campo de estudos a que ele se dedicou</p><p>(Moscovici, 1981) foi o das representações</p><p>sociais, derivado do conceito de representa-</p><p>ções coletivas de Durkheim e caracterizado</p><p>como modos de compreensão da realidade</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>INDEX BOOKS GROUPS</p><p>26 tOrres, neiva & cOLs.</p><p>compartilhados por diferentes grupos so-</p><p>ciais. A teoria das representações sociais foi</p><p>amplamente difundida nas décadas seguin-</p><p>tes, inclusive no Brasil, caracterizando -se</p><p>hoje como uma das principais tendências da</p><p>psicologia social europeia.</p><p>o desenvolviMento da Psicologia</p><p>social na aMérica latina</p><p>A psicologia social praticada na América</p><p>Latina, até a década de 1970, esteve for-</p><p>temente influenciada pelo paradigma da</p><p>psicologia social psicológica de natureza ex-</p><p>perimental, dominante à época nos Estados</p><p>Unidos. Ao final dos anos de 1960, de modo</p><p>similar ao que já havia ocorrido na Europa,</p><p>o Comitê Transnacional, fundado com o ob-</p><p>jetivo de promover a internacionalização da</p><p>psicologia social, procurou também atuar</p><p>na América Latina (Moscovici e Marková,</p><p>2006). Nesse sentido, três de seus membros</p><p>mantiveram contatos com vários psicólogos</p><p>sociais latino -americanos e, em seguida, o</p><p>Comitê Transnacional estimulou a criação</p><p>de um comitê local, além de patrocinar al-</p><p>guns encontros com esse grupo e um primei-</p><p>ro treinamento para os psicólogos sociais</p><p>latino -americanos, no qual foi amplamente</p><p>discutida a necessidade de a psicologia so-</p><p>cial estar mais diretamente vinculada aos</p><p>problemas sociais da América Latina.</p><p>Alguns dos psicólogos desse comitê lo-</p><p>cal fundam, em 1973, a Associação Latino-</p><p>-Americana de Psicologia Social (ALAPSO),</p><p>que nos anos seguintes continuará a fomen-</p><p>tar o desenvolvimento de atividades na área</p><p>da psicologia social. Contudo, os proble-</p><p>mas políticos que muitos dos países latino-</p><p>-americanos vivenciaram naquele período,</p><p>aliados a dissidências entre os membros do</p><p>comitê local, acabaram por inviabilizar a con-</p><p>tinuação da ação do Comitê Transnacional</p><p>em prol da internacionalização da psicolo-</p><p>gia social psicológica na América Latina.</p><p>Ao final da década de 1970, porém,</p><p>muitos dos psicólogos sociais latino -america-</p><p>nos iniciam um forte movimento de ques-</p><p>tionamento à psicologia social psicológica</p><p>norte -americana, marcada pelo experimen-</p><p>talismo e pelo individualismo, em prol de</p><p>uma psicologia social mais contextualizada,</p><p>isto é, mais voltada para os problemas po-</p><p>líticos e sociais que a região vinha enfren-</p><p>tando. Estimulados pela arbitrariedade dos</p><p>regimes militares e pela grande desigualda-</p><p>de social do continente, esses psicólogos so-</p><p>ciais defendem uma ruptura radical com a</p><p>psicologia social tradicional (Spink e Spink,</p><p>2005).</p><p>Então, passam a praticar o que tem</p><p>sido designado como psicologia social crí-</p><p>tica (Álvaro e Garrido, 2007) ou psicologia</p><p>social histórico -crítica (Mancebo e Jacó-</p><p>-Vilela, 2004), expressões que abarcam,</p><p>na realidade, diferentes posturas teóricas,</p><p>como, por exemplo, o socioconstrucionis-</p><p>mo (Gergen, 1997), a análise do discurso</p><p>(Potter e Wetherell, 1987) e a psicologia</p><p>marxista, entre outras. Em que pesem as</p><p>diferenças observadas entre essas corren-</p><p>tes, a psicologia social crítica, grosso modo,</p><p>caracteriza -se por romper com o modelo</p><p>neopositivista de ciência e, em consequên-</p><p>cia, com seus postulados sobre a necessida-</p><p>de de o conhecimento científico apoiar -se</p><p>na verificação empírica de relações causais</p><p>entre fenômenos. Em contraposição a tal</p><p>modelo, defende o caráter relacional da</p><p>linguagem e a importância das práticas dis-</p><p>cursivas para a compreensão da vida social</p><p>(Álvaro e Garrido, 2007).</p><p>Na esteira da psicologia social críti-</p><p>ca, irão surgir, na América Latina, diversos</p><p>manuais de psicologia social organizados</p><p>segundo tal perspectiva crítica (como, por</p><p>exemplo, Aguilar e Reid, 2007; Cordero,</p><p>Dobles e Pérez, 1996; Montero, 1991),</p><p>bem como algumas associações de psico-</p><p>logia social que se contrapõem à ALAPSO,</p><p>como é o caso, por exemplo, da Associação</p><p>Venezuelana de Psicologia Social (AVEPSO).</p><p>Um autor frequentemente citado como legíti-</p><p>mo representante dessa nova perspectiva na</p><p>psicologia social latino -americana é Martin-</p><p>-Baró (1942 -1989), psicólogo e padre jesuí-</p><p>ta espanhol, radicado em El Salvador, que</p><p>defendeu</p>

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