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<p>S 1 Introdução Domício Proença Filho Livre-docente em Literatura Brasileira Doutor em Letras Professor da Universidade Federal Fluminense Texto literário, texto não-literário Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém Literatura e nos diga a seguinte frase: - do Discurso LITERARIO - Uma flor nasceu no chão da minha rua! Conforme as circunstâncias em que é dita, isto é, de ALINGUAGEM acordo com a situação de fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu, corresponde a um fato ante- rior ao seu enunciado e de fácil comprovação. Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica LITERÁRIA basicamente permanece. Num ou noutro caso, para trazer essa informação, o nosso interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que nos é comum e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos conhecemos, as dispôs numa A seleção feita e a sucessão estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à prova da verdade em relação à realidade imediata. Como é fácil concluir, é isso que acontece ao nos comunicarmos no dia-a-dia do nosso convívio social.</p><p>6 7 Retomemos a nossa frase inicial, agora ligeiramente a existir em função do conjunto em que a palavra se en- modificada e combinada com outros elementos: contra. É claro que os versos remetem a uma realidade Uma flor nasceu na rual dos homens e do mundo, mas muito mais profunda do que Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego. a realidade imediatamente perceptível e traduzida no dis- Uma flor ainda desbotada curso comum das pessoas. É o que acontece com essa ilude a polícia, rompe o asfalto. modalidade de linguagem, a linguagem da literatura, tanto Façam completo silêncio, paralisem os negócios, na prosa, como nas manifestações em verso. garanto que uma flor nasceu. Na prosa, por exemplo, podemos encontrar a palavra flor em outro contexto e com outro sentido, que Sua cor não se percebe. lhe é conferido exatamente por essa nova circunstância: Suas pétalas não se abrem. trata-se do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, Seu nome não está nos livros. onde o termo aparece numa afirmação vinculada a um É feia. Mas é realmente uma flor. famoso personagem criado pelo escritor: "Uma flor, o Percebemos, desde logo, que estamos diante de uma Quincas Borba". utilização especial da língua que falamos. O ritmo que Aí está um conteúdo inteiramente distinto do que se caracteriza o texto, a natureza do que se comunica e, ao configura no poema drummondiano e que só pode ser per- chegar até nós por escrito, a distribuição das palavras no cebido plenamente, na força de sua causticante ironia, espaço do papel, justificam essa conclusão. A nossa frase- quando a frase é considerada'na totalidade do romance -exemplo depende também, como ato lingüístico que é, da de que faz parte. É possível perceber a estreita relação gesticulação e da entoação que a acompanharem ao ser entre a dimensão e a dimensão literária que en- enunciada; por força, entretanto, de sua situação nesse con- volve a significação das palavras quando estas integram o junto e da associação com as demais afirmações que a ela sistema semiótico que é o texto literário. se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha mar- Os três exemplos que acabamos de examinar permi- cas de no contexto do fragmento transcrito tem algumas conclusões: e da totalidade do poema de que faz parte "A flor e A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instru- a náusea", de Carlos Drummond de pode- mento da informação e da ação e não exige, no mais das mos entender essa flor como esperança de mudança, por vezes, atitude interpretativa. A significação das palavras, exemplo. Mas esse sentido que o texto a ela confere não reproduz nenhuma realidade imediata; nasce tão-somente nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do próprio texto. A flor dessa rua deixa de ser um ele- do idioma que falamos. mento vegetal para alçar-se à condição de símbolo, ganha A fala comum se caracteriza pela transparência. O uma significação que vai além do real concreto e que passa mesmo não acontece com o discurso literário. Este se en- contra a serviço da criação artística. O texto da litera- 1 A rosa do povo. In: Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio tura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma re- de Janeiro/Brasília, J. Olympio/INL, 1983. 1, p. presentação de realidades físicas, sociais e emocionais me-</p><p>8 9 diatizadas pelas palavras da língua na configuração de Vale recordar que o conceito de literatura não é ma- um objeto estético. texto repercute em nós na medida téria pacífica entre os estudiosos que a ela se dedicam. em que revele emoções profundas, coincidentes com as Mesmo neste último sentido, tem vivido variações signifi- que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da cativas ao longo da história. Foge ao propósito deste vo- palavra, copartícipe da nossa humanidade, incorpora ele- lume rastrear tais perspectivas; indicam-se, entretanto, na mentos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. bibliografia do final do volume, algumas obras que podem Nosso entendimento do que nele se comunica passa a ser ser esclarecedoras a propósito do assunto. proporcional ao nosso repertório cultural, enquanto recep- Essa posição não impede, porém, que sejam assinala- tores e usuários de um saber comum. das duas concepções que a têm identificado com maior O discurso literário traz, em certa medida, a marca relevo no âmbito da cultura da opacidade: abre-se a um tipo específico de descodifi- Há os que entendem que a obra literária envolve cação ligado à capacidade e ao universo cultural do re- uma representação e uma visão do mundo, além de ceptor. uma tomada de posição diante dele. Tal posicionamento Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa centraliza, assim, suas atenções no criador de literatura e modalidade de linguagem que, de antemão, quando com na imitação da natureza, compreendida como cópia ou ela travamos contato, sabemos ser especial e distinta da reprodução. A linguagem é vista como mero veículo dessa modalidade própria do uso cotidiano. Quem se aproxima comunicação, e, como assinala Maurice-Jean Lefebve, "a do texto literário sabe a priori que está diante de manifes- beleza da obra resulta, então, de um lado, da originalidade tação da literatura. da visão, e, de outro, da adequação de sua linguagem às coisas expressas". É a chamada concepção clássica da lite- ratura. Literatura: conceitos No século XIX, os românticos acrescentam algo a esse conceito: à luz da ideologia que os norteia, entendem que A literatura é, tradicionalmente, uma arte verbal. A ao artista cabe a visão das coisas como ainda não foram presença do advérbio se justifica diante das inúmeras pro- vistas e como são profunda e autenticamente em si mesmas. postas de vanguarda que, sobretudo a partir dos anos 60, A segunda metade da mesma centúria assiste a uma buscaram espaços extraverbais para concretizá-la. No mudança significativa: o núcleo da conceituação se des- Brasil, o Movimento da poesia concreta e o Movimento local para o como a literatura se realiza. Sua especifici- do poema-processo são dois exemplos fortes dessas ati- dade, segundo essa nova visão, nasce do uso da linguagem tudes. que nela se configura. Por outro lado, tomo o termo, em sentido restrito, a É consenso, na atualidade, que os aspectos estéticos partir de uma perspectiva estética, isto é, como o equiva- da obra literária podem ser alcançados através do texto e lente à criação estética, sem entrar no mérito da contro- que todos eles têm uma base (sintática, vérsia que ainda hoje o acompanha. tica ou estrutural). 3</p><p>10 A questão fundamental, e que continua desafiando os especialistas, é a caracterização da natureza das proprieda- des estéticas do texto literário e quais as ligações entre 2 ambos. Este livro não tem a menor pretensão nem a velei- dade de responder a essa indagação. Acredito, porém, que, Literatura e linguagem se não podemos, até o momento, caracterizar plenamente a especificidade da literatura, temos possibilidade, graças ao desenvolvimento dos estudos e das pesquisas na área, de indicar traços peculiares e identificadores do discurso literário enquanto tal. Mais um texto no percurso Vejamos agora um breve poema de Manuel Bandeira: Irene no céu Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no Céu: - Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: Entra, Irene. Você não precisa pedir O texto centraliza-se na exaltação da humildade e da simplicidade, à luz do cristianismo. Remete também a uma realidade social brasileira, não apenas na vinculação a tal dimensão de religiosidade, mas ainda a uma atitude pa- ternalista em relação ao negro, revelada na caracterização 1 Libertinagem. In: - Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1966. p. 125.</p><p>12 13 de no comportamento a ela atribuído diante de São já se disse e tradicionalmente se diz na comunidade con- Pedro bonachão e na reação do santo porteiro do Céu à sua atitude. Em se tratando de Bandeira, o aparente "erro" ajuda O poema mobiliza elementos de nossa emoção relacio- a traduzir a naturalidade e a afetividade que marcam nados com a formação e com certos comportamentos as palavras de São Pedro. O adjetivo "bonachão" e sociais que nos são peculiares. a simplicidade da expressão Licença, meu branco!" Observe-se que a humildade e a simplicidade depreen- popular, típica, coloquial como que autorizam a didas dos versos não se configuram apenas na parte de forma "entra". Por outro lado, para dar maior autentici- sentido de cada palavra que corresponde à representação dade ao que revela, o poeta recorreu ao diálogo; dividiu do mundo, mas sobretudo na parcela de significação que a composição em duas estrofes: a primeira centrada na nelas corresponde à capacidade de manifestar estados de caracterização da figuração de Irene; a segunda, feita de alma e exercer uma atuação sobre o sentido elipses e entoação, vinculada à caracterização de São Pedro do texto adquire plenitude em função do ambiente lingüís- e à ação de ambos, exigindo maior participação do leitor tico em que os termos se inserem. Estes, como ocorre com para melhor captar o que no poema se comunica. Os os versos drummondianos, também não reenviam necessa- versos se fazem de emoção subjetiva, trazem elementos riamente a uma realidade imediatamente comprovável. A narrativos e até traços típicos da linguagem dramática. Na "verdade" que neles se consubstancia funda-se na coe- sua feitura, nota-se, além disso, o aproveitamento do falar rência. simples da gente simples do Brasil, que ganha condição poema é o que é porque foi feito como foi feito. de linguagem literária. Irene, essa Irene, passa a "viver" a partir de sua presença No texto de Bandeira, literário que é, inter-relacio- nesse texto, por força da linguagem de que este se nam-se, interdependem-se elementos fônicos, ópticos, sin- faz, onde alguns procedimentos se destacam em relação ao táticos, morfológicos, semânticos, formando um conjunto uso da língua portuguesa. O autor valeu-se de termos do de relações internas, através das quais se revela uma rea- falar cotidiano; reproduziu formas da fala coloquial des- lidade que não preexiste ao poema, a não ser como poten- preocupada: ao atribuir ao santo o emprego da forma cialidade. Caracteriza-se uma perspectiva existencial rela- entra, em lugar de entre, exigida pelo tratamento você, cionada com o complexo cultural de que essa manifestação afastou-se da norma culta da língua, em nome do efeito literária é representativa, a partir das vivências de um es- expressivo. Por norma, nesse sentido, entenda-se, como critor brasileiro. Configura-se um posicionamento ideoló- registra o Dicionário de filologia e gramática de Joa- gico na visão de mundo do autor. quim Mattoso Câmara Jr., "o conjunto de hábitos ticos vigentes no lugar ou na classe social mais prestigiosa Na abertura para a descodificação, essa matéria cul- do país". Mais amplamente, a norma pode ser caracteri- tural, veiculada através das palavras da língua aproveitadas zada, de acordo com Eugenio Coseriu, como "um sistema no código literário, pode ser apreendida pelo leitor ou ou- de realizações obrigatórias consagradas social e cultural- mente: não corresponde ao que se pode dizer, mas ao que 2 Sincronia, diacronia e história; O problema da mudança tica. Rio de Janeiro/São Paulo, Presença/Edusp, 1979. p. 50. 5</p><p>14 15 vinte do poema, com maior ou menor taxa de informação conhecimento se caracteriza como uma repre- estética, na dependência, reitero, do seu universo cultural. sentação, como um tornar de novo presente a realidade em No percurso dessa apreensão, situa-se a dimensão co- que vivemos, para que dela tenhamos uma visão mais notativa, chave da plurissignificação do texto literário, clara e profunda, que escapa à nossa percepção imediata. como se explicitará adiante. Toda representação, nesse sentido, configura uma interpre- tação. "O homem é a presença de todas as determinações de uma interpretação. Rejeitá-las seria negar a própria Literatura e conhecimento existência. Portanto, o homem é um arranjo existencial definido, articulado, situado. É uma circunstância, dizia Longe estamos de penetrar totalmente no mistério do Ortega y Gasset" e lembra Archangelo Buzzi, na sua In- processo criador da poesia. As considerações feitas sobre trodução ao pensar. o texto de Bandeira limitaram-se a alguns aspectos da ma- Esse interpretar se clarifica através de uma linguagem. nifestação literária em verso. Elas permitem, entretanto, algumas deduções e Para revelar o que se consubstancia no poema, o autor, como é óbvio, se valeu da língua portuguesa do Brasil e, a partir dela, buscou caracterizar uma realidade apoiada em vivências humanas. O que depreendemos de suas palavras, porém, ultrapassa os limites da mera re- produção ou referência, para nos atingir com um tipo de informação que não conseguimos mensurar ou traduzir ple- namente, vai além dos limites individuais do codificador e atinge espaços totalizantes. A linguagem literária concretização de uma arte, a literatura é marcada por uma organização peculiar. A arte é um dos meios de que se vale o homem para conhecer a realidade. Esta última se efetiva na constante relação entre ho- mem e mundo, vale dizer, entre sujeito e objeto, como costumam lembrar os filósofos. Nesse jogo dialético, o homem busca aceder à inte- rioridade da sua essência, para melhor saber de si e situar- E, no seu percurso existencial, tem procurado conhecer a si mesmo, o mundo, a sua relação com os outros, a sua relação com o mundo.</p><p>37 tação sócio-cultural e sua variação no tempo 5 e no espaço humanos. Essa relatividade e essas limitações não impedem que assinalemos uma série de caracteres distintivos do discurso Características do discurso literário em relação ao discurso comum. Vamos a eles. literário Complexidade O discurso da literatura se caracteriza por sua com- plexidade. No discurso não-literário, há um relaciona- mento imediato com o referente; caracteriza-se, na maio- ria dos casos, a significação singular dos signos, marcados pela transparência, como vimos na frase-exemplo "Uma Literatura e especificidade flor nasceu no chão da minha rua". Já o que depreende- mos do texto literário ultrapassa, como já foi assinalado, Se a literatura é uma arte, nessa condição ela é um os limites da simples reprodução. A natureza das infor- meio de comunicação de tipo especial e envolve uma lin- mações que, por seu intermédio, são transmitidas, vai além guagem também especial. Esta última, como já foi visto, do nível meramente semântico para se converter em algo apóia-se numa língua e se configura em textos em que se tal, que sua comunicação se torna impossível através das estruturas elementares do discurso cotidiano. caracteriza uma determinada modalidade de discurso. O código em que se pauta o discurso literário guarda No dispositivo verbal configurador da obra de arte íntima relação com o código do discurso comum, mas apre- literária, revelam-se realidades que, mesmo vinculadas a elementos de natureza individual ou de época, atingem senta, em relação a este, diferenças singularizadoras. espaços de Por seu intermédio se busca Diante do mistério do fenômeno literário, o grande aceder à plenitude do real. desafio dos estudiosos e pesquisadores tem sido caracteri- Em certo sentido, a linguagem literária produz; a não- zar plenamente essa especificidade. -literária reproduz. Identificar, entretanto, certos traços peculiares do dis- O texto literário é, ao mesmo tempo, um objeto lin- curso literário tem sido possível; o que ainda não se conse- güístico e um objeto estético. guiu definir, mesmo à luz desses traços, é o índice da cha- Nessa situação, configura-se um sistema de signos se- mada literariedade, busca mobilizadora sobretudo da crí- cundário em relação à língua de que se vale, esta funcio- tica formalista e estruturalista. A propósito, estudiosos como Greimas, por exemplo, 1 Cf. GREIMAS, Algirdas-Julien. Essais de sémiotique poétique. Pa- vinculam a interpretação dessa literariedade a uma cono- ris, Larousse, 1972. p. 6.</p><p>38 39 nando, no caso, como o sistema 1. Entenda-se o adjetivo A literatura, na verdade, cria significantes e funda secundário vinculado sobretudo à natureza complexa que significados. Apresenta seus próprios meios de expressão, está sendo assinalada e não somente ao fato de que sis- ainda que se valendo da língua, ponto de partida. Super- tema 1 é uma língua natural. posto ao da língua, o código literário, em certa medida, A obra de arte literária, valho-me ainda uma vez de caracteriza alterações e mesmo oposições em relação àquele. Lefebve, é sempre a intersecção de dois movimentos de É um desvio mais ou menos acentuado em relação ao uso sentidos opostos que envolvem, por um lado, um dobrar- comum. Em termos literários, por exemplo, as- segurada a coerência do conjunto em que inseríssémos a -se da literatura sobre si mesma "num puro objeto de lin- afirmação, teriam sentido frases como "a flor de nossa rua guagem" e, por outro lado, um abrir-se "ao mundo inter- comeu todos os medos" ou "a flor expulsou todos os rogado na sua realidade e na sua presença essencial [...] monstros" e, fora desse âmbito sintático-vocabular, lembro movimentos contraditórios e entretanto solidários, pólos ao versos como "Um mesmo tempo complementares e antagonistas, criadores de /cansaço" de Fernando Pessoa, onde, como se vê, se fere, um campo dinâmico que só ele permite compreender os em nome da expressividade poética, a norma morfológica diversos aspectos do fenômeno literário". do idioma no seu uso cotidiano. E mais: para a plurissignificação do texto contribuem, como acentua Paul Ricoeur, fatores de ordem sincrônica Multissignificação e de ordem diacrônica. Vale dizer, os primeiros se vin- culam à carga significativa ligada às relações entre as pa- Ao caracterizar-se no texto literário um uso especí- lavras no conjunto do texto de que fazem parte; já o plano da diacronia envolve tudo o que de significação e evoca- fico e complexo da língua, os signos as frases, ção o tempo agregou aos vocábulos, no decurso de sua as assumem significado variado e múltiplo. história, incluídas nessa totalidade as dimensões resultantes Assim, afastam-se, por exemplo, da monossignificação do uso das palavras na tradição literária. típica do discurso científico, para só citar um Num ou noutro caso, a plurissignificação pode asso- É nesse sentido que alguns estudiosos situam o dis- ciar-se ao âmbito sócio-cultural, como quer, por exemplo, tanciamento que a linguagem literária assume em relação Della Volpe, ou a espaços míticos e arquetípicos, como ao que chamam grau zero da escritura. pretende Northrop Frye; situo-me, no caso, entre os que Entenda-se, a princípio, grau zero como o discurso acreditam que tais dimensões não se excluem, antes se com- preocupado sobretudo com a plena clareza da comunica- plementam. ção nele veiculada e com a obediência às normas usuais A multissignificação é, pois, uma das marcas funda- da língua. (Para uma visão mais minuciosa do conceito, mentais do texto literário como tal. É o traço que per- pode-se ver o livro de Roland Barthes, Novos ensaios mite, entre outras, as múltiplas leituras existentes da obra ticos seguidos de o grau zero da escritura, edição da Cul- de João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drummond de trix de 1974.) Andrade, de Guimarães Rosa; que possibilita a Roland</p><p>40 41 Barthes a sua apreciação da obra de Racine e que nos Liberdade na criação autoriza ler, em Iracema, de José de Alencar, uma síntese simbólica do processo civilizatório da América, entre outras As manifestações literárias podem envolver adesão, interpretações. A permanência de determinadas obras se transformação ou ruptura em relação à tradição prende ao seu alto índice de polissemia, que as abre às à tradição retórico-estilística, à tradição técnico-literária ou mais variadas incursões e possibilita a sua atemporalidade. à tradição temático-literária às quais necessariamente está vinculado o trabalho do escritor. A literatura se abre, então, plenamente, à criatividade do artista. Em seu per- curso, ela consiste na constante invenção de novos meios Predomínio da conotação de expressão ou numa nova utilização dos recursos vi- gentes em determinada época. Mesmo nos momentos em A linguagem literária é eminentemente conotativa. que a obediência a determinados princípios pareceu regu- texto literário resulta de uma criação, feita de palavras. lar os procedimentos literários, a literatura, por sua pró- É do arranjo especial das palavras nessa modalidade de pria natureza, levou à abertura de caminhos renovadores. discurso que emerge o sentido múltiplo que a caracteriza. Não existe uma "gramática normativa" para o texto Os signos verbais, no texto de literatura, por força literário. Seu único espaço de criação é o da liberdade. do processo criador a que são submetidos, à luz da arte Se a norma, em alguns instantes, regulou a "arte", o do escritor, revelam-se carregados de traços significativos "engenho" sempre foi além, com maior ou menor evidên- que a eles se agregam a partir do processo sócio-cultural cia. E os movimentos de vanguarda, a constante exigência complexo a que a língua se vincula. O texto literário pode e busca do novo continuam sendo suas marcas mais pa- abrigar a presença de elementos identificadores de um tentes, num curso que segue paralelo à dinâmica do pro- real concreto, quase sempre garantidor de verossimilhança, cesso cultural em que se integra. Nesse processo, ora o como costuma também, nessa mesma dimensão, apresentar acompanha, ora se antecipa, transformadora, porta-voz do uma imagem desse real ligada estreitamente a outros ele- devir. Veja-se o Ulisses, de Joyce, por exemplo. O artista mentos que fazem o texto. Essa presença, que pode trair da palavra tem uma sensibilidade mais apurada do que a uma dimensão denotativa, não é, entretanto, seu traço do- do comum das gentes, e essa acuidade mobiliza-lhe a cria- minante. Este reside na conotação, conceito fundamental ção progressora. para os estudos de literatura e de tal maneira que especia- Na maioria dos casos, é a própria obra que traz em listas como André Martinet, Georges Mounin e, entre nós, si suas próprias regras. A obra de arte literária se faz, José Guilherme Merquior chegam a admitir que nas cono- fazendo-se. tações reside segredo do valor poético de um Observe-se que as normas reguladoras do texto não- -literário, aquelas que se impõem ao indivíduo por corres- 2 Cf. J. Guilherme. Do signo ao sintoma. In: For- ponderem àquilo que habitualmente se diz, precisam ser malismo e tradição moderna; o problema da arte na crise da cul- obedecidas, sob pena de sérios ruídos na comunicação e, tura. Rio de Janeiro/São Paulo, 1974. p. 129. em certas circunstâncias, até de total obliteração do que</p><p>42 43 se pretende comunicar. No texto literário a criação esté- De repente, não mais que de repente tica autoriza qualquer transgressão nesse sentido. E em Fez-se de triste o que se fez amante termos de história literária, múltiplos e vários têm sido os E de sozinho o que se fez percursos nessa direção, seja em termos individuais, seja Fez-se do amigo próximo o distante ao nível de movimentos de época. Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de Ênfase no significante Textos há em que o significante sobressai de maneira ainda mais marcante, como neste poema concreto de Ro- Enquanto o texto não-literário confere destaque ao naldo Azeredo significado, ou seja, ao plano de conteúdo, o texto literá- rio tem o seu sentido apoiado no significado e no signi- ficante, com especial relevo concedido a este último. A questão, entretanto, não é pacífica. Sobretudo quando pen- samos que, ao situar significante e significado no âmbito da semiótica, estes ganham dimensões que, embora rela- cionadas com a visão da adquirem matizes 1 diferentes e contribuem efetivamente para o sentido do texto, principalmente em termos da informação estética que nele se configura. Num poema como o "Soneto de separação", de Vinícius de Morais, por exemplo, os fone- mas bilabiais de certos vocábulos parecem contribuir para o sentido dominante no texto, centrado na separação entre dois seres: A questão é facilmente compreensível: basta substi- tuir os vocábulos de um texto por sinônimos, para aquila- Soneto de separação tar a relevância do significante. Pensemos na fala famosa do Hamlet, de Shakespeare: De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma To be or not to be: that is the question E das bocas unidas fez-se a espuma (Ser ou não ser: els a questão) E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento 3 In: Livro de sonetos. 3. ed. Rio de Janeiro, Sabiá, 1967. Que dos olhos desfez a última chama p. 30-1. E da paixão fez-se o pressentimento 4 Apud CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta; textos e manifestos 1950- E do momento imóvel fez-se o drama. -1960. São Paulo, Duas Cidades, 1975. p. 92.</p><p>44 Veja-se o efeito de substituições: Am or am not: that is the question (Sou ou não sou: els a questão) ou To be or not to be: that is what worries me (Ser ou não ser: é isso que me preocupa) Evidentemente, perde-se muito do efeito estético com as expressões substitutas, levando-se em conta, obviamente, o contexto em que as palavras do teatrólogo se inserem. No "Soneto de separação", de Vinícius de Morais, é bastante trocar algumas palavras para verificar a força do significante, colocando, por exemplo, "repentinamente" em lugar de "de repente"; "juntas", onde está "unidas"; ou onde se encontra "calma". Variabilidade texto literário se vincula, como foi assinalado, a um universo sócio-cultural e a dimensões ideológicas; sua natureza envolve mutações no tempo e no espaço; ele tem uma língua como ponto de partida e de chegada; as lín- guas acompanham as mudanças culturais; mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam as pessoas, os povos, a linguagem: a literatura, manifestação cultural, acompanha as mudanças da cultura de que é parte inte- grante e altamente representativa. A literatura traz a marca de uma variabilidade específica, seja a nível de dis- cursos individuais, seja a nível de representatividade cul- tural. E não nos esqueça de que, na base da literatura, está a permanente invenção. 11</p>