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Trecho do livro didático Literatura: Teoria e Metodologia de Ensino (Faculdade Única) que apresenta menu de ícones e aborda "Texto, intertexto e escrita literária": origem etimológica do termo texto, tipos textuais e concepções de Mendes, Medeiros & Tomasi e Koch.

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FACULDADE ÚNICA 
DE IPATINGA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1ª edição 
Ipatinga – MG 
2021 
 
 
 LITERATURA: TEORIA E METODOLOGIA DE ENSINO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
FACULDADE ÚNICA EDITORIAL 
 
Diretor Geral: Valdir Henrique Valério 
Diretor Executivo: William José Ferreira 
Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos 
Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira 
Revisão Gramatical e Ortográfica: Renata Ribeiro da Fonseca Fusilli 
Revisão/Diagramação/Estruturação: Bárbara Carla Amorim O. Silva 
 Bruna Luiza Mendes Leite 
 Carla Jordânia G. de Souza 
 Guilherme Prado Salles 
 Rubens Henrique L. de Oliveira 
Design: Aline de Paiva Alves 
 Élen Cristina Teixeira Oliveira 
 Maria Luiza Filgueiras 
 Taisser Gustavo de Soares Duarte 
 
 
 
 
 
© 2021, Faculdade Única. 
 
Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autorização 
escrita do Editor. 
 
 
 
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2920. 
 
 
 
 
 
NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA 
Rua Salermo, 299 
Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG 
Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300 
www.faculdadeunica.com.br
http://www.faculdadeunica.com.br/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
Menu de Ícones 
Comointuitodefacilitaroseuestudoeumamelhorcompreensãodo conteúdo aplicado 
ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao 
ladodostextos.Elessãoparachamarasuaatençãoparadeterminado 
trechodoconteúdo,cadaum comumafunçãoespecífica,mostradas aseguir: 
 
 
 
São sugestões de links para vídeos, documentos 
científico (artigos, monografias, dissertações e teses), 
sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e 
Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo 
abordado. 
 
Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações 
importantes nas quais você deve ter um maior grau de 
atenção! 
 
São exercícios de fixação do conteúdo abordado em 
cada unidade do livro. 
 
São para o esclarecimento do significado de 
determinados termos/palavras mostradas ao longo do 
livro. 
 
Este espaço é destinado para a reflexão sobre 
questões citadas em cada unidade, associando-o a 
suas ações, seja no ambiente profissional ou em seu 
cotidiano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
 
TEXTO, INTERTEXTO E ESCRITA 
LITERÁRIA 
 
 
 
1.1 O QUE É UM TEXTO? 
“O que é um texto?” essa pergunta é aparentemente simples, no entanto 
quando começamos a analisá-la, percebemos que sua resposta não é tão simples 
assim. Na verdade, precisamos executar o ato de ler em todos os momentos da nossa 
vida, desde simples cartazes em Unidades de Saúde até os mais elaborados como 
artigos científicos. E mesmo assim, quando paramos para encontrar uma definição 
sempre nos estagnamos com o conceito. 
O verbete “texto” vem do termo latino textum e significa “tecido”. Ou seja, 
quando o autor escreve, ele tece ideias com o uso da palavra. Ele também busca 
evitar falhas e desalinhamentos para que sua intenção de comunicação tenha 
sentido completo. Logo, o texto pode ter uma ou mais palavras, pois seu tamanho 
pode ter variações. Ele pode ser oral ou escrito, verbal ou não verbal, pode ter língua 
padrão e língua não padrão, pode ser um símbolo ou uma imagem, etc. Além disso, 
existem vários tipos de textos: literários, técnicos, oficiais, empresariais, jornalísticos, 
filosóficos, didáticos, etc.(MENDES, 2019). 
A referência a palavra “tecido” feito pela autora, Mendes (2019), nos remete 
a um processo de criação em que as palavras ou as imagens são organizadas para 
a formação de um sentido completo que objetiva a comunicação. Todo esse tecido 
deve estar organizado para formar uma unidade clara. 
Todo escrito,segundo Medeiros e Tomasi (2017),é um combinado de 
variadas vozes: é heterogêneo, polifônico; ele pode compreender mais de um tipo 
de texto: nele podem aparecer segmentos descritivos, narrativos, argumentativos, 
expositivos, embora possa prevalecer um ou outro tipo. Além disso, um texto sempre 
será produzido por um autor e entendido por um leitor. 
Para Koch (2018), para chegar ao conceito de texto deve-se pensá-lo através 
das concepções de língua e sujeito. A autora menciona que, se na concepção de 
língua como representação do pensamento e de sujeito, o texto será um produto do 
autor, cabendo assim ao leitor entender essa representação mental do produtor, 
UNIDADE
01 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
8 
 
 
exercendo, pois, uma atitude passiva. Já na concepção de língua como código, o 
texto é visto como mero produto de decodificação de um emissor (autor) a ser 
decodificado pelo leitor, ou seja, basta o conhecimento do código. Também nessa 
concepção o papel do leitor/decodificador é passivo. 
Ademais, o autor utiliza a concepção interacional dialógica como um 
entendimento mais completo do conceito de texto. Dessa forma, Koch (2018, p. 26) 
explicita que: 
 
Na concepção interacional, na qual os sujeitos são vistos como 
atores/construtores sociais o texto passa a ser considerado o próprio 
lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos ativos que – 
dialogicamente – nele se constroem e são construídos. Dessa forma 
há lugar, no texto, para toda uma gama de implícitos, dos mais 
variados tipos, somente detectáveis quando se tem, como pano de 
fundo, o contexto sociocognitivo dos participantes da interação. 
 
Em outras palavras, o texto é um produto da interação entre autor/produtor e 
leitor/ouvinte, pois entre ambos deve haver uma ligação para apreensão da 
significação. Na verdade, mesmo com todas as análises realizadas sobre tentar 
encontrar um conceito geral sobre o que é um texto, o “seu sentido não está no texto, 
mas se constrói a partir dele”(KOCH, 2018, p. 26). 
Além do exposto, Orlandi (1995, p. 115)“considera as complexidades de um 
texto, como um todo que resulta de uma articulação, representando assim um 
conjunto de relações significativas individualizadas em uma unidade discursiva”, e 
ainda reconhece a heterogeneidade de um texto, pois este apresenta “diferentes 
materiais simbólicos – imagem, grafia, som etc.; quanto ao uso da linguagem – oral, 
escrita, científica, literária, narrativa, descritiva etc. e por fim quanto às posições do 
sujeito”. 
Quando pensamos em um texto como unidade de sentido, devemos levar em 
consideração muitas outras coisas, pois o texto é um objeto de interpretação e 
compreensão. “Um texto é uma peça de linguagem de um processo discursivo muito 
mais abrangente”(ORLANDI, 1995, p. 26). 
Sobre o processo textual em termos de produção ou compreensão de um 
texto exige uma interação entre o leitor e o autor. Essa atividade exige de ambas as 
partes uma troca dinâmica para que ocorra a compreensão de um texto. O produtor 
do texto deve mobilizar estratégias para oferecer uma produção compreensível para 
o outro, ao passo que o leitor deve mobilizar, também, todos os seus conhecimentos 
para compreender o que é enunciado. Dessa forma, toda essa mobilização 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
 
 
sociocognitiva, interacional e textual são necessárias para a produção de sentido 
(KOCH, 2018). 
 
[...] interpretador do texto são, portanto, ‘estrategistas’, na medida em 
que, ao jogarem o ‘jogo da linguagem’, mobilizam uma série de 
estratégias – de ordem sociocognitiva, interacional e textual – com 
vistas à produção de sentido (KOCH, 2018, p. 86). 
 
As palavras da autora são muito esclarecedoras, mas ainda é importante 
mencionar que todo texto é carregado de sentido e sua verdadeira essência é a 
comunicação, ou seja, a mensagem que o autor/produtor quer passar ao leitor e ao 
ouvinte.1.2 DE TEXTOS A TEXTO: O INTERTEXTO 
No subtítulo anterior, compreendemos que um texto é fruto da interação entre 
autor e produtor e leitor e ouvinte. Ainda, verificamos que um texto é algo dinâmico 
e carregado de sentidos. 
Assim, sob esse viés, vale ainda salientar que um texto como fruto de uma 
interação pode dialogar com outros textos, o que inicialmente pode conceituar o 
termo intertexto. 
Mas o que é um intertexto ou intertextualidade? 
Segundo o dicionário brasileiro de Língua Portuguesa Michaelis (2021), a 
palavra intertextualidade é um substantivo feminino que significa: “1Superposição de 
um texto literário em relação a um ou mais textos anteriores.2 Processo de produção 
de um texto literário que parte de vários outros e com eles se imbrica”. 
Dessa forma, apropriando-se do significado de que o intertexto é um processo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10 
 
 
de transvariação em relação a textos anteriores, Alós (2006) corrobora na afirmação 
de tal conceito ao inferir que a literatura não é produzida de forma paralisada, mas 
sim, ela se produz de forma dinâmica e sempre em constante diálogo com outros 
textos e também outras formas de cultura, dessa forma a construção literária se faz 
através de constantes trocas entre diferentes produtos culturais. 
A intertextualidade ou dialogismo são formas de construção de um novo texto 
baseando-se em produções já existentes. Essa forma de elaboração pode acontecer 
entre textos, imagens ou sons, pois novos produtos culturais vão surgindo e utilizam 
outros textos para complementar ou homenagear produções já construídas. Barros e 
Fiorin (1999), ainda acrescenta que ao se referir a outros textos, uma nova produção 
colabora para perpetuação das diferentes obras ao longo do tempo. 
Dessa forma, o conceito é ampliado porque acrescenta que intertextualidade 
não acontece somente entre textos, mas também em imagens e sons de outras 
obras. Isso aponta para outras formas de uso do intertexto, como no cinema, nas artes 
plásticas, na literatura etc. 
A intertextualidade compreende, então,as mais variadas formas pelas quais a 
produção ou a recepção de um texto está ligado ao conhecimento de outras 
produções textuais por parte dos leitores, ou melhor, cada novo texto mantém um 
intrínseco diálogo com outros existentes (KOCH, 2009). 
Dessa forma, o intertexto por se apresentar como um diálogo com algo que já 
foi criado torna-se tão natural a nós leitores, pois essa prática na literatura nada mais 
é do que a continuação histórica de várias outras criações, pois em maior ou menos 
grau cada texto propõe diálogos com outros textos. 
Entretanto, Alós (2006) explicita que o funcionamento da intertextualidade 
enquanto mecanismo textual mostra que, ao contrário do que vulgarmente possa se 
pensar, a noção de intertextualidade não faz do texto uma mera colagem de 
retalhos, mas o processo de diálogo e troca de um texto já existente com outros 
textos, ou outros, em especial com aqueles culturais, históricos ou sociais. Dessa 
forma, o intertexto é o texto específico com que uma determinada produção textual 
mantém uma troca semiótica que caracteriza a intertextualidade. 
Como uma forma de exemplificar o uso da intertextualidade pode-se citar os 
contos de fadas, que a cada vez que são reescritos trazem características novas as 
narrativas, mas sempre estão em diálogo com alguma outra narrativa já existente. 
Nessa perspectiva, Santos e Souza (2008, p. 16) explica que: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 
 
 
 
As narrativas tradicionais, compilados por Perrault, os Grimm ou 
Andersen, foram, paulatinamente, incorporadas ao repertório da 
literatura infantil universal. Em diferentes épocas e lugares, estes textos 
são lidos ou contados para as crianças e sua permanência pode ser 
justificada pela natureza simbólica com que representam os eternos 
dilemas enfrentados pelo homem no seu amadurecimento pessoal. 
 
Colaborando com a afirmação de que os textos infantis demonstram 
claramente o uso do intertexto, também percebemos que essas narrativas mudam 
ao longo da história em consequência do dinamismo social,Alós ( 2006) aponta para 
o fato da intertextualidade ser uma ocorrência dialógica entre diferentes tipos de 
textos que motiva, concomitantemente a natureza semiótica, ideológica e subjetiva, 
consagrando-se como um dos mais inteligentes processos de interação textual para 
a crítica literária, ou seja, o texto dialoga sim com outros textos, mas também com o 
contexto social, a realidade transfigurada em texto. 
Nessa perspectiva, podemos citar os contos de Jacob e Wilhem Grimmm 
como textos de grande importância para a cultura mundial. Dessa forma, se 
analisarmos o conto “A bela Adormecida”, por exemplo, podemos afirmar que o 
filme “Malévola”, produzido pelo Walt Disney Pictures, dialoga com a narrativa, 
mantendo, assim, uma relação intertextual. 
Verifica-se, portanto, que podemos comparar obras literárias com outros tipos 
de linguagem que não são essencialmente verbais. 
Nesse sentido, podemos entender que quando duas obras se entrelaçam, elas 
conversam entre si, e a partir desse ponto pode-se perceber o surgimento de um 
texto a partir de outro com novas perspectivas e com outra configuração (LIMA, 
2017). 
Ainda, é necessário ressaltar que, como explica a autora Lima (2017, p. 07), há 
duas formas de intertextualidade, a interna e a externa: 
 
A forma externa que ela possui é determinada pela relação que o 
texto estabelece com campos distintos do conhecimento; por sua vez 
a intertextualidade interna se constitui pelo diálogo entre obras que 
pertencem a uma mesma área do conhecimento. 
 
Finalmente, Carvalhal (2006)afirma que a intertextualidade passou a significar 
um procedimento indispensável a investigação das relações entre os mais diferentes 
textos, ou seja, tornou-se chave para a leitura e um modo de problematizá-la. Dessa 
forma, o tempo “intertexto significa “tecer” e, de forma figurada, entrelaçar, reunir, 
combinar” Ruprecht (1984) apud Carvalhal (2006). Assim, quando pensamos a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 
 
 
respeito do que significa um intertexto, percebemos essa “tecitura” agrega outros 
tipos de textos preexistentes. 
 
 
 
1.3 O TEXTO E O MEIO: O CONTEXTO 
Bronislaw Kasper Malinowski – antropólogo considerado um dos fundadores da 
Antropologia Social – foi quem utilizou a expressão contexto de uso pela primeira vez, 
pois necessitou de um termo que conseguisse mostrar todo o contexto que deveria 
ser verificado, nessas condições o ambiente verbal e também toda a situação em 
que um determinado texto fosse falado deveria se valorizado, dessa maneira, a 
expressão “contexto de situação” foi criada em um momento oportuno para explicar 
todas as possibilidades que acontecem para o entendimento de um texto (HALLIDAY, 
1989). 
Dessa forma, podemos entender a palavra contexto como uma inter-relação 
de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação. Para tanto, se 
atermos a relação entre texto e contexto, esse pode ser considerado o conjunto de 
palavras, frases ou o texto que procede ou se segue a determinada palavra (OXFORD 
LANGUAGES, 2021). 
Quando lemos um texto, ao tentarmos compreendê-lo, a primeira coisa que 
fazemos, mesmo que de forma inconsciente, é tentar entender a que o conteúdo se 
refere, e na proporção que vamos avançando na compreensão e na leitura vão 
surgindo vários elementos que nos auxiliam nesse entendimento. Esses elementos são 
os que situam o texto dentro de um ambiente maior – o contexto. 
Por isso, a produção e compreensão do texto e a conversação abrangem 
várias categorias, tais como as identidades e os papéis dos participantes, o lugar o 
tempo, a instituição, as ações políticas e sociais, entre outros componentes (DIJK, 
2012). 
O mesmo autor, DIJK (2012, p. 132), esclarece e amplia a definição do termo 
contexto: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
 
[...]situação, circunstância ou entorno, usamos a noção de contexto 
sempre que queremos indicar que algum fenômeno, evento, ação ou 
discurso tem que ser estudado com relação ao seu ambiente, isto é, 
com as condições e conseqüências que constituem o seu entorno, 
Portanto, não só descrevemos, mas também, e especialmente, 
explicamos a ocorrência de propriedade de algum fenômeno focal 
em termos de alguns aspectos de seu contexto. 
 
Nessa perspectiva, o contexto é a chave para desvendar os sentidos de um 
texto. 
Koch (2009), em sua obra “O texto e a construção dos sentidos”, usa a 
metáfora iceberg para ilustrar a definição de texto, pois, como a grande formação 
de gelo, toda a produção textual possui apenas uma pequena superfície exposta e 
uma pequena área imersa. Para entender o que está implícito e dele extrair um 
sentido, fazem-se necessários dos recursos aos mais variados sistemas de 
conhecimento. Dessa forma, o contexto é parte do recurso necessária ao 
entendimento do texto. 
O modo como compreendemos a linguagem está no estudo do texto. O texto 
como linguagem funcional acaba por desempenhar um papel em um contexto, na 
verdade, existe o texto e também outro que o acompanha, ou seja, um texto vai 
muito além do que é registrado na forma escrita ou através do que é dito, e também 
abrange o nãoverbal. Tudo isso constitui as interfaces de um texto, através do qual 
esse se desenvolve e é interpretado(BARBISAN, 1995). 
A mesma autora ainda complementa algumas informações sobre o contexto 
de forma a colocá-lo como uma das principais ferramentas para o entendimento 
efetivo de um texto, dessa forma, Halliday (1989)apud Barbisan (1995, p. 55) 
acrescentam o seguinte: 
 
1. um texto é um complexo de significados referenciais, interpessoais e 
textuais; 2. o contexto de situação é a configuração de campo, teor 
e modo, traços que especificam o registro do texto; 3. o contexto de 
cultura é o quadro institucional e ideológico que dá valor ao texto e 
limita sua interpretação; 4. o contexto intertextual é constituído pelas 
relações com outros textos e afinações que são feitas a partir daí; 5. o 
contexto intratextual é a coerência dentro do texto, incluindo a 
coesão lingüística que compreende as relações semânticas internas. 
 
Dessa forma, temos uma ampliação da dimensão do contexto textual, ou seja, 
o contexto representa os traços específicos de um texto, por exemplo, o seu gênero; 
o contexto cultural a qual aquela produção está inserida, limitando seu 
entendimento; a intertextualidade, que relaciona um texto há vários outros; e por fim 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
14 
 
 
o contexto intratextual que se configura pelas escolhas linguísticas do autor. 
Todos esses elementos elencados são parte do contexto para análise textual, 
pois sem eles seria difícil um bom entendimento do real sentido de qualquer texto. 
O contexto é construído através de sentidos, uma vez que, se há mudanças 
nas condições de produção, há variação na construção de sentidos que surgem a 
partir das trocas existentes entre os interlocutores. Conclui-se, dessa forma, que a 
leitura de um texto para encontrar informações pontuais e explícitas é diferente de 
uma leitura em que se deseja encontrar informações subentendidas desse mesmo 
texto (ORLANDI, 1995). 
O autor Hymes retoma análises baseadas no contexto de situação e cria uma 
matriz de traços etnográficos (situação em que o pesquisador foi a campo fazer 
pesquisa), criando um esquema SPEAKING que permitiu caracterizar o contexto da 
seguinte forma retomando a criação de Koch (2018, p. 32): 
 
S – Situação: cenário, lugar; 
P – Participante: falantes e ouvintes; 
E – Fins, propósitos, resultados; 
A – Sequência de atos: forma de mensagem/ forma do conteúdo; 
K – Código; 
I – Instrumentais: canais, forma de fala; 
N – Normas de interação/ normas de interpretação; 
G – Gêneros. 
 
Um ponto importante a destacar sobre a ideia de contexto defendida pelo 
autor do esquema SPEAKING, diz respeito à variabilidade e amplitude desse conceito, 
nos evidenciando que “o contexto é que deve desempenhar o papel principal na 
interpretação dos enunciados” (KOCH, 2018, p. 32). 
Proença Filho (2007, p. 76)acrescenta o seguinte: 
 
As palavras de um enunciado estariam assim carregadas de 
significação vinculada a inúmeros contextos vividos, e toda 
comunicação envolveria a interação de um falante, um destinatário 
e um “personagem” (de que se fala), envoltos por um horizonte 
comum que possibilita a compreensão dos elementos ditos e não 
ditos. 
 
Em suma, podemos verificar desde o surgimento do termo “contexto de uso”, 
utilizado pela primeira vez pelo antropólogo Malinowski até os dias atuais, que uma 
grande parte dos estudos são voltados para o entendimento e a complexidade do 
contexto como necessário para desvendar o real sentido dos textos existentes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
 
 
 
 
 
https://bit.ly/3x1Gesp
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (Prefeitura de São João Batista/ SC – adaptado) Leia a afirmação abaixo: 
 
Conforme Ingedore (2020), um texto sempre dialoga com outros textos recorrentes 
em dada sociedade. Assim, a remissão, frequentemente, faz-se a “conteúdos de 
consciência”, guardados na memória do interlocutor que, a partir de “pistas” 
encontradas na superfície textual, são reativadas, via inferenciação. Essa 
afirmação refere-se à 
 
a) intertextualidade. 
b) polifonia. 
c) citação 
d) paródia. 
e) referenciação. 
 
2. (Prefeitura de Morzalândia/GO – adaptado) Leia a tira abaixo: 
 
 
 
A tirinha nos remete a lembrar um poema famoso, a esse tipo de relação 
chamamos: 
 
a) Paralelismo. 
b) Intertextualidade. 
c) Ambiguidade. 
d) Cópia. 
e) Citação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 
 
 
3. (Prefeitura Municipal de Criciúma – FAEPESUL/2019 – adaptada) O poema‘Canção 
do Exílio’ de Gonçalves Dias é um dos textos mais conhecidos em língua 
portuguesa e também um dos mais parodiados. 
 
A seguir podemos ler as duas primeiras estrofes do poema: 
 
“Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá; 
As aves que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores”. 
 
Abaixo, podemos ler uma paródia, escrita por Oswald de Andrade: ‘Canto de 
Regresso à Pátria’. 
“Minha terra tem palmares 
Onde gorjeia o mar 
Os passarinhos daqui 
Não cantam como os de lá 
Minha terra tem mais rosas 
E quase que mais amores 
Minha terra tem mais ouro 
Minha terra tem mais terra”. 
 
Assinale a única alternativa ERRADA no que diz respeito à interpretação e 
comparação dos dois poemas. 
 
a) Gorjear e cantar são sinônimos. 
b) Não há intertextualidade entre os dois poemas. 
c) A intertextualidade é um elemento constitutivo das paródias. 
d) Apesar de semelhanças de forma e vocabulário entre os dois poemas, a ideia 
contida nos títulos é antagônica (Exílio X Regresso). 
e) A semelhança entre os poemas é um caso de uso da intertextualidade, um recurso 
que nos mostra que todo texto advém de outros. 
 
4. O texto é um produto da interação entre __________________ e ________________, 
pois entre ambos deve haver uma ligação para a apreensão de significação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 
 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) autor e produtor 
b) autor/produtor e leitor/ouvinte 
c) transmissor e receptor 
d) conhecimento e interação 
e) leitor e ouvinte 
 
5. Se analisarmos o conto “A Bela Adormecida” podemos afirmar que o filme 
“Malévola”, produzido pelo Walt Disney, dialoga com a narrativa, mantendo assim, 
uma relação ________________________. 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) intratextual. 
b) cópia. 
c) reprodução artística. 
d) intertextual. 
e) dialógica. 
 
6. Para Orlandi (1996) apud Ferreira & Dias ( 2005), o ____________________ é 
constitutivodo sentido, já que a variação nas condições de produção afeta a 
construção de sentidos que emergem a partir da interação entre interlocutores. 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) intertexto 
b) texto 
c) diálogo 
d) conceito de texto 
e) contexto 
 
7. (Prefeitura Municipal de Cunha Porã/2020) De acordo com Beaugrande e Dressler, 
a intertextualidade compreende diversas maneiras pelas quais a produção e 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19 
 
 
recepção de dado texto depende 
 
a) do tipo de leitor que está com o material em mãos, pois para ser um bom leitor, 
sabe-se que é necessário ler, interpretar e ter senso crítico para selecionar as 
informações e conseguir ordená-las de maneira efetiva. 
b) do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores, isto é, diz respeito 
aos fatores que tornam a utilização de um texto dependente de um ou mais textos 
previamente existentes. 
c) da maneira com que o texto é lido, o interlocutor precisa estar atento ao tipo de 
texto e até mesmo assunto, para que haja coerência no que está sendo lido e 
consiga transformar assim símbolo em significado. 
d) da significação e do significado, ambos têm a tendência a estilizar e trazer ao 
texto sutileza ou intensidade, a depender da escolha lexical, e até mesmo a 
pragmática da leitura pode transformar um texto de leitor para leitor. 
e) do conhecimento acadêmico do leitor. 
 
8. (Prefeitura Municipal de Criciúma/2010 – adaptada) A obra de Machado de Assis 
é vasta e compreende crônicas, cartas e romances. Na obra “Esaú e Jacó”, por 
exemplo, temos a história de Pedro e Paulo, dois irmãos que possuem muitos 
desafetos tanto na vida pessoal quanto na vida política. O título da obra é uma 
alusão, ou seja, faz referência aos elementos presentes em outros textos. Neste 
caso, personagens bíblicos. Assinale a alternativa que apresenta o nome que 
damos ao uso deste recurso na língua. 
 
a) Intertextualidade. 
b) Pleonasmo. 
c) Redundância. 
d) Polissemia. 
e) Assonância. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20 
 
 
A LINGUAGEM LITERÁRIA 
 
 
 
 
 
Há muitas teorias que tentam definir literatura, uma delas, por exemplo, seria 
defini-la como a escrita “imaginativa”, no sentido ficcional – escrita esta que não é 
literalmente verídica. Para tanto, se refletirmos, ainda que por um breve momento, 
sobre aquilo que comumente se considera o que é literatura, veremos que tal 
definição não procede (EAGLETON, 2006). 
Dessa forma, cabe a nós refletirmos nesse capítulo sobre o dinamismo da 
linguagem literária. 
 
2.1 TEXTO LITERÁRIO E TEXTO NÃO LITERÁRIO 
Inicialmente, retomando o conceito de texto já estudado nesse livro, podemos 
conceituá-lo como uma produção carregada de sentido e sempre relacionado a 
um contexto. Sendo sua verdadeira função a comunicação ou a transmissão do que 
o autor/produtor quer enviar ao leitor/ouvinte, seja esse texto oral, escrito ou visual. 
Uma vez que conceituamos o que é um texto, devemos dividi-lo em dois 
grandes grupos, o que nos conduzem a perceber um texto como literário e não 
literário. 
Na verdade, fazemos esta distinção para estudar os textos existentes em nossa 
sociedade para podermos usufruir de seus conhecimentos e tornar nossa 
comunicação mais clara, mais objetiva, assim, aproveitarmos melhor a variedade de 
textos que temos a nosso dispor (MARTINS, 2017). 
Assim, segundo o mesmo autor,Martins (2017, p. 13, grifo nosso), podemos 
diferenciar e conceituar os textos literários e não literários da seguinte forma: 
 
Os textosliterários são aqueles que possuem função estética. 
Geralmente destinam-se ao entretenimento, ao belo, à arte, à ficção. 
Já os não-literários são os textos com função utilitária, pois servem para 
informar, convencer, explicar, ordenar. Aqueles que transmitem uma 
notícia, bem como toda a sorte de textos de viés jornalístico, ou ainda 
os textos científicos, são exemplos de textos não-literários, pois 
cumprem uma finalidade diferente: informar, orientar, instruir. Isso 
UNIDADE
02 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21 
 
 
não quer dizer que os textos literários não instruam. Mas fazem isso 
de outro modo. 
 
Para tentarmos ampliar o conceito de textos literários, podemos entendê-los 
como todos os textos que têm uma função artística, sendo construído através da 
estética e da subjetividade para a criação de produções ficcionais. Esses textos são 
criados pela observação do cotidiano, memórias, reflexões, abstrações e muitas 
outras fontes de observação. 
Um bom exemplo de texto literário seria o poema de Manuel Bandeira: 
 
O bicho 
Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio 
Catando comida entre os detritos. 
Quando achava alguma coisa, 
Não examinava nem cheirava: 
Engolia com voracidade. 
O bicho não era um cão, 
Não era um gato, 
Não era um rato. 
O bicho, meu Deus, era um homem. 
 
Nesse texto, percebemos a presença da escrita literária, uma vez que 
encontramos uma preocupação com a estética, ou seja, a forma como é 
apresentado o texto para o leitor, já que se trata de um poema. Além disso, 
percebemos a subjetividade ao verificarmos que o eu lírico espanta-se e indigna-se 
com o fato do “bicho” que revira o lixo ser um homem. Outro ponto que deve ser 
destacado nesse exemplo é que embora exista um trabalho mais elaborado com as 
palavras, observamos que o texto – literário – exemplificado através do poema de 
Manuel Bandeira é uma criação que se deu através da observação do cotidiano, 
pois é uma realidade brasileira pessoas revirando o lixo para se alimentar. 
Mantendo o mesmo tema, mas trazendo um exemplo de texto não literário, 
vejamos a notícia retirada da Revista Veja e escrito por Goulart (2021, online): 
 
A guerra do lixo em João Pessoa, em meio à pandemia 
 
Prefeito suspendeu unilateralmente contratos com três empresas de coleta de lixo e abriu 
contratação emergencial, sem licitação. 
João Pessoa, na Paraíba, além de enfrentar a pandemia com ocupação de mais de 90% 
dos leitos de UTI, está tendo que conviver com uma guerra do lixo. O prefeito Cícero Lucena 
(PP) resolveu suspender unilateralmente os contratos com as três empresas que coletam o lixo 
na cidade e resolveu abrir um processo de contratação emergencial. As três empresas, que 
foram contratadas por meio de uma licitação, ocorrem para a justiça e para o ministério 
público. O advogado da Beta Ambiental, George Ramalho Junior, diz que o prefeito quer 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22 
 
 
criar o caos para justificar a contratação emergencial, que é feita sem licitação. “A prefeitura 
está convocando algumas empresas por e-mail, sem transparência para fazer a contratação 
emergencial e por isso estamos entrando no Ministério Público com um pedido de apuração 
por improbidade administrativa”. O advogado diz que o motivo apresentado para rescisão 
dos contratos foi que alguns poucos caminhões estavam com idade um ano menor do que 
a que havia sido acertada no processo de licitação. Isso aconteceu, segundo Ramalho, 
porque a própria Volkswagen atrasou na entrega de novos caminhões em função da 
pandemia. 
 
 
Neste exemplo temos um texto não literário, pois este procura noticiar o 
transtorno causado por uma contratação de empresas de coletas de lixo em caráter 
emergencial realizado pelo Prefeito de João Pessoa, na Paraíba. A notícia procura 
denunciar os fatos e mostrar como realmente esses estão acontecendo. Para tanto, 
não verificamos nenhum trabalho subjetivo/conotativo com as palavras, 
percebemos apenas uma forma impessoal de noticiar a realidade. 
Na verdade, há inúmeros fatores que diferenciam um texto literário de um não 
literário. Ao passo que o primeiro traz a emotividade, e muitas vezes a parcialidade, 
manifestada pela indignação, revolta, raiva, alegria, amor, euforia, satisfação; o 
texto não literário tem por foco a imparcialidade, a isenção (MARTINS, 2017). 
Dessa forma,podemos destacar alguns atributos para os textos literários e não 
literários. Para o primeiro, é válido ressaltar que há a presença constante de sentido 
conotativo, o ponto de vista do autor é pessoal, há a ocorrência de simbolismos e 
ainda encontram-se nestes textos muitos elementos que apresentam múltiplos 
significados, reflexões e emoções. Já os textos não literários possuem uma função 
mais utilitária e referencial, objetivando o fornecimento de uma informação, com 
linguagem denotativa, clara, impessoal e imparcial, não ocorrendo recursos 
estilísticos que possam prejudicar a compreensão do conteúdo do texto. 
Alguns gêneros de textos literários são: os poemas, os romances, os contos, as 
novelas, as lendas, as fábulas, as crônicas, as peças de teatro, as letras das músicas, 
entre outros. Ademais, como exemplo de gêneros textuais nãoliterários temos: as 
notícias e reportagens, que são textos publicitários; as cartas de reclamação e as 
comerciais; os ensaios e artigos científicos, dentre tantos outros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23 
 
 
 
 
 
2.2 LITERATURA E LINGUAGEM 
Nessa seção exploraremos dois conceitos importantes para o avanço dos 
estudos introdutórios em teoria literária. Esses conceitos são sobre literatura e 
linguagem. 
Uma dimensão importante é fazermos a seguinte pergunta – o que é literatura? 
Essa pergunta designa uma série de conceitos tanto complexos quanto, por vezes, 
ambíguos, pois esse termo tem diversas significações. Para tanto, inicialmente 
podemos dizer que literatura pertence ao campo das artes (arte verbal), que o seu 
meio de expressão é a palavra e que a sua definição está comumente associada à 
ideia de estética e valor estético (LOPES, 2010). 
O termo linguagem também apresenta muitos significados e sentidos, mas 
inicialmente vamos nos ater a apenas um deles –a faculdade cognitiva, que é 
inerente a espécie humana, possibilita que cada pessoa faça a representação 
simbólica de seu conhecimento adquirido com experiências vividas, assim como 
adquire conhecimento, também o processa, produz e transmite(TRASK, 2004). 
Sob esse viés, quando entendemos que a linguagem está a serviço da 
literatura, temos o termo linguagem literária, queNomura (1996, p. 190)apresenta os 
seguintes significados: 
 
De modo geral, dois critérios pautaram as pesquisas em torno da 
linguagem literária: 
 1 o primeiro coloca a linguagem literária em oposição à linguagem 
cotidiana, postura teórica bastante antiga, de cunho valorativo: a 
linguagem cotidiana, igualada à linguagem coloquial, sem trato, era 
considerada de qualidade inferior à literária, sendo esta considerada 
parte da língua culta; 
2 o segundo define a linguagem literária a partir da linguagem 
cotidiana, posição teórica apoiada na Lingüística: a linguagem 
literária era considerada desviante da linguagem cotidiana. De 
maneiras diversas, essa posição enfatiza a noção de desvio. 
 
Se analisarmos os conceitos apresentados por Nomura(1996), percebemos 
https://bit.ly/3jlbGh6
 
 
 
 
 
 
 
 
 
24 
 
 
que a linguagem está a serviço da literatura para as mais diversas formas de criação. 
Reis (2001, p. 111)lembra que “a constituição da linguagem literária e do discurso que 
a configura podem ser entendidos como resultado de um ato discursivo próprio, 
propondo a uma comunidade de leitores um texto que essa comunidade 
reconhecerá como texto literário”. 
Assim, a linguagem literária demonstra toda a engenhosidade imagética da 
humanidade, entretanto modifica-se constantemente. Essa mudança sofre variação 
de acordo com a ideia de arte e cultura, dentro de um determinado momento 
histórico em que o texto literário foi produzido (NOMURA, 1996). 
A mesma autora define que a linguagem literária possui autonomia de criação 
para exprimir-se em prosa, verso ou drama, utilizando a língua-padrão ou qualquer 
outra variante linguística escolhida pelo autor. 
Proença Filho (2007, p. 41)ressalta que o grande desafio dos estudiosos e 
pesquisadores tem sido caracterizar plenamente essa especificidade. Para tanto, o 
autor propõe e explica as seguintes características que são encontradas apenas nos 
discursos literários: 
 
O discurso da literatura se caracteriza por sua complexidade. No 
discurso não-literário, há um relacionamento imediato com o 
referente; caracteriza-se, na maioria dos casos, a significação singular 
dos signos, como vimos na frase-exemplo "Uma flor nasceu no chão 
da minha rua". Já o que depreendemos do texto literário ultrapassa, 
como já foi assinalado, os limites da simples reprodução. A natureza 
das informações que, por seu intermédio, são transmitidas, vai além do 
nível meramente semântico para se converter em algo tal que sua 
comunicação se torna impossível por meio das estruturas elementares 
do discurso cotidiano. 
Multissignificação: caracterizar-se no texto literário um uso específico 
e complexo da língua, os signos linguísticos, as frases, as sequências 
assumem, em função do contexto em que se integram, significado 
variado e múltiplo. Assim, afastam-se, por exemplo, da 
monossignificação típica do discurso científico, para só citar um caso. 
A multissignificação é, pois, uma das marcas do texto literário como 
tal. É o traço que permite, entre outras, as múltiplas leituras existentes 
da obra de João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drummond de 
Andrade, de Guimarães Rosa; que possibilita a Roland Barthes a sua 
apreciação da obra de Racine e que nos autoriza ler, em Iracema, de 
José de Alencar, uma síntese simbólica do processo civilizatório da 
América, entre outras interpretações. A permanência de 
determinadas obras se prende ao seu alto índice de polissemia, que 
as abre às mais variadas incursões e possibilita a sua atemporalidade. 
Predomínio da conotação: a linguagem literária é eminentemente 
conotativa. O texto literário resulta de uma criação, feita de palavras. 
E do arranjo especial das palavras nessa modalidade de discurso que 
emerge o sentido múltiplo que a caracteriza. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
 
Liberdade na criação: as manifestações literárias podem envolver 
adesão, transformação ou ruptura em relação à tradição linguística, 
à tradição retórico-estilística, à tradição técnico-literária ou à tradição 
temático-literária às quais necessariamente está vinculado o trabalho 
do escritor. A literatura se abre, então, plenamente, à criatividade do 
artista. 
Ênfase no significante Enquanto o texto não-literário confere destaque 
ao significado, ou seja, ao plano de conteúdo, o texto literário tem o 
seu sentido apoiado no significado e no significante, com especial 
relevo concedido a este último. 
 
Assim, a complexidade, a multissignificação, o predomínio da conotação e a 
liberdade na criação são características marcantes e próprias do fazer literário, cujo 
discurso é permeado por elementos que conferem maior expressividade e beleza ao 
texto. 
Iser (1996, p. 13-14),discorrendo sobre literatura e seu trabalho com a 
linguagem, acredita que: 
 
A interpretação da literatura, orientada pela estética da recepção, 
visa à comunicação, por meio da qual os textos transmitem 
experiências que, apesar de não familiares, são, contudo 
compreensíveis. [...] através desses textos, acontecem intervenções no 
mundo, nas estruturas sociais dominantes e na literatura existente. 
 
Por fim, a linguagem literária nos proporciona ultrapassar os limites do que deve 
ser decodificado, nos atingindo através de mensagens que nos mostra muito sobre a 
nossa condição humana de criação, caracterizando o ser humano tanto 
individualmente quanto socialmente (PROENÇA FILHO, 2007). 
 
 
2.3 LITERATURA E CULTURA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 
 
 
A definição de cultura não é uma tarefa simples, pois definir cultura requer 
uma mobilização de vários conhecimentos em muitas outras disciplinas que versam 
sobre as áreas do conhecimento como Sociologia,Antropologia, História, 
Comunicação, Economia, entre outras manifestações do saber (CANEDO, 2009). Em 
cada uma dessas áreas é trabalhada a partir de distintos enfoques e usos. Na 
verdade, essa complexidade concerne, ainda segundo a autora, Canedo (2009, p. 
04): 
 
[...] pelo próprio caráter transversal da cultura, que perpassa diferentes 
campos da vida cotidiana. Diante da multiplicidade de 
interpretações e usos do termo cultura, há três concepções 
fundamentais de entendimento da cultura, como: 1) modos de vida 
que caracterizam uma coletividade; 2) obras e práticas da arte, da 
atividade intelectual e do entretenimento; e 3) fator de 
desenvolvimento humano. 
 
Assim, sob esse viés de complexidade a respeito das diferentes culturas 
existentes e o seu real conceito, há a literatura que se apresenta também como parte 
de toda essa complexidade cultural. Essa inserção também se deve ao fato de que 
a literatura como uma forma de manifestação artística reflete as representações da 
cultura de um determinado povo. 
Quanto à conexão entre literatura e cultura, as palavras de Lima (2010, p. 
229)são esclarecedoras e exprimem que: 
 
Para falar de literatura e cultura, imperioso se faz, inicialmente, refletir 
sobre o conectivo que une os dois termos, uma vez que, 
aparentemente, estaríamos diante de uma incoerência gritante. 
Afinal, a relação entre os dois conceitos, como nos lembra Noé Jitrik, 
é sinedóquica, ou seja, o que geralmente se chama de literatura 
estaria contido no que se entende por cultura. 
 
Em outras palavras, não é possível pensar a literatura sem relacioná-la com a 
cultura. As diferenças entre as culturas retratam também o tipo de literatura escolhida 
ou valorizada por um determinando grupo. 
Olinto e Scholhammer(2003, p. 73)explicam que: 
 
A linguagem, em suas diversas expressões discursivas, funciona como 
instância institucional na orientação social da cognição individual 
com ajuda de significados culturalmente programados. Nas 
discussões teóricas sobre cultura, acentua-se hoje nitidamente uma 
tendência a entendê-la, portanto, na qualidade de comportamento 
produzido como saber coletivo em processos cognitivos e 
comunicativos, a partir dos quais os indivíduos definem esferas de sua 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
27 
 
 
realidade. Um olhar sobre a história semântica do termo sinaliza, entre 
outras. 
 
Nessa perspectiva, verifica-se que o fazer literatura está intrinsecamente 
relacionado à vivência da cultura, ou é parte dela. Ao ser produzido uma obra 
literária, verifica-se que ela se constitui de significados culturalmente programados. 
Abreu (2006)apontaque muitos canais de imprensa se dedicaram à escolha 
dos melhores representantes dos anos mil e novecentos em diversas categorias. E 
como não poderia deixar de ser, constituíram-se um júri para a eleição dos melhores 
livros, A Folha de São Paulo destacou os dez melhores romances brasileiros. 
Entretanto, poucos são os que realmente conseguiram ler tais livros. Mas a questão é 
a seguinte, será que todos esses livros, se fossem realmente lidos por todos os leitores, 
seriam valorizados e entendidos? 
Continuando com o exemplo de Abreu (2006), ela ainda cita que a Revista 
Isto étambém fez uma relação dos dez melhores romances, apresentando critérios 
dessemelhantes, dessa forma, a revista conseguiu uma relação de títulos diferentes 
da Folha de São Paulo. Assim, percebe-se que não há consenso quando falamos em 
gosto literário. 
A questão que a autora aponta é muito importante, porque durante muitos 
anos a literatura foi considerada parte de uma cultura letrada e erroneamente 
entendida como parte de grupos culturalmente privilegiados. E quem não gostasse 
ou não conseguisse acompanhar os grandes clássicos era visto como alguém fora 
dos parâmetros da cultura letrada. 
Nessa perspectiva, é válido mencionar, então, a “literatura de massa” que é 
modelo de produção literária intrinsecamente ligada à sociedade de consumo 
contemporânea. 
Para Aranha e Batista (2009, p. 04), um dado importante a respeito dos 
avanços tecnológicos e a sua contribuição para a expansão da literatura como 
parte da cultura apresenta-se com a seguinte colocação: 
 
Os avanços tecnológicos permitiram, cada vez mais, a difusão da 
produção de materiais impressos pelo barateamento do custo. Assim, 
um universo maior de pessoas teve acesso aos livros que, 
anteriormente, podiam ser considerados artigos de luxo. O surgimento 
destes novos decifradores do código impresso deu origem a um novo 
nicho de consumo de textos. 
 
A literatura de massa é uma forma de popularizar a cultura literária, já que, 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
28 
 
 
durante muitos anos, essa limitou-se a ser parte de uma pequena minoria da 
sociedade, as elites. Entretanto, a adaptação para essa nova realidade exigiu 
adaptações culturais e estéticas (ARANHA; BATISTA, 2009). 
Na concepção de Ballerini (2015, p. 124), a literatura é muito abrangente e 
deve ser libertadora: 
 
O muro que separa cultura e vida, reverência e consumo, trabalho e 
lazer, corpo e espírito, está sendo derrubado. Em outras palavras, a 
cultura o sentido burguês criticamente avaliativo do mundo cede à 
cultura no sentido antropológico puramente descritivo. 
 
Por fim, a literatura como a arte das palavras e ainda por utilizar a língua para 
a sua concretização, acaba se tornando um instrumento de comunicação e 
interação social. Dessa forma, a literatura em âmbito geral, cumpre seu papel de 
transmitir os conhecimentos culturais de um povo. Sendo, portanto, parte da própria 
cultura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
 
1. A literatura como a arte das palavras e ainda por utilizar a língua para a sua 
concretização, acaba se tornando um instrumento de comunicação e interação 
social. Dessa forma, a literatura, em âmbito geral, cumpre seu papel de transmitir 
os conhecimentos culturais de ________________. Sendo, portanto, parte da própria 
cultura. 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) Um povo. 
b) Uma elite. 
c) Estudiosos canônicos. 
d) Uma cidade. 
e) Uma cultura. 
 
2. Diante da multiplicidade de interpretações e usos do termo cultura, há três 
concepções fundamentais de entendimento da cultura, como: 1) modos de vida 
que caracterizam uma coletividade; 2)____________________________________; e 3) 
fator de desenvolvimento humano (CANEDO, 2009). 
 
Complete o parágrafo com a opção correta. 
 
a) Obras literárias da humanidade. 
b) Obras da literatura feminina. 
c) Arte de um povo. 
d) Modo de arte europeu. 
e) Obras e práticas da arte, da atividade intelectual e do entretenimento. 
 
3. São características da linguagem literária, EXCETO: 
 
a) Variabilidade. 
b) Multissignificação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
30 
 
 
c) Denotação. 
d) Liberdade na criação. 
e) Complexidade. 
 
4. Sobre o texto não literário, é correto afirmar, exceto: 
 
a) É utilizado, sobretudo, em textos cujo caráter seja essencialmente informativo. 
b) Sua principal característica é a objetividade. 
c) Utiliza recursos como a conotação para conferir às palavras sentidos mais amplos 
do que elas realmente possuem. 
d) Utiliza a linguagem denotativa para expressar o real significado das palavras, sem 
metáforas ou preocupações artísticas. 
e) Não apresenta variabilidade, multissignificação e complexidade linguística. 
 
5. A complexidade, a multissignificação, o predomínio da conotação e a liberdade 
na criação são características marcantes e próprias do fazer 
____________________________, cujo discurso é permeado por elementos que 
conferem maior expressividade e beleza ao texto. 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) Intertextual. 
b) Poético. 
c) Literário. 
d) Não literário. 
e) Denotativo. 
 
6. Proença Filho (2007) propõe as seguintes características que são encontradas 
apenas nos discursos literários,exceto: 
 
a) Complexidade. 
b) Multissignificação. 
c) Liberdade de criação. 
d) Discurso objetivo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
e) Predomínio da conotação. 
 
7. Os textos _____________________________com função utilitária servem para informar, 
convencer, explicar, ordenar. Esses textos são queles que transmitem uma 
notícia, bem como toda a sorte de textos de viés jornalístico, ou ainda os textos 
científicos. 
 
Complete a frase com a opção correta: 
 
a) Literários. 
b) Complexos. 
c) Semióticos. 
d) Conotativos. 
e) Não literários. 
 
8. Leia o poema de Manuel Bandeira: 
 
O bicho 
 
Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio 
Catando comida entre os detritos. 
Quando achava alguma coisa, 
Não examinava nem cheirava: 
Engolia com voracidade. 
O bicho não era um cão, 
Não era um gato, 
Não era um rato. 
O bicho, meu Deus, era um homem. 
 
Nesse poema percebemos a presença da escrita: 
 
a) não literária. 
b) objetiva. 
c) denotativa. 
d) racional. 
e) literária. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
 
ENTRE MÚSICA E POESIA 
 
 
 
3.1 LETRAMENTO LÍRICO 
O Gênero Lírico é um gênero literário e destaca-se por seu intenso trabalho 
com as palavras. Etimologicamente, do latim, “lyricu” faz referência a “lira”, um 
instrumento que servia para sonorizar e acompanhar as poesias cantadas. 
Em linhas gerais, o gênero literário lírico é em sua essência composto por poesia 
– composição em versos. Ainda, esse gênero apresenta como características: a 
subjetividade, o sentimentalismo, a emotividade e a afetividade. 
A poesia lírica tem como vocação exprimir os sentimentos, os estados de 
espírito do sujeito na sua “interioridade” e em sua “profundidade”, e não a de 
representar o mundo “exterior” e “objetivo”. “O lirismo se confunde com a poesia 
“pessoal” e mesmo “intimista”, e privilegia, assim, a introspecção meditativa, o mais 
das vezes em tom melancólico, como indica a moda da elegia” (COMBE, 2010, p. 
115). 
Para tanto, é necessário diferenciar o poema enquanto gênero textual, ou 
seja, o texto em sua composição em versos, da poesia que é a linguagem subjetiva, 
conotativa, multiforme, utilizada nestes textos para causar o incomum. Alem disso, 
devemos nos valer do questionamento – onde encontramos a poesia? Para esta 
pergunta temos uma gama de respostas. Encontramos a poesia em letras de músicas, 
em pequenos comerciais midiáticos, que emocionam e que trazem à mente 
reflexões novas, mesmo que de forma pouco perceptível, que faz com que alguns 
afirmem não apreciar este gênero textual(OLIVEIRA; FURUZATO, 2016). 
Cosson (2006, p. 79)aponta uma característica muito singular da linguagem 
lírica: 
 
[...] é isso que sentimos quando lemos um poema e ele nos dá palavras 
para dizer o que não conseguíamos expressar antes. Essa 
singularidade da linguagem literária, diferentemente de outros usos da 
linguagem humana, vem da intensidade da interação com a palavra 
que é só palavra e da experiência libertária de ser e viver que 
proporciona. 
 
O entendimento dessa singularidade materializada no gênero lírico exige do 
UNIDADE
03 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
 
leitor muitas habilidades de compreensão, pois aqui a palavra ganha diversos 
significados, que “traduzem a experiência poética do artista e a dos ouvintes, ou seja, 
expressam sentidos pessoais, sociais, culturais e estéticos propostos, em conjunto, por 
uma obra — sentidos em todos os sentidos” (ALCÂNTARA, 2012, p. 09)exigindo 
umaboa prática de letramento para o entendimento do gênero. 
Para tanto, Guerra e Martini (2020) afirmam ser consensual que a formação de 
leitores literários, no Brasil, passa por diversas dificuldades e, em especial, a 
dificuldade de formação, segundo Guerra e Martini (2020, p. 77),“se acentua, 
amargamente quando se refere ao que podemos chamar de “letramento lírico”, ou 
seja, a formação de leitores de poesia. Isso se justifica, de certa forma, pelo fato de 
o texto poético exigir algumas competências leitoras específicas, devido à sua 
natureza mais complexa”. 
Por isso, há a necessidade de se trabalhar o letramento lírico na escola. E por 
letramento entendemos a habilidade de utilizar a leitura e a escrita nas práticas 
sociais do cotidiano, esse conceito é o oposto do que se considerava antes, uma vez 
que ler e escrever mecanicamente eram ações importantes e já bastava ser somente 
alfabetizado. Dessa forma, Soares (2004, p. 72)traz a seguinte contribuição a respeito 
do termo letramento: 
 
[...] letramento é o que as pessoas fazem com as habilidades de leitura 
e escrita, em um contexto específico, e como essas habilidades se 
relacionam com as necessidades, valores e práticas sociais. Em outras 
palavras, letramento não é pura e simplesmente um conjunto de 
habilidades individuais; é o conjunto de práticas sociais ligadas à 
leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto 
social. 
 
O letramento lírico apresenta-se tão importante para a sociedade como um 
todo, que um trabalho constante com esse gênero na escola, por exemplo, que 
enfoque as correntes poéticas de determinado período (estilo de época) e autor 
(estilo individual), poderão dar acesso ao estudante a conhecer conflitos e valores 
de outras gerações, de civilizações antigas e atuais, com maior autonomia e 
destreza, tendo em vista que o poema é uma das mais antigas formas de expressão 
do sentimento humano e das angústias coletivas, sendo utilizada na Antiguidade 
para entreter as pessoas, além de ser recitada também em rituais e na 
filosofia(OLIVEIRA; FURUZATO, 2016). 
Se pensarmos a utilização do gênero lírico dentro da escola, podemos 
perceber que esse gênero auxilia na formação crítica do leitor, pois motiva a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
34 
 
 
autenticidade, a ousadia, a melhoria no desempenho dos estudantes, em vista disto, 
é importante que se tenha uma boa seleção do material que será aplicado em sala 
de aula, para que a apreciação e o aproveitamento de ideias concernentes ao texto 
em verso seja uma prática cotidiana no ambiente escolar(OLIVEIRA; FURUZATO, 2016). 
Entretanto, o que se pode perceber sobre o letramento lírico ainda se encontra 
muito apagado frente às abordagens tradicionais escolares que visam “ensinar 
conteúdos” e a “realizar exercícios”. Essa forma tradicional de abordar o gênero lírico 
mais confunde os alunos do que os capacitam e os formam como leitores literários 
autônomos frente a qualquer texto poético(GUERRA; MARTINI, 2020). 
 
 
 
 
3.2 OS MÚLTIPLOS SENTIDOS DA POESIA 
A poesia é uma criação tão antiga que podemos confundir esse surgimento 
com a própria origem da linguagem humana. Dessa forma, a linguagem poética 
acompanha o homen desde a sua existência e apresenta-se como uma forma de 
arte atual e de grande valor para a humanidade. De diversas maneiras tentou-se 
explicar o significado de poesia, para tanto, Alves (2002, p. 04)exprime que essa 
função não é tão simples assim: 
 
De muitos modos tentou-se explicar a especificidade da poesia, 
contudo essa diversidade se unifica na afirmação de que a poesia é 
uma atividade especial da linguagem verbal. A modernidade, ao 
questionar a produção da obra de arte e a especificidade do sujeito 
estético, provocou, nas diversas áreas da produção artística, 
movimentos de auto-referencialidade, iniciando-se no Romantismo 
um viés crítico que, a partir daí, não mais seria deixado de lado. No 
âmbito literário, não foi diferente e viu-se o interesse crescente de 
avaliar a obra literária na sua produção e mais recentemente na sua 
recepção. Em relação à poesia, acentuou-se nas primeiras décadas 
do século XX a preocupação de explicar os processos de linguagem 
que possibilitam o poema, ainda mais com a maior divulgação dos 
estudos lingüísticos de Ferdinand de Saussure e dos debates 
https://bit.ly/3dpgMoG
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
 
 
empreendidospelos formalistas russos, que fundamentaram o 
desenvolvimento de uma teoria da literatura como ciência do texto. 
 
Se pensarmos a respeito da épica, da lírica e do gênero dramático percebe-
se que cada um delespressupõe uma forma de leitura e de crítica. Diante da poesia, 
o trabalho crítico constitui-se em reunir imagens e estabelecer elos, cujas ligações 
formam um tecido semântico. Há um desenho do imaginário, um trabalho de 
construção da sintaxe imagética textual, buscando um caminho não tão claro, até 
o alcance de uma perspectiva interpretativa (MELLO, 2002). 
Em outras palavras, o mundo da poesia é particular e múltiplo 
concomitantemente. “Ele é singular quando revela o Ser na sua forma única de existir 
e é múltiplo quando é fruto da experiência de mundo vivida” (FERREIRA, 2011, p. 400). 
Por isso, quando o leitor se entrega ao mundo da poesia, ele se torna parte desse 
mundo complexo e belo e, assim, consegue se encontrar dentro de sua cultura 
(FERREIRA, 2011). 
Sabe-se que a poesia é uma atitude artística que nos permite experimentar 
muitas sensações. Isso, porque a poesia abrange diferentes sentidos, atingindo uma 
subjetividade – característica do que é pessoal – que dificilmente será medida. 
Nessa concepção, Mello (2002, p. 55)ainda explica que: 
 
A poesia fala através das imagens poéticas. O poeta, inspirado pela 
natureza, evoca o mundo em sua plenitude, fazendo emergir o 
misterioso aquém da linguagem. O poeta é aquele que fala por todos: 
através dele, exprimi-se a infância da humanidade, presente em cada 
um de nós. O mundo, a humanidade, a natureza falam por intermédio 
do poeta, emitindo imagens. 
 
E nessa tentativa de representação da natureza através das palavras é que a 
poesia multiplica seus sentidosporque ela,para Antônio (ANTONIO, 2002),é “a 
inteligência encarnada na palavra poética é uma dança de significações: nas 
entrelinhas, raramente pensadas, na raiz dos sonhos e das analogias, nos limites do 
pensável e nas margens que se movem; nas vozes outras que não cessam de nascer 
e de transformar-se – A poesia educa enquanto poesia”. 
Para Jesus e Gomes (2020, p. 86): 
 
A poesia desperta nossa subjetividade sensitiva e intelectual por, 
normalmente, exigir uma leitura mais atenta e concentrada. As 
palavras no texto poético não têm compromisso direto com a 
objetividade. Elas podem ser exploradas por suas nuances 
plurissignificativas, que, no processo de recepção, se intensificam a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
36 
 
 
partir das experiências do/a leitor/a, pois o texto não tem existência 
sem as instâncias interpretativas e colaborativas do sujeito que ler. 
 
Dessa forma, “a linguagem poética definiu-se como capacidade ou 
habilidade de recriar o existente, de registrar ou assumir o desejo de deter sua 
passagem e fragilidade, provando a liberdade da criação” (ALVES, 2002, p. 11). Essa 
combinação de palavras, significados e qualidades estéticas através de sentimentos 
e visões do autor, faz com que esse gênero literário seja muito importante para a arte 
literária. Sabe-se também que a poesia é uma das mais antigas formas de arte 
literária, havendo registro de poesias há séculos antes de Cristo. 
 
 
 
3.3 O LIRISMO E A SENSIBILIDADE DA ALMA 
Historicamente entre os séculos XI e XII surgiu o verso medieval, na Região da 
Provença (Sul da França), esse verso ainda estava atrelado a música, mas também 
a escrita. Esse tipo de poesia provou que a língua não precisava submeter-se a regras 
gramaticais. Com o surgimento do Romantismo inicia-se uma lírica poética que oscila 
entre o encantamento da poesia e a expressão inspirada de uma alma (ENDO, 2006). 
Segundo Stalloni (2001, p. 151),“O lirismo é a emanação de um eu – que o 
romantismo gostava de confundir com a pessoa do poeta, mas que pode se apagar 
por detrás de uma de suas personagens”. Pode-se dizer que o gênero lírico é aquele 
que se preocupa demasiadamente com as sensações, com os estados da alma do 
eu lírico (ENDO, 2006). 
Dessa forma, para entendermos o lirismo que há em cada criação poética, 
devemos nos atentar ao conhecimento do termo eu lírico – termo usado na literatura 
e muito importante para extrair a essência poética. 
Nessa concepção, o eu lírico é um termo utilizado para conceber o Ser que 
existe dentro do poema. Esse eu lírico representa e vive toda a subjetividade que 
https://bit.ly/3dmuQiU
 
 
 
 
 
 
 
 
 
37 
 
 
existe dentro da poesia, ou seja, sem ele fica difícil a identificação do interlocutor 
com o que é apresentado na poesia. 
Sobre o eu lírico, Soares(2007, p. 25) deixa bem claro os três principais traços 
líricos: 
 
1º) O eu lírico ganha sempre forma no modo especial de construção 
do poema: na seleção e combinação de palavra, na sintaxe, no 
ritmo, na imagística; 
2º) assim, ele se configura e existe diferentemente em cada texto, 
dirigindo-nos a recepção; 
3º) e, por isso, não se confunde com a pessoa do poeta ( o eu 
biográfico), mesmo quando expresso na primeira pessoa do discurso; 
 
Utilizando esses traços de percepção do lirismo, podemos utilizar como 
exemplo o poema de Vinícius de Moraes “Um poema acentuadamente lírico”, pelo 
qual encontramos características bem acentuadas dos versos líricos. Vinícius de 
Moraes construiu o seguinte poema: 
 
Um poema acentuadamente lírico 
 
Apavorado acordo, em treva. O luar 
É como o espectro do meu sonho em mim 
E sem destino, e louco, sou o mar 
Patético, sonâmbulo e sem fim. 
 
Desço da noite, envolto em sono; e os braços. 
Como ímãs, atraio o firmamento 
Enquanto os bruxos, velhos e devassos 
Assoviam de mim na voz do vento. 
 
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe 
Sem dimensão e sem razão me leva 
Para o silêncio onde o Silêncio dorme 
 
Enorme. E como o mar dentro da treva 
Num constante arremesso largo e aflito 
Eu me espedaço em vão contra o infinito 
 
 
O poema de Vinícius de Moraes traz “Eu poético” que canta a experiência 
angustiada da solidão. Além disso, um dos fortes traços líricos encontra-se na fusão 
entre sujeito e objeto, que pode ser percebido no verso “(...) sou o mar”. No próximo 
verso, as características de um e de outro se misturam – “Patético, sonâmbulo e sem 
fim” – já não sendo possível separar o sujeito da paisagem(SOARES, 2007). 
Ainda, Soares (2007, p. 24-25)minuciosamente faz as seguintes análises sobre 
as fortes características do lirismo romântico nos versos de Vinícius de Moraes: 
https://poetaaaronlino.blogs.sapo.pt/5472.html
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
 
 
Notemos, com estas últimas marcações textuais, que o sujeito 
lírico se faz perceptível, não só quando indicado pela primeira pessoa, 
mas também porque projetado nos arranjos especiais da linguagem. 
A emoção lírica é favorecida ainda pelo predomínio da coordenação 
(veja o acúmulo do conectivo aditivo "e"). E isto se dá porque a 
coordenação impede uma apreensão lógico-circunstancial, própria 
das conexões subordinativas. Destas restam, em poucos momentos, as 
comparativas (segundo, sexto e décimo segundo versos) e uma 
temporal (sétimo verso), quando a fusão se atenua, mantendo-se os 
limites do corpo e da natureza. 
O caráter emocional dos versos intensifica-se pela 
musicalidade que, na forma escolhida do soneto, decorre do 
tratamento melodioso e paralelístico das rimas, do ritmo e das estrofes. 
Os versos estruturam-se em decassílabos, com acento ora marcado 
na quarta, oitava e décima sílabas, ora na sexta e na décima. O 
esquema de rimas é alternado até o décimo segundo verso: ABAB, 
CDCD, EFEF, fechando- se em par — GG —, nos moldes do modelo 
rímico inglês. Complementando sonoramente as imagens de aflição, 
que culminam na simbolização do suicídio, Vinícius lança mão ainda 
de outro tipo de repetições: as aliterações de nasais, sibilantes, 
fricativas e vibrantes e até mesmo de rimas em eco 
("dimensão"/"razão", "dorme"/"Enorme"), a prolongaremestas 
o estado anímico poetizado. 
O emprego do enjambement (que no exemplo citado é constante) 
remete-nos para um transbordamento emocional, com a quebra 
violenta da linearidade frásica. Pode mesmo acontecer, como no 
soneto de Vinícius (do quinto para o sexto versos), que se utilize o 
incompleto como uma das formas de privilegiar a emoção. Com "(...) 
e os braços", o poeta inicia um pensamento que se suspende, na 
prática da mímesis do estado afetivo. E assim, o fragmento, sem exigir 
complementação, mantém o fluir da corrente lírica, nos trazendo, na 
leitura, a sensação de ter evitado o poeta qualquer resistência ao 
fluxo da disposição anímica (estado afetivo que, envolvendo todas as 
coisas, elimina os distanciamentos). 
 
São inúmeros os exemplos de grandes poetas que trazem o lirismo para dentro 
de seus poemas, resultando no desejo de integração entre a emoção e o desejo de 
interpretar o mundo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
39 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. A _______________________ tem como vocação exprimir os sentimentos, os estados 
de espírito do sujeito na sua “interioridade” e em sua “profundidade”, e não a de 
representar o mundo “exterior” e “objetivo”. O lirismo se confunde com a poesia 
“pessoal” e mesmo “intimista”, e privilegia, assim, a introspecção meditativa, o 
mais das vezes em tom melancólico, como indica a moda da elegia (COMBE, 
2010, p.115). 
 
Marque a opção que completa corretamente a frase. 
 
a) Narrativa. 
b) Poesia moderna. 
c) Narrativa mítica. 
d) Poesia lírica. 
e) Literatura. 
 
2. (FUNDATEC/2020 – Adaptada) Assinale a única alternativa que indica um gênero 
literário. 
 
a) Barroco. 
b) Lírico. 
c) Naturalismo. 
d) Romantismo. 
e) Arcadismo. 
 
3. (FUNDATEC/2020 – Adaptada)A poesia de Carlos Drummond de Andrade 
enquadra-se no que podemos chamar de gênero literário. Esse tipo de gênero 
subdividem-se em três categorias. Assinale a alternativa CORRETA que 
corresponda às subdivisões do gênero literário. 
 
a) Gênero Épico, Lírico e Dramático. 
b) Gênero Injuntivo, Expositivo, Descritivo. 
c) Gênero Épico, Injuntivo, Expositivo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
 
d) Gênero Lírico, Dramático e Injuntivo. 
e) Gênero Épico, Mítico e Dramático. 
 
4. O mundo da ____________________________é particular e múltiplo 
concomitantemente. Ele é singular quando revela o Ser na sua forma única de 
existir e é múltiplo quando é fruto da experiência de mundo vivida. Portanto, a 
poesia é a maneira do homem reconhecer o mundo, mas ela só se revela quando 
o homem é aceito pelo mundo. Por isso, ao entregar-se ao mundo, de ser parte 
dele, o homem se percebe dentro da cultura em que está inserido. (FERREIRA, 
2011). 
 
Marque a opção que completa corretamente a frase. 
 
a) Narrativa. 
b) Lírica. 
c) Poesia. 
d) Narrativa épica. 
e) Narrativa mítica. 
 
5. Qual a definição de linguagem poética segundo Alves (2002)? 
 
a) Capacidade ou habilidade de recriar o existente, de registrar ou assumir o desejo 
de deter sua passagem e fragilidade, provando a liberdade da criação. 
b) Capacidade de criar narrativas fantásticas com vários heróis. 
c) Capacidade de criação objetiva, carregando as palavras de sentidos múltiplos. 
d) Capacidade de criação imagética da realidade através de palavras com sentido 
único. 
e) Capacidade de tornar um ambiente real como parte da imaginação utilizando 
descrição objetiva. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
41 
 
 
6. (Prefeitura de Coroados/2018) Leia o poema de Paulo Leminski: 
 
PARADA CARDÍACA 
 
Essa minha secura 
essa falta de sentimento 
não tem ninguém que segure 
vem de dentro 
Vem da zona escura 
donde vem o que sinto 
sinto muito 
sentir é muito lento. 
 
 
Analise a alternativa acerca do poema de Leminski. 
 
I. O poema tem apenas um verso. 
II. Eu lírico mostra o seu descontentamento com a própria falta de sentimentos. 
III. O eu lírico mostra seu sentimento em relação ao ser amado. 
 
Assinale a alternativa CORRETA. 
 
a) Apenas I. 
b) Apenas II. 
c) Apenas III. 
d) As opções II e III. 
e) As opções I e III. 
 
7. O ____________________ é um termo usado dentro da literatura para designar o 
pensamento geral daquele que está narrando um poema. 
 
a) narrador 
b) autor 
c) leitor. 
d) eu lírico. 
e) narrador em primeira pessoa. 
 
8. Mello (2002) ainda explica que a poesia fala através das imagens 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Literatura
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42 
 
 
_________________. 
 
Marque a opção que completa corretamente a frase. 
 
a) líricas. 
b) narrativas. 
c) de mundo. 
d) do fantástico. 
e) irreal. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
43 
 
 
ENTRE HISTÓRIAS, CAUSOS E 
AVENTURAS 
 
 
 
4.1 O HERÓI E SUAS FAÇANHAS GUERREIRAS 
O gênero épico vem de tradições orais de civilizações antigas, 
especificamente originário da Grécia, como menciona Paz (1976, p. 68), “a palavra 
poética funda os povos. Sem épica não há sociedade possível, porque não existe 
sociedade sem heróis em que reconhecer-se”. 
Nesse sentido, no gênero épico verificamos o trabalho com narrativas que 
trazem a figura de um herói que luta fervorosamente por seu povo, pelas pessoas que 
amae nunca abandonando seus valores sociais, religiosos e culturais. 
Quando pensamos na figura do herói, devemos ter em mente as seguintes 
características, como revela Silva (2007, p. 34): 
 
O herói e o relato, vinculados pelo signo da viagem, manifestam 
igualmente, o índice da duplicidade que define a natureza do epos. 
O herói épico caracteriza-se por uma dupla condição existencial, a 
humana e a mítica, e o relato, pelo encadeamento de referenciais 
históricos e simbólicos. A ação épica, representada iconicamente 
pela viagem, normalmente tem início com ela, desenvolve-se no seu 
curso e encerra-se com ela. 
 
Nesse caso, o herói relata em sua trajetória várias façanhas que demonstram 
força, determinação e coragem. É no relato de uma viagem heróica que o gênero 
épico se desenvolve. 
Esse gênero é formado por narrativas e apresentam as seguintes 
características que o constitui: narrador, enredo, personagens, tempo e espaço. 
Todavia, considerar toda e qualquer narrativa como épica não é tão simples 
assim, pois para isso esse texto narrativo deve apresentar personagens heróicose suas 
façanhas extraordinárias. Dessa forma, a presença de uma figura heróica é o que 
diferencia um texto épico e um texto apenas narrativo. 
Entretanto, nesse capítulo não pretendemos traçar uma teorização que 
pretenda explicar esse gênero literário. Para tanto, ao analisarmos textos que 
caracterizem esse gênero, naturalmente será apontado algumas características. 
Pode-se citar, na literatura brasileira, Peri, do romance de O Guarani – José de 
4 UNIDADE
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
 
 
Alencar - como um exemplo de herói medieval. Devemos nos atentar a um pequeno 
fragmento do livro: 
 
Então passou-se sobre esse vasto deserto de água e céu uma cena estupenda, 
heroica, sobre-humana; um espetáculo grandioso, uma sublime loucura. 
Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores 
já cobertas de água, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira nos 
seus braços hirtos, abalou-o até as raízes. 
Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se, inclinaram a haste robusta; e três 
vezes o seu corpo vergou, cedendo a retração violenta da árvore, que voltava ao 
lugar que a natureza lhe havia marcado. 
Luta terrível, espantosa, louca, desvairada: luta da vida contra a matéria; luta do 
homem contra a terra; luta da força contra a imobilidade. 
Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, 
estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo ia 
despedaçar-se nessa distensão horrível: 
Ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou; as 
raízes desprenderam-seda terra já minada profundamente pela torrente. 
 
No excerto acima, verifica-se uma saga de Peri é digna de uma verdadeira 
epopeia. Nesse trecho do livro, o herói indígena consegue, usando apenas a força 
dos baços, arrancar uma grande palmeira para salvar a amada Ceci e a si próprio 
da enchente de um rio. Isso caracteriza a força natural dos heróis épicos. 
Anterior a esse feito mencionado, Peri ainda realiza muitos feitos heróicos em 
sua trajetória épica em O Guarani, pois em sua jornada o mesmo realiza as seguintes 
ações de heroísmo. Rios (2013, p. 03)narra algumas dessas ações: 
 
Desce a uma gruta repleta de serpentes para recuperar o bracelete de Cecília que 
caíra no fosso; enfrenta sozinho a tribo dos aimorés; bebe veneno, num sacrifício 
estratégico para liquidar os aimorés, o que não se concretiza; corre contra o tempo 
realizando uma corrida sobre-humana em busca do antídoto para o veneno; sai ileso, 
com Cecília nos braços, do cerco dos aimorés e do meio das chamas que assolam a 
casa dos Mariz. 
 
Na narrativa épica de O Guarani, observamos a construção de um herói 
épico. Nas ações que foram elencadas como feitos heróicos do índio, esse 
personagem e sua trajetória possuem características típicas de uma epopeia. Peri 
pode ser descrito como nobre; possui grandeza e humildade como atributo; 
reputação de grande guerreiro; é uma lenda em sua cultura e realizou grandes feitos 
por si mesmo e não pela glória. 
O exemplo de Peri é apenas um dos vários heróis épicos construídos ao longo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
45 
 
 
de séculos de narrativas literárias. Para tanto, o herói do romance de José de Alencar 
é uma figura indígena que traz a nacionalidade brasileira ao protagonista épico. 
 
 
4.2 O MITO E O HERÓI 
O herói é um ser em transição, uma personalidade quase mágica que nos 
deslumbra porque personifica o anseio e a figura ideal do ser humano. Ele defende 
a nossa causa e por isso identificamo-nos com ele. Buchaul (2009, p. 06) afirma que 
“a luta do herói possibilita a superação dos medos, compensação das mágoas, 
humilhações e a expressão da raiva. É a transcendência dos impulsos em busca da 
totalidade ou significado”. 
A necessidade de superação do ser humano diante das forças naturais faz 
com que sejam necessários a criação de um herói, e esse “é essencialmente um 
arquétipo, que “nasceu” para suprimir muitas de nossas deficiências psíquicas e 
obedece ao mesmo perfil e modelo nas mais diferentes culturas. É o precursor 
(arquétipo) da humanidade em geral” (BUCHAUL, 2009). 
Dessa forma, esse herói vem com a função de tranquilizar o ser humano diante 
do mundo desconhecido. 
A criação do herói mítico vem de séculos atrás e se confunde com o 
surgimento da própria literatura, ganhando formas e personalidades diferentes ao 
longo da história. Nessa perspectiva, Campbell (1997, p. 14)explica que: 
 
O herói, por conseguinte, é o homem ou mulher que conseguiu vencer 
suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas 
normalmente válidas, humanas. As visões, idéias e inspirações dessas 
pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do 
pensamento humanos. Eis por que falam com eloqüência, não da 
sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração, mas da 
fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce. O 
herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno — 
aperfeiçoado, não específico e universal —, renasceu. Sua segunda e 
solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como o declara Toynbee 
e como o indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao 
nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que 
aprendeu. 
https://bit.ly/3h1mUWv
 
 
 
 
 
 
 
 
 
46 
 
 
 
Também, na modernidade, percebemos a personificação do herói mítico em 
personagens atuais. Temos por exemplo o Superman, que Selerprin (2016, p. 
09)explana as seguintes informações: 
 
Em nossa sociedade, as estruturas míticas estão fortemente presentes 
nas imagens e nos comportamentos que são impostos às pessoas 
através da mídia. As personagens das histórias em quadrinhos trazem 
presentes em seus desenhos e em seus diálogos os heróis 
mitológicos ou folclóricos. Essas personagens encarnam de tal 
maneira os ideais da sociedade que, a qualquer mudança que 
aconteça nas suas formas de agir ou, em casos mais específicos, em 
se tratando da morte de um herói dos quadrinhos, ocasiona 
verdadeiras crises nas pessoas que são leitoras assíduas dessas 
histórias. Como exemplo para ilustrar essa nossa afirmação, usamos 
o exemplo do herói chamado Superman. Esse personagem dos 
quadrinhos tornou­se popular devido a sua dupla identidade. “[...] 
oriundo de um planeta destruído por sua catástrofe, e dotado 
de poderes prodigiosos, ele vive na Terra sob a aparência modesta 
de um jornalista, Clark Kent; Clark se mostra tímido, pagado, 
dominado por sua colega Miriam Lane. Em suma, esse mito do 
Superman, representa os anseios do homem moderno, o qual, 
consciente da sua limitação, sonha com um futuro brilhante, de um vir 
a se tornar alguém importante, um herói. 
 
O que podemos notar é que há uma semelhança muito grande entre as 
histórias dos heróis. Há muitos anos percebe-se as características parecidas entre 
personagens e suas ações heróicas nos mais variados tipos de culturas existentes, e 
isso acontece ao longo da história de humanidade (MÜLLER, 2017). 
Ademais, uma explicação muito satisfatória para essa grande semelhança 
entre as figuras heróicas ao longo dos milênios é apresentada ainda porMüller(2017, 
p. 22): 
 
[...] a ocorrência universal e a semelhança dos motivos míticos do herói 
remontam em toda parte ao fato de que o herói substitui o ser humano 
exemplar, que se esforça por uma renovação social, pelo domínio 
criativo da vida e pela ampliação da consciência. As experiências, 
conflitos e dificuldades ligadas a isso são extremamente semelhantes 
para as pessoas de todas as culturas. 
 
Por fim, essa necessidade do ser humano em criar heróis é antiga, entretanto, 
de acordo com a necessidade de cada sociedade, esses heróis exprimem um pouco 
da cultura de cada povo, mas mantém algumas características que são comuns em 
todas as sociedades do planeta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
47 
 
 
 
 
4.3 A POESIA ÉPICA: A NARRATIVA EM VERSOS 
A épica tem seu nascimento na oralidade ancestral grega, anterior ao século 
XIII a. C., mas nessa época ainda não se tinha essa denominação. O termo ‘épica’ 
provém do grego épos e significa, de modo mais amplo, ‘palavra’, ‘discurso’. Nessa 
época, a métrica poética (hexâmetro datílico) e todas as poesias apresentam 
caráter narrativo ou expositivo (MONTAGNER, 2014). 
Cabe mencionar que a poesia épica é uma das tradições mais antigas dentro 
da literatura, que iniciou-se há séculos antes de Cristo e estende-se até os nossos dias. 
Garbariano (2001) apud Montagner (2014, p. 03)afirmam que “na idade pré-histórica, 
a épica grega era recitada pelos ‘rapsodos’, uma espécie de contadores de histórias 
que se apresentavam nos festins e que também transmitiam para as gerações 
seguintes os próprios cantos e os de outrem”. 
Ainda para o mesmo autor, Montagner (2014, p. 02), o discurso épico nasce 
de um desejo humano, como o mesmo explica na seguinte passagem: 
 
O épos nasce, pois, do desejo de perpetuar a memória de um 
patrimônio de narrativas legendárias nas quais os protagonistas eram 
personagens de elevada estirpe, dotados de virtudes excepcionais e 
capazes de realizar feitos extraordinários. Seria, portanto, evocando o 
passado, uma forma de afirmar e celebrar os valores em que uma 
coletividade, um grupo social, um povo se reconhecem. 
 
Percebe-se que ao longo da história, o ser humano buscou maneiras de 
perpetuação das narrativas orais e a poesia foi uma dessasformas. 
Ademais, passando para um modo mais prático,quando temos um poema 
épico (ou epopeia), temos as seguintes características: proposição ou prólogo: situa 
o leitor ao tema da epopeia e o conhecimento nominal do herói; invocação: 
https://bit.ly/3hKgGuX
 
 
 
 
 
 
 
 
 
48 
 
 
apresenta-se como uma inspiração divina a pedido do autor; dedicatória: o 
momento em que o poeta faz homenagem a alguém que considera importante; 
narrativa: a própria história e momentos importantes do herói em sua trajetória; 
conclusão ou epílogo: a finalização de toda a narrativa épica. 
Utilizando essa estrutura, podemos citar como exemplos de poemas épicos: 
Ilíada e Odisseia, de Homero; Eneida, de Virgílio (70 a. C.-19 a. C.); e Os lusíadas, de 
Luís Vaz de Camões (1524-1580). 
Quando fazemos menção ao Brasil, é válido destacar dois grandes poemas 
épicos: “Caramuru”, de Santa Rita Durão (1722-1784), e “O Uruguai”, de Basílio da 
Gama (1741-1795). 
Dessa forma, analisaremos um trecho do poema “Caramuru”, deFrei José de 
Santa Rita Durão (1722-1784), para percebermos partes da estrutura de uma epopeia 
narrada em versos. 
No poema, o português Diogo Álvares, protagonista da narrativa em versos, 
possui dois elementos essenciais para a configuração de um herói épico: a 
veracidade histórica e o mito criado em torno de sua figura. Além disso, de acordo 
com Biron (2010, p. 43), na construção dessa personagem, avulta o homem histórico, 
que viveu no século XVI, sofreu um naufrágio no litoral da Bahia, foi resgatado por 
uma tribo indígena, casou-se com uma nativa e teve papel importante na catequese 
dos silvícolas. Aprendeu a língua tupi, para a qual traduziu algumas orações e 
práticas católicas, o que lhe possibilitou servir de intermediário entre os nativos e os 
jesuítas. 
Ademais, segundo o autor Biron(2010, p. 43), o protagonista do poema 
Caramuru apresenta uma série de características que fazem do poema de Frei José 
de Santa Rita Durão um poema épico nacional, como podemos perceber no excerto 
seguinte: 
 
Em torno da personagem histórica há alguns atributos míticos, como o 
que sobressai na passagem em que Diogo Álvares, com uma 
espingarda, abate uma ave em pleno voo. Entre assustados e 
maravilhados, os indígenas se apercebem da força do que lhes 
parece inexplicável e, como única resposta, o aclamam “Filho do 
Trovão”, “Caramuru” (nome indígena que significa filho do fogo, 
dragão do mar, dragão que o mar vomita, grande moreia, rio grande, 
e ainda aquele que sabe falar a língua dos índios). Inicia-se, assim, 
com um “espetáculo” de destreza e poder sobrenatural, a sucessão 
de vitórias que irão desenhar, ao longo do poema, a figura heroica de 
Diogo Álvares Correia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
49 
 
 
O poema épico Caramuru apresenta a jornada heróica de Diogo Álvares 
Correiaque, após traçar um longo caminho de feitos altruístas e corajosos, retorna a 
Europa com a índia Paraguaçu. Ao chegar ao continente Europeu, a indígena é 
batizada, o casal é festejado e recebe as honras da realeza. 
Verifica-se, portanto, que o poema mencionado apresenta características da 
poesia épica, estruturado em versos e estrofes, apresenta narrações de ações nobres 
representativos da história de uma determinada cultura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
50 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. O ____________________ vem de tradições orais de civilizações antigas, 
especificamente originário da Grécia, como menciona Octavio Paz (1976, p. 68), 
“a palavra poética funda os povos. Sem épica não há sociedade possível, porque 
não existe sociedade sem heróis em que reconhecer-se”. 
 
Complete a frase com a opção correta. 
 
a) Gênero literário. 
b) Gênero épico. 
c) Gênero lírico. 
d) Gênero mítico. 
e) Gênero poético. 
 
2. Qual das características abaixo relaciona-se ao gênero épico? 
 
a) Crítica à realidade. 
b) Objetividade. 
c) A existência do herói. 
d) Falta de personagem. 
e) Descontinuidade cronológica. 
 
3. Marque a alternativa incorreta em relação a epopeia. 
 
a) A epopeia representa valores da aristocracia. 
b) O objeto da epopeia é o passado heróico. 
c) As ações épicas limitam-se ao presente. 
d) Os heróis épicos possuem uma linhagem, estão imersos em uma tradição. 
e) A fonte das epopeias são as lendas e mitos. 
 
4. Leia as afirmativas abaixo sobre o herói: 
 
I. Ele reúne em si características positivas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
51 
 
 
II. Ele prestigia valores e interesses coletivos. 
III. Ele se isola num mundo privado. 
 
Marque a alternativa correta. 
 
a) Somente I está correta. 
b) Somente II está correta. 
c) Somente III está correta. 
d) As alternativas I e II estão corretas. 
e) As alternativas I e III estão corretas. 
 
5. O gênero narrativo apresenta as seguintes características que o constitui, exceto: 
 
a) Narrador. 
b) Personagens. 
c) Enredo. 
d) Tempo. 
e) Lirismo. 
 
6. Na narrativa épica de O Guarani, observamos a construção de ______________. 
 
a) um herói comum. 
b) um herói épico. 
c) um herói sem prestígio por se índio. 
d) um herói lírico. 
e) um anti-herói. 
 
7. A necessidade do ser humano em criar heróis é antiga, entretanto de acordo com 
a necessidade de cada ____________________, esses heróis exprimem um pouco da 
cultura de cada povo, mas mantêm algumas características que são comuns em 
todas as sociedades do planeta. 
 
Marque a opção que completa corretamente a frase. 
a) Sociedade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
52 
 
 
b) Elite. 
c) Autor. 
d) Momento histórico. 
e) Mudança europeia. 
 
8. Quando temos um poema épico (ou epopeia) temos as seguintes características, 
exceto: 
 
a) Proposição ou prólogo: indicação da temática e menção ao nome do herói. 
b) Invocação: o narrador pede inspiração a um ser divino. 
c) Dedicatória: o poeta dedica sua vitória somente aos reis e nobres. 
d) Narrativa: o relato das aventuras vividas e dos obstáculos vencidos pelo 
protagonista. 
e) Conclusão ou epílogo: o final da história. 
 
 
https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/tipos-de-narrador.htm
 
 
 
 
 
 
 
 
 
53 
 
 
ENTRE ATOS E CENAS 
 
 
 
5.1 LITERATURA E TEATRO 
Toda manifestação teatral e dramática é parte da história humana e da sua 
evolução. Mesmo na pré-história, os homens já faziam uso de máscaras e fantasias 
para atrair uma caça. Nesse momento, já se percebia uma ação de cunho teatral. 
Para Mostaço (2012, p. 02): 
 
É preciso entender, inicialmente, o objeto em estudo. O teatro não é 
o texto dramático, escrito por um autor, na solidão de seu escritório, 
mas sua encenação, um produto coletivo que implica na composição 
de uma equipe que o concretiza no palco, assim como a série de suas 
apresentações para uma audiência. O teatro é uma prática de cena, 
um modo de expressão entre indivíduos, uma cerimônia pública 
complexa que demanda fatores distintos para sua emergência e 
consecução, entre as quais pode ou não existir um texto prévio. 
 
O teatro como uma manifestação da história da humanidade fez parte da 
cultura de vários povos, mas encontrou seu apogeu na Grécia Antiga. Como explica 
Cebulski(2010, p. 12): 
 
As formas dramáticas gregas – a tragédia e a comédia – tiveram 
tamanha força e intensidade no seu tempo, que atravessaram os 
séculos inspirando criações e fornecendo modelos teatrais vindouros 
até chegar à contemporaneidade. Tratava-se de um teatro cívico, 
organizado pelo Estado, com a finalidade de promover o sentimento 
de responsabilidade e o zelo pelas coisas públicas entre os cidadãos 
da pólis, bem como a unidade entre os diversos povos que 
compunham a sociedade grega. A grandiosidade do espetáculo 
mobilizava todos os povos helênicos, que acorriam aos teatros ao ar 
livre para ver e ouvir encenadas as histórias dos seus reis, rainhas, 
heróis, deuses e deusas, além dos seres sobrenaturais que povoavam 
suas crenças religiosas, dandoorigem ao que hoje conhecemos por 
mitologia grega. 
 
A grandiosidade do teatro grego se estende até a contemporaneidade com 
algumas mudanças, mas prevalece sendo uma arte muito importante para a cultura 
de cada sociedade. 
Para tanto, sabe-se que o teatro, inicialmente, surgiu a partir de um texto 
literário. Na verdade, a representação, quando adota a palavra como forma de 
comunicação e interação com o público, torna-se parte da literatura, mas vai 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
54 
 
 
tornando-se distinto na medida em que é representado, originando novos signos, 
novos sentidos e novos olhares. Assim, a literatura e o teatro são produtos culturais 
complementares. Dessa forma, o leitor que desejar conhecer essas expressões 
artísticas, deve exercitar a imaginação para compreender os diferentes significados 
que essas artes apresentam. 
Nesse sentido, a relação entre teatro e literatura advém do entendimento de 
que a encenação cênica é a recriação literária, pois o texto teatral “se alimenta da 
linguagem literária para se erigir como espetáculo” (MOISÉS, 1997). 
Um texto dramático é o início de um grande espetáculo, especialmente na 
contemporaneidade, em que se encontram muitas encenações que não 
dependem de um texto para a sua existência (GRAZIOLI, 2019). 
Nesse sentido, Pavis (2011) apud Grazioli (2019, p. 339): 
 
decorre diretamente do texto: decorre no sentido em que a cena 
atualiza elementos contidos no texto. É até mesmo esse, no fundo, o 
verdadeiro sentido da expressão “encenar um texto”: coloca-se em 
cena, elementos que se acabou de extrair do texto, depois de tê-lo 
lido. O texto é então concebido como uma reserva, ou até mesmo o 
depositário de sentido que a representação tem como missão extrair 
e expressar como se extrai o suco (cênico) da cenoura (textual). 
 
A linguagem literária e a linguagem teatral são complementares e se 
assemelham em alguns aspectos. A primeira é uma arte que trabalha essencialmente 
com recursos de imaginação, pois depende principalmente do potencial de seu 
autor na elaboração de sua narrativa, de seus personagens, de suas ações e tramas. 
Já a segunda, a linguagem teatral, também é uma arte imaginária, sua essência é a 
imaginação de seus atores metamorfoseados que faz a magia teatral (CORREIA, 
2010). 
Nessa perspectiva, quando pensamos no teatro como arte, devemos nos 
atentar para o fato de que a arte teatral é formada por várias outras. E a partir desse 
viés, podemos entendê-la como a materialização visual das produções literárias. 
Assim, quando pensamos o cinema como uma forma de arte, Badiou (1998) apud 
Correia (2010, p. 07) afirmam que “é impossível pensar o cinema fora de um tipo de 
espaço geral onde apreendemos a sua conexão com outras artes”. 
Muitas obras literárias são transformadas em peças teatrais todos os anos. 
Dessa forma, podemos citar algumas adaptações literárias para o teatro: A Casa dos 
Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro; A Cor Púrpura - Alice Walker; Amar, Verbo 
Intransitivo - Mário Andrade; Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus, dentre 
https://www.estantevirtual.com.br/livros/joao-ubaldo-ribeiro/a-casa-dos-budas-ditosos/2370707337?q=A+Casa+dos+Budas+Ditosos+Jo%E3o+Ubaldo+Ribeiro
https://www.estantevirtual.com.br/livros/joao-ubaldo-ribeiro/a-casa-dos-budas-ditosos/2370707337?q=A+Casa+dos+Budas+Ditosos+Jo%E3o+Ubaldo+Ribeiro
https://www.estantevirtual.com.br/livros/alice-walker/a-cor-purpura/2502211768?q=A+Cor+P%FArpura+Alice+Walker
https://www.estantevirtual.com.br/livros/mario-de-andrade/amar-verbo-intransitivo/1653413411?q=Amar+Verbo+Intransitivo+M%E1rio+Andrade
https://www.estantevirtual.com.br/livros/mario-de-andrade/amar-verbo-intransitivo/1653413411?q=Amar+Verbo+Intransitivo+M%E1rio+Andrade
https://www.estantevirtual.com.br/livros/carolina-maria-de-jesus/quarto-de-despejo-diario-de-uma-favelada/3209282564?q=Quarto+de+Despejo+Carolina+Maria+de+Jesus
 
 
 
 
 
 
 
 
 
55 
 
 
muitos outros. 
Em suma, verifica-se que uma das mais antigas manifestações culturais da 
humanidade, o teatro, tem um diálogo próximo com a literatura, por isso sempre que 
assistimos a uma peça teatral podemos descobrir que essa se trata de uma 
adaptação de um romance ou um livro de crônicas. 
 
 
 
5.2 A CONVERSÃO DE TEXTOS PARA A REPRESENTAÇÃO TEATRAL: UMA 
TENDÊNCIA ATUAL 
Há uma tendência atual de adaptar obras literárias para o audiovisual, essas 
adaptações vêm ganhando cada vez mais espaço na indústria dos espetáculos. 
As formas teatrais contemporâneas utilizam textos líricos ou narrativos no lugar 
do texto dramático e com isso ocorre a existência de diversos textos performáticos, 
caracterizados de acordo com seu modo de inserção no espetáculo. Dessa forma, 
alguns desses textos matêm uma linearidade narrativa, outros continuam 
heterogêneos, incompletos e fragmentados (PINHEIRO, 2018). 
Dessa forma, a adaptação é um trabalho autoral em que há a possibilidade 
de percebermos as marcas deixadas pelo adaptador. Essas adaptações precisam e 
devem ser valoradas como produto da cultura letrada, que amplia os horizontes 
culturais para os mais diversos suportes midiáticos, possibilitando assim, uma 
amplitude cultural(DEVIDES, 2018). 
Para exemplificar sobre essa adaptação, podemos utilizar o livro “Quarto de 
despejo” da autora Carolina Maria de Jesus, que foi adaptado para o teatro sob o 
título Eu Amarelo: Carolina Maria de Jesus. Sob esse viés, para realizar a peça teatral 
foi necessário adaptar o texto para o teatro. Dessa forma, Devides (2018) “ao receber 
acréscimos, supressões, mudanças de focos narrativos e de enredo, obteve-se um 
novo texto para um novo suporte, ou seja, obteve-se uma adaptação”. 
https://bit.ly/3dno6kC
 
 
 
 
 
 
 
 
 
56 
 
 
Sobre a adaptação Devides (2018, p. 439)explica que: 
 
adaptação é, portanto, processo e produto. Processo, pois, como ato 
criativo de interpretação de uma obra exige que se coloque em 
marcha uma série de alterações necessárias para que o novo texto 
seja apropriado para o outro suporte que o receberá. (...)Tais 
alterações são de toda ordem, desde narratológicas, quanto 
econômicas, sociais e políticas; elementos estes sumamente 
importantes para analisar e realizar uma adaptação. Produto, 
destarte, é o resultado, por assim dizer, o artefato posto à venda, em 
exposição, ou simplesmente à disposição; quer seja um filme, um 
videogame, uma minissérie de TV, uma ópera, etc. 
 
Um texto relaciona-se com o outro, e ao acontecer essa adaptação desses 
textos para o teatro, por exemplo, devemos conceber essa mudança como uma 
perpetuação dessa obra. Nessa perspectiva, Hutcheon (2011, p. 234): 
 
A adaptação não é vampiresca: ela não retira o sangue de sua fonte, 
abandonando-a para a morte ou já morta, nem é mais pálida que a 
obra adaptada. Ela pode, pelo contrário, manter viva a obra anterior, 
dando-lhe uma sobrevida que esta nunca teria de outra maneira. 
 
Uma adaptação tem potencial para ser a porta de entrada para a mídia 
procedente, não sendo imperioso que primeiro deve-se receber o “original” – o texto 
– para depois experimentar a adaptação. Não há uma regra para apreciar essas 
manifestações da arte. Na verdade podemos compreender essa importância da 
adaptação apresentando múltiplas funções nas inúmeras culturas e tempos históricos 
da civilização humana, demonstrando a potencialidade artística da adaptação 
como transformação(TREBIEN, 2019). 
Entretanto, deve-se atentar ao fato de que embora existam vários espetáculos 
teatrais inspirados ou adaptados de obras literárias, há também a criação de textos 
teatrais que configuram em uma literatura de gênero diverso voltado para o palco. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
57 
 
 
5.3 LITERATURA, TELEVISÃO, CINEMA E STREAMING 
A literatura, a televisão e o cinema, tanto na sua vertente de indústria, quanto 
na artística, apresentam uma importância incontestávelna cultural mundial. Essas três 
formas de cultura atuam como uma representação da narrativa humana. 
Ao longo dos séculos, essas expressões culturais –literatura, televisão e cinema 
– foram se popularizando e tornando-se parte da indústria cultural. 
A indústria cultural, por sua vez, propiciou a expansão dessas expressões da 
arte a todos, transcendendo distinções sociais, étnicas, sexuais, etárias etc. fazendo 
com que surgisse a chamada cultura de massa. 
Coutoet al.(2008, p. 111)menciona o seguinte a respeito da cultura de massa: 
 
E é preciso considerar que muitas vezes essa influência deve ser 
considerada bastante positiva. Basta observarmos o quanto os níveis 
e as distâncias culturais foram sublimadas, não existindo o que é 
estritamente visto por apenas um grupo seleto que dita a estrutura do 
bom gosto. Como nos lembra Eco (1996, p. 45), “[...] o homem que 
assobia Beethoven porque o ouviu pelo rádio já é um homem que, 
embora ao simples nível da melodia, se aproximou de Beethoven.” 
 
O mesmo autor, Couto (2008, p. 113), ainda menciona que, a partir de 1990, 
os avanços das tecnologias digitais e sua crescente popularização propiciaram uma 
crescente mudança na apropriação cultural: 
 
O sistema digital todos-todos rompe barreiras, influencia, condiciona 
e modifica comportamentos cristalizados pelas mídias tradicionais. Na 
abertura das mudanças provocadas, conceitos também são 
modificados pela influência dos meios tecnológicos e suas 
mediações. O objeto central não é mais os meios de comunicação 
em si e nem a recepção das mensagens da mídia por parte dos 
receptores, mas as mediações, ou seja, as relações entre as práticas 
de comunicação e os movimentos sociais, para as diferentes 
temporalidades e para a pluralidade de matrizes culturais. [...] Essas 
mediações são dispositivos técnicos, culturais, sociais e políticos das 
relações entre o receptor e os meios de comunicação. Catalisadores 
de transformações e transposições de um contexto social e cultural. 
De todos e para todos, as tecnologias digitais superam geleiras 
culturais tradicionais das mídias. 
 
Todos os avanços tecnológicos “impulsionados por setores com interesses em 
tornar seu grupo ou nação socioeconomicamente relevantes, são também 
responsáveis por revoluções culturais nos meios midiáticos” Braga (2010) apud 
Acevedo et al. (2020, p. 289). 
Esses progressos da tecnologia e a necessidade de reafirmação de grupos e 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
58 
 
 
expansão de conteúdos fez surgir a tecnologia de streaming (transmissão). Essa 
tecnologia é o que nos permite o acesso e a transmissão de conteúdos pela Internet 
e em tempo real sem a necessidade de armazenamento nos dispositivos pessoais das 
pessoas. 
O crescimento e importância dessa nova tecnologia de transmissão se deve a 
vários fatores, dentre os quaisAcevedo et. al. (2020, p. 289)relaciona-os da seguinte 
forma: 
 
O progresso na tecnologia de suporte à Internet em si, que permitiu 
maior velocidade, qualidade e acesso à população; a popularização 
do smartphone, que permitiu o acesso verdadeiramente portátil à 
informação, dependendo apenas de uma conexão com a internet. 
 
Dessa forma, grande parte da população mundial dispõe de ferramentas para 
obter serviços de streaming e consequentemente acompanharem as transformações 
e popularização dos mais diversos produtos culturais – literatura, televisão e cinema. 
Faz-se necessário, então, analisar separadamente cada uma dessas 
manifestações culturais dentro da era da transmissão em massa. 
Iniciando essa análise pela literatura, verifica-se que a tecnologia digital 
colocou em questão conceitos tradicionais, principalmente por hibridar o erudito 
herdado dos antepassados, com o inédito, que proporciona vivências originais e 
diversificadas. Nesse caso, uma das áreas mais afetadas diz respeito ao livro e às 
práticas de leitura, pois, para além da evolução tecnológica, têm-se as mutações 
culturais.O texto literário na web, por exemplo, desmaterializa-se do livro impresso 
enquanto objeto e passa a integrar a cultura participativa, conectando pessoas a 
partir das ferramentas de interação, partilha e produção, e formando ao seu redor 
uma teia de leitores, com preferências e gostos literários similares(FURTADO, 2018). 
Na perspectiva literária, Furtado (2018)explica que os streamings propiciam ao 
consumidor cultural contemporâneo um padrão de acesso e uso da informação e 
da literatura, colocando em choque a tutela de objetos culturais. O livro, antes objeto 
material, tinha sua posse e preservação priorizada como bem patrimonial, mas agora 
percorre o caminho entre o material e o imaterial, pois seu consumo extrapola a 
compra do artefato físico. Consequentemente, a cultura se apresenta em novos 
suportes. 
Quando passamos a analisar o produto cultural televisivo, Ladeira (2016),em 
Audiovisual, televisão e streaming, menciona que a importância da transmissão por 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
59 
 
 
streaming importa muito para a televisão em termos de desdobramento para o 
futuro. Para tanto, na associação entre Internet e televisão, aquilo que se restringia a 
um único mecanismo passa a tornar parte de um universo mais amplo. 
Sob esse viés, Favoreto (2018, p. 11)explica que: 
 
A televisão e também a internet, foram se firmando como tecnologias 
amplamente utilizadas por sujeitos de todos os padrões, níveis 
hierárquicos etc., entretanto, tais tecnologias não estagnaram, e sim, 
adquiriram novas características que foram se modernizando e se 
adaptando de acordo com os anseios dos consumidores, sendo um 
exemplo claro disso, o advento da tecnologia de streaming, assim 
como o surgimento e amplo incentivo da televisão com transmissão 
digital. Mas essas novas tecnologias, não representam somente um 
avanço em nível tecnológico, conotam também, uma evolução na 
forma de comunicação e de interação entre consumidores e 
produtores e reprodutores dos mais variados tipos de conteúdo. 
 
No que tange a televisão, no futuro é possível que esse produto cultural seja, 
sobretudo, conectado e que abrangerá uma quantidade maior de criadores, 
“indiferente se eles são de emissoras, de provedores de conteúdo, ou de qualquer 
pessoa que crie e compartilhe algo na rede” (FAVORETO, 2018, p. 11). 
Já o cinema na atualidade tem uma pluralidade de conceitos. Ainda hoje, 
muitas pessoas entendem cinema como uma experiência social; assistir a um filme 
em uma ampla sala escura, de regras rígidas de comportamento silencioso, a uma 
experiência com companhia. Em suma, uma experiência coletiva num determinado 
tempo e espaço. Mas, é verdade também, que ver filmes, atualmente, pode ser 
definido através da abertura de um separador no computador, ou carregando no 
botão visual do serviço de televisão que encaminha para o catálogo 
cinematográfico do próprio serviço(MAGALHÃES, 2020 ). 
Segundo Machado e Vélez (2014) apud Azevedo& Rocha (2018, p. 102): 
 
Com o advento das plataformas streaming, os indivíduos puderam 
contar com a autoprogramação, saindo da condição de meros 
espectadores "passivos" para se tornarem interatores. Este novo 
modelo de consumidor exige experiências midiáticas mais fluidas, que 
permitam cada indivíduo compor sua grade de programas e 
possibilite sua maneira particular de interagir com elas. 
 
Essas formas de interação e ampliação dos produtos culturais, no caso do 
cinema, trouxeram uma nova realidade para as pessoas, pois o acesso a esse tipo 
de arte audiovisual tornou-se mais democrática. 
Por fim, ao pensarmos no futuro da literatura, televisão e cinema dentro dos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
60 
 
 
avanços tecnológicos, verifica-se que o surgimento das plataformas de streaming 
também provocou a necessidade de ressignificar as narrativas de modo geral. Não 
se trata do fim no sentido concreto, mas de um processo profundo de mudanças dos 
conceitos. Por contadisso, a hibridização é muito presente, o que vai acontecer é 
um período de mudanças, de experimentação de novos modelos da linguagem e a 
perpetuação das artes de forma menos elitizada (AZEVEDO; ROCHA, 2018). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
61 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. A linguagem literária e a linguagem teatral são __________________ e se 
____________________ em alguns aspectos. 
 
Marque a questão que completa corretamente a frase: 
 
a) Antagônicas / assemelham 
b) Complementares / assemelham 
c) Distintas / confrontam 
d) Antagônicas / confrontam 
e) Complementares / distanciam 
 
2. Uma das mais antigas manifestações culturais da humanidade, o teatro, tem um 
diálogo próximo com a __________________________________, por isso sempre que 
assistimos a uma peça teatral podemos descobrir que essa se trata de uma 
adaptação de um romance ou um livro de crônicas. 
 
a) Linguagem. 
b) Apresentação. 
c) Literatura. 
d) Arte. 
e) Lírica musical. 
 
3. (FEPESE/ 2019 – adaptada) Na linguagem específica do Teatro, existe uma 
diferenciação de nomenclatura que identifica a apropriação do espaço. 
 
O Espaço concretamente perceptível pelo público e que consiste em cada uma 
das unidades de ação de uma peça, ou ainda o lugar onde as personagens se 
movimentam, é reconhecido como espaço 
 
a) lúdico. 
b) cênico. 
c) textual. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
62 
 
 
d) dramático. 
e) imagético. 
 
4. (NUCEPE/UESPI/2019 ) A criação em Arte pode ser desenvolvida com inúmeros 
elementos, inclusive os do cotidiano. Basta olhar em volta para perceber os 
significados, histórias, sons, imagens e outros sinais espalhados pelo mundo. Na 
contemporaneidade, uma metodologia para criação que busca a 
horizontalidade nas relações entre os criadores do espetáculo, prescindindo de 
qualquer hierarquia preestabelecida, denomina-se como 
 
a) criação processual. 
b) criação coletiva. 
c) criação interdisciplinar. 
d) processo transdisciplinar de criação. 
e) processo colaborativo. 
 
5. Embora existam vários espetáculos teatrais inspirados ou adaptados de obras 
literárias, há também a criação de textos teatrais que configuram em uma 
literatura de gênero diverso voltado para o __________________. 
 
a) palco. 
b) cinema. 
c) televisão. 
d) peça escolar. 
e) série. 
 
6. O ____________________________ é um meio que permite que o usuário acesse 
diversos dados, tais como áudios e vídeos, sem necessitar da realização de 
download para a sua execução. A referida tecnologia permite a transmissão em 
tempo real, sendo prescindível a preservação de cópia do arquivo digital em seu 
dispositivo. 
 
a) banda larga 
b) texto literário 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
63 
 
 
c) streaming 
d) site de literatura 
e) download 
 
7. Furtado (2018) explica que os streamings propiciam ao consumidor cultural 
contemporâneo um padrão de acesso e uso da ____________________ e da 
_____________________, colocando em choque a tutela de objetos culturais. 
 
Marque a alternativa que completa a frase corretamente. 
 
a) Informação/literatura. 
b) Informação /cinema. 
c) Literatura/teatro. 
d) Socialização / informação. 
e) Adaptação / literatura. 
 
8. A indústria cultural, por sua vez, propiciou a expansão dessas expressões da arte a 
todos, transcendendo distinções sociais, étnicas, sexuais, etárias etc. fazendo com 
que surgisse a chamada cultura de massa. 
 
Essa afirmação pode ser interpretada da seguinte forma: 
 
a) A indústria cultural proporcionou a perpetuação da elitização dos produtos 
culturais. 
b) Nem todas as pessoas podem ter acesso aos produtos clássicos das artes. 
c) A indústria cultural proporcionou, a um grande número de pessoas, os acessos aos 
mais diversos produtos culturais. 
d) A indústria cultural proporcionou, a um grande número de pessoas, a possibilidade 
de conhecer as artes populares. 
e) A indústria cultural não permitiu, a um grande número de pessoas, o acesso aos 
produtos culturais da literatura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
64 
 
 
ENFIM, OS ESTUDOS LITERÁRIOS 
 
 
 
6.1 O QUE SIGNIFICA ESTUDAR LITERATURA? 
Para sabermos difundir a arte de ensinar, faz-se necessário e indispensável ter 
noções do que se pretende ensinar. Isso vale, naturalmente, também à literatura. 
Para tanto, é necessário procurar entender em que consiste e para que serve a 
literatura, por que devemos estudá-la? 
Inicialmente, podemos pensar a literatura como uma reflexão sobre o mundo 
com características particulares próprias. 
Segundo Leite (1986, p. 46),pode-se listar cinco abrangências da literatura: 
 
1.A literatura como Instituição Nacional e patrimônio cultural. 
2.A literatura como um sistema de obras, autores e públicos. 
3.A literatura como disciplina escolar que se confunde com a história 
literária. 
4.Cada texto consagrado pela crítica como sendo literário. 
5.Qualquer texto mesmo, não consagrado, com intenção literária, 
visível num trabalho da linguagem e da imaginação, ou simplesmente 
esse trabalho como tal. 
 
Nessas concepções, e especialmente no número 5, verifica-se uma utilização 
prática da literatura, isto é, como deve ser feito um trabalho com a linguagem. A 
partir dessa reflexão, o ensino da língua e da literatura, integradas numa mesma 
prática, se faz possível pela invenção livre do texto(LEITE, 1986). 
Outro importante ponto a ser mencionado sobre a literatura é sobre a 
experiência única que acontece ao lermos um texto literário. Nesta perspectiva, 
Lopes (2010, p. 06)menciona que: 
 
Parece-me fundamental refletir, no estudo da literatura, sobre as 
relações entre imaginário, imaginação, realidade e real. O imaginário 
é a herança cultural das comunidades e nações culturais (como as 
entenderam os românticos). De fato, o imaginário constrói o mundo 
como o recebemos e o concebemos. A imaginação, o maior poder 
individual do homem, modifica o próprio imaginário e a recepção do 
mundo (ou leitura do mundo). A realidade é concreto-sensorial. O real 
é conjunção da realidade com o imaginário, a que se pode 
acrescentar a imaginação. 
 
Em outras palavras, o estudo da literatura tem como função a transformação 
UNIDADE
06 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
65 
 
 
do mundo real para o mundo ficcional, e ainda consegue através da palavra 
eternizar todo o conhecimento de mundo que nos cerca. A literatura nos permite 
sermos humanizados através de sua rica experiência (MORAES; BULAMARQUI, 2014). 
Candido (1995, p. 179)traz a seguinte explicação: 
 
Ao confirmar e negar, propor e denunciar, apoiar e combater, a 
literatura possibilita ao homem viver seus problemas de forma 
dialética, tornando-se um "bem incompressível”, pois confirma o 
homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte 
no subconsciente e no inconsciente. 
 
Além disso, nas palavras de Jouve (2012, p. 15)encontramos muitas razões para 
estudar literatura: 
 
A literatura tem um valor específico que confere legitimidade aos 
estudos literários, porque o confronto com as obras enriquece nossa 
existência ao abrir o campo dos possíveis. A literatura, pela liberdade 
que a funda, exprime conteúdos diversos, essenciais e secundários, 
evidentes e problemáticos, coerentes e contraditórios, que 
frequentemente antecipam os conhecimentos vindouros. Em cada 
época, textos estranhos e atípicos nos mostram (ou nos lembram) que 
o ser humano continua sendo um universo com vasta extensão a 
explorar. 
 
Verifica-se, portanto,que o estudo literário é multidisciplinar, pois há várias 
áreas do conhecimento que fazem parte do universo da literatura: Linguística, 
História, Filosofia, Sociologia etc. Entretanto, a arte literária é tão única, que mesmo 
se fazendo parte de várias outras áreas do conhecimento, ainda possui autonomia 
para descrever o mundo de uma maneira bem particular e própria (JOUVE, 2012). 
Mas a pergunta a ser respondida nestaunidade é “por que estudar 
literatura?”Santos e Souza(2008, p. 02)assevera que a importância da literatura é a 
sua capacidade de ser atemporal: 
 
um dos instrumentos de construção teórico - metodológica da 
interpretação da realidade, isto é, tudo o que existe de manei a 
perceptível ou não, a literatura por meio de sua textualidade, ajuda a 
compreender a constituição da vida intelectual e da sociedade 
pertencente a um determinado momento histórico. 
 
Em outras palavras, a literatura é importante para a sociedade porque ela é 
parte da construção histórica e social da humanidade. Há muito conhecimento por 
traz de toda obra literária existente, sendo esse renovado a cada geração de acordo 
com as transformações culturais e históricas que vão surgindo ao longo do tempo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
66 
 
 
 
 
6.2 O QUE FAZ UM PROFISSIONAL ESPECIALIZADO NA ÁREA DA LITERATURA? 
Você sabe o que significa letrólogo? 
Segundo o dicionário, letrólogo é a pessoa que completou a graduação no 
curso de Letras; linguista. Etimologia (origem da palavra letrólogo). Letra do latim 
"littera" + lógos do grego "estudo". 
Nóbrega (2017, p. 01)aponta algumas possibilidades de carreira para esse 
profissional: 
 
O mercado nunca foi tão oportuno aos profissionais de Letras como 
no século XXI. Isso ocorre porque o sistema de produção se baseia em 
redes que requerem o conhecimento linguístico em todas as suas 
etapas. Esse contexto multidirecional de informação realça a 
competência verbal, a produção escrita, a capacidade de ler e 
escrever. Blogs e e-mails são exemplos de tecnologia comunicacional 
com número crescente de usuários. Facebook, Twitter e Instagram são 
redes sociais para troca de opiniões. Além do avanço da tecnologia 
no dia a dia das pessoas, a facilidade das viagens internacionais, a 
turismo, trabalho ou estudo, cria circunstâncias de multilinguismo e 
expande a importância de dominar outras línguas, além da materna. 
Como consequência, todo o contexto da atualidade enfatiza os 
idiomas, objeto de estudo por excelência do curso de Letras, 
juntamente com as respectivas literaturas e culturas. 
 
Também, temos o teórico literário, a atividade desse profissional é mais 
criteriosa, pois esse profissional deve examinar minuciosamente as diferentes criações 
literárias de diferentes autores, e atribuir juízo de valor. Para tanto, essa avaliação 
deve ter caráter objetivo, ou seja, os gostos pessoais desse crítico devem ser deixados 
de lado a fim de que a análise dos materiais escritos sejam efetivas e de valor 
objetivo(ZILBERMAN, 2012). 
Mas, voltando à área da literatura, especificamente, o profissional que se 
apropriar do conhecimento dessa arte, como ciência da existência humana, cumpre 
a função de eternizar o legado em diferentes campos dos conhecimentos pelos 
sujeitos que ousaram, construíram pontes dialógicas e de conhecimento, dos que 
ainda se propõem desbravar novos caminhos na reconstrução de cada marca social 
no percurso da história da humanidade(SOUSA, 2019). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
67 
 
 
O autor Souza (2019, p. 17) ainda acrescenta a respeito do profissional que 
trabalha com a literatura nos âmbitos escolares: 
 
Trabalhar com literatura na sala de aula é, ao mesmo tempo, trazer os 
novos significados humanistas das práticas de ensino, associando-os 
na formação dos sujeitos com as funções que o texto poético é capaz 
de provocar e estabelecer, pois na relação da literatura com o plano 
de formação humanitária a arte literária evidencia em cada parte da 
obra como o leitor promove um descompasso no contexto inerte de 
simples expectador literário para agente protagonista de letramento 
literário. 
 
Ainda nessa perspectiva, cabe ao profissional especializado na área literária 
estar sempre se reinventando, porque na sociedade da informação mudaram-se as 
práticas, os acessos aos múltiplos conhecimentos e com eles transformaram-se as 
formas como as ações de ensinar e aprender literatura têm atingido uma amplitude 
no contexto social em uma proposta humanista. 
 
 
 
6.3 A TEORIA, A CRÍTICA, A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA E A LITERATURA 
COMPARADA: PRENÚNCIOS 
Com as transformações sociais e tecnológicas, o espaço da literatura ficou 
ainda mais amplo. Com isso retorna-se a necessidade reflexiva e prática de atribuir 
ao ato de leitura literária a finalidade de enxergar e entender a literatura como um 
mundo possível de informação e formação de leitores. 
Dessa forma, após delinear um longo caminho sobre a abrangência da 
literatura e a sua importância enquanto arte, trataremos neste subtítulo de algumas 
práticas relacionadas à literatura como um presságio para explicações futuras, ou 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
68 
 
 
seja, a cada avanço nas disciplinas do curso de Letras, esses assuntos serão 
explanados com mais detalhes. 
A teoria literária é uma ciência que prioriza o estudo das manifestações 
literárias, dessa maneira, considerá-la como ciência significa afirmar que 
corresponde a uma área do conhecimento que requer pessoas especializadas – 
peritos (técnicos) detentores de competências especializadas para exercê-la. A 
teoria da literatura deve ser integrada às ciências, porque pertence, em especial,às 
Ciências Humana (ZILBERMAN, 2012). 
A expansão da teoria da literatura, enquanto ciência, deu-se sobretudo no 
século XX, somente quando se difundiu no Ensino Superior. Por isso a literatura 
enquanto arte estudada por uma ciência, requer análise minuciosa e objetiva. Nesse 
viés, a teoria da literatura surge como disciplina literária somente na década de 1940, 
através do tratado universitário de René Welleke. A partir daí, muitas outras 
universidades adotaram essa nova disciplina em suas instituições. 
Já no Brasil, esse novo componente curricular integrou a grade do curso de 
Letras na década de 1960, na Universidade de São Paulo, por realização de Antônio 
Cândido. A crítica literária, embora muito atrelada à teoria da literatura, apresenta 
características próprias de atuação. Dessa maneira, uma crítica literária consiste na 
análise valorativa das obras da literatura. O crítico literário utiliza conhecimentos de 
linguística, retórica e estética, por exemplo, para valorizar as obras literárias, pois essa 
crítica deve ser fundamentada para que sua valoração seja respeitada. 
Atualmente, a crítica literária acadêmica fundamenta-se na imparcialidade e 
na independência do ato crítico nas relações mantidas principalmente com o 
mercado, uma vez que essa crítica não pode ceder aos interesses empresariais, não 
podendo ser objeto de monopólio. 
Entretanto, quando fazemos menção a outro tipo de crítica, que é a 
jornalística, encontramos diferentes meios de atuação. A crítica jornalística possui um 
campo de atuação bem amplo, para tanto, esse tipo de parecer sobre as obras 
costuma ser parcial e subjetivo ao explorar um produto cultural. Na verdade, muitas 
das vezes esse tipo de crítica obedece às demandas de mercado, ou seja, muitos 
dos julgamentos lançados à população são para operar a valoração de alguma 
obra para venda ou consumo em massa. 
A historiografia literária, por sua vez, é “o exercício de reflexão sobre obras 
históricas e, portanto, sobre a produção dos historiadores” (KAVAT, 2009, p. 119). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
69 
 
 
Dessa forma, alguns questionamentos são elencados por Schmidt (2011, p. 
132)para que seja construída uma trajetória historiográfica da literatura: 
 
se a narrativa da história da literatura constitui uma forma mental com 
a qual a cultura aclara seu passado, que compromissos a história da 
literatura tem com a produção de conhecimentos sobre esse 
passado? Qual a função hoje da história da literatura enquanto 
narrativa partícipe de processos de significação e de subjetivação, 
lugar de identificações culturais/ identidades nacionais? Será que sua 
função se esgotouou se trata de conceber quadros de referência 
para uma nova história da literatura a partir do protagonismo das 
margens, o qual se torna visível à medida que as pesquisas históricas 
sobre o passado e a conseqüente recuperação de textos situados nas 
zonas de sombra e esquecimento desvelam outras leituras, outras 
perspectivas, em contraponto às conhecidas? Em que termos poderia 
se conceber uma história da literatura, a partir da reflexão crítica sobre 
a função do conhecimento em termos de sua atuação 
transformadora e emancipatória, sobretudo num contexto 
social/nacional como o nosso? 
 
Por fim, a literatura comparada, que inicialmente surgiu, segundo Carvalhal 
(2006), a partir da comparação entre duas literaturas diferentes ou perseguia a 
migração de um elemento literário de um campo literário a outro, hoje seu campo 
de atuação ampliou largamente. Essa ampliação tornou a literatura comparada 
uma forma de reflexão que vai privilegiar confrontos que versam sobre os 
procedimentos textuais. Como exemplo, podemos citar as comparações da 
literatura com os escritos históricos, que analisam a presença em ambos de esquemas 
narrativos semelhantes. Vista assim, é uma prática intelectual que, sem deixar de ter 
no literário o seu objeto central, confronta-o com outras formas de expressão cultural. 
Em suma, toda essa dinâmica dos conhecimentos literários serão temas 
trabalhados nas próximas disciplinas no curso de Letras, sendo essas informações 
apenas o início de muito aprendizado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
70 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. O estudo da literatura pode ser entendido como força _______________________ 
que tem entre suas funções a reelaboração do real por meio da ficção e o 
conhecimento do mundo e do ser por meio da palavra. 
 
Marque a alternativa que completa corretamente a frase. 
 
a) Icônica. 
b) Antagônica. 
c) Humanizadora. 
d) Elitizada. 
e) Híbrida. 
 
2. O _____________________ passa necessariamente por saberes e noções de outras 
áreas, tais como a Linguística, a História, a Sociologia, a Filosofia etc. 
 
Marque a alternativa que completa corretamente a frase. 
 
a) Conhecimento artístico. 
b) Estudo literário. 
c) Estudo das artes. 
d) Conhecimento da linguagem. 
e) Conhecimento histográfico. 
 
3. O que é teoria literária? 
 
a) É uma ciência que prioriza o estudo das manifestações literárias. 
b) É uma disciplina voltada para o ensino de poemas. 
c) É uma ciência que prioriza o estudo das manifestações literárias clássicas. 
d) É uma ciência que não prioriza o estudo das manifestações literárias, pois atenta-
se a gramática. 
e) É uma ciência que trabalha somente com as manifestações literárias europeias. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
71 
 
 
4. Como podemos entender a crítica literária? 
 
a) Uma crítica literária consiste na análise valorativa das obras da literatura, 
buscando analisar essas obras de maneira subjetiva. 
b) Uma crítica literária consiste na análise valorativa das obras da literatura, 
buscando analisar essas obras de maneira informal e com julgamentos próprios. 
c) Uma crítica literária consiste na análise valorativa das obras da literatura, 
buscando somente obras clássicas. 
d) Uma crítica literária consiste na análise valorativa das obras da literatura. 
e) Uma crítica literária consiste na análise valorativa das obras da literatura, de 
acordo com o mercado de leitores. 
 
5. A ___________________ é uma forma de reflexão que vai privilegiar confrontos que 
versam sobre os procedimentos textuais. 
Marque a alternativa que completa corretamente a frase. 
 
a) Análise cultural. 
b) Literatura comparada. 
c) Crítica literária. 
d) Leitura. 
e) Historiografia. 
 
6. Segundo Silva (2018), a crítica literária fundamenta-se na __________________ e na 
_______________________ do ato crítico nas relações mantidas principalmente com 
o mercado, uma vez que essa crítica não pode ceder aos interesses empresariais, 
não podendo ser objeto de monopólio. 
 
Marque a alternativa que completa corretamente a frase. 
 
a) Parcialidade / dependência. 
b) Imparcialidade / dependência. 
c) Imparcialidade / independência. 
d) Observação / dependência. 
e) Parcialidade / observação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
72 
 
 
7. Marque a alternativa correta quanto a atuação do crítico literário. 
 
a) Deve atuar de forma imparcial, mas deve privilegiar algumas criações para o 
mercado de trabalho. 
b) Deve atuar de forma parcial, mas deve abster-se de usar seus conhecimentos para 
privilegiar algumas criações dentro do mercado de trabalho. 
c) Deve atuar de forma imparcial e trabalhar com isonomia diante das várias 
criações que surgem. 
d) Deve trabalhar de forma parcial, quanto se tratar do mercado leitor, e ao mesmo 
tempo com isonomia. 
e) Deve trabalhar subjetiva, avaliando suas criações através de seus gostos pessoais. 
 
8. Marque a alternativa em que todas as áreas são possibilidades de carreira para o 
profissional de Letras: 
 
a) Tradução, interpretação, Produções textuais. 
b) Cálculos, cinema, tradução. 
c) Lógica aplicada, interpretação, cinema. 
d) Cálculo, lógica, revisão. 
e) Designer, teatro, revisão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
73 
 
 
A POESIA BRASILEIRA 
NA ERA COLONIAL 
 
 
 
7.1 O BARROCO 
A produção da literatura brasileira apresenta seus primórdios – como não 
poderia deixar de ser – em um contexto colonial e advém dos reflexos da portuguesa, 
haja vista que o Brasil, por muitos séculos, se manteve dependente de Portugal, país 
já consolidado em sua produção literária. Além disso, a história da literatura 
construída no nosso país é fruto de vários aspectos sociais, culturais e religiosos da 
época, haja vista os primeiros habitantes que aqui residiam e os acontecimentos 
coloniais que originaram uma literatura genuinamente brasileira. 
No que tange à função da literatura que vai sendo construída no país, sem 
dúvida, a religiosidade assegura importante fio condutor desse tecido de cunho 
criativo, em que os estilos e temáticas servem de instrumentos, como por exemplo, 
para catequisar os índios e pregar uma moral cristã, especialmente nos primeiros 
séculos dessa escrita criativa. Destaca-se, nesse viés inaugural da literatura pós-
descobrimento, a Companhia de Jesus, já no século XVI, com a função de diluir a 
doutrina cristã pelo país-colônia, pelos jesuítas e por meio da docência nos colégios 
(CANDIDO, 2002). 
Nessa perspectiva, os colonizadores trouxeram não apenas a língua que seria 
herdada pelos povos da colônia, mas também valores religiosos, morais e estéticos, 
em que as práticas de catequização e a educação serviram de pano de fundo para 
a construção de uma literatura brasileira. Nesse contexto, as práticas europeias eram 
evidentes, em especial no que se convencionou a denominar escolas literárias que, 
no caso do Brasil, após o Quinhentismo, ou Literatura de Informação, o Barroco (ou 
Seiscentismo) é instaurado como uma primeira grande escola, de modo a acontecer 
em sintonia com os estilos adotados na Europa. 
 
UNIDADE 
 
07 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
74 
 
 
 
 
 
 
Portanto, os primórdios de uma construção poética mais considerável e 
propagada no país se dá com o estilo Barroco que, como qualquer outra escola 
literária, a escrita acompanha sempre os costumes, acontecimentos políticos, 
práticas culturais e religiosas que norteiam a engrenagem literária. São as condições 
de possibilidade para a compreensão de um determinado estilo e que há, na escrita, 
em especial na poética, esses elementos vivenciados de uma época específica. É 
esse viés que nos possibilita afirmar que a literatura pode funcionar como denúncia 
social, o que talvez seja proibido de se dizer diretamente em certa época, a escrita 
se constitui uma forma mais “suave” para uma expressão de resistência ou mais 
realista. 
Segundo Pasqualini (2012), aspectos encontradose instaurados no novo 
espaço, que é o Brasil, se fazem produtivos para a construção poética, como 
geográfico, culinário, as relações humanas, que se traduziram em estilo próprio. Dessa 
forma, embora é inegável que o que se aqui criou advém em grande parte das 
doutrinas europeias, foi preciso criar um estilo próprio, singular, não aderindo-se às 
mesmas formas de Portugal, haja vista as necessidades locais para uma nova 
realidade. 
Desta feita, a poesia nos moldes do estilo Barroco apresenta como pano de 
fundo os movimentos Reforma Protestante e Contrarreforma, cuja efervescência 
https://bit.ly/3Ot2yDT
 
 
 
 
 
 
 
 
 
75 
 
 
europeia promove esse horizonte literário que vai se conduzindo nesses 
entrecruzamentos culturais como a tendência da época. Aspectos marcantes nessa 
escrita, como contraste, exuberância, dramaticidade e o decorativo vão povoando 
essa escola, que no interior desse movimento vão surgindo escritores brasileiros com 
destaque na poesia. 
No que concerne à Reforma Protestante, liderada por Martinho Lutero, na 
Europa, no século XVI, afirma-se que o Barroco é instaurado como potencial de força 
contra esse movimento. Nesse processo, a conservação do teocentrismo (Deus como 
centro do Universo), que era fortemente propagado ao longo da era da Idade 
Média, era reacendido pela arte barroca. Essa característica pode ser observada em 
grande parte nas poesias dessa época, tendo a religiosidade como uma de suas 
marcas para sustentação, como os sermões do Pe. Antônio Vieira. 
Embora o Barroco no Brasil emerge de cara nova, mas não totalmente 
desvinculado do europeu, é preciso considerar que esse estilo literário chega por aqui 
em tempos muito posteriores de seu início europeu. Aqui, essa prática literária se dá 
somente no século XVI, portanto, aproximadamente um século após o processo de 
colonização do país. Nesse período histórico, faz sentido considerar alguns elementos 
decisivos que demarcam essa produção poética, a saber: a valorização da terra, a 
luta dos residentes por uma economia própria, o amor por aquilo que era tido como 
nosso. Essas características próprias propiciaram então a criação de um estilo que, 
embora suas raízes se assentassem nas tradições portuguesas, possibilitaram uma 
escrita tipicamente voltada aos valores brasileiros da época. Nessa perspectiva, “[...] 
as primeiras manifestações literárias que exprimiriam um gênero nacional, movido 
pela mesma atmosfera que envolvia o Barroco, ou seja, de insegurança existencial, 
de efemeridade dos bens mundanos e da busca de Deus” (PASQUALINI, 2012, p. 67). 
Além das características já mencionadas, a poesia barroca apresenta como 
pano de fundo alguns aspectos que merecem atenção e que não estão 
desvinculados do contexto histórico de sua época, tais como o conflito entre os 
prazeres mundanos, que são fortemente valorizados no renascimento, e a 
espiritualidade, que se encontra latente na Contrarreforma. Essa dualidade pode ser 
percebida tanto na poesia quanto em obras de esculturas e pinturas, cujo sentimento 
de aspectos contraditórios obrigam o homem a escolher um dos caminhos, não 
sendo permitido permanecer sob essa divisão de valores. Essa característica é 
semelhante ao contraste sombra e luz que entra em cena como norteador desse 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
76 
 
 
estilo dual e palavras opostas, como, por exemplo, Deus e Diabo. 
No que concerne especificamente à escrita poética, os escritores barrocos 
lançam mão de uma linguagem bastante culta, por meio de um vocabulário 
sofisticado. Além disso, algumas figuras de estilo são bastante recorrentes, 
especialmente no que concerne à hipérbole (exagero) e à metáfora. Concernente 
a essa escrita culta, a riqueza de detalhes também vai nessa direção, em que a 
complexidade se constitui uma dessas marcas adotadas, haja vista que a valorização 
estética é aclamada nesse estilo. 
Quanto à inauguração barroca brasileira e seus escritores seguintes, a 
Prosopopeia, de Bento Teixeira, é considerada a primeira epopeia brasileira, escrita 
em 1961 usando a estética de rimas ABABABCC, cujo conteúdo exalta Jorge de 
Albuquerque Coelho, um dos donatários pernambucanos, como afirma Coutinho 
(2004a). Além desse, outros poetas também se destacam nesse período, em especial 
Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco brasileiro, o qual será 
abordado na seção seguinte. 
 
7.2 GREGÓRIO DE MATOS 
Como mencionado anteriormente, o Barroco é marcado por um estilo que 
coloca em cena aspectos contrastantes, tendo a religiosidade como demarcador 
dessa dualidade constituinte. Essa característica é comprovadamente assinalada na 
poesia brasileira do período, haja vista que fenômenos fortemente ocorridos na 
Europa, tais como a Reforma e a Contrarreforma, além da Companhia de Jesus, 
refletem na poesia brasileira quanto à forma (soneto, rimas e métrica (decassílabos – 
versos compostos por dez sílabas poéticas) e ao conteúdo. 
Nesse espírito de dualidade da época barroca, que apresenta um homem 
dividido entre os prazeres da carne e a devoção a Deus, surge Gregório de Matos 
(1633-1696), como sendo um dos poetas mais renomados do Barroco brasileiro. 
Segundo Nicola (2003), o referido escritor nasceu em Salvador-BA, tendo estudado e 
trabalhado na área do Direito, em Portugal, mais precisamente na cidade de 
Coimbra, e que posteriormente retornou à terra natal. O referido poeta foi apelidado 
de “Boca do Inferno”, devido ao seu estilo satírico de compor poemas. 
Embora fosse um poema aclamado no estilo da época, Gregório foi 
deportado para a África em meados de sua carreira como poeta. Quando de seu 
retorno ao Brasil, foi restringido de retornar à sua terra natal, Bahia, além de ser 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
77 
 
 
proibido de escrever seus poemas que se traduziam em verdadeiras sátiras. Esses 
poemas satíricos nada mais são que a utilização de uma linguagem mais direta em 
relação às críticas sociais, políticas e culturais de grande presença da época, 
podendo ser comparados até mesmo com as cantigas de escárnio e de maldizer 
que se observam na Europa na época do Trovadorismo. 
Seus últimos dias de vida não foi em terras fora do Nordeste, tendo falecido na 
capital pernambucana. Sua fama de poeta satírico não o reduziu a valores da 
literatura da época, pois esse poeta se dedicou também à escrita utilizando aspectos 
lírico e religioso. Embora tenha vivido seu auge na escrita somente no século XVII, no 
século XX a Academia Brasileira de Letras tornou pública uma coleção de escritos de 
sua autoria, dentro de seus vários estilos de expressão que aderiu ao longo de sua 
vida produtiva (estilos sacro, lírico, satírico e erótico). 
A utilização de uma linguagem culta, como mencionado nesta unidade, é 
uma característica manifesta na poesia barroca e na gregoriana não é diferente, 
pois esse escritor lança mão de um vocabulário rebuscado, culto, que requer do leitor 
um preparo mais apurado para acessar, à primeira vista, as suas poesias. Explora 
também outras vertentes da linguagem, em especial no que diz respeito às ideias, de 
modo que seus argumentos convençam o leitor. 
A sua rejeição, comprovada pela proibição de retornar à sua terra natal, pode 
ser atribuída pelo tom satírico que escreve. Por outro lado, é preciso tomá-lo como 
aquele que escreve, na maioria das vezes, utilizando um tema espinhoso e primando 
pela verdade, o dizer a verdade, seja de modo indireto ou mais direto, que acabava 
por atingir sujeitos sociais de várias esferas (governo, Igreja Católica, etc.). Assim, “[...] 
o poeta se define como aquele que denuncia os vícios do seu tempo, a 
desonestidade e a corrupção. É conhecido também por marcar nossa literatura com 
temas que versam sobre a transitoriedade e a perda” (PASQUALINI, 2012, p. 70). 
Para ilustrar a obra de Gregório de Matos de forma mais nítida, segue um de 
seus poemas, para uma breve explanaçãoem relação às características tanto do 
Barroco quanto do estilo próprio do poeta: 
 
A/ bre/vi/da/de/ dos/ gos/tos/ da/ vi/da 
 
Nas/ce o/ Sol;/ e/ não/ du/ra /mais/ que um/ di/a: 
De/pois/ da /Luz, /se/ se/gue a/ noi/te es/cu/ra: 
Em/ tris/tes/ som/bras/ mor/re a/ For/mo/su/ra; 
Em/ com/tí/nuas/ tris/te/zas/ a a/le/gri/a. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
78 
 
 
Po/rém, /se a/ca/ba o/ Sol/, /por/ que/ nas/ci/a? 
Se/ for/mo/sa a/ Luz/ é/, por/ que/ não/ du/ra? 
Co/mo a/ be/le/za as/sim/ se/ trans/fi/gu/ra? 
Co/mo o/ gos/to/, da/ pe/na as/sim/ se/ fi/a? 
 
Mas/ no/ Sol/, e/ na/ Luz/, fal/te a/ fir/me/za; 
Na/ For/mo/su/ra/, não/ se/ dê/ cons/tân/cia: 
E/ na a/le/gri/a/, sin/ta-/se a/ tris/te/za. 
 
Co/me/ce o/ mun/do, em/fim/, pe/la ig/no/rân/cia; 
Pois/ tem/ qual/quer/ dos/ bens/, por/ na/tu/re/za, 
A/ fir/me/za/ so/men/te/ na in/cons/tân/cia. 
(MATOS, 1979, p. 64) 
 
 
 
Nesse soneto, com versos decassílabos e rimas ABBA BAAB CDC DCD, o leitor 
é convidado a questionar, juntamente com o poeta, a efemeridade das coisas 
mundanas, pela sensação de vida que nos coloca frente a uma situação que é 
passageira e que nos leva a indagar sobre o belo e o vivo diante do que é passageiro, 
que não dura para sempre. Palavras que configuras dualismos podem ser 
observadas, tais como nascimento/morte, tristeza/alegria, luz/escuridão. 
Nessas circunstâncias da vida, o homem é colocado diante de circunstâncias 
contraditórias, fazendo emergir na escrita de Matos a antítese, presente forte na 
poesia barroca. Para além disso, essas contradições sinalizam os sentimentos 
humanos da época, marcados pelas incertezas, certos pessimismos e 
questionamentos sobre a própria vida terrena. 
Segundo Veríssimo (1998), na escrita de Matos, há a presença constante de 
traços baianos, lugar de origem do poeta, servindo como referência para sua obra, 
que incluía com recorrência os habitantes daquele lugar. O encerramento das 
estrofes de seus poemas detém outra curiosidade peculiar, que é a menção de uma 
perda dos valores em decorrência das práticas governamentais, que não se atentam 
para as causas do povo baiano e lhe provocam ocorrências negativas. De acordo 
com o pesquisador destacado, essas nuances poéticas colocam o referido poeta 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
79 
 
 
como uma importante figura no tocante a exprimir a realidade de uma sociedade, 
retratando a realidade de acordo com os acontecimentos no período histórico 
vigente. 
Após o período denominado Barroco, entra em cena o Arcadismo, que se 
configura por ser considerada outra escola literária e a qual será abordada na seção 
seguinte, na dimensão dos estudos poéticos brasileiros. 
 
7.3 O ARCADISMO E O MOVIMENTO DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA 
As escolas literárias brasileiras, ao contrário do que se possa imaginar em 
relação aos períodos que marcam o fim de uma e o início de outra, não se dá de 
modo tão demarcado, tendo em vista que se trata de uma transformação vagarosa. 
É preciso ter em mente que cada uma delas acompanha as transformações ao longo 
da história e que as tendências se baseiam nas condições (sociais, políticas, culturais 
e religiosas) de cada momento. 
Por outro lado, há de se considerar também os movimentos nesse segmento, 
isto é, as transformações mais aparentes que ocorrem de forma mais visível na 
sociedade, nesse universo da escrita que quase sempre retrata os valores e os 
costumes de cada época. Considerando essa dimensão de mutação nessa esfera 
cultural, para fins de estudo e seguindo uma cronologia quanto a essas alterações 
de estilos e temáticas que dão vida à escrita em distintos momentos da literatura 
brasileira, o Arcadismo emerge após o Barroco e que também se enquadra na era 
colonial. 
Um fenômeno histórico bastante conhecido, difundido não apenas nos 
estudos literários, mas também históricos, sem dúvida é o Iluminismo, pelo qual 
ocorrem novas manifestações artísticas e o surgimento de novos artistas/pensadores, 
direcionando a literatura para um horizonte que viria a se concretizar posteriormente. 
O Arcadismo, que difere do Barroco em várias características, sendo a central a 
concepção de uma razão que legitima o status de verdade. 
Trata-se de um período considerável quando o foco é a valorização da 
burguesia e a busca de certos aspectos que não se encontravam no auge em 
períodos anteriores, tais como a justiça, a liberdade e a solidariedade. Com base nos 
ideais europeus, o iluminismo resultava em ideais aclamados na época, como, por 
exemplo, a redução do analfabetismo, modelo da Europa que seria conveniente que 
se aderisse no Brasil, embora a educação formal ainda fosse acessível a poucos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
80 
 
 
(SAMBUGAR et al., 1997). 
Estamos falando do século XVIII, período efervescente na história, sobretudo 
europeia, ocorrendo fenômenos políticos e sociais consideráveis, como a Revolução 
Francesa, que instaurou um novo modelo de sociedade, interditando o privilégio da 
nobreza. Destaque para Napoleão Bonaparte, jovem que conquista distintas classes, 
como a burguesia e intelectuais, que clamavam por liberdade, vindo a ser, 
posteriormente, imperador francês. Além disso, no âmbito produtivo e econômico, 
ocorre a Revolução Industrial, refletindo nos modos de produção e de relações 
trabalhistas, além de mudanças sociais. Nesse período, a ascensão burguesa é nítida, 
devida em boa parte à propagação de opiniões, pelo crescimento dos meios de 
comunicação. 
Esses acontecimentos, que marcam a sociedade desse período, vão ao 
encontro das ideias iluministas, em que a sociedade clama por uma vida simples e 
por transformação cultural, inclusive literária. Em se tratando dos métodos científicos, 
estes ganham importância, devendo ser vistos e tomados como modelos de 
comprovação, de modo exclusivo. A racionalidade é então levada a cabo no 
Arcadismo que, ao contrário da fase barroca, abandona a religiosidade em prol de 
um tratamento mais real frente às situações cotidianas. 
Esses acontecimentos mais gerais não deixam de refletir na política e a 
economia brasileiras, mas o que mais marca a história brasileira nesse período, sem 
dúvida é a Inconfidência Mineira. Uma sucessão de ocorrências vem a ser sua causa, 
iniciando-se com a escassez da exploração de minérios no país, ampliando as dívidas 
brasileiras com a coroa portuguesa, pressionando medidas como cobrança de 
impostos e pressões administrativas sobre a colônia, resultando em ideias de 
independência brasileira em relação a Portugal, fruto também das ideias iluministas. 
Nesses conflitos, surge o líder Tiradentes, que é morto enforcado, colocando a 
liberdade brasileira em segundo plano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
81 
 
 
 
 
Segundo Pasqualini (2012), esse movimento, embora não signifique uma 
revolução vitoriosa, é marcado historicamente por apresentar reflexos positivos na 
literatura brasileira. Esse acontecimento serviu de pano de fundo para o surgimento 
de vários poetas integrantes do Arcadismo, em que se sonhava com uma República 
brasileira. Após esses fatos históricos da colônia, a cidade de Ouro Preto (na época 
Vila Rica) é sede de um grupo de líderes com ideias iluministas e que ansiavam por 
uma revolução, uma liberdade política e literária brasileira. A literatura é então 
valorizada, pois é sentida como uma possibilidade de aproximação entre indivíduos 
e de se promover movimentos, como chegam a ocorrer, de modo a agregar opiniões 
sobre os ideais nacionais e a nova literatura. 
O termo Arcadismo advém das Arcádias, para as quais os poetas se 
convergem, além das Academias. Esses movimentos estimulam a produção literária 
nacional e conferem uma união entre artistas de vários segmentos, desde a poesia 
até a pintura e a escultura, como formas de expressão e de liberdade. Esses 
movimentos de articulação em prol de uma prática artística de modo mais conjunto 
possibilita a criação deum estilo literário que valorizava a estética, tendo em vista as 
ideologias que circunscreviam na população do século XVIII. Essas mobilizações 
possibilitam, assim, a instauração do Arcadismo como estilo literário com potencial, 
sendo o “sistema literário” desse período (CANDIDO, 1959). 
Covenhamos destacar a Arcádia Ultramarina, que nada mais é que uma 
sociedade literária que apresenta seus primórdios em Vila Rica (MG), que toma como 
base a Arcádia Romana, sendo comum a adoção de pseudônimos para a escrita 
de poesia. Tendo surgida no Brasil em meados do século XVIII, essa arcádia é 
inspirada nos renascentistas, filosofia francesa, além dos clássicos gregos e latinos. 
Além disso, o Arcadismo apresenta forte ligação com a música, tanto em Portugal 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
82 
 
 
quanto no Brasil, sendo que, em muitas ocasiões dos saraus e nas reuniões das 
Arcádias, as letras musicais (cantigas) eram as poesias dos poetas, com destaque 
para a modinha com auxílio do lundu (dança originada dos negros e dos congos). 
Algumas sinalizações de suas características já foram feitas, mas, 
direcionando-se para essas marcas estilísticas, pode-se dizer que o Arcadismo é 
povoado por verossimilhança, excluindo o que só existe pelo imaginário, isto é, de 
cunho mais subjetivo. A valorização da natureza é outro ponto forte dessa literatura, 
que procura descrever, de forma breve, aspectos da natureza, o bucólico (poesia 
pastoril), um ritmo suave e valorização de imagens. Essas evidências estabelecem 
uma relação mais próxima entre homem, literatura e natureza, através do bucolismo, 
em que o verdadeiro é o racional, como exposto na concepção iluminista de que a 
verdade só deve ser concebida pela ciência. 
A valorização da natureza direciona a sociedade/o poeta ao espaço 
camponês, natural, pois o espaço urbano não oferece esse conforto. Nessa 
concepção, é preciso se abster as vaidades burguesas para seu alcance, para uma 
vida simples e livre de vaidades urbanas, cujo ideal é fugir para um lugar tranquilo em 
que a natureza possa reinar (COUTINHO, 2004b). Embora a racionalidade é bastante 
privilegiada nesse estilo poético, é preciso afirmar que nem sempre o poeta descrevia 
as paisagens naturais tais como eram de fato, fazendo um trabalho de idealização 
da natureza. 
Nesse momento rico da poesia brasileira, vários escritores surgem e são 
produtivos nesse cenário, como Silva Alvarenga (1749-1814), Santa Rita Durão (1722-
1784), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1742-1793), com destaque 
para dois em específico, Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio 
Gonzaga (1744-1810). Para um conhecimento mais detalhado dessa fase literária 
brasileira, seguem uma abordagem mais esmiuçada desses poetas, inclusive com 
análises de alguns de seus poemas, possibilitando uma visão mais nítida das 
características descritas. 
Segundo Pasqualini (2012), Cláudio Manuel da Costa nasceu em Vila Rica, em 
Minas Gerais, e passa uma temporada em Portugal, onde estuda Direito na 
Universidade de Coimbra e nesse local dá seus primeiros passos na poesia. Quando 
de seu retorno ao Brasil e à sua terra natal, trabalha na área administrativa e depois 
é preso por integrar o movimento da Inconfidência Mineira, resultando em sua morte 
em 1789. Essa morte gera polêmica por não se saber ao certo o que aconteceu, pois, 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
83 
 
 
o mistério levantou hipóteses diferentes, em suicídio e homicídio. 
Esse poeta, embora integrante do Arcadismo, apresenta uma escrita com 
traços barrocos, tais como metáforas e linguagem rebuscada. Vejamos um exemplo: 
 
Aquela cinta azul, que o céu estende 
A nossa mão esquerda, aquele grito, 
Com que está toda a noite o corvo aflito 
Dizendo um não sei quê, que não se entende; 
 
Levantar-me de um sonho, quando atende 
O meu ouvido um mísero conflito, 
A tempo, que o voraz lobo maldito 
A minha ovelha mais mimosa ofende; 
Encontrar a dormir tão preguiçoso 
Melampo, o meu fiel, que na manada 
Sempre desperto está, sempre ansioso; 
Ah! queira Deus, que minta a sorte irada: 
Mas de tão triste agouro cuidadoso 
Só me lembro de Nise, e de mais nada. 
 
(COSTA, 1966, p. 12, apud PASQUALINI, 2012, p. 106-107) 
 
O soneto apresenta ao leitor elementos da natureza, configurando o 
bucolismo como característica dominante, em que esse espaço é idealizado e o eu 
lírico desfruta de uma vida simples e fora do espaço urbano. Esse poema apresenta 
características barrocas também pela evocação a Deus e em metáforas, “cinta azul 
que o céu estende”. Além disso, o eu lírico vive um conflito interno que precisa ser 
resolvido, que se traduz em uma melancolia como quem encontra-se sem muita 
alternativa. A linguagem não é tão simples, pois o vocabulário é, de certa forma, 
rebuscado. 
Trilhando sobre esse mesmo caminho árcade, Tomás Antônio Gonzaga nasce 
em Portugal, tendo vindo para o Brasil na sua infância. Também estuda em Coimbra 
e retorna ao nosso país em seguida, onde passa a trabalhar em Vila Rica. É preso em 
1780 e exilado de Minas para o Rio de Janeiro devido ser integrante da Inconfidência 
Mineira. O fim de sua vida se dá em Moçambique, local aonde se casa com uma 
filha de comerciante de escravos. Apresenta forte tendência à poesia bucólica 
(COUTINHO, 2004a, p. 227). 
As suas obras mais importantes são Marília de Dirceu (1792), povoada pela 
lírica, e Cartas Chilenas (1863), de caráter satírico. A primeira obra é escrita em 
referência à própria história de amor que vivera com a jovem Marília, tendo escrito 
com a utilização de um pseudônimo, Dirceu. Essa história real vivida pelo escritor 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
84 
 
 
justifica a sua característica pastoralística, ao rechear os versos de sentimentalismo. 
 
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, 
Que viva de guardar alheio gado, 
De tosco trato, de expressões grosseiro, 
Dos frios gelos e dos sóis queimado. 
Tenho próprio casal e nele assisto; 
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
Das brancas ovelhinhas tiro o leite 
E mais as finas lãs, de que me visto. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha estrela! 
 
Eu vi o meu semblante numa fonte, 
Dos anos inda não está cortado: 
Os pastores, que habitam este monte, 
 Com tal destreza toco a sanfoninha, 
Que inveja até me tem o próprio Alceste: 
Ao som dela concerto a voz celeste; 
Nem canto letra, que não seja minha, 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
(GONZAGA, 1992) 
 
Apresentando uma dimensão romântica, o poema materializa um eu lírico que 
menciona elementos da natureza, configurando um ambiente que se traduz em um 
espaço natural. Dessa forma, os traços do bucolismo são confirmados nesses versos, 
remetendo-se a uma idealização desse espaço que serve como cenário para o 
exercício de uma atitude de pastor frente a sua Marília. Essa posição que evoca um 
direcionamento de conquista é requintada por suavidade, tanto da linguagem 
quanto do espaço no qual se insere, elementos típicos do arcadismo. 
Nesse poema, já é possível observar um eu lírico bastante sentimental, o que 
dá a ideia de um pré-romantismo, escola literária que se firmaria posteriormente, o 
que vai culminando nesse sentimentalismo poético, com plena valorização das 
subjetividades frente às convenções sociais. Dentre outras características, que vão 
emergindo no decorrer do século XVIII, é possível perceber já no Arcadismo essa 
transição poética brasileira, que será abordada na próxima seção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (UFRS) Considere as seguintes afirmações sobre o Barroco brasileiro: 
 
I. A arte barroca caracteriza-se por apresentar dualidades, conflitos, paradoxos e 
contrastes, que convivem tensamente na unidade da obra. 
II. O conceptismo e o cultismo, expressões da poesia barroca, apresentam um 
imaginário bucólico, sempre povoado de pastoras e ninfas. 
III. A oposiçãoentre Reforma e Contrarreforma expressa, no plano religioso, os 
mesmos dilemas de que o Barroco se ocupa. 
 
Quais estão corretas: 
 
a) Apenas I. 
b) Apenas II. 
c) Apenas III. 
d) Apenas I e III. 
e) I, II e III. 
 
 
2. (E. A. LAVRAS) A opção que não apresenta características do Barroco é: 
 
a) Sentimento trágico da existência, desengano, desespero; 
b) Gosto pela grandiosidade, pela pompa, pela exuberância e pelo luxo; 
c) Gosto de cenas e descrições horripilantes, monstruosas, cruéis; arte da morte e dos 
túmulos; 
d) Tentativa de conciliar polos opostos: o ideal cristão medieval e os valores pagãos 
do renascimento; 
e) A natureza é a fonte perene de alegria, de beleza e de perfeição; retorno aos 
modelos greco-latinos. 
 
3. (UFRN) A obra de Gregório de Matos – autor que se destaca na literatura barroca 
brasileira – compreende: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
86 
 
 
a) Poesia épico-amorosa e obras dramáticas. 
b) Poesia satírica e contos burlescos. 
c) Poesia lírica, de caráter religioso e amoroso, e poesia satírica. 
d) Poesia confessional e autos religiosos. 
e) Poesia lírica e teatro de costumes. 
 
4. (UFV) Leia o texto: 
 
Goza, goza da flor da mocidade, 
Que o tempo trota a toda ligeireza, 
E imprime em toda flor sua pisada. 
 
Oh, não aguardes, que a madura idade 
Te converta essa flor, essa beleza, 
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada. 
(Gregório de Matos) 
 
Os tercetos acima ilustram: 
 
a) Caráter de jogo verbal próprio da poesia lírica do séc. Xvi, sustentando uma crítica 
à preocupação feminina com a beleza. 
b) Jogo metafórico do barroco, a respeito da fugacidade da vida, exaltando gozo 
do momento. 
c) Estilo pedagógico da poesia neoclássica, ratificando as reflexões do poeta sobre 
as mulheres maduras. 
d) As características de um romântico, porque fala de flores, terra, sombras. 
e) Uma poesia que fala de uma existência mais materialista do que espiritual, própria 
da visão de mundo nostálgico-cultista. 
 
5. (FESP) – Aponte a alternativa cujo conteúdo não se aplica ao Arcadismo: 
 
a) Desenvolvimento do gênero épico, registrando o início da corrente indianista na 
poesia brasileira. 
b) Presença da mitologia grega na poesia de alguns poetas desse período. 
c) Propagação do gênero lírico em que os poetas assumem a postura de pastores e 
transformam a realidade em um quadro idealizado. 
d) Circulação de manuscritos anônimos de teor satírico e conteúdo político. 
http://www.fespmg.edu.br/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
87 
 
 
e) Penetração de tendência mística e religiosa, vinculada a expressão de ter ou não 
fé. 
 
6. (ENEM 2016) 
 
Soneto VII 
 
Onde estou? Este sítio desconheço: 
Quem fez tão diferente aquele prado? 
Tudo outra natureza tem tomado; 
E em contemplá-lo tímido esmoreço. 
 
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço 
De estar a ela um dia reclinado: 
Ali em vale um monte está mudado: 
Quanto pode dos anos o progresso! 
 
Árvores aqui vi tão florescentes, 
Que faziam perpétua a primavera: 
Nem troncos vejo agora decadentes. 
 
Eu me engano: a região esta não era; 
Mas que venho a estranhar, se estão presentes 
Meus males, com que tudo degenera! 
 
(COSTA, C. M. Poemas. Disponível em: https://bit.ly/3y9k6hl Acesso em: 7 jul. 2012) 
 
No soneto de Cláudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite 
ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma: 
 
a) angústia provocada pela sensação de solidão. 
b) resignação diante das mudanças do meio ambiente. 
c) dúvida existencial em face do espaço desconhecido. 
d) intenção de recriar o passado por meio da paisagem. 
e) empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra. 
 
7. (UFSCar) 
 
Texto 1 
Eu quero uma casa no campo 
do tamanho ideal 
pau-a-pique e sapê 
Onde eu possa plantar meus amigos 
meus discos 
meus livros 
e nada mais 
(Zé Rodrix e Tavito) 
https://bit.ly/3y9k6hl
https://www2.ufscar.br/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
88 
 
 
Texto 2 
Se o bem desta choupana pode tanto, 
Que chega a ter mais preço, e mais valia, 
Que da cidade o lisonjeiro encanto; 
Aqui descanse a louca fantasia; 
E o que té agora se tornava em pranto, 
Se converta em afetos de alegria. 
(Cláudio Manuel da Costa) 
 
Embora muito distantes entre si na linha do tempo, os textos aproximam-se, pois o 
ideal que defendem é 
 
a) O uso da emoção em detrimento da razão, pois esta retira do homem seus 
melhores sentimentos. 
b) O desejo de enriquecer no campo, aproveitando as riquezas naturais. 
c) A dedicação à produção poética junto à natureza, fonte de inspiração dos 
poetas. 
d) O aproveitamento do dia presente – o carpe diem-, pois o tempo passa 
rapidamente. 
e) O sonho de uma vida mais simples e natural, distante dos centros urbanos. 
 
8. (UFRR) Leia o poema de Tomás Antônio Gonzaga, transcrito a seguir, e marque a 
alternativa que aponta três características do Arcadismo brasileiro que nele 
podem ser observadas. 
 
Lira I 
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, 
Que viva de guardar alheio gado; 
De tosco trato, d’expressões grosseiro, 
Dos frios gelos, e dos sóis queimado. 
Tenho próprio casal, e nele assisto; 
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
Das brancas ovelhinhas tiro o leite, 
E mais as finas lãs, de que me visto. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
a) Vulgarização da figura da mulher; medievalismo; egocentrismo. 
b) Denúncia social; exaltação da vida no campo; temas urbanos. 
c) Exaltação da vida no campo; linguagem simples; pastoralismo. 
d) Temas urbanos; linguagem simples; medievalismo. 
e) Egocentrismo; pastoralismo; denúncia social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
89 
 
 
A POESIA BRASILEIRA 
NA ERA NACIONAL 
 
 
 
 
Classificar os períodos literários brasileiros não é tarefa fácil, tendo em vista que 
esses momentos históricos são muito bem demarcados ou estanques, mas essas 
subdivisões servem também para problematizarmos nossos movimentos e transições 
literárias. Como bem coloca Cândido (1959), no texto Formação da literatura 
brasileira, quando se fala em uma Literatura Nacional significa uma escrita voltada 
para uma tradição puramente brasileira, que se observa mais ao final do Arcadismo 
e se acentua no Romantismo, que sublinham nossa riqueza natural e também nossa 
história. No Romantismo é recorrente a valorização da natureza, assim como no 
Arcadismo, e também do índio, atribuindo uma originalidade literária brasileira que 
não se via até então. 
Isto posto, os escritores brasileiros instauram, a partir do século XVIII, uma escrita 
pátria que valoriza nossas origens, não somente pelo indianismo, mas também pela 
valorização da cultura africana, que originam a cultura brasileira. Além disso, a 
cultura urbana é abordada, pelas mudanças que se observam nas cidades desse 
momento, fundando, portanto, uma literatura nacional pelas abordagens locais e 
que nesse período o público leitor torna-se mais considerável. 
 
8.1 O PERÍODO ROMÂNTICO 
Após o período denominado colonial vem a fase nacional, na qual se dá o 
desenvolvimento de várias escolas literárias e a produção poética que no Brasil vai 
se instaurando se dá de maneira bastante fértil, com traços característicos de cada 
época. Com o enfraquecimento do Arcadismo, no século XVIII, um novo estilo de 
escrita poética vai ganhando forma, que é o Romantismo, que dá seus primeiros 
passos no final de 1700 e se adentra para o início de 1800, atingindo também o século 
XIX. 
Consideramos relevante retomar alguns pontos já destacados na teoria 
abordada no Arcadismo, que são a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, 
UNIDADE 
08 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
90 
 
 
fenômenos relevantes para seu surgimento (MERQUIOR, 1979). Esses episódios 
demarcam transformações sociais consideráveis, tendo em vista que aburguesia vai 
ganhando força em detrimento da queda aristocrática. Impulsionada sobretudo 
pela industrialização das cidades, observa-se, nesse período, um crescimento da 
população urbana e com ela a emergência de novas formas de práticas artísticas e 
culturais. 
Na Europa, essa nova literatura que começa a conquistar espaço apresenta 
seu início na Alemanha, se expandindo pela Europa até chegar ao Brasil. Por aqui, as 
transformações governamentais são notadas principalmente pela transição de 
colônia para o sistema imperial, em que Rio de Janeiro passa a ser sede de residência 
da corte portuguesa. Nesse período, ocorre um vasto desenvolvimento comercial, da 
agricultura e também industrial, além da comercialização de livros e bibliotecas, 
impulsionando o estabelecimento de uma nova criação literária. 
Por aqui, essa escola literária surge no seio de aspectos nacionais, como o 
sonho de Independência, apreciação de aspectos geográficos, bem como a 
valorização do índio, como sendo os primeiros habitantes que aqui ocuparam. Nessa 
direção, o sentimentalismo que se aflora na poesia sublinha esses aspectos brasileiros, 
como sinônimo de patriotismo. A intenção era primar por uma literatura que fosse ao 
encontro da vida comum da população, além de uma liberdade também poética. 
A valorização da natureza como uma forte característica do Romantismo 
brasileiro se deve ao seu contexto histórico, em especial à fundação do Instituto 
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), tendo sido inspirado naquele criado em Paris, 
em 1834. A partir dessa criação brasileira, vários líderes, incluindo intelectuais e 
literatos cariocas, associaram-se a essa fundação, tendo a proteção, inclusive, de D. 
Pedro II que se torna um grande incentivador desse instituto. Por meio do IHGB, esse 
grupo desejava evidenciar a história brasileira, dando ênfase aos heróis e sublinhar a 
identidade brasileira, com destaque para os historiadores e poetas: Januário Barbosa 
(1780-1846), Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) e Sílvio Romero (1851-1914), 
este sendo também crítico literário. Essa instauração explica o sentimento de 
nacionalidade que é propagado no Brasil nessa época, refletindo na poesia 
romântica essa valorização histórica e geográfica. 
Segundo Pasqualini (2012), o Romantismo é marcado por características tanto 
na forma poética quanto em suas temáticas, com o rompimento de normas rígidas 
tradicionais no que diz respeito à métrica e à rima, além da superação do soneto que 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
91 
 
 
perdurou por muitos séculos como norma poética, embora ainda é usado nesse 
período. Além disso, o que marca esse novo estilo que vai se aflorando é uma 
subjetividade, em que a valorização do “eu” se faz latente na poesia, com expressão 
sentimental considerável. Nesse contexto, a razão sede lugar para as sensações 
íntimas, a sensibilidade e a emoção. 
De forma lenta, a poesia romântica vai ganhando notoriedade no cenário 
brasileiro, por meio de rupturas e valorização de aspectos brasileiros, fazendo com 
que esse período seja dividido em três fases: a inicial, que denomina-se de 
nacionalista ou “Indianista”; a segunda geração, conhecida como “Ultrarromântica” 
ou “Mal do Século”; e a terceira fase que é também denominada de condoreira. 
Dentro das características mais abrangentes, cada fase da referida escola 
literária apresenta traços específicos do período, tendo em vista os acontecimentos 
políticos, sociais e culturais que aqui se dão e que refletem diretamente na produção 
poética da época, com tendências românticas. Como, por exemplo, na primeira 
geração o destaque é para os ideais de independência de Portugal, o que 
comprova o amor pela nação brasileira na época, além da ideologia indianista 
(MERQUIOR, 1979) como centro desse universo que caminhava para a 
Independência. Nessa geração, dois poetas se destacam com maior veemência, 
quais sejam: Gonçalves Dias e José de Magalhães. 
 
 
 
 
Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) nasceu em Caxias, no Maranhão. Exerce, 
além da função de poeta, jornalista e advocacia. Ao longo de sua vida como 
escritor, publica inúmeros livros, tendo uma obra vasta e sendo bastante privilegiado 
ao longo da vida dedicada à literatura. Faleceu na sua cidade maranhense, de 
origem. Segue uma breve análise do poema “Canção do exílio”, integrante da obra 
Primeiros Cantos, lançada em 1857 e que inaugura a primeira fase do Romantismo 
brasileiro: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
92 
 
 
Canção do exílio 
 
Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 
 
Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o sabiá. 
 
Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar — sozinho, à noite 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que desfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu'inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
(GONÇALVES DIAS, 1843.) 
 
 
 
O referido poema é escrito quando Dias estuda em Portugal e vê na escrita a 
oportunidade de exaltar o nacionalismo por meio da natureza, característica própria 
dessa era romântica. Na oportunidade, demonstra seu sentimento às terras brasileiras, 
expressando seu desejo de retorno em um tom comparativo entre Portugal e Brasil. 
As descrições, um tanto quanto exageradas, que expressam o sentimentalismo, 
evocam um eu lírico pautado pela subjetividade. Momentos após essa primeira fase 
vem a segunda dessa corrente literária. 
A segunda geração romântica é denominada de “Mal do Século” (a 
característica central predominantemente é o sentimentalismo, que supera os dois 
outros períodos dessa escola). Essa expressão excessiva de sentimentos valoriza uma 
https://bit.ly/3ntyvA4
https://bit.ly/3ODlO1v
 
 
 
 
 
 
 
 
 
93 
 
 
expressão de vida individual, em que o egocentrismo se dá de forma visível. No que 
tange aos sentimentos, o pessimismo e a angústia demarcam esse universo subjetivo, 
egocêntrico. Nessa mistura de sentimentos, há uma tendência para a valorização do 
sonho e da morte, consequência de uma fuga da realidade e uma exagerada 
idealização da mulher. Destaque para os poetas Álvares de Azevedo (1831-1852) e 
Cassimiro de Abreu (1839-1860). 
Na terceira geração, já no final do século XIX, também denominada de 
Condoreirismo, algumas marcas históricas se fazem presentes e que refletem na 
construção poética do período. É o período da história do Brasil marcada por 
acontecimentos relevantes no que tange aos ideais de liberdade, tais como a 
Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Dessa forma, aspectos 
históricos dessa época se fazem presentes na poesia, demarcando um país 
teoricamente livre e que seguiam seus passos livre da dependência portuguesa. Além 
disso, essa liberdade é abordada também nos aspectos sociais e de progresso, 
trazendo à tona a ideia de igualdade, justiça social e desenvolvimento. O poeta mais 
representativo desse período é Castro Alves (1847-1871) (PASQUALINI, 2012). 
O projeto estilístico que norteia o Romantismo, para além de uma liberdade 
brasileira no sentido político, econômico e social, coloca sobre a mesa elementos 
que justificam uma fase singular não apenas em se tratando de uma escola 
específica, mas pela criatividade individual. Nessa escrita, uma vez que o 
sentimentalismo é valorizado, além de certo egoísmo e narcisismo, a criatividade 
ganha destaque, com a superação de normas tradicionais para a entrada de algo 
singular com existência própria. 
 
8.2 MACHADO DE ASSIS E O REALISMO 
Com a decadência do Romantismo, outro formato literário vai sendo edificado 
no cenárioda escrita brasileiro, pelas mudanças nos valores e os fatos históricos que 
vão emergindo após o final do século XIX. Trata-se do Realismo que vai emergindo 
na Europa pela ascensão dos ideais de uma vida distinta daquela considerada na 
literatura romântica. O sentimentalismo sede espaço para um olhar mais concreto 
sobre a realidade, sem os exageros idealistas do “eu” como centro de tempos 
anteriores. 
As transformações sociais concernentes a esse período têm seus reflexos 
também na arte, em que o artista muda sua concepção artística, rumando-se para 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
94 
 
 
a realidade enquanto inspiração. Nessa nova era, elementos vinculados a um 
progresso, tais como a tecnologia e ciência, inspiram novos modos de relação do 
homem com a sociedade, inspirando uma configuração poética mais objetiva e sem 
mascaramento e fuga da realidade. “A arte assumiu um papel de reproduzir uma 
realidade sem alterações, segundo uma técnica fotográfica de recente invenção” 
(POSSAMAI, 2011, p. 5). 
Essa transformação social que se deve aos aspectos de evolução e de 
valorização da ciência coloca em evidência o Positivismo de Augusto Comte, em 
que a visão de mundo só deveria ser embasada aos moldes científicos. Essa nova 
ordem instaura um estilo racional de criação, em que a razão impera sobre a 
emoção, cujos conhecimentos devem ser considerados como os advindos da 
ciência. É a época em que o saber é tomado como sinônimo de felicidade, tendo 
em vista que seja sinônimo também de progresso em várias áreas e da própria 
sociedade. 
 
 
 
Essa literatura, em especial a escrita poética, vai ganhando forma no Brasil no 
final do século XIX, com inspiração nesse modelo europeu pautado pelas 
concepções positivistas e também pelo evolucionismo de Darwin, que refuta a 
evolução humana como sendo de criação divina. Segundo Bosi (1980), o que se 
observa no país nesse período é um esforço para uma escrita que refuta a 
pessoalidade, levando a concepções da realidade e do homem cada vez mais 
objetivas e antirromânticas. Os mais conhecidos escritores dessa fase literária 
brasileira são Raul Pompéia (1863-1895), Visconde de Taunay (1843-1899) e Machado 
de Assis (1839-1908). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
95 
 
 
Nesse cenário do Realismo, surge Machado de Assis, expoente da literatura 
brasileira que se destaca por uma autenticidade nas letras. João Maria Machado de 
Assis nasceu no Rio de Janeiro e faleceu na mesma cidade. De origem humilde, seus 
estudos se dão em escolas públicas e não chega a ingressar no ensino superior, 
aderindo-se à escrita literária como forma de ascensão social. Encontra-se, nesse 
escritor, uma mistura de traços de diferentes estilos, como vistos no Romantismo e no 
Naturalismo, além de provocar o leitor por meio de um elaborado suspense 
(COUTINHO, 2004b). Suas primeiras publicações se dão em 1855, tendo uma vasta 
obra no percurso de sua vida dedicada à literatura. 
As relações entre Machado de Assis e o escritor português Eça de Queiroz não 
foi das mais tranquilas, haja vista as críticas de Machado à obra de Eça, 
especialmente os polêmicos romances O crime do Padre Amaro (1875) e O Primo 
Basílio (1878). Há indagações sobre a entrada de Assis no Realismo com o objetivo de 
competir com o referido literato português, que sugere marcas de inveja e ciúmes, 
embora o escritor brasileiro tenha demonstrado admiração pelo português. 
Considerado pelos críticos literários como um dos mais importantes literatos 
brasileiros, tendo em vista que sua obra é bastante pesquisada por acadêmicos, a 
obra machadiana se divide em romances, contos, peças teatrais e poemas, sendo 
lançadas obras póstumas de sua autoria. Quanto à coletânea de poemas, 
destacam-se as cinco publicadas: Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas 
(1875), Ocidentais (1880) e Poesias Completas (1901). 
 
A caridade 
 
Ela tinha no rosto uma expressão tão calma 
Como o sono inocente e primeiro de uma alma 
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus; 
Uma serena graça, uma graça dos céus, 
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar, 
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear 
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças. 
 
Levava pela mão duas gentis crianças. 
 
Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto. 
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto 
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada 
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada 
A infância lacrimosa, a infância desvalida, 
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida. 
 
E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor, 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
96 
 
 
No amoroso seio as crianças tomaste, 
E entre beijos – só teus – o pranto lhes secaste 
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor. 
(ASSIS, 1864, p. 41, adaptado) 
 
O poema faz menção entre a religiosidade, isto é, o ter a fé, e as obras que 
comprovam esse gesto, estabelecendo uma união entre vivência dessa fé e sua 
ligação divina (o material e transcendental). Para tanto, faz alusão a Deus e a uma 
mulher que dá a entender ser Nossa Senhora. Refere-se à sociedade, bem como 
apresenta os ensinamentos bíblicos, o discurso de que não adianta dizer que crê 
apenas na teoria, mas demonstrar pelas realizações de caridade. No contexto do 
realismo, esse poema não deixa de ser um retrato da realidade daqueles que se 
dizem religiosos sem sustentar uma prática que a torne sólida. 
Nesse poema, a presença da religiosidade aponta também para traços pré-
românticos e nessa relação cabe ressaltar que esse poeta apresenta seus momentos 
na literatura romântica. A religiosidade como pano de fundo do poema destacado 
pode ser entendido como fruto da forte presença dos ideais religiosos de François-
René de Chateaubriand (1768 - 1848), e que Assis traz para a sua obra. 
 
8.3 O NATURALISMO 
Nesta seção, abordaremos o Naturalismo, com destaque para a poesia que 
se configura nesse período classificado como o que surge após o Realismo, cujos 
traços apresentam certa confusão dessas duas escolas literárias. Como nas demais 
épocas literárias, os escritores brasileiros lançam mão de modelos europeus para a 
prática poética no nosso país. Desta feita, o aspecto que instigou esses escritores a 
aderirem esses modelos foi a utilização da escrita como possibilidade de denúncia 
social. 
Em relação ao momento histórico no Brasil, convenhamos destacar alguns 
traços que consideramos relevantes para situarmos nesse modelo literário que aqui 
se adotou. A capital federal ainda estava situada no Rio de Janeiro e a Segunda 
Revolução Industrial a todo vapor, que representava sinônimo de crescimento do 
capitalismo, requerendo mais mão de obra. O governo estava a cargo de D. Pedro 
II, já no final do Império. Quanto à libertação dos escravos, essa se dá em 1988 pela 
Princesa Isabel que assina a Lei Áurea. Figura-se, assim, um ar de liberdade no país. 
Nessa efervescência de acontecimentos, surge o Naturalismo, que procurava 
retratar a realidade, com escritores materialistas e sem rodeios. Portanto, o gesto de 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
97 
 
 
escrever apresentava uma função, ainda que de forma indireta, a abordagem em 
relação aos aspectos políticos, sociais e culturais da época se davam de forma 
exuberante. Assim como visto na literatura realista, no Naturalismo há a 
predominância de uma visão de homem por meio de um cientificismo, se libertando 
do sentimentalismo impregnado na era romântica. Segundo Coutinho (2004b), a 
escrita naturalista adota um estilo de fidelidade da realidade, contestando fatos que 
careciam de reformas. 
Seguindo a linha da Biologia que procura explicar a origem do homem, isto é, 
atribuindo importância à cientificidade, como se percebe no Realismo, a escrita 
naturalista contesta a religiosidade no que concerne a esses fatos. Trata-se de uma 
literatura que preza pelo registro do presente e que apresenta uma aliança entre arte 
e realidade social, rompendo com o convencionalismode uma arte pela arte. 
Os principais escritores que se sobressaem nesse período são Aluísio de 
Azevedo (1857-1913), Adolfo Caminha (1867-1897) e Herculano de Sousa (1813-1884). 
Segundo Possamai (2011), no que concerne à escrita de Azevedo, esse escritor 
consegue falar a língua do leitor, isto é, a abordar temas que estava ao seu alcance. 
Nascido em São Luís do Maranhão, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo é o maior 
representante do Naturalismo brasileiro. Com vocação para as artes, em especial 
para o desenho e a pintura, estudou pintura no Imperial de Belas-Artes, no Rio de 
Janeiro. No retorno à terra natal, ao trabalhar na imprensa, dá início à vida na 
literatura, tendo escrito inúmeras obras ao longo da vida. Segue um poema de sua 
autoria: 
Pobre amor 
 
Calcula, minha amiga, que tortura! 
Amo-te muito e muito, e, todavia, 
Preferira morrer a ver-te um dia 
Merecer o labéu de esposa impura! 
 
Que te não enterneça esta loucura, 
Que te não mova nunca esta agonia, 
Que eu muito sofra porque és casta e pura, 
Que, se o não fôras, quanto eu sofreria! 
 
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses 
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes, 
Com teus beijos de amor, as minhas faces! 
 
Persiste na moral em que persistes. 
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses, 
Mas quanto sofro mais porque resistes! 
 
(AZEVEDO. Disponível em: https://bit.ly/3ODonRb. Acesso em: 20 set. 2021) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
98 
 
 
Sendo uma característica do realismo e do realismo-naturalismo, o poema é 
estruturado em forma de soneto, recuperando a formalidade contida na poesia de 
outrora. O eu lírico se direciona a uma virgem e demonstra seu amor, que deverá ser 
apenas sua e resgata o valor da pureza feminina. Esse resgate vai ao encontro dos 
valores familiares e sociais do século XIX, quando se casar virgem era tido como uma 
dádiva e revelava a adesão da mulher a um único homem ao longo da vida. 
 
8.4 A TRÍADE PARNASIANA: ALBERTO DE OLIVEIRA, RAIMUNDO CORREIA E 
OLAVO BILAC 
Trilhando pelas características semelhantes ao Realismo e ao Naturalismo, o 
Parnasianismo compreende uma fase literária que surge na França no final do século 
XIX. Esse tipo de poesia segue os ideais científico e positivista, sem muitos retoques na 
linguagem, como as metáforas, por exemplo. A escrita obedece a uma linguagem 
mais objetiva e simples. 
Nessa época, observa-se uma espécie de carência de identidade em relação 
à poesia que se apresentava no Brasil, tendo em vista as diferentes opiniões em 
relação aos estilos que aqui emergem. Segundo Coutinho (2004c), o poeta dessa 
época era percebido como aquele que se certificaria das convenções científicas na 
escrita, para convencer o leitor de uma verdade comprovável, palpável. Ao rumar-
se em direção à verdade científica, os problemas sociais eram percebidos com mais 
nitidez, e a poesia ganhava status do que viria a ser belo. 
Sobre poesia científica, Veríssimo (1998, p. 384) acrescenta a sua crítica sobre 
esse formato de literatura que se anseia na época, afirmando que “[...] a ciência, 
influindo a mentalidade humana e aperfeiçoando-a consoante as suas soluções 
definitivas, ou os seus critérios, possa acabar por atuar também o sentimento humano, 
é uma verdade psicológica de primeira intuição”. A cientificidade é colocada em 
xeque por esse autor, haja vista que a verdade científica é tomada como uma 
construção que também apresenta seu lado subjetivo. 
Por outro lado, a poesia socialista que era aderida em terras brasileiras, 
segundo Coutinho (2004c), apresentava-se nos moldes europeus, com base na 
Questão Coimbrã, em Portugal. Esses poetas lançavam mão de um tom otimista, se 
direcionando para a humanidade e para o progresso, opondo-se a doutrinas 
anteriores, como se observa no pessimismo romântico. Além disso, a inspiração desse 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
99 
 
 
período na poesia se estende ao ideal republicano, em especial em São Paulo e no 
Rio de Janeiro. 
Quanto ao Parnasianismo, os três escritores principais são: Alberto de Oliveira 
(1857-1937), Raimundo Correia (1859-1911) e Olavo Bilac (1865-1918). Antônio 
Mariano Alberto de Oliveira nasceu em saquarema, inspirado na poesia europeia, 
mais precisamente francesa, instaura no Brasil esse perfil literário, dando início a essa 
era poética no nosso país. A sua poesia se divide em duas fases, sendo a primeira 
com temas exóticos e a segunda, natureza brasileira. Dentre suas características e da 
própria poética parnasiana, esse escritor não se preocupa com a estrutura e com a 
linguagem na poesia, inclusive com erros de colocação pronominal e ortográficos 
(POSSAMAI, 2011). Algumas de suas obras: Canções Românticas (1878), Meridionais 
(1884), Sonetos e Poemas (1885), dentre outros. 
Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu em São Luís, tendo se formado 
advogado no Rio de janeiro e atuado como juiz nesse estado. Ao contrário de 
Alberto, Raimundo percebia a necessidade de se aderir a uma linguagem culta e a 
uma formalidade poética. Porém, carrega na sua poesia um pessimismo 
exacerbado. Vale ressaltar que esse poeta transita por distintos estilos, tendo iniciado 
sua escrita nos moldes do Romantismo, posteriormente, como parnasianista e, depois, 
como simbolista. Suas obras se traduzem em: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), 
Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898). 
Olavo Bilac, diferentemente da noção de uma poesia que apreciava uma 
denúncia social, prezava a arte pela arte. A concepção de que a forma não constitui 
o produto por si só, essa circunstância coloca a poesia na condição de algo 
inatingível, como se não houvesse um caminho para a expressão perfeita (POSSAMAI, 
2011). Segundo essa autora, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de 
Janeiro, tendo iniciado os cursos de medicina e direito, interrompidos. Primando por 
uma temática amorosa nas suas poesias, a melancolia também é evidente na sua 
obra, uma espécie de recorrência à poesia romântica. A busca pela perfeição, tanto 
na língua quanto no verso, faz de Bilac um poeta perfeccionista, embora emotivo. 
Algumas de suas obras: Poesias (1888); Tratado de versificação (1910); Tarde (1919), 
esta como sendo a que comporta o poema abaixo: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
100 
 
 
Vila Rica 
 
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre; 
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição 
Na torturada entranha abriu da terra nobre: 
E cada cicatriz brilha como um brasão. 
 
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre, 
O último ouro do sol morre na cerração. 
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre, 
O crepúsculo cai como uma extrema-unção. 
 
Agora, para além do cerro, o céu parece 
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu... 
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece, 
 
Como uma procissão espectral que se move... 
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu... 
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove. 
(BILAC, 1996, p. 269) 
 
No poema de Bilac, comprova-se uma valorização da forma, pelo soneto, 
mantendo essa característica do realismo, cuja origem vem da tradição poética de 
séculos bem anteriores ao parnasianismo. Ainda com teor similar realista, há uma 
alusão ao declínio do ouro brasileiro, em especial em Ouro Preto-MG, cuja atividade 
vai se declinando no século XVIII. O dizer verdadeiro vai fluindo sob um tom 
melancólico, referenciando-se a uma verdade sobre a realidade que poderia trazer 
consequências negativas para a sociedade brasileira. 
 
 
 
8.5 O SUBJETIVISMO, O MISTICISMO E A IMAGINAÇÃO NO SIMBOLISMO 
Diferentemente do pensamento difuso entre a burguesia em relação aos 
ideais científicos que pairavam sobre a Europa no final do século XIX para o início do 
século XX, uma nova tendência vai ganhando força pelas camadas mais populares 
dessa região. Um movimento que ganha força e que considera os símbolos como101 
 
 
sendo relevante para a compreensão da realidade. Frente a esse contexto, surge 
uma nova corrente na literatura, denominada de Simbolismo, surgindo na França e 
sendo denominado, também, de Decadentismo. 
Esses símbolos poderiam ser representados por diferentes elementos, como 
aspectos musicais, a rítmica, a tonalidade e até mesmo o colorido, que 
representavam algo para além dos sentidos. Segundo as concepções de Bosi (2004), 
mudanças políticas e econômicas pairam sobre a Europa nesse momento histórico, 
com o avanço do capitalismo, advindo das revoluções industriais, e a Primeira Guerra 
Mundial. Nesse contexto, surge uma espécie de repulsa em relação ao materialismo. 
No que concerne ao movimento simbolista em relação à literatura, uma nova 
estética emerge, em que o poeta se vê diante de um conjunto de símbolos como 
representativos do universo. A representação figurada deveria então ser descoberta 
pelo poeta, como aquilo que para ele é visível e que cabia a ele transferir para o 
fazer literário essas sensações subjetivas do universo. O símbolo nada mais é que um 
objeto que representa outro objeto, mas que no tocante à literatura, esse objeto 
apresenta também vida própria, ele apresenta e não apenas representa. 
Nessa concepção de literatura, elementos do contexto romântico se fazem 
presentes, como um retorno dessa poesia para a construção dessa vertente nova 
que se inicia. Os poetas se expressam, pelas convenções simbolistas, por meio de 
lapsos da linguagem, que colocam em evidências os sonhos, as alucinações e os 
devaneios, que promovem uma espécie de ruptura com a linguagem convencional. 
Nesse movimento, o eu é colocado em evidência, como o centro. Além disso, o 
estado da alma, o individualismo, a utilização de metáforas e símbolos, o idealismo e 
as místicas se fazem presentes como norteadores dessa tendência (POSSAMAI, 2011, 
p. 102). 
Segundo as palavras de Coutinho (2004c), esse novo fazer poético significa 
várias transformações no que concerne à prática literária, em que a poesia é 
permeada pela imaginação de um mundo, dando ênfase ao mundo invisível, 
marcado pela irracionalidade. Há, nessa poesia, todo um universo de obscuridade e 
imprecisão, pautado pelo mistério e que foge a uma lógica precisa. É nesse contexto 
que ocorre uma fusão entre aspectos artísticos distintos, tais como a literatura, a 
música e a pintura. Essa corrente é considerada uma ruptura da mecanicidade do 
fazer poético calcado no cientificismo, no materialismo, e abre caminho para um 
novo Romantismo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
102 
 
 
No Brasil, esse movimento ganhou força pela reunião de alguns escritores no 
Rio de Janeiro para discussões acerca desse novo estilo de fazer poético, baseando-
se nos moldes franceses, gesto que foi nomeado de “decadentista”. Dessa iniciativa, 
um manifesto foi publicado, dando visibilidade a essa nova corrente literária que 
dava seus primeiros passos no Brasil. 
Como aponta Junkes (2008), o poeta que mais se destaca nessa geração 
simbolista é Cruz e Sousa (1861-1898). João da Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora 
do Desterro. Alguns teóricos consideram esse poeta como o único originalmente 
negro na literatura brasileira. Suas principais obras são: em vida: Broquéis (1893), 
Missal (1893), Tropos e Fantasias (1885). Além dessas, algumas póstumas merecem 
destaque: Últimos Sonetos (1905), Evocações (1898, poemas em prosa), Faróis (1900, 
poesia). Ressalte-se que esse poeta, assim como o movimento simbolista, enfrenta 
resistências, cuja obra é desprestigiada e incompreendida. 
 
Livre! 
Livre! Ser livre da matéria escrava, 
Arrancar os grilhões que nos flagelam 
E livre penetrar nos Dons que selam 
A alma e lhe emprestam toda a etérea lava. 
 
Livre da humana, da terrestre bava 
Dos corações daninhos que regelam, 
Quando os nossos sentidos se rebelam 
Contra a Infâmia bifronte que deprava. 
 
Livre! bem livre para andar mais puro, 
Mais junto à Natureza e mais seguro 
Do seu Amor, de todas as justiças. 
 
Livre! para sentir a Natureza, 
Para gozar, na universal Grandeza, 
Fecundas e arcangélicas preguiças. 
 
(SOUSA, 1905, p. 45-46, adaptado) 
No poema, o autor faz referência à escravidão brasileira, em que seu fim 
significava a promoção do escravo livre, independente dos senhores. Mas também, 
pode ser entendido como liberdade social em todos os aspectos, não apenas aos 
escravos por ofício, que configura um desejo de liberdade também do espírito. O 
poeta nos brinda de vocábulos vinculados a um mesmo campo semântico, como 
sendo recurso próprio do simbolismo, tais como “grilhões” e “flagelam” 
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Broqu%C3%A9is
https://pt.wikisource.org/wiki/Evoca%C3%A7%C3%B5es%27
https://pt.wikisource.org/wiki/Far%C3%B3is
 
 
 
 
 
 
 
 
 
103 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (Fuvest) – Poderíamos sintetizar uma das características do Romantismo pela 
seguinte aproximação de opostos: 
 
a) Aparentemente idealista, foi, na realidade, o primeiro momento do Naturalismo 
Literário. 
b) Cultivando o passado, procurou formas de compreender e explicar o presente. 
c) Pregando a liberdade formal, manteve-se preso aos modelos legados pelos 
clássicos. 
d) Embora marcado por tendências liberais, opôs-se ao nacionalismo político. 
e) Voltado para temas nacionalistas, desinteressou-se do elemento exótico, 
incompatível com a exaltação da pátria. 
 
2. (FAU-SP) – O indianismo de nossos poetas românticos é: 
 
a) Uma forma de apresentar o índio em toda a sua realidade objetiva; o índio como 
elemento étnico da futura raça brasileira. 
b) Um meio de reconstruir o grave perigo que o índio representava durante a 
instalação da capitania de são vicente. 
c) Um modelo francês seguido no brasil; uma necessidade de exotismo que em nada 
difere do modelo europeu. 
d) Um meio de eternizar liricamente a aceitação, pelo índio, da nova civilização que 
se instalava. 
e) Uma forma de apresentar o índio como motivo estético; idealização com simpatia 
e piedade; exaltação da bravura, do heroísmo e de todas as qualidades morais 
superiores. 
 
3. (FUVEST-SP) - Leia com atenção: 
 
"Os ritos semibárbaros dos Piagas, 
Cultores de Tupã, e a terra virgem 
Donde como dum tronco enfim se abriram 
Da cruz de Cristo os piedosos braços; 
As festas e batalhas mal sangradas 
Do povo americano, agora extinto, 
Hei de cantar na lira. 
Cantor modesto e humilde, 
https://www.fuvest.br/
http://www.fau.usp.br/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
104 
 
 
A fronte não cingi de mirto e louro, 
Antes de verde rama engrinaldei-a; 
De agrestes flores enfeitando a lira; 
Não me assentei nos cimos do Parnaso. 
(...) 
Cantor das selvas, entre bravas matas 
Áspero tronco da palmeira escolho." 
 
Nos versos acima, o autor promete cantar: 
 
a) As batalhas incruentas entre indígenas e americanos 
b) A terra de santa cruz, então extinta 
c) A realiza dos ritos, mirtos e louros semibárbaros 
d) A cultura e o ambiente do povo indígena 
e) As flores agrestes dos píncaros do parnaso. 
 
4. (FEI-SP) Leia atentamente: 
 
I. "Segunda Revolução Industrial, o cientificismo, o progresso tecnológico, o 
socialismo utópico, a filosofia positivista de Auguste Comte, o evolucionismo 
formam o contexto sociopolítico-econômico-filosófico-científico em que se 
desenvolveu a estética realista." 
II. "O escritor realista acerca-se dos objetos e das pessoas de um modo pessoal, 
apoiando-se na intuição e nos sentimentos." 
III. "Os maiores representantes da estética realista/naturalista no Brasil foram: 
Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Raul Pompéia." 
IV. "Poderíamos citar como característica da estética realista: o individualismo, a 
linguagem erudita e a visão fantasiosa da sociedade." 
 
Verificamos que em relação ao Realismo/naturalismo está (estão) correta 
(corretas): 
 
a) Apenas I e II. 
b) Apenas I e III. 
c) Apenas II e IV. 
d) Apenas II e III.e) Apenas III e IV. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
105 
 
 
5. (Mack) Assinale a alternativa correta sobre Machado de Assis. 
 
a) Embora tenha sido um dos maiores escritores brasileiros do século XIX, não 
conseguiu em vida o reconhecimento de sua obra. 
b) Uma de suas linhas temáticas está presente na valorização do comportamento do 
homem burguês. 
c) Introduziu o Realismo no Brasil em 1881, mas enveredou para o estilo naturalista ao 
tematizar aspectos patológicos do comportamento. 
d) Uma das marcas de seu estilo é a linguagem crítica, que se apresenta de maneira 
direta e seca. 
e) Vivendo num período de culto ao cientificismo, questionou lucidamente o valor 
absoluto das verdades científicas. 
 
6. (PUC-RJ) Estão relacionadas abaixo uma série de características de movimentos 
literários. Delas apenas uma não se refere ao Naturalismo. Qual é? 
 
a) Busca da objetividade científica. 
b) Idealização da natureza. 
c) Determinismo biológico. 
d) Tematização do patológico. 
e) Aplicação do método experimental. 
 
7. Sobre as principais diferenças entre o Parnasianismo e o Simbolismo: 
 
I. Enquanto no Parnasianismo a linguagem é objetiva e culta, no Simbolismo a 
linguagem é vaga e fluida. 
II. O Simbolismo preza pelo subjetivismo, enquanto o Parnasianismo pelo objetivismo. 
III. O pessimismo é uma das características da poesia simbolista, enquanto na poesia 
parnasiana há contenção de sentimentos. 
 
Está correta a alternativa: 
 
a) I. 
b) I e II. 
https://www.pucminas.br/main/Paginas/default.aspx
 
 
 
 
 
 
 
 
 
106 
 
 
c) I e III. 
d) II e III. 
e) I, II e III. 
 
8. (Unificado-RS) 
 
Nasce a manhã, a luz tem cheiro... Ei-la que assoma 
Pelo ar sutil... Tem cheiro a luz, a manhã nasce... 
Oh sonora audição colorida do aroma! 
 
A linguagem poética, em todas as épocas, foi e é simbólica; o Simbolismo recebeu 
esse nome por levar essa tendência ao paroxismo. 
 
Os versos acima atestam essa exuberância, pela fusão de imagens auditivas, 
olfativas e visuais, constituindo rico exemplo de: 
 
a) Eufemismo. 
b) Polissíndeto. 
c) Sinestesia. 
d) Antítese. 
e) Paradoxo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
107 
 
 
A POESIA BRASILEIRA 
NA ERA MODERNA 
 
 
 
 
9.1 PRÉ-MODERNISMO – TRANSIÇÃO ENTRE O SIMBOLISMO E O MODERNISMO 
Nesta unidade será tratada uma nova estética literária, em especial no campo 
da poesia, que se desponta para uma nova era brasileira nessa dimensão criativa. 
Após o Simbolismo, que começa a entrar em decadência no final do século XIX, 
ocorre uma série de movimentos que vão estruturando uma nova corrente na 
literatura, que é o Modernismo, que vem a se efetivar com denominada Semana de 
Arte Moderna, em São Paulo, assunto que será tratado mais adiante. 
Essa nova fase que se inicia se dá por uma complexidade, tendo em vista que 
os próprios poetas se veem diante de uma indefinição, cuja tarefa cabe se reinventar. 
grosso modo, a falta de um direcionamento preciso e características que venha a 
discernir de correntes anteriores, despontam para criatividades livres de regras que 
até então dominavam a poesia. Como, por exemplo, no que concerne à estrutura 
que mantinha o soneto como padrão, é agora rompido. A regra a partir de agora 
seria não haver regras e as produções passam a oferecer uma diversificação maior, 
uma individualidade de estilos próprios de cada escritor que perfazem esse caminho 
que apresentam seu início no início do século XX. 
De acordo com Coutinho (2004c), esse período de transição – sem considerar 
uma data exata para o final de uma corrente e início de outra – é recheado por 
indefinições, que ao mesmo tempo em que parece recuperar características de 
vários outros estilos já utilizados, abre espaço para a autonomia poética. O que 
importa a partir de então é a criatividade, o que desperta também uma dificuldade 
de classificação e até mesmo para uma crítica às obras que vão surgindo. Ainda, 
esse citado teórico destaca que esse período transitório é denominado de 
penumbrismo. 
 
 
 
UNIDADE 
09 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
108 
 
 
 
 
Essa transição entre os dois períodos de maior visibilidade na literatura brasileira 
ocorre por meio de vários outros movimentos artísticos no seu interior, tais como o 
neoparnasianismo, que recupera estilos parnasianos, no início dos anos 1900, com 
destaque para Augusto dos Anjos (1884-1914) e Humberto de Campos (1886-1934). 
Alimentados pelos ideais de filósofos, como Baudelaire, os poetas se expressam por 
meio de um pessimismo exagerado, de tristeza e questionamento sobre a vida 
(POSSAMAI, 2011). 
Outro movimento artístico que ganha força é o Impressionismo, que nada mais 
é que uma manifestação, sobretudo no campo da pintura, de uma impressão do 
mundo a sua volta, povoada por subjetivismo. Essa manifestação elucida a visão 
própria do artista, sendo praticada em teor mais considerável na pintura, com 
destaque para os efeitos de luz e retratando elementos da natureza, bem como é 
possível observar na pintura abaixo, do impressionista francês Claude Monet (1840-
1926): 
Figura 1: “Impressão – Sol Nascente”, 1874 
 
Fonte: Cristovão (2009, p. 41). 
 
Essa dimensão do impressionismo da pintura mescla cores e sentimentos do 
artista, com destaque para a sua liberdade de criação, desprendido de regras 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
109 
 
 
convencionais, tendo como berço a França. Essa prática que se destaca na pintura 
atinge também a poesia, pois os poetas começam a escrever inspirados em 
sensações múltiplas, utilizando as palavras de forma não convencionais, como um 
embaralhamento e mistura de várias cores, o que requereu uma busca de 
independência entre esses dois campos culturais (CRISTOVÃO, 2009). (Essa 
subjetividade na literatura, segundo Coutinho (2004c), atravessa um momento de 
criação como algo fragmentado, inacabado e transitório, sem ficar preso à sintaxe 
ordenada, pelo uso de metáforas, assim como se percebe no Romantismo, além da 
sonoridade que é comum na poesia impressionista. 
Além dos dois escritores destacados acima, outros integram esse período 
literário de transição, quais sejam: Raul Pompeia (1863-1895), Graça Aranha (1868-
1931) e Afrânio Peixoto (1876-1947), dentre outros. Retomando Augusto Carvalho 
Rodrigues dos Anjos, este nasceu em sapé-PR. Tido como pré-modernista brasileiro, 
exerceu a função de professor no seu estado, tendo iniciado no universo poético já 
na infância, com destaque para seu livro Eu e outras poesias (1912). Segue um poema 
desse seu livro: 
Vozes de um túmulo 
Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho 
Destes meus olhos apagou!… Assim 
Tântalo, aos reais convivas, num festim, 
Serviu as carnes do seu próprio filho! 
Por que para este cemitério vim?! 
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho 
Palmilhasse, do que este que palmilho 
E que me assombra, porque não tem fim! 
No ardor do sonho que o fronema exalta 
Construí de orgulho ênea pirâmide alta, 
Hoje, porém, que se desmoronou 
A pirâmide real do meu orgulho, 
Hoje que apenas sou matéria e entulho 
Tenho consciência de que nada sou! 
(ANJOS, 2018, p. 58) 
 
Como característica própria da poética de Augusto dos Anjos, o poema 
retrata a impressão do eu lírico sobre si mesmo, em que a morte assombra seus finitos 
passos terrenos. A morte é mencionada como fatalidade e a finitude humana, assim 
como tão frágil é o ser humano frente a essa passagem para o outro lado da vida, 
sendo que a matéria (o corpo), insignificante, se desfaz no túmulo tido como o último 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
110 
 
 
lugar e o destino do homem. Por outro lado, a fraqueza do eu lírico não retrata 
somente a si mesmo, mas a sociedade em geral, pelos sentimentos negativos que 
povoam esse ser, trazendo consigo a insignificância e a efemeridade da carne. Há, 
portanto, um sentimento de pessimismo frente aos sentimentos humanos, e quea 
morte seria uma forma de se transformar em um ser melhor. 
 
9.2 O MODERNISMO E A SEMANA DE ARTE MODERNA EM SÃO PAULO 
Além dos movimentos já apontados na seção anterior, outros também 
merecem destaque, pois se traduzem em acontecimentos decisivos para a 
instauração da poesia moderna brasileira, tais como as Vanguardas Europeias, nome 
dado aos estilos que surgem no momento vigente, isto é, no início do século XX. 
Seguem breves descrições dos cinco movimentos principais da época: 
 
Quadro 1: Movimentos de Vanguarda Europeia 
Movimentos Descrições 
 
 
 
Futurismo 
Destacava alguns fenômenos como o movimento e a velocidade, próprios 
da tendência de velocidade temporal com que viria a ocorrer nos tempos 
mais modernos. Inicia-se com o “Manifesto do Futurismo”, de Marinetti, o qual 
“[...] defendia o emprego do substantivo e do verbo somente no infinitivo, 
abolindo o adjetivo e o advérbio” (POSSAMAI, 2011, p. 131). 
 
 
 
 
Dadaísmo 
Propunha um novo estilo estético e resistir modelos pré-estabelecidos, 
sugerindo uma expressão mais livre de intelectualismo elaborado. Esse 
descompromisso se direciona para uma anarquia, possibilitando reflexos 
também a escrita, por meio de uma sintaxe mais livre. Essa concepção se 
alinhava a um ideal de felicidade e prazer momentâneos, em que a anarquia 
se direcionava também para as palavras, pela fuga às convenções 
tradicionais bem elaboradas. 
 
 
 
 
 
Surrealismo 
Também aparece como uma etapa desses movimentos pré-modernistas, 
integrando o horizonte dessas vanguardas como experimentos para um novo 
rumo à arte europeia e que posteriormente inspiraria outras regiões, como o 
Brasil. Como o próprio termo significa, trata-se de uma forma de arte que 
ultrapassa as fronteiras do que vem a ser real, uma visão elaborada, 
imaginada, dispensando modelos como os observados no Realismo. 
Amparados pelo inconsciente freudiano, os artistas seguiam em direção a 
uma falta de lógica, buscando um aspecto daquilo sem sentido. 
 
 
 
Cubismo 
O Cubismo também ganha destaque nessas correntes de vanguarda, cujo 
nome mais famoso é Picasso e seus quadros, como pintor de notoriedade 
nesses meados do início do século XX. Esse movimento foi o que mais rompeu 
de forma abrupta as tendências tradicionais e que mais refletiu no que viria a 
seguir, a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. 
 
 
 
Expressionismo 
É outro movimento que vem sublinhar essa gama de manifestações distintas 
das anteriores, a romper com as formalidades das artes que se praticavam 
até então. Pautado por uma subjetividade extrema, sugere uma expressão 
puramente pessoal e nada objetivo, em que o artista se expressa de modo a 
conter na obra a sua própria visão de mundo, algo advindo de seu íntimo. 
Fonte: Elaboração pelos autores (2021). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
111 
 
 
Frente a esses movimentos de Vanguarda e até mesmo pelo contexto histórico 
que viria a ocorrer em momentos posteriores, emerge a Primeira Guerra Mundial, que 
provoca uma mudança nas concepções em vários campos, tais como social e 
ideológica. Dentre essas mudanças, como forte aspecto que reflete na literatura e 
em outras artes, está a incerteza do cientificismo e dos questionamentos dos saberes 
absolutos. Nesse contexto, já tendo existido no Surrealismo, o inconsciente ganha 
destaque, advindas das teorias de Freud no campo da Psicanálise como 
considerável para a compreensão do homem. 
No período pós-guerra, ansiavam-se por novas formas de expressão que não 
estivessem ainda presas ao passado. Nesse contexto, surge a figura de Oswald de 
Andrade como líder para encabeçar um novo movimento artístico, conquistando 
intelectuais e artistas para tal revolução. Dessa forma, o projeto ganha força, somado 
às constantes exposições que passam a ocorrer na segunda década do século XX. 
Dessa forma, vão se consolidando os modos diferenciados de se fazer arte no 
Brasil, em especial a poesia, cuja fase, para além de Modernismo, o grupo de líderes 
era denominado de futuristas. É nesse contexto que surge a ideia de se dedicar uma 
semana à arte, que fica conhecida como a Semana de Arte Moderna, ocorrendo 
em 1922 e como comemoração ao centenário da Independência do país. O evento 
ocorre no Teatro Municipal, em São Paulo, reunindo todos os tipos de artes como 
formas de expressão. Além dessa semana especial, outros espetáculos também 
acontecem, como forma de reforço aos ideais propostos, no intuito de se dar um 
novo rumo às práticas artísticas. 
 
 
 
Após a semana supracitada, outras manifestações importantes ocorrem, 
atinge todo o país e provocam reações diversas, desde a adesão de parte da 
população até os contras ao movimento dos modernistas. Como exemplo, destaca-
se o Manifesto Pau-Brasil – resistência à poesia de importação, por Oswald de 
Andrade, como aponta Coutinho (2004b). 
Pensar em Modernismo, no que concerne à poesia, é se certificar de que se 
trata de uma liberdade às fórmulas convencionais, acadêmicas, em que a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
112 
 
 
originalidade se faz a gosto do poeta. Os poetas modernistas aderem ao verso 
branco e livre, rompe com a linguagem erudita em prol de coloquialismos, com erros 
propositais. Essa corrente literária é dividida em três fases. Na primeira fase é 
publicado o Manifesto Antropofágico, em 1928, de autoria de Oswald de Andrade, 
sendo Tarsila do Amaral outro expoente desse movimento, cujo objetivo era 
experimentar outras formas de cultura nacional. Esse manifesto é simbolizado por um 
quadro de autoria de Tarsila que o dá de presente ao marido, Oswald: 
 
Figura 2: Abaporu, 1928 
 
Fonte: Sousa (2013, p. 26) 
 
Na primeira fase modernista (fase heroica), que vai de 1922 até 1930, 
destacam-se Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Manuel 
Bandeira (1886-1968) e Patrícia Galvão (1910-1962), conhecida como “Pagu”. Dentre 
suas principais características, destacam-se o regionalismo e linguagem informal, 
nacionalismo, valorização da cultura popular, ironia, versos brancos e livres. 
Na segunda fase (de consolidação), 1930 a 1945, Carlos Drummond de 
Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (1901-1964), Mário Quintana (1906-1994), 
Vinícius de Moraes (1913-1980) e Murilo Mendes (1901-1975). Nessa fase, observa-se 
uma forte presença de crítica social, ênfase para as temáticas cotidiana, religiosa e 
histórica, destaque para valorização da diversidade cultural brasileira, versos livres e 
brancos. 
Já na terceira fase, entre 1945 e 1960 (“Geração de 45”), o destaque vai para 
Mário Quintana (1906-1994), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Guimarães Rosa 
(1908-1967). Nessa fase, observa-se a inserção da mulher na literatura, considerando-
 
 
 
 
 
 
 
 
 
113 
 
 
se a poesia de Clarice Lispector (1920-1977), Hilda Hilst (1930-2004) e Adélia Prado 
(1935-atual). Nessa última fase, há a presença de uma linguagem mais objetiva, 
elementos do Simbolismo e do Parnasianismo, aversão à liberdade formal, com a 
presença da rima e da métrica, além de questões sociais fazerem presença de forma 
notável como temáticas centrais. 
Segundo Possamai (2011), Mário Raul de Morais de Andrade nasceu em São 
Paulo, iniciando-se na escrita poética em 1917, após ter estudado no 
Conservadorismo Dramático e Musical da mesma cidade. Pelos reflexos dos artistas 
plásticos da época, esse escritor adere-se aos estilos modernistas, em que escreve 
Pauliceia Desvairada (1922), seu primeiro e um dos mais famosos livros de poesia. 
Destaca, em seus poemas, aspectos da cidade de São Paulo, ressaltando sua 
população e as vivências naquela metrópole. Vejamos o poema que inaugura o 
referido livro: 
Inspiração 
 
São Paulo! comoção de minha vida... 
Os meus amores são flores feitas de original... 
Arlequinal!...Traje de losangos... Cinza e ouro... 
Luz e bruma... Forno e inverno morno... 
Elegâncias sutis sem escândalos,sem ciúmes... 
Perfumes de Paris... Arys! 
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!... 
 
São Paulo! comoção de minha vida... 
Galicismo a berrar nos desertos da América! 
 
(ANDRADE, 1987, p. 83) 
 
No poema, o centro das ideias concentra-se na cidade de São Paulo, tendo 
em vista que o livro é lançado no mesmo ano em que ocorre a Semana de Arte 
Moderna, nessa cidade. Essa referência é marca registrada na obra de Andrade, 
tendo em vista que a cidade na época supracitada passa por um intenso processo 
de desenvolvimento, com sua agitação e efervescência cultural, sobretudo no 
universo poético. Esse desenvolvimento e crescimento acelerado é comprovado 
pela referência a Paris, que também provoca algumas contradições 
comportamentais e climáticas: “Forno e inverno morno...”. Aliás, nesse verso, como 
na maioria do poema, apresentam ideias inconclusas, pelo emprego de reticências, 
como se a complexidade paulista, com suas variações, inclusive humanas, 
interrompesse as ideias do eu lírico. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
114 
 
 
9.3 A POESIA CONCRETA 
O Modernismo assinala uma liberdade artística em todos os campos e na 
poesia não é diferente, o que significa também se despontar para outros rumos que 
demarcassem como novas tendências da época. E é nessa dimensão que a 
denominada poesia concreta surge, corrente liderada por Augusto de Campos 
(1931-atual) e Haroldo de Campos (1929-2003). 
Possamai (2011) destaca que a poesia concreta valoriza aspectos não apenas 
temáticos, mas visuais, levando em conta os signos que não apenas as palavras, mas 
também traços que produzem sentidos. Essa poesia ruma para a fusão entre os 
aspectos linguagem verbal, imagem, som (efeito verbovocovisual) com possibilidade 
de se explorar todos os significados possíveis das construções, dialogando com outras 
manifestações artísticas, como as artes plásticas. Além disso, é comum perceber 
nessa poesia recursos como a metalinguagem, objetividade (rompimento com o eu 
lírico), adesão ao poema-objeto, rejeição ao verso e o aproveitamento da página 
na composição do poema. 
 
 
 
Coutinho (2004c) observa que no Concretismo o poema adquire também uma 
função, denominada pelo teórico de poema-práxis, tendo em vista que a estética 
possibilita desenhar por meio das palavras, configurando uma realidade específica 
que vai ao encontro do leitor que pode também atribuir seus sentidos de acordo com 
as dimensões visuais. Essa característica possibilita também adentrar-se para 
possibilidades semânticas, cujo sentido é produzido com relações a outros 
significados linguísticos e imagéticos, fazendo da poesia um trabalho dinâmico. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
115 
 
 
se 
nasce 
morre nasce 
morre nasce morre 
 renasce remorre renasce 
 remorre renasce 
 remorre 
 re 
 re 
 desnasce 
 desmorre desnasce 
desmorre desnasce desmorre 
 nascemorrenasce 
 morrenasce 
 morre 
 se 
(CAMPOS,1958) 
 
O poema concretista de Campos oferece ao leitor mais que um poema escrito 
em palavras, mas um trabalho estético que mistura outros elementos, como 
imagético (figuras triangulares com aspecto de reflexo, que dialogam com as artes 
plásticas), e semântico. A dinâmica do nascer e morrer sugere a continuidade da 
vida, em que a vida e a morte se constituem em dois processos naturais nesse círculo 
vital do ser humano. Além disso, essa descontinuidade/continuidade é realizada por 
um trabalho de repetição de fonemas idênticos no início das palavras (aliteração) e 
palavras com sons semelhantes (assonância). Dessa forma, “nasce”/“desnasce” e 
“morre”/”desmorre” é trabalhado como um jogo de quebra-cabeças, em que cabe 
ao poeta ir dispondo as peças de modo a criar os efeitos de sentido desejado. Essa 
dinâmica aponta para duas palavras contraditórias e que uma é consequência da 
outra, em que os prefixos “re” e “des” reforçam a ideia de volta ao início, um retorno 
que completa esse ciclo. 
Por outro lado, sendo contrária ao Concretismo, surge a Poesia Social, cujo 
objetivo é a denúncia social e com temáticas que vão ao encontro dos problemas 
do país, resgatando tendências que outrora foram aderidas, como vistas no 
Parnasianismo, por exemplo, além do verso e o lirismo. Nesse contexto, destaca-se a 
Ditadura Militar no Brasil que já se encontra a todo vapor e também serve de horizonte 
para a produção poética da época, inclusive pela censura da linguagem mais 
direta. Nessa corrente, o destaque vai para Ferreira Gullar (1930-2016) que de início é 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
116 
 
 
adepto da poesia concreta e depois abandona essa vertente e adere-se a essa 
outra forma de escrita que é a poesia social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
https://bit.ly/3a8P55k
 
 
 
 
 
 
 
 
 
117 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (UCP – PR) Movimento literário brasileiro que recebeu influências de vanguardas 
europeias, tais como o Futurismo e o Surrealismo: 
 
a) Modernismo 
b) Parnasianismo 
c) Romantismo 
d) Realismo 
e) Simbolismo 
 
2. (UDESC) A Semana da Arte Moderna de 1922 tinha como uma das grandes 
aspirações renovar o ambiente artístico e cultural do país, produzindo uma arte 
brasileira afinada com as tendências vanguardistas europeias, sem, contudo, 
perder o caráter nacional; para isso contou com a participação de escritores, 
artistas plásticos, músicos, entre outros. Analise as sequências que reúnam as 
proposições corretas em relação à Semana da Arte Moderna. 
 
I. O movimento modernista buscava resgatar alguns pontos em comum com o 
Barroco, como os contos sobre a natureza; e com o Parnasianismo, como o estilo 
simples da linguagem. 
II. A exposição da artista plástica Anita Malfatti representou um marco para o 
modernismo brasileiro; suas obras apresentavam tendências vanguardistas 
europeias, o que de certa forma chocou grande parte do público; foi criticada 
pela corrente conservadora, mas despertou os jovens para a renovação da arte 
brasileira. 
III. O escritor Graça Aranha foi quem abriu o evento com a sua conferência inaugural 
“A emoção estética na Arte Moderna”; em seguida, apresentou suas obras 
Pauliceia desvairada e Amar, verbo intransitivo. 
IV. O maestro e compositor Villa-Lobos foi um dos mais importantes e atuantes 
participantes da Semana. 
V. As esculturas de Brecheret, impregnadas de modernidade, foram um dos 
estandartes da Semana; sua maquete do Movimento às Bandeiras foi recusada 
pelas autoridades paulistas; hoje, umas das esculturas públicas mais admiradas em 
São Paulo. 
https://www.udesc.br/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
118 
 
 
Assinale a alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo. 
 
a) II, III e V. 
b) II, IV e V 
c) I e III. 
d) I e IV. 
e) II e V. 
 
3. (UEL-PR) As reações negativas do público à Semana de Arte Moderna refletem: 
 
a) A fixação do espírito brasileiro no propósito de menosprezo das criações 
nacionalistas. 
b) A possibilidade do futuro fracasso do modernismo como movimento estético 
literário. 
c) A aversão dos autores em se comunicar com o público presente no teatro 
municipal de são paulo. 
d) A preferência pelas manifestações artísticas já cristalizadas nas linhas do 
academicismo. 
e) O pouco amadurecimento dos autores para propostas de vanguarda. 
 
4. Em 1924, os surrealistas lançaram um manifesto no qual anunciaram a força do 
inconsciente na criação de novas percepções. Valorizavam a ausência de lógica 
das experiências psíquicas e oníricas, propondo novas experiências estéticas. 
Sobre o Surrealismo,é correto afirmar: 
 
a) Acredita que a liberação do psiquismo humano se dá por meio da sacralização 
da natureza. 
b) Baseia-se na razão, negando as oscilações do temperamento humano. 
c) Destaca que o fundamental, na arte, é o objeto visível em detrimento do 
emocionalismo subjetivo do artista. 
d) Concede mais valor ao livre jogo da imaginação individual do que à codificação 
dos ideais da sociedade ou da história. 
e) Busca limitar o psiquismo humano e suas manifestações, transfigurando-os em 
geometria a favor de uma nova ordem. 
http://portal.uel.br/home/
 
 
 
 
 
 
 
 
 
119 
 
 
5. (FESP-PE) 
 
"Quando as casas baixarem de preço,/ Laura Moura, prenda minha,/ Uma delas será sua 
sem favor./ Lá fora a bulha da cidade/ Disfarçará nosso prazer.../ E a gente, numa rede 
maranhense,/ Ao som dum jazz bem blue,/ Balancearemos no calor da noite,/ Sonhando 
com o sertão." 
 
Assinale a afirmativa que não constitui característica do Modernismo e que, 
assim, não se aplica ao texto acima. 
 
a) Valorização poética de aspectos da realidade tradicionalmente considerados 
prosaicos. 
b) Utilização de versos simétricos, porém brancos. 
c) Integração na nossa cultura de manifestações artísticas estrangeiras. 
d) Síntese poética da nacionalidade pela integração de diversos aspectos culturais 
do país. 
e) Aproximação dos padrões da linguagem coloquial. 
 
6. (ENEM) “Poética”, de Manuel Bandeira, é quase um manifesto do movimento 
modernista brasileiro de 1922. No poema, o autor elabora críticas e propostas que 
representam o pensamento estético predominante na época. 
 
Poética 
 
Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente 
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor. 
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário 
o cunho vernáculo de um vocábulo. 
Abaixo os puristas 
[...] 
Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbedos 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare 
 
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. 
 
(BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de janeiro: José Aguilar, 1974) 
 
Com base na leitura do poema, podemos afirmar corretamente que o poeta: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
120 
 
 
a) Critica o lirismo louco do movimento modernista. 
b) Critica todo e qualquer lirismo na literatura. 
c) Propõe o retorno ao lirismo do movimento clássico. 
d) Propõe o retorno do movimento romântico. 
e) Propõe a criação de um novo lirismo. 
 
7. (ENEM) O uso do pronome átono no início das frases é destacado por um poeta e 
por um gramático nos textos abaixo. 
 
Pronominais 
 
Dê-me um cigarro 
Diz a gramática 
Do professor e do aluno 
E do mulato sabido 
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira 
Dizem todos os dias 
Deixa disso camarada 
Me dá um cigarro. 
 
(ANDRADE, Oswald de. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.) 
 
“Iniciar a frase com pronome átono só é lícito na conversação familiar, despreocupada, 
ou na língua escrita quando se deseja reproduzir a fala dos personagens (...)”. 
 
(CEGALLA. Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Nacional, 1980.) 
 
Comparando a explicação dada pelos autores sobre essa regra, pode-se afirmar 
que ambos: 
 
a) Condenam essa regra gramatical. 
b) Acreditam que apenas os esclarecidos sabem essa regra. 
c) Criticam a presença de regras na gramática. 
d) Afirmam que não há regras para uso de pronomes. 
e) Relativizam essa regra gramatical. 
 
8. (PUC-PR) 
 
de sol a sol 
soldado 
de sal a sal 
salgado 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
121 
 
 
de sova a sova 
sovado 
de suco a suco 
sugado 
de sono a sono 
sonado 
 
sangrado 
de sangue a sangue 
(Haroldo de Campos) 
 
O poema concretista, acima indicado, apresenta as seguintes inovações no 
campo verbal e visual: 
 
a) Apresentação de um ideograma; uso de estrangeirismos, esfacelamento da 
linguagem. 
b) Ausência de sinais de pontuação; uso intensivo de certos fonemas; jogos sonoros 
e uso de justaposição. 
c) Abolição do verso tradicional; desintegração do sistema em seus morfemas; a 
palavra dá lugar ao símbolo gráfico. 
d) Uso construtivo dos espaços brancos; neologismo; separação dos sufixos e dos 
prefixos; uso de versos alexandrinos. 
e) Apresentação de trocadilhos; uso de termos plurilinguísticos; desintegração da 
palavra e emprego de símbolos gráficos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
122 
 
 
A TROPICÁLIA 
 
 
 
 
10.1 O SURGIMENTO DO MOVIMENTO 
Diferentemente dos estudos anteriores, no que concerne à poesia, a Tropicália 
não é considerada uma escola literária, integrando ao pós-modernismo em função 
do período em que ocorre. Porém, não se trata de uma literatura propriamente dita, 
mas de uma junção entre diferentes manifestações culturais, em que ocorre uma 
fusão entre poesia, música, teatro e cinema. Então, trata-se de uma experimentação 
de mesclagem cultural que rompe com modelos anteriores, exatamente por 
objetivar formas alternativas de se praticar a cultura no Brasil. 
É nessa efervescência que surge a força denominada de cultura de esquerda, 
representada por um grupo de músicos baianos, em especial Caetano Veloso, 
Gilberto Gil, Torquato Neto, Tom Zé e Gal Costa, artistas que se situavam na periferia 
do Brasil e que são os idealizadores desse novo projeto artístico. Vale destacar 
também que essa nova roupagem que envolve especialmente a música (MPB) 
projetava uma nova maneira de se relacionar política e arte. Por outro lado, no 
contexto literário do Modernismo, há um certo resgate da antropofagia oswaldiana 
do Modernismo, vindo à tona a hegemonia cultural tida como de esquerda brasileira 
(OLIVEIRA, 2019). 
O início desse novo tipo de arte que se encontra em evidência apresenta seu 
fundamento no III Festival de Música Popular Brasileira, com destaque para a televisão 
como veículo considerável do período, que serve como instrumento para a 
propagação cultural pelo alcance maciço da sociedade. Nesse festival, houve 
UNIDADE 
10 
Esse movimento surge na década de 1960, em meio a repressões, com 
destaque, principalmente, para o início da Ditadura Militar brasileira (1964-1985), 
refletindo em situações conflitantes entre a direita militar e a esquerda, esta 
representada por artistas e intelectuais que buscam formas alternativas culturais de 
modo a atender aos anseios da sociedade. Nesse contexto, as discussões sobre a 
realidade brasileira começam a ganhar força, emergindo novas propostas 
ideológicas de enfrentamento político e novas formas de se dialogar com o público 
consumidor da cultura que propunha. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
123 
 
 
interpretações de duas canções peculiares e fundadoras do movimento: Alegria, 
Alegria, por Caetano Veloso, e Domingo no Parque, por Gilberto Gil. 
 
 
 
Anos seguintes, por ocasião de demais festivais, estes se deram nessa linha 
tropicalista, inclusive com o lançamento de um disco-manifesto, em 1968, contendo 
o próprio nome em seu título: Tropicália ou Panis et Circencis, pela gravadora Philips 
Records. 
figura 3: Capa do disco-manifesto 
 
Fonte: Alves (2014, p. 17). 
 
Embora possa ser observado com certa singularidade, pelas inovações 
estéticas que se caracterizam de modo radical, esse movimento se baseia também 
em outros antecedentes, em especial a vanguarda e a popularidade, justificada 
pelo fato de pertencer à esquerda brasileira. No contexto de uma cultura, em 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
124 
 
 
especial a literatura de tendências vanguardistas, encontram-se inspirações em 
prática também estrangeiras, além de o concretismo – verbovocovisual – inspirar essa 
arte. 
Portanto, ainda que o movimento possa ser observado como de forte vínculo 
com a literatura, é no contexto da evolução da Música Popular Brasileira que esse 
aspectocultural ganha sustento, até mesmo se tratando de suas lideranças 
vinculadas à música como recurso mais adequado para se expressar. Segundo 
Favaretto (1995), essa nova roupagem musical traça uma relação entre fruição 
estética e crítica social, sendo que os processos construtivos apresentam sua 
importância nesse contexto. A enumeração caótica e a colagem, em um 
movimento de desconstrução das tradições musicais, com destaque para o cool e 
trata as questões sociais sem o pathos do momento. 
 
 
 
O termo “Tropicalismo” foi originado por um artista plástico da época, Hélio 
Oiticica, sendo tomado posteriormente por Caetano Veloso para uma de suas 
músicas e que acabou se consolidando como nome do movimento. Embora algumas 
características já tenham sido mencionadas, cabe reiterar que outras merecem 
destaque, como por exemplo, o fato da presença do movimento hippie na sua 
estética, com destaque para a irreverência. O tropicalismo é fundado com base em 
uma visão nacionalista e valorização de uma cultura mais primitiva brasileira, com a 
consideração de popularidade em detrimento da cultura erudita da classe 
dominante; valorização da liberdade, inclusive de expressão; consideração ao 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
125 
 
 
movimento antropofágico de Oswald de Andrade, ocorrido no Modernismo literário 
brasileiro. As letras tornam-se muito populares e esse é exatamente o objetivo do 
movimento, com destaque para a evolução da indústria cultural, em especial a 
fonográfica, que coloca em evidência também o nacionalismo populista. 
Essa popularidade nos faz refletir sobre a popularidade cultural e a cultura 
erudita, que não era praticada para todos, mas para uma fatia reduzida da 
população. Essa democratização cultural, então, de fácil consumo, propunha um 
processo de aproximação da população à realidade nacional, como forma de 
conscientização sobre as questões políticas, sociais e culturais. Ocorre então uma 
espécie de descentralização cultural, cujas letras exprimem um teor de protesto, bem 
como outros gêneros musicais vinculados à MPB, tais como o pop, o caipira e o rock 
brasileiro dos anos 1980, que acabam fundidos pela Tropicália (OLIVEIRA, 2019). 
O discurso tropicalista, de modo não convencional, trata da realidade do país 
de modo irreverente, aproximando-se do deboche em formato de protesto, que 
clama por justiça social. Esse discurso se constitui como plurissignificante, haja vista as 
várias referências de críticas e artísticas, sobressaindo-se o humor e o cafonismo como 
características marcantes desse movimento tido ainda como lúdico, pelos seus 
recursos construtivos (FAVARETTO, 1995). 
 
10.2 O TROPICALISMO E A DITADURA MILITAR NO BRASIL 
O encontro produtivo entre o grupo de artistas baianos e intelectuais paulistas 
culminou na emergência da Tropicália (ou Tropicalismo), movimento estético-musical 
que toma a radicalidade crítica como mecanismo de enfrentamento à Ditadura 
Militar brasileira. Nesse período, havia instalado no país os ideais do autoritarismo, em 
que o conservadorismo reinava a todo vapor, e que a ideologia de uma 
modernização centrada nessa proposta de governo vinha a se concretizar com o 
golpe militar, em 1964. É a partir daí que começam as discussões e as alianças para 
se buscar meios de resistência a esse sistema governamental e surge então esse 
movimento artístico no país. 
Coelho (2010) observa que, em momentos anteriores ao golpe, mais 
precisamente em 1962, as sensações eram boas, pois reinava um projeto político 
diferenciado no Brasil, por meio dos denominados janguistas e reformistas, mas 
naufraga pela ideologia conservadora anos depois. No período de domínio da 
ditadura, especialmente, na década de sua instauração, 1960, o país presencia uma 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
126 
 
 
tensão severa, com dois segmentos em conflito: de um lado os militares e, de outro, 
a sociedade. Essa estrutura social requer então alternativas para reflexões e saída 
para uma sociedade justa e democrática, cujo enfrentamento se daria por meio das 
práticas artísticas, com destaque para a música e a poesia. 
Se por um lado esses conflitos são observados como negativos, sobretudo 
pelas suas consequências desagradáveis, por outro, há de se considerar uma 
vantagem nesse contexto. Esses conflitos ideológicos provocam alterações no 
cenário da produção cultural brasileiro, fazendo progredir a indústria cultural em 
consonância com uma sociedade de consumo. Desses movimentos, nascem meios 
de comunicação diferenciados, tais como a televisão, a modernização das 
telecomunicações, propiciando novos formatos de comunicação em massa. O rádio 
perde a hegemonia para esses novos meios, estes induzindo ao consumismo em 
massa também pela imagem. Programas de TV passam a ser produzidos, 
especialmente telenovelas, festivais e disco. 
Essa época de ascensão do consumo pela expansão industrial, especialmente 
no que concerne à cultura pelos veículos de comunicação, é marcada por uma 
transformação da sociedade, que migra da zona rural para a urbana em busca de 
melhores condições de vida. Essa urbanização reflete no consumo em larga escala 
e possibilita os avanços culturais em todos os sentidos, provocando a produção de 
novos produtos nesse sentido (OLIVEIRA, 2019, p. 25). 
Como forma de enfrentamento à ditadura, as letras que veiculam na mídia 
vão de encontro ao sistema de governo, resiste à ideologia conservadora e propõe 
novas formas de artes, populares, de esquerda. “Temas como banditismo, armas de 
fogo, enfrentamentos armados entre policiais e estudantes, desagregação de 
valores da classe média brasileira, grupos marginalizados da sociedade [...]” 
(COELHO, 2010, p. 116). Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto 
passam a compor letras com fortes críticas, como, por exemplo, “É proibido proibir”, 
“Marginália” e “Enquanto seu lobo não vem”, dentre muitas outras que se contrastam 
com o momento político e social da época. 
Para ilustrar essa relação íntima entre as letras tropicalistas e a ditadura militar, 
analisaremos a primeira supracitada no parágrafo anterior, composta por Caetano 
Veloso em alusão ao próprio regime político brasileiro que, na ocasião apresentada 
no III Festival Internacional da Canção, o artista foi vaiado pela letra de cunho político 
militar: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
127 
 
 
É Proibido Proibir 
 
A mãe da virgem diz que não 
E o anúncio da televisão 
E estava escrito no portão 
E o maestro ergueu o dedo 
E além da porta há o porteiro, sim... 
 
E eu digo “não” 
E eu digo não ao “não” 
E eu digo é proibido proibir 
É proibido proibir 
É proibido proibir 
É proibido proibir 
 
Me dê um beijo meu amor 
Eles estão nos esperando 
Os automóveis ardem em chamas 
Derrubar as prateleiras 
As estantes, as estátuas 
As vidraças, louças, livros... Sim 
 
E eu digo “sim” 
E eu digo não ao “não” 
E eu digo: é proibido proibir 
É proibido proibir 
É proibido proibir 
É proibido proibir 
É proibido proibir 
 
Caí no areal na hora adversa 
Que Deus concede aos seus, 
Para o intervalo em que esteja a alma imersa 
Em sonhos que são Deus. 
 
Que importa o areal, a morte, a desventura, 
Se com Deus me guardei? 
É o que me sonhei, que eterno dura. 
É esse que regressarei. 
 
(VELOSO, 1968 apud NETTO, 1998, p. 51-52). 
 
A letra musical de Caetano, a começar pelo seu título, faz alusão à ditadura 
militar que impunha um sistema autoritário e de censura cultural, não permitindo a 
veiculação de qualquer tipo de expressão, especialmente aquelas que utilizassem 
uma linguagem mais direta e com forte conotação política e social. O eu lírico, por 
meio do repetido verso “É proibido proibir”, especialmente, coloca-se em posição de 
resistência ao sistema e sugere liberdade, ainda mais quando se trata da juventude 
da época, que anseia por gozar de uma vida livre, sem preocupações em ser 
controlado por umsistema autoritário. E nessa direção os demais versos seguem nesse 
horizonte de não proibição. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
128 
 
 
Além disso, há uma crítica em relação ao sistema capitalista brasileiro, o qual 
provoca desigualdade social. Ressalta-se que esse gesto contracultural que se 
observa na Tropicália apresenta sua base nos moldes culturais norte-americanos, em 
que os hippies se rebelam dessa forma como é expressa pelo eu lírico na canção, em 
que a aparente rebeldia é lema para as manifestações contra o conservadorismo. 
Trata-se de um gesto de coragem de Caetano em relação à expressão de 
enfrentamento, quando o sistema pedia silenciamento e obediência. Com um tom 
irônico, a letra desperta distintos tipos de sentimentos na época de seu lançamento, 
pautada por polêmica e provocando uma divisão na sociedade em relação à letra. 
Além do que é apresentado na letra analisada, essas letras, no geral, fazem 
alusão a vários aspectos vinculados à Ditadura Militar, evocando elementos como 
“bomba”, “morte” e “cadeia”, como protesto e meio de conscientização da 
sociedade, que encontra respaldo nos meios de comunicação em massa. Ressalta-
se que os grupos estudantis também se aderem ao movimento, jovens que buscam 
por transformações sociais e, especialmente, políticas, de modo a ganhar visibilidade 
pelos protestos. 
 No entanto, grupos conservadores reagem ao tropicalismo, pois esse 
movimento se caracteriza pelo protesto, com forte crítica a ideologias da época. 
Essas reações se dão principalmente pelos religiosos católicos. Essas reações incluem 
desde bombas a destruição de cenários de shows dos artistas tropicalistas, inclusive 
por espancamentos de atores de peças relativos ao movimento, em São Paulo e em 
Porto Alegre. Desses conflitos, houve censura em relação a shows desses artistas, 
como, por exemplo, na Boate Sucata (RJ), já que o cenário fazia referência à “[...] 
homenagem do artista plástico Hélio Oiticica ao bandido Cara de Cavalo, morto 
pela polícia carioca, além da suspensão do programa Divino Maravilhoso e da 
própria prisão, e posterior exílio, de Caetano Veloso e Gilberto Gil” (OLIVEIRA, 2019, p. 
36). A relação entre distintos formatos artísticos será abordada na próxima seção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
129 
 
 
10.3 ALIANÇA ENTRE CINEMA, TEATRO, POESIA E MÚSICA 
Como já mencionado anteriormente, a Tropicália é marcada por uma 
manifestação cultural que engloba vários campos artísticos, não se restringindo a 
apenas a poesia ou a música, embora os estudos nessa área e talvez pela maior 
notoriedade social, estes dois últimos tipos de expressão tenham ganhado mais 
impulso nesse movimento. Além disso, o próprio momento histórico político dominado 
pela ditadura militar requeria uma ação conjunta das artes em geral, como força 
para a busca de novas alternativas, alvos de debates para se pensar a produção 
cultural brasileira do momento, com efeito para despolarizar essas concepções 
artísticas e sociais no país. 
Isto posto, segundo Favaretto (1995), as discussões que dominavam as 
temáticas daquele momento eram amplas e ambiciosas, como quem objetivava a 
observar um Brasil com outros olhos, em todos os aspectos. Esses artistas colocavam 
em pauta a internacionalização cultural, consumo, dependência econômica, enfim, 
um passeio às origens que, de certa forma, ainda permaneciam intactas nos cenários 
cultural e econômico, principalmente. Eram preocupações que despertavam os 
jovens para um movimento, partindo da união entre os mais variados líderes e 
intelectuais, para um processo de conscientização por vias artísticas sob vários 
segmentos. 
Ainda sobre esse pensamento que norteava, sobretudo os jovens na década 
de 1960, culminava em organizações envolvendo a arte em geral, com destaque 
para os integrantes de cultura popular, com destaque para a União Nacional de 
Estudantes (UNE). Essas manifestações reúnem não somente os estudantes, mas 
também vários outros que se engajam no projeto, tais como poetas, músicos, 
cineastas e artistas de teatro. Dessa forma, o movimento promove espetáculos 
envolvendo essas distintas naturezas artísticas. Diferentes lideranças culturais se 
envolviam nessa causa, como “do Grupo Opinião; o Cinema Novo; Teatro de Arena 
e Oficina; a poesia participante de Violão de Rua e alguns romances como Quarup, 
de Antônio Callado, e Pessach de Carlos Heitor Cony” (FAVARETTO, 1995, p. 28). 
A Tropicália surge, assim, desses projetos arquitetados pelos diálogos e 
articulações que são capazes de estabelecerem vínculos entre diferentes campos 
artísticos e colocar novas ideologias em prática. Essas novas formas de se pensar 
sobre os valores, em especial culturais do país, colocava em xeque também a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
130 
 
 
polarização cultural e social, além de esse grupo artístico se rebelar contra a 
radicalização política que se observa em 1968. 
Era preciso então debater e encontrar alternativas de atribuir uma nova 
identidade brasileira, pois a dependência cultural ainda impera nesse período, 
aspecto que requeria uma reflexão conjunta dos atuantes no campo cultural, 
“música, literatura, artes plásticas, cinema, teatro, arquitetura etc.” (OLIVEIRA, 2019, 
p. 25). Somado ao contexto da ditadura militar, esses debates e manifestações 
tornam-se mais frequentes, haja vista que a Tropicália se caracteriza, especialmente, 
por se tratar de um projeto liderado por artistas de esquerda. 
É a partir da articulação desses diferentes tipos de artes que o tropicalismo 
ganha fôlego, cujas discussões colocavam no mesmo patamar, dentre as 
destacadas, principalmente a literatura, o teatro e o cinema. Obviamente não 
estamos desprezando a música, principal símbolo desse movimento, mas para além 
dela, aqueles são, sem dúvida, os tipos que ganham mais destaque para 
engrenagem dessa nova proposta. Esses elementos em desenvolvimento integram a 
indústria cultural brasileira do período, em que é debatida, também, uma espécie de 
antagonismo entre dois segmentos de arte: de um lado a participante e, de outro, a 
alienada. No que tange à música, de certa forma, foi preciso ganhar nova 
roupagem, sendo pertinente que se desvinculasse da crítica literária para receber 
novas fórmulas de apreciação. 
Quanto à relação entre poesia e música, sem dúvida o tropicalismo promove 
uma articulação bastante íntima entre essas duas formas de artes, para além do que 
já havia realizado em momentos anteriores na literatura moderna. Aparentemente 
semelhantes, aspectos como verbal e musical parecem fundir nesse processo criativo 
e analítico, embora ainda apresente certas dificuldades de aproximação desses dois 
processos criativos. A maior delas se situa no movimento de análise, já que a música 
requer um cuidado mais apurado na sua leitura, pois além de texto possui a melodia 
que também provoca sentidos. 
 
10.4 OS MÚSICOS/ESCRITORES INTEGRANTES DO MOVIMENTO 
Na primeira seção ressaltamos o grupo composto por artistas que lideram o 
movimento tropicalista, sobretudo os cantores e compositores baianos tidos como de 
esquerda, caracterizando essa prática cultural como marginal. Ferreira (2018) 
discorre sobre alguns desses artistas/compositores da época e suas participações 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
131 
 
 
nesse tipo de arte emergente no período histórico dado. Esse autor destaca Caetano 
Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes e Gal Costa, expoentes da história desse 
novo estilo musical e de outras formas de artes que integram esse universo. 
 
 
 
Além dos destacados, outros nomes que também integram à lista são Jorge 
Bem Jor, Chico Buarque, Nara Leão, Torquato Neto, José Carlos Capinam, Haroldo 
de Campos e Waly Salomão, Rita Lee, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Damiano 
Cozzella Arnaldo Baptista e Júlio Medaglia. Desses, vários são poetas e, como 
mencionado anteriormente, o concretismo ganha força nesse períodona literatura e 
na música brasileiras, se fazendo presente na linguagem cotidiana, desde a poesia 
até slogan de televisão e na propaganda. 
No que concerne à representatividade desse movimento pelos diferentes tipos 
artísticos, podemos destacar alguns que se tornaram ícones nesse contexto. Na 
música, os maiores representantes são exatamente os fundadores, citados no 
primeiro parágrafo desta seção. Na poesia, os escritores mais marcantes desse 
período são Torquato Neto (1944-1972) e José Carlos Capinam (1941-atual). Além 
disso, merece menção honrosa o artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), além de 
José Celso Martinez Corrêa (1937-atual) que se destaca no teatro. Essa articulação 
artística demonstra que a Tropicália não é composta apenas por poesia, mas por 
vários outros campos artísticos. 
Torquato Neto nasceu em Teresina/PI, tendo sido poeta, jornalista e compositor 
de letras musicais da MPB. Filho de um defensor público e de uma professora, muda-
se para Salvador para conclusão dos estudos secundários, onde conhece Gilberto 
Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Posteriormente, muda-se para o Rio 
de Janeiro para dar continuidade aos estudos e ingressa na faculdade de Jornalismo, 
embora não conclua esse curso, mas exerce a função em vários veículos de 
comunicação cariocas. Integra o movimento vanguardista na década de 1960, em 
especial a Tropicália, sendo um nome importante na história dessa efervescência 
https://bit.ly/3yfEJbY
https://bit.ly/3I9XmCI
 
 
 
 
 
 
 
 
 
132 
 
 
cultural da época, juntando-se aos seus líderes que já eram conhecidos desse escritor 
piauiense. O poema a seguir integra a obra póstuma desse escritor, os últimos dias de 
Paupéria, de 1973: 
 
Literato cantábile 
 
Agora não se fala mais 
toda palavra guarda uma cilada 
e qualquer gesto é o fim 
do seu início: 
 
Agora não se fala nada 
e tudo é transparente em cada forma 
qualquer palavra é um gesto 
e em sua orla 
os pássaros de sempre cantam 
nos hospícios. 
 
Você não tem que me dizer 
o número de mundo deste mundo 
não tem que me mostrar 
a outra face 
face ao fim de tudo: 
 
só tem que me dizer 
o nome da república do fundo 
o sim do fim 
do fim de tudo 
e o tem do tempo vindo: 
 
não tem que me mostrar 
a outra mesma face ao outro mundo 
(não se fala. não é permitido: 
mudar de ideia. é proibido. 
não se permite nunca mais olhares 
tensões de cismas crises e outros tempos. 
está vetado qualquer movimento 
 
(ARAÚJO NETO, 1973, p. 35) 
 
Integrante da Tropicália, também denominada contracultura, na primeira 
estrofe já denuncia o caráter de censura em relação às artes, dando pistas de que 
se trata de um eu lírico que manifesta a sua indignação frente à ditadura militar: 
“Agora não se fala mais / toda palavra guarda uma cilada / e qualquer gesto é o fim 
do seu início:” O discurso ruma para uma contraidentificação em relação ao sistema 
político no que tange à liberdade de ideias, em um momento histórico em que o Brasil 
clama por uma identidade cultural própria e uma ruptura com a cultura da classe 
dominante. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
133 
 
 
Vários são os versos em que o eu lírico encontra-se em meio à angústia de viver 
sob as patrulhas de esquerda, em que a cultura é controlada e os sujeitos obrigados 
a aderirem ao que lhes é imposto: “não se fala / não é permitido: / mudar de ideia é 
proibido [...] está vetado qualquer movimento”. Observa-se um movimento de 
imposição e incapacidade de mudança, restando ao eu lírico à obediência ao 
sistema e viver segundo às convenções da ditadura. Por outro lado, o poeta resiste, 
ainda que por meio de um eu lírico desesperançoso, mas que não deixa de ser o 
modo pelo qual o poeta expressa seu protesto para uma abertura cultural pautada 
pela democracia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
134 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (Unesp-2020, adaptado) Sobre a Tropicália, é correto afirmar que: 
 
a) Congregou artistas de diversos matizes ideológicos, tanto favoráveis como 
contrários ao regime militar. 
b) Foi um movimento eminentemente musical, que transmitia o otimismo da década 
de 1950. 
c) Foi um movimento artístico-cultural que se apropriou do ideário da antropofagia. 
d) Foi um movimento cultural interrompido pelo regime militar. 
e) Teve seu ápice incentivado pela explosão industrial nos estados do rio de janeiro e 
de são paulo. 
 
2. (IBFC-2017) “O Tropicalismo botou guitarra na música brasileira e a fez dialogar 
com o que havia de mais revolucionário na cultura fora do país – com os Beatles, 
os Rolling Stones, o cinema francês, a cultura pop. (...)" diz o cantor, compositor e 
performer baiano Tom ZÉ sobre o movimento tropicália do fim da década de 60. A 
arte moderna e a sociedade industrial estavam recebendo os valores 
contemporâneos da sociedade urbana com comunicação de massa. Analise as 
afirmativas abaixo e assinale a alternativa correta. 
 
I. A tropicália retomava princípios ligados ao conceito de Antropofagia na visão de 
Oswald de Andrade. 
II. Artistas se manifestavam politicamente através de suas obras. 
III. Os destaques do movimento eram principalmente músicos com Caetano Veloso 
e Gilberto Gil. 
IV. Tinha postura contestatória, bem-humorada e irreverente. 
V. Queriam quebrar as barreiras entre o tradicional e o moderno. 
 
Estão corretas as afirmativas: 
 
a) I, III, IV apenas 
b) II, IV, V apenas 
c) III, IV, V apenas 
d) I, II, III, IV, V 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
135 
 
 
e) IV, V apenas 
 
3. (UEM-2017, adaptado) Sobre os festivais de música promovidos por canais de 
televisão brasileiros, da metade dos anos 60 ao início dos anos 80, assinale o que 
for correto. 
 
a) A música tradicional do nordeste brasileiro passou a ser apreciada em todo o País 
a partir das apresentações de Luiz Gonzaga nos festivais. 
b) Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram canções que seriam ponto de partida 
para o movimento chamado Tropicalismo. 
c) O movimento da Bossa Nova tornou-se mundialmente reconhecido a partir das 
apresentações, nos festivais, de canções que viriam a se tornar clássicos da MPB, 
como “Chega de Saudade”, “Desafinado” e “Samba de uma Nota Só”. 
d) O gênero canção de protesto, com letras politicamente engajadas, era frequente 
nos festivais e, entre seus principais representantes, estavam Chico Buarque e 
Geraldo Vandré. 
e) Em contraponto ao gênero canção de protesto, Ary Barroso e Assis Valente 
apresentaram músicas que enalteciam as qualidades do País, como “Aquarela do 
Brasil”, “Isto aqui o que é? ” e “Brasil Pandeiro”. 
 
4. (UERJ-2019, adaptado) O álbum de músicas Tropicália ou Panis et circensis foi 
lançado em 1968. A fotografia que estampou sua capa foi realizada na casa de 
Oliver Perroy, fotógrafo da Editora Abril, em São Paulo. Cada um levou seus 
apetrechos, até um penico, comicamente usado por Rogério Duprat como se 
fosse uma xícara. A imagem ficou tão famosa que se tornou uma espécie de 
cartão-postal do movimento tropicalista. 
 
No contexto do final da década de 1960, o Tropicalismo, que causou polêmicas 
com produções como a do álbum citado, tornou-se símbolo de 
 
a) Purismo estético 
b) Extremismo político 
c) Tradicionalismo artístico 
d) Movimento conservador 
e) Experimentalismo cultural 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
136 
 
 
5. Leia as três estrofes abaixo e, em seguida, aponte a alternativa correta. 
 
No pulso esquerdo o bang-bang 
Em suas veias corre 
Muito pouco sangue 
Mas seu coração 
Balança um samba de tamborim 
 
Emite acordes dissonantes 
Pelos cinco mil alto-falantes 
Senhoras e senhores 
Ele põe os olhos grandes 
Sobre mim 
 
Viva Iracema ma, ma 
Viva Ipanema ma, ma, ma, ma... 
 
Os versos acima são da canção “Tropicália”, de Caetano Veloso. Partindo desses 
versos, é possível afirmar que: 
 
a) Um dos principais aspectos do movimento tropicalista era falar exclusivamenteda 
cultura nacional. 
b) Caetano Veloso faz uma crítica irônica ao bairro de Ipanema nos versos finais. 
c) Apesar de levar o título de “Tropicália”, essa canção nada tem a ver com o 
movimento tropicalista. 
d) A mistura de elementos aparentemente sem conexão dão o tom da proposta 
estética da Tropicália. 
e) Caetano Veloso não se preocupa em passar nenhuma mensagem com a música, 
apenas enumera palavras soltas, sem sentido algum. 
 
6. (UEL, adaptado) "Caminhando contra o vento / Sem lenço, sem documento / No 
sol de quase dezembro / Eu vou / [...] Por entre fotos e nomes / Sem livro e sem fuzil 
/ Sem fome sem telefone / No coração do Brasil / Ela nem sabe até pensei / Em 
cantar na televisão / O sol é tão bonito /Eu vou / Sem lenço sem documento / 
Nada no bolso ou nas mãos / Eu quero seguir vivendo amor." (Caetano Veloso, 
música "Alegria Alegria") 
 
Com base na letra da canção e nos conhecimentos sobre o tropicalismo, é correto 
afirmar 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
137 
 
 
a) A letra da canção mostra que os tropicalistas usavam a arte como instrumento 
para a tomada do poder. 
b) Ao valorizar a aproximação com a mídia os tropicalistas colocaram num plano 
secundário a qualidade estética de suas canções. 
c) Ao criticar a sociedade por meio da construção poética, a canção questiona 
determinada concepção de esquerda dos anos 1960. 
d) Para o tropicalismo as transformações sociais precedem as mudanças ocorridas 
no plano subjetivo. 
e) A letra da canção enfatiza temas sociais e revela o engajamento do autor na 
resistência política armada. 
 
7. (UNEMAT) A música é, sem dúvida, um aparato por meio do qual o professor de 
artes poderá trabalhar a sensibilidade de seus alunos. Em uma situação de sala de 
aula, quais das características abaixo poderiam ser exploradas através da letra da 
canção “Alegria, alegria”? 
 
a) Nacionalismo, combate à ditadura militar, guerra contra a repressão, tropicalismo 
com intenção de entretenimento, crítica contra a invasão de produtos 
americanos. 
b) Nacionalismo, combate à ditadura militar, guerra contra a repressão, crítica ao 
rock and roll, propaganda positiva à entrada de produtos americanos no Brasil. 
c) Nacionalismo, combate à ditadura militar, guerra contra a repressão, tropicalismo 
com intenção de entretenimento, crítica ao rock and roll. 
d) Nacionalismo, combate à ditadura militar, guerra contra a repressão, crítica ao 
rock and roll, crítica contra a invasão de produtos americanos. 
e) Nacionalismo, combate à ditadura militar, poesia concreta musical, crítica contra 
a invasão de produtos americanos, crítica ao rock and roll. 
 
8. (Cesgranrio) A instalação de um regime militar no Brasil, após 1964, interferiu no 
processo de produção cultural, como pode ser exemplificado pelo (a): 
 
a) Cinema Novo, que foi apoiado pelo regime militar, através de uma agência de 
fomento — Embrafilme. 
b) Tropicalismo, que marcou a desenraização da cultura brasileira, com a introdução 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
138 
 
 
de ritmos estrangeiros no Brasil. 
c) Apoio dos militares às principais formas de expressão cultural do período, com os 
festivais de música e os movimentos estudantis, com o intuito de popularizar o 
regime. 
d) Reflexo na criação cultural da crise brasileira e da busca de alternativa para o país. 
e) Característica de retorno ao passado, que marcou a produção cultural no período 
de 1964-1986. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
139 
 
 
A POESIA MARGINAL 
 
 
 
 
11.1 A “GERAÇÃO MIMEÓGRAFO” 
Ainda que a Tropicália seja denominada poesia literatura marginal, nos anos 
1970 surge outra roupagem poética e que recebe essa denominação propriamente 
dita, tendo bebido, inclusive, da fonte do tropicalismo por apresentar certas 
semelhanças com aquele estilo poético. Seguindo a linha de uma prática cultural 
alternativa, sem se preocupar com o eruditismo e rumando-se para o popular, não 
se trata de um movimento como ocorre anteriormente, mas que essa literatura vai 
emergindo e se intensificando pelo surgimento de poetas que vão se aderindo a essa 
nova produção literária. 
No que tange ao contexto histórico, a ditadura militar ainda se mantém e com 
ela a censura, empecilho para uma democratização cultural e ao mesmo tempo 
serve de pano de fundo para os poetas se despertarem para certas convenções, no 
tocante à crítica social, ainda que de modo mais indireto. Ribeiro Neto (2018) observa 
que a Poesia Marginal, diferentemente de outros movimentos, não possui um ideal a 
ser seguido, constituindo-se por uma mistura de vários poetas com estilos distintos, 
como quem não havia uma regra, uma linha a ser seguida. Essa possibilidade, de 
certa forma, atribui mais liberdade aos poetas que a partir de agora o trabalho não 
se dá mais em torno da música, mas da poesia. 
No contexto do autoritarismo brasileiro, um fato curioso em torno da poesia é 
o considerável número de mulheres na literatura, com destaque para Ana Cristina 
Cesar (1952-1983), uma das pioneiras dessa geração conhecida também como 
“mimeógrafo”. Essas mulheres pretendiam conquistar um público para a literatura, 
em especial para a poesia, de modo a fortalecer esse ramo cultural como potente 
mobilizador como havia sido em tempos anteriores. Essa escritora, especificamente, 
procura romper com os jogos de poder no campo literário e conquistar seu espaço 
nesse cenário cultural. 
Além da escritora supracitada, outros principais representantes desse novo 
modelo (embora não se tenha um modelo) de escrita são Paulo Leminski, Torquato 
UNIDADE 
11 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
140 
 
 
Neto, Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal) e Antônio Carlos de Brito (Cacaso), entre 
outros, referência na marginália, provocando impacto no sentido de tentarem trazer 
o cotidiano para a literatura. Nesse período, os poetas, assim como outros 
intelectuais, dividem-se em três blocos: os favoráveis ao regime militar; os que eram 
contra, fruto de movimentos anteriores que aderiam à denúncia social por meio da 
cultura; e os novos membros dessa arte engajada que se aderem à contracultura e 
favorável a uma transformação estética da arte no momento vigente (BRITTO, 2012). 
Embora a arte seja controlada pela censura, segundo Hollanda (2004), as 
manifestações vão se organizando por si próprias, independentemente de 
autorização do estado, como quem cria os próprios meios artísticos, assim como os 
artesãos. Trata-se, portanto, de um modo de criação diferenciada do oficial, em 
especial na primeira metade da década de 1970, inclusive com exposições nas 
universidades, como a “Expoesia” que ocorre na PUC/RJ em 1973. Os livrinhos eram 
produzidos e vendidos em cinemas, em museus e teatros, propagando essa 
subversão poética, tanto no que se refere aos modos de produção quanto de 
consumo dessa cultura. 
 
 
 
De modo informal, os textos são mimeografados e muitas vezes fotocopiados 
para serem distribuídos em praças, universidades e até mesmo nas ruas, fator que faz 
jus à denominação dessa geração de poetas, “Geração Mimeógrafo”. Essa nova 
forma de prática literária, que vai na contramão de uma produção formal, sobrevive 
ao modo alternativo de expressão, às margens do sistema. Nesse período são criados 
também distintos meios de veiculação para a poesia, tais como revistas e jornais, de 
forma que chegue ao público consumidor dessa arte. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
141 
 
 
Embora o sistema vigente fosse contrário a essa forma de expressão, esse tipo 
de prática resiste e caracteriza-se como expressão livre. Quanto aos modos de 
consumo, é um tipo de poesia que pode ser lida em qualquer lugar, até mesmo nas 
paredes e portas de banheiros, indo na contramão da formalidade editorial. Vale 
destacar que essa forma de poesia não é aceita pelas editoras, as quais resistem a 
essa nova proposta, o que, de certa forma, contribui para as produções e circulaçõesalternativas. 
Frente a essa poesia marginal emergente na década de 1970, muita polêmica 
surge em torno dessa nova “democracia” cultural, não apenas pelo autoritarismo 
militar que censura a veiculação de letras mais diretas, mas também por editoras e 
por uma fatia da sociedade. É uma proposta que encontra resistências de todos os 
lados, mas que é praticada, em especial por poetas na sua maioria jovens e que 
anseiam por formas alternativas de se expressar e de se praticar a cultura, em 
especificamente pela poesia. 
 
 
 
11.2 INFLUÊNCIAS E CARACTERÍSTICAS 
A proposta poética da Poesia Marginal se assemelha às características da 
Tropicália em certos aspectos, embora a manifestação anterior se deu mais no 
campo musical, o que envolve também elementos vinculados à musicalidade e não 
apenas a escrita. Como já mencionado, a informalidade é a base que sustenta a 
marginália, tanto no que diz respeito sua produção e veiculação quanto à escrita em 
si. É a geração denominada de “desbunde”, haja vista o desencanto dos jovens 
frente à política e às questões socioculturais vigentes na época, regado por um 
desejo de busca por uma saída, alternativas de práticas culturais. 
A fuga da formalidade literária, percebida principalmente nos moldes 
tradicionais, constitui-se a base dessa nova forma cultural. A poesia, para atender a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
142 
 
 
essas demandas do momento vigente, já não leva em consideração o eruditismo, a 
cultura de classes, enfim, dispensa a poética clássica, tradicional. “Tal gênero de 
poesia seria marginal justamente por representar uma recusa de todos os modelos 
estéticos rigorosos, sejam eles tradicionais ou de vanguarda, isso é, por ser uma 
atitude antiintelectual e, portanto, antiliterária” (MATTOSO, 1981, p. 31). 
Características como o coloquialismo e o humor são recorrentes, integrando a 
base dessa proposta que, na verdade, não se propõe nada, já que sua essência é 
uma individualização na escrita, sem modelo a ser seguido, no interior da 
contracultura. Os poetas lançam mão de uma linguagem pautada por gírias, 
palavras de baixo calão, herança do modernismo, mas com uma frequência e uma 
profundidade de quem não conhece bem aquele padrão de literatura anterior. 
Quanto às temáticas, além de amor, política e sociedade, abordam-se também sexo 
e drogas, experiências marcadas pela juventude que são levadas para a poesia. 
Nas considerações de Ferreira (2018), essa poesia ascendente dos anos 1970 é 
desbundada, alegórica e subjetiva, que vai ao encontro de um leitor menos 
preparado, em qualquer lugar do cotidiano. Além disso, nos poemas predomina a 
assimetria nos versos, além de nomes próprios serem comumente escritos com letra 
inicial minúscula. A leitura é acessível a todos, com versos reduzidos, brancos e livres, 
fator que só vem a se alterar a partir dos anos 1980, quando a literatura se torna mais 
séria, retomando suas formalidades mais aparentes, tais como o soneto. 
Embora não haja forma fixa, um tipo de poema muito recorrente na literatura 
marginal é o haicai (que também não é um padrão), como quem escreve para um 
leitor apressado, sem muito tempo para leituras mais complexas e extensas. Nesse 
momento, o poeta quer atingir aquele leitor da fila, dos bares, sem preocupações 
com formalidades tanto na distribuição quanto nas leituras, que muitas vezes 
atingiam apenas os intelectuais e universitários pelos estudos literários. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
143 
 
 
Além disso, os poetas marginais não estão preocupados com valorações do 
poema, do que é certo ou errado no universo da escrita poética, querem 
simplesmente se expressar de forma simples para uma multidão, de forma 
popularesca. Nesse sentido, consideramos válido também relacionar essa 
acessibilidade literária com as minorias, destacadas por Ferreira (2018) como sendo 
mulheres feministas, homossexuais e multiétnicos. A poesia marginal retifica um 
horizonte contestação e, por isso, como recurso para a conscientização 
populacional sobre a realidade brasileira. 
Embora a intenção dos poetas fossem atingir a todos por uma leitura de fácil 
acesso, muitas vezes os poemas materializam um discurso indireto, uma espécie de 
disfarce como estratégia de resistência. Essa tática da escrita, que traz à tona esse 
fingimento como mecanismo de defesa e de combate ao inimigo ruma para o 
horizonte do que vem a ser chamado de camaleão-poeta, exatamente por esse 
trabalho de não se deixar mostrar abertamente a intenção do poeta com 
determinado discurso. 
Além das características apontadas, a oralidade também integra essa escrita 
popularesca, como quem promove uma junção bem-sucedida entre vida e arte, em 
que a subjetividade ganha terreno e a expressão revela espontaneidade daquele 
que escreve. É exatamente por essas dimensões de informalidade que vão surgindo 
escritores novos nesse período do mimeógrafo, nesses espaços alternativos para a 
poesia. Esses escritores formam agrupamentos com os mesmos ideais, inclusive pelas 
suas estratégias de produção e de proliferação poética, que acabam por fortalecer 
seus propósitos nesse campo cultural. Essa dinâmica serviria também para a 
conquista do público e da crítica, além das editoras, posteriormente, segundo Britto 
(2012). Dentre os poetas marginais, seguem aqueles com maior destaque. 
 
11.3 POETAS PRINCIPAIS 
Em relação aos poetas integrantes da poesia marginal, podemos observar que 
alguns pertencem a tempos anteriores à década de 1970 e que já escreviam poesias, 
além de outros que surgem exatamente nesse momento histórico da cultura 
brasileira. Para além de Torquato Neto, Ana Cristina Cesar, Chacal e Cacaso, os que 
mais se destacam, há outros integrantes desse período e vale destacar que é 
considerado como destaque no período, pelos críticos, o “poeta-revista”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
144 
 
 
 
 
Britto (2012) enumera vários poetas integrantes da poesia marginal, inclusive 
que se destacam no Rio de Janeiro como sendo um dos principais espaços onde essa 
cultura ganha mais efervescência. Nessa direção, destaca-se o lançamento de um 
livro denominado 26 Poetas Hoje, que é uma antologia dos poetas dessa geração 
setentista. Organizada pela escritora Heloísa Buarque de Hollanda, a obra é 
publicada pela editora Labor do Brasil, em 1975, e reúne os maiores nomes da poesia 
marginal brasileira. 
figura 4: Capa da obra 26 poetas hoje 
 
Fonte: Hollanda (2007). 
 
Os poetas integrantes da obra supracitada são: Ana Cristina César, Torquato 
Neto, Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal), Francisco Alvim, Zulmira Tavares, Vera 
Pedrosa, Flávio Aguiar, Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Geraldo Carneiro, João 
Carlos Pádua, Isabel Câmara, Charles, Roberto Schwarz, José Capinan, Ricardo 
Ramos, Adauto Santos, Laila Miccolis, Roberto Piva, Antônio Carlos Secchin, Waly 
Salomão, Luiz Olavo Fontes, Leomar Fróes, Carlos Saldanha, Eduardo augusto, Afonso 
Henrique Neto e Bernardo Vilhena. 
https://bit.ly/3nwJMzy
https://bit.ly/3bLLgnb
 
 
 
 
 
 
 
 
 
145 
 
 
A nível de aprofundamento, vajamos dois poemas contidos no livro 
destacado, sendo o primeiro de Cacaso e o segundo de Chacal. Antônio Carlos de 
Brito (Cacaso) (1944-1987) nasceu em Uberaba/MG, desempenhando a função de 
professor universitário, além de poeta marginal. Na pré-adolescência se muda para 
o Rio de Janeiro, onde se forma em Filosofia e leciona na PUC/RJ, além de colaborar 
com revistas e jornais daquele local. Foi um dos defensores da denominada geração 
mimeógrafo da literatura brasileira. Dentre suas obras estão Grupo Escolar (1974), 
Beijo na Boca (1975) e Na Corda Bamba (1978), além de vários outros. 
Por outro lado, Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal) (1951-atual) nasceu no 
Rio de Janeiro, onde estudou Comunicação Social na Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ). Ao longo de sua carreira, escreveu vários livros de poesia,inspirados 
nas suas vivências cotidianas, dentre eles, Muito Prazer (1972), Preço da Passagem 
(1972), América (1975), dentre outros. É um dos pioneiros da Geração Mimeógrafo, a 
utilizar esse recurso para divulgar sua poesia: 
 
Texto 1 
 
Jogos florais 
 
I 
Minha terra tem palmeiras 
onde canta o tico-tico. 
Enquanto isso o sabiá 
Vive comendo o meu fubá. 
Ficou moderno o Brasil 
Ficou moderno o milagre; 
A água já não vira vinho, 
vira direto vinagre. 
 
II 
Minha terra tem Palmares 
memória cala-te já. 
Peço licença poética 
Belém capital Pará. 
Bem, meus prezados senhores 
dado o avançado da hora 
errata e efeitos do vinho 
o poeta sai de fininho. 
 
(será mesmo com dois esses 
que se escreve paçarinho?) 
 
(CACASO, 2007, p. 41) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
146 
 
 
Texto 2 
 
Papo de índio 
 
Veio uns ômi di saia preta 
cheio di caixinha e pó branco 
qui eles disserum qui chamava açucri. 
Aí eles falaram e nós fechava a cara 
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo. 
Aí eles insistiram e nós comemu eles. 
 
(CHACAL, 2007, p. 219) 
 
Em “Jogos florais”, Cacaso faz uma paródia da “Canção de exílio”, poema 
ufanista de Gonçalves Dias, escrita nos primórdios do Romantismo que exalta a sua 
terra natal quando se encontra na Europa. O poema em questão critica a realidade 
vigente, a Ditadura Militar, período no qual se dá o denominado milagre econômico, 
“Ficou moderno o milagre”, mas que não surte um resultado positivo para a 
população brasileira, muito pelo contrário, intensifica os problemas sociais, “A água 
já não vira vinho, / vira direto vinagre”. A referência ao “tico-tico” se dá de forma 
estratégica, pois provoca efeito de sentido de esperteza, daquele que se aproveita 
do trabalho do outro. No entanto, quem assume essa esperteza no poema é o próprio 
sabiá “Enquanto isso o sabiá / Vive comendo o meu fubá”. Essa crítica, portanto, 
relaciona-se à ditadura, como sistema enganoso da população. Além disso, memória 
de nossa histórica é trazida à tona em “Palmares”, também como aspecto negativo 
para reforçar a crítica ao nacionalismo ufanista do poema de Gonçalves Dias. 
No poema “Papo de índio”, Chacal também faz referência ao Romantismo ao 
abordar o índio como tema central. Ao passo que Cacaso menciona “Palmares” 
como referência aos primórdios de nossa história, o índio também segue nessa 
direção histórica. Trata-se de um poema-piada, que estabelece um encontro entre 
o índio e o homem branco, que encena a colonização brasileira de modo subvertido. 
O verso “cheio di caixinha e pó branco” ironiza o branco como usuário/comerciante 
de drogas e utiliza-se da esperteza (qui eles disserum qui chamava açucri.) para 
enganar seus colonizados. Além disso, vale destacar a linguagem coloquial, de modo 
fiel à oralidade, que também provoca um efeito de humor ao poema-piada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
147 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. Quanto aos principais representantes da Poesia Marginal brasileira, assinale a 
alternativa que apresente os principais nomes que fizeram parte do movimento 
literário em questão: 
 
a) Paulo Leminski, João Cabral de Melo Neto, Arnaldo Antunes e Adélia Prado. 
b) Clarice Lispector, Adélia Prado, Torquato Neto e Paulo Leminski. 
c) Arnaldo Antunes, Ferreira Gullar, Chacal e Waly Salomão. 
d) Paulo Leminski, Torquato Neto, Cacaso e Chacal. 
e) Francisco Alvim, José Agripino de Paula, Ferreira Gullar e Clarice Lispector. 
 
2. (ENEM) A poesia que floresceu nos anos 70 do século XX é inquieta, anárquica, 
contestadora. A “poesia marginal”, como ficou conhecida, não se filia a nenhuma 
estética literária em particular, embora seja possível ver nela traços de algumas 
vanguardas que a precederam, como no poema a seguir. 
 
S.O.S 
Chacal 
 
(...) nós que não somos médicos psiquiatras 
nem ao menos bons cristãos 
nos dedicamos a salvar pessoas 
que como nós 
sofrem de um mal misterioso: o sufoco 
 
CAMPEDELLI, Samira Y. Poesia Marginal dos Anos 70. São Paulo: Scipione, 1995 (adaptado). 
 
Da leitura do poema e do texto crítico acima, infere-se que a poesia dos anos 70: 
 
a) Recuperou traços da produção de vanguarda modernista. 
b) Eliminou o diálogo com as artes visuais e as artes plásticas. 
c) Utilizou com frequência versos metrificados e temas românticos. 
d) Valorizou a linguagem poética das formas consagradas. 
e) Atribuiu ao espaço poético um lugar de fuga e escapismo 
 
3. (UEL 2017) A respeito das correlações entre a poesia de Leminski e os poemas de 
outras tendências poéticas, períodos e estilos de época, considere as afirmativas 
a seguir. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
148 
 
 
I. Como o Concretismo, Leminski perseguiu a representação e a exaltação da vida 
material em detrimento da exposição da subjetividade. 
II. Como o Simbolismo, Leminski adotou desenhos e experiências gráficas para 
representar a saturação de significados e significantes na linguagem poética 
verbal. 
III. Com a primeira fase modernista, Leminski aderiu ao poema-piada e aos jogos de 
palavras, em contraste com o rigor de outras manifestações poéticas. 
IV. Com a poesia marginal, Leminski compartilhou a espontaneidade e a irreverência 
como aproximações entre a expressão poética e a vida cotidiana. 
 
Assinale a alternativa correta: 
 
a) Somente as afirmativas I e II são corretas. 
b) Somente as afirmativas I e IV são corretas. 
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. 
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. 
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas. 
 
4. (UEL-2016) 
estupor 
 
esse súbito não ter 
esse estúpido querer 
que me leva a duvidar 
quando eu devia crer 
 
esse sentir-se cair 
quando não existe lugar 
aonde se possa ir 
 
esse pegar ou largar 
essa poesia vulgar 
que não me deixa mentir 
 
(LEMINSKI, P. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p.249.) 
 
Considerando o poema no conjunto da obra Toda Poesia, de Paulo Leminski, é 
CORRETO afirmar que 
 
a) Exemplifica a metalinguagem praticada pelo autor. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
149 
 
 
b) A poesia de leminski é vulgar porque utiliza formas poéticas livres. 
c) A adjetivação intensa no poema é um traço recorrente em sua obra. 
d) O heptassílabo é o verso mais cultivado na produção leminskiana. 
e) O esquema de rimas encontra equivalência na obra ideolágrimas. 
 
5. (UFRJ-2016) 
APAGAR-ME 
 
Apagar-me 
diluir-me 
desmanchar-me 
até que depois 
de mim 
de nós 
de tudo 
não reste mais 
que o charme.” 
 
(Paulo Leminski) 
 
É correto afirmar que, nesse seu belo poema, Paulo Leminski pôs no centro de sua 
estratégia poética o uso intensivo da: 
 
a) Acentuação de palavras. 
b) Colocação de pronomes oblíquos. 
c) Regência verbal. 
d) Colocação de pronomes retos. 
e) Tipologia textual. 
 
6. (Enem- 2016) 
 
Primeira lição 
 
Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro. 
O gênero lírico compreende o lirismo. 
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal. 
É a linguagem do coração, do amor. 
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos sentimentais eram 
declamados ao som da lira. 
O lirismo pode ser: 
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte. 
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres. 
c) Erótico, quando versa sobre o amor. 
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
150 
 
 
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. 
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. 
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado. 
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração. 
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares. 
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta. 
 
CESAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.No poema de Ana Cristina Cesar, a relação entre as definições apresentadas e o 
processo de construção do texto indica que o(a) 
 
a) Caráter descritivo dos versos assinala uma concepção irônica de lirismo. 
b) Tom explicativo e contido constitui uma forma peculiar de expressão poética. 
c) Seleção e o recorte do tema revelam uma visão pessimista da criação artística. 
d) Enumeração de distintas manifestações líricas produz um efeito de 
impessoalidade. 
e) Referência a gêneros poéticos clássicos expressa a adesão do eu lírico às 
tradições literárias. 
 
7. UFSC 
As aparências revelam 
 
Afirma uma Firma que o Brasil 
confirma: “Vamos substituir o 
Café pelo Aço”. 
Vai ser duríssimo descondicionar 
o paladar 
Não há na violência 
que a linguagem imita 
algo da violência 
propriamente dita? 
 
CACASO. As aparências revelam. In: WEINTRAUB, Fabio (Org). Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2004. p. 61. Para gostar de ler 39. 
 
Com base na leitura do poema, assinale a(s) proposição (ões) correta (s) acerca 
da Poesia Marginal: 
 
I. Entre as temáticas das quais se ocupou a poesia marginal da década de 1970, 
havia espaço para painéis sociais, para a memória afetiva e a pesquisa poética e 
para o registro literário da intimidade. Sem grandes exageros, a única regra era 
atender aos princípios da norma padrão da língua. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
151 
 
 
II. Os versos “Vai ser duríssimo descondicionar / o paladar” podem ser entendidos 
metaforicamente como uma referência a sacrifícios impostos à população, 
obrigada a acomodar-se a uma nova ordem econômica. 
III. Nos poemas reunidos em Poesia marginal, os autores enfocam a denúncia e a 
crítica social de uma maneira sisuda, sem apelar para o humor, pois visam conferir 
credibilidade ao que é dito. 
IV. A frase “Vamos substituir o Café pelo Aço” pode ser interpretada como uma 
referência à abertura do país para a exportação de minérios, defendida por 
empresários e pelo Governo à época da Ditadura Militar. 
V. No primeiro e segundo versos, no jogo de palavras “Afirma”, “Firma” e “confirma”, 
repete-se o segmento firma; isso pode ser interpretado como uma referência à 
influência das grandes empresas nas políticas estatais. 
VI. Na estrofe final, observa-se como Cacaso procura desvincular a linguagem das 
práticas sociais, ao propor que não há violência nas palavras em si, mas apenas 
na realidade a que elas se referem. 
 
a) I, III e V. 
b) II, V e VI. 
c) I, II e IV. 
d) Apenas VI. 
e) II, IV e V. 
 
8. (ENEM- BR - 2017) 
Contranarciso 
 
em mim 
eu vejo o outro 
e outro 
e outro 
enfim dezenas 
trens passando 
vagões cheios de gente 
centenas 
 
o outro 
que há em mim 
é você 
você 
e você 
 
assim como 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
152 
 
 
eu estou em você 
eu estou nele 
em nós 
e só quando 
estamos em nós 
estamos em paz 
mesmo que estejamos a sós 
LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013. 
 
A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, 
redimensionada pelo olhar contemporâneo. No poema, essa nova dimensão 
revela a 
 
a) Ausência de traços identitários. 
b) Angústia com a solidão em público. 
c) Valorização da descoberta do “eu” autêntico. 
d) Percepção da empatia como fator de autoconhecimento. 
e) Impossibilidade de vivenciar experiências de pertencimento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
153 
 
 
A POESIA BRASILEIRA 
CONTEMPORÂNEA A 
PARTIR DE 1980 
 
 
 
12.1 AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS POÉTICAS DA ATUALIDADE 
A poesia brasileira a partir da década de 1980, caminhando na contramão 
dos ideais coletivos da modernidade, caracteriza-se por possuir uma projeção mais 
plural, individualista. Como bem estudado em unidades anteriores, os movimentos da 
nossa literatura sempre ocorreram de forma conjunta, obedecendo até mesmo a 
lógica de que a união faz a força. As transformações poéticas se deram na esteira 
de uma articulação entre poetas e intelectuais, cuja união ganharam força e 
possibilitaram essas ocorrências culturais coletivas. 
Porém, a poesia que se inicia no período mais próximo ao presente e que se 
estende até os dias de hoje, apresenta um rompimento no que tange às utopias 
coletivas, de modo que cada escritor crie suas próprias regras na escrita. Até mesmo 
pelo contexto histórico de escrita e leitura que ganha novas feições, em especial pelo 
avanço das novas tecnologias digitais que interferem nesse processo. Essa dimensão 
tecnológica na literatura ganhará destaque na terceira seção desta Unidade. 
Isto posto, de acordo com alguns estudiosos da literatura, essa nova ascensão 
literária no Brasil é marcada pelo caráter plural, não possibilitando estabelecer um 
caminho a ser seguido como tradicionalmente. Ressalta-se, como afirma Andrade 
(2015), a partir da segunda metade da década de 1980, o país passa por um 
processo de redemocratização, com a queda da ditadura militar, favorecendo uma 
expressão cultural diferenciada daquela aderida até então. O poeta, assim como a 
sociedade em geral, viram-se diante de uma liberdade, inclusive de prática literária 
com expressões mais diretas. Nesse contexto, os projetos vanguardistas vão perdendo 
forças e emergem projetos estéticos de caráter mais individuais, sem que os escritores 
sejam obrigados a seguir regras tradicionais da poesia. Essas mudanças se baseiam 
na própria lógica do caráter de censura que pressiona os escritores no regime da 
ditadura, anteriormente, e pelo enfraquecimento do caráter próprio de coletividade 
vanguardista. 
UNIDADE 
12 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
154 
 
 
Ainda na esteira das considerações de Andrade (2015), duas características 
mais gerais marcam a poesia nesses tempos atuais, que são o anacronismo e 
hermetismo. Em relação à primeira característica, segundo o estudioso destacado, a 
poesia atual não segue uma cronologia do presente, isto é, não apresenta um 
alinhamento com os tempos atuais. Os poetas abordam temáticas que talvez 
tenham ganhado mais força em outros contextos e que não estejam tão evidentes 
no presente. 
No entanto, é preciso considerar alguns aspectos que são próprios desse 
período atual, bem como se observa na poesia de Arnaldo Antunes, a aliança entre 
diferentes formas de expressão em um mesmo poemas: sonoro, visual e verbal. Além 
disso, outras características-padrão veremos na segunda seção que integram à 
história do presente, como a própria noção de pluralidade. É preciso compreender 
que alguns traços talvez não estejam de acordo com o momento, a saber: o retorno 
das formas fixas poéticas tradicionais, a manutenção do imaginário arquétipo da 
cultura ocidental e a designação do contemporâneo como cronologia que aparece 
após o moderno. 
Em relação ao hermeticismo, quando nos referimos à poesia dos anos 1980 aos 
anos 2000, engloba alguns aspectos, tais como o homem como símbolo do mundo, 
a meditação como prática para ascender a mente, o pensamento simbólico e a 
transmutação pessoal, como os principais elementos constitutivos dessa 
característica poética da atualidade. Essa dimensão do hermeticismo acaba sendo 
uma espécie de anacronismo poético, como um retorno à tradição, embora esta 
sofra transformações. 
 
 
 
No que concerne ao desinteresse em relação aos acontecimentos coletivos, 
esses se dão tanto a nível de país quanto mundialmente falando, que vai ao encontro 
de interesses editoriais. Nessa vertente, destaca-se a obra de Manoel de Barros, o 
denominado “poeta dos passarinhos” que começa a escrever poesias na “Geração 
de 45” e perpassa por décadas até chegar aos anos 2000. É um exemplo de poesia 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
155 
 
 
despretensiosa que coloca em cena a infância, a natureza, a valorização de coisas 
simples e invisíveis. Por outro lado, “a poesia crítica e a poesia de testemunho vêm, 
claro, de encontro a essa tendência [...]” (SALGUEIRO, 2018, p. 15).Contrariando-se os moldes da poesia “relaxada” dos anos 1970, a partir de 
agora há uma expressividade mais forte, além do sentimentalismo e da subjetividade. 
Isso se deve também ao perfil de poeta que surge nesse cenário, que, segundo 
Salgueiro (2018), quem escreve pertence à especialização e à tribalização, com 
destaque para professores universitários, editores, tradutores e críticos, rompendo 
com a poesia de amadores que muito se observava na poesia marginal. Essa 
característica que envolve quem escreve contribui para o entendimento de um 
retorno à tradição, sobretudo a partir dos anos 1990. “A retradicionalização da poesia 
contemporânea brasileira é a construção de um olhar prismático para um legado 
literário que só se inscreve no plural. É um retorno a tradições” (ANDRADE, 2015, p. 38). 
Na cessão seguinte esboçaremos os poetas de maior destaque nesse cenário da 
poesia atual. 
 
12.2 ESCRITORES EM EVIDÊNCIA 
Além dos poetas já destacados que se enquadram nesses tempos mais 
recentes da poesia, a partir da década de 1980, Salgueiro (2018) colocam outros em 
evidência. Um fato curioso, segundo esse estudioso, é a dimensão de conflitos entre 
gerações de escritores que se vive nessa atualidade, com destaque para Ferreira 
Gullar, Armando Freitas Filho e Casé Lontra Marques. Quanto à ausência de uma 
coletividade, outro fato curioso é que cada qual procura ganhar visibilidade por si só, 
cada poeta no seu lugar, em diferentes regiões do país: “Glauco Mattoso (2012) em 
São Paulo, Antonio Cicero (2002) no Rio, Waldo Motta (2002) em Vitória, Ricardo 
Aleixo (2010) em Minas, Nicolas Behr (2006) em Brasília, Ricardo Silvestrin (2006) em 
Porto Alegre, Fábio Andrade (2005) em Pernambuco” (SALGUEIRO, 2018, p. 16). Além 
disso, destaca-se a poesia goiana de Cora Coralina (1889-1985). 
Além dos destacados, há outros que merecem destaque, de acordo com o 
Quadro 2, com destaque para suas épocas e características mais aparentes: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
156 
 
 
Quadro 2: Panorama da poesia brasileira a partir de 1980 
Anos Características Principais representantes 
 
 
1980 
1. Lírica de tradição; 
2. Lírica de transgressão; 3. 
Lírica vitalista; 
4. Lírica de síntese ou 
unificadora. 
1. Alexei Bueno 
2. Arnaldo Antunes 
3. Ítalo Moriconi 
4. Glauco Mattoso, Nelson 
Mattoso e Paulo Henrique. 
 
 
 
 
1990 
- Estética da dúvida; 
- “Fastio” em relação ao 
mundo; e 
- Intransigência às coisas. 
Carlito Azevedo, Antonio 
Cícero, Ricardo Aleixo, 
Cláudia Roquette-Pinto, 
Claudio Daniel, Rodrigo 
Garcia Lopes, Joca Reiners 
Terron e Marcos Siscar. 
 
 
 
 
2000 
- Presente inabordável; 
- Publicações reais e virtuais; 
- Vínculos institucionais dos 
poetas, dada sua formação 
em Letras (ao menos a 
maioria). 
Amador Ribeiro Neto, 
Marcelo Sandman, Fábio 
Andrade, Luís Maffei, Annita 
Costa Malufe e Micheliny 
Verunschk 
Fonte: Elaborado pelos autores (2021)com dados baseados em Ferraz (2011); Lima (2010) e 
Lucchesi (2009). 
 
 
 
Arnaldo Antunes (1960-atual) nasceu na capital paulista, sendo um artista 
multimídia brasileiro, com início da carreira no rock dos anos 1980, no grupo Titãs. 
Desde então é compositor, o que facilita a sua entrada no universo da poesia, 
posteriormente ao seu exercício inicial na música. No entanto, ingressa no curso de 
Letras na USP, embora não chegue a concluir o curso. É conhecido por ser um poeta 
multimídia, sendo o reflexo de sua versatilidade artística. Em seus poemas, que se 
transformam em videoclipes, faz uma mesclagem entre aspectos visual, linguístico e 
sonoro, além de utilizar distintos suportes que resultam em sentidos múltiplos de sua 
poesia. Segue o poema “Carnaval” que integra o livro Nome, lançado em 1993: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
157 
 
 
Carnaval 
 
árvore 
pode ser chamada de 
pássaro 
pode ser chamado de 
máquina 
pode ser chamada de 
 carnaval 
 carnaval 
 carnaval 
 carnaval 
 carnaval 
 carnaval 
 
(ANTUNES, 1993, s/p) 
 
Os poemas de Antunes rumam para as possibilidades, desconstroem conceitos 
cristalizados, rompem com os saberes legitimados em prol de construções e relações 
entre elementos, com novas formas de perceber, de forma rápida, as coisas que 
cercam o eu lírico, que se traduz em uma construção de infância. No poema 
destacado a lírica da transgressão pode ser observada pela quebra de regras entre 
os nomes e seus referentes, em que uma coisa pode ser chamada de outra, indo 
para além dos limites daquilo que é permitido, usual na língua para nomear os 
objetos. O eu lírico então transgride nesse aspecto, assim como uma criança em 
estado de curiosidade, da intensidade, de invenções e brincadeiras com as palavras 
e as coisas que a cercam. 
 
 
 
12.3 POESIA E AS MÍDIAS DIGITAIS 
É inegável que os meios de comunicação e informação digitais da 
contemporaneidade têm se adentrado ao universo de todas as práticas culturais e 
se constituem em suportes muito utilizados para a propagação cultural, inclusive 
https://bit.ly/3AlfzeE
https://bit.ly/3OYZvTB
 
 
 
 
 
 
 
 
 
158 
 
 
poética. Essa acessibilidade tão facilitada pela sociedade conectada tem 
influenciado nos modos de escrita e de leituras, em que a tela do computador, ou 
até mesmo do celular, torna-se mais atrativo que um livro impresso. 
Os conteúdos digitais têm ganhado espaço, tanto pelos textos escritos nos 
meios digitais quanto os digitalizados. Então, o hábito de leituras em bibliotecas físicas 
parece estar ficando cada vez mais distante da realidade do consumo de textos, 
haja vista a acessibilidade de conteúdos de todas as espécies nas mídias digitais, 
favorecendo não apenas textos nas plataformas, mas a possibilidade de interações 
entre escritores e leitores. 
Essas mídias promovem uma democratização ao acesso literário, possibilitando 
aos internautas não apenas acesso ao que já está escrito, mas também de 
publicarem seus conteúdos na grande rede de computadores. Embora essa 
dinâmica ofereça essas vantagens, por outro lado é preciso estar atento aos 
problemas autorais que daí advêm, pela circulação rápida e fácil de textos, bem 
como crimes de direitos autorais que são passíveis nesses ambientes. 
Em se tratando da escrita de poesia nos tempos de tecnologias digitais, 
Oliveira (2016, p. 56) destaca as chamadas “poesias de buscadores”, que no Google 
é possibilitada a elaboração de poemas por meio do site de busca. Além disso, a 
busca por poesias também é bastante facilitada por esse recurso. A internet serve 
como instrumento de divulgação poética, tendo em vista a rápida disseminação por 
esse sistema e o acesso a esses conteúdos pelos internautas, colocando em 
evidência os poetas. 
O fazer literário é então facilitado nesse cenário de mediação cultural, que 
possibilita o trabalho de um circuito poético, contribuindo para o fazer literário nos 
tempos atuais. Colocando em evidência a natureza plural da poesia 
contemporânea, o sistema de informática parece englobar essa cultura como sendo 
uma unicidade, haja vista a sua produção e acesso por toda a sociedade. Porém, é 
preciso rumar para outra direção, considerando o estilo individual de cada poeta e 
que essas possibilidades de escrita e publicação, ainda que não sejam profissionais 
/reconhecidas institucionalmente, facilita cada um postar o que quiser, constituindo 
um caráter plural. 
Salgueiro (2018) destaca a grande transformação advinda da internet no que 
tange à relação poeta, obra e público, em que a escrita (criação), distribuição e 
recepção (acesso de leitores) tem ganhado uma dimensão amplificada nesse 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
159 
 
 
contexto. Esse estudioso destaca, como intermediário desse movimento literário, as 
redes sociais, como Facebook, Twitter e os Blogs, ferramentas que facilitam essas 
relações de forma dinâmica. 
 
 
 
Se por um lado essas tecnologias facilitam a vidados leitores e até mesmo dos 
autores, é preciso levar em conta que esses movimentos midiáticos digitais podem 
abalar o que de fato vem a ser poesia. Assim, se por um lado é necessário manter a 
poesia considerada como legítima, canônica, por outro, observa-se emergir escritas 
que não se enquadram nessa linha, de modo mais informal em certo sentido. Porém, 
sabemos que as plataformas digitais facilitam a manutenção de um caráter 
multiculturalista, o que pode levar a essa confusão no campo da poesia. 
Essa evolução cultural acaba por interferir também o mercado editorial, uma 
vez que o consumo, ainda que seja por livros, estes são acessados no modo PDF, além 
de poesias serem transferidas (digitadas) em inúmeras páginas da rede. Quanto ao 
mercado editorial, as editoras vendem também pela internet, por meio de seus sites, 
o que também facilita o acesso a obras poéticas pela sociedade conectada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
160 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. Os poetas integrantes da poesia a partir de 1970, em sua maioria: 
 
a) São vinculados à especialização e à tribalização, apenas; 
b) São professores universitários, editores, tradutores e críticos; 
c) São basicamente tradutores e críticos, excluindo-se outras especialidades; 
d) Assemelham-se aos amadores que muito se observavam na poesia marginal; 
e) São amadores pelo advento da escrita poética nas mídias digitais. 
 
2. São características da poesia contemporânea: 
 
a) Retradicionalização; caráter coletivo; anacronismo; hermetismo; 
b) Modernização; anacronismo; hermetismo; poesia tradicionalista; 
c) Coletividade vanguardista; anacronismo; hermetismo; caráter plural; 
d) Caráter tradicional; coletividade vanguardista; anacronismo; hermetismo; 
e) Caráter plural; anacronismo; hermetismo; retomada de traços tradicionais. 
 
3. Quanto à escrita poética e sua circulação na rede digital, é correto afirmar que: 
 
a) As tecnologias não trouxeram inovações em relação à escrita e leitura de textos. 
b) As mídias digitais transformam qualquer um em poeta, inclusive com 
reconhecimento pela crítica especializada. 
c) Na rede, os elementos autor, produto (poesia) e consumidor (leitor) se distanciam 
pelo fato de não estarem próximos fisicamente. 
d) As leituras de poesia no livro impresso e nas mídias digitais não se diferenciam 
quanto à acessibilidade desses dois suportes. 
e) Com o advento das novas tecnologias digitais, houve uma modernização em 
relação à escrita e leitura de poesias na rede. 
 
4. (PUC – PR, adaptado) Leia os fragmentos abaixo, retirados do livro Muitas vozes 
(1999), de Ferreira Gullar, para responder à questão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
161 
 
 
Meu poema 
é um tumulto: 
a fala 
que nele fala 
outras vozes 
arrasta em alarido. 
(...) 
A água que ouviste 
num soneto de Rilke 
os ínfimos rumores no capim 
o sabor 
do hortelã 
(…) 
da manhã 
tudo isso em ti 
se deposita 
e cala. 
Até que de repente 
um susto 
ou uma ventania 
(que o poema dispara) 
chama 
esses fósseis à fala. 
Meu poema 
é um tumulto, um alarido: 
basta apurar o ouvido. 
 
I. É um exemplo de metapoesia, um dos vários temas recorrentes nesta obra. 
II. A intertextualidade surge como uma das muitas vozes presentes no poema. 
III. Fósseis, no poema, é uma referência aos mortos do eu poético, que também são 
vozes do poema. 
IV. Apurar o ouvido, no último verso, remete à percepção do material de que se 
compõe o poema. 
V. Esse é um dos poucos poemas de Ferreira Gullar, nesta obra, em que a morte se 
faz presente. 
 
Assinale a alternativa CORRETA: 
 
a) Somente as assertivas I e IV são verdadeiras. 
b) As assertivas I, II e V são verdadeiras. 
c) Somente a assertiva I é falsa. 
d) As assertivas I, II, III, IV são verdadeiras. 
e) Todas as assertivas são verdadeiras. 
 
5. (Ufjf-pism 1 2017) 
 
A televisão 
 
(Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Belloto) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
162 
 
 
A televisão 
Me deixou burro 
Muito burro demais 
Oh! Oh! Oh! 
Agora todas coisas 
Que eu penso 
Me parecem iguais 
Oh! Oh! Oh! 
 
O sorvete me deixou 
gripado 
Pelo resto da vida 
E agora toda noite 
Quando deito 
É boa noite, querida 
 
Oh! Cride, fala pra 
mãe 
Que eu nunca li num 
livro 
Que o espirro 
Fosse um vírus sem cura 
Vê se me entende 
Pelo menos uma vez 
Criatura! 
 
Oh! Cride, fala pra 
mãe! 
A mãe diz pra eu fazer 
Alguma coisa 
Mas eu não faço nada 
Oh! Oh! Oh! 
A luz do sol me 
incomoda 
Então deixa 
A cortina fechada 
Oh! Oh! Oh! 
 
É que a televisão 
Me deixou burro 
Muito burro demais 
E agora eu vivo 
Dentro dessa jaula 
Junto dos animais 
 
Oh! Cride, fala pra 
mãe 
Que tudo que a 
antena captar 
Meu coração captura 
Vê se me entende 
Pelo menos uma vez 
Criatura! 
Oh! Cride, fala pra 
mãe! 
 
 
Titãs. Televisão. Lp. Gravadora WEA, 1985. 
 
As estrofes 1 e 5 do texto acima permitem afirmar que a inteligência do sujeito está, 
respectivamente, relacionada: 
 
a) Ao discernimento e à liberdade. 
b) À liberdade e à emoção. 
c) À memória e à informação. 
d) À cognição e à leitura. 
e) À violência e à ordem. 
 
6. (Unemat) Leia o poema "As lições de R. Q.", de Manoel de Barros, abaixo transcrito, 
e resolva o que se pede. 
 
Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano): 
A expressão reta não sonha. 
Não use o traço acostumado. 
A força de um artista vem das suas derrotas. 
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro. 
Arte não tem pensa: 
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. 
É preciso transver o mundo. 
Isto seja: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
163 
 
 
Deus deu a forma. Os artistas desformam. 
É preciso desformar o mundo: 
Tirar da natureza as naturalidades. 
Fazer cavalo verde, por exemplo [...] 
 
Considerando no contexto das tendências dominantes da poesia de Manoel de 
Barros, no Livro sobre nada (1996) pode-se afirmar que, neste texto, o "eu lírico" vê 
o mundo como: 
 
a) Oportunidade de manisfestar seu desapego tanto pelo sagrado como pelo 
profano. 
b) Ânsia de integração em uma sociedade em que o sujeito só é reconhecido pela 
excentricidade e estranheza. 
c) Transfiguração do mundo, que corresponde à experiência dos próprios sentidos. 
d) Frustração, uma vez que o artista é um derrotado, e Deus, uma ameaça. 
e) Esvaziamento do sentido de Arte, de Natureza e da ausência de sonhos. 
 
7. (UNCISAL-2016) 
 
 
164 
 
SONETO 204 AO RAPPER 
 
De cor, mulato, pardo, negro, preto. 
O branco é simplesmente branco, e só. 
Você quer mais respeito, não quer dó. 
Quer ser um cidadão, não quer o gueto. 
 
No Sul, no Pelourinho, no Soweto, 
lutando contra o falso status quo 
da máscara, a gravata e o paletó: 
A letra é mais comprida que um soneto. 
 
Seu canto já foi blues, quase balada; 
Foi soul, foi funk e reggae; agora é bala 
perdida em tiroteio de emboscada. 
 
Xerife do xadrez, você não cala: 
leva a periferia pra parada, 
de sola entra no som da minha sala. 
 
163 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acerca da estrutura métrica e rimática do poema acima, um soneto de autoria 
de Glauco Mattoso, pode-se afirmar a presença de 
 
a) Versos decassílabos, com esquema de rimas em ABBA BAAB CDE CDE. 
b) Versos decassílabos, com esquema de rimas em ABBA BAAB CDC DCD. 
c) Versos alexandrinos, com esquema de rimas em ABAB CDCD EFG EFG. 
d) Versos em redondilhas maiores, com esquema de rimas em ABBA BAAB CDE CDE. 
e) Versos em redondilhas menores, com esquema de rimas em ABBA CDDC EFG EFG. 
 
8. (FUNIVERSA-2010) 
 
Aninha e Suas Pedras 
 
Não te deixes destruir... 
Ajuntando novas pedras 
e construindo novos poemas. 
Recria tua vida, sempre, sempre. 
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. 
Faz de tua vida mesquinha 
um poema. 
E viverás no coração dos jovens 
e na memória das gerações que hão de vir. 
Esta fonteé para uso de todos os sedentos. 
Toma a tua parte. 
Vem a estas páginas 
e não entraves seu uso 
aos que têm sede. 
 
CORALINA, C. Vinténs de cobre: meias confissões de Aninha. São Paulo: Global, 2001. 
 
No poema Aninha e suas pedras, Cora Coralina trata de questões muito 
importantes no que se refere à relação entre sujeito e literatura: a criação e a 
recepção. Com relação a essas questões e com base em informações teóricas 
acerca de literatura, é correto afirmar que: 
 
a) A leitura do texto literário é condição para quem pretende conhecer e desfrutar 
do domínio das normas da língua padrão e, portanto, deve ser objeto de 
exercícios para aquisição da língua escrita. 
b) A criação literária é produto de experiências mesquinhas; por isso, o seu fazer 
torna-se ardiloso e desafiador. 
c) A leitura literária destina-se aos que precisam livrar-se de tormentos; esse é, então, 
164 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
165 
 
 
o principal fim do literário: o terapêutico. 
d) A leitura e a criação literária funcionam como exercício de liberdade e 
proporcionam o desenvolvimento de um comportamento mais crítico e menos 
preconceituoso diante do mundo. 
e) O processo da criação literária depende dos percalços existenciais que precisam 
ser superados 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A LITERATURA NA ÉPOCA
COLONIAL BRASILEIRA
A nossa literatura teve seu início de desenvolvimento no século XVI. Nesse
momento, temos o aparecimento da chamada literatura da época colonial com as
seguintes escolas literárias: quinhentismo, barroco e arcadismo.
A produção literária nacional, nasceu no período colonial, mas é difícil dizer
com exatidão o momento em que passou a se configurar como uma produção
literária independente da produção portuguesa.
No período colonial, não eram sólidas as condições para o florescimento de
uma literatura como, por exemplo, podemos citar existência de um público leitor,
grupos de escritores atuantes, uma vida cultural florescente ou um sentimento de
nacionalidade e pertencimento a terra. Os livros produzidos nesse momento são
impressos em Portugal e depois trazidos para a Colônia.
Alguns estudiosos da literatura preferem chamar a produção escrita no Brasil
nesse momento de ecos da literatura no Brasil colonial ou manifestações literárias.
Considerando esse ponto de vista, apenas no século XVIII com o advento de grupos
de escritores e um público leitor, teria sido criada as condições necessárias para a
formação de uma literatura (CANDIDO, 2000).
A palavra Quinhentismo é o período que compreende o século XVI, e não a
um referencial estético. Essa palavra pode ser usada como sinônimo de Classicismo.
As obras produzidas nesse primeiro momento, estão fortemente ligadas à literatura
portuguesa e integrariam o conjunto das chamadas literaturas de viagens
ultramarinas. Dessa forma, são literaturas mais sobre o Brasil ou produzidas no Brasil do
que uma literatura brasileira.
A literatura quinhentista é resultado dos efeitos da conquista e colonização
das terras brasileiras. Diversos escritos são, em sua maioria, diários, cartas e, em muitos
UNIDADE
13.1 INTRODUÇÃO
13.2 QUINHENTISMO
13
166
casos, tratados que tinham como finalidades descrever a paisagem e a vida em
terras brasileiras. Nesse momento, o teatro começou um pequeno desenvolvimento
sob a forma de autos versificados pelos religiosos (jesuítas) em seus trabalhos de
catequização dos indígenas no Brasil. As manifestações poéticas nesse primeiro
momento tiveram também caráter religioso.
A literatura quinhentista é essencialmente descritiva, de cunho
propagandístico da colonização e práticas da expansão ultramarina portuguesa.
Desta forma, podemos considerar que tem um valor literário reduzido, mas sua
importância se encontra em tornar-se fonte temática e formal para momentos
literários posteriores preocupados com as raízes de nossa nação, como o Romantismo
e o Modernismo.
Para compreendermos a produção literária no século XVI, temos que ter em
mente o cenário do Brasil Colonial que seria um vasto território ainda com poucos
conhecimentos e com poucas povoações que iam se criando no litoral. Após a
descoberta do Brasil, só algumas décadas posteriores que Portugal se interessou em
dar início ao processo de colonização. O Brasil não apresentava as vantagens
comerciais que as Índias tinham naquele momento.
A colonização começou efetivamente após a expedição de Martim Afonso
de Souza (1530) e a criação das capitais hereditárias (1532). Em 1549, a vinda dos
jesuítas na localidade é vista como uma aceleração no processo colonizador. No
mesmo ano ocorre a instalação do primeiro Governo-Geral. Não podemos falar de
uma cultura e muito menos de uma literatura brasileira no século XVI. O que se tinha
até aquele momento era esparsas manifestações, com um teor mais ou menos
literário, que documentava a chegada dos portugueses nas terras nacionais.
Cartas de viagens, diários de navegação e tratados descritivos foram as
principais formas de escritas desenvolvidos nesse momento. Essa literatura ficou
conhecida como de informação ou de expansão, surgida em Portugal no momento
das Grandes Navegações.
A finalidade desses textos era narrar e descrever as viagens, os primeiros
contatos com as terras brasileiras e sua população local. As informações deveriam
passar tudo que pudesse interessar aos governantes lusitanos. Esses escritos possuem
pouco valor literário, mas são documentos que tem uma importância histórica
fundamental como testemunho da população que passou por aqui no início de
nossa colonização. Além disso, esses escritos apresentam o choque cultural que
168
aconteceu em um primeiro momento do contato entre europeus e os indígenas.
Nos escritos desses autores percebemos que não existe um sentimento de
apego as terras brasileiras, elas são vistas apenas como uma extensão de Portugal.
Entretanto, a literatura quinhentista deixou como herança temas que foram
explorados posteriormente pelos escritores como, por exemplo, as paisagens
brasileiras, origens históricas, os índios, a fauna e outros. Podemos pegar como
exemplo Oswald de Andrade, escritor brasileiro do século XX, que criou o movimento
intitulado Poesia Pau-Brasil, que era inspirado nesse Brasil recém descoberto pelos
colonizadores e viajantes do século XVI. Nos versos abaixo, percebemos uma
influência do escritor Pero Vaz de Caminha:
A Descoberta
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a Oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
(ANDRADE, 1971, p. 80)
Entre as principais produções da literatura informação podemos elencar:
• A Carta, de Pero Vaz de Caminha;
• O Diário de Navegação, de Pero Lopes de Sousa (1530);
• O Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa (1587);
• Os Diálogos das grandes do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão (1618);
• As Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden (1557);
• Cartas de missionários jesuítas escritas nos primeiros séculos de colonização.
Em sua poesia e no teatro percebemos uma concepção de mundo dualista,
dividido entre as forças do Bem e do Mal. Seus textos possuem uma simplicidade para
que conseguissem eficiência comunicativa.
13.2.1 A literatura catequética de Padre José de Anchieta
A obra de José de Anchieta se diferencia das produções dos viajantes e
documentos informativos do século XVI. Além de suas cartas, ele escreveu poesia e
teatro. Não podemos esquecer que ele era um missionário e por isso sua escrita tinha
uma função pedagógica e didática para a população que catequizava.
0
O Brasil que, se justiça,
andava mui cego e torto,
vós o metereis no porto
se lançar de si a cobiça
que de vivo o torna morto
(ANCHIETA, 1954)
Sua poesia e seu teatro possuem algumas características como:
• Utilização de versos em redondilhas;
• Concepção teocêntrica;
• Teatro de alegoria;
• Temas religiosos e morais.
Os poemas de Anchieta possuíam uma língua fácil de serem cantados e
declamadosem cerimônias religiosas. Os conteúdos delas são simples e diretos, para
a fácil compreensão do ouvinte. Vários de seus poemas foram escritos em língua tupi
com o intuito de facilitar a catequização dos indígenas. Em seus escritos ele misturava
personagens bíblicos com os da cultura indígena.
O teatro possuía a mesma finalidade de catequização dos indígenas. Seus
teatros seguem a tradição medieval como os autos do Gil Vicente.
Entre suas principais obras estão:
• De Beata Virgine dei Matre Maria (poema escrito em latim em louvor a Virgem
Maria);
• Auto de São Lourenço (um auto que foca a luta de São Lourenço e São
Sebastião contra os demônios nos quais recebe nomes tupis)
Figura 1: Padre José de Anchieta
Fonte: Cleofas.
Disponível em: https://bit.ly/3pCfnRM. Acesso em: 12 dez. 2021
No século XVI, o Brasil era um importante empreendimento colonial de
Portugal. O cotidiano colonial começou a se organizar em torno dos engenhos de
açúcar concentrados na região da Zona da Mata no Nordeste.
Em 1601 teve início o Barroco no Brasil, com o poema épico Prosopopeia de
Bento Teixeira (1560-1618). Seu desenvolvimento emterras nacionais alcançou seu
ápice com o poeta Gregório de Matos e com o Padre Antônio Vieira. Encerrou-se
no século XVIII e terminou em 1768 com a publicação das Obras de Cláudio Manuel
da Costa.
A obra Prosopopeia de Bento Teixeira foi a responsável por dar início ao
Barroco no Brasil. É um poema épico, que era uma imitação de Os Lusíadas de
Camões e foi originalmente publicado em 1601. Ela foi organizada em 94 estâncias
de oito versos decassílabos e sua estrutura está dividida em “Proposição”,
“Invocação”, “Narração”, “Descrição do Recife de Pernambuco”, “Canto de
Proteu”, “Fala de Netuno” e “Epílogo”. Percebemos que a descrição das terras
brasileiras possui uma visão ainda portuguesa e a colônia é vista como “nova
Lusitânia”.
13.3 BARROCO
Desde a criação do Governo-Geral em 1548, Salvador tornou-se capital da
Colônia, ela foi transformada não apenas em centro político e econômico, mas
tornou-se, quase único, polo de produção cultural em terras brasileiras. Por essa
razão, o Barroco no Brasil também é conhecido como Escola Baiana.
Seus grandes recursos estilísticos são a metáfora, a antítese, a hipérbole e o
hipérbato e o paradoxo que permitem ao autor exprimir a coexistência angustiada
de pensamentos, sentimentos e ideias opostas e contraditórias, além de sua
perplexidade diante do mundo.
As duas principais tendências do Barroco são o cultismo e conceptismo. Suas
principais características são:
• Cultismo – também conhecido como Gongorismo devido ao seu maior
representante ser o poeta espanhol D. Luís de Góngora, recorre
exageradamente a metáfora e as sinestesias. Assim, a obra cultista oferece-se
como um espetáculo de sentidos e entendimento.
• Conceptismo – o autor utiliza-se mais da razão do que os sentimentos e cria
raciocínios engenhosos em sutilezas lógicas e paradoxais. Enquanto o cultismo
é descritivo, o conceptismo é analítico. Um dos maiores representantes desta
tendência foi o autor espanhol D. Francisco de Quevedo.
13.3.1 Características do Barroco
A palavra Barroco teve sua origem na designação de uma pérola de forma
irregular que era conhecia como ‘pérola barroca’. Essa irregularidade em oposição
a regularidade simetria do período anterior, Classicismo, foi a marca deste novo
estilo literário. O Barroco expressa o pessimismo, o conflito e o desequilíbrio perante
a razão e a emoção.
13.3.2 Gregório de Matos e sua crítica à sociedade colonial
Um dos poetas mais conhecidos do Barroco no Brasil foi Gregório de Matos
(Salvador, 23 de dezembro de 1636 – Recife, 26 de novembro de 1695) que recebeu
a alcunha Boca do Inferno. Ele era membro de uma família com poder aquisitivo
alto, maioria dos seus membros eram funcionários administrativos. Gregório de Matos
possuía a nacionalidade portuguesa, visto que o Brasil só se tornou independente
em 1822.
Em 1642, ingressou no Colégio dos Jesuítas. Em 1650, continuou seus estudos
em Lisboa e, em 1652, ingressou na Universidade de Coimbra. Em 27 de janeiro
de 1668 teve a função de representar a região da Bahia nas cortes lisboenses. Em
1672, é nomeado procurador pelo Secado da Câmara da Bahia. Em 1674, volta
representar a Bahia nas cortes de Lisboa e foi destituído do cargo de procurador.
Em 1679 foi nomeado Desembargador da Relação Eclesiástica na Bahia e em
1683 retornou ao Brasil. Após ser destituído do cargo por não querer usar batina nem
aceitar a imposição dos seus superiores começou a satirizar os costumes da
população das classes sociais na Bahia. Sua poesia possui um certo teor
pornográfico, mas também desenvolveu formas líricas voltadas para o sagrado.
A alcunha que recebeu em vida, Boca do Inferno, deve-se à forma de criticar
a Igreja Católica que ofendia padres e freiras residentes na Colônia. Criticou
também a cidade de Salvador, como neste soneto:
A cada canto um grande conselheiro.
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.
(AMADO, JAMES. 1990.)
Em 1685, foi denunciado à Inquisição através do promotor eclesiástico da
Bahia devido aos seus costumes livres. Foi acusado de desrespeito ao cristianismo e
de não mostrar reverência nas procissões. Mas, a acusação não teve
prosseguimento. Porém, em 1694, devido a várias acusações, foi deportado para
Angola. Posteriormente, consegue seu retorno ao Brasil por ajudar a combater uma
conspiração militar em territórios angolanos, mas não pode ficar na Bahia. Morreu
em Recife devido a uma febre contraída em terras africanas.
Figura 2: Gregório de Matos
Fonte: Elfikurten
Disponível em: https://bit.ly/370qMEJ. Acesso em: 12 dez. 2021
Gregório de Matos teve suas obras publicadas só no século XIX. Em 1850,
Adolfo Varnhagen publicou 39 de seus poemas na obra Florilégio da Poesia Brasileira
(Lisboa). Já no século XX, entre 1923 e 1933, Afrânio Peixoto edita o restante da obra
do poeta baiano, que teve seis volumes publicados pela Academia Brasileira de
Letras, exceto as partes referentes à pornografia que só vieram a aparecer em 1968
em uma nova publicação de James Amado.
Entre seus poemas, podemos listar:
• Pica-Flor;
• Anjo Bento;
• Senhora Dona Bahia;
• Descrevo que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia;
• A Nossa Senhora da Madre de Deus indo lá o poeta;
• Ao braço do mesmo Menino jesus quando appareceo;
• Soneto – Carregado de mim ando no mundo;
• Soneto I – A margem de uma fonte, que corria;
• Soneto II – Na confusão do mais horrendo dia;
• Soneto III – Ditoso aquele, e bem-aventurado;
• Soneto IV – Casou-se nesta terra esta e aquele;
• Soneto V – Bote a sua casaca de veludo;
• Soneto VI – A cada canto um grande conselheiro.
A poesia de Gregório de Matos possui algumas características. Uma delas é a
preocupação com a irreverência por afrontar os valores e a falsa moral existente na
sociedade baiana colonial.
Nenhum dos seus poemas foram publicados em vida, foram transmitidos
oralmente na Bahia até meados do século XIX quando então foram reunidos em
uma obra por Varnhagen, como assinalado anteriormente. É comum as
controvérsias existentes sobre a autoria de alguns poemas atribuídos a Gregório de
Matos e seus textos apresentarem algumas variações de vocabulário dependendo
da edição.
Em sua poesia lírica cultivou três vertentes: amorosa, religiosa e filosófica. Na
lírica amorosa é extremamente dualista no sentido carne/espírito que traz um
sentimento de culpa no plano espiritual do eu lírico. Como no soneto a seguir:
Sonetos a D. Ângela de SousaParedes
Não vira em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvia me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma mulher, que em Anjo se mentia;
De um Sol, que se trajava em criatura;
Matem-me, disse eu, vendo abrasar-me,
Se esta a cousa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me;
Olho meus, disse então por defender-me,
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perder-me.
(CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A. 1968)
Na lírica religiosa obedece aos conceitos do Barroco europeu e faz uso de
temas como amor a Deus, arrependimento, pecado, perdão, referências bíblicas e
o arrependimento. É empregado uma linguagem culta e apresenta ricas figuras de
linguagem. Já na lírica filosófica, seus textos referem-se as funções humanas e os
desconcertos do mundo. Seus poemas fazem alusão a uma consciência transitório
de vida e tempo.
Sobre suas sátiras, elas possuem as características mais originais das obras de
Gregório de Matos fugindo dos padrões estabelecidos pelo Barroco português e se
volta para a realidade local do século XVII. Na linguagem de suas sátiras é
empregada uma diversidade linguística e uso de termos indígenas e africanos que
refletem a realidade de Salvador na época.
Em finais do século XVII, ocorreu a descoberta do ouro em Minas Gerais e,
com isso, o eixo econômico da colônia se transferiu do Nordeste para o Sudeste.
Entre os anos de 1740 e 1760, a região tornou-se o centro político e cultural da
colônia: Vila Rica (atual Ouro Preto) e Rio de Janeiro (capital do Vice-Reino desde
1763) tornaram-se os polos de difusão cultural e de ideais pelo país, substituindo a
antiga capital Salvador.
Nesse momento, houve o surgimento de uma pequena burguesia letrada que
sofreu fortes influências do Iluminismo francês devido à sua formação em Coimbra,
Portugal. Quando em finais da década de 1760 a exploração aurífera entrou em
declínio, essa atmosfera cultural e de ideais contribuiu para a fomentação de
revoltas contra a metrópole portuguesa. Isso resultou na Inconfidência Mineira
ocorrida em finais da década de 1780.
Foi nesse caldeirão de ideais políticos, culturais e econômicos que surgiram os
principais poetas do Arcadismo brasileiro, que também ficou conhecida como
Escola Mineira de Literatura. Esses escritores foram fortemente influenciados pela
Inconfidência Mineira, a Independência dos Estados Unidos (1776), o Iluminismo
Francês e muitos eram admiradores do Marquês de Pombal.
13.4 ARCADISMO OU NEOCLASSICISMO
O Arcadismo no Brasil começou com a publicação do livro Obras, em 1768,
de Cláudio Manuel da Costa e pendurou até 1836, com o início do Romantismo com
a publicação do livro Suspiros poéticos e Saudades de Gonçalves Magalhães.
O Arcadismo no Brasil possui algumas particularidades temáticas como, por
exemplo:
 Introdução de temáticas e motivos estranhos ao modelo europeu como a
paisagem tropical, a flora, a fauna ou realidades coloniais como a mineração;
 Utilização de histórias do período colonial para a construção de poemas
heroicos;
 Utilização do índio como tema literário
Esses temas quebraram as convenções europeias sobre o Arcadismo como,
por exemplo, pastoralismo, uso da mitologia e o bucolismo. De acordo com os
historiadores Antônio José Saraiva e Oscar Lopes, as características do Arcadismo no
Brasil demonstram “certa cor local e certo dengue brasileiro constituem, no conjunto
desses poetas, uma contribuição importante para a formação do gosto romântico
entre nós” (1969, p. 68).
A peculiaridade dos escritores brasileiros em relação aos portugueses é
curioso, pois procuravam obedecer aos princípios das academias literárias
portuguesas ou se inspiravam em certos escritores clássicos como Camões, mas ao
mesmo tempo visavam a elevação da literatura desenvolvida na colônia ao nível
das literaturas europeias e dar-lhe um status de universalidade, tentando eliminar
vestígios locais e pessoais.
Entretanto, percebemos em seus escritos aspectos próprios diferentes do
modelo português importado. Além disso, devemos lembrar a forte influência do
barroco que ainda pairava no Brasil durante o século XVIII. Muitas igrejas mineiras do
estilo barroco tiveram suas conclusões quando o Arcadismo começava a dar seus
primeiros passos na colônia.
Outra peculiaridade dos escritores árcades brasileiros foram a participação
diretas no movimento de Inconfidência ocorrido em Minas Gerais. Esses autores
tiveram a formação em Coimbra e foram fortemente influenciados pelos ideais
Iluminista e pela Independência dos Estados Unidos, acreditava que a exploração
colonial nas terras brasileiras era terrível e acreditavam em um país independente
Figura 3: Cláudio Manuel da Costa
Fonte: Toda Matéria
Disponível em: https://bit.ly/34bDeQO. Acesso em: 12 dez. 2021
Entre os principais escritores árcades está Cláudio Manuel da Costa (1729-
1789) que nasceu em Mariana, Minas Gerais. Sua formação no Brasil se deu com os
jesuítas e posteriormente mudou-se para Coimbra para completar seus estudos, no
qual formou-se advogado. Em Coimbra, tomou contato com as transformações
culturais empregadas pelo Marques de Pombal e de novos procedimentos literários
feitos pela Arcádia Lusitana.
Quando retornou ao Brasil, sua vida como escritor começou com a
publicação de Obras poéticas. Em 1789, foi acusado de envolvimento na
participação da Inconfidência Mineira e posteriormente foi encontrado morto na
prisão, a causa da morte alegada foi suicídio.
Com sua formação cultural, Cláudio Manuel liderava o grupo de escritores
árcades mineiros e conseguiu fazer uma ligação com a tradição clássica em suas
obras, sendo o que melhor se ajustou aos padrões europeus do Arcadismo.
Entretanto, percebemos em seus versos ainda uma influência do Barroco como
mostrado no texto a seguir:
Já rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do Sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora
(COSTA, Cláudio Manuel da. 2002)
13.4.1 O iniciador do Arcadismo: Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)
Em seus poemas épicos, Cláudio Manuel da Costa escreveu Vila Rica que se
inspirava nas epopeias clássicas. Nesse poema buscou tratar da exploração
bandeirante, da descoberta do ouro em Minas Gerais, da função de Vila Rica e as
revoltas locais. Eis alguns versos desse poema épico:
Enfim serás, Vila Rica,
Teu nome alegre notícia, e já clamava;
Viva o senado! Viva! Repetia
Itamonte, que ao longe o eco ouvia.
(COSTA, Cláudio Manuel da. 2002)
O autor desenvolveu tanto a poesia épica quanto a lírica. Nesta última, seu
principal tema era a desilusão amorosa.
Figura 4: Tomás Antônio Gonzaga
Fonte: Wikipedia
Disponível em: https://bit.ly/3vEgdBy. Acesso em: 12 dez. 2021
13.4.2 A renovação dos árcades: Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) nasceu no Porto, Portugal, e veio ainda
criança com a família para a Bahia, onde estudou até sua juventude. Posteriormente,
voltou a Portugal para forma-se advogado em Coimbra e, assim como Cláudio
Manuel da Costa, estabeleceu contato nas terras portuguesas com os ideais árcades
e iluministas.
Ao retornar ao Brasil, passou a viver em Vila Rica, onde trabalhou como
ouvidor. Nessa cidade começou sua vida literária e teve sua primeira relação
amorosa com Maria Doroteia de Seixas, que ficou eternizada em seus versos como
Marília. Em 1789, foi preso devido ao seu envolvimento com a Inconfidência Mineira
e mandado para o Rio de Janeiro até 1792, posteriormente foi deportado para
Moçambique.
Sua poesia pode ser comparada com a dos demais árcades brasileiros e
apresenta algumas inovações que demonstrariam uma tradição existente entre os
árcades e os românticos.
Com a incorporação de suas experiências pessoais na sua poesia, Tomás
Antônio Gonzaga conseguiu quebrar a rigidez do modelo árcade europeu. Como
por exemplo, a contenção dos sentimentos,sua escrita tornou-se fortemente emotiva
e espontânea. Sua musa inspiradora era real, Marília, diferente das dos poetas
árcades que buscavam inspiração nas deusas da mitologia. Além disso, as descrições
dos traços humanos de sua musa são mais próximas do real como demonstrado nos
versos a seguir:
Marília de Dirceu
Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
purpúreas folhas de rosa,
brancas folhas de jasmim.
Dos rubis mais preciosos
os seus beiços são formados;
os seus dentes delicados
são pedaços de marfim.
(GONZAGA, Tomás A. s.d)
As experiências demonstradas nos versos anteriores fazem com que a obra de
Tomás Antônio Gonzaga possua maior subjetividade, emotividade e
espontaneidade, traços que seriam utilizados posteriormente pelo Romantismo.
Além de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga escreveu Cartas Chilenas
um dos principais poemas satíricos do período colonial. Ele ressuscita a tradição
começada com Gregório de Matos na satírica nacional. Além disso, esse poema
apresenta uma rica narratividade dos traços sociais e políticos existentes no período
anterior à Inconfidência Mineira.
Figura 5: Basílio da Gama
Fonte: Wikipedia
Disponível em: https://bit.ly/3hBn2vx. Acesso em: 12 dez 2021
Basílio da Gama (1741-1795) nasceu na atual cidade de Tiradentes, em Minas
Gerais. Teve formação na infância e juventude em colégio jesuíta do Rio de Janeiro
e completou seus estudos em Portugal e na Itália, quando os jesuítas foram expulsos
dos territórios portugueses.
Em 1767, retornou ao Rio de Janeiro e no ano seguinte foi preso acusado de
ter ligação com os jesuítas. Preso, foi mandado para Lisboa e escapou da
condenação de ser mandado para Angola devido a um poema em homenagem
à filha do Conde de Oeiras, o futuro Marquês de Pombal. Essa aproximação com o
marquês possibilitou novos contatos com os árcades portugueses e fez com que
escrevesse sua obra máxima, O Uraguai.
O Uraguai foi publicado em 1769 e considerado a melhor obra do Arcadismo
Brasileiro. Sua temática é a luta dos portugueses e espanhóis contra os índios e
jesuítas que estavam instalados na região do atual Rio Grande do Sul. Em seu poema
épico, é narrado desde os preparativos até a conclusão. Seus cantos apresentam a
13.4.3 A escrita indianista de Basílio da Gama (1741-1795)
jesuítas e índios na região do atual Rio Grande do Sul
 Canto II – as tropas avançam e fazem uma negociação com os chefes
indígenas, mas o acordo não é concretizado, fazendo com que haja a derrota
dos índios e sua retirada.
 Canto III – os chefes indígenas ateiam fogo no acampamento dos aliados
portugueses e espanhóis e fogem. O vilão do enredo, padre Balda, faz com
que prendam um dos chefes indígenas para que seu filho Baldeta case-se com
a esposa do chefe morto, Lindoia.
 Canto IV – é demonstrado os preparativos do casamento de Baldeta com
Lindoia. Ela não queria casar-se e chora pela morte do marido, tentou fugir e
entra em uma floresta que acaba sendo picada por uma cobra. Os brancos
invadem a aldeia e todos fogem, porém antes são incendiados todas as casas
e igrejas.
 Canto V – aparece Gomes Freire de Andrade, líder português, que prende os
inimigos na aldeia próxima e ocorre uma condenação da Companhia de
Jesus e seus crimes (GAMA, Basílio da. 2003)
Embora apresente a estrutura clássica das epopeias tradicionais (proposição,
invocação, dedicatória, narração e epílogo), o poema já começa com a ação em
desenvolvimento. Além disso, o fato histórico narrado pelo autor tem um
distanciamento temporal curto, havia se passado pouco mais de dez anos da
expulsão dos jesuítas, isso possibilita uma peculiaridade de O Uraguai comparado
com outros poemas épicos.
Diferentemente dos heróis épicos tradicionais, o líder Gomes Freire de Andrade
não demonstra entusiasmo em suas passagens no texto:
Descontente e triste
Marchava o general: não sofre o peito
Compadecido e generosa a vista
Daqueles frios e sangrados corpos,
Vítimas da ambição de injusto império
(GAMA, Basílio. 2003.)
Basílio da Gama tem uma postura crítica da guerra, mas o fato histórico
narrado não foi alterado, portugueses e espanhóis saem vencedores do conflito. Os
seguinte sequência de fatos:
 Canto I – as tropas de portugueses e espanhóis reúnem-se para combater os
jesuítas são personificados como inimigos e tratados como vilões ao longo do poema.
Já os índios derrotados são vistos com consideração e podemos considerar que o
autor retrata os índios como vítima dos jesuítas na localidade.
A paisagem brasileira passa por uma valorização em seus versos:
Que alegre cena para os olhos! Podem
Daquela altura, por espaço imenso,
Ver as longas campinas retalhadas
De trêmulos ribeiros, claras fontes,
E lagos cristalinos, onde molha
As leves asas o lascivo vento.
Engraçados outeiros, fundos vales,
Verde teatro, onde se admira quanto
Produziu a supérflua Natureza.
(GAMA, Basílio. 2003.)
Figura 6: Santa Rita Durão
Fonte: Só literatura
Disponível em: https://bit.ly/35sM1yo. Acesso em: 13 de dez. 2021
Nascido em Mariana, Minas Gerais, Santa Rita Durão (1722-1784) foi outro
poeta árcade brasileiro. Estudou em colégio jesuíta e mudou para Portugal para
completar seus estudos. Em terras lusitanas, ingressou na vida religiosa e tornou-se
teólogo.
13.4.4 As tendências nativistas de Santa Rita Durão (1722-1784)
Uma das marcas da escrita árcade é a valorização da vida primitiva e
natural, percebemos no escrito de Basílio da Gama esses traços ao focar no índio e
na natureza selvagem brasileira.
180
O seu principal poema escrito foi Caramuru com tendências nativistas. Esse
poema foi publicado em 1781, ou seja, doze anos após O Uraguai. Diferentemente
de Basílio da Gama, Santa Rita Durão não apresentou o anti-jesuitismo em seu
poema, ele buscou valorizar a ação catequética dos jesuítas sobre os indígenas.
O poema Caramuru segue rigidamente a estrutura camoniana, apresentando
dez cantos, estrofes de oitava-rima, versos decassílabos e a estrutura clássica das
epopeias. A presença da mitologia cristã e pagãs são representadas no poema
Caramuru, narra as aventuras do náufrago português Diogo Álvares Correia. O
autor buscou ao longo da narrativa da personagem fazer uma descrição das
qualidades das terras brasileiras, como nos versos a seguir:
Não são menos que as outras saborosas
As várias frutas do Brasil campestres;
Com gala de ouro e púrpura vistosas
Brilha a mangaba e os mocujés silvestres
(DURÂO, Santa Rita. 1781.)
Os costumes dos índios são vistos pela ótica cristã ao longo do poema:
Que horror da humanidade! Ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
(DURÂO, Santa Rita. 1781.)
O escritor buscou retratar as riquezas naturais brasileiras e descrever a colônia
no século XVI. Entretanto, percebe-se em seu escrito, que Santa Rita Durão leu relatos
sobre a vida indígena e a situação das belezas do Brasil, pois encontrava-se fora do
país desde os 9 anos.
FIXANDO O CONTEÚDO
1. (PREFEITURA DE ROSEIRA/SP – ADAPTADA) A literatura brasileira teve como marco
inicial os relatos de viajantes portugueses sobre a terra recém-descoberta. Esse
período revela a produção de textos com explicações sobre os aspectos naturais
do Brasil e, também, descrições sobre os povos que aqui viviam. A Carta de Pero
Vaz de Caminha escrita para Manuel I de Portugal foi o primeiro documento. Este
período foi chamado de:
a) Arcadismo.
b) Quinhentismo.
c) Barroco.
d) Seiscentismo.
e) Setecentismo.
2. (PREFEITURA DE XANXERÊ/SC - ADAPTADA) Uma das características da arte literária
barroca é o Gongorismo, definido como:
a) O aspecto construtivo do Barroco, voltado para o jogo das ideias e dos conceitos.
b) A preocupação com as associações inesperadas, seguindo um raciocínio lógico,
racionalista.
c) O reflexo do dilema em que vivia o homem do seiscentismo (os anos de 1600). Daí
as preferências por temas opostos: espírito e matéria, perdão e pecado, bem e
mal, céue inferno. Tudo isso gerava a preocupação com a brevidade da vida.
d) Nenhuma das alternativas.
e) Todas as anteriores.
3. (MS CONCURSOS - ADAPTADA) O dualismo, o bifrontismo: arte do conflito, do
contraste, do dilema, da contradição, da dúvida; emprego intensivo das
antíteses, dos paradoxos e dos oxímoros. O fusionismo: tentativa de conciliação
dos contrários: Claro x Escuro, Deus x Homem, Fé x Razão, Céu x Terra,
Teocentrismo x Antropocentrismo, Alma x Corpo, Virtude x Pecado, Espírito x
Carne, Ascetismo x Mundanismo, Cristianismo x Paganismo, Dor x Prazer,
Mocidade x Velhice, Vida x Morte, Humanização do sobrenatural. Referimo-nos
ao:
a) Arcadismo.
b) Romantismo.
c) Barroco.
d) Realismo.
e) Quinhentismo.
4. (CRESCER CONSULTORIAS - ADAPTADA) Entre nomes e características
apresentados a seguir, marque a alternativa associada ao Barroco.
a) Obra Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga.
b) Cultismo e conceptismo.
c) Defesa de ideias iluministas.
d) Poema épico Vila Rica de Cláudio Manuel da Costa.
e) Nenhuma das anteriores.
5. (PREFEITURA DE ROSEIRA/SP - ADAPTADA) Sobre o barroco:
I. A literatura barroca no Brasil foi introduzida pelos portugueses, quando não havia
uma produção cultural significante no país.
II. A produção literária nesse período não é reconhecida como genuinamente
nacional, mas um estilo absorvido e resultante do período colonial.
III. Sua linguagem é rebuscada e ambígua. Caracteriza-se por utilizar largamente
figuras linguagem: metáfora; antítese; o paradoxo; e a sinestesia.
IV.Neste período tem destaque: Gregório de Matos, por suas poesias, e o padre
Antônio Vieira, por seus sermões. Além deles, temos Bento Teixeira (1561-1600),
autor do poema Prosopopéia, de 1601, que costuma ser considerado o marco
inicial do Barroco brasileiro
Assinale a alternativa correta:
a) I e II.
b) I, II e III.
c) II, III e IV.
d) I, II, III e IV.
e) Nenhuma das anteriores
6. (SEED – PR)
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Tomás Antônio Gonzaga. Lira I. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 573.
Considerando-se as características do poema apresentado, é correto afirmar que
ele pertence ao
a) Pós-modernismo, por utilizar técnicas como a sátira e o pastiche.
b) Parnasianismo, por tratar de objetos poéticos de forma distanciada.
c) Barroco, por explorar dualidades na alma do eu lírico.
d) Arcadismo, por representar o poeta e sua amada em um ambiente pastoril e
idílico.
e) Modernismo, por quebrar as tradições do verso em língua portuguesa.
7. (UEG) Leia o excerto poético e observe a imagem para responder à questão.
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela
Graças à minha estrela.
GONZAGA, Tomás Antônio. Lira I. In: A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 7
Fonte: https://bit.ly/3hBr1Ii. Acesso em: 16 dez. 2021
O excerto e a imagem se filiam ao Arcadismo pelo fato de
a) Enaltecerem o sentimento amoroso como forma de realização pessoal.
b) Romperem com a métrica e com a representação realista da paisagem.
c) Aludirem a cenas e espaços bucólicos e naturais.
d) Veicularem ideais de luta e engajamento social.
e) Apresentarem teor laudatório e encomiástico.
8. (MS CONCURSOS – ADAPTADO) São representantes do Arcadismo:
a) Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa.
b) Castro Alves e Silva Alvarenga.
c) Tomás Antônio Gonzaga e Álvares de Azevedo.
d) Alvarenga Peixoto e Gregório de Matos Guerra.
e) Nenhuma das anteriores.
A AFIRMAÇÃO DA LITERATURA
NACIONAL: O ROMANTISMO
Suspiros poéticos e saudades de Gonçalves Magalhães, publicado em 1836, é
a obra que inaugurou o Romantismo no Brasil que pendurou até 1881. Para
compreendermos o Romantismo no Brasil é importante entender o contexto nacional
que o marcou nos primeiros cinquenta anos do século XIX que foi: a vinda da família
real para o Rio de Janeiro (1808), o Brasil foi elevado à categoria de reino (1816), o
movimento de independência (1822), o Primeiro Reinado (1822-1831), o Período
Regencial (1831-1840) e o Segundo Reinado (1841-1889). Além disso, esses fatores
históricos representavam projetos políticos em vigor como, por exemplo, o orgulho de
um país recém independente; projetos nacionais para a construção do país; conflitos
entre liberais e conservadores em busca de um modelo administrativo nacional e a
luta nacional para a constituição de uma autonomia política e cultural.
A partir da segunda metade do século XIX, o Brasil passou por um rápido
desenvolvimento e ampliação do comércio exterior, início da sua industrialização e
da exportação do café. O Romantismo entra nesse momento como um projeto de
construção nacional que caminhou lado a lado com os projetos políticos que
estavam em desenvolvimento. Os autores desse momento acreditavam que sua
missão seria ajuda a construir a cultura nacional de um país então recém
independente.
Esse movimento literário é dividido nas questões da poesia em três gerações,
que são:
 Primeira Geração – possui como suas características o nacionalismo,
indianismo e caráter religioso. Os poetas que se destacaram nessa fase foram
Gonçalves Dias e Gonçalves Magalhães;
 Segunda Geração – teve como um de suas características o “mal do século”
e apresentava o egocentrismo exacerbado, satanismo e atração pela morte
como uma de suas marcas. Seus principais escritores foram Álvares de
Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire;
UNIDADE
14.1 INTRODUÇÃO
14
186
 Terceira Geração – que é uma poesia de cunho social e político que ficou
conhecida como condoreira. O maior representante desse momento é o
poeta Castro Alves.
Em 1822, com a Proclamação da Independência, diversos escritores e
intelectuais buscaram a dedicar-se a construção de uma cultura autenticamente
nacional que enfatizasse as características próprias de nosso país.
O Romantismo foi considerado uma reação à tradição do Arcadismo e em
nosso país ganhou conotação de um movimento anticolonialista e antilusitano.
Dessa forma, toda a produção cultural feita na época colonial foi rejeitada devido
a manter os modelos da escrita portuguesa.
14.2 A PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA: GONÇALVES DIAS
Dessa forma, um dos traços do Romantismo é a valorização do nosso
nacionalismo que permitiu uma vasta gama de possibilidades temáticas a serem
exploradas pelos seus escritores como, por exemplo, o indianismo, o regionalismo,
questões folclóricas e linguísticas, além do nosso passado histórico. Essas temáticas
estariam comprometidas com o objetivo de fortalecimento da construção de uma
identidade nacional.
Figura 7: Gonçalves Dias
Fonte: Português
Disponível em: https://bit.ly/3IHG5A0. Acesso em: 17 dez. 2021
Gonçalves Dias (1823-1864) foi um dos responsáveis pela solidificação do
Romantismo em terras brasileiras. Seus escritos buscavam captar a sensibilidade e
sentimentos da população e criou uma poesia voltada a valorização do índio e da
natureza do Brasil.
Seus versos costumam ser melódicos e exploram ritmos e métricas variados.
Sua produção poética pode ser dividida em lírica e épica. Na épicadestacam-se
dois poemas: I-Juca-Pirama e Os timbiras, que ficou inacabado.
I-Juca-Pirama narra a história de um índio tupi que ficou prisioneiro de uma
nação rival. O drama da personagem reside no fato de seus sentimentos
contraditórios: queria sobreviver para poder cuidar do pai doente, mas ao mesmo
tempo desejava morrer lutando.
Assim como seus antecessores, Basílio da Gama e Santa Rita Durão,
Gonçalves Dias buscou trazer o índio nas discussões de nossa literatura, mas em uma
nova dimensão temática o conteúdo indianista. Percebemos que em Juca-Pirama,
o índio tupi representava todos os indígenas brasileiros ou ainda podemos considerar
que representava todos os brasileiros, uma vez que no Romantismo a figura do índio
representava a nossa nacionalidade.
Nas décadas de 1850 a 1860, jovens poetas estudantes de Rio de Janeiro e
14.3 A SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA E O ULTRARROMANTISMO DE
ÁLVARES DE AZEVEDO
São Paulo reuniram-se em um grupo que ficou conhecido como Ultrarromantismo.
Essa Segunda Geração buscava se expressar através do pessimismo e não encaixe
no mundo. Esses poetas levavam uma vida desregrada e foram fortemente
influenciados pela escrita do poeta inglês Lord Byron.
Essa geração abraçou o mal-do-século que seria um apego demasiado a
certos valores como o vício e a bebedeira, na admiração pela escuridão, noite e a
morte. Outros traços como o satanismo e o macabro apareceram em alguns desses
poetas como, por exemplo, Álvares de Azevedo.
Temáticas como o nacionalismo e o indianismo foram desvalorizados pelos
ultrarromânticos. Seus principais traços de escrita residiam no subjetivismo,
egocentrismo e extremo sentimentalismo.
Um dos principais poetas da Segunda Geração Romântica foi Álvares de
Azevedo (1831-1852). Teve sua formação no Rio de Janeiro e cursava Direito em São
Paulo, morreu precocemente por um acidente aos 21 anos. Embora jovem,
conseguiu publicar diversos livros, discursos e cartas em um período de quatro anos
em que era estudante universitário.
Seu projeto literário é envolto de uma contradição, esse enquadramento é
uma das dualidades que caracterizavam a linguagem romântica. Essa contradição
marca muito sua obra Lira dos vintes anos.
Figura 8: Álvares de Azevedo
Fonte: Brasil Escola
Disponível em: https://bit.ly/3pEQAga. Acesso em: 17 dez. 2021
34
Na primeira parte de sua obra percebemos uma face boa em seus escritos,
que ele mesmo denominava Ariel. Um exemplo dessa face são os seguintes versos:
Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinadas,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela mãe das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
(HELLER, 1982. p. 22.)
Nos versos anteriores percebemos relações antitéticas: escuridão e claridade;
noite e amanhecer; sonho e real e outros. Percebemos no eu lírico um medo de
amar, que seria oriundo das dúvidas e um prazer reprimido e seu único escape seria
o prazer pela morte.
Na segunda parte da obra, o autor apresenta a seus leitores o mundo de
Caliban, que seria um mundo representado pela decadência e seus vícios.
Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num
mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote,
onde Sancho é rei; (...)
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro e capítulo funda-se
numa binômia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro
pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira
medalha de duas faces. (CANDIDO, 1968, p. 14)
Nessa parte da obra, o leitor se depara com um segundo prefácio que é um
convite à leitura.
14.4 A TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA E A POESIA DE CASTRO ALVES
A última fase da geração romântica na poesia brasileira ficou conhecida
como condoreira ou hugoana, devido a influência do escritor francês Victor Hugo.
Esse grupo de poetas desenvolveu uma poesia voltada as preocupações sociais do
seu tempo, a principal delas foi o processo de abolição da escravatura no Brasil.
O nome condoreirismo está relacionado ao condor, aves que seria capaz de
sobrevoar grandes distância e com uma visão capaz de enxergar de longe, esses
poetas se viam dessa forma capacitados a criticar as mazelas sociais existentes no
país no século XIX.
No Romantismo europeu, esses poetas ficaram preocupados com as causas
dos operários e camponeses. Melhor exemplo é Victor Hugo com a obra Os
miseráveis.
Além do abolicionismo, outra pauta que aparece nas poesias dos condoreiros
é a causa republicana.
Figura 9: Castro Alves
Fonte: InfoEscola
Disponível em: https://bit.ly/3HBmfFm. Acesso em: 17 dez. 2021
Castro Alves (1847-1871) é considerado o principal poeta da Terceira Geração
do Romantismo Brasileiro. Sua poesia foi vista como um momento de maturidade e
transição na literatura. Maturidade em relação a certas atitudes das gerações
anteriores, como a idealização amorosa e o ufanismo da nacionalidade, ele substitui
essas pautas por posturas mais críticas a realidade social. Ao mesmo tempo é
considerada de transição porque a sua objetividade e crítica apontava para o
movimento que sucederia o Romantismo, o Realismo que já pairava pela Europa.
Sua poesia é fortemente marcada pelo cunho social. Castro Alves buscava
retratar os problemas esquecidos pelas gerações românticas anteriores: a
escravidão, a opressão sobre a população negra e a ignorância dos brasileiros.
A linguagem dos seus poemas é marcada pelo hiperbolismo e existência de
espaços amplos como, por exemplo, o céu e o deserto. Sua língua prenuncia a
perspectiva crítica e objetiva que irá pairar sobre o Realismo. Mas, ela ainda é uma
linguagem essencialmente romântica porque está afinada com o projeto liberal
brasileiro e é carregada de forte teor sentimentalismo e emocional.
Um dos seus poemas mais conhecidos é “O navio negreiro” que compunha a
sua obra Os escravos esse, juntamente, com Vozes d´África fazem partes das
principais publicações do escritor. Nesse poema, é denunciado à escravidão e
transporte dos negros escravizados para o Brasil. Castro Alves buscou retratar cenas
dramáticas do transporte de escravos no porão dos navios negreiros.
A implantação do indianismo no Romantismo foi favorável a diversos fatores
da nossa tradição literária do período colonial que já utilizou figuras indígenas em
14.5 A PROSA ROMÂNTICA E A ESCRITA LITERÁRIA DE JOSÉ DE ALENCAR
O Romantismo buscou no índio o legítimo representante da América, isso se
deve por ser o colonizador europeu e o negro africano. Assim, o índio foi visto como
autêntico representante dos ideais de nossa nacionalidade e através dos romances
indianistas alcançaram grandes representações.
seus poemas épicos e líricos. Outro traço importante desse momento do Romantismo
no Brasil é a adaptação feita dos escritores românticos dos cavaleiros medievais da
Idade Média que aqui para nós era visto como o índio guerreiro.
Os Romances Regionalistas tiveram a missão no Romantismo de proporcionar
ao Brasil uma visão própria das suas diferenças internas e suas várias culturas. Os
romances buscaram valorizar e compreender as características étnicas, sociais,
culturais e linguísticas que compunham o Brasil.
Os romances urbanos desenvolvidos durante o Romantismo buscaram
apresentar o cotidiano do leitor, colocava em discussão valores de época e
problemas sociais existentes nas cidades brasileiras, principalmente no Rio de
Janeiro, então capital do Brasil.
Figura 10: José de Alencar
Fonte: Wikipedia
Disponível em: https://bit.ly/3MljV8V. Acessado em: 17 dez. 2021
Foi na figura do escritor José de Alencar (1829-1877) que sefixou e ampliou os
modelos de romance romântico em território nacional, diversificando seus temas e
dando uma qualidade literária maior.
No prefácio da sua obra Sonhos d’ouro (1872) percebemos que ele faz um
balanço das perspectivas que tentou mostrar em sua produção literária:
 Fase primitiva – Iracema, Ubirajara;
 Fase histórica – O Guarani e As minas de prata;
 Fase da formação política do país – O tronco do ipê, O gaúcho, Lucíola, Diva,
A pata da gazela, Senhora.
Além disso, podemos considerar que a produção de José Alencar pode ser
dividida da seguinte forma:
1. Romances Indianistas – que buscava dar uma continuidade na tradição
indianista feita durante o período colonial e iniciada no Romantismo com as
poesias de Gonçalves Dias e Gonçalves Magalhães. O índio é visto como um
ser em completamente harmonia com o estado de natureza e com valores de
cavaleiro medieval:
 O Guarani (1857) – mostrava a colonização no Vale do Paraíba, século XVI e
da cultura do índio, como podemos perceber no trecho a seguir:
Peri estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espírito revoltava-se
contra aquela ideia, e não podia conceber que a vida de sua
senhora tivesse de perecer como a de um simples mortal.
— Não! exclamou ele. Tu não podes morrer.
A menina sorriu docemente.
— Olha! disse ela com a sua voz maviosa, a água sobe, sobe...
— Que importa! Peri vencerá a água, como venceu a todos os teus
inimigos.
— Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Peri. Mas é Deus... É o seu poder
infinito!
— Tu não sabes? disse o índio como inspirado pelo seu amor ardente,
o Senhor do céu manda às vezes àqueles a quem ama um bom
pensamento.
E o índio ergueu os olhos com uma expressão inefável de
reconhecimento.
Falou com um tom solene:
“Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As águas caíram, e
começaram a cobrir toda a terra. Os homens subiram ao alto dos
montes; um só ficou na várzea com sua esposa.
“Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor
falava-lhe de noite; e de dia ele ensinava aos filhos da tribo o que
aprendia do céu. (ALENCAR, José de. 1997.)
 Iracema (1865) – obra com grande valor poético e tem em sua narrativa um
tom lendário, que busca construir o mito de origem de um povo. Podemos
apreciar o valor poético desta obra na citação a seguir:
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os
olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e
todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não
algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que
bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas
armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar,
o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de
sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a
mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. (ALENCAR,
José de. 1991.)
 Ubirajara (1874) – busca mostrar a vida do índio antes do contato com o
europeu.
2. Romances Regionalistas – buscava demonstrar as variedades culturais
existentes internamente no país:
 O gaúcho (1870) – mostrava o homem dos pampas sul-rio-grandense;
 O sertanejo (1875) – mostrava o homem sertanejo cearense e seus costumes
e tradições;
 O tronco do ipê (1871) – Antonio Candido considerava que era um “romance
fazendeiro”, por descrever a vida rural no interior de São Paulo (CANDIDO,
Antonio. 2000).
3. Romances Históricos – buscava retratar fatos históricos da constituição do
Brasil:
 As minas de prata (1862-1865) – retratava a saga dos bandeirantes;
 A Guerra dos Mascates (1873-1874) – retratava o conflito histórico entre Olinda
e Recife ocorrido no século XVIII e faz alusões críticas a política implementada
por D. Pedro II;
 Alfarrábios (1873) – compõe-se de narrativas menores.
4. Romances Urbanos – ambientavam-se na época de vida do autor e mostrava
os costumes da cidade do Rio de Janeiro no Segundo Reinado:
 Lucíola (1862) – tem como tema a prostituição derivada de fatores sociais e
familiares;
 Senhora (1875) – considerado um dos melhores romances do escritor e
retratava o casamento como forma de ascensão social. José de Alencar deu
início a publicação da obra as discussões sobre certos valores e costumes da
sociedade carioca do século XIX. Podemos apreciar um pouco deste
importante romance na citação a seguir:
A moça com o talhe languidamente recostado no espaldar da
cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura
maviosa, escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos
eflúvios de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o
olhar rendido e o gesto apaixonado.
— É verdade então que me ama?
— Pois duvida, Aurélia?
— E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?
— Não lho disse já?
— Então nunca amou a outra?
— Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra
mulher que não fosse a minha mãe. O meu primeiro beijo de amor,
guardei-o para minha esposa, para ti…
Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita
mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva. Aurélia
estava lívida e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizava.
— Ou de outra mais rica!… — disse ela retraindo-se para fugir ao beijo
do marido e afastando-o com a ponta dos dedos.
A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza
do sentimento que lhe sublevava o seio e que parecia ringir-lhe nos
lábios como aço.
— Aurélia! Que significa isto? (ALENCAR, José. 2013)
Pela variedade das suas produções, percebemos em José de Alencar um
sentimento de valorização do patriótico, como se buscasse cumprir um retrato do
novo país recém independente.
Além dos romances constituídos até aqui apresentados durante o Romantismo
Brasileiro, outros textos foram publicados na época com um teor mais voltado ao
gótico e estava em sintonia com os autores estrangeiros como, Lord Byron, Charles
Baudelaire e Edgar Allan Poe.
Essa literatura teve pouca repercussão na época por ganhar a alcunha de
“maldita”. Isso se deve por colocar a margem dos padrões atribuídos pelo próprio
Romantismo e o mundo retratado estava a margem do racionalismo e materialidade
da sociedade capitalista do século XIX.
O macabro, o sexo, a loucura, o vício e a bebedeira povoaram a escrita
desses textos. Dessa forma, o subconsciente, a morta, o libido e o terror eram
valorizados por esses trabalhos. Um dos principais autores desse tipo de escrita foi
Álvares de Azevedo e sua principal obra publicada em prosa foi Noite na Taverna.
Nessa obra, um narrador em terceira pessoa apresenta todo o ambiente existente:
uma taverna com bêbados e loucos e em uma mesa alguns homens bebem e
conversam. Estavam em êxtases com o álcool e resolvem cada um contar um
episódio da sua vida, cada capítulo do livro leva o nome do narrador-personagem
presente na mesa. Os enredos narrados envolvem situações fantásticas e
acontecimentos de morte, amor, crimes, vícios e o pessimismo diante da vida.
14.6 A PROSA GÓTICA DE ÁLVARES DE AZEVEDO
Figura 11: Visconde de Taunay
Fonte: Academia Brasileira de Letras
Disponível em: https://bit.ly/3pEl1CX. Acesso em: 17 dez. 2021
Visconde de Taunay (1843-1899) em seus romances buscou trazer um pouco
da sua experiência pessoal enquanto militar de carreira. Ele retratava em suas
escritas os aspectos visuais das paisagens sertanejas, da flora e da fauna existentes.
O seu principal romance, Inocência, é considerado um dos principais
romances do nosso Romantismo com temáticas regionalistas e existe uma
contraposição entre ficção e realidade nas linhas do seu enredo. Como podemos
perceber no trecho a seguir:
Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da
vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da vila de Sant'Ana
do Paranaíba vai ter ao sítio abandonado de Camapuã. Desde
14.7 A LITERATURA REGIONALISTA DE VISCONDE DE TAUNAY E FRANKLIN
TÁVORA
aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo emque
confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso
até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no
desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se
comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos
chegadas umas às outras, rareiam, porém, depois as casas, mais e
mais, e caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem
gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas
solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o
viajante desses alongados páramos, oferece-lhe momentâneo
agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os
campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no Baixo
Paraguai.
Ali começa o sertão chamado bruto.
Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas,
nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a
frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que
está caindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada;
por toda a parte, a vegetação virgem, como quando aí surgiu pela
vez primeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se à maneira
de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na
composição de todo aquele solo, fertilizado aliás por um sem-número
de límpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes
são outros tantos tributários do claro e fundo Paraná ou, na
contravertente, do correntoso Paraguai. (TAUNAY, Alfredo
d’Escragnolle. 1999)
Já o escritor Franklin Távora (1842-1888) nasceu no Ceará e teve sua formação
realizada na cidade do Rio de Janeiro e uma de suas obras mais importantes foi O
Cabeleira.
Em sua obra, Franklin Távora buscava chamar a atenção para a capacidade
literária própria do Nordeste devido ao seu farto passado histórico cheio de enredos
e costumes típicos do período colonial, como podemos perceber no trecho
introdutório de sua principal obra:
No Cabeleira ofereço-te um tímido ensaio do romance histórico,
segundo eu entendo este gênero da literatura. À crítica
pernambucana, mais do que a outra qualquer, cabe dizer se o meu
desejo não foi iludido; e a ela, seja qual for a sua sentença, curvarei
a cabeça sem replicar.
As letras têm, como a política, um certo caráter geográfico; mais no
Norte, porém, do que no Sul abundam os elementos para a formação
de uma literatura propriamente brasileira, filha da terra.
A razão é óbvia: o Norte ainda não foi invadido como está sendo o
Sul de dia em dia pelo estrangeiro.
A feição primitiva, unicamente modificada pela cultura que as raças,
as índoles, e os costumes recebem dos tempos ou do progresso,
pode-se afirmar que ainda se conserva ali em sua pureza, em sua
genuína expressão.
Por infelicidade do Norte, porém, dentre os muitos filhos seus que
figuram com grande brilho nas letras pátrias, poucos têm seriamente
cuidado de construir o edifício literário dessa parte do império que,
por sua natureza magnificente e primorosa, por sua história tão rica
de feitos heróicos, por seus usos, tradições e poesia popular há de ter
cedo ou tarde uma biblioteca especialmente sua. (TÁVORA, Franklin.
2003)
A obra O Cabeleira retrata a vida de um famoso cangaceiro, José Gomes,
que junto com seu bando aterrorizava as cidades pernambucanas no século XVIII.
Essa temática trouxe à tona outros temas que puderam ser explorados pelos
romances regionalistas posteriores como a seca, cangaço, miséria, migrações e o
banditismo.
FIXANDO O CONTEÚDO
1. (PREFEITURA DE ARENÁPOLIS – MT – ADAPTADA) ‘’Além, muito além daquela serra,
que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de
mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que
seu talhe de palmeira. O favo do jati não era doce como seu sorriso; nem a
baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a
ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde
campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal
roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras
águas. [...] Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os
olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. [...] Foi rápido, como o
olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gostas de sangue
borbulham na face do desconhecido. [...] O sentimento que ele pôs nos olhos e
no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiracaba, e correu
para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.’’
*Retirado do livro: Iracema.
O trecho acima foi retirado da Obra Literária de:
a) Machado de Assis.
b) José de Alencar.
c) Jorge Amado.
d) Eça de Queiroz.
e) Álvares de Azevedo.
2. (PREFEITURA DE COLÔMBIA – SP – ADAPTADA) “A vinda da família Real portuguesa
ao Brasil, além de ter preparado o caminho para a independência, movimentou
a vida na colônia e trouxe progresso.” O comentário anterior diz respeito ao
contexto histórico ao qual relaciona-se qual período da literatura?
a) Realismo.
b) Passadismo.
c) Romantismo.
d) Primeira fase árcade.
e) Simbolismo.
3. (PREFEITURA DE MIGUELÓPOLIS/SP – ADAPTADA) Leia o texto e responda à questão.
SONETO
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era a mais bela! Seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
(AZEVEDO, Álvares de. 1853)
Quanto ao movimento literário ao qual pertenceu esse poema, assinale a
alternativa correta.
a) Este é um poema tipicamente barroco, uma vez que a métrica dos versos é muito
acurada e há uma referência ao religioso no texto quando o autor evoca os anjos.
b) Este soneto foi publicado durante o período do romantismo brasileiro e são
perceptíveis em sua temática características do movimento.
c) O soneto pertence à primeira fase do modernismo brasileiro, é perceptível o uso
do verso livre e da temática futurista.
d) O poema é um clássico do naturalismo português, os temas da natureza humana
são muito presentes durante toda a escrita deste autor.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.
4. (PREFEITURA DE BAGÉ – RS) Sobre o poeta baiano Castro Alves, da corrente literária
Romantismo, assinale V, se verdadeiro, ou F, se falso, nas assertivas abaixo:
( ) O poeta compartilhava com os intelectuais de sua época um sentimento
humanitário em relação aos negros escravizados, tema que abordou em
poemas célebres.
( ) A sua poesia lírico-amorosa, outra vertente de sua obra, propunha uma
concepção de amor diferente daquela defendida pelos românticos das fases
anteriores, já que os poemas de Castro Alves apresentam mulheres sensuais,
dotadas de erotismo e de sentimentos intensos.
( ) O tom grandiloquente dos versos de Castro Alves é marcado por figuras de
linguagem que remetem a uma natureza impressionante: astros, oceano, tufão,
condor, águia, etc.
( ) Castro Alves usa uma grande dramaticidade em Navio negreiro, a fim de
expressar o horror do eu-lírico diante da crueldade humana: “Senhor Deus dos
desgraçados! //Dizei-me vós, Senhor Deus! //Se é loucura... se é verdade //Tanto
horror perante os céus?!”
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
a) V – V – V – V.
b) V – V – F – F.
c) F – V – V – V.
d) V – F – F – V.
e) F – F – V – F.
5. (PREFEITURA DE ABELARDO LUZ – SC) Texto para a questão:
CAÇADA
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um
velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade. Uma simples túnica de
algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de
penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhedelgado e esbelto como um junco selvagem. Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua
pele, cor de cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a
tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra,
móbil, cintilante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam
ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência.
Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas
plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham roçar com as pontas
negras o pescoço flexível.
Era de alta estatura; tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa, ornada com uma
axorca de frutos amarelos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz
na corrida. Segurava o arco e as flechas com a mão direita calda, e com a esquerda
mantinha verticalmente diante de si um longo forcado de pau enegrecido pelo fogo[...]
Ali por entre a folhagem, distinguiam-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante,
marchetado de pardo; às vezes viam-se brilhar na sombra dois raios vítreos e pálidos, que
semelhavam os reflexos de alguma cristalização de rocha, ferida pela luz do sol.
Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e pés
suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.
Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como procurando
uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo; uma espécie de riso sardônico e
feroz contraía-lhe as negras mandíbulas, e mostrava a linha de dentes amarelos; as ventas
dilatadas aspiravam fortemente e pareciam deleitar-se já com o odor do sangue da vítima.
O índio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses
movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla
uma cena agradável: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defesa.
Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem mediram-se mutuamente, com os
olhos nos olhos um do outro; depois o tigre agachou-se, e ia formar o salto, quando a
cavalgata apareceu na entrada da clareira.
Então o animal, lançando ao redor um olhar injetado de sangue, eriçou o pelo, e ficou
imóvel no mesmo lugar, hesitando se devia arriscar o ataque.
(José de Alencar. O guarani. São Paulo: Ática, 1995.)
Todas as informações abaixo têm relação com o Romantismo brasileiro, exceto
uma. Marque-a:
a) Predomínio da emoção e da sensibilidade.
b) Predomínio de comparações e metáforas.
c) Objetividade racional.
d) Culto à natureza e ao índio.
e) Subjetivismo.
6. (PREFEITURA DE LAURENTINO/SC – ADAPTADO) Primeiro movimento literário
genuinamente brasileiro teve início em 1836 onde foram publicadas obras como:
Suspiro Poético e Saudades. Esse período é chamado de:
a) Barroco.
b) Arcadismo.
c) Romantismo.
d) Realismo.
e) Pré-Modernismo.
7. (PREFEITURA DE SÃO BENTO DO SUL/SC – ADAPTADO) Leia o poema a seguir e
assinale a alternativa que corresponde à escola literária a qual ele pertence:
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(“Canção do exílio”, Gonçalves Dias)
a) Parnasianismo.
b) Modernismo.
c) Simbolismo.
d) Romantismo.
e) Realismo.
8. (Prefeitura de Iporã do Oeste – SC – Adaptada) Leia o poema abaixo:
SE EU MORRESSE AMANHÃ!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! Que céu azul! Que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
(Álvares de Azevedo)
De acordo com o poema e seu contexto, assinale a alternativa correta:
a) O título do poema “Se Eu Morresse Amanhã” traz para o leitor a ideia de
circunstância, e, também a óbvia alusão à morte, mostrando o espírito que se
manifesta não só neste poema, mas na 2ª Geração do Romantismo no Brasil,
geração do poeta Álvares de Azevedo, caracterizada pelo gosto pelo mórbido,
pessimismo desesperado, escapismo na morte, etc.
b) O título do poema “Se Eu Morresse Amanhã” traz para o leitor a ideia de confiança
por parte do eu lírico, e, também a óbvia alusão ao altruísmo, mostrando o espírito
que se manifesta não só neste poema, mas na 2ª Geração do Romantismo no
Brasil, geração do poeta Álvares de Azevedo, caracterizada pelo sacrifício,
solidariedade e o gosto pela saudade, o que fica claro na 1ª estrofe quando o
autor fala de sua irmã.
c) O título do poema “Se Eu Morresse Amanhã” traz para o leitor a ideia de
circunstância, e, também a óbvia alusão à vida, mostrando o espírito que se
manifesta não só neste poema, mas na 2ª Geração do Romantismo no Brasil,
geração do poeta Álvares de Azevedo, caracterizada pelo gosto pela vida,
otimismo arrojado, vitalidade. Por mais que o poema fale sobre a morte, o autor
faz menção de suas expectativas de vida no 1º verso da 2ª estrofe.
d) O título do poema “Se Eu Morresse Amanhã” traz para o leitor a ideia de
circunstância, e, também a óbvia alusão à delícia da existência, mostrando o
espírito que se manifesta não só neste poema, mas na 7ª Geração do Modernismo
no Brasil, geração do poeta Álvares de Azevedo, caracterizada pelo gosto pelo
mórbido, pessimismo desesperado, escapismo na morte, etc.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.
A maturidade literária brasileira:
Realismo, Naturalismo,
Parnasianismo e Simbolismo
As obras produzidas nesse momento buscaram ser fiel com a realidade
observada e analisam seu mundo de forma analítica. A subjetividade não deve ser
expressa como anteriormente feito no Romantismo. A partir disso, podemos
considerar que as características desse movimento literário são:
 Objetividade;
 Semelhança das personagens com o homem comum;
 Condicionamento das personagens ao meio físico e social;
 Lei da causalidade;
 Detalhismo;
 Linguagem simples;
 Preferência da narrativa do que a descrição.
Entretanto, Naturalismo e Realismo não são as mesmas coisas. Podemos
considerar que o Naturalismo é um segmento existentes dentro do Realismo, sendo
esse último mais abrangente.
Não existe muita nitidez nos dois modos, mas podemos considerar alguns
traços de distinção como:
 Os naturalistas buscam mostrar que a hereditariedade teria algum efeito
psicológico ou físico para determinar o comportamento de suas personagens;
 A personagem do Naturalismo está destinada a um fim que não se pode ir
UNIDADE
15
O Realismo e o Naturalismo são movimentos literários ocorridos nas últimas
décadas do século XIX no Brasil. Essa produção literária sofreu forte influência do seu
momento histórico, criticando e referindo sua época constantemente.
15.1 INTRODUÇÃO – REALISMO E NATURALISMO
De acordo com essas escolas literárias, o ser humano está submetido as leis
que regulam o mundo, assim o artista aceita essas regras e busca analisar e
conhecer sua situação com exatidão. O escritor realista-naturalista assume uma
postura cientificista diante da realidade que busca mostrar em sua produção
literária.
206
6
contra;
 Condicionamento do personagem ao meio social e natural;
 Ênfase nas necessidades naturais; Comportamento animalesco;
 Os enredos naturalistas buscam demonstrar situações de desequilibro social
graves e desigualdades sociais.
De forma geral, podemos sintetizar as distinções entre Realismo e Naturalismo
no seguinte quadro a seguir:
Quadro 1: Quadro comparativo entre o Realismo e o Naturalismo
Realismo Naturalismo
Investigações da sociedade e dos seus
indivíduos ocorrem de dentro para fora;
Investigações da sociedade e dos indivíduos
ocorrem de fora para dentro;
Ataque às instituições existentes na
relação entre o homem e a sociedade
burguesa;
Descrição das coletividades humanas e
mostrando os vícios, patologias e
anormalidades existentes. Compara o
homem com a situação animalesca;
Tratamento objetivo e imparcial dos
temas para possibilitar o leitor um espaço
interpretativo próprio.
Tratamento dos temas a partir de uma
perspectiva deterministas e direciona as
conclusões que o leitor chega.
Fonte: Elaborado pelo autor (2022)
O Realismo baseava em três princípios fundamentais que seria a objetividade,
racionalidade e imparcialidade. Ele propunha relatar e retratar o mundo em sua volta
15.1.1 Realismo x Romantismo: o aparecimento de um novo movimento 
noBrasil
O Romantismo e o Realismo foram as principais correntes literárias existentes no
século XIX. O Realismo foi uma oposição ao Romantismo em vários aspectos e
características.
fielmente (sociedade burguesa e seus valores) para podermos criticá-lo. Já o
Romantismo buscava uma ideia de liberdade para que ela fosse vista como
possibilidade de espairecer sentimentos, subjetividade e a fantasia. Não havia uma
crítica a realidade social existente, apenas a relatava.
Entre as oposições existentes dos dois movimentos literários podemos lista-las
no quadro abaixo:
Quadro 2: Quadro comparativo entre o Romantismo e o Realismo
Romantismo Realismo-Naturalismo
Subjetividade;
Imaginação;
Sentimento;
Verdade individual;
Fantasia;
Homem enquanto centro mundo;
Volta ao passado.
Objetividade;
Realidade;
Racionalidade;
Verdade universal;
Fatos sociais e naturais;
Homem enquanto parte do mundo;
Crítica ao momento vivido.
Fonte: Elaborado pelo autor (2022)
Em 1881, foram publicadas duas obras que marcam o início do Realismo e do
Naturalismo no Brasil que são O mulato de Aluísio de Azevedo e Memórias póstumas
de Brás Cubas de Machado de Assis. Esse movimento literário terminará nos primeiros
anos do século XX, com a publicações d’Os sertões de Euclides da Cunha que
marcaria o início do Pré-Modernismo no Brasil.
O momento histórico do Realismo no Brasil abrange o Segundo Reinado. Do
ponto de vista econômico, o Brasil mantinha seus latifúndios, mão de obra escrava e
voltava-se para a exportação de café.
Dessa forma, percebemos que as oligarquias rurais tinham um importante
papel econômico que se refletia politicamente e socialmente no Brasil. O país
começava a sofrer pressões internacionais buscando sua modernização econômica
rumo a industrialização e abolição da escravidão.
A partir dos anos de 1870 diversos fatores irão refletir na atmosfera histórica do
país como, por exemplo, aumento da mão de obra de imigrantes estrangeiros
(alemães, italianos, japoneses, árabes), fim do tráfico negreiro e o desenvolvimento
da indústria cafeeira no estado de São Paulo.
O Estado de São Paulo torna-se um importante ponto no país
economicamente devido a industrialização trazida com as plantações do café.
Devemos lembrar que para o escoamento do café precisou criar importantes linhas
férreas, como a Sorocabana, desenvolvimento dos portos e isso deu capital para o
início da industrialização da região.
Os cafeicultores dominavam a política paulistas e preocupavam-se com o
rumo político que o Brasil estava caminhando, por isso aliaram-se as Forças Armadas
do país e buscaram apoio aos ideais republicanos para a derrubada da Monarquia
e sua substituição pela República.
Em 1889, proclamou-se a República e com ela o sonho de modernização e
desenvolvimento do país que foi rapidamente frustrado devido a política adotada
nos primeiros anos do novo regime que ficou conhecido como República Velha e era
dominava pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Essa política levou o nome
de Política do Café com Leite.
Com a implantação da República, o Brasil vivia um antagonismo ideais
considerados modernos pairavam sobre a atmosfera intelectual do país, mas
estruturalmente a nação mantinha atrasada.
De origens humildes e mestiço, Machado de Assis tornou-se órfão muito cedo.
Desde a juventude alcançou alta posição no funcionalismo público e possuía
considerável posição social na época.
Tornou-se tipógrafo e revisor na Imprensa Nacional e, em 1858, tornou-se
revisor e colaborador do Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiuva
ingressou no jornal Diário do Rio de Janeiro. Tornou-se um escritor regular da revista
15.1.2 Machado de Assis
Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Rio de Janeiro durante o período do
Segundo Reinado Brasileiro. Ele era jornalista, cronista, contista, teatrólogo,
romancistas e foi funcionário público. Ele foi um dos fundadores e presidente por
mais de dez anos da Academia Brasileira de Letras. Foi o membro de cadeira n. 23
durante sua participação.
O Espelho onde publicava crítica teatral e nos jornais Semana Ilustrada e o Jornal
das Famílias começou a publicar seus contos.
Em 1862, tornou-se censor teatral, cargo que não era remunerado, mas
permitia acesso livre aos teatros cariocas. Em 1867, tornou-se ajudante do diretor do
Diário Oficial. Seu primeiro livro de poesia saiu em 1864 chamado Crisálidas.
Seu primeiro romance publicado saiu em 1872 com o nome Ressureição. No
seguinte ano, foi nomeado como oficial da Secretaria de Estado do Ministério da
Agricultura, Comércio e Obras Públicas, a partir dai teve início sua carreira de
burocrata que era seu principal rendimento até o final da vida.
Na década de 1870 publicou em diversos jornais como O Globo, O Cruzeiro,
A Estação, Revista Brasileira diversos de seus textos como contos, crônicas, poesias e
romances nas formas de folhetins que posteriormente viraram livros. Entre os anos de
1881 a 1897, tornou-se o principal escritor do jornal Gazeta de Notícias.
Considerado marco inaugural do Realismo no Brasil, 1881, Memórias Póstumas
de Brás Cubas conta a história de Brás-Cubas, que seria um morto narrando a própria
vida. Brás Cubas na obra é um narrador-personagem. Logo nas primeiras páginas
descobrimos que o livro é narrado por um morto devido sua dedicatória “Ao verme
que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosas lembranças
essas memórias póstumas” (ASSIS, Machado de. 1999).
Pelo livro ser narrado por Brás Cubas, um defunto autor, é dado a impressão
ao leitor que seria um relato caracterizado pela isenção e imparcialidade, pois seria
um indivíduo que não tem mais a necessidade de mentir, visto que já está morto.
Entretanto, isso é uma das táticas de escrita desenvolvida por Machado de Assis ao
longo da obra.
Machado de Assis, ao escolher um morto como narrador, cria uma situação
fantástica, e que mesmo estando morto procuraria mais aparecer e se mostrar do
Em 1881, publicava a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas que ficou
conhecido como marco inaugural do Realismo no Brasil.
que demonstrar quem realmente foi. Assim, seu narrador mente, ilude e destorce
todos os fatos escondendo suas próprias misérias pessoais para dar-lhe um tom de
superioridade. Percebemos nessa característica um conteúdo próprio dentro do
Realismo tradicional, Machado de Assis inaugurava um Realismo peculiar.
Devemos na leitura dessa obra desconfiar de tudo que o narrador nos
apresenta. Assim, devemos colocar em dúvida a veracidade do que nos é narrado.
A ironia é uma das principais características machadianas e permeia toda essa obra.
Na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas percebemos em relação a sua forma,
que o mito da neutralidade do narrador é colocado em questão perante o que está
sendonarrado. A obra escancara uma parcialidade implícita no ato de contar um
enredo.
Em síntese, a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas nega a estrutura
tradicional da literatura realista e questionava os modelos europeus que era
importado para o Brasil. Percebemos ironias a respeito das doutrinas positivistas e
deterministas que pairavam nas ciências no final do século XIX. Memórias Póstumas
de Brás Cubas é um texto de tempo não linear. Umas das características que irão
aparecer posteriormente no Modernismo Brasileiro.
Figura 12: Aluísio Azevedo
Fonte: Escola Educação
Disponível em: https://bit.ly/3pCoWAo. Acesso em: 20 dez. 2021
Aluísio Azevedo (1857-1913) considerado um dos principais representantes do
Realismo e do Naturalismo no Brasil, juntamente com Machado de Assis. Produziu
diversas obras dos mais variados gêneros, mas as principais foram O mulato e O
cortiço.
15.1.3 Aluísio Azevedo e Raul Pompéia
Em sua obra O mulato, o autor tratava sobre os preconceitos raciais existentes
no Brasil da segunda metade do século XIX. Sua narratividade constrói a perspectiva
naturalista que era até então inédita no país.
Sua obra extremamente importante e conhecida foi O cortiço. Essa obra
busca retratar as condições de vida das diferentes camadas sociais existentes no Rio
de Janeiro no século XIX.
Considerado um romance tese, pois buscava comprovar alguma teoria
Naturalista, a obra O cortiço buscou comprovar que o homem era produto do meio,
da raça e do seu momento histórico. Dessa forma, os personagens são conhecidos
como personagens tipo pois representam algo, ou seja, são uma alegoria de alguma
coisa ou teoria científica.
Nessa obra, o narrador é considerado onisciente, pois conhece tudo que está
acontecendo no enredo da narrativa. É interessante lembrarmos que o personagem
principal da obra, acaba sendo o cortiço. Nele percebemos que todos os
personagens que chegam no cortiço acabam mudando devido seu entorno. O
cortiço apresenta características humanizadas, já as personagens humanas são
animalizadas. Como podemos perceber no trecho a seguir:
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete
horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente,
dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de
saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o
ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas
pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de
acumulações de espumas secas. (AZEVEDO, Aluísio. 1997)
Vale assinalar que os personagens humanos na obra são representados de
forma animalescas em seu cotidiano no cortiço, como mostra a citação seguinte:
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma
aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que
escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As
mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as
molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que
elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os
homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao
contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam
com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as
palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir
e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se
demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as
saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-
se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no
recanto das hortas. (AZEVEDO, Aluísio. 1997)
Outro importante autor deste momento é Raul Pompéia (1863-1895). Ele foi um
dos principais autores do Realismo Brasileiro. Atuou como advogado, jornalista e em
várias artes (música, teatro e desenho). Sua principal obra é O ateneu.
O ateneu é uma obra que mistura componentes memorialísticos do autor. Na
sua juventude ele foi aluno do Colégio Abílio, cujo diretor era uma figura prepotente
e extremamente severa. Era um colégio frequentado por altas camadas sociais
cariocas e ele buscou criticar o sistema educativo da escola, mostrando os
desmazelos que aconteciam em seus bastidores. Como podemos perceber no
trecho a seguir:
Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.
Coragem para a luta." Bastante experimentei depois a verdade deste
aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada
exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor
doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que
parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com
a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude
do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência
de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade
hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob
outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de
longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. (POMPÉIA, Raul.
1998.)
Além de Aluísio Azevedo e Raul Pompéia, tivemos importantes autores de
ficção regionalista nesse momento literário. No qual citamos Domingos Olímpio,
Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Manuel de Oliveira Paiva e Simões Lopes Neto.
Surgido na França, na década de 1870, o Parnasianismo apareceu com a
publicação da antologia Le Parnasse Contemporain – recueil de vers nouveaux (O
Parnaso Contemporâneo: recolha de versos novos) onde diversos poetas
colaboraram como Théophile Gautier, Théodore de Banville, Leconte de Lisle que se
tornariam modelos para a nova estética que estava surgindo.
trabalhos.
Os principais poetas parnasianos brasileiros foram Alberto de Oliveira,
Raimundo Correia e Olavo Bilac que ficaram conhecidos como tríade parnasiana
ou trindade parnasiana.
O Parnasianismo tem sua produção voltada exclusivamente para a poesia,
sendo contemporâneo ao Realismo e Naturalismo, fazia parte como corrente dessas
tendências. Os parnasianos eram adeptos da “arte pela arte”, havia extremo valor
nos aspectos formais dos seus poemas, seguiam estritamente os padrões métricos e
estróficos.
Os parnasianos buscavam impassibilidade, que seria obtida apenas por uma
rigorosa contenção do lirismo. A poesia tornou-se nesse movimento literário
extremamente descritiva e apresentavam imagens verbais de paisagens, cenas
mitológicas, personagens e objetos.
Os parnasianos viam a literatura como um trabalho técnico, assim eram
extremamente comprometidos pela busca da perfeição literária e mostrava que a
literatura era um trabalho de linguagem. Uma característica que posteriormente foi
explorada massivamente pelos modernistas no século XX.
O Parnasianismo é extremamente formal em sua poesia, havendo uma
desvalorização do assunto tratado e valorizava-se mais a técnica de construção do
poema. Dessa forma, a prática literária do parnasianismo era concentrada na
produção poética e buscava-se uma alienação da vida, um refúgio ao mundo da
poesia, tornando-se um movimento extremamente elitistas, fechada em seus
15.2 PARNASIANISMO
Parnaso é originalmente o nome de um monte da Grécia. Esse lugar era
dedicado pelos gregos antigos para as Musas e Apolo, de acordo com a mitologia.
No caso do Brasil, o Parnasianismo veio a combater as correntes estéticas pelo
seu ultrarromantismo. Sendo um dos seus principais poetas Artur de Oliveira (1851-
1882) que na França conheceu os parnasianos e no Brasil buscou divulgar seus
domínios estéticos e academicista.
No Brasil, o Parnasianismo apareceu em um momento de consolidação de
nossa literatura. Nessa época, diversos intelectuais buscavam fortalecero papel do
escritor e espalhar ideais modernos para o restante do país.
As características do Parnasianismo foram:
 Objetividade em contraste a sentimentalidade;
 Distanciamento de problemas políticos, religiosos e sociais;
 Gosto pelo exótico e pelas coisas. Podemos observar no poema a seguir essas
características:
Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia
(OLIVEIRA, Alberto de., 1978. p. 144.)
 Visão de amor mais carnal e menos espiritualizada. Como nos versos
seguintes:
Sombras errantes, corpos nus ardentes
Carnes lascivas... um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes...
(BILAC, Olavo. Via Lactea, XVII)
 Universalismo;
 Inspiração na Antiguidade Greco-Romana para a escolha de temas. Como
por exemplo o tema de Incêndio de Roma nos versos seguintes:
Nero, com o manto grego ordeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.
(BILAC, Olavo. Incêndio em Roma)
 Ordem indireta. Como nos seguintes versos:
15.2.1 Características do Parnasianismo em terras brasileiras
Como era uma literatura extremamente academicista e voltada para a
formalidade, o parnasianismo ocupava o espaço de “literatura oficial”.
Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver
(CORREIA, Raimundo., 1948. 2 v)
 Emprego de vocábulo raro e incomum:
Lunárias flores, ao feral lume
-Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez.
(CORREIA, Raimundo., 1948. 2 v)
 A busca pela perfeição das rimas que deveria acontecer em todos os versos
do poema:
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...
(BILAC, Olavo. 1964)
 Formas fixas de composição, como o soneto;
 Predomínio de descrições detalhadas.
Diferentes dos parnasianos franceses, no Brasil diferenciavam-se em dois
aspectos: não se apegaram tanto ao objetivismo e aproveitaram em seu poemas
assuntos e paisagens naturais do país.
Sua primeira publicação foi em 1888 chamada de Poesias. E nela aparenta
que o poeta estava identificado com as propostas do Parnasianismo. Seus poemas,
principalmente os sonetos, apresentavam uma boa estruturação formal. Sobre sua
15.2.2 Olavo Bilac
Olavo Bilac (1865-1918) era carioca, estudou Medicina e Direito, mas não
terminou esses cursos. Exerceu atividades como jornalistas e inspetor escolar, tendo
como principal foco dos seus trabalhos escritos relacionados a educação. Foi o
autor do Hino à Bandeira e muitos temas de caráter histórico e nacionalistas
aparecem na sua poesia.
capacidade técnica podemos analisar o poema a seguir para observá-las:
Figura 13: Olavo Bilac
Fonte: Brasil Escola
Disponível em: https://bit.ly/3HJPQfU. Acesso em: 20 dez. 2021
Vila Rica
O ouro fulvo do acaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre;
E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre
O último ouro do sol morre na cerração
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre;
O crepúsculo cai como uma extrema unção.
Agora, para além do cerro, o céu aparece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,
Como uma procissão especial que se move
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove
(CANDIDO, Antonio, 1968, p. 210)
Percebe-se nesse poema o uso de várias figuras de linguagem (metáfora,
metonímia, personificação, comparação) e o poema é rico em contrastes sonoros
e rítmicos. Além de várias oposições existentes ao longo do texto como passado e
presente, riqueza e pobreza, dia e noite, presente humilde e passado glorioso.
Na última estrofe do poema, no soluçar de Dirceu, percebemos a repetição
do fonema /s/, fazendo lembrar a possibilidade de um choro ou lamento. O nome
Dirceu faz lembrar as personagens Marilia e Dirceu. Assim, percebemos que é um
poema extremamente rico em conteúdo histórico e de qualidades literárias.
cultural e espiritual e refletiria na vida de seus indivíduos.
O movimento decadentista buscava o repúdio ao mundo burguês e a
transformação de uma realidade mais ampla e abrangente do que aquelas ditadas
pelas ciências e o Positivismo. A partir disso, a palavra Simbolismo ganhou força, o
símbolo seria a forma de traduzir na literatura esse mundo que estavam procurando.
A burguesia encontrava-se em rápida expansão na segunda metade do
século XIX em termos sociais, políticos e econômicos. Entretanto, esse progresso
acabou se desgastando com as disputas coloniais de final de século que eclodiram
posteriormente na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
No leste europeu, especificamente na Rússia, tentou-se a construção de uma
nova sociedade através da Revolução Russa que teve um viés socialista, que
destoava do modelo de sociedade burguesa pregado até então.
As teorias racionalistas que ganharam força ao longo de XIX, começaram a
entrar em decadência com o surgimento de novas filosofias e teorias de importantes
pensadores como a física relativista de Einstein, a psicanálise de Freud ou as teorias
filosóficas de Nietzsche e Schopenhauer.
Dessa forma, percebemos que o Simbolismo surgiu das grandes crises de
valores racionalistas da sociedade burguesa em finais de XIX e início da centúria
seguinte. Este estilo colocava em dúvida importantes filosofias e teorias de finais de
século como o Positivismo e o Determinismo.
15.3 SIMBOLISMO
O Simbolismo apareceu na França, assim como o Parnasianismo. A
publicação de As flores do mal de Charles Baudelaire, em 1857, é considerado um
dos precursores dessa nova escola literária. É importante chamarmos atenção que
a influência de Baudelaire não ocorreu apenas no Simbolismo, pois os próprios
Parnasianos beberam da sua poesia enquanto inspiração. Assim, podemos
considerar Baudelaire como matriz de toda a poesia moderna que estava surgindo.
Em 1886, surge na imprensa francesa o Manifesto decadentista e o Manifesto
simbolista, que procurava especificar o que seria a nova estética literária.
Decadismo ou Decadentismo foi o nome dado ao movimento dos primeiros poetas
contrários as tendências do Realismo, Naturalismo e do Parnasianismo. Esse nome
trazia o significado que orientava o novo movimento literário: a civilização burguesa
chegou a tal ponto que não lhe restava mais nada além da decadência moral,
O Simbolismo foi o responsável pela criação de novas propostas estéticas
precursoras da chamada arte moderna.
No Brasil, o Simbolismo foi contemporâneo do Parnasianismo, existiram
concomitantemente. Em 1891, houve a formação dos primeiros grupos de simbolistas
em torno do jornal carioca Folha Popular que passaria a publicar textos de Cruz e
Sousa.
Em 1893, a publicação do livro Missal e de Broquéis de Cruz e Sousa,
marcaram a implantação do Simbolismo na literatura nacional. Foi uma literatura
fortemente combatida pelos parnasianos, que desfrutavam de grandes prestígios
sociais e de receptividade. Os simbolistas acabaram desenvolvendo um trabalho
marginal e agrupados em revistas de vida efêmera.
A falta de visibilidade do Simbolismo no Brasil deve-se a ênfase ao primitivo e
a ao inconsciente presentes nessa poesia, tendo um caráter fortemente intimista e
não respondiam as questões nacionais de sua época. Desta forma, o Simbolismo e
o Parnasianismo caminharam lado a lado na última década do século XIX no Brasil.
Figura 14: Cruz e Souza
Fonte: Wikipedia
Disponível em: https://bit.ly/3KkuqYy Acesso em: 20 dez. 2021
Cruz e Souza (1861-1898) era natural de Florianópolis, Santa Catarina. Era filho
de escravos e foi amparado por uma família burguesa da região que o ajudou a
completar seusestudos. Com a morte de seu protetor dessa família, abandonou os
estudou e começou a trabalhar na imprensa local, escrevia crônicas abolicionistas
e participava de campanhas a favor da causa dos negros do Brasil.
Em 1890, mudou-se para o Rio de Janeiro onde manteve diversos empregos
para conseguir sobreviver.
Na obra poética de Cruz e Sousa, percebemos algumas heranças do
Romantismo em certos aspectos como, por exemplo, a valorização da noite,
pessimismo, a morte e o satanismo:
Ó meu Amor, que já morreste,
Ó meu Amor, que morta estás!
Lá essa cova a que desceste
Ó meu Amor, que já morreste,
Ah! Nunca mais florescerás?
Ao teu esquálido esqueleto,
Que tinha outrora de uma flor
A graça e o encanto do amuleto
Ao teu esquálido esqueleto
Não voltará novo esplendor?
(SOUZA, Cruz e., s.d., p. 57.)
Entretanto, percebemos na escrita de Cruz e Sousa certa preocupação com
15.3.1 Cruz e Souza
a forma do poema como, por exemplo, a opção pelos sonetos, o verbalismo
requintado, a força das imagens e a inclinação para uma poesia filosófica.
Em sua escrita, percebemos a consciência e as dificuldades de ser negro no
Brasil. Essa dor existencial notamos nos seguintes versos:
Ah! Toda a alma num cárcere anda presa
Soluçando nas trevas entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da dor do calabouço atroz, funéreo!
(SOUZA, Cruz e., s.d., p. 94.)
Esse drama da existência presente na escrita de Cruz e Sousa é devido aa
influência do pessimismo filosófico de Schopenhauer que marcou as décadas finais
do século XIX. Além disso, a vontade de fugir do mundo real é claramente
perceptível pelo seu drama pessoal que o autor vivia, não apenas as mazelas
desencadeadas pelo capitalismo em XIX.
Entre as características de Cruz e Sousa que podemos assinalar estão:
 As sinestesias;
 A sonoridades das palavras;
 Predominância de substantivos;
 Emprego de maiúsculas para dar outro valor a certos termos;
 Imagens surpreendentes.
Entre seus temas abordados podemos listas os seguintes:
 Transcendência espiritual;
 Mistério;
 Sagrado;
 Conflito entre o mundo material e espiritual;
 A morte;
 Sublimação sexual;
 Angústia;
 Obsessão pela cor branca e brilhos.
Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) era natural de Ouro Preto, Minas Gerais.
Estudou direito em São Paulo e viveu por muito tempo em Mariana, cidade próxima
de Ouro Preto. A temática da sua poesia está voltada para a morte da mulher
amada. Aparecem outros temas como natureza, arte e religião, mas como
secundários desse primeiro. A escolha por essa temática deve-se a morte de sua
prima Constança com 17 anos, a quem o poeta amava.
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar, mas que suplica.
Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica…
Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas…
Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas…
(GUIMARAENS, Alphonsus. 1973)
Em sua poesia percebemos uma uniformidade e equilíbrio devido a repetição
de temas e formas.
15.3.2 Alphonsus de Guimaraens
Percebemos na escrita da sua poesia, a atmosfera litúrgica e referências ao
corpo morto, sepultamento e cores relacionadas a velório. Como, por exemplo, nos
versos seguintes:
FIXANDO O CONTEÚDO
1. (UFMS) Leia o trecho a seguir do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis,
escritor do realismo brasileiro.
“Natividade e Perpétua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o Morro do
Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes
tão estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira
mortificavam os pés às duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se
fosse penitência, devagarinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo
movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados,
algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que
aliás vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se não perde, e não era
vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras
pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um
sargento: ‘Você quer ver que elas vão à cabocla?’ E ambos pararam a distância,
tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a
necessidade humana”
(ASSIS, Machado, 1904, p. 1 e 2).
Com base no trecho lido, assinale a alternativa que contém uma característica
do movimento realista.
a) A maior subjetividade possível, exaltando aspectos pessoais e sentimentais das
personagens, em um cenário muitas vezes caótico.
b) Crítica social, com ênfase no estilo de vida burguês que enaltece os hábitos de
vida da aristocracia, que vive a vida ao seu máximo.
c) Objetividade, com grande ênfase nos aspectos científicos e positivistas, que
analisam e destrincham o comportamento humano.
d) Objetividade e crítica social, rejeitando o estilo de vida burguês ao centralizar
personagens populares em seus espaços, hábitos e pensamentos.
e) Enfoque nas mudanças sociais, criticando o avanço das máquinas e as alterações
no tempo, no estilo de vida e no trabalho.
2. (PREFEITURA DE LUTÉCIA – SP) Alguns dos principais escritores realistas brasileiros
foram: Assinale a alternativa INCORRETA.
a) Machado de Assis.
b) Raul d'Ávila Pompeia.
c) Cesário Verde.
d) Nenhuma das alternativas.
e) Todas as alternativas
3. (PREFEITURA DE PIRATUBA – SC) Foi considerado o primeiro romance realista da
literatura brasileira
a) O mulato- Aluízio Azevedo.
b) Memórias Póstumas de Brás Cubas- Machado de Assis.
c) A Moreninha - Joaquim Manuel de Macedo.
d) Casamento - José de Alencar.
e) Nenhuma das alternativas
4. (PREFEITURA DE SANTANA DO LIVRAMENTO – RS) “Dá-me uma comparação exata
e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode
imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e
me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.” Sabendo que o trecho, acima,
refere-se à obra literária Dom Casmurro e seu autor é Machado de Assis o mesmo
pertence a qual período literário?
a) Realismo.
b) Barroco.
c) Pré- modernismo.
d) Romantismo.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.
5. (ESA) Interesse pelas zonas profundas da mente e pela loucura; desejo de
transcendência e integração cósmica; linguagem vaga, fluida que busca sugerir
em vez de nomear. Essas são características que identificam as obras de autores
a) Naturalistas.
b) Parnasianistas.
c) Simbolistas.
d) Quinhentistas.
e) Realistas.
6. (VPNE) No Brasil, o Simbolismo surge num período marcado por conflitos políticos
e sociais. O país encontra-se em plena transição do regime escravocrata para o
assalariado. A virada do século traz expectativas por um "novo mundo", mas
ainda são muitas as frustrações e angústias de um país em que não se atingiu a
consolidação dos ideais republicanos.
São autores do simbolismo:
a) Cruz e Sousa - Alphonsus de Guimaraens - Eugênio de Castro.
b) Raimundo Corrêa - Olavo Bilac - Eugênio de Castro.
c) Aluísio de Azevedo - Cruz e Sousa - Euclides da Cunha.
d) Cláudio Manuel da Costa - Olavo Bilac - Cruz e Sousa.
e) José de Alencar - Augusto dos Anjos - Cruz e Sousa.
7. (UFMA) Sobre o Parnasianismo e o Simbolismo, na Literatura Brasileira, é correto
afirmar que:
a) Os estilos são absolutamente distintos quanto à técnica da versificação.
b) Os dois estilos se aproximam pelas preferências temáticas.
c) À metafísica do primeiro, juntou-se o realismo do segundo.
d) Os dois estilos se aproximam quanto

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