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<p>TEORIA GERAL DOS CONTRATOS</p><p>3a EDIÇÃO/2023</p><p>1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS 3</p><p>1.1. CONTRATO BILATERAL x PLURILATERAL 4</p><p>1.2. A TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES. DIÁLOGOS ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E O</p><p>CÓDIGO CIVIL DE 2002 EM RELAÇÃO AOS CONTRATOS 5</p><p>1.3 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DOS CONTRATOS. A ESCADA PONTEANA 5</p><p>2. REQUISITOS DE VALIDADE DOS CONTRATOS 6</p><p>2.1. REQUISITOS SUBJETIVOS 6</p><p>2.1.1. CAPACIDADE 7</p><p>2.1.2. MANIFESTAÇÃO DE VONTADE 7</p><p>2.1.3. PLURALIDADE DE PARTES 7</p><p>2.1.4. CONSENTIMENTO 7</p><p>2.2. REQUISITOS OBJETIVOS 8</p><p>2.2.1. POSSIBILIDADE FÍSICA OU JURÍDICA DO OBJETO 8</p><p>2.2.2. DETERMINAÇÃO DO SEU OBJETO 8</p><p>2.2.3. ECONOMICIDADE 8</p><p>2.3. REQUISITO FORMAL 8</p><p>3. PRINCÍPIOS INFORMADORES DO CONTRATO 9</p><p>3.1. PRINCÍPIOS CONTRATUAIS CLÁSSICOS 9</p><p>3.1.1. PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE OU DO CONSENSUALISMO 9</p><p>3.1.2. PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE OU PACTA SUNT SERVANDA 11</p><p>3.1.2.1. TEORIA DA IMPREVISÃO 12</p><p>3.1.3. PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DOS EFEITOS OU RES INTER ALIOS ACTA 15</p><p>3.1.3.1 EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DOS EFEITOS OU RES INTER ALIOS ACTA 15</p><p>3.2. PRINCÍPIOS CONTRATUAIS MODERNOS OU SOCIAIS 17</p><p>3.2.1. FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO OU TEORIA PRECEPTIVA 18</p><p>3.2.1.1. ENUNCIADOS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO 19</p><p>3.2.2. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ E PROBIDADE 19</p><p>3.2.2.1. BOA-FÉ SUBJETIVA 20</p><p>3.2.2.2. BOA-FÉ OBJETIVA 21</p><p>3.2.2.2.1. VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIVM (NO POTEST) 22</p><p>3.2.2.2.2. TU QUOQUE 23</p><p>3.2.2.2.3. SUPRESSIO/VERWIRKUNG 23</p><p>3.2.2.2.4. EXCEPTIO DOLI 24</p><p>3.2.2.2.5. DUTY TO MITIGATE THE LOSS 25</p><p>3.2.2.2.6. NACHFRIST 25</p><p>3.2.2.2.7. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL 25</p><p>3.3. RESUMO ESQUEMÁTICO 27</p><p>4. FORMAÇÃO DOS CONTRATOS 27</p><p>4.1. NEGOCIAÇÕES PRELIMINARES - Arts. 427 a 435, CC 27</p><p>4.2. PROPOSTA 28</p><p>4.3. CONTRATO PRELIMINAR - Arts. 462 a 466, CC 29</p><p>1</p><p>4.4. ACEITAÇÃO 30</p><p>4.5. LOCAL DO CONTRATO 31</p><p>4.6. MOMENTO DA FORMAÇÃO DO CONTRATO 32</p><p>4.6.1. TEORIAS DA FORMAÇÃO DO CONTRATO 32</p><p>5. CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS 33</p><p>5.1. QUANTO ÀS PARTES OBRIGADAS 33</p><p>5.2. QUANTO À REGULAMENTAÇÃO DO CONTRATO 34</p><p>5.3. QUANTO À ASSUNÇÃO DE RISCOS - Arts. 458 a 461, CC 34</p><p>5.4. QUANTO À SUA DEFINITIVIDADE 36</p><p>5.5. QUANTO À FORMAÇÃO 36</p><p>5.6. QUANTO AO MOMENTO DE SUA EXECUÇÃO 37</p><p>5.7. QUANTO À FORMA 37</p><p>6. GARANTIAS LEGAIS DO ADQUIRENTE 38</p><p>6.1. VÍCIOS REDIBITÓRIOS - Arts. 441 a 446, CC 38</p><p>6.1.1. REQUISITOS PARA QUE SE POSSA RECLAMAR A GARANTIA DOS VÍCIOS REDIBITÓRIOS 39</p><p>6.1.2. AÇÕES QUE CABEM AO ADQUIRENTE 39</p><p>6.1.2.1.PRAZO DAS AÇÕES 39</p><p>6.2. EVICÇÃO - Arts. 447 a 457, CC 40</p><p>7. REGIME JURÍDICO DO CONTRATO POR ADESÃO - Arts. 423 a 424, CC 42</p><p>8. EXTINÇÃO DO CONTRATO 43</p><p>8.1. TERMINOLOGIAS JURÍDICAS PARA A EXTINÇÃO DOS CONTRATOS 44</p><p>8.2. FORMAS BÁSICAS DE EXTINÇÃO DOS CONTRATOS 45</p><p>8.3. ENUNCIADOS E JURISPRUDÊNCIAS SOBRE EXTINÇÃO DO CONTRATO 46</p><p>9. TEORIA DA BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO JURÍDICO 46</p><p>10. JURISPRUDÊNCIAS SOBRE TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 48</p><p>2</p><p>1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS</p><p>Contratos são negócios jurídicos que criam, modificam ou extinguem relações convencionais</p><p>dinâmicas, de caráter patrimonial, entre duas ou mais pessoas (bilateral ou plurilateral). Como tem caráter</p><p>patrimonial, a relação deve ser suscetível de mensuração em dinheiro.</p><p>Pablo Stolze (2022, NP) entende que o contato é um negócio jurídico bilateral, por meio do qual as</p><p>partes, visando atingir determinados interesses patrimoniais, convergem as suas vontades, criando um dever</p><p>jurídico principal (dar, fazer ou não fazer), e, bem assim, deveres jurídicos anexos, decorrentes da boa-fé</p><p>objetiva e do superior princípio da função social.</p><p>Em consonância, para Rubem Valente1: “Contrato é o negócio jurídico bilateral, formado pela</p><p>convergência de duas ou mais vontades para criar, modificar ou extinguir relações jurídicas de natureza</p><p>patrimonial. Caracteriza-se como um negócio jurídico porque é uma atuação humana na qual as próprias partes</p><p>escolhem os efeitos que serão produzidos ao praticarem o ato. Essa convergência de vontades pode objetivar</p><p>criar nova relação, extinguir ou estabelecer critérios para uma relação já existente. Apesar de se basear na</p><p>vontade livre das partes, deve respeitar alguns princípios, conforme se verá a seguir.”</p><p>A doutrina majoritária entende que o conteúdo patrimonial é essencial à existência do contrato, ou</p><p>seja, se não houver conteúdo patrimonial, não é contrato. O Código Civil seguiu, neste ponto, o Código Civil</p><p>italiano de 1942, que expressamente afirma que o contrato exige conteúdo patrimonial.</p><p>O art. 736 do Código Civil é apontado, pela doutrina, como fundamento do conteúdo patrimonial dos</p><p>contratos porque dispõe que a carona não é considerada contrato.</p><p>Art. 736. Não se subordina às normas do contrato de transporte o feito gratuitamente, por amizade ou</p><p>cortesia.</p><p>Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito sem remuneração, o</p><p>transportador auferir vantagens indiretas.</p><p>Em sentido minoritário, alguns autores, como o professor Álvaro Vilaça, afirmam que o contrato não</p><p>precisa ter natureza patrimonial e exemplifica com o casamento.</p><p>O direito romano, até o período clássico, somente conhecia contratos tipificados, os quais eram</p><p>identificados por seu “nomen iuris”. Qualquer acordo que não fosse tipificado não era considerado contrato e,</p><p>portanto, não obrigava as partes. A estes acordos, que não tinham força obrigatória, se dava o nome de “pacto”.</p><p>Com a evolução do Direito e a consequente mitigação do formalismo, os pactos também passaram a</p><p>ser obrigatórios, daí a expressão “pacta sunt servanda”, que significa que os pactos são obrigatórios.</p><p>A partir de então, a distinção entre contrato e pacto perde sentido. O direito moderno reconhece que</p><p>as partes são livres para estabelecerem contratos sem qualquer previsão legal, são chamados de</p><p>1 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>3</p><p>contratos atípicos.</p><p>Nos termos do art. 425 do CC:</p><p>Art. 425. É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código.</p><p>🚩 NÃO CONFUNDA: CONTRATO TÍPICO ≠ CONTRATO NOMINADO</p><p>CONTRATO TÍPICO CONTRATO NOMINADO</p><p>É aquele que tem previsão legal, isto é, dispõe de</p><p>um regime jurídico próprio, por exemplo, compra e</p><p>venda, locação, doação etc. Contrato atípico, por sua</p><p>vez, é aquele que não tem regulamentação legal, a</p><p>exemplo do contrato de built to suit.</p><p>É aquele que dispõe de nome jurídico. Todo</p><p>contrato típico é nominado, no entanto existem</p><p>contratos que têm nome jurídico, mas são atípicos,</p><p>ou seja, embora tenham nome, não dispõem de</p><p>regulamentação legal.</p><p>1.1. CONTRATO BILATERAL x PLURILATERAL</p><p>Todo contrato é negócio jurídico no mínimo bilateral, pois somente existe a partir da manifestação de</p><p>vontade de, pelo menos, duas pessoas. Portanto, todo contrato tem a sua EXISTÊNCIA dependente da</p><p>manifestação de vontade de mais de uma pessoa.</p><p>Recorde-se que o negócio jurídico pode ser unilateral ou bilateral quanto à sua formação. Como</p><p>exemplo de negócio jurídico unilateral, pode-se citar o testamento. Do outro, como negócio jurídico bilateral</p><p>pode-se citar os contratos.</p><p>Quanto à OBRIGAÇÃO, os contratos podem ser unilaterais ou bilaterais. Percebam, portanto, que</p><p>quanto à existência são sempre bilaterais, mas quanto à obrigação podem ser unilaterais.</p><p>O jurista italiano Túlio Ascarelli desenvolveu esta noção partindo da distinção entre contratos que ele</p><p>chama de “contratos de escambo” e os “contratos de associação”. Nos contratos de escambo (ou de troca),</p><p>as partes têm vontades divergentes, já nos contratos de associação as partes têm vontades convergentes.</p><p>Os contratos de troca são sempre bilaterais, pois a palavra “lado” significa “polo de interesse”. Assim,</p><p>numa compra e venda há apenas o lado vendedor e o lado comprador, pouco importando que sejam muitos os</p><p>vendedores e muitos os compradores.</p><p>Já nos contratos associativos, existe uma identificação entre “lado” e sujeito de direito, pois cada lado</p><p>representa um polo de interesse. São exemplos desses contratos:</p><p>ainda que se exija, para este último, a celebração por escritura pública.</p><p>O Código Civil dispõe que o contrato preliminar deverá ser levado a registro.</p><p>A doutrina majoritária e a jurisprudência entendem que o registro serve apenas para conferir</p><p>oponibilidade do contrato perante terceiros, ou seja, havendo registro, os terceiros não poderão alegar</p><p>ignorância acerca da existência do contrato preliminar.</p><p>No entanto, para que o contrato preliminar possa produzir efeitos entre as partes não é necessário</p><p>registro.</p><p>Não é uma fase obrigatória, podendo ser dispensável. Segundo Flávio Tartuce (2022, NP), basicamente</p><p>são dois tipos de contrato preliminar previstos no direito brasileiro:</p><p>● COMPROMISSO UNILATERAL DE CONTRATO OU CONTRATO DE OPÇÃO: Situação a qual duas partes</p><p>assinam um instrumento, mas somente uma das partes assume um dever, uma obrigação de fazer o</p><p>contrato definitivo. Assim, existe para o outro contratante apenas uma opção de celebrar o contrato</p><p>definitivo.</p><p>Art. 466. Se a promessa de contrato for unilateral, o credor, sob pena de ficar a mesma sem efeito, deverá</p><p>manifestar-se no prazo nela previsto, ou, inexistindo este, no que lhe for razoavelmente assinado pelo</p><p>devedor.</p><p>● COMPROMISSO BILATERAL DE CONTATO: As duas partes assinam o instrumento e, ao mesmo tempo,</p><p>assumem a obrigação de celebrar contrato definitivo. Para gerar os efeitos constantes no Código Civil,</p><p>no contrato preliminar não poderá constar cláusula de arrependimento, conforme consta no art. 463,</p><p>CC.</p><p>Art. 463. Concluído o contrato preliminar, com observância do disposto no artigo antecedente, e desde que</p><p>dele não conste cláusula de arrependimento, qualquer das partes terá o direito de exigir a celebração do</p><p>definitivo, assinando prazo à outra para que o efetive.</p><p>4.4. ACEITAÇÃO</p><p>É negócio jurídico pelo qual o oblato manifesta sua concordância com os termos da proposta.</p><p>A aceitação pode ser expressa - decorre de declaração do aceitante, manifestando a sua anuência - e</p><p>tácita - decorre de sua conduta, reveladora do consentimento.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>A declaração de aceitação fora do prazo, com adição, restrição ou modificações não é aceitação, mas</p><p>sim nova proposta.</p><p>30</p><p>📌 OBSERVAÇÕES</p><p>■ Se a aceitação, por circunstância imprevista, chegar tarde ao conhecimento do proponente, este</p><p>informará o fato ao aceitante, sob pena de responder por perdas e danos.</p><p>■ Em alguns negócios, não é comum a aceitação expressa. Nesses casos, bem como nos casos em que</p><p>o proponente dispensar a aceitação expressa, caberá ao oblato recusar expressamente sob pena de o contrato</p><p>reputar-se CELEBRADO.</p><p>⚠ ATENÇÃO: Isso não vale para os contratos de consumo.</p><p>A aceitação pode ser expressa ou tácita, desde que inequívoca, devendo ocorrer dentro do prazo</p><p>estipulado na proposta. Caso ela ocorra entre presentes, considera-se o contrato celebrado nesse momento,</p><p>reputando-se aceita de imediato. Entretanto, se entre ausentes, considera-se formado na data em que o oblato</p><p>expede, envia a aceitação, de acordo com a TEORIA DA EXPEDIÇÃO adotada no art. 434 do CC/02.</p><p>Tal teoria, porém, comporta exceções, de acordo com o mesmo diploma:</p><p>● Se antes da aceitação ou junto dela chegar a retratação do proponente;</p><p>● Se o proponente tiver se comprometido em esperar a resposta;</p><p>● Se a resposta chegar fora do prazo.</p><p>4.5. LOCAL DO CONTRATO</p><p>Art. 435. Reputar-se-á celebrado o contrato no lugar em que foi proposto.</p><p>Saber o local em que o contrato se formou é importante para determinar quais regras serão</p><p>aplicadas.</p><p>O art. 113 do CC, por exemplo, dispõe que serão levadas em consideração, na interpretação, as regras</p><p>costumeiras do local da contratação (princípio da socialidade).</p><p>Tal regra, logicamente, admite convenção em contrário.</p><p>Entretanto, se os contratantes residirem em países diversos, o art. 9º, § 2º, da LINDB, estabelece</p><p>que a obrigação resulta concluída no lugar em que reside o proponente.</p><p>Segundo Flávio Tartuce30: “Segundo o art. 435 da atual codificação material, reputar-se-á celebrado o</p><p>contrato no lugar em que foi proposto. Eventualmente, e por uma questão lógica, caso haja contraproposta, o</p><p>local do contrato deve ser reputado onde essa última foi formulada.”</p><p>30 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>31</p><p>4.6. MOMENTO DA FORMAÇÃO DO CONTRATO</p><p>Quando ao momento da formação do contrato, este se reputa celebrado quando:</p><p>● Feito entre pessoas presentes: a proposta é integral e imediatamente aceita pelo oblato;</p><p>● Feito entre pessoas ausentes: o momento varia de acordo com a teoria adotada.</p><p>Segundo Rubem Valente31, “Contratos entre presentes e entre ausentes: é uma classificação que se</p><p>refere à formação do contrato. Pelos nomes, parece que depende se as partes estão ou não na presença física</p><p>um do outro. Não é bem assim, pois há tecnologias que fazem com que uma conversa entre pessoas distantes</p><p>seja como se estivessem fisicamente presentes, vez que a proposta e a aceitação se dão em tempo real. Entre</p><p>presentes (a proposta e a aceitação ocorrem em tempo real, mesmo que por telefone ou outro meio de</p><p>comunicação); e entre ausentes (a proposta e a aceitação não se dão em tempo real. Exemplo: carta e e-mail).”</p><p>4.6.1. TEORIAS DA FORMAÇÃO DO CONTRATO</p><p>● TEORIA DA COGNIÇÃO: para os adeptos dessa linha de pensamento, o contrato entre ausentes</p><p>somente se considera formado quando a resposta do aceitante chegar ao conhecimento do</p><p>proponente.</p><p>🔔 CRÍTICA: Não se sabe qual o exato momento em que o proponente tomou conhecimento da</p><p>aceitação, gerando grave insegurança jurídica.</p><p>● TEORIA DA AGNIÇÃO: é uma teoria objetiva, dispensa-se que a resposta chegue ao conhecimento do</p><p>proponente:</p><p>● SUBTEORIA DA DECLARAÇÃO PROPRIAMENTE DITA: o contrato se formaria no momento em</p><p>que o aceitante ou oblato redige ou datilografa a sua resposta. Peca por ser extremamente</p><p>insegura, dada a dificuldade em se precisar o instante da resposta.</p><p>● SUBTEORIA DA EXPEDIÇÃO: considera formado o contrato, no momento em que a resposta é</p><p>expedida. Como visto, é a regra adotada no Código Civil.</p><p>● SUBTEORIA DA RECEPÇÃO: reputa celebrado o negócio no instante em que o proponente</p><p>recebe a resposta. Dispensa, como vimos, que a leia. Trata-se de uma sub-teoria mais segura</p><p>do que as demais, pois a sua comprovação é menos dificultosa, podendo ser provada, por</p><p>exemplo, por meio do A.R. (aviso de recebimento) nas correspondências.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>O Código Civil adotou a Teoria da Agnição na subteoria da EXPEDIÇÃO.</p><p>31 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>32</p><p>Art. 434. Os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação é expedida, exceto:</p><p>Como exceção, é possível que o proponente tenha se comprometido a esperar a resposta, ou as</p><p>partes tenham combinado prazo para a resposta chegar (art. 434, II e III):</p><p>II - se o proponente se houver comprometido a esperar resposta;</p><p>III - se ela não chegar no prazo convencionado.</p><p>O enunciado 173 do CJF dispõe que nos contratos eletrônicos celebrados entre ausentes a formação</p><p>ocorre com a recepção da aceitação pelo proponente, ou seja, para boa parte da doutrina, nos contratos</p><p>eletrônicos a teoria adotada é a da Agnição na subteoria da Recepção.</p><p>5. CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS</p><p>Os contratos podem ser classificados sob diversos critérios:</p><p>5.1. QUANTO ÀS PARTES OBRIGADAS</p><p>“Como é cediço, o negócio jurídico pode ser unilateral, bilateral ou plurilateral, o que depende do</p><p>número de partes ou vontades presentes. O contrato é sempre negócio jurídico bilateral ou plurilateral, eis que</p><p>envolve pelo menos duas pessoas (alteridade). No entanto, o contrato também pode ser classificado como</p><p>unilateral, bilateral ou plurilateral”.32</p><p>● BILATERAL OU SINALAGMÁTICO: é aquele no qual surgem obrigações recíprocas entre as partes,</p><p>isto é, prestações de contraprestações. Exemplo: compra e venda.</p><p>Nas palavras de Flávio Tartuce33:</p><p>“O típico exemplo</p><p>de contrato bilateral é a compra e venda, com a seguinte estrutura sinalagmática:</p><p>–o vendedor tem o dever de entregar a coisa e tem o direito de receber o preço;</p><p>–o comprador tem o dever de pagar o preço e tem o direito de receber a coisa.”</p><p>⚠ ATENÇÃO: A exceção do contrato não cumprido só se aplica aos contratos bilaterais.</p><p>● UNILATERAL: só há prestação para uma das partes. Exemplo: comodato. Uma vez formado o contrato,</p><p>33 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>32 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>33</p><p>somente o comodatário é que tem obrigações. No caso, a de devolver a coisa.</p><p>● PLURILATERAIS: são os contratos que contêm mais de duas partes. Exemplo: contrato de sociedade,</p><p>em que cada sócio é uma parte.</p><p>📌 OBSERVAÇÃO</p><p>■ Em alguns contratos unilaterais é possível que surjam obrigações para a parte beneficiada, caso em</p><p>que a doutrina costuma falar em contrato BILATERAL IMPRÓPRIO (exemplo: doação com encargo).</p><p>5.2. QUANTO À REGULAMENTAÇÃO DO CONTRATO</p><p>● TÍPICO: É o contrato que conta com o regime jurídico previsto em lei. Todo contrato típico tem nomen</p><p>iuris, ou seja, é nominado, mas nem todo contrato nominado tem previsão normativa.</p><p>● ATÍPICO: Não conta com regulamentação legal, derivando exclusivamente da autonomia privada das</p><p>partes. Vem previsto no art. 425 do CC.</p><p>Art. 425. É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código.</p><p>O contrato atípico não pode violar norma de ordem pública como a função social do contrato. A</p><p>doutrina faz uma diferenciação nos seguintes termos:</p><p>● Contratos legalmente atípicos, porém socialmente típicos: Socialmente típico é o contrato que</p><p>embora não conte com regulamentação legal, conta com normas costumeiras comumente observadas</p><p>quando se trata deste contrato. Exemplo: locação em shopping center.</p><p>5.3. QUANTO À ASSUNÇÃO DE RISCOS - Arts. 458 a 461, CC</p><p>Rubem Valente ensina34:</p><p>“Comutativo (as partes podem prever seus efeitos ao celebrar o contrato. É o caso do contrato de compra e</p><p>venda, pois já se sabe que um entrega o bem e que outro entrega o preço acordado); e aleatório (as partes</p><p>não podem prever os seus efeitos – é o contrato de risco – álea significa risco. Exemplo: a compra e venda de</p><p>ações na bolsa de valores). O contrato aleatório pode ser: naturalmente aleatório (aleatório típico – é da sua</p><p>essência ser aleatório. É o caso do contrato de seguro); e acidentalmente aleatório (aleatório atípico – é da sua</p><p>essência ser comutativo, mas se torna aleatório em razão de uma circunstância que lhe é específica. Exemplo:</p><p>contrato de compra e venda de uma safra que está sendo plantada, pois não se sabe qual será a quantidade</p><p>da produção). ”</p><p>34 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>34</p><p>● COMUTATIVOS: Há relativa equivalência entre as prestações, bem como é possível às partes antever o</p><p>que receberão uma da outra.</p><p>● ALEATÓRIOS: Aqueles que contêm um risco futuro relativo a uma ou ambas as partes, o que impede</p><p>que saiba ,de antemão, o montante de pelo menos uma das prestações.</p><p>O contrato pode ser aleatório:</p><p>● POR DIZER RESPEITO A COISAS FUTURAS: Neste caso, um dos contratantes concorda em</p><p>pagar o preço se a coisa futura vier a existir em qualquer quantidade (emptio spei). Assim,</p><p>ainda que nada do avençado venha a existir, o preço será devido integralmente.</p><p>Art. 458. Se o contrato for aleatório, por dizer respeito a coisas ou fatos futuros, cujo RISCO DE NÃO VIREM</p><p>A EXISTIR um dos contratantes assuma, terá o outro direito de receber integralmente o que lhe foi</p><p>prometido, desde que de sua parte não tenha havido DOLO ou CULPA, ainda que nada do avençado venha</p><p>a existir.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado do Maranhão (Ano: 2009; FCC), foi considerada correta a</p><p>seguinte assertiva, qual transcreve o artigo acima mencionado: O contrato, segundo o Direito Civil em vigor, se</p><p>for aleatório por dizer respeito a coisas ou fatos futuros, cujo risco de não virem a existir um dos contratantes</p><p>assuma, terá o outro direito de receber integralmente o que lhe foi prometido, desde que de sua parte não</p><p>tenha havido dolo ou culpa, ainda que nada do avençado venha a existir.</p><p>Exemplos: contratação de alguém para procurar um tesouro em certa propriedade; lanço de rede;</p><p>contrato de garimpo.</p><p>O valor somente não será devido se a coisa não vier a existir por dolo ou culpa do contratado.</p><p>Ainda quanto às coisas futuras, pode ser aleatório quando uma das partes assume o risco de pagar</p><p>desde que a coisa exista em qualquer quantidade (Emptio rei speratae). Exemplo: no lanço da rede, deve vir</p><p>algo.</p><p>● COISAS PRESENTES SUJEITAS A RISCO: a coisa já existe, porém está sujeita a risco assumido</p><p>pelo adquirente. Este contrato era comum quando envolvia o transporte marítimo de</p><p>mercadorias. O comprador assumia o risco por eventual perecimento das mercadorias</p><p>embarcadas.</p><p>É possível imaginar um contrato aleatório de armazenamento de produtos agrícolas sujeitos a certa</p><p>praga. Neste caso, o adquirente assume o risco de a mercadoria deixar de existir em decorrência dessa praga.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>35</p><p>Esta alienação aleatória poderá ser anulada como dolosa se o adquirente provar que o outro</p><p>contratante sabia que o risco já havia se consumado.</p><p>📌 OBSERVAÇÃO</p><p>■ Contrato de seguro: A doutrina majoritária entende que o contrato de seguro é aleatório. O</p><p>segurado paga sem que tenha certeza de que receberá a contraprestação da seguradora, o que só ocorrerá em</p><p>havendo sinistro. Para o professor Fábio Konder Comparato, o seguro é um contrato comutativo, pois o</p><p>segurado recebe imediatamente uma vantagem que é a segurança contra o risco.</p><p>5.4. QUANTO À SUA DEFINITIVIDADE</p><p>● DEFINITIVO: Quando o contrato já estabelece imediatamente a prestação e a contraprestação que</p><p>interessa às partes. Exemplo: compra e venda de um carro.</p><p>● PRELIMINAR (art. 462 a 466): O objeto é um outro contrato, chamado “pré-contrato”, pacto de</p><p>contrahendo ou contrato para fazer contrato.</p><p>5.5. QUANTO À FORMAÇÃO</p><p>● CONTRATO PARITÁRIOS: As partes discutem livremente as condições uma vez que se encontram em</p><p>situação de igualdade;</p><p>● CONTRATOS DE ADESÃO: Não permitem a liberdade de discutirem as condições do contrato, devido a</p><p>preponderância da vontade de um dos contratantes que elabora todas as cláusulas. A outra parte</p><p>apenas pode aderir ao modelo de contrato previamente confeccionado, não podendo modificá-las;</p><p>● CONTRATO-TIPO: Segundo Carlos Roberto Gonçalves (2021, NP), essa espécie de contrato se aproxima</p><p>do contrato de adesão, mas difere porque não lhe é essencial a desigualdade econômica dos</p><p>contratantes, bem como porque admite discussão sobre o seu conteúdo.</p><p>Carlos Roberto Gonçalves (2021, NP) faz uma tabela comparativa da diferença entre contrato de</p><p>adesão e contrato-tipo, vejamos:</p><p>CONTRATO DE ADESÃO CONTRATO-TIPO</p><p>Tem como característica a desigualdade econômica</p><p>dos contratantes</p><p>Não lhe é essencial tal desigualdade</p><p>Não admite discussão sobre o seu conteúdo</p><p>Em geral, são deixados claros, a serem preenchidos</p><p>pelo concurso de vontades</p><p>As cláusulas são impostas por uma parte à outra As cláusulas não são impostas, mas apenas</p><p>36</p><p>pré-redigidas</p><p>É endereçado a um número indeterminado e</p><p>desconhecido de pessoas</p><p>Destina-se a pessoas ou grupo identificáveis</p><p>É impresso e não admite modificação por imposição</p><p>do aderente</p><p>Podem ser acrescentadas, às impressas, cláusulas</p><p>datilografadas ou manuscritas.</p><p>5.6. QUANTO AO MOMENTO DE SUA EXECUÇÃO35</p><p>● EXECUÇÃO INSTANTÂNEA, IMEDIATA OU ÚNICA: São aqueles que se consumam em um só ato, sendo</p><p>cumpridos imediatamente após a sua celebração. Cumprida a execução, exaurem-se;</p><p>● EXECUÇÃO DIFERIDA OU RETARDADA: Devem ser cumpridos em um só ato, porém em momento</p><p>futuro: a entrega, em</p><p>determinada data, do objeto alienado. A prestação de uma das partes não se dá</p><p>imediatamente após a formação do vínculo, mas a termo;</p><p>● CONTRATO DE TRATO SUCESSIVO OU EXECUÇÃO CONTINUADA: São os que se cumprem por meio de</p><p>atos reiterados.</p><p>5.7. QUANTO À FORMA36</p><p>● SOLENE E NÃO SOLENE: Os solenes são os contratos que devem obedecer à forma prescrita na lei</p><p>para se aperfeiçoar. Não observada a forma, o contrato será nulo. Já os não solenes são os de forma</p><p>livre. Basta apenas o consentimento para a sua formação.</p><p>● CONSENSUAIS E REAIS: Os contratos consensuais são aqueles que se formam unicamente pelo</p><p>acordo de vontade das partes, independentemente da entrega da coisa e da observância de</p><p>determinada forma. A lei nada mais exige do que esse consentimento. Já os contratos reais são os que</p><p>exigem, para se aperfeiçoar, além do consentimento, a entrega da coisa que lhe serve de objeto. Esses</p><p>contratos não se formam sem a tradição da coisa.</p><p>6. GARANTIAS LEGAIS DO ADQUIRENTE</p><p>O Código Civil protege o adquirente contra dois tipos de vícios:</p><p>● Vícios redibitórios;</p><p>36 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>35 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>37</p><p>● Evicção.</p><p>A diferença fundamental consiste em que se tratando de vício redibitório, o vício está NA COISA,</p><p>enquanto que na evicção há um vício do DIREITO DE ESTAR com a coisa.</p><p>6.1. VÍCIOS REDIBITÓRIOS - Arts. 441 a 446, CC</p><p>São vícios ou defeitos ocultos que tornam a coisa imprópria ao uso a que se destina ou lhe diminui o</p><p>valor. Segundo Maria Helena Diniz: “Os vícios redibitórios são defeitos ocultos existentes na coisa alienada,</p><p>objeto de contrato comutativo ou de doação onerosa, não comum às congêneres, que a tornam imprópria ao</p><p>uso a que se destina ou lhe diminuem sensivelmente o valor, de tal modo que o negócio não se realizaria se</p><p>esses defeitos fossem conhecidos, dando ao adquirente ação para redibir o contrato ou para obter abatimento</p><p>no preço. Por exemplo, novilhas escolhidas para reprodução de gado vacum, porém estéreis”37.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado do Maranhão (Ano: 2018; FCC), foi considerada correta a</p><p>seguinte assertiva: O vício redibitório e o erro substancial são distintos uma vez que no primeiro o vício oculto</p><p>pertence ao objeto adquirido, ao passo que no segundo, o vício é da manifestação da vontade.</p><p>A coisa defeituosa pode ser enjeitada pelo adquirente, mediante devolução do preço, e, se o alienante</p><p>conhecia o defeito, com satisfação de perdas e danos (arts. 441 e 443, CC). O adquirente tem, contudo, a opção</p><p>de ficar com ela e reclamar abatimento no preço (art. 442, CC).</p><p>Art. 441. A coisa recebida em virtude de contrato comutativo pode ser enjeitada por vícios ou defeitos</p><p>OCULTOS, que a tornem imprópria ao uso a que é destinada, ou lhe diminuam o valor.</p><p>Parágrafo único. É aplicável a disposição deste artigo às doações onerosas.</p><p>Art. 442. Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato (art. 441), pode o adquirente reclamar abatimento</p><p>no preço.</p><p>Art. 443. Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se</p><p>o não conhecia, tão-somente restituirá o valor recebido, mais as despesas do contrato.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>O fato de a coisa valer menos do que o adquirente acreditava não é vício. A desvalorização deve ser</p><p>decorrência do vício.</p><p>37 DINIZ, Maria Helena.Curso de Direito Civil Brasileiro - Volume 3 - 38ª Edição 2022</p><p>38</p><p>6.1.1. REQUISITOS PARA QUE SE POSSA RECLAMAR A GARANTIA DOS VÍCIOS</p><p>REDIBITÓRIOS</p><p>● O defeito deve ser oculto, aquele que não possa ser percebido em exame superficial, elementar;</p><p>● Deverá ser desconhecido do adquirente;</p><p>● Somente se leva em conta o defeito já existente ao tempo da aquisição e que perdure até o</p><p>momento da reclamação;</p><p>● Somente pode motivar a redibição defeitos que inutilizem ou desvalorizem a coisa;</p><p>● O contrato deverá ser comutativo; entretanto, será cabível em contratos unilaterais gratuitos,</p><p>desde que haja encargo.</p><p>O alienante não se exonera da responsabilidade se desconhecia o defeito; o que ocorre é que ele não</p><p>ficará responsável por perdas e danos, somente pela restituição do valor e pelas despesas do contrato. O</p><p>mesmo vale se a coisa perecer sob o domínio do adquirente, em função do vício oculto.</p><p>6.1.2. AÇÕES QUE CABEM AO ADQUIRENTE</p><p>O adquirente pode se valer das chamadas Ações Edilícias. Vejamos:</p><p>● AÇÃO REDIBITÓRIA: O adquirente REJEITA a coisa, recobrando o preço mais as despesas do contrato,</p><p>prazo decadencial.</p><p>● AÇÃO ESTIMATÓRIA/QUANTI MINORIS: O adquirente fica com a coisa, porém requer abatimento do</p><p>preço.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>O adquirente só terá direito à indenização por perdas e danos, se o alienante CONHECIA o vício ou</p><p>defeito.</p><p>6.1.2.1.PRAZO DAS AÇÕES</p><p>Os prazos para ajuizamento das ações edilícias são decancenciais.</p><p>● Se móvel: 30 dias a contar da entrega efetiva;</p><p>● Se imóvel: 1 ano a contar da entrega efetiva.</p><p>ENTREGA EFETIVA: quando se trata de coisa móvel, equivale à tradição real, isto é, entrega da própria</p><p>coisa objeto do contrato. Em se tratando de coisas imóveis, a entrega efetiva significa efetiva disponibilização</p><p>da posse.</p><p>📌 OBSERVAÇÕES</p><p>■ Prazo se o adquirente já estava na posse do bem:</p><p>39</p><p>● Se móvel: 15 dias a contar da alienação;</p><p>● Se imóvel: 6 meses a contar da alienação.</p><p>■ Vício mais que oculto (art. 445, §1º)</p><p>§ 1º Quando o vício, por sua natureza, só puder ser conhecido mais tarde, o prazo contar-se-á do</p><p>momento em que dele tiver ciência, até o prazo máximo de 180 dias, em se tratando de bens móveis; e</p><p>de 1 ano, para os imóveis.</p><p>Em torno desses prazos, surgiram na doutrina duas correntes:</p><p>● Primeira corrente: o prazo começa a correr da ciência. Se a coisa for móvel, será de 180 dias a contar</p><p>da ciência. Se for imóvel, 1 ano a contar da ciência.</p><p>● Segunda corrente (MAJORITÁRIA): O prazo de 180 dias ou de um ano é o prazo máximo para que o</p><p>vício apareça, e, uma vez revelado, os prazos são o do caput, ou seja, 30 dias para móveis ou 1 ano para</p><p>imóveis.</p><p>📌 OBSERVAÇÕES</p><p>■ Os vícios relativos aos animais terão os prazos fixados em leis especiais. Na sua falta, pelos</p><p>costumes do local, e apenas na falta de ambos, pelo Código Civil.</p><p>■ Durante os prazos de garantia estabelecidos em contrato, não correm os prazos legais.</p><p>■ O adquirente deve comunicar o vício ao alienante dentro de 30 (trinta) dias, sob pena de perder a</p><p>garantia.</p><p>6.2. EVICÇÃO - Arts. 447 a 457, CC</p><p>“A evicção é um instituto clássico do Direito Civil que sempre trouxe consequências e efeitos de cunho</p><p>material e processual, diante de suas claras repercussões práticas. Aliás, a categoria tem origem no</p><p>pragmatismo romano, especialmente na expressão latina evincere, que significa ser vencido ou ser um</p><p>perdedor”38.</p><p>A evicção, prevista como garantia legal do adquirente, ocorre quando o adquirente vem a perder a</p><p>posse e a propriedade da coisa, em virtude do reconhecimento judicial ou administrativo do direito anterior</p><p>de terceiro.</p><p>Consiste, a evicção, na perda, pelo adquirente (evicto), da posse ou propriedade da coisa transferida,</p><p>por força de uma sentença judicial ou ato administrativo que reconheceu o direito anterior de terceiro,</p><p>denominado evictor.</p><p>38 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>40</p><p>A responsabilidade pela evicção é OBJETIVA, prescinde de dolo ou culpa do alienante.</p><p>São partes na evicção:</p><p>● EVICTO: adquirente que venha perder a coisa;</p><p>● ALIENANTE: é aquele quem transferiu o bem ao evicto e, portanto, deverá responder;</p><p>● EVICTOR: terceiro que por ter melhor direito sobre a coisa, recupera-a contra o evicto.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>Tradicionalmente, a evicção exigia, para sua caracterização, uma sentença judicial. Atualmente, no</p><p>entanto, é pacífico que a evicção pode ocorrer por ato administrativo, conforme mencionado.</p><p>Para que o alienante responda pela evicção ela deve ser ONEROSA ou tratar-se de doação para</p><p>casamento com certa e determinada pessoa, salvo convenção em contrário (art. 552, CC).</p><p>O alienante responderá perante o evicto nos termos do art. 450 do CC. Sendo assim, além de ter</p><p>direito à restituição integral do que pagou, terá direito às verbas indenizatórias descritas nos incisos do art. 450,</p><p>CC:</p><p>Art. 450. Salvo estipulação em contrário, tem direito o evicto, além da restituição integral do preço ou</p><p>das quantias que pagou:</p><p>I - à indenização dos frutos que tiver sido obrigado a restituir;</p><p>II - à indenização pelas despesas dos contratos e pelos prejuízos que diretamente resultarem da</p><p>evicção;</p><p>III - às custas judiciais e aos honorários do advogado por ele constituído.</p><p>Parágrafo único. O preço, seja a evicção total ou parcial, será o do valor da coisa, na época em que se</p><p>evenceu, e proporcional ao desfalque sofrido, no caso de evicção parcial.</p><p>Observe que o art. 450 do CC disciplina o direito do evicto de ser ressarcido à duplo título: vedação ao</p><p>enriquecimento sem causa e indenização.</p><p>A garantia do adquirente contra a evicção é um elemento natural das alienações onerosas. Como</p><p>elemento natural, está sujeita à autonomia privada das partes. Por isso o art. 448 do CC dispõe que as partes,</p><p>desde que por cláusula expressa, podem reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção.</p><p>O art. 449 do CC dispõe que não obstante a cláusula que exclui a garantia contra a evicção, se esta se</p><p>der, tem direito o evicto a receber o preço que pagou pela coisa evicta se não soube do risco da evicção ou dele</p><p>informado não o assumiu.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>Havendo cláusula de exoneração da responsabilidade, o alienante não responderá pelas verbas</p><p>indenizatórias previstas no artigo 450 do CC, mas responderá no que toca à devolução do preço. Só não terá de</p><p>devolver o preço, se o adquirente assumiu o risco da evicção.</p><p>41</p><p>O art. 457 do CC estabelece que o adquirente não pode demandar pela evicção se sabia que a coisa</p><p>era alheia ou litigiosa.</p><p>Durante a vigência do CC/16, havia uma divergência sobre o momento de mensurar o preço, ou seja,</p><p>se era o preço da alienação ou simplesmente o do tempo da evicção. O parágrafo único do art. 450 estabelece</p><p>que o preço será o da coisa na época que se evenceu (que se perdeu).</p><p>Se a evicção for parcial, porém considerável, o evicto poderá optar pela rescisão (resolução) do</p><p>contrato e optar pela restituição da parte do preço correspondente ao desfalque. Se não for considerável,</p><p>caberá somente direito à indenização.</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>Na evicção, o bem se sujeita à evicção mesmo se arrematado em hasta pública. Regra diferente se</p><p>aplica no caso de vícios redibitórios, pois o adquirente não pode reclamar se o bem foi arrematado em hasta</p><p>pública.</p><p>7. REGIME JURÍDICO DO CONTRATO POR ADESÃO - Arts. 423 a 424, CC</p><p>A contratação por adesão é uma técnica contratual, cujo objetivo é a economia de tempo. O contrato</p><p>por adesão não é sinônimo de contrato de consumo. É perfeitamente possível um contrato entre empresas por</p><p>adesão. Exemplo: contrato de resseguro; franquia.</p><p>É perfeitamente possível um contrato de consumo que não seja por adesão.</p><p>O contrato por adesão ocorre quando um dos contratantes, chamado predisponente, predispõe as</p><p>cláusulas e a elas adere o aderente.</p><p>O aderente está em uma posição mais vulnerável em razão da assimetria de informação. Por isso, os</p><p>arts. 423 a 424 do CC trazem regras de reequilíbrio.</p><p>Art. 423. Quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar</p><p>a interpretação mais favorável ao aderente.</p><p>Art. 424. Nos contratos de adesão, são NULAS as cláusulas que estipulem a renúncia antecipada do</p><p>aderente a direito resultante da natureza do negócio.</p><p>8. EXTINÇÃO DO CONTRATO</p><p>A forma natural de extinção dos contratos é o adimplemento, o implemento de condição resolutiva ou</p><p>o termo final.</p><p>42</p><p>Poderá ocorrer ainda pela morte, incapacidade superveniente ou perda do objeto, com ou sem culpa</p><p>das partes, podendo ou não haver indenização, a depender do caso concreto.</p><p>O Código Civil permite que as partes convencionem a extinção do contrato. Quando ambas decidem</p><p>pôr fim ao contrato, têm-se a figura do distrato/resilição bilateral.</p><p>A resilição unilateral é exceção no sistema. É necessário que haja previsão legal ou contratual,</p><p>ainda que implícita.</p><p>Art. 473. A RESILIÇÃO UNILATERAL, nos casos em que a lei expressa ou implicitamente o permita, opera</p><p>mediante denúncia notificada à outra parte.</p><p>Parágrafo único. Se, porém, dada a natureza do contrato, uma das partes houver feito investimentos</p><p>consideráveis para a sua execução, a denúncia unilateral só produzirá efeito depois de transcorrido</p><p>prazo compatível com a natureza e o vulto dos investimentos.</p><p>O parágrafo único do art. 473 estabelece uma regra de manutenção da eficácia do contrato após a</p><p>denúncia. Ainda que o contrato permita a resilição unilateral (exemplo: contrato por tempo indeterminado), se</p><p>uma das partes houver feito investimentos consideráveis para sua execução, a denúncia unilateral somente</p><p>produzirá efeitos após transcorrido tempo suficiente, isto é, compatível com a natureza e vulto dos</p><p>investimentos.</p><p>Neste caso, a denúncia é existente e válida, porém ainda ineficaz.</p><p>O art. 478 do CC consagra a chamada onerosidade excessiva. Suas premissas são:</p><p>● Contrato de eficácia duradoura;</p><p>● Que após a formação do contrato ocorra um fato imprevisível e extraordinário;</p><p>● Que este fato gere excessiva onerosidade para um dos contratantes e extrema vantagem para outra.</p><p>Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar</p><p>excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos</p><p>extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença</p><p>que a decretar retroagirão à data da citação.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Juiz de Direito do Rio Grande do Sul (Ano: 2016; FAURGS), foi considerada incorreta a</p><p>seguinte assertiva: Será eficaz a partir da sentença que a declara, quando decorra do exercício do direito de</p><p>resolução por onerosidade excessiva, por meio da ação respectiva.</p><p>A doutrina majoritária desvinculou a extrema vantagem da onerosidade excessiva, ou seja, hoje</p><p>prevalece a ideia de que é possível invocar o art. 478 do CC ainda que não haja extrema vantagem.</p><p>43</p><p>Se a expressão “imprevisibilidade” for interpretada literalmente, o dispositivo torna-se praticamente</p><p>inaplicável. Neste sentido, o enunciado 175 do CJF estabelece que a menção à imprevisibilidade deve levar em</p><p>consideração não somente o fato que gerou o desequilíbrio, mas as consequências que ele produz.</p><p>8.1. TERMINOLOGIAS JURÍDICAS PARA A EXTINÇÃO DOS CONTRATOS</p><p>● EXTINÇÃO: termo genérico utilizado para qualquer espécie de fim contratual.</p><p>● REDIBIÇÃO: anulação do contrato por vício redibitório.</p><p>● RESILIÇÃO BILATERAL OU DISTRATO: ocorre por consenso entre as partes, exigindo a mesma forma</p><p>que a lei exige para a celebração do contrato. Assim, se a lei não exigia forma e o contrato foi celebrado</p><p>por escritura pública, poderá ser resilido até mesmo verbalmente.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Juiz de Direito do Estado de São Paulo (Ano: 2021; VUNESP), foi considerada correta a</p><p>seguinte assertiva: O distrato deve seguir a mesma forma exigida para o contrato.</p><p>● RESILIÇÃO UNILATERAL OU RENÚNCIA OU DENÚNCIA VAZIA: ocorre por iniciativa de uma das</p><p>partes, somente quando a lei ou o contrato o permitir, conferindo o direito potestativo a uma das</p><p>partes; deve-se operar mediante notificação.</p><p>● RESOLUÇÃO OU DENÚNCIA CHEIA OU MOTIVADA: é a extinção do contrato por conta de um evento</p><p>superveniente, como a inexecução por culpa ou dolo de uma das partes ou um evento extraordinário,</p><p>que torne impossível sua continuidade. Sem a cláusula resolutória, o inadimplemento demanda uma</p><p>notificação para a resolução; havendo essa cláusula, a resolução é imediata, de pleno direito.</p><p>A</p><p>resolução do contrato possui natureza jurídica de direito potestativo, atraindo a aplicação de ação</p><p>desconstitutiva e, sendo assim, sujeita a prazo decadencial.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Juiz de Direito do Estado de São Paulo (Ano: 2021; VUNESP), foi considerada incorreta a</p><p>seguinte assertiva: O direito de resolver o contrato por inadimplemento tem natureza de pretensão e se</p><p>encontra sujeito à prescrição.</p><p>● RESCISÃO: é a anulação reconhecida e decretada judicialmente em função de um vício originário de</p><p>formação do contrato.</p><p>8.2. FORMAS BÁSICAS DE EXTINÇÃO DOS CONTRATOS</p><p>44</p><p>Flávio Tartuce39 demonstra quatro formas básicas de extinção dos contratos:</p><p>1. Extinção normal do contrato:</p><p>“Como primeira forma básica, o contrato poderá ser extinto de forma normal, pelo cumprimento da</p><p>obrigação. A forma normal de extinção está presente, por exemplo, quando é pago o preço em obrigação</p><p>instantânea; quando são pagas todas as parcelas em obrigação de trato sucessivo a ensejar o fim da obrigação;</p><p>quando a coisa é entregue conforme pactuado; quando na obrigação de não fazer o ato não é praticado, entre</p><p>outros casos possíveis. Também haverá a extinção normal findo o prazo previsto para o negócio, ou seja, no</p><p>seu termo final, desde que todas as obrigações pactuadas sejam cumpridas”.</p><p>2. Extinção por fatos anteriores à celebração:</p><p>“Como segunda forma básica, a extinção dos contratos pode se dar por motivos anteriores à</p><p>celebração, surgindo como sua primeira hipótese a invalidade contratual (teoria das nulidades). Haverá</p><p>invalidade nos casos envolvendo o contrato nulo (eivado de nulidade absoluta) e o contrato anulável (presente a</p><p>nulidade relativa ou anulabilidade)”.</p><p>“Ao lado da invalidade contratual (teoria das nulidades), ainda existem outras formas de extinção do</p><p>negócio jurídico, decorrentes de fatos anteriores, quais sejam a existência no negócio de uma cláusula</p><p>resolutiva expressa ou a inserção de cláusula de arrependimento no pacto. Essas duas formas de extinção</p><p>decorrem da autonomia privada, da previsão contratual, razão pela qual são tratadas como motivos anteriores</p><p>ou contemporâneos à celebração do contrato.”</p><p>3. Extinção por fatos posteriores à celebração:</p><p>“Como terceira forma básica, o contrato pode ser extinto por fatos posteriores ou supervenientes à sua</p><p>celebração. Toda vez em que há a extinção do contrato por fatos posteriores à celebração, tendo uma das</p><p>partes sofrido prejuízo, fala-se em rescisão contratual. Nesse sentido, a ação que pretende extinguir o contrato</p><p>nessas hipóteses é denominada ação de rescisão contratual, seguindo rito ordinário, no sistema do CPC/1973,</p><p>correspondente ao atual procedimento comum, no CPC/2015.”</p><p>4. Extinção por morte:</p><p>“Em casos tais, o contrato se extingue de pleno direito, situação que ocorre, por exemplo, na fiança.</p><p>Para este contrato, os herdeiros não recebem como herança o encargo de ser fiador, só respondendo até os</p><p>limites da herança por dívidas eventualmente vencidas durante a vida do seu antecessor (art. 836 do CC). Em</p><p>reforço, a condição de fiador não se transmite, pois ele tem apenas uma responsabilidade, sem que a dívida</p><p>seja sua (“obligatio sem debitum” ou “Haftung sem Schuld”).”</p><p>39 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>45</p><p>8.3. ENUNCIADOS E JURISPRUDÊNCIAS SOBRE EXTINÇÃO DO CONTRATO</p><p>● JDC Enunciado 31: As perdas e danos mencionados no art. 475 do novo Código Civil dependem da</p><p>imputabilidade da causa da possível resolução.</p><p>● JDC Enunciado 367: Em observância ao princípio da conservação do contrato, nas ações que</p><p>tenham por objeto a resolução do pacto por excessiva onerosidade, pode o juiz modificá-lo</p><p>equitativamente, desde que ouvida a parte autora, respeitada sua vontade e observado o contraditório.</p><p>● JDC Enunciado 436: A cláusula resolutiva expressa produz efeitos extintivos independentemente de</p><p>pronunciamento judicial.</p><p>● JDC Enunciado 437: A resolução da relação jurídica contratual também pode decorrer do</p><p>inadimplemento antecipado.</p><p>● JDC Enunciado 438: A exceção de inseguridade, prevista no art. 477, também pode ser oposta à parte</p><p>cuja conduta põe, manifestamente em risco, a execução do programa contratual.</p><p>● JDC Enunciado 584: Desde que não haja forma exigida para a substância do contrato, admite-se que o</p><p>distrato seja pactuado por forma livre.</p><p>● JDC Enunciado 586: Para a caracterização do adimplemento substancial (tal qual reconhecido pelo</p><p>Enunciado 361 da IV Jornada de Direito Civil - CJF), levam-se em conta tanto aspectos quantitativos</p><p>quanto qualitativos.</p><p>● É lícito à parte lesada optar pelo cumprimento forçado ou pelo rompimento do contrato, não lhe</p><p>cabendo, todavia, o direito de exercer ambas a alternativas simultaneamente.</p><p>O art. 475 do Código Civil afirma que, “...a parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do</p><p>contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por</p><p>perdas e danos...” Note-se, portanto, que esse artigo dá o direito de a parte lesada optar pelo</p><p>cumprimento forçado do contrato ou então pelo seu rompimento. É um ou outro (e não os dois). A</p><p>escolha, uma vez feita, pode ser alterada, desde que antes da sentença. STJ. 4ª Turma REsp 1907653-RJ,</p><p>Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 23/02/2021 (Info 686).</p><p>9. TEORIA DA BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO JURÍDICO</p><p>Não há no Brasil disposição legal que contemple a teoria, não obstante, a melhor doutrina entende</p><p>possível a sua aplicação como consequência dos princípios da boa-fé objetiva e principalmente da função social</p><p>do contrato.</p><p>A função social do contrato impõe que o contrato seja fonte de trocas úteis e justas entre os</p><p>contratantes.</p><p>O que caracteriza a perda da base objetiva não é a impossibilidade ou excessiva onerosidade da</p><p>obrigação, mas sim, sua completa INUTILIDADE para o credor.</p><p>46</p><p>O antecedente dessa teoria foi a chamada Teoria da Pressuposição (Bernard Windscheid). Segundo</p><p>esta teoria, ao celebrarem um contrato, as partes têm em mente um pressuposto (motivo) que as levou a</p><p>contratar e, portanto, desaparecendo este motivo, o contrato perderia a eficácia.</p><p>Os críticos à esta teoria a chamavam de teoria da base subjetiva. A crítica é a de que o contrato ficaria</p><p>na dependência do estado psíquico dos agentes.</p><p>Foi com os juristas OERTMANN e LARENZ que a teoria ganhou contornos objetivos. Para eles, ao</p><p>celebrarem um contrato, as partes têm, diante de si, um conjunto objetivo de circunstâncias negociais.</p><p>Portanto, se estas circunstâncias se alteram radicalmente ou desaparecem, justifica-se a alteração ou extinção</p><p>do contrato. Exemplo: Durante a coroação do Rei Eduardo VII, pessoas locaram varandas para acompanhar a</p><p>cerimônia de coroação. Porém, houve alteração do percurso do cortejo, razão pela qual frustrou-se a finalidade</p><p>daquelas locações.</p><p>Por fim, ressalta-se que a Teoria da Base Objetiva ou da Base do Negócio Jurídico aplica-se,</p><p>exclusivamente, às relações jurídicas de consumo, não sendo aplicável às contratuais puramente civis.</p><p>Art. 6º São direitos básicos do consumidor:</p><p>V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em</p><p>razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;</p><p>⚠ ATENÇÃO</p><p>A Teoria da Base Objetiva não se confunde com a Teoria da Imprevisão (estudada em título anterior).</p><p>Vejamos:</p><p>● A Teoria da Base Objetiva, como o próprio nome remete, é um teoria objetiva, prevista no Código de</p><p>Defesa do Consumidor e dispensa imprevisibilidade e a extraordinariedade dos fatos</p><p>supervenientes. A Teoria da Base Objetiva exige que um fato superveniente, não necessariamente</p><p>extraordinário, rompa a base objetiva. Por fim, é dispensável que haja extrema vantagem para o</p><p>credor.</p><p>● A Teoria da Imprevisão, por sua vez, é uma teoria subjetiva, prevista no Código Civil que exige a</p><p>ocorrência da imprevisibilidade, de um fato superveniente extraordinário</p><p>e que gere uma extrema</p><p>vantagem para o credor.</p><p>10. JURISPRUDÊNCIAS SOBRE TEORIA GERAL DOS CONTRATOS40</p><p>É possível o ajuizamento de ação possessória, fundada em cláusula resolutiva expressa, decorrente de</p><p>inadimplemento contratual do promitente comprador, sendo desnecessária a prévia propositura de ação para</p><p>40 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:</p><p><https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/listar?categoria=4&subcategoria=40&assunto=143> Acesso em 26/05/2022</p><p>47</p><p>resolução do contrato.</p><p>Não se pode impor à parte já prejudicada pelo inadimplemento ter o ônus de ajuizar demanda judicial para</p><p>obter a resolução do contrato quando já existe uma cláusula resolutória expressa em seu favor. Exigir isso</p><p>seria impor ônus demasiado e obrigação contrária ao texto expresso da lei, desprestigiando o princípio da</p><p>autonomia da vontade, da não intervenção do Estado nas relações negociais, criando obrigação que refoge à</p><p>verdadeira intenção legislativa.</p><p>Fundamento legal: Código Civil / Art. 474. A cláusula resolutiva expressa opera de pleno direito; a tácita</p><p>depende de interpelação judicial.</p><p>A cláusula resolutiva expressa é aquela expressamente estipulada pelas partes no momento da celebração do</p><p>negócio jurídico ou em oportunidade posterior (por meio de aditivo contratual), porém, sempre antes da</p><p>verificação da situação de inadimplência nela prevista, que constitui o suporte fático para a resolução do</p><p>ajuste firmado. Nesta cláusula, as partes indicam as hipóteses que geram a extinção do contrato. STJ. 4ª</p><p>Turma. REsp 1789863-MS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 10/08/2021 (Info 704).</p><p>Prazo prescricional na responsabilidade contratual é de 10 anos e na responsabilidade extracontratual</p><p>3 anos.</p><p>Nas controvérsias relacionadas à responsabilidade contratual, aplica-se a regra geral (art. 205 CC/2002) que</p><p>prevê 10 anos de prazo prescricional e, quando se tratar de responsabilidade extracontratual, aplica-se o</p><p>disposto no art. 206, § 3º, V, do CC/2002, com prazo de 3 anos.</p><p>Para fins de prazo prescricional, o termo “reparação civil” deve ser interpretado de forma restritiva,</p><p>abrangendo apenas os casos de indenização decorrente de responsabilidade civil extracontratual.</p><p>• Responsabilidade civil extracontratual: 3 anos.</p><p>• Responsabilidade contratual: 10 anos.</p><p>STJ. 2ª Seção. EREsp 1280825/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/06/2018.</p><p>A abusiva a resilição unilateral e imotivada do contrato de prestação de serviços advocatícios na</p><p>hipótese em que houver cláusula de êxito.</p><p>Configura abuso de direito a denúncia imotivada pelo cliente de contrato de prestação de serviços advocatícios</p><p>firmado com cláusula de êxito antes do resultado final do processo, salvo quando houver estipulação</p><p>contratual que a autorize ou quando ocorrer fato superveniente que a justifique.</p><p>Em situações como essa, o STJ tem afirmado que deverão ser arbitrados honorários para remunerar o</p><p>advogado pelo trabalho desempenhado até o momento da resilição unilateral e imotivada do contrato pelo</p><p>cliente, a fim de evitar o locupletamento ilícito deste com a atividade realizada por aquele. STJ. 3ª Turma. REsp</p><p>1724441-TO, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 19/02/2019 (Info 643).</p><p>Prazo prescricional da ação de indenização na eviccção41.</p><p>A pretensão deduzida em demanda baseada na garantia da evicção submete-se ao prazo prescricional de 3</p><p>anos. Em outras palavras, é de 3 anos o prazo prescricional para que o evicto (que perdeu o bem por evicção)</p><p>41 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Prazo prescricional da ação de indenização na eviccção. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:</p><p><https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/ab3f9cab224141f869b28de5d0674580>. Acesso em: 26/05/2022</p><p>48</p><p>proponha ação de indenização contra o alienante.</p><p>STJ. 3ª Turma. REsp 1577229-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 8/11/2016 (Info 593).</p><p>ATENÇÃO</p><p>Obs: esse entendimento tem grandes chances de ser revisto tendo em vista que, posteriormente, o STJ decidiu</p><p>que o art. 206, § 3º, V, do CC não se aplica para prescrição decorrente de ilícitos contratuais. Para</p><p>responsabilidade civil contratual incide o prazo de 10 anos (STJ. 2ª Seção. EREsp 1280825/RJ, Rel. Min. Nancy</p><p>Andrighi, julgado em 27/06/2018).</p><p>Teoria da imprevisão e resolução do contrato por onerosidade excessiva.</p><p>A ocorrência de “ferrugem asiática” na lavoura de soja não enseja, por si só, a resolução de contrato de</p><p>compra e venda de safra futura em razão de onerosidade excessiva. Isso porque o advento dessa doença em</p><p>lavoura de soja não constitui o fato extraordinário e imprevisível exigido pelo art. 478 do CC/2002, que dispõe</p><p>sobre a resolução do contrato por onerosidade excessiva. STJ. 3ª Turma. REsp 866414-GO, Rel. Min. Nancy</p><p>Andrighi, julgado em 20/6/2013 (Info 526).</p><p>Evicção42.</p><p>Para que o evicto possa exercer os direitos resultantes da evicção, na hipótese em que a perda da coisa</p><p>adquirida tenha sido determinada por decisão judicial, não é necessário o trânsito em julgado da referida</p><p>decisão.</p><p>O direito que o evicto tem de cobrar indenização pela perda da coisa evicta independe, para ser exercitado, de</p><p>ele ter denunciado a lide ao alienante na ação em que terceiro reivindicara a coisa. STJ. 4ª Turma. REsp</p><p>1332112-GO, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 21/3/2013 (Info 519).</p><p>(Prova oral TJDFT 2015) A boa-fé é elemento essencial para caracterizar evicção?</p><p>Segundo o STJ, sim.</p><p>Reconhecida a má-fé do arrematante no momento da aquisição do imóvel, não pode ele, sob o argumento de</p><p>ocorrência de evicção, propor a ação de indenização com base no art. 70, I, do CPC, para reaver do alienante</p><p>os valores gastos com a aquisição do bem. Para a configuração da evicção e consequente extensão de seus</p><p>efeitos, exige-se a boa-fé do adquirente. STJ. 3ª Turma. REsp 1.293.147/GO, Rel. Min. João Otávio de Noronha,</p><p>julgado em 19/03/2015.</p><p>Em ação de extinção contratual com cláusula resolutiva, é lícito à parte lesada optar entre o</p><p>cumprimento forçado ou o rompimento do contrato, desde que antes da sentença.</p><p>É lícito à parte lesada optar pelo cumprimento forçado ou pelo rompimento do contrato, não lhe cabendo,</p><p>todavia, o direito de exercer ambas as alternativas simultaneamente.</p><p>O art. 475 do Código Civil afirma que, “...a parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do</p><p>contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e</p><p>danos...” Note-se, portanto, que esse artigo dá o direito de a parte lesada optar pelo cumprimento forçado do</p><p>contrato ou então pelo seu rompimento. É um ou outro (e não os dois). A escolha, uma vez feita, pode ser</p><p>42 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Evicção. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:</p><p><https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/6d0f846348a856321729a2f36734d1a7>. Acesso em: 26/05/2022</p><p>49</p><p>alterada, desde que antes da sentença.</p><p>STJ. 4ª Turma. REsp 1907653-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 23/02/2021 (Info 686).43</p><p>A abusividade de encargos acessórios do contrato não descaracteriza a mora.</p><p>STJ. 2ª Seção. REsp 1.639.259-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 12/12/2018 (recurso</p><p>repetitivo) (Info 639).44</p><p>Constatado o caráter manifestamente excessivo da cláusula penal contratada, o magistrado deverá,</p><p>independentemente de requerimento do devedor, proceder à sua redução.</p><p>Constatado o caráter manifestamente excessivo da cláusula penal contratada, o magistrado deverá,</p><p>independentemente de requerimento do devedor, proceder à sua redução.</p><p>Fundamento: CC/Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal</p><p>tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em</p><p>vista a natureza e a finalidade do negócio.</p><p>STJ. 4ª Turma. REsp 1.447.247-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/04/2018 (Info 627).45</p><p>45 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Possibilidade</p><p>de redução de ofício da cláusula penal manifestamente excessiva. Buscador Dizer o Direito, Manaus.</p><p>Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/d6ae00d77468471c0fba3a53a0273891>. Acesso em: 13/12/2022</p><p>44 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A abusividade de encargos acessórios do contrato não descaracteriza a mora. Buscador Dizer o Direito, Manaus.</p><p>Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/947018640bf36a2bb609d3557a285329>. Acesso em: 13/12/2022</p><p>43 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Em ação de extinção contratual com cláusula resolutiva, é lícito à parte lesada optar entre o cumprimento forçado</p><p>ou o rompimento do contrato, desde que antes da sentença. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:</p><p><https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/908075ea2c025c335f4865f7db427062>. Acesso em: 13/12/2022</p><p>50</p><p>contratos para formar associações ou</p><p>sociedades, o acordo de acionista, a convenção de condomínio.</p><p>4</p><p>1.2. A TEORIA DO DIÁLOGO DAS FONTES. DIÁLOGOS ENTRE O CÓDIGO DE DEFESA</p><p>DO CONSUMIDOR E O CÓDIGO CIVIL DE 2002 EM RELAÇÃO AOS CONTRATOS</p><p>Com base nos ensinamentos do professor Flávio Tartuce2, “Diante da valorização da pessoa e dos três</p><p>princípios do Direito Civil Constitucional (dignidade da pessoa humana, solidariedade social e igualdade em</p><p>sentido amplo), não se pode olvidar que houve uma forte aproximação entre dois sistemas legislativos</p><p>importantes para os contratos, sendo certo que tanto o Código Civil de 2002 quanto o Código de Defesa do</p><p>Consumidor consagram uma principiologia social do contrato”.</p><p>Tartuce continua:</p><p>"Tem-se defendido já há um certo tempo um diálogo das fontes entre o Código Civil e o Código de Defesa do</p><p>Consumidor. Por meio desse diálogo, deve-se entender que os dois sistemas não se excluem, mas, muitas</p><p>vezes, se complementam (diálogo de complementaridade). A tese foi trazida para o Brasil por Claudia Lima</p><p>Marques, a partir dos ensinamentos que lhe foram transmitidos por Erik Jayme, professor da Universidade de</p><p>Heidelberg, Alemanha. (...)</p><p>A aplicação do diálogo das fontes justifica-se no Brasil diante de uma aproximação principiológica entre os dois</p><p>sistemas legislativos (CDC e CC/2002), principalmente no que tange aos contratos. Sobre essa aproximação, foi</p><p>aprovado o Enunciado n. 167 na III Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal e pelo</p><p>Superior Tribunal de Justiça, em dezembro de 2004 (“Com o advento do Código Civil de 2002, houve forte</p><p>aproximação principiológica entre esse Código e o Código de Defesa do Consumidor, no que respeita à</p><p>regulação contratual, uma vez que ambos são incorporadores de uma nova teoria geral dos contratos”).”</p><p>1.3 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DOS CONTRATOS. A ESCADA PONTEANA</p><p>O contrato constitui um negócio jurídico bilateral ou plurilateral. Assim sendo, os elementos</p><p>constitutivos dos contratos são os mesmos do negócio jurídico. Para Pontes de Miranda o negócio jurídico, e</p><p>consequentemente o contrato, é dividido em 3 planos:</p><p>● Plano da existência: “No plano da existência estão os pressupostos para um negócio jurídico, ou seja, os</p><p>seus elementos mínimos, seus pressupostos fáticos, enquadrados dentro dos elementos essenciais do</p><p>negócio jurídico. Nesse plano há apenas substantivos sem adjetivos, ou seja, sem qualquer qualificação</p><p>(elementos que formam o suporte fático). Esses substantivos são: agente, vontade, objeto e forma.</p><p>Não havendo algum desses elementos, o negócio jurídico é inexistente”3</p><p>● Plano da validade: “No segundo plano, o da validade, as palavras indicadas ganham qualificações, ou</p><p>seja, os substantivos recebem adjetivos, a saber: agente capaz; vontade livre, sem vícios; objeto</p><p>lícito, possível, determinado ou determinável e forma prescrita e não defesa em lei.”4</p><p>4 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>3 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>2 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>5</p><p>● Plano da eficácia: “No plano da eficácia estão os elementos relacionados com as consequências do</p><p>negócio jurídico, ou seja, com a suspensão e a resolução de direitos e deveres relativos ao contrato,</p><p>caso da condição, do termo, do encargo, das regras relacionadas com o inadimplemento, dos juros, da</p><p>multa ou cláusula penal, das perdas e danos, da resolução, da resilição, do registro imobiliário e da</p><p>tradição (em regra). De outra forma, nesse plano estão as questões relativas às consequências e aos</p><p>efeitos gerados pelo negócio em relação às partes e em relação a terceiros.”5</p><p>2. REQUISITOS DE VALIDADE DOS CONTRATOS</p><p>Para que o negócio jurídico produza efeitos é necessário que preencha certos requisitos,</p><p>apresentados como validade. Se os possui, é válido e dele decorrem os mencionados efeitos almejados pelo</p><p>agente. Se faltar-lhe algum dos requisitos, o negócio é inválido, não produz o efeito jurídico em questão e é nulo</p><p>ou anulável6.</p><p>Para melhor visualizar os requisitos ou condições de validade dos contratos, Carlos Roberto Gonçalves</p><p>(2021, NP) fez o seguinte esquema:</p><p>REQUISITOS DE VALIDADE DOS CONTRATOS</p><p>DE ORDEM GERAL DE ORDEM ESPECIAL</p><p>■ Capacidade do agente;</p><p>■ Objeto lícito, possível, determinado ou</p><p>determinável;</p><p>■ Forma prescrita ou não defesa em lei.</p><p>■ Consentimento recíproco ou acordo de vontades.</p><p>Desta forma, Gonçalves (2021, NP) distribui os requisitos de validade do contrato em 3 grupos:</p><p>requisitos subjetivos, requisitos objetivos e requisitos formais.</p><p>2.1. REQUISITOS SUBJETIVOS</p><p>Os requisitos subjetivos consistem em:</p><p>2.1.1. CAPACIDADE</p><p>É livre a contratação entre aqueles que gozam da plena capacidade civil, ou seja, que tenham 18 anos</p><p>6 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>5 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>6</p><p>ou mais ou que sejam emancipados. Também, em alguns casos, exige-se a capacidade negocial ou contratual,</p><p>como por exemplo, a necessidade da pessoa casada no regime de comunhão universal obter a autorização do</p><p>cônjuge para alienar bem imóvel. A ausência de capacidade é causa de nulidade ou anulabilidade do contrato, a</p><p>depender do grau do vício.</p><p>No tocante às pessoas jurídicas, exige-se a intervenção de quem os seus estatutos indicaram para</p><p>representá-las ativa e passivamente, judicial ou extrajudicialmente.</p><p>2.1.2. MANIFESTAÇÃO DE VONTADE</p><p>É o consentimento livre e desembaraçado, pelo qual as partes acordam em contratar, sobre o objeto</p><p>do contrato e sobre as cláusulas que o compõem. A ausência de consentimento é causa de inexistência do</p><p>contrato.</p><p>A manifestação de vontade nos contratos pode ser tácita quando a lei não exigir que seja expressa</p><p>(art. 111, CC). Expressa é a exteriorizada verbalmente, por escrito, gesto ou mímica, de forma inequívoca.</p><p>Algumas vezes, a lei exige o consentimento escrito como requisito de validade da avença.</p><p>Quanto ao silêncio, pode ser interpretado como manifestação tácita da vontade quando as</p><p>circunstâncias ou os usos o autorizarem e não for declaração de vontade expressa.</p><p>2.1.3. PLURALIDADE DE PARTES</p><p>Necessidade da presença de, pelo menos, duas partes para que seja formado o contrato.</p><p>2.1.4. CONSENTIMENTO7</p><p>O requisito de ordem especial, próprio dos contratos, é o consentimento recíproco ou acordo de</p><p>vontades. Deve abranger os seus três aspectos:</p><p>● Acordo sobre a existência e natureza do contrato (se um dos contratantes quer aceitar uma doação e o</p><p>outro quer vender, contrato não há);</p><p>● Acordo sobre o objeto do contrato; e</p><p>● Acordo sobre as cláusulas que o compõem (se a divergência recai sobre ponto substancial, não poderá</p><p>ter eficácia o contrato).</p><p>O consentimento deve ser livre e espontâneo, sob pena de ter sua validade afetada pelos vícios ou</p><p>defeitos do negócio jurídico: erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão e fraude.</p><p>2.2. REQUISITOS OBJETIVOS</p><p>2.2.1. POSSIBILIDADE FÍSICA OU JURÍDICA DO OBJETO</p><p>7 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>7</p><p>Na verdade, deve-se falar em ausência de impossibilidade material absoluta (objeto absurdo) ou</p><p>impossibilidade jurídica, quando o próprio direito não veda a pretensão (por haver ilicitude). Assim, não seria</p><p>contrato a compra e venda de entorpecentes, já que não atenderia um dos requisitos objetivos contratuais.</p><p>2.2.2. DETERMINAÇÃO DO SEU OBJETO</p><p>O objeto deve ser passível de determinação, ao menos no momento de sua execução. Caso ele seja</p><p>definitivamente</p><p>indeterminável, o contrato será inválido.</p><p>Outrossim, admite-se a venda de coisa incerta, indicada pelo gênero e pela quantidade (art. 243, CC),</p><p>que será determinada pela escolha, bem como venda alternativa, cuja indeterminação cessa com a</p><p>concentração (art. 252, CC).</p><p>2.2.3. ECONOMICIDADE</p><p>O objeto contratual deve ser avaliado em dinheiro. Caso não o seja, ao menos remotamente, haverá</p><p>invalidade contratual.</p><p>2.3. REQUISITO FORMAL</p><p>No Direito moderno, a regra é o consensualismo como suficiente para a validade formal do contrato.</p><p>As partes são livres para eleger a forma que desejarem. Entretanto, poderá a lei prescrever determinada forma,</p><p>seja escrita privada ou pública. Seu não atendimento pode levar à invalidade contratual.</p><p>Quando a lei exigir forma, diz respeito ao instrumento contratual, o qual não se confunde com o</p><p>contrato. O instrumento contratual é o suporte físico no qual está inserido o teor do contrato.</p><p>Carlos Roberto Gonçalves (2021, NP) afirma que há três espécies de formas, quais sejam: forma livre,</p><p>forma especial ou solene e forma contratual.</p><p>● FORMA LIVRE: É predominante no direito brasileiro (art. 107, CC), sendo qualquer meio de</p><p>manifestação de vontade não imposto obrigatoriamente pela lei;</p><p>● FORMA ESPECIAL OU SOLENE: É a exigida por lei como requisito de validade de determinados</p><p>negócios jurídicos;</p><p>● FORMA CONTRATUAL: É a convencionada pelas partes.</p><p>3. PRINCÍPIOS INFORMADORES DO CONTRATO</p><p>Princípios informadores são normas gerais e fundantes que fornecem os pilares de determinado</p><p>8</p><p>ramo do pensamento científico ou do ordenamento jurídico.</p><p>“Os princípios assumem um papel de grande importância na codificação privada brasileira em vigor.</p><p>Atualmente, é até comum afirmar que o vigente Código Civil Brasileiro é um Código de Princípios, tão grande a</p><p>sua presença na codificação vigente. (...)</p><p>Nessa realidade, os princípios podem ser conceituados como regramentos básicos aplicáveis a um</p><p>determinado instituto jurídico, no caso em questão, aos contratos. Os princípios são abstraídos das normas,</p><p>dos costumes, da doutrina, da jurisprudência e de aspectos políticos, econômicos e sociais.”8</p><p>3.1. PRINCÍPIOS CONTRATUAIS CLÁSSICOS</p><p>3.1.1. PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE OU DO CONSENSUALISMO</p><p>As partes têm total liberdade para contratar, respeitadas questões de ordem pública, questões legais</p><p>e o princípio geral da função social. Podem elas escolher por contratar ou não contratar; estabelecer as</p><p>cláusulas contratuais, buscar a tutela do Judiciário para fazer valer o contrato etc.</p><p>Conforme ensina Rubem Valente: “Nas relações negociais, vigora a liberdade contratual. Todo e</p><p>qualquer contrato pressupõe certa liberdade intelectual, pautada na ideia do consensualismo. Mesmo no</p><p>contrato de adesão, há certa liberdade, pois a parte escolhe se vai aderir ou não. Limita-se, contudo, a</p><p>autonomia privada prevista na lei, na boa-fé e no interesse social.”9</p><p>O contrato, uma vez celebrado, vale como fonte do direito, já que constitui uma obrigação lícita e</p><p>exigível entre as partes.</p><p>A liberdade contratual é prevista no art. 421 do Código Civil.</p><p>Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato.</p><p>Em matéria contratual, a doutrina distingue a autonomia privada em:</p><p>● LIBERDADE DE CONTRATAR: liberdade do agente escolher entre contratar ou não, bem como com</p><p>quem contratar. Atualmente, é praticamente pacífico que a liberdade não é absoluta. Exemplo: Salvo</p><p>justa causa, um fornecedor de serviços não pode se recusar a atender determinado consumidor.</p><p>● LIBERDADE CONTRATUAL: consiste na liberdade que têm os contratantes de estabelecer o conteúdo</p><p>do contrato. Encontra limites nas normas de ordem pública. Por exemplo, o art. 426 do CC estabelece</p><p>que não pode ser objeto de contrato a herança de pessoa viva. A Constituição Federal proíbe qualquer</p><p>comercialização de órgãos.</p><p>9 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>8 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th</p><p>edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>9</p><p>Dessa dupla liberdade do sujeito contratual (liberdade de contratar + liberdade contratual) é que</p><p>decorre a autonomia privada, que constitui a liberdade que a pessoa tem para regular os próprios interesses.</p><p>De qualquer forma, que fique claro que essa autonomia não é absoluta, encontrando limitações em normas de</p><p>ordem pública, de acordo com os ensinamentos de Flávio Tartuce10.</p><p>Como decorrência da liberdade das partes, o art. 425 reconhece a possibilidade de elas criarem</p><p>contratos atípicos.</p><p>Art. 425. É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código.</p><p>📌 OBSERVAÇÕES</p><p>■ Autonomia privada x Autonomia da vontade: De acordo com o professor Maurício Bunazar, por</p><p>influência de Kant, os autores tradicionais utilizam a expressão “autonomia da vontade”, que segundo Kant, é o</p><p>poder que tem a vontade de ser lei para si mesma. Norberto Bobbio ensina que a expressão “autonomia da</p><p>vontade” deve ser utilizada para o campo da moral, enquanto que a expressão “autonomia privada” deve ser</p><p>utilizada para o Direito. Segundo Bobbio, a autonomia privada é o poder que tem o agente de suscitar efeitos</p><p>jurídicos reconhecidos por lei.</p><p>■ O professor Carlos Elias lembra que o art. 421 do CC, antigamente, versava sobre a liberdade de</p><p>contratar, mas a Lei da Liberdade Econômica mudou esse artigo, que expressamente passou a colocar a</p><p>expressão “liberdade contratual”, seguindo o que a doutrina já considerava como um erro utilizar uma redação</p><p>diferente, estabelecendo um limite, qual seja, a função social.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado de Sergipe (Ano: 2022; CESPE), foi considerada correta a seguinte</p><p>assertiva: O princípio da função social do contrato, introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pelo Código</p><p>Civil de 2002, é limitador do princípio contratual de autonomia da vontade.</p><p>■ Intervenção mínima (Lei 13.874/2019): A nova redação do parágrafo único do art. 421 dispõe que</p><p>nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a excepcionalidade da</p><p>revisão contratual.</p><p>Essa previsão decorre de uma medida contra a constante intervenção judicial nas relações privadas</p><p>tendo como base cláusulas abertas e princípios, ou seja, um forte ativismo judicial no âmbito dos contratos que</p><p>há algum tempo se tornou comum no Brasil.</p><p>Lembra Carlos Elias que, na sua essência, a Lei da Liberdade Econômica procurou atacar esse</p><p>problema do ativismo judicial, o problema da insegurança jurídica, além, também, de ter atacado problemas</p><p>10 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th</p><p>edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>10</p><p>relacionados a burocracias.</p><p>Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. (LEI 13874/19)</p><p>Parágrafo único. Nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a</p><p>excepcionalidade da revisão contratual (LEI 13874/19)</p><p>Art. 421-A. Os contratos civis e empresariais presumem-se paritários e simétricos até a presença de</p><p>elementos concretos que justifiquem o afastamento dessa presunção, ressalvados os regimes jurídicos</p><p>previstos em leis especiais, garantido também que:(LEI 13874/19)</p><p>I - as partes negociantes poderão estabelecer parâmetros objetivos para a interpretação das cláusulas</p><p>negociais e de seus pressupostos de revisão ou de resolução; (LEI 13874/19)</p><p>II - a alocação de riscos definida pelas partes deve ser respeitada e observada; e (LEI 13874/19)</p><p>III - a revisão contratual somente ocorrerá de maneira excepcional e limitada. (LEI 13874/19)</p><p>O art. 421, parágrafo único do Código Civil que deve ser lido em conjunto com o art. 421-A,</p><p>estabeleceu algumas regras:</p><p>● PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA PARA OS CONTRATOS: o juiz deve prestigiar o pactuado, o que</p><p>as partes</p><p>pactuarem e deve se abster de intervir nos contratos, declarando nulas as cláusulas abertas</p><p>baseadas em princípios ou em outras normas muito abertas, não deve agir com o denominado</p><p>“dirigismo contratual” (quando o Estado tenta dirigir os contratos, quando o Estado é intervencionista</p><p>nos contratos);</p><p>● Há PRESUNÇÃO RELATIVA (ADMITE PROVA EM CONTRÁRIO) DE PARIDADE, de simetria entre as</p><p>partes de um contrato que devem ter o mesmo poder de negociação, que uma não pode ser mais</p><p>vulnerável do que a outra e ambas têm o mesmo acesso a informações. O que elas pactuaram foi fruto</p><p>de uma maturidade, de uma livre manifestação de vontade e a consequência prática disso é que o juiz</p><p>não deve intervir. A exceção ocorre na eventualidade da existência de elementos concretos que</p><p>demonstrem a vulnerabilidade de uma das partes.</p><p>A cláusula que desobriga uma das partes a remunerar a outra por serviços prestados na hipótese de rescisão</p><p>contratual não viola a boa-fé e a função social do contrato quando presente equilíbrio entre as partes</p><p>contratantes no momento da estipulação. STJ. 3ª Turma. REsp 1.799.039-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, Rel. Acd.</p><p>Min. Nancy Andrighi, julgado em 04/10/2022 (Info 754).</p><p>3.1.2. PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE OU PACTA SUNT SERVANDA</p><p>Por meio desse princípio, todo contrato tem força obrigatória, ou seja, o contrato faz lei entre as</p><p>partes. O fundamento histórico de seu surgimento é a igualdade entre as partes, a vontade entre os iguais faz</p><p>lei entre as partes. Nas palavras de Rubem Valente11:</p><p>11 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>11</p><p>“Também conhecido como princípio da força obrigatória dos contratos, dita que as partes não são obrigadas a</p><p>contratar, mas, uma vez que o façam, ficam obrigadas a cumprir suas cláusulas. É o que se traduz do famoso</p><p>brocardo jurídico pacta sunt servanda – os pactos devem ser cumpridos, porque o contrato faz lei entre as</p><p>partes.”</p><p>O contrato não mais poderá ser modificado após celebrado, salvo se as partes acordarem ou se</p><p>houver intervenção estatal.</p><p>Pelo princípio da autonomia da vontade, ninguém é obrigado a contratar, mas caso o faça, sendo</p><p>contrato válido e eficaz, devem cumpri-lo, não podendo se forrarem às suas consequências, a não ser com a</p><p>anuência do outro contraente. Como foram as partes que escolheram os termos do contrato e a ele se</p><p>vincularam, não cabe ao juiz preocupar-se com a severidade das cláusulas aceitas, que não podem ser atacadas</p><p>sob a invocação dos princípios da equidade. O princípio da obrigatoriedade do contrato significa, em essência, a</p><p>irreversibilidade da palavra empenhada12.</p><p>De acordo com a Teoria Preceptiva, que está ligada à função social do contrato, as obrigações</p><p>oriundas dos contratos obrigam não apenas porque as partes as assumiram, mas porque interessa à</p><p>sociedade a tutela de situação objetivamente gerada, por suas consequências econômicas e sociais. É como</p><p>se a situação se desvinculasse dos sujeitos.</p><p>Esse princípio foi bastante relativizado porque atualmente a igualdade é uma exceção. Essa</p><p>relativização ocorreu especialmente em virtude da Teoria da Imprevisão.</p><p>📌 OBSERVAÇÕES</p><p>■ O fato de o contrato poder, em casos excepcionais, ser revisto, não significa dizer que ele deixou de</p><p>ser obrigatório. A modificação unilateral do contrato somente se admite se houver expressa disposição</p><p>contratual ou autorização legal.</p><p>■ O direito de arrependimento somente existirá se as partes estipularem ou em se tratando de relação</p><p>de consumo, tendo sido o produto adquirido fora do estabelecimento comercial.</p><p>3.1.2.1. TEORIA DA IMPREVISÃO</p><p>A teoria consiste no reconhecimento de que a ocorrência de acontecimento novo e imprevisível,</p><p>com impacto na base econômica do contrato, justificaria a sua revisão ou resolução.</p><p>A presente teoria somente interessa aos contratos de execução continuada ou de trato sucessivo,</p><p>ou seja, de médio ou longo prazo, uma vez que se mostraria inútil nos de consumação instantânea.</p><p>São requisitos da Teoria da Imprevisão:</p><p>● Superveniência de circunstância imprevisível: claro está, assim, que se a onerosidade excessiva</p><p>12 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>12</p><p>imposta a uma das partes inserir-se na álea de previsão contratual, não se poderá, em tal caso,</p><p>pretender-se mudar os termos da avença, eis que, na vida negocial, nada impede que uma das partes</p><p>tenha feito um “mau negócio”;</p><p>● Alteração da base econômica objetiva do contrato: a ocorrência da circunstância superveniente</p><p>altera a balança econômica do contrato, impondo a uma ou ambas as partes a onerosidade excessiva;</p><p>● Onerosidade excessiva: consequentemente, uma ou até mesmo ambas as partes experimentam um</p><p>aumento na gravidade econômica da prestação a que se obrigou. Com isso, podemos concluir que a</p><p>teoria da imprevisão não pressupõe, necessariamente, enriquecimento de uma parte em detrimento do</p><p>empobrecimento da outra. Isso porque a superveniência da circunstância não esperada poderá ter</p><p>determinado a onerosidade para ambas as partes, sem que, com isso, se afaste a aplicação da teoria.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>Sobre onerosidade excessiva, no concurso para Defensor Público do Estado de Roraima (Ano: 2021; FCC) foi</p><p>cobrada uma interessante questão, a qual transcrevemos na íntegra:</p><p>Paulo alugou um quiosque em um centro comercial na cidade de Boa Vista-RR, em janeiro de 2018, pelo valor</p><p>de R$ 2.000,00 (dois mil reais) mensais, além de pagamento de verbas condominiais e outras despesas. Com a</p><p>pandemia, o centro comercial permaneceu fechado por vários meses, em razão de restrições sanitárias</p><p>impostas pelas autoridades responsáveis. Durante todo esse tempo, Paulo não pôde explorar comercialmente</p><p>o ponto e ficou sem qualquer renda que auferia da atividade desenvolvida no local e ficou inadimplente com o</p><p>valor dos aluguéis e demais despesas. Em tal situação, Paulo</p><p>a) deverá alegar a aplicação do princípio da conservação contratual, da obrigatoriedade das disposições</p><p>contratuais.</p><p>b) deve se valer das normas protetivas do consumidor, diante de sua hipossuficiência, pois somente desta</p><p>forma terá proteção contra as circunstâncias imprevistas e a onerosidade excessiva.</p><p>c) poderá alegar a teoria da imprevisão, situação em que caberá somente o pedido de revisão dos termos</p><p>contratuais, mas não a resolução do contrato.</p><p>d) não poderá pleitear a revisão dos termos contratuais, pois não se aplicam ao caso as normas de proteção ao</p><p>consumidor.</p><p>e) poderá alegar a onerosidade excessiva, para pleitear a resolução ou revisão dos termos contratuais, mesmo</p><p>que não seja o caso de aplicação das regras de proteção ao consumidor. [correta]</p><p>● Contrato deve ser diferido ou de trato sucessivo ou continuado;</p><p>● Contrato seja pré-estimado: a prestação de cada uma das partes deve ser previamente conhecida.</p><p>Por isso que parcela significativa da doutrina entende não ser possível aplicar a Teoria da Imprevisão</p><p>aos contratos aleatórios.</p><p>Vejamos o que disciplina o Código Civil:</p><p>13</p><p>Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar</p><p>excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos</p><p>extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença</p><p>que a decretar retroagirão à data da citação.</p><p>Art. 479. A resolução poderá ser evitada, oferecendo-se o réu a modificar equitativamente as condições do</p><p>contrato.</p><p>Art. 480. Se no contrato as obrigações couberem a apenas uma das partes, poderá ela pleitear que a sua</p><p>prestação seja reduzida, ou alterado o modo de executá-la, a fim de evitar a onerosidade excessiva.</p><p>A teoria da imprevisão, traz a cláusula rebus sic stantibus, responsável pela mitigação do princípio da</p><p>obrigatoriedade. Nas palavras de Rubem Valente13, “Rebus sic stantibus significa “coisa assim ficar”, ou seja, o</p><p>contratante é obrigado a cumprir o contrato, mas apenas se a coisa</p><p>permanecer como à época em que foi</p><p>pactuada. Alterando-se as circunstâncias, o contrato deverá ser revisto.”</p><p>Continuando com os ensinamentos de Rubem Valente, é necessário que estejam presentes alguns</p><p>elementos para que seja verificada uma situação de aplicação da cláusula rebus sic stantibus, da teoria da</p><p>imprevisão ou da onerosidade excessiva:</p><p>● Contrato de execução continuada ou diferida: “a execução do contrato deve se prolongar no tempo,</p><p>ou seja, deve ser de execução continuada ou diferida no tempo. Acaso fosse de execução instantânea,</p><p>não haveria fato imprevisível superveniente a prejudicar seu cumprimento, pois suas prestações são</p><p>cumpridas no ato da celebração do contrato”.</p><p>● Prestação excessivamente onerosa e extrema vantagem para a outra parte: “apenas uma ou</p><p>ambas as partes experimentam um aumento na gravidade econômica da prestação a que se obrigou,</p><p>gerando o desequilíbrio contratual. Em regra, há vantagem excessiva para uma parte e onerosidade</p><p>demasiada para outra. Entretanto, a teoria não pressupõe necessariamente enriquecimento de uma</p><p>parte em detrimento do empobrecimento da outra. Parte da doutrina entende que a vantagem</p><p>excessiva pode ser dispensável em alguns casos, porém o Código Civil é categórico ao afirmar a</p><p>necessidade de a onerosidade excessiva gerar uma vantagem exagerada para a outra parte (arts. 478 a</p><p>480 do CC).”</p><p>● Fato superveniente e imprevisível: “a teoria só pode ser aplicada se o desequilíbrio entre as</p><p>prestações decorre de um fato superveniente, que as partes não podiam prever quando da celebração</p><p>do contrato. O fato tem que alterar a base econômica objetiva do contrato. Não se pode confundir os</p><p>institutos da lesão e do estado de perigo com a teoria da imprevisão, uma vez que neles o contrato já</p><p>surge viciado. A teoria da imprevisão só se emprega quando o contrato nasce válido, mas com o</p><p>decurso do tempo, por fato superveniente e imprevisível, desequilibraram-se as prestações.”</p><p>13 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>14</p><p>3.1.3. PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DOS EFEITOS OU RES INTER ALIOS ACTA</p><p>Como o contrato é consequência do exercício da autonomia privada, a regra é que somente as partes</p><p>do contrato é que sofrerão os efeitos dele. Disso decorre a regra segundo a qual o contrato produz efeitos entre</p><p>os contratantes, não beneficiando nem prejudicando terceiros (Res inter alios, tertivm neq nocet neq prodest).</p><p>Nas palavras do doutrinador Rubem Valente:</p><p>“Como regra geral, o contrato só produz efeitos entre as partes. É por isso que surgiu a afirmação de que o</p><p>direito contratual é inter partes (entre as partes), ao contrário dos direitos reais, que são direitos oponíveis</p><p>erga omnes (contra todos). Depreende-se desse princípio que o contratante só pode opor os direitos oriundos</p><p>do contrato ao outro contratante, e não a pessoas estranhas à relação contratual. Somente as partes podem</p><p>ter direitos e deveres frutos do contrato que celebraram.”14</p><p>Historicamente é apresentada como exceção à relatividade os chamados contratos em favor de</p><p>terceiros (arts. 436 a 438, CC). Por exemplo: seguro de vida. O que atualmente se discute é a possibilidade de</p><p>um contrato gerar consequências negativas para um terceiro, é a chamada “tutela externa do crédito”.</p><p>Conforme Maurício Bunazar, historicamente, o crédito sempre foi protegido contra o devedor e aí se</p><p>falava em “tutela interna”, pois era concedida na relação interna entre credor e devedor.</p><p>Por influência do direito francês, surgiu a teoria da tutela externa também chamada de “tutela contra</p><p>o terceiro cúmplice”. O terceiro cúmplice é o terceiro que colabora com o devedor para o descumprimento do</p><p>contrato. O Código Civil reconhece a possibilidade de sancionar o terceiro num caso específico conforme art.</p><p>608 do CC:</p><p>Art. 608. Aquele que aliciar pessoas obrigadas em contrato escrito a prestar serviço a outrem pagará a</p><p>este a importância que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, houvesse de caber durante dois anos.</p><p>3.1.3.1 EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DOS EFEITOS OU RES INTER</p><p>ALIOS ACTA</p><p>● CONTRATO COM PESSOA A DECLARAR, TAMBÉM CONHECIDO COMO CLÁUSULA PRO AMICO</p><p>ELEGENDO (Arts. 467 a 471, CC): Trata-se do contrato pactuado por uma das partes em nome de</p><p>terceiro, conhecido ou não no momento da celebração.</p><p>De acordo com o art. 468, a pessoa a declarar deve ser indicada nos cinco dias seguintes à celebração</p><p>do contrato, salvo se outro prazo tiver sido estipulado entre as partes.</p><p>Art. 468. Essa indicação deve ser comunicada à outra parte no prazo de 5 dias da conclusão do contrato,</p><p>14 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>15</p><p>se outro não tiver sido estipulado.</p><p>Uma vez nomeado o terceiro, o contrato produzirá efeitos normais em relação a ele, como se fora</p><p>parte contratante desde a celebração, ao que se denomina efeito retrooperante da aceitação ou eficácia ex</p><p>tunc.</p><p>Se não houver indicação da pessoa ou se o nomeado recusar o contrato, ou caso a pessoa nomeada</p><p>era insolvente ou incapaz à época da indicação e a outra parte o conhecia, o contrato será eficaz entre aquele</p><p>que indicou o terceiro e a outra parte.</p><p>Não se admite contrato com pessoa a declarar nas obrigações intuitu personae, nos contratos de</p><p>seguro, doação, entre outros.</p><p>● PROMESSA DE FATO DE TERCEIRO (Arts. 439 a 440, CC): Aqui, há uma relação jurídica entre duas</p><p>pessoas capazes e aptas a criar direitos e obrigações, as quais ajustam um negócio jurídico tendo por</p><p>objeto a prestação de um fato a ser cumprido por outra pessoa, não participante dele. Por exemplo, A</p><p>promete a B que C irá prestar-lhe um serviço.</p><p>Art. 439. Aquele que tiver prometido fato de terceiro responderá por perdas e danos, quando este o não</p><p>executar.</p><p>Parágrafo único. Tal responsabilidade não existirá se o terceiro for o cônjuge do promitente, dependendo</p><p>da sua anuência o ato a ser praticado, e desde que, pelo regime do casamento, a indenização, de algum</p><p>modo, venha a recair sobre os seus bens.</p><p>Art. 440. Nenhuma obrigação haverá para quem se comprometer por outrem, se este, depois de se ter</p><p>obrigado, faltar à prestação.</p><p>Celebrado o contrato, se o terceiro não aceitar a execução do fato prometido, o promitente</p><p>responderá por perdas e danos. Mas se o terceiro aceitar a incumbência e não a realizar, o promitente não será</p><p>responsabilizado.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Juiz de Direito do Estado de São Paulo (Ano: 2014; VUNESP), foi considerada incorreta a</p><p>seguinte assertiva: O promitente continua obrigado mesmo sem assumir solidariedade e tendo o terceiro se</p><p>comprometido no seu lugar.</p><p>O conteúdo da obrigação não é o fato de terceiro, e sim o compromisso deste, extinguindo-se a</p><p>obrigação do promitente assim que o terceiro assume o compromisso, ainda que torne-se inadimplente</p><p>perante a outra parte.</p><p>16</p><p>A única hipótese que o Código Civil prevê que desonera o promitente, não havendo obrigação de</p><p>indenizar pelo não aceite do terceiro, é quando o promitente promete um fato de terceiro cônjuge seu, cuja</p><p>promessa venha a recair sobre o patrimônio comum. Isso porque o terceiro seria indiretamente afetado ante a</p><p>punição do cônjuge-promitente. Isso, entretanto, depende do regime de casamento. Se for separação total ou</p><p>participação final nos aquestos com pacto antenupcial separatório, o promitente se obriga.</p><p>● ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO (Arts. 436 a 438, CC): Hipótese em que um terceiro, que não é</p><p>parte do contrato, é beneficiado por seus efeitos, podendo exigir o seu adimplemento.</p><p>Art. 436. O que estipula em favor de terceiro PODE EXIGIR O CUMPRIMENTO da obrigação.</p><p>Parágrafo único. Ao terceiro, em favor de quem se estipulou a obrigação, também é permitido exigi-la,</p><p>ficando, todavia, sujeito às condições e normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não o inovar nos</p><p>termos do art. 438.</p><p>Art. 437. Se ao terceiro, em favor de quem se fez o contrato, se deixar o direito de reclamar-lhe</p><p>a execução,</p><p>não poderá o estipulante exonerar o devedor.</p><p>Art. 438. O estipulante pode reservar-se o direito de substituir o terceiro designado no contrato,</p><p>independentemente da sua anuência e da do outro contratante.</p><p>Parágrafo único. A substituição pode ser feita por ato entre vivos ou por disposição de última vontade.</p><p>“Exemplo típico de estipulação em favor de terceiro é o que ocorre no contrato de seguro de vida, em</p><p>que consta terceiro como beneficiário. Esse contrato é celebrado entre segurado e seguradora, mas os efeitos</p><p>atingem um terceiro que consta do instrumento, mas que não o assina. Se ao terceiro, em favor de quem se fez</p><p>o contrato, se deixar o direito de reclamar-lhe a execução, não poderá o estipulante exonerar o devedor. Essa é</p><p>a regra do art. 437 do Código Civil.”15</p><p>Nesse tipo de contrato, os efeitos são de dentro para fora do contrato, ou seja, exógenos,</p><p>tornando-se uma clara exceção à relativização contratual. Exemplo típico é o contrato de seguro de vida, em</p><p>que consta um terceiro beneficiário. Esse contrato é celebrado entre segurado e seguradora, mas os efeitos</p><p>atingem um terceiro que consta do instrumento, mas que não assina.</p><p>3.2. PRINCÍPIOS CONTRATUAIS MODERNOS OU SOCIAIS</p><p>O Código Civil positivou dois princípios chamados sociais. Vejamos:</p><p>3.2.1. FUN��ÃO SOCIAL DO CONTRATO OU TEORIA PRECEPTIVA</p><p>Nas palavras de Flávio Tartuce16: “os contratos devem ser interpretados de acordo com a concepção</p><p>16 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>15 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>17</p><p>do meio social onde estão inseridos, não trazendo onerosidade excessiva às partes contratantes, garantindo</p><p>que a igualdade entre elas seja respeitada, mantendo a justiça contratual e equilibrando a relação onde houver</p><p>a preponderância da situação de um dos contratantes sobre a do outro”. É importante perceber o disposto nos</p><p>arts. 421 e 2.035, parágrafo único, do Código Civil:</p><p>Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato.</p><p>Parágrafo único. Nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a</p><p>excepcionalidade da revisão contratual.</p><p>Art. 2.035, Parágrafo único. Nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, tais</p><p>como os estabelecidos por este Código para assegurar a função social da propriedade e dos contratos.</p><p>Os contratos operam efeitos que extravasam a simples órbita dos contratantes; atinge, também,</p><p>reflexamente, a sociedade, razão pela qual devem ser protegidos. A contratação gera empregos, é causa de</p><p>arrecadação de tributos, faz a economia do país se desenvolver, causa vínculos entre os particulares, faz circular</p><p>riquezas etc.</p><p>Assim, há todo um interesse social na preservação dos contratos, os quais deverão, sempre que</p><p>possível, ser mantidos, se não no todo, ao menos em partes. A revisão será sempre preferível à resolução.</p><p>A função social deve ser visualizada com o sentido de finalidade coletiva, sendo efeito do princípio a</p><p>mitigação ou relativização da força obrigatória das convenções, na linha de se considerar possível a intervenção</p><p>do Estado nos contratos, especialmente nos casos de abuso ou de excessos de uma parte perante a outra17.</p><p>Após alguma divergência doutrinária, prevaleceu a teoria de que a função social tem dupla eficácia:</p><p>● EFICÁCIA INTERNA: Estabelece que o contrato deve gerar, entre os contratantes, trocas úteis e justas,</p><p>não podendo significar o enriquecimento de uma às custas da ruína do outro.</p><p>Parte da doutrina estabelece que a eficácia interna impõe o princípio da justiça contratual ou</p><p>equilíbrio da prestação.</p><p>O professor Junqueira de Azevedo ensina que este princípio pode servir de fundamento à Teoria da</p><p>perda de base objetiva do negócio jurídico.</p><p>● EFICÁCIA EXTERNA: O contrato deve ser socialmente útil. O princípio impede que o contrato seja fonte</p><p>de prejuízos para a sociedade. Viola a função social, por exemplo, um contrato que cause dano</p><p>ambiental insuportável, aumento abusivo de preços, concorrência desleal, monopólio ilícito, entre</p><p>outros.</p><p>3.2.1.1. ENUNCIADOS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO</p><p>● JDC Enunciado 21: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, constitui</p><p>cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a</p><p>17 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>18</p><p>terceiros, implicando a tutela externa do crédito.</p><p>● JDC Enunciado 22: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, constitui</p><p>cláusula geral que reforça o princípio de conservação do contrato, assegurando trocas úteis e justas.</p><p>● JDC Enunciado 23: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, não elimina o</p><p>princípio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance desse princípio quando presentes</p><p>interesses metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade da pessoa humana.</p><p>● JDC Enunciado 166: A frustração do fim do contrato, como hipótese que não se confunde com a</p><p>impossibilidade da prestação ou com a excessiva onerosidade, tem guarida no Direito brasileiro pela</p><p>aplicação do art. 421 do Código Civil.</p><p>● JDC Enunciado 167: Com o advento do Código Civil de 2002, houve forte aproximação</p><p>principiológica entre esse Código e o Código de Defesa do Consumidor no que respeita à regulação</p><p>contratual, uma vez que ambos são incorporadores de uma nova teoria geral dos contratos.</p><p>● JDC Enunciado 360: O princípio da função social dos contratos também pode ter eficácia interna entre</p><p>as partes contratantes.</p><p>● JDC Enunciado 361: O adimplemento substancial decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a</p><p>fazer preponderar a função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação do</p><p>art. 475.</p><p>● JDC Enunciado 431: A violação do art. 421 conduz à invalidade ou à ineficácia do contrato ou de</p><p>cláusulas contratuais.</p><p>● JDC Enunciado 582: Com suporte na liberdade contratual e, portanto, em concretização da</p><p>autonomia privada, as partes podem pactuar garantias contratuais atípicas.</p><p>● JDC Enunciado 621: Os contratos coligados devem ser interpretados a partir do exame do</p><p>conjunto das cláusulas contratuais, de forma a privilegiar a finalidade negocial que lhes é comum.</p><p>● JDC Enunciado 631: Como instrumento de gestão de riscos na prática negocial paritária, é lícita a</p><p>estipulação de cláusula que exclui a reparação por perdas e danos decorrentes do inadimplemento</p><p>(cláusula excludente do dever de indenizar) e de cláusula que fixa valor máximo de indenização</p><p>(cláusula limitativa do dever de indenizar).</p><p>3.2.2. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ E PROBIDADE</p><p>O art. 422 do Código Civil preceitua que:</p><p>Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os</p><p>princípios de PROBIDADE e BOA-FÉ. [FUNÇÃO INTEGRATIVA]</p><p>O princípio da boa-fé exige que as partes se comportem de forma correta não só durante as tratativas</p><p>como também durante a formação e o cumprimento do contrato.</p><p>19</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Promotor de Justiça do Estado de Santa Catarina (MPE-SC, Ano: 2021; CESPE), foi considerada</p><p>incorreta a seguinte assertiva: Na interpretação contratual integrativa, objetiva-se descobrir a intenção das</p><p>partes no momento da celebração do contrato.</p><p>O princípio da boa-fé se biparte em: boa-fé objetiva e boa-fé subjetiva.</p><p>Rubem Valente faz os seguintes apontamentos: “Existem duas modalidades de boa-fé: a subjetiva</p><p>(estado psicológico de inocência, no qual o indivíduo ignora o possível vício, a pessoa não sabe do vício – um</p><p>bom exemplo é a posse de boa-fé) e a objetiva (cláusula geral implícita em todos os contratos, com status</p><p>principiológico, pois traduz uma regra</p><p>de conteúdo ético e exigibilidade jurídica). A boa-fé que rege os contratos</p><p>é a objetiva, pois é mais segura, uma vez que não depende do que pensa o outro contratante, mas da</p><p>verificação da sua conduta, ou seja, se o contratante agiu seguindo um comportamento eticamente esperado. A</p><p>quebra da boa-fé objetiva configura uma violação de um dos deveres anexos do contrato, gerando</p><p>responsabilidade civil objetiva.”18</p><p>🤓 APROFUNDANDO: PANDEMIA</p><p>Anderson Schreiber (2021, NP) apontou comentários quanto a boa-fé durante o período de pandemia,</p><p>vejamos:</p><p>A boa-fé objetiva impõe uma conduta proativa dos contratantes, com vistas à renegociação de contratos</p><p>afetados pela pandemia nas hipóteses de desequilíbrio contratual superveniente, impossibilidade temporária</p><p>da prestação e frustração temporária do fim contratual. A boa-fé objetiva também impõe, por outro lado, que</p><p>o contratante que não sofre impacto concreto em seu contrato abstenha-se de invocar, artificialmente, a</p><p>pandemia para fins de obtenção de vantagens injustificadas. Vale dizer: a invocação abusiva da pandemia,</p><p>tumultuando o programa contratual, também exprime violação à boa-fé objetiva, a deflagrar as consequências</p><p>previstas em nossa legislação, em especial as tutelas inibitória e reparatória.</p><p>3.2.2.1. BOA-FÉ SUBJETIVA19</p><p>A boa-fé subjetiva diz respeito ao conhecimento ou à ignorância da pessoa em relação a certos fatos,</p><p>sendo levada em consideração pelo direito para os fins específicos da situação regulada.</p><p>Diz-se subjetiva, pois, para a sua aplicação, deve o intérprete considerar a intenção do sujeito da</p><p>relação jurídica, o seu estado psicológico ou a íntima convicção.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>19 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Esquematizado - Vol. 01. 11. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2021. NP.</p><p>18 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado . Disponível em: Minha Biblioteca, (2ª edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>20</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado da Bahia (Ano: 2016; FCC), foi considerada incorreta a seguinte</p><p>assertiva: A boa-fé, como cláusula geral contemplada pelo Código Civil de 2002, apresenta duas vertentes, isto</p><p>é, a boa-fé subjetiva, que depende da análise da consciência subjetiva do agente, e a boa-fé objetiva, como</p><p>standard de comportamento.</p><p>Cuidado! Apesar de a cláusula geral de boa-fé não estar relacionada com a vertente subjetiva, isso não significa</p><p>que o Código Civil não tenha previsto hipóteses de boa-fé subjetiva. Como exemplo, temos a aferição de lapso</p><p>temporal na usucapião ordinária.</p><p>3.2.2.2. BOA-FÉ OBJETIVA</p><p>A boa-fé objetiva significa agir com lealdade, honrar a palavra dada, externalizar um comportamento</p><p>leal.</p><p>A boa-fé objetiva desempenha diversas funções no sistema, e embora o art. 422 do CC faça menção</p><p>apenas aos momentos de conclusão e execução do contrato, é praticamente unânime, na doutrina, que a</p><p>boa-fé objetiva disciplina também os momentos anterior e posterior ao contrato.</p><p>Inclusive, o Código de Defesa do Consumidor não é somente um conjunto de artigos que protege o</p><p>consumidor a qualquer custo. Antes de tudo, ele é um instrumento legal que pretende harmonizar as relações</p><p>entre fornecedores e consumidores, sempre com base nos princípios da boa-fé e do equilíbrio contratual.</p><p>A doutrina e a jurisprudência reconhecem que a boa-fé desempenha três principais funções:</p><p>● FUNÇÃO INTERPRETATIVA: O art. 113, citado acima, consagra os princípios da eticidade e da</p><p>socialidade. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua</p><p>celebração.</p><p>Interpretar de boa-fé significa, pelo menos, buscar a finalidade do contrato. Nesse sentido, o art. 112</p><p>do CC faz menção à intenção consubstanciada no negócio jurídico.</p><p>Art. 112. Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido</p><p>literal da linguagem.</p><p>● FUNÇÃO SUPLETIVA OU DE INTEGRAÇÃO: O contrato é formado por manifestação de vontade e é</p><p>muito comum que ele seja incompleto. Exemplo: não estabeleça o local do pagamento.</p><p>Neste caso, existem dois principais meios de integração do contrato.</p><p>O primeiro deles é por meio das chamadas leis supletivas, por exemplo, as que estabelecem que salvo</p><p>disposição contrária, a dívida deve ser paga no domicílio do devedor, ou ainda as que estabelecem que o</p><p>acessório segue o principal.</p><p>Quando as partes não se manifestarem e não houver lei supletiva, a boa-fé funciona suprimindo estas</p><p>ausências por meio da criação dos chamados deveres anexos ou bilaterais de conduta. Exemplo: dever de</p><p>informação, segurança, sigilo, colaboração.</p><p>21</p><p>Os deveres anexos estão presentes em todas as fases da obrigação, ou seja, no momento anterior à</p><p>celebração do contrato, na conclusão e posterior ao contrato.</p><p>A violação da boa-fé objetiva na fase ANTERIOR à formação do contrato dá origem à chamada</p><p>responsabilidade por culpa in contraendo. Por exemplo: ruptura injustificada das negociações, ou falta de</p><p>informações precisas.</p><p>⚠ ATENÇÃO: Há na doutrina divergência sobre a natureza jurídica da responsabilidade civil no caso de culpa</p><p>in contraendo.</p><p>Autores como MENEZES CORDEIRO, entendem que se trata de responsabilidade civil contratual,</p><p>porque o objetivo é proteger o valor “confiança”. Outros autores, como o professor CRISTIANO ZANETTI,</p><p>entendem que a responsabilidade civil é extracontratual até porque ainda não existe contrato.</p><p>Quando a boa-fé é violada DEPOIS que o contrato já foi extinto, a doutrina faz menção à</p><p>responsabilidade civil pos pactum finitum, o que, segundo MENEZES CORDEIRO, seria caso de pós-eficácia do</p><p>contrato.</p><p>Mesmo terminado o contrato, a parte pode se ver obrigada a prestar esclarecimentos. Exemplos: O</p><p>arquiteto contratado para fazer projeto de obra é obrigado a fornecer informações caso seja solicitado; mesmo</p><p>após transitar em julgado o processo, o advogado continua obrigado a manter sigilo.</p><p>● FUNÇÃO REATIVA: Nesta função, a boa-fé funciona afastando condutas desleais por frustrarem justas</p><p>expectativas criadas na outra parte.</p><p>A palavra “justa expectativa” significa expectativa tutelável pelo direito.</p><p>A doutrina e a jurisprudência desenvolveram as chamadas “figuras parcelares” da boa-fé objetiva,</p><p>afastando específicas posturas que frustram a lealdade. Entre estas figuras, destacam-se:</p><p>3.2.2.2.1. VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIVM (NO POTEST)</p><p>É também chamada de "teoria dos atos próprios” ou "proibição do comportamento contraditório''.</p><p>Caracteriza-se quando há, por parte do mesmo agente, duas condutas, as quais, isoladamente</p><p>consideradas, são lícitas, porém, a segunda conduta passa a ser considerada ilícita porque frustra as justas</p><p>expectativas geradas pela primeira.</p><p>Flávio Tartuce (apud Anderson Schreider, 2022, NP), estabelece que podem ser apontados quatro</p><p>pressupostos para a aplicação do comportamento contraditório:</p><p>● Um fato próprio, uma conduta inicial;</p><p>● A legítima confiança de outrem na conservação do sentido objetivo dessa conduta;</p><p>● Um comportamento contraditório com este sentido objetivo; e</p><p>● Um dano ou um potencial de dano decorrente da contradição.</p><p>22</p><p>JDC Enunciado 362: A vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) funda-se na</p><p>proteção da confiança, tal como se extrai dos arts. 187 e 422 do Código Civil.</p><p>O caso paradigma no Brasil ficou conhecido como “caso CICA e os plantadores de tomate”.</p><p>A CICA doou sementes de tomate a agricultores, os quais aceitaram a doação, plantaram as sementes</p><p>e ofereceram a safra para a CICA que a comprou. Este fato se repetiu por várias vezes até que em certo ano, a</p><p>CICA fez a doação, mas se recusou a comprar a safra.</p><p>O TJRS entendeu que a postura da CICA frustrou as justas expectativas que a doação causou nos</p><p>agricultores.</p><p>3.2.2.2.2. TU QUOQUE</p><p>Revela a surpresa diante do comportamento de quem viola o Direito e depois quer se beneficiar da</p><p>vantagem que a norma jurídica, que ele violou, lhe traria.</p><p>Menezes Cordeiro usa a expressão “dois pesos, duas medidas”.</p><p>Exemplo: aquele que viola a Lei n.º 14.133/21 fraudando licitações não pode invocar</p><p>o dispositivo da</p><p>lei em sua defesa.</p><p>Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça julgou não haver ilicitude na conduta de incorporadora em recusar a</p><p>entrega das chaves, tendo em vista a cláusula contratual que condicionava essa entrega ao pagamento do</p><p>saldo devedor, que não havia sido efetivado. No caso concreto, porém, houve atraso na entrega do imóvel</p><p>pela promitente vendedora, o que ensejaria um direito de indenização à parte contrária, por lucros cessantes.</p><p>Porém, julgou-se pela necessidade “de se fazer distinção para o caso concreto, tendo em vista o</p><p>comportamento contraditório dos promitentes compradores, que buscaram reprovação para o atraso da</p><p>incorporadora, pleiteando lucros cessantes, mas também praticaram conduta reprovável contratualmente, ao</p><p>deixarem de quitar o saldo devedor após a obtenção do ‘Habite-se’. Aplicação do princípio da boa-fé objetiva</p><p>ao caso, na concreção da fórmula jurídica ‘tu quoque’” (STJ, REsp 1.823.341/SP, 3.ª Turma, Rel. Min. Paulo de</p><p>Tarso Sanseverino, j. 05.05.2020, DJe 11.05.2020)20.</p><p>3.2.2.2.3. SUPRESSIO/VERWIRKUNG</p><p>Consiste na perda de uma posição jurídica ativa (vantagem) pelo fato de o seu não exercício durante</p><p>considerável lapso temporal fazer nascer, na outra parte, a justa expectativa de que não mais seria exercida.</p><p>A perda da posição jurídica para um, implica a aquisição da vantagem para o outro por meio da</p><p>surrectio (erwirking).</p><p>Flávio Tartuce (2022, NP) diz que “enquanto a supressio constitui a perda de um direito ou de uma</p><p>posição jurídica pelo seu não exercício no tempo; a surrectio é o surgimento de um direito diante de práticas,</p><p>20 TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Método, 2022. NP.</p><p>23</p><p>usos e costumes”. Afirma ainda que ambos os conceitos podem ser extraídos do art. 330 do CC.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado do Acre (Ano: 2017; CESPE); foi considerada correta a seguinte</p><p>assertiva: Em uma relação de consumo, foi estabelecido que o pagamento deveria ser realizado de determinada</p><p>maneira. No entanto, após certo tempo, o pagamento passou a ser feito, reiteradamente, de outro modo, sem que o</p><p>credor se opusesse à mudança. Nessa situação, considerando-se a boa-fé objetiva, para o credor ocorreu o que se</p><p>denomina supressio.</p><p>3.2.2.2.4. EXCEPTIO DOLI21</p><p>É conceituada como a defesa do réu contra ações dolosas, contrárias à boa-fé. Aqui a boa-fé objetiva é</p><p>utilizada como defesa, tendo uma importante função reativa.</p><p>A exceção mais conhecida é a prevista no art. 476, CC, a exceptio non adimpleti contractus, pela qual</p><p>ninguém pode exigir que uma parte cumpra com a sua obrigação se primeiro não cumprir com a própria.</p><p>Art. 476. Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o</p><p>implemento da do outro.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso para Defensor Público do Estado de Goiás (Ano: 2021; FCC), foi considerada correta a seguinte</p><p>assertiva: A exceptio non adimpleti contractus é aplicável somente aos contratos sinalagmáticos.</p><p>(...) A exceção de contrato não cumprido somente pode ser oposta quando a lei ou o próprio contrato não</p><p>determinar a quem cabe primeiro cumprir a obrigação. Estabelecida a sucessividade do adimplemento, o</p><p>contraente que deve satisfazer a prestação antes do outro não pode recusar-se a cumpri-la sob a conjectura</p><p>de que este não satisfará a que lhe corre. Já aquele que detém o direito de realizar por último a prestação</p><p>pode postergá-la enquanto o outro contratante não satisfizer sua própria obrigação. A recusa da parte em</p><p>cumprir sua obrigação deve guardar proporcionalidade com a inadimplência do outro, não havendo de se</p><p>cogitar da arguição da exceção de contrato não cumprido quando o descumprimento é parcial e mínimo. (...)</p><p>(STJ, REsp 981.750/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 13.04.2010)</p><p>Um promitente comprador poderá deixar de pagar as parcelas previstas em contrato alegando a exceptio non</p><p>adimpleti contractus (exceção do contrato não cumprido) se o promitente vendedor não entregar o bem</p><p>objeto do negócio no prazo previsto, havendo receio concreto de que ele não transferirá o imóvel ao</p><p>promitente comprador.</p><p>21 TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Método, 2022. NP.</p><p>24</p><p>STJ. 3ª Turma. REsp 1193739-SP, Rel. Min. Massami Uyeda, julgado em 3/5/2012 (Info 496).22</p><p>3.2.2.2.5. DUTY TO MITIGATE THE LOSS23</p><p>Trata-se do dever imposto ao credor de mitigar suas perdas, ou seja, o próprio prejuízo. Sobre essa</p><p>premissa foi aprovado o enunciado 169 do CJF, vejamos:</p><p>O princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo.</p><p>3.2.2.2.6. NACHFRIST24</p><p>É conhecido como “extensão de prazo”. Trata-se da concessão de um prazo adicional ao período ou</p><p>período de carência pelo comprador para que o vendedor cumpra a obrigação, o que tem o intuito de</p><p>conservar a avença.</p><p>3.2.2.2.7. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL</p><p>Conforme lição do Professor Márcio Cavalcante25:</p><p>Em um contrato, se uma parte descumpre a sua obrigação, a parte credora terá, em regra, duas</p><p>opções:</p><p>1. poderá exigir o cumprimento da prestação que não foi adimplida; ou</p><p>2. pedir a resolução (“desfazimento”) do contrato.</p><p>Além disso, tanto em um caso como no outro, ela poderá também pedir o pagamento de eventuais</p><p>perdas e danos que comprove ter sofrido. Isso está previsto no art. 475 do Código Civil:</p><p>Art. 475. A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir exigir-lhe o</p><p>cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e danos.</p><p>A teoria do adimplemento substancial tem por objetivo mitigar o que foi explicado acima. Segundo essa</p><p>teoria, se a parte devedora cumpriu quase tudo que estava previsto no contrato (ex: eram 48 prestações, e ela</p><p>pagou 46), então, neste caso, a parte credora não terá direito de pedir a resolução do contrato porque, como</p><p>faltou muito pouco, o desfazimento do pacto seria uma medida exagerada, desproporcional, injusta e violaria a</p><p>boa-fé objetiva.</p><p>Desse modo, havendo adimplemento substancial (adimplemento de grande parte do contrato), o</p><p>credor teria apenas uma opção: exigir do devedor o cumprimento da prestação (das prestações) que ficou</p><p>25 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Não se aplica a teoria do adimplemento substancial aos contratos de alienação fiduciária em garantia regidos pelo DL 911/69. Buscador</p><p>Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/3c565485bbd2c54bb0ebe05c7ec741fc>. Acesso em: 12/12/2022</p><p>24 TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Método, 2022. NP.</p><p>23 TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Método, 2022. NP.</p><p>22 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Exceção do contrato não cumprido. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:</p><p><https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/1e056d2b0ebd5c878c550da6ac5d3724>. Acesso em: 13/12/2022</p><p>25</p><p>(ficaram) inadimplida(s) e pleitear eventual indenização pelos prejuízos que sofreu.</p><p>Veja o clássico conceito de Clóvis do Couto e Silva:</p><p>Adimplemento substancial “constitui um adimplemento tão próximo ao resultado final, que, tendo-se em vista</p><p>a conduta das partes, exclui-se o direito de resolução, permitindo-se tão somente o pedido de indenização</p><p>e/ou adimplemento, de vez que a primeira pretensão viria a ferir o princípio da boa-fé (objetiva)" (O Princípio</p><p>da Boa-Fé no Direito Brasileiro e Português in Estudos de Direito Civil Brasileiro e Português. São Paulo: RT,</p><p>1980, p. 56).</p><p>A origem desta teoria remonta o Direito Inglês do séc. XVIII, tendo lá recebido o nome de "substancial</p><p>performance".</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No que tange ao adimplemento substancial, no concurso para Promotor de Justiça do Estado de Goiás (Ano:</p><p>2019; Banca Própria), foram consideradas incorretas as seguintes assertivas:</p><p>“A teoria do adimplemento substancial está expressamente prevista no ordenamento jurídico brasileiro”</p><p>[Incorreta, pois a teoria do adimplemento substancial</p><p>é construção da doutrina e jurisprudência, não possuindo</p><p>previsão legal em nosso ordenamento]</p><p>“O uso da teoria do adimplemento substancial pode ser estimulado a ponto de preservar os interesses do</p><p>credor e do devedor, pois, a longo prazo, seus efeitos colaterais podem auxiliar na manutenção dos custos da</p><p>contratação.”</p><p>[Incorreta, pois a longo prazo seus efeitos colaterais podem aumentar o custo da contratação, além de</p><p>beneficiar mais o devedor que o credor]</p><p>“Na Inglaterra, onde surgiu a teoria, os autores ingleses formularam dois requisitos para admitir a substantial</p><p>performance: insignificância do inadimplemento e satisfação do interesse creditório.”</p><p>[Incorreta. Na verdade, são três requisitos para admitir a substantial performance: a) insignificância do</p><p>inadimplemento; b) satisfação do interesse do credor; e c) diligência por parte do devedor no desempenho de</p><p>sua prestação, ainda que a mesma se tenha operado imperfeitamente.]</p><p>3.3. RESUMO ESQUEMÁTICO26</p><p>26 Com base no livro: Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th</p><p>edição). Grupo GEN, 2022.</p><p>26</p><p>PRINCÍPIOS CONTRATUAIS</p><p>AUTONOMIA PRIVADA</p><p>Direito que a pessoa tem de regular os próprios interesses;</p><p>Decorre da dignidade humana;</p><p>Substitui a autonomia da vontade.</p><p>FUNÇÃO SOCIAL DOS</p><p>CONTRATOS</p><p>Princípio de ordem pública pela qual o contrato deve ser necessariamente</p><p>interpretado e visualizado de acordo com o contexto da sociedade (eficácia</p><p>interna e externa).</p><p>FORÇA OBRIGATÓRIA</p><p>DO CONTRATO (PACTO</p><p>SUNT SERVANDA)</p><p>O contrato faz lei entre as partes.</p><p>Este princípio encontra-se mitigado pela função social do contrato e boa-fé</p><p>objetiva.</p><p>BOA FÉ OBJETIVA</p><p>(CONDUTA DE</p><p>LEALDADE DOS</p><p>CONTRATANTES)</p><p>3 funções:</p><p>Interpretação (art. 113 do CC)</p><p>Controle (art. 187 do CC)</p><p>Integração (art. 422 do CC)</p><p>RELATIVIDADE DOS</p><p>EFEITOS (EFEITOS INTER</p><p>PARTES)</p><p>Exceções:</p><p>Estipulação em favor de terceiro.</p><p>Promessa de fato de terceiro.</p><p>Consumidor "bystander"</p><p>Tutela externa do crédito</p><p>4. FORMAÇÃO DOS CONTRATOS</p><p>4.1. NEGOCIAÇÕES PRELIMINARES - Arts. 427 a 435, CC</p><p>São conversas prévias, sondagens, debates em que despontam o interesse de cada um, tendo em</p><p>vista o contrato futuro. Não há qualquer vinculação jurídica entre os agentes, ainda que existam projetos ou</p><p>minutas. Segundo Flávio Tartuce27, “Essa é a fase em que ocorrem debates prévios, entendimentos, tratativas</p><p>ou conversações sobre o contrato preliminar ou definitivo.”</p><p>Porém, poderá haver responsabilização civil de uma das partes caso cause danos à outra durante as</p><p>preliminares, quando nela induzir crença tal que celebrará o contrato que a faça assumir despesas, deixar de</p><p>27 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>27</p><p>contratar com outrem, etc. É um ilícito genérico.</p><p>O rompimento injustificado das negociações que cause dano também é passível de gerar a</p><p>responsabilização.</p><p>São os seguintes os elementos que devem estar presentes para que seja configurado o dano</p><p>pré-contratual:</p><p>● Existência de negociações preliminares;</p><p>● Conduta de uma das partes deve ser antijurídica;</p><p>● Ocorrência de dano, seja material ou moral;</p><p>● Existência de dolo ou culpa por parte de quem cause o dano;</p><p>● Nexo causal entre a conduta culpável do agente e o dano.</p><p>4.2. PROPOSTA</p><p>A proposta/policitação é o negócio jurídico unilateral pelo qual o proponente convida pessoa ou</p><p>pessoas determinadas a contratar. A proposta deve conter todos os elementos essenciais do contrato.</p><p>“A fase de proposta, denominada fase de oferta formalizada, policitação ou oblação, constitui a</p><p>manifestação da vontade de contratar, por uma das partes, que solicita a concordância da outra. Trata-se de</p><p>uma declaração unilateral de vontade receptícia, ou seja, que só produz efeitos ao ser recebida pela outra</p><p>parte. Conforme o art. 427 do Código Civil, a proposta vincula o proponente, gerando o dever de celebrar o</p><p>contrato definitivo sob pena de responsabilização pelas perdas e danos que o caso concreto demonstrar.”28</p><p>Por ser negócio jurídico, a proposta obriga o proponente. A proposta somente não será obrigatória se</p><p>dela mesma constar a ressalva de que não obriga, se a força obrigatória for incompatível com a natureza do</p><p>negócio, ou se o contrário resultar das circunstâncias do caso, conforme dispõe o art. 427, CC:</p><p>Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da</p><p>natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso.</p><p>São partes da proposta: policitante, proponente ou solicitante - aquele que formula a proposta,</p><p>estando a ela vinculado, em regra - e o policitado, oblato ou solicitado - aquele que recebe a proposta e, se</p><p>aceitar, torna-se aceitante, o que gera aperfeiçoamento do contrato. O oblato poderá formular uma</p><p>contraproposta, situação em que os papéis se invertem: o proponente passa a ser oblato e vice-versa29.</p><p>O artigo 428 do CC elenca as hipóteses de perda da força obrigatória da proposta. Isso ocorre quando</p><p>o comportamento do oblato revela o desinteresse na contratação ou quando não se cria nele qualquer justa</p><p>expectativa.</p><p>29 TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 12. ed. Rio de Janeiro: Método, 2022. NP.</p><p>28 Tartuce, Flávio. Direito Civil: Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie - Vol. 3. Disponível em: Minha Biblioteca, (17th edição). Grupo GEN,</p><p>2022.</p><p>28</p><p>Art. 428. Deixa de ser obrigatória a proposta:</p><p>I - se, feita sem prazo a pessoa presente, não foi imediatamente aceita. Considera-se também presente a</p><p>pessoa que contrata por telefone ou por meio de comunicação semelhante;</p><p>II - se, feita sem prazo a pessoa ausente, tiver decorrido tempo suficiente para chegar a resposta ao</p><p>conhecimento do proponente;</p><p>III - se, feita a pessoa ausente, não tiver sido expedida a resposta dentro do prazo dado;</p><p>IV - se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte a retratação do</p><p>proponente.</p><p>Ressalta-se que a oferta ao público é diferente da proposta, pois a oferta ao público é dirigida a</p><p>pessoas indeterminadas.</p><p>A oferta é diferente da propaganda: A oferta necessariamente contém os requisitos essenciais do</p><p>contrato, enquanto a propaganda não.</p><p>A oferta poderá ser revogada, mas são necessários dois requisitos:</p><p>● A oferta deve expressamente ressalvar a possibilidade de revogação;</p><p>● Que a revogação se dê pela mesma via em que foi divulgada.</p><p>Exemplo: se a oferta se deu em propaganda de televisão da emissora X, a revogação deve ser feita da</p><p>mesma forma.</p><p>4.3. CONTRATO PRELIMINAR - Arts. 462 a 466, CC</p><p>É o contrato pelo qual as partes se comprometem, mais tarde, a celebrar outro contrato, que será tido</p><p>por principal ou definitivo. Possui natureza jurídica de obrigação acessória. Seu objetivo exclusivo é o de</p><p>garantir a realização do contrato definitivo. Tal contrato é normalmente utilizado nos casos em que as partes</p><p>têm interesse recíproco no negócio jurídico, porém, por algum inconveniente momentâneo, a contratação</p><p>definitiva é efetivada em circunstância oportuna subsequente.</p><p>Presume-se o contrato preliminar irretratável, ou seja, se uma das partes desistir sem justa causa,</p><p>a outra poderá exigir-lhe o adimplemento coativo em juízo. Ele poderá tanto ser gratuito, quanto oneroso.</p><p>O contrato preliminar, salvo quanto à forma, deve conter todos os requisitos essenciais do contrato a</p><p>ser celebrado. Isso se exige porque, conforme explicado acima, caso uma das partes se recuse a celebrar o</p><p>definitivo, a outra pode pedir ao juiz que supra a manifestação de vontade, dando caráter definitivo ao contrato</p><p>preliminar. Isto não será possível se a natureza da obrigação impedir.</p><p>🚨 JÁ CAIU</p><p>No concurso Juiz de Direito do Estado do Acre (Ano: 2012; CESPE), foi considerada correta a seguinte assertiva:</p><p>Não se exige que o pactum de contrahendo seja instrumentalizado com os mesmos requisitos formais do</p><p>29</p><p>contrato definitivo a ser celebrado,</p>