Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>AULA 1</p><p>NEUROCIÊNCIA DA</p><p>LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Com o surgimento das ciências cognitivas na segunda metade do XX,</p><p>tendo como intuito compreender como o sistema nervoso controla o</p><p>comportamento humano, investigando as questões do conhecimento humano,</p><p>atualmente os estudos das ciências cognitivas englobam algumas disciplinas;</p><p>dentre elas, vamos destacar aqui as neurociências da linguagem.</p><p>Hoje, muitos estudos e pesquisas se voltam para estudar a linguagem e o</p><p>cérebro, desde seu funcionamento no campo da fonética, passando pela leitura</p><p>até o encadeamento da fala. Cabe ressaltar que estes estudos contribuem de</p><p>forma significativa para a compreensão da linguagem em suas diversas áreas,</p><p>como no processo de alfabetização e também no processo de ensino e</p><p>aprendizagem da escrita e da leitura. Relacionar a linguagem com as</p><p>neurociências é uma forma de entender uma aproximação sincronizada entre as</p><p>bases biológicas e psicológicas.</p><p>A linguagem pode ser entendida como a primeira forma de socialização</p><p>do ser humano, ainda enquanto criança. Seja por estímulo dos adultos, por meio</p><p>de conversas diretas, pelas instruções que são passadas e pelas histórias</p><p>contadas, que expressam valores culturais ou ainda de forma implícita, ao</p><p>participar de interações verbais (Borges e Salomão, 2003).</p><p>Por isso, se pode considerar a linguagem como um ente principalmente</p><p>cultural. É no processo de aquisição da linguagem que o indivíduo apreende os</p><p>valores, crenças e normas implícitas em sua comunidade.</p><p>No entanto, não podemos esquecer que há uma parcela importante de</p><p>carga biológica no processo de desenvolvimento da linguagem, por isso é</p><p>importante compreender a linguagem a partir de sua construção social/cultural e,</p><p>também, biológica. As neurociências se encarregam de explicar como o universo</p><p>biológico interno se comporta no processo do desenvolvimento da linguagem.</p><p>São as centenas de milhões de pequenas células nervosas que, por meio</p><p>de impulsos eletroquímicos, realizam a comunicação do cérebro com o sistema</p><p>nervoso, dando ao ser humano a capacidade de realizar atividades muito</p><p>especiais, entre elas pensar, sentir, sonhar, se emocionar, se movimentar e</p><p>muitas outras funções mentais e físicas comandadas pelo cérebro, sem as quais</p><p>não seria possível a expressão de toda a riqueza interna do ser humano, nem</p><p>3</p><p>perceber o mundo externo, através dos sons, cores, texturas, sabores, etc.</p><p>(Relvas, 2009).</p><p>As disciplinas que estudam o sistema nervoso a partir da biologia são</p><p>denominadas neurociências. Estas disciplinas buscam investigar o cérebro em</p><p>sua estrutura, funcionamento, anatomia, química e fisiologia, em pessoas</p><p>consideradas normais, doentes ou até com deficiências. Juntamente com outras</p><p>disciplinas, como a linguística e a semiótica, as neurociências conseguem</p><p>entender como o sistema nervoso central funciona e como as pessoas podem</p><p>melhorar no seu processo de cognição, principalmente aqueles que têm alguma</p><p>necessidade educacional especial.</p><p>Sendo assim, esta aula tem como objetivo apresentar a estrutura da</p><p>aquisição da linguagem, dando destaque, primeiramente, ao seu</p><p>desenvolvimento, apresentando os principais fatores que estão ligados a este.</p><p>Sucedendo-se a esse tema, discutiremos sobre as principais teorias que</p><p>norteiam os estudos sobre o desenvolvimento da linguagem nos seres humanos,</p><p>discutindo autores como Piaget, Vygotsky, Chomsky, Skinner e outros.</p><p>Perpassaremos pela compreensão na naturalidade do ser humano em</p><p>adquirir a linguagem, desde a primeira infância à vida adulta, buscando entender</p><p>as fases das quais a criança precisa passar para desenvolver-se a partir da</p><p>linguagem.</p><p>Por fim, faremos um paralelo entre os conceitos de língua e linguagem,</p><p>buscando compreender as definições que cada termo apresenta.</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>Como destacamos acima, as neurociências e a linguagem estabelecem</p><p>uma relação natural, visto que neste processo se relacionam bases biológicas e</p><p>psicológicas. É importante compreender que uma está ligada à outra, de forma</p><p>tão intrínseca que os aspectos psicológicos do ser humano necessitam das</p><p>bases biológicas para se desenvolverem, ao mesmo tempo que o biológico</p><p>necessita do psicológico para se adaptar melhor ao meio ambiente, mediante a</p><p>ciência, arte, filosofia e as diferentes formas de saber.</p><p>Se por um lado a linguagem é a forma como construímos nossa</p><p>comunicação, por outro, as neurociências, que são o campo de estudo científico</p><p>que mais cresce nos últimos anos, tem conseguido explicar como o cérebro</p><p>4</p><p>humano funciona, como o ser humano pensa, aprende e, principalmente, como</p><p>ele se comunica.</p><p>Isso se confirma a partir do estudo de Skinner, Vygotsky, Piaget, Broca,</p><p>Chomsky, Geschwind, Fodor, Lenneberg, Miller e outros. Teóricos da Filosofia,</p><p>Psicologia, Neurologia, Memória, Linguística, Gramática, Fisiologia, Anatomia,</p><p>Antropologia e outras áreas do saber, se debruçaram sobre essa temática na</p><p>busca de entender como o homem funciona.</p><p>O primeiro aporte importante a respeito da linguagem foi realizado pelo</p><p>médico francês Paul Broca, no ano de 1864, quando, em estudo com pessoas</p><p>que não conseguiam falar, descobriu que estas apresentavam lesões no</p><p>hemisfério esquerdo do cérebro; por outro lado, Karl Wernicke, na Alemanha,</p><p>descobre que as lesões no hemisfério direito mantêm nas pessoas a fluência da</p><p>fala, mas altera sua compreensão.</p><p>Os dois aportes estão relacionados à linguagem, pois para que sua</p><p>aquisição seja completa, há que manter a compreensão da realidade,</p><p>juntamente com as estruturas básicas da audição e da fala.</p><p>A partir desses estudos, vários autores se puseram a pesquisar como a</p><p>linguagem se desenvolve nos seres humanos, desde o início da vida, buscando</p><p>compreender como as estruturas cerebrais se desenvolvem na criança e como o</p><p>surgimento e a aquisição gradativa da linguagem se dá no seu interior.</p><p>TEMA 1 – DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM</p><p>Antes de falarmos do desenvolvimento da linguagem ou sua aquisição, é</p><p>interessante que compreendamos do que se trata o seu conceito. Autores como</p><p>Atkinson, Smith, Bem e Nolen-Hoeksema (2002) definem a linguagem como</p><p>sendo um processo que organiza e combina palavras para fins de comunicação</p><p>do pensamento. Neste sentido, a linguagem apresenta um caráter universal que,</p><p>como bem apresentado por Heidegger (1976), cabe somente à espécie humana.</p><p>O seu uso proporciona às pessoas a capacidade de dominar e usar um sistema</p><p>linguístico bastante complexo.</p><p>É fato que a linguagem é a primeira forma de socialização da criança, o</p><p>que possibilita que ela tenha acesso, antes de iniciar a sua fala, a crenças,</p><p>costumes, valores, regras e assim obtenha conhecimento a respeito da sua</p><p>cultura.</p><p>5</p><p>A aquisição da linguagem depende de fatores sociais e neurobiológicos,</p><p>em suma, são imprescindíveis as interações sociais e um bom desenvolvimento</p><p>das estruturas cerebrais para que o seu desenvolvimento se dê</p><p>significativamente.</p><p>Essa aquisição da linguagem também se dá a partir do processo de</p><p>aprendizagem, que o indivíduo terá ao longo da primeira infância. É importante</p><p>ressaltar que no desenvolvimento da linguagem vão influenciar fatores</p><p>biológicos, psicológicos e sociais. (Mazzafera e Sordi, 2002)</p><p>Esses fatores são de extrema importância no desenvolvimento da</p><p>linguagem, por isso a relevância de estar atento ao desenvolvimento da criança,</p><p>tanto pais, familiares e responsáveis, assim como professores, pois sabemos</p><p>que muitas crianças entram nas escolas muito cedo, umas a partir dos seis</p><p>meses, e quem acaba tendo mais contato com o desenvolvimento dessa criança</p><p>é o professor.</p><p>No que diz respeito aos fatores psicológicos podemos destacar a relação</p><p>estabelecida entre a mãe e o filho; quanto maior o vínculo e quanto maior a</p><p>qualidade das trocas afetivas e emocionais entre a mãe e o filho melhor será o</p><p>Temas psicol., Ribeirão Preto, v. 2, n.</p><p>2, ago. 1994.</p><p>AULA 3</p><p>NEUROCIÊNCIA DA</p><p>LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>No percurso da história humana, o homem vem se tornando capaz de</p><p>conquistar o planeta em que vive e grande parte dos fenômenos que fazem parte</p><p>deste, além de si mesmo. Organizando-se em grupos, pôde alterar sua realidade</p><p>a partir da razão e de seu intelecto, tendo, nesse processo, conseguido entender</p><p>e decifrar os fenômenos naturais existentes, na busca por melhorar a vida em</p><p>sociedade, avaliando, analisando, sistematizando a interação, que não deixa de</p><p>ser um tipo de inteligência (Masgoret; Gardner, 2003).</p><p>Não se sabe ao certo em que momento de sua história o homem adquiriu</p><p>a capacidade de se comunicar mediante a fala, tendo em vista que somente</p><p>depois do surgimento da escrita o homem começou a registrar sua história e,</p><p>consequentemente, a formação de sua linguagem. Um estudo realizado por</p><p>pesquisadores liderados pelo psicólogo Thomas Morgan, da Universidade da</p><p>Califórnia, dá conta de que entre 1,8 e 2,5 milhões de anos atrás, os homens já</p><p>travavam as primeiras conversas. Para os estudiosos, o conhecimento sobre a</p><p>fabricação de ferramentas obrigou os seres humanos a se comunicarem e a</p><p>ensinarem por meio das trocas verbais.</p><p>Segundo Rocha (1999), há indícios de que a linguagem tenha surgido</p><p>quando a anatomia humana tomou certa forma que deu ao homem uma</p><p>capacidade motora facial, manual e orofaríngea que pudesse ser utilizada para a</p><p>comunicação e representação. Quando o homem passou a ser bípede, pôde</p><p>deixar de utilizar sua boca para segurar as coisas, passando essa função às mãos.</p><p>Com a boca livre, o surgimento dos polegares e o aprendizado da fabricação de</p><p>ferramentas, estava disposto o momento propício para o surgimento da linguagem</p><p>humana.</p><p>Desde a Antiguidade Clássica, estudiosos vêm buscando compreender</p><p>como o homem adquire a linguagem. Não somente como o fez pela primeira vez</p><p>na história, a partir dos antepassados genéticos, mas principalmente como</p><p>acontece a aquisição dessa linguagem e como esta se desenvolve nas crianças</p><p>pequenas nos dias atuais. O que se vê é uma busca por entender quais as</p><p>condições em que a criança estaria disposta para começar a falar e quais palavras</p><p>falaria por primeiro.</p><p>Muito se discute sobre a linguagem humana desde meados do século XX.</p><p>Ao longo do tempo, esse tema tem ocupado lugar de destaque na área de ensino</p><p>3</p><p>e aprendizagem de línguas, nos departamentos de Linguística e Letras, na busca</p><p>por aprimorar técnicas e metodologias educacionais e fomentar seus estudos.</p><p>Por outro lado, autoras como Mirian Lemle, professora da Universidade</p><p>Federal do Rio de Janeiro que conduz pesquisas acerca da teoria chomskiana e</p><p>realiza experimentos no Departamento de Linguística da UFRJ, defendem o estudo</p><p>da Linguagem não somente por abordagens sociológicas, mas principalmente</p><p>biológicas.</p><p>Diante disto e entendendo o potencial biológico que tem a linguagem,</p><p>discutimos nesta aula os fundamentos biológicos da linguagem, num primeiro</p><p>momento abordando sua historicidade e buscando entender como se deu seu</p><p>processo, desde os primeiros estudos, até as pesquisas que estão sendo</p><p>realizadas nestes primeiros anos do século XXI.</p><p>Entendendo a comunicação como uma das funções da linguagem, fazemos</p><p>uma reflexão sobre os aspectos biológicos da comunicação humana e buscamos</p><p>compreender como ela é entendida a partir de sua base biológica, traçando um</p><p>paralelo entre as sentenças da língua e os mecanismos que são processados para</p><p>que elas se realizem.</p><p>Seguimos nosso estudo abordando a neurofisiologia da linguagem, seção</p><p>em que iremos compreender a estrutura, o funcionamento e desenvolvimento das</p><p>áreas do sistema nervoso central, alcançando entendimentos sobre as atividades</p><p>biológicas que envolvem a capacidade humana de receber e produzir a linguagem</p><p>verbal. Ainda, compreenderemos como o cérebro humano está organizado e como</p><p>essa organização incide nas funções da linguagem, fazendo um estudo anatômico</p><p>da linguagem.</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>Nos dias atuais, computadores são conectados a aparelhos de ressonância</p><p>magnética, eletroencefalográficos, magnetoencefalogramas e outros para que</p><p>cientistas, médicos e estudiosos possam entender como o cérebro funciona, seja</p><p>na busca por entender como as funções motoras, sanguíneas, químicas e outras</p><p>são realizadas, seja também para compreender como a linguagem se processa no</p><p>ser humano.</p><p>Estudiosos no mundo inteiro buscam entender como a linguagem se</p><p>desenvolve no ser humano. Muitos dizem, como Skinner, que esse</p><p>desenvolvimento se dá a partir das interações que o ser humano realiza com o seu</p><p>4</p><p>exterior, outros atribuem o desenvolvimento a questões cognitivas baseadas na</p><p>construção virtual de estruturas mentais, como bem defendeu Piaget e ainda</p><p>defendem hoje seus seguidores. Há ainda aqueles que pensam a linguagem a partir</p><p>do inatismo, crendo ser a linguagem algo nascido com o homem, como o linguista</p><p>Noam Chomsky.</p><p>Todos eles compreendiam – uns mais, outros menos – que há a necessidade</p><p>de uma base biológica que sustente o desenvolvimento da linguagem, mas todos</p><p>hão de convir que sem essas estruturas biológicas os seres humanos não</p><p>conseguiriam adquirir o meio mais importante para sua própria comunicação, a</p><p>linguagem.</p><p>TEMA 1 – FUNDAMENTOS BIOLÓGICOS DA LINGUAGEM: HISTORICIDADE</p><p>O homem é um ser histórico e sempre, em sua história, buscou compreender</p><p>a gênese de seus processos, dentre eles a aquisição de sua linguagem. Ao longo</p><p>da história humana, muitas discussões surgiram na tentativa de explicar como a</p><p>linguagem teve seu início nos seres humanos e como esta incide sobre suas ações.</p><p>A história contada por Heródoto, no século VII a.C., narra que o rei</p><p>Psamético do Egito ordenou que se fossem confinadas duas crianças do</p><p>nascimento até a idade de dois anos, sem o convívio com outros seres humanos,</p><p>a fim de que se observasse como a linguagem seria manifestada fora do processo</p><p>interativo (Scarpa, 2001). Desde então filósofos, biólogos, antropólogos, psicólogos</p><p>e psiquiatras, religiosos e estudiosos em geral têm se debruçado no estudo da</p><p>aquisição da linguagem humana, seja elaborando diários da fala de seus filhos, seja</p><p>estudando o comportamento de crianças criadas fora do convívio de outros</p><p>humanos, ou até mesmo se baseando na Bíblia.</p><p>Desde a Idade da Pedra Lascada, quando o homem descobriu que poderia</p><p>fazer instrumentos com pedras e necessitou comunicar-se para ensinar suas</p><p>técnicas de construção de ferramentas, a linguagem é utilizada. Nesse ínterim, é</p><p>inconcebível que haja alguma sociedade na história da humanidade que não tenha</p><p>possuído algum tipo de interação social, pois, segundo Silva (2010), “a linguagem</p><p>e a vida em sociedade devem ter surgido praticamente ao mesmo tempo”.</p><p>Compreendendo e estudando essa realidade, vários estudiosos perceberam</p><p>indícios contundentes de que a linguagem tem base em uma estrutura biológica,</p><p>que se encontra no interior do homem.</p><p>5</p><p>O primeiro a encontrar um ponto na anatomia humana onde supostamente</p><p>a linguagem estaria alojada foi o cientista, médico, anatomista e antropólogo</p><p>francês Pierre Paul Broca. Situado na região do lobo frontal do cérebro humano, o</p><p>centro da linguagem foi descoberto quando Broca estudava pacientes com afasia,</p><p>ou seja, incapacidade total ou parcial de articular a fala. Assim, Broca descobriu</p><p>que seus pacientes que apresentavam problemas com a fala normalmente tinham</p><p>uma lesão especificamente naquele ponto. Descobriu também que há no cérebro</p><p>estruturas distintas para a compreensão e a produção da linguagem, apresentando</p><p>certa dominância hemisférica esquerda nos processos da linguagem.</p><p>Outro cientista que teve grande repercussão em seus estudos</p><p>sobre a</p><p>linguagem foi o norte-americano Noam Chomsky. Para ele, a linguagem era uma</p><p>faculdade de tipo vertical, dentro de uma mente organizada por módulos. Segundo</p><p>Lemle (1998), ao postular sua teoria, Chomsky revolucionou a linguística de sua</p><p>época, já que retirar a linguagem da esfera da cultura e realoca-la na esfera da</p><p>psicologia, que naquele momento estava incrustada na biologia, mexeria com muita</p><p>coisa, seja com a epistemologia genética de Piaget, seja com questões básicas da</p><p>filosofia:</p><p>Afinal, o que é o saber? O que sabemos vem de fora, de objetos situados</p><p>no mundo, para dentro de uma ‘mente-xerox’, ou é uma espécie de ilusão</p><p>criada internamente por nossos sentidos? Mexe com a questão da</p><p>evolução das espécies. Se a linguagem, um sistema cognitivo, é tão</p><p>geneticamente determinada quanto defende Chomsky, sua ‘inscrição’ nos</p><p>genes seria totalmente aleatória, como diz a teoria darwinista, ou não?</p><p>(Idem, on-line).</p><p>Chomsky criticou, com sua teoria, dois grandes pensamentos que eram</p><p>divulgados em sua época, os de Skinner e Piaget. O primeiro dizia que a linguagem</p><p>era adquirida a partir de situações externas, e o segundo postulava que a</p><p>linguagem fazia parte de uma estrutura mental virtual autoconstrutivista.</p><p>Num primeiro momento, Chomsky se contrapôs à ideia skinneriana da</p><p>linguagem. Por volta do fim da década de 1950, o teórico postulou duras críticas à</p><p>teoria de Skinner, introduzindo a ideia de que a língua não é fruto do meio e sim da</p><p>mente humana, um fator biológico inato (Chomsky, 1998).</p><p>Para Chomsky, a linguagem faz parte do instinto humano, podendo ser</p><p>comparada à produção da teia pela aranha, que mesmo sem ter conhecimento de</p><p>geografia plana, possui todas as condições fisiológicas e anatômicas para</p><p>desenvolver sua arte geométrica (Pinker, 2002). Esse instinto é observável em</p><p>6</p><p>outros animais, sendo que, para Chomsky, a aquisição da linguagem não se difere,</p><p>sendo também um instinto.</p><p>Por volta da década de 1970, sua teoria foi novamente posta à prova, e em</p><p>uma reunião científica histórica, realizada na Abadia de Royaumont no ano de</p><p>1975, Chomsky a defendeu em detrimento da teoria postulada por Piaget, propondo</p><p>a Gramática Gerativista, que postulava que a mente era organizada em módulos a</p><p>partir de conceitos inatos. Com essa teoria, Chomsky pretendia analisar aspectos</p><p>da mente da criança, buscando compreender como esta era capaz de adquirir,</p><p>desenvolver e colocar em uso sua língua materna. Essa teoria era uma maneira</p><p>biolinguística de abordar a capacidade da linguagem humana.</p><p>Desde então essas teorias convivem e são discutidas diuturnamente pelos</p><p>profissionais e estudiosos da linguagem, mas se há de convir que a teoria que mais</p><p>se aproxima dos aspectos biológicos da linguagem é a teoria chomskiana.</p><p>TEMA 2 – ASPECTOS BIOLÓGICOS DA COMUNICAÇÃO HUMANA</p><p>O ser humano é um ser social. Sendo uma necessidade básica, a</p><p>comunicação é um processo inato ao ser humano, pelo qual conhece o que há ao</p><p>seu redor e expressa seus pensamentos. Sem a linguagem o ser humano não</p><p>consegue sobreviver em meio às dificuldades (LUFT, 2002).</p><p>A comunicação é uma necessidade que vem determinada biologicamente no</p><p>ser humano. A criança ao nascer se comunica de várias formas, seja com o choro,</p><p>as expressões faciais, o olhar ou a forma como move seu corpo. Comunicar é</p><p>transmitir a outra pessoa algo que se tem, seja pensamentos, ideias, sentimentos,</p><p>ou qualquer outra classe de informações. Tudo isso constitui mensagens a serem</p><p>transmitidas (Fernández; Faílde; Vidal, 1998).</p><p>Segundo Sena e Gomes (2015), a comunicação é tão essencial para a</p><p>manutenção da espécie quanto as necessidades físicas e fisiológicas do ser</p><p>humano. Até para se alimentar os homens, em tempos remotos, necessitavam se</p><p>entender e cooperar uns com outros por meio da linguagem:</p><p>O poder da palavra não é apenas um recurso superficial de uma relação</p><p>comunicacional, nem apenas uma moeda mercantil, mas, ela transforma</p><p>conceitos e valores intrínsecos gerados por culturas e ideologias, ela</p><p>convence o espírito e persuade a alma. (Sena; Gomes, 2015, p. 555)</p><p>O processo comunicatório no ser humano é tão importante e poderoso que</p><p>pode mudar os rumos da própria história humana:</p><p>7</p><p>Na história da civilização humana, uma palavra escrita ou falada tem poder</p><p>tão grande que basta utilizá-la para o mundo mudar, para produzir uma</p><p>guerra, para anunciar boas novas, para proclamar a tão desejada</p><p>independência. E é a partir dessa complexidade que, ao longo dos anos,</p><p>estudiosos interessados buscam conhecer, aprimorar ou reafirmar teorias</p><p>que estudam a linguagem. (Sena; Gomes, 2015, p. 555).</p><p>Os processos de comunicação estão tão interligados aos processos da</p><p>linguagem que um serve ao outro. É por intermédio da linguagem, capacidade</p><p>humana de base biológica, que a comunicação se faz, e é por conta desses</p><p>processos comunicatórios que a própria linguagem se desenvolve.</p><p>Para Fischer (2009, p. 12):</p><p>Em sua definição mais simples, linguagem significa “meio de troca de</p><p>informações”. Essa definição permite que o conceito de linguagem</p><p>englobe expressões faciais, gestos, posturas, assobios, sinais de mão,</p><p>escrita, linguagem matemática, linguagem de programação (ou de</p><p>computadores), e assim por diante.</p><p>Todas as ações humanas são baseadas em processos sinápticos que se</p><p>iniciam no cérebro e se distribuem por todo o corpo. Sendo assim, cada parte da</p><p>comunicação, para além dos padrões sociais que esta impõe, baseia-se em</p><p>atividades internas do homem que estão integradas aos processos biológicos</p><p>inerentes ao ser humano.</p><p>TEMA 3 – BUSCANDO UMA BASE BIOLÓGICA DA LINGUAGEM HUMANA</p><p>Entendendo a linguagem como algo inato, baseado em estruturas biológicas</p><p>da mente, Chomsky postula a Gramática Gerativa. Gramática porque estuda as</p><p>prescrições e regras que determinam o uso correto da língua; gerativa porque</p><p>permite, dentro dessas regras, gerar um número infinito de sequências frasais.</p><p>Para Chomsky (1998), a criança possui um dispositivo genético de aquisição</p><p>da linguagem que lhe promove acesso às estruturas de base e às categorias</p><p>gramaticais, ou seja, a criança recebe o input da linguagem do adulto, realiza uma</p><p>análise desse input e escolhe a regra de acordo com sua intenção e necessidade,</p><p>realizando acréscimos, inversões, apagamentos, substituições, afirmações e</p><p>negações.</p><p>Chomsky (1998) defendia que a criança já vem do ventre da mãe dotada das</p><p>habilidades da linguagem e de todo o arcabouço necessário para o aprendizado de</p><p>uma língua, além de postular que existe uma faculdade da linguagem circunspeta</p><p>por princípios e parâmetros que constituem a estrutura da língua materna localizada</p><p>na mente, o que vai muito além da aquisição do léxico específico de uma língua.</p><p>8</p><p>A linguagem é compreendida por Chomsky como sintaxe, ou seja, um</p><p>conjunto de regras que será gerado na criança, independentemente da influência</p><p>ou qualquer regra que venha do seu exterior.</p><p>[...] gramática mental gera um marcador sintagmático inicial, a estrutura</p><p>profunda (estrutura – D) que a partir de operações do indivíduo, transforma</p><p>e converte a estrutura – D em estrutura superficial (estrutura – S). Toda</p><p>essa transformação é realizada por meio dos componentes interpretativos:</p><p>o sistema articulatório-perceptual (SAP) e o sistema conceptual-</p><p>intencional (SCI) que operam sobre os componentes sintáticos. Em outras</p><p>palavras, o módulo mental da criança marca um sintagma, utilizando os</p><p>componentes interpretativos para uma sequência que ainda está mente,</p><p>opera os valores sintáticos pertencentes a sua gramática mental. (Sena;</p><p>Gomes, 2015, p. 560)</p><p>Nesse caso, a gramática é formada por três componentes: um que é</p><p>sintático, ou seja, define as frases permitidas em uma língua; outro que é</p><p>semântico, pois interpreta as frases definidas pelo componente sintático,</p><p>transformando e convertendo esse componente em outra estrutura; por fim, o</p><p>componente que é formado por um sistema de regras fonéticas, que definem os</p><p>sons e frases gerados pelos dois outros componentes.</p><p>Segundo Lemle (1998), para conhecer o espírito do que Chomsky defendeu</p><p>no encontro realizado na Abadia de Royaumont, é necessário entender a lógica</p><p>das técnicas de pesquisa. Na busca por demonstrar que a mente humana em um</p><p>estado inicial não é uma tábula rasa, o pesquisador precisou buscar evidências</p><p>indiretas como estratégia de pesquisa. Durante seu estudo, utilizou a</p><p>introspecção, obedecendo à lógica da tomada de uma sequência de palavras que</p><p>formasse uma sentença aceitável, se comparada a outra ligeiramente diferente.</p><p>Caso esta se tornasse menos aceitável, poderia se supor que a alteração afetou</p><p>a gramaticidade. Essa técnica simples de pesquisa permitiu aos estudiosos o</p><p>avanço na compreensão dos princípios e regras das gramáticas das línguas</p><p>humanas (Lemle, 1998).</p><p>Ainda segundo Lemle (1998), Chomsky buscou, em sua primeira fala em</p><p>Royaumont, mostrar que as gramáticas seguem princípios gerais, que as pessoas</p><p>não aprendem da maneira tradicional, por meio da instrução ou da experiência. O</p><p>intuito dele era demonstrar que os conhecimentos de cada um sobre a língua</p><p>superam em muito o que pode ser obtido apenas a partir dos dados em si,</p><p>entendendo-se dados como a experiência com a língua no seu uso normal. Esse</p><p>raciocínio é chamado de argumento da insuficiência do estímulo ou da pobreza</p><p>dos dados, deixando-se claro que os dados não são pobres e sim que o conjunto</p><p>9</p><p>desses dados, por si só, não explica por que nossa mente tem os conhecimentos</p><p>de gramática que tem.</p><p>Ou seja, com tão poucos dados externos, da língua, para Chomsky é</p><p>praticamente impossível que a criança obtenha uma potência gramatical tão</p><p>grande quanto a que tem se a potência gramatical não lhe fosse inata.</p><p>Na reunião que estamos analisando neste texto, Chomsky apresentou</p><p>vários exemplos para confirmar sua tese, alguns dos quais apresentamos com o</p><p>intuito de que se esclareçam suas ideias.</p><p>Tomemos como exemplo a formação de uma frase negativa a partir de uma</p><p>afirmativa, como em “o gato está debaixo da cama” e “o gato não está debaixo da</p><p>cama”. Observando essas frases, podemos deduzir que para formar uma frase</p><p>negativa basta inserir a palavra não depois do primeiro nome que aparecer, mas</p><p>ao testar a fórmula com outra frase – “o gato que está enciumado está debaixo da</p><p>cama” e “o gato não que está enciumado está embaixo da cama” –, há aí uma</p><p>falha na organização da frase. A regra de colocação do não para negar uma frase</p><p>não pode tomar as palavras como unidades simplesmente enfileiradas. A frase</p><p>certa seria: “o gato que está enciumado não está embaixo da cama”. Deve-se</p><p>inserir o não, portanto, após o primeiro sintagma (unidade léxica composta por</p><p>mais de um elemento lexical) nominal. Ou seja: a regra requer menção a uma</p><p>estrutura sintática e não a uma fileira de palavras (Lemle, 1998)</p><p>Diante disto e considerando-se a lógica de que se a gramática fosse</p><p>somente aprendida somente por estímulos externos o normal seria que a criança</p><p>interpretasse as frases como uma sequência de palavras – o que não acontece –</p><p>, afirma Chomsky (1998, s/n):</p><p>As crianças contam de saída com esse princípio hierárquico, o que reduz</p><p>as alternativas que elas precisam testar e serve de guia para a aquisição</p><p>de língua. Se não fosse assim, aprender uma língua seria uma tarefa</p><p>impossível, de tão desordenada.</p><p>Somente com uma condição inata conseguiríamos, enquanto ainda</p><p>crianças, encontrar um sentido nessas funções que a nossa capacidade racional</p><p>pouco entende. Para Lemle (1998), quando crianças resolvemos essa charada e</p><p>muitas outras sem maior dificuldade. Isso é possível graças ao mecanismo de</p><p>aquisição da linguagem, gramática universal ou faculdade de linguagem – nomes</p><p>dados a esse notável poder natural que está ativo na primeira infância e</p><p>desaparece por volta dos sete anos de idade. Daí em diante, temos que estudar</p><p>muito e durante anos para aprender uma nova língua. Ou seja, nos primeiros anos</p><p>10</p><p>de vida há uma facilidade muito maior no aprendizado de qualquer tipo de língua,</p><p>seja ela baseada em organizações fônicas ou gestuais, como é o caso da Libras.</p><p>Da mesma forma que, em meados das décadas de 1950 e 1970, Chomsky</p><p>defendeu sua pesquisa sobre a linguagem humana, ainda hoje vários</p><p>pesquisadores no Brasil e no mundo buscam explicar como a linguagem se</p><p>desenvolve no ser humano.</p><p>Diante de um computador conectado a um aparelho eletroencefalógrafo</p><p>digital (EEG) e com eletrodos fixados em seu couro cabeludo, voluntários</p><p>têm suas ondas elétricas cerebrais monitoradas enquanto executam</p><p>tarefas como decidir se a frase que estão lendo na tela é congruente ou</p><p>não. [...], a captura da atividade elétrica cerebral por</p><p>eletroencefalograma é um ótimo método de pesquisa porque oferece</p><p>grande precisão temporal. Os impulsos elétricos no cérebro podem ser</p><p>detectados quase instantaneamente no couro cabeludo, através do osso</p><p>craniano [...]. (Em busca..., 2005)</p><p>Quando a sentença é incongruente, o computador registra ondas distintas</p><p>que detectam o tipo de incongruência. Lemle, em entrevista dada à Fundação</p><p>Carlos Chagas, afirma que se testaram</p><p>[...] estímulos como “a cadeira chutou a bola” comparativamente a “o</p><p>menino chutou a bola” e [percebeu-se] que a concatenação do sujeito é</p><p>posterior à do objeto direto da frase, ou seja, a derivação da construção</p><p>sintática se dá inversamente à ordem linear das palavras, o que</p><p>demonstra que o processamento se dá a partir das camadas mais</p><p>internas da sintaxe para as mais externas. (Em busca..., 2005)</p><p>Ainda pra Lemle, outro estudo em curso tem o intuito capturar os efeitos</p><p>neurofisiológicos dos encaixes de palavras dentro de palavras. Para entender</p><p>como esse encaixe se processa no cérebro, apresenta-se numa tela de</p><p>computador primeiro a palavra globo e logo depois a palavra globalizar. Como a</p><p>palavra globo está contida em globalizar, globalizar vai ser lida muito mais</p><p>rapidamente do que se a palavra dada antes fosse glória ou lobo. Diz ainda Lemle</p><p>(Em busca..., 2005):</p><p>Também estamos montando um experimento para comparar as ondas</p><p>elétricas decorrentes de outras relações entre palavras, além da relação</p><p>morfológica – como “globo/globalizar”. Vamos pesquisar relações</p><p>fonológicas como “elefante” e “elegante”, ou conceituais, como “nuvem”</p><p>e “chuva”. A nossa hipótese é a de que o facilitador mais forte para o</p><p>processamento da segunda palavra do par será o fator morfológico [...].</p><p>Todas essas pesquisas aqui apresentadas são baseadas nas pesquisas</p><p>anteriores realizadas desde a década de 1950 por Noam Chomsky. Lemle explica</p><p>que a gramática gerativa é uma maneira biolinguística de abordar a capacidade</p><p>da linguagem humana: “Sem um substrato orgânico muito poderoso,</p><p>11</p><p>geneticamente alicerçado, não poderíamos criar, pelas vias da cultura, um</p><p>mecanismo como as línguas humanas, que nos permite relacionar pensamentos</p><p>com cadeias de sons da fala” (Em busca..., 2005).</p><p>TEMA 4 – NEUROFISIOLOGIA DA LINGUAGEM</p><p>A neurofisiologia é uma área do saber que tem por intuito estudar o</p><p>funcionamento do Sistema Nervoso Central, avaliar as funções relacionadas com</p><p>este sistema do corpo humano, além de realizar estudos dos potenciais</p><p>somatossensitivos visuais e auditivos que são importantes no diagnóstico de</p><p>diversas doenças neurológicas e neuromusculares.</p><p>Segundo Faria (2015), a Neurofisiologia apresenta quatro fundamentos</p><p>básicos, os quais estão relacionados à capacidade de se comunicar, adaptar-se</p><p>ao meio, sustentar-se e compreender o mundo a sua volta. Por serem mais</p><p>representativos da funcionalidade do sistema nervoso, os fenômenos mentais,</p><p>que também podem ser denominados de fenômenos psíquicos ou neurológicos,</p><p>ocorrem como parte de sua fisiologia natural.</p><p>Desde a produção do liquor, ao fenômeno da excitabilidade neuronal</p><p>propriamente</p><p>dito, o pensamento, a plasticidade neural, as emoções,</p><p>como raiva, medo, agressividade e afetividade, os fenômenos</p><p>cognitivos, os vários aspectos do comportamento, como um músculo do</p><p>corpo que se contrai respeitando uma ordem do pensamento. Os</p><p>fenômenos neurológicos são inúmeros e quatro deles, fundamentais.</p><p>(Farias, 2015)</p><p>Em relação à capacidade de comunicação, a transmissão de sinais</p><p>elétricos realizada pelos neurônios se apresenta como a base para a produção da</p><p>comunicação no ser humano. Quando um neurônio é de alguma forma estimulado</p><p>com suficiente força, irá produzir um impulso nervoso, que corresponde a uma</p><p>corrente elétrica que percorre o axônio até os botões sinápticos. É necessário que</p><p>esse impulso nervoso encontre a membrana numa condição denominada</p><p>potencial de repouso, ou seja, a -70 milivolts; uma vez iniciado, se autopropagará.</p><p>Os potenciais capazes de gerar tal transmissão de sinal são denominados</p><p>potenciais de ação e estão a >15 milivolts.</p><p>Esses impulsos nervosos, que se caracterizam como sinais elétricos,</p><p>quando liberados percorrem os neurônios, sinapses, órgãos receptores e efetores.</p><p>Quando estimulados e organizados, esses sinais constituem a base da</p><p>comunicação humana, em todas as suas instâncias e nuances (Farias, 2015).</p><p>12</p><p>Quanto aos processos de adaptação do homem ao meio, a neurofisiologia</p><p>se encarrega de estudar a plasticidade neural que é inerente ao ser humano e que</p><p>é definida como a capacidade que o sistema nervoso tem de se transformar em</p><p>resposta às exigências do ambiente em que se encontra. Para Farias (2015), esse</p><p>é um fenômeno que depende de mudanças microestruturais morfológicas e</p><p>fisiológicas que devem acontecer nos próprios neurônios. O termo também pode</p><p>ser definido em relação às sinapses, sendo denominado plasticidade sináptica.</p><p>Quando as sinapses sofrem esse fenômeno plástico, elas podem se fortalecer,</p><p>ganhando robustez e sendo reforçadas pelo fenômeno de potenciação, ou podem</p><p>se desfazer pelos fenômenos da retração e da movimentação dendrítica. Se não</p><p>houvesse a plasticidade neural, não poderíamos aprender nada, e assim não nos</p><p>adaptaríamos ao ambiente em que vivemos.</p><p>Outro fundamento importante da Neurofisiologia é a autosustentação, a</p><p>qual se dá pela produção do liquor. É essa substância que sustenta e protege o</p><p>cérebro contra eventuais choques mecânicos. Além disso, também desempenha</p><p>um papel imunológico, pois serve como veículo para nutrientes e agentes de</p><p>defesa contra infecções. O liquor é produzido pelo plexo coroide e, após circular</p><p>pelo interior do cérebro, é absorvido pelo sistema de drenagem venoso. Cerca de</p><p>100-150 ml são produzidos diariamente. Durante séculos se acreditou que o</p><p>sistema ventricular era onde a alma estava alojada. O estudo do sistema</p><p>ventricular e da neurofisiologia do liquor, tão importante para o sistema nervoso</p><p>central, prova que a absorção de impactos e a proteção são básicas para qualquer</p><p>processo, por mais complexo que ele seja (Farias, 2015).</p><p>O quarto fundamento é aquele que está atrelado à compreensão que o ser</p><p>humano tem do mundo ao seu redor, o que é viabilizado pelo pensamento.</p><p>Segundo Jolivet (1986), pensamento é a capacidade que tem o ser humano de</p><p>conhecer em que consistem as coisas e as relações que elas têm entre si.</p><p>Entendendo que o pensamento precede a linguagem, que é também</p><p>considerada uma forma de pensamento, a neurofisiologia da linguagem busca</p><p>compreender a estrutura, o funcionamento e o desenvolvimento da linguagem a</p><p>partir das áreas do sistema nervoso central, com base nas suas funções e</p><p>fundamentos.</p><p>Segundo Kapitaniuk (2010), essa área de estudo tem por finalidade</p><p>fundamentar hipóteses sobre as capacidades que estão biologicamente</p><p>envolvidas na recepção e produção da linguagem verbal, principalmente na fase</p><p>13</p><p>de aquisição da linguagem e entre os afásicos. Constatações que surgiram</p><p>desses estudos comprovaram que o hemisfério esquerdo é especializado para</p><p>funções sequenciais e lógicas, como as linguísticas, e que o hemisfério direito</p><p>processa informações holísticas, como as empregadas para o reconhecimento de</p><p>faces, vozes conhecidas, imagens, entre outros.</p><p>A partir desses estudos, várias descobertas têm surgido ao longo dos anos,</p><p>ao tempo que novas tecnologias têm surgido e aprimorado as pesquisas na área</p><p>da neurofisiologia, como é o caso da tomografia por emissão de prótons e da</p><p>ressonância magnética, que auxiliam os pesquisadores dando-lhes condição de</p><p>acompanharem os processos da linguagem em imagens produzidas em tempo</p><p>real. Segundo Raichle (1999), é possível observar, por exemplo, regiões</p><p>específicas do cérebro sendo ativadas quando atividades de leitura são efetuadas,</p><p>bem como os neurônios e sua intrincada rede de células.</p><p>A tecnologia tem auxiliado de forma tão profícua o processo de evolução</p><p>da neurociência que, atualmente, a partir dos novos aparelhos, é possível</p><p>visualizar cada parte do cérebro vivo em ação, do maior circuito até a sinapse no</p><p>diminuto espaço entre neurônios. Com aparelhos, como os citados anteriormente,</p><p>é possível registrar a atividade elétrica de uma única molécula no cérebro (Eliot,</p><p>1999).</p><p>Saiba mais</p><p>MASCARELLO, L. J. Lingua(gem) sob duas perspectivas teóricas. Working</p><p>Papers em Linguística, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 61-71, jan./jun. 2009.</p><p>Disponível em:</p><p><https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/1984-</p><p>8420.2009v10n1p61>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>TEMA 5 – ANATOMIA DA LINGUAGEM</p><p>Quando influenciado pelo meio ambiente, seja ele social ou linguístico, todo</p><p>ser humano pode desenvolver a linguagem. Isso se dá porque todos os seres</p><p>humanos possuem em seus cérebros sistemas anatomofuncionais que permitem</p><p>esse desenvolvimento. Desde o século XIX estuda-se como as patologias da fala</p><p>estavam ligadas a lesões cerebrais, e pesquisas já eram realizadas na busca de</p><p>entender como as partes do cérebro estavam ligadas aos processos da</p><p>linguagem. No entanto, foi a partir da década de 1960 que pesquisadores como</p><p>14</p><p>os franceses Paul Broca e Armand Trousseau, o alemão Carl Wernicke, entre</p><p>outros, realizaram estudos mais aprofundados sobre a anatomia da linguagem.</p><p>Todavia, estudos mais detalhados da fisiologia da linguagem dentro do cérebro</p><p>humano surgiram somente quando foi possível estimular o córtex eletricamente</p><p>utilizando equipamentos computadorizados, como a tomografia e o radioisótopo</p><p>(Jakubovicz; Cupello, 1996).</p><p>Desses estudos, pôde-se caracterizar as principais áreas do cérebro</p><p>ligadas à linguagem e às fases por que o cérebro passa até que a linguagem seja</p><p>expressa:</p><p>a. Fase 1: o lóbulo temporal se encarrega de selecionar as palavras com as</p><p>quais construímos as frases, com as quais verbalizamos o que queremos</p><p>dizer. Trata-se do componente semântico, dos significados. Essas palavras</p><p>estão armazenadas na memória e se relacionam com os acontecimentos</p><p>vividos pelo homem.</p><p>b. Fase 2: ainda dentro do lóbulo temporal, encontra-se a área de Wernicke,</p><p>que é encarregada de interpretar as palavras unindo-as aos sons que lhes</p><p>correspondem. Esta fase está relacionada ao componente fonético da</p><p>linguagem.</p><p>c. Fase 3: uma série de fibras nervosas, que recebem o nome de fascículo</p><p>arqueado, conectam a área de Wernicke e a área de Broca. Esta última se</p><p>encarrega de interpretar os movimentos musculares para cada som de</p><p>cada palavra. É a parte do cérebro que está encarregada da pronúncia das</p><p>palavras.</p><p>d. Fase 4: algumas partes do córtex motor vão se encarregar de enviar</p><p>informações para a boca, língua e laringe para que organizem seus</p><p>músculos para a pronunciação das palavras.</p><p>e. Fase 5: o cerebelo se encarrega da fluidez verbal, organização das</p><p>palavras, sintaxe, leitura, escrita e das habilidades metalinguísticas.</p><p>São várias as áreas do cérebro que se ativam quando se processa a</p><p>linguagem, todavia, as áreas aqui apresentadas são consideradas</p><p>as mais</p><p>básicas da anatomia do cérebro para a produção da linguagem no homem.</p><p>15</p><p>FINALIZANDO</p><p>Vários estudiosos tentaram explicar como a linguagem se desenvolve no ser</p><p>humano. Uns afirmam que esse desenvolvimento se dá pelas interações com o</p><p>ambiente externo, outros defendem que somente com uma construção interna a</p><p>linguagem poderia ser realizada, mas todos hão de convir que existe uma</p><p>imprescindível e poderosa base biológica que dá suporte para que a linguagem</p><p>humana obtenha sucesso. Para que se entenda como a biologia pode influenciar</p><p>os processos linguísticos, estudar as estruturas cerebrais e musculares que formam</p><p>a linguagem se faz necessário.</p><p>Nesse ínterim, a neurofisiologia da linguagem se apresenta como uma</p><p>ciência que tem por objetivo estudar as estruturas do sistema nervoso central para</p><p>compreender como a linguagem se forma e se desenvolve no ser humano. Nesse</p><p>ponto a tecnologia tem se mostrado como uma grande aliada desses estudos.</p><p>Os estudos de Noam Chomsky se atualizam a cada conhecimento novo que</p><p>surge, assessorados pelas tecnologias que avançam e levam os pesquisadores a</p><p>se aprofundarem cada vez mais na investigação de como o cérebro humano em</p><p>sua vertente biológica funciona para que a linguagem humana possa continuar se</p><p>desenvolvendo.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Texto de abordagem teórica</p><p>MASCARELLO, L. J. Lingua(gem) sob duas perspectivas teóricas. Working</p><p>Papers em Linguística, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 61-71, jan./jun. 2009.</p><p>Disponível em:</p><p><https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/1984-</p><p>8420.2009v10n1p61>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>Texto de abordagem prática</p><p>SENA, F. V. de; GOMES, N. dos S. Aquisição da linguagem: uma abordagem</p><p>gerativa. In: Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 21, n. 63 – Supl.: Anais da</p><p>X CNLF, set./dez. 2015. Disponível em:</p><p><http://www.filologia.org.br/rph/ANO21/63supl/039.pdf>. Acesso em: 6 jun. 2018.</p><p>16</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 12. ed. São Paulo: Ed. Ática, 2002.</p><p>CHOMSKY, N. Linguagem e mente: pensamentos atuais sobre antigos</p><p>problemas. Tradução de Lúcia Lobato; revisão de Mark Ridd. Brasília:</p><p>Universidade de Brasília, 1998.</p><p>ELIOT, L. What’s Going on in There? New York: The Penguin Press, 1999.</p><p>EM BUSCA da base biológica da linguagem humana. FAPERJ, 16 jun. 2005.</p><p>Disponível em: <http://www.faperj.br/?id=525.2.9>. Acesso em: 6 jun. 2018.</p><p>FARIAS, L. 4 fenômenos fundamentais da neurofisiologia. Meu Cérebro, 23 dez.</p><p>2015. Disponível em: <https://meucerebro.com/4-fenomenos-fundamentais-da-</p><p>neurofisiologia/>. Acesso em: 6 jun. 2018.</p><p>FERNÁNDEZ, J. L. R.-V.; FAÍLDE R. M.; VIDAL J. T. La Comunicación: Bases</p><p>biológicas. In: MILLÁN-CALENTÍ, J. C.; VIDAL; J. T. (Coord.). Comunicación,</p><p>estrés y accidentabilidad: tres factores de actualidad. Coruña: Universidad de</p><p>Coruña, 1998.</p><p>JAKUBOVICZ, R.; CUPELLO, R. C. M. Introdução à Afasia. Rio de Janeiro:</p><p>Revinter, 1996.</p><p>JOLIVET, R. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1986.</p><p>KAPITANIUK, R. B. de S. Psicolinguística. Apostila da disciplina de</p><p>Psicolinguística do Curso de Bacharelado em Letras Libras. Florianópolis: UFSC,</p><p>2010.</p><p>LEMLE, M. Conhecimento e biologia. Ciência Hoje, São Paulo, v. 31, n. 182,</p><p>p. 34-41, 1998.</p><p>MASCARELLO, L. J. Lingua(gem) sob duas perspectivas teóricas. Working</p><p>Papers em Linguística, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 61-71, jan./jun. 2009.</p><p>Disponível em:</p><p><https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/download/1984...</p><p>/11823>. Acesso em: 6 jun. 2018.</p><p>MASGORET, A. M.; GARDNER, R. C. Attitudes, Motivation, and Second</p><p>Language Learning: A Meta-Analysis of Studies Conducted by Gardner and</p><p>Associates. [S. l.]: Willey Online Library, 2003. Disponível em:</p><p>17</p><p><https://onlinelibrary. wiley.com/doi/abs/10.1111/1467-9922.00212>. Acesso em:</p><p>6 jun. 2018.</p><p>PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 2002.</p><p>RAICHLE, M. E. Visualizing the Mind: The Scientific American Book of the Brain.</p><p>New York: The LyonsPress, 1999.</p><p>ROCHA, A. F. O cérebro: um breve relato de sua função. São Paulo: FAPESP,</p><p>1999.</p><p>SCARPA, E. M. Aquisição da linguagem. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C.</p><p>(Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001.</p><p>p. 203-232.</p><p>SENA, F. V. de; GOMES, N. dos S. Aquisição da linguagem: uma abordagem</p><p>gerativa. In: Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 21, n. 63 – Supl.: Anais da</p><p>X CNLF, set./dez. 2015.</p><p>SILVA, J. C. Da Torre de Babel a Chomsky. UOL Educação, 15 ago. 2017.</p><p>Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/filosofia/filosofia-da-linguagem-1-da-</p><p>torre-de-babel-a-chomsky.jhtm>. Acesso em: 6 jun. 2018.</p><p>AULA 4</p><p>NEUROCIÊNCIA DA</p><p>LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>A posse da linguagem distingue os humanos de outros animais. É verdade</p><p>que outros animais também se envolvem em comunicação vocal, como acontece</p><p>com alguns tipos de macacos que têm a capacidade de transmitir algumas</p><p>informações simples usando chamadas de alerta. No entanto, a comunicação</p><p>vocal de tais animais carece da gramática complexa e da alta expressividade que</p><p>caracterizam a linguagem humana. Por que apenas os humanos têm uma</p><p>linguagem sofisticada? Essa é uma das questões centrais para entender a</p><p>identidade humana. Nesta aula, exploramos a evolução da linguagem no contexto</p><p>da evolução biológica dos traços fundamentais subjacentes à interação</p><p>comunicativa.</p><p>Desde os primeiros hominídeos que realizavam uma comunicação por meio</p><p>de uma protolinguagem, que estava longe de ser considerada como linguagem,</p><p>até o momento em que, juntamente com a explosão tecnológica, constatada pelos</p><p>paleontólogos, surgem evidências de produções humanas que somente poderiam</p><p>ter se realizado mediante a capacidade da linguagem.</p><p>Juntam-se a isso as teorias que compreendem o desenvolvimento</p><p>linguístico da criança pequena, com a evolução linguística da espécie, trazendo o</p><p>entendimento de que tal quais os ancestrais humanos, as crianças precisam</p><p>passar por etapas para conseguir alcançar a capacidade linguística.</p><p>Diante disso, começamos nosso estudo, nesta aula, buscando</p><p>compreender como evoluiu a linguagem humana, desde os ancestrais comuns</p><p>dos humanos até os dias de hoje, e ao mesmo tempo fazendo comparações entre</p><p>a comunicação humana e de outros animais.</p><p>Em seguida, partimos para uma discussão sobre a filogênese da linguagem</p><p>humana, buscando um paralelo com sua ontogênese. Logo após, buscamos</p><p>compreender como funcionam os mecanismos da linguagem no homem, para</p><p>posteriormente fazermos um paralelo, objetivando entender como os mecanismos</p><p>motores estão atrelados à aquisição da linguagem pela criança pequena.</p><p>Por fim, fazemos um estudo sobre os mecanismos da função ideacionária</p><p>da linguagem, procurando compreender como essa função influencia na vida das</p><p>pessoas.</p><p>3</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>A linguagem é uma das propriedades humanas que são extensamente</p><p>estudadas ultimamente e, com o avanço da tecnologia, têm aumentado os estudos</p><p>e resultados sobre como essa propriedade humana tem surgido nos homens e</p><p>como ela se processa.</p><p>Uma das vertentes científicas que busca compreender como a linguagem</p><p>surge no ser humano está ligada a estudos sobre como viveram seus ancestrais.</p><p>Ciências como a paleontologia, arqueologia, estudos pré-históricos buscam</p><p>entender em que ponto da história o homem se torna homem utilizando-se da</p><p>linguagem. Comumente, esses estudos são chamados de filogenéticos.</p><p>Outro estudo importante que tem crescido nos últimos anos é o estudo da</p><p>ontogenia, que busca fazer um paralelo entre o desenvolvimento da criança</p><p>pequena e da evolução da espécie. Tudo isso na busca de compreender como a</p><p>propriedade humana da linguagem tem se desenvolvido no ser humano.</p><p>TEMA 1 – COMPREENDENDO A EVOLUÇÃO DA LINGUAGEM HUMANA</p><p>Por vários séculos tem se especulado</p><p>sobre a evolução da linguagem no ser</p><p>humano. Como estudamos em aulas anteriores, essa área de estudo não é tão fácil</p><p>de ser estudada, tendo em vista que muito raramente existem evidências diretas.</p><p>Normalmente, os estudiosos dessa área do saber realizam suas pesquisas</p><p>buscando deduções em outras formas de evidências, como é o caso das evidências</p><p>arqueológicas, da busca de informações nos fósseis, nos estudos das lesões</p><p>cerebrais e suas causas nos processos comunicativos humanos e também pelos</p><p>estudos da comunicação realizada pelos homens em comparação com os sistemas</p><p>comunicacionais de outros animais como o dos primatas, primos próximos do ser</p><p>humano na escala evolutiva.</p><p>Segundo Seyfarth e Cheney (2017), alguns grupos de animais têm algo que</p><p>à primeira vista parece se assemelhar a um vocabulário primitivo, como é o caso</p><p>de algumas espécies de macacos que possuem um pequeno conjunto de</p><p>chamadas de alarme distintas, cada uma produzida em resposta a um predador</p><p>diferente. Nesse caso, podemos apresentar como exemplo o Chlorocebus</p><p>pygerythrus, espécie de macaco que tem sons bem conhecidos para predadores</p><p>como águia, leopardo e cobra.</p><p>4</p><p>Podemos utilizar como exemplo, também, as galinhas, que, além de ter sons</p><p>de alarme distintos para diferentes predadores, um sistema tão sofisticado quanto</p><p>o dos macacos, têm, ainda, alguns sons específicos para informar sobre alguns</p><p>tipos de alimentos. Outro animalzinho que utiliza sistema de comunicação parecido</p><p>com os aqui apresentados é o cão da pradaria, animal roedor que emprega, talvez,</p><p>o sistema mais sofisticado de sons de alarme de animais (Gibson, 2012).</p><p>Mamíferos empregam um extensivo processo comunicativo entre os de sua</p><p>espécie, normalmente utilizando sons, mas também se valendo de outros artifícios</p><p>como a exibição visual, mensagens químicas e até comunicação tátil. Para Burling</p><p>(2011), nós, humanos, não somos exceção: nosso antigo sistema de comunicação</p><p>primata engloba muitos sinais não verbais, incluindo risos, choro, sorrisos, gritos de</p><p>dor e posturas de agressão ou apaziguamento.</p><p>Buscando uma comparação entre a linguagem humana e os sistemas de</p><p>comunicação de alguns primatas, Gibson (2012) e Knight e Power (2012), afirmam</p><p>que, embora todas as espécies de grandes símios tenham capacidades mentais e</p><p>comunicativas suficientes para usar protolinguagens rudimentares, nenhum o faz</p><p>na natureza. Assim, segundos essas autoras, a protolinguagem quase com certeza</p><p>data de um período subsequente à separação filogenética hominina de chimpanzés</p><p>e bonobos, por volta de 5 a 8 milhões de anos atrás, no período geológico chamado</p><p>Mioceno.</p><p>Segundo Wood e Bauernfeind (2012), a linguagem é uma inovação nos</p><p>homininis, tribo de primatas hominídeos, antepassado comum dos homens e</p><p>chimpanzés. Embora um número de hominídeos e possíveis fósseis de hominídeos</p><p>datem do longo período que dura de 2 a 7 milhões de anos, não sabemos com</p><p>certeza se algum desses primeiros hominídeos, como o Paranthropus, o</p><p>Ardipithecus, o Australopithecus ou o Homo habilis eram nossos ancestrais diretos</p><p>e, muito menos, podemos dizer se algum desses homininis tinha alguma forma de</p><p>protolinguagem ou qualquer coisa que reconheceríamos como fala. Se o fizeram,</p><p>não há como saber com base na anatomia dos fósseis, mas se sabe que a maioria</p><p>das espécies tinha tamanhos de cérebro um pouco maiores que os macacos e</p><p>possuíam o osso hioide.</p><p>Diante disso, é perceptível que quase todos os australopitecinos e formas</p><p>primitivas do gênero Homo fizeram avanços definidos na direção de adaptações</p><p>semelhantes às humanas. Há claras evidências de que, por volta de 2.6 milhões de</p><p>anos atrás, esses ancestrais já fabricavam ferramentas de pedras afiadas que eram</p><p>5</p><p>usadas para cortar carne e tendões. Achados paleontológicos de ossos longos e</p><p>crânios indicam que alguns artefatos ancestrais em formato de martelo foram</p><p>usados ainda mais cedo e que possíveis marcas de corte nos ossos sugerem que</p><p>ferramentas de pedra fabricadas ou com bordas afiadas também podem ter sido</p><p>usadas antes de 3 milhões de anos atrás (McPherron et al. 2010).</p><p>Embora a maioria mantivesse algumas adaptações para um estilo de vida</p><p>arbóreo, como é o caso dos macacos, todas também eram bípedes em algum grau.</p><p>O bipedismo é uma característica frequentemente formulada para servir como uma</p><p>pré-adaptação à laringe descendente que caracteriza os humanos modernos</p><p>(MacLarnon, 2012). A maioria desses hominídeos também apresentava dentes</p><p>molares aumentados com camadas de esmalte mais espessas do que geralmente</p><p>está presente nos macacos, sugerindo adaptações na dieta (Wood; Bauernfeind,</p><p>2012).</p><p>Segundo Whangham (2009), entre 2 e 4 milhões de anos atrás os</p><p>hominídeos primitivos iniciaram sua longa jornada evolucionária em busca da</p><p>adaptação alimentar, que acabou sendo caracterizada pela culinária e pela</p><p>exploração de alimentos com alta densidade de nutrientes, que eram difíceis de</p><p>adquirir pelas vias da caça ou da extração.</p><p>Essas estratégias alimentares alteradas permitiram e foram acompanhadas</p><p>por grandes mudanças na história de vida e na estrutura social. Por exemplo, os</p><p>seres humanos são menos maduros no nascimento do que os macacos, têm um</p><p>período mais longo de crescimento e maturação e vivem mais. Além disso, os</p><p>adultos humanos, ao contrário dos adultos macacos, formam laços de</p><p>compartilhamento de comida entre homens e mulheres. Possivelmente, essas</p><p>dietas, história de vida e mudanças sociais desempenharam um papel na seleção</p><p>de vários aspectos de protolinguagem, balbuciação ou fala (Falk, 2012; Locke,</p><p>2012; Parker; Gibson 1979; Deacon, 1997; Hrdy, 2009).</p><p>Segundo Ferreira et al. (2000, p. 189):</p><p>O desenvolvimento de múltiplos processos gestuais, faciais e sonoro-</p><p>verbais, acompanhados de especializações hemisféricas elaboradas, já</p><p>claramente presentes nos primatas inferiores, proporcionaram, ao longo</p><p>da evolução, o surgimento da linguagem humana nos padrões que</p><p>conhecemos e utilizamos atualmente.</p><p>Todavia, é importante destacar que, mesmo diante de toda essa evolução</p><p>compartilhada entre os hominídeos, nenhum desses sistemas de comunicação,</p><p>incluindo a própria sinalização não verbal utilizada por estes, pode ser considerado</p><p>6</p><p>como linguagem. Esses sistemas, aqui citados, não podem combinar sinais para</p><p>produzir novos significados, e, para a linguagem, essa propriedade é fundamental</p><p>(Tallerman; Gibson, 2011). O princípio combinatório, explorado em diferentes níveis</p><p>de organização, é um atributo crucial e distintivo da linguagem:</p><p>A propriedade abrangente, compartilhada por nenhum outro sistema</p><p>animal, é a produtividade aberta da linguagem: os seres humanos</p><p>combinam sinais para produzir um conjunto infinito de significados</p><p>distintos e incomparáveis, além de poder transmitir qualquer tópico que</p><p>possa ser pensado, inclusive ausente, hipotético, e eventos e entidades</p><p>fictícios, (Tallerman; Gibson, 2011, p. 2, tradução livre)</p><p>Vários autores, entre estes Chomsky, acreditam que a linguagem somente</p><p>tenha surgido no homem muito recentemente, por volta de 35 a 40 mil anos atrás,</p><p>num período conhecido como o Paleolítico Superior. Como evidência dessa crença</p><p>está o aumento massivo de sofisticação tecnológica constatado no registro</p><p>arqueológico europeu. Essa tecnologia levou a ferramentas compostas, como</p><p>arpões, lanças, lâminas de pedra, além de uma variedade maior de materiais</p><p>utilizados, incluindo marfim, osso e chifre, bem como uma explosão em formas de</p><p>arte, incluindo ornamentos pessoais, um aumento no uso de pigmentos, esculturas</p><p>em vários materiais, pinturas rupestres, instrumentos musicais e outros, todos</p><p>associados à cognição simbólica (Tattersall, 2010), necessidade básica para a</p><p>existência da linguagem.</p><p>TEMA 2 – DA FILOGÊNESE À ONTOGÊNESE DA LINGUAGEM</p><p>A filogenia é uma área do saber que busca conhecer os conceitos de</p><p>ancestralidade e descendência</p><p>dentro de um processo evolutivo, baseado nas</p><p>teorias de Darwin. Valendo-se de estudos morfológicos, moleculares,</p><p>comportamentais, genéticos e outros, essa área de estudo considera hipóteses</p><p>sobre as relações de ancestralidade entre as espécies, tendo em vista que todos</p><p>os seres humanos tiveram um ancestral monocelular em comum.</p><p>Quando se fala em seres humanos, a filogenia busca compreender as</p><p>diferenças e semelhanças que estes têm com seus parentes genéticos próximos,</p><p>os símios.</p><p>Já a ontogenia, que tem por finalidade estudar os processos biológicos de</p><p>desenvolvimento dos seres vivos, desde a fecundação até a vida adulta, busca</p><p>compreender as transformações que ocorrem no organismo durante as etapas do</p><p>seu desenvolvimento. Segundo Haeckel (1866), a ontologia seria determinada pela</p><p>7</p><p>filogenia, pois cada fase do desenvolvimento de uma pessoa representa uma das</p><p>formas adultas que aparecem em sua história evolutiva, ou seja, do</p><p>desenvolvimento embrionário à vida adulta, o homem repete as etapas do seu</p><p>processo evolutivo. Diante disso, o autor ficou muito conhecido pela frase icônica:</p><p>“A ontogenia recapitula a filogenia”.</p><p>Diante disso, para compreender como os seres humanos adquiriram a</p><p>linguagem, os estudiosos da filogenia buscam nos ancestrais próximos do Homo</p><p>sapiens, com base em estudos anatômicos, comportamentais e outros, em que</p><p>ponto da evolução esses indivíduos começaram a esboçar características próximas</p><p>daqueles que são dotados de linguagem.</p><p>Cruzando dados anatômicos e sociais adquiridos por pesquisas</p><p>arqueológicas, pode-se notar que um processo lento e gradual de aumento do</p><p>crânio a partir dos arcantropos proporcionou o desenvolvimento cerebral das</p><p>regiões frontais inferiores e ampliou o crescimento em leque das regiões fronto-</p><p>têmporo-parietal, fundamentais aos mecanismos da linguagem em seus aspectos</p><p>verbais, gestuais e motores (Ferreira et al., 2000).</p><p>Ainda segundo Ferreira et al. (2000), nessa evolução, o crescimento das</p><p>regiões frontais médias, particularmente o das regiões pré-centrais e dos giros</p><p>frontal médio e inferior, possui grande importância nos mecanismos de expressão</p><p>da linguagem. É importante destacar que o desenvolvimento dessas regiões ocorre</p><p>num processo concomitante e associado, promovendo o crescimento neural</p><p>simultâneo das áreas de linguagem, dos centros de planejamento motor complexo,</p><p>área pré-motora e motora suplementar, e das áreas motoras da mão e da face</p><p>localizadas no giro pré-central, em íntimo contato anatômico com as anteriores. Na</p><p>análise do crânio do Australopithecus anamensis, nota-se, apesar de seu pequeno</p><p>volume, uma base craniana e um forame magno já bastante próximos do padrão</p><p>humano, demonstrando uma conexão entre tronco e medula e uma estrutura</p><p>crânio-cervical, sede do aparelho fonador, bem próxima aos padrões morfológicos</p><p>atuais. Tudo isso propiciando a organização da linguagem no homem (Ferreira et</p><p>al., 2000).</p><p>Para explicar como o homem conseguiu alcançar a capacidade da</p><p>linguagem, atentar somente aos limites da biologia é insuficiente. Há que se buscar</p><p>as origens da linguagem humana nas condições externas que os descendentes</p><p>diretos dos humanos viveram. Um fator a ser observado é que as modificações</p><p>cranianas, acompanhadas do crescimento da massa encefálica, principalmente</p><p>8</p><p>fronto-têmporo-parietal, possibilitaram o fabrico de ferramentas e outros produtos</p><p>da indústria paleolítica, de grande interesse ao estudo neurofisiológico dos</p><p>ancestrais do homem (Ferreira et al., 2000).</p><p>Segundo Clarindo, Borela e Castro (2014), é na atividade do trabalho que as</p><p>ações são designadas, e nesse processo nasce a linguagem. De início, toda</p><p>relação da ação com a linguagem está intimamente ligada com o caráter prático</p><p>dessa ação. O sentido dos sons e gestos dependia das situações práticas</p><p>realizadas. Já Ferreira et. al. (2000) enfatizavam que o aumento significativo do</p><p>número de instrumentos fabricados e sua padronização, pelo Homo erectus, por</p><p>exemplo, é um fato de suma importância ao estudo da linguagem, pois indica a</p><p>hipótese de transmissão dos conhecimentos e das técnicas de fabricação de</p><p>instrumento, fato que somente é possível com a presença de uma linguagem</p><p>eficiente.</p><p>Do exposto, tem-se que, é na atividade humana fundamental, ou seja, o</p><p>trabalho social, que se cria no homem a necessidade de se comunicar,</p><p>assim a linguagem é um dos fatores decisivos para passagem da conduta</p><p>instintiva animal do homem para a conduta consciente. (Clarindo; Borela;</p><p>Castro, 2014)</p><p>É consenso entre os estudiosos que o surgimento da linguagem no homem</p><p>é concomitante ao avanço das técnicas de fabricação de instrumentos. Segundo</p><p>Leroi-Gourhan (1990), é proposto por cientistas e estudiosos dos processos</p><p>filogenéticos da linguagem humana que existe uma sintonia evolutiva entre as</p><p>atividades de fabricação de objetos e a linguagem, o que permite inferir, pela</p><p>análise dos utensílios fabricados pelos pré-hominídeos, que a linguagem,</p><p>provavelmente, já se mostrava presente, de forma rudimentar, nos arcantropos</p><p>mais primitivos.</p><p>O nascimento da linguagem levou a que, progressivamente, fosse</p><p>aparecendo todo um sistema de códigos que designava objetos e ações</p><p>e suas relações. Finalmente, formaram-se códigos sintáticos complexos</p><p>de frases inteiras, as quais podiam formular as formas complexas de</p><p>alocução verbal. (Luria, 1986, p. 22).</p><p>Em parte, compreendida essa evolução da linguagem humana, e</p><p>comparando-a com o desenvolvimento da criança em relação à sua linguagem,</p><p>estudiosos perceberam que há, em alguns pontos, uma equiparação entre estes.</p><p>Segundo o linguista contemporâneo Derek Bickerton (1990), existe uma</p><p>protolinguagem identificável que é compartilhada por macacos treinados e</p><p>crianças. Essa protolinguagem equivale a uma concepção tradicional, porém</p><p>9</p><p>imprecisa, da sub-linguagem dos dois, um código telegráfico sem morfemas</p><p>gramaticais, com base na ordem das palavras como dispositivo gramatical básico</p><p>e expressando uma coleção de conceitos básicos pré-linguísticos.</p><p>Para Montes (1971), essa primeira manifestação da linguagem na criança é</p><p>o balbuciar, expressão não linguística que somente tem em comum com a língua</p><p>os órgãos e as funções fisiológicas que são empregados para a produção do</p><p>idioma. Para o autor, a criança, ao balbuciar, se torna consciente de suas</p><p>possibilidades fonéticas e tem o prazer de usá-las sem função aparente que não</p><p>seja puramente expressiva ou lúdica:</p><p>Parece muito provável que o balbucio se constitua na imitação da forma</p><p>linguística ouvida dos adultos, ou que pelo menos a linguagem destas,</p><p>condicione, molde ou transforme, à sua imagem, o balbucio da criança. Se</p><p>é assim, então fica claro que a “forma” é o primeiro parâmetro no</p><p>aprendizado da língua. Mas se trata de uma forma elementar e rudimentar,</p><p>bastante diferente do que é a “forma" de qualquer linguagem</p><p>desenvolvida. Para que esta “forma” elementar se transforme na “forma”</p><p>elaborada e estruturada da língua, é necessário que a criança penetre o</p><p>conteúdo, em detrimento de distinguir um número cada vez maior de</p><p>realidades. (Montes, 1971, p. 22, tradução livre)</p><p>Balbuciar, com base nessa interpretação, é imitar, e imitação não pode ser</p><p>considerada como linguagem, mas se apresenta como um primeiro passo para a</p><p>aquisição processual da linguagem na criança. É nesse processo que a criança</p><p>distingue as realidades que lhe são impostas e desenvolve progressivamente o</p><p>núcleo de seu balbucio primitivo, adequando-o ao sistema fonológico de sua língua,</p><p>à norma fonética de seu ambiente, mas para que isso possa acontecer, a mera</p><p>imitação é insuficiente; é necessário que a criança se aproprie do conteúdo, ou</p><p>seja, dos significados de cada palavra e é nesse ponto que surge a linguagem na</p><p>criança.</p><p>Ontogeneticamente falando, não há diferenças formais substantivas entre os</p><p>enunciados de macacos treinados e</p><p>a fala realizada por crianças pequenas. A</p><p>evidência do balbucio poderia, portanto, ser tratada como consistente com a</p><p>hipótese de que o desenvolvimento ontogenético da linguagem reproduz</p><p>parcialmente seu desenvolvimento filogenético. Segundo Bickerton (1990, p. 115,</p><p>tradução nossa), “A fala dos menores de dois anos assemelhava-se a um estágio</p><p>no desenvolvimento da linha hominídea entre ancestrais remotos, sem palavras e</p><p>ancestrais com línguas muito parecidas com as de hoje”.</p><p>Saiba mais</p><p>10</p><p>Continuaremos a discutir nesta aula sobre como se processa a linguagem</p><p>nas crianças pequenas, mas para que você compreenda melhor as discussões</p><p>que aqui estão sendo feitas, sugerimos a leitura do texto a seguir:</p><p>FERREIRA, R. G. F. et al. A filogênese da linguagem: novas abordagens e antigas</p><p>questões. Arquivos de Neuropsiquiatria, v. 58, n. 1, p. 188-194, 2000.</p><p>Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-</p><p>282X2000000100030&script=sci_abstract&tlng=pt>. Acesso em: 14 jun. 2018.</p><p>TEMA 3 – OS MECANISMOS DA LINGUAGEM NA CRIANÇA PEQUENA</p><p>Embora demorado, é possível descrever os comportamentos que as</p><p>crianças produzem quando adquirem a linguagem, isto é, o que as crianças fazem</p><p>quando aprendem a língua. A tarefa mais difícil é descobrir como eles fazem isso.</p><p>Muitas teorias foram oferecidas para explicar como as crianças aprendem a língua.</p><p>Embora haja discordância nos detalhes, todos os relatos modernos aceitam o fato</p><p>de que elas chegam ao aprendizado de idiomas preparadas para aprender. A</p><p>discordância central está no que cada teoria leva a criança a ser preparada.</p><p>A maioria delas adquire a linguagem com relativa facilidade e, em linhas</p><p>gerais, adquire a linguagem de acordo com uma trajetória comum. No entanto,</p><p>dentro das semelhanças notáveis que caracterizam o aprendizado de línguas em</p><p>crianças, existem igualmente diferenças individuais na taxa e no tempo do</p><p>crescimento léxico e sintático (Goldin-Meadow, 2015).</p><p>Segundo Kuhl (2010), para entender melhor estas questões, a última década</p><p>produziu avanços rápidos em técnicas não invasivas que examinam o</p><p>processamento de linguagem em crianças pequenas, entre estas se incluem a</p><p>eletroencefalografia; os potenciais relacionados a eventos; o</p><p>magnetoencefalograma; a ressonância magnética funcional; e a espectroscopia de</p><p>infravermelho, entre outras.</p><p>Esses estudos cerebrais e comportamentais indicam um conjunto muito</p><p>complexo de sistemas cerebrais em interação na aquisição inicial da linguagem,</p><p>muitos dos quais parecem refletir o processamento da linguagem adulta, mesmo</p><p>no início da infância. Na idade adulta, a linguagem é altamente modularizada, o que</p><p>explica os padrões muito específicos de déficits de linguagem e danos cerebrais</p><p>em pacientes adultos após acidente vascular cerebral (Dehaene-Lambertz et al.,</p><p>2006; Kuhl, 2010).</p><p>11</p><p>Diferentemente dos adultos, as crianças pequenas devem começar a vida</p><p>com sistemas cerebrais que lhes permitam adquirir qualquer língua a que estejam</p><p>expostos. Segundo Petitto e Marentette (1991), estes podem adquirir linguagem na</p><p>condição de vocal-auditivo ou de código visual-manual, aproximadamente na</p><p>mesma época da vida.</p><p>As pesquisas ainda estão em estágio inicial de compreensão dos</p><p>mecanismos cerebrais subjacentes à flexibilidade inicial dos bebês em relação à</p><p>aquisição de linguagem, sua capacidade de adquirir linguagem por olho ou ouvido</p><p>e adquirir uma ou mais línguas, além da redução dessa flexibilidade inicial, que</p><p>ocorre com o avançar da idade, o que diminui drasticamente nossa capacidade de</p><p>adquirir uma nova linguagem quando adultos (Newport, 1990).</p><p>O cérebro infantil está primorosamente preparado para “decifrar o código da</p><p>fala” de uma forma que o cérebro adulto não pode. Descobrir como isso acontece</p><p>é um quebra-cabeça muito interessante. Uma verdade compartilhada pelos</p><p>principais estudiosos da linguagem na infância é que a língua apresenta um período</p><p>“crítico” para o aprendizado (Kuhl, 2010). Este período equivale a um espaço de</p><p>tempo no desenvolvimento da criança, no qual ela está mais propensa ao</p><p>aprendizado de qualquer língua, conseguido aprender até mais de uma língua</p><p>simultaneamente, sem prejuízos.</p><p>No domínio da linguagem, crianças pequenas são aprendizes superiores</p><p>quando comparados aos adultos, apesar da superioridade cognitiva destes. Ainda</p><p>assim, nem todos os aspectos da linguagem exibem as mesmas “janelas” críticas</p><p>temporalmente definidas. Para Kuhl (2010, em tradução livre),</p><p>O tempo de desenvolvimento dos períodos críticos para aprendizagem de</p><p>níveis fonéticos, lexicais e sintáticos da linguagem variam, embora os</p><p>estudos ainda não possam documentar o momento preciso em cada nível</p><p>individual. Estudos indicam, por exemplo, que o período crítico para a</p><p>aprendizagem fonética ocorre antes do final do primeiro ano, enquanto o</p><p>aprendizado sintático floresce entre 18 e 36 meses de idade. O</p><p>desenvolvimento de vocabulário “explode” aos 18 meses de idade, mas</p><p>não parece ser tão restrito pela idade quanto outros aspectos da</p><p>aprendizagem de línguas – é possível aprender novos itens de vocabulário</p><p>em qualquer idade.</p><p>Compreendendo o momento em que, normalmente, a aprendizagem da</p><p>linguagem é mais forte, pais, educadores, cientistas podem agir de forma mais</p><p>incisiva na busca de melhorar a vida futura das crianças. Hoje já se sabe que, nos</p><p>primeiros anos de vida, crianças estão mais propensas a aprender mais de uma</p><p>língua simultaneamente. Para Kuhl (2010), um dos objetivos das pesquisas futuras</p><p>12</p><p>será documentar a “abertura” e o “fechamento” de períodos críticos para todos os</p><p>níveis de linguagem e entender como eles se sobrepõem e por que diferem.</p><p>Toda criança desprovida de alguma deficiência tem em si a capacidade de</p><p>aprender a expressar sua linguagem, seja com base em uma língua falada, gestual,</p><p>seja por expressões faciais ou gesticulares, seja pela ausência de gestos ou até</p><p>pelo silêncio, independentemente de ter ou não recebido grandes quantidades de</p><p>estímulos externos, ou estímulos escassos. Porém, quanto mais experiências</p><p>educativas essa criança tiver, melhor expressão essa terá em sua linguagem.</p><p>TEMA 4 – RELAÇÃO ENTRE MECANISMOS MOTORES E A LINGUAGEM</p><p>HUMANA</p><p>Se o surgimento da linguagem nas crianças é um dos grandes</p><p>acontecimentos da infância, sua condição para movimentar-se é bem anterior. Na</p><p>atualidade existe um renovado interesse pela análise de como o movimento na</p><p>criança se relaciona com outras dimensões do desenvolvimento, incluindo a</p><p>linguagem. Nessa busca, vários autores chegaram ao ponto de defender uma</p><p>origem motora para o desenvolvimento cognitivo, concedendo ao corpo um papel</p><p>ativo no desenvolvimento da cognição humana e assumindo que nossas ações e</p><p>movimentos são chave para este desenvolvimento (Gallagher, 2011; Iverson;</p><p>Braddock, 2010; Borghi; Cimatti, 2010).</p><p>Segundo Rocha (1999), a linguagem é, antes de mais nada, uma mímica</p><p>motora que as vezes necessita da produção do som para ser vinculada a outros</p><p>indivíduos. Azcoaga (et al., 1981) preconizava que os elementos comunicativos</p><p>da linguagem resultam de uma atividade biológica. Muitas dessas atividades</p><p>podem ser ditas inatas, como a mímica facial, por exemplo, sendo a maioria</p><p>aprendida muito cedo e outras mais tardiamente com o contato social intenso.</p><p>A cada nova conquista motora, supõe-se uma intensa mudança na forma</p><p>como a criança se relaciona e se comunica com seu entorno social e material. A</p><p>capacidade motora exploratória das crianças pequenas é fundamental para seu</p><p>futuro desenvolvimento, já que, segundo Bornstein, Hahn e Suwalsky (2013)</p><p>permite prenunciar o rendimento acadêmico na adolescência, sendo que as</p><p>informações e experiências que os pais oferecem aos seus filhos cada vez mais</p><p>cedo aumentam as chances do rendimento cognitivo e motor futuro das crianças.</p><p>Outra questão importante está na condição de que, antes de</p><p>for clinical and</p><p>research practices. Journal of Speech, Language, and Hearing Research. v.</p><p>47, p. 173-186. 2004.</p><p>CLARINDO, C. B. S.; BORELLA, T.; CASTRO, R. M. de. O desenvolvimento da</p><p>filogênese e da ontogênese da Linguagem: alguns aspectos, segundo a teoria</p><p>histórico-cultural. Revista Ibero-americana de estudos em educação, v. 9, n. 3,</p><p>p. 599-613, 2014.</p><p>DEACON, T. W. The symbolic species: The coevolution of language and the</p><p>brain. New York: W. W. Norton and Company/London: Penguin Press. 1997.</p><p>DEHAENE-LAMBERTZ, G. et al. Functional segregation of cortical language</p><p>areas by sentence repetition. Human brain mapping, v. 27, n. 5, p. 360-371,</p><p>2006.</p><p>FALK, D. The role of hominin mothers and infants in prelinguistic evolution. In:</p><p>TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The Oxford handbook of language evolution.</p><p>New York: Oxford University Press. 2012.</p><p>FERREIRA, R. G. F. et al. A filogênese da linguagem: novas abordagens e antigas</p><p>questões. Arquivos da Neuropsiquiatria, v. 58, n. 1, p. 188-194, 2000;</p><p>18</p><p>GALLAGHER, S. How the body shapes the mind. Oxford: Calendon Press.</p><p>2011.</p><p>GIBSON K. R. Are other animals as smart as great apes? Do others provide better</p><p>models for the evolution of speech or language? In: TALLERMAN, M.; GIBSON K.</p><p>R. The Oxford handbook of language evolution. New York: Oxford University</p><p>Press, 2012.</p><p>GOLDIN-MEADOW, S. Studying the mechanisms of language learning by varying</p><p>the learning environment and the learner. Language Cognitive Neuroscience, v.</p><p>30, n. 8, p. 899–911, 2015.</p><p>HAECKEL, E. Generelle Morphologie der Organismen. Berlin: G. Reimer, 2 Vol.</p><p>1866.</p><p>HALLIDAY, M. A. K. Language as social semiotic: the social interpretation of</p><p>language and meaning. Baltimore, MD: University Park Press, 1978.</p><p>HALLIDAY, M.; MATTHIESSEN, C. An introduction to functional grammar.</p><p>London: Hodder Arnold, 2004.</p><p>HRDY, S. B. Mothers and others: the evolutionary origins of mutual</p><p>understanding. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 2009.</p><p>IVERSON, J. M.; BRADDOCK, B. A. Gesture and motor skill in relation to language</p><p>in children con language impairment. Journal of Speech, Language and Hearing</p><p>Research, v. 54, p. 72-86, 2010.</p><p>IVERSON, J. M. et al. The relationship between reduplicated babble onset and</p><p>laterality biases in infant rhythmic arm movements. Brain and Language, v. 101,</p><p>n. 3, p. 198-207, 2007</p><p>JAKUBOVICZ, R; CUPELLO, R. Introdução à afasia: Diagnóstico e terapia. 7.</p><p>ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2005.</p><p>KNIGHT, C.; POWER, C. Social conditions for the evolutionary emergence of</p><p>language. In: TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The Oxford handbook of</p><p>language evolution. New York: Oxford University Press, 2012.</p><p>KUHL, P. K. Brain Mechanisms in Early Language Acquisition. Neuron. ; v. 67, n.</p><p>5, p. 713–727, 9 set., 2010.</p><p>19</p><p>LEONARD, H. C.; HILL, E. L. The impact of motor development on typical and</p><p>atypical social cognition and language: a systematic review. Child and</p><p>Adolescent Mental Health, v. 19, p. 163-170, 2010</p><p>LEROI-GOURHAN, A. O gesto e a palavra, v.1. Lisboa: Edições 70, 1990.</p><p>LOCKE, J. L. Displays of vocal and verbal complexity: a fitness account of</p><p>language, situated in development. In: TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The</p><p>Oxford handbook of language evolution. New York: Oxford University Press,</p><p>2012.</p><p>LURIA, A. R. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria.</p><p>Tradução Diana Myriam Lichtenstein e Mario Corso. Porto Alegre: Artes Médicas,</p><p>1986.</p><p>MACLARNON, A. The anatomical and physiological basis of human speech</p><p>production: adaptations and exaptations. In: TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The</p><p>Oxford handbook of language evolution. New York: Oxford University Press,</p><p>2012.</p><p>MCPHERRON, A. et al. Evidence for stone‐tool‐assisted consumption of animal</p><p>tissues before 3.39 million years ago at Dikika, Ethiopia. Nature, 466, p. 857–860,</p><p>2010.</p><p>MEHLER, J. et al. Mechanisms of language acquisition: imaging and behavioral</p><p>evidence. In: NELSON, C. A.; LUCIANA, M. Handbook of developmental</p><p>cognitive neuroscience. 2. ed. London, Cambridge: The MIT Press, 2008.</p><p>MONTES, J. J. Acerca de la apropiación por el niño del sistema fonológico</p><p>español. Thesaurus, t. XXVI, 1971. p. 322-346</p><p>NEWPORT E. Maturational restrições à aprendizagem de línguas. Cognitive</p><p>Science, n. 14, p. 11-28, 1990.</p><p>PARKER, S. T.; GIBSON, K. R. A model of the evolution of language and</p><p>intelligence in early hominids. Behavioral and Brain Sciences, v. 2, p. 367-407,</p><p>1979</p><p>PETITTO, L.A.; MARENTETTE, P. Babbling in the manual mode: evidence for the</p><p>ontogeny of language. Science, v. 251, p 1483-1496, 1991.</p><p>ROCHA, A. F. O Cérebro – um breve relato de sua função. São Paulo: Fapesp,</p><p>1999.</p><p>20</p><p>SANTOS, Z. B. dos. A linguística sistêmico-funcional: algumas considerações.</p><p>Soletras, n. 28, jul.-dez., 2014</p><p>SEYFARTH, R. M.; CHENEY, D. L. Precursors to language: Social cognition and</p><p>pragmatic inference in primates. Psychon Bull Rev. v. 24, n. 1,p. 79-84, fev. 2017.</p><p>SLOBIN, Dan I. From ontogenesis to phylogenesis: what can child language tell</p><p>us about language evolution? In: LANGER, J., S. T. Parker; MILBRATH, C. (Org.)</p><p>Biology and knowledge revisited: from neurogenesis to psychogenesis.</p><p>Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2004.</p><p>TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The Oxford handbook of language evolution.</p><p>New York: Oxford University Press, 2012.</p><p>TATTERSALL, I. A putative role for language in the origin of human</p><p>consciousness. In: LARSON et al. (Ed.). The Evolution of Human Language</p><p>Biolinguistic Perspectives, 2010, p. 193–198.</p><p>WHANGHAM, R. Pegando fogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.</p><p>WOOD B. A.; BAUERNFEIND A. L. The fossil record: evidence for speech in early</p><p>hominins. In: TALLERMAN, M.; GIBSON K. R. The Oxford handbook of</p><p>language evolution. New York: Oxford University Press, 2012.</p><p>AULA 5</p><p>NEUROCIÊNCIA DA</p><p>LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Apresentando-se como distúrbios neurológicos que têm impacto na</p><p>aquisição da linguagem e na aprendizagem de crianças e adultos, o Transtorno</p><p>do Espectro Autista (TEA) e a epilepsia são as duas condições de anomalia dos</p><p>neurônios que estamos trabalhando nesta aula.</p><p>O primeiro trata-se de um distúrbio neurológico que se caracteriza pelo</p><p>comprometimento da comunicação social, seja ela verbal ou não verbal, e do</p><p>comportamento, que se mostra restrito e repetitivo. A segunda apresenta-se como</p><p>uma perturbação nas células nervosas, que tem como sintomas descargas</p><p>aleatórias que desencadeiam crises em que o indivíduo perde os sentidos e inicia</p><p>um processo convulsivo.</p><p>Muitas são as causas desses distúrbios que estamos apresentando aqui,</p><p>muitos também são os sintomas, mas nesta aula iremos destacar aqueles que</p><p>estão atrelados à aquisição da linguagem e ao processo comunicativo dos</p><p>indivíduos que têm essas condições neurológicas específicas.</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>Nos dias atuais, o TEA atinge por volta de 80 milhões de pessoas no mundo;</p><p>somente no Brasil, podem-se contar pelo menos 2 milhões de pessoas. Ao mesmo</p><p>tempo, estima-se que a epilepsia acometa por volta de 50 milhões de pessoas,</p><p>sendo que o Brasil reúne 1,3% dessas pessoas.</p><p>A maioria dos casos de epilepsia ocorre em crianças e adolescentes, mas</p><p>também pode surgir na vida adulta. No TEA, por sua vez, os pais já podem perceber</p><p>as alterações nos primeiros anos de vida da criança.</p><p>De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a</p><p>epilepsia ocorre em 1 a cada 100 crianças, enquanto o TEA ocorre em 1 a cada 70</p><p>crianças, sendo, neste último caso, maior a incidência no sexo masculino, em uma</p><p>proporção de 4 meninos para 1 menina.</p><p>Esses dois transtornos neurológicos trazem impactos muito importantes</p><p>sobre os processos cognitivos daqueles que têm essas condições, afetando desde</p><p>a aquisição da linguagem (que se dá de forma diferente) até as manifestações</p><p>desenvolvimento da linguagem. Crianças em situação de vulnerabilidade social,</p><p>que sofrem maus tratos, abandono, violência dentre outros, podem vir</p><p>apresentar dificuldades e também atrasos no desenvolvimento da linguagem. A</p><p>relação parental deve ser vista e tratada com seriedade, pois exerce grande</p><p>influencia no desenvolvimento do processo de aprendizagem infantil. (Nogueira;</p><p>Altafim; Rodrigues, 2011)</p><p>Com relação aos fatores sociais, Vygotsky (1931), a partir da sua teoria</p><p>histórico-social, destaca que as trocas que o sujeito realiza com o meio vão</p><p>influenciar no desenvolvimento da aprendizagem. O referido autor evidencia que</p><p>todo aprendizado está baseado no conjunto das experiências culturais, as fases</p><p>iniciais do desenvolvimento da linguagem estão diretamente ligados a reflexos</p><p>condicionados, ou seja, o ambiente torna-se determinante nesse processo de</p><p>desenvolvimento.</p><p>Vygotsky (1931) afirma que:</p><p>Todas as funções mentais superiores são internalizadas nas</p><p>relações sociais, são a base da estrutura social da</p><p>personalidade. Sua composição, estrutura genética e modo de</p><p>ação, em uma palavra, toda a natureza é social, portanto, o</p><p>homem mantém as funções de comunicação com ele mesmo (p.</p><p>150).</p><p>6</p><p>Assim percebe-se a importância de a criança estabelecer trocas com</p><p>meios que favoreçam sua aprendizagem, distante de brigas, situações de</p><p>violência, riscos e pobreza extrema, pois estes vão contribuir negativamente,</p><p>atrasando e dificultando seu desenvolvimento.</p><p>Conforme cita Araujo (2005), "A maneira pela qual as pessoas falam do</p><p>mundo está relacionada com a maneira pela qual o mundo é compreendido e,</p><p>em última análise, como essas pessoas atuam nele, e o conceito de mudança</p><p>revolucionária depende, em grande parte, da maneira pela qual o mundo é</p><p>estruturado pela linguagem" (Ecles, R.; Nohria, N., 1992, p. 58).</p><p>A forma como se compreende o que está à sua volta está intrinsecamente</p><p>ligada à forma como o indivíduo se expressa em relação à sua realidade.</p><p>Linguagem, além de simples expressão mecânica, biológica, é compreensão de</p><p>mundo, e a compreensão do mundo influencia diretamente na forma com os</p><p>seres humanos agem no mundo.</p><p>TEMA 2 – AS TEORIAS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM</p><p>Nos anos que se sucederam aos primeiros estudos médicos relacionados</p><p>a como o cérebro humano funciona, vários estudiosos se propuseram a</p><p>investigar como a linguagem humana se processa desde os primeiros momentos</p><p>de vida até a fase adulta. Destes estudos surgiram várias teorias, entre elas as</p><p>teorias Inatista, Condutista, Cognitiva e Construtivista.</p><p>Entre seus principais expoentes estão Noah Chomsky, que postulou a</p><p>Teoria Inatista; Burrhus F. Skinner, que apresentou seu posicionamento</p><p>Condutista da aquisição da linguagem; enquanto que a Teoria Cognitiva é</p><p>pensada por Jean Piaget, que contemporaneamente a Lev Vygotsky, também</p><p>apresenta aspectos da muito divulgada nos dias atuais Teoria Construtivista.</p><p>Outros pensamentos e teorias surgiram nesse tempo, porém não tiveram</p><p>tanta ênfase e discussões como os apresentados nesta aula. A partir de agora</p><p>apresentamos alguns aspectos dessas teorias, evidenciando que, mesmo com</p><p>divergências muito contundentes entre elas, todas tiveram e continuam tendo</p><p>muita força na explicação de como a linguagem se desenvolve no ser humano.</p><p>Chomsky destacou que “a criança possui uma teoria inata sobre</p><p>descrições estruturais [gramaticalmente] potenciais que é suficientemente rica e</p><p>desenvolvida para lhe permitir determinar, a partir de uma situação real em que</p><p>7</p><p>ocorre um sinal, quais as descrições estruturais que podem ser apropriadas a</p><p>este sinal” (Chomsky, 1975: 115).</p><p>O autor aponta que a capacidade do ser humano de falar e compreender</p><p>uma língua deve ser entendida como algo inato, nesta perspectiva suscita a</p><p>teoria que tem como foco:</p><p>O fato de crianças dominarem uma língua natural com surpreendente</p><p>rapidez, apesar da ausência de evidência negativa, da frequência com</p><p>que sentenças incompletas ou interrompidas são usadas pelos adultos,</p><p>somado ao fato de que o input a que a criança é efetivamente exposta</p><p>é finito [...] Isto é, a informação que se faz necessária e não está</p><p>disponibilizada no input linguístico recebido pelas crianças é atribuída a</p><p>princípios linguísticos inatos. (Chomsky, 2002, p.32)</p><p>Como explicar a quantidade de organizações gramaticais e frasais faladas</p><p>pelas crianças pequenas, já que não há condições de os adultos ensinarem</p><p>todas as combinações existente na língua para estas? Para Chomsky (2002) as</p><p>crianças possuem uma gramática interna, gerativa, que faz com que esta</p><p>produza novas expressões que, na maioria das vezes, já existem na língua</p><p>materna.</p><p>Chamamos a teoria da linguagem de Peter [um sujeito qualquer] de</p><p>“gramática” de sua linguagem. A língua de Peter determina uma gama</p><p>infinita de expressões, cada uma com seu som e significado. Em</p><p>termos técnicos, a língua de Peter, gera as expressões de sua</p><p>linguagem. A teoria de sua linguagem é, portanto, chamada gerativa.</p><p>(Chomsky, 2002, p.32)</p><p>Uma gramática interna, que gera uma gama infinita de expressões que</p><p>casam perfeitamente com a gramática da linguagem utilizada pelos nativos,</p><p>conterrâneos da criança. Isso se processa de dentro para fora, mas somente se</p><p>efetiva se houver o estímulo externo. Somente conversando com a criança,</p><p>interagindo com esta, este mecanismo de nascença vai ser ativado e a</p><p>linguagem na criança vai se desenvolver.</p><p>Indo por outro caminho, Skinner apresenta sua teoria, postulando que a</p><p>criança não desenvolve a linguagem por si mesma, mas necessita de uma série</p><p>de fatores externos para que esta se desenvolva. Definindo-se como um</p><p>behaviorista radical, este teórico tem por objetivo epistemológico combater todo</p><p>pensamento voltado à uma função interna na explicação dos comportamentos</p><p>onde o meio, na sua concepção, tem um papel central. (Parot, 1978)</p><p>Baseando-se em estudos do comportamento dos animais, Skinner</p><p>entende que o comportamento humano, nesse caso, o processo de aquisição da</p><p>linguagem, é compreendido mediante uma cadeia de estímulo-resposta-reforço.</p><p>8</p><p>Enquanto o meio oferece os estímulos linguísticos, a criança acaba por fornecer</p><p>respostas, compreendendo ou produzindo novas fórmulas linguísticas, o que</p><p>prontamente é reforçado pelos adultos que estão em seu entorno.</p><p>Esse reforço pode ser positivo, quando há o acréscimo ao estímulo</p><p>reforçador, ou negativo, quando há a remoção de alguns estímulos.</p><p>Independentemente de ser positivo ou negativo, “em ambos os casos, o efeito</p><p>do reforço é o mesmo: a probabilidade da resposta será aumentada” (Skinner,</p><p>1970, p.49).</p><p>Diante disso, há uma valorização do ambiente escolar por parte de</p><p>Skinner (1970), pois, é um espaço onde os comportamentos são reforçados a</p><p>todo tempo, mediante boas notas, promoções, diplomas, graus, medalhas e a</p><p>aprovação. Como reforçadores negativos, por muitos anos se utilizou a</p><p>palmatória e os castigos físicos, mas até hoje ainda prevalecem em muitos</p><p>espaços educacionais de forma negativa os estímulos verbais e morais.</p><p>Indo por uma outra vertente, diferente das de Chomsky e Skinner, surge o</p><p>epistemólogo Jean Piaget, com sua teoria da Epistemologia Genética, muito</p><p>conhecida também como teoria cognitiva.</p><p>Partindo dos processos biológicos da mente, Piaget explica que a</p><p>aquisição da linguagem se dá pela evolução cognitiva. Para este, quatro fatores</p><p>intervêm no desenvolvimento da linguagem da criança:</p><p>[...] a experiência do mundo, a maturação, o meio social e o equilíbrio</p><p>que ele define como uma função biológica característica de todos os</p><p>organismos vivos e que tem por objetivo responder, por processos de</p><p>regulamentação e de compensação, . . . aos desequilíbrios provocados</p><p>pelo meio. (Parot, 1978, p.119)</p><p>Partindo da ideia de que, tal qual as espécies animais, a mente humana</p><p>também é adaptável ao ambiente em que vive. Para que a adaptação</p><p>comunicativas.</p><p>3</p><p>TEMA 1 – CARACTERIZAÇÃO DO AUTISMO</p><p>O termo autismo vem da palavra grega eaftismos, cujo significado é</p><p>"trancado em si mesmo". Foi introduzido no campo da psicopatologia pelo</p><p>psiquiatra suíço Eugen Bleuler, que em seu trabalho Dementia Praecox usou o</p><p>vocábulo autismo para definir um dos sintomas fundamentais da esquizofrenia</p><p>(Cuxart, 2000).</p><p>Um dos principais estudiosos do TEA foi o psiquiatra austríaco radicado nos</p><p>Estados Unidos, Leo Kanner. O autor, em 1943, publicou a obra Autistic</p><p>disturbances of affective contact, baseado num estudo com 11 crianças que</p><p>possuíam um comportamento que se caracterizava por um “isolamento extremo</p><p>desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice”</p><p>(Schwartzman, 2010). Com essa obra, Kanner se tornou o principal nome</p><p>relacionado ao autismo; nela, Kanner, citado por Durante (2012), afirma que os</p><p>autistas não possuem linguagem e que as expressões de linguagem não passam</p><p>de ecolalia, ou seja, somente repetição de frases; porém, em outra obra, de 1946,</p><p>Kanner concluiu que não se pode afirmar a ausência da linguagem nas crianças</p><p>autistas por conta da capacidade criadora que estas possuem, deixando claro que</p><p>as construções linguísticas só fazem sentido dentro de um contexto:</p><p>O vocabulário incrível das crianças que adquiriram a linguagem, a</p><p>excelente memória para acontecimentos ocorridos há vários anos, a</p><p>fenomenal capacidade de decorar poemas e nomes e lembrar-se</p><p>precisamente de sequências e esquemas complexos, testemunham uma</p><p>boa inteligência no sentido comumente aceito deste termo. (Kanner, 1943,</p><p>p. 247-248)</p><p>Dentre as características principais do autismo, além da séria dificuldade em</p><p>estabelecer relações interpessoais e com mundo externo, Kanner (1943) dá</p><p>especial relevância às alterações do idioma. Segundo Cuxart (2000), das 11</p><p>crianças que compuseram o grupo inicial dos seus estudos, 8 desenvolveram</p><p>linguagem falada, porém, sem caráter comunicativo e caracterizada pela</p><p>repetitividade.</p><p>Um outro sintoma fundamental do TEA é apresentado por Kanner (1943):</p><p>um desejo ansioso e obsessivo por manter a invariabilidade. Para o autor, essa</p><p>característica se expressava em múltiplos comportamentos nos 11 casos, mas</p><p>principalmente no desespero que pode provocar na criança qualquer mudança de</p><p>rotina, sequência de ações, situação do mobiliário ou objeto quebrado ou</p><p>4</p><p>incompleto. O autor também interpreta como consequência desse desejo de</p><p>invariabilidade a gama restrita de atividades espontâneas.</p><p>Outra constatação feita por Kanner é que várias das crianças estudadas</p><p>eram um pouco desajeitadas no caminhar e na motricidade grossa, mas que todas</p><p>possuíam excelentes habilidades motoras finas. O autor descreveu as crianças</p><p>globalmente como fisicamente normais, embora se acrescente que cinco delas</p><p>tinham um crânio relativamente aumentado.</p><p>Outro autor importante que se debruçou sobre os estudos sobre o autismo</p><p>foi o psiquiatra austríaco Hans Asperger, que em 1944 publicou o trabalho Die</p><p>autistichen Psychopathen im Kindesalter (“A psicopatia autista de infância”)</p><p>(Asperger, 1944), em que se mostrava uma série de casos que compartilhavam as</p><p>características principais da síndrome de Kanner, embora os níveis cognitivos</p><p>globais fossem significativamente superiores. Porém, o artigo de Asperger se</p><p>difundiu pouco, primeiro porque foi escrito em alemão, e segundo porque foi</p><p>publicado na Europa em plena Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, a alteração</p><p>que Asperger chamou de Psicopatia Autista veio a ser conhecida pelo nome de</p><p>Síndrome de Asperger e serve para denominar os tipos de autismo de "alto nível"</p><p>(Cuxart, 2000).</p><p>Enquanto indivíduos com TEA são únicos como qualquer outra pessoa,</p><p>algumas características globais comuns existem dentro da população. Essas</p><p>características variam em intensidade, grau e quantidade, e manifestam-se de</p><p>forma diferente de pessoa para pessoa e ao longo do tempo. As características</p><p>associadas a esse transtorno são vagamente discutidas pelos especialistas e</p><p>devem ser usadas para obter uma melhor compreensão dos indivíduos</p><p>identificados com TEA, projetar um programa ou facilitar a discussão.</p><p>Segundo Pratt, Hopf e Larriba-Quest (2017), as principais características</p><p>associadas ao autismo são:</p><p> Prejuízos na comunicação social: todos os indivíduos com TEA exibem</p><p>deficiências de comunicação social. Nos primeiros anos de vida, os</p><p>principais sinais de autismo incluem a falta de contato visual apropriado e a</p><p>incapacidade de iniciar ou responder à atenção conjunta (ou seja,</p><p>compartilhar experiências sociais com um parceiro de comunicação).</p><p> Deficiências de fala/linguagem: pessoas com TEA podem ter dificuldades</p><p>específicas nas áreas de linguagem receptiva e expressiva. A linguagem</p><p>receptiva é a compreensão da linguagem (por exemplo, seguindo as</p><p>5</p><p>instruções), enquanto a linguagem expressiva é a capacidade de expressar</p><p>desejos e pensamentos para outras pessoas. Alguns indivíduos com TEA</p><p>expressam seus pensamentos verbalmente, enquanto outros podem ser não</p><p>verbais e requerem um dispositivo de comunicação.</p><p> Padrões Restritivos e Estereotipados de Comportamento, Interesses e</p><p>Atividades: embora as pessoas com TEA possam desfrutar das mesmas</p><p>atividades que os pares típicos da mesma idade, a intensidade e o foco de</p><p>seus interesses podem ser diferentes. Isso pode ser devido ao fato de que</p><p>alguns têm um repertório limitado de comportamentos alternativos, ou que</p><p>eles preferem e se sentem confortáveis executando repetidamente</p><p>determinadas tarefas.</p><p> Deficiências da função executiva: funcionamento executivo refere-se a</p><p>habilidades cognitivas avançadas, como atenção, memória de trabalho,</p><p>planejamento, raciocínio, sequenciamento e pensamento flexível. Em</p><p>pessoas com desenvolvimento típico, essas habilidades beneficiam não</p><p>apenas as interações sociais, mas também as acadêmicas, a aprendizagem,</p><p>a autorregulação e as atividades da vida diária.</p><p> Características comuns de aprendizagem: embora não haja duas pessoas</p><p>iguais com TEA, muitas demonstram características comuns de</p><p>aprendizagem. Os envolvidos no trabalho com o indivíduo com TEA</p><p>precisarão de informações básicas sobre essas características e como elas</p><p>afetam o aprendizado.</p><p>TEMA 2 – PROCESSOS LINGUÍSTICOS NA CRIANÇA AUTISTA</p><p>Crianças com TEA são, em certo ponto, egocêntricas e parecem viver em</p><p>um mundo privado, fazendo com que tenham uma capacidade limitada de se</p><p>comunicar e interagir com sucesso, por isso, podem ter dificuldade em desenvolver</p><p>habilidades de linguagem e entender o que os outros dizem. Também costumam</p><p>ter dificuldade em se comunicar não verbalmente, como por meio de gestos com</p><p>as mãos, contato visual e expressões faciais (Kasari et al., 2013).</p><p>A capacidade das crianças com TEA para se comunicar e usar a linguagem</p><p>depende do seu desenvolvimento intelectual e social. Algumas dessas crianças</p><p>podem não conseguir se comunicar usando fala ou linguagem, outras podem ter</p><p>habilidades de fala muito limitadas, já outras podem ter vocabulários ricos e serem</p><p>capazes de falar sobre assuntos específicos em grande detalhe. Muitas têm</p><p>6</p><p>problemas com o significado e ritmo das palavras e frases. Elas podem, também,</p><p>ser incapazes de compreender a linguagem corporal e os significados de diferentes</p><p>tons vocais. Em conjunto, essas dificuldades afetam a capacidade de as crianças</p><p>com TEA interagirem com outras pessoas, especialmente pessoas da sua idade.</p><p>Aqueles que não são verbais podem demonstrar atraso ou falta de fala.</p><p>Segundo Vicker (2009), essa realidade afeta aproximadamente 20 a 30% da</p><p>população. Diante disso, a falta de um meio eficaz de comunicação pode levar à</p><p>necessidade do uso de comunicação aumentativa alternativa, como linguagem de</p><p>sinais, imagens ou um dispositivo de saída de voz.</p><p>Indivíduos com TEA que são fluentemente verbais não</p><p>estão livres de</p><p>desafios de linguagem e comunicação. Estes podem apresentar ecolalia tardia ou</p><p>imediata como meio de comunicação com outras pessoas, autogestão ou</p><p>autoestimulação. Por exemplo, um diálogo de programa de televisão ou vídeo pode</p><p>ser usado como meio de conversa. Podem também fazer uso estereotipado ou</p><p>repetitivo de rotinas de linguagem não ecolálicas que servem a várias funções,</p><p>como iniciar ou sustentar uma conversa, além do uso de fala idiossincrática (por</p><p>exemplo, uso inapropriado de palavras) (Pratt; Hopf; Larriba-Quest, 2017).</p><p>Em alguns casos, a estrutura gramatical pode parecer imatura (isto é, fala</p><p>telegráfica, tempo impróprio ou uso de pronomes) ou pedante (por exemplo,</p><p>monólogo, vocabulário avançado em uma área de interesse). Outra característica</p><p>importante é a utilização anormal de tom, entonação, ritmo ou estresse. Por</p><p>exemplo, a fala pode ser monótona ou hipernasal, e sentenças declarativas podem</p><p>terminar com um tom ascendente para sinalizar a solicitação de uma pergunta</p><p>(Pratt; Hopf; Larriba-Quest, 2017).</p><p>Podemos destacar como padrões de uso da linguagem e comportamentos</p><p>observáveis em crianças com TEA: linguagem repetitiva ou rígida; interesses</p><p>estreitos e habilidades excepcionais; desenvolvimento de linguagem desigual;</p><p>habilidades de conversação não verbal insipientes.</p><p>Conforme obra publicada por Kasari et al. (2013), as crianças com TEA</p><p>que são falantes podem dizer coisas que não têm significado ou que não se</p><p>relacionam com as conversas que estão tendo com outras pessoas. Por exemplo,</p><p>uma criança pode contar de um a cinco repetidamente em meio a uma conversa</p><p>que não esteja relacionada a números. Ou uma criança pode repetir</p><p>continuamente as palavras que ouviu (ecolalia). A ecolalia imediata ocorre quando</p><p>a criança repete as palavras que alguém acabou de dizer. Por exemplo, a criança</p><p>7</p><p>pode responder a uma pergunta fazendo a mesma pergunta. Na ecolalia tardia, a</p><p>criança repete as palavras ouvidas em um momento anterior. A criança pode dizer</p><p>"Você quer algo para beber?" sempre que ele ou ela pede uma bebida. Algumas</p><p>crianças com TEA falam em voz alta ou cantada ou usam discurso semelhante a</p><p>um robô. Outras crianças podem usar frases de estoque para iniciar uma</p><p>conversa. Por exemplo, uma criança pode dizer "Meu nome é Tom", mesmo</p><p>quando ela fala com amigos ou familiares. Outros ainda podem repetir o que</p><p>ouvem em programas de televisão ou comerciais (Kasari et al., 2013).</p><p>Quanto aos interesses estreitos e habilidades excepcionais, os autores</p><p>destacam que algumas crianças podem fornecer um monólogo aprofundado sobre</p><p>um tópico que mantém seu interesse, mesmo que elas não consigam realizar uma</p><p>conversa de duas vias sobre o mesmo assunto. Outros podem ter talentos</p><p>musicais ou uma capacidade avançada de contar e fazer cálculos matemáticos.</p><p>Aproximadamente 10% das crianças com TEA apresentam habilidades savant, ou</p><p>seja, habilidades extremamente altas em áreas específicas, como memorização,</p><p>cálculo de calendários, música ou matemática (Kasari et al., 2013).</p><p>Outro ponto apresentado por Kasari et al. (2013) revela que muitas crianças</p><p>com TEA desenvolvem algumas habilidades de fala e linguagem, mas não em um</p><p>nível normal de habilidade, e seu progresso é geralmente desigual. Por exemplo,</p><p>eles podem desenvolver um vocabulário forte em uma área específica de</p><p>interesse muito rapidamente. Muitas crianças têm boas lembranças de</p><p>informações que acabaram de ser ouvidas ou vistas. Alguns podem ler palavras</p><p>antes dos 5 anos de idade, mas podem não compreender o que leram. Eles</p><p>geralmente não respondem ao discurso dos outros e podem não responder aos</p><p>seus próprios nomes.</p><p>As crianças com TEA são frequentemente incapazes de usar gestos (como</p><p>apontar para um objeto) para dar sentido à fala. Muitas vezes evitam o contato</p><p>visual, o que pode fazê-las parecer rudes, desinteressadas ou desatentas. Sem</p><p>gestos significativos ou outras habilidades não verbais para melhorar suas</p><p>habilidades de linguagem oral, muitas delas ficam frustradas em suas tentativas</p><p>de tornar conhecidos seus sentimentos, pensamentos e necessidades. Elas</p><p>podem representar suas frustrações por meio de explosões vocais ou outros</p><p>comportamentos inadequados (Kasari et al., 2013).</p><p>8</p><p>TEMA 3 – CARACTERIZAÇÃO DA EPILEPSIA</p><p>A epilepsia é considerada uma desordem médica e social comum ou um</p><p>grupo de distúrbios de duração e intensidade variável, porém, com características</p><p>únicas. Geralmente é definida como uma tendência a crises recorrentes que</p><p>acontecem sem uma causa aparente.</p><p>A palavra epilepsia é derivada do latim e do grego epilepsis, e tem por</p><p>significado “apreensão” ou “tomada”, “captura”, “posse”. É uma doença antiga, que</p><p>pôde ser rastreada em todas as civilizações, desde que surgiram os registros</p><p>médicos. Um dos textos mais antigos de que se tem conhecimento e que relata</p><p>detalhadamente os sintomas da epilepsia é atribuído aos babilônicos, datado de</p><p>1000 a.C. Como os babilônicos não compreendiam de patologias, as crises</p><p>epiléticas eram atribuídas a espíritos malignos, portanto não havia tratamento</p><p>médico, mas espiritual (Reynolds, 2005).</p><p>Segundo Reynolds (2005), a epilepsia é um distúrbio que pode ocorrer em</p><p>todas as espécies de mamíferos, provavelmente com maior frequência à medida</p><p>que os cérebros se tornam mais complexos. A epilepsia também é notavelmente</p><p>uniformemente distribuída em todo o mundo. Não há fronteiras de classe raciais,</p><p>geográficas ou sociais. Ocorre em ambos os sexos, em todas as idades,</p><p>especialmente na infância, adolescência e, cada vez mais, nas populações mais</p><p>idosas.</p><p>As epilepsias podem ser caracterizadas como manifestações clínicas que se</p><p>apresentam em forma de convulsões e são decorrentes de uma descarga ou</p><p>sucessão de descargas neuronais excessivas, que podem ocorrer em múltiplas</p><p>estruturas do cérebro e obedecer a situações condicionantes e causais muito</p><p>diversas, mas na maioria dos pacientes essa causa pode não ser identificada. Entre</p><p>as patologias mais comumente consideradas como causadoras de epilepsia estão</p><p>as lesões vasculares, trauma perinatal ou pós-natal, infecções do sistema nervoso</p><p>central e tumores ou malformações congênitas do cérebro. A área onde há a lesão</p><p>é conhecida como zona epileptogênica (Perelló; Ponces, 1995).</p><p>Segundo Bowman, Dudek e Spitz (2001), é na zona epileptogênica que as</p><p>convulsões realmente começam. Essa área é geralmente dentro ou perto da lesão</p><p>epileptogênica. A função das células nervosas e seus circuitos na zona</p><p>epileptogênica é fundamentalmente alterada (e até destruída) pela patologia.</p><p>Durante uma crise epiléptica, neurônios na zona epileptogênica começam a</p><p>9</p><p>descarregar sinais elétricos hipersincrônicos a uma taxa excessivamente alta e/ou</p><p>em um padrão anormal. Uma crise epilética pode se originar apenas em certas</p><p>estruturas do cérebro (por exemplo, o córtex cerebral e amígdala), mas a convulsão</p><p>pode se espalhar para outras estruturas do sistema nervoso (por exemplo, os</p><p>gânglios da base). Uma vez que o paciente desenvolve a epilepsia, posteriormente</p><p>convulsões individuais podem ser precipitadas por uma série de condições e</p><p>circunstâncias (Bowman; Dudek; Spitz, 2001).</p><p>Vários processos, sejam eles fisiológicos e/ou patológicos, podem contribuir</p><p>com a origem da epilepsia; estes podem ser fatores metabólicos, hormonais ou</p><p>emocionais, febres, ativação sensorial, ritmos circadianos e até ingestão de álcool.</p><p>Outros fatores, como lesões no cérebro ou infecções, também podem ser causas</p><p>da epilepsia. Em alguns casos, sua origem ainda é desconhecida (Grünspum;</p><p>Grossman, 1992).</p><p>A anomalia cerebral responsável pela epilepsia pode resultar de um distúrbio</p><p>genético (isto é, primário, idiopático ou epilepsia essencial) ou de uma patologia</p><p>estrutural (isto é, epilepsia secundária, sintomática ou adquirida). A patologia</p><p>estrutural pode ser herdada</p><p>ou adquirida (por exemplo, secundária a traumatismo</p><p>craniano). Diferentes doenças como infecções, tumores e derrames podem originar</p><p>epilepsia, e cada uma delas sugere que a causa da lesão em si não é o motivo pelo</p><p>qual a epilepsia se desenvolve (Bowman; Dudek; Spitz, 2001).</p><p>Além das alterações fisiológicas, os indivíduos com epilepsia sofrem os</p><p>efeitos psicossociais da doença. O estigma que o termo “epilepsia” traz consigo os</p><p>afasta do convívio social. As mudanças de comportamento e a influência da</p><p>epilepsia em aspectos psicossociais são observadas em pacientes epilépticos</p><p>desde muito cedo, pois as primeiras dificuldades de adaptação social podem surgir</p><p>na infância ou na adolescência.</p><p>TEMA 4 – PROCESSOS LINGUÍSTICOS NA CRIANÇA COM EPILEPSIA</p><p>Médicos e cientistas há muito estão intrigados com a variedade de</p><p>maneiras pelas quais a linguagem pode ser afetada por doenças cerebrais. É claro</p><p>que a epilepsia pode afetar a linguagem, mas a extensão e a natureza do distúrbio</p><p>da linguagem variam amplamente de acordo com o tipo, a gravidade e a causa da</p><p>epilepsia (Epilepsy Foundation, 2015).</p><p>Segundo a Epilepsy Foundation (2015), nos adultos que têm epilepsia há</p><p>frequentemente a queixa de dificuldades com a linguagem (especialmente</p><p>10</p><p>dificuldades em sugerir palavras), mas para a maioria deles os problemas não são</p><p>graves o suficiente para serem classificados como uma afasia genuína. As</p><p>exceções são aquelas pessoas cujas convulsões se desenvolvem como resultado</p><p>de uma lesão específica, como um derrame ou tumor cerebral, que afeta as zonas</p><p>de linguagem na área de seu lobo temporal esquerdo. As alterações de linguagem</p><p>podem ocorrer na ocasião da crise ou com o agravamento da patologia, sendo</p><p>causadas pelas lesões existentes no tecido neuronal e podendo provocar sérias</p><p>dificuldades de aprendizagem, desenvolvimento da fala, leitura e escrita,</p><p>organização e planejamento de atividades que envolvam a linguagem.</p><p>Já nas crianças outras causas podem ser detectadas. Em estudo realizado</p><p>por uma equipe composta por fonoaudióloga, médica e psicóloga, P. D. F. Melo,</p><p>A. N. Melo e Maia (2010), observou-se que há um aspecto social importante que</p><p>pode prejudicar o desenvolvimento da criança com epilepsia, e este se dá quando</p><p>a criança atinge um grau linguístico e cognitivo superior, fazendo com que seu</p><p>campo de socialização fique maior, principalmente quando ela se matricula na</p><p>escola e tem mais oportunidades de interagir com outras crianças. A preocupação</p><p>dos pais que têm filhos com epilepsia leva-os, muitas vezes, a superproteger as</p><p>crianças e também a exclui-la da interação social com outras crianças, que é a</p><p>mesma preocupação que leva os pais a não matricularem crianças na escola ou</p><p>até mesmo tirá-las da escola (Melo; Melo; Maia, 2010).</p><p>Quanto mais cedo a criança se envolver em relações sociais, mais</p><p>benefícios serão obtidos a curto ou até longo prazo, levando em consideração as</p><p>experiências e aprendizagens proporcionadas por essas interações. No entanto,</p><p>em uma criança com epilepsia o desenvolvimento da linguagem oral pode ser</p><p>prejudicado por falhas nesses aspectos. Os pais têm medo de que algo ruim possa</p><p>acontecer com os pequenos enquanto eles estão fazendo suas atividades. Além</p><p>disso, os pais desconhecem outras doenças associadas que as crianças podem</p><p>desenvolver, como distúrbio de linguagem, distúrbio do sono e hiperatividade.</p><p>Desse modo, esses comportamentos podem trazer prejuízos sociais e</p><p>educacionais a uma criança que já apresenta um importante problema</p><p>neurológico: a epilepsia (Melo; Melo; Maia, 2010).</p><p>Muitas formas de epilepsia generalizada têm efeitos inespecíficos em uma</p><p>série de funções, incluindo aquelas que envolvem a linguagem. Mas outras formas</p><p>de epilepsia produzem padrões definidos de distúrbios de linguagem, como é o</p><p>caso da afasia, que possui variedades definidas de acordo com o tipo de função</p><p>11</p><p>que é perdido. Nesse caso, para que a afasia seja causada pela epilepsia supõe-</p><p>se que a criança tenha atingido o funcionamento normal da linguagem antes do</p><p>início da doença (Epilepsy Foundation, 2015).</p><p>Estudos realizados por Grünspum e Grossman (1992) têm demonstrado</p><p>prejuízos sobre a cognição e o quociente intelectual (QI), pois podem existir</p><p>alterações significativas de atenção em crianças epilépticas. A precocidade e a</p><p>duração das crises são fatores que estão ligados diretamente ao QI e à</p><p>aprendizagem do indivíduo. Dificuldades na memorização e lentidão mental</p><p>também são destacadas entre as deficiências cognitivas.</p><p>Quando a epilepsia se desenvolve na primeira infância, os padrões de</p><p>áreas de linguagem no cérebro podem estar fora do comum e dificuldades de</p><p>desenvolvimento podem surgir, nas quais a criança tem dificuldade em adquirir</p><p>habilidades de comunicação em ritmo e maneira semelhantes a da maioria das</p><p>crianças. Isto acontece mais frequentemente com a epilepsia parcial, que surge</p><p>no hemisfério esquerdo. Em muitos desses casos, o distúrbio de linguagem toma</p><p>a forma de uma redução geral em uma grande classe de habilidades verbais. Esse</p><p>distúrbio pode se estender aos efeitos da leitura e da escrita (Epilepsy Foundation,</p><p>2015).</p><p>Pesquisas descrevem relações entre cognição e alguns tipos específicos</p><p>de epilepsia, como em sujeitos com epilepsia mioclônica grave do lactente</p><p>(caracterizada por convulsões febris recorrentes e pelo aparecimento posterior de</p><p>abalos mioclônicos no primeiro ano de vida), que apresentam atraso do</p><p>desenvolvimento ou involuções das funções cognitivas em razão da resistência</p><p>aos medicamentos (Silva; Guerreiro, 1996).</p><p>Alguns distúrbios da infância podem produzir tipos muito específicos e</p><p>profundos de distúrbios de linguagem. A síndrome de Landau-Kleffner é uma</p><p>condição caracterizada por convulsões e um padrão distinto de anormalidades no</p><p>encéfalo que evoluem da região temporal-parietal esquerda, perto da área de</p><p>Wernicke. As crianças com essa condição começam com desenvolvimento normal</p><p>da linguagem, seguido por um grave declínio progressivo. Eles começam a ter</p><p>dificuldades em compreender a fala e progridem para um distúrbio de linguagem</p><p>mais generalizado. Muitas habilidades não-verbais não são afetadas (Epilepsy</p><p>Foundation, 2015).</p><p>Outro aspecto observado foi o distúrbio fonológico. Embora a causa seja</p><p>desconhecida e as implicações da inteligibilidade de fala sejam variáveis, alguns</p><p>12</p><p>autores têm considerado aspectos biológicos, psicossociais, de desenvolvimento</p><p>e etiologia. Além dos aspectos biológicos que caracterizam a epilepsia, aspectos</p><p>ambientais também justificam a ocorrência do desvio fonológico.</p><p>Saiba mais</p><p>FERREIRA, D. de M.; TOSCHI, L. S.; SOUZA, T. de O. Distúrbios de linguagem</p><p>e epilepsia. Estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 455-471, maio/jun. 2006.</p><p>Disponível em: <http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/estudos/article/download/</p><p>297/241>. Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>TEMA 5 – DIAGNÓSTICO E PROCESSOS EDUCATIVOS DE CRIANÇAS COM</p><p>AUTISMO E EPILEPSIA</p><p>O primeiro (e mais importante) passo para entender como o TEA e/ou a</p><p>epilepsia se apresentam na criança é obter uma compreensão completa desta, de</p><p>forma individual. Isso inclui não só estar ciente dos desafios que enfrentam e seu</p><p>porquê, mas também seus pontos fortes e como eles podem ser usados para</p><p>ajudá-los. A avaliação neuropsicológica é parte desse processo. O diagnóstico é</p><p>muitas vezes considerado um dos objetivos da avaliação e certamente traz</p><p>informações importantes. Mas para que o diagnóstico seja eficaz, é necessária</p><p>uma avaliação de toda a criança, para que se obtenham informações relacionadas</p><p>a seu perfil, bem como seu funcionamento comportamental e emocional, o que é</p><p>entendido tanto dentro de uma estrutura de desenvolvimento quanto dentro do</p><p>contexto ambiental (Tsatsanis; Volkmar, 2001).</p><p>Segundo Tsatsanis e Volkmar (2001), uma avaliação neuropsicológica</p><p>normalmente avalia múltiplas</p><p>áreas de funcionamento. Não se restringe a</p><p>medidas de inteligência (por exemplo, QI) e realização, mas examina outras áreas</p><p>de funcionamento que também têm impacto no desempenho em sala de aula, com</p><p>os colegas, em casa ou no trabalho. A avaliação deve ser estruturada para</p><p>investigar aspectos ou subcomponentes do desempenho da criança que</p><p>esclarecerão a natureza de sua fraqueza, detectada dentro de uma área</p><p>específica.</p><p>No processo de avaliação, vários testes podem ser usados para realizar a</p><p>avaliação. Esses testes não são fixos e podem ser selecionados de acordo com</p><p>as questões de encaminhamento, idade da criança, preferência, solidez das</p><p>medidas e questões pertinentes a uma determinada criança. Uma abordagem de</p><p>13</p><p>avaliação comum é fazer uso de uma bateria central de testes e, em seguida,</p><p>complementar com testes de habilidades específicas, tendo em vista os</p><p>resultados da bateria padrão. Ainda segundo Tsatsanis e Volkmar (2001), outras</p><p>considerações nesse processo incluem a história de desenvolvimento da criança,</p><p>entrevista, observações do comportamento do teste (por exemplo, durante</p><p>situações mais ou menos estruturadas), observações naturalistas (por exemplo,</p><p>adaptação na sala de aula), apresentação comportamental e emocional, e</p><p>entrevistas com indivíduos.</p><p>A eletroencefalografia (EEG) tem se mostrado, nos últimos anos, um</p><p>importante teste no diagnóstico de epilepsia e para o melhor conhecimento do</p><p>autismo. Segundo Bowman, Dudek e Spitz (2001), a EGG envolve o uso de um</p><p>conjunto de eletrodos para registrar a atividade elétrica apenas dos neurônios</p><p>mais próximos de cada eletrodo. Quando anormalidades elétricas são detectadas</p><p>em alguns pontos do eletroencefalograma, esse padrão localiza onde está o</p><p>problema. Esse procedimento geralmente é capaz de detectar sinais de disfunção</p><p>neuronal, e o paciente geralmente passa por vários procedimentos de ativação na</p><p>tentativa de revelar anormalidades no EEG.</p><p>Ao detectar essas anormalidades, o neuropiscólogo, profissional que tem o</p><p>papel de compreender o comportamento cerebral do indivíduo em</p><p>desenvolvimento, avalia diferentes domínios de funcionamento (por exemplo,</p><p>atenção, memória, resolução de problemas), a fim de gerar um perfil de forças e</p><p>fraquezas que irão traçar um planejamento e a adaptação do tratamento à vida</p><p>diária (Tsatsanis; Volkmar, 2001).</p><p>Outro especialista importante no processo de diagnóstico e tratamento de</p><p>crianças com os distúrbios aqui estudados é o fonoaudiólogo. Este é um</p><p>profissional de saúde treinado para tratar indivíduos com distúrbios de voz, fala e</p><p>linguagem. O fonoaudiólogo fará uma avaliação abrangente da capacidade de</p><p>comunicação da criança e elaborará um programa de tratamento apropriado. Além</p><p>disso, o fonoaudiólogo pode fazer um encaminhamento para um teste de audição</p><p>para garantir que a audição da criança é normal (Kasari et al., 2013).</p><p>Diante disso, para que o professor possa trabalhar com alunos que</p><p>possuam condições neurológicas e fonológicas específicas, como as do TEA e</p><p>epilepsia, é importante que este possua um plano de educação individualizado do</p><p>aluno; para tanto, deve prestar muita atenção às anotações médicas, às</p><p>condições de comorbidade (ou seja, as outras patologias que podem estar</p><p>14</p><p>associadas a esses distúrbios), às acomodações para instrução e avaliação e aos</p><p>objetivos acadêmicos da instituição em que esses alunos estão inseridos</p><p>(Broderick, 2017)</p><p>Ainda segundo Broderick (2017), no trabalho com alunos com TEA a</p><p>aplicação consistente de acomodações é uma parte muito importante, já que</p><p>muitos deles aprendem melhor quando não há mudanças ou surpresas em suas</p><p>rotinas. Mesmo pequenas mudanças não intencionais podem ter um grande</p><p>impacto em sua capacidade de aprender.</p><p>Ensinar as crianças com esses distúrbios neurológicos a melhorar suas</p><p>habilidades de comunicação é essencial para ajudá-las a alcançar todo o seu</p><p>potencial. Segundo Kasar et al. (2013), existem muitas abordagens diferentes,</p><p>mas o melhor programa de tratamento começa cedo, durante os anos pré-</p><p>escolares, e é adaptado à idade e aos interesses da criança. Deve abordar tanto</p><p>o comportamento da criança quanto as habilidades de comunicação e oferecer</p><p>um reforço regular de ações positivas. A maioria dessas crianças responde bem</p><p>a programas altamente estruturados e especializados. Pais ou cuidadores, além</p><p>de outros membros da família, devem estar envolvidos no programa de tratamento</p><p>para que ele se torne parte da vida diária da criança.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Entender os distúrbios neurológicos apresentados nesta aula não é algo</p><p>fácil. Pais, estudiosos, profissionais que trabalham com pessoas que têm essas</p><p>condições se debruçam em seu estudo, mas muito pouco ainda se descobriu sobre</p><p>o tema.</p><p>O que podemos fazer é nos ater a utilizar os conhecimentos que possuímos</p><p>e buscar ao máximo fazer com que essas pessoas tenham uma vida o mais</p><p>independente e normal possível. Para isso, é importante destacar a necessidade</p><p>de uma avaliação precoce do desenvolvimento da linguagem em pré-escolares com</p><p>o diagnóstico desses distúrbios, a fim de evitar futuros desajustes</p><p>socioeducacionais e de ajudar as equipes interdisciplinares a investirem</p><p>terapeuticamente em orientações aos pais e/ou cuidadores durante o</p><p>período/processo de estimulação de linguagem apropriada.</p><p>Quanto mais cedo isso se der, com mais facilidades essas pessoas podem</p><p>adquirir a linguagem e ter uma vida normal.</p><p>15</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Texto de abordagem teórica</p><p>FERREIRA, D. de M.; TOSCHI, L. S.; SOUZA, T. de O. Distúrbios de linguagem</p><p>e epilepsia. Estudos, Goiânia, v. 33, n. 5/6, p. 455-471, maio/jun. 2006. Disponível</p><p>em: <http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/estudos/article/download/ 297/241>.</p><p>Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>16</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ASPERGER, H. Die "Autistichen Psychopathen" im Kindesalter. Archiv für</p><p>Psychiatrie und Nervenkrankheiten, n. 117, p. 76-136, 1944.</p><p>BOWMAN, J.; DUDEK, F. E.; SPITZ, M. Epilepsy. Nature Publishing Group,</p><p>2001.</p><p>BRODERICK, T. Teaching Students with Autism Spectrum Disorders in the</p><p>General Education Classroom. Teach, 30 mar. 2017. Disponível em:</p><p><https://teach.com/blog/teaching-students-with-autism-spectrum-disorders-in-the-</p><p>general-education-classroom/>. Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>CUXART, F. El autismo: aspectos descriptivos y terapéuticos. Archidona/Málaga:</p><p>Aljibe, 2000.</p><p>DURANTE J. C. Autismo: uma questão de identidade ou diferença? In: SIMPÓSIO</p><p>NACIONAL DISCURSO, IDENTIDADE E SOCIEDADE, 3., 2012, Campinas.</p><p>Anais…, Campinas: Unicamp, 2012.</p><p>GRÜNSPUM, H.; GROSSMAN, A. P. A criança epiléptica. In: GRÜNSPUM, H.</p><p>Distúrbios psiquiátricos da infância. Rio de Janeiro, São Paulo: Atheneu,1992.</p><p>p. 221-286.</p><p>KANNER, L. Autistic Disturbances of Affective Contact: Nervous Child. Journal of</p><p>Psychopathology, Psychotherapy, Mental Hygiene, and Guidance of the</p><p>Child, v. 2, p. 217-250, 1943.</p><p>KASARI, C.; BRADY, N.; LORD, C.; TAGER-FLUSBERG, H. Assessing the</p><p>minimally verbal school-aged child with autism spectrum disorder. Autism</p><p>Research, v. 6, n. 6, p. 479-493, p. 2013.</p><p>MELO, P. D. F; MELO, A. N. de; MAIA, E. M. C. Distúrbios da linguagem oral em</p><p>crianças pré-escolares com epilepsia: triagem fonoaudiológica. Pró-Fono Revista</p><p>de Atualização Científica, Barueri, v. 22, n. 1, p. 55-60, jan./mar. 2011.</p><p>PRATT, C.; HOPF, R.; LARRIBA-QUEST, K. Characteristics of individuals with an</p><p>autism spectrum disorder (ASD). The Reporter, v. 21, n. 17, 2017.</p><p>REYNOLDS, E. H. Epilepsy: the disorder. In: WORLD HEALTH ORGANIZATION.</p><p>Atlas Epilepsy Care in the world. Genebra: WHO, 2005.</p><p>17</p><p>TSATSANIS, K. D.; VOLKMAR, F. R. Unraveling the Neuropsychological</p><p>Assessment. Disponível em: <https://www.aspennj.org/pdf/information/articles/u</p><p>nraveling-the-neuropsychological-assessment.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2018.</p><p>SCHWARTZMAN, J. S. Autismo e outros transtornos do espectro</p><p>autista. Revista</p><p>Autismo, set. 2010.</p><p>AULA 6</p><p>NEUROCIÊNCIA DA</p><p>LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>As discussões sobre como funcionam o cérebro e a linguagem foram</p><p>iniciadas há vários anos e incluíram um número de ilustres estudiosos de várias</p><p>disciplinas, porém, os interessados na biologia do cérebro humano tiveram poucos</p><p>métodos disponíveis em suas mãos. O máximo de que dispunham era a</p><p>investigação comportamental de indivíduos com lesões cerebrais de vários tipos,</p><p>com o objetivo de relacionar a natureza e a distribuição da lesão à extensão dos</p><p>distúrbios comportamentais. Esse método de “correlação clinicopatológica” ou</p><p>“análise de lesões” foi amplamente praticado e levou aos grandes avanços de</p><p>Pierre Paul Broca, Karl Wernicke, Jules Dejerine, Norman Geschwind e muitos</p><p>outros que contribuíram para um entendimento mais básico do cérebro e da</p><p>linguagem (Small, 2008).</p><p>Talvez tenha chegado o momento de ir além da ideia de que a linguagem</p><p>é simplesmente uma manifestação central do funcionamento da mente humana</p><p>que se relaciona interativamente com todos os aspectos do pensamento. A</p><p>questão, portanto, não é decidir se a linguagem e o pensamento humano podem</p><p>estar inelutavelmente ligados (eles simplesmente são), mas determinar as</p><p>características dessa relação e entender como a linguagem influencia – e pode</p><p>ser influenciada – processos não verbais da informação (Thierry, 2016).</p><p>Diante disso, nesta aula, discutiremos como os estudos do cérebro e da</p><p>linguagem têm sido realizados nos dias atuais. Começamos fazendo um</p><p>apanhado dos estudos da neolinguística na contemporaneidade, buscando</p><p>identificar as grandes questões que estão em voga atualmente na pesquisa</p><p>neolinguística.</p><p>Dando continuidade, buscamos compreender os desafios que se impõem</p><p>na atualidade aos estudos neurolinguísticos, percebendo, principalmente, a</p><p>ligação entre os aspectos biológicos e virtuais do cérebro, ou seja, os achados da</p><p>neurobiologia, que são, em parte, incompatíveis com as teorias da linguagem.</p><p>Continuamos nossa discussão, destacando os novos estudos em</p><p>neurolinguística, analisando o crescimento das pesquisas nesta área, atrelada ao</p><p>crescimento tecnológico perceptível nos últimos anos, como é o caso dos estudos</p><p>computacionais em neuropsicolinguística, que se utilizam de modelos informáticos</p><p>do cérebro humano para realização de estudos na área.</p><p>3</p><p>Por fim, realizamos uma compilação das principais tecnologias utilizadas</p><p>na atualidade não somente para o diagnóstico de problemas cerebrais, mas,</p><p>principalmente, para o aprofundamento das pesquisas nas áreas disciplinares que</p><p>têm como foco o cérebro humano.</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>O estudo da linguagem e do cérebro tem se apresentado mais evidente em</p><p>consequência do grande número de estudos publicados desde a década de 1990.</p><p>Para isso, várias tecnologias têm sido utilizadas, como a eletroencefalografia e a</p><p>magneto-encefalografia, que investigam aspectos do cérebro e da linguagem em</p><p>domínios linguísticos que vão da fonética ao discurso em processamento. Segundo</p><p>Poeppel e Embick (2005), a quantidade de recursos dedicados a tais estudos</p><p>sugere que são motivados por um programa de pesquisa viável e bem-sucedido, e</p><p>implica na formação de progressos substanciais.</p><p>A última década do século XX foi designada “Década do Cérebro” pelo</p><p>congresso dos EUA. No entanto, alguns cientistas argumentaram que isso era</p><p>excessivamente otimista e sugeriram que deveríamos designar o século XXI como</p><p>o "século do cérebro" (Bear et al., 2001).</p><p>A razão de ser excessivamente otimista sobre o destino da "Década do</p><p>cérebro" é que uma vasta quantidade de pesquisas em neurociência básica</p><p>demonstrou que já se sabe muito sobre a função do cérebro humano. O que</p><p>sabemos hoje, contudo, é insignificante comparado ao que ainda precisa ser</p><p>aprendido, especialmente se considerarmos a compreensão dos correlatos neurais</p><p>e dos mecanismos responsáveis pelos níveis mais elevados da atividade mental</p><p>humana (Bear et al., 2001).</p><p>Compreender como estão sendo realizados os estudos atuais em</p><p>neurolinguagem é imprescindível para compreendermos até aonde está indo a</p><p>pesquisa sobre o cérebro humano.</p><p>TEMA 1 – A NEUROLINGUÍSTICA NA CONTEMPORANEIDADE</p><p>Avanços teóricos na pesquisa da linguagem e a disponibilidade de técnicas</p><p>experimentais nas neurociências com resolução cada vez mais alta estão mudando</p><p>profundamente a forma como se investigam e se concebem as bases neurais do</p><p>processamento da fala e da linguagem. Trabalhos recentes alinham de perto a</p><p>4</p><p>pesquisa da linguagem a questões do núcleo da neurociência, variando de</p><p>caracterizações neurofisiológicas e neuroanatômicas a questões sobre codificação</p><p>neural (Poeppel et.al, 2012).</p><p>Até fins do último milênio, o conhecimento que se tinha da base cerebral do</p><p>processamento da linguagem, a faculdade mental considerada o cerne da natureza</p><p>humana, derivava em grande parte de medidas bastante grosseiras, como</p><p>correlações de déficit-lesão em pacientes com AVC, dados eletrofisiológicos, bem</p><p>como registros intracranianos ocasionais, associados a intervenções cirúrgicas e</p><p>medidas relativamente cruas, como o teste de Wada, que tinha como função</p><p>descobrir o lado dominante para a linguagem, antes da realização de cirurgias em</p><p>pessoas com epilepsia. O "modelo clássico" do cérebro e da linguagem,</p><p>desenvolvido no século XIX pelos neurologistas Broca (1861), Wernicke (1874),</p><p>Lichtheim (1885) e outros, dominou o discurso no campo por mais de cem anos.</p><p>Até hoje, o modelo Wernicke-Lichtheim, que simula a região frontal inferior</p><p>esquerda e uma área temporal posterior do cérebro, conectada pelo feixe de fibras</p><p>do fascículo arqueado, é familiar a todos os estudantes de neurociências, linguística</p><p>e psicologia. Esse modelo icônico, publicado em praticamente todos os livros-texto</p><p>relevantes, teve, e continua a ter, enorme influência nas discussões sobre os</p><p>fundamentos biológicos da linguagem (Geschwind, 1970).</p><p>Segundo Poeppel (et.al, 2012), as grandes questões em relação às</p><p>neurociências estavam ligadas à "lateralização da função" e à "dominância</p><p>hemisférica". As ciências cognitivas e pesquisas sobre a linguagem preocupavam-</p><p>se em atribuir diferentes aspectos da função da linguagem às regiões da linguagem</p><p>anterior e posterior, e produção versus compreensão, respectivamente, embora as</p><p>versões mais antigas (ou seja, de Wernicke) fossem realmente mais sutis do que</p><p>muitos trabalhos subsequentes. Crucialmente e problematicamente, a avaliação</p><p>dos distúrbios de fala, linguagem e leitura em contextos clínicos continua a ser</p><p>amplamente informada pela visão clássica e pelas ideias e dados que vão de 1860</p><p>a 1970.</p><p>Não surpreendentemente, mas vale a pena apontar explicitamente, a era do</p><p>modelo clássico acabou (Geschwind, 1970). A conceptualização subjacente da</p><p>relação entre cérebro e linguagem é irremediavelmente subespecificada, tanto do</p><p>ponto de vista biológico quanto das perspectivas linguística e psicológica (Poeppel;</p><p>Hickok, 2004). Por mais útil que tenha sido, servindo como um guia heurístico para</p><p>estimular a pesquisa básica e o diagnóstico clínico, esse modelo está sendo</p><p>5</p><p>radicalmente adaptado e, em partes, descartado. Dito isto, sua longevidade é um</p><p>testemunho do quão profundamente o modelo clássico penetrou, tanto na</p><p>imaginação científica quanto na popular. Poucos modelos científicos em qualquer</p><p>disciplina têm esse poder de permanência (Poeppel et.al 2012).</p><p>Grandes mudanças na conceituação das relações cérebro-linguagem</p><p>ocorreram, ambas relacionadas a uma melhor "resolução". Obviamente, nos</p><p>últimos 20 anos, a pesquisa nessa área tem sido dominada por imagens cerebrais</p><p>funcionais não invasivas. As novas técnicas aumentaram as resoluções espaciais</p><p>e temporais com as quais podemos investigar os fundamentos neurais do</p><p>processamento da linguagem. A melhoria</p><p>da resolução das técnicas experimentais</p><p>levou a dados neurais de melhor qualidade, gerando uma série de novos insights e</p><p>modelos de larga escala (Hickok; Poeppel 2004).</p><p>Em relação aos avanços nos métodos, as notáveis melhorias nas técnicas</p><p>de registro e análise de dados produziram novos mapas da anatomia funcional da</p><p>linguagem. Falando espacialmente, as regiões locais, os fluxos de processamento,</p><p>os dois hemisférios e as redes globais distribuídas estão agora implicados na</p><p>função da linguagem de maneiras imprevistas. Por exemplo, a região de linguagem</p><p>canônica, ou seja, a área de Broca, agora é conhecida com base em dados</p><p>citoarquitetônicos e imunocitoquímicos inovadores, compostos de várias sub-</p><p>regiões, implicando plausivelmente um número muito maior de funções diferentes</p><p>do que se supunha anteriormente (Amunts et al., 2010), suportando processamento</p><p>de linguagem e não linguagem. Além disso, há um consenso emergente de que as</p><p>regiões estão organizadas em pelo menos duas correntes de processamento,</p><p>dorsais e ventrais, que sustentam diferentes sub-rotinas de processamento, por</p><p>exemplo, mediando aspectos de reconhecimento lexical e combinação lexical</p><p>versus aspectos das transformações sensório-motoras para produção (Hickok;</p><p>Poeppel 2004).</p><p>Segundo Zatorre (et al. 2002), a questão clássica da lateralização da função</p><p>está agora sendo investigada com relação a especializações fisiológicas muito</p><p>específicas, desde a otimização computacional para a codificação de sons até a</p><p>codificação de significados de palavras. Diante disso, pode-se considerar que as</p><p>abordagens de rede para organização do cérebro estão começando a informar</p><p>como o processamento da linguagem é executado.</p><p>Os avanços conceituais na pesquisa linguística e psicológica definiram o que</p><p>constitui a "lista de peças" que compreende o conhecimento da linguagem, sua</p><p>6</p><p>aquisição e seu uso. Essa descrição se estende de importantes e amplas distinções</p><p>a análises sutis dos tipos de representações e operações que fundamentam a</p><p>construção de significado ou acesso lexical. Os primeiros trabalhos sobre a</p><p>neurobiologia da linguagem foram amplamente desconectados da pesquisa em</p><p>linguagem e psicologia per se e levaram a linguagem a ser bastante monolítica,</p><p>com distinções sendo feitas no tamanho de grão da "percepção" ou "compreensão"</p><p>versus "produção" (Poeppel et.al 2012).</p><p>Estudos atuais tentam relacionar estrutura e função do cérebro à fonologia,</p><p>sintaxe ou semântica. Isso representa um progresso significativo, mas os</p><p>resultados ainda são de natureza correlacional. A partir de uma perspectiva</p><p>neurobiológica, o objetivo é desenvolver hipóteses mecanicistas que conectem</p><p>princípios linguísticos bem definidos com mecanismos neurobiológicos</p><p>igualmente bem definidos. A próxima fase da pesquisa neolinguística começa</p><p>agora, com o desenvolvimento de uma neurobiologia computacional da</p><p>linguagem, havendo motivos para acreditar que hipóteses de ligação genuínas</p><p>entre as neurociências e as ciências cognitivas estão sendo elaboradas (Poeppel,</p><p>2012).</p><p>TEMA 2 – DESAFIOS DA NEUROLINGUÍSTICA NA ATUALIDADE</p><p>Diante do que já foi discutido nesta aula e de todos os avanços dos estudos</p><p>da neurociência relacionada à linguagem, é necessário apontar que alguns desafios</p><p>ainda se impõem à pesquisa nessa área de estudo.</p><p>Segundo O’shea (2005), ainda estamos longe de entender como objetos e</p><p>percepções são codificados no cérebro pelas atividades dos neurônios, porém, por</p><p>exemplo, a hipótese de que pode haver um neurônio em nosso cérebro que apenas</p><p>reconhece nossa “avó” merece uma séria reconsideração.</p><p>Segundo Bear (et al. 2001), talvez o maior desafio da neurociência no século</p><p>XXI seja entender os mecanismos neurais responsáveis pelos níveis mais elevados</p><p>da atividade mental humana. Nesse ponto, três grandes áreas foram propostas, a</p><p>autoconsciência, as imagens mentais e a Língua.</p><p>Para Nilipour (2012), a principal meta de pesquisa em cada nível é ver como</p><p>a atividade do cérebro cria a mente ou atividades mentais superiores. Diante disso,</p><p>os modelos clássicos de linguagem cerebral derivados de estudos de grandes</p><p>neuroanatomistas e neuropsicólogos, como Broca, Wenicke, Geshwind e outros,</p><p>têm sido considerados empiricamente errados e anatomicamente subespecificados</p><p>7</p><p>(Poeppel; Hickok, 2004). Consequentemente, novos modelos têm sido propostos</p><p>com a base neurobiológica de palavras e sentenças em termos de formação de</p><p>redes neurais específicas no cérebro (Pulvemuller, 2004).</p><p>Ao mesmo tempo, Poeppel e Embrick (2015) apontam que, em alguns</p><p>pontos, a pesquisa neolinguística atual não avançou na compreensão da teoria</p><p>linguística ou da neurociência. Para os autores, esta falha continuará até que certos</p><p>desafios fundamentais sejam identificados, reconhecidos e resolvidos. No seu texto</p><p>“A relação entre Linguística e Neurociência” (Poeppel; Embrick, 2005), os autores</p><p>apresentam dois importantes desafios que “travam” o processo de avanço da</p><p>pesquisa em neurociência e linguagem.</p><p>O primeiro desafio, denominado pelos autores de Problema da</p><p>Incompatibilidade Granular (PIG), se caracteriza por um descompasso entre a</p><p>"granularidade conceitual" dos conceitos elementares da linguística e os conceitos</p><p>elementares de neurobiologia e da neurociência cognitiva. Segundo os autores,</p><p>estudos linguísticos e neurocientíficos da linguagem operam com objetos de</p><p>granularidade diferente. Em particular, a computação linguística envolve uma série</p><p>de distinções refinadas e operações computacionais explícitas. As abordagens</p><p>neurocientíficas da linguagem operam em termos de distinções conceituais mais</p><p>amplas. Neste ponto, esse desencontro impede a formulação de hipóteses de</p><p>ligação teoricamente motivadas, biologicamente fundamentadas e</p><p>computacionalmente explícitas, que unem a neurociência e a linguística.</p><p>Naturalmente, o PIG se aplica não apenas à interface linguístico-neurocientífica,</p><p>mas também a outras disciplinas experimentais que operam com objetos de</p><p>diferentes tamanhos (Poeppel; Embrick, 2005).</p><p>O segundo desafio foi chamado de Problema de Incomensurabilidade</p><p>Ontológica (PIO). Para Poeppel e Embrick (2005), os elementos fundamentais da</p><p>teoria linguística não podem ser reduzidos ou combinados com as unidades</p><p>biológicas fundamentais identificadas pela neurociência. Este problema resulta de</p><p>uma falha em responder à questão de como as estruturas neurológicas podem</p><p>ser especializadas para executar tipos específicos de computação, linguística ou</p><p>não. Ou seja, enquanto o foco particular é na linguagem, o PIO e o PIG poderiam</p><p>ser aplicados a toda a gama de áreas nas quais a relação entre cognição e</p><p>biologia é examinada e, portanto, apresentam-se como problemas gerais de</p><p>interface para o estudo da cognição.</p><p>8</p><p>TEMA 3 – NOVOS ESTUDOS EM NEUROLINGUÍSTICA</p><p>Neste momento, um número crescente de psicólogos, neurocientistas e</p><p>linguistas está estudando as bases neurais da linguagem, e um número crescente</p><p>de periódicos que se concentram em neurociência cognitiva e de sistemas estão</p><p>publicando pesquisas de linguagem de alto impacto. Além disso, os periódicos</p><p>mais gerais de neurociência, psicologia e linguística publicam constantemente</p><p>trabalhos sobre o cérebro e a linguagem, assim como revistas clínicas em</p><p>neurologia, neurocirurgia, psiquiatria e fonoaudiologia, além de revistas básicas</p><p>em ciência da computação, antropologia, biologia matemática e sociologia. O</p><p>campo emergente da neurociência social também está captando o interesse de</p><p>muitos pesquisadores sobre o cérebro e a linguagem, com uma quantidade</p><p>grande de competição pelos melhores artigos, que mostram uma profunda</p><p>sofisticação interdisciplinar na estrutura e no processamento da linguagem e da</p><p>biologia do cérebro humano (Poeppel; Embrick, 2005).</p><p>Usando palavras-chave “cérebro” e “linguagem” e restringindo os</p><p>resultados aos anos de 1974</p><p>e 2004, respectivamente, uma rápida pesquisa nas</p><p>principais revistas sobre o tema disponibilizou pouco mais de 100 artigos no</p><p>primeiro ano e por volta de 1000 no segundo. Um grande aumento em 30 anos.</p><p>O que mais contribuiu para esse aumento? Segundo Small (2008), a</p><p>resposta é que o desenvolvimento tecnológico levaria a mais e melhores maneiras</p><p>de estudar o cérebro e a linguagem. Isso aconteceu em um grau tão notável que</p><p>ninguém poderia ter dado essa previsão em tão pouco tempo. Essas mudanças</p><p>não só aumentaram o volume de pesquisa no campo da neurociência como</p><p>alteraram sua própria natureza, tornando possível a realização de perguntas que</p><p>dificilmente eram consideradas antes.</p><p>Nos últimos 20 anos, vários métodos surgiram para estudar essas relações</p><p>de estrutura/função de maneiras muito novas, levando a perguntas e elaborações</p><p>desses mapeamentos localizados. Muitos desses novos métodos não dependem</p><p>da investigação de um sistema neural danificado para fazer inferências sobre o</p><p>estado do sistema normal, mas permitem a investigação do sistema normal</p><p>diretamente, por exemplo, tomografia por emissão de pósitrons, ressonância</p><p>magnética funcional e magnetoencefalografia (Poeppel; Embrick, 2015). Outros</p><p>métodos permitem “lesões” transitórias (estimulação magnética transcraniana,</p><p>estimulação transcraniana por corrente contínua), de modo que o comportamento</p><p>9</p><p>pode ser estudado repetidamente em diferentes estados do sistema. Combinados</p><p>com dados prévios da correlação clinicopatológica e/ou novos dados coletados de</p><p>pacientes com lesão e usando versões avançadas de tais análises de lesões,</p><p>esses métodos são ainda mais poderosos. Com as abordagens agora disponíveis</p><p>e com o crescente número de cientistas fazendo uso delas, tanto individualmente</p><p>quanto em combinação, tornou-se não só possível, mas comum, fazer perguntas</p><p>sobre os mecanismos básicos da linguagem no cérebro (Small, 2008).</p><p>Com imagens funcionais e gravação elétrica e magnética de alta densidade</p><p>(e estimulação), uma neurociência robusta da linguagem é agora possível. Ao</p><p>examinar quatro dos principais periódicos de neurociência (Neuron, Nature</p><p>Neuroscience, Journal of Neuroscience e Annals of Neurology), observa-se um</p><p>aumento constante no número de artigos publicados em linguagem humana, de 0</p><p>em 1974 (apenas dois desses periódicos existiam na época), para entre 30 e 40</p><p>por ano atualmente. Isto é acompanhado por um crescimento exponencial em</p><p>publicações biológicas e linguísticas em um grande número de periódicos e o</p><p>aumento no número de artigos publicados que fazem referência ao cérebro. E é</p><p>provável que esta tendência só aumente (Small, 2008).</p><p>TEMA 4 – ESTUDOS COMPUTACIONAIS EM NEUROPSICOLINGUÍSTICA</p><p>Entender o cérebro humano é de importância central para as ciências</p><p>biológicas, cognitivas e sociais. Todas as funções corporais básicas (coração,</p><p>pulmão, controle de temperatura etc.) são controladas e reguladas pelo sistema</p><p>nervoso central. Mas, mais relevante no contexto atual, atividades como perceber,</p><p>lembrar, sentir, avaliar, decidir, agir, falar, são aspectos críticos da mente e,</p><p>consequentemente, funções que o cérebro instancia. Um entendimento</p><p>teoricamente motivado e com nuances, biologicamente sofisticadas e detalhadas</p><p>e computacionalmente explícitas, de como o cérebro implementa as funções que</p><p>constituem a mente, terá um significado fundamental para a pesquisa básica, para</p><p>aplicações translacionais e para o desenvolvimento tecnológico (Poeppel, 2013).</p><p>Segundo Poeppel (2013), o estudo da linguagem e de seus fundamentos</p><p>neurais pode e deve desempenhar um papel central na realização de progressos</p><p>na investigação de funções cerebrais complexas. A pesquisa em linguagem se</p><p>baseia em uma rica base teórica, estabelecida após várias décadas de pesquisas</p><p>sobre a computação e as representações que compõem a linguagem. Além disso,</p><p>as ferramentas neurobiológicas para estudar a linguagem são de crescente</p><p>10</p><p>resolução e sofisticação analítica. No entanto, a base computacional de como o</p><p>cérebro opera com representações linguísticas permanece pouco compreendida.</p><p>Para o autor, estamos perdendo análises computacionais relevantes no processo</p><p>de vinculação entre o processamento de linguagem e a neurociência. Como</p><p>consequência, o objetivo de várias investigações foi e continua sendo o de</p><p>identificar novas direções na neurobiologia computacional da linguagem (Poeppel,</p><p>2013).</p><p>As técnicas experimentais disponíveis para caracterizar a função do</p><p>cérebro humano estão se tornando cada vez mais sofisticadas e alcançando</p><p>resoluções cada vez maiores no espaço e no tempo. Abordagens que vão desde</p><p>gravações hemodinâmicas (fMRI, PET, NIRS) e eletrofisiológicas (EEG, MEG,</p><p>ECog) até técnicas de estimulação e interferência (TMS, ETCC), bem como os</p><p>impressionantes novos truques analíticos, estão sendo aplicadas a praticamente</p><p>todos os aspectos da experiência humana (Poeppel, 2013).</p><p>A questão mais geral que confronta as pesquisas atuais na neurociência</p><p>cognitiva é como o trabalho neuroanatômico e de imagem, cada vez mais</p><p>detalhado, pode ser empregado no desenvolvimento de teorias com conexões</p><p>explicativas entre cognição e neurobiologia. Recentes avanços tecnológicos</p><p>constituem grandes melhorias em relação às formas anteriores de observar a</p><p>função cerebral. Ao mesmo tempo, porém, não está claro que esses sucessos</p><p>tecnológicos tenham sido acompanhados pelos avanços conceituais necessários</p><p>para o desenvolvimento de teorias verdadeiramente integradas ou unificadas que</p><p>vinculam cognição e neurobiologia (Embrick; Poeppel, 2015).</p><p>Segundo Poeppel (2013), no caso da pesquisa de idiomas, todas essas</p><p>abordagens foram usadas com bons resultados. Atualmente, existem mapas</p><p>cerebrais bastante razoáveis, no nível da anatomia giral e sulcal, que especificam</p><p>a parte do cérebro em que ocorrem as principais operações subjacentes a vários</p><p>aspectos do processamento da linguagem. Os modelos correntes típicos apontam</p><p>para regiões como a de Broca, fluxos, o dorsal versus o ventral, hemisférios ou</p><p>redes de áreas que estão implicadas no processamento fonológico, acesso</p><p>lexical, análise sintática e assim por diante. Hickok (2012) apresenta um modelo</p><p>anatômico funcional bem desenvolvido da produção de fala. O pesquisador</p><p>enfatiza que análises de dados de ativação cerebral de audição e assinatura de</p><p>falantes/ouvintes, bem como dados sobre plasticidade cerebral no contexto de</p><p>desenvolvimento anormal, apontam para um equilíbrio sutil entre especificidades.</p><p>11</p><p>Mas o que é um modelo? Segundo Arbib (et al. 2014), para alguns</p><p>pesquisadores, um modelo pode ser uma técnica para organização de diversos</p><p>dados em formato coerente, chamado “modelo para tratamento de dados”,</p><p>enquanto, para outros, um modelo (conceitual ou computacional) fornece uma</p><p>explicação de como as interações de entidades do cérebro medeiam entre</p><p>entradas, estados internos e saídas, conhecido como “modelo de princípios</p><p>operacionais”, ou “conexionistas”. Nesse ponto, o resultado da modelagem de</p><p>dados é crucial para qualquer especificação de o que um modelo de</p><p>processamento deve explicar.</p><p>Como discutido por Embick e Poeppel (2015), essa perspectiva</p><p>computacional tem desempenhado um papel importante no enquadramento das</p><p>questões, alavancando a moderna abordagem da ciência da computação para</p><p>arquiteturas computacionais complexas.</p><p>Parece haver pelo menos duas "grandes áreas de desafio" que exigem uma</p><p>investigação renovada de como nosso conhecimento de computação pode</p><p>informar a conexão da linguagem neurobiológica. O primeiro tem a ver com a</p><p>compreensão de como computações paralelas e complexas funcionam, com base</p><p>em numa maior compreensão da arquitetura de computadores; e o segundo,</p><p>sobre a maneira pela qual a memória pode ser organizada biologicamente, por</p><p>meio de sistemas endereçáveis por conteúdo, em oposição à memória</p><p>de acesso</p><p>aleatório convencional (Poeppel, 2013)</p><p>Ainda segundo Poeppel (2013), ao longo das últimas décadas, a ciência da</p><p>computação desenvolveu um conjunto extremamente poderoso de métodos para</p><p>projetar, analisar e testar dispositivos computacionais muito complexos que</p><p>funcionam de maneira altamente paralela. O design moderno da CPU tem levado</p><p>em conta essas ferramentas abstratas, incluindo análise de fluxo de dados,</p><p>modelos para arquitetura de computadores em pipeline e várias camadas de</p><p>máquinas abstratas, todas organizadas com o entendimento de que muitas</p><p>operações ocorrem simultaneamente, por exemplo, buscando várias instruções</p><p>para executar durante a decodificação, e executando muitos outros comandos.</p><p>Arbib (et al. 2014) defendem modelos de indexação não apenas em relação</p><p>às estruturas cerebrais, por exemplo, um modelo de circuitos nos gânglios da base</p><p>e no córtex pré-frontal, mas também em relação aos princípios operacionais</p><p>cerebrais, que fornecem mecanismos gerais, como aprendizado por reforço,</p><p>vencedor leva tudo, acoplamento por feedforward-feedback, e outros, que podem</p><p>12</p><p>ser empregados na análise dos papéis de regiões cerebrais muito diferentes em</p><p>diversos comportamentos. Além disso, argumentam que cada modelo deve estar</p><p>associado a resumos de dados empíricos definidos na granularidade do modelo.</p><p>Esses e outros autores têm, atualmente, se utilizado de processos</p><p>computacionais para estudar como as funções cerebrais podem funcionar. Para</p><p>entender um pouco mais sobre isso, sugerimos a leitura do texto abaixo:</p><p>Saiba mais</p><p>DIAS, A. M. Modelos e análises computacionais em neurociências: revisão</p><p>sistemática. Estud. pesqui. psicol. v. 10, n. 2, Rio de Janeiro, ago. 2010.</p><p>TEMA 5 – TECNOLOGIAS UTILIZADAS NO ESTUDO DA NEUROLINGUÍSTICA</p><p>Pode-se dizer que os estudos da linguagem e do cérebro têm seu ápice em</p><p>pelo menos dois momentos: o primeiro, no século XIX, baseado nos estudos de</p><p>Broca e Wernicke, e, mais tarde, já nos anos 1960, com o surgimento da gramática</p><p>Chomskyana, o que levou uma nova gama de psicólogos a verificar</p><p>empiricamente como surge a linguagem no cérebro do homem. Em todos esses</p><p>anos, os estudos do cérebro humano sadio foram limitados por um problema ético</p><p>fundamental: não se pode entrar no cérebro humano (Sampaio; França; Maia,</p><p>2015).</p><p>Ainda segundo os autores, outras neurociências construíam modelos</p><p>animais, que serviam de base empírica na decifração dos processos</p><p>neurofisiológicos essenciais da visão, audição e de outros processos cognitivos.</p><p>Todavia, como era impossível estudar o cérebro humano de forma direta, além da</p><p>dificuldade de obtenção de modelos baseados no cérebro humano, os estudiosos</p><p>conviviam com uma série de obstáculos, que só puderam ser superados a partir</p><p>dos anos 1980 com a ajuda de tecnologias que surgiram nessa época, entre estas,</p><p>o eletroencefalógrafo, do psiquiatra alemão Hans Berger, foi considerado a</p><p>principal (Sampaio; França; Maia, 2015).</p><p>Segundo Niedemeyer e Silva (2005), a eletroencefalografia (EEG) é um</p><p>método de monitoramento eletrofisiológico que registra a atividade elétrica do</p><p>cérebro. É tipicamente não-invasivo, com os eletrodos colocados ao longo do</p><p>couro cabeludo, embora eletrodos invasivos sejam usados às vezes, como na</p><p>eletrocorticografia. A EEG mede as flutuações de tensão resultantes da corrente</p><p>iônica dentro dos neurônios do cérebro, e é muito utilizada no diagnóstico da</p><p>13</p><p>epilepsia, do coma, de doenças no encéfalo, distúrbios do sono e morte</p><p>encefálica.</p><p>Segundo Sampaio, França e Maia (2015), a EEG não oferece uma precisão</p><p>espacial muito específica. Os pesquisadores afirmam que o estímulo elétrico pode</p><p>ricochetear nos líquidos, nos diferentes tecidos nervosos, que podem apresentar</p><p>distintas densidões e composições ósseas até chegar ao escalpo, fazendo com</p><p>que se dificulte a precisão na localização do estímulo que se está estudando.</p><p>Segundo Hansen (citado por Sampaio; França; Maia, 2015), o problema da</p><p>má resolução espacial foi contornado com outra técnica baseada no magnetismo.</p><p>Trinta anos após o surgimento da EEG, aconteceriam os primeiros testes em uma</p><p>técnica de extração de sinais magnéticos, outra face do sinal neural, que não sofre</p><p>deflexão. A técnica baseada no magnetismo, denominada Magnetoencefalografia</p><p>(MEG), porém, só foi considerada útil para pesquisa nos últimos anos.</p><p>Segundo Carlson (2013), a MEG é uma técnica de neuroimagem que tem</p><p>por função mapear a atividade cerebral por meio da gravação de campos</p><p>magnéticos produzidos por correntes elétricas que incidem naturalmente no</p><p>cérebro, por meio da utilização de magnetômetros hipersensíveis. Aplicações de</p><p>MEG incluem pesquisa básica em processos cerebrais perceptuais e cognitivos,</p><p>localizando regiões afetadas por patologia antes de remoção cirúrgica,</p><p>determinando a função de várias partes do cérebro, além de neurofeedback. Essa</p><p>técnica pode ser aplicada em ambiente clínico a fim de encontrar pontos de</p><p>anormalidade no cérebro, bem como em um ambiente experimental, para</p><p>simplesmente medir a atividade cerebral (Carlson, 2013).</p><p>Outra técnica que, por muitos anos, se mostrou eficaz no estudo de</p><p>imagens do cérebro é a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET). Esta técnica</p><p>é utilizada para medir o metabolismo cerebral e a distribuição de agentes químicos</p><p>marcados radioativamente desde o exterior, por todo o cérebro. A PET mede as</p><p>emissões de produtos químicos rotulados metabolicamente ativos</p><p>radioativamente que foram injetados na corrente sanguínea (Nilsson;</p><p>Markowitsch, 1999).</p><p>Segundo Sampaio, França e Maia (2015), desde que foi criado o</p><p>Tomógrafo por Emissão de Pósitrons, essa técnica permite não apenas o</p><p>mapeamento do fluxo sanguíneo, mas também o tratamento das imagens</p><p>multidimensionais obtidas com base na distribuição das substâncias químicas em</p><p>todo o cérebro.</p><p>14</p><p>Outra técnica que permite medir o fluxo sanguíneo das áreas cerebrais é a</p><p>Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI), que mede a atividade</p><p>cerebral por meio da detecção de alterações associadas ao fluxo sanguíneo.</p><p>Segundo Logothetis (et al. 2001), essa técnica se baseia no fato de que o fluxo</p><p>sanguíneo cerebral e a ativação neuronal estão acoplados. Quando uma área do</p><p>cérebro está em uso, o fluxo sanguíneo para essa região também aumenta, não</p><p>sendo necessária a adição de produtos químicos no sangue.</p><p>É importante notar que existem basicamente dois grandes grupos de</p><p>técnicas de neuroimagem: os que têm uma alta resolução espacial e os que têm</p><p>uma alta resolução temporal. O fMRI, por exemplo, consegue observar a anatomia</p><p>e as regiões do cérebro mais ativadas de acordo com o consumo de energia. Isso</p><p>dá a esta técnica uma excelente resolução espacial, sendo extremamente precisa</p><p>em pesquisas de mapeamento de atividade e de anomalias anatômicas (Sampaio;</p><p>França; Maia, 2015).</p><p>Ainda segundo Sampaio, França e Maia (2015), por outro lado, não é</p><p>possível, por exemplo, indicar o curso temporal entre as áreas ativadas, visto que</p><p>estas técnicas se limitam à velocidade de distribuição sanguínea no córtex, o que</p><p>acontece na casa dos segundos. Já as técnicas eletromagnéticas, como o EEG e</p><p>o MEG, apresentam, em geral, uma excelente resolução temporal, uma vez que</p><p>monitoram o próprio mecanismo de envio de informação de um neurônio ao outro</p><p>por meio de sinais elétricos, o que ocorre na casa dos milissegundos. Por outro</p><p>lado, a resolução espacial é prejudicada porque não é possível indicar com</p><p>precisão o local que originou a atividade elétrica. Hoje é comum a elaboração de</p><p>desenhos experimentais que combinam os dois tipos de técnica, buscando driblar</p><p>as deficiências de cada uma delas.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Há muitos anos, o ser humano iniciou sua busca por compreender a si</p><p>próprio mediante estudos do seu cérebro. Ao longo do tempo, muitas teorias</p><p>surgiram, algumas tiveram mais sucesso, outras</p><p>foram base para pesquisas mais</p><p>profundas, outras, ainda, fracassaram na sua tentativa de explicar como o cérebro</p><p>humano funciona.</p><p>Na atualidade, com a utilização de processos computacionais para estudar</p><p>o funcionamento das funções cerebrais, os estudos nas áreas das neurociências</p><p>15</p><p>têm se multiplicado e grandes avanços têm sido realizados no interior das várias</p><p>disciplinas que estudam as funções cerebrais.</p><p>Diante disso, entendendo os grandes desafios da neurociência cognitiva na</p><p>atualidade, surge a necessidade de iniciar e expandir a pesquisa interdisciplinar</p><p>nestas áreas do saber. A necessidade da interconexão entre as disciplinas além</p><p>dos estudos somente de animais é de considerável importância. Esse é o grande</p><p>desafio para o estudo do cérebro a partir de agora.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Saiba mais</p><p>DIAS, A. M. Modelos e análises computacionais em neurociências: revisão</p><p>sistemática. Estud. pesqui. psicol. v.10, n. 2, Rio de Janeiro, ago. 2010.</p><p>Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v10n2/v10n2a15.pdf>. Acesso</p><p>em: 2 jul. 2018.</p><p>16</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AMUNTS, K.; LENZEN, M.; FRIEDERICI, A. D.; SCHLEICHER, A.; MOROSAN,</p><p>P.; PALOMERO-GALLAGHER, N.; ZILLES, K. Broca’s region: Novel</p><p>organizational principles and multiple receptor mapping. PLoS Biol.; v. 8, n. 9,.</p><p>2010.</p><p>ARBIB, M. A.; BONAIUTO, J. J.; BORNKESSEL-SCHLESEWSKY, I.;</p><p>KEMMERER, D.; MACWHINNEY, B.; NIELSEN, F. A.; OZTOP, E. Action and</p><p>Language Mechanisms in the Brain: Data, Models and Neuroinformatics.</p><p>Neuroinformatics, v. 12, n. 1, p. 209-225, jan. 2014.</p><p>BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neuroscience: Exploring the</p><p>Brain. 2. ed. USA: Lippincott Williams & Wilkins, 2001.</p><p>CARLSON, N. R. Physiology of Behavior. Upper Saddle River, NJ: Pearson</p><p>Education Inc. 2013.</p><p>EMBICK, D.; POEPPEL, D. Towards a computational(ist) neurobiology of</p><p>language: Correlational , integrated , and explanatory neurolinguistics. Lang Cogn</p><p>Neurosci, v. 30, n. 4, p. 357-366, 1 maio 2015.</p><p>GESCHWIND, N. The organization of language and the brain. Science, v. 170, n.</p><p>3961, p. 940, 1970.</p><p>HICKOK, G. Computational neuroanatomy of speech production. Nat Reviews</p><p>Neurosci, v. 13, p.135-45, 2012.</p><p>LOGOTHETIS, N. K.; PAULS, J.; AUGUTH, M.; TRINATH, T.; OELTERMANN, A.</p><p>A neurophysiological investigation of the basis of the BOLD signal in fMRI. Nature,</p><p>v. 412, n. 6843, p. 150-157, jul. 2001.</p><p>NILSSON, L. G.; MARKOWITSCH H. J. Cognitive Neuroscience of Memory.</p><p>Seattle: Hogrefe & Huber Publishers, 1999.</p><p>NIEDERMEYER, E.; SILVA, F. L. da. (Org.). Electroencephalography: basic</p><p>principles, clinical applications, and related fields Philadelphia ; London: Lippincott</p><p>Williams & Wilkins, 2005.</p><p>NILIPOUR, R. The Challenges of Cognitive Neuroscience in the 21st Century.</p><p>Basic & Clinical Neurocience, v. 3, n. 5, 2012.</p><p>17</p><p>POEPPEL, D.; HICKOK, G. Para uma nova anatomia funcional da linguagem.</p><p>Cognition, v. 92, n. 1-2, maio/jun. 2004.</p><p>_____. O problema dos mapas e o problema do mapeamento: dois desafios para</p><p>uma neurociência cognitiva da fala e da linguagem. Neuropsicologia Cognitiva,</p><p>v. 29, n. 1-2, fev. 2012.</p><p>POEPPEL, D.; HICKOK, G.; EMMOREY, K.; HICKOK, G.; PYLKKÄNEN, L.</p><p>Towards a new neurobiology of language. J Neurosci, v. 32, n. 41, out. 2012.</p><p>_____. Linking language and cognition to neuroscience via computation.</p><p>NSF Workshop held. May 23-24, Arlington VA, 2013.</p><p>EMBICK, D. et al. The relation between linguistics and neuroscience. In: CUTLER,</p><p>A. (Ed.). Twenty-first century psycholinguistics: four cornerstones. Lawrence</p><p>Erlbaum Associates: Mahwah, NJ: 2015.</p><p>PULVERMULLER, F. Agrammatism: behavioural description and neurobiological</p><p>explanation. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 7, p. 165-81. 1995.</p><p>SMALL, S. L. A neurociência da linguagem. Brain Lang, v. 106, n. 1, jul. 2008.</p><p>ZATORRE, R. J.; BELIN, P.; PENHUNE, V. B. Structure and function of auditory</p><p>cortex: music and speech. Trends Cogn Sci, v. 6, n. 37, 2002.</p><p>aconteça,</p><p>um processo importante se sucede dentro do cérebro humano; a esse processo</p><p>Piaget chamou Equilibração. Segundo Ribeiro e Pires (2015, p.2945):</p><p>Pode-se dizer que o processo de equilibração é de fundamental</p><p>importância para o desenvolvimento da mente humana, já que</p><p>diuturnamente, por não possuir estruturas suficientes para seu</p><p>entendimento, esta é posta em desequilíbrio, sempre que surge uma</p><p>nova situação. Esses mecanismos fazem parte do processo evolutivo</p><p>da humanidade, pois são uma das formas de adaptação do ser</p><p>humano no meio ambiente em que vive.</p><p>Sempre que uma situação nova surge, uma palavra nova, uma nova</p><p>forma de utilizar a palavra dentro de uma frase, ou até um conceito novo</p><p>9</p><p>relacionado a um termo conhecido, o cérebro inicia um mecanismo de</p><p>adaptação, baseado num processo de equilíbrio das estruturas virtuais do</p><p>cérebro. A essas estruturas não reais, Piaget chamou Esquemas:</p><p>Os esquemas não devem ser entendidos como estruturas reais, mas</p><p>um conjunto de padrões de comportamentos sequenciais, formando</p><p>uma totalidade organizada. Não há como observar um esquema, mas</p><p>pode-se inferi-lo a partir de ações do sujeito. Ao explicar o conceito de</p><p>esquema, Piaget apresentou alguns exemplos deste que são muito</p><p>comuns no primeiro período da infância, como os esquemas de mamar,</p><p>de enxergar, de pegar (Ribeiro; Pires 2015, p.2946).</p><p>Há esquemas para todas as experiências que o indivíduo tenha tido na</p><p>vida. Ao surgimento de cada situação nova, o cérebro se desequilibra, e num</p><p>processo adaptativo, necessita voltar a equilibrar-se. Para que isso aconteça,</p><p>dentro do processo de equilibração da cognição humana surgem dois processos</p><p>muito distintos, a assimilação e a acomodação.</p><p>Enquanto a assimilação é a ação do indivíduo sobre sua realidade, pois</p><p>trata-se de uma integração do novo dado às estruturas prévias do cérebro, sem</p><p>necessitar de um desequilíbrio aparente, a acomodação, por sua vez, obriga o</p><p>indivíduo a modificar-se em suas estruturas internas, a fim de absorver a nova</p><p>informação (Ribeiro; Pires 2015).</p><p>Isso leva a uma compreensão de que a aquisição da linguagem no ser</p><p>humano não pode ser inata, muito menos empírica, mas construtiva. O ser</p><p>humano não é passivo no desenvolvimento de sua linguagem; é a partir das</p><p>experiências que tem que constrói seu conhecimento sobre o mundo.</p><p>A teoria de Piaget é, atualmente, uma das mais discutidas no campo da</p><p>aprendizagem, tomando força mais recentemente, a partir dos estudos de</p><p>Vygotsky, que insere os processos sociais e culturais sobre os mecanismos de</p><p>desenvolvimento da aprendizagem e, por consequência, da linguagem. É da</p><p>mescla, cautelosa, das teorias desses dois estudiosos, que surgiu uma das</p><p>teorias mais discutidas atualmente entre os educadores, o Construtivismo.</p><p>Saiba mais</p><p>Para saber mais sobre essas teorias, disponibilizamos abaixo algumas</p><p>sugestões de leituras:</p><p>BARCELOS, R. da S. de. As teorias de linguagem, as concepções de língua e a</p><p>metodologia adotada de ensino de língua portuguesa. In: Cadernos do CNLF,</p><p>Vol. XVII, Nº 03 - Minicursos e Oficinas. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2013.</p><p>10</p><p>Disponível em: <http://www.filologia.org.br/xvii_cnlf/min_ofic/04.pdf>. Acesso em:</p><p>25 mai. 2018.</p><p>PAROT, Françoise. Algumas notas sobre as teorias da linguagem: Piaget,</p><p>Chomsky, Skinner. In: Análise Psicológica. 1978, II, 1:115-124. Disponível em:</p><p>< http://repositorio.ispa.pt/bitstream/10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf>. Acesso</p><p>em: 25 mai. 2018.</p><p>RIBEIRO, Rafael Martins; PIRES, Ennia Débora Passos Braga. Fundamentos da</p><p>Epistemologia Genética e sua crítica à psicologia e educação tradicionais. In:</p><p>Educere: XII Congresso Nacional de Educação. Curitiba. Anais: PUCPR,</p><p>2015. 29941-29954. Disponível em:</p><p><http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/20560_8804.pdf>. Acesso em: 25</p><p>mai. 2018.</p><p>TEMA 3 – A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM COMO FENÔMENO NATURAL</p><p>Vamos iniciar este tema pensando como a criança adquire uma língua.</p><p>Podemos dar destaque para o fato que a criança adquire, pelo menos, uma</p><p>língua, seja essa oral ou manual.</p><p>Quando falamos desse processo de aquisição da linguagem na criança,</p><p>percebemos que esta parte de uma condição inicial, em que não domina uma</p><p>língua ou uma linguagem, para uma condição final, a qual passa a dominá-la.</p><p>Podemos destacar que, à medida que a aquisição da linguagem é vista</p><p>enquanto fenômeno natural num sentido amplo, decorre de um meio verbal de</p><p>expressão e interação social. Neste sentido deve-se levar em conta a língua</p><p>natural do falante e o contexto social no qual esse se encontra, pois a criança</p><p>tende a se identificar em diálogos e atividades de interação entre adultos e</p><p>crianças (Lazarin, 2009).</p><p>O diálogo estabelecido entre a criança e o adulto torna-se significativo à</p><p>medida que esse servirá para o que chamamos de input para a língua produzida</p><p>pela criança a partir da relação de interação da língua com quem ela interage. A</p><p>respeito deste modo complementa Lemos (1989, p. 5):</p><p>É, aliás, essa noção de interação que permite discutir a validade</p><p>do termo input para designar os dados a que a criança é</p><p>exposta. Pensar esse diálogo inicial como uma mera exposição</p><p>da criança a dados da língua significa, de um lado, negar a fala</p><p>do adulto como atividade interpretativa do tipo “como se” que</p><p>recorta o comportamento da criança, atribuindo-lhe forma,</p><p>significado e intenção. De outro lado, o que isso implica é</p><p>http://repositorio.ispa.pt/bitstream/10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf</p><p>11</p><p>considerar a criança como um sujeito já constituído, capaz de</p><p>uma análise categorial dessa fala, o que é não só incompatível</p><p>com qualquer proposta construtivista como um obstáculo que</p><p>impede o investigador de identificar os processos pelos quais a</p><p>criança passa dessa dependência dialógica – ou da condição de</p><p>interpretado – para o controle efetivo de sua posição discursiva –</p><p>ou para a condição de intérprete. A saber, intérprete do outro, de</p><p>si próprio e da linguagem como geradores de significado e</p><p>intenção.</p><p>A autora ainda salienta que traçar um esquema do padrão categórico da</p><p>fala da criança é difícil, pois a mesma autora apresenta três fatores relevantes: o</p><p>primeiro tange à imprevisibilidade e à heterogeneidade na fala das crianças que</p><p>estão iniciando a construção da língua materna, isso pelo fato de que as</p><p>correspondências entre a fala e a gramática do adulto não são frequentes e não</p><p>são produtivas, ocorrendo poucas vezes. A imprevisibilidade que ocorre na</p><p>gramática do adulto e a heterogeneidade de enunciados prevalecem, causando</p><p>assim dificuldade no planejamento da criança em obter um modelo de aquisição</p><p>da língua.</p><p>O segundo fator destacado por De Lemos refere-se ao “erro” após uma</p><p>conformidade da gramática com a fala do adulto, como destaca “os erros</p><p>passaram assim a ser considerados, não como indícios de não saber, mas como</p><p>refletindo um novo estágio de desenvolvimento, levado a efeito por processos de</p><p>reorganização de formas anteriormente adquiridas” (De Lemos, 1999, p. 4).</p><p>O Terceiro fator destacado pela autora acima referido está na</p><p>impermeabilidade da criança na correção que os adultos fazem a respeito de</p><p>suas falas, ou seja, apesar da criança perceber o “erro” com relação ao</p><p>enunciado da gramática ela preserva o seu uso, de acordo com a sua vontade.</p><p>Isso faz com que futuramente a este processo ela consiga perceber seu “erro” e</p><p>tente reformular novos enunciados.</p><p>O percurso da aquisição da linguagem desenvolve quatro sistemas</p><p>correlacionados, que são definidos a partir do olhar de Schirmer, Fountoura e</p><p>Nunes (2004), o pragmático que se refere ao uso comunicável da linguagem em</p><p>um contexto social; o fonológico, este relaciona a percepção e a produção de</p><p>sons na construção das palavras; o semântico define a referência das palavras e</p><p>seu significado, por fim, o gramatical estabelece regras sintáticas e morfológicas</p><p>para organizar as palavras em frases prontas</p><p>para a compreensão.</p><p>TEMA 4 – ETAPAS NORMAIS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM</p><p>12</p><p>Vamos apresentar aqui as sequências de estágios percorridos pela</p><p>criança no seu desenvolvimento da linguagem, neste sentido destaca-se que as</p><p>idades apresentadas podem variar de criança para criança, porém as</p><p>sequências dos estágios, estas não variam (Brown, 1973).</p><p>Iniciamos então falando sobre os primeiros meses de vida, de três a</p><p>quatro meses a criança começa o balbucio, ela emite sons que não apresentam</p><p>significados, estudos (Bosch e Sebastián-Gallés (1997); Christophe e Morton,</p><p>1998) demonstram que nessa etapa a criança é capaz de distinguir a língua</p><p>materna de línguas estrangeiras, demonstrando sensibilidade e distinção das</p><p>estruturas e das propriedades da fonologia da língua natural.</p><p>Aos seis meses a criança continua a balbuciar, mas agora com uma</p><p>quantidade maior de sons; aqui a criança começa a formar várias sílabas, as</p><p>quais ela vai repetir inúmeras vezes, a exemplo: bá, bá, bá, bi, bi, bi.</p><p>Entre dez meses e doze meses o balbuciar da criança cria forma e ela</p><p>emite apenas os sons que escuta, começam também a estruturar os significados</p><p>desses sons, aqui as crianças apresentam alto nível de sofisticação em suas</p><p>habilidades de percepção da língua que serão relevantes na aprendizagem do</p><p>léxico da sua língua materna. Assim as crianças se encaminham para iniciar</p><p>suas primeiras palavras (Petitto e Marentette, 1991).</p><p>Com um ano de vida completo a criança, além de balbuciar, já emite os</p><p>sons de suas primeiras palavras, que vão denominar o que está ao seu entorno</p><p>como “papai”, “mamãe”, “nhanha”, dentre outros. Nesta fase seus enunciados</p><p>são formados por apenas uma palavra que pode ter significado de uma sentença</p><p>completa. McNeil (1966) estudou um bebê de 15 meses, que usou a palavra</p><p>door (“porta”) para significar “feche a porta” e water (“água”) para significar “tem</p><p>água em meus olhos”.</p><p>Nesta fase de um ano é comum que a criança se utilize de gestos para</p><p>também se comunicar, como indicar algo que deseja ou levantar os braços para</p><p>quem está a sua frente, indicando que deseja o colo (Grolla, 2006).</p><p>A partir de um ano e meio a criança já começa a produzir de dez a</p><p>cinquenta palavras e algumas frases de no máximo duas palavras. Nesse</p><p>momento já começa a chamar a atenção para receber resposta verbal de um</p><p>adulto (Rotta, 2006).</p><p>Ainda segundo Rotta (2006), aos dois anos, já produz de cento e</p><p>cinquenta a duzentas palavras e frases de três palavras, e já tem a capacidade</p><p>13</p><p>de nomear objetos quando solicitada. Aos três anos, sentenças gramaticais já</p><p>podem ser observadas (artigos, preposições, plurais), além de já formular</p><p>questões. Entre os 4 e 6 anos, já é esperada completa inteligibilidade para a</p><p>fonologia do português e do inglês.</p><p>É importante destacar que se espera que essas etapas surjam nas</p><p>crianças que possuem suas estruturas cognitivas em perfeito funcionamento, em</p><p>caso de deficiência ou patologia, esse processo muda e precisa ser</p><p>acompanhado e estudado.</p><p>TEMA 5 – LINGUAGEM E LÍNGUA</p><p>É importante que, ao nos aprofundarmos nessas temáticas que estamos</p><p>estudando nesta disciplina, compreendamos os conceitos de língua e linguagem.</p><p>Segundo Suassure (2004), a língua é o pensamento organizado da matéria</p><p>fônica, pois ela organiza o pensamento, sendo este uma massa amórfica e</p><p>indistinta, cuja distinção e organização são operadas pela língua, uma vez que</p><p>essa serve como intermediária entre o pensamento e o som.</p><p>É como se para que o pensamento humano se organize, exista a</p><p>necessidade de uma organização gramatical, léxica, simbológica... Essas acabam</p><p>por formar a língua.</p><p>Se a língua é a externalização do pensamento, de forma organizada, a</p><p>linguagem é a capacidade humana de expressar e externalizar uma ou mais</p><p>línguas. Nesse ponto, a linguagem se apresenta como um conceito muito mais</p><p>amplo que o da língua, pois a linguagem inclui as línguas entre suas</p><p>manifestações, mas não apenas elas (Perini, 2010).</p><p>A linguagem é a capacidade humana de externalizar sentimentos,</p><p>sensações, informações, opiniões e desejos de forma verbal, falada e escrita, e</p><p>não verbal. Isso faz com que esse termo transcenda a ideia de língua. Enquanto</p><p>a linguagem é essência, a língua é o meio de comunicação dessa essência.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Ao homem cabe desenvolver-se linguisticamente, pois essa capacidade é</p><p>inerente a ele, faz parte de sua estrutura biológica e social. E entendendo essa</p><p>natureza humana, estudiosos da biologia e da sociologia se debruçam ao estudo</p><p>dessa capacidade humana.</p><p>14</p><p>É a partir de uma busca científica, seja ela neurológica, social,</p><p>antropológica ou filosófica, que seja responsável e respeite a condição humana,</p><p>que essa capacidade que é inerente ao homem vai sendo entendida e</p><p>compreendida a cada nova descoberta.</p><p>Está muito claro que nenhuma das teorias apresentadas nesta aula</p><p>apresenta ideias conclusivas sobre as ciências que estudam a linguagem</p><p>humana. Elas estão em evolução e a cada dia aprendemos mais.</p><p>É necessário que mais estudiosos, independente de qual vertente ou área</p><p>científica sigam, se debrucem sobre essa temática e busquem compreender como</p><p>nós construímos nossa forma de falar. Somente assim poderemos nos comunicar</p><p>melhor e educar melhor.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Texto de abordagem teórica</p><p>PAROT, F. Algumas notas sobre as teorias da linguagem: Piaget, Chomsky,</p><p>Skinner. In: Análise Psicológica, 1978, II, 1:115-124. Disponível em:</p><p><http://repositorio.ispa.pt/bitstream/10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf>. Acesso</p><p>em: 24 maio 2018.</p><p>RIBEIRO, R. M.; PIRES, E. D. P. B. Fundamentos da epistemologia genética e</p><p>sua crítica à psicologia e educação tradicionais. In: Educere: XII Congresso</p><p>Nacional de Educação. Curitiba. Anais..., PUCPR, 2015. Disponível em:</p><p><http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/20560_8804.pdf>. Acesso em: 24</p><p>maio 2018.</p><p>Texto de abordagem prática</p><p>BARCELOS, R. da S. de. As teorias de linguagem, as concepções de língua e a</p><p>metodologia adotada de ensino de língua portuguesa. In: Cadernos do CNLF, v.</p><p>XVII, n. 3 – Minicursos e Oficinas. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2013. Disponível em:</p><p>http://www.filologia.org.br/xvii_cnlf/min_ofic/04.pdf>. Acesso em: 24 maio 2018.</p><p>Saiba mais</p><p>ARAUJO, M. A. N. A estruturação da linguagem e a formação de conceitos na</p><p>qualificação de surdos para o trabalho. Psicol. Cienc., jun. 2005. v. 25 n. 2. p.</p><p>http://repositorio.ispa.pt/bitstream/10400.12/1928/1/1978_1_115.pdf</p><p>15</p><p>240-251. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?</p><p>script=sci_arttext&pid=S1414-98932005000200007>. Acesso em: 24 maio 2018.</p><p>http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932005000200007</p><p>16</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARAUJO, M. A. N. A estruturação da linguagem e a formação de conceitos na</p><p>qualificação de surdos para o trabalho. Psicol. Cienc., jun. 2005, v. 25 n. 2. p.</p><p>240-251. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?</p><p>script=sci_arttext&pid=S1414-98932005000200007. Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>ATKINSON, R. L.; ATKINSON, R. C.; SMITH, E.E., BEM, D.J. & NOLEN-</p><p>HOEKSEMA, S. Introdução à psicologia de Hilgard. 13. ed. Porto Alegre:</p><p>Artmed, 2002.</p><p>BORGES, L. C.; SALOMÃO, N. M. R. Aquisição da linguagem: considerações da</p><p>perspectiva da interação social. In: Psicologia: reflexão e crítica, 2003, 16(2),</p><p>p. 327-336.</p><p>BOSCH, L. E. N.; SEBASTIÁN-GALLÉS. Native-language recognition abilities</p><p>in 4-month-old infants from monolingual and bilingual environments.</p><p>Cognition 65: 33-69, 1997.</p><p>BROWN, R. A first language: the early stages. London: George Allen & Unwin</p><p>Ltd, 1973.</p><p>CHRISTOPHE, A.; MORTON, J. Is Dutch native English? Linguistic analysis</p><p>by 2-montholds. Developmental Science 1: 215-219. 1998.</p><p>CHOMSKY, N. Novos horizontes no estudo da linguagem. vol.13, Delta,</p><p>1997. n. spe, p.51-74.</p><p>_____. Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente. 3. ed. São</p><p>Paulo: Unesp,</p><p>2002.</p><p>GROLLA, E. The acquisition of A- and A'-bound pronouns in Brazilian</p><p>Portuguese. In Vincent Torrens & Linda Escobar (Org.). The acquisition of</p><p>syntax in romance languages. Amsterdam: John Benjamins, 2006. p. 227-250.</p><p>MAZZAFERA, B. L.; SORDI, C. Fonoaudiologia para bebês. In: MARQUEZINI,</p><p>M. C. et al. (Org.). Novos rumos da educação especial. Londrina: Ed. UEL,</p><p>2002.</p><p>NOGUEIRA, S. C; ALTAFIM; E. R. P.; RODRIGUES, O. P. R. Estilos e práticas</p><p>parentais: relação com variáveis da mãe e do bebê. In: III SIMPÓSIO DA PÓS-</p><p>17</p><p>GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E</p><p>APRENDIZAGEM. São Paulo: UNESP-SP, maio 2011.</p><p>LAZARIN, C. A. Recortes da aquisição da língua materna: de interpretado a</p><p>intérprete. 102 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás,</p><p>Goiânia, 2009.</p><p>DE LEMOS. C. T. G. Uma abordagem construtivista do processo de aquisição</p><p>de linguagem: um percurso e muitas questões. In: ENCONTRO NACIONAL</p><p>SOBRE AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM. Porto Alegre. Anais..., PUC-CEAAL,</p><p>1989. p. 61-76.</p><p>_____. Desenvolvimento da linguagem e processo de subjetivação. In:</p><p>CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE DESENVOLVIMENTO HUMANO:</p><p>ABORDAGENS HISTÓRICO-CULTURAIS, 1999, São Marcos. Atualizado em</p><p>10 de ago. de 2001. Disponível em: <http://www.comciencia.br/reportagens</p><p>/linguagem/ling17.htm>. Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>PERINI, M. A. Sobre língua, linguagem e linguística: uma entrevista com</p><p>Mário A. Perini. ReVEL. Vol. 8, n. 14, 2010.</p><p>PETITTO, L.; MARENTETTE, P. Babbling in the manual mode: evidence for the</p><p>ontogeny of language. Science 251: 1483-1496.</p><p>RIPER, C. V.; EMERICK, L. Fala e linguagem. In: Correção da linguagem: uma</p><p>introdução à patologia da fala e a audiologia. 8. ed. Porto Alegre: Artes Médicas,</p><p>1977. p. 66-89.</p><p>PAROT, F. Algumas notas sobre as teorias da linguagem: Piaget, Chomsky,</p><p>Skinner. In: Análise psicológica, 1978, II, 1:115-124.</p><p>RELVAS, M. P. Neurociência e educação: potencialidade dos gêneros</p><p>humanos na sala de aula. Rio de Janeiro: Wak, 2009.</p><p>RIBEIRO, R. M.; PIRES, E. D. P. B. Fundamentos da Epistemologia Genética e</p><p>sua crítica à psicologia e educação tradicionais. In: Educere: XII Congresso</p><p>Nacional de Educação, Curitiba. Anais..., PUC-PR, 2015.</p><p>SCHIRMER, C. R.; FONTOURA, D. R.; NUNES, M. L. Distúrbios da aquisição da</p><p>linguagem e da aprendizagem. J. Pediatr. (Rio J.), 2004, vol. 80, n. 2, supl., p.</p><p>95-103. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000300012>.</p><p>Acesso em: 25 maio 2018.</p><p>18</p><p>SKINNER, B.F. Ciência e comportamento humano. Brasília: Universidade de</p><p>Brasília, 1970</p><p>VYGOTSKI, L. S. Historia del desarrolo de las funciones psíquicas superiores.</p><p>In: Obras escogidas, Tomo III. Madri: Visor e MEC, 1995. p. 11-340.</p><p>AULA 2</p><p>NEUROCIÊNCIAS</p><p>DA LINGUAGEM</p><p>Profª Tammy Ribeiro</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Na aula anterior, falamos sobre a estrutura e o desenvolvimento da</p><p>linguagem. Agora, nesta segunda aula, vamos abordar o processo de</p><p>aprendizagem e qual a relação entre linguagem e aprendizagem. Vamos também</p><p>dar ênfase aos distúrbios relacionados ao desenvolvimento neurolinguístico e</p><p>como acontece a intervenção nesses casos.</p><p>A aprendizagem é um processo que leva o ser humano a se modificar e a</p><p>adquirir novos conhecimentos, atitudes, habilidades, valores e comportamentos,</p><p>a partir da experiência, da observação ou do estudo. Segundo Charlot (2001),</p><p>aprender é apropriar-se de um saber ou de uma prática; é a possibilidade de</p><p>formar relação com o outro e consigo mesmo, com o que estava preestabelecido</p><p>antes do aprendizado de algo novo.</p><p>Seguindo essa linha de pensamento, vamos estudar, nessa aula, como se</p><p>desenvolve a aprendizagem no ser humano, a partir de estudos neurolinguísticos</p><p>e da teoria construtivista. Vamos também elucidar os principais distúrbios que</p><p>podem ocorrer na comunicação das crianças ao longo dos primeiros anos de vida.</p><p>Em paralelo a isso, buscaremos apreender como os profissionais da</p><p>educação podem intervir para dirimir os problemas provocados pelos distúrbios</p><p>da linguagem em crianças pequenas.</p><p>CONTEXTUALIZANDO</p><p>O processo de aprendizagem é uma atividade individual. Ele se desenvolve</p><p>num contexto social e cultural muito bem definido. Pode ser considerado como o</p><p>resultado de processos cognitivos individuais, em que são assimiladas e</p><p>interiorizadas novas informações. Pelo fato de</p><p>a aprendizagem ser algo tão implícito à capacidade humana, acredita-se</p><p>que exista uma associação desta com o processo de desenvolvimento</p><p>dessa espécie. Como se sabe, o desenvolvimento ocorre desde a</p><p>geração do feto, perpassando por toda a vida do homem, sendo</p><p>finalizado na sua morte. Acredita-se que a aprendizagem também seja</p><p>um dos processos pelo quais se está sujeito em todos os momentos da</p><p>vida. (Ogasawara, 2009)</p><p>Mesmo entendendo que a aprendizagem ocorre por toda a vida, há um</p><p>consenso entre os teóricos, de que a infância é o momento em que o indivíduo</p><p>está mais aberto e propenso a ela. Afinal, nesse período os neurônios se</p><p>multiplicam mais rapidamente – principalmente nos primeiros três anos de vida,</p><p>3</p><p>quando todo tipo de dado externo que chega à criança é classificado e arquivado,</p><p>de modo que esteja sempre disponível. Trata-se da idade em que a criança mais</p><p>necessita de aprendizagem; é quando se dá conta do mundo à sua volta, em</p><p>busca de aprender a viver de forma adequada. NESSE período, as faculdades</p><p>mentais são caracterizadas por enorme plasticidade e expansividade. Assim, o</p><p>que é aprendido nessa etapa da vida permanece por décadas, sendo muito difícil</p><p>de mudar. É por esse motivo que uma crença, quando assimilada culturalmente</p><p>na infância, permanece funcional para nós como adultos (Mezirow, 1994).</p><p>Segundo Hebb (1949), não se conhece muito sobre as bases</p><p>neurofisiológicas da aprendizagem. No entanto, existem alguns indícios</p><p>importantes de que o processo esteja relacionado com a modificação de conexões</p><p>sinápticas. Comumente, se admite como hipótese que (Hoppenstead; Izhikevich,</p><p>1997):</p><p> A aprendizagem é o resultado do fortalecimento ou abandono das</p><p>conexões sinápticas entre os neurônios;</p><p> A aprendizagem é local, ou seja, a modificação de uma conexão</p><p>sináptica depende somente da atividade dos neurônios pré-sinápticos e</p><p>pós-sinápticos;</p><p> A modificação das sinapses é um processo relativamente lento</p><p>comparado com os tempos típicos das mudanças nos potenciais</p><p>elétricos que servem de sinais entre os neurônios;</p><p> Se um neurônio pré-sináptico ou um neurônio pós-sináptico (ou ambos)</p><p>estão inativos, então a única modificação sináptica existente consiste na</p><p>deterioração o decaimento potencial das sinapses, que é responsável</p><p>pelo esquecimento.</p><p>De acordo com as ideias de Skinner (2005), pode-se dizer que</p><p>aprendizagem é uma mudança na probabilidade da resposta de um</p><p>comportamento, devendo-se especificar as condições sob as quais ela acontece.</p><p>Sendo assim, é de extrema importância a vigilância quanto aos processos</p><p>de aprendizagem das crianças. Quaisquer desvios na forma como as sinapses</p><p>são construídas podem vir a desencadear problemas na aprendizagem. Já nos</p><p>primeiros anos de vida podemos perceber indícios desses problemas,</p><p>principalmente quando a vida escolar é iniciada.</p><p>TEMA 1 – O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM A</p><p>PARTIR DA PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA</p><p>O processo de aprendizagem se dá ao longo de toda a vida do sujeito.</p><p>Quando falamos de uma criança, tratamos como normal que ela aprenda a andar</p><p>e a falar, depois a ler e a escrever; podemos dizer que essas são aprendizagens</p><p>4</p><p>imprescindíveis para o processo de interação e socialização da criança no meio</p><p>em que vive.</p><p>A busca por saber como uma criança aprende tem levado estudiosos,</p><p>dentre eles psicólogos e educadores, a estudar o processo de aprendizagem no</p><p>sujeito. Como o sujeito aprende? Como as crianças elaboram suas hipóteses na</p><p>construção do conhecimento? De que modo se questionam</p><p>quanto às suas</p><p>experiências? De que forma adolescentes e adultos influenciam ou interferem na</p><p>aprendizagem do conhecimento científico, historicamente elaborado? Tais</p><p>questionamentos são de grande relevância para entendermos a aprendizagem.</p><p>Assim como ocorre com a linguagem, há vários teóricos que se debruçam sobre</p><p>o tema para tentar explicar como se dá o processo.</p><p>Vamos apresentar, nesta aula, algumas perspectivas quanto ao</p><p>desenvolvimento do processo de aprendizagem. Partiremos das contribuições de</p><p>Jean Piaget (1896-1980), que desenvolveu estudos psicogenéticos com o objetivo</p><p>de compreender como o ser humano conhece o mundo (material e simbólico).</p><p>Piaget também se preocupou em investigar quais seriam as ferramentas</p><p>vinculadas aos processos cognitivos, e que são utilizadas pelo homem em sua</p><p>busca por conhecer o mundo.</p><p>Piaget (1973) destacou que a aprendizagem aconteceria a partir de um</p><p>movimento de desordem (e ordem) do que há em cada sujeito. Para o autor,</p><p>haveria a necessidade de a criança ter contato com aquilo que é difícil, que a</p><p>incomoda. Ao proceder desse modo, ela desestrutura o que existia previamente,</p><p>para depois criar novas estruturas; essa atividade se daria a partir das</p><p>investigações, das motivações intrínsecas e extrínsecas do sujeito, pois ele</p><p>estaria sempre motivado a aprender o novo.</p><p>Assim, nessa perspectiva, o processo de aprendizagem, voltado ao</p><p>conhecimento, se dá a partir das relações estabelecidas entre sujeito e objeto, o</p><p>que Piaget chama de acomodação e assimilação. A assimilação seria “uma</p><p>integração a estruturas prévias, que podem permanecer invariáveis ou são mais</p><p>ou menos modificadas por esta própria integração, mas sem descontinuidade com</p><p>o estado precedente, isto é, sem serem destruídas, mas simplesmente</p><p>acomodando-se à nova situação” (Piaget, 1973, p. 13).</p><p>Assimilação nada mais é do que a organização das ideias já existentes com</p><p>ideias que ainda estão sendo aprendidas; afinal, é preciso adaptar o novo</p><p>conhecimento às estruturas cognitivas existentes.</p><p>5</p><p>Por outro lado, o conceito de acomodação trata da mudança de</p><p>comportamento, da transformação do sujeito com relação aos esquemas</p><p>montados pelo sujeito. Tais esquemas são as articulações do que já identificamos</p><p>como novo conhecimento. Tanto a assimilação quanto a acomodação acontecem</p><p>numa correlação de dependência, pois não há uma sem a outra. O</p><p>desenvolvimento cognitivo é um processo de equilibrações sucessivas das</p><p>estruturas cognitivas do ser humano.</p><p>Partindo da ótica piagetiana, para que ocorra a aprendizagem é necessário</p><p>que as estruturas cognitivas anteriores se desenvolvam, e que o desenvolvimento</p><p>psicológico/espontâneo (aquele que ocorre a partir das experiências com o objeto)</p><p>esteja numa relação de submissão com o desenvolvimento psicossocial (aquilo</p><p>que o sujeito aprende por transmissão na sua relação com o outro).</p><p>Ao valorizar, em sua teoria, aspectos psicológicos/espontâneos do</p><p>desenvolvimento cognitivo do sujeito, Piaget afirma que é necessário esperar o</p><p>tempo certo (de desenvolvimento) para que a criança seja colocada em situações</p><p>em que determinadas aprendizagens por transmissão se efetivam. Afinal, seria</p><p>necessária certa maturação da criança para uma determinada aprendizagem.</p><p>Assim, estruturas naturais do organismo, e também as experiências com os</p><p>objetos, vão traçar uma relação com os quatro estágios de desenvolvimento</p><p>cognitivo: o primeiro estágio é o sensório-motor; o segundo é a representação pré-</p><p>operatória; o terceiro é o das operações concretas; e o quarto e último é o das</p><p>operações formais.</p><p>Para Piaget, a linguagem surge a partir do primeiro estágio (sensório-</p><p>motor). Nesse momento, a função simbólica passa a se estabelecer,</p><p>possibilitando que o sujeito desenvolva a prática de caracterização de objetos,</p><p>ações e palavras. O autor ainda destaca que a gênese do pensamento antecede</p><p>à linguagem em suas funções, características e formas – isso quando falamos da</p><p>origem do conhecimento.</p><p>No estágio pré-operatório, que vai dos dois aos sete anos, surge o domínio</p><p>da linguagem; a criança começa a compreender o mundo por meio de símbolos.</p><p>No entanto, somente no estágio seguinte, o das operações concretas, o indivíduo</p><p>será capaz de dominar conceitos de tempo e número, além de adquirir a</p><p>habilidade de discriminar objetos por similaridade e diferença.</p><p>Por volta dos doze anos de idade, tem início o estágio das operações</p><p>formais. Começando, assim, a idade adulta em termos cognitivos. O domínio do</p><p>6</p><p>pensamento lógico-dedutivo é desenvolvido, levando o sujeito a raciocinar sobre</p><p>hipóteses e a relacionar conceitos abstratos, alcançando assim um padrão</p><p>intelectual que lhe será característico para toda a vida adulta (Piaget, 1973).</p><p>Saiba mais</p><p>Para entender um pouco mais dos estágios propostos por Piaget, segue</p><p>abaixo algumas sugestões de leitura:</p><p>NETO, A. S.; HESKETH, C, G. Didática e design instrucional. Curitiba: IESDE,</p><p>2009.</p><p>SOUZA NEVES, R. Desenvolvimento educacional: um olhar psicopedagógico.</p><p>São Paulo: Souza e Neves Edições, 2014.</p><p>TAFNER, M. A construção do conhecimento segundo Piaget. Disponível em:</p><p><http://www.cerebromente.org.br/n08/mente/construtivismo/construtivismo.htm>.</p><p>Acesso em: 29 maio 2018.</p><p>TEMA 2 – O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM A</p><p>PARTIR DA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA E CULTURAL</p><p>A teoria sócio-cultural, também conhecida como sociointeracionista, tem</p><p>como ponto inicial de estudo as funções psicológicas superiores do indivíduo.</p><p>Dentro desta perspectiva, Vygotsky destaca o desenvolvimento histórico-social e</p><p>o papel da linguagem no desenvolvimento do sujeito. O principal ponto a destacar</p><p>nos estudos de Vygotsky é o desenvolvimento do conhecimento no sujeito a partir</p><p>de suas relações com o meio. Percebe-se que o sujeito é altamente participativo</p><p>no processo, já que o conhecimento se dá a partir de relações intrapessoais e</p><p>interpessoais, de trocas estabelecidas com o meio, partindo do processo de</p><p>mediação, como é definido pelo autor.</p><p>O autor considera a linguagem como um processo profundo que possibilita</p><p>a comunicação e a socialização do indivíduo. A relação entre pensamento e</p><p>linguagem se dá de maneira estreita; a linguagem tem papel essencial na</p><p>formação do pensamento e também do caráter do indivíduo.</p><p>Diferentemente do pensamento cunhado por Piaget, que entendia que o</p><p>desenvolvimento da linguagem ia do pensamento interno, autístico (ou seja,</p><p>dirigido para dentro do ser), para somente depois aparecer no discurso</p><p>socializado, Vygotsky chegou à conclusão, em seus estudos, de que a verdadeira</p><p>trajetória de desenvolvimento do pensamento não vai do pensamento individual</p><p>7</p><p>para o socializado, mas toma a trajetória contrária: do pensamento socializado</p><p>para o individual (Vygotsky, 2007).</p><p>Entendendo a linguagem enquanto um sistema simbólico, que representa</p><p>a realidade e que une todos os seres humanos. Vygotsky cunha a ideia de que</p><p>esse sistema é socialmente estabelecido. Para ele, a interação e a convivência</p><p>entre os indivíduos de uma mesma comunidade, que compartilham formas de se</p><p>portar e de produzir cultura, faz com que seja construído um sistema de signos, o</p><p>qual consistirá numa espécie de código para a decifração do mundo (Oliveira,</p><p>1997)</p><p>Nesse ínterim, se encontra a criança pequena, que está desenvolvendo sua</p><p>linguagem e construindo esse código que decifra o mundo. Para Vygotsky (2007),</p><p>há uma base biológica que sustenta a construção do código, a qual que perpassa</p><p>as funções psicológicas, que são produto da atividade cerebral. Para que essas</p><p>funções tenham fundamento, é imprescindível que os indivíduos se relacionem</p><p>socialmente entre si e também com o mundo exterior de modo geral. Isso</p><p>acontece mediante sistemas simbólicos, ou seja, a partir da linguagem.</p><p>Vygotsky, em seus estudos, percebeu que, em um primeiro momento,</p><p>existem algumas</p><p>atividades que a criança pode realizar sozinha, sem ajuda</p><p>externa. Segundo o teórico, isso acontece porque essas atividades são baseadas</p><p>em conhecimentos adquiridos e internalizados previamente, e fazem parte de um</p><p>ciclo de desenvolvimento já completo, que se refere às funções psicológicas que</p><p>a criança já construiu até determinado momento. A esse movimento, ele</p><p>denominou nível de desenvolvimento real (Zanella, 1994).</p><p>Em um segundo nível de desenvolvimento, que Vygotsky chamou de</p><p>desenvolvimento potencial, a criança não consegue realizar atividades sozinha,</p><p>pois necessita de orientação adequada, de um adulto ou de uma outra criança</p><p>mais experiente. É como se a criança possuísse o conhecimento, mas ainda não</p><p>o tivesse assimilado. Segundo Vygotsky (2007), é esse nível que se demonstra</p><p>um indicativo do desenvolvimento da criança, pois há um desenvolvimento</p><p>prospectivo, ou seja, referente ao futuro da criança.</p><p>Neste ponto, para entender como está se processando o desenvolvimento</p><p>mental da criança, é imprescindível estudar o intervalo entre o desenvolvimento</p><p>real e o desenvolvimento potencial. Tudo o que está entre esses dois níveis é</p><p>chamado por Vygotsky (2007, p. 97) de Zona de Desenvolvimento Proximal.</p><p>Segundo o teórico, “a Zona de Desenvolvimento Proximal define aquelas funções</p><p>8</p><p>que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação,</p><p>funções que amadurecerão, mas que estão, presentemente, em estado</p><p>embrionário”.</p><p>Em tal zona, os processos educativos devem ser mais enfáticos, tendo</p><p>como foco os processos em que as crianças ainda não amadureceram o</p><p>suficiente.</p><p>Vygotsky (2001) evidencia que o processo de apreensão do conhecimento</p><p>realizado pela escola não é a única fonte que a criança possui para aprender. O</p><p>aprendizado é inerente às capacidades humanas, pois todo ser humano consegue</p><p>aprender com qualquer situação vivida. Porém, é importante destacar que a</p><p>apropriação dos conceitos se dá de forma diferente. Vygotsky divide essa</p><p>apropriação em duas categorias, denominando a apreensão dos conceitos</p><p>realizada de forma aleatória no percurso da vida de conceito espontâneo; aqueles</p><p>que necessitam de um trabalho formal de aprendizagem são os conceitos</p><p>científicos.</p><p>Vygotsky (1998, p. 108) deixa claro que “a mente se defronta com</p><p>problemas diferentes quando assimila os conceitos na escola e quando é entregue</p><p>aos seus próprios recursos”. Isso não diminui a importância do processo educativo</p><p>formal, oferecido pelas instituições escolares, para o desenvolvimento do</p><p>indivíduo. Para o autor, o professor é um componente imprescindível na formação</p><p>de conceitos científicos por parte das crianças. Nesse sentido, ele deve ser</p><p>mediador no processo de ensino, pois o aluno não aprende somente porque está</p><p>inserido em um ambiente educacional, com condições ideais de estudo. A</p><p>responsabilidade do professor é levar o aluno ao amadurecimento de suas</p><p>funções psicológicas.</p><p>TEMA 3 – DISTÚRBIOS DA COMUNICAÇÃO ORAL E ESCRITA NA INFÂNCIA</p><p>Os dois principais processos comunicativos do ser humano são a emissão</p><p>oral e a escrita. Caracterizada coo ação de emissão oral, a fala é um processo</p><p>que engloba outros, como articulação, ressonância, voz, fluência e entonação.</p><p>Todas essas ações partem da ativação de uma representação do assunto que se</p><p>quer falar; o processo é canalizado para uma área do cérebro chamada Broca,</p><p>que se localiza na porção inferior do lobo frontal, quando é convertido em padrões</p><p>de ativação neuronal que culminarão na fala. O que, por sua vez, dado o contato</p><p>com os outros sons e com a acústica do ambiente, engloba múltiplos sons que</p><p>9</p><p>ocorrem simultaneamente, em várias frequências e com rápidas transições entre</p><p>elas (Schirmer; Fontoura; Nunes, 2004).</p><p>A linguagem é expressada através da fala, que corresponde, assim, à sua</p><p>realização motora. Caracterizada como efetivação da recepção e da transmissão</p><p>de informações, a fala compreende à maneira de articular a produção vocal</p><p>através de sons e palavras, o que inclui sua fluência.</p><p>Já a escrita é compreendida como um sistema organizado, com regras,</p><p>padrões e estruturas, donde se manifesta a capacidade humana de simbolizar.</p><p>Segundo o psicólogo cognitivista Stanislas Dehaene (2012, p. 20), o</p><p>processamento cerebral da leitura e da escrita acontecem na região cerebral</p><p>chamada occípito-temporal ventral esquerda. Para o autor, a escrita está atrelada</p><p>à condição neuronal de se reciclar para aprender coisas novas, que sejam</p><p>necessárias para a espécie. É essa maleabilidade neuronal que fez com que os</p><p>seres humanos se adaptassem a construtos recentes, culturais (ou seja, externos</p><p>ao indivíduo), de forma tão rápida e efetiva:</p><p>as invenções culturais como a leitura se inserem nesta margem de</p><p>plasticidade. Nosso cérebro se adapta ao ambiente cultural, não</p><p>absorvendo cegamente tudo o que lhe é apresentado em circuitos</p><p>virgens hipotéticos, mas convertendo a outro uso as predisposições</p><p>cerebrais já presentes. Nosso cérebro não é uma tabula rasa onde se</p><p>acumulam construções culturais: é um órgão fortemente estruturado que</p><p>faz o novo com o velho. Para aprender novas competências, reciclamos</p><p>nossos antigos circuitos cerebrais de primatas – na medida em que</p><p>tolerem um mínimo de mudança.</p><p>Diante disso, é importante que haja, no desenvolvimento inicial do processo</p><p>comunicativo, a observação vigilante dos componentes que fazem parte da</p><p>linguagem e da língua, dos quais a fala e a escrita fazem parte.</p><p>É necessário observar o vocabulário, ou seja, a quantidade de palavras que</p><p>fazem parte do repertório da criança, além do número de palavras que compõe as</p><p>frases que profere. Deve-se verificar a entonação, a dicção e a articulação de cada</p><p>fonema da língua, além da fluência e da velocidade da fala, observando as</p><p>rupturas e disfluências normais em cada idade.</p><p>Segundo Caputte e Accardo (1991), as alterações da linguagem situam-se</p><p>entre os mais frequentes problemas do desenvolvimento, atingindo 3 a 15% das</p><p>crianças, e podem ser classificadas em atraso, dissociação e desvio. Para os</p><p>autores, o atraso caracteriza-se pela progressão na linguagem na sequência</p><p>correta, porém em ritmo mais lento, e assim o desempenho culmina que é</p><p>semelhante ao de uma criança de idade inferior, enquanto que a dissociação é</p><p>10</p><p>marcada por uma diferença significativa entre a evolução da linguagem e das</p><p>outras áreas do desenvolvimento. Por sua vez, o desvio é entendido como um</p><p>padrão de desenvolvimento mais alterado: verifica-se uma aquisição</p><p>qualitativamente anômala da linguagem. É um achado comum em perturbações</p><p>da comunicação do espectro do autismo, tema que estudaremos posteriormente.</p><p>Quando da constatação de tais problemas, é imprescindível a participação</p><p>de vários profissionais para acompanhar o desenvolvimento da criança, como</p><p>pediatras, educadores, psicólogos, terapeutas ocupacionais, agentes</p><p>comunitários de saúde, entre outros. De forma geral, pediatras e professores são</p><p>os primeiros profissionais solicitados a opinar e a orientar, por serem mais</p><p>presentes no acompanhamento do desenvolvimento infantil. No entanto, a</p><p>intervenção só ocorrerá em bom nível técnico com a presença direta ou indireta</p><p>de um fonoaudiólogo (Marcondes, 2003).</p><p>A American Speech Language and Hearing Association (ASHA) (1982)</p><p>conceitua os distúrbios da comunicação como impedimentos na habilidade de</p><p>receber e processar um sistema simbólico. São observáveis nos níveis de</p><p>sensibilidade, função, processamento e fisiologia da audição, de forma, conteúdo,</p><p>e função comunicativa, nos níveis de linguagem e de articulação, voz e fluência</p><p>dos processos de fala. Esses distúrbios podem variar em gravidade; ser de origem</p><p>desenvolvimental ou adquirida; resultar de doenças de manifestação primária ou</p><p>idiopáticas, ou doenças de manifestação secundária, decorrentes de</p><p>manifestação maior; podem ainda ocorrer casos isolados</p><p>ou combinados.</p><p>Segundo Prates e Martins (2011), entre os principais distúrbios na</p><p>comunicação estão o transtorno fonológico, que se caracteriza por um atraso na</p><p>aquisição dos sons/fonemas da língua ou por aquisição desviante, produção</p><p>atípica dos sons da fala, omissões, substituições ou adições. Pode estar atrelado</p><p>a um histórico familiar; à gagueira de desenvolvimento que pode surgir entre 2 e</p><p>3 anos, caracterizando-se por rupturas (disfluências) na fala, como repetições de</p><p>sons e sílabas, bloqueios e prolongamentos; e a alterações no desenvolvimento</p><p>da linguagem oral, que normalmente não têm causa aparente. Nestes casos,</p><p>observa-se atraso ou distúrbio no desenvolvimento da linguagem, caracterizados</p><p>por vocabulário pobre, dificuldade na combinação de palavras para formar frases,</p><p>uso inadequado da linguagem, sintaxe pouco estruturada, dificuldade de</p><p>compreensão, alterações gramaticais, fala ininteligível, dificuldade com conceitos</p><p>abstratos e figurativos. Por fim, verifica-se a alteração no desenvolvimento da</p><p>11</p><p>linguagem escrita, que pode estar relacionada à alteração no desenvolvimento da</p><p>linguagem ou a transtornos fonológicos, representando atraso no</p><p>desenvolvimento ou distúrbio, caracterizados por alteração na escrita de palavras,</p><p>dificuldades na elaboração e compreensão escrita e alteração neurofisiológica. Ao</p><p>mesmo tempo, podem ser observadas falhas no processamento fonológico</p><p>(memória operacional, consciência fonológica e acesso rápido às representações</p><p>no léxico), além de alterações no processamento visual e auditivo e transtorno do</p><p>déficit de atenção e hiperatividade. Inclui-se aí dislexia, disgrafia, disortografia e</p><p>distúrbios de leitura e escrita.</p><p>A criança disléxica apresenta sérias dificuldades com a identificação dos</p><p>símbolos gráficos no início da sua alfabetização, o que acarreta fracasso em</p><p>outras áreas que dependem da leitura e da escrita.</p><p>As principais dificuldades se apresentam como demora em aprender a</p><p>falar, fazer laço, reconhecer as horas, pegar e chutar bola ou pular corda. Também</p><p>podem haver dificuldades ao escrever números e letras correspondentes, ao</p><p>ordenar as letras do alfabeto, os meses do ano e as sílabas de palavras compridas</p><p>e ao distinguir esquerda e direita. Além disso, é comum que haja dificuldades em</p><p>planejar e escrever redações, especialmente na pronúncia de palavras longas.</p><p>Os principais erros da criança disgráfica são a apresentação desordenada</p><p>do texto, margens malfeitas ou inexistentes e traçado de má qualidade. Este é</p><p>caracterizado por tamanho pequeno ou grande, pressão leve ou forte, letras</p><p>irregulares ou retocadas, distorção da forma das letras “o” e “a”, movimentos</p><p>contrários ao da escrita convencional, ligações defeituosas de letras na palavra,</p><p>irregularidades no espaçamento das letras na palavra, direção da escrita</p><p>oscilando para cima ou para baixo e dificuldade na escrita e no alinhamento dos</p><p>números na página.</p><p>Todos esses distúrbios são rapidamente perceptíveis por profissionais que</p><p>trabalham com crianças e que permanecem atentos a seu desenvolvimento. Por</p><p>isso, é importante manter-se atento à forma como as crianças se comunicam, pois</p><p>a comunicação é o meio por excelência pelo qual elas expressam a linguagem</p><p>inerente a elas.</p><p>Saiba mais</p><p>Para compreender melhor esse assunto, segue uma sugestão de leitura:</p><p>PRATES, L. P. C. S.; MARTINS, V de O. Distúrbios da fala e da linguagem na</p><p>Infância. Revista Médica de Minas Gerais, n. 21, v. 4, 2011.</p><p>12</p><p>TEMA 4 – DISTÚRBIOS ESPECÍFICOS DA LINGUAGEM</p><p>Os distúrbios na linguagem constituem-se como problemas infantis muito</p><p>recorrentes, manifestando-se em atrasos ou desenvolvimento atípico, que podem</p><p>envolver componentes funcionais de audição, fala, escrita ou a própria linguagem</p><p>como um todo, em níveis variados de gravidade. Tais distúrbios são muito</p><p>comuns, afetando de 5 a 10% de todas as crianças. Estima-se que 1% das</p><p>crianças em idade escolar tenha uma deficiência de linguagem importante (Vitto;</p><p>Ferres, 2005).</p><p>Entre os distúrbios da linguagem, podemos citar a mudez, enquanto a</p><p>incapacidade de articular palavras, que geralmente é decorrente de transtornos</p><p>do sistema nervoso central. Em parte dos casos, é decorrente de problemas na</p><p>audição (Santos, 2010).</p><p>Ainda segundo Santos (2010), outro distúrbio importante é o atraso na</p><p>linguagem. As principais características da criança que tem atraso na linguagem</p><p>são: deficiência no vocabulário, deficiência na capacidade de formular ideias e</p><p>desenvolvimento retardado da estruturação de sentenças.</p><p>Problemas de articulação também se caracterizam como distúrbios da</p><p>linguagem. As crianças de mais de 7 anos que não conseguem pronunciar</p><p>corretamente todas as consoantes e suas combinações apresentam um problema</p><p>de articulação. Podemos citar: dislalia, que é a omissão, distorção, substituição</p><p>ou acréscimo de sons na palavra falada; disartria, que se apresenta como um</p><p>problema articulatório que se manifesta na forma de dificuldade para realizar</p><p>alguns ou muitos dos movimentos necessários à emissão verbal; linguagem</p><p>tatibitate, que é um distúrbio de articulação (e também de fonação), em que se</p><p>conserva voluntariamente a linguagem infantil; rinolalia, ressonância nasal maior</p><p>ou menor que a do padrão correto da fala, que pode ser causada por problemas</p><p>nas vias nasais; vegetação adenóide, lábio leporino ou fissura palatina.</p><p>É preciso citar também a afasia, que se caracteriza, mais especificamente,</p><p>por falhas na compreensão e na expressão verbal, relacionadas à insuficiência de</p><p>vocabulário, má retenção verbal, gramática deficiente e anormal e escolha</p><p>equivocada de palavras. A afasia pode ser observada em crianças que: ouvem a</p><p>palavra, mas não a interiorizam com significado; demoram para compreender o</p><p>que é dito; apresentam gestos deficientes e inadequados; confundem palavras ou</p><p>frases com outras similares; têm dificuldade de evocação, exteriorizada por</p><p>13</p><p>ausências de respostas ou tentativas incompletas para achar a expressão ou</p><p>emissões que a substituem (Ferreira; Socha, 2018)</p><p>Outro distúrbio muito estudado nos dias atuais é o autismo infantil.</p><p>Dedicaremos uma aula para trabalharmos esse tema; porém, de forma prévia</p><p>apresentaremos aqui algumas informações pertinentes. O autismo infantil</p><p>caracteriza-se por uma interiorização intensa. Teorias interpessoais e orgânicas</p><p>foram sugeridas para explicar o autismo, mas até agora nenhuma delas foi</p><p>plenamente aceita. Como características principais da criança autista, estão a</p><p>solidão em grau extremo e evidente na mais tenra idade; ausência de sorriso</p><p>social; não desenvolvimento de linguagem apropriada, com repetição de frases; e</p><p>organização de objetos sempre da mesma forma (mesmo que fique sem vê-los</p><p>durante um tempo, lembra-se da sua posição). Tendem também a apresentar</p><p>excelente memória: decoram facilmente poesias e canções, aprendem novas</p><p>palavras com facilidade. Ademais, não mantêm contato visual com as pessoas;</p><p>demonstram ansiedade frequente, aguda, excessiva e aparentemente ilógica;</p><p>apresentam hiperatividade e movimentos repetitivos, com entorpecimento nos</p><p>movimentos que requerem habilidades; são retraídos, apáticos e desinteressados,</p><p>numa total indiferença com o ambiente circundante, além de demonstrar</p><p>incapacidade para julgar.</p><p>Esses e muitos outros distúrbios precisam ser percebidos e investigados o</p><p>mais rápido possível nas crianças, pois só um diagnóstico precoce poderá levar o</p><p>professor e os profissionais que trabalham com crianças a descobrir qual a melhor</p><p>forma de auxiliar esses indivíduos a se desenvolverem e a viverem uma vida</p><p>melhor, convivendo bem com suas dificuldades.</p><p>TEMA 5 – INTERVENÇÃO NA CRIANÇA COM DISTÚRBIO DA LINGUAGEM</p><p>Como já apontado no capítulo anterior, é importante elaborar um diagnóstico</p><p>o mais cedo possível, de modo a entender quais distúrbios de linguagem e</p><p>comunicação</p><p>uma criança pode ter. Após o diagnóstico ter comprovado o distúrbio,</p><p>ações devem ser tomadas na busca da melhor lida com a situação. Essa ação pode</p><p>ser considerada uma intervenção direta na vida da criança com intuito de melhorá-</p><p>la.</p><p>Segundo Tedesco (1997), a estimulação precoce da linguagem pode</p><p>prevenir distúrbios de aprendizagem, dislexia e problemas de desenvolvimento.</p><p>Pesquisas vêm demonstrando a importância dos três primeiros anos de vida no</p><p>14</p><p>desenvolvimento do cérebro humano. Por esse motivo, os adultos (sejam eles, pais,</p><p>tutores, professores, ou pessoas que fazem parte da vida da criança) precisam</p><p>tomar algumas atitudes no intuito de preservar a saúde psicológica da criança.</p><p>Uma das principais atitudes que os educadores devem ter com a criança que</p><p>apresenta algum distúrbio de linguagem é evitar que ela se sinta inferior às outras,</p><p>evitando ressaltar suas dificuldades. Deve-se também considerar o problema de</p><p>maneira serena e objetiva, avaliando o desempenho do aluno pela qualidade do</p><p>seu trabalho, não pelos objetivos alcançados, evitando corrigi-lo com frequência na</p><p>frente de outras crianças. Outra atitude importante é estimular a criança a enfrentar</p><p>o problema de frente, para que procure sempre superar-se, e jamais relegar ou</p><p>ignorar a criança que não consegue superar sua dificuldade.</p><p>Para intervir no processo de aquisição da linguagem da criança que apresenta</p><p>algum distúrbio, é necessário orientar a família e a escola, juntamente com uma</p><p>terapia adequada. Entre as terapias existentes, há a terapia da fala, que tem por</p><p>objetivo tratar de desvios fonéticos e fonológicos; a terapia de voz, que incide sobre</p><p>as disfonias; a terapia de motricidade oral, que cuida dos distúrbios de alimentação,</p><p>respiração e mobilidade de órgãos fonoarticulatórios; a terapia de linguagem oral,</p><p>em que o enfoque é a expressão e/ou recepção de linguagem; e a terapia de</p><p>linguagem escrita, que aborda dislexias, disortografias e disgrafias (Landry, Smith;</p><p>Swank, 2002).</p><p>Ainda segundo os mesmos autores, todas “as atividades de estimulação</p><p>dentro da terapia fonoaudiológica infantil devem ser realizadas de forma lúdica,</p><p>através de jogos e brincadeiras, para que a criança sinta prazer nas técnicas</p><p>propostas. Também é recomendável envolver a família e, quando necessário, a</p><p>escola” (Landry; Smith; Swank, 2002, p. 9).</p><p>A terapia é o procedimento mais importante na intervenção na criança que</p><p>apresentem algum distúrbio de linguagem, mas não se deve esquecer dos aportes</p><p>educacionais nesse processo. Por conta disso, a ludicidade é essencial nesse</p><p>processo, já que é por meio da brincadeira que a criança se expressa e se relaciona</p><p>com o mundo.</p><p>A estimulação através de canto, conversa, brincadeiras e leitura propicia</p><p>a aquisição de habilidades que favorecem o desenvolvimento. Para que</p><p>comece a ocorrer um processo de comunicação, a criança deverá se</p><p>sentir motivada. Deverá existir o que se chama de intenção comunicativa</p><p>(através da fala serão conseguidos objetos de interesse da criança). Este</p><p>aspecto surge através do contato diário com as pessoas e da</p><p>estimulação que essa interação propicia (Shaywitz; Shaywitz, 2003, p.</p><p>24)</p><p>15</p><p>Intervir no momento certo é uma forma de fazer com que a criança que</p><p>possui algum distúrbio na linguagem possa ter uma melhor qualidade de vida e</p><p>aprender a se comunicar de forma efetiva. Para isso, o profissional que intervém</p><p>nesse processo deve entender a linguagem da criança, e também as formas como</p><p>interage com o mundo. Nesse ponto, a família e a escola têm papel fundamental</p><p>na estimulação da linguagem na criança.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Muitos são os distúrbios de comunicação e linguagem que acometem as</p><p>crianças. Esses distúrbios podem facilmente ser detectados pelos adultos quando</p><p>estão atentos aos processos de aquisição da linguagem. Pais, professores,</p><p>agentes de saúde; todos devem estar vigilantes às etapas que a criança deve</p><p>seguir no desenvolvimento de sua linguagem.</p><p>As teorias servem para que possamos compreender melhor como</p><p>funcionam as funções psicológicas da criança para que, em momento oportuno,</p><p>possamos intervir com a terapia ou a profilaxia corretas. Por isso, devemos</p><p>conhecê-las, internalizá-las e colocá-las em prática no momento correto.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Texto de abordagem teórica</p><p>SOUZA NEVES, R. Desenvolvimento educacional: um olhar psicopedagógico.</p><p>São Paulo: Souza e Neves Edições, 2014.</p><p>TAFNER, M. A construção do conhecimento segundo Piaget. Disponível em:</p><p><http://www.cerebromente.org.br/n08/mente/construtivismo/construtivismo.htm>.</p><p>Acesso em: 29 maio 2018.</p><p>Texto de abordagem prática</p><p>NETO, A. S.; HESKETH, C, G. Didática e design Instrucional. Curitiba: IESDE,</p><p>2009.</p><p>Saiba mais</p><p>PRATES, L. P. C. S.; MARTINS, V de O. Distúrbios da fala e da linguagem na</p><p>Infância. Revista Médica de Minas Gerais, n. 21, v. 4, 2011.</p><p>16</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ASHA – American Speech Language and Hearing Association. Committee on</p><p>language, speech and hearing association: communicative disorders and</p><p>variations. ASHA, v. 24, n. 11, p. 9-12, 1982.</p><p>CAPUTTE A. J.; ACCARDO P. J. Language Assessment. In: _____. (Ed.).</p><p>Developmental and Disabilities in Infancy and Childhood. Baltimore: Paul H</p><p>Brookes Publishing Co., 1991. p. 165-179.</p><p>CHARLOT, B. A noção de relação com o saber: bases de apoio teórico e</p><p>fundamentos antropológicos. In: _____. (Org.). Os jovens e o saber: perspectivas</p><p>mundiais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001. p. 15-31.</p><p>DEHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa</p><p>capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.</p><p>FERREIRA, F. A. K.; SOCHA, K. Compreensão e encaminhamentos da afasia</p><p>pelo profissional docente. 2013. Disponível em:</p><p><http://www.uniedu.sed.sc.gov.br/wp-content/uploads/2013/10/Francielle-</p><p>Aparecida-Krieger.pdf>. Acesso em: 29 maio 2018.</p><p>HEBB, D. O. The organization of behavioir. New York: Wiley, 1949.</p><p>HOPPENSTEAD, F. C.; IZHIKEVICH, E. M. Weakly connected neural networks.</p><p>New York: Springer-Verlag, 1997.</p><p>LANDRY, S. H.; SMITH, K. E.; SWANK, P. R. Environmental effects on language</p><p>development in normal and high-risk child population. Semin. Pediatr. Neurol., v.</p><p>9, n. 3, p. 192-200, 2002.</p><p>MARCONDES E. Prefácio. In: ANDRADE, C. R. F.; MARCONDES, E.</p><p>Fonoaudiologia em Pediatria. São Paulo: Sarvier, 2003.</p><p>MEZIROW, J. Understanding transformative theory. Adult Education Quartely,</p><p>v. 44, n. 4, p. 222-232, Summer 1994.</p><p>OGASAWARA, J. S. V. O conceito de aprendizagem de Skinner e Vygotsky:</p><p>um diálogo possível. Monografia (Pedagogia) – UNEB, 2009.</p><p>OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento – um processo</p><p>sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997.</p><p>17</p><p>PIAGET, J. Psicologia e epistemologia: por uma teoria do conhecimento. Rio de</p><p>Janeiro: Forense, 1973.</p><p>PRATES, L. P. C. S.; MARTINS, V de O. Distúrbios da fala e da linguagem na</p><p>Infância. Revista Médica de Minas Gerais, n. 21, v. 4, 2011.</p><p>SANTOS, R. I. T. C. dos. Manual da Psicopedagogia. Lagoinha: s. n., 2010.</p><p>SCHIRMER, C. R.; FONTOURA, D. R.; NUNES, M. L. Distúrbios da aquisição da</p><p>linguagem e da aprendizagem. J Pediatr., v. 80, 2004.</p><p>SHAYWITZ, S. E.; SHAYWITZ, B. A. Dyslexia (specific reading disability). Pediatr</p><p>Rev., 2003.</p><p>TEDESCO, M. R. M. Diagnóstico e terapia dos distúrbios do aprendizado da leitura</p><p>e escrita. In: OTALILIO, L. P. Tratado de fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 1997.</p><p>VYGOTSKY, L. S. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar.</p><p>In: VYGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem,</p><p>desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2001.</p><p>_____. Formação social da mente: o desenvolvimento dos processos</p><p>psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.</p><p>_____. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.</p><p>ZANELLA, A. V. Zona de desenvolvimento proximal: análise teórica de um</p><p>conceito em algumas situações variadas.</p>foram base para pesquisas mais 
profundas, outras, ainda, fracassaram na sua tentativa de explicar como o cérebro 
humano funciona. 
Na atualidade, com a utilização de processos computacionais para estudar 
o funcionamento das funções cerebrais, os estudos nas áreas das neurociências 
15 
têm se multiplicado e grandes avanços têm sido realizados no interior das várias 
disciplinas que estudam as funções cerebrais. 
Diante disso, entendendo os grandes desafios da neurociência cognitiva na 
atualidade, surge a necessidade de iniciar e expandir a pesquisa interdisciplinar 
nestas áreas do saber. A necessidade da interconexão entre as disciplinas além 
dos estudos somente de animais é de considerável importância. Esse é o grande 
desafio para o estudo do cérebro a partir de agora. 
LEITURA COMPLEMENTAR
Saiba mais 
DIAS, A. M. Modelos e análises computacionais em neurociências: revisão 
sistemática. Estud. pesqui. psicol. v.10, n. 2, Rio de Janeiro, ago. 2010. 
Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v10n2/v10n2a15.pdf>. Acesso 
em: 2 jul. 2018. 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
AMUNTS, K.; LENZEN, M.; FRIEDERICI, A. D.; SCHLEICHER, A.; MOROSAN, 
P.; PALOMERO-GALLAGHER, N.; ZILLES, K. Broca’s region: Novel 
organizational principles and multiple receptor mapping. PLoS Biol.; v. 8, n. 9,. 
2010. 
ARBIB, M. A.; BONAIUTO, J. J.; BORNKESSEL-SCHLESEWSKY, I.; 
KEMMERER, D.; MACWHINNEY, B.; NIELSEN, F. A.; OZTOP, E. Action and 
Language Mechanisms in the Brain: Data, Models and Neuroinformatics. 
Neuroinformatics, v. 12, n. 1, p. 209-225, jan. 2014. 
BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neuroscience: Exploring the 
Brain. 2. ed. USA: Lippincott Williams & Wilkins, 2001. 
CARLSON, N. R. Physiology of Behavior. Upper Saddle River, NJ: Pearson 
Education Inc. 2013. 
EMBICK, D.; POEPPEL, D. Towards a computational(ist) neurobiology of 
language: Correlational , integrated , and explanatory neurolinguistics. Lang Cogn 
Neurosci, v. 30, n. 4, p. 357-366, 1 maio 2015. 
GESCHWIND, N. The organization of language and the brain. Science, v. 170, n. 
3961, p. 940, 1970. 
HICKOK, G. Computational neuroanatomy of speech production. Nat Reviews 
Neurosci, v. 13, p.135-45, 2012. 
LOGOTHETIS, N. K.; PAULS, J.; AUGUTH, M.; TRINATH, T.; OELTERMANN, A. 
A neurophysiological investigation of the basis of the BOLD signal in fMRI. Nature, 
v. 412, n. 6843, p. 150-157, jul. 2001. 
NILSSON, L. G.; MARKOWITSCH H. J. Cognitive Neuroscience of Memory. 
Seattle: Hogrefe & Huber Publishers, 1999. 
NIEDERMEYER, E.; SILVA, F. L. da. (Org.). Electroencephalography: basic 
principles, clinical applications, and related fields Philadelphia ; London: Lippincott 
Williams & Wilkins, 2005. 
NILIPOUR, R. The Challenges of Cognitive Neuroscience in the 21st Century. 
Basic & Clinical Neurocience, v. 3, n. 5, 2012. 
 
 
17 
POEPPEL, D.; HICKOK, G. Para uma nova anatomia funcional da linguagem. 
Cognition, v. 92, n. 1-2, maio/jun. 2004. 
_____. O problema dos mapas e o problema do mapeamento: dois desafios para 
uma neurociência cognitiva da fala e da linguagem. Neuropsicologia Cognitiva, 
v. 29, n. 1-2, fev. 2012. 
POEPPEL, D.; HICKOK, G.; EMMOREY, K.; HICKOK, G.; PYLKKÄNEN, L. 
Towards a new neurobiology of language. J Neurosci, v. 32, n. 41, out. 2012. 
_____. Linking language and cognition to neuroscience via computation. 
NSF Workshop held. May 23-24, Arlington VA, 2013. 
EMBICK, D. et al. The relation between linguistics and neuroscience. In: CUTLER, 
A. (Ed.). Twenty-first century psycholinguistics: four cornerstones. Lawrence 
Erlbaum Associates: Mahwah, NJ: 2015. 
PULVERMULLER, F. Agrammatism: behavioural description and neurobiological 
explanation. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 7, p. 165-81. 1995. 
SMALL, S. L. A neurociência da linguagem. Brain Lang, v. 106, n. 1, jul. 2008. 
ZATORRE, R. J.; BELIN, P.; PENHUNE, V. B. Structure and function of auditory 
cortex: music and speech. Trends Cogn Sci, v. 6, n. 37, 2002.

Mais conteúdos dessa disciplina