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<p>CORTEZ 43 EDITORA In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003. 3 ENSINO DE LÍNGUA MATERNA - GRAMÁTICA E TEXTO: ALGUMA DIFERENÇA? Dentre os pontos e questões sobre o ensino de língua materna que precisam ser postos em foco, para ter a devida atenção dos pro- fessores ao desenvolver seu trabalho, é preciso estar atento, por exem- plo, aos seguintes: a) o que se tem como meta e objetivos de ensino de língua materna; b) o que fazer em sala de aula face às variedades lin- c) a questão do ensino de gramática ser feito sempre como algo desvinculado do ensino de vocabulário e de produção / compreen- são de textos; d) a própria concepção que se tem de linguagem, de gramática e de texto; e) a inter-relação entre estes elementos na cons- tituição da ação de ensino/aprendizagem em sala de aula. A necessi- dade de focalizar tais pontos e questões nasce da pertinência de se estar atento a eles na configuração do ensino / aprendizagem de gua materna. Essa pertinência se deve ao fato de que estes pontos tratam do ensino de língua materna, pondo em cheque algumas pos- turas e crenças dos professores de Português como língua materna e que têm sido consideradas, defendidas e têm le- vado os professores a estruturar suas atividades para o ensino de gua materna de úma maneira que pode ser vista como não sendo a 7. Comunicação de mesmo título apresentada na mesa redonda "O Ensino de Língua Materna em Questão: Aspectos Gramaticais e Textuais da Fala/Escrita", realizada no rio sobre Ensino de Língua Materna e Estrangeira da Universidade Federal da Campus II - Campina Grande, 06/05/1997. Primeira publicação: Travaglia em ver-</p><p>LUIZ CARLOS TRAVAGLIA GRAMATICA ENSINO mais desejável em termos de uma formação que se pretende dar aos Sabe-se também que o sentido que uma faz alunos. Estas afirmações criam o compromisso de propor alternati- (e que a transforma em texto) depende de uma série de recursos, me- vas, que temos buscado levar a efeito em vários trabalhos e que canismos, fatores e princípios internos e externos à língua. Todos es- pretendemos fazer tes elementos estão de alguma forma inscritos e regularizados na Evidentemente pode ser visto como muito pretensioso fazer tan- gua, constituindo a sua gramática. Por isto é que se pode afirmar que to num espaço tão pequeno quanto o deste capítulo, mas parece pos- a gramática de uma língua é o conjunto de condições para sível fazê-lo atendo-se a alguns pontos fundamentais que represen- a significação. Portanto, o conjunto desses recursos, mecanismos, fa- tam a base para a configuração de um tipo de trabalho com a língua tores e princípios que usamos para produzir efeitos de sentido é a materna em sala de aula que parece mais pertinente para os alunos gramática de uma língua. em sua vida social e mesmo para nós, professores, porque mais grati- Todos os recursos da língua em todos os seus planos ficante em seus resultados. (fonológico, morfológico, sintático, semântico, pragmático) e níveis Em primeiro lugar, é preciso questionar a dicotomia posta quan- (lexical, frasal, textual-discursivo) em termos de unidades e estru- do se diz "aspectos gramaticais e textuais da fala/escrita", pois dizer turas (sejam elas fonológicas, morfológicas, sintáticas, textuais), fun- assim faz pensar que o que é textual não é gramatical e que que é cionam como pistas e instruções de sentidos que são coadjuvados nesta gramatical não é textual, posição com a qual não podemos concordar. função por mecanismos, fatores e Dessa ação conjunta Tal crença um problema para o que se faz em sala de aula, pois faz surgem os efeitos de sentido possíveis para uma dada lin- supor uma separação entre as atividades de ensino de gramática e de usada como texto numa dada situação de produção/compreensão de que inexiste, mas passa a existir por força da verbalização da mesma, o que acaba prejudicando em que se disse anteriormente autoriza afirmar que tudo o que é muito o trabalho que se poderia fazer e que em linhas básicas se pre- gramatical é textual e, vice-versa, que tudo o que é textual é gramati- tende esboçar aqui. cal. Assim, quando se estudam aspectos gramaticais de uma língua, estão sendo estudados os recursos de que a língua dispõe para que o Antes de mais nada é preciso acreditar que o homem se comuni- falante/escritor constitua seus textos para produzir o(s) efeito(s) de ca por meio de textos. Assim, comunicar-se significa de alguma forma ou não) produzir um efeito de sentido entre o(s) sentido que pretende sejam percebidos pelo ouvinte/leitor e o que produtor(es) de um texto e o(s) receptor(es) desse mesmo texto. Esse afeta esta percepção. E quando são estudados aspectos textuais da efeito de sentido é que faz com que algo seja um texto. Se nos restrin- língua estamos estudando como esses recursos funcionam na intera- girmos aos textos podemos dizer que uma lin- ção comunicativa. güística só se transforma em texto quando produz um efeito de senti- do entre seu produtor e seu receptor, ou seja, quando sentido para Caso contrário, o que temos é só um amontoado de ele- 9. Embora a distinção entre mecanismos, fatores e não seja fácil nem de um modo geral podemos dizer que mecanismos seriam alguns da língua que permi- mentos da língua, mas não um texto. Esta é a lição que aprendemos tem os efeitos de sentido produzidos no texto como, por exemplo, as chamadas figuras de com a Textual ao tratar de coerência (cf. Koch & Travaglia linguagem, a pressuposição, as implicaturas princípios seriam certas regras gerais a se- (1989 e 1990)). rem seguidas porque na comunicação a forma como falantes constituem textos como, por exemplo, os princípios conversacionais e os de preservação das faces e fatores se- riam elementos que interferem de alguma forma na constituição dos textos e no sentido que eles fazern por exemplo, os participantes da interlocução, imagens que uns dos outros e do assunto de que falam, ideologias e elementos contextuais em geral, muito estuda- 8. vezes esta separação é tão radical que algumas escolas, acreditando que realmente dos no plano Mas, na verdade, há funcionamento conjunto, integrado de ela existe, dividem as de em aulas de aulas de redação e aulas de tudo isto, de modo que o que cada elemento é e como funciona é sempre afetado pelos outros leitura com professores</p><p>CARLOS TRAVAGLIA ENSINO PLURAL A seguir daremos, utilizando os recursos da língua que muitos truções de sentido com as quais estes recursos são capazes de contri- chamam de artigo, um exemplo que pode evidenciar que não há uma buir para a produção de sentido em um texto, permitindo a separação sustentável entre gramática e cação numa situação de interação comunicativa. Neste caso podemos Tratando dos chamados artigos, podemos discutir com os alunos: trabalhar com os alunos as seguintes questões: 1) a existência de um tipo de recurso na língua que alguns cha- a) as instruções de sentido básicas desses recursos da língua, nor- mam de artigo e outros de pronome e outros ainda como um malmente especificadas na teoria inclusive nas morfema marcador de gênero e número (aqui temos o problema da chamadas gramáticas tradicionais, seriam: os artigos defini- teoria dos apresentam entidades como definidas, conhecidas dos 2) que há dois tipos de artigo: o definido e o indefinido; interlocutores e os indefinidos as apresentam como indefini- 3) que tipos de instrução de sentido esse recurso, isolado pela das, desconhecidas. Assim só se pode usar o artigo definido teoria como um tipo de unidade da língua (uma classe de palavra), para algo que já apareceu no texto ou que está disponível de pode trazer para o texto. alguma forma em nossa No final de um estudo sobre chamado artigo nosso aluno pode b) alguns efeitos de sentido mais derivados desses saber: valores básicos. 1) dizer o que é um artigo; A discussão do que propusemos no item 7, levará o aluno a 2) dizer qual a classificação dos artigos; a) na diferença entre os textos de (2) a (8), (10) e (11) e nos senti- 3) listar os artigos; dos dos textos de (9), (10b, d), (11) e (12) e 4) classificar os artigos; b) em que situação de interação cada texto poderia e/ou deve- 5) identificar artigos em seqüências ria ser usado, em função do(s) efeito(s) de sentido que os di- 6) discutir se o artigo é uma classe de palavras à parte ou um tipo ferentes usos do(s) recurso(s) possibilitam ser estabelecidos. de pronome, inclusive apresentando argumentos como, por exemplo, A seguir são comentados, mesmo que sumariamente, estes efei- o fato de que, na não se pode usar essa unidade tos de da língua junto com alguns tipos de pronomes (como os demonstrati- vos e os indefinidos, naturalmente por razões diferentes) (cf. exem- (2) a o preço da entrada é X. plos b)), mas pode-se usá-la com outros tipos de pronomes como b preço de uma entrada é X. os possessivos exemplo (1c)). Pode-se discutir ainda se ele nem é preço de entrada X. uma classe de palavras mas apenas um texto em (2a) é um texto que poderia ser usado em qualquer (1) a - Os estes/alguns meninos estão alegres. situação em que se pretende dizer quanto custa a entrada, o ingresso b Uns meninos estão alegres. Os meus meninos estão alegres. 11. Como quando presidente do Brasil falará hoje na televisão em rede 7) saber usar na construção e compreensão de textos os recursos Usamos o artigo definido porque todos sabem que o Brasil tem um presidente Não precisamos introduzi-lo pelo artigo para depois usar o da língua chamados de "artigos" com base no conhecimento das ins- Seria inclusive estranho para um brasileiro, se "O Brasil tem um presidente. presidente do Brasil falará hoje na televisão em rede Num caso como este o uso do chamado indefinido pode em um texto em que se quer qualificar o ser já conhe- cido, como em "O Brasil um presidente Todavia, neste caso, cabe levantar a dúvi- 10. Veja a este respeito que é apresentado no capítulo 5 ("Para que ensinar teoria gra- da se temos realmente o ou um recurso não classificado pelos estu- matical") sobre classes de dos Essa dúvida pode também ser posta para como os dos textos de (9b,</p><p>para algo, por exemplo, para um show, um jogo no estádio, cinema, significa que o grupo do Rio é formado por todos os países latino- parque de diversões etc., inclusive poderia responder à pergunta "Qual americanos, enquanto o de b significa que o grupo do Rio é formado é o preço da "Quanto custa a Já (2b) só poderia apenas por alguns países latino-americanos Dessa forma, se confron- ser usado, por exemplo, em uma situação em que se discute o valor da tarmos com a realidade, apenas um texto é verdadeiro: o texto b. Num entrada para se comprar uma só ou Talvez como parte de um telejornal de uma de nossas redes de televisão, um jornalista, ao dar texto maior como "O preço de uma entrada é R$10,00; mas, quando a uma notícia sobre o grupo do Rio, usou o texto de a, que é falso, e por gente compra mais de dez, eles fazem cada uma a R$7,00 e mais de isso construiu inadequadamente seu texto para a situação, pois deve- eles fazem a R$5,00". Ou então, ter, por exem- ria usar b para passar a informação correta. Este é um valor do artigo plo, uma situação em que alguém destaca o preço de uma entrada definido: indicar quantidade, expressando totalidade. Assim, se se para colocar que não há dinheiro para comprar a quantidade deseja- disser "João comeu o bolo" que ele comeu todo o bolo, da como em "O preço de uma entrada é R$10,00. Para irmos os dez ao o bolo inteiro. Para se produzir outro efeito de sentido (de não-totali- parque não dá porque só temos R$80,00" Isto vale para qualquer coi- dade) temos que usar "João comeu do (com o partitivo) ou "João sa, pois podemos ter um balconista de qualquer estabelecimento CO- comeu um uma fatia do Já em "João comeu bolo" tem- mercial dizendo "O preço de um A (livro, maçã, meia etc.) é R$5,00, se a indicação do tipo de coisa que ele comeu (substância), sem refe- mas se você comprar mais de dez, fazemos a R$4,00. Já (2c) não se rência à quantidade. Do mesmo modo, se se diz: "Os alunos de minha refere a ingresso, mas a outro tipo de entrada: é o começo de partici- sala foram bem no concurso", significa que todos foram bem, diferen- pação em algo, como ser sócio de um clube, por exemplo: - "Quanto temente de se dizer "Alguns alunos de minha sala foram bem no con- paga para ser sócio do seu clube?/ preço de entrada é R$1000,00, curso". Parece advir a incompatibilidade que faz com que *Os al- depois você paga uma mensalidade de guns alunos de minha sala foram bem no concurso" e (la) ("Os al- guns meninos estão alegres") sejam inaceitáveis em (3) a - João levou seu sobrinho ao parque, menino pulou no lago para nadar. (5) a - A menina de ontem trouxe este recado para você. b - João levou seu sobrinho ao parque. Um menino pulou no lago b - ? Uma menina de ontem trouxe este recado para você. para nadar. - Uma menina que veio aquí ontem trouxe este recado para você. d - Uma menina trouxe este recado para você. Nos textos de (3) a diferença entre a e b é de referência e é causa- da pelo uso de recursos diferentes (artigo definido ou indefinido) na Em (5) observamos que (5a) só pode ser usado com o artigo defi- segunda frase do texto: em a "sobrinho" e "menino" são a mesma nido por causa do identificador (de ontem) que se coloca para meni- pessoa, mas em b "sobrinho" e "menino" são duas pessoas diferen- na, o que marca que é uma menina conhecida dos interlocutores. É tes. Inclusive, o sobrinho de João pode não ser um menino, pode ser por isso que (5b) soa estranho, se tivermos uma situação em que "on- um rapaz, um adulto. tem" só se conheceu uma menina. Para que (5b) seja visto como um texto bem construído, adequado, é preciso que os interlocuto- (4) a - o grupo do Rio, composto pelos países latino-americanos, de- res tenham tido contato ou conhecido várias meninas. Neste caso (5b) cidiu é adequado e indica que uma das meninas de ontem trouxe o recado, b - grupo do Rio, composto por países latino-americanos, deci- mas não se especifica com precisão qual delas. texto (5c) só pode- diu que, rá ser usado em uma situação em que o falante teve contato anterior com a menina, o ouvinte não. Neste caso a menina é conhecida do Em (4) a diferença entre a e b é do uso ou não do falante, mas não foi referida anteriormente para o ouvinte; assim, artigo definido contraído com a preposição (pelos x por). texto de a usa-se o artigo indefinido para apresentá-la no texto como desco-</p><p>CARLOS TRAVAGLIA PLURAL ou de forma imprecisa (se considerarmos que os dois tive- alguém fizesse uma espécie de comparação entre os dois, por exem- ram contato com várias meninas no dia anterior, mas não há como plo, num diálogo como o que segue: especificar qual delas). (5d) é um texto adequado para uma situação que você achou dos doces que fiz? Ficaram bons? em que nenhum dos dois (falante e ouvinte) conhece a menina que Um doce está uma mas o outro não. trouxe o recado. (8) a - Os alunos de minha turma foram à conferência. (6) a - A menina de Dona Maria trouxe este recado para você. b - de minha turma foram à confe- b - Uma menina de Dona Maria trouxe este recado para você. rência. Nos textos de (6), pressupõe-se pelo identificador ("de Dona Em (8) o que se tem é a oposição entre o valor do artigo definido Maria") que os interlocutores sabem quem é Dona Maria, tanto que o de indicador de quantidade, marcando a totalidade de um dado con- falante a utiliza para identificar a menina que trouxe o recado. Toda- junto (em 8a) (este valor já foi referido quando comentamos os textos via (6a), com o artigo definido, só poderá ser usado se Dona Maria de (4)) em contraposição a outros recursos (pronomes indefinidos) (8b), tiver apenas uma menina. (6b) será usado se Dona Maria tiver várias de valor quantificacional não-totalizador. meninas e só uma delas, que não se pôde ou não se quis precisar, trouxe recado. (9) a - Tenho de embora, porque o Fernando Henrique vai lá em casa hoje e não quero me atrasar. (7) a doce está uma b - Ele é jogador, mas não é um Ronaldinho. b - Este doce está uma - Betânia não é uma cantora, é a cantora. C - 7 Um doce está uma Nos textos de (9) temos alguns fatos significativos do emprego Nos textos de (7) podemos mostrar outros fatos: mais especifica- dos chamados artigos. Normalmente o artigo não precede nomes pró- mente a diferença entre o artigo definido e o pronome demonstrativo prios de Quando isto ocorre temos a indicação de intimidade que não podem aparecer juntos na mesma (cf. 1a). Na ver- do falante com a pessoa nomeada. Em (9a) temos este uso. Como em dade, a diferença básica é que (7a) só pode ser usado se o doce for (9a) o artigo está indicando intimidade com uma pessoa importante conhecido e já tiver sido referido anteriormente no texto, enquanto (Fernando Henrique, o presidente do esta sugestão de inti- (7b) só pode ser usado se o doce estiver presente na situação de enun- midade com alguém importante pode estar sendo usada pelo produ- ciação. Imaginemos a seguinte situação: algumas pessoas participa- do texto para sugerir ao(s) ouvinte(s) que ele mesmo é uma pessoa ram de um No final a serviu um determinado doce de importante, talvez como recurso argumentativo a favor de alguma sobremesa. Quando todos já se tinham servido, a dona da casa retirou intenção que tem em relação no(s) seu(s) ouvinte(s). Em (9b) temos o a vasilha com o doce da mesa e o guardou. Logo depois chega uma uso do indefinido para apresentar um determinado espécime de uma visita e a dona da casa lhe oferece doce. hesita em categoria (jogador) como exemplar de ideal a ser atingido dentro des- aceitar, quando um dos convidados para o almoço diz "Se fosse você, ta categoria. É um uso bastante comum, inclusive utilizado por uma doce está uma Ele não poderia dizer (7b). Para famosa marca de eletrodomésticos em sua campanha publicitária com usar (7b) o doce teria que ainda estar sobre a mesa. A dona da casa muito sucesso (Minha geladeira/máquina de de micro- ofereceria e diante da hesitação do recém-chegado o outro deveria dizer "Se fosse você Este doce está uma delicia". Nestas si- tuações o texto de (7c) soaria estranho. (7c) poderia ser usado, por 12. Aqui há a influência de um como o presidente do Brasil se chama Fernando Henrique, diz (9a) todos vão pensar no presidente e não em um vizinho, exemplo, em uma situação em que há pelo menos mais de um doce e um amigo ou outra pessoa</p><p>CARLOS TRAVAGLIA ondas não é assim uma Brastemp). Em (9c) temos a oposição entre o bém não pode ocorrer sem esta entonação a não ser que se vá qualifi- artigo indefinido (uma cantora) e o definido (a cantora), para indicar car explicitamente o nariz: tem um nariz" parece não ocorrer que alguém é o expoente máximo dentro de uma categoria (no caso, no Português, mas "João tem um nariz Betânia seria uma cantora exponencial, de qualidade inquestionável, ocorre normalmente. a própria representante da categoria, por ser muito boa). Como já foi dito na nota (11), cabe perguntar se em (9b, c) realmente o cha- (11) a - meu lar é o botequim. mado artigo ou outro recurso da língua homônimo do artigo. Eviden- b - meu lar é um botequim. temente esta questão interessa ao mas não ao aluno de ensi- no fundamental e médio, do mesmo modo que a distinção ou identi- Em (11a) o texto significa que o falante mora em dado botequim dade classificatória entre o e este a que nos referimos anteriormente. específico que ele e o ouvinte Em (11b), pode-se ter o sen- Todavia, parece óbvio que interessa ao aluno a discussão do uso sig- tido de que o falante mora em um botequim qualquer que o ouvinte nificativo destes elementos na construção/constituição dos textos para não conhece, mas pode-se também ter o sentido de que o lar do falan- a comunicação, independentemente da classificação que se lhes dê, te, sua casa, por alguma razão, parece com um botequim em alguma característica (é desarrumado?, vive cheio de gente?, o falante tem a - João dançou com uma menina. muita bebida em casa e vive bebendo só ou com amigos? seu lar é b - popular? etc.). Neste segundo caso temos uma comparação e uma metáfora, o que parece não poder acontecer com d (12) a - Este vaso custa uns quinhentos reais. Nos textos de (10) temos uma oposição entre um texto que tanto b - Esta cidade tem uns duzentos mil habitantes. pode ser escrito quanto oral (10a), com entonação normal de uma se- declarativa e textos que só podem ocorrer na língua oral (10b- Em (12) o artigo indefinido "uns" é responsável pela idéia de d), em que se tem uma silabada com ênfase valor aproximado, produzindo o efeito de sentido de que o falante entonacional no artigo (tom de voz mais alto), geralmente com um tem dúvida sobre quanto custa o vaso (quantidade de dinheiro) em a certo alongamento da vogal Assim (10a) significa que João dan- e sobre o número de habitantes da cidade em b. Pode-se observar que com uma menina X, que o locutor não sabe quem é. Já em (10b), é o artigo o responsável por esse efeito de sentido, comparando-se os pela entonação silabada e tem-se a mais o sentido de que a textos de (12) com sua versão sem artigo (Este vaso custa quinhentos menina é muito especial em algum aspecto (beleza, charme, sensuali- / Esta cidade tem duzentos mil habitantes) em que não há qual- dade etc. É uma espécie de superlativo que aparece também em (10c) quer dúvida. (o problema que vai ocorrer é muito grande) e (10d) (O nariz de João é Os aspectos apresentados nos itens 1 a 6, no início deste artigo, um nariz muito grande, notável, enorme ou muito feio). Para Nunes, constituiriam uma parte da teoria ou gramatical que se J. (2001), em casos semelhantes a (10c), em que se tem uma expressão preocupa basicamente com a identificação dos tipos de unidades e idiomática, a entonação silabada é obrigatória. A entonação comum recursos de que a língua dispõe, sua classificação, identificação, es- só aconteceria sem o artigo (Isso vai dar texto de (10d) tam- truturação. Já o que foi apresentado em 7 e nos comentários dos exem- plos constituiria uma parte da teoria ou gramatical que se 13. Exemplo extraído de Nunes J. (2001). que analisa este caso pela teoria 14. CE dar uma medo/uma (não- aceitáveis) em oposição a "Isso dar A são idiomática e se colocar uma qualificação para "Isso construção sem silabada e do artigo só será se se desfizer a expres- dar</p><p>preocupa basicamente com o funcionamento dessas unidades e recur- que sabe usar de maneira adequ sos na constituição de textos para produção de determinados efeitos cursos dessa língua, terá maior de sentido, pode-se dizer num plano mais semântico e pragmático e tura a que esta língua está vincu no nível textual-discursivo. Pode-se afirmar que a primeira parte é mesmo tempo dando forma a es apenas um requisito para a segunda, ou melhor ainda, faz parte da segunda, e não precisa necessariamente ser conhecida pelos usuários de uma língua para que sejam usuários competentes dessa língua. Desta forma, acreditamos que, se deixarmos de dividir essas duas partes em gramatical e textual, como se fossem coisas distintas e esti- vermos convencidos de que texto é apenas um resultado da aplicação da gramática da língua em seus múltiplos planos e níveis, que texto é a gramática da língua em funcionamento, para comunicar por meio da produção de efeitos de sentido, deixaremos de ter no ensino de língua materna a atitude, pode-se dizer, perniciosa, de achar que gra- mática e texto são coisas distintas e que têm de ser tratadas separada- mente por terem pouca ou nenhuma relação entre si. Tal atitude tem prejudicado o trabalho em sala de aula e criado a da in- competência que leva tantos falantes de Português a dizerem "não sei Atuando de acordo com a perspectiva proposta (que não divide a língua em aspectos gramaticais e textuais, como se fossem duas coi- sas distintas uma ao lado da outra e sem muita relação) é de esperar que não se tenha mais problemas que colocam o ensino de língua materna em cheque. Isto ocorre, normalmente, porque o que se tem é um ensino que parece não ter nenhuma razão ligada à vida das pes- soas, uma vez que é um ensino que se estrutura apenas na perspecti- va formal da identificação e classificação de unidades e estruturas da língua, esquecendo quase por completo a outra parte da gramática, que é a do funcionamento da língua em textos que produzem efeito(s) de sentido, permitindo a comunicação em situações concretas de inte- ração Adotando a postura de que gramática é tudo o que afeta a produção de sentidos por meio de textos da língua, com certeza teremos um ensino mais pertinente, porque será um ensino que prepara o aluno para a vida e para a conquista de uma melhor qualidade de vida, já que, sendo um usuário competente da língua, Aqui no sentido de uma doença cuja causa não é bem conhecida ou</p>

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