Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

Prévia do material em texto

<p>Eugenio	Raúl	Zaffaroni</p><p>A	questão</p><p>criminal</p><p>Tradução</p><p>Sérgio	Lamarão</p><p>Revisão	da	tradução</p><p>Antonio	Almeida</p><p>Editora	Revan</p><p>Copyright	©	2013	by	Editora	Revan</p><p>Todos	os	direitos	reservados	no	Brasil	pela	Editora	Revan	Ltda.	Nenhuma	parte	desta	publicação	poderá	ser</p><p>reproduzida,	seja	por	meios	mecânicos,	eletrônicos	ou	via	cópia	xerográfica,	sem	a	autorização	prévia	da</p><p>Editora.</p><p>Revisão</p><p>Roberto	Teixeira</p><p>Antonio	Almeida</p><p>Capa</p><p>Sense	Design	&	Comunicação</p><p>(Com	ilustrações	de	Rep)</p><p>Impressão	e	acabamento</p><p>(Em	papel	off-set	75	g.	após	paginação	eletrônica,</p><p>em	tipos	Garamond	11/13)</p><p>Divisão	Gráfica	da	Editora	Revan</p><p>Produção	de	ebook</p><p>S2	Books</p><p>CIP-BRASIL.	Catalogação-na-fonte</p><p>Sindicato	Nacional	dos	Editores	de	Livros,	RJ</p><p>Z22q</p><p>Zaffaroni,	Eugenio	Raúl,	1940-</p><p>A	questão	criminal	/	Eugenio	Raúl	Zaffaroni;	 tradução	Sérgio	Lamarão.	–	1.	ed.	–	Rio	de	Janeiro	:</p><p>Revan,	2013.</p><p>il.;	320p.;	23	cm</p><p>Tradução	de:	La	cuestión	criminal</p><p>ISBN	978-85-7106-504-8</p><p>1.	Criminologia.	2.	Direito	penal	-	Brasil.	3.	Crimes	e	criminosos.	I.	Título.</p><p>13-04452																																																	CDU:	343.2</p><p>22/08/2013							26/08/2013</p><p>Ilustração	1</p><p>A	tradução	dos	textos	inseridos	nas	ilustrações	está	na	página	"Tradução	de	textos	das	ilustrações".</p><p>1.	A	academia,	os	meios	de	comunicação	e	os</p><p>mortos[1]</p><p>Em	 qualquer	 lugar	 da	 superfície	 deste	 planeta	 fala-se	 da	 questão</p><p>criminal.	É	quase	a	única	coisa	de	que	se	 fala	–	em	concorrência	com	o</p><p>futebol,	que	é	arte	complexa	–,	embora	poucos	pareçam	se	dar	conta	de</p><p>que	machucamos	muito	o	planeta	e	podemos	lhe	provocar	um	espirro	que</p><p>nos	 projete	 violentamente	 a	 quem	 sabe	 onde	 (para	 não	 usar	 alguma</p><p>expressão	pouco	acadêmica).	Fala-se,	diz-se,	com	esse	“se”	 impessoal	do</p><p>palavrório.	E	o	mais	curioso	é	que	quase	todos	acreditam	ter	a	solução	ou,</p><p>pelo	menos,	emitem	opiniões.</p><p>Claro	 que	 se	 fala	 ao	 compasso	 de	 julgamentos	 assertivos	 em	 tom</p><p>sentenciador,	 emitidos	 pelos	 meios	 de	 comunicação	 de	 massa,	 estes	 às</p><p>vezes	 nas	 mãos	 de	 grandes	 corporações	 transnacionais,	 enredadas	 com</p><p>outras	que	disputam	o	poder	aos	Estados,	bastante	impotentes,	do	mundo</p><p>globalizado.</p><p>É	 indispensável	 escutar	 o	 que	 se	 fala	 para	 não	 se	 ficar	 falando</p><p>sozinho,	como	costuma	acontecer	no	mundo	acadêmico.	E	em	nosso	país,</p><p>e	nos	outros	por	onde	às	 vezes	me	desloco,	 fala-se	da	questão	 criminal</p><p>como	 de	 um	 problema	 local.	 As	 soluções	 passam	 por	 condenar	 um	 ou</p><p>outro	 personagem	 ou	 instituição,	 mas	 sempre	 falando	 de	 um	 problema</p><p>local,	nacional,	estadual,	às	vezes	quase	municipal.</p><p>Poucos	se	dão	conta	de	que	se	trata	de	uma	questão	mundial,	na	qual</p><p>se	está	jogando	o	âmago	mais	profundo	da	forma	futura	de	convivência	e</p><p>talvez,	 inclusive,	do	próprio	destino	da	humanidade	nos	próximos	 anos,</p><p>que	pode	não	estar	isento	de	erros	fatais	e	irreversíveis.</p><p>Se	 ficamos	no	plano	da	análise	 local,	perdemos	o	mais	profundo	da</p><p>questão,	 porque	 olhamos	 as	 peças	 sem	 compreender	 as	 jogadas	 do</p><p>tabuleiro	de	um	xadrez	macabro,	no	qual	se	joga,	em	definitivo,	o	destino</p><p>de	todos.</p><p>Quando	 nos	 limitamos	 a	 esses	 julgamentos,	 ficamos	 presos	 à	 Doña</p><p>Rosa	http://es.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Neustadt.	É	claro	que	se	deve</p><p>resolver	 o	 problema	 da	 Doña	 Rosa,	 mas	 a	 armadilha	 do	 velho</p><p>comunicador	 dos	 festivos	 anos	 1990	 consistia	 em	 nos	 encerrar	 no</p><p>problema	 de	 Doña	 Rosa.	 Devo	 esclarecer	 que	 sempre	 me	 ofendi	 com</p><p>aquela	menção	a	Doña	Rosa,	por	me	lembrar	de	minha	avó	materna,	que</p><p>se	chamava	Rosa	e	vivia	em	um	bairro	–	como	eu	sempre	fiz	–	e	pensava</p><p>muito	mais	e	melhor	do	que	o	personagem	de	ficção	com	o	qual	o	artífice</p><p>da	 comunicação	 dos	 anos	 irresponsáveis	 sintetizava	 sua	 argumentação</p><p>enganosa.</p><p>Quando	 se	 abriu	 a	 possibilidade	 de	 escrever	 esses	 suplementos,</p><p>confesso	 que	 me	 senti	 seriamente	 desafiado.	 Em	 todo	 o	 mundo</p><p>acadêmico,	 os	 dedicados	 ao	 tema	 observam	 e	 criticam	 o	 fenômeno	 da</p><p>centralização	da	questão	criminal,	e	o	 fazem,	 inclusive,	com	diagnósticos</p><p>muito	 bons.	 Nenhum	 dos	 conceitos	 expostos	 nesses	 suplementos	 foi</p><p>concebido	 no	 plano	 científico	 por	 minha	 exclusiva	 criatividade,	 longe</p><p>disso.</p><p>Porém,	 se	 tudo	 fica	 no	 mundo	 acadêmico,	 parece	 que	 não	 temos</p><p>capacidade	 de	 comunicá-lo	 ou,	 melhor	 dizendo,	 parece	 que	 a</p><p>comunicação	é	contaminante,	que	a	pureza	científica	deve	ser	mantida	à</p><p>margem	 da	 comunicação,	 que	 perdemos	 nível	 acadêmico	 quando</p><p>pretendemos	 explicar	 algo	 a	 isso	 que	hoje	 chamam	o	público,	 sem	que</p><p>nos	apercebamos	de	que	o	público	somos	nós	quando	nos	dói	o	fígado,</p><p>ou	quando	saímos	para	comprar	pães.</p><p>É	claro	que	o	pensamento	acadêmico,	universitário,	é	importante,	mas</p><p>creio	que	chegou	a	hora	de	comunicá-lo.	As	borlas	doutorais,	as	 togas	e</p><p>os	punhos	(esclareço	que	se	assim	se	denomina	as	extremidades	ornadas</p><p>das	mangas	das	 togas	dos	catedráticos)	de	pouco	servem	quando	se	fala</p><p>do	que	 todos	sabem,	segundo	o	que	 lhes	dizem	as	grandes	corporações</p><p>midiáticas	 do	 mundo,	 incluindo	 muitos	 políticos	 –	 oportunistas	 alguns,</p><p>propulsores	conscientes	de	um	novo	totalitarismo	outros,	amedrontados	e</p><p>tremendo	diante	das	corporações	midiáticas	os	demais.</p><p>Não	estamos	diante	de	fenômenos	apenas	locais,	nacionais,	estaduais</p><p>nem	 municipais,	 mas	 sim	 diante	 de	 problemas	 que	 podemos	 resolver</p><p>apenas	em	parte	nesses	níveis,	e	que	integram	uma	trama	mundial.	Insisto.</p><p>Se	 não	 compreendemos	 essa	 trama,	 moveremos	 sempre	 mal	 as	 peças,</p><p>perderemos	 partida	 após	 partida.	 Devemos	 fazer	 o	 maior	 esforço	 para</p><p>impedir	 que	 isso	 aconteça,	 porque,	 no	 fundo,	 estamos	 diante	 de	 uma</p><p>encruzilhada	 civilizatória,	 uma	opção	de	 sobrevivência,	 de	 tolerância,	 de</p><p>coexistência	humana.</p><p>Vivemos	um	momento	de	poder	planetário	que	é	a	globalização,	que</p><p>sucede	 ao	 colonialismo	 e	 ao	 neocolonialismo.	 Cada	 momento,	 nesse</p><p>contínuo	do	curso	do	poder	planetário,	foi	marcado	por	uma	revolução:	a</p><p>mercantil	 do	 século	 XIV,	 a	 industrial	 do	 século	 XVIII	 e,	 agora,	 a</p><p>tecnológica	do	século	XX,	que	se	projeta	para	o	século	atual.	Esta	última</p><p>revolução,	 a	 tecnológica,	 é	 fundamentalmente	 comunicacional.	 Se	 não</p><p>compreendermos	 isso	 e	 nos	 deixarmos	 ficar	 em	 nossos	 guetos</p><p>acadêmicos,	o	serviço	que	prestarmos	será	muito	pobre.</p><p>Há	 um	 mundo	 que	 as	 pessoas	 comuns	 não	 conhecem,	 que	 se</p><p>desenvolve	nas	universidades,	nos	institutos	de	pesquisa,	nas	associações</p><p>internacionais	regionais	e	mundiais,	nos	foros	e	nas	pós-graduações,	com</p><p>uma	 literatura	 imensa,	 que	 alcança	 proporções	 siderais,	 de	 dimensão</p><p>tamanha	 que	 ninguém	 pode	 dominar	 individualmente.	 É	 o	 mundo	 dos</p><p>criminólogos	e	dos	penalistas.	As	corporações	os	 ignoram	e	quando	lhes</p><p>cedem	 algum	 espaço,	 os	 técnicos	 se	 expressam	 em	 seu	 próprio	 dialeto,</p><p>incompreensível	para	o	resto	dos	humanos.</p><p>O	 desafío	 consiste	 em	 abrir	 esses	 conhecimentos,	 não	 para</p><p>pontificarmos	 a	 partir	 da	 ciência	 com	 a	 solução,	 nem	 para	 sermos	 os</p><p>iluminados	que,	corrigindo	o	velho	Platão,	pretendemos	nos	colocar	como</p><p>um	criminólogo-rei,	mas	sim	para	mostrarmos	o	que	se	pensa	e	o	que	se</p><p>sabe	até	agora.	E	também	para	fazer	a	autocrítica	do	que	dizemos,	porque,</p><p>certamente,	 tampouco	 temos	 uma	 história	 e	 uma	 genealogia	 feitas</p><p>somente	de	prestígio,	dado	que,	muitas	vezes,	nossos	colegas	legitimaram</p><p>o	ilegitimável	até	limites	inacreditáveis.</p><p>Imaginemos	 o	 que	 aconteceria	 caso	 se	 procedesse	 com	 o	 mesmo</p><p>critério	em	outros	âmbitos,	como	por	exemplo,	no	da	medicina.	Se,	numa</p><p>mesa	de	bar,	alguém	defendesse	a	teoria	dos	humores,	é	provável	que	os</p><p>demais	o	olhassem	com	 ironia.	Porém,	como	a	 liberdade	é	 livre,	é	claro</p><p>que	 qualquer	 um	 pode	 continuar	 defendendo	 a	 teoria	 dos	 humores	 na</p><p>mesa	de	bar;	ninguém	discute	esse	direito	à	expressão.</p><p>No	entanto,	seria	grave	se	a	teoria	dos	humores	fosse	divulgada	como</p><p>discurso	 único	 pelos	 meios	 de	 comunicação,	 se	 se	 desprestigiasse	 ou</p><p>menosprezasse	 a	 quem	 dissesse	 algo	 diferente,	 se	 os	 pesquisadores</p><p>mulatos,	raças	colonizadas	ou</p><p>degeneradas,	defeituosos,	 incapazes,	doentes,	degenerados	etc.	Como</p><p>não	 podiam	 eliminar	 todas	 as	 mulheres,	 contentam-se	 em	 queimar</p><p>somente	as	desobedientes.</p><p>A	 inferioridade	 pode	 estender-se:	 as	 filhas	 das	 bruxas	 tinham</p><p>predisposição	 à	 bruxaria.	 E	 isso	 pode	 acontecer	 por	 causações</p><p>genéticas,	 pois	 os	 diabos	 sabiam	 de	 quem	 retirar	 o	 sêmen	 e	 onde</p><p>colocá-lo	para	produzir	esse	efeito;	 seria	o	contrário	da	eugenia	e	se</p><p>chamaria	disgenesia,	 ainda	que,	como	para	os	diabos	era	bom,	 trata-</p><p>ser-ia	 de	 uma	 eugenia	 diabólica.	 Mas	 não	 nos	 atrapalhemos	 mais.</p><p>Também	podia	haver	transmissão	por	caracteres	adquiridos	a	partir	da</p><p>bruxaria	da	mãe.</p><p>Os	filhos	do	bruxo-chefe	não	eram	filhos	de	diabos,	porque	estes	são</p><p>anjos	e	não	têm	sêmen,	só	adotam	a	forma	humana,	mas	na	realidade</p><p>são	de	ar	concentrado,	como	uma	espécie	de	bonecos	infláveis	de	sex-</p><p>shop,	 se	 bem	 que	 conhecem	 a	 engenharia	 genética.	 Aqui	 os</p><p>inquisidores,	 com	 séculos	 de	 antecipação,	 combinam	 Darwin	 com</p><p>Lamarck,	 a	 exemplo	 de	 emergências	 posteriores:	 há	 que	 matá-los	 se</p><p>são	geneticamente	inferiores,	como	faziam	os	nazistas;	há	que	criá-los</p><p>com	uma	família	sadia	se	a	 inferioridade	provém	da	educação,	como</p><p>Franco	ou	os	ditadores	na	Argentina	fizeram.</p><p>As	 vítimas	 não	devem	 ser	 colocadas	 em	 situação	de	 vulnerabilidade,</p><p>porque	os	vícios	favorecem	a	ação	de	Satã.	Aqueles	que	têm	amantes</p><p>antes	de	se	casar	provocam-nas	a	que,	sentindo-se	despeitadas,	façam</p><p>sortilégios	para	matar	suas	esposas.	É	necessário	viver	na	ordem	para</p><p>cuidar	 do	 inimigo;	 toda	 desordem	 pode	 ser	 aproveitada	 por	 ele.</p><p>Aquele	que	exerce	o	poder	punitivo	quer	moralizar,	na	verdade	para</p><p>facilitar-lhe	a	tarefa.</p><p>É	uma	regra	inveterada	que	o	poder	punitivo	descontrolado	quer	um</p><p>mundo	 regular	 e	 cinza,	 monótono,	 que	 possa	 controlar	 sem</p><p>problemas:	 tudo	 aquilo	 que	 sai	 do	 costumeiro	 é	 suspeito.	 A	 alegria</p><p>conspira	contra	o	controle	e	baixa	o	nível	de	paranoia,	porque	a	festa</p><p>faz	 pensar	 em	 outra	 coisa,	 as	 pessoas	 se	 distraem.	 Os	 inquisidores</p><p>advertem	contra	o	perigo	das	festas	populares:	são	sempre	os	dark	da</p><p>época.</p><p>Os	 inquisidores	 negam	 os	 danos	 colaterais,	 afirmando	 que	 não	 há</p><p>14.</p><p>15.</p><p>16.</p><p>17.</p><p>18.</p><p>terceiros	inocentes,	e	sim	que	o	castigo	é	sempre	merecido,	ainda	que</p><p>se	baseiem	num	dogma:	por	alguma	coisa	será.	Em	muitos	massacres</p><p>se	afirma	que	não	há	inocentes,	que	todos	são	culpados,	embora	não</p><p>tenham	feito	nada.</p><p>Os	 inquisidores	 são	 infalíveis	 e,	 mais	 do	 que	 isso,	 são	 puros:	 São</p><p>Macário,	porque	era	puro,	era	o	único	que	via	uma	mulher	quando	os</p><p>demais,	 por	 efeito	 de	 bruxaria,	 viam	 uma	 égua,	 até	 que	 Macário	 a</p><p>desencantou	e	os	demais	puderam	ver	a	mulher.	A	pureza	garante	a</p><p>perfeita	 percepção	 dos	 fatos.	 É	 o	 que	 passa	 com	 os	 grandes</p><p>empresários	 dos	 massacres:	 são	 os	 únicos	 puros	 que	 veem	 com</p><p>clareza;	por	isso	devem	ser	seguidos	sem	discussão.</p><p>Os	inquisidores	não	admitem	erros,	quem	é	condenado	é	culpado	e	a</p><p>condenação	 é	 prova	 suficiente;	 nunca	 houve	 um	 erro	 e	 todas	 as</p><p>mulheres	queimadas	eram	bruxas.	É	óbvio	que	as	cinzas	não	apelam.</p><p>A	 única	 razão	 que	 davam	 para	 negar	 algum	 erro	 era	 que	 Deus	 não</p><p>podia	 permitir	 isso,	 porque,	 como	 sabemos,	 estava	 sequestrado	 por</p><p>eles.	 Os	 sucessivos	 empresários	 de	 emergências	 massacradoras	 não</p><p>puderam	 dizer	 o	 mesmo,	 porque	 Deus	 já	 havia	 escapado	 deles.	 Por</p><p>isso,	apelaram	à	tese	de	que	é	inevitável,	em	toda	guerra,	que	alguns</p><p>inocentes	sejam	sacrificados.</p><p>Os	 inquisidores	 se	 eximem	 de	 toda	 ética	 frente	 ao	 infrator:	 podem</p><p>prometer	 de	 tudo	 e	 depois	 não	 cumpri-lo.	 A	 inferioridade	 da	 bruxa</p><p>lhes	autoriza	a	fazer	isso.	O	mesmo	acontece	em	qualquer	emergência,</p><p>os	 empresários	 massacradores	 não	 têm	 códigos,	 porque	 não	 vale	 a</p><p>pena	 frente	 aos	 terroristas,	 subversivos,	 criminosos,	 degenerados,</p><p>estrangeiros	inimigos,	doentes	etc.</p><p>Os	 inquisidores	 são	 imunes	 ao	 mal	 que	 combatem:	 Satã	 não	 pode</p><p>enganá-los,	 porque	 Deus	 não	 o	 permitiria.	 Posteriormente,	 será	 sua</p><p>ciência	ou	conhecimento	especial	que	os	tornará	imunes.	O	cobrador</p><p>de	 impostos	 não	 colaborará	 com	 a	 evasão	 fiscal,	 o	 funcionário	 que</p><p>combate	 o	 tráfico	 não	 ajudará	 a	 traficar	 etc.	 Todo	 poder	 punitivo</p><p>garante	que	 seus	agentes	 são	 imunes	ao	mal	e,	quanto	mais	 fora	do</p><p>controle,	maior	é	a	garantia	de	imunidade	e	menor	a	possibilidade	de</p><p>eles	serem	desmascarados.</p><p>O	mal	 tende	a	prolongar-se.	As	parteiras	eliminavam	as	crianças	não</p><p>batizadas	para	que	não	se	completasse	o	número	de	eleitos	e	o	juízo</p><p>final	 fosse	 adiado.	 Assim,	 elas	 sobreviveriam	 mais	 tempo.	 O	 mal</p><p>19.</p><p>20.</p><p>sempre	se	prolonga	e	o	raciocínio,	por	isso,	faz	com	que	seja	exigida</p><p>sua	 erradicação	 total	 e	 absoluta:	 o	 massacre	 deve	 ser	 radical	 e</p><p>definitivo.</p><p>A	 crença	 no	 poder	 das	 bruxas	 era	 um	 preconceito	 da	 época.	 O</p><p>Malleus	o	reforça	ao	extremo,	com	a	garantia	do	saber	acadêmico	de</p><p>seu	 tempo.	 Não	 foi	 à	 toa	 que	 Krämer	 fez	 algo	 não	 totalmente	 claro</p><p>para	obter	o	apoio	da	Universidade	de	Colônia.	Todas	as	emergências</p><p>posteriores	 exploraram	 e	 aprofundaram	 os	 preconceitos;	 é	 o	 que	 se</p><p>chama	de	uma	política	völkisch	ou	popularista	 (não	populista,	que	é</p><p>outra	coisa	muito	diferente).</p><p>O	 Malleus	 garante	 a	 reprodução	 da	 clientela:	 a	 mulher	 não	 era</p><p>torturada	para	que	confessasse,	mas	para	que	 revelasse	os	nomes	de</p><p>seus	cúmplices	e	a	mera	menção	de	um	nome	sob	tortura	autorizava</p><p>que	 a	 pessoa	 nomeada	 também	 fosse	 torturada.	 Toda	 emergência</p><p>cuida	para	que	a	clientela	não	termine,	porque	se	se	esgota	seu	poder</p><p>punitivo	 perde	 sentido,	 como	 havia	 acontecido	 ao	 Papa	 depois	 dos</p><p>massacres	dos	cátaros	e	outros	hereges.</p><p>Esta	 é,	 em	 sua	 maior	 síntese,	 a	 estrutura	 fundacional	 do	 poder</p><p>punitivo	 ilimitado,	 trabalhada	 durante	 duzentos	 anos	 e	 sintetizada</p><p>tardiamente	pelo	Malleus	em	1494,	mas	que	até	hoje	se	manteve	em	todas</p><p>as	 fabricações	 de	 emergências	 que	 foram	 feitas	 nos	 seis	 séculos</p><p>posteriores.	O	Malleus	 é	uma	obra	 tardia,	porque	no	 século	 seguinte	ao</p><p>seu	aparecimento	consolidaram-se	as	monarquias	e,	com	algumas	delas,	as</p><p>igrejas	nacionais.	A	inquisição	papal	teve	de	fazer	de	tudo	para	evitar	que</p><p>os	adeptos	dessas	igrejas	nacionais	não	se	sublevassem	na	parte	que	ficava</p><p>sob	seu	controle,	razão	pela	qual	deixou	as	mulheres	um	pouco	de	lado	e</p><p>se	ocupou	de	queimar	reformados.	Os	reformados,	por	sua	vez,	 também</p><p>praticavam	 a	 combustão	 com	 grande	 entusiasmo,	 como	 Calvino,	 que</p><p>encarregou	Servet	da	 tarefa,	porque	parece	que	não	 lhe	agradava	que	o</p><p>sangue	circulasse.	É	óbvio	que	o	sangue	continuou	circulando,	mas	não	o</p><p>de	Servet.</p><p>O	poder	dos	inquisidores	e	de	seus	rapazes	era	cobiçado	por	outros	e,</p><p>entre	 estes,	 pelos	 médicos,	 que	 aspiravam	 ficar	 com	 pelo	 menos	 parte</p><p>deste	 poder.	 Teremos,	 mais	 adiante,	 oportunidade	 de	 verificar	 que	 os</p><p>médicos	sempre	tiveram	vontade	de	deter	o	poder	punitivo	e	chegaram	a</p><p>dominar	 seu	 discurso	 legitimador	 com	 horríveis	 consequências</p><p>massacradoras.	 Porém,	 o	 primeiro	 avanço	 do	 poder	 médico	 sobre	 o</p><p>campo	 punitivo	 foi	 tentado	 em	 1563	 por	 um	 médico	 protestante	 dos</p><p>Países	 Baixos,	 Johann	 Weyer	 (ou	 Weier	 ou	 Wier),	 que	 publicou,	 em</p><p>Basileia,	 um	 livro	 denominado	 As	 artimanhas	 do	 demônio,	 que</p><p>rapidamente	correu	toda	s	Europa,	armando	considerável	reboliço.</p><p>Wier	 não	 negava	 a	 inferioridade	 da	 mulher	 nem	 a	 existência	 das</p><p>bruxas	e	muito	menos	sua	periculosidade,	pois	continuava	atuando	dentro</p><p>da	 mesma	 visão	 agostiniana	 do	 mundo,	 configurada	 pelas	 cidades</p><p>espelhadas	de	Deus	e	Satã.	O	que	ele	introduziu	foi	a	novidade	de	que	as</p><p>bruxas	 eram	 melancólicas	 e	 que,	 por	 isso,	 Satã	 se	 aproveitava	 delas,</p><p>explorando	sua	doença.	Não	é	demais	recordar	desde	já	que	a	melancolia</p><p>era	o	que,	com	Charcot,	logo	seria	chamado	de	histeria.</p><p>Ao	mesmo	tempo,	como	bom	protestante,	Wier	aproveitava	para</p><p>dizer</p><p>que	os	verdadeiros	bruxos	eram	os	padres	exorcistas,	que	praticavam	sua</p><p>magia	 diante	 de	 fetiches,	 que	 eram	 os	 santos	 católicos.	 Cabe	 esclarecer</p><p>que	havia	um	agrupamento	de	exorcistas	que	protestava	toda	vez	que	um</p><p>padre	que	não	pertencia	ao	agrupamento	se	lançava	a	exorcizar	alguém.</p><p>Mas	voltando	a	Wier,	devemos	advertir	que	ele	havia	viajado	a	lugares</p><p>distantes	e	estudado	várias	plantas	alucinógenas,	razão	pela	qual	também</p><p>afirmava	 que	 muitas	 dessas	 mulheres	 sofriam	 os	 efeitos	 de	 intoxicações</p><p>pela	 atropina,	 pelo	 ópio	 e	 pelo	 hashish	 (a	 maconha	 e	 a	 cocaína	 não</p><p>haviam	chegado).</p><p>A	 novidade	 introduzida	 por	 Wier	 é	 muito	 interessante,	 porque	 dá</p><p>lugar	àquilo	que	subsiste	ainda	hoje,	as	chamadas	medidas	de	segurança.</p><p>O	 poder	 punitivo	 pode	 libertar-se	 de	 limites	 argumentando	 de	 várias</p><p>maneiras,	e	não	há	exagero	nessa	afirmação,	pois	o	engenho	perverso	que</p><p>caracteriza	 seus	discursos	 legitimadores	é	 inusitadamente	 fértil.	Um	deles</p><p>consiste	 em	 ocultar	 ou	 dissimular	 seu	 próprio	 carácter	 punitivo,	 o	 que</p><p>continua	 fazendo	 mediante	 o	 expeditivo	 recurso	 de	 deixar	 de	 chamar</p><p>penas	às	penas.	Foi	isso	o	que	Wier	introduziu.</p><p>Com	efeito,	 vimos	que	havia	uma	contradição	entre,	por	um	 lado,	 a</p><p>pena	 limitada	 pela	 reprovação	 de	 culpabilidade	 fundada	 na	 escolha	 do</p><p>infrator,	na	qual	lhe	é	cobrada	sua	culpa,	própria	dos	juristas	(glosadores</p><p>e	 pós-glosadores),	 e,	 por	 outro,	 a	 periculosidade	 afirmada	 pelos</p><p>demonólogos,	pois	os	primeiros	não	podiam	 justificar	as	penas	máximas</p><p>às	mulheres,	porque	eram	menos	inteligentes	e,	por	conseguinte,	deviam</p><p>ser	menos	culpadas.</p><p>A	 solução	 transacional	 encontrada	 foi	 aumentar	 ao	 máximo	 a</p><p>gravidade	do	delito	das	bruxas	e	torná-lo	superior	até	mesmo	ao	pecado</p><p>original,	 com	 o	 qual,	 por	 qualquer	 das	 duas	 vias,	 se	 habilitava	 a</p><p>combustão,	 recurso	 que	 quatrocentos	 anos	 depois	 os	 penalistas	 do</p><p>nazismo	voltariam	a	usar.</p><p>Wier	propôs	uma	variante	consistente	na	qual	as	bruxas	eram	retiradas</p><p>do	 campo	 dos	 juristas	 e	 dos	 inquisidores	 e	 deixadas	 nas	 mãos	 dos</p><p>médicos,	 de	 modo	 que	 estes	 pudessem	 colocá-las	 nos	 manicômios,	 que</p><p>eram,	 em	 sua	 época,	 asilos	 infectos	 piores	 que	 as	 prisões,	 onde	 não</p><p>sobreviveriam	 por	 muito	 tempo.	 Desse	 modo,	 não	 se	 penalizava</p><p>formalmente	as	mulheres,	mas	as	privava	materialmente	de	 liberdade	até</p><p>sua	morte	ou	pouco	menos,	se	bem	que	suponhamos	que	as	mulheres	de</p><p>classe	alta	poderiam	ser	atendidas	a	domicílio.</p><p>É	 interessante	observar	que	até	hoje	no	direito	penal	se	discute	se	a</p><p>pena	é	determinada	pela	culpabilidade	ou	pela	periculosidade,	conquanto</p><p>se	dissimule	a	terminologia	tratando	de	combinar	remendos	contraditórios.</p><p>Nessas	 combinações	 do	 não	 acumulável,	 o	 mais	 frequente	 na	 legislação</p><p>comparada	é	que	se	prevê	fixar	a	pena	segundo	a	culpabilidade,	mas	os</p><p>perigosos	ou	 inimigos	 são	deixados	 à	mercê	das	medidas	 administrativas</p><p>de	 segurança.	 Desse	 modo,	 verificamos	 que	 não	 estamos	 falando	 de</p><p>história	 no	 sentido	 mais	 usual	 do	 termo,	 e	 sim	 do	 presente,	 ou	 seja,</p><p>confirmamos,	uma	vez	mais,	que	a	Idade	Média	não	terminou.</p><p>De	 qualquer	 maneira,	 essa	 primeira	 tentativa	 de	 manipular	 o	 poder</p><p>punitivo	por	parte	dos	médicos	não	se	fez	graças	à	Igreja,	nem	tampouco</p><p>aos	reis	e	príncipes.	O	jesuíta	Martín	do	Río	–	belga	como	Wier,	mas	filho</p><p>de	pai	espanhol	–	afirmou	que	Wier	não	só	era	um	herege,	porque	negava</p><p>que	as	bruxas	voassem,	mas	também	um	mago.	Por	conseguinte,	se	Wier</p><p>houvesse	 caído	 nas	 mãos	 católicas	 teria	 sido	 permitido	 que	 eles</p><p>celebrassem	um	assado	a	mais.</p><p>Todavia,	 como	 a	 queima	 de	 mulheres	 já	 não	 se	 praticava	 tanto	 por</p><p>iniciativa	 da	 Igreja,	 e	 sim	 pela	 dos	 juízes	 dos	 reis,	 a	 proposta	 de	 Wier</p><p>alarmou	 os	 teóricos	 que	 estavam	 lançando	 as	 bases	 do	 conceito	 de</p><p>soberania,	 porque	 ele	 queria	 arrebatar	 um	 poder	 que	 estava	 passando</p><p>rapidamente	para	seus	soberanos.	Wier	não	só	se	havia	 imiscuído	com	o</p><p>poder	 do	 Papa,	 como	 também	 com	 o	 dos	 soberanos:	 tudo	 bem	 que	 o</p><p>disputassem	 entre	 eles,	 mas	 não	 que	 alguém	 pretendesse	 retirá-lo	 de</p><p>ambos	e	deixar	de	queimar	as	mulheres	para	enfiá-las	em	asilos.</p><p>Os	dois	teóricos	mais	fortes	do	conceito	emergente	de	soberania,	hoje</p><p>tão	descaracterizado,	foram,	no	século	XVI,	o	inglês	Thomas	Hobbes	e	o</p><p>francês	 Jean	 Bodin	 (ou	 Bodino).	 Este	 último	 publicou	 um	 livro	 em</p><p>resposta	a	Wier	em	1580:	De	la	démonomanie	des	sorciers.	De	l’inquisition</p><p>des	 sorciers.	 Bodin	 se	 dava	 conta	 de	 que	 a	manipulação	médica	 não	 se</p><p>limitava	 às	 bruxas,	 mas	 que	 ameaçava	 ir	 muito	 mais	 longe	 e,	 portanto,</p><p>discorria	 que,	 com	 o	 mesmo	 critério,	 todos	 os	 criminosos	 deveriam	 ser</p><p>psiquiatrizados.</p><p>Porém,	não	foi	somente	Bodin	quem	percebeu	a	gravidade	da	ameaça</p><p>médica	 ao	 poder	 dos	 soberanos.	 O	 próprio	 filho	 de	 Maria	 Stuart,	 o	 rei</p><p>Jaime	I	da	Inglaterra	e	VI	da	Escócia	–	perseguidor	um	tanto	desanimado</p><p>de	 católicos	 e	 puritanos,	 nos	 momentos	 de	 ócio	 que	 a	 atenção	 de	 seus</p><p>favoritos	lhe	permitia,	uma	vez	que	a	rainha	lhe	dispensava	muito	pouca	–</p><p>escreveu	uma	Demonologia	em	resposta	a	Wier.</p><p>Isso	dá	 conta	de	que	desde	a	primeira	 tentativa	 séria	da	 corporação</p><p>médica,	 todos	 os	 donos	 do	 discurso	 do	 poder	 punitivo	 fizeram	 soar	 o</p><p>alarma,	o	que	parece	mais	que	justificado	à	luz	dos	fatos	dos	três	séculos</p><p>posteriores.</p><p>Ilustração	7</p><p>5.	Sempre	houve	rebeldes	e	transgressores</p><p>Vimos	 que	 os	 inquisidores	 eclesiásticos	 no	 século	 XVI	 já	 não	 se</p><p>ocupavam	muito	das	bruxas.	Isso	se	deveu	ao	fato	de	o	Papa	ter	nomeado</p><p>um	 cardeal	 embaixador	 na	 Espanha	 e	 este	 viu	 como	 a	 inquisição</p><p>funcionava	 ali,	 como	 um	 instrumento	 muito	 eficaz	 de	 verticalização	 a</p><p>serviço	 do	 rei,	 dedicado	 a	 converter	 em	 cinzas	 todos	 os	 dissidentes</p><p>perigosos	 para	 a	 Coroa	 (os	 chamados	 hereges),	 em	 particular	 os	 que</p><p>tentavam	 introduzir	 a	 desordem	 com	 ideias	 das	 Igrejas	 reformadas</p><p>nacionais	de	outros	países.</p><p>Pois	bem.	Este	 cardeal	 voltou	a	Roma	e	quando	o	Papa	morreu,	 foi</p><p>eleito	para	substituí-lo.	Nem	lento	nem	preguiçoso,	copiou	a	organização</p><p>da	inquisição	espanhola	para	combater	os	reformados	e	suas	heresias,	ou</p><p>seja,	 todos	 os	 que	 não	 lhe	 respondiam,	 revitalizando	 a	 decadente</p><p>inquisição	romana	e	transferindo	sua	condução	aos	jesuítas.</p><p>Aqui	 vemos	 uma	 mudança	 de	 corporação	 hegemônica,	 em	 que	 o</p><p>primado	do	discurso	sobre	a	questão	criminal	passou	dos	dominicanos	aos</p><p>jesuítas.	 Isso	 ocorreu	 no	 tempo	 em	 que	 o	 discurso	 se	 centrava	 nos</p><p>luteranos	 e	 em	 outros	 hereges	 e	 deixava	 de	 lado	 as	 bruxas,	 cuja</p><p>combustão	 passou	 a	 ser	 decidida	 pelos	 juízes	 dos	 reis	 e	 príncipes,	 que</p><p>continuaram	praticando-a	com	singular	paixão	incendiária,	em	especial	na</p><p>Europa	central,	valendo-se	sempre	dos	ensinamentos	do	famoso	Malleus.</p><p>Contudo,	 nem	 todos	 estavam	 tão	 loucos	 nesse	 tempo,	 pois	 houve</p><p>autores	que	escreveram	contra	essa	prática,	em	particular	alguns	 jesuítas.</p><p>O	 grande	 rebelde	 foi	 Friedrich	 Spee,	 que	 publicou,	 em	 1631,	 um	 livro</p><p>exclusivamente	 destinado	 a	 destruir	 o	 Malleus	 e	 aos	 doutrinários	 que</p><p>legitimavam	 a	 combustão	 de	 mulheres	 acusadas	 de	 bruxaria.	 Como	 era</p><p>natural,	 por	 elementar	 prudência,	 ele	 publicou	 o	 livro	 anonimamente	 e</p><p>sem	 a	 licença	 dos	 superiores	 de	 sua	 ordem,	 o	 que	 constituía	 uma	 falta</p><p>gravíssima.</p><p>Em	 todas	 as	 épocas,	 o	 transgressor	 é	 um	 enigma.	 Como	 surge?	 Por</p><p>que	alguém	desafia	o	poder	ou	os	valores	dominantes,	mesmo	às	custas</p><p>de	graves	riscos?	Há	quem	afirme	que	se	trata	de	casos	em	que	aquilo	que</p><p>foi	 ensinado	 desde	 pequeno	 contrasta	 muito	 fortemente	 com	 o	 que	 se</p><p>verifica	 em	 seguida,	 na	 vida	 adulta,	 porém	 o	 certo	 é	 que	 isso	 acontece</p><p>mais	ou	menos	com	todos	nós	e	para	resolver	os	psicanalistas	costumam</p><p>comparecer.</p><p>De	toda	forma	e	sem	descartar	essa	possibilidade,	o	certo	é	que	por</p><p>sorte	sempre	há</p><p>transgressores	e,	no	caso	de	Spee,	não	podemos	verificar</p><p>se	quando	era	pequeno,	ao	invés	de	contos	de	fadas,	lhe	liam	relatos	de</p><p>bruxas,	 e	 tampouco	 podemos	 fazer	 uma	 reportagem	 com	 ele	 e	 lhe</p><p>perguntar	a	esse	respeito.</p><p>A	 julgar	 pelo	 que	 os	 biógrafos	 de	 Spee	 relatam,	 parece	 que	 o</p><p>encarregaram	 de	 tomar	 a	 confissão	 de	 todas	 as	 bruxas	 de	 sua	 comarca</p><p>antes	de	queimá-las,	e	o	pobre	ficou	tão	traumatizado	que	seu	cabelo	foi</p><p>ficando	branco,	e	não	justamente	porque	as	neves	do	tempo	branquearam</p><p>suas	cãs,	já	que	era	muito	jovem.</p><p>O	livro	desse	rebelde	grisalho	se	chamou	Cautio	criminalis,	ou	 seja,</p><p>cautela	 ou	 prudência	 criminal.	 O	 próprio	 título	 da	 obra	 era	 incômodo</p><p>porque	 encerrava	 uma	 ironia:	 a	 Constitutio	 criminalis	 era	 a	 ordenança</p><p>criminal	 vigente	 e	 brutal	 de	 Carlos	 V,	 isto	 é,	 o	 texto	 legal,	 de	 inusitada</p><p>crueldade,	que	regeu	o	direito	penal	comum	alemão	desde	1532	até	final</p><p>do	 século	 XVIII	 e	 em	 função	 do	 qual	 os	 juízes	 do	 imperador	 do	 Sacro</p><p>Império	Romano-Germânico	queimavam	mulheres	(depois	que	o	SIRG	foi</p><p>dissolvido,	 essa	 tarefa	 coube	 aos	 dois	 príncipes	 que	 se	 consideravam</p><p>herdeiros	do	império	desmembrado).</p><p>É	curioso,	mas	Spee	não	era	nem	um	 jurista	nem	um	criminólogo,	e</p><p>sim	um	poeta	e,	segundo	os	especialistas,	o	melhor	poeta	alemão	de	seu</p><p>tempo,	além	de	destacado	teólogo.</p><p>Pois	 bem.	 Esse	 rebelde	 encanecido,	 cansado	 das	 brutalidades	 e</p><p>iniquidades	das	quais	era	testemunha	(ao	que	talvez	conviesse	acrescentar</p><p>que	as	tinturas	de	seu	tempo	não	eram	boas),	decidiu	jogar	tudo	em	seu</p><p>livro	 e	 se	 valer	 disso	 à	 vontade,	 sem	 poupar	 nenhum	 detalhe	 nem</p><p>adjetivo.</p><p>Spee	não	andou	em	círculos	e	não	se	enredou	em	discussões	sobre	o</p><p>poder	de	Satã	ou	das	bruxas.	Ele	começa	afirmando	que	não	discute	sua</p><p>existência,	 mas	 que	 nunca	 conheceu	 nenhuma	 e	 que	 não	 havia	 bruxa</p><p>alguma	 entre	 as	 mulheres	 de	 quem	 recolheu	 confissão	 antes	 de	 serem</p><p>queimadas.	 Pelo	 contrário:	 afirma	 que	 com	 o	 procedimento	 inquisitorial</p><p>qualquer	um	podia	ser	condenado	por	bruxaria.</p><p>O	encanecido	não	era	nenhum	bobo	–	um	bom	poeta	nunca	pode	sê-</p><p>lo	–	e,	por	conseguinte,	tomou	o	caminho	correto	em	qualquer	crítica	ao</p><p>poder	 punitivo,	 evitando	 cair	 na	 armadilha	 usual	 que	 desvia	 a	 questão</p><p>para	a	gravidade	do	mal	que	este	pretende	combater	e	contra	o	que	livra</p><p>sua	guerra.</p><p>Se	o	poder	punitivo	não	serve	para	o	que	pretende,	não	é	questão	de</p><p>entrar	 na	 discussão	 acerca	 da	 maldade	 do	 que	 diz	 combater,	 e	 sim,</p><p>simplesmente,	 mostrar	 que	 não	 o	 faz.	 Nas	 discussões	 sobre	 as	 atuais</p><p>andanças	de	Satã	(ou	o	inimigo),	não	tem	sentido	discutir	se	a	cocaína	é</p><p>daninha,	porque	não	há	dúvida	de	que	é;	o	 importante	é	mostrar	que	a</p><p>pretensa	guerra	à	cocaína	provocou	40.000	mortos	no	México	nos	últimos</p><p>quatro	 anos,	 boa	 parte	 deles	 decapitados	 e	 castrados	 (a	 cocaína	 teria</p><p>demorado	quase	um	século	para	provocar	a	mesma	quantidade	por	efeito</p><p>de	overdose).	Tampouco	tem	sentido	discutir	a	perversidade	do	terrorismo,</p><p>e	 sim	 fazer	 notar	 que	 a	 suposta	 guerra	 já	 causou	 muito	 mais	 mortos</p><p>inocentes	 que	 o	 próprio	 terrorismo.	 Spee	 soube	 disso	 em	 1631,	 embora</p><p>muitos	comunicadores	sociais	não	 tenham	se	dado	conta	até	o	presente.</p><p>Talvez	tenha	sido	mais	fácil	para	Spee	porque	não	via	televisão.</p><p>Ilustração	8</p><p>Nosso	 encanecido	 jesuíta	 se	 perguntava	 como	 era	 possível	 que</p><p>acontecessem	 essas	 aberrações,	 o	 que	 era	 que	 permitia	 que	 continuasse</p><p>semelhante	 barbárie.	 Em	 primeiro	 lugar	 o	 atribui	 à	 ignorância	 da</p><p>população,	 isto	 é,	 à	 desinformação,	 ou	 seja,	 à	 criminologia	 midiática	 de</p><p>seu	tempo,	carregada	de	preconceitos	que	se	reforçavam	desde	as	praças</p><p>e	 os	 púlpitos,	 ou	 seja,	 ao	 que	 hoje	 chamamos	 técnica	 völkisch</p><p>(popularista,	 que	 alguns	 traduzem	 equivocadamente	 por	 populista,	 que</p><p>obviamente	não	é	a	mesma	coisa).</p><p>Além	do	mais,	ele	destacava	a	responsabilidade	da	Igreja,	entendendo</p><p>por	tal	os	teóricos,	isto	é,	os	dominicanos	e	seus	seguidores,	que	repetiam</p><p>as	palavras-de-ordem	discursivas	da	criminologia	acadêmica	de	seu	tempo,</p><p>legitimadora	desses	assassinatos.</p><p>Prosseguia	 atribuindo	 culpa	 aos	 príncipes,	 que,	 desse	modo	podiam</p><p>imputar	todos	os	males	a	Satã	e	a	seus	seguidores,	sobretudo	porque	não</p><p>controlavam	 seus	 subordinados,	 a	 quem	deixavam	 livres.	 Isso,	 hoje,	 é	 o</p><p>que	 chamamos	 de	 autonomização	 policial,	 ou	 seja,	 permitir	 que	 a</p><p>corporação	policial	atue	fora	de	todo	controle	político,	para	o	qual	se	lhe</p><p>atribuem	âmbitos	de	arrecadação	autônoma,	também	destacados	por	Spee.</p><p>Com	efeito,	os	inquisidores	oficiais	dos	príncipes	cobravam	por	bruxa</p><p>executada,	 ou	 seja,	 trabalhavam	 por	 tarefa.	 Por	 isso,	 esforçavam-se	 por</p><p>obter	 o	 nome	 de	 outra	 candidata,	 a	 fim	 de	 que	 a	 clientela	 nunca	 se</p><p>esgotasse	e,	além	do	mais,	atribuíam	a	Satã	o	suicídio	de	algumas	dessas</p><p>infelizes,	porque	nesse	caso	não	cobravam.	Os	príncipes	não	pagavam	por</p><p>bruxas	 suicidas,	 porque	 não	 lhes	 serviam	 como	 espetáculo	 popular.</p><p>Porém,	como	se	isso	fosse	pouco,	Spee	conta	também	que	se	dedicavam	a</p><p>percorrer	os	domicílios	 solicitando	contribuições	para	seu	santo	 labor	de</p><p>purificação,	 ou	 seja,	 que	 trata-seva	 de	 uma	 venda	 de	 proteção	 mafiosa.</p><p>Como	 vemos,	 há	 poucas	 coisas	 novas	 sob	 o	 sol.	 Por	 último,	 nosso</p><p>encanecido	 poeta	 destacava	 algo	 que	 é	 até	 hoje	 moeda	 corrente	 na</p><p>linguagem	jurídica:	os	eufemismos.	Quando	nas	atas	se	 fazia	constar	que</p><p>as	mulheres	confessavam	voluntariamente,	era	porque	o	haviam	feito	uma</p><p>vez	 penduradas	 e	 desconjuntadas,	 uma	 vez	 que	 só	 se	 considerava</p><p>confissão	sob	tormento	quando	os	ferros	eram	aplicados.</p><p>O	livro	de	Spee	é	um	pouco	tedioso	e	bastante	desordenado,	pois	está</p><p>escrito	com	base	no	método	das	questões,	ou	seja,	perguntas	e	respostas.</p><p>São	52	questões	e	nas	últimas	ele	não	poupa	qualificativos:	considera	que</p><p>a	 queima	 de	 mulheres	 pode	 ser	 comparada	 com	 o	 que	 Nero	 fazia	 aos</p><p>cristãos,	 o	 que	 implica	 que	 os	 juízes	 dos	 príncipes	 eram	 criminosos.</p><p>Ninguém	se	havia	animado	a	semelhante	adjetivação	e	teria	de	se	passar</p><p>mais	de	um	século	e	meio	até	que	dissesse	o	mesmo	Jean-Paul	Marat,	o</p><p>revolucionário	francês	execrado	por	toda	a	historiografía	fascista	posterior.</p><p>O	que	cabe	destacar	como	mais	significativo	desse	texto	é	que,	assim</p><p>como	o	Malleus	fixou	a	estrutura	do	discurso	inquisitorial,	a	Cautio	o	fez</p><p>com	 o	 discurso	 crítico.	 Com	 efeito,	 qualquer	 discurso	 crítico	 do	 poder</p><p>inquisitorial	e	do	poder	punitivo	em	geral,	desde	1631	até	hoje	destaca	o</p><p>seguinte:	 1)	 o	 descumprimento	 de	 seus	 fins	 manifestos	 pelo	 poder</p><p>punitivo;	 2)	 a	 função	 dos	 meios	 de	 comunicação;	 3)	 a	 dos	 teóricos</p><p>convencionais	 legitimadores;	 4)	 sua	 conveniência	 para	 com	 o	 poder</p><p>político	ou	econômico;	5)	a	autonomização	policial;	e	6)	a	corrupção	ou	a</p><p>arrecadação	autônoma.</p><p>Esses	elementos	estruturais	estão	presentes	no	discurso	deslegitimador</p><p>ou	crítico	de	todo	poder	punitivo,	desde	a	crítica	liberal	ao	poder	punitivo</p><p>do	Antigo	Regime	até	as	teorias	da	criminologia	crítica	das	últimas	décadas</p><p>do	século	passado.</p><p>Nesse	 sentido,	 Spee	 fixou	 outro	 programa	 de	 computação	 que	 em</p><p>cada	época	em	que	floresce	a	crítica	volta	a	ser	prenchido	com	os	dados</p><p>correspondentes	 ao	 tempo	 de	 cada	 autor.	 Pode-se	 dizer	 que	 até	 hoje</p><p>construímos	discursos	seguindo	alternativamente	as	estruturas	fundacionais</p><p>do	Malleus	ou	da	Cautio.</p><p>O	 livrinho	de	Spee	 incomodava	muito	os	príncipes,	os	dominicanos,</p><p>os	policiais	e	os	juízes,	mas	também	os	próprios	jesuítas,	que	embora	não</p><p>queimassem	 mulheres,	 aplicavam	 o	 mesmo	 procedimento	 contra	 os</p><p>luteranos,	e	por	isso	ter	semelhante	infrator	em	suas	fileiras	lhes	criava	um</p><p>problema	com	os	príncipes.</p><p>Se	 bem	 que	 o	 livro	 tenha	 sido	 publicado	 sem	 nome	 de	 autor,	 aos</p><p>poucos	 se	 soube	 que	 Spee	 era	 o	 responsável	 e	 não	 faltou	 quem</p><p>imediatamente	propusesse	que	ele	fosse	assado	em	fogo	lento,	ideia	que</p><p>não	 prosperou,	 talvez	 porque	 isso	 lhe	 tivesse	 dado	 mais	 fama.	 De</p><p>qualquer	 maneira,	 era	 contaminador	 para	 a	 ordem,	 motivo	 pelo	 qual</p><p>quiseram	 obrigá-lo	 a	 renunciar	 a	 ela,	 a	 que	 o	 poeta	 se	 negou</p><p>veementemente.	No	final,	resolveram	suportá-lo	e	acalmá-lo	na	medida	do</p><p>possível,	dando-lhe	uma	cátedra	de	teologia.</p><p>Alguns	citam	seu	nome	como	Friedrich	von	Spee,	o	que	não	é	certo,</p><p>porque	 não	 era	 nobre;	 seu	 nome	 era	 somente	 Friedrich	 Spee	 e	 o	 von</p><p>Langenfeld	não	faz	mais	que	indicar	seu	lugar	de	origem.</p><p>Quatro	 anos	 depois	 da	 publicação	 da	 Cautio	 criminalis,	 em	 1635,</p><p>morreria	 contagiado	 enquanto	 prestava	 assistência	 a	 soldados	 vítimas	 da</p><p>peste.	 Imaginamos	 que	 sua	 morte	 tenha	 sido	 um	 alívio	 para	 seus</p><p>superiores,	pois	não	se	preocuparam	muito	com	seus	restos,	que	ficaram</p><p>perdidos	até	que,	em	1980,	conseguiu-se	identificar	seu	corpo.</p><p>Pese	 a	 todo	 o	 empenho	 colocado	 por	 Spee	 e	 aos	 riscos	 que	 ele</p><p>correu,	 seu	 livro	 passou	 sem	 pena	 nem	 glória	 e	 os	 juízes	 continuaram</p><p>levando	 adiante	 sua	 alegre	 queima	de	mulheres,	 conforme	 as	 instruções</p><p>do	Malleus,	que	continuava	sendo	o	 livro	de	cabeceira	dos	corruptos	da</p><p>época.</p><p>Setenta	 anos	depois	 do	 aparecimento	da	Cautio,	 o	 filósofo	Christian</p><p>Thomasius	 releu	 sua	 obra.	 Thomasius	 era	 um	 simpático	 senhor,	 que</p><p>aparece	 nos	 retratos	 com	 seu	 rosto	 rosado	 arredondado,	 sem	 que</p><p>saibamos	se	era	grisalho,	pois	cobria	sua	cabeça	com	uma	peruca	 loura,</p><p>de	 longos	 cachos.	 Ao	 que	 parece,	 esse	 recurso	 protegia	 um	 respeitável</p><p>conteúdo	 craniano,	 porque	 Thomasius	 não	 duvidou	 em	 retomar	 os</p><p>argumentos	 de	 Spee.	 Em	 1701,	 ele	 defendeu	 publicamente	 sua	 tese</p><p>Dissertatio	 de	 crimine	 magiae,	 na	 qual	 desbaratava	 os	 disparates	 do</p><p>Malleus.	 Esta	 tese	 foi	 traduzida	 para	 o	 alemão	 três	 anos	 mais	 tarde	 e</p><p>alcançou	grande	repercussão,	o	que	era	explicável.	Afinal,	com	Thomasius</p><p>anunciou-se	o	 Iluminismo	e,	 como	 se	 isso	 fosse	pouco,	 lançou	as	bases</p><p>para	 uma	 adequada	 distinção	 entre	 moral	 e	 direito	 (pecado	 e	 delito),</p><p>embora	 até	hoje	pululem	muitos	que	 se	negam	a	 compreendê-la	 e	que,</p><p>sem	 dúvida,	 se	 bem	 que	 nossa	 civilização	 mostre,	 a	 cada	 dia,	 mais</p><p>defeitos,	é	uma	de	suas	melhores	conquistas.</p><p>Esse	 emperucado	 filósofo	 obscureceu	 o	 Malleus	 até	 desaparecer	 e</p><p>ficar	reduzido	a	uma	curiosidade	histórica.</p><p>Na	 verdade,	 devo	 dizer	 que	 tudo	 o	 que	 estou	 contando	 era	 muito</p><p>pouco	 conhecido	 pelos	 penalistas	 e	 criminólogos	 posteriores,	 até	 o</p><p>momento	 em	 que	 o	 Malleus	 foi	 publicado	 em	 versão	 em	 espanhol	 há</p><p>menos	 de	 quarenta	 anos	 por	 historiadores,	 em	 uma	 edição	 que	 está</p><p>completamente	esgotada	(há	menos	de	uma	década	veio	à	luz	uma	outra</p><p>edição).	 A	Cautio	 criminalis	 nunca	 foi	 traduzida	 para	 o	 espanhol	 e	 até</p><p>onde	sei,	tampouco	o	foi	a	tese	de	Thomasius.	Tudo	isso	foi	recoberto	por</p><p>um	 manto	 de	 silêncio,	 como	 se	 não	 fizesse	 parte	 da	 história	 do	 direito</p><p>penal	e	da	criminologia.	Insisto	em	que	se	trata	de	ascendentes	que	esses</p><p>saberes	 tentaram	ocultar,	como	a	árvore	genealógica	de	algumas	 famílias</p><p>ilustres	que	se	empenham	em	esconder	a	origem	de	suas	fortunas.</p><p>6.	As	corporações	e	suas	lutas</p><p>Nos	anos	transcorridos	entre	a	Cautio	e	a	Dissertatio	–	ou	seja,	entre</p><p>1631	 e	 1701–	 estava	 a	 se	 aprofundr	 outro	 fenômeno,	 o	 surgimento	 do</p><p>sujeito	público,	que	se	acentuaria	no	curso	do	século	XVIII.</p><p>No	Estado	absoluto	o	senhor	exercia	poder	de	vida	e	morte,	que,	na</p><p>realidade,	era	só	poder	de	morte,	pois	não	podia	dar	a	vida.	Para	matar	ou</p><p>deixar	 viver,	 como	 diz	 Foucault,	 não	 se	 necessitava	 de	 muita</p><p>especialização,	porque,	no	geral,	matar	é	uma	operação	bastante	simples</p><p>para	o	poder	estatal,	que,	para	isso,	não	tem	necessidade	de	mais	nada	do</p><p>que	uma	agência	ou	corpo	de	assassinos	mais	ou	menos	dissimulados	e</p><p>elevados	a	funcionários.</p><p>O	 problema	 se	 complicou	 quando	 o	 poder	 estatal	 começou	 a	 se</p><p>preocupar	em	 regular	a	vida	pública,	 quer	dizer,	 não	de	 cada	 indivíduo</p><p>em	particular,	mas	sim	do	sujeito	público.	A	função	do	Estado	complicou-</p><p>se	 e	 o	 príncipe	 precisou	 se	 cercar	 de	 secretários	 ou	 ministros</p><p>especializados	 que	 passaram	 a	 encarregar-se	 da	 economia,	 das	 finanças,</p><p>da	educação,	da	salubridade	públicas,	isto	é,	desse	sujeito	público.</p><p>Como	 é	 natural,	 ao	 redor	 de	 cada	 ministro	 se	 foi	 formando	 uma</p><p>burocracia	 especializada,	 que	 construiu	 um	 saber	 ou	 ciência	 que	 se</p><p>alimentava	a	partir	das	universidades.</p><p>Desse	modo,	formaram-se	as	corporações	de	sábios	especialistas,	cada</p><p>uma	 com	 um	 saber	 próprio,	 expresso	 em	 um	 dialeto	 compreensível</p><p>apenas	 para	 os	 iniciados,	 ou	 seja,	 para	 os	 que	 pertencem	 à	 respectiva</p><p>corporação	e,	por	 conseguinte,	 inacessível	 ao	vulgo	 de	 estranhos	 a	 esta,</p><p>geralmente	 chamados	 leigos	 (também	 poderiam	 ser	 chamados	 de</p><p>bárbaros,	 porque	 assim	 eram	 chamados	 os	 que	 não	 compreendiam	 ou</p><p>falavam	mal	a	língua	local).</p><p>Trata-se	de	corporações	que	monopolizam	o	discurso	e	se	fecham	aos</p><p>estranhos	mediante	seu	dialeto	particular.	Não	deve	chamar	a	atenção	que</p><p>os	 criminalizados	 façam	o	mesmo	 sob	 a	 forma	do	 jargão	 delinquencial,</p><p>que	foi	matéria	de	estudo	de	sisudos	criminólogos	do	século	passado,	que</p><p>não	se	deram	conta	de	que	eles	se	expressavam	em	seu	próprio	jargão	e</p><p>que	também	eram	bárbaros	a	respeito	do	dialeto	dos	presos.</p><p>Desde	 os	 séculos	 XVII	 e	 XVIII	 e	 até	 o	 presente,	 as	 corporações</p><p>monopolizam	 seu	 discurso	 e	 disputam	 entre	 elas	 para	 ampliar	 sua</p><p>competência,	sem	contar	que	há,	também,	uma	luta	interna	de	escolas	na</p><p>busca	 de	 conseguir	 impor	 a	 hegemonia	 do	 próprio	 subdiscurso.	 Em</p><p>síntese,	há	lutas	intercorporativas	e	também	intracorporativas.</p><p>Não	 é	 de	 estranhar,	 portanto,	 que	 o	 discurso	 penal	 e	 criminológico</p><p>tenha	sido	matéria	de	disputas	entre	as	corporações,	como	não	podia	ser</p><p>deixar	de	ser,	dado	que	é	sempre	um	discurso	acerca	do	próprio	poder.</p><p>Isso	não	é	nenhuma	novidade,	posto	que	desde	muito	antes	de	essa	luta</p><p>entre	 corporações	 tomar	 corpo	 vimos	 como	 o	 primado	 passou	 dos</p><p>dominicanos	 aos	 jesuítas,	 e	 os	 médicos,	 com	 Wier,	 também	 quiseram</p><p>meter	 sua	 colher,	 que	 em	 séculos	 posteriores	 se	 tornará	 um	 enorme</p><p>colherão.</p><p>Vimos	 que	 o	 poder	 punitivo	 gera	 as	 estruturas	 colonizadoras,	 mas</p><p>também	 fossiliza	 as	 sociedades	 que	 adquirem	 essa	 estrutura,	 razão	 pela</p><p>qual	elas	não	são	muito	aptas	como	cenário	para	a	luta	de	corporações	e</p><p>menos	ainda	se	se	trata	do	discurso	do	próprio	poder	punitivo.</p><p>Sempre	 há	 discursos	 sobre	 esse	 poder,	 mas	 apenas	 um	 se	 torna</p><p>hegemônico	ou	dominante,	porque	resulta	funcional	a	algum	setor	social,</p><p>que	o	adota	e	o	estimula.	Isso	tem	lugar	quando	há	uma	dinâmica	social</p><p>mais	ou	menos	acelerada,	ou	 seja,	quando	 surge	um	conflito	 interno	na</p><p>sociedade	e	um	setor	de	certa	importância	quer	deslegitimar	o	discurso	do</p><p>poder	do	setor	a	que	tende	a	se	deslocar	ou	frente	ao	qual	quer	abrir-se</p><p>um	espaço.	 Por	 isso,	 as	 sociedades	 colonialistas	 espanhola	 e	portuguesa</p><p>não	 eram	 o	 melhor	 campo	 para	 a	 luta	 das	 corporações	 e,</p><p>consequentemente,	o	cenário	desta	luta	transferiu-se	para	a	Grã-Bretanha</p><p>primeiro	e	para	a	França	e	a	Alemanha	depois,	onde	estava	surgindo	uma</p><p>classe	de	industriais,	comerciantes	e	banqueiros.</p><p>Essa	classe	em	ascensão	necessitava	controlar	e	impor	limites	ao	poder</p><p>da	nobreza	e	do	clero,	que	até	então	eram	as	classes	dominantes.	É	claro,</p><p>o	 poder	 mais	 temível	 das	 camadas	 hegemônicas	 era	 o	 punitivo,	 que</p><p>ameaçava	 os	 novos	 empresários	 que	 assediavam	 seu	 Estado	 absoluto	 e</p><p>que	eram	considerados	dissidentes	perigosos.	Veremos	que	não	foi	apenas</p><p>o	 livrinho	 de	 Spee	 que	 se	 publicou	 anonimamente	 por	 razões	 de</p><p>prudência	elementar	e	sentido	de	conservação.</p><p>Como	não	existe	poder	sem	discurso	–	ou,	pelo	menos,	este	não	dura</p><p>muito	 sem	 o	 texto	 –,	 resultava	 funcional	 às	 novas	 classes	 em	 ascensão</p><p>assumir</p><p>outro	 discurso	 acerca	 do	 poder	 punitivo	 e,	 por	 conseguinte,</p><p>deviam	 procurá-lo	 em	 outras	 corporações,	 diferentes	 daquelas	 que	 o</p><p>haviam	monopolizado	até	aquele	momento.</p><p>Por	essa	razão,	na	segunda	parte	do	século	XVIII	foi	tomando	corpo	o</p><p>saber	das	corporações	dos	filósofos	e	pensadores	no	campo	político	geral</p><p>e,	portanto,	o	dos	 juristas	que	seguiam	seus	alinhamentos	 limitadores	do</p><p>poder	 punitivo.	 Assim	 nasceu	 o	 Iluminismo,	 o	 século	 das	 luzes	 ou	 da</p><p>razão	e,	em	seu	amparo,	o	chamado	direito	penal	liberal.</p><p>O	 novo	 discurso	 passou	 a	 ser	 obra	 das	 corporações	 dos	 filósofos	 e</p><p>juristas	 que	 se	 defrontavam	 com	 os	 legitimadores	 do	 Antigo	 Regime	 e</p><p>frente	ao	qual	houve	várias	reações	diferentes.</p><p>Em	princípio,	houve	príncipes	que	se	davam	conta	de	que	algo	estava</p><p>mudando	 e	 que,	 antes	 de	 que	 a	 prateleira	 caísse,	 preferiram	 acolher	 o</p><p>novo	discurso,	 pelo	menos	 em	boa	parte	 (na	que	 incomodava	menos	 e</p><p>lhes	permitia	continuar	gozando	da	maioria	de	seus	privilégios).	Foi	essa</p><p>atitude	 que	 deu	 lugar	 ao	 chamado	 despotismo	 ilustrado,	 que	 pretendia</p><p>fazer	todas	as	mudanças	a	partir	do	poder,	desde	cima,	com	o	lema	tudo</p><p>para	o	povo,	tudo	pelo	povo,	mas	sem	o	povo.</p><p>Houve	 outros	 príncipes	 menos	 sagazes,	 que	 preferiram	 seguir	 em</p><p>frente,	e	contra	os	quais	se	ergueram	os	 revolucionários,	 radicalizando	o</p><p>discurso	crítico	do	sistema	penal	em	maior	ou	menor	medida,	de	liberais	a</p><p>socialistas.</p><p>7.	O	utilitarismo	disciplinador</p><p>Em	 geral,	 o	 Iluminismo	 penal	 se	 nutriu	 de	 duas	 variantes	 opostas,</p><p>embora	 muitas	 vezes	 coincidentes	 em	 seus	 resultados	 práticos:	 o</p><p>empirismo	e	o	idealismo.	Com	a	permissão	dos	mais	finos	historiadores	da</p><p>filosofia,	 que	nós	obtivemos	 sem	consultá-los,	 pode-se	dizer	 que	houve,</p><p>no	 Iluminismo,	uma	convergência	de	vias	de	conhecimento	ou	acesso	à</p><p>verdade:	 uns	 a	buscavam	mediante	 a	 verificação	na	 realidade	material	 e</p><p>outros	através	da	dedução	de	uma	ideia	dominante.</p><p>Sem	nos	 aprofundarmos	muito,	 poderíamos	 afirmar	 que	 se	 achavam</p><p>em	 germe	 os	 elementos	 que	 em	 seguida	 teriam	 de	 se	 separar	 entre</p><p>aqueles	 que	 só	 aceitavam	 o	 que	 resultava	 da	 observação,	 medição	 e</p><p>experimentação,	 e	 aqueles	 que	 partiam	 de	 uma	 primeira	 ideia</p><p>iluminadora,	 que	 lhes	 servia	 de	 guarda-roupa	 no	 qual	 acomodar	 as</p><p>roupagens	do	mundo,	às	vezes	sob	pressão.</p><p>No	campo	criminológico,	essa	dupla	corrente	deu	lugar	a	duas	ordens</p><p>teóricas:	 o	 utilitarismo	 disciplinador	 e	 o	 contratualismo	 (ou	 talvez,	 os</p><p>contratualismos,	em	todas	as	suas	variantes).</p><p>Os	 utilitaristas	 tinham	 como	 base	 que	 era	 necessário	 governar</p><p>proporcionando	a	maior	felicidade	ao	maior	número	de	pessoas.	A	cabeça</p><p>mais	visível	dessa	corrente	 foi	o	 inglês	 Jeremy	Bentham,	personagem	de</p><p>vida	longa,	cujo	esqueleto	vestido	se	encontra	em	uma	vitrine	no	colégio</p><p>que	ajudou	a	fundar,	embora	se	diga	que	a	cabeça	foi	mumificada	e	em</p><p>seu	lugar	se	colocou	uma	de	cera.	Parece	que	acontece	alguma	coisa	com</p><p>as	cabeças	daqueles	que	elaboram	teorias	criminológicas,	pois	se	comenta</p><p>que	a	de	Lombroso	está	conservada	em	formol	em	um	museu	em	Turim.</p><p>Por	sorte,	 faz	 tempo	que	se	perdeu	o	costume	de	se	dispor	das	cabeças</p><p>dos	criminólogos	post-mortem,	 embora	 isso	 seja	 sempre	preferível	 a	que</p><p>outros	o	façam	ante-mortem	por	eles.	Mas	voltemos	ao	nosso	ponto.</p><p>Bentham	 concebia	 a	 sociedade	 como	 uma	 grande	 escola,	 na	 qual</p><p>devia	 impor-se	 a	 ordem,	 ou	 seja,	 a	 chave	 era	 a	 disciplina	 e,	 para	 tal,	 o</p><p>governo	 devia	 repartir	 prêmios	 e	 castigos:	 como	 é	 óbvio,	 os	 prêmios</p><p>proporcionavam	 felicidade	 e	 os	 castigos	 dor	 e,	 como	 também	 parece</p><p>óbvio,	 o	 ser	 humano	 saudável	 e	 equilibrado	devia	preferir	 os	primeiros,</p><p>com	sua	felicidade,	e	não	os	castigos,	com	sua	dor.	Por	 isso,	ele	deveria</p><p>abster-se	 de	 cometer	 delitos.	 Todavia,	 delitos	 eram	 cometidos,	 o	 que</p><p>indicava	 que	 o	 infrator	 não	 estava	 bem,	 ou	 seja,	 que	 não	 era</p><p>suficientemente	 ordenado,	 dado	que	 escolhia	 a	 dor.	 Era	 como	 a	 criança</p><p>desobediente,	 que	obriga	 a	professora	 a	 chamar	os	pais	 e	 lhes	 informar</p><p>que	algo	está	acontecendo	com	ela.	Hoje	o	psicólogo	intervém,	e	se	ele	é</p><p>bom	pode	chegar	a	descobrir	que	o	menino	é	mais	inteligente	que	os	pais</p><p>e	a	professora;	há	cinquenta	anos	ele	corria	o	risco	de	o	deixarem	bobo</p><p>com	uns	eletrochoques,	e,	há	duzentos,	Bentham	queria	colocar	o	adulto	a</p><p>quem	acontecia	alguma	coisa	em	um	invento	arquitetônico	que	chamou</p><p>de	panóptico,	que	era	um	aparato	para	discipliná-lo.	Vamos,	porém,	por</p><p>partes.</p><p>É	evidente	que	Bentham	se	deparava	com	o	problema	da	impunidade</p><p>da	 grande	 maioria	 dos	 delitos	 e	 bancava	 o	 distraído	 a	 respeito	 da</p><p>seletividade	 do	 poder	 punitivo,	 razão	 pela	 qual	 tratava	 de	 resolver	 a</p><p>questão	 postulando	 que	 as	 penas	 deviam	 ser	 mais	 graves	 quanto	 maior</p><p>fosse	 a	 impunidade,	 o	 que	não	parece	muito	 razoável,	 porque	ninguém</p><p>tem	 a	 culpa	 da	 torpeza	 ou	Da	 referência	 do	Estado	 ao	 repartir	 o	 poder</p><p>punitivo.	 Para	 disciplinar	 os	 desobedientes	 descontrolados,	 Bentham	 se</p><p>irritava	com	os	mais	bobos,	que	eram	os	enganados	pelo	poder.</p><p>Mas	 prossigamos.	 Para	 Bentham,	 o	 delito	 coloca	 em	 evidência	 um</p><p>desequilíbrio,	 produto	 da	 desordem	 pessoal	 do	 infrator,	 que	 deve	 ser</p><p>corrigido.	 Para	 isso,	 projetou	 a	 referida	 prisão	 chamada	 panóptico,	 com</p><p>estrutura	 radial,	 para	 que	 o	 preso	 saiba	 que	 será	 observado	 a	 partir	 do</p><p>centro	e	por	olhos	mágicos	a	qualquer	momento.	Desse	modo,	ele	seria</p><p>introduzido	 na	 ordem	 e,	 ao	 final,	 acabaria	 se	 tornando	 seu	 próprio</p><p>vigilante,	 isto	 é,	 comeria	 o	 guardião	 (é	 mais	 delicado	 dizer	 que	 o</p><p>introjetaria).</p><p>Essa	 ideia	 era	 tomada	 de	 alguns	 médicos	 que	 asseguravam	 ser	 a</p><p>doença	mental	 também	produto	da	desordem	e	por	 isso	os	manicômios</p><p>deviam	 ocupar-se	 do	 disciplinamento	 dos	 doentes,	 colocando-os	 para</p><p>trabalhar,	 na	 convicção	 de	 que	 a	 ordem	 física	 redundaria	 na	 ordem</p><p>mental.	Dessa	perspectiva,	não	importa	que	o	trabalho	dos	presos	ou	dos</p><p>loucos	seja	ou	não	rentável	ou	útil,	porque	é	um	valor	disciplinador	em	si</p><p>mesmo,	como	podia	ser	o	famoso	quebrar	pedras.</p><p>O	disciplinamento	 devia	 ser	 levado	 a	 cabo	na	medida	do	 talião,	 ou</p><p>seja,	 de	uma	dor	 equivalente	 à	provocada	pelo	delito.	A	obssessão	pela</p><p>retribuição	 exata	 levou	 Mr.	 Jeremy	 a	 projetar	 uma	 máquina	 de	 açoitar,</p><p>para	que	a	 intensidade	da	dor	 fosse	uniforme	e	não	 ficassse	entegue	ao</p><p>arbítrio	do	carrasco.	Ainda	que	a	guilhotina	não	tenha	sido	inventada	por</p><p>ele	(foi	criada	na	França),	o	certo	é	que	ela	foi	imaginada	respondendo	ao</p><p>mesmo	critério.</p><p>As	leis	penais	são	feitas	hoje	em	dia	pelos	assessores	dos	legisladores,</p><p>de	acordo	com	a	agenda	definida	pelos	meios	de	comunicação	de	massa,</p><p>mas	no	começo	do	século	XIX	as	projetavam	os	penalistas	e,	quando	estes</p><p>tomaram	a	 ideia	de	Bentham,	 acabaram	elaborando	 códigos	penais	 com</p><p>penas	 fixas	 e	 longas	 listas	 de	 agravantes	 e	 atenuantes,	 prevendo</p><p>percentuais	 para	 cada	 um.	 Assim	 foi	 redigido,	 por	 exemplo,	 o	 primeiro</p><p>código	 penal	 do	 Brasil,	 em	 1831,	 e	 seus	 comentadores	 anotavam	 os</p><p>difíceis	cálculos	matemáticos	para	cada	caso,	porque	não	se	conheciam	as</p><p>calculadoras	 e	 nem	 todos	 os	 juízes	 haviam	 obtido	 boas	 notas	 no</p><p>secundário.</p><p>Bentham	presenteava	 seu	modelo	a	 todo	o	mundo,	 tendo,	 inclusive,</p><p>mantido	 correspondência	 com	 Bernardino	 Rivadavia.	 Houve	 panópticos</p><p>em	muitas	cidades	da	América	Latina,	às	vezes	completos	e	outras	 semi-</p><p>radiais,	 em	 geral	 porque	 o	 orçamento	 não	 era	 suficiente	 para	 fazê-los</p><p>completos.	Alguns	subsistem,	convertidos	em	museus	ou	mercados	(como</p><p>em	 Recife	 e	 em	 Ushuaia),	 ou	 funcionando	 como	 prisão	 –	 o	 de	 Quito,</p><p>construído	no	século	XIX	pelo	ditador	Gabriel	García	Moreno	e	por	cujas</p><p>celas	passaram	quase	todos	os	políticos	equatorianos	do	século	seguinte,</p><p>sem	contar	com	o	fato	de	as	turbas,	instigadas	pelos	conservadores,	terem</p><p>arrancado	o	líder</p><p>liberal	Eloy	Alfaro	desse	presídio	e	o	linchado,	em	28	de</p><p>janeiro	de	1912.</p><p>Cabe	esclarecer	que	os	panópticos	nunca	funcionaram	como	Bentham</p><p>havia	 imaginado,	 pois	 logo	 os	 presos	 descobriram	 sua	 lógica	 e	 a</p><p>superlotação	 fez	 com	 que	 a	 visão	 fosse	 interrompida	 com	 os	 múltiplos</p><p>obstáculos.</p><p>O	 disciplinarismo	 dos	 utilitaristas	 deu	 muito	 o	 que	 falar	 nos	 anos</p><p>setenta	do	século	passado,	quando	Foucault	o	considerou	diretamente	um</p><p>modelo	 social	 e,	 na	 Itália,	Dario	Melossi	 e	Massimo	Pavarini	 publicaram</p><p>um	 livro	 intitulado	 Cárcere	 e	 fábrica,	 em	 que	 destacam	 uma	 matriz</p><p>comum	 com	 o	 disciplinamento	 para	 a	 produção	 fabril	 nas	 origens	 do</p><p>industrialismo.	 Um	 professor	 argentino,	 Enrique	 Marí,	 contribuiu	 para</p><p>enriquecer	essas	reflexões	entre	nós.</p><p>Os	 utilitaristas	 não	 admitiam	 que	 existisse	 nenhum	 direito	 natural</p><p>anterior	à	sociedade	e	sobre	o	qual	esta	não	pudesse	avançar.	Os	direitos</p><p>deviam	 ser	 respeitados	 unicamente	 porque	 sua	 lesão	 havia	 provocado</p><p>mais	dor	que	felicidade.</p><p>Era	 claro	 que	 o	 utilitarismo	 de	 Bentham	 encerrava	 uma	 concepção</p><p>criminológica,	pois	fincava	a	etiologia	do	delito	na	desordem	da	pessoa	e,</p><p>por	conseguinte,	surgia	daí	uma	política	destinada	a	combatê-lo	mediante</p><p>o	 disciplinamento,	 que	 importava	 a	 pena	 talional	 no	 curioso	 aparato</p><p>inventado.</p><p>Se	 bem	 que	 Bentham	 tenha	 se	 desenvolvido	 na	 Grã-Bretanha	 e</p><p>rechaçado	 a	 ideia	 do	 contrato	 social	 e	 do	 direito	 natural	 anterior	 à</p><p>sociedade,	 foi	 condecorado	 pelos	 revolucionários	 franceses,	 pois</p><p>representava	um	avanço	 frente	ao	brutal	 exercício	do	poder	punitivo	de</p><p>seu	tempo.</p><p>8.	Os	contratualismos</p><p>Vimos	 que	 nas	 obras	 tradicionais	 se	 costuma	 afirmar	 que	 a</p><p>criminologia	nasceu	na	 segunda	metade	do	 século	XIX,	ou	 seja,	quando</p><p>obteve	 reconhecimento	 acadêmico	 como	 saber	 independente.	 O	 mais</p><p>curioso,	 porém,	 é	 que	 essas	 obras	 não	 só	 se	 calam	 sobre	 tudo	 o	 que</p><p>relatamos	até	agora	a	respeito	dos	séculos	anteriores,	como	também,	não</p><p>podendo	 ignorar	 o	 pensamento	 do	 século	 XVIII	 e	 da	 primeira	 parte	 do</p><p>século	XIX,	preferem	afirmar	que	este	não	era	criminológico.</p><p>É	muito	curiosa	essa	posição,	porque	 faz	parecer	que	a	criminologia</p><p>assim	 entendida	 não	 só	 se	 comporta	 como	uma	 família	 que	 oculta	 seus</p><p>antepassados	pouco	apresentáveis,	bem	como	nega	todo	parentesco	com</p><p>os	 que	 não	 pode	 ocultar,	 porque	 a	 vizinhança	 os	 conheceu	 bem	 e	 as</p><p>comadres	 do	 povoado	 se	 lembram	 deles.	 Realmente,	 trata-se	 de	 uma</p><p>ciência	 à	 qual	 é	 necessário	 recordar	 que	 seu	 berço	 foi	 um	 cortiço</p><p>iluminado	a	querosene.</p><p>Se	 bem	 que	 os	 autores	 dos	 discursos	 acerca	 da	 questão	 criminal,</p><p>provenientes	 das	 corporações	 de	 filósofos	 de	 primeiríssima	 linha	 ou	 de</p><p>juristas	que	seguiram	seus	pensamentos,	 se	 tenham	dedicado	a	criticar	o</p><p>poder	punitivo	de	seu	tempo	e	a	propor	reformas	legislativas,	não	se	pode</p><p>ignorar	 que	 eles	 se	 apoiavam	 numa	 criminologia,	 pois	 partiam	 de	 certa</p><p>concepção	do	delito	e	do	delinquente	e,	portanto,	atribuíam	a	origem	do</p><p>delito	a	determinadas	razões	e	propugnavam	penas	dirigidas	a	eliminá-lo</p><p>ou	 a	 reduzi-lo.	 Para	 isso,	 necessitavam	 partir	 de	 uma	 certa	 ideia	 do	 ser</p><p>humano	e	da	sociedade.</p><p>Por	 outro	 lado,	 como	 propunham	 reformas	 ao	 sistema	 penal,	 eram</p><p>fortemente	 críticos	 do	 poder	 punitivo	 de	 seu	 tempo.	 Tudo	 isso,	 sem</p><p>dúvida,	 é	 criminologia,	 pois	 difícilmente	 se	 pode	 negar	 que	 a	 crítica	 ao</p><p>poder	 punitivo,	 à	 forma	 em	 que	 é	 exercido,	 a	 suas	 modalidades	 etc.	 o</p><p>seja.</p><p>Essa	 negação	 da	 dimensão	 criminológica	 dos	 filósofos	 e	 juristas	 do</p><p>Iluminismo	do	penalismo	liberal	obedece	a	uma	fábula	inventada	em	fins</p><p>do	século	XIX	por	Enrico	Ferri,	que	foi	o	mentor	do	positivismo	italiano,</p><p>de	grande	fama	em	seu	tempo	e	de	quem	falaremos	com	mais	detalhe.</p><p>Como	bom	positivista,	Ferri	considerava-se	o	porta-voz	dos	donos	da</p><p>ciência,	 afirmando	 que	 antes	 dele	 e	 seus	 partidários	 não	 tinha	 havido</p><p>senão	escuridão,	metafísica	e	charlatanismo.	Chegou	a	afirmar	que	tudo	o</p><p>que	 antes	 se	 havia	 dito	 acerca	 da	 questão	 criminal	 era	 espiritismo,	mas,</p><p>com	 muitíssima	 habilidade	 e	 pretendendo	 tributar-lhe	 uma	 homenagem,</p><p>chamou	a	 todo	o	 saber	precedente	de	escola	clássica,	 para	 erigir-se,	 ele</p><p>mesmo,	no	líder	da	nova	escola,	da	scuola	positiva.</p><p>A	 invenção	 de	 uma	 escola	 clássica,	 que	 abarcava	 tudo	 o	 que	 fora</p><p>pensado	desde	o	 século	XVIII	 até	as	 torpezas	do	positivismo	 racista	das</p><p>últimas	 décadas	 do	 século	 XIX,	 foi	 a	 melhor	 fábula	 de	 Ferri,	 tão	 bem</p><p>sucedida	que	 ainda	 é	 repetida	nos	manuais	 dos	nossos	dias.	Não	posso</p><p>deixar	 de	 recordar	 que	 assim	me	 explicava,	 na	 Faculdade	 de	Direito	 da</p><p>Universidade	de	Buenos	Aires,	um	professor	que	usava	polainas	e	chapéu</p><p>de	 palha	 a	 Maurice	 Chevalier,	 se	 declarava	 positivista	 e	 se	 referia	 ao</p><p>presidente	da	República	como	esse	gringuinho.	Outro	professor,	 não	 tão</p><p>pitoresco,	continuou	falando	a	mesma	coisa	até	o	final	da	ditadura.	Por	via</p><p>das	dúvidas,	esclareço	que	foi	no	século	passado,	mas	não	no	XIX,	porque</p><p>tudo	 passa	 muito	 rápido	 e	 repito	 que	 não	 sou	 nenhum	 fenômeno</p><p>biológico.</p><p>O	 certo	 é	 que	 resulta	 inadmissível	 que	 os	 utilitaristas	 e	 todas	 as</p><p>variantes	do	contratualismo,	os	kantianos,	os	hegelianos,	os	krausistas,	os</p><p>déspotas	 ilustrados	 de	 calças	 brancas	 e	 peruca	 e	 os	 descamisados</p><p>revolucionários,	 todos	 juntos,	 formassem	 uma	 escola,	 além	 do	 mais</p><p>fundada	 por	 um	marquês	milanês	 gordinho,	 do	 final	 do	 século	XVIII,	 e</p><p>que	 tenha	 durado	 mais	 de	 cem	 anos,	 estendida	 por	 países	 que	 se</p><p>matavam	alegremente	entre	si.</p><p>Foi	sem	dúvida	a	melhor	brincadeira	de	Ferri,	na	qual	caíram	inclusive</p><p>seus	oponentes.	Se	Ferri	está	em	algum	lugar,	com	sua	oratória	envolvente</p><p>e	 seus	 cabelos	 revoltos,	 continuará	 gozando	 com	 segurança	do	 êxito	de</p><p>sua	 ocorrência.	 Se	 nos	 afastarmos	 dessa	 armadilha	 tramada	 pelo	 velho</p><p>positivista	 e	 prescindirmos	 da	 imaginária	 escola	 clássica,	 o	 que</p><p>encontramos	 é	 um	 conjunto	 de	 discursos	 mais	 ou	 menos	 funcionais	 à</p><p>classe	 em	 ascensão	 dos	 industriais,	 comerciantes	 e	 banqueiros,	 para	 seu</p><p>enfrentamento	 com	 o	 poder	 hegemônico	 das	 nobrezas	 nos	 países	 da</p><p>Europa	central	e	do	norte.</p><p>Não	podemos	passar	 em	 revista	 aqui	 todos	 esses	discursos,	 que	por</p><p>certo	 são	 interessantíssimos,	 tanto	 para	 o	 direito	 penal	 quanto	 para	 a</p><p>criminologia.	 Limitando-nos	 a	 esta,	 podemos	 afirmar	 que,	 em	 conjunto,</p><p>eles	 representaram	 uma	 forte	 corrente	 crítica	 ao	 exercício	 arbitrário	 do</p><p>poder	 punitivo,	 baseada	 na	 experiência	 das	 arbitrariedades	 e	 crueldades</p><p>de	seu	tempo,	dominado	pelas	nobrezas.</p><p>Todos	 eles,	 valendo-se	 dos	 elementos	 filosóficos	 de	 sua	 época,</p><p>repensaram	 profundamente	 o	 concernente	 à	 questão	 criminal.	 O</p><p>utilitarismo	mais	puro	ficou	na	Grã-Bretanha,	enquanto	que	no	continente</p><p>os	 pensadores	 deduziram	 suas	 visões	 e	 propuseram	 suas	 reformas</p><p>preferencialmente	a	partir	da	outra	vertente	do	Iluminismo,	quer	dizer,	do</p><p>contratualismo.</p><p>Obviamente	que	nenhum	destes	pensadores	acreditava	seriamente	que</p><p>uns	tantos	seres	humanos,	adornados	com	folhinhas	de	parreira	nas	partes</p><p>pudendas,	houvessem	se	reunido	num	escritório	para	firmar	um	contrato	e</p><p>fundar	 a	 sociedade,	 como	 hoje	 poderiam	 fazer	 uns	 bons	 comerciantes</p><p>mais	 protegidos.	 Eles	 eram	 muito	 inteligentes	 para	 acreditar	 em	 algo</p><p>semelhante.	 O	 contrato	 era,	 para	 eles,	 uma	 metáfora,	 uma	 figura	 da</p><p>imaginação	 para	 representar	 graficamente	 a	 essência	 ou	 a	 natureza	 da</p><p>sociedade	 e	 do	 Estado.	 Essa	 corrente	 foi	 a	 que	 predominou	 na	 Europa</p><p>continental	para	enfrentar	os	ideólogos	do	Antigo	Regime,	que	se	valiam,</p><p>por	 sua	 vez,	 de	 outra	 metáfora,	 pois	 para	 eles	 a	 sociedade	 era	 um</p><p>organismo	 natural,	 com	 uma	 repartição	 de	 funções	 que	 não	 podia	 ser</p><p>alterada	nem	decidir</p><p>seu	destino	pela	escolha	da	maioria	de	suas	células.</p><p>Todo	 o	 organicismo	 social,	 inclusive	 os	 que	 renascem	 no	 presente,	 é</p><p>essencialmente	 antidemocrático:	 as	 células	 que	 mandam	 são	 as	 do</p><p>cérebro,	 e	 as	 das	 unhas	 devem	 conformar-se	 com	 sua	 função	 de	 não</p><p>incomodar;	 qualquer	 pretensão	 ao	 contrário	 não	 é,	 para	 qualquer</p><p>organicismo	social,	mais	do	que	caos	contra	a	lei	natural.</p><p>Para	 o	 racionalismo	 contratualista,	 a	 sociedade	 não	 era	 em	 nada</p><p>natural,	 mas	 sim	 produto	 de	 um	 artifício,	 de	 uma	 criação	 humana,	 ou</p><p>seja,	 de	 um	 contrato	 que,	 como	 tal,	 podia	 ser	 modificado	 e	 até	 mesmo</p><p>rescindido,	 como	 acontece	 com	 qualquer	 contrato	 quando	 a	 vontade</p><p>soberana	das	partes	o	decide.</p><p>Nesse	 marco,	 podemos	 afirmar	 que	 o	 pensamento	 crítico	 acerca	 da</p><p>questão	 criminal	 alcançou	 um	 de	 seus	 momentos	 de	 mais	 elevado</p><p>conteúdo	pensante	com	os	discursos	dos	contratualistas	do	Iluminismo.	O</p><p>marquês	gordinho,	que,	segundo	a	fábula	do	velho	Ferri	encabeçava	essa</p><p>escola	 era	 Cesare	 Beccaria,	 um	 funcionário	 milanês	 que	 publicou,	 em</p><p>1764,	um	 famoso	 livrinho	 (Dos	delitos	 e	das	penas),	o	qual	desencadeou</p><p>uma	série	de	trabalhos	análogos	em	toda	a	Europa,	propondo	profundas</p><p>reformas	quanto	às	garantias	e	aos	limites	ao	poder	punitivo.</p><p>Além	 de	 ser	 o	 avô	 do	 inesquecível	 autor	 de	 I	 promessi	 sposi	 –</p><p>Alessandro	Manzoni	 –,	Beccaria	 era	um	homem	 tranquilo	 e	 acomodado,</p><p>que	 nunca	 mais	 voltou	 a	 escrever	 nada	 sobre	 a	 questão	 criminal	 e	 que</p><p>dedicou	 o	 resto	 de	 sua	 vida	 a	 questões	 como	 a	 unificação	 dos	 pesos	 e</p><p>medidas.</p><p>Seus	 pressupostos	 antropológicos	 não	 são	 de	 todo	 claros,	 porque</p><p>também	era	tributário	de	Hume,	o	que,	em	alguma	medida,	o	aparentava</p><p>com	as	 raízes	do	utilitarismo,	mas	o	certo	é	que	 foi	oportuníssimo,	algo</p><p>assim	como	a	bofetada	intelectual	mais	contundente	ao	poder	punitivo	da</p><p>nobreza.	Através	da	tradução	francesa	do	abade	Morellet,	ele	foi	divulgado</p><p>por	 toda	 a	 Europa	 pelo	 velho	 Voltaire,	 que	 havia	 declarado	 guerra	 ao</p><p>poder	 punitivo	 francês,	 assumindo	 a	 defesa	 postmortem	 de	 Calas,	 um</p><p>protestante	 executado,	 falsamente	 acusado	 da	 morte	 de	 seu	 filho,</p><p>supostamente	para	que	este	não	se	convertesse	ao	catolicismo.	Algo	muito</p><p>parecido	havia	olcorrido	um	século	 antes	 em	Praga	 com	um	 judeu,	mas</p><p>este	não	teve	a	sorte	de	encontrar	o	seu	Voltaire.</p><p>Em	 função	 das	 ideias	 iluministas,	 começaram	 a	 ser	 sancionados</p><p>códigos,	isto	é,	foram	abolidas	as	recopilações	caóticas	de	leis	e	tratou-se</p><p>de	 concentrar	 toda	 a	 matéria	 em	 uma	 única	 lei,	 redigida	 de	 forma</p><p>sistemática	 e	 clara,	 conforme	 um	 plano	 ou	 programa	 racional.	 Essa</p><p>tendência	 legislativa	 era	 uma	 derivação	 do	 enciclopedismo,	 que	 havia</p><p>levado	à	redação	da	Enciclopedia	na	França	pré-revolucionária,	ou	seja,	a</p><p>tentar	 concentrar	 sistematicamente,	 em	 um	 único	 livro,	 todo	 o	 saber	 da</p><p>época.</p><p>Desse	 modo,	 procurava-se	 dar	 clareza	 e	 que	 todos	 soubessem,	 com</p><p>base	na	lei	prévia,	o	que	era	e	o	que	não	era	proibido,	substraindo-o	da</p><p>arbitrariedade	dos	juízes.	Os	revolucionários	franceses	quiseram	levar	isso</p><p>até	o	extremo	de	substituir	as	orações	nas	escolas	pelo	código	penal,	para</p><p>que	todos	o	soubessem	de	cor.	Menos	mal	que	ninguém	teve	a	ideia	de</p><p>fazer	o	mesmo	com	os	4.000	artigos	do	nosso	Código	Civil.</p><p>Quanto	 ao	 processo,	 os	 julgamentos	 se	 tornaram	 públicos.	 Foucault</p><p>destaca	a	mudança:	no	Antigo	Regime,	os	julgamentos	eram	secretos	e	as</p><p>execuções	públicas;	desde	fins	do	século	XVIII	os	julgamentos	passaram	a</p><p>ser	públicos	e	as	execuções	secretas.	O	espetáculo	era	o	julgamento	e	não</p><p>a	execução,	levada	a	cabo	privadamente	e	à	qual	podiam	assistir	somente</p><p>alguns	 convidados	 especiais.	 É	 claro	 que	 com	 o	 julgamento	 público	 a</p><p>tortura	foi	abolida.</p><p>Não	 deixa	 de	 ser	 importante	 a	 redução	 da	 pena	 de	 morte	 e	 a</p><p>supressão	 das	 penas	 corporais.	 Até	 esse	 momento,	 falava-se	 das	 penas</p><p>naturais,	ou	seja,	que,	além	dos	açoites,	havia	uma	sobrevivência	da	pena</p><p>no	 órgão	 que	 se	 havia	 sido	 usado	 no	 fato:	 a	 língua	 do	 perjuro	 e	 do</p><p>blasfemo,	a	mão	do	 ladrão	e	na	violação	e	na	sodomia	vocês	deduzirão</p><p>qual.	A	partir	do	século	da	razão,	a	coluna	vertebral	das	penas	passou	a</p><p>ser	a	privação	da	liberdade.</p><p>Indo	contra	o	que	usualmente	se	crê,	a	prisão	é	um	invento	europeu</p><p>bastante	 recente	e	difundido	pelo	neocolonialismo,	pois	 antes	do	 século</p><p>XVIII	era	usada	pelos	devedores	morosos	e	como	prisão	preventiva,	isto	é,</p><p>à	espera	do	julgamento.	A	privação	de	liberdade	como	pena	central	é	um</p><p>produto	do	Iluminismo,	seja	pela	via	do	utilitarismo	(para	impor	a	ordem</p><p>interna	 mediante	 a	 introjeção	 do	 vigilante)	 ou	 do	 contratualismo	 (como</p><p>indenização	ou	reparação	pela	violação	do	contrato	social).</p><p>Este	último	é	interessante	e	não	em	vão	o	gordinho	Beccaria	dedicou</p><p>parte	 de	 sua	 vida	 à	 unificação	 de	 pesos	 e	 medidas.	 Na	 Revolução</p><p>Industrial,	era	fundamental	a	atividade	mercantil	e	para	ela	era	necessário</p><p>resolver	as	diferenças	que	o	caos	de	pesos	e	medidas	diferentes	provocava</p><p>em	cada	país.	A	unificação	facilitava	o	comércio.	A	unificação	das	penas</p><p>também	facilitava	sua	medida,	superava	o	caos	prévio	das	penas	naturais</p><p>e	permitia	medi-las	todas	em	tempo.</p><p>Como	 se	 entende	 que	 um	 homicídio	 valha	 de	 oito	 a	 25	 anos	 e	 um</p><p>furto	de	um	mês	a	três	anos?	O	que	é	isso?	Dois	juízes	procedendo	como</p><p>comerciantes	que	vendem	pena	por	metro	(ou	por	anos)	no	mostrador	da</p><p>justiça?	 Por	 estranho	 que	 pareça,	 não	 é	 mais	 do	 que	 um	 efeito	 do</p><p>contratualismo	que	perdura	até	o	presente.</p><p>Quem	viola	um	contrato	(não	cumpre	o	que	está	acordado	nele)	deve</p><p>indenizar.	Se	me	comprometo	a	vender	algo	e	não	entrego	a	coisa	em	seu</p><p>momento,	devo	 indenizar	o	 comprador	pelo	dano	que	 lhe	ocasionei.	 Se</p><p>não	 pago	 voluntariamente	 reparando	 esse	 dano,	 me	 embargam	 e</p><p>sequestram	bens	e	os	executam,	fazendo-se,	desse	modo,	a	cobrança.	Pois</p><p>bem,	 se	 não	 cumpro	 com	 o	 contrato	 social	 e	 cometo	 um	 delito,	 devo</p><p>indenizar.	Como?	Com	o	que?	Ora,	com	o	que	posso	oferecer	no	mercado,</p><p>ou	seja,	com	minha	capacidade	de	trabalho.</p><p>Daí	 que	 a	 pena	 me	 prive	 de	 oferecer	 meu	 trabalho	 no	 mercado</p><p>durante	mais	ou	menos	 tempo,	 segundo	a	magnitude	de	minha	 infração</p><p>ao	contrato	(delito)	e	o	consequente	dano.	Até	mesmo	a	pena	de	morte</p><p>entra	nesta	 lógica	 tão	particular,	pois	opera	como	uma	confiscação	geral</p><p>de	bens;	daí	que	também	tenha	desaparecido	a	pena	de	morte	agravada</p><p>com	a	tortura.</p><p>Pode	parecer	insólito,	mas	essa	é	a	origem	da	ideia	da	unificação	das</p><p>penas	em	tempo	de	privação	de	liberdade,	que	em	seguida	se	cobrirá	com</p><p>outras	 racionalizações	até	nos	parecer,	 a	pouco	mais	de	dois	 séculos	de</p><p>distância,	como	normal	e	quase	óbvia.	Rapidamente	nos	acostumamos	às</p><p>coisas	 mais	 rebuscadas	 e	 quando	 nos	 perguntam	 por	 que,	 a	 resposta	 é</p><p>sempre	foi	assim,	embora	não	tenha	sido	sempre	nem	muito	menos	assim.</p><p>Na	 prática,	 tampouco,	 funcionou	 desse	 modo,	 mas	 sim	 que	 os</p><p>europeus	 viram,	 desde	 muito	 cedo,	 que	 seu	 problema	 não	 era	 com	 os</p><p>“ameaçadores”,	 e	 que	 a	 prisão	 não	 atingia	 a	 todos,	 por	 mais	 miseráveis</p><p>que	 fossem	 e	 por	mais	 alta	 que	 tenha	 sido	 a	 taxa	 de	mortalidade	 nelas</p><p>registrada.	Como	eram	países	neocolonialistas,	o	primeiro	que	fizeram	foi</p><p>tirar	de	cima	os	incômodos	e	enviá-los	para	suas	colônias.	Essas	penas	de</p><p>relegação	ou	transporte	foram	aplicadas	particularmente	pela	Grã-Bretanha</p><p>e	pela	França.	Os	 ingleses	mandavam	seus	 indesejáveis	para	a	Austrália,</p><p>onde	os	prisioneiros	eram	destinados	aos	colonos,	em	um	regime	muito</p><p>parecido	com	as	encomiendas	da	nossa	colonização,	embora	com	melhor</p><p>destino,	porque,	ao	que	parece,	muitos	sobreviveram	e	seus	descendentes</p><p>povoaram	o	continente.</p><p>9.	Os	contratualismos	tornam-se	problemáticos</p><p>Na	realidade,	os	contratualistas	se	ocupavam	em	imaginar	e	programar</p><p>o	Estado	e	a	questão	criminal	 tornava-se	central	para	eles,	porque	o	que</p><p>planificavam	conforme	suas</p><p>concepções	era	o	próprio	poder.	Essa	íntima	e</p><p>inseparável	relação	do	poder	com	a	criminologia	foi	o	que	se	perdeu	de</p><p>vista	 na	 última	 metade	 do	 século	 XIX,	 quando	 se	 quis	 fazer	 da</p><p>criminologia	 uma	 questão	 científica	 e	 asséptica,	 estranha	 ao	 poder	 e</p><p>separada	da	 ideia	mesma	de	Estado.	Essa	 tendência	não	 foi	abandonada</p><p>até	 a	 atualidade	 e	 hoje	 retoma	 grande	 força	 em	 toda	 a	 construção	 da</p><p>realidade	midiática.</p><p>Como	 era	 de	 se	 esperar,	 houve	 vários	 contratualismos,	 porque	 a</p><p>metáfora	 do	 contrato	 permitiu	 construir	 diferentes	 imagens	 do	 Estado,</p><p>fundadas	 também	 em	 ideias	 díspares	 do	 ser	 humano	 (antropologias</p><p>filosóficas,	diríamos	hoje).</p><p>Desde	os	albores	modernos	dessa	metáfora	notou-se	essa	disparidade,</p><p>que	 começou	na	Grã-Bretanha	no	 final	 do	 século	XVII,	 prenunciando	o</p><p>processo	 de	 industrialização	 e	 a	 acumulação	 primitiva	 de	 capital.	 Ali	 se</p><p>enfrentaram	o	contratualismo	de	Hobbes	e	o	de	Locke.	Para	Hobbes,	em</p><p>seu	famoso	Leviatã,	a	origem	da	sociedade	se	encontrava	em	um	contrato,</p><p>mas	celebrado	entre	sujeitos	dos	quais	tinham	caído	as	folhas	de	parreira,</p><p>porque	 tinham	 as	 mãos	 ocupadas	 com	 garrotes	 para	 se	 matarem	 com</p><p>singular	prazer	entre	eles.	Em	certo	momento,	eles	 teriam	se	dado	conta</p><p>de	 que	 não	 era	 bom	 negócio	 o	 que	 estavam	 fazendo,	 baixaram	 os</p><p>machetes	e	se	puseram	de	acordo	em	dar	todo	o	poder	a	um	deles,	para</p><p>que	terminasse	a	guerra	de	todos	contra	todos.</p><p>Como,	 na	 realidade,	 isso	 era	 pouco	 verificável,	 este	 filósofo	 (cujos</p><p>retratos	 o	 mostram	 um	 pouco	 mefistofélico,	 embora	 à	 medida	 que	 ia</p><p>ficando	mais	velho,	ia	ganhando	a	cara	de	um	bom	velhinho),	não	sabia</p><p>onde	encontrar	um	exemplo	de	grupo	humano	em	semelhante	condição,</p><p>mas	 afirmou	 que	 ainda	 existiam	 na	 América.	 Os	 hobbesianos	 atuais</p><p>possívelmente	 o	 situam	em	algum	planeta	 de	 estranha	 galáxia,	 a	muitos</p><p>anos-luz	de	nós,	cujos	hipotéticos	habitantes	podem	se	ofender	no	futuro,</p><p>tanto	como	nós,	hoje	em	dia.</p><p>É	 óbvio	 que	 o	 conceito	 do	 ser	 humano	 de	 Hobbes	 não	 era	 muito</p><p>edificante,	pois	o	concebia	como	um	ente	movido	pela	ambição	de	poder</p><p>e	prazer.	O	depositário	do	poder	em	seu	contrato	não	tomava	parte	deste,</p><p>razão	pela	qual	os	que	lhe	haviam	dado	o	poder	não	poderiam	reclamar-</p><p>lhe	nada,	porque,	do	contrário,	 reintroduziriam	o	caos,	ou	seja,	a	guerra</p><p>de	 todos	 contra	 todos.	 Por	 outra	 parte,	 como	 antes	 do	 contrato	 o	 que</p><p>existia	 era	 o	 caos,	 não	 havia	 direitos	 anteriores	 ao	 contrato	 e	 todos</p><p>derivavam	 deste,	 de	 modo	 que,	 caso	 se	 negasse	 a	 autoridade	 do</p><p>depositário,	todos	os	direitos	desapareciam.</p><p>Desse	 modo,	 Hobbes	 não	 aceitava	 direito	 algum	 de	 resistência	 à</p><p>opressão,	embora	não	explicasse	o	que	aconteceria	quando	o	depositário</p><p>do	 poder,	 que	 continuava	 sendo	 humano,	 se	 movesse,	 exercendo-o</p><p>conforme	 a	 tendência	 natural	 à	 ambição	 de	 poder	 e	 glória	 e</p><p>desconhecesse	 qualquer	 limite	 legal	 imposto	pelo	 contrato.	 Sua	 resposta</p><p>era	que	qualquer	opressão	é	preferível	ao	caos,	o	que	escutamos	toda	vez</p><p>que	se	quer	converter	a	política	em	filme	de	terror.</p><p>Para	 manter	 essa	 curiosa	 paz,	 Hobbes	 exigia	 que	 as	 penas	 fossem</p><p>estritamente	 legais	 e	 se	 aplicassem	 mecanicamente,	 salvo	 aos	 inimigos,</p><p>que	eram	os	dissidentes	que	se	queixavam	e	os	colonizados	que	estavam</p><p>em	estado	selvagem.</p><p>Para	Locke	(a	julgar	por	seus	retratos,	no	meu	bairro	o	chamariam	de</p><p>John,	 o	 fracote),	 o	 contrato	 era	 diferente,	 pois	 antes	 de	 sua	 celebração</p><p>houve	um	estado	de	natureza	 em	que	os	humanos	 tinham	direitos,	mas</p><p>estes	não	estavam	assegurados,	 e	por	 isso	decidiram	celebrar	o	 contrato</p><p>como	garantia.	Para	 isso	entregaram	o	poder	 a	 alguém,	mas	o	deixaram</p><p>submetido	 ao	 contrato.	 Devem	 obedecer	 a	 este,	 embora	 não	 gostem	 de</p><p>fazê-lo,	mas	quando	ele	viola	o	contrato	e	nega	esses	direitos	anteriores,</p><p>reintroduzindo	 o	 estado	 de	 incerteza	 prévio,	 aí	 surge	 o	 direito	 de</p><p>resistência	ao	opressor.</p><p>Com	toda	certeza,	o	conceito	de	ser	humano	do	fracote	John	não	era</p><p>tão	negativo	como	o	de	Hobbes	e,	além	do	mais,	a	ideia	que	manipulava</p><p>do	estado	de	natureza	era	mais	digna	de	crédito.</p><p>Como	se	pode	ver,	Locke	é	uma	das	mais	destacadas	expressões	do</p><p>liberalismo	político	e,	no	 fundo,	o	 inspirador	das	declarações	de	direitos</p><p>das	últimas	décadas	do	século	XVIII.</p><p>Nesses	anos	finais	do	século	XVIII	o	debate	inglês	de	quase	cem	anos</p><p>antes	 se	 reproduziu	 com	 fineza	 na	 Alemanha,	 ao	 aprofundar-se	 a</p><p>investigação	acerca	da	razão	e	seus	limites.	Era	natural	que	um	século	que</p><p>fora	 caracterizado	 como	da	 razão	 se	 perguntasse	 finalmente	 quais	 eram</p><p>sua	natureza	e	seus	limites.	As	tentativas	mais	elaboradas	de	responder	a</p><p>isso	foram	levadas	a	cabo	por	Inmanuel	Kant,	com	suas	duas	investigações</p><p>ou	críticas,	sobre	a	razão	pura	e	a	razão	prática.</p><p>Dizem	que	Kant	levava	uma	vida	extremamente	metódica,	a	ponto	de</p><p>as	 comadres	 de	 sua	 Monterrey	 (não	 era	 mexicano,	 mas	 é	 isso	 que</p><p>Königsberg	 significa,	 embora	 ninguém	 o	 traduza)	 sabiam	 que	 deviam</p><p>deixar	de	fazer	fofoca	começar	a	preparar	a	comida	porque	Herr	Professor</p><p>havia	 passado.	 O	 certo	 é	 que	 o	 pobre	 era	 uma	 máquina	 de	 pensar	 e</p><p>escrever.	Estava	mais	próximo	de	Hobbes	do	que	de	Locke,	embora	meus</p><p>colegas	 penalistas	 o	 destaquem	 como	 o	 pai	 do	 liberalismo	 penal.	 Não</p><p>obstante,	 admitia	 que,	 se	 a	 resistência	 se	 transmutava	 em	 revolução	 e</p><p>estabelecia	 outro	 governo,	 a	 discussão	 estava	 encerrada	 e	 era	 preciso</p><p>apoiar	o	novo.</p><p>Para	conservar	o	contrato	e	não	voltar	ao	estado	de	guerra	de	 todos</p><p>contra	 todos	 (estado	de	natureza),	Kant	defendia	a	necessidade	da	pena</p><p>talional,	com	a	qual	vinha,	por	uma	via	curiosa,	coincidir	com	a	medida	da</p><p>pena	dos	utilitaristas.</p><p>Houve,	 nesse	 tempo,	 um	 jovem	 brilhante	 que,	 partindo	 da	 filosofia</p><p>kantiana,	 afastou-se	 de	 seu	 autor	 e	 com	 seus	 próprios	 fundamentos</p><p>aproximou-se	mais	de	Locke.	Era	Anselm	von	Feuerbach,	o	pai	do	muito</p><p>mais	conhecido	Ludwig	Feuerbach.	Não	obstante,	o	velho	foi	muito	fora	de</p><p>série.	Aos	23	anos	escreveu	algumas	obras	maravilhosas,	superando	a	Kant</p><p>no	 jurídico,	 porque,	 por	 sorte,	 teve	 que	 se	 dedicar	 à	 questão	 criminal</p><p>quando	 o	 pai	 lhe	 cortou	 as	 provisões	 porque	 tivera	 um	 filho	 fora	 do</p><p>casamento.	Devido	 a	 esse	 feliz	 acidente	 biológico,	 tivemos	um	penalista</p><p>genial,	 que	 defendeu	 o	 direito	 de	 resistência	 à	 opressão	 e	 a	 ideia	 de</p><p>direitos	 anteriores	 ao	 contrato,	 aprofundando	 a	 separação	 da	 moral	 e	 o</p><p>direito	 iniciada	por	Thomasius	 e	 seguida	por	Kant,	 segundo	alguns	 com</p><p>maior	êxito	do	que	este	último.</p><p>Entre	as	coisas	que	Feuerbach	fez	em	sua	vida	–	que	foram	muitas	e</p><p>nem	todas	santas	–,	destaca-se	seu	código	para	a	Baviera,	de	1813.	Ele	é</p><p>importante	 para	 nós	 porque	 Carlos	 Tejedor,	 quando	 foi	 encarregado	 de</p><p>redigir	o	primeiro	projeto	de	código	penal	argentino,	tomou	como	modelo</p><p>este	 código	 e	 não	 o	 de	 Napoleão,	 que	 era	 o	 mais	 empregado.	 Desse</p><p>modo,	Feuerbach	é	o	avô	do	pobre	código	que	hoje	 foi	 completamente</p><p>demolido	 ao	 compasso	 dos	 tiros	 de	 canhão	 obedientes	 aos	 meios	 de</p><p>comunicação	 de	 massa.	 Nos	 tempos	 de	 Feuerbach	 não	 havia	 televisão,</p><p>mas	igualmente	não	pôde	suprimir	o	delito	da	sodomia	(como	Napoleão	o</p><p>havia	feito).	Ele	degradou-o	a	contravenção	menor	e	o	justificou	de	modo</p><p>muito	 curioso:	 disse	 que,	 se	 todos	 a	 praticássemos,	 a	 humanidade</p><p>acabaria.	É	claro	que	ele	não	acreditava	nisso,	mas	 também	nessa	época</p><p>havia	meios	de	comunicação	e	agenda	midiática.</p><p>É	algo	mais	do	que	pitoresco	recordar	que	nos	últimos	anos	de	vida,</p><p>Feuerbach	 se	 interessou	 por	 um	 adolescente,	 ao	 qual	 protegeu,	 que</p><p>apareceu	 perambulando	 perdido,	 que	 crescera	 encerrado	 numa	 torre	 e</p><p>cuja	origem	nunca	se	conheceu.	Ele	foi	batizado	de	Kaspar	Hauser	e	sua</p><p>história	 deu	 lugar	 a	 uma	 novela	 e	 a	 vários	 filmes.	 Era	 inevitável	 que</p><p>alguém	que	acreditasse	em	um	estado	de	natureza	anterior	ao	contrato</p><p>se</p><p>interessasse	 por	 esse	 personagem.	 Chamou	 de	 crime	 contra	 a</p><p>humanidade	o	que	fora	feito	com	ele	e,	embora	nunca	se	tenha	provado</p><p>que	fosse	o	herdeiro	da	coroa,	o	certo	é	que	pouco	depois	da	morte	de</p><p>Feuerbach	o	pobre	Kaspar	foi	atravessado	por	uma	espada	numa	esquina.</p><p>As	más	 línguas	dizem	que	o	próprio	Feuerbach	morreu	envenenado</p><p>por	causa	de	seu	protegido,	mas	tudo	indica	que	isso	não	passa	de	uma</p><p>lenda,	 sendo	 o	 mais	 provável	 que	 sua	 morte	 tenha	 sido	 causada	 por</p><p>hipertensão,	pois	era	gordinho,	parece	que	não	se	privava	de	nada	e,	além</p><p>do	mais,	tinha	um	caráter	bastante	corrompido.</p><p>10.	Contratualismo	socialista?</p><p>Se	 é	 verdade	 que	 a	 linha	 que	 deriva	 de	 Hobbes	 foi	 mais	 funcional</p><p>para	 a	 atitude	 política	 do	 despotismo	 ilustrado	 e	 a	 de	 Locke	 para	 a	 do</p><p>liberalismo	político	das	nascentes	classes	industriais	urbanas,	as	coisas	não</p><p>terminaram	 ali.	 O	 contratualismo	 servia	 para	 tudo,	 de	 modo	 que	 não</p><p>faltou	uma	versão	socialista.</p><p>Todos	nós	conhecemos	o	revolucionário	francês	Jean-Paul	Marat,	que</p><p>editava	 o	 periódico	 O	 amigo	 do	 povo,	 figura	 difamada	 por	 todas	 as</p><p>correntes	 da	 historiografía	 fascista	 desse	 país,	 que	 preferem	 santificar</p><p>Charlotte	Corday,	que	foi	a	mulher	que	o	apunhalou	ao	surpreendê-lo	na</p><p>banheira;	pode-se	dizer	que	morreu	por	não	preferir	 o	 chuveiro.	Muitos</p><p>anos	depois,	 Lombroso	estudou	o	 crânio	de	Corday	 e	disse	que	 tinha	 a</p><p>fossa	 occipital	 média,	 ou	 seja,	 que	 era	 uma	 criminosa	 nata.	 Porém,</p><p>deixando	 de	 lado	 banheiras	 e	 crânios,	 o	 certo	 é	 que	 Marat	 escreveu</p><p>também	 um	 Plano	 de	 legislação	 criminal	 antes	 da	 Revolução,	 quando</p><p>estava	precisando	de	dinheiro	em	seu	exílio	suíço.</p><p>Com	essa	obra,	apresentou-se	a	um	concurso	cujo	prêmio,	diz-se,	era</p><p>financiado	 por	 Frederico	 da	 Prússia	 (der	 Grosse,	 como	 o	 chamavam,</p><p>embora	 não	 porque	 fosse	 gordo).	 Marat	 era	 médico	 e	 veterinário,	 fazia</p><p>experimentos	 com	 a	 eletricidade	 e	 muitas	 outras	 coisas,	 mas	 não	 era</p><p>jurista.	 Seu	 plano	 parte	 do	 pressuposto	 de	 que	 o	 talião	 é	 a	 pena	 mais</p><p>justa,	mas	afirma	que	foi	estabelecida	no	contrato	social	quando	o	poder</p><p>foi	 repartido	 equitativamente	 entre	 todos,	 mas	 que	 logo	 uns	 foram	 se</p><p>apropriando	das	partes	de	outros	e,	no	final,	uns	poucos	ficaram	com	as</p><p>da	maioria.</p><p>Nessas	condições,	o	talião	deixava	de	ser	uma	pena	justa	para	Marat,</p><p>pois	 só	 o	 era	 em	 uma	 sociedade	 justa,	 que	 havia	 desaparecido.	 Por</p><p>conseguinte,	da	mesma	forma	que	Spee	um	século	e	meio	antes,	afirmava</p><p>que	 o	 juiz	 que	 impunha	 uma	 pena	 de	 morte	 nesta	 sociedade	 era	 um</p><p>assassino.	 É	 óbvio	 que	 não	 deram	 o	 prêmio	 a	 Marat,	 mas	 sim	 a	 dois</p><p>desconhecidos	 alemães,	 a	 quem	 a	 história	 esqueceu	 (ou,	melhor,	 nunca</p><p>registrou),	mas	que	ficaram	com	o	dinheiro	e	a	Marat	só	lhe	restou	a	fama</p><p>posterior	do	seu	Plano,	reeditado	várias	vezes	em	francês	e	em	espanhol</p><p>em	 1890	 (com	 tradutor	 anônimo)	 e	 em	 Buenos	 Aires	 há	 uns	 dez	 anos.</p><p>Marat	 não	pôde	 cobrar	 os	 direitos	 de	 autor	 dessas	 reedições,	 posto	 que</p><p>havia	morrido	na	banheira	muitos	anos	antes.	Nem	sempre,	com	certeza,	a</p><p>fama	coincide	com	o	sucesso	econômico.</p><p>Por	volta	de	1890,	houve	um	juiz	francês,	de	convicções	republicanas,</p><p>em	uma	pequena	comarca	 (Chateau-Terry),	que	sem	citar	Marat	aplicava</p><p>sua	 lógica,	 para	 grande	 escândalo	 de	 seus	 colegas	 provenientes	 do</p><p>império	de	Napoleão	III	(Napoleão,	o	pequeno	ou	o	doente	de	gota),	que,</p><p>carregados	 de	 barretes	 e	 togas	 liam	 apenas	 o	 código	 e	 ignoravam	 a</p><p>Constituição.	 Era	 o	 bom	 juiz	 Magnaud	 ou	 Presidente	 Magnaud,	 cujas</p><p>sentenças	 ficaram	 famosas	 em	 toda	 Europa	 e	 mereceram	 comentários,</p><p>entre	outros,	de	Tolstoi.</p><p>Quando	nosso	Código	Penal	de	1921	 foi	discutido	no	Senado,	havia</p><p>um	 senador	 socialista,	 Del	 Valle	 Iberlucea,	 que	 interveio	 na	 discussão	 e</p><p>conseguiu	 que	 na	 fórmula	 sintética	 (hoje	 desbaratada	 pelas	 emendas</p><p>Blumberg	e	outros	disparates)	se	incluísse	como	critério	a	maior	ou	menor</p><p>dificuldade	 para	 ganhar	 o	 sustento	 próprio	necessário	 ou	 o	 dos	 seus.	 Na</p><p>nota	correspondente	do	Senado,	o	juiz	Magnaud	é	expressamente	citado.</p><p>Antes	as	leis	penais	eram	feitas	com	mais	cuidado	e	mais	neurônios	e	até</p><p>os	conservadores	aceitavam	conceitos	socialistas.</p><p>Voltando	 ao	 contratualismo	 e	 a	Marat,	 o	 certo	 é	 que	 este	 era	muito</p><p>funcional	 à	 classe	 dos	 industriais	 em	 ascensão,	 mas	 suas	 possibilidades</p><p>eram	excessivamente	 amplas.	 Por	 debaixo	dessa	 classe	 estava	 a	mão	de</p><p>obra	industrial	que	se	ia	concentrando	nas	cidades,	onde	ainda	não	havia</p><p>capacidade	para	incorporá-las	ao	sistema	de	produção,	tanto	em	razão	de</p><p>sua	falta	de	treinamento	como	pela	insuficiência	da	acumulação	de	capital</p><p>produtivo.	 Isso	 fazia	 com	 que	 em	 um	 espaço	 geográfico	 reduzido	 se</p><p>acumulassem	a	riqueza	incipiente	e	a	maior	miséria,	com	os	conflitos	que</p><p>se	pode	imaginar.</p><p>O	contratualismo	tornava-se	um	pouco	disfuncional	à	categoria	que	o</p><p>havia	 impulsionado	como	discurso	hegemônico	e	a	própria	possibilidade</p><p>de	 que	 fosse	 usado	 para	 legitimar	 programas	 socialistas	 mostrava	 seus</p><p>riscos.	 O	 disciplinamento	 dos	 utilitaristas	 não	 parecia	 suficiente	 e	 o</p><p>contratualismo	mostrava	seus	assomos	arriscados.</p><p>Vamos	nos	aproximando	de	uma	mudança	mais	profunda	do	discurso</p><p>criminológico,	no	qual	o	contratualismo	–	depois	de	um	máximo	esforço</p><p>de	 legitimação	hegemônica	da	classe	 industrial,	ou	de	deslegitimação	da</p><p>participação	do	subproletariado	urbano	–	terá	de	dar	 lugar	a	uma	brusca</p><p>queda	 do	 conteúdo	 pensante	 da	 criminologia	 e	 do	 direito	 penal,	 que</p><p>coincidirá,	 justamente,	 com	 a	 consagração	 da	 primeira	 como	 saber</p><p>academicamente	 autônomo.	 Mas	 isso	 já	 é	 outra	 história,	 muito	 menos</p><p>luminosa	e	mais	trágica.</p><p>Ilustração	9</p><p>11.	Nem	todos	são	“gente	como	a	gente”</p><p>O	contratualismo	era	um	marco	(hoje	se	chamaria	um	“paradigma”)	no</p><p>qual	 tinham	 lugar	 todas	 as	 possíveis	 variáveis	 políticas,	 desde	 o</p><p>despotismo	 ilustrado	até	o	 socialismo,	ou	seja,	desde	o	meticuloso	Kant,</p><p>com	sua	pontualidade,	até	o	revoltado	Marat	acalmando	suas	urticárias	na</p><p>banheira.</p><p>Por	conseguinte,	também	podia	converter-se	em	algo	perigoso	para	a</p><p>própria	 classe	 que	 o	 impulsionava,	 que	 defendia	 a	 igualdade,	 mas	 que</p><p>começava,	também,	a	distinguir	entre	os	mais	e	os	menos	iguais,	à	medida</p><p>que	 não	 apenas	 ia	 considerando	 a	 si	 mesma	 como	 a	 melhor	 e	 mais</p><p>brilhante	da	Europa,	senão	de	todo	o	planeta.</p><p>Os	 pensadores	 da	 questão	 criminal	 não	 podiam	 ser	 insensíveis	 aos</p><p>temores	do	setor	social	ao	qual	deviam	sua	posição	discursiva	dominante</p><p>e,	 em	 consequência,	 começaram	 a	 adequar	 seu	 discurso	 à	 exigência	 de</p><p>não	correr	o	risco	de	deslegitimar	o	poder	punitivo	necessário	para	manter</p><p>os	 indisciplinados	 subordinados,	 no	 interior,	 e	 fora,	 os	 colonizados	 e</p><p>neocolonizados.</p><p>Nessa	 tarefa	 acadêmica	 podem	 ser	 delimitados	 dois	momentos:	 1)	 o</p><p>hegelianismo	penal	e	criminológico;	e	2)	o	positivismo	racista.</p><p>O	 primeiro	 foi	 um	 esforço	 máximo,	 altamente	 sofisticado,	 do</p><p>pensamento	 idealista,	 enquanto	 o	 segundo	 rompeu	 com	 tudo	 e	 se</p><p>desprendeu	de	toda	racionalidade.</p><p>Qualquer	filósofo	diria	que	aproximar	o	hegelianismo	do	positivismo</p><p>racista	é	uma	aberração,	e	não	duvido	de	que	desde	sua	perspectiva	estará</p><p>certo,	 porque	 aproxima	 um	 discurso	 finíssimo,	 que	 soa	 como	 uma</p><p>sinfonia,	de	outro,	que	evoca	antes	a	gritaria	de	uma	serenata	de	bêbados</p><p>destemperados	na	madrugada.</p><p>Não	 tenho	dúvida	 alguma	 a	 esse	 respeito,	mas	 não	 se	 trata	 de	 uma</p><p>analogia	quanto	ao	nível	de	elaboração	pensante	dos	discursos,	que	não</p><p>admite	comparação,	mas	sim	no	que	torna	similar	a	utilização	política	de</p><p>ambos	os	pensamentos	por	parte	dos	penalistas	e	criminólogos.</p><p>Esclareço	que	nem	sequer	tenho	a	pretensão	de	compreender	Hegel.</p><p>Além	 do	 mais,	 estou	 seguro	 de	 não	 ser	 o	 único	 que	 não	 o	 entende</p><p>completamente,	 a	 julgar	 pelos	 quilômetros	 de	 estantes	 de	 livros</p><p>escritos</p><p>acerca	 de	 seu	 pensamento.	 Todos	 nós	 sabemos	 que	 ele	 é	 um	 filósofo</p><p>bastante	 difícil,	 que	 terminou	 de	 escrever	 um	 de	 seus	 livros	 mais</p><p>complicados	 (Fenomenologia	 do	 Espírito)	 enquanto	 bombardeavam	 a</p><p>cidade,	 porque	 seu	 editor	 o	 pressionava.	 Como,	 diferentemente	 de</p><p>Beethoven,	não	era	surdo,	é	possível	que	sua	prosa	tenha	sofrido	alguns</p><p>sobressaltos.	 O	 que	 eu	 efetivamente	 entendo	 são	 algumas	 coisas	 que</p><p>Hegel	 escreveu	 com	 clareza	 e,	 em	 especial,	 o	 que	 os	 juristas	 e</p><p>criminólogos	 lhe	 atribuíram.	A	 esse	 respeito,	 tampouco	 afirmo	que	 estes</p><p>tenham	 interpretado	bem	seu	mentor,	o	que	aqui	pouco	 interessa,	dado</p><p>que	 nos	 interessa	 sobretudo	 a	 forma	 como	 o	 projetaram	 sobre	 (ou	 o</p><p>lançaram	contra)	a	questão	criminal.</p><p>Os	 ideólogos	 da	 questão	 criminal	 que	 o	 invocaram	 partiam	 da</p><p>afirmação	 hegeliana	 de	 que	 o	 “espírito”	 avança	 dialeticamente.	 Embora</p><p>seja	 óbvio,	 cabe	 esclarecer	 que	 o	 “espírito”	 (“Geist”),	 não	 era	 nenhum</p><p>fantasma,	e	sim	o	espírito	da	humanidade	como	potência	 intelectual.	Em</p><p>quase	 todas	 as	 histórias	 da	 filosofia	 Hegel	 é	 qualificado	 como	 um</p><p>“racionalista”,	 mas	 devemos	 advertir	 que,	 para	 ele,	 a	 razão	 era	 algo</p><p>dinâmico,	 uma	 espécie	 de	 motor,	 e	 não	 um	 simples	 modo	 ou	 via	 de</p><p>conhecimento.</p><p>O	avanço	se	dava	na	história	dialeticamente,	ou	seja,	“triadicamente”,</p><p>por	 tese,	 antítese	 e	 síntese.	 As	 duas	 anteriores	 desapareciam	 e	 se</p><p>conservavam	nessa	última,	pois	estavam	“aufgehoben”,	particípio	passado</p><p>de	um	verbo	um	tanto	misterioso.</p><p>Havia,	pois,	um	momento	de	“espírito	subjetivo”	(tese)	em	que	o	ser</p><p>humano	alcançava	a	autoconsciência	e,	com	ela,	a	liberdade,	contraposto</p><p>a	 outro,	 do	 “espírito	 objetivo”	 (antítese),	 em	 que	 duas	 liberdades	 se</p><p>relacionavam	e,	finalmente,	ambos	se	sintetizavam	no	“espírito	absoluto”.</p><p>A	 nós,	 bastam	 os	 dois	 primeiros,	 porque	 o	 direito	 pertencia,	 nesse</p><p>esquema,	ao	momento	“objetivo”,	posto	que	era	nesse	plano	que	os	seres</p><p>livres	se	relacionavam.</p><p>Deixando	de	 lado	o	 complicado	que	 isso	parece,	 o	 certo	 é	que	 sua</p><p>consequência	prática	é	que	não	 tem	autoconsciência	quem	não	é	 livre	e</p><p>não	 pode	 passar	 ao	 momento	 objetivo,	 ou	 seja,	 sua	 conduta	 não	 é</p><p>“jurídica”.	Mais	ainda:	os	hegelianos	afirmavam	que	a	conduta	“não	livre”</p><p>não	 era	 conduta	 para	 o	 direito.	 Por	 conseguinte,	 os	 criminólogos	 e</p><p>penalistas	 concluíam	 facilmente	 que	 os	 seres	 humanos	 se	 dividem	 em</p><p>“não	livres”	e	“livres”	e	o	direito	era	patrimônio	destes	últimos.	Pois	bem:</p><p>quando	 um	 “não	 livre”	 lesava	 outro	 não	 cometia	 um	 delito,	 mas	 sim</p><p>operava	 sem	 nenhuma	 relevância	 jurídica,	 porque	 não	 realizava</p><p>propriamente	 uma	 conduta.	 Pelo	 contrário,	 apenas	 os	 “livres”	 podiam</p><p>cometer	delitos,	pois	eram	eles	que	realizavam	condutas.</p><p>O	 efeito	 prático	 era	 que	 os	 “livres”	 eram	 retribuídos	 com	 penas</p><p>proporcionais	à	liberdade	com	que	haviam	decidido	o	fato,	ou	seja,	com</p><p>limites;	quanto	aos	“não	 livres”	que	causavam	danos,	eles	só	podiam	ser</p><p>submetidos	 a	 “medidas”	 de	 segurança,	 que	não	 eram	penas	 e,	 portanto,</p><p>não	admitiam	a	medida	máxima	de	 sua	 culpabilidade	ou	 liberdade,	mas</p><p>sim	unicamente	a	do	perigo	que	implicavam	para	os	livres.</p><p>Levando	 às	 últimas	 consequências,	 nossos	 colegas	 hegelianos</p><p>pretendiam	tratar	os	“não	 livres”	de	 forma	mais	ou	menos	análoga	a	um</p><p>animal	 fugido	 do	 zoológico,	 que	 devia	 ser	 contido.	 Se	 bem	 que	 não	 o</p><p>expressassem	 desse	 modo,	 para	 nos	 entendermos	 é	 melhor	 dizer	 o	 que</p><p>acho	que	eles	pensavam.</p><p>Quem	 eram	 os	 “não	 livres”	 para	 os	 penalistas	 hegelianos?	 Antes	 de</p><p>tudo	 os	 loucos,	 mas	 também	 os	 delinquentes	 reincidentes,</p><p>multirreincidentes,	 profissionais	 e	 habituais,	 porque	 com	 seu</p><p>comportamento	 demonstravam	 que	 não	 pertenciam	 à	 “comunidade</p><p>jurídica”,	 ou	 seja,	 não	 compartilhavam	 dos	 valores	 dos	 setores</p><p>hegemônicos.	Os	 “não	 livres”,	definitivamente,	 eram	os	que	não	podiam</p><p>ser	 considerados	 “gente	 como	 a	 gente”,	 mas	 somente	 como	 tipos</p><p>perigosos.</p><p>É	evidente	que	tampouco	os	selvagens	colonizados	eram	livres.	Hegel</p><p>era	 absolutamente	 etnocêntrico,	 o	 que	 fica	 demonstrado	 pelo	 que</p><p>escreveu	em	suas	Lições	sobre	filosofia	da	história	universal.</p><p>Por	 um	 momento,	 peço	 perdão	 e	 rompo	 meu	 costume	 de	 não</p><p>transcrever	nem	aborrecer	 com	citações.	Tomo	o	 livro	 (tradução	de	 José</p><p>Gaos,	 edição	 de	 1980)	 e	 leio	 que	 nós	 seríamos	 o	 produto	 de	 índios</p><p>inferiores	em	 tudo	e	 sem	história	 (página	169),	de	negros	em	estado	de</p><p>natureza	 e	 sem	moral	 (177),	 de	 árabes,	mestiços	 e	 aculturados	 islâmicos</p><p>fanáticos,	decadentes	e	sensuais	sem	limites	(596),	de	judeus	cuja	religião</p><p>lhes	 impede	 de	 alcançar	 a	 autêntica	 liberdade	 (354),	 de	 alguns	 asiáticos</p><p>que	 apenas	 estão	 um	 pouco	 mais	 avançados	 que	 os	 negros	 (215)	 e	 de</p><p>latinos	 que	 nunca	 alcançaram	 o	 estágio	 do	 mundo	 germânico,	 esse</p><p>“estágio	 do	 espírito	 que	 se	 sabe	 livre,	 querendo	 o	 verdadeiro,	 eterno	 e</p><p>universal	em	si	e	por	si”	(657).</p><p>Era	 natural	 que	 Hegel	 considerasse	 que	 os	 latino-americanos	 não</p><p>tinham	história	e	sim	“futuro”,	pois	para	ele	nossa	história	começava	com</p><p>a	colonização,	que	nos	havia	colocado	no	mundo;	o	passado	dos	povos</p><p>colonizados	não	era	nada,	por	ser	alheio	ao	avanço	do	“espírito”.</p><p>Quando	alguém	é	muito	 jovem	costuma	idealizar	os	grandes	mestres</p><p>mais	do	que	o	normal.	Vem	à	minha	mente	uma	história	que	 tem	a	ver</p><p>com	o	que	estamos	falando.	Certa	manhã,	na	Praça	das	Três	Culturas	do</p><p>México,	em	Tlatelolco,	 alguns	anos	antes	dos	dramáticos	assassinatos	de</p><p>1968,	 escutei	 um	 afamado	 jurista	 afirmar	 que	 ele	 era	 “europeu	 e</p><p>europeizante”,	e	que	não	compreendia	as	culturas	pré-hispânicas	“porque</p><p>não	 entravam	 em	 Hegel”.	 Obviamente	 que	 minha	 admiração	 pelo</p><p>renomado	 homem	 de	 leis	 diminuiu	 notavelmente,	 visto	 que,	 embora</p><p>minha	ignorância	juvenil	fosse	considerável	–	não	porque	agora	seja	muito</p><p>menor	–,	me	ocorreu	perguntar	a	mim	mesmo	se	Hegel	estaria	equivocado</p><p>ou	se	as	culturas	pré-hispânicas	teriam	mesmo	existido.	Voltemos,	porém,</p><p>ao	nosso	ponto.</p><p>Por	 certo,	 Hegel	 não	 havia	 obtido	 boas	 notas	 em	 geografia,	 porque</p><p>colocava	as	nascentes	do	Rio	da	Prata	na	cordilheira	dos	Andes.	Também</p><p>afirmava	que	nossa	 independência	obedecia	a	um	erro	dos	 ibéricos,	que</p><p>se	haviam	misturado	com	os	índios,	ao	contrário	dos	ingleses,	muito	mais</p><p>astutos	 porque,	 na	 Índia	 evitaram	 misturar-se	 e	 desse	 modo	 não</p><p>produziram	uma	 raça	mestiça	com	amor	à	 terra.	Cabe	deduzir	que,	para</p><p>Hegel,	 nossa	 independência	 era	 obra	 da	 incontinência	 sexual	 de</p><p>espanhóis	e	portugueses.	Gandhi	o	teria	desconcertado,	pois	como	a	Índia</p><p>não	 tinha	 nenhuma	 raça	 mestiça	 com	 os	 ingleses,	 não	 deveria	 ter	 tido</p><p>amor	 à	 terra	 nem	 se	 tornado	 independente.	 Tampouco	 aqui	 sei	 quem</p><p>estava	equivocado,	se	Hegel	ou	Gandhi.	Prossigamos.</p><p>A	 ideia	 que	 Hegel	 tinha	 da	 América	 Latina	 provinha	 claramente	 de</p><p>Buffon,	que	escreveu	muitos	 tomos	de	história	natural	enquanto	cuidava</p><p>dos	 jardins	 reais.	 Para	 este	 conde	 jardineiro	 éramos	 um	 continente	 em</p><p>formação,	 como	 provavam	 os	 vulcões	 e	 os	 sismos	 (supomos	 que	 agora</p><p>diria	que	a	Islândia	está	em	formação).	Como	corriam	ao	contrário	(quer</p><p>dizer,	do	norte	para	 sul,	 ao	 invés	de	 fazê-lo	 corretamente,	de	 leste	para</p><p>oeste,	como	na	Europa),	as	montanhas	interrompiam	os	ventos	e	tudo	se</p><p>umedecia,	 apodrecendo-se;	 por	 isso,	 havia	 muitos	 animais	 pequenos	 e</p><p>nenhum	grande	e	tudo	o	que	se	trazia	se	debilitava,	inclusive	os	humanos.</p><p>Para	Buffon,	na	América	toda	a	evolução	estava	retardada.</p><p>O	 etnocentrismo	 de	 Hegel	 legitimava	 o	 colonialismo	 e	 abria	 o</p><p>caminho	das	“grandes	narrativas”	com	centro	na	Europa.	Combinado	com</p><p>o	 que	 os	 criminólogos	 que	 o	 invocavam	 diziam	 para	 o	 controle	 dos</p><p>europeus	 clandestinos,	 resultava	 um	 esquema	 muito	 adequado	 para	 os</p><p>interesses	da	classe	que	 ia	alcançando</p><p>médicos	 e	 biólogos	 ficassem	 isolados	 com	 seus	 discursos	 em	 seus</p><p>institutos,	 se	 a	 autoridade	 sanitária	 e	 os	 políticos	 que	 fazem	 as	 leis</p><p>acreditassem	na	opinião	do	bar	e	não	na	que	os	médicos	poderiam	dizer,</p><p>ou,	pior	ainda,	 se	os	próprios	médicos	 fizessem	calar	a	quem	negasse	a</p><p>teoria	dos	humores	porque	isso	lhes	gera	um	perigo	político.	É	óbvio	que</p><p>o	índice	de	mortalidade	subiria	de	forma	alarmante.</p><p>Pois	bem,	o	mesmo	acontece	 com	a	questão	 criminal:	 aumentam	os</p><p>mortos	 no	 mundo.	 Afirmam-se	 opiniões	 mais	 ou	 menos	 estranhas,</p><p>equivalentes	à	teoria	dos	humores	na	medicina;	os	políticos	e	as	próprias</p><p>autoridades	difundem	ou	aceitam	essas	 incoerências	 e,	 lamentavelmente,</p><p>também	aumentam	os	índices	de	mortalidade.</p><p>Eu	não	estava	em	1811	quando	se	suprimiram	as	togas	no	judiciário	–</p><p>nem	 sequer	 na	 reforma	 universitária	 de	 1918,	 pois	 não	 sou	 nenhum</p><p>fenômeno	da	biologia	–,	mas	sei	que	não	usamos	togas	nos	tribunais	nem</p><p>nos	recintos	universitários	nacionais	desde	muito	antes	que	me	pusessem</p><p>a	primeira	fralda.	Contudo,	as	togas	continuam	nos	pesando	e	isso	não	é</p><p>admissível	 na	 hora	 da	 comunicação.	 Se	 o	 campo	 de	 batalha	 é</p><p>comunicacional,	 devemos	 travar	 a	 luta	 também	 nesse	 terreno.	 Este	 é	 o</p><p>grande	desafio.	 Por	 isso,	 devemos	 arregaçar	 as	mangas	 e	 sair	 ao	 campo</p><p>em	que	nos	desafiam.</p><p>O	cidadão	comum	deve	saber	que	há	um	mundo	acadêmico	que	fala</p><p>disso,	da	questão	criminal,	que,	embora	não	tenha	nenhum	monopólio	da</p><p>verdade,	 pensou	 e	 discutiu	 umas	 tantas	 coisas,	 que	 se	 equivocou</p><p>muitíssimas	vezes	e	muito	feio,	mas	também	aprendeu	com	esses	erros.</p><p>Os	 médicos	 também	 se	 equivocaram	 muitíssimas	 vezes,	 desde	 os</p><p>tempos	em	que,	para	curar	as	feridas,	passavam	unguentos	sobre	a	arma</p><p>que	havia	 causado	o	dano,	 até	os	 tempos	mais	próximos,	 em	que,	para</p><p>curar	os	doentes	mentais,	lhes	enfiavam	agulhas	na	cabeça,	mas	nem	por</p><p>isso	nos	colocamos	nas	mãos	dos	curandeiros	quando	nosso	apêndice	fica</p><p>inflamado.</p><p>Ilustração	2</p><p>É	bem	verdade	que	há	diferenças	entre	a	medicina	e	a	ciência	penal	e</p><p>criminológica,	que	consistem	em	que	esta	última	trata	sempre	do	poder,	o</p><p>que	não	é	alheio	à	medicina,	mas	pelo	menos	nesta	a	relação	não	é	tão</p><p>linear.	Também	é	 certo	que	 inclusive	o	 conceito	de	 ciência	depende	do</p><p>poder	 que	 decide	 quem	 tem	 esse	 status.	 Por	 isso,	 quando	 se	 fala	 de</p><p>ciência	penal	 ou	de	 ciência	 criminológica,	 pode-se	 colocar	 em	dúvida	o</p><p>status	de	ciência,	mas	também	se	diz	que	a	medicina	não	é	uma	ciência,	e</p><p>sim	uma	arte.</p><p>Como	o	mundo	acadêmico	 também	se	equivoca,	 tampouco	é	seguro</p><p>que	 o	 que	 nele	 se	 fala	 seja	 a	 realidade.	 A	 questão	 da	 realidade,	 neste</p><p>como	em	tantos	outros	âmbitos,	é	algo	muito	problemático,	em	particular</p><p>quando	vivemos	numa	era	midiática,	em	que	tudo	se	constrói.</p><p>Não	vou	me	meter	numa	questão	que	se	discute	desde	os	albores	da</p><p>filosofia,	porém	o	certo	é	que,	na	nossa	época,	o	problema	da	realidade</p><p>chegou	 a	 um	 ponto	 tal	 que	 não	 faltou	 quem	 afirmasse	 que	 tudo	 é</p><p>construído,	que	não	há	onde	se	agarrar.</p><p>Mas	Baudrillard	escrevia	na	França,	não	sei	se	tomava	algum	aperitivo</p><p>adocicado	 em	 uma	 calçada	 de	 Paris,	 e	 fazia	 isso	 antes	 de	 Sarkozy	 e</p><p>quando	ninguém	pensava	na	filha	de	Le	Pen	à	frente	das	pesquisas.	Nós</p><p>estamos	aqui,	no	fundo	do	mapa	ou	na	parte	de	cima,	depende	de	onde</p><p>se	 olhe	 (o	 norte	 acima	 é	 uma	mera	 convenção;	 os	 neozelandeses,	 certa</p><p>feita,	 fizeram	 um	 mapa	 com	 o	 sul	 acima),	 porém,	 por	 sorte,	 longe	 de</p><p>latitudes	hoje	mais	perigosas,	ainda	que	com	todos	os	inconvenientes	do</p><p>subdesenvolvimento.</p><p>Nós	 nos	 achamos,	 por	 um	 lado,	 com	 a	 publicidade	 midiática	 das</p><p>corporações	 mundiais	 e	 seu	 discurso	 único	 de	 repressão	 indiscriminada</p><p>para	com	os	setores	mais	pobres	ou	excluídos;	por	outro,	com	o	discurso</p><p>dos	acadêmicos,	isolados	em	seus	guetos	e	falando	em	dialeto.</p><p>Se,	 junto	 com	 o	 aperitivo,	 engolimos	 as	 batatinhas	 fritas	 e	 os</p><p>amendoins	e	pensamos	que	não	há	nada	que	possa	nos	dar	um	gostinho</p><p>de	 realidade,	 estamos	 perdidos.	 Eu	 não	 pretendo	 ser	 localista	 e	 afirmar</p><p>que,	 quando	 digo	 nós,	me	 refiro,	 agora,	 somente	 aos	 latino-americanos,</p><p>mas	sim	que	em	poucos	anos	se	fez	mais	que	evidente	que	se	não	há	um</p><p>mínimo	 gostinho	 de	 realidade	 nessas	 questões,	 também	 os	 franceses</p><p>estariam	 perdidos	 com	 Sarkozy	 e	 a	 jovem	 Le	 Pen,	 para	 não	 falar	 dos</p><p>estadunidenses	 e	 seu	 Tea	 Party	 (quando	 era	 pequeno,	 me	 lembro	 que</p><p>“party”	era	algo	muito	mais	divertido).</p><p>Perón	 dizia	 que	 a	 única	 verdade	 era	 a	 realidade,	 mas	 as	 batatinhas</p><p>fritas	 e	 os	 amendoins	 de	 Baudrillard	 nos	 dizem	 pouco	 menos	 que	 a</p><p>realidade	não	existe.	Será	que	isso	se	aplica	à	questão	criminal?	Não,	pelo</p><p>menos	 aqui	 –	 e	 não	me	meto	nas	 outras	 coisas	 que	dizem	 respeito	 aos</p><p>filósofos	–	isso	não	se	aplica.	Se	eu	tivesse	perguntado	qual	é	a	realidade</p><p>da	 questão	 criminal	 à	 minha	 avó	 Rosa	 –	 que,	 insisto,	 raciocinava	 muito</p><p>melhor	do	que	o	comunicador	que	inventou	o	personagem	–,	ela	me	teria</p><p>respondido,	com	toda	sabedoria,	que	a	única	realidade	nisso	tudo	são	os</p><p>mortos.</p><p>E	é	isso	mesmo,	sem	dúvida:	a	única	verdade	é	a	realidade,	e	a	única</p><p>realidade	na	questão	criminal	são	os	mortos.	Não	qualquer	morto,	é	claro,</p><p>porque,	de	acordo	com	o	que	a	estatística	demonstra,	há	quase	um	morto</p><p>por	 pessoa.	 Como,	 todavia,	 alguns	 ainda	 não	 estão	 mortos,	 há	 uma</p><p>pequena	 diferença,	 o	 que	 levou	 o	 imortal	 poeta	 português	 Fernando</p><p>Pessoa	a	afirmar	que	o	homem	é	um	cadáver	adiado.	Evidentemente	que</p><p>não	 recomendo	 sua	 leitura	 em	 casos	 de	 bipolaridade	 (me	 parece	 que</p><p>antes	 se	 chamava	 de	 alterações	 ciclotímicas,	 maníaco-depressivos</p><p>melancólicos,	 agora	 é	 mais	 complicado,	 mas	 tampouco	 me	 meto	 em</p><p>questões	diagnósticas).</p><p>Concretamente,	o	certo	é	que	todos	os	vivos	–	isto	é,	os	que	vivem	–</p><p>somos	adiados,	mas	há	alguns	aos	quais	não	se	adia	o	suficiente,	porque</p><p>são	 mortos.	 Estes	 ficam	 mudos,	 porque	 costuma	 se	 afirmar,</p><p>peremptoriamente,	que	os	mortos	não	falam,	o	que	é	verdade	em	sentido</p><p>físico,	mas,	sem	dúvida,	os	cadáveres	dizem	muitas	coisas	que	esta	sonora</p><p>afirmação	oculta.	Vejamos:	às	vezes	chegam	a	nos	dizer	até	quem	matou</p><p>(pelas	pistas	que	o	autor	deixa	no	cadáver),	mas	o	cadáver	nos	diz	sempre</p><p>que	 está	 morto.	 Esta	 é	 a	 mais	 óbvia	 palavra	 dos	 mortos:	 dizer-nos	 que</p><p>estão	mortos.	Por	isso,	quando	se	afirma	que	não	há	pretexto	algum	para</p><p>a	realidade	na	questão	criminal,	o	que	na	verdade	fazemos	é	emudecer	os</p><p>mortos,	ignorar	que	nos	dizem	que	estão	mortos.</p><p>Na	 minha	 complicada	 vida,	 quando	 muito	 jovem,	 inspecionava</p><p>hospitais	 municipais	 e	 conheci	 algumas	 pessoas	 que	 falavam	 com	 os</p><p>mortos	nos	necrotérios	(com	certeza	elas	tinham	alguns	neurônios	fora	de</p><p>lugar).	Embora	não	duvide	de	minha	saúde	mental,	não	me	dedico	a	isso</p><p>agora,	 mas	 a	 algo	 bem	 diferente:	 trata-se	 de	 perguntar	 que	 cadáveres</p><p>antecipados	há	nos	necrotérios,	nas	fossas	comuns,	no	mar	ou	quem	sabe</p><p>onde.</p><p>Por	isso,	o	que	vou	explicar	a	vocês	tem	três	etapas	fundamentais:	o</p><p>que	nos	foi	sendo	dito	ao	longo	da	história	e	o	que	nos	diz	hoje	em	dia	a</p><p>academia	 (as	 palavras	 dos	 acadêmicos),	 o	 que	 nos	 dizem	 os	 meios	 de</p><p>comunicação	(as	palavras	dos	meios	de	comunicação)	e	o	que	nos	dizem</p><p>os	mortos	(a	palavra	dos	mortos).	Depois	veremos	se	podemos	chegar	a</p><p>alguma	 conclusão	 que,	 da	 minha	 parte,	 adianto:	 o	 conjunto	 nos</p><p>recomenda	antes	de	tudo	prudência,	cautela	no	uso	do	poder	repressivo,</p><p>muita	cautela.</p><p>Este	é	o	programa	dessa	exposição	em	sua	síntese	mais	acabada:	saber</p><p>o	que	nos	dizem	os	acadêmicos,	os	meios	de	comunicação	e	os	mortos.</p><p>Como	posso	arregaçar	as	mangas	da	toga,	mas	não	ficar	sem	ela	–	porque</p><p>cada	um	tem	sua	deformação	profissional	dificilmente	controlável,	e	nunca</p><p>totalmente	anulável	–,	começarei	pelas	palavras	da	academia.</p><p>Para	entrar	no	 tema,	porém,	devo	explicar	 algumas	questões	prévias</p><p>sem	 as	 quais	 não	 se	 comprende	 quase	 nada	 dos</p><p>a	hegemonia:	a	pena	com	 limites</p><p>ficava	 reservada	aos	dessa	classe	ou	a	quem	ela	 julgava	conveniente;	os</p><p>“diferentes”	 (loucos,	 ameaçadores	 e	 “incômodos”)	 que	 não	 eram	 livres,</p><p>como	não	 realizavam	 condutas	 humanas,	 eram	 submetidos	 a	 penas	 sem</p><p>limites,	 que	 eram	 rebatizadas	 como	 “medidas”.	 Quanto	 aos	 territórios</p><p>extraeuropeus	 povoados	 por	 selvagens,	 podiam	 ser	 ocupados	 porque</p><p>eram	perigosos	para	o	“espírito”	e,	ademais,	colonizá-los	era	a	maneira	de</p><p>introduzi-los	na	história,	de	levar-lhes	o	“espírito”.</p><p>É	 claro	 que	 o	 “espírito	 hegeliano”	 avançava	 na	 história	 como</p><p>dominação	colonial	no	planetário	e,	ao	mesmo	 tempo,	como	dominação</p><p>de	classe	no	plano	interno.	Mais	que	um	espírito,	parecia	um	monstro	que</p><p>arrasava	tudo	em	seu	avanço	massacrador	e	que,	além	disso,	arremessava</p><p>para	as	margens	de	seu	caminho	de	espoliação	mundial	os	sobreviventes</p><p>–	índios,	negros,	árabes,	 judeus,	latinos,	asiáticos	etc.	–,	ou	seja,	todas	as</p><p>culturas	que	não	atingiam	a	clareza	de	Hegel,	que	se	sentava,	satisfeito,	na</p><p>ponta	da	flecha	da	história,	posição	por	certo	muito	incômoda.</p><p>Tudo	isso,	porém,	continuava	sendo	“idealismo”,	ou	seja,	para	Hegel	o</p><p>poder	 punitivo	 se	 explicava	 por	 uma	 via	 dedutiva,	 que	 não	 admitia</p><p>nenhuma	 verificação	 no	 plano	 da	 realidade.	 A	 exemplo	 do	 meticuloso</p><p>Kant,	sua	 legitimação	não	se	contaminava	com	nenhum	dado	do	mundo</p><p>real.</p><p>O	velho	Kant	havia	visto	isso	claramente,	pois	sabia,	com	sobras,	que</p><p>se	fosse	introduzida	alguma	informação	do	mundo	em	que	todos	vivemos,</p><p>as	 coisas	 seriam	 complicadas.	 Hegel	 alterou	 muitas	 coisas	 em	 relação	 a</p><p>Kant,	entre	as	quais	nada	menos	que	seu	conceito	de	“razão”,	mas	nisso</p><p>seguiu	o	mesmo	caminho,	 só	que	por	via	da	pura	 lógica:	para	Hegel,	o</p><p>delito	era	a	negação	do	direito;	a	pena	era	a	negação	do	delito;	como	a</p><p>negação	da	negação	é	a	afirmação,	a	pena	era	a	afirmação	do	direito.	E</p><p>ponto.</p><p>Tudo	 isso	 era	 muito	 elaborado,	 permanecia	 no	 plano	 do	 idealismo</p><p>filosófico	e,	em	meados	do	século	XIX,	resultava	excessivamente	abstrato</p><p>frente	 ao	 que	 estava	 sucedendo	 em	 um	 mundo	 que	 mudava	 com</p><p>celeridade.</p><p>12.	O	salto	do	contrato	à	biologia</p><p>Na	 segunda	 metade	 do	 século	 XIX	 a	 classe	 em	 ascensão	 havia</p><p>chegado	 ao	 poder.	 Os	 nobres	 empobrecidos	 haviam	 casado	 seus</p><p>descendentes	com	os	dos	industriais,	comerciantes	e	banqueiros;	estes	se</p><p>haviam	refinado	e	os	netos	se	enfeitavam	com	os	títulos	dos	avós	nobres,</p><p>enquanto	 os	 castelos	 e	 palácios	 eram	 restaurados	 e	 as	 recepções</p><p>suntuosas,	com	mulheres	e	homens	encasacados,	voltavam	a	acontecer.</p><p>Ao	mesmo	tempo,	os	indisciplinados	tornavam-se	mais	incômodos.	Os</p><p>acontecimentos	 europeus	 de	 1848	 e	 sobretudo	 de	 1871	 –	 a	 Comuna	 de</p><p>Paris	–	eram	alarmantes	para	a	nova	classe	hegemônica.	O	que	esta	classe</p><p>começava	 a	 necessitar	 não	 era	 de	 construções	 idealistas,	 mas	 de	 algo</p><p>muito	mais	concreto	e	de	menor	nível	de	elaboração,	e	também	mais	de</p><p>acordo	com	a	cultura	do	momento.</p><p>Na	ordem	planetária,	as	relações	do	centro	com	a	periferia	exigiam	a</p><p>eliminação	do	sistema	escravocrata,	porque	a	integração	demandava	maior</p><p>nível	 tecnológico	 na	 periferia	 e,	 além	 do	 mais,	 a	 Grã-Bretanha,	 que</p><p>dispunha	 de	 mão	 de	 obra	 gratuita	 na	 Índia,	 se	 erigiu	 em	 campeã	 do</p><p>antiescravismo	e	exercia	a	polícia	dos	mares.</p><p>A	“ciência”	era	a	nova	“ideologia”	dominante.	As	maravilhas	da	técnica</p><p>assombravam:	 a	 ferrovia,	 os	 navios	 a	 vapor,	 o	 telégrafo,	 alguns	 avanços</p><p>médicos,	as	vacinas,	o	canal	de	Suez	etc.	O	ser	humano	se	tornava	todo-</p><p>poderoso,	 podia	 controlar	 por	 completo	 a	 natureza	 e	 chegar	 a	 vencer	 a</p><p>própria	 morte.	 Darwin	 havia	 provocado	 alguma	 decepção,	 mas	 também</p><p>havia	demonstrado	que	o	 ser	humano	podia	continuar	evoluindo	e	que,</p><p>quando	as	leis	da	evolução	fossem	dominadas,	o	progresso	não	teria	fim.</p><p>A	intenção	era	que,	com	a	biologia,	se	constatasse	que	os	mais	poderosos</p><p>eram	 os	 mais	 “bonitos”	 e	 que	 os	 colonizados	 eram	 inferiores,	 “feios”,</p><p>todos	iguais	e	parecidos	aos	macacos:	era	óbvia	sua	evolução	inferior.</p><p>A	 classe	 outrora	 em	 ascensão	 havia	 passado	 a	 deter,	 na	 Europa,	 a</p><p>posição	dominante	e	a	considerava	“natural”,	de	modo	que	o	artifício	do</p><p>contrato	 não	 só	 lhe	 resultava	 inútil,	 como	 também	 perigoso.	 Sua</p><p>hegemonia	 “natural”	 só	 fora	 negada	 antes	 pelos	 obscurantistas	 e</p><p>metafísicos.	Tanto	os	discursos	legitimadores	do	poder	nobiliário	quanto	o</p><p>famoso	 contrato	 passaram	 a	 ser	 superstições,	 pois	 necessitavam	 de	 um</p><p>novo	 discurso	 que	 lhes	 permitisse	 exercer	 o	 poder	 punitivo	 sem	 travas</p><p>para	manter	sob	controle	os	“de	baixo”,	que	não	podiam	ser	incorporados</p><p>ao	 sistema	 produtivo	 por	 escassez	 relativa	 de	 capital	 e	 que,	 ademais,</p><p>tinham	a	ousadia	de	exigir	direitos.</p><p>Como	era	de	supor,	o	novo	paradigma	que	convinha	a	essas	classes</p><p>era	o	do	organismo,	 ainda	que	não	o	 antiquado	–	baseado	na	 “mão	de</p><p>Deus”–	 mas	 um	 novo,	 fundado	 na	 “natureza”	 e	 revelado	 pela	 “ciência”.</p><p>Porém,	 por	 mais	 “científica”	 que	 fosse	 a	 roupagem,	 como	 não	 é</p><p>demonstrável	 que	 a	 sociedade	 seja	 um	 organismo,	 o	 novo	 organicismo</p><p>não	passava	de	um	dogma	arrebatado	ao	idealismo.</p><p>O	 instrumento	com	que	os	 incômodos	nas	cidades	eram	controlados</p><p>era	a	polícia,	instituição	relativamente	nova	no	continente	europeu,	ainda</p><p>que	não	tão	nova	fora,	porque	era	a	mesma	força	de	ocupação	territorial</p><p>usada	para	colonizar.</p><p>Isso	soa	estranho,	porque	não	se	leva	em	conta	que,	com	toda	certeza,</p><p>nunca	houve	guerras	coloniais	verdadeiras,	e	sim	operações	de	ocupação</p><p>policial	de	território.	Nem	sequer	no	colonialismo	do	século	XV	houve	tais</p><p>guerras:	 nem	 na	 ocupação	 de	 Tenochtitlán	 nem	 na	 do	 Incanato	 houve</p><p>guerra;	 tanto	 Cortês	 como	 Pizarro	 limitaram-se	 a	 algumas	 escaramuças</p><p>policiais	de	ocupação.	Também	não	houve	guerra	com	o	neocolonialismo</p><p>do	 século	 XIX,	 pois	 a	 enorme	 superioridade	 técnica	 dos	 colonizadores</p><p>impedia	 de	 se	 falar	 propriamente	 de	 guerras.	 Havia,	 no	 máximo,</p><p>resistência	 da	 população	 que	 recorria	 a	 ataques	 isolados	 e	 quase</p><p>individuais,	mas	a	ocupação	do	norte	da	África	tanto	pelos	ingleses	como</p><p>pelos	 franceses	não	consistiu,	no	geral,	 em	guerras,	nem	sequer	quando</p><p>enfrentaram	hordas	precariamente	armadas.	O	aparecimento	das	armas	de</p><p>repetição	não	deixou	nenhuma	dúvida	a	respeito.</p><p>Quando	foi	preciso	conter	os	explorados	que	reclamavam	direitos	nas</p><p>cidades	 europeias,	 transferiu-se	 a	 experiência	 política	 de	 técnica	 policial</p><p>de	 ocupação	 territorial	 para	 as	 metrópoles.	 Na	 Grã-Bretanha	 resistiram</p><p>bastante,	pois	 sabiam	bem	o	que	significava	e	o	que	consideravam	bom</p><p>para	os	africanos	não	queriam	para	os	ingleses,	mas	ao	final	tiveram	que</p><p>admiti-lo	e	criar	a	Scotland	Yard,	em	1829.</p><p>Os	 poderes	 das	 polícias	 europeias	 aumentavam	 em	 paralelo	 com	 as</p><p>reclamações	 dos	 explorados	 urbanos,	 mas	 careciam	 de	 um	 discurso</p><p>legitimador.	Em	1838,	o	Colégio	de	França,	que	reunia	todas	as	academias,</p><p>lançou	 um	 concurso	 sobre	 “as	 classes	 perigosas	 nas	 grandes	 cidades”,</p><p>ganho	 por	 Fregier,	 um	 comissário,	 com	 um	 livro	 volumoso,	 mas</p><p>incoerente,	 que	 só	 continha	 lições	 de	 moral	 e	 algumas	 experiências</p><p>pessoais,	 mas	 que,	 de	 modo	 algum,	 servia	 para	 legitimar	 o	 crescente</p><p>poder	policial.	O	pobre	Fregier	limitou-se	a	escrever	o	que	os	acadêmicos</p><p>queriam	escutar.</p><p>Desde	os	tempos	de	Wier	os	médicos	estavam	ansiosos	por	manipular</p><p>a	hegemonia	do	discurso	da	questão	criminal,	em	particular	os	psiquiatras,</p><p>mas	careciam	de	prestígio	social,	pois	 trabalhavam	em	 lugares	 infectos	e</p><p>em	contato	com	seres	indesejáveis	e	sujos.</p><p>A	 mudança	 da	 publicidade	 do	 julgamento,	 assinalada	 por	 Foucault,</p><p>determinou	que	os	médicos	despertassem	interesse,	pois	começaram	a	ser</p><p>chamados	 para	 os	 grandes	 processos	 públicos	 como	 peritos,	 o	 que	 os</p><p>projetou	para	a	fama	midiática,	e	a	“gente	de	bem”	deixou	de	virar	a	cara</p><p>ao	 vê-los	 passar.	 Aos	 poucos,	 foram	 se	 apropriando	 do</p><p>discurso	 e</p><p>explicando	 todos	 os	 crimes	 investigados.	 Por	 certo	 tinham	 discurso	 de</p><p>sobra,	embora	com	a	 justificada	desconfiança	dos	 juízes,	que	disputavam</p><p>com	eles	as	cabeças	dos	guilhotinados.</p><p>Como	a	polícia	tinha	poder	sem	discurso	e	os	médicos	o	discurso	sem</p><p>poder,	 era	 inevitável	 uma	 aliança,	 que	 é	 o	 que	 se	 conhece	 como</p><p>“positivismo	 criminológico”,	 ou	 seja,	 o	 poder	 policial	 urbano	 legitimado</p><p>pelo	discurso	médico.</p><p>Porém,	 o	 discurso	 médico	 não	 se	 esgotava	 nos	 indivíduos</p><p>ameaçadores	e	incômodos,	e	sim	era	um	mero	capítulo	dentro	do	grande</p><p>paradigma	 que	 começava	 a	 se	 instalar:	 o	 do	 reducionismo	 biologista</p><p>racista.</p><p>Se	os	criminosos	eram	controlados	por	uma	força	de	ocupação	trazida</p><p>das	colônias,	não	podia	demorar	muito	a	afirmação	de	que	eram	parecidos</p><p>e	sua	criminalidade	se	explicava	pelas	mesmas	razões	que	legitimavam	o</p><p>neocolonialismo.	 Tanto	 uns	 quantos	 outros	 eram	 “seres	 inferiores”	 e	 a</p><p>razão	 pela	 qual	 se	 justificava	 o	 neocolonialismo	 era	 a	 mesma	 que</p><p>legitimava	o	poder	punitivo.</p><p>A	 categorização	 racista	 dos	 seres	 humanos	 tem	 uma	 longuíssima</p><p>história,	 mas	 a	 da	 segunda	 parte	 do	 século	 XIX	 é	 muito	 interessante	 e</p><p>apresenta	aspectos	incríveis.</p><p>Houve	duas	principais	versões	do	 racismo,	que	podemos	denominar</p><p>de	“pessimista”	e	“otimista”.	A	pessimista	é	a	que	afirma	que	houve	uma</p><p>raça	 superior,	 que,	 depois,	 se	 foi	 degradando	 por	 misturar-se	 com	 uma</p><p>espécie	 de	 símios	 que	 encontraram	 no	 caminho,	 que	 provocaram	 uma</p><p>decadência	 da	 espécie.	 Esse	 é	 o	 conto	 da	 raça	 “ariana”	 superior,	 que</p><p>entrou	na	Índia	pelo	norte,	que	falava	uma	língua	única,	nunca	conhecida,</p><p>da	 qual	 derivam	 as	 línguas	 europeias	 e	 que	 alimenta	 todos	 os	 mitos</p><p>nacionais	“arianos”	(os	francos	na	França,	os	germânicos	na	Alemanha,	os</p><p>saxões	 na	 Inglaterra,	 os	 godos	 na	 Espanha	 etc.),	 salvo	 na	 Itália,	 que</p><p>sempre	preferiu	o	mito	romano	imperial.</p><p>Na	verdade,	a	única	coisa	certa	é	que	as	línguas	europeias	costumam</p><p>provir	 da	 Índia,	 na	 qual	 entraram	 uns	 louros	 pelo	 norte	 e	 que	 se</p><p>combinaram	 com	 o	 elemento	 druida	 moreno	 do	 sul.	 Todo	 o	 resto	 é</p><p>produto	 de	 uma	 obra	 escrita	 por	 um	 diplomata	 francês	 de	 duvidosa</p><p>nobreza,	o	conde	Arthur	de	Gobineau.	Ele	foi	um	escritor	pouco	talentoso</p><p>que,	não	obstante,	escreveu	uma	extensa	novela	sobre	as	raças	que	teve</p><p>êxito	 singular.	Castigado	por	 algumas	 irregularidades,	 foi	 embaixador	no</p><p>Brasil,	 onde	 verificou,	 horrorizado,	 que	 toda	 sua	 população	 era	 mestiça</p><p>africana	e	vaticinou	que	isso	determinaria	sua	esterilidade	por	hibridação.</p><p>Parece	que	não	acertou	a	esse	respeito.</p><p>Gobineau	terminou	seus	dias	escondido	com	a	mulher	de	um	colega,</p><p>porém	sua	novela	foi	continuada	por	um	inglês,	Houston	Chamberlain,	tão</p><p>germanófilo	 que	 adotou	 a	 cidadania	 alemã	 e	 se	 casou	 com	 a	 filha	 de</p><p>Wagner.	A	novela	escrita	por	este	personagem	foi	o	livro	de	cabeceira	do</p><p>kaiser	 Guilherme	 II.	 Por	 desgraça,	 tampouco	 ali	 terminou	 a	 saga	 desta</p><p>novelística,	pois	o	nazista	Alfred	Rosenberg	a	continuou	com	O	mito	 do</p><p>século	XX,	do	qual	há	uma	única	tradução	espanhola,	publicada	por	uma</p><p>editora	nazista	na	Argentina,	nos	tempos	da	última	ditadura.	Rosenberg	foi</p><p>enforcado	em	Nurenberg,	mas	não	por	ter	escrito	esse	livro,	e	sim	por	ter</p><p>sido	 o	 ministro	 responsável	 por	 organizar	 os	 massacres	 de	 milhões	 de</p><p>“seres	inferiores”	na	Europa	oriental.</p><p>No	entanto,	esse	racismo	pessimista	não	servia	para	o	novo	momento</p><p>de	poder	mundial,	que	necessitava	deslegitimar	a	escravidão,	mas	justificar</p><p>o	 neocolonialismo,	 divulgar	 o	 liberalismo	 econômico,	 mas	 controlar</p><p>policialmente	 os	 excluídos	 no	 centro.	 O	 discurso	 que	 legitimasse</p><p>semelhante	 imbroglio	não	podia	 ter	um	grau	muito	alto	de	elaboração	e</p><p>por	isso	esteve	a	cargo	de	alguém	também	bastante	raso,	que	foi	Herbert</p><p>Spencer,	que	não	era	médico,	nem	biólogo,	nem	filósofo	e	nem	jurista,	e</p><p>sim	 engenheiro	 ferroviário	 e	 que,	 ademais,	 dizia	 não	 ler	 outros	 autores</p><p>porque	 o	 confundiam.	 Desse	 modo,	 ele	 foi	 capaz	 de	 conceber	 os</p><p>disparates	mais	incríveis	de	toda	a	história	do	pensamento,	afirmando	que</p><p>levava	Darwin	do	biológico	ao	social.</p><p>O	 pobre	 Darwin	 carrega	 até	 hoje	 o	 peso	 do	 chamado	 “darwinismo</p><p>social”,	 quando	 na	 realidade	 foi	 o	 bom	 Sr.	 Herbert	 que	 o	 concebeu.</p><p>Partindo	de	que	na	geologia	e	na	biologia	tudo	avança	com	propulsão	a</p><p>catástrofes,	 afirma	 que	 o	 mesmo	 acontece	 na	 sociedade,	 e	 que	 os	 seres</p><p>humanos	 que	 sobrevivem	 são	 os	 mais	 fortes	 e	 desse	 modo	 tudo	 vai</p><p>evoluindo,	inclusive	o	ser	humano	na	história.	Esse	catastrofismo	deprime</p><p>os	 mais	 débeis,	 mas	 para	 Spencer	 isso	 é	 um	 detalhe	 inevitável	 e	 sem</p><p>maior	importância.</p><p>Por	isso,	ele	defendia	a	posição	de	que	não	se	devia	ajudar	os	pobres,</p><p>para	não	privá-los	de	seu	direito	a	evoluir,	que	a	filantropia	era	um	erro,</p><p>da	 mesma	 forma	 que	 o	 ensino	 obrigatório	 ou	 gratuito	 porque,	 se	 não</p><p>custava	 nada,	 as	 pessoas	 não	 o	 valorizariam	 e	 terminariam	 lendo	 livros</p><p>socialistas.	Desse	modo	justificava	a	renúncia	a	qualquer	plano	social	por</p><p>parte	dos	governos	europeus.	O	controle	dos	insubordinados	por	meio	da</p><p>polícia	 parecia	 ser	 a	 principal	 função	 do	 Estado	 para	 nosso	 amigo</p><p>ferroviário.</p><p>É	 isso	 mesmo	 que	 hoje	 afirmam	 os	 “think	 tanks”	 da	 ultradireita</p><p>estadunidense,	 que	 na	 verdade	 são	 mais	 “tanks”	 que	 “think”	 (por</p><p>educação,	 é	 excusado	 dar	 muitos	 detalhes	 sobre	 o	 real	 conteúdo	 dos</p><p>“tanks”),	ainda	que,	como	corresponde	à	sua	desonestidade,	eles	omitem</p><p>o	nome	do	velho	Herbert.</p><p>Quanto	 ao	 neocolonialismo,	 Spencer	 afirmava	 que	 os	 ocupados	 são</p><p>seres	humanos	inferiores,	mas,	diferentemente	dos	“pessimistas”,	isso	não</p><p>se	deve	a	que	eles	tenham	decaído,	mas	sim	a	que	ainda	não	evoluíram.</p><p>Por	isso	não	têm	moral,	não	conhecem	a	propriedade,	andam	seminus	e</p><p>são	 sexualmente	 muito	 “frequentes”.	 Daí	 que,	 como	 “a	 função	 faz	 o</p><p>órgão”,	têm	a	cabeça	menor	e	os	genitais,	maiores,	porém,	a	piedosa	obra</p><p>dos	 colonizadores	 os	 tornaria	 menos	 “frequentes”	 (possivelmente</p><p>mostrando-lhes	um	retrato	da	rainha	Vitória)	e,	desse	modo,	sob	tão	terna</p><p>proteção,	 chegariam,	em	alguns	 séculos,	 a	 ter	 cabeça	maior	 (e	 se	 supõe</p><p>que	genitais	menores).	Escareço	que	nada	disso	é	 lenda,	e	 sim	que	está</p><p>escrito	 nos	 livros	 do	 bom	 Sr.	 Herbert,	 de	 cuja	 transcrição	 textual	 lhes</p><p>poupo.</p><p>A	 conclusão	 prática	 era	 que	 os	 colonizados	 podiam	 ser	 dominados,</p><p>mas	 não	 escravizados.	 Cabe	 precisar	 que	 os	 europeus	 não	 foram	 muito</p><p>sutis	 em	 relação	 a	 essa	 diferença	 e	 que,	 em	 1885,	 se	 reuniram	 no</p><p>Congresso	de	Berlim,	convocado	por	Bismarck,	e	repartiram	a	África	como</p><p>uma	grande	pizza.	As	 consequências	desse	 congresso	 são	 sentidas	 até	o</p><p>presente,	pois	 a	 arbitrária	divisão	política	de	África	é,	 até	hoje,	 fonte	de</p><p>sangrentas	guerras,	alimentadas	por	negociatas	armamentistas	que	mantêm</p><p>a	região	subsaariana	imersa	em	catástrofes.</p><p>Porém,	 com	 o	 neocolonialismo	 também	 se	 lançaram	 à	 empresa</p><p>inclusive	quem	nunca	o	havia	 feito,	com	as	mais	 funestas	consequências</p><p>humanas.	A	memória	dos	italianos	em	Trípoli	não	é	nada	boa,	mas	foram</p><p>os	 alemães	 que	 levaram	 o	 prêmio	 com	 o	 aniquilamento	 maciço	 dos</p><p>hereros	na	Namíbia,	embora,	sem	dúvida,	o	prêmio	maior	quem	ganhou</p><p>mesmo	 foi	o	 empreendimento	privado	de	 Leopoldo	 II,	 que	matou	 cerca</p><p>de	dois	milhões	de	congoleses,	 forçados	a	extrair	borracha	 sob	ameaças</p><p>de	morte	e	amputações,	e	reduziu	a	população	em	oito	milhões.</p><p>Esse	crime	foi	denunciado	em	seu	tempo	em	uma	famosa	novela	de</p><p>Joseph	Conrad,	Coração	das	trevas,	e	também	divulgado	por	Mark	Twain</p><p>nos	Estados	Unidos,	o	que	obrigou	Leopoldo	II	a	entregar	sua	empresa	ao</p><p>Estado	 belga,	 que	 não	 alterou	 em	 nada	 a	 atividade	 massacradora	 e</p><p>exploradora	de	seu	monarca.</p><p>O	 rei	 Balduíno,	 no	 discurso	 de	 independência	 do	 Congo	 em	 1960,</p><p>teve	 a	 desfaçatez	 de	 fazer	 o	 elogio	 da	 obra	 belga,	 o</p><p>que	 provocou	 a</p><p>resposta	 de	 Patrice	 Lumumba,	 que,	 nos	 primeiros	 dias	 do	 ano	 seguinte</p><p>seria	assassinado	por	um	pelotão	sob	o	comando	de	um	oficial	belga.[3]</p><p>É	bom	lembrar	que	Leopoldo	II	ergueu	um	luxuoso	museu	perto	de</p><p>Bruxelas	 com	 todos	 os	 troféus	 e	 amostras	 de	 sua	 obra	 (além	 de	 muitas</p><p>estátuas	e	 retratos	dele	mesmo),	 rodeado	de	um	 formoso	parque,	 e	que</p><p>em	uma	de	suas	vitrinas	se	encontra	uma	carta	enviada	pelo	administrador</p><p>do	 Congo	 Belga	 ao	 presidente	 Truman,	 felicitando-o	 pelo	 êxito	 de</p><p>Hiroshima	e	Nagasaki,	pois	o	urânio	das	bombas	procedia	das	minas	do</p><p>Congo.</p><p>Quanto	 à	 América	 Latina,	 é	 sabido	 que	 o	 curioso	 ferroviário	 inglês</p><p>alimentou	 a	 ideologia	 assumida	 pelas	 elites	 intelectuais	 de	 todas	 nossas</p><p>repúblicas	 oligárquicas,	 desde	 o	 “porfirismo”	 mexicano	 até	 a	 “oligarquia</p><p>bovina”	argentina	e	desde	o	“patriciado	peruano”	até	a	“República	Velha”</p><p>brasileira.	 Nossas	 minorias	 dominantes	 se	 consideraram	 vanguardas</p><p>iluminadas	da	civilização,	que	exerciam	um	paternalismo	piedoso	sobre	as</p><p>grandes	 maiorias	 excluídas	 do	 poder,	 necessário	 até	 que	 os	 povos</p><p>perdessem	sua	condição	“bárbara”	e	estivessem	em	condições	de	decidir</p><p>seu	destino,	ou	seja,	supomos,	até	que	a	cabeça	crescesse.</p><p>O	spencerianismo	foi	o	reducionismo	biologista	levado	ao	social	que</p><p>serviu	de	marco	ideológico	comum	ao	neocolonialismo	e	ao	saber	médico</p><p>que	legitimou	o	poder	policial	com	o	nome	de	positivismo	criminológico,</p><p>que	 bem	 poderia	 se	 chamar	 de	 “apartheid	 criminológico”.	 Como	 os</p><p>médicos	vincularam	a	inferioridade	dos	neocolonizados	à	dos	agressivos	e</p><p>incômodos?	 Essa	 é	 a	 história	 do	 “apartheid	 criminológico”	 em	 sentido</p><p>estrito,	com	todas	suas	deploráveis	consequências.</p><p>13.	Começa	o	“apartheid	criminológico”</p><p>Na	realidade,	os	positivistas	chamaram	de	“criminalidade”	ao	conjunto</p><p>de	presos,	que	era	o	único	a	que	tinham	acesso,	porque	os	muitos	mais</p><p>que	 cometiam	 delitos	 e	 ficavam	 impunes	 lhes	 eram	 desconhecidos,	 ou</p><p>seja,	que	seu	“laboratório”,	por	assim	dizer,	se	limitava	ao	estudo	daqueles</p><p>que	 se	encontravam	enjaulados.	Como	 se	 sabe,	 em	 todos	os	 tempos,	os</p><p>mais	lerdos	e	com	menos	poder	são	colocados	na	jaula.</p><p>Para	 vincular	 “a	 criminalidade”	 (os	 presos)	 aos	 “selvagens</p><p>colonizados”,	 os	 positivistas	 elaboraram	 um	 discurso	 em	 cuja	 análise</p><p>entramos,	 advertindo	 que	 estamos	 abrindo	 as	 portas	 de	 uma	 história</p><p>macabra,	que	 terminou	muito	mal	em	 todos	os	sentidos.	Se	bem	que	os</p><p>disparates	 que	 foram	 ditos	 em	 seu	 curso	 causem	 risos,	 suas	 funestas	 e</p><p>letais	consequências	não	têm	nada	de	engraçado.</p><p>Essa	 história	 se	 suaviza	 na	 manualística	 criminológica,	 relatando-a</p><p>como	um	simples	momento	do	passado	“teórico”,	centrado	em	um	médico</p><p>de	Turim,	Cesare	Lombroso,	a	quem	se	descreve	como	um	“exagerado”	e</p><p>nada	mais.	Se	fosse	apenas	isso,	não	passaria	de	um	relato	quase	curioso.</p><p>Para	 dizer	 a	 verdade,	 o	 pobre	 Lombroso	 era	 um	 investigador	 sério,</p><p>que,	 na	 verdade,	 teve	 muito	 pouco	 a	 ver	 com	 a	 origem	 e	 as</p><p>consequências	 desse	 capítulo	 trágico.	 De	 família	 judia	 e	 filho	 de	 um</p><p>rabino,	Lombroso	nunca	 imaginou	as	consequências	da	corrente	em	que</p><p>se	movia,	mas	na	realidade	não	 inventou	o	reducionismo	biologista	e	se</p><p>limitou	a	enquadrar	suas	observações	no	marco	spenceriano,	ou	seja,	no</p><p>paradigma	de	seu	tempo.</p><p>O	chamado	“positivismo	criminológico”	(que,	como	já	dissemos,	não	é</p><p>mais	do	que	o	resultado	da	aliança	do	discurso	biologista	médico	com	o</p><p>poder	policial	 urbano	europeu)	 foi	 sendo	armado	em	 todo	o	hemisfério</p><p>norte	 e	 estendeu-se	 ao	 sul	 do	 planeta,	 como	 parte	 de	 uma	 ideologia</p><p>racista	 generalizada	 na	 segunda	 metade	 do	 século	 XIX	 e	 que	 terminou,</p><p>catastroficamente,	na	II	Guerra	Mundial.	Não	tem	um	autor:	tem	muitos	e</p><p>de	 todas	as	nacionalidades	e,	por	 certo,	os	 criminólogos	positivistas	não</p><p>foram	 mais	 do	 que	 uma	 das	 múltiplas	 manifestações	 de	 todos	 os</p><p>pensamentos	enquadrados	nesse	paradigma.</p><p>Dito	 de	 forma	mais	 crua	 e	 extremamente	 sintética,	 podemos	 afirmar</p><p>que	começou	décadas	antes	de	Lombroso,	com	os	médicos	que	lançaram</p><p>as	 primeiras	 teorias	 que	 pretendiam	 expor	 uma	 etiologia	 orgânica	 do</p><p>delito	–	e,	ao	mesmo	tempo,	a	inferioridade	dos	colonizados	–	e	terminou</p><p>nos	campos	de	extermínio	nazistas.</p><p>Bénedict	Augustin	Morel	expôs,	em	1857,	sua	“teoria	da	degeneração”,</p><p>segundo	 a	 qual,	 em	 razão	 da	 mescla	 de	 raças	 humanas	 combinar	 fios</p><p>genéticos	 muito	 distantes,	 tinha	 por	 resultado	 seres	 inteligentes,	 mas</p><p>moralmente	degenerados,	desequilibrados,	incômodos.</p><p>Hegel	 tinha	 alguma	 razão,	 pois	 esses	 “degenerados”	 eram	 nossos</p><p>gaúchos,	 mestiços	 e	 mulatos.	 Sem	 eles	 não	 teria	 havido	 exércitos</p><p>libertadores	 em	 nossa	 América,	 os	 colonizadores	 podiam	 ter	 aniquilado</p><p>todos	 nossos	 povos	 nativos	 e	 a	 América	 poderia	 ter	 sido	 totalmente</p><p>repovoada	 pela	 “raça	 superior”	 colonizadora.	 Talvez	 esse	 genocídio</p><p>completo	tenha	sido	o	sonho	irrealizado	de	muitos	racistas	da	época	(e	de</p><p>alguns	 atuais	 que	 não	 se	 animam	 a	 dizê-lo).	 Os	 mestiços	 sempre	 foram</p><p>mais	 incômodos	para	o	poder	do	que	os	 índios	ou	africanos	puros,	pois</p><p>eram	muito	mais	difíceis	de	domesticar.</p><p>A	 “degeneração”	 de	 Morel	 foi	 um	 mito	 que	 continuou	 vigente</p><p>inclusive	 na	 escola	 psiquiátrica	 francesa	 da	 Argélia	 até	 a	 guerra	 de</p><p>libertação.	 Antes	 de	 Morel,	 o	 inglês	 James	 Pritchard	 havia	 exposto	 sua</p><p>teoria	 da	 “locura	 moral”,	 na	 linha	 que	 destacava	 a	 inferioridade	 dos</p><p>criminosos	e	dos	colonizados,	afirmando	que	Adão	havia	sido	negro	e	que</p><p>seus	 descendentes	 foram	 se	 embranquecendo.	 Supomos	 que	 o	 pecado</p><p>original	deveria	ser	imputado	a	uma	raça	inferior.</p><p>Contemporâneo	 de	 Hegel,	 o	 alemão	 Franz	 Joseph	 Gall	 considerava</p><p>que	 seu	 crânio	 era	 o	 “normal”	 e	 todos	 os	 outros,	 anormais.	 Por</p><p>conseguinte,	 acreditava	 diagnosticar	 a	 criminalidade	 e	 a	 genialidade</p><p>apalpando	 a	 cabeça,	 com	 sua	 famosa	 “frenologia”.	 Perseguiram-no	 por</p><p>“ímpío”,	apesar	de	só	apalpar	a	cabeça	das	pessoas.</p><p>Outros	contemporâneos	de	Lombroso	rechaçaram	suas	teorias,	porém</p><p>sem	deixar	de	afirmar	despropósitos,	como	o	 francês	Feré,	que	em	1888</p><p>afirmava	 ser	 a	 sociedade	 biologicamente	 justa,	 pois	 provocava	 uma</p><p>“sedimentação	social	dos	degenerados”,	os	quais	caíam	“naturalmente”	até</p><p>as	classes	mais	subalternas,	e	que	a	falta	de	proteção	aos	não	degenerados</p><p>representava	 uma	 omissão	 de	 defesa	 social,	 isto	 é,	 que	 a	 defesa	 social</p><p>devia	ser	contra	os	pobres.</p><p>O	maior	crítico	da	teoria	lombrosiana	nos	congressos	de	antropologia</p><p>criminal	de	seu	tempo	foi	o	francês	Alexandre	Lacassagne,	que	atribuía	o</p><p>delito	a	modificações	cerebrais	do	occipital,	do	parietal	ou	do	 frontal:	as</p><p>do	 occipital	 eram	 as	 responsáveis	 pelos	 crimes	 primitivos	 das	 classes</p><p>baixas,	as	do	parietal,	dos	ocasionais	e	impulsivos	das	classes	médias,	e	as</p><p>do	 frontal,	 dos	 delinquentes	 alienados	 das	 classes	 altas.	 Parece	 que	 os</p><p>pobres	 costumavam	 cair	 de	 costas	 e	 golpear	 a	 parte	 traseira	 da	 cabeça.</p><p>Como	se	pode	ver,	 a	 chamada	 “escola	 francesa”	 tampouco	economizava</p><p>disparates.	A	estes	era	acrescentado	o	trabalho	de	um	médico	colonialista</p><p>–	 o	 Dr.	 Corre	 –,	 que	 exemplificava	 as	 consequências	 da	 independência</p><p>dos	“selvagens”	com	o	caso	do	Haiti.</p><p>Como	 o	 racismo	 era	 um	 paradigma,	 pouco	 importava	 a	 ideologia</p><p>política	dos	protagonistas,	porque	 todos	 se	moviam	dentro	desse	marco.</p><p>José	 Ingenieros	 –	 que	 era	 socialista	 e	 é	 considerado	 o	 fundador	 da</p><p>criminologia	 argentina	 –	 não	 compartilhava	 a	 teoria	 lombrosiana,	 mas</p><p>professava	uma	firme	convicção	racista,	que	colocou	em	evidência	em	um</p><p>horripilante	artigo	publicado	em	1906,	com	o	 título	 “As	 raças	 inferiores”,</p><p>no	 qual	 fala	 de	 “farrapos	 de	 carne	 humana”,	 justifica	 a	 escravidão	 etc.</p><p>Realmente,	parece	escrito	em	pleno	surto	psicótico	de	racismo	agudo.</p><p>Raimundo	 Nina	 Rodrigues,	 fundador</p><p>da	 criminologia	 brasileira,	 era</p><p>tributário	da	escola	francesa	e,	na	linha	de	Morel,	combatia	a	mestiçagem</p><p>(“a	 miscigenação”)	 com	 base	 na	 tese	 da	 degeneração,	 considerava	 os</p><p>mulatos	semi-imputáveis	e	dedicava	seu	livro	ao	mencionado	Dr.	Corre	e</p><p>a	Lacassagne.</p><p>Nina	 Rodrigues	 foi	 caricaturizado	 por	 Jorge	 Amado,	 com	 a	 licença</p><p>literária	 que	 o	 fez	 viver	 algumas	 décadas	 mais,	 no	 personagem	 de	 Nilo</p><p>Argolo	 de	 Araújo	 de	 sua	 famosa	 novela	 Tenda	 dos	 milagres,	 também</p><p>levada	ao	cinema.</p><p>Lombroso	só	se	 limitou	a	 formular	observações	mais	meticulosas	e	a</p><p>articulá-las	 ao	 marco	 do	 mesmo	 paradigma	 dominante.	 Se	 bem	 que	 a</p><p>síntese	que	formulou	tenha	garantido	sua	celebridade	mundial,	dando-lhe</p><p>maior	difusão	e	êxito	acadêmico	(com	as	consequentes	invejas),	o	certo	é</p><p>que	 sua	 teoria	 do	 “criminoso	 nato”	 não	 inventou	 nem	 esgotou	 o</p><p>reducionismo	 nem	 o	 positivismo	 racista.	 Inclusive	 a	 própria	 expressão</p><p>“criminoso	 nato”	 lhe	 foi	 sugerida	 por	 seu	 seguidor	 Enrico	 Ferri,	 que	 a</p><p>plagiou	de	Cubí	y	 Soler,	que	havia	 sido	um	discípulo	espanhol	de	Gall,</p><p>obviamente	sem	citá-lo.</p><p>14.	A	síntese	lombrosiana:	um	bicho	diferente</p><p>A	tendência	a	deduzir	caracteres	psicológicos	a	partir	de	dados	físicos</p><p>ou	 orgânicos	 remonta	 a	 um	 velho	 tratado	 de	 “fisiognomia”	 atribuído</p><p>falsamente	a	Aristóteles	e	ganhou	força	no	Renascimento.</p><p>A	origem	desse	suposto	saber	encontra-se	em	um	preconceito	bastante</p><p>absurdo,	que	começa	com	a	classificação	e	a	hierarquização	dos	animais.</p><p>O	 ser	 humano	 atribuiu	 aos	 animais	 virtudes	 e	 defeitos	 humanos	 e,	 de</p><p>acordo	com	estes,	classificou-os	e	hierarquizou-os:	o	cachorro	fiel,	o	gato</p><p>diabólico,	o	burro	imbecil,	o	veado	asqueroso	etc.	Realmente,	os	animais</p><p>são	como	são	e	nunca	se	inteiraram	dessas	valorações;	ao	que	parece,	eles</p><p>se	limitam	a	ter	um	conceito	um	tanto	pobre	dos	humanos,	mas	isso	é	um</p><p>outro	problema.</p><p>Foi	 assim	que	 os	 humanos	 coroaram	 “rei”	 ao	 urso,	 que	 aparece	 em</p><p>numerosos	 brasões	 (inclusive	 no	 de	 Madri),	 até	 que	 foi	 destronado	 por</p><p>obra	dos	eclesiásticos	que	descobriram	(quem	sabe	como)	que	ele	 tinha</p><p>uma	 conduta	 sexual	 indevida	 –	 não	 sei	 em	 que	 isso	 consiste,	 mas,	 por</p><p>prudência,	nunca	perguntei	a	nenhum	urso	(parece	que	eles	não	gostam</p><p>que	se	intrometam	em	sua	vida	particular,	em	especial	depois	de	visitar	o</p><p>Canadá,	onde,	por	 toda	parte	há	cartazes	“Take	care	with	 the	bears”).	O</p><p>certo	é	que	o	 leão	o	substituiu,	portador,	presumo,	de	costumes	sexuais</p><p>saudáveis,	mas	a	quem,	tampouco,	me	atrevi	a	indagar.</p><p>Uma	 vez	 estabelecidas	 essas	 classificações	 humanas	 dos	 animais,</p><p>houve	quem	pensasse	que,	devido	à	semelhança	de	alguns	humanos	com</p><p>certos	 animais,	 eles	 podiam	 ser	 caracterizados	 psicologicamente.	 O	 jogo</p><p>não	podia	 ser	mais	 infantil:	primeiro	classificaram	os	animais	com	 traços</p><p>humanos	 e	 em	 seguida	 atribuíram	 aos	 humanos	 os	 traços	 que	 antes</p><p>haviam	 colocado	 nos	 animais.	 Isso	 mesmo	 se	 faz	 na	 esquina,	 onde	 os</p><p>rapazes,	 sem	 pretender	 fundar	 nenhuma	 ciência,	 classificam	 os	 que	 têm</p><p>pinta	de	cavalo,	de	burro,	de	raposa	etc.</p><p>Não	obstante	a	simplicidade,	Gian	Battista	Della	Porta,	no	século	XVII,</p><p>e	 Johann	Caspar	 Lavater,	 no	 século	XVIII,	 escreveram	 formosos	 tratados</p><p>repletos	 de	 bonitas	 ilustrações,	 com	 as	 quais	 sustentaram	 esta	 nova</p><p>“ciência”	 da	 “fisiognomia”,	 provocando	 um	 longo	 debate	 do	 qual</p><p>participou	ninguém	mais	do	que	Goethe.</p><p>No	século	seguinte,	em	1876,	Lombroso	deu	a	 luz	à	primeira	edição</p><p>de	 L’uomo	 delinquente,	 na	 qual	 afirmava	 que	 se	 podia	 reconhecer	 o</p><p>“criminoso	nato”	como	uma	espécie	particular	do	gênero	humano	(“specie</p><p>generis	 humani”)	 pelos	 caracteres	 físicos.	 A	 criminologia	 –	 que,	 nessa</p><p>época,	se	chamava	“antropologia	criminal”	–	ocupava-se,	por	conseguinte,</p><p>de	 um	 objeto	 biológico	 diferenciado,	 o	 que	 levou	 um	 extremista	 a</p><p>sustentar	que	era	um	ramo	da	zoologia.</p><p>Como	 explicar	 o	 “criminoso	 nato”?	 Por	 sua	 semelhança	 com	 o</p><p>selvagem	 colonizado,	 aduzindo	 que	 as	 raças	 selvagens	 eram	 menos</p><p>evoluídas	do	que	a	raça	branca	europeia.	Em	seu	tempo,	afirmava-se	que</p><p>no	seio	materno	se	sintetiza	toda	a	evolução,	desde	o	ente	unicelular	até	o</p><p>ser	humano	completo	(dizia-se	que	“a	ontogenia	resume	a	 filogenia”).	O</p><p>“criminoso	nato”	era	produto	acidental	de	uma	interrupção	deste	processo,</p><p>que	 fazia	 com	 que,	 em	 meio	 da	 raça	 superior	 europeia,	 nascesse	 um</p><p>sujeito	 diferente	 e	 semelhante	 ao	 colonizado.	 Era,	 pois,	 um	 branco	 que</p><p>nascia	 mal	 acabado,	 sem	 o	 último	 golpe	 de	 forno	 e,	 portanto,	 era	 um</p><p>colonizado.	 Os	 caracteres	 “atávicos”	 que	 o	 assemelhavam	 ao	 colonizado</p><p>lhe	 atribuíam	 traços	 “africanoides”	 ou	 “mongoloides”	 (parecidos	 aos</p><p>africanos	ou	aos	índios).	Da	mesma	maneira	que	os	selvagens,	não	tinham</p><p>moral,	pudor	e,	ademais,	eram	hipossensíveis	à	dor	(para	que	a	sentissem</p><p>era	necessário	bater	neles	com	mais	força),	o	que	era	verificável	porque	se</p><p>tatuavam.	Imagino	o	terror	de	Lombroso	em	uma	praia	nos	dias	de	hoje,</p><p>rodeado	de	criminosos	natos.</p><p>É	 bastante	 claro	 que	 Lombroso	 estava	 imbuído	 de	 claros	 elementos</p><p>estetizantes.	 Em	 seu	 tempo,	 os	 colonizados	 eram	 feios	 e	 maus,	 porque</p><p>havíamos	 feito	 algumas	 diabruras,	 como	 fuzilar	 Maximiliano	 no	 México,</p><p>parar	 a	 frota	 no	 rio	 Paraná,	 expulsar	 os	 franceses	 do	 Haiti	 etc.	 Nossos</p><p>tipos	humanos	contrastavam	com	a	branca	beleza	europeia,	protegida	do</p><p>sol	por	sombrinhas	e	usando	corpete.</p><p>A	 fealdade	 e	 a	maldade	 sempre	 vão	 associadas;	 nos	 raros	 casos	 em</p><p>que	o	belo	é	mau,	trata-se,	no	geral,	de	uma	beleza	diabólica,	do	tipo	de</p><p>Dorian	Gray.	Hoje	sabemos	que	a	polícia	seleciona	por	estereótipos	e	que</p><p>estes	 se	 configuram	 através	 da	 comunicação	 com	base	 em	preconceitos,</p><p>nos	 quais	 os	 valores	 estéticos	 desempenham	 um	 papel	 fundamental,</p><p>seguindo	a	regra	de	associar	o	feio	ao	mau.	Reproduz-se,	em	definitivo,	o</p><p>mecanismo	 da	 “fisiognomia”:	 define-se	 o	 “feio”,	 associa-se	 ao	 “mau”	 e</p><p>acaba	se	selecionando	o	“mau”	mediante	o	“feio”.</p><p>A	ingenuidade	dos	positivistas	levou-os	a	espantar-se	com	a	“intuição”</p><p>dos	 artistas	 ao	 descrever	 ou	 pintar	 o	 crime,	 quando,	 na	 realidade,	 eles</p><p>haviam	definido	os	estereótipos	de	acordo	com	os	quais	se	selecionavam</p><p>os	 criminalizados	 por	 “feios”,	 ou	 seja,	 por	 se	 assemelharem	 aos</p><p>colonizados.	 São	 numerosos	 os	 tediosos	 livros	 positivistas	 sobre</p><p>“criminosos	na	arte”.</p><p>Em	edições	posteriores,	a	obra	de	Lombroso	foi	acompanhada	por	um</p><p>volume	 ou	 “Atlas”,	 com	 fotografias	 e	 desenhos	 de	 delinquentes,	 todos</p><p>presos	ou	mortos,	é	claro.	Basta	olhar	para	essa	enorme	coleção	de	caras</p><p>feias	para	convencer-se	de	que	esses	sujeitos	não	podiam	andar	por	muito</p><p>tempo	 soltos	 por	 uma	 cidade	 europeia	 sem	que	 a	 polícia	 os	 prendesse,</p><p>pois	pareciam	todos	saídos	dos	desenhos	de	“malvados”	dos	folhetins	de</p><p>costumes.</p><p>O	erro	de	Lombroso	consistiu	em	acreditar	que	essa	feiura	era	a	causa</p><p>do	delito,	quando,	na	realidade,	era	a	causa	da	prisionização,	pois	se	eles</p><p>fossem	 bonitos	 não	 estariam	 no	 “Atlas”,	 como	 Jack,	 o	 Estripador,	 em</p><p>relação	ao	qual	cabe	presumir	que,	como	era	bonito,	não	casava	com	o</p><p>estereótipo	e	nunca	conseguiram	colocá-lo	na	prisão.</p><p>Com	toda	certeza,	Lombroso,	que	era	um	observador	meticuloso,	nos</p><p>legou	a	melhor	descrição	dos	estereótipos	criminosos	de	seu	tempo.</p><p>Entretanto,	ele	não	 se	ocupou	apenas	dos	criminosos	–	ou	 seja,	dos</p><p>mal	acabados	–,	mas	também	dos	que	iam	mais	além	do	esperado,	isto	é,</p><p>dos	 “gênios”,	 a	 tal	 ponto	 que	 se	 empenhou	 em	 conhecer	 alguns,	 como</p><p>Tolstoi.	Tanto	ele	como	Max	Nordeau	escreveram	livros	sobre	o	“homem</p><p>de	gênio”;	Nordeau	advertia,	em	dois	grossos	volumes,	acerca	do	perigo</p><p>do	“gênio	 louco	ou	degenerado”,	em	cuja	categoria	 incluía	Oscar	Wilde,</p><p>batendo	em	cavalo	morto.</p><p>Lombroso	 ocupou-se	 também	 dos	 dissidentes	 e	 escreveu	 sobre	 os</p><p>delinquentes	políticos	e	sobre	os	anarquistas.</p><p>A	verdade	é	que	a	criminologia	lombrosiana</p><p>parecia	um	grande	elogio</p><p>à	 mediocridade:	 não	 havia	 que	 se	 parecer	 com	 os	 colonizados,	 mas</p><p>tampouco	se	sobressair	muito	em	inteligência	e	criatividade	nem	discordar</p><p>demasiadamente.	Para	completar	o	quadro,	tampouco	deixou	a	mulher	em</p><p>paz.	A	exemplo	dos	inquisidores,	considerava-a	menos	inteligente	do	que</p><p>o	 homem,	 apesar	 de	 afirmar	 que	 isso	 era	 compensado	 pela	 sua	 maior</p><p>sensibilidade.	Atribuía	sua	menor	representação	no	delito	à	existência	de</p><p>um	“equivalente”	do	delito	na	mulher,	que	era	a	prostituição.	Tudo	isso	foi</p><p>desenvolvido	em	um	livro	escrito	junto	com	seu	genro	–	o	historiador	de</p><p>Roma,	Guglielmo	Ferrero	–,	 intitulado	A	mulher	delinquente,	prostituta	 e</p><p>normal.</p><p>15.	O	rastro	do	positivismo	biologista</p><p>Quanto	 a	 nós,	 latino-americanos,	 podemos	 assim	 deduzir	 as</p><p>consequências	 da	 criminologia	 positivista	 sintetizada	por	 Lombroso:	 se	 a</p><p>prisão	 estava	 destinada	 aos	 brancos	 “atávicos”	 nos	 países	 colonialistas,</p><p>porque	eles	se	pareciam	com	os	selvagens,	cabe	pensar	que	os	territórios</p><p>colonizados	 eram	 grandes	 prisões,	 ou	 seja,	 imensos	 campos	 de</p><p>concentração.</p><p>Esse	 pensamento	 tem	 sua	 lógica:	 o	 “Arbeit	 macht	 frei”	 (“o	 trabalho</p><p>liberta”)	escrito	sobre	o	portão	de	Auschwitz	é	uma	consigna	que	poderia</p><p>provir	 de	 todo	 o	 colonialismo	 na	 forma	 de	 “trabalhem,	 que	 assim</p><p>aprendem	e	chegarão	a	ser	livres	como	nós”	(supomos	que	com	a	cabeça</p><p>maior,	 obviamente	 com	 prejuízo	 de	 outros	 atributos).	 Por	 outro	 lado,	 o</p><p>positivismo	 criminológico,	 com	 seu	 enfeite	 de	 ciência,	 chocava-se</p><p>frontalmente	com	o	neotomismo	fossilizado	dos	discursos	confessionais	e</p><p>assim	 obtinha	 patente	 de	 pensamento	 progressista,	 mas	 suas</p><p>consequências	 práticas	 eram	 mínimas.	 Um	 historiador	 uruguaio,	 José</p><p>Pedro	 Barrán,	 afirma	 que	 não	 havia	 problema	 no	 casamento	 entre	 uma</p><p>menina	católica,	que	comungava	diariamente,	e	um	médico	agnóstico	ou</p><p>ateu,	porque	o	que	para	ela	era	pecado,	para	ele	era	anti-higiênico.	Por</p><p>isso,	 adequava-se	 perfeitamente	 aos	 interesses	 de	 nossas	 oligarquias</p><p>regionais,	que	não	podiam	deixar	de	lhe	dispensar	uma	calorosa	acolhida.</p><p>Na	Argentina,	foi	Luis	María	Drago	quem	divulgou	precocemente	as	teses</p><p>lombrosianas	em	uma	conferência	 intitulada	“Os	homens	de	presa”,	 logo</p><p>publicada	em	versão	italiana	com	prólogo	do	próprio	Lombroso.</p><p>O	positivismo	foi	tão	impactante	na	Argentina	que	não	só	foi	acolhido</p><p>pelas	 cátedras	 de	 todo	 o	 país,	 incluindo	 a	 de	 Córdoba,	 como	 também</p><p>Lombroso	 foi	 convidado	 a	 nos	 visitar.	 Por	 motivo	 de	 saúde,	 não	 veio</p><p>porém	no	centenário	da	independência	do	país,	veio	Enrico	Ferri,	que	era</p><p>seu	discípulo	 jurista.	Por	essa	época,	Ferri	era	um	proeminente	socialista</p><p>italiano	 e	 seus	 correligionários	 argentinos	 foram	 recebê-lo	 com</p><p>entusiasmo.	 Mal	 desembarcou,	 Ferri	 afirmou	 que	 não	 se	 justificava	 o</p><p>socialismo	 em	 um	 país	 não	 industrializado,	 provocando	 uma	 polêmica</p><p>com	 Juan	B.	 Justo,	 enquanto	 desfrutava	 da	 companhia	 do	que	havia	 de</p><p>mais	 ilustre	 na	 nossa	 oligarquia	 e	 pronunciava	 suas	 conferências	 com</p><p>singular	êxito.</p><p>Como	 penalista,	 Ferri	 afirmava	 que	 a	 pena	 devia	 ter	 a	 medida	 da</p><p>periculosidade	que,	logicamente,	na	falta	de	um	“perigosímetro”,	mediam</p><p>na	 base	 do	 “olhômetro”.	 O	 juiz	 se	 convertia	 em	 um	 policial	 a	 mais.	 A</p><p>dogmática	 jurídica	 era	 uma	 “abstrusidade	 germânica”	 e	 as	 garantias</p><p>processuais,	um	preconceito	metafísico.	O	determinismo	monista	de	Ferri</p><p>era	radical:	tudo	estava	mecanicamente	determinado,	não	havia	liberdade</p><p>alguma.</p><p>O	delinquente	era,	para	Ferri,	um	agente	infeccioso	do	corpo	social	do</p><p>qual	era	preciso	ser	separado,	com	o	que	convertia	os	juízes	em	leucócitos</p><p>sociais.	O	filósofo	Martin	Buber	ridiculiza	isso,	imaginando	um	diálogo	em</p><p>que	o	processado	alega	perante	o	 juiz	que	não	 tem	a	culpa	porque	está</p><p>predeterminado	 ao	 delito,	 ao	 que	 o	 juiz	 lhe	 responde	 que	 ele	 está</p><p>predeterminado	a	condená-lo.</p><p>Embora	 o	 próprio	 Ferri	 tenha	 pretendido	 compatibilizar	 isso	 com</p><p>Marx,	nunca	o	conseguiu	e,	 talvez	cansado	de	tentá-lo,	mais	para	o	final</p><p>de	sua	vida	terminou	aceitando	uma	senadoria	de	Mussolini.</p><p>A	 prédica	 positivista	 em	 nosso	 país	 fez	 escola	 e	 José	 María	 Ramos</p><p>Mejía	 patologizou	 boa	 parte	 de	 nossos	 próceres	 em	 seu	 famoso	 livro	 A</p><p>neurose	dos	homens	célebres,	em	que	incluía	o	dr.	Francia,[4]	o	que	levou</p><p>Lombroso,	que	não	reparava	muito	nesses	detalhes,	a	considerar	argentino</p><p>o	 famoso	 paraguaio.	 Cabe	 destacar	 que	 Lombroso	 incorreu	 em	 outros</p><p>erros	 a	 nosso	 respeito,	 como	 afirmar	 que	 os	 incêndios	 da	 Boca</p><p>ameaçavam	 estender-se	 a	 Montevidéu,	 ou	 recolher,	 das	 memórias	 de</p><p>Garibaldi,	 que	 nossos	 hábitos	 carnívoros	 eram	 a	 causa	 da	 frequência</p><p>homicida.	 Também	 disse	 que	 em	 Mendoza	 a	 população	 tomava	 banho</p><p>sem	 roupa	 no	 rio,	 o	 que	 motivou	 a	 retificação	 de	 Drago	 em	 defesa	 do</p><p>pudor	das	damas	mendocinas.</p><p>A	 tese	 da	 degeneração	 teve	 ampla	 repercussão	 entre	 os	 argentinos.</p><p>Carlos	Octavio	Bunge	publicou,	em	1903,	Nossa	América,	um	livro	que	foi</p><p>muito	útil	por	seu	racismo,	na	linha	de	Morel.	Muito	mais	tarde,	em	1938,</p><p>Francisco	 De	 Veyga	 publicou	 um	 livro	 intitulado	 Degeneração	 e</p><p>degenerados.	Miséria,vício	e	delito,	em	que	parecia	advertir	que,	 se	nada</p><p>fosse	feito	para	conter	a	degeneração,	os	degenerados	iriam	nos	superar.</p><p>A	julgar	pelo	tom	do	livro,	acredito	que	sete	anos	depois	sua	teoria	teria</p><p>sido	considerada	verificada	na	Plaza	de	Mayo,	como	anos	antes	o	haviam</p><p>manifestado	aqueles	que	se	escandalizaram	porque	o	povo	desamarrou	os</p><p>cavalos	 do	 coche	 do	 presidente	 Yrigoyen	 para	 levá-lo	 até	 a	 casa	 de</p><p>governo.	Um	senador	nacional	publicou,	nesses	anos,	um	opúsculo	com	o</p><p>título	 de	 Chusmocracia	 [algo	 como	 a	 democracia	 do	 populacho].	 Cabe</p><p>esclarecer	 que,	 anos	 antes,	 De	 Veyga	 estivera	 obcecado	 com	 a</p><p>homossexualidade	 masculina	 e	 escreveu	 consideráveis	 disparates	 a</p><p>respeito.</p><p>Os	 criminólogos	 positivistas	 dedicaram-se	 a	 percorrer	 prostíbulos	 e</p><p>outros	 antros	 da	 época	 e	 conceberam	 o	 conceito	 de	 “má	 vida”.</p><p>Escreveram-se	livros	sobre	a	“má	vida”	em	Roma,	em	Madri,	em	Barcelona</p><p>e,	 como	 não	 podia	 faltar,	 também	 em	 Buenos	 Aires.	 Quem	 o	 publicou</p><p>aqui,	 em	1908,	 foi	Eusebio	Gómez,	destacado	professor	de	direito	penal</p><p>da	UBA,	com	prólogo	de	José	Ingenieros,	foi	muito	útil	por	conta	de	sua</p><p>redundância	biologicista.	Ali	desfilavam	prostitutas,	 espertalhões,	 ladrões,</p><p>religiosos,	curandeiros,	gays	etc.	A	respeito	dos	últimos,	Gómez,	afirmava</p><p>que	admirava	a	Idade	Média.</p><p>Como	 resultado	 dessas	 andanças	 nada	 santas,	 os	 positivistas</p><p>propunham	 leis	 de	 “estado	 perigoso	 predelitual”,	 ou	 seja,	 que	 caso	 se</p><p>soubesse	que	quem	andava	na	“má	vida”	teria	de	desembocar	no	delito,	o</p><p>mais	natural	era	detectá-lo	antes	e	metê-lo	na	cadeia.	Para	que	esperar	que</p><p>cometessem	 algo?	 Para	 obviar	 algumas	 formalidades,	 lhe	 mudavam	 o</p><p>nome	da	pena	e	a	chamavam	de	“medida”,	de	modo	que	ninguém	poderia</p><p>objetar	 que	 lhe	 fossem	 impostas	 penas	 sem	 delito.	 Famosos	 professores</p><p>estrangeiros	vieram	em	apoio	a	essa	luminosa	ideia	que,	por	sorte,	entrou</p><p>em	choque	com	a	decidida	recusa	de	Yrigoyen,	mas	não	de	Alvear,	que</p><p>encaminhou	alguns	projetos	que,	felizmente,	não	receberam	sanção.</p><p>Se	 levarmos	 ao	 extremo	 a	 colocação,	 o	 mesmo	 delito	 não	 era	 mais</p><p>que	 um	 “sintoma”	 da	 periculosidade	 e,	 portanto,	 tampouco	 teria	 muito</p><p>sentido	 ter	 uma	parte	 especial	 do	 código	 penal	 como	 catálogo	 fechado,</p><p>porque	 sempre	poderiam	 aparecer	 novos	 “sintomas”,	 e	 inclusive	 alguém</p><p>poderia	pensar-se	em	suprimir	essa	parte	especial.</p><p>Embora	 ninguém	 tenha	 apoiado	 essa	 ideia	 na	 Argentina,	 não	 faltou</p><p>quem	o	propusesse	do	outro	lado,	o	que	demonstra	que	não	há	disparate</p><p>que	não	possa	estar	presente	nesta	matéria.	Com	efeito,	Nikolai	Krylenko</p><p>–	destacado	 jurista	 soviético,	 revolucionário	e	magistrado	–	elaborou	um</p><p>projeto	de	código	penal	sem	parte	especial</p><p>que	não	foi	sancionado.</p><p>De	qualquer	maneira,	o	positivismo	criminológico	se	defrontava	com</p><p>um	gravíssimo	problema,	que	era	a	própria	“naturalidade”	do	delito.	Não</p><p>podia	 negar	 que	 se	 criminalizava	 por	 decisão	 política	 e	 que	 o	 proibido</p><p>mudava	de	 tempos	em	 tempos	e	de	 sociedade	em	sociedade.	Um	outro</p><p>jurista	 italiano,	 seguidor	de	Lombroso	e	Ferri,	o	barão	Raffaele	Garofalo,</p><p>inventor	do	 “delito	natural”,	dedicou-se	a	 superar	esse	obstáculo.	A	esse</p><p>respeito,	 ele	publicou,	 em	1885,	uma	Criminologia,	 que	merece	 ser	 lida</p><p>com	atenção,	porque	é	um	manual	que	expõe,	com	incrível	ingenuidade,</p><p>racionalizações	às	piores	violações	de	direitos	humanos	imagináveis.</p><p>Entre	outras	coisas,	ele	afirma	que	o	delinquente	é	o	inimigo	interno</p><p>na	paz,	como	o	soldado	inimigo	o	é	na	guerra;	prefere	a	pena	de	morte	à</p><p>prisão	perpétua,	porque	é	mais	piedosa	e	elimina	o	risco	de	fuga;	afirma</p><p>que	há	povos	degenerados	que	cumprem	no	plano	internacional	o	mesmo</p><p>papel	que	os	criminosos	natos	desempenham	no	nacional,	e	muitos	outros</p><p>absurdos	que	são	bem	úteis.	Seria	uma	leitura	recomendável	para	a	turma</p><p>do	 “Tea	 Party”,	 os	 europeus	 antiextra-comunitários	 e	 os	 argentinos</p><p>antibolivianos,	entre	outros	tantos.</p><p>Como	Garofalo	construía	seu	“delito	natural”?	Misturando	o	ferroviário</p><p>Spencer	 nada	 menos	 do	 que	 com	 Platão	 (esclareço	 que	 houve	 misturas</p><p>piores).	 Afirmava	 que	 a	 civilização	 avançava	 em	 refinamento	 dos</p><p>sentimentos	de	piedade	e	 justiça,	alcançando	seu	mais	alto	grau,	é	claro,</p><p>na	 Europa,	 e	 que	 isso	 se	 expressava	 na	 proteção	 aos	 animais.	 Escrevia</p><p>isso,	enquanto	os	capangas	de	Leopoldo	II	mutilavam	negros	porque	não</p><p>lhes	traziam	borracha	suficiente.</p><p>Pois	bem.	Para	Garofalo,	o	“delito	natural”	seria	a	lesão	do	sentimento</p><p>médio	de	piedade	ou	de	 justiça	 imperante	 em	cada	 tempo	e	 sociedade.</p><p>Assim,	 ele	 construía	 um	 quadro	 de	 valores	 e	 subvalores	 lesionados	 no</p><p>qual	colocava	os	diferentes	delitos.	O	resultado	era	algo	assim	como	um</p><p>Platão	em	estado	bruto.	Nem	todos	os	positivistas	aceitaram	de	bom	grau</p><p>esse	platonismo	à	Spencer.	Pedro	Dorado	Montero,	por	exemplo,	 foi	um</p><p>personagem	singular,	professor	de	Salamanca,	positivista,	mas,	ao	mesmo</p><p>tempo,	 um	 anarquista	 moderado,	 que	 meditava	 no	 isolamento	 de	 seu</p><p>refúgio	castelhano.	Rechaçou	a	tese	de	Garofalo,	afirmando	que	não	havia</p><p>nenhum	“delito	natural”,	mas	sim	que	o	Estado	definia	arbitrariamente	os</p><p>delitos.	 Porém,	 como	 havia	 homens	 determinados	 a	 realizar	 essas</p><p>condutas,	o	que	o	Estado	devia	fazer	era	“protegê-los”	em	instituições	às</p><p>quais	eles	pudessem	recorrer	pedindo	ajuda.</p><p>Evidentemente	 que	 ninguém	 seguiu	 Dorado	 e	 de	 nenhum	 modo</p><p>ocorreu	a	alguém	materializar	as	curiosas	instituições	que	ele	propunha	e</p><p>com	as	quais	pensava	mudar	o	direito	penal	por	um	“direito	protetor	dos</p><p>criminosos”.</p><p>É	 bastante	 óbvio	 que	 o	 positivismo	 criminológico	 desembocava	 em</p><p>um	autoritarismo	policial	que	correspondia	a	um	elitismo	biologicista.	Não</p><p>apenas	legitimava	o	neocolonialismo,	mas	também	a	repressão	das	classes</p><p>subordinadas	 no	 interior	 das	 metrópoles	 colonialistas.	 As	 elites	 dessas</p><p>sociedades	 temiam	 sua	 insubordinação	 e	 perseguiam	 os	 agitadores</p><p>“dissidentes”.	 O	 próprio	 Garofalo	 escreveu	 um	 livro	 intitulado	 A</p><p>superstição	socialista.	Mais	temor	ainda	inspiravam	as	reuniões	públicas:	as</p><p>“multidões”.</p><p>A	lembrança	da	Comuna	de	Paris	era	inapagável.	Foi	precisamente	um</p><p>autor	francês	–	Gustave	Le	Bon,	autor	da	famosa	Psicologia	das	multidões</p><p>–	quem	se	destacou	no	tema	e	seus	escritos	também	constituem,	em	geral,</p><p>um	 bom	 reservatório	 de	 disparates	 antidemocráticos.	 Para	 Le	 Bon,	 na</p><p>multidão	se	neutralizavam	as	funções	superiores	do	cérebro	e	dominava	a</p><p>“paleopsique”.	 Em	 outras	 palavras,	 e	 embora	 não	 o	 expressasse	 desse</p><p>modo,	 a	 multidão	 fazia	 surgir	 em	 cada	 um	 o	 “criminoso	 nato”,	 atávico,</p><p>regressivo,	selvagem.	Como	era	demasiadamente	incrível	afirmar	que	todo</p><p>povo	 insubordinado	era	 composto	de	 criminosos	natos	ou	 selvagens,	 Le</p><p>Bon	encontrou	a	 forma	de	explicar	que	quando	atuavam	na	multidão	se</p><p>convertiam	a	isso	por	efeito	da	própria	massa	humana.</p><p>Houve	outros	positivistas	preocupados	com	as	multidões	e	entre	eles</p><p>destaca-se	 Scipio	 Sighele,	 que	publicou	um	 livro	 intitulado	Os	 delitos	 da</p><p>multidão.	 O	 resultado	 prático	 foi	 que	 vários	 códigos	 penais	 incluíram</p><p>disposições	 acerca	 de	 delitos	 cometidos	 pelas	 multidões,</p><p>responsabilizando	 os	 líderes.	 O	 fato	 de	 que	 Le	 Bon,	 Sighele,	 o	 próprio</p><p>Lombroso	 e	 outros	 exemplificavam,	 invariavelmente	 com	 os	 líderes	 da</p><p>Comuna	de	Paris	e	que	os	códigos	penais	centrassem	sua	atenção	punitiva</p><p>nos	 líderes	 de	 multidões,	 mostra	 claramente	 o	 medo	 das	 classes</p><p>hegemônicas	em	relação	à	“peble	reunida”.</p><p>Como	se	pode	ver,	o	positivismo	restaurou	claramente	a	estrutura	do</p><p>discurso	inquisitorial:	a	criminologia	substituiu	a	demonologia	e	explicava</p><p>a	 “etiologia”	 do	 crime;	 o	 direito	 penal	 mostrava	 seus	 “sintomas”	 ou</p><p>“manifestações”	 da	 mesma	 forma	 que	 as	 antigas	 “bruxarias”;	 o	 direito</p><p>processual	explicava	a	 forma	de	persegui-lo	sem	muitas	 travas	à	atuação</p><p>policial	 (inclusive	sem	delito);	a	pena	neutralizava	a	periculosidade	 (sem</p><p>menção	da	culpabilidade)	e	a	criminalística	permitia	reconhecer	as	marcas</p><p>do	mal	 (os	 caracteres	 do	 “criminoso	 nato”).	 Tudo	 isso	 voltava	 a	 ser	 um</p><p>discurso	com	estrutura	compacta,	alimentado	com	os	disparates	do	novo</p><p>tempo	histórico.</p><p>Ilustração	10</p><p>16.	Os	crimes	da	criminologia	racista:	campos</p><p>de	extermínio	e	eugenia</p><p>Ninguém	 acredite	 que	 estejamos	 falando	 de	 uma	 história	 distante	 e</p><p>menos	ainda	de	uma	entretenimento	que	consista	em	recordar	disparates.</p><p>Estamos	falando	do	poder	planetário	e	dos	genocídios	cometidos	no	seu</p><p>avanço	 e,	 por	 conseguinte,	 estamos	 adentrando	 no	 núcleo	 central	 dos</p><p>direitos	humanos	que	desemboca	nos	nossos	dias.</p><p>O	 domínio	 mundial	 sempre	 hierarquizou	 os	 seres	 humanos	 e</p><p>considerou	 inferiores	os	 colonizados.	 Isso	 aconteceu	do	 colonialismo	do</p><p>século	XV	 em	diante	 e,	 depois,	 com	o	neocolonialismo,	 desde	o	 século</p><p>XVIII.	 O	 que	 expusemos	 foi	 a	 ideologia	 racista	 dominante	 no</p><p>neocolonialismo,	da	qual	 fazia	parte	 a	 criminologia	positivista	biologista,</p><p>porém	o	marco	em	que	esta	se	inseria	vinha	de	muito	mais	longe.</p><p>Nos	 tempos	 do	 velho	 colonialismo	 também	 houve	 racismo,	 embora</p><p>não	 com	 discurso	 científico.	 Mais	 ainda.	 Embora	 pareça	 incrível,	 houve</p><p>também	um	racismo	pessimista,	 ao	estilo	de	Gobineau,	e	outro	otimista,</p><p>ao	estilo	de	Spencer.</p><p>Durante	 a	 colônia,	 ninguém	 discutia	 que	 éramos	 inferiores,	 o	 ponto</p><p>central	era	se	o	Apóstolo	Tomás	havia	chegado	ou	não	à	América,	se	ele</p><p>viera	 caminhando	 sobre	 as	 águas,	 ou	 pelas	 pedras	 e,	 se	 havia	 trazido	 a</p><p>mensagem	 e	 nossos	 nativos	 o	 haviam	 desprezado,	 éramos	 hereges	 e,</p><p>portanto,	 matéria	 dos	 tribunais	 eclesiásticos.	 Se	 ele	 não	 tivesse	 vindo,</p><p>éramos	 simplesmente	 infiéis	 e,	 portanto,	 submetidos	 ao	 príncipe	 cristão</p><p>cuja	missão	era	nos	doutrinar.</p><p>No	 primeiro	 caso,	 havíamos	 caído,	 no	 segundo	 não	 havíamos</p><p>chegado.	 Exatamente	 o	 mesmo	 do	 racismo	 posterior,	 só	 que	 com	 outro</p><p>discurso	e	refletindo	uma	luta	entre	o	poder	eclesiástico	e	o	monárquico.</p><p>Bibliotecas	inteiras	foram	escritas	sobre	isso	e	os	dados	mais	incríveis</p><p>eram	 tomados	 como	 prova	 em	 torno	 da	 lenda	 de	 Tomás	 de	 América,</p><p>registrados	 por	 nossos	 antropólogos	 pioneiros:	 cruzes	 pré-hispânicas,</p><p>pisadas	petrificadas	etc.</p><p>O	racismo	do	neocolonialismo,	com	seu	reducionismo	biologista,	não</p><p>podia	deixar	de	terminar	muito	mal.	Enquanto	foi	usado	para	legitimar	o</p><p>poder	 do	 domínio	 colonialista	 e	 controlar	 a	 as	 classes	 incômodas	 dos</p><p>países	 centrais,	 foi	 funcional;	 porém	 se	 estilhaçou,	 quando	 foi	 usado	 na</p><p>Alemanha	 para	 legitimar	 um	 poder	 punitivo	 sem	 limitações	 dentro	 da</p><p>própria	Europa	e	por	uma	potência	que	se	considerava	estar	na	vanguarda</p><p>da	civilização.</p><p>Era	inevitável	que	acontecesse,	e	aconteceu.</p><p>O	 formidável	 instrumento	 de	 poder	 policial	 vertical	 que	 legitimava</p><p>esse	 racismo	 não	 era	 exercido	 em	 toda	 sua	 amplitude	 na	 Europa</p><p>controlada	pelas	classes	dominantes	tradicionais.	Porém,	quando	a	Europa</p><p>ficou	arrasada	depois	da	Primeira	Guerra	Mundial	(1914-1918)	e	os	aliados</p><p>não	viram	nada	melhor	do	que	cobrar	dívidas	que	a	Alemanha	não	podia</p><p>pagar,	eles	humilharam	e	desestabilizaram	a	 frágil	República	de	Weimar,</p><p>abrindo	 o	 espaço	 político	 para	 um	 chefe	 extrassistema;	 um	 grupo	 de</p><p>desaforados	nacionalistas	radicalizados	tomou	o	ápice	de	um	Estado	desde</p><p>muito	 antes	 conformado	 por	 corporações	 fortemente	 verticalizadas,	 que</p><p>não	 fez	 mais	 do	 que	 passar	 a	 exercer	 o	 poder	 punitivo	 fora	 de	 toda	 a</p><p>prudência	e	legitimado	por	discurso	idêntico.</p><p>Os	 novos	 condutores	 nazistas,	 que	 tomaram	 em	 suas	mãos	 o	 poder</p><p>punitivo,	 usaram-no	para	 homogeneizar	 a	 frente	 interna,	 inventando	 um</p><p>novo	Satã	(inimigo),	e	elevando	ao	máximo	o	verticalismo	social,	com	o</p><p>objetivo	 de	 preparar	 a	 sociedade	 para	 a	 colonização	 de	 todo	 o	 planeta,</p><p>seguindo	 a	 lógica	 de	 que	 a	 verticalização	 sempre	 anuncia	 uma</p><p>colonização.</p><p>Por	mais	maluco	ou	 irrealizável	 que	 tenha	 sido	o	projeto	 final,	 esse</p><p>objetivo	rompeu	com	a	relativa	prudência	das	classes	tradicionais	e,	como</p><p>o	 discurso	 positivista	 não	 se	 havia	 preocupado	 em	 fixar-lhe	 limites,</p><p>continuou	servindo	de	legitimação	a	um	poder	punitivo	sem	freios.</p><p>O	 nacional-socialismo	 alemão	 não	 inventou	 ideologicamente	 quase</p><p>nada	sobre	a	questão	criminal,	e	sim	usou	o	que	outros	haviam	inventado;</p><p>tampouco	 teve	 um	 discurso	 criminológico	 original,	 pois,	 para	 encobrir</p><p>seus	massacres,	valeu-se	do	que	dominava	havia	muito	tempo.</p><p>Quando	 se	 parte	 do	 pressuposto	 de	 que	 o	 ser	 humano	 é	 um	 ente</p><p>puramente	biológico	que,	quando	mais	bem	construído,	está	destinado	a</p><p>usar	os	outros	humanos	que	saem	defeituosos	ou	pertencem	a	séries	com</p><p>menor	 sofisticação,	 não	 é	nada	difícil	 concluir	 que	 esses	últimos	podem</p><p>ser	destruídos	 se	 criarem	obstáculos	aos	mais	perfeitos	em	sua	 tarefa	de</p><p>construir	outros	melhores.</p><p>O	 aniquilamento	 de	 todas	 as	 raças	 inferiores	 e	 incômodas	 é	 um</p><p>corolário	quase	necessário	desse	ponto	de	partida.	Também	o	é	que	não</p><p>vale	a	pena	manter	presos	os	fracassados	internos	que	causam	problemas</p><p>aos	aparatos	mais	aperfeiçoados.	A	eliminação	dos	que	custam	muitíssimo</p><p>dinheiro	 nos	 manicômios	 e	 asilos	 não	 é	 menos	 coerente.	 Mais	 ainda.</p><p>Explicam-se	essas	consequências	quando	esses	recursos	são	considerados</p><p>necessários	 para	 sustentar	 os	 perfeitos	 que	 oferecem	 sua	 vida	 nas</p><p>trincheiras	após	a	conquista	do	planeta.</p><p>Consequentemente,	 fica	 claro	 que	 os	 campos	 de	 concentração,	 de</p><p>trabalho	 forçado	 e	 de	 extermínio	 tenham	 sido	 legitimados	 com</p><p>racionalizações	 provenientes	 do	 racismo	 positivista.	 Justamente	 quando,</p><p>ao	 final	 da	 Segunda	 Guerra,	 já	 ninguém	 podia	 mais	 ignorar	 o	 que	 os</p><p>povos	 longínquos	 ou	 os	 subalternos	 muito	 distantes	 de	 seus	 bairros</p><p>sofriam,	porque	acabava	de	acontecer	na	 casa	do	vizinho	ou	mesmo	na</p><p>sua	própria,	o	paradigma	mudou	rapidamente.</p><p>Ilustração	11</p><p>A	 isso	 se	 deveu	 a	 Declaração	 Universal	 de	 1948,	 que	 anunciou	 a</p><p>mudança	de	paradigma	no	plano	mundial.	A	guerra	e	a	Shoah[5]	foram	o</p><p>prolegômeno	da	Declaração,	pois	 sem	as	atrocidades	nazistas	o	discurso</p><p>racista	 teria	 continuado	 a	 se	 espalhar	 pelo	 planeta	 e	 jamais	 se	 teria</p><p>formulado	semelhante	declaração	diante	do	concerto	mundial.	Seu	próprio</p><p>texto	parece	elementar	e	ingênuo,	se	não	o	contextualizarmos	como	uma</p><p>mudança	de	paradigma	que	procurava	enterrar	o	discurso	do	racismo	até</p><p>então	dominante.</p><p>Há	uma	história	–	que	corresponde	à	criminologia	do	apartheid,	mas</p><p>que	 poucas	 vezes	 se	 recorda	 –	 amplamente	 demonstrativa	 de	 que	 o</p><p>nazismo	 não	 inventou	 nada	 no	 plano	 ideológico,	 que	 foi	 imensamente</p><p>perverso,	mas	ao	mesmo	tempo	infimamente	criativo,	só	talvez	um	pouco</p><p>engenhoso.</p><p>Houve	um	capítulo	anglo-saxão	da	criminologia	positivista,	que	foi	o</p><p>prolegômeno	 do	 uso	 nazista	 do	 reducionismo	 biologista	 aplicado	 ao</p><p>controle	social	repressivo.	Ele	quase	foi	apagado	dos	manuais	correntes	de</p><p>criminologia	e	embora	soe	como	uma	má	lembrança,	é	preciso	rememorá-</p><p>lo,	em	particular	em	nosso	 tempo	que,	como	veremos	mais	adiante,	não</p><p>está	livre	de	perigosos	surtos	de	biologismo	criminal.</p><p>Por	 regra	 geral,	 quando	 se	 menciona	 a	 esterilização	 forçada	 de</p><p>delinquentes	 e	 de	 deficientes	 real	 ou	 supostamente	 hereditários,	 a</p><p>contaminação	do	sangue	com	raças	inferiores,	a	proibição	de	matrimônios</p><p>interraciais	 ou	 mistos	 e	 outras	 aberrações	 semelhantes,	 o	 nazismo	 é</p><p>imediatamente	evocado.	É	verdade	que	o	nazismo	se	valeu	de	 tudo	 isso</p><p>com	singular	empenho,	mas	não	devemos	esquecer	que	não	o	inventou,</p><p>mas	 sim	 o	 copiou	 do	 mundo	 anglo-saxão,	 colocado	 no	 papel	 na	 Grã-</p><p>Bretanha,	 mas	 levado	 à	 prática	 até	 extremos	 inadmissíveis	 nos	 Estados</p><p>Unidos	muitos	anos	antes	do	que	na	Alemanha.</p><p>Estamos	nos	referindo	a	uma	palavra	que	hoje	causa	medo	e	ninguém</p><p>usa,	mas	que	esteve	em	voga	em	boa	parte	do	século	passado:	a	eugenia.</p><p>Os	médicos	estadunidenses	haviam	rechaçado	a	 tese	 lombrosiana	do</p><p>criminoso	 nato,	 porém,	 ao	 estudar	 sua	 população	 penal,	 encontraram	 o</p><p>que	 era	 óbvio	 que	 achariam:	 pessoas	 mais	 frágeis	 que	 a	 média	 e	 com</p><p>menor	quociente	intelectual.</p><p>Desde	 o	 começo	 do	 século	 XX,	 Alfredo	 Niceforo,	 na	 Itália,	 havia</p><p>verificado	que	supostas	causas	biológicas	não	eram	mais	do	que	defeitos</p><p>de	 alimentação	 na	 primeira	 idade.	Uma	 geração	mais	 bem	 alimentada	 é</p><p>mais	forte	e,	além	disso,	mais	bonita;	a	força	física	e	a	beleza	nunca	são</p><p>produto	 da	 miséria.	 Além	 do	 mais,	 não	 é	 raro	 que	 na	 população	 penal</p><p>algumas	pessoas	 tenham	um	menor	nível	de	 inteligência;	não	que	a	 isso</p><p>se	 deva	 condicionar	 o	 delito,	 mas	 sim	 que	 são	 mais	 ingênuos	 e,	 por</p><p>conseguinte,	são	presos	por	serem	bobos.</p><p>Contudo,	 os	 iluminados	 médicos	 estadunidenses	 deduziram	 outra</p><p>coisa	 e	 não	 faltou	 um	 investigador,	 de	 duvidosa	 seriedade	 (Henry</p><p>Goddard),	 que	 aplicou	 uns	 testes	 questionáveis,	 e	 em	 1913	 chegou	 a</p><p>publicar	um	livro	sobre	uma	suposta	família	Kallikak,	de	delinquentes	por</p><p>gerações,	 com	 o	 que	 pretendia	 verificar	 a	 herança	 das	 taras</p><p>condicionadoras	da	criminalidade.	Na	verdade,	duvida-se	mesmo	se	essa</p><p>família	existiu.</p><p>Com	esses	antecedentes,	não	era	difícil	chegar	à	conclusão	de	que	não</p><p>havia	 criminosos	 natos,	 mas	 que	 a	 criminalidade	 era	 resultado	 de	 taras</p><p>físicas	e	mentais,	em	sua	maioria	hereditárias.</p><p>Uns	 trinta	 anos	 antes,	 Francis	 Galton	 –	 que	 foi	 um	 inglês	 pouco</p><p>equilibrado,	primo	de	Darwin,	e	que	supunha	terem	a	genialidade	deste	e</p><p>a	dele	mesmo	raiz	num	ascendente	comum	–	abandonou	seus	estudos	de</p><p>medicina	e	se	dedicou	às	matemáticas.	Aí	começou	a	contar	tudo	o	que	se</p><p>podia	contar	no	mundo,	até	afirmar	que	as	sociedades	criavam	os	gênios</p><p>em	razão	direta	à	reprodução	de	seus	seres	mais	perfeitos	ou	superiores.</p><p>Entre	seus	disparates,	Galton	disse	haver	calculado	o	número	exato	de</p><p>gênios	que	os	gregos	haviam	produzido,	e	 inventou	uma	ciência	para	o</p><p>melhoramento	da	raça	que	batizou	com	o	nome	de	eugenia.</p><p>Galton,	porém,	era	um	tipo	prudente.	Sua	ciência	era	uma	espécie	de</p><p>religião	 que	 aconselhava	 ou	 desaconselhava	 casamentos,	 mas	 não</p><p>pretendia	fazer	nada	à	força,	e	sim	convencer	acerca	das	vantagens	de	se</p><p>seguirem	 seus	 conselhos.	 Por	 isso,	 considera-se	 sua	 eugenia	 como</p><p>positiva.</p><p>Quando	 os	 livros	 de	 Galton	 cruzaram	 o	 Atlântico	 encontraram	 um</p><p>terreno	diferente.	Por	um	lado,	a	pretensa	constatação	dos	médicos	acerca</p><p>das	 taras	 hereditárias	 causadoras	 do	 delito;	 por	 outro,	 uma	 sociedade</p><p>muito	complexa,	na	qual	os	habitantes	nativos	se	encontravam	rodeados</p><p>de	estranhos,	com	os	quais	não	se	misturavam.</p><p>Esses	estranhos	eram,	em	primeiro</p><p>lugar,	os	afro-americanos	libertados</p><p>poucas	décadas	antes,	aos	quais	não	conseguiram	mandar	para	a	Libéria</p><p>nem	 fixar	 no	 México,	 mas	 que	 nem	 o	 próprio	 Lincoln	 considerava</p><p>estadunidenses.	A	eles	se	somavam	os	grupos	de	imigrantes	europeus	que</p><p>pretendiam	 obter	 avanços	 sociais	 e	 pregavam	 o	 socialismo	 e	 o</p><p>anarquismo;	e,	para	culminar,	pelo	sul,	os	mexicanos.</p><p>O	 ambiente	 intelectual	 estava	 dominado	 por	 livros	 de	 escandaloso</p><p>racismo	 nórdico,	 quase	 idêntico	 à	 novela	 nazista	 de	 Rosenberg.	 Um</p><p>pretenso	cientista,	chamado	Madison	Grant,	afirmava	ser	necessário	evitar</p><p>a	 reprodução	 dos	 criminosos,	 doentes	 e	 loucos,	 e	 esperar	 que	 eles</p><p>morressem,	e	 também	a	dos	 indivíduos	de	raças	 inferiores.	Seu	discípulo</p><p>Stoddard	advertia	sobre	o	perigo	do	avanço	da	gente	de	cor	no	mundo.	A</p><p>popularidade	 desses	 racistas	 e	 seus	 vínculos	 políticos	 com	 alguns</p><p>presidentes	decidiram	a	política	migratória	daqueles	anos,	que	rechaçava	a</p><p>vinda	 dos	 imigrantes	 de	 raças	 inferiores	 e	 privilegiava	 os	 nórdicos,</p><p>qualificados	por	Adolf	Hitler	como	a	única	raça	racional	em	Mein	Kampf.</p><p>Cabe	 recordar	 que	 as	 obras	 desses	 bons	 rapazes	 foram	 usadas	 em</p><p>Nurenberg	pelos	defensores	dos	genocidas	nazistas	para	tentar	provar	que</p><p>suas	condutas	respondiam	a	teorias	científicas	que	não	lhes	eram	próprias.</p><p>Ficava	 claro	 que	 o	 terreno	 estava	 preparado	 para	 deixar	 de	 lado	 os</p><p>escrúpulos	 do	 inglês	 Galton	 e	 passar	 de	 sua	 eugenia	 positiva	 a	 uma</p><p>negativa,	 imposta	 e	 radical.	 Para	 que	 esperar	 que	 as	 pessoas	 se</p><p>convencessem,	 se	 era	 possível	 fazê-lo	 antes?	 Além	 do	 mais,	 como</p><p>convencer	os	inferiores?	De	acordo	com	o	projeto	de	Grant,	a	humanidade</p><p>poderia	se	livrar,	em	um	século,	de	todos	os	inferiores.</p><p>A	 batuta	 desse	 movimento	 foi	 tomada	 por	 um	 veterinário,	 Charles</p><p>Davenport,	que	demonstrou	ser	um	coletor	de	 financiadores	muito	bom,</p><p>tendo	rapidamente	convencido	a	Fundação	Carnegie,	a	viúva	do	magnata</p><p>Harrison	e	a	Associação	de	Criadores	(de	animais,	claro).	Incorporou	à	sua</p><p>campanha	 pessoas	 famosas,	 como	 o	 Prêmio	 Nobel	 Alexis	 Carrel,	 sujeito</p><p>pouco	equilibrado	que	pretendia	que	o	governo	estivesse	a	cargo	da	Corte</p><p>Suprema	(toda	semelhança	com	a	Argentina	de	1943	é	mera	coincidência)</p><p>e	terminou	a	serviço	do	vergonhoso	regime	de	Vichy.</p><p>Davenport	 teve	 como	 assistente	 um	 personagem	 chamado	 Harry</p><p>Laughlin;	ambos	foram	piedosamente	ignorados	durante	a	guerra	por	seus</p><p>obscuros	 contatos	 com	 os	 médicos	 do	 nazismo	 e	 morreram	 antes	 do</p><p>término	 do	 conflito.	 Ao	 que	 parece,	 o	 intercâmbio	 de	 informações</p><p>científicas	 com	 os	 médicos	 malditos	 foi	 intenso	 e	 até	 se	 supõe	 que</p><p>proporcionaram	 apoio	 financeiro	 para	 os	 primeiros	 laboratórios	 de</p><p>eugenia	 alemães,	 inclusive	 o	 do	 mestre	 do	 tristemente	 famoso	 Josef</p><p>Mengele.	Davenport	disputou	a	presidência	da	Associação	Americana	de</p><p>Antropologia	nada	menos	do	que	com	Franz	Boas,	cuja	mão	se	negava	a</p><p>apertar	porque	era	judeu.</p><p>O	dano	que	causaram	foi	enorme,	embora	primeiro	Galton	e	depois</p><p>seu	 discípulo	 Pearson	 tenham	 denunciado	 sua	 campanha	 como</p><p>anticientífica	 e	 negado	 qualquer	 vínculo	 com	 esses	 delirantes	 (o	 que</p><p>demonstra	que	eles	eram	apenas	um	pouco	loucos).</p><p>Não	 se	 poderia	 afirmar	 hoje	 se	 o	 episódio	 de	 Davenport	 foi	 uma</p><p>grande	fraude,	uma	manobra	de	arrivistas	alucinados,	místicos	racistas	ou</p><p>uma	mistura	de	tudo	isso.</p><p>O	 certo	 é	 terem	 conseguido	 que,	 em	 1907,	 fosse	 sancionada	 em</p><p>Indiana	a	primeira	lei	de	esterilização	forçada,	copiada	na	maior	parte	dos</p><p>estados	 do	 país	 nos	 anos	 seguintes.	 Em	 função	 dessas	 leis,	 foram</p><p>esterilizados	 milhares	 e	 milhares	 de	 oligofrênicos,	 epilépticos,	 surdos-</p><p>mudos,	índios,	cegos,	delinquentes,	doentes	mentais	etc.</p><p>A	 Suprema	 Corte	 validou	 a	 constitucionalidade	 dessas	 leis	 de</p><p>esterilização	forçada	graças	ao	voto	do	juiz	Oliver	Holmes	Jr.,	que	já	não</p><p>era	 nenhum	 júnior	 e	 de	 quem	 se	 diz	 que	 foi	 um	 dos	 ministros	 mais</p><p>pensantes	da	história	dessa	Corte;	é	possível,	mas	cabe	se	perguntar	se	o</p><p>fazia	bem.</p><p>Os	 juízes	 não	 se	 conformaram	 com	 as	 leis	 de	 esterilização,	 mas,</p><p>seguindo	o	velho	Morel,	proibiram	os	casamentos	entre	afro-americanos	e</p><p>brancos	 em	 numerosas	 leis	 estaduais.	 Novamente,	 a	 brilhante	 Suprema</p><p>Corte	 legitimou	 essas	 leis	 com	 o	 argumento	 de	 que	 não	 eram</p><p>discriminatórias	 porque	 não	 proibiam	 o	 casamento,	 uma	 vez	 que	 o</p><p>autorizavam	 entre	 os	 afro-americanos,	 respondendo	 ao	 lema	 antes</p><p>assentado	 em	 sua	 jurisprudência	 de	 iguais	 mas	 separados,	 ou	 seja,	 o</p><p>apartheid.	 A	 inconstitucionalidade	 dessas	 leis	 foi	 declarada,	 sem	 muita</p><p>pressa,	 apenas	 em	 1957.	 Creio	 que	 com	 isso	 fica	 suficientemente</p><p>fundamentada	a	razão	dessas	explicações,	que	mostram	onde	foi	parar	e</p><p>que	horripilantes	 consequências	 teve	o	pretenso	progressismo	 positivista,</p><p>que	 extraía	 sua	 matriz	 de	 pensamento	 avançado	 de	 sua	 capacidade	 de</p><p>assustar	 os	 padres	 dos	 povoados,	 mas	 que	 não	 era	 mais	 do	 que	 um</p><p>pensamento	reacionário	e	potencialmente	genocida.</p><p>17.	A	criminologia	do	canto	da	Faculdade	de</p><p>Direito</p><p>Na	 Europa,	 os	 penalistas	 começaram	 a	 ficar	 nervosos.	 Isso	 porque</p><p>gostavam	cada	vez	menos	do	estilo	inquisitorial	da	criminologia,	que	lhes</p><p>dizia	 como	 deviam	 decidir,	 e	 resolveram	 recuperar	 seu	 território	 por</p><p>razões	 puramente	 acadêmicas,	 sem	 que	 isso	 implicasse	 necessariamente</p><p>consequências	 políticas.	 Não	 se	 queixavam	 do	 potencial	 genocida	 do</p><p>positivismo	 biologista,	 mas	 não	 suportavam	 estar	 subordinados	 aos</p><p>médicos.</p><p>Por	 conseguinte,	 foram	 isolando	 os	 criminólogos.	 Decidiram	 que	 o</p><p>delito	 era	 definido	 pelos	 penalistas	 e	 os	 criminólogos	 deviam	 ater-se	 a</p><p>explicar	 as	 causas	 das	 condutas	 que	 os	 penalistas	 previamente</p><p>identificavam	como	delitos.	Quer	dizer,	não	os	expulsaram	das	Faculdades</p><p>de	Direito,	deixando-os	com	seus	crânios	e	 frascos	de	 restos	em	 formol,</p><p>mas	em	um	canto.</p><p>Não	 vem	 ao	 caso	 explicar	 que	 argumentos	 usaram,	 embora	 já</p><p>tenhamos	 feito	alguma	referência	ao	mais	elaborado:	era	o	neokantismo,</p><p>que	distinguia	entre	ciências	naturais	e	culturais.	Como	o	direito	era	uma</p><p>ciência	cultural,	não	podia	contaminar-se	com	a	outra,	natural.</p><p>Havia	algumas	dificuldades,	como	a	de	a	criminalização,	que	era	uma</p><p>decisão	política,	fixar	os	limites	de	uma	ciência	natural,	mas	os	penalistas</p><p>resolveram	 rapidamente,	 afirmando	 que	 não	 existia	 nenhuma	 ciência</p><p>natural	 chamada	 criminologia,	 mas	 sim	 um	 conjunto	 de	 conhecimentos</p><p>auxiliares	 do	 direito	 penal	 que	 eram	 convocados	 quando	 este	 o</p><p>considerava	conveniente	e	nada	mais.	A	criminologia	positivista	biologista</p><p>passava	a	ser	uma	ordem	de	conhecimentos	servis	ao	direito	penal.</p><p>Com	a	Inquisição	e	o	positivismo,	a	criminologia	mandava	no	direito</p><p>penal;	 com	 o	 neokantismo,	 o	 direito	 penal	 subordinava	 a	 criminologia.</p><p>Porém,	a	criminologia	que	ficava	no	canto	continuava	sendo	exatamente	a</p><p>mesma	do	reducionismo	biologista	e	tão	racista	como	antes.	Tratava-se	de</p><p>uma	questão	de	prioridade	acadêmica,	na	qual	tudo	ficava	igual	quanto	ao</p><p>conteúdo.</p><p>Prova	 disso	 é	 que	 se	 registrou	um	vergonhoso	debate	 em	1941,	 em</p><p>plena	 guerra	 mundial,	 entre	 os	 professores	 de	 Munique	 e	 os	 de	 Milão,</p><p>para	 ver	 quem	 tinha	 o	 melhor	 discurso	 para	 legitimar	 as	 leis	 penais	 do</p><p>nazismo.	O	grupo	de	Milão	defendia	a	prioridade	do	discurso	ao	estilo	do</p><p>velho	Ferri	(que	havia	morrido	uns	anos	antes)	e	por	certo	impôs-se	ao	de</p><p>Munique,	que,	à	primeira	vista	soletrava	algumas	coisas	incompreensíveis.</p><p>Evidentemente,	nenhum	dos	dois	grupos	voltou	ao	tema	depois	da	guerra</p><p>e	continuaram	escrevendo	e	publicando,	e	sendo	citados	entre	nós,	com	a</p><p>maior	naturalidade,	mas	isso	é	um	outro	assunto.</p><p>Os	 criminólogos	 do	 canto	 continuaram	 postulando	 a	 esterilização,</p><p>investigando	os	 gêmeos	univitelinos	 e	propondo	medidas	de	 segregação</p><p>radicais,	 como	 Franz	 Exner,	 que,	 juntamente	 com</p><p>o	 penalista	 do</p><p>neokantismo	mais	citado	entre	nós	(Edmund	Mezger)	elaborou	um	projeto</p><p>para	 mandar	 todos	 os	 de	 vida	 ruim	 (ele	 os	 chamava	 de	 estranhos	 à</p><p>comunidade)	aos	campos	de	concentração,	em	1944.	Exner	havia	estado</p><p>nos	 Estados	 Unidos	 na	 década	 anterior	 e	 voltou	 à	 Alemanha	 muito</p><p>contente	com	seus	colegas	 racistas	estadunidenses.	Em	seu	 livro,	que	 foi</p><p>leitura	 recomendada	 em	 nossas	 cátedras	 durante	 anos,	 dizia-se	 que	 o</p><p>grande	número	de	afro-americanos	nas	prisões	era	resultado	do	fato	de	a</p><p>sociedade	 estadunidense	 lhes	 exigir	 um	 esforço	 que	 suas	 condições</p><p>biológicas	não	 tinham	condições	de	suportar.	Essa	criminologia	do	canto</p><p>da	 Faculdade	 de	 Direito	 enriqueceu	 seu	 biologismo	 com	 as	 novidades</p><p>médicas,	 fundamentalmente	 com	 o	 descobrimento	 das	 glândulas	 de</p><p>secreção	 interna,	 ou	 seja,	 com	 a	 endocrinologia,	 o	 que	 motivou	 novos</p><p>entretenimentos,	em	particular	na	área	da	conduta	sexual,	onde	quiseram</p><p>curar	todas	as	desvios	com	injeções,	ocasião	em	que	explicavam	o	avanço</p><p>da	civilização	por	uma	suposta	contenção	da	hiperfunção	da	hipófise.</p><p>O	que	mais	 impactou	a	criminologia	do	cano	 foram	as	classificações</p><p>segundo	 os	 biotipos,	 ou	 seja,	 voltou-se	 a	 correlacionar	 as	 características</p><p>físicas	com	as	psicológicas,	ao	estilo	dos	fisiognomistas.	Algum	autor	mais</p><p>moderno	 diz	 que	 era	 uma	 nova	 frenologia,	 só	 que	 Gall	 deduzia	 as</p><p>características	 psicológicas	 dos	 volumes	 no	 crânio	 e	 agora	 pretendiam</p><p>fazê-lo	 a	 partir	 dos	 glúteos,	 embora	 não	 necessitassem	 recorrer	 à</p><p>apalpação.</p><p>Houve	várias	classificações	biotipológicas,	porém	a	mais	difundida	foi</p><p>a	 alemã	 de	 Ernst	 Kretschmer,	 que	 em	 seu	 livro	 (sob	 o	 impressionante</p><p>título	 de	 Körperbau	 und	 Charakter)	 estabelecia	 cinco	 biotipos:</p><p>leptossômico,	atlético,	pícnico,	displásico	e	misto.	Em	qualquer	esquina	de</p><p>Buenos	Aires	se	conhecem	com	outros	nomes:	magro,	sarado,	gordo,	urso</p><p>e	yeti.</p><p>As	 profundas	 consequências	 criminológicas	 indicam	 que	 os	 magros</p><p>costumam	 ser	 ladrões;	 os	 atléticos,	 homicidas;	 e	 os	 gordos,	 farsantes;	 os</p><p>outros	 dois	 não	 se	 sabe	 bem.	 Creio	 que	 ninguém	 imagina	 um	 obeso</p><p>ousado,	escorregando	por	uma	janela	estreita.</p><p>A	endocrinologia,	além	disso,	conferia	nova	base	ao	próprio	racismo,</p><p>constatando	 que	 os	 nórdicos	 são	 magros	 e,	 portanto,	 pensadores,</p><p>enquanto	que	os	alpinos	são	gordinhos	ciclotímicos	e,	portanto,	artistas.</p><p>Nesse	período	do	pré-guerra	houve	uma	variante	no	 interior	da	 tese</p><p>biologista	 que	 é	 necessário	 destacar	 por	 causa	 de	 suas	 consequências</p><p>diferentes.	Por	um	lado,	havia	a	posição	genética,	assumida	pelo	nazismo,</p><p>que,	como	não	dava	outra	solução	senão	impedir	a	reprodução,	deduzia	a</p><p>necessidade	de	matar	todos	os	inferiores,	incluindo	as	crianças.	Por	outro,</p><p>estava	a	tese	da	transmissão	dos	caracteres	adquiridos	do	velho	Lamarck,</p><p>cuja	 consequência	 era	 que	 as	 crianças	 deviam	 ser	 colocadas	 sob	 os</p><p>cuidados	 das	 famílias	 saudáveis.	 Esta	 última	 foi	 a	 que	 predominou	 na</p><p>ditadura	 franquista,	 comandada	 por	 Antonio	 Vallejo	 Nágera,	 dono	 da</p><p>psiquiatria	 oficial	 espanhola	 e	 chefe	 dos	 campos	 de	 concentração</p><p>nacionais.	 Esta	última	variável	 foi	 a	que	 se	 aplicou	 às	 crianças	 retiradas</p><p>das	hostes	republicanas	e	inspirou	os	criminosos	contra	a	humanidade	em</p><p>nosso	país.</p><p>Não	 deixa	 de	 ser	 curioso	 que	 o	 lamarckismo	 tenha	 sido	 ideologia</p><p>oficial	da	biologia	na	URSS,	com	a	escola	de	Lyssenko.</p><p>18.	A	agonia	da	criminologia	do	canto</p><p>Essa	 criminologia	 do	 canto	 entrou	 em	 crise	 depois	 da	 guerra.	 O</p><p>primeiro	Congresso	Mundial	de	Criminologia	no	pós-guerra	foi	celebrado</p><p>em	 Paris,	 em	 1950,	 sob	 a	 presidência	 de	 Donnedieu	 de	 Vabres,	 juiz</p><p>francês	em	Nurenberg.</p><p>Nesse	congresso,	como	num	passe	de	mágica,	o	racismo	desapareceu,</p><p>porque,	 salvo	 algum	 desavisado,	 que	 nunca	 falta,	 ninguém	 queria	 arcar</p><p>com	suas	letais	consequências	depois	da	guerra.</p><p>Embora	desde	muito	antes	ninguém	sustentasse	a	tese	lombrosiana	do</p><p>criminoso	nato,	até	o	final	da	guerra	a	criminologia	do	canto	conservava</p><p>pela	biologia	um	interesse	destacado,	seja	pelo	tema	debilidades,	seja	pelo</p><p>tema	taras,	pelo	tema	conformação	etc.	Porém,	a	partir	do	pós-guerra,	ao</p><p>rechaçar	 o	 racismo	 e	 o	 reducionismo	 biologista,	 a	 criminologia,	 embora</p><p>continuasse	 sendo	 etiológica,	 deixava	 de	 considerar	 o	 delinquente	 uma</p><p>variável	do	ser	humano	e,	por	conseguinte,	perdia	seu	objeto	diferenciado</p><p>e	natural,	seu	bicho	diferente.</p><p>Esta	 criminologia	 etiológica	do	 canto	 se	 foi	 esvanecendo	e	 terminou</p><p>por	 derreter-se	 nas	 contradições	 de	 sua	 plurifatorialidade.	 Seu	 objeto</p><p>perdia	 progressivamente	 os	 contornos,	 anunciando	 seu	 ocaso	 inevitável,</p><p>porque	 ficava	evidente	que	seus	cultores	careciam	dos	elementos	para	a</p><p>análise	do	exercício	do	poder	punitivo	e	do	dado	óbvio	da	seletividade.</p><p>Não	 é	 justo,	 porém,	 considerar	 todos	 eles	 como	 racistas	 ou	 biologistas</p><p>furiosos	e,	menos	ainda,	que	todos	compartilhassem	dos	disparates	a	que</p><p>fizemos	referência.</p><p>Assim	como,	no	que	concerne	à	Inquisição,	advertimos	que	no	século</p><p>XVI	 nem	 todos	 estavam	 tão	 loucos,	 cabe	 aqui	 dizer	 mais	 ou	 menos	 a</p><p>mesma	 coisa.	 Em	 todos	 os	 tempos	 houve	 algumas	 pessoas	 bastante</p><p>lúcidas,	cujo	discurso	não	foi	hegemônico,	muito	menos	no	momento	em</p><p>que	 surgiu	 e,	 ademais,	 lhes	 era	 muito	 difícil	 escapar	 ao	 paradigma</p><p>dominante,	ainda	que	alguns	enfrentassem	a	marginalização	acadêmica.</p><p>Desde	 o	 final	 do	 século	 XIX,	 algumas	 vozes	 prudentes	 se	 fizeram</p><p>ouvir,	 como	 a	 da	 criminóloga	 feminista	 espanhola	 Concepción	 Arenal.</p><p>Contemporâneos	 de	 Lombroso,	 autores	 como	 Turatti	 e	 Vaccaro</p><p>rechaçavam	 o	 biologismo.	 Alfredo	 Niceforo,	 não	 obstante	 ser	 um</p><p>etiologista,	 deu-se	 conta	 perfeitamente	 de	 que	 os	 pretensos	 signos</p><p>biológicos	 eram	 os	 da	 miséria.	 O	 holandês	 Willen	 Bonger	 escreveu	 o</p><p>primeiro	 ensaio	 de	 criminologia	 marxista	 em	 princípios	 do	 século	 XX	 e</p><p>seguiu	essa	linha	até	que	se	suicidou,	no	dia	em	que	os	nazistas	ocuparam</p><p>a	Holanda.</p><p>Se	bem	que	nossa	 tradição	criminológica	 latino-americana	 tenha	sido</p><p>tributária	dessa	criminologia	do	canto,	entre	nossos	criminólogos	de	pós-</p><p>guerra	 houve	 pessoas	 que	 nada	 tiveram	 a	 ver	 com	 as	 ideias	 racistas,	 e</p><p>alguns	foram	mesmo	seguidores	distantes	de	Bonger.</p><p>É	óbvio	que	nossos	criminólogos	de	meados	do	século	passado	–	ao</p><p>prescindir	 da	 análise	 do	 poder	 punitivo	 e	 das	 características	 do	 sistema</p><p>penal,	 mantendo-se	 no	 marco	 de	 uma	 etiologia	 criminal	 que	 se</p><p>alimentavam	na	plurifatorialidade	–	caíam	em	contradições	no	marco	de</p><p>uma	disciplina	que	se	ia	derretendo.	Essas	limitações,	porém,	não	podem</p><p>ser	confundidas	com	o	aberto	racismo	do	pré-guerra	europeu.</p><p>Por	isso,	importa	distinguir	cuidadosamente,	a	partir	do	político,	entre</p><p>os	 cultores	 de	 uma	 criminologia	 de	 pós-guerra	 que	 agonizava	 e	 os</p><p>reducionistas	 biológicos	 que	 os	 precederam,	 e	 não	 colocar	 todos	 no</p><p>mesmo	saco.</p><p>O	colombiano	Luis	Carlos	Pérez	dedicou	todo	um	capítulo	de	sua	obra</p><p>geral	de	criminologia	dos	anos	50	do	século	passado	a	uma	forte	crítica	do</p><p>racismo.	 O	 brasileiro	 Roberto	 Lyra	 Filho	 foi	 um	 dos	 criminólogos	 mais</p><p>avançados	na	 linha	de	Bonger.	O	mexicano	Alfonso	Quiroz	Cuarón,	um</p><p>patriarca	 da	 criminologia	 regional,	 interveio	 em	questões	 tão	 conhecidas</p><p>como	 o	 estudo	 do	 assassino	 de	 Trotsky	 e	 dos	 restos	 do	 imperador</p><p>Cuauhtémoc;	 seus	 artigos	 jornalísticos	 eram	 marcadamente	 críticos	 do</p><p>sistema	 penal	 de	 seu	 país.	 Na	 Argentina,	 Oscar	 Blarduni	 (advogado	 e</p><p>médico)	 foi	 o	 artífice	 do	 Instituto	 de	 Investigação	 e	 Docência</p><p>Criminológica	do	Prata	e	um	crítico	do	reducionismo	biologista.</p><p>Todos	 esses	 nossos	 autores	 do	 pós-guerra	 cultivavam	 uma</p><p>criminologia	 que	 se	 encontrava	 em	 um	 corredor	 sem	 saída	 e	 tampouco</p><p>tinham	 o	 treinamento	 sociológico	 prévio	 para	 vislumbrar</p><p>metodologicamente	outros	horizontes.	Contudo,	vista</p><p>a	sua	marca	política,</p><p>não	podem	ser	considerados	no	mesmo	nível	dos	reducionistas	aos	quais</p><p>me	referi	antes.</p><p>Coube	 a	 eles,	 como	 a	 todos,	 viver	 uma	 época	 com	 seus</p><p>condicionamentos	 limitadores	 de	 nossa	 visão	 científica,	 e	 sem	 dúvida,</p><p>foram	produzidas	contradições	irredutíveis,	entre	suas	atitudes	políticas	e	o</p><p>agonizante	 marco	 etiológico.	 Porém,	 se	 essas	 contradições	 não	 tivessem</p><p>acontecido,	 teria	 sido	 impossível	 pasar	 a	 outra	 etapa	 superadora,	 como</p><p>sempre	acontece.	Suponho	que	hoje	também	incorremos	em	contradições.</p><p>A	 agonia	 da	 criminologia	 do	 canto	 da	 Faculdade	 de	 Direito	 estava</p><p>indicando	 que	 a	 hegemonia	 do	 discurso	 criminológico	 logo	 deixaria	 de</p><p>estar	 nas	 mãos	 de	 médicos	 e	 de	 advogados	 formados	 por	 estes,	 para</p><p>passar	 a	 outra	 corporação	 de	 especialistas	 que,	 em	 outras	 latitudes,	 já</p><p>vinha,	há	muito	 tempo,	 trabalhando	a	questão	criminal.	Começava	a	era</p><p>dos	 sociólogos,	que	nos	Estados	Unidos,	algumas	décadas	antes,	haviam</p><p>começado	 a	discutir	 e	 investigar	 as	 coisas	 de	uma	perspectiva	diferente.</p><p>Eles	anunciaram	a	direção	que	haveria	de	conduzir	às	colocações	atuais.</p><p>Ilustração	12</p><p>19.	O	parto	sociológico</p><p>A	 velha	 criminologia	 etiológica	 de	 médicos	 e	 advogados	 se</p><p>enlanguescia	nos	cantos	de	nossas	faculdades	de	direito,	pese	a	boa	fé	de</p><p>muitos	 de	 seus	 expositores,	 que	 não	 conseguiam	 se	 aproximar	 do</p><p>fenômeno	da	perspectiva	do	grupo	humano	e	menos	ainda	do	poder.	De</p><p>vez	 em	quando	 lhe	 esparziam	 sua	 vasilha	 com	um	pouco	de	 sal	 social,</p><p>com	afirmações	um	tanto	socialistas	(quando	se	abre	uma	escola,	se	fecha</p><p>uma	 prisão,	 e	 outras	 semelhantes),	 mas	 ignoravam	 os	 criminosos	 que</p><p>nunca	 passariam	 por	 uma	 prisão	 e	 haviam	 frequentado	 as	 melhores</p><p>escolas.	Para	eles,	a	delinquência	 continuava	 sendo	aquela	que	viam	na</p><p>prisão	 ou	 na	 crônica	 policial,	 embora,	 de	 vez	 em	 quando,	 não</p><p>percebessem	a	contradição	em	que	caíam.</p><p>Ainda	que	a	questão	criminal	tenha	sido	sempre	um	tema	central	para</p><p>aqueles	 que	 exerceram	 ou	 disputaram	 o	 poder,	 ela	 não	 podia	 ser</p><p>explicada	 por	 uma	 criminologia	 de	 médicos	 e	 advogados.	 Por	 sorte,</p><p>porém,	há	saberes	que	se	ocupam	do	comportamento	humano	e	excedem</p><p>bastante	 o	 limitado	 campo	 desses	 especialistas,	 de	 modo	 que	 outros</p><p>avançavam	por	um	caminho	diferente,	observando	os	fenômenos	a	partir</p><p>do	 plano	 social.	 Nunca	 faltaram	 aqueles	 que	 o	 fizeram	 desse	 ponto	 de</p><p>vista	diverso,	mas	foi	precisamente	a	partir	da	análise	da	questão	criminal</p><p>que	 uma	 nova	 ciência	 foi	 ganhando	 forma	 e	 terminou	 obtendo	 patente</p><p>acadêmica:	a	sociologia.</p><p>Tudo	começou	entre	1830	e	1850,	quando	dois	personagens	–	o	belga</p><p>Adolph	Quetelet	e	o	francês	André-Michel	Guerry	–	chamaram	a	atenção</p><p>para	as	regularidades	na	frequência	dos	homicídios	e	dos	suicídios.</p><p>Quetelet	 vivia	 de	 fazer	 cálculos	 atuariais	 para	 as	 companhías	 de</p><p>seguros,	mas	inventava	toda	espécie	de	coisas	e,	entre	elas,	foi	o	fundador</p><p>do	observatório	astronômico	de	Bruxelas,	o	que	não	deixa	de	ser	original,</p><p>porque	a	capital	belga	tem	o	céu	nublado	na	maior	parte	do	ano.</p><p>Guerry	 era	 um	 advogado	 que	 se	 enamorou	 das	 estatísticas	 e</p><p>denominou	 essas	 regularidades	 de	 estatística	 moral,	 enquanto	 Quetelet</p><p>buscava	um	nome	para	sua	ciência.	Quando	se	quer	obter	hierarquia	de</p><p>ciência	para	algum	saber	existe	a	tendência	de	aproximá-lo	da	física	(isso</p><p>hoje	 se	 chama	 fisicalismo)	 e	 como	 Quetelet	 não	 era	 alheio	 a	 essa</p><p>tendência,	não	teve	melhor	ideia	senão	chamar	a	sua	de	física	social.</p><p>Ele,	porém,	não	era	o	único	que	queria	fundar	uma	física	social,	pois,</p><p>na	 França,	 Augusto	 Comte	 andava	 no	 mesmo	 caminho	 e	 se	 aborreceu</p><p>muito	 com	 Quetelet,	 afirmando	 que	 ele	 tinha	 roubado	 o	 nome	 da	 sua</p><p>ciência,	e	por	isso	decidiu	rebatizá-la	de	sociologia.	Graças	ao	plágio,	nós</p><p>escapamos	de	estar	rodeados	hoje	de	físicos	sociais.</p><p>Na	 verdade,	 Comte	 foi	 surprendido	 pelo	 surgimento	 do	 belga,	 mas</p><p>suas	 ideias	 são	 produto	 de	 outra	 história.	 A	 empresa	 de	 Comte	 foi</p><p>precedida	e	impulsionada	pelos	reacionários	(Louis	de	Bonald,	Joseph	de</p><p>Maistre,	 Edmund	 Burke),	 que	 consideravam	 a	 Revolução	 Francesa	 um</p><p>episódio	criminoso	e	antinatural	que	ia	contra	a	história	e	que,	depois	da</p><p>derrota	do	desobediente	Napoleão	e	da	Santa	Aliança	(aliança	de	cabeças</p><p>coroadas	 para	 manterem-se	 presas	 ao	 corpo),	 voltaram	 à	 carga,</p><p>reafirmando	que	a	 sociedade	 é	um	organismo	e	 jamai	 ss	 pode	admitir	 o</p><p>disparate	do	contrato.	Se	a	sociedade	é	um	organismo,	supõe-se	que	deve</p><p>existir	uma	ciência	que	estude	suas	leis	naturais.</p><p>Mas	 os	 reacionários	 eram	 nostálgicos	 da	 Idade	 Média	 e	 apelavam	 a</p><p>argumentos	 do	 direito	 divino,	 que	 já	 tinha	 passado	 de	 moda,	 em	 um</p><p>momento	 em	 que	 a	 ciência	 despontava	 como	 única	 garantia	 do	 saber.</p><p>Ademais,	 os	 críticos	 da	 ordem	 social,	 os	 chamados	 socialistas	 utópicos,</p><p>com	 os	 quais	 os	 reacionários	 se	 confrontavam,	 eram	 tão	 organicistas</p><p>quanto	eles,	ou	mais.	Nessas	condições,	era	óbvio	que	haveria	de	ocorrer</p><p>a	alguém	a	ideia	de	responder-lhes	da	mesma	perspectiva	conservadora	e</p><p>organicista,	mas	conforme	o	sinal	dos	tempos,	isto	é,	com	uma	ciência	da</p><p>sociedade.</p><p>Foi	 isso	 que	 Comte	 fez.	 O	 grande	 mérito	 de	 Comte	 foi	 ter	 dado</p><p>impulso	 a	 uma	 ciência	 da	 sociedade	 livre	 do	 lastro	 religioso,	 mas,	 do</p><p>ponto	 de	 vista	 ideológico,	 ele	 teria	 podido	 tomar	 uns	 tragos	 com	 os</p><p>reacionários	sem	muitos	problemas	práticos.</p><p>Como	ninguém	pode	comprovar	que	a	sociedade	seja	um	organismo,</p><p>a	 volumosa	 obra	 de	 Comte,	 publicada	 em	 meados	 do	 século	 XIX,</p><p>pressupunha	um	dogma	gratuito.	Embora	pareça	mentira,	fundou-se	uma</p><p>ciência	sobre	uma	premissa	anticientífica	ou	não	verificável.</p><p>Conforme	 esse	 dogma,	 o	 organismo	 social	 tinha	 suas	 leis;	 por</p><p>conseguinte,	devia	ser	governado	por	quem	as	conhecesse,	ou	seja,	pelos</p><p>sociólogos.	Por	 isso,	 iam	além	de	Platão,	postulando	algo	parecido	a	um</p><p>sociólogo-rei	 (um	 tecnocrata	 social).	 Isso	 era	 explicado	 pela	 lei	 dos	 três</p><p>estados	pelos	quais	a	humanidade	teria	passado:	o	teológico	(primitivo),	o</p><p>metafísico	 (os	 iluministas)	 e,	 finalmente,	 o	 científico	 (adivinhem	 com</p><p>quem:	 com	 Comte).	 Havia	 mais	 alguém	 com	 vontade	 de	 sentar-se	 na</p><p>ponta	da	flecha	do	tempo.</p><p>Ademais,	por	humanidade	 se	entendia	a	raça	branca	(à	qual	Comte</p><p>pertencia),	 mas	 nem	 todas	 as	 pessoas	 dessa	 raça,	 e	 sim	 somente	 os</p><p>homens	(Comte	também	era	homem),	porque	as	mulheres	tinham	que	ser</p><p>mantidas	em	estado	de	perpétua	infância,	para	sustentar	a	célula	básica	da</p><p>sociedade:	a	família.</p><p>Dada	a	importância	das	hierarquias	para	sustentar	a	ordem	social,	ele</p><p>olhava	com	simpatia	a	 sociedade	de	castas	da	 Índia.	Como	se	 isso	 fosse</p><p>pouco,	ele	nem	sequer	renunciava	a	um	componente	místico	e	 inventou</p><p>uma	 nova	 religião,	 com	 toda	 sua	 liturgia,	 em	 que	 o	 Grande	 Ser	 era	 a</p><p>humanidade	 e	 integrava	 uma	 trindade	 com	 O	 Grande	 Meio	 (espaço	 do</p><p>mundo)	e	O	Grande	Fetiche	(a	terra).</p><p>Curiosamente,	as	ideias	de	Comte	vingaram	no	Brasil	e,	após	a	queda</p><p>do	 Império,	os	militares	 fundadores	da	República	 as	 levaram	 tão	a	 sério</p><p>que	 incorporaram	 à	 insígnia	 nacional	 o	 lema	 Ordem	 e	 progresso.	 Mas	 a</p><p>coisa	 não	 parou	 aí.	 Houve	 até	 mesmo	 um	 templo	 comtiano	 no	 Rio	 de</p><p>Janeiro,	o	que	prova	que	não	é	nova	a	generosidade	de	nosso	continente</p><p>na	importação	de	disparates.</p><p>É	mais	do	que	sabido	que	Comte	não	gozava	de	saúde	mental	muito</p><p>boa	e	que,	ao	compasso	de	suas	desilusões	amorosas,	tentara	suicidar-se,</p><p>lançando-se	 ao	 Sena.	 É	 óbvio	 que	 se	 houvesse	 vivido	 perto	 do</p><p>Riachuelo[6]	 não	 teria	 inventado	 a	 sociologia.	 Como	 regra	 geral,	 as</p><p>histórias	 da	 sociologia	 assinalam	 como	 fundadores	Comte	 e	 Spencer,	 de</p><p>quem	já	nos	ocupamos	e	vimos	que,	do	outro	lado	do	canal	da	Mancha,</p><p>compartilhava	a	concepção	organicista	e	também	se	acomodava	na	ponta</p><p>da	flecha	civilizatória.</p><p>20.	Os	verdadeiros	pais	fundadores</p><p>dialetos	 acadêmicos,</p><p>porque	 tampouco	 há	 um	 único	 dialeto	 na	 questão	 criminal.	 Não	 só	 há</p><p>vários	 dialetos	 acadêmicos,	 como	 também	 não	 costumam	 entender-se</p><p>entre	si	e,	mais	do	que	isso,	não	é	raro	que	se	detestem	reciprocamente,</p><p>embora	às	vezes	não	o	façam	em	voz	alta.	De	toda	forma,	as	imputações</p><p>recíprocas	 são	 os	 temas	 preferidos	 dos	 congressos	 e	 seminários,	 os</p><p>matizam	e	lhes	dão	sabor.</p><p>Mais	ainda:	quando	alguém	passa	de	um	para	outro	grupo	e	consegue</p><p>dominar	 o	 outro	 dialeto,	 é	 considerado	 um	 traidor	 ou	 um	 perdido,	 que</p><p>deixou	de	ser	cientista.</p><p>Às	vezes	a	agressividade	alcança	níveis	 cômicos,	mas	que	podem	se</p><p>tornar	dramáticos,	como	quando	nos	anos	setenta	do	–	por	sorte	–	século</p><p>passado,	 segundo	 a	 posição	 do	 dolo	 na	 teoria	 do	 delito,	 que	 então</p><p>pretendia	descobrir	subversivos.	Vocês	sabem	qual	é	a	posição	do	dolo	no</p><p>delito?	Podem	ficar	tranquilos,	viver	os	anos	de	Matusalém	sem	sabê-lo	e</p><p>sem	 que	 sua	 existência	 se	 altere	 minimamente,	 mas	 o	 certo	 é	 que	 há</p><p>quatro	décadas	a	coisa	podia	terminar	muito	mal.</p><p>Longe	 de	 constituir	 uma	 crítica	 negativa,	 esta	 é	 a	 pura	 descrição	 da</p><p>realidade	do	mundo	acadêmico	por	dentro	e,	da	minha	parte,	creio	que	é</p><p>um	 dado	 positivo,	 apesar	 de	 seus	 inconvenientes,	 porque	 demonstra	 o</p><p>quanto	 o	 debate	 é	 vivo,	 a	 paixão	 que	 se	 coloca,	 a	 intensidade	 das</p><p>discussões.</p><p>Tampouco	 se	 trata	de	uma	característica	contemporânea,	nada	disso:</p><p>foi	sempre	assim.	A	história,	a	tradição	oral,	os	relatos	divertidos	dos	mais</p><p>velhos	e	o	que	vivemos	diretamente	nos	confirmam.	Quem	participa	desse</p><p>mundo	 não	 se	 aborrece,	 posso	 lhes	 assegurar	 que	 permite	 conhecer</p><p>personalidades	 notáveis,	 gente	 com	 uma	 capacidade	 de	 trabalho	 e	 uma</p><p>sensibilidade	e	 inteligência	 tais	que,	 se	 se	dedicassem	a	algo	com	maior</p><p>rating,	teriam	se	sobressaído	em	qualquer	âmbito.</p><p>Mas	não	 se	 alarmem.	Meu	propósito	 é	 traduzir	 esses	dialetos	 a	uma</p><p>linguagem	compreensível	para	os	mortais.	Espero	ter	êxito	e	que	não	me</p><p>aconteça	 o	 que	 acontece	 a	 alguns	 tradutores,	 que	 terminam	 escrevendo</p><p>espanhol	com	a	estrutura	da	língua	original.</p><p>Devo	confessar	que	me	sinto	muito	mais	 seguro	por	 ter	o	cartunista</p><p>Rep	 a	 meu	 lado.	 Dentro	 de	 pouco	 lhes	 explicarei	 a	 função	 da	 arte	 na</p><p>criação	 de	 estereótipos,	 e	 creio	 que	 é	 necessário	 combater	 no	 mesmo</p><p>campo	para	desfazer	essa	construção.	Por	outra	parte,	estou	seguro	de	que</p><p>os	desenhos	de	Rep	perdurarão	muito	mais	do	que	aquilo	que	eu	digo.</p><p>Quando	 há	 pouco	 li	 que	 Ferro	 havia	 falecido,[2]	 voltaram	 à	 minha</p><p>memória	Langostino,	Bólido,	o	 fantasma	Benito,	Tara	Service,	o	Livro	de</p><p>Ouro	 de	 Patoruzú.	 Eles	 estão	 vivos	 em	 mim	 desde	 a	 infância,	 mas	 faz</p><p>tempo	que	os	que	escreviam	sobre	a	questão	criminal	naqueles	anos	são</p><p>só	história.</p><p>2.	Quem	sabe	disso?</p><p>Voltando,	 porém,	 ao	 programa	 das	 três	 palavras	 (da	 academia,	 dos</p><p>meios	 de	 comunicação	 e	 dos	 mortos),	 se	 queremos	 começar	 pelas	 da</p><p>academia,	a	primeira	coisa	que	devemos	saber	é	a	quem	perguntar.	Quem</p><p>se	 ocupa	 academicamente	 da	 questão	 criminal?	 O	 primeiro	 movimento</p><p>será	olhar	para	a	Faculdade	de	Direito.	Ali	estão	e	dali	são	os	penalistas.</p><p>Sabem	direito	penal.	Sem	dúvida	que	é	algo	que	tem	a	ver	com	a	questão</p><p>criminal.	Mas	até	que	ponto?</p><p>A	ideia	de	que	o	penalista	é	o	mais	autorizado	para	proporcionar	os</p><p>conhecimentos	 científicos	 acerca	 da	 questão	 criminal	 é	 uma	 opinião</p><p>popular,	mas	não	científica.	Nem	de	longe	basta	saber	direito	penal	para</p><p>poder	opinar	com	fundamento	científico	acerca	da	questão	criminal,	ainda</p><p>que,	 se	 o	 conhece	 bem,	 pode	 fazer	 muito	 para	 resolver	 numerosos</p><p>aspectos	fundamentais	na	prática,	mas	isso	é	outra	coisa.</p><p>É	necessário	distinguir	dois	âmbitos	do	conhecimento	que	são	muito</p><p>diferentes,	 embora	 costumem	 ser	 confundidos:	 o	 do	 penalista	 e	 o	 do</p><p>criminólogo,	ou	seja,	o	direito	penal,	por	um	lado,	e	a	criminologia,	por</p><p>outro.</p><p>Esclareço	 desde	 já	 que	 não	 se	 dão	 nada	 bem,	 mas	 não	 se	 podem</p><p>separar,	 e	 ainda	 que	 declarem	 estar	 divorciados,	 são	 como	 esses	 casais</p><p>que	 se	 excitam	 discutindo	 e	 terminam	 como	 todos	 nós	 sabemos.	 Nos</p><p>casais	 é	 patológico,	 claro,	 mas	 no	 que	 concerne	 ao	 direito	 penal	 e	 à</p><p>criminologia	talvez	seja	um	pouco	menos.</p><p>O	que	fazem	os	penalistas?	Antes	de	tudo	são	 juristas,	advogados.	O</p><p>direito	 se	 divide	 em	 ramos:	 civil,	 comercial,	 trabalhista,	 administrativo,</p><p>constitucional	 etc.,	 e	 cada	 dia	 se	 especializa	 mais	 e	 mais.	 Hoje	 não	 há</p><p>quem	 lide	 com	 todo	 o	 direito	 em	 profundidade,	 como	 não	 há	 médico</p><p>algum	que	domine	 todas	as	especialidades.	O	direito	penal	é	um	desses</p><p>ramos,	que	se	ocupa	de	trabalhar	a	 legislação	penal,	para	projetar	o	que</p><p>chamamos	de	doutrina	jurídico-penal,	isto	é,	para	projetar	a	forma	em	que</p><p>os	 tribunais	 devem	 resolver	 os	 casos	 de	 maneira	 ordenada,	 não</p><p>contraditória.</p><p>De	maneira	mais	sintética,	eu	diria	que	a	ciência	do	direito	penal	que</p><p>se	 ensina	 nas	 cátedras	 universitárias	 de	 todo	 o	 mundo	 se	 ocupa	 de</p><p>interpretar	 as	 leis	 penais	 de	 modo	 harmônico	 para	 facilitar	 a	 tarefa	 dos</p><p>juízes,	 promotores	 e	 defensores.	 Seu	 trabalho	 consiste	 basicamente	 na</p><p>interpretação	de	textos	com	um	método	bastante	complexo,	que	se	chama</p><p>dogmática	 jurídica,	 porque	 cada	 elemento	 em	 que	 a	 lei	 é	 decomposta</p><p>deve	 ser	 respeitado	 como	 um	 dogma,	 visto	 que,	 do	 contrário,	 não</p><p>interpretariam	a	lei,	mas	sim	a	criariam	ou	a	modificariam.</p><p>A	 tarefa	 do	 penalista	 é	 fundamental	 para	 que	 os	 tribunais	 não</p><p>resolvam	arbitrariamente	o	que	lhes	for	conveniente,	e	sim	conforme	uma</p><p>ordem	mais	ou	menos	racional,	ou	seja,	republicana	e	algo	previsível.	Não</p><p>vou	discutir	agora	se	a	dogmática	 jurídica	do	penalista	consegue	ou	não</p><p>esses	objetivos.	Tampouco	vem	ao	caso	nem	interessam	muito	a	vocês	os</p><p>detalhes	dessas	construções.</p><p>A	 fonte	 principal	 da	 ciência	 jurídico-penal	 de	 hoje,	 isto	 é,	 da</p><p>dogmática	 jurídica	 aplicada	 à	 lei	 penal,	 é	 a	 doutrina	 dos	 penalistas</p><p>alemães.	 Os	 ingleses	 têm	 sua	 própria	 construção,	 que	 pouco	 influi	 na</p><p>nossa.	Os	 franceses	 fizeram	muito	pouca	dogmática	 jurídica,	estão	muito</p><p>próximos	da	velha	interpretação	literal	da	lei	(o	que	se	chamava	exegese).</p><p>Os	 italianos	 estão	 bastante	 próximos	 aos	 alemães,	 ainda	 que	 com	 uma</p><p>tradição	 penal	 muito	 sólida	 e	 antiga.	 Os	 suíços	 e	 austríacos	 seguem</p><p>diretamente	 as	 escolas	 alemãs.	 Os	 espanhóis	 também	 o	 seguem,	 sem</p><p>dúvida	 alguma,	 quase	mais	 do	que	nós.	Há	muitos	 anos	 que	 as	 escolas</p><p>alemãs	 são	 acompanhadas	 de	 perto	 em	 toda	 a	 América	 Latina.	 O</p><p>penalismo	estadunidense	é	mais	ou	menos	compreensível,	na	medida	em</p><p>que	 segue	 o	 modelo	 inglês,	 mas	 quando	 se	 afasta	 deste	 é	 bastante</p><p>limitado.</p><p>Conforme	 os	 princípios	 da	 ciência	 jurídica	 alemã,	 os	 penalistas</p><p>constroem	 um	 conceito	 jurídico	 do	 delito	 que	 se	 chama	 teoria	 geral	 do</p><p>delito.	As	discussões	sobre	essa	teoria	são	praticamente	intermináveis,	mas</p><p>se	 trata,	 em	 geral,	 de	 uma	 ordem	 prioritária	 conceitual	 para	 estabelecer</p><p>frente	a	uma	conduta	se	ela	é	ou	não	delitiva	com	vistas	a	uma	sentença.</p><p>Para	 isso,	 diz-se	 que	 o	 delito	 é	 uma	 conduta	 típica,	 antijurídica	 e</p><p>culpável.	Ou	seja,	antes	de	tudo	deve	ser	uma	ação	humana,	isto	é,	dotada</p><p>de	vontade.	Em	segundo	lugar,	deve	estar	proibida	pela	lei,	ou	seja,	cada</p><p>tipo	é	a	descrição	que	a	lei	faz	de	um	delito:	matar,	apoderar-se	de	uma</p><p>coisa	móvel	 alheia	 etc.	Em	 terceiro	 lugar,	não	deve	 ser	permitida,	 como</p><p>acontece	 no	 caso	 de	 legítima	 defesa	 ou	 de	 estado	 de	 necessidade.	 Por</p><p>último,	deve	 ser	 culpável,	ou	 seja,	 reprovável	 ao	autor:	não	o	é	quando</p><p>este	não	sabia	o	que	fazia,	estava	louco	(inimputável)	etc.</p><p>Essa	 é	 a	 estrutura	 básica	 sobre	 a	 qual	 se	 discute,	 respeitando	 certos</p><p>princípios	 constitucionais	 como,	 por	 exemplo,	 a	 legalidade,	 que	 impede</p><p>que	a	pena	seja	 imposta	por	algo	que	não	está</p><p>Essa	 pré-história	 da	 sociologia	 moderna	 mostra	 como	 esta	 e	 a</p><p>criminologia	 nasceram	do	 entrevero	 entre	 o	poder	 e	 a	 questão	 criminal,</p><p>mas	enquanto	a	criminologia	ficou	atada	a	Spencer,	a	sociologia	posterior</p><p>a	Comte	se	desprendeu	do	conteúdo	reacionário	de	suas	ideias	e	adquiriu</p><p>voo	 próprio	 na	 Europa	 continental	 até	 a	 Primeira	 Guerra	 Mundial	 ou</p><p>Grande	Guerra	(1914-1918).</p><p>A	 rigor,	 a	 criminologia	 e	 a	 sociologia	 nasceram	 gêmeas,	 só	 que	 a</p><p>criminologia	permaneceu	presa	do	 racismo	e	do	 reducionismo	biologista</p><p>do	 spencerianismo,	 desintegrando-se	 paulatinamente	 a	 partir	 da	 crise</p><p>dessas	lamentáveis	bases	ideológicas,	enquanto	na	sociologia,	as	ideias	de</p><p>Comte,	 talvez	 por	 reacionárias	 e	 insólitas,	 abriram	 um	 amplo	 espaço	 de</p><p>discussão	e	análise.</p><p>O	 certo	 é	 que,	 na	 segunda	 metade	 do	 século	 XIX	 e	 nas	 primeiras</p><p>décadas	 do	 XX,	 apareceram	 os	 sociólogos	 que	 deixaram	 de	 lado	 as</p><p>elucubrações	de	sobremesa	e	começaram	a	pensar	mais	a	sério,	colocando</p><p>uma	 quota	 de	 ordem	 e	 bom	 senso.	 Esses	 sociólogos	 mais	 analíticos</p><p>podem	ser	considerados,	na	realidade,	os	verdadeiros	pais	fundadores	da</p><p>sociologia.	Muito	se	escreveu	sobre	esses	primeiros	autores	e,	se	bem	que</p><p>seu	pensamento	seja	um	tema	próprio	da	sociologia,	é	necessário	assinalar</p><p>ao	menos	por	que	caminhos	andaram,	porque,	do	contrário,	parecerá	que</p><p>saiu	uma	criminologia	diferente	de	algum	chapéu	de	mágico,	quando,	na</p><p>realidade,	vinha	sendo	preparada	a	partir	da	sociologia,	mesmo	sem	que</p><p>os	 criminólogos	 do	 canto	 da	 Faculdade	 de	Direito	 lhe	 prestassem	muita</p><p>atenção.</p><p>Esses	pais	fundadores	foram	os	principais	sociólogos	franceses,	como</p><p>Emile	Durkheim	e	Gabriel	 Tarde,	 e	 alemães,	 como	Max	Weber	 e	Georg</p><p>Simmel.	Sua	importância	não	se	deve	tanto	àquilo	que	afirmaram,	mas	sim</p><p>a	como	se	projetaram	para	o	futuro	dessa	ciência,	pois	Durkheim	e	Max</p><p>Weber	 foram	 os	 pioneiros	 do	 que	 se	 desenvolverá	 em	 seguida	 como</p><p>sociologia	funcionalista	e	sistêmica,	enquanto	que	Tarde	e	Simmel	abriram</p><p>o	caminho	do	que	haveria	de	ser	o	interacionismo.</p><p>Traduzido	 para	 uma	 linguagem	 compreensível,	 isso	 significa</p><p>simplesmente	que	a	sociologia	europeia	anterior	a	1914	tendia	a	atender	a</p><p>dois	diferentes	aspectos	do	social:	um	privilegiava	a	busca	de	um	sistema</p><p>dentro	 do	 qual	 tudo	 cumpriria	 alguma	 função,	 e	 outro	 não	pensava	 tão</p><p>grande	e	se	detinha	nas	relações	mais	micro,	tratando	de	estabelecer	suas</p><p>regras.	 Partindo	 do	 macro,	 Durkheim	 pensava	 que	 o	 delito	 cumpria	 a</p><p>função	 social	 positiva	 de	 provocar	 uma	 recusa	 e,	 com	 isso,	 reforçar	 a</p><p>coesão	da	sociedade.	Em	outras	palavras,	para	Durkheim	não	era	positivo</p><p>que	alguém	esquartejasse	a	avó,	mas	 sim	a	 reação	social	de	coesão	que</p><p>esse	 crime	 provocava.	 Dessa	 forma,	 ele	 despatologizava	 o	 delito,	 o</p><p>considerava	normal	na	sociedade.</p><p>Max	Weber,	na	Alemanha,	também	pensava	no	macro	e	acentuava	a</p><p>importância	 das	 ideias	 para	 avançar	 através	 dos	 sistemas	 de	 autoridade,</p><p>que	passavam	do	ancestral	ao	carismático	e	deste	ao	legal-racional,	que</p><p>seria	o	das	grandes	burocracias	que	 regiam	nos	países	centrais	e	que	se</p><p>estenderiam	 a	 todo	 o	 mundo.	 Nesse	 sentido,	 ele	 afirmava	 que	 o</p><p>protestantismo	havia	facilitado	o	desenvolvimento	do	capitalismo.</p><p>Enquanto	 isso,	 Gabriel	 Tarde	 se	 detinha	 mais	 especificamente	 na</p><p>imitação	 como	 chave	 das	 condutas,	 impressionado	 pelo	 poder	 que	 a</p><p>imprensa	adquiria,	especialmente	com	o	escândalo	do	caso	Dreyfus,	 que</p><p>provocou	 um	 surto	 antissemita	 reacionário	 e	 monárquico	 que	 dividiu	 a</p><p>França	talvez	até	o	próprio	governo	de	Vichy,	na	Segunda	Guerra.	Ele	se</p><p>dava	 conta,	 ao	 contrário	 de	 Durkheim,	 de	 que	 havia	 uma	 enorme</p><p>quantidade	 de	 delitos	 impunes,	 e	 com	 isso	 adiantava	 a	 questão	 da</p><p>seletividade.</p><p>Simmel,	 por	 sua	 vez,	 colocou	 sua	 ênfase	 na	 observação	 de	 que	 a</p><p>essência	 do	 social	 é	 a	 interação	 das	 pessoas	 e	 que,	 a	 cada	 dia,	 as</p><p>capacidades	individuais	na	sociedade	industrial	tinham	menos	valor,	o	que</p><p>também	parecia	contradizer	algumas	ideias	de	Durkheim.</p><p>É	evidente	que,	na	Alemanha,	não	se	podia	evitar	Karl	Marx,	embora</p><p>ele	não	 tenha	 sido	 sociólogo,	mas	 as	 ideias	de	Weber	 respondem	a	um</p><p>debate	 com	 Marx	 (alguns	 historiadores	 afirmam	 que	 toda	 a	 sociologia</p><p>alemã	da	época	fez	isso).</p><p>Cabe	esclarecer	que	Marx	se	 referiu	a	 temas	penais	e	criminológicos</p><p>apenas	 muito	 tangencialmente.	 Há	 um	 artigo	 publicado	 na	 Gazeta</p><p>Renana,	em	1842,	no	qual	ele	critica	a	penalização	do	 furto	de	 lenha,	e</p><p>um	 parágrafo	 na	 Teoria	 da	 mais-valia,	 em	 que	 ironiza	 acerca	 da</p><p>necessidade	 dos	 delinquentes.	 Nesse	 último	 caso,	 ele	 parece	 um</p><p>funcionalista,	 mas	 coloca	 algo	 real:	 se	 os	 delinquentes	 não	 existissem,</p><p>teriam	de	ser	inventados.	Com	efeito,	ainda	que	Marx	não	o	tenha	dito,	se</p><p>deixarmos	voar	a	imaginação	e	pensarmos	em	uma	fantasmagórica	greve</p><p>geral	 de	 delinquentes,	 veremos	 que	 o	 sistema	 todo	 seria	 derrubado:	 os</p><p>seguros,	os	bancos,	as	polícias,	as	alfândegas,	os	escritórios	que	tratam	dos</p><p>impostos	 etc.	 se	 tornariam	 inúteis.	 Seria,	 sem	 dúvida,	 uma	 verdadeira</p><p>catástrofe.</p><p>No	 pensamento	 de	 Marx	 e	 de	 Engels	 chama	 a	 atenção	 o	 total</p><p>desprezo	 pelo	 subproletariado	 (Lumpenproletariat),	 que	 é	 o	 nome</p><p>marxista	da	má	vida	positivista.	Eles	o	consideravam	uma	classe	perigosa,</p><p>inútil,	 incapaz	 de	 qualquer	 potencial	 dinamizador	 e	 sempre	 disposta	 a</p><p>aliar-se	 à	 burguesia.	 Essas	 afirmações	 pesaram	 mais	 tarde	 no	 marxismo</p><p>institucionalizado,	dando	lugar	aos	conceitos	de	parasita	social	e	análogos</p><p>e	 permitindo	 legitimar	 a	 repressão	 perigosista	 da	 delinquência	 nesses</p><p>sistemas.	 Na	 realidade,	 a	 criminologia	 marxista	 não	 se	 apoia	 nas</p><p>escassíssimas	 referências	de	Marx	ao	 tema,	mas	sim	na	aplicação	que	os</p><p>criminólogos	 marxistas	 fizeram	 das	 categorias	 de	 análise	 dele,	 como</p><p>veremos	mais	adiante.</p><p>Porém,	 todo	 esse	 riquíssimo	 debate	 sociológico	 das	 últimas	 décadas</p><p>do	 século	 XIX	 se	 esgotou	 na	 Europa	 com	 os	 pais	 fundadores	 que,	 por</p><p>coincidência,	 morreram	 perto	 do	 final	 da	 Primeira	 Guerra;	 por	 volta	 de</p><p>1920,	a	sociologia	europeia	tornou-se	opaca.</p><p>Isso	se	explica	porque	a	Grande	Guerra	arrasou	a	Europa.	Em	1914,</p><p>as	 potências	 europeias	 haviam	 acreditado	 que	 esta	 seria	 uma	 guerra	 de</p><p>exércitos,	como	a	 franco-prussiana	de	1870,	e	que	duraria	alguns	meses.</p><p>No	 entanto,	 foi	 a	 primeira	 guerra	 total;	 jogou-se	 com	 o	 potencial</p><p>econômico	 dos	 beligerantes	 durante	 quatro	 anos	 sangrentos,	 em	 que	 os</p><p>jovens	morriam	espetados	na	barriga	por	baionetadas,	de	tétano	no	barro</p><p>ou	 envenenados	 ou	 cegos	 por	 gases	 tóxicos.	 A	 população	 civil	 foi</p><p>considerada	 inimiga	 e	 os	 centros	 industriais	 e	 econômicos	 tornaram-se</p><p>alvos	bélicos.</p><p>Ao	 final	 da	 guerra,	 todos	 os	 contendores	 estavam	 esgotados	 e	 suas</p><p>economias,	 destruídas.	 A	 intervenção	 dos	 Estados	 Unidos	 inclinou	 a</p><p>balança,	mas	os	 impérios	centrais	 caíram	quando	os	outros	não	estavam</p><p>em	 situação	 nada	 boa.	 A	 Europa	 se	 suicidou	 com	 essa	 guerra	 que,	 por</p><p>certo,	 está	 bastante	 esquecida	 pelos	 historiadores.	 Para	 culminar,</p><p>imediatamente	depois	da	guerra	sobreveio	uma	terrível	epidemia	de	gripe</p><p>que	matou	uns	tantos	milhões.</p><p>21.	A	criminologia	sociológica	dos	Estados</p><p>Unidos</p><p>O	grande	 beneficiário	 da	 Primeira	Guerra	Mundial	 foram	os	 Estados</p><p>Unidos,	 que	 não	 a	 sofreram	 em	 seu	 território.	 O	 presidente	 Wilson</p><p>pensava	em	ratificar	o	 tratado	de	paz	de	Versalhes,	mas	os	 republicanos</p><p>ganharam	 as	 eleições.	 Péssimos	 presidentes	 assumiram	 o	 governo,	 não</p><p>ratificaram	 o	 tratado	 de	 paz	 e	 a	 Europa	 ficou	 só	 e	 devastada,	 enviando</p><p>uma	 maciça	 corrente	 de	 emigrantes	 para	 a	 América	 do	 Norte.	 Os</p><p>vencedores	 insistiram	 no	 suicídio	 porque,	 para	 recuperar-se,	 tiveram	 a</p><p>brilhante	 ideia	 de	 impor	 à	 Alemanha	 uma	 reparação	 de	 guerra,	 cujo</p><p>pagamento	era	impossível,	humilharam-na</p><p>e	desestabilizaram	a	República</p><p>de	 Weimar,	 fomentando	 os	 extremismos	 e	 abrindo	 o	 caminho	 para	 um</p><p>capo	 austríaco,	 que	 assumiu	 a	 batuta	 da	 maior	 loucura	 criminosa	 do</p><p>século.</p><p>Os	 pensadores	 europeus	 tentavam	 explicar	 o	 desastre	 sob	 o	 viés</p><p>depressivo.	Oswald	Spengler,	com	A	decadência	do	Ocidente,	 e	Vilfredo</p><p>Pareto,	 com	 as	 elites,	 eram	 os	 dark	 da	 época.	 Além	 do	 mais,	 os</p><p>totalitarismos	que	iam	se	instalando	desprezavam	aqueles	que	pretendiam</p><p>explicar-lhes	 o	 que	 acontecia,	 porque	 os	 ditadores	 sempre	 sabem	 e</p><p>quando	 alguém	 lhes	 diz	 que	 estão	 enganados	 costumam	 matá-lo.	 A</p><p>sociologia	 nunca	 teve	 uma	boa	 acolhida	 nas	 ditaduras:	 nossa	 segurança</p><p>nacional	quis	 incorporar	a	carreira	à	Faculdade	de	Direito	e	 reduzi-las	a</p><p>uma	escola	de	técnica	de	mercado.</p><p>Enquanto	a	Europa	não	conseguia	explicar	seu	eclipse	e	dominavam</p><p>as	 respostas	 dos	 iluminados	 como	 Hitler,	 Mussolini,	 Dollfuss,	 Oliveira</p><p>Salazar,	Pétain	ou	Franco,	os	Estados	Unidos	estavam	na	crista	da	onda:</p><p>choviam	capitais,	milhões	de	 imigrantes	europeus,	 suas	cidades	cresciam</p><p>de	 modo	 incontrolável,	 o	 melting	 pot	 era	 mais	 pot	 que	 melting,	 a</p><p>especulação	 financeira	 alcançava	 o	 nível	 de	 um	 verdadeiro	 orgasmo</p><p>econômico.	 Tudo	 isso	 criava	 problemas,	 mas	 era	 encarado	 com	 o</p><p>otimismo	próprio	de	quem	ganhou	na	loteria.</p><p>Eram	os	loucos	anos	20,	com	seu	fundo	de	charleston	e	fonógrafo.	Os</p><p>estadunidenses	 que	 se	 consideravam	 autênticos	 descendentes	 do</p><p>Mayflower	 sentiam-se	 invadidos	 pelos	 imigrantes.	 Haviam	 proibido	 a</p><p>maconha	para	reafirmar	seu	puritanismo	diante	dos	mexicanos,	mas	agora</p><p>lhes	 chegava	 a	 cultura	 da	 taverna	 pela	 mão	 dos	 católicos	 e	 luteranos.</p><p>Para	 reafirmar	 sua	 supremacia	 cultural	 puritana,	 empreenderam	 uma</p><p>cruzada	 contra	 o	 álcool,	 impulsionada	 por	 velhas	 loucas	 que	 irrompiam</p><p>nas	 tavernas	 aos	 berros	 e	 que	 conseguiram	 impor	 uma	 reforma</p><p>constitucional	que	proibia	o	álcool.</p><p>Toda	proibição	que	reduz	a	oferta	e	deixa	em	pé	uma	demanda	rígida</p><p>faz	 com	que	 a	porcaria	proibida	 adquira	 uma	mais-valia	 que	 a	 converte</p><p>em	ouro	e	desencadeia	a	concorrência	por	sua	produção	e	distribuição	no</p><p>mercado	 ilícito.	 No	 caso	 do	 álcool,	 tanto	 sua	 produção	 relativamente</p><p>barata	como	sua	distribuição	se	realizavam	dentro	do	próprio	território.</p><p>A	contenção	da	oferta	era	necessária	para	manter	o	efeito	alquímico</p><p>da	proibição,	mas	desencadeou	uma	violência	competitiva	com	altíssimo</p><p>grau	 de	 corrupção	 do	 aparato	 punitivo	 e	 político,	 provocando	 uma</p><p>simbiose	letal	de	uma	criminalidade	astuta	e	violenta	nunca	vista	antes.</p><p>Esse	 fenômeno	 dos	 anos	 1920	 foi	 instrutivo	 porque	 com	 a	 cocaína</p><p>apelou-se	 a	 uma	 distribuição	 internacional	 do	 trabalho:	 a	 produção	 e	 o</p><p>controle	da	oferta,	com	a	violência	dela	decorrente,	ficam	fora	do	território</p><p>do	principal	demandante,	provocando	os	massacres	em	curso	no	México</p><p>(40.000	 mortos,	 decapitados	 e	 castrados,	 em	 quatro	 anos)	 e	 na	 América</p><p>Central,	 enquanto	 dentro	 do	 território	 do	 grande	 consumidor	 só	 se</p><p>distribui,	 o	 que	 é,	 ao	mesmo	 tempo,	 a	 atividade	menos	 violenta	 e	mais</p><p>rentável	 do	 tráfico.	 Alguns	 suspeitam	 que	 ela	 proporcionou	 parte	 dos</p><p>recursos	necessários	para	as	salvações	bancárias	na	recente	crise.</p><p>Mas	voltemos	aos	roaring	twenties	e	à	 jazz	age.	Era	óbvio	que	esses</p><p>problemas	deviam	chamar	a	atenção	dos	sociólogos	estadunidenses.	Como</p><p>é	sabido,	uma	das	grandes	virtudes	dos	Estados	Unidos	é	seu	considerável</p><p>espaço	de	liberdade	acadêmica,	comprometido	no	pós-guerra	apenas	pela</p><p>campanha	 do	 senador	 McCarthy.	 No	 uso	 desse	 espaço,	 o	 pensamento</p><p>acadêmico	se	separou	e	denunciou	a	ideologia	que	dominava	nos	quadros</p><p>da	administração.</p><p>Por	efeito	da	autonomia	acadêmica,	uma	coisa	foi	a	administração	e	o</p><p>governo	 (e	 a	 Suprema	 Corte),	 que	 continuavam	 na	 linha	 do</p><p>spencerianismo	racista	admirado	por	Hitler	em	Mein	Kampf,	e	outra	a	que</p><p>ocorria	 nas	 universidades,	 onde	 se	 respiravam	 outros	 ares:	 Franz	 Boas</p><p>renovava	 a	 antropologia	 e	 assentava	 as	 bases	 do	 culturalismo,	 que</p><p>deixava	de	lado	os	pretensos	naturalismos	biologistas	e	criava	a	escola	em</p><p>que	se	destacariam	Margaret	Mead,	Ruth	Benedict	e	Clyde	Kluckhohn.	Este</p><p>último	 chegou	 a	 escrever	 que	 nossas	 crenças	 mais	 profundas	 e	 nossas</p><p>convicções	 mais	 caras	 podem	 ser,	 inclusive,	 a	 expressão	 de	 um</p><p>provincianismo	inconsciente.</p><p>Foi	 nesse	 clima	 que	 a	 questão	 criminal	 começou	 a	 ser	 estudada</p><p>sociologicamente,	 a	 trabalhar	 com	 investigação	de	campo,	a	perguntar	o</p><p>que	condiciona	o	delito	na	sociedade.	Desse	modo,	com	a	passagem	do</p><p>primado	da	sociologia	da	Europa	para	os	Estados	Unidos	teve	início	uma</p><p>nova	etapa	da	criminologia.</p><p>Pode-se	dizer	que,	daí	em	diante,	começamos	a	falar	a	sério,	embora</p><p>no	princípio	não	completamente,	porque	a	criminologia	arrastará	durante</p><p>décadas	uma	 falha	 fundamental:	continuará	 se	 perguntando	pelo	delito	 e</p><p>deixará	de	 lado	o	 funcionamento	do	poder	punitivo.	O	aparato	penal	do</p><p>Estado	não	entrava	no	campo	de	investigação	dessa	criminologia.	Embora</p><p>não	o	 legitimasse	 ativamente,	 o	 fazia	 por	 omissão:	 se	 não	pergunto	por</p><p>algo	é	porque	creio	que	funciona	bem.</p><p>Se	bem	que	seja	inevitável	que	quem	pergunte	sobre	a	etiologia	social</p><p>do	delito	em	algum	momento	se	depare	com	o	próprio	aparato	punitivo</p><p>como	 reprodutor	 de	boa	parte	 do	 fenômeno,	 esse	 era	 um	caminho	que</p><p>ainda	devia	ser	 trilhado.	Foi	esta	a	 função	que	a	criminologia	etiológico-</p><p>social	cumpriu.</p><p>Além	 de	 sepultar	 a	 carga	 de	 racismo	 manifesto	 de	 seu	 antecessor,</p><p>encarou	 o	 problema	 pela	 via	 adequada	 e	 foi	 o	 passo	 necessário	 para</p><p>chegar	ao	que	hoje	parece	quase	evidente:	não	se	pode	explicar	o	delito</p><p>sem	analisar	o	aparato	de	poder	que	decide	o	que	define	e	o	que	reprime</p><p>como	delito.</p><p>Devido	 a	 essa	 omissão,	 as	 colocações	 da	 primeira	 etapa	 da</p><p>criminologia	 sociológica,	 que	 se	 estendem	 até	 as	 décadas	 de	 sessenta	 e</p><p>setenta	 do	 século	 passado,	 são	 um	 tanto	 ingênuas	 e	 até	 simplistas,	 mas</p><p>criaram	 todo	um	arsenal	conceitual	 sem	o	qual	não	 teria	 sido	possível	a</p><p>etapa	posterior.</p><p>Esses	 sociólogos	 estadunidenses	 continuavam	 perguntando,	 desde</p><p>1920	 até	 final	 dos	 anos	 1970,	 pela	 etiologia	 do	 crime,	 ou,	 dito	 mais</p><p>simplesmente,	pelas	causas	do	delito.	Esclareço	que	não	se	deve	entender</p><p>causas	em	sentido	literal,	porque	a	sociologia,	a	despeito	de	Quetelet,	não</p><p>é	a	física,	mas	a	expressão	vale	só	por	gráfica.</p><p>Nessa	 busca	 por	 causas,	 fatores,	 correlações	 ou	 como	 se	 queira</p><p>chamar,	eles	se	dividiram,	concentrando	sua	atenção	em	cinco	diferentes</p><p>fontes:	 1)	 na	 desorganização	 social;	 2)	 na	 associação	 diferencial;	 3)	 no</p><p>controle;	 4)	 na	 tensão;	 e	 5)	 no	 conflito.	 Desse	 modo,	 abriram-se	 cinco</p><p>grandes	correntes	nessa	etapa	da	criminologia	sociológica.</p><p>Tudo	 isso	 parece	 muito	 complicado,	 mas	 não	 o	 é	 em	 absoluto.	 Na</p><p>verdade,	esta	criminologia	sociológica	elaborou	conceitos	que	circulam	em</p><p>qualquer	mesa	de	bar	onde	alguém	pergunte	pelas	causas	do	delito	 e	 se</p><p>manifeste	 com	 certo	 senso	 comum,	 a	 partir	 da	 ingenuidade	 de</p><p>desconhecer	o	papel	do	próprio	aparato	repressivo.</p><p>Confesso	 que	 devo	 conter	 o	 riso	 quando	 escuto,	 em	 conversas	 de</p><p>depois	 do	 almoço,	 alguém	 lançar	 essas	 teorias	 para	 aqueles	 que	 nem</p><p>suspeitam	que	houve	quem	as	embrulhassem	para	presente,	com	todo	o</p><p>arsenal	do	vocabulário	 sociológico.	Eu	era	pequeno	quando	escutava	os</p><p>gorilas	 afirmarem	 que	 a	 invasão	 de	 cabecitas	 negras[7]	 à	 cidade	 havia</p><p>desorganizado	 tudo.	 Embora	 certamente	 com	 um	 senso	 político	 mais</p><p>democrático,	 esta	 é	 a	 essência	da	 teoria	ecológica	 da	 Escola	 de	Chicago</p><p>dos	anos	1920	e	1930.</p><p>Quem	não	ouviu	alguém	afirmar	que	o	delito	juvenil	obedece	à	falha</p><p>da	 família,	 da	 escola	 etc.,	 a	 conhecida	 falta	 de	 educação?	 Estas	 são	 as</p><p>teorias	do	controle.	Outros	há	que	na	sobremesa	afirmem	que	ela	se	cria</p><p>na	favela,onde	há</p><p>narcotraficantes	e	delinquentes.	É	 isso	que,	no	fundo,</p><p>se	 respira	 –	 um	 pouco	 mais	 sofisticadamente	 –	 na	 teoria	 da	 associação</p><p>diferencial.</p><p>Não	falta	aquele	que	denuncia	que	a	TV	mostra	riquezas	fáceis,	êxitos</p><p>súbitos,	ídolos	surgidos	da	noite	para	o	dia	e	sem	maior	esforço,	adorados</p><p>por	mulheres	bonitas,	oferece	automóveis	 luzidios,	quando	estes	objetos</p><p>não	estão	ao	alcance	da	grande	maioria	das	pessoas.	É	esta	a	essência	das</p><p>teorias	da	 tensão.	 Por	último,	haverá	 alguém	que	observe	que	 reina	um</p><p>individualismo	em	que	cada	um	atira	para	seu	lado,	que	todos	são	grupos</p><p>de	interesses,	que	se	chocam	e	que	matam	entre	eles.	Não	é	muito	diferente</p><p>a	base	sobre	a	qual	foram	elaboradas	as	teorias	do	conflito.</p><p>Todavia,	 todas	 essas	 opiniões	 do	 senso	 comum,	 que	 a	 criminologia</p><p>sociológica	 sofisticou	 entre	 1920	 e	 1970,	 não	 são	 incompatíveis.	 Os</p><p>convivas	 da	 mesa	 de	 depois	 do	 almoço	 ou	 do	 bar	 discutem,	 mas,	 na</p><p>realidade,	 se	 sabem	 escutar	 um	 ao	 outro,	 não	 terminarão	 em	 uma</p><p>discussão	 aberta,	 e	 até	 não	 faltará	 quem	 pretenda	 compatibilizar	 as</p><p>opiniões	com	um	certo	assentimento	geral.</p><p>O	que	é	que	permite	compatibilizar	essas	opiniões?	Se	pensarmos	um</p><p>pouco,	veremos	que	é	o	fundo	comum	de	confiança	em	que	a	sociedade</p><p>é	capaz	de	melhorar	e	superar	esses	fatores	ou	causas.	É	a	opinião	de	que</p><p>temos	 que	 ir	 para	 frente,	 que	 Fulano,	 Beltrano	 ou	 Cicrano	 são	 uns</p><p>corruptos	que	 têm	de	 ser	afastados,	mas	que,	no	 final,	podemos	 ter	uma</p><p>sociedade	melhor.</p><p>Se	os	taxistas	de	Buenos	Aires	são,	em	sua	maioria,	razoáveis	–	pelo</p><p>que	 lhes	 peço	 perdão	 pelo	 que	 se	 segue,	 pois	 não	 é	 nem	 de	 longe	 a</p><p>minha	 intenção	 fabricar	 um	 estereótipo	 –,	 o	 certo	 é	 que,	 com	 certa</p><p>frequência,	 nos	 vemos	 obrigados	 a	 suportar	 que	 alguns	 de	 seus</p><p>companheiros	que	escutam	 rádio	nos	atormentem	com	 frases	do	 tipo	 “a</p><p>única	saída	é	a	mão	pesada,	que	se	necessita	de	uma	mão	 forte,	que	há</p><p>que	se	colocar	ordem	dando	porrada,	metendo	bala,	que	na	ditadura	não</p><p>aconteciam	 essas	 coisas,	 que	não	 se	pode	 encher	 o	 país	 de	 bolivianos”	 e</p><p>outros	conceitos	politológicos	semelhantes.</p><p>Bem.	 Suponhamos	 que	 o	 taxista,	 com	 esse	 discurso,	 se	 junte	 à</p><p>conversa	 de	 bar	 e	 coloque	 sua	 visão	 para	 o	 grupo.	 Os	 que	 vinham</p><p>discutindo	 até	 então,	 se	 bem	 com	 diferente	 grau	 de	 convicção,	 lhe</p><p>responderão:	 Você	 está	 louco!	 Depois	 acabam	 matando	 todos	 nós,	 não</p><p>aconteciam	porque	você	não	 sabia,	não,	 eu	não	quero	voltar	à	ditadura</p><p>não,	 eles	 ficam	 com	 as	mãos	 livres	 e	 atiram	 em	 qualquer	 um.	 Não,	 isso</p><p>tampouco	é	vida.	E	seguindo	adiante	na	conversa,	começarão	a	discutir	a</p><p>corrupção	policial.</p><p>Assombroso!	 Os	 companheiros	 de	 bar	 ou	 da	 mesa	 de	 depois	 do</p><p>almoço	terão	percorrido	o	caminho	da	criminologia	sociológica	do	século</p><p>XX!	A	intuição	os	terá	levado	até	aquilo	que	a	sociologia	demorou	mais	de</p><p>quarenta	anos	para	descobrir!</p><p>Os	 da	 primeira	 discussão	 se	 movimentaram	 dentro	 do	 esquema	 de</p><p>que	a	sociedade	pode	avançar	e,	removendo	obstáculos,	pode	superar	as</p><p>causas	 do	 delito.	 No	 fundo,	 todos	 admitiriam	 que	 se	 pode	 melhorar</p><p>aqueles	que	sofrem	esses	fatores	e	trazê-los	junto	com	o	resto.	Talvez	sem</p><p>sabê-lo,	 estão	 postulando	 um	 conceito	 pouco	 claro,	 ou	 não	 técnico,	 do</p><p>modelo	de	Estado	social.</p><p>O	 taxista	 fascista	 (insisto,	 não	 me	 queiram	 mal	 os	 taxistas,	 mas</p><p>reconheçam	 que	 têm	 alguns	 companheiros	 assim;	 não	 são	 os	 únicos,</p><p>todos	 nós	 os	 temos),	 chega	 e	 rompe	 o	 esquema.	 Por	 que?	 O	 que	 ele</p><p>propõe?	Também	intuitiva	e	confusamente,	ele	está	propondo	um	modelo</p><p>de	 Estado	 diferente,	 no	 qual	 uma	 autoridade	 vertical	 não	 discuta	 e	 sim</p><p>faça	que	cada	um	permaneça	em	seu	lugar	e	não	incomode,	mediante	um</p><p>exercício	ilimitado	do	poder	repressivo.	Isso	não	é	mais	nem	menos	que	o</p><p>modelo	do	Estado	policial.</p><p>O	que	 aqueles	que	o	 rebatem	 terminam	colocando	em	discussão?	A</p><p>crítica	ao	aparato	do	poder	repressivo.	Fizeram	todo	o	trajeto	e,	incitados</p><p>pelo	taxista,	chegaram	por	intuição	à	criminologia	dos	anos	1970.</p><p>A	isso	que	eu	queria	chegar.	Não	duvidem,	embora	não	tenhamos	nos</p><p>dado	 conta,	 a	 discussão	 é	 política.	 Os	 sociólogos	 desse	 período</p><p>identificavam-se,	 preparavam	 ou	 andavam	 ao	 redor	 do	 populismo</p><p>estadunidense,	do	New	Deal	de	Franklin	Delano	Roosevelt,	de	um	modelo</p><p>de	welfare	State,	de	estado	social.	Estavam	confrontados	com	o	modelo	de</p><p>Estado	policial,	com	os	afro-americanos	iguais	mas	separados	(como	havia</p><p>dito	a	Suprema	Corte),	 supremacia	branca,	Ku	Klux	Klan,	patriarcalismo,</p><p>cadeira	 elétrica,	 e	 todo	o	pró-nazismo	desses	 anos,	Henry	 Ford,	Charles</p><p>Lindbergh	etc.</p><p>Passou	o	 tempo	e	 a	 criminologia	 seguiu	o	 curso	que	 iremos	 vendo,</p><p>mas	convém	advertir	desde	agora	que	o	debate	de	fundo	–	com	epicentro</p><p>nos	Estados	Unidos	e	mais	evidente	na	atualidade	–	continua	sendo	entre</p><p>dois	modelos	de	Estado:	o	social,	ou	inclusivo,	e	o	policial,	ou	excludente.</p><p>This	is	the	question.</p><p>Voltemos,	porém,	a	esse	período	para	ver	mais	de	perto	o	que	cada</p><p>uma	 das	 cinco	 correntes	 mencionadas	 pôs	 a	 descoberto	 e	 extrair	 os</p><p>elementos	que	nos	permitem	compreender	o	curso	posterior.</p><p>Ilustração	13</p><p>21.	Desorganização,	associação	diferencial	e</p><p>controle</p><p>Como	 os	 maiores	 conflitos	 produzidos	 pela	 súbita	 explosão</p><p>econômica	aconteciam	nas	cidades	e	nelas	se	tinha	uma	sensação	geral	de</p><p>desorganização,	 era	 natural	 que	 os	 pesquisadores	 sociais	 racionais</p><p>centrassem	sua	atenção	na	sociologia	urbana.	Foi	isso	o	que	fez	o	Instituto</p><p>de	 Sociologia	 da	 Universidade	 de	 Chicago,	 nas	 primeiras	 décadas	 do</p><p>século	passado.	A	cidade	era	ideal,	pois	Chicago	havia	passado	de	quatro</p><p>mil	para	três	milhões	de	habitantes	em	um	século.</p><p>Nós,	que	vivemos	em	cidades	grandes,	já	escutamos	alguma	vez	essa</p><p>declaração	 de	 que	 quero	 ir	 morar	 tranquilo	 no	 campo.	 Algo	 parecido</p><p>acontece	 com	 a	 tônica	 que	 os	 de	 Chicago	 tomaram	 de	 Charles	 Cooley,</p><p>que	era	professor	de	Michigan.</p><p>Para	 atribuir	 os	 problemas,	 entre	 eles	 a	 criminalidade,	 a	algo	 que	 se</p><p>desorganiza,	 deve-se	 pressupor	 que	 antes	 algo	 estava	 organizado.	 Pois</p><p>bem,	para	Cooley,	o	organizado	era	a	vida	provinciana.	Assim,	diz-se	que</p><p>a	 marca	 registrada	 da	 escola	 era	 a	 nostalgia	 da	 sociedade	 de	 pequeno</p><p>contorno.</p><p>Todavia,	Cooley	trouxe	alguns	conceitos	que	até	hoje	vigoram,	como</p><p>a	 distinção	 entre	 grupos	 primários	 e	 secundários.	 Os	 grupos	 primários</p><p>eram,	para	este	autor,	os	de	infância	e	formação,	da	família,	dos	velhos	do</p><p>povoado	 etc.,	 ao	 passo	 que	 os	 secundários	 eram	 as	 instituições.	 A</p><p>diferença	entre	eles	centra-se	no	 tratamento,	que	nos	grupos	primários	é</p><p>personalizado	e,	nos	secundários,	despersonalizado.</p><p>Essa	diferença	fundamental	é	deixada	de	lado	quando	se	pretende	que</p><p>um	 grupo	 secundário	 substitui	 um	 primário	 (que	 o	 internato	 ou	 o	 asilo</p><p>substitua	a	família	ou	que	o	juiz	de	menores	seja	o	pai).	O	pai	e	a	mãe,	se</p><p>não	 estão	 loucos,	 devem	dar	 a	 cada	 filho	um	 tratamento	 conforme	 suas</p><p>características,	necessidades,	virtudes	e	carências,	enquanto	que,	no	plano</p><p>institucional,	o	princípio	elementar	da	igualdade	impede,	em	boa	medida,</p><p>essas	distinções.</p><p>Outro	 conceito	 trazido	 por	 Cooley	 foi	 o	 de	 papéis	 mestres.	 Na</p><p>sociedade	há	certos	papéis	que	condicionam	todos	os	demais,	como	o	do</p><p>médico,	o	do	sacerdote	etc.	O	pedreiro	ou	o	carpinteiro	são	bastante	livres</p><p>para	farrear	ou	travestir-se	se	isso	lhes	aprouver,	mas	a	mesma	coisa	não</p><p>acontece	com	o	sacerdote	ou	o	dirigente.	Algo	parecido	acontece	com	os</p><p>papéis	associados	ao	poder	repressivo,	como	o	policial,	o	juiz	e	também	o</p><p>próprio	 criminalizado.	 A	 estigmatização	 que	 se	 segue	 à	 criminalização</p><p>obriga	este	último,	em	boa	medida,	a	assumir	seu	papel	desviado.	Trata-se</p><p>de	algo	parecido	a	um	grande	teatro	em	que	alguns	personagens	têm	seu</p><p>papel	 muito	 marcado,	 enquanto	 outros	 podem	 afastar-se	 mais</p><p>criativamente	do	roteiro.</p><p>A	figura	mais	destacada	da	primeira	Escola</p><p>de	Chicago	foi	William	I.</p><p>Thomas,	 que	 revolucionou	 a	metodologia	 sociológica	 numa	 investigação</p><p>sobre	 O	 camponês	 polonês	 na	 Europa	 e	 na	 América,	 levada	 a	 cabo</p><p>juntamente	 com	 o	 polonês	 Znaniecki,	 porque	 incorporou	 cartas,</p><p>autobiografias	 e	 outros	 materiais	 até	 então	 considerados	 cientificamente</p><p>heterodoxos.	 Thomas	 dirigiu	 a	 escola	 até	 1920,	 quando	 foi	 expulso	 da</p><p>universidade	porque	o	encontraram	em	um	hotel	com	uma	mulher	casada.</p><p>Pelo	 visto,	 as	 autoridades	 acadêmicas	 consideravam	 que	 os	 sociólogos</p><p>estavam	 proibidos	 de	 manter	 relações	 sexuais	 extra-código.	 Para	 nós,	 a</p><p>contribuição	 mais	 importante	 desse	 sociólogo	 é	 o	 chamado	 teorema	 de</p><p>Thomas,	 segundo	o	 qual	 se	 os	 homens	 definem	 as	 situações	 como	 reais,</p><p>suas	consequências	são	reais.	 Isso	tem	uma	imensa	validade	em	todas	as</p><p>ordens	sociais:	é	conhecida	a	experiência	de	Orson	Welles	em	Nova	York,</p><p>em	 1938,	 ao	 anunciar	 a	 presença	 de	 marcianos	 pelo	 rádio.	 O	 mesmo</p><p>acontece	 com	 a	 criminalidade:	 pouco	 importa	 sua	 frequência	 ou</p><p>gravidade,	mas	se	se	afirma	que	são	altas	se	reclamará	mais	repressão,	os</p><p>políticos	 concordarão	 com	 isso	 e	 a	 realidade	 repressiva	 será	 como	 se	 a</p><p>gravidade	fosse	real.</p><p>Depois	 da	 aventura	 sexual	 de	 Thomas,	 seus	 colegas	 se	 aborreceram</p><p>com	a	universidade	e	o	elegeram	presidente	da	Associação	Americana	de</p><p>Sociologia;	 Robert	 Park	 e	 Ernest	 Burgess	 continuaram	 na	 Escola	 de</p><p>Chicago.	Park	–	que	havia	estudado	com	Simmel,	na	Alemanha	–	foi	quem</p><p>aplicou	 à	 cidade	 os	 conceitos	 tomados	 da	 ecologia	 (simbiose,	 invasão,</p><p>domínio,	sucessão)	para	explicar	os	conflitos	e	a	coexistência	de	diferentes</p><p>grupos	 humanos	 em	 um	 território	 limitado,	 razão	 pela	 qual	 também	 se</p><p>conhece	esse	grupo	como	escola	ecológica	de	Chicago.</p><p>Burgess	 dividiu	 a	 cidade	 em	 cinco	 zonas	 concêntricas:	 I	 (a	 central,</p><p>com	 atividade	 comercial	 intensa),	 II	 (o	 círculo	 seguinte	 tende	 a	 ser</p><p>invadido	 pelo	 anterior	 e	 por	 isso	 as	 moradias	 são	 precárias	 e	 ocupadas</p><p>pelos	recém-chegados),	III	(a	zona	ocupada	pelos	operários	que	fogem	da</p><p>anterior),	IV	(a	residencial)	e	V	(a	dos	subúrbios	ou	comutação).</p><p>Ele	 assinalava	 que	 a	 zona	 de	 desorganização	 permanente	 era	 a	 II,</p><p>devido	 à	 contínua	 invasão	dos	 imigrantes	 que	 logo	passavam	à	 III.	Não</p><p>encontrava	 diferenças	 étnicas,	 pois	 a	 transferência	 para	 a	 III	 não	 trazia</p><p>consigo	a	criminalidade.</p><p>No	geral,	a	Escola	de	Chicago	representou	um	notável	progresso,	em</p><p>particular	 por	 seu	 antirracismo	 e	 por	 inaugurar	 uma	 sociologia	 criminal</p><p>urbana	muito	mais	razoável.	É	claro	que	teve	limitações	importantes,	uma</p><p>vez	que	a	criminalidade	que	observava	era	só	a	dos	pobres	e	a	zonificação</p><p>de	Burgess	é	própria	de	uma	sociedade	muito	dinâmica,	em	crescimento</p><p>permanente,	mas	não	poderia	 explicar	os	 fenômenos	de	 zonas	precárias</p><p>das	grandes	concentrações	urbanas	da	atualidade.</p><p>Por	outro	lado,	a	maior	criminalização	dos	jovens	de	sua	zona	II	não</p><p>leva	em	conta	que	esta	se	achava	sob	maior	controle	policial	 (os	recém-</p><p>chegados	são	sempre	suspeitos)	e	a	precariedade	habitacional	expõe	mais</p><p>a	criminalização	(os	jovens	de	classe	média	não	têm	necessidade	de	fumar</p><p>maconha	fora	de	casa).</p><p>Ilustração	14</p><p>Erwin	 Sutherland,	 professor	 da	 Universidade	 de	 Indiana,	 opôs-se	 à</p><p>tese	chicaguiana	da	desorganização,	afirmando	que	não	era	isso	e	sim	que</p><p>se	tratava	de	uma	organização	diferente.	A	ideia	central	de	Sutherland	era</p><p>que	o	delito	é	uma	conduta	aprendida	e	que	se	reproduz,	como	qualquer</p><p>ensinamento,	 por	 efeito	 de	 contatos	 com	 definições	 favoráveis	 e	 da</p><p>aprendizagem	dos	métodos.</p><p>Embora	Sutherland	não	se	refira	aos	crimes	de	Estado,	o	certo	é	que,</p><p>quando	 nos	 perguntamos	 como	 é	 possível	 que	 as	 pessoas	 treinadas</p><p>precisamente	para	evitá-las	cometam	atrocidades,	nos	damos	conta	de	que</p><p>isso	responde	a	um	processo	de	aprendizagem	em	uma	agência	que,	por</p><p>autonomizar-se	 do	 controle	 político,	 encerra	 uma	 grande	 quantidade	 de</p><p>definições	 favoráveis	 ao	 delito.	 É	 claro	 que	 isso	 aconteceu	 com	 a</p><p>introdução	dos	discursos	importados	do	colonialismo	francês,	a	partir	dos</p><p>anos	50	do	século	passado,	quando	nossos	círculos	oficiais	começaram	a</p><p>receber	definições	favoráveis	a	condutas	criminosas.</p><p>Sutherland	 introduziu	 essa	 tese	 na	 edição	 de	 sua	 Criminology,	 de</p><p>1939,	 e	 a	 modificou	 na	 de	 1947,	 com	 seu	 princípio	 da	 associação</p><p>diferencial:	uma	pessoa	 se	 torna	delinquente	por	 efeito	de	um	excesso	de</p><p>definições	 favoráveis	 à	 violação	 da	 lei,	 que	 predominam	 sobre	 as</p><p>definições	desfavoráveis	a	essa	violação.</p><p>Com	isso,	ele	pretendia	explicar	a	criminalidade	de	forma	mais	ampla</p><p>do	que	a	Escola	de	Chicago,	porque	os	de	Chicago	explicavam	apenas	os</p><p>delitos	 dos	 pobres,	 ao	 passo	 que	 Sutherland	 deixou	 claro	 que	 a</p><p>criminalidade	 perpassa	 toda	 a	 escala	 social	 e	 que	 há	 tanto	 delitos	 de</p><p>pobres	 como	 de	 ricos	 e	 poderosos.	 Assim,	 a	 única	 cara	 visível	 dos</p><p>prisioneiros	 deixa	de	 ser	 a	 dos	delinquentes	 e,	 como	 era	 de	 se	 esperar,</p><p>pouco	depois,	em	1949,	Sutherland	publicou	um	estudo	sobre	o	crime	do</p><p>colarinho	 branco	 (White	 Collar	 Crime)	 que	 se	 tornou	 um	 clássico	 da</p><p>criminologia	e	cuja	dinâmica	não	era	antes	compreendida.</p><p>Se	bem	que	Sutherland	não	chegou	a	 incorporar	o	poder	punitivo	à</p><p>criminologia,	 deu	 um	 passo	 fundamental	 e	 deixou	 a	 questão	 no	 limite,</p><p>pois	 o	 delito	do	 colarinho	branco	 (grandes	 delitos	 contra	 o	 patrimônio,</p><p>quebras	fraudulentas	etc.)	deixava	a	descoberto	a	seletividade	da	punição.</p><p>Era	demasiado	claro	que	os	poderosos	raramente	iam	para	a	cadeia.</p><p>Como	 colocação	 geral,	 pode-se	 observar	 que	 o	 ser	 humano	 ficava</p><p>demasiado	 preso	 ao	 meio:	 a	 leitura	 de	 Sutherland	 –	 e	 ainda	 que	 o</p><p>matizasse	bastante	–	não	deixava	de	provocar	a	impressão	de	que	o	bairro</p><p>causava	a	delinquência	dos	pobres	e	o	clube	a	dos	ricos.</p><p>A	 associação	 diferencial	 levou,	 de	 imediato,	 outros	 sociólogos	 a</p><p>pensar	 que	 não	 eram	 o	 bairro	 e	 o	 club,	 mas	 sim	 que	 havia	 outros</p><p>agrupamentos	 que	 treinavam	 e,	 estudando	 as	 gangues	 ou	 os	 bandos,</p><p>Cloward	e	Ohlin	afirmaram,	nos	anos	seguintes,	que	se	deviam	à	formação</p><p>de	subculturas.	Segundo	eles,	os	que	têm	menos	oportunidades	sociais	se</p><p>agrupam	 e	 se	 submetem	 a	 uma	 aprendizagem	 diferencial.	 Dito	 mais</p><p>claramente,	as	condições	sociais	desfavoráveis	levariam	à	marginalização	e</p><p>esta	 favoreceria	 os	 agrupamentos	 de	 semelhantes	 com	 definições</p><p>favoráveis	ao	delito,	ou	seja,	uma	variável	cultural	ou	subcultura.</p><p>Esta	 teoria	 subcultural	 pressupõe	 a	 existência	 de	 uma	 cultura</p><p>dominante,	 o	 que	 não	 é	 simples	 em	 sociedades	 plurais	 e	 menos	 ainda</p><p>quando	 as	 condições	 sociais	 desfavoráveis	 são	 as	 da	 maioria,	 como	 em</p><p>muitíssimos	países	periféricos.</p><p>Em	 1955,	 Albert	 K.	 Cohen	 expôs	 uma	 nova	 teoria	 da	 subcultura</p><p>criminal,	afirmando	que	as	crianças	e	jovens	dos	estratos	desfavorecidos,</p><p>como	não	podiam	ajustar	sua	conduta	à	cultura	de	classe	média	que	lhes</p><p>era	 ensinada	nas	 escolas,	 reagiam,	 rechaçando-a	e	 invertendo	os	 valores</p><p>da	 classe	 média.	 Cabe	 observar	 que	 esta	 tese	 negava	 toda	 criatividade</p><p>valorativa	 às	 classes	 mais	 desfavorecidas,	 pois	 se	 limitava	 a	 inverter	 os</p><p>valores	da	classe	média.</p><p>Essas	teorias	subculturais	receberam	uma	resposta	crítica	por	parte	de</p><p>dois	 sociólogos	 –	 Gresham	 Sykes	 e	 David	 Matza	 –	 que,	 em	 1957,</p><p>publicaram	 um	 artigo	 na	 American	 Sociological	 Review,	 que	 marca	 um</p><p>momento	muito	 importante	 na	 criminologia	 contemporânea:	Técnicas	 de</p><p>neutralização:	uma	teoria	da	delinquência.</p><p>Se	bem	que	Sykes	e	Matza,	nos	anos	1950,	tinham	em	vista	os	jovens</p><p>rebeldes	 sem	 causa	 (com	 filme	 póstumo	 de	 James	 Dean	 e	 a	 direção	 de</p><p>Nicholas	 Ray	 e	 com	 música	 de	 fundo	 e	 movimento	 de	 quadris	 de	 Elvis</p><p>Presley),	 o	 certo	 é	 que	 sua	 tese	 voltou	 a	 primeiro	 plano	 quando</p><p>começamos	a	nos	fixar	nos	crimes	de	massa</p><p>dos	Estados,	porque	a	teoria</p><p>das	 técnicas	 de	 neutralização	 parece	 ter	 sido	 feita	 pensando	 nos</p><p>genocidas.	 Voltaremos	 a	 esse	 ponto	 mais	 adiante,	 mas	 vocês	 podem</p><p>meditar	 sobre	 isso	 desde	 agora.	 Pelo	 momento,	 vejamos	 em	 que	 ele</p><p>consiste.</p><p>A	 tese	 central	 de	 Sykes	 e	 Matza	 é	 que	 os	 jovens	 delinquentes	 não</p><p>negam	 nem	 invertem	 os	 valores	 dominantes,	 e	 sim	 aprendem	 a</p><p>neutralizá-los.	Seria	a	consequência	de	receber	um	excesso	de	definições</p><p>1.</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>que	 ampliam,	 de	 modo	 inadmissível,	 as	 causas	 de	 justificação	 e	 de	 se</p><p>livrar	 da	 culpa.	 Não	 se	 trata	 de	 que	 eles	 racionalizam	 atos	 perversos,</p><p>porque	 a	 racionalização	 é	 posterior	 ao	 fato,	 ocorre	 quando	 digo	 uma</p><p>mentira	e	depois	tento	me	justificar.	Não,	as	técnicas	de	neutralização	são</p><p>anteriores	ao	ato,	são	algo	que	se	aprende	antes	e	permitem	realizar	o	ato</p><p>na	convicção	de	que	se	está	justificado	ou	não	se	é	culpado.</p><p>Sykes	 e	 Matza	 revelam	 os	 seguintes	 cinco	 tipos	 de	 técnicas	 de</p><p>neutralização:</p><p>Negação	 da	 própria	 responsabilidade	 (São	 as	 circunstâncias	 que	 me</p><p>fazem	assim,	eu	não	o	escolhi,	minha	mãe	é	castradora,	meu	velho	é</p><p>rígido,a	sociedade	me	faz	assim).</p><p>Negação	do	dano	 (Não	me	 compadeço	de	ninguém,	 têm	muita	mais</p><p>grana,	não	é	tão	grave,	havia	ofendido	a	minha	velha).</p><p>Negação	da	vítima	(Foi	ele	que	me	agrediu,	eu	só	me	defendi,	são	uns</p><p>negros,	uns	maricas,	uns	favelados	etc.).</p><p>Condenação	 dos	 condenadores	 (A	 polícia	 é	 corrupta,	 na	 escola	 me</p><p>tratam	mal,	meu	velho	é	intolerante,	os	juízes	são	uns	hipócritas).</p><p>Apelo	 a	 lealdades	 superiores	 (Não	 posso	 deixar	 os	 companheiro</p><p>sozinhos,	 não	 posso	 me	 afastar	 deles	 agora,	 não	 posso	 faltar	 aos</p><p>amigos,	tenho	que	atender	aos	cumpinchas).</p><p>Vamos	 pensando	 se	 essas	 técnicas	 não	 são	 mais	 próprias	 dos</p><p>genocidas	que	dos	rebeldes	sem	causa.	Porém,	avançando	nos	anos	50	e</p><p>60	 do	 século	 passado,	 é	 natural	 que,	 se	 se	 pensa	 que	 o	 delito	 é	 uma</p><p>conduta	aprendida,	 cabe	perguntar	por	que	é	mais	 facilmente	aprendida</p><p>por	uns	do	que	por	outros.	Isso	é	o	que	tentaram	responder	as	chamadas</p><p>teorias	do	controle,	centradas	na	família	e	na	escola.</p><p>Não	há	dúvida	de	que	essas	instituições	e	as	primeiras	vivências	têm</p><p>muitíssima	 importância	 no	 curso	 posterior,	 mas	 isso	 pertence	 mais	 ao</p><p>campo	da	psicologia	do	que	ao	da	sociologia,	que	antes	teria	de	se	ocupar</p><p>das	 condições	 sociais	 desfavoráveis	 a	 seu	 bom	 funcionamento.	 Por	 isso,</p><p>não	nos	ocuparemos	em	detalhe	dessas	teorias,	que	são	muitas	e,	embora</p><p>isto	não	seja	verdade	a	respeito	de	todas,	o	certo	é	que	costumam	deixar</p><p>um	sabor	conservador	e	nem	sempre	liberal.</p><p>Ao	prescindir	de	outros	 fatores	 sociais,	elas	provocam	uma	sensação</p><p>estranha,	pois	parecem	sugerir	pistas	técnicas	para	provocar	conformismo,</p><p>consenso,	 homogeneização,	 o	 que	 nem	 sempre	 é	 saudável,	 porque,	 ao</p><p>não	se	ocupar	da	maior	parte	dos	problemas	sociais,	dariam	por	certo	que</p><p>a	sociedade	funciona	muito	bem	e	que	a	única	coisa	que	há	que	se	fazer	é</p><p>domesticar	prematuramente	as	pessoas.</p><p>Se	 o	 conformismo	 fosse	 o	 ideal	 e	 houvesse	 um	 modo	 infalível	 de</p><p>obtê-lo,	 a	 humanidade	 ficaria	 órfã	 de	 inovadores	 em	 todas	 as	 áreas	 e	 o</p><p>delito,	com	certeza,	não	desapareceria,	pois	o	conformismo	com	o	poder</p><p>que	dirige	a	punição	deixaria	os	crimes	do	poder	impunes.</p><p>22.	Sistêmicos	e	conflitivistas</p><p>Das	 cinco	 correntes	 em	 que	 se	 dividiu	 a	 criminologia	 sociológica</p><p>estadunidense	antes	de	deter-se	no	próprio	poder	punitivo,	conforme	os</p><p>condicionamentos	 em	 que	 cada	 uma	 se	 detinha,	 sobrevoamos	 as	 três</p><p>primeiras	(desorganização,	organização	diferente	e	controle)	e	nos	restam</p><p>as	duas	últimas:	tensão	social	e	conflito.</p><p>Estas	não	apenas	disputam	entre	elas	a	etiologia	social	do	delito,	como</p><p>também	 o	 próprio	 conceito	 da	 sociedade.	 Enquanto	 as	 teses	 sistêmicas</p><p>concebem	a	delinquência	como	resultado	de	tensões	provocadas	dentro	de</p><p>um	 sistema,	 as	 conflitivistas	 a	 explicam	 como	 resultado	 do	 permanente</p><p>conflito	 entre	 grupos	 sociais.	 Aqui	 se	 localiza	 o	 enfrentamento	 entre	 as</p><p>duas	diferentes	 ideias	de	 sociedade:	 para	uns,	 a	 sociedade	é	um	 sistema</p><p>que	 abarca	 todas	 suas	 partes,	 as	 relações	 entre	 estas	 e	 as	 relações	 do</p><p>conjunto	com	o	meio	externo,	enquanto	que	para	outros	é	um	conjunto</p><p>de	 grupos	 em	 conflito	 que	 estabelecem,	 em	 determinadas	 ocasiões,	 as</p><p>regras	 de	 jogo	 para	 resolvê-los,	 que	 lhe	 atribuem	 uma	 aparente</p><p>estabilidade,	mas	nunca	configuram	um	sistema.</p><p>Como	não	há	forma	de	verificar	que	a	sociedade	seja	um	sistema	ou</p><p>que	 se	 esgote	nas	 regras	 comuns	para	decidir	 os	 conflitos	 entre	 grupos,</p><p>acreditamos	 que	 tanto	 a	 concepção	 sistêmica	 quanto	 a	 conflitivista	 são</p><p>algo	assim	como	armários	de	cozinha	nos	quais	se	colocam	os	copos,	os</p><p>pratos,	 as	 taças	 e	 os	 talheres	 (que,	 em	 sociologia,	 seriam	 os	 fatos</p><p>empiricamente	observados)	e	 como	os	utensílios	da	cozinha	não	podem</p><p>ficar	espalhados	pelo	quarto	de	dormir	e	devem	ser	guardados	em	algum</p><p>lugar,	o	sociólogo	deve	escolher	o	tipo	de	armário	que	prefere.</p><p>A	 escolha	 não	 é	 aleatória,	 pois	 os	 sistêmicos	 têm	 problemas	 para</p><p>1.</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>explicar	porque	a	sociedade	muda,	enquanto	os	conflitivistas	os	têm	para</p><p>explicar	 porque	 há	 componentes	 que	 são	 mais	 estáveis,	 visto	 que	 nem</p><p>todos	os	utensílios	cabem	com	comodidade	em	nenhum	dos	armários.</p><p>Dentro	dos	sistêmicos	há	os	mais	ou	menos	 radicais	e,	por	certo,	os</p><p>mais	 extremistas	 se	 aproximam	 quase	 até	 se	 identificar	 com	 o	 velho</p><p>organicismo.	 Não	 obstante,	 não	 se	 pode	 deduzir	 daí	 que	 todos	 os</p><p>sistêmicos	 sejam	 reacionários	 e	 os	 conflitivistas	 progressistas,	 pois	 os</p><p>houve	para	todos	os	gostos.</p><p>O	sociólogo	sistêmico	mais	interessante	para	a	criminologia	foi	Robert</p><p>K.	Merton,	que	fez	época	na	sociologia	estadunidense	a	partir	de	sua	obra</p><p>mais	difundida	(Social	theory	and	social	structure),	publicada	em	1949.</p><p>Merton	explica	o	delito	como	resultado	de	uma	desproporção	entre	as</p><p>metas	sociais	e	os	meios	para	alcançá-las.	Se	a	meta	social	é	a	riqueza,	os</p><p>meios	para	alcançá-la	são	poucos	e,	por	conseguinte,	gera-se	uma	tensão</p><p>porque	nem	todos	podem	chegar	a	ela.	É	como	um	concurso:	à	medida</p><p>que	as	provas	vão	se	sucedendo,	mais	concorrentes	vão	sendo	excluídos,</p><p>até	 que	 apenas	 uns	 poucos	 chegam	 ao	 final.	 Ele	 denomina	 essa</p><p>desproporção	de	anomia	(palavra	tomada	de	Durkheim,	embora	para	este</p><p>significasse	outra	coisa).</p><p>Evidentemente,	nem	todos	os	que	ficam	fora	de	concurso	delinquem,</p><p>e	por	isso	Merton	afirma	a	existência	de	cinco	distintos	tipos	de	adaptação</p><p>individual,	 segundo	 a	 aceitação	 ou	 o	 recusa	 das	 metas	 ou	 dos	 meios</p><p>institucionais:</p><p>As	metas	e	os	meios	são	aceitos	(conformismo).</p><p>As	metas	são	aceitas	e	os	meios	rechaçados	(inovação).</p><p>As	metas	são	rechaçadas	e	os	meios	são	aceitos	(ritualismo).</p><p>As	metas	e	os	meios	são	rechaçados	(retraimento).</p><p>As	metas	e	os	meios	são	rechaçados,	mas	são	propostos	novas	metas	e</p><p>novos	meios	(rebelião).</p><p>De	 acordo	 com	 essa	 esquema,	 o	 conformista	 é	 o	 socialmente</p><p>adaptado,	o	ritualista	identifica-se	com	o	burocrata,	o	retraído	é	o	vadio,</p><p>o	mendigo,	o	alcoólatra	etc.,	e	o	rebelde	é	o	 renovador	social,	que	quer</p><p>mudar	 a	 estrutura.	 O	 inovador	 é	 a	 categoria	 mertoniana	 que	 abrange</p><p>vários	personagens,	como	o	inventor,	mas	ao	qual	também	correspondem</p><p>os	chamados	delinquentes,	 ou	 seja,	 os	 que	 escolhem	 caminhos	que	não</p><p>são	 os	 institucionais	 para	 chegar	 à	 meta.	 Segundo	 Merton,	 isso	 explica</p><p>porque	 o	 delito	 não	 é	 produto	 da	 simples	 limitação	 de	 meios	 para</p><p>alcançar	 riqueza	 nem	da	 exaltação	 isolada	 das	metas	 pecuniárias,	mas	 é</p><p>necessária	a	combinação	de	ambas	para	que	se	produza	o	desvio.</p><p>A	tese	de	Merton	merece	críticas,	como	a	de	não	conseguir	explicar	o</p><p>delito	 do	 colarinho	 branco,	 de	 não	 levar	 em	 conta,	 aparentemente,	 a</p><p>delinquência	 grupal	 e,	 sobretudo,	 pela	 dificuldade	 em	 definir	 as	 metas</p><p>comuns	em	sociedades</p><p>plurais.	De	qualquer	maneira,	porém,	não	se	pode</p><p>ignorar	 que	 trouxe	 uma	 série	 de	 conceitos	 que	 até	 hoje	 iluminam	 a</p><p>criminologia.</p><p>Assim,	 partindo	 do	 teorema	 de	 Thomas,	 ele	 anunciou	 a	 ideia	 da</p><p>profecía	 que	 se	 autorrealiza	 (espalha-se	 o	 boato	 de	 que	 o	 banco	 está</p><p>quebrando	e	 aí	 todos	os	 correntistas	 retiram	 suas	poupanças,	 e	o	banco</p><p>termina	quabrando).	Outra	contribuição	é	a	ideia	de	alquimia	moral,	que</p><p>faz	 que	 o	 que	 é	 positivo	 e	 virtuoso	 para	 o	 in-group	 resulte	 negativo	 e</p><p>vicioso	no	out-group	(é	bom	que	os	jovens	estudem	para	progredir,	mas	é</p><p>mau	que	os	presos	estudem,	porque	o	fazem	para	delinquir	melhor).</p><p>Uma	 contribuição	 interessantíssima	 de	 Merton,	 em	 especial	 quando</p><p>incorporada	ao	sistema	penal,	é	a	ideia	de	incapacidade	adestrada	e	a	de</p><p>psicose	 profissional,	 sintetizadas	 no	 adestramento	 burocrático	 –	 e</p><p>profissional	em	geral	–	que	proporciona	um	modo	de	ver	que	 é	 também</p><p>um	modo	de	não	ver.	Em	outras	palavras,	enfocar	um	objeto	é	algo	que</p><p>pressupõe,	 ao	 mesmo	 tempo,	 o	 desenfoque	 de	 outro	 objeto:	 o	 gorila</p><p>invisível	dos	modernos	psicólogos	de	Harvard.</p><p>Isso	 explicará,	 em	 seguida,	 algumas	 características	 kafkianas	 nos</p><p>segmentos	 do	 sistema	 penal.	 Mostra	 como	 a	 adesão	 às	 regras	 termina</p><p>convertendo	um	meio	em	um	 fim	e	deslocando	as	metas,	 com	o	quê	o</p><p>resultado	deixa	de	 importar,	sempre	que	as	 formas	sejam	observadas	(se</p><p>não	 há	 certificado	 de	 disfunção,	 a	 presença	 do	 cadáver	 não	 tem</p><p>importância).</p><p>Há	outros	aportes	não	menos	interessantes	por	sua	utilidade	na	análise</p><p>do	 sistema	 penal,	 como	 o	 tratamento	 despersonalizado	 da	 clientela	 do</p><p>burocrata,	 que	 alcança	 limites	 insólitos	 no	 sistema	 penal,	 ou	 a	 ideia	 de</p><p>grupo	de	referência,	que	é	adotado	como	modelo,	como	quando	a	polícia</p><p>adota	o	modelo	militar	e	acaba	que	alguém	assume	o	papel	de	Rambo,	ou</p><p>quando	a	classe	média	adota	como	modelo	a	classe	alta	(é	a	ridiculização</p><p>de	Arturo	Jauretche,	em	El	Medio	Pelo	en	la	Sociedad	Argentina)[8].</p><p>Se	bem	que	Merton	tenha	sido	um	sociólogo	sistêmico,	o	foi	em	uma</p><p>medida	muito	prudente.	O	modelo	de	armário	que	escolheu	para	colocar</p><p>os	utensílios	da	cozinha	era	um	tanto	modular,	isto	é,	à	medida	que	tinha</p><p>novas	 panelas,	 o	 ampliava	 para	 poder	 guardá-las.	 Porém,	 nem	 todos	 os</p><p>sistêmicos	 foram	 iguais,	 porque	 não	 faltam	 aqueles	 que,	 quando	 as</p><p>panelas	não	cabem,	as	tiram	ou	as	amassam	para	enfiá-las	à	força.</p><p>Com	 efeito,	 há	 toda	 uma	 sociologia	 que	 defende	 uma	 ditadura	 do</p><p>sistema.	Ela	parte	da	descrição	de	um	sistema	(para	esses	sociólogos,	essa</p><p>é	a	sociedade),	e,	a	partir	daí,	deduz	tudo	o	que	é	necessário	para	mantê-</p><p>lo	 em	 equilíbrio.	 Em	 geral,	 essa	 sociologia	 não	 se	 ocupa	 muito	 da</p><p>criminologia	de	 forma	expressa,	podemos	mesmo	dizer	que	quase	nada,</p><p>porque	 se	 limita	 a	 dar	 por	 certo	 que	 o	 poder	 repressivo	 faz	 parte	 do</p><p>sistema,	 sendo	 necessário	 para	 manter	 seu	 equilíbrio.	 Seus	 maiores</p><p>expoentes	 foram	 Talcott	 Parsons,	 nos	 Estados	 Unidos,	 e	 seu	 discípulo</p><p>alemão	 Niklas	 Luhmann.	 Não	 nos	 ocuparemos	 aqui	 dos	 detalhes	 dessas</p><p>correntes	 sociológicas,	 porque	 são	 muito	 complexos	 e	 não	 têm</p><p>consequências	 criminológicas	 expressas,	 mas	 têm	 consequências	 tácitas</p><p>que	são	importantes.</p><p>Essas	 posições	 sistêmicas	 extremas	 reconduzem	 ao	 organicismo,</p><p>porque	 definitivamente	 a	 única	 coisa	 importante	 para	 elas	 é	o	 sistema	 e</p><p>seu	equilíbrio.	Porém,	diferentemente	do	velho	organicismo	criminológico</p><p>positivista	 racista,	 já	 não	 lhes	 preocupa	 a	 etiologia	 do	 crime,	 mas	 sim</p><p>unicamente	o	que	o	sistema	deve	fazer	para	não	se	desequilibrar	ou	para</p><p>se	reequilibrar.</p><p>Desse	modo,	poder-se-ia	concluir	que,	se	a	criminologia	midiática	cria</p><p>uma	 realidade	que	 gera	 tal	 pânico	na	 sociedade	 a	ponto	desta	 reclamar</p><p>uma	 repressão	 enorme,	 esta	 terá	 de	 ser	 feita,	 porque	 é	 necessária	 para</p><p>normalizar	 a	 situação	 e	 reequilibrar	 o	 sistema.	Não	 é	por	 acaso	 que	 as</p><p>consequências	 práticas	 das	 versões	 mais	 radicais	 dessa	 teoria	 coincidem</p><p>com	 o	 postulado	 por	 James	 Q.	 Wilson,	 politólogo	 estadunidense	 de</p><p>extrema-direita,	que	afirma	ser	 inútil	se	perguntar	pelas	causas	do	delito,</p><p>pois	a	única	coisa	eficaz	que	o	Estado	pode	fazer	não	é	neutralizar	essas</p><p>causas,	mas	sim	reprimir	o	delito.	É	claro	que	para	aqueles	que	pretendem</p><p>reduzir	o	Estado	a	quase	nada	para	deixar	tudo	nas	mãos	do	mercado	(ao</p><p>estilo	Reagan-Bush),	 o	único	bem	que	esse	 cadáver	 insepulto	do	Estado</p><p>deve	fazer	é	castigar	os	pobres.</p><p>A	teorização	sistêmica	acaba	em	uma	criminologia	que	não	responde</p><p>ao	paradigma	etiológico	legitimador	nem	ao	da	reação	social,	e	sim	ao	da</p><p>pura	 repressão	 como	 necessidade	 do	 sistema,	 na	 medida	 em	 que	 seja</p><p>necessário	para	produzir	 consenso.	 Para	Wilson,	 isso	 seria	 equivalente	 a</p><p>satisfazer	às	exigências	da	publicidade	vingativa	da	demagogia	midiática:</p><p>se	a	opinião	pública	pede	para	prender	todos	os	negros,	devemos	investir</p><p>200	bilhões	de	dólares	anuais	para	fazer	isso.</p><p>Cabe	 esclarecer	 que	 podemos	 criticar	 Parsons	 e	 Luhmann,	 mas	 eles</p><p>são	sociólogos,	enquanto	James	Q.	Wilson,	que	não	é	um	sistêmico,	não</p><p>passa	de	um	reacionário	com	espaço	midiático,	e	não	creio	que	ele	tenha</p><p>estudado	ninguém	muito	a	fundo.</p><p>Os	 conflitivistas	 são	 os	 que	 partem	 da	 ideia	 oposta	 de	 sociedade,</p><p>concebendo-a	 como	 resultado	 dos	 conflitos	 entre	 diferentes	 grupos	 que</p><p>em	algumas	ocasiões	encontram	algum	equilíbrio	precário,	mas	que	nunca</p><p>constitui	um	sistema.	Seus	antecedentes	remontam	a	Marx	e	a	Simmel,	mas</p><p>a	 primeira	 expressão	 moderna	 do	 conflitivismo	 criminológico	 foi	 a	 do</p><p>holandês	 Willen	 Bonger,	 que,	 no	 começo	 do	 século	 passado,	 rechaçava</p><p>todas	as	teses	que	subestimavam	os	fatores	sociais	do	delito,	enfrentando</p><p>o	positivismo	e	em	particular	Garofalo.</p><p>Ele	 afirmava,	 de	 uma	 perspectiva	 marxista,	 que	 o	 sistema	 capitalista</p><p>gerava	miséria	por	inocular	egoísmo	em	todas	as	relações	e	por	isso	era	o</p><p>único	 criador	 do	 delito,	 tanto	 nas	 classes	 despossuídas	 quanto	 na</p><p>burguesia.	Negava,	desse	modo,	o	pretenso	caráter	socialista	das	teses	de</p><p>Ferri.	 Rechaçou	 inteiramente	 o	 biologismo	 criminológico	 e	 combateu</p><p>frontalmente	 a	 esterilização	 e	 o	 racismo,	 o	 que	 constitui	 um	mérito	 que</p><p>hoje	ninguém	lhe	pode	negar.</p><p>Afirmava	 que	 o	 delito	 resulta	 das	 condições	 de	 sobrevivência	 dos</p><p>trabalhadores	obrigados	a	competir	entre	si,	ressaltando	algo	sobre	o	qual</p><p>se	 costuma	 passar	 por	 cima,	 inclusive	 por	 criminólogos	 progressistas:	 a</p><p>pobreza	 não	 gera	 mecanicamente	 o	 delito	 de	 rua,	 mas	 sim,	 quando	 se</p><p>combina	com	o	 individualismo,	o	 racismo,	as	necessidades	artificiais	e	o</p><p>machismo.</p><p>Se	 bem	 que	 Bonger	 tenha	 sido	 considerado	 durante	 muitos	 anos	 o</p><p>expoente	 da	 criminologia	 marxista,	 o	 certo	 é	 que	 continuava	 fazendo</p><p>criminologia	 etiológica	 e	 não	 chegava	 a	 criticar	 o	 próprio	 poder</p><p>criminalizador,	 razão	pela	qual	os	criminólogos	marxistas	mais	modernos</p><p>o	 consideram	 um	 marxista	 formal.	 Mais	 adiante,	 nos	 anos	 1930,	 foi</p><p>Thorsten	Sellin	quem	voltou	ao	posicionamento	conflitivista,	mas	do	ponto</p><p>de	 vista	 do	 pluralismo	 cultural	 que,	 como	 vimos,	 havia	 sido	 uma</p><p>determinante	da	proibição	acoólica.</p><p>Nos	anos	1950,	George	B.	Vold	defendeu	a	teoria	do	conflito	grupal,</p><p>concebendo	a	sociedade	como	configurada	por	grupos	de	interesses	que</p><p>competem	 entre	 si;	 na	 medida	 em	 que	 essa	 competição	 se	 acentua,</p><p>reforça-se	a	solidariedade	do	grupo,	mas	essas	lutas	também	determinam	a</p><p>dinâmica	social.	O	processo	de	legislar,	violar	a	lei	e	impô-la	policialmente</p><p>responderia,	 no	 fundo,	 à	 dinâmica	 dos	 conflitos	 entre	 grupos,	 na	 qual</p><p>perdem	aqueles	que	não	têm	poder	suficiente	para	impor	seus	interesses.</p><p>Vold	afirmava,	dessa	perspectiva,	que	boa	parte	do	delito	é	produto</p><p>dos	conflitos	intergrupais.	Nesses	mesmos	anos,	essas	teses	receberam,	da</p><p>sociologia	geral,	o	impacto	da	obra	de	Ralf	Dahrendorf	sobre</p><p>o	conflito	de</p><p>classes	na	sociedade	industrial.</p><p>As	 teorias	 do	 conflito	 não	 podiam	 deixar	 de	 ir	 se	 aproximando	 da</p><p>crítica	ao	poder	punitivo,	de	modo	que	muitas	delas	fazem	a	ponte	entre</p><p>esta	criminologia	etiológica	e	a	que	veremos	na	sequência.	Por	outro	lado,</p><p>quando	elas	se	mantêm	dentro	da	criminologia	etiológica,	à	medida	que</p><p>encontram	 a	 etiologia	 em	 planos	 de	 análise	 social	 mais	 macro,	 é	 mais</p><p>difícil	 deduzir	 medidas	 concretas	 de	 política	 criminológica,	 pois	 estas</p><p>dependeriam	de	 reformas	estruturais	muito	profundas.	Ainda	que	pareça</p><p>mentira,	 a	 regra	 parece	 ser	 que,	 quanto	 mais	 radical	 é	 uma	 crítica	 ao</p><p>poder	 social,	menor	é	 a	possibilidade	de	modificá-lo	de	 imediato	e,	por</p><p>conseguinte,	 de	 incomodá-lo.	Daí	 que	os	 que	o	 exercem	 as	 consideram</p><p>mais	inofensivas.</p><p>Veremos,	 a	 seguir,	 o	 momento	 em	 que	 se	 produz	 aquilo	 que	 se</p><p>tornava	inevitável	como	resultado	desse	trajeto:	a	incorporação	do	aparato</p><p>de	poder	punitivo	à	análise	criminológica.</p><p>Ilustração	15</p><p>23.	A	prateleira	caiu!</p><p>Desde	 os	 anos	 1930,	 a	 sociologia	 estadunidense	 vinha	 demolindo	 a</p><p>visão	convencional	da	sociedade.	Os	surveys,	como	Middletown	(Robert	S.</p><p>Lynd	 e	Helen	 Lynd)	 e	Yankee	City	 (William	 Lloyd	Warner)	mostraram	 a</p><p>estratificação	 social.	 Samuel	 Stouffer	 e	 Paul	 Lazarsfeld	 desnudaram	 a</p><p>manipulação	da	opinião	e	o	efeito	da	radiotelefonia,	que	de	brincadeira	de</p><p>criança	 passou	 a	 decidir	 a	 eleição	 de	 Roosevelt.	 O	 Prêmio	 Nobel	 sueco</p><p>Gunnar	 Myrdal,	 com	 seu	 American	 dilemma,	 colocava	 em	 relevo	 os</p><p>efeitos	dos	preconceitos	dos	brancos	sobre	o	comportamento	dos	negros.</p><p>As	informações	de	Alfred	C.	Kinsey	sobre	as	práticas	sexuais	despertaram</p><p>uma	gritaria	histérica	sem	precedentes.</p><p>Algumas	 contribuições	 da	 microssociologia	 seguiam	 pelo	 mesmo</p><p>caminho.	William	Foote	White	na	sociedade	da	esquina,	metido	no	meio</p><p>de	um	grupo	de	imigrantes	italianos	(método	do	observador	participante)</p><p>colocou	em	evidência,	em	1947,	que	o	líder	não	era	o	mais	hábil,	mas	sim</p><p>era	o	mais	hábil	porque	era	o	líder,	o	que	é	importante	para	compreender</p><p>a	 resistência	 a	 qualquer	 mudança	 nas	 agências	 do	 sistema	 penal	 (e	 da</p><p>política	em	geral:	não	me	mude	as	regras	do	jogo,	porque	com	estas	estou</p><p>ganhando	e	com	as	novas	posso	perder).</p><p>Na	 teoria	 sociológica	 geral,	 quem	 dava	 a	 tônica	 era	 Charles	 Wright</p><p>Mills,	 um	 sociólogo	 difícil	 de	 classificar,	 mas	 um	 bom	 demolidor	 de</p><p>preconceitos.	Há	 três	obras	deste	 autor	que	 são	únicas.	Em	White	 collar</p><p>(1951),	 ele	 descreve	 e	 ironiza	 a	 formação	 da	 classe	 média,	 próxima	 à</p><p>classe	operária,	mas	diferenciando-se	desta	em	status	e	prestígio.	Observa</p><p>que	 não	 é	 um	 grupo	 homogêneo,	 mas	 sim	 uma	 pirâmide	 superposta	 à</p><p>outra	pirâmide.	Suas	ironias	são	válidas	para	boa	parte	das	nossas	classes</p><p>médias	latino-americanas.	Outro	livro	importante	é,	sem	dúvida,	The	power</p><p>elite,	 no	 qual	 ele	 procura	 estabelecer	 quem	 tem	 o	 poder	 na	 sociedade</p><p>estadunidense	 e	observa,	 visionariamente,	 que	uma	verticalização	e	uma</p><p>burocratização	iam	correspondendo	a	uma	sociedade	de	massas	e	não	de</p><p>públicos.	Ele	fazia	notar	que	as	associações	voluntárias	desapareciam	e	os</p><p>meios	de	comunicação	de	massa	manipulavam	a	opinião	pública.	Em	um</p><p>terceiro	 –	 A	 imaginação	 sociológica	 (1959)	 –,	 zombava	 da	 sociologia</p><p>sistêmica	 de	 Parsons,	 chamando-a	 de	 a	 grande	 teoria,	 e	 a	 acusava	 de</p><p>escamotear	o	problema	do	poder	com	uma	linguagem	obscura	(dizia	que</p><p>ainda	era	necessário	traduzi-lo	para	o	inglês).</p><p>Como	vemos,	é	 inquestionável	que	as	coisas	não	surgem	do	nada,	e</p><p>que	as	palavras	da	academia	têm	uma	continuidade	e	nunca	são	obra	de</p><p>alguém	que	as	inventou,	enquanto	se	enfeitava	ou	se	maquiava.</p><p>Nesse	 clima,	 criado	pela	 sociologia	 geral	 ao	 longo	de	mais	 de	 vinte</p><p>anos,	a	criminologia	sociológica	não	podia	continuar	se	perguntando	pelas</p><p>causas	do	delito	sem	reparar	no	poder	punitivo.</p><p>Até	 esse	 momento,	 ninguém	 havia	 analisado	 o	 exercício	 do	 poder</p><p>repressivo.	 O	 delito	 podia	 ser	 atribuído	 a	 muitos	 fatores,	 inclusive	 ao</p><p>próprio	poder,	mas	ninguém	se	ocupava	do	sistema	penal	em	particular.</p><p>Não	 obstante,	 não	 se	 podia	 continuar	 avançando	 sem	 o	 levar	 em</p><p>consideração	e,	ao	fazê-lo,	podemos	dizer	que	a	prateleira	caiu.</p><p>A	queda	da	prateleira	é	algo	que,	em	termos	científicos,	 foi	batizado</p><p>há	 alguns	 anos	 por	 Kuhn,	 de	 um	 modo	 mais	 elegante:	 mudança	 de</p><p>paradigma.	Significa	que	todas	as	taças	caíram	e	se	misturaram	com	outras</p><p>e,	 por	 conseguinte,	 devem	 ser	 recolocadas	 em	 uma	 nova	 ordem	 e	 com</p><p>umas	tantas	taças	novas,	em	um	novo	armário.	Isso	é	o	que	acontece	na</p><p>ciência,	quando	se	 rompe	o	marco	dentro	do	qual	 todos	pensavam	e	se</p><p>passa	 a	 um	 outro	 diferente,	 como	 aconteceu	 com	 Copérnico,	 Einstein	 e</p><p>outros.</p><p>Foi	 assim	que	a	discussão	acerca	da	polícia,	dos	 juízes	etc.,	ou	 seja,</p><p>até	onde	haviam	chegado	nossos	 velhos	 amigos	do	bar,	 discutindo	 com</p><p>quem	queria	pulso	 firme	e	bala,	 foi	assumida	pela	criminologia	nos	anos</p><p>60	do	século	passado.	Dado	que	os	frequentadores	habituais	do	bar	não</p><p>haviam	 patenteado	 a	 mudança	 de	 paradigma,	 eles	 perderam	 os	 direitos</p><p>autorais.</p><p>Desse	modo,	abriu-se	uma	nova	etapa	na	criminologia	acadêmica	que,</p><p>por	 incorporar	 o	 poder	 punitivo,	 é	 chamada	 de	 criminologia	 da	 reação</p><p>social,	 embora	 também	 possa	 ser	 chamada	 de	 criminologia	 crítica.</p><p>Esclareço	 que	 as	 denominações	 são	 discutíveis	 e	 que	 preferimos	 não</p><p>perder	tempo	com	isso.</p><p>Dentro	dessa	nova	criminologia	(da	reação	social	ou	crítica),	podem</p><p>distinguir-se	duas	correntes,	às	quais	se	convencionou	chamar	de	liberal	e</p><p>radical,	respectivamente.	Vejamos	a	que	essa	diversificação	responde.</p><p>Toda	a	criminologia	da	reação	social,	pelo	mero	fato	de	introduzir	em</p><p>seu	campo	o	sistema	penal	e	o	poder	punitivo,	não	pode	senão	criticá-lo</p><p>(por	isso	também	a	chamamos	crítica).</p><p>Pois	 bem.	 A	 crítica	 ao	 sistema	 penal	 é	 uma	 crítica	 ao	 poder	 e,</p><p>portanto,	 pode	 se	 situar	 no	 nível	 do	 sistema	 penal	 (ou	 seja,	 do	 aparato</p><p>repressivo)	 ou	 elevar-se	 até	 diferentes	 níveis	 do	 poder	 social.	 Posso</p><p>analisar	e	criticar	o	que	a	polícia,	os	 juízes,	os	agentes	penitenciários,	os</p><p>meios	 de	 comunicação	 etc.	 fazem,	 ou	 ir	 mais	 além	 e	 analisar	 sua</p><p>funcionalidade	em	relação	a	todo	o	poder	social,	econômico,	político	etc.</p><p>e	chegar	a	uma	crítica	do	poder	em	geral.</p><p>Diz-se	 que	 há	 uma	 criminologia	 crítica	 que	 se	 situa	 no	 nível	 dos</p><p>cachorros	 pequenos	 (under	 dogs),	 que	 chega	 no	 máximo	 nos	 cachorros</p><p>médios	 (middle	 dogs),	 mas	 que	 não	 alcança	 os	 cachorros	 grandes	 (top</p><p>dogs).	Pois	bem.	Denominou-se	aquela	que	não	chega	aos	de	cima,	 por</p><p>certo	que	com	um	certo	tom	pejorativo,	de	criminologia	liberal	e	a	que	os</p><p>alcança	de	criminologia	radical.</p><p>Ilustração	16</p><p>Nos	 anos	 1970,	 a	 discussão	 entre	 as	 duas	 correntes	 da	 criminologia</p><p>crítica	era	forte,	mas	nas	últimas	décadas,	o	giro	brutalmente	regressivo	da</p><p>repressão	 penal,	 especialmente	 nos	 Estados	 Unidos,	 fez	 com	 que	 elas</p><p>cerrassem	fileiras	e	o	enfrentamento	perdeu	força.	Os	radicais,	geralmente</p><p>baseados	 no	 marxismo	 não	 institucionalizado	 (como	 a	 Escola	 de</p><p>Frankfurt),	afirmavam	que	os	liberais	eram	reformistas,	se	deixavam	ficar</p><p>no	meio	 do	 caminho	 e	 que	 era	 preciso	 se	 chegar	 a	 uma	 transformação</p><p>mais	profunda	de	toda	a	sociedade.</p><p>O	 certo	 é	 que	 a	 criminologia	 radical,	 ao	 elevar	 sua	 crítica	 a	 essas</p><p>alturas,	 não	 deixava	 espaço	 para	 uma	 política	 criminológica	 de	 menor</p><p>alcance	e,	em	suas	expressões	mais	extremas,	levava	à	quase	impotência,</p><p>porque	 havia	 que	 esperar	 a	 grande	 mudança,	 a	 revolução,	 para	 atirar</p><p>tudo	pela	janela	(e,	de	quebra,	a	própria	janela	também).</p><p>Em	 tempos	 em	 que	 muitos	 acreditavam	 que	 a	 revolução	 estava	 ao</p><p>dobrar	a	esquina,	podia	se	sustentar	uma	posição	semelhante,	mas	quando</p><p>os	 fatos	 demonstraram	 que	 o	 que	 estava	 por	 vir	 era	 uma	 reconstrução</p><p>brutal</p><p>do	Estado	policial,	essas	posições	tiveram	de	ceder	à	prudência.	Por</p><p>outra	 parte,	 a	 chamada	 criminologia	 liberal	 tampouco	 era	 tão	 ineficaz</p><p>como	 pensavam	 alguns	 radicais	 e	 confesso	 minha	 própria	 experiência	 a</p><p>esse	respeito.</p><p>Em	1979,	um	extraordinário	pensador	 italiano	que	era	catedrático	na</p><p>Alemanha,	 Alessandro	 Baratta,	 cujo	 desaparecimento	 deixou	 um	 vazio</p><p>muito	 difícil	 de	 ser	 preenchido	 no	 pensamento	 criminológico,	 publicou</p><p>um	 artigo	 em	 que	 demonstrava	 que	 a	 sociologia	 anterior	 à	 crítica	 e	 a</p><p>sociologia	liberal	bastavam	para	demolir	todos	os	discursos	correntes	com</p><p>que	o	direito	penal	legitimava	o	poder	punitivo	de	forma	racional.</p><p>Esse	artigo	me	 impressionou	muito,	porque	achei	que	podia	demolir</p><p>todo	 o	 direito	 penal	 com	 consequências	 imprevisíveis	 para	 as	 garantias</p><p>individuais,	 acerca	 das	 quais,	 por	 outro	 lado,	 acabava	de	 escrever	 cinco</p><p>volumes	inatacáveis.	Tentei	responder-lhe,	naturalmente	sem	êxito,	do	que</p><p>me	convenci	pouco	depois.</p><p>Com	efeito,	a	criminologia	liberal-reformista,	de	meio	caminho	e	tudo</p><p>mais	 –	 bastava	para	 deslegitimar	 o	poder	 punitivo	 de	 forma	 irreversível.</p><p>Essa	criminologia	mostrou	que	o	poder	punitivo	é	altamente	seletivo,	que</p><p>não	respeita	a	 igualdade,	que	se	 fundamenta	no	preconceito	de	unidade</p><p>valorativa	 social,	 que	 não	 persegue	 atos	 e	 sim	 pessoas,	 que	 seleciona</p><p>conforme	estereótipos	etc.</p><p>Por	 certo	 que	 isso	 não	 é	 nada	 inofensivo	 para	 o	 poder,	 porque</p><p>embora	 a	 crítica	 não	 chegue	 a	 níveis	 mais	 altos,	 deslegitima	 um</p><p>instrumento	necessário	para	seu	exercício;	não	arremessa	a	 janela,	mas	a</p><p>deixa	bastante	desmantelada.</p><p>A	 criminologia	 da	 reação	 social	 chegou	 à	 América	 Latina	 nos	 anos</p><p>1970	e	foi	difundida	por	duas	distinguidas	criminólogas	venezuelanas:	Lola</p><p>Aniyar	de	Castro,	a	partir	da	Universidade	de	Zulia,	e	Rosa	del	Olmo,	da</p><p>Universidade	Central	de	Caracas.	Em	nosso	país,	seus	seguidores	se	viram</p><p>forçados	a	 tomar	o	caminho	do	exílio	durante	a	ditadura,	entre	os	quais</p><p>Roberto	Bergalli,	que	se	fixou	em	Barcelona,	e	Luis	Marcó	do	Pont	e	Juan</p><p>Pegoraro,	no	México.	Durante	os	anos	sangrentos	essa	criminologia	só	era</p><p>comentada	 em	 nosso	 meio	 em	 pequenos	 círculos,	 enquanto	 as	 cátedras</p><p>continuavam	 enlanguescendo	 no	 canto	 da	 Faculdade	 de	 Direito	 (na	 de</p><p>Buenos	Aires,	com	o	mais	puro	positivismo	perigosista).</p><p>Na	 atualidade,	 passados	 os	 anos,	 vemos	 que	 a	 prateleira	 caiu	 para</p><p>sempre,	 que	 a	 criminologia	 atual	 não	 pode	 evitar	 a	 análise	 do	 sistema</p><p>penal	e	do	poder	punitivo	em	geral	e,	como	dissemos,	o	confronto	entre</p><p>as	duas	correntes	criminológicas	se	atenuou	muito,	embora	mais	por	causa</p><p>do	 pânico	 do	 que	 do	 amor.	 O	 modelo	 Reagan-Thatcher-Bush	 e	 seu</p><p>nefasto	festival	do	mercado	tiveram	esse	efeito	paradoxal.</p><p>24.	A	criminologia	crítica	liberal	e	a	psicologia</p><p>social</p><p>A	chamada	criminologia	liberal	foi	anunciada	desde	os	anos	1950,	em</p><p>particular	com	um	 trabalho	de	Edwin	Lemert	que	destacava	ser	o	desvio</p><p>primário,	por	conta	do	qual	se	impõe	uma	pena,	seguido	em	geral	por	um</p><p>desvio	secundário,	 pior	que	o	anterior,	 causado	pela	mesma	 intervenção</p><p>punitiva	e	que	condiciona	as	chamadas	carreiras	criminosas.</p><p>Lemert	 escreveu	 textualmemente:	 O	 desvio	 secundário	 constitui</p><p>conduta	desviada	ou	papéis	sociais	baseados	nele	que	chegam	a	ser	meios</p><p>de	 defesa,	 ataque	 ou	 adaptação	 aos	 problemas	 manifestos	 ou	 ocultos</p><p>criados	 pela	 reação	 da	 sociedade	 ao	 desvio	 primário.	 Com	 efeito,	 as</p><p>“causas”	 originais	 do	 desvio	 desaparecem	 e	 cedem	 lugar	 à	 importância</p><p>central	das	reações	de	desaprovação,	degradação	e	isolamento	de	parte	da</p><p>sociedade.</p><p>Essa	criminologia	liberal	não	estava	isolada	da	sociologia	geral;	antes,</p><p>procedia	 diretamente	 dela	 e,	 em	 particular,	 de	 duas	 grandes	 influências</p><p>que	 ela	 havia	 recebido:	 por	 um	 lado,	 da	 psicologia	 social,	 com	 o</p><p>interacionismo	simbólico;	por	outro,	da	filosofia,	com	a	fenomenologia	de</p><p>Husserl.	Comecemos	pór	nos	aproximar	do	primeiro.</p><p>O	 interacionismo	 simbólico	 baseava-se	 nas	 ideias	 de	 George	 Mead,</p><p>segundo	 as	 quais	 todos	 temos	 um	 mim	 que	 se	 vai	 formando	 pelas</p><p>exigências	de	papéis	dos	demais,	e	um	eu	que	é	o	que	nós	trazemos.</p><p>O	sociólogo	mais	importante	dessa	corrente	foi	Erving	Goffman,	que	o</p><p>explicou	como	uma	dramaturgia	social.</p><p>Falemos	 um	 pouco	 mais	 claramente.	 Para	 Goffman,	 a	 sociedade</p><p>funciona	 como	 um	 teatro,	 no	 qual	 há	 atores,	 público	 e	 organizadores.</p><p>Suponhamos	que,	por	acaso,	me	convidem	para	uma	conferência;	há	um</p><p>público	 e	 os	 organizadores	 prepararam	 tudo.	 Eu	 espero	do	público	 que</p><p>ele	 se	 comporte	 como	 tal,	 que	 me	 escutem	 com	 certa	 atenção	 etc.	 O</p><p>público	 espera	 de	 mim	 que	 eu	 dê	 uma	 conferência	 mais	 ou	 menos</p><p>interessante,	não	muito	tediosa.	Tanto	o	público	como	eu	esperamos	dos</p><p>organizadores	que	 tudo	esteja	em	ordem,	que	não	se	corte	a	 luz,	que	o</p><p>microfone	 funcione	 etc.	 Todas	 estas	 esperanças	 (ou	 expectativas</p><p>recíprocas)	são	o	que	chamamos	de	demandas	de	papel.</p><p>Pois	 bem:	 se	 todas	 as	 demandas	 de	 papel	 são	 satisfeitas,	 todos	 nós</p><p>ficamos	 contentes	 e	 felizes.	 Porém,	 se	 me	 ponho	 a	 ladrar,	 o	 público	 se</p><p>aborrece	e	reclama	de	mim;	se	no	público	há	um	grupo	de	bêbados,	que</p><p>grita	 barbaridades,	 aí	 quem	 se	 aborrece	 sou	 eu.	 No	 primeiro	 caso,	 os</p><p>organizadores	 explicarão	 ao	 público	 que	 quando	 me	 convidaram	 não</p><p>imaginavam	que	eu	estivesse	louco;	no	segundo	caso,	eles	me	explicarão</p><p>que	a	presença	dos	bêbados	tinha	sido	imprevisível.</p><p>Esses	episódios,	que	geram	agressividade	quando	não	se	responde	às</p><p>demandas	de	papel,	são	chamados	de	disrupções	e	nos	 irritamos	porque,</p><p>quando	acontece	uma	disrupção,	não	sabemos	como	prosseguir,	 ficamos</p><p>sem	roteiro.</p><p>Isso	acontece	em	todos	os	atos	da	vida.	Se	nosso	vizinho	sai	sempre</p><p>com	um	macacão	e	uma	caixa	de	ferramentas	e	um	dia	lhe	pedimos	que</p><p>nos	ajude	a	fazer	o	automóvel	dar	partida	e	ele	nos	diz	que	sente	muito,</p><p>mas	 que	 não	 poderia	 ajudar	 porque	 na	 realidade	 é	 o	 catedrático	 de</p><p>biologia	 molecular	 da	 universidade,	 embora	 disfarcemos,	 ficaremos</p><p>desconcertados	 e	 em	 nosso	 foro	 íntimo,	 seremos	 agressivos,	 nos</p><p>perguntando	por	que	esse	aparato	(ou	algo	pior)	se	veste	dessa	maneira	e</p><p>sai	com	uma	caixa	de	ferramentas.</p><p>Os	papéis	podem	ser	socialmente	positivos	ou	negativos,	mas	isso	não</p><p>importa	 quanto	 a	 seu	 funcionamento,	 pois	 operam	 da	 mesma	 maneira.</p><p>Geralmente,	 costumamos	 responder	 às	demandas	 de	 papel,	 para	 que	 os</p><p>outros	 não	 se	 aborreçam	 e	 evitemos	 as	 disrupções.	 É	 isso	 que	 vai</p><p>configurando	nosso	eu,	 ou	 seja,	 em	boa	medida	 somos	 como	os	 outros</p><p>nos	demandam	que	sejamos.</p><p>Quando	a	quem	se	atribui	um	papel	negativo	 (ladrão,	por	exemplo)</p><p>são	 formuladas	 as	 demandas	 de	 papel	 correspondentes	 ao	 atribuído</p><p>porque	 se	 espera	 que	 se	 comporte	 como	 tal,	 também	 nos	 aborrecemos</p><p>quando	ele	não	as	responde	da	forma	adequada	ao	papel.	A	exemplo	do</p><p>que	acontece	com	o	vizinho	do	macacão,	nos	perguntaremos	porque	esse</p><p>sujeito	assume	as	características	de	um	ladrão	e	nos	confunde.</p><p>Com	 esse	 esquema,	 Goffman	 analisou	 as	 instituições	 totais,	 que	 são</p><p>aquelas	 em	 que	 a	 pessoa	 desenvolve	 toda	 sua	 atividade	 vital,	 desde	 o</p><p>momento	em	que	se	levanta	até	quando	se	deita,	sejam	elas	manicômios,</p><p>prisões,	internatos,	asilos	etc.	Os	círculos	separados	de	trabalho,	diversão</p><p>e	descanso	se	unificam	e	regulamentam,	não	há	esferas	separadas	da	vida.</p><p>A	 pessoa	 se	 desculturaliza,	 a	 separação	 entre	 o	 pessoal	 e	 o	 interno	 é</p><p>contundente.	O	interno	deve	se	acostumar	a	pedir	por	favor	o	que	na	vida</p><p>livre	é	óbvio,	 sofre	o	efeito	de	cerimônias	de	degradação,	 a	pessoa	 fica</p><p>entregue	 a	 profanações	 verbais	 por	 parte	 do	 pessoal	 e,	 além	 do	 mais,</p><p>perde	 toda	 reserva,	 é	 invadida	 e	 controlada	 até	 mesmo	 nos	 atos	 mais</p><p>íntimos.</p><p>A	pessoa	sofre	ataques	ao	eu,	ou	seja,	perde	autonomia,	fica	à	mercê</p><p>do	 pessoal	 e	 de	 seus	 humores,	 inclusive</p><p>os	 hierarcas	 podem	 dar-se	 ao</p><p>luxo	de	ser	mais	bondosos	que	os	subalternos,	assumindo	a	função	do	rei</p><p>bom	e	gracioso	dos	contos	infantis.</p><p>Imaginemos,	por	um	momento,	algo	muito	 louco:	que	você	vive	em</p><p>um	prédio	de	 apartamentos	que,	 um	belo	dia,	 é	 ocupado	por	 invasores</p><p>que	demolem	todas	as	paredes	divisórias,	inclusive	as	dos	banheiros,	e	o</p><p>obrigam	 a	 conviver	 com	 todos	 os	 outros	 ocupantes	 do	 edifício	 com	 os</p><p>quais	 mantinha	 relações	 nem	 sempre	 cordiais,	 sob	 o	 controle	 dos</p><p>invasores,	que	os	vigiam	constantemente	e	os	igualam	no	que	é	possível,</p><p>porque	necessitam	manter	a	ordem.	 Esta	 é	 uma	 imagem	 alucinante,	 um</p><p>pesadelo.	 Pois	 bem,	 uma	 instituição	 total	 é	 mais	 ou	 menos	 isso,	 com</p><p>maior	ou	menor	intensidade	controladora.</p><p>É	óbvio	que	no	caso	desse	pesadelo	você	não	aprenderia	a	socializar-</p><p>se,	que	seus	hábitos	de	vida	mudariam	totalmente,	que	sofreria	uma	brutal</p><p>perda	de	autoestima	e	seu	objetivo	dominante	seria	ver	como	fazer	para</p><p>sair	 daí,	 para	 ir-se	 o	mais	 longe	 possível,	 fugir	 do	 sonho	 ruim.	 Todo	 o</p><p>discurso	 de	 ressocialização	 se	 dissipa	 com	 essa	 investigação,	 e	 embora</p><p>Goffman	 a	 tenha	 levado	 a	 cabo	 principalmente	 nos	 manicômios,	 ele	 é</p><p>transferível	em	grande	medida	à	prisão.</p><p>Dentro	 da	 mesma	 corrente	 do	 interacionismo	 simbólico	 foi</p><p>determinante	 um	 livro	 de	 Howard	 Becker,	 de	 1963,	 Outsiders,	 que</p><p>consolidou	 a	 teoria	 do	 etiquetamento	 (em	 inglês	 labeling	 approach).</p><p>Becker	trabalhou	sua	pesquisa	com	músicos	de	jazz	usuários	de	maconha</p><p>e	 o	 fez	 com	 tamanho	 empenho	 que	 se	 converteu	 em	 um	 virtuose	 do</p><p>piano.	Descobriu	que	o	desvio	é	provocado,	que	há	uma	empresa	moral</p><p>que	 faz	 as	 regras,	 que	 não	 se	 estudam	 os	 fabricantes	 das	 regras</p><p>(empresários	morais)	e	sim	as	pessoas	às	quais	lhes	é	aplicada	a	etiqueta</p><p>que	 as	 deixa	 fora	 (outsiders).	 Essa	 rotulação	 coloca	 a	 pessoa	 em	 outro</p><p>status,	que	a	impede	de	continuar	sua	vida	normal:	desde	o	não	te	juntes</p><p>até	a	desqualificação	em	qualquer	atividade	competitiva	da	vida	corrente.</p><p>Foi	condicionada	a	ele	uma	carreira,	conforme	a	etiqueta	que	se	 lhe	 foi</p><p>colocada.</p><p>É	 óbvio	 que	 essa	 crítica	 representa	 um	 golpe	 muito	 forte	 ao	 poder</p><p>punitivo,	 ao	 colocar	 em	 evidência	 a	 repartição	 arbitrária	 das	 etiquetas	 e</p><p>lançar	dúvidas	não	sobre	os	subordinados	(os	cachorros	de	baixo)	e	sim</p><p>sobre	 os	 altos	 responsáveis	 do	 poder	 que	 decidem	 a	 legislação	 penal	 e</p><p>orientam	 a	 seleção	 das	 pessoas	 a	 criminalizar.	 Nem	 lerdos	 nem</p><p>preguiçosos,	os	defensores	da	ordem	lhe	objetaram	que,	por	se	ocuparem</p><p>dos	 chamados	 delitos	 sem	 vítima	 (consumidores	 de	 maconha,	 hippies,</p><p>homossexuais),	 trata	estes	e	os	assassinos	seriais	de	velhinhas	do	mesmo</p><p>modo,	porque	todos	seriam	puras	etiquetas.	Nada	menos	exato	nem	mais</p><p>falso	do	que	essa	objeção.</p><p>Embora	sem	etiqueta	não	há	delito,	não	é	certo	que	esta	cria	o	delito,</p><p>nem	Becker	nem	ninguém	afirmou	isso.	Sem	contratantes	também	não	há</p><p>matrimônio,	mas	o	matrimônio	não	cria	os	contratantes	como	namorados</p><p>anteriores	ao	ato;	o	testamento	não	cria	o	causador	nem	tampouco	o	mata,</p><p>embora	sem	autor	morto	de	testamento	não	haja	sucessão	testamentária.</p><p>Há	etiquetas	que	se	colocam	em	material	mais	etiquetável	que	outro;</p><p>sem	 dúvida,	 no	 caso	 dos	 assassinos	 em	 série	 há	 muito	 material	 bem</p><p>etiquetável,	 assim	 como	 entre	 fumantes	 de	maconha	 haja	 pouco	 e	 entre</p><p>homossexuais	 ,nada,	 mas	 o	 certo	 é	 que	 isso	 não	 interessa	 ao</p><p>etiquetamento,	que	o	faz	em	uns	poucos	casos	e	de	modo	arbitrário,	pois</p><p>nem	sempre	se	etiqueta	como	homicidas	os	que	matam:	sem	me	deter	nas</p><p>execuções	 sem	processo,	 nos	 esquadrões	 da	morte,	 nos	 assassinatos	 em</p><p>massa	 genocidas	 e	 em	 outros	 horríveis	 crimes	 impunes,	 o	 certo	 é	 que</p><p>tampouco	 se	 etiqueta	 como	 homicídio	 a	 guerra,	 as	 mortes	 por	 poluição</p><p>ambiental,	 as	 penas	 de	 morte	 por	 erro,	 o	 fechamento	 de	 hospitais,	 de</p><p>postos	 de	 saúde,	 a	 negligência	 no	 cuidado	 das	 estradas,	 nem	 os</p><p>fabricantes	 e	 vendedores	 de	 armas	 são	 etiquetados	 como	 cúmplices	 de</p><p>homicídios,	 embora	 cooperem	 necessariamente	 com	 eles,	 nem	 sequer</p><p>quando	as	vendem	aos	dois	lados	em	guerra	ou	a	narcotraficantes	em	luta.</p><p>Os	 recipientes	 podem	 conter	 muito,	 pouco	 ou	 nada	 de	 material</p><p>etiquetável,	 mas	 isso	 é	 indiferente	 para	 a	 distribuição	 arbitrária	 das</p><p>etiquetas,	que	as	fixa	em	recipientes	vazios	ou	cheios,	mas	deixa	de	fazê-</p><p>lo	com	outros	muito	mais	cheios.</p><p>Esta	é	a	questão	que	nunca	deve	nos	confundir:	o	que	Becker	prova	é</p><p>a	 arbitrariedade	 do	 etiquetamento	 e	 isso	 coloca	 em	 xeque	 todos	 os</p><p>argumentos	com	que	o	direito	penal	tenta	conferir	racionalidade	ao	poder</p><p>punitivo.	Não	foi	à	toa	que	o	artigo	de	Baratta	me	causou	tanta	impressão</p><p>e	alarme.	A	minha	prateleira	caiu,	com	certeza.</p><p>O	panorama	do	 interacionismo	 simbólico	 foi	 completado	 a	partir	 da</p><p>Grã-Bretanha	por	Denis	Chapman,	com	o	livro	Sociologia	e	o	estereótipo	do</p><p>criminoso	 (1968),	 no	 qual	 o	 autor	 esclarece	 como	 se	 seleciona	 para</p><p>criminalizar	de	acordo	com	estereótipos	que	são	criados	como	síntese	dos</p><p>piores	preconceitos	de	uma	 sociedade	e	que	não	 respondem	 somente	 a</p><p>questões	de	classe	nem	de	capacidade	econômica.</p><p>O	 conceito	 de	 estereótipo	 é	 hoje	 indispensável	 para	 explicar	 como</p><p>funciona	 a	 seleção	 criminalizadora	 policial	 ou	 judicial.	 No	 bairro,</p><p>costumam	chamá-lo	de	pinta	de	ladrão	e	é	uma	espécie	de	uniforme	do</p><p>outsider,	 mas	 por	 causa	 das	 demandas	 de	 papel	 não	 é	 algo	 apenas</p><p>externo;	 seu	 portador	 vai	 incorporando,	 vai	 se	 obrigando	 a	 engolir,	 a</p><p>tragar	o	personagem,	assume-o	à	medida	que	responde	às	demandas	dos</p><p>outros,	seu	mim	vai	sendo	como	os	outros	o	veem,	é	como	o	estereótipo</p><p>respectivo	 e,	 por	 conseguinte,	 carrega	 um	 estigma	 que	 condiciona	 a</p><p>proibição	de	coalizão	(no	bairro	é	o	não	com	más	companhias).</p><p>25.	A	crítica	liberal	e	a	fenomenologia</p><p>Como	 é	 sabido,	Husserl	 colocou	 o	 problema	da	 intersubjetividade	 a</p><p>partir	 da	 filosofia,	 o	 que	 não	 podia	 deixar	 a	 sociologia	 indiferente.	 O</p><p>sociólogo	 austríaco	Alfred	 Schutz	 colheu	 a	 ideia	 no	 ar,	 afirmando	que	 a</p><p>intersubjetividade	não	 é	um	problema	e	 sim	uma	 realidade	 e,	 com	 isso,</p><p>conferiu	um	novo	enfoque	à	sociologia	do	conhecimento.</p><p>Quanto	à	questão	criminal,	 interessa-nos	em	particular	a	contribuição</p><p>que	procede	de	um	pequeno	 livro	publicado	em	1966	por	um	austríaco</p><p>(Peter	Berger)	e	um	alemão	(Thomas	Luckmann),	que	se	converteu	num</p><p>clássico	nas	carreiras	de	comunicação:	A	construção	social	da	realidade.</p><p>Embora	 esse	 trabalho	 não	 se	 ocupe	 da	 criminologia,	 veremos	 sua</p><p>enorme	projeção	 quando	 nos	 ocuparmos	 da	 criminologia	midiática,	mas</p><p>digamos	brevemente	em	que	ele	consiste.	A	investigação	parte	do	suposto</p><p>de	que	há	conhecimentos	de	senso	comum	sem	os	quais	não	poderíamos</p><p>agir	em	sociedade,	pois	a	realidade	com	a	qual	lidamos	é,	definitivamente,</p><p>uma	 interpretação	aceita	por	 todos	os	 significados	 subjetivos.	Vale	dizer,</p><p>vivemos	em	um	mundo	de	interpretações	compartilhadas,	intersubjetivo.</p><p>Isso	 não	 significa	 que	 não	 existam	 os	 entes	 físicos;	 é	 óbvio	 que,	 se</p><p>não	me	detenho	diante	de	um	ônibus,	ele	me	atropela;	porém,	se	estendo</p><p>a	 mão	 de	 um	 lado	 da	 rua,	 ele	 se	 detém	 e	 abre	 sua	 porta	 dianteira.	 O</p><p>mundo	é	o	conjunto	de	significados	que	compartilho	com	os	outros	e	que</p><p>faz	com	que	o	motorista	não	me	atropele	nem	os	passageiros	protestem</p><p>porque	o	ônibus	parou	para	eu	subir.	O	material	do	mundo	é	só	sua	base</p><p>física,	mas	o	mundo	mesmo	resulta	do	conjunto	de	significados	(os	para	o</p><p>que)	que	formam	o	senso	comum	do	conhecimento	objetivado.</p><p>Esse	 conhecimento	 comum	 da	 vida	 cotidiana	 se	 sedimenta	 com	 o</p><p>tempo	 e	 se	 tipifica	 tornando-se	 anônimo,	 isto	 é,	 se	 objetiva	 –	 o	 ser</p><p>humano	se	habitua.</p><p>Um	ato	que	se	repete	com	frequência	cria	um	hábito	que	o	reproduz</p><p>com	economia	de	esforços,	pois	limita	as	opções	e	evita	que,	perante	cada</p><p>situação,	 se	 tenha	 de	 colocar</p><p>tudo	 de	 novo,	 desde	 o	 princípio.	 Ao	 nos</p><p>levantarmos	 de	 manhã	 não	 nos	 perguntamos	 se	 Deus	 existe	 e	 daí</p><p>deduzimos	 significados	em	cadeia	até	chegar	ao	valor	da	ação	de	 tomar</p><p>banho.	Há	recolocações	que	se	fazem	algumas	vezes	na	vida,	mas	sempre</p><p>continuamos	tomando	café	com	leite	com	pãezinhos.</p><p>Esses	 hábitos	 sedimentados	 adquirem	 caráter	 estável,	 anônimo,</p><p>precedem	 a	 nossa	 vida	 e	 estão	 submetidos	 ao	 controle	 social.	 O	 mais</p><p>importante	instrumento	de	legitimação	é	a	linguagem,	com	uma	lógica	que</p><p>se	dá	por	estabelecida.	Desse	modo,	os	conhecimentos	de	senso	comum</p><p>(que	são	subjetividades	compartilhadas)	se	objetivam	e	se	 tornam	coisas,</p><p>produz-se	a	reificação	(de	res,	coisa).</p><p>Se	 me	 afasto	 do	 mundo	 reificado,	 me	 sancionam.	 Ninguém	 faz	 a</p><p>prova,	mas	se	você	colocar	o	croissant	na	orelha,	 lustrar	os	sapatos	com</p><p>café	 com	 leite	 e	 falar	 em	 russo	 ou	 em	 guarani	 com	 o	 garçom,	 se	 você</p><p>parar	na	frente	do	ônibus	ou	pedir	ao	motorista	que	lhe	venda	cigarros,	o</p><p>levarão	 ao	 manicômio,	 o	 que	 também	 é	 uma	 sanção	 de	 internação	 em</p><p>uma	instituição	total.</p><p>Berger	 e	 Luckmann	 explicam	 que,	 desse	 modo,	 o	 outro	 na	 relação</p><p>interpessoal	 sempre	 é	 visto	 como	 um	 ser-como,	 isto	 é,	 exercendo	 um</p><p>papel.	O	motorista	do	ônibus	nos	vê	como	passageiros	e	nós	a	ele,	como</p><p>motorista.	 Essas	 relações	 e	 papéis	 que	 conservamos	 e	 praticamos	 com</p><p>base	em	um	sistema	de	significantes	comum,	é	alterado	quando	estamos</p><p>em	 outro	 país	 e	 não	 sabemos	 como	 se	 compra	 o	 bilhete	 do	 ônibus,	 e</p><p>muito	mais	quando,	por	desconhecer	o	idioma	e	o	alfabeto,	nos	tornamos</p><p>analfabetos.</p><p>A	 sociedade,	 escrevem	 Berger	 e	 Luckmann,	 é	 a	 soma	 total	 das</p><p>tipificações	 e	 dos	 modelos	 recorrentes	 de	 interação	 estabelecidos	 através</p><p>deles.	 Enquanto	 tal,	 a	 estrutura	 social	 é	 um	 elemento	 essencial	 da</p><p>realidade	da	vida	cotidiana.</p><p>A	conversação	do	encontro	direto	transcende	do	pensamento	comum</p><p>e	dá	lugar	ao	pensamento	abstrato,	filosófico	e	científico.	Nesse	sentido,	o</p><p>pensamento	 científico	 depende	 de	 um	 prévio	 conhecimento	 do	 senso</p><p>comum	 (que	 resiste	 a	 desaparecer).	 Os	 filósofos	 também	 molham	 os</p><p>pãezinhos	no	café	e	tomam	banho	pela	manhã,	se	são	asseados.</p><p>Para	Berger	e	Luckmann,	os	seres	humanos	são	produto	e	artífices	do</p><p>mundo	 social.	 Tudo	 o	 que	 no	 institucional	 parece	 objetivo	 é	meramente</p><p>objetivado,	é	o	que	se	alcança	através	do	processo	de	reificação.</p><p>É	 interessante	 assinalar	 que	 Berger	 e	 Luckmann	 observam	 que	 a</p><p>sociedade	incomoda	o	intelectual.	Isso	se	deve	ao	fato	de	que	nela	prima</p><p>o	 conhecimento	 objetivado	 como	 coisa	 (reificado)	 e	 o	 intelectual	 o</p><p>questiona,	 pois	 quando	 todos	 afirmam	 que	 a	 coisa	 está,	 ele	 sai	 do	 seu</p><p>canto	e	mostra	que	a	tal	coisa	não	existe.	É	o	que	diz	que	o	rei	está	nu.</p><p>Embora	cumpra	um	papel	dinamizador	e	 fundamental,	pois	propõe	uma</p><p>visão	 alternativa,	 o	 intelectual	 assume	 uma	 posição	 marginal	 e	 tem</p><p>necessidade	de	um	grupo	que	o	defenda.</p><p>Como	se	explica	esta	opção	pela	marginalidade	própria	do	intelectual?</p><p>Os	autores	acreditam	que	surge	de	uma	disparidade	entre	a	 socialização</p><p>primária	(que	 tem	lugar	na	 infância)	e	a	secundária	(do	adulto).	Trata-se</p><p>de	 uma	 insatisfação	 pessoal	 do	 agente	 adulto	 com	 sua	 socialização</p><p>primária.	 Ao	 que	 parece,	 quando	 criança,	 o	 intelectual	 não	 ficou	 muito</p><p>satisfeito	 com	 as	 respostas	 –	 e	 ordens	 –	 dos	 adultos	 ou	 depois	 se	 deu</p><p>conta	de	que	eles	eram	bastante	bobos.</p><p>Em	 determinadas	 ocasiões	 se	 produzem	 importantes	 transformações</p><p>nas	 pessoas,	 que	 chamam	 alternações	 e	 que	 provocam	 redefinições	 ou</p><p>processos	 de	 ressocialização	 semelhantes	 à	 socialização	 infantil.	 De</p><p>acordo	 com	o	que	vimos,	o	 etiquetamento	desencadeia	um	processo	de</p><p>ressocialização	forçada.	A	pessoa	é	forçada	a	mudar,	a	autoperceber-se	de</p><p>outro	modo.	Não	é	por	acaso	que	uma	prisão	impacta	como	uma	espécie</p><p>de	internato	para	adultos	infantilizados	e	o	importante	seria	proporcionar</p><p>um	 tratamento	 que	 neutralize,	 até	 onde	 seja	 possível,	 esse	 processo	 de</p><p>ressocialização.	 Nessa	 terminologia,	 o	 tratamento	 penitenciário	 deveria</p><p>evitar	a	ressocialização.</p><p>É	bastante	clara	a	influência	de	Heidegger	em	Berger	e	Luckmann:	o</p><p>ser	 humano,	 ao	 invés	 de	 se	 perceber	 como	 produtor	 do	 mundo,	 o	 faz</p><p>como	produto	deste.	Os	significados	humanos	já	não	são	vistos	como	algo</p><p>que	 se	 produz	 pelo	 mundo,	 mas	 sim	 como	 produtos	 da	 natureza	 das</p><p>coisas.	Assim	foram	vistos	a	escravidão,	o	colonialismo,	a	guerra	e	tantas</p><p>outras	aberrações	no	curso	da	história.	Cabe	assinalar	que	não	esgotamos,</p><p>com	o	exposto,	o	quadro	da	criminologia	crítica	que	chamamos	de	liberal,</p><p>mas	 tampouco	 nos	 propomos	 a	 fazê-lo.	 Simplesmente,	 recolhemos	 os</p><p>elementos	que	nos	serão	úteis	em	seguida	para	esclarecer	o	fenômeno	da</p><p>criminologia	midiática	e	em	especial	para	escutar	as	palavras	dos	mortos	e</p><p>fundar	nosso	projeto	de	criminologia	cautelar.</p><p>Ilustração	17</p><p>26.	A	vertente	marxista	da	criminologia	radical</p><p>Como	 era	 de	 se	 esperar,	 as	 críticas	 ao	 poder	 punitivo	 chamaram	 a</p><p>atenção	 daqueles	 que	 formulavam	 colocações	 críticas	 mais	 amplas	 da</p><p>sociedade,	que	começaram	a	vinculá-las	com	os	resultados	da	criminologia</p><p>liberal.</p><p>Por	nossa	parte,	chamamos	criminologia	radical	 aquela	que	provém</p><p>desse	 encontro	 com	 os	 marcos	 ideológicos	 que	 reclamam	 mudanças</p><p>sociais	e	civilizatórias	profundas	ou	gerais,	embora	isso	não	seja	pacífico,</p><p>pois	está	em	discussão	o	que	é	e	o	que	não	é	radical.	Sem	entrar	nessa</p><p>discussão,	a	definimos	desse	modo,	por	puras	razões	de	ordem	expositiva.</p><p>Nesse	 entendimento,	 para	 nós,	 a	 criminologia	 radical	 (ou	 crítica</p><p>radical)	 responde	 a	 tantas	 versões	 quanto	 os	 marcos	 ideológicos	 que	 a</p><p>inspiram.	Certamente,	a	mais	profunda	crítica	social	do	século	passado	foi</p><p>o	marxismo,	que	não	podia	deixar	de	impactá-la.</p><p>Do	campo	marxista,	publicou-se,	em	1939,	um	trabalho	anterior	a	toda</p><p>a	criminologia	sociológica	dos	anos	1960,	que	foi	a	obra	de	Georg	Rusche</p><p>e	Otto	Kirchheimer,	intitulada	Punição	e	estrutura	social[9].	Pela	primeira</p><p>vez,	 o	 marxismo	 aprofundou	 sua	 análise	 do	 poder	 punitivo,</p><p>diferentemente	 dos	 ensaios	 anteriores,	 como	 o	 do	 holandês	 Willen</p><p>Bonger,	que	procediam	do	marxismo,	mas	analisando	as	causas	do	delito.</p><p>Essa	 investigação	 realizou-se	 no	 Instituto	 de	 Investigação	 Social	 de</p><p>Frankfurt,	 fundado	 para	 renovar	 o	 marxismo	 diante	 da	 versão</p><p>institucionalizada	 da	 União	 Soviética.	 Embora	 fale-se	 em	 Escola	 de</p><p>Frankfurt,	 ela	 não	 foi	 propriamente	 uma	 escola,	 porque	 convocou</p><p>prestigiosos	pensadores	sob	a	única	consigna	da	crítica	social.	Tomaram</p><p>parte	 dessa	 equipe	 figuras	 tão	 conhecidas	 e	 díspares	 como	 Max</p><p>Horkheimer,	 Theodor	 Adorno,	 Herbert	 Marcuse	 e	 Erich	 Fromm,	 entre</p><p>muitos	outros.</p><p>A	 investigação	 da	 questão	 penal	 foi	 atribuída	 a	 Georg	 Rusche,	 que</p><p>permaneceu	 na	 Europa,	 enquanto	 o	 instituto,	 perseguido	 pelo	 nazismo,</p><p>era	 transferido	para	Nova	York.	 Rusche	 enviava	 seus	 escritos	para	Nova</p><p>York,	 onde	 a	 investigação	 não	 era	 suficiente.	 Encomendaram	 a</p><p>Kirchheimer	que	a	completasse,	o	que	não	mereceu	a	total	aprovação	de</p><p>Rusche.	Por	essa	razão,	a	versão	final	tem	duas	partes	diferentes.</p><p>De	toda	forma,	a	ideia	central	do	livro	é	que	existe	uma	relação	entre</p><p>o	mercado	de	trabalho	e	a	pena,	ou	seja,	com	a	pena	uma	quantidade	de</p><p>pessoas	deixa	o	mercado	de	trabalho,	num	momento	em	que	há	demanda</p><p>trabalho	no	próprio	sistema.	Essa	situação	reduz	a	oferta	e	impede	que	os</p><p>salários	 baixem	 muito;	 inversamente,	 aumenta	 a	 oferta	 quando	 há	 uma</p><p>demanda	de	mão	de	obra,	evitando	uma	subida	acentuada	do	salário.</p><p>Isso	 seria	 comprovado	 na	 história.	 Na	 Idade	 Média,	 a	 oferta	 era</p><p>enorme	 e	 o	 poder	 punitivo	 podia	 matar	 sem	 problemas;	 a	 força	 do</p><p>trabalho	 teria	 começado	 a	 ser	 cuidada	 quando,	 com	 o	 capitalismo,</p><p>aumentou	a	demanda	de	mão	de	obra.</p><p>Por	outra	parte,	os	autores</p><p>estritamente	descrito	em</p><p>uma	lei	anterior	ao	fato,	ou	a	 lesividade,	que	requer	que	em	todo	delito</p><p>haja	um	bem	jurídico	lesionado	ou	colocado	em	perigo.</p><p>Como	 se	 pode	 ver,	 o	 delito	 dos	 penalistas	 é	 uma	 abstração	 que	 se</p><p>constrói	com	um	objetivo	bem	determinado,	que	é	chegar	a	uma	sentença</p><p>racional	ou	pelo	menos	 razoável.	Na	 realidade	social,	porém,	esse	delito</p><p>não	 existe,	 porque	 no	 plano	 do	 real	 existem	 violações,	 homicídios,</p><p>fraudes,	roubos	etc.,	mas	nunca	o	delito.	Em	outros	tempos,	os	penalistas</p><p>também	 projetavam	 os	 códigos	 e	 as	 leis	 penais,	 porque	 lhes	 era	 dada</p><p>muitíssima	 importância	 e	 se	 considerava,	 com	 razão,	 que	 eram	 um</p><p>apêndice	da	Constituição,	porque	impunham	limites	à	liberdade.</p><p>Em	nosso	país,	para	não	 irmos	mais	 longe,	os	códigos	penais	 foram</p><p>projetados	em	1866,	por	Carlos	Tejedor,	que	foi	governador	da	província</p><p>de	Buenos	Aires	e	não	chegou	a	ser	presidente	da	República	em	lugar	de</p><p>Roca	porque	protagonizou	 a	última	guerra	 civil	 em	1880,	 e	por	Rodolfo</p><p>Moreno	(filho)	em	1917,	que	também	foi	governador	da	província	e	pré-</p><p>candidato	 a	 presidente	 nas	 eleições	 de	 1944,	 tendo	 sido	 derrotado	 no</p><p>interior	 do	 Partido	 Conservador	 por	 Patrón	 Costas,	 o	 que	 precipitou	 o</p><p>golpe	de	1943.</p><p>Nesse	meio	tempo	houve	vários	projetos,	e	o	mais	importante	foi	o	de</p><p>1891,	obra	dos	fundadores	de	nossa	Faculdade	de	Filosofia	e	Letras,	que</p><p>eram	os	 jovens	brilhantes	da	época:	Rivarola,	Piñero	e	Matienzo.	Os	 três</p><p>foram	 importantes	 personalidades	 públicas	 e	 um	 deles,	 Matienzo,	 foi</p><p>candidato	à	vice-presidência	da	República.</p><p>A	trajetória	 jurídica,	 intelectual	e	política	desses	projetistas	prova	que</p><p>levavam	muito	a	sério	as	 leis	penais,	o	que	hoje	mudou	completamente,</p><p>pois	 agora	quem	as	 elabora	 são	os	 assessores	 dos	políticos,	 conforme	 a</p><p>agenda	que	lhes	marcam	os	meios	de	comunicação	de	massa.</p><p>Por	isso,	hoje,	tampouco	os	penalistas	fazem	as	leis	penais,	ocupando-</p><p>se	 quase	 exclusivamente	 do	 que	 lhes	 conto,	 quer	 dizer,	 da	 sua</p><p>interpretação,	na	forma	em	que	assinalei.</p><p>Logicamente,	vocês	se	perguntarão	o	que	é	que	esses	senhores	sabem</p><p>acerca	da	realidade	do	delito,	do	que	se	passa	no	mundo	em	que	 todos</p><p>nós	 vivemos,	 do	 que	 fazem	 os	 delinquentes,	 os	 policiais,	 os	 juízes,	 as</p><p>vítimas,	 os	 empresários	 midiáticos,	 os	 jornalistas	 etc.	 Simplesmente,	 o</p><p>mesmo	que	qualquer	vizinho	que	lê	os	jornais	e	assiste	televisão,	porque</p><p>o	penalista	se	ocupa	da	lei,	não	da	realidade.</p><p>Isso,	 que	 pode	 chamar	 a	 atenção	 de	 quem	 não	 se	 tenha	 inteirado</p><p>antes	deste	mundo,	é	sabido	e	inclusive	teorizado.	Desde	jovem,	quando</p><p>se	entra	na	Faculdade	de	Direito,	explicam	que	ali	se	estudam	relações	de</p><p>normas,	de	dever	ser	e	não	de	ser.</p><p>Há	mesmo	toda	uma	corrente	que	pretende	um	corte	radical	entre	os</p><p>estudos	 do	 dever	 ser	 e	 do	 ser.	 São	 os	 neokantianos,	 que	 dividem	 os</p><p>conhecimentos	entre	ciências	da	natureza	e	da	cultura.	O	direito	seria	uma</p><p>ciência	da	cultura	e	o	que	acontece	no	mundo	em	que	vivemos	todos	os</p><p>dias	 seria	 matéria	 das	 ciências	 da	 natureza.	 Isso	 lhes	 parece	 um	 pouco</p><p>esquizofrênico?	É	um	pouco,	com	certeza.</p><p>A	 divisão	 foi	 tão	 taxativa	 que	 permitiu	 que	 a	 grande	 maioria	 dos</p><p>penalistas	dos	tempos	do	nazismo	viesse	tranquilamente	desde	o	Império</p><p>Alemão	até	o	pós-guerra,	passando	por	cima	da	República	de	Weimar,	dos</p><p>crimes	da	ascensão	do	nazismo,	dos	massacres,	do	genocídio,	da	guerra,</p><p>sem	inteirar-se	dos	milhões	de	cadáveres.	Tudo	isso	pertencia	às	ciências</p><p>da	natureza,	que	não	lhes	dizia	respeito.</p><p>Para	 que	 vocês	 se	 tranquilizem,	 direi	 que	 hoje	 nem	 todo	 o	 direito</p><p>penal	 segue	este	caminho,	embora	não	 faltem	nostálgicos	que	 tentam	se</p><p>entrincheirar	nas	normas.	De	qualquer	maneira,	 isso	é	questão	do	direito</p><p>penal,	ou	 seja,	do	que	não	nos	ocuparemos	aqui	 enquanto	 tal,	mas	 sim</p><p>precisamente	do	que	pertence	ao	mundo	do	ser,	no	qual	vivemos	 todos</p><p>os	dias.</p><p>Disso	 se	 ocupa	 precisamente	 a	 criminologia,	 para	 onde	 convergem</p><p>muitos	 dados	 que	 provêm	 de	 diferentes	 fontes	 –	 da	 sociologia,	 da</p><p>economia,	 da	 antropologia,	 das	 disciplinas	 psi,	 da	 história	 etc.	 –,	 que</p><p>tentam	nos	 responder	o	que	é	e	o	que	acontece	com	o	poder	punitivo,</p><p>com	a	violência	produtora	de	cadáveres	etc.</p><p>É	 bem	 verdade	 que	 esta	 palavra	 da	 academia	 também	 esteve</p><p>carregada	 de	 palavras	 obscenas	 (ou	 pelo	 menos	 são	 elas	 que	 temos</p><p>vontade	 de	 dizer	 às	 vezes),	 e	 aconteceu	 em	 diferentes	 etapas.	 Primeiro</p><p>perguntou-se	 pelas	 causas	 do	 delito,	 o	 que	 se	 chamou	 de	 criminologia</p><p>etiológica,	 e	 os	 demonólogos,	 os	 juristas	 e	 filósofos,	 os	 médicos,	 os</p><p>psicólogos	 e	 os	 sociólogos	 trataram	 de	 responder.	 Muito	 mais</p><p>recentemente	deu-se	conta	de	que	o	poder	punitivo	também	era	causa	do</p><p>delito,	e	passou	a	ser	analisado	e	questionado	com	diferente	 intensidade</p><p>crítica.	São	estas	etapas	que	passaremos	a	percorrer	depois	de	uma	visão</p><p>geral	 sobre	 o	 poder	 punitivo	 e	 sua	 função	 real	 no	 marco	 do	 poder</p><p>planetário.</p><p>Ilustração	3</p><p>3.	O	poder	punitivo	e	a	verticalização	social</p><p>O	poder	punitivo	é	como	o	bife	à	milanesa	com	batatas	fritas,	isto	é,</p><p>ninguém	se	pergunta	por	que	existe.	Parece	que	 sempre	esteve	ali.	Mas</p><p>não	é	assim.</p><p>Alguém	 comparou	 o	 tempo	 de	 nosso	 pequeno	 planeta	 com	 uma</p><p>semana	e	advertiu	que	aparecemos	no	último	minuto	antes	da	meia-noite</p><p>do	 domingo.	 Não	 sei	 quando	 apareceu	 o	 bife	 à	 milanesa,	 mas	 nesses</p><p>segundos	 geológicos	 que	 levamos	 arranhando	 a	 superfície	 da	 Terra,	 só</p><p>carregamos	com	o	poder	punitivo	por	alguns	décimos	de	segundo.</p><p>O	humano	 é	 social,	 não	 sobrevive	 isolado,	 e	 em	 toda	 sociedade	 há</p><p>poder	e	coerção.	Todo	grupo	humano	conheceu	sempre	duas	 formas	de</p><p>coerção,	cuja	legitimidade	quase	não	se	discute,	embora	se	possa	discutir</p><p>como	se	exerce.</p><p>Uma	 é	 a	 coerção	 que	 detém	 um	 processo	 lesivo	 em	 curso	 ou</p><p>iminente:	quando	uma	parede	está	prestes	a	cair	ou	quando	alguém	corre</p><p>atrás	 de	 mim	 pela	 rua	 com	 uma	 faca	 na	 mão,	 há	 um	 poder	 social	 que</p><p>demole	a	parede	embora	o	dono	se	oponha,	ou	que	desarme	aquele	que</p><p>quer	me	enfiar	a	faca.	Isso	se	chama	hoje	coerção	direta,	em	outra	época</p><p>poder	de	polícia,	e	no	Estado	está	regulada	pelo	direito	administrativo.</p><p>Outra	 é	 a	 coerção	 que	 se	 pratica	 para	 reparar	 ou	 restituir	 quando</p><p>alguém	causou	um	dano.	Esta	é	hoje	própria	do	direito	civil	e	de	outros</p><p>ramos	do	direito.</p><p>Mas	 o	 poder	 punitivo	 é	 diferente,	 não	 existiu	 em	 todos	 os	 grupos</p><p>humanos,	e	surgiu	muito	mais	tarde.	Por	que?	O	que	o	diferencia	dessas</p><p>outras	coerções?</p><p>As	duas	formas	de	coerção	antes	referidas	resolvem	os	conflitos:	uma,</p><p>porque	evita	o	dano,	outra,	porque	o	repara.	Porém,	quando	na	coerção</p><p>reparadora	 alguém	 que	 manda	 diz	 que	 o	 lesado	 sou	 eu	 e	 afasta	 quem</p><p>realmente	 sofreu	 a	 lesão,	 é	 ali	 que	 surge	 o	 poder	 punitivo,	 ou	 seja,</p><p>quando	o	cacique,	rei,	senhor,	autoridade	ou	quem	quer	que	seja	substitui</p><p>a	vítima,	a	confisca.</p><p>Comprovamos	isso	em	qualquer	caso:	se	uma	pessoa	agride	a	outra	e</p><p>quebra-lhe	um	osso,	o	Estado	leva	o	agressor,	o	penaliza,	alegando	que	o</p><p>faz	 para	 dissuadir	 terceiros	 de	 romper	 ossos	 ou	 para	 ensinar-lhe	 a	 não</p><p>fazê-lo	de	novo	ou	para	o	que	quer	que	seja,	e	o	que	sofre	com	o	osso</p><p>quebrado	deve	recorrer	à	Justiça	civil,	na	qual	pode	não	obter	nada,	caso</p><p>o	agressor	não	possuir	bens.</p><p>O	 poder	 punitivo	 reduziu	 a	 pessoa	 com	 o	 osso	 partido	 a	 um	 mero</p><p>dado,	porque	não	toma	parte	na	decisão	punitiva	do	conflito.	Mais	ainda:</p><p>deve	mostrar	seu	osso	partido	e	se	não	o	fizer	o	poder	punitivo	a	ameaça</p><p>como	 testemunha	 remisso	 e	 pode	 levá-la	 pela	 força	 a	 mostrar	 o	 que	 o</p><p>agressor	lhe	fez.	A	característica	do	poder	punitivo	é,	pois,	o	confisco	da</p><p>vítima,	ou	seja,	é	um	modelo	que	não	resolve	o	conflito,	porque	uma	das</p><p>partes	(o	lesado)	está,	por	definição,	excluído	da	decisão.	O	punitivo	não</p><p>resolve	o	conflito,	mas	sim	o	suspende,	como	uma	peça	de	roupa	que	se</p><p>retira	da	máquina	de	lavar</p><p>asseguravam	que	o	mercado	determina	as</p><p>penas	conforme	a	lei	de	menor	exigibilidade,	segundo	a	qual	as	condições</p><p>da	vida	carcerária,	para	ter	efeito	dissuasivo,	devem	ser	inferiores	às	piores</p><p>da	sociedade	livre.</p><p>Esse	 livro	 caiu	 praticamente	 no	 esquecimento	 e,	 como	 às	 vezes</p><p>acontece,	 foi	 reavaliado	 trinta	 anos	 mais	 tarde,	 em	 plena	 vigência	 da</p><p>criminologia	crítica,	reeditado	e	traduzido	em	vários	idiomas.</p><p>Em	1979,	quando	seus	autores	haviam	morrido	(Kirchheimer	em	1965</p><p>e	 Rusche	 em	 data	 incerta),	 abriu-se	 um	 debate	 em	 torno	 de	Punilção	 e</p><p>estrutura	social	e	sua	tese	foi	criticada	na	obra	Carcere	e	fabbrica[10],	de</p><p>Dario	Melossi	e	Massimo	Pavarini,	os	quais	afirmaram	que	ela	pecava	por</p><p>um	 excessivo	 economicismo.	 Esses	 autores	 da	 Escola	 de	 Bolonha	 não</p><p>negam	 a	 importância	 do	 mercado	 de	 trabalho,	 mas	 não	 acreditam	 que</p><p>opere	 de	 forma	 tão	 mecânica,	 mas	 sim	 através	 do	 disciplinamento	 no</p><p>momento	 do	 surgimento	 do	 capitalismo	 e	 da	 acumulação	 primitiva	 do</p><p>capital.	A	similitude	entre	o	cárcere	e	a	fábrica	nesta	época	(lembremos	de</p><p>Bentham	 e	 de	 seu	 panóptico)	 respondia	 a	 um	 programa	 de</p><p>disciplinamento	que	visava	a	oferta	de	mão	de	obra	qualificada.</p><p>García	 Méndez,	 no	 epílogo	 à	 sua	 tradução	 espanhola	 desta	 obra,</p><p>assinala	 que	 a	 função	 de	 disciplinamento	 não	 passou	 completamente</p><p>desapercebida	a	Rusche	e	Kirchheimer	e	que	o	que	vigora	de	sua	tese	é	o</p><p>ponto	segundo	o	qual	cada	sistema	de	produção	tende	ao	descobrimento</p><p>de	castigos	que	correspondem	a	suas	relações	produtivas,	indicando	que	a</p><p>categoria	 de	mercado	 de	 trabalho	 parece	 demasiado	 estreita,	 ao	 mesmo</p><p>tempo	que	a	de	relações	de	produção	mostra-se	demasiadamente	ampla.</p><p>Cabe	 esclarecer	 que	 a	 ideia	 do	 disciplinamento	 foi	 desenvolvida	 ao</p><p>máximo	dentro	da	criminologia	radical,	mas	fora	das	correntes	marxistas,</p><p>por	 Michel	 Foucault	 em	 Vigiar	 e	 punir	 (1975),	 em	 que	 poder-se-ia</p><p>assinalar	um	caminho	para	o	abolicionismo,	ao	qual	voltaremos.</p><p>Para	 Foucault,	 o	 poder	 punitivo	 não	 é	 tanto	 o	 negativo	 da</p><p>prisionização,	como	o	positivo,	em	que	o	modelo	panóptico	se	estende	a</p><p>toda	 a	 sociedade	 sob	a	 forma	de	vigilância.	Nisso	ele	 tem	 toda	 a	 razão,</p><p>porque	o	mero	poder	de	encerrar	um	número	sempre	muito	reduzido,	em</p><p>relação	à	população	 total,	de	pessoas	dos	estratos	mais	 subordinados	da</p><p>sociedade	 não	 importa	 o	 exercício	 de	 um	 poder	 politicamente	 muito</p><p>significativo:	o	 importante	 é	que,	 sob	esse	pretexto,	 todos	nós	que	 estamos</p><p>soltos	somos	vigiados.</p><p>A	Escola	de	Bolonha	fez	um	reparo	a	Foucault,	porque,	na	colocação</p><p>deste,	 a	 disciplina	 aparece	 descolada.	 Ele	 não	 a	 relaciona	 à	 mudança</p><p>operada	no	sistema	produtivo,	ao	qual	os	estudiosos	de	Bolonha	atribuem</p><p>as	reformas	penais	do	Iluminismo.</p><p>À	 margem	 disso,	 nos	 anos	 1970,	 houve	 manifestações	 do	 marxismo</p><p>criminológico	 nos	 Estados	 Unidos	 e	 na	 Grã-Bretanha.	 Seus	 expositores</p><p>mais	 conhecidos	 nos	 Estados	 Unidos	 são	 Richard	 Quinney	 e	 William</p><p>Chambliss.</p><p>Ilustração	18</p><p>Quinney	 afirmou	 que	 os	 delinquentes	 são	 rebeldes	 inconscientes</p><p>contra	o	 capitalismo	e	o	poder	punitivo	é	o	 instrumento	de	 repressão	a</p><p>serviço	das	classes	hegemônicas.	Se	o	criminoso	age	brutalmente	contra	a</p><p>vítima,	 isso	 é	 resultado	 da	 forma	 em	 que	 ele	 foi	 brutalizado.	 Com	 isso,</p><p>Quinney	inaugura	uma	espécie	de	visão	romântica	dos	delinquentes.</p><p>Por	 certo,	 esse	 autor	 estava	 muito	 próximo	 da	 nova	 esquerda	 (New</p><p>Left)	 dos	 protestos	 estudantis	 de	 Berkeley	 e	 ficou	 deprimido	 com	 seu</p><p>fracasso.	 As	 autoridades	 universitárias	 não	 viram	 com	 bons	 olhos	 seu</p><p>movimento	e	optaram	por	dissolver	seu	grupo.	De	qualquer	maneira,	 foi</p><p>um	fenômeno	que	chamou	a	atenção	quando	ocorreu	e,	exageros	à	parte,</p><p>semeou	bastantes	dúvidas	acerca	das	racionalizações	correntes.</p><p>Chambliss	 defendeu	 uma	 tese	 menos	 linear.	 Ainda	 que	 considere	 o</p><p>poder	 punitivo	 como	um	 instrumento	do	 capitalismo,	 este	 o	 usaria	 para</p><p>adiar	 até	 onde	 fosse	 possível	 o	 colapso	 final	 do	 sistema,	 que	 considera</p><p>inevitável.	 Em	 linhas	 gerais,	 e	 pese	 os	 matizes,	 esse	 marxismo</p><p>criminológico	estadunidense	defende	uma	racionalidade	do	delito,	 como</p><p>resposta	às	contradições	do	capitalismo.	Quem	nos	assalta	na	rua	ou	nos</p><p>bate	 a	 carteira,	 estaria,	 sem	 sabê-lo,	 agindo	 racionalmente	 diante	 das</p><p>contradições	do	sistema.</p><p>Como	entre	as	 ideias	da	New	Left	encontrava-se	a	crença	de	que	os</p><p>intelectuais	 podiam	 conscientizar	 os	 delinquentes	 e	 marginais	 a	 respeito</p><p>da	 racionalidade	de	 sua	 função,	 alguma	coisa	disso	está	presente	nessas</p><p>construções.	Com	 isso,	 iam	além	de	Marx,	que,	como	vimos,	desprezava</p><p>olimpicamente	o	Lumpenproletariat,	 enquanto	 a	New	Left	 acreditava	 em</p><p>seu	potencial	 revolucionário.	Apesar	de	 sua	 ingenuidade	e	de	que	Marx</p><p>lhes	 houvesse	 dito	 coisas	 menos	 bonitas,	 não	 podemos	 negar	 a</p><p>generosidade	de	seu	pensamento,	levando	em	conta	o	contexto	em	que	se</p><p>expressou.</p><p>A	criminologia	marxista	britânica	teve	muito	mais	êxito	e	se	expandiu</p><p>desde	a	publicação,	 em	1973,	da	Nova	 criminologia	 de	 Ian	 Taylor,	 Paul</p><p>Walton	 e	 Jock	 Young.	 Esta	 obra	 alcançou	 um	 êxito	 singular	 porque	 a</p><p>primeira	 parte	 é	 uma	 cuidada	 síntese	 da	 criminologia	 teórica	 desde	 o</p><p>Iluminismo,	 resgatando,	 a	 partir	 de	 Durkheim,	 os	 elementos	 críticos	 de</p><p>cada	corrente,	com	conhecimento	e	aguda	penetração	sociológica.</p><p>Em	 seguida,	 analisam	 Marx	 e	 Engels	 e	 destacam	 que,	 como	 vimos,</p><p>Marx	ocupou-se	 apenas	 tangencialmente	da	questão	 criminal,	 razão	pela</p><p>qual	concluem	que	a	 teoria	criminológica	marxista	deve	ser	construída	a</p><p>partir	dos	princípios	e	não	das	manifestações	incidentais	do	próprio	Marx.</p><p>Se	o	marxismo	nos	oferece	algo	útil	para	apreciar	as	formas	em	que	o</p><p>conflito	 social	 é	 gerado	 e	mantido	 –	 escrevem	 –	 e	 em	 que	 este	 ajuda	 a</p><p>determinar	o	tipo	e	a	quantidade	de	atividade	delitiva	e	desviada	em	geral,</p><p>é	mais	 provável	 que	 o	 encontremos	 na	 teoria	 geral	 de	Marx	 do	 que	 nas</p><p>afirmações	 mais	 concretas	 dadas	 como	 resposta	 a	 questionamentos</p><p>empíricos	isolados.</p><p>Uma	cabal	teoria	marxista	do	desvio	–	afirmam	–	teria	por	fim	explicar</p><p>como	 determinados	 períodos	 históricos,	 caracterizados	 por	 conjuntos</p><p>especiais	de	relações	sociais	e	meios	de	produção,	produzem	tentativas	dos</p><p>econômica	 e	 políticamente	 poderosos	 em	 ordenar	 a	 sociedade	 de</p><p>determinada	 maneira.	 Ênfase	 maior	 iria	 para	 a	 pergunta	 que	 Howard</p><p>Becker	formula	(mas	não	examina),	a	saber,	quem	impõe	a	norma	e	para</p><p>o	quê?</p><p>Eles	consideram	que	nenhuma	teoria	do	desvio	conseguiu	isso	e	que	a</p><p>consequência	seria	vincular	as	 teses	da	criminologia	 liberal	às	 teorias	 da</p><p>estrutura	social	que	estão	implícitas	no	marxismo	ortodoxo.</p><p>Esse	 pensamento	 também	 se	 afasta	 do	 desprezo	 de	 Marx	 pelo</p><p>Lumpen,	atribuindo-lhe	caráter	dinamizador,	o	que	permite	entender	que,</p><p>em	geral,	os	criminólogos	marxistas	do	Primeiro	Mundo	que	escreviam	em</p><p>plena	 sociedade	 de	 consumo	 haviam	 perdido	 a	 confiança	 na	 força</p><p>dinamizadora	e	revolucionária	do	proletariado	(segundo	eles,	adormecida</p><p>pelo	welfare	State)	e	a	depositavam	na	marginalização	social.</p><p>A	criminologia	 radical	 promoveu	 a	 criação,	 tanto	 na	 Europa	 quanto</p><p>na	América,	de	grupos	de	estudos	que	aglutinaram	os	criminólogos	dessa</p><p>tendência	e,	em	alguns	países,	os	críticos	em	geral.	Houve	um	importante</p><p>grupo	 europeu,	 outro	 italiano,	 grupos	 británicos,	 um	 círculo	 de	 jovens</p><p>criminólogos	 alemães	 etc.	 Em	 1981,	 por	 iniciativa	 da	 criminóloga</p><p>venezuelana	Lola	Aniyar	de	Castro,	proclamou-se	no	México	o	Manifesto</p><p>do	 Grupo	 Latino-Americano	 de	 Criminologia	 Crítica,	 subscrito	 por	 ela</p><p>(professora	 da	Universidade	de	Zulia),	 Julio	Mayaudon	 (da	Universidade</p><p>de	 Carabobo),	 Roberto	 Bergalli	 (exilado	 e	 professor	 em	 Barcelona)	 e</p><p>Emiro	 Sandoval	 Huertas	 (de	 Bogotá,	 assassinado	 no	 massacre	 da	 Corte</p><p>Suprema,	em	6	de	novembro	de	1985).</p><p>27.	Na	direção	do	abolicionismo</p><p>e	do</p><p>minimalismo</p><p>Era	 natural	 que	 a	 obra	 de	 Goffman	 causasse	 certa	 impressão	 na</p><p>psiquiatria,	 visto	 que	 se	 baseava	 na	 experiência	 manicomial	 das</p><p>instituições	 totais.	 Da	 crítica	 ao	 manicômio	 passou-se	 rapidamente	 à	 da</p><p>psiquiatria	e	daí	à	crítica	radical	de	todo	o	sistema	psiquiátrico,	o	que	se</p><p>convencionou	chamar	de	antipsiquiatria.</p><p>Todo	o	movimento	antipsiquiátrico	foi	uma	crítica	radical	ao	controle</p><p>social	 repressivo	 exercido	 à	 margem	 do	 sistema	 penal	 formal.	 O	 poder</p><p>punitivo	reveste-se	de	muitas	formas	e	 já	vimos	o	efeito	do	acordo	entre</p><p>médicos	 e	 policiais	 que	 acabou	 nos	 campos	 de	 concentração	 nazistas	 e</p><p>outros	não	tão	notórios,	mas	nem	por	isso	menos	letais.</p><p>Se	 nos	 colocassem	diante	 da	 possibilidade	 de	 carregar	 uma	 etiqueta</p><p>negativa,	 dando-nos	 a	 opção	 entre	 a	 de	 criminalizado	 ou	 de</p><p>psiquiatrizado,	 se	 bem	 o	 último	 evoque	 um	 sentimento	 de	 pretensa</p><p>piedade	 (e	 o	 primeiro	 oculta	 o	 de	 vingança),	 o	 certo	 é	 que	 o	 de</p><p>criminalizado	 seria	 preferível,	 porque	 pelo	 menos	 não	 nos	 poderia	 ser</p><p>negado	 o	 direito	 de	 defesa	 nem	 de	 denunciar	 os	 abusos	 cometidos</p><p>conosco.	 Já	 ao	 psiquiatrizado	 até	 esses	 direitos	 são	 negados,	 sob	 o</p><p>argumento	puro	e	simples	de	que	o	pobre	está	louco,	não	sabe	o	que	faz,</p><p>tem	que	ser	tutelado,	tem	de	ser	protegido	de	si	mesmo.</p><p>Não	 foi	 à	 toa	 que	 um	 conhecido	 psiquiatra	 húngaro	 radicado	 nos</p><p>Estados	 Unidos,	 Thomas	 Szasz,	 escreveu	 um	 interessantíssimo	 livro</p><p>comparando	 o	 sistema	 psiquiátrico	 à	 Inquisição	 e	 afirmando	 que	 a</p><p>medicina	 substituiu	 a	 teologia,	 o	 médico,	 o	 inquisidor	 e	 o	 paciente,	 a</p><p>bruxa.	Tudo	o	que	o	paciente	alegar	contra	sua	condição	de	doente	não</p><p>será	mais	do	que	prova	de	sua	doença,	a	exemplo	do	que	acontecia	com</p><p>o	herege:	pobre	não	tem	consciência	da	doença.</p><p>Na	corrente	antipsiquiátrica	alistaram-se	autores	 famosos	nas	décadas</p><p>de	1970	e	1980,	como	o	italiano	Franco	Basaglia,	o	escocês	Ronald	Laing,</p><p>o	 inglês	 David	 Cooper,	 o	 mencionado	 Szasz	 e	 muitos	 outros,	 que</p><p>fundaram	em	1975,	em	Bruxelas,	uma	Rede	Internacional	de	Alternativa	à</p><p>Psiquiatria.</p><p>A	 ideia	 de	 vários	 desses	 antipsiquiatras	 era	 que	 a	 doença	 mental	 é</p><p>uma	resposta	política,	ou	seja,	o	ser	humano,	diante	das	contradições	do</p><p>poder,	se	encaminha	em	direção	à	loucura	ou	à	revolução	e,	portanto,	não</p><p>se	 deve	 matar	 o	 potencial	 subversivo	 da	 loucura,	 e	 sim	 politizá-lo	 para</p><p>converter	o	louco	em	um	agente	de	mudança	social.</p><p>A	 extrema	 radicalização	 dessas	 posições,	 da	 mesma	 forma	 que	 as</p><p>referidas	ao	próprio	sistema	penal	 formal,	pode	 levar	à	 impotência,	visto</p><p>que	 é	 óbvio	 que	 há	 algo	 a	 fazer	 frente	 a	 um	 esquizofrênico	 que	 fica</p><p>imóvel	 como	 um	 móvel	 no	 extremo	 de	 seu	 autismo	 psicótico	 (hoje	 há</p><p>poucos,	é	certo)	e	outros	tantos	padecimentos	em	que	não	se	pode	deixar</p><p>de	reconhecer	que	o	paciente	sofre.</p><p>Não	bastará	explicar	que	seu	sofrimento	é	uma	reação	às	contradições</p><p>do	 poder,	 porque	 o	 catatônico	 não	 vai	 se	 inteirar	 disso.	 Não	 obstante,</p><p>deixando	de	 lado	o	extremismo	que	pode	 levar	 à	 imoblidade,	o	 certo	é</p><p>que	 esse	 movimento	 contribuiu	 amplamente	 para	 que	 os	 direitos	 dos</p><p>pacientes	 psiquiátricos	 fossem	 levados	 em	 consideração,	 abrindo	 um</p><p>campo	de	debate	que	de	modo	nenhum	se	fechou.</p><p>Se	bem	que	os	psicofármacos	tenham	eliminado	as	camisas	de	força	e</p><p>as	celas	acolchoadas	e	quase	não	se	usa	o	choque	elétrico	(que	era	o	mais</p><p>parecido	 ao	 eletrochoque),	 o	 atual	 jaleco	 químico	 é	 distribuído	 com</p><p>incrível	 generosidade	 à	 população.	 A	 consequência	 desse	 abuso	 é	 que</p><p>tende	a	suprimir	toda	resistência	e	tolerância	à	dor,	quando	sabemos	que</p><p>existem	 os	 inevitáveis	 e	 não	 é	 de	 modo	 algum	 saudável	 sua	 simples</p><p>supressão	psicofarmacológica	nem	a	generalização	da	anestesia	diante	dos</p><p>sofrimentos	socialmente	condicionados.</p><p>O	 resultado	 prático	 mais	 importante	 da	 antipsiquiatria	 foi	 a</p><p>desmanicomialização,	 ou	 seja,	 a	 redução	 da	 institucionalização	 ao</p><p>mínimo,	para	evitar	a	deterioração	da	pessoa.</p><p>Como	 nunca	 faltam	 os	 espertos	 ou	 perversos	 que	 tudo	 desvirtuam,</p><p>este	 generoso	movimento	de	desmanicomialização	 acabou	 sendo	 usado</p><p>por	 políticos	 imorais	 para	 reduzir	 o	 gasto	 na	 atenção	 psiquiátrica	 e	 por</p><p>delinquentes	 corruptos	 para	 tentar	 fazer	 negociatas	 imobiliárias	 com	 os</p><p>edifícios	e	terrenos	dos	manicômios.	Isso,	porém,	não	pode	ser	imputado</p><p>à	 antipsiquiatria,	 e	 sim	 somente	 à	 necessidade	 de	 ficarmos	 atentos	 às</p><p>contradições	 do	 poder,	 que	 não	 são	 só	 aquelas	 que	 os	 antipsiquiatras</p><p>imaginaram.</p><p>Paralelamente	 à	 abolição	 do	 manicômio	 e	 à	 antipsiquiatria,	 e	 com</p><p>referência	 ao	 sistema	 penal	 formal,	 abriu-se	 caminho	 a	 um	 complexo</p><p>movimento	 de	 abolicionismo	 penal,	 que	 podemos	 denominar	 novo</p><p>abolicionismo,	 para	 distingui-lo	 do	 velho,	 que	 era	 o	 dos	 teóricos</p><p>anarquistas.</p><p>Embora	 tenha	 tido	 como	 antecedente	 o	 livro	 do	 professor	 de</p><p>criminologia	 de	 Genebra	 Paul	 Reiwald,	 intitulado	 A	 sociedade	 e	 seus</p><p>criminosos	e	publicado	em	1948,	sua	obra	não	foi	compreendida	quando</p><p>foi	 lançada,	 talvez	 também	devido	à	precoce	morte	do	autor,	 razão	pela</p><p>qual	 o	 novo	 abolicionismo	 viria	 a	 eclodir	 nas	 décadas	 de	 1970	 e	 1980.</p><p>Nesses	 anos,	 recebeu	 um	 notório	 impulso	 com	 os	 trabalhos	 de	 Michel</p><p>Foucault,	 embora	 este	 não	 se	 proclamasse	 abolicionista,	 pois	 seu</p><p>pensamento	resiste	às	classificações	e	ele	mesmo	procurou,	durante	 toda</p><p>sua	vida,	evitar	os	encasulamentos.</p><p>Não	 tem	 muito	 sentido	 selecionar	 aspectos	 particulares	 da	 crítica	 de</p><p>Foucault,	 porque	 ela	 impactou	 de	 tal	 modo	 as	 ciências	 sociais	 e	 a</p><p>criminologia	que	ao	longo	dessas	páginas	estamos	vendo	sua	clara	marca</p><p>transversal.	 Os	 filósofos	 discutirão	 durante	 muito	 tempo	 as	 ideias	 de</p><p>Foucault,	 em	 especial	 sua	 concepção	 antropológica,	 mas	 nas	 ciências</p><p>sociais	suas	contribuições	estão	acima	de	qualquer	avaliação	e	não	estão</p><p>necessariamente	soldadas	com	esta,	que	é	o	principal	ponto	de	discussão</p><p>no	campo	da	filosofia	pura.</p><p>O	 novo	 abolicionismo	 surgiu	 quase	 inteiramente	 de	 movimentos	 e</p><p>organizações	 que	 se	 ocupavam	 dos	 direitos	 dos	 presos	 e	 pelas	 quais</p><p>criminólogos	 e	 outros	 acadêmicos	 se	 interessaram.	 Conforme	 essa</p><p>experiência,	eles	passaram	a	 teorizar	e	a	postular	a	abolição	da	prisão	e</p><p>finalmente	do	sistema	penal.	Alguns	desses	movimentos,	que	surgiram	na</p><p>Europa	 nos	 anos	 60	 do	 século	 passado,	 converteram-se	 em	 verdadeiras</p><p>organizações	e	foram	imitados	mais	timidamente	em	outras	latitudes.</p><p>Os	 primeiros	 foram	 os	 movimentos	 escandinavos:	 o	 KRUM	 sueco</p><p>(1965),	 o	 KRIM	 dinamarquês	 (1967)	 e	 o	 KROM	 norueguês	 (1968).	 Eles</p><p>foram	 seguidos	 em	 1970	 pelo	 RAP	 britânico	 (Radical	 Alternatives	 to</p><p>Prison),	 em	1971	pela	Liga	Holandesa	COORNHERT,	pelo	grupo	alemão</p><p>de	Bielefeld,	pelo	Liberarsi	do	carcere	italiano	e	pelo	Group	d’information</p><p>sur	les	prisions	(GIP)	francês.	No	Canadá,	o	impulso	mais	importante	veio</p><p>do	 campo	 religioso,	 dos	 quakers.	 Cabe	 notar	 que	 depois	 da	 ditadura</p><p>argentina,	organizou-se	algo	semelhante	em	Buenos	Aires,	através	de	uma</p><p>ONG,	o	SASID	(Servicio	de	Assistência	Social	 Integral	ao	Detenido),	que</p><p>sobreviveu	alguns	anos.	Não	podemos	aqui	segui-los	em	detalhe,	mas	foi</p><p>um	 conjunto	 importante	 e	 demostrativo	 de	 uma	 tônica	 humanista	 muito</p><p>interessante.	 Se	 algum	 de	 vocês	 quiser	 se	 aprofundar	 em	 sua	 história	 e</p><p>ideologia,	 há	 em	 espanhol	 um	 livro	 de	 Iñaki	 Rivera	 Beiras	 (Abolir	 o</p><p>transformar?,	Buenos	Aires,	2010)	que	se	ocupa	do	tema.</p><p>Participaram	 dessas	 organizações	 acadêmicos	 de	 prestígio,	 como</p><p>Michel	 Foucault,	 no	 GIP,	 Louk	 Hulsman	 e	 Herman	 Bianchi,	 na	 Liga</p><p>Holandesa,	 Ruth	 Morris,	 no	 movimento	 quaker	 canadense,	 e	 Thomas</p><p>Mathiesen	e	Nils	Christie,	no	KROM	norueguês.	Eles	 foram	os	principais</p><p>promotores	teóricos	do	novo	abolicionismo	penal,	que	se	institucionalizou</p><p>internacionalmente	 no	 ICOPA	 (International	 Conference	 on	 Penal</p><p>Abolition),	 que	 promove	 congressos	 bianuais	 em	 diferentes	 países	 do</p><p>mundo.</p><p>O	pensamento	de	 Louk	Hulsman	 foi	 sintetizado	 em	um	 livro	 escrito</p><p>em	colaboração	com	Jacqueline	Bernat	de	Celis	(Peines	perdues,	Le	système</p><p>pénal	 em	question,	 Paris,	 1982),	 no	 qual	 evidencia	 a	 irracionalidade	 do</p><p>poder	punitivo	e,	de	certa	forma,	sua	derivação	teológica,	o	que	o	vincula</p><p>ao	 posicionamento	 de	 Szasz	 em	 psiquiatria.	 Cabe	 precisar	 que	 Hulsman</p><p>era	professor	 emérito	 da	Universidade	de	Rotterdam	e	o	 líder	 visível	 do</p><p>documento	sobre	descriminalização	do	Conselho	de	Europa	de	1980.	No</p><p>ano	de	seu	falecimento	–	2009	–	havia	sido	indicado	como	candidato	ao</p><p>Prêmio	 Nobel	 da	 Paz,	 por	 ter	 promovido	 as	 primeiras	 iniciativas	 de</p><p>política	de	drogas	na	Holanda.</p><p>Quanto	 a	Nils	 Christie,	 sua	 obra	mais	 conhecida	 em	 espanhol	 é	 Los</p><p>límites	del	dolor	 (1981),	 cuja	 tese	 central	 é	que,	 até	o	presente,	o	poder</p><p>punitivo	inflige	intencionalmente	dor,	e	por	isso	ele	postula	alternativas	e</p><p>não	 meras	 limitações.	 O	 marco	 ideológico	 de	 Christie	 é	 mais	 da</p><p>antropologia	cultural.	Em	sua	bibliografía	posterior,	ele	destaca	os	perigos</p><p>do	modelo	estadunidense	das	últimas	décadas,	daí	o	sugestivo	subtítulo	de</p><p>uma	 de	 suas	 obras:	 Rumo	 ao	 gulag	 estilo	occidental.	 Talvez	 o	 primeiro</p><p>livro	da	nova	onda	abolicionista	seja	o	do	norueguês	Thomas	Mathiesen,</p><p>The	Politics	of	Abolition	(1974),	no	qual	narra	sua	experiência	no	KRUM	ao</p><p>longo	de	vários	anos.	Embora	sua	obra	participe	do	campo	ideológico	do</p><p>marxismo	não	institucionalizado,	não	se	submete	a	ele,	forçando	os	fatos</p><p>verificados	 com	 sua	 experiência.	 Daí	 que	 tenha	 várias	 contribuições</p><p>interessantes,	que	abriram	o	caminho	a	posteriores	elaborações.</p><p>Consideramos	 que	 a	 maior	 contribuição	 de	 Mathiesen	 é	 a</p><p>caracterização	do	poder	punitivo	como	fagocitário	em	relação	a	todos	os</p><p>movimentos	 que	 o	 enfrentam,	 aos	 quais	 procura	 comprometer	 e	 incluir</p><p>em	seu	discurso	e	ação.	Daí	advertir	que	estes	devam	manter	uma	estrita</p><p>posição	de	 confrontação	não	contaminadora.	Nesse	 sentido,	 constrói	um</p><p>conceito	 que	 tem	 plena	 vigência:	 o	 de	 unfinished,	 o	 nunca	 finalizado.</p><p>Veremos	 mais	 adiante,	 quando	 fizermos	 referência	 à	 cautela,	 que	 esta</p><p>deve	operar	como	um	unfinished,	ou	seja,	um	caminho	para	a	contenção</p><p>do	poder	punitivo	nunca	de	todo	acabado.</p><p>Entre	 todos	 os	 personagens	 humanamente	 incríveis	 do	 novo</p><p>abolicionismo	 destacou-se	 Ruth	 Morris,	 socióloga	 canadense,	 de</p><p>personalidade	 muito	 interessante,	 tanto	 enquanto	 teórica	 quanto	 como</p><p>ativista.	Sua	obra	mais	difundida	foi	Penal	Abolition:	The	Practical	Choice</p><p>(1995),	na	qual,	entre	outros	pontos,	afirma	que	a	fé	no	poder	punitivo	é</p><p>uma	religião.	Acreditamos	que	essa	 ideia	é	muito	 interessante,	 tendo	em</p><p>conta	que	hoje	 se	atribui	ao	poder	punitivo	uma	onipotência	que	não	é</p><p>deste	mundo,	razão	pela	qual	se	converteu	em	um	verdadeiro	ídolo	e	seu</p><p>culto,	 em	uma	 idolatria.	 Seria	bom	 se	 aqueles	que,	 a	partir	 das	distintas</p><p>religiões,	o	adoram,	refletissem	acerca	da	possibilidade	de	que	esse	culto</p><p>não	lhes	faça	incorrer	num	gravíssimo	erro	dogmático.	Morris	foi	membro</p><p>ativo	da	Religious	Society	of	Friends	(quakers)	e	embarcou	todo	seu	grupo</p><p>no	abolicionismo	penal.</p><p>A	 pergunta	 inevitável	 quando	 se	 defende	 o	 abolicionismo	 é	 o	 que</p><p>colocar	 no	 lugar	 do	 sistema	 penal?	 Os	 novos	 abolicionistas	 propõem</p><p>soluções	de	acordo	com	todos	os	outros	modelos	de	solução	de	conflitos</p><p>aos	 quais	 fizemos	 referência:	 reparador,	 terapêutico,	 conciliador	 etc.	 Por</p><p>minha	 parte,	 não	 creio	 que	 suas	 propostas	 sejam	 de	 política	 criminal,	 e</p><p>sim	 de	 política	 em	 geral,	 mas	 no	 sentido	 de	 uma	 profunda	 mudança</p><p>cultural	 e	 civilizatória.	 No	 fundo,	 a	 discussão	 poderia	 sintetizar-se	 na</p><p>questão	da	possibilidade	de	eliminação	da	vingança,	o	que	nos	leva	a	um</p><p>tema	que,	por	sua	complexidade,	trataremos	extensamente	mais	adiante,	e</p><p>que	não	é	nada	simples	de	resolver.</p><p>O	 abolicionismo	 teve	 uma	 virtude,	 que	 compartilha	 com	 outras</p><p>correntes	 às	 quais	 nos	 referiremos	 mais	 adiante,	 mas	 que	 chega	 a	 seu</p><p>máximo	 extremo	 com	 esses	 autores	 e	 que	 consiste	 em	 desnaturalizar	 o</p><p>poder	punitivo.</p><p>Na	verdade,	tal	como	Berger	e	Luckmann	explicam,	há	muitas	coisas</p><p>que	 nos	 são	 tornadas	 naturais	 porque	 subjetivamente	 coincidimos,</p><p>compartilhamos	 a	mesma	opinião	 em	 relação	 a	 coisas	 que	nos	parecem</p><p>que	 sempre	 existiram	 ou	 que	 deveriam	 ter	 existido.	 Desde	 o	 bife	 de</p><p>chorizo[11]	até	a	pizza	com	fainá,[12]	tudo	nos	parece	natural	e	não	nos</p><p>perguntamos	porque	motivo	elas	existem:	está	ali	porque	 tinha	que	estar</p><p>ali	 e	 pronto.	 Com	 o	 poder	 punitivo	 acontece	 o	 mesmo:	 diz-se	 que	 ele</p><p>sempre	existiu,	embora,	como	vimos,	isso	não	seja	certo.	Está	porque	tem</p><p>que	estar.	Isso	determina	que	todo	aquele	que	o	critica	deve	explicar	por</p><p>o	 que	 o	 faz,	 enquanto	 que	 o	 poder	 punitivo	 não	 precisa	 explicar	 nada</p><p>acerca	de	sua	existência.</p><p>Imagino	 que	 o	 mesmo	 terá	 acontecido	 com	 a	 escravidão,	 com	 a</p><p>tortura,	com	a	monarquia	e	com	 tantas	outras	coisas	 tão	pouco	naturais,</p><p>como	a	pena	de	morte,	a	prisão	ou	o	próprio	poder	punitivo.	Isso	é	o	que</p><p>muda	com	a	crítica	abolicionista:	é	o	poder	punitivo	que	deve	justificar	sua</p><p>existência	 e	 não	 o	 inverso.	 E	 a	 verdade	 é	 que,	 quando	 fazemos	 isso,</p><p>quando	 tratamos	 de	 justificar	 a	 existência	 do	 poder	 punitivo,	 ainda	 que</p><p>não	sejamos	abolicionistas	e	tenhamos	diferenças	para	com	as	soluções	e</p><p>as	 vejamos	 como	 colocações	 não	 criminológicas	 e	 sim	 diretamente</p><p>civilizatórias,	nos	encontramos	em	meio	a	dificuldades,	e	o	abolicionismo</p><p>é	uma	das	principais	fontes	dessas	dificuldades.</p><p>Há,	por	outros	caminhos,	propostas	menos	radicais	e	inclusive	críticas</p><p>do	abolicionismo,	visto	que	não	postulam	a	abolição	do	sistema	penal,	e</p><p>sim	 sua	 redução.	 Trata-se	 daquilo	 que	 se	 conhece	 como	 minimalismo</p><p>penal,	cujos	autores	mais	conhecidos,	ainda	que	por	diferentes	vias,	são	o</p><p>inesquecível	 Alessandro	 Baratta,	 o	 querido	 Luigi	 Ferrajoli	 e	 a	 Escola	 de</p><p>Bolonha	em	geral,	com	Massimo	Pavarini	e	outros	tantos.</p><p>Com	diferenças,	esses	autores	destacam	que	o	poder	punitivo	deveria</p><p>limitar-se	a	conflitos	muito	graves	e	que	comprometem	maciçamente	bens</p><p>básicos	 (como	 a	 vida	 ou	 o	 meio	 ambiente)	 e	 resolver	 os	 conflitos	 de</p><p>menor	 magnitude	 por	 outros	 caminhos.	 É	 inquestionável	 que,	 embora</p><p>nossa	cultura	não	admita	a	decisão	não	punitiva	de	alguns	conflitos,	 isso</p><p>não	acontece	nem	muito	menos	com	todo	o	imenso	campo	abarcado	pela</p><p>projeção	da	criminalização	secundária.</p><p>Não	 obstante,	 cabe	 assinalar	 que	 essas	 propostas	 de	 direitos	 penais</p><p>mínimos	exigem	também	uma	profunda	transformação	do	poder	que	hoje</p><p>caminha	 em	 sentido	 diametralmente	 oposto,	 ainda	 que,	 a	 exemplo	 do</p><p>abolicionismo,	tenham	a	virtude	de	inverter	a	questão:	uma	vez	mais	é	o</p><p>poder	punitivo,	como	artifício	humano,	que	deve	justificar	sua	existência	e</p><p>extensão.</p><p>Essas	 posições,	 que	 exigem	 profundas	 mudanças	 sociais	 e</p><p>civilizatórias,	 apresentam	 o	 inconveniente	 de	 que	 é	 muito	 difícil	 dar</p><p>respostas	concretas	a	problemas	urgentes,	o	que	não	é	funcional	em	uma</p><p>região	 onde	 a	 violência	 do	 poder	 punitivo	 é	 muito	 alta	 ou,	 ao	 menos,</p><p>constitui	uma	ameaça	constante.</p><p>Isso	não	 significa,	muito	menos,	que	devamos	 subestimá-las,	porque</p><p>oferecem	 contribuições	 que	 nos	 ajudam	 a	 refletir	 sobre	 nossa	 realidade.</p><p>Pessoalmente,	 entendo	 que	 a	 posição	 de	 Baratta	 e	 toda	 sua	 escola</p><p>minimalista,	 da	 mesma	 forma	 que	 o	 abolicionismo,	 tornam	 inevitável	 a</p><p>questão	 da	 legitimação	 do	 poder	 punitivo	 e	 a	 pergunta	 sobre	 a	 que	 se</p><p>devia	 a	 incapacidade	 do	 direito	 penal	 para	 atribuir	 uma	 função	 à	 pena.</p><p>Hulsman	 prova	 que	 o	 modelo	 punitivo	 não	 resolve	 os	 conflitos	 e,</p><p>consequentemente,	nos	impõe	a	tarefa	de	buscar,	no	campo	das	ciências</p><p>sociais,	uma	explicação	para	a	sua	permanência	no	tempo.	O	unfinished</p><p>de	Mathiesen,	por	sua	vez,	é	uma	ideia	que	pode	oferecer	um	fundamento</p><p>consistente	para	uma	criminologia	cautelar	e	para	refundar	o	direito	penal</p><p>liberal	a	partir	de	uma	perspectiva	mais	sólida.</p><p>Ilustração	19</p><p>28.	Da	criminologia	crítica	passou-se	à</p><p>debandada?</p><p>Alguns	criminólogos	 reacionários	afirmam	que	a	 crítica	 criminológica</p><p>fracassou	e	que	 ela	não	passou	de	um	momento	de	 euforia	ou	de	uma</p><p>moda	superada.	É	claro	que,	para	isso,	tomam	em	consideração	as	versões</p><p>mais	radicais	e	ingênuas,	às	vezes	fáceis	de	ridicularizar.</p><p>Em	 seu	 lugar,	 eles	 propõem	 uma	 criminologia	 administrativa	 que,</p><p>falando	 abertamente,	 pretende	 que	 a	 palavra	 da	 academia	 se	 limite	 a</p><p>discutir	uma	técnica	eficaz	de	contenção	dos	pobres.</p><p>Não	 nos	 devemos	 enganar	 com	 os	 livros	 bem	 encadernados	 e	 os</p><p>cursinhos	 de	 fim	de	 semana,	 próprios	 de	 uma	 criminologia	 sem	história</p><p>nem	passado	e	que,	além	do	mais,	pretende	mostrar-se	 independente	da</p><p>política.</p><p>O	 certo	 é	 que	 entre	 os	 criminólogos	 mais	 sérios	 o	 viés	 crítico	 não</p><p>desapareceu;	 pelo	 contrário,	 aprofundou-se,	 ganhou	 em	 realismo	 e</p><p>arquivou	 as	 ingenuidades.	O	que	é	o	que	 foi	 chamado	de	 realismo?	De</p><p>onde	provém	o	impulso	para	superar	a	crítica	com	mais	crítica?</p><p>É	muito	 simples:	 o	que	mudou	é	o	quadro	do	poder	planetário.	Os</p><p>criminólogos	críticos	dos	anos	1970	nos	países	centrais	viam-se	às	voltas</p><p>com	 um	 poder	 punitivo	 próprio	 dos	 Estados	 do	 bem-estar	 e	 de	 suas</p><p>sociedades	 de	 consumo,	 com	 a	 sociologia	 sistêmica	 de	 Parsons	 e	 a</p><p>economia	de	Keynes.</p><p>Para	 nós,	 latino-americanos,	 isso	 parecia	 um	 tanto	 estranho,	 porque</p><p>nossos	 Estados-providência,	 incipientes	 e	 nunca	 completados,	 criados</p><p>pelos	populismos	que	ampliaram	nossas	bases	de	cidadania	real,	haviam</p><p>sido	desbaratados	brutalmente	ou	estavam	em	vias	de	sê-lo.</p><p>A	 crítica	 criminológica	 central	 não	 correspondia	 aos	 nossos	 sistemas</p><p>penais,	pois	no	nosso	lado	montava-se	um	poder	punitivo	que	só	buscava</p><p>conter	os	excluídos.	Eram	impostos	a	nós	Estados	policiais	com	ditaduras</p><p>ou	 com	políticos	 corruptos	pós-modernos.	 Não	 tinha	 sentido	 colocar	 em</p><p>crise,	 aqui,	 a	 ideia	 de	 ressocialização,	 porque	 nossas	 prisões	 tendiam	 a</p><p>ser,	ou	 já	eram,	campos	de	concentração,	nossas	polícias	eram	forças	de</p><p>ocupação	 territorial,	 substituídas	 com	 frequência	por	militares,	o	número</p><p>de	presos	à	disposição	do	Poder	Executivo	competia	com	o	de	presos	por</p><p>ordem	judicial	e,	além	do	mais,	70	ou	80%	destes	últimos	estavam	presos</p><p>por	via	das	dúvidas,	porque	eram	processados	e	não	condenados.</p><p>Desde	 os	 anos	 1970	 as	 coisas	 mudaram:	 o	 Estado	 policial	 avançou</p><p>sobre	 os	 países	 centrais.	 Friedman	 e	 Hayek	 foram	 os	 novos	 gurus	 do</p><p>festival	de	mercado;	Reagan,	Thatcher	e	Bush	marcaram	o	caminho	para	o</p><p>Estado	 que	 tem	 por	 função	 única	 manter	 os	 pobres	 dentro	 dos	 limites;</p><p>Roosevelt	 era	 pouco	 menos	 que	 um	 comunista	 desprezível,	 Keynes	 era</p><p>um	marxista	irresponsável,	toda	gestão	e	intervenção	estatal	era	ineficiente</p><p>e	 corrupta;	 o	 mercado	 era	 o	 único	 racional	 no	 mundo;	 o	 Estado	 devia</p><p>deixar	a	máxima	liberdade	para	permitir	a	eliminação	dos	mais	débeis.</p><p>Herbert	 Spencer	 estaria	 feliz	 com	 um	 mundo	 como	 esse	 e	 afirmaria</p><p>que	 esse	 mundo	 não	 seria	 mais	 do	 que	 a	 confirmação	 de	 suas	 teorias;</p><p>poderia	pedir	a	Satanás	uma	revisão	extraordinária	de	seu	julgamento.	Há</p><p>raças	inferiores,	que	somos	nós,	os	habitantes	dos	países	periféricos,	e	os</p><p>imigrantes	e	excluídos	dos	países	centrais.	As	raças	superiores,	que	são	os</p><p>incluídos	 dos	 países	 centrais	 e	 seus	 procónsules	 designados	 nos</p><p>periféricos,	devem	defender-se	dos	 inferiores.	O	Estado	deve	 limitar-se	a</p><p>manter	a	supremacía	das	raças	superiores	e	não	privar	os	inferiores	de	seu</p><p>direito	à	luta	que	os	torne	fortes	e	que	permita	que,	de	vez	em	quando,</p><p>algum	deles	pule	a	cerca,	participando	do	Big	Brother	ou	abriando	espaço</p><p>em	alguma	negociata.</p><p>O	 brutal	 salto	 do	 sistema	 penal	 dos	 Estados	 Unidos,	 a	 exclusão</p><p>definitiva	do	criminalizado	e	de	sua	família,	a	pena	desproporcional	pela</p><p>menor	infração,	de	acordo	com	a	tolerância	zero	do	demagogo	municipal</p><p>de	 Nova	 York	 (que	 cobrou	 uma	 quantia	 exorbitante	 aos	 ingênuos</p><p>empresários	mexicanos	para	proferir-lhes	uma	 conferência	 absurda),	 não</p><p>são	 mais	 que	 um	 terrorismo	 de	 Estado	 contra	 os	 pobres,	 um	 modelo</p><p>neonazista	em	marcha.	O	Estado	policial	é	isso,	seu	pensamento	nu	e	cru</p><p>diz	 para	 os	 negros	 ficarem	 em	 seu	 lugar,	 nós	 mandamos	 e	 cortamos	 a</p><p>cabeça	do	negro	que	incomodar.	(A	isso	dever-se-ia	acrescentar:	Os	índios</p><p>do	sul	devem	produzir	cocaína	e	matar-se	para	não	nos	mandar	mais	do</p><p>que	o	necessário	para	manter	o	preço	alto;	nós	nos	ocupamos	de	que	só	nos</p><p>chegue	a	cocaína	que	podemos	distribuir	a	um	preço	alto	e	ficarmos	com	o</p><p>maior	lucro	e	o	benefício	da	reciclagem).</p><p>Vocês	 têm	 razão	 se,	 por	 acaso,	 a	 clareza	 dessas	 expressões	 lhes</p><p>chamar	a	atenção,	dado	que	hoje	eles	não	se	manifestam	dessa	maneira,</p><p>pois	não	têm	a	sinceridade	do	velho	Spencer,	de	Garofalo,	dos	positivistas</p><p>racistas.	Os	velhos	racistas	pelo	menos	eram	sinceros;	autênticos	oligarcas,</p><p>falavam	 claro,	 sem	 subterfúgios,	 não	 posavam	 de	 democráticos	 nem	 de</p><p>generosos,	eram	abertamente	elitistas	e	confessavam	isso.	Em	que	mundo</p><p>vivemos	 que	 nos	 permite	 encontrar	 algum	 motivo	 para	 termos	 saudade</p><p>dos	velhos	racistas?</p><p>Ilustração	20</p><p>Hoje	 as	 coisas	 são	 mais	 complicadas	 e	 é	 mais	 fácil	 confundir-se.</p><p>Agora,	quando	o	Estado	policial	chegou	como	um	bumerangue	ao	próprio</p><p>centro,	 tanto	 no	 centro	 como	 na	 periferia	 há	 classes	 médias</p><p>desclassificadas,	 desconcertadas,	 anômicas	 (no	 sentido	 original	 de</p><p>Durkheim),	ameaçadas	pelos	de	cima,	que	lhes	cobram	fidelidade,	e	pelos</p><p>de	 baixo,	 aqueles	 que	 consideram	 seus	 únicos	 e	 mortais	 inimigos.	 São</p><p>pasto	 fácil	 para	 internalizar	 a	 publicidade	 midiática	 de	 um	 eles	 inimigo,</p><p>composto	de	pobres,	imigrantes	e	adolescentes	de	bairros	precários.</p><p>Todavia,	 não	 se	 trata	 apenas	 da	 classe	 média	 empobrecida	 pela</p><p>demolição	do	Estado	do	bem-estar.	Insistimos	em	que	o	mais	astuto	deste</p><p>spencerianismo	 dos	 dias	 de	 hoje	 é	 fazer	 com	 que	 os	 pobres	 se	 matem</p><p>entre	si,	que	a	vitimização	avance	entre	os	próprios	excluídos,	ao	que	se</p><p>acrescenta	que	a	polícia	também	seleciona	entre	eles.</p><p>A	técnica	de	controle	dos	excluídos	responde	à	ideia	de	que	os	negros</p><p>se	matem	entre	eles,	assim	não	incomodam.	Essa	é	a	lógica	não	confessada</p><p>do	 racismo	 de	 nossos	 dias.	 E	 ela	 é	 eficaz,	 porque	 isso	 permite	 que</p><p>inclusive	entre	os	próprios	excluídos	 tenha	êxito	a	publicidade	 televisiva</p><p>que	os	erige	em	um	eles	inimigos	da	sociedade.</p><p>Voltaremos	a	esse	ponto	com	maiores	detalhes,	mas	não	posso	deixar</p><p>de	 assinalar	 isso	 agora,	 porque	 do	 contrário	 parece	 que	 a	 criminologia</p><p>crítica	 desapareceu,	 quando	 na	 realidade	 aconteceu	 exatamente	 o</p><p>contrário:	 ela	 se	 tornou	 mais	 realista	 e	 profunda,	 eclodindo	 em	 várias</p><p>direções.</p><p>Os	 criminólogos	 se	 acham	 agora	 diante	 de	 uma	 realidade	 do	 poder</p><p>punitivo	 completamente	 diferente	 da	 dos	 anos	 1970.	 Não	 poderiam</p><p>continuar	 criticando	um	poder	punitivo	que	 já	 não	 se	 exerce	da	mesma</p><p>forma.	 A	 brutal	 regressão	 dos	 direitos	 humanos	 por	 obra	 do	 avanço	 do</p><p>Estado	policial	–	não	mais	na	margem,	e	sim	no	próprio	centro	do	poder</p><p>planetário	–	coloca	a	necessidade	de	ser	mais	realistas.</p><p>Os	criminólogos	centrais	já	não	têm	tempo	para	sentar-se	à	calçada	de</p><p>um	café	 elegante	de	Paris	 a	 fim	de	discutir	 a	possível	 revolução	que	os</p><p>faça	 despertar	 em	 uma	 sociedade	 igualitária;	 hoje	 eles	 têm	 também	 as</p><p>urgências	que	nós	tivemos,	os	ameaçam	os	mesmos	perigos	e	seu	poder</p><p>punitivo	 corre	 o	 risco	 de	 ir-se	 assemelhando	 a	 cada	 dia	 mais	 ao	 nosso,</p><p>embora	em	alguns	países	centrais	ainda	esteja	longe.</p><p>Como	era	de	se	esperar,	os	criminólogos	centrais	se	desconcertaram,</p><p>porque	 tudo	 passa	 muito	 rápido,	 não	 há	 sequer	 mudança	 geracional</p><p>marcada,	 muitas	 vezes	 são	 os	 mesmos	 que	 ontem	 defendiam	 posições</p><p>radicais	os	que	hoje	devem	mudar	de	critério.	A	brutal	virada	 repressiva</p><p>dos	Estados	policiais	instalados	ou	em	vias	de	instalação	representou	para</p><p>eles	um	forte	murro	de	realismo	que,	como	todo	murro,	levou	alguns	ao</p><p>nocaute,	 mas	 em	 outros	 provocou	 uma	 considerável	 descarga	 de</p><p>adrenalina	crítica.</p><p>A	nós	isso	cai	bem,	mas	não,	bem	entendido,	por	nos	alegrar	com	a</p><p>desgraça	 alheia.	 Ainda	 que	 não	 tenhamos	 na	 América	 Latina	 o	 mesmo</p><p>desenvolvimento	 teórico	 da	 criminologia	 central,	 sempre	 lidamos	 com	 o</p><p>poder	 punitivo	 nu	 e	 cru	 com	 o	 qual	 eles	 agora	 se	 defrontam	 e,	 por</p><p>conseguinte,	os	elementos	críticos	que	nos	chegam	mostram-se	muito	mais</p><p>adequados	 aos	 fenômenos	 de	 poder	 que	 devemos	 controlar	 do	 que	 os</p><p>que	a	crítica	ao	poder	punitivo	do	Estado	do	bem-estar	nos	fornecia.</p><p>Em	décadas	passadas,	quando	expúnhamos	nossa	realidade	no	centro,</p><p>não	 deixava	 de	 haver	 um	 certo	 tom	 de	 bom,	 são	 países	 em	 vias	 de</p><p>desenvolvimento.	 Hoje	 temos	 problemas	 comuns	 e,	 além	 do	 mais,	 a</p><p>famosa	globalização	facilita	a	comunicação.</p><p>Vale	lembrar	que,	quando	as	brutalidades	colonialistas	aconteciam	na</p><p>África	 ou	 na	 América	 do	 Sul,	 elas	 eram	 atribuídas,	 no	 centro,	 à</p><p>inferioridade	 dessas	 sociedades,	 mas,	 quando	 o	 mesmo	 poder</p><p>neocolonialista	 deu	 a	 volta	 e	 as	 brutalidades	 passaram	 à	 Europa,	 esse</p><p>discurso	 não	pôde	 continuar	 vigindo	 e	 a	 comunidade	 internacional	 teve</p><p>necessidade	de	declarar	solenemente	uma	obviedade:	 todo	ser	humano	é</p><p>pessoa.	O	discurso	atual	não	é	o	mesmo,	claro,	mas	corre	o	risco	de	sê-lo.</p><p>A	necessidade	de	aprofundar	a	 realidade	do	poder	punitivo	 fez	com</p><p>que	 os	 olhares	 se	 dirigissem	para	 diferentes	 direções	 e	 se	 encontrassem</p><p>com	outras	que	já	haviam	reparado	nesses	fenômenos	do	poder.	Por	isso,</p><p>quando	 lançamos	um	olhar	 sobre	 a	 crítica	 criminológica	de	nossos	dias,</p><p>muito	longe	de	acreditar	que	ela	não	existe,	o	que	vemos	é	que	debandou</p><p>em	diferentes	sentidos.</p><p>Se	bem	que	 isso	 seja,	 a	princípio,	desconcertante,	 é	muito	 saudável,</p><p>porque	o	poder	punitivo	é	um	fenômeno	muito	complexo,	que	não	pode</p><p>ser	 encarado	 com	 simplificações	 que	 satisfazem	 o	 acadêmico	 porque</p><p>ficam	 redondinhas	 e	 fecham,	 mas	 que	 não	 incomodam	 a	 realidade	 do</p><p>poder.</p><p>Tampouco	 se	 trata	 de	 uma	 dissolução,	 mas	 antes	 abrir	 a	 cabeça,</p><p>incorporando	outras	visões	críticas.	Por	último,	essa	saraivada	de	olhares</p><p>críticos	não	é	um	caos,	como	a	princípio	parece,	mas	sim,	quando	olhado</p><p>bem,	 é	 perfeitamente	 lógico	 frente	 à	 necessidade	 de	 encarar	 a	 agressão</p><p>violenta	de	um	poder	punitivo	desenfreado	e	brutal.</p><p>Quando,	diante	dessa	necessidade,	os	criminólogos	se	perguntaram	o</p><p>que	se	estava	deixando	de	lado	e	por	que	não	haviam	se	apercebido	do</p><p>perigo	antes,	seus	olhares	se	voltaram	para	quatro	direções	básicas	e	que,</p><p>no	fundo,	não	são	excludentes.</p><p>(a)	 Por	 um	 lado,	 ao	 tratar	 de	 explicar	 o	 poder	 punitivo	 e	 centrar	 a</p><p>atenção	 em	 seu	 exercício,	 subestimou-se	 o	 dano	 real	 que	 o	 delito</p><p>provoca.	O	delito	tem	vítimas	e	a	distribuição	da	vitimização	é	tão	seletiva</p><p>quanto	 a	 da	 criminalização.	 Não	 por	 acaso	 as	 classes	 subalternas	 são</p><p>vítimas	 da	 publicidade	 midiática	 vingativa,	 pois	 são	 as	 mais	 vitimizadas.</p><p>Por	esse	caminho	do	dano	real,	a	crítica	se	fixa	na	vitimologia	e	na	Grã-</p><p>Bretanha	 alguns	 dos	 próprios	 críticos	marxistas	 de	 outrora	 propõem	um</p><p>realismo	de	esquerda.</p><p>(b)	Por	outro	lado,	é	claro	que	a	criminologia	midiática	vingativa,	ao</p><p>construir	o	eles	inimigo	mostrando	o	delito	comum	como	o	único	perigo,</p><p>provoca	o	que	se	chama	de	pânico	moral	(conceito	que	se	deve	a	Stanley</p><p>Cohen	e	Jock	Young),	medo	ao	delito	e	a	nada	mais,	e,	por	conseguinte,</p><p>estão	sendo	ocultados	outros	perigos	e	danos	em	ação,	muito	mais	graves</p><p>e	em	curso.</p><p>Inventa-se	uma	sociedade	de	risco,	na	qual	o	único	risco	é	a	agressão</p><p>do	 adolescente	 do	 bairro	 pobre,	 como	 se	 não	 houvesse	 outros	 danos</p><p>sociais	 em	 curso.	 É	 algo	 assim	 como	 a	 campanha	 para	 não	 usar</p><p>desodorante	em	aerosol	porque,	com	isso,	vamos	evitar	que	a	camada	de</p><p>ozônio	seja	furada,	enquanto	se	queimam,	irresponsavelmente,	bilhões	de</p><p>toneladas	de	petróleo.</p><p>Isso	 levou	 os	 olhares	 para	 mais	 além	 da	 criminologia,	 isto	 é,	 a</p><p>procurar	 fazer	 um	 saber	 do	dano	 social	 (é	 o	paradigma	do	 dano	 social</p><p>proposto	por	alguns	criminólogos	ingleses	–	o	social	harm	approach),	mas</p><p>também	para	as	contribuições	que	a	crítica	social	feminista	vinha	fazendo</p><p>e,	 por	 último,	 para	 algo	 que	 se	 ia	 colocando	 em	 relevo,	 e	 que	 a</p><p>criminologia	 havia	 deixado	 de	 lado	 de	 modo	 pouco	 menos	 que</p><p>inexplicável:	 o	 genocídio.	 O	 fenômeno	 dos	 massacres	 foi	 estudado	 à</p><p>margem	da	criminologia	e	não	pode	deixar	de	impactá-las.</p><p>(c)	Como	é	óbvio,	o	 renascimento	violento	do	spencerianismo	e	seu</p><p>Estado	 policial	 não	 podia	 deixar	 de	 ser	 objeto	 de	 análise	 e	 crítica,	 de</p><p>forma	 direta,	 por	 parte	 dos	 criminólogos	 centrais	 que	 assistiam	 a	 esse</p><p>novo	 parto	 letal.	 Em	 consequência,	 surgiu	 toda	 uma	 corrente	 que	 se</p><p>ocupa	de	analisar	e	criticar	a	manifestação	repressiva	deste	Estado	policial</p><p>e	que	a	batizou	de	neopunitivismo.</p><p>(d)	 Por	 último,	 todo	 o	 panorama	 mundial	 contemporâneo	 configura</p><p>uma	paisagem	de	enorme	agressividade,	que	provoca	interrogações	que	se</p><p>situam	além	da	sociologia	e	da	ciência	política	e	cujas	respostas	 levam	a</p><p>mergulhar	 em	outras	palavras	 da	 academia,	 como	 são	 as	das	disciplinas</p><p>psi,	da	antropologia	e	da	etnologia.	Como	podemos	ver,	a	debandada	não</p><p>é	anárquica,	mas	sim	responde	a	atitudes	que	eram	de	se	esperar,	porque</p><p>são	bastante	razoáveis,	dadas	as	novas	circunstâncias	do	poder	planetário.</p><p>Esse	mero	enunciado	prova	que	nada	é	mais	falso	do	que	afirmar	que</p><p>a	crítica	desapareceu,	quando	está	claro	que	ela	só	se	diversificou	para	se</p><p>aprofundar,	 o	 que	 é	 muito	 mais	 adequado	 à	 urgência	 para	 se	 chegar	 a</p><p>uma	 melhor	 abordagem	 do	 fenômeno	 de	 poder	 repressivo.	 Os</p><p>criminólogos	se	perguntam,	pura	e	simplesmente:</p><p>Por	que	a	criminologia	midiática	se	instala	entre	os	pobres?	Porque	há</p><p>um	dano	real	do	delito,	do	qual	nos	ocupamos	pouco.	Pois	bem,	vamos</p><p>estudar	as	vítimas.</p><p>O	que	a	criminologia	midiática	se	empenha	em	ocultar	do	público	com</p><p>o	pânico	moral	 à	 agressão	do	adolescente	 de	 bairro	 precário?	 Pois	 bem,</p><p>vamos	estudar	os	danos	sociais	que	não	são	mostrados.</p><p>O	 que	 é	 este	 neopunitivismo	 brutal?	 É	 claro	 que	 se	 trata	 de	 uma</p><p>questão	exclusivamente	política;	pois	bem,	é	mister	analisá-la	e	estudá-la.</p><p>A	 que	 se	 deve	 essa	 agressividade	 intraespecífica,	 que	 se	 coloca</p><p>manifestamente	 nesse	 momento	 do	 poder?	 Vamos	 perguntar	 a	 outros</p><p>sábios.</p><p>Como	 se	 pode	 ver,	 a	 academia	 não	 ficou	 louca	 nem	 renunciou	 à</p><p>crítica,	e	sim	vai	mais	longe.</p><p>Passemos	a	lançar	uma	vista	d’olhos	sobre	o	panorama	que	cada	uma</p><p>dessas	 quatro	 perspectivas	 oferece,	 ainda	 que	 brevemente,	 pois,	 na</p><p>realidade,	 essas	 contribuições	 da	 criminologia	 acadêmica	 atual	 nos</p><p>preparam	 para	 compreender	 o	 sentido	 da	 criminologia	 midiática	 e	 para</p><p>escutar	melhor	a	palavra	dos	mortos,	razão	pela	qual	voltaremos,	no	curso</p><p>desses	suplementos,	a	insistir	muitas	vezes	nos	aspectos	de	seu	conteúdo</p><p>que	nos	permitem	nos	aproximar	da	realidade	da	questão	criminal.</p><p>Não	acreditem	que	seja	uma	descoberta	 integralmente	pessoal	o	que</p><p>vou	expor	nos	próximos	suplementos	e	que,	depois	de	ouvir	atentamente</p><p>a	 palavra	 dos	mortos,	 termina	 numa	 proposta	 de	 criminologia	 cautelar.</p><p>Ela	é,	em	boa	parte,	o	produto	da	aplicação	dos	instrumentos	conceituais</p><p>que	 essa	 aparente	 saraivada	 das	 perguntas	 contemporâneas	 nos</p><p>proporciona.</p><p>Em	 alguma	 medida,	 o	 que	 exponho	 aqui	 resulta	 do	 uso	 sintético</p><p>desses	elementos	e	de	uma	atenta	observação	da	realidade	cotidiana.</p><p>29.	O	dano	real	do	delito:	realismo	de	esquerda</p><p>e	vitimologia</p><p>Em	1973,	 Jock	Young	era	um	dos	autores	da	nova	criminologia	 que</p><p>ensaiava	 uma	 recolocação	 radical	 a	 partir	 da	 perspectiva	 marxista.	 No</p><p>começo	dos	anos	1990	ele	surprendeu,	juntamente	com	John	Lea,	Richard</p><p>Kinsey	e	Roger	Matthews,	adotando	um	posicionamento	que	chamaram	de</p><p>realismo	 de	 esquerda	 e	 cujo	 lema	 é	 levar	 o	 delito	 a	 sério,	 partindo	 da</p><p>constatação	 de	 que	 causa	 graves	 danos	 a	 vítimas	 das	 classes	 populares</p><p>urbanas,	em	especial	às	mulheres,	que	são	as	mais	vulneráveis.</p><p>Embora	essa	volta	seja	atribuída	políticamente	a	uma	aproximação	do</p><p>trabalhismo	britânico,	nós	acreditamos	que	seja	antes	o	resultado	de	uma</p><p>aproximação	da	realidade	da	vitimização.</p><p>As	teorias	macro	têm	o	inconveniente	óbvio	de	satisfazer	explicações</p><p>acadêmicas	 enquadradas	 em	 marcos	 ideológicos	 prévios,	 mas	 não</p><p>oferecem	nenhuma	 resposta	 para	 as	 vítimas	 concretas	 e	 seus	parentes	 e</p><p>para	as	reclamações	que	estes	e	os	vizinhos	formulam	aos	políticos.</p><p>Creio	 que	 o	 contato	 mais	 elementar	 de	 um	 criminólogo	 acadêmico</p><p>com	 esta	 realidade	 não	 pode	 deixar	 de	 colocar	 em	 evidência	 a</p><p>necessidade	urgente	de	fazer	algo	e	de	dar	uma	resposta,	 a	não	 ser	que</p><p>prefira	 que	 os	 impulsos	 de	 vingança,	 a	 criminologia	 midiática	 e	 os</p><p>políticos	colocados	de	lado	marchem	cada	vez	mais	na	direção	do	modelo</p><p>do	 Estado	 policial	 e	 da	 repressivização	 neofascista	 dirigida	 em	 fim	 de</p><p>contas	contra	os	excluídos.</p><p>É	 bastante	 claro	 que	 as	 colocações	 puras	 da	 criminologia	 crítica</p><p>radical,	 elaboradas	 a	 partir	 da	 academia	 sem	 contato	 com	 as	 vivências</p><p>cotidianas	e	sem	investigação	de	campo,	são	úteis	como	marco	de	crítica,</p><p>mas	 que,	 ao	 recair	 nesse	 nível,	 aplainam	 o	 caminho	 para	 uma	 suposta</p><p>criminologia	administrativa,	 que	é	 a	 típica	do	Estado	 policial,	 contando</p><p>com	a	aprovação,	quando	não	com	o	decidido	apoio,	dos	próprios	setores</p><p>contra	os	quais	esse	modelo	de	Estado	políticamente	se	dirige.</p><p>Acredito	 piamente	 que	 essa	 verificação,	 do	 senso	 comum,	 foi</p><p>determinante	 para	 o	 chamado	 realismo	 de	 esquerda	 britânico	 que	 vem</p><p>propondo	 reformas	 ao	 sistema	penal	 e	 assistencial	 de	 seu	país,	 algumas</p><p>interessantes,	 ainda	 que	 nem	 todas	 transferíveis	 à	 realidade	 da	 nossa</p><p>latitude.</p><p>Entre	 as	 propostas	 concretas	 desses	 criminólogos,	 as	 mais</p><p>interessantes	são	as	que	se	referem	à	polícia,	colocando	a	alternativa	entre</p><p>um	 modelo	 de	 polícia	 militar	 (que	 nós	 chamamos	 aqui	 de	 ocupação</p><p>territorial)	 e	 outro	 de	 polícia	 de	 consenso	 (que	 nós	 chamamos</p><p>comunitária).</p><p>Voltaremos	 a	 esse	 ponto	 quando	 nos	 ocuparmos	 dos	 segmentos	 do</p><p>sistema	penal,	 com	a	 advertência,	 que	 formulamos	desde	 agora,	 de	 que</p><p>não	se	pode	confundir	uma	polícia	comunitária	com	uma	ditadura	ética,</p><p>com	 a	 intervenção	 de	 pessoas	 que	 não	 tenham	 nada	 a	 fazer	 senão</p><p>incomodar	os	jovens.</p><p>Ao	 centrar	 a	 atenção	no	dano	 real	 do	delito	não	 se	pode	deixar	de</p><p>reparar	na	vitimologia,	que	não	é	uma	ciência	nem	um	saber	autônomo,</p><p>mas	uma	linha	de	investigação	que	teve	como	antecedente	a	obra	de	Hans</p><p>von	Hentig	(que	foi	um	criminólogo	alemão	antinazista	e	muito	criativo)	e</p><p>da	qual	considera-se	fundador	o	criminólogo	romeno	radicado	em	Israel,</p><p>Benjamin	Mendelsohn.</p><p>Inicialmente,	a	vitimologia	 se	dedicava	às	vítimas	de	delitos	comuns,</p><p>em	especial	a	seu	comportamento	como	determinante	ou	facilitador	destes</p><p>delitos,	mas	hoje	 ampliou	 seu	 campo	de	observação	 até	 chegar	quase	 a</p><p>abranger	 tudo	 o	 que	 levam	 em	 consideração	 aqueles	 que	 pretendem	 ir</p><p>mais	 além	 da	 criminologia	 e	 ocupar-se	 de	 todo	 o	 dano	 social.	 Um	 dos</p><p>mais	 destacados	 teóricos	 da	 vitimologia	 em	 nosso	 tempo	 foi	 o	 sempre</p><p>lembrado	Antonio	Beristain,	que	elaborou	o	conceito	de	macrovítimas,	em</p><p>referência	aos	conflitos	armados	ou	ao	que	se	denomina	“terrorismo”.	Na</p><p>Argentina,	 esta	 perspectiva	 foi	 amplamente	 desenvolvida	 por	 Elías</p><p>Neuman,	lamentavelmente	falecido	em	2012.</p><p>30.	Os	danos	que	a	criminologia	midiática</p><p>oculta</p><p>O	 feminismo	 é	 um	 forte	 movimento	 teórico	 e	 ativista	 com</p><p>desenvolvimento	 autônomo	 e	 em	 cujo	 seio	 se	 movem	 desde	 posições</p><p>radicais,	inspiradas	em	marcos	ideológicos	preexistentes,	até	toda	a	gama</p><p>de	 possíveis	 matizes	 em	 torno	 do	 inegável	 fenômeno	 civilizatório	 da</p><p>subordinação	da	mulher.</p><p>No	fundo	do	debate	feminista,	acreditamos	encontrar	o	fundado	temor</p><p>de	que	seu	potencial	transformador,	que	é	enorme,	possa	ser	neutralizado</p><p>por	 um	 pensamento	 falocêntrico	 ou,	 como	 dizem	 no	 bairro,	 machista,</p><p>suscetível	de	cooptá-lo.</p><p>Porém,	 indo	 além	dos	 extremos	 a	 que	 esse	 temor	pode	 conduzir,	 o</p><p>certo	é	que	o	 feminismo	comove	as	próprias	bases	do	poder	planetário,</p><p>tendo	 em	 conta,	 como	 vimos,	 que	 este	 se	 preparou	 hierarquizando	 as</p><p>sociedades	colonizadoras	mediante	a	regulação	das	relações	sexuais	para</p><p>erigir	a	seus	primeiros	sargentos	na	pirâmide	do	exército	colonialista.</p><p>O	 temor	 das	 feministas	 não	 é	 outra	 coisa	 senão	 um	 capítulo</p><p>importantíssimo	das	 armadilhas	que	 todas	 as	 racionalizações	do	poder	 e</p><p>todas	suas	naturalizações	nos	estendem.</p><p>O	feminismo	trouxe	dois	conceitos	–	o	de	patriarcado	e	o	de	gênero	–</p><p>que	hoje	são	de	uso	corrente	e	sem	os	quais	nos	faltariam	letras-chaves	no</p><p>abecedário	que	usamos	para	descrever	a	hierarquização	naturalizada	que</p><p>o	poder	planetário	nos	vende.</p><p>Entende-se	 por	 patriarcado,	 para	 afirmar	 claramente,	 o	 domínio</p><p>machista	e	todas	suas	implicações.	O	gênero	revela	a	principal	armadilha</p><p>do	patriarcado:	a	confusão	de	sexo	com	a	o	papel	atribuído.	O	sexo	é	algo</p><p>anatômico,	mas	o	gênero	não	tem	nada	a	ver	com	a	anatomia.	A	mulher</p><p>tecendo,	 cozinhando,esperando	 o	 marido,	 cosendo,	 não	 tem	 nada	 de</p><p>sexual,	 tratando-se,	 antes,	 de	 um	 conjunto	 de	 papéis	 culturalmente</p><p>atribuídos	pelo	poder	patriarcal.	Isso	é	o	gênero.</p><p>Chamou	 sempre	 a	 atenção	 que	 o	 sistema	 penal	 se	 ocupasse	 quase</p><p>exclusivamente	 dos	 homens,	 mas	 isso	 não	 tem	 nada	 de	 estranho:	 no</p><p>exército	da	sociedade	hierarquizada,	os	sargentos	controlam	a	mulher	e	os</p><p>sargentos	 são	 controlados	 pelo	 poder	 punitivo,	 que	 só	 se	 ocupa	 das</p><p>mulheres	quando	elas	se	rebelam	contra	os	sargentos.	Este	é	o	programa</p><p>original	que	provém	da	Idade	Média	e	que,	com	matizes,	se	mantém	em</p><p>vigor.</p><p>Por	 conseguinte,	 a	 criminologia	 guardou	 bastante	 silêncio	 acerca	 da</p><p>mulher,	 salvo	 alguns	 disparates	 positivistas,	 como	 o	 do	 equivalente	 de</p><p>Lombroso	ou	o	estereótipo	da	mulher	envenenadora.</p><p>Todavia,	 deixando	 de	 lado	 os	 disparates	 e	 também	 as	 discussões</p><p>estadunidenses	 tentando	 explicar	 o	 maior	 protagonismo	 da	 mulher,	 o</p><p>feminismo	 impôs	 correções	 à	 crítica	 criminológica	 ao	 destacar	 que	 se	 a</p><p>mulher	tinha	menor	incidência	na	criminalização,	o	mesmo	não	sucedia</p><p>na	vitimização.	 Isso	 tem	 lugar	 não	 apenas	na	delinquência	de	 rua,	mas</p><p>também	nas	vitimizações	que	são	consequência	direta	da	discriminação	de</p><p>gênero,	desde	a	violência	familiar	homicida	até	o	tráfico	de	pessoas	(antes</p><p>se	chamava	de	brancas,	curioso	vício	racista	da	escravidão).</p><p>Não	 houve	 uma	 crítica	 criminológica	 gay	 tão	 desenvolvida	 como	 a</p><p>feminista,	 embora	 já	 há	 muitos	 anos	 o	 britânico	 Gordon	 Taylor	 tenha</p><p>observado	 que	 em	 toda	 sociedade	 ocorre	 uma	 relação	 inversa	 entre	 o</p><p>patriarcalismo	e	a	tolerância	à	homossexualidade.</p><p>De	qualquer	maneira,	 existem	estudos	 importantes	 (como	o	de	 John</p><p>Boswell),	muitas	ridiculizações	dos	disparates	positivistas	(Jorge	Salessi,	na</p><p>Argentina),	relatos	da	perseguição	nazista	(a	rosa	Winkel	[13]),	do	processo</p><p>de	 Oscar	 Wilde	 (o	 de	 Gide,	 por	 exemplo),	 numerosas	 contribuições</p><p>literárias	 (Jean	 Genet	 à	 frente)	 e,	 é	 inegável,	 o	 peso	 da	 questão	 gay	 na</p><p>crítica	de	Michel	Foucault.</p><p>Se	bem	que	a	vitimologia	tenha	colocado	em	relevo	danos	que	não	se</p><p>tinham	levado	suficientemente	em	conta,	o	feminismo	chamou	a	atenção</p><p>sobre	a	metade	da	população	esquecida	pela	criminologia,	e	se	bem	que</p><p>nossos</p><p>vizinhos	 tenham	 colocado	 os	 teóricos	 ingleses	 na	 terra,	 o</p><p>panorama	 das	 vítimas	 do	 poder	 mundial	 não	 estava	 de	 modo	 algum</p><p>completo.	 Stanley	 Cohen	 chamou	 a	 atenção	 para	 isso,	 o	 que	 chama	 de</p><p>sociologia	 da	 negação,	 que	 nos	 condiciona	 uma	 indiferença	moral,	 em</p><p>seu	livro,	de	2001,	Estados	de	negação.</p><p>Na	obra,	Cohen	não	 se	 refere	 ao	 grosseiro	negacionismo	neonazista</p><p>da	 Shoá	 e	 similares,	 e	 sim,	 para	 exemplificá-lo	 claramente,	 àquilo	 que</p><p>protagonizamos	enquanto	olhamos,	pela	TV,	o	noticiário	que	nos	mostra</p><p>massacres	e	continuamos	molhando	os	pãezinhos	no	café	com	leite.</p><p>Seguindo	 este	 caminho,	 um	 grupo	 de	 ingleses	 (Paddy	 Hillyard,</p><p>Christina	Pantazis,	Steve	Tomb	e	David	Gordon)	organizou	um	 livro,	em</p><p>2004,	que	propõe	ir	além	da	criminologia	(assim	se	chama	seu	livro,	com</p><p>o	subtítulo	Levando	o	dano	a	sério)	e	abranger	todos	os	danos	sociais	do</p><p>poder:	 pobreza	 em	 massa,	 fome,	 violações	 em	 massa	 dos	 direitos</p><p>humanos,	massacres	estatais,	mortes	causadas	por	condições	de	trabalho,</p><p>por	 privilégio	 da	 heterossexualidade,	 por	 preferências	 nos	 nascimentos,</p><p>por	 guerra	 aos	 migrantes,	 por	 maus	 tratos	 infantis,	 por	 poluição,	 por</p><p>envenenamento	de	alimentos	etc.</p><p>É	 indiscutível	 que	 o	 livro	 passa	 em	 revista	 dados	 aterradores,	 como</p><p>aquele	 que	 lembra	 que,	 embora	 em	 11	 de	 setembro	 de	 2001	 tenham</p><p>morrido	 3.045	 pessoas	 em	 Nova	 York,	 nesse	 mesmo	 dia	 também</p><p>morreram	no	mundo	24.000	pessoas	de	fome,	6.200	crianças	de	diarreia	e</p><p>2.700	de	sarampo.</p><p>É	claro	que	nos	acostumaram	a	considerar	que	o	crime	de	Nova	York</p><p>era	evitável	 e	 as	outras	mortes	eram	 inevitáveis,	mas	 isso	não	é	 correto.</p><p>Segundo	 os	 cálculos	 da	 ONU,	 seriam	 necessários	 13	 bilhões	 de	 dólares</p><p>para	resolver	a	fome	e	40	bilhões	para	atender	às	necessidades	básicas	no</p><p>mundo	 (esta	última	cifra	 representa	 a	metade	do	consumo	de	pizza	nos</p><p>Estados	 Unidos).	 Embora	 o	 cálculo	 da	 ONU	 fosse	 otimista	 e	 as	 cifras</p><p>subissem	ao	dobro,	o	óbvio	é	que	essas	carências	não	são	naturais	nem</p><p>inevitáveis,	com	o	argumento	de	que	sempre	houve	miséria.</p><p>De	qualquer	maneira,	se	enfrentasse	todos	esses	danos,	a	criminologia</p><p>se	 perderia	 em	 um	 enorme	 campo	 tudológico	 de	 conhecimentos</p><p>inabarcáveis.	 Todas	 essas	 mortes	 são	 resultado	 de	 violações	 aos	 direitos</p><p>humanos	e	estes,	como	campo	de	estudo	jurídico,	devem	ser	sustentados</p><p>por	 dados	 reais	 para	 os	 quais	 contribuem	 todos	 os	 conhecimentos</p><p>humanos,	 o	 que,	 por	 definição,	 não	 pode	 ter	 unidade.	 Trata-se	 de</p><p>conhecimentos	que	os	estudiosos	de	direitos	humanos	devem	requerer	a</p><p>todas	as	ciências	naturais	e	sociais,	a	todo	o	saber	humano.	Um	saber	que</p><p>pretenda	 abranger	 tudo	 isso	 se	 perderia	 ou	 resultaria	 diretamente</p><p>diletante.</p><p>Há,	porém,	um	campo	que	indubitavelmente	pertence	à	criminologia</p><p>e	sobre	o	qual	houve	um	singular	silêncio,	que	é	o	do	homicídio	doloso,</p><p>intencional.	 A	 criminologia	 acadêmica	 deteve-se	 nos	 homicídios	 seriais</p><p>sensacionais	e	em	todos	os	cometidos	por	 iniciativa	privada,	mas	nunca</p><p>nos	públicos	ou	estatais,	isto	é,	nos	genocídios	e	massacres,	nos	crimes	de</p><p>massa	cometidos	pela	ação	de	agências	estatais.</p><p>Estranha	 omissão,	 por	 certo!	 Se	 quisermos	 levar	 a	 sério	 os	 danos</p><p>sociais,	 não	 podemos	 ignorar	 esses	 crimes	 e,	 além	 do	 mais,	 tampouco</p><p>podemos	 negar	 que	 seu	 estudo	 corresponde	 à	 criminologia.	 A</p><p>criminologia	 dos	 últimos	 anos	 está	 chamando	 a	 atenção	 sobre	 isso,</p><p>embora	ainda	sem	suficiente	penetração	e	a	contragosto	por	parte	de	boa</p><p>parte	 dos	 criminólogos	 acadêmicos.	 Isso,	 porém,	 é	 tão	 importante,	 que</p><p>merece	um	capítulo	especial.</p><p>Ilustração	21</p><p>31.	Os	homicídios	estatais	ou	crimes	de	massa</p><p>A	criminologia	acadêmica	guardou	um	silêncio	significativo	acerca	dos</p><p>assassinatos	 estatais	 em	 massa,	 interrompidos	 apenas	 por	 algum	 artigo</p><p>isolado,	 como	 o	 de	 Leo	 Alexander,	 em	 1948,	 ou	 o	 livro	 de	 Sheldon</p><p>Glueck,	de	1944,	sobre	crimes	de	guerra.	Nos	últimos	anos,	os	 trabalhos</p><p>são	mais	 frequentes:	Alex	Alvarez	(1999),	William	Laufer	(1999),	Georges</p><p>S.	 Yacoubian	 (2000),	 Andrew	 Woolford	 (2006)	 e	 em	 especial	 Wayne</p><p>Morrison,	 professor	 neozelandês	 radicado	 em	 Londres,	 que,	 em	 2006,</p><p>publicou	 um	 livro	 intitulado	 Criminologia,	 civilização	 e	 a	 nova	 ordem</p><p>mundial.	Por	ser	este	último	o	mais	extenso	e	analítico,	o	tomamos	como</p><p>referência.</p><p>Morrison	 recorda	 que	 Hobbes	 separava	 o	 espaço	 civilizado	 do	 não</p><p>civilizado	(de	guerra	de	todos	contra	todos),	cuja	presença	constituía	uma</p><p>ameaça,	e	afirma	que	esta	linha	hobbesiana	se	quebrou	quando	o	mundo</p><p>incivilizado	 irrompeu	 no	 coração	 do	 civilizado,	 em	 11	 de	 setembro	 de</p><p>2001,	 destruindo	 o	 símbolo	 desse	 mundo	 funcional	 e	 utilitarista	 da</p><p>globalização.</p><p>O	 World	 Trade	 Center	 era	 o	 templo	 máximo	 da	 tecnologia	 e	 da</p><p>segurança	 e	 sua	 queda	 converteu,	 de	 repente,	 o	 espaço	 civilizado	 em</p><p>espaço	 de	 Terceiro	 Mundo.	 Precipitadamente,	 os	 residentes	 do	 espaço</p><p>civilizado	 tomaram	 consciência	 do	 mundo	 externo,	 o	 que	 foi	 muito</p><p>impactante	 para	 os	 Estados	 Unidos,	 que	 haviam	 sido	 muito	 afortunados</p><p>em	seu	próprio	território.</p><p>A	 partir	 do	 11	 de	 setembro,	 a	 administração	 Bush	 reforçou	 sua</p><p>discutível	 origem	 e	 escasso	 prestígio	 com	 um	 discurso	 que	 confundia</p><p>guerra	com	o	crime	para	tornar	porosa	a	fronteira	entre	o	controle	interno</p><p>e	o	externo,	apagando	os	limites	hobbesianos.</p><p>Bush	 agitou	 o	 nacionalismo,	 tomou	 da	 tolerância	 zero	 a	 ideia	 de</p><p>prevenção	e	a	levou	à	guerra,	e	manipulou	a	tecnologia	da	comunicação</p><p>para	 declarar	 a	 guerra	 ao	 Iraque,	 baseado	 numa	 mentira.	 Moveu-se,</p><p>porém,	 de	 acordo	 com	 regras	 diferentes,	 pois	 as	 válidas	 para	 os	 outros</p><p>civilizados	não	foram	as	que	aplicou	aos	incivilizados,	ou	seja,	da	luta	na</p><p>selva,	 o	 que	 não	 passa	 de	 mais	 outra	 faceta	 da	 doutrina	 da	 segurança</p><p>nacional	e	da	guerra	suja.</p><p>Morrison	 afirma	 que	 o	 presente	 se	 caracteriza	 por	 uma	 volta	 da</p><p>emocionalidade,	um	novo	 popularismo,	 politização,	um	 sentido	 de	 crise,</p><p>um	sentido	de	normalidade	das	altas	 taxas	de	 criminalidade,	uma	nova</p><p>relação	do	crime	com	os	meios	de	comunicação	de	massa,	uma	perda	de</p><p>confiança	na	eficiência	do	Estado	de	bem-estar.</p><p>Ele	reconhece	que	a	criminologia	é	o	produto	de	um	setor	do	planeta</p><p>cujos	Estados	foram	construídos	sobre	a	violência	e	o	genocídio,	e	recorre</p><p>a	 Bauman:	 o	 triunfo	 de	 umas	 poucas	 etnias	 sobre	 outras	 levou	 à</p><p>destruição	 dos	 vencidos	 e	 a	 história	 foi	 escrita	 pelos	 vencedores,</p><p>mostrando	 sua	 civilização	 como	 um	 caminho	 de	 progresso	 para	 a</p><p>pacificação	da	vida	cotidiana.</p><p>Por	 outra	 parte,	 destaca	 que	 as	 cifras	 de	 criminalidade	 registrada,</p><p>reportadas	nos	países	onde	houve	genocídios,	não	incluem	as	centenas	de</p><p>milhares	 e	 às	 vezes	milhões	de	mortos	por	 esse	 crime.	Para	 a	 estatística</p><p>criminal	 só	 contam	 os	 homicídios	 normais.	 Com	 toda	 razão,	 Morrison</p><p>assinala	 que	 existe	 uma	 estatística	 criminal	 que	 registra	 sob	 a	 forma	 de</p><p>apartheid	criminológico.</p><p>A	 criminologia	 só	 recolhe	 dados	 domésticos	 e	 condicionados	 pelo</p><p>poder	 dos	 Estados-nação,	 constituídos	 por	 meio	 da	 violência	 e	 que</p><p>dominam	outros	de	igual	modo.	Consequentemente,	a	criminologia	é	um</p><p>discurso	 muito	 parcial,	 construído	 em	 torno	 de	 um	 mundo	 de	 fatos</p><p>políticamente	delimitado.</p><p>Para	 começar,	 Morrison	 apresenta	 uma	 tabela	 impressionante	 de</p><p>crimes	 de	 massa,	 cometidos	 desde	 1885	 até	 1994,	 reconhecidos	 e	 não</p><p>reconhecidos,	 da	 qual	 nos	 ocuparemos	 mais	 adiante.	 Perante	 esses</p><p>milhões	 de	 cadáveres	 que	 a	 criminologia	 não	 leva	 em	 conta	 em	 suas</p><p>estatísticas,	 ele	 formula	 as	 seguintes	 interrogações,	que	 ficam	em	aberto:</p><p>Podemos	 globalizar	 a	 estatística	 criminal?	 Se	parte	 do	 objeto	 da	 análise</p><p>estatística	 de	 Quetelet	 era	 medir	 a	 taxa	 normal	 de	 crime	 em	 uma</p><p>sociedade	 e	 assim	 determinar	 o	 risco,	 como</p><p>se	 pode	 criar	 uma	 imagem</p><p>estatística	de	uma	sociedade	mundial	de	risco?	Voltaremos	mais	adiante	a</p><p>essa	possibilidade.</p><p>Ele	 passa	 em	 revista	 toda	 a	 criminologia	 neocolonialista	 e	 os	 crimes</p><p>legitimados	(Congo,	Namíbia,	Benin	etc.).	Destaca	que	a	criminologia	não</p><p>deu	atenção	nem	a	Nurenberg	nem	a	Tóquio,	por	considerá-los	crimes	de</p><p>guerra,	 violatórios	das	 regras	que	as	próprias	potências	 colonialistas	não</p><p>respeitavam	 em	 suas	 colônias.	 Mas	 se	 Hitler	 os	 houvesse	 cometido</p><p>somente	dentro	das	fronteiras	alemãs,	os	campos	de	concentração	teriam</p><p>ficado	 impunes?	Assegura	que	houve	ambiguidade	no	 julgamento,	que	a</p><p>vítima	 era	 a	 humanidade,	mas	 que	o	 fato	 de	 as	 vítimas	 concretas	 terem</p><p>sido	judeus,	ciganos	e	gays	não	deixou	de	pesar.</p><p>Morrison	afirma	que	a	criminologia	considerou	que	os	grandes	crimes</p><p>do	século	passado	são	exceções	das	quais	a	criminologia	–	como	ciência</p><p>de	 operações	 normais	 de	 controle,	 levadas	 a	 cabo	 pelo	 Estado	 –	 não</p><p>necessita	 se	 ocupar.	 No	 caso	 do	 Holocausto,	 a	 imagem	 dos	 campos	 de</p><p>concentração	reafirma	essa	distância,	assegurando	que	se	trata	de	lugares</p><p>verdadeiramente	excepcionais,	que	jamais	voltarão	a	existir.</p><p>Ele	 nega	 terminantemente	 a	 explicação	 do	 caminho	 especial	 –	 o</p><p>Sonderweg	 –	 do	 nazismo	 e	 da	 patologização	 da	 Shoá,	 uma	 vez	 que	 as</p><p>pessoas	que	participaram	ativamente	nesses	crimes	eram	normais	e	muitos</p><p>deles	retomaram	a	vida	cotidiana	sem	dificuldades.</p><p>Compara	as	execuções	exemplificadoras	 –	 como	a	de	Tupac	Amaru,</p><p>esquartejado	 publicamente	 –	 que	 tinham	 por	 objetivo	 a	 reafirmação	 da</p><p>verticalidade	 do	 poder	 (Olhem	 o	 que	 vamos	 fazer	 a	 vocês	 se	 resistirem)</p><p>com	a	secreta	 fabricação	de	cadáveres	nos	campos	de	extermínio,	como</p><p>dois	objetivos	completamente	diferentes.</p><p>No	 momento	 em	 que	 escrevia,	 afirma	 que	 há	 um	 jogo	 de	 espelhos</p><p>entre	 Bush	 e	 Bin	 Laden,	 pois	 sem	 Bin	 Laden,	 Bush	 não	 teria	 obtido</p><p>poderes	extraordinários	nem	teria	podido	ganhar	as	eleições.</p><p>Morrison	observa	que,	quando	se	atribui	ao	terrorismo	o	status	de	ato</p><p>de	guerra,	ele	fica	excluído	das	garantias	penais.	Ao	mesmo	tempo,	como</p><p>não	 são	 combatentes	 regulares,	 os	 terroristas	 ficam	 excluídos	 da</p><p>Convenção	de	Genebra,	permanecendo	à	disposição	das	ordens	do	mais</p><p>poderoso,	 que	 é	 quem	 resolve	 na	 situação	 de	 exceção.	 Para	 ele,	 essa</p><p>característica	é	o	equivalente	atual	da	 lei	marcial	nos	regímes	coloniais	e</p><p>do	Fuhrerprinzip	no	nazismo.</p><p>Ainda	que	não	o	afirme,	é	claro	que	esta	é	a	tese	central	da	definição</p><p>do	político	 de	Carl	 Schmitt	 e	 a	 constatação	de	 que	 se	 tenta	 uma	 trágica</p><p>planetarização	 da	 chamada	 doutrina	 da	 segurança	 nacional	 dos	 anos</p><p>1970	 sul-americanos.	 Esse	 caminho	 teórico	 é	 um	 dos	 que,	 desde	 a</p><p>periferia,	 devemos	 reelaborar	 e	 aprofundar,	 porque	 nos	 toca	 muito</p><p>diretamente;	 além	 do	 mais,	 é	 a	 partir	 daí	 que	 podemos	 detectar	 mais</p><p>facilmente	o	papel	central	e	protagonista	do	poder	punitivo.</p><p>32.	O	neopunitivismo</p><p>Nos	Estados	Unidos,	as	características	do	Estado	mudaram	totalmente</p><p>desde	 o	 estabelecimento	 do	 que	 se	 denomina	 New	 Punitiveness</p><p>(neopunitivismo).</p><p>Insisto	 nas	 características	 do	 novo	 rosto	 do	 sistema	 penal</p><p>estadunidense.	 Um	 em	 cada	 três	 homens	 negros	 entre	 20	 e	 29	 anos</p><p>encontra-se	criminalizado,	um	estadunidense	em	cada	cem	está	na	prisão,</p><p>outros	 três	 estão	 submetidos	 à	 vigilância	 com	 probation	 [liberdade</p><p>condicional]	 ou	 parole	 [liberdade	 vigiada],	 os	 condenados	 por	 qualquer</p><p>delito	são	alvo	de	muitas	inabilitações	por	toda	a	vida	para	votar,	difunde-</p><p>se	o	three	strikes	and	you’re	out	[14]	(ou	seja,	uma	pena	de	confinamento</p><p>perpétuo	 para	 aqueles	 que	 são	 simplesmente	 incômodos),	 a	 familia	 do</p><p>condenado	 é	 expulsa	 das	 convivências	 sociais,	 são	 cancelados	 todos	 os</p><p>benefícios	 sociais,	 os	 trabalhos	 forçados	 foram	 restabelecidos,	 e	 foram</p><p>executadas	cerca	de	1.300	penas	de	morte	desde	o	final	da	moratória	dos</p><p>1970	 (incluindo	 doentes	 mentais	 e	 menores),	 os	 governadores	 fazem</p><p>campanhas	para	 reeleição	 rodeados	 de	 retratos	 dos	 executados	 que	não</p><p>tiveram	 a	 pena	 comutada,	 são	 feitas	 condenações	 sem	 que	 se	 vá	 a</p><p>julgamento,	 mediante	 extorsão	 as	 testemunhas	 são	 compradas</p><p>impunemente,	 são	 praticados	 os	 métodos	 mais	 imorais	 de	 investigação,</p><p>instiga-se	a	denúncia	dentro	da	 família,	o	pós-moderno	recupera	 todas	as</p><p>características	do	pré-moderno	inquisitorial.</p><p>O	nazismo	 penal	 renasceu	 nos	 Estados	 Unidos	 e	 é	 oferecido	 como</p><p>modelo	 mundial.	 Disso	 se	 ocupam	 muitos	 criminólogos,	 mas	 como	 não</p><p>posso	 mencionar	 todos	 eles,	 nos	 ocuparemos	 dos	 três	 mais	 conhecidos:</p><p>David	Garland,	Loïc	Wacquant	e	Jonathan	Simon.</p><p>Garland	 formou-se	 em	 Edimburgo,	 mas	 ensina	 em	 Nova	 York.</p><p>Publicou	 várias	 obras,	 mas	 a	 que	 mais	 nos	 interessa	 é	 A	 cultura	 do</p><p>controle[15],	de	2001.</p><p>Ele	 afirma	 que	 na	 sociedade	 pós-moderna	 reina	 uma	 espécie	 de</p><p>esquizofrenia,	 que	 dá	 lugar,	 por	 um	 lado,	 a	 uma	 criminologia	 da	 vida</p><p>cotidiana,	 que	 apela	 a	 todos	 os	 recursos	 preventivos	 mecânicos,</p><p>eletrônicos	etc.,	e,	por	outro,	a	uma	criminologia	do	outro,	que	ressuscita,</p><p>definitivamente,	as	versões	mais	tenebrosas	do	velho	positivismo.</p><p>A	 criminologia	 da	 vida	 cotidiana	 incorpora	 o	 delito	 como	 risco</p><p>normal	 e	 nos	 enche	 de	 engenhos	 humanos	 preventivos,	 ou	 seja,	 a</p><p>prevenção	 do	 delito	 não	 depende	 de	 valores	 morais,	 e	 sim	 de</p><p>impedimentos	físicos	que	retiram	a	oportunidade.	Nesse	sentido,	contrasta</p><p>com	a	tradição	conservadora	que	entende	que	a	prevenção	depende	dos</p><p>valores	morais	e	do	respeito	à	autoridade.</p><p>Por	outro	lado,	aparece	a	criminologia	do	outro,	baseada	na	vingança,</p><p>que	 se	 expressa	 como	 exclusão,	 defesa	 social,	 neutralização	 do	 sujeito</p><p>perigoso,	 ou	 seja,	 lança	mão	do	discurso	 do	 velho	positivismo,	mas	 em</p><p>um	sentido	bem	vingativo.</p><p>A	contradição	é	clara:	o	delito	não	pode	ser	tão	normal	como	a	chuva</p><p>e,	 ao	 mesmo	 tempo,	 não	 pode	 ser	 dramatizado	 ao	 máximo,	 usando</p><p>vocabulário	 militar	 ou	 de	 guerra	 e	 apresentando	 o	 infrator	 como	 um</p><p>sujeito	irredutivelmente	mau,	que	deve	ser	aniquilado.</p><p>Wacquant	 é	 francês,	 professor	 da	 Universidade	 da	 Califórnia</p><p>(Berkeley)	 e	 pesquisador	 do	 Centro	 de	 Sociologia	 de	 Paris.	 Também</p><p>publicou	várias	obras	a	respeito	nos	últimos	dez	anos.</p><p>Para	 Wacquant,	 a	 tensão	 assinalada	 por	 Garland	 responde	 a	 um</p><p>sistema	pós-fordista	que	precariza	o	trabalho,	aprofunda	as	discriminações</p><p>e	 segregações	de	 classe	 e	 raciais,	 relega	os	 setores	mais	 golpeados	pela</p><p>política	 chamada	 de	 neoliberal	 aos	 bairros	 mais	 pobres,	 marginais	 e</p><p>distantes,	e	monta	um	aparato	punitivo	de	contenção	que	configura	aquilo</p><p>que	ele	denomina	de	Estado	penal.</p><p>Afirma	também	que	este	Estado	penal	dá	continuidade	ao	racismo	do</p><p>apartheid,	 o	 qual,	 segundo	 ele,	 jamais	 desapareceu	 das	 práticas</p><p>burocráticas	 estadunidenses,	 razão	 pela	 qual	 o	 considera	 também	 um</p><p>Estado	racial.</p><p>Na	realidade,	é	revelador	que	em	1989,	pela	primeira	vez	na	história</p><p>dos	 Estados	 Unidos,	 a	 população	 penitenciária	 negra	 se	 tenha	 tornado</p><p>majoritária	nas	prisões.	Para	Wacquant,	isso	provoca	a	política	de	expulsão</p><p>do	 mercado	 laboral,	 que	 torna	 economicamente	 desnecessária	 ou</p><p>subempregada	 e	 mal	 paga	 a	 uma	 parte	 da	 população,	 que	 suporta	 o</p><p>trabalho	 como	 uma	 obrigação	 cidadã,	 sendo	 funcional	 manter	 essa</p><p>posição	 subordinada	 à	 criminalização	 da	 pobreza,	 empreendida</p><p>claramente	a	partir	dos	anos	oitenta	do	século	passado.</p><p>Além	 do	 mais,	 a	 precarização	 do	 trabalho	 fez	 desaparecer	 a</p><p>solidariedade	 do	 gueto,	 que	 foi	 substituída	 por	 um	 supergueto	 sem</p><p>sentimento	 comunitário,	 o	que	provoca	 a	 vitimização	dos	pobres	 (os	da</p><p>favela	roubam	na	favela).</p><p>É	 claro	 que	 Wacquant	 sustenta	 uma	 interpretação	 estrutural	 do</p><p>fenômeno,	 diante	 da	 interpretação	 cultural	 de	 Garland.	 O	 certo	 é	 que</p><p>Wacquant</p><p>detém-se	 pouco	 nas	 mudanças	 políticas	 gerais	 e	 no	 próprio</p><p>sistema	penal	que	foram	preparando	o	terreno	para	a	virada	autoritária,	ou</p><p>seja,	 não	 repara	 na	 transformação	 institucional	 que	 se	 produziu	 nas</p><p>últimas	 três	 décadas	 e	 que,	 sem	 dúvida,	 incidiu	 na	 virada	 repressiva	 do</p><p>poder	punitivo	estadunidense.</p><p>Jonathan	 Simon	 é	 professor	 em	 Berkeley.	 Em	 2007,	 publicou</p><p>Governing	 through	 Crime[16],	 How	 the	 War	 on	 Crime	 Transformed</p><p>American	Democracy,	em	que	leva	a	cabo	uma	interessante	 investigação</p><p>que,	no	meu	entender,	não	se	opõe	à	tese	culturalista	de	Garland	nem	à</p><p>estrutural	 de	 Wacquant,	 mas	 sim	 as	 complementa,	 analisando	 em</p><p>profundidade	como	se	foi	gestando	a	tremenda	transformação	institucional</p><p>e	 social	 que	 desembocou	 no	 autoritarismo	 penal	 atual.	 Ele	 atribui	 essa</p><p>explosão	repressiva	à	 lenta,	mas	 incessante,	deslegitimação	do	Estado	de</p><p>bem-estar,	fixando	seu	início	na	agressiva	campanha	do	conservador	Barry</p><p>Goldwater	em	1964,	baseada	quase	completamente	na	palavra	de	ordem</p><p>da	 lei	 e	 ordem.	 A	 ela	 se	 seguiram	 as	 guerras	 contra	 a	 droga	 de	 Nixon,</p><p>Reagan	 e	 Bush	 pai,	 para	 culminar	 com	 a	 guerra	 ao	 terrorismo	 de	 seu</p><p>inolvidável	filho,	depois	do	11	de	setembro	de	2001.</p><p>Para	 Simon,	 tudo	 isso	 configura	 uma	 governance	 –	 ou	 seja,	 uma</p><p>técnica	 de	 governo	 –	 que	 se	 caracteriza	 como	 um	 governo	 referenciado</p><p>pelo	crime,	completamente	oposto	à	tradição	liberal.</p><p>A	chave	de	sua	interpretação	está	no	fato	de	que	quando	se	governa</p><p>tendo	o	crime	como	referência,	o	modelo	punitivo	–	e	vingativo	–	torna-se</p><p>uma	 técnica	 geral	 de	 governo,	 ou	 seja,	 estende-se	 a	 todas	 as	 formas</p><p>sociais:	vai	desde	o	Estado	nacional	até	a	escola,	invade	o	âmbito	privado</p><p>e	 as	 relações	 familiares,	 ameaça	 a	 democracia	 em	 todas	 as	 suas</p><p>instituições.</p><p>Simon	 adverte,	 acima	 de	 tudo,	 sobre	 a	 ameaça	 à	 democracia	 que	 a</p><p>vítima-herói	 pode	 representar:	 A	 democracia	 estadunidense	 está</p><p>ameaçada	pelo	surgimento	da	vítima	do	delito	como	modelo	dominante	do</p><p>cidadão,	 como	 representante	 da	 gente	 comum,	 cujas	 necessidades	 e</p><p>capacidades	definem	a	missão	do	governo	representativo.</p><p>Segundo	 Simon,	 o	 Safe	 Streets	 Act	 de	 1968,	 de	 Lyndon	 Johnson,</p><p>marcou	uma	mudança	 fundamental,	 pois	 fez	 a	 passagem	do	modelo	 do</p><p>trabalhador	manual	como	representante	do	cidadão	comum	no	imaginário</p><p>coletivo	para	o	da	vítima,	determinando	o	começo	do	governo	mediante	o</p><p>crime.</p><p>O	 processo	 se	 acelerou	 porque,	 desde	 Reagan	 até	 Bush,	 todos	 os</p><p>presidentes	tinham	sido	antes	governador	de	estado	(exceto	Bush	pai,	que</p><p>vinha	 da	 CIA,	 o	 que	 não	 alterava	 a	 tônica),	 e	 levaram	 para	 o	 governo</p><p>federal	 a	 modalidade	 vingativa	 da	 política	 provinciana,	 na	 qual	 os</p><p>promotores	são	eleitos	por	voto	popular	e	adquiriram	a	prática	de	fabricar</p><p>vítimas-heróis	 como	modo	de	dar	 o	 salto	 às	governances,	 com	base	 em</p><p>campanhas	vingativas.</p><p>Essas	campanhas	estigmatizaram	os	 juízes	como	 inimigos,	aliados	ou</p><p>encobridores	 dos	 criminosos	 e	 responsáveis	 pela	 insegurança	 frente	 ao</p><p>crime,	o	que	motivou	as	reformas	legislativas	que	impuseram	penas	fixas</p><p>ou	 reduziram	 a	 possibilidade	 de	 avaliação	 judicial	 (são	 reações	 políticas</p><p>frente	aos	juízes	garantistas).</p><p>Os	 políticos	 –	 que,	 ao	 legitimar	 o	 desmantelamento	 do	 Estado	 de</p><p>bem-estar,	violam	os	direitos	de	 toda	a	população	–	 têm	a	oportunidade</p><p>de	 se	 firmar,	mostrando	 sua	despreocupação	 com	a	 segurança	mediante</p><p>leis	 mais	 autoritárias,	 atendendo	 ao	 clamor	 público	 do	 que	 as	 vítimas-</p><p>heróis	 são	 sua	vanguarda	 (caso	Blumberg),	 enquanto	o	modelo	punitivo</p><p>vai	 se	 estendendo	 a	 todas	 as	 instituições	 e	 formas	 sociais,	 públicas	 e</p><p>privadas.</p><p>Trata-se,	 em	 essência,	 de	 uma	 maneira	 de	 governar	 mediante	 a</p><p>administração	 dos	medos.	O	próprio	 Simon	 recorda	 que	 nos	 tempos	 de</p><p>Nixon	o	medo	dominante	era	do	câncer,	o	que	foi	evoluindo	até	chegar</p><p>ao	medo	do	terrorismo.</p><p>A	análise	de	Simon	é	muito	mais	pormenorizada	que	as	de	Garland	e</p><p>Wacquant,	 embora	não	 se	oponha	necessariamente	 a	 estes,	 pois	 tanto	 a</p><p>dimensão	 cultural	 quanto	 a	 estrutural	 podem	 encaixar-se	 em	 sua</p><p>interpretação	como	um	complemento.</p><p>Não	 obstante,	 cremos	 que	 Simon	 não	 percebe	 a	 dimensão	 total	 da</p><p>virada	autoritária,	pois	não	enfoca	a	questão	com	uma	visão	histórica	mais</p><p>ampla.	Governar	mediante	 o	medo	 importa	 a	 fabricação	de	 inimigos	e	a</p><p>consequente	 neutralização	 de	 qualquer	 obstáculo	 ao	 poder	 punitivo</p><p>ilimitado,	 supostamente	 usado	 para	 destruir	 o	 inimigo,	 ainda	 que	 todos</p><p>saibamos	que	é	materialmente	utilizado	para	aquilo	que	o	poder	quiser.</p><p>No	 fundo,	o	 fenômeno	é	 sempre	uma	enorme	enganação	para	distrair	 a</p><p>atenção	 sobre	 outros	 riscos	 e	 obter	 o	 consenso	 para	 exercer	 um	 poder</p><p>policial	sem	controle.</p><p>Este	poder	punitivo	sem	controle	foi	sempre	usado	para	verticalizar	e</p><p>hierarquizar	 as	 sociedades,	 como	 manifestamos	 reiteradamente,	 ou	 seja,</p><p>para	 dotá-las	 de	 estrutura	 colonizadora.	 Por	 conseguinte,	 é	 natural	 que</p><p>esta	técnica,	ou	governance,	tenha	penetrado	como	uma	torrente	em	todas</p><p>as	 instituições	 sociais.	 A	 Inquisição	 precisou	 reforçar	 o	 patriarcado	 para</p><p>assegurar	a	base	da	sociedade	exércitoforme	que	em	seguida	 foi	 lançada</p><p>sobre	 a	 América	 e	 a	 África.	 Toda	 inquisição	 tende	 a	 hierarquizar	 e	 a</p><p>produzir	 homogeneidade	 e	 conformismo;	 o	 ideal	 político	 de	 todo</p><p>inquisidor	é	a	colmeia	de	abelhas	ou	o	formigueiro.</p><p>O	que	Simon	faz	é	descrever	muito	bem	o	processo	atual	em	detalhe</p><p>e	 em	 sua	 genealogia,	 mas	 o	 certo	 é	 que,	 quanto	 ao	 estrutural,	 não	 há</p><p>diferenças	dessa	natureza	com	outros	momentos	inquisitoriais.	Trata-se	do</p><p>prolegômeno	 ou	 de	 uma	 tentativa	 em	 marcha	 de	 impor	 um	 Leviatã</p><p>planetário?	 Ou	 antes,	 obedece	 à	 necessidade	 de	 reforçar	 um	 poder</p><p>debilitado	ou	declinante?	Essa	é	a	pergunta	que	não	se	formula,	mas	que</p><p>deve	nos	preocupar,	no	nosso	canto.</p><p>De	 qualquer	 forma,	 Simon	 bate	 na	 tecla	 certa:	 a	 chave	 é	 governar</p><p>valendo-se	 da	 centralização	 do	 medo	 em	 um	 objeto.	 Nesse	 sentido,	 sua</p><p>contribuição,	ao	descrever	como	e	por	que	isso	é	feito	na	atualidade	nos</p><p>Estados	Unidos,	é	fundamental	para	nós,	porque	a	partir	daí	se	globaliza</p><p>ou	 planetariza	 essa	 técnica	 de	 governo.	 Investigações	 análogas	 à	 de</p><p>Simon	fazem	falta	em	nossos	países.</p><p>33.	Outras	palavras:	as	ciências	psi</p><p>Quando	 a	 criminologia	 crítica	 proveniente	 do	 interacionismo	 e	 da</p><p>fenomenologia	 colocou	 em	 evidência	 as	 características	 estruturais	 do</p><p>poder	punitivo,	a	criminologia	etiológica	do	canto	da	Faculdade	de	Direito</p><p>acabou	de	 se	derreter	e	 com	 isto	a	 chamada	clínica	criminológica	 –	 ou</p><p>seja,	 o	 estudo	 da	 pessoa	 criminalizada	 pelos	 especialistas	 –	 perdeu</p><p>prestígio.</p><p>Essa	desconfiança	não	era	gratuita,	dados	os	antecedentes	do	primeiro</p><p>encontro	dessas	disciplinas	com	a	criminologia	no	marco	da	criminologia</p><p>racista,	mas	 também	porque	 sua	 etiologia	 e	 sua	prática	 institucional	 não</p><p>levavam	 em	 conta	 o	 efeito	 deteriorador	 e	 estigmatizador	 da	 própria</p><p>criminalização.</p><p>Era	um	pouco	difícil	exigir	do	psi	institucional	que	deixasse	evidente	o</p><p>papel	 determinante	 cumprido	 na	 etiologia	 pela	 intervenção	 da	 própria</p><p>instituição	 da	 qual	 ele	 faz	 parte.	 Supomos	 que	 um	 operador	 psi	 que</p><p>informasse	 que	 a	 polícia,	 os	 juízes	 e	 os	 penitenciários	 estavam</p><p>condicionando	 uma	 carreira	 criminal,	 pelo	 menos	 em	 nosso	 meio,	 o</p><p>teriam	jogado	na	rua	por	via	rápida.</p><p>Foi	 devido	 a	 isso	 e	 aos	 tristes	 antecedentes	 históricos	 que	 os</p><p>criminólogos	críticos	em	geral	reagiram	alergicamente	frente	às	propostas</p><p>de	 intervenções	 psi	 em	 seu	 campo	 e	 se	 inclinaram	 por	 cortar	 todos	 os</p><p>vínculos	 com	 esses	 saberes.	 Isso	 não	 passa	 de	 uma	 reação	 emocional,</p><p>nunca	boa	conselheira	da	ciência,	produto	de	uma	confusão	de	níveis.	Em</p><p>princípio,	 os	 saberes	 psi	 de	 hoje	 não	 são	 os	 do	 positivismo.	 Entre</p><p>os</p><p>cultores	 dessas	 ciências	 há	 tantos	 sujeitos	 de	 alta	 periculosidade	 quanto</p><p>em	todas	as	outras,	mas	por	sorte	não	são	dominantes.</p><p>É	 verdade	 que	 não	 faltam	 aqueles	 que	 pretendem	 reconstruir	 o</p><p>criminoso	 nato	 com	 base	 nas	 neurociências,	 voltando	 a	 extrair</p><p>consequências	apressadas	de	novos	conhecimentos	médicos	e	biológicos,</p><p>como	 outrora	 aconteceu	 com	 o	 evolucionismo,	 com	 as	 localizações</p><p>cerebrais	 ou	 com	 a	 endocrinologia.	 Também	 é	 certo	 que	 alguns</p><p>pretendem	 resolver	 qualquer	 coisa	 repartindo	 alegremente	 o	 jaleco</p><p>químico	com	toda	a	população,	ao	mesmo	tempo	em	que	se	escandalizam</p><p>porque	alguém	fuma	maconha.	Porém,	em	todos	os	saberes,	assistimos	a</p><p>saídas	de	tom	que,	sem	prejuízo	de	sua	periculosidade,	são	passageiros.</p><p>A	antipsiquiatria	 deixou	 uma	marca	 que	 foi	 além	de	 seus	 exageros</p><p>pontuais,	a	psicanálise	fez	a	sua	parte,	a	antropologia	de	Franz	Boas	não</p><p>passou	 sem	 deixar	 de	 impactar	 o	 campo	 psi,	 a	 desnaturalização	 das</p><p>preferências	 sexuais	 minoritárias	 é	 um	 fato	 etc.	 Em	 síntese:	 está	 muito</p><p>claro	que	o	psi	não	se	nutre	hoje	de	ideologias	racistas	nem	totalitárias.</p><p>A	psicanálise	impactou	no	começo	a	criminologia	etiológica	do	canto</p><p>com	 uma	 montanha	 de	 trabalhos,	 alguns	 dos	 quais	 só	 extraíam	 sua</p><p>profundidade	do	que	seus	autores	haviam	 lido	em	Freud	no	metrô.	Nos</p><p>anos	 1930,	 fez	 furor	 O	 delinquente	 e	 seus	 juízes	 do	 ponto	 de	 vista</p><p>psicanalítico,	 de	 Franz	Alexander	 (psicólogo)	 e	Hugo	 Staub	 (jurista),	 do</p><p>qual	quase	todos	os	outros	escritos	foram	tributários	(alguns	o	plagiaram).</p><p>Não	 era,	 porém,	 tarefa	 dos	 psicólogos	 colocar	 em	 evidência	 as</p><p>características	 estruturais	 do	 poder	 punitivo,	 e	 sim	 dos	 sociólogos.	 Seria</p><p>injusto	atribuir-lhes	uma	 responsabilidade	que	não	 lhes	dizia	 respeito.	O</p><p>certo	é	que	 tampouco	é	verdade	que	 tentaram	reconstruir	um	criminoso</p><p>nato	por	via	psicológica,	pelo	menos	no	que	diz	respeito	a	seus	expoentes</p><p>mais	destacados.</p><p>Não	nego	que,	às	vezes,	se	geram	confusões	provenientes	de	alguns</p><p>leitores	 apressados	 do	 próprio	 campo	 psi,	 como	 quando	 alguém	 –	 que</p><p>também	viu	as	capas	do	código	penal	no	metrô	–	confunde	lei	do	pai	de</p><p>Freud	ou	a	ideia	do	nome	do	pai	de	Lacan	com	o	código	penal,	sem	dar-</p><p>se	conta	de	que	esses	conceitos	não	se	fixam	por	maioria	parlamentar.</p><p>Felizmente,	 porém,	 nem	 Freud	 nem	 Lacan	 pensaram	 nisso	 (nem</p><p>Melanie	 Klein	 se	 olhava	 no	 espelho	 para	 ver	 se	 tinha	 dois	 seios	 muito</p><p>diferentes).	Tampouco	Lacan	pensou	que	as	prisões	deviam	encher-se	de</p><p>loucos.	Esta	gente	escreveu	 textos	 inteligentes,	que	não	podem	ser	 lidos</p><p>como	se	lê	a	revista	Hola.[17]</p><p>Esse	desencontro	não	é	mais	do	que	o	resultado	do	desconhecimento</p><p>dos	 respectivos	 planos	 de	 análise	 e	 observação:	 o	 sociólogo	 observa	 a</p><p>partir	 do	 grupal	 e	 o	 psicólogo	 a	 partir	 do	 sujeito	 concreto.	 Por	 isso,	 os</p><p>conhecimentos	 do	 sociólogo	 são	 particularmente	 úteis	 para	 formular</p><p>políticas,	mas	nada	nos	diz	sobre	o	que	fazer	com	o	sujeito	concreto,	do</p><p>qual	a	criminologia	não	pode	ignorar	que	lhe	diz	respeito.</p><p>Quando	 nos	 deparamos	 com	 um	 fenômeno	 que	 é	 necessário</p><p>controlar,	 como	 pode	 ser	 o	 uso	 de	 um	 veneno	 do	 tipo	 do	 chamado</p><p>“paco”,	o	sociólogo	pode	nos	informar	acerca	das	medidas	grupais	(planos</p><p>de	assistência	para	reduzir	o	tráfico	de	subsistência,	programas	de	fomento</p><p>da	 escolaridade	 e	 de	 geração	 de	 projetos	 de	 vida	 positivos,	 modos	 de</p><p>instruir	 os	 operadores,	 medidas	 que	 eliminem	 ou	 reduzam	 a</p><p>estigmatização	do	usuário	etc.).	No	entanto,	nada	nos	pode	dizer	sobre	o</p><p>que	 fazer	 com	 o	 sujeito	 concreto	 (com	 o	 pequeno	 usuário,	 a	 quem	 é</p><p>preciso	 tratar	 para	 evitar	 que	 morra	 ou	 se	 machuque	 de	 forma</p><p>irreversível).	E	isso	é	válido	para	qualquer	outro	problema.</p><p>A	criminologia	crítica	bem	entendida,	em	lugar	de	limitar	o	campo	psi</p><p>em	sua	matéria,	o	amplia.	O	etiquetamento	não	é	algo	que	opera	de	forma</p><p>mecânica	 nem	 afeta	 a	 todos	 por	 igual,	 pois	 o	 ser	 humano	 não	 é	 uma</p><p>marionete.	 Há	 pessoas	 que	 assumem	 a	 etiqueta	 do	 estereótipo	 e	 outras</p><p>que	não	o	 fazem.	É	óbvio,	pois,	que	existe	um	grau	de	 fragilidade	que</p><p>condiciona	uma	vulnerabilidade	ao	etiquetamento.	Esta	é	questão	que	faz</p><p>o	 sujeito	 concreto	 e	 nesse	 terreno	 são	 as	 disciplinas	psi	 que	 devem	nos</p><p>informar.</p><p>Se	 a	 intervenção	 do	 poder	 punitivo	 tem	 efeito	 deteriorador	 e</p><p>estigmatizante	 e	 se	há	pessoas	que	 sofrem	esses	 efeitos	muito	mais	 que</p><p>outras,	é	o	campo	psi	que	nos	pode	informar	sobre	a	que	corresponde	a</p><p>maior	 vulnerabilidade	 em	 cada	 um	 e,	 o	 que	 é	 mais	 importante,	 como</p><p>abordá-la	no	sujeito	concreto.</p><p>Nesse	 último	 sentido,	 não	 devemos	 omitir	 a	 inspiração	 que	 Viktor</p><p>Frankl	 pode	 proporcionar.	 Depois	 de	 sobreviver	 a	 um	 campo	 de</p><p>concentração,	 ele	 fez	 de	 toda	 essa	 experiência	 uma	 teorização	 (que</p><p>chamou	de	 logoterapia)	 com	base	 existencial,	 que	 sintetiza	 em	um	 livro</p><p>intitulado	Um	psicólogo	sobrevive	ao	campo	de	concentração.</p><p>Se	 é	 impossível	 ocultar	 que	 o	 delito	 e	 o	 poder	 punitivo	 produzem</p><p>vítimas	–	ou	seja,	exercem	violências	que	afetam	muitas	pessoas	–	e	que	a</p><p>criminologia	 sociológica	 traga	 informação	 para	 políticas	 redutoras	 dos</p><p>danos,	não	é	menos	certo	que,	frente	aos	sujeitos	concretos	afetados,	são</p><p>as	 disciplinas	 psi	 que	 podem	 indicar	 como	 atuar.	 Só	 o	 especialista	 psi</p><p>pode	nos	dizer	como	tratar	quem	sobrevive	a	um	atentado	criminoso	ou</p><p>quem	passa	pela	tortura.</p><p>Ademais,	uma	vez	que	 incorpora	a	 seu	campo	o	exercício	do	poder</p><p>punitivo,	a	criminologia	atual	amplia	o	universo	de	condutas	dos	sujeitos</p><p>concretos.	Já	não	se	trata	apenas	de	observar	o	criminalizado	e	a	vítima,	e</p><p>sim	de	incorporar	os	operadores	do	sistema	penal.</p><p>Sem	 ânimo	 de	 psiquiatrizar	 nada,	 é	 sabido	 que	 tudo	 o	 que	 se</p><p>relaciona	com	o	exercício	do	poder	punitivo	opera	como	mel	para	moscas</p><p>no	que	concerne	a	muitas	pessoas	com	patologias	sérias.	Esse	não	é	um</p><p>dado	menor	para	a	tomada	de	decisões	na	hora	de	selecionar	pessoal	ou</p><p>de	 averiguar	 a	 natureza	 de	 algumas	 condutas	 manifestas	 em	 outros</p><p>segmentos	do	sistema.</p><p>Ignorar,	desde	a	criminologia,	o	campo	psi	é	um	erro	preconceituoso</p><p>gravíssimo,	que	faz	perder	de	vista	o	sujeito	concreto,	é	tão	negativo	como</p><p>pretender	 transferir	 as	 observações	 sobre	 este	 do	 campo	 psi	 às	 políticas</p><p>sociais.	 São	 duas	 perspectivas	 que	 devem	 se	 encontrar,	 sem	 pretender</p><p>ignorar-se	nem	neutralizar-se,	mas	sim,	simplesmente,	 reconhecendo	que</p><p>trazem	 visões	 diferentes	 sobre	 a	 conduta	 humana,	 que	 é	 um	 objeto</p><p>configurador	de	extrema	complexidade.</p><p>Sabemos	 que	 não	 faltam	 aqueles	 que,	 a	 partir	 da	 academia,</p><p>argumentam	 que	 isso	 é	 questão	 da	 criminologia	 aplicada,	 mas	 não	 da</p><p>teórica.	 Mais	 adiante,	 mostraremos	 como	 os	 conhecimentos	 psi	 são</p><p>indispensáveis	para	a	criminologia	teórica	atual;	se	alguém	pretende	fazer</p><p>uma	 criminologia	 teórica	 pura,	 sem	 consequências	 práticas,	 sem	 a</p><p>aplicação,	é	melhor	que	fechemos	a	porta	e	o	deixemos	sozinho	em	seu</p><p>escritório.</p><p>Ilustração	22</p><p>34.	Somos	todos	neuróticos?</p><p>Não	é	nossa	intenção	cair	em	uma	teoria	macro	e	subir	num	avião	a</p><p>jato	 para	 que,	 por	 conta	 de	 querer	 abarcar	 um	 panorama	 mais	 amplo,</p><p>quando	olharmos	para	baixo	não	consigamos	ver	nada.	No	entanto,	não</p><p>podemos	negar	que	devemos	perguntar	alguma	coisa	aos	homens	sábios</p><p>diante	 da	 inquestionável	 característica	 de	 nossa	 espécie,	 que	 é	 sua</p><p>tremenda	agressividade	intraespecífica	(e	extraespecífica	também,	é	claro).</p><p>Sem	 dúvida,	 os	 danos	 sociais	 assinalados	 pelos	 ingleses	 que</p><p>pretendem	 ir	 mais	 além	 da	 criminologia	 existem	 e	 estão	 em	 curso,</p><p>milhões	 de	 pessoas	 morrem	 diante	 da	 indiferença	 dos	 demais	 e	 os</p><p>massacres	 vitimaram	 muitos	 milhões,	 sem	 contar	 os	 outros	 milhões	 de</p><p>mortos	pelas	guerras	e,	além	do	mais,	nada	disso	pertence	a	um	passado</p><p>remoto.</p><p>Não	 é	 fácil	 se	 perguntar	 pelas	 razões	 profundas	 e	 últimas</p><p>e	se	estende	no	varal	até	secar.</p><p>Detemos	 o	 agressor	 por	 um	 tempo	 e	 o	 soltamos	 quando	 o	 conflito</p><p>acaba.	É	certo	que	podemos	matá-lo,	mas	nesse	caso	não	faríamos	outra</p><p>coisa	senão	deixar	o	conflito	suspenso	para	sempre.	Não	repomos	nada	à</p><p>vítima,	não	lhe	pagamos	o	tratamento,	o	tempo	de	trabalho	perdido,	nada.</p><p>Nem	sequer	lhe	damos	um	diploma	de	vítima	para	que	o	pendure	em	um</p><p>canto	da	casa.	Não	ocorreria	a	ninguém	obrigar	o	agressor	a	trabalhar	para</p><p>reparar	o	lesado,	ameaçando-o	com	uns	açoites	em	público,	como	fazem</p><p>nossos	 povos	 nativos,	 porque	 isso	 seria	 prático,	 mas	 consideramos</p><p>incivilizado.</p><p>Ademais,	 frente	 a	 outros	 modelos	 de	 efetiva	 solução	 do	 conflito,	 o</p><p>modelo	 punitivo	 se	 comporta	 de	 modo	 excludente,	 porque	 não	 só	 não</p><p>resolve	o	conflito	como	também	impede	ou	dificulta	sua	combinação	com</p><p>outros	 modelos	 que	 o	 resolvem.	 É	 óbvio	 que,	 quando	 prendemos	 o</p><p>marido	agressor,	a	mulher	e	os	 filhos	devem	se	virar	como	possam	para</p><p>viver,	 porque	 a	 besta	 fera	 não	 pode	 trabalhar	 e,	 por	 conseguinte,	 não</p><p>cobra.</p><p>Imaginemos	 que	 um	 menino	 quebre	 uma	 vidraça	 na	 escola	 com	 os</p><p>pés.	 A	 direção	 pode	 chamar	 o	 pai	 do	 pequeno	 energúmeno	 para	 que</p><p>pague	 a	 vidraça,	 pode	mandá-lo	 ao	 psicopedagogo	para	 ver	 o	 que	 está</p><p>acontecendo	 com	 a	 criança,	 também	 pode	 sentar-se	 e	 conversar	 com	 o</p><p>pequeno	 para	 averiguar	 se	 alguma	 coisa	 lhe	 faz	 mal	 e	 o	 irrita.	 São	 três</p><p>formas	 de	modelos	 não	punitivos:	 reparador,	 terapêutico	 e	 conciliatório.</p><p>Os	 três	 modelos	 podem	 ser	 aplicados	 porque	 não	 se	 excluem.	 Em</p><p>compensação,	 se	 o	 diretor	 decide	 que	 a	 quebra	 da	 vidraça	 afeta	 sua</p><p>autoridade	e	aplica	o	modelo	punitivo	expulsando	o	menino,	nenhum	dos</p><p>outros	pode	ser	aplicado.</p><p>É	 claro	que	o	diretor,	 ao	 expulsar	 o	menino,	 reforça	 sua	 autoridade</p><p>vertical	 sobre	 a	 comunidade	 escolar.	 Isso	 quer	 dizer	 que	 o	 modelo</p><p>punitivo	não	é	um	modelo	de	 solução	de	 conflitos,	mas	 sim	de	decisão</p><p>vertical	de	poder.	É	por	isso,	 justamente,	que	ele	aparece	nas	sociedades</p><p>quando	estas	se	verticalizam	hierarquicamente.</p><p>O	modelo	reparador	é	de	solução	horizontal	e	o	punitivo	de	decisão</p><p>vertical.	 Este	 aparece	 quando	 as	 sociedades	 vão	 ganhando	 a	 forma	 de</p><p>exércitos	 com	 classes,	 castas,	 hierarquias	 etc.	 Por	 isso	 surgiu	 em	 muitos</p><p>lugares	do	planeta,	sempre	que	uma	sociedade	começou	a	verticalizar-se</p><p>hierarquicamente.	 A	 arqueologia	 penal	 estuda	 isso	 em	 sociedades</p><p>distantes.</p><p>Houve	uma	sociedade	que	se	verticalizou	com	muita	força	na	Europa:</p><p>a	 romana.	 Quando	 Roma	 passou	 da	 república	 ao	 império	 seu	 poder</p><p>punitivo	 se	 fez	 muito	 mais	 forte	 e	 cruel.	 E	 o	 que	 pode	 fazer	 uma</p><p>sociedade	 quando	 se	 verticaliza	 até	 assumir	 a	 forma	 de	 exército?	 A</p><p>resposta	é	óbvia:	conquistar	outras.	Roma	conquistou	quase	toda	Europa.</p><p>Como	 conseguiu	 fazer	 isso?	 Porque	 tinha	 uma	 estrutura	 colonizante,	 ou</p><p>seja,	 hierarquizada,	 em	 forma	 de	 exército.	 Essa	 estrutura,	 montada</p><p>mediante	o	poder	punitivo,	é	a	necessária	para	a	empresa	de	conquista	e</p><p>colonização.</p><p>No	entanto,	Roma	caiu	praticamente	sem	que	ninguém	a	empurrasse;</p><p>seus	 imperadores	 eram	 generais	 que	 brincavam	 de	 golpe	 de	 Estado,</p><p>passavam	 o	 tempo	 intrigando	 ou	 neutralizando	 intrigas,	 e	 em	 seus</p><p>momentos	 de	 ócio	 se	 divertiam	 com	 amantes	 e	 escravos	 núbios.	 Os</p><p>costumes	se	relaxaram,	dizem	os	moralistas.</p><p>Porém,	Roma	não	caiu	por	causa	das	amantes	ou	dos	escravos,	mas</p><p>sim	 porque	 a	 estrutura	 vertical	 que	 proporciona	 o	 poder	 colonizador,</p><p>imperial,	logo	se	solidificou	até	imobilizar	a	sociedade,	as	classes	tornam-</p><p>se	 castas,	 o	 sistema	 perde	 flexibilidade	 para	 adaptar-se	 às	 novas</p><p>circunstâncias,	 torna-se	 vulnerável	 aos	 novos	 inimigos.	 Nesse	 momento,</p><p>decai	 e	 perde	 o	 poder.	 Chegaram	 os	 bárbaros	 com	 suas	 sociedades</p><p>horizontais,	 que	 ocuparam	 os	 territórios	 quase	 caminhando,	 e	 o	 poder</p><p>punitivo	desapareceu	quase	por	completo.</p><p>Os	germânicos	resolviam	seus	conflitos	de	outra	maneira:	quando	um</p><p>alemão	 dava	 um	 golpe	 de	 garrote	 na	 cabeça	 do	 outro,	 corria	 para	 se</p><p>refugiar	na	igreja,	onde	não	podia	ser	tocado	(asilo	eclesiástico).	Com	isso,</p><p>evitava	 o	 primeiro	 impulso	 vingativo,	 mas,	 imediatamente,	 os	 dois</p><p>germânicos	velhos,	chefes	de	clãs,	 reuniam-se	e	um	fazia	notar	ao	outro</p><p>que	 tinha	 um	 germânico	 avariado	 e	 que	 isso	 tinha	 de	 ser	 resolvido	 de</p><p>algum	 modo.	 Do	 contrário,	 o	 choque	 ia	 se	 dar	 entre	 os	 clãs,	 como	 na</p><p>guerra,	 porque	 assim	 o	 determinava	 a	 vingança	 de	 sangue	 (Blutrache,</p><p>diziam),	 o	 que	 não	 convinha	 a	 nenhum	 dos	 dois.	 E	 a	 coisa	 se	 ajustava</p><p>com	uma	reparação,	entregavam-se	animais,	metais,	coisas	etc.	(o	que	se</p><p>chamava	Wertgeld).</p><p>Havia	 um	 único	 crime	 ao	 qual	 era	 aplicado	 o	 modelo	 punitivo:	 a</p><p>traição.	O	traidor	era	pendurado	em	uma	árvore:	proditores	et	 transfugas</p><p>arboribus	suspendunt,	recorda	o	velho	Tácito,	ao	relatar	os	costumes	dos</p><p>germânicos.	As	outras	ofensas	eram	acertadas	entre	as	partes.	No	bairro,</p><p>acontece	a	mesma	coisa	com	o	alcaguete,	embora	com	menos	violência.</p><p>Ilustração	4</p><p>Mas	por	que	há	que	se	dar	tanta	importância	a	Roma,	se	estamos	tão</p><p>longe,	aqui	estavam	nossos	nativos	e	nunca	um	romano	colocou	um	pé	na</p><p>América?	 Precisamente	 porque	 a	 história	 segue,	 o	 poder	 punitivo</p><p>desapareceu	quase	por	 completo	 (salvo	uns	 tantos	 traidores	 pendurados</p><p>nas	 árvores),	 até	 que	 um	 dia	 ocorreu	 aos	 senhores	 que	 era	 um	 bom</p><p>negócio	 confiscar	 a	 vítima	 e	 que	 isso	 também	 servia	 para	 reforçar	 seu</p><p>poder,	e	voltaram	ao	mau	costume,	fazendo	renascer	o	poder	punitivo	nos</p><p>séculos	XII	e	XIII	europeus.	E	aqui	 isso	começa	a	nos	interessar,	porque</p><p>não	desaparece	já	há	quase	mil	anos,	verticalizou	as	sociedades	europeias,</p><p>deu-lhes	estrutura	corporativa,	sob	a	forma	de	exército,	e	elas	se	lançaram</p><p>à	colonização	de	todo	o	planeta.</p><p>O	 poder	 punitivo	 foi	 o	 instrumento	 de	 verticalização	 social	 que</p><p>permitiu	à	Europa	nos	colonizar.	A	Península	Ibérica	assumiu	a	liderança</p><p>porque	 adquiriu	 caráter	 vertical	 para	 conquistar	 os	 muçulmanos	 do	 sul,</p><p>ainda	que	até	hoje	digam	que	os	reconquistaram,	o	que	é	duvidoso	depois</p><p>de	 700	 anos	 de	 permanência	 deles	 ali	 e	 de	 uma	 civilização	 que	 era</p><p>brilhante.	Quando	terminaram	de	convertê-los	ao	cristianismo	aos	golpes,</p><p>os	 Reis	 (muito)	 Católicos	 fizeram	 o	 que	 faz	 todo	 exército:</p><p>homogeneizaram	 o	 discurso	 religioso	 e	 para	 isso	 obrigaram	 os	 judeus	 a</p><p>converterem-se	 como	 marranos	 ou	 a	 irem	 embora,	 e	 assim	 a	 frente</p><p>interna	passou	a	rezar	ao	mesmo	Deus,	na	versão	dos	reis.</p><p>Para	 dizer	 a	 verdade,	 a	 verticalização	 europeia	 havia	 começado	 um</p><p>pouco	antes	dos	séculos	XII	e	XIII,	ou	seja,	por	volta	do	ano	1000,	quando</p><p>todas	 as	 leis	 locais	que	 iam	 surgindo	 timidamente	 regularam	as	 relações</p><p>familiares	 e	 sexuais	 de	 maneira	 detalhadíssima,	 mais	 do	 que	 a</p><p>propriedade.	 Isso	 se	 explica	 porque	 todo	 exército	 necessita	 de	 cabos	 e</p><p>sargentos,	 sob	 cujo	 comando	 caem	 as	 pequenas	 unidades	 de	 tropa.	 A</p><p>verticalização	começou	por	baixo,	 como	devia	 ser,	porque	é	 sabido	que</p><p>uma	revolução	triunfa	quando	as	 tropas	se	sublevam;	por	conseguinte,	a</p><p>primeira	 coisa	 que	 quem	 quer	 reforçar	 o	 poder	 vertical	 deve	 fazer	 é	 se</p><p>assegurar	de	que	tem	os	comandos	inferiores	sob	controle.</p><p>O	 cabo	 deste	 exército	 social	 foi	 o	 pater,	 sob	 cujo	 comando	 ficaram</p><p>todos	 os	 seres	 inferiores:	 mulheres,	 crianças,	 servos,	 escravos,	 animais</p><p>domésticos	etc.	 (havia	poucos	velhos,	porque	as	pessoas	morriam	muito</p><p>jovens).	O	patriarcado	não	é	mais	do	que	o	poder	dos	cabos	e	sargentos</p><p>da	sociedade	corporativa,	fruto	do	primeiro	passo	da	disciplina	vertical.</p><p>O	próprio	pater	 impunha	os	castigos	aos	seres	inferiores,	salvo	casos</p><p>de	 insubordinação,	 como	 as	 mulheres	 desobedientes	 e	 os	 gays	 ou</p><p>traidores,	 que	 não	 assumiam	 devidamente	 seu	 papel	 de	 pater.	 Como</p><p>ninguém</p><p>desta</p><p>agressividade	 da	 espécie	 porque	 é	 frequente	 que,	 por	 detrás	 da	 busca</p><p>dessa	resposta,	se	esconda	um	bom	pretexto,	e	até	uma	justificativa,	para</p><p>os	 poderes	 que	 operam	 massacrando	 ou	 violentando,	 em	 especial	 se	 a</p><p>resposta	 segue	 o	 caminho	 da	 inevitabilidade	 ou	 da	 naturalização	 dessas</p><p>calamidades.	 (No	 bar,	 seria	 a	 tese	 de	 um	 gordo	 que	 esteve	 preso	 por</p><p>cheques	voadores	e	por	vender	uma	passagem	para	Marte:	Você	vai	ficar</p><p>louco,	sempre	foi	assim,	não	há	nada	a	fazer).</p><p>Entretanto,	é	inevitável	começar	a	apresentar	essas	questões,	porque	a</p><p>tese	naturalista	é	uma	defesa	insensata	–	para	não	dizer	outra	coisa	–	que,</p><p>traduzida	na	minha	resposta	ao	gordo	no	bar,	significa	que	é	inevitável	nos</p><p>tornarmos	inúteis	dentro	de	pouco	tempo.</p><p>Por	isso,	para	não	cair	na	insensatez	–	pelo	menos	não	completamente</p><p>–,	e	ainda	que	devamos	tomar	as	devidas	precauções,	não	há	mal	algum</p><p>em	rastrear	um	pouco	a	questão	das	raízes	últimas	da	agressão	humana,	e</p><p>isso	 não	 pode	 ser	 entendido,	 de	 modo	 algum	 como	 a	 legitimação	 de</p><p>qualquer	massacre.</p><p>É	possível	que,	a	partir	da	crítica	macro,	nos	seja	objetado	que,	com</p><p>isso,	 passamos	 por	 cima	 do	 capitalismo,	 ou	 o	 minimizamos,	 mas	 me</p><p>parece	 que	 ali	 se	 confundem	 duas	 coisas	 bem	 diferentes	 e,	 talvez,	 por</p><p>temor	 de	 não	 ter	 resposta	 diante	 daquele	 que	 diz	 que	 não	 há	 nada	 a</p><p>fazer.	Colocar	um	automóvel	em	marcha,	girar	a	chave	da	partida,	é	uma</p><p>coisa,	 outra	 bem	 diferente	 é,	 em	 seguida,	 já	 na	 estrada,	 apertar	 o</p><p>acelerador	e	bater.</p><p>Admitindo	que	as	formas	desapiedadas	da	exploração	capitalista	e	da</p><p>busca	 de	 acumulação	 indefinida	 de	 lucro	 sejam	 as	 que	 apertam	 o</p><p>acelerador,	parece	haver	algo	antes,	posto	que	houve	massacres	antes	do</p><p>capitalismo,	 antes	 mesmo	 das	 formas	 modernas	 de	 Estado,	 como	 o</p><p>genocídio	 dos	 cartagineses	 pelos	 romanos	 ou	 as	 campanhas	 de	 Gengis</p><p>Khan.</p><p>Além	 do	 mais,	 nisso	 mesmo	 de	 acelerar,	 cabe	 se	 perguntar	 ao	 que</p><p>responde	 o	 afã	 pela	 acumulação	 de	 poder	 ou	 de	 lucro,	 de	 forma</p><p>indefinida,	quando	a	existência	é	finita	(Para	que	você	quer	tanta	grana,</p><p>se	 não	 há	 mortalha	 com	 bolso?	 se	 perguntaria	 o	 filósofo	 magricela	 na</p><p>esquina).</p><p>São	perguntas	que	não	podemos	 ignorar	 se	olharmos	para	o	que	 se</p><p>passou	 nos	 últimos	 séculos.	 Ninguém	 pretende	 legitimar	 com	 isso	 os</p><p>massacres	neocolonialistas,	a	Shoá	ou	Hiroshima	e	Nagasaki,	mas	apenas</p><p>perguntar	o	que	é	que	deu	a	partida	antes	deles.</p><p>A	 pergunta	 se	 impõe	 porque	 se	 vai	 fazendo	 urgente	 averiguar	 se	 é</p><p>possível	desconectar	a	partida	e	parar	o	motor.</p><p>Talvez	se	objete	que	vamos	demasiadamente	longe,	mas	infelizmente</p><p>não	nos	resta	outro	recurso,	porque	se	não	paramos	o	motor	corremos	o</p><p>risco	 de	 acabar	 com	 as	 condições	 de	 vida	 humana	 no	 planeta.	 Que	 o</p><p>último	 jogue	 fora	 o	 lixo	 e	 apague	 a	 luz	 já	 não	 é	 uma	questão	 colocada</p><p>apenas	por	um	estraga-prazeres.</p><p>Isso	 não	 é	 brincadeira	 e	 não	 o	 consertamos	 deixando	 de	 usar	 o</p><p>desodorante	em	aerossol:	no	último	século	deterioramos	essas	condições</p><p>muito	mais	do	que	em	todos	os	milênios	anteriores	em	que	caminhamos</p><p>sobre	 o	 planeta,	 e	 com	 essa	 projeção	 não	 falta	 muito	 para	 chegar	 ao</p><p>limite.	Ademais,	 a	 destrutividade	 atual	 não	 é	 exercida	 com	armadilhas	 e</p><p>flechas.</p><p>Por	isso,	ao	colocar	a	questão	criminal	e	nos	darmos	conta	de	que,	se</p><p>ela	está	inserida	em	um	mundo	onde	as	mortes	em	massa	e	não	em	massa</p><p>importam	pouco	 e	 onde	 os	 que	 exercem	o	poder	 nos	 iludem	 para	 que</p><p>nos	 cuidemos	 só	 dos	 ladrões	 enquanto	 eles	 vendem	 armas	 em	 grandes</p><p>quantidades,	não	podemos	colocar	de	 lado	a	questão	da	agressividade	e</p><p>deixar	de	nos	perguntar	sobre	sua	possível	raiz	última	na	civilização.</p><p>No	século	passado	muitos	se	perguntaram	por	 isso,	em	particular	na</p><p>psicologia	 e	 mais	 ainda	 a	 partir	 de	 Sigmund	 Freud,	 que	 foi	 um</p><p>personagem	bastante	 incômodo	para	 seus	 contemporâneos.	Não	 é	 à	 toa</p><p>que	 ele	 é	 comparado	 a	 Copérnico	 e	 a	 Darwin.	 Como	 se	 não	 fosse</p><p>suficiente	 que	 um	 dissesse	 que	 não	 éramos	 tão	 centrais	 e	 o	 outro	 que</p><p>tínhamos	 o	 macaco	 como	 primo,	 veio	 Freud	 e	 disse	 que	 nem	 sequer</p><p>somos	racionais.</p><p>Pois	 bem.	 Entre	 as	 perturbações	 causadas	 por	 Freud,	 uma	 das	 mais</p><p>interessantes	é	de	ter-se	remontado	até	a	etnologia,	ou	seja,	mais	além	–</p><p>antes	 –	da	história,	para	 explicar	 a	destrutividade	humana.	Desse	modo,</p><p>foi	ele	quem	localizou	o	terreno	em	que	se	devia	buscar	a	resposta.</p><p>Ilustração	23</p><p>Além	de	sua	teoria	do	pai	terrível	da	horda,	do	parricídio	originário	e</p><p>das	 limitações	 que	 os	 irmãos	 se	 impuseram	 para	 consolidar	 o	 novo</p><p>sistema	 (tese	 para	 a	 qual	 seus	 próprios	 seguidores	 olham	 com</p><p>desconfiança),	a	consequência	antropológica	que	sustentou	em	1930,	em</p><p>O	mal	estar	na	cultura,	é	muito	penetrante.</p><p>Ele	afirma	ali	que	a	cultura	reprime	as	pulsões	agressivas,	gerando	um</p><p>controle	interno	mediante	o	superego	que	não	as	elimina,	mas	as	mantém</p><p>no	inconsciente,	onde	lutam	por	aflorar,	produzindo	culpa,	o	que	estimula</p><p>a	procura	pela	punição	como	compensação.</p><p>Falando	 mais	 claramente.	 A	 vontade	 de	 destruir	 o	 outro	 não</p><p>desaparece	 ao	 se	 conter,	 mas	 sim	 é	 colocada	 para	 dentro,	 no	 superego,</p><p>carregando	 inconscientemente	 a	 consciência	 (o	 superego	 diz	 Por	 que</p><p>razão	 você	 foi	 querer	 isso?!)	 e	 se	 traduz	 numa	 busca	 inconsciente	 de</p><p>castigo	(e	a	seguir	acrescenta:	Por	ser	um	tipo	que	merece	um	castigo).</p><p>O	 delito	 seria,	 pois,	 uma	 das	 vias	 para	 satisfazer	 essa	 reclamação</p><p>inconsciente	 de	 punição,	 embora	 possa	 ser	 outro	 autocastigo	 que	 nada</p><p>tenha	 a	 ver	 com	 o	 sistema	 penal	 do	 Estado,	 como	 cortar	 o	 dedo</p><p>descascando	 batatas,	 morder	 a	 língua	 comendo	 um	 bife	 ou	 prender	 o</p><p>dedo	numa	porta.</p><p>Para	 Freud,	 a	 reação	 social	 punitiva	 não	 cumpriria	 a	 função	 de</p><p>eliminar	nem	prevenir	a	criminalidade,	mas	sim	proporcionaria	satisfação	à</p><p>demanda	de	punição	inconsciente	do	próprio	infrator.	Este	não	seria	quem</p><p>introjetou	 equivocadamente	 as	 normas,	 e	 sim	 justamente	 quem</p><p>internalizou	a	autoridade	de	maneira	tal	que	as	pulsões	reprimidas	em	seu</p><p>inconsciente	o	movem	a	buscar	a	punição	mediante	a	infração.</p><p>Freud	adverte	que,	quando	uma	pessoa	se	abstém	de	agredir	a	outra</p><p>só	porque	existe	uma	força	exterior	que	o	impede	(quando	a	sério	se	diz</p><p>só	 não	 quebro	 a	 tua	 cara	 porque	 vou	 em	 cana),	 não	 há	 consciência</p><p>pesada;	 esta	 aparece	 quando	 a	 autoridade	 está	 internalizada,	 ou	 seja,</p><p>quando	faz	parte	do	eu.</p><p>Nos	nossos	dias,	 isso	estaria	 indicando	uma	confiança	muito	escassa</p><p>da	autoridade	em	sua	capacidade	de	provocar	a	introjeção,	evidenciada	na</p><p>parafernália	do	aparato	mecânico	e	eletrônico	de	impedimentos,	ainda	que</p><p>também	poder-se-ia	pensar	que	a	autoridade	projeta	sua	própria	e	escassa</p><p>introjeção	 de	 normas,	 isto	 é,	 sua	 pouca	 consciência	 pesada	 (na	 esquina</p><p>dizem	que	parece	que	tem	a	consciência	morta).</p><p>Conforme	 essa	 tese,	 Freud	 criticava	 a	 pena	 de	 morte,	 pois	 segundo</p><p>uma	pesquisa	respondida	por	Theodor	Reik,	ao	que	parece	por	iniciativa</p><p>de	Freud,	 longe	de	constituir	um	elemento	dissuasório,	a	pena	de	morte</p><p>seria	 uma	 ocasião	 de	 expiação	 máxima,	 uma	 espécie	 de	 suicídio	 com</p><p>cumplicidade	da	justiça	estatal.</p><p>Essa	 explicação	 é	 interessante	 no	 que	 diz	 respeito	 aos	 atentados</p><p>suicidas	fundamentalistas	do	nosso	tempo,	que	desconcertam	aqueles	que</p><p>pretendem	 preveni-los,	 mas	 não	 precisamos	 recorrer	 a	 exemplos	 tão</p><p>extremos,	 pois,	 na	 violência	 urbana,	 verifica-se	 que,	 diariamente,	 se</p><p>produzem	muitos	delitos	suicidas	e	muitíssimos	mais	em	que	a	imprevisão</p><p>do	infrator	é	tão	notória	que	parece	confirmar	a	tese	freudiana.	São	muitos</p><p>os	 delitos	 que	 dão	 a	 impressão	 de	 que	 são	 cometidos	 para	 ser</p><p>descobertos.</p><p>Se	 bem	 que	 por	 esta	 via	 se	 deslegitima	 a	 racionalidade	 do	 poder</p><p>punitivo,	por	outra	explicaria	sua	resistência	e	permanência.</p><p>A	ideia	que	Freud	tinha	do	ser	humano</p><p>podia	permitir	a	insubordinação	da	tropa	porque	senão	o	barco</p><p>afundava,	 as	 lutas	 que	 se	 seguiram	 foram	 entre	 senhores,	 mas	 todos</p><p>reafirmaram	a	ordem	sobre	os	inferiores.</p><p>O	poder	punitivo	foi	se	estendendo,	mas	não	havia	 leis	suficientes	e</p><p>as	 que	 havia	 eram	 caóticas.	 Dispunha-se	 menos	 ainda	 de	 um	 discurso</p><p>legitimador	 desse	 poder	 renascente.	 Nesse	 momento	 apareceram	 as</p><p>universidades	no	norte	da	Itália	e	com	elas	os	juristas,	que,	como	deviam</p><p>fazer	o	discurso	mas	não	tinham	leis	razoáveis,	não	tiveram	ideia	melhor</p><p>do	que	trazer	o	Digesto	de	Justiniano	e	começar	a	comentá-lo.</p><p>Assim	 nasceu	 a	 ciência	 jurídico-penal,	 com	 supostos	 comentários	 ao</p><p>Digesto.	E	o	que	era	o	famoso	Digesto?	Nada	menos	que	uma	coleção	de</p><p>antigas	 leis	 romanas,	 recolhidas	 por	 determinação	 do	 imperador</p><p>Justiniano,	que	nunca	 foi	 imperador	em	Roma	e	 sim	em	Constantinopla,</p><p>quando	o	império	do	Ocidente	–	ou	seja,	Roma	–	já	havia	caído	em	poder</p><p>dos	 germânicos.	 As	 leis	 penais	 recolhidas	 no	 Digesto	 eram	 as	 piores	 e,</p><p>além	disso,	com	alguns	 retoques	deformantes	do	próprio	 Justiniano,	que</p><p>desde	 a	 romanização	 do	 cristianismo	 (que	 costuma	 se	 chamar	 de</p><p>cristianização	 de	 Roma)	 se	 considerava	 chefe	 religioso	 e	 perseguia	 com</p><p>singular	 furor	 e	 alegria	 os	 não	 cristãos,	 entre	 eles	 os	 que	 continuavam</p><p>adorando	os	deuses	romanos.	Essa	injeção	legal	dos	primeiros	juristas	foi</p><p>denominada	recepção	do	direito	romano.</p><p>A	 ciência	 jurídico-penal	 nasceu,	 portanto,	 com	 a	 importação	 de</p><p>Constantinopla	 dos	 chamados	 libris	 terribilis	 do	 Digesto.	 Os	 primeiros</p><p>penalistas	se	chamaram	glosadores	porque	fingiam	que	comentavam	essas</p><p>leis;	 na	 verdade,	 sob	 o	 pretexto	 de	 comentá-las,	 diziam	 o	 que	 bem</p><p>entendiam,	 mas	 começaram	 a	 ensaiar	 alguma	 lógica	 interna	 em	 seu</p><p>discurso.</p><p>É	 bem	 verdade	 que	 aqueles	 que	 deviam	 legitimar	 essas	 leis	 atrozes</p><p>não	 podiam	 confessar	 que	 o	 poder	 punitivo	 serve	 para	 verticalizar	 e</p><p>colonizar,	razão	pela	qual	sempre	se	buscou	encontrar	alguma	justificativa</p><p>para	 cada	 lei	 penal,	 baseada	 em	 uma	 necessidade	 fundada	 em	 fatos	 do</p><p>mundo	real.	Como	se	tratava	de	legitimações	sobre	argumentos	fáticos,	os</p><p>supostos	 comentários	 dos	 glosadores	 e	 pós-glosadores	 misturavam	 o</p><p>direito	penal	com	a	criminologia.</p><p>Assim	começaram	as	palavras	da	academia	nas	universidades	do	norte</p><p>italiano	 mil	 anos	 atrás,	 mas	 o	 poder	 que	 em	 todos	 os	 tempos	 estas</p><p>legitimaram	não	foi	outro	senão	o	instrumento	de	verticalização	social	que</p><p>possibilitou	a	colonização.	Esse	poder	não	se	estendeu	porque	Henrique,</p><p>o	Navegador	se	lançou	para	a	África	ou	porque	Cristóvão	Colombo,	com	a</p><p>história	das	jóias	da	rainha,	tenha	armado	as	caravelas,	mas	sim	porque	o</p><p>poder	punitivo	havia	dado	forma	de	exército	a	essas	sociedades.	Sem	cair</p><p>em	 fantasias	 não	 verificáveis,	 o	 certo	 é	 que	 os	 nórdicos	 chegaram	 à</p><p>América	antes	de	Colombo,	mas	como	não	dispunham	de	uma	estrutura</p><p>colonizadora	morreram	de	frio	no	norte,	não	se	animando	a	seguir	para	o</p><p>sul.</p><p>E	 a	 história	 reiterou	 o	 processo	 romano:	 a	 Espanha	 não	 conseguiu</p><p>modificar	 sua	 estrutura	 vertical	 quando	 o	 industrialismo	 amanheceu	 no</p><p>século	 XVIII	 e	 terminou	 perdendo	 seu	 império	 e	 sua	 hegemonia,	 que</p><p>passou	 para	 as	 potências	 do	 centro	 e	 do	 norte	 da	 Europa.	 O	 poder</p><p>punitivo,	 contudo,	 não	 desapareceu,	 mas	 ficou	 limitado	 à	 sua	 função</p><p>interior,	apontando	para	uma	sociedade	imóvel.</p><p>Como	o	punitivo	é	a	chave	do	poder	planetário,	o	que	se	diz	a	seu</p><p>respeito	 não	 é	 resultado	 de	 uma	 busca	 ingênua	 de	 conhecimentos,	 de</p><p>curiosidade	científica	desinteressada	em	âmbitos	acadêmicos,	mas	sim	que</p><p>se	defronta	com	o	cerne	da	expansão	colonial.	Por	isso,	tudo	o	que	se	diz</p><p>em	criminologia	é	político,	porque	sempre	será	funcional	ou	disfuncional</p><p>ao	 poder,	 o	 que	 não	 muda,	 ainda	 que	 quem	 o	 afirma	 o	 ignore	 ou	 o</p><p>negue.</p><p>Por	isso,	não	podemos	evitar	o	passado,	porque	se	o	ignoramos	não</p><p>saberemos	onde	fomos	parar.	O	que	interessa	do	passado	não	é	se	María</p><p>Antonieta	se	deixou	seduzir	pelo	colar,	se	Catarina	levou	Miranda	para	a</p><p>cama,	se	a	rainha	Isabel	 tomava	banho	ou	se	Ludwig	II	 fazia	orgias	com</p><p>seus	guardas	enquanto	sonhava	com	palácios	de	Disneilândia,	e	sim	saber</p><p>onde	estamos	parados	em	uma	continuidade	de	poder,	que	em	seu	fluxo</p><p>nos	trouxe	a	este	lugar.	E	a	questão	criminal	é	central	nessa	corrente	que</p><p>não	para,	como	algo	do	presente,	que	é	pura	projeção	do	passado.	Se	não</p><p>comprendemos	que	a	 Idade	Média	não	 terminou,	não	podemos	entrever</p><p>para	 onde	 vamos,	 ou	 pior,	 para	 onde	podemos	 ir	 (o	 que	me	 eximo	de</p><p>dizer,	até	mesmo	por	motivos	de	boa	educação).</p><p>Como	a	Idade	Média	não	terminou,	nada	do	passado	está	morto	nem</p><p>enterrado,	mas	 apenas	 oculto,	 e	 não	por	 acaso.	Não	 é	 um	passado	que</p><p>volta,	 mas	 sim	 que	 nunca	 se	 foi,	 porque	 ali	 está	 o	 poder	 punitivo,	 sua</p><p>função	verticalizante,	suas	tendências	expansivas,	seus	resultados	letais.</p><p>Dessa	perspectiva,	o	passado	não	evoca	aborrecidas	lições	com	datas</p><p>e	próceres	movidos	pelo	acaso	ou	pela	genialidade,	mas	sim	nos	mostra</p><p>um	zoológico	de	 fósseis	 vivos	 e	não	 em	um	museu	paleontológico.	 Por</p><p>isso,	 se	 quiserem	 me	 seguir,	 devo	 começar	 pelo	 passado,	 para	 que	 um</p><p>tiranossauro	não	nos	coma.</p><p>Estamos	 habituados	 a	 que	 o	 locutor	 elegante	 comunique	 a	 notícia</p><p>sangrenta	 com	 voz	 cavernosa,	 preludiando	 a	 exortação	 à	 reforma	 do</p><p>Código	 Penal	 e	 de	 imediato	 vai	 ao	 tribunal	 para	 anunciar	 produtos</p><p>íntimos.	 Mas	 também	 estamos	 acostumados	 a	 que	 isso	 gere	 um	 mar	 de</p><p>opiniões	 díspares	 e	 em	 todos	 os	 tons:	 há	 que	 matar	 a	 todos;	 deixar	 a</p><p>polícia	 atuar	 e	 baixar	 o	 sarrafo;	 aplicar	 o	 talião;	 ter	 boas	 prisões	 para</p><p>ressocializar;	atender	aos	fatores	sociais;	não	atendê-los	porque	nem	todos</p><p>os	 pobres	 delinquem;	 nem	 só	 os	 pobres	 delinquem,	 um	 longuíssimo</p><p>etcétera.</p><p>Creio	que	muitas	pessoas	 ficariam	surpresas	se	 lhes	disséssemos	que</p><p>os	 Estados	 absolutos	 matavam	 há	 centenas	 de	 anos,	 que	 desde	 a</p><p>Inquisição	 recorrem	 à	 violência,	 que	 o	 talião	 foi	 apoiado	 por	 Kant	 no</p><p>século	XVIII,	 que	 a	 ressocialização	–	que	vem	do	positivismo	do	 século</p><p>XIX,	dos	fatores	sociais	–	é	coisa	de	muitos	e	em	especial	de	Bonger	há</p><p>um	século,	que	a	negação	dos	fatores	sociais	era	de	Garofalo	no	final	dos</p><p>Oitocentos,	 que	 os	 delitos	 de	 colarinho	 branco	 foram	 teorizados	 por</p><p>Sutherland	há	sessenta	anos	etc.	Nada	disso	morreu	e	se	na	criminologia</p><p>acadêmica	 não	 se	 sustentam	 determinadas	 teses	 é	 porque	 já	 não	 são</p><p>politicamente	 corretas,	 continuam	 sendo	 afirmadas	 com	 escassa</p><p>dissimulação	na	criminologia	midiática.</p><p>Porém,	o	que	quero	dizer	com	que	a	Idade	Média	não	terminou?	Por</p><p>um	 lado,	 que	 somos	 hoje	 um	 produto	 daquele	 poder	 punitivo	 que</p><p>renasceu	na	Idade	Média	e	permitiu	aos	colonizadores	europeus	ocupar	a</p><p>América,	a	África	e	a	Oceania,	escravizar,	dizimar	e	até	extinguir	os	povos</p><p>nativos,	 transportar	 milhões	 de	 africanos,	 avançar	 sobre	 o	 mundo	 com</p><p>massacres	e	depredação	colonialista	e	neocolonialista.</p><p>No	entanto,	por	outro	lado,	quero	dizer	que	os	discursos	legitimadores</p><p>do	poder	punitivo	da	Idade	Média	estão	plenamente	vigentes,	até	o	ponto</p><p>de	que	a	criminologia	nasceu	como	saber	autônomo	no	final	do	período</p><p>medieval	 e	 fixou	 uma	 estrutura	 que	 permanece	 quase	 inalterada	 e</p><p>reaparece	 cada	 vez	 que	 o	 poder	 punitivo	 quer	 se	 libertar	 de	 todo	 e</p><p>qualquer	limite	e	desembocar	em	um	massacre.</p><p>Quando	 o	 poder	 punitivo	 renasceu,	 o	 bispo	 de	 Roma	 –	 o	 Papa	 –</p><p>estava	 desejoso	 de	 conter	 a	 todos	 os	 que	 pretendiam	 se	 comunicar</p><p>diretamente	 com	 Deus,	 à	 margem	 de	 sua	 mediação	 ou	 da	 de	 seus</p><p>dependentes.	 Para	 reforçar	 esse	 monopólio	 telefônico,	 e	 também	 para</p><p>concentrar	poder	econômico,	 estabeleceu-se	uma	 jurisdição,	ou	 seja,	um</p><p>corpo	 de	 juízes	 próprios	 encarregados	 de	 perseguir	 os	 revoltosos,</p><p>chamados	 hereges.	 Esse	 foi</p><p>o	 tribunal	 do	 Santo	 Ofício	 ou	 Inquisição</p><p>romana.</p><p>O	 reaparecimento	 do	 poder	 punitivo	 e	 o	 surgimento	 da	 Inquisição</p><p>mudaram	 tudo.	 Até	 esse	 momento,	 nos	 processos	 entre	 as	 partes,	 a</p><p>verdade	se	estabelecia	pelos	ordálios	ou	pelas	provas	de	Deus.	Os	juízes</p><p>anteriores	à	volta	do	Digesto	e	aos	inquisidores	eram,	na	realidade,	árbitros</p><p>desportivos,	pois	o	ordálio	mais	frequente	era	o	duelo.	O	que	vencia	era</p><p>quem	tinha	razão,	porque	se	invocava	a	Deus	e	este	baixava	magicamente</p><p>convocado	 e	 se	 expressava	 no	 duelo,	 permitindo	 ganhar	 só	 àquele	 que</p><p>tinha	 razão.	 Os	 juízes	 não	 julgavam	 e	 sim	 cuidavam	 que	 não	 houvesse</p><p>fraude.	Quem	decidia	era	Deus.	Pode-se	imaginar	que	esses	juízes	tinham</p><p>uma	absoluta	tranquilidade	de	consciência.</p><p>Com	 as	 leis	 romanas	 imperiais	 injetadas	 pelos	 juristas,	 a	 verdade</p><p>passou	 a	 ser	 estabelecida	 por	 interrogação,	 por	 inquisitio.	 O	 imputado</p><p>devia	 ser	 interrogado,	 e	 se	 não	 queria	 responder	 a	 verdade	 lhe	 era</p><p>extraída	pela	violência,	pela	tortura.	Para	isso	haviam	sequestrado	Deus	e</p><p>o	ordálio	se	havia	 tornado	desnecessário,	pois	Deus	 já	estava	sempre	do</p><p>lado	 de	 quem	 exercia	 a	 violência.	 O	 poder	 tinha	 atado	 Deus,	 porque</p><p>sempre	fazia	o	bem.</p><p>Segundo	 Foucault,	 todo	 saber	 adotou	 o	 método	 do	 interrogatório</p><p>violento.	 Parece	 haver	 algo	 disso	 se	 comparamos	 a	 inquisição	 com	 a</p><p>vivissecção,	mas	voltemos	ao	nosso.	A	Inquisição	romana	exercia	o	poder</p><p>de	 julgar	 em	 toda	 Europa	 porque	 não	 havia	 Estados	 nacionais	 e	 os</p><p>senhores	 feudais	 não	 podiam	 impedi-lo,	 embora	 isso	 lhes	 incomodasse.</p><p>Na	Espanha,	onde	a	 sociedade	 já	 tinha	a	 forma	de	exército,	o	poder	da</p><p>Inquisição	 não	 foi	 papal,	 e,	 diferentemente	 do	 resto	 de	 Europa,</p><p>encontrava-se	a	serviço	do	rei.	Por	isso,	a	Inquisição	espanhola	tem	uma</p><p>história	separada	da	romana.</p><p>Com	 esse	 instrumento,	 o	 Papa	 massacrou	 rapidamente	 uns	 tantos</p><p>hereges	(os	albigenses,	os	cátaros	etc.).	Também	se	 juntou	aos	 franceses</p><p>para	fritar	os	templários	e	repartir	suas	riquezas,	imputando-lhes	que	eram</p><p>gays	 e	 que	 tinham	 um	 ritual	 de	 iniciação	 de	 submissão	 sexual,	 meio</p><p>leather	style.	Logo,	porém,	a	Inquisição	ficou	sem	trabalho	e	sem	inimigo,</p><p>porque	havia	matado	todos	eles.	Para	 justificar	seu	brutal	poder	punitivo</p><p>necessitava	 de	 um	 inimigo	 que	 tivesse	 mais	 vigor,	 que	 fosse	 de	 melhor</p><p>qualidade.	Assim,	acabou	apelando	para	um	inimigo	de	muito	bom	estofo,</p><p>que	 durou	 vários	 séculos:	 Satã,	 que	 em	 hebraico	 significa	 justamente</p><p>inimigo.</p><p>Como	era	difícil	explicar	semelhante	poder	sanguinário	no	marco	de</p><p>uma	religião	cujo	Deus	não	era	guerreiro,	e	sim	uma	vítima	executada	em</p><p>um	instrumento	de	tortura	próprio	do	poder	punitivo	do	Império	Romano</p><p>(equivalente	à	cadeira	elétrica	do	século	XX),	era	necessário	 inventar-lhe</p><p>um	 inimigo	 guerreiro,	 e	 assim	 Satã	 terminou	 sendo	 o	 comandante	 em</p><p>chefe	de	um	exército	composto	por	legiões	de	diabos.</p><p>Para	isso	lhe	caiu	muito	bem	a	cosmovisão	que	Santo	Agostinho	havia</p><p>imaginado	quase	 dez	 séculos	 antes.	 Ele	 –	 que	havia	 vivido	no	norte	 de</p><p>África	no	século	IV	e	depois	de	participar	de	quantas	festas	pôde,	quando</p><p>lhe	baixaram	os	hormônios,	e	como	antes	havia	combinado	suas	andanças</p><p>com	o	maniqueísmo	–	 imaginou	que	havia	dois	mundos	 enfrentados	na</p><p>forma	de	espelho:	um	de	Deus	e	outro	de	Satã,	a	cidade	de	Deus	e	a	do</p><p>diabo.</p><p>As	 duas	 cidades	 tinham	 equipes	 rivais:	 a	 do	 diabo	 dedicava-se	 ao</p><p>esporte	de	tentar	a	de	Deus,	porque	os	partidários	deste	podiam	salvar-se,</p><p>ao	 passo	 que	 eles,	 como	 anjos	 caídos,	 estavam	 irremediavelmente</p><p>condenados	a	ser	destruídos	no	juízo	final	e,	portanto,	tentavam	adiá-lo	e</p><p>baixar	o	número	de	salváveis.	Não	ficava	claro	por	que	não	os	destruíram</p><p>antes	e	era	necessário	esperar	o	julgamento,	mas	isso	não	importa.</p><p>O	certo	é	que	nesse	mundo	maciço,	mas	perfeitamente	dividido,	não</p><p>havia	possibilidade	de	neutralidade:	ou	se	estava	com	Deus	ou	com	Satã.</p><p>Tudo	o	que	estava	fora	da	cidade	de	Deus	era	domínio	satânico,	incluindo</p><p>os	deuses	pagãos	(e	depois	seriam	as	religiões	dos	nossos	povos	nativos).</p><p>Cabe	esclarecer	que	o	pobre	Santo	Agostinho	não	matou	ninguém.	Ele</p><p>apenas	 armou	 esse	 discurso	 e,	 como	 havia	 morrido	 há	 quase	 mil	 anos</p><p>antes	da	 Inquisição,	 se	 livrou	da	pena	de	ver	o	que	 se	 fazia	 com	apoio</p><p>nele.	Houve	outros	ideólogos	que	tiveram	menos	sorte	e	a	vida	lhes	deu	a</p><p>oportunidade	 de	 queixar-se	 e	 arrepender-se,	 vendo	 como	 usavam	 suas</p><p>ideias.	Agostinho	teve	inclusive	vislumbres	muito	inteligentes,	como	o	de</p><p>enunciar	a	primeira	política	de	redução	de	danos	em	matéria	de	aborto.</p><p>Todavia,	 quando	 o	 Papa	 se	 valeu	 do	 invento	 agostiniano	 para</p><p>perseguir	 tudo	 o	 que	 não	 se	 submetia	 a	 seu	 poder	 e	 consagrou	 a</p><p>Inquisição	à	 luta	contra	Satã,	como	este	não	aparecia	em	 lugar	nenhum,</p><p>teve	 de	 se	 agarrar	 a	 ela	 com	 alguns	 humanos,	 e	 já	 não	 lhe	 restavam</p><p>hereges.	 Por	 conseguinte,	 empreendeu-a	 contra	 a	 metade	 da	 espécie</p><p>humana,	 contra	 as	 mulheres.	 Para	 isso	 foi	 inventada	 a	 teoria	 do	 pacto</p><p>satânico.	 Satã	 não	 podia	 atuar	 sozinho,	 necessitava	 da	 cumplicidade	 de</p><p>humanos	(não	me	perguntem	o	porquê,	porque	não	sei).	Para	isso	havia</p><p>humanos	 que	 celebravam	 um	 pacto	 com	 o	 inimigo,	 com	 Satã.	 Era	 um</p><p>contrato	de	compra	e	venda	proibido,	mas	que	por	sua	natureza	só	podia</p><p>ser	celebrado	por	humanos	inferiores,	que	eram	as	mulheres.	Por	que?	Por</p><p>razões	 genéticas,	 biológicas:	 tinham	um	defeito	de	 fábrica	por	provir	 de</p><p>uma	costela	curva	do	peito	do	homem,	o	que	contrastava	com	a	retidão</p><p>deste	 (não	 sei	 tampouco	 onde	 o	 homem	 é	 reto,	 mas	 prossigamos).	 Por</p><p>isso,	 elas	 têm	 menos	 inteligência	 e,	 por	 conseguinte,	 menos	 fé.	 E</p><p>ratificavam	essa	afirmação,	inventando	que	femina	provém	de	fé	e	minus,</p><p>ou	seja,	menos	fé	(é	mentira,	pois	femina	vem	do	sânscrito,	do	verbo	que</p><p>significa	amamentar).</p><p>Foi	 assim	 que	 a	 Inquisição	 se	 dedicou	 a	 controlar	 as	 mulheres</p><p>desobedientes	 e	 levou	 à	 combustão	 milhares	 delas,	 como	 bruxas,	 em</p><p>quase	toda	Europa.</p><p>Na	 verdade,	 o	 poder	 de	 Satã	 e	 seus	 rapazes	 foi	 muito	 estudado	 e</p><p>teorizado	 pelos	 encarregados	 da	 Inquisição,	 que	 foram	 os	 dominicanos,</p><p>ordem	fundada	por	São	Domingos	de	Gusmão,	mas	 também	conhecidos</p><p>como	cães	do	Senhor	(canes	do	Dominus).	Na	condição	de	estudiosos	da</p><p>etiologia,	ou	da	origem	do	mal,	 eles	 foram	os	primeiros	 criminólogos.	É</p><p>claro	que	não	 foram	chamados	de	 criminólogos	 e	 sim	de	demonólogos.</p><p>Quase	 nenhum	 criminólogo	 aceita	 essa	 origem,	 porque	 não	 é	 uma	 boa</p><p>certidão	 de	 nascimento;	 preferem	 considerar-se	 herdeiros	 do	 Iluminismo</p><p>ou	mesmo	do	 século	XIX	 e	 esquecer	 o	nome	dos	 velhos	demonólogos,</p><p>aos	quais	ninguém	menciona.	Mas	o	certo	é	que	ninguém	tem	a	culpa	de</p><p>seus	antepassados.</p><p>A	demonologia,	 porém,	 não	deixou	de	 criar	 contradições	porque	os</p><p>juristas	 –	 glosadores	 e	 pós-glosadores	 –	 haviam	 tratado	 de	 sistematizar</p><p>suas	 especulações	 conforme	 uma	 certa	 lógica,	 que	 tomavam	 da	 ética</p><p>tradicional.	 Isso	 se	 deve	 a	 que,	 na	 medida	 em	 que	 se	 queira	 dotar	 de</p><p>alguma	lógica	interna	o	discurso	legitimador	do	poder	punitivo,	surge	um</p><p>mínimo	de	 limites,	porque	a	necessidade	não	é	 infinita.	 Justamente	para</p><p>eliminar	esses	 limites	criando	uma	necessidade	quase	 infinita	e	absoluta,</p><p>foi	que	se	autonomizou	a	criminologia	com	o	nome	de	demonologia.</p><p>Os	juristas	pretendiam	que	a	pena	fazia	pagar	a	dívida	do	delito.	Se	o</p><p>crime	resultava	de	uma	escolha	livre,	havia	que	retribuir	o	mal	com	o	mal.</p><p>A	ideia	de	culpa	dominava	suas	elucubrações.	Lembro	a	vocês	que	culpa	e</p><p>dívida	são	sinônimos.	O	velho	Padre	Nosso	dizia	perdoai	as	nossas	dívidas</p><p>e	não	eram	os	“pagareis”	que	firmávamos,	e	sim	nossas	culpas.	Em	alemão</p><p>Schuld	 tem	 também	 esse	 duplo	 significado.	 Isso	 impunha	 um	 pequeno</p><p>limite	à	pena,	exigia	certa	proporção	com	a	censura	da	culpa.</p><p>E	 como	 a	 mulher	 era	 inferior,	 era	 menos	 inteligente	 que	 o	 homem,</p><p>devia</p><p>ser	 menos	 culpável	 e,	 por	 conseguinte,	 merecer	 pena	 menor.	 Os</p><p>juristas	 as	 consideravam	 como	 meninas,	 em	 permanente	 estado	 de</p><p>imaturidade.	No	entanto,	os	inquisidores	não	se	atinham	à	culpa,	e	sim	ao</p><p>grau	de	perigo	que	as	bruxas	e	Satã	representavam,	que	colocava	em	risco</p><p>a	humanidade.	Para	os	demonólogos	havia	uma	emergência	gravíssima	e</p><p>nada	devia	obstaculizar	a	repressão	preventiva.	Aqui	surgiu	uma	questão</p><p>que	 até	 hoje	 não	 foi	 solucionada:	 a	 pena	 se	 fixa	 pela	 culpa	 ou	 pela</p><p>periculosidade?	 Os	 penalistas	 continuam	 discutindo	 a	 incoerência	 com</p><p>paliativos,	enquanto	os	juízes	decidem	o	que	lhes	parece.</p><p>Como	 vemos,	 a	 Idade	 Média	 está	 presente.	 Em	 seu	 tempo,	 isso	 se</p><p>resolveu	argumentando	que	o	pacto	satânico	era	um	crime	mais	grave	que</p><p>o	pecado	original,	porque	neste	Adão	e	Eva	haviam	sido	enganados,	mas</p><p>o	 pacto	 com	 Satã	 se	 celebrava	 com	 vontade	 plena,	 com	 consciência	 do</p><p>mal	e,	ademais,	era	uma	traição,	para	com,	nada	menos,	a	cidade	de	Deus,</p><p>com	o	qual	havia	que	seguir	a	tradição	germânica.	Cabe	fazer	notar	que	os</p><p>germânicos	 eram	 mais	 ecológicos,	 porque	 não	 danificavam	 as	 árvores,</p><p>enquanto	os	inquisidores	queimavam	sua	madeira.	O	certo,	porém,	é	que</p><p>este	 modelo	 marcou	 a	 estrutura	 de	 todos	 os	 discursos	 posteriores</p><p>legitimadores	 de	 massacres.	 Por	 isso,	 será	 necessário	 deter-se	 na	 análise</p><p>dessa	estrutura.</p><p>Ilustração	5</p><p>4.	A	estrutura	inquisitorial</p><p>Os	 demonólogos	 elaboraram	 um	 discurso	 muito	 bem	 armado	 para</p><p>liberar	seu	poder	punitivo	de	 todo	e	qualquer	 limite,	em	função	de	uma</p><p>emergência	 desencadeada	 por	 Satã	 e	 seus	 seguidores,	 em	 combinação</p><p>com	as	moças	terrenas.	Por	certo	que	se	alguém	sustentasse,	hoje	em	dia,</p><p>esta	tese	seria	inevitavelmente	psiquiatrizado.	Não	podemos,	porém,	ficar</p><p>na	 anedota,	 porque,	 embora	 pareça	 mentira,	 a	 estrutura	 demonológica</p><p>mantém-se	até	o	presente.	Os	discursos	têm	uma	estrutura	e	um	conteúdo.</p><p>Trata-se,	 digamos,	 de	 algo	 parecido	 a	 um	 programa	 de	 computação</p><p>alimentado	 com	 os	 livros	 de	 uma	 biblioteca.	 Podemos	 carregar	 o</p><p>programa	com	livros	esotéricos	e	 teremos	uma	biblioteca	dessa	natureza,</p><p>mas	 também	 podemos	 esvaziar	 seu	 conteúdo	 e	 recarregá-lo	 com	 outros</p><p>livros	e	teremos	bibliotecas	de	medicina,	física,	química,	história,	ou	o	que</p><p>quer	 que	 seja.	 Pois	 bem:	 o	 que	 permanece	 do	 discurso	 inquisitorial	 ou</p><p>demonológico	 não	 é	 o	 conteúdo,	 e	 sim	 justamente	 o	 programa,	 a</p><p>estrutura.</p><p>Ao	longo	dos	séculos	o	mesmo	programa	foi	esvaziado	e	voltou	a	ser</p><p>alimentado	 com	 outras	 informações,	 com	 dados	 de	 novas	 emergências,</p><p>críveis	 segundo	 as	 pautas	 culturais	 de	 cada	 momento:	 deixou-se	 de	 se</p><p>acreditar	 em	Satã	 e	 suas	meninas,	mas	passou-	 se	 a	 acreditar	 em	outras</p><p>coisas,	 que,	 hoje,	 tampouco	 são	 críveis,	 ainda	 que	 se	 continue</p><p>alimentando	o	programa	com	dados	que	hoje	são	críveis	e	amanhã	serão</p><p>não	tão	críveis	quanto	Satã,	suas	legiões	de	diabos	e	suas	mulheres.</p><p>Desde	 a	 Inquisição	 até	 hoje	 os	 discursos	 foram	 se	 sucedendo	 com</p><p>idêntica	 estrutura:	 alega-se	 uma	 emergência,	 como	 uma	 ameaça</p><p>extraordinária	 que	 coloca	 em	 risco	 a	 humanidade,	 quase	 toda	 a</p><p>humanidade,	a	nação,	o	mundo	ocidental	etc.,	e	o	medo	da	emergência	é</p><p>usado	 para	 eliminar	 qualquer	 obstáculo	 ao	 poder	 punitivo	 que	 se</p><p>apresenta	 como	 a	 única	 solução	para	 neutralizá-lo.	 Tudo	 o	 que	 se	 quer</p><p>opor	ou	objetar	a	esse	poder	é	também	um	inimigo,	um	cúmplice	ou	um</p><p>idiota	 útil.	 Por	 conseguinte,	 vende-se	 como	 necessária	 não	 somente	 a</p><p>eliminação	 da	 ameaça,	 mas	 também	 a	 de	 todos	 os	 que	 objetam	 ou</p><p>obstaculizam	o	poder	punitivo,	em	sua	pretensa	tarefa	salvadora.</p><p>É	evidente	que	o	poder	punitivo	não	se	dedica	a	eliminar	o	perigo	da</p><p>emergência,	e	sim	a	verticalizar	mais	ainda	o	poder	social;	a	emergência	é</p><p>apenas	o	elemento	discursivo	legitimador	de	sua	falta	de	contenção.</p><p>Isso	 se	 verifica	 ao	 longo	 de	 cerca	 de	 800	 anos	 de	 sucessivas</p><p>emergências,	algumas	das	quais	implicavam	certo	perigo	real,	mas	o	poder</p><p>punitivo	 nunca	 eliminou	 nenhum	 desses	 perigos.	 Satã	 está	 um	 pouco</p><p>cabisbaixo,	 com	 seu	 tridente	 sem	 ponta	 e	 sua	 cauda	 quebrada;	 o</p><p>alcoolismo	 continua	 fazendo	 estragos;	 as	 drogas	 se	 expandem	 cada	 dia</p><p>mais;	 a	 sífilis	 foi	 resolvida	 com	 a	 penicilina;	 a	 tuberculose	 com	 a</p><p>estreptomicina;	 os	 hereges	 fizeram	 suas	 igrejas	 nacionais;	 a	 degeneração</p><p>da	 espécie	 e	 o	 perigo	 das	 raças	 inferiores	 passaram	 a	 ser	 uma	 grande</p><p>mentira;	 as	 bruxas	 continuam	 cozinhando	 seus	 cozidos	 esquisitos	 e	 no</p><p>máximo	 criam	 algum	 problema	 bromatológico.	 Os	 perigos	 foram</p><p>inventados	ou	mesmo	quando	eram	reais	desapareceram	por	outros	meios</p><p>ou	permanecem,	e	até	se	ampliam,	mas,	ao	 longo	de	800	anos,	o	poder</p><p>punitivo	jamais	eliminou	um	risco	real.</p><p>Diriam	 no	 meu	 bairro	 que	 o	 discurso	 inquisitorial	 sempre	 foi,	 e</p><p>continua	 sendo,	 um	 modo	 de	 colocar	 a	 corda	 no	 pescoço.	 Mais</p><p>academicamente,	 diríamos	 que	 é	 um	 imenso	 engano,	 uma	 tremenda</p><p>fraude	 e	 que	 o	 poder	 punitivo,	 ao	 projetar-se	 na	 opinião	 das	 pessoas</p><p>como	 o	 remédio	 para	 tudo,	 não	 é	 mais	 do	 que	 o	 delito	 máximo	 da</p><p>propaganda	desleal	da	nossa	civilização.</p><p>Trata-se	do	instrumento	discursivo	que	proporciona	a	base	para	criar</p><p>um	estado	de	paranoia	coletiva	que	serve	para	aquele	que	opera	o	poder</p><p>punitivo	o	exerça	sem	nenhum	limite	e	contra	quem	lhe	incomoda.</p><p>Por	 desgraça,	 porém,	 quando	 aparece	 um	 discurso	 com	 estrutura</p><p>inquisitorial	e	ninguém	detém	sua	instalação,	a	consequência	última	é	um</p><p>massacre.	 Assim	 aconteceu	 com	 as	mulheres	 queimadas,	 com	 as	 vítimas</p><p>das	 máfias	 e	 da	 corrupção	 produzidas	 pela	 proibição	 do	 álcool	 e	 das</p><p>drogas;	com	os	inimigos	do	Ocidente	cristão	massacrados	pela	segurança</p><p>nacional	ou	pelo	franquismo;	com	os	doentes	e	incapacitados	esterilizados</p><p>ou	 assassinados	 pela	 eugenia;	 com	 a	 eliminação	 nos	 campos	 de</p><p>concentração	nazistas,	e	com	muitos	milhões	de	pessoas,	mas	já	estou	me</p><p>metendo	com	a	palavra	dos	mortos,	que	é	questão	que	deixo	para	mais</p><p>adiante.</p><p>Vejamos	 agora	 como	 os	 demonólogos	 instalaram	 essa	 estrutura</p><p>discursiva	 originária	 que	 permanece	 intocável	 até	 o	 presente.	 O	 certo	 é</p><p>que	esses	pioneiros	foram	muitos	e	escreveram	uma	quantidade	de	livros</p><p>muito	 sofisticados.	 A	 criminologia	 não	 registra	 os	 nomes	 de	 seus</p><p>fundadores,	 porque	 os	 nega,	 como	 esses	 antepassados	 piratas,</p><p>contrabandistas	 ou	 escravistas	 a	 quem	 todos	 ocultam	 e	 ninguém</p><p>reconhece.</p><p>Não	vale	 a	pena	 resgatar	 todos	eles,	porque	de	qualquer	modo	não</p><p>creio	que	nenhum	instituto	de	criminologia	de	nossos	dias	queira	ostentar</p><p>algum	desses	nomes.	Para	quem	se	interessa	pelo	tema,	vale	a	pena	dizer</p><p>que	há	uma	antologia	bem	feita.	Para	nossos	efeitos,	é	melhor	centrarmos</p><p>na	obra	tardia,	porém	sintética,	que	consagra	a	autonomia	da	criminologia</p><p>em	 relação	 ao	 direito	 penal,	 expondo	 pela	 primeira	 vez,	 de	 forma</p><p>orgânica,	 uma	 completa	 teoria	 sobre	 a	 origem	 do	 crime,	 ou	 seja,	 uma</p><p>exposição	 da	 chamada	 etiologia	 criminal.	 Trata-se	 do	 Malleus</p><p>maleficarum	ou	Martelo	das	bruxas,	de	1484.</p><p>Ilustração	6</p><p>A	esse	respeito	–	e	entre	parênteses	–	é	bom	recordar	que	a	inquisição</p><p>romana	 teve	seu	esplendor	nos	 tempos	 feudais,	mas,	quando	os	Estados</p><p>nacionais	se	organizaram	como	monarquias	fortes,	estas	reclamaram	para</p><p>si	 seus	poderes	punitivos	e	os	 foram	retirando	do	Papa,	de	modo	que	a</p><p>tarefa	de	queimar	mulheres	passou	a	ser	desempenhada	por	juízes	estatais,</p><p>dependentes	 dos	monarcas	 e	 príncipes,	 alguns	 dos	 quais	 não	 reduziram</p><p>seu	entusiasmo	pela	combustão.	Continuaram	queimando	mulheres	até	o</p><p>século	XVIII,	porém	pelos	Estados,	em	um	momento	em	que	o	Papa	não</p><p>se	ocupava	mais	das	mulheres	mas	sim	dos	luteranos	e	reformados.	Desde</p><p>o	 século	 XV,	 ou	 seja,	 com	 a	 chamada	 Contra-Reforma,	 a	 inquisição</p><p>romana	 se	 dedicava	 a	 estes	 últimos	 e	 não	 conferia	 nenhuma</p><p>ênfase	 às</p><p>mulheres.</p><p>De	qualquer	maneira,	os	juízes	estatais	da	Europa	central	continuaram</p><p>usando	 como	manual	 o	Martelo	das	 bruxas,	 que	 se	 encontrava	 no	 guia</p><p>oficial	 dos	 queimadores	 de	 mulheres	 desde	 5	 de	 setembro	 de	 1494,</p><p>quando	o	tenebroso	Papa	Inocêncio	VIII	o	consagrou	como	tal,	mediante</p><p>a	bula	Summis	desiderantes	affectibus.</p><p>O	 Martelo	 foi	 escrito	 por	 dois	 inquisidores	 muito	 particulares:	 o</p><p>alsaciano	Heinrich	Krämer	e	o	 suíço-alemão	 Jakob	Sprenger.	Este	último</p><p>era	um	sujeito	de	vida	monacal,	que	fazia	aparições	e	tinha	fama	de	beato.</p><p>1.</p><p>Já	Krämer	 –	 também	conhecido	 como	 Institoris	 (que,	 em	 latim,	 significa</p><p>quitandeiro,	o	mesmo	que	Krämer	em	alemão)	–	era	mais	problemático,</p><p>pois	o	bispo	o	suspendeu	de	suas	funções	porque,	em	seu	afã	incendiário,</p><p>estava	deixando	a	diocese	 sem	mulheres	 e,	 além	disso,	 segundo	as	más</p><p>línguas,	 se	 havia	 envolvido	 com	 dinheiro	 de	 indulgências.	 Embora	 seja</p><p>discutível,	 também	 parece	 que	 falsificou	 a	 recomendação	 do	 pequeno</p><p>manual	por	parte	da	Universidade	de	Colônia,	para	atribuir-lhe	maior	base</p><p>acadêmica.</p><p>O	certo	é	que	esses	dois	personagens	produziram	essa	obra	singular,</p><p>que	 foi	um	best-seller	 durante	 duzentos	 anos,	 tempo	no	 qual	 foi	 o	 livro</p><p>mais	publicado	depois	da	Bíblia.	Como	dado	curioso,	devo	advertir	que,</p><p>se	alguém	hoje	quiser	lê-lo	em	espanhol	ou	português,	deve	buscá-lo	nas</p><p>seções	de	livros	esotéricos	das	livrarias.</p><p>Sua	leitura	é,	às	vezes,	entediante,	mas	não	podemos	deixar	de	pensar</p><p>que	se	trata	de	dois	delirantes	com	fixações	sexuais	insólitas.	A	verdade	é</p><p>que	para	ter	uma	ideia	completa	do	universo	cultural	da	Idade	Média	não</p><p>se	pode	prescindir,	 evidentemente,	de	Dante,	mas	 tampouco	do	Malleus</p><p>maleficarum.	 Uma	 mesma	 época	 produziu	 um	 poeta	 sublime	 como</p><p>Alighieri	 e	 dois	 delirantes	 alucinados,	 como	 Sprenger	 e	 Krämer.	 Talvez</p><p>hoje	aconteça	a	mesma	coisa.</p><p>O	delírio	está	muito	bem	sistematizado	e	é	a	primeira	vez	na	história</p><p>que	se	construiu	uma	obra	que	integrou,	em	um	único	sistema	harmônico,</p><p>a	 criminologia	 (origem	 do	 mal)	 com	 o	 direito	 penal	 (manifestações	 do</p><p>mal),	 com	 o	 processo	 penal	 (como	 se	 investiga	 o	 mal)	 e	 com	 a</p><p>criminalística	(dados	para	descobrir	na	prática	o	mal).	A	elaboração	é,	por</p><p>conseguinte,	 bastante	 sofisticada.	 Como	 o	 conteúdo	 com	 o	 qual</p><p>preencheram	 a	 estrutura	 que	 lhes	 dava	 fundamento	 é	 para	 nós	 tão</p><p>disparatado,	 tem	 a	 vantagem	 de,	 em	 razão	 dessa	 tremenda	 distância</p><p>temporal	 e	 cultural,	 nos	 permitir	 ver	 com	 maior	 clareza	 os	 principais</p><p>núcleos	 estruturais	 que	 permanecem	 até	 a	 atualidade	 desde	 a	 própria</p><p>origem	da	criminologia.	Por	isso,	repassá-los	não	é	um	mero	divertimento,</p><p>mas	sim	uma	constatação	de	sua	permanência	através	dos	séculos.	Passo	a</p><p>assinalar	vinte	destes	núcleos,	embora	advirta	que	há	mais,	mas	não	quero</p><p>aborrecer	vocês.</p><p>O	 crime	 que	 provoca	 a	 emergência	 é	 o	mais	 grave	 de	 todos.	 Como</p><p>vimos,	 os	 inquisidores	 afirmavam	 que	 era	 mais	 grave	 que	 o	 pecado</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>original.	Outros	se	sucederam	no	tempo:	subversão,	terrorismo,	uso	de</p><p>tóxicos	etc.	A	gravidade	do	crime	é	exaltada	ao	máximo	porque	dela</p><p>depende	o	grau	de	perigo	da	emergência	e	do	poder	correspondente</p><p>do	repressor.</p><p>A	emergência	só	pode	ser	combatida	mediante	uma	guerra,	ou	seja,	a</p><p>linguagem	 não	 pode	 ser	 senão	 bélica.	 Os	 autores	 pretendem	 saber</p><p>como	 estavam	 organizadas	 as	 hostes	 de	 Satã	 –	 porque,	 supomos,</p><p>haviam	conseguido	infiltrar	algum	agente	disfarçado	no	inferno.	Bush</p><p>e	Obama	sempre	disseram	o	mesmo,	e	sem	dar	margem	a	dúvidas	o</p><p>primeiro	 usou	 o	 mesmo	 procedimento	 para	 descobrir	 as	 armas</p><p>químicas	no	Iraque,	que	Satã	logo	fez	desaparecer.</p><p>Sua	 frequência	 é	 alarmante.	Diziam	que	a	Alemanha	estava	 cheia	de</p><p>bruxas,	mais	do	que	qualquer	outro	país.	É	o	mesmo	que	nos	dizem</p><p>pela	televisão,	todos	os	dias	e	todas	as	horas:	em	nosso	país	há	mais</p><p>crimes	que	em	qualquer	outro	(nosso	país	pode	ser	qualquer	um	em</p><p>que	houver	uma	televisão).</p><p>O	pior	criminoso	é	quem	duvida	da	emergência.	Quando	alguém	pede</p><p>números	 e	 duvida	 da	 gravidade	 e	 da	 frequência	 corre	 sérios	 riscos,</p><p>porque	 se	erige	em	 inimigo,	não	da	 sociedade	nem	da	humanidade,</p><p>mas	sim	daquele	que	exerce	o	poder	punitivo.	Embora	hoje	 “pegue”</p><p>mal	que	ele	seja	queimado,	como	Sprenger	e	Krämer	postulavam,	não</p><p>duvido	que	muitos	lamentem	que	os	tempos	tenham	mudado.</p><p>Qualquer	 fonte	 de	 autoridade	 que	 diga	 o	 contrário	 deve	 ser</p><p>neutralizada.	Nos	 tempos	dos	 inquisidores	havia	um	cânone	–	 isto	é,</p><p>uma	lei	muito	antiga	–,	o	Canon	episcopi,	que	se	referia	a	uma	seita	de</p><p>mulheres	(as	filhas	de	Diana)	que	existira	muitos	anos	antes	e	que	não</p><p>lhes	atribuía	nenhum	poder	maléfico	e	negava	que	pudessem	voar.	É</p><p>claro	que	um	 texto	 venerável	 dessa	natureza	 é	um	obstáculo	para	o</p><p>discurso,	 como	 também	 o	 pode	 ser	 uma	 verificação	 científica	 ou</p><p>fundada	com	seriedade.</p><p>Quando	se	produz	esse	fenômeno	há	três	soluções	discursivas:	a	fonte</p><p>é	falsa	(por	exemplo:	o	planeta	não	está	aquecendo,	os	cientistas	que</p><p>afirmam	o	contrário	não	sabem	nada	ou	 falseiam	a	realidade),	mas	é</p><p>verdadeira	 se	 se	 refere	 a	 outra	 coisa	 (as	 filhas	 de	 Diana	 não	 eram</p><p>como	 as	 bruxas	 alemãs;	 os	 ladrões	 de	 antes	 eram	 bons	 e</p><p>cavalheirescos,	não	como	os	de	agora;	os	anarquistas	não	eram	como</p><p>os	subversivos	etc.)	ou	a	interpreta	mal	(o	Canon	não	diz	exatamente</p><p>6.</p><p>7.</p><p>8.</p><p>9.</p><p>isso,	 o	 que	 os	 técnicos	 dizem	 é	 outra	 coisa,	 há	 que	 fazer	 distinções</p><p>etc.).</p><p>Para	Sprenger	e	Krämer,	as	bruxas	voavam	mesmo,	e	se	não	tivessem</p><p>voado	e	só	provocavam	uma	 ilusão,	elas	deveriam	ser	queimadas	da</p><p>mesma	maneira	porque	compactuavam	com	Satã	e	pronto.</p><p>A	valoração	dos	 fatos	 se	 inverte	por	 completo.	É	o	que	muitos	 anos</p><p>depois	Merton	chamará	de	alquimia	moral.	Se	a	bruxa	não	confessava,</p><p>a	 despeito	 de	 ser	 brutalmente	 torturada,	 era	 porque	 Satã	 lhe	 dava</p><p>forças;	 se,	desesperada,	enforcava-se,	era	porque	Satã	a	havia	 levado</p><p>para	 que	 não	 confesasse	 e	 se	 salvasse	 no	 mais	 além	 (porque,	 ainda</p><p>que	 confessasse,	 seria	morta	de	qualquer	 forma).	 Se	 ela	 enlouquecia</p><p>com	a	tortura	e	ria,	era	porque	Satã	fazia	pouco	dos	inquisidores.	Nada</p><p>muda:	 se	 os	 presos	 estudam	 é	 para	 delinquir	 melhor,	 se	 se</p><p>arrependem	são	dissimulados,	se	matam	uns	aos	outros	é	porque	são</p><p>criminosos,	 se	 alguém	 pede	 uma	 trégua	 está	 simulando	 para	 contra-</p><p>atacar.</p><p>O	delírio	serve	de	pretexto	para	encobrir	muitos	delitos.	Se	um	padre</p><p>estava	 observando	 o	 pênis	 de	 um	 penitente,	 era	 porque	 tentava</p><p>convencê-lo	 de	 que	 não	 o	 havia	 perdido	 por	 obra	 de	 um</p><p>encantamento;	se	outro	aparece	nu	dentro	de	um	celeiro,	contará	que</p><p>Satã	o	 levou	a	um	banquete	e,	como	não	quis	 jurar-lhe	 fidelidade,	o</p><p>lançou	ali;	se	um	homem	santo	é	encontrado	debaixo	da	cama	de	uma</p><p>mulher,	será	porque	Satã	se	apoderou	de	seu	corpo	para	se	esconder.</p><p>Quando	um	investigador	é	surpreendido	num	lugar	suspeito,	até	hoje</p><p>costuma	se	dizer	que	ele	estava	se	infiltrando;	o	terrorismo	também	é</p><p>útil	para	eliminar	aos	maridos	incômodos	das	amantes	etc.</p><p>As	 imagens	 dirigentes	 são	 imaculadas:	 isso	 os	 levava	 ao	 extremo	 de</p><p>sustentar	 que	 os	 anjos	 e	 Jesus	 não	 completavam	 o	 processo</p><p>alimentício,	 isto	 é,	 não	 defecavam,	 e	 sim	 dissolviam	 o	 alimento	 no</p><p>estômago.	 A	 pureza	 dos	 líderes	 em	 toda	 emergência	 é	 algo	 que	 se</p><p>cuida	com	singular	esmero,	em	especial	sua	correção	sexual.	Para	os</p><p>inquisidores,	os	diabos	nem	sequer	tinham	orgasmos	(porque,	no	final,</p><p>também	eram	anjos),	ou	seja,	eles	copulavam	com	as	bruxas	só	para</p><p>fazer	o	mal;	eram	uma	espécie	de	sadomasoquistas	inorgásmicos.</p><p>Os	 inimigos	 são	 inferiores.	 A	 misoginia	 do	 Malleus	 é	 extrema:	 a</p><p>mulher	 é	 biológica	 e	 geneticamente	 inferior,	 o	 que	 era	 comprovado</p><p>com	alentadas	 citações	 em	que	misturavam	 indistintamente	pagãos	 e</p><p>10.</p><p>11.</p><p>12.</p><p>13.</p><p>padres	 da	 Igreja.	 Quase	 todas	 as	 emergências	 são	 promovidas	 por</p><p>inferiores	na	história	posterior:	mestiços,</p>

Mais conteúdos dessa disciplina