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Prévia do material em texto

Eugenio Raúl Zaffaroni
A questão
criminal
Tradução
Sérgio Lamarão
Revisão da tradução
Antonio Almeida
Editora Revan
Copyright © 2013 by Editora Revan
Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios
mecânicos, eletrônicos ou via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
Revisão
Roberto Teixeira
Antonio Almeida
Capa
Sense Design & Comunicação
(Com ilustrações de Rep)
Impressão e acabamento
(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica,
em tipos Garamond 11/13)
Divisão Gráfica da Editora Revan
Produção de ebook
S2 Books
CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Z22q
Zaffaroni, Eugenio Raúl, 1940-
A questão criminal / Eugenio Raúl Zaffaroni; tradução Sérgio Lamarão. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Revan, 2013.
il.; 320p.; 23 cm
Tradução de: La cuestión criminal
ISBN 978-85-7106-504-8
1. Criminologia. 2. Direito penal - Brasil. 3. Crimes e criminosos. I. Título.
13-04452 CDU: 343.2
22/08/2013 26/08/2013
Ilustração 1
A tradução dos textos inseridos nas ilustrações está na página "Tradução de textos das ilustrações".
1. A academia, os meios de comunicação e os mortos[1]
Em qualquer lugar da superfície deste planeta fala-se da questão criminal. É quase a
única coisa de que se fala – em concorrência com o futebol, que é arte complexa –, embora
poucos pareçam se dar conta de que machucamos muito o planeta e podemos lhe provocar
um espirro que nos projete violentamente a quem sabe onde (para não usar alguma
expressão pouco acadêmica). Fala-se, diz-se, com esse “se” impessoal do palavrório. E o
mais curioso é que quase todos acreditam ter a solução ou, pelo menos, emitem opiniões.
Claro que se fala ao compasso de julgamentos assertivos em tom sentenciador, emitidos
pelos meios de comunicação de massa, estes às vezes nas mãos de grandes corporações
transnacionais, enredadas com outras que disputam o poder aos Estados, bastante
impotentes, do mundo globalizado.
É indispensável escutar o que se fala para não se ficar falando sozinho, como costuma
acontecer no mundo acadêmico. E em nosso país, e nos outros por onde às vezes me
desloco, fala-se da questão criminal como de um problema local. As soluções passam por
condenar um ou outro personagem ou instituição, mas sempre falando de um problema
local, nacional, estadual, às vezes quase municipal.
Poucos se dão conta de que se trata de uma questão mundial, na qual se está jogando o
âmago mais profundo da forma futura de convivência e talvez, inclusive, do próprio destino
da humanidade nos próximos anos, que pode não estar isento de erros fatais e irreversíveis.
Se ficamos no plano da análise local, perdemos o mais profundo da questão, porque
olhamos as peças sem compreender as jogadas do tabuleiro de um xadrez macabro, no qual
se joga, em definitivo, o destino de todos.
Quando nos limitamos a esses julgamentos, ficamos presos à Doña Rosa
http://es.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Neustadt. É claro que se deve resolver o problema da
Doña Rosa, mas a armadilha do velho comunicador dos festivos anos 1990 consistia em nos
encerrar no problema de Doña Rosa. Devo esclarecer que sempre me ofendi com aquela
menção a Doña Rosa, por me lembrar de minha avó materna, que se chamava Rosa e vivia
em um bairro – como eu sempre fiz – e pensava muito mais e melhor do que o personagem
de ficção com o qual o artífice da comunicação dos anos irresponsáveis sintetizava sua
argumentação enganosa.
Quando se abriu a possibilidade de escrever esses suplementos, confesso que me senti
seriamente desafiado. Em todo o mundo acadêmico, os dedicados ao tema observam e
criticam o fenômeno da centralização da questão criminal, e o fazem, inclusive, com
diagnósticos muito bons. Nenhum dos conceitos expostos nesses suplementos foi concebido
no plano científico por minha exclusiva criatividade, longe disso.
Porém, se tudo fica no mundo acadêmico, parece que não temos capacidade de
comunicá-lo ou, melhor dizendo, parece que a comunicação é contaminante, que a pureza
científica deve ser mantida à margem da comunicação, que perdemos nível acadêmico
quando pretendemos explicar algo a isso que hoje chamam o público, sem que nos
apercebamos de que o público somos nós quando nos dói o fígado, ou quando saímos para
comprar pães.
É claro que o pensamento acadêmico, universitário, é importante, mas creio que chegou
a hora de comunicá-lo. As borlas doutorais, as togas e os punhos (esclareço que se assim se
denomina as extremidades ornadas das mangas das togas dos catedráticos) de pouco servem
quando se fala do que todos sabem, segundo o que lhes dizem as grandes corporações
midiáticas do mundo, incluindo muitos políticos – oportunistas alguns, propulsores
conscientes de um novo totalitarismo outros, amedrontados e tremendo diante das
corporações midiáticas os demais.
Não estamos diante de fenômenos apenas locais, nacionais, estaduais nem municipais,
mas sim diante de problemas que podemos resolver apenas em parte nesses níveis, e que
integram uma trama mundial. Insisto. Se não compreendemos essa trama, moveremos
sempre mal as peças, perderemos partida após partida. Devemos fazer o maior esforço para
impedir que isso aconteça, porque, no fundo, estamos diante de uma encruzilhada
civilizatória, uma opção de sobrevivência, de tolerância, de coexistência humana.
Vivemos um momento de poder planetário que é a globalização, que sucede ao
colonialismo e ao neocolonialismo. Cada momento, nesse contínuo do curso do poder
planetário, foi marcado por uma revolução: a mercantil do século XIV, a industrial do século
XVIII e, agora, a tecnológica do século XX, que se projeta para o século atual. Esta última
revolução, a tecnológica, é fundamentalmente comunicacional. Se não compreendermos isso
e nos deixarmos ficar em nossos guetos acadêmicos, o serviço que prestarmos será muito
pobre.
Há um mundo que as pessoas comuns não conhecem, que se desenvolve nas
universidades, nos institutos de pesquisa, nas associações internacionais regionais e
mundiais, nos foros e nas pós-graduações, com uma literatura imensa, que alcança
proporções siderais, de dimensão tamanha que ninguém pode dominar individualmente. É o
mundo dos criminólogos e dos penalistas. As corporações os ignoram e quando lhes cedem
algum espaço, os técnicos se expressam em seu próprio dialeto, incompreensível para o
resto dos humanos.
O desafío consiste em abrir esses conhecimentos, não para pontificarmos a partir da
ciência com a solução, nem para sermos os iluminados que, corrigindo o velho Platão,
pretendemos nos colocar como um criminólogo-rei, mas sim para mostrarmos o que se
pensa e o que se sabe até agora. E também para fazer a autocrítica do que dizemos, porque,
certamente, tampouco temos uma história e uma genealogia feitas somente de prestígio,
dado que, muitas vezes, nossos colegas legitimaram o ilegitimável até limites inacreditáveis.
Imaginemos o que aconteceria caso se procedesse com o mesmo critério em outros
âmbitos, como por exemplo, no da medicina. Se, numa mesa de bar, alguém defendesse a
teoria dos humores, é provável que os demais o olhassem com ironia. Porém, como a
liberdade é livre, é claro que qualquer um pode continuar defendendo a teoria dos humores
na mesa de bar; ninguém discute esse direito à expressão.
No entanto, seria grave se a teoria dos humores fosse divulgada como discurso único
pelos meios de comunicação, se se desprestigiasse ou menosprezasse a quem dissesse algo
diferente, se os pesquisadores médicos e biólogos ficassem isolados com seus discursos em
seus institutos, se a autoridade sanitária e os políticos que fazem as leis acreditassem na
opinião do bar e não na que os médicos poderiam dizer, ou, pior ainda, se os próprios
médicos fizessem calar a quem negasse a teoria dos humores porque isso lhes gera um
perigo político. É óbvio que o índice de mortalidade subiria de forma alarmante.
Pois bem, omesmo acontece com a questão criminal: aumentam os mortos no mundo.
Afirmam-se opiniões mais ou menos estranhas, equivalentes à teoria dos humores na
medicina; os políticos e as próprias autoridades difundem ou aceitam essas incoerências e,
lamentavelmente, também aumentam os índices de mortalidade.
Eu não estava em 1811 quando se suprimiram as togas no judiciário – nem sequer na
reforma universitária de 1918, pois não sou nenhum fenômeno da biologia –, mas sei que
não usamos togas nos tribunais nem nos recintos universitários nacionais desde muito antes
que me pusessem a primeira fralda. Contudo, as togas continuam nos pesando e isso não é
admissível na hora da comunicação. Se o campo de batalha é comunicacional, devemos
travar a luta também nesse terreno. Este é o grande desafio. Por isso, devemos arregaçar as
mangas e sair ao campo em que nos desafiam.
O cidadão comum deve saber que há um mundo acadêmico que fala disso, da questão
criminal, que, embora não tenha nenhum monopólio da verdade, pensou e discutiu umas
tantas coisas, que se equivocou muitíssimas vezes e muito feio, mas também aprendeu com
esses erros.
Os médicos também se equivocaram muitíssimas vezes, desde os tempos em que, para
curar as feridas, passavam unguentos sobre a arma que havia causado o dano, até os tempos
mais próximos, em que, para curar os doentes mentais, lhes enfiavam agulhas na cabeça,
mas nem por isso nos colocamos nas mãos dos curandeiros quando nosso apêndice fica
inflamado.
 
Ilustração 2
 
É bem verdade que há diferenças entre a medicina e a ciência penal e criminológica, que
consistem em que esta última trata sempre do poder, o que não é alheio à medicina, mas
pelo menos nesta a relação não é tão linear. Também é certo que inclusive o conceito de
ciência depende do poder que decide quem tem esse status. Por isso, quando se fala de
ciência penal ou de ciência criminológica, pode-se colocar em dúvida o status de ciência,
mas também se diz que a medicina não é uma ciência, e sim uma arte.
Como o mundo acadêmico também se equivoca, tampouco é seguro que o que nele se
fala seja a realidade. A questão da realidade, neste como em tantos outros âmbitos, é algo
muito problemático, em particular quando vivemos numa era midiática, em que tudo se
constrói.
Não vou me meter numa questão que se discute desde os albores da filosofia, porém o
certo é que, na nossa época, o problema da realidade chegou a um ponto tal que não faltou
quem afirmasse que tudo é construído, que não há onde se agarrar.
Mas Baudrillard escrevia na França, não sei se tomava algum aperitivo adocicado em
uma calçada de Paris, e fazia isso antes de Sarkozy e quando ninguém pensava na filha de
Le Pen à frente das pesquisas. Nós estamos aqui, no fundo do mapa ou na parte de cima,
depende de onde se olhe (o norte acima é uma mera convenção; os neozelandeses, certa
feita, fizeram um mapa com o sul acima), porém, por sorte, longe de latitudes hoje mais
perigosas, ainda que com todos os inconvenientes do subdesenvolvimento.
Nós nos achamos, por um lado, com a publicidade midiática das corporações mundiais e
seu discurso único de repressão indiscriminada para com os setores mais pobres ou
excluídos; por outro, com o discurso dos acadêmicos, isolados em seus guetos e falando em
dialeto.
Se, junto com o aperitivo, engolimos as batatinhas fritas e os amendoins e pensamos que
não há nada que possa nos dar um gostinho de realidade, estamos perdidos. Eu não
pretendo ser localista e afirmar que, quando digo nós, me refiro, agora, somente aos latino-
americanos, mas sim que em poucos anos se fez mais que evidente que se não há um
mínimo gostinho de realidade nessas questões, também os franceses estariam perdidos com
Sarkozy e a jovem Le Pen, para não falar dos estadunidenses e seu Tea Party (quando era
pequeno, me lembro que “party” era algo muito mais divertido).
Perón dizia que a única verdade era a realidade, mas as batatinhas fritas e os amendoins
de Baudrillard nos dizem pouco menos que a realidade não existe. Será que isso se aplica à
questão criminal? Não, pelo menos aqui – e não me meto nas outras coisas que dizem
respeito aos filósofos – isso não se aplica. Se eu tivesse perguntado qual é a realidade da
questão criminal à minha avó Rosa – que, insisto, raciocinava muito melhor do que o
comunicador que inventou o personagem –, ela me teria respondido, com toda sabedoria,
que a única realidade nisso tudo são os mortos.
E é isso mesmo, sem dúvida: a única verdade é a realidade, e a única realidade na
questão criminal são os mortos. Não qualquer morto, é claro, porque, de acordo com o que a
estatística demonstra, há quase um morto por pessoa. Como, todavia, alguns ainda não estão
mortos, há uma pequena diferença, o que levou o imortal poeta português Fernando Pessoa
a afirmar que o homem é um cadáver adiado. Evidentemente que não recomendo sua leitura
em casos de bipolaridade (me parece que antes se chamava de alterações ciclotímicas,
maníaco-depressivos melancólicos, agora é mais complicado, mas tampouco me meto em
questões diagnósticas).
Concretamente, o certo é que todos os vivos – isto é, os que vivem – somos adiados, mas
há alguns aos quais não se adia o suficiente, porque são mortos. Estes ficam mudos, porque
costuma se afirmar, peremptoriamente, que os mortos não falam, o que é verdade em
sentido físico, mas, sem dúvida, os cadáveres dizem muitas coisas que esta sonora afirmação
oculta. Vejamos: às vezes chegam a nos dizer até quem matou (pelas pistas que o autor
deixa no cadáver), mas o cadáver nos diz sempre que está morto. Esta é a mais óbvia
palavra dos mortos: dizer-nos que estão mortos. Por isso, quando se afirma que não há
pretexto algum para a realidade na questão criminal, o que na verdade fazemos é emudecer
os mortos, ignorar que nos dizem que estão mortos.
Na minha complicada vida, quando muito jovem, inspecionava hospitais municipais e
conheci algumas pessoas que falavam com os mortos nos necrotérios (com certeza elas
tinham alguns neurônios fora de lugar). Embora não duvide de minha saúde mental, não me
dedico a isso agora, mas a algo bem diferente: trata-se de perguntar que cadáveres
antecipados há nos necrotérios, nas fossas comuns, no mar ou quem sabe onde.
Por isso, o que vou explicar a vocês tem três etapas fundamentais: o que nos foi sendo
dito ao longo da história e o que nos diz hoje em dia a academia (as palavras dos
acadêmicos), o que nos dizem os meios de comunicação (as palavras dos meios de
comunicação) e o que nos dizem os mortos (a palavra dos mortos). Depois veremos se
podemos chegar a alguma conclusão que, da minha parte, adianto: o conjunto nos
recomenda antes de tudo prudência, cautela no uso do poder repressivo, muita cautela.
Este é o programa dessa exposição em sua síntese mais acabada: saber o que nos dizem
os acadêmicos, os meios de comunicação e os mortos. Como posso arregaçar as mangas da
toga, mas não ficar sem ela – porque cada um tem sua deformação profissional dificilmente
controlável, e nunca totalmente anulável –, começarei pelas palavras da academia.
Para entrar no tema, porém, devo explicar algumas questões prévias sem as quais não se
comprende quase nada dos dialetos acadêmicos, porque tampouco há um único dialeto na
questão criminal. Não só há vários dialetos acadêmicos, como também não costumam
entender-se entre si e, mais do que isso, não é raro que se detestem reciprocamente, embora
às vezes não o façam em voz alta. De toda forma, as imputações recíprocas são os temas
preferidos dos congressos e seminários, os matizam e lhes dão sabor.
Mais ainda: quando alguém passa de um para outro grupo e consegue dominar o outro
dialeto, é considerado um traidor ou um perdido, que deixou de ser cientista.
Às vezes a agressividade alcança níveis cômicos, mas que podem se tornar dramáticos,
como quando nos anos setenta do – por sorte – século passado, segundo a posição do dolo
na teoria do delito, que então pretendia descobrir subversivos. Vocês sabem qual é a posição
do dolo no delito? Podemficar tranquilos, viver os anos de Matusalém sem sabê-lo e sem que
sua existência se altere minimamente, mas o certo é que há quatro décadas a coisa podia
terminar muito mal.
Longe de constituir uma crítica negativa, esta é a pura descrição da realidade do mundo
acadêmico por dentro e, da minha parte, creio que é um dado positivo, apesar de seus
inconvenientes, porque demonstra o quanto o debate é vivo, a paixão que se coloca, a
intensidade das discussões.
Tampouco se trata de uma característica contemporânea, nada disso: foi sempre assim.
A história, a tradição oral, os relatos divertidos dos mais velhos e o que vivemos diretamente
nos confirmam. Quem participa desse mundo não se aborrece, posso lhes assegurar que
permite conhecer personalidades notáveis, gente com uma capacidade de trabalho e uma
sensibilidade e inteligência tais que, se se dedicassem a algo com maior rating, teriam se
sobressaído em qualquer âmbito.
Mas não se alarmem. Meu propósito é traduzir esses dialetos a uma linguagem
compreensível para os mortais. Espero ter êxito e que não me aconteça o que acontece a
alguns tradutores, que terminam escrevendo espanhol com a estrutura da língua original.
Devo confessar que me sinto muito mais seguro por ter o cartunista Rep a meu lado.
Dentro de pouco lhes explicarei a função da arte na criação de estereótipos, e creio que é
necessário combater no mesmo campo para desfazer essa construção. Por outra parte, estou
seguro de que os desenhos de Rep perdurarão muito mais do que aquilo que eu digo.
Quando há pouco li que Ferro havia falecido,[2] voltaram à minha memória Langostino,
Bólido, o fantasma Benito, Tara Service, o Livro de Ouro de Patoruzú. Eles estão vivos em
mim desde a infância, mas faz tempo que os que escreviam sobre a questão criminal
naqueles anos são só história.
2. Quem sabe disso?
Voltando, porém, ao programa das três palavras (da academia, dos meios de
comunicação e dos mortos), se queremos começar pelas da academia, a primeira coisa que
devemos saber é a quem perguntar. Quem se ocupa academicamente da questão criminal? O
primeiro movimento será olhar para a Faculdade de Direito. Ali estão e dali são os
penalistas. Sabem direito penal. Sem dúvida que é algo que tem a ver com a questão
criminal. Mas até que ponto?
A ideia de que o penalista é o mais autorizado para proporcionar os conhecimentos
científicos acerca da questão criminal é uma opinião popular, mas não científica. Nem de
longe basta saber direito penal para poder opinar com fundamento científico acerca da
questão criminal, ainda que, se o conhece bem, pode fazer muito para resolver numerosos
aspectos fundamentais na prática, mas isso é outra coisa.
É necessário distinguir dois âmbitos do conhecimento que são muito diferentes, embora
costumem ser confundidos: o do penalista e o do criminólogo, ou seja, o direito penal, por
um lado, e a criminologia, por outro.
Esclareço desde já que não se dão nada bem, mas não se podem separar, e ainda que
declarem estar divorciados, são como esses casais que se excitam discutindo e terminam
como todos nós sabemos. Nos casais é patológico, claro, mas no que concerne ao direito
penal e à criminologia talvez seja um pouco menos.
O que fazem os penalistas? Antes de tudo são juristas, advogados. O direito se divide em
ramos: civil, comercial, trabalhista, administrativo, constitucional etc., e cada dia se
especializa mais e mais. Hoje não há quem lide com todo o direito em profundidade, como
não há médico algum que domine todas as especialidades. O direito penal é um desses
ramos, que se ocupa de trabalhar a legislação penal, para projetar o que chamamos de
doutrina jurídico-penal, isto é, para projetar a forma em que os tribunais devem resolver os
casos de maneira ordenada, não contraditória.
De maneira mais sintética, eu diria que a ciência do direito penal que se ensina nas
cátedras universitárias de todo o mundo se ocupa de interpretar as leis penais de modo
harmônico para facilitar a tarefa dos juízes, promotores e defensores. Seu trabalho consiste
basicamente na interpretação de textos com um método bastante complexo, que se chama
dogmática jurídica, porque cada elemento em que a lei é decomposta deve ser respeitado
como um dogma, visto que, do contrário, não interpretariam a lei, mas sim a criariam ou a
modificariam.
A tarefa do penalista é fundamental para que os tribunais não resolvam arbitrariamente
o que lhes for conveniente, e sim conforme uma ordem mais ou menos racional, ou seja,
republicana e algo previsível. Não vou discutir agora se a dogmática jurídica do penalista
consegue ou não esses objetivos. Tampouco vem ao caso nem interessam muito a vocês os
detalhes dessas construções.
A fonte principal da ciência jurídico-penal de hoje, isto é, da dogmática jurídica aplicada
à lei penal, é a doutrina dos penalistas alemães. Os ingleses têm sua própria construção, que
pouco influi na nossa. Os franceses fizeram muito pouca dogmática jurídica, estão muito
próximos da velha interpretação literal da lei (o que se chamava exegese). Os italianos estão
bastante próximos aos alemães, ainda que com uma tradição penal muito sólida e antiga. Os
suíços e austríacos seguem diretamente as escolas alemãs. Os espanhóis também o seguem,
sem dúvida alguma, quase mais do que nós. Há muitos anos que as escolas alemãs são
acompanhadas de perto em toda a América Latina. O penalismo estadunidense é mais ou
menos compreensível, na medida em que segue o modelo inglês, mas quando se afasta deste
é bastante limitado.
Conforme os princípios da ciência jurídica alemã, os penalistas constroem um conceito
jurídico do delito que se chama teoria geral do delito. As discussões sobre essa teoria são
praticamente intermináveis, mas se trata, em geral, de uma ordem prioritária conceitual para
estabelecer frente a uma conduta se ela é ou não delitiva com vistas a uma sentença.
Para isso, diz-se que o delito é uma conduta típica, antijurídica e culpável. Ou seja, antes
de tudo deve ser uma ação humana, isto é, dotada de vontade. Em segundo lugar, deve estar
proibida pela lei, ou seja, cada tipo é a descrição que a lei faz de um delito: matar, apoderar-
se de uma coisa móvel alheia etc. Em terceiro lugar, não deve ser permitida, como acontece
no caso de legítima defesa ou de estado de necessidade. Por último, deve ser culpável, ou
seja, reprovável ao autor: não o é quando este não sabia o que fazia, estava louco
(inimputável) etc.
Essa é a estrutura básica sobre a qual se discute, respeitando certos princípios
constitucionais como, por exemplo, a legalidade, que impede que a pena seja imposta por
algo que não está estritamente descrito em uma lei anterior ao fato, ou a lesividade, que
requer que em todo delito haja um bem jurídico lesionado ou colocado em perigo.
Como se pode ver, o delito dos penalistas é uma abstração que se constrói com um
objetivo bem determinado, que é chegar a uma sentença racional ou pelo menos razoável.
Na realidade social, porém, esse delito não existe, porque no plano do real existem
violações, homicídios, fraudes, roubos etc., mas nunca o delito. Em outros tempos, os
penalistas também projetavam os códigos e as leis penais, porque lhes era dada muitíssima
importância e se considerava, com razão, que eram um apêndice da Constituição, porque
impunham limites à liberdade.
Em nosso país, para não irmos mais longe, os códigos penais foram projetados em 1866,
por Carlos Tejedor, que foi governador da província de Buenos Aires e não chegou a ser
presidente da República em lugar de Roca porque protagonizou a última guerra civil em
1880, e por Rodolfo Moreno (filho) em 1917, que também foi governador da província e pré-
candidato a presidente nas eleições de 1944, tendo sido derrotado no interior do Partido
Conservador por Patrón Costas, o que precipitou o golpe de 1943.
Nesse meio tempo houve vários projetos, e o mais importante foi o de 1891, obra dos
fundadores de nossa Faculdade de Filosofia e Letras, que eram os jovens brilhantes da
época: Rivarola, Piñero eMatienzo. Os três foram importantes personalidades públicas e um
deles, Matienzo, foi candidato à vice-presidência da República.
A trajetória jurídica, intelectual e política desses projetistas prova que levavam muito a
sério as leis penais, o que hoje mudou completamente, pois agora quem as elabora são os
assessores dos políticos, conforme a agenda que lhes marcam os meios de comunicação de
massa.
Por isso, hoje, tampouco os penalistas fazem as leis penais, ocupando-se quase
exclusivamente do que lhes conto, quer dizer, da sua interpretação, na forma em que
assinalei.
Logicamente, vocês se perguntarão o que é que esses senhores sabem acerca da
realidade do delito, do que se passa no mundo em que todos nós vivemos, do que fazem os
delinquentes, os policiais, os juízes, as vítimas, os empresários midiáticos, os jornalistas etc.
Simplesmente, o mesmo que qualquer vizinho que lê os jornais e assiste televisão, porque o
penalista se ocupa da lei, não da realidade.
Isso, que pode chamar a atenção de quem não se tenha inteirado antes deste mundo, é
sabido e inclusive teorizado. Desde jovem, quando se entra na Faculdade de Direito,
explicam que ali se estudam relações de normas, de dever ser e não de ser.
Há mesmo toda uma corrente que pretende um corte radical entre os estudos do dever
ser e do ser. São os neokantianos, que dividem os conhecimentos entre ciências da natureza
e da cultura. O direito seria uma ciência da cultura e o que acontece no mundo em que
vivemos todos os dias seria matéria das ciências da natureza. Isso lhes parece um pouco
esquizofrênico? É um pouco, com certeza.
A divisão foi tão taxativa que permitiu que a grande maioria dos penalistas dos tempos
do nazismo viesse tranquilamente desde o Império Alemão até o pós-guerra, passando por
cima da República de Weimar, dos crimes da ascensão do nazismo, dos massacres, do
genocídio, da guerra, sem inteirar-se dos milhões de cadáveres. Tudo isso pertencia às
ciências da natureza, que não lhes dizia respeito.
Para que vocês se tranquilizem, direi que hoje nem todo o direito penal segue este
caminho, embora não faltem nostálgicos que tentam se entrincheirar nas normas. De
qualquer maneira, isso é questão do direito penal, ou seja, do que não nos ocuparemos aqui
enquanto tal, mas sim precisamente do que pertence ao mundo do ser, no qual vivemos
todos os dias.
Disso se ocupa precisamente a criminologia, para onde convergem muitos dados que
provêm de diferentes fontes – da sociologia, da economia, da antropologia, das disciplinas
psi, da história etc. –, que tentam nos responder o que é e o que acontece com o poder
punitivo, com a violência produtora de cadáveres etc.
É bem verdade que esta palavra da academia também esteve carregada de palavras
obscenas (ou pelo menos são elas que temos vontade de dizer às vezes), e aconteceu em
diferentes etapas. Primeiro perguntou-se pelas causas do delito, o que se chamou de
criminologia etiológica, e os demonólogos, os juristas e filósofos, os médicos, os psicólogos e
os sociólogos trataram de responder. Muito mais recentemente deu-se conta de que o poder
punitivo também era causa do delito, e passou a ser analisado e questionado com diferente
intensidade crítica. São estas etapas que passaremos a percorrer depois de uma visão geral
sobre o poder punitivo e sua função real no marco do poder planetário.
 
Ilustração 3
 
3. O poder punitivo e a verticalização social
O poder punitivo é como o bife à milanesa com batatas fritas, isto é, ninguém se
pergunta por que existe. Parece que sempre esteve ali. Mas não é assim.
Alguém comparou o tempo de nosso pequeno planeta com uma semana e advertiu que
aparecemos no último minuto antes da meia-noite do domingo. Não sei quando apareceu o
bife à milanesa, mas nesses segundos geológicos que levamos arranhando a superfície da
Terra, só carregamos com o poder punitivo por alguns décimos de segundo.
O humano é social, não sobrevive isolado, e em toda sociedade há poder e coerção.
Todo grupo humano conheceu sempre duas formas de coerção, cuja legitimidade quase não
se discute, embora se possa discutir como se exerce.
Uma é a coerção que detém um processo lesivo em curso ou iminente: quando uma
parede está prestes a cair ou quando alguém corre atrás de mim pela rua com uma faca na
mão, há um poder social que demole a parede embora o dono se oponha, ou que desarme
aquele que quer me enfiar a faca. Isso se chama hoje coerção direta, em outra época poder
de polícia, e no Estado está regulada pelo direito administrativo.
Outra é a coerção que se pratica para reparar ou restituir quando alguém causou um
dano. Esta é hoje própria do direito civil e de outros ramos do direito.
Mas o poder punitivo é diferente, não existiu em todos os grupos humanos, e surgiu
muito mais tarde. Por que? O que o diferencia dessas outras coerções?
As duas formas de coerção antes referidas resolvem os conflitos: uma, porque evita o
dano, outra, porque o repara. Porém, quando na coerção reparadora alguém que manda diz
que o lesado sou eu e afasta quem realmente sofreu a lesão, é ali que surge o poder
punitivo, ou seja, quando o cacique, rei, senhor, autoridade ou quem quer que seja substitui
a vítima, a confisca.
Comprovamos isso em qualquer caso: se uma pessoa agride a outra e quebra-lhe um
osso, o Estado leva o agressor, o penaliza, alegando que o faz para dissuadir terceiros de
romper ossos ou para ensinar-lhe a não fazê-lo de novo ou para o que quer que seja, e o
que sofre com o osso quebrado deve recorrer à Justiça civil, na qual pode não obter nada,
caso o agressor não possuir bens.
O poder punitivo reduziu a pessoa com o osso partido a um mero dado, porque não
toma parte na decisão punitiva do conflito. Mais ainda: deve mostrar seu osso partido e se
não o fizer o poder punitivo a ameaça como testemunha remisso e pode levá-la pela força a
mostrar o que o agressor lhe fez. A característica do poder punitivo é, pois, o confisco da
vítima, ou seja, é um modelo que não resolve o conflito, porque uma das partes (o lesado)
está, por definição, excluído da decisão. O punitivo não resolve o conflito, mas sim o
suspende, como uma peça de roupa que se retira da máquina de lavar e se estende no varal
até secar.
Detemos o agressor por um tempo e o soltamos quando o conflito acaba. É certo que
podemos matá-lo, mas nesse caso não faríamos outra coisa senão deixar o conflito suspenso
para sempre. Não repomos nada à vítima, não lhe pagamos o tratamento, o tempo de
trabalho perdido, nada. Nem sequer lhe damos um diploma de vítima para que o pendure
em um canto da casa. Não ocorreria a ninguém obrigar o agressor a trabalhar para reparar o
lesado, ameaçando-o com uns açoites em público, como fazem nossos povos nativos, porque
isso seria prático, mas consideramos incivilizado.
Ademais, frente a outros modelos de efetiva solução do conflito, o modelo punitivo se
comporta de modo excludente, porque não só não resolve o conflito como também impede
ou dificulta sua combinação com outros modelos que o resolvem. É óbvio que, quando
prendemos o marido agressor, a mulher e os filhos devem se virar como possam para viver,
porque a besta fera não pode trabalhar e, por conseguinte, não cobra.
Imaginemos que um menino quebre uma vidraça na escola com os pés. A direção pode
chamar o pai do pequeno energúmeno para que pague a vidraça, pode mandá-lo ao
psicopedagogo para ver o que está acontecendo com a criança, também pode sentar-se e
conversar com o pequeno para averiguar se alguma coisa lhe faz mal e o irrita. São três
formas de modelos não punitivos: reparador, terapêutico e conciliatório. Os três modelos
podem ser aplicados porque não se excluem. Em compensação, se o diretor decide que a
quebra da vidraça afeta sua autoridade e aplica o modelo punitivo expulsando o menino,
nenhum dos outros pode ser aplicado.
É claro que o diretor, ao expulsar o menino, reforça sua autoridade vertical sobre a
comunidade escolar. Isso quer dizer que o modelo punitivo não é um modelo de solução de
conflitos, massim de decisão vertical de poder. É por isso, justamente, que ele aparece nas
sociedades quando estas se verticalizam hierarquicamente.
O modelo reparador é de solução horizontal e o punitivo de decisão vertical. Este
aparece quando as sociedades vão ganhando a forma de exércitos com classes, castas,
hierarquias etc. Por isso surgiu em muitos lugares do planeta, sempre que uma sociedade
começou a verticalizar-se hierarquicamente. A arqueologia penal estuda isso em sociedades
distantes.
Houve uma sociedade que se verticalizou com muita força na Europa: a romana.
Quando Roma passou da república ao império seu poder punitivo se fez muito mais forte e
cruel. E o que pode fazer uma sociedade quando se verticaliza até assumir a forma de
exército? A resposta é óbvia: conquistar outras. Roma conquistou quase toda Europa. Como
conseguiu fazer isso? Porque tinha uma estrutura colonizante, ou seja, hierarquizada, em
forma de exército. Essa estrutura, montada mediante o poder punitivo, é a necessária para a
empresa de conquista e colonização.
No entanto, Roma caiu praticamente sem que ninguém a empurrasse; seus imperadores
eram generais que brincavam de golpe de Estado, passavam o tempo intrigando ou
neutralizando intrigas, e em seus momentos de ócio se divertiam com amantes e escravos
núbios. Os costumes se relaxaram, dizem os moralistas.
Porém, Roma não caiu por causa das amantes ou dos escravos, mas sim porque a
estrutura vertical que proporciona o poder colonizador, imperial, logo se solidificou até
imobilizar a sociedade, as classes tornam-se castas, o sistema perde flexibilidade para
adaptar-se às novas circunstâncias, torna-se vulnerável aos novos inimigos. Nesse momento,
decai e perde o poder. Chegaram os bárbaros com suas sociedades horizontais, que
ocuparam os territórios quase caminhando, e o poder punitivo desapareceu quase por
completo.
Os germânicos resolviam seus conflitos de outra maneira: quando um alemão dava um
golpe de garrote na cabeça do outro, corria para se refugiar na igreja, onde não podia ser
tocado (asilo eclesiástico). Com isso, evitava o primeiro impulso vingativo, mas,
imediatamente, os dois germânicos velhos, chefes de clãs, reuniam-se e um fazia notar ao
outro que tinha um germânico avariado e que isso tinha de ser resolvido de algum modo. Do
contrário, o choque ia se dar entre os clãs, como na guerra, porque assim o determinava a
vingança de sangue (Blutrache, diziam), o que não convinha a nenhum dos dois. E a coisa se
ajustava com uma reparação, entregavam-se animais, metais, coisas etc. (o que se chamava
Wertgeld).
Havia um único crime ao qual era aplicado o modelo punitivo: a traição. O traidor era
pendurado em uma árvore: proditores et transfugas arboribus suspendunt, recorda o velho
Tácito, ao relatar os costumes dos germânicos. As outras ofensas eram acertadas entre as
partes. No bairro, acontece a mesma coisa com o alcaguete, embora com menos violência.
 
Ilustração 4
 
Mas por que há que se dar tanta importância a Roma, se estamos tão longe, aqui
estavam nossos nativos e nunca um romano colocou um pé na América? Precisamente
porque a história segue, o poder punitivo desapareceu quase por completo (salvo uns tantos
traidores pendurados nas árvores), até que um dia ocorreu aos senhores que era um bom
negócio confiscar a vítima e que isso também servia para reforçar seu poder, e voltaram ao
mau costume, fazendo renascer o poder punitivo nos séculos XII e XIII europeus. E aqui isso
começa a nos interessar, porque não desaparece já há quase mil anos, verticalizou as
sociedades europeias, deu-lhes estrutura corporativa, sob a forma de exército, e elas se
lançaram à colonização de todo o planeta.
O poder punitivo foi o instrumento de verticalização social que permitiu à Europa nos
colonizar. A Península Ibérica assumiu a liderança porque adquiriu caráter vertical para
conquistar os muçulmanos do sul, ainda que até hoje digam que os reconquistaram, o que é
duvidoso depois de 700 anos de permanência deles ali e de uma civilização que era
brilhante. Quando terminaram de convertê-los ao cristianismo aos golpes, os Reis (muito)
Católicos fizeram o que faz todo exército: homogeneizaram o discurso religioso e para isso
obrigaram os judeus a converterem-se como marranos ou a irem embora, e assim a frente
interna passou a rezar ao mesmo Deus, na versão dos reis.
Para dizer a verdade, a verticalização europeia havia começado um pouco antes dos
séculos XII e XIII, ou seja, por volta do ano 1000, quando todas as leis locais que iam
surgindo timidamente regularam as relações familiares e sexuais de maneira detalhadíssima,
mais do que a propriedade. Isso se explica porque todo exército necessita de cabos e
sargentos, sob cujo comando caem as pequenas unidades de tropa. A verticalização começou
por baixo, como devia ser, porque é sabido que uma revolução triunfa quando as tropas se
sublevam; por conseguinte, a primeira coisa que quem quer reforçar o poder vertical deve
fazer é se assegurar de que tem os comandos inferiores sob controle.
O cabo deste exército social foi o pater, sob cujo comando ficaram todos os seres
inferiores: mulheres, crianças, servos, escravos, animais domésticos etc. (havia poucos
velhos, porque as pessoas morriam muito jovens). O patriarcado não é mais do que o poder
dos cabos e sargentos da sociedade corporativa, fruto do primeiro passo da disciplina
vertical.
O próprio pater impunha os castigos aos seres inferiores, salvo casos de insubordinação,
como as mulheres desobedientes e os gays ou traidores, que não assumiam devidamente seu
papel de pater. Como ninguém podia permitir a insubordinação da tropa porque senão o
barco afundava, as lutas que se seguiram foram entre senhores, mas todos reafirmaram a
ordem sobre os inferiores.
O poder punitivo foi se estendendo, mas não havia leis suficientes e as que havia eram
caóticas. Dispunha-se menos ainda de um discurso legitimador desse poder renascente.
Nesse momento apareceram as universidades no norte da Itália e com elas os juristas, que,
como deviam fazer o discurso mas não tinham leis razoáveis, não tiveram ideia melhor do
que trazer o Digesto de Justiniano e começar a comentá-lo.
Assim nasceu a ciência jurídico-penal, com supostos comentários ao Digesto. E o que era
o famoso Digesto? Nada menos que uma coleção de antigas leis romanas, recolhidas por
determinação do imperador Justiniano, que nunca foi imperador em Roma e sim em
Constantinopla, quando o império do Ocidente – ou seja, Roma – já havia caído em poder
dos germânicos. As leis penais recolhidas no Digesto eram as piores e, além disso, com
alguns retoques deformantes do próprio Justiniano, que desde a romanização do cristianismo
(que costuma se chamar de cristianização de Roma) se considerava chefe religioso e
perseguia com singular furor e alegria os não cristãos, entre eles os que continuavam
adorando os deuses romanos. Essa injeção legal dos primeiros juristas foi denominada
recepção do direito romano.
A ciência jurídico-penal nasceu, portanto, com a importação de Constantinopla dos
chamados libris terribilis do Digesto. Os primeiros penalistas se chamaram glosadores porque
fingiam que comentavam essas leis; na verdade, sob o pretexto de comentá-las, diziam o que
bem entendiam, mas começaram a ensaiar alguma lógica interna em seu discurso.
É bem verdade que aqueles que deviam legitimar essas leis atrozes não podiam
confessar que o poder punitivo serve para verticalizar e colonizar, razão pela qual sempre se
buscou encontrar alguma justificativa para cada lei penal, baseada em uma necessidade
fundada em fatos do mundo real. Como se tratava de legitimações sobre argumentos fáticos,
os supostos comentários dos glosadores e pós-glosadores misturavam o direito penal com a
criminologia.
Assim começaram as palavras da academia nas universidades do norte italiano mil anos
atrás, mas o poder que em todos os tempos estas legitimaram não foi outro senão o
instrumento de verticalização social que possibilitou a colonização. Esse poder nãose
estendeu porque Henrique, o Navegador se lançou para a África ou porque Cristóvão
Colombo, com a história das jóias da rainha, tenha armado as caravelas, mas sim porque o
poder punitivo havia dado forma de exército a essas sociedades. Sem cair em fantasias não
verificáveis, o certo é que os nórdicos chegaram à América antes de Colombo, mas como não
dispunham de uma estrutura colonizadora morreram de frio no norte, não se animando a
seguir para o sul.
E a história reiterou o processo romano: a Espanha não conseguiu modificar sua
estrutura vertical quando o industrialismo amanheceu no século XVIII e terminou perdendo
seu império e sua hegemonia, que passou para as potências do centro e do norte da Europa.
O poder punitivo, contudo, não desapareceu, mas ficou limitado à sua função interior,
apontando para uma sociedade imóvel.
Como o punitivo é a chave do poder planetário, o que se diz a seu respeito não é
resultado de uma busca ingênua de conhecimentos, de curiosidade científica desinteressada
em âmbitos acadêmicos, mas sim que se defronta com o cerne da expansão colonial. Por
isso, tudo o que se diz em criminologia é político, porque sempre será funcional ou
disfuncional ao poder, o que não muda, ainda que quem o afirma o ignore ou o negue.
Por isso, não podemos evitar o passado, porque se o ignoramos não saberemos onde
fomos parar. O que interessa do passado não é se María Antonieta se deixou seduzir pelo
colar, se Catarina levou Miranda para a cama, se a rainha Isabel tomava banho ou se Ludwig
II fazia orgias com seus guardas enquanto sonhava com palácios de Disneilândia, e sim saber
onde estamos parados em uma continuidade de poder, que em seu fluxo nos trouxe a este
lugar. E a questão criminal é central nessa corrente que não para, como algo do presente,
que é pura projeção do passado. Se não comprendemos que a Idade Média não terminou,
não podemos entrever para onde vamos, ou pior, para onde podemos ir (o que me eximo
de dizer, até mesmo por motivos de boa educação).
Como a Idade Média não terminou, nada do passado está morto nem enterrado, mas
apenas oculto, e não por acaso. Não é um passado que volta, mas sim que nunca se foi,
porque ali está o poder punitivo, sua função verticalizante, suas tendências expansivas, seus
resultados letais.
Dessa perspectiva, o passado não evoca aborrecidas lições com datas e próceres
movidos pelo acaso ou pela genialidade, mas sim nos mostra um zoológico de fósseis vivos e
não em um museu paleontológico. Por isso, se quiserem me seguir, devo começar pelo
passado, para que um tiranossauro não nos coma.
Estamos habituados a que o locutor elegante comunique a notícia sangrenta com voz
cavernosa, preludiando a exortação à reforma do Código Penal e de imediato vai ao tribunal
para anunciar produtos íntimos. Mas também estamos acostumados a que isso gere um mar
de opiniões díspares e em todos os tons: há que matar a todos; deixar a polícia atuar e
baixar o sarrafo; aplicar o talião; ter boas prisões para ressocializar; atender aos fatores
sociais; não atendê-los porque nem todos os pobres delinquem; nem só os pobres
delinquem, um longuíssimo etcétera.
Creio que muitas pessoas ficariam surpresas se lhes disséssemos que os Estados
absolutos matavam há centenas de anos, que desde a Inquisição recorrem à violência, que o
talião foi apoiado por Kant no século XVIII, que a ressocialização – que vem do positivismo
do século XIX, dos fatores sociais – é coisa de muitos e em especial de Bonger há um século,
que a negação dos fatores sociais era de Garofalo no final dos Oitocentos, que os delitos de
colarinho branco foram teorizados por Sutherland há sessenta anos etc. Nada disso morreu e
se na criminologia acadêmica não se sustentam determinadas teses é porque já não são
politicamente corretas, continuam sendo afirmadas com escassa dissimulação na criminologia
midiática.
Porém, o que quero dizer com que a Idade Média não terminou? Por um lado, que somos
hoje um produto daquele poder punitivo que renasceu na Idade Média e permitiu aos
colonizadores europeus ocupar a América, a África e a Oceania, escravizar, dizimar e até
extinguir os povos nativos, transportar milhões de africanos, avançar sobre o mundo com
massacres e depredação colonialista e neocolonialista.
No entanto, por outro lado, quero dizer que os discursos legitimadores do poder
punitivo da Idade Média estão plenamente vigentes, até o ponto de que a criminologia
nasceu como saber autônomo no final do período medieval e fixou uma estrutura que
permanece quase inalterada e reaparece cada vez que o poder punitivo quer se libertar de
todo e qualquer limite e desembocar em um massacre.
Quando o poder punitivo renasceu, o bispo de Roma – o Papa – estava desejoso de
conter a todos os que pretendiam se comunicar diretamente com Deus, à margem de sua
mediação ou da de seus dependentes. Para reforçar esse monopólio telefônico, e também
para concentrar poder econômico, estabeleceu-se uma jurisdição, ou seja, um corpo de juízes
próprios encarregados de perseguir os revoltosos, chamados hereges. Esse foi o tribunal do
Santo Ofício ou Inquisição romana.
O reaparecimento do poder punitivo e o surgimento da Inquisição mudaram tudo. Até
esse momento, nos processos entre as partes, a verdade se estabelecia pelos ordálios ou
pelas provas de Deus. Os juízes anteriores à volta do Digesto e aos inquisidores eram, na
realidade, árbitros desportivos, pois o ordálio mais frequente era o duelo. O que vencia era
quem tinha razão, porque se invocava a Deus e este baixava magicamente convocado e se
expressava no duelo, permitindo ganhar só àquele que tinha razão. Os juízes não julgavam e
sim cuidavam que não houvesse fraude. Quem decidia era Deus. Pode-se imaginar que esses
juízes tinham uma absoluta tranquilidade de consciência.
Com as leis romanas imperiais injetadas pelos juristas, a verdade passou a ser
estabelecida por interrogação, por inquisitio. O imputado devia ser interrogado, e se não
queria responder a verdade lhe era extraída pela violência, pela tortura. Para isso haviam
sequestrado Deus e o ordálio se havia tornado desnecessário, pois Deus já estava sempre do
lado de quem exercia a violência. O poder tinha atado Deus, porque sempre fazia o bem.
Segundo Foucault, todo saber adotou o método do interrogatório violento. Parece haver
algo disso se comparamos a inquisição com a vivissecção, mas voltemos ao nosso. A
Inquisição romana exercia o poder de julgar em toda Europa porque não havia Estados
nacionais e os senhores feudais não podiam impedi-lo, embora isso lhes incomodasse. Na
Espanha, onde a sociedade já tinha a forma de exército, o poder da Inquisição não foi papal,
e, diferentemente do resto de Europa, encontrava-se a serviço do rei. Por isso, a Inquisição
espanhola tem uma história separada da romana.
Com esse instrumento, o Papa massacrou rapidamente uns tantos hereges (os albigenses,
os cátaros etc.). Também se juntou aos franceses para fritar os templários e repartir suas
riquezas, imputando-lhes que eram gays e que tinham um ritual de iniciação de submissão
sexual, meio leather style. Logo, porém, a Inquisição ficou sem trabalho e sem inimigo,
porque havia matado todos eles. Para justificar seu brutal poder punitivo necessitava de um
inimigo que tivesse mais vigor, que fosse de melhor qualidade. Assim, acabou apelando para
um inimigo de muito bom estofo, que durou vários séculos: Satã, que em hebraico significa
justamente inimigo.
Como era difícil explicar semelhante poder sanguinário no marco de uma religião cujo
Deus não era guerreiro, e sim uma vítima executada em um instrumento de tortura próprio
do poder punitivo do Império Romano (equivalente à cadeira elétrica do século XX), era
necessário inventar-lhe um inimigo guerreiro, e assim Satã terminou sendo o comandante em
chefe de um exército composto por legiões de diabos.
Para isso lhe caiu muito bem a cosmovisão que Santo Agostinho havia imaginado quase
dez séculos antes. Ele – que havia vivido no norte de África no século IV e depois departicipar de quantas festas pôde, quando lhe baixaram os hormônios, e como antes havia
combinado suas andanças com o maniqueísmo – imaginou que havia dois mundos
enfrentados na forma de espelho: um de Deus e outro de Satã, a cidade de Deus e a do
diabo.
As duas cidades tinham equipes rivais: a do diabo dedicava-se ao esporte de tentar a de
Deus, porque os partidários deste podiam salvar-se, ao passo que eles, como anjos caídos,
estavam irremediavelmente condenados a ser destruídos no juízo final e, portanto, tentavam
adiá-lo e baixar o número de salváveis. Não ficava claro por que não os destruíram antes e
era necessário esperar o julgamento, mas isso não importa.
O certo é que nesse mundo maciço, mas perfeitamente dividido, não havia possibilidade
de neutralidade: ou se estava com Deus ou com Satã. Tudo o que estava fora da cidade de
Deus era domínio satânico, incluindo os deuses pagãos (e depois seriam as religiões dos
nossos povos nativos).
Cabe esclarecer que o pobre Santo Agostinho não matou ninguém. Ele apenas armou
esse discurso e, como havia morrido há quase mil anos antes da Inquisição, se livrou da
pena de ver o que se fazia com apoio nele. Houve outros ideólogos que tiveram menos sorte
e a vida lhes deu a oportunidade de queixar-se e arrepender-se, vendo como usavam suas
ideias. Agostinho teve inclusive vislumbres muito inteligentes, como o de enunciar a primeira
política de redução de danos em matéria de aborto.
Todavia, quando o Papa se valeu do invento agostiniano para perseguir tudo o que não
se submetia a seu poder e consagrou a Inquisição à luta contra Satã, como este não aparecia
em lugar nenhum, teve de se agarrar a ela com alguns humanos, e já não lhe restavam
hereges. Por conseguinte, empreendeu-a contra a metade da espécie humana, contra as
mulheres. Para isso foi inventada a teoria do pacto satânico. Satã não podia atuar sozinho,
necessitava da cumplicidade de humanos (não me perguntem o porquê, porque não sei).
Para isso havia humanos que celebravam um pacto com o inimigo, com Satã. Era um
contrato de compra e venda proibido, mas que por sua natureza só podia ser celebrado por
humanos inferiores, que eram as mulheres. Por que? Por razões genéticas, biológicas: tinham
um defeito de fábrica por provir de uma costela curva do peito do homem, o que
contrastava com a retidão deste (não sei tampouco onde o homem é reto, mas prossigamos).
Por isso, elas têm menos inteligência e, por conseguinte, menos fé. E ratificavam essa
afirmação, inventando que femina provém de fé e minus, ou seja, menos fé (é mentira, pois
femina vem do sânscrito, do verbo que significa amamentar).
Foi assim que a Inquisição se dedicou a controlar as mulheres desobedientes e levou à
combustão milhares delas, como bruxas, em quase toda Europa.
Na verdade, o poder de Satã e seus rapazes foi muito estudado e teorizado pelos
encarregados da Inquisição, que foram os dominicanos, ordem fundada por São Domingos
de Gusmão, mas também conhecidos como cães do Senhor (canes do Dominus). Na
condição de estudiosos da etiologia, ou da origem do mal, eles foram os primeiros
criminólogos. É claro que não foram chamados de criminólogos e sim de demonólogos.
Quase nenhum criminólogo aceita essa origem, porque não é uma boa certidão de
nascimento; preferem considerar-se herdeiros do Iluminismo ou mesmo do século XIX e
esquecer o nome dos velhos demonólogos, aos quais ninguém menciona. Mas o certo é que
ninguém tem a culpa de seus antepassados.
A demonologia, porém, não deixou de criar contradições porque os juristas – glosadores
e pós-glosadores – haviam tratado de sistematizar suas especulações conforme uma certa
lógica, que tomavam da ética tradicional. Isso se deve a que, na medida em que se queira
dotar de alguma lógica interna o discurso legitimador do poder punitivo, surge um mínimo
de limites, porque a necessidade não é infinita. Justamente para eliminar esses limites
criando uma necessidade quase infinita e absoluta, foi que se autonomizou a criminologia
com o nome de demonologia.
Os juristas pretendiam que a pena fazia pagar a dívida do delito. Se o crime resultava de
uma escolha livre, havia que retribuir o mal com o mal. A ideia de culpa dominava suas
elucubrações. Lembro a vocês que culpa e dívida são sinônimos. O velho Padre Nosso dizia
perdoai as nossas dívidas e não eram os “pagareis” que firmávamos, e sim nossas culpas. Em
alemão Schuld tem também esse duplo significado. Isso impunha um pequeno limite à pena,
exigia certa proporção com a censura da culpa.
E como a mulher era inferior, era menos inteligente que o homem, devia ser menos
culpável e, por conseguinte, merecer pena menor. Os juristas as consideravam como
meninas, em permanente estado de imaturidade. No entanto, os inquisidores não se atinham
à culpa, e sim ao grau de perigo que as bruxas e Satã representavam, que colocava em risco
a humanidade. Para os demonólogos havia uma emergência gravíssima e nada devia
obstaculizar a repressão preventiva. Aqui surgiu uma questão que até hoje não foi
solucionada: a pena se fixa pela culpa ou pela periculosidade? Os penalistas continuam
discutindo a incoerência com paliativos, enquanto os juízes decidem o que lhes parece.
Como vemos, a Idade Média está presente. Em seu tempo, isso se resolveu
argumentando que o pacto satânico era um crime mais grave que o pecado original, porque
neste Adão e Eva haviam sido enganados, mas o pacto com Satã se celebrava com vontade
plena, com consciência do mal e, ademais, era uma traição, para com, nada menos, a cidade
de Deus, com o qual havia que seguir a tradição germânica. Cabe fazer notar que os
germânicos eram mais ecológicos, porque não danificavam as árvores, enquanto os
inquisidores queimavam sua madeira. O certo, porém, é que este modelo marcou a estrutura
de todos os discursos posteriores legitimadores de massacres. Por isso, será necessário deter-
se na análise dessa estrutura.
 
Ilustração 5
 
4. A estrutura inquisitorial
Os demonólogos elaboraram um discurso muito bem armado para liberar seu poder
punitivo de todo e qualquer limite, em função de uma emergência desencadeada por Satã e
seus seguidores, em combinação com as moças terrenas. Por certo que se alguém
sustentasse, hoje em dia, esta tese seria inevitavelmente psiquiatrizado. Não podemos,
porém, ficar na anedota, porque, embora pareça mentira, a estrutura demonológica mantém-
se até o presente. Os discursos têm uma estrutura e um conteúdo. Trata-se, digamos, de algo
parecido a um programa de computação alimentado com os livros de uma biblioteca.
Podemos carregar o programa com livros esotéricos e teremos uma biblioteca dessa
natureza, mas também podemos esvaziar seu conteúdo e recarregá-lo com outros livros e
teremos bibliotecas de medicina, física, química, história, ou o que quer que seja. Pois bem: o
que permanece do discurso inquisitorial ou demonológico não é o conteúdo, e sim
justamente o programa, a estrutura.
Ao longo dos séculos o mesmo programa foi esvaziado e voltou a ser alimentado com
outras informações, com dados de novas emergências, críveis segundo as pautas culturais de
cada momento: deixou-se de se acreditar em Satã e suas meninas, mas passou- se a acreditar
em outras coisas, que, hoje, tampouco são críveis, ainda que se continue alimentando o
programa com dados que hoje são críveis e amanhã serão não tão críveis quanto Satã, suas
legiões de diabos e suas mulheres.
Desde a Inquisição até hoje os discursos foram se sucedendo com idêntica estrutura:
alega-se uma emergência, como uma ameaça extraordinária que coloca em risco a
humanidade, quase toda a humanidade, a nação, o mundo ocidental etc., e o medo da
emergência é usado para eliminar qualquer obstáculo ao poder punitivo que se apresenta
como a única solução para neutralizá-lo. Tudo o que se quer opor ou objetar a esse poder é
também um inimigo, um cúmplice ou um idiota útil. Por conseguinte, vende-se como
necessária não somente a eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou
obstaculizam o poderpunitivo, em sua pretensa tarefa salvadora.
É evidente que o poder punitivo não se dedica a eliminar o perigo da emergência, e sim
a verticalizar mais ainda o poder social; a emergência é apenas o elemento discursivo
legitimador de sua falta de contenção.
Isso se verifica ao longo de cerca de 800 anos de sucessivas emergências, algumas das
quais implicavam certo perigo real, mas o poder punitivo nunca eliminou nenhum desses
perigos. Satã está um pouco cabisbaixo, com seu tridente sem ponta e sua cauda quebrada;
o alcoolismo continua fazendo estragos; as drogas se expandem cada dia mais; a sífilis foi
resolvida com a penicilina; a tuberculose com a estreptomicina; os hereges fizeram suas
igrejas nacionais; a degeneração da espécie e o perigo das raças inferiores passaram a ser
uma grande mentira; as bruxas continuam cozinhando seus cozidos esquisitos e no máximo
criam algum problema bromatológico. Os perigos foram inventados ou mesmo quando eram
reais desapareceram por outros meios ou permanecem, e até se ampliam, mas, ao longo de
800 anos, o poder punitivo jamais eliminou um risco real.
Diriam no meu bairro que o discurso inquisitorial sempre foi, e continua sendo, um
modo de colocar a corda no pescoço. Mais academicamente, diríamos que é um imenso
engano, uma tremenda fraude e que o poder punitivo, ao projetar-se na opinião das pessoas
como o remédio para tudo, não é mais do que o delito máximo da propaganda desleal da
nossa civilização.
Trata-se do instrumento discursivo que proporciona a base para criar um estado de
paranoia coletiva que serve para aquele que opera o poder punitivo o exerça sem nenhum
limite e contra quem lhe incomoda.
Por desgraça, porém, quando aparece um discurso com estrutura inquisitorial e ninguém
detém sua instalação, a consequência última é um massacre. Assim aconteceu com as
mulheres queimadas, com as vítimas das máfias e da corrupção produzidas pela proibição
do álcool e das drogas; com os inimigos do Ocidente cristão massacrados pela segurança
nacional ou pelo franquismo; com os doentes e incapacitados esterilizados ou assassinados
pela eugenia; com a eliminação nos campos de concentração nazistas, e com muitos milhões
de pessoas, mas já estou me metendo com a palavra dos mortos, que é questão que deixo
para mais adiante.
Vejamos agora como os demonólogos instalaram essa estrutura discursiva originária que
permanece intocável até o presente. O certo é que esses pioneiros foram muitos e
escreveram uma quantidade de livros muito sofisticados. A criminologia não registra os
nomes de seus fundadores, porque os nega, como esses antepassados piratas,
contrabandistas ou escravistas a quem todos ocultam e ninguém reconhece.
Não vale a pena resgatar todos eles, porque de qualquer modo não creio que nenhum
instituto de criminologia de nossos dias queira ostentar algum desses nomes. Para quem se
interessa pelo tema, vale a pena dizer que há uma antologia bem feita. Para nossos efeitos, é
melhor centrarmos na obra tardia, porém sintética, que consagra a autonomia da
criminologia em relação ao direito penal, expondo pela primeira vez, de forma orgânica,
uma completa teoria sobre a origem do crime, ou seja, uma exposição da chamada etiologia
criminal. Trata-se do Malleus maleficarum ou Martelo das bruxas, de 1484.
 
Ilustração 6
 
A esse respeito – e entre parênteses – é bom recordar que a inquisição romana teve seu
esplendor nos tempos feudais, mas, quando os Estados nacionais se organizaram como
monarquias fortes, estas reclamaram para si seus poderes punitivos e os foram retirando do
Papa, de modo que a tarefa de queimar mulheres passou a ser desempenhada por juízes
estatais, dependentes dos monarcas e príncipes, alguns dos quais não reduziram seu
entusiasmo pela combustão. Continuaram queimando mulheres até o século XVIII, porém
1.
pelos Estados, em um momento em que o Papa não se ocupava mais das mulheres mas sim
dos luteranos e reformados. Desde o século XV, ou seja, com a chamada Contra-Reforma, a
inquisição romana se dedicava a estes últimos e não conferia nenhuma ênfase às mulheres.
De qualquer maneira, os juízes estatais da Europa central continuaram usando como
manual o Martelo das bruxas, que se encontrava no guia oficial dos queimadores de mulheres
desde 5 de setembro de 1494, quando o tenebroso Papa Inocêncio VIII o consagrou como
tal, mediante a bula Summis desiderantes affectibus.
O Martelo foi escrito por dois inquisidores muito particulares: o alsaciano Heinrich
Krämer e o suíço-alemão Jakob Sprenger. Este último era um sujeito de vida monacal, que
fazia aparições e tinha fama de beato. Já Krämer – também conhecido como Institoris (que,
em latim, significa quitandeiro, o mesmo que Krämer em alemão) – era mais problemático,
pois o bispo o suspendeu de suas funções porque, em seu afã incendiário, estava deixando a
diocese sem mulheres e, além disso, segundo as más línguas, se havia envolvido com
dinheiro de indulgências. Embora seja discutível, também parece que falsificou a
recomendação do pequeno manual por parte da Universidade de Colônia, para atribuir-lhe
maior base acadêmica.
O certo é que esses dois personagens produziram essa obra singular, que foi um best-
seller durante duzentos anos, tempo no qual foi o livro mais publicado depois da Bíblia.
Como dado curioso, devo advertir que, se alguém hoje quiser lê-lo em espanhol ou
português, deve buscá-lo nas seções de livros esotéricos das livrarias.
Sua leitura é, às vezes, entediante, mas não podemos deixar de pensar que se trata de
dois delirantes com fixações sexuais insólitas. A verdade é que para ter uma ideia completa
do universo cultural da Idade Média não se pode prescindir, evidentemente, de Dante, mas
tampouco do Malleus maleficarum. Uma mesma época produziu um poeta sublime como
Alighieri e dois delirantes alucinados, como Sprenger e Krämer. Talvez hoje aconteça a
mesma coisa.
O delírio está muito bem sistematizado e é a primeira vez na história que se construiu
uma obra que integrou, em um único sistema harmônico, a criminologia (origem do mal)
com o direito penal (manifestações do mal), com o processo penal (como se investiga o mal)
e com a criminalística (dados para descobrir na prática o mal). A elaboração é, por
conseguinte, bastante sofisticada. Como o conteúdo com o qual preencheram a estrutura que
lhes dava fundamento é para nós tão disparatado, tem a vantagem de, em razão dessa
tremenda distância temporal e cultural, nos permitir ver com maior clareza os principais
núcleos estruturais que permanecem até a atualidade desde a própria origem da
criminologia. Por isso, repassá-los não é um mero divertimento, mas sim uma constatação de
sua permanência através dos séculos. Passo a assinalar vinte destes núcleos, embora advirta
que há mais, mas não quero aborrecer vocês.
 
O crime que provoca a emergência é o mais grave de todos. Como vimos, os inquisidores
afirmavam que era mais grave que o pecado original. Outros se sucederam no tempo:
subversão, terrorismo, uso de tóxicos etc. A gravidade do crime é exaltada ao máximo
porque dela depende o grau de perigo da emergência e do poder correspondente do
repressor.
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A emergência só pode ser combatida mediante uma guerra, ou seja, a linguagem não
pode ser senão bélica. Os autores pretendem saber como estavam organizadas as hostes
de Satã – porque, supomos, haviam conseguido infiltrar algum agente disfarçado no
inferno. Bush e Obama sempre disseram o mesmo, e sem dar margem a dúvidas o
primeiro usou o mesmo procedimento para descobrir as armas químicas no Iraque, que
Satã logo fez desaparecer.
Sua frequência é alarmante. Diziam que a Alemanha estava cheia de bruxas, mais do que
qualquer outro país. É o mesmo que nos dizem pela televisão, todos os dias e todas as
horas: em nosso país há mais crimes que em qualquer outro (nosso país pode ser
qualquer um em que houver uma televisão).
O pior criminoso é quem duvida da emergência. Quando alguém pede números e duvida
da gravidade e da frequência corre sérios riscos,porque se erige em inimigo, não da
sociedade nem da humanidade, mas sim daquele que exerce o poder punitivo. Embora
hoje “pegue” mal que ele seja queimado, como Sprenger e Krämer postulavam, não
duvido que muitos lamentem que os tempos tenham mudado.
Qualquer fonte de autoridade que diga o contrário deve ser neutralizada. Nos tempos
dos inquisidores havia um cânone – isto é, uma lei muito antiga –, o Canon episcopi, que
se referia a uma seita de mulheres (as filhas de Diana) que existira muitos anos antes e
que não lhes atribuía nenhum poder maléfico e negava que pudessem voar. É claro que
um texto venerável dessa natureza é um obstáculo para o discurso, como também o
pode ser uma verificação científica ou fundada com seriedade.
Quando se produz esse fenômeno há três soluções discursivas: a fonte é falsa (por
exemplo: o planeta não está aquecendo, os cientistas que afirmam o contrário não sabem
nada ou falseiam a realidade), mas é verdadeira se se refere a outra coisa (as filhas de
Diana não eram como as bruxas alemãs; os ladrões de antes eram bons e cavalheirescos,
não como os de agora; os anarquistas não eram como os subversivos etc.) ou a interpreta
mal (o Canon não diz exatamente isso, o que os técnicos dizem é outra coisa, há que
fazer distinções etc.).
Para Sprenger e Krämer, as bruxas voavam mesmo, e se não tivessem voado e só
provocavam uma ilusão, elas deveriam ser queimadas da mesma maneira porque
compactuavam com Satã e pronto.
A valoração dos fatos se inverte por completo. É o que muitos anos depois Merton
chamará de alquimia moral. Se a bruxa não confessava, a despeito de ser brutalmente
torturada, era porque Satã lhe dava forças; se, desesperada, enforcava-se, era porque
Satã a havia levado para que não confesasse e se salvasse no mais além (porque, ainda
que confessasse, seria morta de qualquer forma). Se ela enlouquecia com a tortura e ria,
era porque Satã fazia pouco dos inquisidores. Nada muda: se os presos estudam é para
delinquir melhor, se se arrependem são dissimulados, se matam uns aos outros é porque
são criminosos, se alguém pede uma trégua está simulando para contra-atacar.
O delírio serve de pretexto para encobrir muitos delitos. Se um padre estava observando
o pênis de um penitente, era porque tentava convencê-lo de que não o havia perdido
por obra de um encantamento; se outro aparece nu dentro de um celeiro, contará que
Satã o levou a um banquete e, como não quis jurar-lhe fidelidade, o lançou ali; se um
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homem santo é encontrado debaixo da cama de uma mulher, será porque Satã se
apoderou de seu corpo para se esconder. Quando um investigador é surpreendido num
lugar suspeito, até hoje costuma se dizer que ele estava se infiltrando; o terrorismo
também é útil para eliminar aos maridos incômodos das amantes etc.
As imagens dirigentes são imaculadas: isso os levava ao extremo de sustentar que os
anjos e Jesus não completavam o processo alimentício, isto é, não defecavam, e sim
dissolviam o alimento no estômago. A pureza dos líderes em toda emergência é algo que
se cuida com singular esmero, em especial sua correção sexual. Para os inquisidores, os
diabos nem sequer tinham orgasmos (porque, no final, também eram anjos), ou seja, eles
copulavam com as bruxas só para fazer o mal; eram uma espécie de sadomasoquistas
inorgásmicos.
Os inimigos são inferiores. A misoginia do Malleus é extrema: a mulher é biológica e
geneticamente inferior, o que era comprovado com alentadas citações em que
misturavam indistintamente pagãos e padres da Igreja. Quase todas as emergências são
promovidas por inferiores na história posterior: mestiços, mulatos, raças colonizadas ou
degeneradas, defeituosos, incapazes, doentes, degenerados etc. Como não podiam
eliminar todas as mulheres, contentam-se em queimar somente as desobedientes.
A inferioridade pode estender-se: as filhas das bruxas tinham predisposição à bruxaria. E
isso pode acontecer por causações genéticas, pois os diabos sabiam de quem retirar o
sêmen e onde colocá-lo para produzir esse efeito; seria o contrário da eugenia e se
chamaria disgenesia, ainda que, como para os diabos era bom, trata-ser-ia de uma
eugenia diabólica. Mas não nos atrapalhemos mais. Também podia haver transmissão
por caracteres adquiridos a partir da bruxaria da mãe.
Os filhos do bruxo-chefe não eram filhos de diabos, porque estes são anjos e não têm
sêmen, só adotam a forma humana, mas na realidade são de ar concentrado, como uma
espécie de bonecos infláveis de sex-shop, se bem que conhecem a engenharia genética.
Aqui os inquisidores, com séculos de antecipação, combinam Darwin com Lamarck, a
exemplo de emergências posteriores: há que matá-los se são geneticamente inferiores,
como faziam os nazistas; há que criá-los com uma família sadia se a inferioridade provém
da educação, como Franco ou os ditadores na Argentina fizeram.
As vítimas não devem ser colocadas em situação de vulnerabilidade, porque os vícios
favorecem a ação de Satã. Aqueles que têm amantes antes de se casar provocam-nas a
que, sentindo-se despeitadas, façam sortilégios para matar suas esposas. É necessário
viver na ordem para cuidar do inimigo; toda desordem pode ser aproveitada por ele.
Aquele que exerce o poder punitivo quer moralizar, na verdade para facilitar-lhe a tarefa.
É uma regra inveterada que o poder punitivo descontrolado quer um mundo regular e
cinza, monótono, que possa controlar sem problemas: tudo aquilo que sai do costumeiro
é suspeito. A alegria conspira contra o controle e baixa o nível de paranoia, porque a
festa faz pensar em outra coisa, as pessoas se distraem. Os inquisidores advertem contra
o perigo das festas populares: são sempre os dark da época.
Os inquisidores negam os danos colaterais, afirmando que não há terceiros inocentes, e
sim que o castigo é sempre merecido, ainda que se baseiem num dogma: por alguma
coisa será. Em muitos massacres se afirma que não há inocentes, que todos são culpados,
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embora não tenham feito nada.
Os inquisidores são infalíveis e, mais do que isso, são puros: São Macário, porque era
puro, era o único que via uma mulher quando os demais, por efeito de bruxaria, viam
uma égua, até que Macário a desencantou e os demais puderam ver a mulher. A pureza
garante a perfeita percepção dos fatos. É o que passa com os grandes empresários dos
massacres: são os únicos puros que veem com clareza; por isso devem ser seguidos sem
discussão.
Os inquisidores não admitem erros, quem é condenado é culpado e a condenação é
prova suficiente; nunca houve um erro e todas as mulheres queimadas eram bruxas. É
óbvio que as cinzas não apelam. A única razão que davam para negar algum erro era
que Deus não podia permitir isso, porque, como sabemos, estava sequestrado por eles.
Os sucessivos empresários de emergências massacradoras não puderam dizer o mesmo,
porque Deus já havia escapado deles. Por isso, apelaram à tese de que é inevitável, em
toda guerra, que alguns inocentes sejam sacrificados.
Os inquisidores se eximem de toda ética frente ao infrator: podem prometer de tudo e
depois não cumpri-lo. A inferioridade da bruxa lhes autoriza a fazer isso. O mesmo
acontece em qualquer emergência, os empresários massacradores não têm códigos,
porque não vale a pena frente aos terroristas, subversivos, criminosos, degenerados,
estrangeiros inimigos, doentes etc.
Os inquisidores são imunes ao mal que combatem: Satã não pode enganá-los, porque
Deus não o permitiria. Posteriormente, será sua ciência ou conhecimento especial que os
tornará imunes. O cobrador de impostos não colaborará com a evasão fiscal, o
funcionário que combate o tráfico não ajudará a traficar etc. Todo poder punitivo garante
que seus agentes são imunes ao mal e, quanto mais fora do controle, maior é a garantia
de imunidade e menor a possibilidade de eles serem desmascarados.
O mal tende a prolongar-se. As parteiras eliminavam as crianças não batizadas para que
não se completasse o número de eleitos e o juízo final fosse adiado. Assim, elas
sobreviveriammais tempo. O mal sempre se prolonga e o raciocínio, por isso, faz com
que seja exigida sua erradicação total e absoluta: o massacre deve ser radical e definitivo.
A crença no poder das bruxas era um preconceito da época. O Malleus o reforça ao
extremo, com a garantia do saber acadêmico de seu tempo. Não foi à toa que Krämer fez
algo não totalmente claro para obter o apoio da Universidade de Colônia. Todas as
emergências posteriores exploraram e aprofundaram os preconceitos; é o que se chama
de uma política völkisch ou popularista (não populista, que é outra coisa muito diferente).
O Malleus garante a reprodução da clientela: a mulher não era torturada para que
confessasse, mas para que revelasse os nomes de seus cúmplices e a mera menção de
um nome sob tortura autorizava que a pessoa nomeada também fosse torturada. Toda
emergência cuida para que a clientela não termine, porque se se esgota seu poder
punitivo perde sentido, como havia acontecido ao Papa depois dos massacres dos
cátaros e outros hereges.
 
Esta é, em sua maior síntese, a estrutura fundacional do poder punitivo ilimitado,
trabalhada durante duzentos anos e sintetizada tardiamente pelo Malleus em 1494, mas que
até hoje se manteve em todas as fabricações de emergências que foram feitas nos seis
séculos posteriores. O Malleus é uma obra tardia, porque no século seguinte ao seu
aparecimento consolidaram-se as monarquias e, com algumas delas, as igrejas nacionais. A
inquisição papal teve de fazer de tudo para evitar que os adeptos dessas igrejas nacionais
não se sublevassem na parte que ficava sob seu controle, razão pela qual deixou as
mulheres um pouco de lado e se ocupou de queimar reformados. Os reformados, por sua
vez, também praticavam a combustão com grande entusiasmo, como Calvino, que
encarregou Servet da tarefa, porque parece que não lhe agradava que o sangue circulasse. É
óbvio que o sangue continuou circulando, mas não o de Servet.
O poder dos inquisidores e de seus rapazes era cobiçado por outros e, entre estes, pelos
médicos, que aspiravam ficar com pelo menos parte deste poder. Teremos, mais adiante,
oportunidade de verificar que os médicos sempre tiveram vontade de deter o poder punitivo
e chegaram a dominar seu discurso legitimador com horríveis consequências massacradoras.
Porém, o primeiro avanço do poder médico sobre o campo punitivo foi tentado em 1563 por
um médico protestante dos Países Baixos, Johann Weyer (ou Weier ou Wier), que publicou,
em Basileia, um livro denominado As artimanhas do demônio, que rapidamente correu toda s
Europa, armando considerável reboliço.
Wier não negava a inferioridade da mulher nem a existência das bruxas e muito menos
sua periculosidade, pois continuava atuando dentro da mesma visão agostiniana do mundo,
configurada pelas cidades espelhadas de Deus e Satã. O que ele introduziu foi a novidade de
que as bruxas eram melancólicas e que, por isso, Satã se aproveitava delas, explorando sua
doença. Não é demais recordar desde já que a melancolia era o que, com Charcot, logo seria
chamado de histeria.
Ao mesmo tempo, como bom protestante, Wier aproveitava para dizer que os
verdadeiros bruxos eram os padres exorcistas, que praticavam sua magia diante de fetiches,
que eram os santos católicos. Cabe esclarecer que havia um agrupamento de exorcistas que
protestava toda vez que um padre que não pertencia ao agrupamento se lançava a exorcizar
alguém.
Mas voltando a Wier, devemos advertir que ele havia viajado a lugares distantes e
estudado várias plantas alucinógenas, razão pela qual também afirmava que muitas dessas
mulheres sofriam os efeitos de intoxicações pela atropina, pelo ópio e pelo hashish (a
maconha e a cocaína não haviam chegado).
A novidade introduzida por Wier é muito interessante, porque dá lugar àquilo que
subsiste ainda hoje, as chamadas medidas de segurança. O poder punitivo pode libertar-se de
limites argumentando de várias maneiras, e não há exagero nessa afirmação, pois o engenho
perverso que caracteriza seus discursos legitimadores é inusitadamente fértil. Um deles
consiste em ocultar ou dissimular seu próprio carácter punitivo, o que continua fazendo
mediante o expeditivo recurso de deixar de chamar penas às penas. Foi isso o que Wier
introduziu.
Com efeito, vimos que havia uma contradição entre, por um lado, a pena limitada pela
reprovação de culpabilidade fundada na escolha do infrator, na qual lhe é cobrada sua
culpa, própria dos juristas (glosadores e pós-glosadores), e, por outro, a periculosidade
afirmada pelos demonólogos, pois os primeiros não podiam justificar as penas máximas às
mulheres, porque eram menos inteligentes e, por conseguinte, deviam ser menos culpadas.
A solução transacional encontrada foi aumentar ao máximo a gravidade do delito das
bruxas e torná-lo superior até mesmo ao pecado original, com o qual, por qualquer das duas
vias, se habilitava a combustão, recurso que quatrocentos anos depois os penalistas do
nazismo voltariam a usar.
Wier propôs uma variante consistente na qual as bruxas eram retiradas do campo dos
juristas e dos inquisidores e deixadas nas mãos dos médicos, de modo que estes pudessem
colocá-las nos manicômios, que eram, em sua época, asilos infectos piores que as prisões,
onde não sobreviveriam por muito tempo. Desse modo, não se penalizava formalmente as
mulheres, mas as privava materialmente de liberdade até sua morte ou pouco menos, se bem
que suponhamos que as mulheres de classe alta poderiam ser atendidas a domicílio.
É interessante observar que até hoje no direito penal se discute se a pena é determinada
pela culpabilidade ou pela periculosidade, conquanto se dissimule a terminologia tratando
de combinar remendos contraditórios. Nessas combinações do não acumulável, o mais
frequente na legislação comparada é que se prevê fixar a pena segundo a culpabilidade, mas
os perigosos ou inimigos são deixados à mercê das medidas administrativas de segurança.
Desse modo, verificamos que não estamos falando de história no sentido mais usual do
termo, e sim do presente, ou seja, confirmamos, uma vez mais, que a Idade Média não
terminou.
De qualquer maneira, essa primeira tentativa de manipular o poder punitivo por parte
dos médicos não se fez graças à Igreja, nem tampouco aos reis e príncipes. O jesuíta Martín
do Río – belga como Wier, mas filho de pai espanhol – afirmou que Wier não só era um
herege, porque negava que as bruxas voassem, mas também um mago. Por conseguinte, se
Wier houvesse caído nas mãos católicas teria sido permitido que eles celebrassem um assado
a mais.
Todavia, como a queima de mulheres já não se praticava tanto por iniciativa da Igreja, e
sim pela dos juízes dos reis, a proposta de Wier alarmou os teóricos que estavam lançando
as bases do conceito de soberania, porque ele queria arrebatar um poder que estava
passando rapidamente para seus soberanos. Wier não só se havia imiscuído com o poder do
Papa, como também com o dos soberanos: tudo bem que o disputassem entre eles, mas não
que alguém pretendesse retirá-lo de ambos e deixar de queimar as mulheres para enfiá-las
em asilos.
Os dois teóricos mais fortes do conceito emergente de soberania, hoje tão
descaracterizado, foram, no século XVI, o inglês Thomas Hobbes e o francês Jean Bodin (ou
Bodino). Este último publicou um livro em resposta a Wier em 1580: De la démonomanie des
sorciers. De l’inquisition des sorciers. Bodin se dava conta de que a manipulação médica não
se limitava às bruxas, mas que ameaçava ir muito mais longe e, portanto, discorria que, com
o mesmo critério, todos os criminosos deveriam ser psiquiatrizados.
Porém, não foi somente Bodin quem percebeu a gravidade da ameaça médica ao poder
dos soberanos. O próprio filho de Maria Stuart, o rei Jaime I da Inglaterra e VI da Escócia –
perseguidor um tanto desanimado de católicos e puritanos, nos momentos de ócio que a
atenção de seus favoritos lhe permitia, uma vez que a rainha lhe dispensava muito pouca –
escreveu uma Demonologia em resposta a Wier.
Isso dá conta de que desde a primeiratentativa séria da corporação médica, todos os
donos do discurso do poder punitivo fizeram soar o alarma, o que parece mais que
justificado à luz dos fatos dos três séculos posteriores.
 
Ilustração 7
 
5. Sempre houve rebeldes e transgressores
Vimos que os inquisidores eclesiásticos no século XVI já não se ocupavam muito das
bruxas. Isso se deveu ao fato de o Papa ter nomeado um cardeal embaixador na Espanha e
este viu como a inquisição funcionava ali, como um instrumento muito eficaz de
verticalização a serviço do rei, dedicado a converter em cinzas todos os dissidentes perigosos
para a Coroa (os chamados hereges), em particular os que tentavam introduzir a desordem
com ideias das Igrejas reformadas nacionais de outros países.
Pois bem. Este cardeal voltou a Roma e quando o Papa morreu, foi eleito para substituí-
lo. Nem lento nem preguiçoso, copiou a organização da inquisição espanhola para combater
os reformados e suas heresias, ou seja, todos os que não lhe respondiam, revitalizando a
decadente inquisição romana e transferindo sua condução aos jesuítas.
Aqui vemos uma mudança de corporação hegemônica, em que o primado do discurso
sobre a questão criminal passou dos dominicanos aos jesuítas. Isso ocorreu no tempo em
que o discurso se centrava nos luteranos e em outros hereges e deixava de lado as bruxas,
cuja combustão passou a ser decidida pelos juízes dos reis e príncipes, que continuaram
praticando-a com singular paixão incendiária, em especial na Europa central, valendo-se
sempre dos ensinamentos do famoso Malleus.
Contudo, nem todos estavam tão loucos nesse tempo, pois houve autores que
escreveram contra essa prática, em particular alguns jesuítas. O grande rebelde foi Friedrich
Spee, que publicou, em 1631, um livro exclusivamente destinado a destruir o Malleus e aos
doutrinários que legitimavam a combustão de mulheres acusadas de bruxaria. Como era
natural, por elementar prudência, ele publicou o livro anonimamente e sem a licença dos
superiores de sua ordem, o que constituía uma falta gravíssima.
Em todas as épocas, o transgressor é um enigma. Como surge? Por que alguém desafia o
poder ou os valores dominantes, mesmo às custas de graves riscos? Há quem afirme que se
trata de casos em que aquilo que foi ensinado desde pequeno contrasta muito fortemente
com o que se verifica em seguida, na vida adulta, porém o certo é que isso acontece mais ou
menos com todos nós e para resolver os psicanalistas costumam comparecer.
De toda forma e sem descartar essa possibilidade, o certo é que por sorte sempre há
transgressores e, no caso de Spee, não podemos verificar se quando era pequeno, ao invés
de contos de fadas, lhe liam relatos de bruxas, e tampouco podemos fazer uma reportagem
com ele e lhe perguntar a esse respeito.
A julgar pelo que os biógrafos de Spee relatam, parece que o encarregaram de tomar a
confissão de todas as bruxas de sua comarca antes de queimá-las, e o pobre ficou tão
traumatizado que seu cabelo foi ficando branco, e não justamente porque as neves do tempo
branquearam suas cãs, já que era muito jovem.
O livro desse rebelde grisalho se chamou Cautio criminalis, ou seja, cautela ou prudência
criminal. O próprio título da obra era incômodo porque encerrava uma ironia: a Constitutio
criminalis era a ordenança criminal vigente e brutal de Carlos V, isto é, o texto legal, de
inusitada crueldade, que regeu o direito penal comum alemão desde 1532 até final do século
XVIII e em função do qual os juízes do imperador do Sacro Império Romano-Germânico
queimavam mulheres (depois que o SIRG foi dissolvido, essa tarefa coube aos dois príncipes
que se consideravam herdeiros do império desmembrado).
É curioso, mas Spee não era nem um jurista nem um criminólogo, e sim um poeta e,
segundo os especialistas, o melhor poeta alemão de seu tempo, além de destacado teólogo.
Pois bem. Esse rebelde encanecido, cansado das brutalidades e iniquidades das quais era
testemunha (ao que talvez conviesse acrescentar que as tinturas de seu tempo não eram
boas), decidiu jogar tudo em seu livro e se valer disso à vontade, sem poupar nenhum
detalhe nem adjetivo.
Spee não andou em círculos e não se enredou em discussões sobre o poder de Satã ou
das bruxas. Ele começa afirmando que não discute sua existência, mas que nunca conheceu
nenhuma e que não havia bruxa alguma entre as mulheres de quem recolheu confissão antes
de serem queimadas. Pelo contrário: afirma que com o procedimento inquisitorial qualquer
um podia ser condenado por bruxaria.
O encanecido não era nenhum bobo – um bom poeta nunca pode sê-lo – e, por
conseguinte, tomou o caminho correto em qualquer crítica ao poder punitivo, evitando cair
na armadilha usual que desvia a questão para a gravidade do mal que este pretende
combater e contra o que livra sua guerra.
Se o poder punitivo não serve para o que pretende, não é questão de entrar na
discussão acerca da maldade do que diz combater, e sim, simplesmente, mostrar que não o
faz. Nas discussões sobre as atuais andanças de Satã (ou o inimigo), não tem sentido discutir
se a cocaína é daninha, porque não há dúvida de que é; o importante é mostrar que a
pretensa guerra à cocaína provocou 40.000 mortos no México nos últimos quatro anos, boa
parte deles decapitados e castrados (a cocaína teria demorado quase um século para
provocar a mesma quantidade por efeito de overdose). Tampouco tem sentido discutir a
perversidade do terrorismo, e sim fazer notar que a suposta guerra já causou muito mais
mortos inocentes que o próprio terrorismo. Spee soube disso em 1631, embora muitos
comunicadores sociais não tenham se dado conta até o presente. Talvez tenha sido mais fácil
para Spee porque não via televisão.
 
Ilustração 8
 
Nosso encanecido jesuíta se perguntava como era possível que acontecessem essas
aberrações, o que era que permitia que continuasse semelhante barbárie. Em primeiro lugar
o atribui à ignorância da população, isto é, à desinformação, ou seja, à criminologia midiática
de seu tempo, carregada de preconceitos que se reforçavam desde as praças e os púlpitos,
ou seja, ao que hoje chamamos técnica völkisch (popularista, que alguns traduzem
equivocadamente por populista, que obviamente não é a mesma coisa).
Além do mais, ele destacava a responsabilidade da Igreja, entendendo por tal os
teóricos, isto é, os dominicanos e seus seguidores, que repetiam as palavras-de-ordem
discursivas da criminologia acadêmica de seu tempo, legitimadora desses assassinatos.
Prosseguia atribuindo culpa aos príncipes, que, desse modo podiam imputar todos os
males a Satã e a seus seguidores, sobretudo porque não controlavam seus subordinados, a
quem deixavam livres. Isso, hoje, é o que chamamos de autonomização policial, ou seja,
permitir que a corporação policial atue fora de todo controle político, para o qual se lhe
atribuem âmbitos de arrecadação autônoma, também destacados por Spee.
Com efeito, os inquisidores oficiais dos príncipes cobravam por bruxa executada, ou seja,
trabalhavam por tarefa. Por isso, esforçavam-se por obter o nome de outra candidata, a fim
de que a clientela nunca se esgotasse e, além do mais, atribuíam a Satã o suicídio de algumas
dessas infelizes, porque nesse caso não cobravam. Os príncipes não pagavam por bruxas
suicidas, porque não lhes serviam como espetáculo popular. Porém, como se isso fosse
pouco, Spee conta também que se dedicavam a percorrer os domicílios solicitando
contribuições para seu santo labor de purificação, ou seja, que trata-seva de uma venda de
proteção mafiosa. Como vemos, há poucas coisas novas sob o sol. Por último, nosso
encanecido poeta destacava algo que é até hoje moeda corrente na linguagem jurídica: os
eufemismos. Quando nas atas se fazia constar que as mulheres confessavam voluntariamente,
era porque o haviam feito uma vez penduradas e desconjuntadas, uma vez que só se
considerava confissão sob tormento quando os ferros eram aplicados.
O livro de Spee é um pouco tedioso e bastante desordenado, pois está escrito com base
no método das questões,ou seja, perguntas e respostas. São 52 questões e nas últimas ele
não poupa qualificativos: considera que a queima de mulheres pode ser comparada com o
que Nero fazia aos cristãos, o que implica que os juízes dos príncipes eram criminosos.
Ninguém se havia animado a semelhante adjetivação e teria de se passar mais de um século
e meio até que dissesse o mesmo Jean-Paul Marat, o revolucionário francês execrado por
toda a historiografía fascista posterior.
O que cabe destacar como mais significativo desse texto é que, assim como o Malleus
fixou a estrutura do discurso inquisitorial, a Cautio o fez com o discurso crítico. Com efeito,
qualquer discurso crítico do poder inquisitorial e do poder punitivo em geral, desde 1631 até
hoje destaca o seguinte: 1) o descumprimento de seus fins manifestos pelo poder punitivo; 2)
a função dos meios de comunicação; 3) a dos teóricos convencionais legitimadores; 4) sua
conveniência para com o poder político ou econômico; 5) a autonomização policial; e 6) a
corrupção ou a arrecadação autônoma.
Esses elementos estruturais estão presentes no discurso deslegitimador ou crítico de todo
poder punitivo, desde a crítica liberal ao poder punitivo do Antigo Regime até as teorias da
criminologia crítica das últimas décadas do século passado.
Nesse sentido, Spee fixou outro programa de computação que em cada época em que
floresce a crítica volta a ser prenchido com os dados correspondentes ao tempo de cada
autor. Pode-se dizer que até hoje construímos discursos seguindo alternativamente as
estruturas fundacionais do Malleus ou da Cautio.
O livrinho de Spee incomodava muito os príncipes, os dominicanos, os policiais e os
juízes, mas também os próprios jesuítas, que embora não queimassem mulheres, aplicavam o
mesmo procedimento contra os luteranos, e por isso ter semelhante infrator em suas fileiras
lhes criava um problema com os príncipes.
Se bem que o livro tenha sido publicado sem nome de autor, aos poucos se soube que
Spee era o responsável e não faltou quem imediatamente propusesse que ele fosse assado
em fogo lento, ideia que não prosperou, talvez porque isso lhe tivesse dado mais fama. De
qualquer maneira, era contaminador para a ordem, motivo pelo qual quiseram obrigá-lo a
renunciar a ela, a que o poeta se negou veementemente. No final, resolveram suportá-lo e
acalmá-lo na medida do possível, dando-lhe uma cátedra de teologia.
Alguns citam seu nome como Friedrich von Spee, o que não é certo, porque não era
nobre; seu nome era somente Friedrich Spee e o von Langenfeld não faz mais que indicar seu
lugar de origem.
Quatro anos depois da publicação da Cautio criminalis, em 1635, morreria contagiado
enquanto prestava assistência a soldados vítimas da peste. Imaginamos que sua morte tenha
sido um alívio para seus superiores, pois não se preocuparam muito com seus restos, que
ficaram perdidos até que, em 1980, conseguiu-se identificar seu corpo.
Pese a todo o empenho colocado por Spee e aos riscos que ele correu, seu livro passou
sem pena nem glória e os juízes continuaram levando adiante sua alegre queima de
mulheres, conforme as instruções do Malleus, que continuava sendo o livro de cabeceira dos
corruptos da época.
Setenta anos depois do aparecimento da Cautio, o filósofo Christian Thomasius releu sua
obra. Thomasius era um simpático senhor, que aparece nos retratos com seu rosto rosado
arredondado, sem que saibamos se era grisalho, pois cobria sua cabeça com uma peruca
loura, de longos cachos. Ao que parece, esse recurso protegia um respeitável conteúdo
craniano, porque Thomasius não duvidou em retomar os argumentos de Spee. Em 1701, ele
defendeu publicamente sua tese Dissertatio de crimine magiae, na qual desbaratava os
disparates do Malleus. Esta tese foi traduzida para o alemão três anos mais tarde e alcançou
grande repercussão, o que era explicável. Afinal, com Thomasius anunciou-se o Iluminismo
e, como se isso fosse pouco, lançou as bases para uma adequada distinção entre moral e
direito (pecado e delito), embora até hoje pululem muitos que se negam a compreendê-la e
que, sem dúvida, se bem que nossa civilização mostre, a cada dia, mais defeitos, é uma de
suas melhores conquistas.
Esse emperucado filósofo obscureceu o Malleus até desaparecer e ficar reduzido a uma
curiosidade histórica.
Na verdade, devo dizer que tudo o que estou contando era muito pouco conhecido
pelos penalistas e criminólogos posteriores, até o momento em que o Malleus foi publicado
em versão em espanhol há menos de quarenta anos por historiadores, em uma edição que
está completamente esgotada (há menos de uma década veio à luz uma outra edição). A
Cautio criminalis nunca foi traduzida para o espanhol e até onde sei, tampouco o foi a tese
de Thomasius. Tudo isso foi recoberto por um manto de silêncio, como se não fizesse parte
da história do direito penal e da criminologia. Insisto em que se trata de ascendentes que
esses saberes tentaram ocultar, como a árvore genealógica de algumas famílias ilustres que
se empenham em esconder a origem de suas fortunas.
6. As corporações e suas lutas
Nos anos transcorridos entre a Cautio e a Dissertatio – ou seja, entre 1631 e 1701– estava
a se aprofundr outro fenômeno, o surgimento do sujeito público, que se acentuaria no curso
do século XVIII.
No Estado absoluto o senhor exercia poder de vida e morte, que, na realidade, era só
poder de morte, pois não podia dar a vida. Para matar ou deixar viver, como diz Foucault,
não se necessitava de muita especialização, porque, no geral, matar é uma operação
bastante simples para o poder estatal, que, para isso, não tem necessidade de mais nada do
que uma agência ou corpo de assassinos mais ou menos dissimulados e elevados a
funcionários.
O problema se complicou quando o poder estatal começou a se preocupar em regular a
vida pública, quer dizer, não de cada indivíduo em particular, mas sim do sujeito público. A
função do Estado complicou-se e o príncipe precisou se cercar de secretários ou ministros
especializados que passaram a encarregar-se da economia, das finanças, da educação, da
salubridade públicas, isto é, desse sujeito público.
Como é natural, ao redor de cada ministro se foi formando uma burocracia
especializada, que construiu um saber ou ciência que se alimentava a partir das
universidades.
Desse modo, formaram-se as corporações de sábios especialistas, cada uma com um
saber próprio, expresso em um dialeto compreensível apenas para os iniciados, ou seja, para
os que pertencem à respectiva corporação e, por conseguinte, inacessível ao vulgo de
estranhos a esta, geralmente chamados leigos (também poderiam ser chamados de bárbaros,
porque assim eram chamados os que não compreendiam ou falavam mal a língua local).
Trata-se de corporações que monopolizam o discurso e se fecham aos estranhos
mediante seu dialeto particular. Não deve chamar a atenção que os criminalizados façam o
mesmo sob a forma do jargão delinquencial, que foi matéria de estudo de sisudos
criminólogos do século passado, que não se deram conta de que eles se expressavam em seu
próprio jargão e que também eram bárbaros a respeito do dialeto dos presos.
Desde os séculos XVII e XVIII e até o presente, as corporações monopolizam seu
discurso e disputam entre elas para ampliar sua competência, sem contar que há, também,
uma luta interna de escolas na busca de conseguir impor a hegemonia do próprio
subdiscurso. Em síntese, há lutas intercorporativas e também intracorporativas.
Não é de estranhar, portanto, que o discurso penal e criminológico tenha sido matéria de
disputas entre as corporações, como não podia ser deixar de ser, dado que é sempre um
discurso acerca do próprio poder. Isso não é nenhuma novidade, posto que desde muito
antes de essa luta entre corporações tomar corpo vimos como o primado passou dos
dominicanos aos jesuítas, e os médicos, com Wier, também quiseram meter sua colher, que
em séculos posteriores se tornará um enorme colherão.
Vimos que o poder punitivo gera as estruturas colonizadoras, mas também fossilizaas
sociedades que adquirem essa estrutura, razão pela qual elas não são muito aptas como
cenário para a luta de corporações e menos ainda se se trata do discurso do próprio poder
punitivo.
Sempre há discursos sobre esse poder, mas apenas um se torna hegemônico ou
dominante, porque resulta funcional a algum setor social, que o adota e o estimula. Isso tem
lugar quando há uma dinâmica social mais ou menos acelerada, ou seja, quando surge um
conflito interno na sociedade e um setor de certa importância quer deslegitimar o discurso
do poder do setor a que tende a se deslocar ou frente ao qual quer abrir-se um espaço. Por
isso, as sociedades colonialistas espanhola e portuguesa não eram o melhor campo para a
luta das corporações e, consequentemente, o cenário desta luta transferiu-se para a Grã-
Bretanha primeiro e para a França e a Alemanha depois, onde estava surgindo uma classe
de industriais, comerciantes e banqueiros.
Essa classe em ascensão necessitava controlar e impor limites ao poder da nobreza e do
clero, que até então eram as classes dominantes. É claro, o poder mais temível das camadas
hegemônicas era o punitivo, que ameaçava os novos empresários que assediavam seu
Estado absoluto e que eram considerados dissidentes perigosos. Veremos que não foi apenas
o livrinho de Spee que se publicou anonimamente por razões de prudência elementar e
sentido de conservação.
Como não existe poder sem discurso – ou, pelo menos, este não dura muito sem o texto
–, resultava funcional às novas classes em ascensão assumir outro discurso acerca do poder
punitivo e, por conseguinte, deviam procurá-lo em outras corporações, diferentes daquelas
que o haviam monopolizado até aquele momento.
Por essa razão, na segunda parte do século XVIII foi tomando corpo o saber das
corporações dos filósofos e pensadores no campo político geral e, portanto, o dos juristas
que seguiam seus alinhamentos limitadores do poder punitivo. Assim nasceu o Iluminismo, o
século das luzes ou da razão e, em seu amparo, o chamado direito penal liberal.
O novo discurso passou a ser obra das corporações dos filósofos e juristas que se
defrontavam com os legitimadores do Antigo Regime e frente ao qual houve várias reações
diferentes.
Em princípio, houve príncipes que se davam conta de que algo estava mudando e que,
antes de que a prateleira caísse, preferiram acolher o novo discurso, pelo menos em boa
parte (na que incomodava menos e lhes permitia continuar gozando da maioria de seus
privilégios). Foi essa atitude que deu lugar ao chamado despotismo ilustrado, que pretendia
fazer todas as mudanças a partir do poder, desde cima, com o lema tudo para o povo, tudo
pelo povo, mas sem o povo.
Houve outros príncipes menos sagazes, que preferiram seguir em frente, e contra os
quais se ergueram os revolucionários, radicalizando o discurso crítico do sistema penal em
maior ou menor medida, de liberais a socialistas.
7. O utilitarismo disciplinador
Em geral, o Iluminismo penal se nutriu de duas variantes opostas, embora muitas vezes
coincidentes em seus resultados práticos: o empirismo e o idealismo. Com a permissão dos
mais finos historiadores da filosofia, que nós obtivemos sem consultá-los, pode-se dizer que
houve, no Iluminismo, uma convergência de vias de conhecimento ou acesso à verdade: uns
a buscavam mediante a verificação na realidade material e outros através da dedução de
uma ideia dominante.
Sem nos aprofundarmos muito, poderíamos afirmar que se achavam em germe os
elementos que em seguida teriam de se separar entre aqueles que só aceitavam o que
resultava da observação, medição e experimentação, e aqueles que partiam de uma primeira
ideia iluminadora, que lhes servia de guarda-roupa no qual acomodar as roupagens do
mundo, às vezes sob pressão.
No campo criminológico, essa dupla corrente deu lugar a duas ordens teóricas: o
utilitarismo disciplinador e o contratualismo (ou talvez, os contratualismos, em todas as suas
variantes).
Os utilitaristas tinham como base que era necessário governar proporcionando a maior
felicidade ao maior número de pessoas. A cabeça mais visível dessa corrente foi o inglês
Jeremy Bentham, personagem de vida longa, cujo esqueleto vestido se encontra em uma
vitrine no colégio que ajudou a fundar, embora se diga que a cabeça foi mumificada e em
seu lugar se colocou uma de cera. Parece que acontece alguma coisa com as cabeças
daqueles que elaboram teorias criminológicas, pois se comenta que a de Lombroso está
conservada em formol em um museu em Turim. Por sorte, faz tempo que se perdeu o
costume de se dispor das cabeças dos criminólogos post-mortem, embora isso seja sempre
preferível a que outros o façam ante-mortem por eles. Mas voltemos ao nosso ponto.
Bentham concebia a sociedade como uma grande escola, na qual devia impor-se a
ordem, ou seja, a chave era a disciplina e, para tal, o governo devia repartir prêmios e
castigos: como é óbvio, os prêmios proporcionavam felicidade e os castigos dor e, como
também parece óbvio, o ser humano saudável e equilibrado devia preferir os primeiros, com
sua felicidade, e não os castigos, com sua dor. Por isso, ele deveria abster-se de cometer
delitos. Todavia, delitos eram cometidos, o que indicava que o infrator não estava bem, ou
seja, que não era suficientemente ordenado, dado que escolhia a dor. Era como a criança
desobediente, que obriga a professora a chamar os pais e lhes informar que algo está
acontecendo com ela. Hoje o psicólogo intervém, e se ele é bom pode chegar a descobrir
que o menino é mais inteligente que os pais e a professora; há cinquenta anos ele corria o
risco de o deixarem bobo com uns eletrochoques, e, há duzentos, Bentham queria colocar o
adulto a quem acontecia alguma coisa em um invento arquitetônico que chamou de
panóptico, que era um aparato para discipliná-lo. Vamos, porém, por partes.
É evidente que Bentham se deparava com o problema da impunidade da grande maioria
dos delitos e bancava o distraído a respeito da seletividade do poder punitivo, razão pela
qual tratava de resolver a questão postulando que as penas deviam ser mais graves quanto
maior fosse a impunidade, o que não parece muito razoável, porque ninguém tem a culpa
da torpeza ou Da referência do Estado ao repartir o poder punitivo. Para disciplinar os
desobedientes descontrolados, Bentham se irritava com os mais bobos, que eram os
enganados pelo poder.
Mas prossigamos. Para Bentham, o delito coloca em evidência um desequilíbrio, produto
da desordem pessoal do infrator, que deve ser corrigido. Para isso, projetou a referida prisão
chamada panóptico, com estrutura radial, para que o preso saiba que será observado a partir
do centro e por olhos mágicos a qualquer momento. Desse modo, ele seria introduzido na
ordem e, ao final, acabaria se tornando seu próprio vigilante, isto é, comeria o guardião (é
mais delicado dizer que o introjetaria).
Essa ideia era tomada de alguns médicos que asseguravam ser a doença mental também
produto da desordem e por isso os manicômios deviam ocupar-se do disciplinamento dos
doentes, colocando-os para trabalhar, na convicção de que a ordem física redundaria na
ordem mental. Dessa perspectiva, não importa que o trabalho dos presos ou dos loucos seja
ou não rentável ou útil, porque é um valor disciplinador em si mesmo, como podia ser o
famoso quebrar pedras.
O disciplinamento devia ser levado a cabo na medida do talião, ou seja, de uma dor
equivalente à provocada pelo delito. A obssessão pela retribuição exata levou Mr. Jeremy a
projetar uma máquina de açoitar, para que a intensidade da dor fosse uniforme e não
ficassse entegue ao arbítrio do carrasco. Ainda que a guilhotina não tenha sido inventada por
ele (foi criada na França), o certo é que ela foi imaginada respondendo ao mesmo critério.
As leis penais são feitas hoje em dia pelos assessores dos legisladores, de acordo com a
agenda definida pelos meios de comunicação de massa, mas no começo do século XIX as
projetavam os penalistas e, quando estes tomaram a ideia de Bentham, acabaram
elaborandocódigos penais com penas fixas e longas listas de agravantes e atenuantes,
prevendo percentuais para cada um. Assim foi redigido, por exemplo, o primeiro código
penal do Brasil, em 1831, e seus comentadores anotavam os difíceis cálculos matemáticos
para cada caso, porque não se conheciam as calculadoras e nem todos os juízes haviam
obtido boas notas no secundário.
Bentham presenteava seu modelo a todo o mundo, tendo, inclusive, mantido
correspondência com Bernardino Rivadavia. Houve panópticos em muitas cidades da
América Latina, às vezes completos e outras semi-radiais, em geral porque o orçamento não
era suficiente para fazê-los completos. Alguns subsistem, convertidos em museus ou
mercados (como em Recife e em Ushuaia), ou funcionando como prisão – o de Quito,
construído no século XIX pelo ditador Gabriel García Moreno e por cujas celas passaram
quase todos os políticos equatorianos do século seguinte, sem contar com o fato de as
turbas, instigadas pelos conservadores, terem arrancado o líder liberal Eloy Alfaro desse
presídio e o linchado, em 28 de janeiro de 1912.
Cabe esclarecer que os panópticos nunca funcionaram como Bentham havia imaginado,
pois logo os presos descobriram sua lógica e a superlotação fez com que a visão fosse
interrompida com os múltiplos obstáculos.
O disciplinarismo dos utilitaristas deu muito o que falar nos anos setenta do século
passado, quando Foucault o considerou diretamente um modelo social e, na Itália, Dario
Melossi e Massimo Pavarini publicaram um livro intitulado Cárcere e fábrica, em que
destacam uma matriz comum com o disciplinamento para a produção fabril nas origens do
industrialismo. Um professor argentino, Enrique Marí, contribuiu para enriquecer essas
reflexões entre nós.
Os utilitaristas não admitiam que existisse nenhum direito natural anterior à sociedade e
sobre o qual esta não pudesse avançar. Os direitos deviam ser respeitados unicamente
porque sua lesão havia provocado mais dor que felicidade.
Era claro que o utilitarismo de Bentham encerrava uma concepção criminológica, pois
fincava a etiologia do delito na desordem da pessoa e, por conseguinte, surgia daí uma política
destinada a combatê-lo mediante o disciplinamento, que importava a pena talional no
curioso aparato inventado.
Se bem que Bentham tenha se desenvolvido na Grã-Bretanha e rechaçado a ideia do
contrato social e do direito natural anterior à sociedade, foi condecorado pelos
revolucionários franceses, pois representava um avanço frente ao brutal exercício do poder
punitivo de seu tempo.
 
 
8. Os contratualismos
Vimos que nas obras tradicionais se costuma afirmar que a criminologia nasceu na
segunda metade do século XIX, ou seja, quando obteve reconhecimento acadêmico como
saber independente. O mais curioso, porém, é que essas obras não só se calam sobre tudo o
que relatamos até agora a respeito dos séculos anteriores, como também, não podendo
ignorar o pensamento do século XVIII e da primeira parte do século XIX, preferem afirmar
que este não era criminológico.
É muito curiosa essa posição, porque faz parecer que a criminologia assim entendida
não só se comporta como uma família que oculta seus antepassados pouco apresentáveis,
bem como nega todo parentesco com os que não pode ocultar, porque a vizinhança os
conheceu bem e as comadres do povoado se lembram deles. Realmente, trata-se de uma
ciência à qual é necessário recordar que seu berço foi um cortiço iluminado a querosene.
Se bem que os autores dos discursos acerca da questão criminal, provenientes das
corporações de filósofos de primeiríssima linha ou de juristas que seguiram seus
pensamentos, se tenham dedicado a criticar o poder punitivo de seu tempo e a propor
reformas legislativas, não se pode ignorar que eles se apoiavam numa criminologia, pois
partiam de certa concepção do delito e do delinquente e, portanto, atribuíam a origem do
delito a determinadas razões e propugnavam penas dirigidas a eliminá-lo ou a reduzi-lo. Para
isso, necessitavam partir de uma certa ideia do ser humano e da sociedade.
Por outro lado, como propunham reformas ao sistema penal, eram fortemente críticos do
poder punitivo de seu tempo. Tudo isso, sem dúvida, é criminologia, pois difícilmente se
pode negar que a crítica ao poder punitivo, à forma em que é exercido, a suas modalidades
etc. o seja.
Essa negação da dimensão criminológica dos filósofos e juristas do Iluminismo do
penalismo liberal obedece a uma fábula inventada em fins do século XIX por Enrico Ferri,
que foi o mentor do positivismo italiano, de grande fama em seu tempo e de quem falaremos
com mais detalhe.
Como bom positivista, Ferri considerava-se o porta-voz dos donos da ciência, afirmando
que antes dele e seus partidários não tinha havido senão escuridão, metafísica e
charlatanismo. Chegou a afirmar que tudo o que antes se havia dito acerca da questão
criminal era espiritismo, mas, com muitíssima habilidade e pretendendo tributar-lhe uma
homenagem, chamou a todo o saber precedente de escola clássica, para erigir-se, ele mesmo,
no líder da nova escola, da scuola positiva.
A invenção de uma escola clássica, que abarcava tudo o que fora pensado desde o
século XVIII até as torpezas do positivismo racista das últimas décadas do século XIX, foi a
melhor fábula de Ferri, tão bem sucedida que ainda é repetida nos manuais dos nossos dias.
Não posso deixar de recordar que assim me explicava, na Faculdade de Direito da
Universidade de Buenos Aires, um professor que usava polainas e chapéu de palha a
Maurice Chevalier, se declarava positivista e se referia ao presidente da República como esse
gringuinho. Outro professor, não tão pitoresco, continuou falando a mesma coisa até o final
da ditadura. Por via das dúvidas, esclareço que foi no século passado, mas não no XIX,
porque tudo passa muito rápido e repito que não sou nenhum fenômeno biológico.
O certo é que resulta inadmissível que os utilitaristas e todas as variantes do
contratualismo, os kantianos, os hegelianos, os krausistas, os déspotas ilustrados de calças
brancas e peruca e os descamisados revolucionários, todos juntos, formassem uma escola,
além do mais fundada por um marquês milanês gordinho, do final do século XVIII, e que
tenha durado mais de cem anos, estendida por países que se matavam alegremente entre si.
Foi sem dúvida a melhor brincadeira de Ferri, na qual caíram inclusive seus oponentes.
Se Ferri está em algum lugar, com sua oratória envolvente e seus cabelos revoltos,
continuará gozando com segurança do êxito de sua ocorrência. Se nos afastarmos dessa
armadilha tramada pelo velho positivista e prescindirmos da imaginária escola clássica, o que
encontramos é um conjunto de discursos mais ou menos funcionais à classe em ascensão dos
industriais, comerciantes e banqueiros, para seu enfrentamento com o poder hegemônico
das nobrezas nos países da Europa central e do norte.
Não podemos passar em revista aqui todos esses discursos, que por certo são
interessantíssimos, tanto para o direito penal quanto para a criminologia. Limitando-nos a
esta, podemos afirmar que, em conjunto, eles representaram uma forte corrente crítica ao
exercício arbitrário do poder punitivo, baseada na experiência das arbitrariedades e
crueldades de seu tempo, dominado pelas nobrezas.
Todos eles, valendo-se dos elementos filosóficos de sua época, repensaram
profundamente o concernente à questão criminal. O utilitarismo mais puro ficou na Grã-
Bretanha, enquanto que no continente os pensadores deduziram suas visões e propuseram
suas reformas preferencialmente a partir da outra vertente do Iluminismo, quer dizer, do
contratualismo.
 
 
Obviamente que nenhum destes pensadores acreditava seriamente que uns tantos seres
humanos, adornados com folhinhas de parreira nas partes pudendas, houvessem se reunido
num escritório para firmar um contrato e fundar a sociedade, como hoje poderiam fazer uns
bons comerciantes mais protegidos. Eles eram muito inteligentes para acreditar em algo
semelhante. O contrato era, para eles, uma metáfora,uma figura da imaginação para
representar graficamente a essência ou a natureza da sociedade e do Estado. Essa corrente
foi a que predominou na Europa continental para enfrentar os ideólogos do Antigo Regime,
que se valiam, por sua vez, de outra metáfora, pois para eles a sociedade era um organismo
natural, com uma repartição de funções que não podia ser alterada nem decidir seu destino
pela escolha da maioria de suas células. Todo o organicismo social, inclusive os que
renascem no presente, é essencialmente antidemocrático: as células que mandam são as do
cérebro, e as das unhas devem conformar-se com sua função de não incomodar; qualquer
pretensão ao contrário não é, para qualquer organicismo social, mais do que caos contra a
lei natural.
Para o racionalismo contratualista, a sociedade não era em nada natural, mas sim
produto de um artifício, de uma criação humana, ou seja, de um contrato que, como tal,
podia ser modificado e até mesmo rescindido, como acontece com qualquer contrato quando
a vontade soberana das partes o decide.
Nesse marco, podemos afirmar que o pensamento crítico acerca da questão criminal
alcançou um de seus momentos de mais elevado conteúdo pensante com os discursos dos
contratualistas do Iluminismo. O marquês gordinho, que, segundo a fábula do velho Ferri
encabeçava essa escola era Cesare Beccaria, um funcionário milanês que publicou, em 1764,
um famoso livrinho (Dos delitos e das penas), o qual desencadeou uma série de trabalhos
análogos em toda a Europa, propondo profundas reformas quanto às garantias e aos limites
ao poder punitivo.
Além de ser o avô do inesquecível autor de I promessi sposi – Alessandro Manzoni –,
Beccaria era um homem tranquilo e acomodado, que nunca mais voltou a escrever nada
sobre a questão criminal e que dedicou o resto de sua vida a questões como a unificação dos
pesos e medidas.
Seus pressupostos antropológicos não são de todo claros, porque também era tributário
de Hume, o que, em alguma medida, o aparentava com as raízes do utilitarismo, mas o certo
é que foi oportuníssimo, algo assim como a bofetada intelectual mais contundente ao poder
punitivo da nobreza. Através da tradução francesa do abade Morellet, ele foi divulgado por
toda a Europa pelo velho Voltaire, que havia declarado guerra ao poder punitivo francês,
assumindo a defesa postmortem de Calas, um protestante executado, falsamente acusado da
morte de seu filho, supostamente para que este não se convertesse ao catolicismo. Algo
muito parecido havia olcorrido um século antes em Praga com um judeu, mas este não teve
a sorte de encontrar o seu Voltaire.
Em função das ideias iluministas, começaram a ser sancionados códigos, isto é, foram
abolidas as recopilações caóticas de leis e tratou-se de concentrar toda a matéria em uma
única lei, redigida de forma sistemática e clara, conforme um plano ou programa racional.
Essa tendência legislativa era uma derivação do enciclopedismo, que havia levado à redação
da Enciclopedia na França pré-revolucionária, ou seja, a tentar concentrar sistematicamente,
em um único livro, todo o saber da época.
Desse modo, procurava-se dar clareza e que todos soubessem, com base na lei prévia, o
que era e o que não era proibido, substraindo-o da arbitrariedade dos juízes. Os
revolucionários franceses quiseram levar isso até o extremo de substituir as orações nas
escolas pelo código penal, para que todos o soubessem de cor. Menos mal que ninguém teve
a ideia de fazer o mesmo com os 4.000 artigos do nosso Código Civil.
Quanto ao processo, os julgamentos se tornaram públicos. Foucault destaca a mudança:
no Antigo Regime, os julgamentos eram secretos e as execuções públicas; desde fins do
século XVIII os julgamentos passaram a ser públicos e as execuções secretas. O espetáculo
era o julgamento e não a execução, levada a cabo privadamente e à qual podiam assistir
somente alguns convidados especiais. É claro que com o julgamento público a tortura foi
abolida.
Não deixa de ser importante a redução da pena de morte e a supressão das penas
corporais. Até esse momento, falava-se das penas naturais, ou seja, que, além dos açoites,
havia uma sobrevivência da pena no órgão que se havia sido usado no fato: a língua do
perjuro e do blasfemo, a mão do ladrão e na violação e na sodomia vocês deduzirão qual. A
partir do século da razão, a coluna vertebral das penas passou a ser a privação da liberdade.
Indo contra o que usualmente se crê, a prisão é um invento europeu bastante recente e
difundido pelo neocolonialismo, pois antes do século XVIII era usada pelos devedores
morosos e como prisão preventiva, isto é, à espera do julgamento. A privação de liberdade
como pena central é um produto do Iluminismo, seja pela via do utilitarismo (para impor a
ordem interna mediante a introjeção do vigilante) ou do contratualismo (como indenização
ou reparação pela violação do contrato social).
Este último é interessante e não em vão o gordinho Beccaria dedicou parte de sua vida à
unificação de pesos e medidas. Na Revolução Industrial, era fundamental a atividade
mercantil e para ela era necessário resolver as diferenças que o caos de pesos e medidas
diferentes provocava em cada país. A unificação facilitava o comércio. A unificação das
penas também facilitava sua medida, superava o caos prévio das penas naturais e permitia
medi-las todas em tempo.
Como se entende que um homicídio valha de oito a 25 anos e um furto de um mês a três
anos? O que é isso? Dois juízes procedendo como comerciantes que vendem pena por metro
(ou por anos) no mostrador da justiça? Por estranho que pareça, não é mais do que um
efeito do contratualismo que perdura até o presente.
Quem viola um contrato (não cumpre o que está acordado nele) deve indenizar. Se me
comprometo a vender algo e não entrego a coisa em seu momento, devo indenizar o
comprador pelo dano que lhe ocasionei. Se não pago voluntariamente reparando esse dano,
me embargam e sequestram bens e os executam, fazendo-se, desse modo, a cobrança. Pois
bem, se não cumpro com o contrato social e cometo um delito, devo indenizar. Como? Com
o que? Ora, com o que posso oferecer no mercado, ou seja, com minha capacidade de
trabalho.
Daí que a pena me prive de oferecer meu trabalho no mercado durante mais ou menos
tempo, segundo a magnitude de minha infração ao contrato (delito) e o consequente dano.
Até mesmo a pena de morte entra nesta lógica tão particular, pois opera como uma
confiscação geral de bens; daí que também tenha desaparecido a pena de morte agravada
com a tortura.
Pode parecer insólito, mas essa é a origem da ideia da unificação das penas em tempo
de privação de liberdade, que em seguida se cobrirá com outras racionalizações até nos
parecer, a pouco mais de dois séculos de distância, como normal e quase óbvia.
Rapidamente nos acostumamos às coisas mais rebuscadas e quando nos perguntam por que,
a resposta é sempre foi assim, embora não tenha sido sempre nem muito menos assim.
Na prática, tampouco, funcionou desse modo, mas sim que os europeus viram, desde
muito cedo, que seu problema não era com os “ameaçadores”, e que a prisão não atingia a
todos, por mais miseráveis que fossem e por mais alta que tenha sido a taxa de mortalidade
nelas registrada. Como eram países neocolonialistas, o primeiro que fizeram foi tirar de cima
os incômodos e enviá-los para suas colônias. Essas penas de relegação ou transporte foram
aplicadas particularmente pela Grã-Bretanha e pela França. Os ingleses mandavam seus
indesejáveis para a Austrália, onde os prisioneiros eram destinados aos colonos, em um
regime muito parecido com as encomiendas da nossa colonização, embora com melhor
destino, porque, ao que parece, muitos sobreviveram e seus descendentes povoaram o
continente.
9. Os contratualismos tornam-se problemáticos
Na realidade, os contratualistas se ocupavam em imaginar e programar o Estado e a
questão criminal tornava-se central para eles, porque o que planificavam conforme suas
concepções era o próprio poder. Essa íntima e inseparável relação dopoder com a
criminologia foi o que se perdeu de vista na última metade do século XIX, quando se quis
fazer da criminologia uma questão científica e asséptica, estranha ao poder e separada da
ideia mesma de Estado. Essa tendência não foi abandonada até a atualidade e hoje retoma
grande força em toda a construção da realidade midiática.
Como era de se esperar, houve vários contratualismos, porque a metáfora do contrato
permitiu construir diferentes imagens do Estado, fundadas também em ideias díspares do ser
humano (antropologias filosóficas, diríamos hoje).
Desde os albores modernos dessa metáfora notou-se essa disparidade, que começou na
Grã-Bretanha no final do século XVII, prenunciando o processo de industrialização e a
acumulação primitiva de capital. Ali se enfrentaram o contratualismo de Hobbes e o de
Locke. Para Hobbes, em seu famoso Leviatã, a origem da sociedade se encontrava em um
contrato, mas celebrado entre sujeitos dos quais tinham caído as folhas de parreira, porque
tinham as mãos ocupadas com garrotes para se matarem com singular prazer entre eles. Em
certo momento, eles teriam se dado conta de que não era bom negócio o que estavam
fazendo, baixaram os machetes e se puseram de acordo em dar todo o poder a um deles,
para que terminasse a guerra de todos contra todos.
Como, na realidade, isso era pouco verificável, este filósofo (cujos retratos o mostram um
pouco mefistofélico, embora à medida que ia ficando mais velho, ia ganhando a cara de um
bom velhinho), não sabia onde encontrar um exemplo de grupo humano em semelhante
condição, mas afirmou que ainda existiam na América. Os hobbesianos atuais possívelmente
o situam em algum planeta de estranha galáxia, a muitos anos-luz de nós, cujos hipotéticos
habitantes podem se ofender no futuro, tanto como nós, hoje em dia.
É óbvio que o conceito do ser humano de Hobbes não era muito edificante, pois o
concebia como um ente movido pela ambição de poder e prazer. O depositário do poder em
seu contrato não tomava parte deste, razão pela qual os que lhe haviam dado o poder não
poderiam reclamar-lhe nada, porque, do contrário, reintroduziriam o caos, ou seja, a guerra
de todos contra todos. Por outra parte, como antes do contrato o que existia era o caos, não
havia direitos anteriores ao contrato e todos derivavam deste, de modo que, caso se negasse
a autoridade do depositário, todos os direitos desapareciam.
Desse modo, Hobbes não aceitava direito algum de resistência à opressão, embora não
explicasse o que aconteceria quando o depositário do poder, que continuava sendo humano,
se movesse, exercendo-o conforme a tendência natural à ambição de poder e glória e
desconhecesse qualquer limite legal imposto pelo contrato. Sua resposta era que qualquer
opressão é preferível ao caos, o que escutamos toda vez que se quer converter a política em
filme de terror.
Para manter essa curiosa paz, Hobbes exigia que as penas fossem estritamente legais e
se aplicassem mecanicamente, salvo aos inimigos, que eram os dissidentes que se queixavam
e os colonizados que estavam em estado selvagem.
Para Locke (a julgar por seus retratos, no meu bairro o chamariam de John, o fracote), o
contrato era diferente, pois antes de sua celebração houve um estado de natureza em que os
humanos tinham direitos, mas estes não estavam assegurados, e por isso decidiram celebrar
o contrato como garantia. Para isso entregaram o poder a alguém, mas o deixaram
submetido ao contrato. Devem obedecer a este, embora não gostem de fazê-lo, mas quando
ele viola o contrato e nega esses direitos anteriores, reintroduzindo o estado de incerteza
prévio, aí surge o direito de resistência ao opressor.
Com toda certeza, o conceito de ser humano do fracote John não era tão negativo como
o de Hobbes e, além do mais, a ideia que manipulava do estado de natureza era mais digna
de crédito.
Como se pode ver, Locke é uma das mais destacadas expressões do liberalismo político
e, no fundo, o inspirador das declarações de direitos das últimas décadas do século XVIII.
Nesses anos finais do século XVIII o debate inglês de quase cem anos antes se
reproduziu com fineza na Alemanha, ao aprofundar-se a investigação acerca da razão e seus
limites. Era natural que um século que fora caracterizado como da razão se perguntasse
finalmente quais eram sua natureza e seus limites. As tentativas mais elaboradas de
responder a isso foram levadas a cabo por Inmanuel Kant, com suas duas investigações ou
críticas, sobre a razão pura e a razão prática.
Dizem que Kant levava uma vida extremamente metódica, a ponto de as comadres de
sua Monterrey (não era mexicano, mas é isso que Königsberg significa, embora ninguém o
traduza) sabiam que deviam deixar de fazer fofoca começar a preparar a comida porque
Herr Professor havia passado. O certo é que o pobre era uma máquina de pensar e escrever.
Estava mais próximo de Hobbes do que de Locke, embora meus colegas penalistas o
destaquem como o pai do liberalismo penal. Não obstante, admitia que, se a resistência se
transmutava em revolução e estabelecia outro governo, a discussão estava encerrada e era
preciso apoiar o novo.
Para conservar o contrato e não voltar ao estado de guerra de todos contra todos
(estado de natureza), Kant defendia a necessidade da pena talional, com a qual vinha, por
uma via curiosa, coincidir com a medida da pena dos utilitaristas.
Houve, nesse tempo, um jovem brilhante que, partindo da filosofia kantiana, afastou-se
de seu autor e com seus próprios fundamentos aproximou-se mais de Locke. Era Anselm von
Feuerbach, o pai do muito mais conhecido Ludwig Feuerbach. Não obstante, o velho foi
muito fora de série. Aos 23 anos escreveu algumas obras maravilhosas, superando a Kant no
jurídico, porque, por sorte, teve que se dedicar à questão criminal quando o pai lhe cortou
as provisões porque tivera um filho fora do casamento. Devido a esse feliz acidente
biológico, tivemos um penalista genial, que defendeu o direito de resistência à opressão e a
ideia de direitos anteriores ao contrato, aprofundando a separação da moral e o direito
iniciada por Thomasius e seguida por Kant, segundo alguns com maior êxito do que este
último.
Entre as coisas que Feuerbach fez em sua vida – que foram muitas e nem todas santas –,
destaca-se seu código para a Baviera, de 1813. Ele é importante para nós porque Carlos
Tejedor, quando foi encarregado de redigir o primeiro projeto de código penal argentino,
tomou como modelo este código e não o de Napoleão, que era o mais empregado. Desse
modo, Feuerbach é o avô do pobre código que hoje foi completamente demolido ao
compasso dos tiros de canhão obedientes aos meios de comunicação de massa. Nos tempos
de Feuerbach não havia televisão, mas igualmente não pôde suprimir o delito da sodomia
(como Napoleão o havia feito). Ele degradou-o a contravenção menor e o justificou de modo
muito curioso: disse que, se todos a praticássemos, a humanidade acabaria. É claro que ele
não acreditava nisso, mas também nessa época havia meios de comunicação e agenda
midiática.
É algo mais do que pitoresco recordar que nos últimos anos de vida, Feuerbach se
interessou por um adolescente, ao qual protegeu, que apareceu perambulando perdido, que
crescera encerrado numa torre e cuja origem nunca se conheceu. Ele foi batizado de Kaspar
Hauser e sua história deu lugar a uma novela e a vários filmes. Era inevitável que alguém
que acreditasse em um estado de natureza anterior ao contrato se interessasse por esse
personagem. Chamou de crime contra a humanidade o que fora feito com ele e, embora
nunca se tenha provado que fosse o herdeiro da coroa, o certo é que pouco depois da morte
de Feuerbach o pobre Kaspar foi atravessado por uma espada numa esquina.
As más línguas dizem que o próprio Feuerbach morreu envenenado por causa de seu
protegido, mas tudo indica que isso não passa de uma lenda, sendo o mais provável que sua
morte tenha sido causada por hipertensão, pois era gordinho, parece que não se privava de
nada e, além do mais, tinha um caráter bastantecorrompido.
10. Contratualismo socialista?
Se é verdade que a linha que deriva de Hobbes foi mais funcional para a atitude política
do despotismo ilustrado e a de Locke para a do liberalismo político das nascentes classes
industriais urbanas, as coisas não terminaram ali. O contratualismo servia para tudo, de
modo que não faltou uma versão socialista.
Todos nós conhecemos o revolucionário francês Jean-Paul Marat, que editava o
periódico O amigo do povo, figura difamada por todas as correntes da historiografía fascista
desse país, que preferem santificar Charlotte Corday, que foi a mulher que o apunhalou ao
surpreendê-lo na banheira; pode-se dizer que morreu por não preferir o chuveiro. Muitos
anos depois, Lombroso estudou o crânio de Corday e disse que tinha a fossa occipital média,
ou seja, que era uma criminosa nata. Porém, deixando de lado banheiras e crânios, o certo é
que Marat escreveu também um Plano de legislação criminal antes da Revolução, quando
estava precisando de dinheiro em seu exílio suíço.
Com essa obra, apresentou-se a um concurso cujo prêmio, diz-se, era financiado por
Frederico da Prússia (der Grosse, como o chamavam, embora não porque fosse gordo). Marat
era médico e veterinário, fazia experimentos com a eletricidade e muitas outras coisas, mas
não era jurista. Seu plano parte do pressuposto de que o talião é a pena mais justa, mas
afirma que foi estabelecida no contrato social quando o poder foi repartido equitativamente
entre todos, mas que logo uns foram se apropriando das partes de outros e, no final, uns
poucos ficaram com as da maioria.
Nessas condições, o talião deixava de ser uma pena justa para Marat, pois só o era em
uma sociedade justa, que havia desaparecido. Por conseguinte, da mesma forma que Spee
um século e meio antes, afirmava que o juiz que impunha uma pena de morte nesta
sociedade era um assassino. É óbvio que não deram o prêmio a Marat, mas sim a dois
desconhecidos alemães, a quem a história esqueceu (ou, melhor, nunca registrou), mas que
ficaram com o dinheiro e a Marat só lhe restou a fama posterior do seu Plano, reeditado
várias vezes em francês e em espanhol em 1890 (com tradutor anônimo) e em Buenos Aires
há uns dez anos. Marat não pôde cobrar os direitos de autor dessas reedições, posto que
havia morrido na banheira muitos anos antes. Nem sempre, com certeza, a fama coincide
com o sucesso econômico.
Por volta de 1890, houve um juiz francês, de convicções republicanas, em uma pequena
comarca (Chateau-Terry), que sem citar Marat aplicava sua lógica, para grande escândalo de
seus colegas provenientes do império de Napoleão III (Napoleão, o pequeno ou o doente de
gota), que, carregados de barretes e togas liam apenas o código e ignoravam a Constituição.
Era o bom juiz Magnaud ou Presidente Magnaud, cujas sentenças ficaram famosas em toda
Europa e mereceram comentários, entre outros, de Tolstoi.
Quando nosso Código Penal de 1921 foi discutido no Senado, havia um senador
socialista, Del Valle Iberlucea, que interveio na discussão e conseguiu que na fórmula
sintética (hoje desbaratada pelas emendas Blumberg e outros disparates) se incluísse como
critério a maior ou menor dificuldade para ganhar o sustento próprio necessário ou o dos seus.
Na nota correspondente do Senado, o juiz Magnaud é expressamente citado. Antes as leis
penais eram feitas com mais cuidado e mais neurônios e até os conservadores aceitavam
conceitos socialistas.
Voltando ao contratualismo e a Marat, o certo é que este era muito funcional à classe
dos industriais em ascensão, mas suas possibilidades eram excessivamente amplas. Por
debaixo dessa classe estava a mão de obra industrial que se ia concentrando nas cidades,
onde ainda não havia capacidade para incorporá-las ao sistema de produção, tanto em razão
de sua falta de treinamento como pela insuficiência da acumulação de capital produtivo. Isso
fazia com que em um espaço geográfico reduzido se acumulassem a riqueza incipiente e a
maior miséria, com os conflitos que se pode imaginar.
O contratualismo tornava-se um pouco disfuncional à categoria que o havia
impulsionado como discurso hegemônico e a própria possibilidade de que fosse usado para
legitimar programas socialistas mostrava seus riscos. O disciplinamento dos utilitaristas não
parecia suficiente e o contratualismo mostrava seus assomos arriscados.
Vamos nos aproximando de uma mudança mais profunda do discurso criminológico, no
qual o contratualismo – depois de um máximo esforço de legitimação hegemônica da classe
industrial, ou de deslegitimação da participação do subproletariado urbano – terá de dar
lugar a uma brusca queda do conteúdo pensante da criminologia e do direito penal, que
coincidirá, justamente, com a consagração da primeira como saber academicamente
autônomo. Mas isso já é outra história, muito menos luminosa e mais trágica.
 
Ilustração 9
 
11. Nem todos são “gente como a gente”
O contratualismo era um marco (hoje se chamaria um “paradigma”) no qual tinham lugar
todas as possíveis variáveis políticas, desde o despotismo ilustrado até o socialismo, ou seja,
desde o meticuloso Kant, com sua pontualidade, até o revoltado Marat acalmando suas
urticárias na banheira.
Por conseguinte, também podia converter-se em algo perigoso para a própria classe que
o impulsionava, que defendia a igualdade, mas que começava, também, a distinguir entre os
mais e os menos iguais, à medida que não apenas ia considerando a si mesma como a
melhor e mais brilhante da Europa, senão de todo o planeta.
Os pensadores da questão criminal não podiam ser insensíveis aos temores do setor
social ao qual deviam sua posição discursiva dominante e, em consequência, começaram a
adequar seu discurso à exigência de não correr o risco de deslegitimar o poder punitivo
necessário para manter os indisciplinados subordinados, no interior, e fora, os colonizados e
neocolonizados.
Nessa tarefa acadêmica podem ser delimitados dois momentos: 1) o hegelianismo penal
e criminológico; e 2) o positivismo racista.
O primeiro foi um esforço máximo, altamente sofisticado, do pensamento idealista,
enquanto o segundo rompeu com tudo e se desprendeu de toda racionalidade.
Qualquer filósofo diria que aproximar o hegelianismo do positivismo racista é uma
aberração, e não duvido de que desde sua perspectiva estará certo, porque aproxima um
discurso finíssimo, que soa como uma sinfonia, de outro, que evoca antes a gritaria de uma
serenata de bêbados destemperados na madrugada.
Não tenho dúvida alguma a esse respeito, mas não se trata de uma analogia quanto ao
nível de elaboração pensante dos discursos, que não admite comparação, mas sim no que
torna similar a utilização política de ambos os pensamentos por parte dos penalistas e
criminólogos.
Esclareço que nem sequer tenho a pretensão de compreender Hegel. Além do mais,
estou seguro de não ser o único que não o entende completamente, a julgar pelos
quilômetros de estantes de livros escritos acerca de seu pensamento. Todos nós sabemos
que ele é um filósofo bastante difícil, que terminou de escrever um de seus livros mais
complicados (Fenomenologia do Espírito) enquanto bombardeavam a cidade, porque seu
editor o pressionava. Como, diferentemente de Beethoven, não era surdo, é possível que sua
prosa tenha sofrido alguns sobressaltos. O que eu efetivamente entendo são algumas coisas
que Hegel escreveu com clareza e, em especial, o que os juristas e criminólogos lhe
atribuíram. A esse respeito, tampouco afirmo que estes tenham interpretado bem seu
mentor, o que aqui pouco interessa, dado que nos interessa sobretudo a forma como o
projetaram sobre (ou o lançaram contra) a questão criminal.
Os ideólogos da questão criminal que o invocaram partiam da afirmação hegeliana de
que o “espírito” avança dialeticamente. Embora seja óbvio, cabe esclarecer que o “espírito”
(“Geist”), não era nenhum fantasma, e sim o espírito da humanidade como potência
intelectual. Em quase todas as histórias da filosofia Hegel é qualificado como um
“racionalista”, mas devemos advertirque, para ele, a razão era algo dinâmico, uma espécie
de motor, e não um simples modo ou via de conhecimento.
O avanço se dava na história dialeticamente, ou seja, “triadicamente”, por tese, antítese e
síntese. As duas anteriores desapareciam e se conservavam nessa última, pois estavam
“aufgehoben”, particípio passado de um verbo um tanto misterioso.
Havia, pois, um momento de “espírito subjetivo” (tese) em que o ser humano alcançava
a autoconsciência e, com ela, a liberdade, contraposto a outro, do “espírito objetivo”
(antítese), em que duas liberdades se relacionavam e, finalmente, ambos se sintetizavam no
“espírito absoluto”.
A nós, bastam os dois primeiros, porque o direito pertencia, nesse esquema, ao
momento “objetivo”, posto que era nesse plano que os seres livres se relacionavam.
Deixando de lado o complicado que isso parece, o certo é que sua consequência prática
é que não tem autoconsciência quem não é livre e não pode passar ao momento objetivo, ou
seja, sua conduta não é “jurídica”. Mais ainda: os hegelianos afirmavam que a conduta “não
livre” não era conduta para o direito. Por conseguinte, os criminólogos e penalistas
concluíam facilmente que os seres humanos se dividem em “não livres” e “livres” e o direito
era patrimônio destes últimos. Pois bem: quando um “não livre” lesava outro não cometia
um delito, mas sim operava sem nenhuma relevância jurídica, porque não realizava
propriamente uma conduta. Pelo contrário, apenas os “livres” podiam cometer delitos, pois
eram eles que realizavam condutas.
O efeito prático era que os “livres” eram retribuídos com penas proporcionais à
liberdade com que haviam decidido o fato, ou seja, com limites; quanto aos “não livres” que
causavam danos, eles só podiam ser submetidos a “medidas” de segurança, que não eram
penas e, portanto, não admitiam a medida máxima de sua culpabilidade ou liberdade, mas
sim unicamente a do perigo que implicavam para os livres.
 
 
Levando às últimas consequências, nossos colegas hegelianos pretendiam tratar os “não
livres” de forma mais ou menos análoga a um animal fugido do zoológico, que devia ser
contido. Se bem que não o expressassem desse modo, para nos entendermos é melhor dizer
o que acho que eles pensavam.
Quem eram os “não livres” para os penalistas hegelianos? Antes de tudo os loucos, mas
também os delinquentes reincidentes, multirreincidentes, profissionais e habituais, porque
com seu comportamento demonstravam que não pertenciam à “comunidade jurídica”, ou
seja, não compartilhavam dos valores dos setores hegemônicos. Os “não livres”,
definitivamente, eram os que não podiam ser considerados “gente como a gente”, mas
somente como tipos perigosos.
É evidente que tampouco os selvagens colonizados eram livres. Hegel era absolutamente
etnocêntrico, o que fica demonstrado pelo que escreveu em suas Lições sobre filosofia da
história universal.
Por um momento, peço perdão e rompo meu costume de não transcrever nem aborrecer
com citações. Tomo o livro (tradução de José Gaos, edição de 1980) e leio que nós seríamos
o produto de índios inferiores em tudo e sem história (página 169), de negros em estado de
natureza e sem moral (177), de árabes, mestiços e aculturados islâmicos fanáticos,
decadentes e sensuais sem limites (596), de judeus cuja religião lhes impede de alcançar a
autêntica liberdade (354), de alguns asiáticos que apenas estão um pouco mais avançados
que os negros (215) e de latinos que nunca alcançaram o estágio do mundo germânico, esse
“estágio do espírito que se sabe livre, querendo o verdadeiro, eterno e universal em si e por
si” (657).
Era natural que Hegel considerasse que os latino-americanos não tinham história e sim
“futuro”, pois para ele nossa história começava com a colonização, que nos havia colocado
no mundo; o passado dos povos colonizados não era nada, por ser alheio ao avanço do
“espírito”.
Quando alguém é muito jovem costuma idealizar os grandes mestres mais do que o
normal. Vem à minha mente uma história que tem a ver com o que estamos falando. Certa
manhã, na Praça das Três Culturas do México, em Tlatelolco, alguns anos antes dos
dramáticos assassinatos de 1968, escutei um afamado jurista afirmar que ele era “europeu e
europeizante”, e que não compreendia as culturas pré-hispânicas “porque não entravam em
Hegel”. Obviamente que minha admiração pelo renomado homem de leis diminuiu
notavelmente, visto que, embora minha ignorância juvenil fosse considerável – não porque
agora seja muito menor –, me ocorreu perguntar a mim mesmo se Hegel estaria equivocado
ou se as culturas pré-hispânicas teriam mesmo existido. Voltemos, porém, ao nosso ponto.
Por certo, Hegel não havia obtido boas notas em geografia, porque colocava as
nascentes do Rio da Prata na cordilheira dos Andes. Também afirmava que nossa
independência obedecia a um erro dos ibéricos, que se haviam misturado com os índios, ao
contrário dos ingleses, muito mais astutos porque, na Índia evitaram misturar-se e desse
modo não produziram uma raça mestiça com amor à terra. Cabe deduzir que, para Hegel,
nossa independência era obra da incontinência sexual de espanhóis e portugueses. Gandhi o
teria desconcertado, pois como a Índia não tinha nenhuma raça mestiça com os ingleses, não
deveria ter tido amor à terra nem se tornado independente. Tampouco aqui sei quem estava
equivocado, se Hegel ou Gandhi. Prossigamos.
A ideia que Hegel tinha da América Latina provinha claramente de Buffon, que escreveu
muitos tomos de história natural enquanto cuidava dos jardins reais. Para este conde
jardineiro éramos um continente em formação, como provavam os vulcões e os sismos
(supomos que agora diria que a Islândia está em formação). Como corriam ao contrário
(quer dizer, do norte para sul, ao invés de fazê-lo corretamente, de leste para oeste, como na
Europa), as montanhas interrompiam os ventos e tudo se umedecia, apodrecendo-se; por
isso, havia muitos animais pequenos e nenhum grande e tudo o que se trazia se debilitava,
inclusive os humanos. Para Buffon, na América toda a evolução estava retardada.
O etnocentrismo de Hegel legitimava o colonialismo e abria o caminho das “grandes
narrativas” com centro na Europa. Combinado com o que os criminólogos que o invocavam
diziam para o controle dos europeus clandestinos, resultava um esquema muito adequado
para os interesses da classe que ia alcançando a hegemonia: a pena com limites ficava
reservada aos dessa classe ou a quem ela julgava conveniente; os “diferentes” (loucos,
ameaçadores e “incômodos”) que não eram livres, como não realizavam condutas humanas,
eram submetidos a penas sem limites, que eram rebatizadas como “medidas”. Quanto aos
territórios extraeuropeus povoados por selvagens, podiam ser ocupados porque eram
perigosos para o “espírito” e, ademais, colonizá-los era a maneira de introduzi-los na história,
de levar-lhes o “espírito”.
É claro que o “espírito hegeliano” avançava na história como dominação colonial no
planetário e, ao mesmo tempo, como dominação de classe no plano interno. Mais que um
espírito, parecia um monstro que arrasava tudo em seu avanço massacrador e que, além
disso, arremessava para as margens de seu caminho de espoliação mundial os sobreviventes
– índios, negros, árabes, judeus, latinos, asiáticos etc. –, ou seja, todas as culturas que não
atingiam a clareza de Hegel, que se sentava, satisfeito, na ponta da flecha da história,
posição por certo muito incômoda.
Tudo isso, porém, continuava sendo “idealismo”, ou seja, para Hegel o poder punitivo se
explicava por uma via dedutiva, que não admitia nenhuma verificação no plano da
realidade. A exemplo do meticuloso Kant, sua legitimação não se contaminava com nenhum
dado do mundo real.
O velho Kant havia visto isso claramente, pois sabia, com sobras, que se fosse
introduzida alguma informação do mundo em que todos vivemos, as coisas seriam
complicadas. Hegel alterou muitas coisas em relação a Kant, entre as quais nada menos que
seu conceito de “razão”, mas nisso seguiu o mesmo caminho, só que por viada pura lógica:
para Hegel, o delito era a negação do direito; a pena era a negação do delito; como a
negação da negação é a afirmação, a pena era a afirmação do direito. E ponto.
Tudo isso era muito elaborado, permanecia no plano do idealismo filosófico e, em
meados do século XIX, resultava excessivamente abstrato frente ao que estava sucedendo
em um mundo que mudava com celeridade.
12. O salto do contrato à biologia
Na segunda metade do século XIX a classe em ascensão havia chegado ao poder. Os
nobres empobrecidos haviam casado seus descendentes com os dos industriais, comerciantes
e banqueiros; estes se haviam refinado e os netos se enfeitavam com os títulos dos avós
nobres, enquanto os castelos e palácios eram restaurados e as recepções suntuosas, com
mulheres e homens encasacados, voltavam a acontecer.
Ao mesmo tempo, os indisciplinados tornavam-se mais incômodos. Os acontecimentos
europeus de 1848 e sobretudo de 1871 – a Comuna de Paris – eram alarmantes para a nova
classe hegemônica. O que esta classe começava a necessitar não era de construções
idealistas, mas de algo muito mais concreto e de menor nível de elaboração, e também mais
de acordo com a cultura do momento.
Na ordem planetária, as relações do centro com a periferia exigiam a eliminação do
sistema escravocrata, porque a integração demandava maior nível tecnológico na periferia e,
além do mais, a Grã-Bretanha, que dispunha de mão de obra gratuita na Índia, se erigiu em
campeã do antiescravismo e exercia a polícia dos mares.
A “ciência” era a nova “ideologia” dominante. As maravilhas da técnica assombravam: a
ferrovia, os navios a vapor, o telégrafo, alguns avanços médicos, as vacinas, o canal de Suez
etc. O ser humano se tornava todo-poderoso, podia controlar por completo a natureza e
chegar a vencer a própria morte. Darwin havia provocado alguma decepção, mas também
havia demonstrado que o ser humano podia continuar evoluindo e que, quando as leis da
evolução fossem dominadas, o progresso não teria fim. A intenção era que, com a biologia,
se constatasse que os mais poderosos eram os mais “bonitos” e que os colonizados eram
inferiores, “feios”, todos iguais e parecidos aos macacos: era óbvia sua evolução inferior.
A classe outrora em ascensão havia passado a deter, na Europa, a posição dominante e
a considerava “natural”, de modo que o artifício do contrato não só lhe resultava inútil, como
também perigoso. Sua hegemonia “natural” só fora negada antes pelos obscurantistas e
metafísicos. Tanto os discursos legitimadores do poder nobiliário quanto o famoso contrato
passaram a ser superstições, pois necessitavam de um novo discurso que lhes permitisse
exercer o poder punitivo sem travas para manter sob controle os “de baixo”, que não
podiam ser incorporados ao sistema produtivo por escassez relativa de capital e que,
ademais, tinham a ousadia de exigir direitos.
Como era de supor, o novo paradigma que convinha a essas classes era o do organismo,
ainda que não o antiquado – baseado na “mão de Deus”– mas um novo, fundado na
“natureza” e revelado pela “ciência”. Porém, por mais “científica” que fosse a roupagem,
como não é demonstrável que a sociedade seja um organismo, o novo organicismo não
passava de um dogma arrebatado ao idealismo.
O instrumento com que os incômodos nas cidades eram controlados era a polícia,
instituição relativamente nova no continente europeu, ainda que não tão nova fora, porque
era a mesma força de ocupação territorial usada para colonizar.
Isso soa estranho, porque não se leva em conta que, com toda certeza, nunca houve
guerras coloniais verdadeiras, e sim operações de ocupação policial de território. Nem
sequer no colonialismo do século XV houve tais guerras: nem na ocupação de Tenochtitlán
nem na do Incanato houve guerra; tanto Cortês como Pizarro limitaram-se a algumas
escaramuças policiais de ocupação. Também não houve guerra com o neocolonialismo do
século XIX, pois a enorme superioridade técnica dos colonizadores impedia de se falar
propriamente de guerras. Havia, no máximo, resistência da população que recorria a ataques
isolados e quase individuais, mas a ocupação do norte da África tanto pelos ingleses como
pelos franceses não consistiu, no geral, em guerras, nem sequer quando enfrentaram hordas
precariamente armadas. O aparecimento das armas de repetição não deixou nenhuma
dúvida a respeito.
Quando foi preciso conter os explorados que reclamavam direitos nas cidades europeias,
transferiu-se a experiência política de técnica policial de ocupação territorial para as
metrópoles. Na Grã-Bretanha resistiram bastante, pois sabiam bem o que significava e o que
consideravam bom para os africanos não queriam para os ingleses, mas ao final tiveram que
admiti-lo e criar a Scotland Yard, em 1829.
Os poderes das polícias europeias aumentavam em paralelo com as reclamações dos
explorados urbanos, mas careciam de um discurso legitimador. Em 1838, o Colégio de
França, que reunia todas as academias, lançou um concurso sobre “as classes perigosas nas
grandes cidades”, ganho por Fregier, um comissário, com um livro volumoso, mas incoerente,
que só continha lições de moral e algumas experiências pessoais, mas que, de modo algum,
servia para legitimar o crescente poder policial. O pobre Fregier limitou-se a escrever o que
os acadêmicos queriam escutar.
Desde os tempos de Wier os médicos estavam ansiosos por manipular a hegemonia do
discurso da questão criminal, em particular os psiquiatras, mas careciam de prestígio social,
pois trabalhavam em lugares infectos e em contato com seres indesejáveis e sujos.
A mudança da publicidade do julgamento, assinalada por Foucault, determinou que os
médicos despertassem interesse, pois começaram a ser chamados para os grandes processos
públicos como peritos, o que os projetou para a fama midiática, e a “gente de bem” deixou
de virar a cara ao vê-los passar. Aos poucos, foram se apropriando do discurso e explicando
todos os crimes investigados. Por certo tinham discurso de sobra, embora com a justificada
desconfiança dos juízes, que disputavam com eles as cabeças dos guilhotinados.
Como a polícia tinha poder sem discurso e os médicos o discurso sem poder, era
inevitável uma aliança, que é o que se conhece como “positivismo criminológico”, ou seja, o
poder policial urbano legitimado pelo discurso médico.
Porém, o discurso médico não se esgotava nos indivíduos ameaçadores e incômodos, e
sim era um mero capítulo dentro do grande paradigma que começava a se instalar: o do
reducionismo biologista racista.
Se os criminosos eram controlados por uma força de ocupação trazida das colônias, não
podia demorar muito a afirmação de que eram parecidos e sua criminalidade se explicava
pelas mesmas razões que legitimavam o neocolonialismo. Tanto uns quantos outros eram
“seres inferiores” e a razão pela qual se justificava o neocolonialismo era a mesma que
legitimava o poder punitivo.
A categorização racista dos seres humanos tem uma longuíssima história, mas a da
segunda parte do século XIX é muito interessante e apresenta aspectos incríveis.
Houve duas principais versões do racismo, que podemos denominar de “pessimista” e
“otimista”. A pessimista é a que afirma que houve uma raça superior, que, depois, se foi
degradando por misturar-se com uma espécie de símios que encontraram no caminho, que
provocaram uma decadência da espécie. Esse é o conto da raça “ariana” superior, que
entrou na Índia pelo norte, que falava uma língua única, nunca conhecida, da qual derivam
as línguas europeias e que alimenta todos os mitos nacionais “arianos” (os francos na França,
os germânicos na Alemanha, os saxões na Inglaterra, os godos na Espanha etc.), salvo na
Itália, que sempre preferiu o mito romano imperial.
Na verdade, a única coisa certa é que as línguas europeias costumam provir da Índia, na
qual entraram uns louros pelo norte e que se combinaram com o elemento druida moreno
do sul. Todo o resto é produto de uma obra escrita por um diplomata francês de duvidosa
nobreza, o conde Arthurde Gobineau. Ele foi um escritor pouco talentoso que, não obstante,
escreveu uma extensa novela sobre as raças que teve êxito singular. Castigado por algumas
irregularidades, foi embaixador no Brasil, onde verificou, horrorizado, que toda sua
população era mestiça africana e vaticinou que isso determinaria sua esterilidade por
hibridação. Parece que não acertou a esse respeito.
Gobineau terminou seus dias escondido com a mulher de um colega, porém sua novela
foi continuada por um inglês, Houston Chamberlain, tão germanófilo que adotou a cidadania
alemã e se casou com a filha de Wagner. A novela escrita por este personagem foi o livro de
cabeceira do kaiser Guilherme II. Por desgraça, tampouco ali terminou a saga desta
novelística, pois o nazista Alfred Rosenberg a continuou com O mito do século XX, do qual há
uma única tradução espanhola, publicada por uma editora nazista na Argentina, nos tempos
da última ditadura. Rosenberg foi enforcado em Nurenberg, mas não por ter escrito esse
livro, e sim por ter sido o ministro responsável por organizar os massacres de milhões de
“seres inferiores” na Europa oriental.
No entanto, esse racismo pessimista não servia para o novo momento de poder mundial,
que necessitava deslegitimar a escravidão, mas justificar o neocolonialismo, divulgar o
liberalismo econômico, mas controlar policialmente os excluídos no centro. O discurso que
legitimasse semelhante imbroglio não podia ter um grau muito alto de elaboração e por isso
esteve a cargo de alguém também bastante raso, que foi Herbert Spencer, que não era
médico, nem biólogo, nem filósofo e nem jurista, e sim engenheiro ferroviário e que,
ademais, dizia não ler outros autores porque o confundiam. Desse modo, ele foi capaz de
conceber os disparates mais incríveis de toda a história do pensamento, afirmando que
levava Darwin do biológico ao social.
O pobre Darwin carrega até hoje o peso do chamado “darwinismo social”, quando na
realidade foi o bom Sr. Herbert que o concebeu. Partindo de que na geologia e na biologia
tudo avança com propulsão a catástrofes, afirma que o mesmo acontece na sociedade, e que
os seres humanos que sobrevivem são os mais fortes e desse modo tudo vai evoluindo,
inclusive o ser humano na história. Esse catastrofismo deprime os mais débeis, mas para
Spencer isso é um detalhe inevitável e sem maior importância.
Por isso, ele defendia a posição de que não se devia ajudar os pobres, para não privá-los
de seu direito a evoluir, que a filantropia era um erro, da mesma forma que o ensino
obrigatório ou gratuito porque, se não custava nada, as pessoas não o valorizariam e
terminariam lendo livros socialistas. Desse modo justificava a renúncia a qualquer plano
social por parte dos governos europeus. O controle dos insubordinados por meio da polícia
parecia ser a principal função do Estado para nosso amigo ferroviário.
É isso mesmo que hoje afirmam os “think tanks” da ultradireita estadunidense, que na
verdade são mais “tanks” que “think” (por educação, é excusado dar muitos detalhes sobre o
real conteúdo dos “tanks”), ainda que, como corresponde à sua desonestidade, eles omitem
o nome do velho Herbert.
Quanto ao neocolonialismo, Spencer afirmava que os ocupados são seres humanos
inferiores, mas, diferentemente dos “pessimistas”, isso não se deve a que eles tenham
decaído, mas sim a que ainda não evoluíram. Por isso não têm moral, não conhecem a
propriedade, andam seminus e são sexualmente muito “frequentes”. Daí que, como “a
função faz o órgão”, têm a cabeça menor e os genitais, maiores, porém, a piedosa obra dos
colonizadores os tornaria menos “frequentes” (possivelmente mostrando-lhes um retrato da
rainha Vitória) e, desse modo, sob tão terna proteção, chegariam, em alguns séculos, a ter
cabeça maior (e se supõe que genitais menores). Escareço que nada disso é lenda, e sim que
está escrito nos livros do bom Sr. Herbert, de cuja transcrição textual lhes poupo.
A conclusão prática era que os colonizados podiam ser dominados, mas não
escravizados. Cabe precisar que os europeus não foram muito sutis em relação a essa
diferença e que, em 1885, se reuniram no Congresso de Berlim, convocado por Bismarck, e
repartiram a África como uma grande pizza. As consequências desse congresso são sentidas
até o presente, pois a arbitrária divisão política de África é, até hoje, fonte de sangrentas
guerras, alimentadas por negociatas armamentistas que mantêm a região subsaariana imersa
em catástrofes.
Porém, com o neocolonialismo também se lançaram à empresa inclusive quem nunca o
havia feito, com as mais funestas consequências humanas. A memória dos italianos em
Trípoli não é nada boa, mas foram os alemães que levaram o prêmio com o aniquilamento
maciço dos hereros na Namíbia, embora, sem dúvida, o prêmio maior quem ganhou mesmo
foi o empreendimento privado de Leopoldo II, que matou cerca de dois milhões de
congoleses, forçados a extrair borracha sob ameaças de morte e amputações, e reduziu a
população em oito milhões.
Esse crime foi denunciado em seu tempo em uma famosa novela de Joseph Conrad,
Coração das trevas, e também divulgado por Mark Twain nos Estados Unidos, o que obrigou
Leopoldo II a entregar sua empresa ao Estado belga, que não alterou em nada a atividade
massacradora e exploradora de seu monarca.
O rei Balduíno, no discurso de independência do Congo em 1960, teve a desfaçatez de
fazer o elogio da obra belga, o que provocou a resposta de Patrice Lumumba, que, nos
primeiros dias do ano seguinte seria assassinado por um pelotão sob o comando de um
oficial belga.[3]
É bom lembrar que Leopoldo II ergueu um luxuoso museu perto de Bruxelas com todos
os troféus e amostras de sua obra (além de muitas estátuas e retratos dele mesmo), rodeado
de um formoso parque, e que em uma de suas vitrinas se encontra uma carta enviada pelo
administrador do Congo Belga ao presidente Truman, felicitando-o pelo êxito de Hiroshima e
Nagasaki, pois o urânio das bombas procedia das minas do Congo.
Quanto à América Latina, é sabido que o curioso ferroviário inglês alimentou a ideologia
assumida pelas elites intelectuais de todas nossas repúblicas oligárquicas, desde o
“porfirismo” mexicano até a “oligarquia bovina” argentina e desde o “patriciado peruano”
até a “República Velha” brasileira. Nossas minorias dominantes se consideraram vanguardas
iluminadas da civilização, que exerciam um paternalismo piedoso sobre as grandes maiorias
excluídas do poder, necessário até que os povos perdessem sua condição “bárbara” e
estivessem em condições de decidir seu destino, ou seja, supomos, até que a cabeça
crescesse.
O spencerianismo foi o reducionismo biologista levado ao social que serviu de marco
ideológico comum ao neocolonialismo e ao saber médico que legitimou o poder policial com
o nome de positivismo criminológico, que bem poderia se chamar de “apartheid
criminológico”. Como os médicos vincularam a inferioridade dos neocolonizados à dos
agressivos e incômodos? Essa é a história do “apartheid criminológico” em sentido estrito,
com todas suas deploráveis consequências.
 
 
13. Começa o “apartheid criminológico”
Na realidade, os positivistas chamaram de “criminalidade” ao conjunto de presos, que
era o único a que tinham acesso, porque os muitos mais que cometiam delitos e ficavam
impunes lhes eram desconhecidos, ou seja, que seu “laboratório”, por assim dizer, se limitava
ao estudo daqueles que se encontravam enjaulados. Como se sabe, em todos os tempos, os
mais lerdos e com menos poder são colocados na jaula.
Para vincular “a criminalidade” (os presos) aos “selvagens colonizados”, os positivistas
elaboraram um discurso em cuja análise entramos, advertindo que estamos abrindo as portas
de uma história macabra, que terminou muito mal em todos os sentidos. Se bem que os
disparates que foram ditos em seu curso causem risos, suas funestas e letais consequências
não têm nada de engraçado.
Essa história se suaviza na manualística criminológica, relatando-a como um simples
momento do passado “teórico”, centrado em um médicode Turim, Cesare Lombroso, a quem
se descreve como um “exagerado” e nada mais. Se fosse apenas isso, não passaria de um
relato quase curioso.
Para dizer a verdade, o pobre Lombroso era um investigador sério, que, na verdade, teve
muito pouco a ver com a origem e as consequências desse capítulo trágico. De família judia
e filho de um rabino, Lombroso nunca imaginou as consequências da corrente em que se
movia, mas na realidade não inventou o reducionismo biologista e se limitou a enquadrar
suas observações no marco spenceriano, ou seja, no paradigma de seu tempo.
O chamado “positivismo criminológico” (que, como já dissemos, não é mais do que o
resultado da aliança do discurso biologista médico com o poder policial urbano europeu) foi
sendo armado em todo o hemisfério norte e estendeu-se ao sul do planeta, como parte de
uma ideologia racista generalizada na segunda metade do século XIX e que terminou,
catastroficamente, na II Guerra Mundial. Não tem um autor: tem muitos e de todas as
nacionalidades e, por certo, os criminólogos positivistas não foram mais do que uma das
múltiplas manifestações de todos os pensamentos enquadrados nesse paradigma.
Dito de forma mais crua e extremamente sintética, podemos afirmar que começou
décadas antes de Lombroso, com os médicos que lançaram as primeiras teorias que
pretendiam expor uma etiologia orgânica do delito – e, ao mesmo tempo, a inferioridade dos
colonizados – e terminou nos campos de extermínio nazistas.
Bénedict Augustin Morel expôs, em 1857, sua “teoria da degeneração”, segundo a qual,
em razão da mescla de raças humanas combinar fios genéticos muito distantes, tinha por
resultado seres inteligentes, mas moralmente degenerados, desequilibrados, incômodos.
Hegel tinha alguma razão, pois esses “degenerados” eram nossos gaúchos, mestiços e
mulatos. Sem eles não teria havido exércitos libertadores em nossa América, os
colonizadores podiam ter aniquilado todos nossos povos nativos e a América poderia ter
sido totalmente repovoada pela “raça superior” colonizadora. Talvez esse genocídio
completo tenha sido o sonho irrealizado de muitos racistas da época (e de alguns atuais que
não se animam a dizê-lo). Os mestiços sempre foram mais incômodos para o poder do que
os índios ou africanos puros, pois eram muito mais difíceis de domesticar.
A “degeneração” de Morel foi um mito que continuou vigente inclusive na escola
psiquiátrica francesa da Argélia até a guerra de libertação. Antes de Morel, o inglês James
Pritchard havia exposto sua teoria da “locura moral”, na linha que destacava a inferioridade
dos criminosos e dos colonizados, afirmando que Adão havia sido negro e que seus
descendentes foram se embranquecendo. Supomos que o pecado original deveria ser
imputado a uma raça inferior.
Contemporâneo de Hegel, o alemão Franz Joseph Gall considerava que seu crânio era o
“normal” e todos os outros, anormais. Por conseguinte, acreditava diagnosticar a
criminalidade e a genialidade apalpando a cabeça, com sua famosa “frenologia”.
Perseguiram-no por “ímpío”, apesar de só apalpar a cabeça das pessoas.
Outros contemporâneos de Lombroso rechaçaram suas teorias, porém sem deixar de
afirmar despropósitos, como o francês Feré, que em 1888 afirmava ser a sociedade
biologicamente justa, pois provocava uma “sedimentação social dos degenerados”, os quais
caíam “naturalmente” até as classes mais subalternas, e que a falta de proteção aos não
degenerados representava uma omissão de defesa social, isto é, que a defesa social devia ser
contra os pobres.
O maior crítico da teoria lombrosiana nos congressos de antropologia criminal de seu
tempo foi o francês Alexandre Lacassagne, que atribuía o delito a modificações cerebrais do
occipital, do parietal ou do frontal: as do occipital eram as responsáveis pelos crimes
primitivos das classes baixas, as do parietal, dos ocasionais e impulsivos das classes médias,
e as do frontal, dos delinquentes alienados das classes altas. Parece que os pobres
costumavam cair de costas e golpear a parte traseira da cabeça. Como se pode ver, a
chamada “escola francesa” tampouco economizava disparates. A estes era acrescentado o
trabalho de um médico colonialista – o Dr. Corre –, que exemplificava as consequências da
independência dos “selvagens” com o caso do Haiti.
 
 
Como o racismo era um paradigma, pouco importava a ideologia política dos
protagonistas, porque todos se moviam dentro desse marco. José Ingenieros – que era
socialista e é considerado o fundador da criminologia argentina – não compartilhava a teoria
lombrosiana, mas professava uma firme convicção racista, que colocou em evidência em um
horripilante artigo publicado em 1906, com o título “As raças inferiores”, no qual fala de
“farrapos de carne humana”, justifica a escravidão etc. Realmente, parece escrito em pleno
surto psicótico de racismo agudo.
Raimundo Nina Rodrigues, fundador da criminologia brasileira, era tributário da escola
francesa e, na linha de Morel, combatia a mestiçagem (“a miscigenação”) com base na tese
da degeneração, considerava os mulatos semi-imputáveis e dedicava seu livro ao
mencionado Dr. Corre e a Lacassagne.
Nina Rodrigues foi caricaturizado por Jorge Amado, com a licença literária que o fez
viver algumas décadas mais, no personagem de Nilo Argolo de Araújo de sua famosa novela
Tenda dos milagres, também levada ao cinema.
Lombroso só se limitou a formular observações mais meticulosas e a articulá-las ao
marco do mesmo paradigma dominante. Se bem que a síntese que formulou tenha garantido
sua celebridade mundial, dando-lhe maior difusão e êxito acadêmico (com as consequentes
invejas), o certo é que sua teoria do “criminoso nato” não inventou nem esgotou o
reducionismo nem o positivismo racista. Inclusive a própria expressão “criminoso nato” lhe
foi sugerida por seu seguidor Enrico Ferri, que a plagiou de Cubí y Soler, que havia sido um
discípulo espanhol de Gall, obviamente sem citá-lo.
14. A síntese lombrosiana: um bicho diferente
A tendência a deduzir caracteres psicológicos a partir de dados físicos ou orgânicos
remonta a um velho tratado de “fisiognomia” atribuído falsamente a Aristóteles e ganhou
força no Renascimento.
A origem desse suposto saber encontra-se em um preconceito bastante absurdo, que
começa com a classificação e a hierarquização dos animais. O ser humano atribuiu aos
animais virtudes e defeitos humanos e, de acordo com estes, classificou-os e hierarquizou-os:
o cachorro fiel, o gato diabólico, o burro imbecil, o veado asqueroso etc. Realmente, os
animais são como são e nunca se inteiraram dessas valorações; ao que parece, eles se
limitam a ter um conceito um tanto pobre dos humanos, mas isso é um outro problema.
Foi assim que os humanos coroaram “rei” ao urso, que aparece em numerosos brasões
(inclusive no de Madri), até que foi destronado por obra dos eclesiásticos que descobriram
(quem sabe como) que ele tinha uma conduta sexual indevida – não sei em que isso
consiste, mas, por prudência, nunca perguntei a nenhum urso (parece que eles não gostam
que se intrometam em sua vida particular, em especial depois de visitar o Canadá, onde, por
toda parte há cartazes “Take care with the bears”). O certo é que o leão o substituiu,
portador, presumo, de costumes sexuais saudáveis, mas a quem, tampouco, me atrevi a
indagar.
Uma vez estabelecidas essas classificações humanas dos animais, houve quem pensasse
que, devido à semelhança de alguns humanos com certos animais, eles podiam ser
caracterizados psicologicamente. O jogo não podia ser mais infantil: primeiro classificaram os
animais com traços humanos e em seguida atribuíram aos humanos os traços que antes
haviam colocado nos animais. Isso mesmo se faz na esquina, onde os rapazes, sem pretender
fundar nenhuma ciência, classificam os que têm pinta de cavalo, de burro, de raposa etc.
Não obstante a simplicidade, Gian Battista Della Porta, no século XVII, e Johann Caspar
Lavater, no século XVIII, escreveram formosos tratados repletos de bonitas ilustrações, com
as quaissustentaram esta nova “ciência” da “fisiognomia”, provocando um longo debate do
qual participou ninguém mais do que Goethe.
No século seguinte, em 1876, Lombroso deu a luz à primeira edição de L’uomo
delinquente, na qual afirmava que se podia reconhecer o “criminoso nato” como uma espécie
particular do gênero humano (“specie generis humani”) pelos caracteres físicos. A
criminologia – que, nessa época, se chamava “antropologia criminal” – ocupava-se, por
conseguinte, de um objeto biológico diferenciado, o que levou um extremista a sustentar que
era um ramo da zoologia.
Como explicar o “criminoso nato”? Por sua semelhança com o selvagem colonizado,
aduzindo que as raças selvagens eram menos evoluídas do que a raça branca europeia. Em
seu tempo, afirmava-se que no seio materno se sintetiza toda a evolução, desde o ente
unicelular até o ser humano completo (dizia-se que “a ontogenia resume a filogenia”). O
“criminoso nato” era produto acidental de uma interrupção deste processo, que fazia com
que, em meio da raça superior europeia, nascesse um sujeito diferente e semelhante ao
colonizado. Era, pois, um branco que nascia mal acabado, sem o último golpe de forno e,
portanto, era um colonizado. Os caracteres “atávicos” que o assemelhavam ao colonizado
lhe atribuíam traços “africanoides” ou “mongoloides” (parecidos aos africanos ou aos índios).
Da mesma maneira que os selvagens, não tinham moral, pudor e, ademais, eram
hipossensíveis à dor (para que a sentissem era necessário bater neles com mais força), o que
era verificável porque se tatuavam. Imagino o terror de Lombroso em uma praia nos dias de
hoje, rodeado de criminosos natos.
É bastante claro que Lombroso estava imbuído de claros elementos estetizantes. Em seu
tempo, os colonizados eram feios e maus, porque havíamos feito algumas diabruras, como
fuzilar Maximiliano no México, parar a frota no rio Paraná, expulsar os franceses do Haiti
etc. Nossos tipos humanos contrastavam com a branca beleza europeia, protegida do sol por
sombrinhas e usando corpete.
A fealdade e a maldade sempre vão associadas; nos raros casos em que o belo é mau,
trata-se, no geral, de uma beleza diabólica, do tipo de Dorian Gray. Hoje sabemos que a
polícia seleciona por estereótipos e que estes se configuram através da comunicação com
base em preconceitos, nos quais os valores estéticos desempenham um papel fundamental,
seguindo a regra de associar o feio ao mau. Reproduz-se, em definitivo, o mecanismo da
“fisiognomia”: define-se o “feio”, associa-se ao “mau” e acaba se selecionando o “mau”
mediante o “feio”.
A ingenuidade dos positivistas levou-os a espantar-se com a “intuição” dos artistas ao
descrever ou pintar o crime, quando, na realidade, eles haviam definido os estereótipos de
acordo com os quais se selecionavam os criminalizados por “feios”, ou seja, por se
assemelharem aos colonizados. São numerosos os tediosos livros positivistas sobre
“criminosos na arte”.
Em edições posteriores, a obra de Lombroso foi acompanhada por um volume ou
“Atlas”, com fotografias e desenhos de delinquentes, todos presos ou mortos, é claro. Basta
olhar para essa enorme coleção de caras feias para convencer-se de que esses sujeitos não
podiam andar por muito tempo soltos por uma cidade europeia sem que a polícia os
prendesse, pois pareciam todos saídos dos desenhos de “malvados” dos folhetins de
costumes.
O erro de Lombroso consistiu em acreditar que essa feiura era a causa do delito,
quando, na realidade, era a causa da prisionização, pois se eles fossem bonitos não estariam
no “Atlas”, como Jack, o Estripador, em relação ao qual cabe presumir que, como era bonito,
não casava com o estereótipo e nunca conseguiram colocá-lo na prisão.
Com toda certeza, Lombroso, que era um observador meticuloso, nos legou a melhor
descrição dos estereótipos criminosos de seu tempo.
Entretanto, ele não se ocupou apenas dos criminosos – ou seja, dos mal acabados –, mas
também dos que iam mais além do esperado, isto é, dos “gênios”, a tal ponto que se
empenhou em conhecer alguns, como Tolstoi. Tanto ele como Max Nordeau escreveram
livros sobre o “homem de gênio”; Nordeau advertia, em dois grossos volumes, acerca do
perigo do “gênio louco ou degenerado”, em cuja categoria incluía Oscar Wilde, batendo em
cavalo morto.
Lombroso ocupou-se também dos dissidentes e escreveu sobre os delinquentes políticos
e sobre os anarquistas.
A verdade é que a criminologia lombrosiana parecia um grande elogio à mediocridade:
não havia que se parecer com os colonizados, mas tampouco se sobressair muito em
inteligência e criatividade nem discordar demasiadamente. Para completar o quadro,
tampouco deixou a mulher em paz. A exemplo dos inquisidores, considerava-a menos
inteligente do que o homem, apesar de afirmar que isso era compensado pela sua maior
sensibilidade. Atribuía sua menor representação no delito à existência de um “equivalente”
do delito na mulher, que era a prostituição. Tudo isso foi desenvolvido em um livro escrito
junto com seu genro – o historiador de Roma, Guglielmo Ferrero –, intitulado A mulher
delinquente, prostituta e normal.
15. O rastro do positivismo biologista
Quanto a nós, latino-americanos, podemos assim deduzir as consequências da
criminologia positivista sintetizada por Lombroso: se a prisão estava destinada aos brancos
“atávicos” nos países colonialistas, porque eles se pareciam com os selvagens, cabe pensar
que os territórios colonizados eram grandes prisões, ou seja, imensos campos de
concentração.
Esse pensamento tem sua lógica: o “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) escrito sobre
o portão de Auschwitz é uma consigna que poderia provir de todo o colonialismo na forma
de “trabalhem, que assim aprendem e chegarão a ser livres como nós” (supomos que com a
cabeça maior, obviamente com prejuízo de outros atributos). Por outro lado, o positivismo
criminológico, com seu enfeite de ciência, chocava-se frontalmente com o neotomismo
fossilizado dos discursos confessionais e assim obtinha patente de pensamento progressista,
mas suas consequências práticas eram mínimas. Um historiador uruguaio, José Pedro Barrán,
afirma que não havia problema no casamento entre uma menina católica, que comungava
diariamente, e um médico agnóstico ou ateu, porque o que para ela era pecado, para ele era
anti-higiênico. Por isso, adequava-se perfeitamente aos interesses de nossas oligarquias
regionais, que não podiam deixar de lhe dispensar uma calorosa acolhida. Na Argentina, foi
Luis María Drago quem divulgou precocemente as teses lombrosianas em uma conferência
intitulada “Os homens de presa”, logo publicada em versão italiana com prólogo do próprio
Lombroso.
O positivismo foi tão impactante na Argentina que não só foi acolhido pelas cátedras de
todo o país, incluindo a de Córdoba, como também Lombroso foi convidado a nos visitar.
Por motivo de saúde, não veio porém no centenário da independência do país, veio Enrico
Ferri, que era seu discípulo jurista. Por essa época, Ferri era um proeminente socialista
italiano e seus correligionários argentinos foram recebê-lo com entusiasmo. Mal
desembarcou, Ferri afirmou que não se justificava o socialismo em um país não
industrializado, provocando uma polêmica com Juan B. Justo, enquanto desfrutava da
companhia do que havia de mais ilustre na nossa oligarquia e pronunciava suas conferências
com singular êxito.
Como penalista, Ferri afirmava que a pena devia ter a medida da periculosidade que,
logicamente, na falta de um “perigosímetro”, mediam na base do “olhômetro”. O juiz se
convertia em um policial a mais. A dogmática jurídica era uma “abstrusidade germânica” e as
garantias processuais, um preconceito metafísico. O determinismo monista de Ferri era
radical: tudo estava mecanicamente determinado, não havia liberdade alguma.
O delinquente era, para Ferri, um agente infeccioso do corpo social do qual era preciso
ser separado, com o que convertia os juízes em leucócitos sociais. O filósofo Martin Buber
ridiculiza isso, imaginando um diálogo em que o processadoalega perante o juiz que não
tem a culpa porque está predeterminado ao delito, ao que o juiz lhe responde que ele está
predeterminado a condená-lo.
Embora o próprio Ferri tenha pretendido compatibilizar isso com Marx, nunca o
conseguiu e, talvez cansado de tentá-lo, mais para o final de sua vida terminou aceitando
uma senadoria de Mussolini.
A prédica positivista em nosso país fez escola e José María Ramos Mejía patologizou boa
parte de nossos próceres em seu famoso livro A neurose dos homens célebres, em que incluía
o dr. Francia,[4] o que levou Lombroso, que não reparava muito nesses detalhes, a
considerar argentino o famoso paraguaio. Cabe destacar que Lombroso incorreu em outros
erros a nosso respeito, como afirmar que os incêndios da Boca ameaçavam estender-se a
Montevidéu, ou recolher, das memórias de Garibaldi, que nossos hábitos carnívoros eram a
causa da frequência homicida. Também disse que em Mendoza a população tomava banho
sem roupa no rio, o que motivou a retificação de Drago em defesa do pudor das damas
mendocinas.
A tese da degeneração teve ampla repercussão entre os argentinos. Carlos Octavio
Bunge publicou, em 1903, Nossa América, um livro que foi muito útil por seu racismo, na
linha de Morel. Muito mais tarde, em 1938, Francisco De Veyga publicou um livro intitulado
Degeneração e degenerados. Miséria,vício e delito, em que parecia advertir que, se nada fosse
feito para conter a degeneração, os degenerados iriam nos superar. A julgar pelo tom do
livro, acredito que sete anos depois sua teoria teria sido considerada verificada na Plaza de
Mayo, como anos antes o haviam manifestado aqueles que se escandalizaram porque o povo
desamarrou os cavalos do coche do presidente Yrigoyen para levá-lo até a casa de governo.
Um senador nacional publicou, nesses anos, um opúsculo com o título de Chusmocracia
[algo como a democracia do populacho]. Cabe esclarecer que, anos antes, De Veyga estivera
obcecado com a homossexualidade masculina e escreveu consideráveis disparates a respeito.
Os criminólogos positivistas dedicaram-se a percorrer prostíbulos e outros antros da
época e conceberam o conceito de “má vida”. Escreveram-se livros sobre a “má vida” em
Roma, em Madri, em Barcelona e, como não podia faltar, também em Buenos Aires. Quem o
publicou aqui, em 1908, foi Eusebio Gómez, destacado professor de direito penal da UBA,
com prólogo de José Ingenieros, foi muito útil por conta de sua redundância biologicista. Ali
desfilavam prostitutas, espertalhões, ladrões, religiosos, curandeiros, gays etc. A respeito dos
últimos, Gómez, afirmava que admirava a Idade Média.
Como resultado dessas andanças nada santas, os positivistas propunham leis de “estado
perigoso predelitual”, ou seja, que caso se soubesse que quem andava na “má vida” teria de
desembocar no delito, o mais natural era detectá-lo antes e metê-lo na cadeia. Para que
esperar que cometessem algo? Para obviar algumas formalidades, lhe mudavam o nome da
pena e a chamavam de “medida”, de modo que ninguém poderia objetar que lhe fossem
impostas penas sem delito. Famosos professores estrangeiros vieram em apoio a essa
luminosa ideia que, por sorte, entrou em choque com a decidida recusa de Yrigoyen, mas
não de Alvear, que encaminhou alguns projetos que, felizmente, não receberam sanção.
Se levarmos ao extremo a colocação, o mesmo delito não era mais que um “sintoma” da
periculosidade e, portanto, tampouco teria muito sentido ter uma parte especial do código
penal como catálogo fechado, porque sempre poderiam aparecer novos “sintomas”, e
inclusive alguém poderia pensar-se em suprimir essa parte especial.
Embora ninguém tenha apoiado essa ideia na Argentina, não faltou quem o propusesse
do outro lado, o que demonstra que não há disparate que não possa estar presente nesta
matéria. Com efeito, Nikolai Krylenko – destacado jurista soviético, revolucionário e
magistrado – elaborou um projeto de código penal sem parte especial que não foi
sancionado.
De qualquer maneira, o positivismo criminológico se defrontava com um gravíssimo
problema, que era a própria “naturalidade” do delito. Não podia negar que se criminalizava
por decisão política e que o proibido mudava de tempos em tempos e de sociedade em
sociedade. Um outro jurista italiano, seguidor de Lombroso e Ferri, o barão Raffaele
Garofalo, inventor do “delito natural”, dedicou-se a superar esse obstáculo. A esse respeito,
ele publicou, em 1885, uma Criminologia, que merece ser lida com atenção, porque é um
manual que expõe, com incrível ingenuidade, racionalizações às piores violações de direitos
humanos imagináveis.
Entre outras coisas, ele afirma que o delinquente é o inimigo interno na paz, como o
soldado inimigo o é na guerra; prefere a pena de morte à prisão perpétua, porque é mais
piedosa e elimina o risco de fuga; afirma que há povos degenerados que cumprem no plano
internacional o mesmo papel que os criminosos natos desempenham no nacional, e muitos
outros absurdos que são bem úteis. Seria uma leitura recomendável para a turma do “Tea
Party”, os europeus antiextra-comunitários e os argentinos antibolivianos, entre outros
tantos.
Como Garofalo construía seu “delito natural”? Misturando o ferroviário Spencer nada
menos do que com Platão (esclareço que houve misturas piores). Afirmava que a civilização
avançava em refinamento dos sentimentos de piedade e justiça, alcançando seu mais alto
grau, é claro, na Europa, e que isso se expressava na proteção aos animais. Escrevia isso,
enquanto os capangas de Leopoldo II mutilavam negros porque não lhes traziam borracha
suficiente.
Pois bem. Para Garofalo, o “delito natural” seria a lesão do sentimento médio de piedade
ou de justiça imperante em cada tempo e sociedade. Assim, ele construía um quadro de
valores e subvalores lesionados no qual colocava os diferentes delitos. O resultado era algo
assim como um Platão em estado bruto. Nem todos os positivistas aceitaram de bom grau
esse platonismo à Spencer. Pedro Dorado Montero, por exemplo, foi um personagem
singular, professor de Salamanca, positivista, mas, ao mesmo tempo, um anarquista
moderado, que meditava no isolamento de seu refúgio castelhano. Rechaçou a tese de
Garofalo, afirmando que não havia nenhum “delito natural”, mas sim que o Estado definia
arbitrariamente os delitos. Porém, como havia homens determinados a realizar essas
condutas, o que o Estado devia fazer era “protegê-los” em instituições às quais eles
pudessem recorrer pedindo ajuda.
Evidentemente que ninguém seguiu Dorado e de nenhum modo ocorreu a alguém
materializar as curiosas instituições que ele propunha e com as quais pensava mudar o
direito penal por um “direito protetor dos criminosos”.
É bastante óbvio que o positivismo criminológico desembocava em um autoritarismo
policial que correspondia a um elitismo biologicista. Não apenas legitimava o
neocolonialismo, mas também a repressão das classes subordinadas no interior das
metrópoles colonialistas. As elites dessas sociedades temiam sua insubordinação e
perseguiam os agitadores “dissidentes”. O próprio Garofalo escreveu um livro intitulado A
superstição socialista. Mais temor ainda inspiravam as reuniões públicas: as “multidões”.
A lembrança da Comuna de Paris era inapagável. Foi precisamente um autor francês –
Gustave Le Bon, autor da famosa Psicologia das multidões – quem se destacou no tema e
seus escritos também constituem, em geral, um bom reservatório de disparates
antidemocráticos. Para Le Bon, na multidão se neutralizavam as funções superiores do
cérebro e dominava a “paleopsique”. Em outras palavras, e embora não o expressasse desse
modo, a multidão fazia surgir em cada um o “criminoso nato”, atávico, regressivo, selvagem.
Como era demasiadamente incrível afirmar que todo povo insubordinado era composto de
criminosos natos ou selvagens, Le Bon encontrou a forma de explicar que quando atuavam
na multidão se convertiam a isso por efeito da própria massa humana.
Houve outros positivistas preocupados com as multidões e entre eles destaca-se ScipioSighele, que publicou um livro intitulado Os delitos da multidão. O resultado prático foi que
vários códigos penais incluíram disposições acerca de delitos cometidos pelas multidões,
responsabilizando os líderes. O fato de que Le Bon, Sighele, o próprio Lombroso e outros
exemplificavam, invariavelmente com os líderes da Comuna de Paris e que os códigos penais
centrassem sua atenção punitiva nos líderes de multidões, mostra claramente o medo das
classes hegemônicas em relação à “peble reunida”.
Como se pode ver, o positivismo restaurou claramente a estrutura do discurso
inquisitorial: a criminologia substituiu a demonologia e explicava a “etiologia” do crime; o
direito penal mostrava seus “sintomas” ou “manifestações” da mesma forma que as antigas
“bruxarias”; o direito processual explicava a forma de persegui-lo sem muitas travas à
atuação policial (inclusive sem delito); a pena neutralizava a periculosidade (sem menção da
culpabilidade) e a criminalística permitia reconhecer as marcas do mal (os caracteres do
“criminoso nato”). Tudo isso voltava a ser um discurso com estrutura compacta, alimentado
com os disparates do novo tempo histórico.
 
Ilustração 10
 
16. Os crimes da criminologia racista: campos de
extermínio e eugenia
Ninguém acredite que estejamos falando de uma história distante e menos ainda de uma
entretenimento que consista em recordar disparates. Estamos falando do poder planetário e
dos genocídios cometidos no seu avanço e, por conseguinte, estamos adentrando no núcleo
central dos direitos humanos que desemboca nos nossos dias.
O domínio mundial sempre hierarquizou os seres humanos e considerou inferiores os
colonizados. Isso aconteceu do colonialismo do século XV em diante e, depois, com o
neocolonialismo, desde o século XVIII. O que expusemos foi a ideologia racista dominante
no neocolonialismo, da qual fazia parte a criminologia positivista biologista, porém o marco
em que esta se inseria vinha de muito mais longe.
Nos tempos do velho colonialismo também houve racismo, embora não com discurso
científico. Mais ainda. Embora pareça incrível, houve também um racismo pessimista, ao
estilo de Gobineau, e outro otimista, ao estilo de Spencer.
Durante a colônia, ninguém discutia que éramos inferiores, o ponto central era se o
Apóstolo Tomás havia chegado ou não à América, se ele viera caminhando sobre as águas,
ou pelas pedras e, se havia trazido a mensagem e nossos nativos o haviam desprezado,
éramos hereges e, portanto, matéria dos tribunais eclesiásticos. Se ele não tivesse vindo,
éramos simplesmente infiéis e, portanto, submetidos ao príncipe cristão cuja missão era nos
doutrinar.
No primeiro caso, havíamos caído, no segundo não havíamos chegado. Exatamente o
mesmo do racismo posterior, só que com outro discurso e refletindo uma luta entre o poder
eclesiástico e o monárquico.
Bibliotecas inteiras foram escritas sobre isso e os dados mais incríveis eram tomados
como prova em torno da lenda de Tomás de América, registrados por nossos antropólogos
pioneiros: cruzes pré-hispânicas, pisadas petrificadas etc.
O racismo do neocolonialismo, com seu reducionismo biologista, não podia deixar de
terminar muito mal. Enquanto foi usado para legitimar o poder do domínio colonialista e
controlar a as classes incômodas dos países centrais, foi funcional; porém se estilhaçou,
quando foi usado na Alemanha para legitimar um poder punitivo sem limitações dentro da
própria Europa e por uma potência que se considerava estar na vanguarda da civilização.
Era inevitável que acontecesse, e aconteceu.
O formidável instrumento de poder policial vertical que legitimava esse racismo não era
exercido em toda sua amplitude na Europa controlada pelas classes dominantes tradicionais.
Porém, quando a Europa ficou arrasada depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os
aliados não viram nada melhor do que cobrar dívidas que a Alemanha não podia pagar, eles
humilharam e desestabilizaram a frágil República de Weimar, abrindo o espaço político para
um chefe extrassistema; um grupo de desaforados nacionalistas radicalizados tomou o ápice
de um Estado desde muito antes conformado por corporações fortemente verticalizadas, que
não fez mais do que passar a exercer o poder punitivo fora de toda a prudência e legitimado
por discurso idêntico.
Os novos condutores nazistas, que tomaram em suas mãos o poder punitivo, usaram-no
para homogeneizar a frente interna, inventando um novo Satã (inimigo), e elevando ao
máximo o verticalismo social, com o objetivo de preparar a sociedade para a colonização de
todo o planeta, seguindo a lógica de que a verticalização sempre anuncia uma colonização.
Por mais maluco ou irrealizável que tenha sido o projeto final, esse objetivo rompeu com
a relativa prudência das classes tradicionais e, como o discurso positivista não se havia
preocupado em fixar-lhe limites, continuou servindo de legitimação a um poder punitivo sem
freios.
O nacional-socialismo alemão não inventou ideologicamente quase nada sobre a questão
criminal, e sim usou o que outros haviam inventado; tampouco teve um discurso
criminológico original, pois, para encobrir seus massacres, valeu-se do que dominava havia
muito tempo.
Quando se parte do pressuposto de que o ser humano é um ente puramente biológico
que, quando mais bem construído, está destinado a usar os outros humanos que saem
defeituosos ou pertencem a séries com menor sofisticação, não é nada difícil concluir que
esses últimos podem ser destruídos se criarem obstáculos aos mais perfeitos em sua tarefa de
construir outros melhores.
O aniquilamento de todas as raças inferiores e incômodas é um corolário quase
necessário desse ponto de partida. Também o é que não vale a pena manter presos os
fracassados internos que causam problemas aos aparatos mais aperfeiçoados. A eliminação
dos que custam muitíssimo dinheiro nos manicômios e asilos não é menos coerente. Mais
ainda. Explicam-se essas consequências quando esses recursos são considerados necessários
para sustentar os perfeitos que oferecem sua vida nas trincheiras após a conquista do
planeta.
Consequentemente, fica claro que os campos de concentração, de trabalho forçado e de
extermínio tenham sido legitimados com racionalizações provenientes do racismo positivista.
Justamente quando, ao final da Segunda Guerra, já ninguém podia mais ignorar o que os
povos longínquos ou os subalternos muito distantes de seus bairros sofriam, porque acabava
de acontecer na casa do vizinho ou mesmo na sua própria, o paradigma mudou
rapidamente.
 
Ilustração 11
 
A isso se deveu a Declaração Universal de 1948, que anunciou a mudança de paradigma
no plano mundial. A guerra e a Shoah[5] foram o prolegômeno da Declaração, pois sem as
atrocidades nazistas o discurso racista teria continuado a se espalhar pelo planeta e jamais se
teria formulado semelhante declaração diante do concerto mundial. Seu próprio texto parece
elementar e ingênuo, se não o contextualizarmos como uma mudança de paradigma que
procurava enterrar o discurso do racismo até então dominante.
Há uma história – que corresponde à criminologia do apartheid, mas que poucas vezes
se recorda – amplamente demonstrativa de que o nazismo não inventou nada no plano
ideológico, que foi imensamente perverso, mas ao mesmo tempo infimamente criativo, só
talvez um pouco engenhoso.
Houve um capítulo anglo-saxão da criminologia positivista, que foi o prolegômeno do
uso nazista do reducionismo biologista aplicado ao controle social repressivo. Ele quase foi
apagado dos manuais correntes de criminologia e embora soe como uma má lembrança, é
preciso rememorá-lo, em particular em nosso tempo que, como veremos mais adiante, não
está livre de perigosos surtos de biologismo criminal.
Por regra geral, quando se menciona a esterilização forçada de delinquentes e de
deficientes real ou supostamente hereditários, a contaminação do sangue com raças
inferiores, a proibição de matrimônios interraciais ou mistos e outras aberrações
semelhantes, o nazismo é imediatamenteevocado. É verdade que o nazismo se valeu de
tudo isso com singular empenho, mas não devemos esquecer que não o inventou, mas sim o
copiou do mundo anglo-saxão, colocado no papel na Grã-Bretanha, mas levado à prática até
extremos inadmissíveis nos Estados Unidos muitos anos antes do que na Alemanha.
Estamos nos referindo a uma palavra que hoje causa medo e ninguém usa, mas que
esteve em voga em boa parte do século passado: a eugenia.
Os médicos estadunidenses haviam rechaçado a tese lombrosiana do criminoso nato,
porém, ao estudar sua população penal, encontraram o que era óbvio que achariam:
pessoas mais frágeis que a média e com menor quociente intelectual.
Desde o começo do século XX, Alfredo Niceforo, na Itália, havia verificado que supostas
causas biológicas não eram mais do que defeitos de alimentação na primeira idade. Uma
geração mais bem alimentada é mais forte e, além disso, mais bonita; a força física e a beleza
nunca são produto da miséria. Além do mais, não é raro que na população penal algumas
pessoas tenham um menor nível de inteligência; não que a isso se deva condicionar o delito,
mas sim que são mais ingênuos e, por conseguinte, são presos por serem bobos.
Contudo, os iluminados médicos estadunidenses deduziram outra coisa e não faltou um
investigador, de duvidosa seriedade (Henry Goddard), que aplicou uns testes questionáveis,
e em 1913 chegou a publicar um livro sobre uma suposta família Kallikak, de delinquentes
por gerações, com o que pretendia verificar a herança das taras condicionadoras da
criminalidade. Na verdade, duvida-se mesmo se essa família existiu.
Com esses antecedentes, não era difícil chegar à conclusão de que não havia criminosos
natos, mas que a criminalidade era resultado de taras físicas e mentais, em sua maioria
hereditárias.
Uns trinta anos antes, Francis Galton – que foi um inglês pouco equilibrado, primo de
Darwin, e que supunha terem a genialidade deste e a dele mesmo raiz num ascendente
comum – abandonou seus estudos de medicina e se dedicou às matemáticas. Aí começou a
contar tudo o que se podia contar no mundo, até afirmar que as sociedades criavam os
gênios em razão direta à reprodução de seus seres mais perfeitos ou superiores.
Entre seus disparates, Galton disse haver calculado o número exato de gênios que os
gregos haviam produzido, e inventou uma ciência para o melhoramento da raça que batizou
com o nome de eugenia.
Galton, porém, era um tipo prudente. Sua ciência era uma espécie de religião que
aconselhava ou desaconselhava casamentos, mas não pretendia fazer nada à força, e sim
convencer acerca das vantagens de se seguirem seus conselhos. Por isso, considera-se sua
eugenia como positiva.
Quando os livros de Galton cruzaram o Atlântico encontraram um terreno diferente. Por
um lado, a pretensa constatação dos médicos acerca das taras hereditárias causadoras do
delito; por outro, uma sociedade muito complexa, na qual os habitantes nativos se
encontravam rodeados de estranhos, com os quais não se misturavam.
Esses estranhos eram, em primeiro lugar, os afro-americanos libertados poucas décadas
antes, aos quais não conseguiram mandar para a Libéria nem fixar no México, mas que nem
o próprio Lincoln considerava estadunidenses. A eles se somavam os grupos de imigrantes
europeus que pretendiam obter avanços sociais e pregavam o socialismo e o anarquismo; e,
para culminar, pelo sul, os mexicanos.
O ambiente intelectual estava dominado por livros de escandaloso racismo nórdico,
quase idêntico à novela nazista de Rosenberg. Um pretenso cientista, chamado Madison
Grant, afirmava ser necessário evitar a reprodução dos criminosos, doentes e loucos, e
esperar que eles morressem, e também a dos indivíduos de raças inferiores. Seu discípulo
Stoddard advertia sobre o perigo do avanço da gente de cor no mundo. A popularidade
desses racistas e seus vínculos políticos com alguns presidentes decidiram a política
migratória daqueles anos, que rechaçava a vinda dos imigrantes de raças inferiores e
privilegiava os nórdicos, qualificados por Adolf Hitler como a única raça racional em Mein
Kampf. Cabe recordar que as obras desses bons rapazes foram usadas em Nurenberg pelos
defensores dos genocidas nazistas para tentar provar que suas condutas respondiam a
teorias científicas que não lhes eram próprias.
Ficava claro que o terreno estava preparado para deixar de lado os escrúpulos do inglês
Galton e passar de sua eugenia positiva a uma negativa, imposta e radical. Para que esperar
que as pessoas se convencessem, se era possível fazê-lo antes? Além do mais, como
convencer os inferiores? De acordo com o projeto de Grant, a humanidade poderia se livrar,
em um século, de todos os inferiores.
A batuta desse movimento foi tomada por um veterinário, Charles Davenport, que
demonstrou ser um coletor de financiadores muito bom, tendo rapidamente convencido a
Fundação Carnegie, a viúva do magnata Harrison e a Associação de Criadores (de animais,
claro). Incorporou à sua campanha pessoas famosas, como o Prêmio Nobel Alexis Carrel,
sujeito pouco equilibrado que pretendia que o governo estivesse a cargo da Corte Suprema
(toda semelhança com a Argentina de 1943 é mera coincidência) e terminou a serviço do
vergonhoso regime de Vichy.
Davenport teve como assistente um personagem chamado Harry Laughlin; ambos foram
piedosamente ignorados durante a guerra por seus obscuros contatos com os médicos do
nazismo e morreram antes do término do conflito. Ao que parece, o intercâmbio de
informações científicas com os médicos malditos foi intenso e até se supõe que
proporcionaram apoio financeiro para os primeiros laboratórios de eugenia alemães,
inclusive o do mestre do tristemente famoso Josef Mengele. Davenport disputou a
presidência da Associação Americana de Antropologia nada menos do que com Franz Boas,
cuja mão se negava a apertar porque era judeu.
O dano que causaram foi enorme, embora primeiro Galton e depois seu discípulo
Pearson tenham denunciado sua campanha como anticientífica e negado qualquer vínculo
com esses delirantes (o que demonstra que eles eram apenas um pouco loucos).
Não se poderia afirmar hoje se o episódio de Davenport foi uma grande fraude, uma
manobra de arrivistas alucinados, místicos racistas ou uma mistura de tudo isso.
O certo é terem conseguido que, em 1907, fosse sancionada em Indiana a primeira lei de
esterilização forçada, copiada na maior parte dos estados do país nos anos seguintes. Em
função dessas leis, foram esterilizados milhares e milhares de oligofrênicos, epilépticos,
surdos-mudos, índios, cegos, delinquentes, doentes mentais etc.
A Suprema Corte validou a constitucionalidade dessas leis de esterilização forçada graças
ao voto do juiz Oliver Holmes Jr., que já não era nenhum júnior e de quem se diz que foi um
dos ministros mais pensantes da história dessa Corte; é possível, mas cabe se perguntar se o
fazia bem.
Os juízes não se conformaram com as leis de esterilização, mas, seguindo o velho Morel,
proibiram os casamentos entre afro-americanos e brancos em numerosas leis estaduais.
Novamente, a brilhante Suprema Corte legitimou essas leis com o argumento de que não
eram discriminatórias porque não proibiam o casamento, uma vez que o autorizavam entre
os afro-americanos, respondendo ao lema antes assentado em sua jurisprudência de iguais
mas separados, ou seja, o apartheid. A inconstitucionalidade dessas leis foi declarada, sem
muita pressa, apenas em 1957. Creio que com isso fica suficientemente fundamentada a
razão dessas explicações, que mostram onde foi parar e que horripilantes consequências
teve o pretenso progressismo positivista, que extraía sua matriz de pensamento avançado de
sua capacidade de assustar os padres dos povoados, mas que não era mais do que um
pensamento reacionário e potencialmente genocida.
17. A criminologia do canto da Faculdade de Direito
Na Europa, os penalistas começaram a ficar nervosos. Isso porque gostavam cada vez
menos do estilo inquisitorial da criminologia, que lhes dizia como deviam decidir,e
resolveram recuperar seu território por razões puramente acadêmicas, sem que isso
implicasse necessariamente consequências políticas. Não se queixavam do potencial
genocida do positivismo biologista, mas não suportavam estar subordinados aos médicos.
Por conseguinte, foram isolando os criminólogos. Decidiram que o delito era definido
pelos penalistas e os criminólogos deviam ater-se a explicar as causas das condutas que os
penalistas previamente identificavam como delitos. Quer dizer, não os expulsaram das
Faculdades de Direito, deixando-os com seus crânios e frascos de restos em formol, mas em
um canto.
Não vem ao caso explicar que argumentos usaram, embora já tenhamos feito alguma
referência ao mais elaborado: era o neokantismo, que distinguia entre ciências naturais e
culturais. Como o direito era uma ciência cultural, não podia contaminar-se com a outra,
natural.
Havia algumas dificuldades, como a de a criminalização, que era uma decisão política,
fixar os limites de uma ciência natural, mas os penalistas resolveram rapidamente, afirmando
que não existia nenhuma ciência natural chamada criminologia, mas sim um conjunto de
conhecimentos auxiliares do direito penal que eram convocados quando este o considerava
conveniente e nada mais. A criminologia positivista biologista passava a ser uma ordem de
conhecimentos servis ao direito penal.
Com a Inquisição e o positivismo, a criminologia mandava no direito penal; com o
neokantismo, o direito penal subordinava a criminologia. Porém, a criminologia que ficava
no canto continuava sendo exatamente a mesma do reducionismo biologista e tão racista
como antes. Tratava-se de uma questão de prioridade acadêmica, na qual tudo ficava igual
quanto ao conteúdo.
Prova disso é que se registrou um vergonhoso debate em 1941, em plena guerra
mundial, entre os professores de Munique e os de Milão, para ver quem tinha o melhor
discurso para legitimar as leis penais do nazismo. O grupo de Milão defendia a prioridade do
discurso ao estilo do velho Ferri (que havia morrido uns anos antes) e por certo impôs-se ao
de Munique, que, à primeira vista soletrava algumas coisas incompreensíveis. Evidentemente,
nenhum dos dois grupos voltou ao tema depois da guerra e continuaram escrevendo e
publicando, e sendo citados entre nós, com a maior naturalidade, mas isso é um outro
assunto.
Os criminólogos do canto continuaram postulando a esterilização, investigando os
gêmeos univitelinos e propondo medidas de segregação radicais, como Franz Exner, que,
juntamente com o penalista do neokantismo mais citado entre nós (Edmund Mezger)
elaborou um projeto para mandar todos os de vida ruim (ele os chamava de estranhos à
comunidade) aos campos de concentração, em 1944. Exner havia estado nos Estados Unidos
na década anterior e voltou à Alemanha muito contente com seus colegas racistas
estadunidenses. Em seu livro, que foi leitura recomendada em nossas cátedras durante anos,
dizia-se que o grande número de afro-americanos nas prisões era resultado do fato de a
sociedade estadunidense lhes exigir um esforço que suas condições biológicas não tinham
condições de suportar. Essa criminologia do canto da Faculdade de Direito enriqueceu seu
biologismo com as novidades médicas, fundamentalmente com o descobrimento das
glândulas de secreção interna, ou seja, com a endocrinologia, o que motivou novos
entretenimentos, em particular na área da conduta sexual, onde quiseram curar todas as
desvios com injeções, ocasião em que explicavam o avanço da civilização por uma suposta
contenção da hiperfunção da hipófise.
O que mais impactou a criminologia do cano foram as classificações segundo os biotipos,
ou seja, voltou-se a correlacionar as características físicas com as psicológicas, ao estilo dos
fisiognomistas. Algum autor mais moderno diz que era uma nova frenologia, só que Gall
deduzia as características psicológicas dos volumes no crânio e agora pretendiam fazê-lo a
partir dos glúteos, embora não necessitassem recorrer à apalpação.
Houve várias classificações biotipológicas, porém a mais difundida foi a alemã de Ernst
Kretschmer, que em seu livro (sob o impressionante título de Körperbau und Charakter)
estabelecia cinco biotipos: leptossômico, atlético, pícnico, displásico e misto. Em qualquer
esquina de Buenos Aires se conhecem com outros nomes: magro, sarado, gordo, urso e yeti.
As profundas consequências criminológicas indicam que os magros costumam ser
ladrões; os atléticos, homicidas; e os gordos, farsantes; os outros dois não se sabe bem. Creio
que ninguém imagina um obeso ousado, escorregando por uma janela estreita.
A endocrinologia, além disso, conferia nova base ao próprio racismo, constatando que os
nórdicos são magros e, portanto, pensadores, enquanto que os alpinos são gordinhos
ciclotímicos e, portanto, artistas.
Nesse período do pré-guerra houve uma variante no interior da tese biologista que é
necessário destacar por causa de suas consequências diferentes. Por um lado, havia a
posição genética, assumida pelo nazismo, que, como não dava outra solução senão impedir a
reprodução, deduzia a necessidade de matar todos os inferiores, incluindo as crianças. Por
outro, estava a tese da transmissão dos caracteres adquiridos do velho Lamarck, cuja
consequência era que as crianças deviam ser colocadas sob os cuidados das famílias
saudáveis. Esta última foi a que predominou na ditadura franquista, comandada por Antonio
Vallejo Nágera, dono da psiquiatria oficial espanhola e chefe dos campos de concentração
nacionais. Esta última variável foi a que se aplicou às crianças retiradas das hostes
republicanas e inspirou os criminosos contra a humanidade em nosso país.
Não deixa de ser curioso que o lamarckismo tenha sido ideologia oficial da biologia na
URSS, com a escola de Lyssenko.
18. A agonia da criminologia do canto
Essa criminologia do canto entrou em crise depois da guerra. O primeiro Congresso
Mundial de Criminologia no pós-guerra foi celebrado em Paris, em 1950, sob a presidência
de Donnedieu de Vabres, juiz francês em Nurenberg.
Nesse congresso, como num passe de mágica, o racismo desapareceu, porque, salvo
algum desavisado, que nunca falta, ninguém queria arcar com suas letais consequências
depois da guerra.
Embora desde muito antes ninguém sustentasse a tese lombrosiana do criminoso nato,
até o final da guerra a criminologia do canto conservava pela biologia um interesse
destacado, seja pelo tema debilidades, seja pelo tema taras, pelo tema conformação etc.
Porém, a partir do pós-guerra, ao rechaçar o racismo e o reducionismo biologista, a
criminologia, embora continuasse sendo etiológica, deixava de considerar o delinquente uma
variável do ser humano e, por conseguinte, perdia seu objeto diferenciado e natural, seu
bicho diferente.
Esta criminologia etiológica do canto se foi esvanecendo e terminou por derreter-se nas
contradições de sua plurifatorialidade. Seu objeto perdia progressivamente os contornos,
anunciando seu ocaso inevitável, porque ficava evidente que seus cultores careciam dos
elementos para a análise do exercício do poder punitivo e do dado óbvio da seletividade.
Não é justo, porém, considerar todos eles como racistas ou biologistas furiosos e, menos
ainda, que todos compartilhassem dos disparates a que fizemos referência.
Assim como, no que concerne à Inquisição, advertimos que no século XVI nem todos
estavam tão loucos, cabe aqui dizer mais ou menos a mesma coisa. Em todos os tempos
houve algumas pessoas bastante lúcidas, cujo discurso não foi hegemônico, muito menos no
momento em que surgiu e, ademais, lhes era muito difícil escapar ao paradigma dominante,
ainda que alguns enfrentassem a marginalização acadêmica.
Desde o final do século XIX, algumas vozes prudentes se fizeram ouvir, como a da
criminóloga feminista espanhola Concepción Arenal. Contemporâneos de Lombroso, autores
como Turatti e Vaccaro rechaçavam o biologismo. Alfredo Niceforo, não obstante ser um
etiologista, deu-se conta perfeitamente de que os pretensos signos biológicos eram osda
miséria. O holandês Willen Bonger escreveu o primeiro ensaio de criminologia marxista em
princípios do século XX e seguiu essa linha até que se suicidou, no dia em que os nazistas
ocuparam a Holanda.
Se bem que nossa tradição criminológica latino-americana tenha sido tributária dessa
criminologia do canto, entre nossos criminólogos de pós-guerra houve pessoas que nada
tiveram a ver com as ideias racistas, e alguns foram mesmo seguidores distantes de Bonger.
É óbvio que nossos criminólogos de meados do século passado – ao prescindir da
análise do poder punitivo e das características do sistema penal, mantendo-se no marco de
uma etiologia criminal que se alimentavam na plurifatorialidade – caíam em contradições no
marco de uma disciplina que se ia derretendo. Essas limitações, porém, não podem ser
confundidas com o aberto racismo do pré-guerra europeu.
Por isso, importa distinguir cuidadosamente, a partir do político, entre os cultores de
uma criminologia de pós-guerra que agonizava e os reducionistas biológicos que os
precederam, e não colocar todos no mesmo saco.
O colombiano Luis Carlos Pérez dedicou todo um capítulo de sua obra geral de
criminologia dos anos 50 do século passado a uma forte crítica do racismo. O brasileiro
Roberto Lyra Filho foi um dos criminólogos mais avançados na linha de Bonger. O mexicano
Alfonso Quiroz Cuarón, um patriarca da criminologia regional, interveio em questões tão
conhecidas como o estudo do assassino de Trotsky e dos restos do imperador Cuauhtémoc;
seus artigos jornalísticos eram marcadamente críticos do sistema penal de seu país. Na
Argentina, Oscar Blarduni (advogado e médico) foi o artífice do Instituto de Investigação e
Docência Criminológica do Prata e um crítico do reducionismo biologista.
Todos esses nossos autores do pós-guerra cultivavam uma criminologia que se
encontrava em um corredor sem saída e tampouco tinham o treinamento sociológico prévio
para vislumbrar metodologicamente outros horizontes. Contudo, vista a sua marca política,
não podem ser considerados no mesmo nível dos reducionistas aos quais me referi antes.
Coube a eles, como a todos, viver uma época com seus condicionamentos limitadores de
nossa visão científica, e sem dúvida, foram produzidas contradições irredutíveis, entre suas
atitudes políticas e o agonizante marco etiológico. Porém, se essas contradições não tivessem
acontecido, teria sido impossível pasar a outra etapa superadora, como sempre acontece.
Suponho que hoje também incorremos em contradições.
A agonia da criminologia do canto da Faculdade de Direito estava indicando que a
hegemonia do discurso criminológico logo deixaria de estar nas mãos de médicos e de
advogados formados por estes, para passar a outra corporação de especialistas que, em
outras latitudes, já vinha, há muito tempo, trabalhando a questão criminal. Começava a era
dos sociólogos, que nos Estados Unidos, algumas décadas antes, haviam começado a discutir
e investigar as coisas de uma perspectiva diferente. Eles anunciaram a direção que haveria
de conduzir às colocações atuais.
 
Ilustração 12
 
19. O parto sociológico
A velha criminologia etiológica de médicos e advogados se enlanguescia nos cantos de
nossas faculdades de direito, pese a boa fé de muitos de seus expositores, que não
conseguiam se aproximar do fenômeno da perspectiva do grupo humano e menos ainda do
poder. De vez em quando lhe esparziam sua vasilha com um pouco de sal social, com
afirmações um tanto socialistas (quando se abre uma escola, se fecha uma prisão, e outras
semelhantes), mas ignoravam os criminosos que nunca passariam por uma prisão e haviam
frequentado as melhores escolas. Para eles, a delinquência continuava sendo aquela que
viam na prisão ou na crônica policial, embora, de vez em quando, não percebessem a
contradição em que caíam.
Ainda que a questão criminal tenha sido sempre um tema central para aqueles que
exerceram ou disputaram o poder, ela não podia ser explicada por uma criminologia de
médicos e advogados. Por sorte, porém, há saberes que se ocupam do comportamento
humano e excedem bastante o limitado campo desses especialistas, de modo que outros
avançavam por um caminho diferente, observando os fenômenos a partir do plano social.
Nunca faltaram aqueles que o fizeram desse ponto de vista diverso, mas foi precisamente a
partir da análise da questão criminal que uma nova ciência foi ganhando forma e terminou
obtendo patente acadêmica: a sociologia.
Tudo começou entre 1830 e 1850, quando dois personagens – o belga Adolph Quetelet e
o francês André-Michel Guerry – chamaram a atenção para as regularidades na frequência
dos homicídios e dos suicídios.
Quetelet vivia de fazer cálculos atuariais para as companhías de seguros, mas inventava
toda espécie de coisas e, entre elas, foi o fundador do observatório astronômico de Bruxelas,
o que não deixa de ser original, porque a capital belga tem o céu nublado na maior parte do
ano.
Guerry era um advogado que se enamorou das estatísticas e denominou essas
regularidades de estatística moral, enquanto Quetelet buscava um nome para sua ciência.
Quando se quer obter hierarquia de ciência para algum saber existe a tendência de
aproximá-lo da física (isso hoje se chama fisicalismo) e como Quetelet não era alheio a essa
tendência, não teve melhor ideia senão chamar a sua de física social.
Ele, porém, não era o único que queria fundar uma física social, pois, na França,
Augusto Comte andava no mesmo caminho e se aborreceu muito com Quetelet, afirmando
que ele tinha roubado o nome da sua ciência, e por isso decidiu rebatizá-la de sociologia.
Graças ao plágio, nós escapamos de estar rodeados hoje de físicos sociais.
Na verdade, Comte foi surprendido pelo surgimento do belga, mas suas ideias são
produto de outra história. A empresa de Comte foi precedida e impulsionada pelos
reacionários (Louis de Bonald, Joseph de Maistre, Edmund Burke), que consideravam a
Revolução Francesa um episódio criminoso e antinatural que ia contra a história e que,
depois da derrota do desobediente Napoleão e da Santa Aliança (aliança de cabeças
coroadas para manterem-se presas ao corpo), voltaram à carga, reafirmando que a sociedade
é um organismo e jamai ss pode admitir o disparate do contrato. Se a sociedade é um
organismo, supõe-se que deve existir uma ciência que estude suas leis naturais.
Mas os reacionários eram nostálgicos da Idade Média e apelavam a argumentos do
direito divino, que já tinha passado de moda, em um momento em que a ciência despontava
como única garantia do saber. Ademais, os críticos da ordem social, os chamados socialistas
utópicos, com os quais os reacionários se confrontavam, eram tão organicistas quanto eles,
ou mais. Nessas condições, era óbvio que haveria de ocorrer a alguém a ideia de responder-
lhes da mesma perspectiva conservadora e organicista, mas conforme o sinal dos tempos,
isto é, com uma ciência da sociedade.
Foi isso que Comte fez. O grande mérito de Comte foi ter dado impulso a uma ciência da
sociedade livre do lastro religioso, mas, do ponto de vista ideológico, ele teria podido tomar
uns tragos com os reacionários sem muitos problemas práticos.
Como ninguém pode comprovar que a sociedade seja um organismo, a volumosa obra
de Comte, publicada em meados do século XIX, pressupunha um dogma gratuito. Embora
pareça mentira, fundou-se uma ciência sobre uma premissa anticientífica ou não verificável.
Conforme esse dogma, o organismo social tinha suas leis; por conseguinte, devia ser
governado por quem as conhecesse, ou seja, pelos sociólogos. Por isso, iam além de Platão,
postulando algo parecido a um sociólogo-rei (um tecnocrata social). Isso era explicado pela
lei dos três estados pelos quais a humanidade teria passado: o teológico (primitivo), o
metafísico (os iluministas) e, finalmente, o científico (adivinhem com quem: com Comte).
Havia mais alguém com vontade de sentar-se na ponta da flecha do tempo.
Ademais, por humanidade se entendia a raça branca (à qual Comte pertencia), mas nem
todasas pessoas dessa raça, e sim somente os homens (Comte também era homem), porque
as mulheres tinham que ser mantidas em estado de perpétua infância, para sustentar a célula
básica da sociedade: a família.
Dada a importância das hierarquias para sustentar a ordem social, ele olhava com
simpatia a sociedade de castas da Índia. Como se isso fosse pouco, ele nem sequer
renunciava a um componente místico e inventou uma nova religião, com toda sua liturgia,
em que o Grande Ser era a humanidade e integrava uma trindade com O Grande Meio
(espaço do mundo) e O Grande Fetiche (a terra).
Curiosamente, as ideias de Comte vingaram no Brasil e, após a queda do Império, os
militares fundadores da República as levaram tão a sério que incorporaram à insígnia
nacional o lema Ordem e progresso. Mas a coisa não parou aí. Houve até mesmo um templo
comtiano no Rio de Janeiro, o que prova que não é nova a generosidade de nosso
continente na importação de disparates.
É mais do que sabido que Comte não gozava de saúde mental muito boa e que, ao
compasso de suas desilusões amorosas, tentara suicidar-se, lançando-se ao Sena. É óbvio que
se houvesse vivido perto do Riachuelo[6] não teria inventado a sociologia. Como regra geral,
as histórias da sociologia assinalam como fundadores Comte e Spencer, de quem já nos
ocupamos e vimos que, do outro lado do canal da Mancha, compartilhava a concepção
organicista e também se acomodava na ponta da flecha civilizatória.
20. Os verdadeiros pais fundadores
Essa pré-história da sociologia moderna mostra como esta e a criminologia nasceram do
entrevero entre o poder e a questão criminal, mas enquanto a criminologia ficou atada a
Spencer, a sociologia posterior a Comte se desprendeu do conteúdo reacionário de suas
ideias e adquiriu voo próprio na Europa continental até a Primeira Guerra Mundial ou
Grande Guerra (1914-1918).
A rigor, a criminologia e a sociologia nasceram gêmeas, só que a criminologia
permaneceu presa do racismo e do reducionismo biologista do spencerianismo,
desintegrando-se paulatinamente a partir da crise dessas lamentáveis bases ideológicas,
enquanto na sociologia, as ideias de Comte, talvez por reacionárias e insólitas, abriram um
amplo espaço de discussão e análise.
O certo é que, na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do XX,
apareceram os sociólogos que deixaram de lado as elucubrações de sobremesa e começaram
a pensar mais a sério, colocando uma quota de ordem e bom senso. Esses sociólogos mais
analíticos podem ser considerados, na realidade, os verdadeiros pais fundadores da
sociologia. Muito se escreveu sobre esses primeiros autores e, se bem que seu pensamento
seja um tema próprio da sociologia, é necessário assinalar ao menos por que caminhos
andaram, porque, do contrário, parecerá que saiu uma criminologia diferente de algum
chapéu de mágico, quando, na realidade, vinha sendo preparada a partir da sociologia,
mesmo sem que os criminólogos do canto da Faculdade de Direito lhe prestassem muita
atenção.
Esses pais fundadores foram os principais sociólogos franceses, como Emile Durkheim e
Gabriel Tarde, e alemães, como Max Weber e Georg Simmel. Sua importância não se deve
tanto àquilo que afirmaram, mas sim a como se projetaram para o futuro dessa ciência, pois
Durkheim e Max Weber foram os pioneiros do que se desenvolverá em seguida como
sociologia funcionalista e sistêmica, enquanto que Tarde e Simmel abriram o caminho do que
haveria de ser o interacionismo.
Traduzido para uma linguagem compreensível, isso significa simplesmente que a
sociologia europeia anterior a 1914 tendia a atender a dois diferentes aspectos do social: um
privilegiava a busca de um sistema dentro do qual tudo cumpriria alguma função, e outro
não pensava tão grande e se detinha nas relações mais micro, tratando de estabelecer suas
regras. Partindo do macro, Durkheim pensava que o delito cumpria a função social positiva
de provocar uma recusa e, com isso, reforçar a coesão da sociedade. Em outras palavras,
para Durkheim não era positivo que alguém esquartejasse a avó, mas sim a reação social de
coesão que esse crime provocava. Dessa forma, ele despatologizava o delito, o considerava
normal na sociedade.
Max Weber, na Alemanha, também pensava no macro e acentuava a importância das
ideias para avançar através dos sistemas de autoridade, que passavam do ancestral ao
carismático e deste ao legal-racional, que seria o das grandes burocracias que regiam nos
países centrais e que se estenderiam a todo o mundo. Nesse sentido, ele afirmava que o
protestantismo havia facilitado o desenvolvimento do capitalismo.
Enquanto isso, Gabriel Tarde se detinha mais especificamente na imitação como chave
das condutas, impressionado pelo poder que a imprensa adquiria, especialmente com o
escândalo do caso Dreyfus, que provocou um surto antissemita reacionário e monárquico que
dividiu a França talvez até o próprio governo de Vichy, na Segunda Guerra. Ele se dava
conta, ao contrário de Durkheim, de que havia uma enorme quantidade de delitos impunes,
e com isso adiantava a questão da seletividade.
Simmel, por sua vez, colocou sua ênfase na observação de que a essência do social é a
interação das pessoas e que, a cada dia, as capacidades individuais na sociedade industrial
tinham menos valor, o que também parecia contradizer algumas ideias de Durkheim.
É evidente que, na Alemanha, não se podia evitar Karl Marx, embora ele não tenha sido
sociólogo, mas as ideias de Weber respondem a um debate com Marx (alguns historiadores
afirmam que toda a sociologia alemã da época fez isso).
Cabe esclarecer que Marx se referiu a temas penais e criminológicos apenas muito
tangencialmente. Há um artigo publicado na Gazeta Renana, em 1842, no qual ele critica a
penalização do furto de lenha, e um parágrafo na Teoria da mais-valia, em que ironiza
acerca da necessidade dos delinquentes. Nesse último caso, ele parece um funcionalista, mas
coloca algo real: se os delinquentes não existissem, teriam de ser inventados. Com efeito,
ainda que Marx não o tenha dito, se deixarmos voar a imaginação e pensarmos em uma
fantasmagórica greve geral de delinquentes, veremos que o sistema todo seria derrubado: os
seguros, os bancos, as polícias, as alfândegas, os escritórios que tratam dos impostos etc. se
tornariam inúteis. Seria, sem dúvida, uma verdadeira catástrofe.
No pensamento de Marx e de Engels chama a atenção o total desprezo pelo
subproletariado (Lumpenproletariat), que é o nome marxista da má vida positivista. Eles o
consideravam uma classe perigosa, inútil, incapaz de qualquer potencial dinamizador e
sempre disposta a aliar-se à burguesia. Essas afirmações pesaram mais tarde no marxismo
institucionalizado, dando lugar aos conceitos de parasita social e análogos e permitindo
legitimar a repressão perigosista da delinquência nesses sistemas. Na realidade, a criminologia
marxista não se apoia nas escassíssimas referências de Marx ao tema, mas sim na aplicação
que os criminólogos marxistas fizeram das categorias de análise dele, como veremos mais
adiante.
Porém, todo esse riquíssimo debate sociológico das últimas décadas do século XIX se
esgotou na Europa com os pais fundadores que, por coincidência, morreram perto do final
da Primeira Guerra; por volta de 1920, a sociologia europeia tornou-se opaca.
Isso se explica porque a Grande Guerra arrasou a Europa. Em 1914, as potências
europeias haviam acreditado que esta seria uma guerra de exércitos, como a franco-
prussiana de 1870, e que duraria alguns meses. No entanto, foi a primeira guerra total; jogou-
se com o potencial econômico dos beligerantes durante quatro anos sangrentos, em que os
jovens morriam espetados na barriga por baionetadas, de tétano no barro ou envenenados
ou cegos por gases tóxicos. A população civil foi considerada inimiga e os centros industriais
e econômicos tornaram-se alvos bélicos.
Ao final da guerra, todos os contendores estavam esgotados e suas economias,
destruídas. A intervenção dos Estados Unidos inclinou a balança, mas os impérioscentrais
caíram quando os outros não estavam em situação nada boa. A Europa se suicidou com essa
guerra que, por certo, está bastante esquecida pelos historiadores. Para culminar,
imediatamente depois da guerra sobreveio uma terrível epidemia de gripe que matou uns
tantos milhões.
21. A criminologia sociológica dos Estados Unidos
O grande beneficiário da Primeira Guerra Mundial foram os Estados Unidos, que não a
sofreram em seu território. O presidente Wilson pensava em ratificar o tratado de paz de
Versalhes, mas os republicanos ganharam as eleições. Péssimos presidentes assumiram o
governo, não ratificaram o tratado de paz e a Europa ficou só e devastada, enviando uma
maciça corrente de emigrantes para a América do Norte. Os vencedores insistiram no
suicídio porque, para recuperar-se, tiveram a brilhante ideia de impor à Alemanha uma
reparação de guerra, cujo pagamento era impossível, humilharam-na e desestabilizaram a
República de Weimar, fomentando os extremismos e abrindo o caminho para um capo
austríaco, que assumiu a batuta da maior loucura criminosa do século.
Os pensadores europeus tentavam explicar o desastre sob o viés depressivo. Oswald
Spengler, com A decadência do Ocidente, e Vilfredo Pareto, com as elites, eram os dark da
época. Além do mais, os totalitarismos que iam se instalando desprezavam aqueles que
pretendiam explicar-lhes o que acontecia, porque os ditadores sempre sabem e quando
alguém lhes diz que estão enganados costumam matá-lo. A sociologia nunca teve uma boa
acolhida nas ditaduras: nossa segurança nacional quis incorporar a carreira à Faculdade de
Direito e reduzi-las a uma escola de técnica de mercado.
Enquanto a Europa não conseguia explicar seu eclipse e dominavam as respostas dos
iluminados como Hitler, Mussolini, Dollfuss, Oliveira Salazar, Pétain ou Franco, os Estados
Unidos estavam na crista da onda: choviam capitais, milhões de imigrantes europeus, suas
cidades cresciam de modo incontrolável, o melting pot era mais pot que melting, a
especulação financeira alcançava o nível de um verdadeiro orgasmo econômico. Tudo isso
criava problemas, mas era encarado com o otimismo próprio de quem ganhou na loteria.
Eram os loucos anos 20, com seu fundo de charleston e fonógrafo. Os estadunidenses que
se consideravam autênticos descendentes do Mayflower sentiam-se invadidos pelos
imigrantes. Haviam proibido a maconha para reafirmar seu puritanismo diante dos
mexicanos, mas agora lhes chegava a cultura da taverna pela mão dos católicos e luteranos.
Para reafirmar sua supremacia cultural puritana, empreenderam uma cruzada contra o
álcool, impulsionada por velhas loucas que irrompiam nas tavernas aos berros e que
conseguiram impor uma reforma constitucional que proibia o álcool.
Toda proibição que reduz a oferta e deixa em pé uma demanda rígida faz com que a
porcaria proibida adquira uma mais-valia que a converte em ouro e desencadeia a
concorrência por sua produção e distribuição no mercado ilícito. No caso do álcool, tanto
sua produção relativamente barata como sua distribuição se realizavam dentro do próprio
território.
A contenção da oferta era necessária para manter o efeito alquímico da proibição, mas
desencadeou uma violência competitiva com altíssimo grau de corrupção do aparato
punitivo e político, provocando uma simbiose letal de uma criminalidade astuta e violenta
nunca vista antes.
Esse fenômeno dos anos 1920 foi instrutivo porque com a cocaína apelou-se a uma
distribuição internacional do trabalho: a produção e o controle da oferta, com a violência
dela decorrente, ficam fora do território do principal demandante, provocando os massacres
em curso no México (40.000 mortos, decapitados e castrados, em quatro anos) e na América
Central, enquanto dentro do território do grande consumidor só se distribui, o que é, ao
mesmo tempo, a atividade menos violenta e mais rentável do tráfico. Alguns suspeitam que
ela proporcionou parte dos recursos necessários para as salvações bancárias na recente crise.
Mas voltemos aos roaring twenties e à jazz age. Era óbvio que esses problemas deviam
chamar a atenção dos sociólogos estadunidenses. Como é sabido, uma das grandes virtudes
dos Estados Unidos é seu considerável espaço de liberdade acadêmica, comprometido no
pós-guerra apenas pela campanha do senador McCarthy. No uso desse espaço, o
pensamento acadêmico se separou e denunciou a ideologia que dominava nos quadros da
administração.
Por efeito da autonomia acadêmica, uma coisa foi a administração e o governo (e a
Suprema Corte), que continuavam na linha do spencerianismo racista admirado por Hitler
em Mein Kampf, e outra a que ocorria nas universidades, onde se respiravam outros ares:
Franz Boas renovava a antropologia e assentava as bases do culturalismo, que deixava de
lado os pretensos naturalismos biologistas e criava a escola em que se destacariam Margaret
Mead, Ruth Benedict e Clyde Kluckhohn. Este último chegou a escrever que nossas crenças
mais profundas e nossas convicções mais caras podem ser, inclusive, a expressão de um
provincianismo inconsciente.
Foi nesse clima que a questão criminal começou a ser estudada sociologicamente, a
trabalhar com investigação de campo, a perguntar o que condiciona o delito na sociedade.
Desse modo, com a passagem do primado da sociologia da Europa para os Estados Unidos
teve início uma nova etapa da criminologia.
Pode-se dizer que, daí em diante, começamos a falar a sério, embora no princípio não
completamente, porque a criminologia arrastará durante décadas uma falha fundamental:
continuará se perguntando pelo delito e deixará de lado o funcionamento do poder punitivo. O
aparato penal do Estado não entrava no campo de investigação dessa criminologia. Embora
não o legitimasse ativamente, o fazia por omissão: se não pergunto por algo é porque creio
que funciona bem.
Se bem que seja inevitável que quem pergunte sobre a etiologia social do delito em algum
momento se depare com o próprio aparato punitivo como reprodutor de boa parte do
fenômeno, esse era um caminho que ainda devia ser trilhado. Foi esta a função que a
criminologia etiológico-social cumpriu.
Além de sepultar a carga de racismo manifesto de seu antecessor, encarou o problema
pela via adequada e foi o passo necessário para chegar ao que hoje parece quase evidente:
não se pode explicar o delito sem analisar o aparato de poder que decide o que define e o que
reprime como delito.
Devido a essa omissão, as colocações da primeira etapa da criminologia sociológica, que
se estendem até as décadas de sessenta e setenta do século passado, são um tanto ingênuas
e até simplistas, mas criaram todo um arsenal conceitual sem o qual não teria sido possível a
etapa posterior.
Esses sociólogos estadunidenses continuavam perguntando, desde 1920 até final dos
anos 1970, pela etiologia do crime, ou, dito mais simplesmente, pelas causas do delito.
Esclareço que não se deve entender causas em sentido literal, porque a sociologia, a
despeito de Quetelet, não é a física, mas a expressão vale só por gráfica.
Nessa busca por causas, fatores, correlações ou como se queira chamar, eles se dividiram,
concentrando sua atenção em cinco diferentes fontes: 1) na desorganização social; 2) na
associação diferencial; 3) no controle; 4) na tensão; e 5) no conflito. Desse modo, abriram-se
cinco grandes correntes nessa etapa da criminologia sociológica.
Tudo isso parece muito complicado, mas não o é em absoluto. Na verdade, esta
criminologia sociológica elaborou conceitos que circulam em qualquer mesa de bar onde
alguém pergunte pelas causas do delito e se manifeste com certo senso comum, a partir da
ingenuidade de desconhecer o papel do próprio aparato repressivo.
Confesso que devo conter o riso quando escuto, em conversas de depois do almoço,
alguém lançar essas teorias para aqueles que nem suspeitam que houve quem as
embrulhassem para presente, com todo o arsenal do vocabulário sociológico. Eu era
pequeno quando escutava os gorilas afirmarem que a invasão de cabecitas negras[7] à cidadehavia desorganizado tudo. Embora certamente com um senso político mais democrático, esta
é a essência da teoria ecológica da Escola de Chicago dos anos 1920 e 1930.
Quem não ouviu alguém afirmar que o delito juvenil obedece à falha da família, da
escola etc., a conhecida falta de educação? Estas são as teorias do controle. Outros há que na
sobremesa afirmem que ela se cria na favela,onde há narcotraficantes e delinquentes. É isso
que, no fundo, se respira – um pouco mais sofisticadamente – na teoria da associação
diferencial.
Não falta aquele que denuncia que a TV mostra riquezas fáceis, êxitos súbitos, ídolos
surgidos da noite para o dia e sem maior esforço, adorados por mulheres bonitas, oferece
automóveis luzidios, quando estes objetos não estão ao alcance da grande maioria das
pessoas. É esta a essência das teorias da tensão. Por último, haverá alguém que observe que
reina um individualismo em que cada um atira para seu lado, que todos são grupos de interesses,
que se chocam e que matam entre eles. Não é muito diferente a base sobre a qual foram
elaboradas as teorias do conflito.
Todavia, todas essas opiniões do senso comum, que a criminologia sociológica sofisticou
entre 1920 e 1970, não são incompatíveis. Os convivas da mesa de depois do almoço ou do
bar discutem, mas, na realidade, se sabem escutar um ao outro, não terminarão em uma
discussão aberta, e até não faltará quem pretenda compatibilizar as opiniões com um certo
assentimento geral.
O que é que permite compatibilizar essas opiniões? Se pensarmos um pouco, veremos
que é o fundo comum de confiança em que a sociedade é capaz de melhorar e superar esses
fatores ou causas. É a opinião de que temos que ir para frente, que Fulano, Beltrano ou Cicrano
são uns corruptos que têm de ser afastados, mas que, no final, podemos ter uma sociedade
melhor.
Se os taxistas de Buenos Aires são, em sua maioria, razoáveis – pelo que lhes peço
perdão pelo que se segue, pois não é nem de longe a minha intenção fabricar um
estereótipo –, o certo é que, com certa frequência, nos vemos obrigados a suportar que
alguns de seus companheiros que escutam rádio nos atormentem com frases do tipo “a
única saída é a mão pesada, que se necessita de uma mão forte, que há que se colocar ordem
dando porrada, metendo bala, que na ditadura não aconteciam essas coisas, que não se pode
encher o país de bolivianos” e outros conceitos politológicos semelhantes.
Bem. Suponhamos que o taxista, com esse discurso, se junte à conversa de bar e coloque
sua visão para o grupo. Os que vinham discutindo até então, se bem com diferente grau de
convicção, lhe responderão: Você está louco! Depois acabam matando todos nós, não
aconteciam porque você não sabia, não, eu não quero voltar à ditadura não, eles ficam com as
mãos livres e atiram em qualquer um. Não, isso tampouco é vida. E seguindo adiante na
conversa, começarão a discutir a corrupção policial.
Assombroso! Os companheiros de bar ou da mesa de depois do almoço terão percorrido
o caminho da criminologia sociológica do século XX! A intuição os terá levado até aquilo que
a sociologia demorou mais de quarenta anos para descobrir!
Os da primeira discussão se movimentaram dentro do esquema de que a sociedade pode
avançar e, removendo obstáculos, pode superar as causas do delito. No fundo, todos
admitiriam que se pode melhorar aqueles que sofrem esses fatores e trazê-los junto com o
resto. Talvez sem sabê-lo, estão postulando um conceito pouco claro, ou não técnico, do
modelo de Estado social.
O taxista fascista (insisto, não me queiram mal os taxistas, mas reconheçam que têm
alguns companheiros assim; não são os únicos, todos nós os temos), chega e rompe o
esquema. Por que? O que ele propõe? Também intuitiva e confusamente, ele está propondo
um modelo de Estado diferente, no qual uma autoridade vertical não discuta e sim faça que
cada um permaneça em seu lugar e não incomode, mediante um exercício ilimitado do
poder repressivo. Isso não é mais nem menos que o modelo do Estado policial.
O que aqueles que o rebatem terminam colocando em discussão? A crítica ao aparato do
poder repressivo. Fizeram todo o trajeto e, incitados pelo taxista, chegaram por intuição à
criminologia dos anos 1970.
A isso que eu queria chegar. Não duvidem, embora não tenhamos nos dado conta, a
discussão é política. Os sociólogos desse período identificavam-se, preparavam ou andavam
ao redor do populismo estadunidense, do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, de um
modelo de welfare State, de estado social. Estavam confrontados com o modelo de Estado
policial, com os afro-americanos iguais mas separados (como havia dito a Suprema Corte),
supremacia branca, Ku Klux Klan, patriarcalismo, cadeira elétrica, e todo o pró-nazismo
desses anos, Henry Ford, Charles Lindbergh etc.
Passou o tempo e a criminologia seguiu o curso que iremos vendo, mas convém advertir
desde agora que o debate de fundo – com epicentro nos Estados Unidos e mais evidente na
atualidade – continua sendo entre dois modelos de Estado: o social, ou inclusivo, e o policial,
ou excludente. This is the question.
Voltemos, porém, a esse período para ver mais de perto o que cada uma das cinco
correntes mencionadas pôs a descoberto e extrair os elementos que nos permitem
compreender o curso posterior.
 
Ilustração 13
 
21. Desorganização, associação diferencial e controle
Como os maiores conflitos produzidos pela súbita explosão econômica aconteciam nas
cidades e nelas se tinha uma sensação geral de desorganização, era natural que os
pesquisadores sociais racionais centrassem sua atenção na sociologia urbana. Foi isso o que
fez o Instituto de Sociologia da Universidade de Chicago, nas primeiras décadas do século
passado. A cidade era ideal, pois Chicago havia passado de quatro mil para três milhões de
habitantes em um século.
Nós, que vivemos em cidades grandes, já escutamos alguma vez essa declaração de que
quero ir morar tranquilo no campo. Algo parecido acontece com a tônica que os de Chicago
tomaram de Charles Cooley, que era professor de Michigan.
Para atribuir os problemas, entre eles a criminalidade, a algo que se desorganiza, deve-se
pressupor que antes algo estava organizado. Pois bem, para Cooley, o organizado era a vida
provinciana. Assim, diz-se que a marca registrada da escola era a nostalgia da sociedade de
pequeno contorno.
Todavia, Cooley trouxe alguns conceitos que até hoje vigoram, como a distinção entre
grupos primários e secundários. Os grupos primários eram, para este autor, os de infância e
formação, da família, dos velhos do povoado etc., ao passo que os secundários eram as
instituições. A diferença entre eles centra-se no tratamento, que nos grupos primários é
personalizado e, nos secundários, despersonalizado.
Essa diferença fundamental é deixada de lado quando se pretende que um grupo
secundário substitui um primário (que o internato ou o asilo substitua a família ou que o juiz
de menores seja o pai). O pai e a mãe, se não estão loucos, devem dar a cada filho um
tratamento conforme suas características, necessidades, virtudes e carências, enquanto que,
no plano institucional, o princípio elementar da igualdade impede, em boa medida, essas
distinções.
Outro conceito trazido por Cooley foi o de papéis mestres. Na sociedade há certos papéis
que condicionam todos os demais, como o do médico, o do sacerdote etc. O pedreiro ou o
carpinteiro são bastante livres para farrear ou travestir-se se isso lhes aprouver, mas a
mesma coisa não acontece com o sacerdote ou o dirigente. Algo parecido acontece com os
papéis associados ao poder repressivo, como o policial, o juiz e também o próprio
criminalizado. A estigmatização que se segue à criminalização obriga este último, em boa
medida, a assumir seu papel desviado. Trata-se de algo parecido a um grande teatro em que
alguns personagens têm seu papel muito marcado, enquanto outros podem afastar-se mais
criativamente do roteiro.
A figura mais destacada da primeira Escola de Chicago foi William I. Thomas, que
revolucionoua metodologia sociológica numa investigação sobre O camponês polonês na
Europa e na América, levada a cabo juntamente com o polonês Znaniecki, porque incorporou
cartas, autobiografias e outros materiais até então considerados cientificamente heterodoxos.
Thomas dirigiu a escola até 1920, quando foi expulso da universidade porque o encontraram
em um hotel com uma mulher casada. Pelo visto, as autoridades acadêmicas consideravam
que os sociólogos estavam proibidos de manter relações sexuais extra-código. Para nós, a
contribuição mais importante desse sociólogo é o chamado teorema de Thomas, segundo o
qual se os homens definem as situações como reais, suas consequências são reais. Isso tem uma
imensa validade em todas as ordens sociais: é conhecida a experiência de Orson Welles em
Nova York, em 1938, ao anunciar a presença de marcianos pelo rádio. O mesmo acontece
com a criminalidade: pouco importa sua frequência ou gravidade, mas se se afirma que são
altas se reclamará mais repressão, os políticos concordarão com isso e a realidade repressiva
será como se a gravidade fosse real.
Depois da aventura sexual de Thomas, seus colegas se aborreceram com a universidade
e o elegeram presidente da Associação Americana de Sociologia; Robert Park e Ernest
Burgess continuaram na Escola de Chicago. Park – que havia estudado com Simmel, na
Alemanha – foi quem aplicou à cidade os conceitos tomados da ecologia (simbiose, invasão,
domínio, sucessão) para explicar os conflitos e a coexistência de diferentes grupos humanos
em um território limitado, razão pela qual também se conhece esse grupo como escola
ecológica de Chicago.
Burgess dividiu a cidade em cinco zonas concêntricas: I (a central, com atividade
comercial intensa), II (o círculo seguinte tende a ser invadido pelo anterior e por isso as
moradias são precárias e ocupadas pelos recém-chegados), III (a zona ocupada pelos
operários que fogem da anterior), IV (a residencial) e V (a dos subúrbios ou comutação).
Ele assinalava que a zona de desorganização permanente era a II, devido à contínua
invasão dos imigrantes que logo passavam à III. Não encontrava diferenças étnicas, pois a
transferência para a III não trazia consigo a criminalidade.
No geral, a Escola de Chicago representou um notável progresso, em particular por seu
antirracismo e por inaugurar uma sociologia criminal urbana muito mais razoável. É claro
que teve limitações importantes, uma vez que a criminalidade que observava era só a dos
pobres e a zonificação de Burgess é própria de uma sociedade muito dinâmica, em
crescimento permanente, mas não poderia explicar os fenômenos de zonas precárias das
grandes concentrações urbanas da atualidade.
Por outro lado, a maior criminalização dos jovens de sua zona II não leva em conta que
esta se achava sob maior controle policial (os recém-chegados são sempre suspeitos) e a
precariedade habitacional expõe mais a criminalização (os jovens de classe média não têm
necessidade de fumar maconha fora de casa).
 
Ilustração 14
 
Erwin Sutherland, professor da Universidade de Indiana, opôs-se à tese chicaguiana da
desorganização, afirmando que não era isso e sim que se tratava de uma organização
diferente. A ideia central de Sutherland era que o delito é uma conduta aprendida e que se
reproduz, como qualquer ensinamento, por efeito de contatos com definições favoráveis e da
aprendizagem dos métodos.
Embora Sutherland não se refira aos crimes de Estado, o certo é que, quando nos
perguntamos como é possível que as pessoas treinadas precisamente para evitá-las cometam
atrocidades, nos damos conta de que isso responde a um processo de aprendizagem em uma
agência que, por autonomizar-se do controle político, encerra uma grande quantidade de
definições favoráveis ao delito. É claro que isso aconteceu com a introdução dos discursos
importados do colonialismo francês, a partir dos anos 50 do século passado, quando nossos
círculos oficiais começaram a receber definições favoráveis a condutas criminosas.
Sutherland introduziu essa tese na edição de sua Criminology, de 1939, e a modificou na
de 1947, com seu princípio da associação diferencial: uma pessoa se torna delinquente por
efeito de um excesso de definições favoráveis à violação da lei, que predominam sobre as
definições desfavoráveis a essa violação.
Com isso, ele pretendia explicar a criminalidade de forma mais ampla do que a Escola de
Chicago, porque os de Chicago explicavam apenas os delitos dos pobres, ao passo que
Sutherland deixou claro que a criminalidade perpassa toda a escala social e que há tanto
delitos de pobres como de ricos e poderosos. Assim, a única cara visível dos prisioneiros
deixa de ser a dos delinquentes e, como era de se esperar, pouco depois, em 1949,
Sutherland publicou um estudo sobre o crime do colarinho branco (White Collar Crime) que
se tornou um clássico da criminologia e cuja dinâmica não era antes compreendida.
Se bem que Sutherland não chegou a incorporar o poder punitivo à criminologia, deu
um passo fundamental e deixou a questão no limite, pois o delito do colarinho branco
(grandes delitos contra o patrimônio, quebras fraudulentas etc.) deixava a descoberto a
seletividade da punição. Era demasiado claro que os poderosos raramente iam para a cadeia.
Como colocação geral, pode-se observar que o ser humano ficava demasiado preso ao
meio: a leitura de Sutherland – e ainda que o matizasse bastante – não deixava de provocar
a impressão de que o bairro causava a delinquência dos pobres e o clube a dos ricos.
A associação diferencial levou, de imediato, outros sociólogos a pensar que não eram o
bairro e o club, mas sim que havia outros agrupamentos que treinavam e, estudando as
gangues ou os bandos, Cloward e Ohlin afirmaram, nos anos seguintes, que se deviam à
formação de subculturas. Segundo eles, os que têm menos oportunidades sociais se agrupam
e se submetem a uma aprendizagem diferencial. Dito mais claramente, as condições sociais
desfavoráveis levariam à marginalização e esta favoreceria os agrupamentos de semelhantes
com definições favoráveis ao delito, ou seja, uma variável cultural ou subcultura.
Esta teoria subcultural pressupõe a existência de uma cultura dominante, o que não é
simples em sociedades plurais e menos ainda quando as condições sociais desfavoráveis são
as da maioria, como em muitíssimos países periféricos.
Em 1955, Albert K. Cohen expôs uma nova teoria da subcultura criminal, afirmando que
as crianças e jovens dos estratos desfavorecidos, como não podiam ajustar sua conduta à
cultura de classe média que lhes era ensinada nas escolas, reagiam, rechaçando-a e
invertendo os valores da classe média. Cabe observar que esta tese negava toda criatividade
valorativa às classes mais desfavorecidas, pois se limitava a inverter os valores da classe
média.
Essas teorias subculturais receberam uma resposta crítica por parte de dois sociólogos –
Gresham Sykes e David Matza – que, em 1957, publicaram um artigo na American
1.
2.
3.
4.
5.
Sociological Review, que marca um momento muito importante na criminologia
contemporânea: Técnicas de neutralização: uma teoria da delinquência.
Se bem que Sykes e Matza, nos anos 1950, tinham em vista os jovens rebeldes sem causa
(com filme póstumo de James Dean e a direção de Nicholas Ray e com música de fundo e
movimento de quadris de Elvis Presley), o certo é que sua tese voltou a primeiro plano
quando começamos a nos fixar nos crimes de massa dos Estados, porque a teoria das
técnicas de neutralização parece ter sido feita pensando nos genocidas. Voltaremos a esse
ponto mais adiante, mas vocês podem meditar sobre isso desde agora. Pelo momento,
vejamos em que ele consiste.
A tese central de Sykes e Matza é que os jovens delinquentes não negam nem invertem
os valores dominantes, e sim aprendem a neutralizá-los. Seria a consequência de receber um
excesso de definições que ampliam, de modo inadmissível, as causas de justificação e de se
livrar da culpa. Não se trata de que eles racionalizam atos perversos, porque a
racionalizaçãoé posterior ao fato, ocorre quando digo uma mentira e depois tento me
justificar. Não, as técnicas de neutralização são anteriores ao ato, são algo que se aprende
antes e permitem realizar o ato na convicção de que se está justificado ou não se é culpado.
Sykes e Matza revelam os seguintes cinco tipos de técnicas de neutralização:
 
Negação da própria responsabilidade (São as circunstâncias que me fazem assim, eu não o
escolhi, minha mãe é castradora, meu velho é rígido,a sociedade me faz assim).
Negação do dano (Não me compadeço de ninguém, têm muita mais grana, não é tão grave,
havia ofendido a minha velha).
Negação da vítima (Foi ele que me agrediu, eu só me defendi, são uns negros, uns maricas,
uns favelados etc.).
Condenação dos condenadores (A polícia é corrupta, na escola me tratam mal, meu velho é
intolerante, os juízes são uns hipócritas).
Apelo a lealdades superiores (Não posso deixar os companheiro sozinhos, não posso me
afastar deles agora, não posso faltar aos amigos, tenho que atender aos cumpinchas).
 
Vamos pensando se essas técnicas não são mais próprias dos genocidas que dos rebeldes
sem causa. Porém, avançando nos anos 50 e 60 do século passado, é natural que, se se
pensa que o delito é uma conduta aprendida, cabe perguntar por que é mais facilmente
aprendida por uns do que por outros. Isso é o que tentaram responder as chamadas teorias
do controle, centradas na família e na escola.
Não há dúvida de que essas instituições e as primeiras vivências têm muitíssima
importância no curso posterior, mas isso pertence mais ao campo da psicologia do que ao
da sociologia, que antes teria de se ocupar das condições sociais desfavoráveis a seu bom
funcionamento. Por isso, não nos ocuparemos em detalhe dessas teorias, que são muitas e,
embora isto não seja verdade a respeito de todas, o certo é que costumam deixar um sabor
conservador e nem sempre liberal.
Ao prescindir de outros fatores sociais, elas provocam uma sensação estranha, pois
parecem sugerir pistas técnicas para provocar conformismo, consenso, homogeneização, o
que nem sempre é saudável, porque, ao não se ocupar da maior parte dos problemas
sociais, dariam por certo que a sociedade funciona muito bem e que a única coisa que há
que se fazer é domesticar prematuramente as pessoas.
Se o conformismo fosse o ideal e houvesse um modo infalível de obtê-lo, a humanidade
ficaria órfã de inovadores em todas as áreas e o delito, com certeza, não desapareceria, pois
o conformismo com o poder que dirige a punição deixaria os crimes do poder impunes.
22. Sistêmicos e conflitivistas
Das cinco correntes em que se dividiu a criminologia sociológica estadunidense antes de
deter-se no próprio poder punitivo, conforme os condicionamentos em que cada uma se
detinha, sobrevoamos as três primeiras (desorganização, organização diferente e controle) e
nos restam as duas últimas: tensão social e conflito.
Estas não apenas disputam entre elas a etiologia social do delito, como também o
próprio conceito da sociedade. Enquanto as teses sistêmicas concebem a delinquência como
resultado de tensões provocadas dentro de um sistema, as conflitivistas a explicam como
resultado do permanente conflito entre grupos sociais. Aqui se localiza o enfrentamento
entre as duas diferentes ideias de sociedade: para uns, a sociedade é um sistema que abarca
todas suas partes, as relações entre estas e as relações do conjunto com o meio externo,
enquanto que para outros é um conjunto de grupos em conflito que estabelecem, em
determinadas ocasiões, as regras de jogo para resolvê-los, que lhe atribuem uma aparente
estabilidade, mas nunca configuram um sistema.
Como não há forma de verificar que a sociedade seja um sistema ou que se esgote nas
regras comuns para decidir os conflitos entre grupos, acreditamos que tanto a concepção
sistêmica quanto a conflitivista são algo assim como armários de cozinha nos quais se
colocam os copos, os pratos, as taças e os talheres (que, em sociologia, seriam os fatos
empiricamente observados) e como os utensílios da cozinha não podem ficar espalhados
pelo quarto de dormir e devem ser guardados em algum lugar, o sociólogo deve escolher o
tipo de armário que prefere.
A escolha não é aleatória, pois os sistêmicos têm problemas para explicar porque a
sociedade muda, enquanto os conflitivistas os têm para explicar porque há componentes que
são mais estáveis, visto que nem todos os utensílios cabem com comodidade em nenhum dos
armários.
Dentro dos sistêmicos há os mais ou menos radicais e, por certo, os mais extremistas se
aproximam quase até se identificar com o velho organicismo. Não obstante, não se pode
deduzir daí que todos os sistêmicos sejam reacionários e os conflitivistas progressistas, pois
os houve para todos os gostos.
O sociólogo sistêmico mais interessante para a criminologia foi Robert K. Merton, que fez
época na sociologia estadunidense a partir de sua obra mais difundida (Social theory and
social structure), publicada em 1949.
Merton explica o delito como resultado de uma desproporção entre as metas sociais e os
meios para alcançá-las. Se a meta social é a riqueza, os meios para alcançá-la são poucos e,
por conseguinte, gera-se uma tensão porque nem todos podem chegar a ela. É como um
1.
2.
3.
4.
5.
concurso: à medida que as provas vão se sucedendo, mais concorrentes vão sendo excluídos,
até que apenas uns poucos chegam ao final. Ele denomina essa desproporção de anomia
(palavra tomada de Durkheim, embora para este significasse outra coisa).
Evidentemente, nem todos os que ficam fora de concurso delinquem, e por isso Merton
afirma a existência de cinco distintos tipos de adaptação individual, segundo a aceitação ou o
recusa das metas ou dos meios institucionais:
 
As metas e os meios são aceitos (conformismo).
As metas são aceitas e os meios rechaçados (inovação).
As metas são rechaçadas e os meios são aceitos (ritualismo).
As metas e os meios são rechaçados (retraimento).
As metas e os meios são rechaçados, mas são propostos novas metas e novos meios
(rebelião).
 
De acordo com essa esquema, o conformista é o socialmente adaptado, o ritualista
identifica-se com o burocrata, o retraído é o vadio, o mendigo, o alcoólatra etc., e o rebelde é
o renovador social, que quer mudar a estrutura. O inovador é a categoria mertoniana que
abrange vários personagens, como o inventor, mas ao qual também correspondem os
chamados delinquentes, ou seja, os que escolhem caminhos que não são os institucionais
para chegar à meta. Segundo Merton, isso explica porque o delito não é produto da simples
limitação de meios para alcançar riqueza nem da exaltação isolada das metas pecuniárias,
mas é necessária a combinação de ambas para que se produza o desvio.
A tese de Merton merece críticas, como a de não conseguir explicar o delito do colarinho
branco, de não levar em conta, aparentemente, a delinquência grupal e, sobretudo, pela
dificuldade em definir as metas comuns em sociedades plurais. De qualquer maneira, porém,
não se pode ignorar que trouxe uma série de conceitos que até hoje iluminam a criminologia.
Assim, partindo do teorema de Thomas, ele anunciou a ideia da profecía que se
autorrealiza (espalha-se o boato de que o banco está quebrando e aí todos os correntistas
retiram suas poupanças, e o banco termina quabrando). Outra contribuição é a ideia de
alquimia moral, que faz que o que é positivo e virtuoso para o in-group resulte negativo e
vicioso no out-group (é bom que os jovens estudem para progredir, mas é mau que os presos
estudem, porque o fazem para delinquir melhor).
Uma contribuição interessantíssima de Merton, em especial quando incorporada ao
sistema penal, é a ideia de incapacidade adestrada e a de psicose profissional, sintetizadas no
adestramento burocrático – e profissional em geral – que proporciona um modo de ver que é
também um modo de não ver. Em outras palavras, enfocar um objeto é algo que pressupõe,
ao mesmo tempo, o desenfoque de outro objeto: o gorila invisível dos modernos psicólogos
de Harvard.
Issoexplicará, em seguida, algumas características kafkianas nos segmentos do sistema
penal. Mostra como a adesão às regras termina convertendo um meio em um fim e
deslocando as metas, com o quê o resultado deixa de importar, sempre que as formas sejam
observadas (se não há certificado de disfunção, a presença do cadáver não tem importância).
Há outros aportes não menos interessantes por sua utilidade na análise do sistema
penal, como o tratamento despersonalizado da clientela do burocrata, que alcança limites
insólitos no sistema penal, ou a ideia de grupo de referência, que é adotado como modelo,
como quando a polícia adota o modelo militar e acaba que alguém assume o papel de
Rambo, ou quando a classe média adota como modelo a classe alta (é a ridiculização de
Arturo Jauretche, em El Medio Pelo en la Sociedad Argentina)[8].
Se bem que Merton tenha sido um sociólogo sistêmico, o foi em uma medida muito
prudente. O modelo de armário que escolheu para colocar os utensílios da cozinha era um
tanto modular, isto é, à medida que tinha novas panelas, o ampliava para poder guardá-las.
Porém, nem todos os sistêmicos foram iguais, porque não faltam aqueles que, quando as
panelas não cabem, as tiram ou as amassam para enfiá-las à força.
Com efeito, há toda uma sociologia que defende uma ditadura do sistema. Ela parte da
descrição de um sistema (para esses sociólogos, essa é a sociedade), e, a partir daí, deduz
tudo o que é necessário para mantê-lo em equilíbrio. Em geral, essa sociologia não se ocupa
muito da criminologia de forma expressa, podemos mesmo dizer que quase nada, porque se
limita a dar por certo que o poder repressivo faz parte do sistema, sendo necessário para
manter seu equilíbrio. Seus maiores expoentes foram Talcott Parsons, nos Estados Unidos, e
seu discípulo alemão Niklas Luhmann. Não nos ocuparemos aqui dos detalhes dessas
correntes sociológicas, porque são muito complexos e não têm consequências criminológicas
expressas, mas têm consequências tácitas que são importantes.
Essas posições sistêmicas extremas reconduzem ao organicismo, porque definitivamente
a única coisa importante para elas é o sistema e seu equilíbrio. Porém, diferentemente do
velho organicismo criminológico positivista racista, já não lhes preocupa a etiologia do crime,
mas sim unicamente o que o sistema deve fazer para não se desequilibrar ou para se
reequilibrar.
Desse modo, poder-se-ia concluir que, se a criminologia midiática cria uma realidade que
gera tal pânico na sociedade a ponto desta reclamar uma repressão enorme, esta terá de ser
feita, porque é necessária para normalizar a situação e reequilibrar o sistema. Não é por
acaso que as consequências práticas das versões mais radicais dessa teoria coincidem com o
postulado por James Q. Wilson, politólogo estadunidense de extrema-direita, que afirma ser
inútil se perguntar pelas causas do delito, pois a única coisa eficaz que o Estado pode fazer
não é neutralizar essas causas, mas sim reprimir o delito. É claro que para aqueles que
pretendem reduzir o Estado a quase nada para deixar tudo nas mãos do mercado (ao estilo
Reagan-Bush), o único bem que esse cadáver insepulto do Estado deve fazer é castigar os
pobres.
A teorização sistêmica acaba em uma criminologia que não responde ao paradigma
etiológico legitimador nem ao da reação social, e sim ao da pura repressão como necessidade
do sistema, na medida em que seja necessário para produzir consenso. Para Wilson, isso seria
equivalente a satisfazer às exigências da publicidade vingativa da demagogia midiática: se a
opinião pública pede para prender todos os negros, devemos investir 200 bilhões de dólares
anuais para fazer isso.
Cabe esclarecer que podemos criticar Parsons e Luhmann, mas eles são sociólogos,
enquanto James Q. Wilson, que não é um sistêmico, não passa de um reacionário com
espaço midiático, e não creio que ele tenha estudado ninguém muito a fundo.
Os conflitivistas são os que partem da ideia oposta de sociedade, concebendo-a como
resultado dos conflitos entre diferentes grupos que em algumas ocasiões encontram algum
equilíbrio precário, mas que nunca constitui um sistema. Seus antecedentes remontam a
Marx e a Simmel, mas a primeira expressão moderna do conflitivismo criminológico foi a do
holandês Willen Bonger, que, no começo do século passado, rechaçava todas as teses que
subestimavam os fatores sociais do delito, enfrentando o positivismo e em particular
Garofalo.
Ele afirmava, de uma perspectiva marxista, que o sistema capitalista gerava miséria por
inocular egoísmo em todas as relações e por isso era o único criador do delito, tanto nas
classes despossuídas quanto na burguesia. Negava, desse modo, o pretenso caráter socialista
das teses de Ferri. Rechaçou inteiramente o biologismo criminológico e combateu
frontalmente a esterilização e o racismo, o que constitui um mérito que hoje ninguém lhe
pode negar.
Afirmava que o delito resulta das condições de sobrevivência dos trabalhadores
obrigados a competir entre si, ressaltando algo sobre o qual se costuma passar por cima,
inclusive por criminólogos progressistas: a pobreza não gera mecanicamente o delito de rua,
mas sim, quando se combina com o individualismo, o racismo, as necessidades artificiais e o
machismo.
Se bem que Bonger tenha sido considerado durante muitos anos o expoente da
criminologia marxista, o certo é que continuava fazendo criminologia etiológica e não
chegava a criticar o próprio poder criminalizador, razão pela qual os criminólogos marxistas
mais modernos o consideram um marxista formal. Mais adiante, nos anos 1930, foi Thorsten
Sellin quem voltou ao posicionamento conflitivista, mas do ponto de vista do pluralismo
cultural que, como vimos, havia sido uma determinante da proibição acoólica.
Nos anos 1950, George B. Vold defendeu a teoria do conflito grupal, concebendo a
sociedade como configurada por grupos de interesses que competem entre si; na medida em
que essa competição se acentua, reforça-se a solidariedade do grupo, mas essas lutas
também determinam a dinâmica social. O processo de legislar, violar a lei e impô-la
policialmente responderia, no fundo, à dinâmica dos conflitos entre grupos, na qual perdem
aqueles que não têm poder suficiente para impor seus interesses.
Vold afirmava, dessa perspectiva, que boa parte do delito é produto dos conflitos
intergrupais. Nesses mesmos anos, essas teses receberam, da sociologia geral, o impacto da
obra de Ralf Dahrendorf sobre o conflito de classes na sociedade industrial.
As teorias do conflito não podiam deixar de ir se aproximando da crítica ao poder
punitivo, de modo que muitas delas fazem a ponte entre esta criminologia etiológica e a que
veremos na sequência. Por outro lado, quando elas se mantêm dentro da criminologia
etiológica, à medida que encontram a etiologia em planos de análise social mais macro, é
mais difícil deduzir medidas concretas de política criminológica, pois estas dependeriam de
reformas estruturais muito profundas. Ainda que pareça mentira, a regra parece ser que,
quanto mais radical é uma crítica ao poder social, menor é a possibilidade de modificá-lo de
imediato e, por conseguinte, de incomodá-lo. Daí que os que o exercem as consideram mais
inofensivas.
Veremos, a seguir, o momento em que se produz aquilo que se tornava inevitável como
resultado desse trajeto: a incorporação do aparato de poder punitivo à análise criminológica.
 
Ilustração 15
 
23. A prateleira caiu!
Desde os anos 1930, a sociologia estadunidense vinha demolindo a visão convencional
da sociedade. Os surveys, como Middletown (Robert S. Lynd e Helen Lynd) e Yankee City
(William Lloyd Warner) mostraram a estratificação social. Samuel Stouffer e Paul Lazarsfeld
desnudaram a manipulação da opinião e o efeito da radiotelefonia, que de brincadeira de
criança passou a decidir a eleição de Roosevelt. O Prêmio Nobel sueco Gunnar Myrdal, com
seu American dilemma, colocava em relevo os efeitos dos preconceitos dos brancos sobre o
comportamento dos negros. As informações de AlfredC. Kinsey sobre as práticas sexuais
despertaram uma gritaria histérica sem precedentes.
Algumas contribuições da microssociologia seguiam pelo mesmo caminho. William Foote
White na sociedade da esquina, metido no meio de um grupo de imigrantes italianos (método
do observador participante) colocou em evidência, em 1947, que o líder não era o mais hábil,
mas sim era o mais hábil porque era o líder, o que é importante para compreender a
resistência a qualquer mudança nas agências do sistema penal (e da política em geral: não
me mude as regras do jogo, porque com estas estou ganhando e com as novas posso perder).
Na teoria sociológica geral, quem dava a tônica era Charles Wright Mills, um sociólogo
difícil de classificar, mas um bom demolidor de preconceitos. Há três obras deste autor que
são únicas. Em White collar (1951), ele descreve e ironiza a formação da classe média,
próxima à classe operária, mas diferenciando-se desta em status e prestígio. Observa que
não é um grupo homogêneo, mas sim uma pirâmide superposta à outra pirâmide. Suas
ironias são válidas para boa parte das nossas classes médias latino-americanas. Outro livro
importante é, sem dúvida, The power elite, no qual ele procura estabelecer quem tem o poder
na sociedade estadunidense e observa, visionariamente, que uma verticalização e uma
burocratização iam correspondendo a uma sociedade de massas e não de públicos. Ele fazia
notar que as associações voluntárias desapareciam e os meios de comunicação de massa
manipulavam a opinião pública. Em um terceiro – A imaginação sociológica (1959) –,
zombava da sociologia sistêmica de Parsons, chamando-a de a grande teoria, e a acusava de
escamotear o problema do poder com uma linguagem obscura (dizia que ainda era
necessário traduzi-lo para o inglês).
Como vemos, é inquestionável que as coisas não surgem do nada, e que as palavras da
academia têm uma continuidade e nunca são obra de alguém que as inventou, enquanto se
enfeitava ou se maquiava.
Nesse clima, criado pela sociologia geral ao longo de mais de vinte anos, a criminologia
sociológica não podia continuar se perguntando pelas causas do delito sem reparar no poder
punitivo.
Até esse momento, ninguém havia analisado o exercício do poder repressivo. O delito
podia ser atribuído a muitos fatores, inclusive ao próprio poder, mas ninguém se ocupava do
sistema penal em particular. Não obstante, não se podia continuar avançando sem o levar
em consideração e, ao fazê-lo, podemos dizer que a prateleira caiu.
A queda da prateleira é algo que, em termos científicos, foi batizado há alguns anos por
Kuhn, de um modo mais elegante: mudança de paradigma. Significa que todas as taças
caíram e se misturaram com outras e, por conseguinte, devem ser recolocadas em uma nova
ordem e com umas tantas taças novas, em um novo armário. Isso é o que acontece na
ciência, quando se rompe o marco dentro do qual todos pensavam e se passa a um outro
diferente, como aconteceu com Copérnico, Einstein e outros.
Foi assim que a discussão acerca da polícia, dos juízes etc., ou seja, até onde haviam
chegado nossos velhos amigos do bar, discutindo com quem queria pulso firme e bala, foi
assumida pela criminologia nos anos 60 do século passado. Dado que os frequentadores
habituais do bar não haviam patenteado a mudança de paradigma, eles perderam os direitos
autorais.
Desse modo, abriu-se uma nova etapa na criminologia acadêmica que, por incorporar o
poder punitivo, é chamada de criminologia da reação social, embora também possa ser
chamada de criminologia crítica. Esclareço que as denominações são discutíveis e que
preferimos não perder tempo com isso.
Dentro dessa nova criminologia (da reação social ou crítica), podem distinguir-se duas
correntes, às quais se convencionou chamar de liberal e radical, respectivamente. Vejamos a
que essa diversificação responde.
Toda a criminologia da reação social, pelo mero fato de introduzir em seu campo o
sistema penal e o poder punitivo, não pode senão criticá-lo (por isso também a chamamos
crítica).
Pois bem. A crítica ao sistema penal é uma crítica ao poder e, portanto, pode se situar
no nível do sistema penal (ou seja, do aparato repressivo) ou elevar-se até diferentes níveis
do poder social. Posso analisar e criticar o que a polícia, os juízes, os agentes penitenciários,
os meios de comunicação etc. fazem, ou ir mais além e analisar sua funcionalidade em
relação a todo o poder social, econômico, político etc. e chegar a uma crítica do poder em
geral.
Diz-se que há uma criminologia crítica que se situa no nível dos cachorros pequenos
(under dogs), que chega no máximo nos cachorros médios (middle dogs), mas que não
alcança os cachorros grandes (top dogs). Pois bem. Denominou-se aquela que não chega aos
de cima, por certo que com um certo tom pejorativo, de criminologia liberal e a que os
alcança de criminologia radical.
 
Ilustração 16
 
Nos anos 1970, a discussão entre as duas correntes da criminologia crítica era forte, mas
nas últimas décadas, o giro brutalmente regressivo da repressão penal, especialmente nos
Estados Unidos, fez com que elas cerrassem fileiras e o enfrentamento perdeu força. Os
radicais, geralmente baseados no marxismo não institucionalizado (como a Escola de
Frankfurt), afirmavam que os liberais eram reformistas, se deixavam ficar no meio do caminho
e que era preciso se chegar a uma transformação mais profunda de toda a sociedade.
O certo é que a criminologia radical, ao elevar sua crítica a essas alturas, não deixava
espaço para uma política criminológica de menor alcance e, em suas expressões mais
extremas, levava à quase impotência, porque havia que esperar a grande mudança, a
revolução, para atirar tudo pela janela (e, de quebra, a própria janela também).
Em tempos em que muitos acreditavam que a revolução estava ao dobrar a esquina,
podia se sustentar uma posição semelhante, mas quando os fatos demonstraram que o que
estava por vir era uma reconstrução brutal do Estado policial, essas posições tiveram de
ceder à prudência. Por outra parte, a chamada criminologia liberal tampouco era tão ineficaz
como pensavam alguns radicais e confesso minha própria experiência a esse respeito.
Em 1979, um extraordinário pensador italiano que era catedrático na Alemanha,
Alessandro Baratta, cujo desaparecimento deixou um vazio muito difícil de ser preenchido
no pensamento criminológico, publicou um artigo em que demonstrava que a sociologia
anterior à crítica e a sociologia liberal bastavam para demolir todos os discursos correntes
com que o direito penal legitimava o poder punitivo de forma racional.
Esse artigo me impressionou muito, porque achei que podia demolir todo o direito penal
com consequências imprevisíveis para as garantias individuais, acerca das quais, por outro
lado, acabava de escrever cinco volumes inatacáveis. Tentei responder-lhe, naturalmente
sem êxito, do que me convenci pouco depois.
Com efeito, a criminologia liberal-reformista, de meio caminho e tudo mais – bastava para
deslegitimar o poder punitivo de forma irreversível. Essa criminologia mostrou que o poder
punitivo é altamente seletivo, que não respeita a igualdade, que se fundamenta no
preconceito de unidade valorativa social, que não persegue atos e sim pessoas, que
seleciona conforme estereótipos etc.
Por certo que isso não é nada inofensivo para o poder, porque embora a crítica não
chegue a níveis mais altos, deslegitima um instrumento necessário para seu exercício; não
arremessa a janela, mas a deixa bastante desmantelada.
A criminologia da reação social chegou à América Latina nos anos 1970 e foi difundida
por duas distinguidas criminólogas venezuelanas: Lola Aniyar de Castro, a partir da
Universidade de Zulia, e Rosa del Olmo, da Universidade Central de Caracas. Em nosso país,
seus seguidores se viram forçados a tomar o caminho do exílio durante a ditadura, entre os
quais Roberto Bergalli, que se fixou em Barcelona, e Luis Marcó do Pont e Juan Pegoraro, no
México. Durante os anos sangrentos essa criminologia sóera comentada em nosso meio em
pequenos círculos, enquanto as cátedras continuavam enlanguescendo no canto da
Faculdade de Direito (na de Buenos Aires, com o mais puro positivismo perigosista).
Na atualidade, passados os anos, vemos que a prateleira caiu para sempre, que a
criminologia atual não pode evitar a análise do sistema penal e do poder punitivo em geral
e, como dissemos, o confronto entre as duas correntes criminológicas se atenuou muito,
embora mais por causa do pânico do que do amor. O modelo Reagan-Thatcher-Bush e seu
nefasto festival do mercado tiveram esse efeito paradoxal.
24. A criminologia crítica liberal e a psicologia social
A chamada criminologia liberal foi anunciada desde os anos 1950, em particular com um
trabalho de Edwin Lemert que destacava ser o desvio primário, por conta do qual se impõe
uma pena, seguido em geral por um desvio secundário, pior que o anterior, causado pela
mesma intervenção punitiva e que condiciona as chamadas carreiras criminosas.
Lemert escreveu textualmemente: O desvio secundário constitui conduta desviada ou
papéis sociais baseados nele que chegam a ser meios de defesa, ataque ou adaptação aos
problemas manifestos ou ocultos criados pela reação da sociedade ao desvio primário. Com
efeito, as “causas” originais do desvio desaparecem e cedem lugar à importância central das
reações de desaprovação, degradação e isolamento de parte da sociedade.
Essa criminologia liberal não estava isolada da sociologia geral; antes, procedia
diretamente dela e, em particular, de duas grandes influências que ela havia recebido: por
um lado, da psicologia social, com o interacionismo simbólico; por outro, da filosofia, com a
fenomenologia de Husserl. Comecemos pór nos aproximar do primeiro.
O interacionismo simbólico baseava-se nas ideias de George Mead, segundo as quais
todos temos um mim que se vai formando pelas exigências de papéis dos demais, e um eu
que é o que nós trazemos.
O sociólogo mais importante dessa corrente foi Erving Goffman, que o explicou como
uma dramaturgia social.
Falemos um pouco mais claramente. Para Goffman, a sociedade funciona como um
teatro, no qual há atores, público e organizadores. Suponhamos que, por acaso, me
convidem para uma conferência; há um público e os organizadores prepararam tudo. Eu
espero do público que ele se comporte como tal, que me escutem com certa atenção etc. O
público espera de mim que eu dê uma conferência mais ou menos interessante, não muito
tediosa. Tanto o público como eu esperamos dos organizadores que tudo esteja em ordem,
que não se corte a luz, que o microfone funcione etc. Todas estas esperanças (ou
expectativas recíprocas) são o que chamamos de demandas de papel.
Pois bem: se todas as demandas de papel são satisfeitas, todos nós ficamos contentes e
felizes. Porém, se me ponho a ladrar, o público se aborrece e reclama de mim; se no público
há um grupo de bêbados, que grita barbaridades, aí quem se aborrece sou eu. No primeiro
caso, os organizadores explicarão ao público que quando me convidaram não imaginavam
que eu estivesse louco; no segundo caso, eles me explicarão que a presença dos bêbados
tinha sido imprevisível.
Esses episódios, que geram agressividade quando não se responde às demandas de
papel, são chamados de disrupções e nos irritamos porque, quando acontece uma disrupção,
não sabemos como prosseguir, ficamos sem roteiro.
Isso acontece em todos os atos da vida. Se nosso vizinho sai sempre com um macacão e
uma caixa de ferramentas e um dia lhe pedimos que nos ajude a fazer o automóvel dar
partida e ele nos diz que sente muito, mas que não poderia ajudar porque na realidade é o
catedrático de biologia molecular da universidade, embora disfarcemos, ficaremos
desconcertados e em nosso foro íntimo, seremos agressivos, nos perguntando por que esse
aparato (ou algo pior) se veste dessa maneira e sai com uma caixa de ferramentas.
Os papéis podem ser socialmente positivos ou negativos, mas isso não importa quanto a
seu funcionamento, pois operam da mesma maneira. Geralmente, costumamos responder às
demandas de papel, para que os outros não se aborreçam e evitemos as disrupções. É isso
que vai configurando nosso eu, ou seja, em boa medida somos como os outros nos
demandam que sejamos.
Quando a quem se atribui um papel negativo (ladrão, por exemplo) são formuladas as
demandas de papel correspondentes ao atribuído porque se espera que se comporte como
tal, também nos aborrecemos quando ele não as responde da forma adequada ao papel. A
exemplo do que acontece com o vizinho do macacão, nos perguntaremos porque esse
sujeito assume as características de um ladrão e nos confunde.
Com esse esquema, Goffman analisou as instituições totais, que são aquelas em que a
pessoa desenvolve toda sua atividade vital, desde o momento em que se levanta até quando
se deita, sejam elas manicômios, prisões, internatos, asilos etc. Os círculos separados de
trabalho, diversão e descanso se unificam e regulamentam, não há esferas separadas da vida.
A pessoa se desculturaliza, a separação entre o pessoal e o interno é contundente. O interno
deve se acostumar a pedir por favor o que na vida livre é óbvio, sofre o efeito de cerimônias
de degradação, a pessoa fica entregue a profanações verbais por parte do pessoal e, além do
mais, perde toda reserva, é invadida e controlada até mesmo nos atos mais íntimos.
A pessoa sofre ataques ao eu, ou seja, perde autonomia, fica à mercê do pessoal e de
seus humores, inclusive os hierarcas podem dar-se ao luxo de ser mais bondosos que os
subalternos, assumindo a função do rei bom e gracioso dos contos infantis.
Imaginemos, por um momento, algo muito louco: que você vive em um prédio de
apartamentos que, um belo dia, é ocupado por invasores que demolem todas as paredes
divisórias, inclusive as dos banheiros, e o obrigam a conviver com todos os outros ocupantes
do edifício com os quais mantinha relações nem sempre cordiais, sob o controle dos
invasores, que os vigiam constantemente e os igualam no que é possível, porque necessitam
manter a ordem. Esta é uma imagem alucinante, um pesadelo. Pois bem, uma instituição total
é mais ou menos isso, com maior ou menor intensidade controladora.
É óbvio que no caso desse pesadelo você não aprenderia a socializar-se, que seus
hábitos de vida mudariam totalmente, que sofreria uma brutal perda de autoestima e seu
objetivo dominante seria ver como fazer para sair daí, para ir-se o mais longe possível, fugir
do sonho ruim. Todo o discurso de ressocialização se dissipa com essa investigação, e
embora Goffman a tenha levado a cabo principalmente nos manicômios, ele é transferível
em grande medida à prisão.
Dentro da mesma corrente do interacionismo simbólico foi determinante um livro de
Howard Becker, de 1963, Outsiders, que consolidou a teoria do etiquetamento (em inglês
labeling approach). Becker trabalhou sua pesquisa com músicos de jazz usuários de maconha
e o fez com tamanho empenho que se converteu em um virtuose do piano. Descobriu que o
desvio é provocado, que há uma empresa moral que faz as regras, que não se estudam os
fabricantes das regras (empresários morais) e sim as pessoas às quais lhes é aplicada a
etiqueta que as deixa fora (outsiders). Essa rotulação coloca a pessoa em outro status, que a
impede de continuar sua vida normal: desde o não te juntes até a desqualificação em
qualquer atividade competitiva da vida corrente. Foi condicionada a ele uma carreira,
conforme a etiqueta que se lhe foi colocada.
É óbvio que essa crítica representa um golpe muito forte ao poder punitivo, ao colocar
em evidência a repartição arbitrária das etiquetas e lançar dúvidas não sobre os
subordinados (os cachorros de baixo) e sim sobre os altos responsáveis do poder que
decidem a legislação penal e orientam a seleção das pessoas a criminalizar. Nem lerdos nem
preguiçosos, os defensores da ordem lhe objetaram que, por se ocuparem dos chamados
delitos sem vítima (consumidores de maconha, hippies, homossexuais), trata estes e os
assassinos seriais develhinhas do mesmo modo, porque todos seriam puras etiquetas. Nada
menos exato nem mais falso do que essa objeção.
Embora sem etiqueta não há delito, não é certo que esta cria o delito, nem Becker nem
ninguém afirmou isso. Sem contratantes também não há matrimônio, mas o matrimônio não
cria os contratantes como namorados anteriores ao ato; o testamento não cria o causador
nem tampouco o mata, embora sem autor morto de testamento não haja sucessão
testamentária.
Há etiquetas que se colocam em material mais etiquetável que outro; sem dúvida, no caso
dos assassinos em série há muito material bem etiquetável, assim como entre fumantes de
maconha haja pouco e entre homossexuais ,nada, mas o certo é que isso não interessa ao
etiquetamento, que o faz em uns poucos casos e de modo arbitrário, pois nem sempre se
etiqueta como homicidas os que matam: sem me deter nas execuções sem processo, nos
esquadrões da morte, nos assassinatos em massa genocidas e em outros horríveis crimes
impunes, o certo é que tampouco se etiqueta como homicídio a guerra, as mortes por
poluição ambiental, as penas de morte por erro, o fechamento de hospitais, de postos de
saúde, a negligência no cuidado das estradas, nem os fabricantes e vendedores de armas são
etiquetados como cúmplices de homicídios, embora cooperem necessariamente com eles,
nem sequer quando as vendem aos dois lados em guerra ou a narcotraficantes em luta.
Os recipientes podem conter muito, pouco ou nada de material etiquetável, mas isso é
indiferente para a distribuição arbitrária das etiquetas, que as fixa em recipientes vazios ou
cheios, mas deixa de fazê-lo com outros muito mais cheios.
Esta é a questão que nunca deve nos confundir: o que Becker prova é a arbitrariedade
do etiquetamento e isso coloca em xeque todos os argumentos com que o direito penal tenta
conferir racionalidade ao poder punitivo. Não foi à toa que o artigo de Baratta me causou
tanta impressão e alarme. A minha prateleira caiu, com certeza.
O panorama do interacionismo simbólico foi completado a partir da Grã-Bretanha por
Denis Chapman, com o livro Sociologia e o estereótipo do criminoso (1968), no qual o autor
esclarece como se seleciona para criminalizar de acordo com estereótipos que são criados
como síntese dos piores preconceitos de uma sociedade e que não respondem somente a
questões de classe nem de capacidade econômica.
O conceito de estereótipo é hoje indispensável para explicar como funciona a seleção
criminalizadora policial ou judicial. No bairro, costumam chamá-lo de pinta de ladrão e é
uma espécie de uniforme do outsider, mas por causa das demandas de papel não é algo
apenas externo; seu portador vai incorporando, vai se obrigando a engolir, a tragar o
personagem, assume-o à medida que responde às demandas dos outros, seu mim vai sendo
como os outros o veem, é como o estereótipo respectivo e, por conseguinte, carrega um
estigma que condiciona a proibição de coalizão (no bairro é o não com más companhias).
25. A crítica liberal e a fenomenologia
Como é sabido, Husserl colocou o problema da intersubjetividade a partir da filosofia, o
que não podia deixar a sociologia indiferente. O sociólogo austríaco Alfred Schutz colheu a
ideia no ar, afirmando que a intersubjetividade não é um problema e sim uma realidade e,
com isso, conferiu um novo enfoque à sociologia do conhecimento.
Quanto à questão criminal, interessa-nos em particular a contribuição que procede de
um pequeno livro publicado em 1966 por um austríaco (Peter Berger) e um alemão (Thomas
Luckmann), que se converteu num clássico nas carreiras de comunicação: A construção social
da realidade.
Embora esse trabalho não se ocupe da criminologia, veremos sua enorme projeção
quando nos ocuparmos da criminologia midiática, mas digamos brevemente em que ele
consiste. A investigação parte do suposto de que há conhecimentos de senso comum sem os
quais não poderíamos agir em sociedade, pois a realidade com a qual lidamos é,
definitivamente, uma interpretação aceita por todos os significados subjetivos. Vale dizer,
vivemos em um mundo de interpretações compartilhadas, intersubjetivo.
Isso não significa que não existam os entes físicos; é óbvio que, se não me detenho
diante de um ônibus, ele me atropela; porém, se estendo a mão de um lado da rua, ele se
detém e abre sua porta dianteira. O mundo é o conjunto de significados que compartilho
com os outros e que faz com que o motorista não me atropele nem os passageiros protestem
porque o ônibus parou para eu subir. O material do mundo é só sua base física, mas o
mundo mesmo resulta do conjunto de significados (os para o que) que formam o senso
comum do conhecimento objetivado.
Esse conhecimento comum da vida cotidiana se sedimenta com o tempo e se tipifica
tornando-se anônimo, isto é, se objetiva – o ser humano se habitua.
Um ato que se repete com frequência cria um hábito que o reproduz com economia de
esforços, pois limita as opções e evita que, perante cada situação, se tenha de colocar tudo
de novo, desde o princípio. Ao nos levantarmos de manhã não nos perguntamos se Deus
existe e daí deduzimos significados em cadeia até chegar ao valor da ação de tomar banho.
Há recolocações que se fazem algumas vezes na vida, mas sempre continuamos tomando
café com leite com pãezinhos.
Esses hábitos sedimentados adquirem caráter estável, anônimo, precedem a nossa vida e
estão submetidos ao controle social. O mais importante instrumento de legitimação é a
linguagem, com uma lógica que se dá por estabelecida. Desse modo, os conhecimentos de
senso comum (que são subjetividades compartilhadas) se objetivam e se tornam coisas,
produz-se a reificação (de res, coisa).
Se me afasto do mundo reificado, me sancionam. Ninguém faz a prova, mas se você
colocar o croissant na orelha, lustrar os sapatos com café com leite e falar em russo ou em
guarani com o garçom, se você parar na frente do ônibus ou pedir ao motorista que lhe
venda cigarros, o levarão ao manicômio, o que também é uma sanção de internação em uma
instituição total.
Berger e Luckmann explicam que, desse modo, o outro na relação interpessoal sempre é
visto como um ser-como, isto é, exercendo um papel. O motorista do ônibus nos vê como
passageiros e nós a ele, como motorista. Essas relações e papéis que conservamos e
praticamos com base em um sistema de significantes comum, é alterado quando estamos em
outro país e não sabemos como se compra o bilhete do ônibus, e muito mais quando, por
desconhecer o idioma e o alfabeto, nos tornamos analfabetos.
A sociedade, escrevem Berger e Luckmann, é a soma total das tipificações e dos modelos
recorrentes de interação estabelecidos através deles. Enquanto tal, a estrutura social é um
elemento essencial da realidade da vida cotidiana.
A conversação do encontro direto transcende do pensamento comum e dá lugar ao
pensamento abstrato, filosófico e científico. Nesse sentido, o pensamento científico depende
de um prévio conhecimento do senso comum (que resiste a desaparecer). Os filósofos
também molham os pãezinhos no café e tomam banho pela manhã, se são asseados.
Para Berger e Luckmann, os seres humanos são produto e artífices do mundo social.
Tudo o que no institucional parece objetivo é meramente objetivado, é o que se alcança através
do processo de reificação.
É interessante assinalar que Berger e Luckmann observam que a sociedade incomoda o
intelectual. Isso se deve ao fato de que nela prima o conhecimento objetivado como coisa
(reificado) e o intelectual o questiona, pois quando todos afirmam que a coisa está, ele sai
do seu canto e mostra que a tal coisa não existe. É o que diz que o rei está nu. Embora
cumpra um papel dinamizador e fundamental, pois propõe uma visão alternativa, o
intelectual assume uma posição marginal e tem necessidade de um grupo que o defenda.
Como se explica esta opção pela marginalidade própria do intelectual? Os autores
acreditam que surge de uma disparidade entre a socialização primária (que tem lugar na
infância) e a secundária (do adulto). Trata-se de umainsatisfação pessoal do agente adulto
com sua socialização primária. Ao que parece, quando criança, o intelectual não ficou muito
satisfeito com as respostas – e ordens – dos adultos ou depois se deu conta de que eles eram
bastante bobos.
Em determinadas ocasiões se produzem importantes transformações nas pessoas, que
chamam alternações e que provocam redefinições ou processos de ressocialização
semelhantes à socialização infantil. De acordo com o que vimos, o etiquetamento
desencadeia um processo de ressocialização forçada. A pessoa é forçada a mudar, a
autoperceber-se de outro modo. Não é por acaso que uma prisão impacta como uma
espécie de internato para adultos infantilizados e o importante seria proporcionar um
tratamento que neutralize, até onde seja possível, esse processo de ressocialização. Nessa
terminologia, o tratamento penitenciário deveria evitar a ressocialização.
É bastante clara a influência de Heidegger em Berger e Luckmann: o ser humano, ao
invés de se perceber como produtor do mundo, o faz como produto deste. Os significados
humanos já não são vistos como algo que se produz pelo mundo, mas sim como produtos da
natureza das coisas. Assim foram vistos a escravidão, o colonialismo, a guerra e tantas outras
aberrações no curso da história. Cabe assinalar que não esgotamos, com o exposto, o quadro
da criminologia crítica que chamamos de liberal, mas tampouco nos propomos a fazê-lo.
Simplesmente, recolhemos os elementos que nos serão úteis em seguida para esclarecer o
fenômeno da criminologia midiática e em especial para escutar as palavras dos mortos e
fundar nosso projeto de criminologia cautelar.
 
Ilustração 17
 
26. A vertente marxista da criminologia radical
Como era de se esperar, as críticas ao poder punitivo chamaram a atenção daqueles que
formulavam colocações críticas mais amplas da sociedade, que começaram a vinculá-las com
os resultados da criminologia liberal.
Por nossa parte, chamamos criminologia radical aquela que provém desse encontro com
os marcos ideológicos que reclamam mudanças sociais e civilizatórias profundas ou gerais,
embora isso não seja pacífico, pois está em discussão o que é e o que não é radical. Sem
entrar nessa discussão, a definimos desse modo, por puras razões de ordem expositiva.
Nesse entendimento, para nós, a criminologia radical (ou crítica radical) responde a
tantas versões quanto os marcos ideológicos que a inspiram. Certamente, a mais profunda
crítica social do século passado foi o marxismo, que não podia deixar de impactá-la.
Do campo marxista, publicou-se, em 1939, um trabalho anterior a toda a criminologia
sociológica dos anos 1960, que foi a obra de Georg Rusche e Otto Kirchheimer, intitulada
Punição e estrutura social[9]. Pela primeira vez, o marxismo aprofundou sua análise do poder
punitivo, diferentemente dos ensaios anteriores, como o do holandês Willen Bonger, que
procediam do marxismo, mas analisando as causas do delito.
Essa investigação realizou-se no Instituto de Investigação Social de Frankfurt, fundado
para renovar o marxismo diante da versão institucionalizada da União Soviética. Embora
fale-se em Escola de Frankfurt, ela não foi propriamente uma escola, porque convocou
prestigiosos pensadores sob a única consigna da crítica social. Tomaram parte dessa equipe
figuras tão conhecidas e díspares como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse
e Erich Fromm, entre muitos outros.
A investigação da questão penal foi atribuída a Georg Rusche, que permaneceu na
Europa, enquanto o instituto, perseguido pelo nazismo, era transferido para Nova York.
Rusche enviava seus escritos para Nova York, onde a investigação não era suficiente.
Encomendaram a Kirchheimer que a completasse, o que não mereceu a total aprovação de
Rusche. Por essa razão, a versão final tem duas partes diferentes.
De toda forma, a ideia central do livro é que existe uma relação entre o mercado de
trabalho e a pena, ou seja, com a pena uma quantidade de pessoas deixa o mercado de
trabalho, num momento em que há demanda trabalho no próprio sistema. Essa situação
reduz a oferta e impede que os salários baixem muito; inversamente, aumenta a oferta
quando há uma demanda de mão de obra, evitando uma subida acentuada do salário.
Isso seria comprovado na história. Na Idade Média, a oferta era enorme e o poder
punitivo podia matar sem problemas; a força do trabalho teria começado a ser cuidada
quando, com o capitalismo, aumentou a demanda de mão de obra.
Por outra parte, os autores asseguravam que o mercado determina as penas conforme a
lei de menor exigibilidade, segundo a qual as condições da vida carcerária, para ter efeito
dissuasivo, devem ser inferiores às piores da sociedade livre.
Esse livro caiu praticamente no esquecimento e, como às vezes acontece, foi reavaliado
trinta anos mais tarde, em plena vigência da criminologia crítica, reeditado e traduzido em
vários idiomas.
Em 1979, quando seus autores haviam morrido (Kirchheimer em 1965 e Rusche em data
incerta), abriu-se um debate em torno de Punilção e estrutura social e sua tese foi criticada na
obra Carcere e fabbrica[10], de Dario Melossi e Massimo Pavarini, os quais afirmaram que ela
pecava por um excessivo economicismo. Esses autores da Escola de Bolonha não negam a
importância do mercado de trabalho, mas não acreditam que opere de forma tão mecânica,
mas sim através do disciplinamento no momento do surgimento do capitalismo e da
acumulação primitiva do capital. A similitude entre o cárcere e a fábrica nesta época
(lembremos de Bentham e de seu panóptico) respondia a um programa de disciplinamento
que visava a oferta de mão de obra qualificada.
García Méndez, no epílogo à sua tradução espanhola desta obra, assinala que a função
de disciplinamento não passou completamente desapercebida a Rusche e Kirchheimer e que
o que vigora de sua tese é o ponto segundo o qual cada sistema de produção tende ao
descobrimento de castigos que correspondem a suas relações produtivas, indicando que a
categoria de mercado de trabalho parece demasiado estreita, ao mesmo tempo que a de
relações de produção mostra-se demasiadamente ampla.
Cabe esclarecer que a ideia do disciplinamento foi desenvolvida ao máximo dentro da
criminologia radical, mas fora das correntes marxistas, por Michel Foucault em Vigiar e punir
(1975), em que poder-se-ia assinalar um caminho para o abolicionismo, ao qual voltaremos.
Para Foucault, o poder punitivo não é tanto o negativo da prisionização, como o
positivo, em que o modelo panóptico se estende a toda a sociedade sob a forma de
vigilância. Nisso ele tem toda a razão, porque o mero poder de encerrar um número sempre
muito reduzido, em relação à população total, de pessoas dos estratos mais subordinados da
sociedade não importa o exercício de um poder politicamente muito significativo: o
importante é que, sob esse pretexto, todos nós que estamos soltos somos vigiados.
A Escola de Bolonha fez um reparo a Foucault, porque, na colocação deste, a disciplina
aparece descolada. Ele não a relaciona à mudança operada no sistema produtivo, ao qual os
estudiosos de Bolonha atribuem as reformas penais do Iluminismo.
À margem disso, nos anos 1970, houve manifestações do marxismo criminológico nos
Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Seus expositores mais conhecidos nos Estados Unidos
são Richard Quinney e William Chambliss.
 
Ilustração 18
 
Quinney afirmou que os delinquentes são rebeldes inconscientes contra o capitalismo e o
poder punitivo é o instrumento de repressão a serviço das classes hegemônicas. Se o
criminoso age brutalmente contra a vítima, isso é resultado da forma em que ele foi
brutalizado. Com isso, Quinney inaugura uma espécie de visão romântica dos delinquentes.
Por certo, esse autor estava muito próximo da nova esquerda (New Left) dos protestos
estudantis de Berkeley e ficou deprimido com seu fracasso. As autoridades universitárias não
viram com bons olhos seu movimento e optaram por dissolver seu grupo. De qualquer
maneira, foi um fenômeno que chamou a atenção quandoocorreu e, exageros à parte,
semeou bastantes dúvidas acerca das racionalizações correntes.
Chambliss defendeu uma tese menos linear. Ainda que considere o poder punitivo como
um instrumento do capitalismo, este o usaria para adiar até onde fosse possível o colapso
final do sistema, que considera inevitável. Em linhas gerais, e pese os matizes, esse marxismo
criminológico estadunidense defende uma racionalidade do delito, como resposta às
contradições do capitalismo. Quem nos assalta na rua ou nos bate a carteira, estaria, sem
sabê-lo, agindo racionalmente diante das contradições do sistema.
Como entre as ideias da New Left encontrava-se a crença de que os intelectuais podiam
conscientizar os delinquentes e marginais a respeito da racionalidade de sua função, alguma
coisa disso está presente nessas construções. Com isso, iam além de Marx, que, como vimos,
desprezava olimpicamente o Lumpenproletariat, enquanto a New Left acreditava em seu
potencial revolucionário. Apesar de sua ingenuidade e de que Marx lhes houvesse dito coisas
menos bonitas, não podemos negar a generosidade de seu pensamento, levando em conta o
contexto em que se expressou.
A criminologia marxista britânica teve muito mais êxito e se expandiu desde a
publicação, em 1973, da Nova criminologia de Ian Taylor, Paul Walton e Jock Young. Esta
obra alcançou um êxito singular porque a primeira parte é uma cuidada síntese da
criminologia teórica desde o Iluminismo, resgatando, a partir de Durkheim, os elementos
críticos de cada corrente, com conhecimento e aguda penetração sociológica.
Em seguida, analisam Marx e Engels e destacam que, como vimos, Marx ocupou-se
apenas tangencialmente da questão criminal, razão pela qual concluem que a teoria
criminológica marxista deve ser construída a partir dos princípios e não das manifestações
incidentais do próprio Marx.
Se o marxismo nos oferece algo útil para apreciar as formas em que o conflito social é gerado
e mantido – escrevem – e em que este ajuda a determinar o tipo e a quantidade de atividade
delitiva e desviada em geral, é mais provável que o encontremos na teoria geral de Marx do que
nas afirmações mais concretas dadas como resposta a questionamentos empíricos isolados.
Uma cabal teoria marxista do desvio – afirmam – teria por fim explicar como determinados
períodos históricos, caracterizados por conjuntos especiais de relações sociais e meios de
produção, produzem tentativas dos econômica e políticamente poderosos em ordenar a sociedade
de determinada maneira. Ênfase maior iria para a pergunta que Howard Becker formula (mas
não examina), a saber, quem impõe a norma e para o quê?
Eles consideram que nenhuma teoria do desvio conseguiu isso e que a consequência
seria vincular as teses da criminologia liberal às teorias da estrutura social que estão implícitas
no marxismo ortodoxo.
Esse pensamento também se afasta do desprezo de Marx pelo Lumpen, atribuindo-lhe
caráter dinamizador, o que permite entender que, em geral, os criminólogos marxistas do
Primeiro Mundo que escreviam em plena sociedade de consumo haviam perdido a confiança
na força dinamizadora e revolucionária do proletariado (segundo eles, adormecida pelo
welfare State) e a depositavam na marginalização social.
A criminologia radical promoveu a criação, tanto na Europa quanto na América, de
grupos de estudos que aglutinaram os criminólogos dessa tendência e, em alguns países, os
críticos em geral. Houve um importante grupo europeu, outro italiano, grupos británicos, um
círculo de jovens criminólogos alemães etc. Em 1981, por iniciativa da criminóloga
venezuelana Lola Aniyar de Castro, proclamou-se no México o Manifesto do Grupo Latino-
Americano de Criminologia Crítica, subscrito por ela (professora da Universidade de Zulia),
Julio Mayaudon (da Universidade de Carabobo), Roberto Bergalli (exilado e professor em
Barcelona) e Emiro Sandoval Huertas (de Bogotá, assassinado no massacre da Corte
Suprema, em 6 de novembro de 1985).
27. Na direção do abolicionismo e do minimalismo
Era natural que a obra de Goffman causasse certa impressão na psiquiatria, visto que se
baseava na experiência manicomial das instituições totais. Da crítica ao manicômio passou-se
rapidamente à da psiquiatria e daí à crítica radical de todo o sistema psiquiátrico, o que se
convencionou chamar de antipsiquiatria.
Todo o movimento antipsiquiátrico foi uma crítica radical ao controle social repressivo
exercido à margem do sistema penal formal. O poder punitivo reveste-se de muitas formas e
já vimos o efeito do acordo entre médicos e policiais que acabou nos campos de
concentração nazistas e outros não tão notórios, mas nem por isso menos letais.
Se nos colocassem diante da possibilidade de carregar uma etiqueta negativa, dando-nos
a opção entre a de criminalizado ou de psiquiatrizado, se bem o último evoque um
sentimento de pretensa piedade (e o primeiro oculta o de vingança), o certo é que o de
criminalizado seria preferível, porque pelo menos não nos poderia ser negado o direito de
defesa nem de denunciar os abusos cometidos conosco. Já ao psiquiatrizado até esses
direitos são negados, sob o argumento puro e simples de que o pobre está louco, não sabe o
que faz, tem que ser tutelado, tem de ser protegido de si mesmo.
Não foi à toa que um conhecido psiquiatra húngaro radicado nos Estados Unidos,
Thomas Szasz, escreveu um interessantíssimo livro comparando o sistema psiquiátrico à
Inquisição e afirmando que a medicina substituiu a teologia, o médico, o inquisidor e o
paciente, a bruxa. Tudo o que o paciente alegar contra sua condição de doente não será
mais do que prova de sua doença, a exemplo do que acontecia com o herege: pobre não tem
consciência da doença.
Na corrente antipsiquiátrica alistaram-se autores famosos nas décadas de 1970 e 1980,
como o italiano Franco Basaglia, o escocês Ronald Laing, o inglês David Cooper, o
mencionado Szasz e muitos outros, que fundaram em 1975, em Bruxelas, uma Rede
Internacional de Alternativa à Psiquiatria.
A ideia de vários desses antipsiquiatras era que a doença mental é uma resposta política,
ou seja, o ser humano, diante das contradições do poder, se encaminha em direção à loucura
ou à revolução e, portanto, não se deve matar o potencial subversivo da loucura, e sim
politizá-lo para converter o louco em um agente de mudança social.
A extrema radicalização dessas posições, da mesma forma que as referidas ao próprio
sistema penal formal, pode levar à impotência, visto que é óbvio que há algo a fazer frente a
um esquizofrênico que fica imóvel como um móvel no extremo de seu autismo psicótico
(hoje há poucos, é certo) e outros tantos padecimentos em que não se pode deixar de
reconhecer que o paciente sofre.
Não bastará explicar que seu sofrimento é uma reação às contradições do poder, porque
o catatônico não vai se inteirar disso. Não obstante, deixando de lado o extremismo que
pode levar à imoblidade, o certo é que esse movimento contribuiu amplamente para que os
direitos dos pacientes psiquiátricos fossem levados em consideração, abrindo um campo de
debate que de modo nenhum se fechou.
Se bem que os psicofármacos tenham eliminado as camisas de força e as celas
acolchoadas e quase não se usa o choque elétrico (que era o mais parecido ao
eletrochoque), o atual jaleco químico é distribuído com incrível generosidade à população. A
consequência desse abuso é que tende a suprimir toda resistência e tolerância à dor, quando
sabemos que existem os inevitáveis e não é de modo algum saudável sua simples supressão
psicofarmacológica nem a generalização da anestesia diante dos sofrimentos socialmente
condicionados.
O resultado prático mais importante da antipsiquiatria foi a desmanicomialização, ou
seja, a redução da institucionalização ao mínimo, para evitar a deterioração da pessoa.
Como nunca faltam os espertos ou perversos que tudo desvirtuam, este generoso
movimento de desmanicomialização acabou sendo usado por políticos imorais para reduzir
o gasto na atenção psiquiátrica e por delinquentes corruptospara tentar fazer negociatas
imobiliárias com os edifícios e terrenos dos manicômios. Isso, porém, não pode ser imputado
à antipsiquiatria, e sim somente à necessidade de ficarmos atentos às contradições do poder,
que não são só aquelas que os antipsiquiatras imaginaram.
Paralelamente à abolição do manicômio e à antipsiquiatria, e com referência ao sistema
penal formal, abriu-se caminho a um complexo movimento de abolicionismo penal, que
podemos denominar novo abolicionismo, para distingui-lo do velho, que era o dos teóricos
anarquistas.
Embora tenha tido como antecedente o livro do professor de criminologia de Genebra
Paul Reiwald, intitulado A sociedade e seus criminosos e publicado em 1948, sua obra não foi
compreendida quando foi lançada, talvez também devido à precoce morte do autor, razão
pela qual o novo abolicionismo viria a eclodir nas décadas de 1970 e 1980. Nesses anos,
recebeu um notório impulso com os trabalhos de Michel Foucault, embora este não se
proclamasse abolicionista, pois seu pensamento resiste às classificações e ele mesmo
procurou, durante toda sua vida, evitar os encasulamentos.
Não tem muito sentido selecionar aspectos particulares da crítica de Foucault, porque ela
impactou de tal modo as ciências sociais e a criminologia que ao longo dessas páginas
estamos vendo sua clara marca transversal. Os filósofos discutirão durante muito tempo as
ideias de Foucault, em especial sua concepção antropológica, mas nas ciências sociais suas
contribuições estão acima de qualquer avaliação e não estão necessariamente soldadas com
esta, que é o principal ponto de discussão no campo da filosofia pura.
O novo abolicionismo surgiu quase inteiramente de movimentos e organizações que se
ocupavam dos direitos dos presos e pelas quais criminólogos e outros acadêmicos se
interessaram. Conforme essa experiência, eles passaram a teorizar e a postular a abolição da
prisão e finalmente do sistema penal. Alguns desses movimentos, que surgiram na Europa
nos anos 60 do século passado, converteram-se em verdadeiras organizações e foram
imitados mais timidamente em outras latitudes.
Os primeiros foram os movimentos escandinavos: o KRUM sueco (1965), o KRIM
dinamarquês (1967) e o KROM norueguês (1968). Eles foram seguidos em 1970 pelo RAP
britânico (Radical Alternatives to Prison), em 1971 pela Liga Holandesa COORNHERT, pelo
grupo alemão de Bielefeld, pelo Liberarsi do carcere italiano e pelo Group d’information sur
les prisions (GIP) francês. No Canadá, o impulso mais importante veio do campo religioso,
dos quakers. Cabe notar que depois da ditadura argentina, organizou-se algo semelhante em
Buenos Aires, através de uma ONG, o SASID (Servicio de Assistência Social Integral ao
Detenido), que sobreviveu alguns anos. Não podemos aqui segui-los em detalhe, mas foi um
conjunto importante e demostrativo de uma tônica humanista muito interessante. Se algum
de vocês quiser se aprofundar em sua história e ideologia, há em espanhol um livro de Iñaki
Rivera Beiras (Abolir o transformar?, Buenos Aires, 2010) que se ocupa do tema.
Participaram dessas organizações acadêmicos de prestígio, como Michel Foucault, no
GIP, Louk Hulsman e Herman Bianchi, na Liga Holandesa, Ruth Morris, no movimento
quaker canadense, e Thomas Mathiesen e Nils Christie, no KROM norueguês. Eles foram os
principais promotores teóricos do novo abolicionismo penal, que se institucionalizou
internacionalmente no ICOPA (International Conference on Penal Abolition), que promove
congressos bianuais em diferentes países do mundo.
O pensamento de Louk Hulsman foi sintetizado em um livro escrito em colaboração com
Jacqueline Bernat de Celis (Peines perdues, Le système pénal em question, Paris, 1982), no qual
evidencia a irracionalidade do poder punitivo e, de certa forma, sua derivação teológica, o
que o vincula ao posicionamento de Szasz em psiquiatria. Cabe precisar que Hulsman era
professor emérito da Universidade de Rotterdam e o líder visível do documento sobre
descriminalização do Conselho de Europa de 1980. No ano de seu falecimento – 2009 –
havia sido indicado como candidato ao Prêmio Nobel da Paz, por ter promovido as primeiras
iniciativas de política de drogas na Holanda.
Quanto a Nils Christie, sua obra mais conhecida em espanhol é Los límites del dolor
(1981), cuja tese central é que, até o presente, o poder punitivo inflige intencionalmente dor,
e por isso ele postula alternativas e não meras limitações. O marco ideológico de Christie é
mais da antropologia cultural. Em sua bibliografía posterior, ele destaca os perigos do
modelo estadunidense das últimas décadas, daí o sugestivo subtítulo de uma de suas obras:
Rumo ao gulag estilo occidental. Talvez o primeiro livro da nova onda abolicionista seja o do
norueguês Thomas Mathiesen, The Politics of Abolition (1974), no qual narra sua experiência
no KRUM ao longo de vários anos. Embora sua obra participe do campo ideológico do
marxismo não institucionalizado, não se submete a ele, forçando os fatos verificados com sua
experiência. Daí que tenha várias contribuições interessantes, que abriram o caminho a
posteriores elaborações.
Consideramos que a maior contribuição de Mathiesen é a caracterização do poder
punitivo como fagocitário em relação a todos os movimentos que o enfrentam, aos quais
procura comprometer e incluir em seu discurso e ação. Daí advertir que estes devam manter
uma estrita posição de confrontação não contaminadora. Nesse sentido, constrói um conceito
que tem plena vigência: o de unfinished, o nunca finalizado. Veremos mais adiante, quando
fizermos referência à cautela, que esta deve operar como um unfinished, ou seja, um
caminho para a contenção do poder punitivo nunca de todo acabado.
Entre todos os personagens humanamente incríveis do novo abolicionismo destacou-se
Ruth Morris, socióloga canadense, de personalidade muito interessante, tanto enquanto
teórica quanto como ativista. Sua obra mais difundida foi Penal Abolition: The Practical Choice
(1995), na qual, entre outros pontos, afirma que a fé no poder punitivo é uma religião.
Acreditamos que essa ideia é muito interessante, tendo em conta que hoje se atribui ao
poder punitivo uma onipotência que não é deste mundo, razão pela qual se converteu em
um verdadeiro ídolo e seu culto, em uma idolatria. Seria bom se aqueles que, a partir das
distintas religiões, o adoram, refletissem acerca da possibilidade de que esse culto não lhes
faça incorrer num gravíssimo erro dogmático. Morris foi membro ativo da Religious Society of
Friends (quakers) e embarcou todo seu grupo no abolicionismo penal.
A pergunta inevitável quando se defende o abolicionismo é o que colocar no lugar do
sistema penal? Os novos abolicionistas propõem soluções de acordo com todos os outros
modelos de solução de conflitos aos quais fizemos referência: reparador, terapêutico,
conciliador etc. Por minha parte, não creio que suas propostas sejam de política criminal, e
sim de política em geral, mas no sentido de uma profunda mudança cultural e civilizatória.
No fundo, a discussão poderia sintetizar-se na questão da possibilidade de eliminação da
vingança, o que nos leva a um tema que, por sua complexidade, trataremos extensamente
mais adiante, e que não é nada simples de resolver.
O abolicionismo teve uma virtude, que compartilha com outras correntes às quais nos
referiremos mais adiante, mas que chega a seu máximo extremo com esses autores e que
consiste em desnaturalizar o poder punitivo.
Na verdade, tal como Berger e Luckmann explicam, há muitas coisas que nos são
tornadas naturais porque subjetivamente coincidimos, compartilhamos a mesma opinião em
relação a coisas que nos parecem que sempre existiram ou que deveriam ter existido. Desde
o bife de chorizo[11] até a pizza com fainá,[12] tudo nos parece natural e não nos
perguntamos porque motivo elas existem: está ali porque tinha que estar ali e pronto. Com o
poder punitivo acontece o mesmo: diz-se que ele sempre existiu, embora, como vimos, isso
não seja certo. Está porque tem que estar.Isso determina que todo aquele que o critica deve
explicar por o que o faz, enquanto que o poder punitivo não precisa explicar nada acerca de
sua existência.
Imagino que o mesmo terá acontecido com a escravidão, com a tortura, com a
monarquia e com tantas outras coisas tão pouco naturais, como a pena de morte, a prisão
ou o próprio poder punitivo. Isso é o que muda com a crítica abolicionista: é o poder punitivo
que deve justificar sua existência e não o inverso. E a verdade é que, quando fazemos isso,
quando tratamos de justificar a existência do poder punitivo, ainda que não sejamos
abolicionistas e tenhamos diferenças para com as soluções e as vejamos como colocações
não criminológicas e sim diretamente civilizatórias, nos encontramos em meio a dificuldades,
e o abolicionismo é uma das principais fontes dessas dificuldades.
Há, por outros caminhos, propostas menos radicais e inclusive críticas do abolicionismo,
visto que não postulam a abolição do sistema penal, e sim sua redução. Trata-se daquilo que
se conhece como minimalismo penal, cujos autores mais conhecidos, ainda que por
diferentes vias, são o inesquecível Alessandro Baratta, o querido Luigi Ferrajoli e a Escola de
Bolonha em geral, com Massimo Pavarini e outros tantos.
Com diferenças, esses autores destacam que o poder punitivo deveria limitar-se a
conflitos muito graves e que comprometem maciçamente bens básicos (como a vida ou o
meio ambiente) e resolver os conflitos de menor magnitude por outros caminhos. É
inquestionável que, embora nossa cultura não admita a decisão não punitiva de alguns
conflitos, isso não acontece nem muito menos com todo o imenso campo abarcado pela
projeção da criminalização secundária.
Não obstante, cabe assinalar que essas propostas de direitos penais mínimos exigem
também uma profunda transformação do poder que hoje caminha em sentido
diametralmente oposto, ainda que, a exemplo do abolicionismo, tenham a virtude de inverter
a questão: uma vez mais é o poder punitivo, como artifício humano, que deve justificar sua
existência e extensão.
Essas posições, que exigem profundas mudanças sociais e civilizatórias, apresentam o
inconveniente de que é muito difícil dar respostas concretas a problemas urgentes, o que
não é funcional em uma região onde a violência do poder punitivo é muito alta ou, ao
menos, constitui uma ameaça constante.
Isso não significa, muito menos, que devamos subestimá-las, porque oferecem
contribuições que nos ajudam a refletir sobre nossa realidade. Pessoalmente, entendo que a
posição de Baratta e toda sua escola minimalista, da mesma forma que o abolicionismo,
tornam inevitável a questão da legitimação do poder punitivo e a pergunta sobre a que se
devia a incapacidade do direito penal para atribuir uma função à pena. Hulsman prova que
o modelo punitivo não resolve os conflitos e, consequentemente, nos impõe a tarefa de
buscar, no campo das ciências sociais, uma explicação para a sua permanência no tempo. O
unfinished de Mathiesen, por sua vez, é uma ideia que pode oferecer um fundamento
consistente para uma criminologia cautelar e para refundar o direito penal liberal a partir de
uma perspectiva mais sólida.
 
Ilustração 19
 
28. Da criminologia crítica passou-se à debandada?
Alguns criminólogos reacionários afirmam que a crítica criminológica fracassou e que ela
não passou de um momento de euforia ou de uma moda superada. É claro que, para isso,
tomam em consideração as versões mais radicais e ingênuas, às vezes fáceis de ridicularizar.
Em seu lugar, eles propõem uma criminologia administrativa que, falando abertamente,
pretende que a palavra da academia se limite a discutir uma técnica eficaz de contenção dos
pobres.
Não nos devemos enganar com os livros bem encadernados e os cursinhos de fim de
semana, próprios de uma criminologia sem história nem passado e que, além do mais,
pretende mostrar-se independente da política.
O certo é que entre os criminólogos mais sérios o viés crítico não desapareceu; pelo
contrário, aprofundou-se, ganhou em realismo e arquivou as ingenuidades. O que é o que foi
chamado de realismo? De onde provém o impulso para superar a crítica com mais crítica?
É muito simples: o que mudou é o quadro do poder planetário. Os criminólogos críticos
dos anos 1970 nos países centrais viam-se às voltas com um poder punitivo próprio dos
Estados do bem-estar e de suas sociedades de consumo, com a sociologia sistêmica de Parsons
e a economia de Keynes.
Para nós, latino-americanos, isso parecia um tanto estranho, porque nossos Estados-
providência, incipientes e nunca completados, criados pelos populismos que ampliaram
nossas bases de cidadania real, haviam sido desbaratados brutalmente ou estavam em vias
de sê-lo.
A crítica criminológica central não correspondia aos nossos sistemas penais, pois no
nosso lado montava-se um poder punitivo que só buscava conter os excluídos. Eram
impostos a nós Estados policiais com ditaduras ou com políticos corruptos pós-modernos. Não
tinha sentido colocar em crise, aqui, a ideia de ressocialização, porque nossas prisões
tendiam a ser, ou já eram, campos de concentração, nossas polícias eram forças de ocupação
territorial, substituídas com frequência por militares, o número de presos à disposição do
Poder Executivo competia com o de presos por ordem judicial e, além do mais, 70 ou 80%
destes últimos estavam presos por via das dúvidas, porque eram processados e não
condenados.
Desde os anos 1970 as coisas mudaram: o Estado policial avançou sobre os países
centrais. Friedman e Hayek foram os novos gurus do festival de mercado; Reagan, Thatcher e
Bush marcaram o caminho para o Estado que tem por função única manter os pobres dentro
dos limites; Roosevelt era pouco menos que um comunista desprezível, Keynes era um
marxista irresponsável, toda gestão e intervenção estatal era ineficiente e corrupta; o
mercado era o único racional no mundo; o Estado devia deixar a máxima liberdade para
permitir a eliminação dos mais débeis.
Herbert Spencer estaria feliz com um mundo como esse e afirmaria que esse mundo não
seria mais do que a confirmação de suas teorias; poderia pedir a Satanás uma revisão
extraordinária de seu julgamento. Há raças inferiores, que somos nós, os habitantes dos
países periféricos, e os imigrantes e excluídos dos países centrais. As raças superiores, que
são os incluídos dos países centrais e seus procónsules designados nos periféricos, devem
defender-se dos inferiores. O Estado deve limitar-se a manter a supremacía das raças
superiores e não privar os inferiores de seu direito à luta que os torne fortes e que permita
que, de vez em quando, algum deles pule a cerca, participando do Big Brother ou abriando
espaço em alguma negociata.
O brutal salto do sistema penal dos Estados Unidos, a exclusão definitiva do
criminalizado e de sua família, a pena desproporcional pela menor infração, de acordo com
a tolerância zero do demagogo municipal de Nova York (que cobrou uma quantia
exorbitante aos ingênuos empresários mexicanos para proferir-lhes uma conferência
absurda), não são mais que um terrorismo de Estado contra os pobres, um modelo
neonazista em marcha. O Estado policial é isso, seu pensamento nu e cru diz para os negros
ficarem em seu lugar, nós mandamos e cortamos a cabeça do negro que incomodar. (A isso
dever-se-ia acrescentar: Os índios do sul devem produzir cocaína e matar-se para não nos
mandar mais do que o necessário para manter o preço alto; nós nos ocupamos de que só nos
chegue a cocaína que podemos distribuir a um preço alto e ficarmos com o maior lucro e o
benefício da reciclagem).
Vocês têm razão se, por acaso, a clareza dessas expressões lhes chamar a atenção, dado
que hoje eles não se manifestam dessa maneira, pois não têm a sinceridade do velho
Spencer, de Garofalo, dos positivistas racistas. Os velhos racistas pelo menos eram sinceros;
autênticos oligarcas, falavam claro, sem subterfúgios, não posavam de democráticos nem de
generosos, eram abertamente elitistas e confessavam isso. Em que mundovivemos que nos
permite encontrar algum motivo para termos saudade dos velhos racistas?
 
Ilustração 20
 
Hoje as coisas são mais complicadas e é mais fácil confundir-se. Agora, quando o Estado
policial chegou como um bumerangue ao próprio centro, tanto no centro como na periferia
há classes médias desclassificadas, desconcertadas, anômicas (no sentido original de
Durkheim), ameaçadas pelos de cima, que lhes cobram fidelidade, e pelos de baixo, aqueles
que consideram seus únicos e mortais inimigos. São pasto fácil para internalizar a
publicidade midiática de um eles inimigo, composto de pobres, imigrantes e adolescentes de
bairros precários.
Todavia, não se trata apenas da classe média empobrecida pela demolição do Estado do
bem-estar. Insistimos em que o mais astuto deste spencerianismo dos dias de hoje é fazer
com que os pobres se matem entre si, que a vitimização avance entre os próprios excluídos,
ao que se acrescenta que a polícia também seleciona entre eles.
A técnica de controle dos excluídos responde à ideia de que os negros se matem entre eles,
assim não incomodam. Essa é a lógica não confessada do racismo de nossos dias. E ela é
eficaz, porque isso permite que inclusive entre os próprios excluídos tenha êxito a
publicidade televisiva que os erige em um eles inimigos da sociedade.
Voltaremos a esse ponto com maiores detalhes, mas não posso deixar de assinalar isso
agora, porque do contrário parece que a criminologia crítica desapareceu, quando na
realidade aconteceu exatamente o contrário: ela se tornou mais realista e profunda,
eclodindo em várias direções.
Os criminólogos se acham agora diante de uma realidade do poder punitivo
completamente diferente da dos anos 1970. Não poderiam continuar criticando um poder
punitivo que já não se exerce da mesma forma. A brutal regressão dos direitos humanos por
obra do avanço do Estado policial – não mais na margem, e sim no próprio centro do poder
planetário – coloca a necessidade de ser mais realistas.
Os criminólogos centrais já não têm tempo para sentar-se à calçada de um café elegante
de Paris a fim de discutir a possível revolução que os faça despertar em uma sociedade
igualitária; hoje eles têm também as urgências que nós tivemos, os ameaçam os mesmos
perigos e seu poder punitivo corre o risco de ir-se assemelhando a cada dia mais ao nosso,
embora em alguns países centrais ainda esteja longe.
Como era de se esperar, os criminólogos centrais se desconcertaram, porque tudo passa
muito rápido, não há sequer mudança geracional marcada, muitas vezes são os mesmos que
ontem defendiam posições radicais os que hoje devem mudar de critério. A brutal virada
repressiva dos Estados policiais instalados ou em vias de instalação representou para eles um
forte murro de realismo que, como todo murro, levou alguns ao nocaute, mas em outros
provocou uma considerável descarga de adrenalina crítica.
A nós isso cai bem, mas não, bem entendido, por nos alegrar com a desgraça alheia.
Ainda que não tenhamos na América Latina o mesmo desenvolvimento teórico da
criminologia central, sempre lidamos com o poder punitivo nu e cru com o qual eles agora
se defrontam e, por conseguinte, os elementos críticos que nos chegam mostram-se muito
mais adequados aos fenômenos de poder que devemos controlar do que os que a crítica ao
poder punitivo do Estado do bem-estar nos fornecia.
Em décadas passadas, quando expúnhamos nossa realidade no centro, não deixava de
haver um certo tom de bom, são países em vias de desenvolvimento. Hoje temos problemas
comuns e, além do mais, a famosa globalização facilita a comunicação.
Vale lembrar que, quando as brutalidades colonialistas aconteciam na África ou na
América do Sul, elas eram atribuídas, no centro, à inferioridade dessas sociedades, mas,
quando o mesmo poder neocolonialista deu a volta e as brutalidades passaram à Europa,
esse discurso não pôde continuar vigindo e a comunidade internacional teve necessidade de
declarar solenemente uma obviedade: todo ser humano é pessoa. O discurso atual não é o
mesmo, claro, mas corre o risco de sê-lo.
A necessidade de aprofundar a realidade do poder punitivo fez com que os olhares se
dirigissem para diferentes direções e se encontrassem com outras que já haviam reparado
nesses fenômenos do poder. Por isso, quando lançamos um olhar sobre a crítica
criminológica de nossos dias, muito longe de acreditar que ela não existe, o que vemos é que
debandou em diferentes sentidos.
Se bem que isso seja, a princípio, desconcertante, é muito saudável, porque o poder
punitivo é um fenômeno muito complexo, que não pode ser encarado com simplificações
que satisfazem o acadêmico porque ficam redondinhas e fecham, mas que não incomodam a
realidade do poder.
Tampouco se trata de uma dissolução, mas antes abrir a cabeça, incorporando outras
visões críticas. Por último, essa saraivada de olhares críticos não é um caos, como a princípio
parece, mas sim, quando olhado bem, é perfeitamente lógico frente à necessidade de encarar
a agressão violenta de um poder punitivo desenfreado e brutal.
Quando, diante dessa necessidade, os criminólogos se perguntaram o que se estava
deixando de lado e por que não haviam se apercebido do perigo antes, seus olhares se
voltaram para quatro direções básicas e que, no fundo, não são excludentes.
(a) Por um lado, ao tratar de explicar o poder punitivo e centrar a atenção em seu
exercício, subestimou-se o dano real que o delito provoca. O delito tem vítimas e a
distribuição da vitimização é tão seletiva quanto a da criminalização. Não por acaso as
classes subalternas são vítimas da publicidade midiática vingativa, pois são as mais
vitimizadas. Por esse caminho do dano real, a crítica se fixa na vitimologia e na Grã-Bretanha
alguns dos próprios críticos marxistas de outrora propõem um realismo de esquerda.
(b) Por outro lado, é claro que a criminologia midiática vingativa, ao construir o eles
inimigo mostrando o delito comum como o único perigo, provoca o que se chama de pânico
moral (conceito que se deve a Stanley Cohen e Jock Young), medo ao delito e a nada mais,
e, por conseguinte, estão sendo ocultados outros perigos e danos em ação, muito mais
graves e em curso.
Inventa-se uma sociedade de risco, na qual o único risco é a agressão do adolescente do
bairro pobre, como se não houvesse outros danos sociais em curso. É algo assim como a
campanha para não usar desodorante em aerosol porque, com isso, vamos evitar que a
camada de ozônio seja furada, enquanto se queimam, irresponsavelmente, bilhões de
toneladas de petróleo.
Isso levou os olhares para mais além da criminologia, isto é, a procurar fazer um saber
do dano social (é o paradigma do dano social proposto por alguns criminólogos ingleses – o
social harm approach), mas também para as contribuições que a crítica social feminista vinha
fazendo e, por último, para algo que se ia colocando em relevo, e que a criminologia havia
deixado de lado de modo pouco menos que inexplicável: o genocídio. O fenômeno dos
massacres foi estudado à margem da criminologia e não pode deixar de impactá-las.
(c) Como é óbvio, o renascimento violento do spencerianismo e seu Estado policial não
podia deixar de ser objeto de análise e crítica, de forma direta, por parte dos criminólogos
centrais que assistiam a esse novo parto letal. Em consequência, surgiu toda uma corrente
que se ocupa de analisar e criticar a manifestação repressiva deste Estado policial e que a
batizou de neopunitivismo.
(d) Por último, todo o panorama mundial contemporâneo configura uma paisagem de
enorme agressividade, que provoca interrogações que se situam além da sociologia e da
ciência política e cujas respostas levam a mergulhar em outras palavras da academia, como
são as das disciplinas psi, da antropologia e da etnologia. Como podemos ver, a debandada
não é anárquica, mas sim responde a atitudes que eram de se esperar, porque são bastante
razoáveis, dadas as novas circunstâncias do poder planetário.
Esse mero enunciado prova que nada é mais falso do que afirmarque a crítica
desapareceu, quando está claro que ela só se diversificou para se aprofundar, o que é muito
mais adequado à urgência para se chegar a uma melhor abordagem do fenômeno de poder
repressivo. Os criminólogos se perguntam, pura e simplesmente:
Por que a criminologia midiática se instala entre os pobres? Porque há um dano real do
delito, do qual nos ocupamos pouco. Pois bem, vamos estudar as vítimas.
O que a criminologia midiática se empenha em ocultar do público com o pânico moral à
agressão do adolescente de bairro precário? Pois bem, vamos estudar os danos sociais que não
são mostrados.
O que é este neopunitivismo brutal? É claro que se trata de uma questão exclusivamente
política; pois bem, é mister analisá-la e estudá-la.
A que se deve essa agressividade intraespecífica, que se coloca manifestamente nesse
momento do poder? Vamos perguntar a outros sábios.
Como se pode ver, a academia não ficou louca nem renunciou à crítica, e sim vai mais
longe.
Passemos a lançar uma vista d’olhos sobre o panorama que cada uma dessas quatro
perspectivas oferece, ainda que brevemente, pois, na realidade, essas contribuições da
criminologia acadêmica atual nos preparam para compreender o sentido da criminologia
midiática e para escutar melhor a palavra dos mortos, razão pela qual voltaremos, no curso
desses suplementos, a insistir muitas vezes nos aspectos de seu conteúdo que nos permitem
nos aproximar da realidade da questão criminal.
Não acreditem que seja uma descoberta integralmente pessoal o que vou expor nos
próximos suplementos e que, depois de ouvir atentamente a palavra dos mortos, termina
numa proposta de criminologia cautelar. Ela é, em boa parte, o produto da aplicação dos
instrumentos conceituais que essa aparente saraivada das perguntas contemporâneas nos
proporciona.
Em alguma medida, o que exponho aqui resulta do uso sintético desses elementos e de
uma atenta observação da realidade cotidiana.
29. O dano real do delito: realismo de esquerda e
vitimologia
Em 1973, Jock Young era um dos autores da nova criminologia que ensaiava uma
recolocação radical a partir da perspectiva marxista. No começo dos anos 1990 ele
surprendeu, juntamente com John Lea, Richard Kinsey e Roger Matthews, adotando um
posicionamento que chamaram de realismo de esquerda e cujo lema é levar o delito a sério,
partindo da constatação de que causa graves danos a vítimas das classes populares urbanas,
em especial às mulheres, que são as mais vulneráveis.
Embora essa volta seja atribuída políticamente a uma aproximação do trabalhismo
britânico, nós acreditamos que seja antes o resultado de uma aproximação da realidade da
vitimização.
As teorias macro têm o inconveniente óbvio de satisfazer explicações acadêmicas
enquadradas em marcos ideológicos prévios, mas não oferecem nenhuma resposta para as
vítimas concretas e seus parentes e para as reclamações que estes e os vizinhos formulam
aos políticos.
Creio que o contato mais elementar de um criminólogo acadêmico com esta realidade
não pode deixar de colocar em evidência a necessidade urgente de fazer algo e de dar uma
resposta, a não ser que prefira que os impulsos de vingança, a criminologia midiática e os
políticos colocados de lado marchem cada vez mais na direção do modelo do Estado policial
e da repressivização neofascista dirigida em fim de contas contra os excluídos.
É bastante claro que as colocações puras da criminologia crítica radical, elaboradas a
partir da academia sem contato com as vivências cotidianas e sem investigação de campo,
são úteis como marco de crítica, mas que, ao recair nesse nível, aplainam o caminho para
uma suposta criminologia administrativa, que é a típica do Estado policial, contando com a
aprovação, quando não com o decidido apoio, dos próprios setores contra os quais esse
modelo de Estado políticamente se dirige.
Acredito piamente que essa verificação, do senso comum, foi determinante para o
chamado realismo de esquerda britânico que vem propondo reformas ao sistema penal e
assistencial de seu país, algumas interessantes, ainda que nem todas transferíveis à realidade
da nossa latitude.
Entre as propostas concretas desses criminólogos, as mais interessantes são as que se
referem à polícia, colocando a alternativa entre um modelo de polícia militar (que nós
chamamos aqui de ocupação territorial) e outro de polícia de consenso (que nós chamamos
comunitária).
Voltaremos a esse ponto quando nos ocuparmos dos segmentos do sistema penal, com a
advertência, que formulamos desde agora, de que não se pode confundir uma polícia
comunitária com uma ditadura ética, com a intervenção de pessoas que não tenham nada a
fazer senão incomodar os jovens.
Ao centrar a atenção no dano real do delito não se pode deixar de reparar na
vitimologia, que não é uma ciência nem um saber autônomo, mas uma linha de investigação
que teve como antecedente a obra de Hans von Hentig (que foi um criminólogo alemão
antinazista e muito criativo) e da qual considera-se fundador o criminólogo romeno radicado
em Israel, Benjamin Mendelsohn.
Inicialmente, a vitimologia se dedicava às vítimas de delitos comuns, em especial a seu
comportamento como determinante ou facilitador destes delitos, mas hoje ampliou seu
campo de observação até chegar quase a abranger tudo o que levam em consideração
aqueles que pretendem ir mais além da criminologia e ocupar-se de todo o dano social. Um
dos mais destacados teóricos da vitimologia em nosso tempo foi o sempre lembrado Antonio
Beristain, que elaborou o conceito de macrovítimas, em referência aos conflitos armados ou
ao que se denomina “terrorismo”. Na Argentina, esta perspectiva foi amplamente
desenvolvida por Elías Neuman, lamentavelmente falecido em 2012.
30. Os danos que a criminologia midiática oculta
O feminismo é um forte movimento teórico e ativista com desenvolvimento autônomo e
em cujo seio se movem desde posições radicais, inspiradas em marcos ideológicos
preexistentes, até toda a gama de possíveis matizes em torno do inegável fenômeno
civilizatório da subordinação da mulher.
No fundo do debate feminista, acreditamos encontrar o fundado temor de que seu
potencial transformador, que é enorme, possa ser neutralizado por um pensamento
falocêntrico ou, como dizem no bairro, machista, suscetível de cooptá-lo.
Porém, indo além dos extremos a que esse temor pode conduzir, o certo é que o
feminismo comove as próprias bases do poder planetário, tendo em conta, como vimos, que
este se preparou hierarquizando as sociedades colonizadoras mediante a regulação das
relações sexuais para erigir a seus primeiros sargentos na pirâmide do exército colonialista.
O temor das feministas não é outra coisa senão um capítulo importantíssimo das
armadilhas que todas as racionalizações do poder e todas suas naturalizações nos estendem.
O feminismo trouxe dois conceitos – o de patriarcado e o de gênero – que hoje são de
uso corrente e sem os quais nos faltariam letras-chaves no abecedário que usamos para
descrever a hierarquização naturalizada que o poder planetário nos vende.
Entende-se por patriarcado, para afirmar claramente, o domínio machista e todas suas
implicações. O gênero revela a principal armadilha do patriarcado: a confusão de sexo com a
o papel atribuído. O sexo é algo anatômico, mas o gênero não tem nada a ver com a
anatomia. A mulher tecendo, cozinhando,esperando o marido, cosendo, não tem nada de
sexual, tratando-se, antes, de um conjunto de papéis culturalmente atribuídos pelo poder
patriarcal. Isso é o gênero.
Chamou sempre a atenção que o sistema penal se ocupasse quase exclusivamente dos
homens, mas isso não tem nada de estranho: no exército da sociedade hierarquizada, os
sargentos controlam a mulher e os sargentos são controlados pelo poder punitivo, que só se
ocupa das mulheres quando elas se rebelam contra os sargentos. Este é o programa original
que provém da Idade Média e que, com matizes, se mantém em vigor.
Por conseguinte, a criminologia guardou bastante silêncio acerca da mulher, salvo alguns
disparatespositivistas, como o do equivalente de Lombroso ou o estereótipo da mulher
envenenadora.
Todavia, deixando de lado os disparates e também as discussões estadunidenses
tentando explicar o maior protagonismo da mulher, o feminismo impôs correções à crítica
criminológica ao destacar que se a mulher tinha menor incidência na criminalização, o
mesmo não sucedia na vitimização. Isso tem lugar não apenas na delinquência de rua, mas
também nas vitimizações que são consequência direta da discriminação de gênero, desde a
violência familiar homicida até o tráfico de pessoas (antes se chamava de brancas, curioso
vício racista da escravidão).
Não houve uma crítica criminológica gay tão desenvolvida como a feminista, embora já
há muitos anos o britânico Gordon Taylor tenha observado que em toda sociedade ocorre
uma relação inversa entre o patriarcalismo e a tolerância à homossexualidade.
De qualquer maneira, existem estudos importantes (como o de John Boswell), muitas
ridiculizações dos disparates positivistas (Jorge Salessi, na Argentina), relatos da perseguição
nazista (a rosa Winkel [13]), do processo de Oscar Wilde (o de Gide, por exemplo),
numerosas contribuições literárias (Jean Genet à frente) e, é inegável, o peso da questão gay
na crítica de Michel Foucault.
Se bem que a vitimologia tenha colocado em relevo danos que não se tinham levado
suficientemente em conta, o feminismo chamou a atenção sobre a metade da população
esquecida pela criminologia, e se bem que nossos vizinhos tenham colocado os teóricos
ingleses na terra, o panorama das vítimas do poder mundial não estava de modo algum
completo. Stanley Cohen chamou a atenção para isso, o que chama de sociologia da
negação, que nos condiciona uma indiferença moral, em seu livro, de 2001, Estados de
negação.
Na obra, Cohen não se refere ao grosseiro negacionismo neonazista da Shoá e similares,
e sim, para exemplificá-lo claramente, àquilo que protagonizamos enquanto olhamos, pela
TV, o noticiário que nos mostra massacres e continuamos molhando os pãezinhos no café
com leite.
Seguindo este caminho, um grupo de ingleses (Paddy Hillyard, Christina Pantazis, Steve
Tomb e David Gordon) organizou um livro, em 2004, que propõe ir além da criminologia
(assim se chama seu livro, com o subtítulo Levando o dano a sério) e abranger todos os danos
sociais do poder: pobreza em massa, fome, violações em massa dos direitos humanos,
massacres estatais, mortes causadas por condições de trabalho, por privilégio da
heterossexualidade, por preferências nos nascimentos, por guerra aos migrantes, por maus
tratos infantis, por poluição, por envenenamento de alimentos etc.
É indiscutível que o livro passa em revista dados aterradores, como aquele que lembra
que, embora em 11 de setembro de 2001 tenham morrido 3.045 pessoas em Nova York,
nesse mesmo dia também morreram no mundo 24.000 pessoas de fome, 6.200 crianças de
diarreia e 2.700 de sarampo.
É claro que nos acostumaram a considerar que o crime de Nova York era evitável e as
outras mortes eram inevitáveis, mas isso não é correto. Segundo os cálculos da ONU, seriam
necessários 13 bilhões de dólares para resolver a fome e 40 bilhões para atender às
necessidades básicas no mundo (esta última cifra representa a metade do consumo de pizza
nos Estados Unidos). Embora o cálculo da ONU fosse otimista e as cifras subissem ao dobro,
o óbvio é que essas carências não são naturais nem inevitáveis, com o argumento de que
sempre houve miséria.
De qualquer maneira, se enfrentasse todos esses danos, a criminologia se perderia em
um enorme campo tudológico de conhecimentos inabarcáveis. Todas essas mortes são
resultado de violações aos direitos humanos e estes, como campo de estudo jurídico, devem
ser sustentados por dados reais para os quais contribuem todos os conhecimentos humanos,
o que, por definição, não pode ter unidade. Trata-se de conhecimentos que os estudiosos de
direitos humanos devem requerer a todas as ciências naturais e sociais, a todo o saber
humano. Um saber que pretenda abranger tudo isso se perderia ou resultaria diretamente
diletante.
Há, porém, um campo que indubitavelmente pertence à criminologia e sobre o qual
houve um singular silêncio, que é o do homicídio doloso, intencional. A criminologia
acadêmica deteve-se nos homicídios seriais sensacionais e em todos os cometidos por
iniciativa privada, mas nunca nos públicos ou estatais, isto é, nos genocídios e massacres, nos
crimes de massa cometidos pela ação de agências estatais.
Estranha omissão, por certo! Se quisermos levar a sério os danos sociais, não podemos
ignorar esses crimes e, além do mais, tampouco podemos negar que seu estudo corresponde
à criminologia. A criminologia dos últimos anos está chamando a atenção sobre isso, embora
ainda sem suficiente penetração e a contragosto por parte de boa parte dos criminólogos
acadêmicos. Isso, porém, é tão importante, que merece um capítulo especial.
 
Ilustração 21
 
31. Os homicídios estatais ou crimes de massa
A criminologia acadêmica guardou um silêncio significativo acerca dos assassinatos
estatais em massa, interrompidos apenas por algum artigo isolado, como o de Leo
Alexander, em 1948, ou o livro de Sheldon Glueck, de 1944, sobre crimes de guerra. Nos
últimos anos, os trabalhos são mais frequentes: Alex Alvarez (1999), William Laufer (1999),
Georges S. Yacoubian (2000), Andrew Woolford (2006) e em especial Wayne Morrison,
professor neozelandês radicado em Londres, que, em 2006, publicou um livro intitulado
Criminologia, civilização e a nova ordem mundial. Por ser este último o mais extenso e
analítico, o tomamos como referência.
Morrison recorda que Hobbes separava o espaço civilizado do não civilizado (de guerra
de todos contra todos), cuja presença constituía uma ameaça, e afirma que esta linha
hobbesiana se quebrou quando o mundo incivilizado irrompeu no coração do civilizado, em
11 de setembro de 2001, destruindo o símbolo desse mundo funcional e utilitarista da
globalização.
O World Trade Center era o templo máximo da tecnologia e da segurança e sua queda
converteu, de repente, o espaço civilizado em espaço de Terceiro Mundo. Precipitadamente,
os residentes do espaço civilizado tomaram consciência do mundo externo, o que foi muito
impactante para os Estados Unidos, que haviam sido muito afortunados em seu próprio
território.
A partir do 11 de setembro, a administração Bush reforçou sua discutível origem e
escasso prestígio com um discurso que confundia guerra com o crime para tornar porosa a
fronteira entre o controle interno e o externo, apagando os limites hobbesianos.
Bush agitou o nacionalismo, tomou da tolerância zero a ideia de prevenção e a levou à
guerra, e manipulou a tecnologia da comunicação para declarar a guerra ao Iraque, baseado
numa mentira. Moveu-se, porém, de acordo com regras diferentes, pois as válidas para os
outros civilizados não foram as que aplicou aos incivilizados, ou seja, da luta na selva, o que
não passa de mais outra faceta da doutrina da segurança nacional e da guerra suja.
Morrison afirma que o presente se caracteriza por uma volta da emocionalidade, um novo
popularismo, politização, um sentido de crise, um sentido de normalidade das altas taxas de
criminalidade, uma nova relação do crime com os meios de comunicação de massa, uma perda
de confiança na eficiência do Estado de bem-estar.
Ele reconhece que a criminologia é o produto de um setor do planeta cujos Estados
foram construídos sobre a violência e o genocídio, e recorre a Bauman: o triunfo de umas
poucas etnias sobre outras levou à destruição dos vencidos e a história foi escrita pelos
vencedores, mostrando sua civilização como um caminho de progresso para a pacificação
da vida cotidiana.
Por outra parte, destaca que as cifras de criminalidade registrada, reportadas nos países
onde houve genocídios, não incluem as centenas de milhares e às vezes milhões de mortos
por esse crime. Para a estatística criminal só contam os homicídios normais. Com toda razão,
Morrison assinala que existe uma estatísticacriminal que registra sob a forma de apartheid
criminológico.
A criminologia só recolhe dados domésticos e condicionados pelo poder dos Estados-
nação, constituídos por meio da violência e que dominam outros de igual modo.
Consequentemente, a criminologia é um discurso muito parcial, construído em torno de um
mundo de fatos políticamente delimitado.
 
 
Para começar, Morrison apresenta uma tabela impressionante de crimes de massa,
cometidos desde 1885 até 1994, reconhecidos e não reconhecidos, da qual nos ocuparemos
mais adiante. Perante esses milhões de cadáveres que a criminologia não leva em conta em
suas estatísticas, ele formula as seguintes interrogações, que ficam em aberto: Podemos
globalizar a estatística criminal? Se parte do objeto da análise estatística de Quetelet era medir a
taxa normal de crime em uma sociedade e assim determinar o risco, como se pode criar uma
imagem estatística de uma sociedade mundial de risco? Voltaremos mais adiante a essa
possibilidade.
Ele passa em revista toda a criminologia neocolonialista e os crimes legitimados (Congo,
Namíbia, Benin etc.). Destaca que a criminologia não deu atenção nem a Nurenberg nem a
Tóquio, por considerá-los crimes de guerra, violatórios das regras que as próprias potências
colonialistas não respeitavam em suas colônias. Mas se Hitler os houvesse cometido somente
dentro das fronteiras alemãs, os campos de concentração teriam ficado impunes? Assegura
que houve ambiguidade no julgamento, que a vítima era a humanidade, mas que o fato de as
vítimas concretas terem sido judeus, ciganos e gays não deixou de pesar.
Morrison afirma que a criminologia considerou que os grandes crimes do século passado
são exceções das quais a criminologia – como ciência de operações normais de controle, levadas
a cabo pelo Estado – não necessita se ocupar. No caso do Holocausto, a imagem dos campos de
concentração reafirma essa distância, assegurando que se trata de lugares verdadeiramente
excepcionais, que jamais voltarão a existir.
Ele nega terminantemente a explicação do caminho especial – o Sonderweg – do nazismo
e da patologização da Shoá, uma vez que as pessoas que participaram ativamente nesses
crimes eram normais e muitos deles retomaram a vida cotidiana sem dificuldades.
Compara as execuções exemplificadoras – como a de Tupac Amaru, esquartejado
publicamente – que tinham por objetivo a reafirmação da verticalidade do poder (Olhem o
que vamos fazer a vocês se resistirem) com a secreta fabricação de cadáveres nos campos de
extermínio, como dois objetivos completamente diferentes.
No momento em que escrevia, afirma que há um jogo de espelhos entre Bush e Bin
Laden, pois sem Bin Laden, Bush não teria obtido poderes extraordinários nem teria podido
ganhar as eleições.
Morrison observa que, quando se atribui ao terrorismo o status de ato de guerra, ele fica
excluído das garantias penais. Ao mesmo tempo, como não são combatentes regulares, os
terroristas ficam excluídos da Convenção de Genebra, permanecendo à disposição das
ordens do mais poderoso, que é quem resolve na situação de exceção. Para ele, essa
característica é o equivalente atual da lei marcial nos regímes coloniais e do Fuhrerprinzip no
nazismo.
Ainda que não o afirme, é claro que esta é a tese central da definição do político de Carl
Schmitt e a constatação de que se tenta uma trágica planetarização da chamada doutrina da
segurança nacional dos anos 1970 sul-americanos. Esse caminho teórico é um dos que, desde
a periferia, devemos reelaborar e aprofundar, porque nos toca muito diretamente; além do
mais, é a partir daí que podemos detectar mais facilmente o papel central e protagonista do
poder punitivo.
32. O neopunitivismo
Nos Estados Unidos, as características do Estado mudaram totalmente desde o
estabelecimento do que se denomina New Punitiveness (neopunitivismo).
Insisto nas características do novo rosto do sistema penal estadunidense. Um em cada
três homens negros entre 20 e 29 anos encontra-se criminalizado, um estadunidense em cada
cem está na prisão, outros três estão submetidos à vigilância com probation [liberdade
condicional] ou parole [liberdade vigiada], os condenados por qualquer delito são alvo de
muitas inabilitações por toda a vida para votar, difunde-se o three strikes and you’re out [14]
(ou seja, uma pena de confinamento perpétuo para aqueles que são simplesmente
incômodos), a familia do condenado é expulsa das convivências sociais, são cancelados
todos os benefícios sociais, os trabalhos forçados foram restabelecidos, e foram executadas
cerca de 1.300 penas de morte desde o final da moratória dos 1970 (incluindo doentes
mentais e menores), os governadores fazem campanhas para reeleição rodeados de retratos
dos executados que não tiveram a pena comutada, são feitas condenações sem que se vá a
julgamento, mediante extorsão as testemunhas são compradas impunemente, são praticados
os métodos mais imorais de investigação, instiga-se a denúncia dentro da família, o pós-
moderno recupera todas as características do pré-moderno inquisitorial.
O nazismo penal renasceu nos Estados Unidos e é oferecido como modelo mundial.
Disso se ocupam muitos criminólogos, mas como não posso mencionar todos eles, nos
ocuparemos dos três mais conhecidos: David Garland, Loïc Wacquant e Jonathan Simon.
Garland formou-se em Edimburgo, mas ensina em Nova York. Publicou várias obras, mas
a que mais nos interessa é A cultura do controle[15], de 2001.
Ele afirma que na sociedade pós-moderna reina uma espécie de esquizofrenia, que dá
lugar, por um lado, a uma criminologia da vida cotidiana, que apela a todos os recursos
preventivos mecânicos, eletrônicos etc., e, por outro, a uma criminologia do outro, que
ressuscita, definitivamente, as versões mais tenebrosas do velho positivismo.
A criminologia da vida cotidiana incorpora o delito como risco normal e nos enche de
engenhos humanos preventivos, ou seja, a prevenção do delito não depende de valores
morais, e sim de impedimentos físicos que retiram a oportunidade. Nesse sentido, contrasta
com a tradição conservadora que entende que a prevenção depende dos valores morais e do
respeito à autoridade.
Por outro lado, aparece a criminologia do outro, baseada na vingança, que se expressa
como exclusão, defesa social, neutralização do sujeito perigoso, ou seja, lança mão do
discurso do velho positivismo, mas em um sentido bem vingativo.
A contradição é clara: o delito não pode ser tão normal como a chuva e, ao mesmo
tempo, não pode ser dramatizado ao máximo, usando vocabulário militar ou de guerra e
apresentando o infrator como um sujeito irredutivelmente mau, que deve ser aniquilado.
Wacquant é francês, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley) e pesquisador
do Centro de Sociologia de Paris. Também publicou várias obras a respeito nos últimos dez
anos.
Para Wacquant, a tensão assinalada por Garland responde a um sistema pós-fordista que
precariza o trabalho, aprofunda as discriminações e segregações de classe e raciais, relega os
setores mais golpeados pela política chamada de neoliberal aos bairros mais pobres,
marginais e distantes, e monta um aparato punitivo de contenção que configura aquilo que
ele denomina de Estado penal.
Afirma também que este Estado penal dá continuidade ao racismo do apartheid, o qual,
segundo ele, jamais desapareceu das práticas burocráticas estadunidenses, razão pela qual o
considera também um Estado racial.
Na realidade, é revelador que em 1989, pela primeira vez na história dos Estados Unidos,
a população penitenciária negra se tenha tornado majoritária nas prisões. Para Wacquant,
isso provoca a política de expulsão do mercado laboral, que torna economicamente
desnecessária ou subempregada e mal paga a uma parte da população, que suporta o
trabalho como uma obrigação cidadã, sendo funcional manter essa posição subordinada à
criminalização da pobreza, empreendida claramente a partir dos anos oitenta do século
passado.
Além do mais, a precarização do trabalho fez desaparecer a solidariedadedo gueto, que
foi substituída por um supergueto sem sentimento comunitário, o que provoca a vitimização
dos pobres (os da favela roubam na favela).
É claro que Wacquant sustenta uma interpretação estrutural do fenômeno, diante da
interpretação cultural de Garland. O certo é que Wacquant detém-se pouco nas mudanças
políticas gerais e no próprio sistema penal que foram preparando o terreno para a virada
autoritária, ou seja, não repara na transformação institucional que se produziu nas últimas
três décadas e que, sem dúvida, incidiu na virada repressiva do poder punitivo
estadunidense.
Jonathan Simon é professor em Berkeley. Em 2007, publicou Governing through
Crime[16], How the War on Crime Transformed American Democracy, em que leva a cabo uma
interessante investigação que, no meu entender, não se opõe à tese culturalista de Garland
nem à estrutural de Wacquant, mas sim as complementa, analisando em profundidade como
se foi gestando a tremenda transformação institucional e social que desembocou no
autoritarismo penal atual. Ele atribui essa explosão repressiva à lenta, mas incessante,
deslegitimação do Estado de bem-estar, fixando seu início na agressiva campanha do
conservador Barry Goldwater em 1964, baseada quase completamente na palavra de ordem
da lei e ordem. A ela se seguiram as guerras contra a droga de Nixon, Reagan e Bush pai,
para culminar com a guerra ao terrorismo de seu inolvidável filho, depois do 11 de setembro
de 2001.
Para Simon, tudo isso configura uma governance – ou seja, uma técnica de governo – que
se caracteriza como um governo referenciado pelo crime, completamente oposto à tradição
liberal.
A chave de sua interpretação está no fato de que quando se governa tendo o crime como
referência, o modelo punitivo – e vingativo – torna-se uma técnica geral de governo, ou seja,
estende-se a todas as formas sociais: vai desde o Estado nacional até a escola, invade o
âmbito privado e as relações familiares, ameaça a democracia em todas as suas instituições.
Simon adverte, acima de tudo, sobre a ameaça à democracia que a vítima-herói pode
representar: A democracia estadunidense está ameaçada pelo surgimento da vítima do delito
como modelo dominante do cidadão, como representante da gente comum, cujas necessidades e
capacidades definem a missão do governo representativo.
Segundo Simon, o Safe Streets Act de 1968, de Lyndon Johnson, marcou uma mudança
fundamental, pois fez a passagem do modelo do trabalhador manual como representante do
cidadão comum no imaginário coletivo para o da vítima, determinando o começo do governo
mediante o crime.
O processo se acelerou porque, desde Reagan até Bush, todos os presidentes tinham
sido antes governador de estado (exceto Bush pai, que vinha da CIA, o que não alterava a
tônica), e levaram para o governo federal a modalidade vingativa da política provinciana, na
qual os promotores são eleitos por voto popular e adquiriram a prática de fabricar vítimas-
heróis como modo de dar o salto às governances, com base em campanhas vingativas.
Essas campanhas estigmatizaram os juízes como inimigos, aliados ou encobridores dos
criminosos e responsáveis pela insegurança frente ao crime, o que motivou as reformas
legislativas que impuseram penas fixas ou reduziram a possibilidade de avaliação judicial
(são reações políticas frente aos juízes garantistas).
Os políticos – que, ao legitimar o desmantelamento do Estado de bem-estar, violam os
direitos de toda a população – têm a oportunidade de se firmar, mostrando sua
despreocupação com a segurança mediante leis mais autoritárias, atendendo ao clamor
público do que as vítimas-heróis são sua vanguarda (caso Blumberg), enquanto o modelo
punitivo vai se estendendo a todas as instituições e formas sociais, públicas e privadas.
Trata-se, em essência, de uma maneira de governar mediante a administração dos
medos. O próprio Simon recorda que nos tempos de Nixon o medo dominante era do
câncer, o que foi evoluindo até chegar ao medo do terrorismo.
A análise de Simon é muito mais pormenorizada que as de Garland e Wacquant, embora
não se oponha necessariamente a estes, pois tanto a dimensão cultural quanto a estrutural
podem encaixar-se em sua interpretação como um complemento.
Não obstante, cremos que Simon não percebe a dimensão total da virada autoritária,
pois não enfoca a questão com uma visão histórica mais ampla. Governar mediante o medo
importa a fabricação de inimigos e a consequente neutralização de qualquer obstáculo ao
poder punitivo ilimitado, supostamente usado para destruir o inimigo, ainda que todos
saibamos que é materialmente utilizado para aquilo que o poder quiser. No fundo, o
fenômeno é sempre uma enorme enganação para distrair a atenção sobre outros riscos e
obter o consenso para exercer um poder policial sem controle.
Este poder punitivo sem controle foi sempre usado para verticalizar e hierarquizar as
sociedades, como manifestamos reiteradamente, ou seja, para dotá-las de estrutura
colonizadora. Por conseguinte, é natural que esta técnica, ou governance, tenha penetrado
como uma torrente em todas as instituições sociais. A Inquisição precisou reforçar o
patriarcado para assegurar a base da sociedade exércitoforme que em seguida foi lançada
sobre a América e a África. Toda inquisição tende a hierarquizar e a produzir
homogeneidade e conformismo; o ideal político de todo inquisidor é a colmeia de abelhas ou
o formigueiro.
O que Simon faz é descrever muito bem o processo atual em detalhe e em sua
genealogia, mas o certo é que, quanto ao estrutural, não há diferenças dessa natureza com
outros momentos inquisitoriais. Trata-se do prolegômeno ou de uma tentativa em marcha de
impor um Leviatã planetário? Ou antes, obedece à necessidade de reforçar um poder
debilitado ou declinante? Essa é a pergunta que não se formula, mas que deve nos
preocupar, no nosso canto.
De qualquer forma, Simon bate na tecla certa: a chave é governar valendo-se da
centralização do medo em um objeto. Nesse sentido, sua contribuição, ao descrever como e
por que isso é feito na atualidade nos Estados Unidos, é fundamental para nós, porque a
partir daí se globaliza ou planetariza essa técnica de governo. Investigações análogas à de
Simon fazem falta em nossos países.
33. Outras palavras: as ciências psi
Quando a criminologia crítica proveniente do interacionismo e da fenomenologia
colocou em evidência as características estruturais do poder punitivo, a criminologia
etiológica do canto da Faculdade de Direito acabou de se derreter e com isto a chamada
clínica criminológica – ou seja, o estudo da pessoa criminalizada pelos especialistas –
perdeu prestígio.
Essa desconfiança não era gratuita, dados os antecedentes do primeiro encontro dessas
disciplinas com a criminologia no marco da criminologia racista, mas também porque sua
etiologia e sua prática institucional não levavam em conta o efeito deteriorador e
estigmatizador da própria criminalização.
Era um pouco difícil exigir do psi institucional que deixasse evidente o papel
determinante cumprido na etiologia pela intervenção da própria instituição da qual ele faz
parte. Supomos que um operador psi que informasse que a polícia, os juízes e os
penitenciários estavam condicionando uma carreira criminal, pelo menos em nosso meio, o
teriam jogado na rua por via rápida.
Foi devido a isso e aos tristes antecedentes históricos que os criminólogos críticos em
geral reagiram alergicamente frente às propostas de intervenções psi em seu campo e se
inclinaram por cortar todos os vínculos com esses saberes. Isso não passa de uma reação
emocional, nunca boa conselheira da ciência, produto de uma confusão de níveis. Em
princípio, os saberes psi de hoje não são os do positivismo. Entre os cultores dessas ciências
há tantos sujeitos de alta periculosidade quanto em todas as outras, mas por sorte não são
dominantes.
É verdade que não faltam aqueles que pretendem reconstruir o criminoso nato com base
nas neurociências, voltando a extrair consequências apressadas de novos conhecimentosmédicos e biológicos, como outrora aconteceu com o evolucionismo, com as localizações
cerebrais ou com a endocrinologia. Também é certo que alguns pretendem resolver qualquer
coisa repartindo alegremente o jaleco químico com toda a população, ao mesmo tempo em
que se escandalizam porque alguém fuma maconha. Porém, em todos os saberes, assistimos
a saídas de tom que, sem prejuízo de sua periculosidade, são passageiros.
A antipsiquiatria deixou uma marca que foi além de seus exageros pontuais, a
psicanálise fez a sua parte, a antropologia de Franz Boas não passou sem deixar de impactar
o campo psi, a desnaturalização das preferências sexuais minoritárias é um fato etc. Em
síntese: está muito claro que o psi não se nutre hoje de ideologias racistas nem totalitárias.
A psicanálise impactou no começo a criminologia etiológica do canto com uma
montanha de trabalhos, alguns dos quais só extraíam sua profundidade do que seus autores
haviam lido em Freud no metrô. Nos anos 1930, fez furor O delinquente e seus juízes do ponto
de vista psicanalítico, de Franz Alexander (psicólogo) e Hugo Staub (jurista), do qual quase
todos os outros escritos foram tributários (alguns o plagiaram).
Não era, porém, tarefa dos psicólogos colocar em evidência as características estruturais
do poder punitivo, e sim dos sociólogos. Seria injusto atribuir-lhes uma responsabilidade que
não lhes dizia respeito. O certo é que tampouco é verdade que tentaram reconstruir um
criminoso nato por via psicológica, pelo menos no que diz respeito a seus expoentes mais
destacados.
Não nego que, às vezes, se geram confusões provenientes de alguns leitores apressados
do próprio campo psi, como quando alguém – que também viu as capas do código penal no
metrô – confunde lei do pai de Freud ou a ideia do nome do pai de Lacan com o código
penal, sem dar-se conta de que esses conceitos não se fixam por maioria parlamentar.
Felizmente, porém, nem Freud nem Lacan pensaram nisso (nem Melanie Klein se olhava
no espelho para ver se tinha dois seios muito diferentes). Tampouco Lacan pensou que as
prisões deviam encher-se de loucos. Esta gente escreveu textos inteligentes, que não podem
ser lidos como se lê a revista Hola.[17]
Esse desencontro não é mais do que o resultado do desconhecimento dos respectivos
planos de análise e observação: o sociólogo observa a partir do grupal e o psicólogo a partir do
sujeito concreto. Por isso, os conhecimentos do sociólogo são particularmente úteis para
formular políticas, mas nada nos diz sobre o que fazer com o sujeito concreto, do qual a
criminologia não pode ignorar que lhe diz respeito.
Quando nos deparamos com um fenômeno que é necessário controlar, como pode ser o
uso de um veneno do tipo do chamado “paco”, o sociólogo pode nos informar acerca das
medidas grupais (planos de assistência para reduzir o tráfico de subsistência, programas de
fomento da escolaridade e de geração de projetos de vida positivos, modos de instruir os
operadores, medidas que eliminem ou reduzam a estigmatização do usuário etc.). No
entanto, nada nos pode dizer sobre o que fazer com o sujeito concreto (com o pequeno
usuário, a quem é preciso tratar para evitar que morra ou se machuque de forma
irreversível). E isso é válido para qualquer outro problema.
A criminologia crítica bem entendida, em lugar de limitar o campo psi em sua matéria, o
amplia. O etiquetamento não é algo que opera de forma mecânica nem afeta a todos por
igual, pois o ser humano não é uma marionete. Há pessoas que assumem a etiqueta do
estereótipo e outras que não o fazem. É óbvio, pois, que existe um grau de fragilidade que
condiciona uma vulnerabilidade ao etiquetamento. Esta é questão que faz o sujeito concreto e
nesse terreno são as disciplinas psi que devem nos informar.
Se a intervenção do poder punitivo tem efeito deteriorador e estigmatizante e se há
pessoas que sofrem esses efeitos muito mais que outras, é o campo psi que nos pode
informar sobre a que corresponde a maior vulnerabilidade em cada um e, o que é mais
importante, como abordá-la no sujeito concreto.
Nesse último sentido, não devemos omitir a inspiração que Viktor Frankl pode
proporcionar. Depois de sobreviver a um campo de concentração, ele fez de toda essa
experiência uma teorização (que chamou de logoterapia) com base existencial, que sintetiza
em um livro intitulado Um psicólogo sobrevive ao campo de concentração.
Se é impossível ocultar que o delito e o poder punitivo produzem vítimas – ou seja,
exercem violências que afetam muitas pessoas – e que a criminologia sociológica traga
informação para políticas redutoras dos danos, não é menos certo que, frente aos sujeitos
concretos afetados, são as disciplinas psi que podem indicar como atuar. Só o especialista psi
pode nos dizer como tratar quem sobrevive a um atentado criminoso ou quem passa pela
tortura.
Ademais, uma vez que incorpora a seu campo o exercício do poder punitivo, a
criminologia atual amplia o universo de condutas dos sujeitos concretos. Já não se trata
apenas de observar o criminalizado e a vítima, e sim de incorporar os operadores do sistema
penal.
Sem ânimo de psiquiatrizar nada, é sabido que tudo o que se relaciona com o exercício
do poder punitivo opera como mel para moscas no que concerne a muitas pessoas com
patologias sérias. Esse não é um dado menor para a tomada de decisões na hora de
selecionar pessoal ou de averiguar a natureza de algumas condutas manifestas em outros
segmentos do sistema.
Ignorar, desde a criminologia, o campo psi é um erro preconceituoso gravíssimo, que faz
perder de vista o sujeito concreto, é tão negativo como pretender transferir as observações
sobre este do campo psi às políticas sociais. São duas perspectivas que devem se encontrar,
sem pretender ignorar-se nem neutralizar-se, mas sim, simplesmente, reconhecendo que
trazem visões diferentes sobre a conduta humana, que é um objeto configurador de extrema
complexidade.
Sabemos que não faltam aqueles que, a partir da academia, argumentam que isso é
questão da criminologia aplicada, mas não da teórica. Mais adiante, mostraremos como os
conhecimentos psi são indispensáveis para a criminologia teórica atual; se alguém pretende
fazer uma criminologia teórica pura, sem consequências práticas, sem a aplicação, é melhor
que fechemos a porta e o deixemos sozinho em seu escritório.
 
Ilustração 22
 
34. Somos todos neuróticos?
Não é nossa intenção cair em uma teoria macro e subir num avião a jato para que, por
conta de querer abarcar um panorama mais amplo, quando olharmos para baixo não
consigamos ver nada. No entanto, não podemos negar que devemos perguntar alguma coisa
aos homens sábios diante da inquestionável característica de nossa espécie, que é sua
tremenda agressividade intraespecífica (e extraespecífica também, é claro).
Sem dúvida, os danos sociais assinalados pelos ingleses que pretendem ir mais além da
criminologia existem e estão em curso, milhões de pessoas morrem diante da indiferença dos
demais e os massacres vitimaram muitos milhões, sem contar os outros milhões de mortos
pelas guerras e, além do mais, nada disso pertence a um passado remoto.
Não é fácil se perguntar pelas razões profundas e últimas desta agressividade da espécie
porque é frequente que, por detrás da busca dessa resposta, se esconda um bom pretexto, e
até uma justificativa, para os poderes que operam massacrando ou violentando, em especial
se a resposta segue o caminho da inevitabilidade ou da naturalização dessas calamidades.
(No bar, seria a tese de um gordo que esteve preso por cheques voadores e por vender uma
passagem para Marte: Você vai ficar louco, sempre foi assim, não há nada a fazer).
Entretanto, é inevitável começar a apresentar essas questões, porque a tese naturalista é
uma defesa insensata – para não dizer outra coisa – que, traduzida na minha resposta ao
gordo no bar, significa que é inevitável nos tornarmos inúteis dentro de pouco tempo.
Por isso, para não cair na insensatez – pelo menos não completamente –, e ainda que
devamostomar as devidas precauções, não há mal algum em rastrear um pouco a questão
das raízes últimas da agressão humana, e isso não pode ser entendido, de modo algum como
a legitimação de qualquer massacre.
É possível que, a partir da crítica macro, nos seja objetado que, com isso, passamos por
cima do capitalismo, ou o minimizamos, mas me parece que ali se confundem duas coisas
bem diferentes e, talvez, por temor de não ter resposta diante daquele que diz que não há
nada a fazer. Colocar um automóvel em marcha, girar a chave da partida, é uma coisa, outra
bem diferente é, em seguida, já na estrada, apertar o acelerador e bater.
Admitindo que as formas desapiedadas da exploração capitalista e da busca de
acumulação indefinida de lucro sejam as que apertam o acelerador, parece haver algo antes,
posto que houve massacres antes do capitalismo, antes mesmo das formas modernas de
Estado, como o genocídio dos cartagineses pelos romanos ou as campanhas de Gengis Khan.
Além do mais, nisso mesmo de acelerar, cabe se perguntar ao que responde o afã pela
acumulação de poder ou de lucro, de forma indefinida, quando a existência é finita (Para que
você quer tanta grana, se não há mortalha com bolso? se perguntaria o filósofo magricela na
esquina).
São perguntas que não podemos ignorar se olharmos para o que se passou nos últimos
séculos. Ninguém pretende legitimar com isso os massacres neocolonialistas, a Shoá ou
Hiroshima e Nagasaki, mas apenas perguntar o que é que deu a partida antes deles.
A pergunta se impõe porque se vai fazendo urgente averiguar se é possível desconectar
a partida e parar o motor.
Talvez se objete que vamos demasiadamente longe, mas infelizmente não nos resta outro
recurso, porque se não paramos o motor corremos o risco de acabar com as condições de
vida humana no planeta. Que o último jogue fora o lixo e apague a luz já não é uma questão
colocada apenas por um estraga-prazeres.
Isso não é brincadeira e não o consertamos deixando de usar o desodorante em
aerossol: no último século deterioramos essas condições muito mais do que em todos os
milênios anteriores em que caminhamos sobre o planeta, e com essa projeção não falta
muito para chegar ao limite. Ademais, a destrutividade atual não é exercida com armadilhas
e flechas.
Por isso, ao colocar a questão criminal e nos darmos conta de que, se ela está inserida
em um mundo onde as mortes em massa e não em massa importam pouco e onde os que
exercem o poder nos iludem para que nos cuidemos só dos ladrões enquanto eles vendem
armas em grandes quantidades, não podemos colocar de lado a questão da agressividade e
deixar de nos perguntar sobre sua possível raiz última na civilização.
No século passado muitos se perguntaram por isso, em particular na psicologia e mais
ainda a partir de Sigmund Freud, que foi um personagem bastante incômodo para seus
contemporâneos. Não é à toa que ele é comparado a Copérnico e a Darwin. Como se não
fosse suficiente que um dissesse que não éramos tão centrais e o outro que tínhamos o
macaco como primo, veio Freud e disse que nem sequer somos racionais.
Pois bem. Entre as perturbações causadas por Freud, uma das mais interessantes é de
ter-se remontado até a etnologia, ou seja, mais além – antes – da história, para explicar a
destrutividade humana. Desse modo, foi ele quem localizou o terreno em que se devia
buscar a resposta.
 
Ilustração 23
 
Além de sua teoria do pai terrível da horda, do parricídio originário e das limitações que
os irmãos se impuseram para consolidar o novo sistema (tese para a qual seus próprios
seguidores olham com desconfiança), a consequência antropológica que sustentou em 1930,
em O mal estar na cultura, é muito penetrante.
Ele afirma ali que a cultura reprime as pulsões agressivas, gerando um controle interno
mediante o superego que não as elimina, mas as mantém no inconsciente, onde lutam por
aflorar, produzindo culpa, o que estimula a procura pela punição como compensação.
Falando mais claramente. A vontade de destruir o outro não desaparece ao se conter,
mas sim é colocada para dentro, no superego, carregando inconscientemente a consciência (o
superego diz Por que razão você foi querer isso?!) e se traduz numa busca inconsciente de
castigo (e a seguir acrescenta: Por ser um tipo que merece um castigo).
O delito seria, pois, uma das vias para satisfazer essa reclamação inconsciente de
punição, embora possa ser outro autocastigo que nada tenha a ver com o sistema penal do
Estado, como cortar o dedo descascando batatas, morder a língua comendo um bife ou
prender o dedo numa porta.
Para Freud, a reação social punitiva não cumpriria a função de eliminar nem prevenir a
criminalidade, mas sim proporcionaria satisfação à demanda de punição inconsciente do
próprio infrator. Este não seria quem introjetou equivocadamente as normas, e sim
justamente quem internalizou a autoridade de maneira tal que as pulsões reprimidas em seu
inconsciente o movem a buscar a punição mediante a infração.
Freud adverte que, quando uma pessoa se abstém de agredir a outra só porque existe
uma força exterior que o impede (quando a sério se diz só não quebro a tua cara porque vou
em cana), não há consciência pesada; esta aparece quando a autoridade está internalizada,
ou seja, quando faz parte do eu.
Nos nossos dias, isso estaria indicando uma confiança muito escassa da autoridade em
sua capacidade de provocar a introjeção, evidenciada na parafernália do aparato mecânico e
eletrônico de impedimentos, ainda que também poder-se-ia pensar que a autoridade projeta
sua própria e escassa introjeção de normas, isto é, sua pouca consciência pesada (na esquina
dizem que parece que tem a consciência morta).
Conforme essa tese, Freud criticava a pena de morte, pois segundo uma pesquisa
respondida por Theodor Reik, ao que parece por iniciativa de Freud, longe de constituir um
elemento dissuasório, a pena de morte seria uma ocasião de expiação máxima, uma espécie
de suicídio com cumplicidade da justiça estatal.
Essa explicação é interessante no que diz respeito aos atentados suicidas
fundamentalistas do nosso tempo, que desconcertam aqueles que pretendem preveni-los,
mas não precisamos recorrer a exemplos tão extremos, pois, na violência urbana, verifica-se
que, diariamente, se produzem muitos delitos suicidas e muitíssimos mais em que a
imprevisão do infrator é tão notória que parece confirmar a tese freudiana. São muitos os
delitos que dão a impressão de que são cometidos para ser descobertos.
Se bem que por esta via se deslegitima a racionalidade do poder punitivo, por outra
explicaria sua resistência e permanência.
A ideia que Freud tinha do ser humano não era muito positiva, porque estaria
filogeneticamente condenado a uma agressividade que, ao ser reprimida, o carrega de culpa
e esta, por sua vez, o impulsiona inconscientemente à infração em busca de castigo, ainda
que não necessariamente no sentido penal.
Cabe precisar que, numa etapa posterior, Freud deixou de falar de sentimento
inconsciente de culpa, para referir-se à necessidade de castigo ou masoquismo primordial. Esta
seria a explicação para os erros de conduta muito grosseiros, que acarretam notórios
preconceitos aos protagonistas, completamente alheios ao poder punitivo, mas que não
podemos compreender. Nesse sentido, a rudeza não passaria, muitas vezes, de representar
uma manifestação inconsciente desse masoquismo primordial, inclusive a rudeza do
delinquente frente ao aparato repressivo.
De qualquer maneira, para Freud os massacres seriam, em sua raiz última, uma espécie
de preço civilizatório, ao que parece não muito evitável. Esta ideia foi expressa na resposta,
bastante pessimista, à proposta pacifista de Albert Einstein, em 1932.
Com efeito, para Freud, o preço a ser pago pelo progresso da cultura reside na perda da
felicidade pelo aumento do sentimento de culpa, expressa em uma crescente necessidade de
castigo.
Passando por cima do social, ele afirma a existência de um superego cultural, para
eliminar o maior obstáculo com que acultura se choca: a tendência constitucional dos humanos
a agredir-se mutuamente.
Nesse sentido, afirmava que o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo era
irrealizável e lançou a hipótese de que a origem de uma neurose coletiva, conceito que abriu
um formidável espaço de discussão, talvez se encontre na impossível realização do superego
cultural.
Freud concluía que o destino da espécie humana dependerá do grau em que a cultura
consiga fazer frente às perturbações da vida coletiva, emanadas do instinto de agressão e
autodestruição. Em síntese, tudo dependerá da forma em que nos acertemos com nossas
pulsões de vida (Eros) e de morte (Tanatos). Em outras palavras, do seu lindo apartamento
de Viena, ele nos dizia que nosso futuro dependerá de como nos arranjaremos para conter
nossas repreensões futuras e tudo indica que até agora o vimos fazendo bastante mal.
O certo é que, como não podia ser de outra maneira, a ideia de neurose coletiva de Freud
abriu um leque de reflexões e respostas, dado que implicava em algo assim como todos
somos neuróticos, condição que nem todos assumem com naturalidade (e alguns rechaçam
ofendidos, enquanto tomam psicofármacos).
35. Podemos deixar de ser neuróticos?
A gama de reações à tese da neurose coletiva colocada por Freud é enorme e não posso
nem sequer mencionar todos os que opinaram, de forma inteligente, a esse respeito, e por
isso selecionei apenas dois autores: Herbert Marcuse e Norman O. Brown.
Estou perfeitamente consciente da heterodoxia dessa escolha e talvez até de sua
arbitrariedade. Marcuse é muito conhecido e alcançou sua fama máxima no 1968 francês, e é
por isso que chamo a atenção ao fato de citar, juntamente com ele, Brown, que hoje está
completamente esquecido (embora ele tenha sido o autor de cabeceira de Jim Morrison, o
que em nada afeta a permanência do The Doors).
Não obstante, não o fazemos somente porque a tese de Brown seja tão radical e seu
desenvolvimento, engenhoso e divertido, e sim porque entendemos que constitui a antípoda
mais livre e, ao mesmo tempo, necessária neste debate.
Ademais, pelo rumo que o mundo toma, nada pode ser considerado totalmente
inverossímil nem nenhum pensamento que proponha uma saída deve ser desprezado,
embora seja considerado desmedido ou démodé.
Por que entendo dessa maneira? Em uma síntese bem grosseira, diria que Marcuse
aceitava a hipótese freudiana, mas afirmava que podíamos ser menos neuróticos e desse
modo seguir em frente. Brown, por sua vez, também a aceitava, mas como a civilização era a
causa da neurose, propunha suprimir esta civilização e assim deixarmos de ser neuróticos. Por
desmedida que pareça a resposta, não se pode negar que incursiona por um caminho
atrevido e, diante da magnitude da questão, não há caminho que não deva ser explorado.
O que Marcuse propunha? Seguia Freud e admitia que, regido pelo princípio do prazer e
sem contenção, o id destruiria tudo (quando explico na esquina, traduzo assim: claro, se cada
um faz o que quer, vira bagunça).
Não obstante, ele afirma que Freud confundiu a necessidade de repressão que a ordem
biológica impõe com aquela social ou historicamente condicionada, que, na atualidade,
demanda uma sobre-repressão desnecessária para a manutenção da civilização, isto é, para
manter a civilização não se necessita de tanta repressão.
Essa sobre-repressão desnecessária (ou excesso de repressão) não responderia ao
princípio de realidade (ao necessário para não virar bagunça), e sim ao que chama de
princípio do rendimento, que na civilização atual privilegia a concorrência, o crescimento, a
expansão, que faz que tudo o que não se considere útil seja proclamado como perverso ou
nocivo.
Marcuse escrevia nos anos 1950 e 1960. Considerava que nos países centrais se havia
desenvolvido uma aparente racionalidade envolvente, que impossibilitava qualquer
resistência ou contrassistema, pois era tão perfeita e fechada que a incorporaria,
fagocitando-a (o Che se converte em uma camiseta). Parece-me que hoje não poderia
explicar a exclusão nas sociedades centrais, a imigração periférica não assimilada, os surtos
de xenofobia, a seletividade racista do giro repressivo do sistema penal estadunidense, a
redução do nível de vida imposta pelo FMI na Europa etc.
Por sorte, não existe um sistema tão perfeito como o que Marcuse descreve: tudo
continua fluindo (Viva Heráclito!).
Como vemos, Marcuse aceita a tese freudiana da necessidade civilizatória, que converte
a criança (que, para Freud, era um perverso polimorfo, análogo ao selvagem) em um ser
civilizado. Limitava-se a observar uma sobrerrepressão da nossa civilização, cuja eliminação
em um modelo de sociedade que não chegava a delinear muito claramente, porém que
passava pelo que ele chamava de ditadura da ideia e chegava à sociedade ideal (isso de
ditadura sempre me soa mal, mas não importa, não é isso o que nos preocupa agora).
Brown escrevia nos mesmos anos e não só constitui a contraface antropológica de
Marcuse, como também do próprio Freud, de cujas posições parte. Sua tese central não é a
existência de um excesso repressivo, como via Marcuse, mas que a fonte da neurose
civilizatória relaciona-se diretamente em fazer a criança perder seu polimorfismo: o que
Freud considerava necessário, Brown considera neurótico.
Brown deu o salto do individual ao social e concluiu que a própria sociedade é
neurótica, que a história humana é a de uma neurose maciça, e que a psicanálise jamais
poderá curar os indivíduos, salvo se fizer mudar radicalmente a sociedade, cuja estrutura
neurótica reflete o próprio indivíduo.
A história humana seria a história de uma neurose, que destaca a incapacidade da
civilização ocidental para incorporar a morte, pois ao separá-la radicalmente da vida
provoca uma ambivalência irredutível. Segundo Brown, ao não poder incorporar a morte à
vida, faz o contrário, ou seja, incorpora a vida à morte. Indo além dos exageros, acho que
devemos refletir sobre isso.
O signo neurótico não só se traduz, para Brown, em uma busca indefinida de bens, mas
também de poder, o que é válido também para a acumulação do saber como poder, pois a
busca de poder indefinido mediante a ciência redunda, com certeza, também na acumulação
de bens. A esse respeito, as características mórbidas da sociedade moderna não são quanto
ao conhecimento em si, mas sim com respeito aos esquemas que regem a busca do
conhecimento e que têm por meta a dominação dos objetos.
Apesar de essa crítica ter mais de meio século e ser anterior ao despertar da consciência
ecológica, a conclusão de que uma ciência não mórbida não deveria ter por objeto o
domínio da natureza, e sim se unir a ela, ganha muita atualidade.
O capitalismo, estimulador da acumulação indefinida, seria a expressão dessa neurose
civilizatória, que, ao determinar como meta a acumulação de riqueza, conduz à negação do
Eros mediante a sublimação do corpo: a riqueza não é um meio, mas sim um fim em si
mesmo, com o qual avança o triunfo da pulsão de morte sobre Eros.
Brown segue Freud, mas vai além dele, às vezes em coincidência com Jacques Lacan –
em especial ao criticar a psicologia do eu –, embora não conhecesse os trabalhos deste.
Considera que, embora Freud tenha descoberto o novo mundo do inconsciente, as
consequências que os freudianos extraem são muito estreitas. Acredita que a civilização
ocidental está assentada sobre a negação do corpo, o império da repressão e as deformações
do desejo, cuja origem localiza na formação genital do psiquismo na infância, deslocando o
princípio do prazer e substituindo-o pelo princípio de realidade.
Para escapar a essa repressão genitalista, na qual vê a origem da neurose civilizatória,
Brown afirma a necessidade de se voltar à perversidade polimorfa infantil, em que todo o
corpo é erotizado (nesse sentido, não considera o pobre Wilhelm Reich como nenhum
libertador).
Enquanto para Freud a repressão do polimorfismo era uma necessidade de todo
processo civilizatório, para Brown é a causa da neurose civilizatória. Para chegar aisso,
critica o conceito de sublimação freudiana como uma forma de repressão. O ascenso, para
Brown, é da mente ao corpo, forma de liberação das potencialidades corporais, até alcançar
o estado do polimorfismo. (No bar me perguntariam: Cara,isso não é um pouco demais?)
Creio que, em boa parte, contribuem para o esquecimento deste autor suas reflexões
muito detalhadas e divertidas sobre o conceito de analidade freudiano e o conhecido vínculo
psicanalítico entre o dinheiro e os excrementos (o dinheiro sujo). Em suas pitorescas
reflexões, Brown considera que Jonathan Swift, em suas Viagens de Gulliver, foi um precursor
da psicanálise, afirmando que os yahoos – que, com certeza, eram uns porcos – são uma
metáfora do ser humano. Avança mais, e levando em conta que Martinho Lutero confessava
sua frequente inspiração no banheiro, destaca-o como o máximo expoente da ética
protestante, que se corresponde com o capitalismo e a vincula com este lugar de inspiração
(não sabemos o que Max Weber teria opinado).
36. Um pouco de etnologia
Freud localizou corretamente a pergunta sobre a destrutividade humana no campo da
etnologia; por isso, vale a pena entrar um pouco nessa matéria, para ver se podemos
encontrar alguma alternativa diferente.
A essa altura, julgo ser necessário mencionar René Girard, um filósofo francês dedicado à
investigação da violência nas sociedades primitivas, na qual constrói sua teoria da mímesis,
que aplica em seguida à civilização atual. Voltaremos a esse pensador, porque ele é
fundamental para entender a questão dos massacres. Girard concorda em seguir Freud até a
paragem da etnologia, mas considera que o do pai terrível não é antropologicamente
verificável e, além disso, é uma tese estática, que deixa a sociedade fundada para sempre e
não explica bem como pode se manter até o presente (a memória filogenética freudiana não
é muito convincente).
Girard traz uma tese dinâmica, afirmando que na sociedade vai sendo gerada uma
tensão que, em certo momento, traduz-se numa violência difusa, porque todos vão querendo
as mesmas coisas, em função de uma rivalidade mimética.
O que significa isso? Seria o que se produz quando se toma o outro como modelo. Se
Fulano tem um automóvel novo, eu também quero tê-lo, da mesma marca ou melhor. Por
que? Porque tomo o Fulano como modelo e, portanto, quero me parecer com ele ou superá-
lo e, por lógica, ter o que ele tem ou ter algo mesmo melhor. Isso é a mímesis de Girard.
Entendamos que não se trata de uma tensão que se gera porque é necessário para a
sobrevivência: não se produz porque o outro come e eu não como e tenho fome, mas
porque o outro come caviar e toma champanhe e eu também quero comer e tomar isso,
porque quero me parecer ao modelo de quem come e toma isso. Girard explica que os
grupos começam se olhando e terminam se imitando e desejando o mesmo, mas à medida
que a violência aumenta, os objetos desejados podem passar ao segundo plano e inclusive
ser esquecidos, momento em que se passa da mímesis de apropriação à pura mímesis de
antagonismo (a propósito, jamais gostei de caviar e prefiro o semillón ao champanhe).
Chega-se, dessa maneira, à violência coletiva: verte-se sangue que reclama mais sangue –
vingança –, em uma escalada de violência essencial que só cessa quando se canaliza numa
vítima expiatória, cujo sacrifício resulta milagroso, pois faz cessar de imediato a violência
destruidora.
Girard observa que são assinaladas vítimas sacrificiais muito diferentes, que são
consideradas enquanto tais por sua idoneidade canalizadora em cada sociedade, sem que
isso determine nenhuma identificação ôntica prévia. Em geral, se requer que a vítima seja
estranha, mas não completamente diferente, razão pela qual se pode deslocar inclusive
animais, mas que antes tiveram de ser domesticados para aproximar-se do humano.
Justamente porque não é totalmente diferente, a vítima pode encarnar o mal de toda a
sociedade, canalizar a vingança de todos seus integrantes, sem importar se é culpada ou
inocente.
O nazista Carl Schmitt aconselhava precisamente isso: buscar quem seja mais adequado
para fazê-lo alvo de toda a raiva social, sem importar se é bom ou mau, feio ou bonito; a
única coisa que deve importar é que seja útil para torná-lo responsável por todos os males.
(No bar, opinariam que quem faz isso merece ser recordado por sua progenitora, por mais
que tenha sido uma santa; eles têm toda a razão.)
De qualquer maneira, todos acreditarão que a vítima é culpada quando, depois de matá-
la, a paz e a ordem retornam, embora para Girard seja este o momento em que a vítima
começa a se tornar sagrada.
Girard é taxativo ao considerar que o poder punitivo formalizado na civilização atual
tem por função tentar canalizar racionalmente a vingança. Se nosso sistema nos parece mais
racional – escreve –, é porque, na realidade, está mais estreitamente conformado com o
princípio da vingança. A insistência sobre a punição do culpado não tem outro significado. Ao
invés de esforçar-se para impedir a vingança, para moderá-la, para evitá-la, ou para desviá-la
para um objeto secundário, como todos os procedimentos propriamente religiosos, o sistema
judicial racionaliza a vingança, consegue subdividi-la e limitá-la como melhor lhe parecer; faz
com isso uma técnica limitadamente eficaz de cura e, secundariamente, de prevenção da
violência.
O religioso procura evitar ou desviar a vingança sobre um objeto secundário, ao passo
que o sistema penal quer racionalizá-la: Por detrás da diferença prática e ao mesmo tempo
mítica – acrescenta Girard –, é necessário afirmar a não diferença, a identidade positiva da
vingança, do sacrificio e da penalidade judicial, justamente porque esses três fenômenos são
invariavelmente os mesmos, que tendem sempre, em caso de crise, a recair, todos eles, na mesma
violência indiferenciada.
Essas reflexões são um golpe de misericórdia em quase todo o direito penal, porque
explican sua dificuldade para conferir racionalidade à pena. Como a vingança não é
racional, não pode incorporar-se a um discurso racional; só consegue racionalizá-la, ou seja,
dar-lhe aparência de racionalidade, perante o fato consumado de seu exercício.
Permítam-me agora tomar um velho livro e ler umas linhas escritas em 1886, no Brasil,
por Tobias Barreto, um mulato nordestino que defendia a abolição da escravidão e que
mandava comprar livros na Alemanha, mastigando-os, solitário, no interior do estado de
Pernambuco.
Esse divertido e genial violonista, fundador da Escola de Direito do Recife, escrevia:
Envolto com o sacrificio, que constitui o primeiro momento histórico da pena, mais além da
expiação, que lhe dá um caráter religioso, já se encontra o sentimento de vingança, que os deuses
de então têm em comum com os homens e os homens com os deuses. Contudo, à medida que vai
decrescendo o lado religioso da expiação, aumenta o lado social e político da vindicta, que
permanece, ainda hoje, como predicado indispensável para uma definição de pena.
Mais adiante, acrescentava essas palavras inesquecíveis: O conceito de pena não é um
conceito jurídico, mas sim um conceito político. Este ponto é capital. O defeito das teorias
correntes em tal matéria consiste justamente no erro de considerar a pena como uma
consequência de direito logicamente fundada. E alguns parágrafos mais à frente, concluía:
Quem procurar o fundamento jurídico da pena deve também procurar, se é que já não o
encontrou, o fundamento jurídico da guerra.
Como verão, pensando apenas nas coações do meio acadêmico europeu, o homem
nascido em Sergipe não dizia nada muito diferente do que Girard, mais de um século depois,
descobriu.
Voltaremos a Girard. Seu pensamento abre horizontes muito amplos, como o provam as
implicâncias que ele desperta em um filósofo como Gianni Vattimo, mas julgamos não ser
necessário acompanhar Girard em suas considerações mais ou menos teológicas, nas quais
costuma chegar a conclusões dogmáticas.
 
Ilustração 24
 
37. A criminologia midiática
Desde o princípio, divididimos essessuplementos em três palavras: a da academia, a da
criminologia midiática e a dos mortos. Vocês nos acompanharam no longo curso da
criminologia dos criminólogos, ou seja, a acadêmica.
As pessoas comuns, porém, não conhecem essa palavra, uma vez que vivem no mundo
da criminologia midiática. E não pode ser de outra maneira, porque as pessoas geralmente
não frequentam os institutos de criminologia nem leem os trabalhos especializados, porque
têm outras coisas para fazer.
Em alguns momentos, tampouco, foi muito desejável que o fizessem, porque vimos que
há livros perigosos e encobridores.
O certo é que as pessoas que todos os dias caminham pelas ruas e tomam o ônibus e o
metrô junto a nós têm a visão da questão criminal que é construída nos meios de
comunicação, ou seja, se nutrem – ou padecem – de uma criminologia midiática. Isso
sempre aconteceu e o que vimos René Girard explica claramente: se o sistema penal tem por
função real canalizar a vingança e a violência difusa da sociedade, é mister que as pessoas
acreditem que o poder punitivo está neutralizando o causador de todos seus males.
Mas por que as pessoas a aceitam ou ficam indefesas diante dessa construção da
realidade? A disposição em aceitá-la obedece a que, assim, se reduza o nível de angústia que
gera a violência difusa. Voltaremos a esse ponto mais adiante, mas a regra é que quando a
angústia é muito pesada, ela se converte, através da criminologia midiática, em medo a uma
única fonte humana.
Por isso, a criminologia midiática sempre existiu e sempre apela a uma criação da
realidade através de informação, subinformação e desinformação em convergência com
preconceitos e crenças, baseada em uma etiologia criminal simplista, assentada na
causalidade mágica. Esclarecemos que o mágico não é a vingança, e sim a ideia da
causalidade especial que se usa para canalizá-la contra determinados grupos humanos, o
que, nos termos da tese de Girard, os converte em bodes expiatórios.
Essa característica não muda; o que varia muito é a tecnologia comunicacional (desde o
púlpito e a praça até a TV e a comunicação eletrônica) e os bodes expiatórios. O poder da
criminologia midiática foi detectado pelos sociólogos desde fins do século XIX. Motivado
pelo poder dos jornais no caso Dreyfus, Gabriel Tarde afirmava que no presente (no ano de
1900), a arte de governar se converteu, em grande medida, na habilidade de servir-se dos jornais.
Denunciou claramente a força extorsiva dos meios de comuinicação de massa (no seu
tempo, os jornais), a grande dificuldade para neutralizar os efeitos de uma difamação
jornalística e a exploração da credulidade pública.
 
 
Tarde, porém, foi mais longe, destacando o poder inverso ao da extorsão, ou seja, o do
silêncio cúmplice, como o que acontecia diante do genocídio armênio ou da negociata do
Panamá. Sem dúvida, foi o sociólogo que descobriu o imenso continente da construção social
da realidade que anunciava seu crescente poder.
O socialista Jean Jaurés havia denunciado na Câmara dos Deputados francesa, em 1896,
o silêncio cúmplice da grande imprensa perante os massacres de armênios, porque seus
principais dirigentes eram beneficiários de empresas otomanas e os jornais levavam adiante
sua campanha antissemita – prelúdio europeu da Shoah – difundindo a invenção dos
Protocolos, encabeçados pelo delirante Edouard Drumont e por Charles Maurras, que
terminaria seus dias imputado como ideólogo do vergonhoso regime de Vichy.
Recentemente, Umberto Eco reconstruiu esses anos em sua novela O cemitério de Praga.
Consequentemente, não falamos nada de novo, embora, como é natural, a criminologia
midiática atual tenha características próprias. O discurso da criminologia midiática atual não
é outro senão o chamado neopunitivismo dos Estados Unidos, que se expande pelo mundo
globalizado. Trata-se do fenômeno que Garland, Wacquant e Simon analisam, ao qual já nos
referimos e sobre o qual não insistiremos.
A característica central da versão atual desta criminologia provém do veículo empregado:
a televisão. Por isso, quando dizemos discurso é melhor entender mensagem, pois ele se
impõe mediante imagens, o que a dota de um poder singular.
Os críticos mais radicais da televisão são Giovanni Sartori e Pierre Bourdieu. Para
Bourdieu a televisão é o oposto da capacidade de pensar, enquanto Sartori desenvolve a
tese de que o homo sapiens se está degradando em um homo videns, por efeito de uma
cultura de puras imagens.
A tese de Sartori é um tanto apocalíptica, embora não seja necessário compartilhá-la em
sua totalidade para reconhecer que lhe atribui um alto grau de razão. Efetivamente, uma
comunicação por imagens refere-se sempre, necessariamente, a coisas concretas, pois elas
são a única coisa que as imagens podem mostrar e, em consequência, o receptor dessa
comunicação é instado, de forma permanente, ao pensamento concreto, o que debilita seu
treinamento para o pensamento abstrato.
O pensamento abstrato é a base da linguagem simbólica que caracteriza o humano.
Explico-me mais claramente: quando um psiquiatra interroga um paciente e suspeita que ele
pode ter um problema de inteligência – certo grau de oligofrenia, para ser preciso – lhe faz
uma pergunta por meio de um conceito abstrato para ver se ele pode responder no mesmo
nível. Por exemplo, Você acredita em Deus? O que é Deus para você? Se o paciente responde
algo assim como os santos ou o que faz milagres, está indicando a necessidade de investigar,
com métodos mais depurados, a possibilidade de um déficit intelectual.
O gancho da comunicação por imagens está no fato de ela impactar a esfera emocional.
Por isso não se pode estranhar que os serviços de notícias pareçam antes síntese de
catástrofes, que impressionam mas não dão lugar à reflexão.
Às vezes, a imagem nem sequer necessita de som (a do 11 de setembro era muda), só o
intérprete falava.
Por outro lado, também não informa muito, porque passa imagens sem contextualizá-las;
é como se cortassem pedaços de filmes e os mostrassem, prescindindo do restante. Vemos,
mas não entendemos nada, porque isso requereria maior tempo e explicação.
Aliás, nem sempre se percebe o que se olha. Em um recente livro chamado O gorila
invisível – sem nenhuma alusão política, certamente – dois psicólogos estadunidenses
demonstraram que, colocados para ver a filmagem de uma partida para contar o número de
passes, 50% dos participantes do experimento não registraram que uma pessoa disfarçada de
gorila entrava no campo de jogo e fazia uma saudação.
Além do mais, a voz do intérprete vale-se de uma linguagem empobrecida. Diz-se que a
televisão não usa mais que umas mil palavras, quando em uma língua podemos chegar a
usar umas trinta mil. Talvez o cálculo seja exagerado, mas não muito. Essa interpretação às
vezes tem conteúdos implícitos, porque a correção política impede que sejam explícitos,
como no caso do racismo, por exemplo.
Nesses casos, muito se insinua, dando a impressão estudada de que se deixa ver, o que
afaga a inteligência do destinatário, que acredita que deduz o conteúdo implícito (Como sou
esperto!), quando, na realidade, é vítima de uma traição comunicacional.
A criminologia midiática cria a realidade de um mundo de pessoas decentes, diante de
uma massa de criminoso, identificada através de estereótipos, que configuram um eles
separado do resto da sociedade, por ser um conjunto de diferentes e maus. Os eles da
criminologia midiática incomodam, impedem que se durma com portas e janelas abertas,
perturbam as férias, ameaçam as crianças, sujam por todos os lados e, por isso, devem ser
separados da sociedade, para deixar-nos viver tranquilos, sem medos, para resolver todos
nossos problemas. Para isso é necessário que a polícia nos proteja de seus assédios perversos,
sem nenhum obstáculo nem limite, porque nós somos limpos, puros, imaculados.
Este eles é construído por semelhanças, para o qual a televisão é o meio ideal, pois joga
com imagens, mostrando alguns dos poucos estereotipados que delinquem e, de imediato, os
que não