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AULA 2 3.4 DIVISÃO SOCIOSSEXUAL E RACIAL DO TRABALHO ATENÇÃO • O edital não traz isoladamente divisão sexual do trabalho! • Análise é interseccional. A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO Conceito de Hirata e Kergoat A divisão sexual do trabalho é a forma modulada, histórica e socialmente, de divisão do trabalho decorrente das relações sociais entre os sexos. A divisão sexual do trabalho é uma construção social que atribui aos diferentes gêneros, papéis distintos no que se refere ao trabalho. A divisão sexual do trabalho é uma questão de gênero! É simultaneamente fruto e reprodutora de desigualdades, reforçando-as no que se refere a estereótipos, assimetrias, hierarquias e desigualdades (materiais e simbólicas). Esse arranjo tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens1 das funções com maior valor social adicionado. PRINCÍPIOS ORGANIZADORES DA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO A divisão sexual do trabalho tem dois princípios organizadores: A emergência do conceito da divisão sexual do trabalho teve um papel muito importante para questionar o que era a definição clássica de trabalho. As feministas que discutiram este conceito estavam no campo do marxismo e eram prevalentemente brancas, transcurando assim, o aspecto constitutivo da divisão social do trabalho: a raça. Elas problematizaram que o debate de classe não explicava e não dava conta do conjunto da realidade do trabalho. 1 Para os homens negros, também desapropriados de riquezas, poder e da construção de uma subjetividade própria, a participação no mercado de trabalho também não se dá da mesma forma que homens brancos e burgueses. Esses exercem trabalhos predominantemente manuais, que exigem mais força física e ganham, muitas vezes, até menos que mulheres brancas burguesas. Ver em: <https://g1.globo.com/economia/concursos-e- emprego/noticia/2020/09/15/na-mesma-profissao- homem-branco-chega-a-ganhar-mais-que-o-dobro-da-mulher- negra-diz-estudo.ghtml >. Acesso em 05 de abril de 2021 PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO Existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres PRINCÍPIO HIERÁRQUICO Um trabalho de homem "vale" mais que um trabalho de mulher Em um primeiro momento, parecia haver uma destinação dos homens ao trabalho chamado produtivo e uma destinação prioritária das mulheres ao trabalho reprodutivo. Mas o que se viu foi que as mulheres estão simultaneamente nas duas esferas: no trabalho produtivo e no trabalho reprodutivo2. Destarte, a divisão sexual do trabalho não se restringe ao plano dicotômico de separação entre trabalho produtivo e reprodutivo, ela se repõe, também, na própria esfera produtiva com mulheres ocupando tradicionalmente nichos específicos do mercado de trabalho, os chamados de “guetos” ocupacionais femininos3. Verifica-se a atribuição de determinadas ocupações como sendo tipicamente femininas (cozinheira, doméstica, garçonete, professora infantil, secretária, comissária de bordo) ou masculinas (chef de cozinha, diretor, piloto de aeronave). Isto nos mostra como a produção do gênero se dá nas relações do trabalho. Mesmo a construção binária tem relação estreita com a expectativa que se tem do que se deve ser com o processo de socialização das meninas e meninos – expectativas que partem da construção social, do que significa se tornar homem e se tornar mulher (nisto está embutido o desempenho de tarefas específicas). 2 (TEIXEIRA, M, 2018). 3 Por BRUSCHINI e LOMBARDI (2000) Esferas do trabalho das mulheres Trabalho produtivo Trabalho reprodutivo Divisão Sexual do Trabalho e Economia do Cuidado Um exemplo clássico da divisão sexual do trabalho é a ideia de que mulheres são naturalmente mais aptas ao trabalho de cuidado. Essa ideia tem efeitos concretos, na medida em que mulheres brasileiras estão sobrerepresentadas nesse tipo de trabalho, de maneira remunerada ou não, com reflexos desproporcionais na disponibilidade de tempo e renda, impondo às mulheres uma série de consequências – a existência da dupla jornada de trabalho, a precária inserção no mercado de trabalho, a menor proteção social e trabalhista, especialmente porque a proteção trabalhista se restringe àquelas no mercado formal. Embora o trabalho de cuidado diga respeito a toda sociedade, ele tem sido realizado principalmente por mulheres. Há uma construção social que produz e reproduz, a partir de valores ou dispositivos de poder, a associação entre mulheres e cuidado, ao mesmo tempo que desassocia dos homens estas mesmas habilidades. A romantização do cuidado como uma tendência natural das mulheres, algo vinculado ao amor e, portanto, tendente à voluntariedade, embora, na realidade, seja trabalho. CONSEQUÊNCIAS Dupla Jornada Precária inserção no mercado Menos proteção social e trabalhista A frase é da escritora Silvia Federici e foi pintada nas ruas de Buenos Aires pela artista Ailen Possamay. Assim, o trabalho doméstico e de cuidados segue como uma atribuição eminentemente feminina e isso diz muito como as mulheres organizam a vida no cotidiano. Trata-se de elemento central para entender a permanência de desigualdade no mundo do trabalho, porque elas não são exatamente excluídas do mercado de trabalho, mas entraram em condição de desvantagem. Isto é reproduzido pelas instituições que qualificam as mulheres de forma distinta. Percebam que as mulheres têm maior acesso a educação formal pelos dados oficiais, no entanto, são outros aspectos da vida que as levam a ter renda menor. Quanto às horas trabalhadas, no trabalho produtivo (remunerado), as mulheres não ultrapassam os homens. Mas se somarmos o trabalho reprodutivo (não remunerado), elas trabalham em média 7,5 horas a mais que os homens por semana, segundo estudo do IPEA com dados do IBGE4. Em 2015, a jornada total média das mulheres era de 53,6 horas, enquanto a dos homens era de 46,1 horas. 4Informação disponível em: <170306_retrato_das_desigualdades_de_genero_raca.pdf (ipea.gov.br) >. Acesso em 05 de abril de 2021. https://pt.wikipedia.org/wiki/Silvia_Federici As mulheres trabalham mais quando somamos o trabalho reprodutivo com o trabalho produtivo. Elas acumulam os dois tipos de trabalho, e aí não conseguem igualar o tempo do trabalho produtivo masculino. Nesse ponto, lembramos as jornadas duplas as quais as mulheres estão submetidas! Buscando a conciliação entre os denominados trabalhos produtivo e reprodutivo, encontram trabalhos precários e flexíveis para que deem conta das duas tarefas, o que contribui para uma dinâmica desigual de trabalho. Além disso, precisamos relacionar os aspectos. Alguns tipos de trabalho são marcados pela gratuidade, o trabalho feminino é marcado pela história de oferta gratuita. Pouco valor é atribuído àquilo que associamos culturalmente ao “feminino” (esfera privada, passividade, trabalho de cuidado ou desvalorizado, emoção em detrimento da razão) em comparação com o “masculino” (esfera pública, atitude, assertividade, trabalho remunerado, racionalidade e neutralidade). Independentemente do espaço (na esfera pública ou privada) e da forma (remunerado ou não) pela qual o trabalho de cuidado é desenvolvido, por ser predominantemente realizado por mulheres ele é desvalorizado e invisibilizado. Isto também ocorre porque a forma de desenvolvimento capitalista produziu historicamente uma vida cotidiana em que o tempo social que conta, ou seja, o tempo de trabalho que tem valor, é aquele empregado na produção de mercadoria, gerador de mais-valia. O trabalho produtivo das mulheres ainda se manifesta como um prolongamento de atividades do trabalho reprodutivo, sendo subjugado sob a perspectivada proteção jurídica laboral e do binômio tempo-valor. RELAÇÃO COM POLÍTICAS PÚBLICAS ATENÇÃO CONEXÃO COM O EIXO 2 Por que esse problema de desvalorização do trabalho feminino e trabalho de cuidado não é problema político central? Não é coincidência que esse trabalho seja desempenhado por quem ocupa menor espaço na política. O poder político no Brasil é completamente dominado por homens brancos. Quem está todos os dias exercendo o trabalho não é quem está lá ocupando os locus de poder. Assim, há uma desconexão entre experiência cotidiana e a agenda política. A divisão sexual do trabalho retira das mulheres recursos importantes para que possam atuar politicamente, ao mesmo passo que elas não estão na política para que suas pautas sejam politizadas, as distanciando de uma legislação protetiva. Divisão sexo racial do trabalho A divisão sexual do trabalho, por si só, não explica as desigualdades de gênero se não introduzirmos à interseccionalidade como instrumento indispensável nessa análise. A raça emerge como um conceito central para corroer as análises binárias que percebem a divisão sexual do trabalho formada por mulheres de um lado e homens do outro. Esse conceito nos mostra que existem mulheres e mulheres, e que o capitalismo não teria se desenvolvido e se estruturado sem a racialização da mão de obra com o objetivo de manter a dominação sobre alguns sujeitos e aumentar a sua produtividade. Por sua vez, a divisão racial do trabalho no capitalismo se relaciona com o racismo estrutural no mercado de trabalho assalariado. O racismo estrutural não é sobre um sujeito isolado As mulheres negras, devido ao racismo institucional e estrutural foram posicionadas de forma a ocuparem os últimos lugares na hierarquia social, como diz bell hooks (2019), atrás até mesmo dos homens negros, à margem da margem. Maria Aparecida Bento (2002) formulou a ideia de “Pacto narcísico da branquitude” que opera de forma naturalizada, mas não explícita do racismo estrutural, protegendo, assim, o privilégio de pessoas brancas. As mulheres negras no mercado de trabalho ainda têm que lidar com as “Imagens de Controle”5 que servem para aprisioná-las em lugares reais ou simbólicos. Estas objetificam corpos negros e influenciam todas as formas de relações, mas, sobretudo, são utilizadas para justificar a posição de cada sujeito na estrutura de poder, no caso das mulheres negras, naquele lugar da margem e da servidão. As mulheres negras foram construídas fisicamente como “burros de cargas” ou “mule”, fortes, incansáveis, para a utilização de mão de obra e, por outro lado, para a reprodução. Quando convém tiram delas o gênero, igualando-as aos homens no mesmo tipo de trabalho e quando precisavam dos seus úteros, eram reprodutoras, como bem lembra Angela Davis em “Mulheres, Raça e Classe” (DAVIS, 2016, p.19). 5 HILL COLLINS, 2019 Divisão sexual do trabalho e metáforas Divisão sexual no trabalho contemporâneo Ainda com as mudanças na configuração da classe trabalhadora – resultado das transformações tecnológicas e das formas de organização dos processos de trabalho - alguns aspectos do trabalho das mulheres permanecem idênticos ao longo do tempo, como: § As diferenças salariais; § A significativa concentração em setores e ocupações com estereótipos de gênero; § A inserção em formas de trabalho mais precárias e flexíveis; § O grande volume de horas dedicadas ao trabalho de cuidados e afazeres domésticos, em adição às jornadas de trabalho fora de casa. Claro exemplo disto se deu na pandemia, com o trabalho realizado em home office. As mulheres sendo constantemente interrompidas não conseguem alcançar a mesma produtividade de um homem e bater metas diárias. Metas não são gênero neutro dada a divisão sexual do trabalho. TETO DE VIDRO A metáfora do teto de vidro diz respeito às barreiras invisı́veis que impedem as mulheres de ascender aos nı́veis hierárquicos mais elevados. PISO PEGAJOSO Representa a sobre-representação das mulheres em trabalhos mais precários, com salários mais baixos, com poucas perspectivas de mobilidade. LABIRINTO DE CRISTAL Simboliza obstáculos enfrentados diariamente, que são invisıv́eis às leis por estarrecem naturalizados socio culturalmente. Para finalizar, há ainda um elemento importantíssimo que o cuidado envolve: ATENÇÃO CONEXÃO COM O EIXO 4 A “carga mental”, conceito de Monique Haicault (1984) traz à tona a dimensão emocional que o trabalho doméstico e de cuidado envolve, o qual pode ocasionar transtornos mentais, dado o seu nível de exigência e dedicação. A presença constante exigida pelas atividades cotidianas, demarcadas pela repetição, é um exemplo disso. Esse custo emocional, que se reflete também na dimensão material, é chamado de “carga mental”. QUESTÕES 1- De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, sendo que, entre 2005 e 2015, o número de famílias compostas por mães solo subiu de 10,5 milhões para 11,6 milhões, segundo dados do IBGE (2017). A maioria das mães solo no país são negras (61%). No Brasil, 63% das casas chefiadas por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE. Em 2018, segundo o estudo, esse valor equivalia a uma renda de aproximadamente R$ 420 mensais, por pessoa. Sobre o trabalho feminino, é correto afirmar: a- Mesmo no mundo globalizado, o trabalho feminino é muito utilizado em formas de emprego precárias, como contratos de curta duração e empregos em tempo parcial. b- Os rendimentos das mulheres trabalhadoras mais escolarizadas tendem a ser superiores aos dos homens em igual posição. c- Observa-se uma diminuição da presença das mulheres em atividades de maior prestígio e rendimentos devido à melhoria da qualificação da mão-de-obra masculina. d- O trabalho doméstico é exercido predominantemente pelas mulheres em razão da baixa qualificação da mão-de-obra feminina. e- O fato do cuidado ser exercido preponderantemente por mães se deve ao amor maternal. 2- Observe a charge a seguir: Está correto com relação às atuais tendências na divisão social e sexual do trabalho: a- As desigualdades de gênero no mercado de trabalho e nas atividades domésticas eram comuns até a década de 1970, mas atualmente deixaram de existir. b- Atualmente as mulheres ocupam, de forma simétrica aos homens, cargos políticos e posições ocupacionais mais privilegiadas, embora na atividade doméstica as disparidades de gênero persistam. c- Ainda que no mercado de trabalho já não existam diferenças entre mulheres e homens que ocupam os mesmos postos de trabalho, a divisão doméstica do trabalho segue desigual. d- Ainda que atualmente a divisão sexual do trabalho doméstico tenha se tornado igualitária, a sobrecarga horária nos postos ocupados no mercado de trabalho pelo sexo masculino segue sendo maior. e- Apesar das mudanças significativas verificadas nas últimas décadas, a divisão social do trabalho e a divisão doméstica do trabalho seguem sendo marcadas por disparidades relacionadas ao sexo. 3- São princípios organizadores da divisão sexual do trabalho: a- Separação, hierarquia, opressão b- Hierarquia, e opressão c- Opressão e separação d- Separação e hierarquia e- Hierarquia, repressão, opressão Questões de Concurso 4- ESAF/2003/Auditor Fiscal do Trabalho) A partir do conteúdo do texto abaixo considerar a incoerência de uma das opções que dele se deduz “A divisão sexual do trabalho é a separação e distribuição das atividades de produção e reprodução social de acordo com o sexo dos indivíduos.É uma das formas mais simples e, também, mais recorrentes de divisão social do trabalho. Qualquer sociedade tem definidas, com mais ou menos rigidez e exclusividade, esferas de atividades que comportam trabalhos e tarefas considerados apropriados para um ou outro sexo.” (Holzmann da Silva, 1999) a) A esfera feminina situa-se no âmbito doméstico privado, da produção de valores de uso para o consumo do grupo familiar, da reprodução da espécie e do cuidado das crianças, dos velhos e dos incapazes. b) As atividades de produção social e de direção da sociedade, desempenhadas no espaço público, são atribuições masculinas. c) A distinção entre trabalho de homens e de mulheres expressa atributos e capacidades inatas aos indivíduos, diferentes em homens e em mulheres. d) Os estereótipos de ser homem e de ser mulher sustentam e legitimam a divisão sexual do trabalho. e) As mulheres são mais vulneráveis à repressão da organização do processo de trabalho taylorista. GABARITO 1-A 2-E 3-D 4- C Não é inato. Trata-se de construção social.