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Biologia do comportamento: Nota Histórica
Na Escola Inglesa a Biologia do Comportamento é denominada Etologia (do Grego: ethos, comportamento, hábito, costume). No sec. XIX, a Etologia constituíu-se como uma ciência biológica independente que, de modo geral, procurava estudar hábitos e biologia de espécies animais isoladas. 
Por volta de 1911, O. Heinroth utilizou, pela primeira vez, o conceito Etologia para designar a cadeira biológica de estudo comparado do comportamento. Os estudos de Heinroth baseavam-se na descrição dos diferentes comportamentos de patos. Hoje, o conceito Etologia da literatura Inglesa está para Biologia do Comportamento da escola Alemã (GATTERMANN, et al. 1993
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Nesta evolução histórica ocorreram mudanças tanto no questionamento científico, quanto nos métodos de trabalho da Etologia, que justificam, hoje, o uso do termo Biologia do Comportamento. 
Conforme Tembrock (1996, Fig. ...) faz notar, a Etologia preocupou-se mais com a descrição fenomenológica dos comportamentos: 1) o que é que o animal faz? 2) Quando é que o faz? 3) Como é que o faz? Estas eram, de modo resumido, as questões que preocuram os etólogos daquele tempo. 
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A Biologia do Comportamento estuda o comportamento animal e humano, bem como as suas bases biológicas. Portanto, o objecto de estudo da Biologia do Comportamento podem ser:
 
Indivíduos naturais intactos, i.e. não influenciados de alguma forma pelo Homem (o leão na selva);
Indivíduos naturais sob influência antropogénica (animais capturados na natureza e comlocados sob custódia do Homem);
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Indivíduos naturais laboratoriais, aqueles que são criados pelo Homem em meio laboratorial (as cávias cobaias e o macaco-Rhesus, por exemplo);
Homem;
Grupos sociais (nas suas variadas formas de manifestação);
Indivíduos isolados.
Hoje, os aspectos relevantes de investigação biocomportamental são (1) as estruturas do comportamento (morfologia comportamental), 
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(2) as bases do comportamento (Etometria, Fisiologia comportamental, genética comportamental), (3) o desenvolvimento individual e específico (ontogénese e filogénese comportamentais, tradições) e (4) a adaptação ao ambiente, adquirida ao longo do processo filogenético (Etoecologia).
 A individualidade e a especificidade (relativo à espécie) do comportamento constituem igualmente objectos de investigação da Biologia do Comportamento
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A Biologia do Comportamento constitui, hoje, uma nova disciplina, cujas tarefas situam-se entre a Fisiologia animal e a Ecologia.
 Enquanto que a Fisiologia animal, como ramo da Fisiologia, investiga processos fisiológicos complexos que regulam as funções vitais do organismo como um todo, 
a Ecologia abarca as interacções entre o organismo e o ambiente, com base nas quais os próprios processos fisiológicos evoluiram, num processo de selecção natural. 
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Porém, por que estudar o comportamento animal? O crescimento da área nos últimos anos (Snowdon, 1999; Alcock, 2003) demonstra que este é um campo do conhecimento científico que adquiriu uma importância inegável. O reconhecimento de sua importância foi explicitado, de forma inegável, na justificativa de concessão do Prêmio Nobel a Nikolaas Tinbergen, Karl von Frisch e Konrad Lorenz em 1973, por tirar o estudo do comportamento do beco sem saída em que se encontrava à época. 
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Mas o estudo do comportamento não é relevante apenas pelo que tem produzido e pelas questões que têm sido esclarecidas, de interesse para os pesquisadores da área. Sua relevância também pode ser medida pelas importantes contribuições a outras áreas do conhecimento
Biologia do comportamento: Aspectos introdutorios
Snowdon (1999) destaca cinco áreas para as quais o estudo do comportamento animal fez contribuições importantes:
1. A compreensão do comportamento humano. A diversidade de comportamento de espécies e populações animais tem servido de base para o estudo e a compreensão do 
comportamento humano. Dois exemplos bastante conhecidos são os estudos de Harlow (Harlow & Suomi, 1974) com macacos e de Seligman (Seligman & Beagley, 1975) com ratos, 
sobre estresse e privação social
Áreas de estudo do comportamento animal
O modelo do desamparo aprendido, desenvolvido por Seligman através da apresentação de um choque inevitável a ratos, é hoje considerado um modelo clássico de ansiedade e depressão (Vollmayr & Henn, 2003), com aplicação a humanos (Shors, 2004). Os estudos de Harlow, sobre privação social de macacos Resos em idade precoce, tiveram grande influência sobre teorias de apego e desenvolvimento infantil. 
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A neurobiologia. A observação do comportamento pode fornecer informações importantes sobre processos cognitivos e correlatos de atividade cerebral.
 Higley (Highley & Linnoila, 1997) desenvolveu um modelo com macacos resos para a investigação do funcionamento do sistema serotonérgico e sua relação com comportamentos indicativos de dominância e impulsividade. Os resultados mostraram de forma consistente que baixos níveis de serotonina no sistema nervoso central estão correlacionados com alta agressividade, falta de controle, isolamento social e habilidades sociais diminuídas. 
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Highley mostrou também que experiências precoces têm um efeito sobre a expressão desses comportamentos, ressaltando a interação entre genes e o meio ambiente. 
Estudos mais recentes mostram que essa relação também é verdadeira para humanos e que a serotonina tem influência sobre o humor, o comportamento social (Young & Leyton, 2002) e os níveis de impulsividade (Crean et al., 2002).
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A conservação do meio ambiente e o manejo de recursos naturais. Animais são importantes indicadores ecológicos, e o acompanhamento de seu comportamento permite avaliar riscos ao ambiente mais precocemente do que indicadores tradicionais, como diminuição na taxa reprodutiva e no tamanho de populações. 
Não só desse ponto de vista que o estudo do comportamento é importante. Medidas conservacionistas precisam, além do conhecimento sobre a ecologia e a genética das espécies ameaçadas, também saber como o 
animal se comporta. 
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Trabalhos de reintrodução de animais ameaçados ao seu habitat natural necessitam de um programa de acompanhamento e treinamento intensivo para alcançar uma taxa de sobrevivência, que nos casos bem sucedidos variou entre 34% e 71% (Beck et al., 1991). 
As dificuldades enfrentadas por esses animais vão da defesa e identificação de predadores a escolha de habitat, procura e processamento de alimento, locomoção e escolha de parceiro (Shumway, 1999). O conhecimento anterior do comportamento dessas espécies é necessário para que os animais possam ser treinados a enfrentar tais dificuldades. 
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O mesmo é verdadeiro para o manejo de populações selvagens, o planejamento de reservas de conservação, a redução de conflitos homem-animais e a criação bem-sucedida em cativeiro
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O bem-estar animal. Há uma história, tristemente famosa na primatologia, de um grupo de babuínos hamadrias selvagens que foi levado a um zoológico alemão para exibição ao público. 
Na época, meados do século XX, esses animais eram completamente desconhecidos e o procedimento padrão de alojamento foi utilizado: um númerosemelhante de machos e fêmeas foi alojado em um mesmo local. O que se seguiu depois foi uma verdadeira guerra – machos iniciaram uma disputa cruenta pelas fêmeas, causando morte entre eles e entre as fêmeas em disputa. 
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Trabalhos posteriores, principalmente de Hans Kummer (1984), em ambiente natural e no laboratório, mostraram que esses animais tinham uma organização social extremamente complexa, constituída de quatro níveis famílias, clãs, bandos e tropas. 
 A unidade básica, as famílias, é formada por um macho adulto, ao menos uma, mas em geral duas ou três fêmeas e suas crias.
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 Na situação descrita acima, o desconhecimento do comportamento e ecologia da espécie resultou em um comportamento aberrante, que poderia ser evitado caso o alojamento dos animais fosse feito respeitando suas características específicas. 
Uma questão mais emergente refere-se à pesca esportiva, onde se inclui a prática do pesque-e-solte, na qual se pesca o peixe, ele é retirado da água e, posteriormente, devolvido à água. Essa prática pressupõe que esses animais não sintam dor, uma conclusão que não se sustenta frente a uma abordagem mais ampla sobre os animais (Volpato, 2000). 
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Como a dor é uma percepção que não é fácil de ser evidenciada nos animais não humanos, a descrição comportamental foi fundamental.
Como visto, o conhecimento do comportamento é fundamental para que a criação em cativeiro e o tratamento com os animais sejam feitos de forma ao mesmo tempo eficiente e que atenda às necessidades dos animais.
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5. A educação em ciência e a atração para a carreira científica. A atratividade desta área de pesquisa é uma porta de entrada para a carreira científica para muitos jovens com potencial.
 Dados de Snowdon (1999) mostram que até 75% de alunos de graduação em biologia interessa-se em cursar disciplinas de comportamento animal, nos EUA e no Reino Unido, mesmo quando elas não são obrigatórias.
O estudo do comportamento animal é feito atualmente por várias disciplinas e com objetivos diferentes, embora complementares.
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Laland e Brown (2002) sugerem, o estudo do comportamento requer a investigação de questões amplas, que incluam não apenas aquelas relativas a como o comportamento se desenvolve durante o período de vida de um indivíduo, mas também as relativas à evolução do comportamento. 
Essa amplitude de questões de investigação veio dar origem, ao longo do tempo, a várias disciplinas científicas. Um olhar na história do estudo do comportamento animal permite entender como isto veio a ocorrer.
Contribuições de Darwin e Aristóteles
O modelo teórico que abre a possibilidade do estudo do comportamento animal do ponto de vista evolutivo é proposto por Charles Darwin, em seu livro “A Origem das Espécies” (1859/1981). 
Nele, Darwin propõe a teoria da evolução 1 (A teoria da evolução propõe que as espécies hoje existentes evoluíram a partir da modificação genética de seus ancestrais, através de alterações graduais, e pelo mecanismo da seleção natural. Após a 
formulação de Darwin várias adições foram propostas, como as mutações neutras, o efeito do fundador, a deriva genética e a exaptação.
Contribuições de Darwin e Aristóteles Cont.
através da seleção natural 2, (é um processo através do qual indivíduos mostram sobrevivência e/ou reprodução diferencial. Para que a seleção natural ocorra três condições devem ser satisfeitas: 
a população em que esse indivíduo se encontra deve mostrar variação genética; b) essa característica, de base genética, deve ser transmitida através da hereditariedade; c) algumas das variações devem prover vantagens reprodutivas e/ou de sobrevivência ao seu portador.) 
que parte do pressuposto que há uma continuidade entre todos os seres vivos, o homem aí incluído 3. 
Contribuições de Darwin e Aristóteles Cont.
Isso já havia sido proposto por Aristóteles com sua Scala Naturae; porém, ele via a evolução como uma escada, com o homem em seu topo.
Contribuições de Darwin e Aristóteles Cont.
O grande mérito de Darwin foi descartar a linearidade e propor uma estrutura ramificada, a árvore da vida, nascida de uma única raiz, evoluindo e diversificando-se em inúmeros ramos evolutivos. As diferenças perdem neste caso a conotação de grau ou status, de melhor e pior, de perfeito e imperfeito, sem perder sua relação histórica com a raiz da vida.
Em um livro posterior, “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais” (1873/2000), Darwin faz descrições do comportamento de animais de forma anedótica, como era o costume da época.
Contribuições de Darwin e Aristóteles Cont.
Essas descrições ilustravam seu ponto de vista de que as mentes de homens e animais mostravam diferenças apenas de complexidade e que, portanto, era possível compreender a mente e as emoções humanas através do estudo de animais.
 George Romanes, protegido e posteriormente assistente de pesquisa de Darwin, pode ser considerado o fundador do estudo do comportamento animal, em função de seus estudos do comportamento, principalmente de invertebrados, usando como pano de fundo a teoria da seleção natural. 
Contribuições de Darwin e Aristóteles Cont.
Outros cientistas se interessaram pela área e desenvolveram estudos no final do século XIX e início do século XX, como Herbert Spencer Jennings, Ivan Pavlov, Edward L. Thorndike e T. Schjelderup-Ebbe, cujo estudo sobre a ordem das bicadas em galinhas deu origem ao conceito de dominância.

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