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A Deficiência Visual e Suas Implicações no Desenvolvimento Infantil O Sistema Visual e sua Função A partir de informações contidas em diferentes textos e livros, conheceremos como é formada a nossa visão, características das principais patologias e a importância da estimulação precoce às crianças com deficiência visual. Temos conhecimento que 80% das imagens recebidas/percebidas pelo ser humano são captadas pela visão e que a formação da imagem visual depende, além do olhos, de uma rede integrada e de estrutura complexa: a função cerebral que tem a capacidade de receber, decodificar, selecionar, armazenar as imagens visuais, associando-as a outras experiências. Para enxergar é necessário que o nervo óptico e a retina estejam intactos . A retina é formada por células foto-receptoras, os cones: responsáveis pela visão central e visão de cores; e pelos bastonetes: responsáveis pela visão periférica e adaptação à pouca iluminação – visão noturna. As terminações das células nervosas constituem o nervo óptico que levam os estímulos visuais ao cérebro, local onde as imagens são interpretadas. A mácula, ponto central da visão, é responsável pela acuidade visual, a qual nos permite ver com nitidez e reconhecer detalhes. Chamamos de íris o disco colorido dos olhos, que controla a entrada e a quantidade do estímulo luminoso. Exercendo a função de regulador da quantidade de luz que penetra no olho, e, através da ação dos músculos da íris, a pupila se dilata no escuro e se contrai em alta iluminação.Atrás da íris fica o cristalino, uma lente biconvexa, transparente, responsável pelo foco e nitidez da imagem. Qualquer má formação ou alteração nesse sistema pode prejudicar seriamente a função visual. Para que o olho possa ver com nitidez objetos a curta distância e até muitos quilômetros de distância, as vias ópticas devem estar preservadas e intactas para que a imagem captada pela retina seja transmitida pelo nervo óptico até o córtex visual, responsável pela decodificação e interpretação das imagens visuais. Apresentamos, resumidamente, informações sobre a anatomia do olho e suas funções específicas. Orientamos que você, aluno, conheça mais sobre esse assunto acessando os links indicados e depois comente com seus colegas no fórum o que aprenderam de novidade. No Caderno de Atividades você encontrará maiores informações sobre esta atividade. Conceituando a Deficiência Visual A “deficiência visual” é uma expressão referente ao espectro que vai da cegueira até a baixa visão. Vamos conhecer alguns conceitos básicos para este entendimento: · Visão Central: é aquela na qual a imagem cai no centro da retina, em uma área chamada mácula, e essa visão é cheia de detalhes. É importante na leitura para perto, para longe e nas atividades que exigem percepção de detalhes. · Visão Periférica: é aquela que se forma fora da mácula, na periferia da retina. Essa visão é pouco rica em detalhes; percebe-se a presença de objetos e movimentos, mas nada nítido. É importante para se locomover, principalmente à noite (com pouca iluminação). · Acuidade Visual: refere-se à distância a que um determinado objeto pode ser visto, ou seja, é a capacidade visual de cada olho (monocular) ou dos dois olhos em conjunto (binocular). · Campo Visual: é toda a área que abrange sua visão, sem movimentar os olhos. Conceito no Enfoque Oftalmológico Cegueira ou perda total da visão: redução da acuidade visual central, desde a cegueira total (nenhuma percepção de luz) até acuidade menor que 20/400 (ou seja, 0,05) em um ou ambos os olhos, ou redução do campo visual ao limite inferior a 10°. A cegueira ou perda total da visão pode ser adquirida ou congênita (desde o nascimento). A pessoa que nasce com o sentido da visão, perdendo-o mais tarde, e que guarda memórias visuais, consegue se lembrar das imagens, luzes e cores que conhecem e isso é muito útil para sua readaptação. Baixa Visão: acuidade visual central maior que 20/400 até 20/70 (ou seja, 0,3) – OMS (Organização Mundial da Saúde). É a alteração da capacidade funcional da visão, decorrente de inúmeros fatores isolados ou associados, tais como: baixa acuidade visual significativa, redução importante do campo visual, alterações corticais e/ou de sensibilidade aos contrastes, que interferem ou que limitam o desempenho visual do indivíduo. Conceito na Abordagem Educacional Há comprovação de que pessoas do mesmo grau de acuidade apresentam níveis diferentes de desempenho visual e necessidade de relacionar a utilização máxima da visão residual com o potencial de aprendizagem de cada um, sendo assim consideradas: · Pessoas com baixa visão: aquelas que apresentam (em ambos os olhos) desde condições de indicar projeção de luz até o grau em que a redução da acuidade visual interfere ou limita seu desempenho. Seu processo educativo se desenvolverá, principalmente, por meios visuais, ainda que com a utilização de recursos específicos. · Pessoas com cegueira: aquelas que apresentam desde a ausência total de visão até a perda da projeção da luz. O processo de aprendizagem se fará através dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar), utilizando o Sistema Braille como principal meio de leitura e escrita. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam a existência de aproximadamente 40 milhões de pessoas com deficiência visual no mundo, dos quais 75% são provenientes de regiões consideradas em desenvolvimento. Segundo essa mesma fonte, o Brasil deve apresentar taxa de incidência entre 1,0 a 1,5% da população com deficiência visual, sendo de uma entre 3.000 pessoas com cegueira, e de uma entre 500 pessoas com baixa visão. Na proporção de 80% de pessoas com baixa visão e 20% pessoas totalmente cegas. Como Identificar no Contexto Escolar ou em Casa? A identificação inicial deve se basear em observações importantes, possibilitando a detecção de prováveis comprometimentos visuais. Sintomas físicos: · Irritação crônica nos olhos, indicadas por olhos lacrimejantes, pálpebras avermelhadas, inchadas ou remelosas; · Náuseas, dupla visão ou névoas durante ou após a leitura; · Queixa de enevoamento visual e tentativas de afastar com as mãos os impedimentos visuais; · Hábito de esfregar os olhos, franzir ou contrair o rosto ao olhar objetos distantes; · Inquietação, irritabilidade ou nervosismo excessivos depois de um prolongado e atento trabalho visual; · Pestanejamento contínuo, sobretudo durante a leitura; · Capacidade de leitura por apenas um período curto. Sensibilidade à luz: · Como se comporta quando a luminosidade está na direção de seus olhos? · Esbarra nas pessoas ou em objetos quando está brincando/andando em lugares com muita claridade? Sinais relacionados com movimentos: · Inclinação da cabeça para um lado durante a leitura; · Cautela excessiva no andar; · Correr raramente e tropeçar sem razão aparente; · Hábito de, durante a leitura, segurar o livro muito perto, muito distante, em posição incomum, ou ainda, fechar ou tapar um olho. Sensibilidade a contrastes: · Percebe a existência de desníveis no piso? · Consegue enxergar os degraus de uma escada quando está descendo? · Consegue perceber os objetos que estão sobre uma superfície clara ou escura? Iluminação: · Necessita de iluminação direta durante a leitura? · A troca da cor da luz facilita ou dificulta o desempenho da leitura? · O excesso de luz dificulta a leitura? Campo de visão: · Qual o tamanho da área que a criança enxerga quando está olhando para frente? · Com a criança olhando para frente, mova sua mão de um lado para outro para perceber o campo visual; · Ao movimentar objetos de um lado para outro, repare se ela percebe o movimento lateral. A partir dessas informações, as professoras têm, em todas as situações escolares, normalmente, condições e oportunidade de observar sinais, sintomas, posturas e condutas do aluno que indicam a necessidade de encaminhamento a um exame clínico apurado. Patologias mais Frequentes e sua Implicação no Desenvolvimento Infantil · Retinopatia da prematuridade ou fibroplasia retrolental: pode ser decorrenteda imaturidade da retina, por baixa idade gestacional, e/ou por alta dose de oxigênio na incubadora. O oxigênio em alta concentração provoca vasoconstrição, impedindo a irrigação da retina. Geralmente, acarreta visão muito baixa · Coriorretinite Macular: processos inflamatórios que atingem a coroide e a retina. A causa é a toxoplasmose na gestação, adquirida pelo contato com animais infectados: cães, gatos, coelhos, pombos, galinhas e na carne suína. Nesses casos pode ocorrer perda da visão central, perda do campo central, dificuldade de visão de detalhes. Catarata congênita: é a opacificação do cristalino, produzindo a leucocoria ou mancha branca na pupila. As causa congênitas podem ser decorrentes da rubéola, do sarampo, de fator hereditário, do citomegalovirus. Podem ocorrer também por irradiações, medicações tóxicas e consumo de drogas. Pesquisas apontam que a catarata congênita é uma das maiores causas de cegueira infantil. A prevenção implica em cirurgia precoce e a vacinação e controle epidemológico da rubéola e o aconselhamento genético. Glaucoma congênito: aumento da pressão interna do olho causado por uma anomalia na eliminação do humor aquoso. A pessoa apresenta aumento do globo ocular, muita sensibilidade à luz, lacrimejamento e coceira. É mais frequente após a 4ª idade, em altas hipermetropias, em diabéticos e em negros. O tratamento é cirúrgico e o mais precoce possível, obtendo resultados. · Atrofia óptica: perda total ou parcial da visão, em decorrência de lesões ou doenças no nervo óptico, disco óptico, papila, podendo haver degenerações das fibras. Dificuldade para discriminar objetos à distância e para leitura, diminuição ou ausência de visão de cores. · Degenerações retinianas: ocasionada pela Síndrome de Leber ou Amaurose congênita de Leber, doenças hereditárias ou diabetes. Visão Normal Síndrome de Leber · Deficiência visual cortical: ocasionada por encefalopatias, alterações de sistema nervoso central ou convenções. · Nistagmo: são oscilações voluntárias e rítmicas dos olhos, que ocasionam alteração do sistema sensório-motor ocular. O nistagmo pode ser congênito quando surge durante os seis primeiros meses; pode estar presente nas cataratas congênita, atrofias ópticas, albinismo, alterações retinianas e ouA baixa visão, muitas vezes, passa despercebida pelos pais e professores, manifestando-se, com frequência, no momento em que os níveis de exigência escolar, quanto ao desempenho visual do aluno para perto, são mais exigidos. De forma contrária, a cegueira é mais facilmente detectada. Como já apontamos, detectar precocemente constitui fator decisivo para as intervenções pontuais que favorecerão no desenvolvimento global da criança. Devem ser propiciadas condições de estimulação adequada às necessidades de cada criança, proporcionando o desenvolvimento de suas potencialidades e minimizando as limitações impostas pela incapacidade visual. Formas de Prevenção · Toda mulher deve ser vacinada antes de engravidar, pois o vírus da rubéola materna travessa a placenta, alterando o processo de formação embrionária; · As causas de origem genética e familiar (glaucoma, catarata...) podem ser evitadas com aconselhamento genético; · Dentre as causas congênitas destacam-se como fatores mais frequentes e que podem ser evitados ou controlados: gestação precoce, desnutrição da gestante, drogas em geral, álcool, infecções durante a gravidez. · A prevenção está ligada, também, à política de saúde pública, devendo a investigação epidemiológica ser realizada pelos governos estaduais e municipais. · A Deficiência Visual e suas Implicações · As necessidades básicas para o desenvolvimento físico e emocional de toda criança são movimento, proteção, toque, afeto, cuidados de alimentação e higiene. A partir de intervenções significativas e da compreensão de como cada criança com deficiência visual se movimenta, interage, explora e conhece os objetos e reconhecer o caminho, que é próprio de cada uma, para a construção de significados e de percepções, é que permitirão dar sentidos às experiências vividas por elas. · · A criança com baixa visão ou cega necessitará que as pessoas mostrem no seu próprio corpo como são os gestos sociais e afetivos: dar tchau, cumprimentar, abraçar, bater palmas, etc. Mostrar também como se brinca, como subir e descer escadas, entrar e sair dos espaços, vencer os obstáculos, como os objetos funcionam. Atividades que não há necessidade de ensinar às crianças videntes dessa forma, pois elas aprendem naturalmente pela imitação na convivência social. · · O processo de construção da linguagem e da identidade depende da qualidade da relação, comunicação e interação que a criança com deficiência visual terá com os adultos e outras crianças de sua idade. Motivada pela fala do outro e pela rotina de brincadeiras, esta criança aprenderá a usar as expressões fonéticas, choro, riso, possibilitando a construção do sistema de significação da linguagem. · · O aluno que não enxerga tem dificuldade natural de chegar até aos objetos, portanto necessitam mais do que os outros alunos de indícios e sinais sobre a rotina e mudanças que poderão ocorre no ambiente, por exemplo: onde fica a carteira para sentar-se, quem chega, hora do recreio (toque do sinal), etc. · · A criança pequena, quando não tem ainda possibilidade de agir sobre o meio e o movimento de preensão é incipiente, mobiliza o outro a fazê-lo por ela. O outro é o primeiro instrumento do eu. A criança com deficiência visual vai precisar do outro por mais tempo, pois assim, por meio de movimentos coativos, pode perceber movimentos, posturas, diferentes formas de explorar objetos, até poder agir espontaneamente. · · Cada criança tem seu próprio tempo que deve ser respeitado e a escola deve observar cada situação para identificar quando estas crianças necessitam de um tempo maior que as demais. A organização do espaço escolar, interno e externo, deve ser planejada e arranjada de forma que permita a segurança, autonomia e a independência do aluno cego ou com baixa visão. · · Percebe-se que uma das maiores dificuldades encontrada pela pessoa com deficiência visual é a falta de compreensão social a respeito das reais implicações da cegueira ou da baixa visão que, geralmente, gera a falsa convicção de que a deficiência visual está vinculada à dificuldade de aprendizagem e até, em algumas situações, com o déficit intelectual. O desenvolvimento cognitivo dessas pessoas não são alterados pela visão, pode estar reduzido pelas restrições de experiências que a elas são oferecidas, ameaçando o desenvolvimento normal do processo educativo do aluno privado da visão. · · A partir dessas informações, é fundamental a observação do desempenho do aluno em sala de aula, no recreio, na interação com os colegas e em ambientes externos, que favorecerá a avaliação funcional do aluno pelo professor de sala de aula e o professor especializado. A avaliação funcional se torna ponto de partida para a compreensão das possibilidades e necessidades educacionais especiais, que deverão ser atendidas, e das adaptações metodológicas para favorecer o processo educacional do aluno e, deverão fazer parte do projeto político pedagógico da escola. · · Aprendizagem dos Alunos com Cegueira e com Baixa Visão · Construímos nosso mundo dia a dia por meio de ações e explorações daquilo que nos rodeia e assim nossas percepções vão se construindo. Por meio dos nossos movimentos e interações com o ambiente vamos desenvolvendo nossas habilidades de perceber, experimentar, organizar e compreender o mundo onde estamos. Para nós, que dispomos da visão, a predominância do sentido da visão está tão presente que nos tornamos desatentos ao fato de que criamos linguagem visual para descrever o que nos cerca, sem utilizarmos, conjuntamente, os demais sentidos. Assim, no mundo dos videntes, como não poderia deixar de ser, é o referencial visual que se impõe. · Para compreender a pessoa com deficiência visual e sua maneira de relacionar-seno mundo que a cerca, há sempre a considerar sua estrutura perceptiva e cognitiva. O ponto de partida é conhecer suas experiências perceptivas. · Os sentidos – visual, tátil, auditivo, gustativo, cinestésico – se traduzem uns aos outros sem necessidade de um intérprete, ao fazerem do corpo o sujeito da percepção. Cada órgão dos sentidos questiona o objeto à sua maneira: a visão não é nada sem um certo uso do olhar; a maneira que o sujeito dirige e passeia seu olhar para perceber os objetos é de diferentemente da maneira que sua mão explora tatilmente este mesmo objeto. · Uma criança que nunca enxergou tem uma experiência perceptiva diferente daquela que ficou cega nos primeiros anos de vida. Cada uma delas foi percebendo e conhecendo o mundo por meio de suas experiências e pelos sentidos de que dispunha. · [...] distraia-me seguindo as cercas de bucho com as mãos, para colher os primeiros lírios e violetas desabrochadas que eu descobria apenas com o olfato [...] De repente, meus dedos encontravam uma planta que eu reconhecia pelas folhas e flores... percebia quando mamãe e titia iam sair, pegando seus vestidos [...] Pela vibração a pancada da porta fechando, e por outras vibrações indeterminadas, percebi que chegara visita. Keller, 1939, apud Masini, 2007 · Refletindo o relato de Helen Keller, os dados do tato, do olfato e da audição compunham as suas experiências perceptivas e ajudavam-na a adquirir conhecimento do seu próprio mundo, no qual ia construindo sua identidade. · É importante que o professor e a comunidade escolar conheçam o que é específico para a educação de uma criança com deficiência visual estarem atentos ao que ela faz, ao que expressa gestual ou verbalmente, à sua entonação de voz, às suas expressões, à sua maneira de relacionar-se com as pessoas e com objetos, para que possam oferecer condições apropriadas ao seu aprendizado, procurando oferecer o que é significativo para ela. · Para aprimorar seu conhecimento leia os textos abaixo: Escolarização do Aluno com Cegueira e com Baixa Visão Através das imagens e a escrita nos cartazes de rua, na televisão, nos jornais e em muitos outros lugares, é que as crianças iniciam o ato de aprender a ler e escrever. Por este motivo, a criança vidente incorpora os hábitos de leitura e escrita desde pequena. Ao contrário, a criança com cegueira demora muito tempo a entrar no mundo do “ler e escrever”. No seu cotidiano, o Sistema Braille não é utilizado como sistema socialmente estabelecido, pois apenas as pessoas cegas se utilizam dele. Estas crianças só tomam contato com a escrita e leitura do sistema Braille no período escolar, o que pode trazer prejuízos e atrasos no processo de alfabetização. A proposta pedagógica da educação infantil deve oferecer atividades que proporcionam o desenvolvimento de habilidades importantes e necessárias para a alfabetização em braille. Livvro infantil adaptado alfabeto móvel em Braille livro em braille O professor alfabetizador, em parceria com o professor especializado em educação especial, deve levar em considerações todos os aspectos de desenvolvimento da criança a partir dos seguintes princípios: · Qual o grau de perda da visão da criança? · O que a criança sabe? · Que tipo de experiência deve anteriormente? · Que oportunidades lhe foram oferecidas? · O que lhe é significativo no momento? · O que a criança saber fazer nesse momento? · Qual o nível de envolvimento da família? Devem oferecer atividades para estimular o desenvolvimento das habilidades relativas à percepção corporal e espacial, discriminação tátil e auditiva, desenvolvimento de conceitos, motricidade fina e ampla, além da estimulação do resíduo visual para as crianças com baixa visão, tendo como meta a ação funcional, significativa, vivenciada e construída pela criança, com a colaboração conjunta entre professor-aluno-colega e familiares. Deve oferecer também o aprendizado da escrita cursiva, que oportunizará à pessoa cega a escrita do seu nome dando-lhe independência e autonomia para assinar qualquer documento. Os alunos aprendem mais com a convivência com colegas e professores, de suas atitudes, de sua maneira de falar, de seus gestos, da forma como encaram o homem e o mundo, do que por influência do ensino direto, formal, que os professor faz das matérias escolares. Dessa forma, a escola deve ser vista como um espaço dinâmico, que oportunize várias trocas entre os alunos, entre estes e os professores, entre a família e a comunidade escolar. Na perspectiva da educação inclusiva, a escola deve educar para a diversidade, para a formação de um ser humano capaz de prestar atenção ao diferente e respeitá-lo. No caso da educação de crianças cegas, independente da concepção pedagógica ou linha metodológica adotada pela escola, não se pode negligenciar o desenvolvimento integral, a utilização de técnicas e recursos específicos (reglete, punção, acesso ao código Braille) fundamentais ao êxito e eficácia do processo de aprendizagem da leitura e escrita em Braille. · Todo aluno com baixa visão também necessita ser alfabetizado pelo sistema de leitura e escrita Braille? Como já aprendemos, a baixa visão é a alteração da capacidade funcional da visão (mas se for apenas um só olho, não se caracteriza deficiência visual) decorrente de fatores isolados ou associados, como: baixa acuidade visual significativa, redução importante do campo visual, alterações para visão de cores e sensibilidade aos contrastes, que interferem ou limitam o desempenho visual. Com a utilização de recursos específicos, o aluno com baixa visão se desenvolverá no processo educativo, principalmente por meios visuais. Providências devem ser tomadas para que este aluno possa aproveitar ao máximo a visão que possui, e que também utilize os outros sentidos (tato, audição, olfato, paladar, cinestésico) para entender o mundo que o rodeia. Várias são as dificuldades apresentadas na escolarização pelo aluno com baixa visão: · Observar detalhes e figuras de um livro; · Ler textos em letras comuns, mimeografados ou em cores claras; · Identificar pessoas e objetos à distância (necessita aproximar-se muito); · Necessita aproximar-se para reconhecer os desenhos; · Esbarra ou tropeça em objetos; · Pode ter sensibilidade à luz; · Dificuldade na realização das tarefas escolares (pode ver o texto de forma confusa ou só percebe parte dele); · De entender o que se passa a sua volta; · Participa pouco das atividades sociais e de lazer. Alguns alunos podem apresentar movimentos repetitivos, maneirismo, girar ou mover a cabeça, balançar as mãos ou os dedos diante dos olhos. É indicado a substituição de tais movimentos por alguma atividade significativa e interessante. Assim, como não consegue ver bem, o aluno com baixa visão pode ter um aprendizado mais lento e geralmente precisa de um tempo maior para cumprir suas tarefas. Se as formas de interação, comunicação e o ambiente escolar forem inadequados, o aluno pode passar por preguiçoso, tímido, desatento e até ser identificado como um aluno com deficiência mental. Para a máxima utilização da visão presente é importante proporcionar a este aluno condições e recursos adequados para melhorar seu desempenho visual. Lembrando que as pessoas com baixa visão apresentam funcionamento visual variado e os auxílios e as adaptações de que necessitam são específicas para cada caso e devem ser indicados pelo médico oftalmologista. As adequações curriculares podem se constituir de grandes e pequenos ajustes, seja nos objetivos educacionais, nos procedimentos e estratégias de ensino adotados, no processo de avaliação e na temporalidade. Com o objetivo de favorecer o acesso ao currículo escolar do aluno com deficiência visual, relacionamos as seguintes adequações: · Propiciar recursos físicos, ambientais e materiais ao aluno na unidade escolar a qual está matriculado; · Possibilitar os melhores níveis de comunicação e interação com as pessoas que convivem na comunidade escolar, reconhecendo e adotando sistemas deadaptações de comunicação escrita: Braille, tipos ampliados, computador; · Realizar ajustes que garantam a participação do aluno nas diferentes atividades escolares. Lembrando também que, o posicionamento do aluno na sala de aula é extremamente importante para a sua participação efetiva nas atividades escolares. Geralmente, a melhor posição é de frente para a lousa e no centro da sala, mas encontramos situações que, de acordo com a melhor visão do aluno e dependendo do olho afetado, há necessidade de sentá-lo um pouco mais para a esquerda ou para a direita. E, é o aluno que nos indicará qual o melhor lugar na sala de aula para ele visualizar a lousa. Devemos considerar a distância focal que cada aluno tem, e a aproximação do material de leitura dos olhos não prejudica a visão – e sim propicia um aumento do tamanho da imagem. Essa aproximação é um recurso para a ampliação do objeto, desde que não cause cansaço excessivo. A iluminação inadequada pode proporcionar dificuldades no processo de aprendizagem e no bem-estar do aluno. O professor deve observar e cuidar para que os locais sejam uniformemente iluminados para a execução das tarefas visuais e localizar sempre o aluno próximo à iluminação natural – peça para ele sinalizar. Quando o aluno apresentar fotofobia (sensibilidade à luz), é indicado utilizar uma cortina para reter a iluminação direta nas áreas de trabalho, como também evitar o uso das superfícies brilhantes. Além da iluminação, o uso do contraste adequado melhora a função visual. A lousa deve ser escura o suficiente para permite o contraste do giz - evitar o giz de cor verde ou vermelho, que são cores mais difíceis de serem vistas. Para os cartazes e gráficos também usar o contraste (preto e branco; preto e amarelo). A fonte dos textos xerografados ou impressos devem ser ampliados e reforçados em tinta preta para melhorar a nitidez, conforme a necessidade do aluno. Para que as crianças com deficiência visual progridam, elas devem participar de programas com conteúdos curriculares específicos (Braille, orientação e mobilidade, atividades de vida diária, sorobã), além das atividades próprias da sala de aula. O Atendimento Educacional Especializado - AEE deve ser oferecido, preferencialmente, na própria escola, em turno contrário ao da sala de aula, pelo professor especializado para o ensino dos conteúdos específicos mencionados. Estudaremos mais detalhadamente este assunto em outro capítulo. Tecnologia Assistiva e Deficiência Visual "Posso admitir que o deficiente seja vítima do destino! Porém não posso admitir que seja vítima da indiferença!" John Kennedy Como vimos anteriormente, a Tecnologia Assistiva é o termo utilizado para identificar recursos e serviços disponíveis para possibilitar o acesso das pessoas com deficiência ao convívio social com independência e autonomia. Assim, as pessoas com baixa visão poderão se beneficiar dos recursos ópticos e não-ópticos específicos, para longe ou para perto, como forma de melhorar o foco por ampliação, proporcionando maior nitidez de imagens. Conheceremos os recursos específicos que são, geralmente, caracterizados por lentes de aumento para correção da visão de perto ou de longe, facilitando o processo de aprendizagem dos alunos com baixa visão. Recursos Ópticos Auxílio para perto · Óculos bifocais ou monofocais · Sistemas telemicroscópicos · Lentes esferoprismáticas · Lupas manuais e de apoio Auxílio para longe · Telelupas · Telescópio · Telessistemas · Lunetas Recursos Não-Ópticos · Tipos ampliados · Acetato amarelo · Plano inclinado · Acessórios (lápis 4B ou 6B, canetas de ponta porosa,etc) · Softwares com magnificadores de tela · Programas com síntese de voz · Chapéus e bonés · Circuito fechado de televisão – CCTV Outros recursos · Modelos e Maquetes: para trabalhar as noções de conceitos relacionados aos fenômenos geográficos, ao sistema planetário e aos fenômenos da natureza. · Mapas: políticos, hidrográficos e outros podem ser apresentados em relevo. · Livro didático adaptado · Livro acessível: livros em áudio, impressos em tinta (ampliado) e em braille com desenhos em alto relevo ou descrição sucinta das ilustrações. · Recursos tecnológicos: programas que facilitam as atividades na informática: · DOSVOX http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/intro.htm – leitor de tela com síntese de voz e possui um conjunto de ferramentas e aplicativos. · VIRTUAL VISION https://www.virtualvision.com.br/Virtual-Vision/O-Que-E-O-Virtual-Vision.aspx – software para operar com os utilitários e as ferramentas do ambiente Windows. · JAWS https://pt.wikipedia.org/wiki/JAWS – software conhecimento como o leitor de tela mais completo e avançado. Possui uma ampla gama de recursos e ferramentas com tradução para diversos idiomas. Soroban Instrumento utilizado para trabalhar cálculos matemáticos (adição, subtração, multiplicação e divisão), adaptado do ábaco para ser utilizado pelas pessoas cegas. De origem japonesa, nas últimas décadas o soroban vem sendo difundido como um recurso auxiliar na educação de pessoas cegas em vários países, como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Austrália, África do Sul, Alemanha, Colômbia além do Brasil. O soroban oportuniza o aprendizado dos cálculos matemáticos de forma lúdica e concreta proporcionando a construção do pensamento lógico abstrato. Joaquim Lima de Moraes, em 1949, adaptou o soroban no Brasil e hoje o seu uso tem valor reconhecido por professores especializados e pelas pessoas cegas e seu emprego já faz parte do currículo do Ensino Fundamental para pessoas com deficiência visual, sendo adotado pelo sistema educacional em todo território brasileiro. Sistema Braille para Leitura e Escrita Em 1825, um jovem cego chamado Louis Braille inventou um código de leitura e de escrita a ser utilizado por pessoas cegas denominado de Sistema Braille. Essa conquista ficou reconhecida como marco importante para a educação e integração social das pessoas com deficiência visual. Louis Braille, a partir da sua invenção e de vários estudos desenvolvidos para elaborar a proposta, definiu a estrutura básica desse sistema. O Sistema Braille é utilizado mundialmente e teve total aceitação por parte das pessoas cegas. Alguns países da Europa e Estados Unidos apresentaram algumas resistências inicialmente, mas por sua eficiência e aplicabilidade o Sistema Braille se impôs definitivamente como o melhor meio de leitura e escrita para as pessoas cegas. O que é o Sistema Braille? É um sistema composto pelo arranjo de seis pontos em relevo, disposto em duas colunas de três pontos e estes seis pontos formam a “cela braille” configurando um retângulo. O que o Sistema Braille representa? Chamamos de Símbolos Universais do Sistema Braille (Alfabeto Braille) a representação das letras do alfabeto, dos números, dos sinais de pontuação, notações musicais e científicas, tudo o que é usado na grafia comum e como é universal pode exprimir as diferentes línguas e escritas da Europa, Ásia e África. Para a escrita em Braille são utilizados dois instrumentos: · As regletes modernas são compostas por duas placas de metal ou plástico, fixadas de um lado por dobradiça permitindo a introdução do papel. A escrita na reglete pode tornar-se automática para o cego, como o lápis para a pessoa com visão normal, exceto pelo cansaço. Na reglete a escrita é feita da direita para a esquerda e, após a retirada do papel, a leitura se faz da esquerda para a direita - virando o papel. · A Máquina: O braille pode ser produzido também pela máquina especial de datilografia, composta por 7 teclas: 6 teclas correspondem a um ponto da cela Braille e a 7ª tecla representa o espaçamento. Para a fixação do papel na máquina, utiliza-se o rolo comum da máquina. A escrita é da direita para esquerda permitindo a leitura antes da retirada do papel. · O professor deve dedicar uma atenção especial para o desenvolvimento das habilidadesmotoras para que o aluno cego se envolva nas atividades elaboradas para o processo de escrita em Braille, pois este aprendizado exige destreza, harmonia e sincronização de movimentos. Atendimento Educacional Especializado O Atendimento Educacional Especializado - AEE para os alunos com deficiência visual deve ser oferecido, prioritariamente, nas escolas regulares em um espaço próprio, e no turno contrário ao da sala de aula comum. Nesse espaço o professor especializado planejará atividades para desenvolver as habilidades perceptivas, sensoriais e motoras dos alunos que auxiliarão o aprendizado da leitura e escrita em Braille e o manuseio do soroban. Este espaço deve ser organizado, pelo professor especializado, com recursos diversos que atendam as necessidades específicas dos alunos com deficiência visual e a qualidade, variedade e adequação dos recursos disponíveis, neste ambiente, possibilitam o acesso ao conhecimento, à comunicação e à aprendizagem significativa. Além do ensino do Braille e Soroban o AEE também deve oferecer os conteúdos de Atividade da Vida Diária e Orientação e Mobilidade. Atividades da Vida Diária - AVD As Atividades da Vida Diária – AVD se compõe de um conjunto de atividades que proporcionem o desenvolvimento pessoal e social nos diferentes afazeres do dia a dia, visando a independência, a autonomia e a convivência social. Tem como função habilitar a pessoa com deficiência visual a desenvolver seu auto-cuidado e demais tarefas domésticas de forma independente. Apresentamos os principais objetivos: · Favorecer a aquisição de hábitos saudáveis na alimentação, higiene, saúde e vestuário; · Proporcionar segurança e confiança pela utilização integrada dos sentidos remanescentes; · Favorecer a aquisição de conceitos e pistas espaço-temporais e relações causais, para o domínio e a organização do meio; · Estimular atitudes, habilidades e técnicas para o desenvolvimento de atividades de vida prática; · Orientar quanto a posturas, gestos e comunicação social; · Desenvolver habilidades de vida doméstica: culinária, jardinagem, artesanato, domínio de equipamentos, pequenos consertos, atividades artísticas etc.; · Orientar quanto à adequação social, etiquetas, boas maneiras em restaurantes, festas, eventos públicos e outros; As AVD’s deverão iniciar em casa, devendo a escola ser um local de complementação desse ensino e prática. O professor especializado, quando perceber a necessidade, deverá orientar a família, pois a maioria desconhece a forma correta de ensinar e auxiliar seus filhos. A criança necessita de ajuda para a execução e a repetição da experiência para que possa executar a atividade com segurança e desembaraço. A metodologia utilizada para o ensino das AVD’s deve ser sempre flexível e baseada em atividades programadas passo a passo, no tempo e ritmo próprio de cada aluno, de forma que cada passo seja complementado, até que o aluno apresente desempenho adequado e eficaz. Orientação e Mobilidade – OM Além da deficiência visual comprometer a aquisição e o desenvolvimento de conceitos e interações sociais, acarreta, também, comprometimentos relacionados à capacidade de se orientar e se locomover com independência e segurança. [...] a limitação na orientação e mobilidade é considerada como o mais grave efeito da cegueira sobre o indivíduo. KEPHART e SCHAWATZ (1974) apud MEC/SEESP, 2003 O ensino da Orientação e Mobilidade deve ser ministrado por um professor especializado habilitado nessa disciplina, quando ensinará técnicas para que o aluno adquira a capacidade de se orientar e de se locomover nos diferentes espaços, como: escola, lar, comunidade, trânsito, etc. Dominando estes espaços e sentir-se inserido neles, o aluno adquire maior confiança em si e maior domínio pessoal. Assim, podemos conceituar Orientação e Mobilidade como: · Orientação – habilidade da pessoa para perceber o ambiente que a cerca, estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com esse ambiente, através dos sentidos remanescentes. · Mobilidade – capacidade do indivíduo de se mover, reagindo a estímulos internos ou externos, em equilíbrio estático e dinâmico. A mobilidade da pessoa com deficiência visual é alcançada por método sistematizado que envolve a utilização de recursos ópticos, mecânicos, eletrônicos, animal (cão-guia), em vivências contextualizadas. · O programa de ensino de Orientação e Mobilidade é complexo, deve seguir etapas e técnicas para o seu desenvolvimento e ser ministrado individualmente ou em pequenos grupos e é necessário considerar as condições sensório-motoras, experiência de vida, necessidades e interesses da pessoa com deficiência visual. · Os objetivos serão atingidos gradualmente e o professor precisará ser sensível às necessidades de cada aluno. O professor, inicialmente, participa como guia do aluno para ajudá-lo a manter sua orientação e adquirir informações audível, tátil, cinestésicas necessárias para uma mobilidade segura, elegante e eficiente. · É imprescindível o programa de OM para as pessoas cegas, pois estas pessoas são capazes de se locomover, orientando-se e sabendo para onde vai. Ao ser capaz de andar, com o auxílio da bengala ou do cão-guia, a pessoa atravessará uma avenida, irá ao banco, ao correio, fará compras, etc. ·