Prévia do material em texto
| p. 1 MARC 06 – “UM DIA DIFÍCIL” (Sepse e HIV) Objetivos: - Definir conceito, fisiopatologia e manejo clínico da sepse e choque séptico; Investigação laboratorial da sepse; Reconhecer a AIDS como fator predisponente da sepse. - Definir evolução natural da AIDS suas formas de transmissão e confecções; Conhecer o perfil epidemiológico da AIDS; Discutir aspectos bioéticos e de segurança do paciente relacionados ao diagnóstico de AIDS; Discutir a comunicação de más notícias; Discutir os cuidados paliativos nos pacientes críticos. - Definir e classificar infecção hospitalar relacionada a assistência a saúde; - Abordar diagnóstico diferencial de febre de origem indeterminada (FOI). 1. Sepse e choque séptico 1.1. Definição e epidemiologia - Historicamente, propuseram que o termo “sepse grave” fosse usado para descrever casos em que a sepse fosse complicada por disfunção orgânica aguda e o termo “choque séptico” usado para um subgrupo de casos de sepse complicados por hipotensão e anormalidades da perfusão apesar de ressuscitação volêmica adequada. - Para esclarecer a terminologia e refletir a compreensão atual da biopatologia da sepse, em 2016 a Sepsis Definitions Task Force propôs as Third International Consensus Definitions especificando que a sepse é uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção, levando à disfunção orgânica aguda. Essa definição diferencia a sepse da infecção não complicada que não leva a disfunção orgânica, evolução ruim ou morte. - À luz da ampla variação nas maneiras de identificar o choque séptico em ambientes clínicos, de pesquisa ou de vigilância, as Third International Consensus Definitions ainda especificaram que o choque séptico fosse definido como um subgrupo de casos de sepse em que as anormalidades circulatórias e celulares/metabólicas subjacentes sejam suficientemente profundas para aumentar substancialmente o risco de mortalidade. - Para auxiliar os médicos na identificação da sepse e do choque séptico à beira do leito, os novos critérios clínicos “Sepsis-3”: - Nos EUA, recentes estudos de coorte usando dados administrativos sugerem que pelo menos 2 milhões de casos de sepse ocorram anualmente. O choque está presente em cerca de 30% dos casos, resultando em um número estimado de 230 mil casos em uma revisão sistemática recente. - Embora os dados demonstrem que a sepse é um problema de saúde pública significativo nos países de renda alta, seu impacto nas populações de países de rendas baixa e média é provavelmente ainda mais substancial devido à maior incidência de doenças infecciosas e à alta prevalência de HIV em algumas regiões do mundo em desenvolvimento. 1.2. Etiologia e fatores de risco - A sepse pode surgir a partir de infecções adquiridas na comunidade ou no hospital. - Entre essas infecções, a pneumonia é a fonte mais comum (~50% dos casos); as próximas infecções mais comuns são as intra-abdominais e as urogenitais. Além do pulmão (que representa 63,5% dos casos de sepse), outros focos são: abdome (19,6%), corrente sanguínea (15,1%), trato urinário (14,3%), pele (6,6%), relacionados ao uso de cateter (4,7%) e sistema nervoso central (2,9%). | p. 2 - Agentes etiológicos: Principais Gram-positivos isolados: Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae; Principais Gram-negativos isolados: Escherichia coli , espécies de Klebsiella e Pseudomonas aeruginosa. - Nos últimos anos, as infecções por Gram- positivos foram relatadas com maior frequência que as por Gram-negativos. OBS: As hemoculturas normalmente são positivas em apenas 1/3 dos casos, enquanto muitos casos têm culturas negativas em todos os sítios. - Fatores de risco: Estão relacionados com a predisposição para o desenvolvimento de infecção e, após o desenvolvimento da infecção, com a probabilidade de desenvolver disfunção orgânica aguda. Fatores de risco comuns para um risco aumentado de infecção: Doenças crônicas (p. ex., infecção por HIV, DPOC, câncer, diabetes) e imunossupressão. Fatores de risco para a progressão de infecção para disfunção orgânica: Estado de saúde subjacente, função orgânica preexistente e momento de início do tratamento. ◦ Idade avançada (extremos de idade), sexo masculino, raça/etnia negra, abuso de álcool, cateteres venosos ou outras condições que envolvam integridade cutânea. 1.3. Fisiopatologia - Toda infecção por um microrganismo ativará nosso sistema imunológico. Tal resposta terá início, primeiramente, pela resposta inata (ou inespecífica), que englobará a resposta de macrófagos, neutrófilos e eosinófilos contra o agente infeccioso. Essa resposta manifestar-se-á, principalmente, através da fagocitose, produção de exotoxinas, enzimas proteolíticas e ativação de células dendríticas. - Células dendríticas, por sua vez, serão os maestros da interseção entre a resposta inata e a adaptativa: elas apresentarão uma molécula proteica ou polissacarídica que compõe o microrganismo invasor (epítopo), ativando linfócitos T helper (auxiliares). - Consecutivamente, os linfócitos auxiliares ativarão as células efetoras da resposta adaptativa (ou específica): linfócitos B (que produzirão anticorpos), linfócitos T (que executarão uma resposta celular citotóxica) e células NK (natural killer), que produzirão uma resposta citotóxica em células infectadas e liberarão exotoxinas. - Os linfócitos T também são estimulados a produzirem uma grande tempestade de citocinas, a qual culminará em uma intensa resposta infamatória, causando vasodilatação, redução intensa da resistência vascular periférica, choque e dano ao endotélio vascular (favorecendo a trombose). São exemplos de citocinas pró-infamatórias a IL-1, IL-6 e TNF-α. A sepse ocorre quando a liberação de mediadores pró-inflamatórios em resposta a uma infecção excede os limites do ambiente local, levando a uma resposta generalizada. Um fato interessante é que a hiperprodução de IL-10 (citocina anti-inflamatória) reduz a ação vasodilatadora das outras citocinas, poupando o paciente de um choque refratário e diminuindo a intensidade dos processos deletérios da sepse. - A vasodilatação de capilares gerada por essas citocinas culmina em um eventual extravasamento plasmático. - A vasodilatação intensa gera, consecutivamente, uma redução importante da resistência vascular periférica (RVP), consequentemente, a pressão arterial (PA) é reduzida, levando à hipotensão arterial sistêmica. Para compensar a hipotensão arterial e não deixar o organismo morrer de choque, nosso corpo tenta aumentar o débito cardíaco através do aumento da frequência cardíaca. Temos aqui, taquicardia e hipotensão. - A redução da PA com vasodilatação capilar intensa privará células de diversos órgãos de receberem oxigênio e glicose adequadamente. Sem glicose, células e tecidos entram em estado | p. 3 catabólico, produzindo inúmeros tipos de radicais livres. Sem oxigênio, as células realizarão sua produção de energia através do metabolismo anaeróbio, que, além de ser ruim do ponto de vista energético (produz apenas 2 ATPs), tem como subproduto o ácido lático. O ácido lático, por ser um ácido facilmente ionizável, irá dissociar-se em íons H⁺ e lactato. O acúmulo de íons H⁺ gerará, então, uma acidose metabólica de ânion gap aumentado às custas de lactato, que consumirá os íons bicarbonato (HCO3 ¯) disponíveis no sangue. ◦ A acidose leva ao ritmo respiratório de Kussmaul como forma compensatória. - Supressão imune: Os pacientes que sobrevivem à sepse inicial, mas permanecem dependentes de terapia intensiva, ocasionalmentedemonstram evidências de um sistema imune suprimido. Esses pacientes podem ter focos de infecção persistente apesar da terapia antimicrobiana ou experimentar a reativação de vírus latentes. O aumento de morte celular apoptótica, especialmente, de células B, células T CD4+ e células dendríticas foliculares, tem sido implicado na supressão imune e na morte associadas à sepse. 1.4. Manifestações clínicas - O paciente séptico pode se apresentar no departamento de emergência (DE) com sinais e sintomas relacionados à infecção, à resposta inflamatória sistêmica ou à disfunção ou falência orgânica. - Manifestações gerais do choque: Hipotensão arterial com evidências de hipoperfusão tecidual (oligúria, alteração do estado mental, má perfusão periférica ou hiperlactemia). Sinais de choque: Pele fria, pálida e pegajosa; aumento do tempo de enchimento capilar; livedo; cianose de extremidades; estado mental alterado; redução do débito urinário; hipotensão arterial. Ao exame físico, pode se encontrar febre, taquicardia e taquipneia. - Falência cardiorrespiratória: Respiratório: Classicamente se manifesta com síndrome da angústia respiratória aguda (SARA). ◦ Hipoxemia e infiltrados bilaterais de origem não cardíaca que surgem dentro de 7 dias da suspeita da infecção. ◦ Classificada pelos critérios de Berlim como leve (PaO2/FIO2, 201 a 300 mmHg), moderada (101 a 200 mmHg) ou grave (≤ 100 mmHg). Cardiovascular: Geralmente, apresenta-se como hipotensão. ◦ A causa pode ser hipovolemia franca; má distribuição do fluxo sanguíneo e do volume intravascular devido a vazamento capilar difuso; redução da resistência vascular sistêmica; ou depressão da função miocárdica. ◦ Após a expansão adequada de volume, a hipotensão frequentemente persiste, necessitando do uso de vasopressores. - Lesão renal: Lesão renal aguda (LRA) se manifesta como oligúria, azotemia e níveis crescentes de creatinina sérica, frequentemente, havendo necessidade de diálise. - Complicações neurológicas A disfunção típica do SNC se apresenta como coma ou delirium . Polineuropatia e miopatia da doença crítica também são comuns, especialmente, em pacientes com um curso prolongado. Para os sobreviventes da sepse, o comprometimento cognitivo moderado a grave pode estar presente. - Manifestações adicionais: Íleo, elevação dos níveis de aminotransferases, alteração do controle glicêmico, trombocitopenia e coagulação intravascular disseminada, disfunção suprarrenal e síndrome do eutireóideo doente. OBS: Após o estabelecimento da sepse e a infecção causadora ser considerada controlada, a temperatura e a contagem de leucócitos costumam retornar ao normal. Porém, a disfunção orgânica geralmente persiste. | p. 4 1.5. Diagnóstico - Da mesma forma que a anamnese e o exame físico, os achados laboratoriais são pouco específicos, e geralmente estão associados à etiologia da sepse, resposta inflamatória sistêmica ou disfunção orgânica. - Achados fisiológicos: Taquicardia (FC > 90 bpm); Taquipneia (FR > 20 irpm); Hipotensão (PAS ≤ 100 mmHg); Hipoxia (SatO2 ≤ 90%). - Achados laboratoriais: Leucocitose (↑) ou leucopenia (↓); Contagem de plaquetas, bilirrubina total ou nível sérico de lactato; ◦ O lactato arterial é um marcador estudado há muito tempo para hipoperfusão tecidual, e a hiperlactemia e o retardo na depuração do lactato estão associados com uma maior incidência de falência orgânica e morte na sepse. Acidose metabólica com anion gap pode ser detectada; ◦ Devido fadiga da musculatura respiratória na insuficiência respiratória associada à sepse. ◦ A vasodilatação da sepse leva à distribuição insuficiente de nutrientes e oxigênio, levando as células ao metabolismo anaeróbio e à produção de ácido lático. Hipoalbuminemia, elevação de troponinas, hipoglicemia e hipofibrinogenemia. - Critérios diagnósticos: Não há um teste específico para sepse, nem um método padrão-ouro para determinar se um paciente está séptico. Critérios para SIRS: Incluem 1 ponto para cada variável (variação do escore de 0-4). A definição exigia a presença de 2 ou mais dos critérios analisados. ◦ Apresenta alta sensibilidade, mas baixa especificidade para o diagnóstico de sepse no departamento de emergência (DE). Escore SOFA: Varia de 0 a 24 pontos, com até 4 pontos atribuídos a cada um de 6 sistemas orgânicos. É amplamente estudado na UTI em pacientes com infecção, sepse e choque. ◦ Com ≥ 2 novos pontos SOFA, o paciente infectado é considerado séptico | p. 5 e pode estar com ≥ 10% de risco de morte hospitalar. ◦ Como o escore SOFA exige múltiplos testes laboratoriais e a sua medida repetida pode ser dispendiosa. Escore SOFA rápido (quick SOFA ou qSOFA): Proposto como auxiliar clínico para identificar pacientes com alto risco de sepse fora da UTI, seja em enfermaria clínica ou setor de emergência. Varia de 0 a 3 pontos, com 1 ponto cada para hipotensão sistólica (≤ 100 mmHg), taquipneia (≥ 22 irpm) ou alteração do estado mental. ◦ Com ≥ 2 pontos tem valor preditivo para sepse semelhante àquele de medidas mais complicadas de disfunção orgânica. * O qSOFA não tem FC, é sempre a FR. NEWS: Com ≥ 4 pontos tem valor preditivo para sepse. ◦ Apresenta melhor acurária para sepse no DE com sensibilidade comparável à do SIRS e especificidade comparável à do qSOFA. ◦ Pode ser usado para a triagem de pacientes com suspeita de sepse. Critérios propostos para choque séptico: Sepse + necessidade de terapia vasopressora para elevar a pressão arterial média ≥ 65 mmHg + concentração sérica de lactato > 2,0 mmol/L após adequada ressuscitação volêmica. 1.6. Tratamento/Manejo OBS: Sistematização do tratamento da sepse: Pacote de 1ª hora de atendimento (golden hour): 5 etapas (mnemônico “ECA! Vi um dragão”). ◦ E xames laboratoriais deverão ser coletados para verificar disfunções orgânicas (incluindo lactato); ◦ C ulturas deverão ser coletadas, preferencialmente, antes do início de antibióticos; ◦ A ntibióticos deverão ser iniciados dentro da 1ª hora de atendimento; ◦ V olume deverá ser oferecido a todos os pacientes com sinais de hipoperfusão; ◦ D rogas vasoativas deverão ser consideradas, caso a hipoperfusão seja mantida. Pacote de 6ª hora de atendimento: Tem como objetivo reavaliar parâmetros perfusionais (incluindo o clareamento do lactato), necessidade de aumento da expansão volêmica e associação de outras classes de drogas vasoativas. - Estabilização do paciente crítico: | p. 6 Suplementação de oxigênio com alvo de SatO2 ≥ 94%; Intubação orotraqueal e ventilação mecânica invasiva devem ser consideradas em pacientes com rebaixamento de nível de consciência incapazes de proteger via aérea, em pacientes com hipoxemia refratária a suplementação não invasiva de oxigênio e em pacientes com esforço ventilatório. Acesso venoso periférico deve ser estabelecido imediatamente após a apresentação do paciente séptico no departamento de emergência. A inserção de um cateter venoso central (CVC) não deve atrasar a infusão de volume, antibioticoterapia e drogas vasoativas quando necessário, que podem ser iniciados em acesso periférico, embora a maioria dos pacientes com quadro de choque séptico necessite de CVC durante sua internação. - Coleta de provas de disfunção orgânica: Exames necessários, inicialmente, em um paciente com suspeita de sepse. Devemos coletar os marcadores prognósticos contidos no escore SOFA. Gasometria arterial, hemograma, bilirrubina total, lactato arterial e creatinina. O mais importante é o lactato arterial , que indicará o grau de hipoperfusão da sepse, responsávelpor todas as outras disfunções. ◦ Além disso, ele é o único parâmetro laboratorial reavaliado no pacote de 6 h. - Coleta de culturas: Tentativa de isolar o agente infeccioso durante o manejo inicial da sepse, com o intuito de auxiliar a guiar o tratamento antimicrobiano (espectro e dose) e, até, encontrar focos infecciosos adicionais. Dessa forma, a etapa fundamental a ser feita para todos os pacientes com sepse é a coleta de 2 pares de hemoculturas de sítios distintos antes do início de antimicrobianos. ◦ Ex: 2 balões de hemocultura (aeróbio/anaeróbio) coletados do braço esquerdo e 2 balões coletados do braço direito, totalizando 4 amostras. Coletar culturas de outros sítios pertinentes. ◦ Infecção do trato respiratório: Cultura de secreção traqueal ou escarro; ◦ Infecção do trato urinário: Uroculturas; ◦ Infecção gastrointestinal: Coprocultura (se diarreia patológica); ◦ Pele, partes moles, sítio cirúrgico: Cultura de abscessos, cultura profunda de sítio incisional, etc. ◦ Artrite séptica: Cultura de líquido sinovial; ◦ Infecção do SNC: Cultura de LCR. Jamais deveremos solicitar culturas de sítios não estéreis, como culturas da cavidade oral, pele e trato genital, pois, habitualmente, elas refletirão colonização/fora local e não bactérias patogênicas. - Antimicrobianos/Antibióticos: Recomendamos que a antibioticoterapia seja iniciada precocemente no paciente com sepse, preferencialmente, em até 1 h da apresentação do paciente no DE, por via intravenosa (IV). Fatores que influenciam na escolha de antimicrobianos: ◦ Foco de infecção; ◦ Uso prévio de antibióticos; ◦ Internação recente ou uso de serviços de saúde; ◦ Comorbidades e imunodepressão; ◦ Dispositivos invasivos; ◦ Padrões de resistência locais. A escolha dos antimicrobianos, embora empírica, pode ser complexa e deve ser personalizada para o paciente. ◦ Ressaltamos a diferença entre antibióticos de amplo espectro (como a ceftriaxona) e antibióticos indicados para bactérias com perfis específicos de resistência (p. ex., meropenem ou polimixina). Sugere-se que a antibioticoterapia seja direcionada para o foco suspeito de infecção. Há recomendação de que a escolha inicial seja por droga ou associação de amplo espectro. ◦ Considerando os agentes mais comumente causadores de sepse, são: S. aureus, E. coli, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae e S. pneumoniae. Os antimicrobianos não deverão ser ajustados para disfunções hepáticas e renais nas primeiras 24 h. O espectro de antibióticos deve sempre ser reduzido quando os patógenos tiverem sido isolados e as sensibilidades estabelecidas. | p. 7 OBS: Controle do foco infeccioso: O problema central de alguns quadros de sepse é a penetração insuficiente de antimicrobianos em abscessos e grandes coleções, porque além de terem uma cápsula que impede a entrada adequada de drogas, habitualmente têm o pH ácido em seu interior, inativando a maior parte dos antimicrobianos absorvidos. Visto isso, o controle de foco infeccioso é passo essencial nessa fase da sepse, tão logo se atinja a estabilidade clínica do paciente: abordagem cirúrgica de infecções intra-abdominais, drenagem de empiemas torácicos, artrocentese com lavado articular de artrites sépticas, desobstrução de pielonefrites obstrutivas, abordagem de necrose pancreática infectada, etc. Pensar em cateteres, sondas e derivações cirúrgicas que possam ser fonte de infecção, pois algumas bactérias formam biofilmes nesses dispositivos e são dificilmente erradicadas. - Terapia antifúngica: A administração rotineira de terapia antifúngica empírica não é justificada em pacientes não neutropênicos. Os principais fatores de risco para infecção fúngica são cirurgia recente, nutrição parenteral, tratamento antimicrobiano ou hospitalização prolongados, quimioterapia, transplante, insuficiência renal ou hepática crônica, diabetes, dispositivos vasculares, choque séptico ou colonização prévia por Candida spp. Mesmo nesse perfil de pacientes, o uso de antifúngicos empíricos não direcionados por culturas não parece reduzir mortalidade. Em pacientes neutropênicos ou com forte suspeita de Candida ou de Aspergillus, equinocandinas (p. ex.: anidulafungina, a caspofungina e a micafungina.) (para Candida) ou voriconazol (para Aspergillus) são medicações de escolha. - Ressuscitação volêmica: Em pacientes sépticos com sinais de má perfusão é recomendada a reposição volêmica inicial com 30 mL/kg de peso ideal de solução cristaloide (solução fisiológica ou ringer lactato, por exemplo) iniciada em até 1 h da apresentação do paciente e terminada nas primeiras 3 h . Sinais de má perfusão/hipoperfusão: ◦ “Regra dos 3 Ps; OU ▪ Pressão arterial média < 65 mmHg; ▪ Perfusão lentificada; ▪ Pulsos filiformes. ◦ Lactato arterial > 2x o valor de referência. O valor de 30 mL/kg deve ser objetivado na ressuscitação inicial, mas essa meta deve ser ajustada a cada paciente, evitando fornecer volumes menores ou maiores do que o paciente necessita. A ressuscitação volêmica deve ser administrada em bolus , em infusão rápida, por exemplo, 500 mL aberto. ◦ Pacientes com disfunção cardíaca reconhecida podem ter a necessidade de redução da velocidade de infusão das soluções de ressuscitação, visando evitar edema agudo pulmonar. ◦ Pela custo-efetividade, sugerimos soluções cristaloides como 1ª escolha . ◦ As últimas evidências não são suficientes para a escolha de uma terapia em detrimento da outra. Os benefícios das soluções balanceadas talvez sejam apenas marginais e em situações de grandes volumes administrados. Ressaltamos que o ringer lactato , de forma geral, não aumenta o lactato sérico do paciente. | p. 8 Idealmente, a responsividade do paciente à terapia fluida deveria ser avaliada antes de cada infusão. ◦ Assumimos como fluidorrespondedor o paciente que apresenta aumento de 15% do débito cardíaco (medido ao ecocardiograma, p. ex.) com a manobra de elevação passiva das pernas. Embora o lactato não seja um marcador direto de perfusão tecidual, ele tem sido repetidamente descrito como um marcador substituto de desfechos adversos. ◦ Assim, quando maior do que 2 mmol/L (> 18 mg/dL) na admissão do paciente, sugerimos uma segunda dosagem 2-4 h após o início da ressuscitação volêmica, como avaliador de medidas já implantadas e indicador prognóstico. A infusão de bicarbonato de sódio em pacientes com acidose láctica não é isenta de riscos, e só deve ser realizada em pacientes com acidose metabólica grave (pH < 7,1 e BIC < 7 mEq/L). Eletrólitos (principalmente cálcio iônico) e nova gasometria devem ser solicitados após 30-60 min da infusão. - Drogas vasoativas (DVAs): O alvo de PAM em pacientes em choque séptico é de 65 mmHg; se necessário, drogas vasoativas estão indicadas. Pacientes hipertensos crônicos possivelmente se beneficiam de manter PAM entre 80-85 mmHg. A droga vasopressora preferencial é a noradrenalina. A adição de uma 2ª ou 3ª droga à norepinefrina pode ser necessária (p. ex., epinefrina, dobutamina ou vasopressina), com dados controversos para auxiliar na seleção do agente. Embora as principais diretrizes sugiram vasopressina (até 0,04 unidade/minuto para reduzir a dose de norepinefrina), a prática varia consideravelmente. Não é necessário o uso imediato de um acesso venoso central para a infusão de vasopressores. ◦ No contexto de emergência, um acesso venoso periférico calibroso poderá ser utilizado nas primeiras horas, tão logo se realize a punção de acesso venoso central. - Suporte adicional: Corticosteroides:Seu uso em pacientes com choque séptico permanece controverso e não há dados convincentes para indicar ou contraindicar o uso rotineiro. A última diretriz do Surviving Sepsis Campaing (2021) defende seu uso para pacientes com choque séptico e necessidade de vasopressores em dose > 0,25 mcg/kg/min por período ≥ 4 h (choque séptico refratário), pois argumenta que embora não existam evidências robustas em mudança de mortalidade, os benefícios superam os possíveis efeitos adversos. ◦ A dose recomendada é de 200 mg/dia de hidrocortisona realizada em bolus EV de 50 mg a cada 6 h ou em infusão contínua, por 7 dias. Transfusão sanguínea: Transfusões de hemácias devem ser reservadas para pacientes com nível de hemoglobina ≤ 7 g/dL. Manobra de elevação passiva das pernas | p. 9 ◦ As exceções incluem choque hemorrágico concomitante ou isquemia miocárdica ativa, que têm indicações específicas de hemotransfusão. Cuidados com a ventilação: ◦ Caso seja necessário realizar intubação traqueal em paciente em choque séptico, evitar drogas cardiodepressoras ou hipotensoras como o midazolam, o fentanil e o propofol para indução em sequência rápida. Quetamina e etomidato são boas opções. ▪ Existe preocupação com etomidato e disfunção adrenal em pacientes críticos. No entanto, não existem evidências que demonstrem que dose única de etomidato cause insuficiência adrenal clinicamente significativa. ◦ Em pacientes em ventilação mecânica, deve-se considerar ventilação protetora, com alvo de volume corrente de 6 mL/kg e pressão de platô não excedendo 30 cmH2O. ▪ Essas estratégias visam reduzir a lesão pulmonar induzida por ventilação e barotraumas durante a assistência do paciente com sepse. ▪ Tem o objetivo de alcançar uma PaO2 entre 70 e 90 mmHg. Cuidados renais: Em pacientes com injúria renal induzida pela sepse, o início do suporte renal agudo (SRA) (p. ex.: diálise) deve ser discutido com o nefrologista. Controle glicêmico: Deve-se manter glicemia sérica < 180 mg/dL, se necessário com insulina de ação rápida. Nutrição do paciente com sepse: Não deixar o paciente instável em jejum e no “soro glicosado” e oferecer, preferencialmente, dieta enteral conforme tolerância. ◦ A sepse produz um estado catabólico intenso, tendo em vista a redução da absorção de nutrientes, impactada pela gastroparesia e íleo adinâmico, além do aumento do consumo energético causado pelo estresse infeccioso. ◦ Esses pacientes devem ter a gastroparesia reavaliada de forma periódica, a fim de evitar-se refluxo e broncoaspiração. Profilaxia de tromboembolismo venoso (TEV): Usar em pacientes com mobilidade reduzida com enoxaparina 40 mg SC 1x/dia ou heparina 5.000 U SC 3x/dia. Profilaxia de úlcera gástrica: Embora recomendada pela Campanha de Sobrevivência a Sepse, tem seu uso cada vez mais desencorajado em pacientes sépticos. ◦ Assim, não recomendamos a prescrição de profilaxia de úlcera gástrica somente pela sepse. - Pacote de reavaliação das 6 h: Reservado para pacientes com sinais de choque séptico, lactato inicial acima de 2x o limite superior da normalidade e com hipoperfusão tecidual (pulsos filiformes, hipotensão, perfusão lentificada, oligúria < 0,5 mL/kg/h). Medida da pressão venosa central (PVC): O alvo é de 8-12 mmHg. ◦ Se PAM baixa e PVC < 8 mmHg: Há pouco volume. Deve-se aumentar cristaloides; ◦ Se PAM baixa e PVC > 12 mmHg: Há muito volume, provável falha cardíaca. Deve-se considerar dobutamina. Variação da pressão de pulso. Ecocardiograma com medida da distensibilidade da veia cava: ◦ Se a PAM está baixa e veia cava tem alta distensibilidade (“murcha”): Há pouco volume. Deve-se aumentar cristaloides; ◦ Se a PAM está baixa e veia cava tem baixa distensibilidade (“cheia”): Há muito volume. Deve-se considerar dobutamina. Resposta com elevação de MMII: ◦ Aumento de PA com elevação de membros: Há pouco volume. Deve-se aumentar cristaloides; ◦ Manutenção da PA com elevação de membros: Há um volume normal. Deve-se considerar dobutamina. Mensuração de saturação venosa central de O2 (SVCO2): A referência é de ≥ 70% (não mista) e ≥ 65% (mista). ◦ Se reduzida e volemia reduzida: Oferecer volume (soluções cristaloides); ◦ Se reduzida e volemia normal ou aumentada: Considerar dobutamina. | p. 10 ▪ Se após o uso do medicamento a SVCO2 permanecer reduzida, considerar outras causas para SVCO2 baixa (anemia, aumento de carboxihemoglobina, etc.). - Seguimento: Unidade de internação preferível: ◦ Pacientes com choque séptico ou em insuficiência respiratória com necessidade de vasopressores ou de ventilação mecânica necessitam de internação em UTI. ◦ Pacientes sem choque e que respondem rapidamente à antibioticoterapia podem ser transferidos com segurança para leito de internação. ◦ Pacientes limítrofes devem ter avaliação cuidadosa e o limiar para escolha de UTI deve ser baixo. 2. HIV: AIDS e distúrbios relacionados 2.1. Epidemiologia - A infecção pelo HIV/AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida) é uma pandemia mundial, com casos relatados em praticamente todos os países. - Estima-se que 95% das pessoas que vivem com HIV/AIDS residem nos países de renda média ou baixa; cerca de 50% são mulheres e 2,1 milhões são crianças < 15 anos. - Em 2016, estima-se que ocorreram 1,8 milhão de novos casos de infecção por HIV no mundo, incluindo 160.000 entre crianças < 15 anos; cerca de 33% de novas infecções ocorreram entre pessoas com idade de 15 a 24 anos. - Globalmente, a maioria das novas infecções por HIV são causadas por transmissão heterossexual. Profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis (UDIs), transgêneros, prisioneiros, homens homossexuais, outros homens que fazem sexo com homens (HSH) e seus parceiros sexuais foram responsáveis por 34% de todas as novas infecções por HIV em 2015. - Entre 2000 e 2016, o número anual estimado de novas infecções por HIV globalmente caiu 40%. - Cerca de 2,1 milhões de pessoas viviam com HIV/AIDS na América Latina e Caribe no final de 2016. O Brasil abriga o maior número de pessoas infectadas por HIV (830.000) na região, e Bahamas tem a maior prevalência da região (3,3%). Os HSH representam a maior parte das infecções por HIV nas Américas Central e do Sul. ◦ No Caribe, a transmissão heterossexual, geralmente, ligada à prostituição, é o mecanismo principal de transmissão. 2.2. Etiologia e classificação - O agente etiológico da AIDS é o HIV, que pertence à família dos retrovírus humanos (Retroviridae) e à subfamília dos lentivírus (oncogênicos). No mundo inteiro, a causa mais comum da doença causada pelo HIV é o HIV-1 (M, N, O, P), que engloba vários subtipos com distribuições geográficas diferentes. O HIV-2 (A a H) foi identificado pela 1ª vez em 1986 nos pacientes da África ocidental e, inicialmente, estava limitado a essa região. - O sistema de classificação atual do CDC para a infecção pelo HIV e AIDS categoriza os pacientes com base nas condições clínicas associadas à infecção pelo HIV junto com o nível da contagem de linfócitos T CD4+. - Um caso confirmado de HIV pode ser classificado em um de 5 estágios clínicos da infecção pelo HIV (0, 1, 2, 3 ou desconhecido). Se tiver havido um teste de HIV negativo dentro de 6 meses do 1º diagnóstico da infecção pelo HIV, o estágio é 0 e | p. 11 permanece 0 até 6 meses depois do diagnóstico. - A AIDS é classificada como estágio 3 se uma ou mais doenças oportunistas específicas forem diagnosticadas. - Se nenhum desses critérios for aplicável (p. ex., por faltar informações sobre resultados do teste de linfócitos T CD4+), o estágio é D (desconhecido).2.3. Transmissão - O HIV é transmitido, principalmente, por relações sexuais (heterossexuais e homossexuais masculinas); pelo sangue e hemocomponentes (drogas injetáveis, transfusões sanguíneas, etc.); e pelas mães infectadas aos seus filhos nos períodos intraparto e perinatal, ou durante o aleitamento materno. 2.4. Evolução clínica da doença - As consequências clínicas da infecção pelo HIV abrangem um espectro que varia da síndrome aguda associada à infecção primária até uma fase assintomática prolongada que culmina na doença avançada. 2.4.1. Infecção aguda pelo HIV - Surge cerca de 3 a 6 semanas depois da infecção primária. - Os achados clínicos típicos da síndrome aguda ocorrem durante o período de viremia plasmática. Em geral, os sinais e os sintomas persistem por uma a várias semanas e regridem gradativamente à medida que a resposta imune ao HIV desenvolve-se e os níveis de viremia plasmática diminuem. - A síndrome é típica de uma infecção viral aguda e foi comparada à mononucleose infecciosa aguda (síndrome mono-like ) . - Manifestações gerais: Febre; faringite; linfadenopatia; cefaleia e dor retro-orbitária; artralgias e mialgias; letargia e mal-estar; anorexia/emagrecimento; náusea, vômitos e diarreia. Vários sinais e sintomas da síndrome aguda (febre, erupção cutânea, faringite e mialgia) são menos frequentes nos indivíduos infectados pelo uso de drogas injetáveis quando comparados com os pacientes infectados por relações sexuais. - Manifestações neurológicas: Meningite; encefalite; neuropatia periférica; mielopatia. - Manifestações dermatológicas: Exantema maculopapular eritematoso e ulceração mucocutânea. | p. 12 - Nessa fase inicial, a carga viral é elevada e os níveis de linfócitos decrescem . - Alguns autores relataram infecções oportunistas durante essa fase da infecção, refletindo a imunodeficiência resultante das contagens reduzidas de células T CD4+ e, provavelmente, também a disfunção dessas células em consequência das anormalidades celulares induzidas pelas proteínas virais e pelas citocinas endógenas associadas aos níveis extremamente altos de viremia plasmática. - O sistema de estadiamento Fiebig tem sido usado para descrever os diferentes estágios da infecção aguda pelo HIV, variando desde Estágio I (apenas positivo para RNA de HIV) até Estágio VI (positivo para RNA de HIV e Western blot completo). - Anormalidades imunológicas: Inicialmente, contagem total de linfócitos e as contagens diferenciais das células T (CD4+ e CD8+) diminuem. Mais tarde, há inversão da razão entre células T CD4+/CD8+ em consequência do aumento da contagem destas últimas células. A contagem total de células T CD8+ circulantes pode continuar elevada ou voltar ao normal; contudo, os níveis de células T CD4+ geralmente continuam reduzidos até certo ponto, embora possa ocorrer aumentos ligeiros até os níveis normais. Cerca de 70% dos indivíduos com infecção primária pelo HIV têm linfadenopatia - A maioria dos pacientes recupera-se espontaneamente dessa síndrome e pode persistir apenas com ligeira redução da contagem de células T CD4+, que se estabiliza por um período variável antes de começar o declínio progressivo; em alguns indivíduos, as contagens de células T CD4+ voltam à faixa normal. 1.4.2. Estágio assintomático/Latência clínica - Embora o intervalo entre a infecção inicial e o início da doença clínica seja amplamente variável, o intervalo médio para os pacientes não tratados é de cerca de 10 anos. - A doença causada pelo HIV com replicação viral ativa é contínua e progressiva durante esse período assintomático. A taxa de progressão da doença correlaciona-se diretamente com os níveis de RNA do HIV. - Os pacientes com níveis plasmáticos altos de RNA do HIV evoluem para a doença sintomática mais rapidamente que os indivíduos com baixos níveis de RNA do HIV. - Alguns indivíduos, designados como pacientes sem progressão da doença em longo prazo, apresentam pouco ou nenhum declínio das contagens de células T CD4+ por intervalos longos. Em geral, esses indivíduos têm níveis extremamente baixos de RNA viral. - Alguns outros pacientes permanecem totalmente assintomáticos, embora suas contagens de células T CD4+ apresentem declínio contínuo e progressivo até chegar a níveis extremamente baixos. Nesses casos, o desenvolvimento de uma doença oportunista pode ser a primeira manifestação da infecção pelo HIV. A linfadenopatia pode persistir nesse período de latência. - Durante o período assintomático da infecção, a taxa média de declínio das células T CD4+ é de cerca de 50/μL por ano em um paciente não tratado. A carga viral diminui. - Quando a contagem de células T CD4+ diminui a < 200/μL, o estado de imunodeficiência resultante | p. 13 é suficientemente grave para colocar o paciente sob risco alto de infecções oportunistas e neoplasias e, desse modo, de desenvolver doença detectável clinicamente. - A candidíase oral pode aparecer nessa fase e é um marcador precoce de imunossupressão. Ela está associada ao subsequente desenvolvimento da pneumocistose. 1.4.3. Doença sintomática/AIDS - Os sinais e os sintomas da doença causada pelo HIV podem surgir a qualquer momento durante a evolução da infecção. Em termos gerais, o espectro das enfermidades observadas modifica-se à medida que a contagem das células T CD4+ declina. As complicações mais graves e potencialmente fatais da infecção causada pelo HIV ocorrem nos pacientes com contagens das células T CD4+ < 200/μL. - O diagnóstico de AIDS é confirmado em qualquer indivíduo com 6 anos ou mais de idade infectado pelo HIV com contagem de células T CD4+ < 200/μL (Estágio 3), bem como em qualquer paciente HIV-positivo que apresente uma das doenças associadas ao HIV, as quais são consideradas indicativas de um distúrbio grave da imunidade celular. - Além das doenças clássicas definidoras de AIDS, os pacientes com infecção por HIV também têm um aumento em várias doenças graves não relacionadas a AIDS, incluindo cânceres não relacionados a AIDS e doenças cardiovasculares, renais e hepáticas. OBS: Diagnóstico de infecção pelo HIV: Sempre devemos realizar 2 testes. | p. 14 OBS: Tratamento da infecção por HIV: Indicação: Atualmente, o tratamento está indicado a todo paciente com diagnóstico da infecção pelo HIV, independentemente do valor dos linfócitos TCD4+ ou da carga viral. Ou seja, diagnosticou e o paciente aceitou tratar, inicie a medicação. Não é necessário aguardar resultado de exames. Agente antirretrovirais: Esquema básico: Vamos iniciar sempre com 3 drogas, sendo 2 delas ITRNs e a 3ª droga, um inibidor da integrase. 1.5. Aspectos bioéticos e de segurança do paciente - O paciente com AIDS tem todos os direitos de um cidadão, em especial o relacionado com a vida e com o adequado tratamento médico e hospitalar, compreendendo este os meios necessários para a melhora da condição mórbida e da mitigação do sofrimento, não podendo em hipótese alguma ser destratado, discriminado ou desrespeitado em nenhum serviço de saúde em virtude de ser uma pessoa com HIV/AIDS. - Para a garantia da saúde da pessoa com HIV/AIDS, foi aprovado, pela Lei 9.326/93 o acesso aos medicamentos, inclusive para as doenças oportunistas. Assim, todos os indivíduos com HIV/AIDS têm o direto de receber gratuitamente do SUS a medicação necessária para o tratamento, cabendo ao Ministério da Saúde padronizar os medicamentos a serem utilizados em cada estágio evolutivo da doença. Além da medicação, o governo federal disponibiliza o exame para a detecção do vírus além de qualquer examenecessário ao tratamento e acompanhamento dos soropositivos, nos serviços públicos especializados. - O teste do HIV, apesar de fazer parte dos exames de rotina do pré-natal, não é obrigatório. Entretanto, a gestante deve ser incentivada a fazê- lo ainda no primeiro trimestre de gravidez, pois muitos casos de HIV/AIDS entre as mulheres, são descobertos no pré-natal. Se isto ocorrer, ela deve ser encaminhada para término do pré-natal e parto, em um setor de referência, para ser acompanhada por uma equipe especializada, diminuindo, desta forma, os riscos de a criança vir a ser um soropositivo para o HIV. - É oportuno destacar que a paciente tem o direito de optar por suas decisões e não deve ser forçada a realizar o tratamento se assim não o desejar. Contudo, ela deve ser conscientizada sobre a obtenção dos benefícios para si e para a criança, provenientes das recomendações médicas, durante a gravidez, o puerpério e os cuidados da criança com HIV positivo. - O sigilo é um direito do paciente; somente a ele cabe abrir mão desse privilégio. Se o paciente manifesta o desejo de encobrir dos familiares suas condições de saúde, deve o médico ou qualquer outro profissional da área da Saúde respeitar tal decisão, persistindo essa proibição de quebra de sigilo, mesmo após a sua morte. A quebra do sigilo dará ensejo à propositura de uma ação judicial visando a impedir e/ou punir a instituição e/ou profissional que praticou tal ato, quer seja pela quebra de sigilo, quer seja por invasão inoportuna da sua intimidade, podendo ser punido na esfera civil e no seu conselho profissional. Por outro lado, cumpre assinalar que a quebra do sigilo poderá ocorrer quando | p. 15 houver expressa autorização do paciente ou de seus responsáveis legais: ◦ Por dever legal, nos casos de notificação compulsória à autoridade sanitária ou em preenchimento de atestado de óbito de portadores de AIDS; ◦ Por justa causa, nas situações de proteção da vida e da saúde de terceiros, quando membros de grupos de uso de drogas injetáveis ou comunicantes sexuais, ou o próprio paciente, recusarem-se a lhe fornecer informações sobre a sua condição de infectado. - De acordo com o Código de Ética que rege a Medicina, em seus artigos 1º, 2º e 3º, o médico é um profissional a serviço da saúde do ser humano e da coletividade. É a Medicina, uma profissão que deve ser exercida sem discriminação de qualquer natureza e que não pode, em qualquer circunstância ou de qualquer forma, ser exercida como comércio. Com efeito, o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deve ele agir com o máximo zelo e o melhor de sua capacidade profissional. Desta forma, nem o médico nem qualquer outro profissional da Saúde pode abster-se de prestar assistência a uma pessoa pelo fato de ela ser portadora do vírus da AIDS. Esse cuidar envolve o rompimento de atitudes preconceituosas e discriminatórias, reconhecendo e respeitando a singularidade de cada ser com HIV/AIDS. - Um outro direito que clamam os participantes do estudo diz respeito ao direito de ser chamado pelo nome e não por “aidético” ou por “aquela menina que tem AIDS”. A este respeito, o Sistema Único de Saúde deixa claro: “O paciente tem direito a ser identificado pelo nome e sobrenome, e não deve ser chamado por forma imprópria, desrespeitosa ou preconceituosa. 1.6. Cuidados paliativos nos pacientes críticos - Os cuidados paliativos são definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como cuidados ativos e totais do paciente cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. - Tais cuidados desenvolvem estratégias de atenção aos pacientes sem possibilidades terapêuticas de cura, visando a controlar efetivamente a dor e outros sintomas advindos da doença, assim como o cuidado, o que compreende as dimensões psicológicas, sociais e espirituais desses pacientes e de suas famílias. - Dentre os fundamentos adotados nos cuidados paliativos dispensados ao paciente com HIV/AIDS, destacam-se a afirmação da vida e o reconhecimento da morte como um processo natural; a promoção do alívio da dor e outros sintomas; a integração entre as necessidades espirituais e psicológicas no cuidado com o paciente em fase de terminal e a implementação de suporte aos familiares durante o processo da doença, da morte e do luto. Esses fundamentos são os mesmos sugeridos pela OMS para os cuidados paliativos. 3. Comunicação de más notícias: Protocolo SPIKES - Este protocolo consiste em 6 etapas com a intenção de habilitar o profissional médico a preencher os 4 objetivos mais importantes durante a transmissão de más notícias: Recolher informações dos pacientes; Transmitir as informações médicas; Proporcionar suporte ao paciente; Induzir a sua colaboração no desenvolvimento de uma estratégia ou plano de tratamento para o futuro. - Etapa 1: S (setting up the interview): Planejar/ensaiar a conversa mentalmente já que é uma situação de estresse. - Etapa 2: P (Perception): Avaliar a percepção do paciente. - Etapa 3: I (Invitation): Obtendo o convite do paciente. - Etapa 4: K (Knowledge): Dando conhecimento e informação ao paciente. Introduções como “infelizmente não trago boas notícias” podem ser um bom começo para diminuir o choque e facilitar o processamento de informações. - Etapa 5: E (Emotions): Abordar as emoções dos pacientes com respostas afetivas. - Etapa 6: S (Strategy e Summary): Estratégia e resumo. Verificar se o paciente não entendeu a discussão pode evitar a tendência documentada dos pacientes de superestimar a eficácia ou não entender o propósito do tratamento. | p. 16 4. Febre de origem indeterminada (FOI) - A maioria das causas graves é infecciosa. Ameaça imediata à vida é decorrente de choque descompensado (geralmente séptico), insuficiência respiratória (relacionada a choque ou a pneumonia) ou infecção do SNC (meningite). - A 1ª grande decisão no DE é verificar a estabilidade clínica do paciente. Pacientes com sinais e sintomas ameaçadores à vida, incluindo alterações significativas no estado mental, dificuldade respiratória e instabilidade cardiovascular, podem necessitar de tratamento rápido e agressivo. O manejo imediato das vias aéreas, monitorização cardíaca e respiratória, acesso IV, ressuscitação volêmica, oxigênio suplementar e suporte respiratório são frequentemente necessários, apesar de informações incompletas sobre a causa da febre. Referências: - BAILE, W. K. et al. SPIKES - A six-step protocol for delivering bad news: application to the patient with cancer. Oncologist, v. 5, n. 4, p. 302-11, 2000. Disponível em: <https://theoncologist.onlinelibrary.wiley.com/doi/f ull/10.1634/theoncologist.5-4-302?sid=nlm %3Apubmed>. - FELISMINO, H. et al. Direitos e deveres de pessoas com HIV/AIDS no âmbito da saúde: um enfoque bioético. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 10, n. 1, 2008. Disponível em: <https://eds.s.ebscohost.com/eds/detail/detail? vid=0&sid=aaab522c-88a3-4947-9464- 33e6c38dc2a4%40redis&bdata=Jmxhbmc9cHQtY nImc2l0ZT1lZHMtbGl2ZQ%3d %3d#db=foh&AN=31949138>. - JAMESON, J. Larry et al. Medicina interna de Harrison. 20. ed. Porto Alegre: AMGH, 2020. - NETO, R. et al. Medicina de emergência: abordagem prática. 17. ed., rev., atual. e ampl. Santana de Parnaíba [SP]: Manole, 2023. - VASCONCELOS, M. et al. Cuidados paliativos em pacientes com HIV/AIDS: princípios da bioética adotados por enfermeiros. Ciência & Saúde Coletiva, v. 18, p. 2559-2566, 2013. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/csc/a/gcy58TBkwzLZbd9j Wn3BBYq/abstract/?lang=pt>. https://www.scielo.br/j/csc/a/gcy58TBkwzLZbd9jWn3BBYq/abstract/?lang=pthttps://www.scielo.br/j/csc/a/gcy58TBkwzLZbd9jWn3BBYq/abstract/?lang=pt https://eds.s.ebscohost.com/eds/detail/detail?vid=0&sid=aaab522c-88a3-4947-9464-33e6c38dc2a4@redis&bdata=Jmxhbmc9cHQtYnImc2l0ZT1lZHMtbGl2ZQ%3D%3D#db=foh&AN=31949138 https://eds.s.ebscohost.com/eds/detail/detail?vid=0&sid=aaab522c-88a3-4947-9464-33e6c38dc2a4@redis&bdata=Jmxhbmc9cHQtYnImc2l0ZT1lZHMtbGl2ZQ%3D%3D#db=foh&AN=31949138 https://eds.s.ebscohost.com/eds/detail/detail?vid=0&sid=aaab522c-88a3-4947-9464-33e6c38dc2a4@redis&bdata=Jmxhbmc9cHQtYnImc2l0ZT1lZHMtbGl2ZQ%3D%3D#db=foh&AN=31949138 https://theoncologist.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1634/theoncologist.5-4-302?sid=nlm%3Apubmed https://theoncologist.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1634/theoncologist.5-4-302?sid=nlm%3Apubmed https://theoncologist.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1634/theoncologist.5-4-302?sid=nlm%3Apubmed