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Nutrição Materno-Infantil Recém-Nascido Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª M.ª Fernanda Trigo Costa Revisão Textual: Prof.ª M.ª Sandra Regina Fonseca Moreira Revisão Técnica: Prof.ª M.ª Camila Helena de Souza Queiroz Recém-Nascido • Associar as características e o desenvolvimento fisiológico do recém-nascido com a progressão na alimentação para compreensão das necessidades e recomendações nutricionais. OBJETIVO DE APRENDIZADO • Classificação do Recém-Nascido e Aspectos Fisiológicos de Bebês Pré-Termo; • Aspectos Fisiológicos do Crescimento e da Alimentação; • Aspectos do Desenvolvimento. UNIDADE Recém-Nascido Contextualização Após a gestação, não nasce somente um bebê. Nasce, também, uma família. E todos esses nascimentos de vidas e novas vidas vêm acompanhados de incertezas e inseguranças, dúvidas e medos: como cuidar, como alimentar? Figura 1 Fonte: Getty Images Fora do útero, o bebê é totalmente dependente de alguém e do ambiente para que possa sobreviver, crescer e se desenvolver. Embora esteja constatado que o leite materno é o melhor alimento para o recém- -nascido, nem sempre as condições de nascimento (fisiologia, peso, idade gestacio- nal) permitem que esse bebê logo ao nascer seja alimentado pela mãe. Compreender as condições de nascimento de um bebê, bem como as possibilida- des existentes para o atendimento a essas condições é essencial para proporcionar um ambiente adequado e saudável. Nesta unidade iremos conhecer como é feita a classificação dos recém-nascidos e como os aspectos fisiológicos, do crescimento e desenvolvimento do bebê influen- ciam e são influenciados pela alimentação. Durante os estudos desta unidade, fica como sugestão as seguintes questões: todos os bebês têm condições de serem alimentados com leite materno? Quais ca- racterísticas fisiológicas podem influenciar a alimentação do recém-nascido? Qual é a importância de uma alimentação adequada nos primeiros meses de vida? Vamos descobrir! Bons estudos! 8 9 Classificação do Recém-Nascido e Aspectos Fisiológicos de Bebês Pré-Termo Ao nascer, é esperado que o menino tenha em torno de 50 cm, e a menina, 49 cm de comprimento, com variação de +/- 2 cm, sendo que o peso médio fica em torno de 3.300g. O tamanho ao nascer pode indicar se houve algum comprometimento no final da gestação ou durante um período mais prolongado, visto que o pico da velocidade de crescimento em comprimento durante o período intrauterino acontece no segundo trimestre da gravidez, e o do peso, no último trimestre. Desta forma, se o recém-nascido (RN) nasce com baixo peso, é maior a probabi- lidade de algum problema ter ocorrido nos meses finais da gestação, mas se o bebê nascer com uma diminuição do comprimento, é bem mais provável que o agravo tenha ocorrido há mais tempo (BARROS FILHO, 2017). A avaliação nutricional de recém-nascidos (RN), principalmente de prematuros, permite a identificação precoce de crescimento anormal, com o objetivo de reduzir a morbimortalidade nesse período (ROSSI, 2015). Durante a avaliação, a classificação do RN poderá ser realizada segundo a idade gestacional (IG) e/ou o peso ao nascer (PN), conforme os seguintes critérios: • Segundo IG: » IG < 37 semanas: RN pré-termo (RNPT); » IG entre 37 e 42 semanas: RN a termo (RNT); » IG > 42 semanas: RN pós-termo; » Prematuro tardio: nascido entre 34 semanas completas e 36 semanas e 6 dias. Os bebês prematuros tardios têm merecido destaque nos últimos anos devido ao aumen- to de sua frequência na população neonatal. Nesses casos, a atenção na avaliação do peso torna-se essencial, pois esses RN apresentam perda de peso mais acentuada, pelas possíveis comorbidades que podem apresentar. A classificação de bebês ao nascimento com base na idade gestacional, peso, maturidade funcional e condições de saúde associadas permite uma abordagem mais personalizada e eficiente no cuidado neonatal. Identificar e manejar adequadamente essas classificações ajuda a proporcionar os melhores cuidados e suporte para o desenvolvimento saudável do recém-nascido. A classificação baseada no peso ao nascer peso ao nascer é um indicador crítico da saúde e do desenvolvimento do recém-nascido. Segundo essa classificação, temos: 9 UNIDADE Recém-Nascido • Segundo PN: » Macrossomia: 4.000g ou mais; » PN normal: 2.500 a 3.999g; » PN < 2.500 g: RN de baixo peso (RNBP); » RN de muito baixo peso (RNMBP): PN < 1.500g; » RN de muitíssimo baixo peso (RNMMBP): PN < 1.000g; » RN microprematuro: PN < 800g. Crianças com peso ao nascer próximo de 500g e idade gestacional em torno de 24 a 25 semanas têm sobrevivido atualmente, mas alimentá-las é um grande desafio. Um RN com PN < 1.000g tem reserva energética para 4 dias, e aqueles com PN < 2.000g, para 12 dias, sendo necessário suporte nutricional precoce. A avaliação do crescimento pode ser realizada pelo gráfico de crescimento intrauterino associado ao gráfico de crescimento pós natal. O gráfico de crescimento intrauterino permite o acompanhamento do cresci- mento fetal e é considerado o padrão-ouro de crescimento do prematuro. A maneira de obtenção pode ser indireta, por meio de medidas ultrassonográficas do feto, ou direta, por meio de medidas de RN prematuros ao nascimento (ROSSI, 2015). Práticas Padrão Ouro: são diretrizes baseadas nas melhores evidências científicas e que permitem a obtenção de resultados confiáveis. A Figura 2 traz um exemplo da curva de crescimento intrauterino relacionada ao peso estimado. Figura 2 – Curva internacional de estimativa de peso fetal Fonte: Adaptado de media.tghn.org 10 11 As curvas com outros parâmetros para o acompanhamento do crescimento fetal podem ser observadas em: https://bit.ly/38OKArw O gráfico de crescimento pós-natal para pré-termos é construído por medidas sucessivas de grupos de RN prematuros. Esse tipo de gráfico leva em consideração a perda de peso das primeiras semanas e posterior recuperação, e pode ser observado na Figura 3. A. Peso B. Comprimento e Perímetro cefálico Figura 3 – Curvas internacionais de crescimento para crianças nascidas pré-termo (meninos) Fonte: Adaptado de Sociedade Brasileira de Pediatria As demais curvas podem ser verificadas em: https://bit.ly/304jsAS O gráfico de crescimento do RN a termo representa, na sua maioria, o cresci- mento de crianças saudáveis até 24 ou 36 meses de vida e possibilita a comparação do crescimento dos RNPT a partir da idade esperada para o nascimento (40 semanas) com os seus correspondentes que nasceram a termo. A Figura 4 traz um exemplo de curva de peso para idade (meninos) do nascimento aos 5 anos. 11 UNIDADE Recém-Nascido Figura 4 – Curva de peso para idade (meninos). (OMS, 2006) Fonte: World Health Organization Demais curvas podem ser observadas em: https://bit.ly/304jsAS Classificação Segundo Peso e IG ao Nascer • Adequado para a IG (AIG): entre os percentis 10 e 90; • Grande para a IG (GIG): acima do percentil 90; • Pequeno para a IG (PIG): abaixo do percentil 10. Bebê PIG Um bebê pequeno para a idade gestacional (IG) é um recém-nascido cujo peso ao nascer está abaixo do 10º percentil para sua idade gestacional, de acordo com tabe- las de crescimento padrão. Isso indica que o bebê é menor do que 90% dos bebês da mesma idade gestacional. Bebê GIG Um bebê grande para a idade gestacional (GIG) é um recém-nascido cujo peso ao nascer está acima do 90º percentil para sua idade gestacional. Isso indica que o bebê é maior do que 90% dos bebês da mesma idade gestacional. A classificação do peso segundo a idade gestacional ao nascer pode ser realizada considerando-se a curva internacional padrão de crescimento pós-natal de recém-nas- cidos prematuros e a termo, Intergrowth (VILLAR et al., 2015), proposta pela Orga- nização Mundial da Saúde (OMS) (Figuras 3 e 5). A classificação deve ser realizada através da intersecção entre os pontos do gráfico e posicionamento entre os percentis. 12 13 Intergrowth:Estudo populacional multicêntrico realizado em oito países (inclusive no Brasil – Pelotas, RS), com dados de peso, comprimento e perímetro cefálico de 20.486 r ecém-nascidos, no período de 2009 – 2013. Foram construídas tabelas gênero-específicas, baseadas nos critérios de percentis. Disponível em: https://bit.ly/4fhbgTl Figura 5 – Curvas internacionais de crescimento awo nascer Fonte: Adaptado de World Health Organization Avalia-se ainda o perímetro cefálico (PC) que apresenta relação direta com o tamanho do encéfalo, seu aumento proporcional indica crescimento adequado e melhor prognóstico neurológico (ROSSI, 2015). Os dados disponíveis na literatura para avaliação dos padrões de crescimento de prematuros são extremamente variados, refletem a evolução do cuidado neonatal e a maior sobrevi- da de recém-nascidos com menores idades gestacionais. Diferentes curvas de crescimento e suas aplicações podem ser observadas no artigo “Padrões de crescimento pós-natal do recém-nascido prematuro: como avaliar”. Disponível em: https://bit.ly/2Zmg3OG 13 UNIDADE Recém-Nascido Considerando que a classificação de um bebê pré-termo está relacionada à ida- de gestacional e que, mesmo com menos de 37 semanas, o bebê pode ter o peso adequado para a IG ou, até mesmo, ser classificado como peso normal, é preciso entender que quando se considera o conceito de crescimento fetal restrito, refere‐se especificamente aos RN que não atingiram intraútero todo o seu potencial de cres- cimento (por fatores relacionados ao feto ou ao ambiente desfavorável no útero, levando à adaptação fetal) (OLIVEIRA, 2017). Se não conseguiram desenvolver todo o seu potencial antes de nascer, é esperado que haja outro padrão de crescimento, que difere do padrão das crianças nascidas a termo. • Crescimento do bebê pré-termo: Crianças nascidas antes de 37 semanas de gestação apresentam um padrão próprio de crescimento classificado em 4 fases: » Fase 1 – Retardo do crescimento: corresponde à fase de doença inicial, logo após o nascimento e pode ser comparada à pequena perda de peso inicial do RN a termo e sadio. Esta fase é maior quanto menor a idade gestacional, menor o peso de nascimento, maior a gravidade e duração da doença inicial e maior a restrição nutricional pós-natal. Os bebês PIG costumam apresentar na vida pós-natal uma fase inicial de retardo do crescimento muito curta ou que não acontece; » Fase 2 – Transição: ocorre com a estabilização das intercorrências clínicas e com o melhor aporte calórico, em que um lento crescimento se inicia, mar- cando a transição entre o retardo do crescimento e a fase de crescimento de recuperação: a perda de peso para e começa um discreto aumento do períme- tro cefálico e do comprimento; » Fase 3 – Crescimento de recuperação: esta fase é caracterizada por aumento rápido do peso, comprimento e perímetro cefálico com sua velocidade de cres- cimento acelerada ultrapassando a encontrada na população geral de crianças a termo. Crianças prematuras sem problemas clínicos vão apresentar seu máximo catch-up entre 36 e 44 semanas. Esta fase pode durar de 6 a 9 meses de idade pós-natal, estando suas medidas, ao final do primeiro ano, entre os percentis 10 e 90 dos gráficos padrão. Quando não se inicia até os 9 meses e não alcança percentis mais elevados até os 2 anos, dificilmente ocorrerá; » Fase 4 – Homeorrexe: esta última fase, também chamada de fase de equilíbrio, é caracterizada por velocidade de crescimento comparável à das crianças normais. Ao se utilizar os gráficos de crescimento para crianças nascidas a termo, é necessário realizar o cálculo da idade gestacional corrigida: idade corrigida é a idade pós-natal menos o número de semanas que faltou entre o nascimento prematuro e o referencial de 40 semanas (é a diferença entre 40 semanas e a idade gestacional). Para o perímetro cefálico, a correção deve ser usada até os 18 meses, já o peso deve ser corrigido até 24 meses (quando essa diferença não é mais significativa) e no comprimento até os 3 anos e 6 meses ainda pode persistir uma diferença de 1 a 2 cm em relação à população geral (ROSSI, 2015). 14 15 Vale ressaltar que a correlação do tamanho ao nascer é baixa em relação à estatura final. O crescimento intrauterino é mais dependente das condições nutricionais, de saúde e do tamanho da mãe do que do seu potencial genético. Durante os dois primei- ros anos de vida, a curva de crescimento pode mudar de canal mudando de percentis, em um fenômeno denominado canalização. Assim, lactentes que se encontram em percentis mais baixos da curva, mas que têm um potencial genético para serem mais altos, fazem uma recuperação logo a partir das primeiras semanas de vida em direção a percentis mais altos, e os com potencial genético para serem mais baixos iniciam a mudança de canal a partir dos 6 meses (BARROS FILHO, 2017). Bebês pré-termo e bebês de crescimento fetal restrito são grupos considerados de alto risco ao nascer por não estarem “prontos” pelo menor tempo que tiveram para crescimento e maturaç ã o gestacional, ou por não terem recebido suprimentos sufi- cientes para enfrentarem a transição para a vida extrauterina e os dias subsequentes ao nascimento. Nessas condições, diversos sistemas corporais podem apresentar desequilíbrio nessas crianças, como: • Dificuldade de regulação térmica: o RN fica mais suscetível às variações da temperatura ambiente e, portanto, mais sujeito a quadros de hipotermia na presença de temperaturas mais baixas, e de hipertermia, quando a temperatura ambiente é excessiva; • Homeostase metabólica: os RN a termo e muitos prematuros normais conse- guem manter inicialmente um nível glicêmico de normalidade a partir da quebra de suas reservas de glicogênio, produzindo um suprimento adequado de glicose. Porém, os RN prematuros, principalmente os de baixo peso ao nascer, por menor reserva de glicogênio, maior propensão a asfixia, distúrbios respiratórios e infecções, podem desenvolver hipoglicemia. Além disso, há dificuldades na regulação de cálcio, magnésio, sódio, fósforo e água corporal; • Sistema respiratório: a importância do bom funcionamento do sistema respi- ratório no período neonatal é tão grande que, muitas vezes, considerar matu- ridade fetal é o mesmo que dizer que o pulmão funciona sem ajudas externas para uma adequada oxigenação, pois é uma das principais causas de morbidade neonatal (OLIVEIRA, 2017). Em decorrência da internação em UTI neonatal, o início da amamentação é posterga- do, prejudicando o vínculo mãe e filho, podendo complicar ainda mais a saúde da crian- ça. O prematuro pode apresentar problemas ao tentar sugar o leite do peito da mãe, por não conseguir coordenar a sucção-deglutição-respiração, podendo apresentar risco de aspiração. Além disso, sugar pode levar a um gasto excessivo de energia levando-o a perder peso. No entanto, tão logo a criança apresente melhora do quadro clínico, a amamentação deve ser incentivada (DAMASCENO et al., 2014). Nutrição em recém-nascidos prematuros e de baixo peso: uma revisão integrativa. Disponível em: https://bit.ly/3foaHYE 15 UNIDADE Recém-Nascido A melhor e primeira escolha é sempre o leite da própria mãe, seguido do leite de doadoras e da fórmula apropriada para a condição do RN. Sabe‐se, inclusive, que há diferenças entre o leite produzido pelas mães de bebês pré‐termo e de termo, reforçando o conceito de que cada mãe tem o melhor leite para o seu filho. Porém, nutrir adequadamente, a fim de proporcionar ao RN pré‐termo um crescimento se- melhante ao crescimento fetal, atingir uma concentração normal de nutrientes no sangue e tecidos e alcançar um desenvolvimento funcional satisfatório é um grande desafio, pois existem situações clínicas dos RN pré-termo que contribuem para nu- trição inadequada; a imaturidade do trato gastrointestinal pode predispor ao risco de doenças e não há consenso sobre as necessidades nutricionais, embora se saiba que quanto menor o prematuro,maiores serão as necessidades nutricionais (Tabela 1) (MOREIRA; VILELLA, 2017). Tabela 1 – Recomendações atuais de nutrientes por via enteral para RN pré-termo por kg/dia Nutrientes ESPGHAN 2010 Tsang et al., 2005 Koletzko, 2014 Volume (mL) 135 a 200 150 a 200 135 a 200 Energia (Kcal) 110 a 135 110 a 120 110 a 130 Proteína (g) 4 a 4,5 (<1kg) 3,5 a 4 (1 a 1,8kg) 3 a 3,6 3,5 a 4,5 Gordura (g) 4,8 a 6,6 4,1 a 6,5 4,8 a 6,6 DHA (mg) 12 a 30 ≥ 16 (18-) 55 a 60 ARA (mg) 18 a 42 ≥ 22 (18-) 35 a 45 Carboidrato (g) 11,6 a 13,2 3,8 a 11,8 (lasctose) 11,6 a 13,2 Vit A (mcg RE) 400 a 1000 700 400 a 1100 Vit D (UI) 800 a 1000 115 a 364 400 a 1000 Vit E (UI) 2,2 a 11 6 a 12 2,2 a 11 Vit C (mg) 11 a 46 18 a 24 20 a 55 Vit B6 (mcg) 45 a 300 150 a 210 50 a 300 Vit B12 (mcg) 0,08 a 0,7 0,3 0,1 a 0,8 Ácido fólico (mcg) 35 a 100 25 a 50 35 a 100 Ferro (mg) 2 a 3 0 a 2 2 a 3 Cálcio (mg) 120 a 140 120 a 230 120 a 200 Fosfato (mg) 60 a 90 60 a 140 60 a 140 Sódio (mg) 69 a 115 0 a 23 69 a 115 Potássio (mg) 66 a 132 0 a 39 78 a 198 Zinco (mg) 1,1 a 2 0,5 a 0,8 1,4 a 2,5 Fonte: MOREIRA; VILELLA, 2017, p. 1231 16 17 Aspectos Fisiológicos do Crescimento e da Alimentação Ao nascer, o feto humano apresenta cerca de 12 a 16% de seu corpo constituído por gordura, porém perde cerca de 5 a 10% do seu peso pela eliminação de água extracelular acumulada no final da gestação. O peso é rapidamente recuperado em até 10 dias depois do nascimento e o peso de quando o bebê recebeu alta deve ser considerado nas avaliações de ganho de peso no primeiro mês de vida. O crescimento infantil é influenciado por fatores genéticos, ambientais e psico- lógicos e se caracteriza por um complexo processo que envolve dimensão corporal e número de células, representado de forma perceptível e simplista pelo avanço do peso e altura. O crescimento linear (altura) é proporcionalmente mais lento que o aumento de peso, sendo que no primeiro ano de vida, uma criança tende a triplicar o peso de seu nascimento, enquanto o comprimento aumenta cerca de 50% tendo como referência o comprimento ao nascer (VÍTOLO, 2015). Nos primeiros seis meses de vida, estima-se o ganho de peso superior a 20g/dia e, no segundo semestre, acima de 15g/dia, porém, cada criança tem seu ritmo de crescimento e deve ser avaliada individualmente (LISSAUER; CLAYDEN, 2009). O esquema alimentar deve ser adequado à imaturidade fisiológica, característica dos primeiros quatro meses de vida, de forma a garantir condições de crescimento e de- senvolvimento, além da prevenção de alergias alimentares, diarreia, desnutrição, ganho de peso excessivo, constipação intestinal, anemia ou outras deficiências nutricionais. Em relação aos processos digestivos, o recém-nascido apresenta algumas limitações que perduram nos primeiros meses de vida, como a capacidade gástrica (7mL ao nascer, que aumenta em 10 vezes nas primeiras semanas e chega a 40mL/kg aos seis meses) e a acidez gástrica, com pH de 5,5 a 7 (básico a neutro) em decorrência da ingestão do líquido amniótico, mas que chega ao padrão do adulto por volta dos seis meses. O tempo de esvaziamento gástrico aumenta com a idade. No RN leva cerca de 2 a 3,5 horas pas- sando para 3 a 6 horas em crianças com idade ≥ 5 anos, mas depende da osmolaridade de densidade energética da alimentação (BATALHA, 2018). • Digestão de carboidratos: os carboidratos representam 40% da energia total ingerida pelo lactente. A digestão de dissacarídeos (lactose, sacarose, maltose) é bem desenvolvida e chega a 70% da função do adulto. A digestão dos po- lissacarídeos é limitada nos primeiros seis meses, pois a atividade da amilase pancreática é baixa. Por isso, não é recomendada a ingestão de amido nos pri- meiros meses de vida, embora haja uma tolerância relativamente boa do lactente às fórmulas com polímeros de glicose, muito associada à ação da glicoamilase presente no intestino; • Digestão de proteínas: as pepsinas podem ser detectadas no organismo do feto por volta de 30 semanas gestacionais, porém sua ação é um pouco prejudicada 17 UNIDADE Recém-Nascido pelo pH mais alcalino na primeira semana pós parto. O mecanismo de absorção dos aminoácidos é completamente desenvolvido desde o nascimento; • Digestão de lipídeos: a atividade da lipase gástrica é observada desde a 25ª semana de gestação e a lipase pancreática desde a 30ª. A absorção de lipídeos alcança 90% de efetividade por volta de um mês de vida (VÍTOLO, 2015). Nas primeiras 24h, a criança elimina o mecônio (fezes esverdeadas em decorrência da ingestão de líquido amniótico, colostro e células presentes no intestino). Após esse período, a frequência das evacuações vária na razão inversa da idade, assim como a consistência das fezes (amolecidas nos RN e lactentes jovens). Por volta de um ano, o padrão é comparável ao de um adulto. O tempo médio de trânsito intestinal (intervalo entre a ingestão do alimento e eliminação do bolo fecal) fica entre 1 a 3h no recém- -nascido, mas irá variar conforme a alimentação. A microbiota intestinal do lactente depende do leite ingerido, sendo o leite materno benéfico na formação de uma micro- biota bífida, ou seja, protetora da mucosa intestinal (BATALHA, 2018). A ocorrência de regurgitação é muito frequente nos primeiros 4 meses de vida e ten- de a desaparecer por volta dos 12 meses, é o que se chama de refluxo gastroesofágico decorrente do relaxamento transitório do esfíncter esofágico inferior. Se a regurgitação for muito intensa ou perdurar por mais tempo, pode prejudicar a ingestão de alimentos e dificultar o ganho de peso, sendo necessário realizar tratamento (VÍTOLO, 2015). Em relação à capacidade funcional dos rins, há limitação na filtração glome- rular e a maturação da função só acontecerá por volta dos 4 meses. É importante considerar essa característica na compreensão da necessidade da diluição do leite de vaca quando for necessário administrá-lo antes dos 4 meses. A alta osmolaridade do leite de vaca puro, pela concentração de proteínas, cálcio, sódio, cloro, potássio e fósforo, é intolerável para o bebê menor de 4 meses (LISSAUER; CLAYDEN, 2009). Aspectos do Desenvolvimento Quando se fala sobre desenvolvimento, abrange-se os vários aspectos interligados que caracterizam a evolução dinâmica do ser humano a partir de sua concepção. É um processo de construção, também chamado de maturação, que resulta da intera- ção entre a influência biológica da própria espécie e do próprio indivíduo e a sua história e seu contexto sociocultural. Do ponto de vista biológico, um desenvolvi- mento adequado depende da integridade dos vários órgãos e sistemas que se integram para lhe condicionar, principalmente o sistema nervoso, que participa de toda ordena- ção funcional que o indivíduo irá experimentar (CARVALHO, 2017). O desenvolvimento infantil também pode ser definido como a representação da capacidade da criança de realizar funções, o que acontece de maneira intensa nos primeiros meses de vida, possibilitando, por exemplo, que a criança se torne ca- paz de se sentar com apoio aos 5 meses e triturar e digerir perfeitamente alimentos diferentes do leite a partir dos 4 meses (VÍTOLO, 2015). 18 19 A Tabela 2 apresenta alguns marcos característicos do desenvolvimento até os 2 anos de idade. A partir dessa idade, o contexto cultural em que a criança se insere passa a ter uma influência maior e, consequentemente, também há maior variação entre os marcos. Tabela 2 – Alguns marcos do desenvolvimento 2 meses • Observa um rosto; • Segue objetos ultrapassando a linha média; • Reage ao som; • Vocaliza (emite sons diferentes do choro); • Eleva a cabeça e os ombros na cama na posição prona; • Sorri. 4 meses • Observa sua própria mão; • Segue com o olhar até 180; • Grita; • Senta com apoio, sustenta a cabeça; • Agarra um brinquedo colocado em sua mão. 6 meses • Tenta alcançar um brinquedo; • Procura objetos fora do alcance; • Volta-se para o som; • Rola no leito; • Inicia uma interação.9 meses • Transmite ibjetos de uma mão para a outra; • Pinça polegar-dedo; • Balbucia; • Senta sem apoio; • Estranhamento (prefere pessoas de seu convívio); • Brinca de esconde-achou. 12 meses • Bate palmas, acena; • Combina sílabas; • Fica em pé; • Pinça completa (polpa a polpa); • Segura o copo ou a mamadeira. 15 meses • Primeira palavras; • Segundos passos; • É ativa e curiosa. 18 meses • Anda; • Rabisca; • Obedece ordens; • Nomeia objetos. 24 meses • Sobe escadas; • Corre; • Formula frases simples (“dá água”, “quer papar”); • Retira uma vestimenta; • Tenta impor sua vontade. Fonte: Carvalho, 2017 Os marcos de desenvolvimento são uma referência para avaliação da evolução do desenvolvimento da criança, porém, pode haver variações conforme o estímulo e o ambiente em que a criança vive. Os estímulos são essenciais para que haja o desen- volvimento, visto que a falta de estímulo impedirá que a criança desenvolva todas as 19 UNIDADE Recém-Nascido suas potencialidades. No entanto, em cada fase a criança está pronta para adquirir certo tipo de habilidade e a estimulação não deve ser além do que a criança possa realizar, pois isso pode gerar desconforto para a própria criança e para a família. Ao se pensar na alimentação, alguns marcos do desenvolvimento são primordiais. As crianças passam de uma postura semirreclinada para a posição sentada, e do mecanismo básico de sugar-engolir para o de mastigar-engolir. Outros pontos são o desaparecimento do reflexo de projeção da língua para fora (por volta dos 4 meses), sustentação do pescoço (5-6 meses) e erupção dos dentes ou endurecimento das gengivas (5-9 meses). Esses aspectos fundamentam que a criança está apta para receber alimentação semissólida por meio de colher a partir dos 4 meses (se em aleitamento artificial) (VÍTOLO, 2015). Nesse caminho do desenvolvimento, até os 12-18 meses as crianças aprendem a se alimentarem sozinhas e gradativamente vão fazendo a transição para a alimen- tação e os modelos alimentares da família, quando vão reconhecendo suas próprias preferências e formando seus hábitos alimentares. Figura 6 Fonte: Getty Images Finalizando esta unidade, pudemos observar a importância do conhecimento dos aspectos fisiológicos e de como fazer a avaliação do crescimento da criança, seja de risco ou não. Vimos que a avaliação envolve considerar a história clínica pregressa, medidas de peso, comprimento e perímetro cefálico, a interpretação adequada das curvas e gráficos, além de fatores específicos e individuais. Assim, o olhar atento e global do profissional possibilita a detecção precoce dos desvios em relação à fase do crescimento em que se encontra a criança, dando subsídios para o planejamento de intervenções capazes de auxiliar no crescimento e desenvolvimento saudável. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Amamentação do Prematuro - VI Semana da Prematuridade #2 https://youtu.be/I5aGzn3EG00?si=8uLo2bm2aEP1RzXV Leitura Cartilha de desenvolvimento: 2 meses a 5 anos https://bit.ly/3SpNdIb Gráficos de Crescimento A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) traz um compilado das diversas referências de gráficos para avaliação do crescimento, disponíveis para download pelo site da SPB, além de publicações científicas diversas. https://bit.ly/304jsAS Caracterização do Desenvolvimento da Alimentação de Crianças Nascidas Pré-Termo entre Três e 12 Meses https://bit.ly/2Omq6gs 21 UNIDADE Recém-Nascido Referências BATALHA, L. M. C. Anatomofisiologia pediátrica – Manual de estudo. versão 1. Coimbra: ESEnfC, 2018. Disponível em: <https://repositorio.esenfc.pt/private/index. php?process=download&id=185277&code=672b6c0eddb5c14c9ecabc192689a085c1 7a618c>. BARROS FILHO, A. A. Crescimento. In: Tratado de pediatria, v.1. 4ed. São Paulo: Manole, 2017. CARVALHO, M. F. P. P. Desenvolvimento normal. In: Tratado de pediatria, v.1. 4ed. São Paulo: Manole, 2017. DAMASCENO, J. R. et al. Nutrição em recém-nascidos prematuros e de baixo peso: uma revisão integrativa. Rev. Soc. Bras. Enferm. Ped. v.14, n.1, p 40-6, Julho 2014. Disponível em: <https://sobep.org.br/revista/images/stories/pdf-revis- ta/vol14-n1/v14_n1_artigo_revisao_2.pdf>. LISSAUER, T.; CLAYDEN, G. Manual ilustrado de pediatria. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. MOREIRA, M. E. L.; VILLELA, L. D. Nutrição do recém-nascido pré-termo. In: Tratado de pediatria, v.2. 4ed. São Paulo: Manole, 2017. OLIVEIRA, N. D. Prematuridade e Crescimento fetal restrito. 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