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Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 1 DIREITO PENAL Professor Paulo Henrique Helene CONCEITO DE CRIME CONCEITO FORMAL De acordo com Juarez Cirino dos Santos, as definições formais mostram o crime como violação da norma penal respectiva – por exemplo, o homicídio como violação da norma não deves matar. CONCEITO MATERIAL Segundo Juarez Cirino dos Santos, as definições materiais mostram o crime como lesão do bem jurídico protegido – por exemplo, o homicídio como destruição da vida humana. CONCEITO ANALÍTICO (dogmático / científico / operacional / doutrinário) Há divergência com relação às estruturas (pressupostos de punibilidade) do fato punível. Todavia, majoritariamente, adota-se um conceito tripartido: fato típico + antijuridicidade (ilicitude) + culpabilidade. Em resumo, temos: FATO TÍPICO ANTIJURÍDICO CULPÁVEL - Conduta; - Resultado; - Nexo Causal; - Tipicidade; - Comportamento não justificado; - Imputabilidade; - Potencial Consciência da Ilicitude; - Exigibilidade de Conduta Diversa; Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 2 FATO TÍPICO É representado por uma conduta humana que provoca um resultado indesejado, previsto na lei penal. Subdivide-se em: a) Conduta: dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva; b) Resultado: naturalístico (que é modificação do mundo fático) ou jurídico (exposição a perigo ou efetiva lesão ao bem jurídico tutelado). c) Nexo causal: relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado. d) Tipicidade: é a perfeita correlação entre o fato concreto e a previsão legal. CONDUTA De acordo com a Teoria Finalista (de Hans Welzel), conceitua-se a conduta como um comportamento humano voluntário e consciente dirigido a uma finalidade. Assim, tradicionalmente teremos como FORMAS DE CONDUTA: - AÇÃO: movimento corpóreo ou comportamento positivo; por exemplo: matar, subtrair, constranger. Os delitos que descrevem uma ação proibida são denominados crimes comissivos. - OMISSÃO: abstenção de um comportamento. - CRIME OMISSIVO PRÓPRIO: o agente viola a norma mandamental, deixando de fazer o que ela determina (obrigação de fazer). Exemplo: no crime de omissão de socorro – art. 135, CP – a norma mandamental é: “prestarás socorro”; - CRIME OMISSIVO IMPRÓPRIO / comissivo por omissão: o agente pode e deve agir (dever jurídico especial) para impedir o resultado, mas se omite (art. 13, §2º, CP). O garante se omite acarretando a produção do resultado naturalístico. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 3 Exemplo: “A”, contratada para ser babá da criança “B”, se distrai assistindo TV, não impedindo que “B” suba numa cadeira e despenque pela janela do apartamento em que reside. Relevância da omissão (CP) Art. 13, §2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Noutro giro, NÃO haverá conduta quanto: → Caso Fortuito/Força Maior: fato imprevisível. Exemplo: um motorista de caminhão é atacado por um enxame de abelhas e acaba colidindo com um outro veículo. Exemplo: Thiago dirige normalmente seu automóvel em viagem de férias quando, em determinado momento, ocorre o rompimento da barra de direção do veículo que, desgovernado, sai da pista e atinge o transeunte Pedro, causando-lhe lesões corporais graves. → Movimento (ou Ato) Reflexo: movimento de reação a um estímulo interno ou externo – ato fisiológico. Exemplo: convulsão epilética; excitação sensitiva (espirro, acesso de tosse). ATENÇÃO: os atos instintivos e automáticos (ex.: ação em curto circuito; reação impulsiva ou explosiva) são passíveis de controle pelo querer (atenção) do agente e não excluem a ação. → Estado de Inconsciência: atos realizados independentemente da vontade humana. Exemplo: sonambulismo; sono profundo; hipnose profunda. Exemplo: “A”, sonâmbulo, pisoteia a cabeça da criança “B”, que estava deitada no chão. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 4 → Coação Física Irresistível (vis absoluta): Força, constrangimento físico exterior que obriga materialmente o agente. Deve ser irresistível, isto é, sem possibilidade de resistência / sem domínio do próprio corpo. Exemplo: “A”, de forma inesperada, empurra “B”, com força, dentro da piscina, chocando-se com a criança “C”, que vem a se afogar e morrer. Conquanto com seu corpo tenha causado a morte de “C”, “B” não realizou conduta do ponto de vista penal. Exemplo: “A”, com força superior a “B” obriga-o a vibrar um golpe de punhal contra o corpo de “C”. RESULTADO - Resultado Jurídico ou Normativo (Teoria Jurídico-Normativa): é a lesão ou exposição a perigo do bem jurídico. Assim, conclui-se que todos os crimes têm resultado jurídico. - Resultado Naturalístico ou Material (Teoria Naturalístico-Material): é a efetiva modificação do mundo exterior. Cuidado, pois existem crimes sem resultado naturalístico, como, por exemplo, o porte de arma de fogo. RELAÇÃO DE CAUSALIDADE (NEXO CAUSAL) No artigo 13, caput, do Código Penal encontramos a teoria da equivalência dos antecedentes, a qual deve ser conjugada ao processo de eliminação hipotética. A teoria da equivalência dos antecedentes – também denominada teoria da conditio sine qua non – sustenta que é causa de um resultado todas as condições que colaboram para a sua produção, independentemente de sua maior ou menor proximidade ou grau de importância. Visto que toda condição do resultado é, igualmente, causa dele, fala-se em equivalência das condições. Já o método de eliminação hipotética considera que uma conduta causou o resultado quando, suprimida mentalmente (imaginando que ela não ocorreu, no momento em que ocorreu e da forma como ocorreu), desaparecia, igualmente, o resultado. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 5 CONCAUSAS CONCAUSA ABSOLUTAMENTE INDEPENDENTE Nessa espécie, a causa efetiva do resultado não se origina, direta ou indiretamente, do comportamento concorrente, paralelo, podendo ser preexistente, concomitante ou superveniente. - PREEXISTENTE: a causa efetiva (elemento propulsor do resultado) antecede o comportamento concorrente. Exemplo: Marília, por volta das 20h, serve, insidiosamente, veneno para João Neto, seu marido. Uma hora depois, João é atingido por um disparo efetuado por Frederico, seu desafeto. Socorrida a vítima morre na madrugada do dia seguinte em razão dos efeitos do veneno. - CONCOMITANTES: a causa efetiva (elemento propulsor do resultado) é simultânea ao comportamento concorrente. Exemplo: Marília, por volta das 20h, serve, insidiosamente, veneno para seu marido. Na mesma hora, coincidentemente a vítima é alvo de um disparo efetuado por Frederico, seu desafeto, vindo a morrer. CONCAUSAS Dependentes Independentes Absolutas Preexistentes Concomitantes Supervenientes Relativas Preexistentes Concomitantes Supervinientes Não por si só = Evento Previsivel Por si só = Evento Imprevisivel Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 6 - SUPERVENIENTES: a causa efetiva (elemento propulsor do resultado) é posterior ao comportamento concorrente. Exemplo: Marília, por volta das 20h, serve, insidiosamente, veneno para seu marido. Antes mesmo de o veneno fazer efeito, cai um lustre na cabeça do João Neto que descansava na sala, causando sua morte portraumatismo craniano. CONCAUSA RELATIVAMENTE INDEPENDENTE Agora a causa efetiva do resultado se origina, ainda que indiretamente, do comportamento concorrente. - PREEXISTENTE: a causa efetiva (elemento propulsor que se conjuga para produzir o resultado) é anterior a causa concorrente. Exemplo: Jorge, portador de hemofilia, é vítima de um golpe de faca executado por Matheus. O ataque para matar, isoladamente, em razão da sede e natureza da lesão, não geraria a morte da vítima que, no entanto, tendo dificuldade de estancar o sangue dos ferimentos, acaba morrendo. - CONCOMITANTE: a causa efetiva (elemento propulsor que se conjuga para produzir o resultado) ocorre simultaneamente à outra causa. Exemplo: Fernando, com a intenção de matar, atira em Sorocaba, mas não atinge o alvo. A vítima, entretanto, assustada tem um colapso cardíaco e morre. - SUPERVENIENTE: a causa efetiva (elemento propulsor que se soma para a produção do resultado) acontece após a causa concorrente. NÃO POR SI SÓ / EVENTO PREVISÍVEL: Exemplo: Guilherme é vítima de um disparado de arma de fogo efetuado por Santiago, que age com a intenção de matar. Levado ao hospital, Guilherme morre em decorrência de erro médico durante a cirurgia. POR SI SÓ / EVENTO IMPREVISÍVEL: Exemplo: Thaeme, com vontade de matar, desfere um tiro em Tiago, que segue em uma ambulância até o hospital. Quando está convalescendo, todavia, o hospital pega fogo, matando o paciente queimado. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 7 TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA Causalidade Causalidade Simples (Finalismo) Causalidade na Teoria da Imputação Objetiva Conteúdo Conditio sine qua non + Processo de Eliminação Hipotética Teoria da Imputação Objetiva Causalidade Objetiva – Gera a Imputação Objetiva ao Resultado Existe causa quando há NEXO FÍSICO, ou seja, mera relação de causa e efeito. Existe causa quando há NEXO FÍSIVO + NEXO NORMATIVO Causalidade Subjetiva – Gera a Imputação subjetiva ao Resultado Análise do DOLO ou da CULPA Análise do DOLO ou da CULPA Em verdade, a teoria da imputação objetiva tem a finalidade de restringir o âmbito e os reflexos da causalidade física (mera relação de causa e efeito). Nesse sentido, citando Jescheck e Roxin, Cesar Roberto Bitencourt expõe que: “Para a teoria da imputação objetiva, o resultado de uma conduta humana somente pode ser objetivamente imputado a seu autor quando tenha criado a um bem jurídico uma situação de risco juridicamente proibido (não permitido) e tal risco se tenha concretizado em um resultado típico. Em outros termos, somente é admissível a imputação objetiva do fato se o resultado tiver sido causado pelo risco não permitido criado pelo autor.” ATENÇÃO: Segundo ROXIN: A criação de um risco não permitido é EXCLUÍDA: a) em primeiro lugar, nos casos de diminuição de risco; Exemplo: desviar golpe dirigido à cabeça da vítima para seu braço. b) em segundo, quando está ausente um aumento juridicamente relevante do risco e, Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 8 Exemplo: mandar uma criança passear na floresta, esperando que ela morra atingida por um raio. c) em terceiro, nos casos de risco permitido. Exemplo: dirigir dentro dos limites de velocidade e atropelar uma criança que, de súbito, se lança sobre o carro. Uma realização do risco, que possibilita uma imputação de resultado, deve ser NEGADA: a) em primeiro lugar, nos casos de cursos causais completamente invulgares e; Exemplo: A, ferido por B, é levado a um hospital, onde vem a falecer em razão de incêndio (curso casual sem relação com os riscos criados pela conduta proibida). Exemplo: B dirige em excesso de velocidade, e quando volta a dirigir corretamente, atropela A, que se lança diante do carro (bem jurídico sem relação com aqueles para os quais a conduta criava um risco). b) em segundo, quando o resultado teria certamente ocorrido também no caso de o sujeito ter se atido ao risco permitido; Exemplo: nem que o caminheiro ultrapassasse o ciclista respeitando a distância correta, este deixaria de cari para baixo da roda do caminhão. c) ademais, a realização do risco, em terceiro lugar, está também excluída quando, apesar da criação de um risco não permitido, a forma como o resultado ocorreu não estiver compreendida pelo fim de proteção da norma violada. Exemplo: a vítima de lesões na perna tropeça anos depois e quebra uma costela. Exemplo: A mata B, a mão de B, ao ouvir a notícia, sofre um infarto e morre. ELEMENTOS SUBJETIVOS DO TIPO (IMPUTAÇÃO SUBJETIVA) TIPO DOLOSO Segundo Juarez Cirino dos santos, o DOLO é a vontade consciente de realizar um crime – ou, mais tecnicamente, vontade consciente de realizar o tipo objetivo de um crime. O dolo é composto de um elemento intelectual (consciência, ou representação psíquica) e de um Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 9 elemento volitivo (vontade, ou energia psíquica), como fatores formadores da ação típica dolosa. TEORIAS DO DOLO: - TEORIA DA REPRESENTAÇÃO: a configuração do dolo exige apenas a previsão do resultado. Conforme assinala Cleber Masson, privilegia o lado intelectual, não se preocupando com o aspecto volitivo, pois pouco importa se o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. Basta que o resultado tenha sido antevisto pelo sujeito. Em nosso sistema penal tal teoria deve ser afastada, por confundir o dolo com a culpa consciente. Para a teoria da representação, podemos falar em dolo toda vez que o agente tiver tão somente a previsão do resultado como possível e, ainda assim, decidir pela continuidade de sua conduta, segundo Rogério Greco. (Não é adotada pelo Código Penal) - TEORIA DA VONTADE: exige tanto a previsão quanto a vontade de produzir o resultado. De acordo com Cleber Masson, essa teoria se vale da teoria da representação, ao exigir a previsão do resultado. Conduto, vai mais longe. Além da representação, reclama ainda a vontade de produzir o resultado. - TEORIA DO CONSENTIMENTO (ASSENTIMENTO OU ANUÊNCIA): Há dolo quando o agente quer ou assume o risco de produzir o resultado. Segundo Cleber Masson, complementa a teoria da vontade, recepcionando sua premissa. Para essa teoria, há dolo não somente quando o agente quer o resultado, mas também quando realiza a conduta assumindo o risco de produzi-lo. Em resumo: (CP) Art. 18, I, DOLO TEORIA Quando o agente quis o resultado... DIRETO VONTADE Ou assume o risco de produzir o resultado... INDIRETO CONSENTIMENTO Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 10 ESPÉCIES DE DOLO: DOLO DIRETO: o agente prevê um resultado, dirigindo sua conduta na busca de realizá-lo. → DOLO DE 1º GRAU: O fim é diretamente pretendido pelo agente, ou seja, o que o autor quer realizar. → DOLO DE 2º GRAU: O resultado é obtido como consequência necessária à produção do fim, isto é, compreende as consequências típicas representadas como certas ou necessárias pelo autor. Exemplo: caso Thomas (Alemanha, 1875). DOLO EVENTUAL: O agente não quer o resultado, mas prevê e o aceita como possível, assumindo o risco que ele ocorra. Em outras palavras, o dolo eventual compreende as consequências típicas representadas como possíveis pelo autor, que consente (ou concorda) em sua produção. Exemplo: caso lederriemenfall (Alemanha, 1955) TIPO CULPOSO Segundo Paulo César Busato, a essência da CULPA é, junto à ausência de compromisso com o resultado (falta de intenção ou dolo), a infração de um dever específico de cuidado. Dever de cuidado que corresponde ao atuar diligente, ao agir de acordo coma experiência comum, com as normas socioculturais e normativa vigente, que prescrevem uma atuação de acordo com ela, para afastar os perigos derivados da conduta. ELEMENTOS DO CRIME CULPOSO: 1. Conduta inicial voluntária: A vontade do agente dirige-se a realização da conduta e NÃO a produção do resultado. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 11 2. Violação de um dever de cuidado objetivo: É o comportamento imposto pelo ordenamento jurídico a todas as pessoas. 3. Resultado involuntário: O resultado nos crimes culposos sempre será naturalístico, ou seja, exige-se a modificação do mundo externo. 4. Nexo Causal: É o liame que une a conduta inicial voluntária ao resultado involuntário. 5. Previsibilidade Objetiva de Resultado: É a possibilidade de o homem médio (homem prudente) prever o resultado. 6. Ausência de previsão: Em regra, o agente não prevê o resultado previsível objetivamente. Excepcionalmente haverá previsão do resultado, como ocorre na culpa consciente. 7. Tipicidade: Não se pune conduta culposa, salvo quando houver expressa disposição em lei. ESPÉCIES DE CULPA: CULPA PRÓPRIA: O agente não quer o resultado e nem assume o risco de produzi-lo. De acordo com Luiz Flávio Gomes, ocorre quando o sujeito não quer o resultado. CULPA IMPRÓPRIA (ou por extensão): Segundo César R. Bitencourt, a culpa imprópria, culpa por extensão ou assimilação decorre do erro de tipo evitável nas descriminantes putativas ou do excesso nas causas de justificação. Modalidades de culpa IMPRUDÊNCIA (é um agir culposo): o agente atua com precipitação, afoiteza; sem os cuidados que o caso requer. Exemplo: conduzir um veículo em alta velocidade num dia de muita chuva. NEGLIGÊNCIA (é uma omissão culposa): A ausência de precaução. Exemplo: conduzir o veículo com os pneus gastos. IMPERÍCIA: É a falta de aptidão técnica para o exercício de arte ou profissão. Exemplo: um piloto troca o pedal do freio pela embreagem e provoca um atropelamento. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 12 Exemplo: o agente, à noite, ao ouvir barulho estranho em sua casa, abruptamente, sem tomar nenhum cuidado, supondo que se trata de perigoso ladrão, sai disparando contra o vulto que vê na varanda e que tinha algo em suas mãos; descobre-se depois que era o guarda noturno que portava um guarda-chuva e que procurava se proteger chuva naquele momento. Responsabilidade penal no exemplo: o agente responde por homicídio culposo. E se a vítima não morrer: de acordo com a clássica doutrina há tentativa de homicídio culposo. CULPA INCONSCIENTE: O agente não prevê o resultado previsível objetivamente. CULPA CONSCIENTE: Depois de prever o resultado, o agente mesmo assim realiza a conduta, acreditando sinceramente que ele não ocorrerá. DIFERENÇAS ENTRE DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE DOLO EVENTUAL CULPA CONSCIENTE Descaso em relação ao bem jurídico; o agente anui ao advento do resultado, assumindo o risco de produzi-lo, em vez de renunciar a ação; Confiança nas próprias habilidades; o agente repele a hipótese de superveniência do resultado, na esperança de que este não ocorrerá; Além disso, para traçar a diferença entre a responsabilidade dolosa e a culposa, são utilizadas várias teorias. Dentre elas, destacam-se a TEORIA DO CONSENTIMENTO ou aceitação do resultado por parte do sujeito (dolo eventual) e a TEORIA DA PROBABILIDADE, que pune dolosamente se o agente aumentou o risco ou a probabilidade de causar o resultado. Deve-se advertir que, em geral, a jurisprudência vale-se de uma concepção eclética, em que se combinam elementos de probabilidade e de atitudes de consentimento. Exemplo: “A embriaguez do agente condutor do automóvel, por si só, NÃO pode servir de premissa bastante para a afirmação do dolo eventual em acidente de trânsito com resultado Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 13 morte.” STJ. 6ª Turma. REsp 1.689.173-SC, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 21/11/2017 (Info 623). Exemplo: “Verifica-se a existência de dolo eventual no ato de dirigir veículo automotor sob a influência de álcool, além de fazê-lo na contramão. Esse é, portanto, um caso específico que evidencia a diferença entre a culpa consciente e o dolo eventual. O condutor assumiu o risco ou, no mínimo, não se preocupou com o risco de, eventualmente, causar lesões ou mesmo a morte de outrem.” STF. 1ª Turma. HC 124687/MS, rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/5/2018 (Info 904). CONCORRÊNCIA E COMPENSAÇÃO DE CULPAS Denomina-se concorrência de culpas ou concorrência de imprudências quando mais de uma pessoa concorre imprudentemente para a produção do mesmo resultado desvalioso. Exemplo: um acidente de trânsito em que um autor conduzia seu veículo em excesso de velocidade e sob efeito de álcool e não consegue, em virtude disso, evitar o choque com outro veículo que, imprudentemente, cruza a via preferencial em que o primeiro trafegava, sem aguardar a passagem do fluxo. Responsabilidade penal no exemplo: ambos os condutores são integralmente e mutuamente responsáveis pelo resultado. ATENÇÃO: Por outro lado, a imprudência de um não pode ser compensada – como no caso da indenização civil – pela imprudência do outro. Desse modo, restam responsabilidades penais para cada um deles pelas lesões cometidas contra o outro. TEORIA DO ERRO ERRO DE TIPO (ESSENCIAL) É a ignorância ou a falsa de representação de qualquer dos elementos constitutivos do tipo penal. É indiferente que o objeto do erro se localize no mundo dos fatos, dos conceitos ou das normas jurídicas. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 14 ATENÇÃO: Se qualquer pessoa erraria, evidentemente que o erro sob consideração não pode ser atribuído ao agente por culpa, por desatenção, por violação do dever de cuidado. Exemplo: Aquele que mantém relações sexuais consentidas com menor de 14 anos que tem aparência de ser bem mais velha, sem cogitar sequer estar em companhia de menor; Exemplo: Caçador que, pensando disparar contra capivara, atinge companheiro de expedição; Exemplo: Quem transporta droga sem ter consciência do que faz; Exemplo: Um senhor, por equívoco, em lugar de pegar a sua bicicleta, acaba se apoderando de outra (deixando a sua no local); Exemplo: No crime de calúnia, o agente imputa falsamente a alguém a autoria de um fato definido como crime que, sinceramente, acredita tenha sido praticado. Exemplo: O agente não presta socorro, podendo fazê-lo, ignorando que se trata de seu filho que morre afogado. Exemplo: Pessoa que tinha umas poucas plantas em seu quintal, para fins medicinais, sem saber que era maconha; Exemplo: Venda de bebida alcoólica a menor supondo que fosse maior; Exemplo: Sujeito que portava um galho verde sem saber que era maconha; Exemplo: Quem destrói um recibo, achando que se trata de papel sem importância; Exemplo: No crime de desacato, o agente desconhece que a pessoa contra a qual age desrespeitosamente é funcionário público, imaginando que se trata de um particular normal. ESPÉCIES Escusável, Inevitável, ou Invencível Mesmo que o indivíduo tivesse empregado o grau de atenção de uma pessoa prudente, o erro teria ocorrido. Exclui o dolo e a culpa Inescusável, Evitável, ou Vencível Se o indivídio tivesse empregado o grau de atenção de uma pessoa prudente, o erro não teria ocorrido. Exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo se estiver previsto em lei. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 15 ERRO DETERMINADO POR TERCEIRO No erro determinado por terceiro,previsto no artigo 20, §2º, do Código Penal, temos um erro induzido, figurando dois personagens: o agente provocador e o agente provocado. Trata-se de erro não espontâneo que leva o provocado à prática do delito. Exemplo: um médico, com intenção de matar seu paciente, induz dolosamente a enfermeira a ministrar dose letal ao enfermo. ERRO ACIDENTAL Incidem sobre elementos não essenciais à configuração do crime e, por consequência, não podem afastar a responsabilidade penal. As modalidades de erro acidental apontadas pela doutrina são o erro sobre o objeto, o erro sobre a pessoa, o aberratio ictus, o aberratio criminis e o aberratio causae. 01- ERROR IN OBJECTO No erro sobre o objeto, o agente, intencionando realizar uma conduta que sabe ilícita, incidente sobre certo objeto material, equivoca-se quanto às suas características intrínsecas, em nada afetando, porém, o desvalor da conduta. Exemplo: O agente quer furtar um computador e leva a maleta respectiva (na crença de que dentro achava-se o objeto desejado). Descobre-se depois que no seu interior havia só uma calculadora. 02- ERROR IN PERSONA O erro sobre a pessoa é previsto expressamente no Código Penal, no artigo 20, §3º, e consiste no equívoco quanto ao sujeito passivo do delito. Nesse caso, a opção do legislador, seguindo a opção finalista mencionada na exposição de motivos, foi por levar em conta as características da pessoa que o autor do delito visava atingir. Exemplo: Numa favela em São Paulo (Heliópolis) um traficante soube que um policial iria à noite ingressar nesse local. Posicionou-se na primeira casa e ficou aguardando. Quando viu um Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 16 vulto se aproximando, disparou (na crença de que se tratava do policial que queria vingar). Depois se constatou que acabou matando um padre, por equívoco, que havia sido chamado para uma extrema-unção. Exemplo: Num ônibus no Rio de Janeiro um sujeito entrou correndo, pulou a catraca e efetuou vários disparos contra a vítima (que morreu na hora). Em seguida o atirador começou a gritar: errei, errei (logo percebeu que matou pessoa errada). 03- ABERRATIO ICTUS Seu erro assenta-se sobre a execução do plano delitivo. Ou seja, o sujeito age mal na realização do crime. Ele pretendia alcançar determinado resultado contra alguém e age para tanto, mas, por falta de precisão no manejo dos meios de execução, acaba produzindo o mesmo resultado contra pessoa diversa da pretendida. Exemplo: Dentro do Senado Federal brasileiro um senador (pai do ex-presidente Collor), em certa ocasião, disparou contra seu desafeto, errou e acabou matando um outro senador (pessoa diversa da pretendida). Exemplo: Um outro congressista atirou a Constituição Federal contra “A”, errou e acabou atingindo “B”. 04- ABERRATIO CRIMINIS No resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) o que ocorre é que o erro na execução determina a alteração do delito realizado. Exemplo: O sujeito discute com um amigo e diz que vai arrebentar o carro dele. Apodera-se de um paralelepípedo e o atira contra o carro. Erra o alvo e mata um transeunte (que passava pelo local). 05- ABERRATIO CAUSAE O erro pode recair sobre a relação causal da ação e o resultado, isto é, a aberratio causae. Nos crimes de resultado o tipo compreende a ação, o resultado e o nexo causal. Pode ocorrer, muitas vezes, que o autor não perceba, não anteveja a possibilidade do acontecer causal da conduta realizada. Exemplo: Desejando matar a vítima por afogamento, joga-a de uma ponte, na queda, ela vem a morrer de fratura no crânio, provocada pelo impacto em uma pedra. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 17 DESCRIMINANTES PUTATIVAS As descriminantes putativas são as excludentes de ilicitude – causas justificantes ou permissivas estão previstas no artigo 23 do Código Penal - que aparentam estar presentes em uma determinada situação, quando na realidade, não estão. Por sua vez, putativo origina-se do termo latino putare, que significa errar, ou putativum (algo que se supõe verdadeiro ou aquilo que aparenta ser autêntico). Exemplo: Dono da casa, durante a noite, efetua disparo de arma de fogo contra pessoa que pensa ser um ladrão e acaba por matar o próprio filho que, no escuro, não foi reconhecido. Exemplo: Indivíduo que encontra um inimigo na via pública e, quando este leva a mão sob as vestes como se fosse sacar de uma arma, efetua disparo contra ele. Posteriormente, verifica-se que a vítima não possuía arma e pretendia pegar apenas uma carteira no bolso interno do paletó. ERRO DE PROIBIÇÃO Pode-se conceituar o erro de proibição como o erro do agente que recai sobre a ilicitude do fato. Nele o agente pensa que é lícito o que, na verdade, é ilícito. Exemplo: Agente proveniente da Holanda com sua cota diária de maconha foi surpreendido em posse da droga no aeroporto de Cumbica (SP) e alegou que desconhecia a proibição da droga no Brasil, quando se trata de posse para uso próprio. Exemplo: Marinheiro preso em flagrante com lança-perfume, quando vinha da Argentina (onde lança-perfume, ao contrário do que ocorre no Brasil, é permitido). ITER CRIMINIS A realização de qualquer fato humano delitivo percorre um caminho, mais ou menos longo, de acordo com cada caso. Esse caminho, processo ou sucessão de etapas recebe o nome de iter criminis. A partir dos atos preparatórios existe responsabilidade penal, desde que o fato constitua um crime autônomo. http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10637476/artigo-23-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033702/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40 Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 18 Exemplo: O agente, com a intenção de matar a vítima (cogitação), adquiri um revolver e se posta de emboscada a sua espera (atos preparatórios), atirando contra ela (execução) e produzindo a morte (consumação). ATENÇÃO: O que é EXAURIMENTO ou CRIME ESGOTADO? Prevalece que não faz parte do iter criminis, podendo influir, a depender do caso concreto, na fixação da pena-base (Art. 59, CP) ou funcionar como qualificadora ou causa de aumento. Exemplo: corrupção passiva - art. 317, §1º (majorante); resistência - art. 329, §1º (qualificadora). TENTATIVA (CP) Art. 14 - Diz-se o crime: II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços. NATUREZA JURÍDICA: é uma norma de extensão ou ampliação temporal da figura típica. ELEMENTOS DO CRIME TENTADO: a) início da execução; b) não consumação do crime por circunstância alheias à vontade do agente; c) dolo de consumação; d) resultado possível; NÃO ADMITEM TENTATIVA: a) os crimes culposos; Exemplo: art. 121, §3º, CP. b) os crimes condicionados (a existência de um resultado naturalístico); Exemplo: art. 122, CP. c) os crimes habituais (exigem a prática reiterada da conduta); Exemplo: art. 282, CP. d) os crimes omissivos (omissão própria); Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 19 Exemplo: art. 135, CP. e) os crimes unisubsistentes (praticados com um único ato); Exemplo: art. 140, CP (verbal). f) os crimes de perigo abstrato (o perigo é absolutamente presumido por lei); Exemplo: art. 306, CTB. g) os crimes preterdolosos (dolo no antecedente e culpa no consequente); Exemplo: art. 129, §3º, CP ESPÉCIES DE TENTATIVA: a) Perfeita/ Acabada/ Crime falho: o agente esgota todos os meios executórios que tinha a sua disposição e não consegue consumar o delito por circunstânciasalheias a sua vontade. b) Imperfeita/ Inacabada: o agente inicia a execução, mas não esgota o processo executório, deixando de consumar o crime por circunstâncias alheias a sua vontade. c) Tentativa Branca (incruenta): ocorre quando o objeto material não é atingido pela conduta criminosa. d) Tentativa Vermelha (cruenta): ocorre quando o objeto material é atingido pela conduta criminosa. OBS: uma só conduta pode abranger várias formas de tentativa ao mesmo tempo, por exemplo, pode haver nas mesmas circunstâncias uma tentativa perfeita e incruenta. CRITÉRIO PARA A DIMINUIÇÃO DA PENA (- 1/3 a - 2/3): A análise do iter criminis (itinerário do crime) percorrido tem importância para a adoção do critério de diminuição de pena. Quanto mais próximo da consumação, menor será a redução de pena, e no sentido inverso, na hipótese da tentativa se distanciar da consumação. DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA / ARREPENDIMENTO EFICAZ (CP) Art. 15 - o agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 20 DESISTENCIA VOLUNTÁRIA: pressupõe a desistência voluntaria “o não fazer”, isto é, o abandono da pratica dos atos que conduzam a consumação do crime, bem como a voluntariedade do agente (independentemente do motivo). Exemplo: desferidos dois disparos, possuindo outros projéteis, cessa a agressão, por ato voluntário do agente, sem que a vítima tenha sofrido lesão fatal. ARREPENDIMENTO EFICAZ (resipiscência): o arrependimento eficaz pressupõe eficácia e um “fazer”. Ele ocorre quando o agente age para evitar que o resultado se produza, após o esgotamento dos atos executórios. Exemplo: após ter envenenado a vítima, o agente fornece a ela o antídoto. - O que é TENTATIVA QUALIFICADA? É a consequência da incidência dos institutos narrados, ou seja, de o sujeito responder apenas pelos atos já praticados. ARREPENDIMENTO POSTERIOR (CP) Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. NATUREZA JURÍDICA: é causa obrigatória de diminuição de pena (- 1/3 a - 2/3). REQUISITOS: a) Crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa; b) Reparação do dano ou restituição da coisa; c) Ato voluntário do agente; d) Até o recebimento da denúncia. Exemplo: Tício furtou a TV de Mévio, porém Tício, influenciado por seu pai, resolveu restituir a coisa no dia seguinte. PECULIARIDADES: - E se o arrependimento ocorrer após o recebimento da denúncia? Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 21 - E se houver violência à coisa? - E se a reparação for parcial? ATENÇÃO: Em se tratando de crime contra a tributária (Lei 8.137/1990), apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP) ou sonegação de contribuição previdenciária (art. 337-A, CP), de acordo com a jurisprudência, notadamente do STJ, o adimplemento do débito tributário (ou da contribuição previdenciária), a qualquer tempo, até mesmo após o advento do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, é causa de extinção da punibilidade do acusado - artigo 9º, § 2º, da Lei 10.684/2003. CRIME IMPOSSÍVEL (CP) Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime. Ocorre o chamado crime impossível quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto é impossível à consumação. Na doutrina também é conhecido como: crime oco, quase-crime, tentativa inútil, tentativa impossível, tentativa inadequada, tentativa inidônea. NATUREZA JURÍDICA: prevalece ser uma causa de exclusão da tipicidade. ESPÉCIES: a) Crime impossível por ineficácia absoluta do meio: o meio de execução utilizado pelo agente é incapaz de produzir qualquer resultado lesivo. Exemplo: CNH grosseiramente falsificada; - Súmula 567, STJ: Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de furto. b) Crime impossível por improbidade absoluta do objeto: o objeto material é inexistente, antes do início da execução do delito. Exemplo: mulher ingere medicamento abortivo sem estar grávida. http://www.stj.jus.br/SCON/sumanot/toc.jsp?livre=(sumula%20adj1%20%27567%27).sub.#TIT1TEMA0 http://www.stj.jus.br/SCON/sumanot/toc.jsp?livre=(sumula%20adj1%20%27567%27).sub.#TIT1TEMA0 http://www.stj.jus.br/SCON/sumanot/toc.jsp?livre=(sumula%20adj1%20%27567%27).sub.#TIT1TEMA0 Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 22 Exemplo: tentar matar pessoa já falecida. c) Crime impossível em face da preparação do flagrante: é aquela prisão em flagrante que ocorre indução ou instigação para que alguém pratique o crime, tudo com o objetivo de efetuar a prisão. - Súmula 145, STF: Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. ANTIJURIDICIDADE (ILICITUDE) É a contrariedade entre o fato típico praticado por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. Em suma, é uma conduta típica não justificada. Por isso, atenção! Todo fato típico será também ilícito se não estiver acobertado por uma das causas excludentes de ilicitude (justificantes ou descriminantes). CAUSA SUPRALEGAL DE EXCLUSÃO DE ILICITUDE CONSENTIMENTO DO OFENDIDO É o ato da vítima (ou do ofendido) em anuir ou concordar com a lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico do qual é titular. São requisitos para sua incidência: a) Bem jurídico disponível; b) Ofendido capaz; c) Consentimento livre, indubitável e anterior ou no máximo, contemporâneo à conduta; d) Que o autor do consentimento seja titular exclusivo ou expressamente autorizado a dispor sobre o bem jurídico. Exemplo: “A”, maior e capaz, consente previamente que “B” destrua seu veículo. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 23 CUIDADO! Em alguns casos o consentimento do ofendido pode funcionar como causa de exclusão da tipicidade no aspecto formal. Isso ocorre quando o consentimento constitui elemento integrante do fato típico, como no caso dos crimes de estupro e violação de domicílio. CAUSAS LEGAIS DE EXCLUSÃO DE ILICITUDE ESTADO DE NECESSIDADE O estado de necessidade caracteriza-se pela colisão de interesses juridicamente protegidos, devendo um deles ser sacrificado em prol do interesse social. São requisitos para sua incidência: a) Existência de perigo atual (instantâneo); b) Direito próprio ou alheio ameaçado pelo perigo; c) Perigo não causado voluntariamente pelo agente; d) Inexistência do dever legal de enfrentar o perigo (Art. 24, §1º); e) Inevitabilidade do comportamento; f) Razoabilidade do sacrifício; g) Conhecimento da situação justificante; Exemplo: O pai para salvar a vida do filho furta alimentos de uma mercearia (furto famélico). - (CP) Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. - LEGÍTIMA DEFESA Direito PenalTeoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 24 A legítima defesa apresenta duplo fundamento: de um lado, a necessidade de defender bens jurídicos perante uma agressão; de outro, defender o próprio ordenamento jurídico, que se vê afetado ante uma agressão ilegítima. São requisitos para sua incidência: a) Agressão Injusta; b) Atual ou Iminente; c) Direito próprio ou alheio; d) Repulsa com meios necessários; e) Uso moderado de tais meios; f) Conhecimento da situação justificante; Obs.: A reação a uma agressão justa não caracteriza legítima defesa, como, por exemplo, reagir à regular prisão em flagrante ou a ordem legal de funcionário público etc. Obs.: O agente que desfere chupes e pontapés na vítima, seu sogro, um senhor de 74 anos, após uma suposta agressão verbal, não respeita os limites da necessidade de moderação. Obs.: São exemplos de direitos passíveis de defesa lícita à vida, a integridade física, o patrimônio, a honra, os costumes sexuais, a saúde pública, o meio ambiente, a segurança dos meios de transporte etc. - (CP) Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. - EXERCÍCIO REGULAR DO DIREITO Segundo Guilherme Nucci, é o desempenho de atividade permitida por lei, penal ou extrapenal, passível que ferir bem ou interesse jurídico de terceiro, mas que afasta a ilicitude do fato típico produzido. Exemplo: Art. 301, CPP - Flagrante facultativo. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 25 Obs.: VIOLÊNCIA DESPORTIVA: Tradicionalmente configura fato típico, mas não ilícito. A ilicitude é excluída pelo discriminante exercício regular do direito. Obs: OFENDÍCULOS: É um aparato pré-ordenado para defesa do patrimônio, por exemplo: caco de vidro, cerca elétrica, cão bravo placa de aviso no portão. ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL De acordo com Guilherme Nucci, é o desempenho de obrigação imposta em lei, ainda que termine por ferir bem jurídico de terceiro, afastando-se a ilicitude do fato típico gerado. Aplica-se aos agentes públicos. Exemplo: Art. 301, CPP - Flagrante obrigatório. EXCESSO PUNÍVEL O excesso compreende-se na conduta ou na parcela de conduta do agente que se utiliza de meios superiores aos necessários, ou faz uso dos meios necessários imoderadamente. Se caracterizado excesso esse poderá derivar de dolo ou culpa. EXCESSO IMPUNÍVEL (INEVITÁVEL OU EXCULPANTE) Trata-se de uma causa supralegal de exclusão da culpabilidade. Constitui-se com a conduta que ultrapassa os limites adequados da legítima defesa, derivada de causas como a alteração brusca de animo, temor ou surpresa. CULPABILIDADE É o juízo de reprovação que recai sobre o autor culpado por um fato típico e ilícito. São elemento da culpabilidade: - Imputabilidade; - Potencial Consciência da ilicitude; - Exigibilidade de conduta diversa. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 26 IMPUTABILIDADE É a capacidade de entender um caráter ilícito do fato e determinar-se de acordo com esse entendimento. Noutro giro, a semi-imputabilidade é a perda de parte da capacidade de entendimento e autodeterminação, em razão de perturbação mental ou de desenvolvimento incompleto ou retardado. Em regra, todo agente é imputável, salvo se presente uma dirimente, ou seja, uma causa excludente de imputabilidade. Imputabilidade → Aspecto Intelectivo: - Saber que é errado → Aspecto Volitivo: - Conseguir se controlar; Dirimentes (isenta de pena) Doença Mental; Desenvolvimento mental incompleto; Desenvolvimento mental retardado; Embriaguez completa proveniente de caso fortuito/força maior; Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 27 DOENÇA MENTAL É a perturbação mental ou psíquica de qualquer ordem, capaz de eliminar ou afetar a capacidade de entender um caráter criminoso do fato ou a capacidade de comandar à vontade com esse entendimento. Exemplos: Esquizofrenia; neurose; paranoia. DESENVOLVIMENTO MENTAL INCOMPLETO Desenvolvimento mental que não se concluiu, a pessoa está evoluindo intelectualmente para se adaptar a sociedade. Exemplos: Menor de idade (-18 anos); Índio não adaptado. DESENVOLVIMENTO MENTAL RETARDADO Pessoa cuja aptidão mental é incompatível com a idade cronológica dela. Exemplo: Débil mental; imbecil; idiota. EMBRIAGUEZ ACIDENTAL COMPLETA Embriaguez é uma causa capaz de levar a exclusão da capacidade de entendimento e de vontade do agente, em virtude de uma intoxicação aguda e transitória causado por álcool ou qualquer outra substancia psicotrópica. Cuidado, pois não é qualquer espécie de embriaguez que afastará a responsabilidade penal. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 28 EMBRIAGUEZ NÃO ACIDENTAL - VOLUNTÁRIA: O agente quer se embriagar. - CULPOSA: Por negligência, embriagou-se. COMPLETA ou INCOMPLETA: Não exclui a imputabilidade, em razão da teoria da actio libera in causa. EMBRIAGUEZ ACIDENTAL -CASO FORTUITO: O agente desconhece os efeitos da substância que ingere. -FORÇA MAIOR: O agente é obrigado a ingerir a substância. - COMPLETA: Retira a capacidade de entendimento e autodeterminação Exclui a imputabilidade (art. 28, §1º); - INCOMPLETA: Diminui a capacidade de entendimento e autodeterminação. Diminui-se a pena do sujeito, (art. 28, §2º) EMBRIAGUEZ PATOLÓGICA Embriaguez doentia. Art. 26, CP EMBRIAGUEZ PREORDENADA Serve como meio para prática de crime. Agravante (art. 61, II, “l”, CP) POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE Para que haja juízo de reprovação é necessário que o agente possua consciência da ilicitude do fato ou, ao menos, nas circunstâncias tenha a possibilidade de conhecê-la (ter discernimento). ERRO DE PROIBIÇÃO Incide o erro sobre a ilicitude do fato quanto o agente sabe exatamente o que está fazendo, porém não sabe que era proibido. Se pelas características dele (baixo nível sociocultural, vida rústica, estrangeiro etc.) comete erro inevitável será isento de pena. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 29 - Se inevitável (escusável): Isenta de pena, dois exclui a culpabilidade. - Se evitável (inescusável): Poderá diminuir a pena de 1/6 para 1/3. EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA Para que a conduta seja reprovável, além da imputabilidade e da potencial consciência de ilicitude, deve-se verificar se o agente podia ter praticado a conduta em situação de normalidade, conforme o ordenamento jurídico. COAÇÃO MORAL SE A COAÇÃO FOR IRRESISTÍVEL SE A COAÇÃO FOR RESISTÍVEL COATOR Responde, como autor, pelo crime praticado pelo coagido + crime de tortura (art. 1° da Lei de Tortura) Responde, também, pelo crime praticado pelo coagido + agravante (art. 62, II, CP) COAGIDO Isento de pena por inexigibilidade de conduta diversa. Responde pelo crime praticado + atenuante (art. 65, III, “c”,CP) OBEDIÊNCIA HIERARQUICA SE A ORDEM NÃO FOR MANIFESTAMENTE ILEGAL SE A ORDEM FOR MANIFESTAMENTE ILEGAL SE A ORDEM POR LEGÍTIMA SUPERIOR Responde, como autor mediato, pelo crime praticado pelo subordinado Responde, pelo crime praticadopelo subordinado Não há crime (estrito cumprimento do dever legal) Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 30 SUBORDINADO Isento de pena por inexigibilidade de conduta diversa Responde, pelo crime praticado, mas poderá ser a pena atenuada (art. 65, III, “c”, CP) Não há crime (estrito cumprimento do dever legal) CONCURSO DE PESSOAS É a reunião de duas ou mais pessoas para a prática de uma conduta ilícita penal. CONCURSO EVENTUAL E NECESSÁRIO Os crimes unissubjetivos são os que podem ser praticados por uma ou mais pessoas, nesta hipóteses haverá o concurso eventual. Exemplo: homicídio, furto, roubo. Os crimes plurissubjetivos são os de concurso necessário ou obrigatório, em que a lei exige um número mínimo de autores. Exemplo: associação criminosa, organização criminosa. TEORIAS O Código Penal adota como regra a teoria unitária (monista ou monística) que preceitua que todos os agentes que contribuírem para a prática de uma mesma conduta respondem pelo mesmo tipo penal. Excepcionalmente, o Código Penal adota a teoria pluralista em que cada pessoa que contribuiu para a produção de um mesmo resultado responde por tipos penais diversos. Exemplo: aborto – art. 124 e art. 126, CP. FORMAS DE CONCURSO Autor é a pessoa que pratica a conduta principal descrita no tipo penal incriminador. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 31 Partícipe é a pessoa que comete conduta secundária, por meio de induzimento, instigação ou auxílio. Para que haja concurso, portanto, é necessário os seguintes requisitos: a) pluralidade de pessoas; b) pluralidade de condutas; c) liame subjetivo, isto é, todos os agentes devem aderir uns a conduta dos outros; d) nexo causal entre a conduta perpetrada e o resultado produzido. PARTICIPAÇÃO EM CRIME MENOS GRAVE (cooperação dolosamente distinta) Se um dos autores quis participar de crime menos grave, será a ele aplicada a pena deste, porém se o resultado mais grave era previsível, a pena é aumentada de metade. Exemplo: “A” induz “B” a praticar um furto na casa de sua vizinha “C”, que se encontra em viagem há mais de um ano. “B” achando fácil e quase sem risco a prática do crime, resolve cometê-lo. No entanto, ao entrar na residência, se depara com a vítima, que inesperadamente acabara de retornar de viagem. “B” resolve subtrair uma TV da mesma forma, mas é preciso utilizar violência para conseguir a subtração. Nesse caso, “A” responderá apenas pelo crime menos grave (furto), pois não era previsível o resultado mais grave (roubo). Isso porque “A” sequer tinha conhecimento que a vítima iria retornar de viagem. Por outro lado, no caso acima, se “A” desconfiasse que a vítima estivesse prestes a retornar de viagem, pode-se dizer que o crime mais grave era previsível. Nessa hipótese, “A” continuará respondendo pelo crime menos grave (furto), mas com o aumento de pena. INCOMUNICABILIDADE DAS CIRCUNSTÂNCIAS Não se comunicam as circunstâncias e condições de caráter pessoal, salvo se elementares do tipo. Circunstância é toda palavra ou expressão de caráter secundário na caracterização da conduta ilícita, por exemplo, em um homicídio contra o próprio pai, o crime subsistiria ainda a vítima não fosse o pai. Elementar é a palavra ou expressão que é essencial para a configuração do delito, se eliminada o crime desaparece, por exemplo, o peculato é crime que só pode ser praticado por funcionário público, sendo tal condição de caráter pessoal, se comunica ao terceiro que pratica a conduta porque constitui elementar do tipo. Direito Penal Teoria Geral do Crime Paulo Henrique Helene 32 Exemplo de incomunicabilidade: o homicídio privilegiado não é comunicável ao outro agente que não agiu diante de uma de suas hipóteses. Exemplo de comunicabilidade: o partícipe (particular) pode responder por peculato-furto, desde que tenha conhecimento da elementar funcionário público (elemento normativo de caráter pessoal). Caso não seja de seu conhecimento, responderá pelo delito de furto.