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HALL, Stuart. Notas sobre a desconstrução do Popular. In: Da Diáspora. p. 245-267.
● Hall provoca, ao afirmar que tem dificuldades com o termo “popular”.
● Ponto de base da cultura popular: transição do capitalismo agrário > industrial.
“As mudanças no equilíbrio e nas relações das forças sociais ao longo dessa história se
revelam, frequentemente, nas lutas em torno da cultura, tradições e formas de vida das
classes populares.” (p. 246) O capital demonstrava interesse na cultura popular, porque o
processo de se tornar a nova ordem social era (e é contínuo).
● A tradição popular seria um ponto de resistência a essa nova ordem. Porém, pensar
em tradição a partir de um prisma no qual tal seria algo retrógrado, inferiorizado,
anacrônico, ao mesmo tempo, falar em “transformação cultural”, à medida em que
manifestações culturais são apagadas sob pressão é um eufemismo.
● Hall afirma que essas manifestações culturais não caíram em desuso, mas foram
ativamente retiradas do centro do cotidiano popular.
“E a tradição popular constituia um dos principais locais de resistência às maneiras pelas
quais a "reforma" do povo era buscada. E por isso que a cultura popular tem sido há tanto
tempo associada às questões da tradição e das formas tradicionais de vida — e o motivo
por que seu "tradicionalismo" tem sido tão frequentemente mal interpretado como produto
de um impulso meramente conservador, retrógrado e anacrônico. Luta e resistência — mas
também, naturalmente, apropriação e expropriação.” (p. 248).
● “Cultura popular” não é um sentido puro, mas é fruto de processos. Logo, não há
um signo fechado do que é cultura popular, mas um terreno complexo onde ela é
transformada.
● Esse chamado “terreno” é palco de disputas de sentido. Vive em uma relação
dialética de contenção e resistência.
● O que se pode dizer da cultura popular do século XVIII? A aristocracia, detentora da
cultura erudita, se viu diante da formação cultural e dos hábitos do povo de fora das
suas muralhas, “barulhento e ingovernável”. Por mais que o “povo” estivesse por
fora e de fora das decisões do poder, ele não está indissociado dessa esfera política,
e nunca deixou de fazer parte do campo das relações sociais. O “povo” é agente
ativo de tensões e resistências.
● Hall fala da dificuldade em periodizar o estudo da cultura popular, por ser difícil de
sistematizar um surgimento, um tempo e local histórico, visto que as classes mais
pobres sempre existiram e viveram suas realidades históricas. A demarcação desse
período histórico advém do fato de que foi palco de grandes transformações sociais/
econômicas.
● Há dificuldade em definir um estrato autêntico da cultura popular, pois segundo Hall,
o “povo” em questão é uma classe oprimida e subalternizada. Os laços que formam
o “povo” são complexos, assim como as relações de condições materiais.A cultura
popular não está intocada pela ideologia dominante.
● A imprensa liberal do século XIX se ergueu graças à repressão da imprensa popular
da época. Do final do século até o início do séc. XX uma nova massa de
consumidores maduros, de uma nova imprensa comercial “popular”, como exemplo
de uma transformação não só cultural, mas de reorganização do capital.
“Mas um dos seus efeitos principais foi a reconstituição das relações políticas e culturais
entre as classes dominantes e dominadas: uma mudança intimamente ligada a contenção
da democracia popular na qual "nosso estilo democratico de vida" hoje parece tão
firmemente baseado. Seus resultados são palpáveis ainda hoje: uma imprensa popular, que
quanto mais se encolhe mais se torna estridente e virulenta; organizada pelo capital "para"
as classes trabalhadoras; contudo, com raízes profundas e influentes na cultura e na
linguagem do "João ninguém", "da gente"; com poder suficiente para representar para si
mesma esta classe da forma mais tradicionalista. Esta é uma fatia da história da "cultura
popular" que vale a pena elucidar.” (p. 251)
● Estudar a cultura do povo é corrigir a omissão histórica desta camada social.
● Hall seleciona o período de 1880 a 1920, porque ele aponta ser um período
de transição, para o que vai se tornar a nossa cultura atual. Ele aponta a
década de 1930 como um período de “esterilidade”, porque se esperava que
fosse surgir uma cultura militante forte, madura, dentro da classe
trabalhadora. Então, nada de heróico surgiu, o que Hall palpita que deve ter
causado desinteresse entre os estudiosos socialistas.
● Hall fala da ruptura do pós-guerra e do surgimento da indústria cultural, e da
impossibilidade de se pensar uma cultura popular indissociada do consumo
cultural. Ele afirma que nenhuma revolução tecnológica é puramente técnica,
e que “Escrever a história da cultura das classes populares exclusivamente a
partir do interior dessas classes, sem compreender como elas
constantemente são mantidas em relação às instituições da produção cultural
dominante, não é viver no século vinte.” (p.253)
● O que é o “popular”? “Algo é "popular" porque as massas escutam,
compram, lêem, consomem e parecem apreciá-lo imensamente.” (p. 253)
● Tal definição não é bem aceita pelos socialistas, que associam essa definição
à manipulação e ao aviltamento da cultura do povo.
● A imprensa “popular” do século XIX: organizada pelo Capital, porém com
raízes fincadas em uma linguagem “do povo”, feita especialmente para gerar
identificação.
● Na análise de Hall, é necessário incluir a classe trabalhadora como receptora
dos produtos culturais. Implicar que a classe trabalhadora é simplesmente
uma “massa” amorfa, sem agência, apenas manipulável, é uma perspectiva
anti-socialista.
● Os críticos vorazes desse tipo de consumo de cultura costumam colocar
essa dinâmica em oposição ao que seria uma cultura popular legítima. Por
esta perspectiva, constrói-se uma memória “heróica” acerca da classe
trabalhadora. Esse pensamento ignora o fato de que há uma relação de
poderes entre a cultura popular comercial e a cultura que cresce nas
relações sociais da classe trabalhadora, sendo essa relação de subordinação
e dominação.
Quero afirmar o contrário, que não existe uma "cultura popular" íntegra, autêntica e
autônoma, situada fora do campo de força das relações de poder e dominação culturais.
(p.254).
● Hall não nega o poder da indústria cultural em modelar subjetividades. Mas essa
força não atua sobre telas em branco.
“Afirmar que essas formas impostas não nos influenciam equivale a dizer que a cultura do
povo pode existir como um enclave isolado, fora do circuito de distribuição do poder cultural
e das relações de força cultural.” (p. 255)
● A indústria cultural vive em uma luta constante para desmontar e reorganizar a
cultura popular, em uma relação de apropriação de suas manifestações e difusão de
suas formas confinadas. Portanto, o sentido de uma cultura popular não é fechado,
porque suas significações estão em disputa.
Esta é a dialética da luta cultural. Na atualidade, essa luta é contínua ocorre nas linhas
complexas da resistência e da aceitação, da recusa e da capitulação, que transformam o
campo da cultura em uma espécie de campo de batalha permanente, onde não se obtêm
vitórias definitivas, mas onde há sempre posições estratégicas a serem conquistadas ou
perdidas. (p.256).
● Apesar da relação de dominação, há elementos de identificação na cultura difundida.
Formas culturais, segundo Hall, não são puramente coerentes, ou íntegras. Elas são
contraditórias, e sua autenticidade não está “dada”.
● Hall destaca a habilidade da imprensa sensacionalista em criar uma linguagem que
mistura elementos do grotesco com outros elementos do cotidiano da classe
trabalhadora, para gerar um processo de identificação.
A segunda definição do "popular" é mais fácil de se aceitar. E mais descritiva. A cultura
popular e todas essas coisas que "o povo" faz. Esta se aproxima de uma definição
"antropológica" do termo: a cultura, os valores, os costumes e mentalidades [folkways] do
"povo". Aquilo que define seu "modo característico de vida". (p.257).
● Hall temdois problemas com essa definição: ela é excessivamente genérica, pois há
um inventariado enorme de coisas que o povo fez e faz no cotidiano; e é
excessivamente generalista, pois insere em uma mesma categoria tudo o que é
manifestação cultural do povo.
● Neste caso, perde-se a questão chave, que é a oposição entre o que é das classes
populares e o que é da elite. A cultura popular eclode em oposição à cultura
dominante. Essa é a oposição que estrutura os domínios da cultura.
● Uma definição puramente descritiva não dá conta de explicar o fenômeno das
apropriações e transformações entre os dois domínios da cultura. Um exemplo disso
é quando algo que é das elites é emulado pelas classes populares e cai no gosto
popular; ou quando uma manifestação popular é alçada para outro status, sendo
consumida pelas elites. Os domínios da cultura são uma arena de tensões
constantes.
● O valor dessas manifestações não está contido na forma ou no conteúdo delas, e
sim nos sentidos adquiridos e transmitidos ao longo do tempo. Fora as forças de
institucionalização e validação que garantem que determinada forma cultural
permaneça acessível às elites ou seja incorporada ao cotidiano como “válida”. A
escola é um exemplo disso; a literatura e a Academia são outros exemplos (pensar a
casa de chá do texto do Raymond Williams).
● Hall então oferece uma terceira opção para a definição de “cultura popular”:
“Essa definição considera, em qualquer época, as formas e atividades cujas raízes se
situam nas condições sociais e materiais de classes específicas; que estiveram
incorporadas nas tradições e práticas populares. Neste sentido, a definição retém aquilo
que a definição descritiva tem valor. Mas vai além, insistindo que o essencial em uma
definição de cultura popular são as relações que colocam a cultura popular em uma
tensão contínua (de relacionamento, influência e antagonismo) com a cultura dominante.
Trata-se de uma concepção de cultura que se polariza em torno dessa dialética cultural.
Considera o domínio das formas e atividades culturais como um campo sempre variável.
Em seguida, atenta para as relações que continuamente estruturam esse campo em
formações dominantes e subordinadas.” (p.257)
● Hall destaca que o campo da cultura é mutável e está atrelado ao jogo de forças
sociais. O principal foco da luta cultural deve ser nas relações entre a cultura e a
hegemonia e seus sistemas de validação.
● O significado de um símbolo cultural é atribuído pelo campo social ao qual está
atrelado. Dentro das dinâmicas da sociedade, nenhum significado atrelado é estável,
por exemplo, a moda que está em constante transformação, mas também recorre à
nostalgia. O que importa não é o símbolo em si, mas a luta para atribuir significado a
ele.
“Quase todo inventário fixo nos enganara. O romance é uma "forma" burguesa? A resposta
só pode ser historicamente provisória: quando? Quais romances? Para quem? Sob quais
condições?” (p.258)
● O signo, ou aquilo que é atribuído de significado, está em constante transformação.
Se for retirado do seu lugar de origem e alçado a outras esferas, vai despertar
sentidos diversos.
● Apesar de o termo “luta” ter um sentido de que há “vitória” e “derrota”, o processo de
significação da cultura popular em torno da luta de classes se dá entre processos
como negociação, distorção, apropriação, resistência, etc.
“A tradição é um elemento vital da cultura, mas ela tem pouco a ver com a mera
persistência das velhas formas. Está muito mais relacionada às formas de associação e
articulação dos elementos.” (p.259)
● Uma tradição popular não tem uma posição fixa determinada, pois há a possibilidade
de se reorganizar, se articular a diferentes práticas. A cultura, na perspectiva da luta
de classes, não é uma forma de vida imutável, mas uma forma de luta.
● Toda tradição precisa ser historicizada e analisada sob o viés social
“.A relação entre a posição histórica e o valor estético é uma questão difícil e importante na
cultura popular. Mas a tentativa de elaborar uma estética popular universal, fundada no
momento de origem das formas e práticas culturais, é quase sempre profundamente
equivocada”. (p.261)
● Hall usa o exemplo da suástica, que é um símbolo original milenar, mas que foi
apropriado pelo regime nazista e carrega significados profundos. Até relativiza o uso
da suástica. Nisso, eu não concordo com ele.
Não há garantia intrínseca ao signo ou a forma cultural. Tampouco há garantia de que, só
porque esteve ligado a alguma luta relevante, ele será sempre a expressão viva de uma
classe, de tal forma que, toda vez que Ihe dermos a chance, ele "falará a língua do
socialismo". (p.261).
● As condições de uma classe não são dadas “naturalmente”, e nem imutáveis. “O
termo ‘popular’ guarda relações muito complexas com o termo ‘classe’” (p.162).
Neste caso, “cultura popular” serve como um termo que engloba um campo geral de
investigação, que abarca diversas manifestações. Não existe cultura isolada de suas
condições sociais, nem símbolo fixado no tempo que não possa adquirir novos
sentidos.
● O “popular” está ligado à luta de classes, mas ele não é um significado único e
universal, mas sim fruto das práticas que se entrecruzam no interior da classe.
● A cultura popular é organizada em torno da contradição: forças populares x blocos
de poder. Além de não ser uma categoria fixa, não tem um sujeito determinado para
atrelar-la. O termo “povo” engloba uma classe que pode abarcar contradições, assim
como pode ser apropriado pelos detentores do poder.
● Assim como o termo “povo” pode ser apropriado para englobar uma classe a ser
domesticada e policiada pelas forças de poder. Diante das aberturas históricas, o
povo pode ser uma força de resistência a essa esfera.
“A cultura popular é um dos locais onde a luta a favor ou contra a cultura dos
poderosos é engajada; e também o prêmio a ser conquistado ou perdido nessa luta.
E a arena do consentimento e da resistência. Não é a esfera onde o
socialismo ou uma cultura socialista — já formada — pode simplesmente ser
"expressa". Mas é um dos locais onde o socialismo pode ser constituído. E por isso
que a cultura popular importa. No mais, para falar a verdade, eu nao ligo a
mínima para ela.” (p. 263)

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