Prévia do material em texto
Prof. Dr. Frederico de Oliveira UNIDADE III Cultura Brasileira Contemporânea Apresentar as definições de cultura erudita e cultura popular; refletindo sobre suas limitações. Objetivos da aula – Cultura erudita e cultura popular: definições (im)possíveis Segundo o sociólogo Raymond Williams (apud TOMAZI, 2000, p. 175), a palavra cultura: “[...] vem do latim – colere – e definia inicialmente o cultivo das plantas, o cuidado com os animais e também com a terra (por isso, agricultura). Definia, ainda, o cuidado com as crianças e sua educação; o cuidado com os deuses (seu culto); o cuidado com os ancestrais e seus monumentos (sua memória). Passando por todos esses elementos, chegaríamos, finalmente, ao sentido mais comum que o termo possui em nossa sociedade: o de que o homem que tem cultura é um homem ‘culto’. É aquele que ‘cultiva’ (no sentido de desenvolver, praticar, cultuar) a inteligência, as artes e o conhecimento presente nos livros”. Ao estar associado à inteligência, às artes e ao conhecimento presente nos livros, esse sentido do termo cultura não dá conta da sua verdadeira abrangência. A cultura pode ser definida como os modos de ser, de fazer, de pensar de um povo, de uma classe social, de um grupo social etc. A história do sentido mais comum do termo cultura Segundo Santos (2006), na história das preocupações com a cultura, em um primeiro momento, a cultura será entendida como refinamento pessoal e, posteriormente, como descrição das maneiras de conhecimento produzidas pelos dominantes nos estados nacionais, principalmente na Europa, a partir do fim da Idade Média. Dessa forma, a preocupação com a cultura nasce voltada para o conhecimento erudito, cujo acesso era possível apenas às pessoas que pertenciam aos setores dominantes desses países europeus. De acordo com Santos (2006), essa forma de conhecimento denominado erudito se contrapõe ao que seria o conhecimento da maior parte da população: um conhecimento classificado como atrasado e inferior, e que passou a ser visto e chamado como outra forma de cultura, uma cultura popular. Cultura erudita x Cultura popular No fim do século XVIII, e no início do século XIX, intelectuais europeus de classes superiores passaram a se interessar pela produção cultural do povo. Num primeiro momento, a cultura popular foi considerada exótica; depois valorizada e alçada a movimentos políticos, intelectuais e estéticos contrários à “arte artificial”. Em países como Alemanha, Polônia, Portugal, Espanha e Sérvia, que tinham problemas com relação à sua construção nacional, foram os intelectuais das classes dominantes que, ao pesquisar e coletar as canções, poemas e estórias populares, inventaram entre o próprio povo a ideia de “nação”. Cultura erudita x Cultura popular No Brasil, vale lembrar que a grande maioria das canções e estórias brasileiras tradicionais foram reproduzidas pela escrita literária e musical, e não pela tradição oral, o que indica uma mesma lógica de tradução do universo popular para o erudito; e do erudito para o país de modo geral. Esse movimento de pesquisa sobre a cultura do povo serviu ao resgate da memória popular e tradicional – em meio ao crescimento do mundo urbanizado e industrializado. No entanto, os produtos da cultura popular passaram a ser direcionados a um público elitizado, de tal maneira que muitos intelectuais adaptavam esses produtos (canções, estórias, poemas) para a linguagem e valores do público a que se direcionavam. Cultura erudita x Cultura popular Segundo Nelson Tomazi (2000), para pensar a cultura popular versus a cultura erudita, é necessário compreender que essas categorias designam formas diferentes de ser, pensar e agir, que são associadas a valores diferentes entre dominantes e dominados. Os antropólogos brasileiros Gilberto Velho e Eduardo Viveiros de Castro (apud TOMAZI, 2000, p. 179) afirmam que: “[...] a cultura se refere a toda produção simbólica, trazendo em si todas as contradições da sociedade. No caso de sociedades capitalistas como a nossa, a produção simbólica estaria relacionada às próprias relações capitalistas de produção, relações que opõem capital e trabalho e, consequentemente, dominantes e dominados. Podemos pensar na cultura de uma dada classe social, mas é preciso ponderar sobre suas diferenças internas. A preocupação dos dominantes em estudar a cultura popular, na verdade, representa uma tentativa de classificar a forma de pensamento e ação dos mais pobres da sociedade, buscando sua lógica interna, a sua dinâmica e principalmente as consequências políticas dessa forma de pensar e ser. Cultura erudita x Cultura popular Percebe-se que, ao longo da história, a classe dominante assumiu o controle e a representação de uma cultura erudita, criando, assim, um mundo de legitimidade própria, expresso pelo conhecimento científico, pela filosofia e também pelas instituições oficiais, como a universidade, a academia, a ordem dos profissionais (por exemplo, dos médicos, advogados etc.). Assim, no modo de produção capitalista, no qual a sociedade é dividida em classes, essas instituições não passam pelo controle das classes dominadas; ou não são capazes de incluí- las na sua totalidade, o que faz com que, apartadas do mundo erudito, passem a produzir o que seria uma cultura própria; a cultura popular. Pensando dessa forma, a cultura popular pode então ser definida como os modos de ser, de pensar, de fazer e de se manifestar das classes dominadas, fora do contexto em que são produzidas as manifestações de uma cultura da classe dominante. Se a cultura erudita goza das instituições oficiais para existir, e portanto institui uma cultura oficial, a cultura popular, marginalizada, irá se fazer sob diferentes modulações oficiosas. Cultura erudita x Cultura popular Antropologicamente, o conceito de cultura se refere a toda produção simbólica, aos modos de ser, de fazer, de pensar, trazendo em si todas as contradições da sociedade. Em sociedades capitalistas como a nossa, a produção cultural estaria relacionada às próprias relações capitalistas de produção, relações estas que opõem classes sociais. Com base nessa perspectiva, é correto afirmar que: a) A cultura pode ser entendida a partir dos modos de ser, de fazer e de pensar de uma classe social, de um grupo social etc. b) A cultura é um fenômeno independente das relações econômicas de uma sociedade. c) A cultura, ao se referir à produção simbólica, restringe-se apenas a uma classe social: a classe dominante. d) A cultura não pode ser produto de uma ralé de excluídos. e) A cultura, vista nas classes sociais, internamente, não comporta diferenças, pois todos os membros de uma classe social se comportam de maneira idêntica. Interatividade Antropologicamente, o conceito de cultura se refere a toda produção simbólica, aos modos de ser, de fazer, de pensar, trazendo em si todas as contradições da sociedade. Em sociedades capitalistas como a nossa, a produção cultural estaria relacionada às próprias relações capitalistas de produção, relações estas que opõem classes sociais. Com base nessa perspectiva, é correto afirmar que: a) A cultura pode ser entendida a partir dos modos de ser, de fazer e de pensar de uma classe social, de um grupo social etc. b) A cultura é um fenômeno independente das relações econômicas de uma sociedade. c) A cultura, ao se referir à produção simbólica, restringe-se apenas a uma classe social: a classe dominante. d) A cultura não pode ser produto de uma ralé de excluídos. e) A cultura, vista nas classes sociais, internamente, não comporta diferenças, pois todos os membros de uma classe social se comportam de maneira idêntica. Resposta É correto o que se afirma em A. É correto dizer que a cultura pode ser entendida a partir das culturas de cada classe ou grupo social. No entanto, é precisoponderar que mesmo dentro de cada grupo haverá diferenças culturais. É justamente aqui que a afirmativa E dispõe o contrário; afirma-se nessa sentença que não há, internamente aos grupos sociais, diferenças nos modos de ser, de fazer e de pensar. A alternativa B está incorreta, pois, como está explícito no próprio enunciado, a cultura – no caso de sociedades capitalistas – está relacionada às próprias relações capitalistas de produção. Em C e em D, nota-se uma perspectiva reducionista do conceito antropológico de cultura, e por isso são afirmativas incorretas. Comentário Segundo Santos (2006), as formas de expansão do conhecimento a partir das escolas, e também de atendimento à saúde das classes dominadas – e daí os presídios, o mundo corporativo etc. –, podem ser entendidas como controle social, porque mantêm as desigualdades mais estruturantes da nossa sociedade, sempre em benefício dos que a dominam. Ao deter o controle da sua estrutura material, a classe dominante difunde a sua ideologia, que passa a ser também dominante. Nesse sentido, e como propõe Santos (2006), a existência de classes dominadas demonstra a existência das desigualdades sociais e a obrigação de superá-las, e por isso a cultura popular pode ser vista como contendo um conteúdo transformador; ao passo que a cultura erudita pode ser compreendida por meio de sua expansão colonizadora. Perceba o quanto a oposição entre cultura popular e cultura erudita, por mais questionável que possa ser, pode ser esclarecedora em alguns momentos; sobretudo quando conhecemos a sua história. Cultura erudita x Cultura popular Contudo, fazer esta oposição (cultura erudita/cultura popular) é complicado, porque aquilo que antes era restrito a determinadas classes – como, por exemplo, o futebol, de origem inglesa e que foi introduzido no Brasil pela elite no começo do século XX – num dado momento passa a ser de domínio de uma grande maioria, ou seja, se populariza. Por exemplo, a escrita e a leitura, que antigamente compunham um saber restrito às classes dominantes, tendem a ser cada vez mais generalizadas, não cabendo mais a classificação do seu domínio como produto de uma cultura erudita. A incursão das classes trabalhadoras em universidades também expressa essa fusão do que seria supostamente popular com o que seria supostamente erudito. As classes trabalhadoras, ao obterem um nível universitário, têm chance de vir a pertencer a estratos mais elevados da sociedade, passando a ocupar cargos e funções antes restritos a uma elite; a classe trabalhadora, assim, integrará a classe dos professores, advogados, engenheiros, jornalistas etc. Cultura erudita x Cultura popular Na verdade, essas categorias de pensamento (cultura erudita-cultura popular) nos ajudam a compreender, na sua oposição ou fusão, como as classes dominantes existem em relação às classes dominadas, e como passam a partilhar de um processo social e comum, mas no qual as elites continuam a exercer um controle importante. Assim, toda a produção cultural é resultado dessa existência comum, da história coletiva, por mais que seus benefícios e suas formas de controle sejam desiguais. Considere, pois, como a cultura de uma sociedade mantêm estreita relação com estruturas sociais, econômicas e políticas. E pense sempre que a cultura não se resume à inteligência, às artes e ao conhecimento presente nos livros, ou nos produtos supostamente ligados a uma “alta cultura”. Não por acaso, é na cultura popular que vamos encontrar uma potência transformadora da sociedade. No caso brasileiro, é importante acompanhar os movimentos da cultura popular, em toda sua extensão, para que superemos a criminosa desigualdade social do nosso país. Cultura erudita x Cultura popular As categorias “cultura erudita” e “cultura popular”, antropologicamente falando, nos ajudam a compreender – na sua oposição ou fusão – como as classes dominantes existem em relação às classes dominadas, e como essas classes passam a partilhar de um processo social comum, mas do qual as elites continuam a exercer um controle importante. Assim, toda a produção cultural é resultado dessa existência comum, da história coletiva, por mais que seus benefícios e suas formas de controle sejam desiguais. Considerando essas categorias, é correto afirmar que: I. Haveria uma oposição entre o que é erudito e o que é popular, oposição esta que se faz quando consideramos os diferentes interesses, visões de mundo e manifestações das classes sociais. II. A existência de classes dominadas demonstra a existência das desigualdades sociais e a “obrigação” de superá-las, e por isso a cultura popular pode ser vista como contendo um conteúdo transformador; ao passo que a cultura erudita pode ser compreendida por meio de sua expansão colonizadora. Interatividade III. Há um abismo intransponível entre cultura popular e cultura erudita, isto é, entre a cultura do povo e a cultura da elite. O que é próprio da cultura erudita jamais será popular, assim como o inverso também se aplica. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) III, apenas. Interatividade d) I e II, apenas. e) II e III, apenas. As categorias “cultura erudita” e “cultura popular”, antropologicamente falando, nos ajudam a compreender – na sua oposição ou fusão – como as classes dominantes existem em relação às classes dominadas, e como essas classes passam a partilhar de um processo social comum, mas do qual as elites continuam a exercer um controle importante. Assim, toda a produção cultural é resultado dessa existência comum, da história coletiva, por mais que seus benefícios e suas formas de controle sejam desiguais. Considerando essas categorias, é correto afirmar que: I. Haveria uma oposição entre o que é erudito e o que é popular, oposição esta que se faz quando consideramos os diferentes interesses, visões de mundo e manifestações das classes sociais. II. A existência de classes dominadas demonstra a existência das desigualdades sociais e a “obrigação” de superá-las, e por isso a cultura popular pode ser vista como contendo um conteúdo transformador; ao passo que a cultura erudita pode ser compreendida por meio de sua expansão colonizadora. É correto o que se afirma em: d) I e II, apenas. Resposta É correto o que se afirma em I e II, apenas. Ambas as afirmativas colocam um tipo de análise interpretativa em perspectiva: “haveria uma oposição...”, “a cultura popular pode ser vista...”. Não se trata de imprecisão teórica, mas de uma ponderação acerca da relação entre as categorias “cultura erudita-cultura popular” numa sociedade de classes. Em I, vemos como a oposição “cultura erudita-cultura popular” se faz em meio a interesses distintos, visões de mundo e manifestações que têm a ver com a sociedade de classes. Em II, vemos como a cultura popular pode ter um conteúdo transformador da sociedade, visando superar desigualdades sociais. Em III, vemos uma afirmativa que em nada pondera sobre o tema; é taxativa ao dizer que o que é próprio da cultura erudita jamais será popular; bem como o inverso; mas isso está errado, pois a cultura é dinâmica e tais categorias apenas ajudam na compreensão desse dinamismo. Sabe-se, por exemplo, que o futebol – de origem inglesa, e que foi introduzido no Brasil pela elite no começo do século XX –, num dado momento, passou a ser de domínio de uma grande maioria, ou seja, o futebol, que era próprio de uma elite, passou a ser parte da nossa cultura popular. Comentário Apresentar o conceito de indústria cultural e problematizar os efeitos da atual revolução tecnológica em curso. Configurar uma reflexão crítica sobre a cultura mediática. Objetivos da aula – Indústria Cultural e Cultura Mediática Não há como pensar na cultura brasileira contemporânea sem compreender como ela se relaciona a uma cultura mediática. Com as revoluções industriais e burguesas dos séculos XVIII e XIX, as cidades se tornaram polos de importância econômica, social e cultural. E por isso a população deixa o campo rumo à cidade para trabalhar nas fábricas. Com a introdução das máquinas na produção de mercadorias, tem-se o barateamento dos produtos e o aumento do mercado consumidor. Assim, a burguesia (tanto comercial quanto industrial) se constitui como classe dominante e passa a exercer uma hegemonia sobre as classes médias que aumentam; esse público seria, então, “conquistado” pelas forças de mercado, que passavam a produzir – também de modo industrial – os bens culturais. Indústria Cultural “Em primeira instância, hegemonia significa simplesmente liderança, derivada diretamente de seu sentido etimológico. O termo ganhou um segundo significado, mais preciso, desenvolvido por Gramsci para designar um tipo particular de dominação. Nessa acepção, hegemonia é dominação consentida, especialmente de uma classe social ou nação sobre seus pares. Na sociedade capitalista, a burguesia detém a hegemonia mediante a produção de uma ideologia que apresenta a ordem social vigente, e sua forma de governo em particular, a democracia, como se não perfeita, a melhor organização social possível. Quanto mais difundida a ideologia, tanto mais sólida a hegemonia e tanto menos necessidade do uso de violência explícita” (FAU-USP, [s.d.]). Indústria Cultural As primeiras décadas de 1800 serão marcadas pelas consequências sociais das revoluções burguesas. Nacionalismo, socialismo e liberalismo vão disputar a adesão das massas. E os jornais jogam um papel importante nesse contexto. Vemos as lutas sociais ganharem as ruas, o direito do voto estendido a todos os homens adultos. Grandes partidos políticos, inclusive os operários, reivindicam o poder da imprensa e meios de comunicação mais efetivos para a conquista de adeptos. Depois, na França, com a revolução de 1848, vemos campanhas nacionalistas e socialistas contra a aristocracia que voltava ao poder. Nesse mesmo ano, testemunhamos a reivindicação da liberdade de imprensa, igualmente na Alemanha. Indústria Cultural Como explica Marcondes Filho (2014, p. 270), é na segunda metade do século XIX que se delineia “a grande clivagem” na imprensa: “[...] enquanto a imprensa popular ganhava as ruas, estimulando as campanhas operárias, as lutas socialistas, as conquistas sociais, os donos das empresas jornalísticas já estavam dando seu pulo do gato. A atividade que se iniciaria com as discussões político-literárias aquecidas, emocionais, relativamente anárquicas, começava agora a se constituir como grande empresa capitalista: todo o romantismo da primeira fase será substituído por uma máquina de produção de notícias e de lucros com os jornais populares e sensacionalistas”. Perceba a expressão usada por Marcondes Filho: “máquina de produção de notícias e de lucros com os jornais populares e sensacionalistas”; agora perceba, mais acima, a expressão “imprensa popular” [que] ganhava as ruas, estimulando campanhas operárias, as lutas socialistas, as conquistas sociais”. E agora reflita sobre a ambivalência de sentido da palavra “popular” nas citações. Isso nos leva ao conceito de indústria cultural! Indústria Cultural A expressão indústria cultural aparecerá pela primeira vez no livro “Dialética do esclarecimento” (texto iniciado em 1942 e publicado em 1947), de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Ele visava indicar, pois, a derrocada da cultura (de modo geral), sua queda na mercadoria. A questão que se colocava por esses teóricos da Escola de Frankfurt, ao analisarem a transformação cultural da sociedade americana entre os anos 1930 e 1940, era a de que os produtos ligados à intelectualização passavam a existir – no capitalismo – como mercadoria. Assim, toda a atividade intelectual produzida pelos meios de comunicação estaria associada à marca da indústria cultural, algo que ocorre através de um processo de serialização- padronização-divisão do trabalho. O modelo se baseia na lógica do desenvolvimento da tecnologia e sua função na economia. Daí o termo identificado como racionalidade técnica. Indústria Cultural Na redação definitiva de “Dialética do esclarecimento”, os autores usaram a expressão “cultura de massa”, que mais tarde foi substituída por “indústria cultural” a fim de se evitar a interpretação de que essa cultura emergiria das massas, espontaneamente, como uma forma de arte popular. Cabe ressaltar que “o eixo da análise da Escola de Frankfurt é sempre o binômio cultura erudita-cultura de massas, e é marcado pela ausência das categorias populares de cultura, em que pese a exceção sempre anotada de W. Benjamin” (LOPES, 2010, p. 61). Walter Benjamin, pensador ligado à Escola de Frankfurt, entendia que a revolução tecnológica do final de século XIX e início do XX alterava o papel da arte e da cultura, uma vez que os meios de comunicação de massa, como o cinema, modificavam o nosso conceito de realidade, criando uma nova forma de apreendê-la. As proposições de Benjamin permitem ver como é difícil não perceber, em Adorno e Horkheimer, o eco de um vigoroso protesto erudito contra a intrusão da reprodução técnica no mundo da cultura. Indústria Cultural O termo Indústria Cultural aparecerá pela primeira vez no livro “Dialética do Esclarecimento” (texto iniciado em 1942 e publicado em 1947), de Max Horkheimer e Theodor Adorno. A questão que se colocava por esses teóricos da Escola de Frankfurt, sobretudo ao analisarem a transformação cultural da sociedade americana entre os anos 30 e 40, era a de que os produtos ligados à intelectualização passavam a existir – no capitalismo – como mercadoria. Sendo assim, toda a atividade intelectual produzida pelos meios de comunicação estaria associada à marca da indústria cultural, algo que ocorre através de um processo de serialização-padronização-divisão do trabalho. O modelo se baseia na lógica do desenvolvimento da tecnologia e sua função na economia. Daí o termo identificado como “racionalidade técnica”. Na redação definitiva de Dialética do Esclarecimento, os autores usaram a expressão “cultura de massa”, que mais tarde foi substituída por “indústria cultural” a fim de se evitar a interpretação de que essa cultura emergiria das massas, espontaneamente, como uma forma de arte popular. À luz desse tipo de interpretação crítica da indústria cultural, é correto afirmar que: Interatividade a) A indústria cultural fixa de maneira exemplar a derrocada da cultura, ou seja, sua queda na condição de mercadoria e a alienação das massas. b) A produção industrial permite a livre expressão do papel filosófico-existencial da cultura. c) O modo industrial de produção da cultura não corre o risco de padronização com fins de rentabilidade econômica e controle social. d) A indústria cultural fixa de maneira exemplar que há um interesse difuso na reflexão e no pensamento. e) A indústria cultural é um conceito que sugere que as massas passaram a produzir uma cultura das massas e para as massas. Interatividade O termo Indústria Cultural aparecerá pela primeira vez no livro “Dialética do Esclarecimento” (texto iniciado em 1942 e publicado em 1947), de Max Horkheimer e Theodor Adorno. A questão que se colocava por esses teóricos da Escola de Frankfurt, sobretudo ao analisarem a transformação cultural da sociedade americana entre os anos 30 e 40, era a de que os produtos ligados à intelectualização passavam a existir – no capitalismo – como mercadoria. Sendo assim, toda a atividade intelectual produzida pelos meios de comunicação estaria associada à marca da indústria cultural, algo que ocorre através de um processo de serialização-padronização-divisão do trabalho. O modelo se baseia na lógica do desenvolvimento da tecnologia e sua função na economia.Daí o termo identificado como “racionalidade técnica”. Na redação definitiva de “Dialética do Esclarecimento”, os autores usaram a expressão “cultura de massa”, que mais tarde foi substituída por “indústria cultural” a fim de se evitar a interpretação de que essa cultura emergiria das massas, espontaneamente, como uma forma de arte popular. À luz desse tipo de interpretação crítica da indústria cultural, é correto afirmar que: Resposta a) A indústria cultural fixa de maneira exemplar a derrocada da cultura, ou seja, sua queda na condição de mercadoria e a alienação das massas. É correto o que se afirma em A. As demais afirmações poderiam ser lidas corretamente no seu inverso sentido. Em B, por exemplo, a afirmação ficaria correta se dissesse que “a produção industrial não permite a livre expressão do papel filosófico-existencial da cultura”. Em C, a sentença deveria dizer que “o modo industrial de produção da cultura está ligado à padronização com fins econômicos e de controle social”; em D, a sentença deveria negar o que se diz; isto é, pela indústria cultural não há um interesse difuso na reflexão e no pensamento. Em E, vemos uma sentença que contraria o que está posto no próprio enunciado da questão acerca do uso da expressão “indústria cultural” por seus autores. Em resumo, é preciso compreender o conceito no seu contexto teórico; e é isso o que está em A. Embora possa ser criticada, a perspectiva crítica do conceito de indústria cultural indica que a própria indústria cultural fixa de maneira exemplar a derrocada da cultura, ou seja, sua queda na condição de mercadoria e a alienação das massas. Comentário Embora seja possível admitir uma diversidade entre os autores da Escola de Frankfurt, pode- se admitir também uma coerência interna característica desta Escola, dentro do chamado paradigma da Teoria Crítica. Em linhas gerais, a Teoria Crítica constrói uma concepção dos meios de comunicação de massa identificando-os em sua estreita relação com as forças econômicas. Toda a produção cultural transforma-se em produto, desestimula a reflexão, apresenta o mundo sob uma ótica superficial e para consumo imediato; os meios de comunicação são então concebidos como ferramentas de controle dentro do sistema capitalista. Perceba que essas concepções refletem uma cultura mediática e de massa. Mas o que ocorre quando temos o advento de uma revolução tecnológica em curso, acrescida com as chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a internet, a Internet das Coisas etc. O que ocorre quando todos nós – e as coisas – estamos interconectados? Cultura mediática Ocorre uma interconexão criativa sem precedentes, mas também uma forma de controle e vigilância igualmente sem precedentes. É importante destacar que a chamada “comunicação social” encontra bases nas estruturas econômicas e nos grandes conglomerados empresariais que acabam por concentrar em seus domínios grande parte do tráfego de informações e dados produzidos em rede. A grande questão colocada pelo historiador Yuval Noah Harari passa por aí: “Trata-se de uma corrida para obter dados, liderada por gigantes como Google, Facebook e Tencent. Até agora, muitos deles parecem ter adotado o modelo de negócios dos ‘mercadores da atenção’. Eles capturam nossa atenção fornecendo-nos gratuitamente informação, serviços e entretenimento, e depois revendem nossa atenção aos anunciantes. Mas provavelmente visam muito mais do que qualquer mercador de atenção anterior. Seu verdadeiro negócio não é vender anúncios. E sim, ao captar nossa atenção, eles conseguem acumular imensa quantidade de dados sobre nós, o que vale mais do que qualquer receita de publicidade. Nós não somos seus clientes – somos seu produto” (HARARI, 2018, p. 107). Cultura mediática O historiador Harari lança mão de uma visão histórica para dizer que, assim como a autoridade divina foi legitimada por mitologias religiosas, e a autoridade humana foi justificada pela narrativa liberal, “a futura revolução tecnológica poderia estabelecer a autoridade dos algoritmos de Big Data, ao mesmo tempo que solapa a simples ideia de liberdade individual” (HARARI, 2018, p. 72). O que ele quer dizer com isso? Quer dizer que: “Minha ilusão de livre-arbítrio provavelmente vai se desintegrar à medida que eu me deparar, diariamente, com instituições, corporações e agências de governo que compreendem e manipulam o que era, até então, meu inacessível reino interior” (HARARI, 2018, p. 72). Cultura mediática Sob um tipo de pensamento crítico, é certo dizer que a chamada “comunicação social” encontrará bases nas estruturas econômicas e nos grandes conglomerados empresariais que acabam por concentrar em seus domínios grande parte do tráfego de informações e dados produzidos em rede. A grande questão colocada pelo historiador Yuval Noah Harari (2018, p. 72), em “21 lições para o século 21”, passa por aí... Liderada por gigantes como Google, Facebook e Tencent, a corrida para obtenção de dados coloca em xeque a simples ideia de liberdade individual. Ele explica que, assim como a autoridade divina fora legitimada por mitologias religiosas, e a autoridade humana foi justificada pela narrativa liberal, “a futura revolução tecnológica poderia estabelecer a autoridade dos algoritmos de Big Data, ao mesmo tempo que solapa a simples ideia de liberdade individual”. Quando sabemos que essas empresas querem nos conhecer melhor do que a nós mesmos, agindo como mercadoras de nossa atenção, e nos oferecendo conteúdos hiperpersonalizados, é correto concluir que: Interatividade I. O que era, até então, meu inacessível reino interior, agora é compreendido por corporações e agências de governo, de modo que minha ilusão de livre-arbítrio provavelmente vai se desintegrar à medida que eu me deparar, diariamente, com essas instituições. II. Há uma liberdade irrestrita nos usos e consumos na internet; e é por isso que não se pode questionar a autoridade individual nesse contexto. III. Com a autoridade cada vez mais crescente dos algoritmos de Big Data, vemos a emergência de sofisticadas formas de vigilância e controle. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) III, apenas. d) I e III, apenas. e) II e III, apenas. Interatividade I. O que era, até então, meu inacessível reino interior, agora é compreendido por corporações e agências de governo, de modo que minha ilusão de livre-arbítrio provavelmente vai se desintegrar à medida que eu me deparar, diariamente, com essas instituições. II. Há uma liberdade irrestrita nos usos e consumos na internet; e é por isso que não se pode questionar a autoridade individual nesse contexto. III. Com a autoridade cada vez mais crescente dos algoritmos de Big Data, vemos a emergência de sofisticadas formas de vigilância e controle. É correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) III, apenas. d) I e III, apenas. e) II e III, apenas. Resposta É correto o que se afirma em I e III, apenas. A sentença II está incorreta, pois o enunciado questiona, justamente, a autoridade individual no contexto das mídias sociais; o historiador tensiona, ao máximo, os efeitos dos algoritmos de Big Data no século XXI. As sentenças I e III estão em concordância com esse tensionamento teórico. Em I, questiona-se a “ilusão do livre-arbítrio” no cenário em que certas instituições passam a conhecer meu “reino interior”; sendo assim, minhas decisões serão sempre influenciadas – quando não determinadas – por essas instituições, tão presentes no cotidiano das pessoas. Decorre daí uma “desintegração” da ilusão do livre-arbítrio. Em III, propõe-se uma associação coerente ao contexto, pois que com o aumento da autoridade dos algoritmos de Big Data, vemos novas e mais sofisticadas formas de vigilância e controle. Basta pensar nos usos e consumos via internet; pareceque alguém (o algoritmo) sabe o que eu estou precisando; e, oferecendo-me a solução certa, passa a exercer certo controle sobre mim. Comentário FAU-USP. Hegemonia. Verbetes de economia política e urbanismo. [s.d.]. Disponível em: https://www.fau.usp.br/docentes/depprojeto/c_deak/CD/4verb/hegemon/index.html. Acesso em: 7 jan. 2021. HARARI, Y. N. 21 lições para o século XXI. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. LOPES, M. I. V. de. Pesquisa em comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2010. MARCONDES FILHO, C. (org.). Dicionário da comunicação. São Paulo: Paulus, 2014. SANTOS, J. L. dos. O que é cultura? São Paulo: Brasiliense, 2006. TOMAZI, N. D. Iniciação à sociologia. 2. ed. São Paulo: Atual, 2000. Referências ATÉ A PRÓXIMA!