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Em 1858, Darwin recebeu um pequeno manus- crito do cientista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913; figura 8.10), intitulado A tendência das variedades de se afastarem indefinidamente do ti- po original. Para sua surpresa, Wallace tinha che- gado às mesmas conclusões que ele. Figura 8.10 Alfred Russel Wallace, naturalista inglês, em fotografia de 1902. D r. J e re m y B u rg e s s /S P L /L a ti n s to ck Um resumo do trabalho de Darwin e o ensaio de Wallace foram publicados em conjunto por uma ins- tituição científica, a Linnean Society of London, mas não despertaram muita atenção. Em 1859 saiu a pri- meira edição do livro de Darwin, Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida (mais conhe- cido como A origem das espécies). Embora alguns cientistas prefiram falar em teoria de Darwin-Wallace, Darwin tem o mérito de ter apresentado imensa série de evidências a favor de sua teoria e, por isso, para muitos cientistas, es- se seria o principal motivo de a teoria da evolução ser mais identificada com o nome dele do que com o de Wallace. Outros também atribuem esse crédi- to ao maior prestígio científico e social de Darwin na época. Problemas com o darwinismo Darwin considerou a existência de um paren- tesco generalizado entre as espécies, até mesmo a humana (o que foi difícil de ser aceito na época). Para ele, as espécies estavam relacionadas evolu- tivamente, ou seja, compartilhavam um ancestral em algum ponto de sua história evolutiva. Mas o principal problema dessa ideia era a falta de uma teoria que explicasse a origem e a transmissão das variações. Darwin não sabia explicar como indivíduos com novas características (uma girafa com um pescoço maior que o de seus pais, por exemplo) poderiam surgir, visto que os genes, a mutação e a recombina- ção genética – resultante da meiose e da fecundação no processo de reprodução sexuada – não eram co- nhecidos na época. Argumentava-se contra Darwin, por exemplo, que, de acordo com a teoria da herança misturada, aceita na época, uma nova característica, mesmo vantajosa, tenderia a se misturar com a característi- ca antiga ao longo das gerações em virtude dos cru- zamentos entre indivíduos diferentes. Hoje sabemos que os alelos de um gene são transmitidos às gera- ções seguintes sem se “misturarem”. Darwin não conseguiu responder satisfatoriamen- te às críticas, pois desconhecia a mutação e as leis da hereditariedade de Mendel. E atribuiu a transmissão de características entre gerações a hipotéticas “gêmu- las”, que migrariam dos tecidos até os órgãos sexuais e que, uma vez lá, se multiplicariam, sendo transmi- tidas às gerações seguintes. Darwin também admitia que, além da seleção, em certos casos, poderia ocorrer a herança dos caracteres adquiridos. Entretanto, dada a falta de evidências acerca desses mecanismos de hereditariedade, entre outros motivos, muitos cientistas permaneciam céticos a respeito da teoria da evolução por seleção natural. Além disso, argumentava-se, por exemplo, que não era possível ver uma espécie se transformando em outra. Ou que os fósseis eram resultado de gran- des catástrofes que extinguiram espécies do passado. E havia também a ideia filosófica de que as espécies são perfeitas e imutáveis. Mais difícil ainda era acei- tar que a própria espécie humana teria surgido por evolução de outros animais. Esse é mais um caso, portanto, de como fatores culturais e sociais (estuda- dos em Filosofia e História da Ciência) podem influen- ciar a aceitação de novas ideias científicas. Nas primeiras décadas do século XX, porém, hou- ve uma síntese entre o darwinismo, as leis de Mendel e o conhecimento das mutações, que deu origem à teoria sintética da evolução, que será estudada nos próximos capítulos. Atualmente, a teoria sintética é aceita consensualmente pela comunidade científica – como veremos, há muitas evidências que dão apoio a essa teoria – e muitos fenômenos e mecanismos evolutivos novos, além da seleção natural, foram e continuam sendo descobertos. Capítulo 8120 110_124_U03_C08_Bio_Hoje_vol_3_PNLD2018.indd 120 19/05/16 16:39 Figura 8.11 Cartão postal, obra produzida em 1929 pela artista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973) e que retrata em estilo modernista a cidade do Rio de Janeiro. A teoria da evolução e os limites da ciência Em linguagem coloquial, a palavra “teoria” pode ser usada com diferentes significados, por exemplo, como sinônimo de hipótese (“eu tenho uma teoria para explicar isso”). Em ciência, po- rém, o uso desse termo é restrito: para a ciência, teoria é o conjunto de conceitos, leis e modelos que fornecem uma explicação para uma série de fenômenos em determinada área do conheci- mento. Com base nas teorias científicas, são for- muladas hipóteses, que devem poder ser testa- das por meio de observações ou de experimentos. Nas Ciências da Natureza (Física, Química, Bio- logia, etc.), as teorias elaboradas procuram expli- car os fenômenos que envolvem matéria e energia. Nessa área do conhecimento há vários exemplos de teorias aceitas pela comunidade científica – como a teoria da relatividade, a da mecânica quântica, a da tectônica de placas e a atual teoria da evolução, entre outras –, o que não quer dizer que elas são definitivas, isto é, que não possam ser corrigidas ou mesmo subs- tituídas por outras. Em relação à história da vida na Terra, o con- senso dentro da comunidade científica é de que há evidências suficientes (como veremos ao longo desta Unidade) para considerar que hou- ve evolução biológica, ou seja, a evolução das espécies em nosso planeta pode ser considera- da um fato – e a teoria da evolução procura ex- plicar como isso ocorreu e continua a ocorrer. O que não significa que a teoria esteja pronta e acabada: vários pontos dela estão sendo deba- tidos, por exemplo, a importância relativa dos diversos fatores da evolução. Mas, para a co- munidade científica, não há, pelo menos por enquanto, outra teoria capaz de explicar tantos fatos e de gerar novas observações e novos campos de pesquisa. No entanto, embora a ciência possa nos di- zer o que somos capazes de fazer, ela não nos diz o que devemos fazer ou o que é certo ou er- rado. O bem e o mal e o certo e o errado perten- cem à esfera ética (estudada em Filosofia), não à esfera científica. Para muitos filósofos, enquanto a ciência trata de questões que podem ser testadas por meio de observações ou de experimentos, outros conhecimentos tratam de questões diferentes e fora do alcance da ciência. É o caso da arte (figu- ra 8.11), que nos ensina muito sobre as emoções e os sentimentos humanos. Lendo um romance, por exemplo, podemos sentir as emoções das personagens e refletir sobre as nossas emoções. A ciência, em conjunto com a arte, a religião, o conhecimento cotidiano e a filosofia (o que inclui a ética), é apenas uma parte da cultura humana. (As disciplinas de Filosofia e Sociologia exploram esses tópicos com maior detalhamento.) Apropriar-se do conhecimento científico sem princípios éticos, porém, foi o grande engano do movimento conhecido como “darwinismo social”, que, no século XIX, usou o conceito de seleção natural para tentar justificar a divisão da socie- dade em classes e o imperialismo, uma vez que seria “natural” o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos, que tenderiam a perecer. O pri- meiro erro foi supor que a genética e a seleção natural são os únicos fatores que influenciam o ser humano, esquecendo a importância dos va- lores sociais e culturais para nossa espécie. O segundo foi relacionar um fenômeno natural, a evolução, com fenômenos históricos e sociais, extrapolando de fatos naturais para questões éticas e para a complexidade da cultura humana. Biologia e sociedade R e p ro d u ç ã o /T a rs il a d o A m a ra l E m p re e n d im e nto s / C o le ç ã o P a rt ic u la r, B u e n o s A ir e s , A rg e n ti n a . Evolução: as primeiras teorias 121 110_124_U03_C08_Bio_Hoje_vol_3_PNLD2018.indd 121 20/05/16 08:56 1. Se a transmissão de características adquiridas fos- se válida, como deveria ser a cor da pele do filho de um casal, ambos de pele originalmente muito bran- ca, mas que tomaram muito sol, por longos perío- dos, antes de gerá-lo? Em seu caderno, critique essa ideia. 2. A domesticação do lobo provavelmente começou há cerca de 30 mil anos e deu origem a uma nova espécie, o cão doméstico, que conta com raças de grande diversidade de aparência. a) Explique como o ser humano conseguiu produ- zir raças de cães tão diferentes quanto bassês e labradores, por exemplo. b) Que semelhança há entre esse processo e um dos conceitos mais importantes da teoria da evolução de Darwin? Qual é esse conceito? 3. A foto a seguir reproduz uma página do caderno de anotações de Darwin, na qual, por volta de julho de 1837, ele fez um esquema parecido com uma árvore, atualmente conhecido como “árvore da vi- da”. De acordo com o que estudou neste capítulo, reflita: o que Darwin quis representar com esse esquema? 4. Suponha que a vantagem do pescoço longo da gira- fa seja a de possibilitar que esses animais se alimen- tem das folhas nos galhos mais altos das árvores e que esses animais tenham surgido de outros com pescoço mais curto. Como seria uma explicação ba- seada nas duas leis atribuídas a Lamarck? E uma baseada no princípio de seleção natural de Darwin? A partir de suas respostas, critique também a lei da transmissão dos caracteres adquiridos. 5. No seu livro A origem das espécies, Charles Dar- win refere que “[...] uma mudança acidental no tamanho e na forma do corpo, ou na curvatura e tamanho da probóscide, pequena demais para ser notada por nós, poderia favorecer a abelha ou outro inseto de tal maneira que um indivíduo com essa característica poderia conseguir seu alimento mais rapidamente e ter maior chance de sobreviver e deixar descendentes. Esses des- cendentes provavelmente herdariam essa ten- dência. [...] Assim, posso compreender como uma flor e a abelha podem, lentamente [...], modificar-se e tornar-se adaptadas uma à outra por meio da constante preservação de indivíduos que apresentam ligeiras modificações em sua estrutura”. a) Que fenômeno origina o que Darwin chama de “uma mudança acidental no tamanho e na for- ma do corpo”? Explique como mudanças desse tipo aparecem. b) A que processo Darwin se refere no trecho “[...] um indivíduo com essa característica poderia conseguir seu alimento mais rapidamente e ter maior chance de sobreviver e deixar descen- dentes”? 6. (UFRN) A restrição à venda de antibióticos no Brasil foi uma medida tomada em função do aparecimen- to de bactérias super-resistentes. Atualmente, com os avanços na área da genética e da biologia mole- cular, uma das explicações aceitas para o surgimen- to dessas bactérias é a ocorrência de mutações, a partir das quais haveria uma mudança aleatória em um determinado gene, e, dessa forma, as bactérias passariam a apresentar resistência ao antibiótico. No passado, sem o conhecimento da genética e da biologia molecular, Lamarck e Darwin elaboraram explicações para o surgimento de novas variedades de seres vivos. Nesse contexto, como pode ser explicado o surgi- mento de bactérias super-resistentes a) com base na teoria da evolução de Lamarck? b) com base na teoria da evolução de Darwin? Atividades ATENÇÃO! Não escreva no seu livro! W il li a m P e rl m a n /S ta r L e d g e r/ C o rb is /L a ti n s to ck Capítulo 8122 110_124_U03_C08_Bio_Hoje_vol_3_PNLD2018.indd 122 19/05/16 16:39