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Impresso nas Oficinas da 
CASA PUBLICADORA BAT ISTA 
Rua Silva Vale, 781, T . Coelho, R
O LIVRO DOS 
A T O S 
DOS APÓSTOLOS
OS PRIMEIROS ESFORÇOS EM PROL DUM EVANGELHO
DESIMPEDIDO
POR 
FRANK STAGG 
NOVA ORLEANS 
SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA
CASA PUBLICADORA BATISTA 
Caixa Postal, 320 — Rio 
1958
Tradução Autorizada, feita pelo Rev. Waldemar W . Wey, do texto em inglês 
— THE BOOK OF ACTS 
The Early Struggle for an Unhindered Gospel 
d» FRANK STAGG - Baptist Theological Seminary, New Orleans, E. U. A . 
Copyright, 1957 - Casa Publicadora Batista 
Ca ixa Postal, 320 - Rio de Janeiro 
Brasil
-?4 Evelyn, 
Z^ed, 'Bobby 
e Ginger
CONTEÚDO
P R E F Á C IO ....................................................................................... i 1
IN TR O D U Ç Ã O ................................................................................. 14
A Súmula num A d v é r b io .................................................... 14
O Objetivo do Livro dos A t o s ............................................... 18
A Data e a O c a s iã o .......................................................... 37
Sua Autoria e suas F o n t e s ............................................... 42
O Prefácio de Lucas ( 1 : 1 - 5 ) .................................................... 49
PRIMEIRA PARTE
A Igreja Hebréia: O Judaísmo Cristão (1:6 a 6:7) . . . 57
I. O Tema: Nacionalismo Estreito ou Um Reino Espi­
ritual e Universal ( 1 : 6 - 8 ) ............................................... 57
II. O Rápido Crescimento do Judaismo Cristão (1:9 a 6:7) 59
1. A Ascenção de Jesus ( 1 :9 - 1 1 ) ............................. 59
2. Esperando em Jerusalém (1:12-14) . . . . 63
3. A Eleição de Matias, uma Testemunha da Res­
surreição (1 :1 5 -2 6 ) .................................................... 66
4. O Dia de Pentecostes ( 2 :1 - 4 7 ) ............................. 76
(a) Cheios do Espírito Santo (2:1-4) . . . . 76
(b) Falando Línguas ( 2 :5 - 1 3 ) ............................. 81
(c) O Sermão de Pedro (2:14-36) . . . . 85
(d) O Chamado ao Arrependimento (2:37-40) 92
(e) O Crescimento do Judaísmo Cristão (2:41,-47) 96
5. A Cura do Coxo que Mendigava no Templo 
(3:1-10) ........................................................................ 105
6. O Sermão de Pedro aos Judeus (3:11-26) . . 106
7. Os Saduceus, o Alarme Produzido pelo Cres­
cente Movimento e pelo Tema da Ressurreição,
a Prisão e a Libertação de Pedro e João (4:1-31) 109
(a) A Irritação dos Saduceus (4:1-4) . . . 109
(b) Pedro e João Desafiados pelo Sinédrio 
( 4 : 5 - 2 2 ) ............................................................. 112
(c) Fidelidade para com o Soberano Senhor 
( 4 :2 3 -3 1 ) ............................................................ 115
8. Companheirismo, Fraude, e Temor (4:32 a 5:16) 117
9. O Malogro dos Saduceus e a Indecisão dos Fa­
riseus (5 :1 7 i -4 2 ) ...................................................... 125
10. Os Helenistas, os Hebreus, e os Sete (6:1-6) . . 128
11. Relato Resumido: A magnitude do Judaísmo Cris­
tão (6:7) .................................................................. 133
SEGUNDA PARTE
O caráter Universal do Cristianismo afirmado por Judeus,
Gregos e Gradativamente Reconhecido pelos Apóstolos 
(6:8 a 1 2 : 2 5 ) ............................................................................ 135
I. Estêvão: O Pioneiro do Universalismo, e Seu Mártir
(6:8 a 8 : 1 a ) ...................................................................... 135
II. Nova Perseguição Desencadeada por Saulo, o Fariseu
( 8 : l b - 3 ) ............................................................................... 146
III. Filipe Prega Livremente aos Samaritanos e a Um 
Etíope ( 8 : 4 - 4 0 ) ................................................................. 148
1. Filipe em Samária ( 8 :4 - 1 3 ) ..........................................148
2. Pedro em Samária (8:14 2 5 ) ............................. .......150
3. Desimpedido: O Eunuco Etíope, um Grego Te­
mente a Deus (8 :2 6 -4 0 ) ................................................ 152
IV. A Conversão, Comissão e Recepção de Saulo (9:1-30) 156
1. A Conversão de Saulo ( 9 : 1 - 9 ) ............................. 156
2. Saulo Comissionado e Batizado (9:10-19a) . . 159
3. A Recepção de Saulo em Damasco e em Jeru­
salém (9:19b-30) . ..................................................... 160
V. Paz e Crescimento ( 9 : 3 1 ) .............................................. 162
VI. Os Apóstolos São Levados a Reconhecer os Gentios
Incircuncisos (9:32 a 1 1 : 1 8 ) ..........................................163
1. Pedro em Lida e em Jope (9:32-43) . . . . 163
2. A Visão de Cornélio ( 1 0 :1 - 8 ) ............................. .......164
3. A Visão de Pedro em Jope (10:9-23a) . . . 166
4. Pedro e Cornélio (1 0 :2 3 b -4 8 )............................. ....... 168
5. Pedro Objetado por Haver Comido com Gentios 
( 1 1 :1 -1 8 ) ...................................................................... ....... 173
VII. Cíprios e Cirenenses Desconhecidos Pregam a Gregos
em Antioquia (1 1 :1 9 -2 6 ) ............................................... 177
VIII. A Fome em Perspectiva — Boa Ocasião para a Prá­
tica da Fraternidade (1 1 :2 7 -3 0 ) ................................... 180
IX. A Perseguição Movida por Herodes, e a Morte Dêste 
( 1 2 :1 - 2 3 ) ............................................................................. 182
1. A Perseguição Herodiana (12:1-5) . . . . 182
2. A Libertação de Pedro (1 2 :6 -1 9 ) ....................... .......184
3. A Morte de Herodes (1 2 :2 0 -2 3 ) ............................. .......187
X . Crescimento e a Missão de Barnabé e Saulo (12:24-25) 187
TERCEIRA PARTE — TRIUNFO E TRAGÉDIA:
A. Desimpedida Pregação do Evangelho e a Auto-Exclusão dos
Judeus (13:1 a 2 8 : 3 1 ) .......................................................... 190
I. Judeus e Gentios Se Aproximam Principalmente por 
meio das Sinagogas; Reconhece-se o Direito que os 
Gentios Têm à Fé Cristã (13:1 a 16:5) . 191
1. Trabalho Evangelístico para Barnabé e Saulo
(13:1 a 1 4 : 2 8 ) ........................................................... 192
(a) Separação de Barnabé e Saulo para Rea­
lizarem uma Determinada Obra (13:1-3) . 192
(b) Mostra-se diante duma Autoridade Romana 
que o Cristianismo é Coisa Mui Distinta das 
Falsas Filosofias (13:4-12) : . . . . 196
(c) Paulo e Seu Companheiro Alcançam Antio-
quia da Pisídia (1 3 :1 3 -1 5 )....................... 199
(d) O Sermão de Paulo aos Judeus e aos que 
temem a Deus (1 3 :1 6 -4 1 ) ............................. 201
(e) a Reação 2* Sermão de Paulo (13:42-43) 205
(f) Voltando-se para os Gentios (13:44-52) 206
(g) Icônio: O,:; Mesmos Resultados (14:1-7) . 208
(h) Listra: Pagãos Volúveis e Judeus Persis­
tentes (1 4 :8 -2 0 a )............................................... ....... 211
(i) Derbe e a Viagem de Volta a Antioquia da
Síria (1 4 :2 0 b -2 8 ).............................................. 214
2. Debate sôbre a Liberdade dos Gentios, em Antio­
quia e em Jerusalém (1 5 :1 -3 5 ) ....................... 217
(a) Os Crentes Fariseus Insistem em que os 
Gentios Sejam Circuncidados (15:1-5) . . 224
(b) Pedro Reconhece Não Haver Acepção de 
Pessoas no que Respeita à Salvação 
(1 5 :6 - 1 1 ) ......................... .................................. 226
(c) A Assembléia, em Silêncio, Ouve Barnabé e 
Paulo ( 1 5 :1 2 ) .................................................... 227
(d) A Proposta de Tiago (15:13-21) . . . 228
(e) Carta aos Gentios da Antioquia, da Síria e
da Cilicia (1 5 :2 2 -3 5 ) .................................... 230
3. Separação de Paulo e Barnabé (15:36-41) . . 232
4. Nova Visita às Igrejas da Galácia (16:1-5) . . 233
II. Judeus e Gentios Se Aproximam Notadamente Sem o
Concurso das Sinagogas; Aumenta a Auto-exclusão
dos Judeus (16:6 a 1 9 : 2 0 ) .............................................. .......235
1. O Chamado Macedônicoe Nova Campanha Evan- 
gelístisa (1 6 :6 -1 0 ) ........................ ....................................236
2. A Obra Firmada em Filipos (16:11-15) . . . 238
3. A Resistência Pagã em Questões de Dinheiro 
(16:16-24) . . .......................................... ..... . 241
4. As Condições para á Salvação-do Pagão 016:25-34) 243
5. Cidadania Romana e Libertação (16:35-40) . . 245
6. Tessalônica: um Outro Rei, Jesus (17:1-9) . . 247
7. Beréia: Espíritos Abertos; a Interferência de
Fora (17:10-15) .......................................................... .......251
8. Atenas: Diletantes, Gente que Gosta de Brincar
com o Pensamento e á ’ Religião (17:16-21) . . 253
9. O Sermão de Paulo no Areópago (17:22-34) . . 259
10. Corinto: Rompimento com a Sinagoga (18:1-11) 264
11. Abôrto duma Tentativa para Pôr Fora da Lei o 
Cristianismo (18:12-17) . . . . . 269
12. Éfeso e Síria (18:13-23) ............................. . . 271
13. Discípulos de João Batista e a Cristandade An­
terior a Paulo em Éfeso (18:24 a 19:7) . . . 275
14. Rompimento com a Sinagoga para Dar Lugar
ao Reino de Deus (19:8-10) . . . . . 280
15. O Poder - da Palavra (19:11-20) . . . . . 283
III. Prisão em Jerusalém; Desimpedido em Roma — U’a
Missão de Paz e seus Resultados (19:21 a 28:16) . 286
1. Projetando o Programa (19:21-22) . . . . 287
2. Circulando na Obra de Evangelização da Região
do Egeu (19:23 a 20:38) . . . . . . . . 289
(a) Éfeso Sofre o Impacto do Caminho (19:23-41) 289
(b) Acontecimentos que Levaram ao Encontro
em Troas (20:1-6) . 293
(c) Um Domingo em Troas C20:7-12) . . . 296
(d) De Troas a Miletò (20:13-16) . . . . 299 
(é) Palavras de Adeus aos Presbíteròs de Éfeso
(20:17-38) . . .......................................... 301
3. Rumo a Jerusalém (2 1 :1 -1 6 ) ....................... . 309
4. A Cristandade de Jerusalém: Miríades Zelosos da
Lei (21:17-26) . ......................... ..... 312
5. Os Judeus Não Cristãos e Paulo: Prisão e Defesa
(21:27 a 2 6 : 3 2 ) ............................................................... 315
(a) Portas Fechadas e Detenção de Paulo (21:27
2 2 : 2 ) .................................................................. ......315
(b) A Defesa de Paulo Perante os Judeus 
(2 2 :3 - 2 1 ) ............................................................ ......319
(c) Exaltação Por Causa de Uma Palavra 
(2 2 :2 2 -2 4 ) ................................................................. 322
(d) O Judeu Paulo Forçado a Torn&r-se o Pau­
lo Romano (2 2 :2 5 -3 0 ) ......................................... 324
(e) A esperança de Israel e a Ressurreição
(f) Conforto e Orientação (23:11) . . . . 324
(g) Trama dos Judeus para Matar Paulo 
(2 3 :1 2 -2 2 ) ................................................................. 330
(h) Paulo é Libertado e Enviado a Félix
(2 3 :2 3 -5 5 ) ...................................................... ...... 331
(i) Tertulo Acusa Paulo (24:1-9) . . . . 334 
(j) A Defesa de Paulo Perante Félix (24:10-21) 337 
(k) Félix Adia a Decisão do Caso (24:22-23) 340 
(1) Dois Anos de Espera (24:24-27) . . . . 340
(m) Paulo Apela para Cesar (25:1-12) . . . 343
(n) Agripa II e Berenice (25:13-27) . . . . 346
(o) A Defesa de Paulo Perante Agripa (26:1-23) 350 
(p) Paulo Força o Rei Agripa a Manifestar-se
(2 6 :2 4 ,-2 9 )..................................................................357
(q) Festo e Agripa Concordam em Reconhecer
que Paulo Ê Inocente (26:30-32) . . . . 359
6, A Viagem de Paulo para Roma: A Superioridade
dum Prisioneiro (27:1 a 2 8 :1 6 ) ............................. .......359
(a) De Cesaréia a Bòns Portos (27:1-8) . 361
(b) Não é Acolhido o Parecer de Paulo (27:9-12) 362
(c) O Furo-Aquilão: Perdida Tôda a Esperança 
(2 7 :1 3 -2 0 ) ..................................................................363
(d) Paulo na Chefia: Naufrágio e Salvamento 
(2 7 :2 1 -4 4 ) ..................................................................364
(e) Bem Recebidos em Melita (hoje Ilha de 
Malta) (2 8 :1 -1 0 ) .............................................. .......368
(f) Finalmente, Roma (28:11-16) . . . . 370
IV. Conclusão: A Auto-Exclusão Judaica — O Evangelho
«Desimpedido» (2 8 :1 7 -3 1 ) ............................................... .......372
1. Defesa de Paulo Perante os Judeu3 Romanos 
(28:17-22) . ............................................................. ....... 372
2. Uma Declaração e a Auto-Exclusão (28:23-28) 375
3. Desimpedido (2 8 :3 0 -3 1 ) ................................................. 376
A P Ê N D IC E .............................................................................................. 379
B IB L IO G R A F IA ............................................................................. ....... 389
ÍNDICE R E M IS S IV O .................................................................. ....... 393
P R E F Á C I O
O lavrador não tenta cultivar tôda a terra que 
possui. Demarca, sim, e delimita a terra que vai 
amanhar. Assim também age o escritor, mesmo 
Quando se trata dum com entário; e, por isso, esta­
belece e firm a os limites dentro dos quais vai rea­
lizar sua tarefa. A ôste livro interessa prim eiro o 
grande objetivo de Lucas e a grande mensagem dos 
A tos. Assim, necessàriamente, e para não fugir des­
sa sua grande mensagem, deixa-se para outras obras 
sôbre os Atos muito material de certa importância.
Não se entrará na discussão de muitas questões 
de natureza técnica. Para quem deseja fazer êsses 
estudos, existem já felizm ente à mão comentários 
excelen tes. Os cinco volumes editados por F . J. 
Foakes — Jaclcson e Kirsopp Lake — The Beginnings 
o f Christianity — são a êste respeito obras quase 
exaustivas e vão muito além das fôrças dêste escri­
tor. As obras The Acts o f the Apostles, de A . C-, 
Clark, Alterations to the Text of the Synoptic Gospels 
and Acts, de S. C. S. Williams, e An Aramaic A p- 
proach to the Gospels and Acts, de M. Black, tratam 
das maiores diferenças textuais dos m anuscritos. 
Também evitamos excursionar por alguns problemas 
técnicos por achar que isso nos desviaria um tanto 
do objetivo principal desta obra. Não obstante, nem 
de longe quer is$o significar que o presente volume 
se mostre indiferente a estudos dessa natureza. De 
fato, aqui tratamos de muitas questões técnicas.
Não tivemos em vista apresentar a exegese de 
versículo, por versículo. Reconhecem os ser indis­
pensável a um consciencioso estudante do Livro dos 
Atos um estudo assim detalhado. Mas, isso também 
nos desviaria da- mensagem capital do livro. Pode­
mos deixar de ver a floresta por querermos exami­
nar árvore por árvore. Temos já excelentes com en­
tários que analisam, um por um, os versículos dos 
Atos, como por exem plo o comentário de Kirsopp 
Lake e de Henry J. Cadbury — na obra The Be­
ginnings of Christianity, o de R. B . Rackham dos 
“ W estm inster Commentaries” , e o de R. J. Know l-
ing, em “ The E xpositor’s Greek Testament” , e a re­
cente obra de F . F . Bruce — The Acts o f the 
Apostles.
Escreveu-se ôste comentário com a sincera con­
vicção da necessidade que temos de um livro sôbre 
os Atos que focalize e chame a atenção dos cristãos 
para a sua maior mensagem. Seja qual fô r o mérito 
dos comentários presentem ente compulsados, admi­
timos haver poucas provas de que a mensagem que 
Lucas tanto desejou transmitir à posteridade fo i 
apreendida de modo adequado por seus leitores. Se 
isto 6 verdade, justifica-se plenamente uma outra 
tentativa com tal propósito . Reconhecendo haver 
nos Atos um objetivo maior, não menosprezamos os 
perigos a que nos pode arrastar uma análise unilate­
ral, e esperamos ter conjurado êsse êrro.
Urge ainda reconhecer que o Zeitgeist — o es­
pírito da época — pode influenciar a gente a ver isto 
ou aquilo nos A tos. Isto amenizaria o que se tenha 
a dizer ao criticarmos os pontos de vista sustenta­
dos noutros tempos em que os estudantes se mos­
travam imbuídos de um Zeitgeist diferen te. E ’ pre­
ciso admitirque êste espírito da época pode atraiçoar 
o estudante em sua exegese, como pode também le­
vá-lo a ver algo mais além da riqueza dum livro 
antigo. Um período de descobrimentos geográficos, 
e ainda a ampliação das fronteiras geográficas natu­
ralmente levaram os prim eiros exegetas a tirar maior 
partido dêsse fator encontrado nos A tos . Os exegetas 
que escrevem ao impacto do moderno movimento 
missionário mui naturalmente ainda se beneficiam 
mais com a penetração do Evangelho em novos terri­
tórios geográficos. Assim, agora, nesta era atômica 
em que interêsses internacionais e raciais empolgam, 
como nunca, a nossa atenção, é natural que a ênfase 
universalista mais se agigante aos olhos dos exegetas. 
Assim, o Zeitgeist torna-se um fator inevitável, nor­
teando ou desnorteando o exegeta de qualquer ge­
ração .
0 escritor reconhece que poderá ser incrimina­
do de extrem ista, ou exagerado, no emprêgo que faz, 
no setor ewegético, de advérbios tais como — “ pos- 
slvelm entef’ i '“ .proWivelmente” , “ aparentem ente” , e 
outros mais, — mas a verdade é que não viu como
evitá-los. Conquanto seja mais satisfatório afirmar 
isto ou aquilo de modo cabal e sem reservas, é tam­
bém verdade que a certeza não raras vêzes em mui­
tas questões está além de nosso alcance. E, quando 
isso se dá, o orgulho deve ceder seu lugar à sinceri­
dade, evitando-se tôda e qualquer atitude dogmá­
tica.
Outra coisa de que podem acusar o escritor é a 
de aproveitar-se do comentário para pregar. Estamos 
de acordo n isto . De fato, o escritor' buscou ser bas­
tante objetivo na interpretação dos A tos; no entan­
to, nunca teria êle escrito êste volume se não esti­
vesse interessado em querer ver a mensagem dos 
Atos, como êle a entende, invadindo e empolgando 
o cenário de nossos dias.
0 escritor agradece imenso a muitos autôres e li­
vros pela compreensão que hoje tem dos A to s . 0 ex ­
celente volume de R. B . Rackham, nos “ W estm inster 
Commentaries” , foi-lhe o m elhor e o mais singular 
guia para ver claro o propósito dos A tos . Meu amigo 
e ex-professor, o dr. Edward A . McDowell chamou 
a atenção dos estudiosos para essa valiosa obra. 0 
maior estímulo que tivemos para o estudo dos Atos 
nos veio do fato de lidar com esse livro do Novo Tes­
tamento ano após ano, dando aulas no Seminário 
Teológico Batista de Nova Orleans. Também em 
notas ao pé de muitas páginas se pode ver o quanto 
ficamos devendo a êste e àquele escritor, conquanto 
im possível se nos torne documentar o muito que ga­
nhamos na leitura de outros escritores.
De modo todo especial agradecemos de coração 
aos colegas da Seção do Novo Testamento, os d rs. 
Ray Frank Robbins, A . Jack Roddy, e V. W ayne Bar- 
ton ; bem como à minha espôsa Evelyn Owen Stagg, 
por haver prim eiro datilografado os manuscritos e 
por suas sugestões mui valiosas. Agradecemos, ou- 
trossim, com grande aprêço, a cuidadosa ajuda da se­
nhora R. C. B erry que datilografou os manuscritos 
d efin itivos.
Frank Stagg
I N T R O D U Ç Ã O
A SÚMULA NUM ADVÉRBIO
E’ coisa mui estranha encerrar-se um livro com um 
advérbio. No entanto Lucas assim o fêz.1 De fato, a obra 
em dois volumes — Lucas-Atos — chega a um final dra­
mático, sintetizada num advérbio. 2 No correr dêsses 
seus dois volumes, Lucas jamais perdeu de vista o seu 
propósito, e êle planejou muito bem a conclusão de cada 
um dêles, chegando ao esforço final com a derradeira 
exteriorização de sua pena. “ Desimpedidamente” , escre­
veu Lucas, descrevendo a liberdade que o Evangtelho con­
seguira a muito custo. Tal liberdade só se conseguira de­
pois de vencidas inúmeras barreiras, e pelo fato de haver 
nascido na mente e na intenção do próprio Jesus.
Só depois, de meditar sôbre a importância e a visível 
significação da palavra traduzida por impedimento (que
1. Alguns manuscritos aparecem com um final ma?or, acrcscentrndo estas 
palavras — “ Pois êste é Jesus, o Filho de Deus, por quem todo o inundo está 
prestes a ser ju lg a d o /’ Nenhum manuscrito grego traz estas palavras, conquanto 
possam ~ter a sua origem no grego. Evidentemente são um acréscimo, e não 
fazem parte do original.
2. A palavra grega akolutoa é um advérbio; mas “ desimpedido” , adjetivo, tem 
menos pêso que “ desimpedidamente’ *, que usamos no subtítulo dêste livro.
Ó L IV R O DE ATOS U
aparece em várias formas) é que êste escritor deu aten­
ção ao estudo do Professor Oscar Cullmann sôbre êste 
caso. Cullmann chegou a dar a essa palavra um signifi­
cado totalmente diverso, vendo mesmo nela traços duma 
antiga fórmula batismal. Seu estudo apareceu num apên­
dice de sua obra — Die Tauflehre des Neuen Testaments, 
1948 (na versão inglêsa — Baptism in the New Testa- 
ment, 1950). Tal apêndice tem por título: “ Traços duma 
Antiga Fórmula Batismal em o Novo Testamento” . Seja 
qual fôr o significado do têrmo, verdade é que o estudo de 
Cullmann fortificou a idéia de que êle tem um significado.
Das passagens citadas (Atos 8:36; 10:47; 11:17; Mat. 
3:14; o Evangelho dos Ebiomtas como aparece em Epi- 
fânio 30:13; Marcos 10:13-14) transparece o interessante 
caso desta hipotética fórmula batismal, segundo a qual o 
candidato perguntaria — “ Que impede que eu seja batiza­
do?” , ou alguém perguntaria — “ Que impede que êste 
seja batizado?” Contudo, está-se muito longe de compro­
var isso. Em o Novo Testamento essa palavra aparece, 
em suas várias formas, cêrca de vinte e cinco vêzes, e nos 
Atos sete vêzes. O sentido básico é sempre o mesmo — 
o de impedimento. Algumas vêzes não tem relação com 
o batismo e nem com o Evangelho. Os exemplos nos Atos, 
citados por Cullmann, envolvem o batismo, mas não dei­
xam de incluir também a questão da admissão do povo 
que não pertencia ao judaísmo. Não se trata simplesmen­
te do problema da admissão ao batismo, e sim da admis­
são dos que não eram judeus. Dois dos exemplos encon­
trados fora ,dos Atos referem-se à relação de João Batista 
com Jesus, na qual apareceu um problema miíi singular 
e frente ao qual se esperava surgisse algum “ impedimen­
to” . A última referência, de Maròos 10:13.-14, nos oferece 
fraca evidência de uma fórmula batismal, visto qüe nada 
indica que a aproximação daqueles pequeniQos a Jesus 
fôsse para o batismo.
16 FRANK STAGG
Era perfeitamente natural que o batismo se tornasse 
o ponto discutido por alguns com o problema de admis­
são, conquanto houvesse muitos exemplos de batismo em 
que essa questão não fôra apresentada. A palavra impe­
dimento foi empregada nalguns casos inteiramente sepa­
rada da idéia de batismo. Em nenhum caso nos Atos, 
quando se tratava dum judeu, se emprega esta palavra 
em relação ao batismo. Assim, a tese duma fórmula ba­
tismal, ainda que não deva ser excluída, não está prova­
da. Parece que se pode apresentar uma alegação mais 
forte quanto aos exemplos citados, tomando-se juntamen­
te com Atos 28:31, e dando-se isto como referência a um 
problema particular que encontrava ou não encontrava 
impedimento.
Doutro lado, ainda que admitamos como certa a tese 
de Cullmann — de que devemos ver no uso freqüente do 
“ impedimento1” os traços duma primitiva fórmula batis­
mal — ê certo que não se enfraquece com isso a teoria 
que afirma ter Lucas empregado o têrmo com referência 
ao maior problema dos impedimentos a um evangelho 
desacorrentado — impedimentos dos quais o Evangelho 
lutaria sempre por libertar-se. Se tal palavra já se havia 
tornado um termínus technicus, como Cullmann sugere, 
é certo que mui facilmente se poderia dar-lhe um campo 
mais vasto e relacioná-la com os primeiros esforços do 
Evangelho em prol da liberdade. O escritor acha, contudo, 
que se entende melhor a dita palavra deixando-se de ligá- 
la a uma fórmula batismal.
Convém ainda frisar que a tese defendida neste livro 
não depende da evidência da palavra “ desimpedido” . Na 
verdade, a percepção do têrmo se dá no fim do estudo e 
não no seu princípio. Acresce ainda que não se sustenta 
que Lucas deliberadamente explorasse tal palavra no cor­rer dos Atos. 0 que se frisa é que essa palavra, com in­
tenção do autor ou sem ela, resume muito bem a grande
mensagem do livro. Se a escolha foi deliberada, ela expli­
ca bem o caráter um tanto abrupto da finalização da obra.
Muitos se têm intrigado com o final dos Atos. Alguns 
acham o livro incompleto; outros pensam que Lucas ten­
cionava escrever um terceiro volume. Ao escritor, isso 
tudo parece estar errado no que respeita à obra Lucas- 
Atos. O livro não é incompleto, e nem termina abrupta­
mente. A conclusão dos Atos é coisa inexcedível pelo seu 
poder dramático. As maiores afirmações reunem-se no 
seu último parágrafo, e a sua mensagem maior é reafir­
mada mesmo na última palavra do livro, com o advérbio 
“ desimpedidamente” .
Coisa estranha e lamentável é o fato de influentes 
sumidades terem tratado pela rama êsse final que Lucas 
parece ter planejado de modo tão cuidadoso. Sir William 
Ramsay, a quem muito devem todos os estudiosos do 
Novo Testamento, mostra-se tão errado quão dogmático, 
ao dizer: “ Ninguém pode aceitar o final dos Atos como 
a conclusão duma história concebida de modo racional. ” 3 
Acha êle que Lucas não teria deixado de escrever sôbre a 
chegada do Evangelho a Roma e sôbre o resultado final 
do processo de Paulo. Assim, sôbre bases falsas se afirma 
que Lucas intentou descrever a expansão geográfica do 
Cristianismo e a vida de Paulo. Lucas nos deu muito sôbre 
a expansão geográfica do Cristianismo. Mas, não foi êste, 
ao que parece, o seu maior objetivo. Êle nos contou 
muito da vida de Paulo; mas certamente não foi êste o 
seu maior propósito.
F. F. Bruce aproxima-se bem mais da verdade ao 
tratar das palavras finais dos Atos. Não obstante, obscure­
ce também o assunto justamente neste ponto vital, ao 
dizer:
O LIVKO DE ATOS 17
8. Sir W illiam Ramsay, em St. Paul the Traveller and the Roman Citizen 
(N ew York, G . P . Putnam ’ s Sons, 1896), p g . 351-852.
A .A . 2
18 FRANK STAGG
“ Assim, por artística e poderosa que seja a con­
clusão, estranho é que Lucas não nos diga nada ex­
plicitamente acêrca do resultado da apelação de Pau­
lo. Seria suficiente responder que isso não fazia par­
te do seu projeto. Mais satisfatório, porém, será su- 
pôr que êle não escreveu mais, porque não sabia mais 
nada. ” 4
Isto nos leva a julgar que o livro dos Atos fôra es­
crito em data anterior quase impossível, ai pelo ano 60 
(A. D .) e certamente deixa em trevas o propósito dos 
Atos. 5 Isto é conclusão mui fraca para um excelente 
comentário. Lucas de fato deixou sem resposta muitas 
perguntas nossas. Mas essas perguntas são nossas, e não 
dêle. Lucas deixa cair o pano, e nos separa de muitos 
homens, sem dizer mais nada sôbre êles, o que seria para 
nós biografia mui interessante. Mas, parece que o pro­
pósito dêle não era mesmo escrever biografias.
O OBJETIVO DO LIVRO DE ATOS
Descobrindo-se o propósito do escritor, teremos en­
contrado a chave que nos leva a compreender a sua obra. 
De fato, espera-se que tôda a obra séria tenha um pro­
pósito certo, ainda que ao leitor tal propósito pareça uma 
coisa ilusória. Achamos ser tão grande a importância 
dum propósito nos Atos, e de tal valor à sua compreensão, 
que se nos torna imperativo procurá-lo a sério.
4. F . F . Bruce, em The A cts o f the Apostles (Londres, The Tyn íale Preas, 
1951), p g . 481
5. Martin Dibelius, quanto a êste problema das “ estranhas omissões das his­
tórias dos capítulos de 22 a 28 dos Atos, pensa, que Lucas esteva. vnteve"8«do em 
apresentar a evangelização dos pagãos mais como uma obra de Teus do que dos 
nomens e as boas n^vas cristãs como o cumprimento da esperança dos judeu*.. 
Sustenta êle que a Lucas interessavam os acontecimentos que desafiavam a igreja 
no tempo em que esta se separava do judaísmo, e assim conclui: “ Lucas desejou, 
portanto, nesses capítulos, acima de tudo, apresentar não o que tinha havido (das 
Gew eaene), e sim o que é (das S e i e n d e ) Isto é, Lucas estava interessado no Evan­
gelho, em como estava sendo pregado, mais do que nos acontecimentos passados 
na vida dos cristãos. Veja-se a obra Aufaãtze zur Apostelgeschichte (GSttingen, 
Vandenhoeck & Ruprecht, 1953), p g . 117.
O LIVRO DE ATOS 19
Não Os Atos dos Apóstolos. Êste livro é mui conheci­
do como Os Atos dos Apóstolos, e êste título está longe de 
dar aos leitores a exata compreensão do propósito do li­
vro. E’ êle encontrado no Código Vaticano, um dos mais 
velhos manuscritos existentes, e que data cêrca do ano 
350 (A .D .) . O Código Sinaíta, também do quarto século, 
traz como título apenas Os Atos, conquanto o título maior 
apareça ao final, na identificação do livro e no teor ori­
ginal. O Cânon Muratori, provàvelmente redigido entre 
os anos 170 a 200 (A. D .), diz que “ Os Atos de todos os 
apóstolos foram escritos em um livro: Lucas coligiu-os 
para o mui excelente Teófilo porque de ordinário tiveram 
lugar em sua presença.” Com título semelhante —■ Atos, 
ou Atos de (os) Apóstolos, foi êle conhecido por Tertulia- 
no de Cartago e por Clemente de Alexandria, os quais es­
creveram mais ou menos pelo ano 200 (A .D .) . Êste tí­
tulo, porém, parece ter sido obra de algum copista, e não 
do seu autor.
E’ claro que o propósito do livro não é registrar os 
atos dos apóstolos. O autor alista os onze e nos fala do 
acréscimo do décimo segundo apóstolo. Depois não se 
fala mais nada de nove dêles. Tudo quanto se nos dá de 
Tiago, o irmão do Senhor, martirizado por Herodes (12: 
2), é apenas uma curta sentença. João é trazido à cena 
mui de passagem. Pedro, juntamente com Estêvão e Fi­
lipe, surge no capítulo 12, e, depois daí, pouco se nos fala 
dêle. Volta-se a atenção mais para Barnabé e Paulo; mas, 
logo desce o pano sôbre Barnabé na cena dum conflito e 
sôbre Paulo enquanto está prêso e aguarda o resultado de 
sua apelação. Assim, ficamos com milhares de perguntas; 
e, à exceção de Estêvão, a história de cada pessoa esboça­
da se corta e se apaga no ponto que mais nos interessava. 
O pano desce sôbre cada um dêles, um a um, em pontos 
de interêsse porque, ao que parece, Lucas não está escre­
vendo sôbre os apóstolos.
30 FRANK STAGG
Acresce ainda que o início da significadora evangeli­
zação dos gentios, que parecia interessar muito a Lucas, 
não é por êle atribuída aos apóstolos — não aos doze, nem 
a Pedro, nem a Barnabé ou a Paulo —- e sim a gregos 
cristãos em Jerusalém e a alguns homens de Chipre e de 
Cirene, cujos nomes desconhecemos. 8 Êle demonstrava 
assim, como uma idéia dominara os apóstolos, não se im­
portando tanto com aquilo que os apóstolos realizavam.
Não o Evangelho do Espírito Santo. Há mais de meio 
século apareceu a idéia de que esta segunda obra de Lucas 
deveria ser chamada — “ O Evangelho do Espírito Santo” . 
Assim se pensou, e temos ainda pessoas que se batem por 
êste título. De pronto admitimos que tal denominação 
apanha bem o significado dos Atos. Mas, não nos satisfaz 
deixar isso assim afirmado de maneira tão ambígua. E’ 
certo que nos. Atos encontramos o relato de algo realiza­
do pelo Espírito Santo — coisas que não se teriam dado 
sem a presença do Espírito Santo. Mas a atenção de Lu­
cas parece estar mais voltada para aquilo que se estava 
conseguindo e não propriamente para o Espírito Santo. 
Aqui encontramos dois aspectos mui importantes duma 
mesma realidade. Mas, importa-nos perceber bem qual d 
aspecto que mais estava empolgando a atenção do escritor.
Dar-se ao livro o título de “ O Evangelho do Espírito 
Santo” implica reconhecer a necessidade de um livro tal. 
Em vão buscaremos um Sitz im Leben (uma condição 
de vida) que nos indique ter existido algum problema en­
tre os judeus ou os cristãos do primeiro século que puses­
se em dúvida a realidade, o caráter, ou a importância do 
Espírito Santo. (Com isto não nos esquecemos do peque­
no grupo estranho de Éfeso: seus membros pediam infor­
mes, não argumentos.) Todos admitiam a existência do 
Espírito, e não discutiam isso. Contudo, há provas de cada
6. Adolfo Harnack, em The Actsof the Apostles (Londres, Williams and
Northgate, 1909), pg. xxviii.
O LIVRO DE ATOS 21
lado que indicam uma luta titânica entre as idéias dos 
sectaristas e as daqueles que eram chefiados por homens 
como Filipe, Estêvão e Paulo. Conquanto Lucas desse 
grande relêvo ao Espírito Santo, não havia ocasião que 
exigisse um livro especial para tratar de questões referen­
tes ao Espírito Santo. Desde o início, Jesus era o centro 
de tôdas as controvérsias; e eram constantes os debates 
sôbre a Sua Pessoa, sôbre Seu caráter, atos, palavras e 
propósito. Mas, os judeus e os cristãos dos dias de Lucas 
rão estavam exigindo um livro que debatesse assuntos re­
ferentes ao Espírito Santo, como não pediam um livro 
que lhes provasse a existência de Deus.
Assim, não se sentia necessidade alguma de um livro 
que sublinhasse os atos do Espírito Santo. A ocasião pe­
dia debates sôbre a origem e o caráter das idéias e dos atos 
que encontravam expressão entre os primeiros cristãos. 
Lucas atribuia a Deus — nas expressões de Jesus, do Cris­
to ressuscitado, ou do Espírito Santo — muitas daquelas 
idéias que os homens discutiam. Não vai aqui disposição 
alguma no sentido de apequenar a importância do Espírito 
Santo nos Atos; mas importa focalizar o ponto de partida. 
O problema de Lucas não era esboçar o que o Espírito San­
to fazia, mas demonstrar a origem e o caráter de certas 
idéias e atividades que encontravam expressão e se torna­
vam centros de controvérsias nas comunidades cristãs do 
seu tempo.
Veremos mais claro o problema, ainda que não o ve­
jamos de maneira melhor, afirmando que o Espírito San­
to não foi o objeto da atenção de Lucas nos Atos, no sen­
tido em que Jesus o foi ao escrever êle o seu Evangelho. 
Fato tão claro assim, cremos, dispensa qualquer demons­
tração. O Espírito Santo é mencionado uma única vez 
(28:25) depois de Atos 21:11, e aqui, em conexão com 
Isaías! Não se concebe que Lucas mencionasse Jesus ape­
nas duas vêzes nos oito capítulos finais do seu evangelho!
PRANK STAGG
Jamais se poderá duvidar que o seu evangelho foi escrito 
para apresentar a Jesus. E certamente assim não se dá 
em Atos com referência ao Espírito Santo.
Acresce ainda que a escassez de referências ao Espí­
rito Santo na última parte do livro dos Atos constitui, 
para comprovar o que estamos dizendo, um fato bastante 
mais sério do que se essa carência se desse na primeira 
metade dos Atos. Todos os entendidos, exceto os que 
negam a autoria de Lucas, reconhecem que o autor dos 
Atos participou de muita coisa que pertence à última me­
tade do livro, embora não fôsse testemunha das coisas 
relatadas na primeira metade. Assim, quanto às informa­
ções constantes da primeira metade, Lucas as obteve de 
fontes, escritas ou orais, que não pertenciam à sua expe­
riência pessoal. E’ geralmente admitido que onde um es­
critor lança mão duma fonte que envolve múltiplos ele­
mentos, um dado elemento dessa fonte pode ou não re­
fletir o seu interêsse especial. Se tivermos de isolar êsse 
seu interêsse especial, melhor o faremos na parte em que 
os materiais são propriamente dêle. E é precisamente 
onde Lucas lida mais livremente com o seu material que 
encontramos poucas referências ao Espírito Santo. Isto 
não quer dizer que Lucas tivesse o Espírito Santo na con­
ta de menor importância, mas quer significar que o seu 
problema ou ponto de partida era outro. Nos Evangelhos 
tudo se centraliza em Jesus, e não há dúvida de que só 
tem importância aquilo que está relacionado com Êle. Já 
nos Atos, no entanto, encontramos onze capítulos que não 
mencionam o Espírito Santo. E’ fato que Êle tem proemi­
nência em muitos capítulos, mas são referências a Deus, 
ao anjo do Senhor, e Àquele chamado “ o Senhor” .
Os estudiosos estão cônscios da proeminência do Es­
pírito Santo nas cruciais experiências do Pentecostes, no 
desafio dos saduceus, da conversão de Cornélio, e do co­
missionamento de Barnabé e Saulo. Mas, podemos
O LIVRO DE ATOS 23
observar também que noutros acontecimentos cruciais não 
se distinguem com ênfase o Espírito Santo. Paulo e Es­
têvão deram grande impulso ao movimento cristão, e se 
nos revela que cada um dêles viu o próprio Jesus. Lucas 
assevera que cada um dêles estava cheio do Espírito San­
to; mas, no que respeita a Paulo, aquilo que lhe mudou 
e revolucionou a vida e sua obra foi a aparição pessoal 
de Jesus. Podemos anotar as muitas vêzes em que Jesus 
se apresentou junto de Paulo nas sombrias horas de crise. 
Podemos também rememorar as aparições do anjo do 
Senhor (e. g. 12:7-17, 23), do anjo de Deus (27:23), e do 
“ Senhor” (18:9; 23:11; 26:15) em momentos decisivos da 
experiência dos primeiros cristãos. No discurso que Pe­
dro pronunciou na casa de Cornélio, a referência, aparen­
temente a mesma, feita a “ Deus” , a “ Jesus” e ao “ Espí­
rito Santo” , deve servir de aviso a quem se sentir tenta­
do a separar uma “ pessoa” da Trindade, como se dá no 
caso de afirmar-se a existência de um livro como o Evan­
gelho do Espírito Santo. Pedro parece ter tido plena cons­
ciência da direção e do poder do Deus Trino e Uno, e Lu­
cas certamente estava a par dêsse Deus Triuno. Não se 
concebe, pois, que êle separasse de Jesus o Espírito Santo, 
e assim viesse a escrever dois livros para tratar de cada 
um em separado. Parece que não foi essa a intenção de 
Lucas.
Não temos com estas palavras a menor intenção de 
diminuir a importância do Espírito Santo no Livro dos 
Atos; há, sim, o desejo de apanharmos a perspectiva certa 
para podermos compreender bem os Atos. Não se pode 
negar a proeminência do Espírito Santo, ao menos em al­
guns capítulos; mas, parece êrro crasso dar-se aos Atos o 
título de “ 0 Evangelho do Espírito Santo” . Parece que 
Lucas estava interessado mais num ato particular ou num 
maior desenvolvimento do Reino. Certo era indispensá­
vel ao seu propósito frisar que êsse desenvolvimento —
24 FRANK STAGG
essa libertação do Evangelho — era obra de Deus e não 
de homens. Assim, Lucas cuida mais de examinar tudo 
do ponto de vista daquilo que se estava desenrolando e 
não do ponto de vista do Espirito Santo, ainda que a ope­
ração e a presença do Espírito fôssem coisa mui proemi­
nente em tudo quanto estava acontecendo. Fazemos ques­
tão de estabelecer bem esta distinção, visto ser indispen­
sável para a adequada compreensão dos Atos.
Ainda dum outro ponto de vista, estaria patente a na­
tureza insustentável do conceito de que os Atos são o 
Evangelho do Espírito Santo e aquêles que mais se inte­
ressam em dar ênfase ao Espírito Santo seriam os primei­
ros a ver isso. Se de fato Lucas tivesse tido a intenção de 
escrever o Evangelho do Espírito Santo, certamente se te­
ria abalançado a uma tarefa bem mais ambiciosa. Em que 
ponto, escolhido arbitràriamente, começaria êle a narrar a 
operação do Espírito, ou onde terminaria essa narrativa? 
O livro nos conta a atividade do Espírito em Davi e Isaías, 
e que Estêvão encerrou sua interpretativa revisão da his­
tória hebraica acusando seus ouvintes de estarem resis­
tindo ao Espírito Santo, como seus pais sempre o haviam 
feito (7:51). No livro dos Atos vemos recapitulados 
muitos atos, significativos e de grande alcance, do Espí­
rito Santo. Mas, todos êles são uma porção mui pequena 
daquilo que o Espírito tem feito na História.
Alguém poderá dizer, então, que também os Evan­
gelhos não nos narram todos os atos de Jesus. A isto res­
pondemos que nenhum erudito por espaço de cinqüenta 
anos jamais asseverou que os Evangelhos sejam “ vidas” 
de Jesus. São sim, interpretações baseadas em coletâneas 
daquilo que Êle fêz e disse. Os Atos, contudo, não são nem 
a “ vida” do Espírito Santo, e nem um retrato de ativida­
des selecionadas, como os Evangelhos o são no que res­
peita a Jesus. Por não ter reconhecido isto, foi que Rack- 
ham em seu grande comentário afirmou de modo in­
O LIVRO DE ATOS 25
feliz o seguinte (cf. xxxviii) — “ Os Atos de fato são a 
história da nova dispensação ( i . é ., sob o Espírito Santo); 
e é porisso que lhe falta uma conclusão definitiva. ” (Os 
grifos não são de Rackham.)
Não há base para se falar etíi dispensação do Espirito 
Santo como sucessória à dispensação de Cristo. Adverte- 
se no comentário (Atos 1:1) que Lucas estava interessado 
em mostrar que aquilo que se estava pensando na comuni­
dade cristã se devia, à direção do próprio Jesus, de Quem 
êle escrevera no seu primeiro tratado. A obra do Jesus 
encarnado e a do Cristo ressuscitado é una. Êste fato 
era coisa indispensável para Lucas se justificar daquilo 
que surgia da comunidade cristã e da missão aos gentios. 
Nos escritos de Paulo e de João, algumas vêzes encontra­
mos uma identificação virtual do Cristo ressurreto com o 
Espírito Santo. Se esta identificação fôsse também verda­
deira nos Atos, o Livro poderia ser chamado o Evangelho 
do Espírito Santo. Mas, mesmó isso parece errar o alvo, 
na opinião do autor.
Não a disseminação do Evangelho de Jerusalém até 
Roma. Há pessoas que tomam ós Atos como um regis­
tro da primitiva expansão geográfica do Cristianismo. 
Esta idéia ainda aparece em publicações recentes. A or­
dem — “ sereis minhas testemunhas em Jerusalém, e em 
tôda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” — é 
tida, então, como um esbôço do Livro. E’ verdade que 
grande parte dos acontecimentos narrados está dentro des­
sas linhas, mas nada estava mais longe do propósito do 
autor do que simplesmente mostrar como o Cristianismo 
se alastrara de Jerusalém para as mais distanciadas re­
giões do mundo. Tivesse sido êste o objetivo de Lucas, 
então êle estaria atrasado trinta anos.
A expansão geográfica em larga escala teve lugar 
logo depois do Pentecostes. Mui provàvelmente o Evan­
gelho alcançou Roma vinte anos antes da ida de Paulo
26 FRANK STAGG
para lá, A idéia mui popular de que foi Paulo quem le­
vou primeiro o Evangelho à Europa, entrando pela Mace- 
dônia por ocasião de sua segunda viagem missionária, não 
levou em conta a anterior expansão, ou se esqueceu da 
geografia do século primeiro. 7 0 significado do acon­
tecimento será conhecido sem a geografia, como demons­
traremos mais tarde. Não se nos revela quem fundou as 
igrejas de Roma, de Colossos, de Laodicéia, de Éfeso, de 
Troas e de Putéoli. Já havia cristãos em Damasco antes 
de Paulo fazer-se cristão. Lucas menciona isso quando re­
lata a conversão de Saulo, mas nada nos diz do inicio do 
trabalho, nem do seu posterior desenvolvimento. Ignora­
mos até que ponto o Cristianismo avançou para o norte 
e para o leste, Olhando para o sul, também encontramos 
ali um anterior progresso. O eunuco da Abissínia se con­
verteu, e regressou à sua pátria. Que mais sabemos dêle? 
Será que o Evangelho se alastrou na África? Lucas silen­
cia sôbre isso, a não ser quando incidentalmente se refere 
a um fato que sugere o progresso cristão na África, fato 
êsse anterior à primeira viagem missionária empreendida 
por Barnabé e Saulo (11:20).
Por todo o Livro dos Atos encontramos referências 
acidentais a uma expansão anterior e à parte da obra de 
Paulo. 0 pano desce sôbre Barnabé e Marcos quando ês- 
tes embarcam para uma nova viagem. Após miraculosa­
mente liberto da prisão, Pedro “ saindo, partiu para outro 
lugar” (12:17). Até hoje não sabemos onde fica êsse 
lugar. O próprio suposto herói de Lucas é deixado como 
que encalhado em Roma; o pano cai sôbre Paulo, sem 
qualquer notícia do que veio depois. Possivelmente Lu­
7. Alguns continuam cândidamente a dizer que “ se Paulo tivesse ido para a 
Ásia, tom o desejava, e não se tivesse encaminhado para a M ccedônia, o Evange­
lho teria entrado no Leste em vez de entrar no Ocidente, e que agora a índia e 
a China estariam mandando missionários para a Eur pa e para Arr é ; ‘ca” . A 
“ Á s i§ " para a qual Paulo queria ir, então era a província romana cue tinha 
Éfesp como çeu centro. Esta, juntamente com a Macedônia e a Acáia, fazia 
parte do grande centro cultural greco-rom ano ao redor do Mar Egeu. A Ásia em 
que Paulo queria entrar era uma parte do Ocidente e não do Oriente.
O LIVRO DE ATOS 27
cas encerrou seu livro nesse ponto pelo fato de não se 
terem desenrolado imediatamente outros acontecimentos 
de vulto. Mas, não se pode afirmar nada certo sôbre isso, 
e nem é necessário.
Parece haver disso tudo uma explicação que satisfaz: 
Lucas não estava tencionando apresentar um registro da 
expansão geográfica do Cristianismo. 0 narrar posterio­
res experiências do etíope, de Barnabé, de Marcos, de 
Pedro, de João, ou de Paulo; ou o desenvolvimento ocorri^ 
do em Damasco, ou na África, não eram coisas, essenciais 
ao seu propósito.
Não um irênico. A tese da escola de Tübingen 
(Baur) de que os Atos são um escrito apaziguador do 
tempo de Trajano (A. D. 08-117) ou de Adriano (A. D. 
117-138), escrito que visava reconciliar, ou apaziguar, a 
suposta rivalidade entre os seguidores de Pedro e os de 
Paulo, torna-se cada vez menos convincente. Esta teoria 
duma descoberta histórica do século segundo no sentido 
de neutralizar, ou harmonizar, aquêles supostos partidos 
rivais é mui vulnerável em vários pontos, e já está quase 
completamente abandonada; não merecendo por isso mui­
to de nossa atenção.
Nos Atos, as posições extremistas são sustentadas não 
por Pedro e Paulo, e sim por Tiago e Paulo. Entre êstes 
dois ficam Pedro, Marcos e Barnabé, cada um sentindo a 
influência tanto de Tiago como de Paulo. Cullmann pro- 
vàvelmente acerta ao sugerir que Pedro e os doze pare­
cem haver tomado a posição de mediadores entre os judai- 
zantes e os helenistas, até que se modificasse a situação, 
quando Tiago recolocou Pedro em função dominante em 
Jerusalém. 8
Mais ou menos recentemente, surgiu a tese. de que Lu­
cas e Atos foram escritos por cêrca do A. D. 150 como
8. Oscar Cullmann, em P eter : Disciple, Apostle, Martyr, trad, de Floyd V . 
Filson (Londres, SCM Press, 1958), pa:. 86.
28 FRANK STAGG
obra apologética contra o marcionismo. 9 Márcion re­
jeitara o Velho Testamento e os doze apóstolos, e formara 
um cânon composto dum curto arranjo de Lucas e mais 
dez cartas de Paulo. Para êle, Paulo é o único que mere­
ce crédito, e os doze corromperam a muitos da igreja com 
sua “ apostasia judaica” . Alguns acham que para contra­
balançar o cânon de Márcion, os cristãos “ ortodoxos” 
criaram Lucas como hoje o temos e que os Atos foram 
escritos com o duplo objetivo de reconhecer a Paulo e 
subordiná-lo aos doze. Assim, os “ ortodoxos” teriam tudo 
quanto Márcion tinha, e muito mais ainda.
Esta tese já não tem mais fôrça em vista dos dados, 
que hoje possuimos; mas não é fácil desacreditá-la. Por 
certo Márcion criou uma crise para os cristãos do século 
segundo, os quais se apressaram a organizar o cânon do 
Novo Testamento. Mas, afirmar-se que se aumentou o 
Livro de Lucas e que então se produziu o Livro dos Atos 
só para conjurar aquela crise é, à luz dos dados que hoje 
temos, um verdadeiro disparate. A tese encontra dificul­
dades em estabelecer a data posterior dos Atos e ao tratar 
de todo o assunto da formação do cânon, coisa mui pou­
co conhecida. E ainda se mostra indesculpàvelmente cépti­
ca para com a natureza dêsses escritos neo-testamentários. 
Além disso, ela não convence ao autor dêste livro por 
causa da própria natureza dos Atos. Há muita coisa nos 
Atos que desmintiria a Márcion, e não obstante há nêles 
muita coisa que poderia ser usada para lhe fornecer arri­
mo. Portanto, improvável é que se escrevesse o Livro 
de Aios só para combater o marcionismo. Contudo, uma 
resposta nossa, mais positiva, a essa tese, apresentaremos 
mais adiante.
Triunfo e Tragédia. Qual, então, seria o maior pro­
pósito do autor dos Atos ? Êle escreveu para mostrar a vi-
9, C f. John Knox, Marcion and the N ew Testament (Chicago, The University 
o f Chicago Press, 1942).
O LIVRO DE ATOS 29
tória do Cristianismo — para nos contar a expansão dum 
conceito, a liberação do Evangelho, ao romper as barrei­
ras religiosas, raciais e nacionais. 0 autor nos revela co­
mo o Cristianismo rompeuos estreitos limites que os ho­
mens tentaram impor-lhe e como êle sobrenadou para a 
liberdade que Cristo lhe outorgara. No primeiro capítulo, 
êle nos apresenta algo dos estreitos e acanhados conceitos 
do Cristianismo manejado pelos primeiros seguidores, que 
o encaravam como uma seita do judaísmo, aberta apenas 
para os judeus e seus prosélitos. Finalmente o vemos 
olhando para mais longe, lá de Roma, como uma religião 
aberta para todos quantos se submetem aos seus postula­
dos, sem respeitar raça, nacionalidade, ou quaisquer ou­
tras circunstâncias externas.
No primeiro capítulo o autor nos apresenta o maior 
problema interno da Cristandade dos primeiros dias, pro­
blema de que tratará o Livro dos Atos. Naquela conversa 
do adeus, os judeus cristãos perguntaram a Jesus — “ Se­
nhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?” (1:6). 
Notemos bem que êles não perguntaram se o reino seria 
restaurado a Israel. Isso êles nem discutiam. O único 
problema para êles era o quando. E’ possível que êles 
começassem a entender que o reino não era temporal e 
político. Não obstante, ainda pensavam nêle como per­
tencendo a Israel. Lucas avança para nos mostrar a gra­
dativa queda dêsse modo de entender o reino. Aos poucos, 
vagarosamente, cresce o conceito de que o Cristianismo 
se destina a todos. A porta para se entrar nêle não é a 
circuncisão, ou a lei, nem a sinagoga, nem o próprio ju­
daísmo. Não obstante, êste acanhado conceito de qtle o 
reino pertencia a Israel apossou-se desde logo dòs cristãos 
judeus. Para a maioria, tornou-se êle o ponto nevrálgico 
que afinal os afastou do Cristianismo.
De início vemos só judeus abraçando o Cristianismo; 
e pensavam que o Cristianismo era só para êles. Quem
30 FRANK STAGGr
não fôsse judeu de nascimento só poderia entrar no reino 
depois de passar pelo judaísmo. A seguir, vemos judeus 
helenistas, Estêvão e Filipe, e prosélitos, mais que ativos 
no movimento. Depois são recebidos samaritanos, semi- 
judeus, embora com relutância. Por fim, recebem-se gen­
tios; êstes, porém, através de passos gradativos.
Os primeiros gentios a serem recebidos pertenciam 
já à margem mais externa do judaísmo. O etíope e 
Cornélio de modo algum eram tidos pelos judeus como 
pagãos cem por cento. Eram gentios que já haviam ca­
minhado para mais perto do judaísmo. Só mais tarde se 
receberam gentios que não tinham tido nenhuma ligação 
anterior com 0 judaísmo. A questão surgiu quando se 
cuidou de aceitar os gentios em pé de igualdade com os 
judeus, e isso forneceu assunto para uma grande reunião 
em Jerusalém, onde se alcançou uma grande vitória. Pa­
rece que o livro deveria encerrar-se no capítulo 15, mas 
Lucas desejava apresentar outras muitas conquistas do 
Evangelho. A vitória vinha despontando nas igrejas, e era 
necessário apresentar a reação final dos judeus à nova 
posição.
Lucas deixa bem claro uma coisa: o problema de se 
aceitar os gentios incircuncisos tornou-se muitíssimo agu­
do para os judeus cristãos, culminando por levar os judeus 
a se excluírem da comunidade cristã. Alude posteriormen­
te a um aspecto dêsse problema, sem contudo explorá-lo 
completamente como em Atos, o apóstolo Paulo, em al­
gumas de suas cartas, notadamente quando trata do lu­
gar das leis rituais judaicas na vida dos próprios judeus 
cristãos. Será que finalmente o Cristianismo libertaria, 
tanto ao judeu como ao gentio, da lei e dos ritos?! Lucas 
não se-mostrava tão interessado neste aspecto do proble­
ma, e sim com a atitude do judeu cristão para com os 
gentios incircuncisos, conquanto não silenciasse sôbre 
aquêle aspecto da questão. Mostra êle que já se apodera­
O LIVRO DE ATOS 81
ra dos corações judeus o temor de que, uma vez que se 
libertava o gentio dos ritos da lei, isto sugeriria o mesmo 
para os judeus.
Tal temor aparece claramente refletido nas palavras 
ditas a Paulo quando se nos relata a última visita dêle ü 
Jerusalém: “ Bem vês, irmão, quantos milhares (miría­
des) há entre os judeus que têm crido, e todos são zelo­
sos da lei; e têm sido informados a teu respeito que en­
sinas todos os judeus que estão entre os genüos a abando* 
narem a Moisés, dizendo que não circuncidem seus filhos, 
nem andem segundo os costumes da lei” (Atos 21:20 em 
diante). Uma “ concessão” , que libertava da Lei o gentio 
cristão, mui fàcilmente acarretaria outra, liberlando tam­
bém o judeu cristão.
Acresce ainda que, aprofundando-se o caráter e a es­
sência do Evangelho, evidenciava-se a impossibilidade de 
se reconciliarem princípios exclusivistas com a fraterni­
dade cristã. Os judeus deviam ver bem que isso era inevi­
tável, pois que o ministério da mesa (a própria distribui­
ção fraternal de benefícios) impossibilitava seguir-se ;l 
risca ccrtos usos e costumes judaicos. Assim, viram êles 
nessa igualdade cristã de gentios e judeus a inevitável des­
truição de suas esperanças no que respeitava a um reino 
político-econômico. 0 judaísmo era fanto uma nação co­
mo uma religião. Os gentios cristãos reconheceriam que 
o Cristianismo se relacionava com o judaísmo como re­
ligião; mas, é certo que rejeitariam qua’quer imposição 
do judaísmo como nação. Assim, o problema final não 
se cifrava apenas em saber sôbre que base seriam recebi­
dos os gentios. Mesmo depois de a reunião de Jerusalém 
haver aprovado a recepção dos gentios incircuncisos, os 
judeus cristãos se contavam por miríades.’ 0 que afinal se 
lornou inaceitável para o judeu foi o fato de o Cristianis­
mo haver ameaçado libertar da lei ritual até mesmo aos 
judeus e haver estabelecido a igualdade do judeu e do gen-
32 FRANK STAGCr
tio no que dizia respeito ao reino. Foi nisto que o Cristia­
nismo deixou de ser judaico e se fêz gentílico.
Desde o início via-se que o universalismo estava la­
tente no judaísmo. O monoteísmo logicamente conduz ao 
universalismo; porque, se há um só Deus, deve ser Êle o 
criador de todos os homens e deve incluir a todos nos Seus 
planos. De Amós em diante, proclamou-se por meio de 
muitas vozes, dentro do judaísmo, o conceito do univer­
salismo, tornando-se o proselitismo a sua aplicação prá­
tica . Contudo, tal universalismo entrava em conflito com 
o nacionalismo. A posição resultante era a de que Deus 
poderia ser o Deus de qualquer pessoa, desde que pelo 
ritual se fizesse judeu. Isto era disfarçar a idéia de que 
Êle é unicamente o Deus dos judeus. Alguém disse que 
tal proselitismo era o mesmo que estender u’a mão aos 
gentios e com a outra conservá-lo à distância. Com essa 
espécie de universalismo e de proselitismo, o judaísmo 
proclamava sempre que o gentio como gentio só poderia 
participar do reino quando admitido ao judaísmo. E isso 
compreendia admissão ao judaísmo, tanto como nação 
como religião.
Um mestre judeu contemporâneo — Joseph Klausner
— mostra-se insistente neste particular: “ Não devemos 
esquecer êste fato mui singular . .. de que o judaísmo não 
é somente uma religião, mas também uma nação — uma 
nação e uma religião, a um só e ao mesmo tempo. ” 10 O 
temor que tomou posse dos corações judeus era justamen­
te êste aqui expresso por Klausner:
A abolição das leis cerimoniais necessàriamente 
viria obliterar a distinção entre Israel e a nação. . . 
e, se o judaísmo houvesse dado ouvidos a Paulo, teria 
desaparecido da face da terra, como religião e como
10. Joseph Klausner, em From Jesua to Paul (N ew York, The Macmillan Co., 
1 M 4 )) , pg. 593.
O LIVRO DE ATOS 33
nação, sem ter deixado qualquer influência no grande 
mundo pagão. 11
Mas os judeus cristãos estavam laborando em êrro, 
assim como também Klausner. E’ verdade que aquilo te­
ria destruído a Israel como nação, mas nunca como 
religião. Na disposição de morrer como nação, Israel 
tinha a oportunidade de levar tôdas as nações à morte 
para o ego, na qual encontramos a vida, e pela qual se pos­
sibilita uma fraternidade bem mais vasta.
Depois dum anterior progresso em desvencilhar-se dó 
nacionalismo, a experiência do exílio e o conflito com ou­
tras nações produziram o recrudescimentodêsse espírito. 
Podemos citar aqui uma fonte judaica:
Com a volta à Palestina, no tempo de Esdras, no 
ano 458 a. C., e no de Neemias, no ano 444 a. C., 
tornou a dominar no judaísmo o espírito particularis- 
ta e isolacionista, e êle veio a plasmar o desenvolvi­
mento do pensamento judaico, bem como a evolução 
do judaísmo por tôda a subseqüente história dos ju­
deus. 12
Tal programa de isolamento e de nacionalismo re­
velou-se tão extremista que matou todo e qualquer prose­
litismo .
Êsse isolacionismo extremista, contudo, logo deu lu­
gar a certas modificações. Mas, como Israel tornasse a 
expressar de novo o seu universalismo, já seu método 
consistiu em expressá-lo por meio de práticas rituais: a 
circuncisão, as leis sôbre alimentação, e os sacrifícios. Ci­
tando novamente Klausner: “ O judaísmo nos dias do se­
gundo templo, e mesmo depois, fêz dos prosélitos gentios 
‘filhos do pacto’ de tal modo que foram absorvidos pela 
comunidade nacional judaica.” 13 O Cristianismo não
11. hoc. cit.
12. Julian Morgenstern, em “ Universalism and Particularism ” , The Uni­
versal Jewish Encyclopedia’ *, X,356.
13. Op. cit., p g . B34. . -
A.A. 3
34 FRANK STAGG
exigiu dos gentios que se incorporassem à comunidade na­
cional judaica. Ao contrário, constituiu uma nova comu­
nidade na qual judeus e gentios eram iguais, ou melhor
— na qual não importava o ssr judeu ou gentio. Para o 
judeu isto era coisa inaceitável; já o gentio só mais tarde 
faria oposição a êsse princípio cristão.
Os judeus não rejeitaram a Jesus pelo fato de Êle se 
intitular o Cristo, o Filho de Deus; milhares de judeus 
não viam nisso uma dificuldade insuperável. Êles não 
romperam com o Cristianismo por causa disso, e os Atos 
provavam que miríades de judeus, de Jerusalém e doutras 
cidades, aceitaram a Jesus como o Cristo. Não obstante, 
antes do fim do primeiro século cristão, êsse movimento, 
inteiramente judaico em seu início, e que atraiu milhares 
dé judeus sinceros por muitas décadas, tornou-se predo­
minantemente gentílico. E o que fêz a diferença foram as 
missões e não o messiado. Não tivesse o caráter espiri­
tual e universal do Cristianismo se afirmado triunfante­
mente com exclusão dos interêsses nacionalistas dos ju­
deus cristãos, certo o movimento cristão teria continuado 
a atrair milhares de judeus. O Cristianismo dentro dum 
período assustadoramente curto se tornou muitíssimo po­
pular entre os judeus, e então foi rejeitado por aquele 
mesmo povo de cujo seio havia saído.
Em sua obra de dois volumes — Lucas-Atos — Lu­
cas nos traça o seu desenvolvimento. Quando escreveu, 
o Cristianismo já estava ganhando o mundo gentílico, c 
os judeus já se sentiam assoberbados com as conclusões 
do Cristianismo, do qual por fim se viram obrigados a 
afastar. No seu Evangelho, Lucas mostrou que o cará­
ter de que se achava revestido o movimento cristão pro­
vinha do próprio Jesus; não se tratava de forma alguma 
duma perversão efetuada por Paulo ou por qualquer ou- 
♦ro apóstolo. Jesus jamais tivera em mente um movi­
mento que se expandisse apenas dentro do judaísmo na-
O LIVRO DE ATOS 85
eionalista. Visava, sim, a uma nova humanidade que 
abarcaria judeus e gentios. Nos Atos, Lucas nos mostra 
a expansão dêsse intento de Jesus, e nos fala do seu glo­
rioso triunfo na inclusão do gentio e da lamentável tra­
gédia que culminou na auto-exclusão do judeu.
Propósitos secundários. Afirmar-se que o livro dos 
Atos tinha um único propósito em vista é simplificar por 
demais o assunto. Sem dúvida, houve outros propósitos 
subsidiários ao propósito principal. 14 Seja qual fôr o 
objetivo de Lucas, o fato é que Lucas escreveu uma his­
tória; fôsse qual fôsse o seu propósito específico, é fato 
que êle tentou informar seus leitores acêrca do passa­
do. 16 A visita que êle fêz à Palestina sem dúvida lhe deu 
o embalo inicial para escrever. Essa visita o colocou sob 
o encantamento da igreja-mãe e da especial tradição qué 
ali conheceu. 16 O contacto com Mnáson, um dos primei­
ros discípulos (Atos 21:16), proporcionou-lhe boa fonte 
de informações e de estímulo para escrever. Não é pará 
desprezar-se o puro interêsse pelo material, pelo que de 
bom apresenta, e Lucas bem podia acompanhar uma his­
tória simplesmente pelo fato de esta despertar curiosida­
de. Lucas não inverteu a intenção de qualquer material 
de suas fontes (conquanto remodelasse algo dêle para ser­
vir ao seu propósito), e de contínuo assim devemos enca­
rar a mensagem original e o propósito dos materiais que 
lhe serviram de fontes. Não poucas vêzes devemos ver 
no seu Evangelho ou nos Atos dois significados: o signi­
ficado do evento em seu próprio tempo e cenário, e o sig­
nificado que o escritor deseja apresentar para os seus dias. 
Isto necessàriamente não implica um conflito de signifi­
14. Para um bom tratamento disto, veja-se R . B. Rackham em The A cts o f 
the Apostlea ( W estm inater Commentaries, 12.a ed., Londres, Methuen and Co.» 
1939) p g . xxxix em diante.
15. Veja-se Henry J. Cadbuíy, em The Making o f Luke-Acts, ( N ew York, M&c- 
millan and Co., 1927) p g . 300.
16. Veja-se W m . Manson em The Gospel o f L uke (T he M offa tt N ew Teata- 
ment Commentary, N . York, Harper and Brothers, 1930) p g . v ii.
86 FRANK STACK}
cados,. visto que um acontecimento pode ter um significa- 
dó imediato e outro remoto.
Muitos vêem no Livro de Atos uma defesa ou justÍT 
ficaçãò do Cristianismo perante Roma. Outros reduzem- 
rio a uma defesa de Paulo diante da legalidade romana. 
Esta idéia parece improvável, pois que seria um modo 
perifrástico de se defender um homem em cadeias, se bem 
que muito valesse uma defesa do Cristianismo perante o 
mundo romano. Jesus morrera numa cruz romana e 
acusado de sedição, e Paulo trazia nos pulsos grilhões ro­
manos. Tais fatos exigiam explicação, muito mais ainda 
em témpos de perseguição e de guerra. Está claro que 
Lucas se deu ao trabalho de mostrar que Paulo e outros 
mais líderes cristãos sempre estavam à vista das autori­
dades romanas e que estas nunca os julgaram culpados 
de qualquer crime contra Roma. Por outro lado, Lucas 
nos afirma que os oficiais romanos repetidamente decla­
ravam inocentes os chefes cristãos. Um livro, com taí 
finalidade, certo muito poderia influir dentro do Império, 
embora não deíxas;e de indiretamente aproximar o Cris- 
tiáriismo a Roma oficial. E’ quase incrível que um oficial 
romano não cristão viesse a perlustrar os grossos livros de 
Lucas e Atos. Houvesse Lucas escrito para uma pessoa 
ngo cristã, certamente haveria omitido muita coisa que en­
contramos em sua obra. 17
Outro tópico que se torna evidente é a posição que o 
Cristianismo manteve frente à réligião pagã. Não se 
mancomunou cóm ela. Êle foi apresentado como não 
tolerando qualquer outra religião. Intolerante também 
para com as magias, a bruxaria, o falso espiritualismo, 
a filosofia pagã e a idolatria.
Podemos aventar êstes e outros mais propósitos se-
17. Dibelius, contudo, acha que tanto o Evangelho como 9S Atos foram es- 
critps não só para a comunidade cristã, mas também visando o “ mercado de li­
vros” (Bücherm arkt) t estribando-se especialmente no fato e na natureza da dedi­
catória a T eófilo. V er op. cit., pg . 118.
O LIVRO DE ATOS 87
Cundários; mas, tornamos à convicção de que o propósito 
principal foi retratar o Cristianismo ao afirmar o seu 
Universalismo contra qualquer esforço ou tentativa no 
sentido de limitá-lo aos acanhados conceitos do judaísmo 
do primeiro século. Essa luta acerrada e amarga resul­
tou na gloriosa vitória da liberdade cristã e no reconheci­
mento de uma Nova Humanidade que paira acima dos lî 
mites de raça e de naciotíalidade. Com isso, não obstan­
te, surgiu a lamentável tragédia de aulo-exclusão do ju­
deu, pois que êste preferiu fazer sobreviver sua nação 
com exclusão da fraternidade mundial.
A DATA E A OCASIÃO
Buscando firmar a data em que foi escrito o Livro 
dos Atos, o terminus a quo, ou a sua possível data mais 
anterior, é fixada pelosacontecimentos relatados no ca­
pítulo 28. Paulo passou dois anos em Roma aguardan­
do o julgamento do imperador. Por certo o Livro dos 
Átos não podia ter sido escrito antes daqueles dois anos,; 
Mas, é um êrro concluir-se que aqueles dois anos são 
também o terminus ad quem, ou a data mais posterior 
possível, como muitos hão afirmado.18 Concluir-se se 
terminou de escrever o Livro dos Atos onde êle acaba, 
sem nos dar o resultado do julgamento de Paulo, porque 
os acontecimentos não mais se desencadearam, é achar 
que Lucas estava acompanhando a vida de Paulo por , 
interêsse próprio. Encerrando a história sem nos rela­
tar o dito resultado, Lucas fêz exatamente aquilo que 
costumava fazer através de todo o Livro, ao tratar de 
muitas outras personalidades. Êle estava bem mais inte­
ressado nos sucessos e avanços do Cristianismo do que 
em pessoas. Não há razão para se achar que o Livro dos
18. E ’ desconcertante achar-se em excelentes comentários, tais como os de R. 
B . Rackham e de F . F . Bruce, a afirmativa de ser abrupta a conclusão do Livro . 
dos Atos, e mesmo incompleta, e a de o Livro ter sido escrito antes de se ter co? 
nhecído o resultado final do julgamento de Paulo. V er Rackham, op. c i t„ p g . 
1 -lv , e Bruce, <*p. cit., p g . 10-14.
â8 FRANK STAGO
, ■; - — -"3-ti-tj
Atos devia ter sido escrito antes do julgamento de Paulo. 
A conclusão dos Atos é mais cheia de significado quando 
nos lembramos do verdadeiro propósito de Lucas (veja 
a discussão anterior).
Paulo apelara para César (Atos 25:11) depois de 
Festo haver sucedido a Félix como procurador da Judéia, 
e seus dois anos em Roma seguiram-se logo depois disso. 
Isto nos oferece um dado definido para a cronologia pau- 
lina. Mas, permanece um problema quanto à data da 
prisão de Paulo em Roma, visto não haver certeza acêr- 
ca da data em que Festo sucedeu a Félix. Josefo (Anti- 
quities, XX, 8, 9 em diante, e Wars, II, 14, 1) nos diz que 
Festo foi nomeado no tempo de Nero, para suceder a Fé­
lix, e que êle foi substituído por Albino. E’ possível que 
Festo se tornasse procurador pelo ano 55 ou 56 (A. D .), 
mas não é coisa provada. 19 Provàvelmente Paulo pas­
sou o inverno do ano 56 ou 57 em Malta, vindo depois o 
naufrágio, e atingindo Roma na primavera de 57 ou 
58. Os dois anos passados prêso em Roma mui provà­
velmente cairam dentro do ano 59 ou 60. Falta-nos 
uma prova concludente; mas parece ser esta data a 
mais aceitável. Assim, o Livro dos Atos não foi escrito 
antes de cêrca do ano 59 ou 60. Isto, contudo, não indica 
a última e possível data do Livro. O julgamento de Pau­
lo necessàriamente não voga para a aferição da data dos 
Atos. Os longos argumentos a êste respeito só concorrem 
para obscurecer a questão do propósito de Lucas.
Já foram propostas muitas datas para o Livro dos 
Atos, algumas até para depois da metade do segundo
19. P or meio de Josefo (Antiquities, X X , 8, 9) sabemos que quando Félix fo i 
chamado para Roma fo i êle salvo de ruína completa pela influência de Palas, 
irmão dêle. Peleas fôra demitido do ofício por Nero, cêrca do A no Domini 65. 
Portanto, Félix devia ter sido chamado para Roma antes da queda de Paleas. V e- 
ja-se Kirsopp Lake e Henry J. Cadbury, editores, Additional N otes, V ol. V ., The 
Beginnings o f Christianity (Londres, Macmillan and Co., 1933) p g . 466. E tam ­
bém ao pé da pág. 242 em diante.
O U V RO DE ATOS S9
século. João Knox achou que o Livro já fôra escrito e 
que Lucas o desenvolveu para enfrentar a ameaça do 
marcionismo. 20 Isto já discutimos na seção que tratou 
do propósito do Livro (veja pág. 25 em diante). Pou­
cos, porém, aceitam esta data bem posterior. E’ quase 
inconcebível que um livro escrito no tempo de Márcion 
fôsse dentro de poucos anos tido amplamente como uma 
obra de Lucas. Irineu (A. D. 185) citou e resumiu mui­
ta coisa dos Atos em sua obra Against the Heresies, 21 
e de modo claro mencionou Lucas como o autor do Evan­
gelho que traz o seu nome e também como o autor dos 
Atos. 22 O fragmento Muratori (170) de modo explícito 
atribui a autoria dos Atos a Lucas, dando-nos a tradição 
dos cristãos de Roma. Clemente de Alexandria (200) e 
os das gerações seguintes sustentam ser Lucas o autor dos 
Atos. Isto se tornaria incrível, caso a obra em fóco per­
tencesse à metade do século segundo. Há possíveis alu­
sões aos Atos no Primeiro Clemente (A .D . 95), na epís­
tola de Barnabé (100), no Pastor de Hermas (100-110), 
em Inácio (115), na epístola de Policarpo (120), e nou­
tras. 23 Mais importante é, porém, anotar, como vimos 
antes, que essa tese, de que o Livro dos Atos era um livro 
apaziguador que visava harmonizar os seguidores de Pe­
dro como os de Paulo, obscurece o propósito real dos Atos 
e já está superado juntamente com Baur e a escola de 
Tiibingen, seus criadores.
D. W . Riddle 24 achou que a ameaça da perseguição 
de Domiciano deu ocasião para o Livro dos Atos. Então, 
a data dêste seria de alguns anos depois do A. D. 90. 
Êle baseou seus argumentos em três proposições: Lucas- 
Atos dependem de Josefo; a publicação dos Atos responde
20. John Knox, op. c it„ passim.
21. V eja Rackham, op. cit., pg. x iv .
22. V eja Bruce, op. c i t„ pg. 1.
23. IbicL, p g . 8.
24. D . W . Riddle, em The Occa&ion o f Luke-Acts. “ Journal o f Religion” , ou* 
tubro, 1930.
m-*
pela coleção das cartas de Paulo; e que Teófilo era um 
oficial do Império, ao qual o livro dos Atos era endereça­
do como uma apologia. Nenhuma dessas teorias pode ser 
provada plenaxnente. São argumentos muito fracos, e os 
críticos de bom coração se deliciam em atacá-los quando 
alguém os usa para sustentar uma posição tradicional.
Outros, deixando de lado a tese particular de Riddley, 
acham que Lucas-Atos foi escrito depois do A . D . 93, ba­
seados ainda na suposta dependência de Josefo. Citam* 
se, enlão, três passagens para provar que Lucas depen­
deu de Josefo: a referência a Teudas, em Atos 5:36 em 
diante; a referência a Lisânias, como tetrarca de Abilene, 
em Lucas 3:1; e a referência ao egípcio, em Atos 21:38. - 
Tais passagens foram debatidas à saciedade. Mas, não 
se segue que por isso Lucas dependeu de Josefo. A parte 
das Antiquities (XX, 5, 1, 2) que relata os assuntos trata­
dos por Lucas encontra-se quase no fim daquela obra; e 
parece coisa estranha houvesse Lucas perlustrado tôda 
essa obra volumosa para colher tão pequeno material e 
daí interpretar mal essa sua fonte! Lucas e Josefo certa­
mente beberam na mesma fonte; e, no que respeita a Teu­
das, bem podia ser que êles se referissem a pessoas dife­
rentes .
Alguns insistem em dizer que o Livro é de data pos­
terior ao ano 70 (A . D .) porque o Evangelho de Lucas, 
anterior aos Atos, indica uma data posterior à queda de 
Jerusalém no ano 70. Argumenta-se que a descrição que 
Lucas nos apresenta do cêrco de Jerusalém (Lucas 19: 
43 em diante; e 21:10-24) é muito precisa para que se 
admita uma data anterior a êsse acontecimento. Será 
forte êste argumento? O fato de Jesus ser o Filho de Deus 
e poder prever a queda de Jerusalém explica satisfatoria­
mente a precisão daquela descrição. Além disso, quem 
estivesse alerta para com os tempos que corriam poderia 
antever um inevitável choque dos judeus com Roma, pois
40 1'RANK STAGG
O LIVRO DE ATOS á
que os zelotes estavam agitando o povo para que se re­
voltasse, único crime imperdoável aos olhos de Roma. È 
também acontecia que Jerusalém sempre fôra tomada 
depois de cercada, em vista de sua posição topográfica: 
Nisso tudo vemos não haver nenhum argumento conclu­
sivo para se fixar a data de Lucas, e mesmo dos Atos, 
para depois do ano 70. Doutro lado, isso não exige para 
Lucas ou para os Atos uma data anterior ao ano 70. Lu­
cas e os Atos poderiam ter sido escritos antes do ano 70, 
mas não foram necessàriamente escritos anteriormente.
A data de Marcos entra em cogitação como um fator 
maior para se acertar a data de Lucas e também a dos 
Atos. Por cêrca de um século reconheceu-se quase que 
universalmente queLucas teve em Marcos uma de suas 
fontes, às quais se referiu no seu prefácio (Lucas 1 : l -4 ) . 
Mui provàvelmente Marcos fôra esci'ito pelo ano 65 A, D., 
por ocasião das perseguições desencadeadas por Nero con­
tra os cristãos e quando êstes mais tarde perigavam por 
efeito da guerra entre judeus e romanos, que então ia ace­
sa. Mui provàvelmente Lucas foi escrito poucos anos 
depois. O Livro dos Atos seguiu-se logo depois a Lucas; 
não se podendo precisar quão logo depois.
A guerra entre judeus e romanos (A.D . 66-70) pôs 
a judeus e cristãos em uma crise ainda maior. O rompi-, 
mento final dos cristãos com a sinagoga e o abandono do 
Cristianismo pelos judeus sem dúvida foram precipita­
dos por aquela guerra. Por alguns anos a presença de 
gentios incircuncisos nas igrejas constituiu um problema 
para os judeus que se apegavam às tradições. Aquêles 
que sustentavam ser o judaísmo tanto uma nação como 
uma religião insistiam em que os gentios conversos de­
viam ser iniciados como súditos da nação. Os judeus cris­
tãos foram forçados a reconhecer que os gentios na ver­
dade se estavam convertendo e que efetivamente o Espi­
rito Santo descera sôbre êles. Mas, nunca se prova tanto
4» FRANK STAGG
o patriotismo como no tempo da guerra. Certas conces­
sões e arranjos recebem vista grossa em tempos de paz; 
mas, em dias de guerra, são considerados como imper­
doável traição. Assim, quando os judeus se viram em 
luta de vida ou morte com os romanos, os limites fica­
ram demarcados a fogo. Nunca se insistiu tanto, como 
então, em firmar bem o muro divisório entre judeu e não- 
judeu. Os cristãos permaneceram neutros, e mesmo fo­
ram do conflito judeu-romano, enxergando bem que o 
verdadeiro destino do judeu, como o do cristão, nunca 
seria alcançado por meio de guerras materiais. Parece 
que depois da guerra mui poucos judeus se converteram 
ao Cristianismo. E, daquele ponto em diante, o movimen­
to tornou-se notadamente gentílico.
0 Livro dos Atos parece ter sido escrito durante a 
guerra judeu-romana, ou logo depois; provàvelmente logo 
depois. Mui provàvelmente foi escrito quando já se via 
claro que os judeus iam abandonar o Cristianismo. Lucas 
parece não estar tão preocupado em mostrar que o Cris­
tianismo abarcaria o gentio; mas, sim, em mostrar como 
um movimento, inicialmente judeu, se tornava gentílico. 0 
Evangelho de Lucas atribui a Jesus os impulsos e princí­
pios que gradativamente foram ganhando expressão em 
Seus seguidores. O Livro dos Atos nos mostra o resulta­
do disso e aquilo que êle veio a significar para o gentio
— a sua inclusão — e para o judeu, a sua auto-exclusão.
SUA AUTORIA E SUAS FONTES
Cria-se firmemente no segundo século que Lucas, o 
médico amado (Col. 4:14), escrevera o Evangelho se­
gundo Lucas e o Livro dos Atos. Muitas vêzes no 
século passado se pôs em dúvida essa antiga tradição; 
não obstante, por grande diferença essa tradição foi sem­
pre a mais aceita. Lucas e Atos são anônimos, como
O LIVRO DE ATOS 43
todos os Evangelhos, e por si mesmos nada reclamam 
quanto à sua autoria. Ao que parece Lucas não era vulto 
proeminente na primitiva comunidade cristã, e assim não 
se esperava que a autoria dêsses importantes e grande» 
escritos lhe fôsse atribuída apenas por capricho. Não se 
compreende que a carta anônima aos Hebreus fôsse arbi­
tràriamente atribuída a um escritor poderoso e prolífico 
como Paulo; mas, isto não explicaria o atribuir a Lucas 
esta obra de dois volumes. A explicação mais satisfatória 
desta crença primitiva é a de que foi Lucas mesmo quem 
escreveu os dois volumes.
O prólogo anti-marcionita de Lucas (A. D. 160-180) 
identifica o autor do Evangelho como sendo Lucas, uma 
pessoa de Antioquia da Síria, e médico de profissão. E 
adiciona daí que “ o mesmo Lucas posteriormente escre­
veu os Atos dos Apóstolos.” 25 O Cânon Muratori (A .D . 
170) afirma que “ Lucas compilou para ‘o mui excelente 
Teófilo’ aquelas coisas que se deram em detalhe em sua 
presença.” 26 Irineu e Clemente de Alexandria de modo 
explícito admitem Lucas como o autor dos Atos; e Ter- 
tuliano e Orígenes também o fazem implicitamente, visto 
reconhecerem Lucas como o autor do Evangelho que traz 
o seu nome. 27 Esta tradição só foi posta em discussão 
nos últimos tempos.
Algumas partes do Livro dos Atos foram escritas na 
primeira pessoa do plural e são conhecidas como as par­
tes do “ nós” (ver Atos 16:10-17; 20:5-15; 21:1-18; 27:1 
a 28:16). 28 Ainda que outros argumentem em contrá­
rio, o autor das partes do “ nós” foi mui provàvelmente 
o autor dos Atos. Êsse autor dos Atos certamente lançou
25. V er Bruce, op. cit., pg. 1 e 6.
26. Trad, de Henry T . Cadbury, The Beginnings o f Christianity ed. de F. J . 
Foakes-Jackson e Kirsopp Lake (Londres, Macmillan and Co., 1922), II, 211.
27. V er Bruce, op. cit., pg. 1.
28. V eja Morton S. Enslin, em Christian Beginnings (N . York, H arper an<l 
Brothers, 1938), pg. 416.
44 PRANK STAGG
mão dp fontes, escritas ou orais, para escrever o Evange­
lho e os Atos; mas, uma de suas fontes foi a sua expe­
riência pessoal. Êle afirma claramente que não foi teste­
munha pessoal de muitas coisas que narrou, embora afir­
me haver testemunhado alguns daqueles acontecimentos 
e dêles participado. Um escritor tão cuidadoso no admi­
tir suas fontes (veja Lucas 1:1-4) não agiria tão grossei­
ramente a ponto de incorporar o diário de Outrem em 
sua própria obra sem sequer passar as narrativas da pri­
meira para a terceira pessoa do plural. Aquêle que escre­
veu “ nós” foi quem escreveu o Livro.
Prova bem forte pode ser tirada da tradição que liga 
o Lucas das cartas paulinas (Col. 4:14; Filemom 24, e II 
Timóteo 4:11) ao autor das partes do “ nós” . As Cartas 
de Paulo, tais como os Colossenses e a Filemom, que nos 
dão Lucas na companhia de Paulo, provàvelmente foram 
escritas em Roma, e as partes do “ nós” de Atos nos dão 
Lucas em companhia de Paulo em Roma naquele tempo. 
(Por certo a II Carta a Timóteo só foi escrita depois do 
período abrangido pelo Livro dos Atos, e por isso não 
pesa neste ponto.) O autor das partes do “ nós” não estê- 
ve com Paulo em Corinto ou em Éfeso, e as cartas pauli­
nas escritas dessas cidades não mencionam Lucas. Con­
quanto esta prova não seja conclusiva, certamente confe­
re com a posição tradicional de que Lucas, o companhei­
ro de Paulo, foi o autor do Livro dos Atos, inclusive as 
partes do “ nós” .
Martin Dibelius, sejam quais forem suas conclusões, 
é positivo ao concluir não só que Lucas escreveu o Evan­
gelho e os Atos, mas também ao afirmar que o mesmo 
autor escreveu as passagens dos Atos em que fala “ dêles” 
como as que fala em “ nós” , e assevera: “ As passagens do 
‘êles’ (Sie-Stiicke) e as passagens do ‘nós’ (Wir-Stiiçke) na 
séleção de palavras e no estilo parecem tão semelhantes
O L IV R O DE ATOS
que não temos o direito de atribuí-las a escritores dife­
rentes.” 29
Se, na verdade, Lucas escreveu o livro dos Atos — e 
só o desarvorado cepticismo se nega a admitir esta proba­
bilidade — temos então o testemunho duma pessoa que 
participou de muitas coisas de que nos escreve e que pri­
vou com muitas pessoas que presenciaram outros aconte­
cimentos que nos narra. Nesse autor, seja qual fôr, en­
contramos um indivíduo que sempre buscou ser honesto 
e acurado em sua obra. No seu prefácio (Lucas 1:1-4) 
êle significou o firme propósito de estribar-se em infor­
mes de primeira mão. Tanto no seu Evangelho como 
nos Atos, lançou mão de fontes primitivas e fidedignas 
para relatar acontecimentos que não testemunhara pes­
soalmente . Lançou mão do que Marcos e outros haviam 
já escrito, tanto de fontes orais como escritas, contidas 
no Evangelho. Os primeiros quinze capítulos do Livro dos 
Atos estão mui provàvelmente baseados nessas fonteS. 
Fôssem tais fontes orais ou escritas, o fato é que eram 
primitivas e fidedignas. Grande parte do material dos 
primeiros capítulos talvez circulasse primeiro em aramai- 
co — a linguagem dos judeus da Palestina — e depois 
emgrego. Muitos têm afirmado que os autênticos do­
cumentos em aramaico estão atrás do grego dos primei­
ros capítulos do livro dos Atos. 30 Isto pode ou não 
ser verdade; pelo menos parece que algumas das histó­
rias contidas naqueles capítulos foram alguma vez con­
tadas em aramaico e os discursos pronunciados em ara­
maico. Noutras palavras, não se trata aqui de material
29. Op. cit., p g , 119.
80. Mateus Black, em A n Aramaic Approack to the Gospels and Acta (segun­
da-ed ição ); (O xford , Clarendon Press, 1954), nos oferece a mais recente e provà­
velmente a mais cuidadosa cbra sôbre êste assunto mui difícil c sôbre que pouc. p 
escrevem com verdadeira competência. Na sua revisão dos resultados, diz êle: “ Os 
lugares mais prováveis em que Lucas se valeu de fontes semíticas, além dos dize­
res, de Jesus, vem o-los nos dois primeiros capítulos do seu Evangelho e nos dia- 
cursos d eP ed ro e dè Estêvão contidcs nos primeiros capítulo? dos Atos (pág. 2Ó p t..
16 FRANK STAGG
Criado por Lucas, e sim de material velho, tirado da vida 
dos primeiros cristãos.
Lucas entrou em contato com muitas testemunhas 
dignas de fé, e certamente colheu informes de pessoas 
como Tiago, meio-irmão de Jesus; de Pedro, de Paulo, de 
Barnabé, de Marcos; de Filipe, um dos sete; de Mnâson, 
discípulo desde o início (Atos 21:16); e possivelmente de 
Maria, a mãe de Jesus. Visitas feitas a Jerusalém, dois 
anos passados em Cesaréia, e outras mais viagens, pro­
porcionaram a Lucas abundantes e preciosos informes, 
bem como o estimulo para escrever. Estando na Pales­
tina, Lucas teve a oportunidade de enfronhar-se bastante 
da tradição ora l31 dos primeiros cristãos. Muito antes já 
estava escrito o primitivo Evangelho. Os cristãos viviam 
a repetir aqui e ali as histórias e os discursos que lhes 
falavam ao coração. Isto não quer dizer que livros acaba­
dos saíram imediatamente da pena de Lucas, e sim que 
êle pusera mãos à obra que por fim resultou nos livros 
imensuràvelmente grandes — Lucas e Atos.
Muita coisa se tem escrito sôbre os discursos contidos 
nos Atos, chegando muitos a concluir que êles são estri­
tamente produções de Lucas. Diz-se que historiadores 
gregos, como Tucidides o reconhece, inventavam discur­
sos que consideravam apropriados às ocasiões de que fa­
lavam. Assim, êles narravam não aquilo que na ocasião 
fôra dito, e sim aquilo que esta ou aquela pessoa têria 
dito. E dai se conclui que Lucas teria certamente segui­
do essa prática. Ao contrário, deve ser dito que há provas 
fortes de que Lucas, embora obedecesse a muitos modêlos 
dos escritores gregos, não seguiu aquela prática.
Nos Evangelhos podemos ver bem o modêlo seguido
81. A palavra “ tradição*' é empregada em seu sentido técnico, sem implicar 
que tais materiais sej*am ou não produtos da ficção. A tradição incluía tudo quanto 
fôra transmitido: a inform ação e também a interpretação, o espírito, e tudo ouan- 
to caracterizava o grupo cristão. V e ja II Tess. 2:15; 3 :6 .
O LIVRO DE ATOS 47
por Lucas no tratar os discursos por êle apresentados. No 
seu Evangelho Lucas reproduziu com maravilhosa preci­
são os discursos contidos em Marcos. Usou de menor 
liberdade em modificar as palavras dos discursos que em 
mudar as narrativas tiradas de Marcos. Assim razoável - 
mente devemos concluir que êle agiu com igual cuidado 
ao reportar os discursos contidos nos Atos. Não sabemos 
bem como foi que Lucas ficou conhecendo todos os dis­
cursos que nos apresenta, embora não seja difícil imagi­
nar quais as fontes de que se valeu. Alguns dêles certa­
mente êle os ouviu, e outros êle conheceu através de notas 
escritas ou de narrativas orais. Rackham observa com 
razão que os discursos “ são todos mui apropriados para 
a ocasião e trazem as côres distintivas de circunstâncias 
particulares e locais. ” S2
Isto não é afirmar que os discursos vêm apresenta­
dos palavra por palavra, pois que isto não se tem por 
necessário. Hoje em dia fazemos muita questão de re­
produzir exatamente as citações diretas, mas no primeiro 
século não se cogitava muito disso. No estudo dos Evan­
gelhos Sinópticos (os três primeiros do N. Testamento) 
como podemos notar através de qualquer harmonia dos 
Evangelhos, é fácil ver que não se faziam grandes esfor­
ços para reproduzir palavra por palavra os discursos ai 
contidos. Mateus, Marcos e Lucas reproduzem muitos 
discursos de Jesus, e cada um toma a liberdade de modi­
ficar as palavras. O mesmo padrão podemos provar exis­
tir em Atos, nas histórias ou relatos da conversão de 
Paulo. Tal conversão nos é relatada três vêzes no livro 
dos Atos — nos capítulos 9, 22 e 26 — com menores va­
riações em cada relato. Para não citar mais, podemos 
comparar a afirmativa de 9:5-6 com aquela de 22:10. Na 
primeira lemos: “ Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas, 
levanta-te e entra na cidade, e se te dirá o que é necessá­
32. Rackham, ov. çit„ p z . xliii.
FRANK STAGG
rio que faças.” Na segunda lemos: “ E o Senhor me disse 
que me levantasse, que entrasse em Damasco, e que lá 
se me diria tudo quanto estava ordenado que eu fizesse.” 83 
O que Paulo ouviu foi em aramaico, e assim os relatos 
em grego são traduções, o que em parte explica a dife­
rença. Mas, mesmo excluindo isso, fica bem claro que os 
escritores do Novo Testamento não se escravizaram a 
uma reportagem literal de tais discursos. Êles estavam 
interessados em reproduzir corretamente a substância 
dum discurso, ou mesmo em interpretar o discurso, e 
não cogitavam de amoldar-se aos padrões que hoje em 
dia imperam no mundo das narrativas.
33. Estas traduções são do autor, e nelas tentamos nos aproxim ar o mais pos-' 
efvel do original grego, para realçar as diferenças. . ; . . .
Os Blos dos Rpóslolos
O PREFÁCIO DE LUCAS (1:1-5)
“ 1 Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca Je 
tudo quanto Jesus começou a fazer e ensinar, 2 até 
o dia em que foi recebido em cima, depois de haver 
dado mandamento, pelo Espírito Santo, aos apósto­
los que escolhera; 3 aos quais também, depois de ha­
ver padecido, se apresentou vivo, com muitas pro­
vas infalíveis, aparecendo-lhes por espaço de quaren­
ta dias, e lhes falando das coisas concernentes ao rei ­
no de Deus. 4 Estando com êles, ordenou-lhes que 
não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperas­
sem a promessa do Pai, a qual (disse êle) de mim ou­
vistes, 5 Porque João, na verdade, batizou em água, 
mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de 
poucos dias.” 1
Tanto no prefácio do Evangelho de Lul ŝ (que real­
mente pode ser o prefácio da obra Lucas — Atos) como 
no prefácio do Livro dos Atos, o autor nos dá uma des­
crição informal de sua obra, asseverando que ela tratará 
de coisas que se consumaram entre os primeiros cristãos 
através daquilo que Jesus fêz e ensinou (Lucas 1:1 e Atos 
1 :1 ).2 Quando Lucas escreveu, já os acontecimentos que 
o interessavam haviam surgido com bastante fôrça, e já 
se firmara o curso do Cristianismo em questões de gran­
de importância; o Cristianismo já afirmara o seu ineren­
1. A menos que houvesse outra indicação, a tradução inglêsa usada seria a 
da Reviaeã Standard Version (N . York, Thomas Nelson and Sons, 1952), e o texto 
grego usado seria o de D. Eberhard Nestle (revisto por seu filho, D. Erwin Nestle, 
20a. edição; N . York, American Bible Society, 1950). Taia textos repetidamente 
nada mais seriam que pontos de partida quando se apelasse diretamente para a 
evidência textual, e assim se fazia necessária uma tradução mais nova.
2. V eja Kirsopp Lake e Henry J . Cadbury» em The A cts o f the Apostles, Vol. 
IV , e em The Beginnings ç f Chriçtianity (Londres, MacmiJlan and Co., Ltd., 1933,' 
pg. 2.
A.A. 4
50 FRANK STAGG
te universalismo, 3 e quebrara já os estreitos limites a 
que muitos o haviam confinado. Quando Lucas escreveu, 
o movimento cristão já se libertara grandemente do colo­
rido nacionalista das esperanças messiânicas e já tinha 
abarcado grande número de gentios incircuncisos. O mo­
vimento, que parecera serinteiramente judeu em seu nas­
cimento, surpreendentemente no breve espaço de umas 
poucas décadas tornara-se predominantemente gentílico.
Lucas não precisa multiplicar palavras, em tratando 
das missões mundiais, para nos contar como o Cristianis­
mo se tornou um movimento universal e para justificar 
êsse fato. Tal universalismo derivava-se da intenção do 
próprio Cristo pois que vinha refletida naquilo que Êle 
fizera e dissera. Então, Lucas está interpretando a Histó­
ria — “ as coisas consumadas entre nós” . O propósito es­
pecial dêle é demonstrar que, sobrepondo-se a questões de 
nacionalidade, de raça, e do legalismo que sustentava o 
acanhado particularismo de muitos judeus e cristãos ju­
deus, o Cristianismo se mostrava fiel ao plano de Jesus. 
Nos Atos êle nos mostra que Jesus ressuscitado, através 
do Espírito Santo, estava em pessoa levando Seus segui­
dores, por caminhos penosos, a reconhecer de que o Seu 
reino era de natureza espiritual e universal.
Lucas toma cuidado em frisar que a obra pelo Espí­
rito é a continuação da obra de Jesus. Mostra que Jesus, 
após Sua ressurreição, apareceu a Seus discípulos por es­
paço de quarenta dias e era claramente a fôrça dominan­
te do movimento. Foi Êle quem ordenou aos Seus segui­
dores que aguardassem o batismo no Espírito Santo que 
lhes fôra prometido pelo Pai. Assim, Jesus estava tão vi­
3. U m amável crítico achou que se devia evitar a palavra “ universalismo” 
porque os “ ismos” e o seu abuso teológico tn zem a idéia de ódio. Não obstante, 
a palavra é bra, e deve &er usa^a. Muitos “ ismos” são coisa excelente, corro por 
exemplo “ evangelismo” e “ batism o". P or “ universalismo*' êste escritor quer 
significar o reconhecimento da humanidade acima da nacionalidade e da raçc; não 
usa êie o term o, como alguns o fazem, para defender que todos um dia serão sal­
vos. Por “ particularism o" aqui se quer sign ficar o estreito interesse por suí* 
pátria, ou por sua raça, com exclusão do» direitos da humanidade.
O LIVRO DE ATOS SI
talmente relacionado com o movimento depois de Sua 
ressurreição como estivera antes de Sua morte. O movi­
mento que então se tornava universal, passando por sôbre 
as barreiras nacionalistas, era o mesmo movimento que 
Jesus iniciara e sustivera.
Durante os quarenta dias de Suas aparições aos dis­
cípulos, Êle falou das coisas concernentes ao “ reino de 
Deus” . Não tratou simplesmente do reino de Deus, mas 
falou das coisas que pertenciam a êsse reino, i. é., reve­
lou a natureza e o campo de ação do reino, e gravou o 
Seu caráter sôbre êle. O reino de Deus é antes de tudo 
o reino de Deus. Em Jesus, Deus está de modo único e 
final afirmando Seus direitos de soberania sôbre o ho­
mem . Onde quer que os homens vivam, estão sendo con­
vidados a reconhecer o parentesco que têm com Deus, e 
a ceder a isso, fazendo-se prazerosamente súditos dÊle. 
Por tudo quanto Êle disse do “ reino” , os seguidores de 
Jesus já têm muito que aprender acêrca de sua natureza. 
Êles, no entanto, pensavam que o reino de Deus se ex­
pressaria pela nação judaica.
Resumindo, no versículo primeiro Lucas relembra 
ao leitor que em seu primeiro livro 4 êle apresentara Jesus 
e aquilo que Êle começara a fazer e ensinar. (Aquilo que 
Jesus fêz e aquilo que disse são coisas inseparáveis. Aqui­
lo que Êle fêz deve ser interpretado à luz do que Êle disse, 
e aquilo que Êle disse interpretado à luz do que Êle fêz.) 
Aquilo de que Lucas vai tratar no Livro dos Atos tem sua 
raiz no Jesus histórico, e o que se seguiu no movimento 
cristão teve lugar por causa daquilo que Jesus fizera e 
dissera. Muitos comentários virtualmente deixam de lado, 
como sem significado, a palavra “ começou” . Por isso,
4. O fato de Lucas referir-se co “ prim eiro” não implica nece sàriamente 
que êle tencionasse escrever um terceiro livro. O superlativo grego era muitas 
vêzes empregado em lugar do comparativo, como acontece no inglês. Fala-se não 
poucas vêzea no prim eiro andar duma casa que apenas tem deis andares. Os gra- 
mático# repudiam ésBe modo de falar; mas o povo não.
82 FRANK STAGG
provavelmente ignorà-se um ponto vital: Aquele que deu 
início ao movimento ainda o está dirigindo. No versículo 
Segundo, Lucas frisa a ordem dada por Jesus aos apósto­
los, antes de Sua ascensão (Lucas 24:49). A expressão 
“ pelo Espírito Santo” pode ser ligada ao mandamento ou 
à escolha dos apóstolos; o grego admite as duas exegeses. 
Ainda que ligá-la ao mandamento seja mui natural no 
correr da sentença grega, noutro sentido ligá-la à escolha 
dos apóstolos parece mais certo. Os apóstolos eram fruto 
de Sua eleição, e Êle os comissionara. Não obstante, aque­
les mesmos apóstolos em muitos pontos recalcitraram 
contra o claro ensinamento de Jesus e contra a direção do 
Espírito. O versículo 3 frisa o fato de que Jesus poi es­
paço de quarenta diás apareceu aos apóstolos e lhes deu 
provas cabais de que continuava vivo e no meio dêles. 5 
Naqueles dias falou das coisas que pertenciam ão reino, 
moldando-o e revelando seu caráter e objetivo. Portan­
to, Jesus estava vitalmente ligado ao movimento e era 
pessoalmente o principal responsável por êle, tanto ántes 
como depois de Sua morte. Lucas afirma que Jesus fora 
quem dera a ordem para que os discípulos permaneces­
sem em Jerusalém, aí esperando a promessa do Pai, de 
enviar-lhes o Espírito. Portanto, Jesus era a fôrça dire­
tora daquelas coisas consumadas entre êles, Jesus, e não 
Paulo ou outro qualquer, era o responsável pelo movimen­
to que sç tornou mundial.
Algum tempo depois de estarem escritas estas linhas, 
Dibelius concluiu o seguinte acerca do significado que Lu­
cas descobrira na conversão de Cornélio: “ A idéia dè rece-
5. O versículo 4 apresenta uma dificuldade de tradução quanto à parte ai 
traduzida pela Edição Revista — “ enquanto estava com êles” , que noutras vèm 
assim — “ enquanto comia com êles” . O grego não dá certeza quanto à etimo­
logia. Pode a exp essã > ser traduzHa, por “ se reuniam” , “ comendo sal com ê!es” , 
ou simplesmente “ comendo com êles” . Complica-se ainda mais o assunto quando 
consultámos tcd03 os manuscritos. Cullrr.ann insiste, possivelmente sem grande 
certeza, em que se deve traduzir — “ tomando sal com ” , i. ek, “ comendo com êles” , 
citcndo a favor disso as traduções latina, siríaca e cóptica. V eja Urçhriatentum 
und Gottesdienst (Zurich, Zwingli-Verlag, 1950), p g . 19.
O LIVRO DE ATOS 53;
ber os pagãos como membros da igreja (einzugliedem) 
sem obrigá-los a obedecer à lei não partiu de Paulo, nem 
de Pedro, e sim de Deus.” 6 E ainda, sustentando que Lucas 
se revelou um historiador firme em seu interesse pelo 
“ significado diretivo” (Richtungssinn) dos acontecimen­
tos, Dibelius diz: “ Mas, Lucas deseja mostrar (i. é ., pelo 
espezinhamento, por parte do Espírito, dos preconceitos 
que Pedro tinha com relação a Cornélio e do desejo que 
Paulo tinha de ir a Bitínia) que a sorte do Cristianismo 
em última análise não fôra determinada pelo apóstolo 
Paulo, nem sequer pelos homens, e sim por poder sobre­
humano.” 7
A promessa do Pai, que os discípulos tinham oüvido 
dos lábios de Jesus, e que deviam aguardar, aparentemen­
te é a mesma que encontramos em Lucas 24:49. Não se 
retrata aqui uma expectação passiva, e sim ativa, positi­
va. Provàvelmente o versículo de Lucas, ao qual parece 
referir-se Atos 1:4, possa ser traduzido assim: “ E eis que 
mandarei a promessa de meu Pai sôbre vós; mas, perma* 
necei na cidade até que sejais revestidos com o poder do 
alto.” A tarefa que tinham pela frente era tão pesada em 
suas exigências que só mesmo aquêle poder, e nenhum 
outro, conseguiria equipá-los para ela. Não. era uma ta­
refa para fracos e temerosos, e sim para pessoas que 
vivessem na presença e com o poder do Espírito Santo.
O batismo no Espírito Santo, do qual os discípulos 
de Cristo antegozariam, batismo contrastado com o batis­
mo de João em água (1:5), deve ser compreendido nos 
têrmos da referência mui clara ao testemunho de Joãoque encontramos expresso em Lucas 3:16-17: “ Eü, na 
vettiade, vos batizo em água, mas vem aquêle que é mais 
poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a 
correia das alparcas, êle vos batizará em o Espírito Santo
6. Martin Dibelius, op. cit., pg. 107.
7. Ibid., pg. 115 em diant«.
54 FRANK STAGG
e em fogo .” 0 batismo de João se caracterizava pelo ar­
rependimento (Lucas 3:3), e êle claramente não o julgava 
como tendo qualquer eficácia em si, pois do contrário 
não teria recusado aplicá-lo a muitos (Lucas 3:7). O ba­
tismo em água era oferecido somente àqueles que da­
vam provas de verdadeiro arrependimento (Lucas 3:8).
Contudo, João através daquele batismo viu um outro 
no Espírito Santo e em fogo (Lucas 3:16). Parece que 
Átos 1:5 se refere a êsse batismo. O batismo no Espírito 
Santo", no dia de Pentecostes, portanto, significou u’a 
maior concessão de poder para os discípulos e através 
dos que já eram cristãos. Não devemos entender isso co­
mo sendo o primeiro encontro dêles com o Espírito. Êles 
já eram cristãos e não se pode conceber que já tivessem 
sido levados ao arrependimento e à fé sem a operação do 
Espírito. Eram pessoas que já tinham nascido não só da 
água, mas também do Espírito (ver João 3:5). Paulo des­
creveu a conversão cristã — e não alguma bênção subse­
qüente — ao dizer: “ Pois em um só Espírito fomos todos 
batizados num só corpo — judeus ou gregos, escravos ou 
livres — e a todos nos foi dado beber de um só espírito” 
(I Cor. 12:13) .
Êste batismo no Espírito que se relacionou com os 
discípulos no dia de Pentecostes, portanto, é uma expe­
riência posterior pela qual o Espírito ainda mais se apos­
sou dêles. A vinda do Espírito, assim, não seria um mo­
vimento físico do Espírito, porque Êle já ali estava pre­
sente. A mudança seria pois aquela efetuada nos discí­
pulos . Êstes se tornariam mais despertos para com a pre­
sença do Espírito e mais receptivos à Sua presença e po­
der. Eni Gesaréia, o Espírito desceu sôbre gregos temen­
tes a Deus, enquanto ouviam o Evangelho, e Pedro reco­
nheceu aquilo como um outro cumprimento da promessa 
de Jesus (Atos 11:16). Ali se juntaram a conversão e a
O LIVRO DE ATOS 55
poderosa dispensação de poder, como acontecera no Pen­
tecostes .
O Novo Testamento não esclarece muito o que seja 
o dom do Espírito Santo, mas podemos discernir alguma 
coisa do seu plano. Distingue-se claramente o batismo 
em água, de João, do batismo no Espírito. Afinal, pare­
ce que o dom do Espírito está associado ao batismo cris­
tão (veja Atos lfl:3, e I Cor. 12:13); e não obstante mes­
mo aí não está êle dependendo do batismo em água. Em 
Samaria (Atos 8:15 em diante), o Espírito veio com a 
imposição de mãos pelos apóstolos depois de os samari- 
tanos terem sido batizados por Filipe. Ao que parece, não 
bouve repetição do batismo em água. Em Cesaréia (Atos 
10:44-48), o Espírito desceu sôbre Cornélio e seus com ­
panheiros antes de receberem o batismo e de serem sepa­
rados pela imposição de mãos. Em Éfeso (Atos 19:1-7), 
o Espírito desceu sôbre um grupo de cêrca de doze ho­
mens depois de serem batizados em o nome de Jesus e de­
pois que Paulo lhes impôs as mãos. Já tinham êles rece­
bido “ o batismo de João” (Veja adiante as páginas 167 
e 270 em diante.)
O batismo em fogo (Lucas 3:16 e Mateus 3:11 e não 
em Marcos 1:8 ou Atos 1:5; 11:16) devemos provàvel- 
mente entender nos termos do versículo seguinte, como 
o, que separa o trigo da palha. O batismo de João, em 
água, guardadas as reservas, distinguia o verdadeiro do 
falso, pelo fato de ser discriminador aquêle batismo* ao 
oferecê-lo somente aos que apresentassem frutos que pro­
vassem o arrependimento. Contudo, por mais cuidadoso 
que fôsse João, ou qualquer outro batizador, haveria ain­
da alguns que falsa e indignamente recebessem o batismo. 
Tal batismo não era de natureza final, portanto, na dis­
criminação dos salvos e dos perdidos. Todavia, havia um 
batismo além daquele, o batismo “ no Espírito Santo e 
em fogo” , que não poderia ser mal aplicado; tal batismo
FRAXK STAGG
invariàvelmente separaria o trigo da palha. 0 grande 
acontecimento do qual João falava abrangia o derrama­
mento do Espírito Santo sôbre o fiel (“ o trigo” de Mateus 
3:12 e de Lucas 3:17) e o julgamento do infiel (“ a palha” 
dos mesmos versículos). 8
Vale a pena aqui uma breve referência a Teófilo, a 
quem foram dirigidos ou dedicados os dois volumes. Não 
era um nome fora do comum, e era de uso freqüente en­
tre gregos, romanos, egípcios e judeus, 9 e significa “ ami­
go de Deus” . Ainda que se discuta isto, aqui se trata pro- 
vàvélmente de um nome próprio duma pessoa conhecida 
de Lucas, e não simplesmente dum “ amigo de Deus” idea­
lizado por Lucas. O título “ mui excelente” encontramos 
em Lucas 1:4, e não aqui. Admite-se em geral que Teó­
filo não fôsse ainda um discípulo quando Lucas a êle se 
dirigiu como ao “ mui excelente Teófilo” , pois que os 
primeiros cristãos não usavam mais títulos entre si. A 
presença dêste título no Evangelho e sua ausência nos 
Atos levaram alguns a concluir que Teófilo não era ainda 
cristão quando Lucas escreveu o seu Evangelho, e que já 
o era quando escreveu os Atos. 10 Pode ser exato isso; 
mas, será avançar demais com tão fraco alicerce. Mais 
importante que isso é anotar que, ao mencionar o nome 
de Teófilo no início do Evangelho como no início dos Atos. 
Lucas relacionava os dois volumes saídos de sua pena. 
Não se trata, pois, apenas de dois volumes, mas também 
de um único escritor. São duas partes duma mesma 
obra.
8. C . K . Barrette, em The H oly Spirit and the Gospel Tradition (N . York, The 
Macmillan Co., 1947), pg. 126.
9 . Lake and Cadbury, Commentary, p g . 2 .
10. V er R .C .H . Lenski, em Interpretation o f the A cte o f the Apostles (C o­
lumbus, Ohio, The W artburg Press, 1944), p g ; 21.
1» PARTE
A Igreja Hebréia: O Judaísmo Cristão
(1:6 a 6:7)
O Tema: Nacionalismo Estreito ou um Reino Espiritual 
Universal (1:6-8)
“ 6 Aquêles, pois, que se haviam reunido pergun­
tavam-lhe, dizendo: Senhor, é neste tempo que res­
tauras o reino a Israel? 7 Respondeu-lhes Jesus: A 
vós não vos compete saber os tempos ou as épocas, 
que o Pai reservou à sua própria autoridade. 8 Mas 
recebereis poder, ao descer sôbre vós o Espírito San­
to, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, 
como em tôda a Judéia e Samaria, e até os confins da 
terra. ”
De imediato se nos fala da idéia mui estreita que os 
discípulos tinham a respeito do reino, idéia da qual o Cris­
tianismo se devia libertar: “ Senhor, é ileste tempo que 
restauras o reino a Israel?” Estavam certos de que o 
reino pertencia a Israel, e só queriam então saber quan­
do lhe seria devolvido. Sem dúvida os discípulos já na* 
quele tempo haviam abandonado a primitiva idéia de um 
reino político e temporal, pois que a crucificação os for­
çara a abandonar os errôneos conceitos acerca do reino. 
Mas, ainda interpretavam o reino em termos de sua na­
cionalidade. De certo modo achavam que o reino se ex­
pandiria dentro do judaísmo; e êste era para êles tanto 
nação como religião.
Jesus respondeu, em substância, que o reino seria 
dos discípulos quando êles, sob o poder do Espírito Santo, 
testemunhassem até aos confins da terra. “ Não vos com­
pete a vós saber os tempos ou as épocas, que o Pai re­
servou à sua própria autoridade” — foi a resposta (1:7 ) . 
Isto queria dizer que o reino não viria segundo os tem­
58 FRANK STAGG
pos marcados pelo calendário, e sim pelo testemunho dado 
até os confins da terra por homens dinamizados pelo Es­
pírito Santo. Isto lhes era dito de arrepio às egoísticas 
expectativas dêles, pois esperavam que Deus entregaria 
o reino aos discípulos pelo fato de serem êles o Israel se­
gundo a carne. Jesus tentava tirar do coração dêles 
aquelas ambições nacionalistas e incutir nêles o sentido 
vivo duma missão mundial. Os Atos nos apresentam 
a luta entre essas duas idéias e interêsses. Infelizmente, 
como disse o professor John Macmurray, “ acomunidade 
hebréia, para a qual Jesus apelou no sentido de se dedicar 
àquela tarefa, não estava preparada para se identificar 
individualmente com um companheirismo universal.” 1
A declaração contida no versículo 8 — “ e sereis mi­
nhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em tôda 
a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” — foi ge­
ralmente aceita como o esbôço do livro dos Atos e como 
a revelação do propósito de Lucas. E’ certo que ela ofe­
rece uma espécie de estrutura para aquilo que Lucas es­
creveu. Mas, em nada indica que êsse fôsse o maior in- 
terêsse de Lucas. Contrariando comentários antigos e 
modernos, Lucas não mostrou como o Evangelho passou 
de Jerusalém para Roma. Não sabemos ainda hoje como 
foi que o Evangelho alcançou Roma, Damasco, Chipre, Ci- 
rene, Antioquia da Síria, Éfeso, Troas, Corinto, Creta, e 
inúmeros outros lugares. Lucas nada nos informa sôbre 
isso, ao que parece pelo fato de ser outro o seu propó­
sito .
Com isto não queremos dizer que nos Atos não se dá 
atenção à expansão geográfica. Muito ao contrário, ve­
mos que àí se nos fala dos cristãos sempre em constantes 
rçiovinlentos. Através do Livro vêmo-los viajando e le­
vando avante grandes campanhas missionárias. Isto é 
claro* Assinala-se aqui, contudo, que o preocupar-se com
* 1. John Macmurray, em Conditions o f Freedom (Londres, Faber and Faber 
Ltd., 1950), p s . 07.
O LIVRO DE ATOS 59
êste fator seria ignorar ou perder de vista um outro maior
— justamente aquêle para o qual Lucas mais desejou 
chamar a atenção de seus leitores. As barreiras mais 
fortes e mais difíceis de serem vencidas — então como 
hoje — eram as de natureza religiosa, nacional e racial, 
e não as geográficas. E’ mais fácil hoje enviar missioná­
rios para a África do que unir como irmãos os homens 
duma mesma pátria, quando separados por barreiras ra­
ciais . Lendo-se o Livro dos Atos, vemos claro que o Cris­
tianismo mui fàcilmente se moveu de Jerusalém, da Ju- 
déia e de Samaria para as extremidades da terra; mas, 
assim fazendo, precipitou a questão que afinal desembo­
cou no ulterior rompimento da sinagoga com a igreja, e 
na auto-exclusão daquele povo em cujo seio nasceu o 
Cristianismo.
O Rápido crescimento do judaísmo Cristão
(1:9 a 6:7)
A Ascensão de Jesus (1:9-11)
“ 9 Tendo êle dito essas coisas, foi levado para cima, 
enquanto êles olhavam, e uma nuvem o ocultou a 
seus olhos. 10 Estando êles com os olhos fitos no 
céu, enquanto êle subia, eis que junto dêles aparece­
ram dois varões com vestiduras brancas. 11 Os quais 
também lhes disseram: Homens da Galiléia, por que 
ficais aí olhando para o céu? Êsse Jesus, que dentre 
vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim 
como para o céu o vistes ir .”
A descrição que Lucas nos faz da ascensão é coisa 
tão tocante quanto-discreta. Os discípulos se deliciavam 
naquela contemplação, como se seus olhús e coração tam­
60 FRANK STAGG
bém fôssem levados para o céu com Jesus. 2 A Versão 
Revista (inglêsa) segue aqui os manuscritos de maior 
aceitação. Mas, pode-se tirar uma ilação muito valiosa 
à luz do que nos oferece o texto do Código de Beza (ma­
nuscrito do século V ) . Neste está assim o versículo 9: 
“ E dizendo essas coisas, uma nuvem o recebeu e êle foi 
levado de seus olhos.” Isto implicaria que uma nuvem 
o envolveu estando ainda de pé sôbre a terra, em vez de 
ser quando já estava a subir; e assim foi êle removido 
de seus olhos.3 Em qualquer dos casos, os discípulos fi­
caram olhando para o céu até que tiveram sua atenção 
chamada pelos dois homens de vestiduras brancas (pre­
sumivelmente anjos). O privilégio pessoal das grandes 
experiências traz consigo a responsabilidade de despen­
seiro, e os discípulos voltaram daquela cena para a tarefa 
que tinham à frente. As bênçãos devem ser levadas a 
outrem, ou se perdem.
A promessa de que Jesus voltará do mesmo modo por 
que foi levado para o céu claramente diz respeito à Sua 
volta no fim dos séculos. Isto também prova ser exato que 
os discípulos de Jesus sentem mais fortemente a constan­
te presença dÊle precisamente quando dela tornam parti­
cipantes também os outros em seu testemunho diário. 
Mesmo aguardando a volta de Jesus, aprenderam a ver­
dade da promessa que dizia: “ Onde estiverem reunidos 
dois ou três em meu nome, aí estou no meio dêles” e “ Eis 
que estou convosco sempre, até a consumação dos sé­
culos.” Em o Novo Testamento encontramos uma esca- 
tologia futurista e uma escatologia já realizada; Jesus 
virá e no entanto já está aqui . O reino de Jesus já é uma 
realidade e não obstante espera ser consumado por oca­
sião de Seu retorno no fim dos séculos.
2. R . J . Knowling, em The A cts o f the Apostles, W . Robertson Nicoll, editor, 
em The E xpositor’ * Greek Testam ent (Grand Rapids, Michigan» Wm, B. Eerd- 
mans Publishing Co., sem data) II, 57.
8) C .S .C . W illiams, em Alterations to the Text oi thé Synoptic Goapela and 
A cts (O xford, Basil Blackwell, 1951)« p g . 75,
O 'LIVRO DE ATOS 61
Erri o Novo Testamento somente o Livro dos Atos 
nos relata que Jesus ficou ainda quarenta dias na terra, 
entre Sua ressurreição e ascensão. Lendo o que Paulo 
escreveu, parece-nos que Jesus ascendeu ao céu em um 
corpo espiritual (contrastando-se com o corpo de carne e 
sangue) é que Suas aparições foram como de um ser ce­
lestial, pois que êle afirma que a carne e o sangue não 
podem herdar o reino de Deus. 4 Paulo parece não fazer 
distinção entre ressurreição e ascensão. Lendo-se João, 
fica-nos a impressão de que a ascensão ao Pai seguiu-se 
ao Seu aparecimento a Maria Madalena, a quem Êle disse: 
“ Não me detenhas, porque ainda não subi ao Pai” (João 
20:17). Jesus lhes prometeu (João 16:7): “ Se eu não 
fôr, o Consolador não virá a vós; mas, se eu fôr, vo-lo 
enviarei.” Parece que esta promessa foi cumprida quan­
do mais tarde Êle apareceu a Seus discípulos (veja João 
20:22 em diante). Parece que João admite que a ascensão
• se deu entre a aparição a Maria e aos discípulos. 5 Lucas 
e João frisam que Jesus ressuscitou no mesmo corpo com 
que fôra enterrado (Ver Lucas 24:39 e João 20:27 em 
diante). Mesmo aí, no entanto, o quadro não é claro. 
João 20:26 nos deixa a impressão de que Jesus entrou na 
sala, estando fechadas as portas; mas, já o versículo se­
guinte aponta para as feridas de Suas mãos e lado. Uma 
passagem sugere a existência dum corpo espiritual e a 
outra, dum corpo material. Devemos reconhecer que não 
temos resposta para muitas perguntas.
Segundo Lucas, o propósito dos quarenta dias e das 
aparições do Senhor ressuscitado parece ter sido o de prò- 
var o fato da ressurreição (Atos 1 :2) e dar aos discípulos 
ulteriores instruções (Atos 1 :3 ) . Afirma-se que a ascen­
são era coisa necessária para que os seguidores de Jesus 
pudessem receber o Espírito Santo (Atos 2:33; João 16:
4. Lake and Cadbury, em Additional Notes, pg. 17.
6. Ibid., pg. 19.
«2 FRANK STAGG
7; 20:22 em-diante). Aquêle Jesus visível, tangível, e 
ressuscitado se foi para que êles pudessem sentir de 
modo ainda melhor a realidade de Sua presença e poder 
como o Senhor que vai voltar, reconhecido como o Es­
pírito Santo. Paulo e João virtualmente tomam o Senhor 
ressurrecto como o Espírito. Embora as mudanças de 
referências ao Senhor ressurrecto e ao Espírito San­
to sejam mais fortes nos escritos de João e de Pau­
lo, podemos encontrar a mesma coisa em outros lu­
gares. Em Marcos 13:11, se lhes diz que nas persegui­
ções e provações não precisariam dantemão preocupar-se 
com o que diriam, “ porque não sois vós que falais, mas 
sim o Espírito Santo” . Na passagem paralela de Lucas 
21:15, se nos diz que o próprio Jesus disse: “ porque eu 
vos darei bôca e sabedoria. ” A Grande Comissão em Ma­
teus 28:18 vem acompanhada desta promessa: “ E eis que 
estou convosco sempre, até a consumação dos séculos.” 
Por certo devemos pensar nessa presença do Cristo res­
surrecto em têrmos do Espírito.
Os cristãos adoram a um só Deus, e não a três. O mes­
mo Deus que Se revelou em Jesusde Nazaré é o Deus cuja 
presença é conhecida no Espírito Santo. O Cristo ressur- 
recto é uno com o Espírito. Por exemplo, em Romanos 
8:9-11 Paulo nos fala no Espírito, no Espírito de Deus, 
no Espírito de Cristo, e em Cristo, sem fazer ao que parece 
qualquer distinção. Isto não quer dizer que o Novo Tes­
tamento confunde o Cristo ressurrecto com o Espírito 
Santo. Apenas queremos frisar que, seja qual fôr a dis­
tinção que se faça, nunca se deixa de reconhecer que cons­
tituem uma unidade. Paulo chegou mesmo a escrever 
que “ o Senhor é o Espírito” (II Cor. 3:17).
Problema menor temos pela frente, quando busca­
mos saber em que lugar se deu a ascensão. Lucas 24:50- 
51 indica Betânia como o lugar de onde Jesus se apartou 
de Seus discípulos, sendo elevado ao céu. Atos 1:12 pare­
O LIVRO DE ATOS 69
ce nos dar como local da ascensão “ o monte chamado 
rias Oliveiras.” Para Lucas os dois lugares podem ser vir­
tualmente idênticos, como vemos em Lucas 19:29 (segui­
do de Marcos 11:1) quando são juntamente mencionados. 
Podemos inferir isto de Lucas 21:37 que nos informa ter 
Jesus passado as noites no monte das Oliveiras, enquanlo 
Marcos (11:11; e 14:3) nos afirma que as passara em Be- 
tânia. 6
Os primeiros cristãos tinham firme convicção de que 
Jesus Se levantara dentre os mortos, que estivera em co­
municação com Seus discípulos depois de ressurrecto, e 
que de modo visível voltaria para êles. Não se pode com­
preender o Cristianismo primitivo sem admitir essas con­
vicções. Os primeiros cristãos esperavam que Jesus vol­
tasse em seus dias, e daí a seguir cada geração podia 
aguardar o Seu imediato retorno. Embora os cristãos de 
cada século se tenham equivocado acêrca do tempo do 
retorno de Jesus, a expectativa de Sua volta em breve lhes 
tem feito muito bem e igualmente muito dano. Os cris­
tãos, assim nos parece, podem sentir que Jesus está tão 
perto a ponto de poder tornar-se visível a qualquer mo­
mento; mas, isto não deve levá-los a atitudes e procedi­
mentos infelizes como se deu em Tessalônica. Os cris­
tãos devem aguardar a vinda de Cristo. Não obstante, 
estarão desobedecendo a Jesus tôdas as vêzes em que se 
puserem a predizer o tempo do retorno dÊle. E’ de la­
mentar-se que a preocupação com a volta de Jesus faça 
do sentimento vivo de Sua presença uma coisa secun­
dária
Esperando em Jerusalém (1:12-14)
“ 12 Então voltaram para Jerusalém, do monte cha­
mado das Oliveiras, que está perto de Jerusalém, à 
distância da jornada de um sábado. 13 E, entrando, 
subiram ao cenáculo, onde permaneciam Pedro e
6. Laico and Cadbury, em Additional Notes, pg. 21.
FRANK STAGG
João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e 
Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão Zelador, e Ju­
das, filho de Tiago. 14 Todos êsses perseveravam 
unânimemente em oração, com as mulheres, e Maria, 
mãe de Jesus, e com os irmãos dêle. ”
O ambiente dêste parágrafo é judeu, e coloca o leitor 
em contato com o Cristianismo primitivo. Lucas certa­
mente está seguindo alguma fonte primitiva, escrita ou 
oral. “ A jornada de um sábado” é descrição puramente 
judia, e se refere à restrição da caminhada do judeu no 
dia de sábado (Cêrca de meia milha), medida desde os 
muros da cidade donde se partia.
O cenáculo (quarto alto) seria na casa de João Mar­
cos. Assim sendo, isto em parte explica como Marcos 
veio à conhecer a história cristã. Mui possivelmente fôra 
ali que se realizara a Última Ceia. De Atos 12:12 se con­
clui que a casa de Maria, a mãe de João Marcos, tornara- 
se depois o ponto de reunião dos cristãos de Jerusalém. 
Assim, é possível que também as primeiras reuniões se 
tivessem celebrado ali.
Aí aparece a lista dos onze, juntamente com os no­
mes de outros discípulos. Temos mais três listas dos no­
mes dos apóstolos (Marcos 3:16-19; Mateus 10:2-4; Lu­
cas 6:13-16). Há alguma dificuldade em correlacionar 
alguns nomes dessas quatro listas,7 e grande parte dos 
doze apóstolos constitui para nós apenas nomes. E’ estra­
nho que quase nada se saiba acêrca de grande parte dos 
doze. As elaboradas histórias apócrifas, datadas do se­
gundo século, que nos falam dos doze, não nos conven­
cem, e refletem o fato de que quase nada se sabia dêles 
logo depois do primeiro século do Cristianismo. A res­
posta mais plausível para esta quase incrível perplexidade
7. Veja-se A . T. Robertson, em A H arm ony o f the Gospel» fo r Stuãents of 
the L ife o f Christ (N ew York, H arper and Brothers, 1922), p g . 271-273, para um 
estudo cuidadoso comparativo das quatro listas. V eja também Lake and Cad- 
bury. em Additional N otes, p g . 41 em diante.
O LIVRO DE ATOS 65
podemos encontrá-la no livro dos Atos — parece que 
a maior parte dos doze nunca se libertou daquela aca­
nhada visão nacional do Cristianismo. Os particularis- 
tas, ou sectários, perecem juntamente com o pequeno 
mundo a que se aprisionam. Pelo menos, pode-se dizer, 
não há provas de que a mor parte dos doze se haja lan­
çado com entusiasmo à evangelização do mundo todo.
Aqui se fala na família de Jesus. Maria, a mãe de 
Jesus, não é mais mencionada no Livro dos Atos, e so­
mente João fala nela ao narrar a morte e a ressurreição 
de Jesus. Por certo seria muito estimada como a mãe de 
Jesus. Mas, não há prova alguma de ser ela uma figura 
dominante. Não nos dão aqui os nomes dos irmãos de 
Jesus. Seus nomes aparecem em Marcos 6:3 (e são: Tia­
go, José, Judas e Simão). Paulo nos fala da aparição de 
Jesus a Tiago (I Cor. 15:7), e provàvelmente foi nessa 
ocasião que Tiago se converteu. Admite-se que êsse Tia­
go de quem Paulo escreveu seja o mesmo Tiago tão no­
tável do Livro dos Atos; mas, disso não há afirmação cla­
ra. Admite-se que êsse Tiago tão proeminente nos Atos 
seja também o irmão de Jesus; mas também isto não está 
claramente provado.
Os “ irmãos do Senhor” certamente eram filhos de 
Maria, embora outras teorias neguem isso. Epifânio, no 
século IV, afirma que êles eram filhos de José, filho dum 
casamento anterior. Esta teoria poderá ter surgido mais 
cedo, no século segundo, quando então surgiram muitas 
lendas apócrifas referentes à família de Jesus. Êste ponto 
de vista é defendido por aquêles que querem crer na vir­
gindade perpétua de Maria. Jerônimo, também do IV 
século, acha que não são propriamente irmãos de Jesus, 
e sim primos. Helvídio, contemporâneo de Jerônimo, 
aceitou a palavra “ irmãos” no sentido literal. Certamen­
te o Novo Testamento não faz a mínima sugestão no sen­
tido de se tomar essa palavra em outro sentido. Não há
A.A. 5
66 FRANK STAGG
provas de que José fôsse viúvo, e o Novo Testamento não 
simpatiza com a idéia da virgindade perpétua de Maria, 
e nem mesmo com o conceito de ter o celibato mais va­
lor do que o casamento.
O versículo 15 nos dá o número dos discípulos como 
sendo de cêrca de cento e vinte. Parece ter sido êsse o nú­
mero de cristãos, na mor parte galileus, que então se reu­
niram em Jerusalém. Paulo afirma que Jesus duma vez 
apareceu a mais de quinhentos irmãos (I Cor. 15:6). As­
sim, evidentemente devia haver muitos que seguiam a 
Cristo sem ser em Jerusalém. Os Atos nos dão a saber que 
havia outros cristãos na Palestina. 8 E esta é mais uma 
prova de que o intento de Lucas não era descrever a ex­
pansão geográfica do Cristianismo. Êle passa de leve pela 
história de muitas comunidades cristãs, as quais sem dú­
vida conhecia.
A Eleição de Matias, Uma Testemunha da Ressurreição
(1:15-26)
“ 15 Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos ir­
mãos, sendo o número de pessoas ali reunidas cêrca 
de cento e vinte, e disse: 16 Irmãos, convinha que se 
cumprisse a escritura que o Espírito Santo predisse 
pela bôca de Davi, acêrca de Judas, que foi o guia 
daqueles que prenderam a Jesus; 17 pois era êle con­
tado entre nós e teve parte neste ministério. 18 (Ora, 
êsse adquiriu um campo com o salário da sua ini­
qüidade; e, precipitando-se, caiu prostrado e se arre­
bentou pelo meio, e tôdas as suas entranhas se derra­
maram. 19 E tornou-se isso notório a todos os habi­
tantesde Jerusalém; de maneira que na própria lín­
gua dêles êsse campo se chama Acéldama, isto é, Cam­
po de Sangue.) 20 Porquanto no livro dos Salmos 
está escrito:
8. Vej'a Atos 9:31.
O LIVRO DE ATOS 67
Fique deserta a sua habitação, 
e não haja quem nela habite;
e:
Tome outro o seu ministério.
21 E’ necessário, pois, que dos varões que convive­
ram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus 
entrava e saía entre nós, 22 começando desde o ba­
tismo de João até o dia em que dentre nós foi rece­
bido em cima, um dêles se torne testemunha conosco 
da sua ressurreição. 23 E apresentaram dois: José, 
chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Jus­
to, e Matias. 24 E, orando disseram: Tu, Senhor, que 
conheces os corações de todos, mostra qual dêstes 
dois tens escolhido 25 para tomar o lugar neste mi­
nistério e apostolado, do qual Judas se desviou para 
ir ao seu próprio lugar. 26 Então deitaram sortes a 
respeito dêles e, tendo a sorte caído em Matias, foi 
êle contado entre os onze apóstolos.”
Pedro. Simeão, ou Simão, é melhor conhecido em o 
Novo Testamento e por nós como Pedro. Simeão era o 
nome dêle no hebraico, unicamente usado em Atos 15:14 
e nalguns manuscritos da II Pedro 1 :1. Simão, no grego, 
aparece freqüentemente nos Evangelhos e várias vêzes 
nos Atos. Cullmann acha que desde o início se tinha dado 
a Pedro o nome judaico Simeão e o nome grego Simão. 
(como fôra o caso de Saulo para Paulo). 9 A Simão foi 
dado o título descritivo 10 de Cefas, palavra aramaica que 
significa pedra ou rocha, e é traduzida para o grego como 
“ Petros” , e em nossa língua Pedro.
Deve-se admitir como fato certo a proeminência de 
Pedro na comunidade cristã primitiva. O fato mui triste 
e lamentável de se ter explorado o nome dêle, bem como
9. Peter, pg. 17 em diante
10. Ibid., pg. 18.
68 FRANK STACK*
o fato de uma grande corporação eclesiástica haver mis­
tificado o papel por êle desempenhado na Igreja Primiti­
va, em nada obscurece a verdadeira posição dêsse grande 
apóstolo. E’ fato inconteste que Paulo tinha grande res­
peito por Pedro, tanto que, após sua conversão, êle foi 
a Jerusalém para conhecê-lo (Gálatas 1:18).
A liderança de Pedro na Igreja de Jerusalém logo 
deu lugar a uma outra. Cullmann anota bem que, embora 
se pense comumente em Pedro como um notável dirigen­
te ou líder da igreja, na realidade êle exerceu tal função 
por espaço de tempo mui curto, trocando-o pela atividade 
missionária. Assim, Cullmann em resumo afirma clara­
mente: “ Pedro não é o protótipo do oficial de igreja e sim 
o modêlo original do missionário. ” 11
Não existe a menor base para se afirmar que Pedro 
foi em qualquer tempo o bispo de Jerusalém no sentido 
moderno de senhor absoluto. Gozou duma reconhecida 
liderança por breve espaço de tempo, até ser transferida 
para Tiago, o irmão de Jesus. Os doze por todo aquêle pe­
ríodo desempenhavam papel tão importante e distinto que 
por isso mesmo afastava tôda e qualquer idéia de episco­
pado absoluto. Além disso, a congregação tôda tinha 
uma tal autoridade que não deixava para um só homem 
a sua direção, como gradativamente aconteceu nos séculos 
posteriores. E’ igualmente exato que nenhuma autorida­
de episcopal foi transferida de Jerusalém para Roma. 
Não sabemos quando o Cristianismo alcançou Roma. 
Provàvelmente foi ela alcançada em data bem anterior, 
e sem a presença de qualquer apóstolo. Paulo escreveu 
aos cristãos de Roma vários anos antes de ir pela primei­
ra vez àquela metrópole. Se Pedro alguma vez viu Roma, 
só poderia ser depois de a igreja dali estar bem firmada. 
Cullmann12 com razão anota que Pedro assumira im­
portante papel missionário e que Tiago o substituirá na
31. Ibid., pg. 41.
12. Ibid,, pg\ 40 em diante.
O LIVRO DE ATOS 69
direção da igreja de Jerusalém, antes de Paulo escrever 
a sua Carta aos Gálatas. Fôsse qual fôsse o papel diretor 
de Pedro em Jerusalém, êste passou para Tiago, e não foi 
transferido para Roma. Por algum tempo Pedro serviu 
como líder da missão judeu-cristã sob a direção dos cris­
tãos de Jerusalém que olhavam para Tiago como o seu 
chefe. Em Antioquia da Síria, Pedro foi repreendido por 
Paulo e temeu diante daqueles que Tiago lhe enviara 
(veja Gál. 2:11 em diante). E’ claro que o missionário 
Pedro não tinha nenhum ofício episcopal para transfe­
rir de Jerusalém a Roma, ou para qualquer outra parte.
Os doze. A escolha de Matias para servir com os onze 
apóstolos nos indica a singularidade dos doze. Judas foi 
substituído por Matias, e não há traço algum de que tal 
apostolado devesse ser perpetuado por meio de sucesso­
res. Bruce setenciosamente observa:
“ Foi a apostasia de Judas, e não a morte dêle, 
que tornou necessário preencher aquela vaga; tanto 
que não houve proposta para se preencher o lugar 
deixado por Tiago, o filho de Zebedeu, quando foi 
martirizado” (xxii, 2) . 13
Os sistemas hierárquicos de nossos últimos tempos 
não encontram base naquela situação simples da Igreja 
Primitiva. Foakes-Jackson afirma:
“ A palavra ‘bispado’ na Antiga Versão, que Moffatt 
traduz por cargo, talvez seja um eco das controvérsias 
sôbre o govêrno eclesiástico, surgidas no século XVI, e 
com ela se tencione frisar a idéia de que cada apóstolo 
tivesse o seu próprio episcopado.” 14
A palavra assim traduzida pela Versão Autorizada 
(King James) significa literalmente superintendência 
(olhar pelo rebanho), mas não deve ser tomada no seu
13. Bruce, op. eit., p g . 76.
14. P . J . Foakes-Jackson, em The Acta o f the Apostles ( “ The M offatt New 
Testament Commentary” , N . York, Karper and Brothers, 1931), p g . 8.
70 FRANK STAG«
sentido técnico; ela é usada permutàvelmente com as pa­
lavras ministério (vs. 17 e 25) e apostolado (vs. 25). 15
O apostolado não era transferível. Isto se depreende 
claramente de sua origem hebréia bem como da história 
do Novo Testamento. O professor T. W . Manson, a quem 
devemos êste parágrafo, prova claramente êste importan­
te ponto.18 O equivalente hebraico do grego apóstolos é a 
palavra shaliach, derivado do verbo shalach que significa 
enviar. Dá-se ênfase ao que envia, não ao enviado. Êste é 
considezado uma extensão da personalidade daquele que 
envia. O shaliach (igual a apóstolo) ao que parece não po­
de transferir sua comissão a outrem. E Manson cita um 
exemplo tirado do Mishnah (Gittin iii. 6) em que se fala 
dum shaliach que adoecera e não pôde por isso terminar 
sua missão; a côrte nomeou um novo shaliach, mas fêz 
anotar claramente que o novo shaliach era shaliach da 
côrte e não shaliach do anterior shaliach. No mesmo 
contexto, êste autor 17 cita u’a máxima que equivale à lei 
inglêsa que sentencia: Delegatus non potest delegare (i. é., 
um delegado não pode delegar). O shaliach recebera uma 
comissão específica mais de natureza funcional que pro­
fissional, ou jurídica; e só poderia entregar a dita comis­
são àquele de quem a recebera, não podendo delegá-la a 
outrem. O apostolado em o Novo Testamento parece 
seguir êste padrão. Assim, a idéia de sucessão apostólica 
é coisa estranha à índole e à estrutura do judaísmo, e tam­
bém à praxe do Novo Testamento.
Temos que admitir que a palavra apóstolo é usada 
com diversos significados em o Novo Testamento. Os doze 
foram apóstolos, e não tiveram sucessores (sendo, ao que 
parece, Judas a única exceção). Além dos doze, outras pes­
soas foram tidas e havidas como apóstolos do Senhor. Pau-
15. V e ja Bruce, op. c it„ pg. 79.
16. T . W . Manson, em The Church's M inistry (Londres, Hodder and 
Stoughton L td , 1948), pág . 31 a 52.
17. Ibid., p g . 36 em diante.
O LIVRO DE ATOS 71
lo diz ser um apóstolo que recebera diretamente do Se­
nhor o seu apostolado. Tiago, o irmão de Jesus, também 
é mencionado como apóstolo (Gál. 1:19). Paulo e Bar- 
nabé (Atos 14:4, 14) e, ao que parece, Andrônico e Júnias 
(Rom. 16:7) são chamados apóstolos. Ainda um terceiro 
uso dessa palavra aparece em relação com certos apósto­
los de igrejas. Dirigindo-se aos Filipenses (2:25), Paulo 
fala no “ vosso apóstolo”. Na segunda carta aos Coríntios 
8:23, êle se refere aos “ apóstolos das igrejas” . Êstes ao 
que parece são distinguidos dos apóstolos do Senhor; i.é., 
não se afirma que tivessem sido comissionados pelo pró­
prio Senhor. 0 aparecimento de falsos profetas tein sido 
apresentado como prova de que o número dos apóstolos 
não fôra fixado. Êste número maior nunca se confundiu 
com os doze. Tanto que nenhum dêles se disse pertencer 
ao número dos doze. Quando Tiago foi martirizado não 
houve nenhum indício de se ter preenchido a sua vaga.
Da passagem de Atos que estamos examinando (1: 
15-26) vê-se claro que havia três exigências basilares para 
aquêle “ ministério e apostolado” ; devia ser pessoa que 
houvesse estado na companhia de Jesus desde o batismo de 
João até à ascensão (1:21 em diante); devia ser uma 
pessoa que tivesse testemunhado a ressurreição (1:22); e 
pessoa que tivesse sido indicada pelo próprio Senhor (1: 
24 em diante). Os onze tinham sido pessoal e diretamen­
te indicados por Jesus, devendo ainda o substituto de Ju­
das ser escolhido pelo Senhor. Paulo afirmou ser tam­
bém apóstolo (Gál. 1:1) “ não da parte'dos homens, nem 
por intermédio de homem algum, e sim por Jesus Cristo, 
e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos.” 
Cullmann observa que neste respeito Paulo e seus oposi­
tores judaizantes tinham uma só opinião: — “ Apóstolo é 
aquêle que é chamado por Cristo sem intermediário (ohne 
Vermiltlung), noutras palavras — fora de qualquer cor­
n FKANK STAGG
rente sucessória (Traditionskette) ” . 18 0 apóstolo do Se­
nhor recebia sua comissão diretamente de Jesus encarna­
do ou do Cristo ressuscitado; era, portanto, uma comissão 
imediata, (direta), única e intransferível.
Em seu livro Die Tradition (até agora não traduzido 
para o inglês), Cullmann apresenta provas mui fortes 
a favor da fôrça normativa da tradição apostólica, ano­
tando ao mesmo tempo a importância e a função daque­
les apóstolos do Senhor. Construindo sôbre a tese ante­
riormente apresentada no seu Christ and Time, sustenta 
que o período que vai do nascimento de Jesus até à morte 
dos últimos apóstolos, i . é ., até à morte da última teste­
munha de vista, que vira a Jesus ressuscitado e que rece­
bera de Jesus Cristo encarnado, ou ressurrecto, uma co­
missão direta e específica, é o ponto central de tôda a his­
tória da redenção (Heilsgeschichte). Aquêle período cen­
tral é o ponto de orientação, ou a norma pela qual se deve 
medir cada período subseqüente. Deve-se medir a reve­
lação subseqüente pelo testemunho daquele centro com a 
sua revelação imediata (veja-se especialmente a pg. 29). 
E’ justo reconhecer a revelação contínua pelo Espírito 
Santo; mas é êrro pensar-se que ela independe do perío­
do normativo — o período das testemunhas de vista, esco­
lhidas e comissionárias para dar testemunho da vida, mor­
te e ressurreição de Jesus.
Cullmann com razão observa que êsse testemunho 
apostólico é encontrado em o Novo Testamento. 19 Os 
cristãos do segundo século reconheciam que um período 
singular terminara por ocasião da morte das últimas tes­
temunhas de vista apostólicas e êles mostraram haver re­
conhecido êsse fato por seus esforços no sentido de for­
mar o cânon do Novo Testamento. Só reconheceram como
18. Oscar Cullmann, Die Tradition ais exegetisches, historischcs und theo- 
logischea Problem (Zurique, Zw ingli-V eriig , 1954) p g . 31. Traduzido aqui do 
alemão, que por sua vez fo i traduzido do francês por Pierre Schõnenberger.
19. Ibid., p g . 84.
O LIVRO DE ATOS 73
canônicos aquêles escritos que julgavam ter vindo direta 
ou indiretamente de um apóstolo. (E .g ., Marcos e Lu­
cas, ainda que não considerados como apóstolos, não obs­
tante eram tidos como pessoas intimamente relacionadas 
com Pedro e Paulo.) Os estudiosos conhecem algo dessa 
longa disputa e dos esforços dispendidos, para se firmar 
a canonicidade de muitos escritos (pois nunca se chegou 
a um completo acordo na Cristandade sobre quais são os 
livros canônicos); mas, como observa Cullmann, fica de 
pé a verdade de que os cristãos do segundo século reco­
nheciam a diferença entre as testemunhas apostólicas e 
as testemunhas subseqüentes. Tivessem os cristãos do 
segundo século feito boa ou pobre distinção entre as tes­
temunhas apostólicas e tôda a tradição posterior, o ponto 
importante é que os primeiros cristãos sentiram essa di­
ferença, ou distinção, e viram que isso era coisa de grande 
importância. A própria igreja reconheceu que o testemu­
nho apostólico era a norma. O Cristo vivo é, assim, en­
contrado nesse testemunho apostólico. 20
A posterior tradição da igreja nunca poderá ter o 
mesmo valor dessa norma apostólica, e nem pode tornar-se 
a norma. Cullmann afirma isso de modo sucinto, ao dizer: 
“ Não se deve confundir inspiração (Eingebung) com 
o critério de inspiração (Kriterium der Eingebung).” 21 
Por alguns anos êste escritor, com menor sucesso, busca­
ra fazer essa mesma distinção, apontando um duplo pe­
rigo: uma virtual negação da singular posição que a Bí­
blia ocupa, ou uma virtual negação da contínua inspira­
ção do Espírito Santo. Um êrro nos levaria a só louvar 
fingidamente a contínua inspiração e a cultuar, digamos, 
a Versão King James, da Bíblia. Outro êrro nos levaria 
a louvar fingidamente a Bíblia e a cultuar, por exemplo, 
a virgem Maria, baseados no gradativo aparecimento de
20. Ibid., p g , 34 em diante.
21. Ibid., p g . 38.
/
/
J
/
14 FKANK STAGG
dogmas que não reconhecem o valor normativo do teste­
munho apostólico.
A Escolha de Matias. Não se pode exagerar a impor­
tância daquela exigência que estatuía para o sucessor de 
Judas o ter sido testemunha da ressurreição de Jesus, o 
ter estado junto dos discípulos de Cristo desde o batis­
mo de João até à ascensão de Jesus. Como já dissemos, 
não se pode compreender o movimento cristão sem a 
ressurreição de Jesus, pois foi ela o fato mais significativo 
da experiência do grupo cristão. Sem a ressurreição, o 
movimento teria perecido. O glorioso fato da ressurrei­
ção reorganizou os discípulos e fêz dêles um grupo di­
nâmico . Tudo ficaria de pé, ou cairia, com a ressurreição. 
Mas, a ressurreição não diminuiu a importância da vida 
e da morte de Jesus. Ela lhes propiciava a luz com que 
podiam agora ver melhor, e melhor interpretar, a vida 
e a morte de Jesus.
Extremados da crítica formalista 22 têm errado ao 
afirmar que os primeiros cristãos ficaram tão empolga­
dos com a expectativa da volta de Jesus que já não de­
monstravam nenhum interêsse pela vida que Jesus vive­
ra na terra. A história da eleição de Matias, muito ao con­
trário, nos mostra a importância que a vida terrenal de 
Jesus tinha para os primeiros cristãos. A narrativa traz 
consigo a prova de sua primitividade, pois reflete a Cris­
tandade judia, e em nada é uma reescrituração da histó­
ria de data posterior. Aquêles primeiros cristãos estavam 
olhando para os céus e aguardando o retorno do Senhor, 
mas estavam também repetindo as histórias dAquele cuja 
vida na carne jamais poderiam esquecer.
22. A crítica form alista é um método pelo qual se tenta recuperar as nar­
rativas da vida e dos ensinos de Jesus transmitidas oralmente. Seus chefes, di­
vergindo largamente uns dos outros, têm contribuído bastante no sentido de 
chamar a atenção dos estudiosos para a importância dos anos decorridos entre a 
crucificação e a escrita dos Evangelhos, e também em frisar a importância dos 
milhares de testemunhas de vista na preservação de seus relatos. Alguns dêles, 
contudo, têm causado algum dano à própria crítica form alista com suas conclu­
sões cépticas e extremadas.
O LIVRO DE AIOS 75
Na escolha de um substituto para Judas, êles lança­
ram sortes. Era u’a maneira familiar e antiga, praticada 
tanto por judeus como por gentios. Julgavam ser um 
modo peio qual poderiam conhecer a vontade de Deus. 
Embora não haja prova de os cristãos haverem emprega­
do êste método após o Pentecostes, não há motivo para 
censurar êsse processo. Lake e Cadbury23 defendem for­
temente a possibilidade de isso significar “ dar os seus vo­
tos” , possibilidade que é fortalecida pelo têrmo traduzido 
por “ contado” ou “ enumerado” . Êste último têrmo po­
de sugerir a cena do lançamento de pedrinhas como su­
frágios ou vo6ios. A idéia de uma votação democrática é 
muito atraente, mas não há aqui nenhuma prova conclu­
dente. Os soldados romanos no Gólgota lançaram sortes 
sôbre a túnica de Jesus, e um têrmo idêntico é então usa­
do (Lucas 23:34); foi quase uma eleição democrática. 
Contudo, está claro que se dependia não da sorte em si, 
mas de Deus, cuja direção êles pediram em oração. Quan­
do a sorte caiu em Matias, foi êle “ contado” com os onze 
apóstolos.
Judas. Há, ao que parece, certas discr,epâncias nos 
relatos da morte de Judas. Os Atos nos dão Judas caindo 
prostrado, enquanto Mateus nos diz que êle se enforcou. 
Podem ser verdadeiros os dois relatos, considerando-se 
que cada um apresenta uma parte daquilo que aconteceu. 
E’ possível que êle se enforcasse, e depois escapasse da 
corda, caindo ao chão. O ponto é de pouco interêsse, e em 
si tem pouco valor. Outra contradição parece haver en­
tre o relato que Mateus nos dá, de que os sacerdotes com­
praram um campo com o dinheiro da traição e a afirma­
tiva dos Atos de que “ Judas adquiriu um campo com o 
dinheiro da traição” e a afirmativa dos Atos de que “ Ju­
das adquiriu um campo com o salário da sua iniqüidade” . 
O grego é melhor traduzido por “ obteve” do que por
23. Commentary, pg. 15.
FRA N K SXAGÔ
“ comprou” . No verdadeiro sentido Judas “ obteve” o 
campo, mesmo que a transação fôsse feita pelos sacerdo­
tes. O real valor dos Atos em nada diminui, e em nada 
cresce, com o estudo dessas questiúnculas. Contudo, po­
dem estas servir de saída ou escape, distraindo o critico 
severo, ou o ferrenho conservador, das reais finalidades 
que certo lhes viriam ao encontro e os disciplinaria.
O Dia de Pentecostes 
(2:1-47)
Cheios do Espírito Santo 
(2:1-4)
“ 1 Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam 
todos reunidos no mesmo lugar. 2 De repente veio 
do céu um ruído, como que de um vento impetuoso, 
e encheu tôda a casa onde estavam sentados. 3 E 
lhes apareceram como que umas línguas de fogo, que 
se distribuíram para pousar sôbre cada um dêles. 4 
E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começa­
ram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes 
concedia que falassem. ”
0 Pentecostes vinha cinqüenta dias depois da Páscoa, 
fechando a semana das semanas após a oferta dos molhos 
colhidos durante a festa dos pães azimos (ver Levítico 23:
15 em diante). O dia marcava o término da colheita, e 
também parece que então se comemorava a entrega da 
Lei do Sinai. Alguns vêem nisso a entrega da nova lei, es­
crita pelo Espírito no coração dos homens. Tal idéia é 
bem atraente, mas não pode ser provada.
Para Lucas esta presença de Deus em Seu poder na 
comunidade cristã constitui um momento decisivo da 
vida da comunidade, sendo um dos acontecimentos mais 
significativos da História Sagrada. Esta vinda do Espírito 
Santo sôbre a comunidade cristã no dia de Pentecostes
O LIVRO DE ATOS 77
tem paralelo na descida do Espírito Santo sôbre Jesus em 
Seu batismo (Lucas 3:22). A direção divina em termos 
do Espírito Santo é coisa que os Atos frisam de contínuo, 
notadamente na primeira metade do livro. Chama-se a 
atenção para a presença e o poder do Espírito, ligando-os 
ao Pentecostes (2:4, 17, 33, 38), à defesa perante o Siné­
drio (4:8), à reunião que se seguiu à libertação de Pedro 
(4:31), à revelação do pecado de Ananias (5:3), à esco­
lha dos sete (6:3, 5), à defesa de Estêvão (7:55 em 
diante), à realização da obra em Samaria (8:17), ao en­
caminhamento de Filipe até ao eunuco (8:29), ao envio 
de Pedro a Cornélio (10:10), à conversão de Cornélio e 
seus companheiros (10:44), à defesa de Pedro por ter 
entrado na casa de homens incircuncisos e ter comido 
com êles (11:12, 15 em diante), à escolha de Barnabé e 
Saulo (13:2, 4), à decisão do concilio apostólico em Je­
rusalém (15:8, 28), à escolha de um campo missionário 
(16:6), à experiência mais larga dos seguidores de João 
Batista (19:2-6), à viagem de Paulo a Jerusalém (20:23), 
ao cuidado da igreja de Éfeso (20:28), ao aviso de Ágabo 
(21:11), e à fala do Espírito Santo por meio de Isaías 
(28:25).
Essa intervenção divina nem sempre é apresentada 
como devida à presença do Espírito Santo. Por exemplo, 
na história de Filipe e o eunuco, há uma mudança do 
“ anjo do Senhor” (8:26) que enviou Filipe à estrada 
de Jerusalém a Gaza para o Espírito (8:29) que orien­
tou Filipe para que “ se chegasse àquele carro” . Pare­
ce que foi o mesmo Espírito (o Espírito do Senhor) que 
arrebatou a Filipe, após o batismo do eunuco (8:39). Na 
conversão de Paulo foi Jesus quem Se dirigiu direta­
mente a Paulo (9:4, 5), e foi o Senhor (Jesus) quem 
falou a Ananias (9:10, 15, 17); só se faz menção indireta 
ao Espírito Santo (9:17). Na última parte dos Atos são 
menos freqüentes as referências ao Espírito Santo. Êle
78 FRANK STAGGr
é mencionado apenas uma vez (28:25), depois de 21:1, e 
aí em conexão com a pregação de Isaías.
A maior importância do Espírito Santo (especial­
mente na primeira metade dos Atos) corresponde à mes­
ma ênfase dada no Evangelho de Lucas. Neste se vê 
que João Batista seria “ cheio do Espírito Santo já desde 
o ventre de sua mãe” (1:15). O Espírito Santo viria 
sôbre Maria e a virtude do Altíssimo a cobriria com a 
sua sombra (1:35). Isabel “ ficou cheia do Espí­
rito Santo” (1:41). Zacarias igualmente “ ficou cheio 
do Espírito Santo” (1:67). 0 Espírito estava sôbre Si- 
meão, e êle viu em Jesus a salvação de Deus para todo 
o povo (2:25). Ao ser batizado, o “ Espírito Santo des­
ceu em forma corpórea” sôbre Jesus (3:22). Era por 
estar “ cheio do Espírito Santo” e ser “ guiado pelo Es­
pírito” que Jesus pôde pôr em ordem o magno problema 
da natureza do reino que Êle tornaria realidade e o mé­
todo pelo qual o consolidaria (4:1). Assim, tanto no 
Evangelho como nos Atos, tôda a ênfase é dada à presen­
ça e ao poder do Espírito Santo. 24
O Espírito Santo desceu com grande poder no dia 
de Pentecostes sôbre os expectantes discípulos, mas não 
devemos tomar isso como a primeira descida do Espíri­
to Santo. O Velho Testamento testemunha a atividade 
do Espírito Santo em tôda a história da humanidade; e 
nas páginas dó Novo Testamento representa-se a ativi­
dade do Espírito Santo como já relacionada com os pri­
mitivos acontecimentos por êle relatados. Rackham ex­
pressa um ponto de vista errado ao dizer:
“ Antecedentemente o Espírito Santo havia atuado sô­
bre os homens vindo de fora para dentro, como uma 
fôrça externa; como o profeta Ezequiel o descreve ‘a
24. R. R. Wilücms, em The Acts of the Apostles (Londres, SCM Press Titi.,
1953), p* . 39.
O LIVRO DE ATOS 79
mão do Senhor estava sôbre m im .’ Agora, porém, o 
Espírito Santo age de dentro para fora. Êle está no ho­
mem (João 4:17). Antes do Pentecostes, suas manifes­
tações haviam sido transitórias e excepcionais; agora a 
sua presença no coração do homem é umã coisa ‘per­
manente’ e regular.” 25
Esta opinião, embora sustentada por muitos, esfran­
galha-se em muitos pontos, por falta de base. Se ape­
larmos para a gramática, podemos firmar justamente 
a posição contrária. A passagem de Joel, para a qual 
Pedro apelou a fim de explicar a experiência dos discí­
pulos, mantinha de pé a promessa de que Deus derra­
maria o Seu Espírito “ sôbre tôda a carne” (Atos 2:17). 
Doutro lado, “ Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lu­
cas 1:41), como também Zacarias (Lucas 1:67). Êste 
método de prova textual não prova nada. E’ completa­
mente enganadora essa suposta distinção enti-e o Espíri­
to agindo “ em” e “ sôbre” uma pessoa. Não só não se 
sustenta à luz dos textos das Escrituras como também 
admite uma tal relação do Espírito para com uma pes­
soa, relação essa tôda especial, física e mecânica que 
está inteiramente em desacordo com a natureza dÊlee 
a nossa. Como pode o Espírito lidar com um ser huma­
no a não ser nos têrmos de fatores pessoais e correla­
cionados como a nossa inteligência, emoções e vontade? 
O Espírito Santo nunca age de modo mecânico “ sôbre” 
um indivíduo, manobrando-o como se fôsse um títere. 
Êle agiu com Moisés, com os profetas, com Davi, e com 
Isabel, do mesmo modo como agiu com todos desde o 
Pentecostes, através do Seu impacto sôbre as correlacio­
nadas faculdades humanas da mente, emoções e von­
tade.
A grande dispensação de virtude no dia de Pente­
costes jamais deve ser menosprezada, ou minorizada.
25. Rackham, op, eit.t p g % 14.
80 FRANK STAGG
Contudo, evidentemente não se deu aquilo somente com 
os cristãos do primeiro século, mas também com alguns de 
nós. Aquêle dia não é mencionado nos existentes escri­
tos do primeiro século, além da narrativa do segundo ca­
pítulo dos Atos. A ressurreição, e não o Pentecostes, foi 
o dia que se distingiu. Sem a ressurreição de Jesus não 
teria havido o Pentecostes cristão. Então, também, se 
deve anotar que existem outras ocorrências relatadas 
nos Atos comparáveis a essa. Quando o Evangelho al­
cançou Cornélio (Atos 10) e a alguns seguidores de João 
Batista (Atos 19), houve derramamentos do Espírito 
Santo semelhantes àquele de Jerusalém. E essas etapas 
maiores no progreso do Evangelho, ao alcançar novos 
grupos, foram legalizadas pelo Epírito com poderosas 
demonstrações.
Basta-nos frisar aqui que a presença do Espírito 
Santo não deve ser confundida com os sinais externos. 
A vinda do Espírito Santo foi acompanhada por um ruí­
do semelhante ao de uma violenta rajada de vento. Os 
primitivos exegetas reconheceram que Lucas não estava 
descrevendo o ruído do vento, e sim algo semelhante a 
um golpe de forte vento. Também Lucas não diz que 
apareceram línguas de fogo para os discípulos, e sim 
que línguas semelhantes ao fogo lhes apareceram. 28 As 
línguas não eram “ fendidas” ; foram distribuídas e des­
ciam sôbre cada um. Êsses fenômenos audíveis e visí­
veis eram passageiros; a presença e o poder do Espírito 
Santo eram as realidades importantes e permanentes.
A crença na presença do Espírito Santo baseava-se 
na experiência. Não se tratava de mera doutrina que os 
discípulos buscavam perpetuar, e sim duma experiên­
cia existencial que êles não podiam deixar de proclamar. 
Êles se sentiram plenamente cônscios de uma Presença 
que dizia e realizava coisas que a êles e aos/outros pa­
26. KnoWling, op. cit., pg. 72.
O LIVRO DE ATOS 81
reciam “ devidas a um poder irresistível que os levava 
a dizer ou fazer coisas que nunca dantes haviam vis­
to” . 27
Falando Línguas (2:5-13)
“ 5 Habitavam então em Jerusalém judeus pie­
dosos, de tôdas as nações que há debaixo do céu.
6 Ouvindo-se, pois, aquêle ruído, ajuntou-se a mul­
tidão; e estava confusa, porque cada um os ouvia 
falar na sua própria língua. 7 E todos pasmavam 
é se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois 
quê! não são galileus todos êsses que estão falando? 
8 Como é, pois, que os ouvimos falar cada um na 
própria língua em que nascemos? 9 Nós, partos, me­
dos, e elamitas; e os que habitam a Mesopotâmia 
a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, 10 a Fri­
gia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia pró­
ximas a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus 
como prosélitos, 11 cretenses e árabes — ouvímo* 
los em nossas línguas, falar das grandezas de Deus. 
12 E todos pasmavam e estavam perplexos, dizendo 
uns aos outros: Que quer dizer isto? 13 E outros, 
zombando, diziam: Estão cheios de mosto.”
Admitimos francamente, de início, que neste capí­
tulo temos mais perguntas do que respostas. Será que 
só os doze falavam em outras línguas? Ou podemos in­
cluir os cento e vinte? A resposta depende do grupo ao 
qual se refere a palavra “ todos” , encontrada no primei­
ro e no quarto versículos dêste capítulo; e parece que 
não temos meios para determinar isso. Constituia-se 
aquêle auditório só de judeus e prosélitos, ou estão aí 
incluídos também gentios? Os manuscritos não concor­
dam no versículo 5, mas o pêso da evidência favorece
27. Lake and Cadbury, Additional Notes» pg, 110.
A .A. «
82 FRANK STAGG
provàvelmente a conservação de “ judeus” . Os versículos
22 e 36 parecem excluir os gentios. Falavam os discípu­
los em várias línguas estranhas, ou era só nos ouvidos 
que se processavam as diferenças de línguas? Tratava-se 
dum milagre de fala ou de audição, ou de ambas juntas? 
Se pudéssemos obter respostas definitivas, haveria pou­
ca probabilidade de os competentes estudiosos continua­
rem a divergir tanto.
No versículo 4 se diz que “ êles” todos começaram 
a falar “ em outras línguas” . A palavra grega para ou­
tras (heterais) pode significar “ outras de uma qualida 
de diferente” , sugerindo-se aqui uma diferente qualida­
de de expressão, ou de pronúncia. Mas, isto não é con­
clusivo. Alguns exegetas sustentam que “ outras línguas” 
é referência às várias línguas estranhas, ou naiivas, dos 
grupos ali presentes. Se assim fôsse, não se explica a 
razão de terem sido acusados de embriaguez. Certamen­
te aquêles peregrinos já dantes tinham ouvido línguas 
estranhas. Outros insistem em afirmar qus aqui se 
está retratanto um caso de glossoíalia — linguagem 
ininteligível de pessoas em êxtase. Contudo, Lucas por 
duas vêzes (vs. 6 e 8) afirma que cada um ouvia “ na 
sua própria língua” . A palavra empregada nesses versí­
culos (dialekto) pode na verdade significar língua ou 
dialeto; é possível que signifique as duas coisas, dado 
que tanto línguas diferentes como diferenças dialéticas 
da mesma língua eram usadas pela multidão. Se a elo­
cução pertencia à classe da glossoíalia, ou se aquêles ga- 
lileus apenas se expressaram em sua própria língua, en­
tão Lucas está narrando um milagre de audição. O úni­
co dado exato, segundo Lucas, é que os oradores eram 
compreendidos pelos ouvintes de várias nacionalidades, 
e cada um na sua própria língua.
Seja qual fôr o caráter das “ línguas” do Pentecos­
tes, é certo que tal dom não foi coisa permanente. Al­
O i;iVKO DE ATOS 83
guns cristãos têm buscado em várias épocas reviver o 
dito fenômeno. 0 propósito visado no Pentecostes — 
evidenciar externamente a presença do Espirito Santo 
e tornar compreensivel o testemunho a vários grupos 
de línguas — não se alcança pelos esforços comuns da­
queles que anseiam repetir tal experiência. O orgulho 
que geralmente caracteriza tais esforços em nossos dias 
contraria totalmente “ o caminho sobremodo excelen­
te” (I Cor. 12:31) pelo qual Paulo desejava conduzir 
os coríntios. A igreja não é edificada, e os “ de fora ou 
incrédulos” não são esclarecidos quanto ao Evangelho 
nem ficam persuadidos por aquelas línguas de que está 
presente o Espírito Santo (ver I Cor. 14).
Problema de maior vulto surge quando compara­
mos ou contrastamos as “ línguas” do Pentecostes com 
as “ línguas” de Corinto. O problema é complexo e de 
difícil solução. E’ claro que em Corinto o falar em lín­
guas era coisa ininteligível, coisa de discursos em êxta­
se, que poderia significar muito para quem falasse, mas 
que não edificava a igreja e poderia servir de caçoada 
para os de fora. Paulo não proibiu aquilo, mas achou 
que se tratava do menos valioso de todos os dons cris­
tãos (I Cor. 12-14). Paulo disse aos coríntios que falas­
sem em línguas somente quando tivessem intérprete (I 
Cor. 14:27). Isto não sugere que “ línguas” fôssem in­
teligíveis ao intérprete. Mui provavelmente o intérprete 
era alguém que podia relatar algo da formação e da ex­
periência das quais provinha a fala extática de algum 
amigo seu. E’ possível que alguém, tendo recebido uma 
grande bênção, desejasse expressar isso através duma 
superabundância emocional e dum discurso extático. 
Para a congregação aquilo não teria nenhum significa­
do, a não ser que um dos presentes pudesse informá-la 
acêrca da experiência que estava por detrás daquilo; pois
81 FRANK STAGG
que doutro modo não passaria de discurso incompreen­
sível .
No Pentecostesa situação não é tão clara. Os ver­
sículos 8 e 11 afirmam sem sombra de dúvida que as 
palavras faladas eram entendidas por cada um em sua 
própria língua. 0 milagre aí descrito seria de audição, 
e também possivelmente de elocução. Doutro lado, al­
guns concluíram que os discípulos estavam “ cheios de 
mosto” , implicando que o discurso era ininteligível. 
Isto necessàriamente não significa, contudo, que a fala 
dos discípulos fôsse ininteligível para todos pelo fato de 
o ser para alguns dos ouvintes. Aqueles que acharam 
que os discípulos estavam embriagados não puderam 
compreender a fala dêles, porque não simpatizaram com 
êles ou com a causa que defendiam. Se o milagre fôsse 
de audição, isto significaria que nem todos o experimen­
taram. Também pode ser que, havendo entendido tudo, 
perturbaram-se com aquilo' que ouviram e tentaram 
logo ver-se livres dos discípulos chamando-os de bêbe­
dos. A caçoada é sempre uma escapatória muito à mão 
para aquêles que não têm coragem de enfrentar a rea­
lidade .
O falar em “ línguas” em Cesaréia, e noutras partes, 
provàvelmente deve ser entendido como fala extática se­
melhante àquela de Corinto. Pelo menos, não teria havi­
do lá o problema de língua que exigiria um milagre de 
elocução ou de audição.
Lucas afirma de modo significativo que no dia de 
Pentecostes “ habitavam então em Jerusalém judeus pie­
dosos, de tôdas as nações que há debaixo do céu” (2:5). 
Foakes-Jackson provàvelmente acerta ao dizer que “ o 
milagre era um símbolo da futura universalidade do 
Evangelho” . 28 Certo essa foi a intenção de Deus; mas, 
naquele tempo o Evangelho atingira somente a judeus.
28. F. J . Foakes-Jacfcson, em The Acts of the Apostles, pg. 11.
E’ verdade que a palavra “ judeus” não se acha num 
dos manuscritos mais antigos,29 mas a base que temos 
para isso é mui forte para que a rejeitemos. Também 
é bom notar que tôda a narrativa nos dá a entender que 
o auditório era de judeus (ver 2:14, 22, 36). Êste capí­
tulo nos oferece a chave da rápida e ampla extensão do 
Evangelho por tôdás as partes do mundo greco-romano. 
Em pouco tempo podiam-se ver cristãos em muitos luga­
res do império; mas, eram judeus cristãos. As barreiras 
geográficas foram logo vencidas depois do Pentecostes. 
Não obstante, as barreiras raciais ofereciam resistência 
muito maior.
O Sermão de Pedro (2:14-36)
“ 14 Então Pedro, pondo-se em pé com os onze, 
levantou a voz e disse-lhes: Homens da Judéia e 
todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos notó­
rio, e escutai as minhas palavras. 15 Pois êstes ho­
mens não estão embriagados, como vós pensais, vis­
to que é apenas a terceira hora do dia. 16 Mas isto 
é o que foi dito pelo profeta Joel:
17 E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, 
que derramarei do meu Espírito sôbre tôda 
a carne;
e os vossos filhos e as vossas filhas profeti­
zarão,
e os vossos mancebos terão visões, 
e os vossos anciãos terão sonhos;
18 e sôbre os meus servos e sôbre as minhas 
servas derramarei do meu Espírito naque­
les dias, e êles profetizarão.
19 E mostrarei prodígios em cima no céu;
O LIVRO DE ATOS 83
29. Código Sinaíta, do IV eéculo.
FRANK STAGG
e sinais em baixo na terra, 
sangue, fogo e vapor de fumo.
20 O sol se converterá em trevas, 
e a lua em sangue,
antes que venha o grande e glorioso dia do 
Senhor.
21 E acontecerá que todo aquêle que invocar o 
nome do Senhor será salvo.
22Varões israelitas, escutai estas palavras: A 
Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus 
entre vós com poderes, prodígios e sinais, 
que Deus por êles fêz no meio de vós, como 
vós mesmos bem sabeis; 23 a êste, que foi 
entregue pelo determinado conselho e pres­
ciência de Deus, vós matastes, crucificando-o 
pelas mãos de iníquos; 24 ao qual Deus res­
suscitou, rompendo os grilhões da morte,, pois 
não era possível que fôsse por ela retido. 25 
Porque dêle fala Davi:
Sempre via diante de mim o Senhor, 
Porque está à minha direita, para que eu 
não seja abalado;
26 por isso se alegrou o meu coração, e a mi­
nha língua exultou; e além disso a minha 
carne há de repousar em esperança;
27 pois não deixarás a minha alma no Hades, 
nem permitirás que o teu Santo veja a cor­
rupção;
28 fizeste-me conhecer os caminhos da vida; 
encher-me-ás de alegria na tua presença.
29 Irmãos, seja-me permitido dizer-vos livre­
mente acêrca do patriarca Davi, que êle mor­
reu e foi sepultado e entre nós está até hoje a 
sua sepultura. 30 Sendo, pois, êle profeta, e 
sabendo que Deus lhe havia prometido com
O LIVKO DE ATOS 87
juramento que dentre os seus descendentes le­
vantaria um para o colocar sôbre o seu tro­
no — 31 prevendo isto, Davi falou da ressur­
reição de Cristo, que a sua alma não foi dei­
xada no Hades, nem a sua carne viu a corrup­
ção . 32 Ora, a êste Jesus, Deus ressuscitou, e 
disso todos nós somos testemunhas. 33 De 
sorte que, exaltado pela destra de Deus, e ten­
do recebido do Pai a promessa do Espirito 
Santo, derramou isto que vós agora vêdes e 
ouvis. 34 Porque Davi não subiu aos céus, 
mas êle próprio declara:
Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta- 
te à minha mão direita, 35 até que eu ponha 
os teus inimigos por escabêlo de teus pés.
36 Saiba pois com certeza tôda a casa de Israel 
que a êsse mesmo Jesus, a quem vós crucifi­
castes, Deus o fêz Senhor e Cristo.”
Esta grande mensagem foi dirigida a judeus. As­
sim, até êste ponto o movimento era estritamente judai­
co. Aos ouvintes se diz inicialmente — “ homens da 
Judéia, e todos os que habitais em Jerusalém” (vs. 14), 
e depois “ varões israelitas” (vs. 22) e “ casa de Israel” 
(vs. 36). 30 A palavra “ judeu” indica pessoa que é mem­
bro duma nação ou habitante da Judéia. A palavra “ is­
raelita” indica o indivíduo religiosamente, como perten­
cente ao “ povo escolhido” . Assim a mensagem é dirigi­
da àqueles que eram judeus tanto nacional como religio­
samente. O tema principal desta mensagem indica que 
aquilo que acontecera, inclusive a morte de Jesus, era algo 
para o qual os israelitas deveriam estar preparados. 
Aquêle Jesus crucificado e ressurrecto era o próprio Se­
80. Traduções do autor.
88 FRANK SXAGGr
nhor e Cristo a quem Israel estava esperando. O Deus 
de Israel devia ser reconhecido na pessoa de Jesus.
A primeira e maior tarefa da pregação apostólica 
era ocupar-se do “ escândalo da cruz” . Esta palavra “ es­
cândalo” é de origem grega, e se empregava para desig­
nar o gatilho de uma armadilha, e daí para indicar algo 
em que se podia enroscar ou tropeçar. A crucificação de 
Jesus era um escândalo para os judeus, e enquanto não 
fôsse compreendida, ela os impediria de aceitar a Jesus 
como o Cristo. Os judeus haviam sofrido muito sob o 
jugo estrangeiro, tanto dos assírios, como dos babilônios, 
e dos persas (embora êstes lhes fôssem um jugo sua­
ve), dos egípcios e dos sírios, e dos romanos. Alguns 
dos seus próprios chefes haviam feito aumentar seu so­
frimento. Assim, aguardavam ansiosamente a vinda do 
Messias que os libertaria e que restauraria o reino da- 
vídico. Tinham já experimentado suficiente sofrimento 
e muita humilhação, e agora esperavam a reivindicação 
e a recompensa. Um Messias sofredor, portanto, naque­
le tempo era coisa inconcebível e indesejável. De fato, 
a cruz era “ para os judeus uma pedra de tropêço (es­
cândalo), e loucura para os gentios” (I Cor. 1:23).
Num sentido real, não se podia afastar da cruz o 
escândalo, certamente não tanto por causa do mundo 
com a sua sabedoria. Paulo recusou tornar o Evange­
lho aceitável por causa das artes da ciência. A palavra 
da cruz tem a “ loucura” em seu âmago, e remover isso, 
para tornar razoável a cruz, é negar o significado que 
ela tem. Contrária à sabedoria do mundo com a afir­
mação de si mesma, a cruz com sua negação própria 
sempre parecerá uma loucura. A cruz contraria a sabe­
doria do mundo, ou deixa de ser a cruz. *
Vê-se claro dos Evangelhos que a crucificação de
•'k Para a clássica exposição do pensamento de Paulo na Primeira Carta aos 
Coríntios, veja Johannes Weiss em Dererste Korintherbrief (Göttingen, Vande- 
nhoeck & Ruprecht, 1910), p g . 23 em diante.
O LTVRO DE ATOS 89
Jesus era um problema mui sério até mesmo para os 
próprios discípulos. Não gostavam de ouvir Jesus falar 
de Sua morte na cruz (ver Mat. 16:21-23), e a crucifi­
cação os deixava perplexos, e até mesmo indisciplinados. 
Êles tinham sido preparados para recebê-10 como o Filho 
de Deus e como o Rei Ungido de Deus (o Messias) (ver 
Salmo 2), mas não estavam preparados para combinar 
com isso tudo o papel do Servo Sofredor (de Isaías 52- 
53 e de Zacarias 9 ). Mais difícil ainda lhes era ver em 
Jesus aquêle Filho do Homem (de Daniel 7) cujo paren­
tesco celestial incluia também um parentesco com tôda 
a humanidade e não apenas com a nação israelita. (Veja 
o comentário de Atos 7:56).
Pedro rebateu a acusação de embriaguez, chaman­
do-a de falsa. Os judeus não comiam antes da quarta 
hora do dia, contada do nascer do sol, que seria mais 
ou menos às 10 horas da manhã; e no sábado só comiam 
depois do meio-dia. Em vez de estarem cheios de mosto, 
estavam cheios do Espírito Santo.
Pedro achou que aqueles dias pertenciam aos “ úl­
timos dias” de que falou o profeta Joel. Êste ponto de 
vista é o que prevalece em o Novo Testamento (ver I 
Tim. 4:1; II Tim. 3:1; Judas 18; II Pedro 3:3). O século 
que é o clímax de todos os séculos veio com Jesus! O 
eschaton (último tempo) surgira na História. Os poderes 
do “ tempo por vir” estavam presentes e estavam já 
atuando dentro da História. Isto não significa que esta 
época, ou dispensação, seria consumada na História, e 
sim que é ela atual aqui e agora. O seu clímax virá 
quando Jesus voltar no término desta torrente de vida 
a que chamamos “ História” . Em Jesus, Deus está afir­
mando os Seus soberanos direitos sôbre os homens e 
está libertando o Seu soberano poder para a vitória do 
Seu reino. O reino de Satã está agora sendo destruído 
pelo reino de Deus (ver Mat. 12:28; Lucas 11:20, etc.),
90 FRANK SXAGG
e a maior arma dessa vitória é a cruz. Satã impera onde 
quer que se obedeça ao princípio da afirmação própria, 
ou da arrogância. O reino de Satã cede terreno ao reino 
de Deus onde se obedece o princípio da cruz, o sacrifício 
próprio, o altruísmo, a abnegação.
Muitas expressões da passagem tirada de Joel devem 
ser por certo compreendidas na mesma linha das dramá­
ticas fantasias dos apocalípticos e não podem ser toma­
das no sentido literal. Assim, é certo que no dia de Pen­
tecostes não seriam derramados no sentido literal “ san­
gue, fogo e vapor de fumo” (2:19), nem o sol se conver­
teria em trevas e nem a lua em sangue. Para quem está 
familiarizado com o método dramático dos apocalípti­
cos, não há nenhuma dificuldade aqui. Infelizmente 
muitos que têm pretensões a intérpretes das “ últimas 
coisas” tomam tão ao pé da letra os pensamentos dramá­
ticos e poéticos do apocalíptico que a exegese que apre­
sentam deixaria boquiabertos aquêles que escreveram os 
apocalípticos. A maneira de Pedro tratar esta passagem 
apocalíptica deve servir de modêlo para todos.
O tom evangelístico aparece claramente no versículo
21 — “ E acontecerá que todo aquêle que invocar o nome 
do Senhor será salvo.” No hebraico o texto de Joel 
traz a palavra “ Jeová” em vez de “ Senhor” . Como se 
dava freqüentemente, o Novo Testamento aqui atribui 
a Jesus o que o hebraico do Velho Testamento atribuía 
a Jeová. Em Jesus encontramos a Deus direta e pes­
soalmente, confiando a Jesus pela fé, a nossa salvação. 
O cerne da salvação é a vida que compartilhamos com 
Deus. E essa união vital se baseia numa fé ou confian­
ça mútua, visto que Deus Se compromete com o homem 
e o homem se compromete com Deus. Certamente Deus Se 
confia ao homem, e Se coloca em tal posição diante do 
homem que êste pode amá-10 ou odiá-10, aceitá-iO ou re- 
jeitá-10, alegrar o coração de Deus ou quebrantá-10. Quan­
O LIVRO DE ATOS 91
do o homem, por sua vez, ama a Deus e a Êle se en- 
irega, encontrando-0 direta e pessoalmente em Jesus, 
isto significa que êle se rendeu a Deus; e então êle esta­
belece com Deus uma relação criadora. Dai o homem 
passa a participar da verdadeira vida de Deus — pen­
sando, sentindo, escolhendo, e trabalhando com Deus. 
Isto é a salvação!
Falando da morte de Jesus, Pedro dela trata ma­
ravilhosamente, e de modo cabal, em poucas palavras. 
A morte não está divorciada da vida (versículo 22). As­
sim a vida que precedeu, e a ressurreição que veio de­
pois, são coisas indispensáveis ao significado da cruz. A 
morte de Jesus, assim, não foi a dum desamparado már­
tir sobrepujado por circunstâncias que Êle em nada pre­
vira. Não; Jesus previra tudo. Quando o Verbo eterno 
inaugurou Sua obra redentora, previu o quanto isso Lhe 
custaria. Não obstante, a ela Se entregou de corpo e 
alma. Isto não significa que Jesus buscou a morte, ou 
que o Pai desejou que os homens crucificassem a Jesus, 
o sim que, ao fazer-se a escolha para redimir os pecado­
res, foi previsto o quanto isso custaria. Contudo, os ho­
mens não poderiam escapar à culpa de haverem crucifi­
cado a Jesus. Assim Pedro acusa e inculpa especialmen­
te os judeus; mas os gentios, que viviam sem le i31, tam­
bém têm parte nessa culpa. 82 No entanto, o ponto cul­
minante do discurso de Pedro é o glorioso fato da res­
surreição. Deus ressuscitou Aquêle que os homens cru­
81. A expressão “ homens sem lei” mui provàvelmente se refere aos rcm *- 
nos; se assitn é, temos aqui prova mui forte de que não fo i Lucas quem compA» 
ôste discíurso, pois que êle não se teria referido assim aos romanos.
V er Bruce, op. cit.> p g . 91 em diante.
32. Está em moda hoje em muitos círculos afirmar-se que não foram oa ju ­
deus que crucificaram a Jesus, e sim os romanos. Baseiam-se no fato de os 
Evangelhos terem sido escritos depois que o Cristianismo deixou de ser judaico, o 
que levou (dizem ) a se transferir a culpa dos romanos para cs judeus. A razão 
dêsses escritores modernos que assim reajem contra o terrível anti-semitismo de 
nossos dias, é coisa muito boa, mas não é admissível. Acusar-se os Evangelhos 
de encobrir a culpa e incrim inar o inocente é coisa bastante séria, e é uma fa l­
sidade. Tais escritores mostram-se também mui ingênuos ao se esquecerem de
92 FRANK STAGG
cificaram como se fôra um pecador. A ressurreição jor­
rou luz sôbre a morte de Jesus, e daí poderemos reinter- 
pretá-la não como uma derrota e sim como um triunfo.
O hades (o mundo além-túmulo) estivera em dores 
de parto e nos deu a Jesus, e assim o caminho agora 
está aberto para os outros (2:24-28). A ressurreição de 
Jesus é a garantia de vida eterna para o cristão.
Pedro encerrou a sua mensagem declarando que 
Jesus crucificado, e agora ressurrecto, é Senhor e Cristo 
(2:36). Cumprira-se a promessa feita a Davi de que 
um de seus descendentes seria elevado ao seu trono (2:
30)! Cristo é agora Rei por causa da ressurreição (2:
31). E o reinado davídico, ou messiânico, está agora per­
feitamente realizado. A sua consumação ainda está por 
vir, mas já é um fato perfeito. Os sistemas milenistas 
que acham que êsse reino só se realizará no futuro pre­
cisam ajustar contas com esta passagem bíblica. O Seu 
reino — o Seu govêrno — está sendo cumprido pela Sua 
inorte e ressurreição, e não por armas carnais.
O Chamado ao Arrependimento (2:37-40)
“ 37 E, ouvindo êles isto, compungiram-se em 
seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais 
apóstolos: Que faremos, irmãos? 38 Pedro então 
lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós 
seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remis­
são de vossos pecados; e recebereis o dom do Es­
pírito Santo. 39 Porque a promessa vos pertence a 
vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a 
quantos o Senhor nosso Deus chamar. 40 E com
QUe foram os judeus que iniciaram o m artírio de Jesüs. Paulo, homem que 
m uito amava ao seu povo e que em nada pode ser acusado de anti-semitismo, na 
sua carta talvez mais velha que as outras ( I Tessalonicenses 2 :1 5 ), afirmou 
som rebuçosque os judeus “ mataram ao Senhor Jesus e os profetas” . Escri­
tores judeus dos primeiros séculcs concordam com os Evangelhos, com os Atos, 
e com Paulo, neste ponto. E ’ bom protestar contra qualquer aparência dêsse 
desumano e diabólico anti-semitismo. Mas, não se presta nenhum serviço à 
causa da verdade, ignorando-se ou mistificando os fatos da História.
O LIVRO DE ATOS 93
muitas outras palavras testificava ardentemente, e
os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração per­
versa . ”
Neste trecho encontramos um versículo muito dis­
cutido, o versículo 38. Será o batismo uma condição es­
sencial ao perdão de pecados? Êste versículo é um dos 
favoritos daqueles que crêem na regeneração batismal. 
Antes, porém, de se edificar uma doutrina sôbre êste 
versículo, deve-se considerar maduramente um bom nú­
mero de coisas. Em primeiro lugar, notemos que o mé­
todo de prova textual é expediente um tanto pobre, seja 
empregado para isto ou para aquilo. Poderá com êle 
provar-se aquilo que se intentou significar ou estabele­
cer; ao menos, quem o emprega julga que com êle pro­
vou tudo a seu contento. Prova textual é aquela que per­
manece sozinha, não contando com bases escriturísticas 
bem claras no seu todo, ou sendo mesmo totalmente con­
traditada pelas Escrituras. Texto culminante é aquêle 
que resume numa afirmativa clássica um grande ensina­
mento ou número de lições. Por exemplo, João 3:16 é 
um texto culminante, e não uma prova textual, porque 
as verdades que êle encerra estão claramente estabele­
cidas em o Novo Testamento mesmo sem êste grande 
versículo. O ensino claro do Novo Testamento no seu 
todo rejeita a regeneração batismal. E também o senso 
comum a exclui, pois que o resultado espiritual desejado 
não se alcança por meios materiais. Não devemos es­
quecer o fato mui importante de que nenhuma função 
física tem significado moral e espiritual segundo as ati­
tudes e motivos dos quais ela provém. Assim, o perdão 
de pecados e o dom âo Espírito Santo não estão amar­
rados a nenhum rito material arbitrário, nem dêle de­
pende. Deus não se sujeita a caprichos.
Talvez se possa traduzir êste trecho como segue, 
uma vez que o original grego o permite: “ Arrependei-
94 FRANK STACK*
vos, e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus 
Cristo sôbre a base do perdão de vossos pecados, e rece­
bereis o livre dom do Espírito Santo.” Esta tradução de­
pende da possibilidade do emprêgo causal da preposição 
grega eis seguida do caso acusativo. Ainda que esta 
construção em o grego do Novo Testamento em geral 
indique o resultado, não pode'haver dúvida de que é tarn- 
bém usada para indicar a base ou a razão (causal) em 
alguns textos do Novo Testamento. 33 Esta construção 
podemos encontrar por exemplo em Mateus 12:41: “ Os 
ninivitas se levantarão no juízo com esta geração, e a 
condenarão; porque se arrependeram com a pregação de 
Jonas.” Êles não se arrependeram com o resultado da­
quilo que Jonas pregou, e sim porque Jonas pregou. Isto 
não prova que a força causal (motivadora) da preposi­
ção eis com o acusativo esteja em Atos 2:38, mas prova 
a sua possibilidade.
Provàvelmente se deva ligar antes a frase em questão, 
“ para remissão de vossos pecados” com o “ arrependei- 
vos” e não com o “ seja batizado” . 34 O perdão vinha de­
pois do arrependimento, e não depois do batismo. Êste 
era um meio de se retratar o arrependimento, uma pú­
blica profissão de fé em Jesus. 35 A passagem de Atos 
3:19, em que não se fala em batismo, poderá oferecer 
base mui forte a esta interpretação.
“ Compungidos em seu coração” pela mensagem de 
Pedro, êles foram levados à convicção. Sentiram-se com­
pelidos a olhar para o que haviam feito nos dias pas­
sados, e agora começavam a ver tudo, por outro prismã, 
eni sua palpitante realidade. Viram que, rejeitando a
33. Houve um debate sôbre “ a causai eis” entre J . It. Mantey e Ralph 
Marcus na Journal of Biblical Literature, n°s. de março, junho e dezembro dp 
1951, e março de 1952. Será, bom o estudante de gramática grega ler isso. Aqui, 
porém é Ce pouca valia. A causal eis ê encontrada ou não no grego extra-bíbli- 
co? E ’ fato que a encontramos poucas vêzes em o N . Testamento.
34. V eja Lake and Cadbury, em Commentary, p g . 26; Bruce, op. cit., pg. 98
35. V eja Mackham, op. cit., p g . 30,
O LIVRO DE ATOS 05
Jesus, tinham tomado o partido do êrro e não o da ver­
dade. Não tinham servido a Deus, nem à nação, ao cru­
cificarem a Jesus. Deus elevara ao trono Aquêle que 
êles tinham feito morrer como maldito numa cruz. Pelo 
Espírito Santo agora sentiam a presença dêsse Cristo 
ressuscitado.
Como algo da tremenda realidade do seu estado pe­
caminoso e dos seus recentes feitos criminosos caisse 
sôbre êles, sentiram-se completamente perplexos, não 
sabendo que fazer. Em desespêro, clamaram “ Que fare­
mos?” Êsse fundo desespêro era a única esperança de­
les. Quando os homens vêem que nada são, surge a pos­
sibilidade de se tornarem alguma coisa. Só quando sen­
tem a sua desvalia é que resolvem aceitar a ajuda de 
Deus. Carlos Barth frisa bem esta verdade, ao dizer:
Quando os homens, como humanos, escalaram 
já os mais elevados picos do mundo e aí descobri­
ram que todo o mundo é culpado diante de Deus — 
então aí é que se evidencia, se mantém e se confii*- 
ma a vantagem que lhes é peculiar.. . e é também 
aí que Deus revela a Sua fidelidade, e mostra que 
esta não foi vencida ou dobrada pela infidelidade 
dos homens. 30
E, de novo, Barth fere o âmago da questão, ao dizer: 
“ A arrogância com que nos colocamos ao lado de Deus, 
com a intenção de fazer alguma coisa por Êle, nos rouba 
a única bass de salvação possível, que consiste em nos 
entregarmos inteiramente ao Seu favor ou ao Seu desa­
grado . ” 37
O versículo 39 nos assegura a viabilidade da pro­
messa — o perdão de pecados e o dom do Espírito San­
to — em favor de todo aquêle que Deus chama. O ensi-
36. Carles Farth, em The Epistle to the Romans, trad, de Edwyn C. Hoskyns,
(O xford, University Press, 1933), p g . 88.
37 Ibid., pg. 84.
96 FKANK STAGG
no de que a vida cristã é um chamado, ou vocação, é dou­
trina fundamentalmente bíblica. Na religião judaico-cris- 
tã Deus é sempre conhecido como Aquêle que toma a ini­
ciativa da revelação e da redenção. O primeiro passo 
sempre é dado por Deus, e não pelo homem. Deus des­
perta o homem para que sinta a Sua presença e atrai o 
homem a Si. Esta é a doutrina bíblica da eleição, que 
significa não a escolha de um em detrimento de outro, 
e sim que Deus escolhe o homem em vez de o homem 
escolher a Deus.
O caráter universal do Evangelho é claramente pro­
clamado no discurso de Pedro, mas Lucas deseja mos­
trar que os apóstolos tardaram a reconhecer tal univer­
salismo na prática de cada dia.
O Crescimento do Judaísmo Cristão (2:41-47)
“ 41 De sorte que foram batizados os que rece­
beram a sua palavra; e naquele dia agregaram-se 
quase três mil almas; 42 e perseveravam na doutri­
na dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão 
e nas orações. 43 Em cada alma havia temor, e 
muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apósto­
los . 44 Todos os que criam estavam unidos e tinham 
tudo em comum. 45 E vendiam suas propriedades 
e bens e os repartiam por todos, segundo cada um 
havia de mister. 46 E, perseverando unânimes to­
dos os dias no templo, e partindo o pão em casa, 
comiam com alegria e singeleza de coração, 47 lou­
vando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E 
cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que se iam 
salvando.”
Aqui se nos apresenta o movimento cristão em ple­
no vigor, de constituição judaica, e popular ao povo ju­
deu. Num só dia batizaram-se três mil pessoas. Certa­
O LIVRO DE ATOS
mente eram todos judeus ou prosélitos (gentios recebidos 
no judaísmo como nação e religião). Tais conversões 
se deram enquanto Jerusalém estava cheia de judeus “ de 
tôdas as nações que há debaixo do céu” (2:5). Estavam 
então ali representadas as regiões mais afastadas do Im ­
pério Romano, desde a Mesopotâmia,a leste, até Roma 
ao oeste, e até a África, ao sul. Não se diz aqui que os 
conversos pertenciam a tôdas essas regiões; mas, as re­
ferências que encontramos depois a cristãos em Damas­
co, Cirene, Chipre, Roma, e outras partes, indicam isso.
E’ importante notar que até êste ponto, e mesmo 
por alguns anos mais, o movimento cristão alcançou 
grande popularidade entre os judeus. Até aqui a maior 
barreira encontrada pelo judeu era “ o escândalo da 
cruz” ; mas isto se explicava satisfatoriamente à luz da 
ressurreição. Vencido êsse obstáculo, milhares de ju­
deus aceitaram a Jesus como o Messias. Muito logo o 
número de conversos subiu a cinco mil (4:4). Mais tar­
de, o Livro dos Atos nos diz simplesmente que multidões 
de homens e mulheres foram acrescidas (5:14). Tão 
rápido foi o crescimento do Cristianismo entre os judeus 
saduceus mostraram-se assustados e alarmados, pois te­
miam que um movimento tão vigoroso assim e de tama­
nha fôrça numérica levasse Roma a cismar de alguma 
rebelião.
O movimento fortaleceu-se tanto em Jerusalém que 
os apóstolos chegaram a desafiar abertamente o sinédrio 
{4:18-20), e as autoridades temiam lançar mão de vio­
lências contra os apóstolos, pois corriam risco de serem 
apedrejadas pelo povo judeu (5:26). O movimento logo 
se espalhou ràpidamente para fora de Jerusalém (5:16), 
chegando mesmo muitos dos sacerdotes a obedecer à Fé 
{6 :7 ). Tudo isso nos dá uma idéia da magnitude do mo­
vimento cristão entre os judeus. Está mais que claro que 
até êste ponto o Cristianismo era aceito por multidões
A .A . 7
98 FRANK STAGG
de judeus. Por que, então, no fim do primeiro século o 
Cristianismo se tornou um movimento gentílico e já não 
conseguia aceitação entre judeus? Certo apareceu algo 
que começou a fazer com que os judeus se fôssem afas­
tando do Cristianismo a ponto de perder sua feição ju­
daica. Até êste ponto não ficamos sabendo o que foi. 
Certo não foi a exigência de se reconhecer a Jesuis como 
o Cristo, como o Filho de Deus, o que por fim levou os. 
judeus a rejeitá-IO.
Aqui temos o quadro dum alegre e unido grupo de 
judeus cristãos, participando fraternalmente da doutrina, 
da camaradagem, do partir do pão e das orações. Ainda 
que um grupo distinto, como discípulos de Jesus, eram 
ainda todos judeus; e, como judeus exemplares, iam ao 
templo (2:46). Como judeus cristãos contavam com o 
favor do povo (2:47) e em número cresciam dia a dia.
Êsse “ partir do pão” é referência à Ceia do Senhor, 
à festa do amor (à refeição da comunhão), ou a ambas. 
Normalmente descreve uma ceia regular. E’ provável 
que os primeiros discípulos se reunissem cada noite numa 
casa e comessem juntos. Essa refeição — chamada ága­
pe (ceia do amor cristão) — satisfazia a dois propósi­
tos que eram a amizade e o cuidado dos pobres. E’ 
provável que se celebrasse a Ceia do Senhor (a Euca­
ristia) em cada uma dessas reuniões. Cullmann parece 
«star certo ao dizer: “ Pode-se dar como cèrto que a mais 
antiga celebração da ceia (a Ceia do Senhor) teve lugár 
durante uma refeição comum. ” 88 Após frisar que, con­
forme Atos 2:46, a característica essencial (Wesensmerk- 
mal) de tal refeição era a sua expressão de alegria, adian­
ta que a causa dessa alegria não era primariamente a 
recordação da última Ceia e sim a lembrança de. outras 
ceias, daquelas em que Jesus depois de ressurrecto apa­
38. Ürchriatentum V/nd Qçttwdienst, pg. 18, 
89. hoc. cit.
O LIVRO DE ATOS 90
receu com Seus discípulos “ à mesa” (ver em Emaús, 
Lucas 24:30; com os onze, Lucas 24:36; junto ao mar, 
João 21:12). 30 E’ certo que a cerimônia da Ceia do 
Senhor estava diretamente ligada à Última Ceia (I Cor. 
11:23 em diante), e que a ressurreição fêz com que os 
discípulos recordassem alegremente a Última Ceia, mor­
mente por causa da funda tristeza que em caso contrá­
rio os dominaria por completo. Se fôr correta esta idéia, 
i. é, a tese defendida por Cullmann de que os discípulos 
também relembravam na ceia as aparições de Cristo após 
a ressurreição, nas quais comeram juntos com Jesus, isso 
nos fará compreender melhor a grande alegria que impe­
rava naquelas ceias cristãs.
Markus Barth (*) provou de modo convinçeíite que 
a Última Ceia foi uma ceia pascoal, e que, assim sendo, 
o seu tom foi de alegria. O cordeiro pascal, morto à tar­
de, era comido à noite em comemoração da vitória no 
Egito (ver Êxodo 12); era celebrada pela alegria sen­
tida quando já se tinha passado a círise! Se assim é, te­
mos dois fatores que respondem pela alegre celebração 
da Ceia do Senhor: a alegria da libertação do Egito, que 
encontra sua maior realização na libertação que Cristo 
nos dá, e a alegria das refeições pós-ressurreição realiza­
das em companhia do Cristo ressurrecto. A Ceia do Se­
nhor, portanto, olha para trás para um Salvador cruci­
ficado, e olha para a frente para o Senhor que há de vir; 
sem deixar de também afirmar o glorioso fato de um 
Cristo vivo e presente, agora encarnado em Sua igreja, 
que é o corpo de Cristo.
A Edição Revista (inglesa) traduz corretamente as­
sim: “ E o Senhor acrescentava dia a dia ao número dê- 
les aquêles que iam sendo salvos” (2:47). A Versão 
Autorizada (inglêsa) infelizmente tropeça neste ponto,
*k Markus Barth, em Daé Abendmahl : Passamahl, Bmndesmahl und' Me»- 
liaamahl (Evangelischer Verlag A . G. Zolikon-Zürich, 1945), p g . 67.
O LIVRO DE ATOS
comum.” 40 E êle chama ao primeiro “ sociedade” , e 
ao segundo “ comunidade” . (Esta distinção fica de pé; 
sejam ou não sejam estas as melhores palavras hoje em 
grande voga.) Êle anota que sociedade é uma organi­
zação de funções em que cada um se torna membro por 
fôrça da função que exerce no grupo, cada membro eo- 
operador se esforçando para atingir o alvo comum. 41 
Neste tipo de associação, os membros não s e a s s o c i a m 
como pessoas, mas apenas em relação às funções desem­
penhadas no sentido de se alcançar o propósito que o 
grupo tem em vista. Vê-se, pois, que não se trata de uma 
união de pessoas, e sim duma união orgânica. Jâ unia 
comunidade, ao contrário, se baseia num princípio cons­
titutivo mais profundo: “ Não é orgânica, pois que o seu 
princípio de unidade é pessoal. Ela é constituída pela 
participação duma vida em comum.” 42
Pode-se organizar uma sociedade de pessoas que não 
se conhecem e nem cuidam umas das outras, e que no 
entanto têm um objetivo comum. Por exemplo, uma 
sociedade funerária é composta de indivíduos que têm 
como objetivo comum assegurar o entêrro de cada um 
dos sócios. Mas, o principio capital e constitutivo duma 
comunidade é viver em comum — é a sua afinidade, a 
sua camaradagem, a sua fraternidade. Objetivos co­
muns servem para dar expressão à vida em comum, e 
facultam o cultivo dessa vida em comum; mas a comu­
nidade não é constituída por êsses objetivos cOmünsV 
Os primeiros cristãos de Jerusalém não constituíam u’a 
mera sociedade, e sim uma comunidade, uma igreja 
mesmo — o corpo de Cristo. Em Cristo êles participa­
vam duma vida em comum. Tôdas às atividades de quê 
participavam só tinham significado no sentido de ex­
pressarem aquela vida em comum que tinham em Cristo.
40. John Macmurray, op. eit., pg. 64.
41. Vej’a ibid., pg. 54 em diante, a excelente discussão de onde tiramos a 
essência de todo êste parágrafo.
42. Ibid., pg. 56.
FRANK STAGG
E* coisa mui importante obsérvar a diferença que 
há entre a comunhão daqueles cristãos de Jerusalém e 
u’a mera cooperação. Quase que diàriamente ouvimos 
elogiar-se a cooperação como um nobre ideal. Na ver­
dade, a cooperação em si não é coisa boa nem má; ela 
não tem colorido e é neutra. Os gangsters se manco­
munam, se congregam, unidos por um alvo comum, às 
vêzes para assaltar um banco, e esperam para êsse servi­
ço a cooperação de todos do bando. A cooperação é um 
alvo fácil, e sem significado em si mesma; e é alvo dià­
riamente alcançado por homens depravados, os quais 
não raras vêzes querem que outros participem de seus 
planos. Aqueles cristãos de Jerusalém estavam vivendo 
uma vida emcomum, e não eram meros cooperadores. 
Um escravo pode fazer parte de uma sociedade que 
garante o futuro de senhores e de escravos, e nesse plano 
êle pode cooperar com o seu senhor. Mas isto seria uma 
sociedade, e não uma comunidade. Jesus disse: “ Já não 
vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz 
o seu senhor; mas chamei-vos amigos” (João 15:15 — 
“ escravos” é o que diz o texto marginal). Jesus nos 
chama para um companheirismo que nos dá o privilégio 
de viver uma vida comum e criadora com Êle e com 
Seu povo.
Mesmo o estar “ de acôrdo” ou “ juntos” é ainda coi­
sa sem colorido, e neutra. Lucas emprega a palavra 
homothumadon (de acôrdo, concordes, juntos) nada me­
nos de dez vêzes no Livro dos Atos (onze vêzes, caso 
seja autêntico o vs. I o. do capítulo segundo). Com ela 
descreve a oração unida dos discípulos (1:14); a unida 
éxpectação do dia de Pentecostes (2:1); unidos iam ao 
templo (2:46); unidos oravam pedindo coragem, após 
a libertação de Pedro e João (4:24); unidos estavam no 
pórtico de Salomão (5:12); unidos com os samaritanos 
ouviram o que Filipe dizia (8:6); unidos resolveram os as-
O LIVRO DE ATOS 103
suntos do concílio apostólico (15:15). Tudo isto é muito 
bonito.
Mas esta mesma palavra empregou Lucas para des­
crever o assalto furioso e mortal sôbre Estêvão (7:57), 
a hipócrita bajulação de Herodes Antipas pelo povo de 
Tiro e Sidon (12:20), o ataque conjunto de judeus a 
Paulo (18:12), e a corrida precipitada para dentro do 
teatro, da enfurecida multidão em Éfeso (10:29). Vê-se 
claro que os homens podem estar de acôrdo, podem 
reunir-se e estar concordes tanto para a prática do mal 
como do bem. O estar de acôrdo não basta. Só é bom 
o companheirismo que provém do companheirismo com 
Deus. A igreja, o corpo de Cristo, é o verdadeiro compa­
nheirismo. Estar “ em Cristo” é estar ao mesmo tempo 
no corpo do qual Êle é a cabeça. Só esta comunhão é dis­
tintivamente cristã. E parece que Lucas está descreven­
do aqui justamente essa comunhão.
A convicção e a confissão de pecados abriram o ca­
minho para aquela vida em comum. Podemos citar aqui 
Barth para frisar êste indispensável princípio da comu­
nidade cristã:
Não há nenhuma propriedade ou qualidade po­
sitiva dos homens que possa oferecer à solidarieda­
de humana um fundamento suficiente; porque tôda 
a posse positiva — o caráter religioso, a consciên­
cia moral, o humanitarismo — já traz em seu bôjo 
a semente da decomposição da sociedade. Tais fato­
res positivos produzem diferenças, visto distingui­
rem uma pessoa da outra. A comunhão verdadeira 
se baseia no negativo: cimenta-se sôbre o que falta 
aos homens. Justamente quando percebemos que 
somos pecadores é que percebemos que somos ir­
mãos. 43
Esta visão é mui precisa. Quando pensamos em
43. Op. cit., pg. 100 em diante.
104 PRANK STAGG
termos de nossas supostas “ virtudes” , e “ direitos” e 
“ obras” , não passamos de ciumentos competidores. Agora, 
quando pensamos em nossos pecados, sentimo-nos ir­
mãos. Êste é precisamente o elemento “ negativo” que 
aquêles homens de Jerusalém enxergaram no dia de Pen­
tecostes, pois “ compungiram-se em seu coração” e em 
desespêro se viram colocados diante de Deus e de seus 
pecados. A linda comunhão em Cristo que Lucas nos des­
creve teve início no ponto em que reconheceram a sua 
desvalia e nulidade, e quando se lançaram nos braços: 
de Deus para ouvir a Sua palavra de “ favor ou de des­
favor” .
Lucas de modo mui significativo nos apresenta esta 
koinonia junto com a salvação. E’ justamente nesta koi- 
nonia cristã — comunhão ou comunidade cristã — que 
se consuma a salvação pessoal. Pensou-se outrora que 
a personalidade fôsse fechada ou exclusivista, mas ago­
ra se reconhece que é aberta e compreensiva. Macmurray 
assim escreve: “ De fato, é a participação duma vida em 
comum que constitui a personalidade individual. Nós 
nos tornamos pessoas quando vivendo em comunidade, 
em virtude de nossas relações com os outros. ” 44 O con­
ceito grego de alma como uma entidade separada é coi­
sa estranha à Bíblia. Nesta se fala no homem como 
um todo; não é êle visto como possuindo uma alma, e 
sim como sendo uma alma. E’ somente como 
homem — um complexo de fatores correlacionados — 
que êle é levado a estabelecer em Cristo essa relação de 
fé é amor, e é salvo. Mas, um homem em Cristo é ipso 
facto uma parte do corpo de Cristo. O parentesco com 
Cristo envolve o parentesco com todos quantos estão em 
Cristo. E é nesta relação que o indivíduo se torna ver- ~ 
dadeiramente uma pessoa e é verdadeiramente salvo. 
Cristo salva os indivíduos; mas, ao salvá-los faz dêles
44. Op. cit., p g . 56.
O LIVRO DE ATOS 105
mais que indivíduos, pois que se tornam pessoas, que 
vivem nessa relação.
Mais tarde, quando se viu que koinonia necessària- 
mente implicava também igualdade, liberdade e frater­
nidade aos gentios incircuncisos, negava-se o corpo de 
má vontade em reconhecer isso. Negando-se essa frater­
nidade aos gentios incircuncisos, negava-se o corpo de 
Cristo, e preferiam os judaizantes ser um corpo mutila­
do, apenas tronco. O tronco não tem membros, e tam­
bém não tem cabeça. Poderá alguém pretender reco­
nhecer a Cabeça ao tempo em que nega os membros do 
corpo de Cristo; com isso acabará enganando-se a si 
mesmo. A cena final descrita por Lucas nos Atos è 
justamente esta: um Evangelho desimpedido e a auto- 
exclusão daqueles que negavam esta koinonia.
A Cura de um Coxo no Templo (3:1-10)
“ 1 Pedro e João subiam ao templo à horá da 
oração, a nona. 2 E era carregado um homem, coxo 
de nascença, o qual todos os dias punham à porta 
do templo, chamada Formosa, parà pedir esmolas 
aos que entravam. 3 Ora, vendo êle a Pedro e João, 
que iam entrando no templo, pediu que lhe des­
sem uma esmola. 4 E Pedro, com João, fitando 
os olhos nêle, disse: Olha para nós. 5 E êle os olha­
va atentamente, esperando receber dêles alguma 
coisa. 6 Pedro, porém, disse: Não tenho prata nem 
ouro; mas o que tenho, issó te dou; em nome de 
Jesus Cristo, o nazareno, anda. 7 Nisso, tomãndo- 
o pela mão direita, o levantou; imediatamente os 
seus pés e artelhos se firmaram, 8 e, dando êle um 
salto, pôs-se em pé, começou a andar, e entrou com 
êles 'no templo, andando, saltando e louvando a 
Deus. 9 Todo o povo, ao vê-lo andar e louvar a 
Deus, 10 reconhecia-o como o mesmo que estivera 
sentado a pedir esmolas à Porta Formosa do tem­
106 FRANK STAGG
plo; e todos ficaram cheios de pasmo e assombro, 
pelo que lhe acontecera.”
Êste milagre ofereceu mais provas ainda de que o 
dom do Espirito Santo fòra uma realidade; êle encheu 
o povo de pasmo e assombro (3:10). Tratava-se de mais 
do que um milagre (maravilha); era um sinal (4:22) do 
mundo físico que dava uma idéia daquilo que poderia 
ser feito no mundo espiritual. Assim como o homem 
podia tornar-se são fisicamente (4:9-12) podia igualmen­
te fazê-lo espiritualmente.
Esta cena novamente retrata o judaísmo cristão. Pe­
dro e João naturalmente foram ao templo à hora da 
oração. O discurso a seguir refere-se estritamente a uma 
situação dos judeus.
O Sermão de Pedro aos Judeus (3:11-26)
11 Apegando-se o homem a Pedro e João, todo o 
povo correu atônito para junto dêles, ao alpendre 
chamado de Salomão. 12 Pedro, vendo isto, disse ao 
povo: Homens de Israel, por que vos maravilhais dês- 
te homem? Ou, porque fitais os olhos em nós, como 
se por nossa virtude ou piedade o tivéssemos feito 
andar? 13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o 
Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a 
quem vós entregastes perante a face de Pilatos e 
negastes, quando êste havia resolvido soltá-lo. 14 
Mas vós negastes o Santo e Justo, e pedistes que se 
vos desse um homicida; 15 e matastes o Autor da 
vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do 
que nós somos testemunhas. 16 E pela fé em seu 
nome fêz o seu nome fortalecer a êste homem que 
vêdes e conheceis; sim, a fé, que vem por êle, deu 
a êste, na presença de todos vós, esta perfeita saúde. 
17 Agora, irmãos,eu sei que o fizestes por ignorân­
cia, como também as vossas autoridades. 18 Mas 
Deus assim cumpriu o que já dantes pela bòca de
O LIVRO DE ATOS 10?
todos os seus profetas havia anunciado que o seu 
Cristo havia de padecer. 19 Arrependei-vos, pois, e 
convertei-vos, para que sejam apagados os vossos 
pecados, de sorte que venham os tempos de refrigé­
rio, da presença do Senhor, 20 e envie êle o Cristo, 
que já dantes vos foi indicado, Jesus, 21 ao qual con­
vém que o céu receba até os tempos da restauração 
de tôdas as coisas, das quais Deus falou pela bôca de 
seus santos profetas, desde o princípio. 22 O próprio 
Moisés disse: Suscitar-vos-á o Senhor vosso Deus, 
dentre vossos irmãos, um profeta semelhante a mim; 
a êle ouvireis em tudo quanto vos disser. 23 E acon­
tecerá que tôda alma que não ouvir a êsse profeta, 
será exterminada dentre o povo. 24 Igualmente to­
dos os profetas, desde Samuel e os que sucederam, 
quantos falaram, também anunciaram êstes dias. 25 
Vós sois os filhos dos profetas e do concêrto que 
Deus fêz com vossos pais, dizendo a Abraão: Na tua 
descendência serão abençoadas tôdas as famílias da 
terra. 26 Deus suscitou a seu Servo, e a vós primei­
ramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, des­
viando-vos, a cada um, das vossas maldades.”
Pedro primeiramente explica qual o poder que curou 
o coxo: não fôra nenhum poder ou a piedade dos após­
tolos, e sim o Deus de Israel que assim glorificara, o Seu 
servo Jesus, Aquêle que êles haviam negado e crucifi­
cado. Êste Jesus é agora no meio dêles poder e vida. 
Os pontos básicos aqui frisados parecem ter sido os ca­
racterísticos das primeiras prédicas: os judeus mataram 
Aquêle a quem o Deus de seus pais lhes enviara; assim 
fazendo, tornaram-se criminosos; a inocência de Jesus 
fôra reconhecida por Pilatos; provou-se que o sofrimen­
to é o caminho da glória e do triunfo; aquêle sofrimento 
fôra predito pelos profetas; o fato da ressurreição exigiu 
uma apreciação completamente nova da morte de Jesus.
108 FRANK STAGG
Mas, o objetivo de Pedro era convencer aquêles ju­
deus, e não simplesmente condená-los. Admitiu êle um 
elemento de ignorância da parte do povo e de seus che­
fes. Isto parece contradizer o que lemos nos versículos 
de 13 a 16; mas provàvelmente Pedro não estava eximin­
do os judeus de tôda a culpa. E’ certo que tinham cul- 
pá e eram responsáveis pela maldosa rejeição dAquele 
cuja inocência fôra reconhecida por Pilatos; mas, à vista 
de tamanho pecado contra a luz, via-se claramente que 
êles não estavam percebendo bem o que então fizeram. 
Acompanhava aquêle deliberado fechar de olhos uma 
triste cegueira acêrca da Pessoa e das intenções de Je­
sus, Êste mesmo dissera: “ não sabem o que fazem” 
(Lucas 23:34); i. é, não estavam na realidade compre­
endendo o que faziam então.
Daí a procedência da clarinada que os convidava ao 
“ arrependimento” e à “ volta” para Jesus. O arrependi­
mento envolvia mudança de espírito e contrição de co­
ração. A volta referia-se à conversão, ou mudança de 
rumo. A mudança da mente (da atitude, disposição, ou 
espírito) está intimamente relacionada com a mudança 
do rumo da vida. Os resultados desta mudança da mente 
seriam o perdão de seus pecados e o estabelecimento do 
reino (govêrno) de Deus.
Na parte final do sermão, Pedro trata de assuntos 
israelitas concernentes ao estabelecimento do reino (3: 
21). Essa demora aparente em nada significa negligên­
cia da parte de Deus; reflete, sim, a demora do arrepen­
dimento dêles. O reino primàriamente refere-se ao reino 
de Deus, e o arrependimento dêles é um reconhecimento 
dêsse reino.
Neste sermão se alcança o pico mais elevado da 
crístologia. A princípio parece que se atribui o milagre 
da cura ao “ Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” (3:13),
O LIVRO DE ATOS 109
e depois a Jesus (3:16). O versículo 16 não é fácil; mas, 
parece que Pedro, ao referir-se ao “ nome” , está colocan­
do Jesus na posição de Senhor dos judeus. 45 Esta vir­
tual identificação de Jesus com Deus é corroborada por 
Atos 3:6 e 4:10.
Os Saduceus, Alarmados com o Crescimento do Cris­
tianismo e com o Tema da Ressurreição, Prendem e De­
pois Soltam a Pedro e João (4:1-31)
A Irritação dos Saduceus (4:1-4)
“ 1 Enquanto êles estavam falando ao povo, so­
brevieram-lhes os sacerdotes, o capitão do templo e 
os saduceus, 2 doendo-se muito de que êles ensinas­
sem o povo, e anunciassem em Jesus a ressurreição 
dentre os mortos, 3 deitaram mão nêles, e os encer­
raram na prisão até o dia seguinte, pois já era tar­
de. 4 Muitos, porém, dos que ouviram a palavra, 
creram, e se elevou o número dos homens a quasé 
cinco m il.”
A primeira perseguição aos discípulos de Jesus foi 
desencadeada pelos saduceus. E a razão era clara: inco­
modavam-se porque os discípulos estavam ensinando 
como se fôssem rabinos (mestres), e porque pregavani 
a ressurreição. Provàvelmente alarmaram-se com a 
ênfase que os discípulos davam ao reino, que poderia 
transformar-se em propaganda inflamatória. A ressur­
reição” significava para o judeu muito mais do que hoje 
significa para o cristão. Foakes-Jackson diz sobre isto; 
“ Para o judeu daqueles tempos significava uma imineri-- 
te catástrofe mundial que destruiria os reinos da terrã e 
inauguraria miraculosamente uma nova ordem. ” 46 Por­
tanto, sugeria a revolução para aquêles que desejavam 
o siatus quo. . . 47
45. V er Rackham, ov . cit.> p g . 49.
46. Foakes-Jackson, em The A cts o f the Apostles, p g . 32::
110 FRANK STAGG
Os Atos nos falam de várias perseguições aos cris­
tãos. Urge notar que cada grupo perseguidor tinha seus 
motivos para se opor ao Evangelho. Os saduceus, os fa­
riseus, os herodianos, e vários grupos pagãos fizeram 
oposição ao movimento cristão; cada qual, porém, por 
diferentes razões. Poderemos ver bem isto à medida 
que surgem tais perseguições.
Os saduceus estavam em minoria, mas sendo ricos 
e aristocráticos, controlavam o templo e tinham parte 
no govêrno. Tinham muitas terras e propriedades que 
poderiam ser facilmente confiscadas por qualquer nação 
conquistadora. Isto em parte explica porque sempre se 
mostravam desejosos de colaborar com os governadores 
estrangeiros. Já os fariseus se opunham, e chegavam 
mesmo às vêzes a resistir frontalmente aos chefes es­
trangeiros; Pode ser que a situação econômica e social 
dêles fôsse um fator de importância. Louis Finkelstein, 
um judeu contemporâneo mui erudito, acha que os sadu­
ceus descendiam de proprietários de terras e os fariseus 
de negociantes, e que tais origens explicam muitos dos 
seus traços e interesses. 48 Seja certo ou não, está claro 
que os saduceus do primeiro século conservavam sua 
riqueza e poderio pelo fato de colaborarem com os ro­
manos, os quais dominavam a Palestina desde o ano 63 
antes de Cristo.
Visto que os saduceus estavam vivamente interessa­
dos em conservar o seu poderio na nação e sôbre o Tem­
plo, fazia tudo para atrair a boa vontade dos romanos. 
Esforçavam-se ao sacrifício no sentido de manter a or­
dem entre os judeus, visto que a insubordinação de qual­
quer das nações sujeitas a Roma era, para esta, crime
47. V e ja Louís Finkelstein, em The Pharisees, the Sociologtcal Background o f 
Their Faith (Philadelfia, The Jewish Publication Society c f America, 1946), I, 
145-159, onde encontramos boa apresentação dos atritos entre saduceus e fariseus 
sôbre êste particular.
48. Ibid, patsim.
O LIVRO DE ATOS 111
imperdoáveL Roma era quem nomeava o sumo sacer­
dote. Até as roupagens do sumo sacerdote eram guar­
dadas por um oficial romano e entregues àquele só 
quando precisas para os cultos rituais. Todo aquele 
grupo aristocrático dependia diàriamente de Roma. A 
menor aparência ou vislumbre de sedição atraía logo a 
ira de Roma, e os saduceus eram logo apontados como 
os responsáveis pelo barulho.
A magnitude do crescente grupo de discípulos e o 
seu incontrolável entusiasmo certo alarmaram os sadu­
ceus. Os comentários e a excitação provocada pelos mi­
lagres, bem como a ênfase quese dava a Cristo, como 
um Rei ungido, e ao Seu reino, também por certo as* 
sustaram os chefes judeus. Ficaram aborrecidos com a 
pregação da ressurreição, especialmente por aquilo que 
ela significava politicamente para os judeus. Já os fa­
riseus, ao cóntrário, não se perturbavam com essas se­
qüelas, pois criam na ressurreição, e assim recebiam 
muito bem a colaboração dos discípulos nesse particu- 
lar. Os fariseus faziam igualmente oposição ao governo 
romano, conquanto em geral não favorecessem revolu­
ções materiais.
Nos Evangelhos e nos Atos podemos ver bem claro 
o mesmo padrão de oposição levada a cabo por fariseus 
e saduceus. Os fariseus opunham-se a Jesus em razão 
do Seu conflito com êles quanto a certos itens da lei; 
mas os saduceus só se incomodaram quando viram que 
o movimento crescia e se fortificava a ponto de ameaçar 
a paz. 0 novo alarma contra os seguidores de Jesus par­
tiu primeiro dos saduceus e só mais tarde dos fariseus, 
quando êstes perceberam que o Evangelho cristão tra­
zia em seu bôjo princípios que atritavam com o legalis- 
mo e o estreito nacionalismo dêíes.
Quando, então, o povo ficou excitado por causa dos 
milagres realizados em o nome de Jesus, e quando cres­
112 FRANK STAGG
ceu, rápido, o número dos discípulos, os saduceus, alar­
mados, resolveram esmagar o movimento. E’ altamente 
significativo observar que tôda a fôrça da oposição dos 
saduceus não conseguiu deter o movimento. Sim, por­
que já naquele ponto o Cristianismo se tinha tornado 
um movimento popular aos judeus e não era combatido 
pelos fariseus.
Pedro e João Desafiados pelo Sinédrio (4:5-22)
“ 5 No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém 
as autoridades, os anciãos, e escribas, 6 e Anás, o 
sumo sacerdote, e Caifás, João, Alexandre e todos 
. quantos pertenciam à linhagem do sumo sacerdote.
7 E, pondo-os no meio dêles, perguntaram: Com que 
poder ou em nome de quem fizestes vós isto ? 8 Então 
Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autorida­
des do povo e vós, anciãos, & se nós hoje somos in­
quiridos acêrca do benefício feito a um enfêrmo, e do 
modo como foi curado, 10 seja conhecido de todos 
vós, e de todo o povo de Israel, que em nome de Je­
sus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificas­
tes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nes­
se nome está este aqui, são diante de vós. 11 Êle 
. . .é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, 
a qual foi posta como pedra angular. 12 E em ne­
nhum outro há salvação; porque debaixo do,céu ne­
nhum outro nome há, dado entre os homens, em 
, , .quem devamos ser salvos. 13 Então êles, vendo a in­
trepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram 
homens sem letras e indoutos, se maravilhavam; e 
reconheciam que haviam êles estado com Jesus. 14 
E, vendo em pé com êles o homem que fôra curado, 
nada tinham que dizer em contrário. 15 Todavia, 
mandando-os sair fora do sinédrio, conferenciaram 
, entre si, 16 dizendo: Que havemos de fazer a êstes
O U V BO DE ATOS 1X3
. homens? porque a todos os que habitam em Jerusa­
lém é manifesto que por êles foi feito um sinal no­
tório, e não podemos negar. 17 Mas, para que não 
se divulgue mais entre o povo, ameacemo-los para 
que de ora em diante não falem neste nome a homem 
algum. 18 E, chamando-os, ordenaram-lhes que ab­
solutamente não falassem, nem ensinassem, em nome 
de Jesus .19 Respondendo, porém, Pedro e Joâo lhes 
disseram: Se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes 
a vós do que a Deus, julgai-o vós; 20 pois nós não 
podemos deixar de falar das coisas que temos viste» 
e ouvido. 21 Mas êles ainda os ameaçaram mais, e, 
não achando motivo para os castigar, soltaram-nos, 
por causa do povo; porque todos glorificavam a Deus 
pelo que acontecera; 22 pois tinha mais de quarenta 
; anos o homem em quem se operara esta cura mila­
grosa.”
O sinédrio era a mais alta corporação governamen­
tal dos judeus, e sôbre questões internas recebera dos 
romanos grande e considerável autoridade, estando su­
jeito apenas ao governo romano. Faziam parte dêle se­
tenta pessoas que representavam o povo — autoridades, 
anciãos e escribas. A linhagem do sumo sacerdote cons­
tituía as “ autoridades” ; os anciãos eram cidadãos invés-; 
tidos como líderes; e os escribas èram estudantes da lei, 
em especial tirados dentre os fariseus.
Naqueles dias era Caifás ó sumo sacerdote, con­
quanto tivesse maior influência o sogro dêle :— Anás. 
Anás foi sumo sacerdote do A. D. 6 a 15, e um filho 
dêle o substituiu. Após Caifás, quatro outros filhos de 
Anás exerceram o sumo sacerdócio. A grande rival da 
familia de Anás foi a de Boetus, judeu de Alexandria, 
íendo feito parte desía família, por virtude de seu casa­
mento, Herodes, o Grande. Estando Herodes no poder, o 
sumo sacerdócio era exercido por um membro da família
A.A. 8
114 FRANK SXAGG
de Boetus. Houve outras famílias de sumo sacerdotes, mas 
tiveram influência menor que a de Anás e a de Boetus. 
A princípio o sumo sacerdócio foi vitalício, e por suces­
são, na família de Arão. No tempo de Ptolomeu IV 
(182-146 a. C .), contudo, o último sumo sacerdote da 
linhagem de Aarão foi para Leontópolis, no Egito, e daí 
o sumo sacerdote passou a ser indicado por quem go­
vernava os judeus: os reis Selêucidas, os Macabeus, os 
Herodes, ou os romanos. 49
O sinédrio desafiou os discípulos em têrmos autori­
tários, dizendo-lhes: “ Com que poder ou em nome de 
quem fizestes vós isto?” (4:7). As nossas traduções fa­
zem transparecer muito mal o desdém que o texto grego 
sugere, por terminar a pergunta com o pronome “ vós” . 
Podemos parafrasear assim: “ Com que autoridade ou 
em nome de quem fizestes vós isto, por autoridade vos­
sa?!” Desprezavam os discípulos em parte pelo fato de 
êstes serem “ homens sem instrução e vulgares” (4:13). 
Isto é, não tinham recebido nenhuma instrução rabínica, 
nem indicação alguma para qualquer posição oficial no 
país. A tradução comum — “ homens sem letras e ig­
norantes” não é boa. Não se quer dizer que fôssem ho­
mens iletrados, e sim que não tinham preparo adequado, 
nem a indicação oficial.
Pedro mostrou-se corajoso diante do sinédrio: êle 
conhecia o terreno que estava pisando. Ninguém pode­
ria abalar a fé que tinha, de que Jesus ressuscitara de 
fato e estava presente naquela gloriosa obra. Pedro tudo 
fazia e tudo dizia, baseado na autoridade do Cristo exal­
tado, e não na do sinédrio. Pedro não só permanecia 
firme nisso, mas chegava mesmo a convidar as autori­
dades, e a todos, para verificarem bem que Aquêle a 
Quem haviam rejeitado era “ a pedra angular” e a única 
esperança de salvação para todos. Essa intrepidez de Pe-
49. Lakt and Cadbury, Commentary, pg. 42.
O LIVRO DE ATOS 115
dro, mostrando-se intemerato diante do sinédrio, infeliz­
mente lhe faltou, quando mais tarde surgiu um novo 
problema — o dos gentios.
0 sinédrio “ reconheceu que êles haviam estado com 
Jesus” (4:13), e isto constituía para aquelas autoridades 
mais outro motivo de incômodo. Aqui não se trata da 
idéia popular da semelhança daqueles discípulos com 
Jesus. Conquanto verdadeiro tal conceito, o que aqui se 
afirma é que os chefes e autoridades de Jerusalém per­
ceberam que os discípulos faziam parte daquele movi­
mento que haviam tentado sufocar quando crucificaram 
a Jesus. Jesus também havia ensinado com uma autori­
dade que êles impugnavam; e Êle também possuía co­
nhecimento e sabedoria que não provinham das escolas 
rabínicas.
O que mais embaraçava os passos daquelas autori­
dades era a presença do homem curado (4:14). O crime 
delas era indesculpável por causa da má vontade com 
que encaravam aquilo que os fatos estavam provando, 
coisa que elas não podiam negar (4:16). Estavam interes- 
sadás unicamente em paralisar aquêle movimento que 
ameaçava o status quo. Daí, resolveram ameaçar os dis­
cípulos; mas, de nada adiantou porque para êstes era 
questão de vida ou morte anunciar o que tinham visto 
e ouvido (4:20), e ainda porque tinham alcançado enor­
me popularidade entre os judeus (4:21).
Fidelidadepara com o Soberano Senhor (4:23-31)
“ 23 E, soltos êles, foram para os seus, e conta­
ram tudo o que lhes haviam dito os principais sacer­
dotes e os anciãos. 24 E, ouvindo êles isto, levanta­
ram unânimemente a voz a Deus e disseram: Sobe­
rano Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e 
tudo o que nêles há; 25 que pelo Espírito Santo, por 
bôca de nosso Pai Davi, teu servo, disseste:
Por que se enfureceram os gentios, e os povos
116 FRANK STAGG
imaginarahi coisas yãs? 26 Levantaram-se os reis da 
terra, e as autoridades juntaram-se a uma, contra o; 
Senhor e contra o seu Ungido, 27 Porque verda­
deiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu 
- santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, 
mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os po­
vos de Israel; 28 para fazerem tudo o que a tua mão 
e o teu conselho predeterminaram que se fizesse. 29 
Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e
• concede aos teus servos que falem com tôda a intre- 
pidez a tua palavra, 30 enquanto estendes a mão para 
 ̂ curar e para que se façam sinais e prodígios pelo 
nome de teu santo Servo Jesus. 31 E, tendo êles ora- 
. do, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos 
foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com 
intrepidez a palavra de Deus.” 
f O sinédrio explicara bem a Pedro e João o que pre­
tendia, e os apóstolos lhe declararam que estavam resol­
vidos a agir de acôrdo com as experiências por que ti­
nham passado (4:19 em diante). Agora o grupo maior 
reconhecia a autoridade de Deus, a Quem se dirigiam 
como ao “ soberano Senhor” (4:24). O têrmo grego aqui 
empregado corresponde à palavra déspota, sem o mo­
derno significado de tirano. Quer dizer apenas “ sobera­
no governador” .
Os discípulos estavam preparados para obedecer a 
Deus como o Senhor soberano, continuando a testificar a 
ressurreição de Jesus e a realizar portentos em Seu nome. 
Estavam preparados para enfrentar as fôrças que se 
lhes opunham dentro do país e também as dos gentios 
(4:27). Conseguiram libertar-se do sinédrio; mas, ti­
nham pela frente ainda uma luta maior, a fim de se li- 
vtarem dos acanhados conceitos dos judeus cristãos que 
faziam parte de suas próprias fileiras.
Quando oravam, o lugar em que se achavam tre­
O U V R O DE ATOS 117
meu, e todos foram cheios do Espírito Santo (4:31). O 
Espírito sustentou aquêles discípulos que se haviam li­
bertado do Sinédrio. Êste os condenava; mas o Espírito 
õs confirmava.
Companheirismo, Fraude e Temor (4:32 a 5:16)
“ 32 A multidão dos qüe criam tinha um só co­
ração e uma só alma, e ninguém dizia que coisa al­
guma das que possuía era sua própria, mas tôdas as 
coisas lhes eram comuns. 33 Com grande poder os 
apóstolos davam testemunho da ressurreição do Se­
nhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. 
34 Pois não havia entre êles necessitado algum; por 
que todos os que possuíam terras e casas, vendendo- 
as, traziam o preço do que vendiam e o depositavam 
aos pés dos apóstolos, 35 E repartia-se a cada um 
segundo a sua necessidade. 36 Então José, cognomi­
nado, pelos apóstolos, Barnabé (que quer dizer, filho 
da consolação), levita, natural de Chipre, 37, possuin­
do um campo, vendeu-o, trouxe o preço e o deppsit«tf 
aos pés dos apóstolos. ;
5 :1 Mas, um certo varão chamado Ananias, com 
Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, 2 e re­
teve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; 
e, levando a outra parte, a depositou aos pés dos,após­
tolos. 3. Disse então Pedro; Ananias, por qiíe encheu 
Satanás o teu coràçãó, pára que mentisses ao Espí­
rito Santo e retivesses parte do preço do terreno? 4 
Enquanto o possuías, não era teu ? e, vendido, não es­
tava o preço em teu poder? Como, pois, formaste 
êste desígnio em teu coração?' Não mentiste aos ho­
mens, mas a Deus. 5 Ananias, ouvindo estas palavras, 
caiu e expirou. E grande temor se apoderou de tõdos 
os que souberam disto. 6 Levantando-se os moços, 
cobriram-no e, transportando-o para fora, >ó Sepulta­
FRANK STAGG
ram. 7 Depois de um intervalo de cêrca de três horas, 
entrou também sua mulher, não sabendo o que havia 
acontecido. 8 E perguntou-lhe Pedro: Dize-me, ven­
deste por tanto aquêle terreno? E ela respondeu: Sim, 
por tanto. 9 Então Pedro lhe disse: Por que é que 
combinastes entre vós provar o Espírito do Senhor? 
Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu ma­
rido, e te levarão também a t i. 10 Imediatamente ela 
caiu aos pés dêle e expirou. E, entrando os moços, 
acharam-na morta e, levando-a para fora, sepultaram- 
na ao lado de seu marido. 11 Sobreveio grande te­
mor a tôda a igreja e a todos os que ouviram estas 
coisas. 12 E muitos sinais e prodígios eram feitos en­
tre o povo pelas mãos dos apóstolos. E estavam to­
dos de comum acôrdo no pórtico de Salomão. 13 
Dos outros, porém, nenhum ousava ajuntar-se a êles; 
mas o povo os tinha em grande estima; 14 e cada 
vez mais se agregavam crentes ao Senhor em gran­
de número tanto de homens como de mulheres; 15 
a ponto de transportarem os enfermos para as ruas, 
e os porem em leitos e macas, para que ao passar 
Pedro, ao menos sua sombra cobrisse algum dêles.
16 Também das cidades circunvizinhas afluia muita 
gente a Jerusalém, conduzindo enfermos e atormen­
tados de espíritos imundos, os quais eram todos cura­
dos.”
A Comunhão na Igreja. Aqui temos um desenvolvi­
mento do assunto já referido atrás (2:44-45), visto que 
se falou nos discípulos vivendo em união e “ tendo tudo 
em comum” (4:32). Das duas passagens podemos vis­
lumbrar vários fatos: primeiro, aquêles primeiros cris­
tãos reconheciam que todos os crentes eram um só povo; 
segundo, reconheciam que o crente não tem “ direitos” ; 
terceiro, reconheciam que cada um devia conceder a ou­
tro aquilo que possxda, conforme a necessidade de cada
O LIVRO DE ATOS
qual; quarto, êles realmente praticavam essa cotização; 
quinto, cuidavam de fato dos necessitados; sexto, aquela 
repartição era coisa inteiramente voluntária; sétimo, o 
benefício só era acessível aos crentes realmente necessita­
dos; oitavo, o movimento nada tinha de “ comunista” , pois 
que se admitia a posse de propriedades e a distribuição 
visava somente socorrer as necessidades da comunidade, 
e não nivelar economicamente os crentes; nono, não era 
um comunismo de produção ou de posses.
Devemos evitar dois erros no estudo destas duas pas­
sagens (2:44 em diante e 4:32 em diante): primeiro, esta 
primitiva distribuição cristã não deve ser confundida com 
o comunismo moderno; segundo, ao estabelecermos a di­
ferença entre ela e o comunismo, importa não perdermos 
de vista os seus grandes princípios. Aquela comunidade 
de bens tinha mui pouca coisa em comum com o comu­
nismo de nossos dias, como vimos acima, e tinha muito 
com que caracterizar os cristãos de qualquer época.
Aquela “ nobre experimentação” pode parecer ter fa­
lhado em muitos pontos. E’ verdade que a pobreza logo 
assolou todo aquêle grupo e que os cristãos doutras cida­
des levantaram coletas para ajudar os pobres de Jerusa­
lém. Sem dúvida a expectação da volta imediata de Je­
sus facilitou a êste e àquele desprenderem-se generosa­
mente de suas propriedades, pois delas mui logo não pre­
cisariam mais. Provàvelmente outros, que não Ananias 
e Safira, “ orgulhavam-se de sua humildade” e intentavam 
ser glorificados pelos homens. Talvez, como se deu 
mais tarde em Tessalônica, alguns se sentissem encoraja­
dos a parasitar, vivendo à custa dos semelhantes. Embora 
reconheçamos grandes falhas nesse sistema, a verdade é 
que havia nêle princípios cristãos de tremenda importân­
cia. Os pagãos insistem em seus “ direitos” ; mas o verda­
deiro cristão prefere pensar naquilo que deve aos outros. 
A mensagem basilar da Cruz é essa disposição para negar-
120 FRANK STAGG
se a si próprio e para se relacionar um com o outro, para 
o bem dêste.
Barnabé: A Comunidade de Bens no Seu Ápice. José, 
chamado Barnabé, foi um dos homens verdadeiramente 
grandes do Cristianismo primitivo. Sua atitude em vender 
um campo epôr o lucro à disposição dos apóstolos é cita­
da aqui como a comunhão no que ela tem de melhor. Na­
tural de Chipre (lembrada em Atos 11:20 quando o Evan­
gelho se expandiu até aos gregos), era êle homem de cer­
tas posses, como também a mãe de João Marcos, de quem 
era parente (Col. 4:10). O apelido “ Barnabé (que signi­
fica Filho do encorajamento)” certo conquistara quando 
se pôs ao lado de Paulo em Jerusalém quando pouca gen­
te se dispunha a crer na conversão daquele novo cristão. 
Também êle defendeu a causa de João Marcos, permane- 
cèndo aberta a questão sôbre quem agiu melhor naquela 
pendência, se Paulo, se Barnabé (veja adiante). Fôsse 
qual fôsse o seu modo de ajuizar nesta ou naquela ques­
tão, a verdade é que Barnabé sempre estava pronto a aju­
dar, e isso lhe trouxe o apelido de “ Filho do encorajamen­
to” . A palavra grega usada por Lucas para interpretar o 
nome Barnabé 50 é uma cognata de Paracleto, e literalmen­
te significa “ um convite ao pé” . A idéia resultante pode 
ser esta de “ exortação” ou “ consolação” , pois que ambas 
podem ser incluídas na palavra “ encorajamento” . 51
Ananias e Safira: A Grande Mentira. Para quem se 
interessa em buscar provas de que o Livro dos Atos é de 
fato um livro digno de crédito, consola-o anotar aqui que 
Lucas está escrevendo de fato história e não ficção. Está 
pintando um quadro real e não imaginário. Aquêle pe­
cado dentro da comunidade cristã era muito mais aflitivo 
do que a perseguição que vinha de fora. Lucas levanta
50, Barnabé é um nome semita de origem incerta; Bar significa filho. Mas, 
não fie pode agora acertar o significado de Nabé, que pode v ir do hebraico ou 
do aramáico. A interpretação dada por Lucas, do grego, faz jus ao homem* 
seja qual fô r a origem do nome semita.
51. V er Rackham, op. cit., p g . 63.
O LIVRO DE ATOS
o pano para nos mostrar a hipocrisia, a murmuração (cap. 
6), a dissensão e os duros atritos (cap. 15) havidos entre 
os crentes. Muitas vêzes êle nos mostra o estreito nacio­
nalismo de alguns. 52
O pecado básico de Ananias e Safira foi o da hipocri­
sia, ou o esconder a realidade;53 pois estavam vivendo 
uma mentira. A tentativa dêles, de serem elogiados atra- 
vés duma atitude enganosa, fôra plano deliberado, pois 
que “ concordaram juntos” (5:9). Em o Novo Testamen­
to nenhum pecado se considera mais grave e sério do que 
o da cegueira voluntária para com a verdade, ou a rejei­
ção dela. Aquêles que crucificaram a Jesus o fizeram 
com seus olhos deliberadamente fechados à verdade e ao 
direito, e se disse que o pecado que não tem perdão está 
ligado a essa disposição de espírito. Pode-se defender de 
algum modo o pecado de ignorância ou de fraqueza; mas, 
nada se pode apresentar em defesa da cegueira voluntá­
ria para com a verdade ou da voluntária rejeição da luz. 
Se o castigo de Ananias e Safira nos parece rigoroso de 
mais, devemos reconhecer que o conceito que aqui se tem 
da desonestidade operando nos fundamentos do caráter 
do indivíduo não é menos rigoroso do que o conceito qu,e 
encontramos refletido nos Evangelhos. O pecado contra 
o Espírito Santo — a deliberada rejeição daquilo que é 
xeto e verdadeiro — é indesculpável. O pecador, se o 
abandona, pode ser perdoado; mas, o pecado em si não 
tem escusa.
Um pecado ainda mais grave podemos encontrar em 
5:3, dependendo da tradução correta do texto. O caso 
' acusativo, e não o dativo usual, segue ao verbo no infinito 
comum ente traduzido por “ mentir” . E’ possível traduzir 
então assim: “ Ananias, como é que Satanás encheu o teu 
coração para falsificar o Espírito Santo. . . ?” A acusação 
consistia não só em ter êle mentido ao Espírito Santo, mas
62. I b i d par. 64.
63. Loo. cit.
1£3 FBAKK STAGG
em ter falsificado o Espírito, buscando representar a sua 
fraudulenta ação como de certa forma inspirada pelo Es­
pírito. Assim, procurara êle fazer com que o Espírito San­
to participasse do seu nefando crime.
0 sepultamento de Ananias sem que sua mulher o 
soubesse (5:7) vai além de nossa compreensão. Era cos­
tume enterrar o morto no dia em que morria. Mas, era 
legal ou direito enterrar o marido sem o conhecimento da 
espôsa? Esta é uma das muitas perguntas que os Atos 
deixam sem resposta. Não temos uma resposta satisfa- 
tói'ia para esta pergunta. 54 Basta-nos lembrar que Lucas 
estava interessado em responder às perguntas dêle e não 
às nossas. A nossa curiosidade se aguça em muitas par­
tes do livro apenas para quedar-se sem eco, porque o pro­
pósito de Lucas, ao escrever, não era satisfazer nossa 
curiosidade. Quando o Livro dos Atos termina sem qual­
quer palavra sôbre o resultado do processo de Paulo, Lu­
cas estava, é claro, outra vez preocupado com coisas intei­
ramente vitais ao seu propósito, e não com a idéia de 
responder a tôdas as nossas perguntas.
Desta história da morte súbita de Ananias e sua mu­
lher surge um pensamento muito sério atinente à moral 
cristã. Aquela punição com a morte foi apenas o efeito 
dum ato arbitrário de Pedro, divinamente autorizado, ou 
foi Deus mesmo Quem os puniu? Essa interpretação — 
e outras passagens do Novo Testamento possivelmente 
sustentem êste ponto de vista (ver I Cor. 5:5; 11:30; I 
Tim. 1:20; Tiago 5:20; I João 5:16 em diante) — nos põe 
(diante dum problema muito grave acêrca do modo pelo 
qual Deus trata o mal. O conceito que prevalece em o 
Novo Testamento parece ser êsse de que a ira é uma lei 
que opera naturalmente e não arbitràriamente; e de que o
64. Um colega meu» o proí. Bay Frank Robbins, diz que estando na China 
observou um costume quase paralelo a êste narrado no Livro dos Atos. Viu re­
tirarem defuntos das calçadas das ruas e serem levados para lugares onde aguar­
davam por certo tempo o enterramento. Isso se fazia sem se dizer nada às fa­
mílias dos defuntos« ou utèlhor, sem consultá-las.
O LIVRO DE ATOS 123
pecado é em si uma coisa tão séria que acarreta suas 
próprias conseqüências. Muitos concluem que Ananias e 
Safira morreram de choque nervoso, ou traumatismo, e 
não em conseqüência dum arbitrário decreto de Deus. Se 
fôr verdadeira esta idéia, podemos mais fàcilmente har­
monizá-la com todo o ensinamento do Novo Testamento. 
Tais mortes podem ser explicadas pela psicologia. Mui­
tos sinais que se deram naqueles dias fizeram com que 
todos os crentes tivessem plena consciência de que o po­
der de Deus estava de fato operando no meio dêles, e isso 
encheu os corações dêles de pasmo e temor. A rápida re­
velação do pecado de Ananias contra Deus mui fàcilmente 
teria produzido o choque que o levou à morte. Safira ex­
perimentou aquêle choque e também o choque resultante 
da notícia da morte do marido.
Temor e Crescimento. O pequeno trecho seguinte (5: 
12-16), que à primeira vista nos parece fácil e simples, co­
loca diante de nós alguns problemas bem difíceis, senão 
insolúveis. Não podemos saber exatamente quem são 
as pessoas de que nos fala o vs. 13. Quem são aquêles 
“ dos outros” ? Quem são aquêles “ outros” ? E’ possível 
que se tratasse de cristãos que não se animavam a ocupar 
üm lugar junto dos apóstolos, ou quem sabe de pessoas 
referidas pelo pronome “ êles” . Pode ser também que se 
tratasse de pessoas não cristãs que temiam juntar-se aos 
discípulos, pois ficariam sujeitas a ter a sorte de Ananias 
e Safira. O vs. 14, no entanto, parece afastar esta última 
hipótese. Tais problemas não podem ser resolvidos pelo 
estudo gramatical do texto, e não possuímos dados certos 
e conclusivos. Está clara, no entanto, a maior mensagem 
dêste parágrafo, seja qual fôr a resposta a muitos dos seus 
problemas.
E’ claro que houve uma nova dispensação de poder 
por sinais e maravilhas, sendo duplo o resultado: maiores 
números alcançou o movimento, e todos tinham grande
i z i FRANK SXAGG
respeito - ou reverência — pelo movimento, notadamen- 
te pêlos apóstolos. Compreende-se que de fato o povo 
reagiria dessa forma. Êste parágrafo sem dúvida nos dá 
ótima idéia do poder e da influência dos apóstolos, e pa­
rece que atingiramnaquele tempo o ponto mais elevado . 
Estranho, porém, é observar que aquêles homens, que tan­
to se distinguiram de todos os mais do seu tempo, desa­
parecessem do cenário de modo tão completo, não só das 
páginas dos Atos mas também das de tôda a História Cris­
tã. Mui pouco mais sabemos hoje a respeito de muitos 
dêlés. Será pelo fato de não terem acompanhado de per­
to as idéias mais largas, desenvolvidas posteriormente 
pelo movimento cristão?! Ao que parece, não foram êles, 
e sim pessoas cujos nomes ainda não apareceram em cena, 
os que ousaram transpor as barreiras nacionais e raciais 
e libertar o movimento dum estreito nacionalismo, levan­
do-o à verdadeira liberdade.
Os Sinais e Maravilhas. Não se diz claramente que 
pessoas foram curadas quando a sombra de Pedro as co­
briu, mas evidentemente é o que o texto implica (5:15). 
Paralelamente a isto, se diz claramente depois que doen­
tes se curavam por lenços e aventais levados do corpo de 
Paulo' (19:12). Seja qual fôr a ilação tirada aqui pelo 
,,;}eitor de nossos dias, Lucás apresentou alguns desses pri­
meiros milagres como dignos de crédito, e êle próprio ad­
mitiu a validade dêles. Ainda que se diga que houve mui­
to boa fé para se admitir aquilo, o fato é que depende mes­
mo do grau de fé daquele que aceita totalmente a possi­
bilidade do milagre. Embora as histórias de certos mila­
gres possam parecer menos plausíveis que outras, se êles 
são possíveis, certo o são até o extremo. Os milagres rea­
lizados no mundo material são ainda os menos admissí­
veis expedientes elementares para os principiantes. Jesus 
’ realizou muitos milagres,, mas protestou continuadamente 
contra a necessidade dêles. Os máiores feitos de Jesus fo­
O M VRO DE ATOS
ram milagres de transformações morais e espirituais. Se, 
pois, os milagres de natureza material pertencem a uma 
classe elementar para neófitos da fé, podemos facilmente 
compreender que a fé quase supersticiosa daquele povo 
simples, do tempo de Pedro e Paulo, precisava daquela es­
pécie de milagres. Aquela era uma etapa preparatória 
para milagres de natureza mais elevada. Muita gente ain­
da hoje vive necessitada de milagres dessa espécie chamada 
de “ jardim da infância” , pois que vivem do culto de relí­
quias que julgam ter pertencido a“ santos” defuntos.
Os Saduceus Frus'rados, e os Fariseus Indecisos (5:17-42)
“ 17 Levantando-se o sumo sacerdote e todos os 
que estavam com ele (isto é, a seita dos saduceus), 
" ,encheram-se de inveja, 18 deitaram mão nos após­
tolos, e os puseram na prisão pública/19 Mas de noi­
te um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere e, 
tirando-os para fora, disse: 20 Ide, àpresentai-vos no 
templo, e falai ao povo tôdas as palavras desta vida. 
21 Ora, tendo êles ouvido isto, entraram, de madru­
gada, no templo, e ensinavam. Chegando, porém, o 
sumo sacerdote e os que estavam com êle, convoca­
ram o sinédrio juntamente com todos os anciãos dos 
filhos de Israel, e enviaram oficiais ao cárcere para 
trazê-los. 22 Mas os oficiais, tendo lá ido, não os 
acharam na prisão; e, voltando, lho anunciaram, 23 
<Kzendo: Achamos realmente o cárcere fechado com 
tôda a segurança, e os guardas de plantão às portas; 
mas, abrindo-as, a ninguém achamos dentro. 24 E 
quando o capitão do templo e os principais sacerdotes 
ouviram estas palavras, ficaram perplexos acêrca de­
les e do que viria a ser isso. 25 Então chegou alguém 
e disse-lhes: “ Eis que os homens que encerrastes na 
prisão estão no templo, em pé, a ensinar o povo. 26 
Nisso foi o capitão com os oficiais e os trouxe, não 
com violência, porque temiam ser apedrejados pelo
FRANK STAGG
povo. 27 E, tendo-os trazido, os apresentaram ao si­
nédrio. E o sumo sacerdote os interrogou, dizendo: 
28 Não vos admoestamos expresamente que não en­
sinásseis nesse nome? e eis que enchestes Jerusalém 
dessa vossa doutrina e quereis lançar sôbre nós o san­
gue dêsse homem. 29 Porém, respondendo Pedro e 
os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a 
Deus que aos homens. 30 O Deus de nossos pais res­
suscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo- 
o no madeiro; 31 sim, Deus, com a sua destra, o ele­
vou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arre­
pendimento e remissão de pecados. 32 E nós somos 
testemunhas destas coisas, e bem assim o Espírito 
Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem. 33 
Ora, ouvindo êles isto, se enfureceram e queriam ma­
tá-los. 34 Mas, levantando-se no sinédrio certo fa­
riseu chamado Gamaliel, doutor da Lei, acatado por 
todo o povo, mandou que por um pouco saissem 
aquêles homens; 35 e disse-lhes: Varões israelitas, 
acautelai-vos, com respeito a êstes homens, no que 
estais para fazer. 36 Porque, não há muito tem­
po, levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; ao qual 
se ajuntaram uns quatrocentos homens; mas êle foi 
morto, e todos quantos lhe obedeciam fc ram disper­
sos e reduzidos a nada. 37 Depois dêle levantou-se 
Judas, o galileu, nos dias do recenseamento,, e levou 
muitos após si; mas também êste pereceu, e foram 
dispersos todos quantos lhe obedeciam. 38 Agora vos 
digo: Dai de mão a êstes homens, e deixai-os, por­
que êste conselho ou esta obra, caso seja dos homens, 
se desfará; 39 mas, se é de Deus, não podereis des­
fazê-la para que não sejais, porventura, achados até 
combatendo contra Deus. 40. Concordaram, pois, 
com êle, e tendo chamado os apóstolos, açoitaram- 
nos e mandaram que não falassem em nome de Je-
O LIVRO DE ATOS
sus, e soltaram-nos. 41 Retiraram-se, pois, da pre­
sença do sinédrio, regozijando-se de terem sido jul­
gados dignos de sofrer afronta pelo nome de Jesus. 
42 E todos os dias, no templo e de casa em casa, não 
cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus, o Cristo.”
Os discípulos não cessavam de pregar a Jesus, o Cris­
to, no templo (5:42)! Isto é coisa quase inconcebível ao 
pensamento de nossos dias. Por cêrca de dezenove séculos 
o judaísmo e o Cristianismo viveram como religiões per­
feitamente distintas, e às vêzes mesmo guerreando-se, 
mas em geral ignorando-se mutuamente. Comumente se 
pensa que o surto da cristologia é que provocou a sepa­
ração — pois que os judeus rejeitaram a Jesus como o 
Cristo, o Filho de Deus. Mas, não é exato. Vemos que por 
algum tempo pregou-se a Jesus como o Cristo no tem­
plo, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalém, e nas casas. 
Milhares de judeus realmente se uniram ao movimento; 
as multidões receberam àvidamente o Cristianismo a pon­
to de êste vencer o firme propósito que os saduceus ti­
nham de destruir o nascente movimento. Os discípulos 
desobedeceram resoluta e intrèpidamente às ordens do 
sumo sacerdote e dos saduceus, a ponto de êstes se que­
darem vencidos e sem poder para fazer estacar o seu 
avanço (5:17, 28 em diante, e 33).
Os fariseus por algum tempo adotaram a política do 
retraimento, pois queriam ver e observar. Gamaliel pro­
pôs que o sinédrio deixasse o movimento entregue à sua 
própria sorte, achando que por seus méritos cairia ou se 
consolidaria (5:38-39). Achou que aquela obra — a de 
se preger que Jesus era o Cristo — podia ser obra de 
Deus! Tratava-se, portanto, de uma questão aberta. O 
sinédrio acatou a idéia dêle —de ver e observar — embo­
ra açoitasse os apóstolos e exigisse dêles silenciar acerca 
de Jesus (5:40).
Os judeus, como povo, não rejeitaram em Jesus o
FRANK STAGG
Cristo prometido, o Filho de Deus. Rejeitaram-nO, sim, 
como o Filho do Homem, o Salvador do mundo! O ponto 
d$ separação foi o muro que afastou o judeu do não judeu, 
e não a cristologia. A questão decisiva que os separou foi 
a tese que afirmava a existência de uma Nova Humanida­
de em que judeus e gentios incircuncisos deveriam viver 
juntos como irmãos. Esta foi a questão daquele primeiro 
século do Cristianismo, e está ela de pé ainda em nossos 
dias.
Discutiu-se muito a exatidão de Lucas no caso de Teu­
das (5:36) . Acusa-se Lucas de haver baralhado as datas 
referentes a Judas e a Teudas. Afirmar-se que, se houve 
êrro, êsle foi de Gamaliel e não de Lucas, não satisfaz. 
Josefo (AntiquitiesXX, 5, 1) nos fala de um Teudas que 
viveu no tempo do procurador romano Cuspius Fadus, 
qtie foi indicado para essa função após a morte dc Hero- 
des Agripa (A . D . 44) alguns anos depois do discurso de 
Gamaliel, Judas (de Gamala), citado por Josefo e por 
Lucas, chefiou uma revolta (A .D .6) para protestar con­
tra o recenseamento feito no tempo de Quirino, governa­
dor da Síria; Josefo dá essa revolta como a origem dos 
zélotes que afinal precipitaram as guerras contra Roma. 
Assim, parece a muitos que Lucas não entendeu bem a 
Jòsefo e colocou Teudas antes de Judas. Temos algumas 
soluções possíveis: primeira, que Josefo laborasse em êr­
ro; segunda, que Josefo e Lucas se referissem a pessoas 
diferentes que usavam o nome comum, ou familiar, de 
Teudas; terceira, que o nome de Teudas, como o acha 
Blass, fôsse uma interpolação cristã no texto de Josefo. 
Parece que o problema é insolúvel, e Lucas foi um escri­
tor muito fiel para ser condenado assim num caso que 
aindã aguarda maiores luzes.
Os Hélenistas, os Hebreus, e os Sete (6:1-6)
“ 1 Ora, naqueles dias, crescendo o número dos 
r discípulos, houve uma murmuração dos helenistas
O LIVRO DE ATOS
contra os hebreus, porque as viúvas daqueles eram 
menosprezadas na distribuição diária. 2 E os doze, 
convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não 
é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sir­
vamos às mesas. 3. Escolhei, pois, irmãos, dentre 
vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espí­
rito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos 
dêste serviço. 4 Mas nós perseveraremos na oração 
e no ministério da palavra. 5 O parecer agradou a to­
dos, e escolheram a Estevão, homem cheio de fé e 
do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, 
Pármenas, e Nicolau, prosélito de Antioquia, 6 e os 
apresentaram perante os apóstolos; êstes, tendo ora­
do, lhes impuseram as mãos. ”
Helenistas e Hebreus. Não temos nenhuma base para 
afirmar que espaço de tempo foi coberto pelos cinco pri­
meiros capítulos do Livro dos Atos, mas evidentemente 
houve um bom lapso de tempo entre os capítulos 5 e 6. 
Respira-se outra atmosfera já no capítulo 6, visío que se 
faz distinção entre o elemento helenista (grego) e o ele­
mento hebreu. Embora discutido, presume-se que os he­
lenistas eram judeus que falavam o grego e que estavam 
residindo temporária ou permanentemente em Jerusalém, 
e que os hebreus eram judeus que falavam o aramaico. 
O hebraico era ainda a língua dos maiorais, ao passo que 
o aramaico era a língua falada pela maioria dos judeus da 
Palestina. O grego era a língua usada por muitos judeus 
que não moravam na Palestina.
Os helenistas é que forneciam os mais rigorosos estu­
dantes do Evangelho; dentre êles saíram também alguns 
dos maiores opositores do Evangelho, homens que, aler­
tados, viviam examinando tudo quanto o Evangelho sig­
nificava para as instituições judaicas. Homens como Es­
têvão e Felipe viram mais fàcilmente do que os doze
A .A . 9
130 FRANK STAGG
natureza espiritual e o alcance universal do evangelho. 
Os doze tinham sido educados numa atmosfera naciona­
lista e tradicionalisla. Mas, homens como Saulo de Tar­
so e êsses helenistas, cujos nomes não nos foram dados, 
perceberam logo que enfatizar a tradição e o nacionalis­
mo seria solapar algumas das suas mais caras instituições 
e que urgia dar por terra com o muro que separava judeu 
.« gentio. Compreende-se naturalmente que essas duas 
atitudes em atrito provinham dum mesmo fundo. A co­
munhão com um mundo mais vasto tornou liberais alguns 
judeus, e o particularismo dêles abriu caminho para o 
universalismo, visto que percebiam ser a humanidade bem 
mais importante do que a nação. Outros judeus, na mes­
ma situação, reagiram violentamente em favor da sua na­
ção, contra as outras, e resolveram reforçar a todo o custo 
o muro de separação.
Pedro e Estêvão. Que ironia! Aqueles que se julga­
vam tão ocupados com assuntos espirituais, a ponío de 
não poderem servir às mesas, fadaram em perceber aon­
de o Evangelho os devia levar. Os doze, que achavam que 
deviam dar todo o seu tempo “ à oração e ao ministério 
da palavra” , mostraram-se tardos em reconhecer que 
“ Deus não Se deixa levar por respeitos humanos” . 
Achavam que Estêvão, Filipe e cinco outros eram sufi­
cientemente mundanos (no bom sentido) para servir às 
mesas; mas, de certo modo — pelo menos Estêvão e Fili­
pe — alcançaram umâ visão mais nítida do Evangelho e 
se tornaram os líderes dum Cristianismo mais espiritual 
e menos legalista, que deveria abarcar tôda a humanidade 
e não somente uma nação.
Pedro e os outros apóstolos resolveram ser “ espiri­
tuais” e dedicar-se ao estudo da palavra, mas estavam 
amarrados pela tradição. Estavam construindo o judaís­
mo cristão em vez de edificar uma igreja de natureza es­
piritual e de visão universal. Estêvão e Filipe experimen­
O UVKO DE ATOS 131
taram a verdadeira liberdade sob o Espírito. Será que 
Pedro e os doze estavam tão interessados em suas institui­
ções que não enxergavam o povo? Pedro, por fôrça de 
sua última declaração (10:14 e 28), colocara as organiza­
ções da nacionalidade e os ritos judaicos muito acima da 
humanidade. Temos algumas provas de que êle amava 
naturalmente o povo, íôs^e qual fôsse; mas religiosamen­
te fôra educado no sentido de sempre considerar o gentio 
como um imundo, como um indivíduo com quem não se 
devia associar, nem ter a menor comunhão. Parece que 
êle não se sentia bem dentro daqueles preconceitos e da­
quele extremismo, e nem fazia disso tudo um cavalo de. 
batalha. Não obstante, achava difícil libertar-ne do temor 
que tinha de seus compatrícios, os quais julgavam ser o 
preconceito racial u’a marca distintiva de piedade e orto­
doxia. Já a Estêvão e a Filipe interessava prirtieiro a 
humanidade, não a raça ou a nacionalidade.
Isto nos faz lembrar a exclamação de Jesus, ao ver 
que o povo vivia como rebanho mal cuidado e disperso, e 
sem pastor — como um campo pronto para a ceifa, mas 
sem segadores (Mat. 9:36 em diante). Só compreendere­
mos bem o fato, ao lembrarmos que quando Jesus assim 
exclamou, ao ver o povo de Israel abandonado, pululava 
por tôda a Palestina uma verdadeira legião de o b r e i r o s 
religiosos, tanto clérigos como leigos. Ela contava com 
vinte mil sacerdotes, e com vários milhares de fariseus, 
saduceus, essênios, e doutras mais seitas. Milhares de 
chefes religiosos cuidavam das coisas relativas aos sába­
dos, à circuncisão, à lavagem de mãos, à separação dos 
gentios, à conservação do fogo no altar, etc., etc.; pou­
cos, porém, cuidavam do povo como povo.
Os Sete. Os sete foram ou não foram diáconos? Tem 
havido muita discussão sôbre êste assunto, porque os da­
dos que possuímos não são concludentes. Não agrada 
muito dizer-se .que êste problema é insolúvel, mas o or­
gulho deve ceder lugar à honestidade. Devemos admitir
132 FRANK STAGG
que não sabemos se os sete foram diáconos. São chama- 
dos “ os sete” (21:8), mas nunca “ diáconos” . Pode ser 
que os sete, como os doze, fôssem os únicos, e não tives­
sem sucessores. E’ certo que mais tarde os diáconos ti­
veram responsabilidades semelhantes, mas não podemos 
estabelecer nenhuma ligação real com os sete.
Foram os sete eleitos pela congregação (6:3, 5); esta 
é a primeira prova clara de que a autoridade pertencia 
à igreja como um todo. Es lá ela implícita, e não explíci­
ta, na escolha de Matias (1:23-26). Admite-se em geral 
que a imposição de mãos foi o ato de ordenação dos sete. 
No Velho Testamento impunham-se as mãos para várias 
finalidades como para abençoar, separar para o serviço, 
e para enviar o bode emissário ao deserto. Em cada um 
dêsses casos estava simbolizada a transferência de alguma 
coisa de um para outro. 0 Mishna (Sanh, iv, 4) nos infor­
ma que os membros do Sinédrio eram a êle admitidos pela 
imposição de mãos. 65 Essa prática entre os primeiros cris­
tãos sem dúvida passou a fazer parte dos. costumes judai­
cos, embora não saibamos claramente qual o seu significa­
do na praxecristã. E’ possível que simbolizasse transmis­
são de autoridade; se assim era, os apóstolos apenas agiam 
cm nome da congregação, cuja autoridade reconheciam. A 
congregação por sua vez agia em têrmos de sua compre­
ensão da vontade divina, que era a autoridade final na 
questão da eleição dos sete, fôsse qual fôsse a parte desem­
penhada pela congregação ou pelos doze.
Se nos apegarmos ao que gramàticalmente antecede 
ao relato bíblico, concluiremos que “ tôda a multidão” , e 
não apenas os apóstolos, “ impôs as suas mãos sôbre êles” 
(6:5-6). Achando que isto contraria suas pressuposições, 
vários comentaristas em geral deixam de lado o conteúdo 
gramatical, ou concluem que há aqui u’a “ mudança de 
assunto” .58 Mas, será Lucas, ou serão tais comentaristas
55. V er Bruce, op. cit., pg. 154.
56. Knowling, op. cit., p g , 172.
O LIVRO DE ATOS
que mudaram de assunto? Não podemos dogmatizar a 
respeito de quem impôs as mãos sôbre os sete. (Veja a 
discussão dos versículos de 1 a 3, do capítulo 13.)
Todos os sete tinham nomes gregos; mas isto não 
quer dizer que todos eram helenistas. Dois dos doze ■—■ 
Filipe e André — tinham também nomes gregos, e não 
eram helenistas. Há probabilidade, no entanto, de os sete 
terem sido helenistas. A tradição nos conta muitas coisas 
dêles, bem como dos doze, mas não são dignas de crédito. 
Nicolau é por alguns identificado como o fundador dos 
nicolaitas, citados no Apocalipse 2:16, mas há absoluta 
falta de provas. Lucas não estava profundamente inte­
ressado nos sete, nem mesmo no incidente que motivou 
a eleição dêles. Seu interêsse voltava-se mais para Estê­
vão e Filipe e para a contribuição dêstes em prol do movi­
mento cristão.
Afirmativa, em Resumo, da Magnitude do Judaísmo Cris­
tão (6:7)
“ 7 E, divulgava-se a palavra de Deus, de sorte que 
se multiplicava muito o número dos discípulos em 
Jerusalém e muitos sacerdotes obedeciam à fé .”
Êste parágrafo fecha a primeira divisão maior do 
Livro dos Atos, em que vemos o movimento cristão se 
expressando dentro do judaísmo. Conquanto se tivesse 
espalhado bastante em tôdas as direções, parece que êle 
só alcançara a judeus. (Os prosélitos faziam-se judeus 
antes de se fazerem cristãos.) Tanto que aquêles judeus 
cristãos sentiam-se em casa dentro das sinagogas e do tem­
plo, e st; mantinham fiéis à lei. Não há provas de terem 
ventilado a inclusão dos gentios incircuncisos. Podia-se 
pregar a Jesus como o Cristo tanto nas sinagogas como 
3)o templo. Embora os saduceus houvessem tentado es­
magar o movimento o alarma que fizeram e o insucesso
134 FRANK STAGG
que colheram serviram para enfatizar a magnitude do mo­
vimento e a sua popularidade entre os judeus. Lucas ago­
ra anota que “ os discípulos multiplicavam-se muito em 
Jerusalém” e que “ muitos sacerdotes obedeciam à fé” (6: 
7 ). Com certeza referia-se Lucas aos sacerdotes menores 
que tinham pouco amor pelos sumo sacerdotes. Tendo os 
apóstolos continuado a tomar parte nos cultos no tem­
plo (3:1), é provável que tais sacerdotes também conti­
nuassem a exercer o seu ministério no templo. Trata-se, 
pois, do judaísmo cristão, e o seu avanço tinha alcançado 
grande impulso até ali.
Então, subitamente, novos elementos surgem dentro 
do movimento, com implicações de maior vastidão para 
a causa e para os judeus. Estêvão e Filipe, talvez com 
outros mais, introduziram certas idéias que abalaram todo 
o movimento e o povo judeu. Êsses judeus gregos anun­
ciaram o caráter espiritual e universal do Evangelho. 
Os apóstolos aos poucos chegaram a reconhecer essa ver­
dade, e o resultado final foi a inclusão dos gentios incir- 
cuncisos e a auto-exelusão dos judeus. *
2* PARTE
0 Caráter Universal do Cristianismo Afir­
mado por Judeus Gregos e Gradativamente 
Reconhecido pelos Apóstolos
(6:8 a 12:25)
Estêvão — o Pioneiro do Universalismo e Seu Mártir 
(6:8 a 8:1a)
“ 8 Ora, Estêvão, cheio de graça e poder, fazia 
prodígios e grandes sinais entre o povo. 9 Levanta­
ram-se, porém, alguns que eram da sinagoga chama­
da dos libertos, dos cireneus, dos alexandrinos, dos da 
Cilicia e da Ásia, e disputavam com Estêvão; 10 e 
não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com 
que falava. 11 Então subornaram uns homens para 
que dissessem: Temo-lo ouvido proferir palavras blas­
femas contra Moisés e contra Deus. 12 Assim exci­
taram o povo, os anciãos, e os escribas; e, investin­
do contra êle, arrebataram-no e o levaram ao siné­
drio, 13 e apresentaram falsas testemunhas, que di­
ziam: Êste homem não cessa de proferir palavras 
contra êste santo lugar e contra a lei; 14 porque nós 
o temos ouvido dizer que êsse Jesus, o nazareno, há 
de destruir êste lugar e mudar os costumes que Moi­
sés nos legou. 15 Então todos os que estavam assen­
tados no sinédrio, fitando os olhos nêle, viram o seu 
rosto como o rosto de/um anjo.
7:1 — E disse o sumo sacerdote: Porventura 
são assim estas coisas? 2 Estêvão respondeu: Irmãos 
e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai 
Abrão, estando êle na Mesopotâmia, antes de habi­
tar em Harã, 3 e disse-lhe: Sai da tua terra e dentre
FRANK SXAGG
a tua parentela, e dirige-te à terra que eu te mostrar. 
4 Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã. 
Dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para 
esta terra onde vós agora habitais. 5 E não lhe deu 
herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prome­
teu que lhe daria a posse dela, e depois dêle à sua 
descendência, não tendo êle ainda filho. 6 Pois Deus 
disse que a sua descendência seria peregrina em terra 
estranha e que a escravizariam e maltratariam por 
quatrocentos anos. 7 Mas eu julgarei a nação que os 
tiver escravizado, disse Deus; e depois disto sairão, 
e me servirão neste lugar. 8 E deu-lhe o pacto da cir­
cuncisão; assim então gerou Abraão a Isaque, e o 
circuncidou ao oitavo dia; e Isaque gerou a Jacó, e 
Jacó aos doze patriarcas. 9 Os patriarcas, movidos 
de inveja, venderam a José para o Egito; mas Deus 
era com êle, 10 e o livrou de tôdas as suas tribula­
ções, e lhe deu graça e sabedoria perante Faraó, rei 
do Egito, que o constituiu governador sôbre o Egito 
e tôda a sua casa. 11 Sobreveio então uma fome a 
todo o Egito e Canaã, e grande tribulação; e nossos 
pais não achavam alimentos. 12 Mas tendo ouvido 
Jacó que no Egito havia trigo, enviou ali nossos pais 
pela primeira vez. 13 E na segunda vez deu-se José a 
conhecer a seus irmãos, e a sua linhagem tomou-se 
manifesta a Faraó. 14 Então José mandou chamar 
a seu pai Jacó, e a tôda a sua parentela — setenta 
e cinco almas. 15 Desceu, pois, Jacó ao Egito, onde 
morreu, êle e nossos pais; 16 foram transportados 
para Siquém e depositados na sepultura que Abraão 
comprara por certo preço em prata aos filhos de 
Emor em Siquém. 17 Ao passo que se aproximava o 
tempo da promesa que Deus tinha feito a Abraão, o 
povo crescia e se multiplicava no Egito; 18 até que 
se levantou ali outro rei, que não conhecia a José.
O jUVBO DE ATOS 137
19 Usando êsse de astúcia contra a nossa raça, mal­
tratou a nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus 
filhos, para que não vivessem. 20 Nesse tempo nas­
ceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três mê- 
ses em casa de seu pai. 21 Sendo êle enjeitado, a 
filha de Faraó o adotou e o criou como seu próprio 
filho. 22 Assim Moisés foi instruído em tôda a sa­
bedoria dos egípcios; e era poderoso em palavras e 
obras. 23 Ora, quando êle completou quarenta anos, 
veio-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de 
Israel. 24 E, vendo um dêles sofrer injustamente, de­
fendeu-o, e vingou o oprimido, matando o egípcio.
25 Cuidava que seus irmãos entenderiam que por 
mão dêle lhes havia de dar a liberdade; mas êles não 
o entenderam. 26 No dia seguinte apareceu-lhes quan­
do brigavam, e quis levá-los à paz, dizendo: Homens, 
sois irmãos; por que vos maltratais um uo outro?
27 Mas o que fazia injúria ao seu próximo o repeliu, 
dizendo: Quem te constituiu senhor e juiz sôbre nós?
28 Acaso queres tu matar-me, como ontem mataste 
o egípcio? 29A esta palavra fugiu Moisés, e tornou-se 
peregrino na terra de Midiã, onde gerou dois filhos. 30 
E, passados mais quarenta anos, apareceu-lhe um 
anjo no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo 
no meio de urna sarça. 31 Moisés, vendo isto, admi­
rou-se da visão; e, aproximando-se para observar, 
soou-lhe a voz do Senhor: 32 Eu sou o Deus de teus 
pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. E Moisés 
ficou trêmulo e não ousava olhar. 33 Disse-lhe então 
o Senhor: Tira as alparcas dos teus pés, porque o lu­
gar em que estás é terra santa. 34 Vi, com efeito, a 
aflição do meu povo no Egito, ouvi os seus gemidos, 
e desci para livrá-lo. Agora, pois, vem e enviar-te- 
ei ao Egito. 35 A êste Moisés que êles haviam repe­
lido, dizendo: Quem te constituiu senhor e juiz? a
138 FRANK STAGCr
êste enviou Deus como senhor e libertador, pela mão 
do anjo que lhe aparecera na sarça. 36 Foi êste que 
os conduziu para fora, fazendo prodígios e sinais na 
terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto, por 
quarenta anos. 37 Êste é o Moisés que disse aos fi­
lhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos ir­
mãos um profeta como eu. 38 Êste é o que estêve na 
congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no 
monte Sinai, e com nossos pais, o qual recebeu pala­
vras de vida para vo-las dar; 39 ao qual os nossos 
pais não quiseram obedecer, antes o rejeitaram, e em 
seus corações voltaram ao Egito; 40 dizendo a Arão: 
faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque a 
êsse Moisés que nos tirou da terra do Egito,, não sa­
bemos o que é feito dêle. 41 Fizeram, pois, naqueles 
dias o bezerro, e ofereceram sacrifício aos ídolos, e 
alegraram-se nas obras de suas mãos. 42 Mas Deus 
se afastou, e os abandonou ao culto das hostes do 
céu, como está escrito no livro dos profetas: Por­
ventura me oferecestes vítimas e sacrifícios por qua­
renta anos no deserto, ó casa de Israel? 43 Antes 
carregastes o tabernáculo de Moloque e a estrela 
do deus Renfã, figuras que vós fizestes para adorá- 
las . Desterrar-vos-ei, pois, para além da Babilônia.
44 Nossos pais tinham no deserto o tabernáculo do 
testemunho, como ordenara aquêle que disse a Moi­
sés que O fizesse segundo o modêlo que tinha visto;
45 o qual nossos pais, tendo-o por sua vez recebido, 
o levaram sob a direção de Josué, quando entraram 
na posse da terra das nações que Deus expulsou da 
presença dos nossos pais, até os dias de Davi, 46 que 
achou graça diante de Deus, e pediu que pudesse pro­
videnciar uma habitação para o Deus de Jacó. 47 En­
tretanto foi Salomão quem lhe edificou uma casa; 48 
mas o Altíssimo não habita em templos feitos por
O LIVRO DE ATOS 139
mãos de homens, como diz o profeta: 49 O céu é o 
meu trono, e a terra o escabêlo dos meus pés. Que 
casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual o lugar 
do meu repouso? 50 Não fêz, porventura, a minha 
mão tôdas estas coisas? 51 Homens de dura cerviz, 
e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre re­
sistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos 
pais, assim também vós. 52 qual dos profetas não 
perseguiram vossos pais? Até mataram os que dan­
tes anunciaram a vinda do Justo, do qual agora vos 
tornastes traidores e homicidas, 53 vós, que recebes­
tes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes. 
54 Ouvindo êles isto, enfureciam-se em seus corações, 
e rangiam os dentes contra Estêvão. 55 Mas êle, 
cheio do Espírito Santo, fitando os olhos no céu, viu 
a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus, 
56 e disse: Eis que vejo os -céus abertos, e o Filho 
do Homem em pé à direita de Deus. 57 Então 
êles gritaram com grande voz, taparam os ou­
vidos, e arremeteram unânimes contra êle, 58 e, 
lançando-o fora da cidade o apedrejavam. E as tes­
temunhas depuseram as suas vestes aos pés de um 
mancebo chamado Saulo. 5j9 Apedrejavam, pois, a 
Estêvão, que orava, dizendo: Senhor Jesus, recebe o 
meu espírito. 60 E, caindo de joelhos, clamou com 
grande voz: Senhor, não lhes imputes êste pecado, 
tendo dito isto, adormeceu. 61 E Saulo consentia 
na morte dêle.”
O Ministério e a Detenção de Estêvão. Estêvão, até 
onde os relatos nos informam, de todos os discípulos foi 
o primeiro a descobrir a relação do Cristianismo para 
com o mundo. Viu primeiro “ a natureza temporária e 
incidental da lei mosaica relativa ao templo e a todo o 
seu culto.” 1 Reconheceu que gentios e judeus deveriam
1. Rackham, op. cit., pg. 97.
140 FRANK STAGG
unir-se como irmãos em Cristo. Ousou ver, e ousou fa­
lar nisso. Assim fazendo, deu a sua vida, mas inaugu­
rou uma nova era da História Cristã. Sua obra era niti­
damente revolucionária e ia de arrepio à formação de 
seus compatrícios e condiscípulos. Foi, porém, fiel no 
plano de Cristo.
Não está claro se Lucas tinha em mente uma ou 
várias sinagogas de Jerusalém (6:9). A gramática não 
esclarece se se trata aqui dum grupo cosmopolita cons­
tituindo uma única sinagoga, ou de mais de uma sina­
goga. O que está claro é que as idéias apresentadas por 
Estêvão receberam violenta reação da parte dos judeus 
helenistas, ao ponto de amotinarem o povo e os anciãos 
contra Estêvão.
Estêvão foi acusado de “ palavras blasfemas contra 
Moisés e contra Deus” (6:11). E’ fácil a gente confun­
dir-se com Deus, e é fácil também acusar de blasfemo 
àquele que faz pouco de nossas idéias favoritas. Estêvão 
abertamente atacou o orgulho nacional e condenou os 
preconceitos raciais. Preferindo viver no seu acanhado 
mundo, aquêles judeus resolveram silenciar Estêvão. 
-Não podendo “ resistir à sabedoria e ao Espírito com 
que Estêvão falava” , lançaram mão da violência. E’ 
muito fácil apelar para os preconceitos do povo, e foi 
o que êles fizeram. Acusaram a Estêvão perante o con­
cílio de “ estar sempre dizendo palavras contra o lugar 
santo e a lei” (6:13). Em parte a acusação era verda­
deira, não passando, porém, de capciosa interpretação 
do que Estêvão dizia. A defesa de Estêvão (cap. 7) re­
vela claramente a posição dêle na questão.
A Defesa de Estêvão. 0$ estudiosos encontram duas 
dificuldades especiais no discurso de Estêvão. A primei­
ra quanto a numerosos problemas históricos, e a segun­
da quanto à importância do discurso em relação às 
acusações que lhe foram feitas.
Desde os primeiros séculos se notou haver vários
problemas de natureza histórica neste discurso. A com­
paração dêste discurso com o Velho Testamento nos põe 
diante de dois problemas: o primeiro, de aparentes dis- 
cordâncias; e o segundo, de matérias contidas no discur­
so que não encontramos no Velho Testamento. Para 
muitos dêstes problemas não encontramos nenhuma res­
posta satisfatória.2 Algumas dessas diferenças mui pro- 
vàvelmente indicam que ainda não estava definitivamen­
te fixado pelo século primeiro o texto do Novo Testa­
mento. Estêvão por certo citava alguns ensinos rabíni- 
cos do seu tempo. Conquanto não nos satisfaça o dei­
xar sem resposta êsses problemas, vemos que êles pouco 
têm que ver com a significação do discurso.
Coisa bem mais importante é considerarmos a im­
portância do discurso para aquela ocasião. Alguns co­
mentadores meio abruptamente concluem que o discurso 
não tem pés nem cabeça e que foge às acusações feitas. 
Tal conclusão é absurda e deixa transparecer um estudo 
superficial e lamentável falta de compreensão dos itens 
que interessavam a Estêvão (e Lucas).
Estêvão respondeu às acusações, e foi ainda além ao 
assinalar a natureza espiritual e universal da verdadeira 
religião. Disseram que êle estava falando contra “ o 
lugar santo” e “ contra a lei” , e êle tratou dessas duas 
alegações. Êle pôs em dúvida a intepretação judaica do 
“ lugar santo” e a importância que davam ao templo. 
Demonstrou que êles tinham violado a verdadeira fôrça 
da própria lei que alegavam defender. O único que real­
mente houvera guardado a lei foi Jesus.
Estêvão, numa revisão da história dos hebreus, de­
2. Para um estudo detalhado disto, é bom consultar o Commentary, pg. 71 
a 83, de Lake e Cadbury, e a obra citada de Raekham, p g . 99-102. Tera, o pai 
deAbraão, morreu depois de êste ter deixado Harã, ou depois? (V e r Atos 7:2 
em diante com Gênesis 11:26, 32; 1 2 :4 ) . Israel esteve sob o cativeiro egípcio 
400 cu 430 anos? (V er Atos 7:6 com Gênesis 15:13 e Êxodo 12:40.) A fam ília 
de Jac6 era de 75 ou de 70 almas? (V er Atos 7:14 com Gên. 46:26, Êxodo 1:5; 
Deut. 1 0 :2 2 ). Êstes são apenas alguns dos muitos problemas contidos neste ca­
pitulo.
O LIVRO DE ATOS 141
143 FRANK SXAGG
monstrou que Deus nunca se limitara a uma terra e nem 
mesmo ao templo de Jerusalém. “ Lugar santo” era 
qualquer lugar onde Deus pudesse ser encontrado. Mui­
tas das mais caras experiências de seus pais tiveram lu­
gar fora da Palestina. Assim, foi na Mesopotâmia que 
Deus primeiro falou a Abraão (7:2 ) . Abraão nunca na 
realidade possuirá “ nem sequer o espaço de um pé” de 
terra em Canaã (7:5). Lake e Cadbury anotam que “ a 
fôrça do argumento parece visar destruir o conceito de 
que a promessa divina envolvia a posse da Terra San­
ta .” 3 A promessa feita a Abraão referia-se não tanto à 
terra que seria possuída, ou herdada, e sim à libertação 
do Egito e à liberdade para adoração (7:7 ) . 4 Os patriar­
cas nasceram antes de Canaã ser possuída. “ E dêste 
modo” os patriarcas nasceram antes que houvesse um 
“ lugar santo” . A tradução “ assim então” , do versículo 
8, perde a ênfase, pois no grego encontramos um advér­
bio de modo que deve ser traduzido assim: “ dêste mo­
do” , i. é., “ sob estas circunstâncias” .
Jacó viveu grande parte de sua vida no Egito, e ali 
morreu, como o fizeram todos os seus filhos (7:15). 
Mais tarde Jacó foi enterrado em Siquém, da desprezada 
Samaria (7:16). Moisés nasceu no Egito, foi criado pela 
filha de Faraó, e instruído segundo a sabedoria dos egíp­
cios (7:20-22). Poderíamos perguntar se Moisés, o le­
gislador, acaso foi conspurcado pela terra e pelo povo 
do Egito! Èle peregrinou em Midiã e ali gerou dois fi­
lhos (7:29). E Estêvão podia ainda acrescentar que a 
mulher de Moisés era filha dum sacerdote midianita 
(Êxodo 2:16-22)! Moisés viveu antes das reformas de 
Esdras que impunham o divórcio compulsório a todos 
os casados com estrangeiros (Esdras 10:11). Foi no 
Monte Sinai, na Arábia, que Moisés recebeu a lei, e foi 
rIí também que Deus lhe falou e disse: “ o lugar em que
3. Lake e Cadbury, Commentary, p g . 72.
4. L oc. cit.
O LIVRO DE ATOS 143
estás é terra santa” (7:33). Estava claro, então, que 
Deus nunca Se limitara a uma terra só; nenhuma terra 
era “ santa” por si mesma.
Acusaram Estêvão de haver dito que Jesus destrui­
ria “ êste lugar” — o templo. Sem dúvida alguma, Jesus 
e Estêvão falaram da destruição do templo; mas seus 
acusadores tomaram o texto sem o contexto e o torce­
ram. Estêvão apresentou o fato de que o templo não 
representava o plano original de Deus; Êle dera instru­
ções para o tabernáculo (7:44), que servia melhor como 
simbolo de Sua presença. O tabernáculo não ficava prê- 
so a nenhum país e simbolizava melhor a presença uni­
versal de Deus. A Salomão se permitiu construir o tem­
plo; mas, quando foi dedicado, Deus tornou bem claro 
que Êle não podia ser limitado pelo templo (7:48-50).
Estêvão teve também bastante cuidado em lembrar 
que Isráel repetidamente se mostrara disposto a rejeitar 
o Espirito Santo e os profetas. Os sacerdotes, limitando 
a religião aos ritos, e os partícularistas apelando para o 
orgulho e os preconceitos raciais, sempre convenciam o 
povo, e êste acabava matando os profetas. Mui freqüen­
temente há por tôda a parte uma cegueira voluntária 
para com a verdade e também o espírilo reacionário se 
manifesta à presença de qualquer movimento novo. Os 
patriarcas tinham inveja de José e o venderam para o 
Egito (7:9). Os ouvintes de Estêvão não teriam dificul­
dade alguma em tirar a conclusão de que fôra a sua in­
veja para com Jesus que os levara a entregá-IO aos ro­
manos. A irmandade de Moisés estava estranhamente 
cega ante o seu grande libertador (7:25), assim comô 
aqueles dos dias de Estêvão estavam cegos para com Jer 
sus, o verdadeiro libertador (ver 7:35-37). A lei do ódio, 
pela qual a cegueira voluntária afunda um povo ainda 
em cegueira maior, estivera operando em Israel (7:38- 
43) . E essa mesma lei se ia manifestar nõs dias de Es­
têvão.
144 FRANK STAGG
Por fim, Estêvão disse abertamente, em acusação 
direta, que seus acusadores estavam voluntariamente ce­
gos e estavam violando a mesma lei de que se diziam 
defensores (7:53). Êles, como seus pais, sempre resis­
tiam ao profeta que ousasse verberar o seu particular 
modo de vida. Em Jesus, a religião do Espirito se encon­
trara com a religião da letra, dos rituais, do nacionalis­
mo e particularismo estreitos. Em Estêvão, a mensagem 
de Jesus estava sendo novamente proclamada. Os ju­
deus haviam clamado: “ Crucifique-se a Jesus.” Agora, 
clamavam: “ Apedreje-se a Estêvão.”
Estêvão Martirizado. “ Rangendo os dentes contra 
Estêvão” , êste olhou e viu a Jesus “ de pé, à direita de 
Deus” (7:54). Estêvão se referiu a Jesus como “ o Fi­
lho do homem” , fato assaz significativo (7:56). Somente 
aqui em o Novo Testamento é que alguém chama a Je­
sus como “ o Filho do homem” . Êste era o título fa­
vorito que Jesus dava a Si mesmo, e é coisa muito sig­
nificativa que Estêvão pensasse então assim em Jesus 
naquela hora. Jesus aceitara o título de “ Messias” , mas 
não encorajava Seus discípulos a usá-lo porque sugeria 
aos judeus uma espécie de glorificação da nação israeli­
ta. Êle preferiu o título que sugeria o Seu parentesco 
com a humanidade. Êle viera como o Salvador do mun­
do, e não para colocar uma nação num plano especial 
de privilégios.
Aceita-se hoje em geral que o significado básico de 
“ Filho do homem” era homem no sentido de humanida­
de . Em Daniel, esta figura representava o povo que cons­
titui os santos do Altíssimo, ou o verdadeiro povo de 
Deus, não identificado com o Israel nacional. Isto cor­
responde à idéia do restante. Mas, o Filho do homem, 
sendo o restante e o Servo Sofredor, reduz-se finalmen­
te a uma pessoa, Jesus. Êle, e só Êle, provou ser o Fi­
lho do homem. Na cruz estêve sozinho; o verdadeiro
O LIVRO DE ATOS 145
Iiomem só existiu nÊle. Mas Jesus não foi só o Filho 
do homem. Êle veio para criar o Filho do homem. To­
dos quantos, de que raça ou nação fôrem, entrarem 
em união com Êle, serão o Filho do homem. Assim, por 
gradativa eliminação (humanidade, o Israel nacional, o 
restante, Jesus), o Filho do homem só se cumpriu em 
Jesus. Em seguida, por inclusão, os discípulos de Jesus 
tornaram-se com Êle o Filho do homem. Há outras ana­
logias bíblicas (Servo Sofredor, restante, verdadeiro Is­
rael, a igreja, o corpo de Cristo) para a mesma idéia, 
mas, ao que parece, esta é a mais empregada por Jesus 
e reconhecida por Estêvão. (*)
Não está claro se a multidão aqui referida era de 
linchamento ou se se trata duma execução legal. A at­
mosfera em grande parte sugere tratar-se dum movi­
mento da multidão; o ordenado depositar de vestes aos 
pés de Saulo nos sugere uma execução regular. As evi­
dências não decidem isto. Importa notar o Espírito 
de Estêvão ao morrer, dizendo: “ Senhor, não lhes impu­
tes êste pecado” (7:60). Quase sempre é verdade que 
a bondade e a gentileza pertencem aos herejes, mas fal­
tam elas estranhamente a muitos dos defensores da fé. 
Aquêles que julgam estar servindo a Deus, em lançando 
mão da fôrça física ou legal, na perseguição aos herejes, 
não passam de meros egoístas que pensam ser Deus.
Saulo de Tarso estava junto de Estêvão quando 
êste foi apedrejado. E’ possível que êle fizesse parte do 
grupo que nada conseguira na discussão com Estêvão 
na sinagoga. Saulo, como bom fariseu, estaria furioso 
com um Evangelho que se intrometia com o “ muro de
ic Para um cuidadoso estudo dêste assunto, veja The Teaching of Jesus da 
T. W . Munson (seg. edição, Cambridge University Press, 1948) págs. 227-236; 
O . Cullmarm, em Königsherrschaft Christi und Kirche im Neuen Testament 
(dritte Auflage, Evangelischer VerlagA . G. Zullikon — Zürich, 1959), p g . 
37 em diante; e C . H . Dodd, em The Interpretation of the Fourth Gospel 
(Cambridge, University Press, 1953), p g . 241-249.
A .A . 10
146 FRANK STAGG
separação” ; mas, após sua conversão, tornou-se o prin­
cipal expositor daquilo por que Estêvão deu a vida.
Nova Perseguição por Saulo, o Fariseu 
(8-lb-3)
“ 1 b Naquele dia rompeu uma grande persegui­
ção contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos, 
exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da 
Judéia e da Samaria. 2 E uns liomens piedosos sepul­
taram a Estêvão, e fizeram grande pranto sôbre êle. 
3 Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas ca­
sas e, arrastando homens e mulheres, os entregava 
à prisão. ”
Os fariseus agora estavam em campo e assumiam 
a chefia do movimento perseguidor. Os saduceus estavam 
amedrontados ante aquilo que ju gavam ser uma potencial 
revolta messiânica contra Roma. Isto deixou impassí­
veis os fariseus; mas, a ênfase dada por Estêvão ao ca­
ráter espiritual da religião e ao interêsse de Deus pela 
humanidade em detrimento da nação, ou da raça, era 
coisa insuportável para êles. 0 orgulho nacionalista e 
os preconceitos de raça, mascarados de ortodoxia e pie­
dade, inauguraram uma inquisição e perseguição de na­
tureza animalesca. “ Assolava” (8:3) é verbo que nos 
dá uma pálida idéia da ação de Saulo. Êste devastava 
a igreja como um animal selvagem. 0 zêlo religioso dêle, 
não obstante seu elemento de sinceridade, era paixão 
cega que se expressava com condenável sadismo.
A afirmativa de Lucas, de que todos foram disper­
sos “ exceto os apóstolos” (8:1) tem deixado perplexos 
muitos leitores dos Atos. Êste dado, porém, adapta-se 
perfeitamente ao padrão do livro todo. Esta nova per­
seguição sob a chefia de Saulo tinha um caráter inteira­
mente diverso e visava um grupo especifico: o de todos
O LIVRO DE ATOS 147
quantos ousavam admitir a idéia liberal de Estêvão. Pro- 
vàvelmente os doze não foram molestados então, porque 
não pregavam nada que ofendesse os defensores do “ muro 
de separação” . Os doze permaneciam ainda judeus — 
judeus cristãos. Estavam no templo e nas sinagogas co­
mo se estivessem em casa, e estavam também ainda aguar­
dando que “ o Senhor restaurasse o reino a Israel” (1:6). 
Nenhuma das iniciativas de pregar-se o Evangelho aos 
samaritanos ou aos gentios foi tomada pelos doze. Aqui­
lo que Filipe realizou com alegria e calor os doze inves­
tigaram com ansioso cuidado. Só aos poucos, grada ti- 
vamente, é que os doze acertaram o caminho — ou vi­
ram-se forçados a admitir as verdades pelas quais Es- 
iêvão chegou a dar sua vida e as quais Filipe entusiàsti- 
camente anunciava.
Pergunta-se como foi possível desencadear-se uma 
perseguição destas em território governado por Roma. 
Lake e Cadbury sugerem que “ mesmo que fôsse verda­
de que a lei romana a proibisse, podia bem dar-se o caso 
de a administração romana ser conivente com aquilo.” 5 
0 próprio Paulo reconheceu as perseguições (Gál. 1: 
13, 22; I Cor. 15:9; Fil. 3:6; I Tim. 1:13), conquanto 
as declarações de suas Cartas não afirmem que eram 
“ para morte” . Parece que Roma guardava para si a 
sentença de morte, e que o sinédrio tinha também al­
guma autoridade de sentenciar à morte quando se trata­
va de questões religiosas, devendo, porém, tal sentença 
ser submetida à aprovação de Roma.
O entêrro de Estêvão foi feito provàvelmente por 
judeus devotos que não eram cristãos. Não devemos es­
quecer que havia judeus não cristãos que condenavam 
a cegueira que assassinou a Estêvão. Também devemos 
lembrar que os pioneiros do universalismo eram judeus.
5. Lake e Cadbury, em Commentary, pg. 86.
148 IKANK STAGG
Jesus era judeu; os profetas que vieram antes dÊle eram 
de Israel,6 e os homens, como Estêvão, que O seguiram 
eram também judeus. Eram judeus (ou israelitas) que 
\iram que o monoteísmo tinha como seu inevitável co­
rolário o universalismo; um só Deus exigia um mundo 
só. Lucas nos narra a triste história dêsses judeus amar­
rados a um acanhado credo racista e cegados pelo or­
gulho e preconceitos; mas também nos fala de judeus 
que indicaram novos rumos para a humanidade. Os 
anti-semitas modernos devem lembrar disto.
Filipe Prega Livremente aos Samaritanos e ao Etíope
(8:4-40)
, Filipe em, Samaria (8:4-13)
“ 4 No entanto os que foram dispersos iam por 
tôda parte, anunciando a palavra. 5 E descendo Fili­
pe à cidade de Samaria, pregava-lhes a Cristo. 6 As 
multidões escutavam, unânimes, as coisas que Filipe 
dizia, ouvindo-o e vendo os milagres que operava; 
7 pois saíam de muitos possessos os espíritos imun­
dos, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e co­
xos foram curados; 8 pelo que houve grande alegria 
naquela cidade.
9 Ora, estava ali certo homem chamado Simão, 
que vinha exer-cendo naquela cidade a arte mágica, 
fazendo pasmar o povo de Samaria, e dizendo ser 
êle um grande homem; 10 ao qual todos atendiam, 
desde o menor até o maior, dizendo: Êste é o Poder 
de Deus que se chama Grande. 11 Êles o atendiam 
porque já desde muito tempo os vinha fazendo pas­
mar com suas artes mágicas. 12 Mas, como cressem 
em Filipe, que lhes pregava acêrca do reino de Deus 
e do nome de Jesus, bafizavam-se, homens e mulhe­
6. A palavra “ judeu’ * não pode ser empregada corretamrnta paro indicar 
o período anterior ao exílio.
O LIVRO BE ATOS 149
res. 13 E creu até o próprio Sinião, e, sendo batiza­
do, ficou de contínuo com Fíiipe; e admirava-se, ven­
do os sinais e os grandes prodígios que se faziam.”
As palavra traduzida por “ dispersos” é têrmo usa­
do para indicar sementeira, semeadura. A verdade do 
provérbio nasceu disto: “ O sangue dos mártires é a se­
menteira da igreja.” Esta perseguição dos cristãos re­
dundou em lucro.
Filipe, um dos gregos, pregou livremente aos sama- 
ritanos. Isto é coisa admirável quando lembramos a 
amargura que separava naqueles dias os judeus dos sa- 
maritanos. Êstes eram desprezados por haverem mistu­
rado o seu sangue através de casamentos com pessoas 
que não pertenciam a Israel. Como se haviam esqueci­
do então de que tôda a raça humana se mistiçara? 0 
Velho Testamento claramente mostra que houve sempre 
casamentos mistos até o tempo de Esdras. Moisés casou- 
se com uma midianita; Jacó teve filhos de Bilha e de 
Zilpa, servas de Raquel e de Léia (Gên. 29:24, 29); Judá 
ieve filhos, Er e Onã, duma mulher cananita (Gên. 38: 
2-4); os filhos de José nasceram de Asená, filha do sacer­
dote (ou príncipe) de On (Gên. 41:45); Davi era des­
cendente de Rute, u’a moabita; Salomão teve inúme­
ras mulheres estrangeiras; e assim por diante. A longa 
lista de casamentos mistos que temos no capítulo dez de 
Esdras nos dá uma idéia da grande extensão de tais casa­
mentos . Mas o orgulho e os preconceitos não olham para 
os fatos, e preferem incentivar os interêsses egoísticos, 
mesmo à custa de fícções. A atitude dos samaritanos não 
era nada melhor que a dos judeus. Nem era única tam­
bém, porque a estupidez dos preconceitos é peculiar à 
raça humana e dela faz parte.
Simão, o Mago, deveria ter engendrado um sistema 
de emanação, julgando-se “ o poder de Deus” . A natureza 
exata de seus ensinos não nos é clara. Era um mágico,
150 FRANK STAGG
e tinha u’a multidão de seguidores. Justino, o Mártir, 
julgou que houvesse em Roma uma estátua em homena­
gem a êle; mas hoje sabemos que Justino se enganou 
quanto à inscrição. Julgam os pais da igreja, dos séculos 
segundo e terceiro, que êste Simão do Livro dos Atos foi 
o fundador duma seita gnóstica, mas não está provado. 
E’ certo, porém, que êle representava um falso espiritua­
lismo que ficou assim desmascarado. A verdadeira reli­
gião do Espírito ficou claramente exposta como bem dis­
tinta do falso espiritualismo. Êste Simão “ creu” e foi 
batizado. Êle aceitou como fatos os milagres realizados 
por Filipe, e também como fato o Poder que estava por 
trás daqueles sinais. Contudo, não se “ converteu” . A ra­
zão básica, antes e depois que “ creu” , foi o egoísmo.Mes­
mo em religião êle tentou satisfazer seus interêsses egoís­
tas, e para êles êstes não passavam de uma sublimação 
da própria essência da depravação. Nada entendia da 
Cruz com sua abnegação. Não mostrou o menor desejo 
de “ ser crucificado com Cristo” .
Pedro em Samaria (8:14-25)
“ 14 Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusa­
lém, tendo ouvido que os de Samaria haviam recebi­
do a palavra de Deus, enviaram-lhes a Pedro e a João; 
15 os quais, tendo descido, oraram por êles, para 
que recebessem o Espírito Santo. 16 Porque sôbre 
nenhum dêles havia Êle descido ainda; mas somente 
tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus. 
17 Então lhes impuseram as mãos, e êles receberam 
o Espírito Santo. 18 Quando Simão viu que pela 
imposição das mãos 'dos apóstolos se dava o Espíri­
to, ofereceu-lhes dinheiro, 19 dizendo; Dai-me tam­
bém a mim êsse poder, para que aquêle a quem eu 
impuser as mãos, receba o Espírito Santo. 20 Mas 
disse-lhe Pedro: Vá tua prata contigo à perdição, pois
O L IV R O DE ATOS 151
cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. 21 
Tu não tens parte nem sorte neste ministério, por­
que o teu coração não é reto diante de Deus. 22 
Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao 
Senhor para que porventura te seja perdoado o pen­
samento do teu coração; 23 pois vejo que estás em 
fel de amargura, e em laços de iniqüidade. 24 Res­
pondendo, porém, Simão, disse: Rogai vós por mim 
ao Senhor, para que nada do que haveis dito venha 
sôbre mim. 25 Êles, pois, havendo testificado e fala­
do a palavra do Senhor, voltando para Jerusalém 
evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos. ”
Os apóstolos ainda permaneciam em Jerusalém quan­
do Filipe levou o Evangelho aos samaritanos. Ainda que 
simpatizando aparentemente com o desenvolvimento, os 
apóstolos não o iniciaram. Admira-nos notar que aque­
les samaritanos creram e “ foram batizados em nome do 
Senhor Jesus” (8:12, 16), sem haverem recebido o Espí­
rito Santo (8:15). A convicção de pecado ou a disposição 
para se confiar em Jesus indica sempre um esforço do 
Espírito junto ao espírito humano. E’ possível que Lu­
cas quisesse dizer que nao se tratava de ü’a manifestação 
do Espírito igual àquela do Pentecostes, enquanto Pedro 
e João não tinham realizado a imposiçãó de mãos sôbre 
êles. Se isto é verdade, então podemos ver aqui um mo­
delo: houve no dia de Pentecostes um grande derrama­
mento do Espírito Santo em Jerusalém; e houve derra­
mamentos semelhantes quando foram alcançados os sa­
maritanos, os gregos tementes a Deus em Cesaréia, e os 
discípulos de João Batista em Éfeso. 7 Cada uma dessas 
significativas etapas do desenvolvimento foi divinamente 
legalizada. Não se pode concluir desta passagem dos Atos 
que a imposição das mãos dos apóstolos fôsse coisa in­
dispensável ao recebimento do Espírito Santo. A história
7. V er Rackham, op. c i t„ pg. 117.
iS ã e^ANK SXAGG
que se segue a esta, nos relata a conversão do etíope — 
sem a presença de qualquer apóstolo, e sem qualquer alu­
são à imposição de mãos; não obstante, o Espírito Santo 
desceu certamente sôbre o etíope. Também o Espírito 
Santo desceu sôbre Cornélio e sôbre os que com êle esta­
vam sem que houvesse a imposição de mãos.
Conquanto Deus deseje honrar a fé pura e também 
o simbólico ato da imposição das mãos, é fato que êsse 
dom de Deus não pode ser negociado (8:20). A tentativa 
de Simão, de comprar êsse Poder, deixou claro que o co­
ração dêle não era reto para com Deus, e êle não se ar­
rependeu. Simão havia descido a tais profundezas da 
depravação que em seu egocentrismo tentou adquirir o 
poder de Deus para promover interesses egoísticos. O 
cúmulo da depravação é essa disposição de se colocar o 
eu no lugar que só a Deus pertence, e essa iniqüidade tem 
sua expressão mais crua quando invade o terreno da reli­
gião para buscar o auxílio dela na exaltação do ego.
E’ prova de progresso na atitude de Pedro e João o 
fato de pregarem o Evangelho em muitas aldeias dos sa- 
maritanos (8:25). João certa vez desejara botar fogo ne­
las (Lucas 9:54). O grego, do original, indica que êste é 
o princípio dum novo parágrafo e que os versículos 25 e
26 estão ligados. Isto quer dizer que êste “ êles” inclui 
Filipe. 8 Isto provàvelmente explica o esforço adicional 
junto aos samaritanos.
Desimpedido: O Eunuco Etíope, um Grego Temente a Deus
(8:26-40)
“ 26 Mas um anjo do Senhor falou a Filipe, di­
zendo: Levanta-te, e vai em direção do sul pelo ca­
minho que desce de Jerusalém a Gaza, o qual está 
deserto. 27 E levantou-se êle e foi; e eis que um etío-
8. Lake e Cadbury, Commentary, pg. 95.
O LIVRO DE ATOS 153
pe, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos 
etíopes, o qual era superintendente de todos os seus 
tesouros e tinha ido a Jerusalém para a d o r a r , 28 re­
gressava, e sentados no seu. carro, lia o profeta Isaías,
29 Disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a 
êsse carro. 30 E., correndo Filipe, ouviu que lia o 
profeta Isaías, e disse: Entendes, porventura, o que 
estás lendo? 31 Êle respondeu: Pois como poderei 
entender, se alguém não me ensinar? e rogou a Fi­
lipe que subisse e com êle se sentasse. 32 Ora, a pas­
sagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi 
levado como a ovelha ao matadouro, e, como está 
mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim êle 
não abre a bôca. 33 Na sua humilhação foi tirado 
o seu julgamento; quem contará a sua geração? por­
que a sua vida é tirada da terra, 34 Respondendo o 
eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o 
profeta? de si mesmo, ou de algum outro? 35 Então 
Filipe, abrindo a bôca e começando por esta escritura, 
anunciou-lhe a Jesus.36 E, indo eles caminhando, 
chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: 
Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? 37 
E disse Filipe: E’ líçito se crês de todo o coração. 
E, respondendo êle, disse: Creio que Jesus Cristo é 
o Filho de Deus. 38 Mandou parar o carro, e desceram 
ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e aquêle 
o batizou. 39 Quando sairam da água, o Espírito do 
Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco, 
que jubiloso seguia o seu caminho, 40 Mas Filipe 
achou-se em Azôto e, percorrendo tôdas as cidades,; 
vinha pregando o Evangelho, até que chegou a Ce- 
saréia. ”
Isto marca a terceira grande área alcançada pelo 
Evangelho: primeiro os judeus somente; depois, os sama- 
ritanos, que eram de sangue mestiço; e agora, os gregos
154 FRANK STAGG
tementes a Deus. 0 etíope e Cornélio são representantes 
dêste terceiro grupo. Eram gentios que estudavam o ju­
daísmo, mas que ainda não se tinham tornado prosélitos. 
0 quarto grupo, os pagãos sem qualquer experiência do 
judaísmo, deveria ser ainda alcançado. O carcereiro de 
Filipos seria o primeiro representante dêste úllimo grupo.
0 etíope era um grego temente a Deus. Não se de­
clara que êle não era judeu, mas isso está por certo implí­
cito. Fôra a Jerusalém a adorar (8:27) e estava lendo 
a septuaginta — o Velho Testamento em grego — já de 
volta para a Etiópia (Abissínia).
Havia um grande grupo de gentios que eram chama­
dos de “ tementes a Deus” . Sentiam-se atraídos para o 
judaísmo por causa do seu monoteísmo, de sua moral ele­
vada e de seus ensinos moralizadores. Muitos tinham 
perdido a fé nos deuses do império, e sentiam-se mal com 
a imoralidade resultante dos cultos pagãos. Grande nú­
mero de gentios voltou-se para as sinagogas. Alguns in­
gressaram no judaísmo com prosélitos, e outros ficavam 
como que às portas. Para tornar-se prosélito, o candida­
to devia circuncidar-se, batizar-se e oferecer certos sacri­
fícios. Também devia admitir que o judaísmo era tanto 
uma nação como uma religião. O prosélito tornava-se 
parte da nação judaica e também da religião judaica. O 
etíope e Cornélio pertenciam ao grupo dos tementes a 
Deus. A primitiva expansão do Cristianismo se proces­
sou entre os dêste grupo. O Cristianismo oferecia o mes­
mo monoteísmo, os mesmos padrões morais, e mais ain­
da: não exigia que êles se identificassem comum grupo 
nacionalista e particularista.
O entusiasmo de Filipe ao pregar ao etíope contrasta 
fundo com a relutância de Pedro em pregar a Cornélio. 
Filipe “ correu para êle” (8:30) e não perdeu tempo, con­
tando-lhe logo “ as boas novas de Jesus” (8:35), começan­
do pela passagem de Isaías.
O LIVRO DE ATOS 155
O ponto principal que Lucas mais desejava apresen­
tar parece estar contido na pergunta do etíope, quando 
disse: “ Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?” 
O etíope certamente havia encontrado impedimentos para 
circuncidar-se e fazer-se judeu. Era eunuco, e dada a sua 
mutilação física mui provàvelmente lhe tinham negado 
o privilégio de tornar-se um prosélito do judaísmo. De­
vemos lembrar disto à luz do ponto de vista sacerdotal 
expresso em Deuteronômio 23:1. 0 ponto de vista profé­
tico era bem diverso (Isaías 56:3 em diante), mas pro­
vàvelmente não prevalecia frente ao sacerdotal. A posi­
ção em Isaías não garantia inteira admissão como prosé­
lito, e sim uma bênção especial para quantos observassem 
o sábado. O interêsse do eunuco, agora, visto que Filipe 
o levara a uma nova experiência religiosa, se voltava para 
a técnica que poderia impedir fôsse êle batizado: “ Que 
há que possa impedir seja eu batizado?” Filipe nada tinha 
a dizer sôbre a raça, a nacionalidade, a mutilação física, 
ou sôbre qualquer outra coisa de natureza exterior, arti­
ficial, ou superficial. O que Filipe esperava era a prova 
de que o etíope confiava em Jesus; e, logo que a obteve, 
batizou-o. 9 Um gentio temente a Deus, impedido de tor­
nar-se judeu em virtude duma mutilação física, podia fa­
zer-se discípulo de Jesus. Era uma questão de experiência 
espiritual, e não de raça ou de ritos.
“ Desimpedidamente” é a exclamação final dos dois 
volumes de Lucas. O etíope também estava “ desimpedi­
do” em seu pedido de batismo. A pergunta — “ Que me 
impede?” — traz a mesma palavra, no original grego, 
com que se fecha o Livro dos Atos. Aqui a palavra é um 
verbo — koluei; a palavra final dos Atos é um advérbio —
9. Os peritos em crítica textual admitem, todos, que o versículo 37 não fax par­
te dos melhores manuscritos. O versículo diz assim (com certas variações nos 
m anuscritos): “ E F ilipe disse: "S e crêres de todo o coração, é l í c i t o / ' E êfa 
respondeu: ‘ Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.” ' Conquanto o ver»l-
culo seja indubitavelmente uma adição co texto, feita por algum escriba, êle 
interpreta acuradamente o pensamento dé Filipe e do etiope.
156
(
FRANK STAGG
akolutos. A idéia expressa por estas palavras é justamen­
te a coisa pela qual Lucas mais se mostrava interessado. 
Êle narrou a história de como o Evangelho foi libertado 
e de como êle libertou homens de tôdas as classes e raças. 
“ Desimpedido” foi o assunto que o empolgou. Só pode­
rá apreciá-lo bem aquêle que também é libertado — do 
pecado, do ego, do estreito nacionalismo, do provinciona- 
lismo e do particularismo, bem como do orgulho e dos 
preconceitos raciais — e quando em Cristo Jesus se sen­
te ligado à humanidade e à eternidade!
Estivesse Lucas interessado em traçar a expansão geo­
gráfica do Cristianismo, teria aqui uma ótima oportuni­
dade. Que é que aconteceu na Etiópia, após o regresso 
do eunuco? Lucas deixa a narrativa neste ponto, deixa 
cair o pano, porque seu interêsse estava voltado para 
outras coisas. A êle não interessavam as barreiras geográ­
ficas, e sim as nacionais, raciais, legais e ritualistas.
A Conversão de Saulo, Sua Comissão, e como Foi Recebido
(9:1-30)
A Conversão de Saulo (9:1-9)
“ 1 Saulo, porém, respirando ainda ameaças e 
mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao 
sumo sacerdote, 2 e pediu-lhe cartas para Damasco, 
para as sinagogas, a fim de que, caso encontrasse al­
guns do Caminho, quer homens quer mulheres, os 
conduzisse presos a Jerusalém. 3 Seguindo viagem 
e aproximando-se ide Damasco subitamente o cercou 
um resplendor de luz do céu, 4 e, caindo em terra, 
ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que 
me persegues? 5 Êle perguntou: Quem és tu, Senhor? 
Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu per­
segues; 6 mas levanta-te e entra na cidade, e lá te 
será dito o que te cumpre fazer. 7 Os homens que 
viajavam com êle quedaram-£e emudecidos, ouvindo,
O LIVRO DE ATOS 157
na verdade, a voz, mas não vendo ninguém. 8 Saulo 
levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via coisa 
alguma; e, guiando-o pela mão, conduziram-no a 
Damasco. 9 E estêve três dias sem ver, e não comeu 
nem bebeu.”
Êste é o primeiro dos três relatos da conversão de 
Saulo no Livro dos Atos (caps. 22 e 26). Em suas Car­
tas Paulo reconhece que “ perseguiu a igreja de Deus vio­
lentamente e tentou destruí-la” (Gál. 1:13; Fil. 3:6), 
que foi extremadamente zeloso pelas tradições de seus pais 
(Gál. 1:14), que seus primeiros dias de cristão passou-os 
ao redor de Damasco (Gál. 1:17), que viu a Jesus, nosso 
Senhor (I Cor. 9:1; 15:8), e que teve uma notável visão 
(II Cor. 12:1 em diante). Conquanto encontremos pe­
quenas diferenças nesses relatos,10 não há dúvida de que 
Saulo se encontrou com o Senhor ressurrecto perto de 
Damasco e que ali seu caráter e vida se transformaram. 
O “ velho homem” foi esmigalhado e cedeu lugar ao novo 
Iiomem em Cristo.
Saulo era um judeu de Tarso, cidade de grande cul­
tura, e, em todo o império, sobrepassada somente por Ate­
nas e Alexandria. Mui dificilmente êle teria escapado à 
influência da cultura grega, embora como fariseu (Fil. 
3:5) seja improvável tenha êle estudado em escolas gre­
gas. Conquanto judeu helenista, por virtude da cultura 
grega a que não pôde escapar, por escolha e por tradição 
familiar era “ um hebreu nascido de hebreus” (Fil. 3:5). 
Tinha facilidade em usar o hebraico, o aramaico e o gre­
go . Sua família era bastante rica e assaz proeminente ao 
ponto de alcançar para êle o privilégio de estudar aos pés
10. Surge um problema quando comparamos Ates 9:7 — "ouvindo a voz, mas 
não vendo ninguém” — e Atos 22:9 — “ não ouviram a voz do que falava com i­
g o ’ ’ . Pode, no entanto, scr resolvido pela gram áfea grega: em 9 :7 o caso ge­
nitivo vem após a palavra “ ouvindo” ; em 22:9 aparece o caso acusativo, com 
o dito verbo. O acusativo usualmente trtz a idéia de entender, quando o genitivo 
p^de sòmente refletir a percepção do som. Pcdemo^ fazer esta distinção no 
grego e possivelmente se tencionava isto nos Ates. Porém, deve admit’r-se que 
no grego do N ovo Testamento nem sempre se mantém esta distinção.
158 FRANK STAGG
de Gamaliel, o grande fariseu de Jerusalém. A irmã de 
Saulo residia em Jerusalém e parece que tinha acesso às 
famílias dos sumo sacerdotes (Atos 23:16 em diante). 
Por nascimento era cidadão romano; é provável que o 
pai dêle tivesse sido honrado com êsse direito da cidada­
nia em paga de importantes serviços prestados. Seu nome 
hebreu era Saulo, muito semelhante ao nome latino Pau- 
lus, que êle usava como cidadão romano. Como soía acon­
tecer com todos os filhos de judeus bem educados, êle 
devia ter uma profissão. Provàvelmente Saulo era fa­
bricante de tendas. 11
Certamente várias influências concorreram para a for­
mação do Apóstolo Paulo: seu fundo judaico, a influên­
cia grega, seu contato antes da conversão com os segui­
dores de Jesus, bem como outras fôrças e fatores. Sem 
dúvida, o elemento mais importante em sua conversão e 
viver subseqüente foi o seu encontro pessoal com o pró­
prio Jesus. O cerne da teologia de Paulo foi essa relação 
“ em Cristo” , ou o “ Cristo em vós” . 12 Para Paulo, como 
para João, a união vital de Cristo com o crente era coisa 
real e de importância total. E essa convicção estava radi­
cada na experiência que tivera de Jesus em Damasco.
Muitas vêzes se tem levantado dúvidas acerca da pos­
sibilidade de se efetuarem prisões em Damasco por parte 
dum representante do sinédrio de Jerusalém. Isto parece 
ter sido permitido, visto que Roma concedera aos judeus 
o direito de extraditar os judeus malfeitores. 13 Se pode­
mosacreditar em I Macabeus 15:15-21, fôra escrita uma 
carta por Lúcio, cônsul dos romanos, ao rei Ptolomeu, 
dizendo que “ se qualquer perverso fugisse do seu país 
(o dos judeus) para o vosso, o entregasse ao sumo sacer­
dote Simão para que o punisse conforme a lei dêles.” (*)
11. V eja abaixo, pg. 262.
12. Veja o excedente estudo cíêste assunto em A Man in Christ, de Jcm es S. 
Stewart (Londres, Hodder & Stoughton, 1935) .
13. V eja Lake Cadbury, Commentary, pg. 99.
*k Vers. 21, em The Apocrypha, an Am erican Trans^aiiov, de Edgar J . Gcod- 
gpeed (Chicago, The University o f Chicago Press, 1939) .
O LIVRO DE ATOS 15»
E’ verdade que isto diz respeito à época dos Macabeus; 
mas é possível que êsse mesmo poder de extraditar judeus 
fugitivos fôsse ainda um direito do sinédrio nos dias de 
Saulo.' Josefo (Antiquities xiv, 10,2) fala duma carta que 
prova que Júlio César estendera os privilégios do ofício 
do sumo sacerdote a Hircano. Possivelmente Paulo pre­
tendia prender os seguidores de Jesus que tinham fugido 
à perseguição desencadeada em Jerusalém.
Saulo Comissionado e Batizado (9:10-19a)
“ 10 Ora, havia em Damasco certo discípulo cha­
mado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ana- 
nias! Respondeu êle: Eis-me aqui, Senhor. 11 Orde­
nou-lhe o Senhor: Levanta-te, vai à rua chamada Di­
reita e procura em casa de Judas um homem de Tar­
so chamado Saulo; pois eis que êle está orando; 12 
e viu um homem chamado Ananias entrar e impor- 
lhe as mãos, para que recuperasse a vista. 13 Res­
pondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi acerca dêsse 
homem, quantos males tem feito aos teus santos em 
Jerusalém; 14 e aqui tem poder dos principais sacer­
dotes para prender a todos os que invocam o teu 
nome. 15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque 
êste é para mim um vaso escolhido, para levar o meu 
nome perante os gentios, e os reis, e os filhos de Is­
rael; 16 pois eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre 
padecer pelo meu nome. 17 Partiu Ananias e entrou 
na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, 
o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por 
onde vinhas, enviou-me para que tornes a ver e seja.s 
cheio do Espírito Santo. 18 Logo lhe cairam dos olhos 
como que umas escamas, e recuperou a vista; e, le­
vantando-se, foi batizado. 19 E, tendo tomado ali­
mento, ficou fortalecido.”
Os seguidores de Jesus que moravam em Damasco 
ainda não se tinham separado das sinagogas. Ananias,
FRANK STAGG
que foi enviado ao encontro de Saulo, era “ um varão pie­
doso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos 
os judeus que ali moravam” (22:12). Parece que só mais 
tarde é que surgiu a hostilidade dos judeus para com os 
discípulos de Jesus.
A comissão de Saulo é coisa mui significativa: deve­
ria levar o Evangelho “ aos gentios, e reis, e aos filhos de 
Israel” (9:15). 0 seu ministério deveria ser proeminen­
temente exercido entre os gentios, embora sem exclusão 
dos judeus. Paulo jamais deixou de interessar-se pelos ju­
deus e nunca deixou de procurar ganhá-los. Só quando 
se viu forçado a escolher entre o judeu e o gentio, é que 
resolveu voltar-se para o gentio. O desejo dêle era servir 
nos dois como a um povo só. Seu ministério incluía tam­
bém levar o Evangelho a reis, procônsules, asiarcas, e 
possivelmente ao imperador. Paulo sentia-se bem tanto 
junto ao povo humilde da lide diária como junto dos che- 
íes nacionais. A comissão dêle também incluía a cruz: 
teria que sofrer por seu Senhor (9:16).
“ Caíram-lhe dos olhos como que umas escamas” (9: 
18) em Dámasco. Saulo viu a Jesus pela primeira vez, 
em Sua verdadeira posição. Viu também a humanidade 
a uma luz inteiramente nova. Aquêle cujo teor de vida 
êle houvera tentado destruir agora Se tornava Senhor 
dêle. E’ também de enorme importância e significado ob­
servar que os olhos dêle se abriram para enxergar a fa­
lácia do dito “ muro de separação” que êle buscava sus­
tentar .
A Recepção de Saulo em Damasco e em Jerusalém 
(9:19b-30)
“ 19b Depois demorou-se alguns dias com os dis­
cípulos que estavam em Damasco; 20 e logo nas si­
nagogas pregava que Jesus era o Filho de Deus. 21
O LIVRO DE ATOS 161
Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Não é 
êste o que em Jerusalém perseguia os que invocavam 
êsse nome, e para isso veio aqui, para os levar pre­
sos aos principais sacerdotes? 22 Saulo, porém, se 
fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que 
habitavam em Damasco, provando que Jesus era o 
Cristo. 23 Decorridos muitos dias, os judeus delibe­
raram entre si matá-lo. 24 Mas as suas ciladas vie­
ram ao conhecimento de Saulo. E como êles guarda­
vam as portas de dia e de noite para tirar-lhe a vida, 
25 os discípulos, tomando-o de noite, desceram-no 
pelo muro, dentro de um cêsto. 26 Tendo Saulo che­
gado a Jerusalém, procurava juntar-se aos discípu­
los, mas todos temiam, não crendo que fôsse discí­
pulo. 27 Então, Barnabé, tomando-o consigo, o le­
vou aos apóstolos, e lhes contou como no caminho 
êle vira o Senhor e que êste lhe falara, e como em 
Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus.
28 Assim andava com êles em Jerusalém, entrando 
e saindo, 29 e pregando ousadamente em nome do 
Senhor. Falava e disputava também com os hele- 
nistas; mas êles procuravam matá-lo. 30 Os irmãos, 
porém, quando o souberam, acompanharam-no até 
Cesaréia e “ o enviaram a Tarso.”
Depois de alguns dias, certamente de ajustamento e 
para conhecer seus novos correligionários, Saulo nas si­
nagogas anunciava a Jesus como o Filho de Deus (9:20). 
Todos quantos o ouviam pasmavam ao verem a mudança 
radical por que Saulo passara. Evidentemente aquêles 
que “ pasmavam” eram judeus incrédulos. Importa ob­
servar que ainda neste ponto, tanto em Damasco como 
em Jerusalém, os discípulos realizavam seus cultos nas 
sinagogas e que nelas podia-se pregar a Jesus como o Filho 
de Deus e o Cristo.
A situação, porém, se mudou "quando se passaram
li
163 FRANK STAGG
muitos dias” (9:23). Aí tramaram uma cilada para ma­
tar a Saulo. 14 Por que tal mudança de atitude dos ju­
deus incrédulos? Evidentemente Saulo trouxera um novo 
elemento às suas predicas em Damasco. O pregar que 
Jesus era o Cristo, o Filho de Deus, certo não precipita­
ria nenhuma perseguição, mas neste ponto, algo do ensino 
de Saulo ifêz boa diferença. Será que Saulo estava incutin­
do algo das elevadas visões de Estêvão naquele ambiente 
de Damasco? Não foi o fato de se pregar que Jesus era o 
Cristo, o Filho de Deus, que afinal iria dividir os judeus 
dos cristãos, e sim o pregar-se ser Êle o Filho do Homem 
e-m Quem seriam suplantadas as diferenças raciais.
O mêdo que os discípulos de Jerusalém tinham de 
Saulo nos dá mais uma prova de que as perseguições que 
estavam sofrendo eram assaz violentas. Barnabé mos­
trou-se, -como sempre, corajoso e sincero, e Saulo lhe ficou 
devendo muito por isso. O atrito maior que Saulo teve em 
Jerusalém foi com os helenistas, e êle certamente já espe­
rava isso. Como dantes se percebera, as influências rece­
bidas pelos judeus helenistas poderiam torná-los mais li­
berais para com os gentios, ou poderiam incutir nêles um 
espírito reacionário que faria dêles os mais fanáticos cam­
peões da separação.
Plaz e Crescimento (9:31)
“ 31 Assim, pois, tinha a igreja paz em toda a Ju- 
déia, Galiléia e Samaria, e era edificada; e, andando 
no temor do Senhor e na consolação do Espírito San­
to, se multiplicava.”
Vários fatores devem ter-se conjugado para propinar 
paz à igreja de “ tôda a Judéia, Galiléia e Samaria” . No
14. Lucas não faz referência alguma aos anos <*ue Saulo passou na Arábia 
(Gál. 1 :1 7 ), bem como silencia a respeito da idade de Saulo. Lucas não está fa ­
zendo a biografia de Saulo. O versículo 23 pode ser uma velada referência ao 
tempo passado na A rábia .
O LIVRO DE ATOS 163
ano 38 desencadeou-se uma perseguição contra os judeus 
em Alexandria, e no ano 39 o imperador Calígula orde­
nou que sua estátua fôsse colocada no templo. Êsses ter­
ríveis acontecimentos naturalmente desviaram a atenção 
para outrosetor que não o dos cristãos. Mas, a remoção 
de Saulo para Tarso foi talvez o maior fator. Quando ho­
mens da têmpera de Estêvão, de Filipe e de Saulo esta­
vam fora do cenário, os discípulos tinham poucas difi­
culdades com os judeus incrédulos (ver Atos 21:17-26).
Nos melhores manuscritos encontramos a palavra 
“ igreja” no singular, conquanto haja forte base para o 
plural “ igrejas” . O singular encara os discípulos como 
uma nova humanidade em Cristo, ou o corpo de Cristo, 
sem qualquer referência a um sistema eclesiástico. Ò 
plural indica corporações locais separadas. O Novo Tes­
tamento usa a palavra “ igreja” somente nesses dois sen­
tidos: indicando ou a assembléia local, ou o todo da Cris­
tandade, sem referência à organização.
Os Apóstolos São Levados a Reconhecer os Gentios Incir-
cuncisos
(9:32 a 11:18)
Pedro em Lida e Jope (9:32-43)
“ 32 E aconteceu que, passando Pedro por tôda 
parte, veio também aos santos que habitavam em 
Lida. 33 Achou ali certo homem, chamado Enéias, 
que havia oito anos jazia numa cama, pprque era pa­
ralítico. 34 Disse-lhe Pedro: “ Enéias, Jesus Cristo 
te sara; levanta-te e faze a tua cama. E logo se le­
vantou. 35 e viram-no todos os que habitavam em 
Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.
36 Havia em Jope uma discípula por nome Ta- 
bita, que em grego quer dizer Dorcas, a qual estava
164 FRANK STAGG
cheia de boas obras e esmolas que fazia. 37 Ora, 
aconteceu naqueles dias que ela caiu doente e mor­
reu; e, tendo-a lavado, a colocaram no cenáculo. 38 
Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos 
que Pedro estava ali, enviaram a êle dois homens, 
rogando-lhe: Não te demores em vir ter conosco. 
39 Pedro levantou-se e foi com êles; assim que che­
gou, levaram-no ao cenáculo; e tôdas as viúvas o cer­
caram, chorando e mostrando-lhe as túnicas e vesti­
dos que Dorcas fizera enquanto estava com elas. 40 
Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pôs-se de joelhos 
e orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, le­
vanta-te . Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou- 
se. 41 Êle, dando-lhe a mão, levantou-a e, chamando 
os santos e as viúvas, apresentou-lha viva. 42 Tor­
nou-se isso notório por tôda Jope, e muitos creram 
no Senhor. 43 Pedro ficou muitos dias em Jope, em 
casa de um curtidor chamado Simão.”
O ministério de cura serve para voltarmos novamen­
te a atenção para Pedro e aqueles com quem estêve intima­
mente associado. Os milagres eram atos de misericórdia e 
instrumentos para a conversão de muitos. Não há referên­
cia nenhuma aqui a ifátos perturbadores nesta festa do tra­
balho. Hospeidando-se na casa dum curtidor, cuja lide com 
couros era considerada “ imunda” , vemos que Pedro pro­
gredira um bocado em sua atitude quanto às purificações 
ritualistas, ou tinha em si uma inata indiferença para com 
certos escrúpulos bem importantes aos olhos dos ritua­
listas. Também isso pode indicar que, longe da influên­
cia dos extremados ritualistas, Pedro preferia ser libe­
ral.
À Visão de Cornélio (10:1-8)
“ 1 Um homem de Cesaréia, por nome Cornélio, 
çenturião dp coorte chaijiada italiana, 2 piedpso e t§-
O LIVRO DE ATOS 165
mente a Deus com, tôda a sua casa, e que fazia mui­
tas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus, 3 
cêrca da hora nona do dia, viu claramente em visão 
um anjo de Deus, que se dirigia para êle e lhe dizia: 
Cornélio! 4 Êste, fitando-o atemorizado, perguntou: 
Que é, Senhor? O anjo respondeu-lhe: As tuas ora­
ções e as tuas esmolas têm subido para memória dian­
te de Deus; 5 agora, pois, envia homens a Jope e man­
da chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro; 
6 êste se acha hospedado com um certo Simão, cur­
tidor, cuja casa fica à beira-mar. 7 Logo que se reti­
rou o anjo que lhe falava, Cornélio chamou dois dos 
seus domésticos e um piedoso soldado dos que esta­
vam ao seu serviço; 8 e, havendo-lhes contado tudo, 
os enviou a Jope.”
Muitas vêzes se afirmou que, pregando a Cornélio 
Pedro abriu a porta para os gentios. 15 Esta afirmativa 
contém inverdades e meias verdades. Inescusàvelmente 
ela deixa de lado muitos fatos que Lucas enfatiza. Deve­
mos notar primeiro que Cornélio, embora gentio, era tam­
bém um varão temente a Deus, como o eunuco etíope, e 
não um pagão como o carcereiro de Filipos; segundo, que 
Pedro não foi o primeiro a ganhar para Cristo uma pes­
soa temente a Deus, pois que Filipe fêz isso com alegria 
e ansiedade que envergonham a relutância e o mêdo de 
Pedro; terceiro, que Estêvão deu a própria vida pela tese 
do universalismo e do caráter espiritual da verdadeira re­
ligião bem antes de Pedro pregar timidamente a Cornélio.
Cornélio pertence ao terceiro grande grupo alcança­
do pelo Evangelho. Havendo começado com os judeus e 
prosélitos do judaísmo, depois alcançou os samaritanos, 
e depois os tementes a Deus como o etíope e Cornélio. 
Lucas está por traçar ainda a entrada do Evangelho no
15. V er Rackham, op. cit., p g , 141; Bruce, op% cit., p g . 277, para se perceber 
as confusões típicas sôbre êste assunto.
166 FRANK STAGrG-
último grupo que representa o crasso paganismo não con­
dicionado pelas leis da sinagoga.
Cornélio era um centurião romano devotado ao estu­
do do judaísmo, mas não era um prosélito; não fôra cir­
cuncidado (ver 11:3). Os centuriões gozam de bom nome 
em o Novo Testamento como também na história de 
Roma. Comandava cem homens da coorte italiana; a 
coorte completa incluía 600 soldados. Cornélio não fazia 
segrêdo de seus sentimentos religiosos e influenciava para 
o bem a quantos privassem com êle. Dava liberalmente 
esmolas “ para o povo” , i. é ., para os judeus, e orava 
constantemente a Deus (10:2).
A Visão de Pedro em Jope (10:9-23a)
“ 9 No dia seguinte, quando êles seguiam cami­
nho e já se aproximavam da cidade, subiu Pedro ao 
terraço para orar, cêrca da hora sexta. 10 E tendo 
fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a 
comida, sobreveio-lhe um êxtase, 11 em que viu o 
céu aberto, e um objeto descendo, como se fôra um 
grande lençol que, suspenso pelas quatro pontas, vi­
nha baixando à terra, 12 no qual havia de todos os 
quadrúpedes e répteis da terra e aves do céu. 13 E 
uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come.
14 Mas Pedro respondeu: De modo nenhum, Senhor, 
porque nunca comi coisa alguma comum e impura.
15 Pela segunda vez lhe falou a voz: Não chames tu 
comum ao que Deus purificou. 16 Sucedeu isto por 
três vêzes; e logo foi o objeto recolhido ao céu. 17 
Enquanto Pedro refletia, perplexo, consigo mesmo 
sôbre o que seria a visão que tivera, eis que os ho­
mens enviados por Cornélio, tendo perguntado pela 
casa de Simão, pararam à porta. 18 E, chamando, in­
dagavam se ali estava hospedado Simão, que tinha
O LIVRO DE ATOS 167
por sobrenome Pedro. 19 Estando ainda Pedro a me­
ditar sôbre a visão, o Espírito lhe disse: Eis que 
dois homens te procuram. 20 Levanta-te, pois, des­
ce e vai com êles, nada duvidando; porque eu tos 
enviei. 21 E descendo Pedro ao encontro dêsses ho­
mens, disse: Sou eu a quem procurais; qual é a causa 
que vos traz aqui? 22 Êles responderam: O centurião 
Cornélio, homem justo e temente a Deus e que tem 
bom testemunho de tôda a nação judaica, foi avisa­
do por um santo anjo para te chamar à sua casa 
e ouvir as tuas palavras. 23 Pedro, pois, convidando- 
os a entrar, os hospedou.”
O profeta Jonas fugira para Jope, buscando escapar 
da missão para Nínive, cuja destruição êle desejava. Êle 
não tomou nenhuma iniciativa no sentido de pregar aos 
gentios, mas foi forçado a fazê-lo. Pedro se achou em 
Jope quase na mesma situação. Pela atividade missioná­
ria de outros e por causa do progresso do movimento cris­
tão, viu-se forçado a dar atenção aos gentios.
Em vindo a visão, e ouvindo êle a ordem de matar 
e comer daquela mistura de animais “ puros” e “ impu­
ros” , Pedro abruptamente protestou dizendo que nunca 
comera qualquer coisa “ comum e impura” (10:14). Será 
que êle não guardara nada do que Jesus ensinara quando 
insistira em afirmar que “ nada há, fora do homem,que, 
entrando nêle, possa contaminá-lo” (Marcos 7:15) ?! Desta 
declaração de Jesus conclui-se que Êle “ declarou limpos 
todos os alimentos” (Marcos 7:19); mas Pedro usou em 
menoscabo a palavra “ comum” que, com outro significa­
do, descrevia a linda fraternidade dos santos de Jerusa­
lém: “ E todos os que criam estavam unidos e tinham tudo 
em comum” (2:44).
Foi dito a Pedro que “ parasse de chamar de comum” 
(esta é a fôrça do original grego) aquilo que Deus puri­
ficara (10:15). Embora a visão se repetisse por três vê-
168 FRAM v STAGG
zes, Pedro ainda ficou perplexo quanto ao que ela podia 
significar. Havia tido grandes oportunidades como se­
guidor de Jesus e conhecia a obra pioneira de homens 
como Estêvão e Filipe; não obstante, Pedro só se deu por 
vencido e somente cedeu à luz, depois de fortemente pre­
mido. Seu progresso foi penosamente vagaroso e lento.
Pedro e Comélio (10:23b-48)
“ 23b No dia seguinte levantou-se Pedro e partiu 
com êles, e alguns irmãos, dentre os de Jope, o acom­
panharam. 24 No outro dia entrou em Cesaréia. E 
Cornélio os esperava, tendo reunido os seus parentes 
e amigos mais íntimos. 25 Quando Pedro ia entrar, 
veio-lhe Cornélio ao encontro e, prostrando-se a seus 
pés, o adorou. 26 Mas Pedro o ergueu, dizendo: Le­
vanta-te que eu também sou homem. 27 E conver­
sando com êle, entrou e achou muitos reunidos, 28 e 
disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um ju­
deu ajuntar-se ou achegar-se a estrangeiros; mas 
Deus mostrou-me que a nenhum homem devo cha­
mar comum ou impuro; 29 pelo que, sendo chamado, 
vim sem objeção. Pergunto pois: Por que razão man­
dastes chamar-me? 30 Então disse Cornélio: Faz 
agora exatamente quatro dias que eu estava orando 
em minha casa à hora nona, e eis que diante de mim 
se apresentou um homem com vestiduras resplande­
centes, 31 e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, 
e as tuas esmolas estão em memória diante de Deus. 
32 Envia, pois, a Jopee manda chamar a Simão, que 
tem por sobrenome Pedro; êle está hospedado em 
casa de Simão, curtidor, à beira-mar. 33 Portanto 
mandei logo chamar-te, e bem fizeste em vir. Ago­
ra, pois, estamos todos aqui presentes diante de Deus, 
para ouvir tudo que foi ordenado pelo Senhor. 34 En­
tão Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade re-
O U V BO DE ATOS 169
coüheço que Deus não faz acepção de pessoas; 35 
mas lhe é aceitável aquêle que, em qualquer nação, 
o teme e pratica o que é justo. 36 A palavra que êle 
enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por 
Jesus Cristo (êste é o senhor de todos) — 37 esta pa­
lavra, vós bem sabeis, foi proclamada por tôda a Ju- 
déia, começando pela Galiléia, depois do batismo que 
João pregou, 38 concernente a Jesus de Nazaré, como 
Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder; o 
qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e 
curando a todos os oprimidos do Diabo, porque Deus 
era com êle. 39 Nós somos testemunhas de tudo quan­
to fêz, tanto na terra dos judeus como em Jerusalém; 
ao qual mataram, pendurando-o num madeiro. 40 A 
êste ressuscitou Deus ao terceiro dia e lhe concedeu 
que se manifestasse, 41 não a todo o povo, mas as 
testemunhas predeterminadas por Deus, a nós, que 
comemos e bebemos juntamente com êle, depois que 
ressurgiu dentre os mortos; 42 o qual nos mandou 
pregar ao povo, e testificar que êle é o -que por Deus 
foi constituído juiz dos vivos e dos mortos. 43 A êle 
todos os profetas dão testemunho de que todo o que 
nêle crê receberá por seu nome a remissão dos pe­
cados. 44 Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, 
desceu o Espírito sôbrc todos os que ouviam a pala­
vra. 45 Os crentes que eram da circuncisão, todos 
quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se 
de que também sôbre os gentios se derramasse o dom 
do Espírito Santo; 46 porque os ouviam falar línguas 
e magnificar a Deus. 47 Respondeu então Pedro: 
Pode alguém porventura recusar a água para que 
não sejam batizados êstes que também, como nós, 
receberam o Espírito Santo? 48 Mandou, pois, que 
fôssem batizados em nome de Jesus Cristo. Então 
lhe rogaram que se demorasse ali alguns dias.”
170 FRANK STAGG
A ansiedade de Cornélio e a relutância de Pedro são 
aqui contrastadas de modo assaz chocante. Cornélio teve 
sua visão cêrca da hora nona (três da tarde) e enviou logo 
seus mensageiros. Viajaram de Cesaréia a Jope (cêrca de 
trinta milhas) até ao meio-dia do dia seguinte. Cornélio 
deixou de parte todos os outros negócios e por quatro 
dias esperou a chegada de Pedro (10:30). Estava tão in­
teressado que reuniu em sua casa seus parentes e amigos 
íntimos (10:24). Ao contrário, Pedro parecia movimen­
tar-se como empurrado por um dever. A demora inicial 
até o dia seguinte pode ser justificada, pois que os envia­
dos de Cornélio necessitavam repousar e Pedro precisa­
va aprontar-se para a viagem do dia seguinte. Mas levava 
quase dois dias a viagem de Jope a Cesaréia. Enquanto 
Cornélio ansiosamente buscava congregar outras pessoas 
para ouvir o Evangelho, Pedro ocupava-se em arranjar 
testemunhas de defesa a fim de proteger sua reputação, 
levando-as consigo a Jope e mais tarde a Jerusalém (10:
23 e 11:12).
A relutância de Pedro em entrar na casa de Cornélio 
é fortemente contrastada com a alegria de Filipe ao entrar 
no carro do etíope. Pedro não deixou de fazer referência 
à irregularidade daquele ajuntamento, e disse: “ Vós bem 
sabeis que não é lícito a um judeu ajuntar-se ou chegar- 
se às pessoas de outra nação” (10:28). A palavra grega 
aqui traduzida por “ não lícito” realmente sugere a viola­
ção da “ ordem das coisas divinamente estabelecida” ou 
“ a quebra de um tabu” . 15 A tradução não deixa claro ou­
tro contraste entre Filipe e Pedro. O Espírito disse a Fili­
pe: “ Vai e ajunta-te a êsse carro” (8:29). Pedro protes­
tou dizendo que era profanar-se um judeu “ em ajuntar- 
se” a uma pessoa doutro país. Usa-se nos dois casos a mes­
ma palavra. Filipe alegrou-se por poder juntar-se ao carro 
do etíope, ao passo que Pedro anotou a irregularidade de
16. Lake e Cadbury, Commentary, pg, 117.
O LIVRO DE ATOS 171
juntar-se àqueles “ estrangeiros” . Note-se ainda que Pe­
dro faz questão de se dizer “ judeu” (10:28).
Pedro justificou sua presença na casa de Cornélio, 
coisa condenada pelos costumes judaicos, afirmando que 
Deus lhe havia mostrado que não devia êle chamar a ne­
nhum homem de comum ou imundo (10:28). Sua afir­
mativa seguinte é de pasmar:, “ Pelo que, sendo enviado, 
vim sem objeção. Pergunto, pois, por que razão mandas­
tes chamar-me?” Que evangelização era essa! Não obstan­
te, ainda encontramos comentadores bíblicos que conti­
nuam a dizer que foi Pedro quem abriu a porta aos gen­
tios! Melhor seria afirmar-se que os gentios abriram a 
porta a Pedro, para que êle entrasse num mundo mais 
largo!
Tendo Cornélio, relatado sua experiência e afirmado 
que seus familiares e amigos estavam todos reunidos para 
ouvir o que o Senhor tinha ordenado a Pedro que lhes 
dissesse, êste começou a falar. Reconheceu Pedro que 
agora estava percebendo (literalmente — apanhando) que 
Deus não mostra nenhuma parcialidade (10:34). Estêvão 
já fôra martirizado por ter visto essa imparcialidade de 
Deus. Enquanto Pedro falava “ o Espírito Santo desceu 
sôbre todos os que ouviam a palavra” (10:44). Os crentes 
dentre os circuncidados. . . ficaram pasmos, porque se 
derramara também sôbre os gentios o dom do Espírito 
Santo” (10:45).
“ Desimpedido” é novamente o glorioso clímax. Pe­
dro, ouvindo que falavam em línguas e louvavam a Deus, 
perguntou: “ Pode alguém proibir a água para que se ba­
tize esta gente que recebeu, como nós, o Espírito Santo?” 
(10:47). A palavra proibir é o infinitivo (kolusai), que 
corresponde ao advérbio (akolutos) final do
Livro dos Atos. A mesma idéia aparece na pergunta do 
etíope: “ Que proíbe (que impede) (koluei) seja eu bati­
zado?” O etíope estava desimpedido. Aqui Pedro conclui
i n PRANK STAGG
que aqueles que estavam com Cornélio não deviam ser 
impedidos. 0 grito final de vitória deLucas é êste — 
“ Desimpedido” .
A mensagem de Pedro (10:34-43) é um dos melhores 
exemplos da primitiva prédica apostólica. Os seus elemen­
tos essenciais assemelham-se àqueles a cujo redor girava 
tôda a pregação inicial do Cristianismo: o ministério li­
gado ao de João Batista, a morte por crucifixão, a ressur­
reição pela qual se reinterpreta a morte de Jesus, as apa­
rições às testemunhas escolhidas, o julgamento, o testemu­
nho dos profetas, o convite à decisão da fé, e a oferta do 
perdão. 17 f
As “ línguas” em Cesaréia provàvelmente podem ser 
melhor interpretadas como semelhantes às línguas em 
Corinto: eram provàvelmente elocuções de transportes de 
êxtase. No Pentecostes as línguas eram inteligíveis àque­
les que respondiam ao Espírito, e foram compreendidas 
por muitos grupos lingüísticos. Parece que não havia esta 
necessidade em Cesaréia porque todos podiam entender 
a mesma língua. Talvez devamos entender êste derrama­
mento do Espírito Santo como paralelo àquele que se deu 
em favor dos tementes a Deus por ocasião do derrama­
mento sôbre os judeus no dia do Pentecostes.
Convém fazer-se outra observação: o Espírito Santo 
desceu sôbre os tementes a Deus antes de serem batizados 
e sem a imposição das mãos. O batismo era o reconheci­
mento da conversão dêles, e não o meio de efetuá-la. O 
maior interêsse de Lucas era demonstrar que a circunci­
são não era coisa necessária à salvação; mas incidental- 
mente êle mostra ser isso também verdadeiro no que se 
refere ao batismo. A circuncisão e o batismo são ritos 
simbólicos. Seria dar na mesma dizer-se que a circunci­
são não é necessária e que o batismo o é .
17. V eja o excelente estudo dêste assunto feito por C. H . Dodd em The Apoa- 
tolic Preaching and Its Developm ent& (N . York, Harper & Brothers, 1936) .
O E.IVKO DE ATOS 173
Pedro Objetado por Haver Comido com Gentios (11:1-18)
“ 1 Ora, ouviram os apóstolos e os irmãos que 
estavam na Judéia que também os gentios haviam 
recebido a palavra de Deus. 2 E quando Pedro subiu 
a Jerusalém, disputavam com êle os que eram da 
circuncisão, 3 dizendo: Entraste em casa de homens 
incircuncisos e comeste com êles. 4 Pedro, porém, 
começou a fazer-lhes uma exposição por ordem, di­
zendo: 5 Estava eu orando na cidade de Jope, e em 
êxtase tive uma visão; via um objeto que, como se 
fôra um grande lençol suspenso pelas quatro pontas, 
descia do céu e chegou perto de mim. 6 E, fitando 
nêle os olhos, o contemplava, e vi quadrúpedes da 
terra, feras, répteis e aves do céu. 7 Ouvi também 
uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro, mata e 
come. 8 Mas eu respondi: De modo nenhum, Senhor, 
pois nunca em minha bôca entrou coisa alguma co­
mum ou impura. 9 Mas a voz respondeu-me do céu 
segunda vez: Não chames tu comum ao que Deus 
purificou. 10 Sucedeu isto por três vêzes; e tudo 
tornou a recolher-se ao céu. 11 E eis que, nesse mo­
mento, pararam em frente à casa onde estávamos três 
homens que me foram enviados de Cesaréia. 12 
Disse-me o Espírito que eu fôsse com êles, sem hesi­
tar, e também êstes seis irmãos foram comigo e en­
tramos na casa daquele homem. 13 E êle nos contou 
como vira em pé em sua casa o anjo, que lhe disse­
ra: Envia a Jope e manda chamar a Simão, que tem 
por sobrenome Pedro, 14 o qual te ensinará as coisas 
pelas quais serás salvo, tu e tôda a tua casa. 15 Logo 
que eu comecei a falar, desceu sôbre êles o Espírito 
Santo, como no princípio descera também sôbre nós.
16 Lembrei-me então da Palavra do Senhor, como 
disse: João, na verdade, batizou em água; mas vós
174 FRANK STAGG
Sereis batizados no Espírito Santo. 17 Portanto, se 
Deus lhes deu o mesmo dom que dera também a nós, 
ao crermos no Senhor Jesus Cristo* quem era eu, para 
que pudesse resistir a Deus ? 18 Ouvindo ele estas coi­
sas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: 
Assim, pois, Deus concedeu também aos gentios o ar­
rependimento para a vida.”
Chegou logo a Jerusalém a perturbadora notícia de 
que Pedro havia comido com incircuncisos! As idéias li­
berais de Estêvão haviam inaugurado uma nova era para 
os seguidores de Jesus; Filipe, missionando entre os sama- 
ritanos, fizera com que a Igreja de Jerusalém enviasse 
Pedro e João para investigar aquele estranho desenvolvi­
mento; o novo avanço de Filipe ao batizar o etíope não 
alarmou tanto porque aquilo não feria os costumes so­
ciais e porque o etíope voltou à terra dêle; mas o fato de 
Pedro comer com varões incircuncisos deixava atordoa­
dos os que em Jerusalém constituíam “ o partido da cir­
cuncisão” .
O etíope e Cornélio eram ambos tementes a Deus; 
eram gentios que estavam examinando e estudando o ju­
daísmo, embora ainda incircuncisos. Os dois casos não 
são bem paralelos, contudo, porque no caso de Cornélio 
estavam em jôgo relações sociais bem como as condições 
de salvação. 18 Surgiam, então, dois problemas distintos: 
primeiro, podia um gentio ser salvo sem a circuncisão?; 
segundo, podia um judeu cristão comer com um gentio 
cristão incircunciso?
Nessa época estava-se formando na igreja de Jerusa­
lém um partido bem definido, que deu origem aos judai- 
zantes que tanta oposição fizeram ao Apóstolo Paulo. 
“ Aquêles da circuncisão” , de quem nos fala o versículo 
2 do capítulo 11, devem ser sem dúvida distinguidos dos 
outros referidos em frase semelhante encontrada no ver­
18. Ver Knowling, op. cit.f pg. 26°
O LIVRO DE ATOS 175
sículo 45 do capítulo 10. 19 Aqui (10:45) há referência 
simplesmente a judeus cristãos, mas em 11:2 se faz refe­
rência a um grupo definido que estava em formação. E, 
como diz Rackham, para êstes “ a senha era a circunci­
são . ” 20
Ainda que Pedro fôsse a Jerusalém, talvez isto indi­
casse que “ os apóstolos e irmãos que estavam na Judéia” 
lhe exigiram voltar a Jerusalém para explicar seu modo 
de agir. 21 Pelo menos está claro que Pedro percebera 
que seria chamado a explicar aquela violação dos costu­
mes judeus. Assim, demorou um bocado sua visita a Cor- 
nélio para procurar alguns irmãos “ dentre os de Jope” 
que o acompanhassem naquela viagem (10:23), aos quais 
depois levou consigo a Jerusalém como testemunhas 
(11:12).
Pedro manteve atitude bem corajosa diante dos cris­
tãos de Jerusalém, sustentando que aquêles homens incir- 
cuncisos haviam de fato recebido o Espírito Santo e que 
a conversão dêles era obra de Deus (11:15-17). Também 
tornou Pedro bem claro que de modo nenhum agira de 
iniciativa própria, descendo mesmo a vários detalhes para 
provar que atuara unicamente dirigido por Deus. Tam­
bém afirmou claramente que rejeitar aquelas experiên­
cias era “ resistir a Deus” (11:17). A palavra grega aqui 
empregada é kolusai, impedir. Pedro reconheceu que 
Deus deve agir “ desimpedidamente” . Até êste ponto, po­
rém, não temos provas de que qualquer apóstolo estives­
se pronto a encorajar as missões gentílicas.
Diante da irrefutável evidência, os cristãos de Jerusa­
19. A Versão Revista inglêsa é correta na interpretação das duas passagens — 
‘‘ os crentes dentre os circuncidados” (10:45) e “ o partido da circuncisão’ * (1 1 :2 ), 
ainda que as frases gregas sejam quase idênticas.
20. Op . cit., p g . 160.
21. Lake e Cadbury acham que possivelmente a Versão Ocidental, que nos 
apresenta Pedro desejoso de ir a Jerusalém, queira “ diminuir a idéia de que Pe­
dro fora convocado para JeruB&léjrn a fina de se explicar diante da igreja .” V er 
Commentary, pg. 124.
176 FRANK STAGG
lém “ silenciaram” e “ glorificaram a Dèus” (11:18). Dis­
seram: “ Então também aos gentios Deus concedeu o ar­
rependimento para a vida” (11:18) . Esta tradução é falha 
num ponto vital. O aoristo do grego (edoken) foi tradu­
zido como se fôsse o tempo perfeito. Êles concluíram 
apenas que aos gentios Deus “ concedera” o arrependi­
mento para a vida. Tôdas as evidências sugerem, como 
o indica a gramática, que a experiência no lar de Corné- 
lio foi tida como excepcional, como um caso isolado se­
melhante ao de Naamã no Velho Testamento. 22 Mais 
tarde, na conferência de Jerusalém (Atos15), êste inci­
dente foi relembrado como algo quase esquecido, e eviden­
temente os apóstolos não prosseguiram nessa linha de 
ofensiva.23 O trabalho realizado por Pedro subseqüente­
mente não se processou presumivelmente entre os gentios, 
tanto que êle acabou sendo conhecido como “ o apóstolo 
da circuncisão” .
Esta lentidão com que os apóstolos viram a igualda­
de do gentio para com o judeu não é fato único na histó­
ria; basta lembrar a recente e presente culpa dos cristãos 
de muitos países. Rackham anota:
“ E’ coisa quase inconcebível observar como fun­
cionava no século XVII a consciência dum capitão in­
glês, bom protestante, orando e lendo a Bíblia no 
convés, e tendo a seus pés, nos porões, uma leva de 
negros escravos, destinados às plantações da Améri­
ca . ” 24
Podemos lembrar ainda de inúmeros sermões prèga- 
dos nos púlpitos “ provando” pela Bíblia que Deus desti­
nara os negros à escravidão. Envergonhados, vemos ain­
22. V er Knowling, op . cit, p g . 264; Bruce, op c it ,, p g . 230; Rackh^m, op . c it ., 
pg. 163.
23. V er Rackham, op . cit>, p g . 162,
34. íb i$ ., p g . 162.
O LIVRO DE ATOS 177
da hoje estadistas e clérigos protestando contra a conces­
são de certos direitos humanos aos negros. E’ possível 
que os futuros historiadores venham a fazer alusão à iro­
nia das ironias, afirmando que nos meados do século XX 
os promotores de lutas de box e os técnicos de basebol e 
futebol fizeram pela emancipação do negro mais do que 
os eclesiásticos! Dizer-se que tal se deu por causa do di­
nheiro em nada remove o labéu, porque humilhante seria 
admitir que o pagão por amor ao dinheiro faz o bem que 
um cristão não consegue fazer por amor. Há mesmo evi­
dências de que a segregação obterá a sua última vitória 
nas igrejas.
Cíprios e Cirenenses Desconhecidos Pregam a Gregos em 
Antioquia (11:19-26)
“ 19 Aquêles, pois, que foram dispersos pela tri­
bulação suscitada por causa de Estêvão, passaram até 
Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a nin­
guém a palavra, senão somente aos judeus. 20 Havia, 
porém, entre êles alguns cíprios e cirenenses, os quais, 
entrando em Antioquia, falaram também aos gregos, 
anunciando o Senhor Jesus. 21 E a mão do Senhor 
era com êles, é grande número creu e converteu-se ao 
Senhor. 22 Chegou a notícia destas coisas aos ouvi­
dos da igreja em Jerusalém; e enviaram Barnabé a 
Antioquia; 23 o qual, quando chegou e viu a graça de 
Deus, se alegrou, e exortava a todos a perseverarem 
no Senhor com firmeza de coração; 24 porque era 
homem de bem, e cheio do Espírito Santo e de fé . E 
muita gente uniu-se ao Senhor . 25 Partiu, pois, Bar­
nabé para Tarso, em busca de Saulo; 26 e, tendo-o 
achado, o levou para Antioquia. E durante um ano 
inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram mui­
ta gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira 
vez foram chamados cristãos.”
A .A . 12
178 FRANK STACK*
Lucas de modo mui significativo liga o reavivamento 
em Antioquia a Estêvão. Pelo menos o reavivamento co­
meçara por homens influenciados por Estêvão (11:19). 
0 grande impulso missionário observado em Antioquia era 
uma parcela do impacto dêste grande varão sôbre o mo­
vimento cristão. Foi sob a influência indireta de Estêvão 
que Saulo se converteu, e ainda foi essa a causa indireta 
da chamada “ primeira viagem missionária de Paulo” .
Há evidências de que o Evangelho fôra imp^ntado 
no norte da África e em Chipre alguns anos antes de Bar- 
nabé e Saulo iniciarem sua “ primeira viagem missioná­
ria” . Parece que alguns viajaram de Cirene, na África, 
e de Chipre, no Mediterrâneo, para iniciar um reavivamen­
to em Antioquia, de onde mais tarde Barnabé e Saulo 
partiram como missionários para Chipre e Ásia Menor. 
Não se afirma explicitamente que aquêles homens vieram 
diretamente de Chipre e Cirene para Antioquia; apenas 
se declara que eram cíprios e cirenenses. Contudo, é tam­
bém possível que vivessem em Chipre e Cirene como cris­
tãos antes de viajarem para Antioquia. Se assim é, torna- 
se mais uma vez evidente que Lucas estava mesmo inte­
ressado não tanto na expansão geográfica do Cristianis­
mo e sim nos fatos que se relacionassem com a derruba­
da das muralhas raciais e nacionalistas. Está fortemente 
evidenciado que o Cristianismo alcançara Chipre antes de 
Barnabé e Saulo missionarem juntos ali por ocasião de 
Rua “ primeira viagem missionária” . Aquêles que “ tam­
bém falaram aos gregos” eram pessoas influenciadas por 
Estêvão, e não por hebreus.
Vários anos certamente intervalaram 11:19 e 11:20. 
O versículo 19 volta ao martírio de Estêvão, mas o 20 
faz referência ao tempo que Saulo passou em Tarso, de­
pois de convertido. A conversão de Saulo e os anos que 
passou na Arábia, em Jerusalém e em Tarso, devem ser 
colocados entre os acontecimentos de 11:19 e 11:20. Sau-
O LIVRO DE ATOS 179
,lp devia ter-se convertido não muito depois do ano 35 
(A .D .) e o aiio com Barnabé em Antioquia devia ter sido 
durante o reinado de Cláudio (A .D , 41-54). Sem tentar 
•fixar essas datas, é claro que devemos admitir que se pas­
saram vários anos. Sem dúvida o Evangelho se espalhou 
por muito longe naqueles anos, sendo pregado em muitos 
lugares “ a ninguém, exceto a judeus” ; não obstante, va­
rões de Chipre e de Cirene, chegando a Antioquia (da Sí­
ria) pregaram também aos gregos (11:19-20).
Os manuscritos se dividem quanto às palavras “ gre­
gos” e “ da Grécia” , ou “ helénicos” , do versículo 20. 
Lake e Cadbury provàvelmente estão certos ao afirmarem 
que o contexto é decisivo pois se refere a varões não ju­
deus, seja qual fôr a palavra empregada, porque aquêles 
são contrastados com os judeus. 25 Rackham pode estar 
>erto ao defender que aquêles “ gregos” eram “ tementes 
a Deus” — a terceira classe das quatro distinguidas no 
Livro dos Atos: hebreus (judeus), helenistas (judeus), 
gregos tementes a Deus (gentios influenciados pelo ju­
daísmo) , e pagãos. 26
* A Igreja de Jerusalém, após mais d.e uma década, 
ainda desempenhava o papel de Observador cauteloso (11: 
29). A seleção de Barnabé, contudo, indicava certa impar­
cialidade dessa igreja, pois que não poderia ela ter envia­
do um observador mais simpático do que Barnabé. Êste 
se alegrou imenso com o qué viu cm Antioquia, e enco­
rajou os convertidos. Dada a magnitude da obra, fazia- 
se necessário o auxílio de alguém, e então Barnabé foi a 
.Tarso em busca de Saulo, julgando-o o companheiro idéal 
para o seu ministério em Antioquia. Calvino faz aqui in­
teressante observação, afirmando que neste particular se 
evidencia claramente a magnanimidade de Barnabé que 
assim mostrava estar interessado unicamente na proèmi- 
.nência de Cristo, pois que Barnabé poderia ter guardado
25. Commentary, pg. 128.
£6. Op. cit., pg. 166.
180 FRANK SXAGG
para si o primeiro lugar, e não obstante êle trouxe Saulo 
para a frente da cena. 27
Foi em Antioquia que pela primeira vez os discípu­
los receberam o nome de cristãos. Não se sabe se foi 
por caçoada ou zombaria, ou simplesmente porque tal 
título os caracterizaria melhor. Êste novo nome calhava 
bem àquele movimento que ràpidamente ia firmando o 
feeu caráter universalista. A palavra cristão é bàsicamente 
grega, embora expressando uma idéia hebraica (a de Mes­
sias) ; mas sua forma (o sufixo) é latina. 28 Poderia tam­
bém tal título refletir a transição de uma seita que, dentro 
do judaísmo, ia tomando a forma de um movimento se­
paratista .
Ameaça de Fome, Oportunidade para a Prática da Fra­
ternidade (11:27-30)
“ 27 Naqueles dias desceram profetas de Jerusa­
lém para Antioquia; 28 e, levantando-se um dêles, de 
nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito que ha­
veria uma grande fome por todo o mundo, a qual 
ocorreu no tempo de Cláudio. 20 E os discípulos re­
solveram mandar, cada um conforme suas posses, so­
corro aos irmãos que habitavam na Judéia; 30 o que 
êles com efeito fizerám, enviando-os aos anciãos por 
mão de Barnabé e Saulo. ”
Aqui o problema de cronologia é muitíssimo difícil, 
mas provàvelmente essavisita de Barnabé e Saulo à Ju­
déia se deu antes da morte de Herodes Agripa I (A.D. 44). 
Isto, pelo menos, é o que o Livro dos Atos indica. Lucas 
afirma que essa fome teve lugar nos dias de Cláudio, que 
reinou do ano 41 até 54 (A .D .) Os historiadores roma­
nos Suetônio (Claudius, xix) e Tácito (Ann. xii. 43) di-
27. Ver Knowling, op. cit„ pg. 268.
38, Ver Rackham, op cit., pg. 170.
0 LIVRO DE A iO S 181
Zem que tal fome ocorreu no remado de Cláudio. Com­
plica-se o assunto quando Josefo (Ant. iii. 15.3; 2.5; xx. 
5.2) localiza a fome na Judéia durante o tempo dos pro­
curadores Cúspio Fado (44-46 e Tibério Alexandre (46 ̂
48), depois da morte de Agripa I, no ano 44. Mas, a fome 
de que nos fala Suetônio (Claudius, xix), ocasionada por 
vários anos de pobres colheitas sucessivas, evidentemente 
se deu quando Ágabo visitou Antioquia e quando Barna- 
bé e Saulp foram enviados à Judéia (por certo a Jerusa­
lém) . Desde tempos primitivos a igreja teve os seus po­
bres, e a política de repartir as posses poderia ter esgota­
do os recursos materiais dos discípulos de Jerusalém. Não 
é difícil imaginar que a carestia se fêz sentir primeiro 
justamente naquelas comunidades, e que os cristãos se 
apressaram em fazer alguma coisa para conjurá-la. A ex­
pressão “ todo o mundo” (11:28) refere-se ao mundo ro­
mano, e não a todo o mundo geográfico.
A principal intenção de Lucas é mostrar que era ver­
dadeira e genuína a comunhão das grandes comunidades 
de Antioquia e Jerusalém, apesar de tôdas as diferenças. 
A inclusão dos tementes a Deus às vêzes deixara tensos 
os sentimentos de fraternidade, mas não contribuíra para 
eliminá-los.
Os “ profetas” sempre aparecem nos Atós: Silas e 
Judas (15:32), bem como numerosos “ profetas e mestres” 
em Antioquia (13:1), as filhas de Filipe (21:8), e Ágaba, 
(11:27; 21:10) e seus companheiros. Nos Evangelhos João 
Batista e Jesus são considerados profetas. Embora no mi- 
mstério profético a predição de acontecimentos futuros 
fosse de menor importância, era também incluída essa 
função. A função maior era apresentar uma mensagem 
nova e fresca da parte de Deus. O profeta buscava inter­
pretar a mente divina ao povo e interpretar o povo para 
qúe êste a si mesmo se compreendesse melhor .
FftANIÍ STÀÔÔ
Êstes "anciãos’’ (11:30) não podemos dizer propria­
mente o que eram e quem foram. Nos Atos e nas Cartas 
Pastorais á palavra “ ancião” aparece misturada com a 
palavra “ bispo” (ver Atos 20:17 com 20:28 29, e Tito 1:5 
coin 1 :7) . Não sabemos se se pode aqui identificá-los com 
os apóstolos, ou distingui-los dêstes. Provàvelmente o 
mais certo é que eram distintos dos apóstolos.
A Perseguição Movida por Herodes e a Morte Dêste 
(12:1-23)
A Perseguição Herodiana 
(12:1-5)
“ 1 Por aquêle mesmo tempo o rei Herodes es- 
. tendeu as mãos sobre alguns da igreja, para os mal-: 
tratar; 2 e matou à espada Tiago, irmão de João. 3 
Vendo que isso agradava aos judeus, continuou., 
mandando prender também a Pedrü. (Eram então 
. os dias dos pães ázimos.) 4 E, havendo-o prendido, 
lançou-o na prisão, entregando-o a quatro escoltas 
de quatro soldados cada uma para o guardarem, 
tencionando apresentá-lo ao povo depois da páscoa. 
5 Pedro, pois, estava guardado na prisão; mas a 
igreja orava com insistência a Deus por êle.”
A; perseguição ordenada por Herodes Agripa I foi 
o terceiro grande assalto contra os discípulos. O primei­
ro fôra chefiado pelos saduceus; o segundo, pelos fari­
seus. Herodes não perdia nenhuma ocasião de fortificar 
sua posição junto aos judeus, e, quando us discípulos de 
Jerusalém aprovaram a conduta de Pedro em casa de 
Gornélio, viu êle aí uma boa oportunidade de ganhar as 
bpa£'gra.ças dos judeus. Os doze haviam escapado à per­
*29V -A Vers&o Revista Inglesa obscurece um tanto êste ponto, ao traduzir a 
palavra por “ guardiões” ou “ superiores". Esta é a palavra noutros lugares tra­
duzida por “ bispos’ *.
O LIVRO DÊ A tfôs
seguição desencadeada nos dias do martírio de Estêvão 
por causa de sua fidelidade à lei. Mas o fato de um dê- 
les comer com um gentio incircunciso era visto como 
crime indesculpável.
Herodes Agripa era filho de Aristóbulo e neto de 
Herodes, o Grande. Êste executara seu filho Aristóbulo 
no ano 7 antes de Cristo, e Herodes Agripa fôra criado 
em Roma, na sociedade imperial. Êle ajudara Calígula 
(A. D. 37-41) a tornar-se imperador, dada a morte de 
Tibério; e Calígula o recompensara com o título de rei 
e com a tetrarquia de Filipe, acrescentando logo depois 
à dita tetrarquia a Galiléia e a Peréia. Quando assassi­
naram Calígula, Agripa ajudou Cláudio (A. D. 41-54) a 
ganhar a aprovação do senado romano; e o novo impe­
rador adicionou a Judéia e a Samaria ao seu reinado. 
Herodes Agripa era de ancestrais edomitas e judaicos, e 
desejava ganhar as simpatias dos judeus. A execução 
de Tiago e a prisão de Pedro faziam parte de sua estra­
tégia. A escrupulosa observância da Páscoa traía a in­
tenção dêsse tirano de alcançar o favor dos judeus.
Muitos admitem hoje que João foi martirizado jun­
tamente com seu irmão Tiago. Isto não tem base em o 
Novo Testamento e descança exatamente sôbre essa es­
pécie de “ provas” que não procedem no sentido de sus­
tentar a posição tradicional. O argumento baseia-se em 
afirmações de Jorge, o Pecador (do século VII) e de Fi­
lipe de Side (do IV século) que referem que Papias (do 
II século) afirmou terem sido Tiago e João mortos por 
judeus. Ainda que aceitássemos esta tradição mui du­
vidosa, deveríamos anotar que Papias não afirmou que 
Tiago e João foram martirizados ao mesmo tempo. E’ 
bem mais forte a tradição referida por Eusébio, e por 
êle atribuída a Irineu, que afirma que João alcançou 
idade muito avançada e morreu de morte natural. Isto, 
porém, não dá base à tradição de que João vivesse até
184 FRANK STAGG
o fim do século (e escrevesse os livros que trazem o seu 
nome); mas devemos pôr de lado o dogmático ponto de 
vista que afirma que João e Tiago foram mortos junta­
mente por ordem de Herodes.
A Libertação de Pedro (12:6-19)
“ 6 Ora, quando Herodes estava para apresen­
tá-lo, nessa mesma noite Pedro dormia entre dois 
soldados, acorrentado com duas cadeias, e as senti­
nelas diante da porta guardavam a prisão. 7 E eis 
que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz res­
plandeceu na prisão; e, êle, tocando no lado de Pe­
dro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E 
caíram-lhe das mãos as cadeias. 8 Disse-lhe ainda 
o anjo: Cinge-te e calça as tuas sandálias. E êle o 
fêz. Disse-lhe mais: Cobre-te com a tua capa e se­
gue-me. 9 Pedro, saindo, o seguia, mesmo sem 
compreender que era real o que se fazia por inter- 
' médio do anjo, julgando antes que era uma visão. 
10 Depois de terem passado a primeira e a segunda 
sentinela, chegaram à porta de ferro, que dá para 
a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma; e, ten­
do saído, passaram por uma rua, e logo o anjo se 
apartou dêle. 11 Pedro então, tornando a si, disse: 
Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o 
seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tôda 
a expectativa do povo dos judeus. 12 Depois de as­
sim refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que 
tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas 
estavam reunidas e oravam. 13 Quando êle bateu 
ao portão do pátio, uma criada chamada Rode saiu 
a escutar; 14 e, reconhecendo a voz de Pedro, de 
gôzo não abriu o portão, mas, correndo para den­
tro, anunciou que Pedro ali estava. 15 Êles lhe dis­
seram: Estás louca. Ela, porém, assegurava que
O LIVRO DE ATOS 18S
era êle. Êles então diziam: “ E’ o seu anjo. 16 Mas 
Pedro continuava a bater, e, quando abriram, vi­
ram-no, e pasmaram. 17 Mas êle, acenando-lhes com 
a mão para que se calassem, contou-lhes como o Se­
nhor o tirara da prisão, e disse: Anunciai isto a Tia­
go e aos irmãos. E, saindo, partiu para outro lugar.
18 Logo que amanheceu, houve grande alvoroço en­
tre os soldados sôbre o que teria sido feito de Pedro.
19 E, quando Herodes o procurou e não o achou, in­
quiriu as sentinelas,e mandou que fôssem justiça­
das; e, descendo da Judéia para Cesaréia, aí se de­
morou . ”
Êste é um dos quadros mais felizes que temos de Pe­
dro, pois estão em plena evidência algumas das suas me­
lhores qualidades. Na noite anterior à sua planejada exe­
cução, Pedro dormia profundamente. A sua coragem 
física foi sempre igual à demonstrada nesta passagem. 
Em vez de passear nervosamente de cá para lá (com 
cadeias e tudo) por tôda aquela horrível noite, Pedro pre­
parou-se para uma noite de bom sono, e, quando veio o li­
vramento, estava êle a dormir sossegadamente. Antes de 
dormir, tirara as sandálias e a capa, e buscara tranqüila­
mente o sono. O anjo teve que tocar-lhe no lado para 
despertá-lo. Isto corresponde ao que dêle vimos nou­
tros passos bíblicos. No Getsêmane, Pedro não demons­
trara nenhum mêdo em presença do perigo, mas pouco 
mais tarde mostrava-se enervado às perguntas feitas por 
uma criada, que o reconhecera como um dos seguidores 
de Jesus. A coragem de Pedro o desertava em situações 
destituídas de imediato perigo físico, como em Antio- 
quia quando os irmãos de Jerusalém o encontraram co­
mendo com cristãos incircuncisos (Gálatas 2:11 em dian­
te) . Êle temia mais a desaprovação do que mesmo a 
injúria corporal.
A casa de Maria, a mãe de João Marcos, era o ponto
186 FRANK STAGÖ
de reunião de muitos que tinham vindo para orar. Mar­
cos poderia informar bem a Lucas o que se teria passa­
do ali, bem como acêrca doutros incidentes. Esta histó­
ria é contada de maneira muito agradável, e tem tôdas 
as marcas de autenticidade. Não há provas de que ou­
tros dos doze estivessem em Jerusalém, a menos que ve­
nham incluídos na palavra “ irmãos” , do versículo 17. 
Tiago, o irmão de Jesus, parece já ser contado como o 
líder em Jerusalém e continuou a sê-lo por alguns anos.
Lucas conta que Pedro “ saiu e partiu para outro lu­
gar” (12:17). Não sabemos onde ficava êsse lugar. Te­
mos, assim, aqui outra prova de que o interêsse de Lu­
cas não se voltava primàriamente para os atos dos após­
tolos, nem para os lugares por êles visitados. A Igreja 
Católica Romana se construiu sôbre a antiga tradição 
de que êsse lugar aqui referido é a cidade de Roma, e 
diz que ali Pedro se tornou o seu primeiro bispo. 30 
Tais afirmativas só podem ser recebidas em bases dog­
máticas, pois que as provas dizem o contrário. Inicial­
mente, basta dizer que não há provas de que Pedro re­
cebesse naqueles dias o encargo de alguma missão fora 
das terras da Palestina; êle já estava achando difícil tra- 
tàr com os tementes a Deus que estavam mais perto 
dêle! Quando Paulo escreveu aos romanos (A.D . 55), 
e certo que Pedro não estava morando em Roma. Pedro 
estava em Jerusalém durante a conferência (Atos 15) 
que se deu no ano 48 ou 49 A. D. Quando Paulo che­
gou a Roma (57 ou 58) evidentemente nenhum apósto- 
iO tinha estado lá, pois que os judeus o procuraram para 
se informarem acêrca “ daquela seita” que era impug­
nada em tôda parte (28:22). Estivesse Pedro lá moran­
do por cêrca de duas décadas (desde o ano 42, como diz
30. Quem se irteressar em 1er um bom estudo das trrd'çôe^ referentes a Pe­
dro, deverá procurar as obras — P eter : P rin ce o f Apostlea, de F . J . Foakes: Jack­
son (N . York, George H . Dtran, C o ., 1927) e P eter : D isdple, Apostle, Martyr, de 
Oscar Culimann.
O LIVRO DE ATOS 181
a tradição), não teriam os judeus tido necessidade de 
buscar tais informações com o apóstolo Paulo. Pedro 
deveria ter ficado fora de Jerusalém só até a morte. de 
Agripa (A. D. 44). Enganam-se a si mesmos aquêles 
que edificam sua fé num dogma arbitrário como êsse.
A Morte de Herodes (12:20-23)
“ 20 Ora, Herodes estava muito irritado contra 
os de Tiro e de Sidon; mas êstes, vindo de comum 
acôrdo ter com êle e, obtendo a amizade de Blasto, 
camareiro do rei, pediam paz, porquanto o seu pais 
se abastecia do país do rei. 21 Num dia designado, 
Herodes, vestido de trajes reais, sentou-se nó trono 
e dirigia-lhes a palavra. 22 E o povo exclamava: E’ 
a voz de um deus, e não de um homem. 23 No més-1 
mo instante o anjo do Senhor o feriu, porque não 
deu glória a Deus; e, comido de vermes, expirou.”
Josefo (Ant. xix, 8,2) nos dá substancialmente a 
mèsma história aqui apresentada por Lucas, mas com 
maiores detalhes. Sem a narrativa de Josefo, concluiría­
mos que Agripa morreu imediatamente, embora Lucas 
não afirme isso. Josefo nos conta que êle experimentou 
horríveis sofrimentos por cêrca de cinco dias e teve mor­
te horrorosa. Segundo Josefo, os gregos e os sírios fes­
tejaram a morte de Agripa. Deliciaram-se e se alegra­
ram com a morte dêle, pelo fato de haver êle conce­
dido muitos favores aos judeus.
Crescimento e a Missão de Barnabé e Saulo 
(12:24-25)
“ 24 Entretanto a palavra de Deus crescia e se 
multiplicava. 25 E Barnabé e Saulo, havendo termi­
nado aquele serviço, voltaram de Jerusalém, levando 
consigo a João, que tem por sobrenome Marcos.”
188 FRANK STAGG
O versículo 24 é mais uma das afirmativas sumá­
rias de Lucas, que marca a transição para uma nova 
etapa da obra e uma outra divisão natural do Livro dos 
Atos. Gom a morte de Agripa, a Palestina tornou-se 
novamente uma província romana. A opinião de Rackham 
neste ponto é aceitável, quando afirma que o poderio ro­
mano restaurou a paz e facultou nova oportunidade de 
crescimento. 31
Uma certeza textual aumenta a dificuldade de saber- 
se qual o tempo da missão de Barnabé e Saulo. Os me­
lhores manuscritos afirmam que “ Barnabé e Saulo vol­
taram para Jerusalém.” Êste “ para Jerusalém” não só 
se baseia nos melhores manuscritos como também faci­
lita a solução do problema, se assim foi. Josefo (xx, 
2, 5) situa a fome por cêrca do ano 45 (A. D .) após à 
morte de Herodes. Se Lucas quer dizer que a missão de 
Barnabé e Saulo seguiu-se à morte de Herodes, então é 
fácil harmonizar Josefo com Lucas. Doutro lado, Josefo 
e Lucas não estão necessàriamente em conflito ainda 
que Lucas coloque a missão a Jerusalém antes da morte 
de Herodes; o primeiro golpe da fome iminente podia 
Jerusalém tê-lo sentido antes de ela atingir tôda a fôr- 
ça no ano 45 (veja-se acima). Parece-nos mais natural, 
também, concluir de Atos 11:27-30 que Barnabé e Saulo 
foram enviados a Jerusalém antes da morte de Herodes, 
conquanto isto não esteja explícito; voltando sua aten­
ção dos acontecimentos de Antioquia para Herodes, Lu­
cas apenas diz: “ por aquêle mesmo tempo” (12:1). Os 
particípios gregos contidos na sentença são decididamen­
te contra o “ para Jerusalém” . Ainda que êste “ para 
Jerusalém» se baseie nos melhores manuscritos, e em­
bora tenha hoje bons defensores, parece que o contexto 
o exclui totalmente. Em 11:27-30 parece que Barnabé e
81. Op. c i t pg. 182.
O L IV R O D E A T O S 189
Saulo estão de caminho para Jerusalém; em 13:1-3 
acham-se em Antioquia; evidentemente 12:25 tenta afir­
mar que ê'es estão “ vòltando de Jerusalém” e não indo 
“ para Jerusalém” .
3’ PARTE
Triunfo e Tragédia : A desimpedida Pre­
gação do Evangelho e a Aiito-Excíusão 
dos Judeus
(13:1 a 28:31)
A terceira e a maior etapa do desenvolvimento cris­
tão nos é apresentada do capítulo 13 até ao final do li­
vro dos Atos. No início o movimento foi exclusivamen­
te judaico e foi dominado pelo elemento hebreu. Na se­
gunda etapa, ou fase, os judeus gregos ou helenistas in­
troduziram idéias de maior alcance e estenderam o evan­
gelho aos samaritanos e a gregos tementes a Deus; na 
última fase levou-se o evangelho diretamente aos pa­
gãos, e, após uma luta bem dura, libertou-se, “ livrou-se 
dos impedimentos” , embora a um custo tremendo, pois 
que redundou na auto-exclusão dos judeus.
No estágio primitivo (1:6 a 6:7), o movimento cris­
tão centralizou-se em Jerusalém e assumiu caráter ju­
daico. Os hebreus controlavam o movimento e julgavam 
que o Cristianismo era algo que se desenvolveria dentro 
da estrutura do judaísmo. Os discípulos, então, sentiam- 
se como em casa, tanto no templo como nas sinagogas; 
continuavam a viver comojudeus, e eram tidos como 
formando uma nova seita do judaísmo. Os doze eram 
os conhecidos chefes do movimento e achavam que en­
tão se restauraria logo o reino a Israel, não olhando para 
além das barreiras nacionais.
A segunda grande fase do movimento (6:8 a 12:25) 
foi inaugurada pelos helenistas, chefiados de início por 
Estêvão e Filipe. Seguiram as pegadas dêstes uns va­
rões de Chipre e de Cirene, cujos nomes não conhece-
Ó L IV R O D E A T O S 191
mos, e Saulo, e outros mais; que foram fincando estacas 
e abrindo novos rumos. Os hebreus e os doze nessa fase 
ficaram julgando e conferindo as coisas, os fatos.' Os 
sete tomaram a liderança no início desta,etapa do de­
senvolvimento, assim como os doze a tiveram na etapa 
primitiva. No segundo período, o Cristianismo começou 
a firmar seu caráter espiritual e o seu inerente universa­
lismo, e principiou a derribar as barreiras raciais e ri- 
tualistas. Tendo em sua vanguarda os helenistas, foram 
alcançados então muitos tementes a Deus.
A fase final do desenvolvimento (capítulos 13 a 
28) é introduzida com os cinco cristãos, que possivel­
mente podemos comparar com os doze e os sete. Como 
aconteceu no caso dos doze e dos sete, a maioria dêsses 
cinco tem seus nomes apenas citados e não são retrata­
dos Sem minúcias. Os acontecimentos agora se centra­
lizam em Antioquia, e fora da Palestina, e já não mais 
tanto em Jerusalém ou na Palestina. Conquanto ainda 
muitos judeus fôssem alcançados pelo movimento, os 
avanços mais significativos se dão entre pagãos. Fize­
ram-se tentativas para alcançar judeus e gentios atra­
vés das sinagogas, mas logo se viram na necessidade de 
deixar as sinagogas e ir diretamente aos gentios. Desen­
volvendo-se assim, o movimento cristão teve que enca­
rar e resolver certos problemas referentes à relação do 
judeu para com o gentio. O resultado final foi a com­
pleta libertação do evangelho, “ desimpedindo-o” , em­
bora os judeus dêle se afastassem definitivamente.
A APROXIMAÇÃO DE JUDEUS E GENTIOS PRIN­
CIPALMENTE POR MEIO DAS SINAGOGAS — 
RECONHECE-SE QUE DEUS ABRIU TAMBÉM PARA 
O GENTIO A PORTA DA FE’ — (13:1 a 16:5)
Nesta parte do livro dos Atos encontramos muitas 
viagens por terra e por mar, irias, é bom notar que Lucas
192 F R A N K ST A G G
está primeiramente interessado não na expansão geo­
gráfica do Cristianismo. O evangelho fôra pregado em 
Chipre e na Ásia Menor antes desta “ primeira viagem 
missionária” . Chipre e Cirene ocupam lugar proeminen­
te nos primórdios do Cristianismo. Paulo, após con­
vertido, passara cêrca de sete anos em Tarso. Certamen­
te no decorrer dêsses anos Paulo não ficara de bôca fe­
chada. Lucas torna claro que o evangelho se espalhara 
para longe, logo após o Pentecostes.
Êle agora está dizendo que o evangelho afinal fôra 
levado diretamente aos gentios, alcançando aquêles re­
sultados e repercussões de que êle falará no seu livro. 
Mostrará o grande esforço dos missionários, desenvolvi­
do através das sinagogas, e também nos dirá que aquê­
les que batalharam pela igualdade de gentios e judeus 
foram por fim expulsos das sinagogas. Ao fim, a igreja 
se separou da sinagoga, e os judeus voltaram as costas 
para o Cristianismo.
São esboçadas duas grandes campanhas missioná­
rias. Aquilo a que chamamos “ três viagens missioná­
rias” são na realidade duas grandes campanhas missio­
nárias. A primeira (13:1 a 16:5) foi realizada especial­
mente nas sinagogas, chefiada por Barnabé e Saulo. A 
segunda (16:6 a 20:2) foi levada a cabo por Paulo e 
muitos companheiros, e teve por campo o grande centro 
cultural greco-romano que abrangia as províncias roma­
nas ao redor do Mar Egeu (Macedônia, Acaia e Ásia). 
Nesta campanha tentou-se ainda alcançar a judeus e gen­
tios através das sinagogas, mas as portas destas iam ra­
pidamente se fechando para o movimento cristão.
A Campanha de Barnabé e Saulo (13:1 a 14:28) 
Barnabé e Saulo Separados para uma Obra Determinada
(13:1-3)
,, “ 1 Ora, na igreja de Antioquia havia profetas e
O L IV R O D E A T O S 193
mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lú­
cio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e 
Saulo. 2 Enquanto êles ministravam perante o Senhor 
e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separai-me a Bar­
nabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. 3 
Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram 
as mãos, e os despediram. A igreja de Antioquia pro^ 
vou que foi a forte base de operações por alguns anos. 
Devemos lembrar que através dos desconhecidos varões 
de Chipre e Cirene, “ dispersos por causa da perseguição 
que se levantou contra Estêvão” (11:19-20), esta grande 
igreja missionária recebera a influência de Estêvão. Não 
é por mero acidente que Lucas ligou o reavivamento de 
Antioquia ao heróico vulto de Estêvão. Foi dêsse rea­
vivamento que surgiu esta campanha missionária.
Alguns peritos em crítica textual acham que êste 
versículo primeiro se refere à “ igreja local” de Antio­
quia, e assim o traduzem. A sintaxe grega, que usa com o 
artigo o particípio do verbo ser, parece freqüentemente 
empregada no livro dos Atos em sentido idiomático, as­
sim dando a idéia de local, atual, ou existente. 1 Está 
claro, do texto, que a igreja de Antioquia era uma igre­
ja genuína, independente da igreja de Jerusalém, e que 
s nova obra ali começada estava sob a 'inspiração direta 
do Espírito Santo.
A igreja “ impôs as mãos” aos missionários e “ os 
despediu” (13:3), mas a comissão êles a receberam di­
retamente do Espírito Santo. Muitos afirmam quê os 
profetas e mestres foram os únicos que impuseram as 
mãos aos missionários. Isso não é coisa conclusiva. Bar­
nabé e Saulo eram dois dos cinco profetas e mestres. 
Daí, perguntamos o que é que os três restantes teriam 
conferido aos dois? Rackham afirma que “ o único an­
tecedente aos pronomes do versículo 3 são “ profetas e
1. Ver Commentary de Lake e Cadbnry, pg. 56-57; e Bruce, op. cit., pg. 340,
252.
A .A . 1»
194 F R A N K STAG G
doutores” do versículo primeiro; e assim êles pronuncia­
ram a oração e impuseram as mãos. ” 2 Isto é exato, se 
observarmos estritamente a gramática grega. Mas, se 
isto é assim, então tôda a ação de 13:1-3 foi desenvolvida 
pelos cinco e não pela igreja: a adoração, o jejum, a es­
colha, as orações, a imposição das mãos, e a despedida. 
Tudo quanto Rackham dissera sôbre a importância da 
igreja de Antioquia seria nulo. Mais ainda: se devemos 
obedecer rigidamente ao princípio gramatical de 
Rackham, devemos também aplicá-lo a Atos 6:5-6 que 
afirmaria concludentemente que “ tôda a multidão” (6: 
5), e não os doze, impôs as mãos aos sete. Rackham 
não aplica aqui a regra dos antecedentes! Knowling vê 
aqui igreja como o antecedente gramatical e não os pro­
fetas e mestres, mas conclui que se muda de assunto 
como em 6:6. 3 Mas, quem mudou de assunto? Lucas, 
ou o seu intérprete?
Melhor será concluir que não há nenhum acôrdo no 
caso entre os pronomes do versículo 3 e o antecedente do 
versículo primeiro, e que o antecedente é “ a igreja lo­
cal” e não “ os profetas e mestres” . E’ muitas vêzes cer­
to que no grego do Novo Testamento nem sempre se dá 
a concordância em caso, número, ou mesmo no gênero. 
Pelo menos, pode ser êste o possível significado: a igre­
ja impôs as mãos a Barnabé e Saulo. (Há fortes evidên­
cias de que a função de impor as mãos pertence à con­
gregação e não a um “ presbitério” .) Bruce afirma o se> 
guinte:
Não se afirma que por aquele ato pudessem êles 
qualificar Barnabé e Saulo para a obra a que Deus 
os chamara; mas, por êsse meio êles (a igreja tôda) 
expressavam seu companheirismo com os dois e
2. Op. cit., pg. 191.
3, Op. eit., pg. .172. 283.
O L IV R O D E A T O S 195
seu reconhecimento de que eram divinamente vo­
cacionados. 4
Afirmar-se que nessa ocasião é que Barnabé e Sau- 
lo foram feitos apóstolos é contradizer o que Paulo ale­
ga em contrário (Gál. 1:1)
A tradução “ os despediram” , ou “ os enviaram” , não 
é bem correta. Será melhor dizer “ deixaram-nosir” , 
ou “ dispensaram-nos” . A igreja simplesmente reconhe­
cia a direção do Espírito Santo e cooperava com Êle, 
Bruce observa que aqueles, assim “ dispensados para rea­
lizar uma obra missionária, eram os mais dotados e 
mais conspícuos da igreja” . 5
Dos “ profetas e mestres” mencionados, Barnabé e 
Saulo são já conhecidos do leitor. Lúcio de Cirene pode 
ser um daqueles que vieram de Cirene e ajudaram a 
inaugurar o reavivamento, ao pregarem “ também aos 
gregos” (11:20). Simeão (nome 'hebreu) certamente 
viera da África, como o sugere o seu sobrenome — Ní­
ger. Niger significa prêto, e é de origem latina. Êstes 
dois fatores certo indicam a África. Podia ser êle um 
daqueles vindos de Cirene (da África) que se reuniram 
com os de Chipre no início do reavivamento em Antio- 
quia. Manaém é caracterizado por uma palavra grega 
empregada para um jovem da mesma idade dos príncipes 
e com êstes criado na côrte. O significado da palavra é 
aqui um tanto incerta; mas, ao que parece, Manaém ti­
nha íntimas relações com a família de Herodes Antipas. 
Êste Manaém poderia ser um descendente daquele Ma­
naém que ganhara o favor de Herodes, o Grande, pelo 
fato de ter previsto a subida dêle ao poder (Josefo, Antiq. 
xv, 10, 5 ).
4. Op. cit., pg. 254.
5. Op. cit., pg. 253.
19ft F R A N K ST A G G
Diante de Roma Legal, o Cristianismo É Distinguido da 
Falsa Filosofia
(13:4-12)
“ 4 Èstes, pois, enviados pelo Espírito Santo, 
desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.
5 Chegados a Salamina, anunciavam a palavra de 
Deus nas sinagogas dos judeus, e tinham a JoãO 
como auxiíiar. 6 Havendo atravessado a ilha tôda 
até Pafos, acharam um certo mago, falso profeta, 
judeu, chamado Bar-Jesus, 7 que estava com o pro­
cônsul Sérgio Paulo, homem sensato. Êste chamoü 
a Barnabé e Saulo e empenhou-se em ouvir a pa- 
lavra de Deus. 8 Mas resistia-lhes Elimas, p encan- 
- tador (porque assim se interpreta o seu nome), pro1- 
r • çurando -desviar da fé o procônsul. 9 Todavia Sau­
lo, também chamado Paulo, cheio do Espírito San- 
, - . to, fitando os olhos nêle, 10 disse: O’ filho do Diabo, 
, : cheio de todo o engano e de tôda a malícia, inimigo 
, de tôda a justiça, não cessas de perverter os cami­
nhos retos do Senhor? 11 Eis que agora vem sôbre
* ' ‘ ti a mão do Senhor; e ficarás cego, sem ver o sol por 
algum tempo. Imediatamente càiu sôbre êle uma 
névoa e trevas e, andando à roda, procurava quem 
v o guiasse pelá mão. 12 Então o procônsul, Vendo b 
-i que havia acontecido, creu, maravilhando-se da dou-
- trina do Senhor.”
Barnabé, Saulo e seus companheiros viajaram para 
Chipre; mas o Cristianismo já não era novidade em 
Chipre. Barnabé e outros discípulos, cujos nomes nãp 
conhecemos, eram de Chipre. E, como já dantes ano­
tamos, os cipriotas e cireneus acenderam o fogo do rea- 
vivamento em Antioquia. Mnáson, também, era dé 
Chipre, e se nos fala dêle como de um “ disçípulo antigo” ,
O L IV R O D E A TO S 197
tíu “ discípulo desde a origem” (21:16). O intérêsse de 
Lucas aqui parece ser o de contar como ali se diátinguiu 
perfeitamente o Cristianismo da falsa religião, ou falsa 
filosofia, e como aquêle sobremaneira impressionou 
procônsul romano. Também parece que Lucas, estava 
interessado em medir o efeito da reação do procônsul 
sôbre Paulo.
Embora se mencionem as sinagogas, Lucas nadá 
nos diz acêrca do desenvolvimento do Cristianismo na­
quela ilha além do encontro com Sérgio Paulo e com Bar- 
,íesus. Havia muitas comunidades naquela grande ilha, 
rcom muitas sinagogas judaicas. Lucas se contenta em 
dizer apenas que “ êles pregavam a palavra de Deus nas 
sinagogas dos judeus” (13:5). O número de conspícuos 
crentes cipriotas, agindo, já como missionários assaz aii- 
vos, nos faz admitir que Chipre era um campo mui pro­
missor. A reação favorável de Sérgio Paulo sem dúyi- 
da foi mais uma porta que se abriu para os missioná­
rios . Lucas não nos diz quanto tempo êles ficaram ná 
ilha, nem nada nos diz da extensão da obra. O fáto de 
Barnabé e Marcos terem voltado a Chipre mais tarde 
(15:39) nos sugere que êles foram ali muito bem rece­
bidos. O que está claro é que Lucas não estava prima­
riamente interessado na multiplicação de discípulos ou 
igrejas, e nem mesmo em anotar ò progresso geográfico 
çlò»Cristianismo. O que mais o interessava erám as. idéias 
é resultados de outra sorte.
João Marcos aqui é apresentado como um “ assis­
tente” , um auxiliar. A palavra grega aqui empregada 
aparece também significantemente em Lucas, 1:2, onde 
Lucas afirma sua dependência dos “ ministros” da pala- 
Vrá. Presumivelmente as pessoas aí referidas exerciám 
alguma função especiaL Quem sabe isto incluía o ades­
tramento nas praxes cristãs. Era preciso ensinar aos 
conversos os fatos fundamentais da fé cristã, incluindo-
19« F R A N K ST A G G
se as coisas que Jesus dissera e fizera. João Marcos tal­
vez estivesse sendo empregado já nesta capacidade, i .é ., 
doutrinar os neófitos. O fato de residir êle em Jerusa­
lém certo o teria habilitado para desempenhar bem essa 
função. Se, como parece certo, foi êle na verdade o au­
tor do primeiro Evangelho escrito, isto tudo está em 
consonância com o que foi dito. 6 Talvez êle aplicasse 
o batismo a mando de Barnabé e Saulo; mas, o mais 
provável é que fôsse um instrutor da tradição cristã.
Bar-Jesus era judeu, mágico e falso profeta. A fun­
ção do profeta era primàriamente a interpretação da 
mente divina e não predizer o futuro. Êsse homem pro­
clamava “ falsamente ser um medianeiro de revelações di­
vinas” . 7 Foakes-Jackson acha que êle era “ uma pessoa 
que combinava sua ‘filosofia’ (pois que assim devia ser 
chamada) com a prática de mágicas ou adivinhações” . 8 
Bar-Jesus quer dizer “ Filho de Jesus (ou Josué)” , mas 
não está claro como êste nome se ligava com o de “ Eli- 
mas” . Claro está que êle temia perder sua posição jun­
to do procônsul, e por isso tentou desacreditar os mis­
sionários. Paulo talvez percebesse a importância de se­
parar a fé cristã daquele espiritualismo de Elimas, e daí 
a razão de sua forte reação. Àquele Bar-Jesus (Filho 
de Jesus) êle chamou de “ Filho do Diabo” e “ inimigo 
da justiça” . A um verdadeiro e fiel “ profeta judeu” in­
teressava primeiro a justiça, e Bar-Jesus era seu ini­
migo.
Sérgio Paulo “ creu” , mas não se declara se êle se 
converteu ou não. Êle poderia apenas ter crido que os 
missionários eram homens de Deus e verdadeiros profe­
tas. Tivesse um procônsul romano se convertido na­
6. Veja, de R. O. P. Taylor, a obra The Groundwork of the Goapels (Oxford, 
Basil BlackweU, 1946) pg. 21*30.
7. Bruce, op. cit., pg. 256.
8. The Àcte of Apoatlea, p. 111.
O L IV R O D E A T O S 199
queles primeiros tempos, seria de esperar-se encontrar 
alguma referência a êste respeito na tradição cristã.
E’ significativo que dêste ponto em diante Saulo é 
também chamado Paulo (13:9), que era o nome romano 
dêle. Não se prova que Saulo tomou o nome de Paulo 
dali em diante porque o procônsul se chamava Paulo. 
Não sabemos se êle recebeu êsse nome romano ao nas­
cer, ou se mais tarde. Certamente Paulo recebeu aí uma 
nova visão das missões. A atitude favorável do pro­
cônsul possivelmente sugeriu a Paulo a possibilidade de 
ganhar o império romano para Cristo, e isso o inflamou 
no sentido de atirar-se a essa tarefa.
Paulo e Seus Companheiros Alcançam Antioquia da 
Pisídia (13:13-15)
“ 13 Tendo Paulo e seus companheiros navega­
do de Pafos, chegaram a Perge, na Panfília. João, 
porém, apartando-se dêles, voltou para Jerusalém. 
14 Mas êles, passando de Perge, chegaram a Anlio- 
quia da Pisídia e, entrando na sinagoga, no dia de 
sábado, sentaram-se; 15 depois da leitura da lei e 
dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram di­
zer-lhes: Irmãos, se tendes algunia palavra de exor­
tação ao povo, falai.”
Paulo tornou-se o chefe dominante do grupo mis­
sionário, e evidentemente Barnabé não se mostrou agas­
tado com isso. Não sabemos se foi isso que levou João 
Marcos a voltar para Jerusalém,ou não. Muitas causas 
foram aventadas, mas nenhuma é clara e aceitável. Al­
gumas são tão destituídas de base que lamentamos ha­
ver-se gasto tinta e papel com elas. Dizem alguns que 
foi o mêdo das montanhas da região, ou dos ladrões que 
as infestavam, ou o ciúme de Paulo, a indolência, a nos­
talgia, ou penas de amor. Doutro lado, sabemos que êle
F R A N K ST A G G
foi criado em Jerusalém entre montanhas e ladrões; e
& casa dêle, que fôra tão hospitaleira para Jesus e Seus 
primeiros discípulos, não pode ser tratada assim com 
leviandade. 9 Paulo era tão suscetível ao êrro quanto 
João Marcos. Pode ser que a coragem de Marcos o le­
vasse a voltar de Perge. E’ possível que Marcos os dei­
xasse por ousar viver por si, independentemente. De­
sejou, quem sabe, andar conforme seus planos, e por 
isso buscou libertar-se da dominante e dominadora per­
sonalidade de Paulo. 10 E’ altamente plausível a opinião 
cie Rackliam de que a separação se deu por prudência 
e não por atrito de personalidades. 11 Marcos é aqui cha­
mado pelo seu nome hebreu “ João” , e é possível que 
êle ainda não se houvesse ajustado bem à obra entre 
gentios.
Há evidências de que o coração de Paulo se voltava 
para Éfeso e Roma já muitos anos antes de pregar nes­
sas cidades. Possivelmente êle houvera proposto viajar 
para Éfeso, ao deixarem Chipre; certamente intentava ir 
p, Éfeso na próxima viagem, quando “ foram proibidos 
pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia” (16:6). 
Voltando-se para Antioquia da Pisídia, podia estar pla­
nejando ir a Éfeso. Se sua Carta aos Gálatas foi ende­
reçada à “ Galácia do Sul” (incluindo-se Antioquia da 
Pisídia, Icônio, Listra, Derbe), 12 então há prova conclu­
dente de que Paulo não intentara pregar nessas cidades 
(Gál. 4:13). O que ocasionou suas primeiras prédicas 
nessas cidades foi evidentemente alguma “ indisposição
9. Ver P. H. Andèrsõn, em John Mark, Servant o f Christ (Boston, The Chris- 
topher Publishing House, 1949) onde se encontra um valioso e curioso estudo dêste 
assunto.
10. Para o desenvolvimento desta possibilidade, veja-se o srtigo do autor, inti* 
tulado “ John Mark: Who Dared to Live Hia Own Life” , em The Baptist Student 
(Nashville, The Baptist Sunday School Board, February, 1951) XXX, 6, Í2.
11. Op. cit., pg. 203.
12. E ’ abundante a literatura que trata da controvérsia acêrca da “ Galácia do 
Sul" e “ Galácia do Norte” . A êste escritor parece mais plausível a teoria da Galà- 
cia do Sul.
O L IV R O B E A TO S 201
física” que o levou a desistir dos planos de pregar nou­
tros lugares. Conquanto nada saibamos acerca da na­
tureza dessa indisposição física, depreende-se dos» pró­
prios escritos de Paulo que seria uma detestável doen­
ça de olhos (Gál. 4:14). O incômodo certamente surgiu 
em Antioquia quando tencionava ir para Éfeso.
Os exercícios espirituais das sinagogas eram feitos 
em ordem, embora um tanto informais. Incluiam o 
Sliema, recitação de Deut. 6:4; orações, leituras da lei e 
dos profetas com as necessárias interpretações; o ser­
mão, por qualquer homem da congregação; e a bênção; 
cinco partes ao todo. Era costume convidar-se algum 
visitante para fazer o sermão. Também normalmente 
os cristãos daqueles tempos participavam dos cultos nas 
sinagogas. Para Paulo, como para Jesus, o Cristianis­
mo era a consumação do judaísmo, e não um competi­
dor dêste.
O Sermão de Paulo a Judeus e a Tementes a Deus 
(13:16-41)
“ 16 Então Paulo se levantou e, pedindo silên­
cio com a mão, disse: Homens de Israel, e os que 
temeis a Deus, ouvi: 17 O Deus dêste povo de Israel 
escolheu a nossos pais, e exaltou o povo, sendo êles 
estrangeiros na terra do Egito, de onde os tirou com 
braço poderoso, 18 e suportou-lhe os maus costu­
mes no deserto por espaço de quase quarenta anos;
19 e, havendo destruído a sete nações, na terra de 
Canaã, deu-lhes o território delas por herança du­
rante cêrca de quatrocentos e cinqüenta anos. 20 
Depois disto, deu-lhes juizes até o profeta Samuel. 
21 Então pediram um rei, e Deus lhes deu por qua­
renta anos a Saul, filho de Cis, varão da tribo de 
Benjamim. 22 E, tendo deposto a êste, levantou-lhes 
como rei a Davi, ao qual também, dando testemunho,
202 F R A N K ST A G G
disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo 
o meu coração, que fará tôda a minha vontade. 23 
Da descendência dêste, conforme a promessa, trou­
xe Deus a Israel um Salvador, Jesus; 24 havendo 
João, antes do aparecimento dêle, pregado a todo 
o povo de Israel o batismo de arrependimento. 25 
Mas João, quando completava a carreira, disse: 
Quem pensais vós que eu sou? Eu não sou o Cristo, 
mas eis que após mim vem aquêle a quem não sou 
digno de desatar as alparcas dos pés. 26 Irmãos, 
filhos da estirpe de Abraão, e os que dentre vós te­
meis a Deus, a nós é enviada a palavra desta salva­
ção. 27 Pois, os que habitam em Jerusalém e as 
suas autoridades, porquanto não conheceram a êste 
Jesus, condenando-o, cumpriram as mesmas pala­
vras dos profetas que se ouvem ler todos os sába­
dos. 28 E, se bem que não achassem nêle nenhuma 
causa de morte, pediram a Pilatos que êle fôsse 
morto. 29 Quando haviam cumprido tôdas as coi­
sas que dêle estavam escritas, tirando-o do madei­
ro, o puseram na sepultura; 30 Mas Deus o ressus­
citou dentre os mortos; 31 e ele foi visto durante 
muitos dias por aquêles que com êle subiram da Ga- 
liléia a Jerusalém, os quais agora dão testemunho 
dêle para -com o povo, 32 e nós vos anunciamos as 
boas novas da promessa, feita aos pais, 33 a qual 
Deus nos tem cumprido, a nós, filhos dêles, levan­
tando a Jesus, como também está escrito no salmo 
segundo: Tu és meu Filho, hoje te gerei. 34 E no 
tocante a que o ressuscitou dentre os mortos para 
nunca mais tornar à corrupção, falou Deus assim: 
Dar-vos-ei as santas e fiéis bênçãos de Davi; 35 pelo 
que ainda em outro salmo diz: Não permitirás que 
o seu santo veja a corrupção. 36 Porque, na verda­
de, tendo Davi, a seu tempo, servido conforme a von-
O L IV R O D E A T O S 803
tade de Deus, dormiu, e foi depositado junto a seus 
pais e experimentou corrupção. 37 Mas aquêle a quem 
Deus ressuscitou nenhuma corrupção experimentou. 
38 Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por 
êste se vos anuncia a remissão dos pecados. 39 E 
de tôdas as coisas de que não pudestes ser justifi­
cados pela lei de Moisés, por êle é justificado todo 
o que crê. 40 Cuidai, pois, que não venha sôbre vós 
o que está dito nos profetas: 41 Vêde, ó desprezado- 
res, maravilhai-vos e desaparecei; porque realizo 
uma obra em vossos dias, obra em que de modo al­
gum crereis, se alguém vo-la contar.”
Êste sermão de Paulo é dirigido a judeus e a temen­
tes a Deus, sendo aquêles tratados, nos têrmos do seu 
pacto, pelo nome de “ Israel” (13:16) e como “ filhos da 
família de Abraão” (13:26). Paulo, porém, não os en­
coraja de modo algum a crerem que qualquer pacto 
haja amarrado Deus à sua nação ou raça, como de fato 
largamente o sustentavam os judeus contemporâneos de 
Paulo. Os homens de Israel e os filhos de Abraão po­
diam ser também rejeitados como o fôra o rei Saul 
(13:22). Aos gentios se oferecia a mesma salvação, em­
bora também pudessem ser rejeitados, como se dera 
com as “ sete nações da terra de Canaã” (1.3:19). Todos 
são agora chamados à decisão que conduz à salvação 
ou ao juízo. O sermão de Paulo tem três divisões: pri­
meira, Deus preparando um povo e o seu Salvador (vs.
17 a 25); segunda, a mensagem do Evangelho (26-37); 
terceira, o chamado à decisão (38-41).
Paulo lançou mão de fatos históricos para mostrar 
a operação divina na preparação de um povo e de um 
Salvador. Frisou a iniciativa de Deus em preparar um 
povo para a sua salvação e o cuidado que mostrou para 
com êles (vs. 17). A escolha não se baseava nos méri­
tos do povo, pois que em Sua paciência “ suportou-lhes
204 F K A N K STAG G
os maus costumes” (vs. 18). 13 Deus tudo proveu para 
prepará-lo, dando-lhes os “ pais” , os juizes, e profetas 
como Samuel, o rei Davi, o precursor JoãoBatista, e 
finalmente Jesus, o Salvador. 14 Paulo não se referiu 
a entrega da lei e, em vez disso, deu ênfase à promessa. 
Esta é uma das muitas afinidades para com ã carta aos 
Gálatas. Tudo isto apontava parâ o verdadeiro filho de 
Davi, o Salvador, Jesus (vs. 23).
Na segunda parte do sermão (26-37) encontramos 
os elementos básicos da primitiva pregação apostólica: 
o cumprimento das profecias; a negação de que a mor­
te de Jesus por crucificação fôra por ter Êle qualquer 
culpa e a afirmação de Sua morte fôra a morte de um 
inocente; a morte de Jesus como parte do plano divino 
d.e redenção; a ressurreição de Jesus como Sua justifi­
cação; e a Sua vida de ressurrecto testemunhada por 
muitas pessoas. A culpa era atirada sôbre os chefes 
judeus e romanos, embora aquêle monstruoso crime ti* 
vesse sido perpetrado por êles sem que compreendessem 
bem o que então estavam fazendo. Jesus fôra levado à 
morte sem qualquer prova clara contra Êle. Enfatiza- 
se duplamente o entêrro de Jesus, para não ficar dúvida 
alguma de que Êle morrera de fato e depois ressuscitara 
gloriosamente. A ressurreição dÊle, perfeitamente testi­
ficada por muitos que depois O viram, justificou intéfra- 
mente a morte, provando que esta fôra uma vitória de 
Jesus, e nunca uma derrota. O verdadeiro destino, dè 
Israel se realizou em Jesus, o Filho de Deus.
■ A parte final do sermão (38-41) inclui o apêlo e um 
aviso. Oferece-se a todos o perdão dos pecados median­
te Jesus. “ Por êste” os que Crerem são justificados. A 
lei de Moisés não conseguira isto (13:38). Aqui se vê 
claramente enunciada a grande doutrina pauliná da jus­
tificação pela fé, ou da justiça pela fé. Esta justificação
13. Seguimos aqui os melhores manuscritos, em discutida tradução,
14. V er R&çkham, op. cií.» pg, 214. - - „ . .
O L IV R O D E A TO S 205
pela fé inclui tanto uma nova posição como tijma nova 
qualidade de vida. Também está presente aqui o tema 
paulino “ em Cristo” ; porque devemos traduzir melhor 
“ por Êle” do que “ por êste” de 13:19. A união vital 
,eom Cristo é o que se manifesta nessa retidão: nova 
posição, ou atitude, e nova vida. Juntamente com o 
convite para acreditar, ou crer, vem o aviso do julga­
mento que sobrevirá àqueles que não crerem, ou rejei­
tarem o Salvador.
A Reação ao Sermão de Paulo (13:42-43)
“ 42 Quando iam saindo, rogavam que estas pa- 
, ' lavras lhes fossem repetidas no sábado seguinte. 43 
/ E, despedida a sinagoga, muitos judeus e prosélitos 
devotos seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falan- 
do-lhes, os exortavam a perseverar na graça de 
Deus. ”
Paulo pôde pregar a Jesus como o Filho de Deus 
(13:33) e como o Salvador dos homens (13:23) numa 
sinagoga judaica e ser convidado a voltar! Isto se ve­
rificava mais de quinze anos depois da crucificação de 
Jesus. Esta resposta favorável veio de “ judeus e de­
votos conversos do judaísmo (prosélitos)” , Não de- 
.veixtos confundir êstes prosélitos devotos com os temen­
tes a Deus dos versículos 16 a 26. As palavras gregas 
aí são diferentes, e se trata de fato de grupos distintos. 
O auditório de Paulo era composto de judeus (por nas» 
cimento), de prosélitos (gentios convertidos ao judaís­
mo) , e de tementes a Deus (gentios que estavam estu­
dando o judaísmo). Aqui não se menciona o último 
grupo, porque Lucas está interessado somente em evi­
denciar que aqueles que estavam dentro do judaísmo 
mostravam-se favoráveis à mensagem de Paulo. A di­
visão só apareceu no sábado seguinte. *
306 F R A N K ST A G G
' Voltando-se para os Gentios (13:44-52)
“ 44 No sábado seguinte reuniu-se quase tôda a 
cidade para ouvir a palavra de Deus. 45 Mas os ju­
deus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, 
blasfemando, contradiziam o que Paulo falava. 46 
Então Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disse­
ram: Era mister que a vós se pregasse em primeiro 
lugar a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, 
e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos 
viramos para os gentios; 47 porque assim nos orde­
nou o Senhor: Eu te pus para luz dos gentios, a fim 
de que sejas para salvação até os confins da terra. 
48 Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorifi­
cavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos 
haviam sido destinados para a vida eterna. 49 E di­
vulgava-se a palavra do Senhor por tôda aquela re­
gião. 50 Mas os judeus incitaram as mulheres devo­
tas de alta posição e os principais da cidade, suscita­
ram uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e os 
lançaram fora dos seus têrmos. 51 Mas êstes sacudi­
ram contra aquêles o pó dos seus pés e partiram 
para Icônio. 52 Os discípulos, porém, estavam cheios 
de alegria e do Espírito Santo.”
No sábado seguinte apareceu no auditório um quar­
to grupo, e a presença dêste tornou inteiramente inacei­
tável aquela mensagem que dantes fôra recebida com en­
tusiasmo! O grosso dos gentios — “ as multidões” — não 
sujeitas ao judaísmo, compareceram ali “ para ouvir a 
palávra de Deus” ; mas, a presença daquela gente incomo­
dava aos judeus. Aquelas multidões estavam passando 
por alto o judaísmo em aceitando a Jesus, e por isso os 
judeus se mostraram enciumados. Dai, êstes tentaram 
desacreditar a Paulo e Barnabé, bem como ao Evangelho 
que anunciavam.
Então fizeram-se escolhas, e decisões foram toma­
O L IV R O D E A TO S 207
das, cujas conseqüências nenhum dos ali presentes pode­
ria aquilatar bem. Os judeus em nada estavam sendo des­
prezados, ou desconsiderados, pois que a palavra de Deus 
lhes era anunciada primeiramente a êles. Paulo e Barna- 
bé deixaram bem claro isto, quando lhes disseram: “ Vis­
to que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eter­
na” (13:46). Estava aqui o início da auto-exclusão dos 
judeus. E, com esta triste e estranha atitude dos judeus, vi­
nha o seu corolário: “ Eis que nos viramos para os gen­
tios.” Êste era agora o último grupo — os pagãos não 
alcançados pelo judaísmo.
O voltarem-se para os gentios era coisa alegre e tris­
te a um só tempo. Isso apressava a conversão dos gentios, 
mas tornava menos provável a conquista dos judeus para 
Cristo. E isso pesou bastante no espírito de Paulo nos 
anos subseqüentes (ver Romanos, capítulos de 9 a 11). O 
ansioso anelo de Paulo pelos judeus jamais diminuiu, e 
o desejo dêle foi sempre servir a judeus e gentios como 
a um só povo. Mas, já que era forçoso escolher, êle lan­
çava sua sorte com os rejeitados e não com os rejeitado- 
res. Paulo veio a enxergar mais claramente, no correr 
dos anos, que o propósito inicial de Deus era criar com 
judeus e gentios uma nova humanidade em Cristo. A sua 
Carta aos Efésios é a maior afirmação dêste ideal divi­
no. 15 Mas, mesmo nesta data anterior, Paulo não encon­
trava alegria nenhuma em ver-se forçado a romper com 
a sinagoga. E a prova é que êle entrou na primeira sina­
goga que lhe abriu as portas.
A perseguição fêz com que os missionários abando­
nassem a cidade de Antioquia. Deixando-a “ sacudiram 
o pó de seus pés contra êles” , como o teria feito qualquer 
judeu, para proclamar a impureza dum samaritano ou 
dum gentio. Os realmente “ imundos” eram aquêles “ que
15. Ver, de W. O. Carver, a cbra The Glory of God in the Christian CaUing 
(Nashville, Broadman Press, 1949) onde encontramos um tratamento cuidadoso 
desta carta.
208 F R A N K SXAG G
sc julgavam indignos da vida eterna” . Os judeus que jul­
gavam inaceitável a igualdade do gentio em Cristo é que 
estavam provando ser os verdadeiros “ gentios” . Mais 
-tarde, Paulo iria fazer distinção entre o verdadeiro Israel 
e o Israel nacionalista, e mostraria que, por esta distinção, 
o judeu nato podia virtualmente tornar-se puro “ gentio” 
(Gál. 3:7, 28 com Rom. 9:6).
Icônio: Os Mesmos Resultado® (14:1-7)
“ 1 Em Icônio entraram juntos na sinagoga dos 
judeus e falaram de tal modo que creu uma grandè
- ' multidão tanto de judeus como de gregos. 2 Mas os 
judeus incrédulos excitaram e irritaram os ânimos 
dos gentios contra os irmãos. 3 Êles entretanto se de- 
í moráram ali por muitotempo, falando ousadamente 
acêrca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra 
: da suá graça, concedendo que por mãos dêles se fi­
zessem sinais e prodígios. 4 Mas dividiu-se a multi­
dão da cidade; e uns eram pelos judeus, e outros pe- 
r los apóstolos. 5 E, havendo um motim tanto dos gen­
tios como dos judeus, juntamente com as suas auto­
ridades, para Os ultrajarem e apedrejarem, 6 êles, 
sabendo-o, fugiram para Listra e Derbe, cidades da 
Licaòniü, e cercanias, 7 e ali pregavam o evange­
lho.”
! A palavra “ juntos” é tradução de três palavras gre­
gas que significam literalmente “ segundo a mesma coi­
sa” (14:1). Parece tratar-se de um idiòmatismo que sig­
nifica “ do mesmo modo” (ver expressão semelhante em 
Lucas 6:23 e 26) , Lucas, assim, está dizendo que êles 
entraram em Icônio do mesmo modo como em Antio- 
quia: começaram por visitar a sinagoga, tentando minis­
trar a judeus e gentios por aquele meio. A história se re­
flete, e, âpós o êxito inicial, a oposição dos judeus os for­
çou a sair da sinagoga e, por fim, da própria cidade1-
O L IV R O D E A T O S 209
Conquanto encontremos aqui dificuldades textuais 
que prejudicam a reconstrução da narrativa, parece que 
houve certo êxito a princípio na sinagoga, visto que cre- 
ram judeus e gregos (tementes a Deus) (14:1). Isto 
precipitou a oposição dos judeus, e êstes, incrédulos, ou 
desobedientes (a palavra grega expressa tanto uma coisa 
como outra), sublevaram os gentios contra os irmãos 
(14:2). O versículo seguinte nos fala dum longo período 
de bastante paz, que lhes facultou falar ousadamente do 
Senhor e realizar sinais e maravilhas pelo Seu poder (14: 
3 ). Provàvelmente durante êsse período êles foram di­
retamente aos gentios, após terem sido expulsos da sina­
goga. (Alguns exegetas acham que se deve trocar a or­
dem dos versículos 2 e 3, alegando que algum antigo es­
criba mui provàvelmente mudou a posição dêles. Isso 
torna mais corrente a leitura, e, nesse caso, teria havido 
apenas uma perseguição; mas não temos provas em ne­
nhum manuscrito que nos autorize a colocar o versículo 
terceiro antes do segundo. Alguns manuscritos impor­
tantes trazem ao final do versículo segundo esta nota ex­
plicativa: “ e o Senhor depressa concedeu paz” .)
O versículo 4 nos descreve uma divisão entre o povo 
da cidade, visto que uns ficaram com os judeus e outros 
com os apóstolos. Admitindo que êstes foram antes ex­
pulsos da sinagoga e que a isto se seguiu um período de 
pregação direta aos gentios, poderemos ver então o pos­
terior esforço dos judeus no sentido de forçar os apósto­
los a abandonar a cidade. Possivelmente não acharam 
nada em que pudessem acusar legalmente os apóstolos, e 
por isso os judeus lançaram mão da violência. Certamen­
te apresentaram as razões de costume para sublevar a 
cidade, e os chefes gentios da cidade desejaram devolver- 
lhe a paz pondo para fora os perturbadores da mesma. 
Os apóstolos, sabendo o que então se tramava contra êles, 
fugiram para outras cidades e suas vizinhanças (14:6).
A .A . 14
210 F R A N K STAG G
E’ digno de nota a palavra “ apóstolos” aqui usada 
(14:4), em referência a Paulo e Barnabé. (Ver também 
14:14). Paulo em suas Cartas faz questão de chamar-se 
apóstolo. Esta palavra significa “ enviado” , e pode refe­
rir-se aqui à função dêles como missionários. Filipe tam­
bém fôra enviado a realizar missões mui importantes, 
mas não é chamado apóstolo. Conquanto vejamos um 
grupo de pessoas do Novo Testamento reconhecidas como 
“ apóstolos” , não temos explicação alguma acêrca da dis­
tinção do ofício. (Veja-se, porém, a discussão de 1:15-26.)
, Uma história pormenorizada a respeito de Icônio en­
contramos no livro Atos de Paulo e Tecla (A. D. 150).16 
Segundo Tertuliano, essa história foi compilada por um 
presbítero da Ásia Menor que foi deposto no ano 160 por 
havê-la escrito, Fala-nos da dedicação de Tecla por Pau­
lo e da recusa de tal pessoa em casar-se com um jovem 
aristocrata chamado Tamiris. Essa perturbação da 
vida doméstica provocou muitos conflitos e perseguições. 
Possivelmente isto não tem nenhuma base histórica. E’ 
o que acham muitos peritos. Mas, é possível que aí este­
ja refletida alguma história verdadeira. A história é cla­
ramente uma glorificação da virgindade, e isso nos faz 
ver que ela não passa de coisa inventada. Contudo, há 
nessa história alguns traços que parecem refletir a situa­
ção daquele tempo. Se isso íôr verdade pode lançar al­
guma luz sôbre o cisma verificado em Icônio, pois que a 
conversão de um pagão perturbaria profundamente as re­
lações domésticas e comunais por suas conseqüências mo­
rais e religiosas. Para não irmos muito longe, basta-ima­
ginar-se a tensão que se verificaria entre uma mulher 
cristã e seu espôso pagão, o qual adorava ídolos e admi­
tia como legal o infanticídio! Algo disto vemos refletido
16. Ver, de Sir W. M. Ramsay, o livro The Church in the Roman Empire, pg. 
375-428; e Rackam, op. c i t pg. 226 em diante.
O L IV R O D E A TO S 211
na Primeira Carta aos Coríntios, notadamente no capítu­
lo sete.
Essa história igualmente nos descreve Paulo como 
uma pessoa “ de baixa estatura, de sobrancelhas cerra­
das, de nariz mais ou menos grande, calvo, cambaio, de 
íísico bem forte, atraente, pois que às vêzes parece ho­
mem, e outras vêzes tem rosto de anjo” . 17 Ramsay áno- 
ta que “ Êste sincero e desfavorável retrato das feições 
pessoais do Apóstolo parece traduzir uma tradição assaz 
antiga.” 18 Verdadeiro ou imperfeito, o certo é que êstc 
relato exerce até hoje sua influência nos retratos men­
tais que fazemos do grande Apóstolo dos gentios.
Listra: Pagãos Volúveis e Judeus Persistentes (14:8-20a)
“ 8 Em Listra estava serítádo um hómem aleija­
do dos pés, coxo dé nascença e que nunca tinha an­
dado . 9 Êste ouvia falar Paulo, que, fitando nêle ós 
ollios e vendo que tinha fé para ser curado, 10 disse 
em alta voz: Levanta-te direito sôbre teus pés. E êle 
saltou, e andava. 11 As turbas, vendo o que Paulo fi­
zera, levantaram a voz, dizendo em lingua licaôni- 
ca: Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens 
e desceram até nós. 12 A Barnabé chamavam Júpi­
ter e a Paulo, Mercúrio, porque era êle o qüe dirigia 
a palavra. 13 O sacerdote de Júpiter, cujo templo 
estava em frente da cidade, trouxe parã as portas tou­
ros e grinaldas, e, juntamente com o povo, quèria 
oferecer-lhes sacrifícios. 14 Quando, porém, os após­
tolos Barnabé e Saulo ouviram isto, rasgaráni âs 
suas vestes e saltaram para o meio da multidão, cla­
mando 15 e dizendo:.Senhores, por que fazeis essas 
coisas? Nós também somos homens da mesma na­
tureza que vós, e vos anunciamos o evangelho para
17. The Church in the Roman Empire, pg. 31 em diante.
18. Ibid., pg. 32.
2X2 F R A N K ST A G G
que fez o céu, a terra, o mar, e tudo quanto nêles 
existe; 16 o qual nos tempos passados permitiu que 
tôdas as nações andassem nos seus próprios cami­
nhos. 17 Contudo não deixou de dar testemunho de 
si mesmo, fazendo o bem, dando-vos chuvas do céu 
e estações frutíferas, enchendo-vos de mantimento, 
e de alegria os vossos corações. 18 E dizendo isto, 
com dificuldade impediram as multidões de lhes ofe­
recerem sacrificios. 19 Sobrevieram, porém, judeus 
de Antioquia e de Icônio e, havendo persuadido a 
multidão, apedrejaram a Paulo, e arrastaram-no para 
fora da cidade, cuidando que estava morto. 20 Mas, 
quando os discípulos o rodearam, êle se levantou e 
entrou na cidade. ”
O ambiente de Listra era completamente pagão. Não 
se diz que ali houvesse alguma sinagoga judaica, e preva­
lecia o culto de Zeus (14:13). Os habitantes de Listra 
certamente falavam um grego estropiado,19 mas sua lin- 
gua materna era a licaônica. Quando viram já curado 
o coxo, concluíram que os apóstolos eram Zeus e Hermes, 
e logo buscaram oferecer-lhes sacrificios. Excitados e 
boquiabertos, era natural que voltassem a usar a sua lin- 
gua nativa. Chamaram a Paulo de “ Hermes” , porque 
era Paulo o orador principal. Hermes era o deus da pa­
lavra, ouo mensageiro (no original grego a palavra em­
pregada é anjo) dos deuses. Êste incidente certamente 
é lembrado numa posterior referência feita por Paulo, 
quando êste diz ter sido recebido como “ um anjo” (Gál. 
1:8 e 4:14).
A mensagem de Paulo aos listrenses reflete nitida­
mente a formação puramente pagã de seus ouvintes. 
Como se dá com todos os seus discursos registrados nos
19 Assim o demonstram inscrições de dita posterior, e é de presumir-se QU© 
Poulo a êles se dirigiu em grego.
O L IV R O D E A T O S 213
Atos, êste discurso calhava perfeitamente à situação, 
Paulo chamou a atenção de seus ouvintes para o Deus 
vivo que criara tôdas as coisas, procurando desviá-la do 
culto dos deuses que êles haviam criado (14:15). Já nas 
sinagogas, Paulo certamente apelaria para o testemunho 
das escrituras judaicas; agora, porém, deveria apelar para 
aquilo que fôsse da experiência daqueles pagãos. Deviam 
êles perceber que nas bênçãos recebidas através da natu­
reza estava a benfeitora mão de Deus e o testemunho que 
Êle dava de Sua Pessoa (14:17).
Encontra-se alguma dificuldade em harmonizar a de­
claração — “ nas gerações passadas permitiu que tôdas 
as nações andassem nos seus próprios caminhos” (14: 
16) com o argumento de Paulo em Romanos 1:18-32, 
onde Paulo insiste em afirmar que os pagãos são ines­
cusáveis e que a cegueira dêles é a resultante de sua pró­
pria recusa de seguir a luz que Deus lhes concedera na 
natureza. As passagens podem harmonizar-se, se nos 
lembrarmos bem dos problemas aí discutidos. Na Carta 
aos Romanos, o interesse principal do Apóstolo era esta­
belecer o fato de que Deus é reto e justo no Seu modo de 
tratar a judeus e gentios; se alguém se perde, é justamen­
te pelo fato de não ter obedecido à luz facultada por 
Deus. Em Listra Paulo não estava lidando com gente or­
gulhosa que insistia em que Deus a devia salvar, e, se 
não a salvasse seria infiel a Seus compromissos (muitos 
judeus afirmavam que Deus seria injusto se consentisse 
na perdição do povo do pacto). Estava lidando, sim, com 
um povo simples e ignorante que necessitava ser conci­
tado a lançar-se nos páramos duma fé esclarecida. Acres­
ce ainda que Paulo agora estava conclamando aquela 
gente a aproveitar-se daquela luz que tinham recebido 
através da natureza e a cuja plenitude teriam acesso ago­
ra pelo evangelho.
Mas, a singeleza, ou simplicidade daqueles pagãos não
F R A N K ST A G G
era o maior problema que o apóstolo tinha a enfrentar, 
pois que judeus persistentes e teimosos o perseguiam 
desde Antioquia e Icônio. Êstes, persuadindo as multi­
dões emotivas e volúveis, levaram os judeus a “ apedre­
jar Paulo e arrastá-lo para fora da cidade, supondo que 
êle estivesse morto” (14:19). As nossas traduções nos 
deixam fàcilmente a impressão de que o povo de Listra 
apedrejou a Paulo, mas isso não é exato. Os particípios 
gregos decidem a questão, e revelam que “ os judeus de 
Antioquia e Icônio” é que apedrejaram Paulo. Achando 
que êle estava morto, provàvelmente voltaram a suas ci­
dades. E assim se explica o fato de ter o Apóstolo podi­
do entrar novamente na cidade de Listra. Aqueles judeus 
certamente persuadiram os habitantes de Listra a ponto 
de êstes permitirem o ataque contra Paulo; mas não to­
maram a iniciativa naquela perseguição.
Derbe, e a Viagem de Volta a Antioquia da Síria 
(14:20b-28)
“ 20b No dia seguinte partiu com Barnabé para 
Derbe. 21 E, tendo anunciado o Evangelho naquela 
cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Lis­
tra, Icônio e Antioquia, 22 confirmando as almas dos 
discípulos, exortando-os a perseverarem na fé, dizen­
do que por muitas tribulações nos é necessário en­
trar no reino de Deus. 23 E, havendo-lhes feito ele­
ger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os 
encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.
24 Atravessando então a Pisídia, chegaram à Panfí- 
lia. 25 E, tendo anunciado a palavra em Perge, des­
ceram à Atália. 26 E dali navegaram para Antioquia, 
donde tinham sido encomendados à graça de Deus 
para a obra que acabavam de cumprir. 27 Quando 
chegaram e reuniram a igreja, relataram tudo quan­
to Deus fizera por meio dêles, e como abrira aos
O L IV R O D E ATO S SIS
gentios a porta da fé. 28 E ficaram ali não pouco
tempo, com os discípulos.”
E’-nos dado somente um relatório geral da vito­
riosa missão em Derbe. “ Gaio, de Derbe” (20:4) deveria 
ler-se convertido nesse tempo. Listra e Derbe podiam 
não ter sido incluídas no plano prèviamente elaborado, 
pois que os apóstolos se viram forçados a fugir da perse­
guição em Icônio para essas cidades (14:6). Estivessem 
ou não estivessem no plano, a verdade é que nessas cida­
des êles conseguiram conversos muito amados, embora 
Loíde, Eunice, e Timóteo, bem como Gaio, possivelmen­
te só viessem a ser alcançados na seguinte viagem mis­
sionária .
0 regresso através das comunidades recém-evange- 
lizadas era coisa de muita importância, visto tratar-se de 
igrejas muito novas e também por causa das perseguições 
desencadeadas contra elas. Era necessário fazer ver àque­
les novos cristãos que “ a cruz” é coisa com que se deve 
contar no reino de Deus (14:22). Havia uma futurosa 
obra em organização, que se fazia notadamente necessá­
ria onde a igreja se ia separando da sinagoga e se consti­
tuindo em sua mor parte de gentios. Os apóstolos “ indica­
ram anciãos” em cada igreja e os deixaram ao Senhor 
(14:23). A pa’avra grega traduzida aqui por “ indicar” re­
fere-se originàriamente à eleição por manifestação de 
mãos, mas não se pode afirmar que Lucas empregasse 
esta palavra com êsse sentido. Gomo vimos atrás, as pa­
lavras “ ancião” (presbítero) e “ bispo” são muitas vêzes 
empregadas em o Novo Testamento alternadamente. (Ver 
Atos 2:17 com 20:28, e Tito 1:5 com 1:7).
Atália é mencionada na viagem de regresso, embora 
não se fale nela quando os missionários viajaram de Chi­
pre e “ vieram a Perge” (13:13). De novo se nos diz que 
os apóstolos pregaram a palavra em Perge na volta (14: 
25), mas não se fala que a pregaram ali na visita anterior
216 F K A N K ST A G G
P . H . Anderson 20 nos apresenta a solução mais aceitável 
para tais problemas. Diz êle que Atália era o lugar de 
desembarque de Perge e que por isso não lhes podia ofe­
recer boas oportunidades para pregar — especialmente 
quando aportasse algum navio, porque o povo ali residen­
te estaria então muito atarefado. Paulo e seu companhei­
ro, portanto, ápressaram-se em alcançar Antioquia da Pi- 
bídia. No regresso, porém, tiveram que esperar a saída 
do navio que os levaria a Antioquia da Síria. Os navios 
não podiam obedecer estritamente a escalas e horários 
estipulados, e assim os missionários tiveram que esperar 
em Perge até poderem arrumar passagem em Atália. As­
sim, esperando em Perge, pregaram, o evangelho.
Chegados a Antioquia da Siria, havia muita coisa a 
relatar de sua viagem missionária: as viagens, o testemu­
nho a um procônsul romano, o desmascaramento de um 
mágico, convites para pregar em sinagogas judaicas, a 
conversão de judeus, de tementes a Deus e de pagãos; o 
fato de serem tomados como deuses, as ameaças, o ape­
drejamento, e por certo muitas outras experiências não re­
gistradas por Lucas. A campanha deveria ter sido de al­
guns anos, embora nada se declare a respeito de sua du­
ração. Mas, de tôdas as coisas a serem relatadas, a mais 
importante para Lucas era o fato de Deus “ ter aberto a 
porta da fé aos gentios” (14:27).
.Na verdade tinham sido já oferecidas aos gentios al­
gumas portas abertas, tais como a circuncisão,’ a lei, e o 
privilégio de ser um prosélito. Mas esta porta — a da 
fé pessoal em Cristo Jesus — não tinha nenhuma ligação 
necessária com a sinagoga e com qualquer daquelas coisas*
20. Op. cit* üg. 44 em diante.
O L IV R O D E A TO S 217
A Liberdade dos Gentios Discutida em Antioquia e em ,
Jerusalém
(15:1-35)
Salvação e Comunhão. A vitoriosa campanha que 
trouxera para dentro das igrejas muitos gentios e judeus 
também fêz surgir uma criseque punha em discussão al­
guns pontos bem difíceis. Assim em Antioquia.e em Je­
rusalém iniciou-se o debate sôbre as condições de salva­
ção e, de comunhão. A afirmação de que o gentio não’ se 
poderia salvar sem a circuncisão e sem a observância da' 
lei mosaica (15:1 e 5) foi rejeitada por ambas as igrejas. 
O inevitável problema que, vinha ligado a isso era o das 
condições de comunhão, ou de companheirismo, entre ju­
deus (cristãos ou não cristãos) e gentios convertidos.
As claras demonstrações do Espírito ..convertendo 
gentios incircuncisos eram mui conclusivas e indiscutíveis 
para todos, exceto para um impertinente partido de cren­
tes fariseus que sustentavam que a salvação dependia da 
circuncisão ou da obediência à lei mosaica. Êstes fari-, 
seus, mais tarde conhecidos como judaizantes, não aceita­
ram a decisão das igrejas; e, ajudados põr judeus incré­
dulos. inauguraram um aguerrido debate com Paulo, de­
bate que se estendeu por vários anos em tôdà a Galáciâ, 
e Corinto, e Éfeso, e por tôda a parte; 1
A decisão acêrca da salvação não resolveu para algutís5 
a questão do companheirismo ou comunhão (assiin como 
a questão de raça não é hoje um problema afetG à salva­
ção e sim ao companheirismo). O ágape, ou a ceia da 
fraternidade, e a Ceia do Senhor, apresentariam á ocasião 
para forçar a questão. Os escrúpulos judaicos surgiram 
da parte de alguns que não admitiam comer cpm gentios 
cristãos, negando também a outros êsse direito. O proble­
ma, se tornou bastante agudo para os judeus cristãos que 
desejavam conservar sua comunhão é amizade com ;ju­
218 FRANK STAGG
deus não cristãos. O contato “ conspurcador” com cris­
tãos incircuncisos privaria os judeus cristãos da desejada 
comunhão com os judeus não cristãos.
E’ muito provável que esta questão de comunhão ou 
companheirismo tivesse sido uma das causas da tensão 
havidá entre Barnabé e Paulo, como também certamente 
da tensão entre Pedro e Paulo (Gál. 2:11 em diante). 
Paulo e Barnabé se separaram por causa de João Mar­
cos; mas, como dissemos antes, a questão subjacente foi 
de diplomacia e não simplesmente um choque de perso­
nalidades. E’ possível que Barnabé fôsse mais cauteloso 
lio sentido de forçar o preconceito judaico a dar lugar à 
fraternidade cristã que pleiteava a igualdade do judeu è 
do gentio incircunciso. Paulo, por outro lado, parecia 
não tolerar a idéia de cristãos de primeira e de segunda 
classe. Para êle, o fato de alguém não querer viver fra­
ternalmente com cristãos incircuncisos era o mesmo que 
uão crer na salvação dêstes. O que êle disse a Pedro em 
Antioquia equivalia justamente a isto (Gál. 2:11 em 
diante).
Questões de Exegética. Nenhum capítulo do Novo 
Testamento nos oferece maiores dificuldades exegéticas do 
que êste capitulo 15 dos Atos. 0 próprio texto em mui­
tos pontos é incerto, por causa das diferenças dos manus­
critos; 21 e enconIramos maiores problemas ainda quando 
confrontamos êste capitulo com Gálatas 1:11 a 2:10. Kir- 
sopp Lake não está muito longe da verdade quando diz: 
“ O problema principal do capítulo 15 dos Atos é tão com­
plicado que apenas podemos enunciá-lo — não o podemos 
resolver — um processo de análise, por meio de outros 
problemas menores.” 22 Será què a visita referida em 
Gál. 2:1-10 é paralela à visita referida no cap. 15 dos
21. Êste problema será discutido na exegese do capítulo.
f!2. Kirsopp Lake e Henry J . Cadbury, editores, em Additional Notes, V ol. V..
The Beginnings o f Christianity (Londres, Macmillan and Co., 193S), p g . 195.
O LIVRO DE ATOS 219
Atos, ou à referida em 11:30 ou em 12:25? As medidas 
contidas nessa carta (Atos 15:29) são de caráter moral ou 
ritualista? Tito (que não é mencionado nos Atos) foi cir­
cuncidado (Gál. 2:3)? A conferência se realizou antes 
ou depois da campanha de Barnabé e Saulo? Eis alguns 
dos problemas bastantemente discutidos em todos os co­
mentários críticos.
Visitas a Jerusalém. Tradicionalmente se tem toma­
do a conferência referida neste capítulo 15 como paralela 
à referida no cap. 2 de Gálatas. Muitos, contudo, acham 
que a visita mencionada em Atos 11:30 e 12:25 é que é 
paralela à referida no cap. 2 de Gálatas. Na Carta aos 
Gálatas, Paulo jura que está dizendo a verdade, e afirma 
categoricamente que seu apostolado não se deriva dos 
doze, e nem depende dêles. Êle nos fala de duas visitas 
a Jerusalém: uma, três anos depois de sua conversão, 
quando então se demorou ali quinze dias com Pedro e viu 
Tiago (Gál. 1:18-19); então, outra, depois de catorze 
anos, quando subiu a Jerusalém, “ por revelação” , com 
Barnabé e Tito e discutiu em particular com Tiago, Ce- 
fas, João, e outros, o problema da circuncisão (Gál. 2:1- 
10). Nos Atos a segunda visita de Paulo, como cristão, a 
Jerusalém é essa mencionada em 11:30 e 12:25; a visita de 
que nos fala o cap. 15 dos Atos é a terceira mencionada. 
Isto, juntamente com outras considerações, é coisa deci­
siva para muitos que acham que a visita de Atos 11:30 
e 12:25 é paralela à de Gál. 2:1-10. Outros, por sua vez, 
sustentam que as passagens se referem a uma visita só, 
e que Lucas confundiu suas fontes de informação, dan­
do uma visita só como duas.
Êste escritor não deseja tomar a si a tarefa de “ pro­
var” que Lucas de fato se confundiu ao ponto de tratar 
uma só visita como duas; as evidências que nos levamua 
confiar na veracidade do que Lucas afirma são por demais 
fortes para agirmos assim. Vale dizer, no entanto, que 
levando-se em conta a finalidade com que alguns escre­
220 FRANK STAGG
vem hoje em dia, está longe de provar-se que a visita de 
11:30 e 12:25 seja paralela à de Gál. 2:1-10.
A Teoria de que Atos 11:30 se assemelha a Atos 15
— Lake apresenta em tôda a sua fôrça a teoria de que 
a visita de Atos 11:30 e 12:25 se deu por ocasião da con­
ferência e que a visita referida no cap. 15 dos Atos é 
apenas uma confusão com a mesma visita. 23 Assim ar­
gumenta êle: “ Segundo Gálatas, Paulo foi a Jerusalém 
por revelação, e não por causa de qualquer controvérsia 
na igreja, e êle dá a entender que tal visita estava rela­
cionada com o cuidado dos pobres. ” 24 E’ verdade que 
Paulo foi “ por revelação” , mas isso não exclui que uma 
controvérsia desse ocasião a essa viagem. Os gálatas pos­
sivelmente sabiam algo dessa controvérsia e então o cen­
suraram, achando que êle devia ir a Jerusalém a fim de 
ser julgado pelos apóstolos. E Paulo insiste em afirmar 
que íôra a Jerusalém não para atender a uma intimação 
dos Apóstolos, e sim para atender a um imperativo di­
vino .
Isto de modo algum nega que a visita referida nc 
cap. 15 dos Atos seja a que Paulo fêz “ por revelação” . 
O cuidado dos pobres não foi a ocasião para a visita men­
cionada em Gálatas, e por isso não corresponde à visita 
de Atos 11. Fôsse isso verdade, seria supérfluo o apêlo 
da parte dos gálatas para que Paulo “ se lembrasse dos 
pobres” (Gál. 2:10). Compreende-se que se pedisse a 
Paulo e seus amigos que se lembrassem dos pobres logo 
após à conferência referida no cap. 15 dos Atos; mas é 
de estranhar que essa solicitação se fizesse no final da 
visita referida no capítulo 11 dos Atos, quando Paulo e 
Barnabé estavam fazendo justamente isso. Se aplicarmos 
ó apêlo ao cap. 11 dos Atos, teremos isto: “ De todos os 
modos, pedimos o favor de não vos esquecerdes de fazer 
justamente aquilo que estais agora fazendo.”
23. Additional Notes, pg. 201; para a discussão completa do assunto, pg. 195-
212.
24. Ibid, pg. 202-25,
O LIVRO DE ATOS 221
Afirmou-se também que o capitulo 15 dos Atos não 
passa dum registro assaz confuso, porque (assim dizem) 
a solução dada não se ajusta ao problema. 25 O problema 
então em foco, segundo o cap. 15 dos Atos e Gálatas 2:1- 
10, era o da circuncisão e das condições de salvação; mas 
a resolução contida no cap. 15 dos Atos incluia três (ou 
quatro) assuntos referentes à comunhão, ou companhei­
rismo. Afirma-se então que tal incongruência é fa­
tal, pois nos leva a admitir que a narrativa do cap. 15 
dos Atos não é digna de

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