Prévia do material em texto
Impresso nas Oficinas da
CASA PUBLICADORA BAT ISTA
Rua Silva Vale, 781, T . Coelho, R
O LIVRO DOS
A T O S
DOS APÓSTOLOS
OS PRIMEIROS ESFORÇOS EM PROL DUM EVANGELHO
DESIMPEDIDO
POR
FRANK STAGG
NOVA ORLEANS
SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA
CASA PUBLICADORA BATISTA
Caixa Postal, 320 — Rio
1958
Tradução Autorizada, feita pelo Rev. Waldemar W . Wey, do texto em inglês
— THE BOOK OF ACTS
The Early Struggle for an Unhindered Gospel
d» FRANK STAGG - Baptist Theological Seminary, New Orleans, E. U. A .
Copyright, 1957 - Casa Publicadora Batista
Ca ixa Postal, 320 - Rio de Janeiro
Brasil
-?4 Evelyn,
Z^ed, 'Bobby
e Ginger
CONTEÚDO
P R E F Á C IO ....................................................................................... i 1
IN TR O D U Ç Ã O ................................................................................. 14
A Súmula num A d v é r b io .................................................... 14
O Objetivo do Livro dos A t o s ............................................... 18
A Data e a O c a s iã o .......................................................... 37
Sua Autoria e suas F o n t e s ............................................... 42
O Prefácio de Lucas ( 1 : 1 - 5 ) .................................................... 49
PRIMEIRA PARTE
A Igreja Hebréia: O Judaísmo Cristão (1:6 a 6:7) . . . 57
I. O Tema: Nacionalismo Estreito ou Um Reino Espi
ritual e Universal ( 1 : 6 - 8 ) ............................................... 57
II. O Rápido Crescimento do Judaismo Cristão (1:9 a 6:7) 59
1. A Ascenção de Jesus ( 1 :9 - 1 1 ) ............................. 59
2. Esperando em Jerusalém (1:12-14) . . . . 63
3. A Eleição de Matias, uma Testemunha da Res
surreição (1 :1 5 -2 6 ) .................................................... 66
4. O Dia de Pentecostes ( 2 :1 - 4 7 ) ............................. 76
(a) Cheios do Espírito Santo (2:1-4) . . . . 76
(b) Falando Línguas ( 2 :5 - 1 3 ) ............................. 81
(c) O Sermão de Pedro (2:14-36) . . . . 85
(d) O Chamado ao Arrependimento (2:37-40) 92
(e) O Crescimento do Judaísmo Cristão (2:41,-47) 96
5. A Cura do Coxo que Mendigava no Templo
(3:1-10) ........................................................................ 105
6. O Sermão de Pedro aos Judeus (3:11-26) . . 106
7. Os Saduceus, o Alarme Produzido pelo Cres
cente Movimento e pelo Tema da Ressurreição,
a Prisão e a Libertação de Pedro e João (4:1-31) 109
(a) A Irritação dos Saduceus (4:1-4) . . . 109
(b) Pedro e João Desafiados pelo Sinédrio
( 4 : 5 - 2 2 ) ............................................................. 112
(c) Fidelidade para com o Soberano Senhor
( 4 :2 3 -3 1 ) ............................................................ 115
8. Companheirismo, Fraude, e Temor (4:32 a 5:16) 117
9. O Malogro dos Saduceus e a Indecisão dos Fa
riseus (5 :1 7 i -4 2 ) ...................................................... 125
10. Os Helenistas, os Hebreus, e os Sete (6:1-6) . . 128
11. Relato Resumido: A magnitude do Judaísmo Cris
tão (6:7) .................................................................. 133
SEGUNDA PARTE
O caráter Universal do Cristianismo afirmado por Judeus,
Gregos e Gradativamente Reconhecido pelos Apóstolos
(6:8 a 1 2 : 2 5 ) ............................................................................ 135
I. Estêvão: O Pioneiro do Universalismo, e Seu Mártir
(6:8 a 8 : 1 a ) ...................................................................... 135
II. Nova Perseguição Desencadeada por Saulo, o Fariseu
( 8 : l b - 3 ) ............................................................................... 146
III. Filipe Prega Livremente aos Samaritanos e a Um
Etíope ( 8 : 4 - 4 0 ) ................................................................. 148
1. Filipe em Samária ( 8 :4 - 1 3 ) ..........................................148
2. Pedro em Samária (8:14 2 5 ) ............................. .......150
3. Desimpedido: O Eunuco Etíope, um Grego Te
mente a Deus (8 :2 6 -4 0 ) ................................................ 152
IV. A Conversão, Comissão e Recepção de Saulo (9:1-30) 156
1. A Conversão de Saulo ( 9 : 1 - 9 ) ............................. 156
2. Saulo Comissionado e Batizado (9:10-19a) . . 159
3. A Recepção de Saulo em Damasco e em Jeru
salém (9:19b-30) . ..................................................... 160
V. Paz e Crescimento ( 9 : 3 1 ) .............................................. 162
VI. Os Apóstolos São Levados a Reconhecer os Gentios
Incircuncisos (9:32 a 1 1 : 1 8 ) ..........................................163
1. Pedro em Lida e em Jope (9:32-43) . . . . 163
2. A Visão de Cornélio ( 1 0 :1 - 8 ) ............................. .......164
3. A Visão de Pedro em Jope (10:9-23a) . . . 166
4. Pedro e Cornélio (1 0 :2 3 b -4 8 )............................. ....... 168
5. Pedro Objetado por Haver Comido com Gentios
( 1 1 :1 -1 8 ) ...................................................................... ....... 173
VII. Cíprios e Cirenenses Desconhecidos Pregam a Gregos
em Antioquia (1 1 :1 9 -2 6 ) ............................................... 177
VIII. A Fome em Perspectiva — Boa Ocasião para a Prá
tica da Fraternidade (1 1 :2 7 -3 0 ) ................................... 180
IX. A Perseguição Movida por Herodes, e a Morte Dêste
( 1 2 :1 - 2 3 ) ............................................................................. 182
1. A Perseguição Herodiana (12:1-5) . . . . 182
2. A Libertação de Pedro (1 2 :6 -1 9 ) ....................... .......184
3. A Morte de Herodes (1 2 :2 0 -2 3 ) ............................. .......187
X . Crescimento e a Missão de Barnabé e Saulo (12:24-25) 187
TERCEIRA PARTE — TRIUNFO E TRAGÉDIA:
A. Desimpedida Pregação do Evangelho e a Auto-Exclusão dos
Judeus (13:1 a 2 8 : 3 1 ) .......................................................... 190
I. Judeus e Gentios Se Aproximam Principalmente por
meio das Sinagogas; Reconhece-se o Direito que os
Gentios Têm à Fé Cristã (13:1 a 16:5) . 191
1. Trabalho Evangelístico para Barnabé e Saulo
(13:1 a 1 4 : 2 8 ) ........................................................... 192
(a) Separação de Barnabé e Saulo para Rea
lizarem uma Determinada Obra (13:1-3) . 192
(b) Mostra-se diante duma Autoridade Romana
que o Cristianismo é Coisa Mui Distinta das
Falsas Filosofias (13:4-12) : . . . . 196
(c) Paulo e Seu Companheiro Alcançam Antio-
quia da Pisídia (1 3 :1 3 -1 5 )....................... 199
(d) O Sermão de Paulo aos Judeus e aos que
temem a Deus (1 3 :1 6 -4 1 ) ............................. 201
(e) a Reação 2* Sermão de Paulo (13:42-43) 205
(f) Voltando-se para os Gentios (13:44-52) 206
(g) Icônio: O,:; Mesmos Resultados (14:1-7) . 208
(h) Listra: Pagãos Volúveis e Judeus Persis
tentes (1 4 :8 -2 0 a )............................................... ....... 211
(i) Derbe e a Viagem de Volta a Antioquia da
Síria (1 4 :2 0 b -2 8 ).............................................. 214
2. Debate sôbre a Liberdade dos Gentios, em Antio
quia e em Jerusalém (1 5 :1 -3 5 ) ....................... 217
(a) Os Crentes Fariseus Insistem em que os
Gentios Sejam Circuncidados (15:1-5) . . 224
(b) Pedro Reconhece Não Haver Acepção de
Pessoas no que Respeita à Salvação
(1 5 :6 - 1 1 ) ......................... .................................. 226
(c) A Assembléia, em Silêncio, Ouve Barnabé e
Paulo ( 1 5 :1 2 ) .................................................... 227
(d) A Proposta de Tiago (15:13-21) . . . 228
(e) Carta aos Gentios da Antioquia, da Síria e
da Cilicia (1 5 :2 2 -3 5 ) .................................... 230
3. Separação de Paulo e Barnabé (15:36-41) . . 232
4. Nova Visita às Igrejas da Galácia (16:1-5) . . 233
II. Judeus e Gentios Se Aproximam Notadamente Sem o
Concurso das Sinagogas; Aumenta a Auto-exclusão
dos Judeus (16:6 a 1 9 : 2 0 ) .............................................. .......235
1. O Chamado Macedônicoe Nova Campanha Evan-
gelístisa (1 6 :6 -1 0 ) ........................ ....................................236
2. A Obra Firmada em Filipos (16:11-15) . . . 238
3. A Resistência Pagã em Questões de Dinheiro
(16:16-24) . . .......................................... ..... . 241
4. As Condições para á Salvação-do Pagão 016:25-34) 243
5. Cidadania Romana e Libertação (16:35-40) . . 245
6. Tessalônica: um Outro Rei, Jesus (17:1-9) . . 247
7. Beréia: Espíritos Abertos; a Interferência de
Fora (17:10-15) .......................................................... .......251
8. Atenas: Diletantes, Gente que Gosta de Brincar
com o Pensamento e á ’ Religião (17:16-21) . . 253
9. O Sermão de Paulo no Areópago (17:22-34) . . 259
10. Corinto: Rompimento com a Sinagoga (18:1-11) 264
11. Abôrto duma Tentativa para Pôr Fora da Lei o
Cristianismo (18:12-17) . . . . . 269
12. Éfeso e Síria (18:13-23) ............................. . . 271
13. Discípulos de João Batista e a Cristandade An
terior a Paulo em Éfeso (18:24 a 19:7) . . . 275
14. Rompimento com a Sinagoga para Dar Lugar
ao Reino de Deus (19:8-10) . . . . . 280
15. O Poder - da Palavra (19:11-20) . . . . . 283
III. Prisão em Jerusalém; Desimpedido em Roma — U’a
Missão de Paz e seus Resultados (19:21 a 28:16) . 286
1. Projetando o Programa (19:21-22) . . . . 287
2. Circulando na Obra de Evangelização da Região
do Egeu (19:23 a 20:38) . . . . . . . . 289
(a) Éfeso Sofre o Impacto do Caminho (19:23-41) 289
(b) Acontecimentos que Levaram ao Encontro
em Troas (20:1-6) . 293
(c) Um Domingo em Troas C20:7-12) . . . 296
(d) De Troas a Miletò (20:13-16) . . . . 299
(é) Palavras de Adeus aos Presbíteròs de Éfeso
(20:17-38) . . .......................................... 301
3. Rumo a Jerusalém (2 1 :1 -1 6 ) ....................... . 309
4. A Cristandade de Jerusalém: Miríades Zelosos da
Lei (21:17-26) . ......................... ..... 312
5. Os Judeus Não Cristãos e Paulo: Prisão e Defesa
(21:27 a 2 6 : 3 2 ) ............................................................... 315
(a) Portas Fechadas e Detenção de Paulo (21:27
2 2 : 2 ) .................................................................. ......315
(b) A Defesa de Paulo Perante os Judeus
(2 2 :3 - 2 1 ) ............................................................ ......319
(c) Exaltação Por Causa de Uma Palavra
(2 2 :2 2 -2 4 ) ................................................................. 322
(d) O Judeu Paulo Forçado a Torn&r-se o Pau
lo Romano (2 2 :2 5 -3 0 ) ......................................... 324
(e) A esperança de Israel e a Ressurreição
(f) Conforto e Orientação (23:11) . . . . 324
(g) Trama dos Judeus para Matar Paulo
(2 3 :1 2 -2 2 ) ................................................................. 330
(h) Paulo é Libertado e Enviado a Félix
(2 3 :2 3 -5 5 ) ...................................................... ...... 331
(i) Tertulo Acusa Paulo (24:1-9) . . . . 334
(j) A Defesa de Paulo Perante Félix (24:10-21) 337
(k) Félix Adia a Decisão do Caso (24:22-23) 340
(1) Dois Anos de Espera (24:24-27) . . . . 340
(m) Paulo Apela para Cesar (25:1-12) . . . 343
(n) Agripa II e Berenice (25:13-27) . . . . 346
(o) A Defesa de Paulo Perante Agripa (26:1-23) 350
(p) Paulo Força o Rei Agripa a Manifestar-se
(2 6 :2 4 ,-2 9 )..................................................................357
(q) Festo e Agripa Concordam em Reconhecer
que Paulo Ê Inocente (26:30-32) . . . . 359
6, A Viagem de Paulo para Roma: A Superioridade
dum Prisioneiro (27:1 a 2 8 :1 6 ) ............................. .......359
(a) De Cesaréia a Bòns Portos (27:1-8) . 361
(b) Não é Acolhido o Parecer de Paulo (27:9-12) 362
(c) O Furo-Aquilão: Perdida Tôda a Esperança
(2 7 :1 3 -2 0 ) ..................................................................363
(d) Paulo na Chefia: Naufrágio e Salvamento
(2 7 :2 1 -4 4 ) ..................................................................364
(e) Bem Recebidos em Melita (hoje Ilha de
Malta) (2 8 :1 -1 0 ) .............................................. .......368
(f) Finalmente, Roma (28:11-16) . . . . 370
IV. Conclusão: A Auto-Exclusão Judaica — O Evangelho
«Desimpedido» (2 8 :1 7 -3 1 ) ............................................... .......372
1. Defesa de Paulo Perante os Judeu3 Romanos
(28:17-22) . ............................................................. ....... 372
2. Uma Declaração e a Auto-Exclusão (28:23-28) 375
3. Desimpedido (2 8 :3 0 -3 1 ) ................................................. 376
A P Ê N D IC E .............................................................................................. 379
B IB L IO G R A F IA ............................................................................. ....... 389
ÍNDICE R E M IS S IV O .................................................................. ....... 393
P R E F Á C I O
O lavrador não tenta cultivar tôda a terra que
possui. Demarca, sim, e delimita a terra que vai
amanhar. Assim também age o escritor, mesmo
Quando se trata dum com entário; e, por isso, esta
belece e firm a os limites dentro dos quais vai rea
lizar sua tarefa. A ôste livro interessa prim eiro o
grande objetivo de Lucas e a grande mensagem dos
A tos. Assim, necessàriamente, e para não fugir des
sa sua grande mensagem, deixa-se para outras obras
sôbre os Atos muito material de certa importância.
Não se entrará na discussão de muitas questões
de natureza técnica. Para quem deseja fazer êsses
estudos, existem já felizm ente à mão comentários
excelen tes. Os cinco volumes editados por F . J.
Foakes — Jaclcson e Kirsopp Lake — The Beginnings
o f Christianity — são a êste respeito obras quase
exaustivas e vão muito além das fôrças dêste escri
tor. As obras The Acts o f the Apostles, de A . C-,
Clark, Alterations to the Text of the Synoptic Gospels
and Acts, de S. C. S. Williams, e An Aramaic A p-
proach to the Gospels and Acts, de M. Black, tratam
das maiores diferenças textuais dos m anuscritos.
Também evitamos excursionar por alguns problemas
técnicos por achar que isso nos desviaria um tanto
do objetivo principal desta obra. Não obstante, nem
de longe quer is$o significar que o presente volume
se mostre indiferente a estudos dessa natureza. De
fato, aqui tratamos de muitas questões técnicas.
Não tivemos em vista apresentar a exegese de
versículo, por versículo. Reconhecem os ser indis
pensável a um consciencioso estudante do Livro dos
Atos um estudo assim detalhado. Mas, isso também
nos desviaria da- mensagem capital do livro. Pode
mos deixar de ver a floresta por querermos exami
nar árvore por árvore. Temos já excelentes com en
tários que analisam, um por um, os versículos dos
Atos, como por exem plo o comentário de Kirsopp
Lake e de Henry J. Cadbury — na obra The Be
ginnings of Christianity, o de R. B . Rackham dos
“ W estm inster Commentaries” , e o de R. J. Know l-
ing, em “ The E xpositor’s Greek Testament” , e a re
cente obra de F . F . Bruce — The Acts o f the
Apostles.
Escreveu-se ôste comentário com a sincera con
vicção da necessidade que temos de um livro sôbre
os Atos que focalize e chame a atenção dos cristãos
para a sua maior mensagem. Seja qual fô r o mérito
dos comentários presentem ente compulsados, admi
timos haver poucas provas de que a mensagem que
Lucas tanto desejou transmitir à posteridade fo i
apreendida de modo adequado por seus leitores. Se
isto 6 verdade, justifica-se plenamente uma outra
tentativa com tal propósito . Reconhecendo haver
nos Atos um objetivo maior, não menosprezamos os
perigos a que nos pode arrastar uma análise unilate
ral, e esperamos ter conjurado êsse êrro.
Urge ainda reconhecer que o Zeitgeist — o es
pírito da época — pode influenciar a gente a ver isto
ou aquilo nos A tos. Isto amenizaria o que se tenha
a dizer ao criticarmos os pontos de vista sustenta
dos noutros tempos em que os estudantes se mos
travam imbuídos de um Zeitgeist diferen te. E ’ pre
ciso admitirque êste espírito da época pode atraiçoar
o estudante em sua exegese, como pode também le
vá-lo a ver algo mais além da riqueza dum livro
antigo. Um período de descobrimentos geográficos,
e ainda a ampliação das fronteiras geográficas natu
ralmente levaram os prim eiros exegetas a tirar maior
partido dêsse fator encontrado nos A tos . Os exegetas
que escrevem ao impacto do moderno movimento
missionário mui naturalmente ainda se beneficiam
mais com a penetração do Evangelho em novos terri
tórios geográficos. Assim, agora, nesta era atômica
em que interêsses internacionais e raciais empolgam,
como nunca, a nossa atenção, é natural que a ênfase
universalista mais se agigante aos olhos dos exegetas.
Assim, o Zeitgeist torna-se um fator inevitável, nor
teando ou desnorteando o exegeta de qualquer ge
ração .
0 escritor reconhece que poderá ser incrimina
do de extrem ista, ou exagerado, no emprêgo que faz,
no setor ewegético, de advérbios tais como — “ pos-
slvelm entef’ i '“ .proWivelmente” , “ aparentem ente” , e
outros mais, — mas a verdade é que não viu como
evitá-los. Conquanto seja mais satisfatório afirmar
isto ou aquilo de modo cabal e sem reservas, é tam
bém verdade que a certeza não raras vêzes em mui
tas questões está além de nosso alcance. E, quando
isso se dá, o orgulho deve ceder seu lugar à sinceri
dade, evitando-se tôda e qualquer atitude dogmá
tica.
Outra coisa de que podem acusar o escritor é a
de aproveitar-se do comentário para pregar. Estamos
de acordo n isto . De fato, o escritor' buscou ser bas
tante objetivo na interpretação dos A tos; no entan
to, nunca teria êle escrito êste volume se não esti
vesse interessado em querer ver a mensagem dos
Atos, como êle a entende, invadindo e empolgando
o cenário de nossos dias.
0 escritor agradece imenso a muitos autôres e li
vros pela compreensão que hoje tem dos A to s . 0 ex
celente volume de R. B . Rackham, nos “ W estm inster
Commentaries” , foi-lhe o m elhor e o mais singular
guia para ver claro o propósito dos A tos . Meu amigo
e ex-professor, o dr. Edward A . McDowell chamou
a atenção dos estudiosos para essa valiosa obra. 0
maior estímulo que tivemos para o estudo dos Atos
nos veio do fato de lidar com esse livro do Novo Tes
tamento ano após ano, dando aulas no Seminário
Teológico Batista de Nova Orleans. Também em
notas ao pé de muitas páginas se pode ver o quanto
ficamos devendo a êste e àquele escritor, conquanto
im possível se nos torne documentar o muito que ga
nhamos na leitura de outros escritores.
De modo todo especial agradecemos de coração
aos colegas da Seção do Novo Testamento, os d rs.
Ray Frank Robbins, A . Jack Roddy, e V. W ayne Bar-
ton ; bem como à minha espôsa Evelyn Owen Stagg,
por haver prim eiro datilografado os manuscritos e
por suas sugestões mui valiosas. Agradecemos, ou-
trossim, com grande aprêço, a cuidadosa ajuda da se
nhora R. C. B erry que datilografou os manuscritos
d efin itivos.
Frank Stagg
I N T R O D U Ç Ã O
A SÚMULA NUM ADVÉRBIO
E’ coisa mui estranha encerrar-se um livro com um
advérbio. No entanto Lucas assim o fêz.1 De fato, a obra
em dois volumes — Lucas-Atos — chega a um final dra
mático, sintetizada num advérbio. 2 No correr dêsses
seus dois volumes, Lucas jamais perdeu de vista o seu
propósito, e êle planejou muito bem a conclusão de cada
um dêles, chegando ao esforço final com a derradeira
exteriorização de sua pena. “ Desimpedidamente” , escre
veu Lucas, descrevendo a liberdade que o Evangtelho con
seguira a muito custo. Tal liberdade só se conseguira de
pois de vencidas inúmeras barreiras, e pelo fato de haver
nascido na mente e na intenção do próprio Jesus.
Só depois, de meditar sôbre a importância e a visível
significação da palavra traduzida por impedimento (que
1. Alguns manuscritos aparecem com um final ma?or, acrcscentrndo estas
palavras — “ Pois êste é Jesus, o Filho de Deus, por quem todo o inundo está
prestes a ser ju lg a d o /’ Nenhum manuscrito grego traz estas palavras, conquanto
possam ~ter a sua origem no grego. Evidentemente são um acréscimo, e não
fazem parte do original.
2. A palavra grega akolutoa é um advérbio; mas “ desimpedido” , adjetivo, tem
menos pêso que “ desimpedidamente’ *, que usamos no subtítulo dêste livro.
Ó L IV R O DE ATOS U
aparece em várias formas) é que êste escritor deu aten
ção ao estudo do Professor Oscar Cullmann sôbre êste
caso. Cullmann chegou a dar a essa palavra um signifi
cado totalmente diverso, vendo mesmo nela traços duma
antiga fórmula batismal. Seu estudo apareceu num apên
dice de sua obra — Die Tauflehre des Neuen Testaments,
1948 (na versão inglêsa — Baptism in the New Testa-
ment, 1950). Tal apêndice tem por título: “ Traços duma
Antiga Fórmula Batismal em o Novo Testamento” . Seja
qual fôr o significado do têrmo, verdade é que o estudo de
Cullmann fortificou a idéia de que êle tem um significado.
Das passagens citadas (Atos 8:36; 10:47; 11:17; Mat.
3:14; o Evangelho dos Ebiomtas como aparece em Epi-
fânio 30:13; Marcos 10:13-14) transparece o interessante
caso desta hipotética fórmula batismal, segundo a qual o
candidato perguntaria — “ Que impede que eu seja batiza
do?” , ou alguém perguntaria — “ Que impede que êste
seja batizado?” Contudo, está-se muito longe de compro
var isso. Em o Novo Testamento essa palavra aparece,
em suas várias formas, cêrca de vinte e cinco vêzes, e nos
Atos sete vêzes. O sentido básico é sempre o mesmo —
o de impedimento. Algumas vêzes não tem relação com
o batismo e nem com o Evangelho. Os exemplos nos Atos,
citados por Cullmann, envolvem o batismo, mas não dei
xam de incluir também a questão da admissão do povo
que não pertencia ao judaísmo. Não se trata simplesmen
te do problema da admissão ao batismo, e sim da admis
são dos que não eram judeus. Dois dos exemplos encon
trados fora ,dos Atos referem-se à relação de João Batista
com Jesus, na qual apareceu um problema miíi singular
e frente ao qual se esperava surgisse algum “ impedimen
to” . A última referência, de Maròos 10:13.-14, nos oferece
fraca evidência de uma fórmula batismal, visto qüe nada
indica que a aproximação daqueles pequeniQos a Jesus
fôsse para o batismo.
16 FRANK STAGG
Era perfeitamente natural que o batismo se tornasse
o ponto discutido por alguns com o problema de admis
são, conquanto houvesse muitos exemplos de batismo em
que essa questão não fôra apresentada. A palavra impe
dimento foi empregada nalguns casos inteiramente sepa
rada da idéia de batismo. Em nenhum caso nos Atos,
quando se tratava dum judeu, se emprega esta palavra
em relação ao batismo. Assim, a tese duma fórmula ba
tismal, ainda que não deva ser excluída, não está prova
da. Parece que se pode apresentar uma alegação mais
forte quanto aos exemplos citados, tomando-se juntamen
te com Atos 28:31, e dando-se isto como referência a um
problema particular que encontrava ou não encontrava
impedimento.
Doutro lado, ainda que admitamos como certa a tese
de Cullmann — de que devemos ver no uso freqüente do
“ impedimento1” os traços duma primitiva fórmula batis
mal — ê certo que não se enfraquece com isso a teoria
que afirma ter Lucas empregado o têrmo com referência
ao maior problema dos impedimentos a um evangelho
desacorrentado — impedimentos dos quais o Evangelho
lutaria sempre por libertar-se. Se tal palavra já se havia
tornado um termínus technicus, como Cullmann sugere,
é certo que mui facilmente se poderia dar-lhe um campo
mais vasto e relacioná-la com os primeiros esforços do
Evangelho em prol da liberdade. O escritor acha, contudo,
que se entende melhor a dita palavra deixando-se de ligá-
la a uma fórmula batismal.
Convém ainda frisar que a tese defendida neste livro
não depende da evidência da palavra “ desimpedido” . Na
verdade, a percepção do têrmo se dá no fim do estudo e
não no seu princípio. Acresce ainda que não se sustenta
que Lucas deliberadamente explorasse tal palavra no correr dos Atos. 0 que se frisa é que essa palavra, com in
tenção do autor ou sem ela, resume muito bem a grande
mensagem do livro. Se a escolha foi deliberada, ela expli
ca bem o caráter um tanto abrupto da finalização da obra.
Muitos se têm intrigado com o final dos Atos. Alguns
acham o livro incompleto; outros pensam que Lucas ten
cionava escrever um terceiro volume. Ao escritor, isso
tudo parece estar errado no que respeita à obra Lucas-
Atos. O livro não é incompleto, e nem termina abrupta
mente. A conclusão dos Atos é coisa inexcedível pelo seu
poder dramático. As maiores afirmações reunem-se no
seu último parágrafo, e a sua mensagem maior é reafir
mada mesmo na última palavra do livro, com o advérbio
“ desimpedidamente” .
Coisa estranha e lamentável é o fato de influentes
sumidades terem tratado pela rama êsse final que Lucas
parece ter planejado de modo tão cuidadoso. Sir William
Ramsay, a quem muito devem todos os estudiosos do
Novo Testamento, mostra-se tão errado quão dogmático,
ao dizer: “ Ninguém pode aceitar o final dos Atos como
a conclusão duma história concebida de modo racional. ” 3
Acha êle que Lucas não teria deixado de escrever sôbre a
chegada do Evangelho a Roma e sôbre o resultado final
do processo de Paulo. Assim, sôbre bases falsas se afirma
que Lucas intentou descrever a expansão geográfica do
Cristianismo e a vida de Paulo. Lucas nos deu muito sôbre
a expansão geográfica do Cristianismo. Mas, não foi êste,
ao que parece, o seu maior objetivo. Êle nos contou
muito da vida de Paulo; mas certamente não foi êste o
seu maior propósito.
F. F. Bruce aproxima-se bem mais da verdade ao
tratar das palavras finais dos Atos. Não obstante, obscure
ce também o assunto justamente neste ponto vital, ao
dizer:
O LIVKO DE ATOS 17
8. Sir W illiam Ramsay, em St. Paul the Traveller and the Roman Citizen
(N ew York, G . P . Putnam ’ s Sons, 1896), p g . 351-852.
A .A . 2
18 FRANK STAGG
“ Assim, por artística e poderosa que seja a con
clusão, estranho é que Lucas não nos diga nada ex
plicitamente acêrca do resultado da apelação de Pau
lo. Seria suficiente responder que isso não fazia par
te do seu projeto. Mais satisfatório, porém, será su-
pôr que êle não escreveu mais, porque não sabia mais
nada. ” 4
Isto nos leva a julgar que o livro dos Atos fôra es
crito em data anterior quase impossível, ai pelo ano 60
(A. D .) e certamente deixa em trevas o propósito dos
Atos. 5 Isto é conclusão mui fraca para um excelente
comentário. Lucas de fato deixou sem resposta muitas
perguntas nossas. Mas essas perguntas são nossas, e não
dêle. Lucas deixa cair o pano, e nos separa de muitos
homens, sem dizer mais nada sôbre êles, o que seria para
nós biografia mui interessante. Mas, parece que o pro
pósito dêle não era mesmo escrever biografias.
O OBJETIVO DO LIVRO DE ATOS
Descobrindo-se o propósito do escritor, teremos en
contrado a chave que nos leva a compreender a sua obra.
De fato, espera-se que tôda a obra séria tenha um pro
pósito certo, ainda que ao leitor tal propósito pareça uma
coisa ilusória. Achamos ser tão grande a importância
dum propósito nos Atos, e de tal valor à sua compreensão,
que se nos torna imperativo procurá-lo a sério.
4. F . F . Bruce, em The A cts o f the Apostles (Londres, The Tyn íale Preas,
1951), p g . 481
5. Martin Dibelius, quanto a êste problema das “ estranhas omissões das his
tórias dos capítulos de 22 a 28 dos Atos, pensa, que Lucas esteva. vnteve"8«do em
apresentar a evangelização dos pagãos mais como uma obra de Teus do que dos
nomens e as boas n^vas cristãs como o cumprimento da esperança dos judeu*..
Sustenta êle que a Lucas interessavam os acontecimentos que desafiavam a igreja
no tempo em que esta se separava do judaísmo, e assim conclui: “ Lucas desejou,
portanto, nesses capítulos, acima de tudo, apresentar não o que tinha havido (das
Gew eaene), e sim o que é (das S e i e n d e ) Isto é, Lucas estava interessado no Evan
gelho, em como estava sendo pregado, mais do que nos acontecimentos passados
na vida dos cristãos. Veja-se a obra Aufaãtze zur Apostelgeschichte (GSttingen,
Vandenhoeck & Ruprecht, 1953), p g . 117.
O LIVRO DE ATOS 19
Não Os Atos dos Apóstolos. Êste livro é mui conheci
do como Os Atos dos Apóstolos, e êste título está longe de
dar aos leitores a exata compreensão do propósito do li
vro. E’ êle encontrado no Código Vaticano, um dos mais
velhos manuscritos existentes, e que data cêrca do ano
350 (A .D .) . O Código Sinaíta, também do quarto século,
traz como título apenas Os Atos, conquanto o título maior
apareça ao final, na identificação do livro e no teor ori
ginal. O Cânon Muratori, provàvelmente redigido entre
os anos 170 a 200 (A. D .), diz que “ Os Atos de todos os
apóstolos foram escritos em um livro: Lucas coligiu-os
para o mui excelente Teófilo porque de ordinário tiveram
lugar em sua presença.” Com título semelhante —■ Atos,
ou Atos de (os) Apóstolos, foi êle conhecido por Tertulia-
no de Cartago e por Clemente de Alexandria, os quais es
creveram mais ou menos pelo ano 200 (A .D .) . Êste tí
tulo, porém, parece ter sido obra de algum copista, e não
do seu autor.
E’ claro que o propósito do livro não é registrar os
atos dos apóstolos. O autor alista os onze e nos fala do
acréscimo do décimo segundo apóstolo. Depois não se
fala mais nada de nove dêles. Tudo quanto se nos dá de
Tiago, o irmão do Senhor, martirizado por Herodes (12:
2), é apenas uma curta sentença. João é trazido à cena
mui de passagem. Pedro, juntamente com Estêvão e Fi
lipe, surge no capítulo 12, e, depois daí, pouco se nos fala
dêle. Volta-se a atenção mais para Barnabé e Paulo; mas,
logo desce o pano sôbre Barnabé na cena dum conflito e
sôbre Paulo enquanto está prêso e aguarda o resultado de
sua apelação. Assim, ficamos com milhares de perguntas;
e, à exceção de Estêvão, a história de cada pessoa esboça
da se corta e se apaga no ponto que mais nos interessava.
O pano desce sôbre cada um dêles, um a um, em pontos
de interêsse porque, ao que parece, Lucas não está escre
vendo sôbre os apóstolos.
30 FRANK STAGG
Acresce ainda que o início da significadora evangeli
zação dos gentios, que parecia interessar muito a Lucas,
não é por êle atribuída aos apóstolos — não aos doze, nem
a Pedro, nem a Barnabé ou a Paulo —- e sim a gregos
cristãos em Jerusalém e a alguns homens de Chipre e de
Cirene, cujos nomes desconhecemos. 8 Êle demonstrava
assim, como uma idéia dominara os apóstolos, não se im
portando tanto com aquilo que os apóstolos realizavam.
Não o Evangelho do Espírito Santo. Há mais de meio
século apareceu a idéia de que esta segunda obra de Lucas
deveria ser chamada — “ O Evangelho do Espírito Santo” .
Assim se pensou, e temos ainda pessoas que se batem por
êste título. De pronto admitimos que tal denominação
apanha bem o significado dos Atos. Mas, não nos satisfaz
deixar isso assim afirmado de maneira tão ambígua. E’
certo que nos. Atos encontramos o relato de algo realiza
do pelo Espírito Santo — coisas que não se teriam dado
sem a presença do Espírito Santo. Mas a atenção de Lu
cas parece estar mais voltada para aquilo que se estava
conseguindo e não propriamente para o Espírito Santo.
Aqui encontramos dois aspectos mui importantes duma
mesma realidade. Mas, importa-nos perceber bem qual d
aspecto que mais estava empolgando a atenção do escritor.
Dar-se ao livro o título de “ O Evangelho do Espírito
Santo” implica reconhecer a necessidade de um livro tal.
Em vão buscaremos um Sitz im Leben (uma condição
de vida) que nos indique ter existido algum problema en
tre os judeus ou os cristãos do primeiro século que puses
se em dúvida a realidade, o caráter, ou a importância do
Espírito Santo. (Com isto não nos esquecemos do peque
no grupo estranho de Éfeso: seus membros pediam infor
mes, não argumentos.) Todos admitiam a existência do
Espírito, e não discutiam isso. Contudo, há provas de cada
6. Adolfo Harnack, em The Actsof the Apostles (Londres, Williams and
Northgate, 1909), pg. xxviii.
O LIVRO DE ATOS 21
lado que indicam uma luta titânica entre as idéias dos
sectaristas e as daqueles que eram chefiados por homens
como Filipe, Estêvão e Paulo. Conquanto Lucas desse
grande relêvo ao Espírito Santo, não havia ocasião que
exigisse um livro especial para tratar de questões referen
tes ao Espírito Santo. Desde o início, Jesus era o centro
de tôdas as controvérsias; e eram constantes os debates
sôbre a Sua Pessoa, sôbre Seu caráter, atos, palavras e
propósito. Mas, os judeus e os cristãos dos dias de Lucas
rão estavam exigindo um livro que debatesse assuntos re
ferentes ao Espírito Santo, como não pediam um livro
que lhes provasse a existência de Deus.
Assim, não se sentia necessidade alguma de um livro
que sublinhasse os atos do Espírito Santo. A ocasião pe
dia debates sôbre a origem e o caráter das idéias e dos atos
que encontravam expressão entre os primeiros cristãos.
Lucas atribuia a Deus — nas expressões de Jesus, do Cris
to ressuscitado, ou do Espírito Santo — muitas daquelas
idéias que os homens discutiam. Não vai aqui disposição
alguma no sentido de apequenar a importância do Espírito
Santo nos Atos; mas importa focalizar o ponto de partida.
O problema de Lucas não era esboçar o que o Espírito San
to fazia, mas demonstrar a origem e o caráter de certas
idéias e atividades que encontravam expressão e se torna
vam centros de controvérsias nas comunidades cristãs do
seu tempo.
Veremos mais claro o problema, ainda que não o ve
jamos de maneira melhor, afirmando que o Espírito San
to não foi o objeto da atenção de Lucas nos Atos, no sen
tido em que Jesus o foi ao escrever êle o seu Evangelho.
Fato tão claro assim, cremos, dispensa qualquer demons
tração. O Espírito Santo é mencionado uma única vez
(28:25) depois de Atos 21:11, e aqui, em conexão com
Isaías! Não se concebe que Lucas mencionasse Jesus ape
nas duas vêzes nos oito capítulos finais do seu evangelho!
PRANK STAGG
Jamais se poderá duvidar que o seu evangelho foi escrito
para apresentar a Jesus. E certamente assim não se dá
em Atos com referência ao Espírito Santo.
Acresce ainda que a escassez de referências ao Espí
rito Santo na última parte do livro dos Atos constitui,
para comprovar o que estamos dizendo, um fato bastante
mais sério do que se essa carência se desse na primeira
metade dos Atos. Todos os entendidos, exceto os que
negam a autoria de Lucas, reconhecem que o autor dos
Atos participou de muita coisa que pertence à última me
tade do livro, embora não fôsse testemunha das coisas
relatadas na primeira metade. Assim, quanto às informa
ções constantes da primeira metade, Lucas as obteve de
fontes, escritas ou orais, que não pertenciam à sua expe
riência pessoal. E’ geralmente admitido que onde um es
critor lança mão duma fonte que envolve múltiplos ele
mentos, um dado elemento dessa fonte pode ou não re
fletir o seu interêsse especial. Se tivermos de isolar êsse
seu interêsse especial, melhor o faremos na parte em que
os materiais são propriamente dêle. E é precisamente
onde Lucas lida mais livremente com o seu material que
encontramos poucas referências ao Espírito Santo. Isto
não quer dizer que Lucas tivesse o Espírito Santo na con
ta de menor importância, mas quer significar que o seu
problema ou ponto de partida era outro. Nos Evangelhos
tudo se centraliza em Jesus, e não há dúvida de que só
tem importância aquilo que está relacionado com Êle. Já
nos Atos, no entanto, encontramos onze capítulos que não
mencionam o Espírito Santo. E’ fato que Êle tem proemi
nência em muitos capítulos, mas são referências a Deus,
ao anjo do Senhor, e Àquele chamado “ o Senhor” .
Os estudiosos estão cônscios da proeminência do Es
pírito Santo nas cruciais experiências do Pentecostes, no
desafio dos saduceus, da conversão de Cornélio, e do co
missionamento de Barnabé e Saulo. Mas, podemos
O LIVRO DE ATOS 23
observar também que noutros acontecimentos cruciais não
se distinguem com ênfase o Espírito Santo. Paulo e Es
têvão deram grande impulso ao movimento cristão, e se
nos revela que cada um dêles viu o próprio Jesus. Lucas
assevera que cada um dêles estava cheio do Espírito San
to; mas, no que respeita a Paulo, aquilo que lhe mudou
e revolucionou a vida e sua obra foi a aparição pessoal
de Jesus. Podemos anotar as muitas vêzes em que Jesus
se apresentou junto de Paulo nas sombrias horas de crise.
Podemos também rememorar as aparições do anjo do
Senhor (e. g. 12:7-17, 23), do anjo de Deus (27:23), e do
“ Senhor” (18:9; 23:11; 26:15) em momentos decisivos da
experiência dos primeiros cristãos. No discurso que Pe
dro pronunciou na casa de Cornélio, a referência, aparen
temente a mesma, feita a “ Deus” , a “ Jesus” e ao “ Espí
rito Santo” , deve servir de aviso a quem se sentir tenta
do a separar uma “ pessoa” da Trindade, como se dá no
caso de afirmar-se a existência de um livro como o Evan
gelho do Espírito Santo. Pedro parece ter tido plena cons
ciência da direção e do poder do Deus Trino e Uno, e Lu
cas certamente estava a par dêsse Deus Triuno. Não se
concebe, pois, que êle separasse de Jesus o Espírito Santo,
e assim viesse a escrever dois livros para tratar de cada
um em separado. Parece que não foi essa a intenção de
Lucas.
Não temos com estas palavras a menor intenção de
diminuir a importância do Espírito Santo no Livro dos
Atos; há, sim, o desejo de apanharmos a perspectiva certa
para podermos compreender bem os Atos. Não se pode
negar a proeminência do Espírito Santo, ao menos em al
guns capítulos; mas, parece êrro crasso dar-se aos Atos o
título de “ 0 Evangelho do Espírito Santo” . Parece que
Lucas estava interessado mais num ato particular ou num
maior desenvolvimento do Reino. Certo era indispensá
vel ao seu propósito frisar que êsse desenvolvimento —
24 FRANK STAGG
essa libertação do Evangelho — era obra de Deus e não
de homens. Assim, Lucas cuida mais de examinar tudo
do ponto de vista daquilo que se estava desenrolando e
não do ponto de vista do Espirito Santo, ainda que a ope
ração e a presença do Espírito fôssem coisa mui proemi
nente em tudo quanto estava acontecendo. Fazemos ques
tão de estabelecer bem esta distinção, visto ser indispen
sável para a adequada compreensão dos Atos.
Ainda dum outro ponto de vista, estaria patente a na
tureza insustentável do conceito de que os Atos são o
Evangelho do Espírito Santo e aquêles que mais se inte
ressam em dar ênfase ao Espírito Santo seriam os primei
ros a ver isso. Se de fato Lucas tivesse tido a intenção de
escrever o Evangelho do Espírito Santo, certamente se te
ria abalançado a uma tarefa bem mais ambiciosa. Em que
ponto, escolhido arbitràriamente, começaria êle a narrar a
operação do Espírito, ou onde terminaria essa narrativa?
O livro nos conta a atividade do Espírito em Davi e Isaías,
e que Estêvão encerrou sua interpretativa revisão da his
tória hebraica acusando seus ouvintes de estarem resis
tindo ao Espírito Santo, como seus pais sempre o haviam
feito (7:51). No livro dos Atos vemos recapitulados
muitos atos, significativos e de grande alcance, do Espí
rito Santo. Mas, todos êles são uma porção mui pequena
daquilo que o Espírito tem feito na História.
Alguém poderá dizer, então, que também os Evan
gelhos não nos narram todos os atos de Jesus. A isto res
pondemos que nenhum erudito por espaço de cinqüenta
anos jamais asseverou que os Evangelhos sejam “ vidas”
de Jesus. São sim, interpretações baseadas em coletâneas
daquilo que Êle fêz e disse. Os Atos, contudo, não são nem
a “ vida” do Espírito Santo, e nem um retrato de ativida
des selecionadas, como os Evangelhos o são no que res
peita a Jesus. Por não ter reconhecido isto, foi que Rack-
ham em seu grande comentário afirmou de modo in
O LIVRO DE ATOS 25
feliz o seguinte (cf. xxxviii) — “ Os Atos de fato são a
história da nova dispensação ( i . é ., sob o Espírito Santo);
e é porisso que lhe falta uma conclusão definitiva. ” (Os
grifos não são de Rackham.)
Não há base para se falar etíi dispensação do Espirito
Santo como sucessória à dispensação de Cristo. Adverte-
se no comentário (Atos 1:1) que Lucas estava interessado
em mostrar que aquilo que se estava pensando na comuni
dade cristã se devia, à direção do próprio Jesus, de Quem
êle escrevera no seu primeiro tratado. A obra do Jesus
encarnado e a do Cristo ressuscitado é una. Êste fato
era coisa indispensável para Lucas se justificar daquilo
que surgia da comunidade cristã e da missão aos gentios.
Nos escritos de Paulo e de João, algumas vêzes encontra
mos uma identificação virtual do Cristo ressurreto com o
Espírito Santo. Se esta identificação fôsse também verda
deira nos Atos, o Livro poderia ser chamado o Evangelho
do Espírito Santo. Mas, mesmó isso parece errar o alvo,
na opinião do autor.
Não a disseminação do Evangelho de Jerusalém até
Roma. Há pessoas que tomam ós Atos como um regis
tro da primitiva expansão geográfica do Cristianismo.
Esta idéia ainda aparece em publicações recentes. A or
dem — “ sereis minhas testemunhas em Jerusalém, e em
tôda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” — é
tida, então, como um esbôço do Livro. E’ verdade que
grande parte dos acontecimentos narrados está dentro des
sas linhas, mas nada estava mais longe do propósito do
autor do que simplesmente mostrar como o Cristianismo
se alastrara de Jerusalém para as mais distanciadas re
giões do mundo. Tivesse sido êste o objetivo de Lucas,
então êle estaria atrasado trinta anos.
A expansão geográfica em larga escala teve lugar
logo depois do Pentecostes. Mui provàvelmente o Evan
gelho alcançou Roma vinte anos antes da ida de Paulo
26 FRANK STAGG
para lá, A idéia mui popular de que foi Paulo quem le
vou primeiro o Evangelho à Europa, entrando pela Mace-
dônia por ocasião de sua segunda viagem missionária, não
levou em conta a anterior expansão, ou se esqueceu da
geografia do século primeiro. 7 0 significado do acon
tecimento será conhecido sem a geografia, como demons
traremos mais tarde. Não se nos revela quem fundou as
igrejas de Roma, de Colossos, de Laodicéia, de Éfeso, de
Troas e de Putéoli. Já havia cristãos em Damasco antes
de Paulo fazer-se cristão. Lucas menciona isso quando re
lata a conversão de Saulo, mas nada nos diz do inicio do
trabalho, nem do seu posterior desenvolvimento. Ignora
mos até que ponto o Cristianismo avançou para o norte
e para o leste, Olhando para o sul, também encontramos
ali um anterior progresso. O eunuco da Abissínia se con
verteu, e regressou à sua pátria. Que mais sabemos dêle?
Será que o Evangelho se alastrou na África? Lucas silen
cia sôbre isso, a não ser quando incidentalmente se refere
a um fato que sugere o progresso cristão na África, fato
êsse anterior à primeira viagem missionária empreendida
por Barnabé e Saulo (11:20).
Por todo o Livro dos Atos encontramos referências
acidentais a uma expansão anterior e à parte da obra de
Paulo. 0 pano desce sôbre Barnabé e Marcos quando ês-
tes embarcam para uma nova viagem. Após miraculosa
mente liberto da prisão, Pedro “ saindo, partiu para outro
lugar” (12:17). Até hoje não sabemos onde fica êsse
lugar. O próprio suposto herói de Lucas é deixado como
que encalhado em Roma; o pano cai sôbre Paulo, sem
qualquer notícia do que veio depois. Possivelmente Lu
7. Alguns continuam cândidamente a dizer que “ se Paulo tivesse ido para a
Ásia, tom o desejava, e não se tivesse encaminhado para a M ccedônia, o Evange
lho teria entrado no Leste em vez de entrar no Ocidente, e que agora a índia e
a China estariam mandando missionários para a Eur pa e para Arr é ; ‘ca” . A
“ Á s i§ " para a qual Paulo queria ir, então era a província romana cue tinha
Éfesp como çeu centro. Esta, juntamente com a Macedônia e a Acáia, fazia
parte do grande centro cultural greco-rom ano ao redor do Mar Egeu. A Ásia em
que Paulo queria entrar era uma parte do Ocidente e não do Oriente.
O LIVRO DE ATOS 27
cas encerrou seu livro nesse ponto pelo fato de não se
terem desenrolado imediatamente outros acontecimentos
de vulto. Mas, não se pode afirmar nada certo sôbre isso,
e nem é necessário.
Parece haver disso tudo uma explicação que satisfaz:
Lucas não estava tencionando apresentar um registro da
expansão geográfica do Cristianismo. 0 narrar posterio
res experiências do etíope, de Barnabé, de Marcos, de
Pedro, de João, ou de Paulo; ou o desenvolvimento ocorri^
do em Damasco, ou na África, não eram coisas, essenciais
ao seu propósito.
Não um irênico. A tese da escola de Tübingen
(Baur) de que os Atos são um escrito apaziguador do
tempo de Trajano (A. D. 08-117) ou de Adriano (A. D.
117-138), escrito que visava reconciliar, ou apaziguar, a
suposta rivalidade entre os seguidores de Pedro e os de
Paulo, torna-se cada vez menos convincente. Esta teoria
duma descoberta histórica do século segundo no sentido
de neutralizar, ou harmonizar, aquêles supostos partidos
rivais é mui vulnerável em vários pontos, e já está quase
completamente abandonada; não merecendo por isso mui
to de nossa atenção.
Nos Atos, as posições extremistas são sustentadas não
por Pedro e Paulo, e sim por Tiago e Paulo. Entre êstes
dois ficam Pedro, Marcos e Barnabé, cada um sentindo a
influência tanto de Tiago como de Paulo. Cullmann pro-
vàvelmente acerta ao sugerir que Pedro e os doze pare
cem haver tomado a posição de mediadores entre os judai-
zantes e os helenistas, até que se modificasse a situação,
quando Tiago recolocou Pedro em função dominante em
Jerusalém. 8
Mais ou menos recentemente, surgiu a tese. de que Lu
cas e Atos foram escritos por cêrca do A. D. 150 como
8. Oscar Cullmann, em P eter : Disciple, Apostle, Martyr, trad, de Floyd V .
Filson (Londres, SCM Press, 1958), pa:. 86.
28 FRANK STAGG
obra apologética contra o marcionismo. 9 Márcion re
jeitara o Velho Testamento e os doze apóstolos, e formara
um cânon composto dum curto arranjo de Lucas e mais
dez cartas de Paulo. Para êle, Paulo é o único que mere
ce crédito, e os doze corromperam a muitos da igreja com
sua “ apostasia judaica” . Alguns acham que para contra
balançar o cânon de Márcion, os cristãos “ ortodoxos”
criaram Lucas como hoje o temos e que os Atos foram
escritos com o duplo objetivo de reconhecer a Paulo e
subordiná-lo aos doze. Assim, os “ ortodoxos” teriam tudo
quanto Márcion tinha, e muito mais ainda.
Esta tese já não tem mais fôrça em vista dos dados,
que hoje possuimos; mas não é fácil desacreditá-la. Por
certo Márcion criou uma crise para os cristãos do século
segundo, os quais se apressaram a organizar o cânon do
Novo Testamento. Mas, afirmar-se que se aumentou o
Livro de Lucas e que então se produziu o Livro dos Atos
só para conjurar aquela crise é, à luz dos dados que hoje
temos, um verdadeiro disparate. A tese encontra dificul
dades em estabelecer a data posterior dos Atos e ao tratar
de todo o assunto da formação do cânon, coisa mui pou
co conhecida. E ainda se mostra indesculpàvelmente cépti
ca para com a natureza dêsses escritos neo-testamentários.
Além disso, ela não convence ao autor dêste livro por
causa da própria natureza dos Atos. Há muita coisa nos
Atos que desmintiria a Márcion, e não obstante há nêles
muita coisa que poderia ser usada para lhe fornecer arri
mo. Portanto, improvável é que se escrevesse o Livro
de Aios só para combater o marcionismo. Contudo, uma
resposta nossa, mais positiva, a essa tese, apresentaremos
mais adiante.
Triunfo e Tragédia. Qual, então, seria o maior pro
pósito do autor dos Atos ? Êle escreveu para mostrar a vi-
9, C f. John Knox, Marcion and the N ew Testament (Chicago, The University
o f Chicago Press, 1942).
O LIVRO DE ATOS 29
tória do Cristianismo — para nos contar a expansão dum
conceito, a liberação do Evangelho, ao romper as barrei
ras religiosas, raciais e nacionais. 0 autor nos revela co
mo o Cristianismo rompeuos estreitos limites que os ho
mens tentaram impor-lhe e como êle sobrenadou para a
liberdade que Cristo lhe outorgara. No primeiro capítulo,
êle nos apresenta algo dos estreitos e acanhados conceitos
do Cristianismo manejado pelos primeiros seguidores, que
o encaravam como uma seita do judaísmo, aberta apenas
para os judeus e seus prosélitos. Finalmente o vemos
olhando para mais longe, lá de Roma, como uma religião
aberta para todos quantos se submetem aos seus postula
dos, sem respeitar raça, nacionalidade, ou quaisquer ou
tras circunstâncias externas.
No primeiro capítulo o autor nos apresenta o maior
problema interno da Cristandade dos primeiros dias, pro
blema de que tratará o Livro dos Atos. Naquela conversa
do adeus, os judeus cristãos perguntaram a Jesus — “ Se
nhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?” (1:6).
Notemos bem que êles não perguntaram se o reino seria
restaurado a Israel. Isso êles nem discutiam. O único
problema para êles era o quando. E’ possível que êles
começassem a entender que o reino não era temporal e
político. Não obstante, ainda pensavam nêle como per
tencendo a Israel. Lucas avança para nos mostrar a gra
dativa queda dêsse modo de entender o reino. Aos poucos,
vagarosamente, cresce o conceito de que o Cristianismo
se destina a todos. A porta para se entrar nêle não é a
circuncisão, ou a lei, nem a sinagoga, nem o próprio ju
daísmo. Não obstante, êste acanhado conceito de qtle o
reino pertencia a Israel apossou-se desde logo dòs cristãos
judeus. Para a maioria, tornou-se êle o ponto nevrálgico
que afinal os afastou do Cristianismo.
De início vemos só judeus abraçando o Cristianismo;
e pensavam que o Cristianismo era só para êles. Quem
30 FRANK STAGGr
não fôsse judeu de nascimento só poderia entrar no reino
depois de passar pelo judaísmo. A seguir, vemos judeus
helenistas, Estêvão e Filipe, e prosélitos, mais que ativos
no movimento. Depois são recebidos samaritanos, semi-
judeus, embora com relutância. Por fim, recebem-se gen
tios; êstes, porém, através de passos gradativos.
Os primeiros gentios a serem recebidos pertenciam
já à margem mais externa do judaísmo. O etíope e
Cornélio de modo algum eram tidos pelos judeus como
pagãos cem por cento. Eram gentios que já haviam ca
minhado para mais perto do judaísmo. Só mais tarde se
receberam gentios que não tinham tido nenhuma ligação
anterior com 0 judaísmo. A questão surgiu quando se
cuidou de aceitar os gentios em pé de igualdade com os
judeus, e isso forneceu assunto para uma grande reunião
em Jerusalém, onde se alcançou uma grande vitória. Pa
rece que o livro deveria encerrar-se no capítulo 15, mas
Lucas desejava apresentar outras muitas conquistas do
Evangelho. A vitória vinha despontando nas igrejas, e era
necessário apresentar a reação final dos judeus à nova
posição.
Lucas deixa bem claro uma coisa: o problema de se
aceitar os gentios incircuncisos tornou-se muitíssimo agu
do para os judeus cristãos, culminando por levar os judeus
a se excluírem da comunidade cristã. Alude posteriormen
te a um aspecto dêsse problema, sem contudo explorá-lo
completamente como em Atos, o apóstolo Paulo, em al
gumas de suas cartas, notadamente quando trata do lu
gar das leis rituais judaicas na vida dos próprios judeus
cristãos. Será que finalmente o Cristianismo libertaria,
tanto ao judeu como ao gentio, da lei e dos ritos?! Lucas
não se-mostrava tão interessado neste aspecto do proble
ma, e sim com a atitude do judeu cristão para com os
gentios incircuncisos, conquanto não silenciasse sôbre
aquêle aspecto da questão. Mostra êle que já se apodera
O LIVRO DE ATOS 81
ra dos corações judeus o temor de que, uma vez que se
libertava o gentio dos ritos da lei, isto sugeriria o mesmo
para os judeus.
Tal temor aparece claramente refletido nas palavras
ditas a Paulo quando se nos relata a última visita dêle ü
Jerusalém: “ Bem vês, irmão, quantos milhares (miría
des) há entre os judeus que têm crido, e todos são zelo
sos da lei; e têm sido informados a teu respeito que en
sinas todos os judeus que estão entre os genüos a abando*
narem a Moisés, dizendo que não circuncidem seus filhos,
nem andem segundo os costumes da lei” (Atos 21:20 em
diante). Uma “ concessão” , que libertava da Lei o gentio
cristão, mui fàcilmente acarretaria outra, liberlando tam
bém o judeu cristão.
Acresce ainda que, aprofundando-se o caráter e a es
sência do Evangelho, evidenciava-se a impossibilidade de
se reconciliarem princípios exclusivistas com a fraterni
dade cristã. Os judeus deviam ver bem que isso era inevi
tável, pois que o ministério da mesa (a própria distribui
ção fraternal de benefícios) impossibilitava seguir-se ;l
risca ccrtos usos e costumes judaicos. Assim, viram êles
nessa igualdade cristã de gentios e judeus a inevitável des
truição de suas esperanças no que respeitava a um reino
político-econômico. 0 judaísmo era fanto uma nação co
mo uma religião. Os gentios cristãos reconheceriam que
o Cristianismo se relacionava com o judaísmo como re
ligião; mas, é certo que rejeitariam qua’quer imposição
do judaísmo como nação. Assim, o problema final não
se cifrava apenas em saber sôbre que base seriam recebi
dos os gentios. Mesmo depois de a reunião de Jerusalém
haver aprovado a recepção dos gentios incircuncisos, os
judeus cristãos se contavam por miríades.’ 0 que afinal se
lornou inaceitável para o judeu foi o fato de o Cristianis
mo haver ameaçado libertar da lei ritual até mesmo aos
judeus e haver estabelecido a igualdade do judeu e do gen-
32 FRANK STAGCr
tio no que dizia respeito ao reino. Foi nisto que o Cristia
nismo deixou de ser judaico e se fêz gentílico.
Desde o início via-se que o universalismo estava la
tente no judaísmo. O monoteísmo logicamente conduz ao
universalismo; porque, se há um só Deus, deve ser Êle o
criador de todos os homens e deve incluir a todos nos Seus
planos. De Amós em diante, proclamou-se por meio de
muitas vozes, dentro do judaísmo, o conceito do univer
salismo, tornando-se o proselitismo a sua aplicação prá
tica . Contudo, tal universalismo entrava em conflito com
o nacionalismo. A posição resultante era a de que Deus
poderia ser o Deus de qualquer pessoa, desde que pelo
ritual se fizesse judeu. Isto era disfarçar a idéia de que
Êle é unicamente o Deus dos judeus. Alguém disse que
tal proselitismo era o mesmo que estender u’a mão aos
gentios e com a outra conservá-lo à distância. Com essa
espécie de universalismo e de proselitismo, o judaísmo
proclamava sempre que o gentio como gentio só poderia
participar do reino quando admitido ao judaísmo. E isso
compreendia admissão ao judaísmo, tanto como nação
como religião.
Um mestre judeu contemporâneo — Joseph Klausner
— mostra-se insistente neste particular: “ Não devemos
esquecer êste fato mui singular . .. de que o judaísmo não
é somente uma religião, mas também uma nação — uma
nação e uma religião, a um só e ao mesmo tempo. ” 10 O
temor que tomou posse dos corações judeus era justamen
te êste aqui expresso por Klausner:
A abolição das leis cerimoniais necessàriamente
viria obliterar a distinção entre Israel e a nação. . .
e, se o judaísmo houvesse dado ouvidos a Paulo, teria
desaparecido da face da terra, como religião e como
10. Joseph Klausner, em From Jesua to Paul (N ew York, The Macmillan Co.,
1 M 4 )) , pg. 593.
O LIVRO DE ATOS 33
nação, sem ter deixado qualquer influência no grande
mundo pagão. 11
Mas os judeus cristãos estavam laborando em êrro,
assim como também Klausner. E’ verdade que aquilo te
ria destruído a Israel como nação, mas nunca como
religião. Na disposição de morrer como nação, Israel
tinha a oportunidade de levar tôdas as nações à morte
para o ego, na qual encontramos a vida, e pela qual se pos
sibilita uma fraternidade bem mais vasta.
Depois dum anterior progresso em desvencilhar-se dó
nacionalismo, a experiência do exílio e o conflito com ou
tras nações produziram o recrudescimentodêsse espírito.
Podemos citar aqui uma fonte judaica:
Com a volta à Palestina, no tempo de Esdras, no
ano 458 a. C., e no de Neemias, no ano 444 a. C.,
tornou a dominar no judaísmo o espírito particularis-
ta e isolacionista, e êle veio a plasmar o desenvolvi
mento do pensamento judaico, bem como a evolução
do judaísmo por tôda a subseqüente história dos ju
deus. 12
Tal programa de isolamento e de nacionalismo re
velou-se tão extremista que matou todo e qualquer prose
litismo .
Êsse isolacionismo extremista, contudo, logo deu lu
gar a certas modificações. Mas, como Israel tornasse a
expressar de novo o seu universalismo, já seu método
consistiu em expressá-lo por meio de práticas rituais: a
circuncisão, as leis sôbre alimentação, e os sacrifícios. Ci
tando novamente Klausner: “ O judaísmo nos dias do se
gundo templo, e mesmo depois, fêz dos prosélitos gentios
‘filhos do pacto’ de tal modo que foram absorvidos pela
comunidade nacional judaica.” 13 O Cristianismo não
11. hoc. cit.
12. Julian Morgenstern, em “ Universalism and Particularism ” , The Uni
versal Jewish Encyclopedia’ *, X,356.
13. Op. cit., p g . B34. . -
A.A. 3
34 FRANK STAGG
exigiu dos gentios que se incorporassem à comunidade na
cional judaica. Ao contrário, constituiu uma nova comu
nidade na qual judeus e gentios eram iguais, ou melhor
— na qual não importava o ssr judeu ou gentio. Para o
judeu isto era coisa inaceitável; já o gentio só mais tarde
faria oposição a êsse princípio cristão.
Os judeus não rejeitaram a Jesus pelo fato de Êle se
intitular o Cristo, o Filho de Deus; milhares de judeus
não viam nisso uma dificuldade insuperável. Êles não
romperam com o Cristianismo por causa disso, e os Atos
provavam que miríades de judeus, de Jerusalém e doutras
cidades, aceitaram a Jesus como o Cristo. Não obstante,
antes do fim do primeiro século cristão, êsse movimento,
inteiramente judaico em seu início, e que atraiu milhares
dé judeus sinceros por muitas décadas, tornou-se predo
minantemente gentílico. E o que fêz a diferença foram as
missões e não o messiado. Não tivesse o caráter espiri
tual e universal do Cristianismo se afirmado triunfante
mente com exclusão dos interêsses nacionalistas dos ju
deus cristãos, certo o movimento cristão teria continuado
a atrair milhares de judeus. O Cristianismo dentro dum
período assustadoramente curto se tornou muitíssimo po
pular entre os judeus, e então foi rejeitado por aquele
mesmo povo de cujo seio havia saído.
Em sua obra de dois volumes — Lucas-Atos — Lu
cas nos traça o seu desenvolvimento. Quando escreveu,
o Cristianismo já estava ganhando o mundo gentílico, c
os judeus já se sentiam assoberbados com as conclusões
do Cristianismo, do qual por fim se viram obrigados a
afastar. No seu Evangelho, Lucas mostrou que o cará
ter de que se achava revestido o movimento cristão pro
vinha do próprio Jesus; não se tratava de forma alguma
duma perversão efetuada por Paulo ou por qualquer ou-
♦ro apóstolo. Jesus jamais tivera em mente um movi
mento que se expandisse apenas dentro do judaísmo na-
O LIVRO DE ATOS 85
eionalista. Visava, sim, a uma nova humanidade que
abarcaria judeus e gentios. Nos Atos, Lucas nos mostra
a expansão dêsse intento de Jesus, e nos fala do seu glo
rioso triunfo na inclusão do gentio e da lamentável tra
gédia que culminou na auto-exclusão do judeu.
Propósitos secundários. Afirmar-se que o livro dos
Atos tinha um único propósito em vista é simplificar por
demais o assunto. Sem dúvida, houve outros propósitos
subsidiários ao propósito principal. 14 Seja qual fôr o
objetivo de Lucas, o fato é que Lucas escreveu uma his
tória; fôsse qual fôsse o seu propósito específico, é fato
que êle tentou informar seus leitores acêrca do passa
do. 16 A visita que êle fêz à Palestina sem dúvida lhe deu
o embalo inicial para escrever. Essa visita o colocou sob
o encantamento da igreja-mãe e da especial tradição qué
ali conheceu. 16 O contacto com Mnáson, um dos primei
ros discípulos (Atos 21:16), proporcionou-lhe boa fonte
de informações e de estímulo para escrever. Não é pará
desprezar-se o puro interêsse pelo material, pelo que de
bom apresenta, e Lucas bem podia acompanhar uma his
tória simplesmente pelo fato de esta despertar curiosida
de. Lucas não inverteu a intenção de qualquer material
de suas fontes (conquanto remodelasse algo dêle para ser
vir ao seu propósito), e de contínuo assim devemos enca
rar a mensagem original e o propósito dos materiais que
lhe serviram de fontes. Não poucas vêzes devemos ver
no seu Evangelho ou nos Atos dois significados: o signi
ficado do evento em seu próprio tempo e cenário, e o sig
nificado que o escritor deseja apresentar para os seus dias.
Isto necessàriamente não implica um conflito de signifi
14. Para um bom tratamento disto, veja-se R . B. Rackham em The A cts o f
the Apostlea ( W estm inater Commentaries, 12.a ed., Londres, Methuen and Co.»
1939) p g . xxxix em diante.
15. Veja-se Henry J. Cadbuíy, em The Making o f Luke-Acts, ( N ew York, M&c-
millan and Co., 1927) p g . 300.
16. Veja-se W m . Manson em The Gospel o f L uke (T he M offa tt N ew Teata-
ment Commentary, N . York, Harper and Brothers, 1930) p g . v ii.
86 FRANK STACK}
cados,. visto que um acontecimento pode ter um significa-
dó imediato e outro remoto.
Muitos vêem no Livro de Atos uma defesa ou justÍT
ficaçãò do Cristianismo perante Roma. Outros reduzem-
rio a uma defesa de Paulo diante da legalidade romana.
Esta idéia parece improvável, pois que seria um modo
perifrástico de se defender um homem em cadeias, se bem
que muito valesse uma defesa do Cristianismo perante o
mundo romano. Jesus morrera numa cruz romana e
acusado de sedição, e Paulo trazia nos pulsos grilhões ro
manos. Tais fatos exigiam explicação, muito mais ainda
em témpos de perseguição e de guerra. Está claro que
Lucas se deu ao trabalho de mostrar que Paulo e outros
mais líderes cristãos sempre estavam à vista das autori
dades romanas e que estas nunca os julgaram culpados
de qualquer crime contra Roma. Por outro lado, Lucas
nos afirma que os oficiais romanos repetidamente decla
ravam inocentes os chefes cristãos. Um livro, com taí
finalidade, certo muito poderia influir dentro do Império,
embora não deíxas;e de indiretamente aproximar o Cris-
tiáriismo a Roma oficial. E’ quase incrível que um oficial
romano não cristão viesse a perlustrar os grossos livros de
Lucas e Atos. Houvesse Lucas escrito para uma pessoa
ngo cristã, certamente haveria omitido muita coisa que en
contramos em sua obra. 17
Outro tópico que se torna evidente é a posição que o
Cristianismo manteve frente à réligião pagã. Não se
mancomunou cóm ela. Êle foi apresentado como não
tolerando qualquer outra religião. Intolerante também
para com as magias, a bruxaria, o falso espiritualismo,
a filosofia pagã e a idolatria.
Podemos aventar êstes e outros mais propósitos se-
17. Dibelius, contudo, acha que tanto o Evangelho como 9S Atos foram es-
critps não só para a comunidade cristã, mas também visando o “ mercado de li
vros” (Bücherm arkt) t estribando-se especialmente no fato e na natureza da dedi
catória a T eófilo. V er op. cit., pg . 118.
O LIVRO DE ATOS 87
Cundários; mas, tornamos à convicção de que o propósito
principal foi retratar o Cristianismo ao afirmar o seu
Universalismo contra qualquer esforço ou tentativa no
sentido de limitá-lo aos acanhados conceitos do judaísmo
do primeiro século. Essa luta acerrada e amarga resul
tou na gloriosa vitória da liberdade cristã e no reconheci
mento de uma Nova Humanidade que paira acima dos lî
mites de raça e de naciotíalidade. Com isso, não obstan
te, surgiu a lamentável tragédia de aulo-exclusão do ju
deu, pois que êste preferiu fazer sobreviver sua nação
com exclusão da fraternidade mundial.
A DATA E A OCASIÃO
Buscando firmar a data em que foi escrito o Livro
dos Atos, o terminus a quo, ou a sua possível data mais
anterior, é fixada pelosacontecimentos relatados no ca
pítulo 28. Paulo passou dois anos em Roma aguardan
do o julgamento do imperador. Por certo o Livro dos
Átos não podia ter sido escrito antes daqueles dois anos,;
Mas, é um êrro concluir-se que aqueles dois anos são
também o terminus ad quem, ou a data mais posterior
possível, como muitos hão afirmado.18 Concluir-se se
terminou de escrever o Livro dos Atos onde êle acaba,
sem nos dar o resultado do julgamento de Paulo, porque
os acontecimentos não mais se desencadearam, é achar
que Lucas estava acompanhando a vida de Paulo por ,
interêsse próprio. Encerrando a história sem nos rela
tar o dito resultado, Lucas fêz exatamente aquilo que
costumava fazer através de todo o Livro, ao tratar de
muitas outras personalidades. Êle estava bem mais inte
ressado nos sucessos e avanços do Cristianismo do que
em pessoas. Não há razão para se achar que o Livro dos
18. E ’ desconcertante achar-se em excelentes comentários, tais como os de R.
B . Rackham e de F . F . Bruce, a afirmativa de ser abrupta a conclusão do Livro .
dos Atos, e mesmo incompleta, e a de o Livro ter sido escrito antes de se ter co?
nhecído o resultado final do julgamento de Paulo. V er Rackham, op. c i t„ p g .
1 -lv , e Bruce, <*p. cit., p g . 10-14.
â8 FRANK STAGO
, ■; - — -"3-ti-tj
Atos devia ter sido escrito antes do julgamento de Paulo.
A conclusão dos Atos é mais cheia de significado quando
nos lembramos do verdadeiro propósito de Lucas (veja
a discussão anterior).
Paulo apelara para César (Atos 25:11) depois de
Festo haver sucedido a Félix como procurador da Judéia,
e seus dois anos em Roma seguiram-se logo depois disso.
Isto nos oferece um dado definido para a cronologia pau-
lina. Mas, permanece um problema quanto à data da
prisão de Paulo em Roma, visto não haver certeza acêr-
ca da data em que Festo sucedeu a Félix. Josefo (Anti-
quities, XX, 8, 9 em diante, e Wars, II, 14, 1) nos diz que
Festo foi nomeado no tempo de Nero, para suceder a Fé
lix, e que êle foi substituído por Albino. E’ possível que
Festo se tornasse procurador pelo ano 55 ou 56 (A. D .),
mas não é coisa provada. 19 Provàvelmente Paulo pas
sou o inverno do ano 56 ou 57 em Malta, vindo depois o
naufrágio, e atingindo Roma na primavera de 57 ou
58. Os dois anos passados prêso em Roma mui provà
velmente cairam dentro do ano 59 ou 60. Falta-nos
uma prova concludente; mas parece ser esta data a
mais aceitável. Assim, o Livro dos Atos não foi escrito
antes de cêrca do ano 59 ou 60. Isto, contudo, não indica
a última e possível data do Livro. O julgamento de Pau
lo necessàriamente não voga para a aferição da data dos
Atos. Os longos argumentos a êste respeito só concorrem
para obscurecer a questão do propósito de Lucas.
Já foram propostas muitas datas para o Livro dos
Atos, algumas até para depois da metade do segundo
19. P or meio de Josefo (Antiquities, X X , 8, 9) sabemos que quando Félix fo i
chamado para Roma fo i êle salvo de ruína completa pela influência de Palas,
irmão dêle. Peleas fôra demitido do ofício por Nero, cêrca do A no Domini 65.
Portanto, Félix devia ter sido chamado para Roma antes da queda de Paleas. V e-
ja-se Kirsopp Lake e Henry J. Cadbury, editores, Additional N otes, V ol. V ., The
Beginnings o f Christianity (Londres, Macmillan and Co., 1933) p g . 466. E tam
bém ao pé da pág. 242 em diante.
O U V RO DE ATOS S9
século. João Knox achou que o Livro já fôra escrito e
que Lucas o desenvolveu para enfrentar a ameaça do
marcionismo. 20 Isto já discutimos na seção que tratou
do propósito do Livro (veja pág. 25 em diante). Pou
cos, porém, aceitam esta data bem posterior. E’ quase
inconcebível que um livro escrito no tempo de Márcion
fôsse dentro de poucos anos tido amplamente como uma
obra de Lucas. Irineu (A. D. 185) citou e resumiu mui
ta coisa dos Atos em sua obra Against the Heresies, 21
e de modo claro mencionou Lucas como o autor do Evan
gelho que traz o seu nome e também como o autor dos
Atos. 22 O fragmento Muratori (170) de modo explícito
atribui a autoria dos Atos a Lucas, dando-nos a tradição
dos cristãos de Roma. Clemente de Alexandria (200) e
os das gerações seguintes sustentam ser Lucas o autor dos
Atos. Isto se tornaria incrível, caso a obra em fóco per
tencesse à metade do século segundo. Há possíveis alu
sões aos Atos no Primeiro Clemente (A .D . 95), na epís
tola de Barnabé (100), no Pastor de Hermas (100-110),
em Inácio (115), na epístola de Policarpo (120), e nou
tras. 23 Mais importante é, porém, anotar, como vimos
antes, que essa tese, de que o Livro dos Atos era um livro
apaziguador que visava harmonizar os seguidores de Pe
dro como os de Paulo, obscurece o propósito real dos Atos
e já está superado juntamente com Baur e a escola de
Tiibingen, seus criadores.
D. W . Riddle 24 achou que a ameaça da perseguição
de Domiciano deu ocasião para o Livro dos Atos. Então,
a data dêste seria de alguns anos depois do A. D. 90.
Êle baseou seus argumentos em três proposições: Lucas-
Atos dependem de Josefo; a publicação dos Atos responde
20. John Knox, op. c it„ passim.
21. V eja Rackham, op. cit., pg. x iv .
22. V eja Bruce, op. c i t„ pg. 1.
23. IbicL, p g . 8.
24. D . W . Riddle, em The Occa&ion o f Luke-Acts. “ Journal o f Religion” , ou*
tubro, 1930.
m-*
pela coleção das cartas de Paulo; e que Teófilo era um
oficial do Império, ao qual o livro dos Atos era endereça
do como uma apologia. Nenhuma dessas teorias pode ser
provada plenaxnente. São argumentos muito fracos, e os
críticos de bom coração se deliciam em atacá-los quando
alguém os usa para sustentar uma posição tradicional.
Outros, deixando de lado a tese particular de Riddley,
acham que Lucas-Atos foi escrito depois do A . D . 93, ba
seados ainda na suposta dependência de Josefo. Citam*
se, enlão, três passagens para provar que Lucas depen
deu de Josefo: a referência a Teudas, em Atos 5:36 em
diante; a referência a Lisânias, como tetrarca de Abilene,
em Lucas 3:1; e a referência ao egípcio, em Atos 21:38. -
Tais passagens foram debatidas à saciedade. Mas, não
se segue que por isso Lucas dependeu de Josefo. A parte
das Antiquities (XX, 5, 1, 2) que relata os assuntos trata
dos por Lucas encontra-se quase no fim daquela obra; e
parece coisa estranha houvesse Lucas perlustrado tôda
essa obra volumosa para colher tão pequeno material e
daí interpretar mal essa sua fonte! Lucas e Josefo certa
mente beberam na mesma fonte; e, no que respeita a Teu
das, bem podia ser que êles se referissem a pessoas dife
rentes .
Alguns insistem em dizer que o Livro é de data pos
terior ao ano 70 (A . D .) porque o Evangelho de Lucas,
anterior aos Atos, indica uma data posterior à queda de
Jerusalém no ano 70. Argumenta-se que a descrição que
Lucas nos apresenta do cêrco de Jerusalém (Lucas 19:
43 em diante; e 21:10-24) é muito precisa para que se
admita uma data anterior a êsse acontecimento. Será
forte êste argumento? O fato de Jesus ser o Filho de Deus
e poder prever a queda de Jerusalém explica satisfatoria
mente a precisão daquela descrição. Além disso, quem
estivesse alerta para com os tempos que corriam poderia
antever um inevitável choque dos judeus com Roma, pois
40 1'RANK STAGG
O LIVRO DE ATOS á
que os zelotes estavam agitando o povo para que se re
voltasse, único crime imperdoável aos olhos de Roma. È
também acontecia que Jerusalém sempre fôra tomada
depois de cercada, em vista de sua posição topográfica:
Nisso tudo vemos não haver nenhum argumento conclu
sivo para se fixar a data de Lucas, e mesmo dos Atos,
para depois do ano 70. Doutro lado, isso não exige para
Lucas ou para os Atos uma data anterior ao ano 70. Lu
cas e os Atos poderiam ter sido escritos antes do ano 70,
mas não foram necessàriamente escritos anteriormente.
A data de Marcos entra em cogitação como um fator
maior para se acertar a data de Lucas e também a dos
Atos. Por cêrca de um século reconheceu-se quase que
universalmente queLucas teve em Marcos uma de suas
fontes, às quais se referiu no seu prefácio (Lucas 1 : l -4 ) .
Mui provàvelmente Marcos fôra esci'ito pelo ano 65 A, D.,
por ocasião das perseguições desencadeadas por Nero con
tra os cristãos e quando êstes mais tarde perigavam por
efeito da guerra entre judeus e romanos, que então ia ace
sa. Mui provàvelmente Lucas foi escrito poucos anos
depois. O Livro dos Atos seguiu-se logo depois a Lucas;
não se podendo precisar quão logo depois.
A guerra entre judeus e romanos (A.D . 66-70) pôs
a judeus e cristãos em uma crise ainda maior. O rompi-,
mento final dos cristãos com a sinagoga e o abandono do
Cristianismo pelos judeus sem dúvida foram precipita
dos por aquela guerra. Por alguns anos a presença de
gentios incircuncisos nas igrejas constituiu um problema
para os judeus que se apegavam às tradições. Aquêles
que sustentavam ser o judaísmo tanto uma nação como
uma religião insistiam em que os gentios conversos de
viam ser iniciados como súditos da nação. Os judeus cris
tãos foram forçados a reconhecer que os gentios na ver
dade se estavam convertendo e que efetivamente o Espi
rito Santo descera sôbre êles. Mas, nunca se prova tanto
4» FRANK STAGG
o patriotismo como no tempo da guerra. Certas conces
sões e arranjos recebem vista grossa em tempos de paz;
mas, em dias de guerra, são considerados como imper
doável traição. Assim, quando os judeus se viram em
luta de vida ou morte com os romanos, os limites fica
ram demarcados a fogo. Nunca se insistiu tanto, como
então, em firmar bem o muro divisório entre judeu e não-
judeu. Os cristãos permaneceram neutros, e mesmo fo
ram do conflito judeu-romano, enxergando bem que o
verdadeiro destino do judeu, como o do cristão, nunca
seria alcançado por meio de guerras materiais. Parece
que depois da guerra mui poucos judeus se converteram
ao Cristianismo. E, daquele ponto em diante, o movimen
to tornou-se notadamente gentílico.
0 Livro dos Atos parece ter sido escrito durante a
guerra judeu-romana, ou logo depois; provàvelmente logo
depois. Mui provàvelmente foi escrito quando já se via
claro que os judeus iam abandonar o Cristianismo. Lucas
parece não estar tão preocupado em mostrar que o Cris
tianismo abarcaria o gentio; mas, sim, em mostrar como
um movimento, inicialmente judeu, se tornava gentílico. 0
Evangelho de Lucas atribui a Jesus os impulsos e princí
pios que gradativamente foram ganhando expressão em
Seus seguidores. O Livro dos Atos nos mostra o resulta
do disso e aquilo que êle veio a significar para o gentio
— a sua inclusão — e para o judeu, a sua auto-exclusão.
SUA AUTORIA E SUAS FONTES
Cria-se firmemente no segundo século que Lucas, o
médico amado (Col. 4:14), escrevera o Evangelho se
gundo Lucas e o Livro dos Atos. Muitas vêzes no
século passado se pôs em dúvida essa antiga tradição;
não obstante, por grande diferença essa tradição foi sem
pre a mais aceita. Lucas e Atos são anônimos, como
O LIVRO DE ATOS 43
todos os Evangelhos, e por si mesmos nada reclamam
quanto à sua autoria. Ao que parece Lucas não era vulto
proeminente na primitiva comunidade cristã, e assim não
se esperava que a autoria dêsses importantes e grande»
escritos lhe fôsse atribuída apenas por capricho. Não se
compreende que a carta anônima aos Hebreus fôsse arbi
tràriamente atribuída a um escritor poderoso e prolífico
como Paulo; mas, isto não explicaria o atribuir a Lucas
esta obra de dois volumes. A explicação mais satisfatória
desta crença primitiva é a de que foi Lucas mesmo quem
escreveu os dois volumes.
O prólogo anti-marcionita de Lucas (A. D. 160-180)
identifica o autor do Evangelho como sendo Lucas, uma
pessoa de Antioquia da Síria, e médico de profissão. E
adiciona daí que “ o mesmo Lucas posteriormente escre
veu os Atos dos Apóstolos.” 25 O Cânon Muratori (A .D .
170) afirma que “ Lucas compilou para ‘o mui excelente
Teófilo’ aquelas coisas que se deram em detalhe em sua
presença.” 26 Irineu e Clemente de Alexandria de modo
explícito admitem Lucas como o autor dos Atos; e Ter-
tuliano e Orígenes também o fazem implicitamente, visto
reconhecerem Lucas como o autor do Evangelho que traz
o seu nome. 27 Esta tradição só foi posta em discussão
nos últimos tempos.
Algumas partes do Livro dos Atos foram escritas na
primeira pessoa do plural e são conhecidas como as par
tes do “ nós” (ver Atos 16:10-17; 20:5-15; 21:1-18; 27:1
a 28:16). 28 Ainda que outros argumentem em contrá
rio, o autor das partes do “ nós” foi mui provàvelmente
o autor dos Atos. Êsse autor dos Atos certamente lançou
25. V er Bruce, op. cit., pg. 1 e 6.
26. Trad, de Henry T . Cadbury, The Beginnings o f Christianity ed. de F. J .
Foakes-Jackson e Kirsopp Lake (Londres, Macmillan and Co., 1922), II, 211.
27. V er Bruce, op. cit., pg. 1.
28. V eja Morton S. Enslin, em Christian Beginnings (N . York, H arper an<l
Brothers, 1938), pg. 416.
44 PRANK STAGG
mão dp fontes, escritas ou orais, para escrever o Evange
lho e os Atos; mas, uma de suas fontes foi a sua expe
riência pessoal. Êle afirma claramente que não foi teste
munha pessoal de muitas coisas que narrou, embora afir
me haver testemunhado alguns daqueles acontecimentos
e dêles participado. Um escritor tão cuidadoso no admi
tir suas fontes (veja Lucas 1:1-4) não agiria tão grossei
ramente a ponto de incorporar o diário de Outrem em
sua própria obra sem sequer passar as narrativas da pri
meira para a terceira pessoa do plural. Aquêle que escre
veu “ nós” foi quem escreveu o Livro.
Prova bem forte pode ser tirada da tradição que liga
o Lucas das cartas paulinas (Col. 4:14; Filemom 24, e II
Timóteo 4:11) ao autor das partes do “ nós” . As Cartas
de Paulo, tais como os Colossenses e a Filemom, que nos
dão Lucas na companhia de Paulo, provàvelmente foram
escritas em Roma, e as partes do “ nós” de Atos nos dão
Lucas em companhia de Paulo em Roma naquele tempo.
(Por certo a II Carta a Timóteo só foi escrita depois do
período abrangido pelo Livro dos Atos, e por isso não
pesa neste ponto.) O autor das partes do “ nós” não estê-
ve com Paulo em Corinto ou em Éfeso, e as cartas pauli
nas escritas dessas cidades não mencionam Lucas. Con
quanto esta prova não seja conclusiva, certamente confe
re com a posição tradicional de que Lucas, o companhei
ro de Paulo, foi o autor do Livro dos Atos, inclusive as
partes do “ nós” .
Martin Dibelius, sejam quais forem suas conclusões,
é positivo ao concluir não só que Lucas escreveu o Evan
gelho e os Atos, mas também ao afirmar que o mesmo
autor escreveu as passagens dos Atos em que fala “ dêles”
como as que fala em “ nós” , e assevera: “ As passagens do
‘êles’ (Sie-Stiicke) e as passagens do ‘nós’ (Wir-Stiiçke) na
séleção de palavras e no estilo parecem tão semelhantes
O L IV R O DE ATOS
que não temos o direito de atribuí-las a escritores dife
rentes.” 29
Se, na verdade, Lucas escreveu o livro dos Atos — e
só o desarvorado cepticismo se nega a admitir esta proba
bilidade — temos então o testemunho duma pessoa que
participou de muitas coisas de que nos escreve e que pri
vou com muitas pessoas que presenciaram outros aconte
cimentos que nos narra. Nesse autor, seja qual fôr, en
contramos um indivíduo que sempre buscou ser honesto
e acurado em sua obra. No seu prefácio (Lucas 1:1-4)
êle significou o firme propósito de estribar-se em infor
mes de primeira mão. Tanto no seu Evangelho como
nos Atos, lançou mão de fontes primitivas e fidedignas
para relatar acontecimentos que não testemunhara pes
soalmente . Lançou mão do que Marcos e outros haviam
já escrito, tanto de fontes orais como escritas, contidas
no Evangelho. Os primeiros quinze capítulos do Livro dos
Atos estão mui provàvelmente baseados nessas fonteS.
Fôssem tais fontes orais ou escritas, o fato é que eram
primitivas e fidedignas. Grande parte do material dos
primeiros capítulos talvez circulasse primeiro em aramai-
co — a linguagem dos judeus da Palestina — e depois
emgrego. Muitos têm afirmado que os autênticos do
cumentos em aramaico estão atrás do grego dos primei
ros capítulos do livro dos Atos. 30 Isto pode ou não
ser verdade; pelo menos parece que algumas das histó
rias contidas naqueles capítulos foram alguma vez con
tadas em aramaico e os discursos pronunciados em ara
maico. Noutras palavras, não se trata aqui de material
29. Op. cit., p g , 119.
80. Mateus Black, em A n Aramaic Approack to the Gospels and Acta (segun
da-ed ição ); (O xford , Clarendon Press, 1954), nos oferece a mais recente e provà
velmente a mais cuidadosa cbra sôbre êste assunto mui difícil c sôbre que pouc. p
escrevem com verdadeira competência. Na sua revisão dos resultados, diz êle: “ Os
lugares mais prováveis em que Lucas se valeu de fontes semíticas, além dos dize
res, de Jesus, vem o-los nos dois primeiros capítulos do seu Evangelho e nos dia-
cursos d eP ed ro e dè Estêvão contidcs nos primeiros capítulo? dos Atos (pág. 2Ó p t..
16 FRANK STAGG
Criado por Lucas, e sim de material velho, tirado da vida
dos primeiros cristãos.
Lucas entrou em contato com muitas testemunhas
dignas de fé, e certamente colheu informes de pessoas
como Tiago, meio-irmão de Jesus; de Pedro, de Paulo, de
Barnabé, de Marcos; de Filipe, um dos sete; de Mnâson,
discípulo desde o início (Atos 21:16); e possivelmente de
Maria, a mãe de Jesus. Visitas feitas a Jerusalém, dois
anos passados em Cesaréia, e outras mais viagens, pro
porcionaram a Lucas abundantes e preciosos informes,
bem como o estimulo para escrever. Estando na Pales
tina, Lucas teve a oportunidade de enfronhar-se bastante
da tradição ora l31 dos primeiros cristãos. Muito antes já
estava escrito o primitivo Evangelho. Os cristãos viviam
a repetir aqui e ali as histórias e os discursos que lhes
falavam ao coração. Isto não quer dizer que livros acaba
dos saíram imediatamente da pena de Lucas, e sim que
êle pusera mãos à obra que por fim resultou nos livros
imensuràvelmente grandes — Lucas e Atos.
Muita coisa se tem escrito sôbre os discursos contidos
nos Atos, chegando muitos a concluir que êles são estri
tamente produções de Lucas. Diz-se que historiadores
gregos, como Tucidides o reconhece, inventavam discur
sos que consideravam apropriados às ocasiões de que fa
lavam. Assim, êles narravam não aquilo que na ocasião
fôra dito, e sim aquilo que esta ou aquela pessoa têria
dito. E dai se conclui que Lucas teria certamente segui
do essa prática. Ao contrário, deve ser dito que há provas
fortes de que Lucas, embora obedecesse a muitos modêlos
dos escritores gregos, não seguiu aquela prática.
Nos Evangelhos podemos ver bem o modêlo seguido
81. A palavra “ tradição*' é empregada em seu sentido técnico, sem implicar
que tais materiais sej*am ou não produtos da ficção. A tradição incluía tudo quanto
fôra transmitido: a inform ação e também a interpretação, o espírito, e tudo ouan-
to caracterizava o grupo cristão. V e ja II Tess. 2:15; 3 :6 .
O LIVRO DE ATOS 47
por Lucas no tratar os discursos por êle apresentados. No
seu Evangelho Lucas reproduziu com maravilhosa preci
são os discursos contidos em Marcos. Usou de menor
liberdade em modificar as palavras dos discursos que em
mudar as narrativas tiradas de Marcos. Assim razoável -
mente devemos concluir que êle agiu com igual cuidado
ao reportar os discursos contidos nos Atos. Não sabemos
bem como foi que Lucas ficou conhecendo todos os dis
cursos que nos apresenta, embora não seja difícil imagi
nar quais as fontes de que se valeu. Alguns dêles certa
mente êle os ouviu, e outros êle conheceu através de notas
escritas ou de narrativas orais. Rackham observa com
razão que os discursos “ são todos mui apropriados para
a ocasião e trazem as côres distintivas de circunstâncias
particulares e locais. ” S2
Isto não é afirmar que os discursos vêm apresenta
dos palavra por palavra, pois que isto não se tem por
necessário. Hoje em dia fazemos muita questão de re
produzir exatamente as citações diretas, mas no primeiro
século não se cogitava muito disso. No estudo dos Evan
gelhos Sinópticos (os três primeiros do N. Testamento)
como podemos notar através de qualquer harmonia dos
Evangelhos, é fácil ver que não se faziam grandes esfor
ços para reproduzir palavra por palavra os discursos ai
contidos. Mateus, Marcos e Lucas reproduzem muitos
discursos de Jesus, e cada um toma a liberdade de modi
ficar as palavras. O mesmo padrão podemos provar exis
tir em Atos, nas histórias ou relatos da conversão de
Paulo. Tal conversão nos é relatada três vêzes no livro
dos Atos — nos capítulos 9, 22 e 26 — com menores va
riações em cada relato. Para não citar mais, podemos
comparar a afirmativa de 9:5-6 com aquela de 22:10. Na
primeira lemos: “ Eu sou Jesus a quem tu persegues; mas,
levanta-te e entra na cidade, e se te dirá o que é necessá
32. Rackham, ov. çit„ p z . xliii.
FRANK STAGG
rio que faças.” Na segunda lemos: “ E o Senhor me disse
que me levantasse, que entrasse em Damasco, e que lá
se me diria tudo quanto estava ordenado que eu fizesse.” 83
O que Paulo ouviu foi em aramaico, e assim os relatos
em grego são traduções, o que em parte explica a dife
rença. Mas, mesmo excluindo isso, fica bem claro que os
escritores do Novo Testamento não se escravizaram a
uma reportagem literal de tais discursos. Êles estavam
interessados em reproduzir corretamente a substância
dum discurso, ou mesmo em interpretar o discurso, e
não cogitavam de amoldar-se aos padrões que hoje em
dia imperam no mundo das narrativas.
33. Estas traduções são do autor, e nelas tentamos nos aproxim ar o mais pos-'
efvel do original grego, para realçar as diferenças. . ; . . .
Os Blos dos Rpóslolos
O PREFÁCIO DE LUCAS (1:1-5)
“ 1 Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca Je
tudo quanto Jesus começou a fazer e ensinar, 2 até
o dia em que foi recebido em cima, depois de haver
dado mandamento, pelo Espírito Santo, aos apósto
los que escolhera; 3 aos quais também, depois de ha
ver padecido, se apresentou vivo, com muitas pro
vas infalíveis, aparecendo-lhes por espaço de quaren
ta dias, e lhes falando das coisas concernentes ao rei
no de Deus. 4 Estando com êles, ordenou-lhes que
não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperas
sem a promessa do Pai, a qual (disse êle) de mim ou
vistes, 5 Porque João, na verdade, batizou em água,
mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de
poucos dias.” 1
Tanto no prefácio do Evangelho de Lul ŝ (que real
mente pode ser o prefácio da obra Lucas — Atos) como
no prefácio do Livro dos Atos, o autor nos dá uma des
crição informal de sua obra, asseverando que ela tratará
de coisas que se consumaram entre os primeiros cristãos
através daquilo que Jesus fêz e ensinou (Lucas 1:1 e Atos
1 :1 ).2 Quando Lucas escreveu, já os acontecimentos que
o interessavam haviam surgido com bastante fôrça, e já
se firmara o curso do Cristianismo em questões de gran
de importância; o Cristianismo já afirmara o seu ineren
1. A menos que houvesse outra indicação, a tradução inglêsa usada seria a
da Reviaeã Standard Version (N . York, Thomas Nelson and Sons, 1952), e o texto
grego usado seria o de D. Eberhard Nestle (revisto por seu filho, D. Erwin Nestle,
20a. edição; N . York, American Bible Society, 1950). Taia textos repetidamente
nada mais seriam que pontos de partida quando se apelasse diretamente para a
evidência textual, e assim se fazia necessária uma tradução mais nova.
2. V eja Kirsopp Lake e Henry J . Cadbury» em The A cts o f the Apostles, Vol.
IV , e em The Beginnings ç f Chriçtianity (Londres, MacmiJlan and Co., Ltd., 1933,'
pg. 2.
A.A. 4
50 FRANK STAGG
te universalismo, 3 e quebrara já os estreitos limites a
que muitos o haviam confinado. Quando Lucas escreveu,
o movimento cristão já se libertara grandemente do colo
rido nacionalista das esperanças messiânicas e já tinha
abarcado grande número de gentios incircuncisos. O mo
vimento, que parecera serinteiramente judeu em seu nas
cimento, surpreendentemente no breve espaço de umas
poucas décadas tornara-se predominantemente gentílico.
Lucas não precisa multiplicar palavras, em tratando
das missões mundiais, para nos contar como o Cristianis
mo se tornou um movimento universal e para justificar
êsse fato. Tal universalismo derivava-se da intenção do
próprio Cristo pois que vinha refletida naquilo que Êle
fizera e dissera. Então, Lucas está interpretando a Histó
ria — “ as coisas consumadas entre nós” . O propósito es
pecial dêle é demonstrar que, sobrepondo-se a questões de
nacionalidade, de raça, e do legalismo que sustentava o
acanhado particularismo de muitos judeus e cristãos ju
deus, o Cristianismo se mostrava fiel ao plano de Jesus.
Nos Atos êle nos mostra que Jesus ressuscitado, através
do Espírito Santo, estava em pessoa levando Seus segui
dores, por caminhos penosos, a reconhecer de que o Seu
reino era de natureza espiritual e universal.
Lucas toma cuidado em frisar que a obra pelo Espí
rito é a continuação da obra de Jesus. Mostra que Jesus,
após Sua ressurreição, apareceu a Seus discípulos por es
paço de quarenta dias e era claramente a fôrça dominan
te do movimento. Foi Êle quem ordenou aos Seus segui
dores que aguardassem o batismo no Espírito Santo que
lhes fôra prometido pelo Pai. Assim, Jesus estava tão vi
3. U m amável crítico achou que se devia evitar a palavra “ universalismo”
porque os “ ismos” e o seu abuso teológico tn zem a idéia de ódio. Não obstante,
a palavra é bra, e deve &er usa^a. Muitos “ ismos” são coisa excelente, corro por
exemplo “ evangelismo” e “ batism o". P or “ universalismo*' êste escritor quer
significar o reconhecimento da humanidade acima da nacionalidade e da raçc; não
usa êie o term o, como alguns o fazem, para defender que todos um dia serão sal
vos. Por “ particularism o" aqui se quer sign ficar o estreito interesse por suí*
pátria, ou por sua raça, com exclusão do» direitos da humanidade.
O LIVRO DE ATOS SI
talmente relacionado com o movimento depois de Sua
ressurreição como estivera antes de Sua morte. O movi
mento que então se tornava universal, passando por sôbre
as barreiras nacionalistas, era o mesmo movimento que
Jesus iniciara e sustivera.
Durante os quarenta dias de Suas aparições aos dis
cípulos, Êle falou das coisas concernentes ao “ reino de
Deus” . Não tratou simplesmente do reino de Deus, mas
falou das coisas que pertenciam a êsse reino, i. é., reve
lou a natureza e o campo de ação do reino, e gravou o
Seu caráter sôbre êle. O reino de Deus é antes de tudo
o reino de Deus. Em Jesus, Deus está de modo único e
final afirmando Seus direitos de soberania sôbre o ho
mem . Onde quer que os homens vivam, estão sendo con
vidados a reconhecer o parentesco que têm com Deus, e
a ceder a isso, fazendo-se prazerosamente súditos dÊle.
Por tudo quanto Êle disse do “ reino” , os seguidores de
Jesus já têm muito que aprender acêrca de sua natureza.
Êles, no entanto, pensavam que o reino de Deus se ex
pressaria pela nação judaica.
Resumindo, no versículo primeiro Lucas relembra
ao leitor que em seu primeiro livro 4 êle apresentara Jesus
e aquilo que Êle começara a fazer e ensinar. (Aquilo que
Jesus fêz e aquilo que disse são coisas inseparáveis. Aqui
lo que Êle fêz deve ser interpretado à luz do que Êle disse,
e aquilo que Êle disse interpretado à luz do que Êle fêz.)
Aquilo de que Lucas vai tratar no Livro dos Atos tem sua
raiz no Jesus histórico, e o que se seguiu no movimento
cristão teve lugar por causa daquilo que Jesus fizera e
dissera. Muitos comentários virtualmente deixam de lado,
como sem significado, a palavra “ começou” . Por isso,
4. O fato de Lucas referir-se co “ prim eiro” não implica nece sàriamente
que êle tencionasse escrever um terceiro livro. O superlativo grego era muitas
vêzes empregado em lugar do comparativo, como acontece no inglês. Fala-se não
poucas vêzea no prim eiro andar duma casa que apenas tem deis andares. Os gra-
mático# repudiam ésBe modo de falar; mas o povo não.
82 FRANK STAGG
provavelmente ignorà-se um ponto vital: Aquele que deu
início ao movimento ainda o está dirigindo. No versículo
Segundo, Lucas frisa a ordem dada por Jesus aos apósto
los, antes de Sua ascensão (Lucas 24:49). A expressão
“ pelo Espírito Santo” pode ser ligada ao mandamento ou
à escolha dos apóstolos; o grego admite as duas exegeses.
Ainda que ligá-la ao mandamento seja mui natural no
correr da sentença grega, noutro sentido ligá-la à escolha
dos apóstolos parece mais certo. Os apóstolos eram fruto
de Sua eleição, e Êle os comissionara. Não obstante, aque
les mesmos apóstolos em muitos pontos recalcitraram
contra o claro ensinamento de Jesus e contra a direção do
Espírito. O versículo 3 frisa o fato de que Jesus poi es
paço de quarenta diás apareceu aos apóstolos e lhes deu
provas cabais de que continuava vivo e no meio dêles. 5
Naqueles dias falou das coisas que pertenciam ão reino,
moldando-o e revelando seu caráter e objetivo. Portan
to, Jesus estava vitalmente ligado ao movimento e era
pessoalmente o principal responsável por êle, tanto ántes
como depois de Sua morte. Lucas afirma que Jesus fora
quem dera a ordem para que os discípulos permaneces
sem em Jerusalém, aí esperando a promessa do Pai, de
enviar-lhes o Espírito. Portanto, Jesus era a fôrça dire
tora daquelas coisas consumadas entre êles, Jesus, e não
Paulo ou outro qualquer, era o responsável pelo movimen
to que sç tornou mundial.
Algum tempo depois de estarem escritas estas linhas,
Dibelius concluiu o seguinte acerca do significado que Lu
cas descobrira na conversão de Cornélio: “ A idéia dè rece-
5. O versículo 4 apresenta uma dificuldade de tradução quanto à parte ai
traduzida pela Edição Revista — “ enquanto estava com êles” , que noutras vèm
assim — “ enquanto comia com êles” . O grego não dá certeza quanto à etimo
logia. Pode a exp essã > ser traduzHa, por “ se reuniam” , “ comendo sal com ê!es” ,
ou simplesmente “ comendo com êles” . Complica-se ainda mais o assunto quando
consultámos tcd03 os manuscritos. Cullrr.ann insiste, possivelmente sem grande
certeza, em que se deve traduzir — “ tomando sal com ” , i. ek, “ comendo com êles” ,
citcndo a favor disso as traduções latina, siríaca e cóptica. V eja Urçhriatentum
und Gottesdienst (Zurich, Zwingli-Verlag, 1950), p g . 19.
O LIVRO DE ATOS 53;
ber os pagãos como membros da igreja (einzugliedem)
sem obrigá-los a obedecer à lei não partiu de Paulo, nem
de Pedro, e sim de Deus.” 6 E ainda, sustentando que Lucas
se revelou um historiador firme em seu interesse pelo
“ significado diretivo” (Richtungssinn) dos acontecimen
tos, Dibelius diz: “ Mas, Lucas deseja mostrar (i. é ., pelo
espezinhamento, por parte do Espírito, dos preconceitos
que Pedro tinha com relação a Cornélio e do desejo que
Paulo tinha de ir a Bitínia) que a sorte do Cristianismo
em última análise não fôra determinada pelo apóstolo
Paulo, nem sequer pelos homens, e sim por poder sobre
humano.” 7
A promessa do Pai, que os discípulos tinham oüvido
dos lábios de Jesus, e que deviam aguardar, aparentemen
te é a mesma que encontramos em Lucas 24:49. Não se
retrata aqui uma expectação passiva, e sim ativa, positi
va. Provàvelmente o versículo de Lucas, ao qual parece
referir-se Atos 1:4, possa ser traduzido assim: “ E eis que
mandarei a promessa de meu Pai sôbre vós; mas, perma*
necei na cidade até que sejais revestidos com o poder do
alto.” A tarefa que tinham pela frente era tão pesada em
suas exigências que só mesmo aquêle poder, e nenhum
outro, conseguiria equipá-los para ela. Não. era uma ta
refa para fracos e temerosos, e sim para pessoas que
vivessem na presença e com o poder do Espírito Santo.
O batismo no Espírito Santo, do qual os discípulos
de Cristo antegozariam, batismo contrastado com o batis
mo de João em água (1:5), deve ser compreendido nos
têrmos da referência mui clara ao testemunho de Joãoque encontramos expresso em Lucas 3:16-17: “ Eü, na
vettiade, vos batizo em água, mas vem aquêle que é mais
poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a
correia das alparcas, êle vos batizará em o Espírito Santo
6. Martin Dibelius, op. cit., pg. 107.
7. Ibid., pg. 115 em diant«.
54 FRANK STAGG
e em fogo .” 0 batismo de João se caracterizava pelo ar
rependimento (Lucas 3:3), e êle claramente não o julgava
como tendo qualquer eficácia em si, pois do contrário
não teria recusado aplicá-lo a muitos (Lucas 3:7). O ba
tismo em água era oferecido somente àqueles que da
vam provas de verdadeiro arrependimento (Lucas 3:8).
Contudo, João através daquele batismo viu um outro
no Espírito Santo e em fogo (Lucas 3:16). Parece que
Átos 1:5 se refere a êsse batismo. O batismo no Espírito
Santo", no dia de Pentecostes, portanto, significou u’a
maior concessão de poder para os discípulos e através
dos que já eram cristãos. Não devemos entender isso co
mo sendo o primeiro encontro dêles com o Espírito. Êles
já eram cristãos e não se pode conceber que já tivessem
sido levados ao arrependimento e à fé sem a operação do
Espírito. Eram pessoas que já tinham nascido não só da
água, mas também do Espírito (ver João 3:5). Paulo des
creveu a conversão cristã — e não alguma bênção subse
qüente — ao dizer: “ Pois em um só Espírito fomos todos
batizados num só corpo — judeus ou gregos, escravos ou
livres — e a todos nos foi dado beber de um só espírito”
(I Cor. 12:13) .
Êste batismo no Espírito que se relacionou com os
discípulos no dia de Pentecostes, portanto, é uma expe
riência posterior pela qual o Espírito ainda mais se apos
sou dêles. A vinda do Espírito, assim, não seria um mo
vimento físico do Espírito, porque Êle já ali estava pre
sente. A mudança seria pois aquela efetuada nos discí
pulos . Êstes se tornariam mais despertos para com a pre
sença do Espírito e mais receptivos à Sua presença e po
der. Eni Gesaréia, o Espírito desceu sôbre gregos temen
tes a Deus, enquanto ouviam o Evangelho, e Pedro reco
nheceu aquilo como um outro cumprimento da promessa
de Jesus (Atos 11:16). Ali se juntaram a conversão e a
O LIVRO DE ATOS 55
poderosa dispensação de poder, como acontecera no Pen
tecostes .
O Novo Testamento não esclarece muito o que seja
o dom do Espírito Santo, mas podemos discernir alguma
coisa do seu plano. Distingue-se claramente o batismo
em água, de João, do batismo no Espírito. Afinal, pare
ce que o dom do Espírito está associado ao batismo cris
tão (veja Atos lfl:3, e I Cor. 12:13); e não obstante mes
mo aí não está êle dependendo do batismo em água. Em
Samaria (Atos 8:15 em diante), o Espírito veio com a
imposição de mãos pelos apóstolos depois de os samari-
tanos terem sido batizados por Filipe. Ao que parece, não
bouve repetição do batismo em água. Em Cesaréia (Atos
10:44-48), o Espírito desceu sôbre Cornélio e seus com
panheiros antes de receberem o batismo e de serem sepa
rados pela imposição de mãos. Em Éfeso (Atos 19:1-7),
o Espírito desceu sôbre um grupo de cêrca de doze ho
mens depois de serem batizados em o nome de Jesus e de
pois que Paulo lhes impôs as mãos. Já tinham êles rece
bido “ o batismo de João” (Veja adiante as páginas 167
e 270 em diante.)
O batismo em fogo (Lucas 3:16 e Mateus 3:11 e não
em Marcos 1:8 ou Atos 1:5; 11:16) devemos provàvel-
mente entender nos termos do versículo seguinte, como
o, que separa o trigo da palha. O batismo de João, em
água, guardadas as reservas, distinguia o verdadeiro do
falso, pelo fato de ser discriminador aquêle batismo* ao
oferecê-lo somente aos que apresentassem frutos que pro
vassem o arrependimento. Contudo, por mais cuidadoso
que fôsse João, ou qualquer outro batizador, haveria ain
da alguns que falsa e indignamente recebessem o batismo.
Tal batismo não era de natureza final, portanto, na dis
criminação dos salvos e dos perdidos. Todavia, havia um
batismo além daquele, o batismo “ no Espírito Santo e
em fogo” , que não poderia ser mal aplicado; tal batismo
FRAXK STAGG
invariàvelmente separaria o trigo da palha. 0 grande
acontecimento do qual João falava abrangia o derrama
mento do Espírito Santo sôbre o fiel (“ o trigo” de Mateus
3:12 e de Lucas 3:17) e o julgamento do infiel (“ a palha”
dos mesmos versículos). 8
Vale a pena aqui uma breve referência a Teófilo, a
quem foram dirigidos ou dedicados os dois volumes. Não
era um nome fora do comum, e era de uso freqüente en
tre gregos, romanos, egípcios e judeus, 9 e significa “ ami
go de Deus” . Ainda que se discuta isto, aqui se trata pro-
vàvélmente de um nome próprio duma pessoa conhecida
de Lucas, e não simplesmente dum “ amigo de Deus” idea
lizado por Lucas. O título “ mui excelente” encontramos
em Lucas 1:4, e não aqui. Admite-se em geral que Teó
filo não fôsse ainda um discípulo quando Lucas a êle se
dirigiu como ao “ mui excelente Teófilo” , pois que os
primeiros cristãos não usavam mais títulos entre si. A
presença dêste título no Evangelho e sua ausência nos
Atos levaram alguns a concluir que Teófilo não era ainda
cristão quando Lucas escreveu o seu Evangelho, e que já
o era quando escreveu os Atos. 10 Pode ser exato isso;
mas, será avançar demais com tão fraco alicerce. Mais
importante que isso é anotar que, ao mencionar o nome
de Teófilo no início do Evangelho como no início dos Atos.
Lucas relacionava os dois volumes saídos de sua pena.
Não se trata, pois, apenas de dois volumes, mas também
de um único escritor. São duas partes duma mesma
obra.
8. C . K . Barrette, em The H oly Spirit and the Gospel Tradition (N . York, The
Macmillan Co., 1947), pg. 126.
9 . Lake and Cadbury, Commentary, p g . 2 .
10. V er R .C .H . Lenski, em Interpretation o f the A cte o f the Apostles (C o
lumbus, Ohio, The W artburg Press, 1944), p g ; 21.
1» PARTE
A Igreja Hebréia: O Judaísmo Cristão
(1:6 a 6:7)
O Tema: Nacionalismo Estreito ou um Reino Espiritual
Universal (1:6-8)
“ 6 Aquêles, pois, que se haviam reunido pergun
tavam-lhe, dizendo: Senhor, é neste tempo que res
tauras o reino a Israel? 7 Respondeu-lhes Jesus: A
vós não vos compete saber os tempos ou as épocas,
que o Pai reservou à sua própria autoridade. 8 Mas
recebereis poder, ao descer sôbre vós o Espírito San
to, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém,
como em tôda a Judéia e Samaria, e até os confins da
terra. ”
De imediato se nos fala da idéia mui estreita que os
discípulos tinham a respeito do reino, idéia da qual o Cris
tianismo se devia libertar: “ Senhor, é ileste tempo que
restauras o reino a Israel?” Estavam certos de que o
reino pertencia a Israel, e só queriam então saber quan
do lhe seria devolvido. Sem dúvida os discípulos já na*
quele tempo haviam abandonado a primitiva idéia de um
reino político e temporal, pois que a crucificação os for
çara a abandonar os errôneos conceitos acerca do reino.
Mas, ainda interpretavam o reino em termos de sua na
cionalidade. De certo modo achavam que o reino se ex
pandiria dentro do judaísmo; e êste era para êles tanto
nação como religião.
Jesus respondeu, em substância, que o reino seria
dos discípulos quando êles, sob o poder do Espírito Santo,
testemunhassem até aos confins da terra. “ Não vos com
pete a vós saber os tempos ou as épocas, que o Pai re
servou à sua própria autoridade” — foi a resposta (1:7 ) .
Isto queria dizer que o reino não viria segundo os tem
58 FRANK STAGG
pos marcados pelo calendário, e sim pelo testemunho dado
até os confins da terra por homens dinamizados pelo Es
pírito Santo. Isto lhes era dito de arrepio às egoísticas
expectativas dêles, pois esperavam que Deus entregaria
o reino aos discípulos pelo fato de serem êles o Israel se
gundo a carne. Jesus tentava tirar do coração dêles
aquelas ambições nacionalistas e incutir nêles o sentido
vivo duma missão mundial. Os Atos nos apresentam
a luta entre essas duas idéias e interêsses. Infelizmente,
como disse o professor John Macmurray, “ acomunidade
hebréia, para a qual Jesus apelou no sentido de se dedicar
àquela tarefa, não estava preparada para se identificar
individualmente com um companheirismo universal.” 1
A declaração contida no versículo 8 — “ e sereis mi
nhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em tôda
a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” — foi ge
ralmente aceita como o esbôço do livro dos Atos e como
a revelação do propósito de Lucas. E’ certo que ela ofe
rece uma espécie de estrutura para aquilo que Lucas es
creveu. Mas, em nada indica que êsse fôsse o maior in-
terêsse de Lucas. Contrariando comentários antigos e
modernos, Lucas não mostrou como o Evangelho passou
de Jerusalém para Roma. Não sabemos ainda hoje como
foi que o Evangelho alcançou Roma, Damasco, Chipre, Ci-
rene, Antioquia da Síria, Éfeso, Troas, Corinto, Creta, e
inúmeros outros lugares. Lucas nada nos informa sôbre
isso, ao que parece pelo fato de ser outro o seu propó
sito .
Com isto não queremos dizer que nos Atos não se dá
atenção à expansão geográfica. Muito ao contrário, ve
mos que àí se nos fala dos cristãos sempre em constantes
rçiovinlentos. Através do Livro vêmo-los viajando e le
vando avante grandes campanhas missionárias. Isto é
claro* Assinala-se aqui, contudo, que o preocupar-se com
* 1. John Macmurray, em Conditions o f Freedom (Londres, Faber and Faber
Ltd., 1950), p s . 07.
O LIVRO DE ATOS 59
êste fator seria ignorar ou perder de vista um outro maior
— justamente aquêle para o qual Lucas mais desejou
chamar a atenção de seus leitores. As barreiras mais
fortes e mais difíceis de serem vencidas — então como
hoje — eram as de natureza religiosa, nacional e racial,
e não as geográficas. E’ mais fácil hoje enviar missioná
rios para a África do que unir como irmãos os homens
duma mesma pátria, quando separados por barreiras ra
ciais . Lendo-se o Livro dos Atos, vemos claro que o Cris
tianismo mui fàcilmente se moveu de Jerusalém, da Ju-
déia e de Samaria para as extremidades da terra; mas,
assim fazendo, precipitou a questão que afinal desembo
cou no ulterior rompimento da sinagoga com a igreja, e
na auto-exclusão daquele povo em cujo seio nasceu o
Cristianismo.
O Rápido crescimento do judaísmo Cristão
(1:9 a 6:7)
A Ascensão de Jesus (1:9-11)
“ 9 Tendo êle dito essas coisas, foi levado para cima,
enquanto êles olhavam, e uma nuvem o ocultou a
seus olhos. 10 Estando êles com os olhos fitos no
céu, enquanto êle subia, eis que junto dêles aparece
ram dois varões com vestiduras brancas. 11 Os quais
também lhes disseram: Homens da Galiléia, por que
ficais aí olhando para o céu? Êsse Jesus, que dentre
vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim
como para o céu o vistes ir .”
A descrição que Lucas nos faz da ascensão é coisa
tão tocante quanto-discreta. Os discípulos se deliciavam
naquela contemplação, como se seus olhús e coração tam
60 FRANK STAGG
bém fôssem levados para o céu com Jesus. 2 A Versão
Revista (inglêsa) segue aqui os manuscritos de maior
aceitação. Mas, pode-se tirar uma ilação muito valiosa
à luz do que nos oferece o texto do Código de Beza (ma
nuscrito do século V ) . Neste está assim o versículo 9:
“ E dizendo essas coisas, uma nuvem o recebeu e êle foi
levado de seus olhos.” Isto implicaria que uma nuvem
o envolveu estando ainda de pé sôbre a terra, em vez de
ser quando já estava a subir; e assim foi êle removido
de seus olhos.3 Em qualquer dos casos, os discípulos fi
caram olhando para o céu até que tiveram sua atenção
chamada pelos dois homens de vestiduras brancas (pre
sumivelmente anjos). O privilégio pessoal das grandes
experiências traz consigo a responsabilidade de despen
seiro, e os discípulos voltaram daquela cena para a tarefa
que tinham à frente. As bênçãos devem ser levadas a
outrem, ou se perdem.
A promessa de que Jesus voltará do mesmo modo por
que foi levado para o céu claramente diz respeito à Sua
volta no fim dos séculos. Isto também prova ser exato que
os discípulos de Jesus sentem mais fortemente a constan
te presença dÊle precisamente quando dela tornam parti
cipantes também os outros em seu testemunho diário.
Mesmo aguardando a volta de Jesus, aprenderam a ver
dade da promessa que dizia: “ Onde estiverem reunidos
dois ou três em meu nome, aí estou no meio dêles” e “ Eis
que estou convosco sempre, até a consumação dos sé
culos.” Em o Novo Testamento encontramos uma esca-
tologia futurista e uma escatologia já realizada; Jesus
virá e no entanto já está aqui . O reino de Jesus já é uma
realidade e não obstante espera ser consumado por oca
sião de Seu retorno no fim dos séculos.
2. R . J . Knowling, em The A cts o f the Apostles, W . Robertson Nicoll, editor,
em The E xpositor’ * Greek Testam ent (Grand Rapids, Michigan» Wm, B. Eerd-
mans Publishing Co., sem data) II, 57.
8) C .S .C . W illiams, em Alterations to the Text oi thé Synoptic Goapela and
A cts (O xford, Basil Blackwell, 1951)« p g . 75,
O 'LIVRO DE ATOS 61
Erri o Novo Testamento somente o Livro dos Atos
nos relata que Jesus ficou ainda quarenta dias na terra,
entre Sua ressurreição e ascensão. Lendo o que Paulo
escreveu, parece-nos que Jesus ascendeu ao céu em um
corpo espiritual (contrastando-se com o corpo de carne e
sangue) é que Suas aparições foram como de um ser ce
lestial, pois que êle afirma que a carne e o sangue não
podem herdar o reino de Deus. 4 Paulo parece não fazer
distinção entre ressurreição e ascensão. Lendo-se João,
fica-nos a impressão de que a ascensão ao Pai seguiu-se
ao Seu aparecimento a Maria Madalena, a quem Êle disse:
“ Não me detenhas, porque ainda não subi ao Pai” (João
20:17). Jesus lhes prometeu (João 16:7): “ Se eu não
fôr, o Consolador não virá a vós; mas, se eu fôr, vo-lo
enviarei.” Parece que esta promessa foi cumprida quan
do mais tarde Êle apareceu a Seus discípulos (veja João
20:22 em diante). Parece que João admite que a ascensão
• se deu entre a aparição a Maria e aos discípulos. 5 Lucas
e João frisam que Jesus ressuscitou no mesmo corpo com
que fôra enterrado (Ver Lucas 24:39 e João 20:27 em
diante). Mesmo aí, no entanto, o quadro não é claro.
João 20:26 nos deixa a impressão de que Jesus entrou na
sala, estando fechadas as portas; mas, já o versículo se
guinte aponta para as feridas de Suas mãos e lado. Uma
passagem sugere a existência dum corpo espiritual e a
outra, dum corpo material. Devemos reconhecer que não
temos resposta para muitas perguntas.
Segundo Lucas, o propósito dos quarenta dias e das
aparições do Senhor ressuscitado parece ter sido o de prò-
var o fato da ressurreição (Atos 1 :2) e dar aos discípulos
ulteriores instruções (Atos 1 :3 ) . Afirma-se que a ascen
são era coisa necessária para que os seguidores de Jesus
pudessem receber o Espírito Santo (Atos 2:33; João 16:
4. Lake and Cadbury, em Additional Notes, pg. 17.
6. Ibid., pg. 19.
«2 FRANK STAGG
7; 20:22 em-diante). Aquêle Jesus visível, tangível, e
ressuscitado se foi para que êles pudessem sentir de
modo ainda melhor a realidade de Sua presença e poder
como o Senhor que vai voltar, reconhecido como o Es
pírito Santo. Paulo e João virtualmente tomam o Senhor
ressurrecto como o Espírito. Embora as mudanças de
referências ao Senhor ressurrecto e ao Espírito San
to sejam mais fortes nos escritos de João e de Pau
lo, podemos encontrar a mesma coisa em outros lu
gares. Em Marcos 13:11, se lhes diz que nas persegui
ções e provações não precisariam dantemão preocupar-se
com o que diriam, “ porque não sois vós que falais, mas
sim o Espírito Santo” . Na passagem paralela de Lucas
21:15, se nos diz que o próprio Jesus disse: “ porque eu
vos darei bôca e sabedoria. ” A Grande Comissão em Ma
teus 28:18 vem acompanhada desta promessa: “ E eis que
estou convosco sempre, até a consumação dos séculos.”
Por certo devemos pensar nessa presença do Cristo res
surrecto em têrmos do Espírito.
Os cristãos adoram a um só Deus, e não a três. O mes
mo Deus que Se revelou em Jesusde Nazaré é o Deus cuja
presença é conhecida no Espírito Santo. O Cristo ressur-
recto é uno com o Espírito. Por exemplo, em Romanos
8:9-11 Paulo nos fala no Espírito, no Espírito de Deus,
no Espírito de Cristo, e em Cristo, sem fazer ao que parece
qualquer distinção. Isto não quer dizer que o Novo Tes
tamento confunde o Cristo ressurrecto com o Espírito
Santo. Apenas queremos frisar que, seja qual fôr a dis
tinção que se faça, nunca se deixa de reconhecer que cons
tituem uma unidade. Paulo chegou mesmo a escrever
que “ o Senhor é o Espírito” (II Cor. 3:17).
Problema menor temos pela frente, quando busca
mos saber em que lugar se deu a ascensão. Lucas 24:50-
51 indica Betânia como o lugar de onde Jesus se apartou
de Seus discípulos, sendo elevado ao céu. Atos 1:12 pare
O LIVRO DE ATOS 69
ce nos dar como local da ascensão “ o monte chamado
rias Oliveiras.” Para Lucas os dois lugares podem ser vir
tualmente idênticos, como vemos em Lucas 19:29 (segui
do de Marcos 11:1) quando são juntamente mencionados.
Podemos inferir isto de Lucas 21:37 que nos informa ter
Jesus passado as noites no monte das Oliveiras, enquanlo
Marcos (11:11; e 14:3) nos afirma que as passara em Be-
tânia. 6
Os primeiros cristãos tinham firme convicção de que
Jesus Se levantara dentre os mortos, que estivera em co
municação com Seus discípulos depois de ressurrecto, e
que de modo visível voltaria para êles. Não se pode com
preender o Cristianismo primitivo sem admitir essas con
vicções. Os primeiros cristãos esperavam que Jesus vol
tasse em seus dias, e daí a seguir cada geração podia
aguardar o Seu imediato retorno. Embora os cristãos de
cada século se tenham equivocado acêrca do tempo do
retorno de Jesus, a expectativa de Sua volta em breve lhes
tem feito muito bem e igualmente muito dano. Os cris
tãos, assim nos parece, podem sentir que Jesus está tão
perto a ponto de poder tornar-se visível a qualquer mo
mento; mas, isto não deve levá-los a atitudes e procedi
mentos infelizes como se deu em Tessalônica. Os cris
tãos devem aguardar a vinda de Cristo. Não obstante,
estarão desobedecendo a Jesus tôdas as vêzes em que se
puserem a predizer o tempo do retorno dÊle. E’ de la
mentar-se que a preocupação com a volta de Jesus faça
do sentimento vivo de Sua presença uma coisa secun
dária
Esperando em Jerusalém (1:12-14)
“ 12 Então voltaram para Jerusalém, do monte cha
mado das Oliveiras, que está perto de Jerusalém, à
distância da jornada de um sábado. 13 E, entrando,
subiram ao cenáculo, onde permaneciam Pedro e
6. Laico and Cadbury, em Additional Notes, pg. 21.
FRANK STAGG
João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e
Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão Zelador, e Ju
das, filho de Tiago. 14 Todos êsses perseveravam
unânimemente em oração, com as mulheres, e Maria,
mãe de Jesus, e com os irmãos dêle. ”
O ambiente dêste parágrafo é judeu, e coloca o leitor
em contato com o Cristianismo primitivo. Lucas certa
mente está seguindo alguma fonte primitiva, escrita ou
oral. “ A jornada de um sábado” é descrição puramente
judia, e se refere à restrição da caminhada do judeu no
dia de sábado (Cêrca de meia milha), medida desde os
muros da cidade donde se partia.
O cenáculo (quarto alto) seria na casa de João Mar
cos. Assim sendo, isto em parte explica como Marcos
veio à conhecer a história cristã. Mui possivelmente fôra
ali que se realizara a Última Ceia. De Atos 12:12 se con
clui que a casa de Maria, a mãe de João Marcos, tornara-
se depois o ponto de reunião dos cristãos de Jerusalém.
Assim, é possível que também as primeiras reuniões se
tivessem celebrado ali.
Aí aparece a lista dos onze, juntamente com os no
mes de outros discípulos. Temos mais três listas dos no
mes dos apóstolos (Marcos 3:16-19; Mateus 10:2-4; Lu
cas 6:13-16). Há alguma dificuldade em correlacionar
alguns nomes dessas quatro listas,7 e grande parte dos
doze apóstolos constitui para nós apenas nomes. E’ estra
nho que quase nada se saiba acêrca de grande parte dos
doze. As elaboradas histórias apócrifas, datadas do se
gundo século, que nos falam dos doze, não nos conven
cem, e refletem o fato de que quase nada se sabia dêles
logo depois do primeiro século do Cristianismo. A res
posta mais plausível para esta quase incrível perplexidade
7. Veja-se A . T. Robertson, em A H arm ony o f the Gospel» fo r Stuãents of
the L ife o f Christ (N ew York, H arper and Brothers, 1922), p g . 271-273, para um
estudo cuidadoso comparativo das quatro listas. V eja também Lake and Cad-
bury. em Additional N otes, p g . 41 em diante.
O LIVRO DE ATOS 65
podemos encontrá-la no livro dos Atos — parece que
a maior parte dos doze nunca se libertou daquela aca
nhada visão nacional do Cristianismo. Os particularis-
tas, ou sectários, perecem juntamente com o pequeno
mundo a que se aprisionam. Pelo menos, pode-se dizer,
não há provas de que a mor parte dos doze se haja lan
çado com entusiasmo à evangelização do mundo todo.
Aqui se fala na família de Jesus. Maria, a mãe de
Jesus, não é mais mencionada no Livro dos Atos, e so
mente João fala nela ao narrar a morte e a ressurreição
de Jesus. Por certo seria muito estimada como a mãe de
Jesus. Mas, não há prova alguma de ser ela uma figura
dominante. Não nos dão aqui os nomes dos irmãos de
Jesus. Seus nomes aparecem em Marcos 6:3 (e são: Tia
go, José, Judas e Simão). Paulo nos fala da aparição de
Jesus a Tiago (I Cor. 15:7), e provàvelmente foi nessa
ocasião que Tiago se converteu. Admite-se que êsse Tia
go de quem Paulo escreveu seja o mesmo Tiago tão no
tável do Livro dos Atos; mas, disso não há afirmação cla
ra. Admite-se que êsse Tiago tão proeminente nos Atos
seja também o irmão de Jesus; mas também isto não está
claramente provado.
Os “ irmãos do Senhor” certamente eram filhos de
Maria, embora outras teorias neguem isso. Epifânio, no
século IV, afirma que êles eram filhos de José, filho dum
casamento anterior. Esta teoria poderá ter surgido mais
cedo, no século segundo, quando então surgiram muitas
lendas apócrifas referentes à família de Jesus. Êste ponto
de vista é defendido por aquêles que querem crer na vir
gindade perpétua de Maria. Jerônimo, também do IV
século, acha que não são propriamente irmãos de Jesus,
e sim primos. Helvídio, contemporâneo de Jerônimo,
aceitou a palavra “ irmãos” no sentido literal. Certamen
te o Novo Testamento não faz a mínima sugestão no sen
tido de se tomar essa palavra em outro sentido. Não há
A.A. 5
66 FRANK STAGG
provas de que José fôsse viúvo, e o Novo Testamento não
simpatiza com a idéia da virgindade perpétua de Maria,
e nem mesmo com o conceito de ter o celibato mais va
lor do que o casamento.
O versículo 15 nos dá o número dos discípulos como
sendo de cêrca de cento e vinte. Parece ter sido êsse o nú
mero de cristãos, na mor parte galileus, que então se reu
niram em Jerusalém. Paulo afirma que Jesus duma vez
apareceu a mais de quinhentos irmãos (I Cor. 15:6). As
sim, evidentemente devia haver muitos que seguiam a
Cristo sem ser em Jerusalém. Os Atos nos dão a saber que
havia outros cristãos na Palestina. 8 E esta é mais uma
prova de que o intento de Lucas não era descrever a ex
pansão geográfica do Cristianismo. Êle passa de leve pela
história de muitas comunidades cristãs, as quais sem dú
vida conhecia.
A Eleição de Matias, Uma Testemunha da Ressurreição
(1:15-26)
“ 15 Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos ir
mãos, sendo o número de pessoas ali reunidas cêrca
de cento e vinte, e disse: 16 Irmãos, convinha que se
cumprisse a escritura que o Espírito Santo predisse
pela bôca de Davi, acêrca de Judas, que foi o guia
daqueles que prenderam a Jesus; 17 pois era êle con
tado entre nós e teve parte neste ministério. 18 (Ora,
êsse adquiriu um campo com o salário da sua ini
qüidade; e, precipitando-se, caiu prostrado e se arre
bentou pelo meio, e tôdas as suas entranhas se derra
maram. 19 E tornou-se isso notório a todos os habi
tantesde Jerusalém; de maneira que na própria lín
gua dêles êsse campo se chama Acéldama, isto é, Cam
po de Sangue.) 20 Porquanto no livro dos Salmos
está escrito:
8. Vej'a Atos 9:31.
O LIVRO DE ATOS 67
Fique deserta a sua habitação,
e não haja quem nela habite;
e:
Tome outro o seu ministério.
21 E’ necessário, pois, que dos varões que convive
ram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus
entrava e saía entre nós, 22 começando desde o ba
tismo de João até o dia em que dentre nós foi rece
bido em cima, um dêles se torne testemunha conosco
da sua ressurreição. 23 E apresentaram dois: José,
chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Jus
to, e Matias. 24 E, orando disseram: Tu, Senhor, que
conheces os corações de todos, mostra qual dêstes
dois tens escolhido 25 para tomar o lugar neste mi
nistério e apostolado, do qual Judas se desviou para
ir ao seu próprio lugar. 26 Então deitaram sortes a
respeito dêles e, tendo a sorte caído em Matias, foi
êle contado entre os onze apóstolos.”
Pedro. Simeão, ou Simão, é melhor conhecido em o
Novo Testamento e por nós como Pedro. Simeão era o
nome dêle no hebraico, unicamente usado em Atos 15:14
e nalguns manuscritos da II Pedro 1 :1. Simão, no grego,
aparece freqüentemente nos Evangelhos e várias vêzes
nos Atos. Cullmann acha que desde o início se tinha dado
a Pedro o nome judaico Simeão e o nome grego Simão.
(como fôra o caso de Saulo para Paulo). 9 A Simão foi
dado o título descritivo 10 de Cefas, palavra aramaica que
significa pedra ou rocha, e é traduzida para o grego como
“ Petros” , e em nossa língua Pedro.
Deve-se admitir como fato certo a proeminência de
Pedro na comunidade cristã primitiva. O fato mui triste
e lamentável de se ter explorado o nome dêle, bem como
9. Peter, pg. 17 em diante
10. Ibid., pg. 18.
68 FRANK STACK*
o fato de uma grande corporação eclesiástica haver mis
tificado o papel por êle desempenhado na Igreja Primiti
va, em nada obscurece a verdadeira posição dêsse grande
apóstolo. E’ fato inconteste que Paulo tinha grande res
peito por Pedro, tanto que, após sua conversão, êle foi
a Jerusalém para conhecê-lo (Gálatas 1:18).
A liderança de Pedro na Igreja de Jerusalém logo
deu lugar a uma outra. Cullmann anota bem que, embora
se pense comumente em Pedro como um notável dirigen
te ou líder da igreja, na realidade êle exerceu tal função
por espaço de tempo mui curto, trocando-o pela atividade
missionária. Assim, Cullmann em resumo afirma clara
mente: “ Pedro não é o protótipo do oficial de igreja e sim
o modêlo original do missionário. ” 11
Não existe a menor base para se afirmar que Pedro
foi em qualquer tempo o bispo de Jerusalém no sentido
moderno de senhor absoluto. Gozou duma reconhecida
liderança por breve espaço de tempo, até ser transferida
para Tiago, o irmão de Jesus. Os doze por todo aquêle pe
ríodo desempenhavam papel tão importante e distinto que
por isso mesmo afastava tôda e qualquer idéia de episco
pado absoluto. Além disso, a congregação tôda tinha
uma tal autoridade que não deixava para um só homem
a sua direção, como gradativamente aconteceu nos séculos
posteriores. E’ igualmente exato que nenhuma autorida
de episcopal foi transferida de Jerusalém para Roma.
Não sabemos quando o Cristianismo alcançou Roma.
Provàvelmente foi ela alcançada em data bem anterior,
e sem a presença de qualquer apóstolo. Paulo escreveu
aos cristãos de Roma vários anos antes de ir pela primei
ra vez àquela metrópole. Se Pedro alguma vez viu Roma,
só poderia ser depois de a igreja dali estar bem firmada.
Cullmann12 com razão anota que Pedro assumira im
portante papel missionário e que Tiago o substituirá na
31. Ibid., pg. 41.
12. Ibid,, pg\ 40 em diante.
O LIVRO DE ATOS 69
direção da igreja de Jerusalém, antes de Paulo escrever
a sua Carta aos Gálatas. Fôsse qual fôsse o papel diretor
de Pedro em Jerusalém, êste passou para Tiago, e não foi
transferido para Roma. Por algum tempo Pedro serviu
como líder da missão judeu-cristã sob a direção dos cris
tãos de Jerusalém que olhavam para Tiago como o seu
chefe. Em Antioquia da Síria, Pedro foi repreendido por
Paulo e temeu diante daqueles que Tiago lhe enviara
(veja Gál. 2:11 em diante). E’ claro que o missionário
Pedro não tinha nenhum ofício episcopal para transfe
rir de Jerusalém a Roma, ou para qualquer outra parte.
Os doze. A escolha de Matias para servir com os onze
apóstolos nos indica a singularidade dos doze. Judas foi
substituído por Matias, e não há traço algum de que tal
apostolado devesse ser perpetuado por meio de sucesso
res. Bruce setenciosamente observa:
“ Foi a apostasia de Judas, e não a morte dêle,
que tornou necessário preencher aquela vaga; tanto
que não houve proposta para se preencher o lugar
deixado por Tiago, o filho de Zebedeu, quando foi
martirizado” (xxii, 2) . 13
Os sistemas hierárquicos de nossos últimos tempos
não encontram base naquela situação simples da Igreja
Primitiva. Foakes-Jackson afirma:
“ A palavra ‘bispado’ na Antiga Versão, que Moffatt
traduz por cargo, talvez seja um eco das controvérsias
sôbre o govêrno eclesiástico, surgidas no século XVI, e
com ela se tencione frisar a idéia de que cada apóstolo
tivesse o seu próprio episcopado.” 14
A palavra assim traduzida pela Versão Autorizada
(King James) significa literalmente superintendência
(olhar pelo rebanho), mas não deve ser tomada no seu
13. Bruce, op. eit., p g . 76.
14. P . J . Foakes-Jackson, em The Acta o f the Apostles ( “ The M offatt New
Testament Commentary” , N . York, Karper and Brothers, 1931), p g . 8.
70 FRANK STAG«
sentido técnico; ela é usada permutàvelmente com as pa
lavras ministério (vs. 17 e 25) e apostolado (vs. 25). 15
O apostolado não era transferível. Isto se depreende
claramente de sua origem hebréia bem como da história
do Novo Testamento. O professor T. W . Manson, a quem
devemos êste parágrafo, prova claramente êste importan
te ponto.18 O equivalente hebraico do grego apóstolos é a
palavra shaliach, derivado do verbo shalach que significa
enviar. Dá-se ênfase ao que envia, não ao enviado. Êste é
considezado uma extensão da personalidade daquele que
envia. O shaliach (igual a apóstolo) ao que parece não po
de transferir sua comissão a outrem. E Manson cita um
exemplo tirado do Mishnah (Gittin iii. 6) em que se fala
dum shaliach que adoecera e não pôde por isso terminar
sua missão; a côrte nomeou um novo shaliach, mas fêz
anotar claramente que o novo shaliach era shaliach da
côrte e não shaliach do anterior shaliach. No mesmo
contexto, êste autor 17 cita u’a máxima que equivale à lei
inglêsa que sentencia: Delegatus non potest delegare (i. é.,
um delegado não pode delegar). O shaliach recebera uma
comissão específica mais de natureza funcional que pro
fissional, ou jurídica; e só poderia entregar a dita comis
são àquele de quem a recebera, não podendo delegá-la a
outrem. O apostolado em o Novo Testamento parece
seguir êste padrão. Assim, a idéia de sucessão apostólica
é coisa estranha à índole e à estrutura do judaísmo, e tam
bém à praxe do Novo Testamento.
Temos que admitir que a palavra apóstolo é usada
com diversos significados em o Novo Testamento. Os doze
foram apóstolos, e não tiveram sucessores (sendo, ao que
parece, Judas a única exceção). Além dos doze, outras pes
soas foram tidas e havidas como apóstolos do Senhor. Pau-
15. V e ja Bruce, op. c it„ pg. 79.
16. T . W . Manson, em The Church's M inistry (Londres, Hodder and
Stoughton L td , 1948), pág . 31 a 52.
17. Ibid., p g . 36 em diante.
O LIVRO DE ATOS 71
lo diz ser um apóstolo que recebera diretamente do Se
nhor o seu apostolado. Tiago, o irmão de Jesus, também
é mencionado como apóstolo (Gál. 1:19). Paulo e Bar-
nabé (Atos 14:4, 14) e, ao que parece, Andrônico e Júnias
(Rom. 16:7) são chamados apóstolos. Ainda um terceiro
uso dessa palavra aparece em relação com certos apósto
los de igrejas. Dirigindo-se aos Filipenses (2:25), Paulo
fala no “ vosso apóstolo”. Na segunda carta aos Coríntios
8:23, êle se refere aos “ apóstolos das igrejas” . Êstes ao
que parece são distinguidos dos apóstolos do Senhor; i.é.,
não se afirma que tivessem sido comissionados pelo pró
prio Senhor. 0 aparecimento de falsos profetas tein sido
apresentado como prova de que o número dos apóstolos
não fôra fixado. Êste número maior nunca se confundiu
com os doze. Tanto que nenhum dêles se disse pertencer
ao número dos doze. Quando Tiago foi martirizado não
houve nenhum indício de se ter preenchido a sua vaga.
Da passagem de Atos que estamos examinando (1:
15-26) vê-se claro que havia três exigências basilares para
aquêle “ ministério e apostolado” ; devia ser pessoa que
houvesse estado na companhia de Jesus desde o batismo de
João até à ascensão (1:21 em diante); devia ser uma
pessoa que tivesse testemunhado a ressurreição (1:22); e
pessoa que tivesse sido indicada pelo próprio Senhor (1:
24 em diante). Os onze tinham sido pessoal e diretamen
te indicados por Jesus, devendo ainda o substituto de Ju
das ser escolhido pelo Senhor. Paulo afirmou ser tam
bém apóstolo (Gál. 1:1) “ não da parte'dos homens, nem
por intermédio de homem algum, e sim por Jesus Cristo,
e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos.”
Cullmann observa que neste respeito Paulo e seus oposi
tores judaizantes tinham uma só opinião: — “ Apóstolo é
aquêle que é chamado por Cristo sem intermediário (ohne
Vermiltlung), noutras palavras — fora de qualquer cor
n FKANK STAGG
rente sucessória (Traditionskette) ” . 18 0 apóstolo do Se
nhor recebia sua comissão diretamente de Jesus encarna
do ou do Cristo ressuscitado; era, portanto, uma comissão
imediata, (direta), única e intransferível.
Em seu livro Die Tradition (até agora não traduzido
para o inglês), Cullmann apresenta provas mui fortes
a favor da fôrça normativa da tradição apostólica, ano
tando ao mesmo tempo a importância e a função daque
les apóstolos do Senhor. Construindo sôbre a tese ante
riormente apresentada no seu Christ and Time, sustenta
que o período que vai do nascimento de Jesus até à morte
dos últimos apóstolos, i . é ., até à morte da última teste
munha de vista, que vira a Jesus ressuscitado e que rece
bera de Jesus Cristo encarnado, ou ressurrecto, uma co
missão direta e específica, é o ponto central de tôda a his
tória da redenção (Heilsgeschichte). Aquêle período cen
tral é o ponto de orientação, ou a norma pela qual se deve
medir cada período subseqüente. Deve-se medir a reve
lação subseqüente pelo testemunho daquele centro com a
sua revelação imediata (veja-se especialmente a pg. 29).
E’ justo reconhecer a revelação contínua pelo Espírito
Santo; mas é êrro pensar-se que ela independe do perío
do normativo — o período das testemunhas de vista, esco
lhidas e comissionárias para dar testemunho da vida, mor
te e ressurreição de Jesus.
Cullmann com razão observa que êsse testemunho
apostólico é encontrado em o Novo Testamento. 19 Os
cristãos do segundo século reconheciam que um período
singular terminara por ocasião da morte das últimas tes
temunhas de vista apostólicas e êles mostraram haver re
conhecido êsse fato por seus esforços no sentido de for
mar o cânon do Novo Testamento. Só reconheceram como
18. Oscar Cullmann, Die Tradition ais exegetisches, historischcs und theo-
logischea Problem (Zurique, Zw ingli-V eriig , 1954) p g . 31. Traduzido aqui do
alemão, que por sua vez fo i traduzido do francês por Pierre Schõnenberger.
19. Ibid., p g . 84.
O LIVRO DE ATOS 73
canônicos aquêles escritos que julgavam ter vindo direta
ou indiretamente de um apóstolo. (E .g ., Marcos e Lu
cas, ainda que não considerados como apóstolos, não obs
tante eram tidos como pessoas intimamente relacionadas
com Pedro e Paulo.) Os estudiosos conhecem algo dessa
longa disputa e dos esforços dispendidos, para se firmar
a canonicidade de muitos escritos (pois nunca se chegou
a um completo acordo na Cristandade sobre quais são os
livros canônicos); mas, como observa Cullmann, fica de
pé a verdade de que os cristãos do segundo século reco
nheciam a diferença entre as testemunhas apostólicas e
as testemunhas subseqüentes. Tivessem os cristãos do
segundo século feito boa ou pobre distinção entre as tes
temunhas apostólicas e tôda a tradição posterior, o ponto
importante é que os primeiros cristãos sentiram essa di
ferença, ou distinção, e viram que isso era coisa de grande
importância. A própria igreja reconheceu que o testemu
nho apostólico era a norma. O Cristo vivo é, assim, en
contrado nesse testemunho apostólico. 20
A posterior tradição da igreja nunca poderá ter o
mesmo valor dessa norma apostólica, e nem pode tornar-se
a norma. Cullmann afirma isso de modo sucinto, ao dizer:
“ Não se deve confundir inspiração (Eingebung) com
o critério de inspiração (Kriterium der Eingebung).” 21
Por alguns anos êste escritor, com menor sucesso, busca
ra fazer essa mesma distinção, apontando um duplo pe
rigo: uma virtual negação da singular posição que a Bí
blia ocupa, ou uma virtual negação da contínua inspira
ção do Espírito Santo. Um êrro nos levaria a só louvar
fingidamente a contínua inspiração e a cultuar, digamos,
a Versão King James, da Bíblia. Outro êrro nos levaria
a louvar fingidamente a Bíblia e a cultuar, por exemplo,
a virgem Maria, baseados no gradativo aparecimento de
20. Ibid., p g , 34 em diante.
21. Ibid., p g . 38.
/
/
J
/
14 FKANK STAGG
dogmas que não reconhecem o valor normativo do teste
munho apostólico.
A Escolha de Matias. Não se pode exagerar a impor
tância daquela exigência que estatuía para o sucessor de
Judas o ter sido testemunha da ressurreição de Jesus, o
ter estado junto dos discípulos de Cristo desde o batis
mo de João até à ascensão de Jesus. Como já dissemos,
não se pode compreender o movimento cristão sem a
ressurreição de Jesus, pois foi ela o fato mais significativo
da experiência do grupo cristão. Sem a ressurreição, o
movimento teria perecido. O glorioso fato da ressurrei
ção reorganizou os discípulos e fêz dêles um grupo di
nâmico . Tudo ficaria de pé, ou cairia, com a ressurreição.
Mas, a ressurreição não diminuiu a importância da vida
e da morte de Jesus. Ela lhes propiciava a luz com que
podiam agora ver melhor, e melhor interpretar, a vida
e a morte de Jesus.
Extremados da crítica formalista 22 têm errado ao
afirmar que os primeiros cristãos ficaram tão empolga
dos com a expectativa da volta de Jesus que já não de
monstravam nenhum interêsse pela vida que Jesus vive
ra na terra. A história da eleição de Matias, muito ao con
trário, nos mostra a importância que a vida terrenal de
Jesus tinha para os primeiros cristãos. A narrativa traz
consigo a prova de sua primitividade, pois reflete a Cris
tandade judia, e em nada é uma reescrituração da histó
ria de data posterior. Aquêles primeiros cristãos estavam
olhando para os céus e aguardando o retorno do Senhor,
mas estavam também repetindo as histórias dAquele cuja
vida na carne jamais poderiam esquecer.
22. A crítica form alista é um método pelo qual se tenta recuperar as nar
rativas da vida e dos ensinos de Jesus transmitidas oralmente. Seus chefes, di
vergindo largamente uns dos outros, têm contribuído bastante no sentido de
chamar a atenção dos estudiosos para a importância dos anos decorridos entre a
crucificação e a escrita dos Evangelhos, e também em frisar a importância dos
milhares de testemunhas de vista na preservação de seus relatos. Alguns dêles,
contudo, têm causado algum dano à própria crítica form alista com suas conclu
sões cépticas e extremadas.
O LIVRO DE AIOS 75
Na escolha de um substituto para Judas, êles lança
ram sortes. Era u’a maneira familiar e antiga, praticada
tanto por judeus como por gentios. Julgavam ser um
modo peio qual poderiam conhecer a vontade de Deus.
Embora não haja prova de os cristãos haverem emprega
do êste método após o Pentecostes, não há motivo para
censurar êsse processo. Lake e Cadbury23 defendem for
temente a possibilidade de isso significar “ dar os seus vo
tos” , possibilidade que é fortalecida pelo têrmo traduzido
por “ contado” ou “ enumerado” . Êste último têrmo po
de sugerir a cena do lançamento de pedrinhas como su
frágios ou vo6ios. A idéia de uma votação democrática é
muito atraente, mas não há aqui nenhuma prova conclu
dente. Os soldados romanos no Gólgota lançaram sortes
sôbre a túnica de Jesus, e um têrmo idêntico é então usa
do (Lucas 23:34); foi quase uma eleição democrática.
Contudo, está claro que se dependia não da sorte em si,
mas de Deus, cuja direção êles pediram em oração. Quan
do a sorte caiu em Matias, foi êle “ contado” com os onze
apóstolos.
Judas. Há, ao que parece, certas discr,epâncias nos
relatos da morte de Judas. Os Atos nos dão Judas caindo
prostrado, enquanto Mateus nos diz que êle se enforcou.
Podem ser verdadeiros os dois relatos, considerando-se
que cada um apresenta uma parte daquilo que aconteceu.
E’ possível que êle se enforcasse, e depois escapasse da
corda, caindo ao chão. O ponto é de pouco interêsse, e em
si tem pouco valor. Outra contradição parece haver en
tre o relato que Mateus nos dá, de que os sacerdotes com
praram um campo com o dinheiro da traição e a afirma
tiva dos Atos de que “ Judas adquiriu um campo com o
dinheiro da traição” e a afirmativa dos Atos de que “ Ju
das adquiriu um campo com o salário da sua iniqüidade” .
O grego é melhor traduzido por “ obteve” do que por
23. Commentary, pg. 15.
FRA N K SXAGÔ
“ comprou” . No verdadeiro sentido Judas “ obteve” o
campo, mesmo que a transação fôsse feita pelos sacerdo
tes. O real valor dos Atos em nada diminui, e em nada
cresce, com o estudo dessas questiúnculas. Contudo, po
dem estas servir de saída ou escape, distraindo o critico
severo, ou o ferrenho conservador, das reais finalidades
que certo lhes viriam ao encontro e os disciplinaria.
O Dia de Pentecostes
(2:1-47)
Cheios do Espírito Santo
(2:1-4)
“ 1 Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam
todos reunidos no mesmo lugar. 2 De repente veio
do céu um ruído, como que de um vento impetuoso,
e encheu tôda a casa onde estavam sentados. 3 E
lhes apareceram como que umas línguas de fogo, que
se distribuíram para pousar sôbre cada um dêles. 4
E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começa
ram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes
concedia que falassem. ”
0 Pentecostes vinha cinqüenta dias depois da Páscoa,
fechando a semana das semanas após a oferta dos molhos
colhidos durante a festa dos pães azimos (ver Levítico 23:
15 em diante). O dia marcava o término da colheita, e
também parece que então se comemorava a entrega da
Lei do Sinai. Alguns vêem nisso a entrega da nova lei, es
crita pelo Espírito no coração dos homens. Tal idéia é
bem atraente, mas não pode ser provada.
Para Lucas esta presença de Deus em Seu poder na
comunidade cristã constitui um momento decisivo da
vida da comunidade, sendo um dos acontecimentos mais
significativos da História Sagrada. Esta vinda do Espírito
Santo sôbre a comunidade cristã no dia de Pentecostes
O LIVRO DE ATOS 77
tem paralelo na descida do Espírito Santo sôbre Jesus em
Seu batismo (Lucas 3:22). A direção divina em termos
do Espírito Santo é coisa que os Atos frisam de contínuo,
notadamente na primeira metade do livro. Chama-se a
atenção para a presença e o poder do Espírito, ligando-os
ao Pentecostes (2:4, 17, 33, 38), à defesa perante o Siné
drio (4:8), à reunião que se seguiu à libertação de Pedro
(4:31), à revelação do pecado de Ananias (5:3), à esco
lha dos sete (6:3, 5), à defesa de Estêvão (7:55 em
diante), à realização da obra em Samaria (8:17), ao en
caminhamento de Filipe até ao eunuco (8:29), ao envio
de Pedro a Cornélio (10:10), à conversão de Cornélio e
seus companheiros (10:44), à defesa de Pedro por ter
entrado na casa de homens incircuncisos e ter comido
com êles (11:12, 15 em diante), à escolha de Barnabé e
Saulo (13:2, 4), à decisão do concilio apostólico em Je
rusalém (15:8, 28), à escolha de um campo missionário
(16:6), à experiência mais larga dos seguidores de João
Batista (19:2-6), à viagem de Paulo a Jerusalém (20:23),
ao cuidado da igreja de Éfeso (20:28), ao aviso de Ágabo
(21:11), e à fala do Espírito Santo por meio de Isaías
(28:25).
Essa intervenção divina nem sempre é apresentada
como devida à presença do Espírito Santo. Por exemplo,
na história de Filipe e o eunuco, há uma mudança do
“ anjo do Senhor” (8:26) que enviou Filipe à estrada
de Jerusalém a Gaza para o Espírito (8:29) que orien
tou Filipe para que “ se chegasse àquele carro” . Pare
ce que foi o mesmo Espírito (o Espírito do Senhor) que
arrebatou a Filipe, após o batismo do eunuco (8:39). Na
conversão de Paulo foi Jesus quem Se dirigiu direta
mente a Paulo (9:4, 5), e foi o Senhor (Jesus) quem
falou a Ananias (9:10, 15, 17); só se faz menção indireta
ao Espírito Santo (9:17). Na última parte dos Atos são
menos freqüentes as referências ao Espírito Santo. Êle
78 FRANK STAGGr
é mencionado apenas uma vez (28:25), depois de 21:1, e
aí em conexão com a pregação de Isaías.
A maior importância do Espírito Santo (especial
mente na primeira metade dos Atos) corresponde à mes
ma ênfase dada no Evangelho de Lucas. Neste se vê
que João Batista seria “ cheio do Espírito Santo já desde
o ventre de sua mãe” (1:15). O Espírito Santo viria
sôbre Maria e a virtude do Altíssimo a cobriria com a
sua sombra (1:35). Isabel “ ficou cheia do Espí
rito Santo” (1:41). Zacarias igualmente “ ficou cheio
do Espírito Santo” (1:67). 0 Espírito estava sôbre Si-
meão, e êle viu em Jesus a salvação de Deus para todo
o povo (2:25). Ao ser batizado, o “ Espírito Santo des
ceu em forma corpórea” sôbre Jesus (3:22). Era por
estar “ cheio do Espírito Santo” e ser “ guiado pelo Es
pírito” que Jesus pôde pôr em ordem o magno problema
da natureza do reino que Êle tornaria realidade e o mé
todo pelo qual o consolidaria (4:1). Assim, tanto no
Evangelho como nos Atos, tôda a ênfase é dada à presen
ça e ao poder do Espírito Santo. 24
O Espírito Santo desceu com grande poder no dia
de Pentecostes sôbre os expectantes discípulos, mas não
devemos tomar isso como a primeira descida do Espíri
to Santo. O Velho Testamento testemunha a atividade
do Espírito Santo em tôda a história da humanidade; e
nas páginas dó Novo Testamento representa-se a ativi
dade do Espírito Santo como já relacionada com os pri
mitivos acontecimentos por êle relatados. Rackham ex
pressa um ponto de vista errado ao dizer:
“ Antecedentemente o Espírito Santo havia atuado sô
bre os homens vindo de fora para dentro, como uma
fôrça externa; como o profeta Ezequiel o descreve ‘a
24. R. R. Wilücms, em The Acts of the Apostles (Londres, SCM Press Titi.,
1953), p* . 39.
O LIVRO DE ATOS 79
mão do Senhor estava sôbre m im .’ Agora, porém, o
Espírito Santo age de dentro para fora. Êle está no ho
mem (João 4:17). Antes do Pentecostes, suas manifes
tações haviam sido transitórias e excepcionais; agora a
sua presença no coração do homem é umã coisa ‘per
manente’ e regular.” 25
Esta opinião, embora sustentada por muitos, esfran
galha-se em muitos pontos, por falta de base. Se ape
larmos para a gramática, podemos firmar justamente
a posição contrária. A passagem de Joel, para a qual
Pedro apelou a fim de explicar a experiência dos discí
pulos, mantinha de pé a promessa de que Deus derra
maria o Seu Espírito “ sôbre tôda a carne” (Atos 2:17).
Doutro lado, “ Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lu
cas 1:41), como também Zacarias (Lucas 1:67). Êste
método de prova textual não prova nada. E’ completa
mente enganadora essa suposta distinção enti-e o Espíri
to agindo “ em” e “ sôbre” uma pessoa. Não só não se
sustenta à luz dos textos das Escrituras como também
admite uma tal relação do Espírito para com uma pes
soa, relação essa tôda especial, física e mecânica que
está inteiramente em desacordo com a natureza dÊlee
a nossa. Como pode o Espírito lidar com um ser huma
no a não ser nos têrmos de fatores pessoais e correla
cionados como a nossa inteligência, emoções e vontade?
O Espírito Santo nunca age de modo mecânico “ sôbre”
um indivíduo, manobrando-o como se fôsse um títere.
Êle agiu com Moisés, com os profetas, com Davi, e com
Isabel, do mesmo modo como agiu com todos desde o
Pentecostes, através do Seu impacto sôbre as correlacio
nadas faculdades humanas da mente, emoções e von
tade.
A grande dispensação de virtude no dia de Pente
costes jamais deve ser menosprezada, ou minorizada.
25. Rackham, op, eit.t p g % 14.
80 FRANK STAGG
Contudo, evidentemente não se deu aquilo somente com
os cristãos do primeiro século, mas também com alguns de
nós. Aquêle dia não é mencionado nos existentes escri
tos do primeiro século, além da narrativa do segundo ca
pítulo dos Atos. A ressurreição, e não o Pentecostes, foi
o dia que se distingiu. Sem a ressurreição de Jesus não
teria havido o Pentecostes cristão. Então, também, se
deve anotar que existem outras ocorrências relatadas
nos Atos comparáveis a essa. Quando o Evangelho al
cançou Cornélio (Atos 10) e a alguns seguidores de João
Batista (Atos 19), houve derramamentos do Espírito
Santo semelhantes àquele de Jerusalém. E essas etapas
maiores no progreso do Evangelho, ao alcançar novos
grupos, foram legalizadas pelo Epírito com poderosas
demonstrações.
Basta-nos frisar aqui que a presença do Espírito
Santo não deve ser confundida com os sinais externos.
A vinda do Espírito Santo foi acompanhada por um ruí
do semelhante ao de uma violenta rajada de vento. Os
primitivos exegetas reconheceram que Lucas não estava
descrevendo o ruído do vento, e sim algo semelhante a
um golpe de forte vento. Também Lucas não diz que
apareceram línguas de fogo para os discípulos, e sim
que línguas semelhantes ao fogo lhes apareceram. 28 As
línguas não eram “ fendidas” ; foram distribuídas e des
ciam sôbre cada um. Êsses fenômenos audíveis e visí
veis eram passageiros; a presença e o poder do Espírito
Santo eram as realidades importantes e permanentes.
A crença na presença do Espírito Santo baseava-se
na experiência. Não se tratava de mera doutrina que os
discípulos buscavam perpetuar, e sim duma experiên
cia existencial que êles não podiam deixar de proclamar.
Êles se sentiram plenamente cônscios de uma Presença
que dizia e realizava coisas que a êles e aos/outros pa
26. KnoWling, op. cit., pg. 72.
O LIVRO DE ATOS 81
reciam “ devidas a um poder irresistível que os levava
a dizer ou fazer coisas que nunca dantes haviam vis
to” . 27
Falando Línguas (2:5-13)
“ 5 Habitavam então em Jerusalém judeus pie
dosos, de tôdas as nações que há debaixo do céu.
6 Ouvindo-se, pois, aquêle ruído, ajuntou-se a mul
tidão; e estava confusa, porque cada um os ouvia
falar na sua própria língua. 7 E todos pasmavam
é se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois
quê! não são galileus todos êsses que estão falando?
8 Como é, pois, que os ouvimos falar cada um na
própria língua em que nascemos? 9 Nós, partos, me
dos, e elamitas; e os que habitam a Mesopotâmia
a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, 10 a Fri
gia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia pró
ximas a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus
como prosélitos, 11 cretenses e árabes — ouvímo*
los em nossas línguas, falar das grandezas de Deus.
12 E todos pasmavam e estavam perplexos, dizendo
uns aos outros: Que quer dizer isto? 13 E outros,
zombando, diziam: Estão cheios de mosto.”
Admitimos francamente, de início, que neste capí
tulo temos mais perguntas do que respostas. Será que
só os doze falavam em outras línguas? Ou podemos in
cluir os cento e vinte? A resposta depende do grupo ao
qual se refere a palavra “ todos” , encontrada no primei
ro e no quarto versículos dêste capítulo; e parece que
não temos meios para determinar isso. Constituia-se
aquêle auditório só de judeus e prosélitos, ou estão aí
incluídos também gentios? Os manuscritos não concor
dam no versículo 5, mas o pêso da evidência favorece
27. Lake and Cadbury, Additional Notes» pg, 110.
A .A. «
82 FRANK STAGG
provàvelmente a conservação de “ judeus” . Os versículos
22 e 36 parecem excluir os gentios. Falavam os discípu
los em várias línguas estranhas, ou era só nos ouvidos
que se processavam as diferenças de línguas? Tratava-se
dum milagre de fala ou de audição, ou de ambas juntas?
Se pudéssemos obter respostas definitivas, haveria pou
ca probabilidade de os competentes estudiosos continua
rem a divergir tanto.
No versículo 4 se diz que “ êles” todos começaram
a falar “ em outras línguas” . A palavra grega para ou
tras (heterais) pode significar “ outras de uma qualida
de diferente” , sugerindo-se aqui uma diferente qualida
de de expressão, ou de pronúncia. Mas, isto não é con
clusivo. Alguns exegetas sustentam que “ outras línguas”
é referência às várias línguas estranhas, ou naiivas, dos
grupos ali presentes. Se assim fôsse, não se explica a
razão de terem sido acusados de embriaguez. Certamen
te aquêles peregrinos já dantes tinham ouvido línguas
estranhas. Outros insistem em afirmar qus aqui se
está retratanto um caso de glossoíalia — linguagem
ininteligível de pessoas em êxtase. Contudo, Lucas por
duas vêzes (vs. 6 e 8) afirma que cada um ouvia “ na
sua própria língua” . A palavra empregada nesses versí
culos (dialekto) pode na verdade significar língua ou
dialeto; é possível que signifique as duas coisas, dado
que tanto línguas diferentes como diferenças dialéticas
da mesma língua eram usadas pela multidão. Se a elo
cução pertencia à classe da glossoíalia, ou se aquêles ga-
lileus apenas se expressaram em sua própria língua, en
tão Lucas está narrando um milagre de audição. O úni
co dado exato, segundo Lucas, é que os oradores eram
compreendidos pelos ouvintes de várias nacionalidades,
e cada um na sua própria língua.
Seja qual fôr o caráter das “ línguas” do Pentecos
tes, é certo que tal dom não foi coisa permanente. Al
O i;iVKO DE ATOS 83
guns cristãos têm buscado em várias épocas reviver o
dito fenômeno. 0 propósito visado no Pentecostes —
evidenciar externamente a presença do Espirito Santo
e tornar compreensivel o testemunho a vários grupos
de línguas — não se alcança pelos esforços comuns da
queles que anseiam repetir tal experiência. O orgulho
que geralmente caracteriza tais esforços em nossos dias
contraria totalmente “ o caminho sobremodo excelen
te” (I Cor. 12:31) pelo qual Paulo desejava conduzir
os coríntios. A igreja não é edificada, e os “ de fora ou
incrédulos” não são esclarecidos quanto ao Evangelho
nem ficam persuadidos por aquelas línguas de que está
presente o Espírito Santo (ver I Cor. 14).
Problema de maior vulto surge quando compara
mos ou contrastamos as “ línguas” do Pentecostes com
as “ línguas” de Corinto. O problema é complexo e de
difícil solução. E’ claro que em Corinto o falar em lín
guas era coisa ininteligível, coisa de discursos em êxta
se, que poderia significar muito para quem falasse, mas
que não edificava a igreja e poderia servir de caçoada
para os de fora. Paulo não proibiu aquilo, mas achou
que se tratava do menos valioso de todos os dons cris
tãos (I Cor. 12-14). Paulo disse aos coríntios que falas
sem em línguas somente quando tivessem intérprete (I
Cor. 14:27). Isto não sugere que “ línguas” fôssem in
teligíveis ao intérprete. Mui provavelmente o intérprete
era alguém que podia relatar algo da formação e da ex
periência das quais provinha a fala extática de algum
amigo seu. E’ possível que alguém, tendo recebido uma
grande bênção, desejasse expressar isso através duma
superabundância emocional e dum discurso extático.
Para a congregação aquilo não teria nenhum significa
do, a não ser que um dos presentes pudesse informá-la
acêrca da experiência que estava por detrás daquilo; pois
81 FRANK STAGG
que doutro modo não passaria de discurso incompreen
sível .
No Pentecostesa situação não é tão clara. Os ver
sículos 8 e 11 afirmam sem sombra de dúvida que as
palavras faladas eram entendidas por cada um em sua
própria língua. 0 milagre aí descrito seria de audição,
e também possivelmente de elocução. Doutro lado, al
guns concluíram que os discípulos estavam “ cheios de
mosto” , implicando que o discurso era ininteligível.
Isto necessàriamente não significa, contudo, que a fala
dos discípulos fôsse ininteligível para todos pelo fato de
o ser para alguns dos ouvintes. Aqueles que acharam
que os discípulos estavam embriagados não puderam
compreender a fala dêles, porque não simpatizaram com
êles ou com a causa que defendiam. Se o milagre fôsse
de audição, isto significaria que nem todos o experimen
taram. Também pode ser que, havendo entendido tudo,
perturbaram-se com aquilo' que ouviram e tentaram
logo ver-se livres dos discípulos chamando-os de bêbe
dos. A caçoada é sempre uma escapatória muito à mão
para aquêles que não têm coragem de enfrentar a rea
lidade .
O falar em “ línguas” em Cesaréia, e noutras partes,
provàvelmente deve ser entendido como fala extática se
melhante àquela de Corinto. Pelo menos, não teria havi
do lá o problema de língua que exigiria um milagre de
elocução ou de audição.
Lucas afirma de modo significativo que no dia de
Pentecostes “ habitavam então em Jerusalém judeus pie
dosos, de tôdas as nações que há debaixo do céu” (2:5).
Foakes-Jackson provàvelmente acerta ao dizer que “ o
milagre era um símbolo da futura universalidade do
Evangelho” . 28 Certo essa foi a intenção de Deus; mas,
naquele tempo o Evangelho atingira somente a judeus.
28. F. J . Foakes-Jacfcson, em The Acts of the Apostles, pg. 11.
E’ verdade que a palavra “ judeus” não se acha num
dos manuscritos mais antigos,29 mas a base que temos
para isso é mui forte para que a rejeitemos. Também
é bom notar que tôda a narrativa nos dá a entender que
o auditório era de judeus (ver 2:14, 22, 36). Êste capí
tulo nos oferece a chave da rápida e ampla extensão do
Evangelho por tôdás as partes do mundo greco-romano.
Em pouco tempo podiam-se ver cristãos em muitos luga
res do império; mas, eram judeus cristãos. As barreiras
geográficas foram logo vencidas depois do Pentecostes.
Não obstante, as barreiras raciais ofereciam resistência
muito maior.
O Sermão de Pedro (2:14-36)
“ 14 Então Pedro, pondo-se em pé com os onze,
levantou a voz e disse-lhes: Homens da Judéia e
todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos notó
rio, e escutai as minhas palavras. 15 Pois êstes ho
mens não estão embriagados, como vós pensais, vis
to que é apenas a terceira hora do dia. 16 Mas isto
é o que foi dito pelo profeta Joel:
17 E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sôbre tôda
a carne;
e os vossos filhos e as vossas filhas profeti
zarão,
e os vossos mancebos terão visões,
e os vossos anciãos terão sonhos;
18 e sôbre os meus servos e sôbre as minhas
servas derramarei do meu Espírito naque
les dias, e êles profetizarão.
19 E mostrarei prodígios em cima no céu;
O LIVRO DE ATOS 83
29. Código Sinaíta, do IV eéculo.
FRANK STAGG
e sinais em baixo na terra,
sangue, fogo e vapor de fumo.
20 O sol se converterá em trevas,
e a lua em sangue,
antes que venha o grande e glorioso dia do
Senhor.
21 E acontecerá que todo aquêle que invocar o
nome do Senhor será salvo.
22Varões israelitas, escutai estas palavras: A
Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus
entre vós com poderes, prodígios e sinais,
que Deus por êles fêz no meio de vós, como
vós mesmos bem sabeis; 23 a êste, que foi
entregue pelo determinado conselho e pres
ciência de Deus, vós matastes, crucificando-o
pelas mãos de iníquos; 24 ao qual Deus res
suscitou, rompendo os grilhões da morte,, pois
não era possível que fôsse por ela retido. 25
Porque dêle fala Davi:
Sempre via diante de mim o Senhor,
Porque está à minha direita, para que eu
não seja abalado;
26 por isso se alegrou o meu coração, e a mi
nha língua exultou; e além disso a minha
carne há de repousar em esperança;
27 pois não deixarás a minha alma no Hades,
nem permitirás que o teu Santo veja a cor
rupção;
28 fizeste-me conhecer os caminhos da vida;
encher-me-ás de alegria na tua presença.
29 Irmãos, seja-me permitido dizer-vos livre
mente acêrca do patriarca Davi, que êle mor
reu e foi sepultado e entre nós está até hoje a
sua sepultura. 30 Sendo, pois, êle profeta, e
sabendo que Deus lhe havia prometido com
O LIVKO DE ATOS 87
juramento que dentre os seus descendentes le
vantaria um para o colocar sôbre o seu tro
no — 31 prevendo isto, Davi falou da ressur
reição de Cristo, que a sua alma não foi dei
xada no Hades, nem a sua carne viu a corrup
ção . 32 Ora, a êste Jesus, Deus ressuscitou, e
disso todos nós somos testemunhas. 33 De
sorte que, exaltado pela destra de Deus, e ten
do recebido do Pai a promessa do Espirito
Santo, derramou isto que vós agora vêdes e
ouvis. 34 Porque Davi não subiu aos céus,
mas êle próprio declara:
Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-
te à minha mão direita, 35 até que eu ponha
os teus inimigos por escabêlo de teus pés.
36 Saiba pois com certeza tôda a casa de Israel
que a êsse mesmo Jesus, a quem vós crucifi
castes, Deus o fêz Senhor e Cristo.”
Esta grande mensagem foi dirigida a judeus. As
sim, até êste ponto o movimento era estritamente judai
co. Aos ouvintes se diz inicialmente — “ homens da
Judéia, e todos os que habitais em Jerusalém” (vs. 14),
e depois “ varões israelitas” (vs. 22) e “ casa de Israel”
(vs. 36). 30 A palavra “ judeu” indica pessoa que é mem
bro duma nação ou habitante da Judéia. A palavra “ is
raelita” indica o indivíduo religiosamente, como perten
cente ao “ povo escolhido” . Assim a mensagem é dirigi
da àqueles que eram judeus tanto nacional como religio
samente. O tema principal desta mensagem indica que
aquilo que acontecera, inclusive a morte de Jesus, era algo
para o qual os israelitas deveriam estar preparados.
Aquêle Jesus crucificado e ressurrecto era o próprio Se
80. Traduções do autor.
88 FRANK SXAGGr
nhor e Cristo a quem Israel estava esperando. O Deus
de Israel devia ser reconhecido na pessoa de Jesus.
A primeira e maior tarefa da pregação apostólica
era ocupar-se do “ escândalo da cruz” . Esta palavra “ es
cândalo” é de origem grega, e se empregava para desig
nar o gatilho de uma armadilha, e daí para indicar algo
em que se podia enroscar ou tropeçar. A crucificação de
Jesus era um escândalo para os judeus, e enquanto não
fôsse compreendida, ela os impediria de aceitar a Jesus
como o Cristo. Os judeus haviam sofrido muito sob o
jugo estrangeiro, tanto dos assírios, como dos babilônios,
e dos persas (embora êstes lhes fôssem um jugo sua
ve), dos egípcios e dos sírios, e dos romanos. Alguns
dos seus próprios chefes haviam feito aumentar seu so
frimento. Assim, aguardavam ansiosamente a vinda do
Messias que os libertaria e que restauraria o reino da-
vídico. Tinham já experimentado suficiente sofrimento
e muita humilhação, e agora esperavam a reivindicação
e a recompensa. Um Messias sofredor, portanto, naque
le tempo era coisa inconcebível e indesejável. De fato,
a cruz era “ para os judeus uma pedra de tropêço (es
cândalo), e loucura para os gentios” (I Cor. 1:23).
Num sentido real, não se podia afastar da cruz o
escândalo, certamente não tanto por causa do mundo
com a sua sabedoria. Paulo recusou tornar o Evange
lho aceitável por causa das artes da ciência. A palavra
da cruz tem a “ loucura” em seu âmago, e remover isso,
para tornar razoável a cruz, é negar o significado que
ela tem. Contrária à sabedoria do mundo com a afir
mação de si mesma, a cruz com sua negação própria
sempre parecerá uma loucura. A cruz contraria a sabe
doria do mundo, ou deixa de ser a cruz. *
Vê-se claro dos Evangelhos que a crucificação de
•'k Para a clássica exposição do pensamento de Paulo na Primeira Carta aos
Coríntios, veja Johannes Weiss em Dererste Korintherbrief (Göttingen, Vande-
nhoeck & Ruprecht, 1910), p g . 23 em diante.
O LTVRO DE ATOS 89
Jesus era um problema mui sério até mesmo para os
próprios discípulos. Não gostavam de ouvir Jesus falar
de Sua morte na cruz (ver Mat. 16:21-23), e a crucifi
cação os deixava perplexos, e até mesmo indisciplinados.
Êles tinham sido preparados para recebê-10 como o Filho
de Deus e como o Rei Ungido de Deus (o Messias) (ver
Salmo 2), mas não estavam preparados para combinar
com isso tudo o papel do Servo Sofredor (de Isaías 52-
53 e de Zacarias 9 ). Mais difícil ainda lhes era ver em
Jesus aquêle Filho do Homem (de Daniel 7) cujo paren
tesco celestial incluia também um parentesco com tôda
a humanidade e não apenas com a nação israelita. (Veja
o comentário de Atos 7:56).
Pedro rebateu a acusação de embriaguez, chaman
do-a de falsa. Os judeus não comiam antes da quarta
hora do dia, contada do nascer do sol, que seria mais
ou menos às 10 horas da manhã; e no sábado só comiam
depois do meio-dia. Em vez de estarem cheios de mosto,
estavam cheios do Espírito Santo.
Pedro achou que aqueles dias pertenciam aos “ úl
timos dias” de que falou o profeta Joel. Êste ponto de
vista é o que prevalece em o Novo Testamento (ver I
Tim. 4:1; II Tim. 3:1; Judas 18; II Pedro 3:3). O século
que é o clímax de todos os séculos veio com Jesus! O
eschaton (último tempo) surgira na História. Os poderes
do “ tempo por vir” estavam presentes e estavam já
atuando dentro da História. Isto não significa que esta
época, ou dispensação, seria consumada na História, e
sim que é ela atual aqui e agora. O seu clímax virá
quando Jesus voltar no término desta torrente de vida
a que chamamos “ História” . Em Jesus, Deus está afir
mando os Seus soberanos direitos sôbre os homens e
está libertando o Seu soberano poder para a vitória do
Seu reino. O reino de Satã está agora sendo destruído
pelo reino de Deus (ver Mat. 12:28; Lucas 11:20, etc.),
90 FRANK SXAGG
e a maior arma dessa vitória é a cruz. Satã impera onde
quer que se obedeça ao princípio da afirmação própria,
ou da arrogância. O reino de Satã cede terreno ao reino
de Deus onde se obedece o princípio da cruz, o sacrifício
próprio, o altruísmo, a abnegação.
Muitas expressões da passagem tirada de Joel devem
ser por certo compreendidas na mesma linha das dramá
ticas fantasias dos apocalípticos e não podem ser toma
das no sentido literal. Assim, é certo que no dia de Pen
tecostes não seriam derramados no sentido literal “ san
gue, fogo e vapor de fumo” (2:19), nem o sol se conver
teria em trevas e nem a lua em sangue. Para quem está
familiarizado com o método dramático dos apocalípti
cos, não há nenhuma dificuldade aqui. Infelizmente
muitos que têm pretensões a intérpretes das “ últimas
coisas” tomam tão ao pé da letra os pensamentos dramá
ticos e poéticos do apocalíptico que a exegese que apre
sentam deixaria boquiabertos aquêles que escreveram os
apocalípticos. A maneira de Pedro tratar esta passagem
apocalíptica deve servir de modêlo para todos.
O tom evangelístico aparece claramente no versículo
21 — “ E acontecerá que todo aquêle que invocar o nome
do Senhor será salvo.” No hebraico o texto de Joel
traz a palavra “ Jeová” em vez de “ Senhor” . Como se
dava freqüentemente, o Novo Testamento aqui atribui
a Jesus o que o hebraico do Velho Testamento atribuía
a Jeová. Em Jesus encontramos a Deus direta e pes
soalmente, confiando a Jesus pela fé, a nossa salvação.
O cerne da salvação é a vida que compartilhamos com
Deus. E essa união vital se baseia numa fé ou confian
ça mútua, visto que Deus Se compromete com o homem
e o homem se compromete com Deus. Certamente Deus Se
confia ao homem, e Se coloca em tal posição diante do
homem que êste pode amá-10 ou odiá-10, aceitá-iO ou re-
jeitá-10, alegrar o coração de Deus ou quebrantá-10. Quan
O LIVRO DE ATOS 91
do o homem, por sua vez, ama a Deus e a Êle se en-
irega, encontrando-0 direta e pessoalmente em Jesus,
isto significa que êle se rendeu a Deus; e então êle esta
belece com Deus uma relação criadora. Dai o homem
passa a participar da verdadeira vida de Deus — pen
sando, sentindo, escolhendo, e trabalhando com Deus.
Isto é a salvação!
Falando da morte de Jesus, Pedro dela trata ma
ravilhosamente, e de modo cabal, em poucas palavras.
A morte não está divorciada da vida (versículo 22). As
sim a vida que precedeu, e a ressurreição que veio de
pois, são coisas indispensáveis ao significado da cruz. A
morte de Jesus, assim, não foi a dum desamparado már
tir sobrepujado por circunstâncias que Êle em nada pre
vira. Não; Jesus previra tudo. Quando o Verbo eterno
inaugurou Sua obra redentora, previu o quanto isso Lhe
custaria. Não obstante, a ela Se entregou de corpo e
alma. Isto não significa que Jesus buscou a morte, ou
que o Pai desejou que os homens crucificassem a Jesus,
o sim que, ao fazer-se a escolha para redimir os pecado
res, foi previsto o quanto isso custaria. Contudo, os ho
mens não poderiam escapar à culpa de haverem crucifi
cado a Jesus. Assim Pedro acusa e inculpa especialmen
te os judeus; mas os gentios, que viviam sem le i31, tam
bém têm parte nessa culpa. 82 No entanto, o ponto cul
minante do discurso de Pedro é o glorioso fato da res
surreição. Deus ressuscitou Aquêle que os homens cru
81. A expressão “ homens sem lei” mui provàvelmente se refere aos rcm *-
nos; se assitn é, temos aqui prova mui forte de que não fo i Lucas quem compA»
ôste discíurso, pois que êle não se teria referido assim aos romanos.
V er Bruce, op. cit.> p g . 91 em diante.
32. Está em moda hoje em muitos círculos afirmar-se que não foram oa ju
deus que crucificaram a Jesus, e sim os romanos. Baseiam-se no fato de os
Evangelhos terem sido escritos depois que o Cristianismo deixou de ser judaico, o
que levou (dizem ) a se transferir a culpa dos romanos para cs judeus. A razão
dêsses escritores modernos que assim reajem contra o terrível anti-semitismo de
nossos dias, é coisa muito boa, mas não é admissível. Acusar-se os Evangelhos
de encobrir a culpa e incrim inar o inocente é coisa bastante séria, e é uma fa l
sidade. Tais escritores mostram-se também mui ingênuos ao se esquecerem de
92 FRANK STAGG
cificaram como se fôra um pecador. A ressurreição jor
rou luz sôbre a morte de Jesus, e daí poderemos reinter-
pretá-la não como uma derrota e sim como um triunfo.
O hades (o mundo além-túmulo) estivera em dores
de parto e nos deu a Jesus, e assim o caminho agora
está aberto para os outros (2:24-28). A ressurreição de
Jesus é a garantia de vida eterna para o cristão.
Pedro encerrou a sua mensagem declarando que
Jesus crucificado, e agora ressurrecto, é Senhor e Cristo
(2:36). Cumprira-se a promessa feita a Davi de que
um de seus descendentes seria elevado ao seu trono (2:
30)! Cristo é agora Rei por causa da ressurreição (2:
31). E o reinado davídico, ou messiânico, está agora per
feitamente realizado. A sua consumação ainda está por
vir, mas já é um fato perfeito. Os sistemas milenistas
que acham que êsse reino só se realizará no futuro pre
cisam ajustar contas com esta passagem bíblica. O Seu
reino — o Seu govêrno — está sendo cumprido pela Sua
inorte e ressurreição, e não por armas carnais.
O Chamado ao Arrependimento (2:37-40)
“ 37 E, ouvindo êles isto, compungiram-se em
seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais
apóstolos: Que faremos, irmãos? 38 Pedro então
lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós
seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remis
são de vossos pecados; e recebereis o dom do Es
pírito Santo. 39 Porque a promessa vos pertence a
vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a
quantos o Senhor nosso Deus chamar. 40 E com
QUe foram os judeus que iniciaram o m artírio de Jesüs. Paulo, homem que
m uito amava ao seu povo e que em nada pode ser acusado de anti-semitismo, na
sua carta talvez mais velha que as outras ( I Tessalonicenses 2 :1 5 ), afirmou
som rebuçosque os judeus “ mataram ao Senhor Jesus e os profetas” . Escri
tores judeus dos primeiros séculcs concordam com os Evangelhos, com os Atos,
e com Paulo, neste ponto. E ’ bom protestar contra qualquer aparência dêsse
desumano e diabólico anti-semitismo. Mas, não se presta nenhum serviço à
causa da verdade, ignorando-se ou mistificando os fatos da História.
O LIVRO DE ATOS 93
muitas outras palavras testificava ardentemente, e
os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração per
versa . ”
Neste trecho encontramos um versículo muito dis
cutido, o versículo 38. Será o batismo uma condição es
sencial ao perdão de pecados? Êste versículo é um dos
favoritos daqueles que crêem na regeneração batismal.
Antes, porém, de se edificar uma doutrina sôbre êste
versículo, deve-se considerar maduramente um bom nú
mero de coisas. Em primeiro lugar, notemos que o mé
todo de prova textual é expediente um tanto pobre, seja
empregado para isto ou para aquilo. Poderá com êle
provar-se aquilo que se intentou significar ou estabele
cer; ao menos, quem o emprega julga que com êle pro
vou tudo a seu contento. Prova textual é aquela que per
manece sozinha, não contando com bases escriturísticas
bem claras no seu todo, ou sendo mesmo totalmente con
traditada pelas Escrituras. Texto culminante é aquêle
que resume numa afirmativa clássica um grande ensina
mento ou número de lições. Por exemplo, João 3:16 é
um texto culminante, e não uma prova textual, porque
as verdades que êle encerra estão claramente estabele
cidas em o Novo Testamento mesmo sem êste grande
versículo. O ensino claro do Novo Testamento no seu
todo rejeita a regeneração batismal. E também o senso
comum a exclui, pois que o resultado espiritual desejado
não se alcança por meios materiais. Não devemos es
quecer o fato mui importante de que nenhuma função
física tem significado moral e espiritual segundo as ati
tudes e motivos dos quais ela provém. Assim, o perdão
de pecados e o dom âo Espírito Santo não estão amar
rados a nenhum rito material arbitrário, nem dêle de
pende. Deus não se sujeita a caprichos.
Talvez se possa traduzir êste trecho como segue,
uma vez que o original grego o permite: “ Arrependei-
94 FRANK STACK*
vos, e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus
Cristo sôbre a base do perdão de vossos pecados, e rece
bereis o livre dom do Espírito Santo.” Esta tradução de
pende da possibilidade do emprêgo causal da preposição
grega eis seguida do caso acusativo. Ainda que esta
construção em o grego do Novo Testamento em geral
indique o resultado, não pode'haver dúvida de que é tarn-
bém usada para indicar a base ou a razão (causal) em
alguns textos do Novo Testamento. 33 Esta construção
podemos encontrar por exemplo em Mateus 12:41: “ Os
ninivitas se levantarão no juízo com esta geração, e a
condenarão; porque se arrependeram com a pregação de
Jonas.” Êles não se arrependeram com o resultado da
quilo que Jonas pregou, e sim porque Jonas pregou. Isto
não prova que a força causal (motivadora) da preposi
ção eis com o acusativo esteja em Atos 2:38, mas prova
a sua possibilidade.
Provàvelmente se deva ligar antes a frase em questão,
“ para remissão de vossos pecados” com o “ arrependei-
vos” e não com o “ seja batizado” . 34 O perdão vinha de
pois do arrependimento, e não depois do batismo. Êste
era um meio de se retratar o arrependimento, uma pú
blica profissão de fé em Jesus. 35 A passagem de Atos
3:19, em que não se fala em batismo, poderá oferecer
base mui forte a esta interpretação.
“ Compungidos em seu coração” pela mensagem de
Pedro, êles foram levados à convicção. Sentiram-se com
pelidos a olhar para o que haviam feito nos dias pas
sados, e agora começavam a ver tudo, por outro prismã,
eni sua palpitante realidade. Viram que, rejeitando a
33. Houve um debate sôbre “ a causai eis” entre J . It. Mantey e Ralph
Marcus na Journal of Biblical Literature, n°s. de março, junho e dezembro dp
1951, e março de 1952. Será, bom o estudante de gramática grega ler isso. Aqui,
porém é Ce pouca valia. A causal eis ê encontrada ou não no grego extra-bíbli-
co? E ’ fato que a encontramos poucas vêzes em o N . Testamento.
34. V eja Lake and Cadbury, em Commentary, p g . 26; Bruce, op. cit., pg. 98
35. V eja Mackham, op. cit., p g . 30,
O LIVRO DE ATOS 05
Jesus, tinham tomado o partido do êrro e não o da ver
dade. Não tinham servido a Deus, nem à nação, ao cru
cificarem a Jesus. Deus elevara ao trono Aquêle que
êles tinham feito morrer como maldito numa cruz. Pelo
Espírito Santo agora sentiam a presença dêsse Cristo
ressuscitado.
Como algo da tremenda realidade do seu estado pe
caminoso e dos seus recentes feitos criminosos caisse
sôbre êles, sentiram-se completamente perplexos, não
sabendo que fazer. Em desespêro, clamaram “ Que fare
mos?” Êsse fundo desespêro era a única esperança de
les. Quando os homens vêem que nada são, surge a pos
sibilidade de se tornarem alguma coisa. Só quando sen
tem a sua desvalia é que resolvem aceitar a ajuda de
Deus. Carlos Barth frisa bem esta verdade, ao dizer:
Quando os homens, como humanos, escalaram
já os mais elevados picos do mundo e aí descobri
ram que todo o mundo é culpado diante de Deus —
então aí é que se evidencia, se mantém e se confii*-
ma a vantagem que lhes é peculiar.. . e é também
aí que Deus revela a Sua fidelidade, e mostra que
esta não foi vencida ou dobrada pela infidelidade
dos homens. 30
E, de novo, Barth fere o âmago da questão, ao dizer:
“ A arrogância com que nos colocamos ao lado de Deus,
com a intenção de fazer alguma coisa por Êle, nos rouba
a única bass de salvação possível, que consiste em nos
entregarmos inteiramente ao Seu favor ou ao Seu desa
grado . ” 37
O versículo 39 nos assegura a viabilidade da pro
messa — o perdão de pecados e o dom do Espírito San
to — em favor de todo aquêle que Deus chama. O ensi-
36. Carles Farth, em The Epistle to the Romans, trad, de Edwyn C. Hoskyns,
(O xford, University Press, 1933), p g . 88.
37 Ibid., pg. 84.
96 FKANK STAGG
no de que a vida cristã é um chamado, ou vocação, é dou
trina fundamentalmente bíblica. Na religião judaico-cris-
tã Deus é sempre conhecido como Aquêle que toma a ini
ciativa da revelação e da redenção. O primeiro passo
sempre é dado por Deus, e não pelo homem. Deus des
perta o homem para que sinta a Sua presença e atrai o
homem a Si. Esta é a doutrina bíblica da eleição, que
significa não a escolha de um em detrimento de outro,
e sim que Deus escolhe o homem em vez de o homem
escolher a Deus.
O caráter universal do Evangelho é claramente pro
clamado no discurso de Pedro, mas Lucas deseja mos
trar que os apóstolos tardaram a reconhecer tal univer
salismo na prática de cada dia.
O Crescimento do Judaísmo Cristão (2:41-47)
“ 41 De sorte que foram batizados os que rece
beram a sua palavra; e naquele dia agregaram-se
quase três mil almas; 42 e perseveravam na doutri
na dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão
e nas orações. 43 Em cada alma havia temor, e
muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apósto
los . 44 Todos os que criam estavam unidos e tinham
tudo em comum. 45 E vendiam suas propriedades
e bens e os repartiam por todos, segundo cada um
havia de mister. 46 E, perseverando unânimes to
dos os dias no templo, e partindo o pão em casa,
comiam com alegria e singeleza de coração, 47 lou
vando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E
cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que se iam
salvando.”
Aqui se nos apresenta o movimento cristão em ple
no vigor, de constituição judaica, e popular ao povo ju
deu. Num só dia batizaram-se três mil pessoas. Certa
O LIVRO DE ATOS
mente eram todos judeus ou prosélitos (gentios recebidos
no judaísmo como nação e religião). Tais conversões
se deram enquanto Jerusalém estava cheia de judeus “ de
tôdas as nações que há debaixo do céu” (2:5). Estavam
então ali representadas as regiões mais afastadas do Im
pério Romano, desde a Mesopotâmia,a leste, até Roma
ao oeste, e até a África, ao sul. Não se diz aqui que os
conversos pertenciam a tôdas essas regiões; mas, as re
ferências que encontramos depois a cristãos em Damas
co, Cirene, Chipre, Roma, e outras partes, indicam isso.
E’ importante notar que até êste ponto, e mesmo
por alguns anos mais, o movimento cristão alcançou
grande popularidade entre os judeus. Até aqui a maior
barreira encontrada pelo judeu era “ o escândalo da
cruz” ; mas isto se explicava satisfatoriamente à luz da
ressurreição. Vencido êsse obstáculo, milhares de ju
deus aceitaram a Jesus como o Messias. Muito logo o
número de conversos subiu a cinco mil (4:4). Mais tar
de, o Livro dos Atos nos diz simplesmente que multidões
de homens e mulheres foram acrescidas (5:14). Tão
rápido foi o crescimento do Cristianismo entre os judeus
saduceus mostraram-se assustados e alarmados, pois te
miam que um movimento tão vigoroso assim e de tama
nha fôrça numérica levasse Roma a cismar de alguma
rebelião.
O movimento fortaleceu-se tanto em Jerusalém que
os apóstolos chegaram a desafiar abertamente o sinédrio
{4:18-20), e as autoridades temiam lançar mão de vio
lências contra os apóstolos, pois corriam risco de serem
apedrejadas pelo povo judeu (5:26). O movimento logo
se espalhou ràpidamente para fora de Jerusalém (5:16),
chegando mesmo muitos dos sacerdotes a obedecer à Fé
{6 :7 ). Tudo isso nos dá uma idéia da magnitude do mo
vimento cristão entre os judeus. Está mais que claro que
até êste ponto o Cristianismo era aceito por multidões
A .A . 7
98 FRANK STAGG
de judeus. Por que, então, no fim do primeiro século o
Cristianismo se tornou um movimento gentílico e já não
conseguia aceitação entre judeus? Certo apareceu algo
que começou a fazer com que os judeus se fôssem afas
tando do Cristianismo a ponto de perder sua feição ju
daica. Até êste ponto não ficamos sabendo o que foi.
Certo não foi a exigência de se reconhecer a Jesuis como
o Cristo, como o Filho de Deus, o que por fim levou os.
judeus a rejeitá-IO.
Aqui temos o quadro dum alegre e unido grupo de
judeus cristãos, participando fraternalmente da doutrina,
da camaradagem, do partir do pão e das orações. Ainda
que um grupo distinto, como discípulos de Jesus, eram
ainda todos judeus; e, como judeus exemplares, iam ao
templo (2:46). Como judeus cristãos contavam com o
favor do povo (2:47) e em número cresciam dia a dia.
Êsse “ partir do pão” é referência à Ceia do Senhor,
à festa do amor (à refeição da comunhão), ou a ambas.
Normalmente descreve uma ceia regular. E’ provável
que os primeiros discípulos se reunissem cada noite numa
casa e comessem juntos. Essa refeição — chamada ága
pe (ceia do amor cristão) — satisfazia a dois propósi
tos que eram a amizade e o cuidado dos pobres. E’
provável que se celebrasse a Ceia do Senhor (a Euca
ristia) em cada uma dessas reuniões. Cullmann parece
«star certo ao dizer: “ Pode-se dar como cèrto que a mais
antiga celebração da ceia (a Ceia do Senhor) teve lugár
durante uma refeição comum. ” 88 Após frisar que, con
forme Atos 2:46, a característica essencial (Wesensmerk-
mal) de tal refeição era a sua expressão de alegria, adian
ta que a causa dessa alegria não era primariamente a
recordação da última Ceia e sim a lembrança de. outras
ceias, daquelas em que Jesus depois de ressurrecto apa
38. Ürchriatentum V/nd Qçttwdienst, pg. 18,
89. hoc. cit.
O LIVRO DE ATOS 90
receu com Seus discípulos “ à mesa” (ver em Emaús,
Lucas 24:30; com os onze, Lucas 24:36; junto ao mar,
João 21:12). 30 E’ certo que a cerimônia da Ceia do
Senhor estava diretamente ligada à Última Ceia (I Cor.
11:23 em diante), e que a ressurreição fêz com que os
discípulos recordassem alegremente a Última Ceia, mor
mente por causa da funda tristeza que em caso contrá
rio os dominaria por completo. Se fôr correta esta idéia,
i. é, a tese defendida por Cullmann de que os discípulos
também relembravam na ceia as aparições de Cristo após
a ressurreição, nas quais comeram juntos com Jesus, isso
nos fará compreender melhor a grande alegria que impe
rava naquelas ceias cristãs.
Markus Barth (*) provou de modo convinçeíite que
a Última Ceia foi uma ceia pascoal, e que, assim sendo,
o seu tom foi de alegria. O cordeiro pascal, morto à tar
de, era comido à noite em comemoração da vitória no
Egito (ver Êxodo 12); era celebrada pela alegria sen
tida quando já se tinha passado a círise! Se assim é, te
mos dois fatores que respondem pela alegre celebração
da Ceia do Senhor: a alegria da libertação do Egito, que
encontra sua maior realização na libertação que Cristo
nos dá, e a alegria das refeições pós-ressurreição realiza
das em companhia do Cristo ressurrecto. A Ceia do Se
nhor, portanto, olha para trás para um Salvador cruci
ficado, e olha para a frente para o Senhor que há de vir;
sem deixar de também afirmar o glorioso fato de um
Cristo vivo e presente, agora encarnado em Sua igreja,
que é o corpo de Cristo.
A Edição Revista (inglesa) traduz corretamente as
sim: “ E o Senhor acrescentava dia a dia ao número dê-
les aquêles que iam sendo salvos” (2:47). A Versão
Autorizada (inglêsa) infelizmente tropeça neste ponto,
*k Markus Barth, em Daé Abendmahl : Passamahl, Bmndesmahl und' Me»-
liaamahl (Evangelischer Verlag A . G. Zolikon-Zürich, 1945), p g . 67.
O LIVRO DE ATOS
comum.” 40 E êle chama ao primeiro “ sociedade” , e
ao segundo “ comunidade” . (Esta distinção fica de pé;
sejam ou não sejam estas as melhores palavras hoje em
grande voga.) Êle anota que sociedade é uma organi
zação de funções em que cada um se torna membro por
fôrça da função que exerce no grupo, cada membro eo-
operador se esforçando para atingir o alvo comum. 41
Neste tipo de associação, os membros não s e a s s o c i a m
como pessoas, mas apenas em relação às funções desem
penhadas no sentido de se alcançar o propósito que o
grupo tem em vista. Vê-se, pois, que não se trata de uma
união de pessoas, e sim duma união orgânica. Jâ unia
comunidade, ao contrário, se baseia num princípio cons
titutivo mais profundo: “ Não é orgânica, pois que o seu
princípio de unidade é pessoal. Ela é constituída pela
participação duma vida em comum.” 42
Pode-se organizar uma sociedade de pessoas que não
se conhecem e nem cuidam umas das outras, e que no
entanto têm um objetivo comum. Por exemplo, uma
sociedade funerária é composta de indivíduos que têm
como objetivo comum assegurar o entêrro de cada um
dos sócios. Mas, o principio capital e constitutivo duma
comunidade é viver em comum — é a sua afinidade, a
sua camaradagem, a sua fraternidade. Objetivos co
muns servem para dar expressão à vida em comum, e
facultam o cultivo dessa vida em comum; mas a comu
nidade não é constituída por êsses objetivos cOmünsV
Os primeiros cristãos de Jerusalém não constituíam u’a
mera sociedade, e sim uma comunidade, uma igreja
mesmo — o corpo de Cristo. Em Cristo êles participa
vam duma vida em comum. Tôdas às atividades de quê
participavam só tinham significado no sentido de ex
pressarem aquela vida em comum que tinham em Cristo.
40. John Macmurray, op. eit., pg. 64.
41. Vej’a ibid., pg. 54 em diante, a excelente discussão de onde tiramos a
essência de todo êste parágrafo.
42. Ibid., pg. 56.
FRANK STAGG
E* coisa mui importante obsérvar a diferença que
há entre a comunhão daqueles cristãos de Jerusalém e
u’a mera cooperação. Quase que diàriamente ouvimos
elogiar-se a cooperação como um nobre ideal. Na ver
dade, a cooperação em si não é coisa boa nem má; ela
não tem colorido e é neutra. Os gangsters se manco
munam, se congregam, unidos por um alvo comum, às
vêzes para assaltar um banco, e esperam para êsse servi
ço a cooperação de todos do bando. A cooperação é um
alvo fácil, e sem significado em si mesma; e é alvo dià
riamente alcançado por homens depravados, os quais
não raras vêzes querem que outros participem de seus
planos. Aqueles cristãos de Jerusalém estavam vivendo
uma vida emcomum, e não eram meros cooperadores.
Um escravo pode fazer parte de uma sociedade que
garante o futuro de senhores e de escravos, e nesse plano
êle pode cooperar com o seu senhor. Mas isto seria uma
sociedade, e não uma comunidade. Jesus disse: “ Já não
vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz
o seu senhor; mas chamei-vos amigos” (João 15:15 —
“ escravos” é o que diz o texto marginal). Jesus nos
chama para um companheirismo que nos dá o privilégio
de viver uma vida comum e criadora com Êle e com
Seu povo.
Mesmo o estar “ de acôrdo” ou “ juntos” é ainda coi
sa sem colorido, e neutra. Lucas emprega a palavra
homothumadon (de acôrdo, concordes, juntos) nada me
nos de dez vêzes no Livro dos Atos (onze vêzes, caso
seja autêntico o vs. I o. do capítulo segundo). Com ela
descreve a oração unida dos discípulos (1:14); a unida
éxpectação do dia de Pentecostes (2:1); unidos iam ao
templo (2:46); unidos oravam pedindo coragem, após
a libertação de Pedro e João (4:24); unidos estavam no
pórtico de Salomão (5:12); unidos com os samaritanos
ouviram o que Filipe dizia (8:6); unidos resolveram os as-
O LIVRO DE ATOS 103
suntos do concílio apostólico (15:15). Tudo isto é muito
bonito.
Mas esta mesma palavra empregou Lucas para des
crever o assalto furioso e mortal sôbre Estêvão (7:57),
a hipócrita bajulação de Herodes Antipas pelo povo de
Tiro e Sidon (12:20), o ataque conjunto de judeus a
Paulo (18:12), e a corrida precipitada para dentro do
teatro, da enfurecida multidão em Éfeso (10:29). Vê-se
claro que os homens podem estar de acôrdo, podem
reunir-se e estar concordes tanto para a prática do mal
como do bem. O estar de acôrdo não basta. Só é bom
o companheirismo que provém do companheirismo com
Deus. A igreja, o corpo de Cristo, é o verdadeiro compa
nheirismo. Estar “ em Cristo” é estar ao mesmo tempo
no corpo do qual Êle é a cabeça. Só esta comunhão é dis
tintivamente cristã. E parece que Lucas está descreven
do aqui justamente essa comunhão.
A convicção e a confissão de pecados abriram o ca
minho para aquela vida em comum. Podemos citar aqui
Barth para frisar êste indispensável princípio da comu
nidade cristã:
Não há nenhuma propriedade ou qualidade po
sitiva dos homens que possa oferecer à solidarieda
de humana um fundamento suficiente; porque tôda
a posse positiva — o caráter religioso, a consciên
cia moral, o humanitarismo — já traz em seu bôjo
a semente da decomposição da sociedade. Tais fato
res positivos produzem diferenças, visto distingui
rem uma pessoa da outra. A comunhão verdadeira
se baseia no negativo: cimenta-se sôbre o que falta
aos homens. Justamente quando percebemos que
somos pecadores é que percebemos que somos ir
mãos. 43
Esta visão é mui precisa. Quando pensamos em
43. Op. cit., pg. 100 em diante.
104 PRANK STAGG
termos de nossas supostas “ virtudes” , e “ direitos” e
“ obras” , não passamos de ciumentos competidores. Agora,
quando pensamos em nossos pecados, sentimo-nos ir
mãos. Êste é precisamente o elemento “ negativo” que
aquêles homens de Jerusalém enxergaram no dia de Pen
tecostes, pois “ compungiram-se em seu coração” e em
desespêro se viram colocados diante de Deus e de seus
pecados. A linda comunhão em Cristo que Lucas nos des
creve teve início no ponto em que reconheceram a sua
desvalia e nulidade, e quando se lançaram nos braços:
de Deus para ouvir a Sua palavra de “ favor ou de des
favor” .
Lucas de modo mui significativo nos apresenta esta
koinonia junto com a salvação. E’ justamente nesta koi-
nonia cristã — comunhão ou comunidade cristã — que
se consuma a salvação pessoal. Pensou-se outrora que
a personalidade fôsse fechada ou exclusivista, mas ago
ra se reconhece que é aberta e compreensiva. Macmurray
assim escreve: “ De fato, é a participação duma vida em
comum que constitui a personalidade individual. Nós
nos tornamos pessoas quando vivendo em comunidade,
em virtude de nossas relações com os outros. ” 44 O con
ceito grego de alma como uma entidade separada é coi
sa estranha à Bíblia. Nesta se fala no homem como
um todo; não é êle visto como possuindo uma alma, e
sim como sendo uma alma. E’ somente como
homem — um complexo de fatores correlacionados —
que êle é levado a estabelecer em Cristo essa relação de
fé é amor, e é salvo. Mas, um homem em Cristo é ipso
facto uma parte do corpo de Cristo. O parentesco com
Cristo envolve o parentesco com todos quantos estão em
Cristo. E é nesta relação que o indivíduo se torna ver- ~
dadeiramente uma pessoa e é verdadeiramente salvo.
Cristo salva os indivíduos; mas, ao salvá-los faz dêles
44. Op. cit., p g . 56.
O LIVRO DE ATOS 105
mais que indivíduos, pois que se tornam pessoas, que
vivem nessa relação.
Mais tarde, quando se viu que koinonia necessària-
mente implicava também igualdade, liberdade e frater
nidade aos gentios incircuncisos, negava-se o corpo de
má vontade em reconhecer isso. Negando-se essa frater
nidade aos gentios incircuncisos, negava-se o corpo de
Cristo, e preferiam os judaizantes ser um corpo mutila
do, apenas tronco. O tronco não tem membros, e tam
bém não tem cabeça. Poderá alguém pretender reco
nhecer a Cabeça ao tempo em que nega os membros do
corpo de Cristo; com isso acabará enganando-se a si
mesmo. A cena final descrita por Lucas nos Atos è
justamente esta: um Evangelho desimpedido e a auto-
exclusão daqueles que negavam esta koinonia.
A Cura de um Coxo no Templo (3:1-10)
“ 1 Pedro e João subiam ao templo à horá da
oração, a nona. 2 E era carregado um homem, coxo
de nascença, o qual todos os dias punham à porta
do templo, chamada Formosa, parà pedir esmolas
aos que entravam. 3 Ora, vendo êle a Pedro e João,
que iam entrando no templo, pediu que lhe des
sem uma esmola. 4 E Pedro, com João, fitando
os olhos nêle, disse: Olha para nós. 5 E êle os olha
va atentamente, esperando receber dêles alguma
coisa. 6 Pedro, porém, disse: Não tenho prata nem
ouro; mas o que tenho, issó te dou; em nome de
Jesus Cristo, o nazareno, anda. 7 Nisso, tomãndo-
o pela mão direita, o levantou; imediatamente os
seus pés e artelhos se firmaram, 8 e, dando êle um
salto, pôs-se em pé, começou a andar, e entrou com
êles 'no templo, andando, saltando e louvando a
Deus. 9 Todo o povo, ao vê-lo andar e louvar a
Deus, 10 reconhecia-o como o mesmo que estivera
sentado a pedir esmolas à Porta Formosa do tem
106 FRANK STAGG
plo; e todos ficaram cheios de pasmo e assombro,
pelo que lhe acontecera.”
Êste milagre ofereceu mais provas ainda de que o
dom do Espirito Santo fòra uma realidade; êle encheu
o povo de pasmo e assombro (3:10). Tratava-se de mais
do que um milagre (maravilha); era um sinal (4:22) do
mundo físico que dava uma idéia daquilo que poderia
ser feito no mundo espiritual. Assim como o homem
podia tornar-se são fisicamente (4:9-12) podia igualmen
te fazê-lo espiritualmente.
Esta cena novamente retrata o judaísmo cristão. Pe
dro e João naturalmente foram ao templo à hora da
oração. O discurso a seguir refere-se estritamente a uma
situação dos judeus.
O Sermão de Pedro aos Judeus (3:11-26)
11 Apegando-se o homem a Pedro e João, todo o
povo correu atônito para junto dêles, ao alpendre
chamado de Salomão. 12 Pedro, vendo isto, disse ao
povo: Homens de Israel, por que vos maravilhais dês-
te homem? Ou, porque fitais os olhos em nós, como
se por nossa virtude ou piedade o tivéssemos feito
andar? 13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o
Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a
quem vós entregastes perante a face de Pilatos e
negastes, quando êste havia resolvido soltá-lo. 14
Mas vós negastes o Santo e Justo, e pedistes que se
vos desse um homicida; 15 e matastes o Autor da
vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do
que nós somos testemunhas. 16 E pela fé em seu
nome fêz o seu nome fortalecer a êste homem que
vêdes e conheceis; sim, a fé, que vem por êle, deu
a êste, na presença de todos vós, esta perfeita saúde.
17 Agora, irmãos,eu sei que o fizestes por ignorân
cia, como também as vossas autoridades. 18 Mas
Deus assim cumpriu o que já dantes pela bòca de
O LIVRO DE ATOS 10?
todos os seus profetas havia anunciado que o seu
Cristo havia de padecer. 19 Arrependei-vos, pois, e
convertei-vos, para que sejam apagados os vossos
pecados, de sorte que venham os tempos de refrigé
rio, da presença do Senhor, 20 e envie êle o Cristo,
que já dantes vos foi indicado, Jesus, 21 ao qual con
vém que o céu receba até os tempos da restauração
de tôdas as coisas, das quais Deus falou pela bôca de
seus santos profetas, desde o princípio. 22 O próprio
Moisés disse: Suscitar-vos-á o Senhor vosso Deus,
dentre vossos irmãos, um profeta semelhante a mim;
a êle ouvireis em tudo quanto vos disser. 23 E acon
tecerá que tôda alma que não ouvir a êsse profeta,
será exterminada dentre o povo. 24 Igualmente to
dos os profetas, desde Samuel e os que sucederam,
quantos falaram, também anunciaram êstes dias. 25
Vós sois os filhos dos profetas e do concêrto que
Deus fêz com vossos pais, dizendo a Abraão: Na tua
descendência serão abençoadas tôdas as famílias da
terra. 26 Deus suscitou a seu Servo, e a vós primei
ramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, des
viando-vos, a cada um, das vossas maldades.”
Pedro primeiramente explica qual o poder que curou
o coxo: não fôra nenhum poder ou a piedade dos após
tolos, e sim o Deus de Israel que assim glorificara, o Seu
servo Jesus, Aquêle que êles haviam negado e crucifi
cado. Êste Jesus é agora no meio dêles poder e vida.
Os pontos básicos aqui frisados parecem ter sido os ca
racterísticos das primeiras prédicas: os judeus mataram
Aquêle a quem o Deus de seus pais lhes enviara; assim
fazendo, tornaram-se criminosos; a inocência de Jesus
fôra reconhecida por Pilatos; provou-se que o sofrimen
to é o caminho da glória e do triunfo; aquêle sofrimento
fôra predito pelos profetas; o fato da ressurreição exigiu
uma apreciação completamente nova da morte de Jesus.
108 FRANK STAGG
Mas, o objetivo de Pedro era convencer aquêles ju
deus, e não simplesmente condená-los. Admitiu êle um
elemento de ignorância da parte do povo e de seus che
fes. Isto parece contradizer o que lemos nos versículos
de 13 a 16; mas provàvelmente Pedro não estava eximin
do os judeus de tôda a culpa. E’ certo que tinham cul-
pá e eram responsáveis pela maldosa rejeição dAquele
cuja inocência fôra reconhecida por Pilatos; mas, à vista
de tamanho pecado contra a luz, via-se claramente que
êles não estavam percebendo bem o que então fizeram.
Acompanhava aquêle deliberado fechar de olhos uma
triste cegueira acêrca da Pessoa e das intenções de Je
sus, Êste mesmo dissera: “ não sabem o que fazem”
(Lucas 23:34); i. é, não estavam na realidade compre
endendo o que faziam então.
Daí a procedência da clarinada que os convidava ao
“ arrependimento” e à “ volta” para Jesus. O arrependi
mento envolvia mudança de espírito e contrição de co
ração. A volta referia-se à conversão, ou mudança de
rumo. A mudança da mente (da atitude, disposição, ou
espírito) está intimamente relacionada com a mudança
do rumo da vida. Os resultados desta mudança da mente
seriam o perdão de seus pecados e o estabelecimento do
reino (govêrno) de Deus.
Na parte final do sermão, Pedro trata de assuntos
israelitas concernentes ao estabelecimento do reino (3:
21). Essa demora aparente em nada significa negligên
cia da parte de Deus; reflete, sim, a demora do arrepen
dimento dêles. O reino primàriamente refere-se ao reino
de Deus, e o arrependimento dêles é um reconhecimento
dêsse reino.
Neste sermão se alcança o pico mais elevado da
crístologia. A princípio parece que se atribui o milagre
da cura ao “ Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” (3:13),
O LIVRO DE ATOS 109
e depois a Jesus (3:16). O versículo 16 não é fácil; mas,
parece que Pedro, ao referir-se ao “ nome” , está colocan
do Jesus na posição de Senhor dos judeus. 45 Esta vir
tual identificação de Jesus com Deus é corroborada por
Atos 3:6 e 4:10.
Os Saduceus, Alarmados com o Crescimento do Cris
tianismo e com o Tema da Ressurreição, Prendem e De
pois Soltam a Pedro e João (4:1-31)
A Irritação dos Saduceus (4:1-4)
“ 1 Enquanto êles estavam falando ao povo, so
brevieram-lhes os sacerdotes, o capitão do templo e
os saduceus, 2 doendo-se muito de que êles ensinas
sem o povo, e anunciassem em Jesus a ressurreição
dentre os mortos, 3 deitaram mão nêles, e os encer
raram na prisão até o dia seguinte, pois já era tar
de. 4 Muitos, porém, dos que ouviram a palavra,
creram, e se elevou o número dos homens a quasé
cinco m il.”
A primeira perseguição aos discípulos de Jesus foi
desencadeada pelos saduceus. E a razão era clara: inco
modavam-se porque os discípulos estavam ensinando
como se fôssem rabinos (mestres), e porque pregavani
a ressurreição. Provàvelmente alarmaram-se com a
ênfase que os discípulos davam ao reino, que poderia
transformar-se em propaganda inflamatória. A ressur
reição” significava para o judeu muito mais do que hoje
significa para o cristão. Foakes-Jackson diz sobre isto;
“ Para o judeu daqueles tempos significava uma imineri--
te catástrofe mundial que destruiria os reinos da terrã e
inauguraria miraculosamente uma nova ordem. ” 46 Por
tanto, sugeria a revolução para aquêles que desejavam
o siatus quo. . . 47
45. V er Rackham, ov . cit.> p g . 49.
46. Foakes-Jackson, em The A cts o f the Apostles, p g . 32::
110 FRANK STAGG
Os Atos nos falam de várias perseguições aos cris
tãos. Urge notar que cada grupo perseguidor tinha seus
motivos para se opor ao Evangelho. Os saduceus, os fa
riseus, os herodianos, e vários grupos pagãos fizeram
oposição ao movimento cristão; cada qual, porém, por
diferentes razões. Poderemos ver bem isto à medida
que surgem tais perseguições.
Os saduceus estavam em minoria, mas sendo ricos
e aristocráticos, controlavam o templo e tinham parte
no govêrno. Tinham muitas terras e propriedades que
poderiam ser facilmente confiscadas por qualquer nação
conquistadora. Isto em parte explica porque sempre se
mostravam desejosos de colaborar com os governadores
estrangeiros. Já os fariseus se opunham, e chegavam
mesmo às vêzes a resistir frontalmente aos chefes es
trangeiros; Pode ser que a situação econômica e social
dêles fôsse um fator de importância. Louis Finkelstein,
um judeu contemporâneo mui erudito, acha que os sadu
ceus descendiam de proprietários de terras e os fariseus
de negociantes, e que tais origens explicam muitos dos
seus traços e interesses. 48 Seja certo ou não, está claro
que os saduceus do primeiro século conservavam sua
riqueza e poderio pelo fato de colaborarem com os ro
manos, os quais dominavam a Palestina desde o ano 63
antes de Cristo.
Visto que os saduceus estavam vivamente interessa
dos em conservar o seu poderio na nação e sôbre o Tem
plo, fazia tudo para atrair a boa vontade dos romanos.
Esforçavam-se ao sacrifício no sentido de manter a or
dem entre os judeus, visto que a insubordinação de qual
quer das nações sujeitas a Roma era, para esta, crime
47. V e ja Louís Finkelstein, em The Pharisees, the Sociologtcal Background o f
Their Faith (Philadelfia, The Jewish Publication Society c f America, 1946), I,
145-159, onde encontramos boa apresentação dos atritos entre saduceus e fariseus
sôbre êste particular.
48. Ibid, patsim.
O LIVRO DE ATOS 111
imperdoáveL Roma era quem nomeava o sumo sacer
dote. Até as roupagens do sumo sacerdote eram guar
dadas por um oficial romano e entregues àquele só
quando precisas para os cultos rituais. Todo aquele
grupo aristocrático dependia diàriamente de Roma. A
menor aparência ou vislumbre de sedição atraía logo a
ira de Roma, e os saduceus eram logo apontados como
os responsáveis pelo barulho.
A magnitude do crescente grupo de discípulos e o
seu incontrolável entusiasmo certo alarmaram os sadu
ceus. Os comentários e a excitação provocada pelos mi
lagres, bem como a ênfase quese dava a Cristo, como
um Rei ungido, e ao Seu reino, também por certo as*
sustaram os chefes judeus. Ficaram aborrecidos com a
pregação da ressurreição, especialmente por aquilo que
ela significava politicamente para os judeus. Já os fa
riseus, ao cóntrário, não se perturbavam com essas se
qüelas, pois criam na ressurreição, e assim recebiam
muito bem a colaboração dos discípulos nesse particu-
lar. Os fariseus faziam igualmente oposição ao governo
romano, conquanto em geral não favorecessem revolu
ções materiais.
Nos Evangelhos e nos Atos podemos ver bem claro
o mesmo padrão de oposição levada a cabo por fariseus
e saduceus. Os fariseus opunham-se a Jesus em razão
do Seu conflito com êles quanto a certos itens da lei;
mas os saduceus só se incomodaram quando viram que
o movimento crescia e se fortificava a ponto de ameaçar
a paz. 0 novo alarma contra os seguidores de Jesus par
tiu primeiro dos saduceus e só mais tarde dos fariseus,
quando êstes perceberam que o Evangelho cristão tra
zia em seu bôjo princípios que atritavam com o legalis-
mo e o estreito nacionalismo dêíes.
Quando, então, o povo ficou excitado por causa dos
milagres realizados em o nome de Jesus, e quando cres
112 FRANK STAGG
ceu, rápido, o número dos discípulos, os saduceus, alar
mados, resolveram esmagar o movimento. E’ altamente
significativo observar que tôda a fôrça da oposição dos
saduceus não conseguiu deter o movimento. Sim, por
que já naquele ponto o Cristianismo se tinha tornado
um movimento popular aos judeus e não era combatido
pelos fariseus.
Pedro e João Desafiados pelo Sinédrio (4:5-22)
“ 5 No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém
as autoridades, os anciãos, e escribas, 6 e Anás, o
sumo sacerdote, e Caifás, João, Alexandre e todos
. quantos pertenciam à linhagem do sumo sacerdote.
7 E, pondo-os no meio dêles, perguntaram: Com que
poder ou em nome de quem fizestes vós isto ? 8 Então
Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autorida
des do povo e vós, anciãos, & se nós hoje somos in
quiridos acêrca do benefício feito a um enfêrmo, e do
modo como foi curado, 10 seja conhecido de todos
vós, e de todo o povo de Israel, que em nome de Je
sus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificas
tes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nes
se nome está este aqui, são diante de vós. 11 Êle
. . .é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores,
a qual foi posta como pedra angular. 12 E em ne
nhum outro há salvação; porque debaixo do,céu ne
nhum outro nome há, dado entre os homens, em
, , .quem devamos ser salvos. 13 Então êles, vendo a in
trepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram
homens sem letras e indoutos, se maravilhavam; e
reconheciam que haviam êles estado com Jesus. 14
E, vendo em pé com êles o homem que fôra curado,
nada tinham que dizer em contrário. 15 Todavia,
mandando-os sair fora do sinédrio, conferenciaram
, entre si, 16 dizendo: Que havemos de fazer a êstes
O U V BO DE ATOS 1X3
. homens? porque a todos os que habitam em Jerusa
lém é manifesto que por êles foi feito um sinal no
tório, e não podemos negar. 17 Mas, para que não
se divulgue mais entre o povo, ameacemo-los para
que de ora em diante não falem neste nome a homem
algum. 18 E, chamando-os, ordenaram-lhes que ab
solutamente não falassem, nem ensinassem, em nome
de Jesus .19 Respondendo, porém, Pedro e Joâo lhes
disseram: Se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes
a vós do que a Deus, julgai-o vós; 20 pois nós não
podemos deixar de falar das coisas que temos viste»
e ouvido. 21 Mas êles ainda os ameaçaram mais, e,
não achando motivo para os castigar, soltaram-nos,
por causa do povo; porque todos glorificavam a Deus
pelo que acontecera; 22 pois tinha mais de quarenta
; anos o homem em quem se operara esta cura mila
grosa.”
O sinédrio era a mais alta corporação governamen
tal dos judeus, e sôbre questões internas recebera dos
romanos grande e considerável autoridade, estando su
jeito apenas ao governo romano. Faziam parte dêle se
tenta pessoas que representavam o povo — autoridades,
anciãos e escribas. A linhagem do sumo sacerdote cons
tituía as “ autoridades” ; os anciãos eram cidadãos invés-;
tidos como líderes; e os escribas èram estudantes da lei,
em especial tirados dentre os fariseus.
Naqueles dias era Caifás ó sumo sacerdote, con
quanto tivesse maior influência o sogro dêle :— Anás.
Anás foi sumo sacerdote do A. D. 6 a 15, e um filho
dêle o substituiu. Após Caifás, quatro outros filhos de
Anás exerceram o sumo sacerdócio. A grande rival da
familia de Anás foi a de Boetus, judeu de Alexandria,
íendo feito parte desía família, por virtude de seu casa
mento, Herodes, o Grande. Estando Herodes no poder, o
sumo sacerdócio era exercido por um membro da família
A.A. 8
114 FRANK SXAGG
de Boetus. Houve outras famílias de sumo sacerdotes, mas
tiveram influência menor que a de Anás e a de Boetus.
A princípio o sumo sacerdócio foi vitalício, e por suces
são, na família de Arão. No tempo de Ptolomeu IV
(182-146 a. C .), contudo, o último sumo sacerdote da
linhagem de Aarão foi para Leontópolis, no Egito, e daí
o sumo sacerdote passou a ser indicado por quem go
vernava os judeus: os reis Selêucidas, os Macabeus, os
Herodes, ou os romanos. 49
O sinédrio desafiou os discípulos em têrmos autori
tários, dizendo-lhes: “ Com que poder ou em nome de
quem fizestes vós isto?” (4:7). As nossas traduções fa
zem transparecer muito mal o desdém que o texto grego
sugere, por terminar a pergunta com o pronome “ vós” .
Podemos parafrasear assim: “ Com que autoridade ou
em nome de quem fizestes vós isto, por autoridade vos
sa?!” Desprezavam os discípulos em parte pelo fato de
êstes serem “ homens sem instrução e vulgares” (4:13).
Isto é, não tinham recebido nenhuma instrução rabínica,
nem indicação alguma para qualquer posição oficial no
país. A tradução comum — “ homens sem letras e ig
norantes” não é boa. Não se quer dizer que fôssem ho
mens iletrados, e sim que não tinham preparo adequado,
nem a indicação oficial.
Pedro mostrou-se corajoso diante do sinédrio: êle
conhecia o terreno que estava pisando. Ninguém pode
ria abalar a fé que tinha, de que Jesus ressuscitara de
fato e estava presente naquela gloriosa obra. Pedro tudo
fazia e tudo dizia, baseado na autoridade do Cristo exal
tado, e não na do sinédrio. Pedro não só permanecia
firme nisso, mas chegava mesmo a convidar as autori
dades, e a todos, para verificarem bem que Aquêle a
Quem haviam rejeitado era “ a pedra angular” e a única
esperança de salvação para todos. Essa intrepidez de Pe-
49. Lakt and Cadbury, Commentary, pg. 42.
O LIVRO DE ATOS 115
dro, mostrando-se intemerato diante do sinédrio, infeliz
mente lhe faltou, quando mais tarde surgiu um novo
problema — o dos gentios.
0 sinédrio “ reconheceu que êles haviam estado com
Jesus” (4:13), e isto constituía para aquelas autoridades
mais outro motivo de incômodo. Aqui não se trata da
idéia popular da semelhança daqueles discípulos com
Jesus. Conquanto verdadeiro tal conceito, o que aqui se
afirma é que os chefes e autoridades de Jerusalém per
ceberam que os discípulos faziam parte daquele movi
mento que haviam tentado sufocar quando crucificaram
a Jesus. Jesus também havia ensinado com uma autori
dade que êles impugnavam; e Êle também possuía co
nhecimento e sabedoria que não provinham das escolas
rabínicas.
O que mais embaraçava os passos daquelas autori
dades era a presença do homem curado (4:14). O crime
delas era indesculpável por causa da má vontade com
que encaravam aquilo que os fatos estavam provando,
coisa que elas não podiam negar (4:16). Estavam interes-
sadás unicamente em paralisar aquêle movimento que
ameaçava o status quo. Daí, resolveram ameaçar os dis
cípulos; mas, de nada adiantou porque para êstes era
questão de vida ou morte anunciar o que tinham visto
e ouvido (4:20), e ainda porque tinham alcançado enor
me popularidade entre os judeus (4:21).
Fidelidadepara com o Soberano Senhor (4:23-31)
“ 23 E, soltos êles, foram para os seus, e conta
ram tudo o que lhes haviam dito os principais sacer
dotes e os anciãos. 24 E, ouvindo êles isto, levanta
ram unânimemente a voz a Deus e disseram: Sobe
rano Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e
tudo o que nêles há; 25 que pelo Espírito Santo, por
bôca de nosso Pai Davi, teu servo, disseste:
Por que se enfureceram os gentios, e os povos
116 FRANK STAGG
imaginarahi coisas yãs? 26 Levantaram-se os reis da
terra, e as autoridades juntaram-se a uma, contra o;
Senhor e contra o seu Ungido, 27 Porque verda
deiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu
- santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes,
mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os po
vos de Israel; 28 para fazerem tudo o que a tua mão
e o teu conselho predeterminaram que se fizesse. 29
Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e
• concede aos teus servos que falem com tôda a intre-
pidez a tua palavra, 30 enquanto estendes a mão para
̂ curar e para que se façam sinais e prodígios pelo
nome de teu santo Servo Jesus. 31 E, tendo êles ora-
. do, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos
foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com
intrepidez a palavra de Deus.”
f O sinédrio explicara bem a Pedro e João o que pre
tendia, e os apóstolos lhe declararam que estavam resol
vidos a agir de acôrdo com as experiências por que ti
nham passado (4:19 em diante). Agora o grupo maior
reconhecia a autoridade de Deus, a Quem se dirigiam
como ao “ soberano Senhor” (4:24). O têrmo grego aqui
empregado corresponde à palavra déspota, sem o mo
derno significado de tirano. Quer dizer apenas “ sobera
no governador” .
Os discípulos estavam preparados para obedecer a
Deus como o Senhor soberano, continuando a testificar a
ressurreição de Jesus e a realizar portentos em Seu nome.
Estavam preparados para enfrentar as fôrças que se
lhes opunham dentro do país e também as dos gentios
(4:27). Conseguiram libertar-se do sinédrio; mas, ti
nham pela frente ainda uma luta maior, a fim de se li-
vtarem dos acanhados conceitos dos judeus cristãos que
faziam parte de suas próprias fileiras.
Quando oravam, o lugar em que se achavam tre
O U V R O DE ATOS 117
meu, e todos foram cheios do Espírito Santo (4:31). O
Espírito sustentou aquêles discípulos que se haviam li
bertado do Sinédrio. Êste os condenava; mas o Espírito
õs confirmava.
Companheirismo, Fraude e Temor (4:32 a 5:16)
“ 32 A multidão dos qüe criam tinha um só co
ração e uma só alma, e ninguém dizia que coisa al
guma das que possuía era sua própria, mas tôdas as
coisas lhes eram comuns. 33 Com grande poder os
apóstolos davam testemunho da ressurreição do Se
nhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.
34 Pois não havia entre êles necessitado algum; por
que todos os que possuíam terras e casas, vendendo-
as, traziam o preço do que vendiam e o depositavam
aos pés dos apóstolos, 35 E repartia-se a cada um
segundo a sua necessidade. 36 Então José, cognomi
nado, pelos apóstolos, Barnabé (que quer dizer, filho
da consolação), levita, natural de Chipre, 37, possuin
do um campo, vendeu-o, trouxe o preço e o deppsit«tf
aos pés dos apóstolos. ;
5 :1 Mas, um certo varão chamado Ananias, com
Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, 2 e re
teve parte do preço, sabendo-o também sua mulher;
e, levando a outra parte, a depositou aos pés dos,após
tolos. 3. Disse então Pedro; Ananias, por qiíe encheu
Satanás o teu coràçãó, pára que mentisses ao Espí
rito Santo e retivesses parte do preço do terreno? 4
Enquanto o possuías, não era teu ? e, vendido, não es
tava o preço em teu poder? Como, pois, formaste
êste desígnio em teu coração?' Não mentiste aos ho
mens, mas a Deus. 5 Ananias, ouvindo estas palavras,
caiu e expirou. E grande temor se apoderou de tõdos
os que souberam disto. 6 Levantando-se os moços,
cobriram-no e, transportando-o para fora, >ó Sepulta
FRANK STAGG
ram. 7 Depois de um intervalo de cêrca de três horas,
entrou também sua mulher, não sabendo o que havia
acontecido. 8 E perguntou-lhe Pedro: Dize-me, ven
deste por tanto aquêle terreno? E ela respondeu: Sim,
por tanto. 9 Então Pedro lhe disse: Por que é que
combinastes entre vós provar o Espírito do Senhor?
Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu ma
rido, e te levarão também a t i. 10 Imediatamente ela
caiu aos pés dêle e expirou. E, entrando os moços,
acharam-na morta e, levando-a para fora, sepultaram-
na ao lado de seu marido. 11 Sobreveio grande te
mor a tôda a igreja e a todos os que ouviram estas
coisas. 12 E muitos sinais e prodígios eram feitos en
tre o povo pelas mãos dos apóstolos. E estavam to
dos de comum acôrdo no pórtico de Salomão. 13
Dos outros, porém, nenhum ousava ajuntar-se a êles;
mas o povo os tinha em grande estima; 14 e cada
vez mais se agregavam crentes ao Senhor em gran
de número tanto de homens como de mulheres; 15
a ponto de transportarem os enfermos para as ruas,
e os porem em leitos e macas, para que ao passar
Pedro, ao menos sua sombra cobrisse algum dêles.
16 Também das cidades circunvizinhas afluia muita
gente a Jerusalém, conduzindo enfermos e atormen
tados de espíritos imundos, os quais eram todos cura
dos.”
A Comunhão na Igreja. Aqui temos um desenvolvi
mento do assunto já referido atrás (2:44-45), visto que
se falou nos discípulos vivendo em união e “ tendo tudo
em comum” (4:32). Das duas passagens podemos vis
lumbrar vários fatos: primeiro, aquêles primeiros cris
tãos reconheciam que todos os crentes eram um só povo;
segundo, reconheciam que o crente não tem “ direitos” ;
terceiro, reconheciam que cada um devia conceder a ou
tro aquilo que possxda, conforme a necessidade de cada
O LIVRO DE ATOS
qual; quarto, êles realmente praticavam essa cotização;
quinto, cuidavam de fato dos necessitados; sexto, aquela
repartição era coisa inteiramente voluntária; sétimo, o
benefício só era acessível aos crentes realmente necessita
dos; oitavo, o movimento nada tinha de “ comunista” , pois
que se admitia a posse de propriedades e a distribuição
visava somente socorrer as necessidades da comunidade,
e não nivelar economicamente os crentes; nono, não era
um comunismo de produção ou de posses.
Devemos evitar dois erros no estudo destas duas pas
sagens (2:44 em diante e 4:32 em diante): primeiro, esta
primitiva distribuição cristã não deve ser confundida com
o comunismo moderno; segundo, ao estabelecermos a di
ferença entre ela e o comunismo, importa não perdermos
de vista os seus grandes princípios. Aquela comunidade
de bens tinha mui pouca coisa em comum com o comu
nismo de nossos dias, como vimos acima, e tinha muito
com que caracterizar os cristãos de qualquer época.
Aquela “ nobre experimentação” pode parecer ter fa
lhado em muitos pontos. E’ verdade que a pobreza logo
assolou todo aquêle grupo e que os cristãos doutras cida
des levantaram coletas para ajudar os pobres de Jerusa
lém. Sem dúvida a expectação da volta imediata de Je
sus facilitou a êste e àquele desprenderem-se generosa
mente de suas propriedades, pois delas mui logo não pre
cisariam mais. Provàvelmente outros, que não Ananias
e Safira, “ orgulhavam-se de sua humildade” e intentavam
ser glorificados pelos homens. Talvez, como se deu
mais tarde em Tessalônica, alguns se sentissem encoraja
dos a parasitar, vivendo à custa dos semelhantes. Embora
reconheçamos grandes falhas nesse sistema, a verdade é
que havia nêle princípios cristãos de tremenda importân
cia. Os pagãos insistem em seus “ direitos” ; mas o verda
deiro cristão prefere pensar naquilo que deve aos outros.
A mensagem basilar da Cruz é essa disposição para negar-
120 FRANK STAGG
se a si próprio e para se relacionar um com o outro, para
o bem dêste.
Barnabé: A Comunidade de Bens no Seu Ápice. José,
chamado Barnabé, foi um dos homens verdadeiramente
grandes do Cristianismo primitivo. Sua atitude em vender
um campo epôr o lucro à disposição dos apóstolos é cita
da aqui como a comunhão no que ela tem de melhor. Na
tural de Chipre (lembrada em Atos 11:20 quando o Evan
gelho se expandiu até aos gregos), era êle homem de cer
tas posses, como também a mãe de João Marcos, de quem
era parente (Col. 4:10). O apelido “ Barnabé (que signi
fica Filho do encorajamento)” certo conquistara quando
se pôs ao lado de Paulo em Jerusalém quando pouca gen
te se dispunha a crer na conversão daquele novo cristão.
Também êle defendeu a causa de João Marcos, permane-
cèndo aberta a questão sôbre quem agiu melhor naquela
pendência, se Paulo, se Barnabé (veja adiante). Fôsse
qual fôsse o seu modo de ajuizar nesta ou naquela ques
tão, a verdade é que Barnabé sempre estava pronto a aju
dar, e isso lhe trouxe o apelido de “ Filho do encorajamen
to” . A palavra grega usada por Lucas para interpretar o
nome Barnabé 50 é uma cognata de Paracleto, e literalmen
te significa “ um convite ao pé” . A idéia resultante pode
ser esta de “ exortação” ou “ consolação” , pois que ambas
podem ser incluídas na palavra “ encorajamento” . 51
Ananias e Safira: A Grande Mentira. Para quem se
interessa em buscar provas de que o Livro dos Atos é de
fato um livro digno de crédito, consola-o anotar aqui que
Lucas está escrevendo de fato história e não ficção. Está
pintando um quadro real e não imaginário. Aquêle pe
cado dentro da comunidade cristã era muito mais aflitivo
do que a perseguição que vinha de fora. Lucas levanta
50, Barnabé é um nome semita de origem incerta; Bar significa filho. Mas,
não fie pode agora acertar o significado de Nabé, que pode v ir do hebraico ou
do aramáico. A interpretação dada por Lucas, do grego, faz jus ao homem*
seja qual fô r a origem do nome semita.
51. V er Rackham, op. cit., p g . 63.
O LIVRO DE ATOS
o pano para nos mostrar a hipocrisia, a murmuração (cap.
6), a dissensão e os duros atritos (cap. 15) havidos entre
os crentes. Muitas vêzes êle nos mostra o estreito nacio
nalismo de alguns. 52
O pecado básico de Ananias e Safira foi o da hipocri
sia, ou o esconder a realidade;53 pois estavam vivendo
uma mentira. A tentativa dêles, de serem elogiados atra-
vés duma atitude enganosa, fôra plano deliberado, pois
que “ concordaram juntos” (5:9). Em o Novo Testamen
to nenhum pecado se considera mais grave e sério do que
o da cegueira voluntária para com a verdade, ou a rejei
ção dela. Aquêles que crucificaram a Jesus o fizeram
com seus olhos deliberadamente fechados à verdade e ao
direito, e se disse que o pecado que não tem perdão está
ligado a essa disposição de espírito. Pode-se defender de
algum modo o pecado de ignorância ou de fraqueza; mas,
nada se pode apresentar em defesa da cegueira voluntá
ria para com a verdade ou da voluntária rejeição da luz.
Se o castigo de Ananias e Safira nos parece rigoroso de
mais, devemos reconhecer que o conceito que aqui se tem
da desonestidade operando nos fundamentos do caráter
do indivíduo não é menos rigoroso do que o conceito qu,e
encontramos refletido nos Evangelhos. O pecado contra
o Espírito Santo — a deliberada rejeição daquilo que é
xeto e verdadeiro — é indesculpável. O pecador, se o
abandona, pode ser perdoado; mas, o pecado em si não
tem escusa.
Um pecado ainda mais grave podemos encontrar em
5:3, dependendo da tradução correta do texto. O caso
' acusativo, e não o dativo usual, segue ao verbo no infinito
comum ente traduzido por “ mentir” . E’ possível traduzir
então assim: “ Ananias, como é que Satanás encheu o teu
coração para falsificar o Espírito Santo. . . ?” A acusação
consistia não só em ter êle mentido ao Espírito Santo, mas
62. I b i d par. 64.
63. Loo. cit.
1£3 FBAKK STAGG
em ter falsificado o Espírito, buscando representar a sua
fraudulenta ação como de certa forma inspirada pelo Es
pírito. Assim, procurara êle fazer com que o Espírito San
to participasse do seu nefando crime.
0 sepultamento de Ananias sem que sua mulher o
soubesse (5:7) vai além de nossa compreensão. Era cos
tume enterrar o morto no dia em que morria. Mas, era
legal ou direito enterrar o marido sem o conhecimento da
espôsa? Esta é uma das muitas perguntas que os Atos
deixam sem resposta. Não temos uma resposta satisfa-
tói'ia para esta pergunta. 54 Basta-nos lembrar que Lucas
estava interessado em responder às perguntas dêle e não
às nossas. A nossa curiosidade se aguça em muitas par
tes do livro apenas para quedar-se sem eco, porque o pro
pósito de Lucas, ao escrever, não era satisfazer nossa
curiosidade. Quando o Livro dos Atos termina sem qual
quer palavra sôbre o resultado do processo de Paulo, Lu
cas estava, é claro, outra vez preocupado com coisas intei
ramente vitais ao seu propósito, e não com a idéia de
responder a tôdas as nossas perguntas.
Desta história da morte súbita de Ananias e sua mu
lher surge um pensamento muito sério atinente à moral
cristã. Aquela punição com a morte foi apenas o efeito
dum ato arbitrário de Pedro, divinamente autorizado, ou
foi Deus mesmo Quem os puniu? Essa interpretação —
e outras passagens do Novo Testamento possivelmente
sustentem êste ponto de vista (ver I Cor. 5:5; 11:30; I
Tim. 1:20; Tiago 5:20; I João 5:16 em diante) — nos põe
(diante dum problema muito grave acêrca do modo pelo
qual Deus trata o mal. O conceito que prevalece em o
Novo Testamento parece ser êsse de que a ira é uma lei
que opera naturalmente e não arbitràriamente; e de que o
64. Um colega meu» o proí. Bay Frank Robbins, diz que estando na China
observou um costume quase paralelo a êste narrado no Livro dos Atos. Viu re
tirarem defuntos das calçadas das ruas e serem levados para lugares onde aguar
davam por certo tempo o enterramento. Isso se fazia sem se dizer nada às fa
mílias dos defuntos« ou utèlhor, sem consultá-las.
O LIVRO DE ATOS 123
pecado é em si uma coisa tão séria que acarreta suas
próprias conseqüências. Muitos concluem que Ananias e
Safira morreram de choque nervoso, ou traumatismo, e
não em conseqüência dum arbitrário decreto de Deus. Se
fôr verdadeira esta idéia, podemos mais fàcilmente har
monizá-la com todo o ensinamento do Novo Testamento.
Tais mortes podem ser explicadas pela psicologia. Mui
tos sinais que se deram naqueles dias fizeram com que
todos os crentes tivessem plena consciência de que o po
der de Deus estava de fato operando no meio dêles, e isso
encheu os corações dêles de pasmo e temor. A rápida re
velação do pecado de Ananias contra Deus mui fàcilmente
teria produzido o choque que o levou à morte. Safira ex
perimentou aquêle choque e também o choque resultante
da notícia da morte do marido.
Temor e Crescimento. O pequeno trecho seguinte (5:
12-16), que à primeira vista nos parece fácil e simples, co
loca diante de nós alguns problemas bem difíceis, senão
insolúveis. Não podemos saber exatamente quem são
as pessoas de que nos fala o vs. 13. Quem são aquêles
“ dos outros” ? Quem são aquêles “ outros” ? E’ possível
que se tratasse de cristãos que não se animavam a ocupar
üm lugar junto dos apóstolos, ou quem sabe de pessoas
referidas pelo pronome “ êles” . Pode ser também que se
tratasse de pessoas não cristãs que temiam juntar-se aos
discípulos, pois ficariam sujeitas a ter a sorte de Ananias
e Safira. O vs. 14, no entanto, parece afastar esta última
hipótese. Tais problemas não podem ser resolvidos pelo
estudo gramatical do texto, e não possuímos dados certos
e conclusivos. Está clara, no entanto, a maior mensagem
dêste parágrafo, seja qual fôr a resposta a muitos dos seus
problemas.
E’ claro que houve uma nova dispensação de poder
por sinais e maravilhas, sendo duplo o resultado: maiores
números alcançou o movimento, e todos tinham grande
i z i FRANK SXAGG
respeito - ou reverência — pelo movimento, notadamen-
te pêlos apóstolos. Compreende-se que de fato o povo
reagiria dessa forma. Êste parágrafo sem dúvida nos dá
ótima idéia do poder e da influência dos apóstolos, e pa
rece que atingiramnaquele tempo o ponto mais elevado .
Estranho, porém, é observar que aquêles homens, que tan
to se distinguiram de todos os mais do seu tempo, desa
parecessem do cenário de modo tão completo, não só das
páginas dos Atos mas também das de tôda a História Cris
tã. Mui pouco mais sabemos hoje a respeito de muitos
dêlés. Será pelo fato de não terem acompanhado de per
to as idéias mais largas, desenvolvidas posteriormente
pelo movimento cristão?! Ao que parece, não foram êles,
e sim pessoas cujos nomes ainda não apareceram em cena,
os que ousaram transpor as barreiras nacionais e raciais
e libertar o movimento dum estreito nacionalismo, levan
do-o à verdadeira liberdade.
Os Sinais e Maravilhas. Não se diz claramente que
pessoas foram curadas quando a sombra de Pedro as co
briu, mas evidentemente é o que o texto implica (5:15).
Paralelamente a isto, se diz claramente depois que doen
tes se curavam por lenços e aventais levados do corpo de
Paulo' (19:12). Seja qual fôr a ilação tirada aqui pelo
,,;}eitor de nossos dias, Lucás apresentou alguns desses pri
meiros milagres como dignos de crédito, e êle próprio ad
mitiu a validade dêles. Ainda que se diga que houve mui
to boa fé para se admitir aquilo, o fato é que depende mes
mo do grau de fé daquele que aceita totalmente a possi
bilidade do milagre. Embora as histórias de certos mila
gres possam parecer menos plausíveis que outras, se êles
são possíveis, certo o são até o extremo. Os milagres rea
lizados no mundo material são ainda os menos admissí
veis expedientes elementares para os principiantes. Jesus
’ realizou muitos milagres,, mas protestou continuadamente
contra a necessidade dêles. Os máiores feitos de Jesus fo
O M VRO DE ATOS
ram milagres de transformações morais e espirituais. Se,
pois, os milagres de natureza material pertencem a uma
classe elementar para neófitos da fé, podemos facilmente
compreender que a fé quase supersticiosa daquele povo
simples, do tempo de Pedro e Paulo, precisava daquela es
pécie de milagres. Aquela era uma etapa preparatória
para milagres de natureza mais elevada. Muita gente ain
da hoje vive necessitada de milagres dessa espécie chamada
de “ jardim da infância” , pois que vivem do culto de relí
quias que julgam ter pertencido a“ santos” defuntos.
Os Saduceus Frus'rados, e os Fariseus Indecisos (5:17-42)
“ 17 Levantando-se o sumo sacerdote e todos os
que estavam com ele (isto é, a seita dos saduceus),
" ,encheram-se de inveja, 18 deitaram mão nos após
tolos, e os puseram na prisão pública/19 Mas de noi
te um anjo do Senhor abriu as portas do cárcere e,
tirando-os para fora, disse: 20 Ide, àpresentai-vos no
templo, e falai ao povo tôdas as palavras desta vida.
21 Ora, tendo êles ouvido isto, entraram, de madru
gada, no templo, e ensinavam. Chegando, porém, o
sumo sacerdote e os que estavam com êle, convoca
ram o sinédrio juntamente com todos os anciãos dos
filhos de Israel, e enviaram oficiais ao cárcere para
trazê-los. 22 Mas os oficiais, tendo lá ido, não os
acharam na prisão; e, voltando, lho anunciaram, 23
<Kzendo: Achamos realmente o cárcere fechado com
tôda a segurança, e os guardas de plantão às portas;
mas, abrindo-as, a ninguém achamos dentro. 24 E
quando o capitão do templo e os principais sacerdotes
ouviram estas palavras, ficaram perplexos acêrca de
les e do que viria a ser isso. 25 Então chegou alguém
e disse-lhes: “ Eis que os homens que encerrastes na
prisão estão no templo, em pé, a ensinar o povo. 26
Nisso foi o capitão com os oficiais e os trouxe, não
com violência, porque temiam ser apedrejados pelo
FRANK STAGG
povo. 27 E, tendo-os trazido, os apresentaram ao si
nédrio. E o sumo sacerdote os interrogou, dizendo:
28 Não vos admoestamos expresamente que não en
sinásseis nesse nome? e eis que enchestes Jerusalém
dessa vossa doutrina e quereis lançar sôbre nós o san
gue dêsse homem. 29 Porém, respondendo Pedro e
os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a
Deus que aos homens. 30 O Deus de nossos pais res
suscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-
o no madeiro; 31 sim, Deus, com a sua destra, o ele
vou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arre
pendimento e remissão de pecados. 32 E nós somos
testemunhas destas coisas, e bem assim o Espírito
Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem. 33
Ora, ouvindo êles isto, se enfureceram e queriam ma
tá-los. 34 Mas, levantando-se no sinédrio certo fa
riseu chamado Gamaliel, doutor da Lei, acatado por
todo o povo, mandou que por um pouco saissem
aquêles homens; 35 e disse-lhes: Varões israelitas,
acautelai-vos, com respeito a êstes homens, no que
estais para fazer. 36 Porque, não há muito tem
po, levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; ao qual
se ajuntaram uns quatrocentos homens; mas êle foi
morto, e todos quantos lhe obedeciam fc ram disper
sos e reduzidos a nada. 37 Depois dêle levantou-se
Judas, o galileu, nos dias do recenseamento,, e levou
muitos após si; mas também êste pereceu, e foram
dispersos todos quantos lhe obedeciam. 38 Agora vos
digo: Dai de mão a êstes homens, e deixai-os, por
que êste conselho ou esta obra, caso seja dos homens,
se desfará; 39 mas, se é de Deus, não podereis des
fazê-la para que não sejais, porventura, achados até
combatendo contra Deus. 40. Concordaram, pois,
com êle, e tendo chamado os apóstolos, açoitaram-
nos e mandaram que não falassem em nome de Je-
O LIVRO DE ATOS
sus, e soltaram-nos. 41 Retiraram-se, pois, da pre
sença do sinédrio, regozijando-se de terem sido jul
gados dignos de sofrer afronta pelo nome de Jesus.
42 E todos os dias, no templo e de casa em casa, não
cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus, o Cristo.”
Os discípulos não cessavam de pregar a Jesus, o Cris
to, no templo (5:42)! Isto é coisa quase inconcebível ao
pensamento de nossos dias. Por cêrca de dezenove séculos
o judaísmo e o Cristianismo viveram como religiões per
feitamente distintas, e às vêzes mesmo guerreando-se,
mas em geral ignorando-se mutuamente. Comumente se
pensa que o surto da cristologia é que provocou a sepa
ração — pois que os judeus rejeitaram a Jesus como o
Cristo, o Filho de Deus. Mas, não é exato. Vemos que por
algum tempo pregou-se a Jesus como o Cristo no tem
plo, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalém, e nas casas.
Milhares de judeus realmente se uniram ao movimento;
as multidões receberam àvidamente o Cristianismo a pon
to de êste vencer o firme propósito que os saduceus ti
nham de destruir o nascente movimento. Os discípulos
desobedeceram resoluta e intrèpidamente às ordens do
sumo sacerdote e dos saduceus, a ponto de êstes se que
darem vencidos e sem poder para fazer estacar o seu
avanço (5:17, 28 em diante, e 33).
Os fariseus por algum tempo adotaram a política do
retraimento, pois queriam ver e observar. Gamaliel pro
pôs que o sinédrio deixasse o movimento entregue à sua
própria sorte, achando que por seus méritos cairia ou se
consolidaria (5:38-39). Achou que aquela obra — a de
se preger que Jesus era o Cristo — podia ser obra de
Deus! Tratava-se, portanto, de uma questão aberta. O
sinédrio acatou a idéia dêle —de ver e observar — embo
ra açoitasse os apóstolos e exigisse dêles silenciar acerca
de Jesus (5:40).
Os judeus, como povo, não rejeitaram em Jesus o
FRANK STAGG
Cristo prometido, o Filho de Deus. Rejeitaram-nO, sim,
como o Filho do Homem, o Salvador do mundo! O ponto
d$ separação foi o muro que afastou o judeu do não judeu,
e não a cristologia. A questão decisiva que os separou foi
a tese que afirmava a existência de uma Nova Humanida
de em que judeus e gentios incircuncisos deveriam viver
juntos como irmãos. Esta foi a questão daquele primeiro
século do Cristianismo, e está ela de pé ainda em nossos
dias.
Discutiu-se muito a exatidão de Lucas no caso de Teu
das (5:36) . Acusa-se Lucas de haver baralhado as datas
referentes a Judas e a Teudas. Afirmar-se que, se houve
êrro, êsle foi de Gamaliel e não de Lucas, não satisfaz.
Josefo (AntiquitiesXX, 5, 1) nos fala de um Teudas que
viveu no tempo do procurador romano Cuspius Fadus,
qtie foi indicado para essa função após a morte dc Hero-
des Agripa (A . D . 44) alguns anos depois do discurso de
Gamaliel, Judas (de Gamala), citado por Josefo e por
Lucas, chefiou uma revolta (A .D .6) para protestar con
tra o recenseamento feito no tempo de Quirino, governa
dor da Síria; Josefo dá essa revolta como a origem dos
zélotes que afinal precipitaram as guerras contra Roma.
Assim, parece a muitos que Lucas não entendeu bem a
Jòsefo e colocou Teudas antes de Judas. Temos algumas
soluções possíveis: primeira, que Josefo laborasse em êr
ro; segunda, que Josefo e Lucas se referissem a pessoas
diferentes que usavam o nome comum, ou familiar, de
Teudas; terceira, que o nome de Teudas, como o acha
Blass, fôsse uma interpolação cristã no texto de Josefo.
Parece que o problema é insolúvel, e Lucas foi um escri
tor muito fiel para ser condenado assim num caso que
aindã aguarda maiores luzes.
Os Hélenistas, os Hebreus, e os Sete (6:1-6)
“ 1 Ora, naqueles dias, crescendo o número dos
r discípulos, houve uma murmuração dos helenistas
O LIVRO DE ATOS
contra os hebreus, porque as viúvas daqueles eram
menosprezadas na distribuição diária. 2 E os doze,
convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não
é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sir
vamos às mesas. 3. Escolhei, pois, irmãos, dentre
vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espí
rito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos
dêste serviço. 4 Mas nós perseveraremos na oração
e no ministério da palavra. 5 O parecer agradou a to
dos, e escolheram a Estevão, homem cheio de fé e
do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão,
Pármenas, e Nicolau, prosélito de Antioquia, 6 e os
apresentaram perante os apóstolos; êstes, tendo ora
do, lhes impuseram as mãos. ”
Helenistas e Hebreus. Não temos nenhuma base para
afirmar que espaço de tempo foi coberto pelos cinco pri
meiros capítulos do Livro dos Atos, mas evidentemente
houve um bom lapso de tempo entre os capítulos 5 e 6.
Respira-se outra atmosfera já no capítulo 6, visío que se
faz distinção entre o elemento helenista (grego) e o ele
mento hebreu. Embora discutido, presume-se que os he
lenistas eram judeus que falavam o grego e que estavam
residindo temporária ou permanentemente em Jerusalém,
e que os hebreus eram judeus que falavam o aramaico.
O hebraico era ainda a língua dos maiorais, ao passo que
o aramaico era a língua falada pela maioria dos judeus da
Palestina. O grego era a língua usada por muitos judeus
que não moravam na Palestina.
Os helenistas é que forneciam os mais rigorosos estu
dantes do Evangelho; dentre êles saíram também alguns
dos maiores opositores do Evangelho, homens que, aler
tados, viviam examinando tudo quanto o Evangelho sig
nificava para as instituições judaicas. Homens como Es
têvão e Felipe viram mais fàcilmente do que os doze
A .A . 9
130 FRANK STAGG
natureza espiritual e o alcance universal do evangelho.
Os doze tinham sido educados numa atmosfera naciona
lista e tradicionalisla. Mas, homens como Saulo de Tar
so e êsses helenistas, cujos nomes não nos foram dados,
perceberam logo que enfatizar a tradição e o nacionalis
mo seria solapar algumas das suas mais caras instituições
e que urgia dar por terra com o muro que separava judeu
.« gentio. Compreende-se naturalmente que essas duas
atitudes em atrito provinham dum mesmo fundo. A co
munhão com um mundo mais vasto tornou liberais alguns
judeus, e o particularismo dêles abriu caminho para o
universalismo, visto que percebiam ser a humanidade bem
mais importante do que a nação. Outros judeus, na mes
ma situação, reagiram violentamente em favor da sua na
ção, contra as outras, e resolveram reforçar a todo o custo
o muro de separação.
Pedro e Estêvão. Que ironia! Aqueles que se julga
vam tão ocupados com assuntos espirituais, a ponío de
não poderem servir às mesas, fadaram em perceber aon
de o Evangelho os devia levar. Os doze, que achavam que
deviam dar todo o seu tempo “ à oração e ao ministério
da palavra” , mostraram-se tardos em reconhecer que
“ Deus não Se deixa levar por respeitos humanos” .
Achavam que Estêvão, Filipe e cinco outros eram sufi
cientemente mundanos (no bom sentido) para servir às
mesas; mas, de certo modo — pelo menos Estêvão e Fili
pe — alcançaram umâ visão mais nítida do Evangelho e
se tornaram os líderes dum Cristianismo mais espiritual
e menos legalista, que deveria abarcar tôda a humanidade
e não somente uma nação.
Pedro e os outros apóstolos resolveram ser “ espiri
tuais” e dedicar-se ao estudo da palavra, mas estavam
amarrados pela tradição. Estavam construindo o judaís
mo cristão em vez de edificar uma igreja de natureza es
piritual e de visão universal. Estêvão e Filipe experimen
O UVKO DE ATOS 131
taram a verdadeira liberdade sob o Espírito. Será que
Pedro e os doze estavam tão interessados em suas institui
ções que não enxergavam o povo? Pedro, por fôrça de
sua última declaração (10:14 e 28), colocara as organiza
ções da nacionalidade e os ritos judaicos muito acima da
humanidade. Temos algumas provas de que êle amava
naturalmente o povo, íôs^e qual fôsse; mas religiosamen
te fôra educado no sentido de sempre considerar o gentio
como um imundo, como um indivíduo com quem não se
devia associar, nem ter a menor comunhão. Parece que
êle não se sentia bem dentro daqueles preconceitos e da
quele extremismo, e nem fazia disso tudo um cavalo de.
batalha. Não obstante, achava difícil libertar-ne do temor
que tinha de seus compatrícios, os quais julgavam ser o
preconceito racial u’a marca distintiva de piedade e orto
doxia. Já a Estêvão e a Filipe interessava prirtieiro a
humanidade, não a raça ou a nacionalidade.
Isto nos faz lembrar a exclamação de Jesus, ao ver
que o povo vivia como rebanho mal cuidado e disperso, e
sem pastor — como um campo pronto para a ceifa, mas
sem segadores (Mat. 9:36 em diante). Só compreendere
mos bem o fato, ao lembrarmos que quando Jesus assim
exclamou, ao ver o povo de Israel abandonado, pululava
por tôda a Palestina uma verdadeira legião de o b r e i r o s
religiosos, tanto clérigos como leigos. Ela contava com
vinte mil sacerdotes, e com vários milhares de fariseus,
saduceus, essênios, e doutras mais seitas. Milhares de
chefes religiosos cuidavam das coisas relativas aos sába
dos, à circuncisão, à lavagem de mãos, à separação dos
gentios, à conservação do fogo no altar, etc., etc.; pou
cos, porém, cuidavam do povo como povo.
Os Sete. Os sete foram ou não foram diáconos? Tem
havido muita discussão sôbre êste assunto, porque os da
dos que possuímos não são concludentes. Não agrada
muito dizer-se .que êste problema é insolúvel, mas o or
gulho deve ceder lugar à honestidade. Devemos admitir
132 FRANK STAGG
que não sabemos se os sete foram diáconos. São chama-
dos “ os sete” (21:8), mas nunca “ diáconos” . Pode ser
que os sete, como os doze, fôssem os únicos, e não tives
sem sucessores. E’ certo que mais tarde os diáconos ti
veram responsabilidades semelhantes, mas não podemos
estabelecer nenhuma ligação real com os sete.
Foram os sete eleitos pela congregação (6:3, 5); esta
é a primeira prova clara de que a autoridade pertencia
à igreja como um todo. Es lá ela implícita, e não explíci
ta, na escolha de Matias (1:23-26). Admite-se em geral
que a imposição de mãos foi o ato de ordenação dos sete.
No Velho Testamento impunham-se as mãos para várias
finalidades como para abençoar, separar para o serviço,
e para enviar o bode emissário ao deserto. Em cada um
dêsses casos estava simbolizada a transferência de alguma
coisa de um para outro. 0 Mishna (Sanh, iv, 4) nos infor
ma que os membros do Sinédrio eram a êle admitidos pela
imposição de mãos. 65 Essa prática entre os primeiros cris
tãos sem dúvida passou a fazer parte dos. costumes judai
cos, embora não saibamos claramente qual o seu significa
do na praxecristã. E’ possível que simbolizasse transmis
são de autoridade; se assim era, os apóstolos apenas agiam
cm nome da congregação, cuja autoridade reconheciam. A
congregação por sua vez agia em têrmos de sua compre
ensão da vontade divina, que era a autoridade final na
questão da eleição dos sete, fôsse qual fôsse a parte desem
penhada pela congregação ou pelos doze.
Se nos apegarmos ao que gramàticalmente antecede
ao relato bíblico, concluiremos que “ tôda a multidão” , e
não apenas os apóstolos, “ impôs as suas mãos sôbre êles”
(6:5-6). Achando que isto contraria suas pressuposições,
vários comentaristas em geral deixam de lado o conteúdo
gramatical, ou concluem que há aqui u’a “ mudança de
assunto” .58 Mas, será Lucas, ou serão tais comentaristas
55. V er Bruce, op. cit., pg. 154.
56. Knowling, op. cit., p g , 172.
O LIVRO DE ATOS
que mudaram de assunto? Não podemos dogmatizar a
respeito de quem impôs as mãos sôbre os sete. (Veja a
discussão dos versículos de 1 a 3, do capítulo 13.)
Todos os sete tinham nomes gregos; mas isto não
quer dizer que todos eram helenistas. Dois dos doze ■—■
Filipe e André — tinham também nomes gregos, e não
eram helenistas. Há probabilidade, no entanto, de os sete
terem sido helenistas. A tradição nos conta muitas coisas
dêles, bem como dos doze, mas não são dignas de crédito.
Nicolau é por alguns identificado como o fundador dos
nicolaitas, citados no Apocalipse 2:16, mas há absoluta
falta de provas. Lucas não estava profundamente inte
ressado nos sete, nem mesmo no incidente que motivou
a eleição dêles. Seu interêsse voltava-se mais para Estê
vão e Filipe e para a contribuição dêstes em prol do movi
mento cristão.
Afirmativa, em Resumo, da Magnitude do Judaísmo Cris
tão (6:7)
“ 7 E, divulgava-se a palavra de Deus, de sorte que
se multiplicava muito o número dos discípulos em
Jerusalém e muitos sacerdotes obedeciam à fé .”
Êste parágrafo fecha a primeira divisão maior do
Livro dos Atos, em que vemos o movimento cristão se
expressando dentro do judaísmo. Conquanto se tivesse
espalhado bastante em tôdas as direções, parece que êle
só alcançara a judeus. (Os prosélitos faziam-se judeus
antes de se fazerem cristãos.) Tanto que aquêles judeus
cristãos sentiam-se em casa dentro das sinagogas e do tem
plo, e st; mantinham fiéis à lei. Não há provas de terem
ventilado a inclusão dos gentios incircuncisos. Podia-se
pregar a Jesus como o Cristo tanto nas sinagogas como
3)o templo. Embora os saduceus houvessem tentado es
magar o movimento o alarma que fizeram e o insucesso
134 FRANK STAGG
que colheram serviram para enfatizar a magnitude do mo
vimento e a sua popularidade entre os judeus. Lucas ago
ra anota que “ os discípulos multiplicavam-se muito em
Jerusalém” e que “ muitos sacerdotes obedeciam à fé” (6:
7 ). Com certeza referia-se Lucas aos sacerdotes menores
que tinham pouco amor pelos sumo sacerdotes. Tendo os
apóstolos continuado a tomar parte nos cultos no tem
plo (3:1), é provável que tais sacerdotes também conti
nuassem a exercer o seu ministério no templo. Trata-se,
pois, do judaísmo cristão, e o seu avanço tinha alcançado
grande impulso até ali.
Então, subitamente, novos elementos surgem dentro
do movimento, com implicações de maior vastidão para
a causa e para os judeus. Estêvão e Filipe, talvez com
outros mais, introduziram certas idéias que abalaram todo
o movimento e o povo judeu. Êsses judeus gregos anun
ciaram o caráter espiritual e universal do Evangelho.
Os apóstolos aos poucos chegaram a reconhecer essa ver
dade, e o resultado final foi a inclusão dos gentios incir-
cuncisos e a auto-exelusão dos judeus. *
2* PARTE
0 Caráter Universal do Cristianismo Afir
mado por Judeus Gregos e Gradativamente
Reconhecido pelos Apóstolos
(6:8 a 12:25)
Estêvão — o Pioneiro do Universalismo e Seu Mártir
(6:8 a 8:1a)
“ 8 Ora, Estêvão, cheio de graça e poder, fazia
prodígios e grandes sinais entre o povo. 9 Levanta
ram-se, porém, alguns que eram da sinagoga chama
da dos libertos, dos cireneus, dos alexandrinos, dos da
Cilicia e da Ásia, e disputavam com Estêvão; 10 e
não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com
que falava. 11 Então subornaram uns homens para
que dissessem: Temo-lo ouvido proferir palavras blas
femas contra Moisés e contra Deus. 12 Assim exci
taram o povo, os anciãos, e os escribas; e, investin
do contra êle, arrebataram-no e o levaram ao siné
drio, 13 e apresentaram falsas testemunhas, que di
ziam: Êste homem não cessa de proferir palavras
contra êste santo lugar e contra a lei; 14 porque nós
o temos ouvido dizer que êsse Jesus, o nazareno, há
de destruir êste lugar e mudar os costumes que Moi
sés nos legou. 15 Então todos os que estavam assen
tados no sinédrio, fitando os olhos nêle, viram o seu
rosto como o rosto de/um anjo.
7:1 — E disse o sumo sacerdote: Porventura
são assim estas coisas? 2 Estêvão respondeu: Irmãos
e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai
Abrão, estando êle na Mesopotâmia, antes de habi
tar em Harã, 3 e disse-lhe: Sai da tua terra e dentre
FRANK SXAGG
a tua parentela, e dirige-te à terra que eu te mostrar.
4 Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã.
Dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para
esta terra onde vós agora habitais. 5 E não lhe deu
herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prome
teu que lhe daria a posse dela, e depois dêle à sua
descendência, não tendo êle ainda filho. 6 Pois Deus
disse que a sua descendência seria peregrina em terra
estranha e que a escravizariam e maltratariam por
quatrocentos anos. 7 Mas eu julgarei a nação que os
tiver escravizado, disse Deus; e depois disto sairão,
e me servirão neste lugar. 8 E deu-lhe o pacto da cir
cuncisão; assim então gerou Abraão a Isaque, e o
circuncidou ao oitavo dia; e Isaque gerou a Jacó, e
Jacó aos doze patriarcas. 9 Os patriarcas, movidos
de inveja, venderam a José para o Egito; mas Deus
era com êle, 10 e o livrou de tôdas as suas tribula
ções, e lhe deu graça e sabedoria perante Faraó, rei
do Egito, que o constituiu governador sôbre o Egito
e tôda a sua casa. 11 Sobreveio então uma fome a
todo o Egito e Canaã, e grande tribulação; e nossos
pais não achavam alimentos. 12 Mas tendo ouvido
Jacó que no Egito havia trigo, enviou ali nossos pais
pela primeira vez. 13 E na segunda vez deu-se José a
conhecer a seus irmãos, e a sua linhagem tomou-se
manifesta a Faraó. 14 Então José mandou chamar
a seu pai Jacó, e a tôda a sua parentela — setenta
e cinco almas. 15 Desceu, pois, Jacó ao Egito, onde
morreu, êle e nossos pais; 16 foram transportados
para Siquém e depositados na sepultura que Abraão
comprara por certo preço em prata aos filhos de
Emor em Siquém. 17 Ao passo que se aproximava o
tempo da promesa que Deus tinha feito a Abraão, o
povo crescia e se multiplicava no Egito; 18 até que
se levantou ali outro rei, que não conhecia a José.
O jUVBO DE ATOS 137
19 Usando êsse de astúcia contra a nossa raça, mal
tratou a nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus
filhos, para que não vivessem. 20 Nesse tempo nas
ceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três mê-
ses em casa de seu pai. 21 Sendo êle enjeitado, a
filha de Faraó o adotou e o criou como seu próprio
filho. 22 Assim Moisés foi instruído em tôda a sa
bedoria dos egípcios; e era poderoso em palavras e
obras. 23 Ora, quando êle completou quarenta anos,
veio-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de
Israel. 24 E, vendo um dêles sofrer injustamente, de
fendeu-o, e vingou o oprimido, matando o egípcio.
25 Cuidava que seus irmãos entenderiam que por
mão dêle lhes havia de dar a liberdade; mas êles não
o entenderam. 26 No dia seguinte apareceu-lhes quan
do brigavam, e quis levá-los à paz, dizendo: Homens,
sois irmãos; por que vos maltratais um uo outro?
27 Mas o que fazia injúria ao seu próximo o repeliu,
dizendo: Quem te constituiu senhor e juiz sôbre nós?
28 Acaso queres tu matar-me, como ontem mataste
o egípcio? 29A esta palavra fugiu Moisés, e tornou-se
peregrino na terra de Midiã, onde gerou dois filhos. 30
E, passados mais quarenta anos, apareceu-lhe um
anjo no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo
no meio de urna sarça. 31 Moisés, vendo isto, admi
rou-se da visão; e, aproximando-se para observar,
soou-lhe a voz do Senhor: 32 Eu sou o Deus de teus
pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. E Moisés
ficou trêmulo e não ousava olhar. 33 Disse-lhe então
o Senhor: Tira as alparcas dos teus pés, porque o lu
gar em que estás é terra santa. 34 Vi, com efeito, a
aflição do meu povo no Egito, ouvi os seus gemidos,
e desci para livrá-lo. Agora, pois, vem e enviar-te-
ei ao Egito. 35 A êste Moisés que êles haviam repe
lido, dizendo: Quem te constituiu senhor e juiz? a
138 FRANK STAGCr
êste enviou Deus como senhor e libertador, pela mão
do anjo que lhe aparecera na sarça. 36 Foi êste que
os conduziu para fora, fazendo prodígios e sinais na
terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto, por
quarenta anos. 37 Êste é o Moisés que disse aos fi
lhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos ir
mãos um profeta como eu. 38 Êste é o que estêve na
congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no
monte Sinai, e com nossos pais, o qual recebeu pala
vras de vida para vo-las dar; 39 ao qual os nossos
pais não quiseram obedecer, antes o rejeitaram, e em
seus corações voltaram ao Egito; 40 dizendo a Arão:
faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque a
êsse Moisés que nos tirou da terra do Egito,, não sa
bemos o que é feito dêle. 41 Fizeram, pois, naqueles
dias o bezerro, e ofereceram sacrifício aos ídolos, e
alegraram-se nas obras de suas mãos. 42 Mas Deus
se afastou, e os abandonou ao culto das hostes do
céu, como está escrito no livro dos profetas: Por
ventura me oferecestes vítimas e sacrifícios por qua
renta anos no deserto, ó casa de Israel? 43 Antes
carregastes o tabernáculo de Moloque e a estrela
do deus Renfã, figuras que vós fizestes para adorá-
las . Desterrar-vos-ei, pois, para além da Babilônia.
44 Nossos pais tinham no deserto o tabernáculo do
testemunho, como ordenara aquêle que disse a Moi
sés que O fizesse segundo o modêlo que tinha visto;
45 o qual nossos pais, tendo-o por sua vez recebido,
o levaram sob a direção de Josué, quando entraram
na posse da terra das nações que Deus expulsou da
presença dos nossos pais, até os dias de Davi, 46 que
achou graça diante de Deus, e pediu que pudesse pro
videnciar uma habitação para o Deus de Jacó. 47 En
tretanto foi Salomão quem lhe edificou uma casa; 48
mas o Altíssimo não habita em templos feitos por
O LIVRO DE ATOS 139
mãos de homens, como diz o profeta: 49 O céu é o
meu trono, e a terra o escabêlo dos meus pés. Que
casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual o lugar
do meu repouso? 50 Não fêz, porventura, a minha
mão tôdas estas coisas? 51 Homens de dura cerviz,
e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre re
sistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos
pais, assim também vós. 52 qual dos profetas não
perseguiram vossos pais? Até mataram os que dan
tes anunciaram a vinda do Justo, do qual agora vos
tornastes traidores e homicidas, 53 vós, que recebes
tes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes.
54 Ouvindo êles isto, enfureciam-se em seus corações,
e rangiam os dentes contra Estêvão. 55 Mas êle,
cheio do Espírito Santo, fitando os olhos no céu, viu
a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus,
56 e disse: Eis que vejo os -céus abertos, e o Filho
do Homem em pé à direita de Deus. 57 Então
êles gritaram com grande voz, taparam os ou
vidos, e arremeteram unânimes contra êle, 58 e,
lançando-o fora da cidade o apedrejavam. E as tes
temunhas depuseram as suas vestes aos pés de um
mancebo chamado Saulo. 5j9 Apedrejavam, pois, a
Estêvão, que orava, dizendo: Senhor Jesus, recebe o
meu espírito. 60 E, caindo de joelhos, clamou com
grande voz: Senhor, não lhes imputes êste pecado,
tendo dito isto, adormeceu. 61 E Saulo consentia
na morte dêle.”
O Ministério e a Detenção de Estêvão. Estêvão, até
onde os relatos nos informam, de todos os discípulos foi
o primeiro a descobrir a relação do Cristianismo para
com o mundo. Viu primeiro “ a natureza temporária e
incidental da lei mosaica relativa ao templo e a todo o
seu culto.” 1 Reconheceu que gentios e judeus deveriam
1. Rackham, op. cit., pg. 97.
140 FRANK STAGG
unir-se como irmãos em Cristo. Ousou ver, e ousou fa
lar nisso. Assim fazendo, deu a sua vida, mas inaugu
rou uma nova era da História Cristã. Sua obra era niti
damente revolucionária e ia de arrepio à formação de
seus compatrícios e condiscípulos. Foi, porém, fiel no
plano de Cristo.
Não está claro se Lucas tinha em mente uma ou
várias sinagogas de Jerusalém (6:9). A gramática não
esclarece se se trata aqui dum grupo cosmopolita cons
tituindo uma única sinagoga, ou de mais de uma sina
goga. O que está claro é que as idéias apresentadas por
Estêvão receberam violenta reação da parte dos judeus
helenistas, ao ponto de amotinarem o povo e os anciãos
contra Estêvão.
Estêvão foi acusado de “ palavras blasfemas contra
Moisés e contra Deus” (6:11). E’ fácil a gente confun
dir-se com Deus, e é fácil também acusar de blasfemo
àquele que faz pouco de nossas idéias favoritas. Estêvão
abertamente atacou o orgulho nacional e condenou os
preconceitos raciais. Preferindo viver no seu acanhado
mundo, aquêles judeus resolveram silenciar Estêvão.
-Não podendo “ resistir à sabedoria e ao Espírito com
que Estêvão falava” , lançaram mão da violência. E’
muito fácil apelar para os preconceitos do povo, e foi
o que êles fizeram. Acusaram a Estêvão perante o con
cílio de “ estar sempre dizendo palavras contra o lugar
santo e a lei” (6:13). Em parte a acusação era verda
deira, não passando, porém, de capciosa interpretação
do que Estêvão dizia. A defesa de Estêvão (cap. 7) re
vela claramente a posição dêle na questão.
A Defesa de Estêvão. 0$ estudiosos encontram duas
dificuldades especiais no discurso de Estêvão. A primei
ra quanto a numerosos problemas históricos, e a segun
da quanto à importância do discurso em relação às
acusações que lhe foram feitas.
Desde os primeiros séculos se notou haver vários
problemas de natureza histórica neste discurso. A com
paração dêste discurso com o Velho Testamento nos põe
diante de dois problemas: o primeiro, de aparentes dis-
cordâncias; e o segundo, de matérias contidas no discur
so que não encontramos no Velho Testamento. Para
muitos dêstes problemas não encontramos nenhuma res
posta satisfatória.2 Algumas dessas diferenças mui pro-
vàvelmente indicam que ainda não estava definitivamen
te fixado pelo século primeiro o texto do Novo Testa
mento. Estêvão por certo citava alguns ensinos rabíni-
cos do seu tempo. Conquanto não nos satisfaça o dei
xar sem resposta êsses problemas, vemos que êles pouco
têm que ver com a significação do discurso.
Coisa bem mais importante é considerarmos a im
portância do discurso para aquela ocasião. Alguns co
mentadores meio abruptamente concluem que o discurso
não tem pés nem cabeça e que foge às acusações feitas.
Tal conclusão é absurda e deixa transparecer um estudo
superficial e lamentável falta de compreensão dos itens
que interessavam a Estêvão (e Lucas).
Estêvão respondeu às acusações, e foi ainda além ao
assinalar a natureza espiritual e universal da verdadeira
religião. Disseram que êle estava falando contra “ o
lugar santo” e “ contra a lei” , e êle tratou dessas duas
alegações. Êle pôs em dúvida a intepretação judaica do
“ lugar santo” e a importância que davam ao templo.
Demonstrou que êles tinham violado a verdadeira fôrça
da própria lei que alegavam defender. O único que real
mente houvera guardado a lei foi Jesus.
Estêvão, numa revisão da história dos hebreus, de
2. Para um estudo detalhado disto, é bom consultar o Commentary, pg. 71
a 83, de Lake e Cadbury, e a obra citada de Raekham, p g . 99-102. Tera, o pai
deAbraão, morreu depois de êste ter deixado Harã, ou depois? (V e r Atos 7:2
em diante com Gênesis 11:26, 32; 1 2 :4 ) . Israel esteve sob o cativeiro egípcio
400 cu 430 anos? (V er Atos 7:6 com Gênesis 15:13 e Êxodo 12:40.) A fam ília
de Jac6 era de 75 ou de 70 almas? (V er Atos 7:14 com Gên. 46:26, Êxodo 1:5;
Deut. 1 0 :2 2 ). Êstes são apenas alguns dos muitos problemas contidos neste ca
pitulo.
O LIVRO DE ATOS 141
143 FRANK SXAGG
monstrou que Deus nunca se limitara a uma terra e nem
mesmo ao templo de Jerusalém. “ Lugar santo” era
qualquer lugar onde Deus pudesse ser encontrado. Mui
tas das mais caras experiências de seus pais tiveram lu
gar fora da Palestina. Assim, foi na Mesopotâmia que
Deus primeiro falou a Abraão (7:2 ) . Abraão nunca na
realidade possuirá “ nem sequer o espaço de um pé” de
terra em Canaã (7:5). Lake e Cadbury anotam que “ a
fôrça do argumento parece visar destruir o conceito de
que a promessa divina envolvia a posse da Terra San
ta .” 3 A promessa feita a Abraão referia-se não tanto à
terra que seria possuída, ou herdada, e sim à libertação
do Egito e à liberdade para adoração (7:7 ) . 4 Os patriar
cas nasceram antes de Canaã ser possuída. “ E dêste
modo” os patriarcas nasceram antes que houvesse um
“ lugar santo” . A tradução “ assim então” , do versículo
8, perde a ênfase, pois no grego encontramos um advér
bio de modo que deve ser traduzido assim: “ dêste mo
do” , i. é., “ sob estas circunstâncias” .
Jacó viveu grande parte de sua vida no Egito, e ali
morreu, como o fizeram todos os seus filhos (7:15).
Mais tarde Jacó foi enterrado em Siquém, da desprezada
Samaria (7:16). Moisés nasceu no Egito, foi criado pela
filha de Faraó, e instruído segundo a sabedoria dos egíp
cios (7:20-22). Poderíamos perguntar se Moisés, o le
gislador, acaso foi conspurcado pela terra e pelo povo
do Egito! Èle peregrinou em Midiã e ali gerou dois fi
lhos (7:29). E Estêvão podia ainda acrescentar que a
mulher de Moisés era filha dum sacerdote midianita
(Êxodo 2:16-22)! Moisés viveu antes das reformas de
Esdras que impunham o divórcio compulsório a todos
os casados com estrangeiros (Esdras 10:11). Foi no
Monte Sinai, na Arábia, que Moisés recebeu a lei, e foi
rIí também que Deus lhe falou e disse: “ o lugar em que
3. Lake e Cadbury, Commentary, p g . 72.
4. L oc. cit.
O LIVRO DE ATOS 143
estás é terra santa” (7:33). Estava claro, então, que
Deus nunca Se limitara a uma terra só; nenhuma terra
era “ santa” por si mesma.
Acusaram Estêvão de haver dito que Jesus destrui
ria “ êste lugar” — o templo. Sem dúvida alguma, Jesus
e Estêvão falaram da destruição do templo; mas seus
acusadores tomaram o texto sem o contexto e o torce
ram. Estêvão apresentou o fato de que o templo não
representava o plano original de Deus; Êle dera instru
ções para o tabernáculo (7:44), que servia melhor como
simbolo de Sua presença. O tabernáculo não ficava prê-
so a nenhum país e simbolizava melhor a presença uni
versal de Deus. A Salomão se permitiu construir o tem
plo; mas, quando foi dedicado, Deus tornou bem claro
que Êle não podia ser limitado pelo templo (7:48-50).
Estêvão teve também bastante cuidado em lembrar
que Isráel repetidamente se mostrara disposto a rejeitar
o Espirito Santo e os profetas. Os sacerdotes, limitando
a religião aos ritos, e os partícularistas apelando para o
orgulho e os preconceitos raciais, sempre convenciam o
povo, e êste acabava matando os profetas. Mui freqüen
temente há por tôda a parte uma cegueira voluntária
para com a verdade e também o espírilo reacionário se
manifesta à presença de qualquer movimento novo. Os
patriarcas tinham inveja de José e o venderam para o
Egito (7:9). Os ouvintes de Estêvão não teriam dificul
dade alguma em tirar a conclusão de que fôra a sua in
veja para com Jesus que os levara a entregá-IO aos ro
manos. A irmandade de Moisés estava estranhamente
cega ante o seu grande libertador (7:25), assim comô
aqueles dos dias de Estêvão estavam cegos para com Jer
sus, o verdadeiro libertador (ver 7:35-37). A lei do ódio,
pela qual a cegueira voluntária afunda um povo ainda
em cegueira maior, estivera operando em Israel (7:38-
43) . E essa mesma lei se ia manifestar nõs dias de Es
têvão.
144 FRANK STAGG
Por fim, Estêvão disse abertamente, em acusação
direta, que seus acusadores estavam voluntariamente ce
gos e estavam violando a mesma lei de que se diziam
defensores (7:53). Êles, como seus pais, sempre resis
tiam ao profeta que ousasse verberar o seu particular
modo de vida. Em Jesus, a religião do Espirito se encon
trara com a religião da letra, dos rituais, do nacionalis
mo e particularismo estreitos. Em Estêvão, a mensagem
de Jesus estava sendo novamente proclamada. Os ju
deus haviam clamado: “ Crucifique-se a Jesus.” Agora,
clamavam: “ Apedreje-se a Estêvão.”
Estêvão Martirizado. “ Rangendo os dentes contra
Estêvão” , êste olhou e viu a Jesus “ de pé, à direita de
Deus” (7:54). Estêvão se referiu a Jesus como “ o Fi
lho do homem” , fato assaz significativo (7:56). Somente
aqui em o Novo Testamento é que alguém chama a Je
sus como “ o Filho do homem” . Êste era o título fa
vorito que Jesus dava a Si mesmo, e é coisa muito sig
nificativa que Estêvão pensasse então assim em Jesus
naquela hora. Jesus aceitara o título de “ Messias” , mas
não encorajava Seus discípulos a usá-lo porque sugeria
aos judeus uma espécie de glorificação da nação israeli
ta. Êle preferiu o título que sugeria o Seu parentesco
com a humanidade. Êle viera como o Salvador do mun
do, e não para colocar uma nação num plano especial
de privilégios.
Aceita-se hoje em geral que o significado básico de
“ Filho do homem” era homem no sentido de humanida
de . Em Daniel, esta figura representava o povo que cons
titui os santos do Altíssimo, ou o verdadeiro povo de
Deus, não identificado com o Israel nacional. Isto cor
responde à idéia do restante. Mas, o Filho do homem,
sendo o restante e o Servo Sofredor, reduz-se finalmen
te a uma pessoa, Jesus. Êle, e só Êle, provou ser o Fi
lho do homem. Na cruz estêve sozinho; o verdadeiro
O LIVRO DE ATOS 145
Iiomem só existiu nÊle. Mas Jesus não foi só o Filho
do homem. Êle veio para criar o Filho do homem. To
dos quantos, de que raça ou nação fôrem, entrarem
em união com Êle, serão o Filho do homem. Assim, por
gradativa eliminação (humanidade, o Israel nacional, o
restante, Jesus), o Filho do homem só se cumpriu em
Jesus. Em seguida, por inclusão, os discípulos de Jesus
tornaram-se com Êle o Filho do homem. Há outras ana
logias bíblicas (Servo Sofredor, restante, verdadeiro Is
rael, a igreja, o corpo de Cristo) para a mesma idéia,
mas, ao que parece, esta é a mais empregada por Jesus
e reconhecida por Estêvão. (*)
Não está claro se a multidão aqui referida era de
linchamento ou se se trata duma execução legal. A at
mosfera em grande parte sugere tratar-se dum movi
mento da multidão; o ordenado depositar de vestes aos
pés de Saulo nos sugere uma execução regular. As evi
dências não decidem isto. Importa notar o Espírito
de Estêvão ao morrer, dizendo: “ Senhor, não lhes impu
tes êste pecado” (7:60). Quase sempre é verdade que
a bondade e a gentileza pertencem aos herejes, mas fal
tam elas estranhamente a muitos dos defensores da fé.
Aquêles que julgam estar servindo a Deus, em lançando
mão da fôrça física ou legal, na perseguição aos herejes,
não passam de meros egoístas que pensam ser Deus.
Saulo de Tarso estava junto de Estêvão quando
êste foi apedrejado. E’ possível que êle fizesse parte do
grupo que nada conseguira na discussão com Estêvão
na sinagoga. Saulo, como bom fariseu, estaria furioso
com um Evangelho que se intrometia com o “ muro de
ic Para um cuidadoso estudo dêste assunto, veja The Teaching of Jesus da
T. W . Munson (seg. edição, Cambridge University Press, 1948) págs. 227-236;
O . Cullmarm, em Königsherrschaft Christi und Kirche im Neuen Testament
(dritte Auflage, Evangelischer VerlagA . G. Zullikon — Zürich, 1959), p g .
37 em diante; e C . H . Dodd, em The Interpretation of the Fourth Gospel
(Cambridge, University Press, 1953), p g . 241-249.
A .A . 10
146 FRANK STAGG
separação” ; mas, após sua conversão, tornou-se o prin
cipal expositor daquilo por que Estêvão deu a vida.
Nova Perseguição por Saulo, o Fariseu
(8-lb-3)
“ 1 b Naquele dia rompeu uma grande persegui
ção contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos,
exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da
Judéia e da Samaria. 2 E uns liomens piedosos sepul
taram a Estêvão, e fizeram grande pranto sôbre êle.
3 Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas ca
sas e, arrastando homens e mulheres, os entregava
à prisão. ”
Os fariseus agora estavam em campo e assumiam
a chefia do movimento perseguidor. Os saduceus estavam
amedrontados ante aquilo que ju gavam ser uma potencial
revolta messiânica contra Roma. Isto deixou impassí
veis os fariseus; mas, a ênfase dada por Estêvão ao ca
ráter espiritual da religião e ao interêsse de Deus pela
humanidade em detrimento da nação, ou da raça, era
coisa insuportável para êles. 0 orgulho nacionalista e
os preconceitos de raça, mascarados de ortodoxia e pie
dade, inauguraram uma inquisição e perseguição de na
tureza animalesca. “ Assolava” (8:3) é verbo que nos
dá uma pálida idéia da ação de Saulo. Êste devastava
a igreja como um animal selvagem. 0 zêlo religioso dêle,
não obstante seu elemento de sinceridade, era paixão
cega que se expressava com condenável sadismo.
A afirmativa de Lucas, de que todos foram disper
sos “ exceto os apóstolos” (8:1) tem deixado perplexos
muitos leitores dos Atos. Êste dado, porém, adapta-se
perfeitamente ao padrão do livro todo. Esta nova per
seguição sob a chefia de Saulo tinha um caráter inteira
mente diverso e visava um grupo especifico: o de todos
O LIVRO DE ATOS 147
quantos ousavam admitir a idéia liberal de Estêvão. Pro-
vàvelmente os doze não foram molestados então, porque
não pregavam nada que ofendesse os defensores do “ muro
de separação” . Os doze permaneciam ainda judeus —
judeus cristãos. Estavam no templo e nas sinagogas co
mo se estivessem em casa, e estavam também ainda aguar
dando que “ o Senhor restaurasse o reino a Israel” (1:6).
Nenhuma das iniciativas de pregar-se o Evangelho aos
samaritanos ou aos gentios foi tomada pelos doze. Aqui
lo que Filipe realizou com alegria e calor os doze inves
tigaram com ansioso cuidado. Só aos poucos, grada ti-
vamente, é que os doze acertaram o caminho — ou vi
ram-se forçados a admitir as verdades pelas quais Es-
iêvão chegou a dar sua vida e as quais Filipe entusiàsti-
camente anunciava.
Pergunta-se como foi possível desencadear-se uma
perseguição destas em território governado por Roma.
Lake e Cadbury sugerem que “ mesmo que fôsse verda
de que a lei romana a proibisse, podia bem dar-se o caso
de a administração romana ser conivente com aquilo.” 5
0 próprio Paulo reconheceu as perseguições (Gál. 1:
13, 22; I Cor. 15:9; Fil. 3:6; I Tim. 1:13), conquanto
as declarações de suas Cartas não afirmem que eram
“ para morte” . Parece que Roma guardava para si a
sentença de morte, e que o sinédrio tinha também al
guma autoridade de sentenciar à morte quando se trata
va de questões religiosas, devendo, porém, tal sentença
ser submetida à aprovação de Roma.
O entêrro de Estêvão foi feito provàvelmente por
judeus devotos que não eram cristãos. Não devemos es
quecer que havia judeus não cristãos que condenavam
a cegueira que assassinou a Estêvão. Também devemos
lembrar que os pioneiros do universalismo eram judeus.
5. Lake e Cadbury, em Commentary, pg. 86.
148 IKANK STAGG
Jesus era judeu; os profetas que vieram antes dÊle eram
de Israel,6 e os homens, como Estêvão, que O seguiram
eram também judeus. Eram judeus (ou israelitas) que
\iram que o monoteísmo tinha como seu inevitável co
rolário o universalismo; um só Deus exigia um mundo
só. Lucas nos narra a triste história dêsses judeus amar
rados a um acanhado credo racista e cegados pelo or
gulho e preconceitos; mas também nos fala de judeus
que indicaram novos rumos para a humanidade. Os
anti-semitas modernos devem lembrar disto.
Filipe Prega Livremente aos Samaritanos e ao Etíope
(8:4-40)
, Filipe em, Samaria (8:4-13)
“ 4 No entanto os que foram dispersos iam por
tôda parte, anunciando a palavra. 5 E descendo Fili
pe à cidade de Samaria, pregava-lhes a Cristo. 6 As
multidões escutavam, unânimes, as coisas que Filipe
dizia, ouvindo-o e vendo os milagres que operava;
7 pois saíam de muitos possessos os espíritos imun
dos, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e co
xos foram curados; 8 pelo que houve grande alegria
naquela cidade.
9 Ora, estava ali certo homem chamado Simão,
que vinha exer-cendo naquela cidade a arte mágica,
fazendo pasmar o povo de Samaria, e dizendo ser
êle um grande homem; 10 ao qual todos atendiam,
desde o menor até o maior, dizendo: Êste é o Poder
de Deus que se chama Grande. 11 Êles o atendiam
porque já desde muito tempo os vinha fazendo pas
mar com suas artes mágicas. 12 Mas, como cressem
em Filipe, que lhes pregava acêrca do reino de Deus
e do nome de Jesus, bafizavam-se, homens e mulhe
6. A palavra “ judeu’ * não pode ser empregada corretamrnta paro indicar
o período anterior ao exílio.
O LIVRO BE ATOS 149
res. 13 E creu até o próprio Sinião, e, sendo batiza
do, ficou de contínuo com Fíiipe; e admirava-se, ven
do os sinais e os grandes prodígios que se faziam.”
As palavra traduzida por “ dispersos” é têrmo usa
do para indicar sementeira, semeadura. A verdade do
provérbio nasceu disto: “ O sangue dos mártires é a se
menteira da igreja.” Esta perseguição dos cristãos re
dundou em lucro.
Filipe, um dos gregos, pregou livremente aos sama-
ritanos. Isto é coisa admirável quando lembramos a
amargura que separava naqueles dias os judeus dos sa-
maritanos. Êstes eram desprezados por haverem mistu
rado o seu sangue através de casamentos com pessoas
que não pertenciam a Israel. Como se haviam esqueci
do então de que tôda a raça humana se mistiçara? 0
Velho Testamento claramente mostra que houve sempre
casamentos mistos até o tempo de Esdras. Moisés casou-
se com uma midianita; Jacó teve filhos de Bilha e de
Zilpa, servas de Raquel e de Léia (Gên. 29:24, 29); Judá
ieve filhos, Er e Onã, duma mulher cananita (Gên. 38:
2-4); os filhos de José nasceram de Asená, filha do sacer
dote (ou príncipe) de On (Gên. 41:45); Davi era des
cendente de Rute, u’a moabita; Salomão teve inúme
ras mulheres estrangeiras; e assim por diante. A longa
lista de casamentos mistos que temos no capítulo dez de
Esdras nos dá uma idéia da grande extensão de tais casa
mentos . Mas o orgulho e os preconceitos não olham para
os fatos, e preferem incentivar os interêsses egoísticos,
mesmo à custa de fícções. A atitude dos samaritanos não
era nada melhor que a dos judeus. Nem era única tam
bém, porque a estupidez dos preconceitos é peculiar à
raça humana e dela faz parte.
Simão, o Mago, deveria ter engendrado um sistema
de emanação, julgando-se “ o poder de Deus” . A natureza
exata de seus ensinos não nos é clara. Era um mágico,
150 FRANK STAGG
e tinha u’a multidão de seguidores. Justino, o Mártir,
julgou que houvesse em Roma uma estátua em homena
gem a êle; mas hoje sabemos que Justino se enganou
quanto à inscrição. Julgam os pais da igreja, dos séculos
segundo e terceiro, que êste Simão do Livro dos Atos foi
o fundador duma seita gnóstica, mas não está provado.
E’ certo, porém, que êle representava um falso espiritua
lismo que ficou assim desmascarado. A verdadeira reli
gião do Espírito ficou claramente exposta como bem dis
tinta do falso espiritualismo. Êste Simão “ creu” e foi
batizado. Êle aceitou como fatos os milagres realizados
por Filipe, e também como fato o Poder que estava por
trás daqueles sinais. Contudo, não se “ converteu” . A ra
zão básica, antes e depois que “ creu” , foi o egoísmo.Mes
mo em religião êle tentou satisfazer seus interêsses egoís
tas, e para êles êstes não passavam de uma sublimação
da própria essência da depravação. Nada entendia da
Cruz com sua abnegação. Não mostrou o menor desejo
de “ ser crucificado com Cristo” .
Pedro em Samaria (8:14-25)
“ 14 Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusa
lém, tendo ouvido que os de Samaria haviam recebi
do a palavra de Deus, enviaram-lhes a Pedro e a João;
15 os quais, tendo descido, oraram por êles, para
que recebessem o Espírito Santo. 16 Porque sôbre
nenhum dêles havia Êle descido ainda; mas somente
tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus.
17 Então lhes impuseram as mãos, e êles receberam
o Espírito Santo. 18 Quando Simão viu que pela
imposição das mãos 'dos apóstolos se dava o Espíri
to, ofereceu-lhes dinheiro, 19 dizendo; Dai-me tam
bém a mim êsse poder, para que aquêle a quem eu
impuser as mãos, receba o Espírito Santo. 20 Mas
disse-lhe Pedro: Vá tua prata contigo à perdição, pois
O L IV R O DE ATOS 151
cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. 21
Tu não tens parte nem sorte neste ministério, por
que o teu coração não é reto diante de Deus. 22
Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao
Senhor para que porventura te seja perdoado o pen
samento do teu coração; 23 pois vejo que estás em
fel de amargura, e em laços de iniqüidade. 24 Res
pondendo, porém, Simão, disse: Rogai vós por mim
ao Senhor, para que nada do que haveis dito venha
sôbre mim. 25 Êles, pois, havendo testificado e fala
do a palavra do Senhor, voltando para Jerusalém
evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos. ”
Os apóstolos ainda permaneciam em Jerusalém quan
do Filipe levou o Evangelho aos samaritanos. Ainda que
simpatizando aparentemente com o desenvolvimento, os
apóstolos não o iniciaram. Admira-nos notar que aque
les samaritanos creram e “ foram batizados em nome do
Senhor Jesus” (8:12, 16), sem haverem recebido o Espí
rito Santo (8:15). A convicção de pecado ou a disposição
para se confiar em Jesus indica sempre um esforço do
Espírito junto ao espírito humano. E’ possível que Lu
cas quisesse dizer que nao se tratava de ü’a manifestação
do Espírito igual àquela do Pentecostes, enquanto Pedro
e João não tinham realizado a imposiçãó de mãos sôbre
êles. Se isto é verdade, então podemos ver aqui um mo
delo: houve no dia de Pentecostes um grande derrama
mento do Espírito Santo em Jerusalém; e houve derra
mamentos semelhantes quando foram alcançados os sa
maritanos, os gregos tementes a Deus em Cesaréia, e os
discípulos de João Batista em Éfeso. 7 Cada uma dessas
significativas etapas do desenvolvimento foi divinamente
legalizada. Não se pode concluir desta passagem dos Atos
que a imposição das mãos dos apóstolos fôsse coisa in
dispensável ao recebimento do Espírito Santo. A história
7. V er Rackham, op. c i t„ pg. 117.
iS ã e^ANK SXAGG
que se segue a esta, nos relata a conversão do etíope —
sem a presença de qualquer apóstolo, e sem qualquer alu
são à imposição de mãos; não obstante, o Espírito Santo
desceu certamente sôbre o etíope. Também o Espírito
Santo desceu sôbre Cornélio e sôbre os que com êle esta
vam sem que houvesse a imposição de mãos.
Conquanto Deus deseje honrar a fé pura e também
o simbólico ato da imposição das mãos, é fato que êsse
dom de Deus não pode ser negociado (8:20). A tentativa
de Simão, de comprar êsse Poder, deixou claro que o co
ração dêle não era reto para com Deus, e êle não se ar
rependeu. Simão havia descido a tais profundezas da
depravação que em seu egocentrismo tentou adquirir o
poder de Deus para promover interesses egoísticos. O
cúmulo da depravação é essa disposição de se colocar o
eu no lugar que só a Deus pertence, e essa iniqüidade tem
sua expressão mais crua quando invade o terreno da reli
gião para buscar o auxílio dela na exaltação do ego.
E’ prova de progresso na atitude de Pedro e João o
fato de pregarem o Evangelho em muitas aldeias dos sa-
maritanos (8:25). João certa vez desejara botar fogo ne
las (Lucas 9:54). O grego, do original, indica que êste é
o princípio dum novo parágrafo e que os versículos 25 e
26 estão ligados. Isto quer dizer que êste “ êles” inclui
Filipe. 8 Isto provàvelmente explica o esforço adicional
junto aos samaritanos.
Desimpedido: O Eunuco Etíope, um Grego Temente a Deus
(8:26-40)
“ 26 Mas um anjo do Senhor falou a Filipe, di
zendo: Levanta-te, e vai em direção do sul pelo ca
minho que desce de Jerusalém a Gaza, o qual está
deserto. 27 E levantou-se êle e foi; e eis que um etío-
8. Lake e Cadbury, Commentary, pg. 95.
O LIVRO DE ATOS 153
pe, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos
etíopes, o qual era superintendente de todos os seus
tesouros e tinha ido a Jerusalém para a d o r a r , 28 re
gressava, e sentados no seu. carro, lia o profeta Isaías,
29 Disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a
êsse carro. 30 E., correndo Filipe, ouviu que lia o
profeta Isaías, e disse: Entendes, porventura, o que
estás lendo? 31 Êle respondeu: Pois como poderei
entender, se alguém não me ensinar? e rogou a Fi
lipe que subisse e com êle se sentasse. 32 Ora, a pas
sagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi
levado como a ovelha ao matadouro, e, como está
mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim êle
não abre a bôca. 33 Na sua humilhação foi tirado
o seu julgamento; quem contará a sua geração? por
que a sua vida é tirada da terra, 34 Respondendo o
eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o
profeta? de si mesmo, ou de algum outro? 35 Então
Filipe, abrindo a bôca e começando por esta escritura,
anunciou-lhe a Jesus.36 E, indo eles caminhando,
chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco:
Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? 37
E disse Filipe: E’ líçito se crês de todo o coração.
E, respondendo êle, disse: Creio que Jesus Cristo é
o Filho de Deus. 38 Mandou parar o carro, e desceram
ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e aquêle
o batizou. 39 Quando sairam da água, o Espírito do
Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco,
que jubiloso seguia o seu caminho, 40 Mas Filipe
achou-se em Azôto e, percorrendo tôdas as cidades,;
vinha pregando o Evangelho, até que chegou a Ce-
saréia. ”
Isto marca a terceira grande área alcançada pelo
Evangelho: primeiro os judeus somente; depois, os sama-
ritanos, que eram de sangue mestiço; e agora, os gregos
154 FRANK STAGG
tementes a Deus. 0 etíope e Cornélio são representantes
dêste terceiro grupo. Eram gentios que estudavam o ju
daísmo, mas que ainda não se tinham tornado prosélitos.
0 quarto grupo, os pagãos sem qualquer experiência do
judaísmo, deveria ser ainda alcançado. O carcereiro de
Filipos seria o primeiro representante dêste úllimo grupo.
0 etíope era um grego temente a Deus. Não se de
clara que êle não era judeu, mas isso está por certo implí
cito. Fôra a Jerusalém a adorar (8:27) e estava lendo
a septuaginta — o Velho Testamento em grego — já de
volta para a Etiópia (Abissínia).
Havia um grande grupo de gentios que eram chama
dos de “ tementes a Deus” . Sentiam-se atraídos para o
judaísmo por causa do seu monoteísmo, de sua moral ele
vada e de seus ensinos moralizadores. Muitos tinham
perdido a fé nos deuses do império, e sentiam-se mal com
a imoralidade resultante dos cultos pagãos. Grande nú
mero de gentios voltou-se para as sinagogas. Alguns in
gressaram no judaísmo com prosélitos, e outros ficavam
como que às portas. Para tornar-se prosélito, o candida
to devia circuncidar-se, batizar-se e oferecer certos sacri
fícios. Também devia admitir que o judaísmo era tanto
uma nação como uma religião. O prosélito tornava-se
parte da nação judaica e também da religião judaica. O
etíope e Cornélio pertenciam ao grupo dos tementes a
Deus. A primitiva expansão do Cristianismo se proces
sou entre os dêste grupo. O Cristianismo oferecia o mes
mo monoteísmo, os mesmos padrões morais, e mais ain
da: não exigia que êles se identificassem comum grupo
nacionalista e particularista.
O entusiasmo de Filipe ao pregar ao etíope contrasta
fundo com a relutância de Pedro em pregar a Cornélio.
Filipe “ correu para êle” (8:30) e não perdeu tempo, con
tando-lhe logo “ as boas novas de Jesus” (8:35), começan
do pela passagem de Isaías.
O LIVRO DE ATOS 155
O ponto principal que Lucas mais desejava apresen
tar parece estar contido na pergunta do etíope, quando
disse: “ Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?”
O etíope certamente havia encontrado impedimentos para
circuncidar-se e fazer-se judeu. Era eunuco, e dada a sua
mutilação física mui provàvelmente lhe tinham negado
o privilégio de tornar-se um prosélito do judaísmo. De
vemos lembrar disto à luz do ponto de vista sacerdotal
expresso em Deuteronômio 23:1. 0 ponto de vista profé
tico era bem diverso (Isaías 56:3 em diante), mas pro
vàvelmente não prevalecia frente ao sacerdotal. A posi
ção em Isaías não garantia inteira admissão como prosé
lito, e sim uma bênção especial para quantos observassem
o sábado. O interêsse do eunuco, agora, visto que Filipe
o levara a uma nova experiência religiosa, se voltava para
a técnica que poderia impedir fôsse êle batizado: “ Que
há que possa impedir seja eu batizado?” Filipe nada tinha
a dizer sôbre a raça, a nacionalidade, a mutilação física,
ou sôbre qualquer outra coisa de natureza exterior, arti
ficial, ou superficial. O que Filipe esperava era a prova
de que o etíope confiava em Jesus; e, logo que a obteve,
batizou-o. 9 Um gentio temente a Deus, impedido de tor
nar-se judeu em virtude duma mutilação física, podia fa
zer-se discípulo de Jesus. Era uma questão de experiência
espiritual, e não de raça ou de ritos.
“ Desimpedidamente” é a exclamação final dos dois
volumes de Lucas. O etíope também estava “ desimpedi
do” em seu pedido de batismo. A pergunta — “ Que me
impede?” — traz a mesma palavra, no original grego,
com que se fecha o Livro dos Atos. Aqui a palavra é um
verbo — koluei; a palavra final dos Atos é um advérbio —
9. Os peritos em crítica textual admitem, todos, que o versículo 37 não fax par
te dos melhores manuscritos. O versículo diz assim (com certas variações nos
m anuscritos): “ E F ilipe disse: "S e crêres de todo o coração, é l í c i t o / ' E êfa
respondeu: ‘ Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.” ' Conquanto o ver»l-
culo seja indubitavelmente uma adição co texto, feita por algum escriba, êle
interpreta acuradamente o pensamento dé Filipe e do etiope.
156
(
FRANK STAGG
akolutos. A idéia expressa por estas palavras é justamen
te a coisa pela qual Lucas mais se mostrava interessado.
Êle narrou a história de como o Evangelho foi libertado
e de como êle libertou homens de tôdas as classes e raças.
“ Desimpedido” foi o assunto que o empolgou. Só pode
rá apreciá-lo bem aquêle que também é libertado — do
pecado, do ego, do estreito nacionalismo, do provinciona-
lismo e do particularismo, bem como do orgulho e dos
preconceitos raciais — e quando em Cristo Jesus se sen
te ligado à humanidade e à eternidade!
Estivesse Lucas interessado em traçar a expansão geo
gráfica do Cristianismo, teria aqui uma ótima oportuni
dade. Que é que aconteceu na Etiópia, após o regresso
do eunuco? Lucas deixa a narrativa neste ponto, deixa
cair o pano, porque seu interêsse estava voltado para
outras coisas. A êle não interessavam as barreiras geográ
ficas, e sim as nacionais, raciais, legais e ritualistas.
A Conversão de Saulo, Sua Comissão, e como Foi Recebido
(9:1-30)
A Conversão de Saulo (9:1-9)
“ 1 Saulo, porém, respirando ainda ameaças e
mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao
sumo sacerdote, 2 e pediu-lhe cartas para Damasco,
para as sinagogas, a fim de que, caso encontrasse al
guns do Caminho, quer homens quer mulheres, os
conduzisse presos a Jerusalém. 3 Seguindo viagem
e aproximando-se ide Damasco subitamente o cercou
um resplendor de luz do céu, 4 e, caindo em terra,
ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que
me persegues? 5 Êle perguntou: Quem és tu, Senhor?
Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu per
segues; 6 mas levanta-te e entra na cidade, e lá te
será dito o que te cumpre fazer. 7 Os homens que
viajavam com êle quedaram-£e emudecidos, ouvindo,
O LIVRO DE ATOS 157
na verdade, a voz, mas não vendo ninguém. 8 Saulo
levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via coisa
alguma; e, guiando-o pela mão, conduziram-no a
Damasco. 9 E estêve três dias sem ver, e não comeu
nem bebeu.”
Êste é o primeiro dos três relatos da conversão de
Saulo no Livro dos Atos (caps. 22 e 26). Em suas Car
tas Paulo reconhece que “ perseguiu a igreja de Deus vio
lentamente e tentou destruí-la” (Gál. 1:13; Fil. 3:6),
que foi extremadamente zeloso pelas tradições de seus pais
(Gál. 1:14), que seus primeiros dias de cristão passou-os
ao redor de Damasco (Gál. 1:17), que viu a Jesus, nosso
Senhor (I Cor. 9:1; 15:8), e que teve uma notável visão
(II Cor. 12:1 em diante). Conquanto encontremos pe
quenas diferenças nesses relatos,10 não há dúvida de que
Saulo se encontrou com o Senhor ressurrecto perto de
Damasco e que ali seu caráter e vida se transformaram.
O “ velho homem” foi esmigalhado e cedeu lugar ao novo
Iiomem em Cristo.
Saulo era um judeu de Tarso, cidade de grande cul
tura, e, em todo o império, sobrepassada somente por Ate
nas e Alexandria. Mui dificilmente êle teria escapado à
influência da cultura grega, embora como fariseu (Fil.
3:5) seja improvável tenha êle estudado em escolas gre
gas. Conquanto judeu helenista, por virtude da cultura
grega a que não pôde escapar, por escolha e por tradição
familiar era “ um hebreu nascido de hebreus” (Fil. 3:5).
Tinha facilidade em usar o hebraico, o aramaico e o gre
go . Sua família era bastante rica e assaz proeminente ao
ponto de alcançar para êle o privilégio de estudar aos pés
10. Surge um problema quando comparamos Ates 9:7 — "ouvindo a voz, mas
não vendo ninguém” — e Atos 22:9 — “ não ouviram a voz do que falava com i
g o ’ ’ . Pode, no entanto, scr resolvido pela gram áfea grega: em 9 :7 o caso ge
nitivo vem após a palavra “ ouvindo” ; em 22:9 aparece o caso acusativo, com
o dito verbo. O acusativo usualmente trtz a idéia de entender, quando o genitivo
p^de sòmente refletir a percepção do som. Pcdemo^ fazer esta distinção no
grego e possivelmente se tencionava isto nos Ates. Porém, deve admit’r-se que
no grego do N ovo Testamento nem sempre se mantém esta distinção.
158 FRANK STAGG
de Gamaliel, o grande fariseu de Jerusalém. A irmã de
Saulo residia em Jerusalém e parece que tinha acesso às
famílias dos sumo sacerdotes (Atos 23:16 em diante).
Por nascimento era cidadão romano; é provável que o
pai dêle tivesse sido honrado com êsse direito da cidada
nia em paga de importantes serviços prestados. Seu nome
hebreu era Saulo, muito semelhante ao nome latino Pau-
lus, que êle usava como cidadão romano. Como soía acon
tecer com todos os filhos de judeus bem educados, êle
devia ter uma profissão. Provàvelmente Saulo era fa
bricante de tendas. 11
Certamente várias influências concorreram para a for
mação do Apóstolo Paulo: seu fundo judaico, a influên
cia grega, seu contato antes da conversão com os segui
dores de Jesus, bem como outras fôrças e fatores. Sem
dúvida, o elemento mais importante em sua conversão e
viver subseqüente foi o seu encontro pessoal com o pró
prio Jesus. O cerne da teologia de Paulo foi essa relação
“ em Cristo” , ou o “ Cristo em vós” . 12 Para Paulo, como
para João, a união vital de Cristo com o crente era coisa
real e de importância total. E essa convicção estava radi
cada na experiência que tivera de Jesus em Damasco.
Muitas vêzes se tem levantado dúvidas acerca da pos
sibilidade de se efetuarem prisões em Damasco por parte
dum representante do sinédrio de Jerusalém. Isto parece
ter sido permitido, visto que Roma concedera aos judeus
o direito de extraditar os judeus malfeitores. 13 Se pode
mosacreditar em I Macabeus 15:15-21, fôra escrita uma
carta por Lúcio, cônsul dos romanos, ao rei Ptolomeu,
dizendo que “ se qualquer perverso fugisse do seu país
(o dos judeus) para o vosso, o entregasse ao sumo sacer
dote Simão para que o punisse conforme a lei dêles.” (*)
11. V eja abaixo, pg. 262.
12. Veja o excedente estudo cíêste assunto em A Man in Christ, de Jcm es S.
Stewart (Londres, Hodder & Stoughton, 1935) .
13. V eja Lake Cadbury, Commentary, pg. 99.
*k Vers. 21, em The Apocrypha, an Am erican Trans^aiiov, de Edgar J . Gcod-
gpeed (Chicago, The University o f Chicago Press, 1939) .
O LIVRO DE ATOS 15»
E’ verdade que isto diz respeito à época dos Macabeus;
mas é possível que êsse mesmo poder de extraditar judeus
fugitivos fôsse ainda um direito do sinédrio nos dias de
Saulo.' Josefo (Antiquities xiv, 10,2) fala duma carta que
prova que Júlio César estendera os privilégios do ofício
do sumo sacerdote a Hircano. Possivelmente Paulo pre
tendia prender os seguidores de Jesus que tinham fugido
à perseguição desencadeada em Jerusalém.
Saulo Comissionado e Batizado (9:10-19a)
“ 10 Ora, havia em Damasco certo discípulo cha
mado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ana-
nias! Respondeu êle: Eis-me aqui, Senhor. 11 Orde
nou-lhe o Senhor: Levanta-te, vai à rua chamada Di
reita e procura em casa de Judas um homem de Tar
so chamado Saulo; pois eis que êle está orando; 12
e viu um homem chamado Ananias entrar e impor-
lhe as mãos, para que recuperasse a vista. 13 Res
pondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi acerca dêsse
homem, quantos males tem feito aos teus santos em
Jerusalém; 14 e aqui tem poder dos principais sacer
dotes para prender a todos os que invocam o teu
nome. 15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque
êste é para mim um vaso escolhido, para levar o meu
nome perante os gentios, e os reis, e os filhos de Is
rael; 16 pois eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre
padecer pelo meu nome. 17 Partiu Ananias e entrou
na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo,
o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por
onde vinhas, enviou-me para que tornes a ver e seja.s
cheio do Espírito Santo. 18 Logo lhe cairam dos olhos
como que umas escamas, e recuperou a vista; e, le
vantando-se, foi batizado. 19 E, tendo tomado ali
mento, ficou fortalecido.”
Os seguidores de Jesus que moravam em Damasco
ainda não se tinham separado das sinagogas. Ananias,
FRANK STAGG
que foi enviado ao encontro de Saulo, era “ um varão pie
doso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos
os judeus que ali moravam” (22:12). Parece que só mais
tarde é que surgiu a hostilidade dos judeus para com os
discípulos de Jesus.
A comissão de Saulo é coisa mui significativa: deve
ria levar o Evangelho “ aos gentios, e reis, e aos filhos de
Israel” (9:15). 0 seu ministério deveria ser proeminen
temente exercido entre os gentios, embora sem exclusão
dos judeus. Paulo jamais deixou de interessar-se pelos ju
deus e nunca deixou de procurar ganhá-los. Só quando
se viu forçado a escolher entre o judeu e o gentio, é que
resolveu voltar-se para o gentio. O desejo dêle era servir
nos dois como a um povo só. Seu ministério incluía tam
bém levar o Evangelho a reis, procônsules, asiarcas, e
possivelmente ao imperador. Paulo sentia-se bem tanto
junto ao povo humilde da lide diária como junto dos che-
íes nacionais. A comissão dêle também incluía a cruz:
teria que sofrer por seu Senhor (9:16).
“ Caíram-lhe dos olhos como que umas escamas” (9:
18) em Dámasco. Saulo viu a Jesus pela primeira vez,
em Sua verdadeira posição. Viu também a humanidade
a uma luz inteiramente nova. Aquêle cujo teor de vida
êle houvera tentado destruir agora Se tornava Senhor
dêle. E’ também de enorme importância e significado ob
servar que os olhos dêle se abriram para enxergar a fa
lácia do dito “ muro de separação” que êle buscava sus
tentar .
A Recepção de Saulo em Damasco e em Jerusalém
(9:19b-30)
“ 19b Depois demorou-se alguns dias com os dis
cípulos que estavam em Damasco; 20 e logo nas si
nagogas pregava que Jesus era o Filho de Deus. 21
O LIVRO DE ATOS 161
Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Não é
êste o que em Jerusalém perseguia os que invocavam
êsse nome, e para isso veio aqui, para os levar pre
sos aos principais sacerdotes? 22 Saulo, porém, se
fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que
habitavam em Damasco, provando que Jesus era o
Cristo. 23 Decorridos muitos dias, os judeus delibe
raram entre si matá-lo. 24 Mas as suas ciladas vie
ram ao conhecimento de Saulo. E como êles guarda
vam as portas de dia e de noite para tirar-lhe a vida,
25 os discípulos, tomando-o de noite, desceram-no
pelo muro, dentro de um cêsto. 26 Tendo Saulo che
gado a Jerusalém, procurava juntar-se aos discípu
los, mas todos temiam, não crendo que fôsse discí
pulo. 27 Então, Barnabé, tomando-o consigo, o le
vou aos apóstolos, e lhes contou como no caminho
êle vira o Senhor e que êste lhe falara, e como em
Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus.
28 Assim andava com êles em Jerusalém, entrando
e saindo, 29 e pregando ousadamente em nome do
Senhor. Falava e disputava também com os hele-
nistas; mas êles procuravam matá-lo. 30 Os irmãos,
porém, quando o souberam, acompanharam-no até
Cesaréia e “ o enviaram a Tarso.”
Depois de alguns dias, certamente de ajustamento e
para conhecer seus novos correligionários, Saulo nas si
nagogas anunciava a Jesus como o Filho de Deus (9:20).
Todos quantos o ouviam pasmavam ao verem a mudança
radical por que Saulo passara. Evidentemente aquêles
que “ pasmavam” eram judeus incrédulos. Importa ob
servar que ainda neste ponto, tanto em Damasco como
em Jerusalém, os discípulos realizavam seus cultos nas
sinagogas e que nelas podia-se pregar a Jesus como o Filho
de Deus e o Cristo.
A situação, porém, se mudou "quando se passaram
li
163 FRANK STAGG
muitos dias” (9:23). Aí tramaram uma cilada para ma
tar a Saulo. 14 Por que tal mudança de atitude dos ju
deus incrédulos? Evidentemente Saulo trouxera um novo
elemento às suas predicas em Damasco. O pregar que
Jesus era o Cristo, o Filho de Deus, certo não precipita
ria nenhuma perseguição, mas neste ponto, algo do ensino
de Saulo ifêz boa diferença. Será que Saulo estava incutin
do algo das elevadas visões de Estêvão naquele ambiente
de Damasco? Não foi o fato de se pregar que Jesus era o
Cristo, o Filho de Deus, que afinal iria dividir os judeus
dos cristãos, e sim o pregar-se ser Êle o Filho do Homem
e-m Quem seriam suplantadas as diferenças raciais.
O mêdo que os discípulos de Jerusalém tinham de
Saulo nos dá mais uma prova de que as perseguições que
estavam sofrendo eram assaz violentas. Barnabé mos
trou-se, -como sempre, corajoso e sincero, e Saulo lhe ficou
devendo muito por isso. O atrito maior que Saulo teve em
Jerusalém foi com os helenistas, e êle certamente já espe
rava isso. Como dantes se percebera, as influências rece
bidas pelos judeus helenistas poderiam torná-los mais li
berais para com os gentios, ou poderiam incutir nêles um
espírito reacionário que faria dêles os mais fanáticos cam
peões da separação.
Plaz e Crescimento (9:31)
“ 31 Assim, pois, tinha a igreja paz em toda a Ju-
déia, Galiléia e Samaria, e era edificada; e, andando
no temor do Senhor e na consolação do Espírito San
to, se multiplicava.”
Vários fatores devem ter-se conjugado para propinar
paz à igreja de “ tôda a Judéia, Galiléia e Samaria” . No
14. Lucas não faz referência alguma aos anos <*ue Saulo passou na Arábia
(Gál. 1 :1 7 ), bem como silencia a respeito da idade de Saulo. Lucas não está fa
zendo a biografia de Saulo. O versículo 23 pode ser uma velada referência ao
tempo passado na A rábia .
O LIVRO DE ATOS 163
ano 38 desencadeou-se uma perseguição contra os judeus
em Alexandria, e no ano 39 o imperador Calígula orde
nou que sua estátua fôsse colocada no templo. Êsses ter
ríveis acontecimentos naturalmente desviaram a atenção
para outrosetor que não o dos cristãos. Mas, a remoção
de Saulo para Tarso foi talvez o maior fator. Quando ho
mens da têmpera de Estêvão, de Filipe e de Saulo esta
vam fora do cenário, os discípulos tinham poucas difi
culdades com os judeus incrédulos (ver Atos 21:17-26).
Nos melhores manuscritos encontramos a palavra
“ igreja” no singular, conquanto haja forte base para o
plural “ igrejas” . O singular encara os discípulos como
uma nova humanidade em Cristo, ou o corpo de Cristo,
sem qualquer referência a um sistema eclesiástico. Ò
plural indica corporações locais separadas. O Novo Tes
tamento usa a palavra “ igreja” somente nesses dois sen
tidos: indicando ou a assembléia local, ou o todo da Cris
tandade, sem referência à organização.
Os Apóstolos São Levados a Reconhecer os Gentios Incir-
cuncisos
(9:32 a 11:18)
Pedro em Lida e Jope (9:32-43)
“ 32 E aconteceu que, passando Pedro por tôda
parte, veio também aos santos que habitavam em
Lida. 33 Achou ali certo homem, chamado Enéias,
que havia oito anos jazia numa cama, pprque era pa
ralítico. 34 Disse-lhe Pedro: “ Enéias, Jesus Cristo
te sara; levanta-te e faze a tua cama. E logo se le
vantou. 35 e viram-no todos os que habitavam em
Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.
36 Havia em Jope uma discípula por nome Ta-
bita, que em grego quer dizer Dorcas, a qual estava
164 FRANK STAGG
cheia de boas obras e esmolas que fazia. 37 Ora,
aconteceu naqueles dias que ela caiu doente e mor
reu; e, tendo-a lavado, a colocaram no cenáculo. 38
Como Lida era perto de Jope, ouvindo os discípulos
que Pedro estava ali, enviaram a êle dois homens,
rogando-lhe: Não te demores em vir ter conosco.
39 Pedro levantou-se e foi com êles; assim que che
gou, levaram-no ao cenáculo; e tôdas as viúvas o cer
caram, chorando e mostrando-lhe as túnicas e vesti
dos que Dorcas fizera enquanto estava com elas. 40
Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pôs-se de joelhos
e orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, le
vanta-te . Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-
se. 41 Êle, dando-lhe a mão, levantou-a e, chamando
os santos e as viúvas, apresentou-lha viva. 42 Tor
nou-se isso notório por tôda Jope, e muitos creram
no Senhor. 43 Pedro ficou muitos dias em Jope, em
casa de um curtidor chamado Simão.”
O ministério de cura serve para voltarmos novamen
te a atenção para Pedro e aqueles com quem estêve intima
mente associado. Os milagres eram atos de misericórdia e
instrumentos para a conversão de muitos. Não há referên
cia nenhuma aqui a ifátos perturbadores nesta festa do tra
balho. Hospeidando-se na casa dum curtidor, cuja lide com
couros era considerada “ imunda” , vemos que Pedro pro
gredira um bocado em sua atitude quanto às purificações
ritualistas, ou tinha em si uma inata indiferença para com
certos escrúpulos bem importantes aos olhos dos ritua
listas. Também isso pode indicar que, longe da influên
cia dos extremados ritualistas, Pedro preferia ser libe
ral.
À Visão de Cornélio (10:1-8)
“ 1 Um homem de Cesaréia, por nome Cornélio,
çenturião dp coorte chaijiada italiana, 2 piedpso e t§-
O LIVRO DE ATOS 165
mente a Deus com, tôda a sua casa, e que fazia mui
tas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus, 3
cêrca da hora nona do dia, viu claramente em visão
um anjo de Deus, que se dirigia para êle e lhe dizia:
Cornélio! 4 Êste, fitando-o atemorizado, perguntou:
Que é, Senhor? O anjo respondeu-lhe: As tuas ora
ções e as tuas esmolas têm subido para memória dian
te de Deus; 5 agora, pois, envia homens a Jope e man
da chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro;
6 êste se acha hospedado com um certo Simão, cur
tidor, cuja casa fica à beira-mar. 7 Logo que se reti
rou o anjo que lhe falava, Cornélio chamou dois dos
seus domésticos e um piedoso soldado dos que esta
vam ao seu serviço; 8 e, havendo-lhes contado tudo,
os enviou a Jope.”
Muitas vêzes se afirmou que, pregando a Cornélio
Pedro abriu a porta para os gentios. 15 Esta afirmativa
contém inverdades e meias verdades. Inescusàvelmente
ela deixa de lado muitos fatos que Lucas enfatiza. Deve
mos notar primeiro que Cornélio, embora gentio, era tam
bém um varão temente a Deus, como o eunuco etíope, e
não um pagão como o carcereiro de Filipos; segundo, que
Pedro não foi o primeiro a ganhar para Cristo uma pes
soa temente a Deus, pois que Filipe fêz isso com alegria
e ansiedade que envergonham a relutância e o mêdo de
Pedro; terceiro, que Estêvão deu a própria vida pela tese
do universalismo e do caráter espiritual da verdadeira re
ligião bem antes de Pedro pregar timidamente a Cornélio.
Cornélio pertence ao terceiro grande grupo alcança
do pelo Evangelho. Havendo começado com os judeus e
prosélitos do judaísmo, depois alcançou os samaritanos,
e depois os tementes a Deus como o etíope e Cornélio.
Lucas está por traçar ainda a entrada do Evangelho no
15. V er Rackham, op. cit., p g , 141; Bruce, op% cit., p g . 277, para se perceber
as confusões típicas sôbre êste assunto.
166 FRANK STAGrG-
último grupo que representa o crasso paganismo não con
dicionado pelas leis da sinagoga.
Cornélio era um centurião romano devotado ao estu
do do judaísmo, mas não era um prosélito; não fôra cir
cuncidado (ver 11:3). Os centuriões gozam de bom nome
em o Novo Testamento como também na história de
Roma. Comandava cem homens da coorte italiana; a
coorte completa incluía 600 soldados. Cornélio não fazia
segrêdo de seus sentimentos religiosos e influenciava para
o bem a quantos privassem com êle. Dava liberalmente
esmolas “ para o povo” , i. é ., para os judeus, e orava
constantemente a Deus (10:2).
A Visão de Pedro em Jope (10:9-23a)
“ 9 No dia seguinte, quando êles seguiam cami
nho e já se aproximavam da cidade, subiu Pedro ao
terraço para orar, cêrca da hora sexta. 10 E tendo
fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a
comida, sobreveio-lhe um êxtase, 11 em que viu o
céu aberto, e um objeto descendo, como se fôra um
grande lençol que, suspenso pelas quatro pontas, vi
nha baixando à terra, 12 no qual havia de todos os
quadrúpedes e répteis da terra e aves do céu. 13 E
uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come.
14 Mas Pedro respondeu: De modo nenhum, Senhor,
porque nunca comi coisa alguma comum e impura.
15 Pela segunda vez lhe falou a voz: Não chames tu
comum ao que Deus purificou. 16 Sucedeu isto por
três vêzes; e logo foi o objeto recolhido ao céu. 17
Enquanto Pedro refletia, perplexo, consigo mesmo
sôbre o que seria a visão que tivera, eis que os ho
mens enviados por Cornélio, tendo perguntado pela
casa de Simão, pararam à porta. 18 E, chamando, in
dagavam se ali estava hospedado Simão, que tinha
O LIVRO DE ATOS 167
por sobrenome Pedro. 19 Estando ainda Pedro a me
ditar sôbre a visão, o Espírito lhe disse: Eis que
dois homens te procuram. 20 Levanta-te, pois, des
ce e vai com êles, nada duvidando; porque eu tos
enviei. 21 E descendo Pedro ao encontro dêsses ho
mens, disse: Sou eu a quem procurais; qual é a causa
que vos traz aqui? 22 Êles responderam: O centurião
Cornélio, homem justo e temente a Deus e que tem
bom testemunho de tôda a nação judaica, foi avisa
do por um santo anjo para te chamar à sua casa
e ouvir as tuas palavras. 23 Pedro, pois, convidando-
os a entrar, os hospedou.”
O profeta Jonas fugira para Jope, buscando escapar
da missão para Nínive, cuja destruição êle desejava. Êle
não tomou nenhuma iniciativa no sentido de pregar aos
gentios, mas foi forçado a fazê-lo. Pedro se achou em
Jope quase na mesma situação. Pela atividade missioná
ria de outros e por causa do progresso do movimento cris
tão, viu-se forçado a dar atenção aos gentios.
Em vindo a visão, e ouvindo êle a ordem de matar
e comer daquela mistura de animais “ puros” e “ impu
ros” , Pedro abruptamente protestou dizendo que nunca
comera qualquer coisa “ comum e impura” (10:14). Será
que êle não guardara nada do que Jesus ensinara quando
insistira em afirmar que “ nada há, fora do homem,que,
entrando nêle, possa contaminá-lo” (Marcos 7:15) ?! Desta
declaração de Jesus conclui-se que Êle “ declarou limpos
todos os alimentos” (Marcos 7:19); mas Pedro usou em
menoscabo a palavra “ comum” que, com outro significa
do, descrevia a linda fraternidade dos santos de Jerusa
lém: “ E todos os que criam estavam unidos e tinham tudo
em comum” (2:44).
Foi dito a Pedro que “ parasse de chamar de comum”
(esta é a fôrça do original grego) aquilo que Deus puri
ficara (10:15). Embora a visão se repetisse por três vê-
168 FRAM v STAGG
zes, Pedro ainda ficou perplexo quanto ao que ela podia
significar. Havia tido grandes oportunidades como se
guidor de Jesus e conhecia a obra pioneira de homens
como Estêvão e Filipe; não obstante, Pedro só se deu por
vencido e somente cedeu à luz, depois de fortemente pre
mido. Seu progresso foi penosamente vagaroso e lento.
Pedro e Comélio (10:23b-48)
“ 23b No dia seguinte levantou-se Pedro e partiu
com êles, e alguns irmãos, dentre os de Jope, o acom
panharam. 24 No outro dia entrou em Cesaréia. E
Cornélio os esperava, tendo reunido os seus parentes
e amigos mais íntimos. 25 Quando Pedro ia entrar,
veio-lhe Cornélio ao encontro e, prostrando-se a seus
pés, o adorou. 26 Mas Pedro o ergueu, dizendo: Le
vanta-te que eu também sou homem. 27 E conver
sando com êle, entrou e achou muitos reunidos, 28 e
disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um ju
deu ajuntar-se ou achegar-se a estrangeiros; mas
Deus mostrou-me que a nenhum homem devo cha
mar comum ou impuro; 29 pelo que, sendo chamado,
vim sem objeção. Pergunto pois: Por que razão man
dastes chamar-me? 30 Então disse Cornélio: Faz
agora exatamente quatro dias que eu estava orando
em minha casa à hora nona, e eis que diante de mim
se apresentou um homem com vestiduras resplande
centes, 31 e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida,
e as tuas esmolas estão em memória diante de Deus.
32 Envia, pois, a Jopee manda chamar a Simão, que
tem por sobrenome Pedro; êle está hospedado em
casa de Simão, curtidor, à beira-mar. 33 Portanto
mandei logo chamar-te, e bem fizeste em vir. Ago
ra, pois, estamos todos aqui presentes diante de Deus,
para ouvir tudo que foi ordenado pelo Senhor. 34 En
tão Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade re-
O U V BO DE ATOS 169
coüheço que Deus não faz acepção de pessoas; 35
mas lhe é aceitável aquêle que, em qualquer nação,
o teme e pratica o que é justo. 36 A palavra que êle
enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por
Jesus Cristo (êste é o senhor de todos) — 37 esta pa
lavra, vós bem sabeis, foi proclamada por tôda a Ju-
déia, começando pela Galiléia, depois do batismo que
João pregou, 38 concernente a Jesus de Nazaré, como
Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder; o
qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e
curando a todos os oprimidos do Diabo, porque Deus
era com êle. 39 Nós somos testemunhas de tudo quan
to fêz, tanto na terra dos judeus como em Jerusalém;
ao qual mataram, pendurando-o num madeiro. 40 A
êste ressuscitou Deus ao terceiro dia e lhe concedeu
que se manifestasse, 41 não a todo o povo, mas as
testemunhas predeterminadas por Deus, a nós, que
comemos e bebemos juntamente com êle, depois que
ressurgiu dentre os mortos; 42 o qual nos mandou
pregar ao povo, e testificar que êle é o -que por Deus
foi constituído juiz dos vivos e dos mortos. 43 A êle
todos os profetas dão testemunho de que todo o que
nêle crê receberá por seu nome a remissão dos pe
cados. 44 Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas,
desceu o Espírito sôbrc todos os que ouviam a pala
vra. 45 Os crentes que eram da circuncisão, todos
quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se
de que também sôbre os gentios se derramasse o dom
do Espírito Santo; 46 porque os ouviam falar línguas
e magnificar a Deus. 47 Respondeu então Pedro:
Pode alguém porventura recusar a água para que
não sejam batizados êstes que também, como nós,
receberam o Espírito Santo? 48 Mandou, pois, que
fôssem batizados em nome de Jesus Cristo. Então
lhe rogaram que se demorasse ali alguns dias.”
170 FRANK STAGG
A ansiedade de Cornélio e a relutância de Pedro são
aqui contrastadas de modo assaz chocante. Cornélio teve
sua visão cêrca da hora nona (três da tarde) e enviou logo
seus mensageiros. Viajaram de Cesaréia a Jope (cêrca de
trinta milhas) até ao meio-dia do dia seguinte. Cornélio
deixou de parte todos os outros negócios e por quatro
dias esperou a chegada de Pedro (10:30). Estava tão in
teressado que reuniu em sua casa seus parentes e amigos
íntimos (10:24). Ao contrário, Pedro parecia movimen
tar-se como empurrado por um dever. A demora inicial
até o dia seguinte pode ser justificada, pois que os envia
dos de Cornélio necessitavam repousar e Pedro precisa
va aprontar-se para a viagem do dia seguinte. Mas levava
quase dois dias a viagem de Jope a Cesaréia. Enquanto
Cornélio ansiosamente buscava congregar outras pessoas
para ouvir o Evangelho, Pedro ocupava-se em arranjar
testemunhas de defesa a fim de proteger sua reputação,
levando-as consigo a Jope e mais tarde a Jerusalém (10:
23 e 11:12).
A relutância de Pedro em entrar na casa de Cornélio
é fortemente contrastada com a alegria de Filipe ao entrar
no carro do etíope. Pedro não deixou de fazer referência
à irregularidade daquele ajuntamento, e disse: “ Vós bem
sabeis que não é lícito a um judeu ajuntar-se ou chegar-
se às pessoas de outra nação” (10:28). A palavra grega
aqui traduzida por “ não lícito” realmente sugere a viola
ção da “ ordem das coisas divinamente estabelecida” ou
“ a quebra de um tabu” . 15 A tradução não deixa claro ou
tro contraste entre Filipe e Pedro. O Espírito disse a Fili
pe: “ Vai e ajunta-te a êsse carro” (8:29). Pedro protes
tou dizendo que era profanar-se um judeu “ em ajuntar-
se” a uma pessoa doutro país. Usa-se nos dois casos a mes
ma palavra. Filipe alegrou-se por poder juntar-se ao carro
do etíope, ao passo que Pedro anotou a irregularidade de
16. Lake e Cadbury, Commentary, pg, 117.
O LIVRO DE ATOS 171
juntar-se àqueles “ estrangeiros” . Note-se ainda que Pe
dro faz questão de se dizer “ judeu” (10:28).
Pedro justificou sua presença na casa de Cornélio,
coisa condenada pelos costumes judaicos, afirmando que
Deus lhe havia mostrado que não devia êle chamar a ne
nhum homem de comum ou imundo (10:28). Sua afir
mativa seguinte é de pasmar:, “ Pelo que, sendo enviado,
vim sem objeção. Pergunto, pois, por que razão mandas
tes chamar-me?” Que evangelização era essa! Não obstan
te, ainda encontramos comentadores bíblicos que conti
nuam a dizer que foi Pedro quem abriu a porta aos gen
tios! Melhor seria afirmar-se que os gentios abriram a
porta a Pedro, para que êle entrasse num mundo mais
largo!
Tendo Cornélio, relatado sua experiência e afirmado
que seus familiares e amigos estavam todos reunidos para
ouvir o que o Senhor tinha ordenado a Pedro que lhes
dissesse, êste começou a falar. Reconheceu Pedro que
agora estava percebendo (literalmente — apanhando) que
Deus não mostra nenhuma parcialidade (10:34). Estêvão
já fôra martirizado por ter visto essa imparcialidade de
Deus. Enquanto Pedro falava “ o Espírito Santo desceu
sôbre todos os que ouviam a palavra” (10:44). Os crentes
dentre os circuncidados. . . ficaram pasmos, porque se
derramara também sôbre os gentios o dom do Espírito
Santo” (10:45).
“ Desimpedido” é novamente o glorioso clímax. Pe
dro, ouvindo que falavam em línguas e louvavam a Deus,
perguntou: “ Pode alguém proibir a água para que se ba
tize esta gente que recebeu, como nós, o Espírito Santo?”
(10:47). A palavra proibir é o infinitivo (kolusai), que
corresponde ao advérbio (akolutos) final do
Livro dos Atos. A mesma idéia aparece na pergunta do
etíope: “ Que proíbe (que impede) (koluei) seja eu bati
zado?” O etíope estava desimpedido. Aqui Pedro conclui
i n PRANK STAGG
que aqueles que estavam com Cornélio não deviam ser
impedidos. 0 grito final de vitória deLucas é êste —
“ Desimpedido” .
A mensagem de Pedro (10:34-43) é um dos melhores
exemplos da primitiva prédica apostólica. Os seus elemen
tos essenciais assemelham-se àqueles a cujo redor girava
tôda a pregação inicial do Cristianismo: o ministério li
gado ao de João Batista, a morte por crucifixão, a ressur
reição pela qual se reinterpreta a morte de Jesus, as apa
rições às testemunhas escolhidas, o julgamento, o testemu
nho dos profetas, o convite à decisão da fé, e a oferta do
perdão. 17 f
As “ línguas” em Cesaréia provàvelmente podem ser
melhor interpretadas como semelhantes às línguas em
Corinto: eram provàvelmente elocuções de transportes de
êxtase. No Pentecostes as línguas eram inteligíveis àque
les que respondiam ao Espírito, e foram compreendidas
por muitos grupos lingüísticos. Parece que não havia esta
necessidade em Cesaréia porque todos podiam entender
a mesma língua. Talvez devamos entender êste derrama
mento do Espírito Santo como paralelo àquele que se deu
em favor dos tementes a Deus por ocasião do derrama
mento sôbre os judeus no dia do Pentecostes.
Convém fazer-se outra observação: o Espírito Santo
desceu sôbre os tementes a Deus antes de serem batizados
e sem a imposição das mãos. O batismo era o reconheci
mento da conversão dêles, e não o meio de efetuá-la. O
maior interêsse de Lucas era demonstrar que a circunci
são não era coisa necessária à salvação; mas incidental-
mente êle mostra ser isso também verdadeiro no que se
refere ao batismo. A circuncisão e o batismo são ritos
simbólicos. Seria dar na mesma dizer-se que a circunci
são não é necessária e que o batismo o é .
17. V eja o excelente estudo dêste assunto feito por C. H . Dodd em The Apoa-
tolic Preaching and Its Developm ent& (N . York, Harper & Brothers, 1936) .
O E.IVKO DE ATOS 173
Pedro Objetado por Haver Comido com Gentios (11:1-18)
“ 1 Ora, ouviram os apóstolos e os irmãos que
estavam na Judéia que também os gentios haviam
recebido a palavra de Deus. 2 E quando Pedro subiu
a Jerusalém, disputavam com êle os que eram da
circuncisão, 3 dizendo: Entraste em casa de homens
incircuncisos e comeste com êles. 4 Pedro, porém,
começou a fazer-lhes uma exposição por ordem, di
zendo: 5 Estava eu orando na cidade de Jope, e em
êxtase tive uma visão; via um objeto que, como se
fôra um grande lençol suspenso pelas quatro pontas,
descia do céu e chegou perto de mim. 6 E, fitando
nêle os olhos, o contemplava, e vi quadrúpedes da
terra, feras, répteis e aves do céu. 7 Ouvi também
uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro, mata e
come. 8 Mas eu respondi: De modo nenhum, Senhor,
pois nunca em minha bôca entrou coisa alguma co
mum ou impura. 9 Mas a voz respondeu-me do céu
segunda vez: Não chames tu comum ao que Deus
purificou. 10 Sucedeu isto por três vêzes; e tudo
tornou a recolher-se ao céu. 11 E eis que, nesse mo
mento, pararam em frente à casa onde estávamos três
homens que me foram enviados de Cesaréia. 12
Disse-me o Espírito que eu fôsse com êles, sem hesi
tar, e também êstes seis irmãos foram comigo e en
tramos na casa daquele homem. 13 E êle nos contou
como vira em pé em sua casa o anjo, que lhe disse
ra: Envia a Jope e manda chamar a Simão, que tem
por sobrenome Pedro, 14 o qual te ensinará as coisas
pelas quais serás salvo, tu e tôda a tua casa. 15 Logo
que eu comecei a falar, desceu sôbre êles o Espírito
Santo, como no princípio descera também sôbre nós.
16 Lembrei-me então da Palavra do Senhor, como
disse: João, na verdade, batizou em água; mas vós
174 FRANK STAGG
Sereis batizados no Espírito Santo. 17 Portanto, se
Deus lhes deu o mesmo dom que dera também a nós,
ao crermos no Senhor Jesus Cristo* quem era eu, para
que pudesse resistir a Deus ? 18 Ouvindo ele estas coi
sas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo:
Assim, pois, Deus concedeu também aos gentios o ar
rependimento para a vida.”
Chegou logo a Jerusalém a perturbadora notícia de
que Pedro havia comido com incircuncisos! As idéias li
berais de Estêvão haviam inaugurado uma nova era para
os seguidores de Jesus; Filipe, missionando entre os sama-
ritanos, fizera com que a Igreja de Jerusalém enviasse
Pedro e João para investigar aquele estranho desenvolvi
mento; o novo avanço de Filipe ao batizar o etíope não
alarmou tanto porque aquilo não feria os costumes so
ciais e porque o etíope voltou à terra dêle; mas o fato de
Pedro comer com varões incircuncisos deixava atordoa
dos os que em Jerusalém constituíam “ o partido da cir
cuncisão” .
O etíope e Cornélio eram ambos tementes a Deus;
eram gentios que estavam examinando e estudando o ju
daísmo, embora ainda incircuncisos. Os dois casos não
são bem paralelos, contudo, porque no caso de Cornélio
estavam em jôgo relações sociais bem como as condições
de salvação. 18 Surgiam, então, dois problemas distintos:
primeiro, podia um gentio ser salvo sem a circuncisão?;
segundo, podia um judeu cristão comer com um gentio
cristão incircunciso?
Nessa época estava-se formando na igreja de Jerusa
lém um partido bem definido, que deu origem aos judai-
zantes que tanta oposição fizeram ao Apóstolo Paulo.
“ Aquêles da circuncisão” , de quem nos fala o versículo
2 do capítulo 11, devem ser sem dúvida distinguidos dos
outros referidos em frase semelhante encontrada no ver
18. Ver Knowling, op. cit.f pg. 26°
O LIVRO DE ATOS 175
sículo 45 do capítulo 10. 19 Aqui (10:45) há referência
simplesmente a judeus cristãos, mas em 11:2 se faz refe
rência a um grupo definido que estava em formação. E,
como diz Rackham, para êstes “ a senha era a circunci
são . ” 20
Ainda que Pedro fôsse a Jerusalém, talvez isto indi
casse que “ os apóstolos e irmãos que estavam na Judéia”
lhe exigiram voltar a Jerusalém para explicar seu modo
de agir. 21 Pelo menos está claro que Pedro percebera
que seria chamado a explicar aquela violação dos costu
mes judeus. Assim, demorou um bocado sua visita a Cor-
nélio para procurar alguns irmãos “ dentre os de Jope”
que o acompanhassem naquela viagem (10:23), aos quais
depois levou consigo a Jerusalém como testemunhas
(11:12).
Pedro manteve atitude bem corajosa diante dos cris
tãos de Jerusalém, sustentando que aquêles homens incir-
cuncisos haviam de fato recebido o Espírito Santo e que
a conversão dêles era obra de Deus (11:15-17). Também
tornou Pedro bem claro que de modo nenhum agira de
iniciativa própria, descendo mesmo a vários detalhes para
provar que atuara unicamente dirigido por Deus. Tam
bém afirmou claramente que rejeitar aquelas experiên
cias era “ resistir a Deus” (11:17). A palavra grega aqui
empregada é kolusai, impedir. Pedro reconheceu que
Deus deve agir “ desimpedidamente” . Até êste ponto, po
rém, não temos provas de que qualquer apóstolo estives
se pronto a encorajar as missões gentílicas.
Diante da irrefutável evidência, os cristãos de Jerusa
19. A Versão Revista inglêsa é correta na interpretação das duas passagens —
‘‘ os crentes dentre os circuncidados” (10:45) e “ o partido da circuncisão’ * (1 1 :2 ),
ainda que as frases gregas sejam quase idênticas.
20. Op . cit., p g . 160.
21. Lake e Cadbury acham que possivelmente a Versão Ocidental, que nos
apresenta Pedro desejoso de ir a Jerusalém, queira “ diminuir a idéia de que Pe
dro fora convocado para JeruB&léjrn a fina de se explicar diante da igreja .” V er
Commentary, pg. 124.
176 FRANK STAGG
lém “ silenciaram” e “ glorificaram a Dèus” (11:18). Dis
seram: “ Então também aos gentios Deus concedeu o ar
rependimento para a vida” (11:18) . Esta tradução é falha
num ponto vital. O aoristo do grego (edoken) foi tradu
zido como se fôsse o tempo perfeito. Êles concluíram
apenas que aos gentios Deus “ concedera” o arrependi
mento para a vida. Tôdas as evidências sugerem, como
o indica a gramática, que a experiência no lar de Corné-
lio foi tida como excepcional, como um caso isolado se
melhante ao de Naamã no Velho Testamento. 22 Mais
tarde, na conferência de Jerusalém (Atos15), êste inci
dente foi relembrado como algo quase esquecido, e eviden
temente os apóstolos não prosseguiram nessa linha de
ofensiva.23 O trabalho realizado por Pedro subseqüente
mente não se processou presumivelmente entre os gentios,
tanto que êle acabou sendo conhecido como “ o apóstolo
da circuncisão” .
Esta lentidão com que os apóstolos viram a igualda
de do gentio para com o judeu não é fato único na histó
ria; basta lembrar a recente e presente culpa dos cristãos
de muitos países. Rackham anota:
“ E’ coisa quase inconcebível observar como fun
cionava no século XVII a consciência dum capitão in
glês, bom protestante, orando e lendo a Bíblia no
convés, e tendo a seus pés, nos porões, uma leva de
negros escravos, destinados às plantações da Améri
ca . ” 24
Podemos lembrar ainda de inúmeros sermões prèga-
dos nos púlpitos “ provando” pela Bíblia que Deus desti
nara os negros à escravidão. Envergonhados, vemos ain
22. V er Knowling, op . cit, p g . 264; Bruce, op c it ,, p g . 230; Rackh^m, op . c it .,
pg. 163.
23. V er Rackham, op . cit>, p g . 162,
34. íb i$ ., p g . 162.
O LIVRO DE ATOS 177
da hoje estadistas e clérigos protestando contra a conces
são de certos direitos humanos aos negros. E’ possível
que os futuros historiadores venham a fazer alusão à iro
nia das ironias, afirmando que nos meados do século XX
os promotores de lutas de box e os técnicos de basebol e
futebol fizeram pela emancipação do negro mais do que
os eclesiásticos! Dizer-se que tal se deu por causa do di
nheiro em nada remove o labéu, porque humilhante seria
admitir que o pagão por amor ao dinheiro faz o bem que
um cristão não consegue fazer por amor. Há mesmo evi
dências de que a segregação obterá a sua última vitória
nas igrejas.
Cíprios e Cirenenses Desconhecidos Pregam a Gregos em
Antioquia (11:19-26)
“ 19 Aquêles, pois, que foram dispersos pela tri
bulação suscitada por causa de Estêvão, passaram até
Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a nin
guém a palavra, senão somente aos judeus. 20 Havia,
porém, entre êles alguns cíprios e cirenenses, os quais,
entrando em Antioquia, falaram também aos gregos,
anunciando o Senhor Jesus. 21 E a mão do Senhor
era com êles, é grande número creu e converteu-se ao
Senhor. 22 Chegou a notícia destas coisas aos ouvi
dos da igreja em Jerusalém; e enviaram Barnabé a
Antioquia; 23 o qual, quando chegou e viu a graça de
Deus, se alegrou, e exortava a todos a perseverarem
no Senhor com firmeza de coração; 24 porque era
homem de bem, e cheio do Espírito Santo e de fé . E
muita gente uniu-se ao Senhor . 25 Partiu, pois, Bar
nabé para Tarso, em busca de Saulo; 26 e, tendo-o
achado, o levou para Antioquia. E durante um ano
inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram mui
ta gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira
vez foram chamados cristãos.”
A .A . 12
178 FRANK STACK*
Lucas de modo mui significativo liga o reavivamento
em Antioquia a Estêvão. Pelo menos o reavivamento co
meçara por homens influenciados por Estêvão (11:19).
0 grande impulso missionário observado em Antioquia era
uma parcela do impacto dêste grande varão sôbre o mo
vimento cristão. Foi sob a influência indireta de Estêvão
que Saulo se converteu, e ainda foi essa a causa indireta
da chamada “ primeira viagem missionária de Paulo” .
Há evidências de que o Evangelho fôra imp^ntado
no norte da África e em Chipre alguns anos antes de Bar-
nabé e Saulo iniciarem sua “ primeira viagem missioná
ria” . Parece que alguns viajaram de Cirene, na África,
e de Chipre, no Mediterrâneo, para iniciar um reavivamen
to em Antioquia, de onde mais tarde Barnabé e Saulo
partiram como missionários para Chipre e Ásia Menor.
Não se afirma explicitamente que aquêles homens vieram
diretamente de Chipre e Cirene para Antioquia; apenas
se declara que eram cíprios e cirenenses. Contudo, é tam
bém possível que vivessem em Chipre e Cirene como cris
tãos antes de viajarem para Antioquia. Se assim é, torna-
se mais uma vez evidente que Lucas estava mesmo inte
ressado não tanto na expansão geográfica do Cristianis
mo e sim nos fatos que se relacionassem com a derruba
da das muralhas raciais e nacionalistas. Está fortemente
evidenciado que o Cristianismo alcançara Chipre antes de
Barnabé e Saulo missionarem juntos ali por ocasião de
Rua “ primeira viagem missionária” . Aquêles que “ tam
bém falaram aos gregos” eram pessoas influenciadas por
Estêvão, e não por hebreus.
Vários anos certamente intervalaram 11:19 e 11:20.
O versículo 19 volta ao martírio de Estêvão, mas o 20
faz referência ao tempo que Saulo passou em Tarso, de
pois de convertido. A conversão de Saulo e os anos que
passou na Arábia, em Jerusalém e em Tarso, devem ser
colocados entre os acontecimentos de 11:19 e 11:20. Sau-
O LIVRO DE ATOS 179
,lp devia ter-se convertido não muito depois do ano 35
(A .D .) e o aiio com Barnabé em Antioquia devia ter sido
durante o reinado de Cláudio (A .D , 41-54). Sem tentar
•fixar essas datas, é claro que devemos admitir que se pas
saram vários anos. Sem dúvida o Evangelho se espalhou
por muito longe naqueles anos, sendo pregado em muitos
lugares “ a ninguém, exceto a judeus” ; não obstante, va
rões de Chipre e de Cirene, chegando a Antioquia (da Sí
ria) pregaram também aos gregos (11:19-20).
Os manuscritos se dividem quanto às palavras “ gre
gos” e “ da Grécia” , ou “ helénicos” , do versículo 20.
Lake e Cadbury provàvelmente estão certos ao afirmarem
que o contexto é decisivo pois se refere a varões não ju
deus, seja qual fôr a palavra empregada, porque aquêles
são contrastados com os judeus. 25 Rackham pode estar
>erto ao defender que aquêles “ gregos” eram “ tementes
a Deus” — a terceira classe das quatro distinguidas no
Livro dos Atos: hebreus (judeus), helenistas (judeus),
gregos tementes a Deus (gentios influenciados pelo ju
daísmo) , e pagãos. 26
* A Igreja de Jerusalém, após mais d.e uma década,
ainda desempenhava o papel de Observador cauteloso (11:
29). A seleção de Barnabé, contudo, indicava certa impar
cialidade dessa igreja, pois que não poderia ela ter envia
do um observador mais simpático do que Barnabé. Êste
se alegrou imenso com o qué viu cm Antioquia, e enco
rajou os convertidos. Dada a magnitude da obra, fazia-
se necessário o auxílio de alguém, e então Barnabé foi a
.Tarso em busca de Saulo, julgando-o o companheiro idéal
para o seu ministério em Antioquia. Calvino faz aqui in
teressante observação, afirmando que neste particular se
evidencia claramente a magnanimidade de Barnabé que
assim mostrava estar interessado unicamente na proèmi-
.nência de Cristo, pois que Barnabé poderia ter guardado
25. Commentary, pg. 128.
£6. Op. cit., pg. 166.
180 FRANK SXAGG
para si o primeiro lugar, e não obstante êle trouxe Saulo
para a frente da cena. 27
Foi em Antioquia que pela primeira vez os discípu
los receberam o nome de cristãos. Não se sabe se foi
por caçoada ou zombaria, ou simplesmente porque tal
título os caracterizaria melhor. Êste novo nome calhava
bem àquele movimento que ràpidamente ia firmando o
feeu caráter universalista. A palavra cristão é bàsicamente
grega, embora expressando uma idéia hebraica (a de Mes
sias) ; mas sua forma (o sufixo) é latina. 28 Poderia tam
bém tal título refletir a transição de uma seita que, dentro
do judaísmo, ia tomando a forma de um movimento se
paratista .
Ameaça de Fome, Oportunidade para a Prática da Fra
ternidade (11:27-30)
“ 27 Naqueles dias desceram profetas de Jerusa
lém para Antioquia; 28 e, levantando-se um dêles, de
nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito que ha
veria uma grande fome por todo o mundo, a qual
ocorreu no tempo de Cláudio. 20 E os discípulos re
solveram mandar, cada um conforme suas posses, so
corro aos irmãos que habitavam na Judéia; 30 o que
êles com efeito fizerám, enviando-os aos anciãos por
mão de Barnabé e Saulo. ”
Aqui o problema de cronologia é muitíssimo difícil,
mas provàvelmente essavisita de Barnabé e Saulo à Ju
déia se deu antes da morte de Herodes Agripa I (A.D. 44).
Isto, pelo menos, é o que o Livro dos Atos indica. Lucas
afirma que essa fome teve lugar nos dias de Cláudio, que
reinou do ano 41 até 54 (A .D .) Os historiadores roma
nos Suetônio (Claudius, xix) e Tácito (Ann. xii. 43) di-
27. Ver Knowling, op. cit„ pg. 268.
38, Ver Rackham, op cit., pg. 170.
0 LIVRO DE A iO S 181
Zem que tal fome ocorreu no remado de Cláudio. Com
plica-se o assunto quando Josefo (Ant. iii. 15.3; 2.5; xx.
5.2) localiza a fome na Judéia durante o tempo dos pro
curadores Cúspio Fado (44-46 e Tibério Alexandre (46 ̂
48), depois da morte de Agripa I, no ano 44. Mas, a fome
de que nos fala Suetônio (Claudius, xix), ocasionada por
vários anos de pobres colheitas sucessivas, evidentemente
se deu quando Ágabo visitou Antioquia e quando Barna-
bé e Saulp foram enviados à Judéia (por certo a Jerusa
lém) . Desde tempos primitivos a igreja teve os seus po
bres, e a política de repartir as posses poderia ter esgota
do os recursos materiais dos discípulos de Jerusalém. Não
é difícil imaginar que a carestia se fêz sentir primeiro
justamente naquelas comunidades, e que os cristãos se
apressaram em fazer alguma coisa para conjurá-la. A ex
pressão “ todo o mundo” (11:28) refere-se ao mundo ro
mano, e não a todo o mundo geográfico.
A principal intenção de Lucas é mostrar que era ver
dadeira e genuína a comunhão das grandes comunidades
de Antioquia e Jerusalém, apesar de tôdas as diferenças.
A inclusão dos tementes a Deus às vêzes deixara tensos
os sentimentos de fraternidade, mas não contribuíra para
eliminá-los.
Os “ profetas” sempre aparecem nos Atós: Silas e
Judas (15:32), bem como numerosos “ profetas e mestres”
em Antioquia (13:1), as filhas de Filipe (21:8), e Ágaba,
(11:27; 21:10) e seus companheiros. Nos Evangelhos João
Batista e Jesus são considerados profetas. Embora no mi-
mstério profético a predição de acontecimentos futuros
fosse de menor importância, era também incluída essa
função. A função maior era apresentar uma mensagem
nova e fresca da parte de Deus. O profeta buscava inter
pretar a mente divina ao povo e interpretar o povo para
qúe êste a si mesmo se compreendesse melhor .
FftANIÍ STÀÔÔ
Êstes "anciãos’’ (11:30) não podemos dizer propria
mente o que eram e quem foram. Nos Atos e nas Cartas
Pastorais á palavra “ ancião” aparece misturada com a
palavra “ bispo” (ver Atos 20:17 com 20:28 29, e Tito 1:5
coin 1 :7) . Não sabemos se se pode aqui identificá-los com
os apóstolos, ou distingui-los dêstes. Provàvelmente o
mais certo é que eram distintos dos apóstolos.
A Perseguição Movida por Herodes e a Morte Dêste
(12:1-23)
A Perseguição Herodiana
(12:1-5)
“ 1 Por aquêle mesmo tempo o rei Herodes es-
. tendeu as mãos sobre alguns da igreja, para os mal-:
tratar; 2 e matou à espada Tiago, irmão de João. 3
Vendo que isso agradava aos judeus, continuou.,
mandando prender também a Pedrü. (Eram então
. os dias dos pães ázimos.) 4 E, havendo-o prendido,
lançou-o na prisão, entregando-o a quatro escoltas
de quatro soldados cada uma para o guardarem,
tencionando apresentá-lo ao povo depois da páscoa.
5 Pedro, pois, estava guardado na prisão; mas a
igreja orava com insistência a Deus por êle.”
A; perseguição ordenada por Herodes Agripa I foi
o terceiro grande assalto contra os discípulos. O primei
ro fôra chefiado pelos saduceus; o segundo, pelos fari
seus. Herodes não perdia nenhuma ocasião de fortificar
sua posição junto aos judeus, e, quando us discípulos de
Jerusalém aprovaram a conduta de Pedro em casa de
Gornélio, viu êle aí uma boa oportunidade de ganhar as
bpa£'gra.ças dos judeus. Os doze haviam escapado à per
*29V -A Vers&o Revista Inglesa obscurece um tanto êste ponto, ao traduzir a
palavra por “ guardiões” ou “ superiores". Esta é a palavra noutros lugares tra
duzida por “ bispos’ *.
O LIVRO DÊ A tfôs
seguição desencadeada nos dias do martírio de Estêvão
por causa de sua fidelidade à lei. Mas o fato de um dê-
les comer com um gentio incircunciso era visto como
crime indesculpável.
Herodes Agripa era filho de Aristóbulo e neto de
Herodes, o Grande. Êste executara seu filho Aristóbulo
no ano 7 antes de Cristo, e Herodes Agripa fôra criado
em Roma, na sociedade imperial. Êle ajudara Calígula
(A. D. 37-41) a tornar-se imperador, dada a morte de
Tibério; e Calígula o recompensara com o título de rei
e com a tetrarquia de Filipe, acrescentando logo depois
à dita tetrarquia a Galiléia e a Peréia. Quando assassi
naram Calígula, Agripa ajudou Cláudio (A. D. 41-54) a
ganhar a aprovação do senado romano; e o novo impe
rador adicionou a Judéia e a Samaria ao seu reinado.
Herodes Agripa era de ancestrais edomitas e judaicos, e
desejava ganhar as simpatias dos judeus. A execução
de Tiago e a prisão de Pedro faziam parte de sua estra
tégia. A escrupulosa observância da Páscoa traía a in
tenção dêsse tirano de alcançar o favor dos judeus.
Muitos admitem hoje que João foi martirizado jun
tamente com seu irmão Tiago. Isto não tem base em o
Novo Testamento e descança exatamente sôbre essa es
pécie de “ provas” que não procedem no sentido de sus
tentar a posição tradicional. O argumento baseia-se em
afirmações de Jorge, o Pecador (do século VII) e de Fi
lipe de Side (do IV século) que referem que Papias (do
II século) afirmou terem sido Tiago e João mortos por
judeus. Ainda que aceitássemos esta tradição mui du
vidosa, deveríamos anotar que Papias não afirmou que
Tiago e João foram martirizados ao mesmo tempo. E’
bem mais forte a tradição referida por Eusébio, e por
êle atribuída a Irineu, que afirma que João alcançou
idade muito avançada e morreu de morte natural. Isto,
porém, não dá base à tradição de que João vivesse até
184 FRANK STAGG
o fim do século (e escrevesse os livros que trazem o seu
nome); mas devemos pôr de lado o dogmático ponto de
vista que afirma que João e Tiago foram mortos junta
mente por ordem de Herodes.
A Libertação de Pedro (12:6-19)
“ 6 Ora, quando Herodes estava para apresen
tá-lo, nessa mesma noite Pedro dormia entre dois
soldados, acorrentado com duas cadeias, e as senti
nelas diante da porta guardavam a prisão. 7 E eis
que sobreveio um anjo do Senhor, e uma luz res
plandeceu na prisão; e, êle, tocando no lado de Pe
dro, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E
caíram-lhe das mãos as cadeias. 8 Disse-lhe ainda
o anjo: Cinge-te e calça as tuas sandálias. E êle o
fêz. Disse-lhe mais: Cobre-te com a tua capa e se
gue-me. 9 Pedro, saindo, o seguia, mesmo sem
compreender que era real o que se fazia por inter-
' médio do anjo, julgando antes que era uma visão.
10 Depois de terem passado a primeira e a segunda
sentinela, chegaram à porta de ferro, que dá para
a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma; e, ten
do saído, passaram por uma rua, e logo o anjo se
apartou dêle. 11 Pedro então, tornando a si, disse:
Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o
seu anjo, e me livrou da mão de Herodes e de tôda
a expectativa do povo dos judeus. 12 Depois de as
sim refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que
tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas
estavam reunidas e oravam. 13 Quando êle bateu
ao portão do pátio, uma criada chamada Rode saiu
a escutar; 14 e, reconhecendo a voz de Pedro, de
gôzo não abriu o portão, mas, correndo para den
tro, anunciou que Pedro ali estava. 15 Êles lhe dis
seram: Estás louca. Ela, porém, assegurava que
O LIVRO DE ATOS 18S
era êle. Êles então diziam: “ E’ o seu anjo. 16 Mas
Pedro continuava a bater, e, quando abriram, vi
ram-no, e pasmaram. 17 Mas êle, acenando-lhes com
a mão para que se calassem, contou-lhes como o Se
nhor o tirara da prisão, e disse: Anunciai isto a Tia
go e aos irmãos. E, saindo, partiu para outro lugar.
18 Logo que amanheceu, houve grande alvoroço en
tre os soldados sôbre o que teria sido feito de Pedro.
19 E, quando Herodes o procurou e não o achou, in
quiriu as sentinelas,e mandou que fôssem justiça
das; e, descendo da Judéia para Cesaréia, aí se de
morou . ”
Êste é um dos quadros mais felizes que temos de Pe
dro, pois estão em plena evidência algumas das suas me
lhores qualidades. Na noite anterior à sua planejada exe
cução, Pedro dormia profundamente. A sua coragem
física foi sempre igual à demonstrada nesta passagem.
Em vez de passear nervosamente de cá para lá (com
cadeias e tudo) por tôda aquela horrível noite, Pedro pre
parou-se para uma noite de bom sono, e, quando veio o li
vramento, estava êle a dormir sossegadamente. Antes de
dormir, tirara as sandálias e a capa, e buscara tranqüila
mente o sono. O anjo teve que tocar-lhe no lado para
despertá-lo. Isto corresponde ao que dêle vimos nou
tros passos bíblicos. No Getsêmane, Pedro não demons
trara nenhum mêdo em presença do perigo, mas pouco
mais tarde mostrava-se enervado às perguntas feitas por
uma criada, que o reconhecera como um dos seguidores
de Jesus. A coragem de Pedro o desertava em situações
destituídas de imediato perigo físico, como em Antio-
quia quando os irmãos de Jerusalém o encontraram co
mendo com cristãos incircuncisos (Gálatas 2:11 em dian
te) . Êle temia mais a desaprovação do que mesmo a
injúria corporal.
A casa de Maria, a mãe de João Marcos, era o ponto
186 FRANK STAGÖ
de reunião de muitos que tinham vindo para orar. Mar
cos poderia informar bem a Lucas o que se teria passa
do ali, bem como acêrca doutros incidentes. Esta histó
ria é contada de maneira muito agradável, e tem tôdas
as marcas de autenticidade. Não há provas de que ou
tros dos doze estivessem em Jerusalém, a menos que ve
nham incluídos na palavra “ irmãos” , do versículo 17.
Tiago, o irmão de Jesus, parece já ser contado como o
líder em Jerusalém e continuou a sê-lo por alguns anos.
Lucas conta que Pedro “ saiu e partiu para outro lu
gar” (12:17). Não sabemos onde ficava êsse lugar. Te
mos, assim, aqui outra prova de que o interêsse de Lu
cas não se voltava primàriamente para os atos dos após
tolos, nem para os lugares por êles visitados. A Igreja
Católica Romana se construiu sôbre a antiga tradição
de que êsse lugar aqui referido é a cidade de Roma, e
diz que ali Pedro se tornou o seu primeiro bispo. 30
Tais afirmativas só podem ser recebidas em bases dog
máticas, pois que as provas dizem o contrário. Inicial
mente, basta dizer que não há provas de que Pedro re
cebesse naqueles dias o encargo de alguma missão fora
das terras da Palestina; êle já estava achando difícil tra-
tàr com os tementes a Deus que estavam mais perto
dêle! Quando Paulo escreveu aos romanos (A.D . 55),
e certo que Pedro não estava morando em Roma. Pedro
estava em Jerusalém durante a conferência (Atos 15)
que se deu no ano 48 ou 49 A. D. Quando Paulo che
gou a Roma (57 ou 58) evidentemente nenhum apósto-
iO tinha estado lá, pois que os judeus o procuraram para
se informarem acêrca “ daquela seita” que era impug
nada em tôda parte (28:22). Estivesse Pedro lá moran
do por cêrca de duas décadas (desde o ano 42, como diz
30. Quem se irteressar em 1er um bom estudo das trrd'çôe^ referentes a Pe
dro, deverá procurar as obras — P eter : P rin ce o f Apostlea, de F . J . Foakes: Jack
son (N . York, George H . Dtran, C o ., 1927) e P eter : D isdple, Apostle, Martyr, de
Oscar Culimann.
O LIVRO DE ATOS 181
a tradição), não teriam os judeus tido necessidade de
buscar tais informações com o apóstolo Paulo. Pedro
deveria ter ficado fora de Jerusalém só até a morte. de
Agripa (A. D. 44). Enganam-se a si mesmos aquêles
que edificam sua fé num dogma arbitrário como êsse.
A Morte de Herodes (12:20-23)
“ 20 Ora, Herodes estava muito irritado contra
os de Tiro e de Sidon; mas êstes, vindo de comum
acôrdo ter com êle e, obtendo a amizade de Blasto,
camareiro do rei, pediam paz, porquanto o seu pais
se abastecia do país do rei. 21 Num dia designado,
Herodes, vestido de trajes reais, sentou-se nó trono
e dirigia-lhes a palavra. 22 E o povo exclamava: E’
a voz de um deus, e não de um homem. 23 No més-1
mo instante o anjo do Senhor o feriu, porque não
deu glória a Deus; e, comido de vermes, expirou.”
Josefo (Ant. xix, 8,2) nos dá substancialmente a
mèsma história aqui apresentada por Lucas, mas com
maiores detalhes. Sem a narrativa de Josefo, concluiría
mos que Agripa morreu imediatamente, embora Lucas
não afirme isso. Josefo nos conta que êle experimentou
horríveis sofrimentos por cêrca de cinco dias e teve mor
te horrorosa. Segundo Josefo, os gregos e os sírios fes
tejaram a morte de Agripa. Deliciaram-se e se alegra
ram com a morte dêle, pelo fato de haver êle conce
dido muitos favores aos judeus.
Crescimento e a Missão de Barnabé e Saulo
(12:24-25)
“ 24 Entretanto a palavra de Deus crescia e se
multiplicava. 25 E Barnabé e Saulo, havendo termi
nado aquele serviço, voltaram de Jerusalém, levando
consigo a João, que tem por sobrenome Marcos.”
188 FRANK STAGG
O versículo 24 é mais uma das afirmativas sumá
rias de Lucas, que marca a transição para uma nova
etapa da obra e uma outra divisão natural do Livro dos
Atos. Gom a morte de Agripa, a Palestina tornou-se
novamente uma província romana. A opinião de Rackham
neste ponto é aceitável, quando afirma que o poderio ro
mano restaurou a paz e facultou nova oportunidade de
crescimento. 31
Uma certeza textual aumenta a dificuldade de saber-
se qual o tempo da missão de Barnabé e Saulo. Os me
lhores manuscritos afirmam que “ Barnabé e Saulo vol
taram para Jerusalém.” Êste “ para Jerusalém” não só
se baseia nos melhores manuscritos como também faci
lita a solução do problema, se assim foi. Josefo (xx,
2, 5) situa a fome por cêrca do ano 45 (A. D .) após à
morte de Herodes. Se Lucas quer dizer que a missão de
Barnabé e Saulo seguiu-se à morte de Herodes, então é
fácil harmonizar Josefo com Lucas. Doutro lado, Josefo
e Lucas não estão necessàriamente em conflito ainda
que Lucas coloque a missão a Jerusalém antes da morte
de Herodes; o primeiro golpe da fome iminente podia
Jerusalém tê-lo sentido antes de ela atingir tôda a fôr-
ça no ano 45 (veja-se acima). Parece-nos mais natural,
também, concluir de Atos 11:27-30 que Barnabé e Saulo
foram enviados a Jerusalém antes da morte de Herodes,
conquanto isto não esteja explícito; voltando sua aten
ção dos acontecimentos de Antioquia para Herodes, Lu
cas apenas diz: “ por aquêle mesmo tempo” (12:1). Os
particípios gregos contidos na sentença são decididamen
te contra o “ para Jerusalém” . Ainda que êste “ para
Jerusalém» se baseie nos melhores manuscritos, e em
bora tenha hoje bons defensores, parece que o contexto
o exclui totalmente. Em 11:27-30 parece que Barnabé e
81. Op. c i t pg. 182.
O L IV R O D E A T O S 189
Saulo estão de caminho para Jerusalém; em 13:1-3
acham-se em Antioquia; evidentemente 12:25 tenta afir
mar que ê'es estão “ vòltando de Jerusalém” e não indo
“ para Jerusalém” .
3’ PARTE
Triunfo e Tragédia : A desimpedida Pre
gação do Evangelho e a Aiito-Excíusão
dos Judeus
(13:1 a 28:31)
A terceira e a maior etapa do desenvolvimento cris
tão nos é apresentada do capítulo 13 até ao final do li
vro dos Atos. No início o movimento foi exclusivamen
te judaico e foi dominado pelo elemento hebreu. Na se
gunda etapa, ou fase, os judeus gregos ou helenistas in
troduziram idéias de maior alcance e estenderam o evan
gelho aos samaritanos e a gregos tementes a Deus; na
última fase levou-se o evangelho diretamente aos pa
gãos, e, após uma luta bem dura, libertou-se, “ livrou-se
dos impedimentos” , embora a um custo tremendo, pois
que redundou na auto-exclusão dos judeus.
No estágio primitivo (1:6 a 6:7), o movimento cris
tão centralizou-se em Jerusalém e assumiu caráter ju
daico. Os hebreus controlavam o movimento e julgavam
que o Cristianismo era algo que se desenvolveria dentro
da estrutura do judaísmo. Os discípulos, então, sentiam-
se como em casa, tanto no templo como nas sinagogas;
continuavam a viver comojudeus, e eram tidos como
formando uma nova seita do judaísmo. Os doze eram
os conhecidos chefes do movimento e achavam que en
tão se restauraria logo o reino a Israel, não olhando para
além das barreiras nacionais.
A segunda grande fase do movimento (6:8 a 12:25)
foi inaugurada pelos helenistas, chefiados de início por
Estêvão e Filipe. Seguiram as pegadas dêstes uns va
rões de Chipre e de Cirene, cujos nomes não conhece-
Ó L IV R O D E A T O S 191
mos, e Saulo, e outros mais; que foram fincando estacas
e abrindo novos rumos. Os hebreus e os doze nessa fase
ficaram julgando e conferindo as coisas, os fatos.' Os
sete tomaram a liderança no início desta,etapa do de
senvolvimento, assim como os doze a tiveram na etapa
primitiva. No segundo período, o Cristianismo começou
a firmar seu caráter espiritual e o seu inerente universa
lismo, e principiou a derribar as barreiras raciais e ri-
tualistas. Tendo em sua vanguarda os helenistas, foram
alcançados então muitos tementes a Deus.
A fase final do desenvolvimento (capítulos 13 a
28) é introduzida com os cinco cristãos, que possivel
mente podemos comparar com os doze e os sete. Como
aconteceu no caso dos doze e dos sete, a maioria dêsses
cinco tem seus nomes apenas citados e não são retrata
dos Sem minúcias. Os acontecimentos agora se centra
lizam em Antioquia, e fora da Palestina, e já não mais
tanto em Jerusalém ou na Palestina. Conquanto ainda
muitos judeus fôssem alcançados pelo movimento, os
avanços mais significativos se dão entre pagãos. Fize
ram-se tentativas para alcançar judeus e gentios atra
vés das sinagogas, mas logo se viram na necessidade de
deixar as sinagogas e ir diretamente aos gentios. Desen
volvendo-se assim, o movimento cristão teve que enca
rar e resolver certos problemas referentes à relação do
judeu para com o gentio. O resultado final foi a com
pleta libertação do evangelho, “ desimpedindo-o” , em
bora os judeus dêle se afastassem definitivamente.
A APROXIMAÇÃO DE JUDEUS E GENTIOS PRIN
CIPALMENTE POR MEIO DAS SINAGOGAS —
RECONHECE-SE QUE DEUS ABRIU TAMBÉM PARA
O GENTIO A PORTA DA FE’ — (13:1 a 16:5)
Nesta parte do livro dos Atos encontramos muitas
viagens por terra e por mar, irias, é bom notar que Lucas
192 F R A N K ST A G G
está primeiramente interessado não na expansão geo
gráfica do Cristianismo. O evangelho fôra pregado em
Chipre e na Ásia Menor antes desta “ primeira viagem
missionária” . Chipre e Cirene ocupam lugar proeminen
te nos primórdios do Cristianismo. Paulo, após con
vertido, passara cêrca de sete anos em Tarso. Certamen
te no decorrer dêsses anos Paulo não ficara de bôca fe
chada. Lucas torna claro que o evangelho se espalhara
para longe, logo após o Pentecostes.
Êle agora está dizendo que o evangelho afinal fôra
levado diretamente aos gentios, alcançando aquêles re
sultados e repercussões de que êle falará no seu livro.
Mostrará o grande esforço dos missionários, desenvolvi
do através das sinagogas, e também nos dirá que aquê
les que batalharam pela igualdade de gentios e judeus
foram por fim expulsos das sinagogas. Ao fim, a igreja
se separou da sinagoga, e os judeus voltaram as costas
para o Cristianismo.
São esboçadas duas grandes campanhas missioná
rias. Aquilo a que chamamos “ três viagens missioná
rias” são na realidade duas grandes campanhas missio
nárias. A primeira (13:1 a 16:5) foi realizada especial
mente nas sinagogas, chefiada por Barnabé e Saulo. A
segunda (16:6 a 20:2) foi levada a cabo por Paulo e
muitos companheiros, e teve por campo o grande centro
cultural greco-romano que abrangia as províncias roma
nas ao redor do Mar Egeu (Macedônia, Acaia e Ásia).
Nesta campanha tentou-se ainda alcançar a judeus e gen
tios através das sinagogas, mas as portas destas iam ra
pidamente se fechando para o movimento cristão.
A Campanha de Barnabé e Saulo (13:1 a 14:28)
Barnabé e Saulo Separados para uma Obra Determinada
(13:1-3)
,, “ 1 Ora, na igreja de Antioquia havia profetas e
O L IV R O D E A T O S 193
mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lú
cio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e
Saulo. 2 Enquanto êles ministravam perante o Senhor
e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separai-me a Bar
nabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. 3
Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram
as mãos, e os despediram. A igreja de Antioquia pro^
vou que foi a forte base de operações por alguns anos.
Devemos lembrar que através dos desconhecidos varões
de Chipre e Cirene, “ dispersos por causa da perseguição
que se levantou contra Estêvão” (11:19-20), esta grande
igreja missionária recebera a influência de Estêvão. Não
é por mero acidente que Lucas ligou o reavivamento de
Antioquia ao heróico vulto de Estêvão. Foi dêsse rea
vivamento que surgiu esta campanha missionária.
Alguns peritos em crítica textual acham que êste
versículo primeiro se refere à “ igreja local” de Antio
quia, e assim o traduzem. A sintaxe grega, que usa com o
artigo o particípio do verbo ser, parece freqüentemente
empregada no livro dos Atos em sentido idiomático, as
sim dando a idéia de local, atual, ou existente. 1 Está
claro, do texto, que a igreja de Antioquia era uma igre
ja genuína, independente da igreja de Jerusalém, e que
s nova obra ali começada estava sob a 'inspiração direta
do Espírito Santo.
A igreja “ impôs as mãos” aos missionários e “ os
despediu” (13:3), mas a comissão êles a receberam di
retamente do Espírito Santo. Muitos afirmam quê os
profetas e mestres foram os únicos que impuseram as
mãos aos missionários. Isso não é coisa conclusiva. Bar
nabé e Saulo eram dois dos cinco profetas e mestres.
Daí, perguntamos o que é que os três restantes teriam
conferido aos dois? Rackham afirma que “ o único an
tecedente aos pronomes do versículo 3 são “ profetas e
1. Ver Commentary de Lake e Cadbnry, pg. 56-57; e Bruce, op. cit., pg. 340,
252.
A .A . 1»
194 F R A N K STAG G
doutores” do versículo primeiro; e assim êles pronuncia
ram a oração e impuseram as mãos. ” 2 Isto é exato, se
observarmos estritamente a gramática grega. Mas, se
isto é assim, então tôda a ação de 13:1-3 foi desenvolvida
pelos cinco e não pela igreja: a adoração, o jejum, a es
colha, as orações, a imposição das mãos, e a despedida.
Tudo quanto Rackham dissera sôbre a importância da
igreja de Antioquia seria nulo. Mais ainda: se devemos
obedecer rigidamente ao princípio gramatical de
Rackham, devemos também aplicá-lo a Atos 6:5-6 que
afirmaria concludentemente que “ tôda a multidão” (6:
5), e não os doze, impôs as mãos aos sete. Rackham
não aplica aqui a regra dos antecedentes! Knowling vê
aqui igreja como o antecedente gramatical e não os pro
fetas e mestres, mas conclui que se muda de assunto
como em 6:6. 3 Mas, quem mudou de assunto? Lucas,
ou o seu intérprete?
Melhor será concluir que não há nenhum acôrdo no
caso entre os pronomes do versículo 3 e o antecedente do
versículo primeiro, e que o antecedente é “ a igreja lo
cal” e não “ os profetas e mestres” . E’ muitas vêzes cer
to que no grego do Novo Testamento nem sempre se dá
a concordância em caso, número, ou mesmo no gênero.
Pelo menos, pode ser êste o possível significado: a igre
ja impôs as mãos a Barnabé e Saulo. (Há fortes evidên
cias de que a função de impor as mãos pertence à con
gregação e não a um “ presbitério” .) Bruce afirma o se>
guinte:
Não se afirma que por aquele ato pudessem êles
qualificar Barnabé e Saulo para a obra a que Deus
os chamara; mas, por êsse meio êles (a igreja tôda)
expressavam seu companheirismo com os dois e
2. Op. cit., pg. 191.
3, Op. eit., pg. .172. 283.
O L IV R O D E A T O S 195
seu reconhecimento de que eram divinamente vo
cacionados. 4
Afirmar-se que nessa ocasião é que Barnabé e Sau-
lo foram feitos apóstolos é contradizer o que Paulo ale
ga em contrário (Gál. 1:1)
A tradução “ os despediram” , ou “ os enviaram” , não
é bem correta. Será melhor dizer “ deixaram-nosir” ,
ou “ dispensaram-nos” . A igreja simplesmente reconhe
cia a direção do Espírito Santo e cooperava com Êle,
Bruce observa que aqueles, assim “ dispensados para rea
lizar uma obra missionária, eram os mais dotados e
mais conspícuos da igreja” . 5
Dos “ profetas e mestres” mencionados, Barnabé e
Saulo são já conhecidos do leitor. Lúcio de Cirene pode
ser um daqueles que vieram de Cirene e ajudaram a
inaugurar o reavivamento, ao pregarem “ também aos
gregos” (11:20). Simeão (nome 'hebreu) certamente
viera da África, como o sugere o seu sobrenome — Ní
ger. Niger significa prêto, e é de origem latina. Êstes
dois fatores certo indicam a África. Podia ser êle um
daqueles vindos de Cirene (da África) que se reuniram
com os de Chipre no início do reavivamento em Antio-
quia. Manaém é caracterizado por uma palavra grega
empregada para um jovem da mesma idade dos príncipes
e com êstes criado na côrte. O significado da palavra é
aqui um tanto incerta; mas, ao que parece, Manaém ti
nha íntimas relações com a família de Herodes Antipas.
Êste Manaém poderia ser um descendente daquele Ma
naém que ganhara o favor de Herodes, o Grande, pelo
fato de ter previsto a subida dêle ao poder (Josefo, Antiq.
xv, 10, 5 ).
4. Op. cit., pg. 254.
5. Op. cit., pg. 253.
19ft F R A N K ST A G G
Diante de Roma Legal, o Cristianismo É Distinguido da
Falsa Filosofia
(13:4-12)
“ 4 Èstes, pois, enviados pelo Espírito Santo,
desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.
5 Chegados a Salamina, anunciavam a palavra de
Deus nas sinagogas dos judeus, e tinham a JoãO
como auxiíiar. 6 Havendo atravessado a ilha tôda
até Pafos, acharam um certo mago, falso profeta,
judeu, chamado Bar-Jesus, 7 que estava com o pro
cônsul Sérgio Paulo, homem sensato. Êste chamoü
a Barnabé e Saulo e empenhou-se em ouvir a pa-
lavra de Deus. 8 Mas resistia-lhes Elimas, p encan-
- tador (porque assim se interpreta o seu nome), pro1-
r • çurando -desviar da fé o procônsul. 9 Todavia Sau
lo, também chamado Paulo, cheio do Espírito San-
, - . to, fitando os olhos nêle, 10 disse: O’ filho do Diabo,
, : cheio de todo o engano e de tôda a malícia, inimigo
, de tôda a justiça, não cessas de perverter os cami
nhos retos do Senhor? 11 Eis que agora vem sôbre
* ' ‘ ti a mão do Senhor; e ficarás cego, sem ver o sol por
algum tempo. Imediatamente càiu sôbre êle uma
névoa e trevas e, andando à roda, procurava quem
v o guiasse pelá mão. 12 Então o procônsul, Vendo b
-i que havia acontecido, creu, maravilhando-se da dou-
- trina do Senhor.”
Barnabé, Saulo e seus companheiros viajaram para
Chipre; mas o Cristianismo já não era novidade em
Chipre. Barnabé e outros discípulos, cujos nomes nãp
conhecemos, eram de Chipre. E, como já dantes ano
tamos, os cipriotas e cireneus acenderam o fogo do rea-
vivamento em Antioquia. Mnáson, também, era dé
Chipre, e se nos fala dêle como de um “ disçípulo antigo” ,
O L IV R O D E A TO S 197
tíu “ discípulo desde a origem” (21:16). O intérêsse de
Lucas aqui parece ser o de contar como ali se diátinguiu
perfeitamente o Cristianismo da falsa religião, ou falsa
filosofia, e como aquêle sobremaneira impressionou
procônsul romano. Também parece que Lucas, estava
interessado em medir o efeito da reação do procônsul
sôbre Paulo.
Embora se mencionem as sinagogas, Lucas nadá
nos diz acêrca do desenvolvimento do Cristianismo na
quela ilha além do encontro com Sérgio Paulo e com Bar-
,íesus. Havia muitas comunidades naquela grande ilha,
rcom muitas sinagogas judaicas. Lucas se contenta em
dizer apenas que “ êles pregavam a palavra de Deus nas
sinagogas dos judeus” (13:5). O número de conspícuos
crentes cipriotas, agindo, já como missionários assaz aii-
vos, nos faz admitir que Chipre era um campo mui pro
missor. A reação favorável de Sérgio Paulo sem dúyi-
da foi mais uma porta que se abriu para os missioná
rios . Lucas não nos diz quanto tempo êles ficaram ná
ilha, nem nada nos diz da extensão da obra. O fáto de
Barnabé e Marcos terem voltado a Chipre mais tarde
(15:39) nos sugere que êles foram ali muito bem rece
bidos. O que está claro é que Lucas não estava prima
riamente interessado na multiplicação de discípulos ou
igrejas, e nem mesmo em anotar ò progresso geográfico
çlò»Cristianismo. O que mais o interessava erám as. idéias
é resultados de outra sorte.
João Marcos aqui é apresentado como um “ assis
tente” , um auxiliar. A palavra grega aqui empregada
aparece também significantemente em Lucas, 1:2, onde
Lucas afirma sua dependência dos “ ministros” da pala-
Vrá. Presumivelmente as pessoas aí referidas exerciám
alguma função especiaL Quem sabe isto incluía o ades
tramento nas praxes cristãs. Era preciso ensinar aos
conversos os fatos fundamentais da fé cristã, incluindo-
19« F R A N K ST A G G
se as coisas que Jesus dissera e fizera. João Marcos tal
vez estivesse sendo empregado já nesta capacidade, i .é .,
doutrinar os neófitos. O fato de residir êle em Jerusa
lém certo o teria habilitado para desempenhar bem essa
função. Se, como parece certo, foi êle na verdade o au
tor do primeiro Evangelho escrito, isto tudo está em
consonância com o que foi dito. 6 Talvez êle aplicasse
o batismo a mando de Barnabé e Saulo; mas, o mais
provável é que fôsse um instrutor da tradição cristã.
Bar-Jesus era judeu, mágico e falso profeta. A fun
ção do profeta era primàriamente a interpretação da
mente divina e não predizer o futuro. Êsse homem pro
clamava “ falsamente ser um medianeiro de revelações di
vinas” . 7 Foakes-Jackson acha que êle era “ uma pessoa
que combinava sua ‘filosofia’ (pois que assim devia ser
chamada) com a prática de mágicas ou adivinhações” . 8
Bar-Jesus quer dizer “ Filho de Jesus (ou Josué)” , mas
não está claro como êste nome se ligava com o de “ Eli-
mas” . Claro está que êle temia perder sua posição jun
to do procônsul, e por isso tentou desacreditar os mis
sionários. Paulo talvez percebesse a importância de se
parar a fé cristã daquele espiritualismo de Elimas, e daí
a razão de sua forte reação. Àquele Bar-Jesus (Filho
de Jesus) êle chamou de “ Filho do Diabo” e “ inimigo
da justiça” . A um verdadeiro e fiel “ profeta judeu” in
teressava primeiro a justiça, e Bar-Jesus era seu ini
migo.
Sérgio Paulo “ creu” , mas não se declara se êle se
converteu ou não. Êle poderia apenas ter crido que os
missionários eram homens de Deus e verdadeiros profe
tas. Tivesse um procônsul romano se convertido na
6. Veja, de R. O. P. Taylor, a obra The Groundwork of the Goapels (Oxford,
Basil BlackweU, 1946) pg. 21*30.
7. Bruce, op. cit., pg. 256.
8. The Àcte of Apoatlea, p. 111.
O L IV R O D E A T O S 199
queles primeiros tempos, seria de esperar-se encontrar
alguma referência a êste respeito na tradição cristã.
E’ significativo que dêste ponto em diante Saulo é
também chamado Paulo (13:9), que era o nome romano
dêle. Não se prova que Saulo tomou o nome de Paulo
dali em diante porque o procônsul se chamava Paulo.
Não sabemos se êle recebeu êsse nome romano ao nas
cer, ou se mais tarde. Certamente Paulo recebeu aí uma
nova visão das missões. A atitude favorável do pro
cônsul possivelmente sugeriu a Paulo a possibilidade de
ganhar o império romano para Cristo, e isso o inflamou
no sentido de atirar-se a essa tarefa.
Paulo e Seus Companheiros Alcançam Antioquia da
Pisídia (13:13-15)
“ 13 Tendo Paulo e seus companheiros navega
do de Pafos, chegaram a Perge, na Panfília. João,
porém, apartando-se dêles, voltou para Jerusalém.
14 Mas êles, passando de Perge, chegaram a Anlio-
quia da Pisídia e, entrando na sinagoga, no dia de
sábado, sentaram-se; 15 depois da leitura da lei e
dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram di
zer-lhes: Irmãos, se tendes algunia palavra de exor
tação ao povo, falai.”
Paulo tornou-se o chefe dominante do grupo mis
sionário, e evidentemente Barnabé não se mostrou agas
tado com isso. Não sabemos se foi isso que levou João
Marcos a voltar para Jerusalém,ou não. Muitas causas
foram aventadas, mas nenhuma é clara e aceitável. Al
gumas são tão destituídas de base que lamentamos ha
ver-se gasto tinta e papel com elas. Dizem alguns que
foi o mêdo das montanhas da região, ou dos ladrões que
as infestavam, ou o ciúme de Paulo, a indolência, a nos
talgia, ou penas de amor. Doutro lado, sabemos que êle
F R A N K ST A G G
foi criado em Jerusalém entre montanhas e ladrões; e
& casa dêle, que fôra tão hospitaleira para Jesus e Seus
primeiros discípulos, não pode ser tratada assim com
leviandade. 9 Paulo era tão suscetível ao êrro quanto
João Marcos. Pode ser que a coragem de Marcos o le
vasse a voltar de Perge. E’ possível que Marcos os dei
xasse por ousar viver por si, independentemente. De
sejou, quem sabe, andar conforme seus planos, e por
isso buscou libertar-se da dominante e dominadora per
sonalidade de Paulo. 10 E’ altamente plausível a opinião
cie Rackliam de que a separação se deu por prudência
e não por atrito de personalidades. 11 Marcos é aqui cha
mado pelo seu nome hebreu “ João” , e é possível que
êle ainda não se houvesse ajustado bem à obra entre
gentios.
Há evidências de que o coração de Paulo se voltava
para Éfeso e Roma já muitos anos antes de pregar nes
sas cidades. Possivelmente êle houvera proposto viajar
para Éfeso, ao deixarem Chipre; certamente intentava ir
p, Éfeso na próxima viagem, quando “ foram proibidos
pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia” (16:6).
Voltando-se para Antioquia da Pisídia, podia estar pla
nejando ir a Éfeso. Se sua Carta aos Gálatas foi ende
reçada à “ Galácia do Sul” (incluindo-se Antioquia da
Pisídia, Icônio, Listra, Derbe), 12 então há prova conclu
dente de que Paulo não intentara pregar nessas cidades
(Gál. 4:13). O que ocasionou suas primeiras prédicas
nessas cidades foi evidentemente alguma “ indisposição
9. Ver P. H. Andèrsõn, em John Mark, Servant o f Christ (Boston, The Chris-
topher Publishing House, 1949) onde se encontra um valioso e curioso estudo dêste
assunto.
10. Para o desenvolvimento desta possibilidade, veja-se o srtigo do autor, inti*
tulado “ John Mark: Who Dared to Live Hia Own Life” , em The Baptist Student
(Nashville, The Baptist Sunday School Board, February, 1951) XXX, 6, Í2.
11. Op. cit., pg. 203.
12. E ’ abundante a literatura que trata da controvérsia acêrca da “ Galácia do
Sul" e “ Galácia do Norte” . A êste escritor parece mais plausível a teoria da Galà-
cia do Sul.
O L IV R O B E A TO S 201
física” que o levou a desistir dos planos de pregar nou
tros lugares. Conquanto nada saibamos acerca da na
tureza dessa indisposição física, depreende-se dos» pró
prios escritos de Paulo que seria uma detestável doen
ça de olhos (Gál. 4:14). O incômodo certamente surgiu
em Antioquia quando tencionava ir para Éfeso.
Os exercícios espirituais das sinagogas eram feitos
em ordem, embora um tanto informais. Incluiam o
Sliema, recitação de Deut. 6:4; orações, leituras da lei e
dos profetas com as necessárias interpretações; o ser
mão, por qualquer homem da congregação; e a bênção;
cinco partes ao todo. Era costume convidar-se algum
visitante para fazer o sermão. Também normalmente
os cristãos daqueles tempos participavam dos cultos nas
sinagogas. Para Paulo, como para Jesus, o Cristianis
mo era a consumação do judaísmo, e não um competi
dor dêste.
O Sermão de Paulo a Judeus e a Tementes a Deus
(13:16-41)
“ 16 Então Paulo se levantou e, pedindo silên
cio com a mão, disse: Homens de Israel, e os que
temeis a Deus, ouvi: 17 O Deus dêste povo de Israel
escolheu a nossos pais, e exaltou o povo, sendo êles
estrangeiros na terra do Egito, de onde os tirou com
braço poderoso, 18 e suportou-lhe os maus costu
mes no deserto por espaço de quase quarenta anos;
19 e, havendo destruído a sete nações, na terra de
Canaã, deu-lhes o território delas por herança du
rante cêrca de quatrocentos e cinqüenta anos. 20
Depois disto, deu-lhes juizes até o profeta Samuel.
21 Então pediram um rei, e Deus lhes deu por qua
renta anos a Saul, filho de Cis, varão da tribo de
Benjamim. 22 E, tendo deposto a êste, levantou-lhes
como rei a Davi, ao qual também, dando testemunho,
202 F R A N K ST A G G
disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo
o meu coração, que fará tôda a minha vontade. 23
Da descendência dêste, conforme a promessa, trou
xe Deus a Israel um Salvador, Jesus; 24 havendo
João, antes do aparecimento dêle, pregado a todo
o povo de Israel o batismo de arrependimento. 25
Mas João, quando completava a carreira, disse:
Quem pensais vós que eu sou? Eu não sou o Cristo,
mas eis que após mim vem aquêle a quem não sou
digno de desatar as alparcas dos pés. 26 Irmãos,
filhos da estirpe de Abraão, e os que dentre vós te
meis a Deus, a nós é enviada a palavra desta salva
ção. 27 Pois, os que habitam em Jerusalém e as
suas autoridades, porquanto não conheceram a êste
Jesus, condenando-o, cumpriram as mesmas pala
vras dos profetas que se ouvem ler todos os sába
dos. 28 E, se bem que não achassem nêle nenhuma
causa de morte, pediram a Pilatos que êle fôsse
morto. 29 Quando haviam cumprido tôdas as coi
sas que dêle estavam escritas, tirando-o do madei
ro, o puseram na sepultura; 30 Mas Deus o ressus
citou dentre os mortos; 31 e ele foi visto durante
muitos dias por aquêles que com êle subiram da Ga-
liléia a Jerusalém, os quais agora dão testemunho
dêle para -com o povo, 32 e nós vos anunciamos as
boas novas da promessa, feita aos pais, 33 a qual
Deus nos tem cumprido, a nós, filhos dêles, levan
tando a Jesus, como também está escrito no salmo
segundo: Tu és meu Filho, hoje te gerei. 34 E no
tocante a que o ressuscitou dentre os mortos para
nunca mais tornar à corrupção, falou Deus assim:
Dar-vos-ei as santas e fiéis bênçãos de Davi; 35 pelo
que ainda em outro salmo diz: Não permitirás que
o seu santo veja a corrupção. 36 Porque, na verda
de, tendo Davi, a seu tempo, servido conforme a von-
O L IV R O D E A T O S 803
tade de Deus, dormiu, e foi depositado junto a seus
pais e experimentou corrupção. 37 Mas aquêle a quem
Deus ressuscitou nenhuma corrupção experimentou.
38 Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por
êste se vos anuncia a remissão dos pecados. 39 E
de tôdas as coisas de que não pudestes ser justifi
cados pela lei de Moisés, por êle é justificado todo
o que crê. 40 Cuidai, pois, que não venha sôbre vós
o que está dito nos profetas: 41 Vêde, ó desprezado-
res, maravilhai-vos e desaparecei; porque realizo
uma obra em vossos dias, obra em que de modo al
gum crereis, se alguém vo-la contar.”
Êste sermão de Paulo é dirigido a judeus e a temen
tes a Deus, sendo aquêles tratados, nos têrmos do seu
pacto, pelo nome de “ Israel” (13:16) e como “ filhos da
família de Abraão” (13:26). Paulo, porém, não os en
coraja de modo algum a crerem que qualquer pacto
haja amarrado Deus à sua nação ou raça, como de fato
largamente o sustentavam os judeus contemporâneos de
Paulo. Os homens de Israel e os filhos de Abraão po
diam ser também rejeitados como o fôra o rei Saul
(13:22). Aos gentios se oferecia a mesma salvação, em
bora também pudessem ser rejeitados, como se dera
com as “ sete nações da terra de Canaã” (1.3:19). Todos
são agora chamados à decisão que conduz à salvação
ou ao juízo. O sermão de Paulo tem três divisões: pri
meira, Deus preparando um povo e o seu Salvador (vs.
17 a 25); segunda, a mensagem do Evangelho (26-37);
terceira, o chamado à decisão (38-41).
Paulo lançou mão de fatos históricos para mostrar
a operação divina na preparação de um povo e de um
Salvador. Frisou a iniciativa de Deus em preparar um
povo para a sua salvação e o cuidado que mostrou para
com êles (vs. 17). A escolha não se baseava nos méri
tos do povo, pois que em Sua paciência “ suportou-lhes
204 F K A N K STAG G
os maus costumes” (vs. 18). 13 Deus tudo proveu para
prepará-lo, dando-lhes os “ pais” , os juizes, e profetas
como Samuel, o rei Davi, o precursor JoãoBatista, e
finalmente Jesus, o Salvador. 14 Paulo não se referiu
a entrega da lei e, em vez disso, deu ênfase à promessa.
Esta é uma das muitas afinidades para com ã carta aos
Gálatas. Tudo isto apontava parâ o verdadeiro filho de
Davi, o Salvador, Jesus (vs. 23).
Na segunda parte do sermão (26-37) encontramos
os elementos básicos da primitiva pregação apostólica:
o cumprimento das profecias; a negação de que a mor
te de Jesus por crucificação fôra por ter Êle qualquer
culpa e a afirmação de Sua morte fôra a morte de um
inocente; a morte de Jesus como parte do plano divino
d.e redenção; a ressurreição de Jesus como Sua justifi
cação; e a Sua vida de ressurrecto testemunhada por
muitas pessoas. A culpa era atirada sôbre os chefes
judeus e romanos, embora aquêle monstruoso crime ti*
vesse sido perpetrado por êles sem que compreendessem
bem o que então estavam fazendo. Jesus fôra levado à
morte sem qualquer prova clara contra Êle. Enfatiza-
se duplamente o entêrro de Jesus, para não ficar dúvida
alguma de que Êle morrera de fato e depois ressuscitara
gloriosamente. A ressurreição dÊle, perfeitamente testi
ficada por muitos que depois O viram, justificou intéfra-
mente a morte, provando que esta fôra uma vitória de
Jesus, e nunca uma derrota. O verdadeiro destino, dè
Israel se realizou em Jesus, o Filho de Deus.
■ A parte final do sermão (38-41) inclui o apêlo e um
aviso. Oferece-se a todos o perdão dos pecados median
te Jesus. “ Por êste” os que Crerem são justificados. A
lei de Moisés não conseguira isto (13:38). Aqui se vê
claramente enunciada a grande doutrina pauliná da jus
tificação pela fé, ou da justiça pela fé. Esta justificação
13. Seguimos aqui os melhores manuscritos, em discutida tradução,
14. V er R&çkham, op. cií.» pg, 214. - - „ . .
O L IV R O D E A TO S 205
pela fé inclui tanto uma nova posição como tijma nova
qualidade de vida. Também está presente aqui o tema
paulino “ em Cristo” ; porque devemos traduzir melhor
“ por Êle” do que “ por êste” de 13:19. A união vital
,eom Cristo é o que se manifesta nessa retidão: nova
posição, ou atitude, e nova vida. Juntamente com o
convite para acreditar, ou crer, vem o aviso do julga
mento que sobrevirá àqueles que não crerem, ou rejei
tarem o Salvador.
A Reação ao Sermão de Paulo (13:42-43)
“ 42 Quando iam saindo, rogavam que estas pa-
, ' lavras lhes fossem repetidas no sábado seguinte. 43
/ E, despedida a sinagoga, muitos judeus e prosélitos
devotos seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falan-
do-lhes, os exortavam a perseverar na graça de
Deus. ”
Paulo pôde pregar a Jesus como o Filho de Deus
(13:33) e como o Salvador dos homens (13:23) numa
sinagoga judaica e ser convidado a voltar! Isto se ve
rificava mais de quinze anos depois da crucificação de
Jesus. Esta resposta favorável veio de “ judeus e de
votos conversos do judaísmo (prosélitos)” , Não de-
.veixtos confundir êstes prosélitos devotos com os temen
tes a Deus dos versículos 16 a 26. As palavras gregas
aí são diferentes, e se trata de fato de grupos distintos.
O auditório de Paulo era composto de judeus (por nas»
cimento), de prosélitos (gentios convertidos ao judaís
mo) , e de tementes a Deus (gentios que estavam estu
dando o judaísmo). Aqui não se menciona o último
grupo, porque Lucas está interessado somente em evi
denciar que aqueles que estavam dentro do judaísmo
mostravam-se favoráveis à mensagem de Paulo. A di
visão só apareceu no sábado seguinte. *
306 F R A N K ST A G G
' Voltando-se para os Gentios (13:44-52)
“ 44 No sábado seguinte reuniu-se quase tôda a
cidade para ouvir a palavra de Deus. 45 Mas os ju
deus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e,
blasfemando, contradiziam o que Paulo falava. 46
Então Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disse
ram: Era mister que a vós se pregasse em primeiro
lugar a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais,
e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos
viramos para os gentios; 47 porque assim nos orde
nou o Senhor: Eu te pus para luz dos gentios, a fim
de que sejas para salvação até os confins da terra.
48 Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorifi
cavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos
haviam sido destinados para a vida eterna. 49 E di
vulgava-se a palavra do Senhor por tôda aquela re
gião. 50 Mas os judeus incitaram as mulheres devo
tas de alta posição e os principais da cidade, suscita
ram uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e os
lançaram fora dos seus têrmos. 51 Mas êstes sacudi
ram contra aquêles o pó dos seus pés e partiram
para Icônio. 52 Os discípulos, porém, estavam cheios
de alegria e do Espírito Santo.”
No sábado seguinte apareceu no auditório um quar
to grupo, e a presença dêste tornou inteiramente inacei
tável aquela mensagem que dantes fôra recebida com en
tusiasmo! O grosso dos gentios — “ as multidões” — não
sujeitas ao judaísmo, compareceram ali “ para ouvir a
palávra de Deus” ; mas, a presença daquela gente incomo
dava aos judeus. Aquelas multidões estavam passando
por alto o judaísmo em aceitando a Jesus, e por isso os
judeus se mostraram enciumados. Dai, êstes tentaram
desacreditar a Paulo e Barnabé, bem como ao Evangelho
que anunciavam.
Então fizeram-se escolhas, e decisões foram toma
O L IV R O D E A TO S 207
das, cujas conseqüências nenhum dos ali presentes pode
ria aquilatar bem. Os judeus em nada estavam sendo des
prezados, ou desconsiderados, pois que a palavra de Deus
lhes era anunciada primeiramente a êles. Paulo e Barna-
bé deixaram bem claro isto, quando lhes disseram: “ Vis
to que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eter
na” (13:46). Estava aqui o início da auto-exclusão dos
judeus. E, com esta triste e estranha atitude dos judeus, vi
nha o seu corolário: “ Eis que nos viramos para os gen
tios.” Êste era agora o último grupo — os pagãos não
alcançados pelo judaísmo.
O voltarem-se para os gentios era coisa alegre e tris
te a um só tempo. Isso apressava a conversão dos gentios,
mas tornava menos provável a conquista dos judeus para
Cristo. E isso pesou bastante no espírito de Paulo nos
anos subseqüentes (ver Romanos, capítulos de 9 a 11). O
ansioso anelo de Paulo pelos judeus jamais diminuiu, e
o desejo dêle foi sempre servir a judeus e gentios como
a um só povo. Mas, já que era forçoso escolher, êle lan
çava sua sorte com os rejeitados e não com os rejeitado-
res. Paulo veio a enxergar mais claramente, no correr
dos anos, que o propósito inicial de Deus era criar com
judeus e gentios uma nova humanidade em Cristo. A sua
Carta aos Efésios é a maior afirmação dêste ideal divi
no. 15 Mas, mesmo nesta data anterior, Paulo não encon
trava alegria nenhuma em ver-se forçado a romper com
a sinagoga. E a prova é que êle entrou na primeira sina
goga que lhe abriu as portas.
A perseguição fêz com que os missionários abando
nassem a cidade de Antioquia. Deixando-a “ sacudiram
o pó de seus pés contra êles” , como o teria feito qualquer
judeu, para proclamar a impureza dum samaritano ou
dum gentio. Os realmente “ imundos” eram aquêles “ que
15. Ver, de W. O. Carver, a cbra The Glory of God in the Christian CaUing
(Nashville, Broadman Press, 1949) onde encontramos um tratamento cuidadoso
desta carta.
208 F R A N K SXAG G
sc julgavam indignos da vida eterna” . Os judeus que jul
gavam inaceitável a igualdade do gentio em Cristo é que
estavam provando ser os verdadeiros “ gentios” . Mais
-tarde, Paulo iria fazer distinção entre o verdadeiro Israel
e o Israel nacionalista, e mostraria que, por esta distinção,
o judeu nato podia virtualmente tornar-se puro “ gentio”
(Gál. 3:7, 28 com Rom. 9:6).
Icônio: Os Mesmos Resultado® (14:1-7)
“ 1 Em Icônio entraram juntos na sinagoga dos
judeus e falaram de tal modo que creu uma grandè
- ' multidão tanto de judeus como de gregos. 2 Mas os
judeus incrédulos excitaram e irritaram os ânimos
dos gentios contra os irmãos. 3 Êles entretanto se de-
í moráram ali por muitotempo, falando ousadamente
acêrca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra
: da suá graça, concedendo que por mãos dêles se fi
zessem sinais e prodígios. 4 Mas dividiu-se a multi
dão da cidade; e uns eram pelos judeus, e outros pe-
r los apóstolos. 5 E, havendo um motim tanto dos gen
tios como dos judeus, juntamente com as suas auto
ridades, para Os ultrajarem e apedrejarem, 6 êles,
sabendo-o, fugiram para Listra e Derbe, cidades da
Licaòniü, e cercanias, 7 e ali pregavam o evange
lho.”
! A palavra “ juntos” é tradução de três palavras gre
gas que significam literalmente “ segundo a mesma coi
sa” (14:1). Parece tratar-se de um idiòmatismo que sig
nifica “ do mesmo modo” (ver expressão semelhante em
Lucas 6:23 e 26) , Lucas, assim, está dizendo que êles
entraram em Icônio do mesmo modo como em Antio-
quia: começaram por visitar a sinagoga, tentando minis
trar a judeus e gentios por aquele meio. A história se re
flete, e, âpós o êxito inicial, a oposição dos judeus os for
çou a sair da sinagoga e, por fim, da própria cidade1-
O L IV R O D E A T O S 209
Conquanto encontremos aqui dificuldades textuais
que prejudicam a reconstrução da narrativa, parece que
houve certo êxito a princípio na sinagoga, visto que cre-
ram judeus e gregos (tementes a Deus) (14:1). Isto
precipitou a oposição dos judeus, e êstes, incrédulos, ou
desobedientes (a palavra grega expressa tanto uma coisa
como outra), sublevaram os gentios contra os irmãos
(14:2). O versículo seguinte nos fala dum longo período
de bastante paz, que lhes facultou falar ousadamente do
Senhor e realizar sinais e maravilhas pelo Seu poder (14:
3 ). Provàvelmente durante êsse período êles foram di
retamente aos gentios, após terem sido expulsos da sina
goga. (Alguns exegetas acham que se deve trocar a or
dem dos versículos 2 e 3, alegando que algum antigo es
criba mui provàvelmente mudou a posição dêles. Isso
torna mais corrente a leitura, e, nesse caso, teria havido
apenas uma perseguição; mas não temos provas em ne
nhum manuscrito que nos autorize a colocar o versículo
terceiro antes do segundo. Alguns manuscritos impor
tantes trazem ao final do versículo segundo esta nota ex
plicativa: “ e o Senhor depressa concedeu paz” .)
O versículo 4 nos descreve uma divisão entre o povo
da cidade, visto que uns ficaram com os judeus e outros
com os apóstolos. Admitindo que êstes foram antes ex
pulsos da sinagoga e que a isto se seguiu um período de
pregação direta aos gentios, poderemos ver então o pos
terior esforço dos judeus no sentido de forçar os apósto
los a abandonar a cidade. Possivelmente não acharam
nada em que pudessem acusar legalmente os apóstolos, e
por isso os judeus lançaram mão da violência. Certamen
te apresentaram as razões de costume para sublevar a
cidade, e os chefes gentios da cidade desejaram devolver-
lhe a paz pondo para fora os perturbadores da mesma.
Os apóstolos, sabendo o que então se tramava contra êles,
fugiram para outras cidades e suas vizinhanças (14:6).
A .A . 14
210 F R A N K STAG G
E’ digno de nota a palavra “ apóstolos” aqui usada
(14:4), em referência a Paulo e Barnabé. (Ver também
14:14). Paulo em suas Cartas faz questão de chamar-se
apóstolo. Esta palavra significa “ enviado” , e pode refe
rir-se aqui à função dêles como missionários. Filipe tam
bém fôra enviado a realizar missões mui importantes,
mas não é chamado apóstolo. Conquanto vejamos um
grupo de pessoas do Novo Testamento reconhecidas como
“ apóstolos” , não temos explicação alguma acêrca da dis
tinção do ofício. (Veja-se, porém, a discussão de 1:15-26.)
, Uma história pormenorizada a respeito de Icônio en
contramos no livro Atos de Paulo e Tecla (A. D. 150).16
Segundo Tertuliano, essa história foi compilada por um
presbítero da Ásia Menor que foi deposto no ano 160 por
havê-la escrito, Fala-nos da dedicação de Tecla por Pau
lo e da recusa de tal pessoa em casar-se com um jovem
aristocrata chamado Tamiris. Essa perturbação da
vida doméstica provocou muitos conflitos e perseguições.
Possivelmente isto não tem nenhuma base histórica. E’
o que acham muitos peritos. Mas, é possível que aí este
ja refletida alguma história verdadeira. A história é cla
ramente uma glorificação da virgindade, e isso nos faz
ver que ela não passa de coisa inventada. Contudo, há
nessa história alguns traços que parecem refletir a situa
ção daquele tempo. Se isso íôr verdade pode lançar al
guma luz sôbre o cisma verificado em Icônio, pois que a
conversão de um pagão perturbaria profundamente as re
lações domésticas e comunais por suas conseqüências mo
rais e religiosas. Para não irmos muito longe, basta-ima
ginar-se a tensão que se verificaria entre uma mulher
cristã e seu espôso pagão, o qual adorava ídolos e admi
tia como legal o infanticídio! Algo disto vemos refletido
16. Ver, de Sir W. M. Ramsay, o livro The Church in the Roman Empire, pg.
375-428; e Rackam, op. c i t pg. 226 em diante.
O L IV R O D E A TO S 211
na Primeira Carta aos Coríntios, notadamente no capítu
lo sete.
Essa história igualmente nos descreve Paulo como
uma pessoa “ de baixa estatura, de sobrancelhas cerra
das, de nariz mais ou menos grande, calvo, cambaio, de
íísico bem forte, atraente, pois que às vêzes parece ho
mem, e outras vêzes tem rosto de anjo” . 17 Ramsay áno-
ta que “ Êste sincero e desfavorável retrato das feições
pessoais do Apóstolo parece traduzir uma tradição assaz
antiga.” 18 Verdadeiro ou imperfeito, o certo é que êstc
relato exerce até hoje sua influência nos retratos men
tais que fazemos do grande Apóstolo dos gentios.
Listra: Pagãos Volúveis e Judeus Persistentes (14:8-20a)
“ 8 Em Listra estava serítádo um hómem aleija
do dos pés, coxo dé nascença e que nunca tinha an
dado . 9 Êste ouvia falar Paulo, que, fitando nêle ós
ollios e vendo que tinha fé para ser curado, 10 disse
em alta voz: Levanta-te direito sôbre teus pés. E êle
saltou, e andava. 11 As turbas, vendo o que Paulo fi
zera, levantaram a voz, dizendo em lingua licaôni-
ca: Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens
e desceram até nós. 12 A Barnabé chamavam Júpi
ter e a Paulo, Mercúrio, porque era êle o qüe dirigia
a palavra. 13 O sacerdote de Júpiter, cujo templo
estava em frente da cidade, trouxe parã as portas tou
ros e grinaldas, e, juntamente com o povo, quèria
oferecer-lhes sacrifícios. 14 Quando, porém, os após
tolos Barnabé e Saulo ouviram isto, rasgaráni âs
suas vestes e saltaram para o meio da multidão, cla
mando 15 e dizendo:.Senhores, por que fazeis essas
coisas? Nós também somos homens da mesma na
tureza que vós, e vos anunciamos o evangelho para
17. The Church in the Roman Empire, pg. 31 em diante.
18. Ibid., pg. 32.
2X2 F R A N K ST A G G
que fez o céu, a terra, o mar, e tudo quanto nêles
existe; 16 o qual nos tempos passados permitiu que
tôdas as nações andassem nos seus próprios cami
nhos. 17 Contudo não deixou de dar testemunho de
si mesmo, fazendo o bem, dando-vos chuvas do céu
e estações frutíferas, enchendo-vos de mantimento,
e de alegria os vossos corações. 18 E dizendo isto,
com dificuldade impediram as multidões de lhes ofe
recerem sacrificios. 19 Sobrevieram, porém, judeus
de Antioquia e de Icônio e, havendo persuadido a
multidão, apedrejaram a Paulo, e arrastaram-no para
fora da cidade, cuidando que estava morto. 20 Mas,
quando os discípulos o rodearam, êle se levantou e
entrou na cidade. ”
O ambiente de Listra era completamente pagão. Não
se diz que ali houvesse alguma sinagoga judaica, e preva
lecia o culto de Zeus (14:13). Os habitantes de Listra
certamente falavam um grego estropiado,19 mas sua lin-
gua materna era a licaônica. Quando viram já curado
o coxo, concluíram que os apóstolos eram Zeus e Hermes,
e logo buscaram oferecer-lhes sacrificios. Excitados e
boquiabertos, era natural que voltassem a usar a sua lin-
gua nativa. Chamaram a Paulo de “ Hermes” , porque
era Paulo o orador principal. Hermes era o deus da pa
lavra, ouo mensageiro (no original grego a palavra em
pregada é anjo) dos deuses. Êste incidente certamente
é lembrado numa posterior referência feita por Paulo,
quando êste diz ter sido recebido como “ um anjo” (Gál.
1:8 e 4:14).
A mensagem de Paulo aos listrenses reflete nitida
mente a formação puramente pagã de seus ouvintes.
Como se dá com todos os seus discursos registrados nos
19 Assim o demonstram inscrições de dita posterior, e é de presumir-se QU©
Poulo a êles se dirigiu em grego.
O L IV R O D E A T O S 213
Atos, êste discurso calhava perfeitamente à situação,
Paulo chamou a atenção de seus ouvintes para o Deus
vivo que criara tôdas as coisas, procurando desviá-la do
culto dos deuses que êles haviam criado (14:15). Já nas
sinagogas, Paulo certamente apelaria para o testemunho
das escrituras judaicas; agora, porém, deveria apelar para
aquilo que fôsse da experiência daqueles pagãos. Deviam
êles perceber que nas bênçãos recebidas através da natu
reza estava a benfeitora mão de Deus e o testemunho que
Êle dava de Sua Pessoa (14:17).
Encontra-se alguma dificuldade em harmonizar a de
claração — “ nas gerações passadas permitiu que tôdas
as nações andassem nos seus próprios caminhos” (14:
16) com o argumento de Paulo em Romanos 1:18-32,
onde Paulo insiste em afirmar que os pagãos são ines
cusáveis e que a cegueira dêles é a resultante de sua pró
pria recusa de seguir a luz que Deus lhes concedera na
natureza. As passagens podem harmonizar-se, se nos
lembrarmos bem dos problemas aí discutidos. Na Carta
aos Romanos, o interesse principal do Apóstolo era esta
belecer o fato de que Deus é reto e justo no Seu modo de
tratar a judeus e gentios; se alguém se perde, é justamen
te pelo fato de não ter obedecido à luz facultada por
Deus. Em Listra Paulo não estava lidando com gente or
gulhosa que insistia em que Deus a devia salvar, e, se
não a salvasse seria infiel a Seus compromissos (muitos
judeus afirmavam que Deus seria injusto se consentisse
na perdição do povo do pacto). Estava lidando, sim, com
um povo simples e ignorante que necessitava ser conci
tado a lançar-se nos páramos duma fé esclarecida. Acres
ce ainda que Paulo agora estava conclamando aquela
gente a aproveitar-se daquela luz que tinham recebido
através da natureza e a cuja plenitude teriam acesso ago
ra pelo evangelho.
Mas, a singeleza, ou simplicidade daqueles pagãos não
F R A N K ST A G G
era o maior problema que o apóstolo tinha a enfrentar,
pois que judeus persistentes e teimosos o perseguiam
desde Antioquia e Icônio. Êstes, persuadindo as multi
dões emotivas e volúveis, levaram os judeus a “ apedre
jar Paulo e arrastá-lo para fora da cidade, supondo que
êle estivesse morto” (14:19). As nossas traduções nos
deixam fàcilmente a impressão de que o povo de Listra
apedrejou a Paulo, mas isso não é exato. Os particípios
gregos decidem a questão, e revelam que “ os judeus de
Antioquia e Icônio” é que apedrejaram Paulo. Achando
que êle estava morto, provàvelmente voltaram a suas ci
dades. E assim se explica o fato de ter o Apóstolo podi
do entrar novamente na cidade de Listra. Aqueles judeus
certamente persuadiram os habitantes de Listra a ponto
de êstes permitirem o ataque contra Paulo; mas não to
maram a iniciativa naquela perseguição.
Derbe, e a Viagem de Volta a Antioquia da Síria
(14:20b-28)
“ 20b No dia seguinte partiu com Barnabé para
Derbe. 21 E, tendo anunciado o Evangelho naquela
cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Lis
tra, Icônio e Antioquia, 22 confirmando as almas dos
discípulos, exortando-os a perseverarem na fé, dizen
do que por muitas tribulações nos é necessário en
trar no reino de Deus. 23 E, havendo-lhes feito ele
ger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os
encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.
24 Atravessando então a Pisídia, chegaram à Panfí-
lia. 25 E, tendo anunciado a palavra em Perge, des
ceram à Atália. 26 E dali navegaram para Antioquia,
donde tinham sido encomendados à graça de Deus
para a obra que acabavam de cumprir. 27 Quando
chegaram e reuniram a igreja, relataram tudo quan
to Deus fizera por meio dêles, e como abrira aos
O L IV R O D E ATO S SIS
gentios a porta da fé. 28 E ficaram ali não pouco
tempo, com os discípulos.”
E’-nos dado somente um relatório geral da vito
riosa missão em Derbe. “ Gaio, de Derbe” (20:4) deveria
ler-se convertido nesse tempo. Listra e Derbe podiam
não ter sido incluídas no plano prèviamente elaborado,
pois que os apóstolos se viram forçados a fugir da perse
guição em Icônio para essas cidades (14:6). Estivessem
ou não estivessem no plano, a verdade é que nessas cida
des êles conseguiram conversos muito amados, embora
Loíde, Eunice, e Timóteo, bem como Gaio, possivelmen
te só viessem a ser alcançados na seguinte viagem mis
sionária .
0 regresso através das comunidades recém-evange-
lizadas era coisa de muita importância, visto tratar-se de
igrejas muito novas e também por causa das perseguições
desencadeadas contra elas. Era necessário fazer ver àque
les novos cristãos que “ a cruz” é coisa com que se deve
contar no reino de Deus (14:22). Havia uma futurosa
obra em organização, que se fazia notadamente necessá
ria onde a igreja se ia separando da sinagoga e se consti
tuindo em sua mor parte de gentios. Os apóstolos “ indica
ram anciãos” em cada igreja e os deixaram ao Senhor
(14:23). A pa’avra grega traduzida aqui por “ indicar” re
fere-se originàriamente à eleição por manifestação de
mãos, mas não se pode afirmar que Lucas empregasse
esta palavra com êsse sentido. Gomo vimos atrás, as pa
lavras “ ancião” (presbítero) e “ bispo” são muitas vêzes
empregadas em o Novo Testamento alternadamente. (Ver
Atos 2:17 com 20:28, e Tito 1:5 com 1:7).
Atália é mencionada na viagem de regresso, embora
não se fale nela quando os missionários viajaram de Chi
pre e “ vieram a Perge” (13:13). De novo se nos diz que
os apóstolos pregaram a palavra em Perge na volta (14:
25), mas não se fala que a pregaram ali na visita anterior
216 F K A N K ST A G G
P . H . Anderson 20 nos apresenta a solução mais aceitável
para tais problemas. Diz êle que Atália era o lugar de
desembarque de Perge e que por isso não lhes podia ofe
recer boas oportunidades para pregar — especialmente
quando aportasse algum navio, porque o povo ali residen
te estaria então muito atarefado. Paulo e seu companhei
ro, portanto, ápressaram-se em alcançar Antioquia da Pi-
bídia. No regresso, porém, tiveram que esperar a saída
do navio que os levaria a Antioquia da Síria. Os navios
não podiam obedecer estritamente a escalas e horários
estipulados, e assim os missionários tiveram que esperar
em Perge até poderem arrumar passagem em Atália. As
sim, esperando em Perge, pregaram, o evangelho.
Chegados a Antioquia da Siria, havia muita coisa a
relatar de sua viagem missionária: as viagens, o testemu
nho a um procônsul romano, o desmascaramento de um
mágico, convites para pregar em sinagogas judaicas, a
conversão de judeus, de tementes a Deus e de pagãos; o
fato de serem tomados como deuses, as ameaças, o ape
drejamento, e por certo muitas outras experiências não re
gistradas por Lucas. A campanha deveria ter sido de al
guns anos, embora nada se declare a respeito de sua du
ração. Mas, de tôdas as coisas a serem relatadas, a mais
importante para Lucas era o fato de Deus “ ter aberto a
porta da fé aos gentios” (14:27).
.Na verdade tinham sido já oferecidas aos gentios al
gumas portas abertas, tais como a circuncisão,’ a lei, e o
privilégio de ser um prosélito. Mas esta porta — a da
fé pessoal em Cristo Jesus — não tinha nenhuma ligação
necessária com a sinagoga e com qualquer daquelas coisas*
20. Op. cit* üg. 44 em diante.
O L IV R O D E A TO S 217
A Liberdade dos Gentios Discutida em Antioquia e em ,
Jerusalém
(15:1-35)
Salvação e Comunhão. A vitoriosa campanha que
trouxera para dentro das igrejas muitos gentios e judeus
também fêz surgir uma criseque punha em discussão al
guns pontos bem difíceis. Assim em Antioquia.e em Je
rusalém iniciou-se o debate sôbre as condições de salva
ção e, de comunhão. A afirmação de que o gentio não’ se
poderia salvar sem a circuncisão e sem a observância da'
lei mosaica (15:1 e 5) foi rejeitada por ambas as igrejas.
O inevitável problema que, vinha ligado a isso era o das
condições de comunhão, ou de companheirismo, entre ju
deus (cristãos ou não cristãos) e gentios convertidos.
As claras demonstrações do Espírito ..convertendo
gentios incircuncisos eram mui conclusivas e indiscutíveis
para todos, exceto para um impertinente partido de cren
tes fariseus que sustentavam que a salvação dependia da
circuncisão ou da obediência à lei mosaica. Êstes fari-,
seus, mais tarde conhecidos como judaizantes, não aceita
ram a decisão das igrejas; e, ajudados põr judeus incré
dulos. inauguraram um aguerrido debate com Paulo, de
bate que se estendeu por vários anos em tôdà a Galáciâ,
e Corinto, e Éfeso, e por tôda a parte; 1
A decisão acêrca da salvação não resolveu para algutís5
a questão do companheirismo ou comunhão (assiin como
a questão de raça não é hoje um problema afetG à salva
ção e sim ao companheirismo). O ágape, ou a ceia da
fraternidade, e a Ceia do Senhor, apresentariam á ocasião
para forçar a questão. Os escrúpulos judaicos surgiram
da parte de alguns que não admitiam comer cpm gentios
cristãos, negando também a outros êsse direito. O proble
ma, se tornou bastante agudo para os judeus cristãos que
desejavam conservar sua comunhão é amizade com ;ju
218 FRANK STAGG
deus não cristãos. O contato “ conspurcador” com cris
tãos incircuncisos privaria os judeus cristãos da desejada
comunhão com os judeus não cristãos.
E’ muito provável que esta questão de comunhão ou
companheirismo tivesse sido uma das causas da tensão
havidá entre Barnabé e Paulo, como também certamente
da tensão entre Pedro e Paulo (Gál. 2:11 em diante).
Paulo e Barnabé se separaram por causa de João Mar
cos; mas, como dissemos antes, a questão subjacente foi
de diplomacia e não simplesmente um choque de perso
nalidades. E’ possível que Barnabé fôsse mais cauteloso
lio sentido de forçar o preconceito judaico a dar lugar à
fraternidade cristã que pleiteava a igualdade do judeu è
do gentio incircunciso. Paulo, por outro lado, parecia
não tolerar a idéia de cristãos de primeira e de segunda
classe. Para êle, o fato de alguém não querer viver fra
ternalmente com cristãos incircuncisos era o mesmo que
uão crer na salvação dêstes. O que êle disse a Pedro em
Antioquia equivalia justamente a isto (Gál. 2:11 em
diante).
Questões de Exegética. Nenhum capítulo do Novo
Testamento nos oferece maiores dificuldades exegéticas do
que êste capitulo 15 dos Atos. 0 próprio texto em mui
tos pontos é incerto, por causa das diferenças dos manus
critos; 21 e enconIramos maiores problemas ainda quando
confrontamos êste capitulo com Gálatas 1:11 a 2:10. Kir-
sopp Lake não está muito longe da verdade quando diz:
“ O problema principal do capítulo 15 dos Atos é tão com
plicado que apenas podemos enunciá-lo — não o podemos
resolver — um processo de análise, por meio de outros
problemas menores.” 22 Será què a visita referida em
Gál. 2:1-10 é paralela à visita referida no cap. 15 dos
21. Êste problema será discutido na exegese do capítulo.
f!2. Kirsopp Lake e Henry J . Cadbury, editores, em Additional Notes, V ol. V..
The Beginnings o f Christianity (Londres, Macmillan and Co., 193S), p g . 195.
O LIVRO DE ATOS 219
Atos, ou à referida em 11:30 ou em 12:25? As medidas
contidas nessa carta (Atos 15:29) são de caráter moral ou
ritualista? Tito (que não é mencionado nos Atos) foi cir
cuncidado (Gál. 2:3)? A conferência se realizou antes
ou depois da campanha de Barnabé e Saulo? Eis alguns
dos problemas bastantemente discutidos em todos os co
mentários críticos.
Visitas a Jerusalém. Tradicionalmente se tem toma
do a conferência referida neste capítulo 15 como paralela
à referida no cap. 2 de Gálatas. Muitos, contudo, acham
que a visita mencionada em Atos 11:30 e 12:25 é que é
paralela à referida no cap. 2 de Gálatas. Na Carta aos
Gálatas, Paulo jura que está dizendo a verdade, e afirma
categoricamente que seu apostolado não se deriva dos
doze, e nem depende dêles. Êle nos fala de duas visitas
a Jerusalém: uma, três anos depois de sua conversão,
quando então se demorou ali quinze dias com Pedro e viu
Tiago (Gál. 1:18-19); então, outra, depois de catorze
anos, quando subiu a Jerusalém, “ por revelação” , com
Barnabé e Tito e discutiu em particular com Tiago, Ce-
fas, João, e outros, o problema da circuncisão (Gál. 2:1-
10). Nos Atos a segunda visita de Paulo, como cristão, a
Jerusalém é essa mencionada em 11:30 e 12:25; a visita de
que nos fala o cap. 15 dos Atos é a terceira mencionada.
Isto, juntamente com outras considerações, é coisa deci
siva para muitos que acham que a visita de Atos 11:30
e 12:25 é paralela à de Gál. 2:1-10. Outros, por sua vez,
sustentam que as passagens se referem a uma visita só,
e que Lucas confundiu suas fontes de informação, dan
do uma visita só como duas.
Êste escritor não deseja tomar a si a tarefa de “ pro
var” que Lucas de fato se confundiu ao ponto de tratar
uma só visita como duas; as evidências que nos levamua
confiar na veracidade do que Lucas afirma são por demais
fortes para agirmos assim. Vale dizer, no entanto, que
levando-se em conta a finalidade com que alguns escre
220 FRANK STAGG
vem hoje em dia, está longe de provar-se que a visita de
11:30 e 12:25 seja paralela à de Gál. 2:1-10.
A Teoria de que Atos 11:30 se assemelha a Atos 15
— Lake apresenta em tôda a sua fôrça a teoria de que
a visita de Atos 11:30 e 12:25 se deu por ocasião da con
ferência e que a visita referida no cap. 15 dos Atos é
apenas uma confusão com a mesma visita. 23 Assim ar
gumenta êle: “ Segundo Gálatas, Paulo foi a Jerusalém
por revelação, e não por causa de qualquer controvérsia
na igreja, e êle dá a entender que tal visita estava rela
cionada com o cuidado dos pobres. ” 24 E’ verdade que
Paulo foi “ por revelação” , mas isso não exclui que uma
controvérsia desse ocasião a essa viagem. Os gálatas pos
sivelmente sabiam algo dessa controvérsia e então o cen
suraram, achando que êle devia ir a Jerusalém a fim de
ser julgado pelos apóstolos. E Paulo insiste em afirmar
que íôra a Jerusalém não para atender a uma intimação
dos Apóstolos, e sim para atender a um imperativo di
vino .
Isto de modo algum nega que a visita referida nc
cap. 15 dos Atos seja a que Paulo fêz “ por revelação” .
O cuidado dos pobres não foi a ocasião para a visita men
cionada em Gálatas, e por isso não corresponde à visita
de Atos 11. Fôsse isso verdade, seria supérfluo o apêlo
da parte dos gálatas para que Paulo “ se lembrasse dos
pobres” (Gál. 2:10). Compreende-se que se pedisse a
Paulo e seus amigos que se lembrassem dos pobres logo
após à conferência referida no cap. 15 dos Atos; mas é
de estranhar que essa solicitação se fizesse no final da
visita referida no capítulo 11 dos Atos, quando Paulo e
Barnabé estavam fazendo justamente isso. Se aplicarmos
ó apêlo ao cap. 11 dos Atos, teremos isto: “ De todos os
modos, pedimos o favor de não vos esquecerdes de fazer
justamente aquilo que estais agora fazendo.”
23. Additional Notes, pg. 201; para a discussão completa do assunto, pg. 195-
212.
24. Ibid, pg. 202-25,
O LIVRO DE ATOS 221
Afirmou-se também que o capitulo 15 dos Atos não
passa dum registro assaz confuso, porque (assim dizem)
a solução dada não se ajusta ao problema. 25 O problema
então em foco, segundo o cap. 15 dos Atos e Gálatas 2:1-
10, era o da circuncisão e das condições de salvação; mas
a resolução contida no cap. 15 dos Atos incluia três (ou
quatro) assuntos referentes à comunhão, ou companhei
rismo. Afirma-se então que tal incongruência é fa
tal, pois nos leva a admitir que a narrativa do cap. 15
dos Atos não é digna de