Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

<p>Um dos maiores desafios</p><p>dos nossos dias é o treina­</p><p>mento de novos líderes, que</p><p>possam continuar, com in­</p><p>tegridade e seriedade, o tra­</p><p>balho -de evangelizar e le­</p><p>var ao mundo a mensagem</p><p>do Evangelho.</p><p>D atado do século XIX,</p><p>O Treinamento dos Doze é</p><p>Vi r\ c i</p><p>clássica. Desenvolvido pelo</p><p>D r. A lexan d er B alm ain</p><p>Bruce, esta obra fala, à nos­</p><p>sa geração, acerca da im ­</p><p>portância do preparo de</p><p>novos obreiros para o Rei-</p><p>r o .</p><p>principal escopo a forma</p><p>com que o Senhor Jesus trei­</p><p>nou seus discípulos para que</p><p>estes dessem continuidade à</p><p>obra que Ele iniciara.</p><p>REIS BOOK’S DIGITAL</p><p>A. B. B R U C E</p><p>Prefácio de D. Stuart Briscoe</p><p>E nos Para ο n</p><p>....... :seDv°ivimeni:o da Lirterariça</p><p>I a Edição</p><p>Traduzido por Degmar Ribas</p><p>CPAD</p><p>R io de Jan e iro</p><p>Todos os direitos reservados. Copyright © 2007 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias</p><p>de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.</p><p>T ítu lo do original em inglês: The Training o f the Twelve</p><p>Kregel Publications, Grand Rapids, M I 49501 , EUA</p><p>Primeira edição em ingles: 1971</p><p>Tradução: Degmar Ribas</p><p>Revisão: Elaine Arsenio e Daniele Pereira</p><p>Capa e projeto gráfico: Leonardo Marinho</p><p>Editoração: Leonardo Marinho</p><p>CDD: 248-V ida Cristã</p><p>ISBN: 978-85-263-0855-8</p><p>As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade</p><p>Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.</p><p>Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site:</p><p>h ttp ://www.cpad.com.br.</p><p>SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-21-7373</p><p>Casa Publicadora das Assembléias de Deus</p><p>Caixa Postal 331</p><p>20001-970 , R io de Janeiro, RJ, Brasil</p><p>I a ed ição/2007</p><p>http://www.cpad.com.br</p><p>Prefácio</p><p>de D. Stuart Briscoe</p><p>A-Z Alexander Balmain Bruce, um homem tão escocês quanto seu nome,</p><p>nasceu em uma fazenda de Perthshire e foi educado no Edinburgh College.</p><p>Ministrou em congregações no território escocês e deu aulas em um</p><p>Seminário em Glasgow. Por mais de quarenta anos, dedicou-se a minis­</p><p>trar o evangelho cristão, primeiro como pastor, e então como um ilustre</p><p>professor de Apologética e Exegese do Novo Testamento. Começou a</p><p>escrever durante o tempo em que pastoreava, e seu conhecido livro O</p><p>Treinamento dos Doze foi publicado em 1871. Mantendo a preferência por</p><p>títulos ponderosos e descritivos no século XIX, a obra recebeu o seguin­</p><p>te subtítulo: “Passagens Extraídas dos Evangelhos Apresentando os Doze</p><p>Discípulos de Jesus sob Disciplina para o Apostolado”.</p><p>Por mais de um século O Treinamento dos Doze foi altamente respeita­</p><p>do e amplamente recebido. Uma autoridade como o Dr. W. H. Griffith</p><p>Thomas chamou o livro de “um dos grandes clássicos cristãos do século</p><p>XIX”, e o Dr. W ilbur Smith, principal bibliófilo americano, observou:</p><p>“Não há nada importante na vida de nosso Senhor em relação ao treina­</p><p>mento dos doze apóstolos que não tenha sido relatado nesse livro...”</p><p>Agora, esse “clássico do século XIX” pode expandir seu ministério</p><p>já rico e abençoado. Embora com mais de cem anos de idade, a obra do</p><p>Dr. Bruce fala poderosa e efetivamente à geração cristã contemporânea.</p><p>Nos anos recentes, tem havido uma redescoberta da importância</p><p>dos ensinamentos de Paulo no capítulo 4 de Efésios acerca da responsa­</p><p>bilidade de os pastores e mestres prepararem os santos para a obra do</p><p>ministério. Por vários anos, muitas igrejas ignoraram, ou escolheram ig­</p><p>6 O Treinamento dos Doze</p><p>norar, esses ensinamentos bíblicos, e, portanto, uma pequena parte do</p><p>povo de Deus ficou sobrecarregada enquanto a m aioria ficou</p><p>subempregada. Enquanto um pouco dos dons eram colocados em práti­</p><p>ca de forma plena, milhares de pessoas que receberam dons nem mesmo</p><p>sabiam que os haviam recebido. Como resultado, o ministério potencial</p><p>da Igreja de Cristo foi reduzido consideravelmente. O Dr. Bruce teria se</p><p>sentido em casa com a ênfase atual no treinamento de pessoas para o</p><p>ministério, e seu livro tem muito a oferecer como fonte para o treina­</p><p>mento ao apresentar o Mestre ensinando sua equipe especial.</p><p>Ver a Igreja como o Corpo de Cristo é outra ênfase contemporânea</p><p>saudável. Ela serve para libertar as pessoas da idéia equivocada de que a igreja</p><p>é um lugar que as pessoas freqüentam e as apresenta ao conceito bíblico de</p><p>que a Igreja é algo que as pessoas são. E potencialmente revolucionário para</p><p>os cristãos verem a si mesmos como o Corpo de Cristo e consagrarem suas</p><p>vidas a amar uns aos outros como membros companheiros, comprometidos</p><p>com a nutrição mútua. Este livro documenta com todo o cuidado os confli­</p><p>tos e os sucessos do primeiro grupo de pessoas que se empenhou tanto para</p><p>amar aos outros que se tornaram reconhecidos como discípulos de Cristo.</p><p>Recentemente, muito tem sido escrito sobre o crescimento cristão</p><p>pessoal. Alguns materiais se inclinam mais para as ciências sociais do</p><p>que para ensinamentos teológicos e bíblicos, e cheiram mais a auto-</p><p>aperfeiçoamento do que a crescimento espiritual. A obra do Dr. Bruce</p><p>beneficiará muitos leitores modernos porque seus estudos examinam</p><p>cuidadosamente de que forma os discípulos cresceram como resultado</p><p>do relacionamento que tinham com o Mestre. A igreja contemporânea</p><p>precisa lembrar-se de que informação inestimável ajuntada aos poucos</p><p>de cientistas sociais acerca do comportamento humano nunca deve ser</p><p>vista como substituta para um relacionamento pessoal com o Senhor</p><p>Jesus semelhante àquele experimentado pelos doze enquanto caminha­</p><p>vam juntos para cima e para baixo. Como eles ouviam sua palavra, estu­</p><p>davam suas reações, cumpriam seus mandamentos e respondiam às suas</p><p>promessas estão fielmente registrados para nós nas Escrituras e muito</p><p>bem aplicados a nossas situações neste livro.</p><p>Pessoalmente, constatei que O Treinamento dos Doze é de imenso valor</p><p>por motivos além dos relacionados acima. Quando prego acerca dos</p><p>Prefácio 7</p><p>Evangelhos, constantemente uso este livro, e descobri que se trata de um</p><p>excelente comentário. Além disso, quase sempre me sento e leio alguns</p><p>capítulos apenas porque preciso do alimento que só encontro nas aplica­</p><p>ções devocionais das Escrituras em minha alma. Poucos expositores fi­</p><p>zeram mais do que A. B. Bruce em relação a isso.</p><p>Talvez a melhor recomendação que posso dar sobre o livro, porém,</p><p>é dizer que embora eu tenha centenas de livros em minha crescente bibli­</p><p>oteca, todos cuidadosamente catalogados e organizados em prateleiras,</p><p>percebi que O Treinamento dos Doze nunca foi incluído oficialmente em</p><p>minha biblioteca! A razão é simples. Desde que adquiri meu exemplar,</p><p>anos atrás, ele fica em minha escrivaninha ou em minhas mãos, com</p><p>muitos outros livros a que recorro constantemente. Simplesmente não</p><p>consegui ficar sem usá-lo por tempo suficiente para que minha secretária</p><p>pudesse colocá-lo no lugar apropriado! Pensando bem, o lugar apropri­</p><p>ado para ele é onde eu possa pegá-lo rapidamente. Espero que o seu</p><p>exemplar encontre esse lugar em sua vida e em sua experiência.</p><p>D. Stuart Briscoe</p><p>Prefácio</p><p>à Segunda Edição</p><p>AJL Vd ser informado por um editor de que seria necessária uma segunda</p><p>edição de O Treinamento dos Doze, que foi publicado pela primeira vez em</p><p>1871, fui compelido a pensar sobre a questão de que alterações deveriam</p><p>ser feitas em um trabalho que, embora escrito com cuidado, também esta­</p><p>va obviamente, em minha opinião, selado com imperfeição. Duas alterna­</p><p>tivas surgiram em minha mente. Uma foi reformar a obra por inteiro, a fim</p><p>de conferir-lhe um caráter mais crítico e científico, e fazer com que resistis­</p><p>se mais diretamente as atuais controvérsias sobre a origem do cristianismo.</p><p>A outra era permitir que o livro ficasse substancialmente como estava,</p><p>conservando sua forma popular, e limitando as alterações a detalhes susce­</p><p>tíveis de melhoria sem mudança do plano. Depois de um pouco de hesita­</p><p>ção, optei pela última, pelas seguintes razões. De expressões de opiniões</p><p>que me alcançaram de muitas e diversas áreas, fiquei convencido de que o</p><p>livro era</p><p>que elas não se arre­</p><p>pendiam, ou seja”, não permitiam que o Reino dos céus se tornasse o seu</p><p>maior bem, assim como o motivo de sua vida. Questionavam o suficien­</p><p>te seus milagres, e falavam muito sobre eles. Corriam atrás dele para ver</p><p>mais obras do mesmo tipo e ter uma nova sensação de estupefação. Po­</p><p>rém depois de algum tempo, reincidiam em sua própria estupidez e indi­</p><p>ferença, e permaneciam moralmente como eram antes de sua presença</p><p>entre eles, não se tornando filhos do reino, mas permanecendo ainda</p><p>como filhos deste mundo.</p><p>Não foi assim com o coletor de impostos. Ele não vagava e falava</p><p>simplesmente, mas se “arrependeu”. Se ele tinha mais do que se arre­</p><p>pender que seus vizinhos, não sabemos. E verdade que Mateus pertencia</p><p>a uma classe de homens que, vistos através do preconceito popular co­</p><p>mum, eram todos maus, e muitos eram realmente culpados de fraudes e</p><p>extorsões, mas ele pode ter sido uma exceção. Seu banquete de despedi­</p><p>da mostra que ele possuía recursos, mas não podemos presumir que</p><p>estes tenham sido adquiridos de forma ilícita. Porém podemos dizer</p><p>38 O Treinamento dos Doze</p><p>com certeza que se o discípulo publicano era cobiçoso, agora o espírito</p><p>da ganância havia sido expulso; se alguma vez foi culpado de oprimir os</p><p>pobres, agora abominava tal atitude. Ele havia se cansado de coletar im­</p><p>postos de uma população relutante, e estava feliz por seguir alguém que</p><p>tinha vindo para carregar os fardos, e não para se apoiar neles, para</p><p>perdoar as dívidas ao invés de cobrá-las com rigor. E então aconteceu</p><p>que a voz de Jesus agiu em seu coração com muito vigor: “E ele, deixan­</p><p>do tudo, levantou-se e o seguiu”.</p><p>Esta importante decisão, de acordo com o relato de todos os</p><p>evangelistas, foi feita logo após o banquete na casa de Mateus, no qual</p><p>Jesus estava presente14. A partir da narrativa de Lucas, podemos ver que</p><p>essa festa tinha todas as características de uma grande ocasião, e que</p><p>havia sido feita em homenagem a Jesus. A homenagem, contudo, não</p><p>estava à altura, pois os outros convidados eram peculiares. “Chegaram</p><p>muitos publicanos e pecadores e sentaram-se juntamente com Jesus e</p><p>seus discípulos”15; e em meio aos “outros” haviam alguns que eram esti­</p><p>mados, em um grau superlativo, como “pecadores”16.</p><p>Esse banquete era, como julgamos, não menos rico em importância</p><p>moral do que as iguarias servidas à mesa. Para o próprio anfitrião era,</p><p>sem dúvida, um jubileu, um banquete comemorativo de sua emancipa­</p><p>ção do trabalho enfadonho, da sociedade incompatível e do pecado ou,</p><p>de um modo geral, da tentação de pecar, e o seu ingresso na livre e</p><p>abençoada vida de comunhão com Jesus. Era um tipo de poema, dizen­</p><p>do a Mateus o que as linhas familiares de Doddridge dizem a muitos</p><p>outros, talvez não tão bem:</p><p>O dia feliz, quando fiz a minha escolha</p><p>Por ti, meu Salvador e meu Deus!</p><p>Que este coração ardente possa se regozijar,</p><p>Contar sobre seu entusiasmo em todos os lugares!</p><p>Está feita; a grande transação está feita:</p><p>Eu sou do meu Senhor, e Ele é meu;</p><p>Ele me chamou, e eu o segui,</p><p>Fascinado por confessar a voz divina.</p><p>Mateus, o Publicano 39</p><p>O banquete também foi, como já mencionado, um ato de homena­</p><p>gem a Jesus. Mateus fez seu esplêndido banquete em honra ao seu novo</p><p>mestre, assim como Maria, de Betânia, derramou seu precioso ungüento</p><p>sobre os seus pés. E o meio de aqueles a quem muita graça é mostrada</p><p>manifestarem seu grato amor*em seus atos, exibindo o que um filósofo</p><p>grego chamava de magnificência17, e as pessoas mais simples chamam de</p><p>extravagância. Quem quer que tente criticar tais atos de devoção, deve se</p><p>lembrar de que Jesus sempre os aceitou com prazer.</p><p>O banquete do publicano parece ter tido o caráter de uma festa de</p><p>despedida para seus amigos publicanos. Dali em diante, Mateus e seus</p><p>amigos seguiriam caminhos diferentes, e ele se separaria deles em paz.</p><p>Mais uma vez podemos acreditar que Mateus fez o banquete com a</p><p>intenção de apresentar Jesus aos seus amigos e vizinhos, procurando com</p><p>o zelo característico de um jovem discípulo induzir outros a tomar a</p><p>mesma decisão que ele, ou pelo menos esperando que alguns pecadores</p><p>presentes pudessem ser tirados do caminho do mal e levados ao cami­</p><p>nho da justiça. E por que não poderíamos dizer que foi nessa reunião</p><p>festiva, ou em alguma outra ocasião semelhante, que as impressões da</p><p>graça haviam produzido o resultado final da comovente demonstração</p><p>de gratidão inefável naquele outro banquete na casa de Simão, no qual</p><p>nem os publicanos nem os pecadores foram admitidos?</p><p>O banquete de Mateus foi visto internamente como muito agradá­</p><p>vel, inocente e até edificante. Mas que i n f e l i c id ad e ! Visto externamente,</p><p>como por janelas sujas, tinha um aspecto diferente: era, de fato, nada</p><p>menos que escandaloso. Certos fariseus observaram a chegada ou a saída</p><p>daquelas pessoas, notaram quem eram, e depois fizeram reflexões sinis­</p><p>tras a seu bel-prazer. Quando surgiu uma oportunidade, eles fizeram aos</p><p>discípulos de Jesus uma pergunta que era simultaneamente um elogio e</p><p>uma censura: “Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores?”</p><p>Aqueles que fizeram esta pergunta eram, em sua maioria, membros da</p><p>seita local dos fariseus, pois Lucas se refere a eles como: “os escribas</p><p>deles e os fariseus”18, o que implica que Cafarnaum era suficientemente</p><p>importante para ser honrada com a presença dos representantes de tal</p><p>facção religiosa. E pouco provável, contudo, que em meio aos especta­</p><p>dores pouco amistosos estivessem alguns fariseus vindos de Jerusalém, o</p><p>40 O Treinamento dos Doze</p><p>centro do governo eclesiástico, já no encalço do Profeta de Nazaré, ob­</p><p>servando seus atos, assim como fizeram com João Batista, antes dele. As</p><p>notícias das obras milagrosas de Cristo logo se espalharam por toda a</p><p>terra, e atraíram espectadores de todos os cantos — de Decápolis, de</p><p>Jerusalém, da Judéia, e da Peréia, assim como da Galiléia19! e podemos</p><p>estar certos de que os escribas e fariseus da cidade santa não foram os</p><p>últimos a ir e ver. Devemos considerar que estes cumpriram o dever da</p><p>espionagem religiosa com diligência exemplar.</p><p>A presença desses homens doentes da ordem farisaica era quase um</p><p>aspecto permanente no ministério público de Cristo. Mas isso nunca o</p><p>perturbou. Ele seguiu calmamente o seu caminho fazendo a sua obra; e</p><p>quando sua conduta era posta em questão, Ele estava sempre pronto</p><p>com uma resposta conclusiva. Dentre as mais impressionantes de suas</p><p>respostas ou apologias aos que o examinavam, estavam aquelas nas quais</p><p>Ele se justificava por se misturar com pecadores e publicanos. São três,</p><p>expressas em muitas ocasiões: a primeira relacionada ao banquete de</p><p>Mateus; a segunda na casa de Simão, o farkeu20; e a terceira, em uma</p><p>ocasião sem data definida, quando certos escribas e fariseus lhe fizeram</p><p>uma grave acusação: “Este recebe pecadores e come com eles”21. Essas</p><p>apologias pelo fato de amar os não-amados e os moralmente desagradá­</p><p>veis estão repletas de verdade e graça, poesia e compaixão, com um to­</p><p>que particular de sátira dirigida contra os santarrões acusadores. A pri­</p><p>meira pode ser distinguida como o argumento profissional, e tinha o se­</p><p>guinte conteúdo: “Eu freqüento a casa dos pecadores porque sou um</p><p>médico; eles estão doentes e precisam de cura. Onde deveria estar um</p><p>médico se não em meio aos seus pacientes? Onde mais se não entre os</p><p>mais gravemente aflitos?” A segunda pode ser descrita como sendo um</p><p>argumento político, e sua construção tem o seguinte sentido: “E uma boa</p><p>política ser amigo dos pecadores que têm muito a ser perdoado; porque</p><p>quando forem restituídos ao caminho da virtude e da piedade, quão</p><p>grande será o seu amor! Veja aquela mulher penitente, chorando de dor</p><p>e também de alegria, banhando os pés do seu salvador com suas lágri­</p><p>mas. Tais lágrimas são um refrigério para o meu coração, como uma</p><p>fonte de água no deserto árido do formalismo e da indiferença farisaica”.</p><p>A terceira pode ser chamada de argumento do instinto natural, e poderia</p><p>Mateus, o Publicano 41</p><p>ser expressa assim: “Eu recebo os pecadores, e como com eles, e assim</p><p>procuro estabelecer a sua restauração moral. Faço-o pela mesma razão</p><p>que leva o pastor a sair em busca de uma ovelha perdida, deixando o seu</p><p>rebanho no deserto. Porque é natural procurar o perdido e ter mais ale­</p><p>gria ao encontrar coisas perdidas do que se alegrar por aquilo que nunca</p><p>foi perdido. Os homens que não compreendem este sentimento são so­</p><p>litários no universo; porque os anjos no céu, os pais, as donas de casa, os</p><p>pastores, todos os que têm corações humanos na terra, compreendem</p><p>bem, e agem dessa forma todos os dias”.</p><p>Em todo esse raciocínio Jesus falou aos seus acusadores baseando-</p><p>se nas próprias premissas deles, aceitando as estimativas que tinham de</p><p>si próprios e da classe que julgavam ser infame para se associarem, como</p><p>justos e pecadores respectivamente. Mas Jesus decidiu expor que seu</p><p>julgamento em relação a essas duas classes não coincidia com o de seus</p><p>interrogadores. Ele o fez na ocasião do banquete de Mateus, ordenando</p><p>que fossem estudar o texto: “Misericórdia quero e não sacrifício”, que­</p><p>rendo pela citação insinuar que, embora fossem muito religiosos, os</p><p>fariseus eram também muito desumanos, cheios de orgulho, preconcei­</p><p>tos, severidade, e ódio. E, proclamando a verdade, disse-lhes que este</p><p>caráter era, aos°olhos de Deus, muito mais detestável que o daqueles que</p><p>eram afeiçoados às vozes vulgares da multidão, para não falar daqueles</p><p>que eram “pecadores” principalmente na imaginação farisaica. Desse</p><p>modo, Jesus mostrou-lhes um outro lado da situação.</p><p>As últimas palavras de nosso Senhor para as pessoas que haviam</p><p>colocado a sua conduta em questão nessa ocasião não eram meramente</p><p>apologéticas, mas judiciais: “Eu não vim”, disse Ele, “chamar os justos,</p><p>mas sim os pecadores, ao arrependimento”22. Com isto, declarou que</p><p>aqueles que se consideravam justos ficariam sozinhos, e convidou ao</p><p>arrependimento e às alegrias do reino aqueles que não estivessem satis­</p><p>feitos com a sua própria vida. Estes últimos passariam a cuidar dos be­</p><p>nefícios agora oferecidos, e o banquete do evangelho lhes seria uma ver­</p><p>dadeira festa. A palavra, na verdade, continha uma significativa alusão a</p><p>uma iminente revolução religiosa, na qual os últimos se tornariam os</p><p>primeiros e os primeiros, os últimos; os judeus proscritos, os vis gentios</p><p>(considerados até mesmo como cães), tomariam parte das alegrias do</p><p>42 0 Treinamento dos Doze</p><p>reino e os aparentemente “justos” seriam excluídos. Este foi um dos</p><p>discursos significativos através do qual Jesus tornou conhecido para aque­</p><p>les que podiam compreender que a sua religião era universal, uma reli­</p><p>gião para a humanidade, um evangelho para o gênero humano, um evan­</p><p>gelho para os pecadores. E o que estava sendo declarado em palavras, a</p><p>apologia à conduta cristã, era proclamado de forma ainda mais expressi­</p><p>va por meio de suas obras. Tal compaixão pelos “publicanos e pecado­</p><p>res” era algo abominável — o instinto farisaico o discerniu deste modo</p><p>— e eles em seguida se alarmaram. Significava a morte dos monopólios</p><p>e privilégios da graça e do orgulho judaico e do exclusivismo — todos</p><p>os homens são iguais aos olhos de Deus, e são bem-vindos à salvação</p><p>nos mesmos termos. De fato, era uma proclamação virtual do programa</p><p>paulmo de um evangelho universalista, o qual os doze deveriam, como</p><p>uma escola de teólogos, defender com a mesma determinação exibida</p><p>pelos próprios fariseus. Causa estranheza saber que aqueles que estive­</p><p>ram com Jesus tivessem a visão tão restrita a ponto de não entenderem,</p><p>mesmo no final, o que estava envolvido na comunhão de seu Mestre</p><p>com aqueles que eram considerados inferiores e perdidos! [Será que Buda</p><p>foi mais afortunado em relação aos seus discípulos do que Jesus em</p><p>relação aos seus? Buda disse: “Minha lei é uma lei de graça para todos”,</p><p>dirigindo suas palavras imediatamente contra a preconceituosa casta</p><p>bramânica; e seus seguidores entenderam o que isto significava; o budis­</p><p>mo como uma religião missionária, uma religião para os sudras, e conse­</p><p>qüentemente para toda a humanidade!]</p><p>I Mateus 8.18-20</p><p>" Mais corretamente, alojamentos, pousadas.</p><p>3 Ewald ( Cbristus, pp. 364, 397) nega a identidade, e afirma que Levi não era um dos doze; porém admite a</p><p>identidade menos evidente de Natanael e Bartolomeu.</p><p>4 Mateus 9.1</p><p>3 Mateus 9.9; Marcos 2.13; Lucas 5.27</p><p>6 Lucas 6.13-17</p><p>7 Lucas 5.27</p><p>8 Marcos 1.27</p><p>9 Marcos 2.12</p><p>10 Lucas 5.26</p><p>II Mateus 9.26</p><p>12 Veja Ebrard, Gospel History, sobre o assunto da seqüência.</p><p>Mateus, o Publicano 43</p><p>13 Mateus 11.23. Podem haver poucas dúvidas de que mh , na primeira cláusula, adotada na versão revisada, seja</p><p>a correta. Ela traz a palavra profética de Cristo a uma correspondência mais próxima com Isaías 14.13-15, ao qual</p><p>existe uma alusão óbvia: “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu... contudo, levado serás ao inferno...”</p><p>14 Mateus diz modestamente, “em casa’ •(9.10).</p><p>13 Mateus 9.10</p><p>16 Lucas 5.29</p><p>ll mepãloprepeiíi — Aristóteles, Ética a i\'ic$waco 4.2</p><p>'» Lucas 5 30</p><p>10 Mateus 4.25</p><p>20 Lucas 7.36</p><p>21 Lucas 15.2</p><p>22 e parece ser genuíno somente em Lucas, e as palavras expressam somente uma parte daquilo que Cristo estava</p><p>dizendo. Ele convidou os homens não somente ao arrependimento, mas à participação em todas as bênçãos do</p><p>reino.</p><p>4</p><p>Os Doze</p><p>Mateus I0.I-4; Marcos 3.13-19; Lucas 6.I2-I6; Atos I.I3</p><p>AL. 1 escolha que Jesus fez dos doze discípulos que gradualmente se</p><p>reuniram ao seu redor é uma importante referência na história do evan­</p><p>gelho. Tal ato divide o ministério do nosso Senhor em duas partes pro­</p><p>vavelmente muito semelhantes quanto à duração, mas diferentes quanto</p><p>à extensão e a importância do trabalho realizado em cada uma. No perí­</p><p>odo inicial Jesjjs trabalhou sozinho; suas obras milagrosas estavam con­</p><p>finadas a uma área limitada, e seu ensino era, em sua maior parte, de</p><p>caráter elementar. Mas na ocasião em que os doze foram escolhidos, a</p><p>obra do reino "assumiu dimensões que requeriam organização e divisão</p><p>de trabalho. O ensino de Jesus estava começando a ser de natureza mais</p><p>profunda e elaborada, e suas atividades beneficentes estavam crescendo</p><p>muito.</p><p>E provável que a escolha de um número limitado de discípulos para</p><p>ser seus companheiros íntimos e constantes tenha se tornado uma neces­</p><p>sidade para Cristo, em conseqüência de seu próprio sucesso ao fazer</p><p>discípulos. Seus seguidores eram tão numerosos a ponto de serem um</p><p>impedimento aos seus movimentos, especialmente nas longas jornadas</p><p>que marcam a parte posterior de seu ministério. Era impossível que to­</p><p>dos os que criam pudessem então continuar a segui-lo de modo literal,</p><p>para onde quer que Ele fosse: o grande número de pessoas agora poderia</p><p>ser apenas de seguidores ocasionais. Mas era seu desejo que alguns ho­</p><p>mens escolhidos estivessem consigo em todos os momentos e em todos</p><p>os lugares — seus companheiros de viagem em todas as suas jornadas,</p><p>testemunhando toda a sua obra e ministrando às suas necessidades diá­</p><p>46 0 Treinamento dos Doze</p><p>rias. E assim, nas palavras singulares de Marcos: “E subiu ao monte e</p><p>chamou para si os que ele quis; e vieram a ele. E nomeou doze para que</p><p>estivessem com ele...”1.</p><p>Estes doze, contudo, como sabemos, deveriam ser mais que meros</p><p>companheiros de viagem ou servos comuns do Senhor Jesus Cristo. Eles</p><p>deveriam ser, então, aprendizes da doutrina cristã, e ocasionais</p><p>cooperadores das obras do reino, e mais tarde agentes treinados, escolhi­</p><p>dos por Cristo para propagar a fé depois que Ele deixasse a terra. A</p><p>partir do momento em que foram escolhidos, de fato, os doze iniciaram</p><p>um aprendizado regular para o grande ofício do apostolado, no curso</p><p>do qual deveriam aprender, na privacidade de um relacionamento ínti­</p><p>mo diário com seu Mestre, como deveriam ser, agir, crer, e ensinar como</p><p>suas testemunhas e seus embaixadores no mundo. Doravante o treina­</p><p>mento desses homens deveria ser uma parte constante e proeminente da</p><p>obra pessoal de Cristo. Ele os orientava à noite a respeito</p><p>do que deveri­</p><p>am falar de dia, e falava aos seus ouvidos o que nos anos posteriores</p><p>anunciariam publicamente2.</p><p>A ocasião em que ocorreu essa eleição (embora não se conheça tal</p><p>data com precisão) é fixa em relação a certos eventos-chave da história</p><p>do evangelho. João se refere aos doze como uma companhia organizada</p><p>na ocasião em que o Senhor realizou o milagre de alimentar mais de</p><p>cinco mil pessoas, e do discurso sobre o Pão da vida na sinagoga de</p><p>Cafarnaum, proferido pouco tempo após aquele milagre. Desse fato</p><p>aprendemos que os doze foram escolhidos pelo menos um ano antes da</p><p>crucificação; pois o milagre da multiplicação dos alimentos ocorreu, de</p><p>acordo com o quarto evangelista, logo após a festa da Páscoa3. A partir</p><p>das palavras ditas por Jesus aos homens que havia escolhido, transmitin­</p><p>do a sua pergunta em relação à fidelidade devida a ele depois da multi­</p><p>dão tê-lo abandonado: “Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é</p><p>um diabo”4, concluímos que a escolha não era tão recente. Os doze</p><p>haviam estado juntos durante tempo suficiente para dar ao falso discí­</p><p>pulo a oportunidade de mostrar o seu verdadeiro caráter.</p><p>Voltando agora aos evangelistas sinópticos, encontramo-los tentan­</p><p>do estabelecer a posição da eleição em referência a dois outros eventos</p><p>ainda mais importantes. Mateus fala pela primeira vez dos doze como</p><p>Os Doze 47</p><p>um corpo distinto em relação à sua missão na Galiléia. Ele não diz, contu­</p><p>do, que foram escolhidos imediatamente antes e com referência direta a</p><p>tal missão. Antes, fala como se a fraternidade apostólica já existisse ante­</p><p>riormente, sendo estas as suas palavras: “E, chamando os seus doze dis­</p><p>cípulos...” Lucas, por outro lado, faz um relato formal da eleição, como</p><p>um prefácio de seu relatório do Sermão ia Montanha, dando a impressão de</p><p>que um evento ocorreu logo após o outro5. Finalmente, a narrativa de</p><p>Marcos confirma o ponto de vista sugerido por essas observações de</p><p>Mateus e Lucas, isto é, os doze foram chamados pouco antes da realiza­</p><p>ção do Sermão da Montanha, e um tempo considerável antes de terem</p><p>sido enviados em missão para pregar e curar. Está escrito: “E subiu ao</p><p>monte (t )6 e chamou para si os que ele quis” — a subida obviamente se</p><p>refere à ocasião em que Jesus subiu antes de pregar seu grande discurso.</p><p>Marcos continua: “E nomeou doze para que estivessem com ele e os</p><p>mandasse a pregar e para que tivessem o poder de curar as enfermidades</p><p>e expulsar os demônios”. Aqui há uma alusão feita a uma intenção da</p><p>parte de Crist® de enviar seus discípulos em uma missão, mas a intenção</p><p>não é representada e imediatamente executada. Nem pode ser dito que a</p><p>execução imediata esteja implícita, embora não tenha sido expressa; o</p><p>evangelista faz um relato da missão como consta em vários capítulos</p><p>seguintes em seu Evangelho, iniciando com estas palavras: “Chamou a si</p><p>os doze, e começou a enviá-los de dois a dois...”7.</p><p>Deve ser considerado, então, como toleravelmente certo, que o cha­</p><p>mado dos doze tenha sido um prelúdio à pregação do grande sermão</p><p>sobre o reino, em cuja fundação eles teriam, posteriormente, uma parti­</p><p>cipação ainda mais distinta. Não podemos determinar com exatidão em</p><p>que período do ministério de nosso Senhor o sermão em si deve ser</p><p>precisamente alocado. Nossa opinião, contudo, é que o Sermão da M on­</p><p>tanha foi proferido próximo ao primeiro ministério prolongado de Cristo</p><p>na Galiléia, durante o tempo passado entre as duas visitas a Jerusalém</p><p>em ocasiões de festas mencionadas no segundo e no quinto capítulo do</p><p>Evangelho de João8.</p><p>O número da companhia apostólica é significativo e, sem dúvida,</p><p>uma questão de escolha, assim como a composição daquele grupo sele­</p><p>to. Um número maior de homens elegíveis poderia ser facilmente en-</p><p>48 0 Treinamento dos Doze</p><p>contrado no círculo de discípulos que, mais tarde, não se tornou menor</p><p>que setenta auxiliares na obra evangelística9; e um número menor pode</p><p>ter servido a todos os propósitos presentes ou futuros do apostolado. O</p><p>número doze foi recomendado por óbvias razões simbólicas. Expressava</p><p>de uma forma feliz e figurada o que Jesus reivindicava ser e o que veio</p><p>fazer e, deste modo, fornecia apoio à fé e estímulo à devoção de seus</p><p>seguidores. Isto sugeriu de forma significativa que Jesus era o divino Rei</p><p>messiânico de Israel, que veio para estabelecer o reino cujo advento fora</p><p>anteriormente previsto pelos profetas em linguagem fervorosa, sugerida</p><p>pelos dias de felicidade da história de Israel, quando a comunidade</p><p>teocrática existia em sua integridade, e todas as tribos da nação escolhi­</p><p>da eram unidas sob a casa real de Davi. Sabemos que o número doze</p><p>estava designado a conter tal significado espiritual através das próprias</p><p>palavras de Cristo aos apóstolos em uma ocasião posterior, quando, ao</p><p>descrever as recompensas que os esperavam no reino pelos serviços e</p><p>sacrifícios prestados, Ele disse: “Em verdade vos digo que vós, que me</p><p>seguistes, quando, na regeneração, o Filho «do Homem se assentar no</p><p>trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para jul­</p><p>gar as doze tribos de Israel”10.</p><p>E possível que os apóstolos conhecessem muito bem a importância</p><p>espiritual do seu número, e tenham encontrado nele o encorajamento</p><p>para a terna e ilusória esperança de que a vinda do reino não deveria ser</p><p>apenas um cumprimento espiritual das promessas, mas uma restauração</p><p>literal de Israel em relação à sua independência e integridade política. O</p><p>risco de tal equívoco era um dos obstáculos relacionados ao número</p><p>doze em particular, mas não foi considerado por Jesus como uma razão</p><p>suficiente para estabelecer outro. Seu método de procedimento nesse</p><p>caso, como em todas as coisas, era continuar o que era verdadeiro e</p><p>certo, e então corrigir os equívocos à medida que surgissem.</p><p>Do número do grupo apostólico passamos para as pessoas que o</p><p>compõem. Sete dos doze — os primeiros sete na lista de Marcos e Lucas,</p><p>presumindo que Bartolomeu seja Natanael — são pessoas já conhecidas</p><p>por nós. Dois dos cinco restantes — o primeiro e o último — conhece­</p><p>remos bem à medida que avançarmos na história.Tomé, chamado Dídimo</p><p>ou o Gêmeo, aparece como um homem de coração terno, mas de tempe-</p><p>Os Doze 49</p><p>ramento melancólico, pronto para morrer por seu Senhor, mas lento</p><p>para crer em sua ressurreição. Judas Iscariotes e conhecido em todo o</p><p>mundo como o Traidor. Ele aparece pela primeira vez nessa lista de</p><p>apóstolos com o título infame marcado em sua testa: “Judas Iscariotes,</p><p>aquele que o traiu”. A presença de um homem capaz de trair entre os</p><p>discípulos eleitos é um mistério no qual não devemos tentar penetrar.</p><p>Meramente fazemos aqui uma observação histórica sobre Judas — ele</p><p>parece ter sido o único não galileu entre os doze. Seu sobrenome veio</p><p>aparentemente de seu lugar de origem, Queriote; e no livro de Josué</p><p>podemos constatar que existia uma cidade com tal nome na fronteira do</p><p>sul da tribo de Judá11.</p><p>Os três nomes que restam são extremamente obscuros. Em bases fa­</p><p>miliares aos estudiosos da Bíblia, existem tentativas de identificar Tiago,</p><p>filho de Alfeu, com Tiago, o irmão ou parente do Senhor. O próximo na</p><p>lista de Mateus e Marcos é apontado por muitos como sendo o irmão</p><p>deste Tiago, e assim, possivelmente um outro irmão de Jesus. Esta opinião</p><p>é baseada no fato de, em lugar de Lebeu e Tadeu dos dois primeiros Evan­</p><p>gelhos, encontrarmos na lista de Lucas o nome Judas “... de Tiago”. A</p><p>elipse nesta designação foi preenchida pela palavra irmão, e presume-se</p><p>que o Tiago aludido seja Tiago, filho de Alfeu. Independentemente de</p><p>quão tentador esses resultados possam ser, não podemos considerá-los</p><p>como apurados, e devemos nos satisfazer com a idéia de que em meio aos</p><p>doze havia um segundo Tiago, além do irmão de João e filho de Zebedeu,</p><p>e também um segundo Judas, que novamente aparece como um interlocutor</p><p>na conversa de despedida entre Jesus e seus discípulos na noite anterior à</p><p>crucificação, cuidadosamente distinguido do traidor, pelo evangelista, através</p><p>da anotação parentética: “não o Iscariotes”12. Este Judas, que é o próprio</p><p>Lebeu ou Tadeu, foi chamado de discípulo de três nomes13.</p><p>O discípulo a quem reservamos o último lugar, como aquele que</p><p>fica no topo de todas as listas, é Simão. Este segundo Simão é desconhe­</p><p>cido, enquanto o primeiro é notório, porque não é mencionado na his­</p><p>tória do evangelho, exceto nas listas dos apóstolos; e assim, pouco se</p><p>sabe a respeito dele, o apelido anexado ao seu nome leva a uma informa­</p><p>ção curiosa e interessante. Ele é chamado de kananita (não de cananita),</p><p>o que é uma designação política e não geográfica, como consta no termo</p><p>50 O Treinamento dos Doze</p><p>grego que Lucas usou para substituir o termo hebraico, chamando o</p><p>discípulo do qual falamos de Simão, o zelote. Este apelido, zelote, rela­</p><p>ciona Simão indiscutivelmente ao famoso partido que surgiu da rebelião</p><p>sob a coordenação de Judas nos dias da taxação14, aproximadamente</p><p>vinte anos antes do mício do ministério de Cristo, quando*a Judéia e</p><p>Samaria ficaram sob o comando direto do governo de Roma, e o censo</p><p>populacional foi feito com a intenção de se impor uma tributação subse­</p><p>qüente. Que fenômeno singular foi a presença desse ex-zelote entre os</p><p>discípulos de Jesus! Dois homens não poderiam diferir mais em relação</p><p>ao seu espírito, metas, e pretensões do que Judas (o líder dos zelotes) e</p><p>Jesus de Nazaré. Um era um político descontente; o outro, completa­</p><p>mente vencedor, daria a César o que era de César. O primeiro desejava a</p><p>restauração do reino de Israel, adotando como lema: “Nós não temos</p><p>um Senhor ou Mestre, exceto Deus”; o segundo desejava a fundação do</p><p>reino que não era nacional, e sim universal; não deste mundo, e sim</p><p>“puramente espiritual”. Os métodos empregados pelos dois eram tão</p><p>diferentes quanto os seus objetivos e fins. Um havia recorrido às armas</p><p>carnais de guerra, a espada e o punhal; o outro confiava apenas na força</p><p>bondosa e amável, porém onipotente, da verdade.</p><p>Não sabemos o que levou Simão a deixar Judas (o líder dos zelotes)</p><p>para seguir Jesus; mas ele fez uma troca feliz para si, pois anos depois o</p><p>partido que ele abandonou atraiu a ruína para si e seu país devido a seu</p><p>patriotismo fanático, inconseqüente e inútil. Embora a insurreição de</p><p>Judas fosse subjugada, o fogo do descontentamento ainda queimava no</p><p>peito dos seus adeptos; e com o tempo, eclodiu na fogueira de uma nova</p><p>rebelião, que fez surgir uma luta mortal contra o poder gigantesco de</p><p>Roma, e terminou na destruição da capital do judaísmo, e na dispersão</p><p>do povo judeu.</p><p>A escolha desse discípulo para ser um apóstolo fornece uma outra</p><p>ilustração do desprezo de Cristo pela sabedoria humana. Não era seguro</p><p>transformar um ex-zelote em um apóstolo, porque ele poderia ser o</p><p>meio de transformar Jesus e os seus seguidores em objetos de suspeitas</p><p>políticas. Mas o Autor da nossa fé estava disposto a correr este risco. Ele</p><p>desejava ganhar tanto discípulos das classes perigosas como das classes</p><p>desprezadas, e queria que também estivessem representados entre os doze.</p><p>Os Doze 51</p><p>É uma surpresa agradável pensar que Simão, o zelote, e Mateus, o</p><p>publicano, homens de posições opostas, estivessem juntos e em comu­</p><p>nhão naquele pequeno grupo de doze pessoas. Na pessoa desses dois</p><p>discípulos os extremos se tocam — o ex-coletor de impostos e aquele</p><p>que odiava os impostos: o judeu que não era patriota, que havia se degra­</p><p>dado ao se tornar um servo do governante estrangeiro, e o judeu patrio­</p><p>ta, que se irritava com o domínio estrangeiro, e suspirava pela emancipa­</p><p>ção. Esta união dos opostos não era acidental, mas havia sido designada</p><p>por Jesus como uma profecia daquilo que aconteceria no futuro. Ele</p><p>desejava que os doze fossem a igreja em miniatura ou como o seu em­</p><p>brião; e assim, Ele os escolheu para que a distinção entre publicanos e</p><p>zelotes não existisse, e então na igreja do futuro não deveria haver nem</p><p>gregos nem judeus, circuncisão ou incircuncisão, escravos ou livres, mas</p><p>somente Cristo — Ele é tudo em todos e todos estão nele.</p><p>Estes eram os nomes dos doze conforme consta nas listas dos</p><p>evangelistas. Quanto à ordem são apresentados, examinando-se cautelo­</p><p>samente as listas, podemos observar que elas contêm três grupos de qua­</p><p>tro pessoas, e em cada um deles os mesmos nomes são sempre encontra­</p><p>dos, embora a ordem não seja a mesma. O primeiro grupo inclui aqueles</p><p>que são mais conhecidos, o segundo inclui aqueles que são pouco menos</p><p>conhecidos, e o terceiro inclui aqueles que são os menos conhecidos de</p><p>todos, exceto no caso do traidor, que ficou muito bem conhecido. Pedro,</p><p>a figura mais proeminente entre os doze, está no topo de todas as listas,</p><p>e Judas Iscariotes no rodapé, cuidadosamente designado, conforme já</p><p>foi observado, como o traidor. O rol apostólico, a partir da ordem</p><p>fornecida em Mateus, e empregando os cognomes característicos da his­</p><p>tória do evangelho como um todo, é o seguinte:</p><p>PRIM E IRO GRUPO</p><p>Sim ão Pedro O homem de pedra</p><p>André Irmão de Pedro</p><p>T iago e João Filhos de Zebedeu,</p><p>e filhos do trovão</p><p>52 0 Treinamento dos Doze</p><p>SEG U N D O GRUPO</p><p>Filipe</p><p>Bartolom eu ou N atanael</p><p>Tomé</p><p>M ateus</p><p>TERCEIRO GRUPO</p><p>O inquiridor sincero</p><p>O israelita em quem</p><p>não havia dolo</p><p>O melancólico</p><p>O publicano (assim chamado</p><p>apenas por si m esmo)</p><p>T iago (filho ) de Alfeu</p><p>Lebeu.Tadeu, Judas de T iago</p><p>Simão</p><p>Judas, o homem de Queriote</p><p>(T iago o menor? M arcos 1 5 .4 0 )</p><p>O discípulo que tinha três nomes</p><p>O zelote</p><p>O traidor</p><p>Estes foram os homens que Jesus escolheu para o acompanharem</p><p>enquanto estivesse nesta terra, e para dar continuidade à sua obra depois</p><p>de sua partida. Estes são os homens que a igreja celebra como “a compa­</p><p>nhia gloriosa dos apóstolos”. O louvor é merecido; mas a glória dos</p><p>doze não era deste mundo. Sob um ponto de vista mundano, alguns</p><p>podem considerá-los, de fato, uma companhia insignificante — um grupo</p><p>de pobres e iletrados galileus provincianos, totalmente desprezados, pri­</p><p>vados das características sociais mais elevadas, com mínimas chances de</p><p>serem escolhidos por alguém que valorizasse as considerações da pru­</p><p>dência. Por que Jesus escolheu tais homens? Teria Ele sido levado por</p><p>sentimentos de antagonismo por aqueles que possuíam vantagens soci­</p><p>ais, ou uma predileção por homens de sua própria classe? Não; sua esco­</p><p>lha foi feita com base na verdadeira sabedoria. Se Ele escolheu principal­</p><p>mente os galileus, não foi por preconceito provincial contra aqueles do</p><p>sul; se, como algumas pessoas pensam, Ele escolheu dois ou mesmo</p><p>quatro15 de seu próprio parentesco, não foi por nepotismo; se Ele esco­</p><p>lheu homens rudes, ignorantes, humildes, não foi movido pela inveja do</p><p>conhecimento, da cultura, ou da boa origem. Se qualquer mestre, ho-</p><p>Os Doze 53</p><p>mem rico, ou governante estivesse disposto a se entregar sem reservas ao</p><p>serviço do reino, nenhuma objeção teria sido feita a ele em virtude de</p><p>suas habilidades, posses ou títulos. O caso de Saulo de Tarso, o pupilo</p><p>de Gamaliel, prova a verdade dessa afirmação. Nem mesmo o próprio</p><p>Gamaliel poderia ter impedido que Paulo se tornasse um discípulo do</p><p>Nazareno. Mas sim! Nem ele nem nenhuma de suas ordens chegariam</p><p>tão longe. Por esta razão o desprezado Senhor não teve nenhuma opor­</p><p>tunidade de mostrar sua disposição de aceitá-los como díscípulos e</p><p>escolhê-los como apóstolos.</p><p>A verdade é que Jesus quis se contentar com pescadores, publicanos,</p><p>e antigos zelotes como apóstolos. Eles eram o melhor que se poderia</p><p>obter. Aqueles que se consideravam melhores, eram também muito or­</p><p>gulhosos para se tornarem discípulos, e por isso se excluíram do que o</p><p>mundo considera agora como a honra de serem os príncipes escolhidos</p><p>do reino. A aristocracia civil e religiosa se gabava de sua descrença16. Os</p><p>cidadãos de Jerusalém se sentiram, por um momento, interessados no</p><p>jovem entusiasta que havia purificado o templo com um chicote de cor­</p><p>reias curtas; mas a fé deles era superficial e sua atitude era defensiva, e</p><p>por isso Jesus não se entregou</p><p>a eles, porque sabia o que havia no interior</p><p>de cada um deles17. Alguns poucos eram simpatizantes sinceros, mas</p><p>não estavam decididos quanto ao seu ingresso na eleição para o</p><p>apostolado. Nicodemos mal era capaz de dizer uma tímida palavra</p><p>apologética a favor de Cristo, e José de Arimatéia foi um discípulo</p><p>“secretamente”, por medo dos judeus. Estes dificilmente seriam os ho­</p><p>mens certos para ser enviados como missionários da cruz — homens</p><p>tão presos aos laços sociais e conexões partidárias, e tão escravizados</p><p>pelo medo dos homens. Os apóstolos do cristianismo devem ser feitos</p><p>de material rígido.</p><p>E assim Jesus preferiu optar pelos homens da Galiléia: rústicos, po­</p><p>rém simples, sinceros e motivados. E Ele ficou bastante satisfeito com</p><p>sua escolha, e devotadamente agradeceu a seu Pai por ter-lhe concedido</p><p>homens como esses. Jesus não desprezaria a erudição, a posição, a rique­</p><p>za, o requinte, voluntariamente deixados em razão de seu serviço; mas</p><p>preferia homens devotos que não tivessem nenhuma dessas vantagens a</p><p>homens não devotos que tivessem todas elas. E com uma forte razão;</p><p>54 0 Treinamento dos Doze</p><p>isso importava muito pouco, exceto aos olhos do preconceito contem­</p><p>porâneo, para o qual a posição social ou mesmo a história prévia dos</p><p>doze teria algum significado. O importante é que eram espiritualmente</p><p>qualificados para o trabalho que foram chamados a fazer. Ou seja, o que</p><p>importa não é o exterior do homem, mas o seu interior. João* Bunyan foi</p><p>um homem de origem simples, de posição inferior, e até à sua conversão</p><p>tinha hábitos pouco louváveis; mas era por natureza um homem capaci­</p><p>tado e, pela graça, um homem de Deus. Ele teria se tornado — como de</p><p>fato foi — um dos apóstolos mais eficientes.</p><p>Alguém pode argumentar que nenhum dos doze foi tão dotado</p><p>quanto Bunyan. De fato, a julgar pela obscuridade que envolve alguns</p><p>deles, e o silêncio da história a seu respeito, não sendo destacados nem</p><p>por sua alta qualificação ou por sua grande carreira, poderiam ser consi­</p><p>derados, por alguns, como inúteis. Como esta objeção contesta frontal-</p><p>mente a sabedoria da escolha de Cristo, podemos dizer que não está de</p><p>acordo com a verdade18. Submetemos as seguintes considerações em re­</p><p>lação a este ponto de vista:</p><p>I) Não se pode negar que alguns dos apóstolos eram comparativa­</p><p>mente desconhecidos, homens aparentemente inferiores aos seus com­</p><p>panheiros de ministério; porém mesmo os menos afamados dentre eles</p><p>podem ter sido mais úteis como testemunhas daquele a quem estavam acom­</p><p>panhando desde o início. Não é necessário ser um grande homem para</p><p>ser uma boa testemunha, e ser testemunha dos fatos cristãos era o mais</p><p>importante para os apóstolos. Não devemos duvidar que mesmo o ho­</p><p>mem mais humilde dentre eles tenha prestado um serviço importante</p><p>com sua capacidade, embora nada tenha sido dito sobre o tal nos escri­</p><p>tos apostólicos. Não se deveria esperar que a história tão fragmentada e</p><p>tão breve como aquela narrada por Lucas mencionasse alguém além dos</p><p>personagens principais, especialmente quando refletimos como são pou­</p><p>cos os que aparecem no palco em quaisquer crises particularmente rela­</p><p>cionadas aos assuntos humanos, e são proeminentemente notados até</p><p>mesmo em relatos detalhados de acontecimentos. O propósito da histó­</p><p>ria é servido pelo registro das palavras e atos de homens representativos,</p><p>e muitos que fizeram coisas nobres em suas vidas podem cair no esque­</p><p>Os Doze 55</p><p>cimento. Os membros menos distintos do grupo apostólico contribuem</p><p>em benefício dessa reflexão.</p><p>2) Três homens eminentes, ou mesmo dois (Pedro e João), dentre</p><p>os doze, é uma boa parcela. Havia poucas sociedades nas quais a excelên­</p><p>cia superior tinha uma proporção tão elevada em relação à média. Talvez</p><p>o número de “pilares”19 fosse tão grande quanto o desejável. Longe de</p><p>lamentar que nem todos fossem como Pedro e João, devemos, ao contrá­</p><p>rio, ser gratos por ter existido uma diversidade de dons entre os primei­</p><p>ros pregadores do evangelho. Uma regra geral nos diz que não é bom</p><p>quando todos são grandes líderes. Homens de menor destaque são tão</p><p>necessários quanto os grandes homens; a natureza humana é unilateral, e</p><p>há homens de menor projeção que têm suas virtudes e dons peculiares,</p><p>podendo fazer algumas coisas melhor que seus irmãos mais célebres.</p><p>3) Devemos nos lembrar que sabemos muito pouco sobre qualquer</p><p>um dos apóstolos. E moda entre alguns biógrafos escrever para um pú­</p><p>blico ocioso, entrando em pormenores particulares de um evento ou em</p><p>peculiaridades pessoais relacionadas aos seus heróis. Não existe nenhum</p><p>traço dessa afeição idólatra nas histórias evangélicas. Os escritores dos</p><p>Evangelhos não eram aficionados pela mania da biografia. Além disso,</p><p>os apóstolos não eram o seu tema. Cristo era o seu herói; e seu único</p><p>desejo era contar o que sabiam a respeito dele. Eles olharam tão fixa­</p><p>mente para o Sol da Justiça e para o seu esplendor, que perderam de vista</p><p>as estrelas auxiliares. Faz pouquíssima diferença saber quais dentre eles</p><p>eram estrelas de primeira magnitude, ou de segunda, ou de terceira.</p><p>1 Marcos 3.13. O verbo epoiêse, “feito”, é usado aqui com o mesmo sentido de Hebreus 3.2, “sendo fiel ao que o</p><p>constituiu” ( tõ poiêsanti auton ). Algumas traduções como a Versão Revisada em inglês traduzem este termo como</p><p>“designou”.</p><p>2 Mateus 10.27</p><p>° João 6.4</p><p>4 João 6.70, conforme aVersao Revisada.</p><p>̂Lucas 6.13 comparado com o verso 17, onde Lucas apresenta o nome “apóstolos” como ordenado por Cristo:</p><p>“a quem também deu o nome de apóstolos” (versículo 13).</p><p>̂Esta expressão é usada por todos os smópticos. Parece significar uma região montanhosa e não uma colma em</p><p>particular.</p><p>' Marcos 6.7</p><p>56 0 Treinamento dos Doze</p><p>8 De acordo com Ebrard, na obra Gosp. History., Ewald coloca a eleição depois do banquete de João 5.</p><p>9 Essa missão dos setenta é considerada por Baur, e outros da mesma escola, como pura invenção do terceiro</p><p>evangelista, com a intenção de lançar os doze na obscuridade, e para servir à causa do universalismo paulino. Esta</p><p>opinião é inteiramente arbitrária. Mesmo supondo que concordássemos com Baur, o ponto ainda permaneceria</p><p>verdadeiro, conforme foi declarado no texto, que Cristo poderia ter tido mais que os doze apóstolos que desejou.</p><p>10 Mateus 19.28. Keim reconhece o número doze como sendo de significado simbólico, conforme declarado no</p><p>texto, contra Schleiermacher, que o considerava puramente acidental. — GeschichteJesu von Nazara, 2.304.</p><p>11 Josué 15.25. Veja Renan, Vie de Jésus, p. 160 (13° edição). Ewald ( Cbristus, p. 398) pensa que Queriote é Cartá,</p><p>na tribo de Zebulom (Js 21 .34). Se Judas fosse da Judéia, poderia ter se tornado discípulo na ocasião da visita de</p><p>Cristo ao Jordão, mencionada em João 3.22.</p><p>12 João 14.22</p><p>13 Ewald ( Cbristus, p. 399) pensa que Lebeu e Judas eram pessoas diferentes, e que o primeiro havia morrido</p><p>durante a época em que Cristo estava vivo, e que Judas havia sido escolhido para ocupar o seu lugar.</p><p>14 Atos 5.37</p><p>15 Mateus ou Levi, sendo filho de Alfeu, era supostamente irmão de Tiago e Simão, o zelote, mencionado como</p><p>Simão em Mateus 13.55</p><p>16 João 7.48</p><p>17 João 2.23-25</p><p>18 Keim diz que Jesus foi verdadeiramente humano (àcht menschlich), tendo se equivocado em relação a seus discí­</p><p>pulos até um certo ponto. Este escritor pensa que eles não se tornaram os homens que Jesus esperava. A observação</p><p>ocorre em relação à missão na Galiléia. — Geschicbte Jesu von Nazara, 2.332</p><p>19 Este título é dado a Pedro, Tiago, e João por Paulo em sua epístola aos Gálatas (2 .9). Por isso, na literatura de</p><p>Tübingen, devotada à sustentação da teoria-conflito, estes três são chamados de “apóstolos-pilares”.</p><p>58 0 Treinamento dos Doze</p><p>o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o</p><p>que vós vedes e não o viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram”1.</p><p>Algumas gerações de Israel tinham visto coisas extraordinárias: uma</p><p>tinha visto as maravilhas do Exodo, e coisas sublimes com relação às</p><p>tábuas da Lei no Monte</p><p>Sinai; outra, os milagres feitos por*Elias e Eliseu;</p><p>e gerações sucessivas tinham sido privilegiadas por ouvirem os não me­</p><p>nos maravilhosos oráculos de Deus, proferidos por Davi, Salomão, Isaías,</p><p>e os demais profetas. Mas as coisas testemunhadas pelos doze apóstolos</p><p>eclipsaram as maravilhas de todas as eras passadas; pois Alguém maior</p><p>que Moisés, Elias, Davi, Salomão ou Isaías esteve aqui, e a promessa</p><p>para Natanael havia sido cumprida. O céu havia sido aberto e os anjos</p><p>de Deus — os espíritos da sabedoria, poder e amor — estavam subindo</p><p>e descendo sobre o Filho do Homem.</p><p>Aqui podemos fazer um rápido exame da mimbilia que era o privilé­</p><p>gio peculiar dos doze apóstolos quanto a ver e ouvir, mais ou menos</p><p>durante todo o período do seu discipulado, e especialmente logo após a</p><p>sua eleição. Isso pode ser compreendido nos dois tópicos principais: a</p><p>Doutrina do Reino, e o Trabalho Filantrópico do Reino.</p><p>I ) Antes de o ministério de Jesus começar, seu antecessor havia</p><p>aparecido na região despovoada da Judeia pregando e dizendo:</p><p>“Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus (M t 3.2)”. Algum</p><p>tempo depois de sua eleição, os doze apóstolos foram enviados para as</p><p>cidades e vilas da Galiléia para repetir a mensagem de João Batista. Mas</p><p>o próprio Senhor Jesus fez algo mais que proclamar a chegada do reino.</p><p>Ele explicou a natureza do reino divino, descreveu o caráter dos seus</p><p>cidadãos e estabeleceu a diferença entre os genuínos e os falsos membros</p><p>da comunidade divina. Isso Ele fez parcialmente no que é comumente</p><p>chamado de Sermão da Montanha, proferido logo após a eleição dos</p><p>apóstolos, e parcialmente em certas parábolas proferidas aproximada­</p><p>mente no mesmo período2.</p><p>No extenso discurso feito no topo da montanha, as qualificações</p><p>para a cidadania no reino dos céus foram explicadas, primeiro positiva­</p><p>mente, e então comparativamente.</p><p>A verdade positiva foi resumida em sete sentenças áureas chamadas</p><p>Beatitudes, nas quais a felicidade do reino era representada independen­</p><p>Ouvindo e Vendo 59</p><p>temente das condições exteriores e com as quais a felicidade no mundo</p><p>está associada. Os bem-aventurados, de acordo com o Senhor, eram os</p><p>pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de</p><p>justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores e os</p><p>que sofrem perseguição por causa da justiça (M t 5 .3-11). Dessa manei­</p><p>ra eles eram abençoados, e fonte de bênçãos para a raça humana: o sal da</p><p>terra, a luz do mundo aumentava sobre outros em espírito e caráter, para</p><p>elevá-los, e levá-los a glorificar a Deus.</p><p>Depois, com mais detalhes, Jesus apresentou a justiça do reino e dos</p><p>seus verdadeiros cidadãos, em contraste com o que tinha prevalecido.</p><p>“Se a vossa justiça”, Ele disse solenemente e com ênfase, “não exceder a</p><p>dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus”</p><p>(M t 5.20); e então ilustrou e reforçou a proposição geral com uma deta­</p><p>lhada descrição da falsidade em seus aspectos morais e religiosos: em seu</p><p>modo de interpretar a lei moral, e em sua maneira de executar tarefas</p><p>piedosas, como orações, esmolas e jejuns. Em um aspecto Ele caracteri­</p><p>zou a justiça dos fariseus como superficial e técnica; em outro, como</p><p>ostentadora, autocomplacente e censuradora. Em contraste com isso,</p><p>Ele descreveu a ética do reino como um puro fluxo da vida, tendo a cari­</p><p>dade como sua fonte principal: a moralidade do coração, não meramen­</p><p>te da conduta exterior; um moralismo também amplo e universal, ultra­</p><p>passando todas as barreiras arbitrárias erguidas pelo pedantismo e egoís­</p><p>mo natural. Ele explicou a religião do reino como humilde, reservada,</p><p>devotada do fundo do coração a Deus e às coisas celestiais. Devemos ter</p><p>fé em Deus como um Pai gentil e benevolente, e contentamento, alegria,</p><p>e liberdade em relação aos cuidados seculares como seus frutos. Final­</p><p>mente, reservados em nossa conduta para com o profano, adversos à</p><p>severidade no julgar, e não julgando de modo nenhum, deixando que os</p><p>homens sejam julgados por Deus.</p><p>O discurso, do qual fizemos um rápido resumo, causou um podero­</p><p>so impacto nos ouvintes. “A multidão”, lemos, “se admirou da sua dou­</p><p>trina, porquanto os ensinava com autoridade” (a autoridade da sabedo­</p><p>ria e da verdade) “e não como os escribas” (M t 7.28,29), que tinham</p><p>meramente a autoridade que lhes era conferida por sua posição. Não é</p><p>provável que a multidão ou os doze apóstolos tenham entendido o ser­</p><p>60 O Treinamento dos Doze</p><p>mão, pois foi profundo e grandioso, e suas mentes estavam ocupadas</p><p>com idéias muito diferentes do reino que estava por vir. Contudo, a</p><p>intenção de tudo o que foi dito era clara e simples. O reino do qual Jesus</p><p>é tanto Rei quanto Legislador não é desse mundo: não está aqui ou ali,</p><p>em espaço, mas dentro do coração do homem; não é um monopólio de</p><p>nenhuma classe ou nação, mas aberto a todos os que o aceitarem, em</p><p>termos iguais. Em nenhum momento foi dito no sermão que rituais para</p><p>qualificação, como a circuncisão, fossem indispensáveis para a admissão</p><p>no reino. Mas a circuncisão é aqui ignorada, como foi ignorada nos</p><p>ensinamentos de Jesus. Ela é tratada simplesmente como algo fora de</p><p>lugar, que não pode ser presa à doutrina estabelecida; uma incongruên­</p><p>cia cuja simples menção traria um sentido grotesco. A simplicidade e a</p><p>verdade são tão evidentes que qualquer um pode perceber, rapidamente,</p><p>que as Beatitudes não incluem nada como: Bem aventurados são os cir-</p><p>cuncidados, pois nenhum incircunciso entrará no Reino dos céus. Esse</p><p>silêncio significativo em relação ao selo da aliança nacional não poderia</p><p>deixar de causar dúvidas na mente dos discípujos; porém não fazia parte</p><p>da nova aliança.</p><p>Jesus procurou popularizar as importantes verdades que foram pri­</p><p>meiramente ensinadas de forma didática, em úm discurso ético, usando</p><p>parábolas. No decorrer de seu ministério Ele usou muitas parábolas, sen­</p><p>do esta a sua forma favorita de instrução. Das trinta3 parábolas preserva­</p><p>das nos Evangelhos, a maioria foi de caráter ocasional, e são melhor</p><p>compreendidas quando vistas em conexão com as circunstâncias em que</p><p>foram usadas. Mas existem oito parábolas especiais que parecem ter sido</p><p>proferidas no mesmo período, e designadas para servir a um objetivo;</p><p>em outras palavras, para apresentar em simples ilustrações os excelentes</p><p>temas do Reino dos céus em sua natureza e progresso, e em suas relações</p><p>com as diversas classes dos homens. Uma dessas, a parábola do semea­</p><p>dor, aparentemente a primeira a ser proferida, mostra a diferente recep­</p><p>ção oferecida à palavra do Reino por várias classes de ouvintes, e os</p><p>variados temas da vida deles. Duas — as parábolas do joio e do trigo e</p><p>da rede lançada ao mar — descrevem a mistura dos bons e dos maus que</p><p>deveria existir no Reino até o fim, quando acontecerá a grande separação</p><p>final. Outro par de parábolas curtas — a do tesouro escondido em um</p><p>Ouvindo e Vendo 61</p><p>campo e a da pérola preciosa — explica a incomparável importância do</p><p>Reino e da cidadania nele. Outras duas — a do grão de mostarda e a do</p><p>fermento escondido em três medidas de farinha — explicam como o</p><p>Reino avança de um início pequeno para um grande final. Uma oitava</p><p>parábola, apenas encontrada no Evangelho de Marcos, ensina que o cres­</p><p>cimento no reino divino se dá em estágios, análogos à situação da erva,</p><p>que se torna uma espiga, e, por último, o grão cheio na espiga4.</p><p>Essas parábolas, ou a maioria delas, foram proferidas para uma audi­</p><p>ência mista; e considerando uma resposta de Jesus a uma pergunta feita</p><p>pelos discípulos, pode parecer que elas foram principalmente dirigidas ao</p><p>populacho ignorante. A pergunta foi: “Por que lhes falas por parábolas?” e</p><p>a resposta, “a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a</p><p>eles não lhes é dado” (M t 13.10); o que parece implicar que no caso dos</p><p>doze apóstolos tais visões elementares da verdade — como um sermão tão</p><p>simples, por assim dizer — podiam ser dispensadas. Jesus, no entanto,</p><p>quis dizer que as parábolas</p><p>não eram tão importantes para eles quanto</p><p>para os ouvintes comuns; eram apenas alguns dentre os vários meios da</p><p>graça pelos quais no final eles se tornariam escribas instruídos acerca do</p><p>Reino, familiarizados com todos os seus mistérios, e capazes, como um</p><p>sábio pai de família que tira do seu tesouro co isa s novas e velhas5; enquan­</p><p>to para as multidões as parábolas eram indispensáveis, como a única chance</p><p>de ter um vislumbre dos mistérios do Reino.</p><p>Fica claro que os doze apóstolos não estavam acima das parábolas</p><p>pois perguntavam e recebiam do Mestre explicações a respeito delas, em</p><p>particular. Provavelmente tenham recebido explicações de todas as pará­</p><p>bolas, embora apenas a interpretação de duas delas — a do semeador, e</p><p>a do joio e do trigo — sejam apresentadas nos Evangelhos6. Ainda eram</p><p>apenas como crianças; as parábolas eram lindas estórias para eles, mas</p><p>talvez não as compreendessem em sua profundidade. Mesmo depois de</p><p>terem recebido explicações particulares de seus significados, eles prova­</p><p>velmente não se tornaram mais sábios do que eram antes, embora te­</p><p>nham dito que estavam satisfeitos7. As palavras dos discípulos eram, sem</p><p>dúvida, sinceras: eles falavam o que sentiam; mas falavam como crianças,</p><p>entendiam como crianças, pensavam como crianças e tinham muito a</p><p>aprender sobre esses divinos mistérios.</p><p>62 O Treinamento dos Doze</p><p>Quando as crianças atingiram a maturidade espiritual, e compre­</p><p>enderam totalmente esses mistérios, elas deram muito mais valor à felici­</p><p>dade que sentiram nos anos anteriores, e por serem privilegiadas de ou­</p><p>vir as parábolas de Jesus. Temos um interessante memorial da profunda</p><p>impressão produzida em suas mentes por esses simples retratos do Rei­</p><p>no. Como reflexo de tudo isso, o primeiro evangelista finaliza o relato</p><p>que faz dos ensinos de Cristo através de parábolas: “Tudo isso”, ele</p><p>observa, “disse Jesus por parábolas... para que se cumprisse o que fora</p><p>dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a boca; publicarei</p><p>coisas ocultas desde a criação do mundo”8. A citação (do Salmo 78)</p><p>diverge significativamente tanto do hebraico original quanto da versão</p><p>da Septuaginta9. Mateus conscientemente adaptou as palavras para ex­</p><p>pressar a originalidade absoluta dos ensinos nos quais ele encontrou o</p><p>cumprimento dessas Escrituras. Enquanto o salmista proferiu palavras</p><p>obscuras dos tempos antigos da história de Israel, Jesus, em suas parábo­</p><p>las, falou de coisas que haviam estado ocultas desde a criação do mundo.</p><p>Isso não foi um exagero da parte do evangelista. O uso de parábolas</p><p>como um veículo de instrução era tudo, menos novo, porém as verdades</p><p>expressas nas parábolas eram todas novas. Elas eram realmente a eterna</p><p>verdade do Reino celestial, mas até os dias de Jesus ainda não haviam</p><p>sido anunciadas. As coisas terrenas sempre tinham sido apropriadas para</p><p>simbolizar as divinas; mas até o grande Mestre aparecer, ninguém jamais</p><p>havia pensado em ligá-las, para que uma pudesse se tornar o espelho da</p><p>outra, revelando as profundezas de Deus para as pessoas comuns: assim</p><p>como ninguém, antes de Isaac Newton, havia pensado em ligar a queda</p><p>das maçãs à revolução dos corpos celestes, embora as maçãs sempre ti­</p><p>vessem caído no chão desde a criação do mundo.</p><p>2 ) As coisas que os discípulos tiveram a felicidade de ver em cone­</p><p>xão com o trabalho filantrópico do Reino foram tão maravilhosas quan­</p><p>to aquelas que ouviram na companhia de Cristo. Eles foram testemu­</p><p>nhas oculares dos eventos que Jesus mandou os mensageiros de João</p><p>reportarem ao seu mestre na prisão, como uma inquestionável evidência</p><p>de que Ele era o Cristo que havia de vir10. Na presença deles, como</p><p>espectadores, homens cegos ganharam a visão, aleijados andaram, lepro­</p><p>sos foram curados, surdos recuperaram a audição e pessoas mortas vol-</p><p>Ouvindo e Vendo 63</p><p>taram a viver. O desempenho de obras tão maravilhosas foi por um tem­</p><p>po a ocupação diária de Cristo. Ele andou pela Galiléia e por outras</p><p>regiões, “fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo”11.</p><p>Os “milagres” contados em detalhes nos Evangelhos não dão idéia da</p><p>extensão e da duração dessas maravilhosas operações. O leproso curado</p><p>na descida da montanha, quando o grande sermão foi proferido, o servo</p><p>doente do centurião romano recuperado com saúde e força, a sogra de</p><p>Pedro curada de uma febre, a libertação do endemoninhado na sinagoga</p><p>de Cafarnaum, o filho da viúva trazido de volta à vida enquanto estava</p><p>sendo levado para o enterro — esses, e outros semelhantes a esses, são</p><p>algumas amostras selecionadas de uma incontável multidão de ações não</p><p>menos extraordinárias, milagres ou atos de bondade do Senhor. A verda­</p><p>de dessa declaração aparece em parágrafos de freqüente recorrência nos</p><p>Evangelhos, que relatam não milagres individuais, mas um número inde­</p><p>finido deles feitos em massa. De tais parágrafos tome como exemplo o</p><p>seguinte, que narra as obras realizadas por Jesus no final de um dia ata­</p><p>refado: “E, tendo chegado a tarde, quando já estava se pondo o sol,</p><p>trouxeram-lhe todos os que se achavam enfermos e os endemoninhados.</p><p>E toda a cidade se ajuntou à porta. E curou muitos que se achavam</p><p>enfermos de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios”12. Isso</p><p>foi o que aconteceu em um único entardecer de sábado em Cafarnaum,</p><p>logo após o Sermão da Montanha; e tais cenas parecem ter sido comuns</p><p>no ministério de Jesus, como podemos ler um pouco mais adiante no</p><p>mesmo Evangelho: “E ele disse aos seus discípulos que lhe tivessem sempre</p><p>pronto um barquinho junto dele, por causa da multidão, para que o não</p><p>comprimisse, porque tinha curado a muitos, de tal maneira que todos</p><p>quantos tinham algum mal se arrojavam sobre ele, para lhe tocarem”13. E</p><p>ainda outra vez Marcos conta: “E foram para uma casa. E afluiu outra</p><p>vez a multidão, de tal maneira que nem sequer podiam comer pão”14.</p><p>A inferência sugerida nessas passagens como a vasta extensão dos</p><p>trabalhos de Cristo entre os sofredores, surgiu pelas impressões que cau­</p><p>saram nas mentes tanto dos amigos quanto dos adversários. Os adversá­</p><p>rios do evangelho estavam tão impressionados com o que viam, que con­</p><p>sideraram necessário elaborar uma teoria para expressar o que pensa­</p><p>vam sobre a grande influência exercida por Jesus na cura do físico, espe­</p><p>64 O Treinamento dos Doze</p><p>cialmente na cura das enfermidades espirituais. Eles disseram: “Tem</p><p>Belzebu e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios (M c 3.22)”.</p><p>Esta era uma teoria absurda, como o próprio Senhor Jesus mostrou; mas</p><p>foi pelo menos uma evidência conclusiva de que os demônios foram</p><p>expulsos, e em grande quantidade.</p><p>Os pensamentos dos afetados de maneira positiva pelas obras de</p><p>Jesus foram vários, mas todos que foram relatados envolvem o testemu­</p><p>nho da sua vasta atividade e extraordinário zelo. Alguns, provavelmente</p><p>parentes, consideraram-no louco, achando que o entusiasmo tinha per­</p><p>turbado a sua mente, e por compaixão procuravam salvá-lo para que não</p><p>causasse nenhum dano a si mesmo através da excessiva solicitude de fa­</p><p>zer o bem a outros15. Os sentimentos das pessoas que tinham recebido</p><p>os seus benefícios eram mais devotos. “E a multidão, vendo isso, mara­</p><p>vilhou-se e glorificou a Deus, que dera tal poder aos homens”16; não</p><p>estavam, naturalmente, inclinados a criticar um “entusiasmo de humani­</p><p>dade” através do qual eles mesmos haviam sido beneficiados.</p><p>As impressões contemporâneas dos doze apóstolos em relação às</p><p>ações do seu Mestre não são registradas; mas em suas reflexões subse­</p><p>qüentes como apóstolos, temos uma interessante amostra nas observa­</p><p>ções feitas pelo primeiro evangelista, em seu relato dos acontecimentos</p><p>daquela noite de sábado em Cafarnaum, já aludidas. O devoto Mateus,</p><p>de acordo com o seu costume, viu nessas maravilhosas obras o cumpri­</p><p>mento das Escrituras do Antigo Testamento; e a passagem onde encon­</p><p>trou o cumprimento foi o tocante oráculo de Isaías: “Verdadeiramente,</p><p>ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre</p><p>si” (Is</p><p>53.4); e, partindo da Septuaginta, ele o tornou adequado ao seu</p><p>propósito, interpretando: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e</p><p>levou as nossas doenças”17. Alguns tradutores gregos interpretaram o</p><p>texto como se referindo às enfermidades espirituais dos homens — os</p><p>seus pecados18; mas Mateus não considerou uma interpretação errada</p><p>nem uma degradação das palavras por encontrar nelas a profecia da pro­</p><p>funda solidariedade do Messias com sofredores de quaisquer enfermi­</p><p>dades, espirituais ou mentais, ou meramente físicas. Ele não sabia como</p><p>expressar melhor a intensa compaixão do seu Senhor para com os sofre­</p><p>dores, do que representá-la em linguagem profética mostrando que Ele</p><p>Ouvindo e Vendo 65</p><p>tomou sobre si mesmo as nossas enfermidades. Mateus não distorceu o</p><p>pensamento do profeta nessa interpretação. Antes, estabeleceu os alicer­</p><p>ces de uma inferência à fortiori em que mostrava uma simpatia ainda mais</p><p>intensa por parte do Salvador para com os doentes espirituais. Certa­</p><p>mente, aquele que tanto cuidou dos corpos dos homens cuidaria ainda</p><p>mais de suas almas. Com certeza seria seguro antecipar que Ele, que era</p><p>tão admirável e conhecido como alguém que curava as enfermidades do</p><p>corpo, se tornaria ainda mais famoso como aquele que salva dos pecados.</p><p>As obras que os doze apóstolos tiveram o privilégio de ver eram</p><p>realmente preciosas, e todas dignas do Rei Messiânico. Elas serviram</p><p>para demonstrar que o Rei e o Reino não estavam apenas vindo, mas já</p><p>tinham chegado; pois o que mais poderia indicar a sua presença que o</p><p>perdão caindo como “chuva serôdia que rega a terra” (Os 6.3)? João</p><p>realmente parece ter pensado o contrário quando mandou perguntar a</p><p>Jesus se Ele era o Cristo que estava por vir. Em nossa opinião, ele pode</p><p>ter considerado que um trabalho de julgamento sobre os impenitentes</p><p>seria uma prov^ mais confiável da chegada do Messias, do que os mila­</p><p>gres de misericórdia. A situação de insatisfação e descontentamento de</p><p>João, além do ambiente da prisão, subtraiu o melhor de seu coração e de</p><p>sua capacidade de julgamento. João sentia o mesmo mau humor de Jonas,</p><p>que estava descontente com Deus não porque Ele fosse muito severo,</p><p>mas por ser excessivamente bondoso e extremamente disposto a perdoar.</p><p>O menor no Reino dos céus mostra-se agora incapaz de sentir-se</p><p>ofendido com essas obras de nosso Senhor, que são fruto de sua miseri­</p><p>córdia para com os necessitados. A ofensa em nossos dias está em dire­</p><p>ção diferente. Os homens erram quanto aos milagres vistos pelos discí­</p><p>pulos e relatados pelos evangelistas. A misericórdia, dizem, é divina, mas</p><p>os milagres são impossíveis; e pensam que fazem bem ao serem céticos.</p><p>Fazem uma exceção, realmente, a favor de alguns milagres de cura, por­</p><p>que não é considerado impossível que estes possam acontecer no curso</p><p>da natureza, e assim deixarem de pertencer à categoria dos milagres. Os</p><p>“terapeutas morais” podem contribuir para essa situação -— um depar­</p><p>tamento de ciência médica que o senhor Matthew Arnould pensa não</p><p>ter sido ainda de modo algum suficientemente estudado19. Todos os outros</p><p>milagres além daqueles trabalhados por terapeutas morais são conside­</p><p>66 0 Treinamento dos Doze</p><p>rados fabulosos. Mas por que não estender o domínio da moral sobre o</p><p>físico e dizer sem qualificação: A misericórdia faz parte do caráter de</p><p>Deus, portanto obras como aquelas que foram feitas por Jesus poderiam</p><p>ser consideradas naturais? Assim consideram os escritores do Evange­</p><p>lho. O que lhes interessava não era o aspecto sobrenatural das curas e</p><p>milagres realizados por Cristo, mas a insondável e incomensurável pro­</p><p>fundidade da divina compaixão que elas revelaram. Alguns pensam que</p><p>não há vestígios desse amor nessas maravilhas, nem nos Evangelhos nem</p><p>nas Epístolas; para estes, os discípulos talvez tenham experimentado esse</p><p>sentimento quando a época das maravilhas explodiu pela primeira vez</p><p>diante de seus olhos atônitos, mas perderam-no completamente quando</p><p>os livros do Novo Testamento começaram a ser escritos20. Ao longo do</p><p>Novo Testamento os milagres são contados de maneira sóbria, em um</p><p>tom equilibrado. Como isso pode ser explicado? Uma explicação é que</p><p>os apóstolos tinham visto tantos milagres enquanto estiveram com Je­</p><p>sus, que não os expressaram com a ênfase esperada. Alguns entendem</p><p>que eles já não se maravilhavam como dufante os primeiros milagres,</p><p>por terem visto muitos milagres. Mas nunca deixaram de admirar a gra­</p><p>ça do Senhor. O amor de Cristo permaneceu neles durante toda a vida</p><p>como algo que lhes transmitia conhecimento; e quanto mais viviam, mais</p><p>reconheciam cordialmente a verdade das palavras de seu Mestre: “Bem-</p><p>aventurados os olhos que vêem o que vós vedes” (Lc 10.23).</p><p>1 Lucas 10.23-24. Os autores da Versão Revisada introduziram muitas mudanças na Versão Autorizada pela</p><p>estrita interpretação dos tempos verbais, e especialmente os aoristos, o s quais na versão antiga são freqüentemente</p><p>tratados como perfeitos. Podem ter levado isso muito adiante, mas, no todo, prestaram um bom serviço neste</p><p>particular.</p><p>2 Fica claro em Marcos 10.10 que a eleição dos doze apóstolos precedeu as parábolas: “Os que estavam junto</p><p>dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola”.</p><p>3 Esse número é apenas uma estimativa aproximada. Os diferentes escritores estimam um número diferente de</p><p>parábolas, de acordo com a definição de parábola adotada por cada um deles, bem como o método de tratar a</p><p>coleção de parábolas.</p><p>4 Marcos 4.26</p><p>5 Mateus 13.52</p><p>6 Marcos 4.34</p><p>7 Mateus 13.51</p><p>8 Mateus 13.34-35</p><p>9 ereuxomai kekrummena apo katabolês kosmou (Mateus); ’abbiâ lídótb minni~qedem (hebraico); phtbenxomaiproblemata ap’arcbes</p><p>(Septuaginta)</p><p>Ouvindo e Vendo 67</p><p>10 Mateus 11.2</p><p>11 Atos 10.38</p><p>12 Marcos 1.32-34</p><p>13 Marcos 3.9-10 f ^</p><p>14 Marcos 3 .19— Mc 'br- ^</p><p>15 Marcos 3.21</p><p>16 Mateus 9.8</p><p>17 Mateus 8.17</p><p>18 boutos tas hamartias hêmõn pberer</p><p>19 literature and Dogma, página 143, 4a edição.</p><p>20 Isaac Taylor, na obra The Restauration o f Belief, encontra nesse fato um argumento para a realidade dos milagres,</p><p>alegando que a maneira pela qual são relatados nas Escrituras mostra que foram fatos gloriosos e excelentes para a</p><p>época (vide páginas I2 8 -2 II).</p><p>Lições sobre a Oração</p><p>Mateus 6 .5-13; 7 .7 -11; Lucas I I .I -I3 ; I8 .I-5</p><p>TJL eria sido motivo de surpresa se, entre os vários assuntos sobre os</p><p>quais Jesus deu instruções aos seus discípulos, a oração não tivesse ocu­</p><p>pado um lugar proeminente. A oração é uma necessidade na vida espiri­</p><p>tual, e todos aqueles que tentam orar seriamente, logo sentem a necessi­</p><p>dade de aprender como fazê-lo. E qual seria o tema que estaria mais de</p><p>acordo com os pensamentos de um Mestre que foi, enfaticamente, um</p><p>homem de oração e freqüentemente passava noites inteiras orando em</p><p>comunhão com o seu Pai celestial?1</p><p>Concluímos, de acordo com este raciocínio, que a oração era um</p><p>assunto sobre o qual Jesus conversava freqüentemente com os seus discí­</p><p>pulos. No Sermão da Montanha, por exemplo, Ele dedicou um parágra­</p><p>fo inteiro a esse tópico, no qual alertou seus ouvintes contra as ostenta­</p><p>ções hipócritas dos fariseus e as repetições gentílicas, e recitou uma for­</p><p>ma de devoção como um modelo de simplicidade, compreensão e brevi­</p><p>dade2. Em outras ocasiões, Ele direcionou a atenção à necessidade, a fim</p><p>de que a oração fosse constante e aceitável trazendo perseverança3, har­</p><p>monia4, o fortalecimento da fé5, e grande expectativa6.</p><p>A passagem relacionada ao décimo primeiro capítulo do Evangelho</p><p>de Lucas nos dá uma explicação sobre aquela que pode ser considerada</p><p>a mais completa e abrangente de todas as lições dadas por Jesus aos seus</p><p>discípulos, sobre o importante assunto com o qual está relacionada. As</p><p>circunstâncias em que essa lição foi dada são interessantes. A própria</p><p>lição sobre a oração foi uma resposta a uma oração. Um discípulo, pro­</p><p>vavelmente um dos doze apóstolos7, depois de ouvir Jesus orar, fez o</p><p>70 O Treinamento dos Doze</p><p>seguinte pedido: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensi­</p><p>nou aos seus discípulos”. Juntos, o pedido e sua ocasião, nos dão duas</p><p>informações. Do pedido percebemos que Jesus, além de orar muito sozi­</p><p>nho, também orava na companhia de seus discípulos, fazendo orações</p><p>familiares como um pai de família, da mesma forma que fqzia suas ora­</p><p>ções em particular, em comunhão pessoal com Deus, seu Pai. Da oca­</p><p>sião, percebemos que as orações sociais ou públicas de Jesus eram</p><p>comoventes. Ao ouvi-las os discípulos ficaram dolorosamente conscien­</p><p>tes de sua própria incapacidade, e depois do amém mostraram-se instin­</p><p>tivamente prontos a fazer o seguinte pedido: “Senhor, ensina-nos a orar”,</p><p>como se sentissem vergonha de tentar o exercício com suas próprias</p><p>palavras fracas, vagas e intermitentes.</p><p>Não sabemos quando essa lição foi dada, pois Lucas introduz sua</p><p>narrativa sobre esse tema de maneira mais indefinida, sem mencionar</p><p>nem a ocasião, nem o lugar. A referência a João Batista, no passado,</p><p>parece indicar uma data subseqüente à de sua morte; mas o modo da</p><p>expressão seria suficientemente explicado pela suposição de que o discí­</p><p>pulo que fez o pedido havia previamente sido um discípulo de João</p><p>Batista8. Nenhuma inferência correta pode ser extraída do conteúdo dessa</p><p>lição. E uma lição que deve ter sido dada aos doze apóstolos em qual­</p><p>quer época durante o seu discipulado, quando estavam preocupados com</p><p>as suas necessidades espirituais. Esta é uma lição para “crianças”, ou</p><p>seja, cristãos no estágio inicial da vida com Deus, aqueles que estão</p><p>aflitos, mentalmente confusos, emudecidos, abatidos, incapazes de orar</p><p>com pensamentos claros, palavras apropriadas, e acima de tudo, com a fé</p><p>que ensina a esperar sem perder a esperança. E ela supre as suas necessi­</p><p>dades sugerindo tópicos, ensinando formas de linguagem, e preenchen­</p><p>do a sua fraca fé com argumentos convincentes sobre a perseverança.</p><p>Essa era a situação dos doze apóstolos durante o período que estiveram</p><p>com Jesus, até Ele ascender ao céu, e o poder descer do céu sobre eles</p><p>trazendo consigo a facilidade para falar e a largueza de coração. Durante</p><p>todo o período de seu discipulado, precisavam estar preparados para</p><p>orar como uma mãe que está sempre preparada para atender os seus</p><p>filhos. Precisavam também de exortações à perseverança no hábito de</p><p>orar, assim como convém aos mais humildes seguidores de Cristo. Lon-</p><p>Lições sobre a Oração 71</p><p>ge de estarem isentos de tais fraquezas, os doze apóstolos talvez até</p><p>tenham tido essa experiência em um grau superlativo. Quando se trata</p><p>das experiências espirituais, os pontos mais altos estão relacionados à</p><p>profundidade tanto da dedicação quanto da experiência. Homens que</p><p>são destinados a ser apóstofos devem, como discípulos, ter a grande</p><p>capacidade de enfrentar condições caóticas e indescritíveis, conhecendo</p><p>a grande e cansativa, porém a mais saudável tarefa que é esperar de Deus</p><p>a luz, a verdade e a graça, tão desejadas, e às vezes contidas.</p><p>Convinha à igreja que os seus primeiros ministros tivessem essas</p><p>lições sobre a oração; porque chega a hora, na maioria dos casos, se não</p><p>em todos, em que aqueles que estão espiritualmente determinados pre­</p><p>cisam da grande oportunidade de ter esse ensino. Na primavera da vida</p><p>com Deus e no belo florescer da piedade, os cristãos poderão orar com</p><p>fluência e fervor, sem qualquer embaraço de palavras, pensamentos, e</p><p>sentimentos de qualquer espécie. Mas esse estágio feliz logo passa, e é</p><p>sucedido por outro no qual a oração freqüentemente se torna um gran­</p><p>de esforço, um gemido mal articulado, um silêncio angustiado e deses­</p><p>perado que aguarda a Deus, fazendo com que sintam-se tentados a duvi­</p><p>dar de que Deus realmente ouve as orações, ou ainda a questionar se as</p><p>orações não são perda de tempo ou até mesmo inúteis. As três necessida­</p><p>des contempladas e providas nessa lição — a necessidade de idéias, de</p><p>palavras, e de fé — são tão comuns quanto dolorosas. Quanto tempo é</p><p>necessário para atender até o mais simples pedido da oração do “Pai</p><p>Nosso” com o seu significado definitivo! O segundo pedido, por exem­</p><p>plo, “Venha o teu Reino”, pode ser apresentado com perfeita inteligên­</p><p>cia apenas por, dessa maneira, ter formado para eles mesmos uma clara</p><p>concepção do Reino ou da comunidade ideal. Quão difícil e, portanto,</p><p>quão raro, é encontrar palavras aceitáveis para pensamentos preciosos</p><p>calmamente alcançados! Quantos, que nunca conseguiram o que deseja­</p><p>ram sem ter precisado pedir com freqüência e esperado muito para recebê-</p><p>lo (uma experiência comum), sentiram-se tentados, por causa da demo­</p><p>ra, a desistir de pedir mesmo em meio ao desespero! E não é de admirar;</p><p>porque, em todos os casos, é difícil suportar a demora, especialmente</p><p>em conexão com as bênçãos espirituais que são, de fato, e por Cristo,</p><p>aqui admitidas como o principal objeto de desejo dos cristãos. Almas</p><p>72 O Treinamento dos Doze</p><p>devotas não deveriam ser confundidas pela demora, ou até pela recusa</p><p>com relação aos bens meramente temporários; porque deveriam saber</p><p>que coisas como saúde, riqueza, cônjuge, filbos, lar e posição, não são</p><p>incondicionalmente boas, e às vezes pode ser bom não tê-las, ou ainda</p><p>não obtê-las tão facilmente ou muito cedo. Porém alguém pode se sentir</p><p>ainda mais confuso ao desejar, de todo o coração, o Espírito Santo e,</p><p>contudo, essa bênção de valor incalculável parecer ter-lhe sido negada;</p><p>orar pela luz e ao invés dela receber a profunda escuridão; orar por fé e</p><p>ser atormentado com dúvidas que balançam estimadas convicções em</p><p>seus alicerces; orar por santidade e ter, aparentemente, a lama da corrupção</p><p>lançada na fonte da vida eterna que está no fundo do coração.Tudo isso,</p><p>como todo cristão experiente sabe, ainda é parte da disciplina pela qual</p><p>os estudantes da escola de Cristo têm que passar antes dos desejos de seu</p><p>coração serem realizados9.</p><p>A lição sobre a oração, ensinada por Cristo em resposta ao pedido</p><p>de seus discípulos, consiste em duas partes; em uma delas os pensamen­</p><p>tos e as palavras são colocados nas bocas d©s discípulos imaturos, en­</p><p>quanto a outra provê ajuda na fé em Deus, por ser aquele que atende as</p><p>orações. Existe primeiro uma forma de orar, e então um argumento re­</p><p>forçando a perseverança na oração.</p><p>A forma de orar, normalmente chamada de “Pai Nosso”, que apa­</p><p>rece no Sermão da Montanha como um modelo do tipo certo de ora­</p><p>ção, traz um resumo dos tópicos gerais sob os quais todo pedido especi­</p><p>al está compreendido. Podemos chamar essa forma de alfabeto de todas as</p><p>possíveis orações. Ela engloba os elementos de todos os desejos espiritu­</p><p>ais, resumidos em algumas sentenças escolhidas, para o benefício daque­</p><p>les que podem não ser capazes de expressar suas difíceis aspirações com</p><p>uma linguagem articulada. Ela contém ao todo seis pedidos, dos quais</p><p>os três primeiros se referem à glória de Deus, e os três restantes ao bem</p><p>do homem. Somos ensinados a orar primeiro pela vinda do Reino divi­</p><p>no, na forma de reverência universal ao nome de Deus, e obediência</p><p>universal à sua vontade; e então, em segundo lugar, pelo pão cotidiano,</p><p>perdão, e proteção contra o mal. Esta oração é, como um todo, direcionada</p><p>a Deus como o nosso Pai, e devemos agir de acordo com esse preceito</p><p>para termos comunhão uns com os outros, como membros de uma fa-</p><p>Lições sobre a Oração 73</p><p>mília Divina, e assim dizermos: “Pai Nosso”. Esta oração não termina</p><p>com as palavras, “em Nome de Jesus Cristo”, e nem poderia, uma vez</p><p>que ela procede de Jesus. Nenhuma oração ensinada pelo Senhor aos</p><p>seus discípulos, para ser proferida antes de sua morte, poderia terminar</p><p>com tais palavras finais, porque a súplica que ela conteria não seria inte­</p><p>ligível para eles antes daquele evento. Os doze apóstolos ainda não co­</p><p>nheciam completamente o poder do Nome de Jesus Cristo; somente o</p><p>conheceriam depois do seu Senhor ter ascendido e o Espírito ter desci­</p><p>do e lhes revelado o verdadeiro significado dos fatos da história de Jesus</p><p>Cristo na terra. Por esta razão, encontramos Jesus, na noite de sua Pai­</p><p>xão, dizendo aos seus</p><p>discípulos que até aquela hora eles não tinham</p><p>pedido nada em seu nome; e então representou o uso do seu nome como</p><p>uma súplica que seria ouvida, como um dos privilégios que teriam no</p><p>futuro. “Até agora”, Ele disse, “nada pedistes em meu nome; pedi e</p><p>recebereis, para que a vossa alegria se cumpra”10. E em uma outra parte</p><p>do seu discurso: “E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para</p><p>que o Pai seja glorifiçado no Filho”11.</p><p>Não sabemos por quanto tempo os discípulos fizeram uso dessa</p><p>bonita, simples e profundamente significativa forma de orar; mas se pode</p><p>concluir que adquiriram o hábito de repeti-la, como os discípulos de</p><p>João Batista devem ter repetido as formas de orar que aprenderam com o</p><p>seu mestre. Não existe, portanto, nenhuma razão para pensar que o “Pai</p><p>Nosso” (ou “a oração do Senhor”), embora de valor permanente como</p><p>parte dos ensinos de Cristo, tenha sido designado para ser um método</p><p>estereotipado e obrigatório de se dirigir ao Pai celestial. O “Pai Nosso”</p><p>foi designado para ser uma ajuda aos discípulos inexperientes, e não uma</p><p>regra imposta aos apóstolos12. Mesmo depois de terem alcançado a ma­</p><p>turidade espiritual, os doze apóstolos podiam usar essa forma se quises­</p><p>sem, e possivelmente a tenham usado ocasionalmente. Mas Jesus espera­</p><p>va que quando se tornassem mestres na igreja, superassem a necessidade</p><p>de ter esta ajuda para a devoção. Cheios do Espírito, com corações dila­</p><p>tados, amadurecidos no entendimento espiritual, deveriam então ser ca­</p><p>pazes de orar como o seu Senhor tinha orado quando estava com eles; e</p><p>embora os seis pedidos que constam na oração-modelo ainda estivessem</p><p>presentes em todas as suas súplicas diante do trono da graça, participa­</p><p>74 O Treinamento dos Doze</p><p>riam somente como os verbetes de uma língua participam do mais elo­</p><p>qüente discurso de um palestrante, que nunca pensa sobre como as letras</p><p>das palavras que profere são compostas13.</p><p>Ao manter o caráter pro tempore e provisional do “Pai Nosso” com</p><p>relação aos doze apóstolos, não enfatizamos o fato, já advertido, de que</p><p>esta oração não termina com a frase “em Nome de Jesus Cristo”. A falta</p><p>dessa expressão poderia ser, posteriormente, facilmente preenchida mental</p><p>ou oralmente e, portanto, não haveria uma razão válida para não usá-la.</p><p>A mesma observação se aplica ao uso que fazemos da oração em ques­</p><p>tão. Deixar essa forma cair em desuso meramente pela ausência da súpli­</p><p>ca habitual conclusiva é tão errado quanto a excessiva repetição dessa</p><p>oração. O “Pai Nosso” não é nem uma composição de Deísmo indigno</p><p>de um cristão, nem um talismã como o Pater Noster da devoção católica</p><p>romana. O fiel mais evoluído geralmente encontra alívio e descanso para</p><p>a sua alma ao refletir sobre as simples e sublimes sentenças, enquanto</p><p>mentalmente percebe os muitos particulares que cada uma inclui. E na­</p><p>tural, no caso daqueles que estão iniciando a sua vida de oração e a sua</p><p>vida espiritual em geral, que a sua devoção consista exclusivamente, ou</p><p>até principalmente, em repetir as palavras que Jesus ensinou aos seus</p><p>imaturos discípulos.</p><p>O ponto de vista agora defendido com relação ao objetivo do “Pai</p><p>Nosso” está em harmonia com o espírito de todos os ensinos de Cristo.</p><p>Formas litúrgicas e métodos religiosos em geral eram muito mais apro­</p><p>priados na rigorosa escola ascética de João Batista do que na escola livre</p><p>de Jesus. Nosso Senhor evidentemente deu pouca importância às for­</p><p>mas de orar, como também a períodos fixos para o jejum; caso contrário,</p><p>Ele não teria esperado até lhe pedirem para ensinar uma forma, mas teria</p><p>feito uma provisão sistemática para as necessidades dos seus seguidores</p><p>— assim como fez João Batista, por assim dizer — redigindo um livro</p><p>de devoção ou compondo uma liturgia. E evidente que, mesmo nas ins­</p><p>truções presentes sobre esse tema, Jesus considerou a forma que forneceu</p><p>como tendo uma importância relativa: um remédio meramente temporá­</p><p>rio para um mal menor (a necessidade de expressão), até que o mal maior</p><p>(a necessidade de ter mais fé) fosse curado; pois a maior parte da lição é</p><p>dedicada ao propósito de providenciar um antídoto para a descrença14.</p><p>Lições sobre a Oração 75</p><p>A segunda parte dessa lição sobre a oração tem a finalidade de trans­</p><p>mitir a mesma moral que está contida na parábola do juiz iníquo —</p><p>“sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer”. A suposta causa do</p><p>desfalecimento é também a mesma, e pode também ser considerada a</p><p>razão da demora da parte de*Deus para responder as nossas orações.</p><p>Isso realmente não é tão óbvio nas primeiras lições quanto nas posterio­</p><p>res. A parábola do amigo inoportuno não é adaptada para transmitir a</p><p>idéia de uma longa espera; pois neste caso o favor pedido, se concedido,</p><p>é atendido em poucos minutos.</p><p>Mas, o lapso de tempo que decorre entre solicitar e receber a dádiva</p><p>de nossas súplicas é algo lógico e natural que está implícito e pressupos­</p><p>to. E usando de uma certa protelação que Deus, mesmo sendo bondoso,</p><p>parece estar nos dizendo aquilo que o vizinho disse ao seu amigo, e que</p><p>nos leva a pensar que é inútil orar.</p><p>Cristo contou essas duas parábolas a fim de mostrar aos discípulos</p><p>que uma oração perseverante demonstra o poder da constância nas cir­</p><p>cunstâncias mais desesperadoras. Os dois personagens, a quem o apelo</p><p>foi feito, são bastante maus — um é sovina e o outro é injusto, e nada</p><p>têm a nos oferecer a não ser a exploração de seu egoísmo. E nos dois</p><p>casos, o ponto principal das parábolas é mostrar que a persistência tem</p><p>um poder de incomodar que lhe permite a conquista de seu objetivo.</p><p>Novamente, é importante observar qual seria o propósito princi­</p><p>pal da oração em relação ao argumento que está sendo agora conside­</p><p>rado. O que Cristo está pretendendo é que seus discípulos se empe­</p><p>nhem em sua santificação pessoal15 e isso pode ser constatado através</p><p>da sentença que encerra o discurso: “Quanto mais dará o Pai celestial</p><p>o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” Jesus tem como certo que</p><p>as pessoas às quais está se dirigindo estão, em primeiro lugar, à procura</p><p>do Reino de Deus e de sua justiça. Portanto, embora tenha incluído</p><p>uma súplica para o pão de cada dia, sob forma de uma oração, Ele</p><p>deixa esse assunto de lado na última parte de seu discurso por não ser,</p><p>por suposição nossa, o principal objeto de desejo e também porque,</p><p>para todos que realmente concedem ao Reino de Deus o primeiro</p><p>lugar em suas preocupações, o alimento e o vestuário lhes sejam quase</p><p>que automaticamente concedidos16.</p><p>76 O Treinamento dos Doze</p><p>Aqueles que não desejam o Espírito Santo acima de todas as coisas</p><p>Jesus nada tem a dizer. Ele não os leva a esperar que irão receber alguma</p><p>coisa do Senhor, nem mesmo a justiça do Reino ou a santificação pesso­</p><p>al. Ele considera as orações de um homem inconstante, que tem dois</p><p>objetivos principais em vista, como um escárnio — meras palavras que</p><p>nunca chegarão aos ouvidos do Senhor.</p><p>Se a demora foi a suposta causa do desfalecimento, e o suposto</p><p>objeto do desejo foi o Espírito Santo, então a condição espiritual con­</p><p>templada no argumento está definitivamente determinada. O propósito</p><p>do Mestre é socorrer e encorajar aqueles que sentem que a obra da graça</p><p>opera devagar dentro deles, estão curiosos por saber porque isso assim</p><p>ocorre, e suspiram com tristeza. Esse é o estado em que, segundo imagi­</p><p>namos, estavam os doze discípulos quando receberam essa lição. Havi­</p><p>am se tornado dolorosamente conscientes de que eram incapazes de</p><p>realizar corretamente seus deveres devocionais, e consideravam essa in­</p><p>capacidade como um sinal da condição geral de seu espírito e, por con­</p><p>seguinte, estavam muito deprimidos.</p><p>O argumento usado por Jesus para incutir em seus desanimados</p><p>discípulos a esperança e a confiança como a derradeira realização de seus</p><p>desejos caracteriza-se pela ousadia, genialidade, sabedoria e força lógica.</p><p>Sua ousadia está evidenciada na escolha das ilustrações. Jesus tinha tanta</p><p>confiança na excelência de sua causa que descreve o caso sob o aspecto</p><p>apreciado e útil, e por isso concluí que, apesar de suas falhas,</p><p>continuaria sendo útil em sua forma original. Então, considerando quão</p><p>difícil em todas as coisas é servir a dois senhores ou concluir com dois</p><p>finais, percebi que a escolha da primeira das duas alternativas era equiva­</p><p>lente a escrever um novo livro, o que poderia ser feito, se necessário, inde­</p><p>pendentemente da atual publicação. Confesso ter uma vaga idéia de tal</p><p>trabalho em minha mente, que pode ou não ser colocada em prática. A</p><p>escola Tübingen de críticos, com cujas palavras os leitores ingleses estão</p><p>ficando acostumados através das traduções, afirma que o cristianismo ca­</p><p>tólico foi o resultado de um compromisso ou reconciliação entre duas</p><p>tendências radicais opostas, representadas respectivamente pelos apósto­</p><p>1</p><p>10 O Treinamento dos Doze</p><p>los originais e por Paulo, sendo as duas tendências uma exclusividade ju­</p><p>daica por um lado e, por outro, o universalismo paulino. Os doze disse­</p><p>ram: Cristianismo para os judeus, e todos que estão dispostos a se torna­</p><p>rem judeus por submissão aos costumes judaicos; Paulo disse: Cristianis­</p><p>mo para o mundo todo, e para todos nos mesmos termos. Agora o mate­</p><p>rial com que se lidou em O Treinamento dos Doze, deve, pela natureza do caso,</p><p>ter algum resistência nessa hipótese-conflito do Dr. Baur e seus amigos.</p><p>Surge a questão: O que deve ser esperado dos homens que estavam com Jesus? E</p><p>a consideração dessa questão formaria uma importante divisão no traba­</p><p>lho tão controverso que tenho em vista. Um outro capítulo poderia ser</p><p>considerado a parte designada a Pedro em Atos dos Apóstolos (alegado</p><p>pela mesma escola de críticos como sendo uma parte inventada pelo escri­</p><p>tor com propósito apologético), buscando especialmente determinar se</p><p>era uma parte apropriada para ele desempenhar — apropriada em vista de</p><p>suas idiossincrasias, ou o treinamento que ele havia recebido. Um outro</p><p>tópico adequado seria o caráter do apóstolo João como retratado nos Evan­</p><p>gelhos Sinóticos, em sua resistência sobre as questões acerca da autoria do</p><p>quarto Evangelho, e a hostilidade a Paulo e seu universalismo que alegava</p><p>estar manifesto no livro de Apocalipse. Em uma obra dessas, falharia em</p><p>considerar os materiais resistindo ao mesmo tema em outras partes do</p><p>Novo Testamento, especialmente aquelas encontradas na Epístola aos</p><p>Gaiatas. Por fim, apropriadamente seria encontrado um lugar na obra para</p><p>discutir sobre a questão: Até que ponto os Evangelhos Sinóticos — as prin­</p><p>cipais fontes de informação acerca dos ensinamentos e dos atos públicos</p><p>de Cristo — conservam traços da influência de tendências controversas ou</p><p>conciliatórias? Por exemplo: Qual é a razão para se afirmar que a missão</p><p>dos setenta é uma invenção causada pelo interesse do universalismo paulino</p><p>com a intenção de superar os apóstolos originais?</p><p>No presente trabalho, não tentei desenvolver o argumento esboça­</p><p>do aqui, mas simplesmente indiquei os lugares em que diferentes pon­</p><p>tos do argumento aparecem, e a maneira como poderiam ser usados. A</p><p>hipótese-conflito não esteve ausente de minha mente enquanto eu escre­</p><p>via este livro inicialmente; mas eu nem estava acostumado com a litera­</p><p>tura relativa a isso, nem tão sensível acerca de sua importância como</p><p>estou agora.</p><p>Prefácio à Segunda Ediçao 11</p><p>Ao preparar esta nova edição, não perdi de vista quaisquer dicas de</p><p>críticas amigáveis que podem torná-la mais aceitável e útil. Em particular,</p><p>tenho mantido a vista fixa na economia de elementos homiléticos, embora</p><p>eu esteja ciente de que ainda posso ter conservado demais para o gosto de</p><p>alguns, porém espero que não tanto para os leitores em geral. Tive que me</p><p>lembrar que enquanto alguns amigos pediram condensação, outros recla­</p><p>maram que a questão estava hermeticamente fechada. Também tive opor­</p><p>tunidade de observar em minhas leituras de obras sobre a história do Evan­</p><p>gelho que é possível ser tão breve e resumido a ponto de perder não só as</p><p>conexões latentes das idéias, mas também as próprias idéias. Nem todas as</p><p>mudanças foram na direção da economia. Embora alguns parágrafos te­</p><p>nham sido cancelados ou reduzidos em tamanho, outros foram adiciona­</p><p>dos, e em um ou dois casos, páginas inteiras foram reescritas. Entre os</p><p>acréscimos mais importantes podemos mencionar uma nota no final do</p><p>capítulo acerca do discurso de despedida, fazendo uma análise do discurso</p><p>e das partes que o compõem; e um parágrafo conclusivo no final da obra</p><p>resumindo as instruções que os doze receberam de Jesus durante o tempo</p><p>em que estiveram com Ele. Além disso, uma característica dessa edição é</p><p>uma série de notas de rodapé referindo-se a algumas das principais publi­</p><p>cações recentes, inglesas ou não, cujo conteúdo se relacione mais ou menos</p><p>com a história do Evangelho, tais como as obras de Keim, Pfleiderer, Golani,</p><p>Farrar, Sanday e Supernatural Religion (Religião Sobrenatural). As notas em</p><p>referência à obra do Sr. Sanday apoia-se na importante questão, até que</p><p>ponto temos no Evangelho de João um registro confiável das palavras</p><p>ditas por Jesus aos seus discípulos na véspera de sua morte.</p><p>Além do índice de passagens examinadas que aparece na primeira</p><p>edição, essa contém uma tabela cuidadosamente preparada com os con­</p><p>teúdos no final, com a qual se espera acrescentar utilidade à obra. Para</p><p>tornar a base do conteúdo do treinamento dos discípulos mais aparente,</p><p>em vários casos mudei o título dos capítulos, ou incluí títulos alternativos.</p><p>Com essas explicações, envio esta nova edição, com sentimentos de gra­</p><p>tidão pela gentil recepção com que a obra já tem sido recebida, e na esperan­</p><p>ça de que pela bênção divina continuará a ser usada como uma tentativa de</p><p>ilustrar um tema tão interessante e importante.</p><p>A. B. B.</p><p>Sumário</p><p>Prefácio de D. S tuart Briscoe .............................. ........................................................ .............. 5</p><p>Prefácio à Segunda Edição............................................................................................................................ 9</p><p>1. O P r in c íp io ....................................................................................................................................... 15</p><p>2. Pescadores de H o m en s ...............................................................................................................2 5</p><p>3. M ateus, o P ub licano ......................................................................................................... .........33</p><p>4. Os D o ze ..............................................................................................................................................45</p><p>5. Ouvindo e V en d o ...........................................................................................................................57</p><p>6. Lições sobre a O ração ..................................................................................................................69</p><p>7. Lições sobre a Liberdade Religiosa; ou A Natureza da Verdadeira Santidade ...8 7</p><p>Seção I. O Jejum....................................................................................................................87</p><p>II. Abluções R itu a is .................................................................................................96</p><p>III. A Observância do Sábado........................................................................... 106</p><p>8. Primeiras Tentativas de Evangelização............................................................ .............. 119</p><p>Seção I. A M issão .............................................................................................................. 119</p><p>II. As Instruções.....................................................................................................129</p><p>9. A Crise da G a lilé ia ..................... ........................... ....................................................... ..........141</p><p>Seção I. O M ilagre ............................................................................................................</p><p>mais desvantajoso possível para si, evitando escolher como exemplo a</p><p>figura de homens bons preferindo, ao contrário, pessoas que estivessem</p><p>abaixo dos padrões normais da virtude humana. Um homem que, ao ser</p><p>procurado a qualquer hora da noite por um vizinho necessitado de aju­</p><p>da para um caso de real emergência, como podemos supor através da</p><p>parábola, ou mesmo em um caso de doença súbita, resolve rechaçá-lo</p><p>com a seguinte resposta: “Não me importunes; já está a porta fechada, e</p><p>os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos</p><p>dar”, teria realmente que sofrer o desprezo de seus amigos e se tornar</p><p>um bom exemplo de todos os que são mesquinhos e insensíveis. A mes­</p><p>ma presteza em se aproveitar de outro caso extremo pode ser observada</p><p>no segundo argumento retirado da conduta dos pais em relação aos fi­</p><p>lhos: Ele começa dizendo “E qual o pai dentre vós que, se o filho lhe</p><p>Lições sobre a Oração 77</p><p>pedir pão...”17. Jesus não está preocupado com o pai que tenha sido esco­</p><p>lhido e está disposto a aceitar qualquer um deles; tanto o pior quanto o</p><p>melhor, porque o argumento não está dirigido à bondade do pai mas à</p><p>ausência dela, já que o objetivo é mostrar que os pais não precisam de</p><p>uma bondade especial para evitar fazer aquilo que seria um ultraje ao</p><p>afeto natural e revoltante aos sentimentos de toda a humanidade.</p><p>O caráter bondoso e amável do argumento manifesta-se através da</p><p>simpatia e do critério que exibe. Jesus enxerga os desagradáveis pensa­</p><p>mentos que os homens alimentam a respeito de Deus quando estão</p><p>sob o peso de anseios não realizados; como duvidam de sua bondade e</p><p>chegam a considerá-lo indiferente, insensível e injusto. Ele demonstra</p><p>ter um íntimo conhecimento de seus mais secretos pensamentos atra­</p><p>vés dos casos que apresenta, pois o amigo hostil e o pai desnaturado, e</p><p>podemos ainda acrescentar o juiz injusto, não representam verdadeira­</p><p>mente o que Deus é, ou o que Ele gostaria que acreditássemos que</p><p>fosse, mas certamente o que até os homens mais piedosos às vezes</p><p>imaginam qua Ele seja18. E Ele não apenas enxerga como também de­</p><p>monstra sua simpatia. Ao contrário dos amigos de Jó, não encontra</p><p>culpa naqueles que guardam pensamentos duvidosos e aparentemente</p><p>profanos, nem os repreende por sua impaciência, desconfiança e desa­</p><p>lento. Ele os trata como homens cheios de fraquezas e necessitados de</p><p>simpatia, conselhos e ajuda. E, ao conceder essas graças, Ele desce ao</p><p>mesmo nível de seus sentimentos e procura mostrar que, mesmo quan­</p><p>do as coisas são exatamente como parecem, não há razão para desespe­</p><p>ro. Ele argumenta, a partir de seus próprios conceitos sobre Deus, que</p><p>ainda assim todos devem esperar por Ele. E como se o Senhor Jesus</p><p>dissesse: “Suponha que Deus seja aquilo que você imagina, indiferente</p><p>e insensível. Ainda assim continue a orar; veja o que a perseverança</p><p>conquistou no caso que eu apresentei. Faça o seu pedido como o ho­</p><p>mem que suplicava por pães e você também os receberá daquele que,</p><p>nesse momento, parece estar surdo às suas súplicas. Garanto que as</p><p>aparências podem ser muito desfavoráveis, mas não mais desfavoráveis</p><p>em seu caso do que naquele do suplicante da parábola; e você pode</p><p>observar como ele se saiu bem por não se deixar dominar tão facil­</p><p>mente pelo desânimo”.</p><p>78 0 Treinamento dos Doze</p><p>Jesus revela sua sabedoria ao lidar com as dúvidas de seus discípu­</p><p>los, ao evitar qualquer explicação elaborada sobre as causas ou razões da</p><p>demorada resposta às orações e ao usar apenas argumentos apropriados</p><p>à capacidade das pessoas de pouca fé e de reduzida compreensão espiri­</p><p>tual. Ele procura mostrar que a santificação é um processo lento e tedi­</p><p>oso e não um ato momentâneo, porque o Espírito é concedido gradual­</p><p>mente e em uma medida limitada, e não de imediato e com toda libera­</p><p>lidade. Ele simplesmente insiste com seus ouvintes que devem perseverar</p><p>na busca do Espírito Santo e lhes assegura que, apesar dessa tão árdua</p><p>demora, seus desejos serão finalmente realizados. Ele não lhes ensina</p><p>qualquer filosofia de esperar em Deus, mas apenas que não irão esperar</p><p>em vão.</p><p>O Mestre optou por esse método não por qualquer necessidade,</p><p>mas por sua própria escolha. Embora nenhuma tentativa tenha sido feita</p><p>para explicar a demora da divina graça e providência, isso não aconteceu</p><p>por essa explicação ser impossível. Havia muitas coisas que Cristo pode­</p><p>ria ter dito aos seus discípulos nessa ocasião, caso fossem capazes de</p><p>suportar; algumas delas eles mesmos disseram mais tarde quando o espí­</p><p>rito da verdade desceu sobre eles e os guiou na verdade e os fez conhecer</p><p>os caminhos de Deus. Ele poderia, por exemplo, ter mostrado que a</p><p>demora da qual se queixavam estava de acordo com o exemplo da natu­</p><p>reza segundo a qual o crescimento gradual representa uma lei universal;</p><p>que o tempo necessário para a produção dos frutos maduros do Espírito</p><p>é exatamente igual ao dos frutos maduros do campo ou do pomar, e não</p><p>deveriam se admirar se os frutos espirituais fossem particularmente len­</p><p>tos em seu amadurecimento. Pois há uma lei de crescimento segundo a</p><p>qual quanto mais elevado o produto estiver na escala da natureza, mais</p><p>lento será o processo pelo qual é produzido19. E assim uma santificação</p><p>momentânea, embora não seja impossível, será muito mais um milagre</p><p>no sentido de uma exceção a essa lei, como foi a imediata transformação</p><p>da água em vinho nas bodas de Caná. E se a santificação imediata fosse</p><p>uma regra, ao invés de uma rara exceção, o Reino da graça se tornaria</p><p>demasiadamente parecido com o mundo dos sonhos infantis no qual</p><p>árvores, frutas e palácios surgem completamente crescidas, maduras e</p><p>mobiliados, respectivamente, de um momento para outro como que por</p><p>Lições sobre a Oração 79</p><p>mágica; isto é demasiadamente diferente do mundo verdadeiro e real</p><p>com o qual os homens estão familiarizados e no qual a demora, o cresci­</p><p>mento e as leis estabelecidas são características invariáveis.</p><p>Jesus poderia ter ido mais longe para reconciliar seus discípulos</p><p>com a idéia dessa demora dissertando sobre a virtude da paciência. Muito</p><p>poderia ser dito a respeito desse tópico. Poderia ser mostrado que um</p><p>caráter não poderá ser perfeito se a virtude da paciência não encontrar</p><p>nele lugar, que o método gradual da santificação é o mais apropriado</p><p>para o seu desenvolvimento, e que este permite um abundante escopo</p><p>para a sua prática. Poderia ter sido mencionado o quanto a suprema</p><p>alegria de conquistar qualquer coisa é ainda mais apreciada pela demora</p><p>em consegui-la, assim como o triunfo da fé é proporcional à sua prova.</p><p>Vejamos isto nas palavras singulares de quem se tornou sábio sobre esse</p><p>assunto através de experiência própria e da época em que viveu: “E justo</p><p>ver e sentir o formato e a costura de cada peça do vestuário nupcial e a</p><p>criação, moldagem e adaptação da coroa de glória para a cabeça do cida­</p><p>dão do céu”; cpmo “a repetida compreensão e freqüente experiência da</p><p>graça nos altos e baixos do caminho, o cair e novamente levantar do</p><p>peregrino, as revoluções e as mudanças da condição espiritual, a lua nova,</p><p>a lua obscura e a lua cheia na maré vazante e crescente do Espírito fize­</p><p>ram surgir no coração dos santos em seu caminho para o país celestial o</p><p>doce perfume da rosa mais formosa, do Lírio dos Vales e da Rosa de</p><p>Sarom”; e como, “os viajantes da noite falam sobre seus hábitos impu­</p><p>ros e os louvores de seu guia. E tendo a batalha chegado ao fim, os</p><p>soldados contam as suas vítimas, exaltam o valor, a habilidade e a cora­</p><p>gem de seu líder e capitão”, e da mesma forma “será apropriado que os</p><p>soldados glorificados levem consigo para o céu abundante experiência</p><p>da generosa graça e lá chegando falem de sua vida e de sua terra e louvem</p><p>àquele que redimiu a todos, de todas as nações, povos e línguas”20 .</p><p>Tais considerações, embora justas, não seriam completamente apli­</p><p>cáveis a homens que tinham a condição espiritual dos discípulos naquele</p><p>momento. As crianças não têm qualquer simpatia com o crescimento</p><p>em nenhum</p><p>lugar no mundo, quer se trate do crescimento natural ou do</p><p>crescimento na graça. Não as agradaria saber que uma bola se transfor­</p><p>masse imediatamente em um carvalho, e que em apenas poucos minutos</p><p>80 O Treinamento dos Doze</p><p>este produzisse um broto que imediatamente se tornasse um fruto ma­</p><p>duro. Portanto, é inútil falar das qualidades da paciência a pessoas</p><p>inexperientes; pois o valor moral da disciplina produzido pelas provas</p><p>não pode ser apreciado até que as provas passem. Portanto, conforme já</p><p>mencionado antes, Jesus se absteve completamente de lhes ensinar lições</p><p>como estas, preferindo adotar um estilo de raciocínio simples e popular</p><p>que até mesmo uma criança seria capaz de compreender.</p><p>O raciocínio de Jesus, embora bastante simples, é muito convincen­</p><p>te e conclusivo. O primeiro argumento — contido na parábola do vizi­</p><p>nho egoísta — é adequado para inspirar a esperança em Deus, mesmo</p><p>nas horas mais sombrias, quando Ele parece estar indiferente às nossas</p><p>súplicas ou positivamente indisposto a ajudar, e dessa forma somos in­</p><p>duzidos a perseverar em nossas orações. “O homem que queria os pães</p><p>bateu à porta cada vez com maior força, com uma impertinência que</p><p>não conhecia vergonha21, e por não aceitar recusa acabou conquistando</p><p>seu objetivo. O amigo egoísta teve, afinal, que se contentar em levantar e</p><p>servi-lo somente por consideração ao seu próprio conforto, pois era</p><p>simplesmente impossível dormir com tal barulho; portanto (esse é o</p><p>curso do argumento) continue a bater à porta do céu e você obterá o que</p><p>deseja, mesmo que seja para livrarem-se de você. Veja nessa parábola o</p><p>poder da impertinência em uma hora extremamente inoportuna — à</p><p>meia-noite — e com a pessoa mais desfavorável, que prefere seu próprio</p><p>conforto ao bem de seu vizinho; portanto, peça persistentemente e lhe</p><p>será concedido, procure e encontrará, bata e a porta se abrirá para você”.</p><p>Na verdade, existe um ponto em que esse argumento tão patético e</p><p>simpático parece ter um lado frágil. Na parábola, o solicitante tinha o</p><p>amigo egoísta em seu poder por ser capaz de incomodá-lo e impedir que</p><p>dormisse. Agora, o desanimado e atormentado discípulo, a quem Jesus</p><p>desejava confortar, poderia responder: “Que poder tenho eu para inco­</p><p>modar a Deus, que reside no alto, muito além do meu alcance, em sua</p><p>imperturbável felicidade? Oh! Se eu pudesse encontrá-lo, se pudesse chegar</p><p>até o seu trono! Mas, olhe, quando caminho à frente, Ele não está lá;</p><p>caminho para trás, mas não o percebo; se opera à mão esquerda, não o</p><p>vejo; caso se oculte à mão direita não o diviso”22. Essa objeção raramente</p><p>deixa de ocorrer ao perspicaz espírito do desesperado e devemos admitir</p><p>Lições sobre a Oração 81</p><p>que ela nada tem de frívola. Nesse ponto realmente existe a necessidade</p><p>de entender melhor a analogia. Podemos incomodar um homem em sua</p><p>cama, como o vizinho que não era generoso ou o juiz injusto, mas não</p><p>somos capazes de incomodar a Deus. A parábola não sugere a verdadeira</p><p>explicação para a divina demora na concessão das súplicas, ou o supre­</p><p>mo sucesso da importunação. Ela simplesmente prova, através de um</p><p>exemplo simples, que a demora ou a aparente recusa, por qualquer que</p><p>seja a sua causa, não é necessariamente final e, portanto, que não existe</p><p>uma boa razão para desistir de suplicar.</p><p>Esse é um verdadeiro serviço a ser prestado, embora não seja muito</p><p>grande. Mas o discípulo incrédulo, além de descobrir com característica</p><p>precisão o que a parábola está deixando de provar, pode não ser capaz de</p><p>extrair nenhum conforto daquilo que ela realmente está provando. Vol­</p><p>temos para a forte afirmação que Jesus usou para acompanhar a parábo­</p><p>la: “E eu vos digo a vós”. Aqui, sem dúvida, encontra-se uma máxima</p><p>infalível daquele que pode falar com autoridade; daquele que já esteve</p><p>no seio do Deus eterno e que veio para revelar o íntimo de seu coração</p><p>aos homens, que na escuridão da natureza tateavam em busca dele a fim</p><p>de, se possível, encontrá-lo. Quando Ele se dirige a nós em termos tão</p><p>enfáticos e solenes como esses: “E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-</p><p>á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”, podemos confiar em sua</p><p>palavra, no mínimo visando um benefício pro tempore. Mesmo aqueles que</p><p>têm dúvidas do poder da oração, por causa da constância das leis da</p><p>natureza e da imutabilidade dos propósitos divinos, podem crer na Pala­</p><p>vra de Cristo quando diz que a oração nunca é em vão, mesmo em</p><p>relação ao pão de cada dia, sem falar em assuntos mais elevados, até</p><p>alcançar uma certeza maior sobre o assunto que aquela que visam no</p><p>momento. Estas pessoas poderão até mesmo desprezar a parábola consi­</p><p>derando-a infantil, ou por transmitir idéias simples demais sobre o ser</p><p>divino; mas não poderão desprezar as deliberadas declarações daquele a</p><p>quem consideram como o melhor e o mais sábio dos homens.</p><p>O segundo argumento empregado por Jesus para insistir na perse­</p><p>verança na oração tem a natureza de um reductio a i absurdum* e termina</p><p>com uma conclusão à fortiori. Segundo ele, se Deus se recusasse a ouvir a</p><p>oração de seus filhos, ou ainda pior, se caçoasse deles dando-lhes alguma</p><p>82 0 Treinamento dos Doze</p><p>coisa que aparentasse ter uma semelhança apenas superficial com o que</p><p>foi pedido somente para provocar um amargo desapontamento, quando</p><p>o engano fosse descoberto Ele não seria considerado somente mau; pior</p><p>ainda, seria considerado mais depravado que a própria humanidade. Pois,</p><p>qual pai, qualquer que fosse, se um filho lhe pedisse pão lhe daria uma</p><p>pedra? Se o filho pedisse peixe daria uma serpente? Ou se pedisse um</p><p>ovo lhe ofereceria um escorpião? A mera hipótese de que isso poderia</p><p>acontecer é monstruosa. A natureza humana é extremamente corrompi­</p><p>da pelo pecado moral, existe um espírito maligno de egoísmo no cora­</p><p>ção que entra em conflito com as generosas afeições e que, muitas vezes,</p><p>leva os homens a fazer coisas contrárias à natureza. Na média, entretan­</p><p>to, os homens não são diabólicos e nada que não fosse um diabólico</p><p>espírito de maldade levaria um pai a caçoar da penúria do filho, ou a</p><p>deliberadamente entregar-lhe dádivas repletas de perigo mortal. Se os</p><p>pais terrenos, embora maldosos em muitas de suas inclinações, dão a</p><p>seus filhos somente coisas que, conforme seu entendimento, são boas e</p><p>ficam horrorizados perante qualquer outro modo de tratamento, como</p><p>poderíamos acreditar que o ser supremo, a providência, o Deus que é</p><p>absolutamente bom, e que personifica todas as qualidades positivas, fa­</p><p>ria algo que somente os demônios pensariam em fazer? Pelo contrário, o</p><p>mal que o homem poderia fazer, para Deus é completamente impossí­</p><p>vel. Com toda certeza Ele concederá boas dádivas, e somente elas, a seus</p><p>filhos que lhe suplicam. E, mais especialmente, concederá a melhor de­</p><p>las, o Espírito Santo, o iluminador e santificador, que os seus verdadei­</p><p>ros filhos desejam acima de todas as outras. Portanto, digo-vos nova­</p><p>mente: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.</p><p>No entanto, alguns pensarão que pelo simples fato de Cristo apre­</p><p>sentar esses casos, como a pedra que é dada no lugar do pão, a serpente</p><p>no lugar do peixe e o escorpião no lugar do ovo, que Deus possa em</p><p>alguma ocasião tratar os seus filhos dessa forma. Chegou o momento</p><p>em que os doze discípulos pensaram estar sendo tratados assim com</p><p>referência ao assunto com o qual estavam tão profundamente interessa­</p><p>dos, depois de sua própria santificação, isto é, a restauração do Reino de</p><p>Israel. Mas sua experiência revela a verdade geral de que quando aquele</p><p>que ouve a oração parece tratar os seus servos de forma ilógica, é porque</p><p>Lições sobre a Oração 83</p><p>estes se enganaram sobre a natureza do que é bom e não sabem o que</p><p>estão pedindo. Pediram uma pedra, pensando que fosse pão; portanto o</p><p>verdadeiro pão parecerá uma pedra; pediram uma sombra, pensando ser</p><p>uma riqueza, portanto a riqueza se parecerá com uma sombra. O reino</p><p>pelo qual os doze discípulos oravam era uma sombra, daí seu desaponta­</p><p>mento e</p><p>desespero quando Jesus foi condenado à morte: “o ovo” da</p><p>esperança, que sua carinhosa imaginação havia estado desenvolvendo,</p><p>produziu um escorpião — a cruz — e assim podem ter imaginado que</p><p>Deus os havia enganado e zombado deles. Mas viveram para saber que</p><p>Deus era verdadeiro e bom e que haviam enganado a si próprios e que</p><p>tudo que Cristo havia dito se cumpriu. E que todos os que esperam em</p><p>Deus irão, ao final, fazer a mesma descoberta e se unir para testemunhar</p><p>que “bom é o Senhor para os que se atêm a ele, para a alma que o</p><p>busca”23.</p><p>Por essas razões todos devem orar e nunca desfalecer. A oração é</p><p>racional, ainda que o ser divino fosse como a média dos homens: dispos­</p><p>to a fazer o bem quando o egoísmo não se interpusesse em seu caminho</p><p>— isto é, o credo do paganismo. Seria ainda mais manifestadamente</p><p>racional sendo, como Cristo ensinou e os cristãos acreditam, Deus me­</p><p>lhor que o melhor dos homens — Aquele que é o ser supremamente</p><p>bom — , o Pai no céu. Somente em um dos dois (ou nos dois) casos a</p><p>seguir a oração seria irracional: se Deus não fosse absolutamente um ser</p><p>vivo — este é o credo dos ateus, a favor do qual Cristo não expressa</p><p>qualquer argumento — ; ou se Ele fosse um ser capaz de fazer coisas</p><p>perante as quais até os homens mais cruéis se afastassem horrorizados,</p><p>isto é, um ser que não tivesse a natureza benigna e santa que Ele possui</p><p>— uma crença que, esperamos, não seja defendida por nenhum ser hu­</p><p>mano.</p><p>*N. doT. Refutação de uma proposição através da demonstração da inevitável e absurda conclusão à qual ela iria</p><p>logicamente levar.</p><p>1 Marcos 1.35; Lucas 6.12; Mateus 14.23</p><p>2 Mateus 6.5-13</p><p>3 Lucas I I .I - I 3 ; I8 .I-5</p><p>4 Mateus 18.19</p><p>5 Mateus 21.22</p><p>84 O Treinamento dos Doze</p><p>6 João 16.23-24</p><p>7 Os doze não estão nomeados; mas a lição deve, por sua natureza, ter sido dada a um círculo de discípulos mais</p><p>próximos.</p><p>8 O pedido, nesse caso, pode ser parafraseado: “Senhor, nos ensine (também) a orar, como João nos ensinou</p><p>quando éramos seus discípulos”.</p><p>9 Os leitores podem se lembrar aqui do conhecido hino de Newton, que começa com as seguintes palavras: “Eu</p><p>pedi a Deus que crescesse na fé, no amor e em toda a graça” — (número 25, F. C. Hymn-Book}.</p><p>10 João 16.24</p><p>11 João 14.13</p><p>12 Jeremy Taylor, na obra Apology f o r Authorized and Set Forms o f Liturgy, não faz distinção entre discípulos e apóstolos.</p><p>Quando se faz tal distinção, muitos dos seus argumentos perdem a importância. Vide páginas 86-112.</p><p>13 Keim tem o mesmo ponto de vista: ele pensa que Mustergebet não deveria ser um Alltagsgehet, e como prova cita os</p><p>fatos de que nenhum vestígio disso aparece na história da vida de Cristo na época da igreja de Jerusalém, nas</p><p>recordações do apóstolo Paulo, e que só no segundo século isso começou a ser objeto de um uso regular “ja</p><p>mechamsch-katolischen” — Jesu von Nazara, 2.280</p><p>14 Pela forma como o “Pai Nosso” é agora explicado, podemos determinar o lugar e o uso apropriado de todas as</p><p>formas estabelecidas de devoção. As formas litúrgicas destinam-se ao uso particular mais do que ao uso público; mais</p><p>para aqueles que estão no silêncio, no estágio árido da vida espiritual, do que para aqueles que obtiveram o poder e a</p><p>expressão da maturidade espiritual. Para o uso particular dessas formas por pessoas que querem orar, mas ainda não</p><p>conseguem, não há nenhuma objeção. A vantagem justifica o uso. O cristão menos experiente pode pedir ao mais</p><p>experiente para ensiná-lo a orar, e receber em resposta: “Nós oramos dessa forma...” Se podemos ler e repetir as</p><p>sagradas canções de poetas cristãos para encontrar expressões de emoção que são comuns para nós e para eles, mas que</p><p>podem rião nos agcadat, podemos adequadamente petguntar. “Pot que não podemos \et e tepetvt as orações dos</p><p>santos por uma razão semelhante? Os superficiais, que não têm seriedade e sinceridade suficientes para saber o que</p><p>deve ser balbuciado, podem desprezar tais auxílios por considerarem-nos apropriados apenas para crianças; e aqueles</p><p>que ainda estão no início do fervor religioso podem desistir das formas escritas por considerarem-nas frias e mortas,</p><p>mesmo sendo clássicas”. Bem, não há problema quanto àqueles que puderem dispensar esses auxílios; mesmo para os</p><p>fervorosos — que desprovidos de emoções, deficientes em experiência, desencorajados pelo fracasso, decepcionados</p><p>em suas grandes esperanças da mocidade, atormentados pelas dúvidas especulativas com relação à utilidade e às razões</p><p>das orações — pode chegar a época em que sintam os ventos gelados do inverno da história religiosa invadindo a alma.</p><p>Estes podem se sentir muito felizes ao ler sobre as formas de devoção, que por sua simplicidade e dignidade servem</p><p>para inspirar um senso de realidade e produzir um efeito suave e relaxante em seus espíritos enfermos e cansados. Para</p><p>todos os que estiverem em tal condição nós, respeitando o exemplo de Jesus Cristo, sentimo-nos na obrigação de dizer</p><p>que não devem permanecer sem orar por não poderem fazê-lo sem um livro que lhes ensine.</p><p>Mas quando passamos do recesso para a igreja, o caso é alterado. Lá devemos encontrar pastores capazes de fazer</p><p>pelos seus companheiros de devoção, o que Cristo fez pelos seus discípulos, orar com a liberdade e a força que os</p><p>discípulos posteriormente alcançaram. Pode-se afirmar, com certeza, que por mais desejável que pareça, esta não é</p><p>a situação em determinados lugares. Um escritor recente, defendendo a introdução de formas de orações escritas na</p><p>igreja presbiteriana, diz: “Estou convencido de que um relatório verbatin de todas as orações públicas feitas na</p><p>Escócia em qualquer domingo do ano esclareceria essa questão para sempre nas mentes de todas as pessoas que</p><p>fossem capazes de formar um julgamento racional sobre esse assunto”*. Deve ser esperado que isso seja uma visão</p><p>exagerada da incapacidade do ministério existente; mas mesmo garantindo a sua exatidão, seria uma questão justa se</p><p>a solução proposta não fosse pior que o mal em si, e o ganho em adequação mais contrabalançado pela perda da</p><p>qualidade mais importante que é o fervor. Podemos dizer isso, mesmo não dispostos a nos opormos às formas</p><p>litúrgicas, mas concordar com os sentimentos moderados de Richard Baxter, quando diz: “Não posso ter a mesma</p><p>opinião daqueles que pensam que Deus não aceitaria as orações de um Livro de Orações comum, e que tais formas</p><p>sejam venerações inventadas, que Deus rejeitaria. Nem posso pensar como aqueles que preferem orações completa­</p><p>mente improvisadas”.* Na época de Baxter havia muita controvérsia religiosa, e pontos de vista contrários eram</p><p>expostos de maneiras extremadas. Os clérigos ridicularizavam as improvisações dos puritanos; os puritanos foram</p><p>tão longe com sua oposição às orações litúrgicas que até consideravam que o “Pai Nosso” nunca deveria ser repe­</p><p>tido. Baxter, não sendo um partidário, mas um amante da verdade, não era solidário a nenhum partido, mas consi­</p><p>derava esta questão como política e não de princípio, que não deveria ser resolvida por meio de uma argumentação</p><p>abstrata, mas através de uma calma consideração sobre aquilo que, como um todo, conduziria à edificação; nesta, o</p><p>ponto de vista do seu julgamento e prática estavam ambos do lado da oração improvisada.</p><p>Lições sobre a Oração 85</p><p>Olhando para a questão do ponto de vista de Baxter, como uma questão política, somos inteiramente persuadi­</p><p>dos a concordar que a prática existente no presbiterianismo e em outras igrejas pode ser justificada em bons termos</p><p>já que estão contentes com as suas próprias maneiras, e indispostos a imitar aqueles que têm maneiras diferentes de</p><p>lidar com essa questão. Os ministros da religião, como os apóstolos, deveriam ser capazes de dispensar as formas</p><p>litúrgicas; e a melhor maneira de assegurar que podem possuir essa capacidade, é deixá-los por sua própria conta, e</p><p>por conta de Deus, e assim converter o ideal em um requisito aplicável a todos, sem exceções. O completo benefício</p><p>de um sistema não pode ser alcançado a menos#que haja uma rígida</p><p>obrigatoriedade; e até mesmo esta obrigatoriedade</p><p>pode envolver algumas desvantagens ocasionais, como o relaxamento da regra, que provavelmente causaria um dano</p><p>maior à igreja. A amenização permitida devido à timidez, inexperiência ou a uma incapacidade extraordinária,</p><p>sofreria abuso por parte dos indolentes e irresponsáveis; e muitos permaneceriam sempre em um estado semelhante</p><p>ao dos discípulos que, se compelidos a usar o dom que Deus lhes deu ou a buscar seriamente dons e graças que não</p><p>possuíssem, alcançariam em pouco tempo a liberdade e o poder apostólico. A mesma observação pode ser aplicada</p><p>à pregação. Há exemplos individuais de congregações que podem se beneficiar do fato de o pregador estar autori­</p><p>zado a usar os materiais de instrução que quiser; mas sob tal permissão, quantos ficariam contentes ao ler os</p><p>sermões dos livros ou de manuscritos comprados às dúzias, que são escritos sob um sistema que visa tornar-se a</p><p>avaliação máxima do talento individual e, deste modo, pede a todos os professores da verdade que dêem aos seus</p><p>ouvintes o benefício dos seus próprios pensamentos. Tais professores, através da prática, alcançariam uma medida</p><p>justa de poder para pregar.</p><p>No todo, portanto, a igreja presbiteriana, por exemplo, tem razões para ficar satisfeita com o seu sistema de</p><p>adoração pública existente, seja qual for a razão da existência do descontentamento com o atual estado de adoração</p><p>em exemplos particulares. O ideal é bom, mesmo que a realidade deixe algo a desejar. O objetivo e o efeito do</p><p>sistema litúrgico é tornar o grande número de adoradores o mais independente possível do ministro, através do</p><p>crescimento na fé e na graça do Senhor. O objetivo não é o efeito do nosso sistema, mas sim tornar o ministério</p><p>individual o mais valioso possível para os adoradores, pela sua instrução e edificação. Um sistema pode assegurar</p><p>uma solenidade e decência uniforme, mas o outro sistema tende a assegurar as qualidades mais importantes da</p><p>devoção fervorosa, eqergia e vida; e acreditamos, a despeito de quão meticulosas possam ser as críticas, que isso</p><p>pode assegurá-los consideravelmente. No mínimo, o método não-litúrgico assegura que a adoração da igreja deva</p><p>ser uma reflexão verdadeira de sua vida e, portanto, smcera. Homens que pregam seus próprios sermões e fazem</p><p>suas próprias orações têm uma tendência maior a pregar e a orar mais como acreditam e vivem, do que aqueles que</p><p>meramente lêem composições que lhes foram dadas. Só resta dizer que enquanto não houver objeção à tentativa de</p><p>fundir os dois métodos para usar as vantagens de ambos — um sistema gentilmente oferecido a todas as igrejas por</p><p>algum irmão respeitável — confessamos ter dúvidas quanto à utilidade de tal tentativa, pelas razões acima explicadas.</p><p>[Deixamos o texto acima tal qual consta na segunda edição. Nossa atual impressão, no entanto, é que uma mistura</p><p>do sistema litúrgico de formas fixas, com uma metodologia que não restringe o improviso, não é impraticável e</p><p>pode ainda dar melhores resultados do que ambos separadamente — Nota da terceira edição].</p><p>* The Reform o f the Church o f Scotland, de Robert Lee, D.D., página 76.</p><p>* Da obra Baxters Life, de seu original M S., livro I, parte I, página 213.</p><p>15 O suposto objeto da oração em Lucas 18 é o interesse geral, que existe na terra, sobre o remo divino.</p><p>16 Em Mateus 7.2, que responde a Lucas I I .13, a frase expressiva do objeto de desejo é agaqa, “boas coisas”, ao</p><p>invés de pneuma agion. O caráter paulino da segunda expressão tem sido observado como um dos muitos traços da</p><p>influência do apóstolo sobre o terceiro evangelista. A doutrina que diz que o Espírito Santo é a base imanente da</p><p>santidade cristã é enfaticamente paulina. Porém a doutrina da santificação gradual não é proeminentemente paulina.</p><p>17 A tradução na ARA tem o mesmo sentido: “Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma</p><p>pedra?</p><p>18 Veja o livro de Jó, passim, e Salmos 73, 77, etc.</p><p>19 Esta idéia foi bem trabalhada em um sermão de H. W. Beecher intitulado: “Esperando pelo Senhor” — na</p><p>obra Sermons, volume I.</p><p>20 Veja a obra de Samuel Rutherford, Trial and Triumph o f Faith, sermão 18.</p><p>21 O termo grego anaideian, que significa impudência, cinismo.</p><p>22 Jó 23.3, 8, 9</p><p>23 Lamentações 3.25</p><p>7</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa</p><p>ou A Natureza da Verdadeira Santidade</p><p>Seção I - O Jejum</p><p>Mateus 9 .14 -17 ; Marcos 2 .16-22 ; Lucas 5.33-39</p><p>N. capítulo anterior aprendemos como Jesus ensinou os seus dis­</p><p>cípulos a orar, e agora, neste presente capítulo, vamos aprender como</p><p>Ele ensinou-lhes a viver.</p><p>A ratio vivendi de Cristo era caracteristicamente simples; seus princi­</p><p>pais aspectos eram a indiferença quanto às minuciosas e mecânicas re­</p><p>gras, e o hábito de se afastar de todas as coisas em detrimento dos exce­</p><p>lentes princípios de moralidade e compaixão.</p><p>O cumprimento prático dessa regra de vida levou a uma considerá­</p><p>vel divergência em relação ao costume prevalecente. Em três aspectos,</p><p>especialmente de acordo com os registros do Evangelho, nosso Senhor e</p><p>seus discípulos foram cobrados pela ofensa de não se conformarem. Eles</p><p>se separaram das práticas existentes com relação ao jejum, cerimônias de</p><p>purificação, como as prescritas pelos anciãos, e a santificação do sábado.</p><p>A primeira, negligenciaram quase que por completo; a segunda completa­</p><p>mente; e a terceira não negligenciaram, mas seu modo de observar o des­</p><p>canso semanal era totalmente em espírito, e mais aberto em relação aos</p><p>detalhes, diferente daquilo que era praticado pelos religiosos da época.</p><p>Essas divergências dos costumes estabelecidos são historicamente</p><p>interessantes como pequenos começos de uma grande revolução moral e</p><p>religiosa. Por ensinar esses novos hábitos aos seus discípulos, Jesus estava</p><p>inaugurando um processo de emancipação espiritual, que resultou na</p><p>completa libertação dos apóstolos e, através deles, na libertação da igre­</p><p>ja da sobrecarga do jugo vindo das ordenanças de Moisés, e ainda mais</p><p>do irritante cativeiro dos costumes vãos recebidos via tradição dos pais.</p><p>88 0 Treinamento dos Doze</p><p>As divergências em questão despertam grande interesse por estarem</p><p>biograficamente relacionadas, também, com a experiência religiosa dos</p><p>doze. Portanto, é uma grave crise na vida de qualquer homem quando</p><p>ele, em primeiro lugar, separa-se da maioria dos minuciosos pormenores</p><p>das opiniões religiosas e das práticas de sua época. Os primeiros passos</p><p>no processo de mudança são geralmente os mais difíceis, mais perigosos,</p><p>e mais decisivos. Com relação a esses aspectos, aprender a liberdade espi­</p><p>ritual é como aprender a nadar. Todo especialista na arte aquática lem­</p><p>bra-se dos problemas que experimentou em relação às suas primeiras</p><p>tentativas, como achou difícil manter as braçadas e mexer suas pernas,</p><p>como debateu-se e afundou, como estava assustado e com medo de na­</p><p>dar em um local cuja profundidade superasse a sua altura, levando-o a</p><p>afundar. Agora ele pode sorrir para esses anos iniciais. No entanto, eles</p><p>não foram totalmente infundados, pois o novato, de fato, corre algum</p><p>risco de se afogar, mesmo que o local da natação seja uma pequena pis­</p><p>cina, ou represa, cuidadosamente construída, em um rio que flui por</p><p>pequenos vales no interior, distante dos rios [argos e do grande mar.</p><p>E bom, tanto para jovens nadadores quanto para aprendizes da li­</p><p>berdade religiosa, fazerem seus primeiros ensaios na companhia de um</p><p>amigo experiente que poderá lhes salvar, caso estejam em perigo. Que</p><p>grande amigo os doze tiveram em Cristo, cuja presença não era somente</p><p>uma proteção contra todos os riscos espirituais mais íntimos, mas um</p><p>abrigo contra todos os ataques que poderiam lhes sobrevir a partir do</p><p>nada. Tais ataques deveriam ser esperados ou não — o inconformismo,</p><p>invariavelmente, ofende a muitos; expõe a parte ofendida no mínimo à</p><p>interrogação, e freqüentemente a algo mais sério. O costume é um deus</p><p>para a multidão, e ninguém pode negar-se a prestar homenagem ao ídolo</p><p>sem impunidade. Os doze,</p><p>por conseguinte, contraíram, de fato, as pe­</p><p>nalidades comuns em relação às singularidades. A conduta deles foi ques­</p><p>tionada e censurada, em todo exemplo de afastamento dos usos e dos</p><p>costumes. Se tivessem que responder por si mesmos, teriam feito uma</p><p>defesa fraca das ações impugnadas, pois não entendiam os princípios</p><p>nos quais as novas práticas foram baseadas, mas simplesmente agiam</p><p>como eram direcionados. Mas em Jesus tinham um amigo que entendia</p><p>esses princípios, e que ainda estava pronto para atribuir bons motivos a</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 89</p><p>tudo o que fizesse, e a tudo o que ensinou os seus seguidores a fazer. As</p><p>razões pelas quais defendeu os doze contra os detentores dos costumes</p><p>predominantes foram especialmente boas e eficazes; e estas constituíam,</p><p>juntas, uma desculpa para o não-conformismo não menos notável do</p><p>que aquele que Ele demonstrou ao receber, bondosamente, publicanos e</p><p>pecadores1 consistindo, assim, de três linhas de defesa correspondentes</p><p>às acusações que deveriam ser enfrentadas. Nos propomos a considerar</p><p>esta apologia, neste capítulo, sob três divisões; na primeira delas aborda­</p><p>remos o tema “jejum”.</p><p>A partir do registro de Mateus, aprendemos que a conduta dos</p><p>discípulos de Cristo, ao negligenciarem o jejum, era censurada pelos dis­</p><p>cípulos de João Batista. Lemos: “Vieram, depois, os discípulos de João”</p><p>(que estavam próximos a eles) “e lhe perguntaram: Por que jejuamos</p><p>nós, e os fariseus, muitas vezes, e teus discípulos não jejuam?”2. Por esta</p><p>questão aprendemos que, quanto ao jejum, a escola de João Batista e a</p><p>seita dos fariseus estavam de acordo em suas práticas gerais. Como Jesus</p><p>disse aos fariseus, dias mais tarde, “João veio a vós no caminho de justi­</p><p>ça”3. Mas este foi o caso de um encontro de extremos; pois nenhum dos</p><p>dois partidos religiosos podia estar mais distante em alguns aspectos do</p><p>que os dois já citados. Mas a diferença consiste, mais exatamente, nos</p><p>motivos do que nas atitudes exteriores de suas vidas religiosas. Ambos</p><p>faziam as mesmas coisas — jejuavam, praticavam abluções cerimoniais,</p><p>faziam muitas orações — mas faziam tudo isto com uma mentalidade</p><p>diferente. João e seus discípulos cumpriam suas obrigações religiosas</p><p>com simplicidade, humildade, sinceridade e com zelo moral. Os fariseus,</p><p>como uma classe, faziam todos os seus trabalhos de maneira ostentosa e</p><p>hipócrita; e como uma rotina mecânica.</p><p>Da mesma questão, aprendemos, mais adiante, que os discípulos de</p><p>João, assim como os fariseus, eram muito zelosos em relação à prática do</p><p>jejum. Eles jejuavam “freqüentemente”, “muitas” vezes (itukna, Lucas;</p><p>polia, Mateus). Nós, por outros aspectos, sabemos que essa declaração</p><p>em relação aos fariseus é rigorosamente verdadeira, porque estes tinham</p><p>grandes pretensões religiosas. Além do jejum anual no grande dia da</p><p>expiação, exigido pela lei de Moisés, e os quatro jejuns que se tornaram</p><p>habituais na época do profeta Zacarias, no quarto, quinto, sétimo e dé­</p><p>90 O Treinamento dos Doze</p><p>cimo mês do ano judaico, a classe mais rigorosa dos judeus jejuava duas</p><p>vezes por semana, a saber, nas segundas e nas quintas-feiras4. Esse jejum</p><p>bi-semanal é mencionado na parábola do fariseu e do publicano5. Não</p><p>se deve supor, evidentemente, que a prática dos discípulos de João Batis­</p><p>ta coincidisse, nesse aspecto, com a da classe mais rigorosa’ do partido</p><p>dos fariseus. O sistema de jejum deles pode ter sido organizado em um</p><p>plano independente, envolvendo diferentes preparativos quanto ao tem­</p><p>po e às ocasiões. O único fato conViecido é que, como os fariseus, os</p><p>discípulos de João jejuavam com freqüência, talvez não precisamente</p><p>nos mesmos dias, nem pelas mesmas razões.</p><p>Não parece claro que os sentimentos tenham sido a causa da ques­</p><p>tão apresentada a Jesus pelos discípulos de João. Não é impossível que o</p><p>sentimento faccioso estivesse presente, pois a rivalidade e a inveja não</p><p>eram desconhecidas, mesmo no ambiente do precursor6. Nesse caso, a</p><p>referência à prática dos fariseus pode ser explicada pelo aparente desejo</p><p>de derrotar os discípulos de Jesus pelos números, e colocá-los como se</p><p>estivessem, na questão, em uma minoria sem-esperança. E mais provável,</p><p>contudo, que o maior sentimento na mente dos interrogadores fosse o</p><p>de surpresa, entendendo que em relação ao jejum estivessem se aproxi­</p><p>mando mais de uma seita — cujos seguidores eram tachados por seu</p><p>próprio mestre de uma “raça de víboras” — do que de seguidores da­</p><p>quele por quem João Batista demonstrava o maior apreço e expressava a</p><p>mais profunda veneração. Nesse caso, o objeto da questão era obter in­</p><p>formação e instrução. Foi de acordo com essa visão que direcionaram a</p><p>pergunta a Jesus. Se o propósito tivesse sido discutir, os questionadores</p><p>certamente teriam questionado os discípulos, e não a Jesus.</p><p>Se os discípulos de João estavam, de fato, procurando instrução,</p><p>não ficaram decepcionados. Jesus respondeu-lhes de forma extraordiná­</p><p>ria ao mesmo tempo pela originalidade, intenção e emoção. E expôs,</p><p>vigorosamente e com compaixão, em estilo de parábolas, os grandes prin­</p><p>cípios pelos quais a conduta dos seus discípulos poderia ser justificada,</p><p>os quais Ele desejava ver na conduta de todos aqueles que usavam o seu</p><p>nome. Deve ser observado em sua resposta, em primeiro lugar, que ela é</p><p>de uma natureza puramente defensiva. Jesus não culpa os discípulos de</p><p>João por jejuarem, mas contenta-se em defender os seus próprios discí-</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 91</p><p>pulos por, naquele momento, absterem-se do jejum. Ele não se sentiu</p><p>chamado a menosprezar uma parte, a fim de justificar a outra, mas to­</p><p>mou a posição de alguém que praticamente diz: “Jejuar pode ser certo</p><p>para vocês, que são seguidores de João: não jejuar, neste momento, é</p><p>igualmente certo para os meus seguidores”. Como deve ter sido agradá­</p><p>vel para o Senhor Jesus Cristo poder assumir essa atitude tolerante em</p><p>uma questão na qual o nome de João foi envolvido. Pois Ele tinha um</p><p>profundo respeito pelo precursor e pelo seu trabalho, e ainda falava dele</p><p>nos mais generosos termos apreciativos, agora chamando-o de uma</p><p>“candeia que ardia e alumiava”7, e em outro momento afirmando que ele</p><p>não era apenas um profeta, mas algo mais8. E podemos observar na pas­</p><p>sagem, que João retribuía esses gentis sentimentos, e não tinha simpatia</p><p>com as insignificantes invejas às quais seus discípulos, às vezes, entrega-</p><p>vam-se. Os dois maiores (O Senhor Jesus Cristo e João Batista), por</p><p>diferentes razões, censurados por seus contemporâneos corrompidos,</p><p>sempre falavam um do outro para seus discípulos e para o público, em</p><p>termos de um amoroso respeito; a menor luz, magnanimamente, confes­</p><p>sando sua inferioridade; a maior exaltando o valor de seu humilde com­</p><p>panheiro e servo. Que contraste reconfortante foi assim apresentado para</p><p>as vis paixões da inveja, preconceito e maledicência, tão prevalecentes em</p><p>outros lugares, sob a influência de homens malignos, dos quais piores</p><p>coisas podiam ser esperadas. Estes chegaram a falar de João como se</p><p>fosse um insano, e de Jesus como se fosse imoral e profano!9</p><p>Passando da forma ao assunto da resposta, observamos que, com o</p><p>propósito de justificar seus discípulos, Jesus aproveitou-se de uma metá­</p><p>fora proposta por uma memorável palavra que fora verbalizada a respei­</p><p>to dele em um período inicial, pelo mestre daqueles que agora examina­</p><p>vam-no. Para certos discípulos que reclamaram que os homens estavam</p><p>deixando-o e indo a Cristo, João disse, com efeito: “O que tem a noiva é</p><p>o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija</p><p>por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim”10.</p><p>Jesus, agora, toma as palavras de João Batista, e as transforma em uma</p><p>explicação com o propósito de defender o modo de vida de seus discí­</p><p>pulos. Sua resposta, livremente parafraseada, tem esse efeito: “Eu sou o</p><p>noivo, como disse seu mestre; é certo que os filhos das bodas venham a</p><p>92 0 Treinamento dos Doze</p><p>mim; e também é certo que,</p><p>quando vierem, devam adaptar o seu modo de</p><p>vida às novas circunstâncias. Conseqüentemente, fazem bem em não jeju­</p><p>ar, pois o jejum é uma expressão da tristeza, e como podem estar tristes em</p><p>minha companhia? Seria o mesmo que os homens estarem tristes em uma</p><p>festa de casamento. Dias chegarão em que os filhos das bodas estarão</p><p>tristes, pois o noivo não estará sempre com eles; e na tenebrosa hora da sua</p><p>partida, lhes será natural e propício jejuar, pois então estarão em um esta­</p><p>do de jejum — chorando, lamentando-se, tristes e desconsolados”.</p><p>O princípio por trás dessa representação gráfica é que o jejum não</p><p>deve ser algo como uma regra mecânica, estabelecida, mas deve referir-se</p><p>ao estado de espírito; ou, mais claramente, os homens devem jejuar quando</p><p>estão tristes, ou em um estado de espírito semelhante à tristeza — ab­</p><p>sorto, preocupado — como em algumas fortes e graves crises que ocor­</p><p>rem na vida das pessoas, ou de uma comunidade, tais como aquelas na</p><p>história de Pedro, quando ele foi usado na grandiosa questão sobre a</p><p>admissão dos gentios na igreja; ou tais como aquelas na história da co­</p><p>munidade cristã, em Antioquia, quando estavam prestes a designar os</p><p>primeiros missionários para o mundo pagão. A doutrina de Cristo indi­</p><p>cou clara e nitidamente aqui, que o jejum em quaisquer outras circuns­</p><p>tâncias é forçado, não natural, irreal; algo que os homens podem estar</p><p>prontos para fazer em termos de formalidade, mas que não fazem com</p><p>os seus corações e almas. “Podeis vós fazer jejuar os convidados das</p><p>bodas, enquanto o esposo está com eles?”11 perguntou o Senhor, prati­</p><p>camente afirmando que isso seria impossível.</p><p>Por meio dessa regra, os discípulos do nosso Senhor foram justifi­</p><p>cados; no entanto, os de João não foram condenados. Jejuar era reconhe­</p><p>cidamente algo natural para eles, quando estavam pesarosos, melancóli­</p><p>cos, ou insatisfeitos. Eles não tinham encontrado aquele ,que era o dese­</p><p>jado de todas as nações, a esperança de um futuro, o noivo da alma.</p><p>Apenas sabiam que tudo estava errado, e em seu estado de desespero e</p><p>lamentação, tinham prazer em jejuar, usar trajes grosseiros e freqüentar</p><p>regiões isoladas e desoladas, vivendo como ermitões, um protesto práti­</p><p>co contra um período de crise. A mensagem de que o Reino estava pró­</p><p>ximo foi, de fato, pregada a eles também; mas enquanto proclamada por</p><p>João, o anúncio foi uma terrível notícia, e não boas novas; isso os deixou</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 93</p><p>ansiosos e desanimados, e não contentes. Homens nesse estado de espí­</p><p>rito não podiam fazer outra coisa se não jejuar; embora se devessem ou</p><p>não continuar nesse estado de espírito depois do noivo ter vindo, e ter lhes</p><p>sido anunciado como tal pelo seu próprio mestre, seja outro assunto.</p><p>Seus pesares eram obstinados* infundados e injustificáveis após a vinda</p><p>de Jesus, aquele que estava prestes a tirar o pecado do mundo.</p><p>Jesus, contudo, tinha mais a dizer em resposta às questões dirigidas</p><p>a ele. Coisas novas e incomuns precisam de diversas explicações, e conse­</p><p>qüentemente, à linda semelhança dos filhos das bodas Ele adicionou</p><p>outras duas sugestivas parábolas: a saber, a do remendo novo em trajes</p><p>velhos, e a do vinho novo em odres velhos. O modelo dessas parábolas é</p><p>muito semelhante àquele da primeira parte de sua resposta, ou seja, apli­</p><p>car a “lei da congruência” em relação ao jejum e a assuntos semelhantes;</p><p>isto é, mostrar que em todos os serviços religiosos voluntários, onde</p><p>somos livres para regular a nossa própria conduta, nossas atitudes devem</p><p>corresponder à nossa condição espiritual interior, e nenhuma tentativa</p><p>deve ser feita para forçar atitudes particulares, ou hábitos, nos homens,</p><p>sem referência a essa concordância. Ao mencionar as coisas naturais, Ele</p><p>quis se referir à observação dessa lei da congruência. Nenhum homem</p><p>põe um remendo de pano novo12 em um vestido velho. Nem põem vi­</p><p>nhos novos em odres velhos, e isso não apenas por causa da conveniên­</p><p>cia, mas para evitar conseqüências desagradáveis, ou até mesmo desas­</p><p>trosas. Pois se a regra da congruência for negligenciada, o vestido re­</p><p>mendado se rasgará pela contração da nova roupa13; e os odres velhos se</p><p>romperão sob a força da fermentação da nova bebida, e o vinho se derra­</p><p>mará e será perdido.</p><p>As vestes e os odres velhos, nessas metáforas, representam antigos</p><p>costumes ascéticos da religião; as novas vestes e o novo vinho represen­</p><p>tam a nova e feliz vida em Cristo, não desfrutada por aqueles que obsti­</p><p>nadamente aderiram às formas antigas. As parábolas foram aplicadas</p><p>primeiramente à época de Cristo, mas podem ser aplicadas a todas as</p><p>épocas de transição; de fato, elas encontram uma nova ilustração em</p><p>quase todas as gerações.</p><p>A força dessas simples parábolas como argumentos de defesa do</p><p>abandono das práticas comuns da religião pode ser rejeitada em uma ou</p><p>94 O Treinamento dos Doze</p><p>outra destas formas: Primeiro, sua relevância pode ser negada; isto é,</p><p>pode ser negado que crenças religiosas sejam de tal natureza quanto à</p><p>exigência de modos inatos de expressão, sob pena da exigência não ser</p><p>aceita. Essa postura é habitualmente admitida, parcial ou abertamente,</p><p>pelos patronos dos usos e dos costumes. Mentes conservadoras têm, na</p><p>maioria das vezes, uma concepção inadequada da força vital da crença.</p><p>Suas próprias crenças e toda a sua vida espiritual são, freqüentemente,</p><p>algo frágil; e essas pessoas imaginam que a mansidão ou a flexibilidade</p><p>também devem ser um atributo da fé de outros homens. Nada além de</p><p>uma terrível experiência irá convencê-los de que estão enganados, e quando</p><p>a prova aparecer na forma de uma irreprimível explosão revolucionária,</p><p>eles ficarão pasmados. Tais homens nada aprendem da história das gera­</p><p>ções anteriores, pois persistem em pensar que os seus próprios casos</p><p>serão uma exceção. Por isso, o vis inertíce do costume instituído sempre</p><p>insiste na adesão ao que é velho, até que o novo vinho prove seu poder,</p><p>produzindo uma explosão desnecessariamente esbanjadora, pela qual</p><p>tanto o vinho quanto os odres, com freqüência, deterioram-se; e energias</p><p>que poderiam, tranqüilamente, ter trazido uma benéfica reforma, são</p><p>pervertidas em cegos poderes de indiscriminada destruição.</p><p>Ou, em s e g u n d o p lan o , ao a d m it ir - s e a r e lev â n c ia d es sa s m e tá fo ra s</p><p>em termos gerais, pode ser negado que um novo vinho — tomando</p><p>emprestada a forma de expressão da segunda metáfora, a mais sugestiva</p><p>— chegou à existência. Essa foi, praticamente, a atitude assumida pelos</p><p>fariseus em relação a Cristo. Em outras palavras, estavam perguntando</p><p>ao Senhor: “O que você trouxe aos seus discípulos? Por que não podem</p><p>viver como os outros vivem, mas acham necessário inventar novos hábi­</p><p>tos religiosos para si próprios? Essa nova vida da qual você se vangloria é</p><p>uma vã pretensão, ou algo ilegítimo, espúrio, não digno de tolerância, e</p><p>a perda disso não seria motivo de arrependimento”. Semelhante foi a</p><p>atitude adotada em relação a Lutero pelos oponentes da Reforma. Eles,</p><p>verdadeiramente, disseram-lhe: “Se esta sua nova revelação, de que os</p><p>pecadores são justificados apenas pela fé, fosse verdadeira, admitimos</p><p>que isso implicaria em muitas modificações consideráveis na opinião</p><p>religiosa, e em muitas alterações na prática religiosa. Mas negamos a</p><p>verdade da sua doutrina, consideramos a paz e o conforto que nela você</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 95</p><p>encontra, como uma alucinação; e, assim, insistimos que você retorne à</p><p>fé tradicional, e então não terá dificuldade em aquiescer à prática insti­</p><p>tuída há anos”. O mesmo acontece, em maior ou menor extensão, a</p><p>todas as gerações; pois o vinho novo está sempre a caminho de ser pro­</p><p>duzido pelo eterno vinho da .verdade, exigindo, em algumas particulari­</p><p>dades da crença e da prática, novos odres para a sua preservação, e recebe</p><p>em resposta uma ordem para se conciliar com os odres antigos.</p><p>Sem chegar ao limite da denúncia, ou à tentativa direta de supres­</p><p>são, aqueles que ficam ao lado</p><p>do antigo com freqüência opõem-se ao</p><p>novo pelo mais suave método da depreciação. Eles louvam o venerável</p><p>passado, e o contrastam com o presente. E fazem-no em detrimento do</p><p>presente. “O vinho antigo é vastamente superior ao novo: como ele é</p><p>maduro, suave, fragrante, saudável! Já o outro, como é áspero e ardente/”</p><p>Aqueles que dizem isso não são os piores dos homens: eles são, muitas</p><p>vezes, os melhores — os homens que têm bom gosto e sensibilidade, os</p><p>gentis, respeitosos, bons, que são eles próprio exemplos excelentes da</p><p>antiga vindima. Suas formas de oposição são certamente o maior obstá­</p><p>culo para o reconhecimento público e para a tolerância ao que é novo na</p><p>vida religiosa; já que isso naturalmente cria um forte preconceito contra</p><p>qualquer motivo quando os religiosos o desaprovam.</p><p>Observe, então, como Cristo responde aos sinceros admiradores do</p><p>vinho velho. Ele reconhece o argumento: Admite que suas preferências</p><p>são naturais. Lucas o apresenta dizendo, na conclusão de sua resposta</p><p>aos discípulos de João Batista: “E ninguém, tendo bebido o velho, quer</p><p>logo o novo, porque diz: Melhor é o velho”14. Esse sentimento impressi­</p><p>onante mostra uma rara imparcialidade em expor a causa dos oponentes,</p><p>e também uma rara modéstia e tato em defesa da causa de seus amigos. E</p><p>como se Jesus tivesse dito: “Eu não me admiro que vocês amem o vinho</p><p>velho da devoção judaica, fruto de uma vindima muito antiga; ou mes­</p><p>mo que estejam fascinados pelos muitos odres que o contenham, cober­</p><p>tos inteiramente pelo pó e por antigas teias de aranha. Mas e então? Os</p><p>homens opõem-se à existência do vinho novo, ou recusam-se a possuí-lo</p><p>pelo fato do antigo ser superior em sabor? Não: eles tomam o antigo,</p><p>mas cuidadosamente preservam o novo, sabendo que o velho irá se esgo­</p><p>tar, e que o novo, mesmo sendo áspero, irá melhorar com o tempo, e</p><p>96 O Treinamento dos Doze</p><p>poderá, enfim, ser superior mesmo em sabor ao que está em uso atual­</p><p>mente. Mesmo assim vocês devem comportar-se de acordo com o novo</p><p>vinho do meu reino. Vocês podem não desejá-lo imediatamente, porque</p><p>ele é estranho e novo; mas certamente poderiam lidar com isso de uma</p><p>forma mais sábia, ao invés de meramente rejeitá-lo, ou derramá-lo e</p><p>destruí-lo!”</p><p>Com pouca freqüência, para o bem da igreja, os apreciadores das</p><p>formas antigas entenderam a sabedoria de Cristo, e os apreciadores dos</p><p>novos caminhos simpatizaram-se com sua caridade. Um célebre histori­</p><p>ador observou: “Um homem se tornará desprezível, se, quando estiver</p><p>no início de uma idade avançada, com inquietação olhar para a geração</p><p>que se forma, e não se alegrar ao observá-la; no entanto, isso é muito</p><p>comum em homens mais velhos. Fábio preferiria ter visto Aníbal invic­</p><p>to, do que ver sua própria fama obscurecida por Scipio”15. Existem sem­</p><p>pre no mundo muitos como Fábio, que se sentem incomodados porque</p><p>as coisas não continuarão imóveis, e porque novas formas e novos ho­</p><p>mens estarão sempre surgindo para assumir o lugar dos antigos. Não</p><p>menos raro, por outro lado, é a caridade de Cristo entre os defensores do</p><p>progresso. Aqueles que lutam a favor da liberdade, posicionam-se contra</p><p>a classe mais rigorosa dos fanáticos' e intolerantes, e combatem a favor</p><p>das mudanças sem consideração aos seus escrúpulos, e sem qualquer</p><p>apreço pelas qualidades excelentes do “vinho antigo”. Quando será que</p><p>homens jovens e mais velhos, liberais e conservadores, cristãos tolerantes</p><p>e legalistas, aprenderão a suportar uns aos outros, e, de fato, reconhece­</p><p>rão nos outros o complemento que lhes é necessário?</p><p>Seção II — Abluções R itu a is</p><p>Mateus 15.1-20; Marcos 7.1-23; Lucas II .37-41</p><p>A sociedade alegre e livre em torno de Jesus, que vivia em clima de</p><p>festa (como de casamento), enquanto outros jejuavam, era também, nes­</p><p>se aspecto, singular em seus modos. Assim, os seus membros faziam suas</p><p>refeições despreocupados com as práticas correntes de purificação. Eles</p><p>comiam pão com “mãos contaminadas”, por assim dizer, não porque</p><p>não as lavassem, mas porque de fato não as lavavam de acordo com a</p><p>forma prescrita na lei cerimonial. Podemos admitir que esta tenha sido a</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 97</p><p>sua forma de agir desde o início, embora não tenha se tornado um tema</p><p>de reprovação até um período avançado do ministério de nosso Senhor16.</p><p>Entendemos que mesmo que tenha havido algum conflito sobre este</p><p>assunto, as circunstâncias não foram merecedoras de observação nos re­</p><p>gistros do Evangelho. Mesmo, no casamento em Caná, onde estavam</p><p>postas seis talhas de pedra com o propósito de purificação, Cristo e seus</p><p>discípulos estavam sujeitos a serem julgados como distintos dos outros</p><p>convidados por uma certa negligência às abluções rituais. E isso inferi­</p><p>mos a partir dos motivos pelos quais a negligência foi defendida quando</p><p>contestada, e na prática percebe-se que o hábito condenado não era ape­</p><p>nas legítimo, mas obrigatório — um dever indiscutível sob aquelas cir­</p><p>cunstâncias da sociedade judaica e, portanto, certamente um dever que</p><p>em nenhum momento poderia ser negligenciado por aqueles que deseja­</p><p>vam agradar a Deus e não aos homens. Mas certamente não se precisava</p><p>de provas de que alguém com tal alma distinta e sincera como Jesus</p><p>nunca teria prestado atenção às insignificantes regras sobre os rituais de</p><p>purificação antes das refeições, inventadas pelos “anciãos”.</p><p>Essas regras não eram insignificantes aos olhos dos fariseus; e,</p><p>portanto, não nos surpreendemos ao aprender que a indiferença com</p><p>que eram tratadas por Jesus e pelos doze, tenha provocado a censura</p><p>dessa zelosa facção de religiosos em pelo menos duas ocasiões, referi­</p><p>das nos relatos do Evangelho. Em uma dessas ocasiões, certos fariseus</p><p>e escribas, que tinham seguido Jesus de Jerusalém ao Norte, ao verem</p><p>alguns de seus discípulos comerem sem antes passarem pelas cerimô­</p><p>nias habituais de abluções, chegaram-se a Ele, e lhe perguntaram: “Por</p><p>que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos,</p><p>mas comem com as mãos por lavar?”17 Em outra ocasião, o próprio</p><p>Senhor Jesus foi objeto da censura direta desses homens. “Um fariseu”,</p><p>relata Lucas, “o convidou para ir comer com ele; então, entrando, to­</p><p>mou lugar à mesa. O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não</p><p>se lavara primeiro, antes de comer”18. O texto sagrado não nos infor­</p><p>ma se o anfitrião expressou sua surpresa por palavras ou por olhares;</p><p>mas isso foi percebido pelo seu convidado, e assim foi criada uma</p><p>ocasião para expor as falhas do caráter farisaico. “Agora”, disse o acu­</p><p>sado, em um zelo santo pela verdadeira pureza, “vós, fariseus, limpais</p><p>98 0 Treinamento dos Doze</p><p>o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapi­</p><p>na e maldade. Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior?</p><p>Dai, antes, esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo”19.</p><p>Por assim dizer, o convidado ofendido acusou seu escandalizado anfi­</p><p>trião, e a facção à qual este pertencia, de renunciar à pureza interior em</p><p>benefício da exterior; e, ao mesmo tempo, ensinou-lhes a importante</p><p>v e r d a d e d e que, para o que é puro, c o d a s as c o i s a s s ã o puras, e mos-</p><p>trou-lhes o caminho pelo qual a verdadeira pureza interior seria</p><p>alcançada, isto é, pela prática daquelas virtudes infelizmente negligen­</p><p>ciadas: a bondade e a caridade.</p><p>A resposta do Senhor em outro encontro com os adversários fariseus</p><p>sobre o tema da lavagem foi similar em seu princípio, mas diferente em</p><p>sua forma. Ele falou aos zelotes sobre purificações, sem perífrases, mos­</p><p>trando-lhes que eram culpados da grave ofensa de sacrificar os manda­</p><p>mentos de Deus para obedecerem a mandamentos humanos — as tradi­</p><p>ções tão estimadas pelos anciãos. A declaração não foi uma calúnia, mas</p><p>uma simples e triste constatação, embora sua verdade não fique comple­</p><p>tamente exposta. Pretendemos mostrar isso nos comentários seguintes;</p><p>mas antes de prosseguir com essa tarefa, devemos nos esforçar, mesmo</p><p>que de forma relutante, para obter um entendimento um pouco melhor</p><p>sobre as desprezíveis senilidades cuja negligência outrora parecia um</p><p>abominável pecado das pessoas que se consideravam santas.</p><p>O objetivo dos preceitos rabínicos em relação às lavagens não era o</p><p>de limpeza física, mas era concebido para ser algo mais elevado, mais</p><p>consagrado. Seu objetivo era garantir a pureza cerimonial, não física;</p><p>isto é, purificar a pessoa de impurezas que podiam ser contraídas pelo</p><p>contato com um gentio, ou com um judeu ritualmente impuro, ou com</p><p>um animal impuro, ou com um corpo morto, ou com qualquer parte</p><p>desse corpo. As regras na lei de Moisés relacionadas a tais impurezas, os</p><p>rabinos acrescentaram um vasto número de regras adicionais por conta</p><p>própria, em um zelo obstinado pela meticulosa observância dos precei­</p><p>tos de Moisés. Eles emitiram os seus mandamentos, como a igreja de</p><p>Roma emitiu os dela, sob o pretexto de que estes eram necessários como</p><p>meios para se alcançar o grandioso objetivo de cumprir rigorosamente</p><p>os mandamentos de Deus.</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 99</p><p>As cargas colocadas nos ombros dos homens pelos escribas, sobre</p><p>esse fundamento aparentemente plausível, eram, de acordo com a maio­</p><p>ria, certamente as mais pesadas. Não satisfeitos com as purificações or­</p><p>denadas na lei para as verdadeiras situações de impureza, eles simples­</p><p>mente criaram prescrições para possíveis casos. Se um homem não ficas­</p><p>se em casa o dia todo, mas saísse para ir ao mercado, deveria lavar suas</p><p>mãos quando voltasse, conforme o ritual religioso, porque era. possível que</p><p>ele tivesse tocado em alguma pessoa ou em algo ritualmente impuro.</p><p>Parece também que deveria ser tomado muito cuidado também com a</p><p>água usada no processo de ablução, para que esta fosse perfeitamente</p><p>pura; e era necessário até mesmo aplicá-la de uma maneira singular às</p><p>mãos, a fim de assegurar o pretenso resultado. Sem irmos além dos re­</p><p>gistros sagrados encontramos, nas informações fornecidas por Marcos</p><p>com relação aos costumes judaicos de purificação, o suficiente para mos­</p><p>trar a que ridículos exageros esse sisudo serviço de lavagem havia chega­</p><p>do. “E, quando voltam do mercado”, ele observa de forma singular, e</p><p>não sem um toque de ironia, “se não se lavarem, não comem. E muitas</p><p>outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os</p><p>jarros, e os vasos de metal, e as camas”20. Todas as coisas, em síntese,</p><p>usadas em relação à comida — na sua preparação, ou na forma de colocá-</p><p>la à mesa — deveriam ser lavadas, não meramente como as pessoas po­</p><p>dem lavá-las atualmente, para remover verdadeiras impurezas, mas para</p><p>livrá-las das “mais graves impurezas” que podiam possivelmente ter con­</p><p>traído, desde a última vez que usaram-nas, por terem tocado em alguma</p><p>pessoa ou em algo que não estivesse cerimonialmente limpo. Almejavam</p><p>um tipo e uma medida de pureza que, na verdade, eram incompatíveis</p><p>com a vida neste mundo. A verdadeira atmosfera do céu não era limpa o</p><p>bastante para os insanos incentivadores das tradições desses religiosos;</p><p>pois, para não falar de outras fontes de contaminação mais verdadeiras,</p><p>a brisa, trazendo terras gentias à santa terra dos judeus, tinha-se poluído,</p><p>o que a tornou inadequada para passar por pulmões ritualistas até que</p><p>tivesse sido peneirada por um filtro que possuísse o poder mágico de</p><p>limpá-la de suas contaminações.</p><p>O zelo extravagante e fanático dos judeus nessas questões é ilustra­</p><p>do no Talmude por histórias que, embora pertencentes a uma época</p><p>100 O Treinamento dos Doze</p><p>posterior, podem ser consideradas como fiéis reflexos do espírito que</p><p>inspirava os fariseus na época que nosso Senhor veio à terra. A seguinte</p><p>história é um exemplo: “O rabino Akiba foi lançado na prisão pelos</p><p>cristãos, e o rabino Josué trazia-lhe todo o dia água suficiente tanto para</p><p>se lavar quanto para beber. Mas em uma ocasião, aconteceu-que o carce­</p><p>reiro da prisão pegou a água para tomá-la, e deixou cair metade dela.</p><p>Akiba viu que tinha pouca água, porém mesmo assim disse: Dê-me a</p><p>água para as minhas mãos. Seu irmão, rabino, respondeu, meu mestre,</p><p>você não tem o bastante para beber. Mas Akiba respondeu, aquele que</p><p>come com mãos impuras comete um crime que deve ser punido com a</p><p>morte. Para mim é melhor morrer de sede do que transgredir as tradi­</p><p>ções dos meus antepassados”21. O rabino Akiba preferiria quebrar o</p><p>sexto mandamento, e ser culpado de suicídio, do que separar-se da me­</p><p>nor formalidade de um ritualismo irracional; esta é uma ilustração da</p><p>veracidade da declaração feita pelo Senhor Jesus Cristo em sua resposta</p><p>aos fariseus, e que agora continuaremos a considerar.</p><p>Não deveria ser esperado que, ao defender seus discípulos da co­</p><p>brança vã de negligenciarem a lavagem das mãos, Jesus mostrasse muito</p><p>respeito pelos seus acusadores. Portanto, notamos uma considerável di­</p><p>ferença entre o tom de sua resposta no presente caso, e o de sua resposta</p><p>aos discípulos de João. Com respeito aos discípulos de João, a atitude</p><p>adotada foi respeitosamente defensiva e apologética; com respeito aos</p><p>presentes interrogadores a atitude adotada é ofensiva e denunciatória.</p><p>Jesus disse aos discípulos de João, em outras palavras: “Jejuar é correto</p><p>para vocês; não jejuar é igualmente correto para meus discípulos”. Para</p><p>os fariseus, entretanto, o Senhor responde com um sentença que de uma</p><p>vez condena a conduta daqueles homens, e justifica o comportamento</p><p>que eles contestaram. “Por que”, eles perguntaram, “transgridem os teus</p><p>discípulos a tradição dos anciãos?” O Senhor lhes respondeu fazendo-</p><p>lhes outra pergunta: “Por que transgredis vós também o mandamento</p><p>de Deus pela vossa tradição?” Como se dissesse: “Não convêm que vocês</p><p>julguem; vocês, que vêem o cisco imaginário nos olhos de um irmão,</p><p>têm uma trave nos seus próprios olhos”.</p><p>Essa resposta corajosa foi algo mais que uma mera réplica, ou um</p><p>argumento et tu quoque. Sob uma forma interrogativa, ela proclamou um</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 101</p><p>grande princípio, isto é, que a meticulosa observância das tradições hu­</p><p>manas em termos de prática leva, com certeza, a uma correspondente</p><p>negligência e inconsciência em relação às eternas leis de Deus. Portanto,</p><p>a defesa de Cristo para seus discípulos foi essencialmente esta: “Eu e</p><p>meus seguidores desprezamos e negligenciamos esses costumes, porque</p><p>desejamos guardar a lei moral. Essas lavagens, na verdade, podem não</p><p>parecer entrar gravemente em conflito com os grandes temas da lei, sen­</p><p>do, na melhor hipótese, apenas superficiais e desprezíveis. Mas esse não</p><p>é o caso. Tratar insignificâncias como assuntos sérios, como assuntos de</p><p>consciência, assim como fazeis, é degradante e desmoralizante. Nenhum</p><p>homem pode fazer isso sem ser ou se tornar um imbecil moral, ou um</p><p>hipócrita. O mesmo ocorre com qualquer um que for incapaz de discernir</p><p>entre o que é vital e o que não o é em relação à moralidade, e igualmente</p><p>o que encontra prazer em obter ninharias, como a lavagem das mãos, ou</p><p>o pagamento do dízimo das ervas, para que sejam aceitos como assuntos</p><p>importantes; e às grandes e genuínas questões da lei — justiça, miseri­</p><p>córdia e fé — discretamente não deram importância como se estas fos­</p><p>sem a todo o momento questões sem qualquer importância”.</p><p>Toda a história da religião prova a veracidade desses pontos de vis­</p><p>ta. Uma época repleta de cerimônia e tradição é, de forma inevitável,</p><p>uma época moralmente corrompida. Hipócritas ostensivamente zelo­</p><p>sos, secretamente ateus; devassos tomando suas vinganças de forma li-</p><p>cenciosa por terem sido obrigados, por costumes tirânicos ou por into­</p><p>lerantes autoridades eclesiásticas, a se conformarem exteriormente com</p><p>práticas pelas quais eles não têm respeito; sacerdotes do tipo dos filhos</p><p>de Eli, glutões, cobiçosos, devassos: tais são os sombrios presságios de</p><p>um tempo em que os rituais são tudo; e a piedade e a virtude, nada.</p><p>Práticas ritualistas e deveres artificiais de todos os tipos, quer originados</p><p>pelos rabinos judeus, ou pelos doutores da igreja cristã, devem ser total­</p><p>mente renunciados.</p><p>Recomendados pelos seus zelosos defensores, fre­</p><p>qüentemente com sinceridade, como algo notavelmente adequado para</p><p>promover a cultura da moralidade e da piedade, estes sempre trazem, a</p><p>longo prazo, a fatalidade para todos. Apropriadamente são chamados na</p><p>epístola aos Hebreus de “obras mortas”. Elas não estão apenas mortas,</p><p>mas produzindo a morte; pois, como todas as coisas sem vida, elas ten-</p><p>102 O Treinamento dos Doze</p><p>dem a apodrecer e a provocar uma peste espiritual que leva milhões de</p><p>almas à perdição. Se elas têm alguma vida, é uma vida sustentada pela</p><p>morte, a vida de um fungo crescendo em árvores mortas; se elas têm</p><p>alguma beleza, é a beleza da decadência, de folhas do outono, secas e</p><p>amarelas, quando a seiva está descendo à terra, e a madeira está prestes a</p><p>entrar em seu estado de inverno, de nudez e desolação. O ritualismo é,</p><p>no máximo, apenas o fugaz período após o verão do ano espiritual! Pode</p><p>ser muito fascinante, mas quando ele vier, tenha a certeza de que o inver­</p><p>no estará às portas. “E todos nós caímos como a folha, e as nossas</p><p>culpas, como um vento, nos arrebatam”.</p><p>Tendo trazido uma séria contra-acusação aos fariseus, a de renunci­</p><p>ar à moralidade em benefício do cerimonialismo, e os mandamentos de</p><p>Deus em benefício das tradições dos homens, Jesus continuou, em se­</p><p>guida, a substanciar a sua afirmação através de um forte exemplo e de</p><p>uma citação bíblica. O exemplo selecionado foi a evasão dos deveres</p><p>provenientes do quinto mandamento, sob o pretexto de uma prévia obri­</p><p>gação religiosa. Deus disse: “Honra a teu pai e a tua mãe”, e vinculou a</p><p>quebra deste mandamento à pena de morte. Os escribas judeus diziam:</p><p>“Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar</p><p>de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor”, já não precisaria obedecer à</p><p>Palavra de Deus. A palavra “Corbã”, na lei de Moisés, significa um pre­</p><p>sente ou uma oferta a Deus, de qualquer tipo, com ou sem derramamen­</p><p>to de sangue, ofertada em qualquer ocasião, como por exemplo no cum­</p><p>primento de um voto22. No dialeto rabínico, isso significava algo consa­</p><p>grado a propósitos santos e, por conseguinte, não disponível para o uso</p><p>particular ou secular. A doutrina tradicional em relação ao Corbã era</p><p>prejudicial, de duas formas. Ela encorajava os homens a fazer da religião</p><p>uma desculpa para negligenciarem a moralidade, e abria uma larga porta</p><p>para a desonestidade e para a hipocrisia. Ela ensinava que um homem</p><p>não precisava, apenas por causa de um voto, negar a si mesmo aquilo que</p><p>lhe era lícito; mas que podia, por consagrar algo a Deus, livrar-se de</p><p>todas as obrigações de dar algo aos outros, mesmo que se tratasse de</p><p>algo que tivesse a obrigação de lhes dar. Assim, de acordo com o perni­</p><p>cioso sistema dos rabinos, não era necessário, na verdade, dar algo lite­</p><p>ralmente a Deus a fim de ser livre da obrigação de dá-lo a outra pessoa.</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 103</p><p>Era suficiente chamar aquilo de Corbã. Bastaria apenas pronunciar essa</p><p>palavra mágica sobre qualquer coisa, e em seguida esta passaria a ser de</p><p>Deus, e assim não deveria ser usada por outros, exceto pelo próprio</p><p>“ofertante”. Portanto, o zelo obstinado por honrar a Deus levou aqueles</p><p>homens a desonrar a Deus, por tomarem seu precioso nome em vão; e as</p><p>práticas que, na melhor hipótese, seriam responsáveis por “lançar a pri­</p><p>meira tábua da lei contra a segunda”, mostraram-se destrutivas para ambas.</p><p>Eles anularam toda a lei de Deus, tornando-a sem efeito para si mesmos,</p><p>por causa de suas tradições. A anulação do quinto mandamento foi ape­</p><p>nas um exemplo do dano que os zelotes, pelos mandamentos dos ho­</p><p>mens, fizeram, como está subentendido nas palavras do Senhor Jesus</p><p>Cristo, “... invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que</p><p>vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas”23.</p><p>A citação bíblica24 proferida pelo nosso Senhor em resposta aos</p><p>fariseus, não foi menos adequada do que o exemplo ilustrativo, igual­</p><p>mente mostrando seus vícios característicos, hipocrisia e superstição. Eles</p><p>estavam próximos de Deus apenas em palavras, honravam-no com seus</p><p>lábios, mas em seus corações estavam distantes dEle. Sua religião era</p><p>totalmente exterior. Eles lavavam cuidadosamente suas mãos e suas ta­</p><p>ças, mas não tinham o cuidado de purificar suas almas poluídas. Então,</p><p>em segundo lugar, aprenderam sobre o temor a Deus por meio de pre­</p><p>ceitos de homens. As prescrições humanas e as tradições eram seus guias</p><p>na religião, e eles as seguiam cegamente, sendo negligentes em relação a</p><p>quanto esses mandamentos de homens poderiam levá-los para longe dos</p><p>caminhos da eqüidade e da verdadeira vida com Deus.</p><p>A palavra profética era rápida, poderosa, direta, perspicaz e conclu­</p><p>siva. Nada mais foi preciso para consternar os fariseus, e nada mais foi-</p><p>lhes dito nesse momento. O oráculo sagrado era a conclusão convenien­</p><p>te para um argumento irrefutável contra os defensores da tradição. Mas</p><p>Jesus teve compaixão da pobre multidão que estava sendo levada à ruína</p><p>pelos seus guias espirituais cegos; e, por essa razão, Ele aproveitou a</p><p>oportunidade para dirigir uma palavra àqueles que estavam em torno do</p><p>assunto da controvérsia. Ele expressou aquilo que tinha a lhes dizer, na</p><p>forma concisa e penetrante de um provérbio: “Ouvi-me, vós todos, e</p><p>compreendei. Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa</p><p>104 O Treinamento dos Doze</p><p>contaminar; mas o que sai dele, isso é que contamina o homem”. Este</p><p>era um enigma a ser decifrado, um segredo de sabedoria para ser analisa­</p><p>do, uma lição de religião a ser memorizada. Seu significado, embora</p><p>provavelmente entendido por poucos no momento, era muito evidente.</p><p>O sentido de suas palavras foi simplesmente este: “Prestem mais atenção</p><p>à limpeza do coração, e não, como os fariseus, à limpeza das mãos. Quan­</p><p>do o coração é puro, tudo é puro; quando o coração é impuro, toda a</p><p>purificação exterior é vã. A sujeira a ser temida não é a da carne</p><p>cerimonialmente impura, mas a que emerge de uma mente carnal, a imun-</p><p>dície de maus pensamentos, más paixões e maus hábitos”.</p><p>Essa palavra dirigida aos espectadores tornou-se o assunto de uma</p><p>subseqüente conversa entre Jesus e seus discípulos, na qual Ele aprovei­</p><p>tou a ocasião para justificar a razão de proferi-la, e lhes explicou o seu</p><p>significado. Os fariseus ouviram o comentário, e mostraram-se natural­</p><p>mente ofendidos, já que este tendia a enfraquecer a autoridade deles</p><p>sobre a consciência popular. Os doze notaram o seu desgosto, e talvez</p><p>tenham ouvido os comentários dos fariseus; e, com medo de más conse­</p><p>qüências, informaram o seu Mestre. Ao falarem-lhe, provavelmente te­</p><p>nham apresentado um tom que continha uma secreta preocupação pelo</p><p>fato de o Senhor ter sido tão assertivo. Seja como for, Jesus deu-lhes a</p><p>entender que não era um caso de clemência, de compromisso, ou de uma</p><p>política tímida, oportunista e prudencial; a tendência ritualista é uma</p><p>má planta que deve ser arrancada, mesmo que isso ofenda os seus defen­</p><p>sores. O Senhor alegou, ao defender a forma direta de seu discurso, sua</p><p>preocupação com a alma das pessoas ignorantes, que tinham como guias</p><p>os fariseus, reivindicadores de tal título. “Deixai-os; são condutores ce­</p><p>gos; ora, se um cego guiar outro c e g o , ambos cairão na cova”. Portanto, se</p><p>os líderes são tão desesperadamente apegados aos seus erros que não</p><p>podem se dissuadir deles, deixe-nos ao menos tentar salvar suas vítimas</p><p>ignorantes.</p><p>A pedido de Pedro, Jesus deu a seus discípulos a explicação da pala­</p><p>vra proverbial dita às pessoas25. Ela é rudemente clara e singular, porque</p><p>foi encaminhada a simples ouvintes ignorantes. Ela expressa, mais uma</p><p>vez, na linguagem mais forte possível, a de que comer com mãos</p><p>cerimonialmente impuras não contamina o homem, porque nada que</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 105</p><p>entra pela boca pode chegar à alma; que a sujeira a ser temida, a única</p><p>impureza que vale a pena ser mencionada, é a de um coração mau e não</p><p>nascido de novo, do qual</p><p>procedem maus pensamentos, palavras e atos</p><p>que são ofensas contra a pura e santa lei de Deus. As palavras conclusi­</p><p>vas, “ficando puras todas as comidas”, têm, sem dúvida e de qualquer</p><p>forma, uma importância peculiar, se adotarmos a leitura aprovada pelos</p><p>críticos: “Ele disse, ficando puras todas as comidas”. Nesse caso, temos</p><p>o evangelista dando sua opinião pessoal quanto ao efeito das palavras de</p><p>Cristo, isto é, que elas eqüivaliam a uma anulação da distinção cerimoni­</p><p>al entre puro e impuro. Um comentário muito notável vem do homem a</p><p>quem nos tornamos devedores pelo relato da pregação desse apóstolo,</p><p>que em seus tempos de discípulo inspirou a declaração, e que teve a visão</p><p>do lençol sendo baixado do céu.</p><p>Já que o evangelista deu-nos seu comentário, podemos adicionar os</p><p>nossos. Percebemos que o nosso Senhor está aqui, silenciosamente, re­</p><p>fletindo sobre a lei cerimonial de Moisés (à qual as tradições dos anciãos</p><p>foram um suplemento), e Ele fala apenas dos mandamentos de Deus,</p><p>isto é, dos preceitos do decálogo. O fato é significativo por mostrar em</p><p>que termos Ele veio ab-rogar, e em que termos Ele construiu. O ritualismo</p><p>estava prestes a ser abolido, e as eternas leis da moralidade estavam pres­</p><p>tes a se tornar o mais importante. A consciência dos homens estava</p><p>prestes a ser separada da carga das óbvias ordenanças exteriores, para que</p><p>as pessoas pudessem estar livres para servir ao Deus vivo, guardando seus</p><p>dez mandamentos, ou a magnífica lei do amor. E é dever da igreja per­</p><p>manecer firme na liberdade que Cristo criou e conquistou para ela, e</p><p>ficar atenta a todas as tradições humanas que não condigam com o zelo</p><p>santo pela vontade de Deus, afastando a superstição por um lado, e a</p><p>liberdade licenciosa da devassidão ímpia por outro. Os verdadeiros se­</p><p>guidores de Cristo desejam ficar livres, mas não para fazer o que quise­</p><p>rem; antes, para fazer o que Deus quer que façam. Com o pensamento</p><p>assim disposto, eles rejeitam o cerimonialismo e toda a autoridade hu­</p><p>mana na religião, separando-se por meio disso, dos devotos da tradição;</p><p>e ao mesmo tempo, como servos de Deus, honram a sua Palavra e a sua</p><p>lei, colocando assim um extenso abismo entre eles mesmos e aqueles que</p><p>não vivem de acordo com a lei, os desobedientes, que tomam partido</p><p>106 O Treinamento dos Doze</p><p>nos movimentos de reforma religiosa, não a fim de obterem algo melhor</p><p>no lugar daquilo que é rejeitado, mas para livrarem-se de todas as restri­</p><p>ções morais em questões humanas e divinas.</p><p>Seção III - A O bservância do Sábado .</p><p>Mateus I2.I-I4; Marcos 2.23-3.1-6; Lucas 6.1-2; 13.10-16; I4.I-6; João 5.I-I8; 9 .I3-I7</p><p>Jesus e seus discípulos foram, mais freqüentemente, considerados</p><p>culpados pelo modo como lidavam com a questão do sábado do que por</p><p>sua conduta em geral. Seis diferentes casos de ofensas ligadas ao sábado</p><p>(em que os fariseus sentiram-se ofendidos ou ofenderam ao Senhor)</p><p>estão registradas na história do Evangelho; em cinco delas o próprio</p><p>Senhor Jesus foi o ofensor, enquanto nos outros casos, seus discípulos</p><p>foram, pelo menos, objetos de censura ostensiva.</p><p>As ofensas de Jesus foram todas de uma mesma espécie; o crime de</p><p>que o acusaram foi o de, no dia de sábado, realizar curas em corpos de</p><p>homens aflitos, respectivamente por paralisia, mãos deformadas, ceguei­</p><p>ra, hidropisia, e no corpo de uma pobre mulher “encurvada” por uma</p><p>enfermidade que sofria há dezoito anos. A ofensa dos discípulos, por</p><p>outro lado, foi que, enquanto andavam juntos por um caminho que pas­</p><p>sava por um milharal, arrancaram algumas espigas com a intenção de</p><p>satisfazer a sua fome. Isto não era furto, pois era permitido pela lei de</p><p>Moisés26; mas, apesar disso, era, de acordo com o julgamento dos fariseus,</p><p>desobediência ao mandamento relacionado ao sábado. Diziam ser uma</p><p>atitude contrária à ordem de não trabalhar no sábado; pois arrancar</p><p>algumas espigas era ceifar em uma pequena escala, e friccioná-las era</p><p>uma espécie de debulha!</p><p>Essas ofensas, consideradas tão graves quando cometidas, parecem-</p><p>nos muito pequenas. Todas as transgressões da lei do sábado de que o</p><p>Senhor Jesus foi acusado estavam relacionadas às suas obras de miseri­</p><p>córdia; e a única suposta transgressão dos discípulos foi a realização de</p><p>um trabalho que era necessário para a sobrevivência deles. A tolerância</p><p>em relação a esses atos era um dever de misericórdia; então, ao condená-</p><p>los, os fariseus esqueceram-se da Palavra do Senhor: “Misericórdia que­</p><p>ro e não sacrifício”. Na verdade, é difícil para nós, agora, imaginar como</p><p>alguém poderia estar sendo sério considerando tais ações como viola­</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 107</p><p>ções do sábado, especialmente o inocente ato dos doze. Há uma peque­</p><p>na demonstração de plausibilidade na objeção assumida pelo adminis­</p><p>trador da sinagoga a curas miraculosas feitas no sétimo dia: “Seis dias há</p><p>em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados e não</p><p>no dia de sábado”27. A observação foi especialmente plausível com refe­</p><p>rência ao caso que provocou a ira do dignitário da sinagoga. Uma mu­</p><p>lher que sofria há dezoito anos, podia certamente suportar seu proble­</p><p>ma por mais um dia, e vir para ser curada na manhã seguinte! Mas com</p><p>que pretexto os discípulos poderiam ser acusados de violar o sábado, só</p><p>por servirem-se de algumas espigas de milho? Chamar tal ato de traba­</p><p>lho era ridículo. Os homens que nessa ocasião viram uma ofensa ao</p><p>sábado, deveriam estar muito ansiosos para apanhar os discípulos de</p><p>Jesus em alguma falta.</p><p>Não temos nenhuma dúvida de que os fariseus estavam à procura de</p><p>transgressões; e ainda devemos admitir que, condenando o referido ato,</p><p>estavam agindo fielmente de acordo com as suas perspectivas teóricas e</p><p>suas tendências naturais. Seus julgamentos em relação à conduta dos doze</p><p>estavam de acordo com as suas tradições acerca das lavagens, do pagamen­</p><p>to de dízimos da hortelã e de outras ervas, e de seus esforços para manter</p><p>limpas suas taças de vinho. Seus hábitos, em todas as coisas, deveriam</p><p>degradar a lei de Deus, por conceberem inúmeras regras insignificantes</p><p>para a sua melhor observância, que, ao invés de garantirem esse fim, apenas</p><p>faziam com que a lei parecesse ter pouco valor e ser desprezível. Em ne­</p><p>nhum caso essa miserável meticulosidade atingiu as proporções do caso</p><p>relacionado ao quarto mandamento. Com uma ingenuidade perversa, as</p><p>atitudes mais insignificantes foram trazidas para dentro do campo da proi­</p><p>bição ao trabalho. Mesmo no caso exemplificado por nosso Senhor, aque­</p><p>le de um animal caindo dentro de um poço, era considerado lícito tirá-lo</p><p>de lá — pelo menos dizem-nos esses eruditos do saber rabínico — apenas</p><p>quando deixá-lo lá, até o sábado passar, envolvesse um risco de vida. Quando</p><p>o atraso não envolvesse risco de vida, a regra era dar ao animal comida</p><p>suficiente para o dia; e se houvesse água no fundo do poço, devia-se apoiá-</p><p>lo por baixo, de modo que não submergisse28.</p><p>Contudo, a despeito de todos os seus cuidados para se absterem de</p><p>tudo o que tivesse o mínimo indício de trabalho, os judeus eram curiosa­</p><p>108 O Treinamento dos Doze</p><p>mente negligentes com outras coisas. Enquanto observavam minuciosa­</p><p>mente a lei que proibia cozinhar no sábado29, não faziam do dia santo, de</p><p>nenhuma forma, um dia de jejum. Ao contrário, consideravam seu dever,</p><p>fazer do sábado um dia de festa e de comer bem30. Na verdade, em uma</p><p>festa para celebrar o sábado, promovida por um dos principais fariseus,</p><p>Jesus realizou um grande milagre. Nessa festa havia muitos convidados,</p><p>e Jesus era um deles — porém tudo indica que o Senhor não foi convi­</p><p>dado devido a um sentimento amigável; parece que desejavam encontrar</p><p>algo contra Ele em relação à lei do sábado. “Aconteceu”, lemos em Lucas,</p><p>“que, entrando ele em casa de um dos principais dos fariseus para comer</p><p>pão, eles o estavam observando”31. Colocaram uma armadilha, e espera­</p><p>vam apanhar aquele que era odiado sem causa; e se esforçaram nessa</p><p>busca. Como recompensa por seus ímpios esforços,</p><p>141</p><p>II. A Tempestade.................................................................................................... 149</p><p>III. O Sermão..........................................................................................................156</p><p>IV A Escolha — “Peneirando” .......................................................................... 165</p><p>10. O Fermento dos Fariseus e dos Saduceus........................... ........... ............................. 179</p><p>11. A Confissão de Pedro; ou A O pinião Corrente e a Verdade E terna......... . 187</p><p>12. A Prim eira L ição sobre a C ru z ............................................................................................197</p><p>Seção I. O Primeiro Anúncio da Morte de Cristo................................................. 197</p><p>II. Tomar a sua Cruz, a Lei do Discipulado............................................... 205</p><p>13. A T ransfiguração ........................................................... ...........................................................213</p><p>14. Treinando o Temperamento; ou Discurso sobre a H um ildade .............. .........223</p><p>Seção I. Como uma Criancinha....................................................................................223</p><p>II. A Disciplina da Igreja.................................................................................... 2 3 1</p><p>III. Perdoando as Ofensas..................................................................................239</p><p>IV O Imposto do Templo: Uma Ilustração do Sermão.......................... 246</p><p>V A Interdição do Homem que Expulsava Demônios: Outra Ilustração</p><p>do Sermão................ ...............................................................................................253</p><p>14 0 Treinamento dos Doze</p><p>515 . Os Filhos do T rovão .......................................................... ................................................2 6 5</p><p>16. N a Peréia; ou A D outrina do A u to -Sacrifíc io ....... ...................................................275</p><p>Seção I. Conselhos de Perfeição....................................................................................2 75</p><p>II. As Recompensas do Sacrifício Pessoal..................................................... 287</p><p>III. Os Primeiros que se Tornarão os Últimos e os Últimos que se Torna</p><p>rão os Primeiros......................................................................................................296</p><p>17. Os Filhos de Zebedeu de Novo; ou Segunda Lição sobre a Doutrina da Cruz .. 309</p><p>18. A Unção em Betânia; ou A Terceira Lição da D outrina da C r u z .......................325</p><p>19. As Prim ícias dos G entios........................................................................................... . 347</p><p>20 . Õ Jerusalém, Jerusalém ! ou O Discurso sobre as U ltim as C o isas .....................357</p><p>2 1 . O M estre Servindo; ou U m a O utra Lição de H u m ild ad e ................................... 373</p><p>Seção I. A Cerimônia de Lavar os Pés.......................................................................... 373</p><p>II. A Explicação...................................................................................................... 381</p><p>22 . Em M em ória; ou A Q uarta Lição sobre a D outrina da C ru z ............................ 389</p><p>23 . Judas Iscario tes............. ............................ ...................... ...... .................................................. 401</p><p>24 . O Pai que M orre e seus F ilh in h o s................................................................................... 4 1 1</p><p>Seção I. Palavras de Conforto e Conselho para os Filhos Entristecidos........4 1 1</p><p>II. As Perguntas dos Filhos e a Despedida....................................................420</p><p>25 . Orientações aos Futuros Apóstolos antes da M orte do S en h o r ............. . 443</p><p>Seção I. A Videira e seus R am os....................................................................................443</p><p>II. Tribulações Apostólicas e Encorajamento................................................455</p><p>III. O Breve Período e o Final do D iscurso..................................................467</p><p>2 6 . A Oração In te rcessó ria ............................... ......................................................................... 481</p><p>Apêndice dos Capítulos 2 4 —26 ............................................................ ..................... . 4 9 4</p><p>27 . As Ovelhas D ispersas................................................................... ..........................................4 9 7</p><p>Seção I. “Todos os Discípulos, Deixando-o, Fugiram” ............. ...........................497</p><p>II. Peneirados como o Trigo .............................................................................. 504</p><p>III. Pedro e João......................................................................................................514</p><p>28 . O Pastor R essuscitado ....................................................................................................... 523</p><p>Seção I. Uma Notícia Boa demais para Ser Verdade....................................................... ............. 523</p><p>II. Os Olhos dos Discípulos São Abertos..................................................... 5 3 1</p><p>III. A Dúvida de Tomé.........................................................................................540</p><p>29 . Os Co-pastores São A dvertidos........ ............................................................................... 551</p><p>Seção I. Dever Pastoral...................................................................................................... 551</p><p>II. Pastor Pastorum...................................................................................... . 560</p><p>30 . Poder do A lto ......................................... ...... .................... ............................................... . 569</p><p>31 . Esperando...................................... ........................................................................... ..................575</p><p>1</p><p>0 Princípio</p><p>João 1.29 -5 1</p><p>Ο trecho do Evangelho de João indicado acima possui um interesse</p><p>ímpar para o conhecimento da gênese de algumas coisas que vieram a</p><p>alcançar a grandeza. Aqui nos é mostrado a Igreja ainda em seu berço, as</p><p>fontes singelas do Rio da Vida, o desabrochar da fé cristã, a origem</p><p>humilde do poderoso Império de Jesus Cristo.</p><p>Todo início é mais ou menos obscuro em relação à sua aparência,</p><p>mas nenhum foi tão obscuro quanto o cristianismo. Que evento insigni­</p><p>ficante na história da igreja, para não dizer do mundo, foi esse primeiro</p><p>encontro de Jesus de Nazaré com os cinco homens humildes, André,</p><p>Pedro, Filipe, Natanael, e outro cujo nome não é mencionado! Na reali­</p><p>dade, parece um tanto trivial que esse evento encontre um lugar até mes­</p><p>mo nas narrativas dos Evangelhos. Não se trata aqui de nenhum chama­</p><p>do solene à função do apostolado, ou mesmo do início de um apostolado</p><p>ininterrupto, mas no máximo do início de um conhecimento da fé em</p><p>Jesus por parte de certos indivíduos que subseqüentemente se tornaram</p><p>assistentes constantes de sua pessoa, e finalmente apóstolos de suas Boas</p><p>Novas. Assim, não encontramos nos três primeiros evangelhos nenhuma</p><p>menção dos eventos aqui registrados.</p><p>Longe de se surpreender com o silêncio dos evangelistas sinópticos,</p><p>alguém pode sentir-se tentado a questionar o fato de João, o autor do</p><p>quarto evangelho, depois de um intervalo de tempo tão grande, ter pen­</p><p>sado que valeria a pena relatar incidentes tão minuciosos, especialmente</p><p>em relação à proximidade das sentenças sublimes com as quais seu Evan­</p><p>gelho começa. Mas somos afastados de tais dúvidas incrédulas através</p><p>16 0 Treinamento dos Doze</p><p>da reflexão de que fatos objetivamente insignificantes podem ser muito</p><p>importantes para os sentimentos daqueles a quem são pessoalmente di­</p><p>rigidos. E se João fosse um dos cinco homens presentes na ocasião em</p><p>que conheceram Jesus? Haveria então uma grande diferença entre ele e</p><p>os outros evangelistas, que poderiam</p><p>receberam repreen­</p><p>sões que provavelmente nunca tinham ouvido32. Esse hábito de festejar</p><p>havia alcançado um nível de extremo abuso na época de Agostinho, con­</p><p>forme a descrição que ele faz do modo como os judeus contemporâneos</p><p>celebravam o seu feriado semanal. “Hoje”, ele escreve, “é sábado, o dia</p><p>que os judeus de nossa época guardam com um conforto</p><p>descompromissado e exuberante, pois ocupam seu tempo livre com futi-</p><p>lidades; e gastam o dia estabelecido por Deus para o descanso com aqui­</p><p>lo que Ele proíbe. Em nosso descanso nos abstemos das más obras,</p><p>enquanto eles descansam das boas obras; pois é melhor arar do que</p><p>dançar. Eles descansam das boas obras, mas não descansam da ociosida­</p><p>de”33.</p><p>Da insensatez e do pedantismo dos escribas e dos fariseus, pra­</p><p>zerosamente voltamo-nos à sabedoria de Jesus, como reveladas nas ani­</p><p>madas, profundas e, ainda, sublimemente simples respostas que Ele deu</p><p>às diversas acusações de quebrar o descanso do sábado, colocadas contra</p><p>Ele e seus discípulos. Antes de considerarmos essas respostas detalhada­</p><p>mente, estabeleceremos como premissa um comentário genérico em re­</p><p>lação a todas elas. Em nenhuma dessas defesas, Jesus colocou em dúvida</p><p>a obrigação de se cumprir a lei do sábado. Com relação a isso , Ele não</p><p>teve nenhuma dissensão contra os seus acusadores. Seu argumento nessa</p><p>ocasião é totalmente diferente da linha de defesa adotada em relação ao</p><p>jejum e às purificações. Com respeito ao jejum, a posição que Ele adotou</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 109</p><p>foi a seguinte: Jejuar é algo intencional, e os homens devem ou não jejuar</p><p>no momento em que estão dispostos. Em relação à purificação, sua po­</p><p>sição era: Abluções religiosas são, no máximo, de segunda importância,</p><p>sendo meras formas de pureza interior, e como praticadas naquele mo­</p><p>mento, levavam inevitavelmente à completa negligência da pureza espiri­</p><p>tual, e por causa disso devem ser desconsideradas por todos os que estão</p><p>preocupados com os maiores interesses da moralidade. Mas com relação</p><p>à alegada violação da lei do sábado, a posição tomada por Jesus foi: Esses</p><p>atos que vocês condenam, não são transgressões da lei, são perfeitamen­</p><p>te compreensíveis, em seu espírito e princípio. A importância da lei foi</p><p>reconhecida, mas a interpretação farisaica de seu significado foi rejeita­</p><p>da. Foi feito um apelo em relação ao seu código pedante de regras sobre</p><p>a observância do sábado para o grandioso princípio e criação da lei; e foi</p><p>declarado justo examinar todas as regras à luz do princípio, e rejeitar ou</p><p>desconsiderar aquelas em que o princípio havia sido aplicado erronea­</p><p>mente, ou, como acontecia em grande parte com os fariseus, perdido a</p><p>noção do todo.</p><p>A chave para todos os ensinos de Cristo sobre o sábado, portanto,</p><p>permanece em sua concepção da idéia original dessa instituição divina.</p><p>Encontramos essa concepção expressa com característica epigramática e</p><p>concisão, em contraste com a idéia farisaica do sábado, em palavras pro­</p><p>nunciadas por Jesus na ocasião em que Ele estava defendendo seus discí­</p><p>pulos. “O sábado”, Ele disse, “foi feito por causa do homem, e não o</p><p>homem, por causa do sábado”. Em outras palavras, era esta a sua doutri­</p><p>na: O sábado foi feito para ser uma bênção para o homem, não uma carga;</p><p>não foi um dia tirado do homem por Deus em um espírito de severida­</p><p>de, mas um dia dado por Deus ao homem por misericórdia — um dia</p><p>de descanso que pertence a Deus, e que deve ser dedicado às coisas dele.</p><p>Toda a legislação que reforça a sua observância, tem por finalidade asse­</p><p>gurar que todos devem, de fato, obter o benefício dessa bênção — que</p><p>nenhum homem deve se privar, e menos ainda os seus semelhantes, desse</p><p>gracioso favor.</p><p>Essa diferença entre a forma de Cristo julgar o sábado e a dos fariseus</p><p>inclui, inevitavelmente, uma diferença correspondente no espírito e nos</p><p>detalhes de sua observância. Tome a perspectiva de Cristo, e seu princí­</p><p>110 O Treinamento dos Doze</p><p>pio tornar-se-á: Essa é a melhor forma de guardar o sábado, que é mais</p><p>condizente com o bem-estar físico e espiritual do homem — em outras</p><p>palavras, é melhor para seu corpo e para sua alma; e à luz desse princípio,</p><p>você guardará o dia santo com um espírito de alegria racional e de grati­</p><p>dão a Deus, o Criador, por sua graciosa consideração para* com as suas</p><p>criaturas. Considere a perspectiva farisaica, e seu princípio de observân­</p><p>cia tornar-se-á: O que melhor guarda o sábado é o que vai às maiores</p><p>extensões na mera abstinência a qualquer coisa que possa ser interpreta­</p><p>da como trabalho, sem consideração ao e f e i t o dessa abstinência para o</p><p>seu próprio bem-estar ou o de outros. Resumidamente, chegamos à es­</p><p>túpida e absurda exatidão da legislação rabínica. Esta enxerga uma ofen­</p><p>sa abominável contra o quarto mandamento e seu Autor, por exemplo,</p><p>nos seguintes atos: aquele em que os discípulos colhem e debulham espi­</p><p>gas de milho, ou aquele em que o homem curado da paralisia por Jesus</p><p>carregou sua cama em seus ombros à sua casa34, ou ainda aquele em que</p><p>alguém devesse andar uma distância maior que dois mil côvados, ou três</p><p>quartos de uma milha35 em um sábado.</p><p>Uma observância do sábado ordenada pelo princípio de que a sua</p><p>instituição foi feita para o bem do homem, obviamente implica duas</p><p>práticas grandes e gerais — descanso para o corpo, e adoração como o</p><p>conforto para a alma. Devemos descansar do trabalho servil nesse dia</p><p>concedido por Deus, e devemos elevar os nossos corações em sincera</p><p>meditação àquele que fez todas as coisas em primeiro lugar, e que “tra­</p><p>balha até agora”, protegendo a existência e o bem-estar da criação, e cuja</p><p>afável compaixão para com homens pecadores é grande e incompreensí­</p><p>vel. Essas coisas são necessárias ao verdadeiro bem do homem, e por isso</p><p>devem ser elementos essenciais de uma adequada observância do sábado.</p><p>Mas, por outro lado, uma vez que o sábado foi feito para o homem,</p><p>as duas principais exigências, o descanso e a adoração não podem ser</p><p>exigidas a ponto de se tornarem hostis ao bem-estar do homem, e de</p><p>fato prejudiciais para a pessoa, ou mutuamente destrutivas. A regra:</p><p>“Descansarás”, não deve ser aplicada de modo a excluir toda a ação e</p><p>todo o trabalho; pois a completa inércia não e descanso, e a completa</p><p>abstinência de trabalho de toda espécie seria, muitas vezes, prejudicial</p><p>para o bem-estar privado e público. Deve-se deixar espaço para atos de</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 111</p><p>“necessidade e misericórdia”; e uma legislação muito categórica e minu­</p><p>ciosa em relação ao que são ou não atos de qualquer dessas espécies deve</p><p>ser evitada, visto que esses assuntos podem variar para diferentes pesso­</p><p>as, tempos e circunstâncias, e os homens podem realmente diferir de</p><p>opinião em detalhes que são pêrfeitamente fiéis aos princípios gerais da</p><p>consagração do sábado. Da mesma maneira, a regra: “Adorarás”, não</p><p>deve ser tão reforçada a ponto de fazer dos deveres religiosos algo cansa­</p><p>tivo e pesaroso — um mero serviço mecânico e aceito; ou de tal forma</p><p>que envolva o sacrifício de outro objetivo prático do sábado, a saber,</p><p>descanso para a natureza animal do homem. Os homens também não</p><p>podem impor, mutuamente, como para fins de adoração, nada mais do</p><p>que a essência; pois alguém pode encontrar ajuda na devoção de formas</p><p>que para outros seriam um obstáculo e um impedimento.</p><p>Foi apenas com referência à interrupção do trabalho que a legisla­</p><p>ção e prática farisaica com respeito à observância do sábado foram leva­</p><p>das ao excesso supersticioso e opressivo. A obsessão pelo sábado era uma</p><p>monomania; e os afetados por ela tornaram-se loucos simplesmente em</p><p>um ponto: o severo cumprimento do descanso. Aqui está o caráter peculiar</p><p>de todas as acusações trazidas contra Cristo e os seus discípulos, e tam­</p><p>bém de suas respostas. As ofensas cometidas eram todas trabalhos con­</p><p>siderados proibidos; e todas as defesas tiveram a finalidade de mostrar</p><p>que os trabalhos feitos não eram contrários à lei, quando essa era inter­</p><p>pretada à luz do princípio</p><p>que dizia que o sábado foi feito para o ho­</p><p>mem. Eram trabalhos de necessidade e de misericórdia e, portanto, per­</p><p>mitidos no dia de repouso e adoração.</p><p>Jesus extraiu suas provas dessa posição, a partir de três fontes: da</p><p>história das Escrituras, da prática diária dos próprios fariseus e da provi­</p><p>dência de Deus. Em sua defesa a seus discípulos, Ele se referiu ao caso de</p><p>Davi que comeu os pães da proposição quando fugiu para a casa de</p><p>Deus saindo da corte do rei Saul36, e à constante prática dos sacerdotes</p><p>em fazerem obras para o serviço do templo nos dias de sábado, tais</p><p>como oferecer holocaustos duplos, e remover os pães amanhecidos da</p><p>proposição do lugar santo e substituí-los por pães quentes. O caso de</p><p>Davi provou o princípio geral de que a necessidade não tem lei; a fome</p><p>justificou o seu ato, como também deveria ter justificado o ato dos dis­</p><p>112 0 Treinamento dos Doze</p><p>cípulos, mesmo na visão farisaica. A prática dos sacerdotes mostrou que</p><p>o trabalho — meramente como trabalho — não é contrário à lei do dia</p><p>de repouso e adoração, sendo que alguns trabalhos não são apenas líci­</p><p>tos, mas obrigatórios nesse dia.</p><p>O argumento extraído por Jesus da prática comum foi bem adequa­</p><p>do para silenciar capciosos críticos, e para sugerir o princípio pelo qual</p><p>sua própria conduta podia ser defendida. Ele teve o seguinte efeito: “Você</p><p>tiraria um jumento ou um boi de um poço no sábado, não tiraria? Por</p><p>quê? Para salvar a vida? Então, por que eu não devo curar uma pessoa</p><p>doente pela mesma razão? Ou a vida de um animal é mais importante</p><p>que a vida de um ser humano? Ou novamente: Você hesitaria em perder</p><p>seu boi, ou o seu jumento, não o desprendendo da manjedoura no dia do</p><p>descanso, para levá-lo a beber água?37 Se não, por quê opõem-se a mim</p><p>quando, no sábado, eu liberto uma pobre vítima de uma dependência</p><p>que sofria há dezoito anos, para que ela possa tirar água da fonte da</p><p>salvação?” O argumento é irresistível, e a conclusão é inevitável; fazer o</p><p>bem no dia de sábado é legítimo, conveniente e mostra obediência. Como</p><p>estavam cegos aqueles a quem tão óbvia sentença precisava ser provada!</p><p>Como estavam esquecidos do fato de que o amor é o fundamento e o</p><p>cumprimento de toda a lei, e que, assim, nenhum preceito específico ja­</p><p>mais poderia ser destinado a suspender a operação desse princípio divino!</p><p>O argumento da providência usado por Jesus em outra ocasião38</p><p>teve a finalidade de servir ao mesmo propósito que os outros, isto é,</p><p>mostrar a legitimidade de certos tipos de trabalho no dia do descanso.</p><p>“Meu Pai trabalha até agora”, Ele disse aos seus acusadores, “e eu traba­</p><p>lho também”. O Filho reivindicou o direito de trabalhar porque, e como, o</p><p>pai trabalha em todos os dias da semana. O pai trabalhou incessante­</p><p>mente por fins beneficentes e conservadores, a maior parte do tempo</p><p>preservando e governando, de forma santa, sábia e poderosa, todas as</p><p>suas criaturas e todas as suas ações, mantendo os planetas em suas órbi­</p><p>tas, fazendo o sol nascer e brilhar, os ventos circularem em seus rumos,</p><p>e as marés a vazar e subir no sétimo dia, como em todos os outros seis.</p><p>Então, Jesus Cristo, o Filho de Deus, reivindicou o direito de trabalhar e,</p><p>de fato, trabalhou — salvando, restaurando, curando — e assim pôde</p><p>restaurar a natureza decaída dos seres humanos a seu estado original, em</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 113</p><p>que Deus, o Criador, declarou boas todas as coisas, e descansou e se</p><p>satisfez com o mundo que trouxe à existência. Tais trabalhos de benefi­</p><p>cência, de acordo com a doutrina de Cristo, podem ser sempre feitos no</p><p>dia de repouso e adoração: trabalhos de natureza humanitária, como</p><p>aqueles do médico; o do professor de crianças que foram negligenciadas;</p><p>os de natureza filantrópica, entre os pobres e necessitados; ou o do mi­</p><p>nistro cristão pregando o evangelho da paz; e assim muitos outros, dos</p><p>quais os homens ocupam-se com amor, e os fazem de bom grado, mas</p><p>em relação aos quais algumas pessoas, na frieza de seu coração, não fa­</p><p>zem tanto quanto sonham. Contra tais trabalhos, não há lei, salvo as dos</p><p>rudes e desagradáveis costumes farisaicos.</p><p>Há uma outra declaração que o nosso Senhor proferiu sobre o pre­</p><p>sente assunto, que traz um grande peso para os cristãos, embora possa</p><p>não ter tido nenhum valor apologético na opinião dos fariseus, mas an­</p><p>tes deve ter parecido um agravamento da ofensa que deveria ser perdoa­</p><p>da. Nos referimos à palavra: “O Filho do homem até do sábado é Se­</p><p>nhor”, dita por Jesus na ocasião em que Ele defendeu seus discípulos</p><p>contra a acusação de violarem o sábado. Essa declaração extraordinária,</p><p>como a reivindicação feita, no mesmo momento, de ser maior que o</p><p>templo, como uma asserção da dignidade sobre-humana da parte da­</p><p>quele que é manso e humilde, não tinha a intenção de ser uma pretensão</p><p>ao direito de violar a lei do descanso sem razão, ou anulá-la totalmente.</p><p>Isso é evidente no relato de Marcos39, onde as palavras vêm como uma</p><p>inferência da afirmação de que o sábado foi feito para o homem, e que</p><p>não poderia, obviamente, tornar-se o alicerce de uma revogação do esta­</p><p>tuto, visto que esse é o mais poderoso argumento para a perpetuação do</p><p>descanso semanal. Se o descanso semanal tivesse sido uma mera restri­</p><p>ção opressiva imposta aos homens, deveríamos ter esperado que o Se­</p><p>nhor Jesus Cristo o tivesse anulado, pois Ele veio para libertar os ho­</p><p>mens de todo o tipo de escravidão. Mas o sábado foi feito para o ho­</p><p>mem — para o seu bem. Então, devemos esperar que a função de Cristo</p><p>não seja a de um anulador, mas a de um legislador universal e filantrópi­</p><p>co, fazendo com que aquilo que era previamente um privilégio exclusivo</p><p>de Israel, se tornasse uma bênção universal, para toda a humanidade.</p><p>Pois o Pai enviou o seu Filho ao mundo para verdadeiramente libertar o</p><p>114 O Treinamento dos Doze</p><p>homem do jugo das ordenanças, mas não para cancelar nenhuma das</p><p>suas bênçãos, pois estas são sem arrependimento; os dons e a vocação de</p><p>Deus, uma vez concedidos, não são retirados (Rm 11.29).</p><p>Então, o que significa o senhorio de Cristo sobre o sábado? Sim­</p><p>plesmente isso: que uma instituição que faz parte da natufeza de uma</p><p>bênção para o homem, submete-se ao controle daquele que é o Rei da</p><p>graça e o administrador da misericórdia divina. Ele é o melhor Juiz para</p><p>julgar como determinado preceito deve ser observado; só Ele tem a prer­</p><p>rogativa de ver que isso não deve ser pervertido de uma graça para um</p><p>peso, passando a se opor à verdadeira e imperial lei do amor. O Filho do</p><p>Homem tem autoridade para cancelar todos os regulamentos que se</p><p>inclinam nessa direção, emanados dos homens, e até mesmo todos os</p><p>preceitos paralelos às leis de Moisés que foram preparados pelos ho­</p><p>mens, repletos do rigor legal, e que tendem a cobrir a concepção benéfi­</p><p>ca do quarto mandamento do decálogo40. Ele pode, no exercício de sua</p><p>prerrogativa mediadora, dar à antiga instituição um novo nome, alterar o</p><p>dia da sua celebração, de maneira a envolvê-la distintamente com associ­</p><p>ações cristãs apropriadas ao coração dos crentes, e torná-la, em todos os</p><p>detalhes de sua observância, subserviente ao grande objetivo de sua</p><p>encarnação.</p><p>Com tal propósito, o Filho do Homem afirmou ser Senhor do sá­</p><p>bado; e sua afirmação, assim compreendida, foi admitida pela igreja,</p><p>quando, seguindo as pegadas da prática apostólica, mudou o descanso</p><p>semanal do sétimo para o primeiro dia da semana41, a fim de poderem</p><p>comemorar o alegre acontecimento da ressurreição do Salvador, que fica</p><p>mais próximo do coração do crente do que o antigo acontecimento da</p><p>criação, e chamou o primeiro dia pelo seu nome, o dia do Senhor42. Em</p><p>relação a essa afirmação, todos os cristãos admitem que, olhando para o</p><p>dia à luz da criação original de Deus, dos ensinos, exemplos e obras de</p><p>Cristo, observam-na como para manter o meio termo entre dois extre­</p><p>mos: o do rigor farisaico e o da falta de cuidado dos saduceus. Os cris­</p><p>tãos reconhecem, por um lado, as finalidades benéficas fornecidas pela</p><p>instituição, e fazem o máximo para assegurar que esses fins sejam total­</p><p>mente realizados; e, por outro lado, evitam o cuidado insignificante do</p><p>triste legalismo, que leva muitos, especialmente os jovens, a se chocarem</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 115</p><p>com a lei como um estatuto de restrições injustas e arbitrárias. Os cris­</p><p>tãos evitam também o mau hábito farisaico de dar indultos em julga­</p><p>mentos indiscutíveis com relação a difíceis questões e detalhes, e na con­</p><p>duta daqueles que em tais questões não pensam nem agem como eles</p><p>mesmos.</p><p>Não devemos encerrar este capítulo, no qual temos estudado as</p><p>lições de forma livre, mas reverente, dadas pelo nosso Senhor aos seus</p><p>discípulos, sem adicionarmos uma reflexão aplicável a todas as três. Por</p><p>meio dessas lições, os doze aprenderam uma virtude muito necessária</p><p>para os apóstolos de uma religião que era nova em muitos aspectos — o</p><p>poder de suportar o isolamento e as suas conseqüências. Quando Pedro</p><p>e João compareceram diante do sinédrio, os administradores se admira­</p><p>ram com a audácia deles, a ponto de reconhecerem que eram compa­</p><p>nheiros de Jesus, o Nazareno. Parece que imaginaram os seguidores de</p><p>Jesus Cristo como estando preparados para qualquer coisa que viesse a</p><p>requerer a intrepidez. E estavam certos. Os apóstolos tinham “nervos</p><p>fortes”, e não eram facilmente intimidados; e as lições que temos consi­</p><p>derado nos ajudam a entender de onde eles tiraram sua rara coragem</p><p>moral. Durante anos estes homens se acostumaram a permanecer sozi­</p><p>nhos e a negligenciar o padrão do mundo, até que finalmente pudessem</p><p>fazer o que era correto, indiferentes à censura humana, sem qualquer</p><p>esforço aparente, quase que automaticamente, sem pensar duas vezes.</p><p>1 Veja o capítulo 3</p><p>2 Mateus 9.14. De Marcos e Lucas pode ser inferido que alguns fariseus eram interrogadores contumazes; mas</p><p>isto não é afirmado no texto sagrado.</p><p>3 Mateus 21.32</p><p>4 Veja Buxtorf, De Synagoga Judaica, capítulo 30; também Zacarias 8.19</p><p>5 Lucas 18.12</p><p>6 João 3.26</p><p>7 João 5.35</p><p>8 Mateus I I .7-15</p><p>9 Mateus 11.16,19</p><p>10 João 3.29</p><p>11 Lucas 5.34, mê âunastbe ... poiêsai nêsteuein</p><p>12 Mateus 9.16, rhakous agnaphou</p><p>13 Lucas 5.36 dá à reflexão uma outra direção. O pano é meramente novo (kainon), e duas objeções ao remendo</p><p>são sugeridas. Primeira, o bom pano é perdido devido ao remendo, e teria sido melhor empregado na construção de</p><p>uma nova peça. Segundo, o trabalho feito de retalhos é inadequado e insatisfatório. O velho e o novo não estão de</p><p>acordo (<m sumphonei).</p><p>116 0 Treinamento dos Doze</p><p>14 Lucas 5.39. A versão apresentada no texto está de acordo com a leitura aprovada pelos críticos, de uma forma</p><p>geral, na qual (diretamente) é omitida, e ao invés de (melhor) e permanece (bom). O sentido, de qualquer forma,</p><p>é o mesmo. Está subentendido que o novo vinho será desejado mais adiante, e bom é uma realidade enfática positiva</p><p>que, na prática, expressa superioridade.</p><p>15 Niebuhr, Lectures on Roman History, 2. 77, 78</p><p>16 Durante sua última permanência na Galiléia, aproximadamente seis meses antes da crucificação.</p><p>' 17 Marcos 7.1, 2, 5</p><p>18 Lucas 11.37</p><p>19 Lucas I I .39-41. Para uma passagem semelhante, veja Mateus 23.25, 26</p><p>20 Marcos 7.4. klinwn significa mais propriamente '‘camas” e não “mesas”. Mas há controvérsias sobre o direito</p><p>da palavra estar no texto, e assim é omitida em algumas traduções.</p><p>21 Buxtorf, De Syn.Jud. pp. 236, 237. Este autor cita a seguinte declaração de outro rabino: “Qui íllotis manibus</p><p>panem comedit, idem est ac si scorto accubaret” (p. 236).</p><p>22 Números 6.14</p><p>23 Marcos 7.13</p><p>24 Isaías 29.13</p><p>25 Mateus 15.17-20; Marcos 7.18-23</p><p>26 Deuteronômio 23.24, 25</p><p>27 Lucas 13.14</p><p>28 Buxtorf, De Syn. Jud. pp. 352-356. O mesmo autor declara que era uma violação à lei deixar um galo usar um</p><p>pedaço de fita ao redor de suas pernas no sábado: fazia-lhe carregar algo. Também era proibido andar por um rio</p><p>em pernas de pau, porque, embora a madeira pareça carregar-lhe, na verdade, é você que a carrega. Estes foram,</p><p>provavelmente, requintes posteriores.</p><p>29 Êxodo 16.23</p><p>30 Na justificação dessa prática apelaram a Neermas 8.10</p><p>31 Lucas I4 .I</p><p>32 Lucas 14.7-24</p><p>33 Enarratio in Psalmum 91 (92.) 2. Reclamações semelhantes foram feitas por outros patriarcas, como Prudêncio</p><p>e Crisóstomo. Veja Bingham, B. 20. 100. 2.</p><p>34 João 5.10</p><p>35 De acordo com os escribas, este era o limite de uma jornada de sábado. Ele foi estabelecido pela distância entre</p><p>o muro de uma cidade levítica e a fronteira extrema de sua periferia. Existiam situações especiais em que se poderia</p><p>estender a jornada. Veja Números 35.5; e Buxtorf, De Syn. Jud., cap. 16.</p><p>36 I Samuel 21.6. Isso ocorreu no sábado, pois o pão da proposição amanhecido era substituído por novos nesse</p><p>dia (pães quentes assados no sábado). Mas este não é o ponto enfatizado pelo Senhor Jesus Cristo.</p><p>37 Lucas 13.14,15</p><p>38 João 5.17</p><p>39 Marcos 2.27,28</p><p>40 A posição do sábado no decálogo (onde nada de interesse meramente judaico fora colocado, sendo de funda­</p><p>mental importância) indica, para toda a mente sincera, a idéia de perpetuidade. A questão mais contestada da</p><p>natureza ética da lei do sábado não é de tão grande importância como tem sido imaginada. Moral ou não, o</p><p>descanso semanal é de vital importância para todos os homens; assim, praticamente, se não filosoficamente, tem</p><p>um grande valor ético. O quarto mandamento certamente difere dos outros nesse aspecto, pois não está escrito na</p><p>consciência natural. A discussão poderia se estender até determinar que o descanso é necessário. Se o descanso deve</p><p>ser periódico, ou em intervalos irregulares, no sétimo ou no décimo dia, como na França revolucionária, com sua</p><p>mania pelo sistema decimal, devemos ter em mente que a compreensão da natureza deste descanso deve estar</p><p>bastante clara a todos. Mas o decálogo estabelece essa questão, e a estabelece para sempre, para todos aqueles que</p><p>crêem na origem divina da lei de Moisés. O quarto mandamento é uma revelação, para todos os tempos, da mente</p><p>de Deus, sobre o importante assunto que é a relação apropriada entre o trabalho e o descanso.</p><p>41 Não sabemos muito bem como essa mudança foi efetuada. Ela provavelmente aconteceu gradativamente, e</p><p>sem a completa consciência da transição que estava sendo feita, ou da sua importância. No início, os crentes</p><p>pareciam ter-se encontrado para adorar no primeiro dia da semana; mas não há evidências de que descansavam</p><p>inteiramente do trabalho nesse dia. Em muitos casos, eles não poderiam ter descansado se quisessem, como, por</p><p>exemplo, no caso de escravos de senhores pagãos. Por essa razão, provavelmente, podemos entender o exemplo da</p><p>Lições sobre a Liberdade Religiosa 117</p><p>igreja emTrôade, que se encontrava no início da noíte, e adorava até à meia-noite. Há indícios de que os primeiros</p><p>cristãos descansavam no sétimo dia como judeus, e como cristãos adoravam na manhã ou na noite do primeiro dia,</p><p>antes ou depois do seu trabalho cotidiano. Com o tempo, como os judeus-cristãos afastaram-se mais do judaísmo,</p><p>e os adoradores gentios se multiplicaram, este fato teve uma influência preponderante nos costumes da igreja; o</p><p>descanso no sétimo dia desapareceria, e o descanso no primeiro dia, no dia do Senhor, tomaria o seu lugar. Para</p><p>evitar equívocos, é necessário explicar que o sétimo dia continuou a ser observado como um dia de jejum ou de</p><p>festa, com s e r v i ço s religiosos; muito tempo depois ele deixou de ser considerado um dia no qual os homens</p><p>deveriam descansar inteiramente do trabalho. Veja, sobre este assunto, Bingham, Origines Ecclesiastic#, B. 20. 100. 3.</p><p>42 Em Grego kuriakê hêtnera, ou simplesmente hê kuriakê; em Latim Dies Dominicus. Assim, emTertuliano, De Corona,</p><p>3, “Die Domimco jejunium nefas ducimus”.</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização</p><p>Seção I - A Missão</p><p>Mateus 10; Marcos 6 .7-13, 30-32; Lucas 9.1 - 1 1</p><p>O s doze agora se apresentam perante nós como eficientes agentes</p><p>da propagação do reino de Deus. Depois de terem vivido durante algum</p><p>tempo na companhia de Jesus, testemunhando suas</p><p>obras milagrosas,</p><p>ouvindo sua doutrina sobre o reino e aprendendo como deviam orar e</p><p>viver, foram em seguida enviados para evangelizar as vilas e as cidades de</p><p>sua província natal e curar os doentes em nome de seu Mestre e através</p><p>de seu poder. Não há dúvida de que a missão dos discípulos como evan­</p><p>gelistas, ou como apóstolos em fase de preparação, representava, em par­</p><p>te, uma experiência educacional em seu próprio benefício; no entanto,</p><p>sua principal finalidade era atender às necessidades espirituais do povo</p><p>cuja condição de abandono pesava no coração de Jesus Cristo. O com­</p><p>passivo Filho do Homem, no curso de suas andanças, havia observado</p><p>como as populações se encontravam dispersas e divididas\ tal qual um</p><p>rebanho sem pastor, e era seu desejo que todos soubessem que um bom</p><p>Pastor havia chegado para cuidar das ovelhas perdidas da casa de Israel.</p><p>As multidões estavam totalmente prontas para receber as boas-novas; a</p><p>dificuldade residia em satisfazer à premente demanda do momento. A</p><p>seara, os grãos, estavam prontos para a colheita, e eram abundantes, mas</p><p>os ceifeiros eram poucos2.</p><p>Em relação a essa missão algumas coisas chamam nossa especial</p><p>atenção: a região designada para o trabalho, a natureza desse trabalho, as</p><p>instruções sobre como realizá-lo, os resultados da missão e o retorno</p><p>dos missionários.</p><p>120 O Treinamento dos Doze</p><p>Esses pontos serão analisados ordenadamente, exceto que, por con­</p><p>veniência, deixaremos por último as instruções de Jesus aos seus discípu­</p><p>los, reservando-lhes uma seção própria.</p><p>I) A região abrangida pela missão correspondia, em termos gerais,</p><p>a toda a terra de Israel. “M as, ide antes” , disse ]esus aos do‘ze, “ às ove­</p><p>lhas perdidas da casa de Israel”; e, continuando a narrativa de Mateus,</p><p>Ele lhes fala como se o plano da missão incluísse uma visita a todas as</p><p>cidades de Israel3. Entretanto, as atividades dos discípulos parecem ter</p><p>ficado, praticamente, restritas à sua província natal da Galiléia e, mesmo</p><p>dentro de seus reduzidos limites, elas foram levadas a efeito em vilas e</p><p>aldeias, ao invés de cidades e municípios mais importantes, como por</p><p>exemplo Tiberíades. As primeiras declarações baseiam-se no fato de que</p><p>as ações dos discípulos atraíram a atenção de Herodes, o tetrarca da</p><p>Galiléia4, significando que elas se realizaram nas vizinhanças5; enquanto</p><p>as mais recentes são comprovadas pelas palavras do terceiro evangelista</p><p>ao relatar um resumo da missão: “E, saindo eles, percorreram todas as</p><p>aldeias, anunciando o evangelho e fazendo curas por toda a parte”6.</p><p>Embora os aprendizes missionários tivessem recebido permissão de</p><p>ir até qualquer ovelha de Israel que estivesse perdida, e a todas se isso</p><p>fosse praticável, eles estavam expressamente proibidos de estender seu</p><p>trabalho além desses limites. Não deveriam caminhar nas terras dos gen­</p><p>tios, nem entrar em qualquer cidade ou aldeia de samaritanos7. Em par­</p><p>te, essa proibição se originava do plano geral que Cristo havia preparado</p><p>para a fundação do reino de Deus na terra. Seu objetivo supremo era a</p><p>conquista do mundo; mas para realizá-lo, Ele sabia que seria necessário</p><p>primeiramente assegurar uma sólida base de operações na Terra Santa e</p><p>entre o povo que Ele havia escolhido. Dessa forma, por ser pessoalmente</p><p>o mensageiro de Deus para a nação judaica, e sendo essa uma razão</p><p>bastante séria para não trabalhar entre os pagãos8, somente afastou-se</p><p>dessa regra em algumas ocasiões e preencheu seu profético ministério</p><p>com insinuações sobre um futuro próximo quando judeus, samaritanos</p><p>e gentios estariam igualmente reunidos em uma comunidade divina9.</p><p>Mas a principal razão dessa proibição estava relacionada à atual condi­</p><p>ção espiritual dos próprios discípulos. Haveria de chegar o tempo em</p><p>que Jesus iria dizer aos seus escolhidos: “Ide por todo o mundo, pregai o</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 121</p><p>evangelho a toda criatura”10; mas esse tempo ainda não havia chegado.</p><p>No período de sua primeira missão experimental, os doze discípulos</p><p>ainda não estavam preparados para pregar o evangelho, ou para praticar</p><p>as boas obras, quer entre os samaritanos quer entre os gentios. Suas</p><p>mentes ainda eram muito estreitas e seus preconceitos muito arraigados:</p><p>havia um excesso de conceitos judaicos e poucos conceitos cristãos em</p><p>seu caráter. Para o trabalho universal do apostolado eles precisavam de</p><p>um novo e divino esclarecimento e de um copioso batismo com o benig­</p><p>no Espírito do amor. Suponha que um desses inexperientes evangelistas</p><p>tivesse visitado uma das cidades de samaritanos; o que teria acontecido?</p><p>Com toda probabilidade, teria se deixado envolver em discussões sobre</p><p>as diferenças religiosas entre os samaritanos e os judeus, durante as quais,</p><p>naturalmente, teria se destemperado; dessa forma, ao invés de procurar a</p><p>salvação do povo que estava visitando, ele estaria em um estado de âni­</p><p>mo mais inclinado a ordenar que o fogo do céu consumisse a todos,</p><p>como realmente os discípulos se propuseram a fazer em um período</p><p>subseqüente11.</p><p>2) O trabalho que lhes fora confiado era muito abrangente em um</p><p>determinado aspecto, embora muito limitado em outro. Eles foram do­</p><p>tados de poderes ilimitados quanto à realização de curas, mas sua auto­</p><p>ridade ainda era muito restrita em relação à pregação. Em relação à pri­</p><p>meira, suas instruções eram: “Curai os enfermos, limpai os leprosos,</p><p>ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de gra­</p><p>ça dai”; e, em relação à última: “E, indo, pregai, dizendo: Ê chegado o</p><p>Reino dos céus”12. No primeiro caso, a autoridade parece ser muito</p><p>ampla e, no segundo, muito limitada; mas em ambos a sabedoria de</p><p>Jesus mostra-se merecedora de uma consideração mais profunda. Uma</p><p>vez que se tratava de obras milagrosas, não havia qualquer necessidade</p><p>de restrições, a não ser evitar o risco delas produzirem vaidade ou sober­</p><p>ba naqueles que exercitassem tais poderes maravilhosos — um risco que</p><p>certamente não era imaginário, mas que poderia ser remediado quando</p><p>assumisse um aspecto mais tangível. Todos os milagres praticados pelos</p><p>discípulos eram, na realidade, praticados pelo próprio Senhor Jesus; e a</p><p>única função deles consistia em empregar o seu nome com toda fé. Pare­</p><p>ce que isso foi perfeitamente entendido por todos; pois as obras realiza-</p><p>122 0 Treinamento dos Doze</p><p>das pelos apóstolos não levaram o povo da Galiléia a pensar quem eles</p><p>eram, mas somente quem era aquele em cujo nome todas essas coisas</p><p>eram feitas13. Portanto, sendo vontade de Cristo que tais milagres fos­</p><p>sem realizados através de seus discípulos, como instrumentos, tornou-se</p><p>muito fácil para eles realizar tanto as maiores como as menores obras; se,</p><p>na verdade, existisse qualquer sentido em se falar em graus de dificulda­</p><p>de em relação a mdagres, o que seria mais do que duvidoso.</p><p>Por outro lado, em relação à pregação, não havia apenas uma razão,</p><p>mas também uma necessidade, para essas restrições. Os discípulos não</p><p>podiam ir além de proclamar o fato de que o reino havia chegado e</p><p>convidar os homens de toda parte a se arrependerem, como forma de se</p><p>prepararem para esse advento. Isso era, realmente, tudo o que sabiam.</p><p>Ainda não haviam compreendido, em sua mínima intensidade, a doutri­</p><p>na da cruz e nem mesmo a natureza desse reino. Tinham, na verdade,</p><p>ouvido seu Mestre discursar profundamente a esse respeito, mas não</p><p>compreenderam suas palavras. Suas idéias a respeito do reino vindouro</p><p>eram quase tão incipientes e mundanas como a dos outros judeus, que</p><p>aguardavam a restauração da independência política de Israel e uma pros­</p><p>peridade temporal igual à dos gloriosos dias da antiguidade. Somente</p><p>em um ponto eles se colocavam à frente dos conceitos da época. Haviam</p><p>aprendido, de João e de Jesus, que o arrependimento era necessário para</p><p>alguém se tornar cidadão desse reino. Em todos os outros aspectos, eles</p><p>e seus ouvintes certamente pertenciam ao mesmo nível. Portanto, longe</p><p>de acreditar que o programa de pregação dos discípulos fosse bastante</p><p>limitado,</p><p>somos levados a imaginar como Jesus poderia ter confiado</p><p>totalmente nas palavras enunciadas através da boca desses homens sobre</p><p>os assuntos do reino. Não haveria o perigo de que homens com idéias</p><p>tão primitivas pudessem alimentar esperanças enganadoras e dar origem</p><p>a uma comoção política? Será que não poderíamos descobrir traços reais</p><p>de tal comoção nos sinais observados em seus movimentos na corte de</p><p>Herodes e na proposta feita em seguida pela multidão de levar Jesus à</p><p>força para fazer dele um rei?14. Não há duvida de que havia um perigo</p><p>nessa direção. Para evitá-lo, Jesus teve de deixar desprotegido o pobre e</p><p>abandonado o povo e tomar todas as precauções possíveis para eliminar,</p><p>o quanto possível, qualquer desordem. Para tanto proibiu verdadeira­</p><p>Primeiras Tentativas de EvangelizaçSo 123</p><p>mente que seus mensageiros entrassem em detalhes sobre o assunto do</p><p>reino, colocando um formato seguro nas palavras que viriam a pronun­</p><p>ciar. Foram instruídos a anunciar o reino como o Reino dos céus15; algo</p><p>que alguns poderiam entender como uma visão encantadora, mas que os</p><p>homens do povo poderiam imaginar ser completamente diferente da­</p><p>quilo que desejavam. Um reino celestial! O que isso representava para</p><p>eles? O que queriam era um reino terreno, no qual pudessem viver com</p><p>paz e felicidade sob um governo justo e, acima de tudo, com abundância</p><p>do que comer e beber. Um reino celestial! Isso só servia para aqueles que</p><p>não tinham esperança na terra; um refúgio para os desesperados, um</p><p>melancólico consolo na ausência de um conforto melhor. Sim, homens</p><p>mundanos! Na opinião desses, essa mensagem só seria dirigida a ho­</p><p>mens considerados miseráveis. Somente aos pobres o reino deveria ser</p><p>pregado. Somente àqueles que labutam e estão pesadamente oprimidos foi</p><p>feito o convite: “Vinde a mim”, juntamente com uma promessa de repou­</p><p>so; de repouso da ambição e do descontentamento, uma promessa de pla­</p><p>nos e de carinho, na esperança abençoada do sobrenatural e do eterno.</p><p>3) A impressão produzida pelo trabalho dos doze discípulos parece</p><p>ter sido bastante considerável. A fama de seus feitos, como já salienta­</p><p>mos, alcançou os ouvidos de Herodes e parece que grandes multidões os</p><p>acompanhavam quando se movimentavam de um lugar para outro. Por</p><p>exemplo, ao retornarem de sua missão para juntar-se à companhia do</p><p>Mestre, eles eram atropelados por uma multidão ansiosa e cheia de ad­</p><p>miração que havia testemunhado ou experimentado os benefícios de suas</p><p>obras, de tal forma que se tornou necessário retirarem-se para um lugar</p><p>deserto a fim de desfrutar de um tranqüilo intervalo de repouso. “Por­</p><p>que havia muitos”, nos informa o segundo evangelista, “que iam e vi­</p><p>nham, e não tinham tempo para comer. E foram sós num barco para um</p><p>lugar deserto”16. Mesmo na solidão dos lugares ermos das praias do mar</p><p>da Galiléia eles não conseguiam assegurar sua almejada privacidade. “E a</p><p>multidão viu-os partir, e muitos os conheceram, e correram para lá, a pé,</p><p>de todas as cidades, e ali chegaram primeiro do que eles, e aproximavam-</p><p>se deles”17.</p><p>Sob o aspecto da qualidade parece que os resultados da missão fo­</p><p>ram bem menos satisfatórios que sua amplitude. As impressões religio-</p><p>124 0 Treinamento dos Doze</p><p>sas produzidas parecem ter sido, em sua grande maioria, superficiais e</p><p>passageiras. Havia muitas flores, por assim dizer, nas macieiras da esta­</p><p>ção primaveril desse “reavivamento” galileu; mas um número comparati­</p><p>vamente pequeno daquelas que se tornavam frutos. E, desses, um núme­</p><p>ro ainda menor alcançou o estágio do completo amadurecimento. Fica­</p><p>mos sabendo disso a partir do que aconteceu logo depois, em conexão</p><p>com o discurso de Cristo sobre o pão da vida, na sinagoga de Cafarnaum.</p><p>Os mesmos homens que, depois de terem sido milagrosamente alimenta­</p><p>dos no deserto teriam transformado Cristo em um rei, foram os mesmos</p><p>que, em conjunto, o desertaram, escandalizados por sua misteriosa doutri­</p><p>na; e, em sua maioria, os que assim fizeram eram exatamente aqueles que</p><p>ouviram os doze discípulos enquanto pregavam o arrependimento18.</p><p>Essa situação, diante de tão benevolentes atitudes, deve ter sido pro­</p><p>fundamente desapontadora para o coração de Jesus. No entanto, é de</p><p>admirar que o relativo malogro do primeiro movimento evangelístico</p><p>não o tenha impedido de repetir a experiência algum tempo depois e em</p><p>uma escala ainda mais extensa. “E depois disso”, escreve o terceiro</p><p>evangelista, “designou o Senhor ainda outros setenta e mandou-os adi­</p><p>ante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele</p><p>havia de ir”19. A escola de críticos de Tübingen, como já indicamos an­</p><p>teriormente20, argumenta que essa missão não aconteceu, e tenta afirmar</p><p>que foi uma total invenção do terceiro evangelista, com a intenção de</p><p>ressaltar a missão dos doze e exibir a religião cristã como uma religião</p><p>para a humanidade, representada pelos samaritanos como os seus desti­</p><p>natários e pelos setenta como os pregadores da fé, cujo número</p><p>corresponde ao número das nações. Essa teoria pode até parecer ter al­</p><p>gum sentido, pois não há tantos detalhes sobre a história dessa missão;</p><p>apenas o necessário. No entanto, a hipótese de ter sido inventada é uma</p><p>violência à Palavra de Deus e podemos, com segurança, ter toda a certe­</p><p>za de que a narrativa de Lucas se apóia em uma autêntica tradição. O</p><p>motivo dessa segunda missão foi o mesmo da primeira, e as instruções</p><p>aos missionários foram as mesmas. Jesus ainda sentia uma profunda com­</p><p>paixão pela multidão que perecia e, demonstrando uma esperança que</p><p>contrariava todas as perspectivas, fez uma nova tentativa de resgatar as</p><p>ovelhas perdidas. Ele faria com que todos os homens fossem, pelo me-</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelizaçao 125</p><p>nos, chamados para a comunhão do reino, embora poucos fossem real­</p><p>mente os escolhidos. E, quando os resultados imediatos se tornaram</p><p>promissores, Ele se sentiu gratificado, embora sabendo por experiências</p><p>passadas, assim como através de sua onisciência, que a fé e o arrependi­</p><p>mento de muitos seriam, provavelmente, tão passageiros quanto o orva­</p><p>lho da manhã. Quando os setenta retornaram de sua missão, e comuni­</p><p>caram seu grande sucesso, Ele os saudou enfatizando o presságio da</p><p>derrota do reino de Satanás e, regozijando-se em espírito, deu graças ao</p><p>Supremo Soberano do céu e da terra, seu Pai, porque enquanto as coisas</p><p>do reino estavam ocultas dos sábios e dos inteligentes, dos cidadãos</p><p>cheios de aparente inteligência e entendimento, elas foram, por sua gra­</p><p>ça, reveladas aos pequeninos — aos incultos, pobres e ignorantes21.</p><p>Na oração de ação de graças de Jesus, a referência feita aos “sábios</p><p>e inteligentes” sugere que, em relação a esses esforços de evangelização,</p><p>eles eram considerados com desdém por alguns dos membros das classes</p><p>refinadas e obstinadas, difíceis de contentar, da sociedade religiosa ju­</p><p>daica. Isso teria sido realmente muito provável. Sempre existem homens</p><p>na igreja, inteligentes, sábios e até bons, aos quais os movimentos religi­</p><p>osos populares são muito desagradáveis. O barulho, a emoção, as extra­</p><p>vagâncias, as desilusões, o mau direcionamento do zelo religioso, a igno­</p><p>rância dos agentes, a instabilidade dos convertidos — todas essas coisas</p><p>lhes trazem muito mal-estar. A mesma classe de intelectuais teria se ofen­</p><p>dido com o trabalho evangelístico dos doze discípulos e dos outros se­</p><p>tenta pois, indiscutivelmente, ele estaria acompanhado dos mesmos em­</p><p>pecilhos. Os agentes eram ignorantes; tinham poucas idéias, entendiam</p><p>muito pouco sobre a verdade divina; sua única qualificação era a sinceri­</p><p>dade de seus corações e a capacidade de pregar muito bem o arrependi­</p><p>mento. Sem dúvida, também havia uma boa dose de barulho e de emo­</p><p>ção entre as multidões que ouviam suas pregações; e sabemos, certamen­</p><p>te, que seu zelo religioso ainda era ao mesmo tempo mal informado e de</p><p>curta duração. Essas coisas, na verdade, são características permanentes</p><p>de todo movimento popular. Jonathan Edwards, falando com referência</p><p>ao “reavivamento” da religião que aconteceu na América em seus dias,</p><p>diz com toda propriedade: “Uma grande dose de barulho e de tumulto,</p><p>de confusão e de alvoroço, de trevas misturadas com luz, e do mal com o</p><p>126 0 Treinamento dos Doze</p><p>bem, sempre devem ser esperados no início de alguma coisa muito glori­</p><p>osa acontecida no estado de coisas da sociedade humana, ou na ig re ja de</p><p>Deus. Depois que a natureza esteve fechada por muito tempo em uma</p><p>condição fria e morta, e o sol retorna na primavera, juntamente com o</p><p>aumento da luz e do calor aparece um período de tempestades, antes de</p><p>tudo ficar novamente ordenado, calmo e sereno e de toda a natureza se</p><p>rejubilar em flores e beleza”22.</p><p>Nenhum dos “sábios e inteligentes” conhecia tão bem quanto Jesus</p><p>todo o mal que estaria misturado com o bem nas obras do reino. Mas</p><p>Ele não se ofendia tão facilmente como eles. O Amigo dos pecadores</p><p>sempre foi assim. Ele se condoía pela multidão e não podia, como os</p><p>fariseus, contentar-se em submetê-la a uma permanente condição de ig­</p><p>norância e de devassidão. Ele se alegrava imensamente mesmo que uma</p><p>única ovelha fosse conquistada; e, podemos dizer, que Ele se regozijava</p><p>quando não apenas uma, mas todo o rebanho, começava a retornar ao</p><p>redil. Para Ele era motivo de alegria ver os homens se arrependerem</p><p>mesmo que fosse apenas durante uma única estação, pressionando para</p><p>entrar no reino até com violência e impetuosidade23; pois seu amor era</p><p>forte, e quando um forte amor está presente, até a sabedoria e o refina­</p><p>mento deixam de ser difíceis de contentar.</p><p>Antes de concluir esse tópico, devemos observar que existe uma</p><p>outra classe de cristãos, muito distinta daquela dos sábios e inteligentes,</p><p>perante cujos olhos tais esforços de evangelização, como daqueles doze</p><p>discípulos, não precisam de justificação. Sua tendência, ao contrário, é</p><p>considerar tais esforços como a plenitude dos trabalhos do reino. O</p><p>reavivamento religioso, entre as massas negligenciadas, representa para</p><p>eles a soma de todas as boas obras. Eles não tomam conhecimento dos</p><p>outros trabalhos de instrução, mais silenciosos e menos notáveis, que</p><p>ocorrem na igreja. Segundo sua opinião, onde não existe uma óbvia</p><p>emoção a igreja está morta e seu ministério é ineficiente. Deve ser lem­</p><p>brado que existiam dois movimentos religiosos acontecendo nos dias no</p><p>Senhor Jesus. Um deles consistia em levantar as massas da letargia da</p><p>indiferença; o outro consistia no treinamento cuidadoso e preciso de</p><p>homens já dedicados aos princípios e às verdades do reino divino. No</p><p>■ caso do primeiro movimento os discípulos, isto é, tanto os doze quanto</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 127</p><p>os setenta, eram agentes; no caso do outro movimento eles eram os sujei­</p><p>tos. E o último movimento, embora menos notável, e muito mais limita­</p><p>do em sua extensão, era de longe mais importante que o primeiro; pois</p><p>estava destinado a produzir frutos que deveriam permanecer — em rela­</p><p>ção não só ao tempo presente, mas a toda a história do mundo. São</p><p>muitas as verdades profundas que o grande Mestre, como se estivesse na</p><p>sombra, estava então de forma silenciosa e desapercebida instilando nas</p><p>mentes de um grupo seleto, isto é, dos destinatários de seus ensinos</p><p>confidenciais, e que deveriam ser propagadas à luz do dia; e o som de</p><p>suas vozes não cessaria até que tivesse percorrido toda a terra. Teríamos</p><p>uma pobre perspectiva do reino dos céus se Cristo tivesse negligenciado</p><p>seu trabalho e se dedicado inteiramente a uma vaga evangelização entre</p><p>as massas.</p><p>4 ) Ao terminar a missão, os doze discípulos retornaram e contaram</p><p>ao Mestre tudo o que haviam feito e ensinado. Sobre seus relatos, assim</p><p>como sobre as observações do Mestre, poucos detalhes foram registrados.</p><p>Entretanto, realmente encontramos esses detalhes em conexão com a</p><p>última missão dos setenta. Lemos que “voltaram os setenta com alegria,</p><p>dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam”24. O</p><p>mesmo evangelista que registrou essas palavras nos informa que, depois</p><p>de congratular os discípulos pelo seu sucesso, Jesus lhes falou com pala­</p><p>vras de advertência: “Mas não vos alegreis porque se vos sujeitem os</p><p>espíritos; alegrai-vos, antes, por estar o vosso nome escrito nos céus”25.</p><p>Foi um aviso oportuno contra a soberba e a vaidade. E muito provável</p><p>que um aviso semelhante também tenha sido dirigido aos doze quando</p><p>estes retornaram. E certo que tais palavras teriam sido adequadas ao seu</p><p>caso. Eles haviam estado envolvidos no mesmo trabalho emocionante,</p><p>tinham sido igualmente cheios de poder para realizar milagres, e assim</p><p>foram bem-sucedidos; porém eram igualmente imaturos em seu caráter</p><p>e, deste modo, também tiveram dificuldade para lidar com o sucesso. E</p><p>provável, portanto, que quando Jesus lhes disse no seu retorno: “Vinde</p><p>vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco”26, Ele não</p><p>estava preocupado apenas com os seus corpos, mas procurando, pruden­</p><p>temente, proporcionar repouso às suas mentes inflamadas, assim como</p><p>aos seus corpos exaustos.</p><p>128 0 Treinamento dos Doze</p><p>A advertência aos setenta missionários também serve como uma</p><p>oportuna mensagem a todos aqueles que são demasiadamente zelosos</p><p>no trabalho da evangelização, especialmente junto aos que são ignoran­</p><p>tes em relação ao conhecimento e à graça. Ela sugere a p o s s ib i l i d a d e d e</p><p>sua saúde espiritual ser atingida pelo mesmo zelo que os leva a procurar</p><p>a salvação dos outros. Isso pode acontecer de várias maneiras. O sucesso</p><p>pode tornar o evangelista vaidoso e fazer com que ele comece a despre­</p><p>zar até seus próprios discípulos. Podem cair sob o domínio do diabo</p><p>através da mesma alegria que sentem ao perceber que têm domínio sobre</p><p>este. Podem desprezar aqueles que não tiveram tanto sucesso ou denunciá-</p><p>los como deficientes em seu zelo. O eminente clérigo americano que</p><p>citamos anteriormente nos oferece um relato lamentável sobre o orgu­</p><p>lho, a presunção, a arrogância, a vaidade e a censura implacável que ca­</p><p>racterizaram muitos dos mais eficientes promotores do reavivamento</p><p>religioso de sua época27. A história pode se repetir uma vez mais, e al­</p><p>guns podem deixar-se levar por uma segurança carnal em relação ao seu</p><p>próprio estado espiritual e considerar impossível que qualquer coisa er­</p><p>rada possa acontecer àqueles que são tão fiéis, e a quem Deus tem guar­</p><p>dado tão generosamente. Esse é um erro tão óbvio quanto perigoso, pois</p><p>não há dúvida de que Judas fez parte dessa missão na Galiléia. Nada</p><p>sabemos em contrário: ele foi tão bem-sucedido quanto os outros discí­</p><p>pulos na tarefa de expulsar os demônios. Homens que não têm a graça</p><p>de Deus podem, durante algum tempo, ser empregados como agentes</p><p>para a promoção da obra da graça no coração de seus semelhantes. No</p><p>entanto, ser eficiente não quer dizer, necessariamente, ser bem-sucedido,</p><p>de acordo com o ensino do próprio Cristo. Ele declara no Sermão da</p><p>Montanha: “Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profe­</p><p>tizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios?</p><p>E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?” Observe a resposta</p><p>que Ele diz que dará aos tais. Ele não lhes dirá: “Não duvido da veracida­</p><p>de da afirmação de vocês — isso está tacitamente admitido”; mas o</p><p>Senhor lhes dirá: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que</p><p>praticais a iniqüidade”28.</p><p>Essas palavras solenes sugerem a necessidade da vigilância e do auto-</p><p>exame; no entanto, elas não têm o propósito de desestimular ou desa-</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 129</p><p>provar o zelo. Não devemos interpretá-las como se estivessem dizendo:</p><p>“Não se preocupe em jaz er o bem, somente em ser bom”, ou “Não se</p><p>preocupe com a salvação dos outros, procure a sua própria salvação”.</p><p>Jesus Cristo não ensinou uma religião egoísta ou indiferente. Ele incul-</p><p>cou em seus discípulos uma preocupação generosa e liberal pelo bem-</p><p>estar espiritual dos homens. Para fomentar tal disposição Ele enviou os</p><p>doze discípulos a essa missão experimental mesmo</p><p>estando ainda relati­</p><p>vamente despreparados para o trabalho, e apesar do risco de sofrerem</p><p>prováveis danos espirituais aos quais a própria missão os expunha. Ape­</p><p>sar de todos os perigos, Ele desejava que seus discípulos ficassem im­</p><p>pregnados de entusiasmo pelo progresso do reino, tomando o devido</p><p>cuidado apenas para controlar os maus hábitos, quando estes começas­</p><p>sem a aparecer (aos quais os jovens são suscetíveis), através de uma pala­</p><p>vra de advertência e de um oportuno retiro para um lugar onde pudes­</p><p>sem estar a sós.</p><p>Seção II - As Instruções</p><p>As instruções que Jesus deu aos doze discípulos, quando foram en­</p><p>viados à sua primeira missão, podem ser divididas em duas partes distin­</p><p>tas. A primeira, mais resumida e comum às narrativas dos três primeiros</p><p>evangelistas, está relacionada com o presente; a segunda parte, muito</p><p>mais extensa e peculiar à narrativa de Mateus, está relacionada principal­</p><p>mente com o futuro distante. Na primeira, Cristo diz aos seus discípu­</p><p>los como deviam proceder naquele momento durante o aprendizado de</p><p>seu apostolado e, na última, o que deveriam fazer e suportar quando se</p><p>tornassem apóstolos, em uma escala maior, ao pregar o evangelho, não</p><p>apenas aos judeus mas a todas as nações.</p><p>Tem sido discutido se as palavras do discurso incluído na segunda</p><p>parte das instruções apostólicas ou missionárias, conforme relato de</p><p>Mateus, foram realmente pronunciadas por Jesus nessa ocasião.Tem sido</p><p>enfatizado, por aqueles que adotam uma opinião contrária sobre o as­</p><p>sunto, o fato de somente o primeiro evangelista relatar esse discurso em</p><p>conexão com a missão experimental e a maior parte de seu conteúdo ser</p><p>relatada por outros evangelistas em conexões diferentes. Em apoio a esse</p><p>ponto de vista, também têm sido feitas referências à declaração, feita por</p><p>130 O Treinamento dos Doze</p><p>Jesus aos seus discípulos em sua mensagem de despedida antes da cruci­</p><p>ficação, de que até então Ele ainda não lhes havia falado sobre as futuras</p><p>perseguições por considerar isso desnecessário enquanto Ele ainda esti­</p><p>vesse em sua companhia29. Finalmente, tem sido considerado pouco pro­</p><p>vável que Jesus fosse amedrontar seus inexperientes discípulos ao fazer</p><p>alguma alusão a perigos não iminentes durante o período de sua missão</p><p>na Galiléia. Essas dúvidas são legítimas, em vista de seu método tópico</p><p>de dispor os assuntos, sem dúvida imitado por Mateus, mas não são</p><p>conclusivas. Seria natural que a primeira viagem missionária dos doze</p><p>homens que havia escolhido fosse assinalada por um discurso que, tal</p><p>como foi registrado por Mateus, estabelecesse os deveres, perigos,</p><p>encorajamentos e recompensas da vocação apostólica. Esse era o méto­</p><p>do que usava, em ocasiões solenes, de falar como um profeta que via o</p><p>futuro embora estando no presente e que, a partir de coisas insignifican­</p><p>tes, aguardava a realização de grandes e supremos resultados. E essa mis­</p><p>são na Galiléia, embora humilde e limitada quando comparada às gran­</p><p>des realizações dos anos seguintes, foi realmente um evento solene. Ela</p><p>foi o início de um extenso trabalho designado aos doze escolhidos que</p><p>abrangeu todo o mundo em seu escopo e se propôs a estabelecer o reino</p><p>de Deus na terra. Se o Sermão da Montanha foi pronunciado apropria­</p><p>damente na ocasião em que a companhia apostólica foi formada, esse</p><p>discurso sobre a vocação apostólica não teria sido menos apropriado</p><p>quando os membros dessa mesma companhia puseram-se a trabalhar</p><p>naquilo para o que haviam sido convocados. Mesmo as alusões feitas a</p><p>perigos remotos, contidas nesse discurso, aparecem como uma reflexão</p><p>natural e oportuna, calculadas mais para tranqüilizar do que para ame­</p><p>drontar os discípulos. Devemos lembrar que a execução de João Batista</p><p>havia ocorrido recentemente e que eles estavam prestes a iniciar seus</p><p>trabalhos missionários dentro dos domínios do tirano sob cujo coman­</p><p>do o bárbaro assassinato havia sido cometido. Não há dúvida de que</p><p>esses homens humildes, que estavam prestes a assumir e repetir a mensa­</p><p>gem de João Batista — “Arrependam-se” — não corriam nenhum risco</p><p>de sofrer o mesmo destino; mas era natural que devessem sentir medo e</p><p>também natural que seu Mestre se preocupasse com o futuro deles quando</p><p>tais receios se tornassem menos imaginários; na verdade, nessas duas</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 131</p><p>situações teria sido natural dizer: “Perigos se aproximam, mas não te­</p><p>nham medo”.</p><p>Em essência, esse é o ônus da segunda parte das instruções de Cris­</p><p>to aos seus doze discípulos. O dever na primeira parte, por outro lado, é</p><p>apenas “não se p r e o c u p em Essas palavras, não se preocupem, ou não te­</p><p>mam, representam a alma e o cerne de tudo o que foi dito, como forma</p><p>de introdução ao primeiro empreendimento missionário e, podemos</p><p>acrescentar, a todos os que se seguiram. Pois aqui Jesus está se dirigindo</p><p>a todas as eras e a todos os tempos, dizendo à igreja qual deve ser o</p><p>espírito que deve prevalecer e permanecer em todas as suas realizações</p><p>missionárias, para que possam receber as suas bênçãos.</p><p>I ) O dever de, sem quaisquer cuidados, participar dessa missão,</p><p>confiando apenas na providência para as necessidades da vida, foi incul-</p><p>cado nos doze discípulos pelo Mestre através de termos muito fortes e</p><p>cheios de entusiasmo. Eles foram instruídos a nada providenciar para</p><p>sua jornada, e ir exatamente como estavam. Não deviam providenciar</p><p>ouro nem prata, nem levar nenhuma moeda de cobre em sua bolsa, ne­</p><p>nhuma sacola ou alforje para carregar alimentos, nenhuma mudança de</p><p>trajes, nem mesmo sandálias para os pés ou um bastão para as mãos. Se</p><p>por acaso já tivessem alguns desses artigos mencionados, não haveria</p><p>problema; caso contrário, poderiam muito bem passar sem eles. Poderi­</p><p>am ir descalços em sua missão de amor, sem mesmo a ajuda de um</p><p>bastão para se apoiar ao longo de seu fatigante caminho, tendo os pés</p><p>calçados somente com a preparação do evangelho da paz e apoiando seu</p><p>peso nas palavras da promessa de Deus: “E a tua força será como os teus</p><p>dias”30.</p><p>Não é nessas simples palavras, mas nas instruções para o caminho,</p><p>que reside o seu espírito pleno de valor intrínseco e permanente. A ver­</p><p>dade dessa afirmação encontra-se evidente nas próprias variações dos</p><p>evangelistas ao relatar as palavras de Cristo. Uma delas, por exemplo</p><p>(Marcos), nos diz que, na verdade, Jesus queria dizer aos seus discípulos:</p><p>Se você tem um bastão em suas mãos e sandálias em seus pés e um</p><p>manto sobre os ombros, isso bastará. Outro (Mateus) representa o se­</p><p>guinte significado nas palavras de Jesus: Nada prepare para essa viagem,</p><p>nem manto, sapato ou bastão31. Em espírito, essas duas versões levam à</p><p>132 0 Treinamento dos Doze</p><p>mesma recomendação; mas se insistirmos na exatidão legal dos termos</p><p>dos procedimentos, parecerá que existe uma óbvia contradição entre eles.</p><p>O que Jesus queria dizer, em qualquer forma de linguagem que usasse,</p><p>era o seguinte: Vão imediatamente, da maneira que estão, e não se preo­</p><p>cupem com alimento ou vestuário, ou qualquer outra necessidade do</p><p>corpo; para isso confie em Deus. Suas instruções procediam do princí­</p><p>pio da divisão do trabalho, confiava deveres militares aos servos do reino</p><p>e a Deus o comissariado ou a intendência.</p><p>Assim entendidas, as palavras de nosso Senhor têm uma permanen­</p><p>te validade, para ser conservada na mente de todos aqueles que o servem</p><p>em seu reino. E, embora as circunstâncias da igreja tenham se alterado</p><p>imensamente desde o dia em que essas palavras foram proferidas pela</p><p>primeira vez, elas não devem ser perdidas de vista. Muitos ministros e</p><p>missionários obedeceram a essas instruções quase ao pé da letra e muitos</p><p>mais as têm guardado em seu espírito. Na verdade, não teria cada pobre</p><p>estudante seguido essas determinações, abandonando o humilde teto de</p><p>seus pais para ser treinado como ministro do evangelho, sem dinheiro no</p><p>bolso para comprar alimento ou pagar taxas, trazendo no coração so­</p><p>mente a simples fé e esperança da juventude, sem saber como encontrar</p><p>o caminho</p><p>para o trabalho pastoral, assim como Abraão nada sabia de</p><p>seu caminho para a terra prometida quando deixou a sua terra? Mas,</p><p>assim como Abraão, confiava que Deus, que lhe havia dito para deixar a</p><p>casa de seus pais, seria seu guia, seu escudo e seu provedor. E, se aquele</p><p>que assim começasse em sua carreira chegasse, por fim, a um lugar de</p><p>riquezas, no qual suas necessidades seriam abundantemente atendidas,</p><p>não teria sido isso a providência endossando a lei enunciada pelo Mes­</p><p>tre: “Digno é o operário do seu alimento”?32</p><p>As instruções dadas aos doze discípulos, em relação às coisas tem­</p><p>porais de sua primeira missão, tiveram a intenção de educá-los para seu</p><p>futuro trabalho. No início dos deveres do apostolado, eles deveriam,</p><p>literalmente, viver pela fé e Jesus, misericordiosamente, procurou</p><p>acostumá-los a esse hábito enquanto ainda estava ao lado deles na terra.</p><p>Portanto, ao enviá-los a pregar na Galiléia, Ele realmente estava dizendo:</p><p>Vão e aprendam a buscar o reino de Deus com um coração simples,</p><p>despreocupado com alimentos ou vestuário; pois até que possam fazê-lo</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 133</p><p>não estarão prontos para ser meus apóstolos. Na verdade, eles tinham</p><p>estado aprendendo a fazer isso assim que começaram a seguir Jesus; pois</p><p>aqueles que pertenciam à sua companhia viviam, literalmente, do dia-a-</p><p>dia, sem pensar no amanhã. Mas havia uma diferença entre a sua condi­</p><p>ção passada e a condição que estavam prestes a vivenciar. Até esse mo­</p><p>mento Jesus tinha estado com eles; agora, durante um período, estariam</p><p>por sua própria conta. Antes, tinham sido como as criancinhas de uma</p><p>família, sob os cuidados de seus pais, ou como pássaros recém-nascidos</p><p>em um ninho, protegidos pelas asas da mãe, precisando apenas abrir</p><p>bastante a boca para serem alimentados; agora haviam se tornado como</p><p>meninos que deixam a casa de seu pai para servir como aprendizes, ou</p><p>como as pequenas aves que deixam seu tépido ninho, onde eram prote­</p><p>gidas, para treinar suas asas e procurar alimento por conta própria.</p><p>Enquanto pedia a seus discípulos que caminhassem pela fé, Jesus</p><p>lhes dava essa fé como algo em que pudessem se apoiar, encorajando-os</p><p>a esperar que aquilo que não pudessem prover por sua conta, Deus pro­</p><p>veria através da instrumentalidade de seu povo. “E, em qualquer cidade</p><p>ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno e</p><p>hospedai-vos aí até que vos retireis”33. Observamos que o Senhor estava</p><p>dizendo que, em qualquer lugar, sempre seria encontrado pelo menos</p><p>um homem que fosse justo e de coração bondoso, que iria receber os</p><p>mensageiros do reino em sua casa e em sua mesa somente por puro amor</p><p>a Deus e à verdade. Certamente, essa não era uma suposição exagerada!</p><p>Não haveria sequer uma aldeia miserável, para não dizer uma cidade,</p><p>que não tivesse uma pessoa digna. Mesmo a pecadora Sodoma tinha Ló</p><p>vivendo dentro de seus muros, um homem capaz de receber anjos sem</p><p>Para assegurar um bom tratamento a seus mensageiros, em todas as</p><p>eras, e em qualquer lugar que seu evangelho fosse pregado, Jesus disse</p><p>que havia colocado uma recompensa em todos os atos de bondade que</p><p>lhes fossem feitos. Esse aviso pode ser encontrado ao final do discurso</p><p>proferido aos doze discípulos nessa época: “Quem vos recebe”, Ele lhes</p><p>disse, “a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me</p><p>enviou. Quem recebe um profeta na qualidade de profeta receberá galardão</p><p>de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo”. Então, com</p><p>134 0 Treinamento dos Doze</p><p>mais solenidade e compaixão, Ele acrescentou: "E qualquer que tiver</p><p>dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome</p><p>de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu</p><p>galardão”34. Como devia ser fácil ir à Galiléia, e até a todo o mundo,</p><p>servindo a um Mestre tão compreensivo, e nestes termos!</p><p>No entanto, embora encorajando dessa forma os jovens evangelistas,</p><p>Jesus não lhes permitiu partir levando a idéia de que tudo seria agradável</p><p>em sua experiência. Procurou fazê-los entender que poderiam ser da</p><p>mesma forma bem ou mal recebidos. Poderiam encontrar pessoas rudes</p><p>ou sovinas que lhes negariam sua hospitalidade e pessoas estúpidas e</p><p>indiferentes que iriam rejeitar sua mensagem; mas, mesmo nesses casos,</p><p>Ele lhes assegurou que não ficariam desprovidos de consolo. Se sua pa­</p><p>cífica saudação não fosse correspondida eles iriam, em qualquer circuns­</p><p>tância, gozar dos proveitos de seu próprio espírito de boa vontade, pois</p><p>sua paz lhes seria devolvida. Se suas palavras não fossem bem recebidas</p><p>por nenhuma pessoa a quem tivessem pregado, pelo menos estariam li­</p><p>vres de culpa, e poderiam sacudir o pó de suas sandálias e dizer: “O</p><p>vosso sangue seja sobre a vossa cabeça; eu estou limpo e, desde agora,</p><p>parto...”35. Palavras solenes, mas muito apropriadas, que não deveriam</p><p>ser proferidas, especialmente por discípulos jovens e inexperientes, com</p><p>orgulho, impaciência ou rancor, mas com calma, humildade e delibera­</p><p>ção, como parte da mensagem de Deus aos homens. Quando enunciadas</p><p>com qualquer outro espírito elas são um sinal de que o pregador tem</p><p>tanta culpa quanto o ouvinte pela rejeição da mensagem. Poucos têm o</p><p>direito de dizer essas palavras, pois elas exigem uma pregação verdadei­</p><p>ramente fora do comum, que torne a falta dos descrentes tão grande que</p><p>seria mais tolerável em Sodoma e Gomorra no dia do juízo, do que para</p><p>eles. Mas tal pregação aconteceu. Assim era a pregação de Cristo e, por­</p><p>tanto, era esse o temível destino que anunciou àqueles que rejeitassem as</p><p>suas palavras. Também essa seria a pregação dos apóstolos; dessa forma,</p><p>para sustentar sua autoridade, Jesus declarou solenemente que o castigo</p><p>por desprezar as palavras dos mensageiros seria igual ao de negligenciar</p><p>a sua própria palavra36.</p><p>2 ) As demais instruções, que se referem mais ao futuro que ao pre­</p><p>sente, embora mais abundantes não exigem uma explicação mais prolon-</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 135</p><p>gada. O objetivo de todas elas, como já dissemos, é não temer. Tal como o</p><p>refrão de uma canção, essa exortação é repetida muitas vezes durante o</p><p>discurso37. A partir desse fato, os doze apóstolos devem ter concluído</p><p>que seu destino devia ter uma qualidade própria de lhes inspirar o medo.</p><p>Mas Jesus não deixou que aprendessem isso através de uma simples</p><p>inferência; tendo toda a história da igreja sob seus olhos, Ele lhes disse</p><p>claramente: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos”. Em</p><p>seguida, começou a explicar em detalhes, e com espantosa nitidez, as</p><p>várias formas de perigo que aguardavam os mensageiros da verdade; como</p><p>seriam entregues a conselhos, flagelados nas sinagogas, levados perante</p><p>governantes e reis (como Félix, Festo e Herodes) e odiados por todos</p><p>por causa de seu nome38. Ele explica que esse estranho tratamento era,</p><p>ao mesmo tempo, inevitável pela natureza das coisas e a necessária con­</p><p>seqüência da verdade divina atuando no mundo como um solvente quí­</p><p>mico, que separava os homens em grupos, de acordo com o espírito que</p><p>os estivessem dominando. A verdade iria dividir até os membros de uma</p><p>mesma família, tornando-os dolorosamente hostis uns contra os ou­</p><p>tros39; e, embora o resultado pudesse ser deplorável, seria um daqueles</p><p>para o qual não existe remédio. Ofensas deveriam acontecer: “Não</p><p>cuideis”, disse aos seus discípulos, horrorizados com esse quadro tene­</p><p>broso, talvez esperando secretamente que seu Mestre o tivesse pintado</p><p>com cores demasiado sombrias, “que vim trazer a paz à terra; não vim</p><p>trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem con­</p><p>tra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra. E, assim,</p><p>os inimigos do homem serão os seus familiares”40.</p><p>Entre tais perigos, duas virtudes seriam especialmente necessárias</p><p>— a precaução e a fidelidade; a primeira para que os servos de Deus não</p><p>fossem eliminados precoce ou desnecessariamente; a segunda para que</p><p>pudessem, enquanto vivessem, fazer realmente a obra de Deus</p><p>e lutar</p><p>pela verdade. Nessa época, os discípulos de Cristo não deviam sentir</p><p>medo, mas ser bravos e destemidos; no entanto, embora destemidos, não</p><p>deviam ser imprudentes. Essas qualidades não são fáceis de combinar</p><p>pois homens escrupulosos tendem a ser impetuosos e homens prudentes</p><p>a ser infiéis. Mas, essa combinação não é impossível, de outro modo não</p><p>teria sido exigida, como nesse discurso. Pois foi exatamente a importân-</p><p>136 O Treinamento dos Doze</p><p>cia de se cultivar virtudes aparentemente incompatíveis, como o cuidado</p><p>e a fidelidade, que Jesus teve a intenção de ensinar por meio do notável</p><p>provérbio-preceito: “Sede prudentes como as serpentes e símplices como</p><p>as pombas”41. A serpente é o emblema da astúcia e a pomba, o da sim­</p><p>plicidade. Não existem criaturas tão diferentes; no entanto, Jesus exige</p><p>que seus discípulos sejam ao mesmo tempo como uma serpente na pre­</p><p>caução e como uma pomba na simplicidade de seu objetivo e na pureza</p><p>de seu coração. Felizes aqueles que podem ser ambas, mas se não puder­</p><p>mos, sejamos, pelo menos, como as pombas. A pomba deve ter prece­</p><p>dência em relação à serpente em nosso amor próprio e no desenvolvi­</p><p>mento de nosso caráter. Essa ordem pode ser observada na história de</p><p>todos os verdadeiros discípulos. Eles começam com uma impecável sin­</p><p>ceridade mas, depois de serem enganados por um generoso entusiasmo e</p><p>assim levados a algum ato de impetuosidade, aprendem a tempo as vir­</p><p>tudes da serpente. Se invertermos essa ordem, como muitos fazem, e</p><p>começarmos por ser prudentes e criteriosos até causar admiração, o re­</p><p>sultado será que a virtude de maior valor não será apenas adiada, mas</p><p>sacrificada. A pomba será devorada pela serpente e a causa da virtude e</p><p>da justiça será traída pelo principio básico do instinto da preservação e</p><p>das vantagens mundanas.</p><p>Ao ouvir esse anúncio de máxima moral podemos, naturalmente,</p><p>desejar conhecer como ela se aplica a casos particulares. Cristo atendeu</p><p>a esse desejo em relação a essa máxima profunda e fecunda: “Sede pru­</p><p>dentes como as serpentes e símplices como as pombas” dando exemplos</p><p>de sua aplicação. O primeiro caso a ser imaginado foi aquele dos mensa­</p><p>geiros da verdade serem levados perante tribunais civis ou eclesiásticos</p><p>para responder por si mesmos. Aqui, o ditado da sabedoria é: “Acautelai-</p><p>vos, porém, dos homens”42, isto significa algo como: Não sejam tão</p><p>simples a ponto de imaginar que todos os homens sejam bons, sinceros,</p><p>justos e tolerantes. Lembrem-se de que existem lobos no mundo —</p><p>homens cheios de malícia, falsidade e desonestidade, capazes de inventar</p><p>as acusações mais atrozes contra vocês baseadas nas mais descaradas men­</p><p>tiras. Fiquem longe de suas armadilhas, se puderem; e, se caírem em suas</p><p>mãos, não esperem deles sinceridade, justiça ou generosidade”. Mas como</p><p>devemos responder a esses homens? Será que a astúcia deve ser respondi-</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 137</p><p>da com astúcia, e mentiras com mentiras? Não: aqui é a hora da simpli­</p><p>cidade da pomba. A esperteza e a astúcia não trazem benefícios nessa</p><p>hora; a segurança reside em confiar na orientação do céu e em dizer a</p><p>verdade. “Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como ou o</p><p>que haveis de falar, porque, naquela mesma hora, vos será ministrado o</p><p>que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de</p><p>[ vosso Pai é que fala em vós”43. O conselho dado aos apóstolos foi justi­</p><p>ficado pela experiência. Que esplêndido livro poderia ter sido feito com</p><p>a coleção dos discursos pronunciados pelos confessores da verdade, sob a</p><p>inspiração do espírito divino! Seria uma espécie de Bíblia dos Mártires.</p><p>Em seguida, Jesus apresenta a questão dos arautos de seu Evangelho</p><p>serem expostos à perseguições populares e mostra como superar esse</p><p>obstáculo. Tais perseguições, muito diferentes dos procedimentos jurí­</p><p>dicos, eram muito comuns na experiência apostólica e representaram um</p><p>fato concreto em todas as eras críticas. O populacho ignorante e supers­</p><p>ticioso, repleto de preconceitos e malícia, e instigado por homens</p><p>astuciosos, exerce o papel de obstruir a causa da verdade, tumultuando,</p><p>escarnecendo e atacando os mensageiros de Deus. Como, então, deveri­</p><p>am agir os receptores desse vil tratamento? Por um lado, deveriam mos­</p><p>trar a sabedoria da serpente evitando a tempestade da maldade da mul­</p><p>tidão quando ela se apresentasse e, por outro, deveriam exibir a simplici­</p><p>dade da pomba, dando maior publicidade à sua mensagem, embora cons­</p><p>cientes do risco a que estavam se expondo. “Quando, pois, vos persegui­</p><p>rem nesta cidade, fugi para outra”44. Ainda assim, intrépidos diante do</p><p>clamor da multidão, da calúnia e da violência: “O que vos digo em tre­</p><p>vas, dizei-o em luz; e o que escutais ao ouvido, pregai-o sobre os telha­</p><p>dos”45.</p><p>A cada uma dessas injunções foi anexada uma razão. A fuga foi</p><p>justificada pela observação: “Em verdade vos digo que não acabareis de</p><p>percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do Homem”46. A</p><p>vinda, aqui sendo aludida, refere-se à destruição de Jerusalém e à disper­</p><p>são da nação judaica; seu significado é que os apóstolos teriam pouco</p><p>tempo, antes da catástrofe se abater, para visitar toda a terra advertindo</p><p>o povo a se salvar da condenação da geração rebelde, não podendo, por­</p><p>tanto, permanecer em qualquer localidade depois de seus habitantes te-</p><p>138 0 Treinamento dos Doze</p><p>rem ouvido e rejeitado a sua mensagem. As almas de todos eram igual­</p><p>mente preciosas e, se uma cidade não recebesse a palavra, talvez outra a</p><p>recebesse47. A razão anexada a essa determinação, isto é, de dar a maior</p><p>publicidade à verdade apesar de todos os possíveis perigos, é a seguinte:</p><p>“Não é o discípulo mais do que o mestre, nem é o servo mais do que o</p><p>seu senhor”48. Isto quer dizer: ser maltratado pela multidão ignorante e</p><p>violenta é muito difícil de suportar, mas não seria mais difícil para vós</p><p>do que foi para mim que, como sabeis, já experimentei a malícia popular</p><p>em Nazaré e fui destinado, como ainda não sabeis, a sofrer uma experi­</p><p>ência ainda mais amarga em Jerusalém. Portanto, cuidai de não esconder</p><p>os vossos talentos para escapar da ira de homens cruéis, dos lobos.</p><p>Por último, os discípulos deveriam enfrentar o perigo não só de</p><p>acusações, escárnio e violência, mas até de sua vida, e foram instruídos</p><p>sobre como deveriam agir nessa situação extrema. A máxima: “Pruden­</p><p>tes como as serpentes e símplices como as pombas” poderia ser aplicada</p><p>a ambas situações. Nesse caso, a prudência da serpente significa saber o</p><p>que se deve temer. Jesus lembra aos seus discípulos que existem dois</p><p>tipos de morte, uma que é causada pela espada e a outra pela infidelida­</p><p>de ao dever; e lhes diz que, na verdade, embora ambas sejam vícios a</p><p>serem evitados, quando possível, ainda assim deve ser feita uma escolha,</p><p>pois a última forma de morte é aquela que deve ser a mais temida. “E</p><p>não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei,</p><p>antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”. E,</p><p>quando alguém está em perigo o tentador sussurra: “Salva-te a ti mes­</p><p>mo, com o sacrifício dos princípios e da consciência”49. A simplicidade</p><p>da pomba, na presença de perigos extremos, consiste em sua infantil</p><p>confiança na vigilante providência do Pai celestial. Em linguagem sim­</p><p>ples Jesus exortou os discípulos a cuidar com carinho dessa confiança.</p><p>Ele lhes disse que Deus cuida até dos pássaros e lembrou que, por mais</p><p>insignificantes que pensassem ser, teriam, pelo menos, mais valor que</p><p>muitos pássaros, para não dizer mais que dois, cujo valor monetário era</p><p>de apenas um “ceitil”. Se Deus cuida até de uma dupla de pássaros,</p><p>providenciando para eles um lugar em seu mundo onde pudessem cons­</p><p>truir um ninho e, com segurança, criar os seus rebentos, não iria Ele</p><p>cuidar de seus discípulos quando partissem, dois a dois, para pregar a</p><p>Primeiras Tentativas de Evangelização 139</p><p>doutrina do reino? Claro que sim! Pois até o número de fios de cabelo de</p><p>sua cabeça havia sido contado.</p><p>Portanto, podiam partir sem temor, con­</p><p>fiando a vida ao seu cuidado, lembrando-se também que, na pior hipó­</p><p>tese, a morte não seria um mal assim tão grande, pois para o fiel havia</p><p>sido reservada a coroa da vida e, para aqueles que confessassem o Filho</p><p>do Homem, Ele os confessaria diante de seu Pai no céu50.</p><p>Tais foram as instruções de Jesus aos doze discípulos quando os</p><p>enviou para pregar e curar. Foi um discurso raro e único que parece,</p><p>atualmente, muito estranho aos ouvidos das pessoas modernas, que mal</p><p>podem imaginar que tais severas determinações tenham sido feitas com</p><p>seriedade e até cumpridas na íntegra. Essa é a nossa atitude em relação a</p><p>este primeiro sermão missionário: é como uma montanha à qual olha­</p><p>mos admirados de uma posição muito abaixo, sem sequer imaginar po­</p><p>der subir até o seu cume. Entretanto, algumas pessoas nobres já fizeram</p><p>essa árdua ascensão e, dentre elas, os primeiros lugares de honra devem</p><p>ser reservados aos companheiros escolhidos por Jesus Cristo.</p><p>1 eskulmenoi, Mateus 9.36 — A interpretação preferida pelos estudiosos é esfoladas, molestadas. A idéia sugerida</p><p>aqui é a de ovelhas cuja lã foi ferida por espinhos.</p><p>2 Mateus 9.37</p><p>3 Mateus 10.6,23</p><p>4 Marcos 6.14; Lucas 9.7</p><p>5 Herodes residia emTiberíades</p><p>6 Lucas 9.6, kata tas kòtnas — “aldeias”</p><p>7 Mateus 10.5</p><p>8 Mateus 15.24</p><p>9 João 9.7-24</p><p>10 Marcos 16.15</p><p>11 Lucas 9.54. Alguns imaginaram que as restrições procediam da limitação do próprio objetivo de Cristo. Mas</p><p>se seu objetivo tivesse sido limitado, como se supôs, não haveria qualquer menção a restrições e nenhuma necessi­</p><p>dade delas, pois os discípulos nunca pensariam em ir até os samaritanos ou gentios para pregar e curar.</p><p>12 Mateus 10.7-8</p><p>13 Marcos 6.14 — “O nome de Jesus se tornara notório” (phaneron egeneto)</p><p>14 João 6.15</p><p>13 Esse é o nome dado, geralmente, ao reino em Mateus, diferente dos outros evangelistas que empregam a</p><p>expressão “Reino de Deus”. Não deixa de ser um fato curioso esse Evangelho em hebraico usar, dessa forma, a</p><p>designação mais espiritual para o Remo.</p><p>16 Marcos 6.31-32</p><p>17 Marcos 6.33</p><p>18 Compare Marcos 6.30-35 com João 6.22-25</p><p>19 Lucas 10.1</p><p>20 Veja a nona nota do capítulo 4.</p><p>21 Lucas 10.17-21</p><p>22 “Thoughts on Revival”, Parte I, seção iii.</p><p>140 O Treinamento dos Doze</p><p>23 Mateus I I .12</p><p>24 Lucas 10.17</p><p>25 Lucas 10.20</p><p>26 Marcos 6.31</p><p>27 “Thoughts on Revival", Parte iv.</p><p>2S Mateus 7.22-23. Veja opiniões semelhantes àquelas afirmadas acima, em Thoughts on Revival, de Edwards, Parte</p><p>ii, seção ii.</p><p>29 João 16.4</p><p>30 Deuteronômio 33.25</p><p>31 O primeiro evangelista pode ser comparado ao segundo quando põem ênfase na palavra “prover” (me ktêsêsthe).</p><p>Veja Alford, in loco</p><p>32 Mateus 10.10</p><p>33 Mateus 10. II</p><p>34 Mateus 10.40-42</p><p>35 Atos 18.6</p><p>36 Mateus 10.15</p><p>37 Mateus 10.26,28,31</p><p>38 Mateus 10.16-18</p><p>39 Mateus 10.21</p><p>40 Mateus 10.34-36</p><p>41 Mateus 10.16</p><p>42 Mateus 10.17</p><p>43 Mateus 10.19-20</p><p>44 Mateus 10.23</p><p>45 Mateus 10.27</p><p>46 Mateus 10.23</p><p>47 Paulo e Barnabé agiram segundo esse princípio em Antioquia da Pisídia. Atos 13.46</p><p>4S Mateus 10.24-25</p><p>49 Mateus 10.28. Tem sido muito discutido a quem isso se refere — a Deus ou a Satanás. Poderia ser a qualquer</p><p>um dos dois: a Deus como Juiz, ou a Satanás como tentador. Preferimos a segunda opção.</p><p>30 Mateus 10.32-33</p><p>9</p><p>A Crise da Galiléia</p><p>Seçao I - O Milagre</p><p>João 6 .I-I5 ; Mateus 14 .13 -2 1 ; Marcos 6.33-34; Lucas 9 .I I -I 7</p><p>O capítulo 6 do Evangelho de João está repleto de acontecimentos.</p><p>Ele nos fala de um grande milagre, de um grande entusiasmo, de uma</p><p>grande tempestade, de um grande sermão, de uma grande apostasia e de</p><p>uma grande provação de fé e fidelidade sofrida pelos doze discípulos.</p><p>Ele contém, na verdade, a história resumida de uma importante crise</p><p>ocorrida no ministério de Jesus, e da experiência religiosa de seus discí­</p><p>pulos — uma crise que, em muitos aspectos, prenunciava o grande final</p><p>que iria acontecer pouco mais de um ano depois1, quando um milagre,</p><p>muito mais famoso, foi sucedido por uma grande popularidade que, por</p><p>sua vez, foi acompanhada por uma deserção ainda mais completa, para</p><p>terminar na crucificação, através da qual o mistério do discurso de</p><p>Cafarnaum foi esclarecido e sua profecia cumprida2.</p><p>Os fatos registrados por João nesse capítulo de seu Evangelho po­</p><p>dem ser entendidos sob quatro títulos: o milagre no deserto, a tempesta­</p><p>de no lago, o sermão na Sinagoga e o subseqüente exame meticuloso dos</p><p>discípulos de Cristo. Seguindo essa ordem, propomos que eles sejam</p><p>considerados em quatro seções distintas.</p><p>A cena do milagre aconteceu na margem oriental do mar da Galiléia.</p><p>Lucas fixa precisamente o local como sendo nas vizinhanças de uma</p><p>cidade chamada Betsaida3. Essa cidade, com certeza, não podia ser a</p><p>Betsaida da margem ocidental, a cidade de André e Pedro. Mas havia,</p><p>segundo parece, uma outra cidade com o mesmo nome na extremidade</p><p>nordeste do lago que, para se diferenciar da primeira, tinha o nome de</p><p>Betsaida Julias4. Somos informados, através de uma testemunha ocular,</p><p>142 0 Treinamento dos Doze</p><p>que era v i s ív e l a l o ca l iz a çã o d e s sa c i d a d e na fa lda in f e r i o r da m on ta n h a</p><p>que se projetava sobre a rica planície situada na desembocadura do rio</p><p>Jordão (isto é, o lugar onde as águas do curso superior do Jordão unem-</p><p>se ao mar da Galiléia). O “lugar deserto”, continua o mesmo autor,</p><p>tentando provar a conveniência do local como cena desse milagre, “foi</p><p>ou o verde planalto que se estende sobre a colina imediatamente acima</p><p>de Betsaida ou alguma parte do planalto não cultivada pela mão do</p><p>homem, onde poderia ser encontrado o capim mais verde, ainda com o</p><p>frescor da primavera do ano em que ocorreu esse evento, antes de desva­</p><p>necer sob o sol do verão: o capim alto que, esmagado debaixo dos pés de</p><p>milhares de pessoas que ali haviam se reunido, fazia como se houvesse</p><p>leitos onde pudessem se reclinar”5.</p><p>A procura de repouso e privacidade, foi para esse lugar que Jesus,</p><p>acompanhado por seus discípulos, se retirou após o retorno de sua mis­</p><p>são. Mas não conseguiram encontrar o que buscavam. Seus movimentos</p><p>eram observados e as pessoas, em bandos, dirigiam-se ao longo da praia</p><p>em direção ao lugar onde deviam desembarcar. E elas corriam, como se</p><p>estivessem temerosas de que fossem se retirar, de tal forma que chegaram</p><p>ao seu destino muito antes deles6. A multidão que havia se reunido em</p><p>volta de Jesus era muito grande. Todos os evangelistas concordam que</p><p>era formada por mais de cinco mil pessoas e, como elas haviam se distri­</p><p>buído em grupos de cinqüenta e de cem7 para serem milagrosamente</p><p>alimentadas, torna-se mais fácil calcular o seu número e aceitar essa afir­</p><p>mação, não como uma estimativa grosseira, mas como um cálculo cuja</p><p>precisão é bastante aceitável.</p><p>Essa imensa assembléia dá provas da grande emoção que tomou</p><p>conta das populações que viviam junto às praias do mar da Galiléia. Um</p><p>entusiasmo fervoroso, uma adoração a um herói, da qual Jesus era o</p><p>objeto, operava em suas mentes. Jesus era o herói do momento: o povo</p><p>não conseguia suportar sua ausência, não se cansava de seu trabalho e</p><p>não queria deixar de ouvir os seus ensinos (M t 15.32). Podemos consi­</p><p>derar esse entusiasmo dos galileus como sendo o resultado cumulativo</p><p>das próprias atividades anteriores de Cristo e, em parte, também da mis­</p><p>são evangelística analisada no último capítulo deste livro8. Parece que</p><p>essa contagiosa emoção havia se estendido em direção ao sul, até</p><p>A Crise da Galiléia 143</p><p>Tiberíades, porque João relata que barcos, procedentes dessa cidade,</p><p>chegaram ao “lugar onde comeram o pão”9. Aqueles que estavam nesses</p><p>barcos chegaram demasiado tarde para testemunhar o milagre e partici­</p><p>par da festa, mas isso não é prova de que sua incumbência fosse diferente</p><p>daquela dos demais espectadores pois, devido à grande distância que os</p><p>separava desse local, gastaram mais tempo para chegar e as notícias leva­</p><p>ram mais tempo para alcançá-los.</p><p>O grande milagre realizado nas vizinhanças de Betsaida Julias con­</p><p>sistiu em alimentar esse imenso aglomerado</p><p>saber dos incidentes aqui relatados,</p><p>se realmente tivessem conhecimento dos mesmos, somente por interme­</p><p>diários. No suposto caso, não é de se estranhar que João, em seus últi­</p><p>mos momentos, tenha se lembrado com emoção da primeira vez que viu</p><p>o verbo encarnado, e considerado as lembranças mínimas daquele mo­</p><p>mento de preciosidade ímpar. Os primeiros encontros são sagrados, as­</p><p>sim como os últimos, especialmente quando são seguidos de uma histó­</p><p>ria significativa, e acompanhados, como é apropriado ao caso, com pres­</p><p>ságios proféticos do futuro1. Tais presságios não estavam ligados ao pri­</p><p>meiro encontro de Jesus com os cinco discípulos. Não foi João Batista</p><p>quem primeiro deu a Jesus o nome de “Cordeiro de Deus”, descrevendo</p><p>tão precisamente sua missão e destino na terra? Não foi a pergunta du­</p><p>vidosa de Natanael: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” um pressá­</p><p>gio indicando um conflito e a descrença que aguardavam o Messias? E</p><p>que bom presságio aquele da chegada de uma nova era de milagres a</p><p>serem realizados através da graça divina e do poder contidos na promes­</p><p>sa de Jesus aos israelitas, embora a princípio duvidosos: “Daqui em di­</p><p>ante, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o</p><p>Filho do Homem!”</p><p>Pode ser considerado como certo que João, o escritor do quarto</p><p>Evangelho, realmente tenha sido o quinto discípulo cujo nome não foi</p><p>mencionado. Este é o seu estilo, ao longo de seu Evangelho: quando se</p><p>referia a si próprio, usava perífrases, ou deixava em branco, como aqui, o</p><p>lugar onde deveria constar o seu nome. Dos discípulos que ouviram João</p><p>Batista chamar Jesus de Cordeiro de Deus, provavelmente um fosse o</p><p>próprio evangelista, e o outro fosse André, irmão de Simão Pedro2.</p><p>As impressões produzidas em nossas mentes por essas pequenas</p><p>passagens da infância do Evangelho devem ser pequenas, quando com­</p><p>paradas às emoções despertadas pela memória delas no peito do velho</p><p>apóstolo, por quem foram registradas. De qualquer modo, não seria</p><p>possível creditar nem à nossa inteligência, nem à nossa piedade um exa-</p><p>0 Princípio 17</p><p>me dessa página da história evangélica, inalterada, como se fosse total­</p><p>mente destituída de interesse. Devemos nos dirigir ao estudo dessa sim­</p><p>ples história com um pouco do sentimento com que os homens fazem</p><p>peregrinações a locais sagrados; por que de fato o solo é sagrado.</p><p>O cenário das ocorrências sobre o qual estamos falando é a região</p><p>da Peréia, nas margens do Jordão, na região mais baixa do seu curso. As</p><p>pessoas que aparecem em cena eram todas nativas da Galiléia, e sua pre­</p><p>sença aqui deve-se à fama do notável homem, cujo ofício era ser o pre­</p><p>cursor de Cristo. João, chamado de Batista, que havia passado sua juven­</p><p>tude no deserto como um ermitão, vivendo de mel silvestre e gafanho­</p><p>tos, vestido com pêlos de camelo, saiu de seu retiro, e apareceu diante</p><p>dos homens como um profeta de Deus. O conteúdo de sua profecia era:</p><p>“Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Em um curto</p><p>período de tempo, muitos foram atraídos de todos os cantos para vê-lo</p><p>e ouví-lo. Daqueles que se reuniam para ouvir sua pregação, um grande</p><p>número se foi da mesma forma como tinha vindo; mas não eram poucos</p><p>os que estavam profundamente impressionados e, confessando os seus</p><p>pecados, submetiam-se ao batismo nas águas do Jordão. Daqueles que</p><p>foram batizados, um número seleto formou um círculo de discípulos ao</p><p>redor da pessoa de João Batista, dentre os quais pelo menos dois, e pro­</p><p>vavelmente todos os cinco homens mencionados pelo evangelista. A con­</p><p>versão anterior por intermédio de João Batista despertou nesses discípu­</p><p>los um desejo de ver Jesus, e os preparou para crer nele. Em sua comuni­</p><p>cação com as pessoas ao seu redor, João freqüentemente fazia alusões</p><p>"Aquele” que viria depois dele. Ele falou da vinda dessa pessoa em uma</p><p>linguagem peculiar, de modo a despertar grandes expectativas. Ele se</p><p>referiu a si próprio em relação ao que estava por vir, como sendo uma</p><p>mera voz no deserto, clamando: “Preparai o caminho do Senhor”. Em</p><p>uma outra ocasião ele disse: “E eu, em verdade, vos batizo com água,</p><p>para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso</p><p>do que eu; não sou digno de levar as suas sandálias; ele vos batizará com</p><p>o Espírito Santo e com fogo”. Esse grandioso homem não era outro</p><p>senão o Messias, o Filho de Deus, o Rei de Israel.</p><p>Tais discursos, por parte do homem de Deus que os proferiu, pro­</p><p>vavelmente teriam como resultado o fato de os discípulos de João Batista</p><p>18 O Treinamento dos Doze</p><p>deixarem-no para seguir Jesus. E aqui vemos, na verdade, o início do</p><p>processo de transição. Não afirmamos que as pessoas aqui mencionadas</p><p>tenham se privado da companhia de João Batista na ocasião para se tor­</p><p>narem, a partir de então, seguidores regulares de Jesus. Mas aqui tem</p><p>início um conhecimento que no final levará esses homens a seguirem ao</p><p>Senhor. A noiva é apresentada ao noivo, e o casamento se dará na devida</p><p>estação; não para o pesar, mas para a alegria do amigo do Noivo3.</p><p>Com que facilidade e simplicidade a noiva mística, representada</p><p>pelos cinco discípulos, se familiarizou com o Noivo! A importância des­</p><p>se encontro é idílica pela simplicidade, e somente seria danificada por</p><p>um comentário. Não há necessidade de uma apresentação formal: todos</p><p>se apresentam uns aos outros. Nem mesmo João e André foram formal­</p><p>mente apresentados a Jesus por João Batista; eles mesmos se apresenta­</p><p>ram. A exclamação do profeta do deserto ao ver Jesus: “Eis o Cordeiro</p><p>de Deus, que tira o pecado do mundo!” repetida de uma forma abrevia­</p><p>da no dia seguinte, foi uma elocução involuntária de alguém absorto em</p><p>seus próprios pensamentos, e não o discurso deliberado de alguém que</p><p>estava orientando seus discípulos a deixarem-no e a seguirem Aquele de</p><p>quem ele falava. Os dois discípulos, por outro lado, em sua partida rumo</p><p>àquele cuja presença havia sido tão largamente anunciada, não estavam</p><p>obedecendo à ordem dada por seu velho mestre; estavam simplesmente</p><p>seguindo a ordem dos sentimentos que foram despertados dentro deles</p><p>por tudo o que o ouviram dizer a respeito de Jesus, tanto no presente</p><p>como em outras ocasiões. Eles não precisavam de uma injunção para</p><p>buscar o conhecimento daquele por quem se sentiam tão profundamen­</p><p>te interessados: tudo o que precisavam saber era que esse era Ele. Esta­</p><p>vam ansiosos para ver o Rei Messiânico da mesma forma que o mundo</p><p>está ansioso para ver a face de um príncipe secular.</p><p>E natural que devamos examinar cuidadosamente a narrativa dos</p><p>Evangelhos para encontrar indicações referentes àqueles que, no modo</p><p>tão singularmente descrito, viram Jesus pela primeira vez. Pouco tem</p><p>sido dito sobre os cinco discípulos, mas esse pouco é suficiente para</p><p>demonstrar que eram todos homens piedosos. O que encontraram em</p><p>seu novo amigo indica o que queriam encontrar. Evidentemente, eles</p><p>pertenciam a um grupo seleto que esperava pela consolação de Israel, e</p><p>0 Princípio 19</p><p>procuravam avidamente por Aquele que cumpriria as promessas de Deus</p><p>e as expectativas de todas as almas devotas. Além dessa indicação geral</p><p>do caráter contido em sua confissão comum de fé, alguns poucos fatos</p><p>são relatados a respeito desses primeiros crentes em Jesus que nos levam</p><p>a saber mais sobre eles. Provavelmente todos tenham sido discípulos de</p><p>João Batista (dois deles com certeza foram). Este fato é decisivo em</p><p>relação à sua seriedade moral. De tal região ninguém, além dos homens</p><p>que eram espiritualmente sinceros, poderia possivelmente surgir. Se to­</p><p>dos os seguidores de João fossem de alguma forma como ele, seriam</p><p>homens famintos e sedentos pela verdadeira justiça, fartos dos “justos”</p><p>populares de então. Disseram amém em seus corações à exposição do</p><p>pregador dos desertos, sobre o vazio existente na profissão religiosa e da</p><p>inutilidade das obras de então, e suspiravam por uma santidade que esta­</p><p>va além da superstição farisaica e da ostentação; suas consciências reco­</p><p>nheciam a verdade do oráculo profético: “Todos</p><p>de seres humanos com os</p><p>recursos extremamente limitados, constituídos por “cinco pães de ceva­</p><p>da e dois peixinhos”10. Era, na realidade, uma estupenda transação, da</p><p>qual não conseguimos sequer elaborar uma idéia; no entanto, nenhum</p><p>evento da história do Evangelho é mais satisfatoriamente comprovado.</p><p>Todos os evangelistas relatam esse milagre com muitas minúcias e com</p><p>discrepâncias aparentemente insignificantes, mas com tantos detalhes</p><p>gráficos que ninguém, a não ser testemunhas oculares, poderiam ter for­</p><p>necido. Até João, que registra tão poucos milagres de Cristo, descreve</p><p>esse evento com o mesmo cuidado e perícia que qualquer um de seus</p><p>irmãos evangelistas, apesar de introduzi-lo em sua narrativa meramente</p><p>como um prefácio ao sermão do “Pão da Vida” que é encontrado apenas</p><p>em seu Evangelho.</p><p>Falando do episódio em que Jesus multiplicou o pão para alimentar</p><p>mais de cinco mil pessoas, essa obra maravilhosa, tão trivialmente com­</p><p>provada, parece estar sujeita a uma objeção sob outros aspectos. Ela pa­</p><p>rece ter sido um milagre realizado sem uma razão suficiente. Não pode­</p><p>mos dizer que ele tivesse sido urgentemente exigido pelas necessidades</p><p>da multidão. Não há dúvida de que as pessoas estavam famintas e que</p><p>não haviam trazido consigo nenhuma provisão para atender às necessi­</p><p>dades físicas. Mas o milagre foi realizado na tarde do mesmo dia em que</p><p>haviam deixado suas casas e a maioria delas poderia ter retornado dentro</p><p>de algumas poucas horas. Realmente, teria sido um pouco difícil empre­</p><p>ender tal jornada ao fim do dia sem ter ingerido qualquer alimento, mas</p><p>essa provação, ainda que necessária, estaria longe dos limites da tolerân­</p><p>cia humana. Mas esse não era o caso, pois alimentos poderiam ser en­</p><p>contrados pelo caminho, sem terem que procurar muito longe, nas vilas</p><p>144 0 Treinamento dos Doze</p><p>e cidades vizinhas, portanto, dispersá-los do jeito como estavam não</p><p>teria envolvido qualquer desconforto considerável. Isso se torna eviden­</p><p>te nos termos que os discípulos empregam para oferecer a sugestão de</p><p>que a multidão devia ser dispensada. Lemos: “E já o dia começava a</p><p>declinar; então, chegando-se a ele os doze, disseram-lhe: Despede a mul­</p><p>tidão, para que, indo aos campos e aldeias ao redor, se agasalhem e achem</p><p>o que comer”11. A esse respeito, existe uma óbvia diferença entre a. primei­</p><p>ra distribuição milagrosa de alimentos e a segunda, que ocorreu um pouco</p><p>mais tarde na extremidade sudeste do lago. Nessa ocasião, a multidão</p><p>que havia se reunido ao redor de Jesus havia passado três dias no deserto,</p><p>sem nada para comer, e não existiam instalações onde pudessem obter</p><p>alimento, portanto, esse milagre foi realizado para atender a considera­</p><p>ções de ordem humana12. Por conseguinte, entendemos que a compai­</p><p>xão foi o motivo desse milagre: “Naqueles dias, havendo mui grande</p><p>multidão e não tendo o que comer, Jesus chamou a si os seus discípulos</p><p>e disse-lhes: Tenho compaixão da multidão, porque há já três dias que</p><p>estão comigo e não têm o que comer. E, se os deixar ir em jejum para</p><p>casa, desfalecerão no caminho, porque alguns deles vieram de longe”13.</p><p>Se o nosso objetivo fosse meramente nos livrar da dificuldade de</p><p>atribuir um motivo suficiente ao primeiro grande milagre de alimentar a</p><p>multidão, poderíamos nos satisfazer dizendo que Jesus não precisava de</p><p>nenhuma ocasião muito urgente que o induzisse a usar seu poder em</p><p>benefício dos outros. Em seu próprio beneficio, Ele não usaria esse po­</p><p>der, mesmo em casos de extrema necessidade, nem mesmo depois de ter</p><p>jejuado durante quarenta dias. Mas, quando o bem-estar de outros estava</p><p>envolvido (para não dizer a própria sobrevivência dessas pessoas), Ele dis­</p><p>tribuía bênçãos milagrosas com toda a liberalidade. Ele não se pergun­</p><p>tou: "Seria essa uma situação suficientemente séria para o uso do poder</p><p>divino? Será que esse homem está suficientemente doente a ponto de se</p><p>justificar uma milagrosa interferência nas leis da natureza para curá-lo?</p><p>Será que essas pessoas que aqui se reuniram estão suficientemente fa­</p><p>mintas para serem alimentadas, como seus pais o foram no deserto, com</p><p>o pão vindo do céu?” Mas não iremos insistir nesse ponto, pois acredita­</p><p>mos que alguma outra coisa, muito mais elevada, estava sendo premedi­</p><p>tada nesse milagre e não uma simples satisfação de um apetite físico. Foi</p><p>A Crise da Galiléia 145</p><p>um milagre simbólico, didático e crítico. Ele tinha o propósito de ensinar,</p><p>e também de testar, de fornecer um texto para o sermão subseqüente e</p><p>de ser uma pedra de toque para experimentar o caráter daqueles que o</p><p>tinham seguido com tanto entusiasmo. A festa milagrosa no deserto</p><p>tinha a intenção de dizer à multidão exatamente o que a Ceia do Senhor</p><p>também nos diz: “Eu, Jesus, o Filho Encarnado de Deus, sou o Pão da</p><p>vida. Sou, para a sua alma, o que esse pão é para o seu corpo”. E aqueles</p><p>que participaram dessa festa foram testados pela maneira como conside­</p><p>raram o episódio. Aqueles que fossem espirituais veriam nela um sinal</p><p>da divindade e dignidade de Cristo e um selo de sua graça salvadora; os</p><p>carnais se contentariam apenas com a aparência exterior de terem se</p><p>alimentado de pães a ponto de ficarem satisfeitos, e aproveitariam o</p><p>acontecido para dar vazão a elevadas esperanças de felicidade temporal</p><p>sob o reinado benigno daquele Profeta e Rei que havia ensejado o seu</p><p>aparecimento entre eles.</p><p>Sob esse aspecto, o milagre no deserto não foi simplesmente um ato</p><p>de misericórdia, mas um ato de julgamento. Jesus, em sua misericórdia,</p><p>alimentou a multidão faminta a fim de poder analisá-la cuidadosamente</p><p>e separar os discípulos verdadeiros dos espúrios. Havia uma necessidade</p><p>muito maior para essa separação do que simplesmente fornecer alimen­</p><p>to para satisfazer prementes necessidades físicas. Se toda aquela multi­</p><p>dão de pessoas se revelasse como discípulos genuínos, tudo estaria bem;</p><p>caso contrário, se um grande número de pessoas estivesse seguindo a</p><p>Cristo levadas por uma motivação equivocada — quanto mais cedo isso</p><p>se tornasse aparente, melhor. Permitir que uma multidão tão grande e</p><p>heterogênea o seguisse por mais tempo, sem fazer essa separação, teria</p><p>sido, da parte de Cristo, uma forma de encorajar falsas esperanças e dar</p><p>origem a sérios mal-entendidos em relação à natureza de seu reino e de</p><p>sua missão terrena. E não havia melhor método de separar o joio do</p><p>trigo, a fim de poder identificar um grande número de discípulos fiéis,</p><p>do que realizar, antes de tudo, um milagre para trazer à tona a carnalidade</p><p>latente nesse conjunto de pessoas e, em seguida, pregar um sermão que</p><p>não deixaria de ser ofensivo a qualquer mente carnal ou mundana.</p><p>Parece estar claramente sugerido nas narrativas do Evangelho que</p><p>Jesus preferiu, por razões próprias, um método milagroso de atender à</p><p>146 O Treinamento dos Doze</p><p>dificuldade que havia surgido. Nesse contexto, consideremos por exem­</p><p>plo a anotação feita por João a respeito daquele tempo: “E estava próxi­</p><p>ma a Páscoa dos judeus”. Seria essa uma afirmação meramente cronoló­</p><p>gica? Acreditamos que não. Que outros propósitos, então, teria ela a</p><p>intenção de servir? Explicar como uma multidão tão grande havia se</p><p>reunido em volta de Jesus? — Tal explicação não teria sido necessária,</p><p>pois a verdadeira razão dessa assembléia era o entusiasmo despertado</p><p>entre as pessoas pelas pregações e pelas curas realizadas por Jesus e pelos</p><p>doze discípulos. Parece que o evangelista se referiu à Páscoa que se apro­</p><p>ximava não para explicar o movimento das pessoas, mas para explicar os</p><p>atos e as palavras de seu Senhor que seriam relatadas em seguida. “E</p><p>estava próxima a Páscoa dos judeus, e...” — em outras palavras, o signi­</p><p>ficado das palavras de João seria: “Jesus estava pensando nela, embora</p><p>não fosse dela participar naquele ano”. Ele pensava no cordeiro pascoal</p><p>e como Ele, o verdadeiro Cordeiro Pascoal, seria antecipadamente sacri­</p><p>ficado para dar vida ao mundo, e Ele deu uma expressão exterior aos</p><p>profundos pensamentos de seu coração no milagre relatado,</p><p>e no discur­</p><p>so espiritual que a ele se seguiu14.</p><p>A posição que defendemos, a respeito da razão do milagre no deser­</p><p>to, também parece estar confirmada pelo tom adotado por Jesus na con­</p><p>versa que teve com os discípulos sobre como as necessidades da multi­</p><p>dão poderiam ser atendidas. No curso dessa conversação, cujos frag­</p><p>mentos foram conservados pelos diferentes evangelistas, duas sugestões</p><p>foram apresentadas pelos discípulos. Uma delas era dispensar a multi­</p><p>dão para que as pessoas pudessem, elas mesmas, procurar seus supri­</p><p>mentos; e a outra consistia em eles (os discípulos) irem até a cidade mais</p><p>próxima (digamos Betsaida Julias, que provavelmente não estivesse mui­</p><p>to distante) para comprar quanto pão fosse necessário para, pelo menos,</p><p>aliviar a fome, já que não poderiam satisfazer todo o apetite de tão gran­</p><p>de multidão15. Essas duas propostas eram factíveis, caso contrário não</p><p>teriam sido apresentadas, pois os doze discípulos não falavam impensa­</p><p>damente, mas depois de muitas considerações, como se pode perceber</p><p>pelo fato de um deles, André, já ter calculado, aproximadamente, quanto</p><p>seria necessário para alimentar a multidão. E evidente que a dúvida sobre</p><p>como a multidão poderia ser atendida havia estado preocupando a men-</p><p>A Crise da Galiléia 147</p><p>te dos discípulos, e as duas propostas eram o resultado dessas delibera­</p><p>ções. Agora, o que queremos salientar é que não parece que Jesus tenha</p><p>dispensado uma atenção muito séria a qualquer uma delas. Ele as ouviu,</p><p>sem mostrar desagrado ao ver a generosa preocupação de seus discípulos</p><p>pelas pessoas famintas, mas com o ar de quem está primeiramente dis­</p><p>posto a perseguir uma linha de ação diferente das que foram sugeridas.</p><p>Ele se comportou como um general em um conselho de guerra cuja</p><p>decisão já foi tomada, mas que está disposto a ouvir o que seus subordi­</p><p>nados têm a dizer. Essa não é uma simples inferência nossa, porque João</p><p>realmente explica que essa era a maneira como o nosso Senhor agia nes­</p><p>sas ocasiões. Depois de relatar que Jesus dirigiu a Felipe a seguinte per­</p><p>gunta: “Onde compraremos pão, para estes comerem?”, o evangelista</p><p>acrescenta uma observação: “Mas dizia isso para o experimentar; por­</p><p>que ele bem sabia o que havia de fazer”16.</p><p>Esse, portanto, foi o propósito do milagre — mas qual foi então o</p><p>seu resultado? Ele levantou, até o seu apogeu, uma maré túrgida de entu­</p><p>siasmo e induziu a multidão a dar formas a um propósito insensato e</p><p>perigoso — o de coroar Jesus, o realizador de maravilhas, e fazer dele</p><p>seu rei, em lugar de Herodes, déspota e libertino. Diziam: “Este é, ver­</p><p>dadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo. Sabendo, pois, Jesus</p><p>que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele</p><p>só, para o monte”17. Estas são afirmações expressas contidas no quarto</p><p>Evangelho e o que está nele contido também está obscuramente implíci­</p><p>to nas narrativas de Mateus e de Marcos. Elas dizem como, depois do</p><p>milagre no deserto, Jesus ordenou imediatamente a seus discípulos que en­</p><p>trassem no barco e fossem para o outro lado18. Mas, por que tanta pres­</p><p>sa, tanta urgência? Não há dúvida de que já era tarde e que não havia</p><p>tempo a perder se desejassem chegar na mesma noite às suas casas em</p><p>Cafarnaum. Mas, por que ir para casa, quando toda a multidão, ou pelo</p><p>menos uma parte dela, ia passar a noite no deserto? Será que os discípu­</p><p>los não tinham a obrigação de ficar ao seu lado, preocupando-se e cui­</p><p>dando das pessoas? Mas, se aceitassem partir, não seria uma falta de</p><p>responsabilidade deixar o Mestre sozinho em tal situação? Não há dúvi­</p><p>da de que a relutância dos discípulos se originava dessa mesma pergunta</p><p>que faziam a si mesmos e, como esse sentimento tinha uma razão muito</p><p>148 0 Treinamento dos Doze</p><p>apropriada, a obrigação imposta a eles pressupõe a existência de circuns­</p><p>tâncias pouco comuns, como aquelas registradas por João. Em outras</p><p>palavras, a explicação mais natural para o fato registrado nos resumos</p><p>dos evangelistas sinópticos é que Jesus desejava livrar tanto a si como aos</p><p>seus discípulos do insensato entusiasmo da multidão, um entusiasmo</p><p>com o qual, sem qualquer dúvida, os discípulos haviam se simpatizado</p><p>demasiadamente. Por essa razão, providenciou que atravessassem o lago</p><p>durante o crepúsculo, enquanto Ele se retirava para a solidão das monta­</p><p>nhas19.</p><p>Que resultado melancólico de um movimento tão promissor existe</p><p>aqui! O reino havia sido proclamado e as Boas Novas haviam sido exten­</p><p>sivamente bem recebidas. Para a entusiástica multidão, Jesus, o Rei</p><p>Messiânico, havia se tornado objeto da mais fervorosa devoção. Porém,</p><p>que infelicidade! Suas idéias sobre o reino estavam radicalmente equivo­</p><p>cadas. Se colocadas em prática iriam trazer rebelião e uma imensa des­</p><p>graça. Portanto, era necessário que Jesus se retirasse da companhia de</p><p>seus amigos, e se ocultasse de seus próprios seguidores. Com que certeza</p><p>as ervas daninhas de Satanás são semeadas junto com o trigo do Senhor!</p><p>Com que facilidade o entusiasmo se converte em insensatez e prejuízos!</p><p>O resultado do milagre não pegou Jesus de surpresa. Era exatamen­</p><p>te o que Ele esperava; em certo sentido, era o que Ele estava mesmo</p><p>pretendendo. Havia chegado o momento em que seriam revelados os</p><p>pensamentos de muitos corações, e a certeza de que o milagre iria cola­</p><p>borar com essa revelação foi, pelo menos, uma das razões dele ter sido</p><p>cuidadosamente executado. Ao povo, Jesus havia dado uma mesa no de­</p><p>serto, fornecendo pão e peixe em abundância20, a fim de poder</p><p>experimentá-los e conhecer o que traziam em seus corações21 — isto é,</p><p>saber se o amavam por Ele ser quem era ou para alcançarem as vantagens</p><p>mundanas que esperavam. Ele sabia de antemão que muitos o seguiam</p><p>por interesse, mas desejava esclarecer esse fato perante suas próprias cons­</p><p>ciências. O milagre deu-lhe essa oportunidade e permitiu-lhe dizer, sem</p><p>encontrar contradições: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais</p><p>não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes”22.</p><p>Essa era uma mensagem própria de uma investigação que poderia, muito</p><p>bem, ser colocada perante todos os seus professos seguidores, não so-</p><p>A Crise da Galiléia 149</p><p>mente naqueles tempos, mas também agora, como um exame de consci­</p><p>ência, que levasse cada homem a perguntar a si mesmo: “Por que profes­</p><p>so o cristianismo? Será que tenho uma fé sincera em Jesus Cristo como o</p><p>Filho de Deus e Salvador do mundo, ou será por qualquer impensada</p><p>submissão à tradição, respeito à própria reputação ou mesmo por apreço</p><p>a qualquer vantagem mundana?”</p><p>Seção II - A Tempestade</p><p>Mateus 15.24-33; Marcos 6.45-52; Joao 6.16-21</p><p>“Em perigos no deserto, em perigos no mar” escreveu Paulo, ao</p><p>descrever as várias dificuldades que encontrara no desenvolvimento de</p><p>seu grande trabalho como apóstolo dos gentios. Tais dificuldades tam­</p><p>bém são encontradas nesse momento decisivo da vida de Jesus. Ele tinha</p><p>acabado de se salvar do perigoso entusiasmo manifestado pela desatina­</p><p>da multidão, depois do repasto no deserto. E, agora, algumas horas mais</p><p>tarde, um desastre ainda maior ameaçava desabar sobre Ele. Seus doze</p><p>discípulos escolhidos, que ele havia rapidamente colocado em um barco,</p><p>para que não pudessem encorajar as pessoas em seu absurdo projeto,</p><p>foram colhidos por uma tempestade e estavam na iminência de se afogar,</p><p>enquanto Ele permanecia, sozinho, orando na montanha. Seu plano para</p><p>escapar de um perigo o havia exposto a um perigo ainda maior e parece</p><p>que, como se por uma associação de infortúnios, Ele ficaria privado, de</p><p>uma só vez, de todos os seus seguidores, tanto os verdadeiros como os</p><p>falsos, e deixado completamente a sós, tal como mais tarde aconteceria</p><p>na última grande crise. O Rei messiânico, observando daquelas alturas</p><p>como um general no dia de batalha, estava na verdade se sentindo muito</p><p>angustiado, como se ela estivesse sendo travada contra Ele. Mas o capi­</p><p>tão da salvação estava à altura da emergência e, por mais extremo que</p><p>fosse o problema naquela</p><p>situação, Ele seria vitorioso no final.</p><p>O mar da Galiléia, embora seja um pequeno lençol de água, com</p><p>cerca de vinte e um quilômetros de comprimento por onze de largura,</p><p>está sujeito a ser visitado por repentinas rajadas de vento e chuvas, que</p><p>provavelmente se devam à sua localização. Ele está situado em um pro­</p><p>fundo vale de origem vulcânica, cercado por todos os lados por acentu­</p><p>ados aclives de montanhas que se elevam cerca de trezentos a seiscentos</p><p>150 O Treinamento dos Doze</p><p>metros acima do nível da água. A diferença de temperatura entre o cume</p><p>e a base dessas montanhas é bastante considerável. Nos planaltos acima</p><p>o ar é fresco e estimulante, mas nas margens do lago, que se encontram</p><p>duzentos metros abaixo do nível do oceano, o clima é tropical. As tem­</p><p>pestades causadas por essa disparidade de temperatura são violentas e</p><p>próprias desse clima. Elas chegam varrendo as ribanceiras e, em um dado</p><p>momento, a superfície do lago, antes lisa como vidro, cobre-se de ponta</p><p>a ponta por espumas brancas, enquanto as ondas se elevam no ar em</p><p>grandes colunas23.</p><p>Esses homens haviam enfrentado duas tempestades de vento depois</p><p>de se tornarem discípulos de Jesus e, provavelmente, no mesmo ano; a</p><p>primeira, que estamos considerando nesse momento, e uma outra tem­</p><p>pestade anterior, por ocasião de sua visita a Gadara24. Ambas acontece­</p><p>ram durante a noite e foram extremamente violentas. Quanto à primeira,</p><p>somos informados que o barco foi coberto pelas ondas a ponto de quase</p><p>soçobrar e os discípulos temeram por suas vidas. A segunda foi igual­</p><p>mente violenta e durou um tempo bem maior. Aparentemente ela atin­</p><p>giu os discípulos quando estavam na metade do caminho e depois que o</p><p>crepúsculo havia se convertido na escuridão da noite. Nessa ocasião o</p><p>vento soprou com força contínua até o amanhecer, durante a quarta</p><p>vigília, entre as três e as seis horas da manhã. Podemos ter uma idéia da</p><p>fúria das rajadas de vento pelo fato registrado de que ainda estavam a</p><p>pouco mais da metade do caminho nesse mar. Ao todo supõe-se que</p><p>tivessem remado o equivalente a uma distância de apenas cinco a seis</p><p>quilômetros25 em diagonal desde a margem oriental até a margem oci­</p><p>dental que tem aproximadamente onze quilômetros. Empregando todas</p><p>as suas forças, eles haviam, durante essas horas extenuantes, feito pouco</p><p>mais do que se segurar contra o vento e as ondas.</p><p>O que Jesus fazia enquanto tudo isso estava acontecendo? Na pri­</p><p>meira tempestade, Ele tinha estado no mesmo barco com os seus discí­</p><p>pulos, dormindo docemente depois das fadigas do dia, “embalado no</p><p>berço das imperiosas ondas”. Dessa vez, estava ausente e não estava dor­</p><p>mindo, mas sozinho, no alto das montanhas, e em vigília para orar, por­</p><p>que Ele também tinha sua própria luta naquela noite tempestuosa, não</p><p>contra os ventos que uivavam, mas contra pensamentos repletos de tris-</p><p>A Crise da Galiléia 151</p><p>teza. Naquela noite, Ele estava, por assim dizer, sentindo uma parte da</p><p>agonia do Getsêmani e, com fervorosa oração e profunda meditação,</p><p>pensava no sermão da paixão que pregaria no dia seguinte. Tão absorta</p><p>estava sua mente com tão tristes pensamentos que, por um instante, era</p><p>como se os pobres discípulos tivessem sido esquecidos até que, por fim,</p><p>no despertar da aurora e olhando em direção ao mar26, Ele os viu fatiga­</p><p>dos a remar contra os fortes ventos. Sem esperar sequer um momento, o</p><p>Senhor apressou-se e correu para salvá-los.</p><p>Essa tempestade no mar da Galiléia, além de ser um importante</p><p>fato histórico, também possui a importância de um emblema. Quando</p><p>pensamos no momento em que ela ocorreu, torna-se impossível deixar</p><p>de conectá-la em nossos pensamentos com os eventos adversos do dia</p><p>seguinte. Pois, literalmente falando, a tempestade que caiu sobre as águas</p><p>foi seguida por uma tempestade espiritual sobre a terra, igualmente vio­</p><p>lenta e repentina, e não menos perigosa para as almas dos doze discípu­</p><p>los do que a outra havia sido para os seus corpos. A embarcação que</p><p>continha a carga preciosa dos verdadeiros discípulos de Cristo foi, então,</p><p>surpreendida por uma repentina lufada de impopularidade que desceu</p><p>sobre eles tal como uma rajada de vento sobre um lago cercado por</p><p>montanhas, e que quase os desnorteou totalmente. A multidão incons­</p><p>tante, que no dia anterior teria transformado Jesus em seu rei, abrupta­</p><p>mente afastou-se dele cheia de desapontamento e repulsa, e não foi sem</p><p>esforço, como bem veremos27 que os doze discípulos conseguiram man­</p><p>ter a sua firmeza. Tiveram que remar fortemente contra o vento e as</p><p>ondas para não serem levados precipitadamente à desgraça pelo furacão</p><p>da apostasia.</p><p>Existem poucas dúvidas de que as duas tempestades — sobre o lago</p><p>e sobre a terra — tão próximas uma da outra, ficariam associadas na</p><p>memória dos apóstolos; e que a tempestade literal ficaria estereotipada</p><p>em suas mentes como um símbolo muito expressivo de uma tempestade</p><p>espiritual e de todas as semelhantes provações da fé. Os incidentes da­</p><p>quela temível noite — a vigília, a tempestade, a labuta inútil em meio ao</p><p>mar, a fadiga, o terror e o desespero — permaneceriam indeléveis em</p><p>sua memória como a representação simbólica de todos os perigos e tri-</p><p>bulações que os crentes devem enfrentar em seu caminho para o Reino</p><p>152 0 Treinamento dos Doze</p><p>dos céus, especialmente daqueles que se abateriam sobre eles enquanto</p><p>ainda fossem imaturos na fé. A importância simbólica pode ser especial­</p><p>mente percebida através de três características. A tempestade aconteceu</p><p>durante a noite; na ausência de Jesus e, enquanto durou, todo o progresso ficou</p><p>impedido. Tempestades no mar podem acontecer a qualquer hora do dia,</p><p>mas as provações da fé sempre acontecem à noite. Se não houvesse escu­</p><p>ridão não haveria provações. Se os doze discípulos tivessem entendido o</p><p>discurso de Cristo em Cafarnaum, a apostasia da multidão teria lhes</p><p>parecido um assunto de menor importância. Mas eles não o compreen­</p><p>deram, daí a solicitude de seu Mestre para que também eles não o aban­</p><p>donassem. Durante tais provações, a sensação da ausência do Senhor</p><p>também é uma característica constante e das mais dolorosas. Não enxer­</p><p>gamos a presença de Cristo no barco quando a tempestade ruge à noite</p><p>e avançamos lentamente porque, assim acreditamos, remamos sem a aju­</p><p>da de sua graça, sem a alegria de sua presença espiritual. O mesmo acon­</p><p>teceu com os doze discípulos no dia seguinte, na praia. Seu Mestre, até</p><p>então presente perante seus olhos, havia desaparecido da visão de seu</p><p>entendimento. Eles não gozavam mais do conforto de compreender o</p><p>seu significado, como acontecia antes quando se apegavam a Ele como o</p><p>Senhor que tinha as palavras da vida eterna. Pior ainda, nessas provações</p><p>da fé, apesar de todo o nosso esforço ao remar, não fazemos nenhum</p><p>progresso, e o máximo que conseguimos é nos manter no meio do mar e</p><p>afastados das margens acidentadas. Felizmente isso já é alguma coisa; na</p><p>verdade, é tudo. Pois nem sempre é verdade que se não progredimos</p><p>estamos caminhando para trás. Esse é um adágio que só serve para oca­</p><p>siões de tempo firme. Em tempos de tempestade existe algo que é per­</p><p>manecer imóvel e, então, tudo que se puder fazer será uma grande con­</p><p>quista. Afinal de contas, será que não representa muito resistir à tempes­</p><p>tade, manter-se longe dos rochedos, das areias e da arrebentação das</p><p>ondas? Não atormente a alma de quem já se encontra suficientemente</p><p>atormentado por ventos cortantes e retalhado por aforismos aparente­</p><p>mente sábios sobre progresso e apostasia, indiscriminadamente aplica­</p><p>dos. Ao invés de representar assim o papel dos amigos de Jó, procure</p><p>lembrar às pessoas que a melhor coisa a fazer nessa situação é suportar,</p><p>manter-se imóvel, apoiar-se firmemente em sua integridade moral e em</p><p>A Crise da Galiléia 153</p><p>sua profissão de fé, mantendo-se afastado das margens da imoralidade e</p><p>da infidelidade; e assegure-lhes de que se conseguirem apenas remar um</p><p>pouco adiante, por mais cansados que estejam seus braços, Deus virá</p><p>para acalmar</p><p>o vento e, sem demora, alcançarão a terra.</p><p>Além de ser um apropriado símbolo das provações da fé, a tempes­</p><p>tade no lago representou uma importante lição de fé aos doze discípu­</p><p>los, ajudando a prepará-los para o futuro que os aguardava. A ausência</p><p>temporária do Mestre foi uma preparação para a sua ausência física. A</p><p>milagrosa intervenção de Jesus durante o momento de perigo foi prepa­</p><p>rada para imprimir em suas mentes a convicção de que, mesmo após a</p><p>sua ascensão, Ele ainda estaria com eles nas horas de perigo. A partir dó</p><p>feliz resultado de um plano, que durante algum tempo ameaçava malo­</p><p>grar, eles podiam daí em diante aprender a gozar de uma calma confian­</p><p>ça na direção de seu glorificado Senhor, mesmo em meio aos mais adver­</p><p>sos acontecimentos. Quando a tempestade chegou, eles provavelmente</p><p>concluíram que Jesus havia cometido um erro ao ordenar que atravessas­</p><p>sem o lago enquanto Ele permanecia naquele local para despedir a mul­</p><p>tidão. Os acontecimentos, entretanto, contrariaram esse precipitado juízo</p><p>e tudo terminou bem. A experiência adquirida nesse momento lhes ensi­</p><p>nou uma importante lição de vida, isto é, não concluir precipitadamente</p><p>que existe uma falta de direção ou negligenciar a parte que cabe a Cristo</p><p>nos infortúnios temporários, mas a ter uma sólida fé em sua sabedoria e</p><p>cuidado pela sua causa e pelo seu povo, e esperar um feliz resultado de</p><p>todas as perplexidades; e também de glorificar ao Senhor em meio às</p><p>tribulações tendo em vista o grande livramento que certamente virá a</p><p>seguir.</p><p>No entanto, por ocasião da tempestade os discípulos estavam longe</p><p>de possuir uma fé tão forte. No pensamento deles não havia a menor</p><p>expectativa de que Jesus viesse resgatá-los, pois quando Ele realmente</p><p>chegou, pensaram se tratar de um espírito esvoaçando sobre as águas e</p><p>gritaram possuídos pela agonia de um terror supersticioso. Podemos</p><p>também, de passagem, observar aqui uma curiosa correspondência entre</p><p>os incidentes desse momento de crise e aqueles associados aos momen­</p><p>tos finais. Assim como neste episódio não tinham a experiência de ver o</p><p>seu Senhor aproximar-se andando por cima das águas, no final também</p><p>154 0 Treinamento dos Doze</p><p>não esperavam vê-lo ressuscitado; portanto, sua reaparição inicialmente</p><p>os espantou e atemorizou, ao invés de confortá-los. “E eles, espantados</p><p>e atemorizados, pensavam que viam algum espirito”28. Bem, o inespera­</p><p>do, em ambos os casos, tornou-se um infortúnio; e o que para a fé teria</p><p>sido uma fonte de intensa alegria tornou-se, pela descrença, apenas um</p><p>novo motivo de alarme.</p><p>O fato de não estar sendo esperado parece ter imposto sobre Jesus a</p><p>necessidade de empregar um artifício à sua maneira de aproximar-se dos</p><p>discípulos, tão abalados pela tempestade. Marcos relata que Ele “queria</p><p>passar adiante deles”29, o que lhes pareceu estranho, assim entendemos,</p><p>por uma delicada consideração por sua fraqueza. Ele sabia de que ma­</p><p>neira iriam interpretá-lo à primeira vista, portanto desejava atrair sua</p><p>atenção a partir de uma distância segura temendo confundi-los, caso</p><p>aparecesse imediatamente entre eles. Ele achou necessário ser tão cuida­</p><p>doso ao anunciar seu advento para salvá-los como os homens estão acos­</p><p>tumados a ser cuidadosos ao comunicar suas más notícias. Primeiro apa­</p><p>recer como um espectro a uma distância suficiente para ser notado, e</p><p>depois revelar sua identidade, com voz familiar, pronunciando as se­</p><p>guintes palavras de conforto: “Sou eu; não temais”, para obter, por fim,</p><p>sua desejada recepção no barco30.</p><p>Os eventos que se seguiram à admissão de Jesus no barco denunci­</p><p>aram uma nova manifestação da fraqueza da fé dos doze discípulos. “E</p><p>o vento se aquietou; e, entre si, ficaram muito assombrados e maravilha­</p><p>dos”31. Eles não deveriam ter se espantado tanto depois do que havia</p><p>acontecido anteriormente nessas mesmas águas, especialmente depois</p><p>do milagre que havia sido realizado no dia anterior. Mas a tempestade</p><p>havia eliminado de suas mentes qualquer pensamento sobre essas coisas</p><p>e os transformado em pessoas completamente estúpidas, “pois não ti­</p><p>nham compreendido o milagre dos pães [nem o milagre de repreender a</p><p>fúria da natureza]; antes, o seu coração estava endurecido”32.</p><p>Mas a revelação mais interessante sobre o estado mental dos discí­</p><p>pulos no momento em que Jesus veio em seu socorro pode ser encontra­</p><p>da no episódio relacionado com Pedro e mencionado no Evangelho de</p><p>Mateus. Quando esse discípulo compreendeu que o suposto espectro</p><p>era seu amado Mestre, ele gritou: “Senhor, se és tu, manda-me ir ter</p><p>A Crise da Galiléia 155</p><p>contigo por cima das águas”33; e, ao receber essa permissão, ele imediata­</p><p>mente desceu do barco e andou sobre o mar. Isso não era uma manifes­</p><p>tação de fé, mas simplesmente precipitação. Foi a reação de uma impetu­</p><p>osa e precipitada natureza que acabara de sair do extremo de um total</p><p>desespero para o extremo oposto de uma alegria extravagante e temerá­</p><p>ria. Aquilo que nos outros discípulos assumiu a forma de uma humilde</p><p>disposição de receber Jesus no barco, depois que ficaram convencidos de</p><p>que era Ele que havia caminhado sobre as águas34, no caso de Pedro</p><p>assumiu a forma de um desejo romântico e aventureiro de ir até o lugar</p><p>onde Jesus se encontrava para recebê-lo de volta entre eles novamente. A</p><p>proposição feita era igual à sua pessoa — generosa, entusiasmada e bem-</p><p>intencionada, porém, imprudente.</p><p>E claro que sua proposta não podia encontrar a aprovação de Cris­</p><p>to, no entanto, ele não a negou. Pelo contrário, preferiu aceder ao desejo</p><p>do impulsivo discípulo convidando-o para aproximar-se dele no mar e,</p><p>em seguida, permitir que sentisse sua própria fraqueza. Isso iria ensiná-</p><p>lo a conhecer um pouco mais sobre si mesmo e, se possível, salvá-lo das</p><p>conseqüências de um temperamento demasiadamente impetuoso e con­</p><p>fiante. Mas Pedro não era homem capaz de adquirir mais sabedoria atra­</p><p>vés de uma única lição, nem mesmo através de muitas lições. Ele conti­</p><p>nuaria a cometer erros e a fazer tolices, apesar das admoestações e adver­</p><p>tências até cair, ao final, em grave pecado ao negar o Mestre a quem</p><p>tanto amava. Essa negativa, que ocorreu em um momento decisivo, era</p><p>exatamente o que se poderia esperar de alguém que havia se comportado</p><p>de tal maneira durante as crises menores que a precederam. O homem</p><p>que disse: “Manda-me ir ter contigo”, foi o mesmo que disse: “Senhor,</p><p>estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte”. Entre os demais discí­</p><p>pulos, aquele que se mostrara tão corajoso no cais, e tão temeroso entre</p><p>as ondas, era o único capaz de falar corajosamente quando o perigo se</p><p>mostrava distante e de agir como um covarde ao chegar o momento da</p><p>provação. A cena no lago foi apenas um presságio, ou mesmo um ensaio,</p><p>da queda de Pedro.</p><p>No entanto, essa cena mostrou alguma coisa além da fraqueza da fé</p><p>do discípulo. Mostrou também o que é possível àqueles que crêem. Se a</p><p>tendência de quem possui uma fé vacilante é afundar, a alegria de uma</p><p>156 0 Treinamento dos Doze</p><p>sólida fé é caminhar sobre as águas, glorificar a Deus nas tribulações e</p><p>considerá-la com exaltação quando exposto aos perigos enfrentados por</p><p>um mergulhador. E privilégio daqueles que são fracos na fé, mas um</p><p>dever de todos os que estão cientes da fragilidade humana, orar dizendo:</p><p>“Não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”. Mas quando as</p><p>tempestades acontecem, independentemente de nossa vontade, e quan­</p><p>do o navio afunda no meio do mar, então os cristãos devem confiar na</p><p>promessa: “Quando passares pelas águas, estarei contigo” e se tão-so­</p><p>mente tiverem fé, serão capazes de dominar os vagalhões que os cercam</p><p>como se estivessem caminhando sobre a terra firme.</p><p>Ele convida a me aproximar; eu conheço sua voz,</p><p>E, corajosamente, vou sobre as águas,</p><p>Intrépido ao encontro da tempestade.</p><p>Contra inclementes tentações estou agora determ inado;</p><p>Os vagalhões me oferecem um terreno firme,</p><p>E as ondas tornam -se firmes como rochas.</p><p>Seção III - O SERMÃO</p><p>João 6.32-58</p><p>A tarefa que agora se nos</p><p>apresenta é o estudo daquele memorável</p><p>discurso proferido por Jesus na sinagoga de Cafarnaum sobre o pão da</p><p>vida, que causou tanta celeuma na época e que, a partir de então, se</p><p>tornou um obstáculo, uma pedra de tropeço e a causa da divisão da</p><p>igreja visível que, até onde podemos julgar de suas atuais manifestações,</p><p>irá permanecer até o fim do mundo. Perante uma questão tão inquietan-</p><p>te como essa, relacionada com o significado desse discurso, podemos</p><p>muito bem recuar e nos abstermos de nela penetrar. Porém, a própria</p><p>confusão que aqui prevalece ind ica ser nosso m anifesto dever</p><p>desconsiderar o clamor das interpretações conflitantes e, orando humil­</p><p>demente para sermos ensinados por Deus, descobrirmos e estabelecer­</p><p>mos o próprio pensamento de Cristo.</p><p>O sermão sobre o pão da vida, por mais estranho que pareça, era</p><p>muito apropriado, em conteúdo e forma, às circunstâncias nas quais foi</p><p>proferido. Era natural e oportuno que Jesus falasse ao povo sobre a co­</p><p>mida que permanece para a vida eterna depois de ter, milagrosamente,</p><p>A Crise da Galiléia 157</p><p>providenciado alimento perecível para satisfazer às suas necessidades fí­</p><p>sicas. Era até mais natural e oportuno que Ele falasse sobre esse elevado</p><p>assunto usando o estilo severo, assustador e aparentemente duro que</p><p>adotou para essa ocasião. A forma do pensamento estava adequada à</p><p>situação. A época da Páscoa estava se aproximando, quando o cordeiro</p><p>pascoal era sacrificado e comido e, se Jesus desejava realmente dizer, mas</p><p>em poucas palavras: “Sou o verdadeiro Cordeiro Pascoal”, que forma</p><p>mais apropriada poderia empregar se não essa: “E o pão que eu der é a</p><p>minha carne, que eu darei pela vida do mundo?”. O estilo também se</p><p>adaptava ao aspecto peculiar dos sentimentos do orador naquele mo­</p><p>mento. Jesus estava dominado por uma disposição triste e austera quan­</p><p>do pregou esse sermão. O entusiasmo insensato da multidão o havia</p><p>entristecido e o desejo de forçar uma coroa sobre sua cabeça fez com que</p><p>pensasse em sua cruz; pois Ele sabia que essa idólatra devoção a um</p><p>Messias político, mais cedo ou mais tarde significaria a morte daquele</p><p>que declinasse tal homenagem carnal. Portanto, na sinagoga de</p><p>Cafarnaum, Ele falou tendo os olhos voltados para o calvário, declaran­</p><p>do-se como a vida do mundo em termos que podiam ser aplicados à</p><p>vítima de um sacrifício, cujo sangue é derramado e cuja carne é comida</p><p>por aqueles que apresentam a oferta, sem medir palavras, mas dizendo</p><p>tudo o que desejava, da maneira mais forte e intensa possível.</p><p>O tema desse discurso memorável foi introduzido muito natural­</p><p>mente pela conversação que o precedeu e que teve lugar entre Jesus e</p><p>pessoas recém-chegadas do outro lado do lago, que esperavam encontrá-</p><p>lo em Cafarnaum, onde Ele habitualmente residia35. As suas afetuosas</p><p>perguntas sobre quando havia chegado ali, Ele respondeu com uma ob­</p><p>servação pouco amigável relacionada com a verdadeira razão de seu zelo</p><p>e uma exortação para colocarem a alma em uma comida mais elevada do</p><p>que aquela que perece36. Entendendo essa exortação como um conselho</p><p>para cultivarem a piedade, as pessoas a quem ela foi dirigida pergunta­</p><p>ram o que deveriam fazer para poder realizar as obras de Deus, isto é,</p><p>para agradar a Deus37. Jesus, então, explicou dizendo que a grande obra</p><p>daquele momento era recebê-lo como aquele que havia sido enviado por</p><p>Deus38. Isso os levou a exigir alguma prova que pudesse consubstanciar</p><p>essa importante alegação de ser o Messias divinamente comissionado. O</p><p>158 O Treinamento dos Doze</p><p>milagre recém-realizado do outro lado do lago havia sido importante,</p><p>mas não era suficiente, assim pensavam, para justificar tais arrogantes</p><p>pretensões. Em tempos mais remotos, toda uma nação havia sido ali­</p><p>mentada por Moisés com pão vindo do céu. O que era o recente milagre</p><p>se comparado com aquele? Ele deveria mostrar um sinal que estivesse em</p><p>uma escala de grandeza muito maior, se desejava que acreditassem que</p><p>ali estava alguém muito mais importante que Moisés39. Jesus aceitou o</p><p>desafio e, corajosamente, declarou que o maná, por mais maravilhoso</p><p>que tivesse sido, não era realmente o verdadeiro pão do céu. Havia um</p><p>outro pão, do qual o maná era apenas um símbolo. Como o maná, Ele</p><p>também havia vindo do céu40, mas diferente dele, iria trazer a vida não a</p><p>uma nação, mas a todo o mundo, em todas as épocas, e não a vida para</p><p>apenas alguns poucos anos, mas a vida eterna. Essa proclamação, seme­</p><p>lhante àquela sobre a maravilhosa água da vida feita à mulher de Samaria,</p><p>fez despertar um desejo no coração de seus ouvintes e estes exclamaram:</p><p>“Senhor, dá-nos sempre desse pão”. E Jesus lhes respondeu: “Eu sou o</p><p>pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim</p><p>nunca terá sede”41.</p><p>Com essas palavras, Jesus enunciou de maneira sucinta a doutrina</p><p>do verdadeiro pão, que Ele expôs e repetiu em seu memorável discurso</p><p>em Cafarnaum. Essa doutrina, da maneira como foi exposta, estabelece</p><p>o que representa o verdadeiro pão, o que ele faz e como deve ser recebido.</p><p>1 ) 0 verdadeiro pão é Aquele que aqui fala sobre ele — isto é, Jesus</p><p>Cristo. “Eu sou o pão”. Essa assertiva implica, da parte do orador, a</p><p>alegação de ter descido do céu; pois essa descida representa uma das</p><p>propriedades pelas quais o verdadeiro pão é definido42. Em conformida­</p><p>de com ela, encontramos Jesus, na seqüência de seu discurso, afirmando</p><p>expressamente que Ele havia descido do céu43. Essa declaração, entendi­</p><p>da em um contexto sobrenatural, foi o primeiro ponto em seu discurso</p><p>que alguns ouvintes consideraram como um problema. “Murmuravam,</p><p>pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E</p><p>diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos?</p><p>Como, pois, diz ele: Desci do céu?”44. Era natural que murmurassem por</p><p>não saberem ou não acreditarem que havia alguma coisa fora do comum</p><p>na maneira como Jesus veio ao mundo. Pois a linguagem que Ele empre-</p><p>A Crise da Galiléia 159</p><p>gou não podia ser usada sem significar uma blasfêmia se proferida por</p><p>um simples homem nascido da mesma maneira que os outros homens.</p><p>Ela é uma linguagem adequada apenas nos lábios do ser divino que, com</p><p>um propósito, havia assumido a natureza humana.</p><p>Portanto, ao se declarar como o pão que havia descido do céu, Jesus</p><p>ensinou a doutrina da Encarnação. Essa solene assertiva: “Eu sou o pão</p><p>da vida” é equivalente, em importância, àquela feita pelo evangelista a</p><p>respeito dele, ao pronunciar as seguintes palavras: “E o Verbo se fez</p><p>carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito</p><p>do Pai, cheio de graça e de verdade”45.</p><p>Entretanto, não é meramente por ter encarnado que o Filho de Deus</p><p>é o pão da vida eterna. O pão deve ser partido para ser comido. Aquele</p><p>que encarnou deve morrer, como uma vítima oferecida em sacrifício,</p><p>para que os homens possam verdadeiramente se alimentar dele. O Verbo</p><p>tornando-se carne, e a carne sendo crucificada, representa a vida do</p><p>mundo. Jesus continuou a declarar essa verdade especial depois de ter</p><p>afirmado a verdade principal de que o pão celestial devia ser encontrado</p><p>nele mesmo. Ele disse: “O pão que eu der é a minha carne, que eu darei</p><p>pela vida do mundo”46. A linguagem aqui foi modificada para acompa­</p><p>nhar a nova linha de pensamento. “Eu sou” se torna “eu darei” e “pão”</p><p>se transforma em “carne”.</p><p>Jesus, evidentemente, está se referido à sua morte. Seus ouvintes não o</p><p>entenderam, mas não temos qualquer dúvida sobre esse assunto. Tanto o</p><p>verbo “dar”, que sugere um ato de sacrifício, como o uso do tempo futuro,</p><p>apontam nessa direção. Em palavras misteriosas e obscuras ditas antes</p><p>desse evento, claras como o dia depois dele, o orador declara a grande</p><p>verdade, que sua morte será a vida dos homens; que seu corpo despedaça­</p><p>do e seu sangue derramado serão como comida e bebida para um mundo</p><p>moribundo, conferindo a todos que participarem deles o dom da imorta­</p><p>lidade. Ele não explica aqui como iria morrer, e porque sua morte teria tais</p><p>virtudes. O discurso em Cafarnaum não menciona a cruz, não contém</p><p>nenhuma teoria de expiação, pois ainda não havia chegado o tempo para</p><p>tais detalhes. Ele simplesmente declara com termos fortes e universais que</p><p>a carne e o sangue do Filho de Deus encarnado, separados pela morte, são</p><p>a fonte da vida eterna.</p><p>160 O Treinamento dos Doze</p><p>Essa menção feita por Jesus à sua carne como o pão do céu deu ori­</p><p>gem a uma nova onda de murmúrios entre seus ouvintes: “Disputavam,</p><p>pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a</p><p>comer?”47. Jesus ainda não havia dito que sua carne deveria ser comida,</p><p>mas eles estavam certos de que isso era o que Ele queria dizer. Eles estavam</p><p>certos e, conseqüentemente, Ele continuou dizendo, com grande soleni­</p><p>dade e ênfase, que deveriam comer da sua carne e beber de seu sangue. Se</p><p>não o fizessem, não haveria vida neles mesmos; porém, fazendo assim,</p><p>teriam vida em toda a sua plenitude — uma vida eterna para a alma em</p><p>um corpo ressuscitado. Pois sua carne era verdadeiramente comida e seu</p><p>sangue, verdadeiramente bebida. Aqueles que dele se alimentassem iriam</p><p>participar de sua própria vida. Ele iria permanecer neles, incorporado em</p><p>seu próprio ser e eles iriam permanecer nele como o fundamento de sua</p><p>vida. Iriam viver com sua segurança contra a morte, como Ele havia vivido,</p><p>pelo Pai, de eternidade a eternidade. “Este, portanto”, disse o orador,</p><p>revertendo na conclusão à proposição com a qual havia começado, “... é o</p><p>pão [a minha carne] que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que</p><p>comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre”48.</p><p>Uma terceira expressão de desaprovação, logo a seguir, levou Jesus a</p><p>colocar uma pedra final sobre sua importante doutrina do pão da vida e</p><p>fazer uma declaração conclusiva que deve ter parecido extremamente</p><p>misteriosa e ininteligível a todos os que o ouviam: que o pão, que desceu</p><p>do céu, deve ascender a ele novamente, a fim de ser, em todos os senti­</p><p>dos, o Pão da vida eterna. “Isto vos escandaliza?”, perguntou Ele aos</p><p>seus ouvintes, referindo-se ao que acabara de dizer a respeito de come­</p><p>rem da sua carne e beberem do seu sangue: “Que seria, pois, se vísseis</p><p>subir o Filho do Homem para onde primeiro estava?”49. Na verdade,</p><p>essa pergunta era uma afirmação, e também uma insinuação profética,</p><p>de que somente quando tivesse deixado o mundo, Ele se tornaria, em</p><p>todos os sentidos e de maneira plena, a fonte da vida para os homens;</p><p>porque, então, o maná da graça começaria a descer, não somente sobre o</p><p>deserto de Israel, mas sobre todos os lugares estéreis da terra; e a verdade</p><p>que existia nele, a doutrina de sua vida, morte e ressurreição, se tornaria</p><p>verdadeiramente comida e bebida para uma multidão, não de ouvintes</p><p>murmuradores, mas de crentes devotos, iluminados e agradecidos. E nin-</p><p>A Crise da Galiléia 161</p><p>guém mais precisaria pedir um sinal, pois ele poderia ser encontrado na</p><p>igreja cristã, que continuaria firme na doutrina e comunhão dos apósto­</p><p>los, e no partir do pão e nas orações, a melhor evidência de que Ele havia</p><p>falado a verdade quando disse: “Eu sou o Pão da vida”.</p><p>2) Então, esse é o pão celestial, o próprio Deus-homem encarnado,</p><p>crucificado e glorificado. Vamos agora considerar, mais atentamente, a</p><p>maravilhosa virtude desse pão. Ele é o Pão da vida. Compete ao pão ser o</p><p>sustento da vida, mas é uma peculiaridade desse pão divino dar a vida</p><p>eterna. “Aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim nunca</p><p>terá sede”50. Referindo-se a esse poder de dar a vida, Ele chamou o pão ao</p><p>qual se referia de “Pão da vida” e de verdadeiro alimento, e declarou que</p><p>aquele que dele comesse não morreria, mas viveria para sempre51.</p><p>Observamos que, ao recomendar esse pão milagroso aos seus ou­</p><p>vintes, Jesus deu especial ênfase em seu poder de dar a vida eterna e um</p><p>corpo eterno ao homem. Por quatro vezes Ele declarou em termos mui­</p><p>to claros que todos os que se alimentassem desse pão da vida ressuscita­</p><p>riam no último dia52. A proeminência conferida de tal modo à ressurrei­</p><p>ção do corpo deve-se, em parte, ao fato de que durante o seu discurso</p><p>Jesus estava desenhando um contraste entre o maná que alimentou os</p><p>israelitas no deserto e o verdadeiro pão que o maná simbolizava. O con­</p><p>traste era mais impressionante exatamente nesse ponto. O maná era sim­</p><p>plesmente um substituto para o alimento comum, não tinha o poder de</p><p>proteger contra a morte: a geração que havia sido tão milagrosamente</p><p>alimentada desapareceria da terra, assim como todas as outras gerações</p><p>da humanidade. Portanto, argumentou Jesus, ele não poderia ter sido o</p><p>verdadeiro pão do céu, pois o verdadeiro pão deve ser capaz de destruir</p><p>a morte e dotar os seus receptores com o poder de uma existência</p><p>infindável. Assim sendo, o homem que dele comer não deverá morrer;</p><p>ou, se morrer, deverá ressuscitar. “Vossos pais comeram o maná no de­</p><p>serto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele</p><p>comer não morra”53.</p><p>Mas a proeminência dada à ressurreição do corpo deve-se, princi­</p><p>palmente, à sua importância intrínseca. Pois se os mortos não ressusci­</p><p>tassem, então nossa fé seria vã e o pão da vida iria degenerar em uma</p><p>mera panacéia impostora que pretende ter virtudes que não possui. E</p><p>162 O Treinamento dos Doze</p><p>verdade que ele ainda poderia conceder vida espiritual àqueles que o</p><p>comessem, mas que valor teria esta sem a esperança de uma vida após a</p><p>morte? Não muito, de acordo com Paulo, que diz: “Se esperamos em</p><p>Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”54. E</p><p>verdade que muitos, atualmente, não concordam com a opinião do após­</p><p>tolo. Esses pensam que a doutrina da vida eterna pode ser deixada fora</p><p>do credo sem nenhum prejuízo — e mais ainda, com alguma vantagem</p><p>positiva à fé cristã. Para eles, a vida de um cristão parece ser muito mais</p><p>valiosa quando qualquer pensamento de recompensa ou castigo futuro é</p><p>eliminado de sua mente. Como seria maravilhoso passar através do de­</p><p>serto desse mundo alimentando-se com o maná fornecido pelos puros e</p><p>sublimes ensinos de Jesus, sem se preocupar se haveria uma terra de</p><p>Canaã do outro lado do]ordão! Sena mesmo muito sublime! M as, nesse</p><p>caso, por que andar pelo deserto? Por que não permanecer no Egito,</p><p>alimentando-se com iguarias mais palatáveis e substanciais? Os filhos de</p><p>Israel não teriam deixado o lar de sua escravidão a não ser que esperas­</p><p>sem alcançar a terra prometida. A esperança da imortalidade é igual­</p><p>mente necessária ao cristão. Ele deve acreditar em um mundo futuro a</p><p>fim de poder viver acima do atual mundo de iniqüidades. Se Cristo não</p><p>pode redimir o corpo do poder da morte, então sua promessa de nos</p><p>redimir da culpa e do pecado teria sido em vão. O pão da vida seria</p><p>indigno desse nome a não ser que tivesse o poder de lutar contra a</p><p>corrupção física e moral.</p><p>Portanto, podemos comprovar a importância conferida por Jesus,</p><p>nesse discurso, à ressurreição do corpo. Ele sabia que ali se encontrava o</p><p>teste crucial pelo qual o valor e a virtude do pão que Ele oferecia aos</p><p>seus ouvintes deveriam ser testados. “Quando você diz que esse pão é o</p><p>pão da vida, em contraste com o maná de antigamente, você está queren­</p><p>do dizer que, tal como a árvore da vida no Jardim do Eden, ele irá con­</p><p>ferir àqueles que o comerem a dádiva de uma abençoada imortalidade?”,</p><p>“Sim, eu digo”, responderia o pregador a propósito dessa pergunta ima­</p><p>ginária: “Esse pão que vos ofereço não irá simplesmente vivificar a vossa</p><p>alma, levando-a a uma vida mais pura e mais elevada; revivificará o vosso</p><p>corpo e fará com que o corruptível se revista da incorruptibilidade e o</p><p>mortal se revista da imortalidade”.</p><p>A Crise da Galiléia 163</p><p>3) E como, então, esse maravilhoso pão poderia ser apropriado para</p><p>que pudéssemos experimentar sua influência vivificante? O pão, natural­</p><p>mente, deve ser comido; porém, nesse caso, o que isso significa? Em uma</p><p>só palavra, significaf é . “Aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê</p><p>em mim nunca</p><p>terá sede”33. Comer a carne de Cristo e beber o seu</p><p>sangue e, podemos acrescentar, beber a água sobre a qual falou com a</p><p>mulher junto ao poço, tudo isso significa crer nele como Ele se ofereceu</p><p>aos homens no Evangelho; como o Filho de Deus que se manifestou em</p><p>carne, foi crucificado, ressuscitou dos mortos e ascendeu ao céu, à sua</p><p>glória; como o Profeta, o Sacerdote, o Rei e o Mediador entre Deus e os</p><p>homens. Ao longo do discurso em Cafarnaum, comer e crer são palavras</p><p>que aparecem alternadamente como equivalentes. Assim, em uma sen­</p><p>tença, encontramos Jesus dizendo: “Na verdade, na verdade vos digo</p><p>que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o Pão da vida”56;</p><p>reafirmando, pouco depois: “Eu sou o Pão vivo que desceu do céu; se</p><p>alguém comer desse pão, viverá para sempre”57. Se, por acaso, alguma</p><p>outra assertiva fosse necessária para justificar a identidade existente en­</p><p>tre comer e crer, ela poderia ser encontrada nos ensinos dados pelo pre­</p><p>gador aos seus ouvintes antes de começar a falar sobre o pão da vida: “A</p><p>obra de Deus é essa: que creiais naquele que ele enviou”58. Essa sentença</p><p>fornece a chave para a interpretação de todo o discurso subseqüente.</p><p>“Acreditem”, disse Jesus, referindo-se à pergunta precedente: “Que fare­</p><p>mos para executarmos as obras de Deus?” Em outras palavras: Acredi­</p><p>tem e estarão fazendo a obra de Deus. Podemos entender que Ele está se</p><p>referindo a uma pergunta que poderia ter o seguinte sentido: “Como</p><p>poderemos comer esse pão da vida?” — “Acreditem; comam com fé, e</p><p>assim terão comido o pão da vida”.</p><p>Acreditem, e assim terão comido: essa foi a fórmula pela qual Agos­</p><p>tinho expressou seu ponto de vista sobre o significado das palavras de</p><p>Cristo no discurso em Cafarnaum59. Nossa opinião é que essa expressão,</p><p>além de ser concisa, também é verdadeira; mas ela não foi aceita pela</p><p>unanimidade dos intérpretes. Muitos sustentam que comer e fé são coi­</p><p>sas distintas e exprimem a relação existente entre elas da seguinte manei­</p><p>ra: Acreditem, e assim comerão. Até Calvino fez objeções à fórmula</p><p>agostiniana. Ao fazer a distinção entre seu ponto de vista e aquele sus­</p><p>164 0 Treinamento dos Doze</p><p>tentado pelos seguidores de Zwinglio, ele diz: "Para eles, comer é sim­</p><p>plesmente acreditar. Eu digo que a carne de Cristo é comida pela crença</p><p>porque ela nos é dada pela fé, e que comer é o fruto e o efeito da fé. Ou,</p><p>mais claramente ainda: Para eles comer é fé — para mim o correto é</p><p>r/»60seguir por re ♦</p><p>A distinção entre comer e acreditar, adotada por Calvino, parece ter</p><p>sido mais verbal do que real. Entretanto, para muitos outros teólogos,</p><p>ela é totalmente diferente. Todos que sustentam a mágica doutrina da</p><p>transubstanciação e da consubstanciação defendem a interpretação lite­</p><p>ral do discurso de Cafarnaum, até em suas afirmações mais imperiosas.</p><p>Para eles, comer a carne de Cristo e beber o seu sangue são atos da boca,</p><p>acompanhados talvez por atos de fé, mas não são meramente atos de fé. A</p><p>maioria deles pressupõe, como fato lógico e natural, que o discurso re­</p><p>gistrado no capítulo 6 do Evangelho de João faz referência ao sacramen­</p><p>to da Santa Ceia e que, somente na hipótese de tal referência, pode ser</p><p>explicada a peculiar fraseologia desse discurso. Cristo falou de comer a</p><p>sua carne e beber o seu sangue, e por esta razão alguns entendem que Ele</p><p>tinha em mente, antecipadamente, que neste ritual espiritual que seria</p><p>instituído, o pão e o vinho não deveriam simplesmente representar, mas</p><p>tornar-se os elementos constituintes de seu corpo crucificado.</p><p>Embora o sermão sobre o pão da vida continue a estar envolvido</p><p>em controvérsias sacramentais, qualquer expectativa de concordância</p><p>em suas interpretações será totalmente desprovida de esperança. En­</p><p>quanto isso, até que o alvorecer de um dia melhor desponte sobre as</p><p>opiniões divididas e confusas, todo homem deverá esforçar-se para ter</p><p>o seu esclarecimento. Três coisas encontram-se bastante claras em nos­</p><p>sa mente. Primeiro, é incorreto dizer que o sermão proferido na sina­</p><p>goga de Cafarnaum está se referindo apenas à Santa Ceia. A real situ­</p><p>ação desse caso é que ambos os eventos se referem a uma terceira ques­</p><p>tão, isto é, à morte de Cristo, e ambos declaram, de diferentes manei­</p><p>ras, o mesmo a esse respeito. O sermão diz, com palavras simbólicas, o</p><p>que a Santa Ceia diz em um ato simbólico: que Cristo crucificado é a</p><p>vida dos homens e a esperança da salvação do mundo. O sermão vai</p><p>mais além, pois fala da ascensão de Cristo e também de sua morte; mas</p><p>existe uma razão para isso.</p><p>A Crise da Galiléia 165</p><p>Um segundo ponto, que nos parece bastante claro, é que seria</p><p>totalmente desnecessário assumir uma antecipada referência mental à</p><p>Santa Ceia a fim de justificar a peculiaridade da linguagem de Cristo</p><p>nesse famoso discurso. Como vimos no começo, todo o discurso sur­</p><p>giu naturalmente da situação então reinante. A menção feita pelo povo</p><p>ao maná levou Jesus, naturalmente, a falar sobre o Pão da vida; e do</p><p>pão Ele passou, também naturalmente, a falar sobre a carne e o sangue,</p><p>porque Ele não poderia ser totalmente pão até que se tornasse dividi­</p><p>do em carne e sangue, isto é, até que tivesse suportado a morte. Na</p><p>verdade, tudo o que encontramos aqui foi realmente dito, e está relaci­</p><p>onado à Santa Ceia. A Santa Ceia serve não só para interpretar o ser­</p><p>mão como também para estabelecer sua credibilidade como tendo sido</p><p>autenticamente proferido por Jesus. Não existe razão para duvidar de</p><p>que Ele, que instituiu essa festa espiritual, também pudesse ter prega­</p><p>do esse sermão espiritual.</p><p>A terceira verdade, que brilha clara como uma estrela aos nossos</p><p>olhos, é que somente através da fé podemos alcançar todas as bênçãos da</p><p>salvação. Os sacramentos são muito úteis, mas não são indispensáveis.</p><p>Se houvesse sido vontade de Cristo deixar de institui-los, chegaríamos</p><p>ao céu da mesma maneira. Mas porque Ele os instituiu, é nosso dever</p><p>celebrá-los e podemos esperar receber benefícios dessa celebração. Mas</p><p>os benefícios que recebermos apenas ajudarão a nossa fé, e somente se­</p><p>rão recebidos pela fé. Os cristãos comem a carne e bebem o sangue do</p><p>Filho do Homem em todo momento, não apenas no ato da Santa Ceia,</p><p>mas ao crerem nele. Eles comem a sua carne e bebem o seu sangue à sua</p><p>mesa no mesmo sentido de antigamente; talvez apenas de uma maneira</p><p>mais vivida, com os seus corações estimulados a uma maior devoção pela</p><p>lembrança de seu amor sacrificial e através da fé auxiliada pelos atos de</p><p>ver, segurar e saborear o pão e o vinho.</p><p>Seção IV — A Escolha - “ Peneirando”</p><p>João 6.66-71</p><p>O sermão sobre o Pão da vida produziu resultados decisivos. Ele</p><p>transformou em aversão o entusiasmo popular por Jesus e, como uma</p><p>joeira, separou os verdadeiros dos falsos discípulos como se fosse uma</p><p>166 0 Treinamento dos Doze</p><p>brisa selecionadora que assoprasse para longe o joio, deixando para trás</p><p>apenas um pequeno resíduo de trigo. “Desde então, muitos de seus dis­</p><p>cípulos tornaram para trás e já não andavam com ele”.</p><p>Esse resultado não surpreendeu Jesus. Ele já o esperava; e, em certo</p><p>sentido, até o desejava, embora isso o deixasse profundamente entriste­</p><p>cido. Pois enquanto seu imenso e amoroso coração almejava a salvação</p><p>de todos e desejava que todos se aproximassem para ganhar a vida, Ele</p><p>não queria que ninguém o procurasse por algum equívoco ou o seguisse</p><p>apenas por interesse. Ele procurou discípulos que lhe fossem dados pelo</p><p>Pai61, enviados pelo Pai62, ensinados pelo Pai63, sabendo que somente</p><p>esses permaneceriam em sua palavra64. Ele estava ciente de que existiam,</p><p>na grande massa de pessoas que recentemente o haviam seguido, muitos</p><p>discípulos com uma descrição inteiramente diferente; e estava de acordo</p><p>que essa multidão deveria ser escolhida. Portanto, Ele pregou esse dis­</p><p>curso espiritual, apropriado para ter um sabor de vida ou morte de acor­</p><p>do com a situação espiritual dos ouvintes. Da mesma forma, quando os</p><p>ouvintes se ofenderam com os ensinos de sua doutrina, Ele declarou</p><p>claramente</p><p>qual era o seu verdadeiro motivo65, e expressou sua segurança</p><p>de que somente viriam ou poderiam realmente vir a Ele aqueles a quem</p><p>seu Pai tivesse ensinado e trazido66. Essas coisas Ele disse não com o</p><p>propósito de provocar ou irritar, mas porque considerava que seria certo</p><p>dizê-las, embora fossem criar irritação, entendendo que os verdadeiros</p><p>crentes as aceitariam de boa vontade e que aqueles que se ofendessem</p><p>revelariam, por meio delas, o seu verdadeiro caráter.</p><p>Não há duvida de que os discípulos apóstatas se consideraram to­</p><p>talmente justificados ao se retirarem daquela associação com Jesus. De­</p><p>ram as costas a Ele, imaginamos, com a mais pura indignação, dizendo</p><p>em seus corações — mais ainda, provavelmente dizendo bem alto entre</p><p>eles: “Quem jamais ouviu uma coisa dessas? Que absurdo! Que revoltan­</p><p>te! O homem que pode assim falar ou é um tolo ou está tentando fazer</p><p>seus ouvintes de tolos”. No entanto, a dureza de sua doutrina não foi a</p><p>verdadeira razão que levou tantos a abandoná-lo; ela era apenas um pre­</p><p>texto, o motivo mais plausível e respeitável que poderiam atribuir à sua</p><p>conduta que se originava de outros motivos. A grande ofensa feita por</p><p>Jesus era essa: Ele não era o homem que esperavam que fosse; não estaria</p><p>A Crise da Galiléia 167</p><p>a serviço deles para alcançar os fins que tinham em mente. Qualquer</p><p>coisa que estivesse dizendo sobre o Pão da Vida, ou sobre comer a sua</p><p>carne, deixava claro que Ele não seria um provedor de sua subsistência,</p><p>assumindo como sua profissão o fornecimento de suprimentos ao apeti­</p><p>te físico daquele grupo. Também não seria um condutor a uma época</p><p>áurea de abundância e ociosidade. Estando isso esclarecido, naquilo que</p><p>dependia deles, tudo estava acabado. Ele poderia oferecer seu alimento</p><p>celestial a quem quisesse; eles não queriam saber de nada disso.</p><p>Profundamente atingido pela visão melancólica oferecida por tan­</p><p>tos seres humanos que, deliberadamente, preferiam bens materiais à vida</p><p>eterna, Jesus virou-se para os seus doze discípulos e disse: “Quereis vós</p><p>também retirar-vos?”, ou mais exatamente: “Vocês não vão querer ir</p><p>também, não é?”67. Essa pergunta pode ser entendida como uma expres­</p><p>são de confiança nas pessoas a quem foi dirigida e um apelo à sua solida­</p><p>riedade naquele momento de crise desalentadora. E embora pudesse ser</p><p>esperada uma resposta negativa a essa pergunta, ela não era aguardada</p><p>como um fato lógico e natural. Jesus estava muito ansioso em relação à</p><p>fidelidade de seus doze discípulos. Ele os questionou, embora conscien­</p><p>te de que haviam sido colocados perante circunstâncias muito difíceis e</p><p>que, se realmente não o abandonassem agora, ao final da grande crise,</p><p>teriam, ao menos; vencido a tentação de se escandalizarem nele.</p><p>Um pouco de reflexão será suficiente para nos esclarecer que, na</p><p>verdade, os doze discípulos haviam sido colocados nessa ocasião em</p><p>uma posição previamente planejada para testar, com muita severidade, a</p><p>sua fé. Primeiro, o simples fato de seu Mestre estar sendo indis­</p><p>criminadamente desertado por uma multidão de antigos admiradores e</p><p>seguidores envolvia, para o grupo escolhido, uma tentação à apostasia.</p><p>Como é poderosa a força da solidariedade! Como estamos sempre tão</p><p>dispostos a acompanhar a multidão, sem nos preocupar com a direção</p><p>para a qual ela caminha! E quanta coragem moral é necessária para ficar­</p><p>mos sozinhos! Como era difícil testemunhar o espetáculo de centenas,</p><p>ou até de milhares de pessoas, partindo com obstinado rancor, sem sen­</p><p>tir o impulso de imitar o seu mau exemplo! Como era difícil evitar ser</p><p>levado junto com a poderosa maré de uma adversa opinião popular!</p><p>Especialmente penoso deve ter sido para os doze discípulos resistir à</p><p>168 0 Treinamento dos Doze</p><p>tendência da apostasia se, como era mais provável, eles tivessem se sim­</p><p>patizado com o projeto acalentado pela multidão quando o entusiasmo</p><p>por Jesus estava “a todo vapor”. Para eles, teria sido muito gratificante</p><p>ver seu amado Mestre transformado em rei pela aclamação popular; e</p><p>como seu espírito deve ter se abatido quando a bolha rompeu e os pro­</p><p>váveis futuros súditos do Príncipe Messiânico foram dispersos como se</p><p>pertencessem a uma multidão ociosa, e quando o reino que lhes parecia</p><p>tão próximo desapareceu como se fosse produto de sua imaginação!</p><p>Uma outra circunstância difícil para a fé desses doze discípulos foi</p><p>o estranho e misterioso caráter do discurso de seu Mestre na sinagoga de</p><p>Cafarnaum . Esse discurso continha palavras duras, repulsivas e</p><p>ininteligíveis, tanto para eles como para o restante da audiência. Disso</p><p>não resta qualquer dúvida quando levamos em conta a repulsa com que</p><p>receberam, algum tempo depois, a notícia de que Jesus estava destinado</p><p>a ser morto68. Se faziam objeção ao fato de sua morte, como poderiam</p><p>entender seu significado, especialmente quando ambos, tanto o fato como</p><p>seu significado, haviam sido mencionados dentro de um estilo tão místi­</p><p>co e velado como aquele que permeou o sermão sobre o Pão da vida?</p><p>Portanto, embora acreditassem que seu Mestre tinha as palavras da vida</p><p>eterna e percebessem que seu último discurso estava relacionado com</p><p>aquele tema supremo, podemos considerar como certo que não tinham</p><p>condição de melhor compreender essas palavras do que o restante da</p><p>multidão, por mais que tentassem fazê-lo. Não sabiam que conexão po­</p><p>deria existir entre a carne de Cristo e a vida eterna, e não entendiam</p><p>como comer essa carne poderia trazer-lhes algum benefício, e até o que</p><p>significava o ato de comê-la. Tinham perdido totalmente de vista o ora­</p><p>dor durante o vôo de águia de seu pensamento; e devem ter observado</p><p>com angústia quando as pessoas se foram, dolorosamente conscientes de</p><p>que não podiam culpá-las por completo.</p><p>No entanto, embora grandemente tentados a abandonar seu M es­</p><p>tre, os doze discípulos permaneceram fielmente ao seu lado. Eles havi­</p><p>am atravessado com segurança essa tempestade espiritual. Mas qual</p><p>seria o segredo de sua firmeza? Quais eram as âncoras que impediram</p><p>o seu naufrágio? Essas questões são de interesse prático para todos</p><p>que, como os apóstolos nessa crise, são tentados à apostasia pelos maus</p><p>A Crise da Galiléia 169</p><p>exemplos ou dúvidas religiosas, pelo padrão do mundo em que vivem,</p><p>seja ele científico ou ignorante, refinado ou rústico, ou pelas profun­</p><p>das coisas de Deus, sejam elas os mistérios da providência, os mistéri­</p><p>os da revelação ou os mistérios da experiência religiosa. Podemos per­</p><p>guntar, na verdade, a todos os verdadeiros cristãos, qual deles já não</p><p>foi tentado de uma, ou de várias dessas maneiras, em algum momento</p><p>de sua história.</p><p>Material suficiente para responder a essas perguntas pode ser en­</p><p>contrado nas palavras da resposta de Simão Pedro a Jesus. Como porta-</p><p>voz de todo o grupo, esse discípulo prontamente disse: “Senhor, para</p><p>quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna, e nós temos crido e</p><p>conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”69 ou, de acordo com o</p><p>texto preferido pela maioria dos críticos: “Tu és o Santo de Deus”70.</p><p>Podemos inferir dessas palavras três âncoras que ajudaram os discí­</p><p>pulos a sobreviver à tempestade: determinação ou sinceridade religiosa; uma clara</p><p>percepção das alternativas à sua fren te; e uma confiança implícita no caráter de seu</p><p>Mestre e na afeição que dedicavam a Ele.</p><p>I) Os doze discípulos, como um só corpo, eram sinceros e inteira­</p><p>mente determinados na religião. Seu desejo supremo era conhecer “as</p><p>palavras da vida eterna” e chegar, verdadeiramente, a alcançar essa vida.</p><p>Sua preocupação não estava presa à carne que perece, mas ao alimento</p><p>celestial da alma que Cristo havia, aparentemente em vão, exortado a</p><p>maioria de seus ouvintes a se empenhar para conseguir. Nesse momento,</p><p>eles não sabiam claramente no que consistia esse alimento mas, de acor­</p><p>do com o esclarecimento mental que possuíam, oravam com sinceridade</p><p>dizendo: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Portanto não representou</p><p>nenhum desapontamento para eles o fato de Jesus ter declinado</p><p>de se</p><p>tornar fornecedor de um mero alimento material: nunca haviam espera­</p><p>do ou desejado que Ele o fizesse, pois tinham procurado sua companhia</p><p>por expectativas completamente diferentes. Uma certa parcela de erro</p><p>podia estar associada à concepção deles da missão de Jesus, mas as prin­</p><p>cipais expectativas da multidão, que eram carnais, não encontravam lu­</p><p>gar em seu seio. Eles não haviam se convertido e se tornado discípulos</p><p>para melhorar as suas circunstâncias neste mundo, mas para obter uma</p><p>porção daquilo que o mundo não podia lhes dar nem subtrair.</p><p>170 O Treinamento dos Doze</p><p>O que acabamos de afirmar é verdade para todos os discípulos,</p><p>menos um e, entre outras coisas, a crise que estamos atualmente analisan­</p><p>do é memorável justamente por isso, ela foi a primeira ocasião em que</p><p>Jesus insinuou que havia um falso discípulo entre os homens que Ele</p><p>havia escolhido. Para justificar-se por fazer uma pergunta que poderia</p><p>lançar uma dúvida sobre a fidelidade deles, Ele respondeu ao protesto de</p><p>Pedro com essa surpreendente observação: “Não vos escolhi a vós os</p><p>doze? E um de vós é um diabo?”71 como se dissesse: “Para mim é muito</p><p>doloroso ter que usar essa linguagem cheia de desconfiança, mas tenho</p><p>um bom motivo: existe alguém entre vós que tem pensamentos de deserção</p><p>e que é capaz até de traição”. Com que tristeza de espírito Ele deve ter</p><p>feito tal insinuação em meio àquela crise! Ser abandonado por uma in­</p><p>constante multidão de frívolos e descuidados seguidores teria sido uma</p><p>questão sem importância se Ele pudesse contar com todos os membros</p><p>daquele seleto grupo de bons homens e verdadeiros amigos. Mas ter um</p><p>inimigo em sua própria casa, um ser diabólico capaz de representar o</p><p>papel de Satanás no pequeno círculo de companheiros íntimos, era real­</p><p>mente penoso!</p><p>Mas como um homem destinado a ser traidor, e merecedor do es­</p><p>tigma de demônio, conseguiu transmitir credibilidade durante aquela</p><p>crise? Será que, apesar de tudo, os fatos não parecem sugerir que é possí­</p><p>vel alguém ser constante sem ser sincero? Não é bem assim; a única</p><p>inferência legítima é que a crise não foi suficientemente minuciosa para</p><p>revelar o verdadeiro caráter de Judas. Espere até ver o final. Um pouco</p><p>de religião pode ajudar um homem a atravessar muitas provações, mas</p><p>existe uma prova crucial em que nada, a não ser a sinceridade, poderá per­</p><p>manecer. Se os pensamentos forem ambíguos ou o coração estiver divi­</p><p>dido, chegará um momento em que o homem se sentirá compelido a</p><p>agir de acordo com as razões que estão mais profunda e fortemente</p><p>arraigadas dentro de si. Essa observação se aplica, especialmente, a épo­</p><p>cas criativas, revolucionárias ou de transição. Nos momentos de tranqüi­</p><p>lidade um hipócrita pode, facilmente, transmitir respeitabilidade ao seu</p><p>mundo, e nunca ser descoberto, até chegar ao mundo futuro onde seus</p><p>pecados irão acompanhá-lo até o juízo final. Mas, em épocas críticas, os</p><p>irresolutos encontram as conseqüências de seus pecados nessa vida. E</p><p>A Crise da Galiléia 171</p><p>verdade que alguns homens indecisos conseguem suportar melhor as</p><p>tentações do que outros, e que não se vendem por tão pouco como</p><p>aqueles que pertencem aos rebanhos comuns. Mas todos eles têm seu</p><p>preço, e os que pecam com mais dificuldade que os outros irão, ao final,</p><p>pecar mais profunda e tragicamente.</p><p>Teremos uma outra oportunidade de falar sobre o caráter e a queda</p><p>de Judas. Nosso objetivo agora é simplesmente mostrar que Jesus não</p><p>esperava que aqueles que fossem como Judas se mostrassem constantes.</p><p>Ao referir-se a esse discípulo, da maneira como o fez, Ele anunciava a sua</p><p>convicção de que ninguém, em quem o amor de Deus e a verdade não</p><p>fossem o princípio mais profundo de seu ser, continuaria fiel até o fim.</p><p>Na verdade, Ele estava mostrando a necessidade de uma integridade</p><p>moral ou de uma santa sinceridade, para permanecerem firmes na fé.</p><p>2 ) A segunda âncora que salvou os discípulos do naufrágio nessa</p><p>ocasião foi uma percepção muito clara das alternativas. “Senhor, para</p><p>quem iremos nós?”, perguntou Pedro, como quem via que, para os ho­</p><p>mens que tinham em vista o mesmo objetivo procurado por ele e seus</p><p>irmãos, não existia nenhuma outra alternativa a não ser permanecer onde</p><p>estavam. Ele havia analisado, rapidamente, todas as possíveis alternativas</p><p>e foi essa a conclusão a que chegou. “A quem poderemos ir — nós que</p><p>procuramos a vida eterna?” João, nosso antigo mestre, está morto e, mesmo</p><p>que estivesse vivo, nos mandaria de volta a ti. Ou devemos, então, procu­</p><p>rar os escribas e os fariseus? Já há muito tempo estamos em tua compa­</p><p>nhia para tomar essa decisão, pois tu nos ensinaste a superficialidade, a</p><p>hipocrisia, a ostentação e a essencial ausência de Deus no sistema religi­</p><p>oso desses homens. Ou será que devemos acompanhar a inconstante</p><p>multidão e recair na indiferença e na estupidez? Nem pensar. Ou, final­</p><p>mente, será que devemos procurar os saduceus, os idólatras do material</p><p>e do temporal, que dizem não haver ressurreição, nem anjos, nem espíri­</p><p>tos? Deus nos livre! Estaríamos renunciando a uma esperança que nos é</p><p>mais cara que a vida e sem a qual, para uma mente determinada, a vida</p><p>seria um enigma, uma contradição e um peso intolerável”.</p><p>Podemos compreender a ajuda que essa clara percepção das alterna­</p><p>tivas representou para Pedro e seus irmãos ao refletirmos na ajuda que</p><p>nós mesmos podemos auferir da mesma fonte quando somos tentados,</p><p>172 O Treinamento dos Doze</p><p>por dificuldades dogmáticas, a renunciar ao cristianismo. Pedro teria</p><p>tido um momento de repouso se compreendesse que as alternativas que</p><p>se lhe ofereciam eram ou permanecer com Cristo ou tornar-se um ateu,</p><p>ignorando Deus e o mundo futuro e que, se abandonasse Cristo, deveria</p><p>procurar a escola de alguns grandes mestres da mais completa increduli­</p><p>dade. Na obra de um autor alemão muito conhecido ele descreve um</p><p>sonho que retrata com horrível nitidez as conseqüências que iriam pre­</p><p>cipitar-se sobre o universo se o Criador deixasse de existir. O sonho foi</p><p>inventado, assim nos diz esse autor, com o intuito de amedrontar aque­</p><p>les que discutem a existência de Deus com tanta frieza como se a ques­</p><p>tão dissesse respeito ao unicórnio ou ao mítico monstro marinho Kraken,</p><p>e também para controlar quaisquer pensamentos ateus que pudessem</p><p>nascer em seu próprio íntimo. “Se alguma vez”, ele diz, “meu coração</p><p>ficasse tão infeliz e desanimado por ter todos esses sentimentos que</p><p>destroem a existência de Deus, eu usaria esse sonho para me aterrorizar,</p><p>e assim curar meu coração e recuperar meus sentimentos perdidos”72. A</p><p>partir desses benefícios que Richter espera alcançar com o exame de seu</p><p>próprio sonho, alguém que estivesse tentado a renunciar ao cristianismo</p><p>poderia extrair a idéia, usando sua clara percepção, que ao deixar de ser</p><p>cristão deveria decidir a aceitar um credo que não reconhece a Deus, a</p><p>alma, nem a vida futura.</p><p>Infelizmente, não é fácil para nós nesse momento, como o foi para</p><p>Pedro, entender exatamente quais são as alternativas que se colocam à</p><p>nossa frente. Poucos seriam tão perspicazes, tão precipitadamente lógi­</p><p>cos ou tão francos como o falecido Dr. Strauss que, em sua última pu­</p><p>blicação, The Old and the New Faith} diz claramente que deixou de ser cris­</p><p>tão. Em nossos dias, é por essa razão que, embora muitos se intitulem</p><p>cristãos e tenham uma teoria sobre o universo (ou Weltanschauung, como a</p><p>chamam os alemães) que não lhes permite acreditar em milagres, de</p><p>qualquer forma ou em qualquer esfera, aceitem um axioma pelo qual o</p><p>curso da natureza não pode ser interrompido, e que não chegam ao</p><p>extremo dos “socinianos” (seguidores de Faustus e Laelius Socinus que</p><p>rejeitavam algumas tradicionais doutrinas que eram, em seu conceito,</p><p>cristãs) que em seu conceito a respeito de Cristo, declaram que Ele é,</p><p>sem restrições, o único Santo de Deus, o único moralmente impecável.</p><p>A Crise da Galiléia 173</p><p>Até homens como Renan, afirmam ser cristãos e, como Balaão, honram</p><p>àquele a quem sua filosofia os compele a</p><p>censurar. Nossos “modernos</p><p>Balaãos” confessam que, pelo menos, Jesus foi o homem mais santo, se</p><p>não o único homem absolutamente santo. Eles são obrigados a bendizer</p><p>o Homem de Nazaré. São fascinados pela estrela de Belém, como eram,</p><p>no Oriente, os adivinhadores que se guiavam pela estrela de Jacó, e são</p><p>forçados a dizer, com efeito: “Como amaldiçoarei o que Deus não amal­</p><p>diçoa? E como detestarei, quando o Senhor não detesta?... Eis que recebi</p><p>mandado de abençoar; pois ele tem abençoado, e eu não o posso revo­</p><p>gar”73. Outros, que não vão tão longe quanto Renan, recuam de um</p><p>radical naturalismo, acreditando em um Cristo perfeito, um verdadeiro</p><p>milagre moral. No entanto, assumem um cristianismo independente de</p><p>dogmas e estorvado, o menos possível, por milagres, um cristianismo</p><p>puramente ético que consiste, principalmente, na admiração do caráter</p><p>de Cristo e de seus ensinos morais. Como professores de tal cristianismo</p><p>eles se consideram discípulos exemplares de Cristo. Estes são os homens</p><p>a quem o autor de Supernatural Religion menciona como possuindo a carac­</p><p>terística de uma “tendência a eliminar do cristianismo, com impensada</p><p>habilidade, todo elemento sobrenatural que não esteja integralmente de</p><p>acordo com as suas opiniões atuais”, pretendendo “reprimir, por um</p><p>momento, os lobos perseguidores da dúvida e da descrença, praticamen­</p><p>te jogando a eles, pedaço por pedaço, as mesmas doutrinas que constitu­</p><p>em as reivindicações do cristianismo e que devem ser totalmente consi­</p><p>deradas como divina revelação”74. De tais homens dificilmente podería­</p><p>mos dizer que são naturalistas por tendência e que possuem uma teoria</p><p>consistente sobre o universo. No entanto, eles não levariam o naturalis­</p><p>mo às suas últimas conseqüências. Ou são pouco hábeis, ou não estão</p><p>propensos a perceber as alternativas e obedecer à voz da lógica que, como um</p><p>severo policial, ordena: “Movam-se”. Preferem, ao contrário, sustentar</p><p>um ponto de vista que reúne as várias alternativas em um único conjunto</p><p>eclético de credos, como Schleiermacher — ele próprio um excelente</p><p>exemplo dessa classe — e a quem Strauss se refere como tendo reduzido</p><p>a pó o cristianismo e o panteísmo, deixando-os tão combinados que se</p><p>torna difícil dizer onde termina o panteísmo e onde começa o cristianis­</p><p>mo. Na presença de um tão difundido espírito de acomodação e transi­</p><p>174 0 Treinamento dos Doze</p><p>gência, recomendado pelo exemplo de muitos homens capazes e influ­</p><p>entes, será necessária muita coragem para ter e sustentar uma posição</p><p>definida, ou para resistir à tentação de ceder à corrente e adotar o lema:</p><p>Cristianismo sem dogmas e sem milagres. Mas, daqui a pouco, talvez se</p><p>torne mais fácil perceber as alternativas, quando o tempo tiver mostrado</p><p>mais claramente o rumo das tendências atuais. Nesse ínterim, estamos</p><p>vendo o crepúsculo antes do anoitecer, e nesse momento pensamos po­</p><p>der nos abster do sol; embora ele já esteja abaixo do horizonte, o ar</p><p>ainda está repleto de luz. Porém, basta esperar um pouco, e a passagem</p><p>do crepúsculo para a escuridão da noite mostrará até que ponto pode-se</p><p>prescindir de Cristo — o Santo que a igreja adora e confessa — como o</p><p>Sol do mundo espiritual.</p><p>3) A terceira âncora, com a qual os doze discípulos foram capazes</p><p>de sobreviver à tempestade, foi a confiança no caráter de seu Mestre.</p><p>Eles acreditavam, na verdade sabiam, que Ele era o Santo de Deus. T i­</p><p>nham estado em sua companhia tempo suficiente para chegar a conclu­</p><p>sões muito decididas a seu respeito. Tinham visto os milagres que Ele</p><p>realizou, ouviram-no falar com maravilhosa sabedoria sobre o reino di­</p><p>vino em parábolas e sermões, tinham observado sua extraordinária ter­</p><p>nura e amoroso cuidado pelos humildes e perdidos, tinham estado pre­</p><p>sente em seus vários encontros com os fariseus, e tinham observado sua</p><p>santa aversão à falsidade, orgulho, vaidade e tirania. Toda essa abençoada</p><p>comunhão havia feito nascer confiança e respeito pelo seu amado Mes­</p><p>tre, demasiadamente fortes para serem estremecidos por um simples dis­</p><p>curso que continha algumas declarações de caráter incompreensível, ex­</p><p>pressas através de uma linguagem questionadora e até ofensiva. O inte­</p><p>lecto deles pode ter ficado perplexo, mas o coração permaneceu fiel;</p><p>portanto, enquanto outros que não conheciam tão bem a Jesus partiram</p><p>desgostosos, eles continuaram ao seu lado, sentindo que tal guia e amigo</p><p>não podia ser abandonado por causa de uma ninharia.</p><p>“Temos crido e conhecido que tu és o Cristo”, disse Pedro. Ele cria</p><p>porque conhecia. Essa confiança implícita, que os doze discípulos ti­</p><p>nham em Jesus, somente é possível através de um conhecimento íntimo,</p><p>pois ninguém pode confiar em um estranho. Por conseguinte, todos os</p><p>que desejam alcançar o benefício dessa confiança devem estar dispostos</p><p>A Crise da Galiléia 175</p><p>a gastar algum tempo e ter o trabalho de penetrar no âmago da história</p><p>do Evangelho e de seu grande tema. Não se alcança ancoragem segura</p><p>com a leitura desatenta de narrativas evangélicas ao acaso, e sim através</p><p>de um estudo cuidadoso, conciso e piedoso, em oração, embora isso</p><p>possa levar anos para ser conseguido. Aqueles que se ressentem desse</p><p>trabalho estão em perigo iminente de sofrer o destino que caiu sobre a</p><p>multidão ignorante, de serem passíveis de entrar em pânico por causa de</p><p>qualquer novo livro infiel, ou de se escandalizar com qualquer nova e</p><p>estranha manifestação sobre o objeto da fé. Por outro lado, aqueles que</p><p>realmente se dedicam a essa tarefa serão recompensados por seus esfor­</p><p>ços. Embora, por algum tempo, tenham estado sacudidos pela tempes­</p><p>tade, ao final, alcançarão o abrigo de um credo que não estabelecerá um</p><p>compromisso desconhecido com um cristianismo escriturai e infiel, mas</p><p>que engloba todos os fatos e as verdades essenciais da fé, tal como foram</p><p>ensinados por Jesus no discurso de Cafarnaum e, mais tarde, transmiti­</p><p>dos pelos homens que, com toda segurança, atravessaram a crise de</p><p>Cafarnaum.</p><p>Possa Deus, em sua misericórdia, guiar todas as almas que agora</p><p>estão no mar tempestuoso da dúvida ao porto seguro celestial!</p><p>1 João 6.4: “E a Páscoa, a festa dos judeus, estava próxima”.</p><p>2 Keim, embora admitindo a realidade da crise da Galiléia, acredita que o relato feito no capítulo 6 de João não</p><p>seja histórico, embora o considere como uma das mais elaboradas composições de todo o livro. Ele encontra esse</p><p>relato histórico em Mateus 16; e descobre no quarto Evangelho pontos claros de correspondência com a versão</p><p>sinóptica. A declaração de Pedro, ao término do capítulo, representa simplesmente sua famosa confissão sob outra</p><p>forma. Na descrição de João , o d ia b o c o r r e s p o n d e ao Satanás da versão sinóptica; somente o diabo mencionado</p><p>por João está em Judas, enquanto o da visão sinóptica é mencionado nos escritos de Pedro. Keim diz que, no relato</p><p>que João fez da crise, o apogeu e a queda da estrela de Jesus foram incluídos em um único capítulo e tratados como</p><p>acontecimentos de um só dia. Através dos alimentos e da tempestade, Jesus alcança, rapidamente, a maior popula­</p><p>ridade e também rapidamente a perde em conseqüência do duro discurso em Cafarnaum. Mas essa é uma interpre­</p><p>tação absolutamente incorreta. João realmente estabelece a crise em um capítulo, mas não faz com que o entusiasmo</p><p>da multidão apareça como resultado do milagre do alimento ou de qualquer outro ato. Ele começa o ministério da</p><p>Galiléia (o qual ele conhece, embora não faça nenhum relato sobre ele) no ponto onde já tinha alcançado o resul­</p><p>tado de transformar Jesus em um ídolo popular (veja o versículo 2), e então continua relatando a história da crise.</p><p>E a história que ele nos oferece, consistente e inteligível em si mesma, como esperamos mostrar, ajuda a explicar</p><p>coisas que no relato sinóptico não são claras, por exemplo, a ordem de Cristo para os discípulos partirem rapida­</p><p>mente através do lago. Vide Jesu von Nazara} 2.578.</p><p>3 Lucas 9.10</p><p>4 Reconstruída pelo tetrarca Filipe, e referida por Josefo.</p><p>176 0 Treinamento dos</p><p>nós somos como o</p><p>imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos</p><p>nós caímos corno a folha, e as nossas culpas, como um vento, nos arreba­</p><p>tam”; e eles oravam fervorosamente pela revivificação da verdadeira reli­</p><p>gião, pela vinda do reino divino, pelo advento do Rei Messiânico com a</p><p>pá em sua mão para separar o joio do trigo, e para corrigir todas as</p><p>coisas que estivessem erradas. Tais, sem dúvida, eram os sentimentos</p><p>daqueles que tiveram a honra de ser os primeiros discípulos de Cristo.</p><p>Simão, o mais conhecido dos doze, sob o nome de Pedro, nos é</p><p>apresentado aqui por meio do critério profético de Jesus, pelo lado bom</p><p>de seu caráter, como um homem “de pedra”. Quando este discípulo foi</p><p>trazido por seu irmão André à presença de seu futuro Mestre, “olhando</p><p>Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas”</p><p>— Cefas em aramaico significa, como o evangelista explicou, o mesmo</p><p>que Petros em grego. O olhar penetrante de Cristo discerniu nesse discí­</p><p>pulo a capacidade latente de fé e devoção, os rudimentos da força máxi­</p><p>ma e poder.</p><p>O evangelista não nos diz diretamente que tipo de homem era Fili­</p><p>pe, mas apenas de onde ele veio. Pela passagem presente, e pelas outras</p><p>observações contidas nos Evangelhos, a conclusão é que ele era caracte-</p><p>risticamente deliberado, lento para tomar uma decisão; e para provar tal</p><p>20 O Treinamento dos Doze</p><p>ponto de vista, foi feita uma referência à “circunstância flegmática”4</p><p>com a qual ele descreveu a Natanael quem era Aquele que havia acabado</p><p>de conhecer5. Mas estas palavras de Filipe, e tudo o que lemos em outros</p><p>lugares sobre ele, nos sugerem a idéia de um inquiridor sincero buscando</p><p>a verdade, que havia realmente pesquisado as Escrituras, e s’e tornado</p><p>conhecedor do Messias da promessa e da profecia, e a quem o conheci­</p><p>mento de Deus era summum bonum. Na solicitude manifestada por esse</p><p>discípulo para cativar seu amigo Natanael à mesma fé, reconhecemos</p><p>um espírito generoso e solidário, característico dos inquiridores since­</p><p>ros, que posteriormente se revelou quando se tornou o portador do</p><p>pedido dos gregos devotos que queriam ver Jesus6.</p><p>As observações relacionadas a Natanael, conhecido de Filipe, são</p><p>mais detalhadas e mais interessantes do que no caso de qualquer um dos</p><p>outros cinco discípulos; e não é de causar surpresa o fato de que deverí­</p><p>amos vir a saber mais sobre alguém de quem, de outra maneira, não</p><p>conheceríamos quase nada. Não é absolutamente certo afirmar que ele</p><p>tenha pertencido ao círculo dos doze, embora exista a probabilidade de</p><p>que ele seja identificado como Bartolomeu nos sinópticos — seu nome</p><p>completo seria Bartolomeu, filho deTolmai. Por causa desta suposição é</p><p>que o nome Bartolomeu vem imediatamente após o de Filipe na lista</p><p>dos apóstolos7. Sendo assim, sabemos que Natanael era um homem de</p><p>grande excelência moral. Assim que Jesus o viu, exclamou: “Eis aqui um</p><p>verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” As palavras sugerem a idéia</p><p>de alguém puro de coração; em quem não havia inconstância, motivos</p><p>impuros, orgulho, ou paixões profanas: um homem brando, de espírito</p><p>pensativo, em cuja mente o céu era refletido como o céu azul em um lago</p><p>de águas tranqüilas em um dia calmo de verão. Ele era um homem afei­</p><p>çoado aos hábitos da devoção: ele estava entregue a exercícios espirituais</p><p>debaixo da copa de uma figueira pouco antes de conhecer a Jesus. Che­</p><p>gamos a esta conclusão a partir da profunda impressão causada em sua</p><p>mente pelas palavras de Jesus: “Antes que Filipe te chamasse, te vi eu</p><p>estando tu debaixo da figueira”. Natanael parece ter compreendido estas</p><p>palavras da seguinte maneira: “Eu vi teu coração e sei com que estavas</p><p>ocupado. Por esta razão declarei que és de fato um verdadeiro israelita”.</p><p>Natanael aceitou a declaração feita por Jesus como uma evidência de</p><p>0 Princípio 21</p><p>conhecimento sobrenatural, e então sem demora fez a seguinte confis­</p><p>são: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” — o Rei daquele</p><p>reino sagrado de onde dizes que sou cidadão.</p><p>E notável que esse homem, tão dotado das disposições morais ne­</p><p>cessárias para ver a Deus, fosse o único de todos os cinco discípulos que</p><p>tenha manifestado alguma hesitação em relação a receber Jesus como o</p><p>Cristo. Quando Filipe lhe falou que havia encontrado o Messias em</p><p>Jesus de Nazaré, ele perguntou com incredulidade: “Pode vir alguma</p><p>coisa boa de Nazaré?” E difícil imaginar tanto preconceito em alguém</p><p>tão brando e amável; porém, quanto à sua reflexão, percebemos ser um</p><p>tanto característica. O preconceito de Natanael contra Nazaré não se</p><p>originava de orgulho, como no caso das pessoas da Judéia, que despreza­</p><p>vam os galileus em geral, mas da humildade. Ele próprio era galileu, e</p><p>um objeto de desprezo dos judeus tanto quanto os nazarenos. Seu pen­</p><p>samento íntimo era: “Certamente o Messias nunca poderia vir de um</p><p>pobre povo desprezado como o nosso — de Nazaré ou de qualquer</p><p>outra cidade ou vila da galiléia!”8. Natanael timidamente permitiu que</p><p>sua mente fosse influenciada pela opinião geral, o que originou senti­</p><p>mentos com os quais ele não simpatizava; uma falha comum nos ho­</p><p>mens cuja piedade, embora pura e sincera, têm uma elevada considera­</p><p>ção pela autoridade humana, e naqueles que se tornam escravos de sen­</p><p>timentos absolutamente indignos de sua qualidade moral.</p><p>Embora Natanael não estivesse livre de preconceitos, mostrou sin­</p><p>ceridade ao se dispor a desprender-se deles. Ele veio e viu. Esta abertura</p><p>à convicção é a marca da integridade moral. A sinceridade que o homem</p><p>não dogmatiza, mas investiga, e que, ao final, se mostra a contento. O</p><p>homem propenso ao mal, que tem o coração desonesto, ao contrário,</p><p>não vem e vê. Considerando seu interesse de permanecer em seu estado</p><p>presente, ele cautelosamente evita olhar para qualquer coisa que não seja</p><p>para confirmar suas conclusões anteriores. Natanael poderia, de fato,</p><p>professar um desejo de questionar — como certos israelitas a respeito dos</p><p>quais lemos neste mesmo Evangelho — um tipo de caráter diferente do</p><p>seu, mas compartilhando com esses homens o preconceito contra a</p><p>Galiléia. “Examina e verás”, diziam esses israelitas, em resposta à per­</p><p>gunta ingênua do honesto e tímido Nicodemos: “Porventura, condena a</p><p>22 O Treinamento dos Doze</p><p>nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que</p><p>faz?” “Examina e verás”, disseram eles, apelando à observação e atrain­</p><p>do a dúvida; porém acrescentaram: “Da Galiléia nenhum profeta sur­</p><p>giu”9 — uma expressão que proibia a realização do questionamento e</p><p>sugeria que isso era desnecessário. “Procure e veja; mas nos dizemos</p><p>antecipadamente que você não poderá chegar a nenhuma outra conclu­</p><p>são além da nossa; e ainda o alertamos, é melhor que não o faça”.</p><p>Assim era o caráter dos dois primeiros homens que creram em Je­</p><p>sus. Qual era, então, o tamanho e o valor de sua fé? Â primeira vista, a fé</p><p>dos cinco discípulos, ignorando o relato da hesitação de Natanael, pare­</p><p>ce naturalmente repentina e madura. Eles creram em Jesus rapidamente e</p><p>expressaram a sua fé em termos que pareciam apropriados apenas ao</p><p>conhecimento cristão avançado. Na presente seção do Evangelho de João,</p><p>vemos Jesus ser chamado, não apenas de Cristo, o Messias, o Rei de</p><p>Israel, mas de Filho de Deus e de Cordeiro de Deus — nomes que para</p><p>nós expressam as principais doutrinas do cristianismo, a encarnação e a</p><p>expiação.</p><p>A rapidez e a maturidade que pareciam caracterizar a fé dos cinco</p><p>discípulos eram apenas uma aparência superficial. Como já foi dito an­</p><p>teriormente, estes homens acreditavam que o Messias viria em breve, e</p><p>àesejavam muito que tosse naquele momento, porque sentiam que Ele</p><p>era imensamente necessário. Eles eram homens que esperavam pela con­</p><p>solação de Israel, e estavam preparados para testemunhar o advento do</p><p>Consolador a qualquer momento. Então João Batista disse-lhes que Cristo</p><p>havia chegado, e que era a pessoa a quem ele havia batizado, e cujo batis­</p><p>mo havia sido acompanhado</p><p>Doze</p><p>5 Stanley, Sinai and Palestine p. 382. O “lugar deserto” é mencionado em Lucas 9.10. A “erva verde” aparece em</p><p>Marcos 6.39 e em João 6.10 ( “relva”).</p><p>6 Marcos 6.33</p><p>7 Marcos 6.40</p><p>8 Vide página 104.</p><p>9 João 6.23</p><p>10 João 6.9</p><p>11 Lucas 9.12</p><p>12 Marcos 8.3,4</p><p>13 Marcos 8.1-3</p><p>14 Como uma opinião sobre a visão da passagem em João 6.4 mencionada acima, veja Luthardc, Das Johan.</p><p>Evangelium, I. 80, 2. 41.</p><p>15 Marcos 6.37; João 6.7. Entende-se que um denário (ou penny, na versão inglesa) era o salário de um dia de um</p><p>trabalhador (M t 20.9) e correspondia a cerca de um oitavo de onça em prata.</p><p>16 João 6.6 -</p><p>17 João 6.14,15. O profeta mencionado era como Moisés (Dt 18.15).</p><p>18 Mateus 14.22; Marcos 1.45, Eutbeõs enankasen</p><p>19 João 6.15,16. Vide p. 116, nota 2.</p><p>20 Salmo 78.19,24,25</p><p>21 Deuteronômio 8.2</p><p>22 João 6.26</p><p>23 Stanley, Sinai and Palestine, p. 380.</p><p>24 Mateus 8.23; Marcos 4.35; Lucas 8.22</p><p>25 João 6.19</p><p>26 Marcos 6.48</p><p>27 Veja a Seção IV deste capítulo.</p><p>28 Lucas 24.37</p><p>29 Marcos 6.48</p><p>30 João 6.20</p><p>31 Marcos 6.51</p><p>32 Marcos 6.52</p><p>33 Mateus 14.28</p><p>34 João 6.21</p><p>35 João 6.24. Luthardt, muito apropriadamente, menciona que pelo fato de as pessoas estarem esperando Jesus</p><p>em Cafarnaum, esse lugar seria a sua residência, como também nos informam os Evangelhos sinópticos — Das Joh.</p><p>Evang. 2.50.</p><p>36 Versículos 26, 27</p><p>37 Versículo 28</p><p>38 Versículo 29</p><p>39 Versículos 30, 3 1 .0 nome de Moisés não é mencionado, mas ele está em seu pensamento.</p><p>40 ho katabainon, versículo 33, refere-se artos , não está se referindo diretamente ao orador.</p><p>41 João 6.32-35</p><p>42 Versículo 33</p><p>43 Versículos 38, 51, 58, 62</p><p>44 Versículos 41, 42</p><p>45 João I .I4</p><p>46 João 6.51. As palavras no original, representadas por aquelas que estão entre parêntesis, são de autoria duvido­</p><p>sa, mas o sentido será o mesmo quer permaneçam quer sejam apagadas. O primeiro termo, dõsõ, contém esta idéia.</p><p>47 João 6.52</p><p>48 João 6.53-58. No versículo 55 a leitura varia entre atèthõs e atèthês ou . No versículo 57, dia ton patera-s ign ifica</p><p>literalmente “por causa de”, porém o termo “por” traz o sentido prático. O mesmo ocorre com di’em e.</p><p>49 João 6.61, 62</p><p>50 João 6.35</p><p>51 João 6.50, 51, 55</p><p>A Crise da Galiléia 177</p><p>52 João 6.39, 40, 44, 54</p><p>53 João 6.49, 50</p><p>54 I Coríntios 15.19</p><p>55 João 6.35</p><p>56 Versículos 47, 48</p><p>57 Versículo 51</p><p>58 Versículo 29</p><p>59 Creâe et manducastí — Na obra In Joannis Evangelium Tract. 25. § 12.</p><p>60 Calv. Institutio IV 27:5.</p><p>61 João 6.37</p><p>62 João 6.44</p><p>63 João 6.45</p><p>64 João 8.31</p><p>65 João 6.36, 37</p><p>66 João 6.44</p><p>67 João 6.67. A partícula mê implica que se espera uma resposta negativa. Veja Winer, Neutest. Grammatik, § 57,</p><p>tradução de Moulton, p. 641.</p><p>68 Mateus 16.22</p><p>69 João 6.68, 69</p><p>70 Veja Alford in loc. A confissão da santidade de Cristo era apropriada, porém eqüivalia a sofrer uma acusação</p><p>implícita de ter usado uma linguagem ofensiva aos sentimentos morais.</p><p>71 João 6.70</p><p>72 J. F. Richter, Siebenkas, 8.</p><p>73 Números 23.8, 20</p><p>74 Veja a obra Supernatural Religion, 1:92 (6a edição).</p><p>10</p><p>O Fermento dos Fariseus</p><p>e dos Saduceus</p><p>Mateus 16 .1-I2 ; Marcos 8 .I0 -2I</p><p>P</p><p>A__Jsse novo conflito entre Jesus e seus oponentes teve lugar logo de­</p><p>pois do segundo milagre em que Ele alimentou a multidão, semelhante</p><p>ao que havia realizado nas vizinhanças de Betsaida Julias. A extensão do</p><p>intervalo entre os dois milagres não pode ser determinada com preci­</p><p>são1; mas é bastante significativa para admitirmos uma longa viagem, da</p><p>parte de nosso Senhor e de seus discípulos, até a costa de Tiro e Sidom,</p><p>cenário do encontro com a mulher siro-fenícia e, a partir daí, através da</p><p>região das dez cidades (Decápolis), na margem oriental do lago da Galiléia.</p><p>Também foi suficientemente longo para permitir que a causa e a fama de</p><p>Jesus se recuperassem do estado de degradação a que haviam chegado</p><p>depois do sermão da escolha, na sinagoga de Cafarnaum. Aquele que</p><p>havia se tornado impopular, tornou-se novamente popular, de modo</p><p>que ao chegar à margem sudeste do lago, Ele se viu acompanhado de</p><p>milhares de pessoas, tão interessadas em ouvir sua pregação e experi­</p><p>mentar seu poder de cura, que permaneceram praticamente três dias ao</p><p>seu lado, quase sem se alimentarem, criando, portanto, a necessidade de</p><p>um segundo repasto milagroso.</p><p>Lemos que, após o milagre realizado nessa margem do lago, Jesus</p><p>despediu-se da multidão e, entrando no barco, navegou até a costa de</p><p>Magdala, que ficava no lado ocidental2. Foi em sua chegada a esse local</p><p>que Jesus encontrou um grupo de pessoas que o procurava acreditando</p><p>ser Ele um sinal do céu. Provavelmente, essas pessoas tinham ouvido</p><p>falar a respeito do recente milagre, assim como de muitos outros realiza-</p><p>180 O Treinamento dos Doze</p><p>dos por Ele. Relutantes, porém, em aceitar a conclusão à qual essas ma­</p><p>ravilhosas obras claramente levavam, essas pessoas pretendiam considerá-</p><p>las como prova insuficiente de seu messianato e exigiam evidências ainda</p><p>mais inequívocas antes de concordar com sua reivindicação. Mostre-nos</p><p>um “sinal do céu”, diziam eles, querendo dizer com isso alguma coisa</p><p>como o maná vindo do céu a pedido de Moisés, ou o fogo pedido por</p><p>Elias, ou mesmo o trovão e a chuva pedidos por Samuel3; pois entendi­</p><p>am que tais sinais somente poderiam ser realizados pelo poder de Deus,</p><p>enquanto os sinais terrenos, como aqueles que Jesus havia exibido em</p><p>seus milagres de cura, também poderiam ser produzidos pelo poder do</p><p>demônio!4. Era um tipo de exigência muitas vezes dirigida a Jesus, em</p><p>boa ou má fé5, mas os judeus estavam exigindo tais sinais — milagres de</p><p>natureza singular e surpreendente, próprios para satisfazer à curiosidade</p><p>supersticiosa e causar espanto a mentes amantes de prodígios — , mila­</p><p>gres que eram meramente sinais e que não serviam a nenhum outro pro­</p><p>pósito que não fosse exibir o poder divino; como a vara de Moisés,</p><p>transformada em serpente e, depois, restaurada à sua forma original.</p><p>Todas essas exigências dos “caçadores de sinais” receberam uma</p><p>recusa direta. Ele não iria condescender e realizar milagres, de qualquer</p><p>natureza, para servirem como meros certificados de seu próprio</p><p>messianato, ou fornecer alimento a um apetite supersticioso ou material</p><p>para a diversão dos céticos. Ele sabia que aqueles que permanecessem</p><p>descrentes diante de seus milagres comuns, que não eram apenas sinais,</p><p>mas também obras de benevolência, não se deixariam converter à fé por</p><p>nenhum meio. E ainda mais, que por mais evidências que recebessem,</p><p>mais empedernidos ficariam em sua descrença. Ele considerava a própria</p><p>exigência de tais sinais como a indicação de uma firme determinação</p><p>por parte daqueles que o faziam por não crerem nele, mesmo que, a fim</p><p>de se verem livres dessa desagradável obrigação, fosse necessário condu­</p><p>zi-lo à morte. Portanto, ao recusar fornecer os sinais que buscavam, o</p><p>Senhor recorria ao hábito de acompanhar essa recusa com uma palavra</p><p>de censura ou de um triste presságio; como na ocasião em que Ele disse,</p><p>depois de seu batismo, ainda no período inicial de seu ministério, e em</p><p>sua primeira visita a Jerusalém: “Derribai este templo, e em três dias o</p><p>levantarei”6.</p><p>0 Fermento dos Fariseus e dos Saduceus 181</p><p>Na presente situação a alma de Jesus estava muito perturbada</p><p>pelas renovadas exigências dos “caçadores de sinais”. “E, suspirando</p><p>profundamente em seu espírito”, sabendo muito bem o que significa­</p><p>vam tais demandas, em relação tanto aos que a faziam como a si próprio,</p><p>Ele se dirigiu ao grupo que viera testá-lo com termos excessivamente</p><p>severos e amargos — acusando as pessoas de possuírem cegueira espiri­</p><p>tual, chamando-as de geração má e adúltera, referindo-se ironicamente a</p><p>elas naquele momento como havia feito anteriormente7 na pregação do</p><p>profeta Jonas. Ele lhes disse que, embora conhecessem os sinais do tem­</p><p>po e entendessem o que significava um céu vermelho pela manhã e à</p><p>tarde, estavam cegos perante nítidos sinais dos tempos que mostravam,</p><p>claramente, que o Sol da Justiça havia nascido e que a terrível tempesta­</p><p>de do juízo estava chegando como uma noite escura sobre a apóstata</p><p>por notáveis sinais vindos do céu; e eles</p><p>criam implicitamente naquilo que João Batista lhes havia dito. Final­</p><p>mente, a impressão produzida neles quando conheceram a Jesus, confir­</p><p>mava o testemunho de João, pois todo o conjunto era digno de Cristo.</p><p>A aparência da maturidade da fé dos cinco irmãos era igualmente</p><p>superficial. O nome “Cordeiro de Deus” foi dado a Jesus por João, não</p><p>por eles. O príncipe dentre os pregadores do arrependimento havia apren­</p><p>dido que o Senhor Jesus era o Cordeiro de Deus por meio da reflexão,</p><p>ou por uma revelação especial. Ele mesmo compreendia apenas vaga­</p><p>mente o que esse nome significava. Sua repetição mostrava que ele era</p><p>0 Princípio 23</p><p>um aprendiz que estava se esforçando para entender a sua lição; mas</p><p>sabemos que aquilo que João compreendia somente em parte, também</p><p>não foi totalmente compreendido pelos homens apresentados a Jesus,</p><p>naquele momento, e por muito tempo10.</p><p>O título “Filho de Deus” foi dado a Jesus por um dos cinco discí­</p><p>pulos assim como por João Batista, um título que até mesmo os apósto­</p><p>los anos mais tarde consideraram suficiente para expressar a sua creduli­</p><p>dade madura em relação à pessoa do seu Senhor. Mas não lhes ocorreu</p><p>que o nome usado por eles no início teria o mesmo significado no final.</p><p>Era um nome que poderia ser usado em um sentido muito além do que</p><p>é capaz de transmitir, e que foi transmitido na pregação apostólica —</p><p>meramente como um dos títulos do Antigo Testamento para o Messias,</p><p>um sinônimo de Cristo. Sem dúvida foi neste sentido rudimentar que</p><p>Natanael aplicou essa designação a Cristo, a quem também chamou de</p><p>Rei de Israel.</p><p>A fé desses irmãos estava, portanto, de acordo com aquela que de­</p><p>vemos esperar«dos iniciantes. Em essência, eles reconheceram em Jesus o</p><p>divino Profeta, o Rei, o Filho da profecia do Antigo Testamento. E seu</p><p>valor não repousa em sua maturidade ou precisão, mas nisto: que mesmo</p><p>sendo imperfeita, a fé que possuíam os aproximou, os colocou em con­</p><p>tato e íntima comunhão com o Senhor, na companhia de quem veriam</p><p>coisas ainda maiores do que quando creram no início; uma verdade após</p><p>outra, assumindo o seu lugar no firmamento de suas mentes, como as</p><p>estrelas aparecendo no céu vespertino à medida que a luz se desvanece.</p><p>1 Omina principiis inesse solent. — OVID. Fast. i. 178</p><p>2 v. 41</p><p>3 João 3.29</p><p>4 Luthardt, Das Johan. Evang. i. 102</p><p>5 v. 45</p><p>6 João 12.22.</p><p>7 Ewald enfatiza este argumento como prova da identidade dos dois, na obra Geschichte Christus, p. 327. Em Atos</p><p>1.13, Tomé está entre Felipe e Bartolomeu.</p><p>8 Stanley pensa que Natanael teve a intenção de separar Nazaré do resto da Galiléia como um local de má</p><p>reputação. Neste caso o argumento seria à fortiori: Pode algo bom vir da Galiléia, e especialmente de Nazaré, mesmo</p><p>sendo um local tão infame? — Sinai and Palestine, p. 366.</p><p>9 João 7.52. Na versão moderna (N TLH ) lê-se: “Estude as Escrituras Sagradas e verá que da Galiléia nunca</p><p>surgiu nenhum profeta”.</p><p>24 O Treinamento dos Doze</p><p>10 O uso de tal título por João em um período tão precoce é certamente surpreendente. E não é mais surpreen­</p><p>dente encontrar tal passagem no capítulo 53 de Isaías, em qualquer interpretação do mesmo ou em qualquer livro</p><p>do Antigo Testamento? E estando lá, porque nos maravilharmos de que este título estivesse nos lábios de João? Não</p><p>pocjemos afirmar nem sugerir que João compreendesse toda a profundidade de suas palavras. Por que a afirmação</p><p>não seria tão misteriosa para ele como, de acordo com o apóstolo Pedro, as afirmações semelhantes o eram para</p><p>profetas mais antigos?</p><p>Pescadores de Homens</p><p>Mateus 4 .18 -22 ; Marcos 1 .16-20; Lucas 5 .I-II</p><p>O s doze haviam chegado ao relacionamento íntimo com Jesus por</p><p>etapas; três etapas na história de sua comunhão com Ele são identificáveis.</p><p>Na primeira etapa eles simplesmente criam nele como sendo o Cristo, e</p><p>sendo seus companheiros mais próximos, particularmente em eventuais</p><p>ocasiões festivas. Desta fase inicial do relacionamento dos discípulos</p><p>com seu Mestre, temos algumas lembranças nos primeiros quatro capí­</p><p>tulos do Evangelho segundo Jcsãô . que narra como alguns deles inicial­</p><p>mente conheceram Jesus, e o acompanharam nas bodas de Caná1, na</p><p>Páscoa em Jerúsalém2, em uma visita ao local onde João Batista estava</p><p>ministrando3, e na jornada de retorno do sul para a Galiléia, passando</p><p>por Samaria4.</p><p>Na segunda etapa, a comunhão com Cristo assumiu a forma de</p><p>uma presença ininterrupta de sua pessoa, em tempo integral ou, ao me­</p><p>nos, o abandono das ocupações seculares habituais5. As narrativas pre­</p><p>sentes nos mostram alguns discípulos entrando nesta segunda fase do</p><p>discipulado. Das quatro pessoas aqui mencionadas, reconhecemos três:</p><p>Pedro, André e João, como antigos conhecidos, que já haviam passado</p><p>pela primeira fase do discipulado. De um deles, Tiago, o irmão de João,</p><p>tomamos conhecimento pela primeira vez; um fato que sugere a obser­</p><p>vação de que em alguns casos, a primeira e a segunda fase podem ter</p><p>ocorrido simultaneamente — profissões de fé em Jesus como o Cristo</p><p>sendo imediatamente seguidas pela renúncia das atividades seculares com</p><p>o propósito de se unir à sua companhia. Tais casos, de qualquer modo,</p><p>eram provavelmente excepcionais e raros.</p><p>26 0 Treinamento dos Doze</p><p>Os doze entraram no estágio final e mais elevado do discipulado</p><p>quando foram escolhidos por seu Mestre dentre toda a multidão de seus</p><p>seguidores, e formaram um grupo seleto, a ser treinado para a grande</p><p>obra do apostolado. Este importante evento provavelmente não ocorreu</p><p>até que todos os membros do círculo apostólico tivessem convivido por</p><p>algum tempo com Jesus.</p><p>A partir dos registros dos Evangelhos parece que Jesus começou</p><p>logo no início de seu ministério a reunir em torno de si um grupo de</p><p>discípulos, com a intenção de preparar uma representação para a conti­</p><p>nuação do trabalho do reino divino. Os dois pares de irmãos foram</p><p>chamados no início do primeiro ministério galileu, no qual o primeiro</p><p>ato foi a seleção de Cafarnaum, ao lado do mar, como o centro das</p><p>operações e o lugar comum de residência6. E quando pensamos na cha­</p><p>mada que receberam, percebemos que esta não poderia ter vindo cedo</p><p>demais. Os doze deveriam ser testemunhas de Cristo no mundo após a</p><p>sua partida; era o dever peculiar deles transmitir ao mundo um relato fiel</p><p>das palavras e atos do Mestre, uma imagem justa do seu caráter, e um</p><p>reflexo verdadeiro do seu espírito7. Este serviço obviamente só poderia</p><p>ser realizado por aqueles que tivessem sido, tanto quanto possível, teste­</p><p>munhas oculares e servos do Verbo Encarnado desde o início. Como</p><p>exceto nos casos de Pedro, Tiago, João, André e Mateus, não há menção</p><p>no Evangelho em relação ao chamado de homens que posteriormente se</p><p>tornaram apóstolos, devemos assumir que todos os chamados ocorre­</p><p>ram no primeiro ano do ministério público do Salvador.</p><p>Estes chamados foram feitos com referência consciente a um final</p><p>distante, o próprio apostolado, ficando evidente a partir dos termos</p><p>notáveis através dos quais foram expressos. “Vinde após mim”, disse</p><p>Jesus ao pescador de Betsaida, “e eu vos farei pescadores de homens”.</p><p>Estas palavras (cuja originalidade as identifica como uma declaração de</p><p>Jesus) mostram o grande fundador da fé, desejando não somente ter</p><p>discípulos, mas ter consigo homens que pudesse treinar para fazer ou­</p><p>tros discípulos: para lançar a rede da verdade divina ao mar do mundo, e</p><p>para aportar nas margens do reino divino uma grande multidão de almas</p><p>crentes. Tanto de suas palavras como de seus atos, podemos ver que Ele</p><p>dava suma importância a esta parte de seu trabalho, que consistia no</p><p>Pescadores de Homens 27</p><p>treinamento dos doze. Na oração intercessória8 por exemplo, Ele fala do</p><p>treinamento que havia concedido a estes homens nos dando a idéia de</p><p>que esta fosse a parte principal de seu próprio ministério terreno. E, de</p><p>certo modo, o foi. O cuidadoso e esmerado ensino dos discípulos asse­</p><p>gurou que a influência do professor no mundo deveria ser permanente;</p><p>que seu reino deveria ser fundado sobre a rocha da profunda convicção</p><p>indestrutível na mente de poucos, não na areia movediça das impressões</p><p>superficiais imperceptíveis na mente de muitos. Em relação a tal reino,</p><p>nosso Senhor nos ensinou em uma de suas parábolas a trabalhar9 como</p><p>aquele que introduz no mundo uma semente que é lançada ao solo e que</p><p>deverá crescer de acordo com as leis naturais. Mas para os doze havia o</p><p>risco da doutrina, das obras e da lembrança de Jesus perecerem na mente</p><p>humana, não restando senão uma vaga tradição mítica, sem valor histó­</p><p>rico e de pouca influência prática.</p><p>Aqueles de quem essa obra tanto dependia possuíam, claramente,</p><p>qualificações extraordinárias. Os espelhos devem ser completamente</p><p>polidos pois estavam destinados a refletir a imagem de Cristo! Os após­</p><p>tolos da mensagem cristã deveriam ser homens de rara capacitação espi­</p><p>ritual. Trata-se de uma religião universal, direcionada a todas as nações;</p><p>portanto, seus'apóstolos deveriam ser livres da mesquinhez judaica e ter</p><p>sentimentos tão amplos quanto o mundo. Trata-se de uma religião espiri­</p><p>tual, há muito destinada a tornar antiquado o cerimonialismo judaico; e</p><p>assim, seus apóstolos deveriam ser emancipados, em sua consciência, em</p><p>relação ao jugo das ordenanças10. Trata-se de uma religião que deve pro­</p><p>clamar a cruz. A cruz, dantes um instrumento da crueldade e uma insíg­</p><p>nia da infâmia, agora se torna a esperança da redenção do mundo e o</p><p>símbolo de tudo o que é nobre e heróico em conduta. Portanto, seus</p><p>arautos deveriam ser superiores a todos os conceitos convencionais de</p><p>dignidade humana e estarem à altura da dignidade divina, sendo capazes</p><p>de se gloriar na cruz de Cristo, e estarem dispostos a carregar, eles pró­</p><p>prios, a cruz. Em suma, o caráter apostólico deveria combinar a liberda­</p><p>de de consciência, a amplitude de coração, a iluminação da mente e</p><p>todas as qualidades no grau superlativo.</p><p>Os humildes pescadores da Galiléia tinham muito a aprender antes</p><p>de corresponderem satisfatoriamente a essas elevadas exigências; porém</p><p>28 0 Treinamento dos Doze</p><p>o tempo do seu aprendizado para o desempenho do trabalho apostólico,</p><p>mesmo contando desde o início do ministério de Cristo, parece muito</p><p>curto. Eles eram homens devotos, que já haviam mostrado a sinceridade</p><p>de sua piedade ao renunciar a tudo pela causa de seu Mestre. Mas na</p><p>ocasião de seu chamado, eles eram excessivamente ignorantes, de mentes</p><p>limitadas, supersticiosos, cheios de preconceitos judaicos, concepções</p><p>errôneas, e animosidades. Tinham muito a mudar em relação ao que era</p><p>mau, assim como tinham muito a aprender sobre o que era bom. Eram</p><p>lentos tanto para aprender quanto para “desaprender” o que era incon­</p><p>veniente. Velhas crenças já incutidas em suas mentes fizeram da comuni­</p><p>cação das novas idéias religiosas uma tarefa difícil. Homens de coração</p><p>bom e honesto, o solo de sua natureza espiritual era adequado para pro­</p><p>duzir uma colheita abundante; mas era duro, e precisava ser muito arado</p><p>antes de produzir frutos. Então, mais uma vez, demonstravam ser ho­</p><p>mens pobres, de origem humilde, de posição inferior, com ocupações</p><p>simples, que nunca haviam sentido a influência de uma educação liberal</p><p>ou de um relacionamento social com pessoas cultas11.</p><p>A medida que prosseguimos com os estudos relativos ao assunto</p><p>em questão, podemos observar as evidências abundantes da condição de</p><p>imaturidade espiritual dos doze, mesmo muito'tempo depois do perío­</p><p>do em que foram chamados para seguir Jesus. Neste processo, podemos</p><p>vir a descobrir indicações significativas da imaturidade religiosa de pelo</p><p>menos um dos discípulos — Simão, o filho de Jonas — na narrativa de</p><p>Lucas quanto aos incidentes relacionados ao seu chamado. Pressionado</p><p>por uma multidão que se reuniu à margem do lago para ouvi-lo pregar,</p><p>Jesus entrou em um barco (um dos dois mais próximos), que era de</p><p>Simão e pediu-lhe que o afastasse um pouco da margem; sentou-se e, do</p><p>barco, ensinava as pessoas. Quando terminou de falar, Jesus disse ao</p><p>dono do barco: “faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pes­</p><p>car”. Seus esforços anteriores de pesca foram em vão; mas Simão e seu</p><p>irmão fizeram como Jesus havia ordenado, e foram recompensados com</p><p>uma pesca extraordinária, que para eles e seus companheiros, Tiago e</p><p>João, não era nada menos do que uma pesca milagrosa. Simão, o mais</p><p>impressionável e impulsivo dos quatro, expressou seu sentimento de es­</p><p>panto por meio de palavras e gestos característicos. Ele caiu aos pés de</p><p>Pescadores de Homens 29</p><p>Jesus dizendo: “Senhor, ausenta-te de mim, por que sou um homem</p><p>pecador!”</p><p>Esta exclamação abre uma janela para o seu lado interior aqui de­</p><p>monstrado; através dessa janela podemos ver o seu estado espiritual. Em</p><p>tal ocasião, observamos em Pedro uma mistura de bem e mal, de graça e</p><p>natureza, que com freqüência reaparece em seu caráter na história subse­</p><p>qüente. Dentre os bons elementos que podem ser discernidos está o</p><p>temor reverente na presença do poder divino, uma pronta lembrança do</p><p>pecado que incomoda a consciência, e uma sincera auto-humilhação em</p><p>razão do benefício imerecido. Valiosas características de caráter; mas</p><p>existiam em Pedro na forma de uma mistura. Junto com essas estavam</p><p>associados temores supersticiosos do sobrenatural, e um escravizante</p><p>medo de Deus. A presença do elemento anterior está implícita na exor­</p><p>tação tranqüilizadora dirigida por Jesus ao discípulo: “Não temas; de</p><p>agora em diante, serás pescador de homens”. O medo escravizante que</p><p>Pedro sentia em relação a Deus é manifestado por suas próprias palavras:</p><p>“Senhor, ausenta-te de mim”. Muito impressionado com o conheci­</p><p>mento sobre-humano revelado na grande pesca, Pedro considera, por</p><p>um momento, que Jesus é um ser sobrenatural, e tal fato o leva a concluir</p><p>que não é segiíro estar próximo dele, especialmente tratando-se de um</p><p>pobre mortal, pecador. Este estado de consciência mostra quão incapa­</p><p>citado era Pedro para ser um apóstolo de um Evangelho que exalta a</p><p>graça de Deus dirigida até mesmo aos maiores pecadores. Sua piedade,</p><p>suficientemente forte e decidida, não era cristã, era legal, quase, pode-se</p><p>dizer, pagã em espírito.</p><p>Com todas as suas imperfeições, que eram tanto numerosas como</p><p>grandes, esses humildes pescadores da Galiléia tinham, no início de sua</p><p>carreira, uma grande virtude que os distinguia. Embora esta pudesse</p><p>coexistir com muitos defeitos, é a principal virtude da ética cristã, e a</p><p>precursora para se alcançar as maiores realizações. Eles eram incentiva­</p><p>dos pela devoção a Jesus e pelo reino divino que os tornou capazes de</p><p>quaisquer sacrifícios. Ao crerem naquele que os convidou a segui-lo com</p><p>a finalidade de estabelecer o reino de Deus na terra, “imediatamente”</p><p>deixaram as suas redes e se juntaram à sua companhia, para serem, a</p><p>partir de então, seus companheiros em todas as suas jornadas. Isto foi</p><p>30 O Treinamento dos Doze</p><p>reconhecido pelo próprio Senhor Jesus Cristo como meritório; e não</p><p>podemos, sem cometer injustiça, buscar menosprezar os motivos dos</p><p>apóstolos, relacionando-os ao ócio, ao descontentamento ou à ambição.</p><p>A narrativa do Evangelho mostra que os quatro irmãos não eram ocio­</p><p>sos, e sim trabalhadores assíduos, homens laboriosos. Nem.eram des­</p><p>contentes, porque não havia outro motivo para que o fossem. A família</p><p>de Tiago e João parecia ter uma situação confortável. Marcos relata que</p><p>quando estes foram chamados por Jesus, eles deixaram seu pai Zebedeu</p><p>no barco com os servos e o seguiram. Mas e a ambição, ela tinha lugar</p><p>em meio aos seus motivos? Bem, devemos admitir que os doze, especial­</p><p>mente Tiago e João, não estavam livres do sentimento de ambição, como</p><p>veremos a seguir. Mas qualquer que fosse a extensão da ambição que</p><p>pode ter influenciado a conduta desses homens em um período posteri­</p><p>or, não foi este o motivo que determinou que deixassem suas redes. A</p><p>ambição precisa de uma tentação: ela não se une a uma causa obscura e</p><p>relutante, cujo sucesso seja duvidoso; tem início</p><p>quando o sucesso é</p><p>aparentemente certo e quando o movimento que ela incentiva se dá na</p><p>véspera de sua glorificação. A causa de Jesus ainda não havia alcançado</p><p>tal estágio.</p><p>Somente uma acusação pode ser feita contra aqueles homens, e po­</p><p>dem ser feitas com veracidade e sem causar dano algum à sua memória.</p><p>Eles eram entusiastas: seus corações eram inflamados e, como o mundo</p><p>descrente poderia dizer, suas idéias estavam voltadas ao sonho de estabe­</p><p>lecer o reino divino em Israel, com Jesus de Nazaré como o seu rei. Este</p><p>sonho os possuía, e imperiosamente governava suas mentes e moldava</p><p>seus destinos, compelindo-os, como Abraão, a deixarem suas famílias e</p><p>seu país, para seguir o que antes parecia ser um objetivo tolo. Que bom</p><p>para o mundo que eles estavam possuídos pela idéia do reino! Porque</p><p>seu objetivo não era tolo, ao deixarem suas redes para trás. O reino que</p><p>buscavam se tornou tão real quanto a terra de Canaã, embora não fosse</p><p>inteiramente do modo como o haviam imaginado. Os pescadores da</p><p>Galiléia se tornaram pescadores de homens em uma escala mais extensi­</p><p>va e, com a ajuda de Deus, reuniram, na igreja, muitas almas que deveri­</p><p>am ser salvas. Eles estavam lançando suas redes ao mar do mundo, e pelo</p><p>seu testemunho a respeito de Jesus nos Evangelhos e nas Epístolas, leva­</p><p>Pescadores de Homens 31</p><p>ram multidões a se tornarem discípulos dele, dentre as quais tiveram a</p><p>alegria de ser contados como os primeiros seguidores.</p><p>Os quatro, e mais tarde os doze, renunciaram a tudo e seguiram ao</p><p>seu Mestre. A palavra “tudo” incluía também a esposa e os filhos? Sim,</p><p>em pelo menos um caso — 110 caso de Pedro; os Evangelhos contam</p><p>como a sogra de Pedro foi curada de uma febre pelo poder miraculoso</p><p>de Cristo12. A partir de uma passagem na primeira epístola de Paulo à</p><p>igreja de Corinto, parece que Pedro não era o único casado entre os</p><p>apóstolos13. Na mesma passagem observamos que tal renúncia das espo­</p><p>sas pela causa de Cristo não significava a deserção literal. Pedro, como</p><p>apóstolo, levou sua esposa consigo, e Pedro, como discípulo, ao lado de</p><p>Jesus, algumas vezes pode ter feito o mesmo. Provavelmente, os discípu­</p><p>los casados, assim como os soldados casados, tenham levado suas espo­</p><p>sas consigo ou as deixado em casa, conforme as circunstâncias permiti­</p><p>am ou exigiam. As mulheres, mesmo as casadas, às vezes seguiam a Jesus;</p><p>e a esposa de Simão, ou de qualquer outro discípulo casado, pode ocasi­</p><p>onalmente ter estado entre elas. Em um período avançado na história,</p><p>vemos a mãe de Tiago e João na companhia de Cristo e longe de casa; e</p><p>onde havia mães, as esposas, se desejassem, também poderiam estar. A</p><p>igreja, em seu 'estado inicial nômade ou itinerante, parece ter sido uma</p><p>mistura de peregrinos, na qual havia todos os tipos de pessoas, de ambos</p><p>os sexos, de várias posições sociais e caráter moral diverso, totalmente</p><p>unidas, sendo o laço de união um intenso apego a Jesus.</p><p>Essa igreja itinerante não era uma sociedade regularmente organiza­</p><p>da, da qual era necessário ser um membro constante para ser considera­</p><p>do um verdadeiro discípulo. Exceto no caso dos doze, seguir a Jesus de</p><p>um lugar para outro era opcional, não um ato compulsório; e na maioria</p><p>dos casos provavelmente era somente ocasional14. Era a conseqüência</p><p>natural da fé, cujo objeto, o centro do círculo, era o próprio Senhor Jesus</p><p>em movimento. Os crentes espontaneamente desejavam ver o maior nú­</p><p>mero possível das obras de Cristo, e ouvir as suas palavras tanto quanto</p><p>fosse possível. Quando o objeto dessa fé deixou a terra, e sua presença</p><p>passou a ser espiritual, todas as ocasiões para o discipulado itinerante</p><p>foram encerradas. A partir de então, para estar em sua presença, os ho­</p><p>mens devem apenas renunciar aos seus pecados.</p><p>32 0 Treinamento dos Doze</p><p>1 João 2.1</p><p>2 João 2.13, 17, 22</p><p>3 João 3.22</p><p>4 João 4.1-27, 31 ,43-45</p><p>5 Um abandono completo no caso de Mateus, é claro; no caso dos pescadores, não necessariamente.</p><p>6 Mateus 4.13</p><p>7 Não se assume aqui que os Evangelhos, como os temos, tenham sido escritos pelos apóstolos. A declaração no</p><p>texto implica apenas que o ensino dos apóstolos, quer orais ou escritos, foram a fonte suprema das tradições</p><p>registradas nos Evangelhos.</p><p>8 João 17.6</p><p>9 Marcos 4.26</p><p>10 E universal e espiritualmente admitido pela escola Tübingen que os atributos da religião de Jesus foram</p><p>estabelecidos por Ele mesmo. Este é um fato importante em relação às suas hipóteses-conflitos.</p><p>11 Ao longo deste trabalho é dada grande proeminência aos defeitos morais e espirituais dos doze. Mas deve­</p><p>mos protestar desde o início contra a inferência de que tais homens sejam permanentemente considerados</p><p>desqualificados (exceto Judas) para a tarefa de serem apóstolos da religião universal, a religião da humanidade.</p><p>Tudo de bom pode ser esperado de homens que foram capazes de deixar tudo para seguir a Cristo. Onde quer que</p><p>exista uma alma nobre, existirá uma capacidade extremamente grande de crescimento.</p><p>12 Mateus 8 .14; Marcos 1,29-31; Lucas 4.38, 39</p><p>13 I Coríntios 9.5</p><p>14 As palavras registradas em Lucas 22.28, ditas por Jesus aos seus discípulos na noite anterior à sua morte: “Vós</p><p>sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações”, têm sido utilizadas com a intenção de provar tanto</p><p>a continuidade da companhia dos doze com Jesus quanto a data do seu início. Este pronunciamento tem a intenção</p><p>direta de transmitir o testemunho da fidelidade dos discípulos, mas indiretamente também dá testemunho de</p><p>outros pontos. Eles estiveram com o seu Mestre, se não como um corpo constituído por doze pessoas, pelo menos</p><p>como indivíduos, desde o tempo em que Ele começou a sofrer “tentações”, o que ocorreu muito cedo, e estiveram</p><p>com Ele ao longo de todas elas.</p><p>Mateus, o Publicano</p><p>Mateus 9 .9-13; Marcos 2 .I5 -I7 ; Lucas 5.27-32</p><p>O chamado de Mateus ilustra bem o caráter proeminente da ação</p><p>pública de Jesus, e seu desprezo absoluto em relação ao máximo da sabe­</p><p>doria mundana. Um discípulo publicano, e muito mais um apóstolo</p><p>publicano, não deixaria de ser uma pedra de tropeço ao preconceito</p><p>judeu e, na ocasião, uma fonte de fraqueza e não de força. E mesmo</p><p>estando perfeitamente ciente desse fato, Jesus convidou ao convívio ínti­</p><p>mo do discipulado alguém que havia procurado uma ocupação de co­</p><p>brador de impostos, e que posteriormente foi selecionado para ser um</p><p>dos doze. Seu procedimento nesse caso é o mais notável de todos quan­</p><p>do comparado com o modo como Ele tratou outros que tinham aparen­</p><p>tes vantagens que os recomendavam favoravelmente, e que haviam mos­</p><p>trado sua boa vontade de seguirem-no voluntariamente como discípu­</p><p>los. Observe, por exemplo o escriba que se apresentou e disse: “Mestre,</p><p>aonde quer que fores, eu te seguirei”1. Esse homem, cuja posição social e</p><p>capacidade profissional pareciam apontá-lo como uma aquisição muito</p><p>desejável, não foi convidado pelo Mestre, que deliberadamente lhe mos­</p><p>trou o difícil panorama de sua própria condição, dizendo: “As raposas</p><p>têm covis2, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem</p><p>onde reclinar a cabeça”.</p><p>Os olhos de Jesus são únicos e também oniscientes. Ele olhava para</p><p>o coração e tinha um respeito exclusivo pela aptidão espiritual. Ele não</p><p>tinha fé alguma no discipulado baseado em equívocos e coisas munda­</p><p>nas; e, por outro lado, não tinha medo de obstáculos vindos das cone­</p><p>xões externas ou da história passada dos crentes; pelo contrário, Ele era</p><p>34 0 Treinamento dos Doze</p><p>completamente indiferente aos antecedentes dos homens. Confiante no</p><p>poder da verdade, escolheu as coisas básicas do mundo ao invés das</p><p>coisas favoráveis, seguro de que venceriam no final. Ciente de que tanto</p><p>Ele quanto os seus discípulos seriam desprezados e rejeitados pelos ho­</p><p>mens por algum tempo, seguiu seu caminho calmamente,, escolhendo</p><p>como seus companheiros e auxiliares “os que Ele quis”, sem se preocu­</p><p>par com a contradição de sua geração — como alguém que sabia que sua obra</p><p>dizia respeito a todas as nações; em todas as épocas.</p><p>O discípulo</p><p>publicano possui dois nomes no relato do Evangelho.</p><p>No primeiro Evangelho ele é chamado de Mateus, enquanto no segun­</p><p>do e no terceiro é chamado de Levi. Podemos considerar com certeza</p><p>tratar-se da mesma pessoa3. Dificilmente seria concebível que dois</p><p>publicanos tivessem sido chamados para ser discípulos no mesmo lugar</p><p>e ao mesmo tempo, e com as mesmas circunstâncias envolvidas, e estas</p><p>tão notáveis e precisamente similares. Não deveríamos nos surpreender</p><p>pelo fato de a identidade não ter sido notificada, em razão dos dois</p><p>nomes pertencentes à mesma pessoa terem sjdo familiares aos primeiros</p><p>leitores do Evangelho, o que tornaria tal informação supérflua.</p><p>Não é improvável que Levi tenha sido o nome desse discípulo antes</p><p>de receber seu chamado, e que Mateus tenha sido seu nome como discípu­</p><p>lo — assim, o novo nome passou a ser um símbolo e uma lembrança da</p><p>mais importante mudança ocorrida em seu coração e em sua vida. M u­</p><p>danças emblemáticas de nomes ocorriam com freqüência no início do</p><p>Evangelho. Simão, o filho de Jonas, passou a se chamar Pedro; Saulo de</p><p>Tarso passou a ser Paulo, e José, o Cipriota, recebeu dos apóstolos o belo</p><p>nome cristão Barnabé (filho da consolação, ou profecia), por sua filantropia,</p><p>magnanimidade, e sabedoria espiritual — um nome bem merecido.</p><p>Parece que Mateus desempenhava a função de coletor de impostos</p><p>na ocasião em que foi chamado em Cafarnaum, cidade que Jesus adotou</p><p>como residência. Foi enquanto Jesus estava em casa, em “sua cidade”4,</p><p>como Cafarnaum passou a ser chamada, que o paralítico foi levado até</p><p>Ele para ser curado; e em todos os Evangelhos5 constatamos que foi na</p><p>saída de sua casa — onde o milagre foi efetuado — que Ele viu Mateus,</p><p>e disse-lhe: “Siga-me”. A inferência a ser feita a partir desses fatos é</p><p>simples, e também importante, para explicar a prontidão do chamado e</p><p>Mateus, o Publicano 35</p><p>a prontidão com que foi respondido. Sendo Jesus e seus novos discípu­</p><p>los da mesma cidade, provavelmente tiveram oportunidades de se ver</p><p>anteriormente.</p><p>A data do chamado de Mateus não pode ser determinada com pre­</p><p>cisão, mas existe uma boa razão para colocá-la antes do Sermão da</p><p>Montanha, sobre o qual o Evangelho segundo Mateus contém o relato</p><p>mais completo. O fato por si só sustenta uma forte evidência a favor</p><p>dessa colocação cronológica, porque tal narrativa tão completa do Ser­</p><p>mão não poderia se originar de alguém que não o tivesse ouvido. Um</p><p>exame do terceiro Evangelho converte a probabilidade em algo como</p><p>certo. Lucas anexa à sua abreviada narrativa do Sermão uma nota da</p><p>constituição da sociedade apostólica e representa Jesus como descendo</p><p>“com eles”6 — os doze, cujos nomes ele havia acabado de citar — à</p><p>cena onde o sermão foi proferido. E óbvio que o ato da constituição</p><p>deve ter sido precedido pelos atos separados do chamado, e pelo chama­</p><p>do de Mateus em particular, que é relatado pelo terceiro evangelista em</p><p>um trecho anterior ao seu Evangelho7. E verdade que a posição do cha­</p><p>mado na narrativa de Lucas por si só não prova nada, já que Mateus</p><p>relata o seu próprio chamado depois do Sermão. E assim, nenhum deles</p><p>nem outros afirmam algum princípio cronológico de organização no</p><p>relato dos fatos. Baseamos a nossa conclusão na suposição de que quando</p><p>algum dos evangelistas professa dando a ordem de seqüência, seu depoi­</p><p>mento pode ser confiável; e na observação, Lucas manifestadamente em­</p><p>prega uma ordem cronológica na organização dos doze antecedendo o</p><p>Sermão da Montanha. A organização de Mateus no início de seu Evange­</p><p>lho não obedece a uma cronologia; sua questão se concentra no seguinte</p><p>princípio típico: capítulos 5 a 7, mostrar Jesus como um grande professor</p><p>ético; capítulos 8 e 9, como um operador de milagres; capítulo 10, como</p><p>um Mestre, escolhendo, instruindo, e ordenando uma missão evangelística</p><p>dos doze discípulos; capítulo II , como um crítico dos seus contemporâ­</p><p>neos e preservador das suas próprias prerrogativas; capítulo 12, como ex­</p><p>posto às contradições da incredulidade; e capítulo 13, ensinando as dou­</p><p>trinas do reino por meio de parábolas.</p><p>Passando desses pontos subordinados ao chamado em si, observa­</p><p>mos que as narrativas do evento são muito breves e fragmentadas. Não</p><p>36 0 Treinamento dos Doze</p><p>há nenhuma insinuação de algum conhecimento prévio que pudesse pre­</p><p>parar Mateus para aceitar o convite que lhe fora feito por Jesus. Não se</p><p>deve concluir, de qualquer forma, que tal conhecimento não existisse,</p><p>como podemos ver no caso dos quatro pescadores cujo chamado é nar­</p><p>rado com igual brevidade nos evangelhos sinópticos, enquanto sabemos</p><p>a partir do Evangelho de João que pelo menos três deles já conheciam</p><p>Jesus. A verdade é que, considerando ambos os chamados, os evangelistas</p><p>se preocuparam somente com os momentos críticos, passando em silêncio</p><p>por todos os estágios preparatórios, e não considerando necessário in­</p><p>formar aos leitores inteligentes que, é claro, nem os publicanos nem os</p><p>outros discípulos seguiram cegamente àquele a respeito de quem não</p><p>sabiam nada, meramente por terem sido convocados a segui-lo. Um fato</p><p>já averiguado — que Mateus, na condição de publicano, residia em</p><p>Cafarnaum — torna absolutamente certo que ele conhecia Jesus antes</p><p>de ser chamado. Nenhum homem poderia ter vivido em tal cidade na­</p><p>queles dias sem ter ouvido falar das “obras maravilhosas” realizadas nela</p><p>e em sua vizinhança. O céu havia sido aberto exatamente sobre Cafarnaum,</p><p>aos olhos de todos, e os anjos “subiam e desciam” sobre o Filho do</p><p>Homem. Leprosos foram limpos, os demônios dos possessos foram ex­</p><p>pulsos, os cegos voltaram a ver, e os homens paralíticos puderam usar</p><p>seus membros; uma mulher foi curada de uma doença crônica, e uma</p><p>outra, filha de um cidadão distinto — Jairo, príncipe da sinagoga — foi</p><p>ressuscitada. Estas coisas eram feitas publicamente, causavam grande alarde</p><p>e eram notáveis. Os evangelistas relatam como as pessoas “se admira­</p><p>ram, a ponto de perguntarem entre si, dizendo: Que é isto? Que nova</p><p>doutrina é esta? Pois com autoridade ordena aos espíritos imundos, e</p><p>eles lhe obedecem!”8, como glorificavam a Deus dizendo: “Nunca tal</p><p>vimos”9 ou, “Hoje, vimos prodígios”10. O próprio Mateus concluiu sua</p><p>narrativa da ressurreição da filha de Jairo com a seguinte observação: “E</p><p>espalhou-se aquela notícia por todo aquele país”11.</p><p>Não afirmamos que todos esses milagres foram realizados antes do</p><p>chamado do publicano, mas alguns deles certamente o foram. Compa­</p><p>rando um Evangelho com o outro, para determinar a seqüência históri­</p><p>ca12, concluímos que a maior de todas essas obras maravilhosas, a última</p><p>mencionada, embora narrada por Mateus depois de seu chamado, real­</p><p>Mateus, o Publicano 37</p><p>mente ocorreu antes disso. Pense, então, no efeito poderoso que esse ato</p><p>excelente teria na preparação do coletor de impostos para reconhecer,</p><p>em uma palavra solenemente pronunciada: "Siga-me”, a ordem daquele</p><p>que era o Senhor tanto da morte como da vida, e se render ao seu convi­</p><p>te, prontamente, obedecendo sem hesitação!</p><p>Ao creditar a Mateus algum conhecimento prévio de Cristo, faze­</p><p>mos essa conversão ao discipulado parecer razoável sem diminuir seu</p><p>valor moral. Não era natural que ele devesse se tornar um seguidor de</p><p>Jesus meramente por ter ouvido, ou mesmo visto, suas obras maravilho­</p><p>sas. Os milagres por si só não poderiam fazer nenhum homem se tornar</p><p>crente, porque se este fosse o caso, todas as pessoas de Cafarnaum teri­</p><p>am crido. Que fato diferente aprendemos a partir das reclamações mais</p><p>tarde feitas por Jesus em relação às cidades ao longo das margens do</p><p>Lago de Genesaré, onde a maior parte de suas obras poderosas foi feita,</p><p>e de Cafarnaum em -particular. A respeito desta cidade, Ele disse com amar­</p><p>gura: “E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos</p><p>infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que</p><p>em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje”13. A queixa de Cristo</p><p>contra os habitantes dessas cidades favorecidas era</p>

Mais conteúdos dessa disciplina