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LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR E POLÍTICAS DE INCLUSÃO W B A 01 47 _v 2. 0 2 Carlos Eduardo Candido Pereira Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2020 LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR E POLÍTICAS DE INCLUSÃO 1ª edição 3 2020 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Giani Vendramel de Oliveira Henrique Salustiano Silva Juliana Caramigo Gennarini Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Giani Vendramel de Oliveira Revisor Aline Oliveira Gomes da Silva Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Gilvânia Honório dos Santos Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) __________________________________________________________________________________________ Pereira, Carlos Eduardo Candido P436I Legislação da educação superior e políticas de inclusão/ Carlos Eduardo Candido Pereira, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2020. 64 p. ISBN 978-65-86461-88-6 1. Legislação. 2. Educação I. Pereira, Carlos Eduardo Candido. II.Título. CDD 378.81 ____________________________________________________________________________________________ Jorge Eduardo de Almeida CRB-8/8753 © 2020 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Introdução aos princípios da Legislação e da Legislação da Educação no Brasil ____________________________________________________________ 05 Universidade: Ensino, Pesquisa e Extensão _________________________ 22 A Legislação Nacional Para a Educação Superior ____________________ 38 Ações Afirmativas, Políticas e Legislação de Inclusão ________________ 55 LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR E POLÍTICAS DE INCLUSÃO 5 Introdução aos princípios da Legislação e da Legislação da Educação no Brasil Autoria: Carlos Eduardo Candido Pereira Leitura crítica: Aline Oliveira Gomes da Silva Objetivos Para esta aula, apresentaremos temas relacionados à legislação e, também, faremos um breve panorama da Educação Superior, retomando alguns conceitos diferenciadores. Desse modo, temos por objetivo: • Conhecer o atual contexto da Educação Superior no Brasil. • Compreender a conceituação de Educação e Ensino. • Verificar como se dá a formação da ordenação legislativa no Brasil. 6 1. Contexto da Educação Superior no Brasil Para aqueles que um dia pretendem atuar num posto acadêmico ou administrativo na universidade, seja ela pública ou particular, é importante ter conhecimento do espaço que vivenciará por boa parte da jornada diária. Dado isso, devemos nos situar no momento presente para compreendermo-nos como sujeitos da própria história e sujeitos que se relacionam à sociedade. Desta maneira, na sociedade globalizada e capitalista, a Educação é vista como sinônimo de ascensão social. Afinal, para a Economia de um país se tornar competitiva, é necessária mão de obra qualificada. Portanto, cabe a alguns cursos técnicos e profissionais de nível médio ou superior e, em especial, à universidade direcionar investimentos na composição de quadros qualificados à competitividade econômica nacional no mercado financeiro global. Nesse sentido, para Dourado e Oliveira (1999), a Educação Superior tem duas tarefas básicas: conhecimento e formação, em outras palavras, produção de conhecimento e formação do profissional. Essas ações, por sua vez, são etapas essenciais para inserção de qualquer país no processo competitivo do mundo globalizado. Assim, o investimento em cérebros, ou melhor, na criação de capital intelectual e na formação de competências básicas permitiria tornar a economia competitiva, uma vez que vivemos em uma sociedade marcada, crescentemente, pela internacionalização produtiva, pelo aumento dos conhecimentos técnicos-científicos e pela necessidade de elevação de qualidade profissional. (DOURADO; OLIVEIRA, 1999, p. 12) 7 Com isso, fica evidente que o bem econômico de maior valor para um país é o capital intelectual que ele produz. Nesse sentido, é importante apontar que, em virtude da globalização, fato que permite maior integração entre culturas, as universidades têm passado por processos de internacionalização, fazendo intercâmbios entre seus estudantes para troca de experiências acadêmicas. Neste cenário, o docente é o profissional da Educação quem guiará os discentes na compreensão de fenômenos sociais e naturais, assim como será o responsável em motivar à solução das mais variadas necessidades à sociedade. Desse modo, seu papel é tão importante que em atenção ao próprio trabalho deve ter o cuidado de não cair em obsolência, ou seja, esse profissional necessita, para além da formação inicial, continuar se capacitando e reinterpretando a prática pedagógica num mundo de constantes e aceleradas mudanças. Adentrando ao contexto da Educação Superior Brasileira, para Pereira (2009), desde o final dos anos 1990, no Brasil, houve uma grande expansão desta modalidade de ensino. Isso se deve aos investimentos do Poder Público na expansão de universidades, uma vez que, em âmbito internacional, o Brasil se responsabilizava com o desenvolvimento do país na comparação do cenário do desenvolvimento de seus setores sociais, econômicos e de serviços em nível global. Neste cenário de desenvolvimento, coube um papel importante à iniciativa privada: investir na Educação Superior. Dado isso, houve o investimento massivo deste setor na criação de instituições universitárias e, até mesmo, na expansão da oferta de cursos e vagas para as instituições já existentes. Por sua vez, explica-se tais investimentos em razão da promulgação de legislações no país, como a Lei nº 9.394, de 1996 (BRASIL, 1996), também conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). 8 Ela impôs crescimento de 2% em 1990 para 11% em 2010 no número de matriculas em universidades brasileiras. Este fenômeno de expansão de matrículas teve um impacto social, pois possibilitou o ingresso de pessoas das mais variadas classes sociais na Educação Superior. 2. O conceito de Educação e de Ensino Não é incomum, mesmo a profissionais da Educação, o equívoco de interpretação entre as palavras Educação e Ensino. Muitas vezes, ocorre um engano ao se fazer referência, por exemplo, entre as expressões “Educação Superior” e “Ensino Superior”, no entanto, essas expressões não são palavras sinônimas e, por isso, se torna importante diferenciá- las. Em termos gerais, de acordo com Moreira (2013), Educação significa um conjunto de hábitos, valores, regras e Ensino se traduz na transmissão de conhecimento. Assim, é possível afirmar que para ensinar é preciso ter conhecimento de temas extraídos da Educação. Para vários autores, a Educação é aquela que leva os sujeitos a conviver em sociedade, pois deve propiciar aos seus membros o autoconhecimento. Dado isso, para Saviani (2007, p. 154): Se a existência humana não é garantida pela natureza, não é dádiva natural, mas tem de ser produzida pelos próprios homens, sendo, pois, umproduto de trabalho, isso significa que o homem não nasce homem. Ele forma-se homem. Ele não nasce sabendo produzir-se como homem. Ele necessita aprender a ser homem, precisa aprender a produzir sua própria existência. Portanto, a produção do homem é, ao mesmo tempo, a formação do homem, isto é, um processo educativo. A origem da educação coincide, então, com a origem do homem mesmo. 9 Nesta perspectiva, o homem é um ser histórico que produz conhecimento e trabalha sobre a natureza. A Educação se molda em corpus teórico, ou seja, a Educação se torna ciência, ou seja, Pedagogia– que é a ciência da Educação. A Educação Superior, portanto, é um corpo de conhecimento dado através de teorias, regras, valores e leis construídas historicamente. O Ensino Superior se traduz na transmissão de conhecimentos da Educação por meio de técnicas, de metodologias e das mais diversas manifestações de didática e ensino. Assim, a instituição que ensina em nível superior, pode ser denominada de IES (Instituição de Ensino Superior), recebendo outras denominações previstas em lei, como: faculdade, centro universitário e universidade. 3. Formação da Legislação Sobre a legislação, é importante conhecermos qual a sua estrutura na democracia brasileira. A pretensão aqui não é aprofundar a reflexão em cada um dos itens da seguinte escala hierárquica, mas apontar o ordenamento jurídico brasileiro que se aplica, sobretudo, à Educação. De acordo com Toledo (2016), a sequência em ordem decrescente é: 1. Constituição Federal. 2. Emenda à Constituição. 3. Lei Complementar. 4. Lei Ordinária. 5. Lei Delegada. 6. Decreto Legislativo. 7. Resolução. 8. Decreto. 9. Instrução Normativa. 10. Instrução Administrativa. 10 11. Ato Normativo. 12. Ato Administrativo. 13. Portaria. 14. Aviso. Nesta ordem, percebe-se que a principal legislação no Brasil é a Constituição Federal. Assim, as demais legislações submetem-se à anterior na hierarquia. Alguns autores da área do Direito tratam didaticamente esta divisão por meio da Pirâmide de Kelsen. Desse modo, vale apontar que a mesma ordem se aplica às esferas estadual e municipal. Com relação à Constituição Federal (BRASIL, 1988), o Brasil já teve em sua história oito delas. A mais recente é do final dos anos 1980, considerada por muitos como constituição cidadã, por ter sido objeto de construção democrática após duas décadas de regime militar no país. A seguir, adentraremos nela para interpretar aspectos referentes à Educação. No capítulo III, Da Educação, Da Cultura e do Desporto, Seção I, Educação, há dez artigos (205º ao 214º) que tratam sobre a Educação. Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL, 1988, art. 205) Este artigo aponta a relação entre o Estado e a família na Educação, visando o desenvolvimento da pessoa enquanto construção de sociedade. Isso é evidenciado, por sua vez, pelos termos cidadania e trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I–Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; 11 II–Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III–pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV–Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V–Valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; VI–Gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII–garantia de padrão de qualidade. VIII–piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. Parágrafo único. A lei disporá sobre as categorias de trabalhadores considerados profissionais da educação básica e sobre a fixação de prazo para a elaboração ou adequação de seus planos de carreira, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (BRASIL, 1988, art. 206) Em linhas gerais, o artigo trata da valorização do ensino no reconhecimento de várias formas de ensinar, bem como da gratuidade em instituições públicas. A gestão democrática no ensino público caracteriza o aspecto cidadão da constituição e valorização dos profissionais da educação, e destaca a importância do profissional da educação por meio da previsão de piso salarial nacional e planos de carreira. Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. 12 § 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma da lei. § 2º O disposto neste artigo aplica-se às instituições de pesquisa científica e tecnológica. (BRASIL, 1988, art. 207) O art. 207, por sua vez, aborda sobre a Educação Superior, sendo a universidade o espaço previsto para a sua realização. Para isso, sinaliza-se a autonomia das universidades para o ensino e a promoção da ciência, bem como da própria organização interna administrativa, patrimonial e financeira. O maior destaque é o que dá essência à universidade, sendo a tríade de ensino, pesquisa e extensão, pois permitem um relacionamento maior entre a instituição e a sociedade. Em casos de necessidade, na forma da lei, as universidades poderão admitir servidores estrangeiros. Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I–Educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; II–Progressiva universalização do ensino médio gratuito; III–atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; IV–Educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; V–Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; VI–oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; 13 VII–atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. § 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. § 2º O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente. § 3º Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. (BRASIL, 1988, art. 208) Os aspectos indicados tratam o dever do Estado na oferta da Educação Básica aos brasileiros de quatro a dezessete anos, incorporando a Educação Infantil, Educação Fundamental e Ensino Médio. Além disso, há menção à ampliação da oferta às pessoas com deficiência e o ensino noturno, programas complementares de material didático, transporte, alimentação e outros tipos de assistência também caracterizam o papel do Estado na Educação. Ademais, o referido artigo também faz referência ao Poder Público, que deve acompanhar as matriculas e frequência dos discentes. Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I–cumprimento das normas gerais da educação nacional; II–autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. (BRASIL, 1988, art. 209) Como se pode observar, o art. 209 trata sobre a possibilidade da Educação ser oferecida pela iniciativa privada, desde que ela cumpra a legislação respectiva e tenha sua situação regular junto aos órgãoscompetentes da administração educacional. 14 Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. § 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. § 2º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. (BRASIL, 1988, art. 210) Neste artigo, por sua vez, trata-se de conteúdos básicos comuns a serem ensinados por todas as instituições escolares em território nacional. Com isso, o Estado brasileiro sinaliza a elaboração de documentos a especificar qual a pretensão de aquisição de aluno por faixa etária ou ano escolar na Educação Básica. Assim, podemos citar os documentos que foram elaborados após essa época, como: Parâmetros Curriculares Nacionais e a Base Nacional Comum Curricular. Nota-se ainda a referência ao ensino em língua portuguesa ou indígena no respeito às suas comunidades, bem como o ensino religioso sendo facultativo (não obrigatório). Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. § 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios; § 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil. § 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio. 15 § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. § 5º A educação básica pública atenderá prioritariamente ao ensino regular. (BRASIL, 1988, art. 211) O art. 211 é especifico no regime de colaboração e responsabilidade da Educação entre as esferas de governo federal, estadual (atuando no ensino fundamental e médio) e municipal (atuação no ensino infantil e fundamental). Neste item, também, são apontadas questões como a prioridade da educação pública no ensino regular, o financiamento e o repasse financeiro. Art. 212. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino. § 1º A parcela da arrecadação de impostos transferida pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, ou pelos Estados aos respectivos Municípios, não é considerada, para efeito do cálculo previsto neste artigo, receita do governo que a transferir. § 2º Para efeito do cumprimento do disposto no «caput» deste artigo, serão considerados os sistemas de ensino federal, estadual e municipal e os recursos aplicados na forma do art. 213. § 3º A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório, no que se refere a universalização, garantia de padrão de qualidade e equidade, nos termos do plano nacional de educação. § 4º Os programas suplementares de alimentação e assistência à saúde previstos no art. 208, VII, serão financiados com recursos provenientes de contribuições sociais e outros recursos orçamentários. 16 § 5º A educação básica pública terá como fonte adicional de financiamento a contribuição social do salário-educação, recolhida pelas empresas na forma da lei. § 6º As cotas estaduais e municipais da arrecadação da contribuição social do salário-educação serão distribuídas proporcionalmente ao número de alunos matriculados na educação básica nas respectivas redes públicas de ensino. (BRASIL, 1988, art. 212). O art. 212, por sua vez, desenha sobre o financiamento da educação. Anualmente, o Governo Federal deve investir 18% de sua receita sobre imposto na Educação e o Distrito Federal, Estados e Municípios devem investir 25%. Ainda estão previstas outras formas de financiamento e receitas, como o salário-educação e o dinheiro deve ser redistribuídos com base no número de matrículas. Art. 213. Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei, que: I–Comprovem finalidade não-lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação; II–Assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades. § 1º Os recursos de que trata este artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para o ensino fundamental e médio, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública na localidade da residência do educando, ficando o Poder Público obrigado a investir prioritariamente na expansão de sua rede na localidade. § 2º As atividades de pesquisa, de extensão e de estímulo e fomento à inovação realizadas por universidades e/ou por instituições de educação 17 profissional e tecnológica poderão receber apoio financeiro do Poder Público. (BRASIL, 1988, art. 213) Assim, há a possibilidade do financiamento público ser repassado para instituições escolares comunitárias, confessionais e filantrópicas que, na forma da lei, não são escolas não lucrativas de papel social relevante. Esse repasse pode ser ocorrer para as escolas continuarem auxiliando a sociedade com aplicação de excedente financeiro, doação de patrimônio (com outras instituições de ensino) e, até mesmo, sob a forma de bolsas de estudos aos discentes. Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: I–erradicação do analfabetismo; II–universalização do atendimento escolar; III–melhoria da qualidade do ensino; IV–formação para o trabalho; V–promoção humanística, científica e tecnológica do País. VI–estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto. (BRASIL, 1988, art. 214). O art. 214 sinalizou ações do Plano Nacional de Educação (PNE), que dentro de uma década seria o responsável por cumprir algumas metas para a melhoria da Educação, como a redução do analfabetismo. No entanto, na História da Educação brasileira, há dois PNE’s; o primeiro 18 foi elaborado em 1996, com duração entre 2001 e 2010; já o segundo contempla os anos de 2014 a 2024, vigorando atualmente com a finalidade de cumprir vinte metas por meio de dez diretrizes. No que tange as metas para Educação Superior, destacam-se: Meta 12: elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% (cinquenta por cento) e a taxa líquida para 33% (trinta e três por cento) da população de 18 (dezoito) a 24 (vinte e quatro) anos, assegurada a qualidade da oferta e expansão para, pelo menos, 40% (quarenta por cento) das novas matrículas, no segmento público. Meta 13: elevar a qualidade da educação superior e ampliar a proporção de mestres e doutores do corpo docente em efetivo exercício no conjunto do sistema de educação superior para 75% (setenta e cinco por cento),sendo, do total, no mínimo, 35% (trinta e cinco por cento) doutores. Meta 14: elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, de modo a atingir a titulação anual de 60.000 (sessenta mil) mestres e 25.000 (vinte e cinco mil) doutores. (BRASIL, 2014, [s.p.]) (…) Meta 16: formar, em nível de pós-graduação, 50% (cinquenta por cento) dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos(as) os(as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino. (BRASIL, 2014, [s.p]) Com relação a legislação da Educação, é possível apontar a importância de algumas outras, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) e, a mais relevante de todas, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de 1996 (BRASIL, 1996), que no capítulo IV trata da Educação Superior. O quadro a seguir apresenta de modo resumido o que aponta cada uma dessas leis. 19 Quadro 1–Artigos do Capítulo IV da LDBEN nº 9.394, de 1996 – Da Educação Superior Artigos Resumo do texto 43 Finalidade: ensino, pesquisa e extensão. 44 Cursos e programas: sequenciais, graduação, pós-graduação e extensão. 45 Será ministrada em IES público ou privadas. 46 Autorização e reconhecimento de cursos. 47 Ano letivo: mínimo de 200 dias de trabalho acadêmico efetivo. 48 Diplomas reconhecidos nacionalmente. 49 Aceite de transferência de alunos de uma mesma área, desde que haja vagas. 50 Quanto a ocorrência de vagas, abrirão matrícula nas disciplinas de seus cursos a alunos não regulares que demonstrarem capacidade de cursá-las com proveito, mediante processo seletivo prévio. 51 As IES credenciadas como universidades, ao deliberar sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes, levarão em conta os efeitos desses critérios sobre a orientação do ensino médio, articulando-se com os órgãos normativos dos sistemas de ensino. 52 As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano. 20 53 Autonomia universitária: fixar currículos e programas; estabelecer extensão; fixar número de vagas; elaborar e reformar estatutos; conferir graus, diplomas e títulos; firmar contratos, acordos e convênios; aprovar e executar obras, bem como adquirir patrimônio; administrar rendimentos; submeter a subvenção, doações e heranças resultante de convênios e contratos. 54 As universidades mantidas pelo Poder Público gozarão, na forma da lei, de estatuto jurídico especial para atender às peculiaridades de sua estrutura, organização e financiamento pelo Poder Público, assim como dos seus planos de carreira e do regime jurídico do seu pessoal. 55 Caberá à União assegurar, anualmente, em seu Orçamento Geral, recursos suficientes para manutenção e desenvolvimento das instituições de educação superior por ela mantidas. 56 As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. 57 Nas instituições públicas de educação superior, o professor ficará obrigado ao mínimo de oito horas semanais de aulas. Fonte: elaborado pelo autor. Neste tema, abordamos assuntos que contemplaram os objetivos propostos. Assim, conhecemos a perspectiva da sociedade globalizada e neoliberal os fatores que levaram à expansão universitária. Além disso, ressaltamos, também para efeitos didáticos e de correta compreensão, a diferença dos conceitos Educação e Ensino, uma vez que não são 21 sinônimos e ao se referir à Educação Superior não se tratam do mesmo assunto. Por fim, apresentamos a forma com que a legislação se ordena no Brasil, bem como apresentadas as ações previstas na Educação pela Constituição Federal e na Educação Superior na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Referências Bibliográficas BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 18 abr. 2020. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. 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Por que ela é objeto de desejo de muitas pessoas? Qual seu papel e sua função? Nesta unidade, verificaremos algumas considerações importantes sobre esta instituição de ensino de nível superior. As universidades não são tão recentes na história, pelo contrário, elas são bem antigas. Nesse sentido, alguns registros históricos apontam que elas iniciaram suas atividades na Europa no século VIII. As universidades mais antigas do mundo, de acordo com a data de fundação, são a Universidade de Bolonha (1088) na Itália, Oxford na Inglaterra (1096) e a Universidade de Coimbra, em Portugal, criada em (1290). Outros historiadores consideram que a mais antiga do mundo é a Universidade de Karaouine (859), no Marrocos. No Brasil, muitas pessoas acreditam que a universidade chegou junto com a família real portuguesa em 1808, pois eles trouxeram várias escolas de teor profissional. Naquele período, todavia, quase a totalidade da população brasileira não tinha nenhum grau de instrução e antes de surgirem as universidades aos moldes que hoje se conhece, houve a criação de faculdades e outras escolas de nível superior, como as de medicina. Desse modo, a primeira universidade do Brasil foi criada no século XX, sendo ela a atual Universidade de Manaus (1909), que pertence atualmente à UniversidadeFederal do Amazonas. Na atualidade existem várias universidades no Brasil, sejam elas de oferta de cursos presencial ou a distância, de graduação ou pós- graduação e, graças a globalização, hoje é possível estudar em universidades dentro ou fora do país de origem. 24 Nesse sentido, vale ressaltar que as últimas décadas trouxeram uma grande expansão desta modalidade de ensino. Antigamente, predominantemente até o final do século XX, o acesso à universidade era mais restrito, não havia tantas vagas e, até mesmo, instituições suficientes. Desse modo, cursar uma graduação era visto, para além de uma ascensão social, algo voltado mais para as pessoas de elite. Para as pessoas de classe média e, principalmente, de classe baixa, a passagem pela universidade era mais desafiadora, pois na trajetória delas havia dilemas de permanência no curso (em virtude, muitas vezes, pelas dificuldades financeiras em se manter nos estudos, com necessidade de trabalho ou bolsa de estudos, bem como dificuldades de outra ordem, como a locomoção até a universidade e a compra de materiais). Somado a isso, ainda havia os problemas das desigualdades sociais que impactavam incisivamente no público preto, com deficiências e indígenas. Dado isso, a universidade, aos poucos, percebeu que para intensificar a sua função social, não bastava buscar fazer a diferença na vida das pessoas de sua comunidade interna. Ela necessitava ampliar o escopo de suas ações para a comunidade externa e, deste modo, interagir com a sociedade, sendo mais receptiva e inclusiva. Ao pensar e agir desta maneira, a universidade permitia uma discussão generalizada com impacto na legislação. A universidade que exerce funções sociais acaba por preencher lacunas onde Governo e outros órgãos públicos falham. Isso acontece em razão da própria dificuldade do Estado se fazer presente na sociedade, mas também pela falta de gestores capacitados em lidar com questões sociais de mais alta complexidade, bem como pela falta de recursos financeiros e materiais. Porém, é importante ressaltar um aspecto muito importante sobre este papel da universidade junto à sociedade. Ela, por si, não tem 25 a obrigação de realizar serviços da competência do Estado, mas exercer ação reparatória com o uso da ciência. Em outras palavras, a universidade deve contemplar à sociedade o esclarecimento e a busca de soluções científicas, logo, a sua ação deve ser de qualidade e não de assistencialidade, pois ela não resolve conflitos sociais. Logo, na busca da superação destes conflitos de classes sociais, é possível afirmar que à função da sociedade impacta as ações de ensino, pesquisa, extensão, bem como à sua gestão. De acordo com Leff (2001, p. 202): Embora as universidades e instituições de educação superior gozem de autonomia formal (liberdade de pesquisa e ensino), suas atividades acadêmicas são afetadas pelos valores dominantes da sociedade na qual estão inscritas. Nesse sentido, podemos compreender que, em razão do conflito de classes salientar as desigualdades, compete à universidade, enquanto papel social, contribuir para examinar, interpretar e quiçá solucionar problemas pontuais dados pelos conflitos presentes na sociedade. Com relação aos conflitos sociais, talvez, fosse utópico pensar que a vida privada e social não tivesse seus dilemas e desafios. Se eles não existissem não haveria desafios, pessoas poderiam pensar a mesma coisa e a tendência social seria a de monotonia. Por consequência, poder-se-ia questionar: estudar porquê? Ensinar para quem? Pesquisar o quê? O significado maior destes conflitos à universidade é a promoção da ciência. Assim, neste espaço, dado por autonomia de Lei, é possível pensar e atuar na tríade: ensino, pesquisa e extensão, por meio de projetos. Em razão dessa tríade–ensino, pesquisa e extensão -, a universidade, por meio de seus docentes, pesquisadores ou grupos de pesquisa, identificam desafios sociais ou naturais, aprofundam estudos e buscam dar respostas à sociedade. 26 Nesse sentido, vale ressaltar que internamente à universidade também existem seus próprios desafios e dilemas. Logo, há dificuldades internas e dificuldades externas. Neste contexto, por exemplo, há o financiamento para pesquisas. Nesse sentido, existe diferença na arrecadação de verbas entre universidades públicas e universidades particulares, e há projetos de estudo que podem ter mais prioridade em comparação a outros (na maior parte das vezes pelo valor que pode agregar ao investidor ou às universidades ou ao tipo de bolsa/incentivo à pesquisa). Outro exemplo é a infraestrutura de laboratórios de pesquisa e insumos; por vezes, há diferenças de estruturas dentro de uma própria universidade ou entre universidades distintas, bem como de campos de conhecimento. A condição de mobiliários, a arquitetura dos prédios também são aspectos impactantes ao trabalho acadêmico. Na perspectiva externa, um exemplo se refere ao material humano, ou seja, o tipo de aluno que chega à universidade. Em alguns casos, eles chegam desmotivados a se aprofundar nos conteúdos para além daqueles constantes no currículo dos cursos que realizam. Para aqueles interessados, por vezes, há escassez de bolsas de pesquisas e outros auxílios. Como apontado, apesar destas dificuldades, não significa que a universidade não faça nenhuma ação, pelo contrário, ela faz o bastante graças à mencionada tríade de ensino, pesquisa e extensão. De acordo com Rays (2003, p. 71): A apropriação do conceito de indissociabilidade, em relação aos termos ensino, pesquisa e extensão, é imprescindível para o planejamento, desenvolvimento e avaliação das atividades curriculares que pretendem tomar o conceito como princípio norteador das práticas cotidianas do ensino superior. 27 De acordo com o autor, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é base para articulação das atividades fins da educação superior (RAYS, 2003). Com isso, ensino, pesquisa e extensão se agregam e são incorporados pela universidade aos currículos dos cursos que oferece. Isso se percebe na estrutura curricular e em ações em que ocorra proximidade entre a teoria e a prática. Isso, na verdade, é o que apregoa a legislação nacional à exemplo da Constituição Federal (BRASIL, 1988, art. 207): Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. § 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma da lei. § 2º O disposto neste artigo aplica-se às instituições de pesquisa científica e tecnológica. E da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL 1996, art. 1996): Art. 53. No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de outras, as seguintes atribuições: § 1º (...) III–estabelecer planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão; § 2º (...) V–programação das pesquisas e das atividades de extensão. 28 2. Ensino Na tríade ensino, pesquisa e extensão, o primeiro deles certamente é o mais conhecido. O ensino é a forma que se transpõe didaticamente todos os elementos construídos pela ciência da Educação ou a Pedagogia. É pelo ensino que se pode desenhar as possibilidades para o desenvolvimento da aprendizagem. Desse modo, é importante destacar que pode ocorrer a aprendizagem dentro ou fora de contextos escolares, como: na família, no grupo de amigos, na igreja, na internet, etc. Entretanto, esta aprendizagem, às vezes, está mais relacionada à aquisição de informações desviadas do que direcionadas. Ou seja, é como se afirmássemos que pelo uso de uma rede social seria possível aprender conteúdos de política. É possível obter uma fonte de informação ampla na internet, todavia, para o aprendizado ocorrer e para o leitor compreender, é necessária aorganização da informação obtida. Portanto, o ensino se realiza quando o tema a ser lecionado estiver previsto as regras básicas de organização de conteúdo, os processos didáticos direcionados à aprendizagem e as maneiras de avaliação, que leve como resultado o educando: refletir, perceber, construir e abstrair a realidade que o/a envolve. Isso vale desde à aquisição das primeiras letras e números para uma criança em idade de alfabetização, como para uma pessoa em qualquer faixa etária, até mesmo, em nível superior. Rays (2003, p. 72) aponta que o termo ensino faz alusão à forma de “ensino sistematizado”. Para o autor: “necessitam-se selecionar procedimentos didáticos que promovam o aprendizado crítico de conteúdo, habilidades, hábitos e valores” (RAYS, 2003, p. 72). Assim, é possível compreender que os procedimentos didáticos têm sentido de pensar nas formas de se chegar ao conhecimento pretendido 29 para que o aluno possa ter a autocrítica pessoal e coletiva, ou seja, moldar os seus valores pessoais. Nesta ocasião, a universidade ou a instituição escolar investe na sua imagem, pois com base nela é que vai transmitir à sociedade os seus objetivos e sua missão enquanto instituição de ensino. O ensino no Brasil possui uma legislação específica do que se espera que os alunos aprendam na escola. Em atenção à universidade, em nível macro da gestão, isso é pensado e efetivado num documento denominado Projeto Político Pedagógico (PPP), que demonstra o currículo do curso e as ementas de cada uma das disciplinas de um curso de graduação. Ao iniciar o trabalho em uma disciplina dentro de um curso, o professor nunca “parte do zero”, pois esse profissional da Educação tem como guia um corpus teórico de que deve estar apto e ter domínio para lecionar. Ao ingressar numa universidade para atuar profissionalmente, o professor necessita estar atento ao que instituição onde for lecionar promove como missão, objetivo e valores. Em função disso, talvez, seja pertinente ao docente ou ao candidato a uma vaga de docência na universidade ou outra instituição de ensino superior levar em consideração os valores da instituição pretendida. Logo, fazer esta observação em comparação aos próprios objetivos pessoais e profissionais podem direcionar para um trabalho de sucesso se os objetivos forem comuns, ou poderá criar situações desestimulantes, como: frustrações profissionais–em caso de discordância de regras, missão, objetivos e dos valores do local do trabalho. Adicionalmente, além dos objetivos em comum, é importante ter outras habilidades em seu perfil professional, pois a sociedade atual apresenta muitas mudanças de postura e paradigma. Portanto, cabe ao docente além de estar sempre se qualificando, buscar contribuir para 30 mudanças significativas enquanto ator, agente e propulsor de novas perspectivas sociais. Afinal, a sociedade espera muito a contribuição deste professional e da universidade. 3. Pesquisa Quando se fala em pesquisa, o que vem à sua mente? Provavelmente a resposta teria uma das seguintes ilustrações: pessoas dentro de laboratório usando macacões ou jalecos específicos, um pesquisador usando tubos de ensaio, alguém olhando para as estrelas, um cientista com a cara de Einstein, etc. Essas percepções, todavia, não devem estar marcadas por um estigma. A ideia de pesquisa é bem ampla, porém tem relação direta com a produção do conhecimento e a inovação da ciência. Para Rays (2003, p. 73): A pesquisa, tanto a básica quanto a aplicada, necessita, ao lado do ensino e da extensão, constituir-se como uma atividade progressivamente constante nos meios acadêmicos e nas atividades de difusão de conhecimentos e de intervenção em problemas efetivos da sociedade. Essas atividades, conforme o caso, são realizadas não só nos meios acadêmicos, mas também nos meios não acadêmicos. Assim, por exemplo, o contato interativo com problemas específicos da sociedade pode provocar nos pesquisadores a necessidade de transformarem os resultados de suas investigações em ações cognitivas e práticas (cognição- prática-cognição) que possam auxiliar a comunidade a resolver os seus problemas. Esse contato interativo tem, ainda, despertado em muitos pesquisadores, inquietações que os auxiliam na definição de temas e problemas concretos de pesquisa. Diante do exposto, observa-se que, na pesquisa, o olhar do pesquisador requer constante reflexão para com o objeto de análise ou situação- 31 problema. O objeto investigado deve possibilitar o conhecimento sobre ele, melhorando-o ou levando-o a um olhar pautado na inovação. Assim, de acordo com Fonseca (2002), a pesquisa científica é o resultado de um inquérito ou exame minucioso, realizado com o objetivo de resolver um problema, recorrendo a procedimentos científicos. Assim, investiga-se uma pessoa ou grupo capacitado (sujeito da investigação), abordando um aspecto da realidade (objeto da investigação), no sentido de comprovar experimentalmente hipóteses (investigação experimental), ou para descrevê-la (investigação descritiva) ou para explorá-la (investigação exploratória). No ensino superior, o primeiro passo que o interessado em pesquisa deve ter é o de buscar um professor pesquisador que possa orientar o trabalho e, com isso, elencar quais os devidos procedimentos de pesquisa. Na sequência, em parceria, ambos elaboram um projeto. Posteriormente, é necessária fundamentação teórica e, por fim, o método para checar uma hipótese ou teoria de estudo. No método, portanto, deve estar previsto se a proposta do projeto será pautada em análises quantitativa, qualitativa ou ambas. Ao final da pesquisa, ao confrontar aquilo que coletou com a teoria estudada, o pesquisador dará a sua argumentação de pesquisador sobre o objeto estudado. Neste caso, vale ressaltar a parceria entre pesquisador e orientador. O fato da troca de experiências, além de um treino acadêmico, permite análise mais específica sobre os rumos da pesquisa e do projeto. No Brasil, há a possibilidade de se realizar pesquisa com o auxílio financeiro na forma de bolsa de estudo ou bolsa de pesquisa. Algumas vezes, a própria universidade concede auxílios à pesquisa com verba própria. Todavia, o financiamento também pode ser chancelado por instituições públicas e privadas, sendo os produtos, na maior parte dos casos, patenteados e revendidos no mercado financeiro. No que tange 32 às universidades, os órgãos mais próximos que podem patrocinar os estudos são conhecidos por agências de fomento. Esses órgãos de fomento podem receber propostas de projetos de pesquisa naquilo que se denomina de propostas de fluxo contínuo, ou seja, recebendo propostas a qualquer período do ano ou, como na maioria dos casos, por meio de editais que possuem regulamentação própria com prazos e cronogramas. 4. As agências de fomento à pesquisa As agências de fomento, de modo geral, são conhecidas por serem entidades financeiras sem caráter bancário, pois elas são regulamentadas pelo Banco Central do Brasil. No Brasil, algumas agências de fomento ligadas ao governo estão disponíveis na esfera federal, como: no Ministério da Educação ou ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e aos Estados, por meio das Fundações de Amparo e Pesquisa (FAP’s). Como docente pesquisador ou discente, após a elaboração do projeto de pesquisa cientifica, vale conferir as informações disponíveis na internet, em sites específicos, para verificar a possibilidade de candidatura à bolsa de pesquisa. Para isso, serão apresentadas algumas das principais agências de fomento: • CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior): está ligada ao Ministério da Educação e atua, principalmente, na pós-graduação em projetos de mestrado e doutorado stricto sensu, para realização de estudos no Brasil ou no exterior. Ela financia, além de bolsas de estudo, auxílios diversos e apoios acadêmicos. Além disso, a Capes possui um repertóriorelevante de estudos e pesquisas em revistas acadêmicas e base de dados, sendo o seu banco de teses um repositório que traz todas as produções acadêmicas realizadas no país. Nos últimos anos, desde 2007, ela está atuando, em paralelo, no fomento à 33 formação de professores da educação básica por meio de bolsas como o PARFOR (Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica). Outro importante auxílio está sendo para estudantes em cursos de licenciaturas, que têm recebido apoio em programas como o Programa Residência Pedagógica e o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Por fim, a Capes também financia o projeto Universidade Aberta do Brasil (UAB), que é um programa do governo, no âmbito de ensino superior, voltado para a modalidade à distância. Vale a pena conferir o site da CAPES em: www.capes.gov.br. Acesso em: 6 jul. 2020. • CNPq: Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico está ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. De maneira semelhante à CAPES, ele também auxilia e fomenta a pesquisa, dá auxilio e apoio às atividades de pesquisa e inovação. Todavia, não atua apenas no Ensino Superior, mas também na Educação Básica e às empresas, fomentando pesquisas no Brasil e no exterior. São as principais bolsas acadêmicas no Brasil: ICJ – Iniciação Cientifica Junior (Ensino Médio) e IC – Iniciação Científica (graduação). Para a pós-graduação: Mestrado GM, Doutorado GD, Doutorado Sanduíche no País (SWP). São as principais bolsas acadêmicas no exterior: Graduação Sanduíche (SWG); para a pós-graduação (Doutorado Pleno GDE, Doutorado Sanduíche no País – SWE, Mestrado Profissional no Exterior–MPE). Por fim, são as bolsas voltadas apenas para pesquisa: Pós-Doutorado (PDE), Estágio Sênior (ESN), Treinamento no Exterior (SPE). Para as empresas, no âmbito do ensino médio e graduação, as bolsas são: Iniciação Tecnológica e Industrial (ITI), Iniciação Tecnológica em TIC’s (IT). Para a Pós-graduação: doutorado sanduíche (SWI) e, por último, como pesquisa às empresas: Pós-Doutorado Empresarial (PDI), Desenvolvimento Tecnológico e Industrial (DTI), Especialista Visitante (EV), Apoio à Difusão do Conhecimento (ADC), Iniciação ao Extensionismo (IEX), Fixação e Capacitação de Recursos Humanos http://www.capes.gov.br 34 (SET), Apoio Técnico em Extensão no País (ATP), Extensão no País (EXP), Estágio/Treinamento no Exterior (BSP), Bolsa a Especialista Visitante (BEV), Estágio/Treinamento no País (BEP) e, por último, Desenvolvimento Tecnológico em TICs (DTC). Cada uma destas bolsas e programas tem uma regra específica, portanto, vale consultar mais informações pelo site, disponível em: http://www. cnpq.br/. Acesso em: 6 jul. 2020. • FINEP: Financiadora de Estudos e Projetos, ela está ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e chancela projetos de grande porte, promove a organização de eventos e projetos de pesquisa que visem o desenvolvimento social e econômico do país. Confira editais e chamadas públicas em: http://www.finep.gov.br. Acesso em: 6 jul. 2020. • SEBRAE: trata-se de uma entidade privada e de interesse público, que contempla a abertura e expansão dos pequenos negócios, por meio do empreendedorismo. Esta entidade subsidia os custos de serviços tecnológicos prestados por empresas especializadas em tecnologia e inovação, as quais irão buscar soluções para otimizar os resultados da gestão, aperfeiçoar processos ou produtos da pequena empresa, tornando-a mais competitiva e melhor preparada para o mercado. Confira mais sobre o SEBRAE, acessando: www.sebrae.com.br. Acesso em: 6 jul. 2020. • INCT: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia é um órgão ligado ao CNPq e voltado à ciência brasileira, com programas para formação de redes de pesquisa, parcerias institucionais, abordagem de temas nacionais de modo multidisciplinar, formação e capacitação de recursos humanos e investimentos de longo prazo. Ele financia projetos de pesquisa e fornece bolsas de iniciação cientifica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Saiba mais acessando: http://inct.cnpq.br/. Acesso em: 6 jul. 2020. • FAP’s: Fundações de Amparo à Pesquisa são agências pertencentes aos Estados. Cada uma delas possui sua agência própria com http://www.cnpq.br/ http://www.cnpq.br/ http://www.finep.gov.br http://inct.cnpq.br/ 35 regras particulares. Em geral, ela financia a iniciação cientifica, dá apoio técnico, bolsa de recém-mestre, bolsas de pós-graduação – mestrado e doutorado strictu sensu. Algumas agências famosas são: FAPESP, FAPERJ, FAPBAHIA, FAPMG, FUNCAP, etc. É possível obter mais informações sobre elas por meio do site: http://www. confap.org.br/. Acesso em: 6 jul. 2020. Nesse sentido, vale ressaltar que cada agência de fomento tem regras específicas para concessão de bolsas de pesquisa, auxílios e outros tipos de apoio e, em geral, todas elas cobram relatórios parciais, relatórios finais e, até mesmo, prestação de contas do dinheiro investido na pesquisa. Um fato adicional aos projetos de pesquisa que pode incidir na obtenção da bolsa é a passagem por um Comitê de Ética em Pesquisa, ligado ao Conselho Nacional de Saúde (CONEP) no Ministério da Saúde. O professor orientador ou o docente do ensino superior deve estar bem informado das regras deste órgão para propor pesquisas e estudos. 5. Extensão Bem parecida ao modo que é feita a pesquisa, a extensão tem suas similaridades. A diferença, por sua vez, é que a pesquisa se concentra mais em refletir teoricamente um aspecto da sociedade, enquanto a extensão se apropria de conteúdos teóricos não tão complexos para levar conhecimento e ação à sociedade. Desse modo, é importante destacar que pesquisa e extensão são inerentes a qualquer matriz curricular de um curso no Ensino Superior. Para Rays (2003, p. 74): • Deve se entender extensão como o momento de ensino- aprendizagem de acadêmicos com a sociedade, pois é o momento em estes entram em contato com a sociedade e discutem os problemas da mesma e buscam soluções em comum. http://www.confap.org.br/ http://www.confap.org.br/ 36 Para que se possa aplicar a extensão acadêmica à sociedade, também é importante a elaboração de um projeto, apesar dele não ser obrigatório, como na pesquisa. Por não ser obrigatório, ele não é desnecessário, pois ele pode nortear as ações pretendidas. Desse modo, é importante destacar também que não é necessário buscar apoio em agência de fomento ou com outros patrocinadores para realizar a extensão. Por vezes, fazer o simples, como levar o conteúdo de determinado assunto estudado em sala de aula para uma comunidade já é o bastante. No trabalho da extensão com a sociedade é importante que a ação não seja estritamente assistencialista, ou seja, dar algo às pessoas sem que possam refletir a sua experiência e quiçá mudar um comportamento ou uma atitude negativa para qualificá-la como positiva. Por exemplo, considere um curso de Odontologia, com carga horária e currículo para formação dentro de cinco anos. Em um determinado semestre, como o terceiro, o estudante cursa apenas aulas teóricas e, esporadicamente, realiza pesquisas para responder os exercícios. O referido discente ainda não iniciou os estágios de formação na área. Então, questiona-se: se até o momento ele apenas estuda questões teóricas, em qual momento ele poderia tatear a realidade e compreender mais a sua futura profissão para além de estágios em clínicas? Algumas respostas seriam possíveis, uma delas como a didática ou o tipo de ensino, o docente que pode envolver na sua prática pedagógica a teoria. O limite disso é que nem sempre todas as aulas serão assim e, além do mais, um estudante inicial em odontologia tem contato restrito com a população. Neste caso, um projeto de extensão pode permitir que ele faça observações e compreenda a realidade social com mais detalhes, ainda mais se envolver a experiência entre alunos devários semestres. Numa situação de projeto de conscientização da escovação bocal em escolas com crianças de seis a dez anos, por exemplo, o estudante de odontologia certamente poderia refletir sobre seu curso e seus objetivos profissionais. Somado a isso, essa extensão teria caráter educativo, pois as crianças nesta faixa etária talvez deveriam ser esclarecidas sobre 37 a importância da escovação. Isso poderia ser útil para elas, para suas famílias, bem como pela escola. Esse fato configura a função social da universidade. O contrário, ou seja, o assistencialismo seria se esse discente fosse à escola entregar kits de escovação às crianças e não fazer nenhuma intervenção. Assim, não há nenhuma transformação social, logo, não se tem extensão. Para finalizar, neste tema, verificamos a importância social da universidade junto à sociedade. Para isso, a tríade ensino, pesquisa e extensão promove a possibilidade de uma formação em nível superior com mais capacidade de análise crítica e reflexiva. Além disso, vimos a importância dos projetos de pesquisa e a possibilidade do fomento de várias agências para a promoção da pesquisa e a inovação da ciência. Este escopo se insere na política e gestão educacional, uma vez que, dentro da lei, o ensino superior está suportado por todos este apoio técnico dos órgãos de governo. Referências Bibliográficas BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 18 abr. 2020. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Presidência da República, [1996]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 18 abr. 2020. FONSECA, J. J. S. Metodologia da pesquisa científica. Fortaleza: UEC, 2002. LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001. RAYS, O. A. Ensino-Pesquisa-Extensão: notas para pensar a indissociabilidade. Revista Educação Especial, Santa Maria, p. 71-85, mar. 2012. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/5034. Acesso em: 24 abr. 2020 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/5034 38 A Legislação Nacional Para a Educação Superior Autoria: Carlos Eduardo Candido Pereira Leitura crítica: Aline Oliveira Gomes da Silva Objetivos • Conhecer a atual estrutura de organização acadêmica da Educação Superior no Brasil. • Verificar a atual legislação que trata as funções de regulação,supervisão e avaliação das instituições de Educação Superior. • Interpretar o Decreto nº 9.235 de 2017 referente à Educação Superior. 39 1. A organização acadêmica da Educação Superior no Brasil Dentro de um Estado de Direito constituído o predomínio do aspecto jurídico, com as leis, acaba por estruturar e organizar toda a hierarquia das estruturas sociais e o sistema político de uma nação. Assim, todas as instituições seguem as regras de acordo com sua finalidade. Com isso, a organização acadêmica e universitária existente no passado ainda é, culturalmente, bastante conhecida no presente. No passado, a mencionada organização da Educação Superior se dava em três níveis: 1. Instituições Universitárias, compostas por Universidades e Universidades Especializadas. 2. Centros Universitários. 3. Instituições Não Universitárias, onde se agregavam os Institutos Superiores de Educação, os CEFET’s e CET’S, as Faculdades Isoladas e as Faculdades Integradas. Esses níveis ainda são presentes na cultura popular, pois uma instituição de ensino superior antes conhecida como “Faculdade Isolada” ou “Faculdade Integrada” ainda é conhecida com tal nomenclatura. O fato é que tais instituições passaram por mudanças e, em alguns casos, para continuar atendendo ao público, precisaram se readequar à Lei. No caso das Universidades Especializadas, Faculdades Integradas ou Isoladas, elas já nem existem mais dentro da Lei, os CET’s e CEFET’s foram elevados ao nível do Ensino Superior pela esfera federal. Isso ocorreu em virtude de uma nova forma de organização acadêmica que se ordenou ao Brasil, em vista da promulgação do Decreto nº 9.235 (BRASIL, 2017), que traz no seu art. 15: Art. 15. As IES, de acordo com sua organização e suas prerrogativas acadêmicas, serão credenciadas para oferta de cursos superiores de graduação como: 40 I - faculdades; II - centros universitários; e III – universidades. (BRASIL, 2017, art. 15) Desse modo, esse artigo ainda aponta a ideia dos credenciamentos institucionais. Toda instituição de origem particular ou privada inicia as suas funções como faculdades. Para essa mesma instituição pleitear o status de instituições maiores, na ordem: a) centros universitários e; b) universidades – ela deve solicitar recredenciamento, obedecendo o quantitativo previsto na lei para porcentagem de mestres e doutores contratados, bem como a oferta de cursos de graduação e pós- graduação, atividades de ensino e extensão e outras ações. O Decreto nº 9.235, de 2017, portanto, será objeto de estudo mais detalhado a partir do próximo capítulo. 2. A regulação, a supervisão e a avaliação das instituições de Educação Superior: Decreto nº 9.235, de 2017 Neste item, analisaremos o Decreto nº 9.235, de 2017, essa orientação legal trata as maneiras de regulação, supervisão e avaliação da Educação Superior. Nesse sentido, é importante realçar que este decreto amplia o que está disponível acerca da Educação Superior em outras legislações, como a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996). O Decreto nº 9.235, de 2017, está ordenado em cinco capítulos e conta com 108 artigos no total. Alguns capítulos, respectivamente o II, III e IV, trazem seções específicas dos assuntos seguintes assuntos: regulação, 41 supervisão e avaliação. De modo resumido, apresenta-se a seguir a estrutura do referido decreto: Capítulo I - Da Educação Superior no Sistema Federal de Ensino - (art. 1º ao 13) Capítulo II - Da regulação • Seção I - Dos atos autorizativos (art. 9º ao 14). • Seção II - Das organizações acadêmicas (art. 15 ao 17). • Seção III - Do credenciamento institucional (art. 18 ao 24). • Seção IV - Do recredenciamento institucional (art. 25 ao 28). • Seção V - Da oferta de pós-graduação (art. 29 ao 30). • Seção IV - Do campus fora de sede (art. 31 ao 34). • Seção VII - Da transferência de mantença (art. 35 ao 38). • Seção VIII - Da autorização de cursos (art. 39 ao 44). • Seção IX - Do reconhecimento e da renovação de reconhecimento de cursos (art. 45 ao 52). • Seção X - Do protocolo de compromisso (art. 53 ao 56). • Seção XI - Do encerramento da oferta de cursos e descredenciamento de instituições (art. 57 ao 58). • Seção XII - Da validade dos atos (art. 59 ao 61). Capítulo III - Da supervisão 42 • Seção I - Das fases do processo administrativo de supervisão (art. 62 ao 64). • Seção II - Do procedimento preparatório (art. 65 ao 68). • Seção III - Do procedimento saneador (art. 69 ao 70). • Seção IV - Do procedimento sancionador (art. 71 ao 75). • Seção V - Da oferta sem ato autorizativo (art. 76 ao 78). Capítulo IV - Da avaliação • Seção I - Da avaliação das instituições de educação superior e dos cursos superiores de graduação e pós-graduação (art. 79 ao 85). • Seção II - Da avaliação do desempenho acadêmico dos estudantes de cursos de graduação por meio do Enade (art. 86 ao 89). Capítulo V – Disposições Finais – Artigo 90 ao 108 Pela estrutura apresentada, pode-se notar que a Lei é bem específica para tratar de alguns aspectos inerentes ao funcionamento da Educação Superior. O título de cada um dos capítulos proporcionaboa margem interpretativa. Por ser uma legislação extensa, há a apresentação de alguns pontos relevantes com comentários. Todavia, fica a indicação da leitura da lei na íntegra com base na bibliografia. O primeiro artigo do decreto indica que serão abordadas as funções de regulação, supervisão e avaliação das instituições de educação superior (IES) e dos cursos superiores de graduação e de pós-graduação lato sensu nas modalidades presencial e a distância no Brasil. No que tange à regulação, ou seja, a forma da Lei que aponta como pode funcionar uma IES é indicado que deve ser realizada por meio de atos autorizativos de funcionamento. O art. 10 subsidia tais 43 informações, tratando sobre: a) Ato Autorizativo de Credenciamento e Recredenciamento da IES; b) Ato Autorizativo de Reconhecimento ou Renovação dos Cursos Superiores. Em resumo, um dos atos é para permitir a autorização do funcionamento da IES e o outro para autorizar a oferta de cursos de graduação e pós-graduação. Sobre a supervisão, a Lei determina que a finalidade é acompanhar a IES por meio de ações preventivas ou corretivas, com perspectivas de averiguar se está se cumprindo as normas gerais da Educação Superior, bem como a regularidade e a qualidade da oferta dos cursos de graduação e de pós-graduação lato sensu oferecidos. A supervisão é realizada por um órgão de governo na esfera federal, estadual ou municipal, ou, até mesmo, na parceria entre um ou mais deles. Os processos de avaliação são apontados como tendo a principal ferramenta o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, o SINAES. Nesse sentido, a lei aponta que esta avaliação tem caráter formativo e que se constitui como referencial básico para os processos de regulação e de supervisão da educação superior, com a finalidade de promover a melhoria da qualidade dos cursos nas instituições. Ainda sobre o capítulo inicial deste decreto, é possível perceber que para além das ações de regulação, supervisão e avaliação, ele apresenta alguns atores adicionais que atuarão junto às Instituições de Ensino Superior. O art. 3, por sua vez, pontua alguns desses atores: Art. 3º As competências para as funções de regulação, supervisão e avaliação no sistema federal de ensino serão exercidas pelo Ministério da Educação, pelo Conselho Nacional de Educação - CNE, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Inep e pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior - Conaes, conforme estabelecido neste Decreto. (BRASIL, 2017, art. 3º) Em vista disso, fazendo apresentação de cada um destes atores, com relação ao ministério da Educação, na figura do Ministro de Estado: 44 Art. 4º Ao Ministro de Estado da Educação compete: I - homologar pareceres do CNE em pedidos de credenciamento, recredenciamento e descredenciamento de IES; II - homologar pareceres e propostas de atos normativos aprovados pelo CNE; III - aprovar os instrumentos de avaliação elaborados pelo Inep; IV - homologar as deliberações da Conaes; e V - expedir normas e instruções para a execução de leis, decretos e regulamentos. § 1º O Ministro de Estado da Educação poderá, motivadamente, restituir os processos de competência do CNE para reexame. § 2º Os atos homologatórios do Ministro de Estado da Educação são irrecorríveis na esfera administrativa. (BRASIL, 2017, art. 4º) Como apontado, o papel do Ministro da Educação para com a Educação Superior acontece mediante as ferramentas oferecidas por outros órgãos da educação, como o CNE (Conselho Nacional de Educação) e o CONAES (Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior). Além disso, é papel do Ministro estar na linha de frente à análise e o despacho administrativo das funções de regulação e supervisão da educação superior. Numa escala hierárquica, a palavra final é sempre deste ator. Com relação ao CNE (Conselho Nacional de Educação): Art. 6º Compete ao CNE: I - exercer atribuições normativas, deliberativas e de assessoramento ao Ministro de Estado da Educação nos temas afetos à regulação e à supervisão da educação superior, inclusive nos casos omissos e nas dúvidas surgidas na aplicação das disposições deste Decreto; 45 II - deliberar, por meio da Câmara de Educação Superior, sobre pedidos de credenciamento, recredenciamento e descredenciamento de IES e autorização de oferta de cursos vinculadas a credenciamentos; III - propor diretrizes e deliberar sobre a elaboração dos instrumentos de avaliação para credenciamento e recredenciamento de instituições a serem elaborados pelo Inep; IV - recomendar, por meio da Câmara de Educação Superior, providências da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação, quando não satisfeito o padrão de qualidade para credenciamento e recredenciamento de universidades, centros universitários e faculdades; V - deliberar, por meio da Câmara de Educação Superior, sobre a inclusão e a exclusão de denominação de curso do catálogo de cursos superiores de tecnologia; VI - julgar, por meio da Câmara de Educação Superior, recursos a ele dirigidos nas hipóteses previstas neste Decreto; e VII - analisar e propor ao Ministério da Educação questões relativas à aplicação da legislação da educação superior. (BRASIL, 2017, art. 6º) Como podemos observar, o CNE, em muitos casos, tem competência deliberação, recomendação, análise e proposição de diretrizes para deliberações. Além disso, ele é o órgão que assessora o Ministro da Educação e dá o aval ao credenciamento e recredenciamento de cursos quando às IES fazem solicitação de abertura ou recredenciamento à Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior no Ministério da Educação. Portanto, compete ao INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira): Art. 7º Compete ao Inep: 46 I - conceber, planejar, coordenar e operacionalizar: a) as ações destinadas à avaliação de IES, de cursos de graduação e de escolas de governo; e b) o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - Enade, os exames e as avaliações de estudantes de cursos de graduação; II - conceber, planejar, coordenar, operacionalizar e avaliar: a) os indicadores referentes à educação superior decorrentes de exames e insumos provenientes de bases de dados oficiais, em consonância com a legislação vigente; e b) a constituição e a manutenção de bancos de avaliadores e colaboradores especializados, incluída a designação das comissões de avaliação; III - elaborar e submeter à aprovação do Ministro de Estado da Educação os instrumentos de avaliação externa in loco, em consonância com as diretrizes propostas pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior e pelos outros órgãos competentes do Ministério da Educação; IV - conceber, planejar, avaliar e atualizar os indicadores dos instrumentos de avaliação externa in loco, em consonância com as diretrizes propostas pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação; V - presidir a Comissão Técnica de Acompanhamento da Avaliação - CTAA, nos termos do art. 85; e VI - planejar, coordenar, operacionalizar e avaliar as ações necessárias à consecução de suas finalidades. (BRASIL, 2017, art. 7º) O INEP é o órgão que atua mais próximo das instituições de ensino superior quanto ao planejamento, coordenação, operacionalização 47 e instrumentalização das avaliações, sendo o ENADE o seu exemplo de mais conhecimento popular. Em vista disso, também é de sua competência a elaboração de relatórios e indicadores do Educação Superior pública e particular no país. Com relação ao CONAES (Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior): Art. 8º Compete à Conaes: I - propor e avaliar as dinâmicas, os procedimentos e os mecanismos de avaliação institucional, de cursos e de desempenho dos estudantes; II - estabelecer diretrizes para organização das comissões de avaliação, analisar relatórios, elaborar pareceres eencaminhar recomendações às instâncias competentes; III - formular propostas para o desenvolvimento das IES, com base nas análises e recomendações produzidas nos processos de avaliação; IV - articular-se com os sistemas estaduais de ensino, com vistas ao estabelecimento de ações e critérios comuns de avaliação e supervisão da educação superior; e V - submeter anualmente à aprovação do Ministro de Estado da Educação a relação dos cursos cujos estudantes realizarão o Enade. (BRASIL, 2017, art. 8º) Pelo excerto, podemos verificar o papel do Conaes na operacionalização técnica dos procedimentos de avaliação e supervisão, bem como, suporte aos estados para tal finalidade. Os relatórios apontam o cenário dos cursos da Educação Superior e quais serão os cursos a serem avaliados no ENADE. 48 O segundo capítulo do Decreto nº 3.295 de 2017 trata a regulação da Educação Superior. Esse é um capítulo com muitas seções específicas, sendo um destaque inicial o credenciamento das IES: Art. 18. O início do funcionamento de uma IES privada será condicionado à edição prévia de ato de credenciamento pelo Ministério da Educação (…) Art. 19. A mantenedora protocolará pedido de credenciamento junto à Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação, observado o calendário definido pelo Ministério da Educação. (…) Art. 20. O pedido de credenciamento será instruído com os seguintes documentos: (…) II - da IES: a) comprovante de recolhimento das taxas de avaliação externa b) plano de desenvolvimento institucional - PDI; c) regimento interno ou estatuto; d) identificação dos integrantes do corpo dirigente e de informação sobre a experiência acadêmica e professional de cada um e) comprovante de disponibilidade e regularidade do imóvel; f) plano de garantia de acessibilidade, em conformidade com a legislação, acompanhado de laudo técnico emitido por profissional ou órgão público competentes; e 49 g) atendimento às exigências legais de segurança predial, inclusive plano de fuga em caso de incêndio, atestado por meio de laudo específico emitido por órgão público competente. (BRASIL, 2017, art. 18-20) Como podemos notar, o credenciamento de uma IES depende da mantenedora custear taxas e demonstrar espaço físico à oferta do atendimento educacional, valorizando as exigências legais de segurança predial e acessibilidade. Os documentos que comprovem a organização interna, como regimentos e, principalmente, o PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) é essencial no processo de credenciamento. Assim, não foi apontado nos artigos apresentados, mas é importante mencionar que o processo de recredenciamento das IES segue determinações semelhantes. Tanto para credenciamento como recredenciamento, as IES devem contatar a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação. No que se refere à autorização para funcionamento dos cursos: Art. 39. A oferta de cursos de graduação em faculdades, nos termos deste Decreto, depende de autorização prévia do Ministério da Educação. (…) Art. 41. A oferta de cursos de graduação em Direito, Medicina, Odontologia, Psicologia e Enfermagem, inclusive em universidades e centros universitários, depende de autorização do Ministério da Educação, após prévia manifestação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e do Conselho Nacional de Saúde. (...) Art. 42. O processo de autorização será instruído com análise documental, avaliação externa in loco realizada pelo Inep e decisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação. 50 (…) Art. 43. O pedido de autorização de curso será instruído com os seguintes documentos: I - comprovante de recolhimento da taxa de avaliação externa in loco, realizada pelo Inep; II - projeto pedagógico do curso, que informará o número de vagas, os turnos, a carga horária, o programa do curso, as metodologias, as tecnologias e os materiais didáticos, os recursos tecnológicos e os demais elementos acadêmicos pertinentes, incluídas a consonância da infraestrutura física, tecnológica e de pessoal dos polos de educação a distância do curso, quando for o caso. III - relação de docentes e de tutores, quando for o caso, acompanhada de termo de compromisso firmado com a instituição, que informará a titulação, a carga horária e o regime de trabalho; IV - comprovante de disponibilidade do imóvel. Art. 44. A Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação procederá à análise dos documentos, sob os aspectos da regularidade formal e do mérito do pedido, e ao final poderá: I - deferir o pedido de autorização de curso; II - deferir o pedido de autorização de curso com redução de vagas; III - deferir o pedido de autorização de curso, em caráter experimental; IV - indeferir o pedido de autorização de curso. (BRASIL, 2017) Nesse sentido, os cursos podem ter autorização de funcionamento antes mesmo de estarem registrados. Por vezes, o tempo para o registro do curso pelo Ministério da Educação e o tempo de conclusão do curso pela IES acaba coincidindo. De maneira diferente ao credenciamento da IES, que dentre a documentação se prevê a construção do PDI (Plano de 51 Desenvolvimento Institucional), para cursos de graduação, para além de outras documentações, deve ser apresentado o PPP (Projeto Político Pedagógico) do curso. As etapas finais para regulação da IES e dos cursos das IES é o próprio reconhecimento do Ministérios da Educação e a assinatura do termo de compromisso com renovações esporádicas, em vista do processo de recredenciamento. Adentrando aos principais aspectos do Capítulo III do Decreto nº 9.235 de 2017, apresenta-se temas referentes ao processo de Supervisão nas IES. Em linhas gerais, quando a IES passa pelo processo de supervisão, pode acarretar na identificação de irregularidades, como: avaliação insatisfatória nos processos de avaliação, visitas in loco dos agentes do governo ou, até mesmo, por meio de denúncias, como nos casos das IES atuarem sem autorização. Nesse sentido, o art. 62 aponta quais são os procedimentos administrativos de supervisão possam sofrer no caso de necessidade de melhorias: Art. 62. O processo administrativo de supervisão instaurado para apuração de deficiências ou irregularidades poderá ser constituído das seguintes fases: I - procedimento preparatório; II - procedimento saneador; e II - procedimento sancionador. (BRASIL, 2017, art. 62) O primeiro procedimento preparatório dado pelo ministro da educação e instaurado pela Secretaria de Regulação e Supervisão do MEC aponta que a IES precisa readequar-se para um ou mais pontos. Logo, ele é preparatório porque indicar a instauração de um 52 procedimento saneador, sancionador ou arquivamento de processo. O procedimento saneador é aplicado nos casos de identificação de deficiências ou de irregularidades passíveis de saneamento, determinar providências saneadoras, em prazo não superior a doze meses. O procedimento sancionador ocorrerá a partir do procedimento preparatório, ou, então, nos casos em que não se tendo cumprido as providências determinadas para o saneamento das deficiências pela instituição e das demais situações previstas na legislação educacional. Ao final de um período apontado para readequações e melhorias, a IES pode sofrer várias punições, como: suspensão de auxílios do governo, abertura de cursos, vagas e, no caso mais grave, o descredenciamento institucional. O quarto capítulo do Decreto nº 9.235, de 2017, aborda o processo de avaliação por meio de dois contextos. O primeiro deles é sobre a avaliação das instituições de educação superior e dos cursos superiores de graduação e pós-graduação que tem como principal ferramenta o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Art. 80. O Sinaes, a fim de cumprir seus objetivos e atender a suas finalidades constitucionaise legais, compreende os seguintes processos de avaliação: I - avaliação interna das IES; II - avaliação externa in loco das IES, realizada pelo Inep; III - avaliação dos cursos de graduação; e IV - avaliação do desempenho acadêmico dos estudantes de cursos de graduação por meio do Enade. (BRASIL, 2017, art. 80) Como podemos observar, a avaliação interna demanda à IES estruturar formas de se auto pesquisar para saber qual tem sido a qualidade de 53 seu atendimento. A avaliação in loco é realizada pelas esferas de governo que, aos moldes do que foi pontuado na supervisão, podem estabelecer procedimento administrativos. A avaliação dos cursos é dada por uma série de questões, como condições de acesso e permanência do estudante na IES, projeto político pedagógico, acervo de biblioteca. O segundo ponto é sobre a avaliação do desempenho acadêmico dos estudantes de cursos de graduação por meio do Enade. Art. 86. Os exames e as avaliações de estudantes de cursos de graduação aferem os desempenhos em relação às habilidades e às competências desenvolvidas ao longo de sua formação na graduação. Art. 87. O Enade será aplicado a estudantes de cada curso a ser avaliado de acordo com ciclo avaliativo a ser definido pelo Ministério da Educação. Art. 88. Os instrumentos de avaliação do Enade serão compostos a partir de itens do Banco Nacional de Itens da Educação Superior - BNI-ES a ser mantido pelo Inep. Art. 89. Os indicadores da educação superior serão calculados a partir das bases de dados do Inep e de outras bases oficiais que possam ser agregadas para subsidiar as políticas públicas de educação superior. (BRASIL, 2017, art. 86-89) Portanto, o ENADE avaliará o desempenho dos estudantes da graduação dentro daquilo que o MEC e o INEP apontam como Banco Nacional de Itens da Educação Superior, que é um documento que considera o que é conhecimento básico para determinado curso de graduação. Os resultados de desempenho permitem ao MEC atribuir nota ou conceito ao curso de graduação e à IES, sendo uma escala de 0 a 5. Como estudamos nesta unidade, por meio do Decreto nº 9.235, de 2017, permitiu conhecer as principais regras que contemplam as Instituições de Ensino Superior. Desse modo, esse estudo da lei permite conhecer 54 quais são as principais disposições governamentais para atividades fins da Educação Superior. Referências Bibliográficas BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 18 abr. 2020. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Presidência da República, [1996]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 18 abr. 2020. BRASIL. Decreto nº 9.235, de 17 de dezembro de 2017. Dispõe sobre o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação das instituições de educação superior e dos cursos superiores de graduação e de pós-graduação no sistema federal de ensino. Brasília, DF: Presidência da República, [2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9235.htm. Acesso em: 30 abr. 2020. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9235.htm 55 Ações Afirmativas, Políticas e Legislação de Inclusão Autoria: Carlos Eduardo Candido Pereira Leitura crítica: Aline Oliveira Gomes da Silva Objetivos • Verificar as ações afirmativas enquanto contribuições e encaminhamentos de políticas educacionais e de inclusão. • Conhecer as Políticas Inclusivas Gerais da Educação Superior. • Analisar as Políticas Inclusivas Específicas da Educação Superior. 56 1. Ações afirmativas: contribuições e encaminhamentos Nas últimas décadas, o mundo tem passado por um processo múltiplo de políticas ideológicas com a reivindicação de proteção, direitos e legislações específicas para o reconhecimento da liberdade dos mais variados grupos sociais, etnias e raças. No reconhecimento destas peculiaridades, grande parte dos governos mundiais, como o Brasil, reconhecem essa multiplicidade social. Desde a década de 1990, várias leis foram implementadas para que as chamadas minorias pudessem ter reconhecimento de suas peculiaridades sociais. Todavia, mesmo na atualidade, essas legislações, apesar de reconhecer as minorias no campo político, no campo cultural estão presentes o olhar do preconceito, do estigma, do ódio, da exclusão, da posse e da discriminação. Este é o caso das pessoas com deficiências, negros, indígenas, imigrantes, mulheres, idosos, homossexuais, moradores da favela e, até mesmo, moradores de rua. Apesar das reais dificuldades apontadas na atualidade, é importante reconhecer no âmbito político e legal os avanços obtidos aos mais variados grupos. Com isso, mencionamos os acontecimentos históricos, como o período pós-guerras no século XX e a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. Por sua vez, isso propiciou ampliar os debates ideológicos por igualdade que resultaram em políticas e legislações ligadas às ações afirmativas. De acordo com Santos (2005), as ações afirmativas são medidas tomadas ou determinadas pelo Estado, espontânea ou compulsoriamente, na forma de lei, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas. Assim, se garante a igualdade de oportunidades e 57 tratamento, bem como a compensação dos prejuízos incitados por ações de discriminação e marginalização racial, étnica, religiosa, de gênero, entre outros. Somada a esta concepção, as ações afirmativas pretendem condenar as discriminações acontecidas e que por ventura ainda aconteça aos mais variados grupos na sociedade. Desse modo, as ações afirmativas, ao serem incorporadas pela política, fixam que: As ações afirmativas, enquanto políticas compensatórias adotadas para aliviar e remediar as condições resultantes de um passado discriminatório, cumprem uma finalidade pública decisiva para o projeto democrático, que é a de assegurar a diversidade e a pluralidade social. Constituem medidas concretas que viabilizam o direito à igualdade, com a crença de que a igualdade deve se moldar no respeito à diferença e à diversidade. Através delas transita-se da igualdade formal para a igualdade material e substantiva Posto isso, com o advento de uma nova ordem propiciada pela estruturação do Estado Moderno, as principais legislações voltadas a esse público (das pessoas com deficiências) datam da segunda metade do século XX, sendo o marco a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. (SANTOS, 2005, p. 40) Como podemos observar, as ações afirmativas buscam dar igualdade de condições, mesmo que na atualidade a sua efetivação ainda seja um processo de constante debate ideológico nas sociedades democráticas. Entre todas as instituições de ensino numa sociedade democrática, certamente, são as da Educação Superior onde as críticas reflexivas sobre as ações afirmativas ganham mais ênfase e, por isso, também é este tipo de instituição que mais vem se tornando flexível nas últimas décadas. Isso explica o porquê, nos anos finais do século passado e nos anos iniciais deste século, o governo brasileiro se dedicou mais às políticas de diversidade no Ensino Superior. Para Moehlecke (2004, p. 477): 58 Com relação a permanência no Ensino Superior, as ações abrangem basicamente, a concessão de bolsas vinculadas à participação em programas e projetos que promovem uma reflexão sobre políticas de diversidade [...]. Destacam-se ainda os programas de formação de professores abrangendo temas como educação indígena, a educação de gênero e a orientação sexual e as relações étnico-raciais. Com isso, aspolíticas compensatórias aconteceram para evitar a evasão dos estudantes no ensino superior, sobretudo os de classes sociais desfavorecidas, bem como se formou mais professores e profissionais no debate da diversidade, ou seja, pensou-se em ampliar o tema para reduzir as desigualdades em vários setores profissionais. 2. Políticas inclusivas gerais da Educação Superior Com base no debate sobre as ações afirmativas e sua efetivação em programas e políticas voltadas à Educação Superior, desde os anos 1990, é importante apontar algumas ações, sobretudo, de acesso e permanência a esta modalidade de ensino para toda a sociedade brasileira. Logo, sendo ações que reconhecem a diversidade e as desigualdades sociais no Brasil e que buscam qualificar outras políticas combatendo a exclusão e aumento da pobreza. A primeira legislação de acesso à Educação Superior foi a criação do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM), em 1998. No início, esse exame possibilitou uma pontuação extra aos alunos do ensino médio a alguns vestibulares do país, contribuindo ao Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa Anísio Teixeira (INEP) realizar diagnósticos para se pensar outras alternativas de política da educação. Desde aquela época, o ENEM é utilizado como ferramenta pelo INEP para que este órgão, por meio de dados estatísticos, permita pensar 59 soluções para a melhoria da qualidade da Educação em nível médio e ingresso na Educação Superior no Brasil. Por sua vez, observou-se que, ao longo dos anos, em virtude das análises do ENEM, foram criadas políticas de acesso e permanência à Educação Superior, com auxílios financeiros e bolsas de estudo, como o FIES (2001), o Prouni (2004) e o Sistema de Seleção Unificada – SiSU (2010). O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES) surgiu originalmente com a Lei nº 10.260 de 2001, porém, ao longo dos anos sofreu várias atualizações no texto inicial sendo a versão mais recente dada pela Lei nº 13.530, de 2017. O FIES é bem especifico ao apontar que: Art. 1º. (...) o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), de natureza contábil, vinculado ao Ministério da Educação, destinado à concessão de financiamento a estudantes de cursos superiores não gratuitos e com avaliação positiva nos processos conduzidos pelo Ministério, de acordo com regulamentação própria. § 1º. O financiamento de que trata o caput deste artigo poderá beneficiar estudantes matriculados em cursos da educação profissional, técnica e tecnológica, e em programas de mestrado e doutorado com avaliação positiva, desde que haja disponibilidade de recursos, nos termos do que for aprovado pelo Comitê Gestor do Fundo de Financiamento Estudantil. (BRASIL, 2017, art. 1º) Assim, fica explicito que o FIES financia estudantes de cursos superiores não gratuitos (em outras palavras, públicos) em cursos e instituições que tenham boa avaliação de desempenho e que eles, para além da formação técnica, mas voltada à Educação Superior esteja voltado para graduação e pós-graduação. 60 O PROUNI (Programa Universidade Para Todos), por sua vez, foi institucionalizado pela Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005, e tem como finalidade a concessão de bolsas de estudo integrais e parciais em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições de ensino superior privadas: Art. 1º Fica instituído, sob a gestão do Ministério da Educação, o Programa Universidade para Todos–PROUNI, destinado à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de 50% (cinquenta por cento) ou de 25% (vinte e cinco por cento) para estudantes de cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos. (BRASIL, 2005, art. 1º) Além disso, a Lei do Prouni trata outras informações, como a condição socioeconômica dos estudantes que venham pleitear participação no programa, bem como as atribuições deles e da universidade. Para a época de sua criação, a pretensão do governo federal era a de que as classes sociais mais desfavorecidas pudessem ter acesso ao ensino superior na esfera particular, uma vez que não havia vagas suficientes na esfera pública. O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) foi promulgado pela Portaria Normativa nº 21 de 5 de novembro de 2012, definindo: Art. 2º O Sisu é o sistema por meio do qual são selecionados estudantes a vagas em cursos de graduação disponibilizadas pelas instituições públicas e gratuitas de ensino superior que dele participarem (BRASIL, 2012, art. 2º). Portanto, o Sisu se trata de um sistema que auxilia o estudante ingressar numa universidade que assina com a Secretaria da Educação Superior, no MEC, um termo de adesão. Assim, no momento em que processos seletivos acontecerem, os estudantes se inscrevem (podendo, inclusive, optar pela reserva de vagas para as ações afirmativas) e, posteriormente, podem verificar a existência de vagas em universidades por meio da classificação em chamadas regulares e em chamadas de 61 lista de espera. Nesse sentido, vale ressaltar que a nota obtida no ENEM é um dos critérios de pontuação. Com relação a reserva de vagas, vale ressaltar que os estudantes que optarem por esta condição poderão ser classificados em: • Estudantes egressos de escola pública, com renda familiar bruta igual ou inferior a 1,5 (um e meio) salário-mínimo per capita: que se autodeclararam pretos, pardos e indígenas ou que não se autodeclararam pretos, pardos e indígenas. • Estudantes egressos de escolas públicas, independentemente de renda: que se autodeclararam pretos, pardos e indígenas ou que não se autodeclararam pretos, pardos e indígenas. Como se pode notar, o Sisu também leva em consideração critérios sociais dentre as políticas das ações afirmativas. No próximo tópico, abordaremos sobre algumas políticas de inclusão de caráter mais especifico da Educação Superior para alguns grupos sociais, como: as pessoas com deficiência, os pretos e indígenas. 3. Políticas inclusivas específicas da Educação Superior No tópico anterior, apresentamos algumas conquistas das ações afirmativas à sociedade em geral, no que tange às políticas de inclusão no ensino superior desde os anos 1990. Na sequência, verificaremos como essas políticas e ações permitiram legislações a grupos específicos a partir dos anos 2000. Assim, trataremos de modo mais peculiar sobre as políticas educacionais inclusivas voltadas às pessoas com deficiência, pretos e índios. 62 Com relação as pessoas com deficiência, este público tem cada vez mais acesso à Educação Superior, seja na modalidade presencial ou a distância. Logo, vale ressaltar que quando se trata o tema–políticas inclusivas –, popularmente, se pensa apenas no público com deficiência. Na verdade, o conceito de inclusão é amplo e atende outros públicos também. As políticas de inclusão educacional das pessoas com deficiência já não são tão recentes, mas as dificuldades de prática pedagógica ainda são complexas, como os desafios aos profissionais da educação e da sociedade. Para ilustrar isso, basta imaginar como seria a seguinte situação: uma pessoa com deficiência chegar a uma loja e pede ao vendedor na língua de sinais uma informação sobre tamanho de uma roupa. Aqui, provavelmente, há uma barreira de comunicação. Assim, devemos nos perguntar: será que todos os vendedores da loja estão preparados para atender neste tipo de situação? O mesmo poderia ser aplicado à experiência de um docente na Educação Superior: o que faria este profissional ao receber um aluno com deficiência na sua sala de aula? Como ajudá-lo? A resposta inicialmente é simples: se ao receber um aluno com deficiência e o docente não souber o que fazer, ele deverá procurar a coordenação do curso ou algum serviço de apoio da universidade. De todo modo, ele nunca deverá ficar sem tomar uma atitude, devendo buscar informações e se qualificar no tema. Mas o que é a pessoa com deficiência? Deacordo com a Lei nº 13.146, de 2015, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência: Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. 63 § 1º A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: I–Os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; II–Os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; III–A limitação no desempenho de atividades; e IV–A restrição de participação. § 2º O Poder Executivo criará instrumentos para avaliação da deficiência. (BRASIL, 2015, art. 2º) Como podemos observar, a definição da deficiência se dá por impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas, sendo a sua avaliação considerada de maneira biológica, psicológica e social com a observação de vários tipos de impedimentos e limitações, e com o uso de instrumentos criados por governos nesta observação. De modo geral, o Estatuto da Pessoa com Deficiência é bastante amplo e também trata outros conceitos, como acessibilidade, ajudas técnicas, saúde, educação, trabalho, comunicação e entre outros. Logo, a sua leitura é fundamental para qualquer profissional. Além disso, em termos pedagógicos, apesar das necessidades especiais dos alunos com deficiência, eles não devem ser tratados de modo diferenciado, pois devem se sentir cada vez mais incluídos e tratados como pessoas normais, mesmo que, por alguma necessidade especial, necessite de um apoio diferenciado. Quando mencionamos anteriormente sobre a dúvida das ações possíveis que o profissional da educação deveria tomar ao receber um aluno com deficiência, apontamos sobre buscar a coordenação do curso 64 e a própria instituição de ensino superior para a solução dos casos. O fato é que no âmbito das universidades públicas federais um programa já é existente (e que tem dado exemplo a outros tipos de instituições), trata-se do INCLUIR, mas para conhecê-lo, é necessário reconhecer o REUNI. O REUNI, também conhecido como Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, foi criado pelo Decreto nº 6.096 de 24 de abril de 2007 (BRASIL, 2007) e não tratou especificamente da inclusão. Ele até poderia compor o capítulo de políticas educacionais inclusivas gerais, mas além de não ser uma lei, sendo um decreto, o seu o objetivo principal descrito é o de criar condições para a ampliação do acesso e permanência de brasileiros na educação superior, no nível de graduação, por meio de um bom aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais. A melhoria das estruturas físicas e dos recursos humanos na universidade, graças ao REUNI, possibilitou direcionar uma ação exclusiva para as pessoas com deficiência no INCLUIR, também conhecido como Programa de Acessibilidade na Educação Superior. O Incluir foi lançado em 2013 por meio de um documento orientador expedido pela extinta SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) em parceria com a Secretaria da Educação Superior (SESu). De um modo geral, o principal objetivo do INCLUIR é fomentar a criação e a consolidação de núcleos de acessibilidade nas instituições de ensino superior. Esses núcleos, de acordo com o documento orientador, visam eliminar barreiras físicas, de comunicação e de informação que restringem a participação e o desenvolvimento acadêmico e social de estudantes com deficiência. Na prática, os núcleos de acessibilidade se tornaram e ainda são referência nas universidades federais para consulta de políticas 65 as pessoas com deficiência, além de espaço de debates didáticos pedagógicas, pesquisa e extensão. A Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012 (BRASIL, 2012), aborda sobre o sistema de cotas, porém, somente na leitura dela é que se compreende a sua referência ao público de estudantes da escola pública, em situação racial e aos indígenas. Na prática, essa lei define a reserva de vagas para cotas (50% do total de vagas dos cursos) subdivididas em: a) metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo; b) metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Em todos estes casos, devem ser respeitos o percentual mínimo correspondente a soma de pretos, pardos e indígenas. Por se tratar de uma lei muito curta, com apenas 9 artigos (o 2º revogado e o 9º apontando a data em que entrou em vigor), a seguir faremos uma exposição comentada: Art. 1º As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Parágrafo único. No preenchimento das vagas de que trata o caput deste artigo, 50% (cinquenta por cento) deverão ser reservados aos estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo (um salário-mínimo e meio) per capita. (BRASIL, 2012, art. 1º) Este artigo aponta a reserva de 50% das vagas para alunos que estudaram sempre na escola pública por curso e turno. Na prática, por exemplo, se uma IES oferece ao todo 100 vagas anuais no curso de Letras, metade delas deverão ser reservados por esta lei ao público alvo citado (50 ao todo, sendo 25 para o período diurno e 25 no período noturno). Deste quantitativo, o estudante que pleitear vaga pelo sistema 66 de cotas deverá comprovar ter renda familiar de até 1,5 salários- mínimos. Art. 3º Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística–IBGE Parágrafo único. No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, aquelas remanescentes deverão ser completadas por estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. (BRASIL, 2012, art. 3º) O art. 3º aponta, pela primeira vez, a reserva de vagas às pessoas pretas, pardas, indígenas e pessoas com deficiência. Neste caso, por exemplo, das 100 vagas disponíveis no curso de Letras anuais, distribuindo 50 para dois períodos, entre as 25 vagas por turno, deve ser feita a distribuição entre alunos que sempre estudaram em escola pública e o público mencionado. No caso de não haver pessoas deste público, a vaga retorna aos que estudaram sempre em escola pública. Art. 4º As instituições federais de ensino técnico de nível médio reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso em cada curso, por turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que cursaram integralmente o ensino fundamental em escolas públicas. Parágrafo único. No preenchimento das vagas de que trata o caput deste artigo, 50% (cinquenta por cento) deverão ser reservados aos estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo (um salário-mínimo e meio) per capita. (BRASIL, 2012, art. 4º) 67 Semelhante ao art. 1º, o art. 4º menciona o preenchimento devagas para escolas técnicas e profissionalizantes de ensino médio, sendo a regra válida para alunos que estudaram sempre no ensino fundamental do 1º ao 9º ano. Art. 5º Em cada instituição federal de ensino técnico de nível médio, as vagas de que trata o art. 4º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo do IBGE. Parágrafo único. No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, aquelas remanescentes deverão ser preenchidas por estudantes que tenham cursado integralmente o ensino fundamental em escola pública. (BRASIL, 2012, art. 5º) Como no art. 3º, podemos observar a reserva de vagas às pessoas pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência. Art. 6º. O Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Presidência da República, serão responsáveis pelo acompanhamento e avaliação do programa de que trata esta Lei, ouvida a Fundação Nacional do Índio (Funai). (BRASIL, 2012, art. 6º) Neste artigo, por sua vez, são apresentados quais são os agentes de governo responsáveis pelo acompanhamento e análise da política de cotas, ouvindo-se órgãos específicos das minorias, como a Funai. Art. 7º. No prazo de dez anos a contar da data de publicação desta Lei, será promovida a revisão do programa especial para o acesso às instituições de educação superior de estudantes pretos, pardos e indígenas e de pessoas com deficiência, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. (BRASIL, 2012, art. 7º) 68 O art. 7º aponta a revisão constante da lei, a fim de verificar se houve diminuição dos prejuízos sociais historicamente enfrentados pelo público alvo da lei, para isso, considerando-se o equilíbrio das diferenças sociais. Art. 8º As instituições de que trata o art. 1o desta Lei deverão implementar, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) da reserva de vagas prevista nesta Lei, a cada ano, e terão o prazo máximo de 4 (quatro) anos, a partir da data de sua publicação, para o cumprimento integral do disposto nesta Lei. (BRASIL, 2012, art. 8º) Por fim, o art. 8º apontava a reserva de vagas de maneira anual às IES, desde que no 4º ano, já ocorrido, as vagas fossem totalmente organizadas no sistema de cotas apresentado. Assim, verificamos nesse tema a importância das ações afirmativas e alguns processos históricos que culminaram em políticas e legislações em prol de alguns grupos considerados como minorias na sociedade brasileira. Em termos da Educação Superior, verificamos algumas das principais legislações divididas em políticas de educação inclusiva geral e específicas. O fato é que o escopo de legislações não estão todos apontados neste tema, todavia, os principais e mais comuns à realidade da Educação Superior. Desse modo, é importante frisar a importância de se aprofundar no tema para um ou mais grupos apontados, pois há mais legislações, especialmente à Educação Básica. Referências Bibliográficas BRASIL. Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005. Institui o Programa Universidade para Todos–PROUNI. Brasília, DF: Presidência da República, [2005]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11096.htm. Acesso em: 4 maio 2020. BRASIL. Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007. Institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - REUNI. Brasília, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11096.htm 69 DF: Presidência da República, [2007]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6096.htm. Acesso em: 4 maio 2020. BRASIL. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [2012]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm. Acesso em: 4 maio 2020. BRASIL. Portaria Normativa nº 21 de 5 de novembro de 2012. Dispõe sobre o Sistema de Seleção Unificada–Sisu. Brasília, DF: Ministério da Educação, [2012]. Disponível em: http://www.lex.com.br/legis_23939424_PORTARIA_ NORMATIVA_N_21_DE_5_DE_NOVEMBRO_DE_2012.aspx. Acesso em: 6 jul. 2020. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa Com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, DF: Presidência da República, [2015]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 4 maio 2020. BRASIL. Lei nº 13.530 de 7 de dezembro de 2017. Altera a Lei nº 10.260, de 12 de julho de 2001 – FIES e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência de República, [2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/ Lei/L13530.htm. Acesso em: 4 maio 2020. MOEHLECK, S. Ações Afirmativas no Ensino Superior: entre a excelência e a justiça racial. Educação e Sociedade, Campinas, v. 25, n. 88, out. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v25n88/a06v2588.pdf. Acesso em: 4 maio 2020. SANTOS, S. A. Ações afirmativas e combate ao racismo nas Américas. Brasília: Ministério da Educação; UNESCO, 2005. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6096.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6096.htm http://www.lex.com.br/legis_23939424_PORTARIA_NORMATIVA_N_21_DE_5_DE_NOVEMBRO_DE_2012.aspx http://www.lex.com.br/legis_23939424_PORTARIA_NORMATIVA_N_21_DE_5_DE_NOVEMBRO_DE_2012.aspx http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13530.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13530.htm http://www.scielo.br/pdf/es/v25n88/a06v2588.pdf 70 Bons estudos! Sumário Referências Bibliográficas 3. Formação da Legislação 1. Contexto da Educação Superior no Brasil Objetivos 2. O conceito de Educação e de Ensino Universidade: Ensino, Pesquisa e Extensão Objetivos 1. Universidade: papel social, dificuldades e ações à sociedade 2. Ensino 3. Pesquisa 4. As agências de fomento à pesquisa 5. Extensão Referências Bibliográficas A Legislação Nacional Para a Educação Superior Objetivos 1. A organização acadêmica da Educação Superior no Brasil 2. A regulação, a supervisão e a avaliação das instituições de Educação Superior: Decreto nº Referências Bibliográficas Ações Afirmativas, Políticas e Legislação de Inclusão Objetivos 1. Ações afirmativas: contribuições e encaminhamentos 2. Políticas inclusivas gerais da Educação Superior 3. Políticas inclusivas específicas da Educação Superior Referências Bibliográficas