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1 ECG NORMAL ELETROCARDIOGRAMA NORMAL É o registro da combinação de diversos eletrodos (4 nos membros e 6 no tórax) que fornecem dados sobre a geração e a condução do estímulo elétrico no coração. O ECG representa a soma da atividade elétrica de todas as células do coração registradas na superfície corporal. É importante para realização de diagnósticos, além de ser rápido, indolor e não invasivo. Avalia: ECG normal; Bradicardia e taquicardia; Arritmias cardíacas; Sobrecargas atriais e ventriculares; Bloqueios atrio-ventriculares (BAV 1º, 2º e 3º graus); Bloqueios de ramos e hemibloqueios; Coronariopatias agudas e/ou crônicas (isquemia, lesão, necrose); Miocardiopatias; Pericardites / Tamponamento cardíaco; Canalopatias; Marcapasso; Disturbios eletrolíticos (potassemia, calcemia, etc); Intoxicações exógenas; Hipotermia. Sistema cartesiano: Eixo das abcissas = tempo em segundos. Eixo das ordenadas = DDP em milivoltagem ou milímetro. O aparelho de ECG deve estar calibrado em 10 mm (= N), a velocidade em que o papel corre deve ser 25 mm/s e o filtro devem ser aplicados a fim de evitar interferencias (oleosidade da pele, tremores, pelos corporais, protetor solar, hidratante e suor). COLOCAÇÃO DOS ELETRODOS NO PACIENTE: Cabo vermelho no braço direito + cabo preto na perna direita. Cabo amarelo braço esquerdo + cabo verde perna esquerda. V1 – 4º espaço intercostal do lado direito do esterno. V2 – 4º espaço intercostal do lado esquerdo do esterno V3 – na diagonal entre V2 e V4 V4 – 5º espaço intercostal na linha medioclavicular esquerda V5 – 5º espaço intercostal esquerda na linha axilar anterior. V6 – 5º espaço intercostal esquerda na linha axilar média. DERIVAÇÕES DO ECG DE 12 DERIVAÇÕES: O ECG convencional tem 12 derivações: D1, D2, D3, aVR, aVL, aVF, V1, V2, V3, V4, V5 e V6. Convenção: Quando o estímulo se dirige para o eletrodo, ou seja, quando o eletrodo ‘’vê’’ o estímulo chegando com força nele, a onda sobe (ONDA POSITIVA). Quando o estímulo se dirige em diração oposta ao eletrodo, isto é, quando o eletrodo ‘’vê’’ o estímulo indo embora, a onda desce (ONDA NEGATIVA). Plano Frontal (periféricas): Bipolares: pega de um ponto a outro; mede atividade elétrica de um membro a outro; D1, D2 e D3. Unipolares: não pega de um ponto a outro; mede atividade elétrica de um membro a um eletrodo; pega do meio à direita (aVR), do meio para esquerda (aVL) e do meio pra baixo (aVF). RA = braço direito; LA = braço esquerdo; LL = perna esquerda. Convencionalmente, D1 é positivo para esquerda (mesmo sentido da força resultante de contração). Caso o paciente tenha alguma doença que faça o estímulo ir para direita e para cima (vetor indo embora), D1 será negativo (lado direito). Já D2 e D3 são positivos para baixo e negativos para cima. Obs.: perna direita funciona como fio terra, tirando a interferência. Todas as derivações tendem a ser positivas com exceção de aVR que tem sua onda positiva para o lado oposto ao vetor resultante. Força resultante de contração do coração = p/ esquerda e p/ baixo. Plano Horizontal (precordiais): V1, V2, V3, V4, V5 e V6. A atividade elétrica de todas as células do coração em um certo momento pode ser representada por um vetor resultante. Deflexão para cima no ECG significa que o fluxo de corrente está indo em direção ao lado positivo do eletrodo – estimulo se aproximando do eletrodo. Já uma deflexão para baixo significa que o vetor do fluxo do fluxo de corrente está indo em direção ao lado negativo do eletrodo – estimulo se afastando do eletrodo. Um vetor resultante que está perpendicular ao eixo do eletrodo não causa deflexão positiva nem negativa (fica na linha de base). Emmanuel Pacheco 2 ECG NORMAL ECG NORMAL COM RITMO SINUSAL Onda P: despolarização atrial, contração atrial, sístole atrial, soma do trabalho do VD e VE. Segmento P-R: período de latência para fechamento da valva AV Intervalo P-R: do início da onda P até chegar no QRS; é a ativação atrial. Onda P + segmento P-R. Não pode ser curto nem longo demais. Complexo QRS: despolarização ventricular, contração ventricular. Pode ser estreito, mas não pode ser largo pois significaria que o ventrículo está demorando demais para se despolarizar e contrais (insuficiência cardíaca, bloqueio no ramo). Obs.: Enquanto há sístole ventricular, há diástole atrial. Segmento S-T: período de fechamento das valvas semilunares (aorta e pulmonar) após a contração ventricular. Onda T: repolarização ventricular (onda positiva pois ocorre no mesmo sentido da despolarização, força resultante, vetores). No eletro normal, não se vê a repolarização atrial. Onda U: despolarização das fibras de Purkinje. Pode ser visível ou não. INTERPRETANDO O ECG 1. Identificar a frequência cardíaca. 2. Analisar o ritmo cardíaco (sinusal ou não sinusal). 3. Onda P (duração, amplitude e morfologia). 4. Intervalo PR (duração). 5. QRS (duração, amplitude e morfologia). 6. Determinar o eixo QRS. 7. Verificar o segmento ST. 8. Onda T (morfologia e direção). 9. Intervalo QT. 10. Encontrar anormalidade se houver. DETERMINAÇÃO DA FREQUENCIA CARDÍACA A frequência cardíaca medida em batimentos por minuto (bpm) pode ser calculada pela divisão de 300 pelo número de quadrados grandes (de 5 mm) entre duas ondas R seguidas, ou seja, entre duas sístoles. Ou seja → 300, 150, 100, 75, 60, 50, 43, 38, 33. RITMO CARDÍACO O ritmo cardíaco pode ser sinusal ou não sinusal. O ritmo sinusal é aquele que é determinado pelo nó sinusal. Se o vetor do ritmo sinusal sempre se dirigirá para baixo e para esquerda do paciente, ele estará sempre se aproximando de DI, D2 de aVF, ou seja, será positivo nessas derivações. Critérios para definir um ritmo sinusal: Morfologia e orientação de P normal, ou seja, positiva em D1, D2 e aVF e negativo em aVR; Ondas P com mesma morfologia; A cada onda P se segue um complexo QRS. ONDA P Representa a despolarização dos átrios. Vetor resultante com eixo de 60º, corresponde a soma de despolarização de AD e AE. P normal: Positiva em D1, D2 e aVF. Negativa em aVR. Não pode ser muito alta, amplitude máxima de 2,5 mm. Deve ser menor que 0,12s em sua largura, ou seja, duração menor que 120 ms (menor do que 3 quadradinhos). Alterações: Sobrecarga AD (SAD) = amplitude aumentada. Sobrecarga de AE (SAE) = duração aumentada. Obs.: Começar analisando a onda P em D2 pois essa derivação se encontra na mesma região do vetor resultante. Assim, em D2 a onda P e QRS são maiores e podem ser observados melhor. Onda P variável positiva e negativa → Ritmo não sinusal. Dissociação atrioventricular. Falta de sincronia entre átrio e ventrículo. Ex.: Bloqueio atrioventricular total. Solução: marcapasso. Onda P com diferentes morfologias. Vários locais estão originando o estímulo atrial em momentos diferentes. Não é ritmo sinusal. INTERVALO P-R Representa o intervalo entre a despolarização do átrio até o início da despolarização ventricular. Vai do início de P até o início de QRS. Intervalo P-R normal: Duração de 120 a 200 ms (0,12 a 0,20s) – 3 a 5 quadradinhos. Emmanuel Pacheco 3 ECG NORMAL Alterações: P-R longo: acima de 0,20s = mais de 5 quadradinhos – Intoxicação digitálica, bloqueio atrioventricular. P-R curto: abaixo de 0,12s = menos de 3 quadradinhos – Síndrome de pré-excitação (WPW) ou ritmo ectópico atrial. Onda P colada à onda T devidoao bloqueio atrioventricular (PR longo). COMPLEXO QRS Representa a despolarização ventricular. Complexo QRS normal: Duração menor que 0,12s (menor que 3 quadradinhos). Amplitude variável: 5 a 30 mm, variando por derivação. Ascendência do R nos vetores precordiais é esperada. Alterações: QRS largo (>0,12s) – distúrbio de condução intraventricular ou bloqueio de ramo. Pós-infarto: onda R não cresce nas paredes precordiais tendo em vista a fibrose do miocárdio. Avaliação do eixo QRS: normalmente, no plano frontal, se encontra entre -30º e +90º. Quando além de -30º, considera-se desviado à esquerda. Além de +90º, desvio para direita. No plano horizontal, considera-se normal quando orientado para trás (ou seja, QRS negativo em V1). SEGMENTO S-T Período entre a despolarização e a repolarização ventricular. Segmento S-T normal: Ponto J: transição do QRS para o ST. Localizado na linha de base. Alterações: Infradesnível: é significativo 0,5 mm ou mais abaixo da linha de base Sobrecarga ventricular / miocardiopatias. Isquemia miocárdica. Supradesnível: é significativo 1 mm ou mais acima da linha de base. Lesão miocárdica (IAM) Pericardite ONDA T Representa a repolarização ventricular. Onda T normal: Normalmente é assimétrica, larga, arredondada e suave e com amplitude variável (mas geralmente não passa de 0,5 mm). Ascendência lenta e descendência rápida. Negativa em aVR, mas também pode ser negativa em V1. INTERVALO Q-T Corresponde a todo o período de despolarização e repolarização da membrana celular dos ventrículos. É medido do início do complexo QRS até o final da onda T. Intervalo Q-T normal: Duração de 450 ms ou 0,45s. PAREDES DO CORAÇÃO Antero-septal (V1 a V3) Anterior (V1/V2 a V4) Anterior extenso (V1 a V6) Lateral baixa (V5 e V6) Lateral alta (D1 a aVL) Inferior (D1, D3 e aVF) Dorsal ou Posterior (V7 e V8) Direita (V3R e V4R – derivações direitas) Quando fazer a precordial direita? Quando houver comprometimento da parede inferior pois quem vai pra ela é a coronária direita. Ver se houve infarto de ventrículo direito. Em pacientes com IAM, se suspeitarmos de acometimento de parede posterior, podemos utilizar o V7 e V8 (geralmente se utiliza os cabos de V5 e V6). Suas localizações são: V7: 5º EIC, linha axilar posterior. V8: 5º EIC, linha axilar hemi-escapular ou linha hemiclavicular posterior abaixo da escápula. Na suspeita de infarto de ventrículo direito, devemos realizar V3R e V4R (derivações direitas). Seguem os mesmos parâmetros de localização de V3 e V4, só que no hemitórax direito. V3R: na borda esternal direita, entre 4º e 5º EIC V4T: 5º EIC, na linha hemi-clavicular direita. Emmanuel Pacheco 1 ARRITMIAS CARDÍACAS ARRTIMIAS CARDÍACAS SISTEMA DE CONDUÇÃO CARDÍACO A atividade elétrica de um ritmo cardíaco normal (ritmo sinusal) “surge” no Nódulo Sinusal (NSA), um condensado de células especializadas localizado próximo ao óstio da cava superior. Estas células possuem a importante propriedade do “automatismo”, ou seja, a capacidade de se despolarizar espontaneamente com uma determinada “frequência de disparos”. O estímulo elétrico proveniente do NSA se propaga para o miocárdio atrial ao mesmo tempo em que, através de feixes internodais, alcança o Nódulo Atrioventricular (AV), próximo ao anel tricúspide, na parte baixa do septo interatrial. Chegando ao nódulo AV, o estímulo elétrico sofre um “atraso” fisiológico, de aproximadamente 120-200ms (3-5 mm no traçado de ECG), o que corresponde ao intervalo PR no ECG. Após cruzar o nódulo AV, propaga-se para o feixe de His, ramos direito e esquerdo e o sistema de fibras de Purkinje, que, por sua vez, percorrem todo o endocárdio ventricular. A ativação elétrica dos átrios inscreve-se no ECG como onda P, enquanto a do ventrículo inscreve-se no ECG como o complexo QRS. Por serem muito especializadas, a condução pelas fibras de Purkinje é muito rápida, determinando um QRS estreito. Nesse momento, todo o ventrículo está despolarizado, refratário a novos estímulos. O período refratário termina quando os miócitos se repolarizam, evento marcado pela onda T. O intervalo desde o início do QRS até o final da onda T (intervalo QT) corresponde ao Período Refratário Efetivo (PRE) dos miócitos ventriculares. Alterações nesse sistema podem levar a arritmias. CLASSIFICAÇÃO A. Supraventricular: arritmias que surgem acima do feixe de His. Possuem QRS normal e ativação usual do coração. B. Ventricular: arritmias que surgem abaixo do feixe de His. Possuem QRS com alteração morfológica (largo e aberrante) e ativação anormal do coração. EXTRASSÍSTOLES É uma sístole precoce em relação em ritmo normal. Pausa compensatória após. É a arritmia mais comum que existe. Ocorre em 40% da população saudável. Pode ocorrer de maneira isolada, em bigeminismo (1 batimento normal e 1 extrassístole), trigeminismo (2 batimentos normais e 1 extrassístole), par (1 batimento normal, 2 extrassístoles), taquicardia (3 ou mais batimentos em sequência). TAQUIARRITMIAS DE QRS ESTREITO São supraventriculares, isto é, ocorrem acima do feixe de His. Taquicardia: > 100 batimentos por minuto QRS estreito: < 120 ms (menos de 3 quadradinhos) Sustentada: > 30 segundos de duração ou que requer terapia de reversão a qualquer momento. São classificados em: 1. Taquicardia Sinusal 2. Taquicardia Atrial 3. Fibrilação Atrial 4. Flutter Atrial 5. Taquicardia por reentrada nodal 6. Taquicardia por reentrada atrioventricular A) TAQUICARDIA SINUSAL É o ritmo sinusal normal do coração (despolarização se origina espontaneamente no nó SA), porém com frequência > 100 bpm. Inapropriada: > 100 bpm ou > 90 bpm média mesmo em repouso, sem nenhuma causa aparente. Apropriada: infecção, uso de drogas ilícitas, hipertireoidismo, anemia, uso de energético, estresse emocional e exercício físico. B) TAQUICARDIA ATRIAL É uma taquiarritmia atrial que se manifesta com onda P diferente da morfologia sinusal, com uma FC entre 100-250 bpm. Se deve a um ou mais focos de células atriais que podem estar disparando sozinhos de forma independente do NSA. Unifocal: se houver apenas um foco disparando sozinho. Multifocal (TAM): se houverem múltiplos focos automáticos ectópicos, cada um gerando uma onda P de morfologia diferente. ≥ 3 morfologias de onda P. Ritmo irregular (variabilidade dos intervalos PR, PP, RR). Ocorre principalmente em paciente com doenças pulmonares crônicas ou intoxicação por digitálicos. T. Atrial Multifocal: morfologias diversas de onda P além da sinusal. C) FIBRILAÇÃO ATRIAL Um estímulo proveniente de uma extrassístole atrial pode se fragmentar, fazendo surgir múltiplos microcircuitos de reentrada, gerando frequências atriais de 450-600 bpm. Estes circuitos aparecem e desaparecem em momentos diferentes e em diversas partes do átrio, que por isso perde sua contração rítmica. Emmanuel Pacheco 2 ARRITMIAS CARDÍACAS Assim, o átrio apresenta movimentos fibrilatórios anárquicos, (ondas f). Não é possível ver nenhuma onda P verdadeira. Em vez disso, a linha de base aparece achatada ou discretamente ondulada. O nó AV, diante do enorme ataque de impulsos atriais, permite apenas que impulsos ocasionais passem através do nó em intervalos variáveis, gerando uma frequência ventricular irregularmente irregular, em geral entre 120 e 180 bpm. Se todos os estímulos elétricos atriais passassem para os ventrículos, a FC seria 450-600 bpm, degenerando-se para uma fibrilação ventricular. Felizmente, existe o nódulo AV, que ‘’filtra’’ boa parte dos estímulosatriais. Arritmia sustentada mais comum QRS ‘’irregularmente irregular’’ – sem padrões. Linha de base irregular (ondas de f) – 450 a 600 bpm. A reentrada é o mecanismo mais importante das taquiarritmias. Para que se forme um, existem 3 pré-requisitos: (1) áreas adjacentes com períodos refratários diferentes; (2) áreas de condução lentificada; (3) um ‘’gatilho’’ (extrassístole). Reentrada: imagine que o miocárdio possua duas áreas adjacentes com períodos refratários distintos. Uma extrassístole (estímulo que vem antes do tempo) pode surgir exatamente no instante em que a área B ainda esteja refratária, mas a área A já tenha recuperado a sua excitabilidade. O estímulo então será bloqueado na área B, seguindo apenas pela área A. Ao passar pela área C (zona de condução lentificada), sofrerá certo atraso, suficiente para que a área B recupere a excitabilidade. O resultado é que o estímulo poderá “retornar” pela área B, formando o circuito de reentrada. D) FLUTTER ATRIAL É uma taquiarritmia atrial por macrorreentrada. Forma-se um grande e único circuito elétrico no miocárdio do átrio direito, com rotação tipicamente anti-horária. A despolarização atrial ocorre com uma frequência de 250-350 bpm, tão rápida que ondas P discretas, separadas por uma linha de base achatada, não são vistas. Em vez disso, a linha de base se eleva e abaixa continuamente, produzindo as ondas de flutter (ondas F). Em D2 e D3, essas ondas podem ser bastante proeminentes e, assim, criar o padrão em dente de serra. O nó AV não consegue repolarizar a tempo para cada onda subsequente e, dessa forma, nem todos os impulsos atriais passam através do nó AV para gerar complexos QRS. Isso é chamado bloqueio AV. Um bloqueio 2:1 é mais comum, o que significa que para 2 ondas flutter visíveis, 1 passa pelo nó AV para gerar QRS. Dependente do istmo cavotricuspídeo (típico): Típico (ondas ‘’F’’ negativas em derivações inferiores e positivas em V1). Típico reverso (ondas ‘’F’’ positivas em derivações inferiores e negativas em V1). Independente do istmo cavotricuspídeo (atípico). As ondas F aparecem numa frequência de 300 bpm, quase sempre na condução 2:1 para os ventrículos (a cada 2 ondas F, 1 QRS). Negativo nas derivações inferiores (D2, D3 e aVF) e positivo em V1 E) TAQUICARDIA POR REENTRADA NODAL (TRN) Início e término súbitos. O início geralmente sucede uma extrassístole atrial. Complexo QRS estreito e RR regular. Sem onda P aparente ou com pseudo-S (em D2, D3 e aVF) e pseudo-R (em V1). Para desenvolver essa arritmia, o individuo precisa ter desde o nascimento (desses, apenas 25% terá essa arritmia) uma dupla via nodal, ou seja, um nódulo AV que apresenta duas vias de condução. As duas vias nodais se dividem em (1) via de condução lenta e período refratário curto e (2) via de condução rápida e período refratário longo. Obs.: Período refratário é o período de recuperação elétrica da célula após despolarização. Durante o ritmo sinusal, o estimulo alcança as duas vias ao mesmo tempo, chegando à porção distal do nódulo AV pela via rápida. Na extrassístole atrial (onda P que acontece antes do tempo), o estimulo, quando alcança o nódulo AV, encontra a via rápida refratária, passando apenas pela via lenta. Por esta via ter uma condução lenta, no momento em que o estímulo acaba de passar por ela, a via rápida já se recuperou do período refratário, permitindo que o estimulo suba por ela e encontre novamente o início da via lenta, completando um circuito de reentrada. Assim, o estimulo desce pela via lenta, despolarizando os ventrículos normalmente (QRS estreito); em seguida, sobe pela Emmanuel Pacheco 3 ARRITMIAS CARDÍACAS via rápida, despolarizando os átrios de forma retrógrada, quase ao mesmo tempo em que os ventrículos foram despolarizados, o que determina uma onda P negativa no final do QRS, justificando o pseudo-S em D2 (P negativa) e o pseudo-R em V1 (P positiva). F) TAQUICARDIA POR REENTRADA AV (TRAV) Início e término súbitos. O início geralmente sucede uma extrassístole atrial ou ventricular. Complexo QRS estreito e RR regular. Onda P retrógrada um pouco depois do QRS. Algumas pessoas nascem com uma segunda via condutora AV, um feixe de fibras denominado feixe de Kent ou via acessória. Na maioria das vezes, a via acessória tem uma condução retrógrada (do ventrículo para o átrio) mais eficaz que a condução anterógrada (do átrio para o ventrículo). Além disso, em relação ao nódulo AV, ela costuma ter um período refratário mais longo. Uma extrassístole atrial pode ser bloqueada na via acessória e atingir os ventrículos pelo NAV e sistema His-Purkinje. Durante a despolarização ventricular, a via acessória já se recuperou de sua refratariedade, permitindo a condução retrógrada ventrículo-atrial, completando um microcircuito de reentrada após despolarizar os átrios e atingir novamente o nódulo AV. Este é o circuito reentrante da taquicardia ortodrômica: o estímulo desce pelo nódulo AV, ativa os ventrículos pelo His-Purkinje (QRS estreito), sobe pela via acessória, ativa os átrios (onda P’) e retorna ao nódulo AV. VIA ACESSÓRIA Vias acessórias são vias pelas quais a corrente pode contornar o nó AV e, assim, chegar aos ventrículos antes do tempo. Elas estão presentes nas síndromes de pré-excitação ventricular. Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW): a via acessória age como curto-circuito, permitindo que a onda de despolarização atrial contorne o NAV e ative os ventrículos prematuramente. Intervalo PR encurtado (< 0,12s); Complexo QRS alargado devido a ativação prematura – formação de um espessamento característico no início da elevação do QRS chamado de onda delta. TAQUIARRITMIAS DE QRS LARGO Taquicardia: > 100 batimentos por minuto QRS largo: > 120 ms Uma condução lenta gera um complexo QRS alargado. Bloqueio de ramo gera QRS largo devido ao atraso na passagem do estímulo elétrico. Por exemplo, se o bloqueio for de ramo direito, haverá passagem do estimulo para ramo esquerdo mais rápido do que para o ramo direito, gerando uma volta de estimulo para despolarizar a parede livre do ventrículo direito. Taquicardia que surge em foco ventricular, possui QRS largo pois o estímulo é lento, uma vez que ocorre célula a célula. EPIDEMIOLOGIA - Ventriculares (80%) - Supraventriculares (20%) Aberrância de condução frequência dependente Bloqueio de ramo pré-existente Pré-excitação ventricular Estimulação por marcapasso artificial TAQUICARDIAS DE QRS LARGO Critérios para diferenciar se a taquiarritmia de QRS largo é de origem ventricular ou supraventricular. Critérios de Brugada – 1991 Critérios de aVR – 2008 Critérios de DII – 2010 Critérios de Santos-Scanavacca - 2015 Afirmações para entender os critérios: As derivações precordiais são um retrato do VE. A condução pelo sistema His-Purkinje é rápida (se o estimulo passa pelo sistema normal de condução, QRS é estreito). Associação a estímulos atriais (p/ cada onda QRS, 1 onda P). Derivações opostas veem o mesmo fenômeno por ângulos diferentes. A) TAQUICARDIA VENTRICULAR (TV) É uma série de três ou mais contrações ventriculares prematuras consecutivas. QRS largo e bizarro ≥ 0,12 segundos; não há onda P. Frequência geralmente está entre 120 e 200 bpm. Principais derivações alteradas: V1 positivo, V6 negativo, aVR positivo. - Classificação da TV quanto a sua morfologia: a) TV monomórfica: Apenas 1 morfologia de QRS RR regular Mais vista nos infartos cicatrizados; o miocárdio com cicatrizes fornece o substrato para a TV reentrante. b) TV polimórfica: Mais de 1 morfologia de QRS RR irregular Mais associada com isquemia coronariana aguda, infarto, distúrbios eletrolíticos profundose condições que causam prolongamento do intervalo QT. Diagnostico diferencial: FA pré-excitada. Emmanuel Pacheco 4 ARRITMIAS CARDÍACAS TV monomórfica. FC = 200 bpm. B) TORSADES DE POINTES (TORÇÃO DAS PONTAS): TV em pacientes com intervalo QT longo. QRS gira em torno da linha de base, alterando o eixo e a amplitude (gerando diferentes morfologias do QRS). Resultado de uma extrassístole dentro do período refratário do ventrículo, gerando uma desbalanço. Causas do QT longo: fármacos, desbalanço hidroeletrolítico (hipocalcemia, hipocalemia) ou origem congênita. Geralmente autolimitadas, mas podem ser revertidas com infusão de sulfato de magnésio. Os complexos QRS parecem girar em torno da linha de base, alterando seu eixo e sua amplitude. C) FA PRÉ-EXCITADA: Muito parecido com Torsades de pointes, porém sem a torção das pontas (eixo preservado). Sem mudança de polaridade na mesma derivação. D) FIBRILAÇÃO VENTRICULAR: TV polimórfica, mas com ritmo totalmente desregulado. Não há complexos QRS verdadeiros. Provoca parada cardíaca sem pulso. O coração não produz nenhum débito cardíaco e a ressuscitação cardiopulmonar e a desfibrilação elétrica devem ser realizadas imediatamente (ritmo chocável). TV que se degenera em fibrilação ventricular. BRADIARRITMIAS Bradicardia: < 50 batimentos por minuto Se deve a problemas na geração do estímulo ou na sua condução. Se o NSA não assume a função de marca-passo, outro grupo de células assumirá, com uma FC mais baixa. A maioria das células miocárdicas tem a capacidade de se comportar como marca-passo cardíaco. Normalmente, o nó SA, o marca-passo mais rápido, comanda o coração, suprimindo as outras células de marca-passo. Na parada sinusal, entretanto, esses outros marca-passos podem entrar em ação como uma missão de resgate. Esses batimentos de resgate, que se originam fora do nó SA, são chamados batimentos de escape. Assim como o nó SA, que geralmente dispara entre 60-100 bpm, as outras células de marca-passo potenciais têm o seu próprio ritmo intrínseco. Os marca-passos atriais geralmente descarregam a uma frequência de 60-75, o marca-passo juncional normalmente descarregam a uma frequência de 40-60 bpm, enquanto as células de marca-passos ventriculares descarregam a uma frequência de 30-45 bpm. Cada um desses marca-passos não sinusais pode resgatar um nó SA inadequado fornecendo apenas um batimento de escape ou uma série continua desses batimentos. A) BRADICARDIA SINUSAL: É o ritmo sinusal normal do coração (despolarização se origina espontaneamente no nó SA), porém com frequência < 60 bpm. Pode ser normal ou patológica. Normal em atletas bem condicionados e patológica no estágio inicial do IAM. Bradicardia sinusal. A FC é de 40-45 bpm. B) PAUSAS/PARADAS SINUSAIS: Ocorre quando o nó SA para de estimular o coração. O ECG irá mostrar uma linha isoelétrica sem atividade elétrica A inatividade elétrica prolongada é chamada assistolia. Causas: apneia obstrutiva do sono, manobra de valsava. Parada sinusal após o 4º batimento. O 5º batimento, restaurando a atividade elétrica do coração, é um batimento de escape juncional. Observe a ausência de onda P antes do último batimento. C) RITMO DE ESCAPE ATRIAL: Ritmo não sinusal + sem estímulo do NSA + a onda P está surgindo de outro ponto do átrio (ritmo atrial). D) RITMO DE ESCAPE JUNCIONAL: Sem estímulo do NSA + QRS normal + sem onda P. A despolarização se origina na junção atrioventricular e o padrão habitual de despolarização atrial não ocorre. Emmanuel Pacheco 5 ARRITMIAS CARDÍACAS Como resultado, não é vista uma onda P normal. Frequentemente, não há nenhuma onda P. Escape juncional. Os 2 primeiros batimentos são sinusais normais. Há uma longa pausa seguida por uma série de 3 batimentos de escape juncional a uma frequencia de 40-45 bpm. Ondas P retrógradas podem ser vistas embutidas na porção inicial das ondas T BLOQUEIOS ATRIOVENTRICULARES A atividade elétrica se origina no nó SA e segue a via habitual, mas encontra bloqueios e retardos inesperados (obstrução ou retardo ao fluxo de eletricidade) entre o nó SA e as fibras de Purkinje (isso inclui o nó AV e o feixe de His). Os bloqueios AV ocorrem em 3 variedades: primeiro grau, segundo grau e terceiro grau. A) BLOQUEIO AV DE 1º GRAU: Lentificação excessiva da condução no nó AV ou feixe de His. Intervalo PR > 200 ms ou 0,2 s. Nenhuma onda P é bloqueada. Cada complexo QRS é precedido por uma única onda P. B) BAV 2º MOBITZ I ou BLOQUEIO DE WENCKEBACH: Algumas ondas P são bloqueadas – nem todo impulso atrial é capaz de passar pelo nó AV para os ventrículos. Aumento progressivo do intervalo PR até bloquear (estimulo não passa do nó AV, ou seja, não forma QRS). Alongamento progressivo do intervalo PR a cada batimento até que haja uma onda P que não é seguida por QRS. Deve-se a um bloqueio dentro do nó AV. Transitório e benigno. C) BAV 2º MOBITZ II: Semelhante ao BAV mobitz II, porém alongamento progressivo do intervalo PR não ocorre. Em vez disso, a condução é um fenômeno de ‘’tudo ou nada’’. Intervalo PR constante com bloqueio aleatório de ondas P. 2 ou mais batimentos com intervalo PR normais e depois uma onda P que não é seguida por um QRS. Deve-se a um bloqueio abaixo do nó AV, no feixe de His. Mais grave; pode progredir para um bloqueio de 3º grau. BLOQUEIO WENCKBACH X BLOQUEIO MOBITZ TIPO II D) BAV 2:1 Bloqueio cardíaco de segundo grau com uma proporção de onda P para complexo QRS de 2:1. A cada batimento, um é bloqueado – 2 ondas P para cada QRS. Aqui, não há como concluir se é devido a um bloqueio de Wenckebach ou a um bloqueio Mobitz tipo II. A distinção entre esses dois depende de se há ou não um alongamento progressivo de PR; mas é impossível fazer essa determinação com uma proporção de 2:1 em que, a cada batimento, um é bloqueado. E) BAV 3º GRAU OU BAVT: Bloqueio completo do estimulo; nenhum impulso do NSA passa pelo nó AV para ativar os ventrículos. Os ventrículos respondem a essa situação gerando um ritmo de escape, entre 30 e 45 bpm. Os átrios e ventrículos continuam a se contrair, mas agora com suas próprias frequências intrínsecas. Assim, os átrios e ventrículos são estimulados por marca- passos independentes o que é chamado de dissociação AV. QRS largos e rítmicos sem associação com as ondas P rítmicas e mais frequentes - sempre tem mais P do que QRS. O local do bloqueio pode ser no nó AV ou mais baixo. Bloqueio AV de terceiro grau. As ondas P aparecem em intervalos regulares, assim como os complexos QRS, mas não há nenhuma relação entre eles. Os complexos QRS são largos, indicando uma origem ventricular. Para avaliar qualquer distúrbio de ritmo em um ECG, você apenas precisa responder a quatro perguntas: Há ondas P normais presentes? Se a resposta é ‘’sim’’, se há ondas P de aspecto normal com um eixo da onda P normal, então a origem da arritmia é, quase certamente, dentro dos átrios. Se não houver ondas P, então o ritmo deve se originar abaixo dos átrios, no nó AV ou nos ventrículos. Os complexos QRS são estreitos (< 0,12s) ou largos (> 0,12s)? Um complexo QRS estreito normal implica que a Emmanuel Pacheco 6 ARRITMIAS CARDÍACAS despolarização ventricular está progredindo ao longo das vias usuais e que a origem do ritmo deve ser no nó AV ou acima dele. Já um complexo QRS largo implica que a origem da despolarizaçãoventricular está dentro dos próprios ventrículos. Qual a relação entre as ondas P e os complexos QRS? Se as ondas P e os complexos QRS se correlacionam da forma normal 1 para 1, uma onda P precedendo um QRS, então, quase certamente, o ritmo tem uma origem sinusal ou atrial. No entanto, se houver uma falta de correlação entre as ondas P e os complexos QRS, isso sugere que exista uma dissociação AV. O ritmo é regular ou irregular? Emmanuel Pacheco 1 SOBRECARGAS E BLOQUEIOS DE RAMO SOBRECARGAS E BLOQUEIO DE RAMO Conceitos Fundamentais: Células do sistema de condução ≠ células musculares do coração. Células do sistema de condução – condução rápida – QRS estreito. Células musculares do coração – condução lenta ‘’célula a célula’’ – QRS largo. Bloqueio de ramo é o bloqueio de condução no ramo esquerdo ou no ramo direito. A largura normal do QRS é < 110 ms. Sempre que QRS > 120 ms, trata-se de um bloqueio de ramo. Obs.: Se tem bloqueio, a onda P ocorre normalmente, mas o QRS estará alargado. Enquanto que em um ritmo ventricular, não terá onda P, mas QRS será alargado. BLOQUEIO DE RAMO ESQUERDO (BRE) Aqui, a condução pelo ramo esquerdo está obstruída. Logo, a despolarização do ventrículo esquerdo é retardada. O complexo QRS nas derivações sobrejacentes ao ventrículo esquerdo (D1, aVL, V5 e V6), irá mostrar uma alteração característica na forma. Os complexos QRS, nessas derivações, já tem ondas R altas. A despolarização ventricular esquerda retardada causa um acentuado prolongamento na elevação das ondas R altas, que, então, terão o topo alargado ou entalhado. As derivações sobrejacentes do ventrículo direito (V1 e V2) irão mostrar ondas S recíprocas profundas e largas. QRS ≥ 120 ms ou 0,12s. rS em V1, R pura nas derivações laterais com morfologia em ‘’torre’’ (V5, V6, D1 e aVL). Ausência de Q em D1, aVL, V5 e V6. SÂQRS (eixo QRS) entre -30º e 60º - bloqueio de ramo não altera eixo elétrico. Desvio de segmento ST oposto ao sentido do atraso final da condução. T positiva em V1, V2 / negativa em D1, aVL, V5, V6. Predomínio negativo em VI – bloqueio de ramo esquerdo (‘’quando se quer entrar a esquerda com o carro, a seta vai para baixo’’). BLOQUEIO DE RAMO DIREITO (BRD) Aqui, a condução pelo ramo direito está obstruída. Como resultado, a depolarização ventricular direita é retardada; ela não começa até que o VE esteja quase completamente despolarizado. O complexo QRS alargado assume uma forma única nas derivações sobrejacentes ao ventrículo direito: V1 e V2. O complexo QRS normal nessas derivações consiste em uma pequena onda R positiva e uma onda S negativa profunda, refletindo a dominância elétrica do ventrículo esquerdo. No BRD, você ainda pode ver as ondas R e S iniciais quando o ventrículo esquerdo se despolariza, mas, à medida que o VD começa a sua despolarização tardia, sem oposição pelo VE agora totalmente despolarizado e eletricamente silencioso, o eixo elétrico do fluxo de corrente se desvia agudamente para a direita. Isso inscreve uma segunda onda R, chamada R’. Ao mesmo tempo, nas derivações laterais esquerdas, que ficam sobre o ventrículo esquerdo (D1, aVL, V5 e V6), a despolarização tardia do VD causa a inscrição de ondas S recíprocas profundas tardias. QRS ≥ 120 ms ou 0,12s. rSR’ em V1 – aspecto de ‘’orelhas de coelho’’. SÂQRS preservado (se houver desvio do eixo, pesquisar BDASE ou BDPIE associados). Desvio de segmento ST oposto ao sentido do atraso final da condução. Onda S larga em D1, V5 e V6 – ‘’barbatana de tubarão’’. Despolarização septal preservada. Obs.: BRD + BDASE é típico de doença de chagas. Predomínio positivo em V1 – bloqueio de ramo direito (‘’quando se quer entrar à direita com o carro, a seta vai para cima’’) AUMENTO ATRIAL A onda P normal tem duração menor que 0,12s e a maior deflexão, quer seja positiva ou negativa, não deve exceder 2.5 mm. A primeira parte da onda P representa a despolarização atrial direita, e a segunda parte, a despolarização atrial esquerda. As informações necessárias para avaliar o aumento atrial podem ser encontradas nas derivações II e V1. A derivação D2 é útil porque é Onda S larga Emmanuel Pacheco 2 SOBRECARGAS E BLOQUEIOS DE RAMO orientada quase paralela ao fluxo de corrente através dos átrios, ou seja, paralela ao vetor médio da onda P. Ela registra, portanto, a maior deflexão positiva e é muito sensível a qualquer perturbação na despolarização atrial. Já V1 é útil porque é orientada de forma perpendicular ao fluxo de eletricidade, dessa forma, é bifásica, permitindo a separação dos componentes atrial direito e esquerdo. SOBRECARGA ATRIAL ESQUERDA (SAE) Com o aumento atrial esquerdo, a 2ª porção da onda P pode aumentar em amplitude. O diagnóstico desse aumento requer que a porção terminal (atrial esquerda) da onda P desça pelo menos 1mm abaixo da linha isoelétrica na derivação V1 (Índice de Morris). Uma alteração mais proeminente na onda P é o aumento na sua duração. Isso ocorre porque a despolarização atrial esquerda representa a porção terminal da onda P, e a despolarização prolongada pode ser vista imediatamente. Onda P entalhada, intervalo entre ápices maior que 40 ms. Duração maior que 120 ms (> 3 quadradinhos). Melhor derivação para verificar: D2. Índice de Morris – Fase negativa maior que 1,0 mm em V1. SOBRECARGA ATRIAL DIREITA (SAD) Com o aumento atrial direito, a amplitude da 1ª porção da onda P aumenta. A largura não se altera porque o componente terminal da onda P tem origem no átrio esquerdo, e isso permanece inalterado. Onda P com amplitude maior que 2,5 mm em D2. SOBRECARGA DE VENTRICULO ESQUERDO (SVE) Para o diagnóstico de SVE, deve haver um aumento da amplitude da onda R nas derivações sobrejacentes ao VE e um aumento da amplitude da onda S nas derivações sobrejacentes ao VD. Obs.: A onda S está relacionada ao ventrículo não dominante, nesse caso, é o direito. Existem diferentes critérios para o diagnóstico de SVE que variam na sua sensibilidade e especificidade. Dentre eles, tem-se: a) Índice Sokolow-Lyon: S de V1 + R de V5 ou V6 > 35 → SVE. Obs.: Em atletas, considera-se até 40 mm pois os eletrodos estão mais próximos do coração. Emmanuel Pacheco 3 SOBRECARGAS E BLOQUEIOS DE RAMO b) Cornell: R de aVL + S de V3 > 20mm (mulher); 28mm (homem). c) Gübner: R de D1 + S de D3 > 25 mm. Obs.: Quanto mais critérios forem positivos, maior a probabilidade de o paciente ter SVE. SVE altera eixo do QRS? Há desvio do eixo para esquerda se o complexo QRS em D1 é positivo e em D2 é negativo. SVE altera repolarização? STRAIN: ST infradesnivelado, descendente, com onda T invertida e assimétrica (Mais evidentes em D1, aVL, V5 e V6). SOBRECARGA DE VENTRICULO DIREITO (SVD) O padrão normal da progressão da onda R nas derivações precordiais, no qual a amplitude dessa onda aumenta à medida que progride de V1 até V5, não ocorre. Ao invés disso, à medida que as derivações se movem para mais perto do ventrículo esquerdo, pode ocorrer o inverso. É possível haver uma grande onda R em V1, que fica sobre o ventrículo direito hipertrofiado, e uma pequena onda R em V5 e V6, que ficam sobre um ventrículo esquerdo normal, porém, agora, eletricamente submisso. Do mesmo modo, a onda S em V1 é pequena, e a onda S de V6 é grande. R de V1 + S de V5 ou V6 > 10,5 mm → SVD. R de V1 > 7 mm → SVD. Ondas R amplas nas derivações direitas. SVD altera o eixo do QRS? Há desvio do eixo para a direita (+90º e +180º) se o complexo QRS em D1 énegativo e em D2 é positivo. Isso reflete uma nova dominância elétrica do VD. RESUMO SAE Aumenta duração da onda P (> 120 ms) Índice de Morris SAD Aumenta amplitude da onda P (>2,5 mm) SVE Sokolow-Lyon, Cornell, Gubner. Eixo para a esquerda Repolarização padrão Strain SVD Ondas R amplas nas derivações direitas Eixo para a direita Emmanuel Pacheco 1 DOENÇA ARTERIAL PERIFÉRICA (DAP) DOENÇA ARTERIAL PERIFÉRICA (DAP) É a interrupção do fluxo sanguíneo em uma artéria, com ameaça à viabilidade do membro. Caso não ocorra o tratamento adequado, a DAP pode culminar com a perda funcional e gangrena do território outrora irrigado pela rede arterial comprometida. FATORES DE RISCO Idade > 70 anos de forma isolada ou a partir dos 50 anos, quando associada a outros fatores de risco. Hipertensão Diabetes Tabagismo Obesidade Sedentarismo Hipercolesterolemia INTRODUÇÃO Desordem inflamatória. Estenose mecânica → isquemia → dor. EPIDEMIOLOGIA: 1/3 das causas de óbito 4.000 mortes por dia QUADRO CLÍNICO Assintomático pela formação de circulação colateral. Claudicação intermitente – alteração da marcha ao caminhar que melhora com o repouso. Obs.: a localização da dor é importante pois sugere a região de comprometimento (dor na panturrilha ao caminhar que melhora ao repouso – obstrução da artéria femoral superficial, poplítea e distais; claudicação na nádega – obstrução ileofemoral ipsilateral). Dor em repouso – sugere doença arterial grave, isto é, mesmo em repouso, não há suprimento de O₂ suficiente. Ferimento no pé que não cicatriza – resulta de isquemia devido a infartos dérmicos e posterior formação de solução de continuidade. Pode ser espontânea ou precipitada por traumatismos mínimos. Obs.: A artéria femoral superficial no terço distal da coxa é o local mais comum de obstrução. Exame Físico: Inspeção: Perda de fâneros, pele descamativa e seca. Lesão trófica isquêmica. Redução da temperatura local. Palidez, cianose, necrose. Palpação: Ausência de pulsos abaixo da região comprometida. Anamnese (Classificação de Fontaine para DAP): Assintomático – I Claudicação intermitente – II Mais de 200 m – IIA – claudicação limitante. Menos de 200 m – IIB – claudicação incapacitante. Dor isquêmica em repouso – III Lesão trófica – IV Síndrome de Leriche: Ausência de pulso femoral. Claudicação na nádega, panturrilha e coxa. Impotência sexual no homem. EXAMES COMPLEMENTARES Índice tornozelo-braquial (ITB): Realiza o diagnóstico não invasivo de DAP. Valor obtido a partir da divisão da maior pressão sistólica no tornozelo, pela maior pressão sistólica braquial. Normal = 1. Quanto menor o ITB, mais grave a DAP. Eco-Doppler arterial: Ultrassom para verificar o pulso arterial. Oferece informações hemodinâmicas sobre o fluxo. Método não invasivo, s/ contraste ou radiação ionizante. Arteriografia (cateterismo): Exame padrão de referência para estudo da DAP. Associada a maiores riscos devido ao fato de ser invasiva (exige punção) e usar contraste iodado (nefrotóxico). TRATAMENTO a) Fontaine I - Assintomático Controlar fatores de risco. Deambulação programada – desenvolve circulação colateral. b) Fontaine IIA – claudicação > 200 m Controlar fatores de risco. Deambulação programada. AAS (AINE) 100 mg 01 comprimido após o almoço – continuo – antiagregante plaquetário. Cilostazol 50 mg 01 comprimido 12/12 horas – continuo – vasodilatador periférico. c) Fontaine IIB – claudicação < 200 m Controlar fatores de risco AAS 100 mg 01 comprimido após o almoço – continuo. Cilostazol 50 mg 01 comprimido 12/12 horas – continuo. Arteriografia Revascularização do membro. d) Fontaine III – dor em repouso. Controlar fatores de risco AAS 100 mg 01 comprimido após o almoço – continuo. Cilostazol 50 mg 01 comprimido 12/12 horas – continuo. Arteriografia Revascularização do membro. e) Fontaine IV – lesão trófica: Controlar fatores de risco AAS 100 mg 01 comprimido após o almoço – continuo. Cilostazol 50 mg 01 comprimido 12/12 horas – continuo. Arteriografia Revascularização do membro. Ponte de safena – by-pass. Angioplastia – dilatação com balão do vaso obstruído. A amputação do membro é indicada para pacientes que já apresentam isquemia irreversível (gangrena), dor que não melhora com medicação e que apresentam muitas comorbidades. Grau I e IIA – tratamento clínico. Grau IIB – tratamento clínico e/ou cirúrgico. Grau III e IV – tratamento cirúrgico. Emmanuel Pacheco 1 HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA Trata-se de uma condição multifatorial, que depende de fatores genéticos/epigenéticos, ambientais e sociais, caracterizada por elevação persistente da pressão arterial (PA), ou seja, PA sistólica (PAS) ≥ a 140 mmHg e/ou PA diastólica (PAD) ≥ a 90 mmHg, medida com a técnica correta, em pelo menos duas ocasiões diferentes, na ausência de medicação anti-hipertensiva. IMPACTO DA HAS NAS DCV: Por se tratar de condição frequentemente assintomática, a HA costuma evoluir com alterações estruturais e/ou funcionais em órgãos-alvo, como coração, cérebro, rins e vasos. Ela é o principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares (DCV), doença renal crônica (DRC) e morte prematura. Além disso, pode resultar em complicações nos órgãos-alvo, como: coração: doença arterial coronária (DAC), insuficiência cardíaca (IC), fibrilação atrial (FA) e morte súbita; cérebro: acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico (AVEI) ou hemorrágico (AVEH); rins: DRC que pode evoluir para necessidade de terapia dialítica; e sistema arterial: doença arterial obstrutiva periférica (DAOP). FATORES DE RISCO PARA HAS: 1. Genética: fatores genéticos podem influenciar os níveis de PA entre 30-50%. 2. Idade: com o envelhecimento, a PAS torna-se um problema mais significante, resultante do enrijecimento progressivo e da perda de complacência das grandes artérias. 3. Sexo: em faixas etárias mais jovens, a PA é mais elevada entre homens, mas a elevação pressórica por década se apresenta maior nas mulheres. Assim, na sexta década de vida, a PA entre as mulheres costuma ser mais elevada e a prevalência de HA, maior. Em ambos os sexos, a frequência de HA aumenta com a idade. 4. Etnia: a etnia é um fator de risco importante para a HA. 5. Sobrepeso/Obesidade: há uma relação direta, contínua e quase linear entre o excesso de peso e os níveis de PA. 6. Ingestão de Sódio e Potássio: a ingestão de sódio está associada a DCV e AVE, quando a ingestão média é superior a 2 g de sódio, o equivalente a 5 g de sal de cozinha. De maneira inversa, o aumento na ingestão de potássio reduz os níveis pressóricos. 7. Sedentarismo: há uma associação direta entre sedentarismo (< 150 minutos de atividade física/semana), elevação da PA e da HA. 8. Álcool: há maior prevalência de HA ou elevação da PA naqueles que ingerem seis ou mais doses ao dia, o equivalente a 30 g de álcool/dia = 1 garrafa de cerveja (5% de álcool, 600 mL); = 2 taças de vinho (12% de álcool, 250 mL); = 1 dose (42% de álcool, 60 mL) de destilados (uísque, vodca, aguardente). 9. Fatores socioeconômicos: menor escolaridade, condições de habitação inadequadas e baixa renda familiar são FR para HAS. 10. Medicações: algumas medicações e drogas ilícitas têm potencial de promover elevação da PA ou dificultar seu controle. Entre eles, estão: os inibidores da monoaminaoxidase e os simpatomiméticos, como descongestionantes nasais (fenilefrina), antidepressivos tricíclicos (imipramina), hormônios tireoidianos, contraceptivosorais, AINES, carbexonolona, glicocorticoides, ciclosporina, eritropoietina, drogas ilícitas (cocaína, cannabis sativa, anfetamina e 3,4-metilenodioximetanfetamina [MDMA]). 11. Apneia obstrutiva do Sono (AOS): há relação entre a AOS e a HA e o aumento do risco para HA resistente. Determinantes que interagem para elevar a PA. EPIDEMIOLOGIA Os dados de prevalência no Brasil tendem a variar de acordo com a metodologia utilizada. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, 21,4% dos adultos brasileiros autorrelataram HA, enquanto, considerando as medidas de PA aferidas e uso de medicação anti- hipertensiva, o percentual de adultos com PA maior ou igual que 140 por 90 mmHg chegou a 32,3%. Detectou-se que a prevalência de HA foi maior entre homens, além de aumentar com a idade, chegando a 71,7% para indivíduos > 70 anos. Em termos de custos ao SUS, a HA tem custos maiores do que os da obesidade e do DM. Em 2018, estimaram-se gastos de US$ 523,7 milhões no SUS, com hospitalizações, procedimentos ambulatoriais e medicamentos. Percentual de óbitos por HA, IAM, AVE e IRC (Brasil, 2000) Prevalência populacional de HAS segundo diferentes critérios diagnósticos, em adultos ≥ 18 anos, ambos os sexos, por faixa etária. DIAGNÓSTICO A avaliação inicial inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeita e a identificação de causa secundária, além da avaliação do risco cardiovascular (CV). As lesões de órgão-alvo (LOA) e as doenças associadas também devem ser investigadas. Fazem parte dessa avaliação: a medida da PA no consultório e/ou fora dele, utilizando-se técnica adequada e equipamentos validados e calibrados, a obtenção de história médica (pessoal e familiar), a realização de exame físico e a investigação clínica e laboratorial. Emmanuel Pacheco 2 HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA Recomenda-se que o diagnóstico de HA seja baseado em medições repetidas da PA em consultório, em mais de uma consulta, ou pela medida de PA fora do consultório com MAPA e/ou MRPA, desde que essas medidas sejam viáveis. » Medida da Pressão Arterial no Consultório: Recomenda-se que a PA no consultório seja medida em ambos os braços pelo menos na primeira consulta, porque uma diferença de PAS entre os braços > 15 mmHg é sugestiva de doença ateromatosa e está associada a risco CV aumentado. As medidas subsequentes devem ser realizadas no braço com valores mais elevados da PA. Etapas para a Realização da Medida da Pressão Arterial: 1. Determinar a circunferência do braço no ponto médio entre o acrômio e o olécrano. 2. Selecionar o manguito de tamanho adequado ao braço. 3. Colocar o manguito, sem folgas, 2 a 3 cm acima da fossa cubital. 4. Centralizar a parte compressiva do manguito sobre a artéria braquial. 5. Estimar o nível da PAS pela palpação do pulso radial. 6. Palpar a artéria braquial na fossa cubital e colocar a campânula ou o diafragma do estetoscópio sem compressão excessiva. 7. Inflar rapidamente até ultrapassar 20 a 30 mmHg o nível estimado da PAS obtido pela palpação. 8. Proceder à deflação lentamente (velocidade de 2 mmHg/segundo). 9. Determinar a PAS pela ausculta do primeiro som (fase I de Korotkoff) e, depois, aumentar ligeiramente a velocidade de deflação. 10. Determinar a PAD no desaparecimento dos sons (fase V de Korotkoff) 11. Auscultar de 20 a 30 mmHg abaixo do último som para confirmar seu desaparecimento e, depois proceder, à deflação rápida e completa. 12. Se os batimentos persistirem até o nível zero, determinar a PAD no abafamento dos sons (fase IV de Korotkoff). » Classificação: Indivíduos com PAS ≥ 140 mmHg e PAD < 90 mmHg são definidos como portadores de HA sistólica isolada, enquanto níveis de PAS < 140 mmHg e PAD ≥ 90 mmHg caracteriza a HA diastólica isolada. Indivíduos com PAS entre 130-139 e PAD entre 85-89 mmHg são considerados pré-hipertensos, pois apresentam maior risco de doença CV, doença arterial coronária e acidente vascular encefálico do que a população com níveis normais de pressão. Indivíduos com PAS entre 140-159 e/ou PAD entre 90-99 mmHg possuem HAS estágio 1. Indivíduos com PAS entre 160-179 e/ou PAD entre 100-109 mmHg possuem HAS estágio 1I. » Medida da Pressão Arterial Fora do Consultório: A PA fora do consultório (MAPA ou MRPA) é recomendada para identificação da HAB e HM, quantificação dos efeitos do tratamento, identificação de possíveis causas de efeitos colaterais (p. ex., hipotensão sintomática) e pesquisa de HA resistente. Vantagens: maior numero de medidas obtidas, refletem as atividades usuais dos examinados, pode identificar HAB e HM, maior engajamento dos pacientes com o diagnóstico e seguimento. Desvantagens: MAPA: custo elevado, disponibilidade limitada e pode ser desconfortável. MRPA: somente PA em repouso, potencial para erro de medição e não tem leitura noturna. » Hipertensão do Avental Branco e Mascarada: Define-se a normotensão verdadeira (NV) como as medidas da PA no consultório e fora do consultório normais, a HA sustentada (HS) quando ambas são anormais, a HAB (hipertensão do avental branco) quando a PA é elevada no consultório, mas é normal fora dele, e HM (hipertensão mascarada) quando a PA é normal no consultório, mas é elevada fora dele. » Recomendações para Diagnóstico e Seguimento: A HA é uma condição habitualmente assintomática. Por isso, as medidas da PA devem ser realizadas em intervalos regulares conforme a classificação de PA. Pessoas saudáveis com uma PA ótima no consultório (< 120/80 mmHg) ou com PA normal (120- 129/80-84 mmHg) devem ter a PA medida novamente pelo menos anualmente e nas consultas médicas. Pacientes com pré-hipertensão (130-139/85-89 mmHg) devem ter a PA medida anualmente ou antes, devido às altas taxas de progressão para HA. Além disso, nos casos suspeitos de HM, a MAPA ou a MRPA devem ser realizadas. Como a PA tem alta variabilidade, o diagnóstico de HA não deve se basear na medida da PA em apenas uma consulta médica, a menos que esteja substancialmente elevada (HA estágio 3) ou haja diagnóstico estabelecido de LOA ou de doença CV. Para os demais pacientes, as medidas repetidas da PA em visitas subsequentes no consultório devem ser utilizadas para confirmar uma elevação persistente, bem como para classificar o estágio da HA. AVALIAÇÃO CLÍNICA E COMPLEMENTAR A anamnese e o exame físico devem ser completos buscando a medida correta da PA, a análise dos parâmetros antropométricos e a detecção de sintomas e sinais de comprometimento em órgãos- alvo e de indícios de causas secundárias de hipertensão. É importante a pesquisa de comorbidades (DM, dislipidemias e doenças renais e da tireoide, etc.) e de lesões em órgãos-alvo para melhor tratamento e estratificação do risco CV. Os exames complementares de rotina são básicos, de fácil disponibilidade e interpretação, baixo custo e obrigatórios para todos os pacientes, pelo menos na primeira consulta e anualmente. Emmanuel Pacheco 3 HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA » Avaliação Clínica: Questionar tempo de diagnóstico e tratamentos instituídos. Apurar sintomas que indiquem a evolução da HA. Questionar sobre história familiar de HÁ. Identificar fatores de risco cardiovasculares e renais. Pesquisar LOA (subclínicas ou manifestas clinicamente). Investigar a presença de outras doenças. Questionar sobre fármacos e drogas que possam alterar a PA. Aplicar escore de risco CV. Rastrear indícios de HAS secundária. » Avaliação do Exame Físico: Obter medidas repetidas e acuradas da PA nos 2 braços. Obter medidas antropométricos: peso, altura, FC, CA e IMC. Procurar sinais de LOA e de causas secundárias de HAS. Examinar a região cervical: palpação e ausculta das artériascarótidas, verificação de estase jugular e palpação de tireoide. Avaliar o aparelho cardiovascular: desvio de ictus e propulsão à palpação; na ausculta, presença de B3 ou B4, hiperfonese de segunda bulha, sopros e arritmias. Medida do índice tornozelo braquial (ITB) tanto esquerdo quanto direito. A relação normal é acima de 0,9. Avaliar o sistema respiratório: ausculta de estertores, roncos e sibilos. Observar as extremidades: edemas, pulsos em MMSS e MMII (na presença de pulso femorais diminuídos, sugere coartação de aorta, doença da aorta ou ramos). Palpar e auscultar o abdômen: frêmitos, sopros, massa abdominais indicativas de rins policísticos e tumores (podem sugerir causas secundária ou LOA). Detectar déficits motores ou sensoriais no exame neurológico Realizar fundoscopia ou retinografia: identificar aumento do reflexo dorsal, estreitamente arteriolar, cruzamentos arteriovenosos patológicos, hemorragias, exsudatos e papiledema (sinais de retinopatia hipertensiva). » Exames Complementares de rotina: Análise de urina. Potássio plasmático. Creatinina plasmática. Glicemia de jejum. Estimativa do ritmo de filtração glomerular. Colesterol total, HDL-c e triglicerídeos plasmáticos. Ácido úrico plasmático. Eletrocardiograma convencional. » Fatores de risco cardiovasculares adicionais: Idade (mulher > 65 anos e homem > 55 anos). Tabagismo. Dislipidemia: TG > 150 mg/dL, LDLc > 100 mg/dL e HDL-c < 40 mg/dL. DM confirmado (glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL, glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL ou HbA1c ≥ 6,5%) ou pré-diabetes (glicemia de jejum 100 - 125 mg/dL ou HbA1c 5,7 - 6,4%). História familiar prematura de DCV (M < 65, H< 55). Pressão de pulso em idosos > 65 mmHg. ITB ou VOP anormais. História patológica pregressa de pré-eclâmpsia ou eclampsia. Obesidade central (IMC > 30 kg/m²). Relação cintura/quadril (M < 88 cm e H < 102 cm). Perfil de síndrome metabólica. ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR A PA atua de forma sinérgica com outros fatores de risco (FR) para DCV, e seu efeito pró-aterogênico será tanto maior quanto maior o for o número e a intensidade desses fatores adicionais. A classificação do risco CV depende dos níveis da PA, dos FRCV associados, da presença de lesões em órgãos-alvo (LOA), que são lesões estruturais e/ou funcionais decorrentes da HA em vasos, coração, cérebro, rins e retina, e/ou da existência de DCV ou doença renal estabelecidas. As condições associadas, devem ser identificadas no hipertenso, por meio de história clínica, exame físico e exames complementares. Assim, devem ser procurados: a) os FR coexistentes na HA; b) as LOA; c) a presença de DCV e renal estabelecida. a) Fatores de risco coexistentes na HA: Sexo masculino. Idade: > 55 anos no homem e > 65 anos na mulher. DCV prematura em parentes de 1º grau (H < 55 e M > 65). Tabagismo. Dislipidemia: LDL-colesterol ≥100mg/dL e/ou não HDL- colesterol 130 mg/dL e/ou HDL-colesterol ≤ 40mg/dL no homem e ≤ 46mg/dL na mulher e/ou TG >150 mg/dL Diabetes melito. Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²). b) Lesões em órgãos-alvo: Hipertrofia ventricular esquerda. ECG (índice Sokolow-Lyon (SV1 + RV5 ou RV6) ≥ 35 mm; RaVL > 11 mm. ECO: IMVE ≥ 116 g/m² (homens) ou ≥ 96 g/m² (mulheres). ITB < 0,9. DRC estágio 3 (RFG-e entre 30 e 60 mL/min/1,73m²). Albuminúria 30-300 mg/24h ou relação albumina/creatinina urinária 30-300 mg/g. VOP carótido-femoral > 10 m/s. METAS PRESSÓRICAS O pré-hipertenso com 1-2 FR e o hipertenso estágio I sem FR é considerado de baixo risco. Já o pré-hipertenso com ≥ 3 FR, o hipertenso estágio I com 1-2 FR ou o hipertenso estágio II sem FR é considerado de risco moderado. Nos hipertensos de baixo ou moderado risco recomenda-se uma meta abaixo de 140/90 mmHg. Em geral, o hipertenso com três ou mais FR, diabético, com lesões em órgãos-alvo (LOA), doença CV ou renal é considerado de alto risco. O tratamento deve objetivar valores < 130/80 mmHg evitando a redução acentuada para valores < 120/70 mmHg. TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO (TNM) Os indivíduos hipertensos devem ser avaliados quanto ao hábito de fumar, e deve ser buscada a cessação do tabagismo, se necessário com o uso de medicamentos, pelo aumento do risco CV. Emmanuel Pacheco 4 HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA A dieta tipo DASH – ↑ no consumo de frutas, hortaliças, laticínios com baixo teor de gordura e cereais integrais, além de consumo moderado de oleaginosas e ↓ no consumo de gorduras, doces e bebidas com açúcar e carnes vermelhas – deve ser prescrita. O consumo de sódio deve ser restrito a 2 g/dia, com substituição de cloreto de sódio por cloreto de potássio. O peso corporal deve ser controlado para manter IMC < 25 kg/m². Realizar, pelo menos, 150 minutos por semana de atividade física moderada. Deve ser estimulada a redução do comportamento sedentário, levantando-se por 5 minutos a cada 30 minutos sentado. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO As principais classes de anti-hipertensivos são: diurético tiazídico, BCC, IECA, BRA e betabloqueadores (com indicações específicas). A monoterapia é útil para pré-hipertensos de risco CV alto, HAS estágio 1 de baixo risco e para idosos e/ou indivíduos frágeis. A combinação de fármacos é a estratégia inicial recomendada para hipertensos estágio 1 de moderado e alto risco e estágios 2 e 3. O início do tratamento com combinação de 2 fármacos deve ser feito com um IECA ou BRA, associado a DIU tiazídico ou BCC. Quando não se atinge o controle da PA com combinação de dois fármacos, deve ser prescrita a combinação de três fármacos, habitualmente um IECA ou BRA, associado a DIU tiazídico ou BCC; caso necessário, acrescentar espironolactona em seguida. O racional para a associação de fármacos baseia-se no incremento do efeito anti-hipertensivo quando se atua em mecanismos fisiopatológicos distintos por ações sinérgicas e pela inibição da ativação dos mecanismos contrarregulatórios. Além disso, a combinação de fármacos pode reduzir potencialmente a ocorrência de efeitos colaterais, pelo uso de menor dose de cada um dos fármacos envolvidos na combinação ou pela capacidade que um dos fármacos pode ter de antagonizar os efeitos adversos do outro. a) Diuréticos (DIU): O mecanismo da ação anti-hipertensiva relaciona-se inicialmente a seus efeitos natriuréticos, com a diminuição do volume circulante e do volume extracelular. Após 4-6 semanas, o volume circulante normaliza-se, e ocorre redução da resistência vascular periférica. Deve-se dar preferência aos DIU tiazídicos (hidroclorotiazida) ou similares (clortalidona e indapamida) em doses baixas, pois são mais suaves e com maior tempo de ação, reservando-se os DIU de alça (furosemida e bumetanida) às condições clínicas com retenção de sódio e água, como a insuficiência renal (creatinina > 2,0 mg/dL ou o ritmo de filtração glomerular estimado ≤ 30 mL/min/1,73m2) e situações de edema (IC, síndrome nefrítica). Os DIU poupadores de potássio (espironolactona e amilorida) costumam ser utilizados em associação aos tiazídicos ou DIU de alça. A espironolactona tem sido utilizada como o 4º medicamento a ser associado aos pacientes com HA resistente e refratária. Os principais efeitos adversos são fraqueza, cãibras, hipovolemia e disfunção erétil. A hipopotassemia é o efeito metabólico mais comum e, frequentemente acompanhada de hipomagnesemia, que podem provocar arritmias ventriculares, sobretudo a extrassistolia. O aumento do ácido úrico é um efeito quase universal, podendo precipitar crises de gota nos indivíduos com predisposição. A espironolactona pode causar ginecomastia e hiperpotassemia, mais frequente em pacientes com déficit de função renal. O uso em doses baixas diminui o risco dos efeitos adversos, sem prejuízoda eficácia anti-hipertensiva, especialmente quando em associação a outras classes de medicamentos. b) Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC) Atua bloqueando os canais de cálcio na membrana das células musculares lisas das arteríolas, reduzindo a disponibilidade de cálcio no interior das células, dificultando a contração muscular e, consequentemente, diminuindo a RVP por vasodilatação. São classificados em: di-hidropiridínicos e não di-hidropiridínicos. Os di-hidropiridínicos (anlodipino, nifedipino) exercem efeito vasodilatador predominante, com mínima interferência na FC e na função sistólica, sendo, por isso, mais frequentemente usados como anti-hipertensivos. Os BCC não di-hidropiridínicos, como as difenilalquilaminas (verapamila) e as benzotiazepinas (diltiazem), têm menor efeito vasodilatador e agem na musculatura e no sistema de condução cardíacos. Por isso, reduzem a FC, exercem efeitos antiarrítmicos e podem deprimir a função sistólica devendo ser evitados em pacientes que já tenham disfunção miocárdica. O edema maleolar é o efeito adverso mais registrado e resulta da ação vasodilatadora (mais arterial que venosa), promovendo a transudação capilar. A cefaleia latejante e as tonturas são comuns. Os efeitos adversos costumam ser dose-dependentes, podem causar intolerância aos BCC di-hidropiridínicos e, às vezes, resultam em resistência ao tratamento. c) Inibidor da Enzima Conversora da Angiotensina (IECA): Inibe a enzima conversora de angiotensina I, responsável pela conversão de angiotensina I em angiotensina II (vasoconstritora) e pela redução da degradação da bradicinina (vasodilatadora). Mostram-se medicações comprovadamente úteis em muitas outras afecções CV, como em ICFEr e antirremodelamento cardíaco pós- IAM, além de possíveis propriedades antiateroscleróticas. São bem tolerados pela maioria dos pacientes hipertensos, sendo a tosse seca seu principal efeito colateral. Quando se administra a pacientes com insuficiência renal pode haver a piora da função renal, provocada pela adaptação da hemodinâmica intraglomerular (vasodilatação da arteríola eferente e redução da pressão de filtração glomerular) que resulta em elevação da ureia e da creatinina séricas. Se a perda da função renal for importante (> 30%), deve-se retirar o medicamento. Emmanuel Pacheco 5 HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA Os IECA podem provocar hiperpotassemia em pacientes com insuficiência renal, sobretudo nos diabéticos, e o uso é contraindicado na gravidez, pelo risco de complicações fetais. d) Bloqueador do Receptor AT1 da Angiotensina II (BRA): Antagonizam a ação da angiotensina II pelo bloqueio específico dos receptores AT1, responsáveis pelas ações próprias da angiotensina II (vasoconstrição, estímulo da proliferação celular e da liberação de aldosterona). Semelhante aos IECA, os BRA podem promover a redução inicial da filtração glomerular por vasodilatação das arteríolas eferentes, diminuindo a pressão de filtração glomerular. Pelas mesmas razões dos IECA, podem causar hipercalemia, especialmente na presença de insuficiência renal, e são contraindicados na gravidez. e) Betabloqueadores (BB): Promovem a diminuição inicial do débito cardíaco e da secreção de renina, com a readaptação dos barorreceptores e diminuição das catecolaminas nas sinapses nervosas. São diferenciados em três categorias, de acordo com a seletividade para ligação aos receptores adrenérgicos: 1) não seletivos – bloqueiam tanto os receptores adrenérgicos beta-1, encontrados principalmente no miocárdio, quanto os beta-2, encontrados no músculo liso, nos pulmões, nos vasos sanguíneos e em outros órgãos (propranolol, nadolol e pindolol); 2) cardiosseletivos – bloqueiam preferencialmente os receptores beta-1 adrenérgicos (atenolol, metoprolol, bisoprolol e nebivolol); e 3) com ação vasodilatadora – manifesta-se por antagonismo ao receptor alfa-1 periférico (carvedilol) e por produção de óxido nítrico (nebivolol). Os efeitos adversos são: broncoespasmo, bradicardia, distúrbios da condução atrioventricular, vasoconstrição periférica, insônia, depressão, astenia e disfunção sexual. São contraindicados em pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e bloqueio atrioventricular de segundo e terceiro graus f) Simpaticolíticos de Ação Central: Os alfa-agonistas de ação central agem por meio do estímulo dos receptores alfa-2 que estão envolvidos nos mecanismos simpatoinibitórios. Os efeitos dessa classe são: diminuição da atividade simpática e do reflexo dos barorreceptores, o que contribui para a bradicardia relativa e a hipotensão notada na posição ortostática; discreta diminuição na RVP e no débito cardíaco; redução nos níveis plasmáticos de renina; e retenção de fluidos. São representantes desse grupo: metildopa, clonidina. A metildopa tem sua principal indicação na HA durante a gestação, pois apresenta o melhor perfil de segurança para a gestante e o feto. A metildopa pode provocar reações autoimunes, como febre, anemia hemolítica, galactorreia e disfunção hepática, que desaparecem com a interrupção do uso. A clonidina apresenta risco do efeito rebote com a descontinuação. A retirada gradual em duas a quatro semanas evita este efeito. As reações adversas decorrem da ação central, como sonolência, sedação, boca seca, fadiga, hipotensão postural e disfunção erétil. g) Alfabloquadores: Agem como antagonistas competitivos dos receptores alfa-1 pós- sinápticos, reduzindo a RVP sem mudanças no débito cardíaco. Os representantes dessa classe utilizados como medicamentos anti- hipertensivos são a doxazosina e a prazosina. Uma ação coadjuvante benéfica dos bloqueadores alfa-1 é o relaxamento da musculatura do assoalho prostático, a qual favorece o esvaziamento da bexiga nos pacientes com hiperplasia prostática benigna (HPB). Podem provocar hipotensão sintomática na primeira dose. O fenômeno de tolerância é frequente, necessitando aumento da dose para manter o efeito anti-hipertensivo. h) Vasodilatadores Diretos: Os medicamentos dessa classe, ativos por via oral, são a hidralazina e o minoxidil. Atuam diretamente, relaxando a musculatura lisa arterial, levando à redução da RVP. Os efeitos colaterais da hidralazina são cefaleia, flushing, taquicardia reflexa e reação lupus-like (dose-dependente). Seu uso pode também acarretar anorexia, náusea, vômito e diarreia. Os vasodilatadores podem provocar retenção de sódio e água, com o aumento do volume circulante e da taquicardia reflexa. Um efeito colateral do minoxidil é o hirsutismo. i) Inibidores Diretos da Renina: O alisquireno, único representante da classe disponível, promove a inibição direta da ação da renina com a consequente diminuição da formação de angiotensina II. Apresenta boa tolerabilidade. Rash cutâneo, diarreia (especialmente com doses > 300 mg/dia), aumento de creatinafosfoquinase e tosse podem ocorrer em menos de 1% dos usuários. Seu uso é contraindicado na gravidez pelas mesmas razões dos IECA e BRA. Emmanuel Pacheco 1 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Síndrome clínica que ocorre quando o coração é incapaz de manter débito adequado para perfusão tissular ou quando o faz às custas do aumento das pressões de enchimento. FISIOPATOLOGIA Evento precipitante (lesão miocárdica inicial) → mediadores da lesão (ativação neuro-hormonal) → alterações cardiovasculares (remodelamento ventricular) → progressão da IC (ciclo vicioso de lesão cardiovascular). Em resposta a diminuição do débito, ativa-se o SRAA (↓ diurese ↑ volemia) e o SNS (vasoconstricção) o que resulta no aumento das pressões de enchimento (prejudicando ainda mais o coração). ↓ perfusão renal → ↑ SRAA → vasoconstricção + retenção de água e sódio → ↑ pressões de enchimento. ↓ PA → ↑ ativação do SNS e ↑adrenalina → ↑ débito cardíacoe ↑ volume circulante → ↑ pressões de enchimento. ETIOLOGIA Buscar a causa da IC é importante, uma vez que o prognóstico também difere entre elas, podendo orientar tratamento específico. SINAIS E SINTOMAS A IC é uma síndrome complexa, com alteração da função cardíaca, o que resulta em sintomas e sinais de baixo débito cardíaco e/ou congestão pulmonar ou sistêmica, em repouso ou aos esforços. » Resultantes de baixo débito cardíaco: Fadiga; Fraqueza; Piora dos sintomas durante o esforço; Taquicardia em repouso; Pressao de pulso reduzida; Diaforese; Vasoconstricção periférica (extremidades frias); » Resultantes do aumento das pressões de enchimento: Dispenia; Ortopneia; Dispenia paroxicistica noturna (DPN); Dor epigástrica; Anorexia; Distenção abdominal (hepatomegalia e ascite); Congestão pulmonar; Pressao venosa jugular elevada (45º); Refluxo hepatojugular; Edema periférico. Pulsos alternaris (IC avançada); Desvio do ictus cordis para esquerda; Presença de ritmo de galope (B3 – bulha diastólica – enchimento ventricular – ventriculo que esvaziou pouco devido a baixa fração de ejeção); DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clínico. Deve ser feito por meio da anamnese e exame físico, podendo ser auxiliado pelos exames complementares. Os principais critérios clínicos utilizados na prática são os de Framingham e os de Boston. a) Critérios de Framinghan: Diagnóstico: 2 critérios maiores ou; 1 critério maior + 2 critérios menores. c) Critérios de Boston: INSUFICIENCIA CARDÍACA Emmanuel Pacheco 2 De acordo com a pontuação, afasta-se ou confirma-se diagnóstico: Diagnostico de IC definitivo: 8-12 pontos; Diagnostico de IC possível: 5-7 pontos; Diagnóstico de IC improvável: ≤ 4 pontos. EXAMES COMPLEMENTARES a) Eletrocardiograma: Alto valor preditivo negativo; É recomendada na avaliação inicial dos pacientes com IC, para avaliar sinais de cardiopatia estrutural como hipertrofia ventricular esquerda, isquemia miocárdica, áreas de fibrose, distúrbios da condução atrioventricular, bradicardia, taquiarritmias, cardiopatia chagásica ou hipertensiva, b) Radiografia de tórax: É recomendada na avaliação inicial dos pacientes com sinais e sintomas de IC, para avaliação de cardiomegalia (índice cardiotorácico > 0,5) e congestão pulmonar. c) Avaliação laboratorial: Usados para avaliar a presença e a gravidade de lesão órgãos- alvo e detectar comorbidades, como também para verificar fatores agravantes do quadro clínico. Anemia, hiponatremia, disfunção renal (creatinina e/ou ureia elevados), hipocalemia, hipercalemia, disfunção hepática (enzimas hepáticas elevadas), BNP e NT-proBNP elevados, sorologia para chagas, etc. A dosagem de peptídeos natriuréticos BNP ou NT-proBNP pode ser útil em casos de dúvidas diagnósticas, podendo servir como exame de triagem. Valores de BNP < 35 pg/mL ou NT- proBNP < 125 pg/mL praticamente excluem o diagnóstico de IC. Valores acima destes cortes necessitam de avaliação clínica e complementar com ecocardiografia para confirmar o diagnóstico, caso haja dúvidas pela avaliação clínica isolada. BNP – vasodilatador liberado quando há estiramento do átrio. Útil para excluir descompensação aguda. d) Ecocardiograma transtorácico: Exame de imagem de escolha para o diagnóstico e o seguimento de pacientes com suspeita de IC. Permite a avaliação da função ventricular sistólica esquerda e direita, da função diastólica, das espessuras parietais, do tamanho das cavidades, da função valvar, da estimativa hemodinâmica não invasiva e das doenças do pericárdio. Confirma diagnostico e sugere etiologia. CLASSIFICAÇÃO a) Classificação de acordo com a fração de ejeção (FEVE): FEVE normal: ≥ 50% - IC com fração de ejeção preservada (ICFEp). FEVE reduzida: < 40% - IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr) FEVE intermediária: 40-49% - IC com fração de ejeção intermediária (ICFEi). A diferenciação dos pacientes de acordo com a FEVE tem particular importância, uma vez que eles diferem em relação às suas principais etiologias, às comorbidades associadas e, à resposta à terapêutica. b) Classificação funcional de acordo com a NYHA: Esta classificação se baseia no grau de tolerância ao exercício e varia desde a ausência de sintomas até a presença de sintomas mesmo em repouso. Ela permite avaliar o paciente clinicamente, auxilia no manejo terapêutico e tem relação com o prognóstico. Classe Definição Descrição geral I Ausência de sintomas durante atividade física habitual. Sem limitação. Assintomático. II Atividades físicas habituais causam sintomas. Limitação leve. Sintomas leves. III Atividades físicas menos intensas que as habituais causam sintomas. Limitação importante, porém confortável no repouso. Sintomas moderados IV Incapacidade para realizar qualquer atividade sem apresentar desconforto. Sintomas no repouso. Sintomas graves. c) Classificação de acordo com estágios de progressão (AHA/AACF): Estágios Descrição Estágio A Risco de desenvolver IC mas sem doença estrutural ou sintomas de IC. Estágio B Doença estrutural cardíaca presente mas sem sintomas de IC. Estágio C Doença estrutural cardíaca presente com sintomas prévios ou atuais de IC. Estágio D IC refratária ao tratamento clínico que requer intervenção especializada.. d) Classificação quanto ao tempo de evolução: IC aguda; IC crônica compensada; IC cronica descompensada; e) Classificação clínica-hemodinâmica: mais detalhes a frente. COMO TRATAR NA FASE AGUDA? PILARES DO TRATAMENTO DA IC DESCOMPENSADA: Aumentar débito cardíaco. Reduzir congestão venosa e pulmonar. » Como aumentar o débito cardíaco? Aumentar inotropismo → agentes inotrópicos. Reduzir pós-carga → vasodilatadores. Obs.: vasodilatação venosa = mais sangue nas pernas e menos no pulmão; vasodilatação arterial = menos sangue no pulmão. » Como reduzir congestão venosa e pulmonar? Balanço hídrico negativo → diuréticos de alça. CLASSIFICAÇÃO CLÍNICO-HEMODINÂMICA: Como verificar se há congestão? Avaliar presença de estertores crepitantes no pulmão. Como verificar a perfusão do paciente? Avaliar o enchimento capilar (normal = 3 segundos); se > 3s significa que a perfusão está fraca, ou seja, a contração da bomba (coração) está baixa. INSUFICIENCIA CARDÍACA Emmanuel Pacheco 3 IC DESCOMPENSADA PERFIL A (QUENTE E SECO): Perfusão em repouso normal (enchimento < 3s) = quente. Sem congestão em repouso = seco. Raramente vai pro pronto socorro pois é um paciente estável. Necessita apenas de ajuste da terapia medicamentosa crônica. IC DESCOMPENSADA PERFIL B (QUENTE E ÚMIDO) Perfusão em repouso normal (enchimento < 3s) = quente. Possui congestão em repouso = úmido/congesto. » Diurético: Furosemida 20 a 40 mg, EV. Repetir se necessário. Objetivo: balanço hídrico negativo, isto é, ‘secar’ o paciente. » Vasodilatador: Captopril 25 a 50 mg, VO – manutenção de 8/8h. Dinitrato de isossorbida (Isordil) 5 mg SL – repetir até 15 mg. Nitroprussiato de sódio (Nipride ®) – iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). Nitroglicerina (Tridil ®) – iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). Objetivo: diminuir pré-carga e pós-carga. IC DESCOMPENSADA PERFIL C (FRIO E ÚMIDO) Perfusão em repouso baixa (enchimento capilar > 5s) = frio. Possui congestão em repouso – ausculta pulmonar com estertores crepitantes em base = úmido. » Diurético: Furosemida 20 a 40 mg, EV. Repetir se necessário. Objetivo: balanço hídrico negativo, isto é, ‘secar’ o paciente. » Vasodilatador: Captopril 25 a 50 mg, VO – manutenção de 8/8h. Dinitrato de isossorbida (Isordil) 5 mg SL – repetir até 15 mg. Nitroprussiato de sódio (Nipride ®) – iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). Nitroglicerina (Tridil ®) –iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). » Inotrópicos: Dobutamina: iniciar com 2,5 mcg/kg/min e titular até no máximo 20 mcg/kg/min (infusão continua EV) – efeito inotrópico e vasodilatador. Só usa no perfil C! Obs.: Paciente com pressão baixa (em choque) não pode receber vasodilatador (ex. dobutamina) e sim vasopressor – noradrenalina (vasoconstrictor). Só depois que a pressão sobe, usa-se dobutamina Obs.2: Se PAS > 90 ou PAM > 60-65 pode-se usar dobutamina/substância vasodilatadora. IC DESCOMPENSADA PERFIL L (FRIO E SECO) Perfusão em repouso baixa (enchimento capilar > 5s) = frio. Sem congestão em repouso = seco. » Hidratação venosa: Lenta e cuidadosa – SF 0,9% 250 mL, EV. Obs.: Após hidratação, o enchimento pode virar um perfil C. Nesse caso, precisa adicionar dobutamina e vasodilatador. » Vasodilatador: Captopril 25 a 50 mg, VO – manutenção de 8/8h. Dinitrato de isossorbida (Isordil) 5 mg SL – repetir até 15 mg. Nitroprussiato de sódio (Nipride ®) – iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). Nitroglicerina (Tridil ®) – iniciar com 5 a 10 mcg/min (infusão continua EV). » Inotrópicos: Dobutamina: iniciar com 2,5 mcg/kg/min e titular até no máximo 20 mcg/kg/min (infusão continua EV) – efeito inotrópico e vasodilatador. Medicamentos inotrópicos positivos que não mexem com o efeito do receptor B2 (vasodilatador): Nesiritide = forma recombinante do BNP/vasodilatador + melhora do débito cardíaco. Milrinone = inibidor da PDE3 (inotrópico positivo). Levosimendan = sensibilizador do cálcio (inotrópico positivo). Ultrafiltração = hemodiálise. IMPORTANTE! Investigar e tratar motivo da descompensação e alterações clínico- laboratoriais associadas: Má adesão ao tratamento; Isquemia; Disfunção renal; Distúrbios hidroeletrolíticos; Arritmias cardíacas; Doenças valvares. Obs.1: A principal causa de IC aguda é IAM. Obs.2: IC crônica que descompensa = má aderência ao tratamento, infecção ou uso de anti-inflamatório (retem água e vasoconstricta). REVISÃO TRATAMENTO DA IC AGUDA: Vasodilatador para todos a menos que esteja em choque. Frio = usa dobutamina. Congesto = usa furosemida. COMO TRATAR NA FASE CRÔNICA? INSUFICIENCIA CARDÍACA Emmanuel Pacheco 4 Intervenções sobre o SRAA e sistema simpático reduzem risco de mortalidade cardiovascular. » Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona: IECA; BRA; Antagonista de aldosterona. Obs.: ECA quebra bradicinina. Ao inibir a ECA, inibe-se também a quebra da bradicinina (vasodilatador) que aumenta gerando maior vasodilatação. Por outro lado, o paciente tem como EI a tosse. Obs.2: BRA é xarope na ICC – só usa quando o paciente tem tosse. » Sistema simpático: Beta-bloqueadores; TRATAMENTO MEDICAMENTOSO NA IC CRONICA » Beta-bloqueador: Só há 3 opções possíveis se IC com fração de ejeção reduzida (ICFER): carvedilol, succinato de metoprolol ou bisoprolol. Se IC com fração de ejeção preservada (ICFEP), pode-se usar qualquer beta-bloqueador. Mexe na frequência cardíaca. Sua eficácia é checada pelo acompanhamento da FC. Objetivo: 50-70 bpm. » IECA: IECA e espironolactona: deve-se observar a pressão para fazer seu acompanhamento. IECA só reduz mortalidade com dose máxima/plena. Enalapril (20 mg 12/12h – dose máxima). Deve-se usar a máxima dose tolerada pelo paciente objetivando a dose máxima da medicação. Vai dobrando a dose até chegar à dose máxima. Caso haja sintomas, volta-se para a dose que foi tolerada pelo paciente. » Efeitos colaterais dos IECA e BRA: Hipercalemia; Insuficiência renal aguda; Obs.: Para pacientes intolerantes, pode-se substituis IECA ou BRA pela combinação hidralazina e nitrato. Hidralazina 25 a 50 mg 8/8h + mononitrato de isossorbida (Monocordil ®) 20 a 40 mg 8/8h. » Efeitos colaterais da espironolactona: Insuficiência renal aguda (K > 5,9 mmol/L, Cr > 2,5 mg/dL, ClCr < 30 mL/min). Ginecomastia dolorosa; Obs.: Opções: suspender e/ou eplerenone (funciona como antagonista da aldosterona). » Há mais alguma via de ativação neuro-hormonal passível de bloqueio? Neprilisina = enzima que degrada bradicinina e peptídeos natriuréticos. Sacubitril-valsartan = inibe a degradação de várias substancias vasodilatadoras, aumentando a vasodilatação. MEDIDAS NÃO FARMACOLÓGICAS Cessação do tabagismo; Abstinência de álcool; Restrição hídrica; Evitar obesidade; Pesar diariamente; Reabilitação cardíaca. IC COM FRAÇÃO DE EJEÇÃO MELHORADA ICFEm (com fração de ejeção melhorada) é considerada quando o paciente tinha FE < 40% e teve um aumento de 10 pontos percentuais para taxas acima de 40%. É recomendação classe I manter a terapêutica modificadora de prognóstico para pacientes com ICFEr que recuperam a FE. TRATAMENTO DA IC COM FRAÇÃO DE EJEÇAO REDUZIDA 1. ICFER e sintomático = terapia tripla → IECA/BRA + beta- bloqueador + espironolactona. 2. Reavaliar após 1/2 meses. 3. Se continua sintomático = trocar IECA/BRA por sacubitril- valsartana e/ou adicionar o inibidor da iSGLT2 (dapaglifozina). 4. Não tem LRA nem hipercalemia e ainda está sintomático → adicionar hidralazina e nitrato. 5. Objetivo: FC = 50-70 bpm. Se não chegar nessa FC apesar de dose máxima da medicação, pode-se adicionar ivabradina, uma medicação que age no NSA (não adianta usa-la se o paciente tiver fibrilação atrial; só usar se o paciente tiver ritmo sinusal). 6. A Digoxina pode ser usada no paciente com fibrilação atrial (reduz frequência ventricular) ou com ritmo sinusal. 7. CDI (cardioversor desfibrilador implantável) = profilaxia primária se FE < 30% para evitar o primeiro evento. 8. TRC (terapia de ressincronização cardíaca): 2 eletrodos em cada lado de modo que os ventrículos contraiam na mesma hora – só tem indicação se o paciente tem bloqueio de ramo esquerdo (VD contrai primeiro e atrapalha o esquerdo). Obs.: iSGLT2 (Dapaglifozina, Empaglifozina): reduz taxa de internação e mortalidade por IC. INSUFICIENCIA CARDÍACA Emmanuel Pacheco 1 PÉ DIABÉTICO PÉ DIABÉTICO Pé diabético é o termo empregado para nomear as diversas alterações e complicações ocorridas, isoladamente ou em conjunto, nos pés e nos membros inferiores dos diabéticos. Representa uma das complicações mais nocivas do DM, uma vez que pode levar a ulcerações, as quais potencialmente evoluem para amputações maiores ou menores. Sua presença também implica elevada mortalidade, piora na qualidade de vida devido ao tratamento prolongado (ambulatorial ou hospitalar), absenteísmo e aposentadoria precoce. EPIDEMIOLOGIA 20 milhões de diabéticos no Brasil, 25% desenvolvem úlcera. As úlceras nos pés são precedentes em 85% de todas as amputações diabéticas. 40 a 60% das amputações não traumáticas de MMII são realizadas em pacientes com diabetes. A taxa de sobrevida em diabéticos, 5 anos após a amputação, é em torno de 28%, uma vez que o comprometimento vascular não se limita aos membros inferiores. ETIOFISIOPATOLOGIA Glicemia elevada → Neuropatia → Sensibilidade e Deformidade. A neuropatia diabética (ND) é o principal elemento etiofisiopatogênico das complicações do pé diabético. A ND tem origem no comprometimento insidioso de fibras sensoriais finas e grossas (sensibilidade à dor, temperatura, sensibilidade protetora plantar - SPP e propriocepção). Além das alterações sensoriais, que podem ser até assintomáticas, o comprometimento motor se destaca nos estágios mais avançados da ND e é responsável pela maior parte das deformidades observadas a inspeção dos pés. Essas deformidades - atrofias musculares, retração e deformidade dos dedos – em geral na região plantar, causam alterações no padrão normal da marcha com áreas de pressão anormale consequentemente ulcerações. O comprometimento das fibras autonômicas (simpáticas) resulta em diminuição ou ausência de sudorese (anidrose), causando o ressecamento da pele, predispondo-a a rachaduras e fissuras, que podem levar às ulceras. Ademais, alterações na microcirculação ocasionam o desequilíbrio dos mecanismos reguladores da vasodilatação e vasoconstrição, com aumento do fluxo e surgimento de fístulas arteriovenosas que desviam esse fluxo dos tecidos profundos, resultando em um pé com temperatura elevada, com veias dorsais distendidas e, algumas vezes, edema. Assim, o sangue chega mas o oxigênio não passa para os tecidos e quem mais sofre pela falta de oxigênio, são as células neurológicas (assim, o paciente perde a sensibilidade). AVALIAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clínico! O exame clínico, combinado ao exame neurológico, testes articulares e vasculares simples são de suma importância para caracterizar o pé diabético. O pé insensível, de aspecto rosado, com veias dilatadas, boa temperatura e deformado (pé neuropático) tem ↑ risco de lesão. A avaliação da pele pode sugerir comprometimento vascular e neurológico. Assim, soma-se a avaliação da coloração da pele, grau de ressecamento, presença de abrasões por traumatismos mecânicos e a palpação dos pulsos distais das artérias pediosas dorsais e tibiais posteriores. » Teste do monofilamento: Teste para avaliação neurológica. Mostrar o filamento ao paciente. Pedir que o paciente responda sim quando sentir o filamento (não perguntar se ele sente ou não, para não induzi-lo). Havendo áreas ulceradas, necróticas, cicatriciais ou hiperceratóticas, teste ao lado das mesmas e não sobre elas. Insensibilidade ao monofilamento representa risco 18x maior de ulceração. Como saber se o ferimento é causado por microangiopatia (pé-diabético) ou se é por aterosclerose periférica (DAP)? DAP = problema é nas artérias principais. A lesão é extremamente dolorosa (devido a isquemia) e sem pulso palpável. O tratamento deve ser revascularização (by-pass/angioplastia) para depois realizar desbridamento/amputação. Pé-diabético = problema é na microcirculação. A lesão é indolor e os pulsos são preservados (femoral, poplíteo, dorsal do pé e tibial posterior). O tratamento é através de desbridamento/amputação. Observações: 1 - Em casos de dúvida em relação à presença dos pulsos ou para avaliar se o membro está isquêmico, podemos realizar o ITB e o eco-Doppler arterial (exames normais, fala a favor de pé-diabético, exames alterados, DAP). 2 - Nos pacientes que apresentam lesão infectada com toxemia (sepse), a conduta deve ser desbridamento/amputação mais antibióticos de largo espectro, independente do membro ter pulso ou não, a fim de sair desse quadro de urgência/emergência e, num segundo momento, avaliar se o membro é isquêmico ou não. Palpação dos pulsos dorsal do pé (A) e tibial posterior (B). EXAMES COMPLEMENTARES Laboratório (hemograma, VHS). Radiografia – investigar infecção no osso (p.ex., osteomielite). Eco-Doppler – em caso de dúvida sobre presença de pulsos. Ressonância magnética. Obs.: No raio-x de mãos/pés deve-se pedir incidência AP e oblíqua. COMPLICAÇÕES DO PÉ DIABÉTICO O Pé de Charcot é o resultado do comprometimento neuro- osteoarticular que pode ser causado pela diabetes. A neuropatia autonômica provoca alteração na regulação da microcirculação, provocando vasodilatação e um aumento do fluxo sanguíneo. Isso provoca uma maior fragilidade óssea devido à intensa reabsorção de cálcio. Somado a isso, acontecem as neuropatias sensitiva e motora que acarretam em traumatismos, fraturas e luxações. Como resultado final, o pé apresenta-se deformado, com perda ou desabamento do arco plantar. Observa-se grande deformidade, com perda do cavo plantar. Tal situação aumenta o risco do surgimento de ferimentos, já que o paciente apresenta neuropatia com uma grande área de contato do pé com as superfícies. Emmanuel Pacheco 2 PÉ DIABÉTICO As úlceras são lesões espessadas que comprometem a derme e acomete pacientes diabéticos, independentemente de sua duração. Necrose e gangrena da pele são englobadas como úlceras e gangrena é definida como necrose contínua da pele e de estruturas subjacentes: músculo, tendão, osso, articulação. A osteomielite é uma complicação muito grave do processo infeccioso. Até 60% das infecções moderadas e graves evoluem para osteomielite e não raramente, resultam em amputações. CLASSIFICAÇÃO DO PÉ DIABÉTICO » Classificação do pé diabético pelos critérios de Wagner: Classe 0 Pé de alto risco, sem úlcera. 1 Úlcera superficial. 2 Úlcera profunda, sem envolvimento ósseo. 3 Úlcera profunda, com envolvimento ósseo. 4 Gangrena parcial. 5 Gangrena de todo o pé. TRATAMENTO » Abordagens da Úlcera: O desbridamento da lesão se impõe e sua amplitude depende das dimensões e da gravidade da ulceração. Geralmente, uma intervenção cirúrgica extensa deve ser realizada em úlceras grandes, com bastante tecido necrótico infectado, pois a demora pode favorecer a disseminação da infecção para os diversos compartimentos do pé, comprometendo as estruturas tendíneas. Se sinais de flogose (edema, rubor, calor e dor) ou presença de secreção purulenta = infecção → iniciar antibiótico. A partir da classe 3 dos critérios de Wagner, realiza-se amputação. Obs.: quanto mais distal a amputação, melhor para o paciente! » Antibióticos Em geral, a terapia inicial é empírica e deve ser baseada na gravidade da infecção, em dados microbiológicos por meio de cultura recente ou bacterioscopia (Gram). Em paciente com lesão classificada como leve (sinais de inflamação, celulite < 2,0 cm ao redor da úlcera e infecção limitada à pele e tecido subcutâneo superficial), a cobertura deve ser direcionada ao estreptococo do grupo A e ao Staphylococcus aureus. Nessa situação, cefalosporinas de 1ª geração, penicilinas, clindamicina ou sulfametoxazol/trimetoprima são utilizados por 1 a 2 semanas, VO. Nas lesões classificadas como moderadas (sinais de inflamação, celulite > 2,0 cm, linfangite, abscesso profundo, envolvendo músculo, tendão e osso), a cobertura antimicrobiana deverá ter atividade contra cocos gram-positivos, bactérias gram-negativas e anaeróbias, podendo-se optar por tratamento intravenoso ou oral, dependendo do quadro clínico do paciente, por 2 a 4 semanas. As opções terapêuticas incluem ampicilina/sulbactam, cefalosporina de 3ª/4ª geração associada à clindamicina, piperacilina/tazobactam, ertapeném e levofloxacino associado à clindamicina. Em pacientes com lesões classificadas como graves, além das lesões descritas acima, há instabilidade hemodinâmica e metabólica. Nessas situações, a terapia inicial deve ser IV com ampla cobertura antimicrobiana como carbapeném (meropeném) ou piperacilina/ tazobactam, associados à linezolida, vancomicina ou teicoplanina. Infecção leve/moderada: moxifloxacina oral. Infecção moderada/severa: ciprofloxacino ou ceftriaxona + clindamicina ou metronidazol EV. » Tratamento da Osteomielite: Não é consenso se o tratamento deva ser conservador ou cirúrgico, ficando essa decisão a critério da extensão e do comprometimento ósseo. A duração do uso dos antibióticos se baseia na proposta a ser utilizada, se ressecção total óssea, duração de 5 a 7 dias e caso ressecção seja parcial ou tratamento iminentemente clínico, 12 semanas. A terapêutica com ótima penetração óssea e possibilidade de uso oral é clindamicina isolada ou associada a uma quinolona (ciprofloxacino ou levofloxacino). » Cirurgia Indicado sempre que houver comprometimento dos tecidos mais profundos, abscessos, secreção purulenta e gangrena. Pode variar desde um simples desbridamento até amputações maiores, inclusive desarticulaçãodo quadril, dependendo do comprometimento dos tecidos e da repercussão sistêmica da infecção. PROFILAXIA » Cuidados em domicílio: Examinar os pés diariamente; Avisar o médico se tiver calos, rachaduras, alterações de cor ou ulceras; Calçar sapatos que não apertem, de couro macio ou tecido; Nunca andar descalço, mesmo em casa; Cortar as unhas de forma reta, horizontalmente; Não remover calos ou unhas encravadas em casa; procurar equipe de saúde para. Emmanuel Pacheco 1 FIBRILAÇÃO ATRIAL FIBRILAÇÃO ATRIAL É uma taquiarritmia supraventricular, com atividade elétrica atrial incoordenada e consequente contração atrial ineficiente (o átrio despolariza cerca de 600x por minuto, mas é ‘’filtrado’’ pelo NAV) que se deve a mecanismos de microreentradas. Obs.: difere do flutter atrial que tem macroreentradas. EPIDEMIOLOGIA É a arritmia clinicamente relevante mais comum no mundo. É responsável por até 35% dos AVEi. Sua prevalência aumenta com a idade (chega a 15% após os 80 anos de idade). Logo, é mais prevalente nos países de primeiro mundo em que há mais idosos. Mais prevalente no sexo masculino do que no feminino. Cerca de 3 a cada 1 pessoa vai ter uma FA ao longa da vida. FISIOPATOLOGIA Aumento atrial - quanto maior e mais fibrosado o átrio, maior a chance de ocorrer os mecanismos de reentrada. Elevação de pressão de enchimento atrial. Inflamação. Infiltração. Extrassístoles atriais. Estresse adrenérgicos. CAUSAS E CONDIÇÕES ASSOCIADAS Obs.: Atenção a disfunção tireoidiana!! Todo paciente com FA deve pesquisar disfunção tireoidiana. FISIOPATOLOGIA - COMPLICAÇÕES Ausência de contração atrial eficaz: Insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal – perda de apenas 20% do DC (os outros 80% do sangue ‘’escorrem’’ do átrio para o ventrículo, logo, não sofre alteração pela falta de contração atrial eficiente). Tromboembolismo – sangue parado (átrio não contrai direito) aumenta o risco de formar coágulo. Taquicardia: Palpitações taquicárdicas. Taquicardiomiopatia. Bradicardia: Síncope. Pré-sincope. FA + taquicardia: FA com alta resposta ventricular. FA + bradicardia: FA com baixa resposta ventricular. DIAGNÓSTICO » Identificar a arritmia! Anamnese: palpitações, antecedentes de AVEi, assintomático Exame Físico: pulso irregular, FC baixa, normal ou alta. Eletrocardiograma: sem onda P, ritmo irregular (RR irregular), QRS estreito (exceto se houver bloqueio de ramo), ondas f, alternância elétrica. Holter: ECG de 24h que consegue flagrar ritmos irregulares ao longo do dia. Sem onda P, ritmo irregular, QRS estreito, alternância elétrica (= alternância da amplitude do QRS) e onda f (= irregularidade da linha de base). » Indicar as causas! Radiografia de tórax Ecocardiograma RNM do coração (ex., miocardite, amiloidose) Laboratório: eletrólitos, função renal, TSH, glicemia de jejum CLASSIFICAÇÃO » Quanto ao tempo de evolução: Paroxística: episódios com duração < 7 dias e reversão espontânea ou com intervenção. Persistente: duração > 7 dias incluindo aquelas com intervenções > 7 dias. Persistente de longa duração: duração > 1 ano com intenção de manter o ritmo sinusal. Permanente: falha em tentativas de cardioversão ou opção por não tentar cardioversão. Cardioversão é a aplicação de eletricidade de forma sincronizada para terminar um ritmo ainda viável (por exemplo, TV com pulso, taquicardias supraventriculares, incluindo arritmias atriais) para permitir o reinício de um ritmo sinusal normal. » Quanto a causa: FA isolada (‘’Lone AF’’): coração normal e sem fatores desencadeantes aparentes. Emmanuel Pacheco 2 FIBRILAÇÃO ATRIAL » Quanto ao acometimento valvar: FA valvar x FA não valvar: é valvar se está associada a estenose mitral moderada/grave ou prótese valvar mecânica em qualquer uma das valvas. Obs.: essas duas ultimas classificações não são mais recomendadas pela diretriz, porém na prática ainda é muito utilizada. TRATAMENTO 1. Complicações tromboembólicas. 2. Sinais e sintomas decorrentes de alterações do ritmo cardíaco. 1) Tratamento das Complicações Tromboembólicas: » CHA₂DS₂VASC: avalia risco de tromboembolismo. Escore que prediz a chance de o paciente ter AVC. » HAS-BLED: avalia risco de sangramento por anticoagulante. Escore que prediz a chance de o paciente ter sangramento. Obs.: INR normal = entre 2 e 3. » PREVENIR O TROMBOEMBOLISMO: 1º passo: avaliar risco de tromboembolismo! Estenose mitral moderada/grave. Próteses valvares mecânicas. Escore CHA₂DS₂VASC ≥ 3 na mulher ou ≥ 2 no homem. Atualmente, CHA₂DS₂VASC 0 para homem ou 1 para mulher (baixo risco) é contraindicado anticoagular! Se 1 no homem ou 2 na mulher, deve-se avaliar a possibilidade da terapia antitrombótica com o HAS-BLED (se alto risco de sangramento, não anticoagula). Se CHA₂DS₂VASC ≥ 2 no homem ou ≥ 3 na mulher tem indicação de anticoagular, pois o risco de tromboembolismo é alto. Obs.: toda FA valvar apresenta alto risco de fenomenos tromboembólicos, logo deve iniciar terapia antitrombótica. 2º passo: escolher o anticoagulante oral! » ANTICOAGULANTES ORAIS: Warfarin (Marevan ®) – ajuste da dose conforme INR (entre 2 e 3) - inibe os fatores de coagulação dependentes da vitamina K, ou seja, fatores 2, 5, 7, 9 e 10. Antidoto é a vitamina K. Dabigatran (Pradaxa ®) – 110-150 mg 12/12h. Rivaroxaban (Xarelto ®) – 20 mg, 1x/dia, dose única. Apixaban (Eliquis ®) – 5 mg 12/12h - melhor perfil de eficácia. Obs.: INR largo = quantas vezes o sangue está mais fino (isto é, mais anticoagulado) que o controle. INR = 2,5 = anticoagulado. Apixaban – inibe o fator Xa // Dabigatran – inibe o fator IIa. NOACs (dabigatran, rivaroxaban, apixaban e edoxaban) são recomendados ao invés da warfarina em pacientes com fibrilação atrial (exceto nos pacientes com moderada/grave estenose mitral ou valva cardíaca mecânica). FA valvar = alto risco = tem que anticoagular = o tratamento deve ser com warfarina e não com NOACs. PORTANTO: Todo paciente deve usar NOACs, exceto aqueles com FA valvar ou pacientes sem condições de pagar por eles. FA valvar, má adesão ao tratamento = warfarin. Todos os demais devem preferir os NOACs. 2) Tratamento dos Sinais e Sintomas: » CONTROLE DE RITMO: tratar para manter ritmo sinusal! Cardioversão elétrica: interromper a reentrada sincronizada com a onda R – despolarização em cima da despolarização. Só é indicada se FA aguda < 48h, sinais de instabilidade ou > 48h com anticoagulação por 3-4 semanas. Amiodarona: único que se usa quando o paciente tem alguma alteração estrutural cardíaca ou IRC. Sotalol: betabloqueador e antiarrítmico. Propafenona: agente antiarrítmico usado quando não há nenhuma lesão cardíaca estrutural. Ablação por cateter: procedimento minimamente invasivo no qual se passa um cateter pelos vasos sanguíneos até o coração para destruir as vias elétricas anormais do coração. Desvantagem: baixa taxa de sucesso, efeitos colaterais dos antiarrítmicos. Indicação: FA sintomática apesar de controle de FC ou ao menos 1x nos < 65 anos. » Amiodarona: Única medicação disponível para controle de ritmo em pacientes com doença cardíaca estrutural e/ou insuficiência cardíaca. Maior sucesso em manter ritmo sinusal/ maior risco de efeitos colaterais (córnea, pulmão, fígado e tireoide). Mínima dose possível para manter o paciente em ritmo sinusal. Alto risco Emmanuel Pacheco 3 FIBRILAÇÃO ATRIAL» CONTROLE DE FREQUÊNCIA: tratar p/ manter FC normal Betabloqueadores: inotrópicos negativos (diminui DC). Bloqueadores de canal de cálcio: possui efeito inotrópico negativo, logo, não se deve usar em pacientes com disfunção ventricular esquerda ou IC descompensada. Digoxina: possui efeito inotrópico positivo, logo, é o único que se pode usar na FA aguda com disfunção ventricular como IC (má perfusão, congestão). Indicação: assintomáticos ou minimamente sintomáticos > 65 anos. 3) Tratamento da FA aguda Controle da frequência ventricular: verapamil, diltiazem, metoprolol ou digoxina. Controle do ritmo: < 48 horas. Instabilidade hemodinâmica – cardioversão elétrica. Realizar heparina endovenosa previamente. Em menos de 48h, a probabilidade de o paciente já ter formado trombo é pequena, logo, pode-se cardioverter o paciente com maior segurança. No entanto, se o quadro já dura > 48h, há maior chance de o paciente já ter formado trombo, logo, ao cardioverter, esse trombo pode sair do coração, alcançar a circulação e causar um AVC, por exemplo. Após a cardioversão, deve-se anticoagular novamente o paciente! QUANDO ENCAMINHAR? Sempre! SISTEMATIZAÇÃO DO TRATAMENTO: CC To ABC Confirme FA. Caracterize a FA: Risco de AVC através do CHA₂DS₂VASC Sintomas Severidade do disparo da FA (classificação quanto ao tempo) Substrato (fatores de risco, idade, comorbidade) Trate a FA pelo ABC: A – Anticoagulação. B – Melhor controle dos sintomas (controle de risco ou frequência) C – Comorbidades/Fatores de risco cardiovasculares Emmanuel Pacheco 1 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS ANGINAS INSTÁVEL E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO SEM SUPRA DO ST AVALIAÇÃO E CONDUTAS NA EMERGÊNCIA A dor torácica aguda é uma das causas mais frequentes de atendimento nas unidades de emergência, correspondendo a mais de 5% das entradas e até 10% das visitas não relacionadas a traumatismos. A incidência de dor torácica varia entre 9 e 19 por 1.000 pessoas/ano atendidas em UE e pode representar até 40% das causas de internação hospitalar. A maioria desses pacientes recebe alta com diagnóstico de dor torácica não especificada ou causa não cardíaca; no entanto, cerca de 25% dos pacientes internados apresentam diagnóstico final de síndrome coronariana aguda (SCA). A dor torácica é o principal sintoma em um paciente com SCA. O ECG deve ser realizado e interpretado nos primeiros 10 minutos do contato médico em pacientes suspeitos para SCA, e seus achados podem diferenciar o paciente em dois grupos: SCACSST: SCA com supradesnivelamento do segmento ST, condição geralmente relacionada com oclusão coronariana total e necessidade de reperfusão imediata. SCASSST: SCA sem supradesnivelamento do segmento ST, geralmente relacionada a oclusão coronariana subtotal. Obs.: A principal causa de morte do paciente com IAM são as arritmias (principalmente, fibrilação atrial). Por isso, o 1º exame a se fazer é o ECG (primeiros 10 minutos da chegada na emergência). EPIDEMIOLOGIA O IAM é a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Em 2017, segundo o DATASUS, 7,06% (92.657 pacientes) do total de óbitos foram causados por IAM. O IAM representou 10,2% das internações no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo mais prevalente em pacientes com idade superior a 50 anos, em que representou 25% das internações). No registro BRACE, que avaliou as internações por SCA em 72 hospitais no Brasil, as SCASSST representaram 45,7% das internações, das quais 2/3 ocorreram por IAM e 1/3 por AI. FISIOPATOLOGIA A principal característica fisiopatológica da SCA é a instabilização da placa aterosclerótica, envolvendo erosão ou ruptura e subsequente formação de trombo oclusivo ou suboclusivo. Tal limitação de fluxo, no entanto, pode ocorrer por outros mecanismos como vasospasmo, embolia, dissecção coronariana ou fatores que alterem a (↓) oferta e/ou o (↑) consumo de oxigênio miocárdico, tais como: Causas cardíacas: taquiarritmias (supraventricular ou ventricular), cardiomiopatia ventricular, estenose aórtica, cardiomiopatia dilatada, hipertensão arterial. Causas não-cardíacas: anemia, Policitemia, hipertermia, pneumonia, asma, DPOC, hipoxemia, hipertideoidismo, ansiedade, apneia do sono, cocaína, crack (toxicidade simpatomimética). A função ventricular sofre alterações decorrentes da progressão da isquemia miocárdica, ocorrendo disfunção diastólica inicialmente, seguida ou não por disfunção sistólica. Obs.1: Forma clássica de infarto = ruptura da placa aterosclerótica com formação de trombo. Por isso, a maioria tem início súbito. Obs.2: O vasospasmo pode ocorrer devido ao uso de drogas como cocaína e/ou ao estresse demasiado. Determinantes da isquemia miocárdica: trombo, espasmo coronário ou vasoconstricção, progressão da placa, desequilíbrio oferta/consumo de O2. Componentes fisiopatológicos: 1. Placa aterosclerótica ‘’vulnerável’’ = não limita muito o fluxo e a maioria forma obstruções moderadas; possui maior risco de romper e mais facilmente forma trombo pois é uma placa rica em colesterol, mais ‘’mole’’, histologicamente jovem e com capsula fibrosa fina, infiltrada com monócitos/macrófagos. 2. Erosão ou ruptura da placa; 3. Formação do trombo (adesão e agregação plaquetária, ativação dos fatores de coagulação e fatores endoteliais); 4. Limitação ao fluxo coronariano; 5. Isquemia miocárdica. SCASSST Paciente com dor torácica aguda sem supradesnivelamento persistente do segmento ST, associado ou não a outras alterações de ECG que sugerem isquemia miocárdica, tais como: Elevação transitória do segmento ST; Infradesnivelamento transitório ou persistente do ST; Inversão de onda T; Outras alterações inespecíficas da onda T (plana ou pseudonormalização) e; Até mesmo ECG normal. Neste grupo, estão os pacientes com angina instável (AI), ou seja, com isquemia miocárdica, mas sem alterações de marcadores de necrose miocárdica, e aqueles com infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST (IAMSSST), quando há elevação de marcadores de necrose miocárdica. O diagnóstico de IAMSSST é confirmado quando da presença de isquemia na lesão miocárdica aguda, confirmada por elevação nos níveis de troponina. A definição de IAM implica a presença de lesão miocárdica aguda em um contexto clínico de isquemia miocárdica: Sintomas sugestivos de isquemia miocárdica aguda; Nova alteração isquêmica no ECG; Nova onda Q patológica no ECG; Exame de imagem evidenciando nova alteração de contratilidade ou perda de miocárdio viável consistente com etiologia isquêmica; Identificação de trombo intracoronário por angiografia ou necrópsia; Situações em que ocorre elevação de marcadores de necrose miocárdica, na ausência de isquemia detectada por quadro clínico, ECG ou exames de imagem, devem ser definidas como lesão miocárdica, e não IAM. A elevação dos níveis de troponina pode ser secundária à isquemia miocárdica ou às situações de lesão miocárdica. Emmanuel Pacheco 2 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST Causas de lesão miocárdica: Lesão miocárdica de etiologia isquêmica: ruptura ou erosão de placa arterosclerótica com trombose. Lesão miocárdica relacionada com isquemia miocárdica por desequilíbrio entre oferta/consumo de oxigênio: Redução na perfusão miocárdica: Espasmo arterial coronariano, Doença coronariana microvascular, Embolismo coronariano, Dissecção coronariana, Bradiarritmia sustentada, Hipotensão ou choque, Falência respiratória, Anemia grave Aumento no consumo de oxigênio: Taquiarritmia sustentada, Crise hipertensiva. Lesão miocárdica poroutras condições cardíacas não isquêmicas: insuficiência cardíaca, miocardite, cardiomiopatias de qualquer tipo, síndrome de Takotsubo, procedimento de revascularização miocárdica, ablação miocárdica por cateter, desfibrilação ou cardioversão elétrica, contusão miocárdica. Lesão miocárdica por condições sistêmicas: sepse ou processo infeccioso ativo, doença renal crônica, acidente vascular cerebral (AVC) e hemorragia subaracnóidea, embolia pulmonar e hipertensão pulmonar, doença miocárdica infiltrativa (p. ex., Amiloidose, sarcoidose), agentes quimioterápicos, doente crítico e atividade física extrema. MINOCA Os casos de IAM sem a presença de doença arterial coronariana (DAC) obstrutiva são classificados como MINOCA (do inglês, myocardial infarction with non-obstructive coronary arteries). Cerca de 2/3 dos pacientes com MINOCA têm apresentação clínica de IAMSSST (infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST). Os critérios diagnósticos para MINOCA são: IAM, documentação angiográfica com ausência de DAC obstrutiva (ateromatose com estenose < 50% ou coronária normais) e nenhuma causa clinicamente evidente não coronariana que justifique a apresentação aguda. Possui diferentes mecanismos fisiopatológicos como: Disfunções coronárias epicárdicas (p. ex., ruptura de placa aterosclerótica, ulceração, fissuração, erosão ou dissecção coronária). Desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio (p. ex., espasmo coronariano e embolia coronariana). Disfunção endotelial coronariana (p. ex., doença microvascular). O grupo de pacientes que se apresenta com elevação de troponina na ausência de obstrução coronariana e manifestações clínicas de infarto é classificado como portador de TINOCA (do inglês, troponin-positive nonobstructive coronary arteries), contemplando aqueles com lesão de etiologia isquêmica (MINOCA) e as demais etiologias descritas de lesão miocárdica não isquêmica. AVALIAÇÃO INICIAL a) Abordagem Inicial: Pacientes com suspeita de SCA e sinais de gravidade (dor persistente, dispneia, palpitações decorrentes de arritmias potencialmente graves e síncope) devem ser encaminhados para serviços de emergência, idealmente monitorados em ambulância. Pacientes sem sinais de gravidade podem ser orientados a procurar por meios próprios o serviço de emergência mais próximo com capacidade de realizar ECG e dosagem de biomarcadores cardíacos. Pacientes com SCA devem ser prontamente avaliados quanto ao seu risco de complicações isquêmicas e hemorrágicas. b) Diagnóstico e Avaliação Prognóstica: b.1) Caracterização da dor torácica e angina: A dor torácica típica é a dor anginosa, caracterizada por: Tipo: descrito como pressão, aperto, peso ou queimação. Localização: precordial/retroesternal. Irradiação: epigástrio, mandíbula, pescoço, braços e ombro (mais comumente para o esquerdo). Duração: variável. Intensidade: pode aumentar em poucos minutos. Fatores de intensificação ou alívio: os sintomas classicamente aparecem ou se intensificam ao esforço. Sintomas típicos associados: palidez, pele fria, sudorese, dispneia, náuseas. Presença de fatores de risco cardiovasculares: tabagismo, diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, etilismo disfunção renal, sedentarismo, estresse, maus hábitos alimentares, patologias cardiovasculares e encefálicas, uso de fármacos, alterações do sono, herança genética. Apresentação das doenças coronarianas: Angina estável (crônica): desencadeada por exercício, tempo frio ou estresse emocional. Atenuada com nitrato. Duração de 2 a 10 minutos. Angina instável ou em repouso (aguda/agudizada): geralmente < 20 minutos. Baixa tolerância ao esforço, padrão crescente. Infarto agudo do miocárdio com ou sem supra ST: início súbito. Geralmente durando > 30 minutos, com frequência associa- se a dispneia, fraqueza, palidez, náuseas ou vômitos. Obs.: Toda AI deve ser avaliada como suspeita de infarto. Pacientes com SCA podem se apresentar com sintomas atípicos, tais como dor epigástrica isolada, sensação de plenitude gástrica, dor perfurante, dor pleurítica ou dispneia. Dor torácica atípica: Dor pleurítica (movimentação-dependente). Localização principal ou isolada na região inferior do abdome. Dor que pode ser localizada com a ponta do dedo, com movimento ou palpação no tórax. Episódios muito breve (poucos segundos). Dor constante que persiste por muitas horas, dias, semanas. Dor que se irradia para as extremidades inferiores. A ocorrência de apresentações atípicas é maior em mulheres (pós- menopausa), idosos, diabéticos e pacientes com insuficiência renal. Emmanuel Pacheco 3 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST b.2) SCASSST no idoso: Os idosos com SCA geralmente apresentam perfil de risco diferente dos não idosos: têm maior prevalência de hipertensão arterial, diabetes melito, IAM prévio, angina, doença vascular periférica, acidente vascular cerebral (AVC), doença multiarterial e insuficiência cardíaca. Na SCASSST, em vez de dor, frequentemente apresentam os chamados “equivalentes isquêmicos”, isto é, a SCA pode se apresentar sem dor torácica propriamente dita, mas com: Dor na mandíbula ou no ombro, na ausência de dor torácica; Dispneia súbita e por vezes de moderada a intensa; Tonturas, náuseas ou diaforese; Estado confusional (rebaixamento do nível de consciência); Desconforto gastrointestinal; Síncope/lipotimia. b.3) História Pregressa: A recorrência de angina após cirurgia de revascularização do miocárdio (CRVM) ou intervenção coronária percutânea (ICP) pode significar o desenvolvimento de complicações agudas, novas lesões, trombose do stent ou reestenose. A presença de três ou mais fatores de risco para DAC (doença arterial coronariana como hipertensão arterial sistêmica, diabetes, dislipidemia, história familiar e tabagismo, constitui marcador independente de pior prognóstico. b.4) Exame Físico: O exame físico auxilia na identificação de indivíduos de maior risco (aqueles com sinais de disfunção ventricular grave ou complicações mecânicas) e no diagnóstico diferencial da dor torácica não relacionada com SCA. Entre os achados de mau prognóstico, destacam-se a presença de sopro sistólico em foco mitral, taquicardia, taquipneia, hipotensão, sudorese, pulsos finos, terceira bulha e estertores pulmonares. O que não pode faltar no exame do paciente infartado ou com risco de infarto? Ausculta cardíaca e pulmonar e medição da PA! Uma das complicações é o aparecimento de estertores pulmonares. Dica: comece sempre pelos sinais vitais! (FC, frequência de pulso, PA). Diagnóstico diferencial de SCA com outras causas de dor torácica pelo exame físico: Cardíacas: pericardite (atrito pericárdico), tamponamento cardíaco (pulso paradoxal), estenose aórtica (sopro sistólico aórtico), miocardiopatia hipertrófica (sopro sistólico ejetivo paraesternal que aumenta com manobra de Valsalva). Não cardíacas: dissecção de aorta (divergência de pulso e pressão entre os braços e sopro diastólico de insuficiência aórtica), embolia pulmonar/infarto pulmonar (atrito pleural), pneumotórax (murmúrio vesicular diminuído e timpanismo à percussão), musculoesquelética (dor à palpação). b.5) Eletrocardiograma: 1. Todos os pacientes com suspeita de SCASSST devem realizar ECG. Idealmente, o ECG deve ser realizado em até 10 minutos após a chegada do paciente ao hospital. 2. Presença de Infradesnível de ST > 0,5 mm está associada a alto risco de eventos cardíacos em pacientes com SIMI. 3. Inversão da onda T > 2 mm ou ondas Q patológicas apresentam risco intermediário de eventos. 4. Alterações dinâmicas do segmento ST (depressão ou elevação do ST ≥ 1 mm, e/ou inversões da onda T) que se resolvem pelo menos parcialmente quando os sintomas são aliviados sãomarcadores de prognóstico adverso. 5. Alterações inespecíficas: desvios menores do segmento ST e inversão da onda T de ≤ 2 mm ou 0,2 mV). 6. Na suspeita isquêmica, um ECG normal não exclui SCA (2 a 4% de risco), apesar de melhor prognóstico. Tem valor preditivo negativo de 80-90% independente de estar sentindo dor torácica ou não no momento. 7. ECGs seriados melhoram a acurácia diagnóstica. Obs.: Em elevações difusas do segmento ST e inversão do segmento PR, pesquisar pericardite aguda. Obs.2: O ECG clássico de infarto é quando tem supra ou infradesnivelamento do ST. O paciente com ECG alterado, se tiver marcador alterado = infarto. Obs.3: Quando a alteração é só isquemia = altera onda T. Se a isquemia evoluir para lesão/injúria, altera ST. Quando a alteração evoluir para necrose, haverá Q patológica. ECG na cardiopata isquêmica: 1. Isquemia; 2. Lesão; 3. Necrose. Análise topográfica das manifestações isquêmicas ao ECG: Parede inferior = D2, D3, aVF. Parede antero-septal = V1 a V3 Parede anterior = V1 a V6 (v3-v4 anterior médio) Parede posterior ou dorsal = V7, V8 e V9. Parede direita = V3R, V4R Parede lateral alta = D1 e aVL. Parede lateral baixa = V5 e V6. Deve haver comprometimento de pelo menos 2 derivações contiguas da mesma parede = lesão de parede. Derivações extra: V3R-V4R = mesmas derivações só que do ventrículo direito. V7-V9 = suspeita de infarto de parede posterior. Quando fazer as derivações de parede direita? A parede do VD é irrigada pela coronária direita que vai para parede inferior. Se tiver IAM de parede inferior ou suspeita (D2, D3, aVF), deve ser feito as precordiais direitas pois o paciente pode tá infartando parede inferior e posterior. IAM de VD se trata diferente!! Emmanuel Pacheco 4 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST Acomete parede lateral alta (D1 e aVL). Atenção: isquemia = olhar onda T Atenção: Olhar ST! Infra em D2 e aVF = parede inferior + infra em parede anterior. Infra de V2, V3, V4, V5 e V5, D1 e aVL = Acometimento da parede anterior extensa e lateral alta. Não pegou parede inferior. Atenção: tem necrose? Não, pois não há onda Q patológica. R não cresceu porque já necrosou. Atenção: necrose = onda Q. b.6) Biomarcadores: Marcadores bioquímicos são úteis para auxiliar tanto no diagnóstico quanto no prognóstico de pacientes com SCA. Quando as células miocárdicas sofrem lesão, suas membranas celulares perdem a integridade, as proteínas intracelulares se difundem no interstício e vão para os linfáticos e capilares. Os principais são a troponina e CK-MB. » Troponinas: As troponinas são proteínas do complexo de regulação miofibrilar presentes no músculo estriado cardíaco (mais cardioespecíficas). Elas permanecem elevadas por tempo mais prolongado, podendo permanecer elevadas por até 7 dias depois do IAM. São a primeira escolha para avaliação diagnóstica de pacientes com suspeita de IAM, pois apresentam acurácia diagnóstica superior à da CK-MB massa e dos demais biomarcadores de lesão miocárdica. Apesar da identificação acurada de lesão miocárdica pelas troponinas, elas não identificam o(s) mecanismo(s) de lesão; estes podem ser múltiplos, incluindo etiologias não coronarianas como taquiarritmias e miocardite, ou ainda condições não cardíacas, como sepse, embolia pulmonar e insuficiência renal. A maior limitação das troponinas convencionais é sua baixa sensibilidade quando o paciente tem um tempo de início do quadro inferior a 6h. Com a introdução das troponinas de alta sensibilidade (Trop-US), passou a ser possível a detecção de níveis mais baixos de troponina, em menor tempo após início do quadro de lesão miocárdica de causa isquêmica. » Creatinoquinase MB (CK-MB): São marcadores precoces (menos de 6h) da lesão miocárdica e de inferência precoce da magnitude do IAM. No entanto, a CK-MB massa apresenta como principal limitação elevar-se após dano em outros tecidos não cardíacos (falso- positivos), especialmente após lesão em músculo liso e esquelético. Obs.: Troponina (leva 1 semana para abaixar após resolução do infarto; mais específica do miocárdio). CK-MB (abaixa em 48-72h; não é específica de miocárdio; melhor para avaliação de reinfarto). Obs.2: Troponinas elevadas e CK-MB normal = pode ser ‘’microinfartos’’ ou algum grau de necrose. Emmanuel Pacheco 5 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST b.7) Exames de Imagem Não Invasivos na Emergência: Os principais são o ecocardiograma e a angiotomografia que, não prática, não se faz em emergências. O ecocargiograma transtorácico deve ser realizado no diagnostico diferencial, quando houver suspeita clínica de doenças de aorta, doenças do pericárdio, embolia pulmonar e valvopatias. Em pacientes com dor torácica aguda de probabilidade baixa a intermediária de DAC, com ECG não diagnostico e marcadores de necrose miocárdica negativos, recomenda-se angio-TC das artérias coronárias. c) Estratificação De Risco: c.1) Escore de risco de eventos isquêmicos cardíacos: O escore TIMI (Thrombolysis In Myocardial Infarction), usa os seguintes marcadores independentes de pior prognóstico em pacientes com SCASSST: Idade ≥ 65 anos; Elevação de marcadores bioquímicos; Depressão do segmento ST ≥ 0,5mm; Uso de AAS nos 7 dias prévios aos sintomas; Presença de três ou mais fatores de risco para DAC (HAS, hipercolesterolemia, DM, tabagismo, história familiar); DAC conhecida > 50% 2 episódios de angina grave recente (< 24h). Conferindo um ponto para cada um desses itens, o paciente é classificado em baixo risco (escore de 0 a 2), risco intermediário (escore de 3 a 4) ou alto risco (escore de 5 a 7). O escore HEART avalia o risco de um evento cardíaco maior (infarto, revascularização ou morte) em 6 semanas após sua apresentação inicial em pacientes atendidos com dor torácica. c.2) Estratificação de Risco de Sangramento: O escore CRUSADE (Can rapid risk stratification of unstable angina patients supress adverse) tem uma acurácia relativamente alta para estimar o risco de sangramento por incorporar variáveis de admissão e de tratamento. Critérios de baixo risco: sem dor e clinicamente estável, ECG normal ou sem alterações agudas, marcadores bioquímicos não elevados. d) Fluxograma De Rotina Diagnóstica Na Emergência E Critérios Para Hospitalização: A triagem da dor torácica no serviço de emergência é baseada em uma breve história clínica, exame físico, ECG de 12 derivações em até 10min após chegada e mensuração de biomarcadores. Além disso, a incorporação de escores de risco aplicáveis na sala de emergência, que integram dados demográficos, sintomas, achados eletrocardiográficos e biomarcadores, representa uma importante ferramenta de auxílio para o emergencista na avaliação dos pacientes com dor torácica. O mais utilizado é o HEART. O escore HEART de 0 a 3 permite identificar pacientes com baixo risco, exibindo alta sensibilidade e valor preditivo negativo, enquanto pacientes com escore de 7 a 10 apresentam alto risco com uma taxa de eventos superior a 50% em 6 semanas. Emmanuel Pacheco 6 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST TRATAMENTO Trata-se apenas pacientes com risco alto e moderado!! a) Indicações de Estratégia Invasiva Emergencial: Está indicada em situações de muito alto risco de morte. Nesses pacientes, está indicada a intervenção coronariana em até 2h. b) Tratamento Inicial (sala de emergência/ambulância): b.1) Oxigênio Suplementar Oxigenoterapia (2 a 4L /min) é indicada em pacientes com risco intermediário e alto e com sinais clínicos de desconfortorespiratório ou hipóxia com SaO₂ < 90% por 3h ou mais. Em geral, manter por até 4h após o desaparecimento da dor. Manutenção de oxigenioterapia se: Congestão pulmonar; Cianose; Hipoxemia arterial comprovada ou insuficiência respiratória (acompanhada por gasometrias seriadas); A administração de O₂ desnecessária pode causar vasoconstrição sistêmica e ser prejudicial. Na dispneia com persistência de congestão pulmonar e hipoxemia, cogitar o suporte ventilatório não invasivo (VNI). b.2) Analgesia e Sedação: A dor precordial e a ansiedade costumeiramente associada, presentes nas SCA, geralmente levam à hiperatividade do sistema nervoso simpático. Esse estado hiperadrenérgico, além de aumentar o consumo miocárdico de oxigênio, predispõe ao aparecimento de taquiarritmias atriais e ventriculares. O Sulfato de Morfina poderá ser utilizada em casos refratários ou com contraindicação aos nitratos ou betabloqueadores. Deve ser administrado IV, de 2 a 4 mg diluídos a cada 5 minutos até, no máximo, 25 mg. Efeitos adversos: hipotensão e depressão respiratória. Em caso de hipersensibilidade a morfina, pode-se substituir por sulfato de meperidina em doses fracionadas de 20 a 50 mg IV. Obs.: evitar morfina em infarto de VD! Obs.2: Se o paciente estiver em uso prévio de AINE, estes devem ser suspensos durante a internação devido aos efeitos deletérios associados a elevação da pressão arterial, risco de lesão renal aguda e hiperviscosidade sanguínea com piora do prognóstico. b.3) Controle Glicêmico: Mais de 30% dos pacientes admitidos com IAM apresentam diabetes melito ou desconhecem o diagnóstico de diabetes. Diabéticos apresentam maiores taxas de sangramento e pior prognóstico em 30 dias, se comparados a normoglicêmicos. Protocolos devem ser instituídos para pacientes com IAM que apresentem hiperglicemia significativa (> 180 mg/dL). O alvo dessa terapia é reduzir os níveis glicêmicos e evitar episódios de hipoglicemia (< 70 mg/dL), que podem causar diversos efeitos deletérios incluindo a expansão da área de IAM. Atenção para pacientes idosos, nefropatas e com efeito residual de hipoglicemiantes orais e/ou em jejum!! b.4) Terapia Anti-isquêmica: O objetivo da terapêutica anti-isquêmica é reduzir o consumo de oxigênio (diminuindo a frequência cardíaca, a pressão arterial e a contratilidade miocárdica) ou aumentar a oferta de oxigênio (administrando oxigênio ou promovendo vasodilatação). » Nitratos: Atuam na circulação periférica e coronária. O seu efeito venodilatador, diminuindo o retorno venoso ao coração e o volume diastólico final do ventrículo esquerdo, reduz o consumo de oxigênio pelo miocárdio. Adicionalmente, observam-se efeitos de vasodilatação de artérias coronárias, normais ou ateroscleróticas, redirecionamento de fluxo intercoronário, com aumento da circulação colateral e inibição da agregação plaquetária. Além disso, agem reduzindo a congestão pulmonar, principalmente pela redução do retorno venoso sistêmico. Emmanuel Pacheco 7 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST O tratamento é iniciado administrando-se o nitrato por via sublingual (nitroglicerina [0,4 mg/comp.], mononitrato ou dinitrato de isossorbida [5 mg/comp.] – não devem ultrapassar 3 comprimidos, separadas as administrações por intervalos de 5 minutos). Caso não haja alívio rápido da dor, esses pacientes podem se beneficiar com a administração intravenosa de nitroglicerina em dose de 10μg/ min com incrementos de 10μg a cada 5min até obter-se melhora sintomática ou redução da PA. Obs.: a queda da PAS não deve ser > 20 mmHg ou PAS não atingir < 110mmHg), ou então aumento da FC (> 10% da basal). Os nitratos estão contraindicados na presença de hipotensão arterial importante (pressão arterial sistólica [PAS] < 100mmHg) ou uso prévio de sildenafil (= viagra) nas últimas 24h, ou uso de tadalafila nas últimas 48h. » Betabloqueadores: Inibem competitivamente os efeitos das catecolaminas circulantes diminuindo FC, PA e a contratilidade miocárdica, provocando redução do consumo de oxigênio pelo miocárdio. Recomenda-se o uso rotineiro de betabloqueador oral nos pacientes sem contraindicação. Suas contraindicações são: Na disfunção ventricular esquerda; Nos pacientes com FR para choque cardiogênico (idade > 70 anos ou FC > 110 bpm ou PAS < 120 mmHg). Em pacientes que evoluem com disfunção ventricular (FEVE < 40%) o emprego de betabloqueadores é muito recomendado (carvedilol, bisoprolol e succinato de metoprolol) em pacientes sem congestão pulmonar. Não devem ser utilizados em pacientes com sintomas relacionados a vasospasmo por uso de cocaína durante intoxicação aguda. Em pacientes com asma ou DPOC, são contraindicados apenas na vigência de broncospasmo – nessa situação, betabloqueadores beta-1 seletivo são preconizados. Metoprolol: VO – 25 mg 12/12h ou a metade da dose. Metoprolol: IV – 5mg (1 a 2min) a cada 5 min até completar a dose máxima de 15mg. VO – 50 a 100mg a cada 12h, iniciado 15 min após a última administração IV. Atenolol: VO – 25 mg 12/12h ou na metade da dose. Atenolol: IV – 5mg (1 a 2min) a cada 5min até completar a dose máxima de 10mg. VO – 25 a 50mg a cada 12h, iniciado 15min após a última administração IV. b.5) Terapia Antitrombótica Inicial: » Antiplaquetários Orais: A instabilidade da placa aterosclerótica coronariana com subsequente ativação plaquetária e trombose, é um mecanismo de deflagração das SCA. Esse conceito direcionou os estudos na terapia antiplaquetária e o conceito atual da dupla terapia com AAS e um fármaco inibidor de receptor plaquetário P2Y12 na SCA. Ácido acetilsalicílico; Clopidogrel; Prasugrel; Ticagrelor. - Ácido Acetilsalicílico (AAS): Dose de ataque: 150 a 300 mg (200 mg) para todos os pacientes, salvo contraindicações. Dose de manutenção: 75 a 100 mg/dia, independente da estratégia de tratamento, por tempo indeterminado. - Bloqueadores de P2Y12 (clopidogrel, ticagrelor e prasugrel): Devem ser considerados nos pacientes sem risco hemorrágico crítico, com risco isquêmico moderado ou elevado, com programação para realizar cinecoronariografia ou manuseio inicial conservador em terapia anti-isquêmica plena. Na ausência de contraindicações, deve-se considerar o uso preferencial de Prasugrel ou Ticagrelor, fármacos com rápido início de ação e maior eficácia antitrombótica, e a opção do clopidogrel na presença de risco hemorrágico muito elevado. Na decisão de pré-tratamento sem anatomia conhecida, está contraindicado o uso de prasugrel. Emmanuel Pacheco 8 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST Terapia antiplaquetária na Fase Hospitalar: » Antagonistas dos Receptores Glicoproteicos IIb/IIIA: A ativação dos receptores existentes na superfície das plaquetas, denominados glicoproteína (GP) IIb/IIIa, constitui-se no mecanismo final de agregação plaquetária, em consequência de alteração morfológica sofrida pelo receptor, que aumenta a sua afinidade para ligar-se à molécula de fibrinogênio, elemento que funciona como ponte de ligação entre duas plaquetas. O emprego dos bloqueadores da GP IIb/IIIa, como um terceiro antiagregante plaquetário, deve ser reservado para pacientes que não apresentem alto risco hemorrágico e que tenham alto risco isquêmico/trombótico por critérios clínicos e angiográficos. Os principais são: Abciximab e Tirofiban, » Anticoagulantes: Deve ser administrada o mais rápido possível em todos os pacientes com SCASSST, visto que sua utilização reduz as incidências de IAM e óbito, sendo empregada poucas horas após o diagnóstico. A escolha e o momento do anticoagulante são determinadospor estratégia de tratamento (abordagem invasiva ou conservadora), gravidade da apresentação clínica e particularidades de cada serviço. Nos pacientes com proposta de tratamento conservador inicial, recomenda-se o uso preferencial de enoxaparina ou fondaparinux. A enoxaparina não deve ser administrada em pacientes com clearance de creatinina < 15mL/min e o fondaparinux com clearance de creatinina < 20mL/min. Nos pacientes alocados para estratégia invasiva, existe a opção de uso da enoxaparina, fondaparinux e HNF. No subgrupo de pacientes de muito alto risco, com proposta de cateterismo imediato, a escolha da HNF pode reduzir a chance da ocorrência de transição de enoxaparina para HNF (cross over) e o conhecido maior risco hemorrágico dessa prática. O uso preferencial da enoxaparina versus HNF é sugerido pois foi demonstrado que a enoxaparina é mais eficaz que a HNF em prevenir o desfecho combinado de morte por qualquer causa ou sangramento grave em pacientes com SCASSST submetidos à ICP. HNF = heparina não fracionada. HBPM = heparina de baixo peso molecular = clexane. Na Fase Hospitalar: Emmanuel Pacheco 9 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST c) Tratamento durante a hospitalização: Além do tratamento já mencionado acima, faz-se uso também: c.1) Hipolipemiantes: Vários estudos comprovam os benefícios das terapias para a redução do colesterol em pacientes em prevenção secundária. Nos pacientes de alto risco, o benefício é independente dos níveis basais do LDL-C. Quando as estatinas não são toleradas em doses maiores e a meta não é atingida, uma opção é a associação da ezetimiba. Seu uso é preconizado em ALTAS doses (ex. atorvastatina 80 mg/dia, rosuvastatina 40 mg/dia e sinvastatina 40 mg/dia). Se o paciente possui muito alto risco, o alvo é LDL < 50 mg/dL. c.2) Inibidores do SRAA (IECA ou BRA): Todos os pacientes com risco intermediário ou alto de IC devem usar IECA. Inicia-se com baixas doses a fim de evitar hipotensão no paciente, o que poderia levar ao choque por roubo de fluxo das coronárias. Alguns estudos sugerem podem ser úteis na fase crônica após o episódio agudo pois melhoram o remodelamento cardíaco, melhoram a função do VE e diminuem a progressão para IC. c.3) Cinecoronariografia e estudo hemodinâmico: A coronariografia é comumente utilizada para diagnosticar e definir o tratamento para os pacientes com IAMCSST. Quando se trata de pacientes de “muito alto risco”, esses casos devem ser avaliados rapidamente, em menos de 2h, sendo em até 72h para os pacientes de “risco intermediário”. A estratégia invasiva permite o diagnóstico da DAC subjacente, a identificação da lesão, a orientação para o tratamento com medicamentos antitrombóticos e a avaliação da anatomia coronariana para ICP ou CRVM. c.4) Tratamento intervencionista para revascularização miocárdica (cirurgia de revascularização miocárdica e intervenção coronária percutânea): 1. Intervenção coronária percutânea (ICP) ou angioplastia (cateter balão + stent): indicada no infarto agudo. 2. Cirurgia de pontes de safena e mamária: indicado quando o comprometimento é triarterial, quando há lesão no tronco da coronária esquerda ou localização difícil para colocar stent. A principal diferença entre o cuidado do paciente com AI ou IAMSSST e o paciente com DAC crônica é a decisão mais rápida da indicação da revascularização miocárdica. Na fase aguda, essa rapidez na tomada de decisão é importante no quadro clínico de isquemia miocárdica para prevenir potenciais complicações cardiovasculares ou mesmo o óbito. Essas complicações são mais comumente reduzidas com o procedimento de revascularização que no tratamento clínico. Atualmente, o manuseio cirúrgico na coronariopatia aguda sem supradesnivelamento do segmento ST é semelhante ao da doença estável, ou seja, o mais importante é avaliar o momento ideal para a realização do procedimento, sem, necessariamente, realizar a cirurgia com urgência. » Estratégia de revascularização miocárdica: 1. Se invasiva: se precoce ou seletiva (tardia, após estabilização do quadro e restrita àqueles pacientes que apresentam provas funcionais alteradas). 2. Tratamento exclusivo da ‘’lesão culpada’’ (artéria infartada) ou revascularização multivascular (completa). Obs.: não há um único consenso. Preconiza-se que o procedimento invasivo ICP deva ser realizado pelo menos 24h após o desaparecimento dos sintomas (maior índice de sucesso, menos complicações maiores e eventos isquêmicos graves, após estabilização inicial). Obs.: a intervenção precisa ser rápida com cateterismo no IAM com supra pois há obstrução completa, enquanto no IAM sem supra não precisa ser imediata pois a obstrução é incompleta. IAM COM SUPRA DO ST Critérios Eletrocardiográficos para a caracterização: a) Necrose: Ondas QS (necrose transmural) ou QR (subepicárdica), acompanhadas de ondas T negativas, nas derivações que exploram a necrose. Emmanuel Pacheco 10 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST É preferível usar a terminologia eletrocardiográfica ‘’zona eletricamente inativa’’ ao invés de infarto do miocárdio antigo (ou cicatrizado). Obs.: Na ocorrência simultânea de infra e supra, deve-se valorizar mais o supra na hora do tratamento. b) Infarto Agudo do Miocárdio: Importante supra do ponto J e do segmento ST, com convexidade superior, nas derivações que exploram a área do infarto. Obs.: é preferível usar a terminologia ‘’lesão subepicárdica na área’’ ao invés de ‘’IAM na área ou parede tal’’. A e B= lesão epicárdica / C e D = lesão endocárdica. TRATAMENTO DO IAMCSST: Todo o tratamento visto acima serve para os dois, a diferença reside apenas na indicação para o cateterismo, que deve ser feito o mais rápido possível no IAMCSST, e no uso de trombolítico, que não é usado no IAMSSST, apenas no IAMCSST. » Classificação de Killip: avalia pacientes que sofreram IAM e suas chances de sobrevida em 30 dias, baseando-se nas complicações após o evento. a) Oxigenioterapia: Saturação O2 < 94% = máscara/cateter nasal (2 a 4 L/min); b) Analgesia: A analgesia deve ser precoce do IAM. O sulfato de morfina é o analgésico de escolha, por IV na dose de 2 a 4 mg, diluída, podendo ser repetida em intervalos de 5 a 15 minutos. Obs.: a morfina não deve ser feita no IAM de parede inferior pelo risco de hipotensão arterial grave e refratária. c) Nitratos: » Contraindicação: Pressão sistêmica < 90 mmHg; Queda da PA > 30 mmHg em comparação ao basal; Bradicardia ou taquicardia; Infarto do VD; Nos que tenham usado inibidores da fosfodiesterase para disfunção erétil nas ultimas 24 a 48 horas. d) Inibidores do SRAA: BRA: usado como alternativa ao IECA se houver FEVE < 40% e/ou sinais clínicos de IC (principalmente na intolerância ao IECA). e) Estatinas: * Ajuste para LDL-c < 50 mg/dL, mínima de <70 mg/dL. Emmanuel Pacheco 11 AI E IAM SEM E COM SUPRA DO ST f) Perfusão coronariana no IAMCSST: 1. Fibrinolíticos = trombolíticos; 2. ICP (intervenção coronária percutânea); 3. Revascularização cirúrgica; f.1) Fibrinolíticos: Dor sugestiva de IAM Duração > 20 minutos e < 12 horas não responsiva a nitrato; Supra do ST > 1 mm em pelo menos 2 derivações precordiais contíguas ou 2 periféricas adjacentes; Bloqueio de ramo (novo ou presumivelmente novo); Impossibilidade de ICP em tempo adequado; Ausência de contraindicação absoluta; Em locais sem recurso para realizar ICP (90 minutos) A TNK ou tPA são preferíveis a SK. Obs.: usadono paciente com dor com início de até 12h. Depois disso, não adianta mais usar o fibrinolítico. Obs.2: Não deverá ser usado se houver recurso para ICP em até 2h, pois, caso seja feito, o paciente irá sangrar durante a cirurgia. * TNK-tPA = é o mais específico de todos os fibrinolíticos. » Contraindicações absolutas: Qualquer sangramento intracraniano prévio AVC isquêmico nos últimos 3 meses Dano ou neoplasia no sistema nervoso central; Trauma significante na cabeça ou rosto nos últimos 3 meses; Sangramento ativo ou diátese hemorrágica (exceto menstruação); Qualquer lesão vascular cerebral conhecida (malformação arteriovenosa); Dissecção aguda de aorta; Discrasia sanguínea; » Contraindicações relativas: História de AVC isquêmica > 3 meses ou doenças intracranianas não listadas nas contraindicações absolutas; Gravidez; Uso atual de antagonista da vitamina K: quando maior o INR maior o risco de sangramento. Sangramento interno recente < 2-4 semanas; Ressuscitação cardiopulmonar traumática e prolongada ou cirurgia de grande porte < 3 semanas; Hipertensão arterial não controlada (pressão arterial sistólica > 180 mmHg ou diastólica > 110 mmHg) Punçoes não compressíveis; História de hipertensão arterial crônica importante e não controlada; Ulcera péptica ativa; Exposição previa a estreptoquinase; f.2) Intervenção Coronária Percutânea: » ICP após fibrinolítico: - ICP de resgate (imediata): Insucesso na melhora da isquemia após trombolítico; Insucesso no ECG (não redução de até 50% no supra do ST); - ICP eletiva: Em pacientes estáveis após administração do fibrinolítico (6 a 24 horas); » ICP sem uso prévio de fibrinolítico: - ICP primária: é feita com cateter balão (com ou sem stent) Ideal até 90 minutos após o diagnóstico do IAM; A ICP primária é preferencial se há uma contraindicação para fibrinólise ou na vigência de choque cardiogênico; » CONTATO MÉDICO: Contato médico (dor): ECG = 10 minutos. Contato médico (dor): fibrinólise = 30 minutos; Contato médico (dor): ICP primária = 90 minutos (hospital com hemodinâmica); Transferência: ICP 120 minutos (na impossibilidade = fibrinolítico) Obs.: transferência para um centro apto na aplicação da ICP primária é indicada para todos pacientes após fibrinólise. » Cinecoronariografia: critério de exclusão de ICP Impossibilidade de identificar com clareza o vaso coronário responsável pelo infarto. Infarto relacionado à oclusão de ramos secundários/terciários responsáveis pela irrigação de pequenas áreas do miocárdio. Vaso-alvo com fluxo anterógrado normal (TIMI classe 3) e percentual de estenose < 50%. A ICP não deve ser realizada em pacientes que não cumprem critérios anatômicos (lesão > 50% em TCE ou > 70% em artéria coronária principal) ou fisiológicos (por exemplo, RFF < 0,80) para revascularização. f.3) Revascularização cirúrgica: Anatomia coronariana desfavorável para ICP, presença de isquemia recorrente e disfunção severo da função ventricular. Insucesso da ICP com instabilidade hemodinâmica e/ou grande área de risco; Complicações mecânicas: ruptura do VE, CIV e insuficiência valvar mitral por disfunção ou ruptura de musculo papilar. Choque cardiogênico, se a anatomia é desfavorável à ICP. Pacientes estáveis candidatos a revascularização cirúrgica. IAM DE VENTRÍCULO DIREITO: Manutenção precoce da pré-carga. Redução da pós-carga do VD; Suporte inotrópico para o VD; Reperfusão precoce; Por sua influencia na pré-carga, nitratos, morfina e diuréticos podem reduzir o debito cardíaco e provocar hipotensão grave. Nesse caso, uma expansão volêmica (SF), normaliza a hipotensão e melhora o débito cardíaco. S/N suporte inotrópico drogas vasoativas (dobutamina) imediatamente. Emmanuel Pacheco 1 VARIZES E INSUFICIÊNCIA VENOSA CRÔNICA VARIZES E INSUFICIÊNCIA VENOSA CRÔNICA O sangue dos membros inferiores retorna ao coração através do sistema venoso. As veias apresentam válvulas que evitam o fluxo retrógrado, entretanto, quando estas se encontram incompetentes, ocorre aumento da pressão nesse sistema, podendo provocar o surgimento de varizes (veias dilatadas e tortuosas - irreversíveis). O refluxo persistente pode ocasionar alterações na pele (hiperpigmentação, lipodermatoesclerose, atrofia branca, ulceração) que pode evoluir com insuficiência venosa crônica (IVC). As principais queixas dos pacientes são relacionadas ao desconforto estético, além de sensação de peso, dor, edema e lesões cutâneas, devido à estase venosa (atenção: pulsos normais!). Entre os fatores predisponentes, os mais comuns são: idade a partir da puberdade, sexo feminino (devido ao estrogênio), multiparidade, obesidade, uso de anticoncepcional, ortostatismo prolongado (ex., certas profissões), hereditariedade. CLASSIFICAÇÃO CEAP A fim de padronizar o diagnóstico e as condutas para o refluxo no sistema venoso, formulou-se uma classificação baseada em sinais clínicos (C), etiológicos (E), anatômicos (A) e fisiopatológicos (P). O C (avaliação clínica) da classificação CEAP é feito através do exame físico, entretanto, os demais critérios (etiologia, anatomia e fisiopatologia) necessitam de exames complementares. Obs.: considera-se insuficiência venosa crônica a partir do CEAP 4. EXAMES COMPLEMENTARES O exame de escolha para estudar a etiologia (E), a anatomia (A) e a fisiopatologia do refluxo (P) é o Eco-Doppler venoso, por se tratar de um exame não-invasivo, sem necessidade de uso de contraste ou radiação, além de ter relativo baixo custo. Tem a desvantagem de ser operador dependente. Características clínicas (C) da classificação CEAP. A – CEAP 1, B – CEAP 2, C – CEAP 3, D – CEAP 4, E – CEAP 5 e F – CEAP 6. TRATAMENTO CLÍNICO A escleroterapia é o tratamento de escolha para os casos de CEAP 1. Pode ser feita através de um método químico por meio de aplicação de agentes esclerosantes (glicose hipertônica 75%, monoetalolamina 5%, polidocanol 0,5%). São contraindicações para essa técnica: hipersensibilidade ao agente, TVP recente, infecção e doença arterial grave. Outra opção seria um método físico (laser). A compressão elástica é fundamental para prevenção e terapêutica das varizes e da IVC. Pode ser feita com meias elásticas até o joelho (3/4), até a metade da coxa (7/8) ou meia-calça, dependendo da topografia da doença. Além disso, pode ser de suave compressão (15-20 mmHg), de média compressão (20-30 mmHg) ou de alta compressão (30-40 mmHg). Esta última é utilizada principalmente p/ pacientes pós-TVP, a fim de aumentar o fluxo venoso, acelerando a recanalização da veia e diminuindo as chances de recidiva. Nos casos de CEAP 6, onde há presença de úlcera em atividade, realiza-se curativo diário com soro fisiológico 0,9%, sabonetes líquidos antissépticos e substâncias que favorecem a granulação ou fazem desbridamento químico de fibrina. Se o paciente suportar, pode ser feita terapia elástica também. Após a cicatrização da úlcera, o paciente deve manter a compressão elástica por uso contínuo. A compressão elástica é contraindicada nos pacientes portadores de doença isquêmica nos membros inferiores. Uma variante desse mecanismo é o suporte inelástico, cujo modelo mais conhecido é a bota de Unna. Previne a formação de edema, bem como favorece a cicatrização da úlcera por possuir substâncias cicatrizantes em sua composição, no entanto, não pode ser utilizada em casos de infecção ou de isquemia nos MMII. Os flebotônicos (ou venotônicos) são utilizados no tratamento da insuficiência venosa e agem principalmente por terem efeito anti- inflamatório, o que melhora os sintomas de dor e desconforto nos membros inferiores, além de aumentarem o tônus venoso, com redução da estase na microcirculação. Osflavonoides são os principais representantes dessa classe. Flavonas (diosmina 450 mg) e flavanas (hesperidina 50 mg). Emmanuel Pacheco 2 VARIZES E INSUFICIÊNCIA VENOSA CRÔNICA TRATAMENTO CIRURGICO A cirurgia para o tratamento do refluxo no sistema venoso é reservada para os casos clínicos (C2-C6), onde a etiologia é primária (Ep), envolvendo as veias superficiais e perfurantes (As e Ap) e de fisiopatologia por refluxo (Pr). O tratamento cirúrgico das varizes superficiais de etiologia secundária pós-trombose ou pós-fístula fica reservado para casos selecionados, onde o sistema profundo encontra-se completamente recanalizado e a fístula tratada, respectivamente. São contraindicações para a cirurgia: doença arterial periférica (isquemia), comorbidades importantes (doença cardíaca, insuficiência renal), úlcera infectada, gravidez, linfedema do membro, trombose venosa profunda aguda. Procedimentos menos invasivos, como endolaser, radiofrequência e escleroterapia eco-guiada com espuma, ganham, cada vez mais, espaço no tratamento de varizes, sobretudo em pacientes com mais comorbidades. Emmanuel Pacheco 1 TROMBOFLEBITE SUPERFICIAL E TROMBOSE VENOSA PROFUNDA TROMBOFLEBITE SUPERFICIAL E TROMBOSE VENOSA PROFUNDA O fluxo no sistema venoso pode ser interrompido pela formação de um trombo (coágulo) no interior das veias. Quando esse trombo acomete uma veia superficial, dá-se o diagnóstico de tromboflebite superficial (TS). Já quando ocorre numa veia profunda, temos a situação de trombose venosa profunda (TVP). As veias superficiais se localizam abaixo da pele, na fáscia superficial. No membro superior, temos as veias cefálica, basílica, mediana do antebraço e suas tributárias. No membro inferior, são superficiais as veias safenas (interna e externa) e suas tributárias. Já as veias profundas são aquelas que acompanham as artérias tronculares e seus ramos (subclávia, axilar, braquiais, radiais, ulnares, arcos venosos palmares, digitais palmares, metacárpicas palmares, femorais, poplítea, tibiais, fibulares, digitais, metatarsais, plantares medial e lateral), além das veias musculares. ETIOPATOGENIA A formação de trombo no sistema venoso geralmente acontece em pacientes que se encontram na tríade de Virchow, caracterizada por: Lesão endotelial: pode acontecer, por exemplo, devido a uma cirurgia ou trauma (uma simples agressão sofrida pelos tecidos pode ser suficiente p/ disparar o gatilho da coagulação). Hipercoagulação: pode ser hereditário (trombofilia) ou adquirido (pós-operatório, câncer, puerpério, uso de ACO). Estase: ocorre em pacientes que se encontram com a mobilidade reduzida (pós-operatório, obesidade, acamados). Pacientes que se encontram em ≥ 1 dessas situações apresentam risco aumentado de desenvolverem trombo no sistema venoso. QUADRO CLÍNICO a) Tromboflebite Superficial: flogose no trajeto de uma veia superficial (dor, calor, rubor), somado ao endurecimento da veia à palpação. Está muito associada à lesão direta sofrida pelas veias do antebraço (lesão endotelial) nos casos de cateterismo venoso, mas pode acontecer também devido ao uso de anticoncepcional, puerpério, neoplasia, vasculite (hipercoagulação) ou em pacientes portadores de varizes (estase venosa). b) Trombose Venosa Profunda: dor e edema em membro, principalmente unilateral, em pacientes que se encontram nas situações clássicas de risco (tríade de Virchow). No exame físico do membro inferior, podem ser observados os sinais: 1. Moses: dor quando se comprime a musculatura da panturrilha contra os ossos da perna; 2. Homans: dorsiflexão passiva do pé com queixa de dor na panturrilha; 3. Pratt: presença de circulação colateral. Em até 50% dos pacientes, o quadro não será claro, devendo o diagnóstico ser confirmado através de exames complementares. EXAMES COMPLEMENTARES Nos casos de TS, o diagnóstico é clínico. Entretanto, pode ser solicitado o eco-Doppler venoso do membro acometido para confirmação do diagnóstico, assim como para estudar a extensão do trombo e o acometimento concomitante do sistema profundo. Já no TVP, o diagnóstico deve ser confirmado com o eco-Doppler venoso ou através da dosagem do D-dímero (este principalmente para pacientes ambulatoriais, já que, para pacientes hospitalizados, a especificidade desse exame é reduzida devido a várias punções ou procedimento cirúrgico). COMPLICAÇÕES Geralmente, a TS é de evolução benigna e de caráter autolimitado com duração de 6 semanas. A principal complicação é a progressão do coágulo p/ sistema profundo, podendo evoluir p/ tromboembolia pulmonar (TEP). A possibilidade de progressão é maior quando há acometimento da veia safena interna ao nível da coxa proximal. A TVP tem como principal complicação o TEP, mas também pode evoluir com a insuficiência venosa crônica (IVC), devido à fibrose residual prejudicar o funcionamento das válvulas, provocando refluxo e aumento da pressão no sistema venoso. SITUAÇÕES ESPECIAIS a) Da tromboflebite superficial: Tromboflebite séptica: ocorre em portadores de acesso venoso de longa permanência ou devido ao uso de drogas injetáveis. Quadro típico de TS + febre + pus + adenopatia. Doença de Mondor: TS localizada nas veias superficiais da região mamária e epigástrica. Pode estar relacionada com o uso de anticoncepcional e trombofilia. Doença de Buerger/ tromboangeíte obliterante: vasculite com TS migratória. O principal fator de risco é o tabagismo. Síndrome de Trousseau: TS migratória que acontece como uma das manifestações de um câncer, principalmente de TGI. b) Da trombose venosa profunda: Flegmasia Alba Dolens: TVP que atinge o segmento ilíaco- femoral, provocando, além do quadro de dor, edema e empastamento muscular do membro e ainda palidez devido ao vasoespasmo arterial. Geralmente os pulsos são palpáveis. Flegmasia Cerulea Dolens: TVP maciça que atinge o sistema venoso profundo e superficial, com intensa congestão venosa, dificuldade do retorno venoso e da perfusão arterial, o que gera a cianose do membro. Geralmente pulsos são palpáveis. Paget-Schroetter: TVP que acomete membro superior geralmente devido a um esforço físico (musculação, p. ex.). TRATAMENTO a) Tromboflebite Superficial Aguda: Compressa morna pelo menos três vezes por dia. Anti-inflamatório não-esteroidal (AINE). Tópico com gel/pomada à base de heparina. O paciente pode deambular e, se não for incômodo, fazer compressão elástica. Ao repousar, deve elevar o membro. A anticoagulação é feita nos casos de TVP associada ou de acometimento proximal das safenas. No caso de acometimento proximal das veias safenas, pode ser realizada ligadura da veia safena interna ou externa ao nível da croça ou instituir o tratamento com anticoagulantes por, no mínimo, 6 semanas. Reavaliar com USG após esse período. Uso de antibiótico é restrito ao caso de tromboflebite séptica. b) Trombose Venosa Profunda Aguda: b.1) A heparina pode ser não fracionada (HNF) ou de baixo peso molecular (HBPM). Atua estimulando a antitrombina a inibir os fatores de coagulação (IIa, IXa, Xa, XIa e XIIa). Emmanuel Pacheco 2 TROMBOFLEBITE SUPERFICIAL E TROMBOSE VENOSA PROFUNDA Heparina não-fracionada (HNF): 5.000u endovenosa em bolus + 18u/Kg/h EV mantendo Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPa) entre 1,5-2,5. Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM): Enoxaparina (Clexane ®) 1mg/Kg subcutâneo 12/12h ou; Nadroparina (Fraxiparina ®) 225 UIC/Kg, SC, 12/12h; Atualmente, utilizam-se preferencialmente as HBPMs por serem mais seguras e não necessitarem de controle laboratorial. Porém, pacientes em pré-operatório beneficiam-se maisda HNF por esta ter uma meia-vida menor e possuir um antídoto, a protamina. b.2) A Varfarina Sódica (Marevan ®) atua inibindo os fatores dependentes da vitamina K (II, VII, IX e X). Nas primeiras horas, entretanto, age aumentando a coagulação devido à inibição dos fatores anticoagulantes (proteínas C e S). Por essa razão, só deve ser administrado após a injeção de heparina. Essa associação (heparina + Marevan) é mantida até o INR atingir 2,0-3,0 por 24h. Após isso, a heparina é suspensa e o paciente pode ser acompanhado ambulatoriamente p/ ajuste da dose através do INR. b.3) Rivaroxabana (Xarelto ®) é utilizado isoladamente como anticoagulante oral da seguinte maneira: um comprimido de 15 mg 12/12 horas por 21 dias e, a partir do 22° dia, um comprimido de 20 mg por dia até o final do tratamento. Atua inibindo o fator Xa. b.4) Dabigatrana (Pradaxa ®) é utilizado na dose de 150 mg 2x/dia, após o período inicial de no mínimo 5 dias com o uso convencional da heparina. Atua inibindo a trombina. A anticoagulação é mantida por 3-6 meses a depender da exposição aos fatores de risco para cada paciente. Alguns casos (câncer, trombofilia) requerem tratamento por períodos mais prolongados. Durante a gravidez, a anticoagulação é feita preferencialmente com a HBPM (facilidade e segurança). Os cumarínicos (varfarina) são contraindicados no 1º e 3º trimestres por serem teratogênicos e causarem sangramento, respectivamente. Ainda não há estudos sobre os novos anticoagulantes, a Rivaroxabana e a Dabigatrana na gestação, portanto, não devem ser utilizados. » Contraindicação para anticoagulação: Sangramento ativo (hemorragia digestiva, por exemplo); Hipertensão não controlada (PAS > 180 ou PAD > 110 mmHg) Coagulopatia; Trombocitopenia induzida pela heparina; Insuficiência renal (clearence < 30 ml/min); Cirurgia craniana ou ocular recente; Cirurgias maiores onde houve grandes descolamentos. Pacientes com TVP, que estão em situação de anticoagulação, podem ser submetidos a um implante de filtro em veia cava inferior (VCI) para diminuir o risco de TEP. Outras possíveis indicações: TEP recorrente, apesar da anticoagulação; Complicações hemorrágicas decorrentes do anticoagulante; Pacientes submetidos a uma embolectomia pulmonar; Trombo flutuante ileofemoral em paciente de alto risco; Trombo ileofemoral que se propaga apesar da anticoagulação; Embolia pulmonar séptica; Embolia pulmonar crônica em paciente com hipertensão pulmonar e cor pulmonale; Paciente com obstrução de mais de 50% do leito vascular pulmonar e que não suportaria outro episódio trombótico; Ataxia grave com risco de queda. PROFILAXIA DE TEP Para pacientes clínicos, podem ser utilizados os critérios de Pádua para estratificação de risco: < 4 pontos - Baixo risco (profilaxia Mecânica). ≥ 4 pontos - Alto risco (profilaxia Mecânica + Farmacológica). Para pacientes cirúrgicos, podem ser utilizados os critérios de Caprini para estratificação de risco. 0 pontos - Muito baixo risco (profilaxia mecânica); 1-2 pontos - Baixo risco (profilaxia mecânica); 3-4 pontos - Moderado (profilaxia Mecânica + Farmacológica); ≥ 5 pontos - Alto risco (profilaxia Mecânica + Farmacológica); Profilaxia Mecânica: estimular deambulação, elevar os membros inferiores no repouso, meia elástica de compressão gradual antitrombo e compressão pneumática intermitente. Profilaxia Farmacológica: Enoxaparina 40 mg SC 1x por dia ou heparina não fracionada 5.000u SC 8/8 horas. Para pacientes que apresentam risco aumentado de sangramento ou contraindicação para uso de anticoagulantes, a profilaxia deve ser apenas mecânica, iniciando a farmacológica quando o risco de sangramento for superado. O uso de filtro de veia cava pode ser indicado em situações em que o paciente já está diagnosticado com TVP proximal extensa e não pode fazer uso de anticoagulantes, portanto, não tem indicação como profilaxia primária. A profilaxia é mantida durante toda a internação ou até a recuperação da mobilidade. Emmanuel Pacheco 1 ERISIPELA E LINFEDEMA ERISIPELA E LINFEDEMA Definida como uma inflamação dos vasos linfáticos (linfangite) causada principalmente pelo Streptococcus pyogenes β-hemolítico do grupo A, que geralmente penetra no corpo através de uma lesão cutânea (micose interdigital, trauma, picada de inseto) e dá origem a uma dermatite difusa que acomete os vasos linfáticos da região. É mais prevalente em lugares de clima tropical (quente e úmido), fator que facilita uma maior incidência de micoses, mas também pode ocorrer em todo o mundo, inclusive em regiões frias. Como o sistema linfático é responsável pela condução da linfa, se houver uma obstrução (inflamação), não vai ocorrer o retorno adequado desse líquido, podendo levar ao surgimento do linfedema. FISIOPATOLOGIA Lesões cutâneas (porta de entrada) associadas ao edema de causa sistêmica (insuficiência cardíaca, hipotireoidismo, insuficiência renal) ou ao próprio linfedema (primário ou secundário a erisipela) favorecem a proliferação do Streptococcus pyogenes. Dessa forma, a erisipela pode provocar o linfedema como resultado da lesão linfática e o linfedema facilita o surgimento da erisipela. Lesão cutânea + edema = Erisipela QUADRO CLÍNICO É uma doença eritematosa infecciosa, que pode iniciar com sintomas inespecíficos (febre, calafrios, cefaleia, náuseas, vômitos e astenia). Os linfonodos locorregionais costumam ficar volumosos e dolorosos. Surgem também alterações cutâneas, que é o eritema doloroso com margens bem definidas, podendo evoluir com flictenas (bolhas de conteúdo diversificado) e necrose dos tecidos mais profundos. De acordo com sua apresentação cutânea, pode ser dividida em: Simples: apresenta apenas sinais flogísticos. Bolhosa: apresenta flictenas (bolhas). Necrosante: atinge tecidos profundos e causa necrose. Tipos de erisipela: A – Simples, B – Bolhosa e C – Necrosante DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clínico, ou seja, é feito com anamnese e exame físico. O paciente apresenta-se com uma placa eritematosa com margens bem delimitadas, geralmente localizada em perna, acompanhada dos outros sinais flogísticos (dor, calor e edema). Deve-se pesquisar porta de entrada, principalmente micose interdigital associada. Exames laboratoriais como o leucograma, proteína C-reativa (PCR) e a antiestreptolisina O (ASO) podem ser solicitados, porém, mais para acompanhamento terapêutico. O diagnóstico diferencial principal é com a celulite, tendo em vista que ambas apresentam eritema com sinais flogísticos. Porém, por se tratar de uma infecção mais superficial, o eritema da erisipela possui bordas bem delimitadas, o que não acontece na celulite, que atinge camadas mais profundas da pele e se apresenta mais difusa. Além disso, na erisipela, frequentemente, existe uma porta de entrada para a infecção e é de caráter repetitivo. Faz diagnóstico diferencial também com trombose venosa profunda (TVP), sendo que, neste caso, o edema ocorre com empastamento muscular e em pacientes que se encontram em situações de risco (estase, hipercoagulação, trauma endotelial - tríade de Virchow). Para diferenciar ou observar se estão ocorrendo ao mesmo tempo, deve ser solicitado eco-Doppler venoso do membro acometido. TRATAMENTO Se baseia no uso de antibióticos. Para a forma simples, pode ser administrada a penicilina G benzatina (benzetacil) 1.200.000U (IM) a cada 3 dias, no total de 4 injeções, a nível ambulatorial. Para as formas mais graves (bolhosa ou necrotizante), o tratamento deve ser feito com penicilina cristalina 5.000.000U 6/6 horas EV por dia durante uma semana ou de acordo com a evolução do caso. Nesses casos, o paciente deverá ser internado em unidade hospitalar. Paraos pacientes que apresentam sensibilidade à penicilina, pode ser prescrito eritromicina 500 mg VO 12/12 horas (forma simples) e clindamicina 600 mg EV 6/6 horas (formas bolhosa e necrotizante). Pode associar o uso de medicamentos venotônicos (diosmina 450mg + hesperidina 50mg 12/12 horas VO durante 2 meses) a fim de melhorar o retorno venoso, diminuindo o edema. Além disso, o uso de anti-inflamatórios também é prescrito (AINE ou corticoide), assim como antifúngico oral (cetoconazol 200 mg VO após o almoço durante 10 dias) e tópico (cetoconazol creme) nos casos de micose. Em todas as situações, recomenda-se: Repouso com membro inferior elevado (diminui o edema); Não romper flictenas; Limpeza mecânica da região; Cuidados higiênicos com os pés; Curativo e desbridamento nos casos de necrose. LINFEDEMA É uma doença que se apresenta como edema crônico, causando danos estéticos e podendo chegar a situações incapacitantes. Etiologicamente, o linfedema pode ser classificado em primário, quando congênito, e secundário, quando se desenvolve após algum tipo de trauma ou patologia que envolva o sistema linfático. Se apresenta como um edema unilateral, que não regride após 24h de repouso, praticamente indolor, pouco depressível, sem lesão de pele nas fases iniciais, mas pode apresentar um histórico de infecções prévias e o sinal de Stemmer (não pregueamento da pele dos dedos dos pés). Quando se torna irreversível, mesmo com tratamento adequado, passa a se chamar elefantíase. Os diagnósticos do linfedema é basicamente clínico, bastando boa anamnese e exame físico atencioso para concluí-los. Caso haja dúvidas, pode-se lançar mão de exames complementares, como a tomografia, a linfocintilografia e a linfografia. Porém, estes exames são de alto custo e os 2 últimos são invasivos, o que valoriza ainda mais a importância de uma boa consulta clínica. O tratamento é clínico, feito com medidas conservadoras e tratamento fisioterápico, como: Perda de peso, no caso de obesos; Elevação do membro inferior; Drenagem linfática manual; Contenção inelástica e elástica (pós-drenagem); Compressão pneumática intermitente. Para melhorar o fluxo linfático e o retorno venoso, podem ser utilizados fármacos derivados cumarínicos (5,6 – Alfabenzopirona) e fármacos derivados hesperidínicos (a Diosmina, mais segura que os derivados cumarínicos, por não ser hepatotóxica). Associar mudança de hábitos, drenagem linfática e medicamentos linfocinéticos podem prevenir complicações e propiciar ao paciente o retorno a uma vida social e profissional normal. Emmanuel Pacheco 1 PERICARDITE AGUDA PERICARDITE AGUDA A pericardite aguda é um conjunto de sinais ou sintomas resultantes da inflamação pericárdica que dura até 2 semanas. Quando a inflamação evolui com acumulo de liquido, denomina-se derrame pericárdico. Um derrame extenso pode evoluir para tamponamento cardíaco. Se a inflamação cronifica, pode ocasionar fibrose e calcificação do pericárdio o que é chamado de pericardite constritiva. ANATOMIA O pericárdio é uma membrana fibrosserosa que recobre o coração e o inicio de seus grandes vasos. Endocárdio; Miocárdio; Epicárdio (lâmina visceral do pericárdio visceral); Pericárdio Visceral (seroso): Lâmina visceral – epicárdio; Lâmina parietal; Pericárdio Parietal (fibroso); Cavidade do pericárdio: Espaço virtual; Lâminas parietal e visceral do pericárdio seroso; Fina película de líquido – até 50 mL. EPIDEMIOLOGIA 5% dos pacientes com dor torácica de etiologia não isquêmica apresentam pericardite aguda; Ocorre em qualquer idade e não tem prevalência de sexo; A maioria possua etiologia infecciosa (2/3 do total); ETIOLOGIA Imunoinflamatória: LES; Artrite reumatoide (AR); Febre reumática; Metabólica: Uremia (causa renal); Hipotireoidismo; Doença neoplásica: Carcinoma de mama e de pulmão; Linfomas; Sarcoma de Kaposi; Medicamentos: Procainamida, hidralazina, isoniazida, ciclosporina, outros. Idiopático (causa desconhecida); Radiação: Precoce; Tardia; Infecciosa: Viral: coxsakievírus, adenovírus, hepatite B, HIV/AIDS Bacteriana: pneumococos, staphylococos, streptococos. Micobacteriana: tuberculose; Outras causas: Síndrome de Dressler; Após cirurgia cardíaca; Trauma; FISIOPATOLOGIA Origem infecciosa: Bacteriana: liquido purulento, associada a pneumonia; Fúngica: cândida, histoplasma; Parasitária: toxoplasma, entamoeba; Viral: processo inflamatório deve-se a ação direta do vírus ou à resposta autoimune; Origem não infecciosa: Autoimune Órgãos adjacentes; Metabólicas; Neoplásicas; Fármacos; Não complicada: simples, sinais e sintomas resultam da inflamação do pericárdio; Complicada: são a minoria, 15% associadas a miocardite, elevação de enzimas cardíacas (ex. troponina); » Curva Pressão x Volume: Risco crítico para tamponamento em efusão rápida; Suporte de até 1.500 mL lentamente; O acúmulo de líquido na cavidade pericárdica em relação à pressão que esse exerce sobre o coração irá depender sobretudo da velocidade com que esse se acumula. O acúmulo lento faz com que haja maior espaço de tempo para que o limite de estiramento pericárdico seja alcançado mais tardiamente, de modo que há a possibilidade de um acúmulo de líquido maior em maior tempo até que esse gere uma pressão suficiente para causar um tamponamento e demais sintomas. Nos casos de efusão rápida, como uremia e causas metastáticas, causam rápido acúmulo de líquido e rápido aumento de pressão na cavidade pericárdica. As consequências do derrame e sua evolução dependerão da velocidade de acúmulo da efusão serosa. Um hemopericárdio decorrente de trauma ou dissecção, cujo acúmulo é rápido, pode cursar com quadro de tamponamento com cerca de 100 a 200mL de coleção. Enquanto isso, derrames que se desenvolvem de modo mais insidioso podem permitir o gradual estiramento do pericárdio, levando a derrames pouco sintomáticos ou até mesmo assintomáticos com conteúdo de cerca de 1500mL. QUADRO CLÍNICO » Sinais e Sintomas: Dor pleurítica, aguda, melhora ao inclinar para frente, pode irradiar para trapézio; Febre, sintomas de IVAS ou GECA (de acordo com etiologia); Taquicardia; Derrame pericárdico → abafamento das bulhas cardíacas; Tamponamento cardíaco → tríade de Beck (estase jugular, bulhas abafadas e choque circulatório); Atrito pericárdico; Emmanuel Pacheco 2 PERICARDITE AGUDA EXAMES COMPLEMENTARES Eletrocardiograma: essencial. Radiografia de tórax: essencial. Ecocardiograma transtorácico: suspeita de tamponamento; TC e RNM: casos graves com má evolução ou malignidades; Exames laboratoriais: Provas inflamatórias: PCR e VHS; Analise de causas metabólicas: função renal (ureia, creatinina) e TSH (hipotireoidismo); FAN em mulheres jovens: avaliar possível lúpus; » Eletrocardiograma: ECG típico de uma pericardite aguda: Supra de ST difuso; Infra de PR; Sinal de Spodick (rampa descendente no segmento TP); ECG típico de um derrame pericárdico: Baixa amplitude; Alternância elétrica; » Radiografia: Na pericardite aguda não há alterações! No derrame pericárdico: coração em moringa (cardiomegalia). ‘’Egg shell’’ ou casca de ovo: Pericardite constritiva; Pericárdio calcificado; » Ecocardiograma: Sem achados importantes na pericardite aguda; Utilizado em suspeita de derrame pericárdico; Ventrículo direito colabado pelo derrame; » Ressonância Magnética: Swinging heart: Coração‘’balançando’’ dentro da cavidade pericárdica; Encontrado no derrame pericárdico; DIAGNÓSTICO » Critérios (2/4 fecham o diagnostico): 1. Dor torácica característica; 2. Atrito pericárdico; 3. Elevação difusa de ST ou depressão de PR; 4. Derrame pericárdico; » Critérios adicionais: Provas inflamatórias: PCR, VHS, leucocitose; Inflamação pericáridca: TC ou RNM cardíaca; » Diagnósticos diferenciais: Síndrome coronariana aguda; Tromboembolismo pulmonar; Pneumotórax; Broncopneumonia; DRGE; Costocondrite; TRATAMENTO AINEs: Ibuprofeno 600 mg, 8/8h por 2 semanas ou AAS 750-1000 mg, 8/8h por 2 semanas; Corticoide: 2ª linha - aumenta a recorrência; Usado quando há contraindicação aos AINEs; 0,2 a 0,5 mg/Kg/dia por 2 a 4 semanas; Colchicina: Ação anti-inflamatória; 3 meses (após 1º episódio) a 6 meses (na recorrência); 0,5 mg 12/12h (< 70 kh) ou 12/12h (>70 kg); Obs.: Em caso de tamponamento, realiza-se a pericardiocentese. » Critérios para internação: Maiores: Febre (> 38ºC); Evolução subaguda (> 2 semanas); Derrame pericárdico volumoso; Tamponamento cardíaco (tríade de beck); Ausência de resposta aos AINEs; Menores: Miopericardite; Uso de imunossupressores; Trauma; Uso de anticoagulante oral. Emmanuel Pacheco 1 VALVULOPATIAS VALVULOPATIAS Nas estenoses (déficit na abertura), há sobrecarga de pressão nos ventrículos direito ou esquerdo, visto que essas câmaras precisam vencer a barreira da obstrução gerada pela dificuldade de abertura das válvulas, a fim de mandar o sangue adiante na circulação. Nas insuficiências (déficit no fechamento), por outro lado, há uma sobrecarga de volume, visto que o coração precisa bombear mais sangue para compensar o volume regurgitado, o que ocorre devido à dificuldade da válvula em fechar. ANATOMIA CICLO CARDÍACO 1. Enchimento ventricular lento (diástase): geralmente, cerca de 80% do sangue que está no átrio escoa diretamente para o ventrículo sem o auxílio da contração, ficando apenas 20% com ela para terminar de encher os ventrículos. 2. Enchimento ventricular rápido: O sangue vai se acumulando nos átrios durante a sístole ventricular. Quando termina essa fase e o ventrículo volta para a fase de diástole, que é o relaxamento, o volume sanguíneo que ficou nos átrios exerce pressão nas valvas atrioventriculares (direita: tricúspide; esquerda: mitral ou bicúspide) e, então, passa rapidamente para os ventrículos. Isso ocorre no primeiro momento da diástole. No segundo momento, pouco sangue escoa diretamente para os ventrículos, e o sangue vindo das veias continua a chegar nos átrios. Esses dois momentos correspondem aos 80% do enchimento ventricular. E, por último, no momento final da diástole ventricular, ocorre a sístole atrial (contração do átrio) para terminar de encher o ventrículo, essa parte se refere aos 20% do enchimento dos ventrículos. 3. Contração isovolumétrica ou isométrica: logo após o início da contração ventricular, ocorre o aumento da pressão ventricular e as valvas atrioventriculares se fecham. Então, o ventrículo começa a se contrair, mas o sangue ainda não é ejetado, pois, para que isso ocorra, é preciso até 0,03s a mais para que tenha a pressão necessária para que as valvas semilunares (direita: pulmonar; esquerda: aórtica) se abram e o sangue seja ejetado de encontro à pressão nas artérias correspondentes, pulmonar ou aorta. 4. Ejeção rápida: s valvas semilunares abrem quando a pressão no interior do ventrículo direito está por volta dos 8mmHg e do ventrículo esquerdo aos 80mmHg; logo o sangue é ejetado para as respectivas artérias. No primeiro momento da ejeção, 70% do sangue é expelido, esse período é chamado de ejeção rápida. 5. Ejeção Lenta: como 70% do sangue já foi ejetado, agora restam os 30%, que serão lançados no segundo e terceiro momento, logo após o período de ejeção rápida. Destes, 30% correspondem ao período de ejeção lenta. 6. Relaxamento isovolumétrico (isométrico): quando acaba o período de contração dos ventrículos, o relaxamento deles começa a ocorrer, e as pressões em seu interior começam a diminuir. As valvas semilunares se fecham quando as artérias começam a empurrar o sangue de volta para os ventrículos. Neste momento, o ventrículo continua a relaxar, mas o volume não altera, sendo o período de relaxamento isovolumétrico. Depois disso, as pressões dos ventrículos diminuem e voltam ao momento de diástole. Assim, as valvas atrioventriculares se abrem dando início a um novo ciclo. BULHAS CARDÍACAS Tudo que ocorre após 2º bulha = diastólico. Tudo que ocorre após 1º bulha = sistólico. » Ruídos Cardíacos Adicionais: B3 (protodiastólica): baixa intensidade, distensão da parede ventricular (fase de enchimento rápido), pode ser fisiológica, sobrecarga de volume crônica, ventrículos com anormalidades estruturais – presente na IC descompensada, indica congestão. B4 (pré-sistólica): baixa intensidade (não audível), contração atrial, redução da complacência ventricular (HAS, doença arterial coronariana, miocardiopatia hipertrófica) – não existe na arritmia FA. » Desdobramentos: O fisiológico decorre da inspiração que ↑ o retorno venoso, ocasionando um desdobramento (mais comum em crianças). Emmanuel Pacheco 2 VALVULOPATIAS O fixo decorre de condições como bloqueio de ramo direito ou na comunicação atrial. ESTENOSE MITRAL Estenose = dificuldade na abertura (espessamento); » Anatomia da valva mitral: Duas cúspides (2 folhetos da valva), uma anterior e outra posterior que se encontram na comissura. Associado a um aparato subvalvar (cordoalha tendíneas + musculatura papilar medial e lateral). ETIOLOGIA Causas degenerativas, congênitas, febre reumática, calcificação de válvula aórtica bicúscpide. Espessamento dos folhetos valvares, áreas de calcificação, fusão comissural e encurtamento de cordoalhas. Principal causa no Brasil é a febre reumática (degeneração, calcificação e alteração do aparato subvalvar) enquanto que no mundo a principal causa é a degenerativa. FISIOPATOLOGIA Na estenose mitral, existe uma barreira mecânica (a estenose mitral) que gera um aumento de pressão que se transmite para o AE o que leva a sua dilatação. Esse aumento de pressão será transmitido, retrogradamente, pela veia pulmonar, até o pulmão o qual terá sua pressão elevada passivamente. Isso explica a dispneia. Com o passar do tempo, essa pressão será transmitida também, pela artéria pulmonar, para o coração direito, iniciando sintomas de congestão sistêmica. Com o passar dos anos sob esse regime de alta pressão, começa a haver o remodelamento das artérias e arteríolas pulmonares, uma alteração irreversível caracterizada pela vasoconstrição. Assim, essa pressão começa a se perpetuar, deixando de ser passiva para ser ativa no território pulmonar. No entanto, o VE está poupado. Só tem alteração em fases muito avançadas da doença ou se tiver outra valvulopatia associada. QUADRO CLÍNICO » Sinais e sintomas: Dispneia (principal sintoma); Congestão sistêmica: edema, ascite, turgência jugular; Rouquidão (síndrome de Ortner) devido a compressão do nervo laríngeo recorrente pelo átrio crescido; Fácies mitralis (bochechas rosadas); Palpitações (FA pela dilatação do AE); » Exame Físico: Sopro mesodiastólico em ruflar, decrescendo e crescendo, em focos apicais. Estalido de abertura. Crepitações pulmonares; Turgência jugular; Refluxo hepatojugular Edema de MMII; Pulso arrítmico (FA); DIAGNÓSTICO » Eletrocardiograma: Índice de Morris em V1→ sobrecarga de átrio esquerdo. Obs.: FA é comum em pacientes com estenose mitral. » Radiografia simples de tórax: 1. Sinal do duplo contorno. AD mais no fundo e AE mais na frente. 2. Sinal da bailarina (desvio do brônquio fonte esquerdo para cima). 3. Congestão pulmonar. » Ecocardiograma Emmanuel Pacheco 3 VALVULOPATIAS Estenose mitral importante: AVM (área da valva mitral) < 1,5 cm². Gradiente diastólico médio AE/VE ≥ 10 mmHg. PSAP (OS da artéria pulmonar) ≥ 50 mmHg em repouso; PSAP ≥ 60 mmHg com esforço. Escore de Wilkins: 1. Mobilidade; 2. Espessamento; 3. Calcificação; 4. Aparato subvalvar. Ganha-se pontos para cada um desses quesitos. Quanto maior o escore, pior a condição da valva. Isso tem implicação no tratamento. » Cateterismo cardíaco: Recomendado para avaliação da gravidade da estenose mitral quando os testes não invasivos são inconclusivos. Recomenda-se a cineangiocoronariografia antes do tratamento cirúrgico em pacientes com fatores de risco para DAC. COMPLICADORES Hipertensão pulmonar: PSAP ≥ 50 mmHg em repouso; PSAP ≥ 60 mmHg ao esforço (teste ergométrico ou ecocardiografia com estresse farmacológico. FA de início recente: Relação com remodelamento do AE; Manter INR entre 2 e 3. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Instituído nos pacientes com EM importante, a fim de aliviar os sintomas, enquanto esperam intervenção. Esse tratamento não altera a evolução nem o prognóstico. Betabloqueadores na EM importante sintomática ou assintomática quando o paciente estiver em FA. Diuréticos na EM importante sintomática (ex. furosemida). Anticoagulação oral plena (Varfarina) na EM associada a evento embólico prévio, trombo AE ou fibrilação atrial. TRATAMENTO INTERVENCIONISTAS 1) VALVULOPLASTIA MITRAL POR CATETER-BALÃO: Indicações: sintomas (CF II-IV) e/ou fatores complicadores escore ecocardiográfico de Wilkins ≤ 8. Contraindicações: trombo em AE, IM moderada ou grave, fenômeno embólico recente, escore de Wilkins > 8 2) CIRURGIA – COMISSUROTOMIA OU TROCA VALVAR: Indicações: EM reumática com contraindicações à VMCB; EM degenerativa refratária ao tratamento clínico. INSUFICIÊNCIA MITRAL Insuficiência = fechamento incompleto. ETIOLOGIA Primária: prolapso valvar mitral, endocardite infecciosa, febre reumática, traumas, deformidades congênitas. Secundária: isquemia, dilatação ventricular – aqui, a valva está insuficiente devido a um problema cardíaco e não valvar. Obs.: No brasil, principal causa é a febre reumática. FISIOPATOLOGIA Quando o VE contrai, parte do volume é ejetado pela aorta e outra parte volta para o AE, devido a incompetência da válvula. Assim, há uma sobrecarga de volume para o AE e, na próxima sístole, haverá uma sobrecarga de volume para o ventrículo. Logo, quanto mais volume regurgitado, maior o volume a ser ejetado. A sobrecarga volumétrica gera no ventrículo uma hipertrofia excêntrica a fim de aumentar a cavidade ventricular para suportar o volume a mais que irá receber. Enquanto isso o átrio irá dilatar para receber esse volume. Esse aumento de volume gera aumento de pressão que é transmitido para o pulmão. O aumento de pressão no pulmão irá gerar congestão pulmonar que será, posteriormente, transmitido para o lado direito do coração que irá gerar congestão sistêmica. QUADRO CLÍNICO » Sinais e sintomas: Assintomáticos – nesse caso, avaliar os complicadores! Dispneia/ ortopneia; » Exame Físico: Sopro holossistólico regurgitativo, em focos apicais. B1 hipofonética (já que as valvas não fecham completamente) e B2 hiperfonética. Obs.: a ausculta dinâmica é importante para diferenciar os sopros. Por exemplo, um sopro sistólico pode ser por IM (sopro em platô) ou de EA (sopro ejetivo). Algumas manobras podem ajudar a diferenciar, tais quais: Agachamento: aumenta o retorno venoso e, por consequência, aumenta o regurgitamento e, portanto, o sopro. Esforço isométrico (Hand grip): a preensão da mão gera a contração da musculatura que leva ao aumento da resistência vascular periférica e, portanto, aumenta o sopro já que fica mais difícil para o VE ejetar na aorta devido ao aumento da resistência (pós-carga) e mais sangue irá regurgitar. Pedir p/ paciente sentado, levantar: diminui o retorno venoso por ação da gravidade e, portanto, o sopro irá diminuir. DIAGNÓSTICO » Eletrocardiograma: Achados de sobrecarga de câmaras esquerdas (AE e VE) Emmanuel Pacheco 4 VALVULOPATIAS Sokolov: S (V1) + R (V5/V6) > 35 mm » Radiografia simples de tórax: AE hipertrofiado, VE hipertrofiado (cardiomegalia, índice cardiotorácico > 0,5), sinal da bailarina, sinal do duplo contorno e congestão pulmonar. » Ecocardiograma: Insuficiência mitral importante: Área do jato ≥ 40% da área do AE; Fração regurgitante ≥ 50%; Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento; Vena contracta ≥ 0,7 cm; ERO ≥ 0,4 cm². Obs.: na IM a fração de ejeção está superestimada já que na hora que o ventrículo contrai, uma parte do sangue vai para a aorta e outra parte regurgita para o átrio. Logo, o que se consegue medir é o que sai do ventrículo e não dá para ter certeza de quanto vai para a aorta (que é o verdadeiro interesse). Por isso, o ponto de corte de gravidade da FEVE é 60% e não 50%. Obs.2: vena contracta = do sangue que regurgita será formado um jato. A porção mais estreita desse jato será medida. Quanto mais largo for, pior pois maior é o jato regurgitante. » Cateterismo: Recomendado quando os testes não invasivos são inconclusivos em relação à gravidade da IM, função do VE ou necessidade de cirurgia. Recomenda-se cineangiocoronariografia antes do tratamento cirúrgico da valva mitral em pacientes com fatores de risco para DAC. COMPLICADORES Ecocardiograma: FEVE ≤ 60% ou queda da FEVE durante a evolução; Remodelamento progressivo (DSVE – diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo ≥ 40 mm); PSAP ≥ 50 mmHg ou ≥ 60 mmHg ao exercício; Volume de AE ≥ 60 mL/m². Eletrocardiograma: FA de início recente (< 1 ano); TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Nos pacientes com IM importante, a fim de aliviar os sintomas, enquanto esperam intervenção. Esse tratamento não altera a evolução nem o prognóstico. Vasodilatadores orais na IM crônica importante sintomática (diminui a resistência vascular periférica, facilitando a ejeção em direção a aorta e menos sangue regurgita). Diuréticos na IM importante sintomática e com sinais de congestão (ex. furosemida). Anticoagulação oral plena na IM associada à FA com CHA₂DS₂VASC ≥ 2 para homens e ≥ 3 para mulheres. TRATAMENTO INTERVENCIONISTA 1) PLASTIA MITRAL: mantem a valva mitral nativa do paciente, fazendo alguns pontos para deixa-la mais resistente/ menos frouxa. Indicações: Maioria dos pacientes; Preserva aparato valvar; Melhor em não-reumáticos; Requer mais habilidade do cirurgião; 2) TROCA VALVAR Prótese biológica Material suíno ou bovino; Menor durabilidade (cerca de 10 anos); Anticoagulação não necessária; Indicada geralmente em > 65 anos; Prótese mecânica/metálica: Maior durabilidade; Anticoagulação (com varfarina, nunca NOACs) imperativa pelo risco de formar trombos; Indicada geralmente em jovens. IM SECUNDÁRIA Secundária à dilatação do VE (isquemia ou miocardiopatia dilatada); Sintomatologia e achados semelhantes ao da IM primaria (associados ao da doença de base); Intervenção questionável – sintomas refratários ao tratamento otimizado (CF [classe funcional] III ou IV). MitraClip – por meio de um cateter, se introduz um clipeentre as cúspides o que reduz o orifício da insuficiência. Indicado em pacientes com alto risco cirúrgico ou na IM secundária que não responde ao tratamento clássico. Emmanuel Pacheco 5 VALVULOPATIAS ESTENOSE AÓRTICA Estenose = dificuldade de abertura. » Anatomia da valva aórtica: A valva aórtica tem uma relação direta com as valvas mitral, tricúspide e pulmonar. Localiza-se posterior a valva pulmonar e na via de saída do VE. Tem uma relação intima com a aorta, fazendo parte do início desse vaso. Possui 3 folhetos, sendo 2 coronarianos (por onde saem as coronárias esquerda e direita). ETIOLOGIA Reumática, degenerativa, raras (lúpus, síndrome carcinoide, EI, artrite reumatoide). Principal causa no Brasil e no mundo: degenerativa ou senil (calcificação da valva pelo envelhecimento). Obstrução da via de saída do VE pela calcificação das estruturas valvares, associada ou não à fusão das válvulas da valva aórtica. FISIOPATOLOGIA O espessamento da valva gera um aumento de pressão para o VE que responde a isso com hipertrofia concêntrica a fim de compensar esse aumento de pressão e ultrapassar a área valvar que está muito pequena. A sobrecarga de pressão do VE também se propaga para o AE, gerando sobrecarga do AE com tendencia a dilatação dos átrios. Assim, gera-se uma congestão com hipertensão pulmonar pelo aumento da pressão retrograda. À longo prazo, essa pressão será transmitida também ao coração direito e, depois, sistemicamente. Com o tempo, o VE muito musculoso vai ficando com sua vascularização deficiente, e posteriormente, começa a dilatar. QUADRO CLÍNICO » Sinais e sintomas: Dor torácica relacionada aos esforços; Síncope (devido ao baixo débito cardíaco e menor VS); Dispneia (intolerância aos esforços); Obs.: Sintomas ocorrem principalmente no esforço pois o VE hipertrofiado aumenta a demanda de oxigênio e, durante o esforço, a oferta não consegue acompanhar a demanda. » Exame Físico: Sopro mesossistólico, em crescendo-decrescendo (diamante), em focos da base (é um sopro muito audível). Fenômeno de Gallavardin: ausculta do sopro da EA no foco mitral. Pulso Parvus et Tardus: pulso retardado e lento – pulso mais fino pela diminuição da massa de sangue que sai pelo VE. DIAGNÓSTICO » Eletrocardiograma: Hipertrofia de VE = sobrecarga ventricular importante. Sokolov: S (V1) + R (V5/V6) > 35 mm. » Radiografia simples de tórax: 1. AE crescido, VE crescido, área cardíaca normal (pois hipertrofia é concentrica) e congestão. 2. Sinais de congestão = hilo pulmonar mais turgido (mais esbranquiçado), aumento da trama vascular no ápice pulmonar (+ cefalização da trama) + vascularização na borda pulmonar. » Ecocardiograma: Estenose aórtica importante: AVA (área valvar) ≤ 1,0 cm² AVA indexada (AVA dividido pela superfície corporal do paciente) ≤ 0,6 cm²/m². Gradiente VE/aorta ≥ 40 mmHg Velocidade máxima do jato aórtico ≥ 4,0 m/s Problema! Pacientes com AV reduzida e gradiente baixo: Deve-se investigar se a causa é uma FE diminuída (FEVE<50%) ou uma diminuição da complacência cardíaca (FEVE >50%). Se FEVE < 50%: realiza-se teste de estresse com a dobutamina com objetivo de aumentar a FC e a força de contração cardíaca. Se com a dobuta, houve aumento da GS, então o problema era cardíaco e não valvar. Mas se mesmo com a dobuta, o GS não aumenta, então o problema é valvar. Se AV pequena, GS pequeno e FE normal: idoso, mulher, pessoas de baixa estatura, com coração pequeno, pouco complacente, chega pouco sangue e sai pouco sangue. Como diferenciar nesses casos? Não adianta usar dobuta. Deve realizar o escore de cálcio por meio da TC. Se ele for alto, significa que a valva está calcificada, então a estenose aórtica é importante. Emmanuel Pacheco 6 VALVULOPATIAS » Cateterismo: É indicado a cineangiocoronariografia antes do tratamento cirúrgico da valva aórtica em pacientes com fatores de risco para DAC. É indicado o cateterismo cardíaco para realização de medidas hemodinâmicas para avaliação da gravidade da EA em pacientes sintomáticos quando os testes não invasivos são inconclusivos. COMPLICADORES Ecocardiograma: Disfunção do VE: FEVE < 50%. Marcadores de mau prognóstico: AVA < 0,7 cm², velocidade máxima do jato aórtica > 5,0 m/s, gradiente médio VE/aorta > 60 mmHg (estenose aórtica grave). Teste ergométrico: Capacidade funcional limitada. Resposta pressórica inadequada: ascensão da pressão artéria sistólica menor do que 20 mmHg ou pressão arterial sistólica com queda maior que 10 mmHg. Arritmias: taquicardia ventricular ou mais que 4 extrassístoles sucessivas. Infradesnivelamento de segmento ST ≥ 2 mm horizontal ou descendente. Contraindicado em pacientes sintomáticos e/ou com disfunção ventricular esquerda. Obs.: o teste ergométrico é indicado para pacientes com estenose aórtica importante assintomática. Não fazer em pacientes sintomáticos pelo risco de óbito!!!! TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Apenas para pacientes sintomáticos com EA importante que esperam intervenção, porém não mudam o prognóstico. Diuréticos na EA importante sintomática, com congestão. Em pacientes com edema agudo pulmonar e estenose aórtica importante, o uso cauteloso de nitroprussiato de sódio pode ser considerado. Ao reduzir pressão na raiz da aorta com vasodilatadores, aumenta-se demais o gradiente de pressão no VE, o que aumenta a sobrecarga atrial esquerda e a sobrecarga VE. TRATAMENTO INTERVENCIONISTA 1) TROCA VALVAR: Prótese biológica Material suíno ou bovino; Menor durabilidade (cerca de 10 anos); Anticoagulação não necessária; Indicada geralmente em > 65 anos; Prótese mecânica/metálica: Maior durabilidade; Anticoagulação (com varfarina, nunca NOACs) imperativa pelo risco de formar trombos; Indicada geralmente em jovens. 2) TAVI (IMPLANTE DE VALVA AÓRTICA TRANSCUTÂNEA): Feita por cateterismo. Substitui a valva aórtica doente. Indicações: Pacientes frágeis, inoperáveis ou com alto risco cirúrgico. Por ser uma tecnologia nova, ainda não se sabe o tempo de duração, por isso ainda não é indicado em pacientes jovens. Valvulopatia importante + sintoma = intervenção. Valvulopatia importante + sem sintomas = avaliar complicadores. INSUFICIÊNCIA AÓRTICA Insuficiência = fechamento incompleto. Regurgitação do sangue da aorta para o VE. Prevalência de 4,9% (0,5% nas formas moderada a importante). Mais prevalente nos homens (13% vs 8,5%). Incidência e gravidade: 40-60 anos. ETIOLOGIA » Anormalidades dos folhetos: Aguda: endocardite, ruptura traumática, disfunção valvar protética, pós-valvulopastia aórtica por balão. Crônica: febre reumática, endocardite, trauma, degeneração mixomatosa, congênita, LES, AR, espondilite anquilosante, arterite de Takayasu, doença de Whipple, doença de Chron, induzida por drogas. » Anormalidades da raiz aórtica ou da aorta descendente: Aguda: dissecção de aorta, Leak perivalvar ou deiscência de válvula protética. Crônica: dilatação da idade, ectasia anulo-aórtica, síndrome de Ehlers-Danlos, valva aórtica bicúspide, síndrome de Marfan, HAS, aortite (sifilítica ou por células gigantes), síndrome de Reiter, síndrome de Behçet, espondilite anquilosante, artrite psoriática, osteogênese imperfeita. Obs.: não esquecer: sífilis e doenças reumáticas HLA-B27. FISIOPATOLOGIA Na insuficiência aórtica, o sangue irá regurgitar durante a diástole pois a válvula é incompetente. Logo, na diástole o VE receberá sangue que vem do átrio e o sangue proveniente da regurgitação. Assim,o ventrículo é submetido a uma sobrecarga de volume. Como forma de compensação, o VE irá sofrer hipertrofia excêntrica pois a câmara ventricular deve aumentar para conseguir receber esse maior volume de sangue. A longo prazo, isso será transmitido para o átrio e, por meio das veias pulmonares, para o pulmão que sofrerá com o aumento de pressão o que dará origem aos sintomas de congestão pulmonar. Ainda, isso poderá ser transmitido para o coração direito e, posteriormente, sistematicamente. A perfusão das coronárias depende do início da diástole ventricular quando o sangue volta, bate na cúspide e entra para as coronárias. Uma cúspide que deveria fechar, mas não fecha, faz com que parte do sangue que deveria ir para a coronária volte para o VE. Emmanuel Pacheco 7 VALVULOPATIAS QUADRO CLÍNICO » Sinais e Sintomas: Dor torácica; Síncope; Dispneia; Tais sintomas ocorrem no repouso. » Exame Físico: Sopro protodiastólico, em decrescendo, em focos da base. Sopro de Austin-Flint: insuficiência aórtica e estenose mitral ao mesmo tempo. Aumento da pressão de pulso devido ao ↑PAS e ↓PAD. Sinal de Musset: oscilações da cabeça para baixo e frente. Sinal de Minervini: pulsação na base da língua. Pistol shot: sensação de choque à ausculta de certas artérias. Sinal de Duroziez: duplo sopro auscultatório à compressão da femoral. Sinal de Traube: ausculta na artéria femoral de um 1º ruido tipo pré-sistólico e um 2º ruido correspondente à 2ª bulha. Sinal de Hill: PA nas poplíteas > que nas braquiais. Sinal de Mueller: oscilações da úvula. Pulso de Quinke: pulsação do leite ungueal. DIAGNÓSTICO » Eletrocardiograma: Evidências de sobrecarga do AE e do VE. SVE → Sokolov S(V1) + R (V5/V6) > 35 mm. » Radiografia simples do tórax: Mediastino crescido pelo aumento da raiz da aorta Botão aórtico crescido Aumento do índice cardiotorácico (>0,5). » Ecocardiograma: Insuficiência aórtica importante: Vena contracta > 0,6 cm. Largura do jato > 0,65 cm. Área do jato ≥ 60%. Fração regurgitante ≥ 50%. Volume regurgitante ≥ 60 mL/batimento. ERO ≥ 0,30 cm² COMPLICADORES Ecocardiograma: FEVE < 50% DDVE > 70 MM (não reumático) e > 75 mm (reumático) DSVE > 50 mm (não reumático) e > 56 mm (reumático DSVE indexado > 25 mm/m² Ressonância magnética: Presença de fibrose miocárdica (realce tardio) Fração regurgitante > 33% Volume diastólico final do VE > 246 mL Angiotomografia: Valva bicúspide com indicação de intervenção + raiz da aorta > 45 mm. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Nos pacientes com IA importante, a fim de aliviar os sintomas, enquanto esperam intervenção. Não alteram a evolução nem o prognóstico. Diureticos na IA importante sintomática, com congestão. Vasodilatadores orais na IA crônica importante, sintomática (diminui a RVP, facilitando a saída de sangue pela aorta e diminuindo o sangue que regurgita). TRATAMENTO INTERVENCIONISTA 1) TROCA VALVAR: Prótese biológica: Material suíno ou bovino; Menor durabilidade (cerca de 10 anos); Anticoagulação não necessária; Indicada geralmente em > 65 anos; Prótese mecânica/metálica: Maior durabilidade; Anticoagulação (com varfarina, nunca NOACs) imperativa pelo risco de formar trombos; Indicada geralmente em jovens. Emmanuel Pacheco 1 SÍNCOPE SÍNCOPE É definida como a perda repentina e transitória da consciência e do tônus postural, caracterizada por início súbito, curta duração, autolimitada e com recuperação completa e espontânea e ocasionada pela hipoperfusão cerebral. EPIDEMIOLOGIA 19% da população já cursou com algum episódio, mas apenas 3% desses procuram a emergência. Representa 3-5% dos atendimentos em emergência; Hospitalização em 40% dos casos; 80% dos episódios ocorrem em maiores de 65 anos; Recorrência em 50% dos casos; A etiologia vasovagal é a mais comum e as causas cardíacas são as de pior prognóstico, com potencial para morte súbita. Fatores de risco: doença cerebrovascular, uso de medicações cardíacas e hipertensão. FISIOPATOLOGIA Disfunção de ambos hemisférios cerebrais ou tronco; Redução do fluxo sanguíneo regional ou sistêmico; Hipoperfusão → redução de 35% no fluxo sanguíneo cerebral → perda de consciência → perda do tônus postural → síncope. Obs.: pré-sincope tem a mesma fisiopatologia da síncope, porém menos exacerbada. CLASSIFICAÇÃO ETIOLÓGICA Arritmias cardíacas: Bradicardias; Taquicardias supraventriculares; Taquicardias ventriculares; Cardiopatia estrutural: Cardiopatia valvar, infarto ou isquemia miocárdica; Cardiomiopatia hipertrófica, mixoma atrial, doenças pericárdicas com tamponamento, anomalia congênita de coronárias; Causas neuromediadas (ou síncope reflexa): Sincope reflexa ou vasovagal clássica; Situacional; Hipersensibilidade do seio carotídeo (HSC); Causas ortostáticas: Disfunção autonômica primaria ou hipotensão ortostática neurogênica; Disfunção autonômica secundária; Induzida por droga; Depleção volêmica. Outras causas: Embolia pulmonar, dissecção aguda de aorta, hipertensão pulmonar; ABORDAGEM INICIAL Maioria dos pacientes assintomáticos na chegada (evento transitório); » Anamnese: Tempo de evolução e frequência; Fatores desencadeantes: sugestivos de sincopes neuromediadas, cardíaca, etc. Pródromos (enjoo, mal-estar, palidez, sudorese, calor, visão embaçada, desequilíbrio); Episódios: duração, movimentos tônicos ou tonico-clonicos, presença de liberação esfincteriana; Posição em que ocorre; Sintomas residuais: fadiga, desorientação (pós-ictal) e dor no corpo; Outros: presença de cardiopatia estrutural ou neuropatia autonômica, história de arritmia cardíaca, medicações em uso (vasodilatadores, diuréticos, betabloqueadores, prolongadores de QT, insulina e hipoglicemiantes orais) ou modificação recente, história familiar de morte súbita em jovens; » Exame físico: Sinais vitais: FC e ritmo do pulso, FR e profundidade, PA e temperatura; Coloração e hidratação; Sinais sugestivos de doença cardíaca estrutural; Pressão arterial supina (primeiros 3 minutos em posição ortostática – várias medidas em serie); Neurológico: estado mental, achados neurológicos focais; » Exames complementares: Eletrocardiograma – triagem; Pesquisar arritmias, sobrecargas, isquemias miocárdicas, bradicardias, disfunção do marca-passo com pausas cardíacas, distúrbios de condução atrioventricular, repolarização ventricular, QT longo ou curto. » Considerar diagnósticos críticos: IAM, disritmias com risco de vida; Estenose aórtica grave, dissecção aórtica; TEP maciço; HSA, AVE; Distúrbios tóxicos, metabólicos; Sepse; Ectópica rota; Aneurisma de aorta abdominal; CARACTERISTICAS CLINICAS P/ DETERMINAÇÃO ETIOLOGICA Neuromediada: desencadeada por estresse emocional, durante ou logo após a refeição, após o exercício, ausência de cardiopatias. Hipotensão ortostática: ao levantar-se, introdução ou mudança de dose de medicações hipotensoras, ortostase prolongada, pós- prandial. Cardíaca: palpitação ou dor precordial, durante o exercício, em posição supina, cianose associada. Pacientes com doença cardíaca estrutural. QUANDO INTERNAR? Diagnostico definido + necessidade de tratamento imediato; Emmanuel Pacheco 2 SÍNCOPE Sincope cardíaca ou sem pródromo; Doença potencialmentegrave; Cardiopatia estrutural; Síndrome hereditária; ECG alterado; Anemia (Hb < 9 g/dL) Hipotensão arterial Trauma importante; AVALIAÇÃO COMPLEMENTAR Telemetria; Ecocardiograma; Holter de 24 horas; Teste de esforço; Monitor de eventos externo (loop recorder); Monitor de eventos implantável; Tilt test e massagem do seio carotídeo; Angiotomografia de coronárias ou cineangiocoronariografia; Ressonância magnética; TRATAMENTO Tratamento farmacológico: Fludrocortisona mineralocorticoide; Midrodina: alfa-agonista. Inibidores da recaptação da serotonina; Betabloqueadores; Medidas não farmacológicas: Mudança no estilo de vida; Reconhecer pródromos; Manobras em pacientes com pródromos, medicações anti-hipertensivas; Treinamento postural: Permanecer em pé com dorso apoiado contra a parede vertical; Baixa aderência a longo prazo; Atividade física: Exercícios aeróbicos; Aparente melhora na sensibilidade barorreflexa; Marca-passo cardíaco: Eficácia em pacientes > 40 anos; Evolução benigna; Resolução espontânea (maioria dos casos); Emmanuel Pacheco 1 ANEURISMA ARTERIAL ANEURISMA ARTERIAL Aneurisma = dilatação > 50% do diâmetro normal do vaso. Aneurisma verdadeiro: envolve todas as 3 camadas da artéria. Pseudoaneurisma: não envolve todas as camadas. A artéria sofre uma perfuração onde acumula sangue formando um hematoma pulsátil. Geralmente resolve espontaneamente. Pode ocorrer pós-cateterismo ou traumas. Ectasia = dilatação < 50% do diâmetro normal do vaso. Onde é mais comum de aparecer aneurisma? Cérebro. Onde é mais comum de aparecer aneurisma aterosclerótico? Aorta abdominal abaixo das artérias renais (infra-renal). FATORES DE RISCO Idade; Tabagismo; Sexo masculino; Hipercolesterolemia; História familiar; DPOC Fatores que levam a dilatação do vaso = tabagismo e pressão alta. São fatores que contribuem para formação da placa aterosclerótica e para o enfraquecimento do vaso. Obs.: diabetes protege – apesar de favorecer o surgimento de placas ateroscleróticas, quem tem diabetes tem menos aneurismas. ANEURISMA DE AORTA ABDOMINAL a) DIAGNÓSTICO: Clínico. Geralmente o paciente é assintomático. Exame físico: na palpação – massa pulsátil acima do umbigo (aorta abdominal se bifurca na altura do umbigo). Obs.: deve-se palpar o abdome de todo paciente com > 60 anos, hipertenso e tabagista. b) EXAMES COMPLEMENTARES: Ultrassonografia simples de abdome: exame inicial para triagem. USG com eco-Doppler: permite melhor visualização do lúmen do vaso e do pulso. Angiotomografia: exame feito para programar o tratamento cirúrgico no período pré-cirúrgico. É o padrão-ouro. Angioressonância: substitui a angioTC para avaliar e determinar dimensões do AAA em pacientes que não podem usar contraste iodado, além de não usar radiação ionizante. Ultrassonografia Eco-doppler Angiotomografia de aneurisma de aorta abdominal. c) TRATAMENTO Critério para cirurgia: Homem com diâmetro ≥ 5,5 cm. Mulher com diâmetro ≥ 5,0 cm. Taxa de crescimento > que 5 mm em 6 meses ou maior que 1 cm em 12 meses. Sintomas (dor) com qualquer diâmetro. Obs.: o diâmetro normal da arterial abdominal é 2 cm. A partir de 3 cm é aneurisma. Conduta cirúrgica: Aberta: em caso de rotura ou paciente instável. Troca- se a região dilatada por uma prótese. Endovascular: feito em pacientes estáveis. Colocação de prótese. Mais caro. d) COMPLICAÇÕES: Rotura de aneurisma da aorta abdominal: tríade clássica é a dor abdominal, hipotensão e massa pulsátil. Geralmente rompe para parte posterior da aorta. ANEURISMA POPLÍTEO Representa 70% dos aneurismas periféricos. 50% é bilateral. 30% está associado com aneurisma de aorta. a) TRATAMENTO Indicação cirúrgica: Mais de 2 cm (normal até 1 cm, a partir de 1,5 cm é aneurismático). Sintomático. Sinal de isquemia. b) COMPLICAÇÕES: O aneurisma poplíteo, ao invés de romper, forma coágulos devido ao fluxo turbilhonar em vasos menores. Trombo na artéria = isquemia. Isquemia: 6PS. Palidez. Dor. Frialdade. Ausência de pulso (‘’pulse less’’). Parestesia. Paralisia. FR para aterosclerose Emmanuel Pacheco