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183 Capítulo IX - Os homens, o tempo, o espaço MEDIDAS DE TEMPO E ESPAÇO A diversidade de modos de entender o tempo se traduz em diferentes maneiras que as sociedades adotam para medir sua passagem. O escritor Sérgio Porto escreveu o seguinte texto sobre medidas de tempo e espaço: MEDIDAS NO TEMPO E NO ESPAÇO A medida, no espaço e no tempo, varia de acordo com as circunstâncias. E nisso vai o temperamento de cada um, o ofício, o ambiente em que vive. Os ambiciosos, de longa data, vêm medindo tudo na base do dinheiro… Mas não é precisamente a esses que quero me referir, mas aos outros que medem de maneira mais prática e mais de acordo com seus interesses, usando como padrão de medida as mais variadas coisas. Nossa falecida avó media na base do novelo. Pobre que era, aceitava encomendas de crochê e disto tirava seu sustento. Muitas vezes ouvimo-la dizer: — Hoje estou um pouco cansada. Só vou trabalhar três novelos. Nós todos sabíamos que ela levava uma média de duas horas para tecer cada um dos rolos de lã. Por isso, ninguém estranhava quando dizia que queria jantar dali a meio novelo. Era só fazer a conversão em horas e botar a comida na mesa sessenta minutos depois. Sim, os índios medem o tempo pelas luas, os ricos medem o valor dos semelhantes pelo dinheiro, vovó media as horas pelos novelos e todos nós, em maior ou menor escala, medimos distâncias e dias com aquilo que melhor nos convier. Agora mesmo houve qualquer coisa com a Light e a luz faltou. Para a maioria, a escuridão durou duas horas; para Raul, não. Ele, que se prepara para um exame, tem que aproveitar todas as horas de folga para estudar. E acaba de vir lá de dentro, com os olhos vermelhos do esforço, a reclamar: — Puxa! Estudei uma vela inteirinha. PORTO, Sérgio. Obras Completas. [S. l. : s. n.], [19--]. Esse texto mostra bem que não existe uma única forma de medir a passagem do tempo. As pessoas podem usar as mais variadas coisas, como novelos, dinheiro, velas, e mesmo as fases da Lua, como padrão de medida do tempo. Para ilustrar essa diversidade de modos de medir o tempo, podemos refletir, por exemplo, sobre quando começa o dia. Pode parecer simples responder quando começa o dia. Nossa sociedade estabeleceu que o dia começa a zero hora, ou seja, à meia-noite. Apesar de vivermos com a sensação de que o dia principia com o nascer do sol, oficialmente ele tem início em plena noite. Mas será assim para todos os povos que vivem em nossa época? Teria sido assim para povos do passado? 184 Ciências Humanas e suas Tecnologias Ensino Médio Mapa 1 – O mapa acima representa os continentes do planeta. Nele está destacada a região onde se localizaram as antigas civi- lizações do chamado Crescente Fértil, região banhada por dois importantes rios: o Tigre e o Eufrates. Hoje esta região é impor- tante por outras razões, sendo inclusive palco da recente Guerra do Golfo. Você saberia dizer qual a importância desta região para o mundo de hoje? Fonte: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. 31. ed. São Paulo: Ática. 2002. p.61. Alguns povos do passado construíram diferentes práticas para medir e dividir o dia. Os povos que viveram na antiga Mesopotâmia, há pelos menos 6000 anos, numa região que hoje pertence ao Oriente Médio, costumavam dividir o dia em 12 Mas não foram somente os povos do passado que utilizaram critérios diferentes para marcar o início do dia. Diferentes povos de nosso tempo adotam outros marcos para simbolizar o início e fim de um dia. Para os povos que seguem a religião islâmica, por exemplo, o dia começa e termina com o pôr do sol. O importante é que, nos casos citados, o início do dia está ligado a uma forma de observação direta dos fenômenos da natureza. Mais ainda, essa forma de divisão do tempo está ligada a uma determinada visão religiosa do mundo, muito importante para estes povos. Em nossa sociedade, predomina o tempo controlado pelos relógios. Ele permite que mesmo à noite possamos descobrir o exato momento em que se dá a passagem de um dia para o outro. Existem, porém, outros padrões de medida do tempo. Os povos indígenas do Brasil e vários outros grupos de nossa sociedade, menos submetidos ao ritmo da vida no mundo industrial e urbano, constroem diferentes modos de viver o partes iguais. Para estes povos, o dia começava quando o sol estava no ponto mais alto do céu, ou seja, começava em algo que para nós seria próximo do meio dia.