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Programa de Pós-Graduação em Design (PPGD) DOUTORADO EM DESIGN PAULA GLÓRIA BARBOSA CRÍTICA AO ENSINO DA PRÁTICA PROJETUAL EM DESIGN DE INTERIORES Belo Horizonte 2020 ii Programa de Pós-Graduação em Design (PPGD) DOUTORADO EM DESIGN PAULA GLÓRIA BARBOSA CRÍTICA AO ENSINO DA PRÁTICA PROJETUAL EM DESIGN DE INTERIORES Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de doutora em Design, na linha de pesquisa Cultura, Gestão e Processos em Design. Orientador: Prof. Dr. Edson José Carpintero Rezende Belo Horizonte 2020 G562c Barbosa, Paula Glória. Crítica ao ensino da prática projetual em Design de Interiores / Paula Glória Barbosa. – Belo Horizonte, 2020. 327 p. : il. color. Orientador: Edson José Carpintero Rezende. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado de Minas Gerais, Escola de Design, Programa de Pós-Graduação em Design, 2020. 1. Design de Interiores. 2. Ensino. 3. Competências profissionais mínimas. I. Rezende, Edson José Carpintero. II. Universidade do Estado de Minas Gerais. Escola de Design. III. Crítica ao ensino da prática projetual em Design de Interiores. CDU: 747 Ficha elaborada pela Biblioteca do IFMG campus Santa Luzia i ii Ao Henrique, minha melhor companhia, minha maior inspiração. iii AGRADECIMENTOS Ao Henrique, meu marido, pelo companheirismo, pela cumplicidade e pelo apoio incondicional. Obrigada por revisar os meus textos com tanto carinho, zelo e dedicação. Obrigada por ter sido sempre ombro amigo e colo acolhedor nos incontáveis altos e baixos ao longo desses quatro anos. Obrigada por estar sempre disponível para me ouvir e discutir sobre esta pesquisa. Obrigada por caminhar ao meu lado nesta vida. Aos meus pais, por me darem a vida e por, com amor e dedicação, me proporcionarem todas as condições e me ensinarem valores morais para que eu pudesse chegar até aqui. Me sinto um ser de sorte por ter tido a honra e o privilégio de ter nascido de vocês e ter sido criada por vocês. Vocês são sinônimo de humanidade, de trabalho, de integridade e de determinação. Eu amo infinitamente os dois, Celeste e Willian, e serei eternamente grata por tudo o que já fizeram por mim. Esse trabalho também é de vocês. À minha querida Mara Penna que, com seu carinho e sua sabedoria, me presenteou com duas esculturas metálicas de formigas quando soube que eu havia sido aprovada para cursar o doutorado; e me disse: “isso é para você sempre se lembrar que o caminho será lento e trabalhoso, mas que as recompensas irão fazê-lo valer a pena”. E como você tinha razão! Você não tem ideia do quanto essas formiguinhas foram minhas companheiras ao longo desses 4 anos lendo folha por folha, escrevendo palavra por palavra. Você me inspira, Mara. Sou muito feliz por ter você em minha vida. Obrigada por ser minha segunda mãe. Ao Edson Carpintero, meu querido orientador e professor de longa data, pelo carinho, pela disponibilidade e por sempre me estimular em nossos encontros. Sou sua fã desde 1996, ano em que fui sua aluna de Matemática na 7ª série do Ensino Fundamental. Hoje, depois desse feliz reencontro e dessa possibilidade de trabalharmos juntos, te admiro ainda mais. Obrigada por confiar em mim e por conseguir extrair o melhor de mim. Às quatro professoras e às cinco alunas colaboradoras que, de forma atenciosa e solidária, me doaram tempo para compartilhar comigo as suas experiências com os processos de ensino e aprendizagem da prática projetual em Design de Interiores. Sem a preciosa ajuda de vocês esse trabalho não seria possível. Eu não tenho palavras para expressar a minha gratidão e a minha admiração pelo gesto de vocês. Vocês me ajudaram sem pedir nada em troca; me ajudaram com o único propósito de contribuir para um melhor ensino do Design de Interiores. Que possamos colher esses frutos. iv À minha irmã Ester, por ter me apresentado ao Mendeley. À minha irmã Luiza, por ter angariado muitos compilados sobre educação para mim e por me emprestar o seu acesso remoto ao portal de periódicos da CAPES. Ao amigo Felipe, pelo incentivo e por me ajudar a organizar as ideias após a banca de qualificação. À Samantha, por ter me apresentado Zabala e Arnau, por ter me emprestado diversos livros seus e por ser ouvido amigo. Aos queridos amigos e familiares, pelas palavras de estímulo e de carinho e, principalmente, pelos encontros felizes que trouxeram leveza a esse tempo. Ao professor Eduardo Romeiro, por ter me acolhido e orientado o início deste trabalho. Aos queridos Rodrigo e Janaína, nossos secretários acadêmicos, por sempre receberem as nossas demandas com solicitude e um grande sorriso. E ao IFMG – campus Santa Luzia, por me conceder 22 meses de afastamento para dedicação exclusiva a esta pesquisa, possibilitando que muitas dessas páginas fossem escritas com a tranquilidade e o tempo que merecem. Foram 22 meses de extremo aprendizado. Com eles, me tornei uma pessoa melhor e uma professora melhor. Depois dessa experiência, tenho a certeza de que a política de estímulo à capacitação é essencial para que consigamos conquistar um ensino de qualidade. v RESUMO Inicialmente, a atividade de Decoração de Interiores destinava-se ao embelezamento e à organização de, sobretudo, espaços residenciais, com o principal objetivo de espelhar a elevada posição social de seus proprietários. Ao decorador bastava, em essência, conhecer os estilos históricos e possuir talento natural, bom gosto, bom senso e uma boa rede de contatos. Após alguns séculos de transformações, hoje, sob a denominação de Design de Interiores, além da justa preocupação com a beleza e a organização, o planejamento estético e funcional dos espaços visa influenciar positivamente a qualidade de vida das pessoas, contribuindo para sua saúde, segurança e bem-estar. Ao mesmo tempo, diante de um desafiador dilema da contemporaneidade, é preciso considerar uma abordagem projetual que atente para o desenvolvimento sustentável. Face a uma maior complexidade projetual, a prática do Design de Interiores passou a requerer um processo sistematizado de desenvolvimento de projetos, um vasto conhecimento especializado e tornou-se indispensável o desenvolvimento de pesquisas com a finalidade de embasar as decisões projetuais, exigindo do designer de interiores competências profissionais que ultrapassam a noção de bom senso, bom gosto e talento natural, compreendidas aqui como a capacidade criativa, o domínio da linguagem do Design, o trânsito interdisciplinar, a visão sistêmica, o domínio da metodologia projetual, a visão setorial, a capacidade crítica para gerenciar, a visão histórica e prospectiva e a capacidade de pesquisar. Todavia, e em se tratando da formação profissional na área, acredita-se que o ensino do Design de Interiores ainda não esteja em conformidade com a atual perspectiva posta ao campo. Em outros termos, acredita-se que os cursos de formação profissional em Design de Interiores não estejam conferindo a seus estudantes a oportunidade de desenvolver com plenitude referidas competências profissionais mínimas. Frente a essa hipótese, e estabelecendo o recorte da disciplina de prática projetual – já que essa é a disciplina que oportuniza professores e estudantesvivenciarem a relação entre a teoria e a prática no campo profissional do Design de Interiores, ou seja, é por meio dela que os estudantes aprendem a desenvolver projetos de Design de Interiores –, avaliou-se, por intermédio dos procedimentos metodológicos típicos de um estudo de caso, em que medida a disciplina contribui para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas almejadas para os designers de interiores. Para tanto, coletaram-se evidência documental (Projeto Pedagógico de Curso) e evidências do que planejaram (programas de disciplina), disseram (entrevistas), escreveram (diários de bordo) e produziram (trabalhos práticos) professores e estudantes das três disciplinas de prática projetual que compõem a matriz curricular do curso superior de tecnologia em Design de Interiores objeto de estudo desta investigação. As evidências foram sistematizadas e analisadas para posterior discussão, realizada a partir da estrutura teórica desenvolvida e considerada modelo para fins de comparação. Os resultados indicam que o ensino da prática projetual em Design de Interiores tem contribuído para a formação de profissionais híbridos, uma espécie de decorador designer de interiores ou designer de interiores decorador. Daí a urgente necessidade de se repensar o ensino da matéria. Palavras-chave: Design de Interiores. Ensino. Competências profissionais mínimas. Prática projetual. vi ABSTRACT At the beginning, the Interior Decoration activity ended with the beautification and organization of, notably, residential spaces, with the main objective of mirroring the high social status of its owners. The decorator simply needed to know the historical styles and have natural talent, good taste, common sense and a good network. Today, under the name of Interior Design, in addition to the just concern for beauty and organization, the aesthetic and functional planning of spaces aims to positively influence people's quality of life, implying the need to consider promoting health, safety and well-being of individuals in the design process. At the same time, faced with a challenging dilemma of contemporaneity, it is necessary to consider a design approach oriented towards the promotion of sustainable development. In the face of design complexity, the practice of Interior Design started to require a systematic process of project development, a vast specialized knowledge and it became essential to develop research that supports design decisions, requiring interior designer skills professionals who surpass the notion of common sense, good taste and natural talent, understood here as the ability to create, the domain of the language of Design, the interdisciplinary transit, the systemic view, the domain of the project methodology, the sector view, the capacity critical to manage, the historical and prospective view and the ability to research. However, and when it comes to professional training in the area, it is believed that the teaching of Interior Design is not yet aligned with the current perspective put on the field. In other words, it is believed that professional courses in Interior Design are not giving their students the opportunity to fully develop such minimum professional skills. Faced with this hypothesis, and establishing the outline of the discipline of studio – since this is the discipline that allows teachers and students to experience the relationship between theory and practice in the professional field of Interior Design, that is, it is through it that students learn to develop Interior Design projects –, it was evaluated, through the methodological procedures typical of a case study, to what extent this discipline contributes to the development of the minimum professional competences desired for interior designers. Therefore, documental evidence was collected, as well as evidence of what teachers and students planned (discipline programs), said (interviews), wrote (logbooks) and produced (practical work) from the three disciplines of studios that make up the curriculum matrix of the Interior Design course object of study of this investigation. The evidence was systematized and analyzed for further discussion, based on the theoretical framework developed and considered a model for comparison purposes. The results indicate that the teaching of studio in Interior Design has contributed to training hybrid professionals, a kind of interior designer decorator or decorator interior designer. Thus, the urgent need to rethink the teaching of the subject. Keywords: Interior Design. Teaching. Minimum professional skills. Studios. vii LISTA DE QUADROS Quadro 1 Da Decoração ao Design de Interiores: síntese dos principais tópicos. 25 Quadro 2 Sistematização dos conceitos de Design de Interiores apresentados pelas associações de classe consultadas. 39 Quadro 3 Etapas do projeto de Design de Interiores e suas situações profissionais típicas. 80 Quadro 4 Competências profissionais mínimas do designer de interiores. 88 Quadro 5 Competências profissionais mínimas do designer de interiores e possíveis situações de uso. 103 Quadro 6 A disciplina de prática projetual e as competências profissionais mínimas relacionadas. 127 Quadro 7 Parâmetro de pesquisa: competências profissionais específicas do designer de interiores organizadas conforme suas típicas etapas de trabalho. 135 Quadro 8 Escala de avaliação das competências específicas. 140 Quadro 9 Evidências coletadas para o estudo de caso. 142 Quadro 10 Competências profissionais do designer de interiores: comparativo entre o levantamento teórico e o caso da IES-X. 152 Quadro 11 Síntese das informações sobre os trabalhos práticos desenvolvidos em Projetos I, II e III. 157 Quadro 12 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa preliminar: negociação. 171 Quadro 13 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa 1: elaboração do programa de projeto. 172 Quadro 14 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa 2: desenvolvimento da solução projetual. 200 Quadro 15 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa 3: elaboração da documentação de construção. 242 Quadro 16 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa 4: gestão da implementação do projeto. 250 viii Quadro 17 Avaliação das competências profissionais específicas da etapa 5: avaliação pós- ocupação. 252 Quadro 18 Diferentes nomenclaturas das etapas de desenvolvimento de projetos: revisão de literatura e estudo de caso. 257 Quadro 19 Quantitativo das competências profissionais específicas avaliadas. 270 Quadro 20 Síntese dos resultados da pesquisa. 272 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Definição do Design de Interiores apresentada de forma esquemática. 44 Figura 2 Desmembramento de competências gerais em indicadores de obtenção. 114 Figura 3 Desmembramento das competências profissionais gerais em competências profissionais específicas do designer de interiores. 139 Figura 4 Matriz curricular do curso de Design de Interiores da IES-X. 154 Figura 5 Notas de A2 sobre metodologia de projeto (Projetos I). 158 Figura 6 Notas de A5 sobre metodologia de projeto (Projetos I). 158 Figura 7 Notas de A2 sobre processo projetual (Projetos I). 159 Figura 8 Notas de A3 sobre processo projetual (Projetos II). 159 Figura 9 Painel de estilo de vida elaborado por A1 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 160 Figura 10 Mapa de percepção elaborado por A1 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 161 Figura 11 Notas de A3 do processo projetual do TP4 (Projetos II). 161 Figura 12 Setorização elaborada por A5 para o TP1 (Projetos I). 162 Figura 13 Análise de fluxo elaborada por A3 para o TP3 (Projetos II). 163 Figura 14 Notas de A1sobre processo projetual (Projetos I). 164 ix Figura 15 QDP elaborado por A5 para o TP6 (Projetos III). 164 Figura 16 Notas de P2 sobre processo projetual (Projetos I). 165 Figura 17 Notas de A3 sobre processo projetual (Projetos I). 165 Figura 18 Notas de P1 sobre percepção de aprendizagem dos estudantes no TP1 (Projetos I). 166 Figura 19 Notas de A4 sobre processo projetual do TP1 (Projetos I). 168 Figura 20 Notas de A2 sobre processo projetual do TP3 (Projetos II). 168 Figura 21 Notas de A3 sobre processo projetual do TP5 (Projetos III). 168 Figura 22 Notas de A2 sobre o briefing do TP4 (Projetos II). 173 Figura 23 Tópico do briefing: objetivo de projeto identificado por A3 e A4 para o TP1 (Proj. I). 174 Figura 24 Notas de A1 sobre tópico do briefing do TP3: objetivo de projeto (Projetos II). 175 Figura 25 Notas de A5 sobre tópico do briefing do TP6: objetivo de projeto (Projetos III). 175 Figura 26 Tópico do briefing: problema projetual identificado por A5 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 175 Figura 27 Notas de A3 sobre tópico do briefing do TP5: problema projetual (Projetos III). 175 Figura 28 Slide de apresentação: problema projetual identificado por A1 e equipe para o TP4 (Projetos II). 176 Figura 29 Notas de A2 sobre tópico do briefing do TP4: problema projetual (Projetos II). 176 Figura 30 Slide de apresentação: problema projetual identificado por A3, A4 e parceiro para o TP4 (Projetos II). 177 Figura 31 Tópico do briefing: informações sobre o cliente descritas por A1 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 178 Figura 32 Tópico do briefing: informações sobre os clientes descritas por A3, A4 e parceiro para o TP2 (Projetos I). 178 Figura 33 Notas de A5 sobre tópico do briefing do TP1: perfil dos clientes (Projetos I). 180 x Figura 34 Notas de A3 sobre tópico do briefing do TP5: perfil dos clientes (Projetos III). 180 Figura 35 Painel de estilo de vida elaborado por A3 e A4 para o TP1 (Projetos I). 181 Figura 36 Notas de A5 sobre tópico do briefing do TP5: perfil do público-alvo (Projetos III). 182 Figura 37 Notas de A1 sobre tópico do briefing do TP6: perfil do público-alvo (Projetos III). 183 Figura 38 Tópico do briefing: informações sobre o público-alvo descritas por A1 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 183 Figura 39 Tópico do briefing: informações sobre o público-alvo descritas por A2 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 183 Figura 40 Tópico do briefing: informações sobre o público-alvo descritas por A3, A4 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 183 Figura 41 Tópico do briefing: informações sobre o público-alvo descritas por A5 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 184 Figura 42 Notas de A1 sobre o briefing do TP5 (Projetos III). 184 Figura 43 Tópico do briefing: informações sobre localização e entorno descritas por A2 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 185 Figura 44 Tópico do briefing: informações sobre localização e entorno descritas por A5 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 185 Figura 45 Tópico do briefing: informações sobre localização e entorno descritas por A2 e parceiro para o TP5 (Projetos III). 185 Figura 46 Notas de A2 sobre tópico do briefing do TP1: análise do uso do espaço e das necessidades materiais relacionadas (Projetos I). 186 Figura 47 Notas de A1 sobre tópico do briefing do TP3: análise do uso do espaço e das necessidades materiais relacionadas (Projetos II). 186 Figura 48 Notas de A1 sobre tópico do briefing do TP6: análise do uso do espaço e das necessidades materiais relacionadas (Projetos III). 187 Figura 49 Notas de A1 sobre tópico do briefing do TP1: edificação, localização e entorno (Projetos I). 188 xi Figura 50 Tópico do briefing: informações sobre o entorno descritas por A2 e equipe para o TP4 (Projetos II). 188 Figura 51 Notas de A5 sobre tópico do briefing do TP1: edificação, localização e entorno (Projetos I). 188 Figura 52 Notas de P2 sobre o briefing do TP2 (Projetos I). 191 Figura 53 Notas de A4 sobre suas percepções em relação ao TP2 (Projetos I). 191 Figura 54 Notas de A3 sobre tópico do briefing do TP4: pesquisa (Projetos II). 192 Figura 55 Notas de A2 sobre tópico do briefing do TP5: pesquisa (Projetos III). 193 Figura 56 Notas de P4 sobre o TP5 de A2 (Projetos III). 193 Figura 57 Notas de A3 sobre tópico do briefing do TP3: pesquisa (Projetos II). 195 Figura 58 Informações de pesquisa de campos realizada por A3 para o TP3 (Projetos II). 195 Figura 59 Notas de A2 sobre tópico do briefing do TP6: normatização aplicável (Projetos III). 197 Figura 60 Notas de P2 sobre levantamento métrico para o TP2 (Projetos I). 198 Figura 61 Notas de P4 sobre levantamento métrico para o TP6 (Projetos III). 199 Figura 62 Notas de P2 sobre processo projetual do TP1 (Projetos I). 203 Figura 63 Notas de P4 sobre processo projetual do TP5 de A1 e parceiro (Projetos III). 204 Figura 64 Tópico do briefing: QDP elaborado por A2 e equipe para o TP4 (Projetos II). 206 Figura 65 Perspectivas eletrônicas da solução projetual de A2 e equipe para o TP4 (Projetos II). 206 Figura 66 Perspectivas eletrônicas da solução projetual de A5 e parceiro para o TP6 (Proj. III). 208 Figura 67 Planta de layout humanizada da solução projetual de A5 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 209 Figura 68 Planta de layout da solução projetual de A3, A4 e parceiro para o TP2 (Projetos I). 210 Figura 69 Perspectiva eletrônica da solução projetual de A1 e equipe para o TP4 (Projetos II). 211 xii Figura 70 Setorização proposta por A5 e parceiro para o TP5 (Projetos III). 211 Figura 71 Planta de layout da solução projetual de A5 e parceiro para o TP5 (Projetos III). 212 Figura 72 Perspectiva eletrônica da solução projetual de A2 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 213 Figura 73 Perspectivas eletrônicas da solução projetual de A3, A4 e parceiro para o TP5 (Projetos III). 213 Figura 74 Notas de P2 sobre processo projetual do TP1 (Projetos I). 214 Figura 75 Geração de alternativas de layout de A4 para o TP3 (Projetos II). 214 Figura 76 Notas de P2 sobre processo projetual do TP1 (Projetos I). 217 Figura 77 Notas de P2 sobre processo projetual do TP1 (Projetos I). 218 Figura 78 Notas de P2 sobre processo projetual do TP2 (Projetos I). 219 Figura 79 Notas de P4 sobre processo projetual do TP6 (Projetos III). 229 Figura 80 Mapa de percepção elaborado por A5 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 230 Figura 81 Estudo de setorização de A1 para o TP2 (Projetos I). 231 Figura 82 Cartaz utilizado por A3 e A4 para apresentação do TP1 (Projetos I). 232 Figura 83 Perspectivas manuais da solução projetual de A1 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 233 Figura 84 Notas de A2 sobre apresentação do TP3 (Projetos II). 233 Figura 85 Prancha resumo apresentada por A3, A4 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 234 Figura 86 Slide de apresentação de A1 e equipe para o TP4 (Projetos II). 234 Figura 87 Slide de apresentação de A5 e equipe para o TP4 (Projetos II). 234 Figura 88 Slide de apresentação de A3, A4 e parceiro para o TP5 (Projetos III). 235 Figura 89 Slides de apresentação de A5 e parceiro para o TP6 (Projetos III). 235 xiii Figura 90 Notas de P2 sobre apresentação do TP1 (Projetos I). 236 Figura 91 Notas de A2 sobre apresentação do TP1 (Projetos I). 237 Figura 92 Notas de A4 sobre apresentação do TP1 (Projetos I). 238 Figura 93 Notas de A2 sobre apresentação do TP3 (Projetos II). 238 Figura 94 Notas de P4 sobre processo projetual do TP5 de A3 e A4 (Projetos III). 240 Figura 95 Notas de A2 sobre processo projetual do TP6 (Projetos III). 241 Figura 96 Notas de P4 sobre processo projetualdo TP6 (Projetos III). 241 Figura 97 Notas de P2 sobre processo projetual do TP2 (Projetos I). 241 Figura 98 Notas de A3 sobre visita técnica (Projetos I). 245 Figura 99 Notas de P2 sobre visita técnica (Projetos I). 245 Figura 100 Especificação de material elaborada por A5 e parceiro para o TP1 (Projetos I). 246 Figura 101 Especificação de material elaborada por A5 e parceiro para o TP3 (Projetos II). 247 Figura 102 Notas de A4 sobre viabilidade econômica do TP3 (Projetos II). 249 Figura 103 Nota de P1 sobre orçamento (Projetos I). 251 Figura 104 Trecho da planilha orçamentária elaborada por A5 e parceiro para o TP3 (Proj. II). 251 Figura 105 Resultados da pesquisa apresentados de forma esquemática: expectativa e realidade. 271 xiv LISTA DE SIGLAS ABD Associação Brasileira de Designers de Interiores ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas ADDIP Asociación de Diseñadores Interioristas Profesionales del Uruguay AIPi Associazione Italiana Progettisti d’interni - interior designers APD Associação Portuguesa de Designers ASID American Society of Interior Designers [Estados Unidos] BIID British Institute of Interior Design CAU/BR Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil CFAI Conseil Français des Architectes d’intérieur CGCODDI Consejo General de Colegios Oficiales de Decoradores y Diseñadores de Interior da España CIDA Council for Interior Design Accreditation [Estados Unidos] CIDQ Council for Interior Design Qualification [Estados Unidos] CNE/CEB Conselho Nacional de Educação / Câmara de Educação Básica [Brasil] CNE/CES Conselho Nacional de Educação / Câmara de Educação Superior [Brasil] CNE/CP Conselho Nacional de Educação / Conselho Pleno [Brasil] DArA Diseñadores de Interior Argentinos Asociados DIA Design Institute of Australia Enade Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes [Brasil] EPT Educação Profissional e Tecnológica MEC Ministério da Educação [Brasil] HDII Indonesian Society of Interior Designers HKIDA Hong Kong Interior Design Association IDAN Interior Designers Association of Nigeria IDC Interior Designers of Canada IDCS Interior Design Confederation Singapore IDEC Interior Design Educators Council [Estados Unidos] IDLNY Interior Designers for Legislation in New York IFI International Federation of Interior Architects / Designers IIDA International Interior Design Association [Estados Unidos] INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira NCIDQ National Council for Interior Design Qualification [Estados Unidos] PIID Philippine Institute of Interior Designers SETEC/MEC Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação [Brasil] xv SUMÁRIO CAPÍTULO 1 Problematização e objetivos 01 CAPÍTULO 2 Ensaio epistemológico sobre o Design de Interiores 08 2.1 Um brevíssimo panorama histórico 09 2.1.1 Do decorador ao designer de interiores 09 2.1.2 Profissionalização do Design de Interiores 26 2.2 Conceituando o Design de Interiores 34 2.2.1 O que é o Design de Interiores? 35 2.2.2 Considerações sobre a ideia de promoção da saúde, da segurança e do bem-estar 45 2.2.3 Considerações sobre a ideia de sustentabilidade 51 2.3 Corpo de conhecimento do Design de Interiores 54 CAPÍTULO 3 Competências profissionais mínimas do designer de interiores 62 3.1 O significado de competência 63 3.2 Etapas típicas do trabalho de um designer de interiores 65 3.3 Competências profissionais mínimas necessárias à práxis do Design de Interiores 82 3.3.1 As competências profissionais mínimas do designer de interiores segundo as normativas do Ministério da Educação 82 3.3.2 As competências profissionais mínimas do designer de interiores segundo estudiosos do campo 91 CAPÍTULO 4 Aspectos do processo de ensino e aprendizagem 107 4.1 Como ensinar e aprender competências 107 4.1.1 Definindo as competências desejadas para os estudantes 111 4.1.2 Elaborando estratégias didáticas orientando-se por competências 115 4.2 Caracterização da disciplina de prática projetual 120 4.2.1 A ambiguidade dos problemas de Design de Interiores 121 4.2.2 Aprender a projetar projetando 123 4.2.3 A disciplina de prática projetual como meio para o desenvolvimento de competências profissionais mínimas do designer de interiores 126 xvi CAPÍTULO 5 Estudo de caso – procedimentos metodológicos 129 5.1 Componentes de pesquisa 130 5.1.1 A questão de estudo (problema de pesquisa) 130 5.1.2 As proposições (hipóteses) 131 5.1.3 As unidades de análise (amostra) 132 5.1.4 A lógica que une os dados à proposição 133 5.1.5 Os critérios para interpretar as descobertas 134 5.2 O processo de coleta de dados 141 5.3 O processo de análise dos dados 143 CAPÍTULO 6 Um olhar crítico sobre as disciplinas de prática projetual 147 6.1 Sobre o curso de Design de Interiores – perfil do egresso, competências profissionais mínimas e organização curricular 147 6.2 Breves considerações sobre o processo de ensino e aprendizagem das disciplinas de prática projetual 155 6.3 Avaliação do desenvolvimento de competências profissionais mínimas por meio das disciplinas de prática projetual 170 6.3.1 Etapa preliminar: negociação 171 6.3.2 Etapa 1: elaboração do programa de projeto 171 6.3.3 Etapa 2: desenvolvimento da solução projetual 200 6.3.4 Etapa 3: elaboração da documentação de construção 242 6.3.5 Etapa 4: gestão da implementação do projeto 249 6.3.6 Etapa 5: avaliação pós-ocupação 252 CAPÍTULO 7 Discussões sobre o ensino da prática projetual em Design de Interiores 254 7.1 Sobre os processos de ensino e aprendizagem das disciplinas de prática projetual 255 7.2 Sobre o desenvolvimento de competências profissionais mínimas por meio das disciplinas de prática projetual 258 7.2.1 A etapa de negociação 258 7.2.2 A etapa de elaboração do programa de projeto 260 7.2.3 A etapa de desenvolvimento da solução projetual 262 7.2.4 A etapa de elaboração da documentação de construção 267 7.2.5 A etapa de gestão da implementação do projeto 268 xvii 7.2.6 A etapa de avaliação pós-ocupação 268 7.3 À guisa de uma conclusão 269 CAPÍTULO 8 Conclusões 273 REFERÊNCIAS 279 APÊNDICE 298 ANEXOS 301 1 CAPÍTULO 1 Problematização e objetivos It is important to define the direction interior design education will take in the twenty-first century to promote continued growth and development in this multifaceted field (GUERIN, 1992, p. 9). A consolidação de cursos dedicados à formação de decoradores no Brasil é uma realidade de meados do século XX. Como exemplo, o decênio de 1940 registrou a criação do primeiro curso de graduação em Arte Decorativa do país, ofertado pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) da então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (VIANA, 2015). Na década de 1950, fundou-se o Instituto de Artes Decorativas (Iade) em São Paulo, primeira escola brasileira criada com a finalidade específica de formar o profissional de Decoração (DANTAS; NEGRETE, 2015). Nos anos 1960, inaugurou-se o curso de Decoração oferecido pela Escola de Artes Plásticas (ESAP) em Belo Horizonte, primeiro curso do tipo em Minas Gerais (AGUIAR, 2006; BAHIA, 2017). Passado mais de meio século da inauguração dos primeiros cursos de Decoração no país, e apesar da visível expansão do campo profissional – o que compreende uma ampliação dos seus limites de atuação, o fortalecimento de um corpo de conhecimento que subsidie o exercício da profissão, o interesse por pesquisas que confiram base científica à atividade e a consolidação da alteração nominal para Design1 de Interiores –, o ensino do Design de Interiores é um tema pouco discutido em publicaçõesem português. Essa situação se afigura preocupante uma vez que se registrou, nos últimos anos, um grande crescimento do número de cursos ofertados no Brasil – dos 2782 cursos de graduação em Design de Interiores em atividade no país, 3 bacharelados foram criados antes dos anos 1990, 1 tecnológico e 1 bacharelado foram criados 1 Neste trabalho, quando o uso do termo design fizer referência à ideia de designar (concepção, intenção, desígnio, atribuição, projeto de um produto) ou desenhar (registro, configuração, arranjo, estrutura, produto de uma concepção), sua grafia se dará com inicial minúscula. Por outro lado, o Design, na sua acepção de substantivo que determina um campo profissional ou área do conhecimento, será grafado com inicial maiúscula. Já o substantivo utilizado para determinar o profissional do Design será grafado com inicial minúscula – designer. E, apesar de Houaiss (2020) indicar a grafia do design/Design/designer em itálico, em virtude do estrangeirismo do vocábulo, optou-se, neste trabalho, por escrevê-los sem destaque. Por fim, nas citações diretas em que esses termos forem utilizados, manter-se-á a grafia do texto original. 2 Cursos de graduação em Design de Interiores em atividade no Brasil: 272 tecnológicos e 06 bacharelados; desses últimos, 02 são denominados Design de Interiores, 02 recebem o nome de Design de Ambientes, 01 é intitulado Decoração e 01 possui a nomenclatura Composição de Interior (E-MEC, 2020). Não foram computados os cursos denominados Design com objetivo de formação generalista. 2 entre 1991 e 2000, 67 tecnológicos e 1 bacharelado foram criados entre 2001 e 2010 e 204 tecnológicos e 1 bacharelado foram criados entre 2011 e 2020 (MEC, 2020). Como se não bastasse, não há dúvidas de que “educadores do Design de Interiores devem revisar e avaliar constantemente métodos e currículos pedagógicos para acompanhar as mudanças nas exigências tecnológicas e profissionais” (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993, p. 69, tradução nossa3). Compreendidos como caixas de ressonância das demandas sociais e de mercado, espera-se que os cursos de formação profissional estejam em constante alinhamento com o que se espera do Design de Interiores, transformando-se ao passo que o campo profissional se transforma e, ainda, contribuindo com a sua transformação (GUERIN; THOMPSON, 2004). De início – e, aqui, fazemos menção especial aos séculos XVIII e XIX –, a atividade limitava-se ao decorar de, notadamente, espaços residenciais, visando impressionar por meio de aparência luxuosa e comunicar o status da posição social privilegiada de seus proprietários. Almejava-se, também, extremo conforto (DEJEAN, 2012; MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). Nesse contexto, a Decoração de Interiores era uma atividade exercida por artesãos, estofadores, marceneiros, varejistas, arquitetos e entusiastas, não havendo necessidade de educação formal para a sua prática. Ao decorador bastava possuir uma boa rede de contatos, ter conhecimento sobre os estilos históricos e possuir bom gosto, bom senso, talento natural e autoconfiança (BROOKER; STONE, 2014; EDWARDS, 2010; GIBBS, 2013; MASSEY, 2008; WHITE, 2009). Na primeira metade do século XX, com o progresso da industrialização, a oferta de um grande volume de bens de consumo e o surgimento de tecnologias como telefone, iluminação elétrica e banheiros e cozinhas sofisticados, houve a transformação do modo de se fazer Decoração. Fez- se necessário treinamento formal para que o decorador fosse capaz de orquestrar aparência, conforto e todas as novas tecnologias, então ao alcance de um número bem maior de pessoas (GIBBS, 2013; MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). Em meados do século XX, como parte do processo de profissionalização, concretizou-se a alteração nominal de Decoração de Interiores para Design de Interiores. Para Guerin e Martin (2004; 2010), a separação consciente entre referidos termos foi consequência da expansão do foco da atividade para espaços não residenciais nos anos 1950. White (2009) acredita que o surgimento de diversas escolas e associações de classe tenha consagrado, nos anos 1960, a 3 Texto original: “Interior design educators must constantly revise and evaluate pedagogical methods and curricula to keep up with changes in technology and professional requirements” (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993, p. 69). 3 mudança de nomenclatura. Já Lees-Maffei (2008) explica que o Design de Interiores se configurou como uma especialidade do Design no pós-Segunda Guerra Mundial, tal como o Design de Moda, o Design Gráfico e o Design Automotivo. Fato é que a mudança de nome implicou, também, mudança de significado. “Essa profissão evoluiu de uma predominantemente preocupada com a ornamentação de superfície para uma baseada no design para o comportamento humano” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1, tradução nossa4). O Design de Interiores, na condição de profissão, teve a sua essência modificada na transição para o século XXI (PILE; GURA, 2014). Agora, o foco da atividade estava nas pessoas, mais especificamente em compreender o modo como o arranjo e a ambiência dos espaços influenciam o comportamento dos indivíduos, buscando melhorar-lhes a qualidade de vida. Estética e funcionalidade continuaram premissas do projeto de Design de Interiores, mas a necessária contribuição para a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas por meio dos seus ambientes de vivência exigiu que o designer de interiores passasse a integrar beleza, função e significado em suas soluções projetuais (GUERIN; MARTIN, 2004; 2010). É que o espaço físico se transforma em espaço humano por ser uma construção de símbolos que influenciam fortemente o comportamento do(s) indivíduo(s) que o experiencia(m) (TAN, 2011). Ademais, o Design de Interiores, no final do século XX, assumia uma outra responsabilidade: a de contribuir para o desenvolvimento sustentável. Isso porque qualquer projeto executado consome recursos naturais e gera poluição e resíduos durante as suas etapas de construção, uso e descarte. A ideia da sustentabilidade ambiental promovida pelo Design de Interiores associa- se, portanto, ao compromisso de minimizar os impactos negativos causados ao meio ambiente (BROOKER, STONE, 2014; MOXON, 2012; PILE; GURA, 2014). Diante de uma maior complexidade projetual, a prática do Design de Interiores passou a requerer um processo sistematizado de desenvolvimento de projetos e um vasto conhecimento especializado adquirido por meio de educação formal e experiência, vez que talento natural, bom gosto, bom senso e autoconfiança não seriam mais suficientes para o seu exercício (GUERIN; MARTIN, 2004; PILE; GURA, 2014). Além disso, tornou-se indispensável à prática do Design de Interiores o desenvolvimento de pesquisas que conferissem ao designer substrato para a tomada de decisões (DICKINSON; ANTHONY; MARSDEN, 2012; GUERIN; THOMPSON, 2004; NUSSBAUMER, 2019) – afinal, existem duas responsabilidades sociais imbricadas com o projetar ambientes de vivência humana. Exatamente por isso, reiteramos, as soluções de Design 4 Texto original: “This profession has evolved from one predominantly concerned with surface ornamentation to one based on designing for human behavior” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1). 4 de Interiores não poderiam mais ser idealizadas e planejadas levando-se em conta apenas a intuição e insights criativos, fazendo-se necessário conjugar ciência e arte, pesquisa aplicada e poesia, racionalidade e sensibilidade. Em consequência, e como processo natural da transformação de um campo profissional que se adequa às constantes transformações sociais e de mercado, fez-se preciso formar profissionais do Design de Interiores com perspectiva de ação diferente da que se tinha para a Decoração de Interiores. Para tanto, observou-se a necessidade de o designer de interiores desenvolver competências profissionais queminimamente o habilitassem à práxis do Design de Interiores do século XXI, compreendidas aqui como a capacidade de criar, o domínio da linguagem do Design, o trânsito interdisciplinar, a visão sistêmica, o domínio da metodologia projetual, a visão setorial, a capacidade crítica para gerenciar, a visão histórica e prospectiva e a capacidade de pesquisar. Entretanto, acredita-se – e aqui apresenta-se a hipótese deste trabalho –, essa não é uma realidade amplamente concretizada. Em outros termos, acredita-se que o atual ensino do Design de Interiores ainda precisa se alinhar com a perspectiva posta ao campo profissional no início do século XXI. Nesta investigação, então, buscou-se avaliar em que medida o ensino do Design de Interiores contribui para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas almejadas para os designers de interiores. Como primeiro recorte, elegeu-se a disciplina de prática projetual – projetos ou studio, como é conhecida no exterior – como enfoque da investigação. É que ela é um componente curricular obrigatório dos cursos de formação profissional em Design de Interiores por oportunizar docentes e discentes vivenciarem a relação entre a teoria e a prática no campo profissional do Design de Interiores (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). Ou seja, é por meio das disciplinas de prática projetual que os futuros designers de interiores aprendem a desenvolver projetos de Design de Interiores. Como segundo recorte, e considerando a opção pelo estudo de caso como metodologia de pesquisa, elegeu-se o curso superior de tecnologia em Design de Interiores de uma instituição de ensino superior brasileira, aqui denominada IES-X5. Essa escolha justifica-se pelo fato de essa ser uma modalidade da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) que faz parte do contexto de 97,9% dos cursos de formação profissional superior em Design de Interiores no país (MEC, 2020), representando uma amostra do que pode ser realidade em diversas outras instituições. 5 O nome da instituição de ensino superior que oferta o curso eleito para investigação foi ocultado neste texto com vistas a observar o princípio da confidencialidade. 5 Desse curso, elegeu-se uma turma e acompanhou-se o desenvolvimento de seu processo de ensino e aprendizagem durante os semestres em que as disciplinas de prática projetual foram lecionadas – nosso terceiro recorte. Com o entendimento de que os atores envolvidos nesse processo – professores e estudantes – possuem igual importância, evidências do que eles planejaram (programas de disciplina), disseram (entrevistas), escreveram (diários de bordo) e produziram (trabalhos práticos) foram coletadas, sistematizadas e analisadas, somadas à evidência documental proveniente do Projeto Pedagógico de Curso. Antes disso, e com vistas a analisar essas evidências, desenvolveu-se uma estrutura teórica que, em síntese, foi utilizada como modelo com o qual os resultados foram comparados, tornando- se parâmetro para o desenho de conclusões e a visualização de oportunidades de melhoria no ensino da prática projetual em Design de Interiores. Trata-se dos capítulos 2, 3 e 4 da tese, descritos brevemente nos próximos parágrafos. No capítulo 2, apresenta-se um ensaio epistemológico sobre o Design de Interiores. Essa abordagem se fez necessária em virtude da praticamente ausência de discussões sobre a temática em publicações em português e da necessidade de se trazer à tona essa discussão para possibilitar o tratamento consistente do significado desse campo profissional, suas origens e os limites de atuação do designer de interiores. Sem os devidos esclarecimentos sobre essas questões, seria impossível estabelecer uma crítica ao atual ensino da prática projetual em Design de Interiores, já que não há como avaliar o ensino de determinado campo profissional sem compreendê-lo. No capítulo 3, aborda-se as competências profissionais mínimas almejadas para o designer de interiores brasileiro. Para tanto, fez-se necessário compreender o significado de competências, decompor analiticamente as etapas típicas de trabalho do designer de interiores e compreender o que o Ministério da Educação brasileiro e estudiosos da área entendem sobre o tema, trazendo a lume as nove já citadas competências profissionais mínimas desejáveis para os egressos dos cursos superiores de Design de Interiores no Brasil. Se o objetivo deste estudo é avaliar em que medida essas competências profissionais mínimas são desenvolvidas por meio das disciplinas de prática projetual, é preciso, antes, compreendê-las. No capítulo 4, buscou-se compreender os fundamentos do ensino orientado por competências, o que possibilitou a construção do parâmetro de pesquisa que, no estudo de caso, conduziu a avaliação do ensino da prática projetual com enfoque no desenvolvimento de competências profissionais mínimas. Buscou-se, ainda, caracterizar a disciplina de prática projetual, visando 6 compreender a sua estrutura, o principal método de ensino empreendido e a tipologia dos problemas abordados no processo de projetação em Design de Interiores. Dando sequência à descrição dos elementos textuais da tese, no capítulo 5 estão detalhados os procedimentos metodológicos utilizados para o desenvolvimento do estudo de caso – as questões do estudo, as suas proposições, as unidades de análise, a lógica que une os dados às proposições e os critérios para interpretar as descobertas –, bem como a descrição dos processos empreendidos para a coleta e a análise dos dados. Já o capítulo 6 é dedicado à apresentação e à análise dos dados obtidos com o estudo de caso, o que possibilitou compreender a estrutura do curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X e o perfil de egresso traçado para os seus alunos, analisar relevantes aspectos do processo de ensino e aprendizagem das suas disciplinas de prática projetual e avaliar em que medida essas disciplinas contribuem para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas almejadas para os futuros designer de interiores. No capítulo 7, fez-se possível, a partir da estrutura teórica construída, estabelecer uma discussão sobre os resultados obtidos na pesquisa de campo. Esse processo aclarou os pontos em que o ensino da prática projetual em Design de Interiores atendem às expectativas postas e os pontos que demandam maior atenção por parte dos professores da área. O oitavo e último capítulo apresenta a conclusão deste trabalho: as disciplinas de prática projetual têm contribuído para a formação de profissionais híbridos, uma espécie de decorador designer de interiores ou designer de interiores decorador, confirmando a hipótese apresentada. A implicação disso é clara: precisamos reaprender a ensinar a projetação em Design de Interiores. Por fim, cabe explicar que a principal motivação deste trabalho foi a possibilidade de contribuir para a melhoria do ensino do Design de Interiores – em particular, o ensino da sua prática projetual. A crítica que aqui se desenvolve tem o único intuito de identificar pontos fortes e pontos fracos do ensino da prática projetual em Design de Interiores para elucidar oportunidades de melhoria e incitar ações de professores para melhor formarmos os designers de interiores brasileiros. O que se espera é que qualquer interessado na temática que leia este trabalho possa fazer associações entre a realidade apresentada e a sua realidade, comparando, analisando, refletindo e se orientando para implementação de mudanças. A seguir, são expostos os objetivos desta investigação. 7 Objetivo Geral Avaliar em que medida as disciplinas de prática projetual contribuem para a formação do perfil profissional almejado para os designers de interiores na contemporaneidade, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de competências profissionais mínimas. Objetivos Específicos1. Estruturar um conceito de Design de Interiores, evidenciando o perfil profissional globalmente almejado para o designer de interiores; 2. Identificar e compreender as competências profissionais indispensáveis à prática profissional do Design de Interiores; 3. Caracterizar o ensino orientado por competências; 4. Caracterizar a disciplina de prática projetual em Design de Interiores; 5. Elaborar um parâmetro de pesquisa que possibilite avaliar o ensino da prática projetual em Design de Interiores, com enfoque no desenvolvimento de competências profissionais mínimas; e 6. Avaliar, por meio de estudo de caso, as disciplinas de prática projetual de uma turma de um curso superior de tecnologia em Design de Interiores. 8 CAPÍTULO 2 Ensaio epistemológico sobre o Design de Interiores Apresenta-se, neste capítulo, uma discussão sobre questões relacionadas à epistemologia do Design de Interiores. Não se pretende, com este texto, esgotar o assunto. Justamente por ser um tema pouco (ou quase nada) explorado em textos em português, este ensaio se justifica por representar uma busca por respostas ao que é o Design de Interiores e sua origem, seu objeto de trabalho, sua abrangência e seu corpo de conhecimento. Na medida em que nos propomos a investigar o ensino do Design de Interiores, as respostas a essas questões se fazem premissas. Primeiro, porque não é possível ensinar o exercício da prática profissional do Design de Interiores sem antes entendê-lo. Conhecer a sua origem, ter clareza sobre o seu objeto de trabalho, compreender a sua abrangência e estudar o seu corpo de conhecimento são pressupostos básicos para o professor que leciona uma disciplina de prática projetual em Design de Interiores. E tornam-se igualmente pressupostos para o pesquisador que se propõe a investigar o processo de ensino e aprendizagem dessa prática. Segundo, porque se, por meio da pesquisa e da educação formal, pretende-se contribuir para a evolução do campo do Design de Interiores, é preciso minimamente compreendê-lo. Entretanto, essa não é a realidade das publicações científicas da área no Brasil. Aqui, pouco se discute sobre a gênese e o significado do Design de Interiores. Há, por outro lado, grande preocupação com o fazer, com o resultado do ato de projetar, deixando-se à margem desse processo importantes fundamentos epistemológicos que lhe dão substância. Também por isso, tais conteúdos merecem a atenção que lhes é dada neste capítulo. Para tanto, buscou-se, inicialmente, conhecer as origens e as transformações vivenciadas pelo Design de Interiores ao longo do tempo, por meio de um breve panorama histórico. Após, procurou-se verificar como diversas associações de classe de diferentes países compreendem o Design de Interiores, bem como o fazem estudiosos da área, na tentativa de defini-la e de estabelecer o seu objeto de trabalho, os limites do campo e o seu corpo de conhecimento. 9 2.1 Um brevíssimo panorama histórico To look at our future, it is imperative that we consider our past (WHITE, 2009, p. xii). A história do Design de Interiores pode ser narrada sob diferentes aspectos. Pode ser contada focando-se na biografia de profissionais de relevo, na produção das Artes Decorativas, na relação com a Arquitetura e as Artes Plásticas, entre tantas outras possibilidades (HINCHMAN, 2013). Este trabalho analisa as principais transformações vivenciadas pela atividade em seu processo de profissionalização. Para tanto, fez-se indispensável compreender, mesmo que brevemente, o contexto histórico em que essa evolução se deu, destacando-se o francês dos séculos XVII e XVIII, o inglês dos séculos XVIII e XIX e o estadunidense do século XX, que fizeram com que esses países, cada qual em seu tempo, liderassem a profissionalização do Design de Interiores. Esses influentes contextos tornaram-se espelho para o desenvolvimento da profissão em diversos países, do que não escapou o Brasil. Há, também, que se destacar o forte e influente contexto histórico da Europa continental, sobretudo o alemão, cujas produções, especialmente na primeira metade do século XX, alavancaram a profissionalização do campo do Design de Produto, influenciando fortemente o campo do Design de Interiores. 2.1.1 Do decorador ao designer de interiores In short, interior designers may decorate, but decorators do not design (NCIDQ, 2017, on line). I A experiência francesa do final do século XVII até meados do século XVIII O contexto socioeconômico francês que se estabeleceu no reinado de Luís XIV, “o Rei Sol” (1643- 1715), e Luís XV, “o Bem Amado” (1715-1774), constituiu-se terreno propício para mudança de paradigma sem precedentes na história da aristocracia: do viver com suntuosidade visando à exibição pública de riqueza e poder – dando-se extremo valor às aparências e aos protocolos comportamentais – para o viver com conforto a partir da ideia de privacidade – com intensa preocupação com o bem-estar e a informalidade. Resultado marcante dessa transposição foram as grandes transformações implementadas na configuração dos ambientes de moradia, 10 colocando Paris, na virada do século XVIII, como centro mundial da vanguarda das Artes Decorativas (DEJEAN, 2012; MASCARENHAS, 1979). Para compreensão da grande mudança que se concretizava nas primeiras décadas do século XVIII, é preciso entender que a ideia do conforto como premissa para o viver cotidiano praticamente inexistia. A ornamentação, ao contrário, sempre esteve presente nos espaços de vivência dos aristocratas, sendo elaborada unicamente com o intuito de ser admirada e de reforçar o status de uma posição social privilegiada. Para obter o resultado majestoso e imponente proporcionado pela profusão de ornatos, recorria-se a um detalhado trabalho com os elementos arquitetônicos, tais como paredes, tetos, pisos, portas, janelas, escadas e guarda- corpos, cenário em que os poucos móveis de que se dispunha exerciam uma função secundária na composição dos cômodos. De modo geral, os interiores eram muito amplos, interconectados e não diferenciados, consequência dessa Arquitetura que visava impressionar, que dedicava muito esforço para elaborar fachadas imponentes, edificações grandiosas e ambientes de recepção deslumbrantes. Nada era pensado para promover a privacidade, para ser útil ou para proporcionar conforto (DEJEAN, 2012; GIBBS, 2013; MASCARENHAS, 1979). Em tempos de mudança de paradigma, os interiores passaram a influenciar o projeto da edificação. Começaram a ser entendidos como ambientes de vivência do cotidiano familiar, que possuem uma função determinada e que precisam ser ornamentados e mobiliados visando ao conforto de quem os utiliza e oferecendo-lhes privacidade. A Arquitetura, assim, precisou ser repensada em função da necessidade de conforto, de informalidade e de privacidade, bem como de higiene, dando forma ao lar moderno: aquele capaz de proporcionar tudo isso (DEJEAN, 2012). A abertura à casualidade6 e a adoração aos objetos que mobíliam e adornam uma casa, promovendo bem-estar aos indivíduos, são frutos do desejo coletivo pelo conforto que em Paris nascia e ali se tornava possível em larga escala, no seio de uma sociedade moderna que prosperava economicamente. No processo de concretização desse cenário, DeJean (2012) destaca a influência de duas personagens obcecadas por Decoração e Arquitetura: a marquesa de Montespan, mulher que convenceu o seu amante, o Rei Sol – monarca historicamente conhecido por sua paixão em construir e por sua obsessão pela magnificência e pela pompa –, 6 A casualidade deve ser entendida como a informalidade, ou seja, a não obediência às regras de etiqueta e aos protocolos rígidos que ritualizavam o dia a dia da aristocracia que precisava preservar o seu status perante o olhar da sociedade. Pode-se dizer que a ritualizaçãoestava para a valorização da vida pública (os que almejassem status jamais poderiam se portar de maneira informal; ideia da constante observação do olhar do outro) assim como a casualidade está para a valorização da vida privada (DEJEAN, 2012). 11 a considerar e a experimentar as vantagens de uma vida mais informal, confortável e privada; e a marquesa de Pompadour, amante do Bem Amado – monarca também historicamente conhecido por sua paixão em construir – e sua parceira na construção de inúmeras edificações onde a suntuosidade foi ofuscada pelo conforto, pela intimidade e pelo aconchego. Segundo DeJean (2012), a personalidade dessas duas mulheres e as suas alianças, respectivamente, com Luís XIV e Luís XV as possibilitaram influenciar comportamentos, ditar moda e patrocinar a criação de uma Arquitetura moderna, contribuindo para introjetar na sociedade parisiense de então esse novo conjunto de valores. Mascarenhas (1979), por outro lado, é enfática ao afirmar que o século XVII foi um século dos homens e que o reinado do Rei Sol – monarca de caráter egocêntrico, com amor à glória, vaidade e orgulho imensos – e todos os desenvolvimentos artísticos e culturais do período não tiveram nenhuma influência feminina. Entretanto, a autora corrobora a ideia de que, no final do reinado de Luís XIV, já era perceptível uma reação para menor pompa, maior alegria e simplicidade, contrapondo-se, em certa medida, com os valores de grande disciplina, ordem, exagerada etiqueta de corte, solenidade e luxo pomposo que lhe eram característicos. Fato é que o desejo por uma moradia confortável e por uma vida informal se proliferou na Paris do início do século XVIII e se fez realidade em razão das possibilidades econômicas da nova elite financeira que surgia. Pela primeira vez, os nouveaux riches – pessoas sem antecedentes aristocratas com alto poder de compra em função de uma riqueza adquirida dentro de sua própria geração (e não por herança familiar) – podiam morar e viver como as famílias mais tradicionais da nação. Nessa época de efervescência e criação, manufatureiros dedicavam-se a imaginar a vida das pessoas e a idealizar objetos que atendessem às suas necessidades. Nesse pano de fundo, surgiram, entre outros, a cômoda, o criado mudo, a penteadeira e o sofá, e os móveis deixaram de exercer uma função secundária e começaram a adquirir o status de Artes Decorativas (DEJEAN, 2012). Em 1735, a arte de tornar os espaços elegantemente convenientes e confortáveis – então denominada Decoração de Interiores – já estava adquirindo importância e tornando-se necessária. Afinal, em meio a tamanha profusão de objetos para o lar, nascia a demanda por um indivíduo capaz de articular harmoniosamente os diversos aspectos do mundo da Decoração. De início, os arquitetos, que já estavam envolvidos com o projeto da edificação, passaram a assumir também a ideação dos interiores. À medida que a Decoração se tornava independente da Arquitetura, um novo trabalhador se despontava: o decorador. Com essa possibilidade em mente, comerciantes do ramo, marceneiros e estofadores também passaram a orientar os seus 12 clientes – e o faziam por menos dinheiro que os arquitetos – sobre a decoração de suas casas (DEJEAN, 2012). [...] em meados do século XVIII a decoração de interiores havia se tornado o que chamamos de campo. Pela primeira vez, objetos eram valorizados não por serem deslumbrantes, mas por sua capacidade de se adequar a um contexto e, assim, fazer de um cômodo tanto um reflexo do gosto pessoal quanto um lugar que melhorava e facilitava a vida diária. Pela primeira vez havia pessoas cujo trabalho era ajudar os outros a escolher sua decoração e criar objetos que se encaixassem nos espaços interiores de seus clientes, além de arrumá-los em suas residências. Pela primeira vez, o mundo do estilo se abriu para o design em um novo sentido da palavra, um que incluía a ideia de arte do design, que unia forma e função. O novo campo também dava reconhecimento oficial ao fato de que artesãos e designers franceses estavam criando a indústria das artes decorativas (DEJEAN, 2012, p. 218). Nessa França da primeira metade do século XVIII, a atividade de Decoração de Interiores atingiu o seu ápice, utilizando, soberanamente, o estilo hoje conhecido por Rococó. E Paris, então centro de vanguarda, influenciou fortemente a Europa, com única exceção notável para a Inglaterra, que se mantinha fiel ao Neoclassicismo (DEJEAN, 2012; GIBBS, 2013). Movimento artístico que pretendia retomar os ideais estéticos da Antiguidade Clássica – em suma, a pureza da forma e da expressão da produção greco-romana que fora renegada pelo Rococó –, o Neoclassicismo se desenvolveu nas décadas de 1750 e 1760 e dominou o gosto europeu no final do século XVIII (FORTY, 2007). Nesse final de século, a França não mais ditava os gostos da Europa. Estava enfraquecida e perdia influencia em função de sua situação política e econômica. A Inglaterra, ao contrário, começava a se tornar influente como líder comercial e como potência colonial dominante no mundo, vivenciando grande prosperidade em função, também, da riqueza gerada pelas suas fábricas (DEJEAN, 2012; MASSEY, 2008). II A experiência inglesa de meados do século XVIII até o final do século XIX Em contraste à lógica e à rigidez greco-romano expressas no Neoclassicismo, a Era Vitoriana – assim denominado o período de prosperidade e paz no Reino Unido durante o reinado (1837- 1901) da rainha Vitória (1819-1901) –, foi marcada pelo uso excessivo do ornamento a partir de uma mistura de estilos do passado, fazendo proliferar diversos tipos de ornamentação decorativa. O estilo Vitoriano, caracterizado por sua profusão, energia e vitalidade, foi percebido por muitos contemporâneos como “o mau gosto em excesso” (PILE; GURA, 2014). 13 No final do século XIX, contudo, eclodiu, na Inglaterra – com destaque para William Morris7 (1834-1896), cujas ideias foram difundidas por meio do Arts and Crafts –, uma mentalidade de reação aos estilos do passado e uma vontade de criar um estilo novo, diferente de tudo o que já havia sido feito. Ademais, os ideais do Arts and Crafts iam de encontro à indústria e às suas produções. É que o uso excessivo do ornamento era também consequência de uma indústria que conseguia produzir de forma mais rápida e mais barata o que até então era produzido manualmente. Porém, faltava a essa produção industrializada o refinamento e o apuro estético de outrora (PEVSNER, 2001; PILE; GURA, 2014; FORTY, 2007). Para Pile e Gura (2014), essa falta de refinamento e apuro estético explica-se pela mudança no modo de produção dos objetos. Antes da mecanização, o trabalho era manual e o artesão dominava todo o processo de produção, possuía tradição no ofício e olhar apurado. Quando o maquinário e a linha de produção se tornaram realidade, o operário não dominava todo o processo de produção e, muito menos, os conteúdos estéticos. Nesse cenário, o responsável pela forma do produto (desenho do ornamento) era o dono da fábrica ou outro encarregado – que, igualmente, não possuíam tradição no ofício nem apuro estético –, e que se preocupava, acima de tudo, em entregar o que o mercado pedia: o máximo de ornamentação possível. E assim o fizeram, de uma maneira mais fácil, mais barata e mais lucrativa que o modo de fazer artesão. Em complemento, Forty (2007) explica que a falta de refinamento e apuro estético dos objetos produzidos em série não era consequência direta da introdução da mecanização no processo de produção, mas sim da ganância dos industriários, que, visando a maiores lucros, estimulavam a diminuição da qualidade dos produtos e exigiam uma produção cada vez mais veloz (ideia da quantidade e do lucro acima da qualidade). Para esse autor, os reformadores do Design que atribuíam o mau gosto vigente ao uso da máquina não questionavam esse sistemaporque 7 John Ruskin (1819-1900) é também uma figura importante nesse contexto. Suas ideias influenciaram o pensamento de Morris. Aquele defendia a volta do estilo Gótico medieval por ser uma prática honesta no uso dos materiais (que expressavam a função do objeto e as técnicas de produção empreendidas) e por enfatizar a manufatura de alta qualidade como única forma de alcançar referida honestidade. Seu objetivo era banir o excessivo e feio ornamento. Morris almejava unir arte e ofício e desejava que a arte fizesse parte do dia a dia das pessoas, exercendo uma importante função nos interiores. Para ele, a produção industrial era indesejável, especialmente porque alienava o trabalhador de qualquer contribuição criativa nos produtos por ele produzidos. Morris defendia a concepção de uma produção feita para todos, na qual o ornamento é sinônimo de excesso e o significado de funcionalidade é muito forte – os produtos devem ser aceitáveis por todos, sendo o seu “bom funcionamento” uma necessidade básica. Assim, o belo deveria ser consequência da perfeita adequação do objeto ao material e ao uso. Entretanto, ao mesmo tempo em que idolatrava o artesanato criativo como uma alternativa à produção em massa e ao fim da distinção entre artesão e artista, o raciocínio da produção para muitos mostrava-se contraditório, pois, devido ao processo artesanal de produção, não conseguia atender à demanda, fazendo com que os produtos fossem mais caros (MASSEY, 2008; PEVSNER, 2001; PILE; GURA, 2014). 14 também lucravam com ele. Morris, ao contrário, foi um dos poucos contemporâneos que se aprofundou na questão e acusou a cobiça humana pelo mau gosto produzido por meio das máquinas. Para Adolf Loos (1980), esse ornamento que impregnava as manifestações artísticas com inspiração no passado era incapaz de expressar o cenário cultural que se vivenciava e não mais estaria coerente com o modo de viver do homem do início do século XX. O contexto era de consolidação da Revolução Industrial. Liderada pela Inglaterra desde a metade do século XVIII, referida revolução havia imprimido uma nova estrutura social e econômica no país e nos de sua influência8, diferente de qualquer maneira de viver experimentada até então (MASSEY, 2008; PEVSNER, 2001; PILE; GURA, 2014). Em meados do século XIX, a economia agrícola estava gradualmente sendo substituída pela economia industrial, impulsionando o desenvolvimento de muitas cidades (COLEMAN, 2002). Os avanços no campo das ciências e das tecnologias propiciaram a oferta de educação, lazer, transporte e saúde orientado para as massas. Também nesse sentido, as modificações nas relações de produção se voltaram para uma lógica de consumo de massa (PEVSNER, 2001). Atinente aos interiores domésticos, eram muitas as novidades em termos tecnológicos que visavam ao conforto dos moradores, como a modernização dos sistemas de encanamento de água, de iluminação e de aquecimento (PILE; GURA, 2014). Somado a isso, grandes lojas de departamento na Inglaterra e nos Estados Unidos começaram a oferecer seções destinadas à venda de objetos para o lar, como tapetes, papéis de parede, tecidos, luminárias, vasos e outros itens de decoração (COLEMAN, 2002). Se, havia bem pouco tempo, as pessoas comuns possuíam poucos objetos em seus lares – lembrando que esses poucos objetos eram de origem manufatureira –, muitas já eram as opções de artefatos industrializados disponíveis para a configuração das casas (PILE; GURA, 2014). Produzidos em massa, sem apuro estético e com baixa qualidade, referidos objetos contribuíram para a percepção de falta de gosto e de refinamento do novo estrato social que os consumia: a classe média (MASSEY, 2008). As pessoas com poder aquisitivo eram cada vez menos aristocratas e cada vez mais produtores industriais autônomos ou profissionais ligados à indústria. Além da riqueza gerada pelas fábricas, novos profissionais com poder de compra surgiram com os negócios modernos, como vendedores, bancários, agentes de seguros e contadores (PILE; GURA, 2014). Essa classe média 8 França, Alemanha, Estados Unidos e outros países também cresceram em riqueza e status à medida que o processo de industrialização avançava (PILE; GURA, 2014). 15 queria viver com mais conforto e, por meio da decoração dos interiores de suas residências, queria também aparentar prosperidade e luxo, sem, contudo, possuir o bom gosto e o refinamento tradicionalmente inerentes à aristocracia (MASSEY, 2008). Socioeconomicamente acima da classe média estavam os nouveaux riches, donos das novas fortunas do final do século XIX. Se a classe média desejava aparentar luxo e prosperidade, eles queriam, ainda, demonstrar poder por meio da decoração de suas casas (BROOKER; STONE, 2014). Como de costume, comerciantes do ramo, artesãos, marceneiros e estofadores ofereciam sugestões para decoração e layout das casas e, diante dessa situação, passaram também a dar atenção às residências da classe média. Os arquitetos, à época, estavam mais interessados em edifícios públicos e comerciais, e como era de costume, trabalhavam com projetos em que assumiam o controle total da construção, responsabilizando-se pela estrutura arquitetônica e por seus interiores (BROOKER; STONE, 2014; EDWARDS, 2010). Ademais, muitos aristocratas em situação de decadência perceberam a oportunidade de utilizar o seu bom gosto e a sua sofisticação de berço para auxiliar os novos ricos na decoração de suas casas (GIBBS, 2013). Como esses aristocratas, diversos entusiastas, especialmente mulheres, cada vez mais ofereciam os serviços de Decoração de Interiores. III A experiência estadunidense do início do século XX Nos Estados Unidos, em especial, havia o entusiasmo pelo Ecletismo9, ou seja, pela imitação e pela mistura de estilos antigos conforme conveniência (MASSEY, 2008). A onda de construção de edifícios ecléticos demandou especialistas que soubessem produzir os interiores em coerência com a Arquitetura da edificação, visando alcançar o desejado efeito de cultura, prosperidade e status (PILE; GURA, 2014). O contexto socioeconômico norte-americano – e também o inglês – do final do século XIX e início do século XX possibilitou a contratação de decoradores de interiores, impulsionando a 9 Nos Estados Unidos da América, onde não havia tradição em estilos históricos, a prática de copiar os estilos do velho mundo trazia consigo cultura, prosperidade e status tradicionalmente associados à aristocracia europeia. O Ecletismo foi venerado nesse país, sendo abundantemente empregado em universidades, catedrais, edifícios governamentais, entre outros. Na Europa, entretanto, parece que a cópia fiel a estilos antigos não era atraente devido à existência de reais exemplares históricos, apesar de o Classicismo ter sido fortemente empregado como estilo oficial de construções governamentais, transparecendo formalidade, tradição e solidez (PILE; GURA, 2014). 16 atividade e a figura do decorador. Esse decorador, contando com senso estético e uma grande autoconfiança, era responsável pela seleção e coordenação de tecidos, revestimentos de piso e paredes, mobiliário, iluminação e um esquema global de cores para o(s) cômodo(s) em questão, criando cenários suntuosos (BROOKER; STONE, 2014; MASSEY, 2008). Além disso, O decorador típico era treinado para conhecer os estilos históricos, para ser hábil em reunir os muitos elementos que compõe um interior e, muitas vezes, ser um especialista em aquisição de antiguidades, obras de arte e tudo o que fosse necessário para concluir um projeto. […] A capacidade de encantar, persuadir e ajustar-se aos caprichos dos clientes ricos eram habilidades essenciais (PILE; GURA, 2014, p. 314, tradução nossa10). De modo geral, pode-se dizer que, desde o início do século XVIII, artesãos, estofadores, marceneiros, varejistas, arquitetos e entusiastas exerceram a atividade de Decoraçãode Interiores, oferecendo aconselhamentos sobre o arranjo e a composição dos espaços a partir da noção de bom gosto, de bom senso e de um talento natural (DEJEAN, 2012; EDWARDS, 2010; GIBBS, 2013; MASSEY, 2008; WHITE, 2009). No entanto, como explicam Avery (2008), Brooker e Stone (2014), Gibbs (2013) e Massey (2008), antes do século XX, a profissão de Decoração de Interiores não existia; foram as mudanças sociais e as circunstâncias econômicas desse século que possibilitaram a ascensão do decorador de interiores. Lees-Maffei (2008), entretanto, acredita que o processo de profissionalização da Decoração de Interiores tenha se iniciado na década de 1870, impulsionado especialmente pela presença social feminina. Na Grã-Bretanha, dentre outros indícios, destaca-se a publicação do livro House Decoration in Painting, Woodwork and Furniture, das primas Agnes (1845-1935) e Rhoda Garrett (1841-1882), datado em 1876, em que já se registrava a aspiração dessas mulheres de serem vistas como decoradoras profissionais. Durante a década de 1880, a norte-americana Candace Wheeler (1827-1923), considerada por Edwards (2010) a mãe da profissão de Decoração de Interiores, foi uma das primeiras mulheres a trabalhar profissionalmente em uma área até então dominada por homens. Ela se empenhou muito para promover a ideia da empregabilidade profissional feminina. Dentre outras iniciativas, Wheeler fundou, em 1877, na cidade de Nova York, a Society of Decorative Art – organização dedicada a treinar artistas e artesãs para as artes aplicadas e a comercialização dos 10 Texto original: “The typical decorator was trained to know period styles, to be skillful in assembling the many elements that go into an interior, and, often, to be an expert in acquisition of antiques, art works, and whatever else might be required to complete a project. […] The ability to charm, cajole, and adjust to the whims of wealthy clients were essential skills" (PILE; GURA, 2014, p. 314). 17 seus produtos –, e, em 1895, publicou o artigo Interior Decoration as a Profession for Women (EDWARDS, 2010; MASSEY, 2008). Em 1897, a também norte-americana Edith Wharton (1862-1937) e seu compatriota Ogden Codman Jr (1863-1951) publicaram o livro The Decoration of Houses, obra que permaneceu relevante por mais de quarenta anos e em que Wharton e Codman defenderam a ideia de que a verdadeira base da atividade estava na adequação do mobiliário e de artefatos aos interiores da tradicional e robusta Arquitetura europeia, utilizando-se de estilos clássicos com simetria e proporção (COLEMAN, 2002; EDWARDS, 2010). No início do século XX, ainda nos Estados Unidos – que começava a se consolidar como potência mundial econômica –, destaca-se Elsie de Wolfe (1865-1950), que, contemporânea de Wharton e discípula de sua abordagem, é considerada por muitos autores como pioneira na profissão de Decoração de Interiores no país (COLEMAN, 2002; EDWARDS, 2010; GIBBS, 2013; HINCHMAN, 2013; LEES-MAFFEI, 2008; MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014; TURPIN, 2007). Atriz e socialite, Wolfe decorou a própria casa valendo-se de estilos mais simples para transformar típicos quartos vitorianos, o que chamou a atenção das pessoas de seu círculo de convivência. Interessadas em seu talento, essas pessoas começaram a pedir à amiga ajuda para decorar suas casas e, dada a influência social que muitas delas tinham, Wolfe ganhou projeção na área da Decoração (PILE; GURA, 2014). Profissionalizando-se, Elsie de Wolfe, segundo Massey (2008), estabeleceu um padrão para o exercício da atividade, que posteriormente seria replicado por outros decoradores. Tratava-se de um trabalho comissionado com 10% de todo o custo empreendido na decoração, viagens à Europa para coletar informações sobre móveis e tecidos, a manutenção de um extensivo contato social com clientes em potencial e o uso do antigo estilo francês11. Edwards (2010), contudo, explica que Wolfe [...] estava entre os primeiros “decoradores” a receber um pagamento por seus serviços de decoração, em vez de uma comissão sobre a venda de móveis comprados por meio de um varejista. Essa mudança no processo de pagamento significou uma revisão da percepção de uma atividade diletante para uma abordagem profissional (EDWARDS, 2010, p. 55, tradução nossa12). 11 Interessante pontuar que o historicismo não era a preferência de Wolfe. Entretanto, a natureza dos seus clientes e de suas casas projetadas por arquitetos ecléticos conduziu o trabalho de Wolfe em direção à imitação de estilos do passado (PILE; GURA, 2014). 12 Texto original: “[...] was amongst the first ‘decorators’ to receive a fee for her design services rather than a commission on the sale of furniture purchased via a retailer. This change in the payment process signified a revision of perceptions from the dilettante to the professional” (EDWARDS, 2010, p. 55). 18 Seja como for, nos decênios de 1920 e 1930, a Decoração de Interiores atingiu o seu auge e registrou-se um aumento significativo no número de decoradores, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, interessados em se aventurar na área, inspirados por Wolfe (MASSEY, 2008). “Parece provável que todas as grandes cidades americanas e muitas ao redor do mundo tiveram pelo menos uma mulher, se não muitas, que, inspiradas por Elise [sic] de Wolfe ou Dorothy Draper, se voltaram para os interiores e lá encontraram uma vocação e uma carreira” (HINCHMAN, 2013, p. x, tradução nossa13). Elsie de Wolfe exercia a Decoração de Interiores a partir de seu bom gosto, de seu bom senso e de seu talento natural. E, assim como ela, muitos dos primeiros decoradores de interiores não receberam treinamento formal para exercer a atividade. Todavia, nos anos 1930, uma nova geração de decoradores encontrava seu espaço, com maior treinamento formal e maior abordagem comercial (MASSEY, 2008). Nancy McClelland (1877-1959) – importante figura no processo de profissionalização da atividade, com destaque para o fato de ter sido membro fundador do American Institute of Interior Decorators e a primeira mulher a assumir a sua presidência (1941-1944) – recomendava, para os interessados em atuar na área, um curso em uma escola de artes aplicadas, onde a pessoa teria a oportunidade de aprender a desenhar, receber um treinamento em Arquitetura e desenvolver um conhecimento técnico sobre cores. Para mais, seria importante que o aspirante a decorador de interiores buscasse conhecimentos relacionados à iluminação, materiais, história, móveis, tapetes, pinturas e ornamentos, conhecimentos esses, segundo ela, facilmente adquiríveis por meio de viagens (EDWARDS, 2010; LEES-MAFFEI, 2008). Importante frisar que a produção industrial e as inovações tecnológicas das primeiras décadas do século XX – tais como o telefone, banheiros e cozinhas sofisticados, elevadores e iluminação elétrica (GIBBS, 2013) – modificaram substancialmente o modo de viver de muitas sociedades, exigindo que os interiores luxuosos fossem adaptados a elas. Além disso, exigiram dos decoradores de interiores uma capacitação que os possibilitasse integrar esses novos produtos e tecnologias aos seus projetos (PILE; GURA, 2014). 13 Texto original: “It seems likely that every major American city and many across the globe had at least one woman, if not many, who, inspired by Elise de Wolfe or Dorothy Draper, turned to interiors and there found a calling and a career” (HINCHMAN, 2013, p. x). 19 IV A influência das produções da Europa continental A segunda metade do século XIX é marcada por importantes acontecimentos na Arte, na Arquitetura e na cultura em geral. No que compete aos estilos decorativos, devem ser destacados os movimentos Arts and Crafts (Artes e Ofícios) e o Art Nouveau. Reagindo aos efeitos da industrialização que teriam causado a queda na qualidade dos bens produzidos, o Movimento Arts and Crafts defendiaa supremacia do trabalho artesanal e a necessidade de se educar as pessoas para a percepção da qualidade dos objetos. Embora tenha se colocado na contramão do desenvolvimento industrial, o movimento teve vigência longa, de 1860 a 1910, e amplitude suficiente para, nascido na Grã-Bretanha, lançar suas ideias em países da Europa central e Estados Unidos. Algumas dessas ideias, como a rejeição ao historicismo, o despojamento das formas, a ênfase na funcionalidade e, acima de tudo, a crença nos objetos como responsáveis pela qualidade de vida das pessoas, seriam aproveitadas e levadas à frente pelo Modernismo (HAUFFE, 1996; JULIER, 1993; SPARKE, 1986). Paralelamente ao Arts and Crafts, de origem insular, desenvolveu-se, por quase todo o continente europeu, o Movimento Art Nouveau que, com ele, comungava a negação ao historicismo e a busca por uma alternativa para as Artes Decorativas. Nascido na Bélgica por volta de 1880, foi rapidamente assumido e impulsionado pela França, atingindo seu apogeu em 1900 e entrando em declínio em 1910. De modo diferente ao Arts and Crafts, o Art Nouveau aceitava a intervenção da máquina, bem como os benefícios trazidos pelos avanços tecnológicos, ainda que grande parte de suas criações tenham sido artesanais (HAUFFE, 1996; JULIER, 1993; SPARKE, 1986). O Movimento Art Nouveau foi interpretado de modo diferente de país para país, tendo recebido denominações próprias em cada um deles, porém sempre trazendo a expectativa e o desejo pelo que era novo, mesmo quando buscava referência – e não modelos – no passado. Os estilos de cada país podem ser agrupados em duas vertentes: a primeira, mais conhecida, que dava ênfase nas formas orgânicas, curvilíneas e dinâmicas buscadas na natureza; a segunda, mais estática e sóbria, com predomínio da geometria e da retilinearidade. Esta última vertente foi assumida pela Deutscher Werkbund, associação alemã de artesãos criada em 1907, em Munique, que visava à promoção de um design de excelência (produtos de qualidade) a partir da interação entre arte, indústria e artesanato, influenciando fortemente o desenvolvimento do Modernismo (HAUFFE, 1996; JULIER, 1993; SPARKE, 1986). 20 Movimento liderado por alemães e austríacos14, de um modo geral, e para além dos princípios de racionalização e padronização, traduzidos em simplicidade funcional e total ausência de detalhes históricos ou ornamentais na Pintura, na Escultura, na Música, na Literatura, na Arquitetura e nas Artes Decorativas, o Modernismo tinha um forte apelo social. Defendia a ideia de que as artes deveriam estar ao alcance de todos e presente no dia-a-dia de todos – assim como anunciava o Arts and Crafts (MASSEY, 2008; PEVSNER, 2001; PILE; GURA, 2014). Escola alemã criada com o objetivo de ensinar Arte aplicada ao desenvolvimento de produtos, a Bauhaus (1919-1933) consagrou-se como centro de fina arte experimental e produção artesanal e tornou-se centro internacional para o desenvolvimento do estilo Moderno, liderando a produção da então nova estética funcional inspirada na máquina. A ideia era que os objetos produzidos em massa pela indústria tivessem o refinamento no acabamento como se fossem manufaturados, o que, no final das contas, tornava-se acessível apenas a pessoas com alto poder aquisitivo (MASSEY, 2008). A limpeza visual, o uso predominante da pureza das formas geométricas e a valorização das qualidades mecânicas da era da máquina consagraram o Estilo Internacional no campo da Decoração de Interiores e da Arquitetura, tornando-se sinônimo de progresso (PEVSNER, 2001; PILE; GURA, 2014). Perpassava a ideia do uso mínimo de cores e da consagração de espaços amplos e interconectados, valorizando sobremaneira a funcionalidade. Isso significa que os objetos – móveis, eletrodomésticos, artefatos, entre outros – deveriam ter a forma que seguisse a função pretendida. Em outros termos, isso significa dizer que o ornamento, tão valorizado outrora, não tinha lugar no Estilo Internacional (MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). O Modernismo, que alcançou notoriedade em 1932 como estilo forte e dominante, extrapolou as fronteiras da Europa continental, influenciando fortemente a produção na América do Norte. Porém, o seu desenvolvimento na Inglaterra e no resto da Europa foi interrompido pelas dificuldades oriundas da Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, durante as décadas de 1930 e 1940, o Design de Interiores modernista sofreu com a escassez da disponibilidade de mobiliário moderno, já que a produção era orientada principalmente para fins militares. Ao 14 Antes da repressão Nazista, o Modernismo se desenvolveu substancialmente na Alemanha e na Áustria. Nesses países, assim como em diversos outros europeus, os seus primeiros sinais foram interrompidos por fatores políticos. Na Inglaterra, houve certa resistência ao movimento, em virtude do elevado grau de conservadorismo no gosto popular, das objeções de profissionais da Arquitetura e de restrições governamentais. Nos anos 1930, entretanto, profissionais da Alemanha e da Áustria se exilam em solo inglês, contribuindo para intensificar o fluxo de ideias modernistas neste país (PILE; GURA, 2014). 21 mesmo tempo, a imigração de diversos profissionais europeus, fugidos da guerra e sedentos por explorar o novo mundo, fez progredir o Estilo Internacional (MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). Assim como o Modernismo e diversos outros aspectos da vida, a ascensão do decorador de interiores foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Entretanto, no contexto de expansão econômica do pós-guerra nos Estados Unidos – e também na Europa –, a atividade de Decoração de Interiores refloresceu, ganhou força e se estruturou como Design de Interiores, contando com designers menos confiantes no bom gosto natural e mais confiantes na educação formal (MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). V A experiência estadunidense do pós-guerra O contexto de expansão econômica do pós-Segunda Guerra Mundial, sobretudo nos Estados Unidos, foi palco do reconhecimento do potencial estratégico do Design de Interiores para o mundo dos negócios, consagrando uma nova geração de designers de interiores especializada em projetos comerciais (MASSEY, 2008). A expansão das propriedades comerciais desempenhou papel decisivo para que o Design de Interiores se tornasse uma prática distinta da Decoração de Interiores (GUERIN; MARTIN, 2004), vez que o modo de tratar o espaço residencial e o espaço corporativo começou a se desenrolar em distintas abordagens projetuais (COLEMAN, 2002). O mundo corporativo havia se transformado com o desenvolvimento de tecnologias, com destaque para a facilidade de comunicação entre pessoas, a substituição dos materiais naturais por sintéticos, a utilização de paredes de gesso (dry wall), o emprego de forros estruturados, que possibilitavam a conjunção de placas acústicas, iluminação e sistemas de circulação de ar, e a substituição das janelas como fonte de luz e ventilação pelas acessíveis lâmpadas fluorescentes e pelos sistemas de condicionamento do ar (PILE; GURA, 2014). De modo geral, os designers de interiores que se especializaram em projetos corporativos contribuíram para o crescimento das empresas na medida em que possibilitaram a integração, nos ambientes, das novas tecnologias e do novo fluxo de trabalho (FRIEDRICHS, 2002). Além do mais, o boom de edifícios corporativos norte-americanos no pós-guerra trouxe à tona a necessidade de comunicar a identidade da corporação por meio de uma imagem que transparecesse a sua importância para a sociedade, refletindo sua missão, sua visão, seus valores e sua expertise tecnológica. Seria o design associado à Bauhaus que materializaria essa imagem (COLEMAN, 2002). 22 Nesse contexto, ganha destaque o empreendimento do casal Florence e Hans Knoll. Na Nova York de 1937, Hans (1914-1955), oriundo da Alemanha, começou a produzirmobiliário moderno – escasso nos EUA naquele tempo de guerra. Em 1943, a arquiteta Florence Schust (1917-2019) juntou-se ao empreendimento de Hans e criou o Knoll Planning Unit, estúdio que desenvolvia projetos de interiores com os móveis por eles produzidos, preocupando-se com a integração entre interior e estrutura arquitetônica (PILE; GURA, 2014). Os interiores projetados por Florence eram caracterizados por um Modernismo humanizado, que aliava o funcionalismo à necessidade humana de cor e textura (COLEMAN, 2002; TIGERMAN, 2007). Juntos, e no mesmo ano em que se casaram (1946), Florence e Hans Knoll inauguraram a empresa Knoll Associates, especializada em criar e produzir mobiliário no estilo Moderno da Bauhaus. A desenvoltura social de Florence foi determinante para que a empresa se aliasse a arquitetos e designers modernistas de prestígio, que passaram a assinar os projetos (PILE; GURA, 2014). O Modernismo, impresso nas formas e nas cores do Estilo Internacional, havia se tornado norma para o trabalho de designers de interiores do pós-guerra (PILE; GURA, 2014). Entretanto, questões como o auge do consumo nos Estados Unidos nos anos 1950 – que seria difundido na Europa na década seguinte – e a profusão de objetos para o lar disponíveis para o consumo – especialmente os eletrodomésticos, que traziam consigo a materialização da idolatria à tecnologia – estimularam as pessoas a exercitar, como nunca antes observado, o poder de escolha que lhes era oferecido, disseminando a ideia de que não era preciso ter receio em expressar o próprio gosto, afinal, “a casa é sua”. Como consequência, a autoridade dos formadores de opinião sobre o bom gosto erodiu-se, provocando uma confusão no entendimento do que ele se constituiria, um árduo questionamento às propostas modernistas e uma diversidade de estilos como forma de possibilitar o reflexo de identidades individuais (MASSEY, 2008). VI O Design de Interiores do final do século XX e início do século XXI No decênio de 1970, a rigidez da padronização sugerida pelos cânones modernistas estava desacreditada, e o Estilo Internacional estava praticamente morto. A crítica que se fazia era no sentido de referido estilo ter produzido edifícios iguais, ter abandonado detalhes decorativos e 23 ter adotado certa abordagem elitista15. Experimentou-se, então, a busca por novas possibilidades estilísticas, coerentes com as novas tecnologias e os novos materiais que se faziam realidade, resultando em uma grande diversidade de propostas ecléticas e experimentais de novos estilos, como, entre outros, o High-Tech, o Pós-modernismo, o Modernismo tardio, o Desconstrutivismo e o Minimalismo (COLEMAN, 2002; MASSEY, 2008; PILE; GURA, 2014). Consequência da revolução tecnológica que se iniciou na segunda metade do século XX, os anos 1970 também representaram o marco da transferência do modelo de consumo de massa para a flexibilidade do mundo pós-moderno (CARDOSO, 2008; SCHNEIDER, 2010). Nos anos 1980, o a mistura de estilos viria a se estabelecer como gosto popular e industrial dominante (BAXTER, 1991), lançado as raízes do que vivenciamos neste início de século: a diversidade, a quebra de barreiras, a variedade e as ilimitadas possibilidades (PILE; GURA, 2014). Ainda nos anos 1970, a partir de denúncias sobre uma iminente crise provocada pela poluição decorrente da produção industrial acelerada e descontrolada, percebeu-se certa incompatibilidade entre o estilo de vida pautado no consumo de bens materiais e a disponibilidade de recursos naturais para a sua sustentação, definindo-se como o maior dilema para a produção e o consumo na pós-modernidade (BAXTER, 1991; CARDOSO, 2008; MASSEY, 2008; PAPANEK, 1977; PILE; GURA, 2014). No âmbito do ambiente construído, o contínuo desenvolvimento tecnológico, mais uma vez, modificava a natureza dos espaços. Iluminação artificial, calefação, ar condicionado, sistemas de transporte vertical e outras inovações foram incorporadas às edificações. Ao mesmo tempo em que proviam (e ainda provem) conforto e facilidades, provocavam (e ainda provocam) grande consumo de recursos naturais. No campo do Design de Interiores, discussões começaram a trazer à tona a possibilidade de uma abordagem projetual que considerasse o conservar em detrimento do consumir, e referido campo passou a assumir responsabilidades referentes à sustentabilidade no trato do ambiente construído (PILE; GURA, 2014). A ideia da sustentabilidade aplicada ao Design de Interiores associa-se ao compromisso de minimizar os impactos negativos causados ao meio ambiente, reduzindo os níveis de problemas gerados pelo consumo de energia e água e pelo uso de materiais e métodos construtivos (BROOKER, STONE, 2014; MOXON, 2012). 15 O movimento Moderno, no Design e na Arquitetura, morre em sua contradição. É que a produção industrial desejada pelos modernistas acabava por se assemelhar a uma produção manufaturada, de elevado custo, acessível a poucas pessoas, e não a todos, como o discurso pretendia (PILE; GURA, 2014). 24 Além do compromisso com o desenvolvimento sustentável, uma nova responsabilidade foi adicionada ao campo do Design de Interiores na virada para o século XXI: a de contribuir para a qualidade de vida das pessoas. Nos anos 1990, já era perceptível que a qualidade dos espaços – “[...] sua capacidade de apoiar pessoas em suas atividades [...]” – exercia grande influência na escolha dos indivíduos de onde estar ou trabalhar (FRIEDRICHS, 2002, p. 22, tradução nossa16). Esse novo olhar para a forma como as pessoas utilizam e interagem com o ambiente construído redefiniu o trabalho do designer de interiores na medida em que, por meio do projeto de ambientes para as atividades humanas, constatou-se ser possível contribuir para a melhoria da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas (PILE; GURA, 2014). Projetar espaços focando-se no humano demanda do designer de interiores a capacidade de compreender o efeito da manifestação física do que ele projeta sobre as pessoas (GUERIN; MARTIN, 2005; PILE; GURA, 2014). Demanda, em outros termos, compreender o significado sociocultural do ambiente físico que ele projeta. Isso porque esse espaço físico se transforma em espaço humano (ambiente) por ser uma construção de signos (símbolos) que influenciam fortemente o comportamento do(s) indivíduo(s) (ELALI; MEDEIROS, 2011; CLEMONS; ECKMAN, 2011; TAN, 2011). Em outras palavras, o “significado simbólico enriquece o espaço humano com valor pessoal e sociocultural; comunica atitudes e crenças, integra-se com outros sistemas de signos na comunicação e regula os comportamentos sociais” (TAN, 2011, p. 47, tradução nossa17). Para Guerin e Martin (2004; 2010), a essência da prática do Design de Interiores, neste início de século, está na promoção da saúde, da segurança e do bem-estar dos indivíduos por meio da criação de soluções para os seus ambientes de vivência que integram função, beleza e significado, o que, por fim, é capaz de proporcionar qualidade de vida. VII A síntese de uma trajetória Diante de todo o exposto, percebe-se o quanto o Design de Interiores se transformou desde o início do século XVIII. A princípio, o exercício da atividade de Decoração de Interiores estava vinculado à ideia de luxo e ostentação e ficava a cargo de decoradores talentosos e criativos que 16 Texto original: “[…] their ability to support people in their desired activities […]” (FRIEDRICHS, 2002, p. 22). 17 Texto original: “Symbolic meaning enriches human space with personal and sociocultural value; it communicates attitudes and beliefs, integrates with other sign systems in communication, and regulates social behaviors” (TAN, 2011, p. 47). 25 possuíam boas relações sociais, que não tinham formação para o ofício (amadores) e cuja abordagem projetual se baseava no domínio de estilos de época e na noção de bom gosto,bom senso e talento natural para a composição de cores, materiais, mobiliários, adornos e objetos de Arte para os interiores residenciais. Hoje, os designers de interiores utilizam um sistematizado processo projetual para o planejamento dos aspectos estéticos e funcionais do espaço, sempre com foco nas pessoas, requerendo conhecimento especializado adquirido por meio de educação formal e experiência. Somado a isso, a profundidade e a amplitude de conhecimentos necessários à projetação demandam, ainda, o desenvolvimento de pesquisas aplicadas para subsidiar soluções de Design de Interiores que contribuam para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e para o desenvolvimento sustentável (GUERIN; MARTIN, 2004; PILE; GURA, 2014). O Quadro 1 apresenta a síntese dessa transição. Quadro 1 – Da Decoração ao Design de Interiores: síntese dos principais tópicos. Decoração de Interiores (atividade) Decoração de Interiores (atividade >> profissão) Design de Interiores (profissão) Tempo Entre início do século XVIII e final do século XIX Entre final do século XIX e meados do século XX Meados do século XX até os dias de hoje Prestadores de serviço Comerciantes do ramo, marceneiros, estofadores, artistas, arquitetos e entusiastas. Decoradores de interiores e arquitetos, com valorização dos indivíduos que possuíam formação para o ofício. Designers de interiores e arquitetos, indivíduos que, majoritariamente, possuem formação para o exercício da profissão. Público Aristocracia e novos ricos Ricos e classe média Para todos Objetivo Luxo. Status. Aparência. Conforto. Aparência. Status. Conforto. Incorporar tecnologias. Aparência. Conforto. Incorporar tecnologias. Saúde, segurança e bem- estar (qualidade de vida). Desenvolvimento sustentável. Foco Espaço Espaço Pessoas Premissa Estética e funcionalidade. Estética e funcionalidade. Estética e funcionalidade. Projetação Domínio dos estilos históricos e de época, bom gosto, bom senso e talento natural. Domínio dos estilos de Decoração. Técnica. Processo sistematizado que inclui conhecimento teórico e prático, pesquisa, técnica e criatividade. Estilos predominantes Rococó; Neoclassicismo; Vitoriano; Ecletismo. Estilo Internacional (Modernismo). Pluralidade de estilos. Fonte: elaborado pela autora com base nas fontes consultadas para a produção do texto. 26 2.1.2 Profissionalização do Design de Interiores To professionalize, interior design has needed to shift its emphasis from taste to skill […] (LEES-MAFFEI, 2008, p. 1). Profissionalização refere-se ao processo de transformação de uma atividade em uma profissão reconhecida (LEES-MAFFEI, 2008; WHITE, 2009). Há um número considerável de autores que entendem que a profissionalização do Design de Interiores tenha compreendido – ou pelo menos deve compreender – as seguintes etapas: 1) a constituição de associações profissionais, com intuito de definir a profissão e promover o seu desenvolvimento; 2) a mudança de nome da ocupação para fortalecer a criação de uma nova profissão; 3) o desenvolvimento de um código de ética profissional, para sinalizar ao público e aos profissionais os padrões de qualidade e de comportamento desejáveis; 4) o reconhecimento legal; 5) o requerimento educacional mínimo para adquirir a base de conhecimentos especializados e as habilidades necessárias ao exercício da profissão; e 6) a existência de um exame de qualificação para selecionar profissionais que tenham um nível de habilitação mínimo para atuação profissional (EDWARDS, 2010; GUERIN; MARTIN, 2010; LEES-MAFFEI, 2008; MARTIN; GUERIN; GINTHNER, 2000). As próximas linhas deste tópico são dedicadas à discussão de cada uma dessas seis etapas, na tentativa de elucidar sobre os seus desdobramentos nos Estados Unidos e na Inglaterra – países líderes do processo de profissionalização do Design de Interiores –, bem como no cenário brasileiro. I A constituição de associações profissionais No que se refere à constituição de associações profissionais, data de 1931, nos Estados Unidos, a criação do American Institute of Interior Decorators (AIID), que, em 1936, passou a se designar American Institute of Decorators (AID). Em 1955, o AID publicou um manual de práticas profissionais, representando um importante passo para a profissionalização da atividade. Mais uma vez, em 1961, alterou a nomenclatura para American Institute of Interior Designers (AIID) e, ao fundir-se com a National Society of Interior Designers (NSID), fundada em 1957, tornou-se, em 1975, a American Society of Interior Designers (EDWARDS, 2010; GUERIN; MARTIN, 2010; LEES-MAFFEI, 2008). Para Nancy McClelland, membro fundador da AIID, seria de suma importância que os decoradores de interiores se organizassem por meio de associações profissionais para se 27 protegerem contra os que, sem treinamento, exigiam os mesmos direitos e prerrogativas que os com treinamento possuíam. Segundo Nancy, por ser uma atividade que exigia um trabalho de viés psicológico (apuro estético e percepção do gosto do cliente) e comportamental (viver com refinamento e conforto), seria inconcebível que fosse exercida por uma pessoa sem formação para tal (EDWARDS, 2010). Outra associação de classe norte-americana que se destaca no processo de profissionalização do Design de Interiores é a International Interior Design Association (IIDA). Fundada em 1994, é o resultado da fusão entre o Institute of Business Designers (IBD), a International Society of Interior Designers (ISID) e o Council of Federal Interior Designers (CFID), objetivando a criação de uma entidade representativa do Design de Interiores de alcance global. Com a sede principal em Chicago, atualmente a IIDA está presente em 58 países (EDWARDS, 2010; IIDA, 2019; LEES- MAFFEI, 2008). Na Inglaterra, em 1899, fundou-se o Institute of British Decorators, que tinha a intenção de impulsionar a profissão, bem como elevar o status, o treinamento e a qualificação de seus membros, encorajando o desenvolvimento de cursos no Reino Unido, promovendo conferências nacionais e internacionais e produzindo publicações, incluindo o código de prática profissional. Em 1953, o Institute of British Decorators passou a se chamar Incorporated Institute of British Decorators and Interior Designers, e, em 1975, alterou a nomenclatura para British Institute of Interior Design, fundindo-se, em 1987-8, com a Chartered Society of Designers (EDWARDS, 2010). Também na Inglaterra, a criação da Interior Decorators & Designers Association (IDDA) data de 1965-6. Em 2001, a IDDA fundiu-se com a filial inglesa da IIDA e deu origem à British Interior Design Association (BIDA) que, em 2009, foi reconhecida pela Secretaria do Estado como a preeminente organização profissional de Design de Interiores do Reino Unido, recebendo o status de instituto e tornando-se o British Institute of Interior Design (BIID) (BIID, 2017; LEES- MAFFEI, 2008). No Brasil, a Associação Brasileira de Decoradores (ABD) foi inaugurada em 30 de outubro de 1980 e passou a se chamar Associação Brasileira de Designers de Interiores em 2000, preservando a mesma sigla (ABD, 2018c). Atualmente, é a única associação profissional de Design de Interiores de representatividade nacional, com sede em São Paulo e com regionais presentes em onze capitais brasileiras. Desde 1996, a ABD se propõe a contribuir para o aprimoramento profissional dos designers de interiores por meio da realização do Congresso Internacional de Design de Interiores (CONAD), que oferece, em sua programação, cursos, 28 palestras e encontros com profissionais renomados e fabricantes de produtos da área (ABD, 2018e). II A mudança de nomenclatura A mudança nominal – da Decoração de Interiores para o Design de Interiores – ocorreu em meados do século XX. Para Guerin e Martin (2004; 2010),a separação consciente entre os termos Decoração de Interiores e Design de Interiores foi consequência da expansão do foco da atividade para espaços não residenciais nos anos 1950. White (2009) acredita que o surgimento de diversas escolas e associações de classe tenham consagrado, nos anos 1960, a mudança de nomenclatura. Lees-Maffei (2008) explica que o Design de Interiores se expandiu como uma especialidade do Design após a Segunda Guerra Mundial, assim como o Design de Moda, o Design Gráfico e o Design Automotivo. Fato é que a mudança de nome implicou, também, mudança de significado. “Esta profissão evoluiu de uma predominantemente preocupada com a ornamentação de superfície para uma baseada no design para o comportamento humano” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1, tradução nossa18). III O desenvolvimento de um código de ética profissional Em relação ao código de ética, a ASID, o BIID e a ABD possuem seus códigos de ética editados. De modo geral, referidos códigos tratam de questões relacionadas à prática responsável do designer de interiores perante à sociedade, aos clientes, aos colegas de profissão, à própria profissão, aos empregadores, aos empregados, aos colaboradores e à publicidade de seu trabalho. Os associados, sob pena de notificação e até mesmo de serem excluídos das associações, devem cumprir o que dita o código da entidade de que são membros (ABD, 2018b; ASID, 2018; BIID, 2018c). 18 Texto original: “This profession has evolved from one predominantly concerned with surface ornamentation to one based on designing for human behavior” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1). 29 IV O reconhecimento legal da profissão O reconhecimento legal da profissão exige que aqueles que praticam o Design de Interiores possuam determinadas competências profissionais, adquiridas por meio de educação formal. Nos Estados Unidos, apesar de iniciativas pelo reconhecimento e pela proteção da profissão datarem de 1951, a primeira legislação a tratar do assunto foi promulgada no estado do Alabama em 1982, restringindo o uso do título19 de designer de interiores a indivíduos qualificados (CARPENTER, 2008; EDWARDS, 2010; LEES-MAFFEI, 2008). Desde então, muito esforço vem sendo empreendido pela ASID na tentativa de obter reconhecimento legal para o Design de Interiores em todos os estados norte-americanos; até 2008, quase metade dos estados nos EUA obtinham algum tipo de regulação (CARPENTER, 2008). No Brasil, projetos de lei têm sido apresentados ao Congresso Nacional desde 1980 visando ao reconhecimento legal da profissão (BROOKER; STONE, 2014). Entretanto, é de 12 de dezembro de 2016 a Lei nº 13.369 (BRASIL, 2016), que dispõe sobre a garantia do exercício da profissão de designer de interiores no país, fruto de esforços da ABD em obter o reconhecimento do Design de Interiores no Brasil (ABD, 2018a) e que, apesar de recente, representa uma importante conquista para a proteção da profissão. É que o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) havia, em cumprimento ao disposto nos §§ 1º e 2º20 do artigo 3º da Lei nº 12.378, de 31 de dezembro de 2010 (BRASIL, 2010), e por meio da qual foi criado esse Conselho e regulamentada, em diploma legal em separado da Engenharia e da Agronomia, a Arquitetura e o Urbanismo, editado uma resolução, a de número 51, de 12 de julho de 2013 (CAU/BR, 2013), atribuindo como atividade privativa do arquiteto a Arquitetura de Interiores (alíneas “a” a “e” 19 Carpenter (2008) explica que esse tipo de legislação profissional, a que ele denomina titling laws (leis de titulação), tem o objetivo de regular quem pode utilizar um título específico em uma determinada profissão, a partir da ideia de proteção da segurança pública e dos interesses econômicos dos consumidores. 20 “Art. 3º Os campos da atuação profissional para o exercício da arquitetura e urbanismo são definidos a partir das diretrizes curriculares nacionais que dispõem sobre a formação do profissional arquiteto e urbanista nas quais os núcleos de conhecimentos de fundamentação e de conhecimentos profissionais caracterizam a unidade de atuação profissional. § 1º O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU/BR especificará, atentando para o disposto no caput, as áreas de atuação privativas dos arquitetos e urbanistas e as áreas de atuação compartilhadas com outras profissões regulamentadas. § 2º Serão consideradas privativas de profissional especializado as áreas de atuação nas quais a ausência de formação superior exponha o usuário do serviço a qualquer risco ou danos materiais à segurança, à saúde ou ao meio ambiente”. 30 do inciso II de seu artigo 2º21) tal como definida no Glossário22 anexo a esse ato normativo, que, com exceção à intervenção no âmbito estrutural das instalações, sobrepõe-se à atividade de Design de Interiores. Em virtude de históricos como o que aqui se apresenta, Cunningham (2015) enfatiza a importância de se discutir a profissionalização do Design de Interiores sob a lente jurídica. Para referido autor, as concepções populares e legais sobre a profissionalização do Design de Interiores não estão em consonância, o que dificulta o diálogo entre as partes. Guerin e Martin (2004, p. 5, tradução nossa23) defendem a ideia de que “[...] os esforços para regulamentação legal exigem saber o que os designers de interiores fazem e como seu trabalho protege a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas”. Para White (2009), a falta de compreensão sobre a relevância do Design de Interiores para promoção da saúde, da segurança e do bem-estar da sociedade prejudica o seu reconhecimento legal. Segundo ela, enquanto legisladores e sociedade não entenderem que o Design de Interiores é diferente da Decoração de Interiores, essas batalhas pelo reconhecimento legal irão prejudicar a profissão. Nesse ponto, Carpenter (2008) explica que a abordagem em relação à proteção da saúde, da segurança e do bem-estar da população tem sido frequentemente utilizada como justificativa 21 “Art. 2º No âmbito dos campos de atuação relacionados nos incisos deste artigo, em conformidade com o que dispõe o art. 3º da Lei nº 12.378, de 2010, ficam especificadas como privativas dos arquitetos e urbanistas as seguintes áreas de atuação: [...] II - DA ARQUITETURA DE INTERIORES: a) projeto de arquitetura de interiores; b) coordenação e compatibilização de projeto de arquitetura de interiores com projetos complementares; c) relatório técnico de arquitetura de interiores referente a memorial descritivo, caderno de especificações e de encargos e avaliação pós-ocupação; d) desempenho de cargo ou função técnica concernente à elaboração ou análise de projeto de arquitetura de interiores; e) ensino de projeto de arquitetura de interiores;” 22 “Este Anexo contém o Glossário referente às atividades e atribuições discriminadas no art. 2º da Lei nº 12.378, de 31 de dezembro de 2010, que, por meio desta Resolução são especificadas, em seu art. 2º, como áreas de atuação privativas dos arquitetos e urbanistas. Ainda que os verbetes aqui elencados possam ser também aplicáveis a outros contextos, para os fins desta Resolução não deve prevalecer entendimento ou aplicação distinta do que dispõe este Glossário. [...] Arquitetura de interiores: campo de atuação profissional da Arquitetura e Urbanismo que consiste na intervenção em ambientes internos ou externos de edificação, definindo a forma de uso do espaço em função de acabamentos, mobiliário e equipamentos, além das interfaces com o espaço construído – mantendo ou não a concepção arquitetônica original –, para adequação às novas necessidades de utilização. Esta intervenção se dá no âmbito espacial; estrutural; das instalações; do condicionamento térmico, acústico e lumínico; da comunicação visual; dos materiais, texturas e cores; e do mobiliário”. 23 Texto original: “Additionally, legal regulation efforts require knowingwhat interior designers do and how their work protects the public’s health, safety, and welfare” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 5). 31 para que profissões obtenham a sua regulamentação24. Entretanto, o autor questiona se a prática desregulamentada do Design de Interiores efetivamente prejudica ou coloca em perigo a saúde, a segurança ou o bem-estar das pessoas. É que, nos EUA, estudos legislativos sobre propostas de normas que teriam por objeto a aludida regulamentação concluíram pela desnecessidade da medida. Nesse sentido, Friedrichs (2002) explica que não só os legisladores, mas também muitos arquitetos, decoradores e até mesmo designers de interiores questionam a necessidade de regulamentação do Design de Interiores, já que a projetação na área não prevê modificações estruturais do ambiente construído, não oferecendo, pois, risco à segurança das pessoas. Por outro lado, é real a disputa entre designers de interiores e arquitetos em relação aos limites de atuação de cada profissão (AVERY, 2008; CARPENTER, 2008; FRIEDRICHS, 2002). Como tentativa de obter algum reconhecimento legal da profissão de Design de Interiores, Carpenter (2008) sugere que esforços sejam direcionados para a obtenção de leis de titulação, que, embora não limitem a prática do Design de Interiores como o seria no caso de uma regulamentação, proíbem que profissionais usem determinado título – como “designer de interiores registrado” ou “designer de interiores certificado” – a menos que satisfaçam as qualificações estatutárias mínimas relacionadas à, por exemplo, educação, experiência prática e exame de qualificação, como é exigido para que um designer de interiores se torne um membro da ASID. Seria, por assim dizer, uma regulamentação da profissão pela própria associação de classe, e não por meio da lei, com a ideia de que a sociedade tem a autonomia de escolher se quer contratar um designer de interiores registrado ou um designer de interiores não registrado. Ao menos em termos, assim o é no Reino Unido. Lá o Design de Interiores não é uma profissão regulamentada, e qualquer pessoa pode autodenominar-se designer de interiores e exercer a profissão, possuindo ou não qualificação e experiência na área. Os membros do BIID, por sua vez, possuem o título BIID Registered Interior Designer protegido desde 2016. Segundo referido Instituto (BIID, 2018b, on line, tradução nossa25), “esse título oferece a clientes, designers e outras profissões do ambiente construído uma forma de identificarem designers de interiores que foram aprovados pelo rigoroso padrão profissional do BIID”. Para ser um BIID Registered Interior Designer é necessário possuir seis anos combinados entre educação formal e 24 Regulamentação é a restrição da capacidade de prática da profissão apenas para aqueles que completam os requisitos obrigatórios exigidos em lei (CARPENTER, 2008). 25 Texto original: “It provides a way for clients, designers and other built environment professionals to identify interior designers who have met the BIID’s rigorous professional” (BIID, 2018b, on line). 32 experiência de trabalho na área, ser aprovado em um teste que avalia a capacidade projetual do candidato, fornecer duas referências profissionais, possuir seguro profissional e seguro de responsabilidade civil e cumprir o requisito anual de desenvolvimento profissional contínuo do Instituto (BIID, 2018b). V A educação formal Fundada em 1896 em Nova York, a Parsons School of Design foi a primeira escola norte americana que, ainda no século XIX, ofereceu um curso de Design de Interiores. Em meados dos anos 1920, a University of Washington, em Seattle, ofertou o primeiro curso universitário de Design de Interiores do país. Durante os anos 1960 e 1970, muitos cursos de Design de Interiores foram desenvolvidos nos Estados Unidos. Um dos pioneiros programas de doutorado na área é de meados da década de 1960, o da Florida State University (EDWARDS, 2010). Uma instituição de relevo para o desenvolvimento do ensino e da pesquisa em Design de Interiores é o Interior Design Educators Council (IDEC). Idealizado em 1962 em uma reunião do American Institute of Interior Designers, nos Estados Unidos, teve a sua criação formalizada em 1963 em sua primeira conferência, realizada na Philadelphia (EDWARDS, 2010; GUERIN; MARTIN, 2010; IDEC, 2018a; LEES-MAFFEI, 2008). Em 1975, o IDEC iniciou a publicação do Journal of Interior Design Education and Research, hoje Journal of Interior Design, um dos principais, se não o principal, periódico da área (CLEMONS; ECKMAN, 2011; IDEC, 2018a). Conforme descrito em sua primeira Constituição, o objetivo declarado da organização era “dedicar-se ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento da educação em Design de Interiores”, estabelecer e fortalecer “linhas de comunicação entre indivíduos, instituições educacionais e organizações preocupadas com o Design de Interiores” e esforçar-se "para melhorar o ensino de Design de Interiores, e através dele melhorar o nível profissional no Design de Interiores" (IDEC, 2018a, on line, tradução nossa26). Na Inglaterra, o Royal College of Art criou, em 1951, o departamento de pós-graduação em Design de Interiores, que alterou a sua nomenclatura para Environmental Design em 1972. O ensino da Arquitetura passou a fazer parte do currículo do curso em 1975, e em 1993, os cursos de Arquitetura e Interiores fundiram-se, e o departamento, em 2005, passou a se chamar 26 Texto original: “As described in its first Constitution, the stated purpose of the organization was to be “dedicated to the development and improvement of interior design education,” to establish and strengthen ‘lines of communication between individuals, educational institutions and organizations concerned with interior design,” and to strive “to improve teaching of interior design, and through it the professional level of interior design”” (IDEC, 2018a, on line). 33 Departamento de Arquitetura. Nos anos 1960, muitas escolas politécnicas e privadas ofertaram cursos de graduação em Design de Interiores, que se desenvolveram e cresceram nos quarenta anos seguintes. Em 2010, a Inglaterra contava com 43 cursos de Arquitetura de Interiores e 114 cursos de Design de Interiores (EDWARDS, 2010). No Brasil, a formalização do ensino do Design de Interiores data de meados do século XX. O ano de 1946 registrou a criação do primeiro curso de graduação em Arte Decorativa do país, ofertado pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), da então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (VIANA, 2015). A década de 1950 presenciou a fundação do Instituto de Artes Decorativas (Iade) em São Paulo (1959), primeira escola brasileira criada com a finalidade específica de formar o profissional de Decoração (DANTAS; NEGRETE, 2015). Nos anos 1960, inaugurou-se o curso de Decoração oferecido pela Escola de Artes Plásticas (ESAP), em Belo Horizonte (1963), primeiro curso do tipo em Minas Gerais (AGUIAR, 2006; BAHIA, 2017). Desde então, diversos programas se desenvolveram, e, atualmente, são 278 cursos de graduação em Design de Interiores em atividade no país, dos quais 272 são tecnológicos e 06 são bacharelados (E-MEC, 2020). Em janeiro de 2018, a ABD, por intermédio do seu programa ABD Acadêmico, publicou a primeira edição da Revista Intramuros, visando minimizar a lacuna que atualmente existe na pesquisa brasileira no campo do Design de Interiores. Referido periódico visa à difusão da produção de conhecimentos técnicos, cultuais e científicos relacionados ao Design de Interiores, estimulando a produção intelectual, a ampliação de repertório e a promoção da reflexão crítica de acadêmicos e práticos da área (ABD, 2018d). VI A existência de um exame de qualificação Para creditar o ensino do Design de Interiores nos Estados Unidos, o Council for Interior Design Accreditation(CIDA) foi fundado, em 1971, pela AID, pela NSID e pelo IDEC. Em 1973, os primeiros seis cursos creditados pelo CIDA estavam em operação. Em 1972, o National Council for Interior Design Qualification (NCIDQ) tinha sido criado pela AID e pela NSID para estabelecer um exame de qualificação comum para os designers de interiores da América do Norte, atestando, desde 1974, por meio do NCIDQ Examination, a capacidade projetual e a experiência de designers de interiores, conferindo-lhes, quando aprovados, um número de registro – o NCIDQ Certification (CIDA, 2017; CIDQ, 2017; EDWARDS, 2010; GUERIN; MARTIN, 2010; IDEC, 2018a; LEES-MAFFEI, 2008; NCIDQ, 2017; WHITE, 2009). 34 No Reino Unido há, conforme anteriormente tratado neste texto, um rigoroso teste das capacidades projetuais do designer de interiores para que ele venha a se tornar um membro do BIID. No Brasil, não foram encontradas informações sobre a existência de um exame de qualificação para atestar a capacidade profissional dos designers de interiores. VII Considerações Finais Guerin e Martin (2004; 2010) defendem a ideia de que, nos Estados Unidos, o Design de Interiores é formalmente reconhecido como uma profissão, ao passo que movimentos legislativos ainda acontecem por todo o país na tentativa de regulamentar sua prática. Sob essa mesma perspectiva, pode-se dizer que, também no Reino Unido, o Design de Interiores é uma profissão consolidada. No Brasil, considerando que a Lei nº 13.369/2016 (BRASIL, 2016) não exige a necessidade de educação formal para o exercício do Design de Interiores, e em função de ainda não haver a institucionalização de um exame de qualificação, pode-se dizer que, segundo os parâmetros aqui considerados, a profissionalização do Design de Interiores está em vias de se consolidar. 2.2 Conceituando o Design de Interiores We’re not designing places to live. We’re designing how we live (ASID, 2019c, on line). Este tópico apresenta uma discussão sobre o atual entendimento do que seja o Design de Interiores. Para tal, e em um primeiro momento, verificou-se como 15 associações de classe de diferentes países compreendem referido campo profissional. Assim o fizemos porque essas associações nascem com o objetivo de definir a profissão que guardeiam e de desenvolver ações que promovam o fortalecimento da área e dos profissionais associados a ela. A instituição dessas associações é consequência natural do processo de constituição de um campo profissional. Segundo Braga (2005, p. 12), um campo profissional existe quando um grupo de pessoas compartilham um mesmo saber fazer (ofício), concorrem no mesmo tipo de mercado, reconhecem-se e, com o desenvolvimento da profissão, organizam-se como categoria social, 35 criando grupos de discussão e espaços institucionais “[...] nos quais debatem quais seriam suas atribuições, estabelecem o ensino e as regras para as relações entre si e para com a sociedade”. A partir do momento em que o ensino para a formação profissional de determinado campo é institucionalizado, pesquisadores contribuem para fomentar o corpo do conhecimento que dá sustentação teórica à prática desses profissionais, o que passa a ser ensinado e aprendido nas instituições de ensino em seus cursos profissionalizantes. Assim, em um segundo momento, buscamos compreender como estudiosos da área entendem o Design de Interiores. Ao final desse processo, fez-se possível compreender o Design de Interiores em termos de objetivos, responsabilidades, processo projetual, qualidade das soluções e objeto de trabalho. 2.2.1 O que é o Design de Interiores? A American Society of Interior Designers (ASID) entende que o Design de Interiores é uma atividade capaz de impactar a experiência humana, influenciando a forma como as pessoas vivem (ASID, 2019b). Nesse sentido, acreditam que, ao projetar um interior arquitetônico, o designer de interiores esteja contribuindo diretamente para a saúde e o bem-estar dos ocupantes (ASID, 2019c). Tomando-se como partido a estrutura da edificação e combinando visão estética com habilidades práticas e conhecimento, os designers de interiores são profissionais capazes de transformar vidas por meio de soluções técnicas e criativas que visam à segurança, funcionalidade e atratividade dos interiores (ASID, 2019a). Segundo os Diseñadores de Interior Argentinos Asociados (DArA), o designer de interiores tem formação técnica e criativa que o possibilita incorporar funcionalidade e estética aos interiores arquitetônicos de modo a responder às necessidades dos ocupantes, melhorando-lhes a qualidade de vida, provendo-lhes conforto e contribuindo para aumentar a produtividade laboral. Entendem que os projetos de Design de Interiores alcançam praticamente todas as áreas da vida cotidiana e devem ser regidos por princípios de sustentabilidade (DARA, 2019). A Associazione Italiana Progettisti d’Interni (AIPi) considera a atividade de projetação de interiores como complementar à arquitetura global dos edifícios. Para eles, o designer de interiores dedica-se a identificar, pesquisar e resolver criativamente os problemas de funcionalidade dos ambientes internos, bem como a planejar os seus aspectos estéticos, empregando conhecimentos técnicos e experiência prática a fim de contribuir para melhorar a qualidade de vida e proteger a segurança, a saúde e o bem-estar dos indivíduos (AIPI, 2019). 36 O Design Institute of Australia (DIA) compreende que o Design de Interiores é uma atividade dedicada à criação e ao planejamento de interiores arquitetônicos, de modo a contribuir para que as pessoas vivam e trabalhem com mais eficiência, conforto, segurança e prazer em um ambiente esteticamente satisfatório e funcional (DIA, 2019). De acordo com o Philippine Institute of Interior Designers (PIID), o Design de Interiores é a ciência e a arte de planejar, organizar, selecionar e especificar as superfícies dos elementos que constituem o interior arquitetônico, com a proposta de melhor atender à função pretendida (PIID, 2019). A Interior Designers of Canada (IDC) define o Design de Interiores como uma profissão dedicada ao desenvolvimento de soluções criativas para alcançar a funcionalidade e a atratividade estética dos ambientes internos, conforme possibilidades e necessidades do cliente, visando à promoção da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas e melhoria da qualidade de vida. Para tanto, o processo de trabalho do designer de interiores é orientado por metodologia sistematizada que inclui pesquisa, análise e integração do corpo de conhecimento da área (IDC, 2019). Para a International Interior Design Association (IIDA), o Design de Interiores é uma atividade capaz de potencializar negócios e impactar a saúde e o bem-estar das pessoas (IIDA, 2019), e compartilham a definição apresentada pelo Council for Interior Design Qualification (CIDQ). Segundo referido conselho (CIDQ, 2019), o Design de Interiores atém-se ao desenvolvimento de soluções holísticas, técnicas, criativas e contextualmente apropriadas para ambientes internos, visando contribuir para a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas ao mesmo tempo em que lhes impacta a experiência. Com foco no usuário, responsabilidade em relação ao desenvolvimento sustentável e atenção às normatizações aplicáveis, o processo de projetação do designer de interiores é orientado por sistematizada metodologia baseada em pesquisa (evidence based design) e integração do corpo de conhecimento da área. A International Federation of Interior Architects/Designers (IFI), fundada em 1963 na Dinamarca e atualmente com representação nos cinco continentes, acredita que cabe ao designer de interiores identificar, pesquisar e solucionar com criatividade problemas relacionados à função e à qualidade dos interiores, planejando espaços que visem melhorar a qualidade de vida daspessoas, proteger-lhes a saúde e oferecer-lhes segurança e bem-estar (IFI, 2019). Dentre as associações de classe consultadas, essa definição é compartilhada pela Asociación de Diseñadores Interioristas Profesionales del Uruguay (ADDIP), pelo Consejo General de Colegios 37 Oficiales de Decoradores y Diseñadores de Interior da España (CGCODDI) e pela Hong Kong Interior Design Association (HKIDA). Dada a sua representatividade global, e objetivando estabelecer uma base unificada de compreensão dos princípios fundamentais do Design de Interiores, a IFI editou, em 2011, a IFI Interiors Declaration, primeira declaração do tipo na história da profissão. As ideias ali contidas referem-se à prática profissional, à educação e à pesquisa em Design de Interiores, destacando- se os trechos a seguir (IFI, 2011). Como profissionais do design, nosso conhecimento nos permite conceber espaços que respondem às necessidades humanas. Esses espaços humanos são o domínio de nossa competência, da nossa paixão e do nosso trabalho. Nós projetamos o espaço de forma responsável. Exercemos nossa profissão com a mais alta preocupação em utilizar os recursos naturais e econômicos do mundo de uma maneira sustentável. Nós projetamos para a saúde, a segurança, o bem-estar e as necessidades de todos. [...] Nós moldamos os espaços que moldam a experiência humana. [...] A responsabilidade dos designers de interiores e arquitetos de interiores é definir a nossa prática e os conhecimentos necessários a ela, educar a nós mesmos e ao público e nos posicionar na sociedade e no mercado como especialistas do ambiente construído. [...] O conhecimento teórico, aplicado e inato é fundamental para a prática do design de interiores e da arquitetura de interiores. [...] Designers de interiores e arquitetos de interiores determinam a relação das pessoas com os espaços com base em parâmetros psicológicos e físicos, para lhes melhorar a qualidade de vida (IFI, 2011, p. 1, tradução nossa27). A Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD), por sua vez, entende que são muitas as variáveis que influenciam a elaboração de um projeto para que a solução técnica e criativa dos espaços interiores – sejam eles arquitetônicos, temporários ou de meios de transporte – possa oferecer conforto, estética, bem-estar, saúde, segurança, qualidade de vida e cultura às pessoas. O designer de interiores, assim sendo, projeta por intermédio de uma metodologia sistematizada centrada no usuário, respeitando o meio ambiente, as normatizações aplicáveis e os aspectos sociais do contexto projetual (ABD, 2019a; 2019b). 27 Texto original: "[…] As design professionals, our knowledge enables us to form spaces that respond to human needs. These human spaces are the domain of our competence, our passion and our work. We use space responsibly. We practice our profession with highest regard for engaging the world’s economic and natural resources in a sustainable manner. We design for health, safety, well-being and the needs of all. […] We shape the spaces that shape the human experience. […] The responsibility of interior designers and interior architects is to define the practice and the required expertise, educate ourselves and the public, and to position ourselves in the public realm as experts in the built environment. […] Theoretical, applied, and innate knowledge are fundamental to the practice of interior design and interior architecture. […] Interior designers and interior architects determine the relationship of people to spaces based on psychological and physical parameters, to improve the quality of life” (IFI, 2011, p. 1). 38 Para o British Institute of Interior Design (BIID), o Design de Interiores é uma disciplina dedicada a melhorar os ambientes de vivência humana, resultando em espaços eficientes e atrativos visualmente que promovam o bem-estar dos indivíduos. Para isso, os designers de interiores são capazes de entender e de responder às aspirações e necessidades físicas e emocionais das pessoas para as quais projetam, de modo que elas possam desfrutar das melhores possibilidades de experiências que determinado espaço possa proporcionar, sejam hotéis, lojas, escritórios, escolas, museus, exposições, ambientes da saúde, iates, aeronaves ou residências (BIID, 2019). Por fim, a Associação Portuguesa de Designers (APD) denomina a atividade como Design de Interiores/de Espaços/de Ambientes e a vincula à projetação de espaços interiores e exteriores. Ao designer de interiores compete diagnosticar as necessidades dos usuários e considerar aspectos ergonômicos, cognitivos, semióticos, semânticos, culturais, sociais e ecológicos para projetar esses espaços, atribuindo-lhes uma concepção formal e funcional que dialogue harmoniosamente com o público (APD, 2017). Do exposto, percebe-se que as definições apresentadas pelas associações de classe consultadas28 – ABD (Brasil), ADDIP (Uruguai), AIPi (Itália), APD (Portugal), ASID (Estados Unidos), BIID (Inglaterra), CIDQ (Estados Unidos), CGCODDI (Espanha), DArA (Argentina), DIA (Austrália), IDC (Canadá), IFI (Dinamarca), IIDA (Estados Unidos), HKIDA (Hong Kong) e PIID (Filipinas) – são construídas, de modo geral, a partir da especificação do objeto de trabalho do designer de interiores, dos objetivos inerentes a qualquer projeto do tipo, dos atributos que caracterizam as soluções pretendidas, das responsabilidades associadas ao campo e do processo projetual. Percebe-se, ainda, que muitos termos utilizados para descrever cada um desses cinco pontos são recorrentes, entendidos aqui como palavras-chave para a definição de Design de Interiores que se busca construir, conforme pode ser visualizado no Quadro 2. 28 Também foram consultados os sites das seguintes associações: Interior Designers Association of Nigeria (IDAN), Interior Design Confederation Singapore (IDCS), The African Institute of Interior Design Profession (IID), Japan Interior Designers' Association (JID), Malaysian Institute of Interior Designers (MIID) e Interior Decoration Association of Thailand (TIDA). Entretanto, não foram encontrados, na ocasião, uma definição de Design de Interiores nem conteúdos relacionados. 39 Quadro 2 – Sistematização dos conceitos de Design de Interiores apresentados pelas associações de classe consultadas. Associação consultada Soluções Objetivo Responsabilidade Processo Objeto de trabalho ASID (EUA) soluções técnicas e criativas que visam à segurança, à funcionalidade e à atratividade estética dos espaços; impactar a experiência humana; promover a saúde e o bem-estar das pessoas; articulação entre visão estética, habilidades práticas e conhecimento; interior arquitetônico; DArA (ARGENTINA) soluções técnicas e criativas que visam à funcionalidade e à estética dos espaços; melhorar a qualidade de vida dos ocupantes; proporcionar conforto; aumentar a produtividade de atividades laborais; princípios de sustentabilidade; interior arquitetônico; AIPi (ITÁLIA) soluções criativas que visam à funcionalidade e à atratividade estética dos espaços; melhorar a qualidade de vida dos ocupantes; proteger a segurança, a saúde e o bem-estar dos indivíduos; identificação, pesquisa e resolução de problemas a partir de experiência prática e conhecimentos técnicos; interior arquitetônico; DIA (AUSTRÁLIA) criação e planejamento de um ambiente esteticamente satisfatório e funcional; impactar a experiência humana – forma de viver e trabalhar; interior arquitetônico; PIID (FILIPINAS) soluções técnicas (ciência) e criativas (arte) para composição (estética) dos espaços melhorando a sua funcionalidade; interior arquitetônico; CIDQ (EUA) compartilham: IIDA (EUA) soluções holísticas, técnicas, criativas e contextualmente apropriadas; impactar a experiência humana; promover a saúde, a segurançae o bem-estar das pessoas; desenvolvimento sustentável; normatizações aplicáveis; sistematizada metodologia com foco no usuário baseada em pesquisa e integração do corpo de conhecimento especializado; ambientes internos; Continua... 40 Associação consultada Soluções Objetivo Responsabilidade Processo Objeto de trabalho IDC (CANADÁ) soluções criativas para se alcançar a funcionalidade e a atratividade estética dos espaços; promover a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas; melhora da qualidade de vida; metodologia sistematizada que inclui pesquisa, análise e integração do corpo de conhecimento da área; ambientes internos; IFI (DINAMARCA) compartilham: ADDIP (URUGUAI) CGCODDI (ESPANHA) HKIDA (HONG KONG) soluções criativas para a função e a qualidade (estética) dos espaços; impactar a experiência humana; melhorar a qualidade de vida das pessoas; proteger a saúde dos indivíduos e oferecer-lhes segurança e bem-estar; desenvolvimento sustentável; apoiar a humanidade, a sociedade e a cultura; processo sistematizado e interativo que inclui descoberta, decodificação e validação; métodos de pesquisa para analisar o contexto físico, emocional e comportamental dos usuários; interpretação, tradução e manipulação do capital cultural; conhecimento teórico, aplicado e inato; espaços humanos; ambiente construído; ABD (BRASIL) soluções técnicas e criativas; oferecer conforto, estética, bem-estar, saúde, segurança, qualidade de vida e cultura às pessoas; respeitar o meio ambiente (sustentabilidade), as normatizações aplicáveis e os aspectos sociais do contexto projetual; metodologia sistematizada centrada no usuário; espaços interiores (arquitetônicos, temporários ou de meios de transporte); BIID (INGLATERRA) soluções visando à eficiência (funcionalidade) e à atratividade visual (estética) dos espaços; impactar a experiência humana; promover bem-estar; responder às necessidades físicas e emocionais das pessoas; ambientes de vivência humana; APD (PORTUGAL) soluções visando à concepção formal (estética) e funcional dos espaços; espaços interiores e exteriores; Fonte: elaborado pela autora com base nas fontes consultadas para a produção do texto. 41 A sistematização das definições abordadas possibilita-nos, em síntese, entender que o espaço é o objeto de trabalho do designer de interiores e que, por meio desse espaço, é possível impactar a experiência humana e contribuir para o bem-estar, a segurança e a saúde das pessoas, melhorando-lhes a qualidade de vida. Possibilita-nos, também, entender que o Design de Interiores é uma atividade que articula criatividade e técnica para o desenvolvimento de soluções para a funcionalidade e a estética desses espaços, por meio de um processo projetual orientado para a sustentabilidade e que inclui pesquisa e integração de conteúdos atinentes ao corpo de conhecimento do campo. Percebe-se, ainda, que existem três diferentes formas de entender o objeto de trabalho do designer de interiores: 1) aquela que considera o espaço como um interior arquitetônico; 2) aquela que considera o espaço como a parte de dentro de alguma estrutura, o que inclui o interior de meios de transporte; e 3) aquela que considera o espaço como qualquer lugar passível de atividades e relações humanas, seja interior ou exterior. Defende-se, aqui, a ideia de que, apesar do termo ‘interiores’ ser utilizado globalmente para denominar a profissão, é pertinente considerar uma expansão do seu objeto de trabalho de interiores arquitetônicos (o que o era nas origens da atividade) para ambientes de vivência humana (o que é possível neste início de século). Em relação ao primeiro ponto, em que muitas das associações consultadas vinculam o Design de Interiores ao projeto de espaços que, para existirem em sua tridimensionalidade, dependem de estrutura arquitetônica, a mesma proposta é observada nas definições de Edwards (2010), Friedrichs (2002) e Brooker e Stone (2014). Edwards (2010) define o Design de Interiores como o processo de planejamento e construção dos elementos que constituem os interiores arquitetônicos, considerando aspectos funcionais, estéticos, de segurança, eficiência e sustentabilidade. Para Friedrichs (2002), os designers de interiores dedicam-se a compreender a forma como as pessoas experimentam os interiores arquitetônicos e a criar projetos que favoreçam as atividades ali realizadas. Brooker e Stone (2014) entendem que o Design de Interiores é um processo multidisciplinar e criativo dedicado à idealização do interior arquitetônico visando ao arranjo dos seus elementos físicos e à articulação entre identidade e atmosfera por meio da manipulação do volume espacial, dos objetos e do tratamento de superfícies. Lees-Maffei (2008), contudo, explica que o Design de Interiores é uma atividade dedicada à projetação de espaços residenciais, laborais, institucionais, comerciais e de entretenimento que 42 constituem o interior de uma edificação ou um meio de transporte. Para a autora, “a aplicação de uma definição holística do interior promove estudos que iluminam a amplitude e a diversidade de tais espaços [...]” (LEES-MAFFEI, 2008, p. 4, tradução nosa29), expandindo o campo de atuação do designer de interiores e enxergando o seu objeto de trabalho como o interior de um ambiente construído. Também para Massey (2008), os meios de transporte constituem-se em possibilidade de atuação profissional do designer de interiores. E isso não é novidade. Afinal, como explicam Dantas e Negrete (2005), era acirrada a concorrência entre as grandes empresas de Decoração responsáveis pelos paquebots que cruzavam o Atlântico nos decênios de 1920 e 1930. Se, portanto, o designer de interiores está apto a impactar a experiência humana e a melhorar a qualidade de vida das pessoas por meio do planejamento da funcionalidade e da estética dos interiores arquitetônicos e de meios de transporte, por que ele não estaria apto a projetar os espaços de uma feira gastronômica em um parque, uma missa campal, um casamento à beira mar, um show em uma praça ou uma peça de teatro ao ar livre? Por que ele não estaria apto a projetar um restaurante que possua áreas interna e externa? Poderia projetar apenas a área interna? Qual a diferença entre projetar o arranjo e a ambiência das áreas interna e externa desse restaurante? Se todos esses são lugares de relações e de práticas humanas, cada um com suas especificidades plásticas e funcionais, cada um podendo ser projetado de forma a contribuir para o desenvolvimento sustentável e para a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas que ali experienciam a vida, por que o campo do Design de Interiores não poderia abrangê-los? A limitação à tradução do vocábulo inglês “design” (OXFORD, 2019) e à acepção do termo “interior” (HOUAISS, 2019) conduz à noção de que o Design de Interiores se refere à ideação, ao planejamento e ao desenho da “parte interna de algo” ou da “parte de dentro ou disposição interna de uma construção ou moradia”. Se houver o entendimento de que a conjunção dos sentidos dos termos que formam uma expressão constitui a sua significação, então realmente há de se reduzir o campo do Design de Interiores à ação de projetar um cômodo de uma edificação ou o interior de qualquer estrutura pré-existente. 29 Texto original: “Applying an holistic definition of the interior fosters studies that illuminate the breadth and diversity of such spaces while also recognizing that certain functions […]” (LEES-MAFFEI, 2008, p. 4). 43 Todavia, há de se considerar que à época da mudança nominal de Decoração para Design de Interiores o contexto de mundo era diferente do que hoje se vivencia. Ali, registrou-se um grande salto na atividade: repensou-se a prática profissional e expandiu-seo objeto de trabalho – de interiores residenciais para também interiores laborais –, adequando a profissão às demandas de outrora. Passados mais de 60 anos, não seria novamente o momento de repensar a prática profissional do Design de Interiores e expandir ainda mais o seu objeto de trabalho, adequando-o às possibilidades do presente? Pergunta-se, então: o termo ambiente não seria o mais adequado para expressar o objeto de trabalho do designer de interiores na contemporaneidade? Acredita-se que a resposta a essa indagação seja sim. Explicamos o porquê. Para defender o ponto de vista apresentado, tomar-se-á como sustentação teórica o entendimento do que constitui o ‘ambiente’ segundo a Psicologia Ambiental, uma vez que referido campo do conhecimento dedica-se ao estudo da relação de impacto mútuo que se estabelece entre pessoa e ambiente (CAMPOS-DE-CARVALHO; CAVALCANTE; NÓBREGA, 2011; GÜNTHER, 2011; MOURÃO; CAVALCANTE; 2011). Na Psicologia Ambiental, o vocábulo ‘ambiente’ é definido como um contexto multidimensional constituído por um meio concreto, seja natural ou construído, e pelas condições sociais, econômicas, políticas, culturais e psicológicas que o integram, o que inclui as pessoas (CAMPOS- DE-CARVALHO; CAVALCANTE; NÓBREGA, 2011). Daí, extrai-se uma relação de reciprocidade: o ambiente oferece múltiplos estímulos ao indivíduo que com ele interage, influenciando o seu comportamento (processo de adaptação); ao mesmo tempo, esse ambiente é influenciado pelo comportamento humano, que o modifica segundo as suas necessidades (processo de ajuste) (GÜNTHER, 2011). De modo sistêmico, todos os componentes de um ambiente – os físicos (móveis, equipamentos, decoração, iluminação, acústica, temperatura), os não-físicos (pessoas e suas expectativas, motivações, crenças, experiências, padrões comportamentais) e o contexto social, econômico, cultural e político – estão conectados de tal forma que, alterando-se um deles, alteram-se os demais. Logo, para estudar ou modificar qualquer componente de um ambiente, deve-se, primeiramente, considerar e analisar os outros (CAMPOS-DE-CARVALHO; CAVALCANTE; NÓBREGA, 2011). Assim, o campo do Design de Interiores, ao se dedicar ao planejamento dos componentes físicos do ambiente, impacta o comportamento humano, positiva ou negativamente. Dada a sua 44 responsabilidade, o designer de interiores não pode basear o seu processo projetual apenas em intuição, bom gosto, bom senso e talento natural. Previamente à interferência nos componentes físicos, ele depende de sério estudo dos componentes não-físicos do ambiente, bem como do contexto que o envolve. Por conseguinte, independentemente do ambiente construído em que os seres humanos exerçam atividades e se relacionem – seja uma praça, um ônibus ou um interior arquitetônico – requer-se, do designer de interiores, os mesmos princípios de projetação, exigindo, sobretudo, análise do sistema que o constitui, na tentativa de valorizar o impacto positivo e de minimizar o impacto negativo na vivência das pessoas que o usufruirão. Ressalta-se, nesse ponto, que “podemos pensar nas características físicas (aparência), funcionais (atividades) e simbólicas (significados) formadoras de um lugar e necessárias à sua materialização [...]” (CAVALCANTE; NÓBREGA, 2011, p. 185), mas um espaço só se tornará ambiente quando habitado e vivido por pessoas, indivíduos que a ele atribuirão significado. Nesses termos, e considerando todo o exposto, o Design de Interiores é aqui definido como o solucionar técnico-criativo de problemas relacionados à estética e à funcionalidade dos espaços sob a premissa do desenvolvimento sustentável, para concebê-los como ambientes que promovam a saúde, a segurança e o bem-estar dos indivíduos que deles irão usufruir, impactando positivamente a experiência humana e contribuindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para tanto, o sistematizado processo de projetação do designer de interiores pauta-se em pesquisa e fundamenta-se em conhecimento teórico e prático. A Figura 1 apresenta, de forma esquemática, a definição que aqui se construiu. Figura 1 – Definição do Design de Interiores apresentada de forma esquemática. Fonte: elaborado pela autora com base nas fontes consultadas para a produção do texto. 45 2.2.2 Considerações sobre a ideia de promoção da saúde, da segurança e do bem-estar Practicing interior designers must accept responsibility for decisions regarding environmental effects on societal health, safety, and welfare (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993, p. 69). Neste ponto do texto, já está claro que o Design de Interiores dedica-se à projetação dos aspectos funcionais e estéticos dos ambientes visando impactar positivamente a experiência humana e contribuir pra a qualidade de vida das pessoas. Faz-se, então, necessário compreender como a conformação física dos ambientes pode influenciar positivamente as condições física e mental dos indivíduos, especialmente no que se refere à saúde, à segurança e ao bem-estar (GUERIN; MARTIN, 2010). Quanto à saúde, considera-se o fato de que os estímulos físicos do ambiente podem contribuir para minimizar o surgimento ou o agravamento de enfermidades associadas ao corpo e à mente (ex.: doenças, lesões, dores). Ao mesmo tempo, esses estímulos podem ser projetados do sentido de minimizar ou eliminar o perigo, as incertezas e os riscos (ex.: crimes, ferimentos, acidentes), contribuindo para a sensação de e a real proteção das pessoas. Ademais, referidos estímulos podem potencializar o estado de boa disposição física e mental do indivíduo (ex.: conforto, tranquilidade, agradabilidade), condição essa que recebe o nome de bem-estar. Para que os projetos de Design de Interiores tenham real potencial de contribuir para a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas – já que a intuição e o achismo não são suficientes –, diversas são as pesquisas que buscam compreender como o ambiente pode impactar positivamente a experiência humana e melhorar a qualidade de vida dos seus usuários. É que o ato de projetar baseando-se em evidências de pesquisas (evidence-based design) passou a ser uma real e urgente demanda do Design de Interiores (MARTIN; HANINGTON, 2019; NUSSBAUMER, 2009). Com esse enfoque, Clements-Croome (2015) explica que os odores, os sons, a qualidade do ar, a temperatura e a iluminação de ambientes laborais, como escritórios e fábricas, influenciam o humor, a concentração, a disposição, a motivação e a produtividade dos trabalhadores (CLEMENTS-CROOME, 2015). Consequentemente, ambientes mal projetados podem ser percebidos como estressores, provocando aumento da frequência cardíaca, vômitos, respiração superficial, tensão muscular, entre outros, contribuindo para o absentismo e a improdutividade. É evidente que cada tipo de trabalho requer uma ambientação própria. Mas, de modo geral, circulação de ar fresco, controles de temperatura, incidência de luz solar, conforto acústico, 46 mobiliário ergonômico e bons sistemas de comunicação são importantes itens a serem considerados no desenvolvimento de ambientes de trabalho. Além disso, a configuração do layout – ou arranjo espacial – é, de modo geral (leia-se: em todas as tipologias de ambientes, e não apenas os laborais), um importante influenciador da percepção e do comportamento das pessoas. “A organização espacial, além de promover certas práticas interativas e limitar outras, circunscreve ações, emoções, expetativas e significações das pessoas usuárias daquele contexto ambiental” (CAMPOS-DE-CARVALHO, 2011, p. 71). A título de exemplificação, Kim e Dear (2013) propuseram-se a aferir os níveis de satisfação geral de trabalhadores para avaliar a relação entre os impactos positivos e os negativos do arranjo físico de escritórios com diferentes proposições de layout – a saber: com compartimentação fechada individual,com compartimentação fechada compartilhada, com divisórias altas entre as estações de trabalho, com divisórias baixas entre as estações de trabalho e com planta aberta. Apesar do layout de escritório de planta aberta ser comumente assumido como facilitador da interação e da comunicação entre os ocupantes, o que promoveria satisfação pessoal e eficácia do trabalho, Kim e Dear (2013) identificaram que a perda de privacidade e a distração pelo ruído são as principais causas de insatisfação nesse tipo de configuração espacial. Os resultados a que chegaram apresentaram uma discrepância significativa em relação à percepção de privacidade, acústica e proxêmica entre os grupos de pessoas que trabalham em um compartimento fechado e em um escritório de planta aberta. Em geral, o nível de satisfação foi maior em escritórios com compartimentação fechada. Ambientes de moradia, no que lhes dizem respeito, exercem forte influência sobre os sentimentos de segurança, de pertencimento e de auto expressão dos seus moradores. Por isso, especialmente para o desenvolvimento dessa tipologia de projeto, merece destaque o conceito de apropriação. Apropriação é um processo psicossocial central na interação do sujeito com seu entorno por meio do qual o ser humano se projeta no espaço e o transforma em um prolongamento de sua pessoa, criando um lugar seu. Ao imprimir marcas e alterações visíveis, o sujeito cria um aqui no qual dispõe seus pertences e que vai lhe servir de referência, permitindo-lhe orientar-se e preservar sua identidade. Quando moldados e adaptados às necessidades de seus habitantes, uma casa, um quarto ou um escritório são considerados exemplos típicos de apropriação (CAVALCANTE; ELIAS, 2011, p. 63). Nesse sentido, conhecer a atual moradia do cliente, interpretar o seu estilo de vida e considerar as suas necessidades e aspirações são atitudes de um designer responsável e consciente do seu papel e do seu poder de influenciar a vida de outros indivíduos. Sem essa consulta prévia, sem 47 essas informações, sem a devida análise de tudo isso, explicam Cavalcante e Elias (2011), o designer de interiores, ao imprimir a sua marca por meio do projeto, terá grandes chances de contradizer os moradores, que, por sua vez, precisarão se reapropriar do espaço construído, modificando-o. Outro conceito que merece destaque nessa discussão é o de apego ao lugar – ambiente com o qual uma pessoa está conectada emocionalmente ou culturalmente (ELALI; MEDEIROS, 2011). Isso implica, ao campo do Design de Interiores, necessidade de considerar conteúdos simbólicos de origem individual e sociocultural na proposição das características físico-espaciais, já que os símbolos são intermediários no relacionamento pessoa-ambiente. Ao interferir no comportamento das pessoas por meio do projeto de seus ambientes, o designer de interiores acaba por atrair, encorajar ou inibir movimentos, podendo contribuir tanto para gerar bem- estar e produtividade quanto para gerar frustração e estresse. Como exemplo do que se expõe, Evans, Kantrowitz e Eshelman (2002) acreditam que a moradia inadequada de um idoso que vive com independência pode interferir no seu sentimento de apego ao lugar, diminuindo a sua sensação de bem-estar mental. Dessa forma, explicam os autores, o projeto de Design de Interiores para essas residências deve, entre outras estratégias, promover a personalização e a lembrança de atividades e eventos significativos da vida do morador, por meio de, por exemplo, espaços de exposição. Os estudos de Evans, Lercher e Kofler (2002) demonstram que crianças que residem em casas populosas (grande número de pessoas por cômodo) estão mais sujeitas à maior punição corporal, à maior chance de conflitos com outros membros da família e à menor responsividade parental em virtude da falta de controle sobre as interações interpessoais que ali se estabelecem, o que contribui para um elevado estresse psicológico. Nesse contexto, explicam os autores, quando há melhor regulação do contato interpessoal por meio do planejamento dos ambientes – oferecendo-se, por exemplo, a possibilidade de momentos de privacidade –, percebe-se menor impacto negativo de uma casa populosa no bem-estar mental de uma criança. Assim como os ambientes da casa (First Place) e do trabalho (Second Place) influenciam a satisfação pessoal do sujeito, os Third Places – lugares de encontro, de vivência em comunidade, para além das atividades domésticas e laborais – também contribuem para essa satisfação na medida em que respondem à necessidade humana de interação social. Visando compreender como o designer de interiores pode oferecer melhores oportunidades de interação nesses espaços, Campbell (2017) estudou Third Places de comunidades dedicadas ao cuidado contínuo 48 dos idosos que lá habitam30. Os resultados indicaram que os espaços caracterizados em sua forma como acolhedores, divertidos e vivazes e em sua decoração como casuais e caseiros têm maiores probabilidades de serem apreciados e usados pelos idosos. Ambientes da saúde, como clínicas, laboratórios e hospitais, merecem atenção redobrada. Somado à importância de analisar e de respeitar as normas relativas à saúde, à segurança e ao bem-estar das pessoas nesses ambientes (PLATT; BOSCH; KIM, 2017), é vital a compreensão das necessidades físicas e mentais dos pacientes, dos familiares, dos visitantes e dos trabalhadores em relação a esses espaços. Isso porque tais necessidades podem afetar o processo de recuperação dos pacientes (DEVLIN; ARNEILL, 2003), a rotina de trabalho dos funcionários e a experiência dos familiares e visitantes. Importante frisar que, muitas vezes, as necessidades dos pacientes, familiares, visitantes e funcionários podem ser divergentes, exigindo capacidade de análise comparativa do designer de interiores para balancear prós e contras em suas escolhas (ULRICH, 1991). Nesse contexto, destaca-se o conceito de estresse ambiental. Em síntese, Günther e Fragelli (2011) explicam que o corpo humano possui, na tentativa de restauração do equilíbrio, um mecanismo de resposta adaptativa quando exposto a um agente estressor, passando pelas fases de alarme, resistência e exaustão. Na relação pessoa-ambiente, os estímulos emitidos pelo ambiente podem ser recebidos, interpretados e avaliados como amigáveis ou ameaçadores e, nesse último caso, apresentam potencial de exceder a capacidade de adaptação do sujeito. O estresse ambiental, então, refere-se ao esforço empreendido pelo organismo na tentativa de enfrentar os efeitos negativos do ambiente e depende das condições físicas, das necessidades e dos valores do indivíduo. Ulrich (1991) defende a ideia de que os designers de interiores devem projetar ambientes dedicados ao cuidado com a saúde visando à redução do estresse do paciente, já que esse estresse é um obstáculo para a cura, podendo gerar, entre outras possibilidades, ansiedade, depressão ou distúrbio de comportamento – nível mental – e alterações no funcionamento de sistemas corporais, como aumento da pressão sanguínea, tensão muscular ou redução do sistema imunológico – nível físico. Além do estresse provocado pela própria doença – que traz consigo, também, redução de capacidades físicas, restrições alimentares e procedimentos médicos dolorosos –, o ambiente físico-social do paciente pode ser uma significante fonte de 30 Comunidades essas conhecidas pelo termo em inglês continuing care retirement community (CCRC). 49 estresse para ele. É que esse ambiente pode, por exemplo, ser barulhento, invadir a sua privacidade ou prover pouco suporte social a ele. Como orientação aos designers de interiores, Ulrich (1991) sugere que os ambientes hospitalares sejam projetados de modo a oferecer sensação de controle, suporte social e distrações positivas, tanto para pacientes como para familiares, visitantes e funcionários.Em termos práticos, atender à necessidade humana por controle significa oferecer, como exemplifica Ulrich (1991), o controle da televisão em quartos e áreas de visitantes, o acesso dos pacientes a jardins, o controle de temperatura em quartos, áreas de escape para funcionários e estações de trabalho pensadas estrategicamente para evitar interrupções desnecessárias de visitantes. Investigando especificamente a relação entre a sensação de controle sobre um quarto hospitalar e a variação do nível de estresse do paciente, Andrade e Devlin (2017) explicam que a possibilidade de controlar o ambiente – televisão, temperatura, ajustes da cama e vedação da janela – previne estresse adicional em pacientes que possuem alto desejo de controle, ao passo que não há significativa relação entre a possibilidade de controlar o ambiente e a variação do nível de estresse em pessoas com baixo desejo de controle. Atinente ao suporte social, Ulrich (1991) sugere confortáveis áreas de espera com assentos móveis que possam ser rearranjados pelos familiares e visitantes, ambientes que permitam a interação social entre pacientes e acomodação confortável para o acompanhante que passa a noite com o paciente, desde que não prejudiquem o controle da privacidade. Somado a isso, sugere o contato com elementos da natureza ou imagens que façam referência a eles como o principal elemento de distração positiva. A título de ilustração do que se expõe, Brereton et al (2011) explicam que os ambientes hospitalares destinados ao cuidado paliativo de idosos no final da vida precisam ser projetados para oferecer privacidade e proximidade física e emocional entre paciente e seus familiares, paciente e seu lar, paciente e natureza. Além disso, ressaltam, é importante que sejam limpos, simples, acessíveis e bem dimensionados; que os quartos sejam personalizados e tenham a atmosfera de uma casa, o que pode ser proporcionado por meio da inclusão de objetos pessoais; que sejam claros e arejados, e, sempre que possível, que ofereçam a vista da natureza ou de espaços ao ar livre. Em ambientes de educação coletiva há de se considerar o papel das características físicas e espaciais do ambiente no processo de ensino e aprendizagem e nas relações interpessoais ali vivenciadas. O tamanho da escola, a qualidade do edifício, o design dos interiores, entre outros 50 aspectos, influenciam diretamente a experiencia escolar do indivíduo em termo de, por exemplo, atenção, desempenho cognitivo, bem-estar individual e habilidades sociais (CARRUS et al, 2015). Em virtude dos constantes esforços para o enfrentamento de demandas cognitivas e relacionais próprias do contexto de instituições de ensino, Carrus et al (2015) defendem a oferta da restauração psicológica como uma necessidade fundamental, especialmente na educação infantil. Em síntese, os ambientes restauradores contribuem para a redução da fadiga mental por meio da renovação da atenção direcionada. De um modo geral, os ambientes naturais apresentam maior potencial de fornecer experiências de restauração do que os ambientes construídos. Nesse sentido, a contemplação de uma paisagem natural contribui para a recuperação de um evento estressante – como a exposição da mente a ruídos ou a muitas horas de concentração voluntária no trabalho ou no estudo –, permitindo que emoções negativas sejam substituídas por positivas (ALVES, 2011; CARRUS et al, 2015). Como exemplo, Carrus et al (2005), em seus estudos sobre os efeitos da natureza no bem-estar infantil em contextos educativos, chegaram à conclusão que o tempo em contato com o natural ao ar livre produz resultados positivos em crianças em termos de habilidades cognitivas (maior rendimento em atividades estruturadas), regulação de estados afetivos (comportamento individual positivo mais frequente, demonstrado por meio de, por exemplo, sorrisos; e comportamento individual negativo menos frequente, como choros e gritos) e comportamento social positivo (maior frequência de, por exemplo, beijos, abraços e apertos de mãos; e menor frequência de brigas ou atirar brinquedos ou comidas). Não é preciso dizer que o designer de interiores está longe de ser o único responsável pela promoção da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas. Isso porque a ideia de ambiente vai muito além de sua conformação física, sendo também constituído pelas relações interpessoais que nele se estabelecem e pelas condições pessoais prévias (saúde física e mental) de cada ator ali inserido, além do que cada pessoa deseja e consegue fazer. As atitudes e a condição pessoal dos indivíduos, definitiva e felizmente, não são responsabilidades do designer de interiores. É preciso ter clareza, então, que somente dentro de certos limites é que o designer de interiores pode e consegue influenciar. Os ambientes fazem parte da vida em sociedade, e não é possível controlar os efeitos dessa sociedade no uso dos espaços (em verdade, não é possível controlá-la), apesar de, repita-se, ser possível influenciá-la. 51 Além disso, o compromisso de contribuir para a promoção da saúde, da segurança e do bem- estar dos indivíduos é compartilhado com todas as profissões que têm o ambiente construído como objeto de trabalho. Todavia, observa-se que, como explicam Guerin e Martin (2010), os designers de interiores, em geral, não promovem conscientemente a saúde, a segurança e o bem-estar. E as razões para isso podem ser muitas: incompreensão dessa responsabilidade associada ao projeto; crença de que essa promoção é inerente à prática do Design de Interiores; carência de ferramentas e conteúdos que permitam projetar de tal forma; ignorância dessa premissa da prática; ou mero descaso com o tema. Ademais, e apesar do esforço de pesquisadores como os aqui apresentados, ainda é escasso o número de pesquisas e de publicações que conferem base teórica à práxis do designer de interiores de modo a orientá-lo na projetação de ambientes que efetivamente promovam a saúde, a segurança e o bem-estar dos seus ocupantes, demonstrando urgente necessidade de produção científica no campo do Design de Interiores (PLATT; BOSCH; KIM, 2017). Por outro lado, existem diversas pesquisas e teorias oriundas de outros campos do conhecimento – como a Medicina e a Psicologia – que podem fundamentar as escolhas projetuais e as ações do designer de interiores para contribuir para a melhoria da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas (ULRICH, 1991); mas isso demanda que os designers de interiores invistam grande esforço intelectual em suas ações e pesquisas. 2.2.3 Considerações sobre a ideia de sustentabilidade […] designers are now expected to conceive not only the style and appearance of an interior, but also its integration into the eco-system (MASSEY, 2008, p. 220). Com o passar do tempo, o Design de Interiores foi incorporando novas responsabilidades ao seu campo de atuação. Talvez a mais difícil e complexa delas seja a sustentabilidade (HAYLES, 2015; MCCOY, 2012; PILE; GURA, 2014; SORRENTO, 2012; STEGALL, 2006; STIEG, 2006). No entanto, apesar de Papaneck (1977) ter, nos anos 1970, lançado a semente da discussão em Design que considera a promoção do desenvolvimento sustentável por meio do design, há indícios de que a prática de um Design de Interiores sustentável ainda não seja uma realidade consolidada. Há, pelo contrário, uma disparidade entre o entendimento do que seja o Design de Interiores que 52 se responsabiliza pela sustentabilidade e a sua real prática (HAYLES, 2015; KANG; GUERIN, 2009b; STIEG, 2006; SZENASY, 2012). Uma constatação otimista é a de que esforços têm sido direcionados para o desenvolvimento de pesquisas que buscam compreender a relação entre o Design de Interiores e a sustentabilidade e a investigar caminhos para que a prática do Design de Interiores promova, de fato, a sustentabilidade (para citaralguns: AFACAN, 2014; BOEHM, 2015; HAYLES, 2015; KANG; GUERIN, 2009b; LEE, 2014; SORRENTO, 2012; STEGALL, 2006; STIEG, 2006). Por ora, nos é interessante compreender o que é o Design de Interiores sustentável. Como, neste ponto do texto, já está claro o conceito de Design de Interiores adotado, é relevante esclarecer como aqui se compreende o conceito de sustentabilidade, para que uma discussão que integre essas duas esferas possa ser estabelecida. Define-se sustentabilidade como o suprimento das necessidades atuais da humanidade sem comprometer o suprir das necessidades das futuras gerações (BRUNDTLAND et al., 1987). O conceito de desenvolvimento sustentável, então, pode ser compreendido como o meio de satisfazer as atuais necessidades humanas de desenvolvimento sem sacrificar a capacidade do planeta Terra de sustentar a vida (KANG; GUERIN, 2009b). Uma sociedade sustentável seria, nesses termos, “[...] uma sociedade que não consome mais do que a Terra pode reabastecer, não produz mais do que a Terra pode absorver e não impacta os sistemas vivos de maneira negativa” (STIEG, 2006, p. viii, tradução nossa31). Seja a sustentabilidade uma utopia ou uma realidade totalmente possível, é preciso entender que o seu conceito se aplica a qualquer atividade humana e a qualquer área do conhecimento, inclusive o Design de Interiores. É, pois, uma empreitada global, que articula política, economia e sociedade em todos os seus níveis e que exige uma drástica mudança de comportamento em relação ao que se tem valorizado, produzido e consumido. No que compete ao Design de Interiores – e a todas as profissões relacionadas ao ambiente construído –, há urgente necessidade de criar soluções para a problemática da sustentabilidade, já que qualquer projeto que se faça irá consumir recursos naturais e irá gerar poluição e resíduos durante as suas etapas de construção, uso e descarte. A ideia da sustentabilidade aplicada ao Design de Interiores associa-se, então, ao compromisso de minimizar os impactos negativos causados ao meio ambiente, reduzindo os níveis de problemas gerados pelo consumo de energia 31 Texto original: “[...] a society that consumes no more than the earth can replenish and produces no more than the earth can absorb, and has no negative impact on living systems” (STIEG, 2006, p. viii). 53 e água e pelo uso de materiais e métodos construtivos (BROOKER, STONE, 2014; MOXON, 2012; PILE; GURA, 2014). Assim sendo, a aplicação do conceito de sustentabilidade ambiental no campo do Design de Interiores se traduz na especificação de materiais e produtos pertencentes ao, assim denominado por Hayles (2015), “comércio verde, sustentável e justo32”. Isso porque a especificação de materiais e produtos pertencentes a esse comércio representa, dentre outras possibilidades, menos consumo de energia, menos consumo de água, menos esgotamento de recursos naturais, menos poluição, menos produção de lixo, menos toxidade para o ecossistema e menos desperdício nas etapas de extração, transporte, processamento, fabricação, instalação, uso, reutilização, reciclagem e/ou descarte desses materiais e produtos (HAYLES, 2015; MOXON, 2012; STIEG, 2006). Sabe-se, porém, que a ausência de engajamento do designer de interiores na busca pelo desenvolvimento sustentável, os seus tradicionais critérios de seleção de materiais e produtos (baseado nas preferencias do cliente, suas necessidades, beleza e custo), o grande valor dado à moda e às tendências, bem como a trabalhosa e morosa tarefa de buscar informações sobre os materiais e produtos que integram esse “comércio verde, sustentável e justo”, constituem-se em barreira para a prática do Design de Interiores sustentável (HAYLES, 2015; STIEG, 2006). Se o designer de interiores não compreende o seu papel para o exercício global da sustentabilidade, a ele parecerá pequena sua ação local em cada projeto que desenvolve, dando-lhe a impressão de ser inútil esforçar-se para contribuir para o desenvolvimento sustentável por meio do seu trabalho (MOXON, 2012). Não se pode negar, por outro lado, que ainda existe uma considerável distância entre o que muitos designers de interiores engajados desejam executar e o que lhes é possível executar; entre o que é necessário conhecer, e o que eles conseguem conhecer. É também relevante pontuar que o designer de interiores compartilha a responsabilidade por um projeto sustentável com o cliente que o contrata (quem pode oferecer resistência à especificação), com os fabricantes dessas tecnologias (que frequentemente não oferecem autenticidade do que produzem) e com os comerciantes (que muitas vezes não dispõe de informação crível e de qualidade sobre as características e os processos de produção do que comercializam) (HAYLES, 2015; STIEG, 2006). Indo-se mais além, Lee (2014) alerta sobre a necessidade de se substituir os convencionais modelos de projetação no campo do Design de Interiores – que não consideram a perspectiva 32 Expressão utilizada em inglês: green, sustainable and Fair Trade (GSFT). 54 sustentável e que estão atrelados a um processo “solitário” de projetação do designer – por abordagens que considerem um processo integrado e colaborativo para o desenvolvimento de projetos. É igualmente importante compreender que a sustentabilidade é um campo transversal que perpassa todas as disciplinas de Design de Interiores e todas as ações e decisões do designer de interiores; ou seja, ela deve ser parte essencial dos processos de projetação. Também por isso, é preciso reconsiderar a forma de projetar; é preciso que o designer de interiores incorpore o pensamento sustentável em sua prática projetual diária, entendendo-a como uma premissa aos pormenores dos processos e dos projetos de Design de Interiores (AFACAN, 2014; EL-ZENEY, 2012, 2017; MOXON, 2012; PILE; GURA, 2014). A sustentabilidade não pode, portanto, ser enxergada como um modismo pelo designer de interiores (ZUO; LEONARD; MALONEBEACH, 2010). Pelo contrário, ela deve ser vista por ele como um compromisso e um desafio; um exercício de sua responsabilidade social. 2.3 Corpo de conhecimento do Design de Interiores A profession is identified by society and the public as having expertise based on specialized knowledge (GUERIN; MARTIN, 2010, p. 16). O Design de Interiores, tão acostumado a ser visto como um apêndice da Arquitetura ou uma extensão da decoração de superfícies, está encontrando o seu caminho como campo do conhecimento independente (BROOKER; STONE, 2014). Isso se explica pelo fato de o olhar sobre a configuração plástica e funcional dos espaços ao longo do tempo ter exigido, gradualmente, uma lógica de funcionamento, uma metodologia projetual, um linguajar próprio e um corpo de conhecimento (CÉSPEDES; 2011). Afinal, é crucial para a evolução de qualquer profissão a identificação de fundamentos teóricos que subsidiem a sua prática e o desenvolvimento de sua área do conhecimento (CLEMONS; ECKMAN, 2011). No que se refere ao corpo de conhecimento (ou body of knowledge, como é denominado nos textos em inglês) do Design de Interiores, ele pode ser definido como a junção dos conhecimentos especializados necessários à sua prática profissional. O corpo de conhecimento do Design de Interiores define, portanto, a abrangência da atividade, ou seja, os limites em que o designer de interiores pode atuar (GUERIN; MARTIN, 2005; GUERIN; MARTIN, 2010). Ao 55 mesmo tempo, permite que “[...] aqueles que possuem esse conhecimento reivindiquem autoridade sobre sua aplicação” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1, tradução nossa33), delimitando, também, o profissional que pode exercer o Design de Interiores. Em resumo, o corpo de conhecimento fornece o conteúdo para o domínio do Design de Interiores, a educação proporciona a forma de adquirí-lo, o exame de qualificação avalia o grau em que ele foi adquiridoe as organizações profissionais fornecem as diretrizes para a sua prática (MENDOZA, 2009). Alguns autores (BROOKER; STONE, 2014; FRIEDRICHS, 2002) abordam a temática de maneira bem sintetizada e compartilham da ideia de que conhecimentos relativos à história, à psicologia, à fisiologia, à sociologia, à administração, às normatizações, a materiais e suas tecnologias, aos sistemas e às técnicas construtivas, à iluminação, à acústica, à ergonomia, à teoria das cores e ao ecodesign são inerentes ao campo do Design de Interiores. Pontuais são as iniciativas que buscam analisar crítica e sistematicamente o corpo de conhecimento do Design de Interiores. Pioneiras a tratar do assunto, Guerin e Martin vêm, desde 2001, estudando e documentando o corpo de conhecimento do Design de Interiores. As autoras já editaram três relatórios sobre a temática34: o primeiro, datado de 2001, é intitulado The Interior Design Profession’s Body of Knowledge: Its Definition and Documentation; o segundo, de 2005, revisa a primeira edição e recebe o título The Interior Design Profession’s Body of Knowledge; o terceiro, de 2010, revisa a segunda edição e é denominado The Interior Design Profession’s Body of Knowledge and its Relationship to Health, Safety, and Welfare. Guerin e Martin (2004) explicam que a definição do corpo de conhecimento do Design de Interiores configura-se, acima de tudo, uma estratégia para o futuro da profissão, na medida em que ajuda a identificar os limites de ação do designer de interiores, contribuindo para os processos de regulamentação da profissão. Segundo as autoras, o fator chave na obtenção da regulamentação da profissão está na evidência de que os designers de interiores afetam a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas. A definição sistematizada do corpo de conhecimento do Design de Interiores, então, auxilia a profissionais, legisladores e público geral na compreensão 33 Texto original: “[…] those who possess this knowledge to claim authority over its application” (GUERIN; THOMPSON, 2004, p. 1). 34 Esses três estudos foram financiados pela American Society of Interior Designers (ASID), pelo Council for Interior Design Accreditation (CIDA), pelo Interior Designers of Canada (IDC), pela International Interior Design Association (IIDA) e pelo National Council for Interior Design Qualification (NCIDQ). A última edição também recebeu apoio do Interior Design Educators Council (IDEC). 56 das influências e das contribuições dos designers de interiores para a qualidade de vida das pessoas por meio da projetação de ambientes construídos. A partir de análise sistematizada de documentos provenientes das esferas da educação, da experiência, do exame de qualificação e da regulamentação da profissão, bem como revisão de literatura e entrevistas a lideranças dos mencionados setores, Guerin e Martin (2010) agruparam os conhecimentos especializados do Design de Interiores em seis categorias: 1) comunicação; 2) teoria e processo do design; 3) necessidades ambientais humanas: pesquisa e aplicação; 4) construção, códigos e legislações; 5) produtos e materiais: avaliação, instalação, especificação e inspeção; e 6) prática profissional: princípios, métodos e ferramentas. Os quadros detalhados apresentados pelas autoras podem ser visualizados no anexo deste trabalho. De modo geral, a comunicação refere-se ao diálogo entre designer de interiores e demais pessoas envolvidas em sua atividade, como clientes, fornecedores, lojistas, parceiros de equipe e funcionários. Essa comunicação pode se estabelecer por meio das linguagens verbal, escrita e visual (croqui, desenho de apresentação, desenho técnico, dentre outros), exigindo do designer de interiores conhecimentos relacionados para empregá-las. Durante todo o processo projetual, eles devem saber fazer as perguntas certas aos clientes, ouvir suas respostas e criar imagens e documentos escritos que reflitam soluções de design que se aplicam às necessidades do cliente. Designers de interiores empregam toda a comunicação necessária à administração do negócio e à administração do projeto (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 17, tradução nossa35). Em teoria e processo do design são incluídos conhecimentos atinentes às manifestações físicas e psicológicas das pessoas em relação ao projeto. Princípios do projeto acústico; princípios e teorias sobre cor e luz; princípios, teorias e sistemas sobre a cor; pensamento criativo; conceituação em design; etapas do projeto de Design de Interiores; elementos, princípios e teoria do Design; análise da situação do espaço existente; desenvolvimento de projeto com base em dados de pesquisa; princípios para o projeto de iluminação natural e artificial; princípios para o projeto térmico; história das Artes, da Arquitetura e dos interiores; solução de problemas em contextos complexos; planejamento do espaço; conceitos, princípios e teorias sobre a sustentabilidade; e sinalização fazem parte dessa categoria. “O designer de interiores, conhecedor do comportamento humano e dos fatores humanos, possui o conhecimento 35 Texto original: “Throughout the project process, they must be able to ask clients the right questions, listen to their responses, and create visual images and written documents that reflect design solutions that apply to the client’s needs. Interior designers carry forward all communication required in the business of managing and administering the Project” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 17). 57 necessário para combinar as necessidades dos usuários com a teoria do design para criar espaços que atendam aos requisitos do projeto” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 18, tradução nossa36). No que se refere às necessidades ambientais humanas: pesquisa e aplicação, são contemplados conhecimentos relacionados à estrutura empresarial, institucional e familiar; contexto ecológico, socioeconômico e cultural de projeto; globalização; fatores humanos (antropometria, ergonomia, acuidade visual, proxêmica, territorialidade, etc.); princípios do conforto lumínico, acústico e térmico e da qualidade do ar; bem-estar e performance do ocupante (crianças, idosos, etc.; necessidades física, cognitiva e emocional); avaliação pós-ocupação; pesquisa (métodos e ferramentas para análise de satisfação de uso); teorias sobre a relação entre o comportamento humano e os ambientes projetados; e Design Universal. “Compreender o comportamento humano e como os seres humanos interagem com o ambiente construído e entre si é fundamental para projetar um espaço que suporte as necessidades dos usuários” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 18, tradução nossa37). Em construção, códigos e legislações agrupam-se conhecimentos relacionados à construção do edifício (tipos, métodos, padrões, etc.); aos sistemas construtivos; aos cálculos de escada, saídas, rampas, eficiência energética, etc.; aos requisitos de código, leis, normas e regulamentos para acessibilidade e sustentabilidade; aos interiores construídos (componentes, sistemas não estruturais, relação entre a solução de design e o interior construído, fluxo de construção, etc.); à segurança contra incêndio; e às regulamentações para projetos específicos (ambientes da saúde, industriais, etc.). A categoria produtos e materiais: avaliação, instalação, especificação e inspeção incorpora conhecimentos relacionados aos materiais e acabamentos de construção; projetos customizados; tratamento de piso, parede e teto; móveis, acessórios, equipamentos e materiais de acabamento; instalação (cronograma de obra, supervisão, etc.); integração dos móveis com os sistemas e a construção do edifício; critérios para performance (controle de qualidade de materiais e produtos); e produtos e sistemas que impactam a qualidade do ar, possibilitando ao 36 Texto original: “The interior designer, knowledge- able in human behavior and human factors, has the expertise to combine users’needs with design theory to create spaces that meet project requirements” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 18). 37 Texto original: “Understanding human behavior and how humans interact with the built environment and with one another is para- mount to designing a space that supports the needs of the users” (GUERIN; MARTIN, 2004, p. 18). 58 designer de interiores selecionar os itens de projeto a partir de seus aspectos estéticos e funcionais. Por fim, prática profissional: princípios, métodos e ferramenta refere-se a orçamento e estimativa de custo; desenvolvimento do negócio (captação de clientes, marketing, etc.); prática negocial; consulta a especialistas diversos; contribuições do Design de Interiores para a sociedade contemporânea; ética; gerenciamento financeiro; aspectos legais do contrato; reconhecimento legal da profissão; responsabilidades; colaboração multidisciplinar; gerenciamento do negócio; desenvolvimento profissional; e gerenciamento de projeto. É notável que muitos desses conteúdos estão diretamente relacionados ao cuidado com a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas. Como exemplo, Guerin e Martin (2010) explicam que os conhecimentos sobre ergonomia, acústica e iluminação fundamentam o desenvolvimento de projetos que impactam a saúde das pessoas, podendo solucionar e evitar problemas relacionados. Conteúdos sobre os sistemas dos edifícios, planejamento espacial e especificação de equipamentos, materiais e produtos fornecem subsídios para o projeto de ambientes que protejam a segurança dos seus ocupantes. A aplicação do conhecimento sobre o bem-estar e a performance das pessoas, sobre os fatores que influenciam o comportamento humano, sobre contextos culturais e sociais, sobre iluminação natural e sobre a teoria das cores afetam diretamente o bem-estar dos indivíduos. Guerin e Martin (2001; 2004; 2005 e 2010) explicam que o corpo de conhecimento do Design de Interiores é mutável; que ele pode desenvolver-se, pode transformar-se; que ele é dinâmico e está em constante fluxo, sincronizando-se com as variantes do conhecimento que mudam ou evoluem a partir de novos dados ou informações, sendo constantemente necessário revisitar e revisar a sistematização que apresentam. Também para Mendoza (2009), qualquer discussão que se estabeleça sobre o corpo de conhecimento do Design de Interiores deve reconhecer que o conhecimento é criado por múltiplas fontes e que não é algo que possa ser limitado. Justamente pelo fato de o conhecimento ser construído ao longo do tempo a partir da contribuição de inúmeros colaboradores e, por isso, ser global, fluido, dinâmico, evolutivo, emergente e contextual, Marshall-Baker (2005) defende a ideia de que seria contraditório à noção de conhecimento a tentativa de se delimitar o corpo de conhecimento do Design de Interiores, já que, na medida em que se propõe conter ou limitar o conhecimento, o que se resulta disso não é mais conhecimento. 59 Sob essa perspectiva, a autora sugere que, a partir da identificação do escopo dos serviços da profissão, reconheça-se quais áreas de conhecimento ou campos de estudo contribuem para a compreensão do Design de Interiores. Essa abordagem seria, para ela, a melhor forma de se estabelecer o corpo de conhecimento do Design de Interiores. Por seu caráter multidisciplinar, várias são as áreas do conhecimento que subsidiam a teoria e a prática do Design de Interiores, contribuindo para o estudo da relação entre o espaço e as pessoas e sua aplicação na projetação dos ambientes de vivência humana que melhorem a qualidade de vida dos seus ocupantes. Marshall-Baker (2005), então, exemplifica essa relação interdisciplinar a partir da análise da contribuição das Artes, da Arquitetura e das Ciências Sociais para o Design de Interiores. Se o Design de Interiores tem como propósito proporcionar bem-estar aos ocupantes dos ambientes projetados, o compartilhamento de conhecimentos com as artes aplicadas subsidia a projetação do designer de interiores à luz dessa perspectiva, contribuindo para a sua criatividade, o desenvolvimento de sua visão estética e a sua capacidade de comunicação (MARSHALL-BAKER, 2005). Nesse mesmo sentido, Edwards (2010) explica que conhecimentos relacionados às artes visuais, bem como à cultura material e visual, contribuem para que o designer de interiores desenvolva pensamento crítico e constitua repertório para a sua projetação. Ademais, além das artes visuais, o autor considera que outras importantes áreas de conhecimento pertencentes às humanidades alimentam a teoria e a prática do Design de Interiores. A Filosofia (com destaque para a estética), a História (em especial a do Design de Interiores e da Arquitetura) e a Geografia possibilitam ao designer de interiores contextualizar passado e presente, a partir da compreensão de origens que explicam o modo como hoje os espaços são construídos, mobiliados e decorados. Conhecimentos compartilhados entre a Arquitetura e o Design de Interiores, por sua vez, estariam, para Marshall-Barker (2005), relacionados ao desenvolvimento de uma estética funcional, instituída a partir do uso adequado de materiais, formas e estruturas – ou seja, o saber trabalhar com as qualidades integrais dos materiais para conformação e construção – e a partir da conformação desses elementos à circunstância de uma determinada pessoa situada em um determinado tempo e espaço. No que se refere às contribuições das ciências sociais, sobretudo a Psicologia e a Sociologia, o compartilhamento de conhecimentos com o Design de Interiores possibilita aos designers compreender a relação de troca que se estabelece entre indivíduos e ambientes (MARSHALL- BARKER, 2005), ou seja, “[...] fornece um contexto para a interpretação do significado dos espaços que se projeta e as interações do comportamento humano dentro desse espaço” 60 (CLEMONS; ECKMAN, 2011, p. 42, tradução nossa38). Essa compreensão sobre o comportamento humano é ponto crítico (vital) para que o designer de interiores alcance o seu objetivo de impactar a experiência humana e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Também para Edwards (2010), as ciências socais – e ele inclui a Antropologia – oferecem subsídio para que o designer de interiores compreenda o comportamento humano e as necessidades sociais e emocionais dos grupos de indivíduos. Somado a isso, o Design de Interiores e as ciências sociais valorizam a pesquisa. O método científico é usado em cada área para compreender as variáveis humanas e ambientais que afetam a saúde, o desenvolvimento e a qualidade de vida. Isso é essencial para os designers de interiores que dependem de pesquisas para projetação do espaço interior a partir de decisões baseadas em informação. Pesquisas dessa natureza não são inerentes à arte ou à arquitetura (MARSHALL-BARKER, 2005, p. xix, tradução nossa39). Além do que se apresenta sobre a importância das Artes, da Arquitetura e das ciências sociais para a teoria e a prática do Design de Interiores, há de se considerar que os conhecimentos individuais formam o conhecimento universal do Design de Interiores. Isso significa que, como exemplifica Marshall-Barker (2005), um designer de interiores que trabalha diretamente com ambientes da área da saúde pode também ser “alimentado” por conhecimentos da Medicina que ele mesmo venha explorar. Outro designer de interiores, dependendo do segmento de sua atuação, pode buscar conhecimentos na Engenharia ou no Design Gráfico para exercer a profissão. Essas múltiplas trocas contribuem para o conhecimento individual de cada profissional dentro de um mesmo campo particular – no caso, o Design de Interiores. A partir dessa noção – a de que os conhecimentos individuais foram o conhecimento universal do Design de Interiores –, Mendonza (2009) propõe que o corpo de conhecimento do Design de Interiores seja desenvolvido por meio de umsistema organizacional que permita uma resposta rápida à mudança do conhecimento, à sua evolução e à sua personalização. A partir da sistematização do corpo de conhecimento do Design de Interiores apresentada por Guerin e Martin, a autora propõe que essas informações fossem alocadas em uma estrutura que permitisse o acesso, a criação e o crescimento do conhecimento com a mesma velocidade experimentada pela continua evolução da prática do Design de Interiores. Para tanto, a autora 38 Texto original: “[…] provides a context for the interpretation of the meaning of spaces one designs and the human behavior interactions within the space” (CLEMONS; ECKMAN, 2011, p. 42). 39 Texto original: “Interior design and social science both value research. The scientific method is used in each field to understand the human and environmental variables that affect health, development, and quality of life. This is critical to interior designers who rely on research to make informed decisions concerning the design of interior space. Research of this nature is not inherent to either art or architecture” (MARSHALL-BARKER, 2005, p. xix). 61 sugere a platafoma da Wikipédia40, o que ela denomina WikiID. “Embora a Wikipedia não constitua uma referência citável, ela familiariza os usuários com os especialistas em conteúdo no campo e fornece informações para encontrar mais pesquisas” (MENDONZA, 2009, p. 2, tradução nossa41). Dando-se ampla visibilidade ao corpo de conhecimento do Design de Interiores, na medida em que se facilita o seu acesso a estudantes, leigos, clientes, clientes em potentical, profissionais e professores, amplia-se o capital social que os designers de interiores devem ter a responsabilidade de cuidar e cultivar. Sobre a temática, não foram encontrados mais textos que tratassem do corpo de conhecimento do Design de Interiores, demonstrando, mais uma vez, a urgente necessidade de expansão das discussões críticas e teóricas a respeito da questão. Para este trabalho, portanto, são considerados relevantes os pontos de vista de Guerin e Martin (2010), Marshall-Baker (2005) e Mendoza (2009) sobre o corpo de conhecimento do Design de Interiores. Ao mesmo tempo em que Marshall-Baker (2005) considera imprudente, ou até mesmo impossível, delimitar todos os conteúdos inerentes à teoria e à prática do Design de Interiores, cabe ao propósito do ensino definir os conteúdos indispensáveis de serem estudados no processo de formação dos designers de interiores, mostrando-se relevante e pertinente a sistematização do corpo de conhecimento do Design de Interiores elaborada por Guerin e Martin (2010). 40 A Wikipedia é uma enciclopédia gratuita compartilhada com suporte na Internet. Qualquer pessoa com acesso à Internet pode contribuir para alimentar a rede com conteúdo. 41 Texto original: “While Wikipedia does not itself constitute a citable reference, it familiarizes users with the content experts in the field and provides information way-finding for further research” (MENDONZA, 2009, p. 2). 62 CAPÍTULO 3 Competências profissionais mínimas do designer de interiores One criterion of competent interior design educators is that they assist students in developing knowledge, attitudes, and skills that will give them the competencies required for occupations related to interior design (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993, p. 69). Este capítulo é dedicado à delimitação e à compreensão das competências profissionais mínimas do designer de interiores, isto é, competências cuja a ausência inviabiliza a prática profissional do Design de Interiores. E isso é de relevo para esta investigação uma vez que o seu objetivo é avaliar em que medida as disciplinas de prática projetual contribuem para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas do designer de interiores. Não há como estabelecer uma crítica ao ensino da prática projetual em Design de Interiores sem antes conhecer quais competências devem ser desenvolvidas nesse processo. De início, identificou-se e examinou-se as típicas etapas de trabalho do designer de interiores. É que, como explica Le Boterf (2003), o reconhecimento e a análise das situações profissionais típicas – âmbito de materialização das competências – são procedimentos fundamentais para o processo de definição das competências essenciais à práxis de qualquer profissão. A partir dessa compreensão, desenvolveu-se um estudo sobre as orientações expressas nas peças normativas elaboradas pelo Ministério da Educação42 brasileiro para os cursos superiores de Design de Interiores, visando identificar as competências profissionais mínimas almejadas para os seus egressos. Quando necessário, essas próprias orientações governamentais foram aqui questionadas, abrindo espaço para uma discussão. Na sequência, buscou-se compreender como essas competências profissionais mínimas recomendadas pelo Ministério da Educação – capacidade criativa, domínio da linguagem do Design, trânsito interdisciplinar, visão sistêmica, domínio da metodologia projetual, visão setorial, capacidade crítica para gerenciar e visão histórica e prospectiva – são, em nível global, percebidas por estudiosos do Design de Interiores, confirmando a essencialidade de cada uma delas para a prática profissional do designer de interiores. Indo-se mais além, e considerando-se as atuais discussões sobre o necessário desenvolvimento de pesquisas aplicadas no processo de projetação em Design de Interiores – o que comumente 42 Desde os anos 2000, as orientações do Ministério da Educação para a concepção e a revisão dos currículos dos cursos de formação profissional voltam-se para uma organização por competências (CNE/CEB, 1999b; CNE/CES, 2003; CNE/CP, 2002). 63 é denominado design baseado em evidência (evidence-based design) –, argumenta-se a inclusão de mais uma competência profissional mínima nesse rol proposto pelo Ministério da Educação: a capacidade de pesquisa. Por fim, fez-se possível confrontar a discussão sobre as competências profissionais mínimas do designer de interiores com os resultados obtidos a partir da análise de suas situações profissionais típicas, justificando ainda mais a impreterível necessidade de os estudantes desenvolverem as nove competências profissionais elencadas. Antes de tudo isso, porém, fez-se necessário entender o conceito de competências, apresentado no tópico a seguir. 3.1 O significado de competência O conceito de competência que aqui se discute refere-se àquele que se origina no mundo do trabalho. As mudanças de paradigma de produção vivenciadas nos anos 1970 e 198043 incitaram discussões internacionais sobre o conceito de competência, destacando-se, nesse ínterim, duas abordagens principais: uma funcionalista, associada a objetivos instrumentais, e uma construtivista, associada a objetivos emancipatórios (MARKERT, 2002; MORAIS; MELO; BIANCO, 2015). Na abordagem funcionalista, o conceito de competência é compreendido como “o conjunto de qualificações que um indivíduo detém para executar um trabalho com um nível superior de performance” (PAIVA, 2012, p. 503). É, praticamente, sinônimo de qualificação – “conjunto de atributos que habilitam alguém ao exercício de uma função” (HOUAISS, 2018c, on line). Sob a premissa de que as competências podem ser previstas e estruturadas, os indivíduos são treinados para adquirirem a capacidade de executar um determinado ofício, tornando-se igualmente competentes a assumir um cargo em uma organização. Nesse sentido, o sistema de formação responsável por qualificar (treinar) esses trabalhadores estaria em conformidade com os objetivos organizacionais, possibilitando ao sujeito alcançar os índices de desempenho desejáveis para determinado posto de trabalho. Para tanto, as competências são classificadas e 43 Em comparação com as condições anteriores de produçãotaylorista, essas mudanças de paradigma se resumem à necessidade das organizações se reestruturarem a partir da demanda por flexibilização, consequente da competição entre mercados internacionais e da dificuldade dos acionistas em lucrar. Fez- se necessário, para sobreviver à concorrência, elevar a qualidade dos produtos (e também dos serviços), orientar-se pelo cliente (customização), investir em inovação de forma contínua e oferecer preços acessíveis (LE BOTERF, 2003; MARKERT, 2002). 64 atestadas por certificados de qualificação que, por sua vez, orientam a escolha do melhor trabalhador. A abordagem construtivista, ao contrário da funcionalista, possui foco no profissional (e não no cargo que ele poderá ocupar) e considera o que o indivíduo é capaz de prover com o que ele possui (MORAIS; MELO; BIANCO, 2015). Afinal, duas pessoas que receberam o mesmo treinamento podem obter índices de desempenho distintos ao executar uma mesma tarefa, e o fato de determinada pessoa possuir um conjunto de qualificações para realização de um trabalho não garante que ela irá utilizá-lo para a realização desse trabalho e nem garante que o trabalho será realizado (PAIVA, 2012). Em sentido mais amplo, compreende-se que o conceito de competência esteja ligado à pessoa, à mobilização de seus saberes para que ela possa realizar o que deseja, tanto na vida social quanto na laboral (MACHADO, 2002). Em outros termos, o conceito de competência relaciona- se à mobilização articulada e interdependente de recursos de ordem cognitiva, psicomotora, afetiva e social com vistas à resolução eficaz de um problema ou à reação a uma nova situação de trabalho. “A noção de competência é, assim, polissêmica, evocando uma multiplicidade de conhecimentos, saberes, habilidades e diversos outros recursos pessoais, quando colocados ou não em prática nas atividades, situações ou relações” (MARINHO-ARAUJO; ALMEIDA, 2017, p. 3). Remete, de modo geral, ao controle das situações de vida em que se faz necessário tomar uma decisão e/ou resolver um problema, demandando compreensão e avaliação da situação em curso, mobilização de recursos para enfrentá-la e ação eficaz para decidir e/ou resolver o que se deseja (DIAS, 2010). Em síntese, Zabala e Arnau (2010) definem competência como a capacidade ou a habilidade do indivíduo de mobilizar, de forma simultânea e inter-relacionada, componentes conceituais (saber), procedimentais (saber fazer) e atitudinais (saber ser) para que ele consiga responder com êxito às necessidades laborais e aos diversos problemas que a vida lhe apresentar. Também Le Boterf (2003) entende que é por meio da harmonização entre o seu “saber”, o seu “fazer” e o seu “ser” que o sujeito demonstra a sua competência, do que se infere que, para existir, a competência necessita da pessoa que a coloca em ação e, por isso, é intercambiável, subjetiva e impossível de ser programada. Em consequência, o processo de ensino e aprendizagem (e não de treinamento) é considerado mecanismo central para o desenvolvimento de competências, e carrega, em seu seio, a necessidade do sujeito desenvolver autonomia; autonomia para que ele possa se descobrir e se redescobrir no mundo do trabalho; autonomia para se adequar a novas demandas que surgirem; 65 autonomia para que esse indivíduo seja capaz de recorrer ao que ele sabe para realizar o que ele deseja (DIAS, 2010). A ideia, aqui, é de que as competências agreguem tanto valor econômico para a organização como valor social para o indivíduo (FLEURY; FLEURY, 2001). 3.2 Etapas típicas do trabalho de um designer de interiores As with just any project, establishing a process and understanding how one step connects to and builds on the next establishes credibility (GOCHENOUR, 2011, p. 23). O exercício da profissão44 de designer de interiores compreende a execução de etapas sistematizadas para o desenvolvimento de projetos (CIDQ, 2019). Sabe-se, evidentemente, que cada projeto de Design de Interiores é único e que cada contexto projetual possui as suas especificidades que devem ser analisadas em suas particularidades (IDC, 2018; LEHMAN-SMITH, 2002). O que aqui se generaliza são as típicas etapas de trabalho45 inerentes ao desenvolvimento de qualquer projeto na área, seja residencial, empresarial ou institucional, seja conduzido de forma autônoma ou em equipe, compreendendo-as em sua totalidade e sequencia ou não. Não é demais salientar que, entre a captação do projeto e o início do seu desenvolvimento, há o processo de negociação entre cliente (contratante) e designer de interiores (contratado), em que questões como o escopo do projeto (demanda projetual), a delineação dos serviços a serem prestados pelo designer, os seus honorários, a forma de pagamento, o plano de trabalho e os prazos são acordadas formalmente por meio de proposta (QUEBE, 2002). Ressalta-se, ademais, que, a depender das circunstâncias fáticas envolvidas (especialmente o vulto do empreendimento e as incertezas em relação à pessoa da outra parte), pode se afigurar de relevo 44 Um designer de interiores pode exercer atividades diferentes das tradicionalmente relacionas ao desenvolvimento de projetos. É o que garante, no Brasil, a Lei nº 13.369/2016 (BRASIL, 2016) ao estabelecer que cabe ao designer de interiores, claro que por meio de atividades desenvolvidas nessa área do conhecimento, “prestar consultoria técnica”, “desempenhar cargos e funções em entidades públicas e privadas” e “exercer o ensino e desenvolver pesquisas, experimentações e ensaios” (artigo 4º, incisos IX, X e XI). Para Knackstedt (2012), o designer de interiores pode, além de desenvolver projetos, seja de forma autônoma ou como funcionário de um escritório ou empresa, ser o representante comercial de determinado(s) produto(s) relacionado(s) à atividade, trabalhar em uma empresa que desenvolve e/ou produz itens para projetos de interiores ou ser funcionário de uma empresa que comercializa produtos para projetos de interiores. Ocorre que, nesta pesquisa, como se dá ênfase ao ensino da prática projetual, ou seja, do desenvolvimento de projetos, este tópico ater-se-á às etapas típicas de trabalho do designer de interiores que projeta. 45 Neste ponto, cabe explicar que não há consenso nas fontes consultadas sobre a quantidade e as nomenclaturas adotadas para designar as etapas de desenvolvimento de projetos de Design de Interiores. Assim, o que se apresenta neste tópico é uma possibilidade de sistematização de todo conteúdo estudado. 66 a formalização desse acordo por meio de um instrumento contratual, o que se aconselha seja feito com o auxílio de um advogado, de modo que esse documento escrito esteja em sintonia com a legislação vigente, notadamente para que uma das partes não prepondere indevidamente sobre a outra. Ainda nessa etapa preliminar, aconselha-se que o designer de interiores explique pormenorizadamente as etapas do seu trabalho ao cliente, até que não mais existam dúvidas a respeito (GIBBS, 2013). O cliente não habituado a trabalhar com um designer de interiores precisa ser instruído sobre os potenciais riscos associados ao processo de design, já que ele não é linear e nem totalmente previsível (QUEBE, 2002). Estando a etapa preliminar concluída, o fluxo de desenvolvimento do projeto de Design de Interiores permeia cinco etapas principais: a elaboração do programa de projeto, o desenvolvimento da solução projetual, a elaboração da documentação de construção, a gestão da implementação do projeto e a avaliação pós-ocupação. Edwards (2010) explica que essas etapas e os seus respectivos processos, apesar de serem apresentados de modo linear e cíclico, são, na prática, cambiantes conforme demanda apresentada em cada situação de projeto. Ao mesmo tempo em que é possível desenhar as etapas projetuais de maneira bem definida, com seus objetivos bem determinados, há ações que são demandadasdo designer de interiores durante todo o processo de desenvolvimento de projetos. Pesquisar, pensar criticamente, pensar criativamente e integrar conteúdo do corpo de conhecimento do Design de Interiores são ações essenciais a todas as etapas projetuais (CIDQ, 2019; STIEG, 2006), objetivando, sempre, solucionar os problemas estéticos e funcionais do espaço, contribuir para a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas e assegurar que a sustentabilidade ambiental seja tratada com seriedade. Somados a esses objetivos inerentes a qualquer projeto de Design de Interiores, há objetivos específicos de cada cenário projetual (LEHMAN-SMITH, 2002). Assim sendo, a primeira etapa de projeto destina-se à análise criteriosa do cenário projetual. De início, espera-se que o designer de interiores identifique objetivos e problemas que possam ser, respectivamente, alcançados e solucionados por meio do projeto de Design de Interiores, ou seja, objetivos e problemas atinentes à função e à qualidade dos ambientes (IFI, 2019a). Nesse ponto, faz-se relevante esclarecer a diferença entre demandas, objetivos e problemas projetuais. A demanda corresponderia ao serviço de Design de Interiores solicitado pelo cliente – escopo do projeto ou objeto de trabalho definido na etapa preliminar. Ela é externa, isto é, não é definida pelo designer de interiores – ex. projeto completo de Design de Interiores para a 67 sala de recursos da escola tal. Já o objetivo refere-se àquilo que se pretende alcançar com a realização do projeto de Design de Interiores, podendo tanto ser posto pelo cliente como identificado pelo designer de interiores – ex. contribuir, por meio do ambiente da sala de recursos, para as práticas pedagógicas. O problema, por sua vez, seria a dificuldade central que desafia a capacidade do designer de interiores de desenvolver (solucionar) o projeto de Design de Interiores – ex. como contribuir para as práticas pedagógicas por meio do ambiente cujo público apresenta vasto espectro de deficiências e demanda múltiplas atenções? Na sequência, é imprescindível que o designer de interiores compreenda as necessidades, os desejos, as expectativas e as preferências do cliente em relação ao espaço a ser projetado (EDWARDS, 2010). Segundo o Interior Design Educators Council (IDEC, 2018b), duas categorias de informações devem ser coletadas nesse processo: as quantitativas, como a informação sobre o número de trabalhadores de uma empresa que se traduz em número de estações de trabalho, e as qualitativas, tais como a experiência que se deseja proporcionar por meio do ambiente e como se espera que as pessoas se sintam no espaço. No campo dos projetos corporativos, Byun, Clifton e Grout (2002) as denominam, respectivamente, informações mensuráveis – atinentes à quantidade de pessoal, à expectativa de crescimento da empresa, às adjacências departamentais, às funções de suporte, aos requisitos de mobília, à necessidade de armazenamento, etc. – e questões intangíveis – referentes à identidade corporativa, à sua marca, à sua cultura, à percepção desejada pelo cliente para os seus pares e stakeholders, entre outros. Além disso, Turner (2002) acredita ser essencial obter informações atinentes ao cronograma para desenvolvimento e implementação do projeto e às possibilidades financeiras do cliente. Em relação aos prazos, Diaz-Azcuy (2002) orienta que, mesmo que diversos tramites relativos à implementação do projeto estejam fora do controle do designer de interiores, tais como imprevistos que possam surgir na fase de implementação, o designer tem a responsabilidade de criar soluções que possam ser realizadas no tempo disponibilizado pelo seu cliente. Sobre as possibilidades financeiras, Gibbs (2013) explica que, embora não seja um tema de fácil abordagem, o parâmetro orçamento influencia sobremaneira nas decisões de Design de Interiores, exigindo do designer criatividade para balancear custo e benefício. Afinal, é esperado que esse profissional apresente uma solução projetual realista e adequada ao montante que o cliente pode ou está disposto a pagar. Cabe enfatizar que o cliente, muitas vezes, não possui uma visão clara e organizada do que ele necessita, deseja, espera, prefere e dispõe em termos de prazo e recursos financeiros em 68 relação ao projeto de Design de Interiores, sendo imprescindível que o designer de interiores conduza, junto a ele, a elaboração do programa de projeto (GIBBS, 2013; TURNER, 2002). “O processo de desenvolvimento do programa solidifica a relação entre cliente e designer, garantindo que tenham uma visão compartilhada das metas e dos objetivos do projeto” (STAFFELBACH; HEINZ, 2002, p. 551, tradução nossa46). Para além da compreensão do ponto de vista do cliente sobre o projeto – ou seja, suas necessidades, seus desejos, suas expectativas, suas preferências, seus prazos e seu orçamento –, é também importante compreender as necessidades, os desejos, as expectativas e as preferências de cada um dos grupos de pessoas que irão usufruir do ambiente e que o enxergam e o vivenciam sob diferentes perspectivas (ANDERSON-BRULÉ, 2002). O designer de interiores que projeta uma loja de roupas feminina, por exemplo, ao compreender o que o público-alvo espera encontrar e vivenciar naquele espaço, tem maiores chances de agradar a esses indivíduos e proporcionar-lhes uma boa experiência de compra, promovendo a conexão emocional deles com a marca e aumentando a sua probabilidade de consumo. Afinal, é também para isso que varejistas contratam designers para desenvolver projetos para as suas lojas: para influenciar o comportamento de compra do consumidor (MOZOTA, 2011). Ao mesmo tempo, ao compreender as expectativas e as necessidades dos funcionários dessa loja, o designer projeta também para eles, planejando um espaço de trabalho em sintonia com as especificidades postas. Espera-se que, com infraestrutura adequada às atividades laborais, existam menos queixas e maiores estímulos positivos para os trabalhadores. Nesse sentido, torna-se relevante a compreensão da rotina e das principais atividades a serem executadas pelas pessoas em determinado ambiente. Ora, se um designer de interiores não compreende os pormenores dessas atividades, como ele irá pensar e propor soluções que atendam às necessidades dos indivíduos que as executam? Se o designer de interiores projeta pensando em detalhes, ele precisa levar em consideração, por exemplo, que muitas pessoas viajam sozinhas e que, quando utilizam o sanitário em um aeroporto, costumam levar consigo as suas malas para a cabine. Uma cabine de um sanitário em um aeroporto que não comporta esse volume de bagagem não atenderia com satisfação a uma atividade simples: o uso do banheiro. É com base no conhecimento de tais atividades que o designer de interiores pode desenhar a funcionalidade do espaço, ou seja, a distribuição na forma de layout dos elementos 46 Texto original: “The programming process solidifies the relationship between client and designer by ensuring that the participating parties have a shared vision of the project’s goals and objectives” (STAFFELBACH; HEINZ, 2002, p. 551). 69 que o constituem, organizados conforme setorização, circulação, acessos e requisitos de privacidade. Ainda na etapa de elaboração do programa de projeto, destaca-se a importância da análise do contexto sociocultural em que o ambiente está inserido. O designer de interiores precisa ter consciência das características e dos estímulos que influenciam a compreensão dos interiores por parte dos indivíduos. Não é difícil perceber que os bairros em uma mesma cidade, as cidades em um mesmo estado e os estados em um mesmo país possuem hábitos e costumes que lhes são peculiares; hábitos e costumes esses que transparecem nos ambientes que os seus habitantes frequentam. Portanto, cabe ao designer, em cada projeto, pesquisar“[…] qual é a simbologia cultural que incorpora valores comuns e sistemas simbólicos a ser utilizada?” (EDWARDS, 2010, p. 93, tradução nossa47). É também imprescindível ao designer de interiores, assim como o é aos diversos profissionais que possuem o ambiente construído como seu objeto de trabalho, analisar as condições atuais desse ambiente que influenciam o conforto ambiental, categorizado em conforto lumínico, acústico, olfativo, tátil e térmico. Essa análise permitirá ao designer de interiores pensar em estratégias que estejam ao seu alcance e que possam melhorar a percepção de conforto no ambiente em questão (BARBOSA; SALES, 2013; DArA, 2019). Igualmente importante é a responsabilidade do designer de interiores de se informar e orientar o seu cliente quanto aos documentos relacionados às exigências normativas, como códigos municipais e quaisquer outros estatutos, regulamentos, leis e normas técnicas aplicáveis ao espaço interior (CIDQ, 2019). É fundamental, também, que o designer de interiores os estude. Sem essa análise atenta e pormenorizada, o designer de interiores estará fadado a cometer erros; erros que podem significar prejuízo financeiro para os investidores; erros que podem colocar em risco a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas. Nesse sentido, Pizzetta (2002) sugere que, dependendo do projeto que se esteja desenvolvendo, é interessante contratar um especialista para revisar a documentação projetual atinente à aplicação das exigências normativas. Por fim, não há como o designer de interiores desenvolver uma solução projetual sem obter a planta baixa ou congênere do ambiente a ser projetado, seja por meio de um desenho já elaborado por outrem (e que, então, aconselha-se, dentro do possível, a conferência desse 47 Texto original: “[…] what is the cultural symbolization embodying common values and symbol systems to be used?” (EDWARDS, 2010, p. 93). 70 desenho em loco), seja pelo processo de levantamento métrico (medição de todos os elementos necessários à compreensão do espaço), sendo fortemente recomendável a obtenção de fotografias e/ou vídeos do local. Para Gibbs (2013), é primordial que uma análise rigorosa desse espaço seja realizada, constituída, especialmente, pelo levantamento dos móveis, equipamentos e acabamentos existentes, das instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias, do encanamento de gás, dos elementos construtivos (ex. rodapés, portas, esquadrias, escadas), da orientação solar (bem como qualidade e intensidade da iluminação natural) e de possíveis problemas relacionados. Como pode-se perceber, a elaboração do programa de projeto é um processo, antes de tudo, investigativo. Sugere-se, portanto, que as informações necessárias à sua elaboração sejam obtidas por meio de técnicas de pesquisa, tais como: 1) observações in loco, que possibilitam ao designer analisar o fluxo de trabalho que se estabelece nos ambientes, a cultura da organização, o tipo e o ritmo das atividades e o comportamento dos indivíduos que habitam os espaços; 2) entrevistas, sejam individuais ou em grupo, com maior espectro possível de participantes, escolhidos por terem representatividade no perfil a que pertencem; 3) grupos focais, compreendidos como discussões estruturadas para, por exemplo, analisar as reações das pessoas a possíveis propostas de projeto; 4) visitas guiadas em ambientes que tenham abordagem semelhante ao do projeto que se está desenvolvendo, para que designer, cliente e demais envolvidos possam estabelecer discussões focadas; 5) questionários e levantamentos estatísticos; e 6) workshops (ANDERSON-BRULÉ, 2002; STAFFELBACH; HEINZ, 2002). Ademais, é importante que o designer de interiores registre as suas percepções, as suas interpretações e as suas conclusões sobre as informações coletadas (CIDQ, 2019). Estando o programa de projeto elaborado e aprovado pelo cliente, espera-se que tal documento, comumente denominado briefing, seja utilizado como um elemento norteador para o desenvolvimento de soluções de Design de Interiores assertivas. Para Staffelbach e Heinz (2002, p. 551, tradução nossa48), “as soluções de design devem ser avaliadas pela sua capacidade de alcançar os requisitos do programa de projeto”. Assim, é fortemente recomendado que o designer invista tempo para elaborá-lo (LEHMAN-SMITH, 2002). Na segunda etapa projetual, esforços técnicos e criativos são direcionados para a ideação de soluções funcionais e estéticas para as necessidades requeridas, os objetivos apontados e os 48 Texto original: “Design solutions should be assessed by their ability to achieve the programmatic requirements” (STAFFELBACH; HEINZ, 2002, p. 551). 71 problemas identificados, com foco na promoção da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas e sob a premissa do desenvolvimento sustentável. Essa etapa, segundo o Council for Interior Design Qualification (CIDQ, 2019), consiste na geração de soluções de Design de Interiores que atendam ao programa de projeto e que sejam baseadas nos conhecimentos intrínsecos ao campo do Design de Interiores. Para a International Federation of Interior Architects/Designers (IFI, 2019a), o conhecimento especializado relativo à construção de interiores, aos sistemas e aos componentes construtivos, aos equipamentos, aos materiais e ao mobiliário constituem-se base essencial ao desenvolvimento de soluções em Design de Interiores. Além de se basear nos conteúdos do corpo de conhecimento do campo, o designer de interiores, nessa etapa que demanda inspiração e criatividade, deve também pautar-se por sua intuição e pelas informações do programa de projeto relacionadas à percepção sensorial, tais como o contexto sociocultural em questão e a imagem que se deseja transmitir por meio do ambiente, a fim de trabalhar a simbologia e os efeitos psicológicos (emoção) de projeto (DIAZ-AZCUY, 2002). Para tanto, é necessário que o designer trace diretrizes projetuais com base em uma estratégia sensorial de substância: um conceito de design. Gibbs (2013) explica que o conceito refere-se à essência do projeto e configura-se intensão da experiência sensorial (atmosfera) a ser vivenciada no espaço. Para Edwards (2010, p. 94, tradução nossa49), “conceitos são sugestões mentais abstratas ou pensamentos baseados em considerações sobre necessidades/desejos que definem o que se quer alcançar”. Em complemento, Nussbaumer (2019) entende que “[...] o conceito de design descreve ideias funcionais e estéticas que orientam os designers nas fases subsequentes e resultam em uma solução bem-sucedida” (NUSSBAUMER, 2019, p. 6, tradução nossa50). Byun, Clifton e Grout (2002) sugerem a elaboração de um conceito organizacional e um conceito visual na tentativa de traduzir em solução projetual as necessidades, os desejos, as expectativas e as preferências identificadas no programa de projeto. O conceito organizacional seria estruturado a partir das informações quantitativas (mensuráveis) do programa, de modo que as demandas organizacionais do cliente sejam confrontadas com as características arquitetônicas do espaço a partir da elaboração de diagramas, estabelecendo parâmetros dentro dos quais as 49 Texto original: “Concepts are abstract mental suggestions or thoughts based on inclusive considerations of needs/desires that define what we want to achieve” (EDWARDS, 2010, p. 94). 50 “[...] the design concept describes functional and aesthetic ideas that guide designers through subsequent phases and result in a successful solution” (NUSSBAUMER, 2019, p. 6). 72 possíveis soluções de projeto irão se desenvolver. Por outro lado, as informações qualitativas (intangíveis) do programa influenciam a elaboração do conceito visual, e são traduzidas em recursos visuais e cinestésicos de escala, proporção, cor, textura, movimento, luz, acabamentos e mobiliário. Nessa fase inicial do desenvolvimentodo projeto, sugere-se que o designer produza esquemas que ilustrem a sua proposta de conceito. Em outras palavras, esses esquemas de design têm a função de ilustrar a atmosfera pretendida para o ambiente, expressando a inspiração, a criatividade, os insights, o talento, a intuição, a interpretação e a experiência do designer na busca pela garantia de que as diretrizes estéticas e funcionais identificadas no programa sejam traduzidas no espaço final. Com efeito, “o aspecto mais importante e mais satisfatório do projeto para qualquer cliente é a criação de um edifício ou um espaço que realmente os represente” (DIAZ-AZCUY, 2002, p. 563, tradução nossa51). Para Byun, Clifton e Grout (2002), esses esquemas devem ser apresentados ao cliente na tentativa de evitar que a solução se desenvolva em uma direção equivocada. Afinal, “o melhor caminho para projetar o mais apropriado espaço para um cliente é engajá-lo na fase de desenvolvimento da solução” (WALZ, 2002, p. 627, tradução nossa52). Ao mesmo tempo, além de “trazer o cliente para o projeto”, esses esquemas contribuem para expandir os horizontes do designer e para lhe promover maior segurança, já que o ajuda a visualizar as suas ideias. Após aprovação do conceito e dos esquemas iniciais, segue-se para a fase de tradução desse conceito e desses esquemas em uma solução projetual definitiva (DINSMORE, 2002). Nesse contexto, é preciso entender que o Design de Interiores não é um campo rígido e exato. Várias são as formas de desenvolver um mesmo projeto de Design, de resolver um mesmo problema, de alcançar um mesmo objetivo (MUNARI, 2008). É preciso entender que esse espírito criativo de explorar possibilidades é o que move o projetar em Design de Interiores. Desse modo, é recomendado que, no estágio inicial do processo de criação, os designers produzam o maior número de ideias possível, longe de qualquer crítica. A intenção é divergir, é evitar o bloqueio criativo proporcionado pelas “regras”, é explorar com fluidez o conceito pretendido, é visualizar as diversas possibilidades de solução para, então, convergir; ou seja: definir qual solução melhor responde aos objetivos e problemas postos (EDWARDS, 2010; NUSSBAUMER, 2019). 51 Texto original: “The most important and eventually most satisfying aspect of the project for any client is creating a building or a space that truly represents them” (DIAZ-AZCUY, 2002, p. 563). 52 Texto original: “The best way to design the most appropriate space is to engage the clients throughout the design phase” (WALZ, 2002, p. 627). 73 O estudo das possibilidades de solução projetual – ou seja, o estudo das relações espaciais (ex. circulação, requerimentos funcionais, rotina de atividades) – é desenvolvido por meio de desenhos de duas ou três dimensões (plantas, cortes, elevações, detalhes, ampliações e perspectivas), feitos geralmente sob a forma de croquis (CIDQ, 2019; NUSSBAUMER, 2019). Para Gibbs (2013), os croquis são insubstituíveis e possibilitam ao designer visualizar se o conceito eleito está adequado ao contexto de projeto e se é interessante continuar a trabalhar nele. Entretanto, com a evolução e a popularização de softwares que possibilitam o desenho assistido por computador, muitos designers optam por utilizá-los para desenvolver as suas soluções projetuais. Cohen (2002) sugere que o ponto de partida para o desenvolvimento da solução seja a análise das características estruturais do espaço – ou seja, formato, localização e detalhes de teto, janelas, paredes, armários existentes, entre outros – por meio do desenho manual de perspectivas. Nesse processo, camadas de papel vegetal podem ser utilizadas para explorar e revisar ideias. Feito isso, o autor sugere a modelagem do ambiente por intermédio de um software que possibilite a visualização do espaço sob diferentes ângulos e em todos os níveis de detalhes. Essa cuidadosa atenção aos detalhes é uma estratégia projetual para minimização de erros estéticos e funcionais e pode também ser empregada no desenho, em escala, das elevações do ambiente, contendo todos os elementos que as constituem, como revestimentos, equipamentos, móveis e acessórios. Em geral, a solução de um projeto de Design de Interiores consiste, basicamente: 1) na elaboração do layout e da distribuição espacial (volumétrica) dos elementos que constituem o ambiente, sobretudo móveis, equipamentos, acessórios, ornamentação, objetos de arte e vegetação; 2) na definição da composição de cores, formas, linhas, texturas e materiais que integram o ambiente; 3) na especificação dos móveis, dos equipamentos, dos acessórios, dos ornamentos, das obras de arte e da vegetação que compõem o ambiente; 4) na determinação de materiais e acabamentos para as diversas superfícies, como paredes, pisos, divisórias, forros, entre outros; e 5) na elaboração de estratégicas de conforto ambiental, como a configuração da iluminação e dos sistemas de condicionamento de ar (DArA, 2019). Essa solução de Design de Interiores deve apresentar integração entre seus itens e dialogar com o conceito de design proposto, satisfazendo os requisitos estéticos e funcionais pretendidos, bem como os de saúde, os de segurança, os de bem-estar, os de sustentabilidade ambiental e os normativos. Para Dinsmore (2002), pesquisas e consultorias a profissionais especializados, tais como engenheiro eletricista e marceneiro, contribuem com informações relevantes para a 74 determinação da solução projetual. O Council for Interior Design Qualification (CIDQ, 2019) recomenda que a solução pretendida seja analisada pelo designer de interiores para confirmar se suas propostas são funcionais, esteticamente apropriadas e atendem às demandas de saúde, segurança e bem-estar dos indivíduos envolvidos, bem como as orientações de normatização, acessibilidade e sustentabilidade. Cohen (2002) sugere, também, que o designer verifique se o projeto desenvolvido contempla o orçamento do cliente e, em caso contrário, o designer deve revisar a sua proposta. Finalizada a solução, é essencial comunicá-la ao cliente (ou ao responsável pela aprovação do projeto) e obter a sua aprovação antes de prosseguir para a próxima etapa. A apresentação da solução projetual é geralmente realizada em reunião entre as partes envolvidas, utilizando-se de recursos de comunicação que contribuem para a sua visualização, tais como defesa oral, desenhos técnicos (ex. plantas, cortes e elevações), desenhos de apresentação (ex. perspectivas manuais, imagens foto realísticas, vídeos e croquis), esquemas auxiliares (ex. pranchas conceituais, painéis imagéticos e amostras físicas de materiais) e até mesmo maquetes ou mockups (DINSMORE, 2002). Na sequência, e constituindo a terceira etapa de desenvolvimento de projetos de Design de Interiores, o detalhamento da solução projetual permite que os itens de projeto sejam orçados e executados. A elaboração da documentação de construção é uma evolução do que foi produzido nos esquemas de design e no desenvolvimento da solução projetual, sendo formada por desenhos técnicos e por um caderno de especificações (ou manual do projeto) (PIZZETTA, 2002; SWITZER; SUTTER, 2002). Os desenhos técnicos, elaborados na forma de plantas, cortes, elevações, detalhes, ampliações e perspectivas, destinam-se a apresentar a configuração do(s) espaço(s), suas dimensões e especificações generalizadas, contendo detalhes e informações suficientes para possibilitar a execução do projeto (PIZZETTA, 2002; SWITZER; SUTTER, 2002). A planta de layout, por exemplo, é uma tipologia de desenho essencial à documentação de construção. Construída a partir da planta de edificação, apresenta o arranjo físico pensado para o(s) ambiente(s), as especificações gerais dos itens que o constituem (ex. tipo, dimensões, material, acabamento e cor) e as cotas que comunicam a localização e as dimensões desses itens.Somado a ela, há outros tantos desenhos que podem fazer parte da documentação de construção (ex. planta de piso, planta de forro, planta luminotécnica e detalhamento de marcenaria), e, para a elaboração de todos eles, no Brasil, utiliza-se, sobretudo, as diretrizes para representação em desenho técnico expressas 75 na NBR 10067 (ABNT, 1995) e as normas de representação de projetos de Arquitetura preconizadas na NBR 6492 (ABNT, 1994). Carter (2002) sugere que esses desenhos sejam elaborados seguindo quatro diretrizes básicas: 1) eles devem refletir projetos que estejam em conformidade com as exigências normativas aplicáveis à situação em questão, visando proteger a saúde, a segurança e o bem-estar dos usuários; 2) eles devem refletir o escopo dos serviços para os quais o designer de interiores foi contratado; 3) eles devem refletir o conceito de projeto pretendido; e 4) eles devem ser criados com o objetivo de transmitir informação de projeto de maneira eficiente. Neste ponto, cabe destacar que a grande maioria dos problemas atinentes à execução do projeto é consequência de desenhos mal elaborados, seja por ausência de detalhes, seja por excesso de detalhes ou seja porque simplesmente estão incorretos (CARTER, 2002). Para Switzer e Sutter (2009, p. 640, tradução nossa53), “[…] a questão-chave é reduzir ao máximo as possibilidades de interpretação”. Nesse sentido, é fundamental que o designer de interiores busque desenvolvê-los com esmero e precisão, já que erros ou omissões são de sua responsabilidade e podem se converter em grandes prejuízos financeiros (GIBBS, 2013). Os recursos computacionais desenvolvidos nos últimos anos, além de imprimirem maior velocidade ao processo de detalhamento de projetos de Design de Interiores, possibilitam que o designer o desenvolva com alto nível de precisão (PILE; GURA, 2014). Somado a isso, os softwares de desenho auxiliado por computador oferecem ferramentas que permitem ao designer desenvolver com facilidade tarefas que, quando manuais, eram tediosas e repetitivas, tais como a edição de desenhos (CARTER, 2002). No que se refere ao caderno ou manual, as especificações são apresentadas de maneira mais detalhada, indicando dimensões, materiais, acabamentos, cores, quantitativos, fabricante, código do modelo, ilustração, observações de instalação e manutenção e outros atributos que possam auxiliar na identificação e escolha de cada produto. Para um seguro e eficiente processo de especificação, é importante que o designer de interiores se mantenha atualizado sobre as informações técnicas dos materiais, especialmente os que são novidade no mercado. Além disso, é igualmente importante o esforço empregado para especificar produtos a partir de diretrizes sustentáveis, considerando, por exemplo, a influência do material na qualidade do ar 53 Texto original: “[…] the key is to leave as little as possible for interpretation” (SWITZER; SUTTER, 2009, p. 640). 76 dos interiores (relativo à emissão de gases) ou o uso de corantes artificiais em sua composição (PIZZETTA, 2002). Não é demais lembrar que, no Brasil, o designer de interiores não possui qualificação para assumir responsabilidade técnica sobre as modificações dos elementos estruturais do ambiente (BRASIL, 2016). Logo, a parte da construção relativa às questões estruturais – e às questões hidráulicas, sanitárias, de eletricidade e de segurança contra incêndio e pânico – não cabe ao designer de interiores (DArA, 2019). Cabe a esse profissional, no processo de elaboração da documentação de construção, verificar a compatibilização desses projetos com o projeto de Design de Interiores, quando for o caso. No entanto, o fato de não possuir competência sobre qualquer modificação estrutural do espaço – e aí podem-se incluir as modificações hidrossanitárias e elétricas – não significa que o designer de interiores não possa idear sobre ela (DArA, 2019). É o que, ao menos, garante a Lei 13.369/2016, em seu artigo 4º, inciso VIII: Compete ao designer de interiores e ambientes: [...] VIII - propor interferências em espaços existentes ou pré-configurados, internos e externos contíguos aos interiores, desde que na especificidade do projeto de interiores, mediante aprovação e execução por profissional habilitado na forma da lei. Isso porque, como explica o Design Institute of Australia (DIA, 2019), os designers de interiores são formados para considerar a modificação da estrutura interna do edifício, em vez de apenas projetar uma reorganização de um espaço já existente. O campo criativo do designer de interiores é sistêmico, ou seja, abrange o ambiente como um todo, em suas dimensões e em seus detalhes. A melhor solução visualizada para esse empasse está na cooperação entre profissões: entre aquela que cria a solução e aquela que a viabiliza. A parceria entre profissionais de diferentes áreas é estimulada no campo do Design de Interiores. Afinal, como defendido em diferentes fontes consultadas (para citar algumas: BIID, 2019; CIDQ, 2019; DArA, 2019; DIA, 2019; EDWARDS, 2010; GIBBS, 2013; IDC, 2018; IFI, 2019a), a coordenação e a colaboração com outros profissionais envolvidos com o projeto, tais como consultores, arquitetos e engenheiros, podem ser tarefas do designer de interiores. A gestão da implementação do projeto idealizado na segunda etapa e detalhado na terceira se dá na quarta etapa de desenvolvimento de projetos de Design de Interiores. Esse estágio do processo projetual contempla serviços tais como a elaboração de planilhas orçamentárias, a seleção e a contratação de fornecedores e prestadores de serviços, a elaboração de cronograma de obra e de plano de compras, a orientação aos profissionais envolvidos na construção e a 77 solução de problemas relacionados que possam surgir. Switzer e Sutter (2002) acreditam que essa é a etapa mais crítica do trabalho do designer de interiores e que dela depende o sucesso do projeto. Para os autores, se o cliente conceber essa etapa como falha, não importa o quanto as etapas anteriores tenham sido bem executadas: será dessa falha que o cliente sempre irá se lembrar. A razão disso está na alta possibilidade de imprevistos que podem ocorrer durante a execução do projeto. Ademais, o designer de interiores está comumente exposto a situações de atraso dos profissionais contratados, de baixa qualidade do trabalho da equipe de execução e de descontrole do orçamento. Assim, em respeito ao cliente, é aconselhável que o designer de interiores retrate a ele o real cenário do processo de implementação do projeto, que é, fatalmente, um processo com inúmeros procedimentos e elementos praticamente impossíveis de serem orquestrados (WALZ, 2002). Acredita-se que a alta probabilidade de imprevistos e conflitos possa ser minimizada com uma boa documentação de construção e com uma boa gestão da implementação do projeto. Edwards (2010) orienta que as partes envolvidas no processo de implementação do projeto – designer, cliente e prestadores de serviços – tenham informações alinhadas sobre o escopo do trabalho, os resultados esperados, o cronograma de execução e o orçamento em questão. Isso poderia ser viabilizado por meio de reuniões frequentes entre designer e os demais envolvidos. Nesse sentido, Gibbs (2013) sugere que visitas constantes à obra oportunizem ao designer e ao cliente verificar se o planejamento da execução está sendo seguido como o esperado e se a qualidade dos trabalhos está de acordo com o desejado. Ainda na tentativa de minimizar problemas de implementação do projeto, Walz (2002) chama a atenção para a necessidade de revisar o detalhamento elaborado pelos prestadores de serviço, visando ao esclarecimento de possíveis dúvidas sobre a compreensão da solução projetual, tanto dos seus aspectos técnicos quanto dos relacionados ao efeito visual pretendido. Além do mais, esse diálogo entredesigner e prestador de serviço possibilita que o conhecimento e a experiência desse último sejam incorporados ao processo de design, em busca do menor custo e do mais eficiente método de fabricação, instalação e/ou construção. A elaboração de material para orçamento, a contratação de pessoal e o nível de detalhes acordados entre contratante dos serviços e profissional contratado são pontos igualmente cruciais para a implementação do projeto. Para Switzer e Sutter (2002), o designer de interiores deveria articular com o seu cliente o estabelecimento de critérios para avaliar as qualificações dos profissionais contratados e os pormenores dos contratos de prestação de serviços. Por outro 78 lado, o Council for Interior Design Qualification (CIDQ, 2019) explica que o designer de interiores pode e deve assumir a administração de orçamentos, documentos contratuais e negociações do seu cliente. Tal postura é legalmente assegurada ao designer de interiores no Brasil, cabendo ao profissional [...] assessorar nas compras e na contratação de pessoal, podendo responsabilizar-se diretamente por tais funções, inclusive no gerenciamento das obras afetas ao projeto de interiores e na fiscalização de cronogramas e fluxos de caixa, mediante prévio ajuste com o usuário dos serviços, assegurado a este o pleno direito à prestação de contas e a intervir para garantir a sua vontade (BRASIL, 2016, artigo 4º, inciso VII). Entretanto, Pizzetta (2002) sugere que o designer de interiores não participe da relação de compra e venda entre cliente e prestador de serviços e/ou fornecedor, de modo que contratos e pagamentos sejam acordados entre essas duas partes. Para a autora, a relação do designer de interiores com esses profissionais deve ater-se à orientação para execução do projeto e ao fechamento do cronograma de obra. Finalizada a implementação do projeto, é desejável que o designer de interiores faça uma última visita para verificar se tudo está conforme o planejado, antes de entregar o produto – na forma de ambiente – ao cliente. Se for o caso, sugere-se que o designer de interiores elabore um relatório de deficiências para ser enviado aos responsáveis pela execução do trabalho, na tentativa de articular a solução para as questões pendentes. “A atenção cuidadosa aos detalhes sempre será o fator-chave na implementação e na conclusão bem-sucedida de qualquer projeto” (SWITZER; SUTTER, 2002, p. 667, tradução nossa54). Na quinta e última etapa do processo de desenvolvimento de projetos, cabe ao designer de interiores avaliar o ambiente projetado e executado após a sua ocupação. Edwards (2010) e Martin e Guerin (2006) esclarecem que o feedback obtido por meio da avaliação pós-ocupação (APO) contribui para que o designer possa validar o projeto em questão ou afiná-lo, diagnosticando possíveis problemas consequentes da sua implementação e analisando as alterações introduzidas no espaço pelo cliente e/ou demais usuários. Para Bastos (2020, online), além do propósito de subsidiar futuras intervenções no espaço avaliado, a APO, em um processo de recuperação consciente dos ambientes, tem o objetivo de “[...] alimentar as ações projetuais para ambientes e/ou edificações com tipologias semelhantes, 54 Texto original: “Careful attention to detail will always be the key factor in the implementation and the successful completion of any project” (SWITZER; SUTTER, 2002, p. 667). 79 a partir da compreensão de aspectos objetivos do ambiente construído e aspectos subjetivos relativos à percepção, satisfação e expectativas dos usuários”. Em outros termos, a APO, como metodologia de estudo das relações pessoa-ambiente, torna- se uma relevante estratégia projetual na medida em que possibilita ao designer de interiores investigar tanto os aspectos físicos e funcionais do espaço (ex. dimensionamento, circulações, layout, fluxos, acessibilidade, segurança) quanto os relacionados à percepção e ao comportamento dos usuários (ex. necessidades, anseios, nível de satisfação, adequação ao uso, privacidade, interação). A ideia é que as lições aprendidas com a APO sejam aplicadas em futuros projetos – mecanismo de realimentação do ciclo projetual –, a fim de aprimorá-los, evitando a repetição de erros e colaborando para resultados mais eficientes e adequados às solicitações humano-ambientais (BASTOS, 2020). Indo mais além, Gochenour (2011) explica que esse tipo de avaliação pode ser utilizado como meio de coleta de informações na etapa de elaboração do programa de projeto. Para tanto, a autora sugere que a avaliação pós-ocupação de um ambiente (ex. hospital, escola, hotel) de mesma tipologia que a do projeto em questão seja realizada por um pequeno grupo de colaboradores (pessoas que possuem diferentes relações com o espaço a ser projetado e interesse em contribuir com o projeto), a fim de gerar inputs para a solução pretendida. As reflexões sobre as interações entre pessoas e ambientes por intermédio da APO possibilitam ao designer de interiores compreender, com maior grau de profundidade, os usuários dos espaços a serem projetados – suas necessidades, seus desejos, suas expectativas e suas preferências –, especialmente no que se refere à identificação de comportamentos padrão e à captação de valores e significados socioculturais relevantes para o projeto (BASTOS, 2020). Em síntese, Nussbaumer (2019) explica que a APO pode ser compreendida como uma ferramenta de diagnóstico utilizada pelo designer de interiores para avaliar um projeto executado (aproximadamente 3 meses após a execução), identificar problemas, testar protótipos, desenvolver diretrizes para próximos projetos, analisar o uso dos espaços e revisar conceitos de design, melhorando projetos existentes e projetos futuros. --- No desenrolar das cinco etapas que constituem o trabalho do designer de interiores, Dinsmore (2002) enfatiza a importância de se ter, em diferentes fases do processo, a apreciação e a aprovação das soluções e documentações por todos os envolvidos no projeto. Segundo a autora, a mudança de rumo no projeto é prejudicial ao seu desenvolvimento. Nesse sentido, designers 80 deveriam evitar a postura de que “nunca é tarde para uma boa ideia”, e apenas considerá-la se o cronograma do projeto e os seus honorários forem renegociados. Por outro lado, Walz (2002) sugere que deixar algumas decisões em aberto entre a etapa de desenvolvimento da solução projetual e a de elaboração da documentação de construção e entre essa última e a de gestão da implementação do projeto pode potencializar o resultado final. A ideia é que as etapas de elaboração da documentação da construção e de sua gestão possam também ser fases de criação, já que as informações ali levantadas podem gerar novas ideias que contribuam para refinar soluções. Essa postura flexível não faz aumentar o custo do trabalho. Essa postura flexível não faz com que os prazos se expandam. Baseia-se na ideia de que talvez a melhor ideia ainda esteja por vir, com um “melhor” propósito: melhor custo-benefício; estruturalmente mais sólida; utilizando materiais que custarão menos e talvez estejam disponíveis antes dos que foram selecionados pela primeira vez; elementos montados da maneira que o fabricante selecionado faz melhor, e não da maneira especificada nos desenhos de projeto (WALZ, 2002, p. 626, tradução nossa55). Escolher entre uma postura e outra é uma das diversas decisões profissionais que cabe a cada designer de interiores no decorrer desse processo. A experiência adquirida com o desenvolvimento de projetos oportuniza ao designer conduzir, à sua maneira, as cinco etapas aqui sistematizadas. A seguir, o Quadro 3 apresenta, de forma esquemática, a síntese das etapas de trabalho do designer de interiores e as respectivas situações profissionais típicas identificadas. Quadro 3 – Etapas do projeto de Design de Interiores e suas situaçõesprofissionais típicas. Etapas do projeto de Design de Interiores Situações profissionais típicas identificadas ETAPA PRELIMINAR: negociação ▪ precificar o serviço de Design de Interiores; ▪ elaborar proposta e/ou contrato de prestação de serviço; ▪ explicar ao cliente o processo projetual; ▪ conhecer os demais profissionais envolvidos no projeto; ETAPA 1: elaboração do programa de projeto ▪ identificar os objetivos e os problemas projetuais; ▪ analisar as necessidades, os desejos, as expectativas, as preferências e as possibilidades financeira e de prazos do cliente; 55 Texto original: “This open-endedness does not cause jobs to escalate in cost. This open-endedness does not make schedules expand. It is based on the idea that maybe the best idea is yet to come, with “best” meaning: more cost-effectively detailed; more structurally sound; using material that are going to cost less and perhaps be available sooner than the ones first selected; elements assembled the way the selected fabricator does it best, not the way specified in the design drawings” (WALZ, 2002, p. 626). Continua... 81 ▪ analisar o perfil dos usuários do espaço; ▪ analisar as atividades que serão exercidas no espaço; ▪ analisar o contexto sociocultural do projeto; ▪ analisar as condições que influenciam o conforto ambiental; ▪ analisar as normatizações atinentes ao projeto; ▪ realizar levantamento métrico e fotográfico do espaço; ▪ alinhar com o cliente as informações do programa de projeto; ▪ buscar em informações provenientes de pesquisa suporte para soluções projetuais; ETAPA 2: desenvolvimento da solução projetual ▪ elaborar conceitos de design; ▪ desenvolver esquemas de design que ilustrem a proposta conceitual; ▪ apresentar ao cliente o conceito e os esquemas de design desenvolvidos; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual; ▪ articular funcionalidade e estética no desenvolvimento de soluções; ▪ articular estratégias de promoção da saúde, da segurança e do bem- estar dos usuários no desenvolvimento de soluções; ▪ articular os aspectos socioculturais do contexto de projeto no desenvolvimento de soluções; ▪ cumprir as exigências atinentes às normatizações no desenvolvimento de soluções; ▪ tratar a sustentabilidade ambiental como premissa para o desenvolvimento de soluções; ▪ definir solução projetual que equilibre prós e contras; ▪ certificar que a solução eleita está compatível com o orçamento; ▪ elaborar apresentação da solução projetual; ▪ apresentar a solução projetual ao cliente e demais envolvidos; ▪ atuar em equipe interdisciplinar para o desenvolvimento de projeto; ETAPA 3: elaboração da documentação de construção ▪ confeccionar os desenhos necessários à execução dos itens do projeto (ex. plantas, cortes, elevações, detalhes) seguindo os padrões de desenho técnico vigentes; ▪ elaborar o caderno de especificações (ou manual do projeto); ▪ compatibilizar projetos de diferentes naturezas com o projeto de Design de Interiores; ETAPA 4: gestão da implementação do projeto ▪ orçar itens do projeto e elaborar planilha orçamentária; ▪ constituir e administrar equipe de profissionais para implementação do projeto; ▪ elaborar e fiscalizar plano de execução do projeto (plano de obra), plano de compras, fluxo de caixas (se for o caso) e outros cronogramas; ▪ revisar detalhamento elaborado pelos prestadores de serviço; ▪ realizar visitas à obra e reuniões periódicas com o cliente; ▪ solucionar problemas de sua alçada que eventualmente possam surgir; ▪ fiscalizar a obra acabada antes de entregá-la ao cliente; ETAPA 5: avaliação pós-ocupação ▪ diagnosticar erros e acertos do projeto executado e testado pelo uso; ▪ realizar ajustes em projetos implementados; ▪ evitar que os erros identificados em análises de pós-ocupação se repitam em projetos futuros. Fonte: elaborado pela autora com base nas fontes consultadas para a produção do texto. 82 3.3 Competências profissionais mínimas necessárias à práxis do Design de Interiores Balancing the myriad needs and issues of the people using the space, cultural context, society, and sustainability is complicated; extensive qualifications are required to practice in the profession of interior design (GUERIN; MARTIN, 2010, p. 58). Com o objetivo de elencar e compreender as competências profissionais essenciais à prática profissional do designer de interiores, e considerando que o objetivo desta investigação é avaliar em que medida a disciplina de prática projetual contribui para o desenvolvimento dessas competências profissionais mínimas, buscou-se, em um primeiro momento, analisar as peças normativas do Ministério da Educação brasileiro que tratam da temática. O próximo tópico, então, é dedicado à identificação do conjunto de competências profissionais mínimas desejáveis para o egresso de um curso superior de Design de Interiores no Brasil. A partir desse estudo, e em um segundo momento, buscou-se apresentar uma discussão teórica sobre as competências profissionais mínimas arroladas, visando compreender o significado e a abrangência de cada uma delas. Por fim, estabeleceu-se um paralelo entre referidas competências e as situações profissionais típicas associadas ao desenvolvimento de projetos de Design de Interiores, evidenciando ainda mais a relevância dessas competências à prática profissional do designer de interiores. 3.3.1 As competências profissionais mínimas do designer de interiores segundo as normativas do Ministério da Educação O atual sistema educacional brasileiro é dividido em Educação Básica – formada pela educação infantil, pelo ensino fundamental e pelo ensino médio – e Educação Superior – constituída por cursos sequenciais, de graduação, de pós-graduação e de extensão. A Educação Profissional e Tecnológica (EPT), por sua vez, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia, abrangendo os cursos de formação inicial e continuada ou qualificação profissional (incluídos a capacitação, o aperfeiçoamento, a especialização e a atualização, em todos os níveis de escolaridade), de educação profissional técnica de nível médio e de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação (BRASIL, 1996; BRASIL, 2004a). Para orientar a criação e o desenvolvimento dos diversos cursos que constituem o sistema educacional brasileiro, compete à União legislar sobre as diretrizes e bases da educação nacional 83 (BRASIL, 1988). Neste trabalho, interessa-nos analisar a legislação vigente que trata dos cursos de ensino superior em Design de Interiores, mais especificamente a graduação tecnológica. Atinente ao estabelecimento de diretrizes para elaboração dos cursos e programas de Ensino Superior, a Lei nº 9.131, de 24 de novembro de 1995 (BRASIL, 1995), em seu artigo 9º, parágrafo 2º, alínea “c”, conferiu à Câmara de Educação Superior (CES) do Conselho Nacional de Educação (CNE) a competência para “deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação e do Desporto, para os cursos de graduação”. Com efeito, a CES aprovou, em 11 de março de 2003, seu Parecer de nº 67 (CNE/CES, 2003a), atual referencial para as diretrizes curriculares dos cursos de graduação no Brasil. Versando especificamente sobre o ensino do Design, a CNE/CES editou sua Resolução de nº 5, de 8 de março de 2004 (CNE/CES, 2004), estabelecendo as diretrizes curriculares dos cursos de graduação em Design no Brasil, com o propósito de definir o indispensável em relação à abrangência dos Projetos Pedagógicos, do perfil de egressos e dos eixos de formação e, ao mesmo tempo, com o propósito de permitir o atendimento, por parte das IES-X, das contínuas e emergentes mudanças do meio, da ciência e da tecnologia. Nesse sentido, a Resolução CNE/CES 5/2004 (CNE/CES,2004) define as competências profissionais mínimas esperadas dos egressos de cursos de graduação em Design no Brasil: a) a capacidade criativa, referente à proposição de soluções inventivas pertinentes ao contexto projetual a partir do domínio de técnicas de criação; b) o domínio da linguagem, ou seja, o saber articular os elementos e os princípios do design e o possuir habilidade instrumental, técnica e expressiva para a comunicação de soluções a partir do uso de diferentes mídias (escrita, oral e visual) e por meio de diversos recursos (manuais e computacionais); c) o trânsito interdisciplinar, relacionado à capacidade de dialogar com diferentes áreas do conhecimento e de atuar em equipes interdisciplinares para o desenvolvimento de pesquisas e de projetos; d) a visão sistêmica, atinente à capacidade de articular os diversos elementos materiais e imateriais do contexto projetual; e) o domínio da metodologia projetual, referente à capacidade de trabalhar com fluidez entre as etapas de desenvolvimento de projeto, compreendendo métodos e ferramentas projetuais pertinentes aos objetivos de cada uma; f) a visão setorial, relacionada ao conhecimento do setor produtivo de sua especialização – mercado, materiais, processos produtivos e tecnologias; g) a capacidade crítica para gerenciar projetos de Design, recursos humanos e processos produtivos; e h) a visão histórica e prospectiva, centrada nos aspectos socioeconômicos e culturais, revelando consciência das implicações econômicas, sociais, antropológicas, ambientais, estéticas e éticas de sua atividade. 84 Cabe destacar que os cursos de graduação em Design de Interiores no Brasil observam a Resolução CNE/CES 5/2004, já que não existe normativa específica para a graduação em Design de Interiores. Ademais, essa resolução trata da formação generalista em Design, ou seja, considera que a natureza do Design é única e que as competências profissionais mínimas, a base do processo de projetação e os conteúdos básicos necessários à prática profissional do designer são os mesmos, independentemente do objeto que se projeta, seja uma peça gráfica, um produto da indústria ou um ambiente, havendo variação apenas das especificidades intrínsecas aos diferentes objetos de trabalho. Desse modo, a formação generalista em Design abrange conteúdos que possibilitam ao seu egresso atuar em diferentes vertentes do Design, tais como “[...] produções artísticas, produção industrial, comunicação visual, interface, modas, vestuários, interiores, paisagismos, design e outras produções artísticas [...]” (CNE/CES, 2004, artigo 5º, inciso II), conforme perfil desejado do formando, possibilitando que o Projeto Pedagógico do curso admita modalidades e linhas de formação específicas. Tomando como referência o que o Câmara de Educação Superior orienta sobre as diretrizes curriculares dos cursos de graduação, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) elabora o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), cujo objetivo é aferir o rendimento dos concluintes dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, ao desenvolvimento de competências nos âmbitos geral e profissional da formação e ao nível de atualização dos estudantes sobre a realidade brasileira e mundial (BRASIL, 2004b; INEP, 2020). No que se refere à avaliação das competências dos estudantes de graduação em Design – bem como em Design de Interiores –, já foram realizadas cinco edições trienais do Enade, sendo a primeira em 2006. Em sua última avaliação, segundo artigo 6º da Portaria do INEP de nº 442, de 30 de maio de 2018 (INEP, 2018a), as competências profissionais aferidas foram: I. dialogar com diferentes áreas de conhecimento e atividades humanas em situações de projeto; II. sintetizar e configurar em projetos de design (produtos, sistemas e/ou serviços) as informações obtidas em análise sistêmica e na atuação multidisciplinar; III. diagnosticar, conceituar, desenvolver, implementar e avaliar projetos de design (produtos, sistemas e serviços); IV. identificar e selecionar, entre as diferentes metodologias projetuais, a mais adequada para distintas situações e contextos; V. promover conexões entre os conhecimentos históricos, estéticos e/ou culturais no percurso do projeto de design (produtos, sistemas e/ou serviços); 85 VI. representar e comunicar ideias, conceitos e soluções por meio de linguagens (digitais e/ou analógicas); VII. saber especificar e implementar processos de produção e seus distintos componentes; VIII. adequar as diversas tecnologias na produção de design respeitando as diferenças socioculturais e ambientais; IX. considerar na abordagem projetual de design (produtos, sistemas e/ou serviços) os aspectos físicos, cognitivos e emocionais; X. avaliar, em equipes multidisciplinares, a viabilidade técnica e funcional de produtos, sistemas e/ou serviços, considerando aspectos econômicos e mercadológicos; XI. integrar a dimensão simbólica ao projeto, considerando forma/função/significado; e XII. gerenciar o processo de design considerando visão estratégica, pessoas, etapas de projeto e seus aportes (INEP, 2018a, artigo 6º, incisos I a XII). Com relação às diretrizes curriculares dos cursos da EPT, os seus cursos de graduação devem igualmente se organizar, “[...] no que concerne a objetivos, características e duração, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação” (BRASIL, 1996, artigo 39, parágrafo 3º; BRASIL, 2004a). Ao editar a sua Resolução de nº 3, de 18 de dezembro de 2002 (CNE/CP, 2002), que institui as diretrizes curriculares nacionais gerais para a organização e o funcionamento dos cursos superiores de tecnologia, o Conselho Pleno (CP) do Conselho Nacional de Educação concedeu à instituição de ensino superior, pelo exposto no inciso III do artigo 8º, a prerrogativa de delimitar o perfil profissional e as competências profissionais a serem desenvolvidas por seus egressos. Visando auxiliar a empreitada de criação ou atualização do Projeto Pedagógico de um curso superior de tecnologia, o artigo 11 da Resolução CNE/CP 3/2002 afirma o compromisso do Ministério da Educação brasileiro de divulgar referenciais curriculares por área profissional (CNE/CP, 2002). Nesta pesquisa, porém, o único referencial da EPT encontrado e consultado foi o Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia elaborado pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec)56 do Ministério da Educação, que se encontra em sua terceira edição (SETEC/MEC, 2016). Esse Catálogo apresenta, para cada curso, informações sobre o perfil profissional de conclusão, infraestrutura mínima requerida para a oferta do curso, possíveis 56 A Setec é responsável por coordenar a política de EPT em âmbito nacional, formulando, implementando, monitorando, avaliando e induzindo suas políticas, seus programas e suas ações (SETEC/MEC, 2019a). Possui, entre outras, a competência de “formular e implementar políticas de avaliação da educação profissional e tecnológica, em articulação com o Conselho Nacional de Educação, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, os sistemas de ensino e os demais agentes da educação profissional e tecnológica” (BRASIL, 2019, artigo 17, inciso XV) e “propor ações de concepção e atualização dos referenciais e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional e Tecnológica” (BRASIL, 2019, artigo 17, inciso XV). 86 campos de atuação, ocupações associadas e possibilidades de prosseguimento de estudos na pós-graduação. Não há, nesse documento, referenciais quanto à delimitação das competências profissionais mínimas desejáveis para os egressos. No que diz respeito ao perfil profissional almejado para os egressos dos cursos superiores de tecnologia em Design de Interiores,espera-se que o tecnólogo em Design de Interiores seja capaz de criar e desenvolver projetos de espaços internos, articulando os aspectos estéticos, simbólicos, ergonômicos, socioculturais e produtivos do contexto projetual. Espera-se, também, que esse profissional seja capaz de planejar, desenvolver e gerenciar projetos considerando o uso de materiais e de recursos sustentáveis. Espera-se, ainda, que seja capaz de realizar pesquisas de tendência; desenhar, representar e expressar soluções projetuais graficamente em duas e três dimensões; elaborar maquetes e modelos volumétricos com uso de técnicas diferenciadas de expressão gráfica; e avaliar e emitir parecer técnico no âmbito do Design de Interiores (SETEC/MEC, 2016). Nota-se, todavia, que esse perfil profissional desconsidera uma importantíssima responsabilidade do designer de interiores: a de contribuir para a saúde, a segurança e o bem- estar das pessoas por meio da projetação de seus espaços de vivência. Além do mais, esse perfil profissional se mostra limitador ao considerar apenas os espaços internos como objeto de trabalho do designer de interiores, desconsiderando as inúmeras possibilidades oferecidas pela expansão da abrangência de atuação para os ambientes de vivência humana. Somado ao exposto, e em concordância com o complexo processo de desenvolvimento de projetos de Design de Interiores, espera-se que o designer de interiores seja capaz de utilizar e desenvolver pesquisas que subsidiem a sua atuação, e não apenas seja capaz de desenvolver pesquisas de tendências. Entende-se, assim, que o Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia subestima – ou ignora – a atividade de Design de Interiores e não está em conformidade com as perspectivas globais para o campo. Em virtude da já argumentada relevância do campo do Design de Interiores para a promoção da saúde, da segurança e do bem-estar das pessoas e da possibilidade de expansão do seu objeto de trabalho para ambientes construídos, indo-se além dos interiores arquitetônicos, considera-se como inerente ao perfil profissional do tecnólogo em Design de Interiores a capacidade de projetar técnica e criativamente os aspectos estéticos e funcionais dos ambientes em coerência com o contexto projetual, visando potencializar a saúde, a segurança e o bem-estar dos indivíduos e considerando, em suas tomadas de decisão, critérios de sustentabilidade. 87 Em se tratando da avaliação específica do Enade para os cursos superiores de tecnologia em Design de Interiores – já que as graduações do tipo bacharelado e as graduações tecnológicas são avaliadas separadamente pelo INEP (INEP, 2020) –, os estudantes foram avaliados pela segunda vez em 2018. Para tanto, foram tomados como referência o Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia, as normativas associadas ao Catálogo e a legislação profissional. Em 30 de maio de 2018, o INEP editou a sua Portaria de nº 452, dispondo sobre o componente específico da área e apresentou, em seu artigo 6º, incisos I a X, as competências profissionais do estudante de Design de Interiores aferidas pelo Enade: I. promover conexões entre os conhecimentos histórico artísticos, considerando os aspectos estéticos e culturais suscetíveis de influenciar a qualidade da concepção e da prática de design de interiores; II. expressar, interpretar e comunicar por meios de representação bi e tridimensional, tais como: desenhos ortogonais, perspectivas, maquetes, modelos e imagens virtuais; III. utilizar as ferramentas digitais para o tratamento de informações e representação aplicada ao design de interiores; IV. reconhecer elementos perceptivos teórico-práticos de interpretação da relação homem-ambiente construído; V. compreender as condições climáticas, acústicas, lumínicas e de eficiência energética, a partir do domínio das técnicas apropriadas a interiores; VI. conceber projetos de interiores a partir do conhecimento dos diversos sistemas estruturais e construtivos; VII. conceber projetos de interiores e mobiliário utilizando conceitos e princípios do desenho universal; VIII. especificar e empregar materiais de forma adequada, visando, além dos aspectos estético-funcionais, a segurança e a otimização da relação custo- benefício; IX. diagnosticar, conceituar, planejar e implementar os processos de intervenção na escala dos interiores; e X. gerir, fiscalizar e administrar obras de design de interiores que impliquem em transformação dos espaços, em escalas públicas e privadas, abrangendo todas as suas etapas (INEP, 2018b, artigo 6º, incisos I a X). Neste ponto, faz-se interessante estabelecer um paralelo – apresentado no Quadro 4 – entre o que tratam a Resolução CNE/CES 5/2004, a Portaria INEP 442/2018 e a Portaria INEP 452/2018 sobre as competências profissionais mínimas do designer de interiores. 88 Quadro 4 – Competências profissionais mínimas do designer de interiores. GRADUADO (CNE/CES 5/2004) BACHAREL (INEP, 2018a) TECNÓLOGO (INEP, 2018b) Capacidade criativa, referente à proposição de soluções inventivas pertinentes ao contexto projetual a partir do domínio de técnicas de criação. (não foi identificada associação direta) (não foi identificada associação direta) Domínio da linguagem própria do Design, ou seja, saber articular os elementos e os princípios do design e possuir habilidade instrumental, técnica e expressiva para a comunicação de soluções a partir do uso de diferentes mídias e por meio de diversos recursos. Representar e comunicar ideias, conceitos e soluções por meio de linguagens. Expressar, interpretar e comunicar por meios de representação bi e tridimensional; utilizar as ferramentas digitais para o tratamento de informações e representação aplicada ao Design de Interiores. Trânsito interdisciplinar, relacionado à capacidade de dialogar com diferentes áreas do conhecimento e de atuar em equipes interdisciplinares de desenvolvimento de pesquisas e de projetos. Dialogar com diferentes áreas do conhecimento e atividades humanas em situações de projeto; sintetizar e configurar em projetos de Design as informações obtidas na atuação multidisciplinar; trabalhar em equipe multidisciplinar. (não foi identificada associação direta) Visão sistêmica de projeto, atinente à capacidade de articular os diversos elementos materiais e imateriais do contexto projetual. Sintetizar e configurar em projetos de Design (produtos, sistemas e/ou serviços) as informações obtidas em análise sistêmica; considerar os aspectos físicos, cognitivos e emocionais na abordagem projetual de Design (produtos, sistemas e/ou serviços); integrar a dimensão simbólica ao projeto, considerando forma/função/significado. Reconhecer elementos perceptivos teórico-práticos de interpretação da relação homem-ambiente construído. Domínio da metodologia projetual, referente à capacidade de trabalhar com fluidez entre as etapas de desenvolvimento de projeto, compreendendo métodos e ferramentas projetuais pertinentes aos objetivos de cada uma. Diagnosticar, conceituar, desenvolver, implementar e avaliar projetos de Design (produtos, sistemas e serviços); identificar e selecionar, entre as diferentes metodologias projetuais, a mais adequada para distintas situações e contextos. Diagnosticar, conceituar, planejar e implementar os processos de intervenção na escala dos interiores. Visão setorial, relacionada ao conhecimento do setor produtivo de sua especialização – mercado, materiais, processos produtivos e tecnologias. Saber especificar e implementar processos de produção e seus distintos componentes; adequar as diversas tecnologias na produção de Design respeitando as diferenças socioculturais e ambientais. Conceber projetos de interiores a partir do conhecimento dos diversos sistemas estruturais e construtivos; especificar e empregarmateriais de forma adequada, visando, além dos aspectos estético-funcionais, a segurança e a otimização da relação custo-benefício; compreender as condições climáticas, acústicas, lumínicas Continua... 89 e de eficiência energética, a partir do domínio das técnicas apropriadas a interiores; conceber projetos de interiores e mobiliário utilizando conceitos e princípios do desenho universal. Capacidade crítica para gerenciar projetos de Design, recursos humanos e processos produtivos. Avaliar, em equipes multidisciplinares, a viabilidade técnica e funcional de produtos, sistemas e/ou serviços, considerando aspectos econômicos e mercadológicos; gerenciar o processo de design considerando visão estratégica, pessoas, etapas de projeto e seus aportes. Gerir, fiscalizar e administrar obras de Design de Interiores que impliquem em transformação dos espaços, em escalas públicas e privadas, abrangendo todas as suas etapas. Visão histórica e prospectiva, centrada nos aspectos socioeconômicos e culturais, revelando consciência das implicações econômicas, sociais, antropológicas, ambientais, estéticas e éticas de sua atividade. Promover conexões entre os conhecimentos históricos, estéticos e/ou culturais no percurso do projeto de Design (produtos, sistemas e/ou serviços). Promover conexões entre os conhecimentos histórico artísticos, considerando os aspectos estéticos e culturais suscetíveis de influenciar a qualidade da concepção e da prática de Design de Interiores. Fonte: elaborado pela autora com base em CNE/CES (2004) e INEP (2018a; 2018b). Como se pode observar, há total correspondência entre o que tratam a Resolução CNE/CES 5/2004, a Portaria INEP 442/2018 e a Portaria INEP 452/2018 sobre as competências profissionais mínimas do designer de interiores. Destaca-se, aqui, o modo generalista como as competências são definidas na Resolução CNE/CES 5/2004 e na Portaria INEP 442/2018, evidenciado, nesta, com o frequente uso da expressão “produtos, sistemas e/ou serviços”. Isso, evidentemente, era de se esperar, já que o enfoque de ambas as normativas está na formação generalista do designer, o que compreende a possibilidade de formação em Design de Interiores. Ao mesmo tempo, observa-se o modo específico com que as competências são descritas na Portaria INEP 452/2018, vez que a normativa trata da formação especialista no campo do Design, e não generalista. Por outro lado, a forma sucinta e abstrata com que as competências são descritas na Resolução CNE/CES 5/2004 mostra-se mais adequada à proposta desta investigação, contemplando uma visão mais abrangente do campo do Design de Interiores, sem limitar a ação do designer de interiores a condições específicas. Assim, considerando que a graduação em Design de Interiores do tipo bacharelado se orienta pela Resolução CNE/CES 5/2004 e seus discentes foram avaliados no último Enade com base na Portaria INEP 442/2018; considerando que há correspondência entre o que define a Portaria 90 INEP 452/2018 sobre as competências profissionais mínimas do tecnólogo em Design de Interiores e o que definem a Resolução CNE/CES 5/2004 e a Portaria INEP 442/2018 sobre o assunto; e considerando que as etapas de desenvolvimento de projetos de Design de Interiores e suas situações profissionais típicas não variam entre o projetar do tecnólogo e o projetar do bacharel – vez que as duas formações são de nível superior (graduação) e não há duas modalidades de projetos de Design de Interiores –, acredita-se não haver equívocos em considerar o conjunto das oito competências profissionais mínimas de que trata a Resolução CNE/CES 5/2004 para o desenvolvimento desta pesquisa. Não à toa, os responsáveis pelos cursos de graduação tecnológica em Design de Interiores comumente se orientam pelas diretrizes da Resolução CNE/CES 5/2004 para, no processo de elaboração ou revisão do Projeto Pedagógico de Curso, delimitar as competências profissionais mínimas almejadas para os seus egressos. Afinal, reiteramos, é prerrogativa da instituição de ensino superior delimitar as competências profissionais a serem desenvolvidas por seus egressos. Esse é o caso, por exemplo, do curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X, objeto de estudo desta investigação. Isso porque a diferença existente entre um bacharelado e um curso superior de tecnologia em Design de Interiores não está no modo como a prática projetual é ensinada e, consequentemente, não está no rol de competências mínimas necessárias à prática profissional do designer de interiores; a diferença está na carga horária mínima do curso e no enfoque de sua matriz curricular. Os cursos tecnológicos possuem carga horária mínima de 1600 horas, o que corresponde a aproximadamente 3 anos de curso, e possuem uma estrutura curricular que prioriza a prática, sugerindo formação continuada57. Os bacharelados, por sua vez, possuem carga horária mínima de 2400 horas, correspondendo a aproximadamente 4 anos de curso, oferecendo uma estrutura curricular voltada para o aprofundamento da teoria e da prática de projeto (ABD, 2019a). Ainda com o intuito de justificar a pertinência em se considerarem as oito competências profissionais mínimas definidas na Resolução CNE/CES 5/2004 como as competências almejadas para o profissional do Design de Interiores, o tópico a seguir apresenta discussão teórica sobre 57 Consideram-se itinerários formativos ou trajetórias de formação continuadas as unidades curriculares de cursos e programas da EPT, em uma determinada área, que possibilitem o aproveitamento contínuo e articulado dos estudos (BRASIL, 2004a). 91 cada uma dessas competências, evidenciando a sua relevância para a atuação profissional do designer de interiores, seja ele um bacharel ou um tecnólogo. 3.3.2 As competências profissionais mínimas do designer de interiores segundo estudiosos do campo Em primeiro lugar, trataremos da capacidade criativa, competência altamente valorizada em contextos de trabalho em que há busca por soluções inventivas e pertinentes aos problemas do mundo real (PORTILLO, 2002). Conforme é possível observar na descrição das etapas de trabalho do designer de interiores, espera-se que o seu processo de desenvolvimento de projeto seja, como um todo, um processo criativo. E isso para, dentre outras aplicações, gerar conceitos de design, desenvolver pesquisas, solucionar problemas de projeto, balancear custo e benefício, administrar pessoas, elaborar apresentações impactantes, lidar com imprevistos e realizar ajustes em projetos já implementados. Com efeito, a singularidade é uma responsabilidade do designer, que faz um voto de criatividade ao escolher essa profissão. O designer não apenas emite soluções estereotipadas; ele investe sua imaginação e sua experiência para atender às particularidades de cada cliente e de cada problema. Não há duas pessoas, nem duas empresas, nem duas famílias que sejam iguais. Portanto, duas soluções não deveriam ser iguais. Exclusividade não implica necessariamente em reinventar a roda em cada projeto. A mente humana é o melhor computador do universo, com a capacidade de criar combinações infinitas a partir dos recursos disponíveis. O designer deve usar a sua imaginação ao máximo para alcançar a melhor solução. [...] As pessoas têm uma imagem em suas mentes do que elas querem e, intrinsecamente, é o que elas já viram em algum lugar. Em contraste, a capacidade do designer é ver o que ainda não foi visto (DIAZ-AZCUY, 2002, p. 566, tradução nossa58). De um modo geral, é amplamente aceita a ideia de que o Design seja uma área criativa e de que bons designers sejam pessoas criativas (BRIDGSTOCK, 2013). Na percepção dos designers de interiores, em especial, a criatividade está associada aos termos inventividade, imaginação e espírito aventureiro, bem como à predisposição para desafiarnormas e convenções, requerendo espirito entusiasta e inteligência do profissional (PORTILLO, 2002). 58 Texto original: “Uniqueness is a responsibility of the designer, who takes a vow of creativity just by choosing this profession. The designer does not just issue formulaic solutions; he or she applies his or her mind and experience to the particulars of each specific client and problem. No two people, no two businesses, no two families are alike. Therefore, no two solutions should be alike. Uniqueness does not necessarily entail reinventing the wheel with each and every project. The human mind is the greatest known computer in the universe, with the ability to create infinite combinations of all the available resources. The designer must use his or her mind to the fullest to strive for the best answer. […] People have a picture in their minds of what they want, and intrinsically it is what they have already seen. In contrast, the designer’s ability is to see what has not been seen before” (DIAZ-AZCUY, 2002, p. 566). 92 Nesse sentido, Budd (2011) sugere que o recurso da pesquisa seja uma dentre várias possibilidades para o designer se informar e se inspirar, já que o seu repertório é insumo para a sua criatividade. “O aprofundamento e o estudo atribuem ao trabalho uma densidade que o diferencia do comum. São os designers mais cultos que se destacam em suas atividades” (CARDOSO, 2012, p. 252). Além disso, o designer que é curioso, que se interessa por cultura, por história ou por assuntos aparentemente desconexos de sua área tem maiores chances de conseguir conectar informações para gerar novas ideias num processo de criação59. Pode-se dizer, então, que o insight em design é favorecido pela mente preparada. Em relação ao domínio da linguagem própria do Design, designers de interiores devem possuir a capacidade de aplicar os elementos e os princípios do design no planejamento dos espaços para consolidar conceitos e soluções projetuais (CIDA, 2018). Os elementos do design – linha, forma, volume, cor e textura –, governados pelos princípios do design – proporção, escala, equilíbrio, simetria, alinhamento, ritmo, contraste, unidade e harmonia – constituem a linguagem do Design. O manejo dessa linguagem é o que possibilita o designer de interiores projetar determinada solução estética a fim de alcançar o conceito de design pretendido, possibilitando a tradução do contexto sociocultural do público de interesse em atributos físicos, impregnando o ambiente de símbolos/signos/significado (EDWARDS, 2010; GIBBS, 2013). Os elementos e os princípios do design constituem-se estruturas base sobre as quais um projeto de Design de Interiores é criado, avaliado e comunicado. Em outros termos, os elementos e os princípios do design são, ao mesmo tempo, ferramenta para a projetação e vocabulário para explicação de soluções de Design de Interiores (ADAMS, 2013). Os designers de interiores, então, precisam ser comunicadores eficazes da linguagem própria do Design, estando aptos a elaborar apresentações visuais, verbais e escritas (CIDA, 2018). Os recursos visuais empregados na comunicação de soluções de Design de Interiores – tais como pranchas conceituais, estudos de amostras e desenhos de perspectivas – são o principal meio pelo qual uma ideia é comunicada e, por isso, devem ser criteriosamente bem feitos, devem ser impactantes e devem inspirar, independentemente da tecnologia que se empregue (manual ou digital) (BUDD, 2001). No entanto, apesar de ser relevante ao designer de interiores saber se comunicar por meio de desenhos e imagens, Hynes e Kwon (2017) alertam sobre a tendência de, na formação em Design de Interiores, privilegiar-se o desenvolvimento da habilidade de criar apresentações visuais impactantes, especialmente utilizando-se programas de modelagem 59 HEES, Federico. Notas de aula. Oficina Criativa. 01 dez. 2010. 2º Ciclo de Capacitação para Designers. Centro Minas Design. 2010. 93 digital, em detrimento da habilidade de falar sobre Design. Exatamente por isso, Budd (2011) sugere que os estudantes de Design de Interiores sejam estimulados a falar sobre Design, a serem curiosos em relação ao design de qualidade, a viverem o Design e a examinarem tudo o que experienciam sob a ótica do Design. Isso porque saber articular os elementos e os princípios do design em sua fala é indispensável ao designer de interiores que, continuamente, precisa explicar e defender as suas ideias, as suas escolhas, as suas soluções, seja para um professor, seja para um cliente, seja para uma equipe de projeto. De modo geral, uma clara e coesiva linguagem verbal é necessária para se comunicar de maneira eficaz com as pessoas. No campo do Design de Interiores, assim como em outras áreas do conhecimento, os profissionais precisam dominar a linguagem própria de sua disciplina (ADAMS, 2013). O não se fazer compreender por meio da fala pode significar o fracasso de boas ideias. Além do mais, o domínio da linguagem própria do Design de Interiores contribui para que o designer de interiores seja percebido com respeito e com seriedade pelos seus parceiros profissionais e/ou por uma equipe multidisciplinar de projeto da qual faça parte (BUDD, 2011). A comunicação é um aspecto crítico de todo o processo projetual em Design de Interiores e, para além do domínio da linguagem do Design, essa comunicação envolve a habilidade de ouvir, de interpretar o que se ouve e de ponderar o que se fala (BYUN; CLIFTON; GROUT, 2002). Os designers de interiores, então, precisam ter a consciência de que saber lidar com outras pessoas – clientes, equipe de projeto, fornecedores e prestadores de serviços – é tão importante quanto saber desenvolver uma boa solução projetual (WALZ, 2002). Precisam saber observar e ouvir os indivíduos envolvidos em sua prática profissional, com eles dialogar e responder com agilidade os seus questionamentos (GIBBS, 2013). A comunicação é peça-chave na projetação em Design de Interiores. Sobre o trânsito interdisciplinar, o Council for Interior Design Qualification (CIDA, 2018) reconhece que a capacidade de trabalhar em equipes interdisciplinares deve ser observada em qualquer designer de interiores. Ao analisar as etapas de desenvolvimento de projetos tratadas no item 3.2, percebe-se como o trânsito interdisciplinar é uma importante competência para o designer de interiores, seja na interação com profissionais de outra área, seja na análise de e na discussão para compatibilização de projetos, seja na consulta a profissionais especializados em áreas afins ou na busca por informações em outros campos do saber que ofereçam suporte às soluções em Design de Interiores. É justamente esse arranjo interdisciplinar posto ao processo de projetação em Design de Interiores que possibilita o desenvolvimento de soluções holísticas, capazes de contribuir para 94 melhorar a qualidade da vida das pessoas. Isso porque a abertura ao diálogo entre diversas disciplinas relacionadas ao ambiente construído e ao entendimento do comportamento humano possibilita a criação de soluções que sejam analisadas sob diferentes perspectivas, a partir da harmoniosa articulação entre teorias e práticas de áreas do saber que se complementam e que visam contribuir para a saúde, para a segurança e para o bem-estar das pessoas (GUERIN, 1991). Como os problemas administrados por designer são, em sua grande maioria, complexos e interdependentes, ou seja, não são enquadrados em e não são solucionados por uma única disciplina, a abordagem interdisciplinar para o Design de Interiores mostra-se um caminho promissor e coerente. Atualmente, muitos projetos apresentam equipes híbridas que são organizadas para atender à combinação específica de usos e prazos de cada projeto. Essas equipes interdisciplinares são o futuro. Elas expõem cada profissional aos outros e dão a todos eles umaperspectiva compartilhada sobre “lugar”, transcendendo a visão estreita de cada um (FRIEDRICHS, 2002, p. 22, tradução nossa60). A visão sistêmica, por sua vez, existe ao se considerar os problemas de modo integrado e comunicante (CARDOSO, 2012). Refere-se, pois, a uma visão geral que compreende os componentes estruturais de um sistema, seu conjunto, suas relações internas (HOUAISS, 2018d). No campo do Design, a visão sistêmica é compreendida como a capacidade de compreender e de articular os diversos elementos materiais e imateriais do contexto projetual, ou seja, a capacidade de traduzir em solução projetual as diretrizes obtidas pela análise sistêmica do programa de projeto e do corpo de conhecimento do campo. Nesse sentido, designers de interiores precisam aprender a considerar o corpo de conhecimento do Design de Interiores e os aspectos social, cultural, econômico, normativo e ecológico do cenário de projeto em todas as etapas do seu trabalho, permitindo-lhe atuar em diversos contextos sob diversificadas condições (CIDA, 2018). Além do mais, os designers de interiores precisam ter a consciência de que a sua prática, na contemporaneidade, é influenciada pelo contexto internacional, sendo imprescindível considerar parâmetros do contexto local e do contexto global no desenvolvimento de soluções para os ambientes de vivência humana (GUERIN, 1991). 60 Texto original: “Already, many projects today feature hybrid teams that are organized around each project’s particular blend of uses and timeframes. These interdisciplinary teams are the future. They expose each profession to the others and give all of them a shared perspective about “place” that transcends each one’s necessarily narrower view” (FRIEDRICHS, 2002, p.22). 95 Designers de interiores devem, também, dominar a metodologia projetual. É que, como explica Nussbaumer (2019), diante de um problema de Design, designers de interiores recorrem a um sistematizado método para solucioná-lo, garantindo que uma solução técnica e criativa responda às necessidades, aos desejos, às expectativas e às preferências dos usuários. Ainda que o design seja uma atividade criativa, em que se espera senso de invenção e inovação, Bürdek (2010) explica que ele não pode ser o resultado de um “ato cerebral”. Para o autor, os produtos61 de Design são reflexos das condições em que foram estabelecidos e, nesse sentido, não seria pertinente pensá-los como consequência de um processo vazio, uma brincadeira livre de cores, linhas, formas e materiais, em que a configuração final seja apenas consequência de uma inspiração, uma descoberta, um insight desprovido de fundamentação e de significado. A complexidade do trabalho do designer exige um método adequado, ordenado e fluido, em que se possa trabalhar criativamente e, ao mesmo tempo, ter um olhar objetivo sobre o que se faz. Nesse sentido, Munari (2008) é categórico ao afirmar que “no campo do design não se pode projetar sem um método” e que a existência de um método não inibe a criatividade, não robotiza o processo e não iguala os profissionais. Planejar um método para o desenvolvimento de um projeto de Design significa pensar nas etapas de um processo que busca alternativas de soluções para um determinado problema de Design, utilizando, para tal, ferramentas já experimentadas – e que se mostraram suficientes, adequadas e satisfatórias – e/ou ferramentas criadas pelo próprio designer ou pela equipe de projeto. Com efeito, como explica o Council for Interior Design Qualification (CIDA, 2018), a familiaridade com processos de design permite ao designer de interiores compreender problemas complexos e desenhar as suas soluções. Considerando que as ferramentas para o desenvolvimento de projetos não devem ser únicas, engessadas ou limitadas, cabe ao designer de interiores, em cada situação projetual, definir quais serão as ferramentas que melhor lhe auxiliarão em cada uma de suas etapas de trabalho. É preciso, entretanto, que o designer de interiores domine essas etapas sistematizadas para que ele tenha condições de alterá-las, modificá-las, incrementá-las. A postura, a percepção, o repertório e a experiência do designer de interiores influenciam substancialmente a apropriação da metodologia projetual em Design de Interiores. Atinente à visão setorial, os designers de interiores devem ter conhecimento do setor produtivo em que atuam. Devem, pois, saber selecionar e especificar adequadamente móveis, 61 Entende-se o termo produto como o resultado de um projeto de Design, podendo ser um objeto, uma peça gráfica, um serviço ou um ambiente. 96 equipamentos, materiais e acabamentos em seus projetos, considerando suas múltiplas propriedades técnicas assim como as suas características estéticas (PIZZETTA, 2002). Conscientes do impacto de suas decisões na conformação dos ambientes construídos, designers de interiores devem saber especificar equipamentos de acústica, conforto térmico e qualidade do ar de modo a implementar estratégias que promovam o conforto, o bem-estar das pessoas. Devem ter compreensão acerca da especificação, do impacto ambiental e da aplicação de métodos, sistemas e detalhes construtivos para que possam sugerir modificações estruturais que atendam às necessidades projetuais para os ambientes (CIDA, 2018). Sobre a capacidade crítica para gerenciar, Webber (2017) chama atenção para a complexa atribuição do designer de interiores de administrar a sua relação com e as necessidades dos clientes, de gerir o processo de desenvolvimento projetual – individualmente, entre designers ou em equipe multidisciplinar –, de gerenciar diversos projetos simultaneamente e de coordenar diferentes pessoas – outros designers, fornecedores, consultores de outras áreas, construtores, empregados, entre outros – que participam da sua prática profissional. Somado a isso, Anderson-Brulé (2002) explica que a capacidade de gestão da informação é crucial para que o designer de interiores alcance os objetivos funcionais e emocionais do projeto, sendo impreterível a esse profissional encontrar meios eficazes de coletar, registrar, alterar, rastrear, mensurar e analisar as informações de projeto, especialmente as relacionadas à etapa de compreensão do contexto projetual. Para Rogers (2002), o sucesso profissional do designer de interiores depende da sua capacidade de gerenciar: gerenciar uma vida profissional, gerenciar um negócio, gerenciar pessoas, gerenciar as bases de conhecimento que precisa dominar e gerenciar projetos. Associado à visão histórica e prospectiva, designers de interiores devem compreender os princípios e os processos que definem a sua profissão, com ética e responsabilidade, tendo consciência sobre o seu valor na sociedade. Devem, também, ser capazes de compreender os meandros da experiência e do comportamento humano para projetar ambientes que promovam a saúde, a segurança e o bem-estar dos indivíduos que deles usufruem (CIDA, 2018). Devem, igualmente, aprender a projetar com humildade e com respeito para culturas diferentes da sua, em sentido oposto a uma atitude etnocêntrica (GUERIN, 1991). Designers de interiores devem ter conhecimento sobre a história dos interiores, da Arquitetura, das Artes Decorativas, das Artes em geral, bem como devem conseguir compreender as estratégias ali utilizadas na resolução de problemas relacionados ao uso e à estética dos 97 ambientes, configurando-se como insumo (repertório) para o desenvolvimento de projetos na atualidade (CIDA, 2018). Em outros termos, devem conseguir explorar as conexões entre passado e presente da história do Design de Interiores, visando à prática projetual coerente com o contexto sociocultural em que o projeto está inserido (HINCHMAN, 2013). Sem uma base conceitual e/ou uma pesquisa bem concebida, os projetos carecem de substância. Sem uma interpretação sensível dahistória do design, os projetos imitam ou ignoram precedentes. Sem uma compreensão madura dos critérios de projeto, as soluções de projeto parecem limitadas e a criatividade do designer sufoca (CARMEL-GILFILEN; PORTILLO, 2010, p. 1, tradução nossa62). Para além dessas oito competências, o Council for Interior Design Accreditation é convincente ao sugerir que os designers de interiores precisam desenvolver, em seu processo de formação profissional, a capacidade de pesquisar (CIDA, 2018). Isso porque pesquisas que dão suporte às decisões de Design de Interiores se tornaram indispensáveis à prática da atividade no século XXI. Em outros termos, tornou-se indispensável ser competente para a prática do desenvolvimento de projetos subsidiada por evidências provenientes de pesquisa, processo globalmente denominado por evidence-based design, ou, em português, design baseado em evidências (BUDD, 2011; DICKINSON; ANTHONY; MARSDEN, 2012; GUERIN; THOMPSON, 2004; MARTIN; HANINGTON, 2019; NUSSBAUMER, 2019). Explicamos o porquê. Considere como premissa a ideia de que toda solução projetual de Design de Interiores é hipotética. Essa conjectura, explicam Guerin e Thompson (2004), é frequentemente elaborada baseando-se em intuição e experiência ou, como explica Poldma (2008), em conceitos práticos e estéticos. Martin e Guerin (2006) explicam que, apesar da intuição, da experiência pessoal, dos conceitos práticos e dos conceitos estéticos serem importantes componentes para a projetação de soluções de Design de Interiores, não são suficientes para resolver a complexidade dos problemas atinentes a esse campo profissional na atualidade. Afinal, existem duas grandes responsabilidades imbricadas com o projetar ambientes de vivência humana: a qualidade de vida das pessoas e o desenvolvimento sustentável. Não à toa, “[…] o processo de 62 Texto original: “[…] failure to develop critical thinking skills in design has serious consequences. Without awell-thought out conceptual and/or research-based foundation, projects lack substance. Without a sensitive interpretation of design history, projects imitate or ignore precedent. Without a mature understanding of design criteria, project solutions appear limited and designer creativity stifle” (CARMEL- GILFILEN; PORTILLO, 2010, p. 1). 98 projetar se tornou mais complicado ao longo dos anos” (POLDMA, 2008, p. xiii, tradução nossa63). Ao agregar resultados de pesquisas criteriosas ao corpo de conhecimento da área durante o processo projetual, designers de interiores conseguem melhor justificar e defender as suas “previsões” e, consequentemente, potencializar a qualidade dos ambientes projetados (GUERIN; THOMPSON, 2004; NUSSBAUMER, 2019). Para Nussbaumer (2009), a qualidade das soluções depende diretamente da qualidade da pesquisa desenvolvida, sendo essencial saber identificar o problema e os objetivos de um projeto e compreender como se faz uma pesquisa. E completa: o desenvolvimento de boas pesquisas é primordial para que os designers de interiores consigam responder às responsabilidades postas ao seu campo profissional neste início de século. Em síntese, o design baseado em evidência é uma abordagem projetual centrada no usuário e consiste no uso de métodos – tais como revisão de literatura, análise comparativa, estudo de caso e avaliação pós-ocupação – e técnicas – em que se destacam a observação, a entrevista e o questionário – tradicionais de pesquisa para coletar, sistematizar, analisar e sintetizar dados e informações com vistas a subsidiar as decisões projetuais. É, pois, a aplicação consciente, explícita e criteriosa de resultados de pesquisas qualitativas e quantitativas – conduzidas pelo designer ou já realizadas por outrem – no desenvolvimento de projetos, gerando conhecimento e resolvendo problemas de Design (MARTIN; GUERIN, 2006; MARTIN; HANINGTON, 2019; NUSSBAUMER, 2019). A primeira e a mais proeminente aplicação do design baseado em evidência foi em ambientes da saúde, com a intenção de criar ambientes saudáveis e seguros para os pacientes e funcionários e diminuir a incidência de erros médicos. Hoje, é uma realidade que se expande a todas as tipologias de ambientes, melhorando, por exemplo, as vendas em ambientes comerciais, a satisfação e a produtividade em ambientes laborais e os processos de ensino e aprendizagem em ambientes educacionais (MARTIN; HANINGTON, 2019; NUSSBAUMER, 2019). Ao mesmo tempo, há ainda espaço para “[...] apresentar argumentos mais fortes para o design baseado em evidências no âmbito da sustentabilidade, como fizemos na área da saúde. As 63 Texto original: “[…] the process of designing has become more complicated over the years” (POLDMA, 2008, p. xiii). 99 práticas de projeto baseadas em evidências podem ajudar a descrever os critérios de sustentabilidade e medidas qualitativas humanas” (SORRENTO, 2012, p. xx, tradução nossa64). Para tanto, na etapa de elaboração do programa de projeto, em especial, o designer de interiores deve buscar por fatos e por evidências que o possibilite compreender os componentes do cenário projetual (ex. as necessidades e os desejos do cliente, o lugar e suas necessidades estruturais, normatizações aplicáveis, fatores humanos e possibilidades econômicas) para orientar o processo de design. Há, aqui, a necessidade de entender a diferença entre fatos e evidências: fatos são informações e/ou dados existentes, disponíveis de forma imediata, por exemplo, no discurso do cliente ou em uma simples observação do espaço; as evidências, por outro lado, são dados e/ou informações provenientes de criteriosas pesquisas já realizadas e/ou empreendidas pelo designer e/ou equipe de projeto (NUSSBAUMER, 2019). Cabe reiterar que o design baseado em evidência não é uma abordagem pontual e isolada no processo de desenvolvimento de projetos. Ao contrário, é uma ação contínua e necessária ao desenrolar de todas as etapas da metodologia projetual (MARTIN; HANINGTON, 2019). Martin e Guerin (2006) explicam que muitos designers de interiores desenvolvem pesquisas em seu processo de projetação, a partir da busca organizada por informações para posterior aplicação desse conhecimento no projeto – consultam, entre outros, manuais de fabricantes e especificações de produtos. Nesse sentido, Dickinson, Anthony e Marsden (2012) enfatizam que o recolhimento de dados e informações sobre produtos – de que são exemplos móveis e materiais de revestimento – em revistas e/ou sites da internet não constitui a criteriosa pesquisa de que trata o design baseado em evidência. Para esses autores, a principal fonte de conhecimento para solucionar a complexidade dos problemas de Design de Interiores são as evidências provenientes de um sistema formal de investigação conduzido por pesquisadores acadêmicos e do setor. Em suma, a pesquisa em profundidade é diferente de uma busca superficial por itens a serem especificados em projetos; ela efetivamente fornece embasamento teórico e técnico para as tomadas de decisões em soluções de Design de Interiores. É que a transformação vivenciada por esse campo profissional na virada para o século XXI desviou o enfoque do tratamento de superfícies – em que se fazia suficiente o recolhimento de 64 Texto original: “[...] make stronger cases for evidence-based design within the sustainability movement as we have done in healthcare. Evidence-based design practices can help describe the criteria for sustainability and human qualitative measures” (SORRENTO, 2012, p. xx). 100 informações sobre opções de móveis e materiais de revestimentos – para o comportamento humano (GUERIN; THOMPSON, 2004). É evidente que o designer de interiores ainda deve preocupar-se com as linhas, as formas, os volumes, as cores, as texturas e os materiais que utiliza nas composições plásticas que desenvolve. Isso é realmente essencial ao desenvolvimento deprojetos na área. O que estamos dizendo aqui é que essa composição deixa de ser fim em si mesma e passa a ser meio para impactar a experiência humana. Sob essa perspectiva, as pessoas constituem o foco do projetar e, por isso, aumenta-se a complexidade do que se pesquisa, já que, agora, designers de interiores precisam de dados e informações de pesquisa que os ajudem a compreender de forma abrangente a experiência humana; ou seja, como as pessoas usam os espaços, como esses espaços as afetam, como influenciam as atividades humanas e as relações sociais (CIDA, 2014; MARTIN; GUERIN, 2006; POLDMA, 2008). Portanto, compreender a experiência humana deve ser o primeiro passo para a solução de problemas de Design de Interiores (GUERIN; THOMPSON, 2004). Como, então, os designers de interiores conseguem obter uma real e profunda compreensão das necessidades, dos desejos, das expectativas e das preferências dos seus usuários de projeto? Friedrichs (2002) explica que, para projetos menores e de pouca complexidade, o simples ato de perguntar ao cliente e aos usuários é uma forma eficiente de obter a resposta que se procura. Os projetos maiores e mais complexos, por outro lado, demandam uma investigação mais robusta, pautada em métodos de pesquisa próprios das ciências sociais aplicadas, tais como, reiteramos, observação participante, entrevistas estruturadas e questionários. Em sala de aula, Dickinson, Anthony e Marsden (2012) aconselham ao professor que [...] forneça aos seus alunos de graduação experiências de pesquisas aplicáveis para que eles entendam o que constitui uma pesquisa e qual o papel por ela desempenhado na obtenção de conhecimento em processos de design para a tomada de decisão baseada em evidência. Certifique-se de que os alunos de graduação entendam a diferença entre o criativo e a ciência aplicada do design. Dê aos alunos a oportunidade de vivenciar o processo de pesquisa, o que pode despertar seu interesse em um estudo avançado mais aprofundado obtido por meio de um mestrado. Mais importante ainda, certifique-se de que os alunos possam aplicar as descobertas da pesquisa em seus projetos de studio (DICKINSON; ANTHONY; MARSDEN, 2012, p. 21, tradução nossa65). 65 Texto original: “[…] provide undergraduates with applicable research experiences so they understand what constitutes research and the role that research plays during the design process to gain knowledge on evidence-based decision making. Make sure undergraduates understand the creative versus the applied science of design. Give students the opportunity to experience the research process, which may spark their interest in more in-depth advanced study obtained through a master’s degree. Most importantly, make 101 Entretanto, pesquisas demonstram que o desenvolvimento da capacidade de pesquisar não está se mostrando suficiente no processo de formação de designers de interiores. Os resultados dos estudos de Martin e Guerin (2007) mostram que os estudantes, em sua maioria, sentem-se frequentemente intimidados em realizar atividades de pesquisa e geralmente não usam métodos de pesquisa adequados ao desenvolvimento de projetos de Design de Interiores. Corroborando o exposto, Dickinson, Anthony e Marsden (2012) concluem que grande parte dos designers de interiores – e, aqui, incluem estudantes, professores e profissionais da área –, não sabem fazer pesquisa e não sabem utilizar dados de pesquisa em projetos. Nessa perspectiva, Grimes e Boening (2001) constatam que os estudantes, em geral, não são criteriosos para selecionar fontes de pesquisa na internet e que existe uma grande distância entre a expectativa dos professores em relação aos critérios de busca dos alunos e o que eles efetivamente fazem. Também para Browne, Freeman e Williamson (2000), estudantes têm se tornado excessivamente dependentes da internet como fonte de conhecimento e não são criteriosos ou cuidadosos na seleção de suas fontes. Aburas (2019) apresenta recorrentes problemas enfrentados na rotina de um studio, em que se destacam: 1) a necessidade de melhorar a habilidade dos estudantes para coletar informações de um estudo de caso local e utilizar esses dados como inputs da solução projetual; e 2) o fato de estudantes não utilizarem múltiplas fontes de pesquisa para embasar as suas soluções projetuais – “a maioria deles se baseia principalmente no que encontraram em uma simples pesquisa no Google” (ABURAS, 2019, p. 12, tradução nossa66). Em síntese, as meras buscas atualmente realizadas para as disciplinas de prática projetual não dão suporte necessário ao design baseado em evidência. Fato é que, de modo geral, designers de interiores consomem e produzem pesquisas de forma limitada. Primeiro porque, como explicam Martin e Guerin (2006), os resultados de pesquisa publicados em periódicos acadêmicos revisados por pares não são acessíveis aos designers de interiores, tanto em sentido de facilidade de encontrar as publicações quando no sentido do custo financeiro para obtê-las. Segundo porque pesquisadores acadêmicos raramente colaboram com os designers identificando e desenvolvendo pesquisas que subsidiem a projetação do ambiente construído. E terceiro porque os designers de interiores não possuem sure students can apply research findings to their studio projects” (DICKINSON; ANTHONY; MARSDEN, 2012, p. 21). 66 Texto original: “Most of them relied mainly on what they found on a simple Google search” (ABURAS, 2019, p. 12). 102 domínio da linguagem de pesquisa utilizada pelos pesquisadores, o que dificulta a avaliação e a aplicação dos resultados67. Ao mesmo tempo, é consensual entre profissionais, educadores e estudantes a noção sobre o valor e a relevância da pesquisa para a atual prática do Design de Interiores. Faz-se preciso, portanto, aprender a fazer pesquisa e a trabalhar com dados de pesquisa para o desenvolvimento de soluções projetuais em Design de Interiores (DICKINSON; ANTHONY; MARSDEN, 2012). Assim sendo, Martin e Guerin (2006) entendem que os designers podem ajudar a gerar os dados brutos necessários para desenvolver as evidências. Os pesquisadores podem analisar os dados, e os educadores podem usar as descobertas para ensinar novos conhecimentos a futuros designers. Todos devem trabalhar para o desenvolvimento e o uso de projetos baseados em evidências que apoiem a saúde, a segurança e o bem- estar humano no ambiente construído (MARTIN; GUERIN, 2006, p. 168, tradução nossa68). Acredita-se que, ao formar designers de interiores aptos a trabalhar sob essa perspectiva – seja desenvolvendo pesquisas, seja utilizando dados de estudos pré-existente –, os profissionais se tornarão melhores produtores e consumidores de pesquisas, transformando a profissão e contribuindo para o fortalecimento do Design de Interiores enquanto campo do conhecimento e sua valorização frente à sociedade e às outras profissões que também se dedicam ao trato do ambiente construído (GUERIN; THOMPSON, 2004). É através da pesquisa em design que podemos estudar nossa profissão, entender os processos de design específicos para designers de interiores, observar o que acontece quando tomamos decisões de design que afetam o bem-estar e a percepção dos usuários e trabalharmos para criar novos conhecimentos específicos para o design de interiores. É no mundo da pesquisa acadêmica, quando realizada de maneira adequada e sólida, que podemos documentar o que fazemos e como fazemos, criar os fundamentos teóricos e forjar novos conhecimentos e inovações através do estudo de processos e práticas (POLDMA, 2008, p. vii, tradução nossa69). 67 No caso dos designers de interiores brasileiros há, ainda, a barreira da língua, já que grande parte dos textos são publicados em inglês. 68 Texto original: “Designers can help generate the raw data necessary to develop the evidence. Researchers can analyze the data, and educators canuse the findings to teach newknowledge to future designers. All must work toward the development and use of evidence-based design that supports human health, safety, andwelfare in the built environment” (MARTIN; GUERIN, 2006, p. 168). 69 Texto original: “And yet it is through design research that we can study our profession, understand design processes particular to interior designers, look at what happens when we make design decisions that impact on the well being and perception of users, and work towards creating new knowledge specific to interior design. It is in the world of academic research, when properly and soundly conducted, that we can document what we do and how we do it, create the theoretical foundations, and forge new knowledge and innovation through the study of both process and practice” (POLDMA, 2008, p. vii). 103 Em contraponto, Budd (2011) chama atenção para a necessidade de balancear o pensamento intuitivo e o pensamento racional no desenvolvimento de projetos de Design de Interiores. Para o autor, a intuição permite que o designer invente o novo, entenda emoções e significados e teste combinações aparentemente ilógicas, conferindo espontaneidade, diversão e surpresa ao ambiente construído. O processo projetual rigorosamente baseado em evidências, fatos e provas sempre implica identificar precedentes, o que, segundo Budd (2011), motiva a adaptação em detrimento da inovação. “Precisamos entender percepções, emoções e atitudes, bem como aquelas variáveis projetuais que podem ser quantificadas de forma mensurável” (BUDD, 2011, p. x, tradução nossa70). Do exposto, parece-nos interessante estabelecer um paralelo entre as competências aqui descritas e as situações profissionais típicas do designer de interiores identificadas no Quadro 3, evidenciando ainda mais a essencialidade dessas competências à sua prática profissional. O Quadro 5 foi elaborado com esse intuito, apresentando a sistematização do paralelo que se propõe. Quadro 5 – Competências profissionais mínimas do designer de interiores e possíveis situações de uso. Competências profissionais mínimas do designer de interiores Possíveis situação de uso Capacidade criativa, referente à proposição de soluções inventivas pertinentes ao contexto projetual a partir do domínio de técnicas de criação. ▪ elaborar conceitos de design; ▪ desenvolver esquemas de design que ilustrem a proposta conceitual; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual (fluidez); ▪ elaborar apresentação da solução projetual; ▪ solucionar problemas de sua alçada que eventualmente possam surgir na implementação da solução projetual; ▪ realizar ajustes em projetos implementados; Domínio da linguagem própria do Design, ou seja, saber articular os elementos e os princípios do design e possuir habilidade instrumental, técnica e expressiva para a comunicação de soluções a partir do uso de diferentes mídias e por meio de diversos recursos. ▪ explicar ao cliente o processo projetual; ▪ realizar levantamento métrico do espaço; ▪ alinhar com o cliente as informações do programa de projeto; ▪ desenvolver esquemas de design que ilustrem a proposta conceitual; ▪ apresentar ao cliente o conceito e os esquemas desenvolvidos; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual, traduzindo o conceito em ambiente físico ao articular funcionalidade e estética; ▪ elaborar apresentação da solução projetual; ▪ apresentar ao cliente a solução projetual; ▪ confeccionar os desenhos necessários à execução dos itens do projeto seguindo os padrões de desenho técnico vigentes; ▪ desenvolver projetos em equipes interdisciplinares; 70 Texto original: “We need to understand perceptions, emotions, and attitudes as well as those which can be quantifiably measured” (BUDD, 2011, p. x). Continua... 104 Trânsito interdisciplinar, relacionado à capacidade de dialogar com diferentes áreas do conhecimento e de atuar em equipes interdisciplinares no desenvolvimento de pesquisas e de projetos. ▪ conhecer os demais profissionais envolvidos no projeto; ▪ atuar em equipe interdisciplinar para o desenvolvimento de projeto; ▪ buscar em outras áreas do conhecimento suporte para soluções; ▪ articular estratégias de promoção da saúde, da segurança e do bem- estar do público de interesse no desenvolvimento de soluções; ▪ elaborar o caderno de especificações (ou manual do projeto); ▪ compatibilizar projetos de diferentes naturezas com o projeto de Design de Interiores; ▪ revisar detalhamento elaborado pelos prestadores de serviço; Visão sistêmica de projeto, atinente à capacidade de articular os diversos elementos materiais e imateriais do contexto projetual. ▪ identificar os objetivos de projeto; ▪ identificar problemas de Design de Interiores; ▪ analisar as necessidades, os desejos, as expectativas, as preferências e as possibilidades financeira e de prazos do cliente; ▪ analisar o perfil dos usuários do espaço; ▪ analisar as atividades que serão exercidas no espaço; ▪ elaborar conceitos de design; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual, considerando os aspectos funcionais e estéticos do contexto projetual; ▪ definir solução projetual que equilibre prós e contras; ▪ elaborar o caderno de especificações (ou manual do projeto); ▪ diagnosticar erros e acertos do projeto executado e testado pelo uso; ▪ evitar que os erros identificados em avaliação pós-ocupação se repitam em projetos futuros; Domínio da metodologia projetual, referente à capacidade de trabalhar com fluidez entre as etapas para desenvolvimento de projeto, compreendendo métodos e ferramentas projetuais pertinentes aos objetivos de cada uma. ▪ explicar ao cliente o processo projetual; ▪ transitar com fluidez entre as etapas de projeto; ▪ explorar novas ferramentas para o desenvolvimento de projetos; ▪ desenvolver ferramentas para o desenvolvimento de projetos; Visão setorial, relacionada ao conhecimento do setor produtivo de sua especialização – mercado, materiais, processos produtivos e tecnologias. ▪ analisar e cumprir as normatizações atinentes ao projeto; ▪ identificar problemas de Design de Interiores; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual, considerando conhecimento sobre materiais, produtos, processos produtivos e tecnologias; ▪ articular funcionalidade e estética no desenvolvimento de soluções; ▪ articular estratégias de promoção da saúde, da segurança e do bem- estar dos usuários no desenvolvimento de soluções; ▪ definir solução projetual que equilibre prós e contras; ▪ certificar que a solução eleita está compatível com o orçamento; ▪ elaborar o caderno de especificações (ou manual do projeto); ▪ confeccionar os desenhos necessários à execução dos itens do projeto seguindo os padrões de desenho técnico vigentes; ▪ revisar detalhamento elaborado pelos prestadores de serviço; ▪ compatibilizar projetos de diferentes naturezas com o projeto de Design de Interiores; ▪ fiscalizar a obra acabada antes de entregá-la ao cliente; ▪ realizar ajustes em projetos implementados; ▪ diagnosticar erros e acertos do projeto executado e testado pelo uso; Continua... 105 Capacidade crítica para gerenciar projetos de Design, recursos humanos e processos produtivos. ▪ precificar o serviço de Design de Interiores; ▪ elaborar proposta e/ou contrato de prestação de serviço; ▪ buscar em informações provenientes de pesquisa suporte para soluções projetuais; ▪ certificar que a solução eleita está compatível com o orçamento; ▪ cumprir as exigências atinentes às normatizações no desenvolvimento de soluções; ▪ orçar itens do projeto e elaborar planilha orçamentária; ▪ constituir e administrar equipe de profissionais para implementação do projeto; ▪ elaborar e fiscalizar plano de execução do projeto (plano de obra), plano de compras, fluxo de caixas(se for o caso) e outros cronogramas; ▪ revisar detalhamento elaborado pelos prestadores de serviço; ▪ realizar visitas à obra e reuniões periódicas com o cliente; ▪ solucionar problemas de sua alçada que eventualmente possam surgir na implementação do projeto; ▪ fiscalizar a obra acabada antes de entregá-la ao cliente; Visão histórica e prospectiva, centrada nos aspectos socioeconômicos e culturais, revelando consciência das implicações econômicas, sociais, antropológicas, ambientais, estéticas e éticas de sua atividade. ▪ analisar o contexto social, econômico e cultural do projeto; ▪ identificar problemas de Design de Interiores; ▪ elaborar conceitos de design; ▪ explorar diversas possibilidades de solução projetual, considerando o os aspectos social, econômico e cultural do contexto de projeto; ▪ tratar a sustentabilidade como premissa para o desenvolvimento de soluções; ▪ elaborar o caderno de especificações (ou manual do projeto); ▪ diagnosticar erros e acertos do projeto executado e testado pelo uso; ▪ evitar que os erros identificados em avaliação pós-ocupação se repitam em projetos futuros; Capacidade de pesquisar, relacionada à capacidade de empregar métodos e técnicas de pesquisa para coletar, sistematizar, analisar e sintetizar dados e informações com vistas a embasar as soluções projetuais (evidence-based design). ▪ empregar métodos e técnicas de pesquisa para coletar, sistematizar, analisar e sintetizar dados e informações para elaboração do programa de projeto e do caderno de especificações; ▪ empregar métodos e técnicas de pesquisa para coletar, sistematizar, analisar e sintetizar dados e informações para desenvolver estratégias de promoção da saúde, da segurança, do bem-estar e da sustentabilidade ambiental; ▪ empregar métodos e técnicas de pesquisa para coletar, sistematizar, analisar e sintetizar dados e informações para diagnosticar erros e acertos do projeto executado e testado pelo uso (análise pós- ocupação); ▪ buscar em evidências provenientes de pesquisa, tanto no campo do Design de Interiores como em outras áreas do conhecimento, suporte para as soluções projetuais. Fonte: elaborado pela autora com base na Resolução CNE/CES 5/2004 (CNE/CES, 2004), no Quadro 3 desta tese e nas fontes consultadas para a produção do texto. As associações estabelecidas entre as competências profissionais do designer de interiores expressas na Resolução CNE/CES 5/2004 (CNE/CES, 2004) e as situações profissionais típicas identificadas no Quadro 3 configuram-se como possibilidades, não havendo pretensão em 106 esgotar a listagem de aplicação das competências. São, como se propõe, exemplificação de como as competências listadas são necessárias à prática profissional do designer de interiores. O que se fez no Quadro 5 foi uma tentativa de transpor o caráter suscinto e abstrato das competências (coluna 1) em situações específicas e concretas – situações profissionais típicas – nas quais o seu uso se mostra essencial (coluna 2). 107 CAPÍTULO 4 Aspectos do processo de ensino e aprendizagem Acredita-se que o ensino formal seja o principal caminho para que o futuro profissional desenvolva competências profissionais mínimas ou, o que não é incomum, o meio para que ele aprimore competências que já possua, seja por vocação, seja por experiência prática. Assim, e considerando que o objetivo desta investigação é aferir em que medida o vigente modo de ensinar a prática projetual em Design de Interiores contribui para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas do futuro designer de interiores, este capítulo é dedicado à compreensão da forma como o processo de ensino e aprendizagem orientado por competências se estrutura. E, como esta investigação se atém aos processos de ensino e aprendizagem do projetar, o capítulo também é dedicado a apresentar uma caracterização da disciplina de prática projetual dos cursos superiores de formação profissional em Design de Interiores. Para tanto, estabeleceu-se uma discussão sobre a tipologia de problema abordada no desenvolvimento de soluções projetuais de Design de Interiores, bem como discutiu-se sobre a forma com que a abordagem didática centrada no estudante se materializa no ensino da prática projetual em Design de Interiores, especialmente por meio do método de ensino “aprender fazendo” (learning by doing), o que aqui denominou-se “aprender a projetar projetando”. Por fim, são apresentados os objetivos intrínsecos ao processo de ensino e aprendizagem da disciplina de prática projetual em Design de Interiores: o desenvolvimento de competências profissionais mínimas do designer de interiores. 4.1 Como ensinar e aprender competências A meta principal da escola de hoje não é [...] ensinar conteúdos, mas desenvolver competências que permitam ao sujeito alcançar sucesso pessoal e profissional (DIAS, 2010, p. 76). O conceito de competência com viés construtivista amplamente discutido nos anos 1970 no mundo do trabalho se estende ao âmbito da educação sob o epiteto “ensino e aprendizagem orientados por competências”. Inicialmente aplicado na formação profissional, hoje é o cerne do que orienta o Ministério da Educação brasileiro, desde a Educação Básica ao Ensino Superior (CNE/CEB, 1999b; CNE/CES, 2003; CNE/CP, 2002). 108 Para Zabala e Arnau (2010), essa abordagem apresenta-se como uma resposta às limitações do ensino tradicional. Grosso modo, esse ensino tradicional é caracterizado por esses autores como uma visão centrada em conteúdos temáticos, sendo função da escola transmitir, por intermédio da figura do professor, esse rol de conhecimentos. Os conteúdos, selecionados conforme tradição ou interesse de determinados grupos profissionais, são estruturados em disciplinas. Ao aluno, nesse processo de ensino e aprendizagem em que se valoriza sobremaneira o saber pelo saber e deprecia-se a prática em relação à teoria, é dado o papel de memorizar os conteúdos a ele apresentados. Os saberes ensinados pela escola transmissora constituem-se caminho para que o indivíduo possa, sequencialmente, progredir em seus estudos, até chegar na universidade. O sistema educacional71 é então estruturado de modo que cada ano em sala de aula constitui-se preparo para o que será vivenciado no ano seguinte, tendo, como objetivo final, a apreensão dos conteúdos necessários para aprovação em uma universidade e para formação de nível superior, processo que Zabala e Arnau (2010) denominam por “carreira para universidade”. Ocorre que nem todos os indivíduos têm a possibilidade ou o desejo de frequentar um curso superior. Para os pensadores do currículo por competências, a esse sujeito que não alcança a meta da carreira para universidade, os conteúdos a ele ensinados por intermédio da escola transmissora seriam em vão, inúteis para a sua vida. É que se acredita que o processo de memorização de conteúdos da educação tradicional implica dificuldade de aplicação na vida real. Visando superar essa limitação imposta pela escola transmissora, Zabala e Arnau (2010) explicam que o processo de ensino e aprendizagem orientado por competências se calca na ideia de que a escola seja corresponsável pela formação integral do indivíduo, compartilhando com a família a função de formar cidadãos72. Nesses termos, a vivência propiciada por uma instituição de ensino oportuniza o indivíduo a se desenvolver nos âmbitos pessoal, interpessoal, social e 71 Sabe-se que o sistema educacional ultrapassa a dimensão da escola, ou seja, do sistema educacional formal (intencional, planejado e regulado). Dele, também fazem parte o sistema educacional não formal (intencional, planejado e não regulado), como a família e a igreja, e o sistema educacional informal (não intencional, não planejado e não regulado), de que sãoexemplos as amizades e as experiencias de vida. Cada um desses sistemas, ao seu modo, contribui para a formação integral do sujeito (ZABALA; ARNAU, 2010). Entretanto, neste texto, quando utilizarmos o termo “sistema educacional” estaremos fazendo alusão ao sistema educacional formal. 72 Interessante mencionar que, no modelo da escola transmissora, a família é responsável pela educação do indivíduo nos campos pessoal, interpessoal e social, ensinando-lhe conhecimentos e procedimentos necessários para a vida cotidiana e o exercício da cidadania, enquanto as instituições de ensino são responsáveis por lhe instruir com conhecimentos acadêmicos pré-universitários e, consequentemente, por sua formação profissional. 109 profissional, de modo que, independentemente de cursar ou não um curso superior, o seu aprendizado lhe seja útil para a vida, conforme as suas possibilidades e escolhas. A visão da educação orientada por competências está, pois, centrada no aluno – e não nos conteúdos temáticos –, como sujeito que está ali para aprender a agir de forma eficiente em situações reais; para desenvolver conhecimento e autonomia suficientes que lhe possibilitem se reinventar no mundo do trabalho e na vida em sociedade, respondendo aos diversos problemas que a vida lhe apresentar (DIAS, 2010; ZABALA; ARNAU, 2010). Entretanto, Machado (2002b) explica que a função de formar cidadãos sempre foi papel das instituições de ensino, desde os seus primórdios na Grécia Clássica. À época, explica o autor de forma sintética, o Trivium (currículo básico que incluía as disciplinas de lógica, matemática e retórica) e o Quatrivium (composto pelas disciplinas de música, aritmética, geometria e astronomia) tinham por objetivo, respectivamente, a formação do cidadão hábil a participar da vida política da cidade e o aperfeiçoamento de sua mente. As disciplinas, ao menos conceitualmente, nunca tiveram o estatuto de fim em si mesmas, nunca objetivaram formar especialistas em seus conteúdos. Sempre foram, ao contrário, mediadoras entre o conhecimento pleno e aquilo que deveria ser ensinado ao indivíduo em formação e, ao mesmo tempo, caminho para o desenvolvimento pessoal, da cidadania, do caráter. Em outros termos, a educação, teoricamente, sempre se prestou a construir uma articulação permanente e consistente entre os projetos coletivos (sociedade) e os projetos pessoais, o que Machado (2002b) denomina por cidadania. A inversão da função da disciplina de “meio” para “fim” é uma “corrupção moderna da idéia original” (MACHADO, 2002a; MACHADO, 2002b, p. 138). Isso porque, explica Machado (2002b), desde a segunda metade do século XIX, em virtude dos avanços científicos, dos desenvolvimentos tecnológicos e da consequente supervalorização dos conhecimentos que os tornam possíveis, predominou-se a ideia de que fazer ciência constituiria um valor em si mesmo. Tal postura culminou na fragmentação do conhecimento e posterior demanda pela formação de especialistas. Seguindo esse raciocínio, as instituições de ensino, com seus cursos tradicionalmente organizados em disciplinas, passaram a enfocar os conteúdos temáticos de tal modo que seriam, série a série, encadeados visando ao ingresso na universidade, onde o sujeito se especializaria em determinada área do conhecimento. Seja como for, a noção do ensino orientado por competências ganhou dimensão global e, especialmente no Brasil, é o cerne do que, reiteramos, orienta o Ministério da Educação em suas diretrizes educacionais. Apesar disso, Zabala e Arnau (2010) acreditam que ainda não seja real 110 a sua implementação com plenitude, já que seria necessária uma transformação radical do sistema educacional. Ainda há, segundo os autores, resquícios do sistema educacional tradicional – a estrutura do sistema escolar, a formação de professores e a organização dos currículos tradicionais estão fundamentadas nas disciplinas, de maneira sólida e resistente, impedindo o pleno desenvolvimento de uma pedagogia orientada por competências. O que existe, na prática, é um híbrido. E, para Charlot (2013; 201973), o que existe de construtivismo na escola brasileira está mais na fala dos professores do que em suas ações, já que suas práticas permanecem notadamente tradicionais. Machado (2002a; 2002b), por outro lado, defende o fato de que disciplinas e competências não disputam o mesmo espaço dentro da escola. Para o autor, o que deve voltar a existir é a compreensão de que as ciências devem servir às pessoas – e não ter fim em si mesmas – e, sob essa premissa, as disciplinas devem ser tratadas como meio para que competências pessoais sejam desenvolvidas. Em síntese, o enfoque no desenvolvimento de competências não anula a relevância da estruturação do currículo escolar em disciplinas já que, para o autor, nenhuma competência pessoal pode ser desenvolvida sem as disciplinas. [...] a organização da escola é, e continuará a ser, marcadamente disciplinar; os professores são, e continuarão a ser, professores de disciplinas, não havendo qualquer sentido na caracterização de um professor de “competências”. No entanto, urge uma reorganização do trabalho escolar que reconfigure seus espaços e seus tempos, que revitalize os significados dos currículos como mapas de conhecimento que se busca, da formação pessoal como a constituição de um amplo espectro de competências e, sobretudo, do papel dos professores em um cenário onde as idéias de conhecimento e de valor encontram-se definitivamente imbricadas (MACHADO, 2002b, p. 139). Sob essa perspectiva, as matérias configuram-se meio ou recurso, sendo campo propício para que o desenvolvimento de competências seja articulado com o ensino de conteúdos (DIAS, 2010; MACEDO, 2002). Ou seja, o professor de qualquer disciplina tem a função de servir à formação do estudante de forma mais ampla (MACHADO, 2002b; MENEZES, 2002). No contexto do ensino do Design de Interiores, isso significa que, independentemente do professor lecionar as disciplinas de representação técnica, história do mobiliário ou prática projetual, o seu objetivo maior é contribuir, por meio do conteúdo que ele ensina, para o desenvolvimento de competências profissionais mínimas, tais como a capacidade criativa e o domínio de linguagem. 73 CHARLOT, Bernard. A equação pedagógica fundamental: Aprender = Atividade intelectual + Sentido + Prazer. Notas de aula. Palestra de abertura do curso de Pós-graduação em Docência do Instituto Federal de Minas Gerais, realizada no dia 19 de março de 2019, no auditório do IFMG – campus Betim. 111 Diferentemente da ideia de estruturação do currículo escolar por conteúdos isolados (foco no que vai ser ensinado), a organização por competências (foco no que é preciso aprender) pressupõe a concepção e o planejamento de situações pedagógicas que propiciem aprendizagens profissionais significativas (DEMAI, 2017). Assim, os conteúdos não mais são entendidos como o núcleo do processo educacional; são insumos (ou recursos) para as competências (MEC, 2000). Para tal, como explica Macedo (2002), ainda é necessário que o espaço, o tempo, os recursos, a formação e a atuação docente e a estrutura curricular do sistema educacional organizado em disciplinas sejam condizentes com o processo de ensino e aprendizagem orientado por competências, demandando certa reinvenção institucional. Neste texto, em especial, trataremos de dois pontos atinentes ao processo de ensino e aprendizagem orientado por competências: a) a definição das competências a serem desenvolvidas pelos estudantes; e b) a elaboração de estratégias didáticas orientadas por competências. 4.1.1 Definindo as competências desejadas para os estudantes Antes de tudo, é preciso ter ciência que a definição das competências a serem desenvolvidas pelos estudantes de uma determinada modalidade de ensino não é uma atribuição solitária do professor decada disciplina. Pelo contrário, essa definição deve ser uma construção coletiva, continuamente repensada, de que participem os diversos atores envolvidos no sistema educacional. Na construção do Projeto Pedagógico, cada instituição de ensino, para cada um dos cursos que oferece, define e articula o conjunto de competências a serem desenvolvidas pelos seus alunos (MENEZES, 2002). Nesse ponto, faz-se imprescindível relembrar o significado de competência. Com enfoque na abordagem educacional, Zabala e Arnau (2010) definem competência como a mobilização integrada de componentes (recursos de que se dispõe) conceituais, procedimentais e atitudinais com vistas a agir com êxito diante de uma situação-problema em determinado contexto, seja no mundo do trabalho, seja na vida política, econômica, social ou cultural. Esses componentes são considerados, no âmbito da educação, conteúdos de aprendizagem que, embora sejam mobilizados de forma integrada durante o agir, nos processos pedagógicos são desmembrados para propiciar a elaboração de estratégias didáticas e a avaliação do 112 desenvolvimento de competências. Assim, o processo de pensar e determinar quais competências devem ser trabalhadas em determinado contexto educacional inclui o processo de as separar em seus conteúdos de aprendizagem conceituais, procedimentais e atitudinais. Em outros termos, implica em definir quais são os conhecimentos (saber), as habilidades (saber fazer) e as atitudes (saber ser) que o indivíduo necessita dispor para agir com êxito frente a possíveis situações-problema de seu universo de atuação. Zabala e Arnau (2010) entendem que as competências desenvolvidas pelos alunos devem abarcar os âmbitos social, pessoal e profissional, de modo a possibilitar o seu desenvolvimento pleno (integral). A determinação do significado desses três âmbitos – pelos autores compreendidos como competências gerais de caráter abstrato – vai depender do ideal de sociedade, de cidadão e de profissional que a instituição de ensino se propõe a contribuir para formar. A título de enfoque – em virtude do objetivo de pesquisa aqui lançado –, iremos direcionar nossa atenção para as competências profissionais. Ainda com Zabala e Arnau (2010), compreende-se o termo competência profissional como a capacidade do sujeito de exercer com êxito determinada tarefa profissional (situação-problema do mundo do trabalho) a partir dos conhecimentos (componente conceitual) e das habilidades (componente procedimental) específicas da sua profissão, de forma (componente atitudinal) responsável, flexível e precisa. Para determinar quais competências profissionais devem ser desenvolvidas por um estudante de um curso profissionalizante brasileiro é preciso, em primeiro lugar, considerar o que o Ministério da Educação normatiza e orienta em termos do perfil profissional do egresso e das competências profissionais relacionadas, tal como discutiu-se, no âmbito da formação em Design de Interiores, no capítulo 3 deste trabalho. O segundo ponto a ser analisado no processo de delimitação das competências profissionais é a identificação de quais são as possíveis situações-problemas com as quais o futuro profissional irá lidar. Isso é preciso pois, como nos orienta Machado (2002b), não existe competência sem referência a um contexto no qual ela se materializa. Dessa maneira, quanto mais bem delimitado for o âmbito de referência, mais simples será a caracterização das competências necessárias ao enfretamento das possíveis situações-problemas. Nesse sentido, Zabala e Arnau (2010) entendem que, apesar de cada situação-problema ser singular, única e irrepetível, é possível – e isto se faz necessário no âmbito educacional – agrupá-las em uma família de situações. 113 É preciso, nesse processo, ter clareza que uma instituição de ensino não consegue promover o desenvolvimento de absolutamente todas as competências profissionais necessárias a todos os seus alunos durante a trajetória profissional de cada um (a realidade é bem mais rica do que se pode prever). Para tanto, o Projeto Pedagógico se baliza em competências profissionais mínimas, ou seja, competências cuja a ausência inviabiliza o exercício profissional. É também por isso que há de se promover o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de aprender a aprender do estudante, para que ele, diante das inúmeras situações-problemas que o mundo do trabalho lhe apresentar, consiga desenvolver as competências necessárias ao seu enfretamento. Em suma, e seguindo também o que orienta Le Boterf (2003), as situações profissionais típicas definem as competências profissionais mínimas necessárias à determinada prática profissional. Desse modo, a primeira etapa do processo de delimitação das competências profissionais a serem desenvolvidas pelos estudantes de determinado curso tem o propósito de analisar as situações típicas de trabalho daquela profissão (âmbito de materialização das competências) e de identificar, ali, quais são as competências essenciais ao seu enfretamento (competências profissionais mínimas). Todavia, a definição dessas competências profissionais mínimas ainda possui sentido geral e caráter abstrato, sendo uma derivação do que se espera que, por exemplo, o designer de interiores seja indispensavelmente capaz no âmbito profissional de sua atuação. Exatamente por isso, faz-se necessário, em um segundo momento, decompor essas competências profissionais mínimas de modo a possibilitar a compreensão do como cada disciplina da matriz curricular pode contribuir para o desenvolvimento de cada uma delas. Ademais, esse desmembramento possibilita a cada professor a condição de pensar estratégias didáticas de forma objetiva, bem como avaliar o seu aluno, tendo-se como parâmetro um objetivo global, de todo o curso. Nesse sentido, Machado (2002b) endente que uma competência pode ser traduzida em um feixe de habilidades, já que as habilidades são formas de realização de competências. De uma maneira mais detalhada, Zabala e Arnau (2010) orientam que as competências profissionais mínimas sejam analisadas e traduzidas em conteúdos de aprendizagem conceituais, procedimentais e atitudinais. Em termos práticos, deve-se responder às seguintes questões: 1) O que é necessário saber (conhecimentos)? 2) O que é necessário saber fazer (habilidades)? 3) De que forma se deve ser (atitudes)? 114 A partir dessa derivação, faz-se possível determinar competências específicas e seus indicadores de obtenção (índices de sucesso), ambos caracterizados por seu sentido concreto, o que possibilita a orientação em sala de aula, ou seja, a criação e a implementação de atividades didáticas e a avaliação do desenvolvimento de competências (ZABALA; ARNAU, 2010). A Figura 2 apresenta um desenho esquemático para melhor visualização da sequência de ações proposta por Zabala e Arnau (2010) com vistas a definir quais competências gerais devem ser desenvolvidas pelo estudante e a desmembrá-las em indicadores de obtenção. Figura 2 – Desmembramento de competências gerais em indicadores de obtenção. Fonte: elaborado pela autora com base em Zabala e Arnau (2010). Por fim, não é demais ressaltar a necessidade de cada professor de cada disciplina de um curso profissionalizante identificar, conhecer e compreender as competências profissionais mínimas que devem ser desenvolvidas por seus alunos, sendo igualmente essencial que esse professor as disponha (ANKERSON; PABLE, 2008; ZABALA; ARNAU, 2010). 115 4.1.2 Elaborando estratégias didáticas orientando-se por competências Para Dias (2010), a premissa do ensino orientado por competências está na oferta de atividades pedagógicas cuidadosamente idealizadas e planejadas que oportunizem ao aluno a aprender por ele mesmo. Em outros termos, ela se baseia na aprendizagem significativa e na ideia de ensinar o indivíduoa aprender a aprender. Para tanto, o ambiente de ensino e aprendizagem deve promover constante interação do indivíduo com o seu meio, de modo que o que se ensina tenha significado para o aluno, estimulando-o, a partir dos seus conhecimentos prévios, a buscar respostas para as suas perguntas, procurando, pesquisando, experienciando, raciocinando, criticando, refletindo, confrontando, descobrindo. Parte-se, aqui, da premissa de que o conhecimento não seja adquirido de “fora para dentro” (professor fala, aluno escuta), mas a partir da construção interna de representações, interpretações, relações (DIAS, 2010). Esse contexto é notadamente marcado pela dúvida, pelo conflito, pela oposição, sendo substancialmente mais desafiante e trabalhoso do que um contexto dito tradicional, tanto para o professor quanto para o estudante. Machado (2002b) também defende a ideia da aprendizagem significativa – “Sem significado, a educação não tem propósito e a ausência de propósito é o fim da educação” (MACHADO, 2002b, p. 150). Para ele, esse é o único caminho pelo qual competências são desenvolvidas, sendo imprescindível que os alunos sejam estimulados a estudar em função de seus interesses e de seus projetos, no entendimento de que o conhecimento (a ciência) deve estar a serviço dos projetos das pessoas (e não com fim em si mesmas). Assim sendo, o autor sugere processos de contextualização, ou seja, de aproximação entre os conteúdos escolares e a realidade extraescolar. Ademais, considerando que o conhecimento é uma rede de significações – e não um encadeamento de conteúdos como tratado na prática multidisciplinar em que as múltiplas disciplinas se findam em si mesmas –, Machado (2002b) sugere considerar o desenvolvimento das competências como centro do processo de ensino e aprendizagem e buscar formas de integração entre as disciplinas, de reunificação dos conhecimentos separados pela estrutura escolar multidisciplinar. Em termos práticos, isso significa que, no lugar da estruturação em torno de programas – o que se traduz em um ensino com foco nos conteúdos –, uma escola cujo ensino se orienta por competências deve se estruturar em torno de projetos permeados por situações-problemas que simulem o contexto real, sendo, em muitos casos, efetivamente real. É que, por meio do 116 desenvolvimento de projetos, explica Machado (2002b), abre-se caminho para o trabalho contextualizado e interdisciplinar em prol do desenvolvimento de competências. A ideia é que o projeto não seja de uma determinada disciplina, mas do aluno, e esse aluno terá a possibilidade de encontrar substrato em cada disciplina que cursa para enfrentar a situação- problema (o projeto) que tem em mãos. Zabala e Arnau (2010) igualmente defendem a ideia de que o processo de ensino e aprendizagem focado no desenvolvimento de competências demandam estratégias didáticas que simulem situações, conflitos e problemas da vida real. Além do mais, acreditam que essas estratégias devam ser planejadas seguindo progressiva dificuldade, respeitando as características de cada aluno e oferecendo a possibilidade de recorrer a ajuda. Assim como Dias (2010) e Machado (2002b), Zabala e Arnau (2010) acreditam que a aprendizagem de uma competência apenas se dá mediante condições que a possibilitam ser significativa. Com esse objetivo, os autores são enfáticos ao defenderem a perspectiva funcional do ensino, ou seja, a necessidade de dar utilidade prática a tudo o que se aprende. Também Vitorette, Moreira e Bastos (2002) sugerem que haja constante interdependência entre os conteúdos teóricos e suas aplicações, de modo que esses conteúdos teóricos sejam direcionados à prática. Charlot (2013; 2019), contudo, contesta a supervalorização da aplicação prática do conhecimento, sendo a favor da ideia de importância. Campi (2007), por exemplo, explica que conteúdos de história, apesar de não possuírem aplicação prática imediata na formação em Design, contribuem para o processo de crescimento e a capacidade de reflexão do sujeito. Além disso, o conhecimento em história proporciona ao estudante cultura e repertório, sendo uma exímia fonte de conhecimento para solucionar problemas funcionais, estéticos e éticos no campo do Design. No atual contexto sociocultural em que tudo pode, tudo vale, tudo é possível, a história apresenta-se como base, um suporte do qual o designer pode se valer para criar, conferindo sentido à sua prática. Ao defender a ideia da aprendizagem significativa, Charlot (2013; 2019) argumenta a necessidade de se encontrar prazer no processo de aprendizagem. Tal como fazemos ao escutar uma música ou assistir a um filme, o ato de estudar pode ter sentido e pode ser prazeroso, sendo possível orientar a educação para que a escola seja vista como uma “aventura intelectual”. Além do mais, explicam, Fleury e Fleury (2001, p. 191), na medida em que as pessoas melhor se recordam das experiências que lhes tenham despertado sentimentos positivos, “as emoções 117 contribuem fortemente na motivação para a pessoa aprender; parecem dar cor e sabor ao que aprende”. Então, a questão que se coloca é como construir o saber como objeto de desejo. Para Charlot (2019), na educação profissional, torna-se mais fácil dar sentido ao que se ensina. Ele acredita, também, na ideia de contextualização para dar significado ao saber ensinado. Nesse ponto, alerta-nos que a escola se faz interessante na medida em que possibilita ao sujeito conhecer algo diferente das experiencias que ele traz em sua trajetória de vida. Assim, ao mesmo tempo em que é importante considerar o repertório de vida dos alunos, deve-se compreender que dar sentido a um aprendizado não significa estar no cotidiano da pessoa. Apresentar ao aluno o que já é parte de sua rotina pode promover o desinteresse. Há, pois, consenso entre os autores consultados sobre a importância de professores promoverem uma aprendizagem significativa e de contextualizarem o que ensinam. Ressalta- se, aqui, que não existem procedimentos metodológicos próprios e rígidos quando se trata do ensino orientado por competências. O que existem, defendem Zabala e Arnau (2010), são condições gerais que devem ser compreendidas pelo professor para que ele elabore as suas propostas didáticas, pensando sempre em estratégias que possam despertar em seus alunos a curiosidade, a vontade de aprender, de se engajar. Grosso modo, as condições gerais para uma aprendizagem significativa descritas por Zabala e Arnau (2010) são: a) conhecer o nível de desenvolvimento do seu aluno, ou seja, as capacidades cognitivas que esse indivíduo possui; b) tomar conhecimentos prévios como ponto de partida para novas aprendizagens, de modo que o esquema de conhecimento do sujeito se torne mais complexo ao longo da vida, adaptando-se a cada nova aprendizagem, pelo que é importante existir uma distância adequada entre o que se sabe e o que se propõe que se aprenda, pois há uma zona de desenvolvimento proximal que deve ser respeitada (o indivíduo se sente estimulado a superar determinado desafio quando o que é proposto a ele implica avançar um pouco além do que já é capaz, havendo, todavia, desestimulo quando o que se almeja aprender apresenta-se inalcançável); c) entender que, para o aluno, é mais fácil aprender por memorização (forma mecânica) do que por meio do estabelecimento de vínculos substancias (não arbitrários) entre novos conteúdos e conteúdos prévios; d) compreender a importância do papel ativo e protagonista do aluno, essencial para o desenvolvimento de atividades mentais que o possibilitem reelaborar seus esquemas de conhecimento (essas atividades são, em essência, conflituosas); e) entender que as expectativas de êxito são determinantes para o desenvolvimento de atitudes favoráveis à aprendizagem (aquelas com interesse manifesto na aprendizagem por si mesma, não como um meio parase alcançar boa nota; assim, é 118 fundamental estimular que os alunos desenvolvam a autoestima, o autoconhecimento e boas expectativas sobre si mesmo); e f) reconhecer a importância de o aluno ter a consciência do funcionamento de sua maneira de aprender, o que possibilita o desenvolvimento de aprendizagens mais profundas e significativas e facilita novas aprendizagens. Além dessas orientações gerias, Zabala e Arnau (2010) discutem estratégias didáticas direcionadas ao ensino dos conteúdos de aprendizagem – conceituais, procedimentais e atitudinais – das competências, o que pode ser expresso em termo de aprendizagem de fatos, aprendizagem de conceitos e princípios, aprendizagem de procedimentos e aprendizagem de atitudes. A aprendizagem dos fatos, necessária à compreensão de informações e de problemas, dá-se por meio da memorização, o que, em termos práticos, conduz à aplicação de exercícios de repetição (caráter reprodutor). A aprendizagem de conceitos e princípios tem caráter abstrato, exigindo atividades complexas que promovam um processo de elaboração e construção pessoal do conceito e do princípio que se ensinam, de modo que o sujeito seja capaz de utilizá-los para interpretar, compreender ou expor determinado fenômeno ou situação. Assumindo-se que o conteúdo procedimental seja o conjunto de ações ordenadas dirigidas à obtenção de um objetivo, sua aprendizagem se dá por meio da exercitação tutelada e reflexiva a partir de modelos que ganham complexidade de modo gradual, reforçada por meio da aplicação do que se aprendeu em contextos diferenciados. Em outros termos: aprende-se conteúdos procedimentais fazendo (caráter executivo). Por fim, a aprendizagem de atitudes se dá por meio de uma elaboração complexa de caráter pessoal com grande vinculação afetiva – em que se almeja ser como determinado modelo de referência ou quando se deseja ser para poder viver com outros – ou por meio de processos de reflexão e posicionamento pessoal diante de situações conflitivas. Em suma: aprende-se uma competência por meio da aprendizagem de seus componentes conceituais, procedimentais e atitudinais, o que, por sua vez, se dá por intermédio de atividades para memorizar fatos, elaborar conceitos, exercitar procedimentos e interiorizar atitudes (ZABALA; ARNAU, 2010). Ankerson e Pable (2008) ressaltam a importância de o professor diversificar as estratégias didáticas adotadas, vez que a forma de aprendizagem varia de indivíduo para indivíduo. Para auxiliar o professor em seu planejamento pedagógico abrangente, os autores fazem referência a duas formas distintas de classificar os estilos de aprendizagem dos alunos. 119 A primeira delas fundamenta-se na premissa de que as pessoas percebem o ambiente físico em que estão por meio da audição, da visão, do olfato, do tato e da cinestesia. Assim sendo, a teoria sobre estilos de aprendizagem denominada VAC – Visual, Auditivo e Cinestésico – sugere que, mesmo que os estudantes utilizem esses três principais receptores sensoriais, um deles é o estilo de aprendizagem predominante. Portanto, há aqueles estudantes que aprendem melhor ouvindo do que por meio da leitura e da escrita (auditivos). Há, por outro lado, aqueles que aprendem melhor por meio da leitura e da escrita (visuais linguísticos), enquanto outros aprendem melhor por meio de esquemas gráficos, demonstrações, vídeos e outros materiais visuais que não sejam textos escritos (visuais espaciais). E há, ainda, os que melhor aprendem por meio da ação, seja enquanto tocam (táteis) ou se movimentam (cinestésico). O segundo critério de classificação baseia-se na forma como a pessoa percebe, organiza, processa e compreende uma informação. Em síntese, muitos indivíduos compreendem uma nova informação por meio da experiência concreta, do tangível, da imersão na realidade, ao passo que outros a compreendem por meio da conceitualização abstrata, da representação simbólica, pensando, analisando, planejando sistematicamente. Somado a isso, os indivíduos podem ser ativos ou reflexivos, e os quatro estilos de aprendizagem seriam resultado da conjunção entre a experiência concreta (agir) ou a conceitualização abstrata (conceitualizar), e a experimentação ativa (aplicar) ou a observação reflexiva (refletir). Assim, os divergentes (experiência concreta e observação reflexiva) são criativos e imaginativos, gostam de trabalhar em grupo, ouvir o outro e receber feedback personalizado; os assimiladores (conceitualização abstrata e observação reflexiva) são mais interessados em ideias e conceitos, preferindo leituras, aula expositivas e a exploração analítica de modelos; os convergentes (conceitualização abstrata e experimentação ativa) destacam-se na aplicação prática de ideias e teorias, na resolução de problemas, na tomada de decisões e na experimentação de novas ideias; e os acomodadores (experiência concreta e experimentação ativa) aprendem por meio de experiências, tentativa e erro, gostam de se envolver em desafios e utilizam a intuição para resolver problemas. Para além da criação e do planejamento de estratégias didáticas diversas que visem proporcionar aos estudantes uma aprendizagem significativa, Charlot (2013; 2019) explica que o professor, no processo de ensino e aprendizagem, tem o papel de mobilizador, já que as novas tecnologias o liberaram do papel de fonte de informação, como era percebido em tempos passados. Igualmente para Machado (2002), 120 A tarefa mais fundamental do professor [...] é semear desejos, estimular projetos, consolidar uma arquitetura de valores que os sustentem e, sobretudo, fazer com que os alunos saibam articular seus projetos pessoais com os da coletividade na qual se inserem [...] (MACHADO, 2002, p. 154). 4.2 Caracterização da disciplina de prática projetual The design studio environment, whether at the baccalaureate or graduate level, must reflect the complexity of interior design as it occurs in practice (POLDMA, 2008, p. x). De modo global, a formação profissional em Design de Interiores é estruturada na combinação entre disciplinas práticas – studio, como é conhecido no exterior, ou prática projetual, como se denomina neste trabalho – e disciplinas teóricas. Cabe às disciplinas teóricas o estudo de conteúdos relacionados ao corpo de conhecimento do Design de Interiores, enquanto as disciplinas práticas são dedicadas ao, valendo-se do aprendido nas teóricas, exercitar da prática profissional do designer de interiores (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011; FRIEDRICHS, 2002). O exercitar da prática profissional – em outros termos, o exercitar da sistematizada metodologia de desenvolvimento de projetos que ocorre na vida real – percorre todo o processo de formação em Design de Interiores, indo do estágio inicial do curso ao mais avançado. Para tanto, existem, basicamente, dois tipos de studios: os horizontais, nos quais os projetos propostos possuem complexidade e dimensão diferenciadas, que vão crescendo gradualmente à medida que o aluno evolui em seu processo educacional; e os verticais, que são baseados em tópicos (como exemplo: projetos residenciais e projetos comerciais) e dos quais podem fazer parte estudantes que estejam em diferentes níveis do processo educacional (ANKERSON; PABLE, 2008). Independentemente de qual seja a tipologia, os studios comumente possuem salas específicas nas quais os alunos são convidados a se apropriar de uma mesa de trabalho – de modo privado (cold desk) ou compartilhado (hot desk) – e são estimulados a desenvolverem, ali, os seus projetos, tanto no horário próprio da disciplina quanto fora dele (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). Apenas a título de curiosidade, há instituições de ensino que oferecem aos seus estudantes a opção de se apropriarem de suas mesas de desenho de tal forma que eles armazenam materiais de projeto e decoramseus espaços de trabalho como se fossem seus escritórios, permanecendo no local, com privatividade, durante um ano acadêmico (BROCATO, 2009). 121 Não à toa, os studios de design constituem-se um grande núcleo dos programas de Design de Interiores, já que é por meio deles que o estudante modela a sua prática profissional de Design e a eles são destinados um grande número de horas curriculares (CHO, 2017). De modo geral, a carga horária semanal de um studio varia de quatro a doze horas, distribuídas em diferentes dias da semana em sessões que variam de três a quatro horas (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). Derivação do tradicional modelo de ensino e aprendizagem mestre-aprendiz – em que o mestre artista ou artesão ensina a seus aprendizes em seu ateliê –, os studios podem ser compreendidos como ambientes de aprendizagem experimental, baseada em projetos e centrada no estudante que possibilitam a articulação entre teoria e prática com vistas a solucionar um determinado problema – real ou simulado – de ordem prática (BROOKER; STONE, 2014; HIGGINS; AITKEN- ROSE; DIXON, 2009; SOULELES, 2013; SWANN, 2002). Há, nos studios, grande contato pessoal entre professor e aluno, seja em pequenos grupos ou de forma individualizada (BROOKER; STONE, 2014; SOULELES, 2013; SWANN, 2002). Entretanto, apesar das longas sessões semanais reservadas para essa disciplina, os atendimentos individualizados acontecem em curto período de tempo, já que dezessete é o número médio de alunos por professor, variando de doze a vinte e quatro (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). Em virtude do peculiar ambiente de aprendizagem estabelecido nos studios, os dois próximos tópicos dedicam-se a caracterizar essa abordagem pedagógica em termos da tipologia de problema envolvida, da metodologia de ensino ali explorada e dos objetivos a que se presta. Em síntese, é nas disciplinas de prática projetual que o estudante de Design de Interiores aprende, por meio do “aprender fazendo”, a solucionar problemas ambíguos e, nesse processo, desenvolve as suas competências profissionais mínimas. 4.2.1 A ambiguidade dos problemas de Design de Interiores Teaching, too, in many ways, is a design problem. There are many variables that come into play and many possible solutions paths (CENNAMO et al., 2011, p. 34). As disciplinas de prática projetual – ou studio – configuram-se exímio exemplo da aprendizagem baseada em projetos (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). 122 A proposta da aprendizagem baseada em projetos é a de que os alunos sejam estimulados a confrontar situações-problema do mundo real que considerem significativas, a determinar a sua forma de abordagem e a agir em busca de soluções (BENDER, 2014). Nesse processo, os alunos são incentivados a pesquisar, a investigar, a experimentar, a aplicar conhecimentos no desenvolvimento de uma solução viável e eficaz para um problema identificado (integração entre teoria e prática) e a avaliar a adequação da solução proposta de acordo com o contexto vigente (AUSTERLITZ et al., 2008; CENNAMO et al., 2011; ORR; YORKE; BLAIR, 2014), o que demanda constante supervisão do professor e contínua reflexão sobre a própria ação (HIGGINS; AITKEN-ROSE; DIXON, 2009). Os problemas para os quais se busca solução no campo do Design de Interiores são aqueles relacionados à função e à plástica dos espaços de vivência humana, sempre visando contribuir para a saúde, o bem-estar e a segurança das pessoas (qualidade de vida) e para o desenvolvimento sustentável. Apesar de a diversidade e a quantidade de problemas que aí se insere serem incontáveis, eles possuem uma característica em comum: são ambíguos, isto é, possuem múltiplas possibilidades de solução (CENNAMO et al., 2011). Exatamente por isso, o técnico e criativo processo de desenvolvimento de solução projetual em Design de Interiores é, ao mesmo tempo, excitante e conflituoso, estado esse que implica intrínsecos desafios ao seu ensino. Primeiro porque não há indicações de quando um problema está solucionado, já que é sempre possível encontrar uma solução melhor. Segundo porque as soluções nunca estão corretas ou erradas, mas sim mais apropriadas, menos apropriadas, boas ou ruins. Terceiro porque não existem regras ou passo a passo definidos para solucionar um problema; eles são únicos e, nesse sentido, os livros e as experiências com outros problemas não necessariamente se aplicam à situação em curso. O que existe é um caminho previamente estruturado que conduz o designer de interiores na busca por uma solução projetual, e não um algoritmo que se aplica a cada tipologia de projeto (ANKERSON; PABLE, 2008). A natureza do pensamento em Design para a solução de problemas não é, pois, um exercício de memorização de respostas prontas e certas, mas sim um exercício de compreender o problema que se tem em mãos e de empregar o esforço técnico e criativo necessário para solucioná-lo (DOHR, 1991). O processo de ensino e aprendizagem do desenvolvimento de projetos de Design de Interiores, portanto, não pode ser baseado em fórmulas, rotinas ou treinamento para lidar com possíveis problemas a serem enfrentados. Espera-se, ao contrário, que esse processo possibilite ao estudante desenvolver a capacidade de compreender o contexto em que o 123 problema a ser solucionado está inserido e abordar referido cenário de complexidade em busca de possíveis soluções (AUSTERLITZ et al., 2008). 4.2.2 Aprender a projetar projetando Multiple opportunities for repetition of process help solidify an approach to problem solving for learners during their education (ANKERSON; PABLE, 200, p. 150). Quanto à metodologia de ensino utilizada por professores no ensino da prática projetual em Design de Interiores, destaca-se aquela centrada no estudante, cujo objetivo principal é ajudá- lo a adquirir uma visão crítica de mundo e dos fenômenos que esteja estudando, de modo que esse estudante possa desenvolver o seu próprio conhecimento. Em outros termos, o enfoque didático está em possibilitar que o sujeito descubra, de modo criterioso, as respostas pelas quais procura (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011; TRIGWELL, 2002). O ensino centrado no estudante pressupõe o compartilhamento, entre professor e aluno, da responsabilidade pelo aprendizado. Do professor é esperado que olhe para o aluno com cuidado, que o oriente, que ofereça campo fértil e seguro para o aprendizado, incentivando e facilitando esse processo. Ao aluno é dada a liberdade de escolher e a oportunidade de assumir riscos, de errar, de aprender com e de responder pelo seu erro, de desenvolver a sua autonomia, de se conduzir em busca do conhecimento. Espera-se que, dessa forma, o indivíduo aprenda a ser responsável, a cooperar, a resolver conflitos, a gerenciar o seu próprio tempo, a honrar compromissos sociais e acadêmicos e a estabelecer metas para o aprendizado (JEROME FREIBERG; LAMB, 2009). De um modo geral, estudantes aprendem lendo, ouvindo, errando, na prática, vivenciando a situação mentalmente, observando os outros (FLEURY; FLEURY, 2001). Estudantes de Design de Interiores também aprendem por meio dessas ações e, no contexto da aprendizagem da prática projetual, o ler, o ouvir, o errar, o praticar, o imaginar e o observar ocorrem durante a experiência do projetar. Estudantes de Design de Interiores aprendem a projetar exercitando as etapas típicas de desenvolvimento de um projeto de Design de Interiores, por meio da experimentação. A essência do processo de ensino e aprendizagem da prática projetual está, assim, no learning by doing, aqui traduzido como “aprender fazendo” (ANKERSON; PABLE, 2008; BROOKER; STONE, 2014; CENNAMO et al., 2011; KONKEL, 2014). Isso porque o contínuo transitar pelo processo de design possibilita aos estudantes desenvolverem a capacidade de 124 pensar criticamentee de solucionar problemas de Design de Interiores (CARMEL-GILFILEN; PORTILLO, 2010). Inseridos em um ambiente de ensino e aprendizagem orientado para a criatividade, os estudantes são comumente estimulados a identificar, a formular e a apresentar problema(s) de Design de Interiores e trabalham em grupo ou individualmente para solucioná-lo(s), explorando a relação entre o desenhar, o observar e o inferir para propor alternativas e interpretar as suas consequências (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011; KONKEL, 2014). Eles esboçam ideias, representam-nas por meio de croquis manuais, desenhos auxiliados por computador e outras numerosas formas de representação visual, verbal, tátil e/ou escrita, elaboram maquetes ou outro recurso de prototipagem, pesquisam materiais e revestimentos, buscam por informações referentes a normatização e orçamentos, aplicam os conhecimentos especializados apreendidos em disciplinas teóricas e visitas técnicas (AFACAN, 2016; BROOKER; STONE, 2014). Durante esse processo, submetem periodicamente as suas soluções emergentes a críticas. Essas críticas podem ser formais – quando em formato de bancas das quais participam professores e/ou profissionais convidados – e informais – as da orientação diária do professor (desk crits) e da contribuição dos colegas –, e são percebidas como inputs para o processo de desenvolvimento de projetos. É que o Design é um processo iterativo no qual são tomadas decisões que possivelmente serão revisadas quando informações adicionais forem disponibilizadas (ANKERSON; PABLE, 2008; BROCATO, 2009; CENNAMO et al., 2011; HIGGINS; AITKEN-ROSE; DIXON, 2009). Isso significa que a crítica é parte essencial do processo de ensino e aprendizagem na medida em que visa estimular os estudantes a fundamentarem e defenderem as suas ideias de maneira lógica, racional e persuasiva, encorajá-los a repensarem as suas atitudes e as suas propostas de design e engajá-los em discursões e no desenvolvimento do seu projeto (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). “A crítica, quando feita com respeito e de forma construtiva, pode ser uma experiência essencial para o aluno” (ANKERSON; PABLE, 2008, p. 153, tradução nossa74). No que se refere às críticas informais, espera-se que os estudantes explorem tanto os seus professores quanto os seus colegas como importantes recursos projetuais. Os professores, em especial, têm a função de orientar os alunos à medida que lidam com a complexidade da solução de problemas de Design de Interiores (CENNAMO et al., 2011). O papel do professor é, então, o 74 Texto original: “Critique, when delivered with respect and as constructive criticism, can be a pivotal experience for a learner” (ANKERSON; PABLE, 2008, p. 153). 125 de facilitador; aquele que facilita o encontro dos alunos com o processo ambíguo e o contexto de incerteza associado ao desenvolvimento de projetos de Design de Interiores, que os escuta, que os encoraja a se expressar, que os estimula a refletir (AUSTERLITZ et al., 2008; ORR; YORKE; BLAIR, 2014). Nessa relação, Austerlitz et al. (2008) explica que três preceitos-chave devem ser observados. Em primeiro lugar, é preciso ter a noção de que o desenvolvimento do estudante é um processo individual e, assim sendo, cada um deve ser estimulado a desenvolver a sua própria resposta ao processo de projetação. O professor tem, então, a função de guiar e facilitar esse processo, de ajudar o aluno a encontrar o seu caminho para o projetar. De modo algum, pode exigir que o aluno conduza o projeto da forma em que ele acredita ser a melhor, pois, em Design, existem diferentes maneiras de se resolver um mesmo problema (natureza ambígua e incerta dos processos de design). É preciso discussão, argumentação, defesa de pontos de vista, e não imposição de ideias ou argumentos do tipo “é certo porque eu quero que seja”. Higgins, Aitken- Rose e Dixon (2009) explicam que a ideia é que professores e alunos trabalhem juntos em um nível profissional, havendo mudança nesse relacionamento à medida que os alunos vão adquirindo autonomia. Em segundo lugar, é preciso ter a noção de que o conhecimento é provisório, socialmente construído e está em permanente mudança, sendo essencial que o professor esteja familiarizado com o mundo da prática. Para além da academia, é importante que o professor tenha conhecimento experiencial do projetar (AUSTERLITZ et al., 2008). Guerin e Thompson (2004) igualmente acreditam na importância de os professores de prática projetual terem experiência profissional, e se essa experiência for obtida antes de assumir o cargo de professor em tempo integral, eles precisam se atualizar continuamente sobre as questões práticas. É que esse conhecimento adquirido com a experiência vivida enriquece as discussões, as argumentações, os pontos de vista, exemplifica e tangibiliza o conteúdo que se está explorando. É preciso, em terceiro lugar, ter a noção de que os estudantes devem estar engajados para que o aprender por meio do fazer funcione. A mesma responsabilidade que possuem os professores, possuem também os alunos. Afinal, o aprender fazendo está em consonância com a ideia de o próprio aluno construir o seu conhecimento, e para que esse conhecimento seja construído, é preciso haver interesse, é preciso haver disposição, é preciso haver engajamento para empregar esforços para explorar e experimentar soluções projetuais por meio da prática (AUSTERLITZ et al., 2008). 126 Desse modo, a qualidade da orientação oferecida pelo professor, com o intuito de estimular o estudante a pensar criticamente ao desenvolver possíveis soluções projetuais baseadas em uma fundamentação sólida, constitui-se ponto fundamental do processo de ensino e aprendizagem na disciplina de prática projetual (ABURAS, 2019). Sabe-se que um professor naturalmente motivado a aprender, que gosta dos e que domina os conteúdos relacionados à disciplina que leciona, tem mais chances de inspirar os seus alunos a buscarem as recompensas intrínsecas ao aprendizado (TRIGWELL, 2002). “Como em qualquer disciplina, a condição atual e futura da profissão de designer de interiores depende, em parte, da vitalidade de seus educadores” (ANKERSON; PABLE, 2008, p. 11, tradução nossa75). Como se pode observar, o aprender fazendo é um método de investigação aberta e de aprendizagem ativa, aprendizagem essa que tende a ser mais imediata e significativa – mais, ao menos, em relação ao ensino passivo de uma sala de aula convencional (HIGGINS; AITKEN-ROSE; DIXON, 2009). 4.2.3 A disciplina de prática projetual como meio para o desenvolvimento de competências profissionais mínimas do designer de interiores Como já exposto anteriormente, Higgins, Aitken-Rose e Dixon (2009) explicam que os studios são ambientes de aprendizagem onde se vivencia a aplicação da teoria e do conhecimento a problemas práticos, fornecendo aos estudantes a oportunidade de integrarem e aplicarem os conteúdos apreendidos em disciplinas teóricas. Por meio desse processo, habilidades para a prática profissional – como a capacidade para o trabalho em equipe, a colaboração, a interação, a negociação, o gerenciamento (do tempo, de si mesmo, de outras pessoas), a resolução de conflitos, a comunicação oral e gráfica, o pensamento crítico e o pensamento criativo – podem ser adquiridas. Em se tratando especificamente dos objetivos do ensino da prática projetual em Design de Interiores, espera-se que o estudante desenvolva a capacidade de pesquisar, de experimentar, de colaborar, de aplicar efetivamente o corpo de conhecimento do Design de Interiores no desenvolvimento de projetos e de apresentar as suas soluções projetuais de tal maneira que as tornem compreensíveis para o seu público de interesse (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). 75 Texto original: “As in any discipline, the current and future health ofthe interior design profession depends in part on the vitality of its educators” (ANKERSON; PABLE, 2008, p. 11). 127 Cennamo et al. (2011) destacam que os estudantes precisam aprender a gerar, a avaliar e a refinar possíveis soluções para um problema de Design de Interiores e, nesse processo, precisam aprender a colaborar – já que a colaboração entre pessoas é essencial para se enxergar determinado problema de diferentes e novas maneiras, ampliando possibilidades e refinando ideias – e a comunicar as suas ideias com clareza, usando a linguagem do Design de Interiores. De modo mais detalhado, Ankerson e Pable (2008) entendem que o processo de ensino e aprendizagem da prática projetual em Design de Interiores inclui pesquisa (investigação, seleção, análise e síntese de informação) e é permeado pelo exercitar da metodologia projetual em Design de Interiores; pelo expressar e explorar das ideias de design por intermédio de mídias gráficas, físicas, verbais e escritas; pelo criar de múltiplas soluções para um mesmo problema (explorar alternativas, tolerar a ambiguidade), simular soluções (modelagens e protótipos) e investigar e avaliar a efetividade de cada uma; pelo pensar criativamente; pelo explorar repertório histórico e cultural; pelo trabalhar de maneira colaborativa; pelo gerir dos prazos de entrega das atividades (gerenciamento do tempo); e pelo comunicar de ideias, conceitos e soluções por intermédio de apresentações efetivas e persuasivas. Do exposto, cabe, neste ponto, estabelecer um paralelo entre o processo de ensino e aprendizagem da prática projetual em Design de Interiores e o desenvolvimento das competências profissionais mínimas do designer de interiores tratadas no capítulo anterior. Quadro 6 – A disciplina de prática projetual e as competências profissionais mínimas relacionadas. Competências profissionais mínimas do designer de interiores Objetivos do processo de ensino e aprendizagem da prática projetual em Design de Interiores Capacidade criativa desenvolver a capacidade de experimentar; de criar múltiplas soluções para um mesmo problema; de pensar criativamente; Domínio da linguagem do Design desenvolver a capacidade de apresentar soluções projetuais; de comunicar ideias com clareza, usando a linguagem do Design de Interiores; de expressar e explorar as ideias de design por intermédio de mídias gráficas, físicas, orais e escritas; de comunicar ideias, conceitos e soluções; Trânsito interdisciplinar desenvolver a capacidade de interação; de trabalhar de maneira colaborativa; de aplicar teoria e conhecimento de outras áreas a problemas práticos; Visão sistêmica desenvolver o pensamento crítico; Domínio da metodologia projetual exercitar a metodologia projetual; simular soluções e investigar e avaliar a efetividade de cada uma; Visão setorial desenvolver a capacidade de aplicar teoria e conhecimento a problemas práticos, integrando e aplicando conteúdo apreendidos em disciplinas teóricas; Continua... 128 Capacidade crítica para gerenciar desenvolver a capacidade de negociar; de resolver conflitos (disputas); de gerir a si mesmo, outras pessoas e o tempo; Visão histórica e prospectiva explorar repertório histórico e cultural; Capacidade de pesquisar desenvolver a capacidade de pesquisar, ou seja, de investigar, selecionar, analisar e sintetizar informações. Fonte: elaborado pela autora com base nas fontes consultadas para a produção do texto. Sabe-se que a formação em Design de Interiores deve promover o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes que possibilitem ao futuro designer de interiores ser competente para o mundo do trabalho do Design de Interiores (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993). Nas disciplinas de prática projetual, em especial, docentes e discentes têm a oportunidade de vivenciarem a relação entre a teoria e a prática no campo profissional do Design de Interiores. Em outros termos, é por meio do ambiente de aprendizagem proporcionado pelos studios que os alunos aprendem a resolver problemas típicos de sua área de atuação ao mesmo tempo em que são introduzidos em práticas que refletem o mundo profissional do qual farão parte (ANKERSON; PABLE, 2008; CENNAMO et al., 2011). Isso porque, ali, os futuros designers de interiores são constantemente estimulados a desenvolverem as suas competências profissionais mínimas – seus saberes, seu saber fazer e seu saber ser – que contribuem para torná-lo apto ao exercício da prática profissional em Design de Interiores (CURRY; SHROYER; GENTRY, 1993; DORST; REYMEN, 2004; LOCKHEART et al., 2008). As disciplinas de prática projetual, então, oferecem ao estudante a possibilidade de aprender a desenvolver projetos de Design de Interiores, vivenciando e experimentando a materialização das etapas típicas de desenvolvimento de projetos, para o que é essencial dispor das nove competências profissionais mínimas discutidas no capítulo 3 – capacidade criativa, domínio da linguagem do Design, trânsito interdisciplinar, visão sistêmica, domínio da metodologia projetual, visão setorial, capacidade crítica para gerenciar, visão histórica e prospectiva e capacidade de pesquisar. Acredita-se, assim, que o objetivo principal das disciplinas de prática projetual é o de contribuir para o desenvolvimento de todas as competências profissionais mínimas do futuro designer de interiores. 129 CAPÍTULO 5 Estudo de caso – procedimentos metodológicos Nesta investigação, buscou-se construir uma crítica sobre o atual ensino da prática projetual em Design de Interiores, especialmente no âmbito da graduação tecnológica. Na forma de pesquisa qualitativa, adotou-se o estudo de caso, uma metodologia de pesquisa amplamente utilizada para o desenvolvimento de teses nas ciências sociais, sobretudo em áreas voltadas para a prática, como é o caso do Design e da Educação. Além do mais, os estudos de caso apresentam-se como uma pertinente metodologia de pesquisa quando se objetiva investigar um fenômeno social em profundidade, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o enfoque está em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto de vida real (YIN, 2010). No nosso caso, o objeto de estudo – o ensino da prática projetual em Design de Interiores – está inserido em um contexto de vida real, envolvendo diversos atores com características e interesses distintos, sendo influenciado por inúmeras e incontroláveis variáreis, havendo, de fato, pouco controle da pesquisadora sobre os eventos analisados. Inclusive, cabe aqui destacar que a própria presença da pesquisadora pode produzir mudanças no cenário em investigação, incitando, por exemplo, reflexões nos alunos e professores. Elegeu-se, então, o curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X76 para o desenvolvimento do trabalho. O principal fator de escolha refere-se à modalidade do curso. É que os cursos superiores de tecnologia são grande maioria dentre as possibilidades de oferta à formação profissional em Design de Interiores no Brasil – reitera-se que, atualmente, estão em atividade 278 cursos superiores no país, sendo 06 na modalidade bacharelado e 272 tecnológicos (E-MEC, 2020) –, representando uma amostra do que pode ser realidade em diversas outras instituições. Não é demais mencionar que, independentemente de qual curso ocupasse a condição de eleito, os procedimentos metodológicos aqui adotados seriam exatamente os mesmos. É que, como trata-se de um fenômeno ainda pouco investigado, esta pesquisa, mesmo configurando-se um estudo aprofundado, pode ser compreendida como uma etapa exploratória de um propósito ainda maior, que vislumbra a sua reprodução em outras tantas instituições (ideia da replicação 76 O nome da instituição de ensino superior ofertante do curso em análise foi omitido neste texto com vistas a observar o princípio da confidencialidade,preservando a instituição e os participantes do estudo de caso. 130 em diferentes condições) e, caso os resultados sejam reiteradamente confirmados, possibilita a sua generalização para contextos similares, o que Yin (2010) denomina por generalização analítica. Para elaboração e condução deste estudo de caso seguiu-se, essencialmente, as orientações de Robert Yin (2010). Em primeiro lugar, o autor explica sobre a necessidade de desenvolver uma estrutura teórica antes de iniciar a investigação em campo, como realizado nos capítulos 2, 3 e 4 deste trabalho. Isso porque, por meio dessa estrutura teórica, torna-se possível analisar e discutir os resultados obtidos; ou seja, a teoria previamente desenvolvida foi aqui utilizada como modelo com o qual os resultados obtidos em campo foram comparados, tornando-se parâmetro para o desenho de conclusões e a visualização de oportunidades de melhoria no ensino da prática projetual em Design de Interiores. Posteriormente ao desenvolvimento da estrutura teórica, e antes do início da investigação em campo, Yin (2010) orienta sobre a necessidade de definir os componentes de pesquisa explicitados abaixo: 1) as questões do estudo; 2) as suas proposições; 3) as unidades de análise; 4) a lógica que une os dados às proposições; e 5) os critérios para interpretar as descobertas. Os três primeiros componentes dizem respeito à coleta de dados, enquanto os dois últimos dizem respeito à análise dos dados coletados (YIN, 2010). No próximo tópico, apresenta-se os cinco componentes de pesquisa desta investigação. 5.1 Componentes de pesquisa 5.1.1 A questão de estudo (problema de pesquisa) Diversas são as possibilidades de enfoque quando se analisa o ensino da prática projetual em Design de Interiores – pode-se analisar o conteúdo ensinado, a forma como esse conteúdo é ensinado, os fatores externos e internos à sala de aula que influenciam os processos de ensino e aprendizagem, a transformação de abordagem didática específica ao longo do tempo, o uso de tecnologias computacionais como ferramentas de ensino, entre tantos outros caminhos possíveis. Neste trabalho, definiu-se a seguinte questão norteadora: 131 em que medida as disciplinas de prática projetual contribuem para a formação do perfil profissional almejado para os designers de interiores, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de competências profissionais mínimas? O nosso único objetivo, ao buscar respostas para essa indagação, foi identificar pontos exitosos desse processo e pontos nos quais vislumbra-se possibilidades de melhoria no ensino da prática projetual em Design de Interiores. 5.1.2 As proposições (hipóteses) Acredita-se que há certo alinhamento entre o que se ensina nas disciplinas de prática projetual em Design de Interiores e o que se almeja em termos de perfil profissional e o desenvolvimento das competências profissionais mínimas relacionadas. Entretanto, acredita-se que, em determinados pontos, o discurso sobre o perfil profissional desejável para o designer de interiores esteja incoerente com a ação, entendendo que essa ação muitas vezes se manifesta por meio do ensino da prática projetual em Decoração. Isso significa que as disciplinas de prática projetual contribuem para que os estudantes de Design de Interiores aprendam a projetar de forma híbrida, tal como um designer de interiores decorador ou um decorador designer de interiores. Além da hipótese principal apresentada, foram elaboradas duas hipóteses rivais a ela. O objetivo dessa definição foi evitar que a coleta e a análise de dados fossem, mesmo que inconscientemente, conduzidas em prol da confirmação da hipótese principal. Assim, nesta investigação, levou-se também em conta a necessidade de coletar e analisar informações que respondessem às hipóteses rivais. A primeira hipótese rival é a de que, apesar do curso superior de tecnologia em Design de Interiores estar estruturado, em seu Projeto Pedagógico, a partir do desenvolvimento de competências profissionais mínimas do designer de interiores – como é o recomendado pelo Ministério da Educação –, a realidade fática do que se experiencia em sala de aula nas disciplinas de prática projetual é o ensinar e o aprender da práxis do decorador. Ou seja, as disciplinas de prática projetual estão contribuindo para a formação de decoradores, e não de designers de interiores. A segunda hipótese rival é a de que as disciplinas de prática projetual estão, com excelência, contribuindo plenamente para o desenvolvimento das competências profissionais mínimas dos 132 estudantes, estando, dessa forma, contribuindo para a formação de designers de interiores conforme perfil profissional almejado globalmente e pelo Projeto Pedagógico do curso. 5.1.3 As unidades de análise (amostra) A unidade de análise refere-se propriamente ao “caso” que será estudado, podendo ser um indivíduo, um grupo de indivíduos, um evento ou uma entidade, sendo impreterível estar limitado no tempo e no espaço (YIN, 2010). Nesta pesquisa, foram escolhidas, como unidades de análise, as disciplinas de prática projetual do curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X. Esse curso, em sua atual matriz curricular, oferece três disciplinas de prática projetual ao longo dos seus cinco semestres de formação, mais especificamente as disciplinas de Projeto de Design de Interiores I (ou Projetos I), Projeto de Design de Interiores II (ou Projetos II) e Projeto de Design de Interiores III (ou Projetos III), situadas, respectivamente, no segundo, terceiro e quarto semestres do curso e com carga horária de 60 horas semestrais cada. Para avaliação do ensino das três supracitadas disciplinas, elegeu-se a turma do curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X que iniciou seus estudos no primeiro semestre de 2018. Assim, a coleta de dados desenvolveu-se nos três semestres letivos compreendidos entre agosto de 2018 e dezembro de 2019. A amostra, por sua vez, contemplou os dois professores responsáveis por cada uma das três disciplinas e cinco alunos colaboradores que as cursaram. Em se tratando da seleção dos discentes participantes, cabe explicar que todos os alunos dessa turma foram, no primeiro dia de aula de Projetos I, convidados a participar da pesquisa. O “desejar participar” do aluno foi critério fundamental nessa seleção (amostra por conveniência); e todos os alunos que desejaram participar foram selecionados. O interesse em colaborar e a motivação em contribuir para a melhoria do ensino do Design de Interiores foram considerados combustíveis essenciais para que houvesse disponibilidade para os diversos encontros necessários e para que o participante estivesse disposto a fornecer as informações necessárias à obtenção de resultados significativos. 133 5.1.4 A lógica que une os dados à proposição Sabe-se, seguindo o exposto por Yin (2010), que as fontes de evidência mais comumente utilizadas em estudos de casos são as entrevistas, os documentos, os registros em arquivos, as observações diretas, as observações participantes e os artefatos físicos, podendo os dados coletados serem qualitativos e/ou quantitativos. Nesta investigação, utilizou-se apenas dados qualitativos oriundos de: 1) Projeto Pedagógico de Curso (documento); 2) entrevistas semiestruturadas clínicas com professores e alunos colaboradores; 3) cadernos de bordo preenchidos com notas de aula dos professores e dos alunos colaboradores (aqui compreendido como registro em arquivo); e 4) artefatos físicos produzidos pelos professores e alunos colaboradores para as disciplinas. Seguiu-se, pois, o princípio do uso de múltiplas fontes de evidências para proporcionar o que Yin (2010) denomina por triangulação dos dados. Cabe aqui reiterar, conforme apresentado no capítulo 3, que o Projeto Pedagógico deCurso (PPC) é o documento da instituição de ensino no qual são definidos a sistematização do curso e o tipo de formação almejada para os seus egressos, sendo uma exigência do Ministério da Educação. O objetivo de analisar o Projeto Pedagógico de Curso foi compreender o perfil profissional desejado para o egresso do curso superior de tecnologia em Design de Interiores da IES-X e estabelecer uma relação entre esse perfil e a compreensão global do que se espera do designer de interiores na contemporaneidade. Ao mesmo tempo, objetivou-se identificar as competências profissionais mínimas desejáveis para os egressos do curso e relacioná-las às diretrizes do Ministério da Educação brasileiro que versam sobre a temática. De modo geral, as entrevistas estruturadas objetivaram compreender como o ensino nas disciplinas de Projetos se desenrolou ao longo de cada semestre, com enfoque na sua contribuição para a formação do perfil profissional almejado para os futuros designers de interiores, especialmente no que se refere ao desenvolvimento das competências profissionais mínimas relacionadas. As perguntas utilizadas são apresentadas no apêndice deste trabalho. O caderno de bordo, aqui tratado como registro em arquivo, foi utilizado como meio de professores e alunos colaboradores registrarem, diariamente, as suas notas de aula e as suas percepções sobre as disciplinas de Projetos. A intenção foi a de que os cadernos fossem tratados como um objeto pessoal do participante de modo que ele se sentisse à vontade para se apropriar do caderno à sua maneira. Assim como as entrevistas estruturadas, os cadernos de 134 bordo visaram possibilitar a compreensão da forma como o ensino da prática projetual em Design de Interiores se desenrolou a cada dia. Os artefatos físicos considerados neste estudo de caso foram os programas das disciplinas, elaborados pelos professores, e os trabalhos práticos, desenvolvidos pelos alunos colaboradores. O programa de disciplina é um documento elaborado pelo professor e por ele apresentado às chefias e aos alunos no início de cada semestre, no qual ele organiza a disciplina em termos de: ementa, objetivo geral, objetivos específicos, conteúdo programático, metodologia de ensino, atividades avaliativas, indicação de bibliografia e cronograma da disciplina. A sua análise, portanto, objetivou a compreensão da organização e da proposta pedagógica dos professores para cada disciplina de Projetos. Os trabalhos práticos, por sua vez, são atividades pedagógicas avaliativas comumente empregadas no ensino da prática projetual em Design de Interiores e constituem-se no desenvolvimento de projetos de Design de Interiores conforme proposta definida pelo PPC e pelos professores. O intuito de analisar esses artefatos físicos foi avaliar em que medida as competências profissionais mínimas do designer de interiores foram desenvolvidas pelos alunos colaboradores e se materializaram na execução desses projetos ao longo dos semestres. 5.1.5 Os critérios para interpretar as descobertas Neste estudo de caso utilizou-se, como estratégia analítica, o tratamento das evidências a partir de estruturação teórica (YIN, 2010). Portanto, o levantamento teórico realizado e sintetizado nos capítulos 2, 3 e 4 deste documento constituiu-se parâmetro para análise das evidências coletadas. Além disso, elaborou-se, a partir dessa revisão de literatura, um parâmetro de pesquisa – Quadro 7 –, que foi utilizado para orientar a avaliação qualitativa da contribuição das disciplinas de prática projetual para o desenvolvimento de competências profissionais mínimas do futuro designer de interiores. Explicaremos, a seguir, os procedimentos adotados para sua elaboração. 135 Quadro 7 – Parâmetro de pesquisa: competências profissionais específicas do designer de interiores organizadas conforme suas típicas etapas de trabalho. E T A P A COMPETÊNCIA PROFISSIONAL ESPECÍFICA Ao longo do exercício da prática projetual em Design de Interiores, os alunos colaboradores foram capazes de... P re li m in a r: n e g o c ia ç ã o Fb4) Precificar, de forma responsável, honorários para prestação de serviços de Design de Interiores. Fb5) Elaborar proposta de prestação de serviços de forma respeitosa. Fb5) Negociar com o cliente de forma respeitosa. E T A P A 1 : e la b o ra ç ã o d o p ro g ra m a d e p ro je to Ab5) Reunir-se com o cliente de forma respeitosa para coletar, discutir, acordar e/ou alinhar informações do programa de projeto. Cc2) Identificar e/ou definir, de forma crítica, a(s) demanda(s), o(s) objetivo(s) e o(s) problema(s) de projeto. Cc2) Analisar, de forma crítica, as necessidades, os desejos, as expectativas e as preferências do cliente, bem como as suas possibilidades financeira e de prazos. Cc2) Analisar, de forma crítica, o perfil dos usuários (ex. necessidades, expectativas, preferências, padrão de comportamento). Cc2) Analisar, de forma crítica, a estrutura familiar, empresarial, institucional ou congênere do contexto projetual. Cc2) Analisar, de forma crítica, o contexto sociocultural no qual o projeto está inserido. Cc2) Analisar, de forma crítica, o uso dos espaços (ex. atividades, rotinas, fluxos, setores) e as necessidades materiais relacionadas (ex. móveis, equipamentos, acessórios). Ec2) Analisar, de forma crítica, a situação (condições materiais) do espaço existente (ex. instalações, acabamentos, manutenção). Cc2) Analisar, de forma crítica, as condições do espaço que influenciam o conforto ambiental (ex. insolação, ventilação, ruído, iluminação natural). Ca2) Pesquisar, de forma crítica, informações complementares do contexto projetual necessárias ao desenvolvimento de soluções em Design de Interiores. Ca2) Desenvolver, de forma crítica, pesquisa com vistas à identificação de evidências que subsidiem as decisões projetuais. Da2) Identificar e analisar, de forma crítica, as normas aplicáveis ao projeto de Design de Interiores (ex. sustentabilidade, acessibilidade, biossegurança, vigilância sanitária, requisitos mínimos para infraestrutura). Dc3) Realizar, de forma detalhista, levantamento métrico do espaço. Aa2) Registrar textualmente a síntese das informações do cenário projetual (fatos) e de pesquisa (evidências) de forma crítica, observando o uso correto da língua portuguesa. E T A P A 2 : d e s . d a s o lu ç ã o p ro je tu a l Bd1) Desenvolver, de forma criativa, conceito de design para solução projetual. Bd1) Traduzir, de forma criativa, o conceito de design em solução projetual, por meio da articulação entre elementos, princípios e teorias do Design. Bd1) Articular, de forma criativa, funcionalidade e estética no desenvolvimento de solução projetual. Bd1) Desenvolver, de forma criativa, estudos para explorar possibilidades (alternativas) de solução projetual, com enfoque na composição estética e funcional dos ambientes. Cd2) Considerar, de forma crítica, as necessidades, os desejos, as expectativas, as preferências e as possibilidades financeira e de prazos do cliente no desenvolvimento de solução projetual. Cd2) Considerar, de forma crítica, o perfil dos usuários no desenvolvimento de solução projetual (ex. necessidades, expectativas, preferências, padrão de comportamento). Continua... 136 E T A P A 2 : d e s e n v o lv im e n to d a s o lu ç ã o p ro je tu a l Cd2) Considerar, de forma crítica, a estrutura empresarial, institucional, familiar ou congênere do contexto projetual no desenvolvimento de soluções. Cd2) Considerar, de forma crítica, o uso dos espaços (ex. atividades, rotinas, fluxos) e as necessidades materiais relacionadas (ex. móveis, equipamentos, acessórios) no desenvolvimento de solução projetual. Cd2) Considerar, de forma crítica, o contexto sociocultural do projeto no desenvolvimento de soluções.