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Cirurgia - Volume 2 2Medgrupo - CiClo 2: M.E.D VÍDEO DE INTRODUÇÃO Diagnóstico Diferencial (Hypothesis) Seção 1: IntroDução àS DoençaS Do trato DIgeStIvo SuperIor Esôfago Estômago Duodeno Seção 2: SínDrome DISfágIca Introdução Distúrbios Motores do Esôfago Acalásia Espasmo Esofagiano Difuso Esôfago em Quebra-Nozes Esfíncter Esofagiano Inferior Hipertensivo Motilidade esofagiana inefetiva Esclerodermia do esôfago Obstrução Mecânica do Esôfago Obstrução Extrínseca Divertículos Divertículo de Zenker Divertículo Médio-Esofágico (Parabrônquico) Divertículo Epifrênico Anéis e Membranas Disfagia Lusória e Sling de Artéria Pulmonar Tumores Benignos e Malignos Estenose Péptica Esofagites Esofagite de Refluxo Esofagite Química Esofagite Infecciosa Candidíase Esofágica Esofagite Herpética Esofagite por CMV Seção 3: SínDrome DISpéptIca e Drge Introdução Síndrome diSfágica e diSpéptica cirurgia - VOLuME 2 Doença do Refluxo Gastroesofágico Doença Ulcerosa Péptica Complicações Agudas das Úlceras Pépticas Síndrome de Zollinger-Ellison (SZE) Gastrites Gastrites Agudas Gastrite Erosiva Aguda Gastrite Aguda pelo H. Pylori Outras Gastrites Infecciosas Agudas Gastrites Crônicas Gastrite Antral pelo H. Pylori Pangastrite Crônica pelo H. Pylori Gastrite Crônica Autoimune Outras Formas (Raras) de Gastrite Gastropatias Crônicas Doença de Ménetriér Ectasia Vascular Antral Gastropatia Hipertensiva Portal Outras Causas de Dispepsia Duodenites Câncer Gástrico Doença Biliar Dispepsia Funcional Seção 4: outraS DoençaS Do trato gaStroInteStInal SuperIor Hérnia de Hiato Síndrome de Mallory-Weiss Perfuração Esofágica Malformações Congênitas Atresia do Esôfago Estenose Hipertrófica do Piloro Atresia Duodenal meD r3 cIrurgIa geral Área de Treinamento M.E.D QueStõeS De concurSoS comentárIoS M.E.D - 2019 2019 http://#scrolldown http://#videomiolo=intro_13698 http://#page=19 http://#page=3 http://#page=26 http://#page=52 http://#page=114 http://#page=128 http://#page=150 4 Caso 1 Sr. Luís e sua esposa Maria, os dois com 75 anos, eram um casal exemplar. Comemoraram as bodas de ouro com um beijo “molhado” de 5 minutos, deixando inveja nos casais mais novos e par tiram para mais uma lua-de-mel em São Lourenço. Alguns meses após a festa, no entanto, D. Maria começou a evi tar os extensos beijos.. . Tudo isso por conta do terrível háli to que seu marido passou a exalar! Na época, tal repulsa foi inclusive relacionada ao emagrecimento que o Sr. Luís começava a apresentar. Sentia sempre um bolo na garganta após as refeições que aliviava após compressão com deslizamento dos dedos para cima. Durante uma das internações por broncoaspiração, foi passado um cateter nasogástrico para tentativa de dieta enteral. Sem sucesso no procedimento, o quadro clínico “degringolou”. Em 48h, o homem estava séptico, com franca instabilidade hemodinâmica e teve de ser transferido para a UTI. Neste momento, uma TC de tórax traz à tona achados reveladores (figura). Pergunta-se: Qual a principal hipótese diagnóstica para o quadro inicial desenvolvido por Seu Luís e que complicação ocorreu com ele? Identifique as imagens de endoscopia apresentadas: http://#scrolldown http://#page=226 http://#page=227 5 Caso 2 Era para ser mais uma sexta-feira comum: resolver as pendengas da enfermaria, acelerar o atendimento do ambulatório e pensar na chopada no final da tarde... Mas este dia se revelava diferente, pois os nervos estavam à flor da pele! Todos os internos se preparavam para o evento mais esperado do ano no Hospi tal Universi tário: a sessão clínico-radiológica... Nas sombras dos corredores, podiam-se ouvir sussurros anunciando que algumas daquelas imagens seriam utilizadas na segunda fase do concurso de residência no final do ano. O caso clínico era simples, mas a intenção era entender a descrição dos achados radiológicos.. . Gravadores, câmeras, tablets e até os celulares estavam proibidos, mas ninguém se incomodava; o mais impor tante era fazer par te do grupo seleto de internos que tinham essa informação, digamos, privilegiada. Ambiente em penumbra, silêncio sepulcral e olhos fixados em cada detalhe que viesse a aparecer. imagem projetada Seguiam-se as perguntas.. . Descreva as alterações Radiológicas: Passaram-se 2 minutos e o R2 começou a lei tura do caso... Paciente de 50 anos, com disfagia de condução, principalmente para alimentos sólidos, história de 3 episódios de pneumonia por broncoaspiração nos últimos meses e vômitos com alimento não digerido. Indique o diagnóstico mais provável e sua origem: Indique o principal método diagnóstico a ser utilizado para confirmar sua hipótese: http://#scrolldown http://#page=228 http://#page=229 http://#page=230 6 Qual complicação deve ser esperada e temida, em longo prazo? Cite duas doenças que podem originar este quadro: Caso 3 Seguiam-se as perguntas.. . Descreva a alteração. Indique a provável causa. Qual a clínica esperada? Existe tratamento? http://#scrolldown http://#page=231 http://#page=232 http://#page=233 http://#page=234 http://#page=235 http://#page=236 7 Caso 4 Seguiam-se asperguntas.. . Descreva as manifestações clínicas deste paciente: Qual é o diagnóstico provável e o principal diagnóstico diferencial? Como você faria para diferenciar entre estas duas condições, apenas com dados clínicos? Caso 5 Duas coisas vêm incomodando bastante Dona Raimunda. A primeira - e mais antiga - é uma dor que, sem mais sem menos, surge nos dedos de ambas as mãos. Quando o quadro se instala, os dedos ficam meio azulados, frios, dormentes e doloridos, por vários minutos, mas dona Raimunda, já acostumada, pressente o retorno à normalidade, anunciado por um estranho formigamento nas mãos. O dedo anular da mão direi ta já apresenta uma pequena ulceração cicatrizada... A outra queixa desta senhora é mais recente e diz respei to a uma cer ta dificuldade para ingerir suas refeições. Tanto faz o tipo de comida, desde carne assada e arroz com pequi (seu prato predileto) à sopa de cebola. Até para beber líquidos está tendo dificuldades. Se Dona Raimunda força a alimentação, engasga na hora e começa a tossir. http://#scrolldown http://#page=237 http://#page=238 http://#page=239 8 Qual a sua hipótese diagnóstica para o caso? Até para o nariz reflui o conteúdo das garfadas. Uma endoscopia, recentemente realizada, não revelou nenhuma anormalidade significativa, exceto por uma discreta esofagi te de refluxo. Dona Raimunda até estranhou, pois, há mui tos anos, ela sente uma dor retroesternal em queimação, geralmente no período pós-prandial, que jurava ser “gastri te”. Ultimamente, Dona Raimunda tem ficado mui to em casa, num desânimo total. Abatida, mal consegue se locomover em sua própria casa. Ao exame físico, apresenta telangiectasias em tronco, além de enrijecimento da pele dos dedos das mãos, que se encontra tensa e brilhante, com a pequena ulceração cicatrizada já ci tada. O restante do exame é normal. Qual seria o tratamento para a paciente? Como você confirmaria sua hipótese? http://#scrolldown http://#page=240 http://#page=241 http://#page=242 9 Caso 6 Há algum tempo, o Sr. Juvenal, 50 anos de idade, queixa-se de um cer to “gosto amargo na garganta”. Já se consultou com diversos clínicos e até mesmo dentistas da sua cidade, sem sucesso, até ser encaminhado ao hospital onde você é interno. Ele refere que, há 6 meses, sente um “gosto amargo na garganta”, quase diariamente, principalmente à noite. Algumas vezes, acordou expelindo um líquido salgado, de gosto ruim. Eventualmente (cerca de 1x/semana), sente dor epigástrica e retroesternal em queimação, que é prontamente aliviada pelo uso de “leite de magnésia”. Nega perda ponderal ou outros sintomas, incluindo disfagia e odinofagia. Não apresenta qualquer comorbidade conhecida (exceto obesidade) e o exame físicoé normal. Traz alguns exames laboratoriais solicitados pelo último médico com o qual se consultou (hemograma, hepatograma, glicemia de jejum, bioquímica básica), todos com resultado normal. Qual é a sua principal hipótese diagnóstica, baseando-se na história apresentada? Por quê? Qual procedimento diagnóstico está indicado nesse caso? Caso não houvesse resposta a sua conduta inicial, qual seria o procedimento a ser realizado a seguir? Qual o tratamento de escolha para este paciente? Existe alguma medida compor tamental indicada? Dentro de quanto tempo ele deve ser reavaliado? http://#scrolldown http://#page=243 http://#page=244 http://#page=245 http://#page=246 10 Cite 2 diagnósticos possíveis, considerando a evolução da doença inicial do paciente. O paciente não retornou ao hospi tal na data prevista. Porém, 3 anos depois, com você já residente, o Sr. Juvenal retorna referindo “dificuldade para comer”. Disse que fez o tratamento proposto por você no passado e eventualmente os sintomas voltavam. No momento, refere apenas sensação de “entalo” do alimento iniciada há cerca de 3 meses, após as refeições e perda de 5 Kg neste período. Você solici tou endoscopia digestiva alta, que trouxe o seguinte laudo: “esôfago distal afilado, com áreas de epi télio vermelho-salmão até 3 cm acima da junção esofagogástrica. Foram realizadas biópsias”. Qual é o diagnóstico provável? E o resultado provável da biópsia? Considerando o diagnóstico proposto na questão 6, você espera que os sintomas de refluxo deste paciente tenham melhorado ou piorado recentemente? Por quê? Dentro de quanto tempo você solici taria uma nova EDA? http://#scrolldown http://#page=247 http://#page=248 http://#page=249 http://#page=250 11 Caso 7 Marquinho Semperdão, 56 anos, ex-traficante, procurou o seu ambulatório, queixando-se de pleni tude pós-prandial e dor epigástrica há cerca de 4 meses. Não procurou atendimento antes, pois atribuiu os sintomas à ansiedade de sair da prisão e reassumir seu comando. Nega disfagia, emagrecimento ou outros sintomas. Desconhece história de câncer na família. Refere apenas que um de seus seguranças apresenta clínica semelhante. O exame físico é inteiramente normal. Foi solici tada uma endoscopia digestiva alta para este paciente, logo na 1a consulta? Você concorda? Justifique. A endoscopia mostrou a presença de uma úlcera com diâmetro de cerca de 2 centímetros na incisura angular. Quais seriam os próximos passos? Qual seria a conduta posterior ao tratamento da úlcera? Caso o paciente fosse por tador de ar tri te crônica de joelhos em uso regular de anti-inflamatórios, qual é a classe de AINEs mais apropriada neste caso? Justifique. http://#scrolldown http://#page=251 http://#page=252 http://#page=253 http://#page=254 12 Tomás, 56 anos, corretor da bolsa de valores, teve uma úlcera péptica duodenal diagnosticada há 6 meses. Na ocasião, sua biópsia demonstrou a presença de H. pylori, que foi tratado com amoxicilina e clari tromicina além de omeprazol. Desde então, o “pobre” corretor permanece sintomático a despei to do uso do inibidor de bomba de próton e sonha com o dia em que se verá livre das fatídicas dores em queimação. Na busca por alívio, procurou novamente seu médico que decidiu averiguar se houve realmente erradicação da bactéria. Frente a um teste de urease respiratória negativo e a uma sorologia para H. pylori posi tiva, foi indicado, então, o tratamento cirúrgico. Caso 8 Você indicaria um novo tratamento contra o H. pylori para este paciente, baseado na sorologia posi tiva? Justifique. Você concorda com a indicação cirúrgica? Justifique. Comente sobre as principais opções cirúrgicas para este paciente. http://#scrolldown http://#page=255 http://#page=256 http://#page=257 13 Caso 9 Dona Ger trudes, 56 anos, foi submetida, há 3 meses, à vagotomia troncular com antrectomia e reconstrução do trânsi to à Billroth II, devido à úlcera péptica refratária ao tratamento clínico, mesmo após erradicação do H. pylori. Foi realizada endoscopia digestiva alta na semana passada, que evidenciou apenas hiperemia da mucosa gástrica, sem presença de úlcera. Retorna hoje ao ambulatório de Cirurgia Geral com queixa de dor abdominal há cerca de 1 mês.. . Situação B: Refere que a dor predomina no período pós-prandial, sendo refratária ao uso de analgésicos. A paciente relata que só há melhora da dor após vomitar um líquido amarelado – geralmente o vômito é em jato. Si tuação A: Refere que a dor abdominal é contínua, em queimação, associada a vômitos biliosos. Relata que nem o uso de analgésicos nem os episódios de êmese aliviam consideravelmente a dor. Qual é a principal hipótese diagnóstica? Qual é o tratamento? Qual é a principal hipótese diagnóstica? Qual é o tratamento? http://#scrolldown http://#page=258 http://#page=259 http://#page=260 http://#page=261 14 Era mais uma das dezenas de vezes que Margareth, 55 anos, vendedora de jóias, usava seu plano de saúde para atendimento emergencial com história de dor lombar. Ela sabia até recei tar os AINEs, mas solici tava sempre meperidina, pois só assim obtinha o alívio da dor, além do bem estar.. . E sempre conseguia!!! Carregava o laudo de uma EDA com a presença de úlceras. Um dos médicos que a atendeu, ao avaliar a urografia excretora fei ta 2 meses antes, ficou mais surpreso com a alteração na coluna lombar, do que com a via urinária (figura 1). Conversou rapidamente com ela e descobriu apenas uma história de diarreia e lactorreia. Estranhando os achados, resolveu ajudar no quadro li tiásico renal, orientando medidas de tratamento crônico. Mesmo descrente, ela ia para casa mais tranquila, sem dor; embora tivesse a noção de que, mais cedo ou mais tarde, retornaria com novo episódio álgico. Já tentara tratamento profilático, mas nada adiantava... Nem as úlceras tinham solução!!! Tratou e fez controle de cura para H.pylori, não tomava AINEs mas, assim como os cálculos, as úlceras não iam embora. Mal passou o mês e Margareth retorna ao serviço de emergência.. . Desta vez, a queixa era de dor abdominal. Solici tada rotina de abdome agudo, encontrando o achado abaixo (figura 2). Caso 10 De acordo com os dados acima, qual seria a sua principal hipótese diagnóstica? Justifique. Em relação ao quadro ulceroso, qual é a sua principal hipótese? Como você confirmaria? http://#scrolldown http://#page=262 http://#page=263 15 Qual a alteração presente no RX de tórax e o que ocasionou o quadro clínico de dor abdominal na paciente? Como tratar o quadro ulceroso de acordo com a sua hipótese? Na tranquilidade do plantão de emergência do internato, você tenta colocar em dia as apostilas do MED... Contudo, sua atenta lei tura da apostila de “Síndrome Dispéptica” é subi tamente interrompida pela chegada de uma paciente com hemorragia digestiva. Instintivamente você se levanta e inicia o atendimento junto com o residente de Cirurgia Geral. Trata-se de uma mulher de 57 anos com hematêmese e melena profusas iniciadas há cerca de 3 horas. O marido relata que há cerca de 3 meses ela sente queimação e dor epigástrica, principalmente pós-prandial. Inicialmente havia alívio parcial dos sintomas com uso de hidróxido de magnésio, contudo os sintomas pioraram, o que motivou uma consulta com o clínico e uma endoscopia digestiva alta há cerca de 2 meses, sendo diagnosticada “úlcera gástrica”. Vinha em uso irregular de omeprazol 20 mg/dia e fez tratamento com antibiótico durante uma semana devido à presença de “bactéria no estômago”. É acompanhada há mui tos anos pelos serviços de Clínica Médica e Cardiologia no hospi tal devido a hiper tensão ar terial e fibrilação atrial paroxística, estando atualmente compensada em uso de enalapril (20 mg de 12/12 horas), atenolol (50 mg/dia), hidroclorotiazida (25 mg/dia) e warfarin (5 mg/dia). O último INR, há 2 dias, foi de 2,2. Ela pesa em torno de 50 kg. O exame físico da paciente é descri to a seguir:Regular estado geral, lúcida, orientada, hipocorada ++/4+, desidratada ++/4+, taquipneica em ar ambiente, agi tada, sudoreica, acianótica, anictérica e afebril. RCR 2T BNF, sem sopros, PA = 78 x 56 mmHg (sentada) e FC = 110 bpm. Ver tigem ao se levantar, não permitindo aferição da PA de pé. MVUA sem RA, FR = 26 irpm. Prescrição http://#scrolldown http://#videomiolo=PRESCRICAO_MEDICA_MEDCIR02_2017 http://#page=264 http://#page=265 16 Abdome atípico, flácido, peristalse presente, difusamente doloroso à palpação, principalmente em epigástrio. Sem sinais de irri tação peri toneal. Membros inferiores e superiores com extremidades frias. O residente, sabendo que você lia justamente o capítulo de doença ulcerosa péptica, pede que você o ajude com a prescrição enquanto ele atende os dois poli traumatizados que acabam de chegar. Vamos lá? ID: V.S.S., sexo feminino, 61 anos, natural de SP, internada em insti tuição psiquiátrica. Queixa: “paciente não está mais comendo”. HDA: a história foi colhida com o psiquiatra que assiste a paciente: trata-se de uma mulher de 61 anos, com diagnóstico de esquizofrenia hebefrênica, internada há 8 anos em insti tuição psiquiátrica. Esta paciente apresenta, há cerca de 3 meses, disfagia baixa para sólidos e regurgi tação alimentar, mas tolerava bem dieta pastosa e líquida – mesmo assim, perdeu 17 kg no período. Há 2 meses, foi submetida a EDA que evidenciou esofagi te de refluxo grau IV de Savary-Miller (estenose péptica), sem outras alterações, sendo então iniciado tratamento com omeprazol 80 mg/dia e domperidona 10 mg antes das refeições. Vinha evoluindo com manutenção da disfagia, até que, há cerca de duas semanas, a enfermagem observou que a paciente não estava mais se alimentando, nem com sopa, apresentando já disfagia de condução para sólidos e líquidos, provavelmente contínua (a paciente não informa bem). Neste período de 3 meses desde o início dos sintomas, http://#scrolldown http://#videomiolo=DESAFIO_DIAGNOSTICO_MEDCIR02_2017 http://#page=266 17 apresentou dois episódios de pneumonia sem cri térios de gravidade, que foram tratados com amoxicilina-clavulanato. HPP: faz uso de clozapina 600 mg/dia, além dos dois medicamentos já ci tados. É por tadora de beta-talassemia minor, sendo o restante da história pregressa desconhecido. HFisiol: NDN HFamiliar: NDN HSocial: ex-tabagista (40 maços-ano, parou de fumar há 8 anos). Exame físico: acordada, desorientada, hipocorada +++/4+, desidratada ++/4+, eupneica, acianótica, anictérica, afebril, sialorreia abundante, PA = 90 x 66 mmHg, FC = 82 bpm, peso = 42 Kg. Cabeça e pescoço: tireoide palpável, sem alterações, ausência de linfonodomegalias. ACV e AR: sem alterações. Abdome: escavado, indolor, sem massas ou visceromegalias palpáveis. MMII: sem edema e pulsos periféricos preservados. Exame neurológico sumário sem alterações. Hemograma da véspera: Hb 10,8 g/dl, Ht 32%, Leucóci tos 5.500/mm3 (diferencial normal), plaquetas 400.000/mm3, VCM 74 fl, HCM 25 pg, RDW 12%, hematoscopia com hemácias em alvo. No dia seguinte a paciente foi submetida a uma esofagografia, que revelou a imagem a seguir: Qual seria sua principal hipótese diagnóstica para as alterações do hemograma desta paciente? Justifique. Você consideraria, neste caso, que a presença de sialorreia é indicativa de disfagia de transferência, e não condução? Justifique. Cite três hipóteses diagnósticas plausíveis para a disfagia desta paciente, além da estenose péptica já ci tada, considerando apenas a história fornecida. http://#scrolldown http://#page=267 http://#page=268 http://#page=269 18 Qual é a conduta? Qual passa a ser sua principal hipótese diagnóstica? Justifique, a par tir de detalhes do exame. http://#scrolldown http://#page=270 http://#page=271 Cirurgia - Volume 2 19Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Esôfago amos tratar de um tema extremamente importante na sua vida médica e também nas provas: as doenças do trato digestivo superior. Queixas como pirose, azia e disfagia são extremamente comuns na prática médica, e você, mesmo não sendo cirurgião nem clínico, deverá saber identificar os “sinais de alarme” que o farão desconfiar de uma doença mais grave, assim como indicar a abordagem diagnóstica inicial. Além do mais, as doenças aqui estudadas são assuntos extremamente comuns nas provas de Cirurgia, Clínica Médica e Pediatria. Ou seja, esta apostila é “imperdível”, sob todos os aspectos... Iniciaremos revisando a anatomia e a fisiologia dos órgãos que compõem o trato digestivo superior, de forma rápida e que certamente ajudará a entender melhor os processos patológicos que acometem o trato digestivo superior. Depois passaremos ao estudo das duas grandes “síndromes” relativas a esta apostila: as síndromes disfágica e dispéptica, com o devido diagnóstico diferencial no início de cada capítulo. Nesses capítulos estarão as nossas duas grandes “estrelas”: a Doença Ulcerosa Péptica e a Doença do Refluxo Gastroesofágico. Por fim, estudaremos as outras doenças relacionadas ao trato digestivo superior, com especial destaque para as malformações congênitas, tema sempre cobrado nas provas de Pediatria. E então, vamos lá? Introdução às doenças do trato dIgestIvo superIor V Figura 1 - Relações anatômicas do esôfago. O esôfago é um tubo de estrutura musculo- membranosa, oco, com comprimento médio de 25 cm. É uma continuação da faringe, começando no nível da cartilagem cricoide (altura da vértebra C6), sendo sua porção proximal posterior à laringe e à traqueia. Atra- vessa o mediastino posterior entre o coração e a coluna vertebral, tendo relação próxima com o átrio esquerdo. Do seu lado esquerdo, passa a aorta descendente. Atravessa o hiato esofagiano do diafragma, percorrendo 5-8 cm no abdome antes de se unir ao estômago, no nível da vértebra T11. No início do seu trajeto, o esôfago acomoda-se mais para a esquer- da. Durante sua descida, ao chegar ao nível da carina ele é jogado para direita devido ao arco aórtico, retornando novamente para esquerda ao cruzar o diafragma e se inserir no estômago. O esôfago é separado da faringe pelo Es- fíncter Esofagiano Superior (EES) e do es- tômago pelo Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI). Além disso, possui outra constrição fisiológica na altura do seu cruzamento com o arco aórtico. Pode ser dividido anatomi- camente em 3 porções: cervical, torácica e abdominal. 19 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 20Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Mucosa Formada por epitélio escamo- so, exceto nos 1 a 2 cm distais, que são constituídos por epité- lio colunar juncional (linha “Z”: junção escamocolunar). Submucosa É uma camada espessa e rica em gordura, que permite ampla mobilidade da mucosa. Contém as glândulas de muco e o plexo de Meissner, além de vasos sanguíneos e linfáticos. Muscular A camada interna é constituída por fibras musculares circula- res (circular interna), enquanto a externa é formada por fibras musculares longitudinais (lon- gitudinal externa). Entre elas existe o plexo de Auerbach (cé- lulas nervosas ganglionares). Adventícia Camada mais externa do esôfa- go, constituída por tecido fibro- alveolar frouxo – o que facilita a disseminação de tumores, pois não existe serosa. Sua parede é constituída por mucosa, submu- cosa, muscular e adventícia (ATENÇÃO: não possui serosa) – acompanhe pela FIGURA 2: Figura 2 - Camadas do esôfago. OBS.: Os plexos de Meissner e Auerbach são o sistema nervoso autônomo intrínseco do esôfago. Veja como esses conceitos iniciais podem ser cobrados: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – RJ A transição de epitélio escamoso para epité- lio juncional colunar no esôfago ocorre no nível do(a): a) Linha Z. b) Triângulo de Killians. c) Área de Laimea. d) Colar de Helvetius. Se você não deu tanta importância para este início, volte e dê uma olhada novamente... A junção esofagogástrica é denominada ENDOS- COPICAMENTE como LINHA Z, identificada pela coloraçãodistinta entre o epitélio escamo- so e o colunar, respectivamente das mucosas gástrica e esofágica, representando a junção escamocolunar. Resposta correta, letra A! Importante A musculatura do terço superior do esôfago, faringe e Esfíncter Esofagiano Superior (EES) é estriada. A musculatura dos 2/3 inferiores do esôfago e Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI) é lisa. Quem nutre o esôfago? • Terço superior: ramos das artérias tireoidia- nas inferiores e brônquicas. • Terço médio: ramos esofagianos da aorta e das artérias brônquicas. • Terço inferior: ramos das artérias gástrica esquerda e frênicas inferiores. Como é a drenagem venosa do esôfago? A drenagem venosa do esôfago é feita a partir de um plexo submucoso (como se fosse uma rede ou malha de veias...), que se comunica com veias colaterais presentes na face externa do órgão. Essas, por sua vez, apresentam a seguinte drenagem: (1) O terço superior do esôfago drena para as veias jugulares e daí para a cava. (2) O terço médio drena para o sistema ázigo e daí para a cava. (3) O terço inferior do esôfago e o fundo gás- trico possuem um amplo plexo venoso submu- coso com drenagem direta para a veia cava inferior e também para o sistema porta. É a partir desse plexo venoso que são formadas as varizes de esôfago, nos casos de hipertensão porta – assunto que você pode ver em outra apostila do MED... Observe, na FIGURA 3, que apenas a dre- nagem do terço inferior do esôfago passa pelo sistema porta. Figura 3 - Observe o plexo venoso submu- coso do esôfago. Qual é a função do esôfago? A função básica do esôfago é fazer o trans- porte do alimento da boca ao estômago. E http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 21Medgrupo - CiClo 2: M.E.D secundariamente impedir que esse alimento retorne do estômago. Como ele consegue levar o alimento até o estômago? Leia essa parte com muita calma, para que você realmente entenda o que ocorre... Não se preocupe em decorar, apenas acompanhe olhando para as FIGURAS 4 e 5... Como você sabe, tanto o ar que respiramos quanto o alimento que comemos inicialmente se- guem um mesmo caminho, através da faringe. A faringe se bifurca em dois caminhos distintos, um para as vias aéreas (laringe e posteriormente traqueia) e outro para o trato digestivo (esôfago). A “entrada” da laringe é protegida por uma es- trutura chamada epiglote, que, na maior parte do tempo, fica aberta, permitindo o fluxo do ar. Enquanto isso, o Esfíncter Esofagiano Superior (EES) permanece fechado, impedindo que o ar vá para o tubo digestivo... Figura 4 Está pronto para continuar? Acompanhe pela FIGURA 5! Quando deglutimos (engolimos) um alimento, a glote se fecha (impedindo que o alimento siga para a laringe) e os esfíncteres esofagianos superior e inferior se abrem, deixando o esôfago livre para a passagem do bolo alimentar. Os neurônios dos plexos de Meissner e Auerbach (sistema nervoso autônomo intrínseco do esôfago) são responsáveis pela formação de uma onda peristáltica primária, que se inicia na porção superior do esôfago, estimulada pela Figura 5 - Deglutição passo a passo. chegada do alimento e“empurra” o alimento até chegar ao estômago. O processo todo, da deglutição até a chegada do bolo alimentar ao estômago, leva menos de 10 segundos! Caso o alimento não chegue ao estômago através da onda peristáltica primária, sua permanência no esôfago distende o órgão, le- vando ao surgimento de ondas peristálticas secundárias, visando também “empurrar” o alimento para o seu destino... Existem ainda as ondas peristálticas terciárias, movimentos não sincronizados que podem ocorrer espon- taneamente ou associados à deglutição. Veja mais essa! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL ALVORADA – SP Durante a deglutição, o alimento é impulsio- nado por meio de contrações musculares chamadas de ondas peristálticas que podem ser primárias, secundárias e terciárias. Assi- nale quanto a sua fisiologia. a) Ondas primárias são iniciadas pela deglutição. b) Ondas secundárias são voluntárias. c) Ondas terciárias são ondas fisiológicas en- contradas na maioria dos pacientes. d) Ondas terciárias são propulsivas. Como acabamos de ver. A onda primária é iniciada com a deglutição. Tem caráter pro- gressivo até a porção distal do esôfago, ten- do como função a transferência do alimento até o estômago. As secundárias são iniciadas pela DISTENSÃO e/ou IRRITAÇÃO da mu- cosa esofágica quando um alimento não consegue ser transferido pela peristalse pri- mária. É como se fosse o mecanismo para levar os resíduos que não completaram seu trajeto com as ondas primárias. Já as terciá- rias são ondas NÃO PROGRESSIVAS, NÃO PERISTÁLTICAS, MONO OU MULTIFÁSI- CAS e INCOORDENADAS. Podem ocorrer espontaneamente ou associadas à degluti- ção. Logo, resposta letra A. Resumindo: • Enquanto respiramos: epiglote aberta, EES fechado. • Quando deglutimos: epiglote fechada, EES e EEI abertos peristalse primária (em res- posta à deglutição) peristalse secundária (em resposta à distensão esofagiana pelo bolo alimentar). Como o esôfago consegue impedir o retor- no do alimento? Através da contração do Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 22Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O esôfago possui dois esfíncteres: o superior, que permanece fechado e impede a entrada de ar durante a inspiração; e o inferior, que impede o refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago. Quais são os principais sintomas esofa- gianos? Regurgitação retorno do alimento do estômago para o esôfago, podendo levar à broncoaspiração. Geralmente associada à Pirose queimação retroesternal. Cólica esofagiana dor torácica (retroes- ternal) de forte intensidade, que às vezes irradia para os membros superiores, man- díbula e região dorsal. Pode ser deflagrada por atividade física, tendendo a melhorar com nitrato – OU SEJA, PODE SER IGUAL À ANGINA PECTORIS!!! Hematêmese eliminação de sangue através de vômitos. Pode ser causada por erosões da mucosa, rotura de varizes de esôfago... Odinofagia dor ao deglutir. Disfagia é o principal sintoma esofagia- no!!! Significa “dificuldade para comer”. Pode ocorrer logo na deglutição (disfagia de transferência ou orofaríngea) ou na con- dução do bolo alimentar até o estômago (disfagia de condução ou esofagiana). Estômago Figura 6 - Divisões anatômicas do estô- mago. O estômago é dividido em cinco regiões ana- tômicas principais (veja a figura). 1- Cárdia (complexo esfincteriano). 2- Fundo. 3- Corpo. 4- Antro. 5- Piloro (complexo esfincteriano). A incisura angular marca a transição do corpo com o antro gástrico na pequena curvatura, sendo essa região uma importante sede de úlcera péptica gástrica e câncer gástrico... O estômago é revestido em sua maior parte pelo peritônio. Este revestimento forma a se- rosa, que é a camada mais externa do órgão. Quem nutre o estômago? A maior parte da vascularização do estômago provém do tronco celíaco. As quatro principais artérias que nutrem o ór- gão são: artéria gástrica direita, que é ramo da artéria hepática própria; artéria gástrica esquerda, ramo direto do tronco celíaco. Essas duas correm ao longo da pequena curvatura; artéria gastroepiploica (ou gastromental) di- reita, ramo da artéria gastroduodenal; e gastro- epiploica esquerda, ramo terminal da artéria esplênica, que correm ao longo da grande curvatura. Além desses vasos principais, temos as artérias gástricas curtas, que são ramos da esplênica e irrigam o fundo gástrico. Como é a drenagem venosa do estômago? As veias correm paralelamente às artérias e fazem a drenagem para o sistema porta. É por essa razão que a hipertensão porta pode levar ao quadro de gastropatia congestiva portal. Quais são as células do estômago? O estômago é revestido por epitélio colunar (cilíndrico), no qual se observam numerosas depressões, chamadas criptas ou fovéolas gástricas. De acordo com a região anatômica,predominam determinados tipos celulares nas criptas. As criptas do corpo e fundo gástrico, que contêm as células parietais (ou “glândulas oxínticas”). Os tipos celulares mais importan- tes do estômago são: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 23Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Tipo celular Células parietais ou oxínticas Células principais ou zimogênicas Células G Células ECL Células D Células mucosas ou foveolares Localização Corpo e fundo Corpo e fundo Antro Corpo Corpo e antro Todo o estômago Função Produção de ácido e fator intrínseco Produção de pepsinogênio Produção de gastrina (principal estimulante da secreção ácida) Produção de histamina (estimulante da secreção ácida) Produção de somatostatina (inibidora da gastrina reduz a secreção ácida) Produção de muco e bicarbonato (proteção da mucosa gástrica) Figura 7 - Representação de glândula oxíntica do corpo gástrico, com detalhe para a secreção ácida. Como a secreção ácida é controlada? O ácido clorídrico (HCl) é secretado pelas cé- lulas parietais por ação da bomba de prótons (H+/K+ATPase), segundo o estímulo de três substâncias: 1- ACETILCOLINA; 2- HISTAMINA; 3- GASTRINA: • A acetilcolina é liberada pela estimulação vagal do estômago, que por sua vez é in- fluenciada pela visão, olfato, paladar, mas- tigação, etc., bem como durante o sono; • A histamina vem das células Enterocroma- fins-Like (ECL), localizadas na mucosa do estômago (próximo às células parietais); • A gastrina é produzida pelas células G do antro gástrico em resposta a diversos estí- mulos, tais como: - Aumento do pH do conteúdo gástrico; - Presença de peptídeos ou proteínas die- téticas, principalmente aquelas ricas em fenilalanina e tirosina. O pH alcalino intraluminal estimula a secre- ção de gastrina, enquanto o aumento da acidez gástrica a inibe. A gastrina tanto es- timula as células parietais na sua secreção ácida (principalmente através da ativação das células ECF a liberar histamina local), quanto as faz proliferar (efeito trófico). A inibição fisiológica da produção de gastrina pelo HCl é mediada pela somatostatina, produzida e secretada pelas células D, que ficam lado a lado com as células G do antro. A supressão da somatostatina provoca hipergastrinemia e hipercloridria. Veja como se dá a ação da somatostatina: Figura 8 - Desenho esquemático, mostrando as defesas gástricas mediadas pelas prostaglandinas. • Pré-epiteliais (tentam impedir que o ácido atinja o epitélio): muco, bicarbonato. • Epitélio (com alto potencial de regeneração). • Subepitelial: fluxo sanguíneo da mucosa. 1- Muco É um gel produzido pelas células mucosas, que forma uma camada fina e protetora sobre a mucosa. A espessura da camada de muco somatostatina gastrina HCl somatostatina gastrina HCl Como a mucosa gástrica suporta o pH áci- do do estômago? A mucosa possui diversos mecanismos de defesa... Como você pode acompanhar pela FIGURA 8, as barreiras são: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 24Medgrupo - CiClo 2: M.E.D aumenta com a elevação da produção de pros- taglandinas. Assim, o uso de anti-inflamatórios não hormonais (inibidores da síntese de pros- taglandinas) reduzem esse muco protetor. 2- Bicarbonato Também produto das células mucosas, a maior parte do bicarbonato fica entre a mucosa e a camada de muco, não alcançando a luz do estô- mago (funciona como uma proteção potencial). 3- Regeneração Celular A rápida regeneração celular da mucosa do trato gastrointestinal é um importante fator protetor, reparando as células comprometidas e evitando a progressão das lesões. 4- Fluxo Sanguíneo da Mucosa A mucosa, tanto do estômago quanto do duodeno, é amplamente vascularizada por capilares – o fluxo sanguíneo nutre o epitélio regenerador e remove o ácido que poderia se difundir através da mucosa, principalmente se esta for lesada... E as prostaglandinas? As prostaglandinas são mediadoras de todas as ações acima: estimulam a produção de muco e bicarbonato, a regeneração celular e o fluxo sanguíneo da mucosa. Por isso, a inibição da síntese das prostaglandinas reduz as defesas da mucosa gástrica – Agora você entende o porquê de o uso dos anti-inflamatórios não hormonais (inibidores da síntese de prostaglan- dinas) ser tão associado à úlcera péptica... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Ao realizar uma antrectomia por doença ulce- rosa péptica, é feita uma ressecção das glân- dulas do estômago, predominantemente, ca- racterizadas por células: a) G - produtoras de gastrina. b) Secretoras - produtoras de muco. c) Principais - produtoras de pepsinogênio. d) Parietais - produtoras de ácido clorídrico. Agora ficou mais fácil!!! O grande objetivo da antrectomia é a total ressecção de todas as células G secretoras de gastrina para cor- rigir a excessiva produção ácida do estômago. Gabarito opção A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL DO CÂNCER – INSTITUTO DO CÂNCER DO CEARÁ – HC – ICC De acordo com as células do estômago e suas secreções, correlacione a primeira co- luna com a segunda coluna e assinale o item CORRETO. 1. Células parietais; 2. Células principais; 3. Células G; 4. Células D; 5. Células ECL. I. Ácido e Fator intrínseco; II. Pepsina; III. Gastrina; IV. Somatostatina; V. Histamina. a) 1-I, 2-II, 3-III, 4-IV e 5-V. b) 1-II, 2-I, 3-III, 4-V e 5-IV. c) 1-IV, 2-III, 3-I, 4-V e 5-I. d) 1-IV, 2-II, 3-III, 4-I e 5-V. e) 1-III, 2-II, 3-I, 4-IV e 5-V. Pode parecer chato, mas na realidade é mui- to fácil resolver essa questão. Se você lembrar que as células parietais são as responsáveis pela secreção ácida e do fator intrínseco, não haverá outra resposta possível. Difícil fazer essa associação? Perceba que células G se- cretam Gastrina e as PrinciPais, PepPsina. Facilitou agora? Opção “A” correta. Duodeno Como o duodeno é constituído? O duodeno é a primeira porção do intestino delgado. Trata-se de um tubo muscular me- Figura 9 - Observe o duodeno e suas re- lações anatômicas – o estômago, o cólon transverso e o fígado, juntamente com as vias biliares, foram retirados. dindo cerca de 25-30 cm de comprimento, com diâmetro de 2 a 3 cm, que se estende do piloro até o ângulo duodenojejunal (ân- gulo de Treitz). O nome é derivado do latim duodecim (doze), pois o duodeno teria o comprimento de doze polegadas (30 cm)... Essa estrutura tem a forma aproximada de um C, contornando a cabeça do pâncreas. É dividida em 4 porções: superior (bulbo), descendente, horizontal e ascendente, tam- bém chamadas de 1ª, 2ª, 3ª e 4ª porções do duodeno... A maior parte do órgão é retro- peritoneal. *A 1ª porção (bulbo) é a principal sede de úlce- ra péptica duodenal. A artéria gastroduodenal possui relação anatômica importante com a parede posterior do bulbo duodenal, sendo o vaso mais frequentemente envolvido no san- gramento por úlcera péptica. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 25Medgrupo - CiClo 2: M.E.D *A 2ª porção recebe a bile e o suco pancreático através dos ductos biliar comum (colédoco) e pancreático (Wirsung). Geralmente esses dois ductos desembocam juntos no duodeno, formando a papila duodenal maior, que é cir- cundada por fibras de músculo liso conhecidas como ampola de Vater. Também desemboca na 2ª porção o ducto pancreático acessório (Santorini), através da papila duodenal menor. Quem nutre o duodeno? As principais artérias são as pancreaticoduo- denais superior e inferior. • A artéria pancreaticoduodenal superior é ramo da artéria gastroduodenal, que recebe sangue do tronco celíaco (diretamente ou através da artéria hepática comum). • A artéria pancreaticoduodenal inferior é ramo da artéria mesentérica superior. Como é a drenagem venosa do duodeno? As principais veias têm os mesmos nomes das artérias: pancreaticoduodenais superior Revestida por epitélio colunar simples com vilosidades, que contêm enteróci- tos e células caliciformes (secretammuco protetor). Na base das vilosidades existem as criptas de Lieberkuhn. A mucosa contém ainda tecido conjuntivo frouxo e a camada muscular da mucosa. Constituída por tecido conjuntivo frouxo contendo glândulas enroladas e ramifi- cadas (glândulas de Brunner), cujos ductos se abrem junto à base das criptas – essas glândulas produzem secreção alcalina. Aí encontramos também o plexo submucoso (plexo de Meissner). A camada interna é constituída por fibras musculares circulares, enquanto a externa é formada por fibras musculares longitudinais. Entre elas existe o plexo de Auerbach (células nervosas ganglionares). Apenas a 1ª porção é totalmente revestida por serosa. As demais são revestidas por serosa anteriormente e adventícia posteriormente. Camadas da parede duodenal Mucosa Submucosa Muscular Adventícia e inferior. A drenagem do órgão é feita para o sistema porta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2007 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – AMP A papila duodenal maior desemboca no duo- deno no(a): a) Bulbo. b) Na junção do terço superior com o médio da segunda porção. c) Na junção do terço médio com o inferior da segunda porção. d) Acima do ducto pancreático acessório. e) Na terceira porção. É... Anatomia também cai em prova! A pa- pila duodenal maior, geralmente formada pela confluência dos ductos biliar comum (colédo- co) e pancreático (Wirsung), localiza-se na junção dos terços médio e inferior da 2ª porção duodenal. Realmente é importante sabermos que a papila duodenal maior desemboca na 2ª porção do duodeno, mas daí a cobrar sua localização exata dentro da 2ª porção duo- denal parece um pouco exagerado para uma prova de conhecimentos médicos gerais. A banca provavelmente estava de mau humor quando escreveu essa questão... O gabarito foi a opção C. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 26Medgrupo - CiClo 2: M.E.D síndrome dIsfágIca Introdução A definição de disfagia consiste na dificuldade de progressão do alimento da boca até o estô- mago. Repare na amplitude dessa definição, que pode englobar sintomas como “impossibili- dade de engolir”, “bolo na garganta”, “entalo no peito” e mesmo “Doutor, a comida não desce!”. A variedade das formas de apresentação de disfagia é tão grande quanto o seu número de causas. Para facilitar o estudo do tema e o raciocínio diagnóstico, essa síndrome é ge- ralmente dividida em dois tipos. Quais são os tipos de disfagia? Disfagia de TRANSFERÊNCIA e de CONDU- ÇÃO. DIsFagIa DE transFErêncIa ou oroFaríngEa (DIsFagIa “alta”): É a dificuldade para levar o alimento da boca ao esôfago, ou seja, de iniciar a deglutição... O paciente com disfagia de transferência ou orofaríngea tem a sensação de que a comida fica presa na garganta! Ele ENGASGA ao ten- tar engolir o alimento, podendo haver regur- gitação nasal e aspiração traqueal seguida de tosse. Comumente, quando esses pacientes são questionados sobre a localização do sinto- ma, o pescoço é apontado sem hesitação. É uma disfagia tanto para alimentos sólidos quanto para líquidos, podendo ser acompa- nhada por sialorreia nos casos mais graves, devido à dificuldade para engolir a própria sali- va! Também pode haver disfonia, pelo compro- metimento concomitante do aparelho fonador. Os distúrbios que originam a disfagia de trans- ferência afetam os músculos estriados esque- léticos (musculatura da faringe, EES e terço superior do esôfago) ou a porção do sistema nervoso necessária para o controle voluntário e involuntário da deglutição. Mais raramente, uma obstrução mecânica alta também pode ser responsável pelos sintomas. Causas neurológicas: as causas neurológi- cas de disfagia de transferência são aquelas que envolvem os núcleos bulbares (núcleos do IXº, Xº e XIIº pares cranianos) ou os feixes corticobulbares (neurônios que levam o co- mando do córtex cerebral aos núcleos bulba- res). Como a inervação dos núcleos bulbares é bilateral (um núcleo bulbar recebe inervação de ambos os feixes corticobulbares), a lesão de um único feixe corticobulbar não causa disfagia! Como você pode concluir, é neces- sário um AVE bilateral para que a lesão do feixe corticobulbar cause disfagia... Assim, as principais causas neurológicas de disfagia de transferência são: • Síndrome de Wallemberg: AVE do bulbo dorsolateral, com acometimento de nú- cleos bulbares. • Esclerose múltipla: neuropatia desmieli- nizante autoimune, que pode acometer os dois feixes corticobulbares. • Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA): doença degenerativa do primeiro e se- gundo neurônios motores, que acomete tanto os feixes corticobulbares quanto os próprios núcleos bulbares. • Doença de Parkinson: cursa com dificul- dade para o início voluntário da deglutição. • Demências: estados avançados de de- mência com comprometimento motor (ex.: apraxia do Alzheimer). Causas musculares: como você já sabe, a musculatura do terço superior do esôfa- go, faringe e Esfíncter Esofagiano Superior (EES) é estriada. Assim, ocorre disfagia orofaríngea em condições que cursam com fraqueza dessa musculatura, como na mias- tenia gravis, nas miopatias inflamatórias idiopáticas (dermatomiosite, polimiosite) e nas miopatias primárias (distrofia mio- clônica, distrofia oculofaríngea). Obstrução mecânica alta: obstruções in- traluminais (tumores de cabeça e pescoço, abscesso periamigdaliano) e extrínsecas (divertículo de Zenker, abscesso retroa- migdaliano, compressão vascular ou tumoral, osteófito cervical, bócio) podem impedir a progressão do bolo alimentar da boca para o esôfago sem que a função da musculatura ou o reflexo da deglutição es- tejam alterados. NãO ESQUEçA: disfagia de transferên- cia ou orofaríngea = engasgo – O paciente geralmente leva a mão ao pescoço quando descreve a disfagia, reclamando que a comida fica presa na garganta!!! 26 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 27Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DIsFagIa DE conDução ou EsoFagIana (DIsFagIa “baIxa”): Na disfagia de condução, a dificuldade está no transporte dos alimentos pelo esôfago até o estômago – o paciente se sente ENTALADO, com o alimento preso no esôfago. É uma forma de disfagia que pode ser observada tanto para sólidos quanto para sólidos e líquidos, e que pode ser intermitente ou progressiva. • Se for exclusiva para sólidos, a obstrução mecânica do esôfago é a hipótese mais pro- vável, como nos casos de estenose péptica e neoplasia. A presença de membranas e anéis também entra no diagnóstico diferencial. A obstrução mecânica frequentemente é progres- siva (piora com o decorrer do tempo), devido ao crescimento do tumor ou piora do grau de estenose péptica. • Se houver disfagia para sólidos e líquidos, devemos pensar em uma obstrução mecâ- nica muito severa ou então em um distúrbio motor do esôfago (seja neurológico ou mus- cular), como acalásia, espasmo esofagiano difuso, esclerodermia... Na maioria dos casos de distúrbio motor o quadro é intermitente, ou seja, períodos sintomáticos alternados com períodos sem queixas. Principais causas de obstrução mecânica do esôfago: - Tumores malignos e benignos - Estenose péptica - Anéis e membranas esofagianas - Divertículos - Obstrução extrínseca Principais causas de distúrbios motores do esôfago: - Acalásia - Espasmo esofagiano difuso - Esôfago em quebra-nozes - Esclerodermia NãO ESQUEçA: Disfagia de transferência ou orofaríngea = “ENGASGO” = alimento preso na garganta Disfagia de condução ou esofagiana = “ENTALO” = alimento preso no esôfago Vamos agora descrever as doenças que causam disfagia. As causas de disfagia de transferência serão abordadas nos módulos de Neurologia. A principal causa de obstru- ção mecânica alta (divertículo de Zenker) será abordada mais adiante. Vamos nos ater, portanto, às causas de dis- fagia de condução, dividindo em “distúrbios motores” e “obstrução mecânica”... Por último, vamos abordar os distúrbios infla- matórios do esôfago – as esofagites. Distúrbios Motores do Esôfago Como acabamosde ver, os distúrbios motores do esôfago apresentam-se, geralmente, com disfagia para sólidos e líquidos, intermitente (períodos sintomáticos alternados com períodos sem queixas). acalÁsIa Definição: distúrbio primário da motilidade do esôfago, caracterizado pela perda de células ganglionares do plexo de Auerbach (e também plexo de Meissner na doença de Chagas). Cursa com acentuada dismotilidade esofagiana. Quadro clínico: é a tríade clássica disfagia + regurgitação + perda de peso. Como diagnosticar? O exame padrão-ouro é a esofagomanome- tria, sendo os principais achados: (1) deficit do relaxamento fisiológico do EEI durante a deglutição. (2) graus variados de hipertonia do EEI. (3) aperistalse (ou ausência de contrações progressivas eficazes). Outros exames como RX de tórax e esofa- gografia baritada podem sugerir o diagnós- tico, mas a esofagomanometria é sempre necessária... EDA também deve ser realizada em todos os pacientes, para avaliar o grau de esofa- gite, diagnóstico diferencial com neoplasia e avaliação de possível estenose secundária à esofagite. E a doença de Chagas? A esofagopatia chagá- sica é uma complicação da fase crônica da doen- ça e possui quadro clínico idêntico à acalásia. Tratamento: Farmacológico: nitratos, bloqueadores dos canais de cálcio. Toxina botulínica injetada no EEI via endos- cópica: eficaz durante curto período. Dilatação endoscópica por balão: é eficaz na maioria dos casos, porém geralmente há recidiva. Cirurgia: indicada nos casos refratários ou recidivantes – cardiomiotomia de Heller mo- dificada ou ressecção trans-hiatal do esôfago (esta última nos casos mais graves). Na pre- sença de dolicomegaesôfago ou displasia de alto grau a esofagectomia está indicada. OBS.: A acalásia é fator de risco tanto para o carcinoma escamoso (principal) quanto para o adenocarcinoma de esôfago. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 28Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Definição A acalásia é uma patologia caracterizada pela perda de células ganglionares do plexo de Auerbach (não há lesão do plexo de Meissner na sua forma clássica - idiopática). Como já vi- mos, tal estrutura faz parte do sistema nervoso autônomo intrínseco do esôfago, responsável pelo controle da musculatura esofagiana. As- sim é fácil concluir que a doença cursa com acentuada dismotilidade esofagiana. Parece que algumas alterações no núcleo dorsal do nervo vago também estão relacionadas. características São três as alterações que você deve sa- ber. Elas são vistas através da esofago- manometria. (1) Deficit do relaxamento fisiológico do Es- fíncter Esofagiano Inferior (EEI) durante a deglutição. (2) Graus variados de hipertonia do EEI (geralmente > 35 mmHg). (3) Substituição da peristalse normal do cor- po esofagiano por contrações anormais (as peristalses anormais podem ser fracas ou aperistálticas, na “acalásia clássica”, ou extre- mamente vigorosas, na “acalásia vigorosa”). Das características citadas, qual é a altera- ção mais importante? É a falha de relaxamento do EEI durante a deglutição. Acalásia é uma palavra proveniente do Grego que significa “falha ou ausência de relaxamento”: calásia = relaxamento; acalásia = não relaxamento. Etiologia/Fisiopatologia A acalásia é um distúrbio primário da mo- tilidade do esôfago, sendo, portanto, uma doença idiopática. No nosso meio, há muitos casos de esofagopatia associada à doença de Chagas (secundária) que pode ter quadro idêntico ao da acalásia. Doenças infiltrativas, como a sarcoidose e a amiloi- dose, e o próprio câncer de esôfago, podem causar um quadro semelhante à acalásia (pseudoacalásia). O câncer gástrico que infiltra o esôfago distal também pode pro- mover os mesmos sintomas. Na presença de evolução rápida da disfagia (< 6 meses), idade avançada (> 50 anos) e perda ponde- ral importante devemos considerar pseudoa- calásia de etiologia maligna como um dos principais diagnósticos diferenciais. Como a doença de Chagas acomete o esô- fago? O protozoário Trypanosoma cruzi pode invadir os plexos de Meissner e Auerbach, causando disfunção e posterior morte neuronal. Note aqui uma diferença: na acalásia idiopática, temos a destruição somente do plexo de Auer- bach; já na doença de Chagas, tanto do plexo de Auerbach quanto o de Meissner. Como a esofagopatia chagásica ocorre apenas na fase crônica da doença de Chagas, o método diag- nóstico deve ser sorológico: ELISA (escolha), imunofluorescência ou reação de Machado- -Guerreiro (fixação do complemento). Saiba maiS: História natural da esofagopatia chagásica (quatro fases): (1) Forma anectásica: esôfago de calibre nor- mal, com pequena retenção de contraste. (2) Esôfago discinético: esôfago com peque- no aumento de calibre, discreta dilatação (megaesôfago leve) e retenção importante de contraste. (3) Megaesôfago clássico: esôfago franca- mente dilatado com atividade motora re- duzida e grande retenção de contraste. (4) Dolicomegaesôfago: esôfago dilatado e alongado. Para fixar! Na doença de Chagas, temos o acometimento dos plexos de Meissner e de Auerbach; já na forma idiopática, temos so- mente o do plexo de Auerbach. Marcaram??? Vamos então voltar a discutir a acalásia. Quais são os pacientes típicos com acalásia? Pacientes com 25 a 60 anos de idade (es- pecialmente antes dos 40 anos de idade), com incidência igual entre os sexos (cuidado pois a nova edição do Sabiston afirma que as mulheres jovens seriam mais comumente acometidas). Sem distinção de raça e sem história familiar. Nas áreas endêmicas para doença de Chagas, como no interior de Minas Gerias, devemos suspeitar de esofagopatia chagásica em todo paciente com quadro su- gestivo de acalásia. Alguns tratados de cirurgia brasileiros advogam que a doença de Chagas é responsável por 90% de todos os casos na- cionais de acalásia! É constituído por uma tríade clássica: disfa- gia, regurgitação e perda de peso. Disfagia é o principal sintoma da aca- lásia!! É uma disfagia esofagiana ou de Quadro clínico http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 29Medgrupo - CiClo 2: M.E.D condução (o paciente queixa-se de “entalo”), que ocorre tanto para sólidos quanto para lí- quidos. Surge insidiosamente (quadro clínico intermitente), agravando-se no decorrer de meses ou até anos. Regurgitação o esôfago retém material não digerido (devido à hipertonia do EEI). Com isso, pode ocorrer broncoaspiração desse material, com episódios de tosse crô- nica, broncoespasmo, pneumonia, abscesso pulmonar, bronquiectasias... Outra mani- festação comum é a halitose (mau hálito), afinal, o esôfago fica repleto de alimento não digerido no seu interior. Perda de peso lenta e insidiosa, deven- do-se à dificuldade que o alimento encontra para chegar ao estômago a fim de ser digeri- do. Nos casos de perda ponderal importante e aguda, a principal suspeita passa a ser o câncer de esôfago – a própria acalásia é um fator de risco, devido à irritação prolongada da mucosa pelo alimento retido! Essa mes- ma irritação pode ainda produzir queimação retroesternal nesses pacientes. Nesse caso, o contexto promovido pelos outros sintomas nos ajuda a realizar o diagnóstico diferencial com a pirose da DRGE. Além da tríade clássica, muitos pacientes apresentam também soluços, engasgo pós- -prandial e tosse noturna. O esôfago vai dilatar? Claro, afinal de contas, o esfíncter está fe- chado, a peristalse está reduzida e o esôfago cheio de alimento retido pode levar ao sur- gimento do MEGAESÔFAGO. Sabiston: “Os pacientes com acalásia co- mem devagar, bebem grandes quantidades de água para empurrar o alimento para o estômago e podem até contorcer o corpo (torcendo a parte superior do tronco, elevan- do o queixo e estendendo o pescoço), para ajudar o alimento a “descer”. Conforme mais água é deglutida, o peso da coluna líquida do esôfago aumenta, assim como a sensação de plenitude retroesternal, até que o EEI seja forçado a abrir-see um alívio repentino seja sentido à medida que o esôfago esvazia”. Quando suspeitar de Acalásia? Quando houver instalação insidiosa de dis- fagia e perda de peso ao longo de meses ou até anos, associados à regurgitação e tosse crônica (especialmente noturna). O exame de escolha para o diagnóstico dos distúrbios motores do esôfago é a esofago- manometria. Contudo, exames mais simples como a radiografia de tórax e a esofagografia baritada podem sugerir o diagnóstico antes de passarmos ao exame mais específico. Radiografia Simples de tórax pode revelar: (1) ausência da câmara de ar gástrica; (2) massa mediastínica tubular ao lado da aorta; (3) nível hidroaéreo no mediastino na posi- ção ereta, representando material estag- nado no esôfago. Observe que o deficit de relaxamento do EEI é tão grande que mesmo o ar encontra dificuldade para chegar ao estômago! Esofagografia Baritada pode mostrar: (1) dilatação do corpo esofágico (megaesô- fago). (2) retenção do contraste esofagiano com imagem de estreitamento em “chama de vela”, “bico de pássaro” ou “rabo de rato” na topografia do EEI (FIGURA 2). Haja imaginação para descrever os achados... (3) falhas de enchimento no contraste cor- respondendo à presença de restos ali- mentares. (4) ondas de peristalse terciária. Esofagomanometria É O PRINCIPAL EXAME DIAGNÓSTICO. Os achados ma- nométricos são: (1) deficit do relaxamento fisiológico do Es- fíncter Esofagiano Inferior (EEI) durante a deglutição; Diagnóstico Figura 1 - Acalásia – “Observe a importante dilatação esofagiana a montante do esfíncter”. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 30Medgrupo - CiClo 2: M.E.D (2) graus variados de hipertonia do EEI (pode não estar presente). Pressões em geral acima de 35 mmHg; (3) substituição da peristalse normal do corpo esofagiano por contrações anormais (pe- ristalse muito vigorosa, fraca ou aperistal- se, sendo as duas últimas mais comuns); (4) aumento da pressão intraluminal do cor- po esofágico. Peraí! Se não há peristalse eficaz e ou mes- mo um tônus esofagiano normal, como a pressão esofagiana pode estar aumentada? Lembre que o ar encontra dificuldade de pro- gredir do esôfago para o estômago devido ao deficit de relaxamento do EEI. Esse ar acaba por “pressurizar” o esôfago, deixando sua pressão intraluminal no repouso superior à pressão gástrica (achado muito sugestivo de acalásia!). E a esofagomanometria de alta resolução? Dotada de mais sensores e captação tridimen- sional do movimento, a esofagomanometria de alta resolução é o exame mais sensível e espe- cífico para o diagnóstico dos distúrbios motores esofagianos. Ela é capaz de analisar pequenas alterações segmentares, sendo menos suscep- tível a artefatos de técnica, e de produzir mais dados em menores intervalos de tempo. Atra- vés da mesma, a acalásia pode ser visualizada de três formas diferentes dependendo do grau de pressurização esofagiana: clássica (pres- surização mínima), com compressão esofágica (pressurização substancial) e espástica (pre- sença de contrações esofagianas espásticas). Endoscopia Digestiva Alta indicada para avaliar o grau de esofagite, para o diag- nóstico diferencial com neoplasia e avaliação de possível estenose secundária à esofagite (pela presença de alimentos não digeridos em contato com a mucosa do esôfago). Ou seja, é indicada para diagnóstico diferencial e avaliação de complicações. Deve ser rea- lizada em todos os pacientes com acalásia! Figura 2 - Esofagografia Baritada – dilatação do esôfago e o sinal do bico de pássaro ou da chama de vela (seta). http://#scrolldown http://#videomiolo=ECIR201063 Cirurgia - Volume 2 31Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Vamos às questões! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ O exame considerado padrão-ouro para o diagnóstico da acalasia é: a) Esofagografia. b) Esofagomanometria. c) Endoscopia digestiva alta. d) Ultrassonografia endoscópica. Essa foi fácil!!! Letra B, a esofagomanome- tria evidencia os três achados característicos da ACALÁSIA: (1) deficit do relaxamento fisio- lógico do EEI durante a deglutição; (2) graus variados de hipertonia do EEI; (3) peristalse anormal podendo chegar a aperistalse. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT – RJ Paciente 41 anos, feminina, com queixa de disfagia para líquidos e sólidos, regurgitação, tosse noturna e dor torácica. Realizada mano- metria esofágica evidenciou-se característico relaxamento incompleto do EEI com um estudo de deglutição, e aperistaltismo completo no corpo esofágico. Qual o provável diagnóstico? a) Acalasia. b) Esclerodermia. c) Adenocarcinoma. d) Doença de Chagas. e) Megaesôfago. A acalásia corresponde a um distúrbio pri- mário da motilidade do esôfago, caracterizado pela perda das células ganglionares do plexo mioentérico de Auerbach. Geralmente temos a tríade clínica caracterizada por disfagia de condução (baixa), regurgitação e perda de peso. Na esofagomanometria, podemos en- contrar a tríade clássica: (1) falha de relaxa- mento do Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI) durante a deglutição; (2) Hipertonia do EEI; (3) Substituição da peristalse normal do corpo esofagiano por contrações anormais ou ape- ristalse. E foi justamente isso o que encontra- mos no enunciado. Logo, gabarito letra A. De acordo com os achados radiográficos e manométricos, existem três classificações mais empregadas na abordagem a acalásia, sendo a de Mascarenhas a mais “popular”. classificação classificação de Mascarenhas Grau Dilatação I Até 4 cm II De 4 a 7 cm III De 7 a 10 cm IV Maior que 10 cm classificação por grupos de rezende e Moreira Grupo I Grupo II Grupo III Grupo IV Esôfago de calibre aparentemente normal ao exame radiológico. Trân- sito lento com pequena retenção de contrate. Esôfago com pequeno e moderado aumento de calibre. Retenção apre- ciável de contraste. Observam-se com frequência ondas terciárias associadas ou não à hipertonia do esôfago inferior. Esôfago com grande aumento de calibre. Hipotonia do esôfago inferior. Atividade motora reduzida ou inaparente. Grande retenção do meio de contraste. Dolicomegaesôfago. Grande reten- ção, atônico, alongado dobrando- -se sobre a cúpula diafragmática. classificação de Pinotti Incipiente Não avançado Avançado Esôfago sem dilatação com ligeira estase de contraste, alterações manométricas caracterizadas por aperistalse e ondas de deglutição de boa amplitude. Esôfago com dilatação de até 7 cm; orientado ao longo de seu eixo longitudinal; com estase con- siderável; aperistalse; ondas de baixa amplitude e longa duração após a deglutição. Dilatação acima de 7 cm ou dol icomegaesôfago; estudo manométrico mostrando esôfago atônico ou ondas de contração muito fracas. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ – BELÉM – PA Um paciente foi submetido a um esofago- grama cujo resultado demostrou um esôfago dilatado com cerca de 6 cm de diâmetro. Se- gundo Mascarenhas (1964), classifica-se esse achado em: a) Megaesôfago Grau III. b) Megaesôfago Grau IV. c) Megaesôfago Grau II. d) Megaesôfago Grau I. e) Megaesôfago Grau V. Para avaliar o grau do megaesôfago, o melhor exame é a esofagografia, onde po- demos quantificá-lo através da classificação de Mascarenhas. Esta classificação vai de I a IV, de acordo com o diâmetro transverso do órgão, sendo: grau I – até 4 cm; grau II – de 4 cm a 7 cm; grau III – 7 cm a 10 cm; grau IV – mais de 10 cm. Portanto, um me- gaesôfago com 6 cm de diâmetro transverso é de grau II. Resposta: C. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 32Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O tratamento é paliativo, uma vez que a função motora não retorna ao normal. Não temos como substituir os neurônios que foram lesados... Estágios iniciais, quadro leve a moderado: • Nitratos e bloqueadores dos canais de cálcio: administrados 10-30 minutos antes das refeições, reduzem a pressão do esfíncteresofagiano inferior. Seu uso frequentemente é limitado pelos efeitos adversos (hipotensão, cefaleia...). • Sildenafil (Viagra®): já consta na última edição do Harrison como tratamento pos- sível para a acalásia, pois também reduz a pressão no EEI. Não deve ser associado a nitratos, pelo risco de hipotensão arterial importante (mais detalhes na apostila de “Dor Torácica”). • Toxina botulínica: injetada no EEI via endoscópica, inibe os neurônios parassim- páticos (colinérgicos) do esôfago. É eficaz durante curto período e seu uso contínuo causa fibrose, dificultando cirurgia posterior. A recorrência dos sintomas seis meses após a aplicação chega a 50% em alguns estudos. Em longo prazo o tratamento clínico da acalá- sia costuma ser ineficaz, sendo rotineiramente empregado apenas de forma “temporária”. Os tratamentos mais eficientes são a dilatação endoscópica e a abordagem cirúrgica. Estágios avançados com sintomatologia proeminente ou falha da terapia farmaco- lógica: • Dilatação endoscópica: a dilatação pneu- mática (por balão) do EEI com os dilata- dores de Mosher, de Browne-McHardy e, mais recentemente, o balão de Rigiflex, têm resultados satisfatórios (alívio dos sintomas) em 60-85% dos casos. As com- plicações do método são: (1) Perfuração esofágica durante a dilata- ção, em 2-6% dos casos. (2) Recidiva dos sintomas, em 50% dos casos. Novas dilatações podem ser realizadas nas recidivas. Após a 3ª dilatação há uma queda muito grande na eficácia do procedimento. (3) Refluxo gastroesofágico devido à dila- tação exagerada, em 2% dos casos. O procedimento endoscópico costuma ser em- pregado nos casos não avançados de acalásia, mais frequentemente nos graus I e II. A partir daí tratamento seus resultados não costumam ser muito bons, a exceção de algumas situações como a recidi- va após o procedimento cirúrgico, necessidade de nutrição antes da realização da cirurgia ou mesmo quando o risco cirúrgico extremamente alto torna o paciente “inoperável”. • Cirurgia: indicada nos casos refratários ou recidivantes, realizada através da sec- ção das camadas longitudinal e circular da musculatura lisa do esôfago distal, cirurgia conhecida como esofagomiotomia, eso- fagocardiomiotomia ou simplesmente miotomia de Heller modificada. Tal intervenção reduz o tônus do EEI e pode ser feita por via laparoscópica (vídeo ou ro- bótica). O sucesso terapêutico é conseguido em 70-90% dos casos, com uma chance bem menor de recidiva quando comparada à di- latação pneumática endoscópica. A maioria dos autores recomenda ainda a realização de uma fundoplicatura parcial anterior (Thal ou Dor), para evitar a doença do refluxo gastroesofágico, muito comum após a eso- fagomiotomia quando existe megaesôfago ou hipoperistalse esofágica associada. O megaesôfago grau IV (dilatação na eso- fagografia > 10 cm) é tratado mais frequen- temente através da ressecção trans-hiatal do esôfago, com transposição gástrica. Os pacientes submetidos à esofagomiotomia sem melhora significativa dos sintomas também são candidatos à esofagectomia. Além da esofagectomia aliviar os sintomas da acalasia, a ressecção esofágica também elimina o risco de carcinoma. Figura 3 Algumas instituições brasileiras ainda op- tam por maneira menos agressiva para abordar as grandes dilatações esofagia- nas. Trata-se da cirurgia de Thal-Hatafuku que foi descrita inicialmente para trata- mento de perfurações esofagianas. Ela consiste na abertura de todas as camadas do EEI, empregando o fundo do estômago com patch para fechar o defeito criado. Ao dobrar o fundo gástrico sobre o EEI o ci- rurgião constrói um mecanismo de válvula que, em teoria, é capaz de impedir o reflu- xo esôfago gástrico. Esse tipo de cirurgia possui pouca expressão internacional, mas encontrou grande adesão por alguns gru- pos brasileiros. Ocasionalmente algumas bancas “jurássicas” gostam de cobrar esse tipo de conceito... http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR201043 Cirurgia - Volume 2 33Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E quando indicar cada tratamento? Não existe uma formula mágica aqui... De forma geral a abordagem inicial costuma ser o tratamento clínico, progredindo-se para dila- tação endoscópica e intervenção de cirúrgica. Embora não seja uma regra absoluta, para a prova podemos empregar o seguinte “macete” de acordo com a classificação de Mascarenhas: NOVIDADES Um grupo de Japoneses vem desde 2008 apresentando uma alternativa endoscópica para o tratamento da acalásia. Trata-se da Miotomia Endoscópica Peroral (POEM). O procedimento possui um princípio muito pa- recido com a miotomia de Heller modificada. O que muda na realidade é a rota da mioto- mia. Com um endoscópio efetua-se um túnel na submucosa do esôfago distal, permitindo o acesso às fibras musculares. Elas são seccionadas nos 10 cm de esôfago distal e a 2 cm do cárdia. Apesar de eficaz e de re- produção factível, o procedimento apresen- tou pouco sucesso internacional, em grande parte pelo desenvolvimento da videolaparos- copia e da facilidade da realização da mio- tomia de Heller modificada por essa via. Figura 4 - Miotomia Endoscópica Peroral (POEM). Entrada na submucosa após inje- ção mucosa (A). Tunelização da submucosa (B). Início da miotomia das fibras musculares circulares (C). Término da miotomia endos- cópica (D). Fechamento da entrada mucosa com hemoclipe (E). a b c D E classificação de Mascarenhas Grau Dilatação Tratamento I Até 4 cm Tratamento “clínico” II De 4 a 7 cm Dilatação endoscópica III De 7 a 10 cm Miotomia de Heller modificada IV Maior que 10 cm Esofagectomia Mas veja que isso não é regra, nada impede que em um paciente ainda no grau II de Mas- carenhas, mas refratário à dilatação endos- cópica, a miotomia seja realizada. E de forma Figura 5 - Cirurgia de Thal-Hatafuku. análoga, nada impede a tentativa de uma dila- tação endoscópica em estágios mais iniciais. Uma lembrança importante... A acalásia é um fator de risco clássico para o carcinoma escamoso de esôfago, já que o alimento retido no esôfago comumente cau- sa esofagite irritativa, o que, em longo prazo, pode levar ao câncer – o risco é de 8% em 20 anos. Referências mais recentes, como a última edição do Sabiston, relatam que a acalásia também é um fator de risco para o adenocarcinoma de esôfago – neste caso, o tumor geralmente aparece no terço médio do esôfago, ao contrário do adenocarcinoma associado à DRGE, quase sempre distal. Figura 6 Mais algumas questões sobre o tema... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – SP Paciente de 40 anos de idade relata dificulda- de persistente para deglutir alimentos sólidos há um ano e para líquidos há dois meses, acompanhada de regurgitação, mas sem pi- rose. Refere, às vezes, desconforto retroes- ternal e tosse após alimentação. Nega ema- grecimento, contato com barbeiro, etilismo ou tabagismo. O exame físico é normal. Qual é o provável diagnóstico e qual deve ser o primei- ro exame para fins de diagnóstico? a) Espasmo esofágico difuso e manometria esofágica. b) Esofagite eosinofílica e endoscopia diges- tiva alta. c) Acalásia idiopática e estudo contrastado com bário. d) Refluxo gastroesofágico e pHmetria de 24 horas. e) Disfagia lusória e angio-TC do pescoço e do tórax. Disfagia progressiva com evolução de me- ses a anos nos deve fazer pensar em ACA- LÁSIA, ainda mais neste caso em que não há emagrecimento. Na maioria dos casos pensamos em acalásia idiopática, mas fique atento, pois se o enunciado te apresentar um paciente proveniente de área endêmica para doença de Chagas, devemos pensar em aca- lásia secundária. E o primeiro exame a ser realizado é a esofagografia. Lembrando que o padrão-ouro é a esofagomanometria. Res- posta certa: C. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 34Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIOPEDRO ERNESTO – RJ Paciente de 32 anos com quadro de disfagia de condução, regurgitação e perda de peso significativa, realiza endoscopia digestiva alta que mostra dilatação de esôfago distal. A eso- fagomanometria evidencia redução da peris- talse e prejuízo do relaxamento do esfíncter esofagiano inferior. Tais achados são compa- tíveis com diagnóstico de: a) Acalásia. b) Polimiosite. c) Adenocarcinoma de esôfago. d) Estenose péptica de esôfago. Disfagia de condução com uma esofago- manometria como essa, não dá para ter dúvi- da. Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ – PI Homem, 45 anos, proveniente de São Raimun- do Nonato-Pi, com regurgitação, disfagia para alimentos sólidos há cinco anos e emagreci- mento, foi encaminhado para ambulatório do Hospital Universitário do Piauí tendo realizado manometria, que revela aperistalse do corpo do esôfago, ausência do relaxamento do es- fíncter esofagiano inferior (EEI) com a deglu- tição e pressão do EEI de 50 mmHg. A esofa- gografia mostra diâmetro esofagiano de 4 cm e videoendoscopia digestiva alta demonstra retenção alimentar e dilatação esofágica. A conduta é: a) Esofagectomia trans-hiatal. b) Esofagectomia transtorácica videolaparos- cópica. c) Gastrectomia subtotal com vagotomia tron- cular e reconstituição em “y-de-Roux”. d) Esofagocardioplastia a Thal Hatafuku. e) Esofagomiotomia a Heller com fundoplica- tura anterior videolaparoscópica. Paciente com quadro de disfagia progres- siva, regurgitação e aumento de pressão de repouso do EEI (normal de 6 a 26 mmHg) sugere fortemente acalasia do esôfago. De acordo com a Classificação de Mascarenhas que avalia ao exame contrastado o grau de dilatação do diâmetro transverso do esôfago em centímetros: grau I – de até 4 cm; grau II – de 4 a 7 cm; grau III – de até 10 cm e grau IV – maior que 10 cm. Como vimos anteriormente, a classificação de Mascarenhas nos ajuda a predizer qual é o tratamento. Mas veja que este caso, dilatação de 4 cm, ou seja, grau II. Poderíamos sim tentar dilatação endoscópica e até mesmo tratamento medi- camentoso inicialmente, mas repare que nas alternativas não temos esta opção, temos somente possíveis cirurgias... E como não temos uma dilatação grau IV, a conduta mais indicada está na letra E. Ou seja, fique atento e não brigue com a questão. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – SP Homem, 42 anos de idade, oriundo de zona endêmica de Chagas, veio com quadro de disfagia progressiva, atualmente com disfagia a alimentos sólidos. Ao exame físico: emagre- cido, com hipertrofia de glândulas parótidas, sem outras alterações. Ao realizar manometria esofágica, encontraram-se alterações do pe- ristaltismo. Qual deve ser o outro achado na manometria? Paciente oriundo de região endêmica para a doença de Chagas e que apresenta um qua- dro de disfagia progressiva! Nesses casos a principal hipótese diagnóstica deve ser a ACA- LÁSIA SECUNDÁRIA a doença de Chagas. E nesses pacientes sempre devemos realizar uma esofagomanometria para avaliar o grau de acometimento e decidir qual será a propos- ta terapêutica. As principais alterações são: Deficit do relaxamento do EEI durante a de- glutição; ausência de contrações propulsivas e até quadros de aperistalse; Podemos notar também aumento da pressão do esfincter esofagiano inferior (Agora CUIDADO! Alguns autores afirmam que a pressão do EEI nos pacientes com Chagas é menor que naqueles com acalásia idiopática e que não haveria muita diferença entre a pressão do EEI nos paciente com megaesôfago chagásico e pa- cientes saudáveis. Logo, a correlação entre a hipertonia do EEI e o diagnóstico de megaesô- fago chagásico não é das mais confiáveis. GABARITO OFICIAL UNIFESP: Acalásia do esfíncter inferior do esôfago (falta de abertura do esfíncter OU falta de relaxamento do es- fíncter inferior do esôfago) alteração do rela- xamento do esfíncter inferior do esôfago OU esfíncter inferior do esôfago hipertônico OU aumento da pressão do esfíncter inferior do esôfago OU aumento do tônus do esfíncter inferior do esôfago. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PRESIDENTE DUTRA – MA Assinale a alternativa INCORRETA em relação à acalásia do esôfago: a) A disfagia é o sintoma mais comum da doença, seguido por regurgitação de alimentos não digeridos, dor torácica, perda de peso, tosse noturna e pirose. b) Nos pacientes com suspeita diagnóstica de acalásia do esôfago, sugere-se a realização de esofagograma baritado, endoscopia diges- tiva alta e manometria esofágica, a qual pode evidenciar alterações na peristalse esofágica e insuficiente relaxamento do esfíncter inferior do esôfago. c) O objetivo terapêutico do tratamento clínico da acalásia esofágica é minimizar a obstrução funcional do esôfago inferior através do relaxa- mento do esfíncter inferior esofágico, para tanto, sugere-se o uso de bloqueadores de canal de http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 35Medgrupo - CiClo 2: M.E.D cálcio e nitratos, entretanto a eficácia do trata- mento clínico se reduz com o uso crônico. d) A miotomia esofagogástrica com fundopli- catura é o procedimento de escolha para tra- tamento cirúrgico dos pacientes com acalasia esofágica, porém recomenda-se seu uso ex- clusivamente em pacientes com megaesôfago grau I e II. e) Entre as técnicas não operatórias para tra- tamento da acalásia do esôfago, a dilatação endoscópica é mais efetiva para melhora da disfagia, porém está associada com risco de perfuração esofágica. Boa questão que acaba fazendo um resumo sobre o tema: A única incorreta é a letra D, que é o gabarito da questão. Nos pacientes com megaesôfago graus I e II, damos preferência ao tratamento clínico-medicamentoso ou até mesmo a dilatação endoscópica. E ao contrá- rio do que foi dito na letra D, a miotomia pode sim ser realizada no grau III. Em relação a letra A (correta), devemos marcar que a disfa- gia é o principal sintoma, outros sintomas seriam a regurgitação e perda de peso. Para o diagnóstico podemos realizar a esofagogra- fia baritada e a esofagomanometria (padrão- -ouro) a EDA deve ser realizada para afastar outros diagnósticos e avaliar complicações (letra B correta). O objetivo do tratamento é minimizar o efeito do não relaxamento do EEI. Este tratamento pode ser farmacológico, ci- rúrgico e também endoscópico com a dilatação pneumática, que tem o risco de perfuração e taxas de recidivas consideráveis. (letras C e E corretas). Logo, gabarito letra D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – RIBEIRÃO PRETO – USP – RP Homem com 38 anos de idade, queixa-se de disfagia progressiva há 8 anos. Atualmente, refere-se à disfagia até para alimentos pasto- sos. Perdeu 5 kg neste período. Nega comor- bidades. Relata que dois irmãos morreram de cardiopatia chagásica. Ao exame físico, não apresenta alterações, e o valor da albumina sérica é de 3,8 mg/dl. O exame radiológico do esôfago está apresentado abaixo: O tratamento recomendado para o caso é: a) Dinitrato de isosorbida. b) Esofagocardiomiotomia. c) Cirurgia de Serra-Dória. d) Esofagectomia. Paciente com disfagia e perda de peso leve (5 kg em oito anos), com exame contrastado Por Dentro da cirurgia... Cirurgia de Serra-Dória Para você que está se perguntando: “de que se trata essa cirurgia de Serra-Dória?” aqui vai um esclarecimento. Em 1968 essa cirurgia foi idealizada para o tratamento da acalásia na esofagopatia chagásica e acabou tornando-se popular no Brasil. Consistia em realizar um “by-pass” do EEI através de uma anastomose do es- ôfago diretamente com o fundo gástrico. Ok, mas... Isso não provocaria um grande refluxo do conteúdo gástrico? É verdade. Para evitar tanto o refluxo gástrico quanto biliar realizava-se uma gastrectomia sub- total com uma gastrojejunostomia em Y de Roux. Dessa maneira, o alimento e o suco gástrico “caíam” direto no jejuno, não re- tornando, e o Y de Roux evitaria o refluxo biliar. Complicado,não? É por isso que essa cirurgia caiu em desuso frente às técnicas que não necessitam da confecção de tantas anastomoses. evidenciando afilamento do esôfago distal em “chama de vela” ou “bico de pássaro”, clás- sico de acalásia ou esofagopatia chagásica. Além disso, o contraste permanece em seu esôfago até 30 minutos após sua deglutição, o que certamente está longe de ser normal! A albumina em níveis normais, o exame físico inalterado, a perda de peso não pronunciada e o próprio exame radiológico falam contra a possibilidade de câncer de esôfago! Qual é o tratamento para esse paciente? A sintoma- tologia é bastante intensa (disfagia até para alimentos pastosos), assim devemos iniciar logo com tratamento endoscópico ou cirúr- gico. Não há dilatação endoscópica entre as opções e, nesse caso, como a dilatação do esôfago ainda é pequena, o procedimento de escolha é a esofagomiotomia. Caso houvesse megaesôfago grau IV (dilatação na esofago- grafia > 10 cm), a opção seria a esofagectomia (ressecção trans-hiatal do esôfago, com transposição gástrica). Resposta letra B. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 36Medgrupo - CiClo 2: M.E.D EsPasMo EsoFagIano DIFuso (EED) Definição: distúrbio neurogênico generalizado da motilidade esofágica, no qual o peristaltismo normal é substituído de forma intermitente por intensas contrações não propulsivas. Quadro clínico: episódios de cólica esofagia- na (dor retroesternal), geralmente associados à disfagia. É um importante diagnóstico dife- rencial da doença coronariana. Como diagnosticar? Esofagomanometria: revela intensas con- trações simultâneas, não propulsivas do esôfago. Fluoroscopia Baritada: imagem do “esôfago em saca-rolha” ou em “contas de rosário”. * Como a clínica é intermitente, testes provo- cativos são utilizados na tentativa de induzir o espasmo. Tratamento: Farmacológico: nitratos, bloqueadores dos canais de cálcio, antidepressivos tricíclicos... Cirurgia: esofagomiotomia longitudinal. Definição É um distúrbio neurogênico generalizado da motilidade esofágica, no qual o peristaltismo normal é substituído por intensas contrações não propulsivas. Quem são os pacientes mais envolvidos? A maioria dos pacientes é do sexo feminino e possui distúrbios psicossomáticos associados – ansiedade e depressão estão presentes em mais de 80% dos pacientes com EED! Quadro clínico Ocorrem episódios de cólica esofagiana (dor retroesternal), geralmente associados à disfa- gia, tanto para sólidos, quanto para líquidos. A dor pode ser intensa e irradiar para o restante do tórax, dorso, braços e mandíbula, durando de alguns segundos a vários minutos. Em geral ocorre no repouso, mas pode se associar à de- glutição, à tensão emocional e aos exercícios! Como você pode concluir, em muitos casos o paciente com EED chega à emergência como se estivesse sofrendo um infarto agudo do mio- cárdio!!! Os episódios de EED também podem ser precipitados por determinados tipos de alimento (ex.: bebidas geladas), refluxo esofa- gogástrico e até mesmo por outras patologias do trato digestivo como colelitíase, doença ulcerosa péptica e pancreatite. dor sem disfagia se assemelha ainda mais à angina pectoris. Não é raro que o espasmo esofagiano difuso seja diagnosticado em pa- cientes com quadro típico de angina de peito, porém sem evidência de doença coronariana em exames complementares... Diagnóstico Fluoroscopia Baritada (FIGURA 7) a imagem característica é a do “esôfago em saca-rolha” (“corkscrew”) ou em “contas de rosário”, resultante da peristalse simul- tânea anormal, incoordenada, que produz pequenas ondulações múltiplas na parede, saculações e pseudodivertículos. Obs.: Fluoroscopia é o mesmo que radiosco- pia, exame no qual se observa a dinâmica dos órgãos no exame de Raio X. Figura 7 - Esofagografia no Espasmo Esofagiano Difuso. À esquerda antes e, à direita, durante uma crise - o Esôfago em Saca-Rolha. IMPORTANTE!! Tanto o estudo contrastado quanto à esofagomanometria podem ser normais no momento do exame, visto que o Espasmo Esofagiano Difuso é episódico – o exame pode ser feito enquanto o esôfago está normal... Por conta disso, diversos testes provocativos são utiliza- dos na tentativa de induzir o espasmo, como a ingestão de alimentos sólidos, a distensão esofágica por balão, a perfusão ácida intralu- minal (ácido clorídrico), o uso endovenoso de edrofônio (80 mg/kg) e a administração de betanecol (vagomimético), embora não exista grande eficácia com esses métodos. É importante se ter em mente que os espas- mos esofagianos podem produzir dor retroes- ternal sem disfagia, da mesma forma que pode haver disfagia sem dor retroesternal – a Esofagomanometria é o padrão-ouro para os distúrbios motores do esôfago, re- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 37Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Lembre sempre: Devemos fazer avaliação criteriosa desses pacientes para doença coronariana... tratamento Os espasmos esofagianos são de difícil tratamento. Para muitos pacientes, o esclareci- mento da etiologia esofágica para a dor torácica pode trazer grande alívio, contribuindo signifi- cativamente para a abordagem terapêutica. Medicamentos: Os nitratos, os bloqueado- res dos canais de cálcio (que também rela- xam os músculos lisos) e os antidepressivos tricíclicos (que atuam como moduladores da dor) podem ser úteis em alguns pacientes. Posso fazer anticolinérgico para a dor (Buscopan®)? Os anticolinérgicos (relaxantes dos músculos lisos) não são úteis, pois os principais nervos que regulam as contrações esofagianas não são colinérgicos. • Cirurgia: o tratamento cirúrgico deve ser in- dicado na presença de dor ou disfagia inten- sas refratárias ao tratamento conservador. Divertículos de pulsão do corpo esofagiano secundários ao EED também requerem tra- tamento cirúrgico. A abordagem de escolha é esofagomiotomia longitudinal. Diferentemen- te da miotomia de Heller modificada, aqui toda a camada muscular envolvida no EED (previamente delimitada pela manometria) deve ser incisada, o que significa que há uma maior extensão da incisão em direção ao esôfago proximal. Como frequentemente o EEI não é poupado, a maior parte das re- ferências recomenda a associação com um procedimento antirrefluxo. • Outros: quando o espasmo é secundário ao refluxo gastroesofágico, a cirurgia antirre- fluxo pode restituir a competência do EEI, melhorando tanto os sintomas de refluxo quanto os do espasmo esofagiano difuso. Quadro comparativo entre Acalásia e Espasmo Esofagiano Difuso Caracte- rísticas Acalásia Espasmo Esofagiano Difuso Disfagia Comum Menos frequente Dor Rara Comum Esofago- grama com bário Anormal – esôfago dila- tado, aspecto em “bico de pássaro”. Esôfago de ca- librenormal em “saca-rolhas” Endoscopia Normal ou presença de esofagite. Normal Motilidade EEI não rela- xa, contrações simultâneas ausentes ou fracas após a deglutição Contrações simultâneas hi- pertônicas mul- tifásicas após a deglutição Aqueles com queixa de disfagia devem evitar o estresse durante as refeições, assim como os alimentos e bebidas que funcionem como “gatilhos”. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Mirian, 40 anos, queixa-se, no ambulatório, de dor torácica e disfagia. Apresenta esofagogra- fia sem alterações e esofagomanometria com contrações simultâneas e repetitivas de mo- derada amplitude, associadas ao relaxamen- to normal do esfíncter esofageano inferior. A hipótese diagnóstica principal é: a) Esclerodermia. b) Acalasia vigorosa. c) Esôfago de quebra-nozes. d) Espasmo esofageano difuso. Note que estamos diante de uma mulher (“Mirian”) que apresenta um quadro de dor to- rácica e disfagia. No que devemos pensar? Este quadro de dor torácica (angina) + disfagia, deve levantar a hipótese de espasmo esofagiano difuso. Veja que a esofagografia não apresen- ta alterações, e isso vai de acordo com o diag- nóstico de EED,uma vez que quando o espas- mo é aliviado, o esôfago não apresenta altera- ções. E note o relaxamento normal do EEI, afastando a hipótese de acalásia. E o principal, note que a esofagomanometria apresenta con- trações SIMULTÂNEAS, que é a principal ca- racterística do EED. Logo, gabarito letra D. velando contrações com as seguintes carac- terísticas: simultâneas, não peristálticas, prolongadas (> 2,5s), de grande amplitude (> 120 mmHg) e repetitivas, que predominam nos 2/3 inferiores do esôfago (região de mo- tilidade não voluntária). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 38Medgrupo - CiClo 2: M.E.D EsÔFago EM QuEbra-noZEs Trata-se do distúrbio de hipermotilidade mais comum do esôfago, acometendo igualmente pacientes de ambos os gêneros e todas as idades. O esôfago em quebra-nozes é uma alteração na motilidade esofágica na qual são encontradas ondas peristálticas de altís- sima amplitude. Repare que, ao contrário da acalásia e do EED, aqui as ondas peristálti- cas são eficazes. O aumento descomedido da amplitude das compressões esofagianas está relacionado a uma hipertrofia de etiologia ainda desconhecida das fibras musculares esofagianas. Os sintomas mais comuns en- contrados nesses pacientes são a disfagia e a dor retroesternal. O diagnóstico diferencial com EED é impossí- vel de ser realizado somente a partir de dados clínicos. Como todo distúrbio funcional do esôfago, o diagnóstico é apontado pela esofa- gomanometria que revela onda peristáltica em amplitudes superiores a dois desvios padrões dos valores normais (frequentemente acima de 400 mmHg!). A esofagografia contrastada é inespecífica nesses casos. O tratamento dessa esofagopatia é conser- vador e semelhante ao EED. Aqui também serão utilizados bloqueadores de canal de cálcio e nitratos. Alimentos precipitantes de- vem ser excluídos da dieta. Quando houver DRGE associada, o tratamento desta pode melhorar significativamente a sintomatolo- gia. Alguns casos mais graves podem ser manejados com dilatação esofágica. O em- prego de cirurgia é controverso e necessita de maiores estudos. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL OFTALMOLÓGICO DE BRASÍLIA – DF Quanto ao esôfago em quebra-nozes, é COR- RETO afirmar que: a) Esse é o distúrbio motor mais comum do esôfago. b) O esôfago, na manometria, apresenta alta pressão (> 180 mmHg). c) Dor torácica e tosse são sintomas raros. d) As contrações peristálticas podem ser nor- mais, mas o EEI não relaxa. e) O tratamento cirúrgico é a primeira esco- lha, sendo preconizada a miotomia ampla via torácica. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO GETÚLIO VARGAS – AM Esôfago com peristalse hipertensa ou contra- ções de alta amplitude. Sem predileção por faixa etária ou sexo e é o distúrbio de hiper- motilidade esofágica mais comum e o doloroso caracteriza: a) Acalásia. b) Espasmo esofágico difuso. c) Esôfago quebra-nozes. d) Esfíncter esofagiano inferior (EEI) hiper- tenso. Parece brincadeira, mas esses detalhes são de fato cobrados!!! Qual o principal distúrbio de hipermotilidade??? Esôfago em Quebra- -Nozes. A grande dúvida era com o EED!!! Mas lembre que no EED, as contrações são SIMULTÂNEAS.... Gabarito C. Enquanto a acalásia é o distúrbio motor eso- fágico mais comum (alternativa A incorreta), o Esôfago em Quebra-Nozes é o distúrbio de hipermotilidade esofágica mais comum, com contrações peristálticas de alta amplitude e pressão elevada, enquanto o Esfíncter Eso- fageano Inferior (EEI) é normal (alternativa D incorreta), sendo uma variante do Espasmo Esofageano Difuso. A pressão intraesofágica em uma contração peristáltica pode chegar a 400 mmHg (alternativa B correta). Apresenta- -se classicamente com dor torácica e disfagia (alternativa C incorreta) e o tratamento é clínico, com nitratos, bloqueadores de canal de cálcio e antiespasmódicos (alternativa E incorreta). Resposta da questão: alternativa B. O esfíncter esofagiano inferior hipertensivo, considerado uma variante da acalásia por alguns autores, é um distúrbio motor menos comum do que os anteriormente citados. Consiste na presença de disfagia e dor to- rácica associadas à presença de EEI com tônus aumentado na manometria, método EsFínctEr EsoFagIano InFErIor hIPErtEnsIvo diagnóstico de escolha. Perceba que aqui não existem critérios suficientes para reali- zar o diagnóstico de acalásia. Apesar de hipertensivo, o EEI pode apresentar relaxa- mentos, ainda que incompletos. Assim como os outros distúrbios motores, sua fisiopato- logia não é bem entendida. O tratamento é http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 39Medgrupo - CiClo 2: M.E.D primariamente endoscópico, seja com inje- ção de toxina botulínica ou dilatação pneu- mática. No caso de falha terapêutica ou sintomatologia grave pode-se indicar a mio- tomia de Heller modificada associada à con- fecção de válvula antirrefluxo. MotIlIDaDE EsoFagIana InEFEtIva Pode ser considerada uma complicação moto- ra da doença do refluxo esofagiano. Após uma prolongada ação de refluxo ácido, o esôfago distal pode ter sua motricidade comprometida. O dano é irreversível. Os sintomas costumam se misturar com a própria DRGE (ver adiante). Além da disfagia, o paciente pode apresentar pirose, dor torácica e regurgitação. O diagnóstico é realizado através de esofa- gomanometria, que mostra o esôfago distal com a maioria das contrações de baixa am- plitude (< 30 mmHg) e falha de condução superior a 30%. Não existe tratamento eficaz para a doença. A melhor opção consiste na prevenção através do tratamento e controle adequado da DRGE. EsclEroDErMIa Do EsÔFago A esclerodermia é uma colagenose, doença reumatológica da “família” do Lúpus – ou da “segunda gaveta” da Reumatologia, para quem já fez o Medcurso... A doença é mar- cada intensa fibrose tecidual, que acomete a musculatura lisa do esôfago (dois terços inferiores do órgão) em até 90% dos casos. A redução da pressão do Esfíncter Esofagia- no Inferior (EEI) é a primeira anormalidade identificável e se manifesta como refluxo gastroesofágico. A fibrose e a atrofia da musculatura lisa dos 2/3 inferiores do esôfago podem causar dis- fagia de condução (esofagiana), referida pelo paciente como “entalo”. A esofagomanome- tria, nesses casos, aponta uma redução na motilidade do esôfago distal... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2003 FUNDAÇÃO ESCOLA DE SERVIÇO PÚBLICO – FESP Nos casos de esclerodermia, em relação ao esôfago, é CORRETO afirmar que: a) Há incompetência do esfíncter esofagiano inferior. b) Os pacientes geralmente têm disfagia a líquidos. c) Há fraqueza no terço superior do corpo do esôfago. d) Há fraqueza no terço mediano do corpo do esôfago. Questão fácil, sobre o que acabamos de ver. A esclerodermia acomete a musculatura lisa, sendo a redução da pressão do EEI a primeira alteração identificável. É muito comum haver DRGE associada. A fibrose e atrofia dessa musculatura causa ainda disfagia de condução. Resposta letra A. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 40Medgrupo - CiClo 2: M.E.D obstrução Mecânica do Esôfago A obstrução mecânica do esôfago frequentemente é progressiva (piora com o decorrer do tempo). Geralmente se inicia com disfagia apenas para sólidos, que pode progredir até dis- fagia para líquidos nos casos muito graves! Vamos começar “de fora para dentro” do esôfago... obstrução ExtrínsEca É interessante que você retorne agora ao iní- cio da apostila e reveja a figura que mostra o trajeto do esôfago e suas relações anatômicas. Como você pode ver, o órgão tem uma rela- ção bastante próxima com várias estruturas. Assim, não é difícil concluir que o aumento de volume dessas estruturas pode levar à com- pressão esofagiana e consequente disfagia... Veja algumas causas de obstrução extrínseca do esôfago a seguir – você não precisa deco- rá-las, o simples fato de conhecer as relações anatômicas do órgão ajudará você a se lem- brar das principais! • Alterações da coluna vertebral: espondilite cervical, osteófitos vertebrais • Abscessose massas retrofaríngeas • Divertículos (veja tópico específico a seguir) • Glândula tireoide aumentada • Compressão cardiovascular: Figura 8 - Imagem de esofagogra- fia contras- tada, perfil: Observe a compressão do esôfago (seta) pelo átrio esquer- do aumenta- do (paciente com esteno- se mitral). - Aumento de átrio esquerdo (causa clás- sica: estenose mitral) - Aneurisma aórtico - Aorta à direita (dextroposição de aorta) - Artéria subclávia direita aberrante - Massas em mediastino posterior DIvErtículos Os divertículos são “bolsas” formadas a partir da parede do esôfago, que podem acumular alimento (causando regurgitação e halito- se) ou mesmo comprimir o esôfago quando cheios, causando disfagia. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que existem divertículos ver- dadeiros, falsos e intramurais: • Verdadeiros: formados por todas as cama- das da parede do esôfago. • Falsos: nesses divertículos, a mucosa e a submucosa herniam através de um “bura- co” na camada muscular. Assim, a parede do divertículo é formada apenas por muco- sa e submucosa. • Intramurais: são aqueles em que a mucosa e a submucosa herniam para dentro da ca- mada muscular, mas não passam daí, ficando o divertículo “submerso” no músculo... Como vimos anteriormente, embora os diver- tículos estejam mais relacionados à disfagia alta, eles também podem gerar compressão no corpo esofágico e resultar em uma disfagia mais baixa. Por isso, vamos discutir este conceito agora. Divertículo de Zenker É o grande “pop star” entre os divertículos dessa apostila, sendo o divertículo esofági- co mais comum! O divertículo de Zenker é formado a partir da fragilidade da parede posterior da faringe distal, uma área de- nominada triângulo de Killian. A partir dessa fragilidade, o aumento da pressão intrae- sofagiana (decorrente de uma hipertonia do esfíncter esofagiano superior –“acalasia cricofaríngea”) pode levar à herniação da mucosa e submucosa da hipofaringe, entre os músculos faríngeo inferior (constritor infe- rior da faringe / tireofaríngeo) e cricofaríngeo (este último é, nada mais, nada menos, que o esfíncter esofagiano superior). Repare que o divertículo de Zenker é um divertículo da hipofaringe e não propriamente do esôfago, por isso considerado um divertículo FARIN- GOESOFÁGICO e pode causar disfagia por compressão esofágica. Além disso, é por de- finição um falso divertículo, afinal, só temos a herniação de mucosa e submucosa. Observe a FIGURA 9. http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR201048 Cirurgia - Volume 2 41Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 9 - Gênese do divertículo de Zenker. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Regurgitação de alimentos, halitose e cres- cente dificuldade para engolir vinham causan- do transtornos diários a uma aposentada de 74 anos. Naquela manhã, mesmo a contra- gosto, ela realizou a bateria de exames com- plementares proposta pelo geriatra que a acompanhava. Ao final, foi-lhe sugerida mio- tomia endoscópica ao se detectar um divertí- culo de esôfago, cujo lócus anatômico mais frequente é na região: a) Hiatal. c) Epifrênica. b) Faríngea. d) Mesoesofágica. Grave bem! Apesar de descrito em conjun- to com todos os divertículos esofagianos, o divertículo de Zenker se localiza na hipofarin- ge! Resposta B. Os divertículos de Zenker são observados em até 1% da população e bem mais frequentes em idosos (7ª década) e à esquerda. Geral- mente são assintomáticos... Contudo, essa “bolsa” pode acumular alimento não digerido, causando alguns problemas: • O acúmulo de alimento leva à regurgitação (podendo haver broncoaspiração) e halitose (mau hálito). • Existe o risco de compressão esofagiana, caso o volume de alimento acumulado seja muito grande – em alguns casos, o paciente sente o divertículo cheio, como se fosse uma massa cervical, e pode esvaziá-lo com uma simples compressão! O quadro inicial é geralmente intermitente, pois o divertículo enche e esvazia... Com o http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 42Medgrupo - CiClo 2: M.E.D aumento do divertículo, podemos encontrar sintomatologia mais exuberante. O exame de escolha para o diagnóstico é a esofagografia baritada, que demonstra cla- ramente o divertículo. A endoscopia digesti- va alta pode ser empregada para descartar neoplasia. No entanto, cabe lembrar que trata-se de um procedimento cuja realização torna-se difícil nesses pacientes, além de existir o risco de perfuração do divertículo. É exatamente por isso que alguns tratados como o Schwartz não recomendam o exame na abordagem diagnóstica... A manometria também pode revelar o distúrbio motor já esperado para o EES na presença do diver- tículo de Zenker e não é método necessário para confirmação diagnóstica. O tratamento do divertículo de Zenker pode ser cirúrgico ou endoscópico. Figura 10 - Diverticulopexia. A abordagem cirúrgica primária é realizada através da miotomia do esfíncter esofágico superior. Para divertículos menores que 2 cm esse procedimento parece ser suficiente. Nos divertículos maiores, outro tempo cirúrgico deve ser associado: à diverticulopexia ou à diverticulectomia. A diverticulopexia consiste na fixação do fun- do do divertículo em plano mais alto que sua abertura (ancoração do fundo do divertículo na fáscia pré-vertebral). Dessa forma, o mesmo não é retirado (evitando uma rafia esofágica), mas permanece excluído do trajeto alimentar. Como não há secção ou sutura da parede esofágica, o risco de formação de fístula nes- se procedimento é consideravelmente menor. Esse procedimento costuma ser indicado para pacientes de alto risco que possuem maior probabilidade de fistulização. Em divertículos muito grandes (> 5 cm), a diverticulopexia é de difícil realização devido ao excesso de tecido a ser fixado. Nesses casos, a melhor opção é simplesmente reti- rar o divertículo e suturar o esôfago (diver- ticulectomia). Classicamente a diverticulec- tomia está associada a um maior número de complicações do que a diverticulopexia, sobretudo em relação à formação de fístulas pós-operatórias. Contudo, com o advento dos grampeadores cirúrgicos o índice de complicações caiu consideravelmente e, segundo alguns autores, igualou-se àquele previsto na diverticulopexia. Dessa forma, trata-se da cirurgia que atualmente é a mais indicada nas abordagens a divertículos maiores que 2 cm. Figura 11 - Diverticulectomia. E o tratamento endoscópico? O tratamento endoscópico é uma alternativa ao tratamento cirúrgico para os divertículos Figura 12 - Procedimento de Dohlman. maiores que três centímetros. Conhecido pela alcunha de procedimento de Dohlman, ele consiste na colocação de uma “perna” do grampeador cirúrgico no divertículo e a outra no próprio esôfago. Quando disparado, o grampeador anastomosa o divertículo di- retamente no esôfago, ao mesmo tempo em que secciona as fibras do EES. Outra opção seria a realização de uma diverticulotomia endoscópica com Needle Knife. O conceito é o mesmo: o septo é seccionado endoscopica- mente, aumentando a passagem de alimento do divertículo para o esôfago. O procedimento endoscópico está relacio- nado a um pós-operatório mais rápido e menores taxas de complicação. Cabe res- saltar que para divertículos menores que 3 cm o tratamento deve ser cirúrgico e não endoscópico. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 43Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 13 - Divertículo de Zenker preen- chido por contraste, em visão anterior (A) e lateral (B). Uma última observação: devemos ter cuidado ao inserir cateteres nasogástricos nesses pacientes, pois caso ele penetre no divertículo e seja forçado a prosseguir, pode ocasionar uma perfuração para o mediastino e consequente mediastinite... Achou complicado o tratamento? Vamos revisar: Divertículos < 2 cm Miotomia apenas Divertículos > 2 cm Miotomia + diverticulopexia ou diverticulectomia Divertículos > 5 cm Miotomia +diverticulectomia preferencialmente tratamento cirúrgico tratamento Endoscópico Equivale ao tratamento cirúrgico apenas para os divertículos superiores a 3 cm. Alternativa de tratamento com menores taxas de complicação e internações mais curtas O ALuNO PERGuNTA...o Observem a interessante dúvida anatômica de uma de nossas alunas: “Divertículo faringoesofágico pode se herniar através do triângulo de Laimer?” Primeiramente vamos entender o seguinte conceito: para que haja formação de um di- vertículo de pulsão é necessário que existam áreas de resistência muscular fragilizada de forma que a mucosa possa se herniar, forman- do um falso divertículo. Na transição faringoesofágica, existem três sí- tios que naturalmente preenchem esse requisi- to devido à divergência das fibras musculares: o trígono de Killian (situado entre as fibras dos músculos cricofaríngeo e tireofaríngeo, ambos sendo parte componente do m. constritor in- ferior da faringe), o trígono de Laimer (entre as fibras oblíquas do esôfago distal e o m. cri- cofaríngeo) e o trígono de Killian-Jamieson (formado entre as fibras transversais e oblíquas dentro do m. cricofaríngeo). O segundo elemento necessário é um fator precipitante que aumente a pressão intralumi- nal esofagiana, criando o divertículo na área fragilizada. Nesse ponto, o fator mais comum é a disfunção e deficit de relaxamento do m. cricofaríngeo (funcionando como uma acálasia no EES). Como o trígono de Killian encontra- -se logo acima da obstrução transitória, ele é o mais afetado pela disfunção da deglutição e será pelo mesmo que surgirão a imensa maioria dos divertículos de pulsão nessa área. No entanto, outras causas de aumento de pressão no lúmen esofagiano (ex.: membranas, anéis, distúrbios motores primários, etc.) podem afetar as outras áreas de fragilidade na parede esofagiana. Des- sa maneira, podem sim, existir a formação de divertículos pelo trígono de Lamier e de Killian- -Jaieson, embora os mesmos sejam raros e com poucos relatos de casos até os dias de hoje. Para fixar os conceitos... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL ANGELINA CARON – PR Sobre os divertículos faringoesofágicos, assi- nale VERDADEIRO (V) ou FALSO (F): [ ] Divertículo fariongoesofágico é também conhecido como divertículo de Meckel; [ ] Setenta a 80% dos divertículos faringoeso- fágicos ocorrem em pacientes com mais de 60 anos de idade e, a sua ocorrência em crianças é extremamente rara; [ ] A intensidade das manifestações clínicas no divertículo faringoesofágico independe do tamanho do divertículo e do grau de disfunção do músculo cricofaríngeo e geralmente piora com o tempo; [ ] A esofagoscopia pode ser realizada e não há risco por se tratar de um procedimento rá- pido e seguro; [ ] Halitose é uma das manifestação do quadro clínico de divertículo faringoesofágico. a) F,V,F,F,V. b) F,F,V,F,V. c) F,V,F,V,V. d) V,F,F,V,F. e) As alternativas acima estão incorretas. Vejamos as afirmativas: 1- FALSA: O divertículo faringoesofágico é conhecido como divertículo de Zenker. 2- VER- DADEIRO: Esta doença acomete mais idosos, devido ao aumento da fragilidade muscular com a idade. 3- FALSO: A intensidade dos sintomas aumenta conforme aumenta também o divertículo, visto que o armazenamento de alimento no interior do divertículo passa a ser maior. Com isso, aumenta a halitose e a chan- ce de broncoaspiração. 4- FALSO: A esofa- goscopia, além de desnecessária, possui uma chance considerável de perfuração, já que o divertículo não possui todas as camadas do esôfago. 5- VERDADEIRO: A halitose é um dos sintomas mais comuns, junto com sen- sação de “bolo na garganta” e tosse crônica. Resposta: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP – SP Homem, 50 anos, é encaminhado com diag- nóstico de pneumonia. Refere disfagia cervi- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 44Medgrupo - CiClo 2: M.E.D cal, tosse, salivação excessiva, regurgitação espontânea de alimentos não digeridos, com odor fétido e halitose há 5 anos, com piora pro- gressiva há 6 meses. Nega anorexia, odinofa- gia e rouquidão. A HIPÓTESE DIAGNÓSTICA E O EXAME COMPLEMENTAR SÃO: a) Acalásia e manometria de esôfago. b) Divertículo de Zencker e esofagograma. c) Doença do refluxo gastroesofágico e pH- metria esofágica. d) Hérnia hiatal deslizante e endoscopia di- gestiva alta. O quadro é de disfagia e, para diferenciar a etiologia, primeiramente classificaremos o sintoma como alto (orofaríngeo) ou baixo (esofágico). Neste caso, o doente queixa-se de disfagia CERVICAL, o que, de cara, já ex- clui a acalásia (que cursa com disfagia mais baixa, ou esofágica – A errada). Apesar de vermos a queixa de regurgitação, não se faz presente o outro sintoma cardinal da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), a pirose, e disfagia não faz parte de um quadro CLÁS- SICO desta condição (C errada). A sintoma- tologia de uma hérnia hiatal seria a mesma de uma DRGE (D errada). Em pacientes mais idosos, geralmente a partir da sétima década de vida, que se apresentam com disfagia alta (ou orofaríngea ou de transferência), com RE- GURGITAÇÃO de alimentos não digeridos e de ODOR FÉTIDO, a hipótese diagnóstica de divertículo de Zenker se faz muito mais que apenas provável... O exame diagnóstico será a esofagografia baritada (que mostrará o fa- moso divertículo faringoesofagiano preenchido com bário comunicando-se com o esôfago). Resposta: B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – RJ Em relação aos divertículos de esôfago, a ca- racterística que NÃO se refere ao divertículo faringoesofagiano está indicada na seguinte assertiva: a) Localiza-se frequentemente no triângulo de Killian. b) É um divertículo verdadeiro. c) Halitose é uma das queixas relacionada. d) Na esofagografia, pode-se observar o di- vertículo ou nível hidroaéreo. e) No seu tratamento, é recomendada a mio- tomia do músculo cricofaríngeo. Um divertículo é chamado de VERDADEI- RO quando ocorre herniação de todas as camadas da parede do órgão. O divertículo de Zenker é um FALSO divertículo, pois se forma pela herniação das camadas mucosa e submucosa da hipofaringe em uma região de fraqueza parietal entre as fibras oblíquas do músculo faríngeo inferior e cricofaríngeo denominada triângulo de Killian. Manifesta-se principalmente por disfagia, halitose, massa cervical e sintomas respiratórios por aspira- ção de alimentos retidos. A esofagografia com bário mostra o divertículo ou nível hidroaéreo quando há conteúdo alimentar acumulado em seu interior. Quando há necessidade de tratamento, procede-se uma esofagomiotomia cervical. Nos casos de divertículos pequenos a miotomia do músculo cricofaríngeo é capaz de gerar sua regressão. Em divertículos grandes pode ser necessária sua ressecção ou pexia. É possível também, a terapia endoscópica. Gabarito B. Divertículo Médio-Esofágico (Parabrônquico) Tais divertículos, localizados na porção média do esôfago, eram inicialmente atribuídos à presença de linfonodos mediastinais inflama- tórios decorrentes de infecção por BK, hoje, as infecções por histoplasmose são até mais comuns. A presença desses linfonodos infla- mados acaba tracionando a parede do esôfago em sua direção formando esses divertículos. Além dessas causas inflamatórias, acredita-se que desordens primárias na motilidade eso- fágica, assim como na acalásia, possam ser também responsáveis pela formação desses divertículos. Os divertículos médio-esofágicos são mais comuns à direita e geralmente apre- sentam “bocas” largas. Os pacientes geralmente são assintomáticos, sendo os divertículos um achado acidental durante uma esofagografia baritada para in- vestigação de outro problema (um distúrbio motor do esôfago, por exemplo). A endoscopia também é útil, principalmente no intuito de avaliar a presença de alguma fístula a partir do divertículo. A esofagomanometria é feita em todos os pacientes, para tentaridentificar algum distúrbio motor do esôfago associado. O tratamento é feito nos casos sintomáticos ou para os divertículos grandes (> 2 cm), com a diverticulopexia ou diverticulectomia, sempre associadas com algum grau de miotomia, que pode se estender até o EES. Para os divertí- culos pequenos ou assintomáticos apenas a observação clínica é suficiente. Divertículo Epifrênico Esses divertículos localizam-se geralmente sobre o diafragma (geralmente do lado direito), possuem “bocas largas”, sendo a maior parte das vezes associados aos distúrbios motores do esôfago. Assim como os divertículos médio-e- sofágicos, geralmente são assintomáticos e en- contrados acidentalmente durante investigação de um distúrbio motor, sendo o melhor exame a esofagografia baritada. O tratamento, para os casos sintomáticos, é semelhante ao realizado para os divertículos médio-esofágicos. Veja uma esofagografia baritada evidenciando divertículos médio e epifrênico. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 45Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Durante o curso de uma aula de anatomia, o professor explica que o divertículo de Zenker surge acima das fibras do músculo denominado: a) Cricoaritenoideo. b) Cricofaríngeo. c) Tireofaríngeo. d) Tireo-hioideo. Decoreba infeliz para prova... O divertículo de Zenker surge em uma das regiões de maior fragilidade muscular da faringe, no trígono de Killian. Ele fica situado acima do músculo cri- cofaríngeo (EES) e abaixo das fibras oblíquas do músculo faríngeo inferior (tireofaríngeo). Opção “B” correta. E veja como os conceitos se repetem ano após ano: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANA BEZERRA – UFRN – RN A respeito dos divertículos esofágicos, é COR- RETO afirmar: a) Os divertículos epifrênicos são divertículos de tração que aparecem no terço distal do esôfago. b) O divertículo de Zenker é um divertículo de pulsão que ocorre no triângulo de Killian. c) Os divertículos mesoesofágicos são nor- malmente maiores que 5 cm. d) Os divertículos esofágicos, na maioria das vezes, são congênitos. Vamos avaliar as alternativas... Opção A: INCORRETA. Os divertículos epifrê- nicos são divertículos de pulsão e não tração. Opção B: CORRETA. O divertículo de Zenker é um divertículo de pulsão localizado na região faringoesofágica posterior (trígono de Killian). Opção C: INCORRETA. Os divertículos me- soesofágicos geralmente são pequenos (< 2 cm). Opção D: INCORRETA. Os divertículos, em sua grande maioria, são adquiridos. Logo, resposta: letra B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Com relação aos divertículos esofagianos, assinale a alternativa CORRETA. a) O de pulsão tem como causa mais comum a doença granulomatosa mediastinal. b) O epifrênico é um divertículo de pulsão. c) O de Zenker é um divertículo de tração. d) O de Zenker com bolsa de até seis centí- metros devem ser tratados pela faringoesofa- gomiotomia interna. e) O epifrênico ocorre tipicamente entre os terços superior e médio do esôfago. A doença granulomatosa mediastinal pode “grudar” na parede do esôfago e tracioná-lo durante a resolução do processo inflamató- rio, determinando um divertículo de tração e não pulsão. O divertículo epifrênico forma-se próximo do diafragma, portanto, no esôfago distal. Pressões intraluminais aumentadas e espessamento da musculatura lisa do órgão são achados desta condição, e justificam, em parte, a formação do divertículo. Reparem, se há elevação de pressão no lúmen do órgão, o resultado é um divertículo de pulsão. O di- vertículo de Zenker é determinado pela her- niação de mucosa e submucosa através das camadas musculares, sendo um divertículo de pulsão. Divertículos desse tipo, quando maiores do que 2 cm devem ter outro tempo cirúrgico associado à miotomia, seja a diver- ticulopexia ou diverticulectomia. O divertículo epifrênico localiza-se distalmente no esôfago. Resposta B. Os anéis ou membranas são áreas de estrei- tamento circunferencial da luz do esôfago. Ocorrem em até 10% da população, sendo co- mumente assintomáticos. Os anéis envolvem toda circunferência do esôfago e predominam na sua porção distal. Já as membranas ocluem apenas parte da circunferência e costumam ser mais proximais. Um dado interessante é que essas últimas geralmente são associadas anéIs E MEMbranas a condições sistêmicas como anemia ferropri- va, doença do enxerto-contra-hospedeiro e as diversas buloses. Quando sintomáticos, o quadro é de disfagia para sólidos. Caso um pedaço maior de ali- mento “entale” nesse anel, pode produzir uma piora aguda da disfagia, que passa a ocorrer também para líquidos. O tratamento dos casos http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 46Medgrupo - CiClo 2: M.E.D sintomáticos é feito com um dilatador endos- cópico, sendo pouco frequente a necessidade de cirurgia. Vamos relembrar os principais tipos: • Síndrome de Plummer-Vinson ou Peter- son-Kelly: presença de anel hipofaríngeo associado à anemia ferropriva – mais alto. • Anel de Schatzki: malformação do esôfago terminal, geralmente na junção escamoco- lunar (transição esôfago-estômago) – mais baixo. É mais comum em pacientes com idade superior a 40 anos e trata-se de uma das principais causas de disfagia intermitente para sólidos. A história de entalo súbito com um pedaço de carne é tão característica que garantiu a essa patologia o infame apelido de “síndrome do steakhouse”. Curiosidades: a parte superior da membrana é formada por mucosa esofágica; a parte inferior por mucosa gástrica. Está associado à hérnia de hiato e a melhora dos sintomas referentes ao refluxo nesses pacientes. Alguns autores acreditam que o anel é na realidade a forma- ção de uma “nova junção gastroesofágica” que protegeria o paciente da agressão ácida do refluxo. Outros ainda advogam que ele possuiria origem congênita... Na prática, sua etiologia permanece indefinida. Veja essa interessante questão!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JA- NEIRO – RJ Homem, 50 anos, apresenta dificuldade de engolir alguns alimentos há cerca de um ano. Nega perda de peso, azia ou outros sintomas. Relata que nos últimos meses têm preferido ingerir carne moída ou picada o que facilita a deglutição desse alimento. O diagnóstico provável é: a) Divertículo de Zenker. b) Carcinoma de esôfago. c) Anel de Schatzki. d) Síndrome de Plummer-Vinson. Não vamos pensar em câncer de esôfago para explicar a disfagia desse paciente por conta de sua evolução arrastada e ausência de outros comemorativos importantes, como perda ponderal imotivada. Não vamos pensar em divertículo de Zenker pois, apesar de se tratar de adulto mais velho, o paciente não está exatamente na faixa etária típica (em ge- ral o Zenker aparece após os 70 anos), além do que ele não refere regurgitação e halitose, os “carros-chefes” na sintomatologia deste problema. Não vamos pensar em Plummer- -Vinson (também chamada de síndrome de Paterson-Kelly) porque esta condição é mais frequente em mulheres e se caracteriza pela coexistência de notável ferropenia (com ane- mia e outros comemorativos). Enfim, a hipóte- se de anel de Schatzki é totalmente compatível com o quadro, pois há relato de disfagia ex- clusivamente para sólidos, desacompanhada de outros sintomas. É comum que portadores desta patologia experimentem dificuldade para deglutir carne, sendo clássica a queixa de episódios recorrentes de afagia aguda quan- do o paciente tenta comer pedaços maiores de carne. O diagnóstico pode ser confirmado pelo esofagograma e pela EDA, e o tratamento consiste em dilatação endoscópica da lesão. Resposta certa: C DIsFagIa lusórIa E slIng DE artérIa PulMonar São anormalidades do arco aórtico ou artéria pulmonar que eventualmente podem compri- mir o esôfago e provocar disfagia, entre outros sintomas. O termo lusório vem do latim luso- rios que remete às palavras “brinquedo”e “di- vertimento”. Ao descrever pela primeira vem uma anormalidade da artéria subclávia direi- ta que provocava disfagia em 1789, Bayford empregou o termo fazendo a analogia uma “brincadeira” da natureza, que desviava o pa- drão normal de anatomia. Uma “brincadeira” bem sem graça, diga-se de passagem. Com o passar dos anos o termo foi estendido para todas as anormalidades do arco aórtico que produzem essa sintomatologia. Além da dis- fagia, podem ocorrer sintomas respiratórios decorrentes da compressão traqueal. A má formação mais comum é a presença de uma artéria subclávia direita que emer- ge da aorta descendente, formando um anel incompleto ao redor do esôfago. A dextroposi- ção da aorta (aorta à direita) pode cursar com uma artéria subclávia esquerda posterior ao esôfago ou formação de um anel incompleto pelo ligamento arterioso. Mais raramente a aorta pode formar um anel verdadeiro ao redor do esôfago e traqueia. A formação de Sling de artéria pulmonar consiste na emergência tardia da artéria pulmonar esquerda, que passa entre a traqueia e o esôfago. O diagnóstico das malformações pode ser sugerido pela visualização de uma compres- são extrínseca na broncoscopia ou na esofa- gografia. O exame conclusivo consiste defini- ção da anatomia vascular por angiografia ou tomografia de alta resolução com contraste. O tratamento está indicado para pacientes com sintomas importantes e em todos os ca- sos de Sling de artéria pulmonar devido ao risco de estenose traqueal. Ele consiste no reimplante dos vasos aberrantes no arco aór- tico ou artéria pulmonar. Essas cirurgias, de forma geral, dependem de circulação extra- corpórea para sua realização. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 47Medgrupo - CiClo 2: M.E.D benignos Malignos Figura 14 - Esofagografia contrastada demonstrando anel de Schatzki no esôfa- go distal (associado à hérnia de hiato). Figura 15 - A) Artéria subclávia direita posterior B) e C) Dextroposição da aorta com for- mação de anel. D) Anel aórtico verdadeiro. Figura 16 - Sling de artéria pulmonar. Os tumores benignos do esôfago são bastante raros, correspondendo a menos de 1% das neoplasias do órgão. O tipo mais comum é o leiomioma (tumor de músculo liso), ou seja, característico dos dois terços inferiores do esôfago – relembre: a musculatura do terço superior é estriada e a dos 2/3 inferiores é lisa! Apenas os leiomiomas maiores que 5 cm costumam causar sintomas disfágicos. O diagnóstico costuma ser fácil, pois as ca- racterísticas são bem diferentes dos tumores malignos... • EDA: o leiomioma cresce a partir do mús- culo, não invadindo a mucosa. Assim, a endoscopia mostra uma mucosa abaula- da, porém íntegra. • Esofagografia baritada: a mucosa é normal e abaulada, mostrando a presen- ça de um tumor arredondado na parede do esôfago. Na presença de uma imagem típica, não é necessária biópsia! O tratamento cirúrgico é reservado aos pacientes sintomáticos... tuMorEs bE nIgnos E MalIgnos Vamos conversar rapidamente sobre o câncer de esôfago, que será abordado com mais de- talhes na apostila de Oncologia II do MED... Tipos: • O carcinoma escamoso ou epidermoide é o mais comum na maior parte do mundo, sendo derivado do epitélio esofagiano. Pode ocorrer em qualquer local do esôfa- Figura 17 - Observe o aspecto arredon- dado do leiomioma. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 48Medgrupo - CiClo 2: M.E.D go, sendo os principais fatores de risco o etilismo, o tabagismo, a ingestão de be- bidas quentes e a presença de algumas doenças do esôfago, como a acalásia, a síndrome de Plummer-Vinson e a esteno- se cáustica. • O adenocarcinoma, câncer de esôfago mais comum nos EUA, é geralmente de- rivado do epitélio de Barrett (metaplasia intestinal presente em pacientes com reflu- xo gastroesofágico de longa data), sendo praticamente exclusivo do terço distal do esôfago. A acalásia é outro fator de risco descrito. Quadro clínico: a principal característica é a disfagia esofagiana progressiva de rápida evolução (primeiro para sólidos, evoluindo até para líquidos nos casos mais graves). A odinofagia e a perda ponderal são outras queixas frequentes. A rouquidão deve-se ao envolvimento dos nervos laríngeos. Diagnóstico: feito através de EDA com biópsia e escovados da área suspeita, para exame citológico. No exame contrastado do esôfago, verificamos irregularidade da muco- sa associada a uma súbita transição entre o esôfago normal e a área obstruída – o “sinal do degrau”. Prognóstico: trata-se de um câncer muito agressivo, com altos índices de acometimento linfático e metastático (os órgãos mais acometi- dos são fígado e pulmão). Tal fato se deve prin- cipalmente à ausência de serosa, o que facilita a disseminação tumoral. Não vamos nos deter aqui no estadiamento TNM, que será abordado na apostila de Oncologia... Apenas uma obser- vação: o câncer de esôfago precoce é aquele que invade apenas até a submucosa (T1). Tratamento: para os tumores de terço distal e médio (maioria), a cirurgia curativa é a esofagectomia com linfadenectomia regional, sendo o tratamento com radio e quimioterapia neoadjuvantes benéfico na maioria dos casos. Os cânceres proximais são de difícil ressecção cirúrgica, sendo geralmente tratados apenas com RT+QT. O câncer de esôfago precoce restrito à mucosa (T1aN0) pode ser tratado via endoscópica, por mucosectomia. O trata- mento paliativo consiste no uso de dilatadores ou stents, radioterapia e na confecção de uma gastrostomia ou jejunostomia. EstEnosE PéPtIca EsoFagItEs É uma complicação da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) de longa data e será abordada a seguir, dentro do capítulo especí- fico dessa doença. As esofagites são um grupo bastante hete- rogêneo de distúrbios esofágicos, mas serão abordadas em conjunto para facilitar sua compreensão. Podem causar odinofagia e disfagia por obstrução mecânica, na vigência de inflamação intensa. Vamos rever os prin- cipais tipos: Esofagite de refluxo Esofagite química É uma inflamação do esôfago secundária ao refluxo de material ácido característico da doença do refluxo gastroesofágico. Será abordada a seguir, dentro do capítulo especí- fico de DRGE. Também pode haver esofagite pela estase de alimento no interior do esôfago, como ocorre na acalásia... É a inflamação do esôfago causada pela in- gestão de produtos químicos (no nosso meio o principal é a soda cáustica) ou mesmo me- dicamentos (como a tetraciclina, os AINE, o cloreto de potássio e o alendronato). No caso da soda cáustica, na maioria das vezes ocorre esofagite grave, a ponto de o paciente neces- sitar de dilatações endoscópicas para alívio da disfagia provocada por estenoses cicatriciais. A lesão por ácidos é bem menos comum, uma vez que eles provocam grande sintomatologia oral (queimam a boca e orofaringe, diferen- temente das bases). Sempre que houver lesão química, uma endoscopia deve ser realizada precocemente para avaliação do grau da lesão. Grau da lesão 1º Grau 2º Grau 3º Grau Avaliação endoscópica Hiperemia de mucosa, edema. Hemorragia limitada, exsuda- tos, ulceração, formação de pseudomembranas. Descamação da mucosa, ul- cerações profundas, hemorra- gia maciça, obstrução comple- ta do lúmen, “carbonização” e perfuração. As lesões químicas possuem fases aguda e crônica. Enquanto a primeira varia de acordo com o tipo de substância ingerida e o grau da lesão esofagiana, a segunda é comum às le- sões químicas e remete às complicações da cicatrização do processo. A esofagite por ál- cali é bem mais comum, sendo o processo inflamatório local mais estudado. Ele possui http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 49Medgrupo - CiClo 2: M.E.D três estágios bem definidos (ver a seguir). Vale a pena lembrar que a esofagite cáustica é um fator de risco importantíssimo para o desenvol- vimento do carcinoma epidermoide do esôfago. lesão cáustica do esôfago Fase Tipo de lesão Características Início DuraçãoSintomas Tratamento 1 Necrose aguda Coagulação de proteínas intra- celulares, rea- ção inflamatória nos tecidos ad- jacentes. 1o ao 4o dia 1-4 dias Dor oral e retro- esternal, hipersa- livação, odinofa- gia, disfagia, he- matêmese e vô- mitos. Rouqui- dão, estridor e dispneia podem demonstrar aco- metimento de via aérea (ácidos). Neutralização do agente ingerido. O restante é re- alizado de acordo com o grau da lesão: 1o Grau: Inibidor de bom- ba de prótons e observa- ção por 48h. 2o e 3o Grau: Inibidor de bomba de prótons, reani- mação volêmica agressi- va, antibioticoterapia e preservação de via para alimentação (ex.: stent esofagiano, NPT, cateter Dobhoff, etc.). Se houver evidência de acometimento de via aérea: Corticoides inala- tórios + Intubação orot- raqueal guiada (ex.: fibra ótica), se necessário. 2 Ulcera- ção e granula- ção Descamação e remodelamento tecidual, forma- ção de tecido de granulação. Fase mais “frá- gil” do esôfago. 3o ao 5o dia 3-12 dias Podem desapare- cer os sintomas. Como é fase mais “frágil”, existe maior risco de perfuração. Atenção para sinto- mas como febre, lombalgia, dor torá- cica ou abdominal. O tratamento da perfura- ção esofagiana é abor- dado mais adiante na apostila. 3 Ulcera- ção e granula- ção Formação de adesões, fibrose e contração te- cidual. 3a sema- na 1 a 6 meses Sintomas referen- tes à estenose e lesão motora do esôfago. Disfagia importante é o prin- cipal sintoma. Estenoses: Prevenção é realizada através da colocação de um Stent por 21 dias durante a fase aguda. Para o caso de estenose pro- priamente dita a melhor abordagem é a dilata- ção pneumática por en- doscopia. A correção ci- rúrgica está indicada apenas na falha tera- pêutica. É efetuada uma esofagectomia (transtorácica ou em três campos) seguida de reconstrução. Sem- pre que viável, o estô- mago é órgão de esco- lha para reconstrução. Dentro da primeira hora de ingestão, a neu- tralização com ácidos ou bases fracas deve ser tentada. Estranhou o conceito? Por mais bizarro que possa parecer, o tratamento da lesão química esofágica é diferente das queimaduras químicas da pele, onde a neu- tralização não deve ser tentada. O próprio Sabiston recomenda a ingestão de vinagre ou suco de frutas cítricas nas ingestões de álcalis ou leite e clara de ovos nos incidentes com substâncias ácidas... Mas atenção, os eméticos e o bicarbonato de sódio devem ser evitados, porque eles podem aumentar a chance de perfuração. O tratamento definitivo dependerá do grau da lesão, variando de cateter nasogástrico em aspiração contínua até esofagectomia. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 50Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DE OLHO NAS DIVERGêNCIAS!!! Em algumas referências clínicas de prova, essa tentativa de neutralização é contraindicada. Os que condenam a neutralização se apoiam em dois pontos: Primeiro, porque o dano causado pela soda cáustica é instantâneo (isto é, não adiantaria neutralizar a substância depois de instalado o dano). Segundo, a própria reação de neutralização libera calor. Mas veja que se olharmos com atenção não há tanta divergência assim, pois de acordo com o Sabiston, a neutralização deve ser tentada somente dentro da primeira hora de ingestão (lesão instantânea) e os agentes utilizados para neutralização (vinagre ou suco de frutas cítricas nas ingestões de álcalis ou leite e clara de ovos nos incidentes com substâncias ácidas) não são substâncias tão agressivas! Em relação às drogas, a simples suspensão ou a mudança da posologia podem ajudar: na prescrição do alendronato (bisfosfonato utilizado no tratamento da osteoporose), por exemplo, recomenda-se que o paciente ingira o medicamento em jejum e com líquido, per- manecendo sentado durante pelo menos meia hora, para fazer com que o mesmo chegue ao estômago o mais rapidamente possível e não retorne ao esôfago. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UNB Acerca das doenças que acometem o esôfago, julgue os itens a seguir. A esofagite cáustica por ingestão de medica- mentos pode ser causada por clindamicina, anti-inflamatórios não esteroidais, comprimi- dos de cloreto de potássio e vitamina C, entre outros, e pode ser prevenida pela ingestão de vários goles de água (antes e após a ingestão de medicamento) e pela manutenção de posi- ção ortostática após a ingestão da medicação. a) CERTO. b) ERRADO. A posição ortostática evita o refluxo e lesão medicamentosa do esôfago. Apesar de se tratar de uma medida simples, é bem eficaz nesses casos. A afirmativa está corretíssima! Gabarito “A”. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 PROCESSO SELETIVO UNIFICADO – MG Paciente do sexo masculino, 28 anos, deu entrada no pronto-socorro com história de in- gestão de soda cáustica. Após o exame clínico, dentre as opções abaixo, a conduta inicial MAIS ADEQUADA deve ser: a) Cateterismo nasogástrico e lavagem gástrica. b) Endoscopia digestiva alta. c) Jejunostomia para alimentação precoce. d) Uso de drogas eméticas. Nos casos de lesão esofágica por álcali ou ácido uma endoscopia precoce está indicada para avaliação do grau da lesão, que é fun- damental na determinação da conduta. Se houver grande suspeição de perfuração, uma tomografia pode ser realizada diretamente. Não se deve realizar lavagem gástrica nes- ses pacientes, muito menos induzir vômi- tos devido ao risco de agravar a lesão.. A neutralização do agente com ácidos ou bases fracas é indicada somente na primeira hora após a ingestão. Opção “B” correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – RJ Qual das situações abaixo relacionadas tem sido relatada como complicação de lesões cáusticas do esôfago após um longo período (25-70 anos)? a) Esôfago de Barret. b) Síndrome de Mallory-Weiss. c) Hérnia Hiatal. d) Leiomioma do Esôfago. Aprenda: A ingestão de substâncias cáus- ticas gera lesões esofágicas de forma aguda e crônica. Na forma aguda, a principal mani- festação é a perfuração esofágica, enquanto que na forma crônica formam-se áreas de fi- brose com distorção da anatomia e estenoses. Dessa forma, a hérnia hiatal é uma das com- plicações que podem ocorrer na fase crônica da lesão por substâncias cáusticas devido à retração tecidual. Resposta: Letra C. Esofagite infecciosa As esofagites infecciosas são bem mais fre- quentes nos indivíduos imunocomprometidos, particularmente naqueles com SIDA. Vamos relatar aqui os três agentes principais: Candida (o mais comum), herpes e citomegalovírus. Mais detalhes sobre diagnóstico e tratamento serão vistos na apostila de HIV/AIDS. Candidíase esofágiCa A Candida albicans é um fungo que habita a cavidade oral, em harmonia com as bactérias aí presentes. Entretanto, em algumas situa- ções, o crescimento da Candida é favorecido em relação às bactérias, aumentando o risco de candidíase oral e esofagiana. Tais situa- ções englobam, principalmente: • imunodepressão, neoplasias (particularmen- te hematológicas); • diabetes mellitus; • uso de antibiótico durante período prolongado; • estase esofágica (como na acalásia). O sintoma mais importante costuma ser a odinofagia, podendo também haver disfagia. O diagnóstico é feito através de endoscopia http://#scrolldown http://#videomiolo=ECIR201054 Cirurgia - Volume 2 51Medgrupo - CiClo 2: M.E.D digestiva alta, que demonstra as placas branca- centas características, devendo ser confirmado através da biópsia para exame direto e cultura. A candidíase esofagiana raramente está asso- ciada a distúrbios de excreção das glândulas submucosas, gerando uma entidade conhecida como diverticulose intramural difusa. Algumas referências permitem o tratamento tópico com nistatina oral, contudo a maioria dos autores recomenda tratamento sistêmico, sendo o fluconazol oral a droga mais usada. O fluconazol venoso e a caspofungina são reservados para os pacientes muito graves ou com odinofagia intensa, queimpeça o uso do medicamento oral. A anfotericina B é reservada para os casos mais graves, não responsivos aos imidazólicos. E se o paciente não responder ao trata- mento? Para todo paciente que não apresente melhora significativa após 72-96 horas de tratamento, indica-se a repetição da endoscopia. São duas as causas principais de insucesso terapêutico: • Não é raro haver coinfecção, particularmente candidíase + herpes. Muitas vezes, o início da resolução da candidíase facilita a visuali- zação das lesões herpéticas. Neste caso, o tratamento deve cobrir ambos os agentes; • Pode se tratar de uma Candida não albicans, como a C. glabrata ou a C. krusei. Nesses casos, o diagnóstico é confirmado pela cul- tura, sendo o voriconazol, o itraconazol e a anfotericina B os fármacos mais utilizados. Figura 18 - Visão endoscópica de can- didíase esofágica. esofagite HerpétiCa A esofagite causada pelo Vírus do Herpes- -Simples tipo 1 (HSV-1) cursa com odinofagia intensa, disfagia e, em alguns casos, febre. A presença de vesículas, ulcerações ou crostas nos lábios pode dar uma “pista” sobre o diag- nóstico, porém é importante ressaltar que a maioria dos pacientes com esofagite herpética não apresenta herpes labial concomitante! A endoscopia demonstra a presença de ve- sículas e/ou ulcerações com bordos ele- vados (“em vulcão”) no esôfago, sendo a biópsia dos bordos das lesões o método mais sensível para o diagnóstico. Deve ser colhido material para exame histológico e cultura. O teste de Tzanck (citodiagnóstico) revela a presença de células epiteliais gigantes multi- nucleadas e corpos de inclusão característicos (eosinofílicos do tipo A de Cowdry). O tratamento com aciclovir oral é o mais utili- zado, sendo a via endovenosa reservada para casos mais graves e para a impossibilidade do uso da via oral. O foscarnet é uma opção para os poucos casos resistentes ao aciclovir. Assim como no herpes labial, geralmente o paciente não tratado cura sozinho, contudo, no caso da esofagite, a indicação é tratar sempre, para re- duzir a intensidade e a duração dos sintomas. esofagite por CMV A esofagite causada pelo citomegalovírus possui quadro clínico semelhante às demais esofagites já apresentadas: odinofagia e dis- fagia. Também pode haver febre. A endoscopia geralmente evidencia a presença de uma grande úlcera plana, única, maior e mais profunda que as ulcerações herpéticas. Menos comumente, mais de uma úlcera pode ser encontrada. Ao contrário do herpes, o melhor rendimento da biópsia é no material coletado no centro da lesão (assim, toda úlcera esofagiana deve ser biopsiada no centro e nas bordas). Aqui também são encontrados corpos de inclusão característico, do tipo “olho de coruja”. ATENçãO!!! Grave: CMV Centro ha lesão, Herpes Halo da lesão. O tratamento mais utilizado é o ganciclovir venoso, sendo o valganciclovir uma opção para tratamento via oral. O foscarnet é usado nos casos de resistência. O tratamento deve ser mantido até a cicatrização da úlcera, o que ge- ralmente ocorre dentro de três a seis semanas. Observação interessante: em alguns pa- cientes com SIDA, é verificada a presença de úlceras aftoides (“aftas”) no esôfago, sem ocorrência de infecção – a exemplo das que ocorrem na cavidade oral. O tratamento de escolha para essas úlceras não infecciosas é a talidomida, podendo também ser utiliza- dos o corticoide oral ou a aplicação local de corticoide. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 52Medgrupo - CiClo 2: M.E.D síndrome dIspéptIca e drge Introdução O paciente com dispepsia costuma dizer que a comida não lhe caiu bem... Como veremos no decorrer desta seção, o paciente com sin- tomas dispépticos pode ter uma ampla gama de doenças, desde uma dispepsia funcional até um câncer gástrico. Buscando uma uniformidade na descrição dessa síndrome, o consenso de Roma III (2006) definiu dispepsia como a presença de pelo menos um dos seguintes sintomas: • Plenitude pós-prandial (sensação desagra- dável de que a comida fica por muito tempo no estômago). • Saciedade precoce (o paciente sente-se de estômago cheio antes de terminar as refei- ções). • Dor ou queimação epigástrica (sintoma mais clássico). Pirose (queimação retroesternal), um sintoma clássico de refluxo, não é mais considerada na definição mais recente de dispepsia... Contudo, a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) ainda é uma importante causa de dor e queimação epigástrica associada ou não a pirose e deve ser abordada também neste capítulo. A presen- ça de pirose direciona a abordagem diretamen- te para DRGE uma vez que seu diagnóstico provisório é mais provável do que outras causas de síndrome dispéptica. Etiologia São muitas e vamos abordar a grande maio- ria... Para matar a sua curiosidade, aí vai a lista das mais clássicas: • DRGE (ver comentário anterior) • Doença ulcerosa péptica • Gastrites • Duodenites (incluindo parasitoses) • Câncer (principalmente gástrico) • Doença biliar Definição • Gastroparesia • Uso de drogas • Dispepsia funcional (causa mais frequente de dispepsia) Na maioria dos casos precisamos de algum exame complementar para chegar a um diag- nóstico. Por exemplo, para dizermos que o paciente tem “dispepsia funcional” (60% dos casos de dispepsia) precisamos de uma en- doscopia digestiva alta “normal”... Contudo, na maioria das vezes, podemos “des- confiar” de alguma doença a partir de alguns da- dos da anamnese do paciente. Assim, antes de começarmos a estudar as causas de dispepsia, vejamos algumas peculiaridades das principais condições que cursam com este sintoma: DRGE: embora possamos encontrar sin- tomas dispépticos como queimação epi- gástrica, o quadro “clássico” da DRGE é composto por pirose (queimação retroes- ternal) e regurgitação. Na presença desses sintomas você está autorizado a proceder diretamente para abordagem de DRGE (ver adiante). Doença ulcerosa péptica: geralmente os sintomas da úlcera duodenal ocorrem quan- do o estômago secreta ácido sem a pre- sença de alimento em seu interior (que em tese “protege” a úlcera). Assim, os sintomas dispépticos (em especial a queimação epi- gástrica) ocorrem principalmente em jejum e no período entre duas e cinco horas após as refeições (o alimento permanece no es- tômago durante duas a três horas, porém a secreção de ácido que ele estimula dura até cinco horas). Os sintomas são aliviados com a alimentação, além de drogas antissecretó- rias e alcalinas. Já na úlcera gástrica a dor piora ao se alimentar devido à liberação do suco gástrico, que aumenta a acidez local. É uma das causas de dor referida no momento da alimentação, que pode resultar no medo de se alimentar e perda ponderal importan- te (outras causas de dor e medo de comer: colelitíase, angina mesentérica, pancreatite crônica e câncer gástrico). Câncer gástrico: pode simular os sintomas de uma úlcera péptica, contudo habitual- mente vem acompanhado por um ou mais 52 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 53Medgrupo - CiClo 2: M.E.D “sinais de alarme”: perda ponderal, vômitos recorrentes, disfagia progressiva, odinofa- gia, anemia, icterícia, hematêmese, massa abdominal palpável, linfadenopatia, história familiar, gastrectomia parcial prévia... Dor ou “cólica” biliar: classicamente é uma dor abdominal intensa e aguda, pós-pran- dial, durando mais de uma hora, localizada no quadrante superior direito ou epigastro, podendo irradiar para escápula e se associar a vômitos e sudorese profusa. Na verdade essa dor é usualmente contínua, e o termo “cólica” não deve ser utilizado, já que carac- teriza uma dor cíclica. Contudo, é importante ressaltar que mesmo nos pacientes com colelitíase, outras causas de dispepsia são mais comuns que a “dor biliar”, e assim eles devem ser investigados antes de atribuirmos os sintomas aos cálculos biliares. uso de drogas: as mais implicadas são os AINE, mas também são implicados bloqueado- res dos canais de cálcio,alendronato, orlistate, acarbose, xantinas e diversos antibióticos. Dispepsia funcional: é uma doença funcio- nal caracterizada por sintomas dispépticos na ausência de doença estrutural, ou seja, é um diagnóstico de exclusão. Seus critérios serão melhor estudados adiante. conduta A principal dúvida é indicar ou não uma EDA para esses pacientes, já que este exame é caro e desconfortável. A estratégia depende da idade e dos sinais e sintomas associados. Em geral, a endoscopia está sempre indi- cada nos pacientes dispépticos com idade > 45 anos (> 55 anos segundo o American College of Gastroenterology), naqueles com “sinais de alarme” e nos indivíduos que não responderam/responderam parcialmente a terapia com IBP (Inibidores da Bomba de Próton) ou recidivaram os sintomas após o tratamento empírico. *A idade limite para indicar ou não a EDA pode mudar de acordo com a região ou a referência utilizada. Por exemplo, em regiões em que o câncer gástrico é endêmico, a idade conside- rada como limite é de 40 anos!!! Você viu há pouco os sinais de alarme. Já es- queceu??? Vamos relembrá-los: Perda pon- deral, vômitos recorrentes, disfagia progressi- va, odinofagia, anemia, icterícia, hematêmese, massa abdominal palpável, linfadenopatia, história familiar, gastrectomia parcial prévia... Difícil saber todos os sinais de alarme? A maio- ria deles é facilmente dedutível: por exemplo, com certeza se um conhecido seu tiver dis- pepsia e disfagia você não vai achar que é normal. De qualquer forma, como as bancas estão cada vez mais criativas, não custa nada que você saiba um método mnemônico fácil para memorizar todos os sinais de alarme... Para os pacientes sem indicação de EDA, o mais indicado é avaliarmos a presença do H. pylori através de métodos não invasivos como a sorologia (ELISA), teste respiratório da ureia ou pesquisa de antígeno fecal e tratarmos todos os positivos com a erradi- cação da bactéria – veremos os esquemas preferidos no capítulo de úlcera péptica. No caso de pesquisa negativa, ou positiva com erradicação do H. pylori e sintomas persis- tentes, é indicado um tratamento curto com Inibidores da Bomba de Prótons (IBP), como o omeprazol.. Existe alguma indicação de realizar EDA em pacientes com síndrome dispéptica sem sinais de alarme e com menos de 45 anos? SIM!!! Não fique desesperado. Aqui é só lem- brar as condições associadas ao aparecimento de neoplasia gástrica em menores de 45 anos. As principais são: • História de neoplasia gástrica prévia (óbvio, não?). • Imigrante de um país com alta prevalência de câncer gástrico (ex.: japoneses). • Pacientes já submetidos à gastrectomia par- cial. Alguns livros ainda citam que EDA também es- taria indicada em pacientes dispépticos jovens sem sinais de alarme quando há ansiedade intensa acerca dos sintomas e grande medo de neoplasia. Veja essa questão! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – RJ A doença por refluxo gastroesofágico é pre- valente e admite tratamento empírico na au- sência de sintomas considerados como de alarme. A alternativa que NÃO exemplifica um sinal de alerta é: a) Vômitos recorrentes. b) Emagrecimento. c) Odinofagia. d) Pirose. e) Icterícia. Agora ficou fácil, nesse tipo de questão é só lembrar.... “IHH... O ALARME!”. Além dis- so, em um paciente com DRGE, é clássica a presença de pirose! Não sendo um sinal de alarme, mas sim, um sinal para o diagnóstico. Resposta letra D. D A D M A R E L Ã I N F A D E N O P A T N E M I (icterícia) (vôm itos recorrentes) A u L M A G R E C I M E N A S S A A B D O M I I S T Ó R I E M A T Ê M E S D I N O F A G I A / D I (fam iliar e cirúrgica) I h h . . . o a l a r M E !!! Veja: http://#scrolldown http://#page=223 Cirurgia - Volume 2 54Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Doença do refluxo gastroesofágico Definição: Trata-se do refluxo (= retorno) de parte do conteúdo gástrico para o esôfago e/ ou órgãos adjacentes, causando alterações clínicas ou endoscópicas. Quadro clínico: As manifestações típicas são PIROSE (queimação retroesternal) e RE- GURGITAÇÃO (gosto amargo na garganta). A disfagia não é comum: caso seja leve e inter- mitente, é atribuível ao próprio refluxo; caso grave e contínua, devemos pensar em compli- cações (estenose péptica, adenocarcinoma). Como diagnosticar? O diagnóstico é CLÍNICO. O teste diagnóstico a ser empregado na gran- de maioria dos casos é a prova terapêutica. Endoscopia deve ser solicitada para todo pa- ciente com “sinais de alarme” (disfagia, odino- fagia, perda ponderal, anemia...) ou naqueles que não obtiveram resposta do tratamento com IBP. Em cerca de 50% dos casos de DRGE detectamos esofagite (ou seja, EDA normal não exclui o diagnóstico de DRGE!). pHmetria de 24 horas: apesar de ser o pa- drão-ouro para o diagnóstico, geralmente não é necessária. Esofagomanometria: utilizada na suspeita de distúrbio motor associado, na localização do EEI (pré-pHmetria) e no pré-operatório das cirurgias antirrefluxo. Quais as complicações? A principal é a esofagite de refluxo: presente em metade dos casos, classificada em cinco graus (Classifica- ção de Savary-Miller): os mais graves são os graus IV (estenose péptica ou úlcera profunda em esôfago distal) e V (esôfago de Barrett). Começaremos agora a estudar aquela que é a principal doença do esôfago – e também a mais cobrada em provas... Como você vai ver, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE, ou GERD, da sigla em inglês) é uma condição bastante frequente e geralmente de fácil reconhecimento e tratamento, acometendo de 10 a 20% da população, em qualquer faixa etária, sendo que na criança predomina em lactentes e geralmente desaparece até a idade de quatro anos. Patogênese Do ponto de vista clínico, definimos a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) como uma afecção crônica decorrente do refluxo (= retorno) de parte do conteúdo gástrico para o esôfago e/ou órgãos adjacentes (faringe, laringe, brônquios). Esse refluxo de material ácido pode causar um espectro variável de sintomas e sinais esofágicos e/ou extraeso- fágicos, que podem vir associados a lesões teciduais (ex.: esofagite). Importante: só existe doença do refluxo gastroesofágico quando o retorno do conteúdo gástrico para o esôfago causa alterações clínicas ou endoscópicas! É comum a ocorrência de refluxo gastroesofágico de curta duração, principalmente após as refeições, em todos nós – contudo, esse refluxo é tipicamente assintomático e não causa danos ao esôfago, sendo chamado fisiológico... Repetindo... Só existe doença do refluxo gastroesofágico quando o retorno do con- teúdo gástrico para o esôfago causa alte- rações clínicas ou endoscópicas! Qual é a sua patogênese? Existem três situações que podem causar a DRGE: 1- Relaxamentos transitórios frequentes do Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI), não associados à deglutição, e prolongados (5-35 segundos). Este é o mecanismo mais comum!! 2- Esfíncter Esofágico Inferior (EEI) com tônus basal muito baixo. 3- Desestruturação anatômica da junção esofagogástrica (hérnia de hiato) – é um fator contribuinte, mas não determinante!! O que causa o relaxamento do EEI? Na maioria dos casos, não encontramos razão para a diminuição do tônus do EEI. Contudo, existem algumas causas secundárias identifi- cadas, como esclerodermia, lesão cirúrgica do EEI e esofagite. Além disso, o tabagismo e o uso de drogas como anticolinérgicos e relaxan- tes do músculo liso (nitratos, bloqueadores do canal de cálcio, beta-adrenérgicos, aminofilina, sildenafil...) predispõem à hipotonia do EEI. A Colecistocinina (CCK) e a secretina são os hor- mônios envolvidos na redução do tônus do EEI. Fora a hipotonia do EEI, condições que cur- sem com aumento da pressão intra-abdominal (gestação, ascite, obesidade, uso de roupas justas) também contribuem para o refluxo... Outros fatores importantes precipitantes de DRGE que ganharam destaquena última edição do Harrison são aqueles relaciona- dos ao “clareamento esofágico”: o deficit de esvaziamento gástrico (ex.: gastroparesia no diabetes) e diminuição da produção de saliva (ex.: síndrome de Sjögren). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIEVANGÉLICA DE ANÁPOLIS – GO Do ponto de vista esofagomanométrico, o http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 55Medgrupo - CiClo 2: M.E.D achado que define a Doença do Refluxo Gas- troesofágico é: a) Relaxamento transitório interprandial do esfincter esofageano inferior. b) Hipotonia do esfincter esofageano inferior. c) Hipocontratilidade do corpo esofágico. d) Espasmos esofageanos. Como acabamos de ver... Por motivos ainda não muito bem compreendidos, a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) caracteriza- se por relaxamentos frequentes e transitórios do esfincter esofagiano inferior sem correlação temporal com a deglutição (mecanismo mais comum)! Além disso, podemos ter também um EEI com tônus basal muito baixo e a destrui- ção anatômica da Junção Esôfago-Gástrica (JEG). Resposta letra A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 MINISTÉRIO DA SAÚDE / SECRETARIA ES- TADUAL DE SAÚDE – CEPUERJ – RJ Um dos fatores implicados na doença do refluxo gastroesofageano é a diminuição do tônus do esfíncter inferior do esôfago. Esse fenômeno está associado à ação da: a) Gastrina. b) Secretina. c) Histamina. d) Substância-P. A Colecistocinina (CCK) e a secretina são hormônios pancreáticos envolvidos na redu- ção do tônus do EEI. Resposta letra B. Quadro clínico O que marca o quadro clínico da DRGE é a ocorrência de PIROSE (queimação retroesternal) e REGuRGITAÇÃO, decor- rentes do refluxo de material ácido contido no estômago para o esôfago. Não costu- ma haver disfagia importante – quando o quadro da DRGE se associa à disfagia persistente e progressiva, devemos pensar em complicações como a estenose péptica e o adenocarcinoma de esôfago. Veremos essas complicações mais adiante... Observe as manifestações clínicas da DRGE: Típicas: Pirose significa queimação retroester- nal, sendo a queixa mais comum. Ocorre geralmente de 30 a 60 minutos após a ali- mentação, especialmente se a refeição for copiosa, rica em gordura, condimentada e ácida (cítricos). Situações que elevam a pressão intra-abdominal podem, também, exacerbar o sintoma. A ingestão de antiáci- dos ou até mesmo de água alivia a pirose na maioria dos casos. Não é incomum que pa- cientes ingiram constantemente pequenas quantidades de água para aliviar o refluxo. Com esse mesmo raciocínio podemos ob- servar indivíduos que mantêm os pulmões insuflados (quase em sua capacidade vital), para retificar o diafragma e aumentar o tô- nus do EEI. * Observe que pirose = queimação re- troesternal, enquanto azia = queimação epigástrica. Contudo, para alguns autores, os termos são sinônimos... Regurgitação de conteúdo ácido para a boca, que pode vir misturado com pouca quantidade de alimento não digerido. Geral- mente o paciente refere um “gosto amargo na garganta”... Quase todas as manifestações da síndrome dispéptica são inespecí- ficas, ou seja, só com os sinais e sintomas é impossível saber qual órgão ou doença esteja causando a síndrome. No entanto, quando pensamos em PIROSE, temos uma exceção, sendo considerada por alguns autores (incluindo a úl- tima edição do Sabiston – 20ª ed.) específica da DRGE. IMPORTANTE!! Você já parou para pensar o moti- vo dos sintomas extraesofágicos? São dois os mecanismos. O pri- meiro e mais comum é o refluxo esofágico proximal e com consequente microaspiração de conteúdos gastroduode- nais, que causam uma irritação direta nas estruturas adjacentes (laringe e trato respi- ratório inferior). O segundo está relacionado à exposição ácida ao esôfago distal, o que acaba desencadeando um reflexo vagal, com consequente broncoespasmo e tosse. Atípicas: Esofágicas: “dor torácica não cardíaca”, globus (descrito comumente como “nó na garganta”). Pulmonares: tosse crônica, hemoptise, broncoespasmo, pneumonias de repetição, bronquiectasias. • A DRGE é a causa de 20% dos casos de tosse crônica. • O broncoespasmo pode ser desencadeado também pela irritação da mucosa esofági- ca, sem haver refluxo traqueobrônquico – o chamado reflexo laringo-esôfago-pulmonar. Otorrinolaringológicas: rouquidão, pigarro, laringite crônica, sinusite crônica, otalgia. Orais: desgaste do esmalte dentário, hali- tose, hipersalivação, aftas. Objetivamente podemos encontrar dentes amarelados por erosão da dentina e gengivas inflamadas. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 56Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DRGE causa disfagia? Geralmente não... Quando presente, a disfagia geralmente é leve e se inicia insidiosamente, com os pacientes queixando-se de dificulda- de para ingestão de sólidos, quase sempre superada por deglutições sequenciais ou pela ingestão concomitante de pequena quantida- de de água. Entretanto, quando a disfagia é persistente e progressiva, deve-se pensar em estenose péptica, adenocarcinoma, ou ainda numa desordem motora do esôfago associa- da (lembre que DRGE pode funcionar como gatilho para essas desordens)! Além disso, a odinofagia (dor à deglutição) é um sintoma pouco comum, que geralmente está associado à úlcera esofagiana, uma outra complicação da DRGE. Por que o refluxo de alimento do estômago para o esôfago pode causar sintomas? É simples: o alimento contido no estômago encontra-se misturado ao suco gástrico, rico em ácido clorídrico (HCl) e pepsina. A mucosa gástrica é bem protegida do efeito do ácido e proteolítico, mas a mucosa esofagiana não possui uma proteção tão elaborada quanto o estômago... Assim, o retorno ácido do es- tômago para o esôfago é que vai causar as manifestações clínicas e endoscópicas da DRGE, já que o epitélio escamoso do esô- fago não é preparado para tolerar um pH muito baixo!!! O refluxo duodenal (bile que reflui para o estômago e deste para o esôfa- go) pode ter um pequeno papel na gênese da esofagite de refluxo. Vamos relaxar um pouco? RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL ALVORADA – SP O principal sintoma relacionado à Doença do Refluxo Gastroesofágico é a pirose ou quei- mação retroesternal. O segundo sintoma MAIS prevalente é: a) Tosse. b) Disfonia. c) Vômitos. d) Regurgitação. O que marca o quadro clínico da Doença de Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é a ocor- rência de PIROSE (queimação retroesternal) e REGURGITAÇÃO. Gabarito D! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 CENTRO MÉDICO DE CAMPINAS – SP Assinale a alternativa correta: a) A endoscopia digestiva alta normal exclui o diagnóstico de doença do refluxo gastroe- sofágico. b) A doença do refluxo gastroesofágico pode ter manifestações extradigestivas como a tosse crônica predominantemente noturna, rouquidão e broncoespasmo. c) Sintomas de disfagia, odinofagia, perda de peso e sangramento digestivo alto são manifestações comuns da doença do refluxo gastroesofágico. d) O Helycobacter pylori está associado à doença do refluxo gastroesofágico. Veja como fica fácil!!! A DRGE se manifesta classicamente com Pirose + Regurgitação. No entanto, ela pode se manifestar através de sin- tomas atípicos ou extra digestivos como tosse crônica, rouquidão e broncoespasmo, entre outros. A EDA pode ser normal em mais de 50% dos casos, sendo indicada na presença de sinais de alarme ou em pacientes com mais de 40-45 anos. Além disso, grave essa infor- mação, o H. pylori não apresenta correlação com a DRGE. Resposta letra B! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP – RI- BEIRÃO PRETO Homem, 45 anos de idade, refere disfagia progressiva para alimentos sólidos e líquidos há 6 meses. Emagreceu 1 kg nesse período. Sempre morou na cidade de São Paulo e nun- ca fumou. Tem gasto maior tempo na refeição para conseguir ingerir todo alimento que está habituado. Não tem regurgitação. Há 5 meses tem pirose de pouca intensidade. O paciente tem bom estado geral, sem alterações ao exa- me físico. Qual ahipótese diagnóstica mais provável? a) Doença de refluxo gastroesofágico. b) Neoplasia do esôfago. c) Acalásia. d) Estenose péptica do esôfago. A DRGE pura e simples não cursa com dis- fagia. O emagrecimento de apenas 1 kg em seis meses é incompatível com o diagnóstico de neoplasia do esôfago. Sobraram estenose péptica e acalásia. O fato da prevalência da DRGE ser muito maior que a da acalásia e a presença de pirose falam a favor do diagnós- tico de DRGE complicada com estenose pép- tica. A única “estranheza” é que, geralmente, é necessária uma DRGE de longa data para levar à estenose péptica do esôfago, e este paciente tem pirose há apenas 5 meses (na verdade ele tem disfagia há mais tempo que pirose). Tudo bem, poderia ser um refluxo oli- gossintomático... Acalásia também não “fecha” com o quadro descrito, pois falta a regurgi- tação, bastante característica da doença. O gabarito divulgado foi a letra D. Diagnóstico O diagnóstico é CLÍNICO, realizado a partir de uma anamnese detalhada. Como você já viu, os principais sintomas são PI- ROSE e REGURGITAÇÃO. No entanto, frequentemente existe a necessidade de solicitar testes diagnósticos para DRGE, de- vido a sua grande variedade de sintomas e à possibilidade de diagnóstico diferencial com a imensa maioria das causas de síndrome http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 57Medgrupo - CiClo 2: M.E.D dispéptica. Quais seriam, então, os testes diagnósticos mais úteis? proVa terapêutiCa de supressão áCida Você deve estar se perguntando: O que a prova terapêutica está fazendo aqui? Atenção: Quando associada aos sintomas clássicos de DRGE, uma prova terapêutica positiva é o melhor e mais barato método diagnóstico para essa doença, com uma sensibilidade que pode chegar até a 83%! Ela é realizada, de acordo com o consenso brasileiro sobre DRGE com administração da dose plena diária de um ini- bidor de bomba de prótons (ex.: omeprazol 20 mg/dia) ou, dependendo da referência, dose dobrada do inibidor, por pelo menos quatro semanas e até por 12 semanas quando há presença de sintomas atípicos de via aérea. Ela é considerada positiva quando há relato de melhora da sintomatologia pelo paciente. A prova terapêutica oferece inúmeras vantagens em relação aos outros métodos diagnósticos. Além de barata (lembre que aqui no Brasil o omeprazol é subsidiado em grande parte das farmácias populares, sejam elas federais, es- taduais ou municipais), é realizada ambulato- rialmente, é isenta das complicações dos pro- cedimentos invasivos e pode ser realizada por qualquer médico! No entanto, você deve notar um detalhe importante: nem todo pacien te deve ser referenciado inicialmente para uma prova terapêutica. Quando não podemos realizá-la? Grave isso de uma forma bem simples – quan- do houver indicação de endoscopia digesti- va alta! Além disso, não podemos deixar de considerar que existem algumas críticas ao método, uma vez que os sintomas poderiam estar associados não apenas à acidez, mas à presença física do material refluído (este não sofrendo interferência do IBP). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP – RIBEIRÃO PRETO Mulher, 25 anos de idade, foi atendida na uni- dade básica de saúde com queixa de pirose e regurgitação há 6 meses. Negava disfagia, náuseas, vômitos, sangramento digestivo e perda ponderal. Ao exame físico: bom estado geral, corada, hidratada, índice de massa cor- poral: 31 kg/m2, PA: 130/80 mmHg, frequência cardíaca: 84 bpm, abdome plano, flácido, indo- lor, sem sinais de defesa, sem visceromegalias ou massas palpáveis, ruídos hidroaéreos nor- mais. A melhor conduta na abordagem inicial deste caso é: a) Prescrição de inibidores de bomba de pró- tons. b) Prescrição de bloqueadores H2. c) Realização de endoscopia digestiva alta. d) Prescrição de procinético. Veja só: uma mulher jovem, obesa, com queixas compatíveis com DRGE (pirose e regurgitação), sem sinais de alarme... Como não há indicações para realização de exames complementares, a abordagem inicial dessa paciente deverá ser realizada com uma pro- va terapêutica de IBP, que será útil tanto do diagnóstico quanto no controle da doença da paciente. Alternativa “A” correta. endosCopia digestiVa alta A endoscopia deverá ser indicada nas si- tuações em que há possíveis evidências de complicações associadas à DRGE (esofagite, úlcera, estenose, esôfago de Barrett, neoplasia) ou quando existe outra causa possível para originar os sintomas. Essas condições ficam evidentes nas seguintes situações: • Presença de sinais de alarme. • Ausência de resposta clínica ao tratamento com IBP na presença de sintomas típicos ou atípicos. Devido a uma mudança recente nas indica- ções de endoscopia nos pacientes com DRGE, muitas fontes ainda apresentam divergências sobre o assunto. Por exemplo, o I Consenso Brasileiro de DRGE, a endoscopia está indi- cada em pacientes com idade superior a 40 anos e devem ser consideradas, também, a história familiar de câncer, a presença de náuseas e vômitos e os sintomas de grande intensidade ou de ocorrência noturna. Fique atento às questões sobre o tema e analise com “carinho” as opções fornecidas. Outra indicação que costumava ser clássica nos casos de DRGE era a presença de sinto- mas atípicos. Hoje a maior parte de literatura advoga que, na ausência de contraindicações, o teste terapêutico deve ser tentado inicial- mente por dois a três meses. Quando não houver resposta ao teste, um exame comple- mentar deverá ser solicitado, de preferência uma pHmetria de 24h. O exame endoscópico: • Tem sensibilidade baixa para diagnóstico de DRGE, em torno de 50% (pacientes com esofagite de refluxo). No entanto, possui uma alta especificidade, chegando aos 95%! • Permite excluir a presença de câncer – prin- cipal indicação. É por isso que solicitamos endoscopia nos casos associados a disfa- gia, hemorragia digestiva, anemia, perda ponderal, em indivíduos mais velhos... – é essencial afastarmos a presença de um tu- mor nesses pacientes! • É o método de escolha para o diagnóstico das lesões causadas pelo refluxo gas- troesofágico (erosões, úlceras, estenose péptica, esôfago de Barrett). Permite avaliar a gravidade da esofagite e realizar biópsias quando houver indicação. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 58Medgrupo - CiClo 2: M.E.D É fundamental que você, diante de um qua- dro sugestivo de DRGE, saiba quando deve solicitar endoscopia e quando deve apenas prescrever tratamento clínico!!! Reveja as indicações de EDA, mais uma vez! caso 1 ? Juvêncio é um assíduo frequentador dos bares e botequins da Lapa, famoso centro da boemia carioca. Há cerca de quatro se- manas está sentindo uma dor epigástrica em queimação – cerca de dois episódios por semana, havendo alívio parcial com o uso de antiácidos – razão pela qual procura atendimento médico. Em quais situações você solicitaria uma en- doscopia digestiva alta para este paciente? ( ) Juvêncio tem 46 anos e encontra-se em bom estado geral, negando quaisquer outros sintomas ou perda ponderal. O exame físico é inteiramente normal, mas não obteve melhora após prova terapêu- tica utilizando omeprazol 40 mg/dia. ( ) Juvêncio tem 33 anos e apresenta disfa- gia de condução (“entalo” com o alimen- to). O exame físico é inteiramente normal. ( ) Juvêncio tem 39 anos e nega quaisquer outros sintomas. Ao exame físico, as mucosas estão hipocoradas. Os exames laboratoriais iniciais acusam uma anemia microcítica e hipocrômica leve. Cerca de 50% dos pacientes com DRGE apre- sentam esofagite de refluxo à endoscopia – observe que apenas metade dos pacientes com DRGE tem alterações endoscópicas!!! Os restantes possuem apenas o quadro clínico típico, com endoscopia normal... Assim, vamos repetir, mais uma vez: a principal indicação de EDA num paciente com sintomas de refluxo é afastarmos a presença de um câncer!!! Os pacientes que apresentam esofagite de refluxo são classificados de acordocom a classificação de Savary-Miller (FIGURA 1). IMPORTANTE!! A intensidade e a frequên- cia dos sintomas são fracos preditores da presença ou da gravidade da esofagite! Resumo da esofagite de refluxo segundo a classificação de Savary-Miller I Erosões em apenas uma prega longitu- dinal esofágica. II Erosões em mais de uma prega. III Erosões em mais de uma prega, ocupando toda a circunferência do esôfago. IV Presença de úlcera esofágica ou este- nose péptica do esôfago distal, isoladas ou associadas às lesões graus I a III. V Esôfago de Barrett, isolado ou associa- do às lesões graus I a IV. Figura 1 - classificação de savary-Miller modificada (Endoscopia Digestiva alta) grau I: Erosões lineares ou ovaladas ocupando uma única prega longitudinal. grau II: Erosões situadas em mais de uma prega longitudi- nal, confluentes ou não, sem ocupar toda a circunferência. grau III: Erosões exsudati- vas confluentes ocupando toda a circunferência do Esôfago. grau Iv (complicações): Úlcera esofágica profunda, com exsu- dato e erosões circundantes no esôfago distal. http://#scrolldown http://#page=224 Cirurgia - Volume 2 59Medgrupo - CiClo 2: M.E.D grau Iv (complicações): Es- tenose péptica do esôfago distal. grau v (barrett): Áreas de Metaplasia de barret (áreas vermelho-salmão). Além da classificação de Savary-Miller, existe também a classificação de Los Angeles para a esofagite de refluxo, que é adotada por muitos endoscopistas. Veja que esta classificação não inclui as formas mais graves (VI e V de Savary-Miller). Classificação endoscópica de Los Angeles A Uma ou mais erosões até 5 mm. B Uma ou mais erosões > 5 mm em sua maior extensão, não continuas entre os ápices de duas pregas esofágicas. C Erosões contínuas (ou convergentes) entre os ápices de pelo menos duas pregas, envolvendo menos do que 75% do órgão. D Erosões ocupando pelo menos 75% da circunferência do órgão. Saiba maiS: Erosão = solução de continuidade > 3 mm de diâmetro, limitada à mucosa superficial, com depósito de fibrina e permeação neutrofílica do epitélio (exocitose). Úlcera = solução de continuidade que atinge ao menos a camada muscular da mucosa, com presença de tampão e tecido de granulação. Erosão ou úlcera? RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS – MS Mulher de 58 anos apresenta queixa de dor epigástrica em queimação há aproximada- mente 2 meses com piora progressiva, procu- rou serviço médico onde foi prescrito omepra- zol 40 mg/dia por 8 semanas. Como persistiu com sintomas, procurou novamente o mesmo médico que solicitou Endoscopia Digestiva Alta (EDA). Em relação à conduta tomada pelo médico, pode-se dizer que: a) CORRETA, uma vez que é indicação de realização de EDA na falência com tratamen- to com inibidor de bomba de Prótons por 8 semanas. b) ERRADA, pois o médico deveria ter solici- tado EDA já na primeira consulta. c) ERRADA, já que a dose prescrita do inibidor de bomba de Prótons foi inadequada. d) CORRETA, pois EDA só está indicada na presença de sinais de alarme. e) ERRADA, porque o médico deveria dobrar a dose do inibidor de Bomba de Prótons e tratar por mais 8 semanas, antes de solicitar a EDA. Veja que a conduta do nosso colega foi equivocada. Diante de uma paciente com sintomas dispépticos (“dor epigástrica em queimação”) que tenha mais de 45 anos ou que apresente algum sinal de alarme, deve- mos solicitar a EDA logo na primeira consul- ta... Gabarito letra B. pHMetria de 24H Este é o exame padrão-ouro para detecção do refluxo gastroesofágico patológico! Con- tudo, é um exame dispendioso e descon- fortável, pois o paciente deve permanecer com um cateter nasoesofágico durante 24 horas... Entretanto, o exame vem se tor- nando mais aceitável devido às inovações tecnológicas. Novos cateteres sem fio (wi- reless) permitem uma monitorização mais confortável que pode até se estender por mais de 24h! Os inibidores de bomba de próton devem ser descontinuados antes da realização do exame. Como a inibição da bomba de hidrogênio é irreversível, a suspensão deve ser realizada de quatro a cinco dias antes do teste, que é o tempo de vida da célula parietal. Todas as indicações da pHmetria visam res- ponder à seguinte pergunta: Será que existe mesmo refluxo? Está indicada nos seguintes casos: • Sintomas típicos de refluxo refratários à te- rapia, com endoscopia normal ou duvidosa (DRGE não erosiva). • Sintomas atípicos de refluxo, incluindo sinto- mas respiratórios, otorrinolaringológicos e a dor subesternal, que não responderam a prova terapêutica com IBP por dois a três meses. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR201106 Cirurgia - Volume 2 60Medgrupo - CiClo 2: M.E.D • Confirmação do diagnóstico de DRGE antes da cirurgia antirrefluxo. • Reavaliação de pacientes ainda sintomáticos após cirurgia antirrefluxo. A pHmetria determina a relação entre os sin- tomas e os episódios de refluxo. Esse exame é feito a partir da colocação de um cateter no esôfago distal (5 cm acima do esfíncter esofagiano inferior*), com sensores capazes de registrar o pH intraluminal. Consi- deramos que está havendo refluxo cada vez que o pH cai para menos de 4,0. Como você já viu, pode ocorrer refluxo sem ocorrência de doença do refluxo gastroesofágico propria- mente dita. Consideramos DRGE quando mais de 7% das medidas de pH (4,5% em algumas referências) são inferiores a 4,0 – a partir deste nível (também chamado “índice de refluxo”) é bastante provável que o reflu- xo de material ácido para o esôfago seja o causador do quadro clínico e/ou endoscópico característico da DRGE. Assim: pHmetria de 24 horas com pH < 4 em mais de 7% das medidas = DRGE * na pesquisa de sintomas atípicos ele pode ser colocado em uma posição mais proximal. Um dos pontos negativos da pHmetria de 24 horas é que ela é incapaz de detectar os re- fluxos não ácidos, que também podem gerar sintomas. O ALuNO PERGuNTA...o Durante o ano passado, recebemos uma dúvida interessante por e-mail: “Professores, o que vem a ser escore de DeMeester e para que ele é utilizado?” A escala de DeMeester é confeccionada através dos dados adquiridos pela pHmetria de 24 horas e tem por objetivo avaliar a gravi- dade do refluxo gastroesofágico. Fazem parte dessa avaliação: O número de eventos totais de refluxo (pH < 4) Extensão de eventos em ortostase Extensão de eventos durante o decúbito Episódio de refluxo mais longo Número de episódios > 5 minutos Cada uma das variáveis é empregada em uma fórmula que leva em consideração o peso que cada uma tem devido aos seus diferentes po- tenciais em causar dano esofágico. Uma pon- tuação > 14,7 caracteriza refluxo significativo! Em resumo: • A endoscopia digestiva alta documenta a lesão mucosa (esofagite de refluxo), as possíveis complicações da DRGE e exclui a presença de neoplasia. • A pHmetria de 24 horas é utilizada em casos selecionados para documentação e quanti- ficação do refluxo. Esse exame responde à pergunta: Será que existe mesmo refluxo? RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL NAVAL MARCÍLIO DIAS – HNMD O diagnóstico de Refluxo Gastroesofágico (RGE) pode ser de difícil confirmação e mui- tas vezes é questionada sua participação na gênese dos sintomas respiratórios. A história clínica é de suma importância e dentre os exa- mes disponíveis para o diagnóstico, assinale aquele que é considerado padrão ouro. a) Radiografia contrastada do esôfago, es- tômago e duodeno. b) PHmetria. c) Endoscopia digestiva alta com biópsia esofágica. d) Manometria esofágica. e) Cintilografia esofágica. O diagnóstico é CLÍNICO, mas se te per- guntarem o padrão-ouro a resposta passa a ser pHmetria de 24 horas. Gabarito “B”. outros exaMes Esofagomanometria é indicada para: DRGE com indicação cirúrgica, para determinar a necessidade de uma fun- doplicatura parcial nos casos de hipo- tonia do esôfago (hoje esta indicação é controversa – mais detalhes adiante). Suspeitade distúrbios motores esofá- gicos associados. Localizar o EEI, antes da pHmetria – em alguns casos. Exame radiológico contrastado de esôfago: Atualmente é muito pouco indicado, pois apresenta baixa sensibilidade, sobretudo nos casos de esofagite leve. A principal informação fornecida é sobre a presença de complicações, tais como estenose, úlcera e retração do esôfago, podendo http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 61Medgrupo - CiClo 2: M.E.D auxiliar na orientação do tratamento. É o exame mais sensível para o diagnós- tico. Pode sugerir, também, a presença de hérnia hiatal associada ou alterações motoras como ondas terciárias e espas- mos do órgão. A esofagografia baritada é capaz de detectar pequenas estenoses não visíveis à endoscopia devido à dila- tação esofágica. Impedâncio-pHmetria esofágica: Atenção, pois provavelmente esse método será cobrado em algumas bancas já que vem despontando como provável novo padrão-ouro para diagnóstico de DRGE! Trata-se da associação de um cateter capaz de medir a impedância esofágica associado à pHmetria convencional. Esse método é capaz de identificar os refluxos ácidos e também os não ácidos. Mas o que é impedância? É uma medida referente à resistência que um material possui a condução de uma corrente elétrica. Na realidade, ela é inversamente proporcional à condutividade elétrica de uma substância. Por exemplo, o ar conduz eletri- cidade de forma muito ruim, logo possui uma alta impedância. Já o bolo alimentar possui baixa impedância, visto que conduz bem cor- rentes elétricas... Dessa maneira, o cateter de impedanciometria é capaz de caracterizar exatamente a propagação do bolo alimentar, bem como o seu refluxo! Devido ao estudo da propagação, o exame consegue diferenciar a ingestão de uma bebida ácida de um episódio de refluxo verdadeiro. O teste permite ainda que a “altura” do refluxo seja quantificada, o que pode permitir uma associação clara do refluxo com sintomas da via aérea superior. Esse método, quando associado à pHmetria está associado a uma sensibilidade maior do que a pHmetria isoladamente. OK, mas realmente vale a pena realizar o exame? Sim!!! A impedâncio-pHmetria é capaz de superar algumas limitações diagnósticas encontradas até o momento, como a confir- mação da presença de reflexo sintomático a despeito da terapia com IBP, na melhor caracterização dos sintomas atípicos e na avaliação da persistência de sintomas após as cirurgias para correção do refluxo. Con- tudo, trata-se ainda de um método “novo” e de disponibilidade limitada até o momento. O exame também tende a hiperestimar o número de episódios de refluxo, o que torna necessária a revisão e edição de cada teste, tornando-o menos prático para uso rotineiro. Teste de Bernstein: Consiste na instilação de solução salina e ácido clorídrico no esôfago. Nos pacien- tes sem refluxo nenhum dos dois causa sintomas, enquanto nos portadores de DRGE o uso de ácido pode reproduzir os sintomas de refluxo. Vamos fazer mais algumas questões... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE JUNDIAÍ – SP O exame com maior sensibilidade e especifi- cidade no diagnóstico da Doença do Refluxo Gastroesofágico, dentre os relacionados a seguir, é: a) O RX contrastado do esôfago, estômago e duodeno com a observação de refluxo gas- troesofágico em posição de Trendelemburg. b) O RX contrastado do esôfago, estômago e duodeno com o aparecimento de hérnia hiatal. c) A manometria esofágica. d) A impedanciometria esofágica. e) A pHmetria esofágica de 24 horas. Por mais que a pHmetria ainda seja conside- rada nos livros como o exame padrão-ouro para o diagnóstico de DRGE, a impedanciometria esofágica (um método diagnóstico relativamen- te novo, e por conta disso, de disponibilidade extremamente limitada) tem se mostrado mais sensível e mais específica do que a pHmetria, por permitir a mensuração do refluxo não áci- do, o qual ocorre predominantemente após as refeições e durante o período de tratamento com drogas antissecretórias. Vários estudos tem sugerido que este método seja conside- rado, de agora em diante, o padrão-ouro para o diagnóstico de DRGE! Alternativa D correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE LIMEIRA – SP Qual das alternativas abaixo está correta? a) Sintomas de disfagia, odinofagia, perda de peso e sangramento digestivo alto são manifestações comuns na doença do refluxo gastroesofágico. b) O esôfago de Barrett à endoscopia é um achado frequente na doença do refluxo gas- troesofágico, sem significado clínico e não requer atenção. c) O Helicobacter pylori está associado à doen- ça do refluxo gastroesofágico. d) A endoscopia digestiva alta normal não exclui o diagnóstico de doença do refluxo gastroesofágico. Avaliando as alternativas: a) INCORRETA: As manifestações comuns são Pirose + Regurgitação. b) INCORRETA: Primeiro, veremos que a endoscopia somente sugere o diagnóstico de Barret, e quando presente, requer atenção dobrada por ser uma lesão pré adenocarci- nomatosa. c) INCORRETA: Pegadinha clássica de pro- va!!! H. pylori não está relacionado com a DRGE. d) CORRETA: Em mais de 50% dos pacientes com DRGE a EDA pode estar normal. Gabarito letra D. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 62Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Esofagite de refluxo: presente em até 50% dos casos. Estenose péptica de esôfago: causa disfa- gia insidiosa, progressiva. Úlcera esofágica: pode causar odinofagia e hemorragia digestiva, sendo comumente associada ao esôfago de Barrett. Esôfago de Barrett: corresponde à substi- tuição do epitélio escamoso estratificado do esôfago distal por epitélio colunar contendo células INTESTINAIS (metaplasia intestinal). Pode haver redução dos sintomas de refluxo, pois o epitélio colunar é mais resistente ao ácido. O risco de desenvolvimento de adeno- carcinoma é de 0,5% ao ano. Sintomas respiratórios: o refluxo ácido pode atingir a orofaringe, a laringe ou a traqueia, provocando faringite (pigarro frequente), la- ringite (rouquidão), traqueíte (tosse seca) e mesmo broncoespasmo, com quadro de asma brônquica. complicações Esofagite de refluxo A esofagite de refluxo já foi abordada quan- do tratamos do diagnóstico endoscópico da DRGE. Cerca de 40-50% dos pacientes com DRGE apresentam esofagite de refluxo à endoscopia – relembre agora a classificação segundo a escala de Savary-Miller modificada: • I: erosões em apenas uma prega longitudinal esofágica. • II: erosões em mais de uma prega. • III: erosões em mais de uma prega, ocupando toda a circunferência do esôfago. • IV: presença de úlcera esofágica ou estenose péptica do esôfago distal, isoladas ou asso- ciadas às lesões graus I a III. • V: esôfago de Barrett, isolado ou associado às lesões graus I a IV. A esofagite de refluxo pode se manifestar com sangramento eventual. Por sua importância, a estenose péptica, a úlcera esofágica e o esôfago de Barrett serão abordados separa- damente. Observações importantes: A intensidade e a frequência dos sintomas são fracos preditores da presença ou da gravidade da esofagite! De maneira interessante, a esofagite pro- gride pouco com o passar do tempo. Ape- nas 15% dos pacientes com DRGE e eso- fagite leve (ou sem esofagite) progridem para graus mais avançados da doença. Por outro lado, naqueles com esofagite mais intensa os sintomas tendem a reci- divar rapidamente quando o tratamento é interrompido. Estenose Péptica de Esôfago Úlcera Esofágica Epitélio colunar: Esôfago de barrett Ocorre em 10% dos casos, geralmente nos pa- cientes com esofagite grave, circunferencial. Esta complicação se inicia no terço inferior do esôfago, assumindo, com o passar dos anos, um padrão “ascendente”. A disfagia por obstrução mecânica (predominando a disfagia para sólidos) é a característica clínica mais importante, geralmente aparecendo insidiosa- mente e sendo precedida em anos por sinto- mas como pirose – é necessáriauma DRGE de longa data para levar à estenose péptica do esôfago. Abaixo da área de estenose ge- ralmente se encontra epitélio colunar (Barrett). A estenose péptica corresponde ao grau IV da classificação de Savary-Miller. Se associada ao esôfago de Barrett, deve ser classificada como grau V. Além das erosões superficiais mais comuns, a esofagite de refluxo pode complicar com úl- ceras mais profundas (alcançam a muscular da mucosa), resultando em manifestações como dor (odinofagia) e hemorragia. Em geral, essas úlceras estão localizadas no epitélio colunar (“úlcera de Barrett”). A úlcera esofá- gica corresponde ao grau IV da classificação de Savary-Miller. Se associada ao esôfago de Barrett, deve ser classificada como grau V. Atenção: não confundir erosões com úlceras! As erosões são bem mais comuns e acome- tem apenas a mucosa superficial! É a substituição do epitélio escamoso es- tratificado do esôfago por epitélio colunar contendo células INTESTINAIS (metaplasia intestinal), em qualquer extensão do órgão. É verificado em 4-10% dos pacientes com DRGE submetidos à biópsia, em especial aqueles com doença de longa data. Corresponde ao grau V da classificação de Savary-Miller. Atenção para o seguinte dado: para o diagnóstico de EB é necessária a confirmação por biópsia, além dos achados característicos no esôfago distal durante a EDA. O achado característico à Pa- tologia é a presença de células caliciformes, melhor identificadas pelo corante alcian-blue, que confirmam a metaplasia intestinal. Para não errar de bobeira! O aspecto endos- cópico (mucosa com coloração salmão) pode até sugerir a metaplasia intestinal, no entanto, para o diagnóstico é necessária a biópsia!!! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 63Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Os casos em que o esôfago distal é re- vestido por epitélio colunar sem meta- plasia intestinal não são considerados esôfago de Barrett, e sim “esôfago re- vestido por epitélio colunar”. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL NAVAL MARCÍLIO DIAS – RJ Qual o exame a seguir é o melhor para diag- nosticar o esôfago de Barret? a) Seriografia esôfago-estômago-duodeno. b) Ultrassom trans-hiatal. c) Teste da urease. d) Endoscopia com biópsia. e) Esofagomanometria. O esôfago de Barret é uma complicação da DRGE e corresponde à substituição do epitélio escamoso estratificado do esôfago por epitélio colunar contendo células intestinais (metapla- sia intestinal), em qualquer extensão do órgão (geralmente distal). Pode haver redução dos sintomas de refluxo, pois o epitélio colunar é mais resistente ao ácido. O risco de desenvol- vimento de adenocarcinoma é de 0,5% ao ano. O aspecto endoscópico (mucosa com colora- ção salmão) pode até sugerir o diagnóstico de esôfago de Barret, porém a confirmação deve ser feita com biópsia. O achado característico à patologia é a presença de células calicifor- mes, que confirmam a metaplasia intestinal. Resposta certa: D. Os mecanismos etiopatogênicos de progres- são de mucosa inflamada para esôfago de Barrett ainda não são totalmente conhecidos. Figura 2 - O diagnóstico é suspeitado pela inspeção do endoscopista, que ob- serva no terço inferior esofágico áreas de coloração vermelho-salmão (seta). A confirmação é feita pela biópsia. É interessante observarmos que o desenvolvi- mento do epitélio de Barrett no esôfago termi- nal pode diminuir os sintomas do refluxo, pois o epitélio escamoso típico do órgão dá lugar ao epitélio colunar, mais resistente ao ácido. A importância do esôfago de Barrett está no fato de ser uma lesão precursora do adenocarcinoma de esôfago. Cerca de 10% dos pacientes com Barrett desenvolverão adenocarcinoma (risco de 0,5% ao ano). Em relação à epidemiologia do esôfago de Barrett, é valido comentar que incide mais em homens brancos, com a prevalência aumentada pela idade e tempo de DRGE, sendo diagnosticado geralmente na faixa entre 45-60 anos. Outro fator de risco que vem se mostrando cada vez mais importante é a obesidade. Durante a atual epidemia de obesidade nos países ocidentais, sobretudo nos EUA, vêm crescendo assustadoramente os casos DRGE associada ao EB e ao ade- nocarcinoma esofágico. Fatores tidos como protetores ao desenvolvimento dessa me- taplasia são o consumo moderado de vinho tinto, a infecção crônica por H. pylori e a raça negra, embora ainda sejam necessários mais estudos para que essas associações sejam realmente comprovadas. No final de 2015, o Colégio Americano de Gastroenterologia (“American College of Gas- troenterology” – ACG) liberou uma revisão so- bre diagnóstico e o manejo para o Esôfago de Barrett (EB). Mesmo ainda não contemplado nas principais referências, achamos importan- te destacar os principais pontos. Em relação à triagem: de acordo com o guide- line, a triagem para o esôfago de Barrett está indicada para: Homem com DRGE por mais de 5 anos e/ou apresenta sintomas como: pirose e regurgitação (> 2 episódios/semana) + 2 ou mais dos seguintes: > 50 anos, origem caucasiana, obesidade central (circunferên- cia abdominal > 102 cm ou relação cintura – quadril > 0,9), história de tabagismo, história familiar positiva em parente de primeiro grau (nas mulheres o rastreio não deve ser feito de rotina, mas naquelas que reúnem múlti- plos fatores de risco, a estratégia deve ser considerada). Caso o rastreio seja negativo, uma nova EDA não é indicada. Agora, se na avaliação endoscópica for encontrada classi- ficação B, C ou D de Los Angeles, uma nova EDA após 8-12 semanas do tratamento com IBP é indicada para excluir a possibilidade de lesão subjacente. Quando estudarmos o tratamento da DRGE, você verá qual é a conduta ante um caso de esôfago de Barrett... sintomas respiratórios (asma brônquica, laringite, etc.) O refluxo pode produzir sintomas típicos de asma brônquica (asma relacionada ao reflu- xo). Cerca de 30-60% dos adultos asmáticos apresentam refluxo patológico na pHmetria. Dois mecanismos são propostos: um reflexo vagal esofagobrônquico e episódios de mi- croaspiração de conteúdo ácido. O refluxo ácido, quando atinge as vias aé- reas, provoca faringite (pigarro frequente), laringite (rouquidão) ou traqueíte (tosse seca) crônicas. A laringite pode evoluir com estenose laringotraqueal e até mesmo com câncer de laringe! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 64Medgrupo - CiClo 2: M.E.D As principais causas de tosse crônica em adultos são sinusite crônica, asma brôn- quica e DRGE! Um quadro sugestivo de asma brônquica ini- ciado na idade adulta e pouco responsivo ao tratamento convencional é altamente suges- tivo de DRGE... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL PRÓ-CARDÍACO – RJ Em relação ao esôfago de Barret, assinale a alternativa mais adequada: a) Caracteriza-se pela substituição de epitélio escamoso pelo colunar. b) É consequência da doença de refluxo gas- troesofágico. c) A metaplasia intestinal está associada ao aumento do risco de adenocarcinoma. d) Os sintomas estão relacionados ao refluxo gastroesofágico e não ao esôfago de Barret especificamente. e) Todas as alternativas estão corretas. O Esôfago de Barret (EB) é uma alteração HISTOPATOLÓGICA do esôfago caracteri- zada pela substituição do epitélio escamoso esofágico pelo epitélio intestinal, isto, é uma metaplasia do tipo intestinal. O grande proble- ma desta metaplasia é que ela é um fator de risco, uma verdadeira etapa, na carcinogênese do adenocarcinoma de esôfago. É ocasionada pela agressão ácida que atinge o esôfago por causa da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE). Não há sintomatologia específica desta alteração histopatológica, estando os sintomas relacionados a DRGE. Resposta: Letra E. tratamento Não farmacológico: Evitar gorduras, cítricos, café, etanol, nicoti- na... (relaxam o EEI). Preferir refeições com pouco líquido e fra- cionadas, não se deitar após comer, elevar a cabeceira da cama. Evitar drogas que reduzam o tônus do EEI. Farmacológico: Antissecretores– a escolha recai sobre os IBP, como o omeprazol 20 mg/dia (a dose pode ser dobrada em caso de esofagite gra- ve ou na ausência de resposta satisfatória à dose padrão após 12 semanas). * Há necessidade de repetir a EDA ao final do tratamento apenas nos pacientes cujo diagnóstico inicial é de DRGE com esofagite graus III a V de Savary-Miller. Cirúrgico: Alternativa à terapia de manutenção com IBP em longo prazo para pacientes jovens com baixo risco cirúrgico. Controle de refluxo nos pacientes com sin- tomas pulmonares recorrentes (aspiração, asma e pneumonia). Pacientes impossibilitados do uso de terapia de manutenção. Terapia de escolha para complicações como estenose (após dilatação), esofagite recor- rente e úlcera esofagiana. Esôfago de Barrett: Definição: substituição do epitélio escamoso estratificado do esôfago por epitélio colunar contendo células INTESTINAIS (metaplasia intestinal). Tratamento clínico: IBP em dose plena para Barrett curto (< 3 cm); dose dobrada nos demais. Evolução do Barrett: apenas metaplasia displasia de baixo grau displasia de alto grau adenocarcinoma invasivo. Conduta de acordo com o estágio (Sabiston): • Apenas metaplasia: acompanhar com nova EDA em um ano, e depois a cada dois ou três anos. • Displasia de baixo grau: acompanhar com duas EDA no 1º ano (6 e 12 meses) e depois anualmente. • Displasia de alto grau (carcinoma in situ): esofagectomia distal. IMPORTANTE: O H. pylori não está asso- ciado à DRGE! Medidas antirrefluxo Embora essas abordagens sejam utilizadas clinicamente, a sua eficácia não tem sido com- provada em estudos. Uma análise sistemática concluiu que há apenas evidência de eficácia para a perda de peso e para a elevação da cabeceira. De qualquer forma, é interessante que você as conheça: • Elevação da cabeceira do leito (15 cm). • Moderar a ingestão dos alimentos que parti- cularmente agravem os sintomas, tais como: gorduras, cítricos, café, bebidas alcoólicas e gasosas, menta, hortelã, molho de tomate, chocolate, condimentos em excesso. • Fracionar a dieta. • Evitar deitar-se nas duas horas posteriores às refeições. • Evitar roupas e cintos apertados, agachar, e exercícios abdominais (o aumento da pres- são intra-abdominal favorece o refluxo). • Redução do peso em obesos. • Evitar drogas que reduzam o tônus do EEI (anticolinérgicos, beta-agonistas, antago- nistas do cálcio, nitrato, derivados da mor- fina, diazepínicos, barbitúricos, teofilina e alendronato). • Parar de fumar. • Promover o aumento da salivação (com o uso de gomas de mascar, por exemplo) pode ser útil, pois a saliva neutraliza o refluxo ácido, aumentando o clearance ácido esofagiano. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 65Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Os principais medicamentos disponíveis para o tratamento da DRGE são os antissecreto- res ácidos (bloqueadores H2 e inibidores da bomba de prótons). A razão de utilizarmos essas drogas na DRGE é bastante simples: a redução da secreção de ácido clorídrico pelo estômago resulta em uma diminuição da agres- são à mucosa do esôfago distal. Ou seja, os antissecretores não impedem o refluxo, mas reduzem as suas consequências. Assim, os antissecretores controlam adequadamente os sintomas acidodependentes da DRGE, como a pirose, porém não têm efeito adequado no controle de sintomas decorrentes da presença física do refluxo (independentes da acidez do mesmo), como os respiratórios... Drogas como antiácidos e procinéticos vem perdendo espaço e não são mais indicadas (pela maioria das referências) para o trata- mento em longo prazo. Fique atento agora! As principais referências apresentam alguns pontos de divergência. Vamos tomar como base o Consenso Brasi- leiro sobre DRGE (CBDRGE), mas pontuare- mos também os detalhes presentes na 20ª ed. do Sabiston e do último guideline do Colégio Americano de Gastroenterologia (CAG). Atualmente, as grandes drogas para trata- mento do DRGE, são os Inibidores da Bom- ba de Prótons (IBP). Essas drogas atuam inibindo a H+/K+-ATPase luminal das células parietais do estômago, reduzindo a secreção ácida. O fármaco mais prescrito desta classe é o Omeprazol. O CBDRGE considera que, nos pacientes com diagnóstico de DRGE, a conduta inicial é começar o tratamento com inibidor da bomba de próton por 4-8 semanas (dose plena – veja a tabela abaixo). Alguns autores propõem a administração de dose do- brada para as esofagites de maior gravidade (graus III a V de Savary-Miller e C-D de Los Angeles) desde o início do tratamento. Mas repare que isso só será possível caso o(a) paciente tenha feito EDA prévia. Ou seja, nos casos em que começamos o tratamento de forma empírica, devemos utilizar a dose plena. tratamento Farmacológico Inibidores da Bomba Protônica e Doses Plenas Diárias. Inibidor da Bomba Dose Plena Diária Protônica Omeprazol 20 mg Lansoprazol 30 mg Pantoprazol 40 mg Rabeprazol 20 mg Esomeprazol 40 mg Segundo o Sabiston, os efeitos adversos mais comuns dos IBP são cefaleia e diarreia. Outros efeitos observados são miopatias, artralgias e osteoporose. O omeprazol ainda aumenta o efeito de drogas como o diazepam e o warfa- rin, que são metabolizadas pela mesma via no citocromo P450. Os pacientes que não apresentarem res- posta totalmente satisfatória ao tratamento com IBP por 8 semanas (cerca de 20% dos casos) devem ter o tratamento repetido por mais 8-12 semanas com dose dobrada antes de serem considerados como insucesso terapêutico. Nos casos em que for necessá- rio tratamento de manutenção (pacientes que ficam sintomáticos quando retiram a droga), este deve ser feito com IBP, utilizando a dose mínima eficaz, ou seja, aquela com a qual o paciente apresenta-se assintomático (veremos que nos pacientes que desenvolvem esôfago de Barrett os IBP também devem ser mantidos). De acordo com o Sabiston e com o CAG, se o paciente se mantém sintomático após oito semanas de administração de IBP, uma avaliação mais aprofundada, visando afastar qualquer outra causa, está indicada. Em pacientes recebendo IBP, pode existir um fenômeno chamado “escape ácido noturno”, defi- nido como a permanência de um pH intragástrico < 4 durante mais de uma hora à noite. Por este motivo, alguns autores preconizam que o trata- mento com IBP seja associado a um bloqueador H2, como a Ranitidina 300 mg, antes de dormir. Os bloqueadores H2 atuam bloqueando os receptores de histamina das células parietais, uma das vias de estímulo neuroendócrino da secreção ácida (as outras são a acetilcolina e a gastrina, como já viu no início da apostila: agora você entende o motivo dos bloquea- dores H2 serem menos eficientes que os IBP... Eles bloqueiam somente uma via de estímulo, enquanto que os IBP interrompem as três vias, bloqueando a H+/K+-ATPase). São menos eficazes, porém bem mais bara- tos que os IBP. Os fármacos mais utilizados são a ranitidina e a cimetidina. A duração do tratamento é semelhante. Os bloqueadores H2 podem causar efeitos neurológicos centrais (sonolência, confusão, alucinações...) devido ao seu efeito anti-his- tamínico. Os antiácidos, como o hidróxido de alumínio/ magnésio (Mylanta plus), são úteis para alívio imediato dos sintomas, pois neutralizam o ácido presente no estômago e esôfago distal, gerando um sal e água. Porém, não devem ser usados com posologia regular, pois são bem menos eficazes que os IBP e os bloqueadores H2... Os procinéticos agem elevando a pressão do Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI), além de aumentar a contratilidade esofagiana e acele- rar o esvaziamento gástrico. São antagonistas dopaminérgicos D2, que inibem a atividade da dopamina no plexo mioentérico, aumentando a atividade colinérgica. Podem ser utiliza- dos como drogas adjuvantes na DRGE. Os principais representantes dessa classe são http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 66Medgrupo - CiClo 2: M.E.D a Bromoprida (Digesan®), a Metoclopramida (Plasil®) e a Domperidona(Motilium®), todos na dose de 10 mg via oral, 15-30 minutos antes das principais refeições. O bloqueio D2 central explica o efeito antiemético dessas drogas, mas também justifica seus efeitos neuroló- gicos: sonolência, distonia, acatisia (efeitos extrapiramidais), galactorreia... A domperidona possui menor efeito central, causando menos efeitos adversos. Saiba maiS: A maioria dos estudos realizados para com- paração do efeito dos inibidores de bomba de prótons em dose padrão não evidenciou diferença significativa entre os fármacos des- sa classe, do ponto de vista clínico. Há algu- mas diferenças farmacológicas importantes: quanto à biodisponibilidade, por exemplo, a do omeprazol é a menor (45%) e a do lansopra- zol é maior (85%), enquanto o pantoprazol é aquele que atinge as maiores concentrações no plasma. A meia-vida, se considerarmos também os metabólitos ativos, é semelhante entre todos os IBP. Contudo, cabe ressaltar que, do ponto de vista clínico (quando com- paramos a eficácia dos IBP para redução dos sintomas de DRGE ou cicatrização da esofagi- te de refluxo, por exemplo), a eficácia dos me- dicamentos dessa classe é semelhante – em poucos estudos houve um resultado diferente com significância estatística. Tais fatos, a prin- cípio, justificariam a prescrição do omeprazol para todos os pacientes, já que este é o IBP mais barato no mercado. No entanto, ainda não podemos generalizar dessa maneira, já que existem outros estudos em andamento e que podem apontar resultados diferentes... Um grande estudo recente mostrou benefício do esomeprazol sobre o omeprazol e o lan- soprazol, em particular nas esofagites mais graves (NNT em torno de 7 a 10). Qual IBP usar? Em quais pacientes está indicada a endos- copia de controle após o tratamento clínico? A princípio, apenas os pacientes cujo diagnós- tico inicial seja de esofagite com intensidade moderada ou grave, graus III a V de Savary- -Miller ou C-D de Los Angeles. Lembrem-se, esta informação consta no CB- DRGE! Mas só sabemos Savary-Miller ou Los Angeles naqueles pacientes submetidos a EDA. Cuidado! Não pule a próxima questão! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ O uso prolongado de IBP aumenta a incidên- cia de: a) Tumor carcinoide. b) Anemia megaloblástica. c) Fraturas de quadril. d) Miocardiopatia. Questão difícil, de “rodapé de livro”! Teori- camente, o estado de hipocloridria prejudica a absorção de cálcio (e também de magnésio), o que promoveria uma tendência osteopêni- ca... Existem algumas evidências de que o uso prolongado de IBP – e, portanto, a manuten- ção duradoura de um estado de hipocloridria – estaria associado a um aumento no risco de fratura de quadril. E as demais opções? A associação com tumor carcinoide foi descar- tada em estudos envolvendo seres humanos, embora tenha sido observada em ratos. Não existem sugestões de que essas drogas te- nham efeitos adversos cardiovasculares. Em relação à anemia megaloblástica, o estado de hipocloridria farmacologicamente induzida simplesmente não exerce nenhuma influência sobre a absorção de vitamina B12 ou folato... Entenda essa pegadinha: sabemos que a secreção de fator intrínseco é proporcional à secreção de ácido clorídrico, pois uma mesma célula produz essas duas substâncias (célula parietal)... Todavia, diferentemente do que acontece na gastrite atrófica, por exemplo, no caso da supressão da secreção ácida por uma medicação, a secreção de fator intrínseco está preservada (a célula está integra, ela só não consegue secretar o ácido)... O fator intrínseco se liga fortemente à cobalamina o duodeno, formando um complexo que resiste a todo tipo de “ataque digestivo” (seja ácido, seja alcalino) até conseguir atingir o íleo terminal, local onde a mucosa exibe receptores específicos para sua absorção. Gabarito letra C. Cabe ressaltar que apesar de bem definido esse mecanismo, alguns tratados como o Cecil e o Harrison continuam afirmando que o uso crônico de IBP’s é fator de risco para deficiência de B12... Portanto, atenção para em área da sua prova está a questão! Outras complicações apontadas pelas mesmas refe- rências são as pneumonias comunitárias e as infecções por Clostridium difficile. Tudo certo? Antes de responder, pare e pense: se todas as causas de hipocloridria crônica (gastrite atrófica por H. Pylori, gastrectomia parcial, anemia perniciosa, etc.) são fatores de risco para o desenvolvimento de câncer gástri- co, por que o uso crônico de IBP também não seria? Essa pulga atrás da orelha permaneceu por muito tempo na cabeça daqueles que pres- creviam uma terapia de manutenção com IBP. Por isso foram feitos diversos ensaios clínicos com duração de 15 anos ou mais para avalia- ção dos efeitos colaterais desses fármacos. Surpreendentemente, não houve aumento da incidência das neoplasias gástricas. Como se o principio do tratamento é a hipocloridria? Entenda: O bloqueador de bomba de próton só consegue bloquear bombas de H+ ativas. Como elas “ciclam” entre a atividade e inativi- dade ao longo do dia, é impossível bloquear todas de uma só vez. Dessa forma, o uso de IBP reduz bastante a secreção ácida, mas não a elimina. Embora o ácido restante seja ineficaz na absorção de cálcio ele é suficien- te para não induzir a formação de displasias gástricas! É possível ainda depreender outro http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 67Medgrupo - CiClo 2: M.E.D conceito desse tema: As bombas de H+ estão em sua maioria ativas 30 minutos antes das refeições. Daí vem a clássica prescrição de IBM cerca de 30 minutos antes do café da manhã e do jantar! Mais? Ok! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UEL – PR Paciente do sexo masculino, 34 anos de ida- de, apresenta pirose e azia acompanhadas de regurgitação. À endoscopia digestiva, não apresenta esofagite erosiva, a cárdia está localizada a 2 cm abaixo do pinçamento dia- fragmático e o teste de urease apresentou coloração vermelha no dia seguinte ao exame. Em relação ao diagnóstico ou ao tratamento desse paciente, assinale a alternativa correta. a) A erradicação do Helicobacter pylori me- lhorará muito a sintomatologia, evitando a cirurgia. b) A confirmação de hérnia hiatal indica cirur- gia como melhor opção terapêutica. c) A manometria esofagiana é imprescindível para a escolha do tratamento. d) Ausência de erosão afasta o diagnóstico de doença do refluxo gastroesofagiano. e) Instituir tratamento com bomba protônica (BP) em dose plena diária por 4 semanas. Temos um paciente jovem com sintomas clássicos da doença de refluxo gastroesofá- gico (DRGE): pirose + regurgitação. Apenas isso já é suficiente para o diagnóstico clínico presuntivo desta doença, sem necessidade de Endoscopia Digestiva Alta (EDA). Sabe- mos que o exame padrão-ouro é a pHmetria de 24 horas, que também não deve ser soli- citada em todos os pacientes. Como vemos na descrição, o paciente não possui hérnia diafragmática. O teste da urease com colora- ção vermelha indica infecção pela H. pylori, no entanto a DRGE não indica a erradicação desta bactéria, tão prevalente na população brasileira. Nos resta agora iniciar o tratamento com IBP. Gabarito: E. tratamento cirúrgico O tratamento cirúrgico é mais eficaz que o tratamento clínico em relação à melhora dos sintomas e cicatrização da esofagite. Contudo, apenas uma pequena parcela dos portadores de DRGE são candidatos à cirurgia... Quando indicar? DRGE não complicada: Pacientes que, por alguma razão (ordem pes- soal, econômica, intolerância, etc.) acham- se impossibilitados de dar continuidade ao tratamento clínico. Aqui se incluem os que respondem satisfatoriamente ao tratamento clínico, inclusive os pacientes com manifes- tações atípicas cujo refluxo foi devidamente comprovado. Pacientes com grandes volumes de regurgi- tação e sintomas aspirativos não controlados com IBP. Alternativa ao tratamento contínuode manu- tenção com IBP, especialmente em pacien- tes jovens (< 40 anos). ATENÇÃO PARA O SEGuINTE CONCEITO: a refratariedade ao tratamento com IBP não é necessariamente uma indicação cirúrgica! Devido à alta eficácia desses fármacos no controle da sintomatologia da DRGE, a refra- tariedade deve sugerir a pesquisa de outras etiologias como causadora dos sintomas. Somente após uma investigação detalhada e confirmação do refluxo a cirurgia poderá ser indicada. DRGE complicada: O tratamento cirúrgico está indicado nas formas complicadas, com este nose, úlcera e quando houver adenocarcinoma. Embora estejamos sempre tentados à indica- ção de tratamento cirúrgico nas complicações de DRGE, saiba que o tratamento clínico das mesmas também é adequado e amplamente aceito como forma de tratamento. E o esôfago de Barret, não é indicação de cirurgia? Muito cuidado! Existem várias opções de trata- mento aceitas: endoscopia para controle, tera- pia ablativa, ressecção endoscópica da muco- sa, cirurgia antirrefluxo e ressecção esofágica. Em geral, os gastroenterologistas defendem programas de vigilância com acentuada supres- são ácida, e os cirurgiões advogam o fato de que a operação antirrefluxo é a melhor manei- ra para se resolver o problema de um EEI dis- funcional, afirmando que a terapia clínica e endoscópica podem tratar os sintomas, mas falham em resolver o refluxo. É provável que exista papel para cada um. Na nossa discussão vamos pontuar o que diz as principais referên- cias, entre elas, o último guideline do Colégio Americano de Gastroenterologia. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE GOIÁS – HCG A doença do refluxo gastroesofágico deve ser tratada cirurgicamente nos pacientes portadores de: a) Asma brônquica e esofagite edematosa. b) Rouquidão com pressão média ao nível do esfíncter inferior do esôfago de 14 mmHg. c) Estenoses pépticas do esôfago e depen- dentes do uso de inibidores de bomba protônica. d) Hérnia hiatal do tipo I e esofagite erosiva. Estranho não? Todas as situações referidas podem ser manejadas com o uso contínuo de http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 68Medgrupo - CiClo 2: M.E.D IBP. Não adianta brigar com a questão! Vamos procurar as que mais se encaixam no perfil cirúrgico. Você já sabe que a cirurgia pode ser utilizada como alternativa eficaz ao uso contínuo de IBP e que complicações como estenose péptica tendem a ter um tratamento cirúrgico indicado. Gabarito alternativa “C”. Como é a técnica cirúrgica? A cirurgia de escolha para a DRGE é a fun- doplicatura, procedimento no qual o fundo gástrico é suturado em torno do esôfago distal, elevando a pressão no esfíncter esofagiano inferior – veja as figuras para entender melhor! Antes da cirurgia, devemos solicitar uma pHmetria de 24 horas a fim de confirmar o diagnóstico de DRGE. E, como veremos adiante, uma esofagomano- metria também deve ser realizada para uma melhor escolha da técnica. A última edição do Sabiston ainda advoga a importância de uma EDA, não a citando com obrigatória, mas afir- mando que seria de bom tom a sua realização no pré-operatório. O resultado do tratamento cirúrgico nas ma- nifestações atípicas da DRGE costuma ser menos satisfatório do que o resultado do tra- tamento cirúrgico nas manifestações típicas do refluxo. A fundoplicatura de Nissen ou total (360º, envolvendo toda a circunferência do esôfago) é o tratamento de escolha. O acesso é abdo- minal, sendo a via laparoscópica preferível. As fundoplicaturas parciais (180-270º) eram indicadas na presença de dismotilidade eso- fagiana comprovada por esofagomanometria, para evitar disfagia no pós-operatório. Con- tudo, as últimas edições do Sabiston ques- tionam este conceito, preconizando que a fundoplicatura total pode ser realizada em todos os casos, sem aumento do risco de disfagia no pós-operatório, exceto nos pa- cientes com completa aperistalse esofagiana – fique atento ao fazer as questões pois mui- tos autores ainda preconizam a esofagoma- nometria de rotina! Veremos isso em algumas questões, e muito cuidado para não errar no momento da prova... Acompanhe, nas ima- gens abaixo: as válvulas parciais podem ser anteriores (como nas técnicas de Dor e Thal, 180o e 90o respectivamente) ou posteriores NOVIDADES Técnicas endoscópicas para tratamento da DRGE Várias modalidades de tratamento endoscó- pico da DRGE têm sido estudadas, como a plicatura endoscópica, a aplicação de radio- frequência e injeção de polímeros na transi- ção esofagogástrica. Porém, apesar de haver resultados favoráveis, não há estudos bem controlados e de duração suficiente que justi- fiquem a aplicação rotineira desses tratamen- tos, que permanecem em fase experimental. (como na cirurgia de Toupet-Lind, 270o). Em todas elas, o acesso é classicamente abdo- minal, embora também possam ser executa- das pelo tórax... As fundoplicaturas anteriores são empregadas mais comumente após a realização de uma miotomia de Heller modi- ficada (ex.: tratamento de acalásia), sendo seu uso para tratamento direto de DRGE pouco estudado. Existem ainda cirurgias alternativas às con- vencionais. O acesso transtorácico esquerdo é o utilizado na técnica de Belsey-Mark IV, em que é confeccionada válvula gástrica parcial anterior de 270º. A fundoplicatura anterolateral de Watson deixa o ângulo de His mais agudo, aumentando a extensão da JEG, além de criar uma válvula de 120o. Com esse mesmo prin- cípio foi descrita a esofagogastropexia de Hill, que combinada à correção de uma hérnia de hiato tenta reconstruir e aumentar a JEG atra- vés de sua tração, impedindo o refluxo. Exis- te ainda uma variação da técnica de Nissen descrita como fundoplicatura mista. Apesar de ainda em estudo, seus criadores advogam que a mesma possui taxas de sucesso similares à cirurgia clássica, acarretando menos sintomas disfágicos no pós-operatório. http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR201069 Cirurgia - Volume 2 69Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 3 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 70Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Fundoplicatura anterolateral de Watson. Esofagogastropexia de hill. Vamos a algumas questões de Cirurgia... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE ALAGOAS – AL A cirurgia mais eficaz para correção de refluxo gastroesofágico: a) Cirurgia de Lind. b) Cirurgia de Nissen. c) Cirurgia de Lotart-Jacob. d) Cirurgia de Merendino. e) Gastrectomia proximal. A cirurgia “mais eficaz” para resolver o refluxo gastroesofágico é aquela em que se confecciona uma valva antirrefluxo mais “forte” e “abrangente”, ou seja, uma fundopli- catura de 360°. O epônimo que se refere a este procedimento é Nissen, em homenagem ao seu criador, o Dr. Rudolph Nissen. Logo, resposta certa: B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – RJ No tratamento da DRGE com esofagomano- metria normal a válvula mais indicada é: a) Fundoplicatura de Lindt. b) Fundoplicatura de Toupet. c) Fundoplicatura de Nissen. d) Fundoplicatura de Dor. e) Fundoplicatura de Pinotti. Aí ficou fácil!!! A técnica preferível é a de 360º: Nissen. Gabarito C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ A esofagomanometria é exame: a) Importante para determinar o tipo de válvula antirrefluxo mais adequada para o paciente com indicação cirúrgica. b) Fundamental na indicação de cirurgia. c) De grande auxílio no diagnóstico de doen- ças da laringe. d) Que tem como achado frequente hipertonia do esfíncter esofagiano inferior nos pacientes com rouquidão. A indicação clássica da esofagomanome- tria em paciente com DRGE era para indicar fundoplicatura total ou parcial. Nos casos de dismotilidade esofagiana (amplitude da pe- ristalse distal < 30 mmHg ou menos de 60% de atividade peristáltica no esôfago distal), era indicada uma fundoplicatura parcial, para reduzir o risco de disfagia. Contudo, a última edição do Sabiston afirma quemesmo os pacientes com “motilidade ineficaz” não têm apresentado maior índice de disfagia quando submetidos à fundoplicatura total, e preconiza este procedimento para todos os pacientes (excesso na completa aperistalse do esôfago). Algumas outras referências, como o Cecil, ainda preconizam fundoplicatura parcial nos pacientes que preencham critério para dismo- tilidade esofagiana, razão pela qual o gabarito divulgado foi a letra A. Veja as próximas questões: Uma sequência do IAMSPE –SP Antes de pensarmos nas questões vamos entender as imagens... A imagem mostra uma hérnia de hiato e depois mostra a con- fecção de uma fundoplicatura à Nissen (360o). E são feitas as perguntas: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Caso clínico: Paciente de 55 anos foi subme- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 71Medgrupo - CiClo 2: M.E.D tida à cirurgia abdominal eletiva por videolapa- roscopia como se observa nas fotos: (VER IMAGEM). CITE OS 3 MAIS PROVÁVEIS SINTOMAS DESTA DOENÇA QUE LEVOU À INDICAÇÃO DA CIRURGIA? De acordo com as imagens conseguimos perceber que a paciente foi submetida a uma fundoplicatura de Nissen. A questão nos solicita 3 sintomas desta doença (DRGE) que justifica- ria a cirurgia. Em outras palavras, a questão nos solicitou 3 sintomas da DRGE: Pirose; Regurgi- tação; Azia; Tosse; Desconforto retroesternal. GABARITO: REGURGITAÇÃO, PIROSE, AZIA, TAMBÉM: DOR, TOSSE, DISFAGIA. ERRADO: EMAGRECIMENTO, ETC. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente de 55 anos foi submetida à cirurgia abdominal eletiva por videolaparoscopia como se observa nas fotos: (VER IMAGEM). CITE AS 3 PRINCIPAIS CAUSAS DE DISPNEIA NO PÓS-OPERATÓRIO IMEDIATO DESTA CI- RURGIA (NAS PRIMEIRAS 48 horas)? Paciente submetida à fundoplicatura de Nissen. Quais são as complicações no pós- -operatório imediato que podem alterar a fun- ção respiratória? Primeiro, devemos lembrar da principal causa de febre no pós operatório imediato, a ATELECTASIA. Além disso, qual- quer pós-operatório pode favorecer a estase venosa nos membros inferiores, proporcionan- do um quadro de TEP. Agora um pouco mais específico sobre a fundoplicatura é que o PNEUMOTÓRAX é uma das principais com- plicações per e pós-operatórias, ocorrendo em 5-8% dos pacientes. E isto, também pode atrapalhar a ventilação do paciente. GABARITO: PNEUMOTÓRAX, EMBOLIA, ATELECTASIA TAMBÉM: DOR / ERRADO: PNEUMONIA. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente de 55 anos foi submetida à cirurgia abdominal eletiva por videolaparoscopia como se observa nas fotos: (VER IMAGEM) QUAL O SINTOMA DIGESTÓRIO NO PÓS-OPERA- TÓRIO INICIAL (NOS PRIMEIROS 30 DIAS) MAIS FREQUENTE? Pelas imagens conseguimos perceber que foi realizada uma fundoplicatura a Nissen ou total ou 360o. Sabemos que no pós-operatório imediato o paciente pode apresentar algum grau de distensão gástrica, decorrente da di- ficuldade em arrotar, a possibilidade de um trauma vagal associado, além da manutenção do hábito de engolir a saliva. Esse sintoma de inchaço pode ocorrer em 30% dos casos, no entanto, menos de 4% mantém este sintoma após os primeiros meses. Outra grande com- plicação no pós-operatório é a disfagia, que pode ocorrer em 20% dos pacientes. Esta é explicada pelo edema gerado na dissecção do hiato esofágico, hematomas na parede do envoltório gástrico, ou uma válvula estenosan- te frente a um esôfago com deficit funcional. GABARITO: DISFAGIA, TAMBÉM: DIFICUL- DADE DE DEGLUTIÇÃO, GASES /ERRADO: AZIA, REGURGITAÇÃO, ETC. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente de 55 anos foi submetida à cirurgia abdominal eletiva por videolaparoscopia como se observa nas fotos: (VER IMAGEM) QUAL O MELHOR EXAME DE AVALIAÇÃO PRÉ- -OPERATÓRIA QUE PODERIA AJUDAR A DIMINUIR A GRAVIDADE DESTE SINTOMA? Analisando as imagens podemos perceber que estamos diante de uma fundoplicatura. Sabemos que previamente ao ato operatório, estaria indicado uma esofagomanometria para avaliar alguma possível dismotilidade esofa- giana. Caso presente, estaria indicado a rea- lização de uma válvula parcial. Outro exame que também poderia indicar essa dismotilida- de seria uma seriografia ou simplesmente um RX contrastado. Contudo, na última edição do Sabiston, este conceito é questionado e a realização da fundoplicatura de Nissen é indi- cada em todos os casos. Mas como a questão está falando da disfagia pós-operatória, os melhores exames são realmente a esofago- manometria e o RX contrastado. GABARITO: MANOMETRIA, TAMBÉM: RAIO X CONTRASTADO. / ERRADO: pHMETRIA, ENDOSCOPIA, IMPEDÂNCIA. E o tratamento da estenose péptica? Deve ser feito com dilatação pneumática do esôfago distal, semelhante à acalásia, em pacientes francamente sintomáticos. Após a dilatação pode-se optar pela manutenção com IBP ou indicar uma cirurgia antirrefluxo (tratamento de escolha pelo Sabiston). OBESIDADE X DRGE A obesidade é um fator de ris- co significativo no desenvolvi- mento da DRGE: O paciente obeso, quando compa- rado ao não obeso, apresenta au- mento da pressão intra-abdominal, hipotonia do EEI e episódios mais frequentes de relaxamento do EEI. Caso esses pacientes sejam refratá- rios ao tratamento medicamentoso, a cirurgia mais indicada é o by-pass gástrico, um tipo de gastroplastia, que neste tipo de paciente apre- senta um melhor resultado quando comparado às válvulas antirrefluxo. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 72Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E o tratamento do esôfago de Barrett? Dentro do tema “DRGE”, esôfago de Barrett é o assunto que mais cai em prova! Portanto, atenção redobrada agora! Vamos fazer uma breve revisão: Esôfago de Barrett é a substituição do epitélio escamoso estratificado do esôfa- go por epitélio colunar contendo células INTESTINAIS (metaplasia intestinal), em qualquer extensão do órgão. É verificado em 4-10% dos pacientes com DRGE submetidos à biópsia, em especial aqueles com doença de longa data. Corresponde ao grau V da classificação de Savary-Miller. A presença do esôfago de Barrett é um impor- tante fator de risco para o adenocarcinoma de esôfago. Além da área de metaplasia (quanto mais extensa, maior o risco), existem alguns fatores que aumentam a chance de evolução para neoplasia: sexo masculino, pele branca, alcoolismo, tabagismo e obesidade. Para o controle clínico do esôfago de Barrett, é preconizado o uso IBPs. Segundo o Sabis- ton, a fundoplicatura leva à regressão de me- nos da metade dos casos de esôfago de Bar- rett, e um índice muito menor é visto com tratamento clínico isolado. Entretanto, tal afirmação é controversa não sendo corrobo- rada pela maioria dos autores. Os que defendem o tratamento cirúrgico afir- mam que a terapia clínica associada ao contro- le endoscópico podem tratar os sintomas, mas falham em resolver o problema (a deficiência do Esfincter Esofagiano Inferior). Já os que defendem o tratamento clínico advogam que o seguimento é impossível após a cirurgia, uma vez que com a fundoplicatura o paciente pode desenvolver câncer em um segmento oculto do esôfago de Barrett. De uma maneira geral temos: 1. Gastroenterologistas: defendem programas de vigilância rígidos com acentuada supressão ácida; 2. Cirurgiões: defendem a opera- ção antirrefluxo para corrigir o EEI disfuncional; Ou seja, fique atento no momen- to de responder as questões!!! Para não ficarmos perdidos no meio dessa confusão vamos seguir a conduta preconizada pelas diretrizes práticas do Colégio Americano de Gastroenterologia (American College of Gastroenterology). Mas fique atento, pois no final de 2015 um novo guideline foi liberado pelo CAG. Vamos pontuar o que afirma este novo guideline e no final da discussão colo- caremos também um quadro com o queera preconizado!!! Nunca se sabe, vai que alguma prova ainda não esteja atualizada... O desenvolvimento de adenocarcinoma a partir do esôfago de Barrett é precedido por displasia. A sequência é: metaplasia displasia de baixo grau displasia de alto grau adenocarcinoma invasivo. As- sim, o paciente com diagnóstico endoscópico de esôfago de Barrett deve ser submetido periodicamente a EDA, com múltiplas bióp- sias da área correspondente ao epitélio com metaplasia... Isso inclui todos os pacientes, mesmo aqueles submetidos à cirurgia antirre- fluxo! A conduta a ser tomada de acordo com o resultado histopatológico varia de acordo com a referência estudada, principalmente quanto à metaplasia e à displasia de baixo grau – vejamos agora o que preconiza o últi- mo guideline do colégio americano. De acordo com o guideline, todos os pacientes com EB devem ser tratados com IBP 1x/dia (doses duplicadas não são indicadas, somente nos casos em que o controle sintomático não foi atingido com uma única dose). Apenas metaplasia, sem displasia: acom- panhar com nova EDA (+ biópsias seriadas) a cada 3-5 anos. Displasia de baixo grau: ablação endoscópica.* Displasia de alto ou adenocarcinoma in situ: ablação endoscópica. Adenocarcinoma invasivo: ressecção cirúr- gica com margem + linfadenectomia (o câncer invasivo será discutido com detalhes na apos- tila de neoplasias do MED). *embora o tratamento com ablação apresente uma menor taxa de progressão da doença, o acompanhamento endoscópico anual ainda é aceito. Se biópsia inconclusiva para displasia, deve- mos otimizar o tratamento com IBP e repetir a EDA após 3-6 meses. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 73Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Veja o fluxograma que resume esta conduta: Agora veja como era a conduta antes do último guideline. E fique atento, pois muitas questões ainda podem te cobrar desta maneira. Apenas metaplasia, sem displasia: acompa- nhar com nova EDA (+ biópsias seriadas) em um ano, e depois a cada dois ou três anos. Displasia de baixo grau: acompanhar com duas EDA (+ biópsias seriadas) no 1º ano (6 e 12 meses) e depois anualmente. Displasia de alto grau / carcinoma in situ: esofagectomia distal ou abordagem endos- cópica. Adenocarcinoma: esofagectomia associada à linfadenectomia regional nos casos passí- veis de ressecção cirúrgica. OBS.: Tem sido descrito que os IBPs podem levar à regressão parcial da metaplasia intes- tinal do esôfago de Barrett, caracterizado pelo aparecimento de ilhotas de mucosa escamosa em meio ao epitélio colunar, ou pela redução no comprimento do epitélio colunar. Vale a pena ressaltar que este conceito não é aceito pela maioria dos especialistas e que o objetivo do uso dos IBPs não é fazer regredir o esôfa- go de Barrett, e sim reduzir a secreção ácida do estômago, para diminuir a agressão ao esôfago e promover a melhora dos sintomas. Leia com atenção o comentário da questão da AMP 2007. Selecionamos algumas questões para que você veja como cai esôfago de Barrett nas provas... E observe que a maioria das questões trata da conduta ante um caso de Barrett! Perceba que como as alterações do último guideline são recentes, as questões ainda cobram do modo antigo... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – PR A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma doença de extrema prevalência junto à população ocidental. Seu tratamento é basea- do em mudanças dos hábitos de vida e medi- cações, apresentando indicações cirúrgicas bem específicas. Em relação ao tratamento desta patologia, analise as assertivas abaixo. I- Cessar o tabagismo ajuda a diminuir os epi- sódios transitórios de relaxamento do esfíncter esofagiano inferior (EEI). II- A terapia com inibidores de bomba de pró- tons é superior aos bloqueadores H2 e seu uso em longo prazo parece ser seguro em longo prazo, apesar da predisposição a for- mação de pólipos gástricos. III- Pacientes com evidência de lesão esofá- gica grave (úlcera, estenose ou Barrett), mes- mo com melhora completa dos sintomas com o tratamento clínico, são candidatos ao trata- mento cirúrgico. IV- A técnica cirúrgica mais utilizada para o tratamento da DRGE envolve a confecção de uma válvula 360 graus (Nissen). Se o fundo gástrico não puder ser utilizado devido aos vasos gástricos curtos, pode ser utilizado o corpo para a confecção da válvula. Estão cor- retas as assertivas: a) I e II apenas. d) III e IV apenas. b) I e III apenas. e) Todas estão corretas. c) II e IV apenas. Em relação à DRGE e ao tabagismo: ele aumenta os episódios de relaxamento transi- tório do EEI, propiciando o refluxo (I correta). As drogas de escolha no tratamento sintomá- tico da DRGE são os IBP (supressores muito Saiba maiS: Devido a grande relação entre o esôfago de Barret e o adenocarcinoma de esôfago, vários estudos tentam mostrar qual seria o melhor tratamento. Pesquisas atuais demonstram que uma nova possibilidade seria a erradicação endoscópica da mucosa com metaplasia atra- vés de terapia fotodinâmica ou ablação. Essa erradicação estaria relacionada a uma redução na taxa de progressão para o adenocarcinoma. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 74Medgrupo - CiClo 2: M.E.D mais potentes da secreção ácida), os quais se mostraram superiores aos bloqueadores H2 em todos os estudos clínicos. (II correta). A maioria dos autores concorda que esofagite grave, estenose e Barrett são indicações de cirurgia antirrefluxo em pacientes que não respondem ao tratamento clínico. Se houver resposta completa dessas complicações, a princípio não há obrigatoriedade em operar o paciente (III errada). Enfim, o tratamento ci- rúrgico da DRGE envolve o procedimento de fundoplicatura. Existem várias técnicas dife- rentes, algumas posteriores e totais (360°) outras anteriores e parciais (270°), porém to- das são fundoplicaturas (isto é, utilizam o fundo gástrico para criar a válvula antirrefluxo). O corpo do estômago não é aproveitado no procedimento (IV errada). Resposta certa: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Mulher de 44 anos (multípara, altura = 1,58m e peso = 95kg) deu entrada no ambulatório de cirurgia geral queixando-se de dor tipo quei- mação no andar superior do abdome e regur- gitação ácida. Foi solicitada uma série de exames que evidenciaram: colelitíase (múlti- plos microcálculos) na ultrassonografia de vias biliares, presença de hérnia de hiato volumosa associada a esôfago de Barret com displasia de alto grau na endoscopia digestiva alta com biópsia. A melhor conduta nessa situação é: a) Esofagectomia trans-hiatal sem colecistec- tomia. b) Esofagectomia trans-hiatal associada à colecistectomia. c) Cirurgia antirrefluxo (gastrofundoaplicatura) sem colecistectomia. d) Controle endoscópico a cada seis meses associado à colecistectomia. Veja como é importante você saber o segui- mento do paciente portador de esôfago de Barrett e veja como ambas condutas podem ser cobradas... Neste caso, não foi conside- rado o último guideline, mas a conduta tradi- cional! Não brigue com a prova. Gabarito B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DE RP DA USP – SP Homem, 48 anos, branco, refere pirose, regur- gitações amargas, plenitude gástrica e disten- são abdominal há vários anos, com piora dos sintomas nos últimos dois meses. Anteceden- tes mórbidos: obesidade, hipertensão e disli- pidemia. Resultados de exames: Endoscopia Digestiva Alta: Hérnia hiatal (3,0 cm) por des- lizamento, projeções digitiformes de coloração salmão em esôfago distal medindo cerca de 4,0 cm (VER IMAGEM), Gastrite enantemato- sa leve de antro. Biópsias: 1- esôfago: meta- plasia intestinal completa com células calici- formes, sem displasia. 2- estômago: gastrite, presença de bactérias morfologicamente compatíveis com H. pylori, ausência de sinais de malignidade na amostra estudada. Além da prescrição de omeprazol, qualé a conduta mais adequada? a) Erradicação do H. pylori. b) Repetir endoscopia em dois anos. c) Esofagectomia segmentar. d) Ablação com plasma de argônio. Estamos diante de um caso de um pacien- te com Doença do Refluxo Gastro-Esofágico (DRGE) e diagnóstico endoscópico de esôfa- go de Barrett, uma condição pré-maligna do adenocarcinoma de esôfago. Tanto a ablação por laser de argônio quanto a esofagectomia são opções terapêuticas nos pacientes com displasia de alto grau, o que não está descrito nesta questão. Sabemos que o tratamento da infecção pelo H. pylori não é preconizado no tratamento da DRGE. Nesses pacientes, a melhor conduta é a supressão clínica do refluxo ácido, associado ao acom- panhamento através de EDA da seguinte ma- neira: nova EDA em um ano, e depois a cada dois ou três anos! Essa seria a melhor condu- ta. Logo, a melhor resposta, mesmo não sen- do a ideal, é a letra B. Reparou? Ainda não atualizada, mas na prova não vale a pena ficar brigando com a questão. Garanta seus pontos. Preencha você mesmo a tabela a seguir. Use caneta azul para responder de acordo com o novo guideline e vermelha de acordo com o antigo, e fique atento nas provas. Esofagectomia distal ou Terapia endoscópica EDA dentro de 1 ano... E depois a cada 2 ou 3 anos. EDA dentro de 6 meses e 1 ano... E depois anualmente. ? Qual é a conduta mais ade- quada perante um paciente com esôfago de barrett... - sem displasia? - com displasia de baixo grau? - com displasia de alto grau? http://#scrolldown http://#page=225 Cirurgia - Volume 2 75Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E o tratamento do Helicobacter pylori, deve ser feito? Essa é uma “armadilha” clássica em provas... O H. pylori não está associado à fisiopatologia da DRGE! Muito pelo contrário! A pre- sença de gastrite crônica e aclori- dria provocados pela infecção por H. pylori vem sendo cada vez mais relacionada como efeito protetor ao desenvolvimento de DRGE e esôfago de Barrett. Embora se- jam necessários mais estudos para confirmar essa associação, muitos advogam que a queda da prevalência de infecção crônica por H. pylori nos países desen- volvidos está intimamente ligada ao aumento na incidência de EB e adenocarcinoma esofágico (um aumento de aproximadamente 6x nos últimos dez anos!). Para finalizarmos este importante tema: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – SP Homem de 34 anos de idade procurou assis- tência médica por queixa de pirose e regurgi- tação há 6 meses. Refere que tem piora dos sintomas em decúbito horizontal e quando abusa de certos alimentos como massas e chocolate. Recentemente tem apresentado alguns episódios de disfagia a alimentos sóli- dos. É tabagista desde os 28 anos de idade e fuma um maço por dia. Nega outras doenças. Atualmente pesa 90 kg e tem altura de 1,70 m. Trouxe as imagens da endoscopia digestiva alta e da radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno que realizou em outro serviço: (VER IMAGEM). Cite a(s) altera- ção(ões) encontrada(s) nos exames comple- mentares acima. Temos um paciente com queixas de pirose características da Doença do Refluxo Gastroe- sofágico (DRGE) associada a dois fatores de risco: tabagismo e obesidade (IMC = 31). Realizou dois exames complementares, uma EDA e uma esofagografia: Na EDA temos uma imagem com retrovisão do cárdia em que ob- serva-se clara dilatação do hiato esofágico com migração do estômago, e na esofagogra- fia percebemos a presença de parte do estô- mago acima do diafragma. Todos os dois exames levam ao diagnóstico de uma hérnia de hiato por deslizamento. GABARITO OFICIAL: Hérnia de hiato ou hér- nia hiatal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – SP Homem de 34 anos de idade procurou assis- tência médica por queixa de pirose e regurgi- tação há 6 meses. Refere que tem piora dos sintomas em decúbito horizontal e quando abusa de certos alimentos como massas e chocolate. Recentemente tem apresentado alguns episódios de disfagia a alimentos sóli- dos. É tabagista desde os 28 anos de idade e fuma um maço por dia. Nega outras doenças. Atualmente pesa 90 kg e tem altura de 1,70 m. Trouxe as imagens da endoscopia digesti- va alta e da radiografia contrastada de esôfa- go, estômago e duodeno que realizou em outro serviço: (VER IMAGEM). Cite a conduta terapêutica clínica (medicamentosa e não medicamentosa) para o caso. Seguindo o nosso raciocínio da questão anterior, chegamos ao diagnóstico de DRGE associada à hérnia de hiato. O tratamento da DRGE envolve medidas não farmacológicas, que envolvem mudanças nos hábitos diários, e farmacológicas. Dentre as não farmacológi- cas podemos citar: Perda de peso, cessar tabagismo, evitar alimentos que possam favo- recer o refluxo, fracionar refeições, elevar a cabeceira da cama em 15 a 20 cm, evitar deitar após as refeições e evitar drogas que possam levar ao relaxamento do EEI. O trata- mento farmacológico é bem simples, basean- do-se na inibição das bombas de prótons das células parietais gástricas com Omeprazol (20 mg/dia), lanzoprazol (30 mg/dia), pantoprazol (40 mg/dia) ou esomeprazol (40 mg/dia). GABARITO OFICIAL: Cessar tabagismo; Per- der peso; Fracionar refeições; Elevação da cabeceira; Evitar decúbito horizontal após refeições; Inibidor de bomba de prótons. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – SP Homem de 34 anos de idade procurou assis- tência médica por queixa de pirose e regurgi- tação há 6 meses. Refere que tem piora dos sintomas em decúbito horizontal e quando abusa de certos alimentos como massas e chocolate. Recentemente tem apresentado alguns episódios de disfagia a alimentos sóli- dos. É tabagista desde os 28 anos de idade e fuma um maço por dia. Nega outras doenças. Atualmente pesa 90 kg e tem altura de 1,70 m. Trouxe as imagens da endoscopia digesti- va alta e da radiografia contrastada de esôfa- go, estômago e duodeno que realizou em outro serviço: (VER IMAGEM). Após 6 meses de vigência da conduta terapêutica clínica adequada, com boa adesão do paciente, não houve melhora do quadro clínico. Foi optado, em conjunto com o paciente, por tratamento http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 76Medgrupo - CiClo 2: M.E.D cirúrgico. Cite a conduta terapêutica cirúrgica para o caso nesse momento. Continuação das questões anteriores: Após definido o diagnóstico (DRGE com hérnia hia- tal por deslizamento) e estabelecida conduta clínica inicial por 6 meses (medidas compor- tamentais/não-farmacológicas e inibidores de bomba de prótons), não obtivemos melhorada sintomatologia inicial, ou seja, INSUCESSO, ou seja, FALHA de tratamento. Por isso, par- timos para a próxima etapa do tratamento, a correção cirúrgica da condição associada, a hérnia hiatal e também a fundoplicatura para o controle do refluxo. Gabarito oficial: Hiato- plastia com fundoplicatura. Doença ulcerosa Péptica Definição de úlcera péptica: lesão que leva à perda da integridade da mucosa maior que 5 mm. Fatores predisponentes: ÁCIDO • H. pylori (inibe células D somatosta- tina gastrina HCl) • Gastrinoma, hipofunção de células D ( gastrina H-Cl) • Mastocitose, leucemia basofílica, P. vera ( histamina HCl) DEFESAS MuCOSAS • AAS/AINE ( prostaglandinas) • Isquemia • Álcool, tabaco Patogênese da úlcera duodenal (uD): Gas- trite pelo H. pylori hipercloridria metapla- sia gástrica no duodeno infecção duodenal pelo H. pylori duodenite, úlcera. Patogênese da úlcera gástrica (uG): Tipos I (pequena curvatura – mais comum) e IV (pequena curvatura próximo à JEG): Gas- trite atrófica pelo H. pylori hipersensibilida- de ao HCl (mesmo havendo hipocloridria!). Tipos II (corpo gástrico, associado à úlcera duodenal) e III (pré-pilórica): Gastrite pelo H. pylori hipercloridria... (semelhante à úlcera duodenal). Tipo V úlcera induzida pelo uso de fár- macos (ex.: AINEs), podendo ocorrer em qualquer lugar do estômago. Conceitos importantes: Prevalência:úlcera duodenal mais frequente. Risco de neoplasia: bem maior na úlcera gástrica (biópsia sempre!). Perfuração: geralmente na parede anterior do bulbo duodenal. Sangramento: geralmente na parede posterior do bulbo duodenal (artéria gastroduodenal). Quadro clínico: EPIGASTRALGIA UD: geralmente noturna, duas a três horas após refeição – alivia com alimento! UG: mais associada a náuseas – piora com alimento! Também: desconforto e queimação epigástrica (azia), plenitude pós-prandial... em resumo: DISPEPSIA. *Até 40% são assintomáticos! Diagnóstico: EDA: indicada para todo paciente com dis- pepsia > 45 anos, ou com sinais de alarme (perda de peso, anemia, hemorragia digestiva, vômitos recorrentes, disfagia, adenopatia, gas- trectomia parcial, história familiar positiva), ou refratário ao tratamento clínico (4-8 semanas). Sempre investigar a presença do H. pylori: • Pacientes que não necessitam de EDA sorologia. • Pacientes submetidos à EDA teste rápido da urease ou histopatologia (padrão-ouro). * Pacientes que não necessitam de EDA po- dem receber tratamento empírico com IBP ou bloqueador H2 durante 4-8 semanas. O que é úlcera péptica? É uma lesão que leva à perda da integridade da mucosa maior que 5 mm. Consiste em uma escavação do epitélio do trato gastrointestinal que normalmente acomete estômago e duode- no. Lesões menores que 5 mm que possuem as mesmas características são denominadas de erosões. A doença ulcerosa péptica é comum? Sua prevalência ao longo da vida está em torno de 10%, sendo maior nos homens e tabagistas. Ou seja, de cada grupo de dez pessoas, uma terá úlcera péptica em algum Patogênese momento da sua vida... A úlcera duodenal permanece como tipo mais comum de úlcera e acomete uma faixa etária mais jovem (entre 20 e 50 anos). A úlcera gástrica teve sua inci- dência muito aumentada nos últimos 20 anos, em grande parte devido ao uso indiscrimina- do de AINEs. Como você verá adiante, ela é mais comum em uma faixa etária mais velha (acima de 40 anos) e frequentemente costuma permanecer assintomática até o aparecimento de complicações... helicobacter pylori (principal causa) O Helicobacter pylori (HP) é uma bactéria Gram-negativa, que coloniza igualmente ho- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 77Medgrupo - CiClo 2: M.E.D mens e mulheres. Sua prevalência aumenta com a idade, baixo nível socioeconômico, piores condições de moradia e menor grau de instrução. É transmitida de pessoa a pes- soa, seguindo uma via oral-oral, gastro-oral ou fecal-oral. No Brasil, essa bactéria infecta cronicamente 35% das crianças e 50-80% dos adultos (contra 50% dos adultos nos EUA). É importante ressaltar que, na maioria dos casos, a infecção pelo H. pylori não tem repercussão clínica! Dado interessante: 90% dos pacientes com úlcera duodenal e 75% daqueles com úlcera gástrica são portadores do H. pylori... Figura 4 - Helicobacter pylori - com for- mato espiralar (helicoidal), móvel, e com 4 a 6 flagelos em uma das extremidades. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2002 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS – UNICAMP Homem, 42 anos, com úlcera duodenal san- grante diagnosticada por endoscopia, sendo feita hemostasia da lesão. Nega uso crônico de anti-inflamatórios não esteroides e história familiar de úlcera gastroduodenal. Prescrito omeprazol (20 mg/dia). ALÉM DA MANUTEN- ÇÃO DO OMEPRAZOL HÁ INDICAÇÃO DE: a) Associar ranitidina (150 mg/dia). b) Associar famotidina (10 mg/dia) e iniciar tratamento específico para Helicobacter pylori. c) Ancaminhar para tratamento cirúrgico de- finitivo. d) Angiografia seletiva para verificar local de sangramento e possível embolização. e) Pesquisar H. pylori e, em caso positivo, iniciar tratamento específico. A principal causa de úlcera duodenal (vale para a gástrica também) é a infecção pelo H. pylori. Portanto, falou em úlcera péptica, tem que pesquisar H. pylori. Resposta letra E. Como ele é capaz de causar úlcera? Observe que a patogênese da úlcera duodenal é diferente da úlcera gástrica... Úlcera duodenal Ao infectar cronicamente a mucosa antral, o H. pylori é capaz de inibir a produção de somatostatina pelas células D. Como você já viu no início da apostila, a somatostatina é uma substância que inibe a secreção de gastrina, sendo, consequentemente, uma inibidora da secreção de ácido clorídrico no estômago! A perda (pelo menos parcial) deste fator inibitório promove hipergastrinemia leve a moderada, tendo como resposta a hipercloridria. A maior secreção de HCl pelo estômago faz o duodeno receber maior carga ácida, induzindo a forma- ção de metaplasia gástrica no bulbo, isto é, surge um epitélio tipo gástrico no duodeno, que normalmente tem epitélio intestinal... Isto permi- te a infecção do bulbo duodenal pela bactéria (“moradora” das ilhas de metaplasia gástrica), provocando duodenite, seguida de úlcera. Um outro importante efeito do HP é inibir a produ- ção de bicarbonato pela mucosa duodenal, diminuindo a defesa desta contra o ácido... Assim, concluímos que a úlcera duodenal em pacientes infectados pelo HP é decorrente de hipercloridria... somatostatina gastrina HCl H. pylori somatostatina gastrina HCl Úlcera gástrica A patogênese é menos compreendida que a da úlcera duodenal. Existem 5 tipos clínicos de úlcera segundo a classificação de Johnson: Tipo I ou úlcera da pequena curvatura (55- 60% dos casos). Tipo II ou úlcera do corpo gástrico asso- ciado à úlcera duodenal. Tipo III ou úlcera pré-pilórica. Tipo IV ou úlcera da pequena curvatura, parte alta, próximo à junção gastroesofágica. Tipo V úlcera induzida pelo uso de fár- macos (ex.: AINEs), podendo ocorrer em qualquer lugar do estômago. A úlcera da pequena curvatura (tipo I) é a mais comum e está associada à normo ou hipoclori- dria, com gastrite atrófica do corpo gástrico pelo H. pylori. Essa gastrite atrófica lesa a mucosa, reduzindo a produção de gastrina, podendo causar hipocloridria... Então como vai haver úlcera, num estado de hipocloridria? A lesão da mucosa pela bactéria a tornaria extremamente sensível aos efeitos do ácido e da pepsina, mesmo no estado de hipocloridria! A úlcera tipo IV (mais rara) teria patogênese semelhante ao tipo I. As úlceras tipo II (corpo gástrico) e III (pré- -pilórica) são as úlceras gástricas que pos- suem relação direta com a hipercloridria, tendo uma gênese bastante semelhante à da úlcera duodenal. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 78Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Assim... Úlcera gástrica tipos I e IV: HIPOcloridria Úlcera gástrica tipos II e III: HIPERcloridria Úlcera duodenal: HIPERcloridria Todo portador do H. pylori tem úlcera? Definitivamente NÃO! Apenas 10-15% dos pa- cientes infectados pela bactéria desenvolvem úlcera péptica!!! Então por que alguns portadores têm úlce- ra e outros não? Essa pergunta é difícil! Ainda não temos uma resposta concreta, mas o desenvolvimento ou não de úlcera a partir da infecção pelo H. pylori depende de fatores bacterianos, como a expressão de determinadas enzimas e pro- teínas que facilitam a chegada e adesão da bactéria ao epitélio gástrico, além de fatores relacionados ao hospedeiro, como a duração e a localização da infecção. É por essa razão que alguns livros-texto de fundamental impor- tância para seu concurso insistem em afirmar que a fisiopatologia da formação das úlceras pela infecção por H. pylori permanece indefini- da. Ao ver essa frase em uma questão, pense 2 vezes antes de assinalá-la como errada! Figura 5 O tabagismo e o uso de anti- -inflamatórios não esteroidais (AINE) possuem efeito sinérgi- co ao do H. pylori na gênese da úlcera gastroduodenal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Homem de 47 anos apresenta quadro clíni- co típico de doença ulcerosa péptica. Rea- lizou endoscopia digestiva alta que mostrou lesão ulcerada de bordos bem definidos, próxima à pequena curvatura juntoà incisu- ra angular. Utilizando a classificação de Johnson modificada, o tipo da úlcera e sua relação com a produção ácida gástrica são, respectivamente, tipo: a) I / normocloridria. c) V / hipercloridria. b) III / hipercloridria. d) II / hipocloridria Se encontrou alguma dificuldade, volte e veja novamente a figura 5!!! Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL PASTEUR – RJ A localização mais comum de úlcera gástrica é: a) Pré-pilórica. c) Pequena curvatura. b) Fundo. d)Grande curvatura. Como acabamos de ver as úlceras gástricas podem ser divididas de acordo com a sua lo- calização em quatro tipos. A mais comum é a do tipo I, localizada na pequena curvatura. Gabarito letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – IFF – RJ Você irá apresentar um seminário durante o seu primeiro mês de Residência. O objetivo é rever conceitos básicos e fundamentais para o adequado planejamento terapêutico das pes- soas sob seus cuidados. O tema central é o sistema digestório. Você afirma que o H. pylori está implicado na facilitação da hipersecreção de ácido clorídrico através do mecanismo de: a) Bloqueio da produção e ação de citoquinas. b) Bloqueio da produção de somatostatina pelas células D. c) Ação direta estimuladora sobre as células parietais do estômago. d) Ação direta estimuladora sobre as células G produtoras de gastrina. Boa questão! O aluno que não sabia bem a matéria, ou que não prestou atenção, logo fez a associação hipersecreção ácida = hipergas- trinemia e marcou a opção D. Contudo, como acabamos de ver, o H. pylori não estimula di- retamente as células G, mas inibe as células D, que são inibidoras as células G. Diminuindo a inibição sobre as células G, elas secretam mais gastrina... Relembre: H. pylori so- matostatina gastrina HCl. Reposta letra B. Vamos dar sequência à etiologia da úlcera péptica... Falta um outro fator muito importante! anti-inflamatórios não Esteroidais (aInE – segunda causa mais comum) Os AINEs inibem a síntese das prostaglan- dinas pela mucosa gástrica, reduzindo todas as defesas contra a secreção ácida, dificul- tando o reparo tecidual e a neutralização do HCl... Cerca de 5-10% das úlceras duodenais e 20-30% das úlceras gástricas estão asso- ciadas aos AINEs! Repare que, ao contrário da úlcera provocada pelo H. pylori, as lesões provocadas pelos AINEs têm o estômago como sítio preferencial. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 79Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Para que você tenha ideia da importância do assunto, preste atenção nos seguintes dados: Após 14 dias de uso contínuo de AINE, cerca de 5% dos pacientes desenvolveram algum tipo de defeito na mucosa, seja úlcera ou erosão. Quando o tempo de tratamento sobe para 4 semanas, a porcentagem dobra para 10%. Por isso, pense bem antes de prescre- ver AINEs indiscriminadamente para aqueles pacientes “poliqueixosos”, sem uma indicação formal de tratamento! Você pode estar geran- do um problema muito maior... E o H pylori, pode interferir na ulceração por AINE? Sim! A presença de infecção por H. Pylori au- menta a probabilidade de desenvolvimento de úlceras em pacientes em uso de AINEs. Outros fatores de risco descritos são a idade maior que 60 anos, presença de DUP prévia e uso de corticoesteroides. E se o paciente em uso de AINE ou AAS tiver uma úlcera? O ideal seria suspender o fármaco. Caso não seja possível, a conduta é manter o AINE associado a um IBP ou trocar o AINE por um inibidor seletivo da COX-2. Neste último caso, devemos associar IBP durante 4-8 semanas, para o tratamento da úlcera. São fatores que aumentam a probabilidade de lesão da muco- sa gástrica quando concomitantes ao uso de AINE: infecção por H. pylori, uso de AAS em doses baixas, uso de glicocorticoides e alto consumo de álcool. Um fato interessante relativo à doença ulce- rosa péptica causada pelos AINES é que ela frequentemente possui um curso assintomá- tico (sem dispepsia), podendo manifestar-se diretamente com uma complicação (ex.: he- morragia digestiva). Esse curso ocorre em até 10% dos casos de lesão de mucosa relacionada aos AINES e pasmem: cerca 80% das complicações gas- trointestinais geradas por essas drogas não são precedidas por qualquer manifestação! Saiba maiS: Importante: relação entre AINE e úlcera péptica Vamos fazer “parênteses” muito importantes aqui para falarmos desses medicamentos tão prescritos pelos médicos! Os AINEs mais “perigosos” são os inibidores não seletivos da COX... Vamos relembrar: A enzima ciclo-oxigenase (COX) é a responsá- vel pela conversão do ácido araquidônico em prostaglandinas, prostaciclina e tromboxane. Existem dois tipos principais de COX: A COX-1 é a forma predominante, sendo expressa em todo o corpo e exercendo vá- rias funções fisiológicas, como a proteção da mucosa gástrica (através da síntese de prostaglandinas) e a agregação plaquetária. A COX-2 é expressa principalmente como resposta a estímulos inflamatórios, estando envolvida na produção de prostaglandinas, que são também mediadores da dor e da inflamação. Em teoria, como você pode ver, a inibição da COX-1 seria responsável pelos efeitos adversos dos AINE, enquanto a inibição da COX-2 responderia pelo efeito analgésico e anti-inflamatório dos AINE... Assim, os inibidores não seletivos da COX, que são a grande maioria dos analgésicos e anti-inflamatórios no mercado (AAS, diclofe- naco, naproxeno, ibuprofeno, etc), atuam não apenas reduzindo a dor e a inflamação (pela inibição da COX-2), como também reduzem a proteção da mucosa gástrica e inibem a agre- gação plaquetária (pela inibição da COX-1)... O problema parecia solucionado quando foram lançados os inibidores seletivos da COX-2, também conhecidos como coxibes. Apesar de bem mais caros que os AINEs convencionais, tinham a grande vantagem de não causar efeitos adversos gastrointesti- nais. Contudo, foi observado um aumento do risco de doenças cardiovasculares com o uso crônico de alguns desses fármacos: a justifi- cativa mais plausível é que ocorre inibição da produção de prostaciclina ou PGI2 (fator de proteção endotelial), mas não de tromboxane A2 ou TX2 (fator pró-agregante plaquetário), acarretando um estado favorável à agregação plaquetária e, consequentemente, predispon- do o paciente a fenômenos tromboembólicos: o Rofecoxib (Vioxx®) e o Valdecoxib (Bextra®) foram retirados do mercado por este motivo, enquanto o Etoricoxib (Arcoxia®) e o Lumira- coxib (Prexige®) sofreram restrição quanto à dose máxima empregada! Dessa maneira, não devemos prescrever anti-inflamatórios indiscriminadamente, mesmo os inibidores seletivos da COX-2... Um paciente que precise fazer uso crônico de AINE (um portador de artrite reumatoide, por exemplo) não necessariamente deve receber um coxibe... Veja as situações: Paciente sem fator de risco para doença ulcerosa péptica (DUP): usar AINE não se- letivo. Paciente com pelo menos um fator de risco para DUP*: usar preferencialmente inibidor seletivo da COX-2. Existe ainda a opção de associar um AINE não seletivo a um agente gastroprotetor – de preferência um IBP, como o omeprazol. No passado também era utilizada uma prostaglandina sintética como gastropro- tetor, o misoprostol (Cytotec®), que foi retirado do mercado devido ao seu efeito abortivo. * Esses são os grupos de pacientes de risco para doença ulcerosa péptica (DUP) associa- da ao uso crônico de AINE: Idade > 65 anos. História de úlcera péptica ou hemorragia digestiva. Uso concomitante de AAS, clopidogrel, war- farin ou glicocorticoides. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 80Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Nos pacientes com fatores de risco para descompensação renal pelo uso de AINE (cirróticos, pacientes com ICC grave ou IRC), devemos evitar qualquer classe de AINE – a preferência recai sobre os corticoides em baixa dose. Além disso, os pacientes de alto risco para DUP que necessitem iniciaruso contínuo de AAS/AINE devem ser investigados quanto à presença do H. pylori – e tratados, caso a bac- téria esteja presente (você verá os esquemas antibióticos daqui a pouco) – a fim de reduzir a incidência de úlcera péptica. condições raras Existem algumas situações raras associadas à ocorrência de doença ulcerosa péptica que não podemos deixar de citar: Síndrome de Zollinger-Ellison (Gastri- noma): o gastrinoma é um tumor endó- crino de células produtoras de gastrina, localizado geralmente na parede duodenal ou no pâncreas. A gastrina, em grande quantidade, estimula as células parietais a produzirem muita secreção ácida, levando a um estado de hipercloridria. Devemos suspeitar de gastrinoma quando o paciente apresentar muitas úlceras, principalmente se elas estiverem em localização atípica, como o duodeno distal, e forem refratárias ao tratamento convencional. Geralmente há diarreia associada. Estudaremos melhor a síndrome no final do capítulo. Hiperfunção de células G antrais: condi- ção semelhante ao gastrinoma, porém não é de origem tumoral: há uma hiperfunção das próprias células G do antro. Mastocitose, leucemias basofílicas e policitemia vera: os níveis plasmáticos excessivos de histamina característicos dessas doenças também levam a um es- tado de hipersecreção ácida (lembre: a gastrina, a histamina e a acetilcolina são as substâncias que estimulam a secreção ácida pelas células parietais). Quadro clínico Agora que já sabemos tudo sobre a gênese das úlceras pépticas, vamos passar para o quadro clínico. Este pode ser resumido na Síndrome Dispéptica (ou dispepsia): Dor ou desconforto epigástrico, azia (queimação epigástrica), náuseas, sensação de pleni- tude pós-prandial... Agora, se você quiser saber mais deta- lhes... Úlcera duodenal: geralmente a dor epigástri- ca em queimação ocorre 2-3 horas após as refeições e à noite (pode acordar o indivíduo), melhorando com a alimentação... Esse dado é importante: 66% das úlceras duodenais apresentam-se como dor noturna! Na úlcera gástrica, por outro lado, os sinto- mas costumam ser desencadeados pelo ali- mento e a náusea é mais comum. A perda de peso também é frequente. A úlcera gástrica é rara antes dos 40 anos de idade, sendo seu pico de incidência entre 55 e 65 anos. Veja como essas informações podem te ajudar na hora da prova!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UFU – MG Rafael, 37 anos, retorna ao consultório para acompanhamento de dor recorrente na re- gião superior do abdome. Há seis semanas queixava-se de aumento na frequência e na intensidade da dor epigástrica, com sensação de queimação. A dor piora quando está com “estômago vazio”, e é acordado à noite. A dor é aliviada em minutos com a ingestão de antiá- cidos, mas retorna em duas horas. Admite que as tensões no trabalho desencadeiem as dores abdominais. Assinale a alternativa CORRETA quanto à doença apresentada pelo paciente: a) Úlcera gástrica. b) Úlcera péptica duodenal. c) Colelitíase. d) Síndrome dispéptica funcional. e) Infarto agudo do miocárdio. A dor que acorda o paciente durante a noi- te, piora com jejum e melhora à ingestão de alimentos ou de antiácidos (e o retorno da dor após algumas horas da última alimentação), sugerem etiologia duodenal, pois este tipo de úlcera cursa com hipercloridria, acentuada por estas condições. Gabarito B. Dados interessantes: Apenas 20-30% dos quadros de síndrome dispéptica são causados por úlcera. A causa mais comum de síndrome dispéptica é a dispepsia funcional. 40% das úlceras pépticas são detectadas em pacientes assintomáticos. Saiba maiS: Na úlcera gástrica, a dor piora ao se alimen- tar devido à liberação do suco gástrico, que aumenta a acidez local. Já a patogênese da dor na úlcera duodenal é um pouco mais complexa: quando comemos, o bolo alimen- tar causa aumento da secreção ácida pelo estômago durante três a cinco horas, contu- do o alimento só permanece no estômago/ duodeno durante duas a três horas. Assim, a dor na úlcera duodenal é mais importante quando o alimento deixa de “tamponar” o ácido que está sendo liberado no estômago, o que ocorre cerca de duas a três horas após a refeição. Dessa maneira, a ingestão de alimento “tampona” esse excesso de ácido e reduz a dor do paciente com úlcera duodenal. Entenda a dor na úlcera péptica: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 81Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Diagnóstico O melhor exame para o diagnóstico de úlcera péptica é a Endoscopia Digestiva Alta (EDA). Figura 6 - EDA mostrando úlcera péptica. Em todo paciente com dispepsia devo so- licitar a EDA? Não!!! Esse é um exame caro! A EDA está sempre indicada nos pacientes dispépticos com idade > 45 anos (> 55 anos segundo o American College of Gastroenterology) ou naqueles com “sinais de alarme” para uma possível neoplasia gástrica: perda ponderal, anemia, sangramento, vômitos recorrentes, disfagia, odinofagia, massa abdominal, linfa- denopatia, história familiar de câncer gástrico, gastrectomia parcial prévia... Lembre-se do “macete” – Ihh... O alarme! E nos pacientes em que suspeitamos de DUP devido a uma síndrome dispéptica, mas que não apresentam nenhuma indicação para EDA, como fazer? A conduta inicial diante de tal situação deve ser a pesquisa do H. pylori por exames não invasivos (veja adiante) e, caso positivo, trata- mento empírico com erradicação da bactéria (antibióticos + IBP). Caso negativo, somente o uso de antissecretores (IBP ou bloqueadores H2) é a medida sugerida, reservando a EDA para os casos refratários e recorrentes. Vamos a uma questão que exemplifica bem o que acabamos de estudar: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ A realização de endoscopia digestiva alta está indicada em: a) Controle de cura de úlcera duodenal. b) Suspeita de úlcera péptica perfurada. c) Dispepsia associada a emagrecimento. d) Seguimento de gastrite crônica antral. Sem comentários, veja o texto da página anterior... Resposta letra C. Durante a EDA é necessária a realização de biópsia? Toda úlcera gástrica deve ser biopsiada, pois até 8% das úlceras de aspecto benigno são, na verdade, adenocarcinomas ulcerados!!! Várias amostras de material devem ser colhidas! Já as úlceras duodenais não precisam ser biop- siadas, já que o risco de neoplasia é muito baixo! O H. pylori deve ser investigado? Sim, todo paciente com úlcera deve ser pesquisado. A infecção pelo H. pylori está envolvida na maioria dos casos de doença ulcerosa péptica. Como pesquisar? Para pacientes que não necessitam de EDA sorologia pelo método ELISA ou teste da ureia respiratória (teste rápido com ureia marcada) ou até mesmo a pesquisa de an- tígeno fecal. Lembrar que a sorologia não é indicada para controle de cura, pois os altos títulos de anticorpos são encontrados mesmo após tratamento. Nesse caso, seria neces- sário documentar uma queda maior do que 40/50% dos níveis sorológicos nos primeiros seis meses após o tratamento para confirmar a erradicação. Se realizar EDA teste rápido da urease ou visualização histopatológica do H. pylori (= padrão-ouro) – pelo menor custo, a pre- ferência é pelo teste da urease (método de escolha na avaliação inicial dos pacientes que são submetidos à EDA). Se houver a indica- ção de realização de uma nova EDA após o tratamento, o controle de cura é feito através dos mesmos testes. Um intervalo mínimo de quatro a seis semanas é recomendado para evitar resultados falso-negativos. Controle de cura caso não seja feita nova EDA teste da ureia respiratória é o método de escolha (sorologia é um péssimo exame para avaliar cura!), agora caso não esteja disponível, a pesquisa de antígenos fecais, mesmo não sendo tão eficaz, também pode ser realizada. E a cultura do material gástrico ou duodenal? A cultura é menos utilizada para o diagnós- tico, pois o isolamento da bactéria pode ser difícil e o custo é elevado.A principal vanta- gem deste método consiste na determinação da sensibilidade do H. pylori aos antibióticos empregados, principalmente nos casos de falha terapêutica. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 82Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Métodos para pesquisa do H. pylori. TESTE Sensibilidade Especificidade Comentários TESTE RÁPIDO 98-98% 93-98% Requer EDA DE UREASE HISTOPATOLOGIA 93-99% 95-99% Requer EDA CULTURA 77-92% 97-100% Requer EDA ELISA 88-99% 86-95% Ruim para acompanhamento TESTE DE UREIA 90-100% 89-100% Bom para Diagnóstico RESPIRATÓRIA e acompanhamento Atenção a essa questão!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DE RP DA USP – SP Mulher, 46 anos, referia epigastralgia e azia há três meses, tendo sido solicitada endoscopia digestiva alta (laudo abaixo). Endoscopia Diges- tiva Alta: Esogafite não erosiva, úlcera gástrica cicatrizada (S2 de Sakita). Teste da urease: Positivo em corpo e antro. Biópsias: ausência de sinais de malignidade e numerosas bactérias morfologicamente compatíveis com Helicobacter pylori. Realizou tratamento com amoxicilina, cla- ritromicina e omeprazol por 7 dias. Retorna hoje, após dois meses do tratamento, assintomática. Exame físico: sem alterações. Qual é a conduta mais adequada nesse mo- mento? a) Endoscopia digestiva com teste da urease. b) Teste sorológico para pesquisa do H. pylori. c) Teste respiratório com C13 - Ureia. d) Pesquisa de antígenos fecais do H. pylori Pacientes com sintomas de dispepsia e com idade acima de 45 anos obrigatoriamente necessitam realizar endoscopia digestiva alta (EDA), nem tanto para diagnóstico de doenças pépticas, mas sim para afastar a presença de neoplasia gástrica. Este exame foi realizado na paciente em questão onde foi afastada a presença de neoplasia, porém foi encontrada úlcera gástrica já cicatrizada e presença de infecção pelo Helicobacter pylori confirmada pelo teste da urease e exame histopatológico. Devido ao alto índice de recidiva de doença ulcerosa péptica na presença de infecção pelo Helicobacter pylori, é recomendado tratamen- to por sete dias com esquema antibiótico com associação de claritromicina, amoxicilina e omeprazol. O controle da erradicação do He- licobacter pylori é feito através do teste respi- ratório com C13 – Ureia, por ser um exame menos invasivo. Agora, porque não a letra A, uma nova EDA, já que estamos diante de uma úlcera gástrica? Neste caso, em específico, já sabemos que esta úlcera não é um câncer e até já estava cicatrizada, por isso preferimos um método menos invasivo. Gabarito C. tratamento clínico Medidas gerais: evitar AAS/AINE, álcool, tabaco... Farmacológico: Reduzir acidez gástrica para facilitar ci- catrização da úlcera: IBP (ex.: Omeprazol 20 mg/dia) ou Bloqueador H2 (ex.: Raniti- dina 300 mg/dia) 4-8 semanas Erradicar H. pylori, se presente (ex.: IBP + amoxicilina + claritromicina 7-14 dias) Principais indicações para erradicar o HP: úlcera péptica (mesmo cicatrizada!), linfoma MALT, adenocarcinoma gástrico, gastrite histológica intensa, uso crônico de AAS/AINE... * Nova endoscopia após tratamento para toda úlcera gástrica. * Reinvestigar H. pylori 8-10 semanas após erradicação, com: Teste da ureia respiratória, quando não houver indicação para EDA. Teste da urease ou histopatologia, quando houver indicação para EDA. Medidas gerais tratamento Farmacológico Dieta: evitar todos os alimentos que causem sintomas. Fumo: os pacientes que não fumam apre- sentam cicatrização mais rápida que os fu- mantes. Álcool: deve-se evitar o consumo excessivo. Objetivo: redução da acidez do conteú- do gastrointestinal e, quando presente, erradicação do Helicobacter pylori. Drogas para redução da acidez – objeti- vam acelerar a cicatrização da úlcera. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 83Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs) São os antissecretores ácidos de maior efi- cácia. Devem ser utilizados por um período de 4-8 semanas. Veja o esquema seguinte: Omeprazol – 20 mg/dia, 15 minutos antes do desjejum Lansoprazol – 30 mg/dia, 15 minutos antes do desjejum Pantoprazol – 40 mg/dia Rabeprazol – 20 mg/dia Esomeprazol – 40 mg/dia Bloqueadores H2 Eles bloqueiam competitivamente os recep- tores histamínicos H2 das células parietais, que quando estimulados aumentam a pro- dução de ácido gástrico. Também devem ser utilizados de quatro a oito semanas. Os principais agentes disponíveis no mercado, com suas respectivas doses são: Cimetidina – 800 mg/d Ranitidina – 300 mg/d Famotidina – 40 mg/d Nizatidina – 300 mg/d Antiácidos Os antiácidos neutralizam diretamente o pH reduzido do estômago, ao reagirem com o HCl para formar sal e água, e determinam um rápido alívio dos sintomas dispépticos. Atualmente, os antiácidos raramente são usados no tratamento regular da doença ulcerosa péptica. Sucralfato O mecanismo de ação do sucralfato ain- da não é completamente compreendido, mas aparentemente ele funciona como um protetor da base da úlcera, formando uma película que impede a ação deletéria do ácido, da pepsina e dos sais biliares – funciona como uma barreira mecânica, uma proteção viscosa sobre a úlcera, sem alterar o pH gástrico. É bastante eficaz no tratamento da doença ulcerosa: estudos demonstraram que é superior ao placebo e comparável ao bloqueador H2 na cicatri- zação da úlcera duodenal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Em relação às úlceras pépticas, pode-se afir- mar que a dor epigástrica é o sintoma mais comum, podendo também apresentar sinto- mas vagos como náuseas e pirose. Em rela- ção à terapia de supressão ácida das úlceras, assinale a alternativa correta. a) Antagonistas de receptor H2 têm ótima efi- cácia terapêutica, no entanto pacientes podem apresentar recidivas. b) Inibidores da bomba de próton não atuam sobre a ATPase hidrogênio-potássio. c) Antagonistas de receptor H2, tipo o ome- prazol, funcionam como inibidores da ATPase. d) Inibidores da bomba de próton como os antagonistas de receptor H2 (ranitidina) são as drogas de escolha. e) Inibidores da bomba de próton como os antagonistas de receptor H2 (cimetidina) são as drogas de escolha. Para o tratamento medicamentoso das úl- ceras pépticas, podemos utilizar os inibidores de bomba de prótons (IBPs) e os antagonis- tas de receptor H2. Os primeiros, represen- tados pelo omeprazol e drogas afins, atuam sobre a bomba ATPase trocadora hidrogênio- -potássio e representam a classe de escolha por serem os antissecretores de maior eficá- cia (B, D e E erradas). Os antagonistas de receptor H2, por sua vez, bloqueiam tais re- ceptores histamínicos nas células parietais e são representados pela ranitidina e drogas afins (C errada). Apesar de também apresen- tarem grande eficácia, conduzem a índices de cicatrização menores que os IBPs. Res- posta: letra A. trataMento do Helicobacter pylori (Baseado no III Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori – 2012 e no Consenso de Maastricht IV – 2012): A infecção pelo H. pylori é extremamente comum e, na maioria dos casos, não tem repercussão clínica! Assim, a indicação é tra- tarmos o H. pylori apenas em determinadas situações... Quando tratar? Segundo o consenso brasileiro, as indica- ções são as seguintes: • Úlcera gastroduodenal, ativa ou cicatrizada. • Linfoma MALT de baixo grau. • Pós-cirurgia para câncer gástrico avançado, em pacientes submetidos à gastrectomia parcial. • Pós-ressecção de câncer gástrico precoce (endoscópica ou cirúrgica). • Gastrite histológica intensa (pangastrite). • Pacientes de risco para úlcera/complicações que utilizarão AINEs. • Pacientes com história prévia de úlcera ou hemorragia digestiva alta (HDA) que deve- rão usar AINEs inibidores específicos ou não da COX-2. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 84Medgrupo - CiClo 2: M.E.D• Indivíduos de risco para câncer gástrico. • Pacientes de risco para úlcera ou complica- ções que deverão usar cronicamente deriva- dos do Ácido Acetilsalicílico (AAS), mesmo em doses baixas. • Tratamento da dispepsia funcional (de acordo com o último consenso houve uma melhora no controle desses pacientes após a erradi- cação do H. pylori). Os critérios do consenso brasileiro englobam aqueles indicados pelo American College of Gastroenterology. No entanto, o 3º consen- so de Maastrich ainda apresenta indicações não usuais para erradicação do H. pylori (história de câncer gástrico em parente de 1ª grau, gastrite atrófica, anemia ferropriva inexplicada e púrpura trombocitopênica idio- pática). A princípio, NÃO são indicações para erradicação do H. pylori: Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) e a maioria dos casos de gastrite... Se olharmos atentamente exis- te uma divergência na literatura. Entenda, a DRGE é uma das causas de dispepsia, então, em uma primeira análise, deveríamos investigar e tratar o H. pylori... Mas lembre-se que a DRGE tem características específicas e sinto- mas típicos e quando esses estão presentes, não temos dúvidas do diagnóstico. Como sabemos que a DRGE não guarda relação com o H. pylori, a erradicação não está indicada, diferente dos casos de dispepsia funcional. EsQuEMas MaIs usaDos nos Eua (14 dias) Subsalicilato de Bismuto + Metronidazol + Tetraciclina Citrato de Bismuto com Ranitidina + Tetraciclina + Claritromicina ou Metronidazol Omeprazol (ou Lansoprazol) + Claritromicina + Metronidazol (ou Amoxicilina) Omeprazol (ou Lansoprazol) Subsalicilato de Bismuto Metronidazol Tetraciclina 2 comprimidos 4 vezes ao dia 250 mg 4 vezes ao dia 500 mg 4 vezes ao dia 400 mg 2 vezes ao dia 500 mg 4 vezes ao dia 500 mg 2 vezes ao dia 20 mg 2 vezes ao dia (30 mg 2 vezes ao dia) 250 mg ou 500 mg 2 vezes ao dia 500 mg 2 vezes ao dia (1g 2 vezes ao dia) 20 mg/dia (30 mg/dia) 2 comprimidos 4 vezes ao dia 250 mg 4 vezes ao dia 500 mg 4 vezes ao dia ESQuEMA 1 ESQuEMA 2 ESQuEMA 3 ESQuEMA 1 TERAPIA TRÍPLICE TERAPIA QuÁDRuPLA Tab.A Tab.B EsQuEMas MaIs usaDos no brasIl (7 dias) ESQuEMA 1 Omeprazol (ou outro IBP) + 20 mg 2 vezes ao dia Claritromicina + 500 mg 12/12h Amoxicilina 1 g 12/12h ESQuEMA 2 Omeprazol (ou outro IBP) + 20 mg/dia Claritromicina + 500 mg/dia 12/12h Furazolidona 200 mg 12/12h ESQuEMA 3 Omeprazol (ou outro IBP) + 20 mg/dia Tetraciclina + 500 mg 6/6h Furazolidona 200 mg 8/8h http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 85Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Como tratar? Existem diversos esquemas possíveis, sem- pre envolvendo pelo menos três drogas (ta- belas A e B). Como você pode observar, o tratamento mí- nimo é de sete dias, segundo os últimos con- sensos latino-americano e europeu. Contudo, as referências americanas ainda recomendam o tratamento durante 14 dias. O esquema mais utilizado no nosso meio é o omeprazol 20 mg/ dia (2x ao dia) associado à claritromicina (500 mg de 12/12h) e à amoxicilina (1 g de 12/12h). Atualmente, existem fórmulas que incluem todos esses medicamentos. Um exemplo é o “PyloriPac”, composto por lanzoprazol + cla- ritromicina + amoxicilina!!! Os esquemas contendo metronidazol não devem ser utilizados no Brasil, devido à alta resistência das nossas cepas de H. pylori a este antibiótico... Antes de alguns exercícios, observem o es- quema a seguir: SIM NÃO Sem úlcera Úlcera IBP 4-8 semanas Dispepsia Teste de urease Biópsia se uG IBP 4-8 semanas Endoscopia digestiva alta + – Idade > 45 anos? OU Presença de “sinais de alarme”? Sorologia para H. pylori (ELISA) Erradicar H. pylori+ IBP 4-8 semanas IBP 4-8 semanas Veja como as bancas adoram se complicar... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE GOIÂ- NIA – GO Paciente tabagista e etilista, apresentando dor epigástrica. Foi submetido à endoscopia di- gestiva alta com achado de lesão polipoide irregular no corpo gástrico no nível da peque- na curvatura, sendo realizada biópsia e envia- da para estudo anatomopatológico e imuno- -histoquímico, cuja conclusão diagnóstica foi de linfoma MALT e presença de Helicobacter pylori. Qual a melhor opção de tratamento inicial para ao caso descrito? a) Somente tratamento do Helicobacter pylori. b) Gastrectomia total com linfadenectomia a D2. c) Gastrectomia subtotal com linfadenectomia a D2. d) Radioterapia e quimioterapia. Ao contrário do adenocarcinoma gástrico, os linfomas MALT gástricos (principalmente os de baixo grau) são tratados, na grande maioria dos casos, apenas com a eliminação do H. pylori. Em caso de insucesso, está indicada a terapia adjuvante, ficando a cirurgia como último recur- so. Gabarito CORRETO: opção A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ER- NESTO – RJ Uma paciente com história de emagrecimento significativo e queixas dispépticas realizou en- doscopia digestiva que evidenciou espessa- mento da mucosa antral. Foi realizada uma biópsia que demonstrou tratar-se de linfoma gástrico de células B de baixo grau (MALT) com presença de infecção pelo H. pylori. Diante desse quadro, o tratamento a ser proposto é: a) Radioterapia do abdome superior. b) Erradicação do H. Pylori. c) Quimioterapia sistêmica. d) Gastrectomia distal. Sintomas dispépticos “sinais de alarme”, como o emagrecimento involuntário, sempre indicam a realização de endoscopia digestiva alta. Veja como este exame foi importante no caso em tela: havia um espessamento da mu- cosa antral que no exame histopatológico se revelou um linfoma MALT (MALT = Tecido Linfoide Associado à Mucosa), um tipo de lin- foma não-Hodgkin indolente e de baixo grau. Sabemos que a causa dos linfomas de estô- mago é a infecção pelo H. pylori, que sem nenhuma surpresa está presente neste caso. Ora, a maioria dos linfomas MALT gástricos são tratáveis apenas com erradicação do H. pylori (regredindo espontaneamente após isso)! Resposta B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE – PB Conforme as recomendações do III Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, assinale a alternativa INCORRETA: a) Não está indicada a erradicação do H. py- lori em portadores de Dispepsia Funcional. b) A sorologia para H. pylori não tem valor na confirmação da erradicação pós-tratamento. c) Para caracterização da síndrome dispéptica, os critérios adotados foram os de Roma III, os quais exigem presença de sintomas dispépti- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 86Medgrupo - CiClo 2: M.E.D cos que tenham início há pelo menos seis meses, e que apresentem duração cumulativa de pelo menos três meses. d) Em pacientes com menos de 35 anos, com síndrome dispéptica, sem sinais de alarme, a indicação é a pesquisa indireta do H. pylori, pro- cedendo-se à erradicação nos casos positivos. e) Apesar do reconhecimento uniforme de que o H. pylori é fator de risco independente para o surgimento de adenocarcinoma gástrico, não há, até o momento, indicação para a pesquisa e erradicação do mesmo na população geral, com fins de medida de profilaxia primária con- tra o câncer de estômago. As duas indicações inquestionáveis para a erradicação do Helicobacter pylori na atuali- dade são a doença ulcerosa péptica e o linfo- ma MALT. O tratamento também tem sido indicado nas seguintes situações: • Dispepsia não ulcerosa • Síndrome dispéptica sem indicação de EDA • História de Ca gástrico em parente de pri- meiro grau • Lesões pré-neoplásicas de Ca gástrico (pangastrite, gastrite atrófica e metaplasia intestinal) • Após tratamento de adenocarcinoma gás- trico • Usuários crônicos de AINE ou AAS • Portadores de púrpura trombocitopênica imune Desta forma, a alternativa A é a única incorreta. Agora veja como algumas bancas infe- lizmente ainda cobram conceitos não tão atualizados.... FIQUE ATENTO!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE DO ESTADO DE PERNAMBUCO– PE São consideradas indicações inequívocas para a terapia de erradicação do Helicobacter pylori, EXCETO. a) Dispepsia não ulcerosa. b) Linfoma MALT. c) Após gastrectomia parcial por adenocarci- noma gástrico. d) Úlcera gástrica. e) Uso prolongado de anti-inflamatório em paciente com antecedente de úlcera péptica. De acordo com o III consenso, todas as alternativas apresentam indicação!!! Mas a banca ainda considerando conceitos antigos, liberou como gabarito a letra A!!! Recursos foram tentados, mas a questão infelizmente não foi anulada. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL NAVAL MARCÍLIO DIAS – RJ Recomenda-se para tratamento da infecção por Helicobacter pylori o seguinte esquema: a) Subsalicilato de bismuto + metronidazol + tetraciclina. b) Subsalicilato de bismuto + metronidazol + amoxacilina. c) Omeprazol + metronidazol + amoxacilina. d) Ranitidina e citrato de bismuto + metroni- dazol + amoxacilina com clavulanato. e) Lanzoprazol + clindamicina + azitromicina. O esquema de erradicação do H. pylori mais utilizado em nosso meio consiste em: (1) ome- prazol 20 mg 12/12h + (2) claritromicina 500 mg 12/12h + (3) amoxicilina 1 g 12/12h, tudo junto por 7 dias. Como deu pra perceber, ne- nhuma das opções de resposta contém a re- ferida combinação de drogas. A clindamicina não possui ação contra o H. pylori (E errada). Também não se faz necessário associar cla- vulanato à amoxicilina, visando erradicar essa bactéria (D errada). A letra C descreve uma combinação de fármacos não validada nem no Brasil nem nos EUA (C errada). E a letra B não descreve corretamente o esquema que utiliza subsalicilato de bismuto (em vez de amoxicilina utiliza-se a tetraciclina). Cumpre ressaltar, no entanto, que nem mesmo a letra A (gabarito oficial da banca) está totalmente correta. Além das drogas que ela cita, temos que prescrever omeprazol ao paciente! Gaba- rito oficial: A. Mas repare, até o autor da ques- tão se enrolou... Quando e como devo realizar o controle da erradicação? De acordo com a última edição do Sabiston, devido ao aumento da resistência bacteriana aos antibióticos, cerca de 20% dos pacientes são refratários ao tratamento e, por isso, o controle de cura deverá ser feito em todos os pacientes. Mas cuidado, pois esta informação não é aceita por todas as referências. Alguns autores, como o próprio consenso brasileiro, afirmam que o controle de cura só deve ser feito nas seguintes situações: • Úlcera duodenal; • Úlcera gástrica; • Linfoma MALT de baixo grau; • Após ressecção de câncer gástrico precoce; • Manutenção dos sintomas. Os métodos são: Teste da ureia respiratória (ureia marca- da), quando não houver indicação para EDA. Teste da urease ou histopatologia, quando houver indicação para EDA. Se houver falha terapêutica, o que fazer? Recomenda-se mais duas tentativas de trata- mento, com duração de 10 a 14 dias, não se repetindo o esquema inicial. Os esquemas a se- rem utilizados dependem do tratamento inicial. Preste atenção agora apenas à tabela de trata- mento brasileira. Para os casos de falência na erradicação do H. pylori com algum tratamento padrão de três drogas, é indicado o tratamento de resgate, que deve ter duração de 10-14 dias. No Brasil, o mais recomendado é a “terapia quádrupla brasileira”, com omeprazol 20 mg/dia http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 87Medgrupo - CiClo 2: M.E.D + sal de bismuto 240 mg de 12/12h + amoxicili- na 1 g de 8/8h + furazolidona 200 mg de 8/8h. Caso o esquema inicial tenha sido o 3 (sem claritromicina), podemos tentar o esquema 1 antes de passarmos à “terapia quádrupla”... Preste atenção e aprenda com esta questão da UEL!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA – UEL Em um paciente submetido à endoscopia di- gestiva alta, foi diagnosticada úlcera péptica duodenal S2 de Sakita e a presença de Helico- bacter pylori (HP). Com relação ao tratamento, é CORRETO afirmar: a) Há necessidade de erradicar o HP, mas não há necessidade de instituir tratamento para cicatrização da úlcera. b) Não há necessidade de erradicar o HP, pois a úlcera já está cicatrizada. c) Há necessidade urgente de instituir trata- mento para cicatrização da úlcera duodenal, pois úlcera duodenal-HP positivo tem alto risco de sangramento. d) Há necessidade de erradicar o HP e de instituir tratamento para cicatrização da úlcera. e) Não há necessidade de erradicar o HP, uma vez que este micro-organismo não tem relação com a úlcera duodenal. Boa questão! Você sabe o que é uma úlcera S2 de Sakita? Em 1971, Sakita propôs uma clas- sificação endoscópica utilizada para a doença ulcerosa péptica, sendo formada por uma letra (A, H ou S) e um número. O mais importante são as letras: A = active (ativa); H = healing (em ci- catrização); S = scar (cicatrizada). Este paciente tem uma úlcera duodenal cicatrizada... Precisa tratar? Vamos ver: o gabarito é a op- ção A, já que a presença de úlcera péptica, mesmo cicatrizada, indica o tratamento para a erradicação do HP, mas se a úlcera já está cicatrizada não precisaremos manter o trata- mento antissecretor. Observe abaixo a tabela com a classificação de Sakita detalhada: Preciso repetir a endoscopia após o trata- mento, para ver se a úlcera já cicatrizou? Você lembra que toda úlcera gástrica deve ser biopsiada, pelo risco de se tratar de um câncer gástrico? Pois é... E, para nos certificarmos mais uma vez, é recomendada a repetição da endoscopia após 8-12 semanas nos ca- sos de úlcera gástrica, para documentar a sua resolução! Atenção: essa endoscopia deve ser feita mesmo se a biópsia tiver sido negativa para malignidade! Caso a úlcera ainda esteja presente, deve-se realizar nova biópsia. Caso esteja cicatrizada, podemos ficar tranquilos: o caso está resolvido... E a úlcera duodenal? A princípio, não precisa de biópsia e nem de outra endoscopia, já que o risco de maligni- dade é muito baixo! E se a úlcera não cicatrizar com o trata- mento? A ocorrência de úlceras refratárias (que não cicatrizam com o tratamento clínico) e recidi- vantes (que retornam após tratamento clínico adequado) está geralmente relacionada a um dos fatores a seguir: • Falha na erradicação do H. pylori; • Uso de AAS/AINE; • Baixa adesão ao tratamento com antissecretor; • Úlcera não péptica (ex.: adenocarcinoma); • Hipersecreção ácida (ex.: gastrinoma). Uma nova pesquisa para a detecção do H. pylori deve ser realizada, além de biópsia em caso de úlcera gástrica. Um IBP em dose plena deve ser iniciado – uma nova endoscopia está indicada após oito semanas de tratamento. A intratabilidade clínica é uma indicação para tratamento cirúrgico! E nos casos de doença ulcerosa relaciona- da aos AINEs com H. pylori negativo? Sempre que possível deve se procurar sus- pender o AINE. Nessa situação, a terapia antissecretora pode ser realizada com anta- gonistas H2 ou IBP. Quando a suspensão dos AINEs não for possível devido à gravidade da doença de base, o tratamento deve ser reali- zado obrigatoriamente com IBP. Em relação à reavaliação pós-tratamento e à necessidade de biópsia as indicações permanecem as mes- mas e se devem basicamente a localização da úlcera (gástrica x duodenal). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UFU – MG Marco Túlio, 65 anos, queixa-se de perda de peso de 10Kg em três meses, dor epigástrica A - active / ativa A1: Margem edemaciada A2: Anel eritematoso H - healing / em cicatrização H1: Convergência de pregas, fibrina espessa H2: Fibrina Delgada S- scar / cicatrizada S1: Cicatriz Avermelhada S2: Cicatriz normal Qual é o tipo de úlcera péptica mais asso- ciada à malignidade? É a úlcera gástrica, que deve ser sempre biopsiada! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 88Medgrupo - CiClo 2: M.E.D após alimentação e melena. Relata ter sido operado de úlcera há 20 anos. A endoscopia mostra estômago operado e anastomose cor- po jejunal tipo BII, com uma lesão ulcerada de 1cm ao nível da anastomose, além de sinaisde sangramento recente. A pesquisa de He- licobacter pylori foi positiva. Não foi possível realizar biópsia devido ao risco de sangramen- to. A conduta para este caso é: a) Tratar H. pylori e repetir endoscopia com biópsia. b) Quimioterapia e radioterapia. c) Gastrectomia total com linfadenectomia D2. d) Gastrectomia paliativa. e) Gastrectomia com anastomose do fundo gástrico ao jejuno. O nosso amigo Marco Túlio tem uma sín- drome dispéptica com sinais de alarme (perda de peso, melena e idade acima de 45 anos). Por isso, realizou endoscopia digestiva alta... Nesta, observamos lesão ulcerada do estô- mago e sempre, sempre, sempre (!!) que for assim deveremos nos perguntar: essa lesão é apenas uma úlcera péptica ou é um câncer ulcerado? Essa resposta só pode vir após a biópsia gástrica, que acabou não podendo ser feita na primeira endoscopia por causa do risco hemorrágico. Então, neste momento, iremos erradicar o H. pylori, iniciar um inibidor de bomba protônica e repetir essa endoscopia num segundo momento para biopsiar a lesão, torcendo que seja apenas uma úlcera péptica. Via de regra, não começaremos um tratamento oncológico sem diagnóstico histopatológico (B, C, D e E erradas). Resposta: A. O ALuNO PERGuNTA...o Vamos explicar melhor uma conduta que tem gerado dúvidas em alguns alunos: a estratégia de erradicar o H. pylori em pacientes sem indicação de EDA, base- ada em resultado positivo de teste não endoscópico... Como você já viu, a EDA serve principalmen- te para afastar a presença de neoplasia na- queles pacientes de maior risco (> 45 anos ou com sinais de alarme). Tudo bem, também serve para detectar úlcera, gastrite... mas o principal, o que dá medo ao atender um pa- ciente com dispepsia, é o câncer! Frente a um paciente com sintomas dispépticos e risco muito baixo de neoplasia (< 45 anos e sem sinais de alarme), seriam duas as opções de abordagem: Solicitar uma EDA com biópsia e tratar de acordo com os achados. Por exemplo, se houver úlcera e H. pylori +, tratar com IBP e antibiótico... Iniciar tratamento empírico com IBP (4-8 semanas) e solicitar sorologia para H. pylori, tratando caso seja positiva - mesmo sem ter certeza que existe úlcera péptica ou outra condição que requeira erradiação do HP. Como podemos ver, a segunda opção é mais barata (não inclui EDA), menos invasiva (pou- pa o paciente da EDA) e tão eficaz quanto a primeira. Não existe contraindicação à erradicação do HP nos pacientes com dispepsia funcional ou DRGE, atualmente é até indicado. Contudo, é melhor (e mais econômico) erradicarmos um H. pylori “sem necessidade” do que sub- metermos o paciente a uma EDA – deixando claro, evidentemente, que este paciente tem baixo risco de neoplasia (jovem, sem sinais de alarme) e sendo assim não necessita de EDA na abordagem inicial. Em outras palavras: se este paciente portador do H. pylori, e não submetido à EDA, tiver uma úlcera péptica, estamos tratando... Se não tiver, a erradicação do H. pylori não terá nenhum malefício, apenas o gasto de dinheiro e o po- tencial efeito adverso do antibiótico. Em termos financeiros, é mais barato fazer o teste não endoscópico e tratar todo mundo que for posi- tivo, do que pedir endoscopia pra todo mundo (e neste caso tratar só quem tiver indicação). Contudo, mais uma vez: isso é para jovens sem sinais de alarme!!! Se o paciente tiver risco aumentado de câncer (idade > 45a e/ ou sinais de alarme), é um erro grave não solicitar EDA frente a um quadro dispético! Esta estratégia, chamada de “test and treat” foi testada em um artigo no qual 294 pacientes não submetidos a EDA tiveram teste respira- tório positivo para a presença da bactéria: estes foram randomizados em 2 grupos, um que recebeu o tratamento padrão para erra- dicação do H. pylori e outro que recebeu pla- cebo. A resolução dos sintomas após 1 ano foi maior no grupo que recebeu antibiótico (50% x 36%), com significância estatística (p = 0,02). O único problema é que, de acordo com esses resultados, o NNT foi igual a 7 - ou seja, de cada 7 pacientes tratados, apenas 1 teria potencial benefício (os outros 6 teriam o mesmo resultado - favorável ou não - rece- bendo placebo). Provavelmente isso se deveu ao fato de a maioria desses pacientes ser portadora de dispepsia funcional ou DRGE, condições que não melhoram com a erradica- ção do H. pylori! E, infelizmente, é muito difí- cil caracterizar aqueles com maior chance de ter uma úlcera péptica sem endoscopia, ba- seando-se apenas em dados clínicos... Dessa maneira, pode-se concluir que em po- pulações com alta prevalência de infecção por H. pylori (ex.: Brasil!!!) o NNT para esse tipo de abordagem deve ser menor, justificando ainda mais esse tipo de estratégia. Já nos lugares onde a prevalência da infecção por H. pylori está em franco declínio, esta conduta começa a ser questionada, surgindo então uma terceira opção de conduta: tratar direta- mente com IBP, sem testagem. Caso haja refratariedade ao tratamento ou recidiva dos sintomas, uma EDA com biópsia é realizada. Essa abordagem é justificada pela baixíssima probabilidade de a dispepsia ser causada por doença ulcerosa péptica por H. pylori e foca o tratamento direto da dispepsia funcional e DRGE. Talvez em algumas décadas, com a melhora das condições socioeconômicas e sanitárias da população brasileira, nós possa- mos discutir mais aprofundadamente essa nova opção de conduta. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 89Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP Mulher, 53 anos, previamente hígida, apresenta hematêmese e melena há 1 dia. Em uso diário de diclofenaco há 20 dias para tratamento de osteoartrite de joelho. A endoscopia digestiva alta mostrou lesão ulcerada gástrica sangran- te. Foi realizada terapêutica esclerosante e prescrito inibidor de bomba de prótons. Após 48 horas, sem sinais clínicos e laboratoriais de sangramento, a paciente recebeu alta hospi- talar. O SEGUIMENTO MAIS ADEQUADO É: a) Suspender o diclofenaco, manter inibidor de bomba de prótons e repetir endoscopia di- gestiva alta, com biópsia da lesão e pesquisa de Helicobacter pylori. b) Diminuir a dose do diclofenaco, associar cimetidina 400 mg por dia para prevenir novo sangramento e solicitar estudo radiológico do estômago. c) Encaminhar ao serviço ambulatorial do hos- pital para acompanhamento, sem necessida- de de endoscopia de controle, com retornos mensais no primeiro ano. d) Suspender o diclofenaco, manter inibidor de bomba de prótons e retornar ao serviço de urgência caso haja novo quadro de hemorragia digestiva alta. Reze para cair uma questão assim na sua prova! Revise aqui 2 conceitos básicos: 1º - na úlcera relacionada aos AINEs, sem- pre que possível suspendemos a medicação desencadeante. Quando não houver essa possibilidade, tratar obrigatoriamente com IBP. 2º - deve-se fazer endoscopia de revisão após o tratamento de toda úlcera gástrica. Com esses fundamentos na cabeça resta só marcar letra “A” e passar sorrindo para próxi- ma questão! tratamento cirúrgico Quando indicar? O tratamento cirúrgico tem indicações precisas na literatura: • Hemorragia. • Perfuração. • Obstrução. • Caso o tratamento clínico não cicatrize a úlcera (Intratabilidade). • Em casos de recidivas constantes da úl- cera, mesmo após tratamento clínico e erradicação do H. pylori. A intratabilidade verdadeira é rara e fica defi- nida como a falha de cura da úlcera após o tratamento por 8 a 12 semanas, havendo ne- cessidade de que o H. pylori seja corretamen- te erradicado e os AINE’s descontinuados. Nesses pacientes devemos excluir a presença de gastrinoma antes indicar a cirurgia. Indicações: Hemorragia Perfuração Obstrução Caso o tratamento clínico não cicatrize a úlcera Em casos de recidivas constantes da úl- cera, mesmo após tratamento clínico e erradicação do H. pylori. Procedimentos para úlcera duodenal: nãoprecisa retirar úlcera! * Objetivo: reduzir hipercloridria. Vagotomia Troncular com Piloroplastia: mais utilizada. Vagotomia Troncular com Antrectomia: mais complicações, porém menor recidiva da úlcera. Vagotomia Gástrica Proximal (Supersele- tiva): mais simples, porém maior recidiva da úlcera. Procedimentos para úlcera gástrica: sem- pre retirar úlcera! Tipos II/III (associadas à hipercloridria – igual à úlcera duodenal): Vagotomia Tron- cular com Antrectomia + Billroth I ou II. Tipo I (há hipo/normocloridria – não preci- sa de vagotomia): Antrectomia + Billroth I ou II. Tipo IV (há hipo/normocloridria, úlcera de retirada difícil): Gastrectomia subtotal + Y de Roux (cirurgia de Csende) ou gastrec- tomia distal com extensão vertical para incluir a úlcera + Billroth I ou II (cirurgia de Pauchet). Vagotomia troncular Vagotomia seletiva Vagotomia superseletiva Retiram a inervação motora (va- gal) do antro e do piloro Não interfere na inerva- ção vagal do antro ou do piloro Necessário procedimento de “drenagem” gástrica: piloroplastia ou antrectomia Sem necessidade de procedimento adicional Figura 7 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 90Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Procedimentos Eletivos para Úlcera Duodenal Como já vimos, a úlcera duodenal está sem- pre associada à HIPERcloridria. Assim, o tratamento cirúrgico consiste na inibição da secreção ácida, que pode ser conseguida através de dois procedimentos: 1- VAGOTOMIA: secção da inervação vagal do estômago, interrompendo a estimulação das células parietais pela acetilcolina (que é uma das substâncias que estimula a secreção ácida, junto com a gastrina e a histamina). 2- ANTRECTOMIA: ressecção da porção gástrica que contém as células G, produtoras de gastrina. Como realizar a vagotomia? Existem três formas possíveis de Vagotomia: 1) Troncular – é seccionado o tronco do vago, desnervando o estômago e vários outros órgãos abdominais. 2) Seletiva (pouco utilizada hoje em dia) – corta a inervação vagal do estômago, mas mantém as fibras vagais que inervam os outros órgãos abdominais. 3) Superseletiva (ou “Gástrica Proximal” ou “de Células Parietais”) – corta apenas a inervação para as porções do estômago que contêm as células parietais (fundo e corpo gástrico), mantendo a inervação va- gal do antro, do piloro e dos demais órgãos abdominais. Como fica o controle motor do estômago após uma vagotomia troncular? As contrações do antro gástrico, responsáveis pelo esvaziamento do estômago, são media- das justamente pela acetilcolina! E, na falta da inervação vagal, ocorre atonia gástrica – não chega acetilcolina ao antro, ou seja, o antro não contrai e o esvaziamento gás- trico se torna mais difícil! Assim, após a realização de uma vagotomia troncular ou seletiva, precisamos facilitar de alguma maneira o esvaziamento gástri- co – isso pode ser feito de diversas maneiras, mas dois procedimentos são mais utilizados atualmente com esse objetivo: (1) uma simples piloroplastia (na prática um alargamento do piloro), ou (2) retirada do antro junto com o piloro (an- trectomia), seguido pela anastomose do restante do estômago com o duodeno ou mesmo com o jejuno proximal. É interessante ressaltar que, associando a antrectomia à vagotomia troncular, diminuímos ainda mais a secreção ácida, pois retiramos os estímulos da acetilcolina (nervo vago) e da gastrina (células G do antro). Como a vagotomia superseletiva não interfere na inervação do antro e do piloro, não é neces- sário procedimento de “drenagem” gástrica... Vamos ver algumas questões sobre o que acabamos de estudar: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Entre as alterações fisiológicas causadas pela vagotomia troncular, pode-se citar a seguinte: a) Aumento da sensibilidade à gastrina. b) Aumento da sensibilidade à histamina. c) Redução do estímulo colinérgico nas células parietais. d) Hipoplasia da célula secretora de gastrina. e) Diminuição da gastrina em jejum. Questão fácil. A lógica da realização da va- gotomia no tratamento da úlcera péptica é jus- tamente a redução da secreção ácida gástrica, já que a acetilcolina, neurotransmissor liberado pelo nervo vago, estimula a célula parietal a produzir ácido (juntamente com a gastrina e a histamina). Sem inervação vagal no estômago, tiramos uma das substâncias que estimulam as células parietais. Resposta letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF No tratamento cirúrgico da úlcera péptica duo- denal, um procedimento é considerado mais Figura 8 Figura 9 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 91Medgrupo - CiClo 2: M.E.D fisiológico. Aponte-o. a) Vagotomia com antrectomia. b) Vagotomia seletiva com piloroplastia. c) Vagotomia troncular com piloroplastia. d) Vagotomia gástrica proximal. e) Billroth 1. A mais fisiológica é a vagotomia gástrica proximal (outro nome da vagotomia superse- letiva), pois preserva a inervação motora do antro e piloro. Resposta letra D. Na prática, são utilizados três procedimentos cirúrgicos para as úlceras duodenais: 1- Vagotomia Troncular com Piloroplastia 2- Vagotomia Troncular com Antrectomia 3- Vagotomia Gástrica Proximal (Super- seletiva) 1- Vagotomia Troncular com Piloroplastia Neste procedimento, o cirurgião faz a secção completa do vago, desnervando o estômago e vários outros órgãos abdominais. Para preve- nir a atonia gástrica, é feita uma piloroplastia, facilitando, dessa forma, o esvaziamento do estômago... Contudo, existe um preço para esse alarga- mento do piloro: • O esvaziamento rápido do estômago faz com que o conteúdo gástrico atinja o intestino pro- ximal de forma súbita, causando a síndrome “dumping”. • Do mesmo modo que a piloroplastia melhora o esvaziamento gástrico, também permite o refluxo da secreção alcalina presente no duodeno (bile e suco pancreático), causando “gastrite alcalina” (ou “gastrite biliar”). Teremos mais detalhes sobre todas as com- plicações cirúrgicas nas próximas páginas... 2- Vagotomia Troncular com Antrectomia Procedimento semelhante ao anterior, mas em vez de usar a piloroplastia, utiliza-se a antrectomia (retirada do antro e do piloro) para facilitar o esvaziamento gástrico. Após a retirada do antro, temos que reconstruir o tubo digestivo, o que pode ser feito de duas formas: • gastroduodenostomia (BILLROTH I) • gastrojejunostomia (BILLROTH II) Acompanhe pelas figuras a seguir: a recons- trução tipo Billroth I é a mais fisiológica, pois o estômago é ligado diretamente ao duodeno. Na Billroth II, o estômago é ligado ao jejuno e o coto duodenal fica pendente, sendo suturado na sua extremidade. A manutenção do coto duodenal é necessária, já que ele recebe a bile e o suco pancreático... Se a Billroth I é melhor, quando usamos a Billroth II? Caso haja inflamação ou retração fibrótica grave do duodeno, fica difícil fazer a gastro- duodenostomia (Billroth I)... Nesses casos, optamos pela gastrojejunosto- mia (Billroth II)... Figura 10 Como já vimos, ao associarmos a antrecto- mia à vagotomia troncular, diminuímos ainda mais a secreção ácida, pois eliminamos os estímulos da acetilcolina (nervo vago) e da gastrina (células G do antro). Assim, essa é a cirurgia com menor taxa de recidiva da úlcera (cerca de 1%). Por outro lado, é uma cirurgia mais complexa, estando associada a maior morbimortalidade e mais complicações no pós-operatório. As principais complicações são as mesmas da vagotomia troncular com piloroplastia: a “gastrite alcalina” e a síndrome “dumping”. Contudo, estas são mais frequentes com a antrectomia. Além disso, na reconstrução à BII, temos também a síndrome da alça aferente. 3- Vagotomia Gástrica Proximal (ou Vagotomia Superseletiva ou Vagotomia de Células Parietais) Neste procedimento, o cirurgião secciona apenas os nervos de Latarjet (pequenos ra- mos do vago) das porções do estômago que contêm as células parietais (fundo e corpogástrico), mantendo a inervação vagal do antro, do piloro e dos demais órgãos abdo- minais. Não há necessidade de reconstruir o trânsito, e este é um procedimento com baixíssimos índices de morbimortalidade e complicações, mas associado a uma maior recidiva ulcerosa (>10%), pois é um procedi- mento que envolve maior habilidade do cirur- gião – se um pequeno nervo de Latarjet para o fundo ou corpo gástrico passar despercebido... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 92Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Veja como cai! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Durante uma antrectomia por doença ulcerosa péptica, ocorre a retirada das células: a) G produtoras de gastrina. b) Parietais produtoras de HCI. c) Principais produtoras de pepsinogêneo. d) Enterocromoafins produtoras de histamina. A organização e a concentração de cada tipo celular gástrico variam de acordo com a sua Um dos feixes proximais do vago posterior é frequentemente esquecido pelos cirurgiões e está intimamente relacionado com a recidiva ulcerosa. Essa situação lhe valeu a alcunha de “feixe criminoso de Grassi”. Vamos agora reter alguns conceitos importan- tíssimos sobre os procedimentos cirúrgicos para úlcera duodenal: Qual tem a maior taxa de recorrência da úlcera? Vagotomia superseletiva – mas é a de menor morbimortalidade e incidência de complicações. Qual tem a menor taxa de recorrência da úlcera? Vagotomia troncular com antrectomia – mas é a de maior morbimortalidade e incidência de complicações. Qual é a mais utilizada? Vagotomia troncular com piloroplastia – é a cirurgia “coluna do meio”... Qual procedimento escolher? A escolha depende, em primeiro lugar, da ex- periência e da habilidade do cirurgião com os três tipos de cirurgia... E se o cirurgião for um “expert” nas três? Mesmo assim, não existe um consenso! A maioria das referências traz a vagotomia superseletiva como “talvez” a mais recomendável em situações eletivas – contudo, nos casos em que se espera maior índice de recidiva (úlceras pré-pilóricas e/ou refratárias ao tratamento com antissecretores), a melhor alternativa provavelmente é a vago- tomia troncular com antrectomia... localização no órgão. A cárdia apresenta as glândulas mucossecretoras. O corpo gástrico possui glândulas organizadas com células pa- rietais, produtoras de ácido clorídrico, e células principais, que secretam pepsinogênio. O fun- do também possui algumas células parietais. Por fim, o antro apresenta a maior quantidade de células G, produtoras de gastrina. Resposta da questão: alternativa A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RJ A respeito do tratamento cirúrgico da doença ulcerosa péptica, é CORRETO afirmar, EX- CETO: a) A vagotomia superseletiva possui a maior taxa de recorrência da úlcera, porém, é a op- ção cirúrgica de menor morbimortalidade e incidência de complicações. b) A vagotomia troncular com piloroplastia é a preferida em diversos serviços, já que apre- senta menor morbimortalidade se comparada com a vagotomia troncular com antrectomia, e menor taxa de recorrência da doença, se comparada com a vagotomia seletiva. c) A síndrome da alça aferente é complicação frequente nas antrectomias com reconstrução a Billroth I. d) A diarreia osmótica é queixa comum nos pacientes submetidos à vagotomia troncu- lar, tendo em vista a desnervação vagal do sistema biliar, com consequente aumento da secreção de sais biliares no duodeno. Conforme você acabou de ver a vagotomia superseletiva (ou vagotomia proximal) é um ci- rurgia “econômica” que consiste na ressecção dos nervos de Latarjet da pequena curvatura gástrica no segmento compreendido entre 7 cm proximais ao piloro e 5 cm proximais à jun- ção esofagogástrica. O objetivo principal é a preservação da motilidade antral e a pilórica, provocando menos complicações à custa de uma maior incidência de recidivas. A vago- tomia troncular associada à piloroplastia é uma cirurgia intermediária entre a vagotomia troncular com antrectomia e a vagotomia su- perseletiva, visto que está relacionada a um menor número de complicações quando com- parada à antrectomia e melhores resultados a longo prazo que a vagotomia superseletiva. A síndrome da alça aferente ocorre apenas nos pacientes submetidos à gastrojejunostomia com reconstrução do tipo Billroth II uma vez que na reintegração do duodeno ao estômago (Billroth I) não existe alça aferente ou eferen- te... Quando a vagotomia troncular é efetua- da, desnervamos não somente o estômago como outras vísceras abdominais (incluindo a árvore biliar), o que leva a um aumento da liberação de sais biliares no lúmen intestinal. Esse excesso de sais biliares ao ganhar o cólon gera um efeito secretório, acarretando o aparecimento de diarreia. Perceba que apesar do termo “osmótico” empregado rotineiramen- te pelos cirurgiões, estamos diante de uma diarreia secretória. Resposta C. NÃO ESQuEÇA!! Quanto mais eficaz a cirurgia (me- nor recidiva ulcerosa), maiores as complicações pós-operatórias... E quanto menores as complicações, maior a recidiva ulcerosa... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 93Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS – RJ São complicações após a gastrectomia total com reconstrução em Y de Roux, EXCETO: Alternativas: a) Anemia megaloblástica. b) Dumping. c) Úlcera anastomótica. d) Diarreia. e) Síndrome da alça aferente. Síndrome da alça aferente é uma compli- cação clássica da gastroenterostomia à BII, particularmente, quando a alça aferente é deixada com mais de 30-40 cm... O que acon- tece é o seguinte: o lúmen do ramo aferente pode ser semiobstruído por um de diversos mecanismos, como angulação, volvo, torção, adesão, herniação ou estenose da junção gastrojejunal. Como se trata de segmento de alça que continua recebendo secreções bilio- pancreáticas, pode ocorrer acúmulo de líquido e distensão, provocando dor abdominal. O au- mento de pressão intraluminal eventualmente “vence” a obstrução ao trânsito, levando aos episódios de vômitos biliosos que se seguem de alívio da dor... O tratamento desta condição é feito pela confecção do Y-de-Roux, o que reduz a probabilidade de um dos referidos mecanismos obstrutivos acontecer. Logo, resposta certa: E. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – RJ O tratamento que apresenta menor risco de recidiva no tratamento da úlcera duodenal complicada por obstrução é: a) Dilatação endoscópica. b) Antrectomia associada à vagotomia tron- cular. c) Gastrectomia subtotal com reconstrução Billroth II. d) Vagotomia troncular associada à piloroplastia. e) Vagotomia gástrica proximal associada a duodenoplastia. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF No tratamento da úlcera duodenal, o proce- dimento cirúrgico acompanhado de menores taxas de recidiva é: a) Vagotomia com piloroplastia. b) Vagotomia com antrectomia. c) Vagotomia gástrica proximal. d) Vagotomia seletiva com gastroenteroanas- tomose. e) Vagotomia seletiva com piloroplastia. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE – UFCG O tratamento cirúrgico para úlcera duodenal que estatisticamente está relacionado com menores taxas de recidiva é: a) Vagotomia trocular com antrectromia. b) Vagotomia superseletiva. c) Vagotomia seletiva com piloroplastia. d) Vagotomia troncular com piloroplastia. e) Gastrectomia subtotal. Menor recidiva = Vagotomia troncular + antrectomia! Tem que ficar medular, todo ano é a mesma coisa!!! Opções “B” , “B” e “A” res- pectivamente! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE JUNDIAÍ – FMJ Quanto aos aspectos técnicos de execução das gastrectomias parciais, conhecidas como Billroth I e Billroth II, assinale a proposição correta. a) São idênticas quanto à reconstrução e di- ferentes em relação à ressecção. b) A gastrectomia tipo BillrothI implica em gastrojejunostomia. c) A gastrectomia tipo Billroth II reconstitui o trânsito através de gastroduodenostomia. d) São diferentes quanto à gastroenteroanas- tomose e idênticas quanto à ressecção. e) À gastrectomia tipo Billroth II, além da re- construção, se associa vagotomia troncular. Para confecção de gastrectomia, seja Billroth I ou Billtoth II, o primeiro tempo da cirurgia é sempre o mesmo e consiste na ressecção par- cial do estômago distal (antrectomia). O que vai diferenciar um procedimento do outro é o tipo de segmento que você vai encaixar no que sobrou do estômago (gastroenteroanastomose). Caso você opte por ligar o estômago no duodeno (gastroduodenostomia) você estará realizando uma gastrectomia Billroth I. Se preferir ligá-lo ao jejuno (gastrojejunostomia) acabará fazen- do uma gastrectomia Billroth II. Agora que o vocabulário foi esclarecido vamos a questão: Opção A - A ressecção (primeiro tempo da ci- rurgia) é igual é ambas – incorreta. Opção B - Gastrectomia B I implica em gas- troduodenostomia – incorreta. Opção C - Gastrectomia B II reconstitui o trânsito através de gastrojenu nostomia – in- correta. Opção D - Diferentes quanto à gastroente- roanastomose, idênticas quanto à ressecção – corretíssimo. Opção E - Vagotomia troncular? Não tem a ver com a diferenciação das gastrectomias... – incorreta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UNB As queixas de epigastralgia, ou desconforto abdominal alto, são comuns na prática clínica. A gravidade dos sintomas e a presença de queixas associadas a esses sintomas determi- nam a investigação complementar. Com base nessas informações, julgue os itens seguintes. A síndrome do esvaziamento gástrico precoce (síndrome de dumping) é mais comum após a http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 94Medgrupo - CiClo 2: M.E.D gastrectomia total ou parcial com reconstrução à Billroth II, — gastrojejunoanastomose — do que após a reconstrução à Billroth I — gastro- duodenoanastomose. a) CERTO. b) ERRADO. Devido ao tipo de reconstrução do trânsi- to intestinal, a gastrectomia Billroth II estará sempre mais associada às complicações pós- -operatórias! Resposta letra A. Procedimentos eletivos para úlcera gástrica O tipo de cirurgia para úlcera gástrica depende do tipo de úlcera! Vamos relembrar: Tipo I ou úlcera da pequena curvatura (55-60% dos casos) – associada à HIPOcloridria. Tipo II ou úlcera gástrica associada à úlcera duodenal - associada à HIPERcloridria. Tipo III ou úlcera pré-pilórica - associada à HIPERcloridria. Tipo IV ou úlcera da pequena curvatura, parte alta, próximo à junção gastroesofágica - associada à HIPOcloridria. Existe uma diferença importantíssima em relação às úlceras duodenais: Em todos os casos de úlcera gástrica, deve ser retirada a porção do estômago que contém a úlcera, devido à chance de a mesma ser um câncer ulcerado!!! A úlcera duodenal tem um risco muito menor de malignidade e, a princípio, não deve ser retirada... As úlceras pré-pilóricas (tipo III) e as úlceras gástricas que se associam às duodenais (tipo II) são associadas à HIPERcloridria – assim, o tratamento é semelhante ao da úlcera duode- nal, visando também a redução da secreção ácida! Só que, neste caso, o procedimento tem que ser a vagotomia troncular com antrecto- mia, pois também temos que retirar a úlcera! Nas úlceras tipo I, não é necessária a vagotomia troncular, pois esse tipo é associado à HIPOclo- ridria, ou seja, não precisamos reduzir a secre- ção ácida! Nesses casos, é necessária apenas antrectomia, que também retirará a úlcera. Já no caso da úlcera tipo IV (próximo à junção esofagogástrica), também associada à HIPO- cloridria, a retirada do antro não é suficiente para remover a úlcera – nestes casos, reco- menda-se gastrectomia subtotal associada à reconstrução em Y de Roux (cirurgia de Csen- de), ou a antrectomia com extensão vertical para a pequena curvatura, a fim de incluir a úlcera + Billroth I ou II (cirurgia de Pauchet). complicações do tratamento cirúrgico bI e bII – não vá para prova sem dominar esse conceito!!! Precoces: sangramento, deiscências, fístu- las... Tardias: Síndrome da alça aferente: só na antrectomia com reconstrução à Billroth II • Alça aferente (que recebe secreção biliopan- creática) é obstruída por trânsito intestinal dor pós-prandial vômito em jato, que alivia dor. • Tratamento: gastrojejunostomia em Y de Roux. Gastropatia por refluxo biliar (gastrite alcalina): • Antrectomia/piloroplastia permite refluxo biliar para o estômago dor constante vômitos biliosos (não melhoram dor). • Tratamento: gastrojejunostomia em Y de Roux, mantendo uma distância entre 50 e 60 cm en- tre o trânsito jejunal e o estômago. Diarreia pós-vagotomia: • excreção biliar diarreia. • Tratamento: colestiramina, loperamida. Síndrome “dumping”: ocorre pela passagem rá- pida dos alimentos para o duodeno, na ausência do piloro. • Causa: contração do volume plasmático e dis- tensão intestinal aguda. Também há liberação de hormônios intestinais vasoativos. • Quadro precoce (15-30 minutos após alimen- tação): alterações gastrointestinais (dor abdo- minal, náuseas, vômitos, diarreia explosiva) e vasomotoras (taquicardia, palpitações, sudo- rese, tontura). • Quadro tardio (1-3 horas após alimentação): predominam sintomas vasomotores. • Tratamento: evitar carboidratos, fracionar re- feições, não beber líquido às refeições, deitar após comer. Podemos dividir as complicações em pre- coces e tardias. As precoces são aquelas que podem ocorrer em qualquer cirurgia (sangramento, deiscências, fístulas, gastro- paresia...). As que nos interessam são as que mais caem em provas de residência, as complicações tardias. síndroMe da alça aferente Esta condição só ocorre na antrectomia com reconstrução à Billroth II. Como você já viu, o estômago é ligado ao jejuno e o coto duodenal (ou alça aferente) fica pendente, sendo sutu- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 95Medgrupo - CiClo 2: M.E.D rado na sua extremidade. A manutenção do coto duodenal é necessária, pois ele recebe a bile e o suco pancreático... Esse coto, ou alça, pode ter seu lúmen semiobstruído por diversas causas (FIGURA 11): Kinking (“dobradura”), torção, aderência, hérnia... quanto mais longa a alça aferente, maior o risco de obstrução! A secreção biliopancreática se acumula nessa alça, causando distensão e dor abdominal. Quando a pressão aumenta muito na alça aferente, a ponto de vencer a semiobstrução, o paciente vomita a secreção retida (vômito bilioso) e a dor melhora... Se a obstrução for fixa (menos comum), pode ocorrer ruptura da alça, com extravasamento de seu conteúdo para a cavidade abdominal, num quadro que pode simular pancreatite aguda (abdome agu- do com aumento da amilase). O tratamento é a reoperação com construção de gastrojejunostomia em Y-de-Roux (FI- GURA 12). uma reconfecção da gastroenteroanastomose para Billroth I. As letras C e D descrevem o conceito da Síndrome de Dumping. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Homem de 52 anos foi submetido à gastrecto- mia subtotal com reconstrução do tipo Billroth II, há seis meses. Há um mês apresentou qua- dro de desconforto e dor epigástrica do tipo cólica, com episódios de vômitos biliosos que imediatamente aliviam os sintomas. Diante des- se quadro, é mais provável estar ocorrendo a: a) Síndrome de dumping. b) Síndrome da alça aferente. c) Gastrite por refluxo alcalino. d) Atonia gástrica pós-vagotomia. Quando realizamos uma gastrectomia, po- demos realizar a reconstrução do trânsito de várias formas, entre elas temos a Billroth I e a Billroth II. Na Billroth I, fazemos uma gastro- duodenostomia. Na Billroth II, uma gastrojeju- nostomia e construímos uma anastomose entra o duodeno (que fora separado do estô- mago) e a alça jejunal. Esta alça duodenal anastomosante à alça jejunal fica conhecida como alçaaferente. A alça aferente pode sofrer dobraduras ou torções, que levam à oclusão dessa alça. Como consequência, o paciente experimenta dor abdominal conforme vai se acumulando bile no interior da alça duodenal! Esta dor acaba cessando quando o doente finalmente expele toda a bile que estava con- tida no duodeno sob pressão (vômito bilioso). A este conjunto de sinais de sintomas damos o nome de Síndrome da Alça Aferente. Res- posta correta: Letra B. gastropatia por refluxo Biliar (gastrite alCalina ou gastrite Biliar) Após o alargamento do piloro (piloroplastia) ou a retirada do antro e do piloro (antrecto- mia), perde-se o papel de esfíncter pilórico, favorecendo o refluxo da secreção alcalina presente no duodeno (bile e suco pancreáti- co). Tal refluxo causa um quadro conhecido como gastropatia por refluxo biliar, compli- cação mais comum após antrectomia com reconstrução à Billroth II. Os pacientes com gastropatia por refluxo biliar queixam-se de dor abdominal contí- nua, em queimação, associada a vômitos biliosos. Os vômitos não aliviam a dor, ao contrário do que ocorre na síndrome da alça aferente. A endoscopia desses pacien- tes mostra inflamação da mucosa gástrica, caracterizada por lesão epitelial, edema e vasodilatação. O diagnóstico é clínico e a cintilografia pode documentar o refluxo. O tratamento consiste na confecção de uma gastrojejunostomia em Y de Roux, man- tendo uma distância entre 50 e 60 cm entre o trânsito jejunal e o estômago. Figura 11 Figura 12 RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL ALVORADA – SP A síndrome da alça aferente é em consequência a) Da obstrução da anastomose Billroth I. b) Da obstrução da anastomose Billroth II. c) Do rápido esvaziamento gástrico da anas- tomose Billroth I. d) Do rápido esvaziamento gástrico da anas- tomose Billroth II. Questão direta. Bastava se lembrar do as- pecto final da reconstrução a Billroth II. Como Billroth I não possui alça aferente, não pode ser uma resposta plausível. Lembrando, também, que a conduta empregada nesses casos é a conversão do procedimento para Y-de-Roux ou http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 96Medgrupo - CiClo 2: M.E.D diarreia pós-VagotoMia A diarreia é uma queixa comum após a cirurgia de vagotomia troncular. Como você já viu, essa técnica consiste na secção do nervo vago antes que ele chegue ao estômago, ou seja, desnerva todas as vísceras abdominais! A desnervação vagal do sistema biliar causa um aumento da secreção de sais biliares para o duodeno – os sais biliares estão associados à diarreia do tipo secretória pelo estímulo à secreção de água, sobretudo pelo cólon. Frequentemente esse tipo de diarreia é classificada erroneamente como “osmótica” pelos cirurgiões, estando o erro presente mesmo nos principais tratados de cirurgia... Os episódios ocorrem geralmente de 1 a 2 horas após as refeições. O tratamento é feito à base de antidiarreicos (difenoxilato, loperamida) e colestiramina (sequestrador de sais biliares). síndroMe “duMping” O esvaziamento rápido do estômago após a realização de piloroplastia ou antrectomia faz com que, na ausência do piloro, o conteúdo gástrico atinja o intestino proximal de forma súbita, causando a síndrome “dumping”. Essa “inundação” (melhor tradução para “dum- ping”) do delgado pelo conteúdo gástrico hipe- rosmolar leva ao desvio de líquido do plasma sanguíneo para o lúmen intestinal, causando contração do volume plasmático e distensão intestinal aguda. Também ocorre liberação de hormônios intestinais vasoativos, que contri- buem para a sintomatologia... Divide-se em dois tipos: “Dumping” imediato ou precoce: ocorre de 15 a 30 minutos após a refeição, sendo com- posto por manifestações gastrointestinais e vasomotoras: • Gastrointestinais: dor abdominal, náuseas, vômitos, diarreia explosiva... • Vasomotoras: taquicardia, palpitações, su- dorese, tontura... “Dumping” tardio: ocorre de um a três horas após a refeição. É decorrente de hipogli- cemia e predominam as manifestações vasomotoras. Ocorre da seguinte forma: a hiperglicemia causada pela “inundação” do intestino pelo alimento leva à hiperinsu- linemia, que, após algumas horas, causa hipoglicemia. O tratamento é dietético, devendo ser evitados os carboidratos, particularmente os refinados (açúcar, bolos, doces, etc.). Além disso, reco- menda-se que as refeições sejam fracionadas (menores volumes com maior frequência), que o indivíduo coma lentamente e evite a inges- tão de líquidos durante as refeições, a fim de não aumentar ainda mais o bolo alimentar... Se possível, deitar por 30 minutos após as refeições para diminuir a ação da gravidade sobre o esvaziamento gástrico. Além disso: • O uso da acarbose (hipoglicemiante oral que inibe a absorção intestinal de glicose) pode ser útil para os sintomas de “dumping” tardio. • O octreotide, via subcutânea, pode ser usa- do nos casos refratários, tanto de “dumping” precoce quanto tardio. • Nos casos mais graves, podemos interpor uma alça jejunal entre o estômago e o coto distal, a fim de desacelerar o trânsito (como se reconstruíssemos o piloro). Mais uma vez: a cirurgia mais propícia a complicações é a vagotomia troncular com antrectomia, principalmente se a recons- trução do trânsito for através de gastroje- junostomia (Billroth II). Veja essa questão: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Leia a passagem a seguir, onde se observam duas lacunas. A fase precoce da síndrome de dumping ocorre de __________ após as refeições e consiste em desconforto abdomi- nal, “em cólica”, náuseas, diarreia, taquicar- dia, palpitações, sudorese e, __________, síncope - sinais e sintomas que decorrem de esvaziamento rápido do conteúdo gástrico hiperosmolar para o intestino delgado, cau- sando deslocamento de líquido para a luz da alça, com contração do volume plasmático e distensão abdominal aguda. A alternativa em que se apresentam os termos que preenchem corretamente as lacunas é: a) 15 a 30 minutos / raramente. b) 90 a 120 minutos / frequentemente. c) 15 a 30 minutos / frequentemente. d) 90 a 120 minutos / raramente. e) 30 a 90 minutos / raramente. Frase retirada na íntegra do Harrison! Já sabemos que o dumping precoce acontece de 15 a 30 minutos após as refeições. Resta saber que dificilmente ocorrem todas as ma- nifestações sintomáticas descritas e que a síncope é um evento raro. Gabarito “A”! Características Gastrite Síndrome da Alcalina Alça Aferente Obstrução Não Sim Mecânica Dor Constante Após alimentação Vômito melhora Não Sim a Dor Vômito contendo Sim Sim Bile Vômito contendo Pode Não alimento Vômito em Jato Não Sim Sangramento e Ocasional Raro Anemia http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 97Medgrupo - CiClo 2: M.E.D outras Má digestão e má absorção: cerca de 60% dos pacientes submetidos a uma gastrectomia sofrem perda de peso, por diversos fatores. Além disso, várias defi- ciências nutricionais podem suceder uma gastrectomia: • Anemia megaloblástica: a hipocloridria diminui a capacidade de obter a vitamina B12 ligada às fontes proteicas, além de propiciar uma hiperproliferação bacteriana – as bactérias competem pela vitamina. É importante ressaltar que geralmente não há deficiência de fator intrínseco, que é produzido pelas células parietais do corpo e fundo gástrico – e a maioria das gastrec- tomias parciais retira somente o antro... • Anemia ferropriva: o duodeno é o principal sítio de absorção de ferro. Na reconstrução do trânsito à Billroth II (gastrojejunosto- mia), o coto duodenal recebe a secreção biliopancreática, mas não o alimento, que passa direto do estômago ao jejuno... • Vitamina D e Cálcio: a má absorção de vitamina D e cálcio após a realização de gastrojejunostomia resulta em osteoporose e osteomalácia, sendo uma complicação tardia. Obstrução da alça eferente: Assim como a síndrome da alça aferente, também neces- sita da existência de uma gastrojejunosto-mia (Billroth II) para sua ocorrência. É uma complicação rara, na qual a alça eferente hérnia para trás da anastomose bloqueando a passagem de alimentos. Pode ocorrer em qualquer momento do pós-operatório, mas é comum que aconteça no primeiro mês após a cirurgia (50%). Cursa com obstrução alta do trato digestivo, dor abdominal e vô- mitos que aliviam os sintomas. A diferença aqui está na presença frequente de restos alimentares no conteúdo da regurgitação, enquanto que na síndrome da alça aferente predominam os vômitos puramente bilio- sos. O tratamento dessa condição consiste na redução da hérnia com fechamento do espaço retroanastomótico. Síndrome do antro retido: A mucosa gás- trica do antro pode se estender até pouco depois do piloro, dentro do duodeno. Ao realizarmos uma antrectomia e remover- mos o antro e o piloro, parte dessa mucosa pode permanecer junto ao duodeno. Com o trânsito reconstruído a Billroth II, essa mucosa será frequentemente banhada com a secreção alcalina pan creática vinda da papila duodenal, sem haver nenhuma opo- sição ácida já que o transito do estômago foi desviado! Essa situação levará o antro retido no duodeno a produzir gastrina em excesso, estimulando a secreção ácida no estômago remanescente. Note que essa secreção gástrica nunca alcançará a mu- cosa antral retida, perpetuando o ciclo! A síndrome do antro retido é responsável por até 8% das recidivas ulcerosas. Ela pode ser diagnosticada por uma cintilografia com tecnécio. Seu tratamento é realizado clini- camente com inibidores da secreção ácida ou cirurgicamente com a transformação do Billroth II em Billroth I ou excisão simples da mucosa antral retida. Adenocarcinoma: nos casos de gas- trectomia, o risco de adenocarcinoma no remanescente gástrico é 15 vezes maior, quando comparado ao estômago normal. A patogenia ainda não está esclarecida, podendo envolver refluxo alcalino, hiper- proliferação bacteriana e hipocloridria. Vamos ver algumas questões de Cirurgia sobre os temas apresentados: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ER- NESTO – RJ Um paciente com úlcera gástrica foi submetido à gastrectomia distal com vagotomia troncular e reconstituição do trânsito alimentar a Billroth II. No pós-operatório, queixa-se de episódios de forte desconforto, plenitude e dor no epi- gástrio e mesogástrio após alimentação. O paciente relata, também, que esses sintomas desaparecem completamente após súbito epi- sódio de vômitos biliosos. Diante desse relato, o tratamento cirúrgico mais indicado é: a) Realização de Y-de-Roux. b) Totalização da gastrectomia. c) Confecção de válvula antirrefluxo. d) Inversão da gastroenteroanastomose. Tal quadro pode ocorrer após gastrectomias com reconstrução a BII, mas não a BI. Isso por- que a reconstrução a BII envolve a manuten- ção de uma ALÇA AFERENTE que, por vezes, pode tornar-se obstruída (por acotovelamento, por exemplo). Tal obstrução causa compres- são da alça intestinal (que está cada vez mais cheia por conteúdo biliar) e consequente dor. Quando a obstrução da alça aferente desfaz- se, o paciente tem vômitos biliosos subita- mente, acompanhados de melhora da dor. Tal condição é conhecida como Síndrome da Alça Aferente, cuja correção é feita com realização de Y de Roux. Resposta: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANTÔNIO PE- DRO – RJ Em relação às síndromes pós-gastrectomia relacionadas com a reconstrução gástrica, pode-se afirmar que: a) A síndrome da alça aferente geralmente ocorre quando o ramo aferente foi anasto- mosado ao remanescente gástrico de uma maneira transmesocólica. b) A obstrução da alça aferente é bastante comum e ocorre exclusivamente com as gas- trojejunostomia pré-cólicas. c) A síndrome do antro retido é responsável por úlceras recorrentes após uma ressecção http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 98Medgrupo - CiClo 2: M.E.D gástrica parcial prévia para doença ulcerosa péptica. d) A maior parte dos pacientes que sofrem de gastrite por refluxo alcalino foi submetida a res- secção gástrica com anastomose à Billroth I. e) O Y de Roux associado à cirurgia de Heller é o procedimento cirúrgico de escolha para tratamento da síndrome da alça eferente. Vamos às opções: Letra A e B: A síndrome da alça aferente ocor- re como resultado de uma obstrução parcial da alça aferente, que é incapaz de esvaziar seu conteúdo. Ela pode surgir secundariamen- te a um acotovelamento e uma angulação do ramo aferente, uma herniação interna por trás do ramo eferente, por uma estenose da anas- tomose gastrojejunal, por um volvo do ramo aferente ou por aderências envolvendo este ramo. O fato de ser feito trans ou suprameso- cólico pouco influi neste caso. Letra C: A síndrome do antro retido pode acon- tecer quando se realiza uma gastrectomia subtotal com uma anastomose Billroth II se for deixado antro residual no coto duodenal. Nes- sa situação, o antro retido é continuamente banhado por secreção alcalina, que estimula a liberação de grande quantidade de gastrina, com resultante aumento da secreção ácida. Essa circunstância altamente ulcerogênica está associada a uma incidência de ulceração recorrente que pode chegar a 80%. Letra D: A maior parte dos pacientes que so- frem de gastrite alcalina foram submetidos à reconstrução Billroth II e o tratamento para aqueles pacientes com sintomas intratáveis é a conversão para o “y” de Roux. Letra E: A obstrução da alça eferente é mais rara ainda dentre estas síndromes e ocorre pela herniação do ramo por trás da anastomo- se da direita para a esquerda. O tratamento é quase sempre cirúrgico com a redução da hérnia retroanastomótica e do fechamento do espaço retroanastomótico para prevenir a re- corrência desta condição. Sendo assim, a única assertiva correta é a letra C. complicações agudas das úlceras pépticas sangramento É a complicação mais comum da úlcera péptica – ocorre em 15-20% dos pacientes. É mais comum em idosos – provavelmen- te devido ao uso de AINE. Localização o sangramento mais comum ocorre na parede posterior do duodeno (localização da artéria gas- troduodenal). Pelo menos, isso é o que consta em diversas referências. Com relação aos sangramentos maciços, o Sabiston coloca a úlcera duodenal como a principal causa. O Sabiston afirma que o sangramento pode ocorrer em 35-40% das úlceras gástricas. Quadro clínico manifesta-se subitamen- te com hematêmese associada à melena (casos mais graves) ou apenas melena (casos mais leves). Hematoquezia ocorre nos sangramentos de grande volume. Sangramento: complicação mais comum. 90% na parede posterior do duodeno (artéria gastroduodenal). Pelo Sabiston, as gástricas perfuram mais do que sangram, porém são menos comuns. A úlcera duodenal é a prin- cipal causa de sangramento maciço. Clínica: melena com ou sem hematêmese, hematoquezia nos casos de sangramento muito intenso. Diagnóstico: EDA Tratamento: • Clínico: hidratação venosa (1ª medida), concentrado de hemácias (se necessário), IBP venoso. • Endoscópico: injeção de adrenalina, ter- mocoagulação (terapia combinada). • Cirúrgico: - Indicações: a principal é a persistência do sangramento mesmo após terapia endoscópica. - Procedimentos: pilorotomia com ulce- rorrafia, piloroplastia e vagotomia tron- cular para úlceras duodenais; em caso de úlcera gástrica esta sempre deve ser excisionada (a ressecção indicada é a mesma das cirurgias eletivas). Perfuração: pode ser livre (causando perito- nite) ou tamponada. 90% na parede anterior do duodeno. Clínica: dor abdominal aguda, hipotensão, taquicardia, taquipneia, irritação peritoneal. Diagnóstico: pneumoperitônio ao RX ou TC. Tratamento: operar sempre. • Para todos: ulcerorrafia + proteção com omento. • Para os estáveis hemodinamicamente, com perfuração < 24 horas: fazer também o tratamento definitivo. Obstrução: Geralmente úlceras duodenais e gástricas tipo III (pré-pilóricas). Clínica:plenitude epigástrica associada à saciedade precoce, náuseas e vômitos. Cronicamente: vômitos contínuos = desidra- tação, alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. Diagnóstico: EDA, exame contrastado. Tratamento: • Dilatação endoscópica com balão + erra- dicação do H. pylori. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 99Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Tratamento Clínico antes de pensar- mos na úlcera, precisamos estabilizar o paciente!!! – ISSO É MUITO COBRADO EM PROVA. O tratamento de suporte deve ser prontamente instituído com hidratação venosa (soro fisiológico, ringer lactato) e concentrado de hemácias, caso necessário. Um cateter nasogástrico deve ser introduzido para lavagem abundante, a fim de avaliar a continuação ou a recidi- va do sangramento. Após a estabilização, realizar endoscopia digestiva alta para avaliação do risco de ressangramento pre- coce e instituição da terapia definitiva. A classificação de Forrest é a mais utilizada para estimar o risco de ressangramento da úlcera péptica. Veja abaixo: Classificação de Forrest Forrest I (hemorragia ativa) Ia (sangramento arterial em jato) Ib (sangramento lento, “babando”) Forrest II (sinais de he- morragia recente) IIa (vaso visível não san- grante) IIb (coágulo aderido) IIc (hematina na base da úlcera) Forrest III (úlcera com base clara, sem sangramento) Risco de Sangramento 90% (ALTO) 50% (ALTO) 30% (INTERME- DIÁRIO) 10% (BAIXO) < 5% (BAIXO) Além da estabilização hemodinâmica, utilizar também inibidores da bomba de prótons ve- nosos. A droga mais estudada é o omeprazol, mas outras formulações como pantoprazol e lanzoprazol também são utilizadas. A dose sugerida de pantoprazol venoso é de 80 mg em bolus, seguido por 8 mg/hora. Se não houver ressangramento dentro de 24 horas, substituir a droga venosa pela oral (panto- prazol 40 mg/dia ou omeprazol 20 mg/dia ou outro IBPs). OBS.: se não houver disponibilidade de IBP venoso, utilizar as formulações orais. Exem- plos: omeprazol 20 mg duas vezes ao dia ou pantoprazol 40 mg duas vezes ao dia. O octreotide tem sido estudado no tratamen- to das úlceras sangrantes, podendo ser uti- lizado como tratamento adjuvante antes da endoscopia ou no caso de indisponibilidade ou insucesso da mesma. Seu uso é limitado principalmente pelo alto custo. Discutiremos com mais detalhes a aborda- gem da hemorragia digestiva em uma apos- tila específica. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP Mulher de 55 anos de idade, portadora de lombalgia, usuária de diclofenaco, é trazida ao pronto-socorro com história de hematême- se e melena. Ao exame clínico de admissão apresenta-se descorada, com FC = 120 bpm e PA = 90x60 mmHg. Considerando o tratamento inicial e a ava- liação diagnóstica realizados neste caso, é CORRETO afirmar que: a) Na tentativa do controle hemostático do foco hemorrágico, deve-se realizar a endos- copia digestiva alta mesmo com a instabili- dade hemodinâmica. b) Para descartar abdome agudo perfurado, a endoscopia digestiva alta deve ser realizada após radiografia de abdome. c) A endoscopia digestiva alta deve ser rea- lizada somente após reposição volêmica e estabilização hemodinâmica. d) A avaliação clínica permite excluir sangra- mento ativo, e a doente deve ser mantida em observação, com prescrição de omeprazol endovenoso e pedido de endoscopia eletiva. e) A avaliação clínica permite excluir sangra- mento ativo, e a doente deve ser mantida em observação, com prescrição de omeprazol. Primeiramente ESTABILIZAÇÃO. Uma vez atingida a estabilidade hemodinâmica, aí sim devemos realizar a endoscopia digestiva alta para avaliação diagnóstica. Resposta letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS – UFAM Homem de 50 anos de idade, com história de lombalgia crônica usuário de diclofenaco dá entrada no pronto-socorro com quadro de Hematêmese e melena. Ao exame clínico de admissão apresenta-se descolorado com FC =120bpm e PA= 90x60 mmHg. Considerando o tratamento inicial e a avaliação diagnostica rea- lizados neste caso é CORRETO afirmar que: a) Deve-se realizar a endoscopia digestiva alta mesmo com instabilidade hemodinâmica, na tentativa do controle hemostáticos do foco hemorrágico. b) Deve-se realizar a endoscopia digestiva alta após radiografia de abdome, para descartar abdome agudo perfurado. c) A avaliação clínica permite excluir sangra- mento ativo, e o doente deve ser mantido em observação, com prescrição de omeprazol endovenoso e pedido de endoscopia eletiva. d) A endoscopia digestiva alta deve ser rea- lizada somente após a reposição volêmica e estabilização hemodinâmica. e) A avaliação clínica permite excluir sangra- mento ativo e o paciente pode receber alta com prescrição de omeprazol. Não, você não teve um déjà vu. A questão foi copiada mesmo. Alteraram somente a idade e o sexo do paciente, mas até os sinais vitais são os mesmos... Gabarito “D”. Tratamento Endoscópico a modali- dade de terapia endoscópica mais eficaz é a injeção de adrenalina (1:10.000 ou 1:20.000) seguida de termocoagulação ou http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 100Medgrupo - CiClo 2: M.E.D uso de hemoclips (terapia combinada). Não é necessário tratamento endoscópico nas úlceras com baixo risco de sangramento (Forrest IIc e III). Tratamento Cirúrgico a principal in- dicação são os casos cujo sangramen- to não foi satisfatoriamente controlado após EDA. A presença de instabilidade hemodinâmica mesmo após ressuscita- ção volêmica adequada, a recorrência da hemorragia associada a choque he- morrágico e a presença de sangramento contínuo necessitando de transfusão de mais de 3 concentrados de hemácias/ dia são outras indicações pertinentes. As abordagens de escolha são: Úlceras duodenais - Pilorotomia (acesso ao duodeno através do piloro) com sutura do leito ulceroso (ulcerorrafia). Após o controle do sangramento, a piloro- tomia pode ser fechada através de uma pi- loroplastia e a vagotomia troncular deve ser feita para prevenir a recorrência da úlcera. Úlceras gástricas - Necessitam de excisão e biópsia para afastarmos malignidade. O tipo de cirurgia indicado é o mesmo das cirurgias eletivas e vai depender da loca- lização da úlcera. Na prática, as mesmas técnicas descritas na cirurgia eletiva das úlceras do estômago serão feitas aqui. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ – UFC Mulher de 55 anos em uso crônico de anti-in- flamatório não esteroidal apresenta quadro de hemorragia digestiva alta vultosa. Após a esta- bilização hemodinâmica, realizou endoscopia que mostrou úlcera na 1ª porção duodenal, na parede posterior, recoberta por grande coá- gulo. Neste momento foi tratada com injeção de adrenalina. A paciente permaneceu sob observação rigorosa, quando em menos de 24 horas apresentou hipotensão e enterorragia. Qual o procedimento melhor indicado para esta paciente? a) Repetir a endoscopia com esclerose. b) Vagotomia com piloroplastia e ulcerorrafia. c) Vagotomia e gastrojejunostomia. d) Vagotomia e gastrectomia parcial. e) Gastrectomia subtotal. Como acabamos de ver, pacientes com úlcera péptica que sangram após tratamento endoscópico são candidatos à cirurgia. Uma nova EDA poderia até ser tentada se a pa- ciente estivesse estável hemodinamicamente, mas pelo que foi apresentado, ela se encontra instável. No caso de úlcera duodenal, indica- se pilorotomia para acesso à úlcera, seguida por ulcerorrafia, fechamento da pilorotomia através de piloroplastia e vagotomia troncular. Resposta letra B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – SES -RJ Em um paciente de 60 anos de idade, com hemorragia digestiva alta, com endoscopia revelou cratera ulcerosa de 2 cm na pare- de posterior do duodeno, com vaso visível e moderado sangramento. A equipe médica optou pelo tratamento cirúrgico imediato. No procedimento cirúrgico, o cirurgião realizou sequencialmente:a) Antrectomia + ulcerorrafia + vagotomia troncular. b) Pilorotomia+ ulcerorrafia + piloroplastia + vagotomia troncular. c) Vagotomia troncular + pilorotomia + ulce- rorrafia + piloroplastia. d) Vagotomia superseletiva + pilorotomia+ ulcerorrafia + piloroplastia. Durante o ano, vamos cansar de dizer para você que tão importante quanto ler as apos- tilas é treinar fazendo provas antigas. Veja o exemplo: duas provas diferentes no mesmo ano, praticamente a mesma questão: cirurgia indicada na úlcera duodenal sangrante! Como acabamos de ver, resposta letra B. Perfuração Localização 90% das úlceras que per- furam estão situadas na parede anterior do bulbo duodenal (bulbo = 1ª porção do duodeno). A perfuração é a complicação mais comum das úlceras gástricas e se- gunda mais comum relacionada à doença ulcerosa péptica. Pode ocorrer de diversas formas: Perfuração livre conteúdo gastroduode- nal cai na cavidade abdominal ocasionando peritonite difusa e pneumoperitônio (ar na cavidade peritoneal). Perfuração tamponada conteúdo gastroduodenal não cai na cavidade ab- dominal, pois existe um bloqueio exercido por órgãos adjacentes. Nesse caso pode ocorrer a formação de fístulas (ex.: fístula gastroduodenal, gastrocólica). Úlcera penetrante (ou Terebrante) é aquela tamponada pelo tecido pancreático. Quadro clínico os pacientes relatam uma dor abdominal com duração de algu- mas horas, que piora agudamente, surgin- do também nesse momento hipotensão, ta- quicardia, taquipneia e irritação peritoneal. O pneumoperitônio pode cursar com o sinal de Joubert (timpanismo em hipocôndrio di- reito, desaparecendo a macicez hepática). Diagnóstico rotina radiológica de ab- dome agudo (mais utilizado) ou TC de abdome (mais sensível) visualização http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 101Medgrupo - CiClo 2: M.E.D de ar no peritônio – pneumoperitônio (vide FIGURA 13). súbita há 8 horas. Conta uso de diclofenaco (3 comprimidos ao dia) há 1 semana, por dor lombar após esforço físico. Refere ser nervo- so, mas nega antecedente mórbido. Ao exame apresentava-se gemente, taquicárdico, com abdome em tábua. RX com pneumoperitônio. Foi feita laparotomia exploradora cujo achado foi uma úlcera na região pré-pilórica com per- furação de 0,3 cm, sem calo ulceroso palpável, com líquido turvo na cavidade peritoneal. Das opções abaixo, a melhor para esse caso é: a) Desbridamento da borda da úlcera seguida da ulcerorrafia e vagotomia troncular. b) Ulcerorrafia com procedimento de Graham modificado e uso de bloqueadores de bomba de prótons. c) Gastrectomia parcial e gastroduodenos- tomia associada ao uso de bloqueadores de bomba de prótons. d) Gastrectomia parcial e gastrojejunostomia. e) Gastrectomia parcial e reconstrução a Bil- roth II associada ao uso de bloqueadores de bomba de prótons. Atenção ao enunciado! Paciente com úlcera pré-pilórica (tipo III) per- furada. Estas úlceras se comportam como úl- ceras duodenais, pois cursam com hiperclori- dria. A cirurgia que exclui completamente a secreção ácida é a antrectomia + vagotomia. Porém, na úlcera perfurada em vigência de peritonite (o enunciado refere secreção turva na cavidade), esta cirurgia não é recomendada pelo risco de deiscência da gastroenteroanas- tomose e mediastinite pela abertura da mem- brana frenoesofágica para a vagotomia. Este procedimento nos dias de hoje está mais re- servado para a cirurgia eletiva das úlceras tipo II e III que não respondem ao tratamento clíni- co. Com o advento dos inibidores de bomba de prótons, a cirurgia indicada para a úlcera tipo III perfurada, em vigência de peritonite é a ulcerorrafia com “patch” de Graham e manu- tenção de inibidores de prótons. Gabarito B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – SÃO PAULO – SP Um paciente de 32 anos de idade, tabagista de longa data, chega ao pronto-socorro com queixa de dor abdominal de início súbito, há 6 horas, seguida de febre, vômitos e mal-estar. Está no 14º pós-operatório de artroplastia de joelho, devido a lesão ligamentar traumática. Está descorado e com fácies de dor. Pulso: 130 bpm; PA: 90 × 70 mmHg. DB + em todo o abdome. Hipótese diagnóstica mais provável e conduta correspondente: a) Úlcera péptica, sutura. b) Abdome agudo vascular, arteriografia. c) Abdome agudo vascular, laparotomia ex- ploradora. d) Neoplasia gástrica, gastrectomia. e) Síndrome de Olgivie, colonoscopia descom- pressiva. Questão interessante e que temos que con- cluir uma informação não explícita no enuncia- do. Quando o autor fala que o paciente está Figura 13 - Observe o sinal da seta pneumoperitônio. Tratamento cirúrgico na emergência Ao tratar um paciente com úlcera duodenal perfurada, o cirurgião atenta para duas abor- dagens distintas: Fechamento da úlcera com rafia (sutura), associada à proteção com omento (patch ou tampão de Graham) e irrigação da cavidade abdominal: para todos os pacientes. Tratamento definitivo (vagotomia troncular com antrectomia ou piloroplastia; ou vago- tomia superseletiva): apenas para os pa- cientes estáveis hemodinamicamente e com perfuração < 24 horas, pois prolonga o tempo de cirurgia. Úlceras gástricas em pacientes instáveis tam- bém devem ser tratadas com rafia e patch de omento, enquanto o tratamento definitivo (já estudado nesta apostila) deve ser realizado nos pacientes estáveis hemodinamicamente. As úlcera gástricas do tipo 2 e 3 admitem so- mente fechamento com tampão seguido pelo tratamento do H. pylori. Todas as úlceras gástricas devem ser biopsiadas. Tratamento clínico na emergência Úlcera duodenal – geralmente para pe- queno grupo de pacientes com mais de 24 horas de evolução e com a perfuração tamponada – o tratamento consiste em an- tibióticos de amplo espectro + antissecretor + CNG + hidratação. Úlcera gástrica – pode ser tratada como a duodenal, só não esqueça que se deve realizar biópsia para o diagnóstico diferen- cial com câncer gástrico. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO – SP Homem de 47 anos é admitido no PS com queixa de dor abdominal há 3 dias com piora http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 102Medgrupo - CiClo 2: M.E.D no 14º dia de pós operatório de artroplastia do joelho, ele está querendo dizer que o pa- ciente está há 14 dias fazendo uso de AINE’s. No momento, ele apresenta descompressão dolorosa por todo o abdome, hipotensão + taquicardia. Com essa história de dor aguda e abdome em tábua e uso de AINE’s, devemos pensar em um abdome agudo perfurativo! Ou seja, úlcera péptica perfurada e a condu- ta nesse caso deve ser a rafia dessa úlcera. Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 INSTITUTO ORTOPÉDICO DE GOIÂNIA – IO Paciente do sexo masculino, 37 anos de idade, apresenta-se com dispepsia crônica do tipo ulcerosa. Na endoscopia digestiva alta apre- senta piloro duplo. A causa mais frequente é: a) Congênita. b) Fístula gastroduodenal consequente a úl- cera péptica. c) Pâncreas anular. d) Latrogenia. e) Divertículo. Quando a úlcera perfurada é tamponada por um órgão subjacente, há o risco de formação de fístulas. Aprenda com a questão: a imagem de piloro duplo é sugestiva de fístula gastro- duodenal (não confunda com sinal da dupla bolha na atresia duodenal, ok?). obstrução Localização a maioria das úlceras que causam obstrução do trato gastrointestinal são as úlceras duodenais e as gástricas tipo III (pré-pilóricas) e tipo II (corpo gástrico + ÚLCERA DUODENAL). Quadro clínico imagine um paciente com obstrução do tubo digestivo. Pois é... a apre- sentação clássica é de plenitude epigástrica associada à saciedade precoce, náuseas e vômitos. Se o processo for arrastado, os vô- mitos contínuos podem levar à desidratação e alcalose metabólica hipoclorêmica (perda de HCl) e hipocalêmica. Diagnóstico feito através de endoscopia digestiva alta. Exames contrastados tam- bém são úteis. Tratamento: Obstrução aguda: tratamentoclínico com hidratação venosa, correção dos distúrbios hidroeletrolítico e acidobásico (caso pre- sentes), administração de IBP, descom- pressão nasogástrica e suporte nutricional. Não esqueça: a infecção pelo H. pylori deve ser pesquisada e tratada, caso presente. Obstrução arrastada: tratamento cirúrgico. • O tratamento da obstrução pilórica crôni- ca consiste basicamente na erradicação do H. pylori seguida de dilatação en- doscópica por balão. Para os pacientes refratários, a antrectomia com vagotomia troncular é a cirurgia de escolha. Alguns autores ainda referem que o tratamento cirúrgico a ser empregado seja a vago- tomia de células parietais com gastro- jejunostomia (mantém a inervação do antro, ocorrendo menos problemas de esvaziamento gástrico). E o tratamento com dilatação endoscópica com balão? Pode ser tentado tanto na obstrução aguda quanto na crônica, porém os maiores bene- fícios estão naqueles com obstrução aguda. Ao tratar um paciente com úlcera péptica, mesmo em situação de emergência, não se esquecer de pesquisar a presença do H. pylori e tratar, quando indicado, para diminuir a ocorrência de recidiva ulcerosa. O ALuNO PERGuNTA...o Quais são as principais compli- cações da DUP? Existe diferença se con- sidero somente as úlceras gástricas ou duodenais? Para a prova! Existe sim diferença quando comparamos a DUP como um todo ou somente as úlceras gástricas e duodenais. Veja: - Principal complicação da DuP: sangramento seguido por perfuração e obstrução. - Principal causa de sangramento de vulto: Úlcera duodenal. - Principal causa de sangramento: Úlcera duodenal. - Principal sítio de perfuração: Parede anterior do duodeno. - Principal complicação da úlcera gástrica: Perfuração Sabiston 20a edição: a hemorragia ocorre em cerca de 35-40% dos casos, no entanto, a complicação mais frequente da úlcera gástrica é a perfuração. E veja como este tema polêmico pode ser abordado e na maioria dos casos gera dis- cussão. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MA- RIA – RS Qual a complicação mais comum da úlcera gástrica? a) Transformação maligna. b) Perfuração. c) Sangramento gastrointestinal. d) Obstrução gástrica. e) Gastroparesia. A complicação mais comum da doença ul- cerosa péptica em geral é o sangramento. Entretanto, especificamente nas úlceras gás- tricas, a complicação mais frequente é a per- furação. Em geral ela ocorre na face anterior da pequena curvatura. Gabarito B. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 103Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2013 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ER- NESTO – UERJ – RJ A complicação mais frequente da úlcera pép- tica gástrica é: a) Perfuração. b) Hemorragia. c) Malignização. d) Obstrução pilórica. Agora veja como é que pode ficar compli- cado fazer prova de residência médica!!! De forma indiscutível, a principal complicação da doença ulcerosa péptica (levando em con- sideração gástrica e duodenal) é o sangra- mento. E para a duodenal, especificamente, a principal complicação é a hemorragia, se- guida da perfuração. Isso é consenso! Agora, quando o assunto é somente úlcera gástrica, começa a complicar... Autores como o Sch- wartz e o Greenfield nem entram nesse mé- rito e sempre tratam as complicações como sendo referentes à doença ulcerosa péptica. Agora, o Sabiston resolveu entrar nesse mé- rito e afirma o seguinte: a hemorragia ocorre em cerca de 35-40% dos casos, no entan- to, a complicação mais frequente da úlcera gástrica é a perfuração!!! Ou seja, a melhor resposta seria a letra A, mas a banca liberou como gabarito a letra B!!! Apesar das inúme- ras tentativas, a questão não foi anulada. E as outras úlceras? Além das úlceras pépticas “simples” e dos adenocarcinomas ulcerados, que represen- tam a grande maioria das lesões ulceradas gastroduodenais, não poderíamos deixar de citar alguns raros tipos de úlcera, que even- tualmente são cobrados em prova: Úlcera de Curling: Presença de ulceração do trato digestivo superior em vítimas de queimaduras graves, que aparece até 1 mês após o evento. É mais frequente em crian- ças. Sangramento é comum. Úlcera de Cushing: Úlcera gastroduode- nal que surge em decorrência de doença do SNC ou traumatismo cranioencefálico – observa-se, nesses pacientes, aumento da secreção ácida gástrica. Úlcera de Cameron: Úlcera localizada no interior de uma hérnia de hiato, podendo ser causa de sangramento insidioso e conse- quente anemia ferropriva. síndrome de Zollinger-Ellison (sZE) características O que é? Trata-se da doença ulcerosa péptica grave secundária à hipersecreção gástrica de ácido, decorrente da presença de um gastrinoma (tumor endócrino secretor de gastrina). Como suspeitar? Até 1% dos casos de doença ulcerosa pép- tica são relacionados à síndrome de Zollin- ger-Ellison (SZE). A apresentação da doença secundária à SZE pode ser indistinguível da úlcera comum, contudo geralmente há alguns achados que devem sugerir a possibilidade de um gastrinoma (tumor produtor de gastrina): Úlceras em segmentos incomuns: a partir do 2º segmento duodenal, podendo chegar ao jejuno! Úlceras refratárias ao tratamento clínico con- vencional Recidiva da úlcera após cirurgia para redução da produção de ácido Úlceras não associadas ao H. pylori ou ao uso de AINE Úlceras com complicações frequentes, múl- tiplas úlceras Úlcera em boca anastomótica após cirurgia para tratamento de úlcera Onde se localiza o gastrinoma? Mais de 90% dos tumores são encontrados no chamado “trígono dos gastrinomas” (trí- gono de Pássaro). Apesar de ser um tumor de células pancreáticas não beta, a principal sede do gastrinoma é a parede duodenal (2/3 dos casos), em particular a primeira porção. Mais de 60% dos tumores são malignos e até metade dos pacientes tem lesões múltiplas ou doença metastática à apresentação. Quadro clínico Como foi dito, a apresentação inicial (síndro- me dispéptica) pode ser idêntica à de uma úlcera péptica comum. Outras características comumente associadas são: Sintomas esofágicos – pirose, regurgitação: os portadores da SZE têm maior incidência de DRGE, devido à hipercloridria – o material gástrico que retorna do estômago ao esôfago é muito ácido e tem maior chance de lesionar a mucosa e provocar refluxo sintomático... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 104Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Diarreia e esteatorreia: ocorrem em até 50% dos pacientes, sendo multifatorial. As causas são: • Aumento do volume da secreção ácida, podendo ultrapassar a capacidade de ab- sorção intestinal. • Inativação das enzimas pancreáticas e precipitação dos ácidos biliares pelo HCl. • Lesão do epitélio intestinal pelo HCl. • Efeito estimulante da gastrina sobre os enterócitos. • Secreção de outros hormônios, como o VIP, pelo gastrinoma. O interessante é notar que a diarreia cessa ao realizarmos uma aspiração nasogástrica! E a NEM-1? Cerca de 25% dos gastrinomas são asso- ciados à NEM-1 ou síndrome de Wermer, distúrbio autossômico dominante que aco- mete principalmente três órgãos: glândulas paratireoides (80-90%), pâncreas (40-80%) e hipófise (30-60%). As principais características dessa síndrome são: Hiperparatireoidismo Tumor endócrino do pâncreas – o mais comum é o gastrinoma Adenoma hipofisário – o mais comum é o prolactinoma Os cerca de 75% dos gastrinomas que não são associados à NEM-1 são chamados “gas- trinomas esporádicos”. Os gastrinomas que acompanham a NEM-1 tendem a ser menores e múltiplos e raramen- te são malignos (apenas 6%, contra mais de 60% dos esporádicos), tendo um prognóstico muito melhor! Contudo, a incidência de tumor carcinoide gástrico é maior nos gastrinomas esporádicos. Quais são as causas de hipergastrinemia? São muitas, além do gastrinoma. Em primeiro lugar, qualquer condição que curse com hipo- cloridria ou acloridria provoca hipergastrinemia, por um mecanismo de feedback (o estômago tenta normalizara secreção ácida através de um aumento da secreção de gastrina). Essas condições são: gastrite atrófica, uso de antis- secretores (IBP ou bloqueadores H2), IRC... Existem ainda outras causas de hipergastri- nemia, como a infecção gástrica pelo H. pylori (redução da produção de somatostatina pelas células D), hiperplasia idiopática das células G do antro, obstrução pilórica (aumenta o contato das proteínas e aminoácidos do bolo alimentar com as células G), síndrome do antro retido... Diagnóstico Diagnosticar um gastrinoma não costuma ser fácil. A primeira etapa da investigação é a me- dida da gastrina sérica em jejum. Quase todos os pacientes com gastrinoma têm concentra- ções de gastrina > 150-200 pg/ml. Este exa- me é bem adequado para a triagem, pois tem alta sensibilidade – uma dosagem de gastrina normal praticamente afasta o diagnóstico de SZE. Por outro lado, a especificidade deste re- sultado é baixa, pois há muitas outras causas de hipergastrinemia, como acabamos de ver. A etapa seguinte é a avaliação da secreção de ácido, através de um cateter nasogástrico. Um pH gástrico basal > 3 praticamente exclui a hipótese de gastrinoma, enquanto aqueles com pH < 3 devem prosseguir a investigação. Caso tenhamos uma gastrina > 1000 pg/ml associada a pH gástrico < 2, o diagnóstico é praticamente certo. Nos pacientes com gastri- na entre 150 e 1000 pg/ml ou pH gástrico en- tre 2 e 3, devemos prosseguir a investigação. Nesses casos, o diagnóstico pode ser dado através de alguns testes da estimulação da gastrina. Os exames são: • Teste da estimulação com secretina • Estudo da infusão de cálcio • Teste com refeição convencional Em todos eles, é puncionada uma veia pe- riférica do paciente para a coleta de sangue Figura 14 - trígono dos gastrinomas - li- mites: 1- Junção do ducto cístico com ducto hepático comum 2- Junção da 2ª com 3ª parte do duodeno 3- Junção da cabeça com o colo do pân- creas Em todo paciente com gastrinoma, devemos dosar PTH, cálcio sérico e prolactina, no intuito de investigar a presença de NEM-1... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 105Medgrupo - CiClo 2: M.E.D e, nos testes com secretina e cálcio, ainda é puncionada outra veia para a injeção dessas substâncias. No teste da estimulação com secretina, que é o mais sensível para o diagnóstico, uma elevação da gastrina (de 200 pg/ml ou mais), 15 minutos após a injeção da secretina, é al- tamente sugestiva de SZE. Como localizar o gastrinoma? Uma vez feito o diagnóstico da síndrome, pre- cisamos responder ao principal: Onde está gastrinoma? Um exame bastante sensível é a ultrassonografia endoscópica, que permite a obtenção de imagens detalhadas da parede duodenal e do pâncreas, as principais sedes do tumor. A cintilografia de receptores da soma- tostatina (Octreoscan) é outro método bastante sensível que se baseia na captação de um análogo estável da somatostatina pelo tumor – a maioria dos tumores endócrinos expressa receptores de superfície celular para soma- tostatina. Na nossa prática médica, é comum dispormos apenas de tomografia computado- rizada, que não é o exame ideal, mas detecta até 60% dos gastrinomas primários – contra 80-100% da US endoscópico, por exemplo. Caso não consigamos localizar a neoplasia pelos métodos de imagem, passamos à lapa- rotomia. A EDA intraoperatória com transilu- minação do estômago e duodeno, o US pero- peratório e a duodenotomia são técnicas que podem ajudar o cirurgião a localizar o tumor. tratamento São três os objetivos do tratamento: Atenuar as queixas dispépticas: IBP em dose alta (ex.: Omeprazol dose inicial 60 mg/dia) Ressecção cirúrgica da neoplasia: é mais difícil no caso do gastrinoma associado à NEM-1, pois este tumor frequentemente é múltiplo – para sorte dos pacientes, quase todos os gastrinomas associados à NEM-1 são benignos – assim, o paciente pode ser controlado apenas com o tratamento clínico, mesmo que o cirurgião não consiga remover todos os tumores... Controlar o crescimento tumoral em caso de doença metastática: quimioterapia, IFN- -alfa, embolização da artéria hepática... Para você que leu meio sem atenção, veja como este tema é frequentemente cobrado. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UEL – PR Sobre a Síndrome de Zollinger-Ellison, assi- nale a alternativa correta. a) É uma tríade clínica caracterizada por hi- persecreção de ácido gástrico, doença ulce- rosa péptica e tumor de células beta das ilho- tas pancreáticas. b) É uma tríade clínica caracterizada por hi- persecreção de ácido gástrico, doença ulce- rosa péptica e tumor de células não beta das ilhotas pancreáticas. c) É uma tríade clínica caracterizada por hi- persecreção de ácido gástrico, hemorragia digestiva alta e tumor de células não beta das ilhotas pancreáticas. d) É uma tríade clínica caracterizada por hi- persecreção de ácido gástrico, hemorragia digestiva alta e tumor de células beta das ilhotas pancreáticas. e) Ocorre hipergastrinemia devido a tumor de células betapancreáticas, geralmente locali- zado na cabeça do pâncreas. Como acabamos de ver! A Síndrome de Zollinger-Ellison (SZE) manifesta-se clinica- mente por uma doença ulcerosa péptica atí- pica (lesões ulcerosas em número e localiza- ção atípica) e decorre de hiperprodução de ácido gástrico, determinada pela hipergastri- nemia, esta última oriunda de tumor produtor do hormônio. Apesar de sabermos que as células produtoras de gastrina estão locali- zadas no estômago, as células tumorais da SZE ficam no pâncreas (células não beta). Resposta: B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT – RJ Paciente, 37 anos, masculino, com tumor en- dócrino liberador de gastrina, comumente lo- calizado no pâncreas ou duodeno e que se caracteriza por sintomas e sinais clínicos re- sultantes da hipersecreção de ácido gástrico. Qual o provável diagnóstico? a) Úlcera péptica. b) Síndrome de Zollinger-Ellison. c) Hiperplasia das células G antrais. d) Glucagonomas. e) Síndrome de VIPoma. Suspeita-se da Síndrome de Zollinger-Elli- son em casos de úlceras múltiplas, refratárias, de localização atípica e associadas à diarreia, uma vez que a gastrina em excesso causa uma hipersecreção ácida pelo estômago, o que favorece a ocorrência dessa doença ul- cerosa e inativa as enzimas pancreáticas, causando a diarreia. A causa da síndrome de Zollinger-Ellison é a presença de um tumor hipersecretor de gastrina. A localização mais comum desse tipo de tumor é extra-pancreá- tica (2/3 dos casos, principalmente na parede duodenal) e 1/3 no pâncreas. Dentre todos esses, até 90% têm sua localização restrita a uma região conhecida como triângulo do gas- trinoma (trígono de Passaro). Melhor respos- ta, portanto, opção B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 FUNDAÇÃO JOÃO GOULART – HOSPITAIS MUNICIPAIS – RJ Paciente masculino, de 34 anos de idade, com http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 106Medgrupo - CiClo 2: M.E.D sintomas de dispepsia acentuada, diarreia e dor abdominal, realiza EDA que revela esofa- gite grave com estenose e múltiplas úlceras distais à 2ª porção do duodeno. A pesquisa de H. pylori é negativa e a avaliação laboratorial mostra hipercalcemia. O diagnóstico diferen- cial deve incluir obrigatoriamente: a) Síndrome de Dumping. b) Doença de Ménétrier. c) Zollinger-Ellison. d) Esôfago de Barrett. Parece a mesma coisa, não tem como er- rar... Na presença de úlceras (múltiplas e gra- ves) em posição atípica (segunda porção do duodeno), esofagite grave e pesquisa de H. pylori negativa, sempre nos faz pensar em elevada secreção de gastrina. Nesses casos, sempre lembramos da síndrome de Zollinger- -Ellison. Resposta letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – RO- RAIMA – RR A Síndrome de Zollinger-Ellison relaciona-se a: a) Glaucoma. b) Gastrinoma. c) Somatostinoma. d) Carcinoide. e) Lipoma. Questão direta. A clássica síndrome de Zollinger-Ellison é secundária à presença de um gastrinoma, que geralmentetem locali- zação pancreática (mas pode aparecer fora do pâncreas em qualquer ponto do chamado “triângulo do gastrinoma”)... Trata-se de uma condição marcada por hipergastrinemia, hi- percloridria gástrica e doença ulcerosa pépti- ca múltipla e extensa. Resposta certa: B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – IFF Rafael tem 22 anos e busca atendimento com dor epigástrica de forte intensidade apresen- tando sinais evidentes de irritação peritoneal ao exame físico. Após analgesia e instalação de acesso venoso foi encaminhado ao RX realizan- do rotina radiológica para abdome agudo que foi conclusiva para pneumoperitônio, sendo indica- da laparotomia. Durante o procedimento cirúrgi- co foi diagnosticada úlcera péptica perfurada em localização pré-pilórica e realizada rafia simples. Rafael evoluiu com drenagem de secreção clara pela SNG superior a 1500 ml/24 horas. Após re- tirada da sonda passou a apresentar diarreia in- tensa com os seguintes resultados: hemograma = anemia discreta, hepatograma e bioquímica = normais e gastrina = 1380 pg/ml após estimulo com cálcio. A endoscopia evidenciou ulceração em antro pré-pilórico com biópsia negativa para malignidade e presença de H. pylori. O Diagnóstico provável de Rafael é: a) Somatostinoma. b) Feocromocitoma. c) Síndrome de Zollinger-Ellison. d) Obstrução pilórica pós-operatória. Diarreia que cessa com drenagem naso- gástrica e retorna quando a sonda é retirada é sintoma clássico de hipersecreção gástrica! Ao associarmos isso a uma gastrina eleva- díssima após estimulação com cálcio não há outro diagnóstico possível: Síndrome de Zol- linger-Ellison! Opção “C” correta. gastrites O termo “gastrite” é reservado para a infla- mação da mucosa gástrica comprovada his- tologicamente. Assim, por exemplo, o endosco- pista não deve descrever como gastrite qualquer área de hiperemia da mucosa gástrica... Caso haja apenas degeneração e regene- ração celular, sem inflamação associada, o termo “gastropatia” é mais adequado... E aquela queixa comum no consultório? “Dou- tor, eu tenho gastrite!”. Cabe aqui ressaltar que as queixas referidas pelo paciente geralmente se tratam de uma síndrome dispéptica comum. A intensidade da gastrite histológica possui pouca relação com o aspecto endoscópico da mucosa e uma relação menor ainda com a sintomatologia do paciente! Quando sintomáticas, as gastrites manifes- tam-se como síndrome dispéptica. Como são muitas as suas causas, vamos nos deter nas mais comuns... gastrItEs aguDas gastrite erosiva aguda Manifesta-se através de erosões pequenas (1-2 mm), restritas à camada muscular, com áreas de hemorragia ao redor. Não é raro que essas erosões evoluam para úlceras. As principais causas associadas à gastrite erosiva aguda são: • Uso de AAS, AINE, bisfosfonatos (como o alendronato), álcool. • Refluxo biliar (após piloroplastia ou antrecto- mia). O tratamento consiste na administração de antissecretores e na eliminação dos fatores precipitantes, sempre que possível. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 107Medgrupo - CiClo 2: M.E.D gastrite aguda pelo h. pylori Algumas semanas após adquirir a bactéria, o paciente desenvolve uma pangastrite aguda superficial, que se manifesta como síndrome dispéptica, mas pode ser totalmente assin- tomática. O histopatológico, caso realizado, revela uma gastrite neutrofílica. Pode haver hipocloridria por até um ano após a infecção aguda pelo H. pylori. Caso não seja tratado, o quadro evolui para gastrite crônica (que você verá posteriormente). outras gastrites infecciosas agudas O estômago é um ambiente bastante inóspito para a grande maioria das bactérias, devido a sua extrema acidez. A infecção bacteriana do estômago, ou gastrite flegmonosa, é uma condição bastante rara e grave, com morta- lidade de 60%. Os mais acometidos são os alcoólatras e pacientes com SIDA. O quadro característico é de dor aguda no abdome superior, febre e peritonite, geral- mente com ascite purulenta. À endoscopia, encontramos infiltrados inflamatórios agudos por toda a mucosa gástrica, às vezes acom- panhados de necrose. E. coli, estafilococos e estreptococos são os agentes mais implica- dos – lembrando que a gastrite pelo H. pylori é classificada à parte em relação às outras gastrites bacterianas. O tratamento apenas com antibiótico é frequentemente ineficaz, sendo necessária, na maioria das vezes, a gastrectomia ou drenagem gástrica. A gas- trite flegmonosa possui alta mortalidade em grande parte pelo seu diagnóstico tardio já que é uma entidade muito rara. As gastrites virais e parasitárias também são pouco comuns, sendo vistas com maior fre- quência nos pacientes com SIDA. Os agentes mais implicados são o herpes simples e o CMV. gastrItEs crÔnIcas gastrite antral pelo h. pylori Também conhecida como “gastrite tipo B”, é a forma mais comum de inflamação gástrica crônica e, como seu nome já diz, acome- te principalmente o antro. A evolução para pangastrite (inflamação de toda a mucosa gástrica) costuma levar de 15 a 20 anos. O H. pylori, ao infectar cronicamente a mu- cosa antral, é capaz de inibir a produção de somatostatina pelas células D. Como você já viu, a somatostatina é uma substân- cia inibidora da secreção de gastrina, sendo, consequentemente, uma inibidora da secre- ção de ácido clorídrico no estômago! A perda (pelo menos parcial) desse fator inibitório promove hipergastrinemia leve a modera- da, tendo como resposta a hipercloridria – tal alteração está diretamente relacionada à patogenia da úlcera duodenal e das úlceras gástricas tipos II e III. Essa gastrite é frequentemente assintomática. Ao contrário da gastrite aguda, que é neu- trofílica, na gastrite crônica predominam os linfócitos e plasmócitos. O achado de folículos linfáticos (tecido MALT) na mucosa gástrica é praticamente patognomônico da gastrite crônica pelo H. pylori. A partir deste te- cido se desenvolve o linfoma MALT, neoplasia que veremos adiante. Perceba mais uma vez que o diagnóstico de gastrite é alcançado através de biópsia e não por uma simples visualização endoscópica com teste para H pylori. No entanto, é interessante perceber que crianças infectadas por H. Pylori podem desenvolver na macroscopia um padrão em “pedras de calçamento” bastante sugestivo de gastrite por H. Pylori. Pangastrite crônica pelo h. pylori Com o passar do tempo, a gastrite antral vai se estendendo em direção ao corpo e fundo do estômago. A evolução envolve atrofia gás- trica (cursando com hipocloridria), que pode evoluir para metaplasia intestinal e, finalmente, adenocarcinoma. Como tratar a gastrite pelo H. pylori? Como você já viu, a gastrite crônica, a princípio, não é indicação para erradicação do H. pylori. A justificativa é simples: a erradicação da bacté- ria costuma resolver a gastrite, mas não tem muito efeito sobre os sintomas dispépticos... Assim, a maioria dos autores reserva o trata- mento para os casos de gastrite intensa, no intuito de evitar o desenvolvimento de linfoma MALT e adenocarcinoma. gastrite crônica autoimune Também conhecida como “gastrite tipo A”, aco- mete predominantemente o corpo e o fundo gástricos, preservando o antro. Esta forma de gastrite é associada à presença de anticorpos contra as células parietais (reduzindo a secre- ção de ácido e de fator intrínseco) e contra o próprio fator intrínseco – o que leva à anemia perniciosa, por deficiência de vitamina B12. Você lembra como ocorre a absorção da vitamina B12? A vitamina B12 (cianocobalamina) é muito pouco absorvida isoladamente – tem que se combinar com o fator intrínseco, que é secretado pelas células parietais do estômago. Contudo, tal ab- sorção não é tão simples – observe as etapas: 1) No estômago, a B12 se liga ao ligante R. 2) No duodeno, em pH alcalino, a B12 se dissocia do ligante R e se liga ao fator in- trínseco. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 108Medgrupo - CiClo 2: M.E.D3) No íleo (última parte do intestino delgado), a B12 é absorvida (99% da B12 absorvida está ligada ao fator intrínseco). A destruição das células parietais leva à hipo- cloridria e até mesmo acloridria, o que aumen- ta a secreção de gastrina pelas células G do antro (um feedback tentando restabelecer a secreção ácida normal). Essa hipergastrine- mia pode levar à hiperplasia das células ECL e desenvolvimento de tumores carcinoides gástricos. Os pacientes com anemia perniciosa devem receber reposição mensal de vitamina B12 parenteral. outras ForMas (raras) DE gastrItE gastrite linfocítica Caracterizada pela presença de infiltrados linfocíticos densos no epitélio superficial, envolvendo predominantemente o corpo do estômago. É encontrada em um terço dos celíacos. À endoscopia, alguns pacientes pos- suem pregas mucosas espessadas e cobertas por nódulos com uma depressão central – chamamos este tipo de gastrite varioliforme. Alguns estudos recentes atribuíram esse tipo de gastrite também à infecção pelo H. pylori – verificou-se que a erradicação da bactéria reduziu a sintomatologia e o grau de inflama- ção em um número considerável de pacientes. gastrite eosinofílica Caracterizada pela infiltração eosinofílica de todas as camadas do estômago, até a se- rosa – geralmente associada à eosinofilia e alergia sistêmica. Pode fazer parte de uma doença generalizada do tubo digestivo deno- minada gastrenterite eosinofílica. O aspecto endoscópico é o edema acentuado das pregas mucosas, predominante no antro – o que pode causar obstrução da saída do estômago. O tra- tamento com glicocorticoides tem sido eficaz. gastrite granulomatosa A doença de Crohn com acometimento do estômago é a principal causa de gastrite gra- nulomatosa – o espectro varia desde infiltrados granulomatosos assintomáticos até ulceração. Outras causas de gastrite granulomatosa são tuberculose, histoplasmose, sarcoidose, candidíase e sífilis. A endoscopia digestiva alta com biópsia e exame citológico auxilia no diagnóstico da causa base, além de excluir a presença de câncer. O tratamento deve ser direcionado para a doença de base. gastroPatIas crÔnIcas Doença de Ménetriér A doença de Ménetriér caracteriza-se pela presença de pregas tortuosas e volumosas na mucosa gástrica (predominantes em corpo e fundo gástrico), sendo também chamada de gastrite hipertrófica gigante. O exame histopatológico evidencia a presença de hiperplasia foveolar maciça, que substitui a maior parte das células principais e parietais. Além da síndrome dispéptica, pode cursar com hemorragia digestiva e gastropatia com perda de proteína – causando proteinúria e edema. A endoscopia digestiva alta com biópsia e exame citológico, além de auxiliar no diagnóstico, é útil para excluir a presen- ça de câncer. Trata-se de uma doença rara, ainda sem tratamento definido – os IBP e bloqueadores H2 podem ser utilizados e o H. pylori deve ser erradicado, caso presente. A gastrectomia parcial pode ser necessária nos casos mais graves, com sintomatologia refratária e hipoalbuminemia importante. Ectasia vascular antral A ectasia vascular do antro gástrico (GAVE ou “estômago em melancia”) é uma condição caracterizada pela presença de vasos dilata- dos e tortuosos que convergem para o piloro num padrão que lembra o de uma melancia. Os principais fatores associados são a cirro- se e a gastrite atrófica. A presença de GAVE pode causar sangramento crônico, levando frequentemente a anemia ferropriva, ou, mais raramente, pode se manifestar como hemor- ragia digestiva aguda. A terapia endoscópica, no caso de sangramento, e a reposição de ferro, nos casos de anemia ferropriva, são as medidas terapêuticas mais importantes. Figura 15 - Aspecto endoscópico da ectasia vascular do antro gástrico (GAVE). gastropatia hipertensiva portal Esta condição, relativamente comum nos pacientes com hipertensão portal, será abor- dada em apostila específica do MED. É um importante diagnóstico diferencial da ectasia vascular antral e também pode ser causa de hemorragia digestiva aguda. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 109Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CA- TARINA – UFSC O desfecho mais comum da infecção por H. Pylori é: a) Úlcera péptica. b) Dispepsia funcional. c) Gastrite ativa crônica assintomática. d) Adenocarcinoma gástrico. e) Linfoma Malt Gástrico. Segundo o Harrison (sempre ele!), a infec- ção pelo H. pylori está associada à gastrite crônica ativa em virtualmente 100% dos casos! A grande maio ria desses pacientes é assinto- mática e não terá úlcera ou câncer gástrico, que também são associados ao HP... Respos- ta letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 FUNDAÇÃO ESCOLA DE SERVIÇO PÚBLI- CO – FESP Paciente masculino, 60 anos, queixa-se de dor epigástrica, diarreia, perda de peso, anemia. O laboratório mostra anemia ferropriva, hipopro- teinemia, albumina sérica baixa. A endoscopia digestiva alta revela a presença de pregas gástricas gigantes, erosões e ulcerações da mucosa. Este quadro revela a doença de: a) Ménetriér. c) Briton. b) Sturge-Weber. d) Zollinger-Ellison. Observe a chave para o diagnóstico da doença de Ménetriér: síndrome dispéptica associada a pregas gástricas gigantes e hi- poproteinemia (gastropatia com perda de pro- teína). Entretanto, vale ressaltar que o exame endoscópico é apenas sugestivo da doença, devendo ser complementado com biópsia e exame citológico, que, além de auxiliar no diagnóstico, exclui a presença de câncer. Resposta letra A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2004 FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSI- DADE DE SÃO PAULO – FMUSP Mulher de 34 anos, branca, refere queimação epigástrica e retroesternal de forte intensidade há 1 mês. Nega emagrecimento ou episódios de sangramento neste período. Tem cefaleia crônica diária e usa vários tipos de anti-inflama- tórios com frequência para controle da dor. Fez endoscopia digestiva alta em outro serviço que evidenciou úlceras confluentes em terço inferior de esôfago e gastrite enantemática em todo o estômago. A pesquisa de H. pylori foi positiva. Além das orientações para elevação de cabe- ceira da cama e ajuste dietético, a orientação medicamentosa neste momento é: a) Iniciar omeprazol e amitriptilina e suspender as outras medicações. b) Tratar com claritromicina, tinidazol e ome- prazol por 7 dias, não sendo necessário man- ter outras medicações. c) Iniciar ranitidina e fluoxetina, mantendo-se as demais medicações. d) Iniciar antiácidos e propranolol e suspender demais medicações. e) Iniciar amoxacilina, tinidazol e omeprazol por 7 dias e, após manter com ranitidina até melhora dos sintomas. Cuidado para não cair na armadilha da questão! Uma paciente, usuária crônica de AINE, queixando-se de síndrome dispéptica com queimação epigástrica e retroesternal, foi submetida a uma endoscopia que evidenciou: - Úlceras em terço inferior de esôfago (pro- vável esofagite de refluxo – a paciente tem DRGE). - Gastrite enantemática – na verdade o termo “gastrite” é reservado para a inflamação da mucosa gástrica comprovada histologicamen- te, esse diagnóstico não deve ser feito apenas pela visualização da mucosa com aspecto enantemático (avermelhado)... - Pesquisa de H. pylori positiva. • Pergunta 1: Precisamos erradicar o H. pylori nessa paciente? Observe que a DRGE e a “gastrite enantemática” não são indicações para erradicação da bactéria. • Pergunta 2: Está indicado um antissecretor? Essa paciente fará uso de antissecretor, pois é portadora de doença do refluxo gastroesofágico. A preferência é para o omeprazol. • Pergunta 3: O que fazer com os AINE? Se a paciente tem cefaleia crônica diária (a questão não especifica se é tensional ou enxaqueca), está mais do que na hora de introduzirmos um tratamento profilático, não é mesmo? Vamos adiantar um pouco o que estudaremos na apostila de Cefaleias: esta profilaxia pode ser feita com antidepressivos,betabloqueadores, flunarizina... (dependendo se é enxaqueca ou cefaleia tensional) Com isso, podemos redu- zir – e muito – o uso de anti-inflamatórios e analgésicos... Além da elevação da cabeceira da cama (para reduzir o refluxo) e da orientação dietética (serve tanto para a DRGE quanto para a dis- pepsia funcional), que já constam na questão, faltariam o início de um antissecretor para tra- tamento da DRGE (preferencialmente um IBP, como o omeprazol), a suspensão dos AINEs e o início de um antidepressivo ou betabloquea- dor profilático. Não precisamos de tratamento contra o H. pylori. Assim, a resposta correta é a letra A. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 110Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DuoDEnItE A duodenite é “irmã” da gastrite, porém menos frequente que esta: trata-se da inflamação da mucosa duodenal comprovada histologi- camente. A apresentação clínica também é semelhante à da gastrite, sendo caracterizada pela síndrome dispéptica. Tanto o H. pylori quanto os AINEs podem cau- sar duodenite. Contudo, existem outras duas causas importantes de inflamação do duodeno no nosso meio que vamos destacar aqui: a estrongiloidíase e a giardíase. A estrongiloidíase é uma doença causada por um pequeno helminto que parasita o duodeno e o jejuno proximal, o Strongyloides stercoralis. Os ovos logo eclodem em larvas rabditoides, que são eliminadas nas fezes e não são infestantes – elas precisam se desenvolver até o estágio de larva filarioide para infestar o ser humano. As larvas filarioi- des já são capazes de penetrar na pele sã do indivíduo, seguindo o ciclo pulmonar de Loss até atingir o intestino proximal, onde se desenvolvem. O tratamento será estudado na apostila de síndromes diarreicas. Uma questão importante é a estrongiloidía- se disseminada, uma forma gravíssima da doença em imunodeprimidos (particularmente em usuários de corticoide), frequentemente associada à infecção bacteriana secundária – o Strongyloides facilita a translocação de enterobactérias através da mucosa intestinal. Lembre-se sempre dessa associação quando encontrar um caso clínico de meningite causa- da por enterobatérias (você punciona o líquor e acha E. coli!!!). Ao migrar pelos tecidos do paciente, o verme “arrasta” as bactérias em seu próprio corpo causando infecção em am- bientes previamente estéreis além da própria inflamação causada pela sua presença. A melhor estratégia de prevenção das formas graves é identificar e tratar pacientes infecta- dos antes de iniciar imunossupressores – ou, caso não haja tempo para o diagnóstico, o tratamento empírico é aceitável. A giardíase é uma doença causada pelo pro- tozoário flagelado Giardia lamblia, que parasita o intestino delgado. A forma infectante do pro- tozoário (trofozoíta) é encontrada “atapetando” a superfície do delgado, não causando doença invasiva. A maioria dos indivíduos infectados é assintomática, contudo, quando em grande número, os trofozoítas podem “atapetar” todo o duodeno, levando à síndrome disabsortiva. O disco suctorial (estrutura presente no parasito que permite sua adesão ao epitélio) é capaz de produzir lesão epitelial. A reprodução da Giardia é assexuada (divisão binária). Even- tualmente, um trofozoíta sofre processo de encistamento, transformando-se num cisto, que é eliminado pelas fezes – esta é a forma de transmissão da doença. O tratamento será estudado na apostila de síndromes diarreicas. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2002 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Identifique a associação de parasitoses gas- trointestinais que podem determinar um qua- dro clínico de síndrome ulcerosa: a) Amebíase e giardíase. b) Giardíase e estrongiloidíase. c) Ascaridíase e trichiuríase. d) Trichiuríase e estrongiloidíase. e) Amebíase e ascaridíase. No nosso meio, ao avaliarmos um paciente com síndrome dispéptica sem úlcera ou gas- trite ao exame endoscópico, é interessante nos lembrarmos sempre da possibilidade de estrongiloidíase ou giardíase duodenal... Assim, está indicada a realização do exame parasitológico de fezes em todo caso de apa- rente “dispepsia funcional”, principalmente quando o quadro for associado à duodenite e/ ou houver refratariedade clínica ao tratamento com antissecretores. Resposta letra B. cÂncEr gÁstrIco Vamos fazer aqui uma rápida revisão sobre o tema, que será visto na apostila de Oncologia do MED... tipos O adenocarcinoma corresponde a 95% dos cânceres gástricos, sendo classifica- do em dois subtipos: intestinal (tumor bem diferenciado, com formação de estruturas glandulares) e difuso (tumor indiferenciado, sem formação de glândulas, com células em anel de sinete). O subtipo intestinal é mais comum e predomina em homens mais velhos (em média 55-60 anos), enquanto o difuso é mais comum em mulheres e ocorre em pacientes mais jovens (em média 40-48 anos). Os principais fatores de risco são a gastrite atrófica pelo H. pylori, a anemia perniciosa e o consumo de alimentos mal conservados ou defumados. Os linfomas correspondem a pouco menos de 5% dos cânceres gástricos, sendo mais comum o linfoma difuso de células B (55% dos casos), um linfoma não Hodgkin agres- sivo e de prognóstico reservado. O linfoma MALT, correspondente a 40% dos casos, está intimamente associado à infecção pelo H. pylori, sendo um tumor indolente, com alta chance de cura... outras causas de Dispepsia http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 111Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Quadro clínico As principais características são a dor epigás- trica e a perda ponderal. Náuseas e anorexia são comuns, e os vômitos podem se relacio- nar à obstrução antropilórica pelo câncer. A disfagia está associada à invasão da cárdia ou do esôfago distal, sendo uma causa de pseudoacalásia. A anemia ferropriva ocorre em 40% dos casos. As metástases mais comuns são para fíga- do, pulmão e peritônio. Algumas alterações do exame físico sugerem doença avançada, como a linfadenopatia supraclavicular (sinal de Troisier / Nódulo de Virchow) e infiltração metastática do ligamento umbilical (Nódulo da irmã Maria José). Diversas síndromes neoplásicas são asso- ciadas ao câncer gástrico: tromboflebite mi- gratória (síndrome de Trousseau), acantose nigricans, ceratose seborreica difusa (síndro- me de Lesser-Tresat) e síndrome nefrótica por nefropatia membranosa. Diagnóstico Feito através de EDA com biópsia e exame citológico do escovado de mucosa. A endos- copia é recomendada para todo paciente com sintomas dispépticos associados à idade > 45 anos ou aos “sinais de alarme” já estudados por nós. Endoscopicamente, o câncer gástrico pode se apresentar de diversas formas, segun- do a classificação macroscópica de Borrmann: I: carcinoma polipoide. II: carcinoma ulcerado com margens bem de- finidas e nenhuma infiltração (semelhante a uma úlcera péptica). III: carcinoma ulcerado e infiltrante com mar- gens rasas e pouco definidas. IV: carcinoma infiltrativo difuso – quando há infiltração de todo o estômago, chamamos de linite plástica. Estadiamento Trata-se de um câncer muito agressivo, com altos índices de acometimento linfático e me- tastático (os órgãos mais acometidos são fí- gado e pulmão). Não vamos nos deter aqui no estadiamento TNM, que será dado na apostila de Oncologia... tratamento É candidato à cirurgia todo paciente sem me- tástase à distância e sem sinal de neoplasia localmente avançada, com boas condições ci- rúrgicas. Sempre que for possível, resseca-se toda a extensão do tumor – mesmo em casos de invasão esplênica e da cabeça do pâncreas, por exemplo. O tumor deve ser ressecado com margem de segurança de 5 a 6 cm, sempre as- sociando a linfadenectomia a D2 – os tipos de cirurgia recomendados você verá na apostila de Oncologia. Radio e quimioterapia adjuvantes estão indicadas em casos selecionados. O câncer gástrico precoce corresponde ao câncer restrito à mucosa e submucosa, in- dependentemente do acometimento linfono- dal – os pacientes com tipo histológicobem diferenciado (intestinal), tumor com diâmetro < 1-2 cm e sem linfadenopatia associada são os candidatos à terapia endoscópica... E o linfoma gástrico? O linfoma difuso de grandes células B possui tratamento controverso – geralmente é feita gastrectomia associada à quimio e radiotera- pia. Vamos nos deter no linfoma MALT, asso- ciado à gastrite crônica pelo H. pylori: alguns estudos demonstraram que a simples erradi- cação da bactéria leva 50% dos pacientes à cura!!! Entretanto, a maioria dos centros ainda preconiza a gastrectomia total... De qualquer forma, o tratamento inicial deve ser a erradi- cação do H. pylori! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – SES -RJ Para buscar a origem da dispepsia que tanto atormentava um padeiro de 41 anos, a equipe gastrenterológica submeteu-o à endoscopia, sendo detectada lesão no estômago compa- tível com linfoma. Quase sempre do tipo não Hodgkin, ele constitui a segunda neoplasia mais comum no órgão e, quando primário, um importante fator de risco é a infecção crônica causada pela seguinte espécie de bacilos gram-negativos microaerófilos: a) Campylobacter Mucosalis. b) Helicobacter Heilmannii. c) Campylobacter Jejuni. d) Helicobacter Pylori. Questão fácil: a neoplasia mais comum do estômago é o adenocarcinoma, e a segunda é o linfoma. Cerca de 40% dos linfomas gás- tricos são do tipo MALT (Mucosa-associated lymphoid tissue), fortemente associados ao H. pylori, em especial às cepas que expressam a proteína CagA. DoEnça bIlIar Vamos fazer aqui um breve comentário so- bre as doenças das vias biliares, que podem causar sintomas dispépticos. Você viu essas doenças com mais detalhes na apostila de Síndrome Ictérica... A colelitíase é definida como a presença de cálculos na vesícula biliar – a maioria dos pa- cientes é assintomática, contudo alguns apre- sentam episódios de dor biliar – dor tipo cólica http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 112Medgrupo - CiClo 2: M.E.D em epigástrio e hipocôndrio direito, que pode se irradiar para a escápula direita e dorso, sendo frequentemente precipitada pela ingestão de alimentos gordurosos. Tais episódios álgicos duram, geralmente, menos de 6 horas e se devem à obstrução transitória da saída da ve- sícula biliar (infundíbulo) ou do ducto cístico. Não ocorre febre ou irritação peritoneal. Quando essa obstrução se mantém duran- te um tempo maior, a bile retida causa uma lesão química da mucosa da vesícula – um quadro conhecido como colecistite aguda. Caso mantida, pode levar à perfuração da vesícula, com peritonite. Na crise de colecis- tite, a dor geralmente se localiza no hipocôn- drio direito (podendo se originar também no epigástrio) e aumenta de intensidade com o passar do tempo. Em 10-15% dos pacientes com colelitíase (= cálculo na vesícula), os cálculos passam para o colédoco, causando coledocolitíase (= cálculo no colédoco). A obstrução transitória do colédoco causa sintomatologia idêntica à da colelitíase sintomática: dor tipo biliar contínua, durando menos de 6 horas – pode haver sinto- mas colestáticos associados (icterícia, colúria, acolia fecal), dependendo do grau e da duração da obstrução. A obstrução mantida do colédoco pode levar ao desenvolvimento de infecção – colangite bacteriana aguda – que se manifes- ta tipicamente com a tríade dor em hipocôndrio direito, icterícia e febre com calafrios. Queixas dispépticas durante os últimos três meses e que se iniciaram, no mínimo, seis meses antes. Presença de pelo menos um dos sintomas a seguir: • Empachamento pós-prandial • Saciedade precoce • Dor epigástrica • Queimação epigástrica Ausência de lesões estruturais que pos- sam justificar os sintomas (endoscopia). No nosso meio, ao avaliarmos um paciente com síndrome dispéptica sem úlcera ou gas- trite ao exame endoscópico, é interessante nos lembrarmos sempre da possibilidade de duodenite causada pelo estrongiloides ou pela giardia... Assim, está indicada a realização do exame parasitológico de fezes em todo caso de aparente “dispepsia funcional”... A fisiopatologia da dispepsia funcional ainda não está bem elucidada. São quatro os fato- res propostos, que não se excluem: disfunção motora gástrica (atraso no esvaziamento), hiperalgesia visceral, infecção pelo H. pylori e fatores psicossociais. Figura 16 DIsPEPsIa FuncIonal A dispepsia funcional, que já foi chamada de dispepsia não ul- cerosa, é a principal causa de síndrome dispéptica!!! De acordo com o consenso Roma III, de 2006, que traçou as últimas diretrizes para o diag- nóstico da dispepsia funcional, os critérios são os seguintes: IMPORTANTE!! Até pouco tempo, a dispepsia funcio- nal não era indicação para o H. pylo- ri! No entanto, de acordo com o III consenso brasileiro para o H. pylori e também o IV consenso de Maastricht, atu- almente existe sim a indicação de erradica- ção. Segundo o último estudo de Cochrane, cerca de 14% dos pacientes se beneficiam da erradicação! Além disso, uma análise a longo prazo, demonstrou uma redução de 25% das visitas médicas nos pacientes que tiveram o H. pylori erradicado. Ou seja, fique atento no momento da prova, pois questões polêmicas sobre esse assunto podem aparecer. A classificação da dispepsia funcional é baseada nos sintomas predominantes: Síndrome do desconforto pós-prandial: predomínio de empachamento pós-prandial e/ou saciedade precoce. Síndrome da dor epigástrica: predomínio de dor ou queimação epigástrica. Observe que a classificação em “dispepsia tipo dismotilidade” e “dispepsia tipo úlcera” é antiga, não sendo mais utilizada... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 2 113Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Como tratar esses pacientes? Até o momento não existe um tratamento ver- dadeiramente eficaz. O principal é esclarecer ao paciente que suas queixas não caracteri- zam nenhuma doença grave ou risco de morte! A revisão dos hábitos alimentares é uma medi- da eficaz: deve-se pedir ao paciente que evite o uso de AAS, AINE, tabaco e álcool, assim como o consumo de alimentos associados à exacerbação da sintomatologia (principalmen- te gordurosos, ácidos e café). A maioria dos estudos recentes recomenda tra- tamento farmacológico para os pacientes que não respondem às medidas acima. Deve-se prescrever antissecretor (IBP ou bloqueador H2) para aqueles classificados como síndro- me da dor epigástrica e pró-cinéticos (como metoclopramida, bromoprida e domperidona) para aqueles com síndrome do desconforto pós-prandial, durante 4-8 semanas, e avaliar a resposta. Os pacientes que apresentarem resposta clínica significativa neste período devem prosseguir o tratamento. O uso de antidepressivos pode ser tentado nos pacientes refratários. Geralmente iniciamos um tricíclico em dose baixa, como a amitriptilina 12,5 mg/dia. Mais uma vez: há pouco tempo a dispepsia funcional não era indicação de tratamento contra o H. pylori, mas como visto acima, de acordo com o III consenso brasileiro para o H. pylori, existe sim a indicação para a er- radicação. Vamos às questões! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE ALAGOAS – AL De acordo com o consenso Roma III, o tempo necessário de sintomas para que se faça o diagnóstico de Dispepsia Funcional é: a) Sintomas tenham iniciado a 12 meses e ativos nos últimos 3 meses. b) 6 meses com sintomas presentes e ativos nos últimos 2 meses. c) Sintomas tenham iniciado há pelo menos 6 meses e ativos nos últimos 3 meses. d) 12 meses com sintomas presentes e 3 me- ses não necessariamente consecutivos. e) Nenhuma das alternativas acima. Vamos resumir!!! Embora seja frequentemen- te esquecida na abordagem de um paciente com dispepsia a esclarecer, a dispepsia fun- cional é a responsável por mais de metade dos casos de síndrome dispéptica. Trata-se de uma doença funcional caracterizada por sintomas dispépticos na ausência de doença estrutural, ou seja, é um diagnóstico de exclusão. De acordo com