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HISTÓRIA MODERNA Empresa: Modular Criativo Professora: Bianca Sales Faculdade Campos Elíseos (FCE) São Paulo – 2023 SUMÁRIO RESUMO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 CONCEITOS GERAIS DA HISTÓRIA MODERNA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Conceitos gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Pensadores do Iluminismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Sociedade Estamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Formação do Estado Moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 ANTIGO REGIME E SEUS PILARES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 Introdução ao Antigo Regime . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 Absolutismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 Mercantilismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 PRINCIPAIS REVOLUÇÕES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Revolução Inglesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Revolução Industrial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 Revolução Francesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 3 4 R E S U M O Dentro de uma periodização clássica, utilizada pelos historiadores, a Idade Moderna, corresponde a um período relativo ao cenário pós Idade Média e que vem a anteceder e desenhar os moldes para a história contemporânea. Dentro do presente estudo, iremos abordar os conceitos gerais do que foi esse período, suas implicações e as formações e caminhos desenhados durante esse período de intensa ruptura e transição. Trataremos acerca de um período que corresponde há 300 anos da nossa história, marcado pelo desenvolvimento, ideológico, social, econômico e industrial, viajaremos através dos séculos e dos acontecimentos que antecedem a concepção da nossa sociedade atual. C O N C E I TO S G E R A I S DA H I S TÓ R I A M O D E R N A Conceitos gerais Ao falar sobre a história moderna, falamos em um período de ruptura e transição. Nesta disciplina falaremos há cerca de um tempo no qual o antigo passa a não ser mais enxergado e passamos a vislumbrar o novo. O período que corresponde aos séculos XV e XVIII, descreve as mudanças que moldaram e caracterizaram o novo mundo. Mudanças essas que englobam os mais diversos setores. A construção desse período é marcada por novas práticas econômicas, início da colonização, reformas religiosas, estabelecimento da monarquia e revoluções. A Idade Moderna, perdura entre o período de 1453 a 1789, tendo o seu início marcado pela conquista de Constantinopla realizada pelos otomanos e a queda da Bastilha, ação que antecedeu a Revolução Francesa. Essa consolidação da modernidade ocorreu mediante o fim da Idade Média. Essa separação entre medievo e modernidade, ocorreu, quando os pensadores do período conhecido como renascença, começaram a questionar, que o período em que estavam vivenciando, distinguisse, do que existia durante a Europa Medieval. Destarte, foi definido o conceito de Idade Média, e em decorrência, o surgimento do período conhecido como Idade Moderna. Um dos intelectuais, responsáveis por essa concepção de modernidade, foi o historiador Cristoph Keller, que dividiu a história em três períodos (antigo, medieval e novo período), através dessa divisão, estabeleceu que a Idade Média, tinha sido encerrada com conquista de Constantinopla. Essas divisões acerca desse período ocorrem de forma aproximada, uma vez que historiadores, como Le Goff, traçam semelhas entre os dois períodos. 5 Acerca dessas semelhas entre os dois períodos, Le Goff, destaca a economia agrícola. Onde na Idade Média, a agricultura europeia foi impulsionada pelas melhorias técnicas, no qual, os níveis de produção permaneceram os mesmos até a Idade Moderna, demonstrando assim, que não houve uma mudança significativa nesse ponto. Em contrapartida, no que se refere a economia, essa passou, por uma ampla transformação, uma vez que, por meio das grandes navegações e da colonização realizada, houve o crescimento do comércio, estabelecendo novos contornos na economia mundial por meio do modelo econômico conhecido como mercantilismo. A Idade Moderna, tornou-se, assim, um período no qual o capitalismo é estabelecido, ocorrendo nesse período a primeira Revolução, iniciada na Europa. Essas ações só foram possíveis, mediante o acúmulo de capital, por meio da amplificação do comércio. Ao que se refere a política desse período, também ocorreram mudanças significativas, dentre elas, a descentralização do poder ocorrida no período feudal, na Europa medieval, e do lugar ao poder centralizado. Resultando no surgimento do regime absolutista. Os acontecimentos ocorridos durante esse período, mudaram o rumo da história em definitivo, delineando os contornos, que permitem que a nossa sociedade atual, tenha a configuração que possui atualmente, por meio das conquistas realizadas durante esse período de transformações. Deixamos, então, a chamada “Era das Trevas”, termo adotado pelos humanistas do século XVII, para retratar o que corresponde à o século IV ao século XV. Essa visão se deu devido aos diversos acontecimentos ocorridos nessa época, como invasões barbaras, epidemias, crises na agricultura, imposições da igreja católica, inquisição, caça aos hereges, desigualdade social e uma centralização da economia. No que se refere a era de trevas, também se faz presente o estereotipo feminino e as implicações disso, uma enorme perseguição que perdura por cerca de quatrocentos anos, levando diversas mulheres a serem torturadas e queimadas vivas em fogueiras feitas em praça pública, pois a bruxaria era considerada assunto feminino. O papel da mulher em determinados setores da sociedade como um todo é fruto de um processo histórico-cultural. Devido à extensão deste período histórico se torna quase que impossível relatar todas as possibilidades da constituição da imagem feminina. Contudo, é possível notar que as mulheres assumiram papéis determinantes. A mulher era considerada como um ser muito próximo da carne(luxúria) e dos sentidos (por ter sido feita da costela do homem), devido a isso era uma pecadora em potencial. Pois todas elas descendiam de Eva, a culpada pela queda dos seres humanos. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos, como a luxúria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. 6 O pecado original foi um pecado de soberba, sendo o primeiro desvio da vontade. O arbítrio da vontade é verdadeiramente livre, em sentido pleno, quando não se faz mal. [...] mas depois do pecado original, a verdade se corrompeu e se enfraqueceu, tornando-se necessitada da graça divina. (REALE; ANTISERI, p.98, 2005). Na Europa Central, começaram a surgir rumores e pânico acerca de conspirações malignas, que teriam o intuito de destruir os cristãos através da magia e do envenenamento. Fala-se sobre conspirações e associações por parte dos judeus, muçulmanos, leprosos e as bruxas. Entre os anos de 1347 e 1350, a peste-negra se espalhou, devastando e vitimando grande parte da população europeia. Devido a estes acontecimentos, os rumores aumentaram os “olhares” e suspeitas recaíram sobre as supostas bruxas acusadas de propagar a praga. Os casos de processos por bruxaria foram crescendo gradativamente, até que os primeiros julgamentos em massa ocorreram no século XV. A Inquisição foi criada em meados do século XIII, era dirigida pela Igreja Católica e composta por tribunais que julgavam todos aqueles considerados uma ameaça aos dogmas da Igreja. Desse modo, esse período da Idade Média, fora assim chamado, por ser visto por muitos, como uma época de devastação e tormento. A Idade Média é vista, como uma época de trevas, ao adentrarmos na Idade Moderna, começamos a vivenciar mudanças nos campos ideológicos, filosóficos, econômicos e sociais. As mudanças vivenciadas ocorreram não só nas formas em que as explorações eram realizadas, como também, nos âmbitos mais comuns das sociedades, como o modo de se portar a mesa. Trata-se de uma época em que as rotas passam a ser refeitas e os mapas a serem redesenhados, essa expansão se deu pelo novos continentes serem inseridos nos mapas. Essas alterações implementadas nos mapas, geram um sentimento de expansão, a partir da inserção dos novos continentes, como também, nos traz a sensação de encurtamento das distâncias, uma vez que, as novas embarcações e novas rotas possibilitam que essas incursões ocorram de forma mais precisa. As mudanças ocorridas nesse período, não transformaram apenas a vida da sociedade e as navegações. O pensamento ideológico também passa por um período transitório, de um lado a religião que sempre teve, e tem, até nos dias atuais, impacto no comportamento social, e abre espaço para o período conhecido chamado de a Era das luzes e o pensamento Iluminista que passa a semear a sociedade. É bem verdade, que por mais que essa época tenha sido marcada por mudanças e transições, alguns sentimentos não perdem totalmente a força, como a religião, que até os dias atuais impõe as suas doutrinas e influência sobre a nossa sociedade. Entretanto, saímos de um período marcado por tormentas, imposições e perseguições e adentramos em um período, no qual, o pensamento filosófico começa a ganhar força e permear a sociedade, por meio do Iluminismo. 7 O Iluminismo foi um movimento intelectual ocorrido entre os séculos XVII e XVIII, que visava causar mudanças político, social e econômica para a sociedade. Seus pensadores acreditavam na propagação do conhecido, como uma forma de desvencilhar a razão do pensamento religioso. Isso não significa que os precursores desse movimento eram ateístas, mas, que possuíam a crença de que o homem chegaria a Deus por meio da razão e não somente pela religião. Segundo Falcon: Iluminismo tanto pode significar a doutrina dos que acreditam na “Iluminação interior” ou mística, a qual para outros constituía uma espécie de manifestação “irracionalista”, quanto, justo o oposto, Iluminismo é sinônimo de “filosofia das luzes”, isto é, da chamada “iluminação racional”. (FALCON, 2004, p. 17). Acerca do Iluminismo, recomendo o presente vídeo que salienta acerca dessa corrente desenvolvida durante a concepção da modernidade. https://www.youtube.com/watch?v=WZyQyGKUlVk&t=12s Pensadores do Iluminismo O Iluminismo foi formulado por vários pensadores, das mais diversas vertentes, mas, ambos partilhavam do mesmo pensamento, incentivar o progresso. É valido salientar os principais pensadores que faziam parte dessa corrente filosófica. Figura 1: Voltaire. Fonte: Companhia das letras. François Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, foi o filósofo francês, representante do Movimento Iluminista na França. Nascido em Paris, França, em 21 de novembro de 1694. Além de representante do Iluminismo, Voltaire, foi também historiador, poeta e dramaturgo. Membro da alta burguesia, foi um grande crítico do absolutismo dos nobres e essencialmente da Igreja. Um dos seus escritos mais conhecidos, o qual lhe abriu as portas para o meio literário, foi a tragédia “Édipo”, na qual adotou o pseudônimo, pelo qual ficara conhecido, Voltaire. https://www.youtube.com/watch?v=WZyQyGKUlVk&t=12s 8 Defendia o ideal de que a monarquia constitucional inglesa e a tolerância religiosa deveriam ser implementadas em todas as nações europeias. Apesar de ser um grande crítico do Absolutismo, Voltaire, acreditava que uma monarquia centralizada na figura do rei, mas com a assessoria dos filósofos seria capaz de atuar em ações e reformas em favor da sociedade. Defensor das ideias liberais e dos direitos a liberdade de expressão e política. Mesmo sendo um grande crítico da Igreja, Voltaire não era ateísta, acreditava que Deus se fazia presente na natureza e no homem, e que por isso, seria possível “encontrá-lo” por meio da razão, e que por meio dela, o homem seria guiado para a sabedoria. Figura 2: Denis Diderot. Fonte: História Show. Denis Diderot (1713-1784), nascido em Langres, na França, em 5 de outubro de 1713. Foi um escritor e tradutor. Principal idealizador da “Enciclopédia”, simbolo iluminista, utilizado como material ideológico da Revolução Francesa. Em 1732, recebeu o título de mestre em Artes pela universidade de Paris, e acrescentou a sua formação o estudo de matemática, filosofia, leis e literatura. No ano de 1745, Diderot, trabalhou como tradutor da Cyclopaedia, do inglês Ephraim Chambers. Dela veio a sua inspiração para a escrita da “Enciclopédia”, que tinha como intuito, propagar os novos ideias, que iriam contra o conservadorismo do Estado e da Igreja, e que a partir desse manual, fosse destacado os princípios das ciências e das artes. Dedicou-se a essa obra por 16 anos e contou com a colaboração de 130 colaboradores, dentre eles, Rousseau e Montesquieu. Durante esse período, Diderot, não atuou apenas como escritor, mas em grande parte, como supervisor dos colaboradores que atuavam com ele nessa tarefa. Essa foi publicada entre os anos de 1751 e 1772, contando com 28 volumes, sendo eles, 11 volumes de imagens e 17 volumes de texto. 9 Figura 3: David Hume. Fonte: Revista Oeste. David Hume (1711-1776), nascido na Escócia em 7 de maio de 1711. Foi um diplomata escocês, historiador, filósofo e ensaísta. Conhecido pelo seu sistema filosófico radical, fundamentado no naturalismo, cetiscimo e empirismo. Tido como um dos representantes mais relevantes do empirismo radical e tendo grande destaque entre os filósofos do iluminismo moderno. Hume foi acusado de heresia pela Igreja Católica, e teve suas obras elencadas aos livros tidos como proibidos pela Igreja. Suas teorias sofreram influência do empirista John Loock, criando assim a teoria filosófica que contradiz as crenças naturais do sentido comum. Sua teoria parte do pressuposto, que todo conhecimento só é possível por meio da trocade experiências, e que essas “impressões”, são obtidas por meio da consciência interna, que é proveniente da reunião de impressões. Em sua linha de raciocínio, questiona a existência da alma. Ele questiona a crença de que existe um ser pensante dentro de cada ser humano, que seja idêntico a si mesmo. Segundo a sua concepção, existe apenas uma consciência que atua como forma de suporte, de modo que, ações provenientes da moral e da religião são apenas resultados dos hábitos adquiridos e que esses se baseiam no bem comum, que constitui o regimento social. Figura 4: Immanuel Kant. Fonte: wikipedia 10 Immanuel Kant (1724-1804), nascido na Prússia Oriental, em 22 de abril de 1724. Foi um filósofo fundador da “Filosofia Crítica”, que visava determinar os limites da razão humana. Seu pensamento filosófico pode ser dividido em três momentos: 1. O período inicial, no qual o seu trabalho foi desenvolvido através da influência filosófica de nomes como Newton e Leibniz; 2. O segundo período, em que foi influenciado pela filosofia empírica de David Hume, onde passou a criticar a relação conhecimento e realidade; 3. E o terceiro período, onde Kant desenvolveu a sua própria filosofia, que ficou conhecida como “Dissertação”. Sua corrente filosófica consiste em uma síntese, que vem a se sobrepor, sobre o racionalismo e empirismo, que, outrora, exerceram influência em seu pensamento filosófico. Através de Kant, surge o “Racionalismo crítico”, que visava determinar os limites da razão humana. Seu pensamento filosófico, ficou conhecido como “Idealismo Transcendental”, ou seja, aquilo que antecede a experiência. Figura 5: Adam Smith. Fonte: Commons Adam Smith (1723-1790), nascido na Escócia em 5 de junho de 1723. Foi um filósofo e economista, considerado o pai da economia moderna. Considero como o mais importante teórico do século XVIII no que condiz ao liberalismo econômico. Para Smith, a única fonte de riqueza é o trabalho. Através de um estudo aprofundado acerca de investimento, formação e distribuição do capital, comprovou a sua teoria acerca do valor do trabalho. Segundo a sua concepção, em todo o sistema econômico, no qual houver uma livre atividade de seus indivíduos, essa se desenvolveria de forma harmônica, agindo conforme o modelo de crescimento, que atua de forma contínua, contribuindo para o crescimento geral das riquezas do país. 11 Sua concepção teve como base, a conjuntura na qual trabalhadores e empresários possuíam o mesmo intuito, a busca pelo próprio interesse. Impulsionando assim, os trabalhadores a oferecer a sua força de trabalho aquele que ofereça uma melhor remuneração e ao empresário o ideal de conseguir o maior lucro, essa ação de oferta e demanda, vem a estabelecer assim a competição de mercado. Figura 6: Jean-Jacques Rousseau. Fonte: Commons Jean Jacques Rousseau, nascido em 28 de junho de 1712, em Genebra, Suíça. Foi um escritor, teórico político e filósofo social. Considerado um dos principais filósofos do Movimento Iluminista, no qual os ideais defendidos, influenciaram diretamente na Revolução Francesa. Rousseau, viveu no período no qual ocorria o domínio absolutista, ocupava todo o continente europeu e movimentos, como Iluminismo, visavam uma renovação cultural, defendendo uma reorganização social. Em seu discurso, defendia que o homem era naturalmente bom, e as condições as quais lhe eram impostas é que o tornava mau. Combatia a desigualdade oriunda dos privilégios, mas não se opunha à desigualdade natural, proveniente da inteligência, saúde e idade. Rousseau, em sua obra “Contrato Social”, defende que a única forma de garantir os direitos de cada indivíduo está na organização de uma sociedade, na qual os direitos básicos sejam cedidos a todos os membros da comunidade de forma igualitária por meio de um contrato entre os membros do grupo. Não implicando em uma perca da liberdade, essa subordinação ao Estado, fortalecia a sua liberdade. No que se refere ao Estado, trata-se de uma organização que represente a vontade geral e não ao modelo de governo já existente. Rousseau, foi um grande defensor do lema da Revolução Francesa: Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). 12 Figura 7: Montesquieu Fonte: Commons Charles Louis de Sécondat (1689-1755), nascido em 18 de janeiro de 1689, próximo de Bordeaux, França. Foi o escritor e filósofo conhecido como Montesquieu. Foi o teórico responsável pela doutrina, que, posteriormente, resultou na formação dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Atuou ativamente e foi um dos grandes representantes do movimento Iluminista. Montesquieu foi um dos pensadores iluministas que acreditava na tolerância religiosa, liberdade do indivíduo e combatia as instituições que atuavam desumanamente, como torturas e escravidão. Apesar de ser um grande nome do iluminismo, acabou por se afastar desse racionalismo, tido para ele como abstrato, para aprofundar-se na busca pelo conhecimento realista, cético e concreto. Segundo a sua concepção, o modelo de governo ideal não existia, uma vez que, esse não serviria todo indivíduo a qualquer momento. Em sua obra “O Espírito das Leis”, desenvolveu um conceito sociológico da lei e do governo, a fim de mostrar que ambas as estruturas dependem das condições as quais cada sociedade está inserida. Destarte, para que ocorresse a criação de um sistema político sólido e atemporal, que atendesse a todas as camadas da sociedade, seria necessário levar em consideração o desenvolvimento socioeconômico e até mesmo as condições climáticas e geográficas. Para ele, a democracia era baseada na virtude, a monarquia na honra e despotismo no medo. Montesquieu acreditava que a democracia era viável em apenas pequenas repúblicas, rejeitava o despotismo e era favorável a monarquia constitucional. Sua filosofia influenciou o pensamento político moderno e foi de suma importância para os liberais que estavam à frente da Revolução Francesa, e a construção dos regimes constitucionais que vigoraram na Europa posteriormente. 13 Figura 8: René Descartes. Fonte: Commons O pensador iluminista René Descartes (1596-1650), filósofo, matemático e físico francês. Que foi considerado o pai do cartesianismo, ou pai do racionalismo, sistema que originou à Filosofia Moderna. Para Descartes, a ordem e a clareza eram fundamentais, em sua filosofia, propôs que nunca se acreditasse no falso e que a mesma fosse sempre pautada única e exclusivamente, na verdade. Descartes fundou o “Pensamento Cartesiano” ou “Racionalismo”. Para ele, se o homem se propõe a investigar a verdade, deve começar pelo seu próprio intelecto. Sua principal obra, “O discurso sobre o método”, é uma obra matemática e filosófica, na qual, é apresentado o seu método de raciocínio, pautado na sua celebre frase: “Penso, logo existo”, pela qual toda a sua filosofia é baseada. Através dessa obra, defende que para ocorrer a compreensão do mundo, tudo deve ser questionado. E propõe quatro regras para alcançar o conhecimento: O primeiro era de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conheces- se evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentassem tão clara e tão distintamente a meu espirita, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros.E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.” (DESCARTES, René. 1944, p. 53- 54.) Com a difusão desse pensamento passamos a vivenciar uma ruptura entre a sociedade e o poder absoluto da Igreja, uma vez que, a partir do momento em que começa a ocorrer a separação entre o pensamento e a religião, fosse de encontro ao que pregava a Igreja Católica e os governos que atuavam de forma autoritária. Assim, conforme defendido por ele, o questionamento sobre as imposições e doutrinas passam a ocorrer. 14 A corrente iluminista foi importante também para o desenvolvimento do humanismo e da ciência. Os pensadores iluministas, também foram atuantes, no que se refere aos questionamentos sobre os governos absolutistas, atuando assim, na defesa da liberdade política e individual. A economia não fora deixada de lado, os ideais manifestados através da figura do pensador Adam Smith, foram utilizadas para substituir o modelo mercantilista, que vigorava nesse período. O pensamento iluminista acreditava não só no intelecto, mas, no progresso, justiça social, igualdade e liberdade, para que assim, não ocorresse um engessamento, de modo que, os mais diversos grupos possam possuir uma ascensão social, gerando, assim, a descentralização do poder e da economia. Sociedade Estamental Vamos fazer uma viagem sobre o tempo, e retomar a Idade Média europeia, e salientar acerca do seu contexto econômico e social. Esse mergulho na história é necessário para que façamos a compreensão do que foi a Sociedade Estamental e o que ela implica na concepção da formação do Estado Moderno. A sociedade estamental é caracterizada por ser uma sociedade na qual a condição do seu nascimento, predestina a atribuição do status social que o indivíduo exercerá perante a sociedade. Dentro desse contexto, a sociedade era subdivida em estamentos, de acordo com a classe social a qual fazia parte e dos privilégios conquistados. Essa estruturação social era estabelecida a partir dos bens e dos prestígios adquiridos mediante as tradições familiares, o indivíduo estava predestinado a agregar uma determinada classe social, desde o seu nascimento, essa predestinação ocorria basicamente de forma imutável, ou seja, a mobilidade social era baixa nesse modelo de sociedade, basicamente não ocorrendo uma ascensão social. A simbologia trazida pelo triangulo social, acompanha diversos momentos da concepção da nossa história, não diferindo nesse período, ao que se refere a sociedade estamental, como ocorre no regime absolutista, o rei ocupa o todo de todas as pirâmides sociais, sendo seguido pelas demais camadas que compõem a sociedade. 15 Figura 9: Sociedade Estamental. Fonte: SlidePlayer Para Weber, a sociedade pode ser compreendida por meio do conjunto das ações realizadas individualmente. Sendo essa, toda e qualquer ação realizada pelo indivíduo, orientado pelas ações do outro, ou seja, apenas existindo ação social, quando um ocorre algum tipo de interação social, por meio da sua ação para com os demais. Segundo Weber (1974), a estratificação por estamentos tende a ser favorecida quando as bases da aquisição e distribuição de bens são mantidas de modo estável. Entretanto, quando essas transformações econômicas, advindas de processos tecnológicos, modificam a dinâmica de tais bases, a situação de classe passa a ser evidenciada em relação aos grupos de status. “E toda diminuição no ritmo de mudanças nas estratificações econômicas leva, no devido tempo, ao aparecimento de organizações estamentais e contribui para a ressurreição do importante papel das honras sociais” (WEBER, 1974, p.226). Partindo dessa concepção, esse status que o indivíduo apresenta perante a sociedade, pode ser entendido com um prestígio social, entretanto, partindo de um ponto de vista sociológico, podemos entender, como o lugar que esse indivíduo vem a ocupar em determinado sistema social, sendo esse maior ou menor, dependendo da posição que o mesmo ocupa. No que se refere a sociedade estamental, esse status não é atribuído apenas ao sujeito, mas ao estamento que ele ocupa. A concepção da sociedade estamental se deu em meados dos séculos V e IX, no período compreendido como a Alta Idade Média. Durante esse período a Europa passou por diversas transformações econômica e sociais em decorrência da crise ocorrida no Império Romano. Surgindo assim, o regime feudal, no qual a divisão social ocorria por classes e também por meios dos acordos realizados entre o senhor feudal e os servos. Esse modelo societário é característico da Idade Média, mas, estende-se a outros períodos da história, como a concepção atual do Estado Moderno. Algumas ações provenientes do regime absolutista favorecem a construção dessa sociedade estamental, como a divisão do trabalho social, a cobrança de impostos e a distribuição de riquezas. 16 Mesmo ocorrendo uma baixa mobilidade social durante esse período, essa ação poderia ocorrer por meio de transições familiares, compra de títulos e pelo casamento entre membros de classes tidas como superiores, mediante a subdivisão social. É possível observar, por exemplo, o casamento entre membros da nobreza, que estavam com suas riquezas comprometidas, como membros da burguesia, favorecendo assim a sua ascensão social e manutenção da riqueza. [...] percebe-se que a situação estamental, como subtipo da dominação tradicional, abrange uma relação entre indivíduos e grupos, os quais desfrutam privilégios e honra social, os quais não dependem necessariamente da hereditariedade. Os interesses políticos, misturados aos econômicos e, sobretudo, a perpetuação no poder são cada vez mais importantes para explicar o comportamento dos indivíduos e dos governantes. Assim, fica explicita que a situação estamental se desenvolve em sociedades onde as condições econômicas, sociais e políticas são frágeis [...] (TAVARES & FONSECA, 2009, p.62) A sociedade estamental está diretamente vinculada ao Estado Patrimonial, originada nos Estados da Europa, tipificada como uma forma organizacional, em que o que se refere ao poder publico e privado, no que concerne ao governante, não possui distinção, uma vez que o mesmo, entende como seu direito usufruir dos bens públicos, como se esses fossem seus, sem que ocorresse uma prestação de contas, como salienta Tavares & Fonseca: [...] o Estado patrimonial e estamental corporifica uma forma de dominação que, ao contrário da dinâmica da sociedade de classes, projeta-se de cima para baixo. Todas as camadas sociais, desde artesãos e jornaleiros aos lavradores e senhores de terra, assim como comerciantes e armadores, orientam suas atividades dentro das raias permitidas, respeitando os preceitos determinados pelo controle superior e submetendo-se às regras convencionais fixadas. Sintetiza Faoro: “os estamentos governam, as classes negociam. Os estamentos são órgãos do Estado, as classes são categorias sociais (econômicas).” (TAVARES & FONSECA, 2009, p. 63) O modelo de sociedade estamental vivenciado pela Europa, era subdividida em clero, nobreza e servos, onde os nobres ocupavam o primeiro estado, o clero o segundo e os servos, compostos pela burguesia e demais camadas da sociedade, ocupavam o terceiro estado. Como destaca Jaguaribe, havia “os que oravam (oratores), os que lutavam (bellatores) e os que trabalhavam (laboratores). Ainda, segundo ele, registra-se que o “bispo Adelberonte de Leon constatava que a sociedade cristã estava dividida e, três ordens, que ele considerava necessárias e complementares, cada uma delas prestando serviços indispensáveis às outras duas”. (JAGUARIBE, 2001, p. 408). Essa subdivisão é relacionada as riquezas e ao prestígio social que esses possuíam. A aceitação e a designação social eram diretamente relacionadas pela Igreja como sendo parte da vontade de Deus, onde cada um estava no lugar predestinadopor Ele. Dessa forma, no topo da pirâmide encontrava-se o clero, esse era composto pelos líderes religiosos, categoria essencial no ponto de vista religioso, para a manutenção do poder ideológico, que atuava diretamente junto ao poder real. Sua função dentro desse estamento era zelar pela vida espiritual dos indivíduos. 17 Os nobres possuíam o reconhecimento de que eram superiores a plebe, que compunha o último estamento. Seu título de nobreza e o reconhecimento do mesmo só ocorria com a aprovação do rei, o qual podia condecorar os indivíduos que considerasse merecedor de tal honraria. Esses eram os responsáveis pela defesa do reino em situações de batalhas. A plebe, localizada na base da pirâmide, vislumbrava uma melhor condição de vida, diferente daquela que lhe era imposta. Estava preso ao trabalho, subordinado ao pagamento de impostos. Aqueles que nasciam pobres, carregavam esse estigma ao longo da vida, uma vez que a mudança de classe social, basicamente não ocorria. Apenas após as transformações político, social e econômicas ocorridas, dentre elas, o questionamento do poder absolutista, a liberdade da expressão religiosa, como também o desenvolvimento do capitalismo, que permitiram o desmonte das bases estamentais, permitindo assim uma mobilidade social. É possível destacar que a sociedade estamental passa a ruir a partir do surgimento de uma sociedade de classes, a qual, por meio da divisão do trabalho social, permite que ocorra o trânsito entre as pessoas das mais diferentes classes sociais, deixando, assim, de ser utópica e passando a ser algo próximo à realidade. Entre os fatores que contribuíram para o fim desse modelo social é o início da sociedade de classes. A crise ocorrida com o declínio do sistema feudal, o crescimento das cidades medievais, intensificação do comércio, bem como as transformações ocorridas no campo religioso, político, cientifico e cultural, contribuíram para o declínio desse modelo, influenciando diretamente no comportamento social. Ao longo desse processo histórico-cultural, a transição do feudalismo para o capitalismo, é um dos fatores determinantes, entre as causas, que estabelece o lugar social que o indivíduo ocupa conforme a sua condição socioeconômica. Mesmo com as mudanças ocorridas no modo de vida, como a possibilidade de uma mobilidade social, ainda ocorre a divisão de classes, estando os mais abastados no topo da hierarquia, pois concentra riquezas e os menos favorecidos, ocupando a classe mais baixa, sendo a sua maioria composta por trabalhadores. Em decorrência dessa divisão de classes sociais, a desigualdade entre os indivíduos, por mais que pareça algo da história contemporânea, remete a esse período, muito embora a condição econômica seja um dos critérios determinantes no modelo de vida obtido pelo sujeito, não é o único fator que determina o seu lugar na nova pirâmide social existente. Ainda dentro desse contexto, muitos critérios são levados em consideração, para que essa definição social ocorra. Essa conceitualização da estratificação social, está diretamente ligada a uma série de fatores, para diferentes sujeitos, como a sua crença religiosa, idade, gênero, profissão, educação, dentro outros. Tomando como base o seu status e poder aquisitivo, mas sem deixar de lado os outros pontos que compõe a sua heterogeneidade. 18 Nos dias de hoje, vivenciamos esse período transitório, no qual as classes menos favorecidas da nossa sociedade anseiam por uma ascensão social, por mais, que não vivamos, em uma sociedade dividida, entre clero, nobreza e plebe, existem divisões sociais, em nossa sociedade atual, somos divididos em classe alta, média e baixa, em outras sociedades essa divisão ocorre por meio de castas. Mesmo não ocorrendo a subdivisão ocorrida anteriormente, essa ainda se faz presente, mas, sendo rompidas, dia após dia, mediante a mobilidade social existente dentro da nossa sociedade contemporânea. Recomendo o presente vídeo, que traz uma síntese sobre o que é a sociedade estamental e a sua ligação com os dias atuais. https://www.youtube.com/watch?v=dWS_57hu3W0&t=77s Formação do Estado Moderno Antes de salientarmos acerca da concepção do Estado Moderno, é valido ressaltar, que a ideia do que é um Estado, surge em meados do século XIII, como uma forma de demonstrar a soberania europeia, enquanto organização política. Com o passar das eras, essa configuração foi se tornando cada vez mais complexa, sofrendo modificações nos valores que a fundamental, conforme as necessidades do período atual. O Estado Moderno origina-se com o Estado Absolutista, ao apresentar uma solução aos problemas que surgem com desintegração do sistema feudal. Essa passagem do medievo para a modernidade, careceu da intervenção governamental, como meio para superar a crise enfrentada pela Europa no final do século XVI. Como consequência do fim da unificação da Igreja Católica e da fragmentação do poder existente nas relações feudais, o Estado Absolutista surge como uma solução à vulnerabilidade criada pelas guerras religiosas e pela desintegração do feudalismo. Destarte, é possível constatar, que a adversidade enfrentada no processo de transição para a modernidade, não se limitava ao exercício do poder político, mas na imposição realizada com o intuito de superar a instabilidade social ocorrida em decorrência do declínio do feudalismo. Durante o seu auge, o feudalismo destacou-se por ser uma unidade organizacional político e econômica, mas, na qual, ocorrida uma fragmentação no poder político exercido, uma vez que não havia a formação de um Estado, apenas a Igreja, atuando como uma estrutura institucional, o que vinha favorecer a sua hegemonia, ou seja, o direito não era determinado pela política e sim através da tradição imemorial e por meio das instituições religiosas. Nesse período, apesar do rei ocupar o topo da pirâmide social e ser tido com o detentor do poder, possuindo uma simbologia importante na sociedade, como na política, o poder exercido pela Igreja Católica se sobressai ao poder exercido pelo monarca, uma vez que, essa passa a ganhar força, como também a concentrar riquezas, assumindo assim, um papel social importante, uma vez que cabia a igreja definir os direitos e deveres de cada membro da sociedade. https://www.youtube.com/watch?v=dWS_57hu3W0&t=77s 19 Para Paolo Grossi, o cenário sociopolítico desse período pode ser análogo a uma teia, ou a uma rede de articulações, constituída por diversas articulações sociais que estão interligadas, como corporações religiosas, estamentais, profissionais e familiares. Segundo ele, “um florescer vital e virulento que impede a condensação intensíssima do Estado”. (Cf. GROSSI, 2010, p.49.) Com a formação da idade moderna, essas relações começaram a deteriorar, causando uma crise em toda a sua estrutura econômica, política e social do feudalismo. Como saliente Matteucci, esse declínio do feudalismo, se deu por diversos fatores, como o crescimento econômico, que vinha a favorecer o surgimento de novas classes sociais, causando o rompimento do equilíbrio da sociedade estamental. Esse processo transitório, do medievo para a era moderna, entretanto, não ocorreu de forma serena. No século XVI, a estrutura instituída pelo feudalismo entra em decadência, seguido pelo fim da hegemonia da Igreja Católica, através da reforma protestante, fez com que esse processo transitório fosse marcado por um período de extrema violência. No decorrer desse período, o processo inquisitório foi restabelecido e reformulado com o intuito de combater a reforma protestante. Destarte, como salienta Francisco Bethencourt, entre as justificativas presentes na bula do Santo Ofício, constava a motivação de conter o rompimento coma unidade estabelecida pela Igreja Católica. Dentro desse contexto, essa formação estatal surgiu como forma de ultrapassar a estrutura politico e social existente no medievo, colocando-se em um patamar superior em qualquer comparativo com modelo institucional existe naquele período, por meio dessa concepção de um estado moderno concebido através do absolutismo, tornou-se nesse contexto, o único sujeito político, capaz de estabelecer a ordem entre o comportamento do indivíduo e faz forças sociais. Ofertando, assim, melhores condições para uma pacificação interna, mediante a instauração do seu poder. A modernidade, apresenta a concepção do Estado Moderno, como um meio de pacificar as relações sociais existentes e proporcionar que a política se sobressaísse as todas as incongruências sociais existentes durante esse período. A partir dessa injunção, o Estado passa a dominar, todas as formas de poder existentes durante o regime feudal, instituindo uma nova ordem pública, na qual a política passa a atuar ativamente, sendo esse um rompimento com a antiga concepção que existia durante o período medieval, que fundamentava todas as ações através do divino. Diversos filósofos defendiam que os regimes políticos, que corroboravam com a garantia dos valores e costumes que esses consideravam como corretos. A exemplo de Maquiavel, que acreditava que para a sobrevivência e manutenção do Estado, era preciso que o seu soberano agisse de forma rígida, governando com punhos de ferro. De acordo com Maquiavel, princípios éticos, como honestidade e transparência, não eram aplicados aos governantes, uma vez que esses “eram livres” para governar, sem que houvesse uma prestação de conta. Outro filosofo defensor da soberania exercida pela monarquia, foi o inglês Thomas Hobbes, que em sua teoria, o Estado deveria ser uma entidade a ser temida pelo povo. Hobbes teve seu pensamento fortemente influenciado pela insegurança causada pelos conflitos religiosos, que dentro desse contexto ameaçavam a dissolução da organização estatal. 20 Essa construção de que o Estado era soberano, na crença desses pensadores, era fundamental para que houvesse a existência de uma sociedade harmônica. Partindo desse pressuposto, as bases que originaram o Estado, ansiavam por uma estrutura solida, que as governassem sem que esses ficassem a mercê do caos. Dentro desse contexto, de formação e fortalecimento do Estado, que Hobbes, criou a sua obra O Leviatã, sendo essa fundamental para o fortalecimento do Absolutismo, essa obra tinha como intuito auxiliar na compreensão da conjuntura política desse período. Essa formulação teórica, na qual o poder estatal deve ser exercido de forma absoluta, acima das contradições religiosa. Destarte, a relação entre o direito e a política, passa a ser alterado durante a modernidade, passando para o Estado, a validade do direito, a partir de uma suposta superação da fundamentação teológica exercida pela influência da Igreja. Durante um longo período, a autoridade estatal esteve diretamente ligada a divina, “justificado” assim a submissão aqueles que estavam no poder, uma vez que, a figura do monarca, era tida como uma figura ligada ao divino e que estava naquela posição segundo a vontade de Deus. Hobbes não favorece exatamente uma monarquia arbitrária, ou um poder exercido pela monarquia, que defende o direito divino, e sim, o fortalecimento da organização estatal, para que esta tivesse condições de alcançar o máximo de eficiência na pacificação social, já que, segundo ele, onde não houvesse a imposição do poder estatal seria praticamente impossível a prevalência da lei e da ordem. Seu pensamento foi fortemente influenciado, pelo julgamento negativo sobre a natureza humana, não partindo do mesmo pressuposto do pensamento medieval, mas, por acreditar que o ser humano é mal por natureza, naturalmente agressivo, fortemente ligado a carne, a soberba e o poder, que segundo ele, justificaria a imposição da política por meio do Leviatã, constituída como única instituição com condições de impor a pax social. Durante todo o século XVII, ele se dedicou a reflexão e a formulação de resoluções de problemas, que viessem a desencadear problemas ao poder exercido na sociedade estatal. Essa concepção foi formulada durante o período em que a Inglaterra atravessa uma crise sócio-política, na qual ocorriam as disputas entre o rei e os tribunais e, ao mesmo tempo, as disputas entre o rei e o parlamento. O Leviatã foi proveniente dessa conjuntura, produzido pela razão e construído por sujeitos que visavam preservar o maior bem existente entre os homens, que é a vida, já que, segundo Hobbes “[...] durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de mantê-los a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens”. À vista disso, a modernidade apresentou o Leviatã como um agente pacificador sobre as relações sociais, propiciando que a política se sobrepusesse a todas as contradições sociais existentes naquele período. Através dessa imposição que o Estado passou a subjugar todas as formas de poder existentes no regime feudal, possibilitando com que a 21 nova ordem pública e o direito passassem a ser instituídos somente pela política, gerando um nítido rompimento com a antiga concepção medieval que fundamentava toda ordem jurídica em sua origem divina. O processo transitório ocorrido sobre o pensamento e teoria política consolida-se no decorrer dos séculos sequentes. A atuação popular e a limitação do poder exercido pelos monarcas, constituiu-se por um processo gradual e árduo, confirma por meios das lutas e revoluções. Destarte, as reivindicações populares diante dos abusos estatais ocorrem até os dias de hoje, de modo que, podemos evidenciar a insatisfação dos cidadãos mesmo em um Estado social e democrático de direito. Em consequência dessas ações surgem as teorias da Soberania Nacional e Popular. A teoria popular afirma que: A soberania popular, segundo o autor do Contrato Social e seus discípulos, é tão somente a soma das distintas frações de soberania, que pertencem como atributo a cada indivíduo, o qual, membro da comunidade estatal e detentor dessa parcela do poder soberano fragmentado, participa ativamente na escolha dos governantes. (BONAVIDES, 2004, p. 130). Sobre o que se refere a Soberania Nacional, o poder passa para o que se entende por nação, esses representantes eleitos, falam em nome do povo: A Nação surge nessa concepção com depositária única e exclusiva da autoridade soberana. Aquela imagem do indivíduo titular de uma fração de soberania, com milhões de soberanos em cada coletividade, cede lugar à concepção de uma pessoa privilegiadamente soberana: a Nação. Povo e Nação formam uma só entidade, compreendida organicamente como ser novo, distinto e abstratamente personificado, dotado de vontade própria, superior às vontades individuais que o compõem. (BONAVIDES, 2004, p. 132). Com o fim da Idade Média e advento da Era Moderna, vimos essas teorias questionadas, principalmente, através dos pensadores iluministas, que buscavam a separação do divino para a razão. Ao limitar o poder do Estado e configurar a lei, racionalmente, nos Estados democráticos, essa configuração seria fruto da vontade dos indivíduos representados enquanto nação. Deixando assim de obedecer à vontade do Monarca. Através da sua representação de Estado, mas sim, pautado na razão. Desse modo, o súdito, passa agora a ser cidadão, passa a não mais obedecer a “vontade de Deus” através da figura do rei, mas leva a sua razão, o ser pensante, como principal fator. A formação do Estado Moderno surgiu por meio da junção dos feudos existentes no continente europeu. Sua formação pode ser dívida em quatro estágios: o estadomoderno, estado liberal, crise no estado liberal e estado democrático liberal. A partir do desenvolvimento do capitalismo mercantil é possível identificar essa configuração em quatro países: Portugal, França, Inglaterra e Espanha. Nessas nações, o Estado Moderno surge a partir da segunda metade do século XV, posteriormente, essa concepção vem a se alastrar por outros países da Europa, como a Itália. O Estado Moderno, pode ser caracterizado por: 22 ● Poder único; ● Um só exército; ● Autoridade soberana do rei; ● Administração e justiça unificada; ● Criação do sistema burocrático. Essa constituição de poder forma o Estado Moderno, imbuído de capitalismo. Segundo Faoro: A sociedade capitalista aparece aos olhos deslumbrados do homem moderno, como a realização acabada da história – degradadas as sociedades pré-capitalistas a fases imperfeitas, num processo dialético e não mecânico, de qualquer sorte, substituindo o fato bruto ao fato racional, que bem pode ser o fato idealizado artificialmente. (FAORO, 2008, p. 869). O Estado Moderno caracteriza-se através dos regimes já existentes no que antecedem as revoluções desse período, dessa forma, por qual razão explicitar essa configuração? Esses eventos foram apenas alguns dos responsáveis pelas mudanças ocorridas no Estado Moderno. A partir deles, houve a racionalização das relações sociais em termos jurídicos. As relações de troca e propriedade, transmissão de bens, relações de trabalho e o conceito de cidadão e civilidade foram, enfim, determinadas e organizadas pelo aparato constitucional. Situar o problema em termos de Estado significa continuar situando-o em termos de soberano e soberania, o que quer dizer, em termos de Direito. Descrever todos esses fenômenos do poder como dependentes do aparato estatal significa compreendê-los como essencialmente repressivos: o exército como poder de morte, polícia e justiça como instâncias punitivas, etc. Eu não quero dizer que o Estado não é importante; o que quero dizer é que as relações de poder e, conseqüentemente, sua análise se estendem além dos limites do Estado. Em dois sentidos: em primeiro lugar, por que o Estado, com toda a onipotência do seu aparato, está longe de ser capaz de ocupar todo o campo de reais relações de poder, e principalmente porque o Estado apenas pode operar com base em outras relações de poder já existentes. O Estado é a superestrutura em relação à toda uma série de redes de poder que investem o corpo, sexualidade, família, parentesco, conhecimento, tecnologia, etc. (FOUCAULT, Michel, 1980, p. 122). Quando nos referimos a construção da legitimidade do Estado e o seu papel perante a sociedade. A legitimidade do poder obtido pelo Estado faz com que ocorra um debate acerca dessa temática, desde os pensadores clássicos até os mais modernos. O sacrifício da liberdade individual em obediência a um ser tido como soberano. Para compreender o processo de concepção do Estado Moderno, é necessário que estejamos alinhados quanto ao conceito de sociedade, e ordenar as suas conjunturas, salientar que esse processo pode ocorrer de forma não estatal e estatal. Realizando uma análise acerca dos agentes envolvidos dentro desse contexto, como sobre a manutenção da ordem. Segundo Strayer, o modelo Europeu de Estado Moderno surgiu por homens que nada sabiam do Extremo Oriente, embora sabedores de alguns conceitos Romanos e Aristotélicos, criaram um Estado próprio, o tipo de Estado que criaram acabou por funcionar melhor do que a maioria dos antigos modelos. 23 A soberania exercida pelo Estado Moderna, não permitia qualquer outro tipo de autoridade quanto ao seu poder. O Estado dentro desse contexto estava atuando como um aparato para a sociedade, mas, não estava vinculado a ela. Distinguindo-se da relação com o regime feudal, no qual o senhor era detentor de tudo aquilo que estivesse em sua terra, no Estado Moderno, o senhor é apenas uma identidade que representa soberania, sendo o Estado o detentor de tudo. O Estado se consolida assumindo a obrigação do Direito, sendo este o poder que será aplicado pelos representantes dele. Como explicita Held, o Estado Moderno é envolvido por uma ordem impessoal, legal e constitucional, regulamentado através de uma autoridade, o qual define uma natureza, controle e a administração de uma comunidade. É valido ressaltar que a noção acerca de território, e algo essencial, dentro desse contexto, no que se refere a existência do Estado, enquanto lugar, pois, sem a existência de um espaço físico, o Estado não existe, ainda que dentro desse contexto, seja possível se falar em nação, uma vez que, ocorre o compartilhamento de uma cultura, mas sem a presença de um território, ainda que ocorra uma organização política, existe a nação, mas não o Estado. Entende-se, então, que o Estado Moderno possui intensa relevância para estabelecer um governo centralizado e soberano que por mais que possua diversos princípios transformados por conta das revoluções burguesas e populares e pelas mudanças ocorridas na forma de se enxergar o mundo e o ser humano ao longo da história permanece até os dias atuais. Para que essa concepção atual existisse, o Iluminismo possuiu forte influência nesse processo transitório. Uma vez que, os ideais defendidos por essa corrente, fizeram aflorar as demandas sociais em relação ao Estado. O pensamento defendido por esses filósofos, abriu caminho para as demandas sociais. Montesquieu, foi um dos responsáveis, pela teoria que estruturou a maneira com que o poder, é gerido nos Estados Modernos. O iluminismo disseminado por esses filósofos, foi responsável pela utilização da razão na fundamentação das diretrizes adotadas pelo Estado. Ao priorizar a razão, foram retiradas da conceitualização do Estado as relações coma religião, surgindo assim, a concepção de Estado Laico, adotada até os dias atuais, em diversos países. Essa racionalização trouxe também uma busca maior, pela formulação de leis e amparo legal que garantissem os valores defendidos pelo iluminismo em vigor na concepção atual do Estado. Princípios como felicidade e liberdade, passam a fazer parte da constituição, como um direito garantido, a todos os membros dessa sociedade, a qual tal constituição é formulada. Destarte, é possível traçar uma ponte, entre a concepção do Estado Moderno em sua essência, e o que conhecemos nos dias atuais. Esse é resultante das mais diversas incursões ocorridas na política, de forma direta ou indireta, sobre as teorias realizadas acerca desse assunto ao longo das eras, por todos os seres que vieram a atuar dentro desse contexto. 24 É importante ressaltar, que todas essas ações ocorreram, por meio desses movimentos realizados pela sociedade que estavam insatisfeitas, bem como, sobre a necessidade de mudança, que passou a existir em decorrência dessa insatisfação popular, que fez com os modelos de governo absolutista viessem a decair, dando assim início ao Estado Moderno. A concepção do Estado Moderno, passou por diversos fatores que culminaram na sua concepção, essas mudanças, não ficaram restritas a esse período da história, essas alterações ocorreram e ocorrerem até hoje, gradativamente, conforme as necessidades e mudanças ocorridas na sociedade que fazemos parte. Essas alterações ocorrem de forma contínua, e vão sempre ocorrer, pois, não vivenciamos uma sociedade estática, vivemos em um mundo de constante transição, sendo assim, o Estado sempre será forjado conforme a sociedade que o compõe, para que esse venha a sempre atender, e garantir o bem da social. Sobre a concepção do Estado Moderno e a sua importância, recomendo o seguinte vídeo, para uma síntese acerca desse período. https://www.youtube.com/watch?v=ASWVvAyLy74 https://www.youtube.com/watch?v=ASWVvAyLy74 25 A N T I G O R E G I M E E S E U S P I L A R E S Introdução ao Antigo Regime AntigoRegime foi a denominação da estrutura do sistema político e social que antecedeu a Revolução Francesa. Essa expressão foi criada pelo líderes dessa revolução, como um termo que possuía uma conotação negativa, pois, representava o absolutismo e suas características, políticas e socioeconômicas. Esse regime não ocorreu apenas na França, mas em outros países da Europa, que possuíam o mesmo sistema político. O governo era aristocrático, e seu poder estava centralizado em um monarca, na figura do rei ou do imperador. Para os integrantes dessa revolução, o novo regime implantado na França, representava tudo que poderia existir de benéfico para a sociedade, defendendo valores como democracia, justiça social, liberdade, participação do povo na política, liberdade de expressão e igualdade de direitos, valores opostos ao que faziam parte do Antigo Regime. A política do Antigo Regime era caracterizada pelo Absolutismo consistindo, assim, em uma centralização na autoridade política. No que se refere a figura do monarca, além da centralização dos poderes e da riqueza, encontrava-se também a unidade religiosa. Acreditava-se que o rei havia sido designado por Deus para liderar a nação. Essa crença se fortalecia a partir da convicção, de que a figura do rei era uma figura sagrada, que possuía poderes curativos, apenas com o seu toque seria possível curar uma pessoa enferma. No que se referia aos interesses de ambas as camadas sociais, em âmbito nacional, os representantes de cada parte da pirâmide social podiam reunir-se com o monarca para discutir essas questões. Essa ação de receber os representantes das demais classes era uma forma de legitimar e realizar a manutenção do seu regime, mesmo sendo dele a última palavra. Figura 10: Luís XIV. Fonte: DW 26 A formação do antigo regime, se deu em meados de 1453, após o fim da “Guerra de Cem Anos”. A Guerra de Cem Anos, fora um dos maiores conflitos da Idade Média, ocorrido entre França e Inglaterra. Ainda que possua esse nome, esse conflito, perdurou por mais de um século. Correspondendo ao período de 1337 e 1453, essa Guerra não é considerada como um dos maiores conflitos da época só por sua duração, mas também pelo impacto causado nos reinos centro desse conflito, como também em outras partes da Europa. Apesar de sua longa duração, não se tratou de um conflito contínuo, mas sim de vários embates, intercalado por diversas tréguas. Segundo Philippe Woolf, esse conflito, representa-se como a “fase mais dramática dos intermináveis conflitos anglo-franceses da Idade Média”. A Guerra dos Cem Anos foi a última guerra do sistema feudal, tornando-se assim, a primeira guerra moderna. Além da disputa pelo trono francês, esse período foi marcado pela “Peste-negra”, que assolou grande parte da Europa. A Peste Negra, foi uma epidemia, que assolou a Europa, causando a morte de milhares de pessoas. Essa epidemia, durou cerca de seis anos, correspondendo o período de 1347 a 1353. O surto de peste bubônica atingiu todo o continente europeu. Essa epidemia teve sua origem na Ásia Central e se alastrou, quando um navio contaminado atracou no porto da Criméia. Essa peste se espalhou por uma Europa, que se encontrava nos rastros de uma guerra, enfraquecida pela desnutrição que a sociedade se encontrava após as fortes chuvas, causando uma sequência de más colheitas. O caos social gerado por essa enfermidade, não gerava distinção social, uma vez, que, todos tornavam-se vulneráveis aos efeitos causados por essa doença. Uma vez que a sua causa, prevenção, tratamento e cura eram desconhecidos. Sobre o que se refere a peste-negra, a narrativa de Decamerão constitui-se em um verdadeiro documento acerca da praga da peste-negra que devastou o continente europeu. O autor relata a doença (suas manifestações, sintomas e evolução), como também a forma com as pessoas encaravam a morte e a ineficácia da medicina e da religião católica predominante naquele período. Desse modo, houve uma necessidade de reorganização político e social, pois, além da guerra e dos danos causados por ela, ainda houve a devastação causada pela peste. Destarte, para haver uma consolidação, os monarcas do antigo regime, careciam de apoio político e financeiro, para consolidar as suas pretensões de expansão territorial, por meio da apropriação das colônias. Encontrando esse custeio através da burguesia. O antigo regime era constituído por três camadas principais: o clero, a nobreza e a burguesia. ● Clero, chamado Primeiro Estado, era constituído por: bispos, padres, monges, frades e abades. Representando cerca de 1% da sociedade, mesmo possuindo uma pequena porcentagem da população, esse grupo, possuía grande força, política e econômica. ● Nobreza, conhecida como o Segundo Estado, era constituída pelos nobres que faziam parte da família real, ou daqueles que possuíam o título através da compra. Correspondendo acerca de 2% da população. 27 ● Burguesia, ou o Terceiro Estado, era composta por: trabalhadores do campo, comerciantes e profissionais liberais ou sans culotes. Essa camada correspondia a 97% da população. Figura 11: Pirâmide social. Fonte: Zaranza (2011) Por meio dessa separação social ocorria também a divisão no pagamento de impostos e do papel desenvolvido perante a sociedade. O clero e a nobreza eram isentos de impostos e apenas a camada ocupada pela burguesia desempenhava esse papel. O Primeiro Estado, controlado pelo clero, possuía não só o controle religioso, como também, respondiam pelos orfanatos, hospitais, maternidades e instituições de ensino, dessa forma, nada passava fora do controle exercido pela Igreja Católica. Essa influência da Igreja, também se fazia presente, junto ao rei, onde seus conselheiros, desempenhavam funções dentro da Igreja. Os monarcas tinham os líderes religiosos como seus mentores espirituais e estavam sempre cercados dos altos escalões da Igreja Católica, como os cardeais, bispos e arcebispos. Além de conselhos espirituais, os monarcas aproveitavam-se para ficar cientes de que planos políticos que a Igreja possuía para a sociedade. O clero era dividido pelo alto e baixo claro. Sendo o alto clero constituído pelos cardeais, abades, bispos e arcebispos, que atuavam como conselheiros real e era detentores de propriedades de terra e imóveis. E o baixo clero, formado por monges e padres, que atuavam nas pequenas cidades e zonas rurais, esses, não possuíam terras e bens. Por ser isenta de pagar impostos, a Igreja Católica, conseguia acumular riquezas e possuir diversos bens. Se de um lado tínhamos uma Igreja presente e influente no que se refere a todas as especificidades da sociedade, do outro, temos o rei, que se beneficiava das cerimônias religiosas, para reiterar o seu papel como representante de Deus na terra, valendo-se disso, para interferir nos assuntos eclesiásticos, fazendo sobressair-se mais uma vez, a sua vontade. 28 O Segundo Estado era formado pela nobreza, ou seja, pelas pessoas que possuíam títulos e que ocupavam cargos junto ao governo. Essa camada pode ser dividida em dois grupos: a toga, composta pelos burgueses que possuíam títulos comprados da coroa, e o provincial, composto pelos nobres proprietários de terra. Os nobres exaltavam luxos e ocupavam cargos importantes no governo, mas, para que não viessem a criar rivalidades, mediante o poder exercido pelo rei, esse grupo passou a residir em Versalhes, na corte francesa, mantendo assim uma distância segura, mas, próximo aos olhos e poder do soberano. A divisão da nobreza também era realizada conforme a antiguidade do título recebido, pois, muitos de seus membros, possuíam títulos conquistados durantes as cruzadas. Nesse grupo também haviam os burgueses, que conquistaram essa condição por meio do casamento com nobres que estavam com baixas condições financeiras, ou através da compra de títulos. Como ocorria com o clero, esse grupo que correspondia a cerca de 2% da sociedade eram isentos dopagamento de impostos, e possuíam cargos junto ao governo francês. Entretanto, como o passar dos anos, a influência política exercida por esse grupo, passa a perder a força, como vem a ocorrer posteriormente com os membros do clero, com a ascensão do Iluminismo. Ao que se refere ao Terceiro Estado esse era composto pelo grupo que não se enquadrava nos requisitos de nobreza e que não faziam parte da Igreja Católica. O terceiro estado era composto por pessoas comuns, cerca de 97% da população, sendo esses os responsáveis pelo sustento da sociedade. Em sua composição estavam os burgueses, profissionais liberais, comerciantes e camponeses, que atuavam como os serviçais dos nobres da época. Recaia sobre eles a obrigação de realizar o pagamento dos impostos, ao qual, os membros do primeiros e segunda estado eram isentos. Uma tributação alta, fazia a manutenção dos três estados. Apesar de ser o único dos três grupos a realizar o pagamento de impostos, esses eram mal remunerados em suas obrigações e basicamente, não possuíam direitos, enfrentavam dificuldades para realizar a manutenção das condições mínimas para a sobrevivência, como a alimentação e vestuário. Cientes da constituição e divisão existente no Antigo Regime, podemos concluir que, esse, possuía um caráter estamental constituído pelo segmento de três pilares regimentais, atuando como uma forma de governo absolutista, que posteriormente, passa a vivenciar um caráter mercantilista e pôr fim a formação de uma sociedade estamental, como salientaremos a frente. 29 Absolutismo Quando falamos em absolutismo, logo, remetemos a um modelo de governo monarquista, no qual, o poder é centralizado nas mãos do monarca. Associamos diretamente a figura de Luís XIV, o “Rei Sol”, popularmente conhecido nos livros didáticos de história. Luís XVI, teve o reinado mais longo da história francesa. Reinando desde os 5 anos. O seu reinado durou por cerca de 72 anos, marcado pela centralização da monarquia e pela prosperidade econômica francesa. Por agir para que todas as coisas girassem em torno de si, segundo a sua vontade, conforme a frase icônica que o representa em grande maioria dos relatos acerca do seu reinado, “O Estado sou eu”, Luís XVI foi chamado de “O Rei Sol”. Nascido em 5 de setembro de 1638, filho do rei Luís XIII, com a rainha Ana da Áustria. O rei Sol, foi o primeiro filho do rei Luís XIII, que ansiava por um herdeiro a mais de dez anos. Luís XIV abriu assim, a descendência da sua família. Aos 5 anos de idade o seu pai vem a falecer e assim, Luís é consagrado como rei da França. Enquanto não completa a maior idade, para que venha a assumir as obrigações reais, a rainha assume a regência do país, junto com o ministro Jules Mazarin. A maior idade foi declarada a Luís, aos 13 anos e assim, pôde assumir o seu papel, como de fato, rei da França. Por muitos anos, o seu reinado foi marcado pela influência da sua mãe e do cardeal Mazarin, que atuava como seu ministro. Com a morte do religioso, Luís XIV, livrou-se do poder exercido pela sua mãe e declarou que a partir dali, governaria o país com apenas alguns ministros. Essa ação fez com que o seu reinado fosse marcado por um poder político centralizado. O famoso palácio de Versalhes foi construído durante o seu reinado e é uma das heranças deixadas por ele para a França. Esse palácio foi construído e utilizado para a corte girar em torno do rei. Muitos de seus membros residiam no palácio ou em seus arreadores para participar das cerimônias que ocorriam em favor do soberano. Figura 12: Palácio de Versalhes. Fonte: curiosfera 30 Luís XIV, por ter recebido um programa educacional composto de aulas acerca de religião, línguas, geometria, história, esgrima, equitação e dança, tornou-se um admirador das artes. O monarca beneficiou a França com diversas academias cientificas, como: Academia de Pintura e Escultura, no ano de 1666 foi aberta academia de ciências, em 1669 a de Música e em 1671 a academia de Arquitetura. No palácio de Versalhes também existia um jardim botânico, no qual, acomodava plantas oriundas de todo o mundo. A indústria do luxo, o poder centralizado, o palácio de Versalhes e as fronteiras existentes desde meados do século XVII e que até então basicamente não sofreram mudanças, fazem parte do legado deixado por Luís XIV para a França. Todas essas ações praticadas por ele, durante o seu reinado, configuram o regime absolutista implementado. Através do qual, não havia necessidade de realizar uma prestação de contas, pois, o seu reinado, havia sido designado por Deus, e por meio dessa concepção, acreditou-se que o tornar um grande rei, também faria com que a França fosse um grande país. Seu reinado teve fim, em setembro de 1715 com a sua morte, e a sua sucessão foi realizada pelo seu bisneto, que veio adotar o nome de Luís XV. Essa sucessão foi antecedida por um conflito que perdurou por cerca de treze anos (1701-1714). Ainda que, o poder exercido pelo monarca tenha consolidado o poder francês na Europa, a vida luxuosa e os gostos ocorridos em consequência da guerra, fizeram com que o seu sucessor assumisse uma França a beira da falência. Mas, afinal, o que fora um Regime Absolutista? Diante das informações acima é possível vislumbrarmos brevemente o que foi esse modelo de governo. Dito isto, é possível entender que o absolutismo é fundamentado por um modelo de governo monarquista, no qual, o poder é centralizado nas mãos do monarca. Apesar da figura de Luís XIV, ser o retrato que melhor representa o que fora o regime absolutista, não podemos reduzir esse regime a uma única figura. Segundo Arruda, “O absolutismo nasceu com as monarquias nacionais, no início dos Tempos Modernos (século XVI) e atingiu o auge no século XVII, com Luís XVI, da França” (ARRUDA, 1974, p. 61). O representante da nação, “exercia de fato o poder: baixava leis, organizava a justiça, arrendava a cobrança de impostos, mantinha o exército, nomeava funcionários, tudo em nome do estado que representava.” (ARRUDA, 1974, p. 61-62). O sentimento de amor à pátria, oriundo da guerra, com o rei como responsável pela defesa do povo, faz com que ele se torne uma figura cativante para o povo. “O aumento do poder do rei consequência de uma necessidade social” (ARRUDA, 1974, p70). Assim como no iluminismo, existiram intelectuais, que ficaram conhecidos, como teóricos do absolutismo, que também escreveram sobre o novo regime político que estava sendo concebido, dentro desse contexto, podemos destacar alguns intelectuais como: 31 Figura 13: Nicolau Maquiavel Fonte: nationalgeographic. Nicolau Maquiavel, filosofo político, autor da obra “O príncipe”, nascido em 03 de maio de 1469. Defendia que o Estado, poderia utilizar de qualquer artifício, para dá continuidade à sua permanência no trono. Ele se afasta da corrente religiosa e defende que política deve está diretamente ligada ao racional. Figura 14: Thomas Hobbes Fonte: Ebiografia Thomas Hobbes, teórico político e filosofo francês, nascido em 13 de abril de 1588, defendia que para o homem sair do estado de barbárie, deveriam se reunir e eleger um líder e esse, por sua vez, teria como obrigação estabelecer e manter a paz e garantir a prosperidade. Figura 15: Jean Bodin Fonte: Ebiografia 32 Jean Bodin, jurista e teórico político, nascido na França em 1530, associava o Estado, a família, onde a figura do rei, atua como autoridade máxima, assim como um chefe da família, entretanto, por sua vez, seu dever é proteger e prover. Figura 16: Jacques-Bénigne Boussuet Fonte: Ebiografia. Jacques-Bénigne Boussuet, bispo e teólogo francês, nascido em 27 de setembro de 1627, partia do pressuposto que o rei estava ligado diretamente ao divino, partindo da crença, que o poder era dado por essa entidade ao homem, sendo seu poder igualitário ao poder de Deus. A disputa comercial e a concorrência pelos mercados coloniais, aflorouas rivalidades e colaborou para a consolidação do poder real. Destarte, “as monarquias absolutistas, introduziram exércitos regulares, uma burocracia permanente, o sistema tributário nacional, a codificação do direito e os primórdios de um mercado unificado” (ANDERSON, 1998, P17.). O absolutismo, também estabeleceu, uma burocracia, capaz de auxiliar o Estado, isso significa, que a principal célula do governo, poderia estabelecer padrões monetários e fiscais, que deveriam ser incorporados, obrigatoriamente por todos, deixando assim, as antigas unidades de peso e medidas, oriundas do feudalismo, como “vara e onça”, sendo substituídos, por “quilo e metro”. Os principais reinos, nos quais o regime absolutista vigorou, foram França. Espanha e Inglaterra. Entretanto, com a propagação das vertentes iluministas e com a Revolução Francesa, os princípios que sustinham esse regime, culminaram com a derrocada desse sistema. 33 Mercantilismo O mercantilismo se refere a um conjunto de práticas econômicas utilizadas durante a Idade Moderna, pelos grupos absolutistas, durante o que podemos chamar de uma “transição do feudalismo para o capitalismo”. Esse modelo econômico foi colocado em prática entre o período que corresponde aos séculos XV à XVIII. Tendo como propósito, garantir o acumulo de riquezas para utiliza-las em prol do favorecimento do poder exercido pelo monarca. Carl Hanson destaca, quatro proposições que, no seu modo de entender, os mercantilistas, em geral, independentemente do período, do país e da sua forma de inserção social, em particular, reconheceriam: (1) a riqueza é um meio absolutamente essencial ao poder, seja para segurança, seja para agressão; (2) o poder é essencial ou valioso como meio de aquisição ou de retenção de riqueza; (3) a riqueza e o poder representam cada um dos limites básicos da política nacional; e (4) existe uma harmonia a longo prazo entre estes extremos, apesar de, em 4 circunstâncias particulares, poder ser necessário fazer sacrifícios econômicos no interesse da segurança militar e também da prosperidade a longo prazo (HANSON, 1986, p.129). Ao que se refere a expansão europeia, os espaços nos quais ocorreram a dominação colonial, o mercantilismo ou capitalismo comercial, atuavam de forma inseparável, não sendo possível, não os relacionar, no que concerne aos primeiros momentos que moldaram a economia moderna de mercado. Andando em paralelo com a derrocada do feudalismo, período que ficou conhecido como “renascimento cultural”, começou a questionar a razão que sempre era imposta pela igreja católica e a figura do próprio monarca, as moedas começaram a circular livremente nas feiras, e isso acabou se tornando um problema para o absolutismo e o antigo regime em paralelo, pois com o acúmulo de capital dentre entre os burgueses, consequentemente isso os daria mais poder para cada vez mais ir de encontro as classes mais elevadas como clero e nobreza, então viu rapidamente a necessidade de acumular cada vez mais riquezas, os metais preciosos começaram a valer cada vez mais. O mercantilismo concerne as práticas econômicas que prevalecem nos países europeus, o fortalecimento do Estado Nacional, era prática comum. Para Weber, Mercantilismo significa a incorporação pela política do interesse pelo lucro capitalista, passando o Estado a agir, especialmente em suas relações com o exterior – aonde gostaria de ver o seu poderio fortalecido – “como se estivesse única e exclusivamente integrado por empresários capitalistas”, tendo como princípio “comprar o mais barato possível e vender o mais caro que se pudesse” (WEBER, 1985, p. 163). Acerca do mercantilismo, nas características que moldaram esse regime, podemos destacar a busca por um equilíbrio comercial favorável aos seus interesses, o protecionismo, o desenvolvimento manufatureiro, e até mesmo a intervenção do Estado na economia. Tendo como base o comércio marítimo e a exploração colonial. Esse modelo, visava o crescimento econômico como forma de obter recursos, essas práticas foram concebidas por economistas, como Jean-Baptiste e Adam Smith. As expansões marítimas tiveram papel fundamental na propagação desse sistema econômico, as colonizações realizadas por parte de países como Portugal e Espanha, atuaram como agentes propagadores desse modelo econômico, que contou com o apoio dos reis e do financiamento da burguesia. https://www.sinonimos.com.br/reconheceriam/ 34 Um grande exemplo de sucesso nesse modelo com colônias de exploração, foi o Brasil, que foi ferozmente colonizado por Portugal, por volta de 1500, em uma expedição liderada pelo grande navegador Pedro Alvares Cabral, eram 13 embarcações, que transportavam em média 1500 homens, onde os navegantes acreditavam ter chegado nas índias, pois era o destino que eles tinham traçado ao sair de Portugal, porém, decorrente de ventos fortes e tempestades em alto mar, o caminho foi desviado para outro lugar, um continente desconhecido que ficou conhecido como “Novo mundo”. Após os primeiros contatos com os nativos, os portugueses logo perceberam que não se tratava das Índias, aonde eles iam em busca de especiarias e outros produtos de necessidade da coroa e da burguesia holandesa, se tratava de uma terra quase que nunca visitada por outras culturas, a não ser os seus nativos que ali já viviam. O povo que ficou postumamente conhecido como indígena, após estabelecer conexões. Os portugueses logo trataram de avisar a coroa o que haviam acabado de descobrir, foi então que a tão conhecida certidão de nascimento do Brasil foi escrita por Pêro Vaz de Caminha. Figura -17 Carta de Pêro Vaz de Caminha Fonte: digitarq Nesse momento Portugal também estava vendo as moedas cada vez mais sendo valorizadas e vendo a necessidade de ampliar suas riquezas, logo viu a oportunidade de tirar proveito e transformou o Brasil em sua colônia de exploração de onde conseguiu extrair metais preciosos, como também, por exemplo, o Pau Brasil, árvore que originou o nome do país. Foi dessas colônias que as principais potências europeias da época se beneficiaram e fortaleceram por um certo tempo o sistema mercantilista Europeu. É válido ressaltar que as práticas mercantilistas eram senso comum nos países europeus, mas essas não ocorriam da mesma forma em todas as nações. No que se refere as nações europeias, os seus ideais visavam o fortalecimento da economia. Os reis absolutistas uniram-se aos burgueses na busca por lucro, como pelos metais preciosos. Atuando diretamente na economia, com cobrança de impostos, unificação da moeda e regulação do mercado. Dessa forma, ocorria o enriquecimento das nações e de seus governantes e aliados, como também, o desenvolvimento do mercado. 35 Ao que se refere as características do mercantilismo podemos citar o chamado Colberismo, assim denominado, devido a Jean-Baptiste Colbert. O ideal era o desenvolvimento manufatureiro como meio de gerar riqueza, visando uma produção de qualidade, a fim de atrair o comércio estrangeiro. A balança comercial favorável, o metalismo, o protecionismo alfandegário e o incentivo às manufaturas, também foram características representadas através do mercantilismo. Figura 18: Mercantilismo. Fonte: Blog Enem O metalismo ou bulionismo, consiste no acúmulo de metais preciosos como forma de acumular riquezas, favorecido pela descoberta das grandes jazidas de ouro existentes na América, fortalecida pela crença do carecimento de um controle rigoroso sobre os fluxos monetários e comerciais, como um meio de coibir o escape desses matais do reino, através das importações. A balança comercial favorável, o protecionismo, a intervenção estatal e o incentivo às manufaturas, atuaram diretamente na defesa da necessidade de ampliação da importação, utilizando as taxas alfandegárias e o incentivo as manufaturas como uma forma de proteger a economia, mediante a intervenção do Estado como ferramenta que viesse a garantiros interesses comercias. Ao que se refere ao colonialismo e o mercantilismo, podemos citar que, Espanha e Portugal, utilizaram os países colonizados para melhorar a sua economia, através da exploração agrícola, para fomentar o comércio europeu. Essa ação foi fortemente ameaçada pelos potencias que cresciam nesse período, através de países como: Inglaterra, França e Holanda. Neste momento, os países colonizados só podiam comercializar para as nações colonizadoras, esse período da história fora conhecido como Pacto Colonial. O chamado “Pacto Colonial”, ou “Exclusivo Metropolitano”, trata-se de uma medida administrativas empregada pelo Mercantilismo, ou seja, o sistema econômico assumido pelos modernos Estados Europeus, entre os séculos XVI e XVIII. 36 O pacto colonial favoreceu todas as vertentes do mercantilismo, através das colônias de exploração realizada pelos países europeus, favorecendo a sua base econômica, através do comércio, que pode ser abastecido, por meio da grande extração de matéria-prima e metais preciosos vindos do “Novo Mundo”. O declínio do pacto colonial ocorreu apenas após surgimento de outro modelo econômico da modernidade, ou seja, o capitalismo. Após essa transição, por meio do desenvolvimento industrial, em meados do século XVIII, ocorreu a mudança que de fato transformou a relação existente entre os colonizadores e suas colônias, que passaram a ser independentes, por meio de revoltas e guerras políticas. A base filosófica iluminista serve de inspiração para as mudanças ocorridas no modelo econômico desse período, seus ideais influenciaram todos os movimentos revolucionários ocorridos nesse período, essa influência culminou no desmoronamento do Antigo Regime, associado as aspirações da burguesia em ascensão. Um dos principais teóricos do iluminismo, que foi responsável pela queda do absolutismo e consequentemente do mercantilismo, foi Voltaire, onde, defendia que o poder exercido pela monarquia deveria ser limitado, uma vez que, com base na sua filosofia, não partia do pressuposto que o monarca era ligado diretamente ao divino, como muitos teóricos dessa corrente, defendia a separação entre o divino e a razão, contestando também o poder exercido pela Igreja. Recomendo o presente vídeo que fornece uma síntese acerca da construção do Antigo Regime e dos pilares que o molda. https://www.youtube.com/watch?v=xsN60s72XBs https://www.youtube.com/watch?v=xsN60s72XBs 37 P R I N C I PA I S R E VO L U Ç Õ E S Revolução Inglesa Os eventos que antecederam a formação da estruturação do Estado Moderno foram essenciais para a sua configuração. Trataremos, aqui, acerca das três principais revoluções que moldaram esse período e a sua importância para a concepção do Estado Moderno. Segundo Ruy Ruben Ruschel, ao que se refere ao campo sociológico da revolução: Não são unânimes os sociólogos, como também os cientistas políticos, em bem caracterizar o que seja uma revolução. Uns dela têm um conceito mais largo, outros, mais restrito. Juntando-se os traços mais freqüentemente admitidos pelos estudiosos do assunto, poder- -se-ia dizer: “revolução é o processo de mudanças rápidas e profundas da estrutura de uma sociedade e de seu sistema de poder, geralmente acompanhadas de muita violência.” (RUSCHEL, 1997, p.59). Figura 19: Revolução Inglesa. Fonte: conhecimentocientifico A Revolução Inglesa foi considerada a pioneira das grandes revoluções. Ocorrida no século XVII. Podemos dizer que fora um dos principais acontecimentos da chamada Idade Moderna. Essa revolução, realizada através da liderança da burguesia, tomou força no campo econômico, ao longo dos séculos XVI e XVII e visavam alcançar legitimidade política. No que se refere a essa revolução ocorrida em 1640, ela resulta das arbitrariedades cometidas pelos reis das dinastias dos Tudor composta por: Henrique VII, Henrique VIII e Elizabeth I - sécs. XV - XVII e Stuart, composta por: Rei Jaime I, Carlos I, Carlos II, Jaime II, Guilherme - sécs. XVII - XVIII. 38 Através desse vídeo, podemos entender de forma simples, ao que se refere as dinastias Tudor, Stuart, Governo Cromwell, retorno da dinastia Stuart e Revolução Gloriosa. https://www.youtube.com/watch?v=roGZSpEe91c A burguesia inglesa, através da atuação do parlamento e também, por meio, de uma guerra civil, conseguiu extinguir o absolutismo desse país, reformulando, dessa forma, a estrutura política resultante no modelo da Monarquia Parlamentarista de 1688. O surgimento de uma consciência cívica, resultante do pensamento político do século XVII foi fundamental para as modificações políticas modernas. Essa alteração se deu em decorrência da consciência da dimensão pública na vida em sociedade. Essa consciência se deu por meio do entendimento de que existe uma ordem público e social e que essas pertencem a um espaço onde o compartilhamento dos propósitos e problemas, se reconhecem como centro da discussão política. Dessa forma, o aperfeiçoamento dessa consciência cívica vem por aprimorar o pensamento político dominante. Os conflitos, político, social e religiosos enfrentados pela Inglaterra durante esse período, foram, sem dúvidas, um dos fatores indispensáveis, no que se refere ao redirecionamento dos problemas políticos existentes. Por meio do enfraquecimento da autoridade política, como, também, por meio da guerra civil, é que o desenvolvimento de novas ações discursivas abriram margem para o surgimento dessa consciência cívica. Destarte, ao analisarmos essa revolução histórica ocorrida em 1640, é fundamental evidenciar a configuração dos exércitos que possibilitaram as campanhas militares. Christopher Hill, entende que: A Guerra Civil foi uma guerra de classe, em que o despotismo de Carlos I foi defendido por forças reacionárias da Igreja vigente e dos proprietários de terras conservadores. O Parlamento venceu o Rei porque pôde apelar para o apoio entusiástico das classes mercantis e industriais na cidade e no campo, para os pequenos proprietários rurais e a pequena nobreza progressiva e para massas mais vastas da população, sempre que, pela livre discussão, estas se tornavam capazes de compreender as causas reais da luta. (HILL, Christopher, 1955, p.12). Sabemos que diversos fatores podem influenciar no resultado de uma guerra, sejam elas as estratégias desenvolvidas, o armamento disponível, a quantidade de pessoas envolvidas diretamente no combate, posição geográfica, dentre outros a fatores, podem definir ou não o rumo de uma guerra. No que concerne a Revolução Inglesa de 1640, a estratégia desenvolvida pela luta de Classe e de Exército Parlamentar é segundo Christopher Hill: A explicação da revolução do século XVII mais comum, é a que foi apresentada pelos leaders do Parlamento em 1640, nas suas declarações de propaganda e apelos ao povo. E tem sido repetida desde aí, com pormenores e enfeites adicionais, pelos historiadores Whigs e liberais. Esta explicação diz que os exércitos parlamentares lutavam pela liberdade do indivíduo e pelos seus direitos, consagrados na lei, contra um Governo tirânico, que o lançava para a prisão sem processo jurídico, o tributava sem o seu consentimento, aquartelava soldados na sua casa, lhe saqueava os bens e procurava destruir as suas estimadas instituições parlamentares. Ora, tudo isto é https://www.youtube.com/watch?v=roGZSpEe91c 39 verdade, por agora. Os Stuarts procuravam realmente impedir o povo de se reunir e de participar de discussões, cortavam as orelhas dos que criticavam o governo, cobravam arbitrariamente as taxas, desiguais na sua incidência, tentaram fechar o Parlamento e nomear funcionários para governarem o país. Tudo isto é verdade; E, se bem que no século XVII o Parlamento fosse ainda menos genuinamente representativo do comum das pessoas do que é hoje, contudo a sua vitória era importante, na medida em que punha alguns limites aogoverno autônomo das classes mais ricas da sociedade. (HILL, 1955, p.13-14). O poder exercido pelo monarca, vinha a muito, perdendo força política e econômica na Inglaterra e nos territórios anexados. Essa ação ocorreu devido a um governo tirano, como centralizado, por meio do absolutismo real. Dessa forma, a baixa burguesia ansiava por uma maior participação, como, também vislumbrava uma ascensão social. Segundo Hill: Não obstante, produzia-se mais riqueza: a alternativa teria sido a estagnação econômica ou a retrogressão. A Espanha dos séculos XVIII e XIX mostra o que essa estagnação teria significado para a vida política e cultural da comunidade. A longo prazo, a criação de uma nova riqueza, com a ascensão do capitalismo em Inglaterra, abriu a possibilidade de uma distribuição mais equitativa em novos moldes, tal como os horrores da revolução industrial, no século XIX, criaram a base económica para uma transição para o socialismo. (HILL, 1955, p.9). Uma das estratégias utilizadas durante o período da Revolução Inglesa, por ambas as partes, fora a propaganda. Em sua obra, Christopher Hill, salienta o que foram essas revoluções, segundo ele: A explicação da revolução do século XVII mais comum, é a que foi apresentada pelos leaders do Parlamento em 1640, nas suas declarações de propaganda e apelos ao povo. E tem sido repetida desde aí, com pormenores e enfeites adicionais, pelos historiadores Whigs e Liberais. (HILL, Christopher, 1955, p.13). Norteados através da Teoria Marxista, o proletariado apresenta diversas artimanhas, no que concerne a luta de classes, com o intuito de obter a vitória, ou seja, nesse contexto, entendesse por vitória, a ascensão do comunismo e do socialismo. Dentro desse contexto, Marx afirma que a propaganda, é realizada como parte de uma estratégia ideológica. Sobre essa tática ideológica de desenvolvida pelas classes em conflitos, Karl Marx, entende que: No lugar da atividade social, aparece necessariamente sua atividade inventiva, pessoal; no lugar das condições históricas da libertação, apenas condições fantasiosas; no lugar da organização paulatina do proletariado até se constituir em classe, apenas a organização de uma sociedade inventada por eles. A história futura do mundo resume-se à pura propaganda e à execução prática de seus planos sociais. (MARX, Karl, 2008, p.61). Durante esse período de conflitos, além das estratégias, já citadas, foram utilizadas também, estratégias que usaram o campo astrológico. Além dos atentados terroristas realizados por parte dos milicianos, que também foram utilizados como estratégia durante esse período de impasses. Esses ataques coordenados, ficaram conhecidos como “A conspiração da pólvora”, tendo o rei Jaime I seus súditos da alta burguesia como alvos. 40 Essa guerra, travada entre o rei e o parlamento, teve o seu ápice por meios das manifestações populares, contra a conduta tirana exercida pelo rei. Este, por sua vez, por meio da utilização da força militar, desativou o parlamento e só vem a reativá-lo com o intuito de obter recursos, a fim de acabar com os conflitos ocorridos nas religiões escocesas. O regresso do Parlamento, é também marcado, pelo surgimento da figura de Oliver Cromwell, que foi a defender o parlamento contra as ações do rei Carlos I. Junto ao Parlamento, Cromwell, organizou as causas religiosas e as tributações. A figura de Oliver Cromwell, foi crucial para as ações que atuaram para a derrocada de Carlos I e com isso, o fim da Revolução Inglesa. Sobre esse momento, Sousa concluiu que: [...] A ação dos revolucionários foi liderada por um pequeno proprietário de terras puritano chamado Oliver Cromwell. Liderando o Exército de Novo Tipo, esse novo líder promoveu a organização de tropas organizadas por meio da incorporação de soldados que poderiam ascender militarmente graças ao bom desempenho de suas funções. Naquela região, onde sua figura era pouco apreciada, acabou sendo entregue às forças revolucionárias por meio da denúncia do próprio Parlamento escocês. Logo em seguida, Carlos I conseguiu fugir das mãos dos revolucionários, possibilitando uma rápida reorganização das tropas antirrevolucionárias. Entretanto, os realistas não conseguiram bater os exércitos revolucionários que conseguiram recapturar Carlos I. Em meio às agitações do processo revolucionário, o rei foi decapitado e a República foi proclamada na Inglaterra. Com isso, Oliver Cromwell chegou ao poder dando fim à hegemonia monárquica em solo britânico. A revolução puritana chegou ao seu fim, abrindo novas possibilidades políticas dentro da Inglaterra. (SOUSA, Rainer, 2014, p. 79). Destarte, é possível concluir que a Revolução Inglesa, ocorrida entre o período de 1640 a 1649, foi consequência do absolutismo de Carlos I, que mesmo em condições favoráveis acabou por ser derrotado, através das forças, da luta revolucionária, realizada pela baixa burguesia. Ocorrendo assim, em 31 de janeiro de 1649, a decapitação do rei, exigida pelo Parlamento, sendo essa, a primeira vez, que um monarca é decapitado em praça pública. Por meio da Revolução Inglesa, o poder do monarca foi restringido, mesmo com a preservação da monarquia. Os confrontos religiosos que influenciaram diretamente esse período foram cessados com a Declaração dos direitos de 1689, que garantiu aos ingleses a liberdade da crença, não sendo mais está imposta pelo rei e a economia pode garantir a consolidação do poder da burguesia. Foram criadas leis que beneficiam a burguesia e abrir margem para implementação das primeiras indústrias em território inglês. Resultando assim, na limitação do poder exercido pela realeza, uma vez que, a coroa não poderia mais interferir na economia, o livre mercado tornava-se, assim, uma realidade. 41 Revolução Industrial A Revolução Industrial trata-se de um processo de transformações econômicas e sociais ocorridas na Inglaterra no século XVIII. Nesse contexto, esta não deve ser reduzida apenas as inovações técnicas, maquinários e novos mecanismos de produção, mas, deve ser levado em consideração toda a alteração estrutural sobre a sociedade, a substituição das ferramentas de trabalho pelas máquinas em um processo que consolidou o capitalismo como modelo dominante. O surgimento da produção em larga escala foi o ponto de partida para as mudanças ocorridas nos países da Europa e da América do Norte. Transformando essas nações em hegemonicamente industriais, provocando, assim, o êxodo rural, causando uma concentração crescente nas grandes cidades. Desse modo, a revolução industrial, é comumente caracterizada, como o período em que ocorreu a transição das ferramentas pelas máquinas, do trabalho humano, pelo motriz e a da produção artesanal, pela fabril. Figura 20: Revolução Industrial. Fonte: gestaoeducacional Esse processo revolucionário foi o responsável pela consolidação do trabalho assalariado, a separação entre o trabalho e o capital, o controle exercido pela burguesia capitalista e a constituição de uma nova classe social, o proletariado. Podemos encontrar as raízes da revolução industrial, entre os séculos XVI e XVII, através do mercantilismo, empregado pelas monarquias absolutistas, que possuíam grandes imprescindibilidades monetárias, em virtude da manutenção dos exércitos, e em função dos conflitos bélicos, dentro da Europa, como também, dentro das suas colônias. A Revolução Industrial foi, portanto, consequência de um processo histórico- cultural. Marcado pela transição da mão de obra animal, humana e hidráulica, para uma energia motriz, por meio da produção social, foi também, o ápice de uma extensa transformação econômica, social e tecnológica, que vinha operando desde a Baixa Idade Média. Para que essa pudesse ocorrer, eram necessários que três cenários ocorressem: 1) Uma renovação técnica do aparato de produção; 2) Um incremento do capital líquido monetário e físico; 3) Uma oferta maiorde trabalho. 42 Segundo Hobsbawm, nenhuma outra sociedade havia sido capaz, até então, de transpassar a barreira que uma estrutura social pré-industrial, uma tecnologia e uma ciência deficientes, a fome e a morte periódicas, impunham à produção. Desse modo resume a percepção e a relevância das transformações que ocorreram na Inglaterra a partir do século XVIII: A Revolução Industrial assinala a mais radical transformação da vida humana já registrada em documentos. Durante um breve período ela coincidiu com a história de um único país, a Grã-Bretanha. Assim, toda uma economia mundial foi edificada com base na Grã-Bretanha, ou antes, em torno desse país. Houve um momento na história do mundo em que a Grã-Bretanha podia ser descrita como sua única oficina mecânica, seu único importador e exportador em grande escala, seu único transportador, seu único país imperialista e quase que seu único investidor estrangeiro; e, por esse motivo, sua única potência naval e o único país que possuía uma verdadeira política mundial. Grande parte desse monopólio devia-se simplesmente à solidão do pioneiro, soberano de tudo quanto se ocupa por causa da ausência de outros ocupantes”. (HOBSBAWN, Eric, 1983, p. 9). Essa transformação na vida humana, originou o trabalhador “livre”, dispondo apenas da sua força de trabalho, a qual torna-se obrigado a vender, em troca de trabalho, para garantir um salário, para prover a sua subsistência e da sua família. Em detrimento da pobreza, em decorrência dos cercamentos e da falta de empregos, uma grande massa, passou a vagar pelas ruas e paróquias em busca de auxílio, uma vez que por meio das leis inglesas, é de responsabilidade das paróquias o amparo aos pobres, esse amparo, acarreta o aumento da acumulação de impostos necessários para mantê-los. Com o crescimento da miséria, houve uma revisão na legislação dos pobres de 1601. Essa legislação, tornou-se cada vez mais coercitiva, todo aquele indivíduo que não possuísse trabalho ou ocupação poderia ser preso, ou até mesmo chicoteado. Em caso de furtos, mesmo que com o intuito de alimentar-se, esse poderia ter a mão decepada, marcada a ferro, ou até mesmo ser enforcado. As paroquias valeram-se da Lei do Domicílio (1662) que determinava que todo indivíduo que mudasse de paróquia pode ria ser expulso, privando, assim, o cidadão da liberdade de locomoção, essa ação favoreceu a exploração realizada pelos grandes proprietários, que exploravam ao máximo os camponeses das suas paróquias, ou das paróquias próximas. A consolidação das grandes propriedades, fez com que muitos camponeses, ficassem desprovidos de trabalhos e sem ligação a nenhum senhor, tornando-os assim, uma mão de obra individual. Essa ação favoreceu os grandes empresários, que ofertaram grande cargas de trabalho, péssimas condições de trabalho, baixa remuneração com o intuito de acentuar a mais-valia, investindo na produção, garantindo assim, uma crescente dos lucros. Em contrapartida, os trabalhadores tinham carga horária que ultrapassava 15 horas diárias, sem direito a férias ou descanso, até mesmo nos domingos. Nesse cenário de trabalho, encontravam-se homens, mulheres e crianças, que exerciam essas funções e possuíam as mesmas péssimas condições de trabalho. A entrada e saída nas fábricas ocorria mediante o toque dos sinos, que em algumas cidades, começavam por volta das quatro e meia da manhã. Dentro das fábricas, o operário exercia, basicamente, as mesmas atividades, no mesmo ritmo das máquinas, sempre sobre a supervisão de um contramestre, que realizava constantes ameaças 43 de cobrança de multa ou até mesmo de demissão por erros cometidos, por menor que esses sejam. Em decorrência das péssimas condições de trabalho, baixa remuneração e ausência dos direitos como férias e descanso, os trabalhadores passaram então a se associar a sindicatos e organizações trabalhistas, a fim de reivindicar melhores salários e diminuição da carga horária. A Revolução Industrial, que traria o triunfo do capitalismo, teve o seu início, portanto, na Inglaterra do século XVIII, alastrando-se, no século seguinte, por grande parte da Europa continental. Para Fernand Braudel, isso se deu devido à superioridade de suas instituições (as bolsas e as diversas formas de crédito, que facilitaram o desenvolvimento do capital comercial). Ainda ao que se refere aos ingleses, é possível adicionar o pioneirismo na constituição do Estado Moderno, que não realizou uma extorsão diretas dos súditos, por meio da força, mas que o fez, através da tributação definida pelas leis e costumes, regulamentando assim os impostos, dando dessa forma segurança aos capitalistas. Dentro desse contexto, podemos salientar, algumas vantagens da Inglaterra, que corroboraram, para o advento da revolução industrial em seu território: 1. Vasta disponibilidade de mão de obra para indústrias estarem sendo criadas; 2. A Revolução Gloriosa de 1689, que consentiu a supremacia do Parlamento sobre a monarquia, significando assim, o fim do absolutismo, e consentido a burguesia uma maior participação das decisões; 3. Disponibilidade de matéria-prima, uma vez que a Inglaterra, possuía livre acesso às matérias-primas consideradas primordiais para seu desenvolvimento industrial; 4. Sua formação geográfica que lhe proporcionava facilidades naturais para estabelecer um sistema de transportes eficientes que propiciava o escoamento da produção para seus portos; 5. Dispor da maior e mais forte força marítima do período, proporcionando assim o controle do comércio marítimo; 6. Controle de um grande império colonial, que lhe servia como mercado consumidor e fornecedor de matéria-prima. A Revolução Industrial foi compreendida, inicialmente, como uma alteração social e econômica do mundo medieval. Partindo do pressuposto, que essa teria sido a substituição do mercantilismo pelo princípio de laissez-faire (expressão francesa que significa “deixe fazer”, que foi utilizada para identificar um modelo político e econômico de não-intervenção estatal.), posteriormente, foi relacionada as relações já existentes entre as sociedades, desde o século XIV, sendo a revolução o auge de movimentos já iniciados, não a concepção de algo novo. Essa revolução foi dividida pelos historiadores em três períodos: O primeiro período que correspondeu a Primeira Revolução Industrial, ocorrida em meados de 1760 a 1860. Tendo seu início a partir da indústria têxtil com o uso do tear mecânico. 44 Figura 21: Tear mecânico. Fonte: invencoesseculoxix A segunda etapa ocorreu no período de 1860 a 1900, diferentemente da primeira que ficou limitada a Inglaterra, nessa nova etapa, países como Alemanha, França, Rússia e Itália também se industrializaram. Esse período foi marcado uso do aço, energia elétrica, invenção do motor, uso de combustíveis derivados do petróleo, desenvolvimento de produtos químicos e locomotiva a vapor, foram inovações que marcaram esse período. Figura 22: Locomotiva a vapor. Fonte: história em cartaz Para alguns historiadores, a terceira etapa da Revolução Industrial iniciou em meados do século XX, por volta de 1950, com o desenvolvimento da eletrônica. Esta permitiu o desenvolvimento da informática e a automação das indústrias. Figura 23: Tecnologia Fonte: infobae Destarte, a Revolução Industrial, refere-se, portanto, ao conjunto de inovações tecnológicas e econômicas que ocorreram na Inglaterra no século XVIII e que se estende até os dias atuais. 45 Revolução Francesa Ocorrida em junho de 1789, a Revolução Francesa, foi um marco revolucionário, inspirado pelos ideais iluministas. Provocada pela crise que a França enfrentava no final do século XVIII. Marcada pelo início da derrocada do absolutismo na Europa e pelas profundas transformações ocorridas em todos os âmbitos da sociedade. Impulsionada pela burguesia e pela participação das pessoas que se encontravam em situação de miséria, como também,pelos camponeses. Para Hobsbawn, “nos sessenta anos históricos entre 1789 – quando Luís XVI ainda reinava – e 1848 – quando Marx e Engels elaboravam o Manifesto Comunista – uma dupla revolução se realizava na Europa, causando a maior transformação social que o mundo conheceu desde a antiguidade”. Seu estopim se deu em 14 de junho de 1789, a partir da queda da Bastilha. A população se armava. A pobreza e a fome faziam-se presentes em Paris, e os franceses mais necessitados já incendiavam as barreiras da cidade em que se cobrava imposto sobre os alimentos. Aqueles movimentados dias eram uma prévia de um fato marcante que viria a ocorrer e que seria considerado um dos mais importantes da história francesa. Em 14 de julho de 1789, manifestantes em armas realizavam a tomada da prisão política da Bastilha, fortaleza vista como símbolo do absolutismo, apesar de quase não ser mais utilizada em 1789. O episódio passou a ser chamado de Segunda Jornada Revolucionária. A importância desse acontecimento reside no fato de que, a partir desse momento, o movimento contaria também com a presença das massas trabalhadoras. Data oficialmente desse dia o início da Revolução Francesa”. (Costa e Mello, 2008, p. 331). A França do século XVIII, possuía ainda uma estrutura social baseada no feudalismo, embora as finanças, o comércio e a indústria estivessem sobre o controle da burguesia, o poder político concentrava-se no rei e em seus ministros, monopolizando, assim, os altos cargos e gozando de privilégios que não eram alcançados pelas burguesias e demais membros da população. Dessa forma, para a burguesia e também para alguns membros da nobreza, era fundamental, acabar com o poder absoluto exercido pelo monarca. A burguesia crescia em número, em poder econômico, em participação política e, principalmente, em consciência de si mesma como classe social. Isso explica a difusão das teorias iluministas, enfraquecendo os fundamentos ideológicos justificadores da ordem estabelecida e afirmando, ao mesmo tempo, os novos valores burgueses. Classe em ascensão, acreditando no progresso, a burguesia julgava-se representante do interesse geral da população, exercendo, por suas propostas transformadoras, forte atração sobre as camadas populares. Contudo, os burgueses pretendiam também inverter uma ordem na organização da sociedade, de forma a legitimar sua própria tomada do poder. (Costa e Mello, 2008, p. 327). Enquanto a França vivenciava esse momento, na Inglaterra, sua rival, a Revolução Industrial, começava a dar os seus primeiros passos. Esse pioneirismo inglês, aflorou, também, o anseio por mudanças e desenvolvimento, por parte dos franceses. A burguesia, consumida pela aspiração do desenvolvimento industrial do país, visava extinguir as barreiras que coibiam o comércio internacional. Destarte, segundo os burgueses, era necessário que a França adotasse o liberalismo econômico. Os burgueses reivindicavam, também, os seus direitos políticos, uma vez que, como já salientamos anteriormente, era ela quem supria o Estado, visto que, a nobreza e o clero, eram isentos do pagamento de impostos. Embora fosse economicamente falando, a classe dominante, sua posição nos âmbitos jurídico e político, era limitada. 46 A Revolução Francesa, usada para assinalar o início da história contemporânea, pode, a rigor, ser dividida em três fases. A inicial inspirasse no parlamentarismo inglês: as camadas mais altas da burguesia francesa, que elegeram seus representantes para os Estados Gerais, aliadas a um setor da nobreza, pedem apenas algumas reformas. A segunda fase se inicia com a tomada da Bastilha. Como a monarquia não quis fazer qualquer concessão, a plebe de Paris toma a iniciativa: amotina-se e termina por trazer o rei virtualmente prisioneiro a Paris. A intervenção da plebe insurreta intimida os nobres e setores superiores da classe média, mas encoraja os inferiores. Serão estes – no momento em que o rei for socorrido pelos outros soberanos europeus – que proclamarão a República. Estava inaugurada a fase da ditadura jacobina, que culminaria em 1793 com o período conhecido como o Terror.” (Grandes Personagens da História Universal, vol. IV, 1972, p. 775). Os ideais iluministas, desenvolvidos por Voltaire, Rousseau, Diderot, Montesquieu e Adam Smith, foram imprescindíveis para esse movimento revolucionário. O Iluminismo propagou-se entre os burgueses e estimulou o início da Revolução Francesa. Esse movimento realiza críticas severas às práticas econômicas mercantilistas, aos privilégios ofertados, ao clero, a nobreza e sobretudo ao absolutismo. A Revolução Francesa fez-se contra o despotismo, contra os privilégios em nome da liberdade e da igualdade. Ora, no século XVIII, a Europa inteira é vítima do despotismo e dos privilégios. A Revolução é, portanto, susceptível de ser imitada em qualquer parte. É o que faz dela um acontecimento capital da história universal (Nicolle, 1963, p. 119). A situação econômica que a França se encontrava, no que antecedeu a revolução de 1789, na qual, havia um clamor por reformas, desencadeou uma crise política, agravada quando, por sugestão dos ministros, foi levantada a hipótese de ocorrer a cobrança de impostos para o clero e para a nobreza. Gerando, assim, uma pressão sobre o monarca, que se viu obrigado a convocar uma assembleia entre os três Estados. Conforme salientamos anteriormente, a sociedade francesa era dividida em três estamentos, compostos por clero, nobreza e burguesia/camponeses e sans culotes. O terceiro Estado, composto por cerca de 97% da população, pressionava que as votações das leis ocorressem individualmente e não por Estados, uma vez que, mesmo representando um menor número, o clero e a nobreza, possuíam interesses em comum, como a manutenção dos seus privilégios, fazendo com que assim, o terceiro Estado não conseguisse passar normas que viesse a lhes favorecer. Mesmo com essa pressão ocorreu a recusa por parte do primeiro e do segundo Estado e as votações continuaram a ocorrer com a mesma configuração, ou seja, voto por Estado. Em 26 de agosto de 1789 foi aprovada pela Assembleia a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Os representantes do povo francês, constituídos em Assembleia nacional, considerando que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as causas únicas das infelicidades e públicas e da corrupção dos governos, resolvem expor, numa declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, constantemente presente a todos os membros do corpo social, lhes lembre sem cessar seus direitos e seus deveres, a fim de que os atos do poder legislativo e os do poder executivo, podendo ser a cada instante comparados com a meta de toda instituição política, sejam mais respeitados, a fim de que as reclamações dos cidadãos, fundadas de agora em diante sobre princípios simples e incontestáveis, se destinem sempre à manutenção da constituição e à felicidade de todos. (Mattoso, 1977, p. 14). 47 Figura 24 – Lema da Revolução Francesa: Fonte: infobae Esta Declaração assegurava os princípios da liberdade, da igualdade, da fraternidade (“Liberté, égalité, fraternité” - lema da Revolução), além do direito à propriedade. O rei Luís XVI recusa aprovação dessa Declaração acarreta novas manifestações populares. Os bens do clero foram confiscados e muitos padres e nobres fugiram para outros países, essas ações culminaram em uma grande instabilidade na França, de modo que, a Constituição só ficou pronta em setembro de 1791. Sobre essa Constituição, podemos destacar que: 1. Houve a transformação do governo em uma monarquia constitucional; 2. O rei responderia pelo poder executivo, sendo limitado através do legislativo instituído pela Assembleia; 3. Instituição do voto censitário, ou seja, seria necessário possuir uma renda mínima, para possuir direito ao voto; 4. Ocorreu a conservação da escravidão nas colônias;5. Revogação dos privilégios e as antigas ordens sociais. Entre o período de 1792 e 1795 a Assembleia legislativa foi substituída pela Convenção Nacional, que aboliu monarquia e implantou a República. Com essa ação os jacobinos tornaram-se maioria no parlamento, com isso, o rei Luís XVI foi julgado, sentenciado e acuado de traição, sendo condenado à morte por guilhotina e executado em janeiro de 1793. A rainha Maria Antonieta foi sentenciada meses depois ao mesmo destino. Nesse período de dez anos que correspondeu a Revolução Francesa, 1789-1799, as modificações ocorridas na França, nos âmbitos social, político e econômico, foram profundas. Os vínculos com o feudalismo foram rompidos, retirando assim da burguesia a limitação existente, gerando assim um mercado com extensão nacional. A Revolução Francesa fez com que a França saltasse do estágio feudal para o capitalista e mostrou que a população era capaz de condenar um rei. Ocorrendo também a separação dos poderes e a Constituição, ficando assim um legado para as várias nações do mundo. 48 De modo geral, pode-se afirmar que as principais contribuições da Revolução Francesa para o mundo, incluindo o período napoleônico, foram: 1. Sociais – liquidação do que restava do feudalismo, reconhecimento da igualdade de direitos perante a lei, afirmação do direito das minorias. 2. Econômicas – abolição dos privilégios das corporações no exercício do comércio; anulação dos monopólios comerciais concedidos pelo Estado, que tinham sido a base da revolução comercial no século anterior. 3. Políticas – destruição da teoria do direito divino dos governantes. Na França foi tentada a primeira experiência de governo democrático, com sufrágio popular, liberdade de palavra, imprensa e reunião. 4. Religiosas – tolerância para todos os cultos e separação entre Estado e Igreja. 5. Culturais – instrução pública reconhecida como obrigação do Estado. O estabelecimento de uma ampla rede educacional – do ensino primário à organização de universidades e institutos estatais de pesquisa – criou o sistema de educação em massa, básico para que a Revolução Industrial pudesse depois progredir. Esse elenco faz perceber que a Revolução Francesa criou os fundamentos da moderna sociedade civil”. (Ibidem) 49 C O N S I D E R AÇ Õ E S F I N A I S No presente estudo podemos vislumbrar o desenho que ocorreu desde o fim da chamada “Era das Trevas”, ou seja, como a Idade Média ficou popularmente conhecida, a entrada a “Era das Luzes”, nomenclatura utilizada inspirada no Iluminismo, que moldou, instruiu e foi ferramenta de mudanças e rupturas ocorridas durante esse período. Através desse estudo podemos entender a concepção da História Moderna, com base nos acontecimentos que marcaram e moldaram esse período, por meio do pensamento ideológico, ruptura com a religião, transição do feudalismo para o capitalismo e a porta de entrada para a modernidade e suas revoluções. E por fim a construção do que foi o Estado Moderno, que desencadeou e foi berço para tantas mudanças ocorridas em nosso meio social, passeamos por um período, que por mais que se distancie da nossa realidade atual, tanto nos acrescenta e nos ensina sobre a construção que possuímos hoje. Espero que vocês tenham gostado da nossa disciplina e que possamos nos encontrar em breve. 50 B I B L I O G R A F I A ADAM SMITH: Liberalismo Econômico. http://economista.hpg.com.br/Geral/4/interna_hpg2.html . Acesso em 12/03/2007. ANDERSON, Perry. Linhagem do Estado Absolutista. 3. ed. 1ª reimpressão. São Paulo: Brasiliense. 1998. APOLINÁRIO, Maria Raquel (Org.). As revoluções inglesas do século XVII. 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