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BIOQUÍMICA DOS ALIMENTOS BIOQUÍMICA DOS ALIMENTOS ORGANIZADORES INDIRA MARIA ESTOLANO MACEDO; DOUGLAS GUEDES FERREIRA ORGANIZADORES INDIRA MARIA ESTOLANO MACEDO; DOUGLAS GUEDES FERREIRA Bioquím ica dos alim entos GRUPO SER EDUCACIONAL Qual a importância da água e das interações entre a água e os outros constituintes dos alimentos? O que são macro e micronutrientes? Neste livro, os autores responderão a estas questões, mas também, ampliarão a discussão sobre a bioquímica das hortaliças, das frutas, dos cereais e das leguminosas. Abordaremos as proteínas, os lipídeos, as vitaminas, os sais minerais, além de tantos outros elementos que envolvem a química dos alimentos. Livro fundamental para o estudo dos alimentos e da área da nutrição. gente criando futuro I S B N 9 7 8 6 5 5 5 5 8 0 1 2 9 9 786555 580129 > C M Y CM MY CY CMY K BIOQUÍMICA DOS ALIMENTOS Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Macedo,Indira Maria Estolano. Bioquímica dos alimentos / Indira Maria Estolano Macedo; Douglas Guedes Ferreira. – São Paulo: Cengage, 2020. Bibliografia. ISBN: 9786555580129 1. Nutrição. 2. Química do alimento. 3. Ferreira, Douglas Guedes. Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Indira Maria Estolano Macedo Mestre em Ciência e Tecnologia dos Alimentos pela UFRPE. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Especialista em Controle de Qualidade de Alimentos pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional. Técnica em Agropecuária com ênfase em Agricultura (CODAI- UFRPE) com especialização em Cana-de-Açúcar. Experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas, atuando principalmente nos seguintes temas: ecossistemas lênticos e qualidade da água. Experiência na área de Tecnologia e Ciência dos Alimentos. Participa do grupo de pesquisa Segurança Alimentar, Ambiental e Inclusão Social ( UFRPE). Douglas Guedes Ferreira Graduado em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre e doutor em ciências pelo Programa de Pó Graduação em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos também pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente é microbiologista no Hospital Universitário da Universidade Federal Fluminense, consultor na área de boas práticas de alimentação e fabricação, professor de microbiologia de alimentos e bioquímica do metabolismo em um curso técnico de nutrição e dietética, ministra cursos de extensão e administra seu canal no YouTube sobre assuntos relacionados a sua área de atuação. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Composição química dos alimentos e suas propriedades ...........................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1. Química e os alimentos ..................................................................................................................... 11 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................27 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................28 UNIDADE 2 - Hortaliças: características, propriedades e métodos de preparo e conservação .........29 Introdução.............................................................................................................................................30 1. Definição de hortaliças ...................................................................................................................... 31 2. Composição química das hortaliças .................................................................................................. 33 3. Coloração das hortaliças ................................................................................................................... 35 4. Alterações na coloração das hortaliças ............................................................................................. 40 5. Métodos aplicados no pré-preparo das hortaliças............................................................................ 41 6. Métodos aplicados na conservação e armazenamento de hortaliças ..............................................44 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................47 UNIDADE 3 - Bioquímica das frutas ................................................................................................55 Bioquímica das frutas ....................................................................................................................49 Introdução.............................................................................................................................................50 1. Introdução à bioquímica das frutas .................................................................................................. 51 2. Pigmentos naturais ........................................................................................................................... 53 3. Fisiologia Pós-Colheita das Frutas ..................................................................................................... 61 4. Fase de Desenvolvimento dos Frutos................................................................................................ 63 5. Ação do Calor nas Frutas ................................................................................................................... 66 6. Métodos de conservação e armazenamento das frutas ...................................................................68PARA RESUMIR ..............................................................................................................................73 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................74 UNIDADE 4 - Bioquímica dos cereais e oleaginosas ........................................................................75 Introdução.............................................................................................................................................76 1. Introdução à Bioquímica de cerais e leguminosas ............................................................................ 77 2. Características e utilização dos principais cereais ............................................................................ 83 3. Leguminosas e suas partes ............................................................................................................... 86 4. Alterações enzimáticas e não enzimáticas em cereais e leguminosas ..............................................90 5. Métodos de conservação e armazenamento de cereais e leguminosas ...........................................91 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................93 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................................... A composição química dos alimentos tem uma grande importância nas interações químicas responsáveis pela estrutura e textura dos alimentos. Na primeira unidade deste livro, explicaremos o papel da água nos alimentos, a versatilidade das proteínas e suas aplicações na gastronomia, e descreveremos as características dos carboidratos e sua influência na gastronomia. Os lipídeos também serão abordados aqui e como sua deterioração afeta os alimentos, além de fazer a diferenciação das vitaminas com base na sua solubilidade em água e a sua importância no metabolismo humano. Finalizando a unidade, falaremos sobre os sais minerais com base na necessidade nutricional e na disponibilidade nos alimentos. Na segunda unidade discutiremos sobre as hortaliças, desde a definição correta delas com o uso de sinônimos de maneira adequada, até os termos relacionados às plantas usadas como alimentos e que definem a que grupo pertencem. Falaremos também sobre a conservação e armazenamento desse grupo de alimentos. As frutas também são contempladas neste livro, determinando sua definição e composição química. Os pigmentos naturais encontrados nas frutas e suas funções também serão apresentados. Depois de colhidos, ocorrem alterações nos frutos que serão explicados aqui, tanto as alterações enzimáticas e não enzimáticas também serão abordadas. Na quarta unidade, serão apresentadas as partes e a composição química dos cereais e das leguminosas. A funcionalidade dos cereais e sua importância para a alimentação humana também serão abordadas aqui. Para todos esses grupos de alimentos descritos neste livro explicaremos como se deve armazenar e conservar os produtos a fim de manter suas propriedades. PREFÁCIO UNIDADE 1 Composição química dos alimentos e suas propriedades Olá, Você está na unidade Composição química dos alimentos e suas propriedades. Você está na unidade Composição química dos alimentos e suas propriedades. Nessa unidade, você aprenderá sobre a composição química dos alimentos, a importância da água e das interações entre a água e os outros constituintes dos alimentos. Vamos aprofundar também seus conhecimentos sobre os macro e micronutrientes. Antes de começarmos, é importante você saber que os macronutrientes compreendem as proteínas, os lipídeos e os carboidratos. Já os micronutrientes, incluem as vitaminas e sais minerais. Ao final da unidade, você será capaz de compreender as definições dessas moléculas bem como o efeito da sua composição química nos alimentos e nas preparações. Bons estudos! Introdução 11 1. QUÍMICA E OS ALIMENTOS A Química é a área da ciência que estuda a constituição elementar da matéria, avaliando suas propriedades, interações e possíveis modificações. Quando falamos da química dos alimentos, é importante ter em mente que os alimentos são, basicamente, um conjunto de diferentes moléculas com uma função biológica que caracterizam a estrutura e a textura dos alimentos. Vale ressaltar que os alimentos não têm a composição definida com base nas necessidades da nutrição humana. Muito pelo contrário, é a nutrição humana que se adapta às combinações de moléculas orgânicas (formadas principalmente por átomos de carbono) e inorgânicas (moléculas em que o carbono não é o elemento principal) que compõem os alimentos. A composição e a estrutura de um alimento têm relação com a função biológica exercida para a sua fonte original, seja ela de origem animal ou vegetal. Por exemplo, a carne animal muito utilizada na nutrição humana (com exceção de vegetarianos e veganos), não é rica em proteínas porque os seres humanos precisam de um alimento como fonte de aminoácidos, mas, sim, pela presença de um grande número de filamentos de actina e miosina responsáveis pela contração e relaxamento do tecido muscular e, consequentemente, a movimentação do animal. Os componentes químicos dos alimentos interagem entre si e, em muitos casos, a água tem papel fundamental nisso, através de interações químicas como ligações covalentes, ligações iônicas, ligações de hidrogênio, ligações de sulfeto e interações hidrofóbicas. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 12 1.1 Interações químicas presentes nos alimentos Antes de tudo é importante definir que existem interações intramoleculares e intermoleculares. Intra é um prefixo que significa dentro, portanto uma ligação intramolecular é aquela que ocorre entre os átomos que compõem a molécula (ocorrem “dentro” da molécula). E, inter é um prefixo que significa entre, ou seja, são interações que ocorrem entre moléculas diferentes. As ligações que ocorrem entre os átomos que compõem uma molécula (intramoleculares) são chamada de ligações covalentes, onde há o compartilhamento de elétrons. Por isso, essas ligações são fortes e difíceis de serem desfeitas, justamente pela quantidade de energia que elas acumulam. Elas podem ser simples (quando há o compartilhamento de um elétron), duplas (quando há o compartilhamento de dois elétrons) ou triplas (quando há o compartilhamento de três elétrons). Na Figura 1 podemos ver a molécula de Ácido ascórbico (componente importante das frutas cítricas) formada por átomos de carbono (esferas preto/cinza), oxigênio (esferas vermelhas) e hidrogênio (esferas brancas). E, podemos observar as ligações que ocorrem entre esses átomos (simbolizadas com traços), que são as ligações intramoleculares (covalentes). As interações intermoleculares podem ser fortes ou fracas dependendo do tipo e da composição das moléculas envolvidas. Em ordem crescente da quantidade de energia envolvida, as ligações intermoleculares são: ligações iônicas, ligações de hidrogênio, ligações de sulfeto e interações hidrofóbicas. A ligação iônica tem grande quantidade de energia acumulada e ocorre quando um íon doa elétrons para outro. Esse tipo de ligação é muito comum em sais como, por exemplo, no NaCl, que é o sal de cozinha formado pela interação dos íons Na- e Cl+. As ligações de Hidrogênio são interações mediadas por átomos de Hidrogênio, mas apenas quando este está ligado por uma ligação covalente ao Oxigênio, Nitrogênio ou Flúor. A Figura 2 ilustra essa interação ocorrendo entre as moléculas de água, em que o Oxigênio de uma molécula interage com o Hidrogênio de outra molécula, formando uma ligação entre dois átomos de Oxigênio mediada por um átomo de Hidrogênio. 13 Figura 1 - Ligações de Hidrogênio Fonte: Magnetix, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A Figura mostra moléculas de água interagindo entre si através depontes de hidrogênio. O Oxigênio de uma molécula interage com o Hidrogênio de outra molécula, formando uma ligação entre dois átomos de Oxigênio mediada por um átomo de Hidrogênio. As ligações de Enxofre (elemento químico representado pela letra S, pois seu nome em grego é Sulphur) seguem o mesmo princípio das ligações de Hidrogênio, entretanto, mas nesse caso o vínculo é estabelecido pelo átomo de Enxofre. É muito comum ocorrer em proteínas contendo o aminoácido cisteína. E, as interações hidrofóbicas, muito comuns entre os ácidos graxos que formam o tecido adiposo (tecido de reserva energética em animais), por exemplo, são as mais fracas entre as interações intermoleculares. São conhecidas como forças de Van Der Waals em homeagem ao pesquisador que as descreveu. Como o próprio nome já significa “medo” de água (hidro significa água e fobia significa medo), essas ligações ocorrem entre moléculas apolares e por isso não interagem com facilidade com moléculas de água. Diferentemente das demais interações intermoleculares que são consideradas polares. FIQUE DE OLHO Considerando a molécula de água como exemplo é importante nesse momento abordarmos a definição de moléculas polares e apolares. Uma molécula polar é aquela em que no compartilhamento de elétrons que ocorre na ligação covalente a aproximação dos elétrons de um átomo e afastamento do outro cria um ângulo nessas ligações (isso pode ser observado nas Figuras 1 e 2) formando um pólo negativo (no entorno do átomo que os eletros então mais próximos) e um pólo positivo (no entorno dos átomos em os elétrons estão mais afastados). No caso da molécula de água, o pólo negativo é formado próximo ao átomo de Oxigênio e o pólo positivo é formado na região próxima aos átomos de Hidrogênio. Em contrapartida, em uma molécula apolar não há essa formação de ângulos por causa da ligação covalente e, consequentemente, não há a formação de pólos. Ligações apolares são comuns entre moléculas com longas cadeias de Carbono, como, por exemplo, os ácidos graxos. 14 1.2 Importância da água nos alimentos A água é uma molécula polar formada por um átomo de Oxigênio e dois átomos de Hidrogênio, e está presente em concentrações variáveis em todos os alimentos. O teor de água em um alimento funciona como o meio de suporte para as reações químicas que ocorrem no alimento. Por ser uma molécula polar, a água é capaz de interagir bem e solubilizar outras moléculas polares como, por exemplo, sais minerais, vitaminas hidrossolúveis, proteínas/aminoácidos e carboidratos/açúcares. Em contrapartida, moléculas apolares, como os ácidos graxos/lipídeos, a interação química com a água é baixa levando a separação em duas fases. A diferença na interação entre uma molécula polar e uma apolar com água é fácil de ser observada na prática. Para isso, basta você encher dois copos com água, em um acrescente duas colheres de açúcar e no outro, duas colheres de óleo de soja. Você observará que o açúcar se dissolveu na água, isso acontece porque as moléculas de água conseguem estabelecer ligações de Hidrogênio com a glicose presente no açúcar, dissolvendo-a. Já na mistura óleo e água, você verá que o óleo não se solubilizará com a água e formará uma película na superfície da água. Como veremos mais adiante, os lipídios são moléculas formadas por um grupamento funcional ácido carboxílico na sua extremidade, chamado de cabeça polar, ligado a uma cadeia carbônica de tamanho variável. O grupamento ácido carboxílico consegue formar pontes de hidrogênio com a molécula de água, mas a sua longa cadeia carbônica, que é apolar, não. Sendo assim, em presença de água, em temperatura ambiente (25ºC), as gorduras formam micelas, a estrutura ilustrada na Figura 3. As micelas são formadas por interações entre os ácidos graxos de maneira que formam um círculo perfeito, cujo tamanho depende da quantidade de ácidos graxos e da quantidade de FIQUE DE OLHO A água é um fator determinante para o desenvolvimento de microrganismos nos alimentos, sendo um dos pontos cruciais para os métodos de preservação. A água é o fator determinante de duas características dos alimentos a umidade e a atividade de água (Aw, do inglês activity of water). A umidade é a quantidade total de água de um alimento, enquanto que a Aw é a quantidade de água disponível (molécula livre, sem interação com outras moléculas). Por isso, o uso de sais e espessantes são bons métodos de preservação, pois eles interagem com as moléculas de água livres reduzindo a atividade de água e, consequentemente, sua utilização por microrganismos. 15 água. Esse arranjo é formado porque os ácidos graxos interagem deixando a sua cabeça polar em contato com a água enquanto a sua cadeia carbônica (apolar) está isolada no interior da micela estabilizada por interações hidrofóbicas. É importante que você saiba que além da água funcionar como um suporte para as interações químicas que ocorrem no alimento, afetando sua estrutura e textura, a temperatura afeta a água e consequentemente interfere em todas as suas interações e funções. Afinal, a variação de temperatura pode levar a alteração no estado físico da água, levando a modificações na estrutura do alimento. Em temperaturas abaixo de 0ºC a água está em seu estado sólido, entre 0 e 100ºC a água está em seu estado líquido, e acima de 100ºC a água está no seu estado gasoso (vapor d’água). As baixas temperaturas levam a preservação do alimento, uma vez que reduzem as chances de deterioração pelos microrganismos e as altas temperaturas levam à cocção do alimento. Em ambos os casos, a estrutura e textura do alimento são afetadas, bem como as interações estabelecidas entre as moléculas de água e os demais constituintes dos alimentos. 1.3 Proteínas: definições e propriedades As proteínas são, por definição, uma sequência de aminoácidos ligados por ligações denominadas peptídicas. As proteínas são as macromoléculas mais versáteis, pois podem atuar na estrutura (formando o citoesqueleto de células animais e vegetais), no transporte de moléculas (por exemplo, a hemoglobina que transporta o gás Oxigênio no sangue), na proteção (através dos anticorpos), na comunicação (através dos hormônios) e como enzimas (capacidade de modificar moléculas). A função que uma proteína exerce é definida pela sua sequência de aminoácidos que, obrigatoriamente, está relacionada à sua estrutura. Vale lembrar que em todas as funções exercidas por uma proteína, a sua estrutura molecular é fundamental para promover as interações químicas e, consequentemente, para o exercício de sua função. As enzimas são um importante aliado na indústria de alimentos, pois elas são capazes de realizar ou acelerar reações químicas que não acontecem ou que tem uma velocidade muito reduzida espontaneamente. Como, por exemplo, a quimosina, uma enzima da classe das proteases, usada no processo de coagulação das proteínas do leite. A versatilidade das proteínas permite a sua utilização de diversas formas no preparo de alimentos. A combinação de técnicas de preparo com a capacidade de interação com a água e gases das proteínas permite a formação de espumas, emulsões e géis. Uma espuma pode simplesmente ser formada pela agitação de um líquido na presença de um gás, pois a agitação força a interação entre o líquido e o gás promovendo a imobilização do gás no líquido. Contudo, a principal questão é a estabilidade dessa espuma e é nesse ponto que as proteínas não cruciais. 16 A presença de proteínas dissolvidas no líquido forma uma espécie de filme fluido, flexível e coeso ao redor das bolhas de gás formando a espuma. Isso pode ser facilmente observado ao bater a clara do ovo. No processo de agitação, a clara vai sendo aerada e as proteínas ali presentes (o ovo é rico em proteínas da classe das globulinas) forma esse filme estabilizante dando a estrutura e estabilidade necessária à utilização em diversos alimentos doces e salgados. Diferentemente da espuma, formada pela aeração deum líquido, a emulsão é formada pela agitação e mistura de dois líquidos imiscíveis (incapazes de se misturar), como, por exemplo, água e óleo. Nesse caso, a função das proteínas é funcionar como uma ponte entre os dois líquidos, utilizando suas regiões hidrofóbicas (apolares) para se ligar ao óleo e as regiões hidrofílicas (polares) para se ligarem à água. A formação de uma emulsão vai ser mais sensível a variações de pH e temperatura que a espuma. E, sua estabilidade está diretamente condicionada ao tamanho das proteínas (as de menor peso molecular são mais eficientes), à sua solubilidade em água e ao balanceamento do seu teor de regiões hidrofílicas e hidrofóbicas para que a ligação entre água e óleo possa ser estabelecida. Por fim, os géis são formados pela interação de proteínas formando agregados que imobilizam moléculas de água. Ao contrário da espuma e da emulsão não são fluidos ou viscosos, pois diferente dos citados anteriormente o gel é formado por uma rede de proteínas ligadas entre si, associadas ou não a outras moléculas. A capacidade de gelificação das proteínas pode ser afetada pela temperatura e pela presença de sais. O efeito da temperatura vai variar de acordo com a proteína, pois o aumento da temperatura pode tanto levar a desnaturação das proteínas, inviabilizando a formação do agregado protéico, quanto levar a modificações na estrutura da proteína aumentando a sua área de contato e potencializando a gelificação, como é o caso do colágeno. E, a presença de sais tente a aumentar a estabilidade do gel por reforçar as ligações entre as proteínas. As proteínas com capacidade gelificante podem ser usadas em preparações culinárias como espessantes, sendo a gelatina a mais comum. A gelatina utilizada na indústria de alimentos é produzida pela hidrólise do colágeno (fracionamento, uma degradação de origem química) que FIQUE DE OLHO A capacidade de estabilização da espuma de uma proteína está relacionada, entre outros fatores, ao seu tamanho e solubilidade. Pois quanto menor o peso molecular de uma proteína, normalmente, maior a sua solubilidade e capacidade de formar um filme protetor das bolhas de gás mais coeso e estável. 17 pode ser obtido a partir de diversas fontes, em especial cartilagem animal. Uma característica importante que torna o colágeno o espessante de origem protéica mais comum é que em altas temperaturas ele se dissolve em água e conforme a temperatura vai diminuindo as proteínas começam a interagir formando um gel. Além das aplicações das proteínas na produção de espumas, emulsões e géis, as proteínas também apresentam um papel fundamental na panificação. Afinal, as proteínas gliadina e glutenina foram o complexo protéico conhecido como glúten, que são responsáveis pela elasticidade de viscosidade da massa, respectivamente. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: As características de elasticidade e viscosidade de massas contendo glúten ocorrem pela presença de cisteína, um aminoácido que tem um radical contendo Enxofre, na composição da gliadina e da glutenina. Esses resíduos de Enxofre, conforme a massa vai sendo hidratada e sovada vão interagindo e formando ligações e enxofre aumentando a viscosidade e elasticidade de massa. O aumento da interação entre as os resíduos de enxofre permitem que a massa seja esticada até ficar praticamente transparente sem que a massa seja rompida. Esse ponto em que a massa FIQUE DE OLHO O consumo de produtos contendo glúten tem sido muito questionado pelo aparecimento de indivíduos com alergia (o sistema imunológico reage contra as proteínas do glúten) ou intolerância (o indivíduo não produz as enzimas responsáveis pela degradação do glúten). Contudo, é importante ressaltar que a ingestão de glúten só é nociva em casos de pessoas alérgicas ou intolerantes. 18 é esticada até ficar semitransparente semelhante a um véu, é chamado de véu de glúten. Ao atingir esse grau de viscosidade e elasticidade, o complexo protéico já atingiu seu grau máximo de hidratação e interação. Logo, as proteínas são componentes versáteis para a aplicação na gastronomia. Inclusive, a sua interação com outras moléculas viabiliza uma série de aplicações em preparações culinárias. 1.4 Carboidratos: definição e propriedades Os carboidratos são as moléculas orgânicas mais comuns e abundantes, e ocupam um papel de destaque no metabolismo de plantas e animais. Sua estrutura molecular é basicamente a combinação de um átomo de carbono para uma molécula de água, representado pela fórmula química Cn(H2O)n. O nome carboidrato é justamente por essa relação entre o número de átomos de carbono e moléculas de água. De maneira simples, pode-se dizer que um carboidrato é um carbono hidratado. O exemplo mais comum é dado pela fórmula química da molécula de glicose (C6H12O6 ou C6(H2O)6), composta por 6 átomos de Carbono e 6 moléculas de água. As moléculas de carboidratos são caracterizadas pela presença de átomos de Oxigênio estabelecendo uma ligação dupla com um dos átomos de Carbono. A posição dessa ligação dupla define a formação de dois tipos de grupos funcionais. Quando a ligação dupla entre Carbono e Oxigênio está no meio da cadeia há a formação de um grupo cetona. E, se a ligação dupla estiver na extremidade da cadeia há a formação de um grupo aldeído. Os carboidratos podem ser divididos em grupos com base no número de moléculas de açúcar em: • Monossacarídeos, quando há apenas uma molécula; FIQUE DE OLHO Apesar do papel fundamental que os carboidratos apresentam na nutrição humana, nem todos os carboidratos podem ser digeridos. O exemplo mais comum desses carboidratos não digeríveis pelos humanos é a celulose, pois não possuímos a enzima que consegue quebrar esse polissacarídeo em moléculas individuais e glicose. Contudo, mesmo sem a participação no valor energético dos alimentos, a celulose exerce uma função relevante na nutrição humana como fibras alimentares que ajudam na movimentação do bolo alimentar e, posteriormente, bolo fecal ao longo do sistema digestivo. 19 • Dissacarídeos, quando há duas moléculas; • Oligossacarídeos, quando há de três a dez moléculas; • Polissacarídeos, quando há mais de dez moléculas. Os monossacarídeos mais comuns presentes nos alimentos são Glicose, Galactose e Frutose. Já os dissacarídeos mais encontrados são Sacarose (Glicose-Frutose), Maltose (Glicose-Glicose) e Lactose (Glicose-Galactose). E, em relação aos polissacarídeos, podemos citar o amido, que é a reserva energética das células vegetais formado por moléculas de glicose unidas por uma ligação química chamada de ligação glicosídica. Os carboidratos são considerados moléculas polares, assim sua afinidade por água e outras moléculas polares é alta. Essa característica é muito importante para a sua aplicação na gastronomia, como, por exemplo, nas reações de escurecimento não enzimático (caramelização e reação de Maillard) ou sua aplicação como espessante. A caramelização é um processo de escurecimento não enzimático em que a partir do aquecimento de uma mistura de água e açúcar há a eliminação da água e a interação entre as moléculas de açúcar formando uma rede. Outro processo de escurecimento não enzimático é chamado de reação de Maillard, em que o aquecimento induz a interação entre proteínas/ aminoácidos e carboidratos formando complexos glicoprotéicos que alteram a cor (coloração marrom), sabor e odor do alimento. Muito embora o efeito de escurecimento do alimento seja semelhante ao da caramelização, as reações químicas e os produtos formados que envolvem esses dois processos são totalmente diferentes. Enquanto na caramelização o escurecimento se dá pela formação de uma rede de moléculas formada apenas por açúcares, na reação de Maillard, esse escurecimento se dá pela formação de complexos proteína-carboidrato, chamados de melanoidinas. Um exemplo prático em que pode se visualizar a ocorrência da reação de Maillard é a produção do doce de leite. Nesse caso, o aquecimentodo leite leva à evaporação da água e à concentração dos açúcares que com o tempo começam a interagir com as proteínas do leite formando as melanoidinas, escurecendo o doce, atingindo a coloração marrom característica do doce de leite. As melanoidinas são formadas pela interação dos grupamentos aldeído ou cetona dos carboidratos com o grupamento amino da cadeia principal dos aminoácidos. Contudo, é importante salientar que pode também haver interações entre os radicais característicos de cada aminoácido com os carboidratos, formando esses complexos proteína-carboidrato. Como a composição dos alimentos é variável não há uma padronização dos compostos formados na reação de Maillard, pois vai depender das proteínas e açúcares presentes nos alimentos. 20 A capacidade de interação dos carboidratos, como dito anteriormente, permite uma ampla gama de aplicações na gastronomia. Então, além da possibilidade de escurecimento sem uso de enzimas, os carboidratos são muito aplicados na indústria de alimentos como espessantes. Os polissacarídeos utilizados como espessantes na indústria alimentícia podem ter diferentes origens, mas essencialmente são moléculas hidrofílicas que levam ao aumento da viscosidade quando entram em contato com água. Sendo os principais o amido, extraído de diferentes vegetais, o agar-agar, extraído de diferentes espécies de algas e a goma xantana identificada inicialmente como produto do metabolismo da bactéria Xanthonomas campestri, mas que posteriormente foram verificados outros microrganismos produtores. O amido é um polissacarídeo composto por uma sequência de moléculas de glicose. Ele é o tecido de reserva das células vegetais podendo ser extraído a partir de cereais (conteúdo de amido entre 40 e 90%), leguminosas (conteúdo de amido entre 30 e 50%), tubérculos (conteúdo de amido entre 65 e 85%) e frutas imaturas (conteúdo de amido entre 40 e 70%). As cadeias de glicose do amido se diferenciam em amilose, quando forma uma cadeia linear com ligações glicosídicas do tipo -1,4, e amilopectina, quando as cadeias de glicose apresentam ramificações, ou seja, possuem uma cadeia linear com ligações glicosídicas do tipo -1,4, na qual são ancoradas ramificação com ligações glicosídicas do tipo -1,6, conforme é ilustrado na Figura 5. A variedade na composição do amido, além das proporções de amilose e amilopectina, ainda pode variar com as proteínas e lipídios que podem existir (mesmo que em pequenas quantidades) interagindo com essas cadeias de glicose. A estrutura do grânulo de amido é dividida em região amorfa (cerca de 70%), composta predominantemente por amilose, e em região cristalina (cerca de 30%), formada por amilopectina (se nessa parte a amilopectina estiver associada a lipídeos, a região se torna semicristalina). 21 Figura 2 - Cadeias de glicose que compõem o amido Fonte: Aldona Griskeviciene, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A figura é uma ilustração das cadeias de glicose que compõem o amido: a amilose, formada cadeia linear de moléculas de glicose (ligações glicosídicas do tipo -1,4), e a amilopectina, formada por uma cadeia linear (ligações glicosídicas do tipo -1,4) a partir da qual há ramificações (ancoradas na cadeia linear por ligações glicosídicas do tipo -1,6). Os grânulos de amido quando em contato com água chegam a aumentar em 40% o seu peso pela absorção de moléculas de água pelas moléculas de glicose presentes nos grânulos. Se os grânulos hidratados forem aquecidos (acima de 70ºC) ocorre uma reação irreversível, a gelatinização dos grânulos de amido. O processo de gelatinização se inicia com a solubilização da região cristalina formando uma rede polimérica, ainda com o grânulo de amido íntegros. Quando esses grânulos são expostos a temperaturas acima de 100ºC, o grânulo se rompe, liberando a amilose e a amilopectina para a solução, aumentando consideravelmente sua viscosidade. A redução da temperatura, após a gelatinização, pode levar ao fenômeno de retrogradação do amido. Esse fenômeno ocorre porque com a redução da temperatura, a energia do sistema diminui e as pontes de hidrogênio entre as moléculas de amilose e amilopectina e a água começam a se desfazer. Assim, as interações entre as cadeias de glicose começam a se restabelecer, sendo que esse fenômeno é mais rápido nas moléculas de amilose do que nas moléculas de amilopectina. Diferentemente do amido, o agar-agar é um polissacarídeo heterogêneo composto em grande parte de agarose e, em menor quantidade, por um complexo de diferentes moléculas 22 conhecido como agaropectina. A fibra formada é solúvel em água aumentando a viscosidade da solução em presença de água. Sua aplicação na indústria de alimentos se dá principalmente pela sua incapacidade de digestão pelo organismo humano, resistência a altas temperaturas e uma capacidade emulsificante estável. Assim como o agar-agar, a goma xantana também não pode ser digerida quando ingerida por humanos. Sua estrutura é similar à da celulose, formada por uma sequência de moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas do tipo -1,4, associadas à resíduos de manose e, eventualmente, ácido pirúvico. Sua configuração lhe confere uma capacidade emulsificante estável e independente da temperatura. Além dos polissacarídeos já citados, vários outros podem ser aplicados na indústria de alimentos, ma o amido, o agar-agar e a goma xantana são os mais frequentemente usados. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.5 Lipídios: definição e propriedades Os lipídeos são moléculas hidrofóbicas e, quimicamente falando, são ácidos carboxílicos (caracterizados por uma cadeia carbônica com um grupamento ácido carboxílico na extremidade) de estrutura variada, podendo ser divididos em grupos de acordo o tamanho da sua cadeia carbônica, número, posição e configuração de ligações duplas e a presença de outros grupos funcionais ao longo da cadeia. Em relação à ausência ou presença de ligações duplas (também chamadas de insaturações) ao longo da cadeia, os ácidos graxos são classificados como saturados ou insaturados, respectivamente. Veja a seguir suas definições: Ácidos graxos saturados Os ácidos graxos saturados (sem ligações duplas entre os átomos carbonos) são mais comuns 23 em alimentos de origem animal, e como suas cadeias carbônicas são lineares e sem deformações estruturais, os ácidos graxos conseguem formar interações hidrofóbicas estáveis de modo que, em temperatura ambiente, esses ácidos graxos assumem o estado sólido. Entretanto, o aumento da temperatura desfaz essas interações hidrofóbicas e esses ácidos graxos assumem o estado líquido. Ácidos graxos insaturados Os ácidos graxos insaturados (presença de ligações duplas entre os átomos de carbono) são mais comuns em alimentos de origem vegetal, e a presença dessas insaturações causa deformações na cadeia carbônica. Tal fato inviabiliza a formação de interações hidrofóbicas estáveis, consequentemente, esses ácidos graxos assumem o estado líquido, mesmo em temperatura ambiente. Normalmente, os ácidos graxos presentes nos alimentos, tanto de origem animal quanto vegetal, estão associados a moléculas de glicerol. A ligação que une os ácidos graxos com o glicerol é do tipo éster (um átomo de oxigênio ligado a dois átomos de carbono por uma ligação simples). Essa ligação é mediada por diversas enzimas que fazem a ligação da hidroxila do grupamento ácido carboxílico do ácido graxo com um carbono da molécula de glicerol, liberando uma molécula de água. Os lipídios presentes nos alimentos são ácidos graxos ligados ao glicerol. E quando deteriorados, processo denominado como rancificação, há a dissociação da molécula de glicerol dos ácidos graxos. Como o glicerol fica livre, a sensação sensorial é a de sabor de sabão no alimento. 1.6 Vitaminas: definição e propriedades As vitaminas são componentes minoritários entre os constituintes dos alimentos, mas essenciais para as características dos alimentos e nutrição humana.Elas são classificadas como hidrossolúveis e lipossolúveis de acordo com a sua estrutura química e afinidade pela água ou moléculas apolares, respectivamente. A composição química das vitaminas é um fator determinante para sua maior ou menor perda durante o processamento dos alimentos. A redução do teor de vitaminas em um alimento pode ser causada por reações químicas que causem a inativação da molécula ou pela solubilização na água de cocção. FIQUE DE OLHO O óleo de coco é o único óleo vegetal que não possui ácidos graxos insaturados. Entretanto, ele se mantém no estado líquido, mesmo em temperatura ambiente. Isso ocorre porque os ácidos graxos que formam o óleo de coco apresentam uma cadeia carbônica curta que não permite a formação de interações hidrofóbicas fortes o bastante para solidificação. 24 Afinal, o que são vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis? Para responder essa pergunta precisamos voltar ao conceito de moléculas polares ou apolares. Portanto, as vitaminas hidrossolúveis são aquelas cuja composição molecular forma uma molécula polar que permite sua solubilização em água. Já as vitaminas lipossolúveis são aquelas cuja composição molecular forma uma molécula apolar e por isso solúvel em outras moléculas apolares como lipídios/ácidos graxos. O fato das vitaminas serem hidrossolúveis ou lipossolúveis interfere no seu transporte dentro do corpo humano. Pois, após o processo de digestão, esses nutrientes são absorvidos no intestino delgado e transferidos para o sangue, no caso das vitaminas hidrossolúveis, ou para o sistema linfático, no caso das lipossolúveis. O Quadro 1 mostra as informações sobre as vitaminas, dividindo-as em hidrossolúveis e lipossolúveis e descrevendo sua função biológica. E, na Figura 9 é possível correlacionar os alimentos com as vitaminas presentes na sua composição e cruzar os dados com o Quadro 1 sobre suas funções biológicas. A demanda por vitamina varia de acordo com a idade e, no caso de mulheres, também se é gestante ou lactente. E, tanto a ingestão abaixo do necessário (hipovitaminose) quanto acima (hipervitaminose) podem gerar uma série de transtornos metabólicos que levam ao mau funcionamento ou até a interrupção do das funções biológicas mediadas pela participação das vitaminas. Quadro 1 - Quadro de classificação das vitaminas Fonte: Elaborado pelo autor, 2020 25 #ParaCegoVer: A imagem representa uma tabela de classificação das vitaminas, na qual elas estão divididas entre Hidrossolúveis (Vitaminas B e C) e Lipossolúveis (Vitaminas A, D, E e K). Além disso, é apontado para cada uma delas a sua função biológica. 1.7 Sais minerais: função biológica e classificação Os sais minerais, assim como as vitaminas, são classificados como micronutrientes. Basicamente, são moléculas inorgânicas que compõem os alimentos e têm funções biológicas fundamentais tanto para células animais quanto vegetais. Esses elementos estão presentes nos ácidos nucléicos que contém a informação genética da célula, nas moléculas energéticas (ATP, Adenosina Tri-fosfato) e como cofatores de muitas enzimas que fazem parte do metabolismo e do funcionamento celular. Esses minerais, no caso dos alimentos de origem vegetal, são obtidos a partir do solo, sejam eles componentes naturais ou adquiridos com o uso de fertilizantes, e no caso de alimentos de origem animal, a sua obtenção é através da alimentação. De acordo com a sua necessidade diária de ingestão esses sais são classificados como elementos principais (sua necessidade diária está acima de 50 mg), elementos traço (sua necessidade diária está abaixo de 50 mg) e elementos ultratraço (não são essenciais, mas em casos de deficiência extrema podem causar distúrbios). Os sais que compõem o grupo dos elementos principais são Sódio (Na), Potássio (K), Cálcio (Ca), Magnésio (Mg), Cloro (Cl), Enxofre (S) e Fósforo (P). Os representantes do grupo dos elementos traço são Ferro (Fe2+), Iodo (I), Flúor (F), Zinco (Zn), Selênio (Se), Cobre (Cu), Manganês (Mn), Cromo (Cr), Molibdênio (Mo), Cobalto (Co) e Níquel (Ni). E, os sais definidos como ultratraço são Alumínio (Al), Arsênio (As), Bário (Ba), Bismuto (Bi), Boro (B), Bromo (Br), Cádmio (Cd), Césio (Cs), Germânio (Ge), Mercúrio (Hg), Lítio (Li), Chumbo (Pb), Rubídio (Rb), Antimônio (Sb), Silício (Si), Samário (Sm), Estanho (Sn), Estrôncio (Sr), Tálio (Tl), Titânio (Ti) e Tungstênio (W). Muito embora a necessidade metabólica pelos micronutrientes seja baixa em comparação aos macronutrientes. A deficiência desses elementos no organismo humano pode levar a distúrbios metabólicos graves. Podemos citar diversos efeitos da falta de sais no organismo humano, como: • Problemas na glândula tireoide por deficiência de Iodo (I); • Fragilidade óssea por deficiência de Cálcio (Ca); • Anemia por deficiência de Ferro (Fe); • Transtorno bipolar por deficiência de Lítio (Li). Considerando os problemas associados à deficiência de sais e vitaminas, é sempre recomendado o consumo de uma alimentação balanceada e variada de modo que esses micronutrientes possam ser absorvidos juntamente com as moléculas energéticas sem trazer 26 transtornos para a saúde humana. FIQUE DE OLHO O governo brasileiro desde o início da década de 1950 determinou por lei a adição de Iodo (I) na composição do sal de cozinha. Isso aconteceu pelo grande número de casos de distúrbios na glândula tireoide em decorrência da deficiência de Iodo (I). 27 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • analisar a composição química dos alimentos e sua importância para as interações químicas responsáveis pela estrutura e textura dos alimentos; • compreender o papel da água nos alimentos; • aprender sobre as características das proteínas, carboidratos e lipídios e a sua influência nos alimentos e na gastronomia; • diferenciar as vitaminas com base na sua solubilidade em água e a sua importância no metabolismo humano; • diferenciar os sais minerais com base na necessidade nutricional e na disponibilidade nos alimentos. PARA RESUMIR BELITZ, H. D. et al. Food Chemistry. Springer, 4ª ed.2009. deMAN, J. M. et al. Principles of Food Chemistry. Springer, 4ª ed.,, 2018. JEANET, R et al. Handbook of Food Science and Technology 3. Wiley, 1ª ed., 2016. NELSON, D. L. et al. Princípios da Bioquímica de Lehninger. Artmed, 6ª ed., 2014. SIMPSON, B. K. Food Biochemistry and Food Processing. Quebec, Canada: Wiley-Bla- ckwell, 2012. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Hortaliças: características, propriedades e métodos de preparo e conservação Você está na unidade Hortaliças: características, propriedades e métodos de preparo e conservação. Nessa unidade você aprenderá sobre a classificação e propriedades das hortaliças. Além disso, ainda abordaremos os procedimentos de pré-preparo, conservação e armazenamento das hortaliças. Antes de começarmos, é importante você saber que as hortaliças são plantas ou partes de plantas que podem ser utilizadas para a nutrição humana, pois possuem uma vasta variedade de moléculas químicas nutritivas na sua composição. E, também, que as hortaliças são divididas em grupos, mas nem todos serão abordados nessa unidade. Ao final desse conteúdo você será capaz de compreender as características desses vegetais e, também, como diferenciá-los. Além dos procedimentos que envolvem seu preparo, conservação e armazenamento. Bons estudos! Introdução 31 1. DEFINIÇÃO DE HORTALIÇAS O conceito de hortaliças não é bem definido em Botânica (ramo da biologia que estuda as plantas) e, por isso, muitas vezes seu uso é indiscriminado e erroneamente aplicado como sinônimo para verduras e legumes. O termo hortaliças inclui todos os alimentos obtidos a partir da olericultura, palavra com origem no latim formada pela junção dos termos oleris, que significa hortaliça, e colere, que significa cultivar. Portanto, em termos gerais, uma hortaliça é qualquer vegetal cultivado para ser usado na alimentação. Como os vegetais, do ponto de vistabotânico, são divididos de acordo com a parte da planta utilizada em raízes, tubérculos, bulbo, caule ou talos, folhas, inflorescência, sementes e frutos, o uso dos termos dos termos verdura, que engloba apenas os vegetais folhosos, ou legume, que se refere a todos os vegetais com exceção dos folhosos, não são termos tão genéricos que permitam sua utilização como sinônimo para hortaliças. As partes da planta que podem ser utilizadas como alimentos são ilustradas na Figura 1. Essas partes podem ser divididas de acordo com a seguinte classificação: Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: • Bulbo, raiz e tubérculo: partes que ficam enterradas ou ao menos em contato com o solo; • Caule, folhas, inflorescência, fruto, semente e flor: partes aéreas, que não entram em contato com o solo. Os bulbos, como é o caso da cebola (possui bulbo único) e do alho (possui vários bulbos), são alimentos extraídos de uma região da planta em que há a concentração de nutrientes e que fica em contato com o solo, mas não é enterrada. Essa parte da planta fica acima das raízes e do caule que estão enterrados e são responsáveis pela captação de água e nutrientes. 32 Diferentemente do que ocorre nos bulbos, nas raízes tuberosas, como, por exemplo, beterraba, batata-doce, rabanete e cenoura, a absorção e o acúmulo de água e nutrientes são feitos na própria raiz que está enterrada. Nesses vegetais, o caule compõe a parte aérea do vegetal junto com as folhas. Nos tubérculos, que têm como representante mais comum a batata inglesa, o caule se estende desde a raiz (enterrado) até a parte aérea do vegetal, ou seja, o caule tem uma parte subterrânea e outra aérea. A partir do caule subterrâneo, há a formação dos tubérculos que são nódulos onde o vegetal acumula os nutrientes para o desenvolvimento da planta, normalmente na forma de amido. Nos tubérculos, assim como nos bulbos, as raízes têm a função de absorver água e nutrientes, mas não os acumula. A diferenciação das partes aéreas dos vegetais é mais simples. Inclusive, os caules e folhas de algumas raízes e bulbos também podem ser consumidos. Como, por exemplo, as folhas da beterraba e da cenoura, que são raízes, e do alho-poró que é classificado como um bulbo. O caule é a estrutura de sustentação dos vegetais, sendo seus alimentos representantes mais comuns os aspargos, brotos de soja e de feijão e o palmito. As folhas são as estruturas onde a reação de fotossíntese é mais intensa, dentre os vegetais folhosos, os mais comuns na mesa dos brasileiros são alface, chicória, espinafre e couve. Figura 1 - Diferenças entre raízes e tubérculos Fonte: Kazakova Maryia, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A figura a diferença entre as raízes e os tubérculos que também são partes de vegetais que podem ser aplicadas na alimentação. A inflorescência - flor, semente e fruto - compõem as partes reprodutivas da planta, ou seja, são as estruturas responsáveis pela formação de novos indivíduos. A inflorescência é a região da planta a partir da qual são formadas as flores, cujos representantes são brócolis e couve- flor. As flores propriamente ditas são as formas reprodutivas do vegetal que após a fecundação formam os frutos e sementes. Ainda em relação as flores, podemos dizer que sua participação nas preparações culinárias tanto pode ser para fins estéticos, quanto nutricionais. 33 Os frutos são formados a partir da fecundação das flores e constituem as estruturas vegetais que protegem as sementes, que, por sua vez, são as estruturas capazes de germinar formando um novo indivíduo. Dentre os frutos considerados como vegetais, o tomate é o representante mais conhecido, mas pepino, abobrinha e jiló também entram nessa classificação. Enquanto que a ervilha é o exemplo mais comum quando falamos dos vegetais do grupo das sementes. Assim, como você pôde observar, as hortaliças são um grupo alimentício amplo. Assim, considerando a amplitude do tema e os conteúdos abordados nas unidades seguintes, nesta unidade não abordaremos os vegetais que compõem os grupos das raízes e tubérculos. 2. COMPOSIÇÃO QUÍMICA DAS HORTALIÇAS A composição química das hortaliças é altamente variável e depende do espécime vegetal, origem, fase de desenvolvimento/maturação e condições de cultivo. Contudo, de modo geral, entre 80 e 95% da sua composição é formada por moléculas de água e o restante é distribuído em diferentes proporções de carboidratos, proteínas, lipídeos, vitaminas, minerais, ácidos orgânicos, compostos fenólicos e aromáticos. Sendo que os carboidratos, lipídeos e proteínas os componentes predominantes, em especial pela sua importância estrutural. O teor de água nas hortaliças tem um papel fundamental na composição e estrutura desses alimentos. Pois, ela é responsável por solubilizar proteínas formando uma matriz gelatinosa no interior (citoplasma) das células vegetais; funciona como um agente umectante que evita a interação direta entre as fibras e polímeros pelas ligações de hidrogênio que envolve essas moléculas; estabiliza as interações químicas entre as moléculas presentes; e atuam como solvente para o transporte de moléculas dentro e fora da célula vegetal. Dado ao papel fundamental da água nos vegetais a estrutura dos tecidos vegetais externos são modificados de modo a evitar ao máximo a perda de água. FIQUE DE OLHO O conteúdo formado pelas moléculas orgânicas e inorgânicas (com exceção da água) que compõem os vegetais é chamado de matéria seca, pois consiste no material residual após desidratação total do alimento. 34 É importante lembrar que as moléculas orgânicas (carboidratos, lipídeos, proteínas, vitaminas, ácidos orgânicos, compostos fenólicos e aromáticos) são produtos do metabolismo vegetal e são construídas a partir da absorção do gás carbônico (CO2) da atmosfera. Enquanto que as moléculas inorgânicas (água e sais minerais) são absorvidas do solo pelas raízes. Assim, a fase do desenvolvimento vegetal e a parte do vegetal usada como alimento são fatores fundamentais para a sua composição química e, consequentemente, seu valor nutricional. Os nutrientes podem ser divididos em assimiláveis e não assimiláveis: Nutriente assimilável Um nutriente assimilável é aquele que o organismo humano possui enzimas capazes de degradá-lo, e assim é possível sua assimilação/absorção, como ocorrem com alguns carboidratos (amido, por exemplo), proteínas e lipídeos, que após a degradação enzimática no processo de digestão são convertidos em açúcares, aminoácidos e ácidos graxos, respectivamente. Nutriente não assimilável Um nutriente não assimilável (a celulose, por exemplo) é aquele que o organismo humano não tem repertório enzimático para degradá-lo, e, consequentemente, não consegue assimilar/ absorver essas moléculas grandes, como as fibras de celulose. Porém, essas fibras são solúveis em água e fundamentais para o movimento do bolo alimentar e fecal ao longo do aparelho digestivo. Funcionando como grandes aliadas em dietas para emagrecimento por aumentar a sensação de saciedade sem impacto no valor nutricional. Os carboidratos presentes nas células vegetais podem estar na forma de mono e dissacarídeos (principalmente glicose, frutose e sacarose) ou polissacarídeos (amido e celulose). Sendo que as hortaliças com maior teor de carboidratos assimiláveis são aquelas que acumulam nutrientes para a nutrição da planta (bulbo, raízes e tubérculos) ou para a geração de novos indivíduos (frutos e sementes. Além disso, os mono e dissacarídeos funcionam como fonte de energia para as reações metabólicas das células vegetais. Já os polissacarídeos, podem compor as reservas energéticas ou terem função estrutural. FIQUE DE OLHO A desidratação é um método utilizado pela indústria de alimentos que permite o aumento do tempo de prateleira dos alimentos processados. Porque, uma vez que a redução do conteúdo de água reduz as chances de desenvolvimento de microrganismos nos alimentos, já que a disponibilidade de água é uma condiçãonecessária para a vida de qualquer ser vivo. 35 O amido é uma sequência de moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas do tipo -1,4 (cadeia linear) e -1,6 (ramificações) e constituem os tecidos de reserva energética das células vegetais. E, a celulose é uma sequência de moléculas de glicose unidas por ligações glicosídicas do tipo -1,4, formando polímeros mais rígidos que são responsáveis pela estrutura das células vegetais. Logo, as hortaliças que desempenham funções na nutrição do vegetal, possuem uma maior concentração de amido. Em contrapartida, os grupos de vegetais que desempenham funções estruturais no vegetal são pobres em amido e ricos em celulose. Nesse contexto, a utilização desses vegetais na dieta humana deve balancear o seu conteúdo de amido, que é convertido em moléculas de glicose após a digestão humana, e de celulose, que são fibras solúveis não digeríveis pelo organismo humano, de acordo com a necessidade. Diferentemente dos carboidratos, as proteínas e os lipídeos não desempenham funções na nutrição dos vegetais, apenas estrutural. As proteínas presentes nas hortaliças basicamente são as que compõem o citoesqueleto da célula vegetal e as enzimas (proteínas com função catalítica) e constituem a principal fonte de nitrogênio e compostos nitrogenados das hortaliças. Já os lipídeos presentes, em sua maioria, são precursores da membrana celular ou formadores de camadas hidrofóbicas protetoras das superfícies do vegetal, como, por exemplo, as ceras. Os componentes principais da matéria seca são carboidratos, proteínas e lipídeos. Contudo, também são detectados ácidos orgânicos, provenientes do metabolismo energético das células vegetais, compostos fenólicos, que compõem uma vasta diversidade de moléculas, em especial as envolvidas na proteção das células vegetais, como antioxidantes e pigmentos, minerais, que funcionam principalmente como cofatores enzimáticos das reações metabólicas das células vegetais e os compostos responsáveis pelos aromas (aromáticos). Esses compostos presentes em menor quantidade nas hortaliças na maioria das vezes estão associados. Por exemplo, os compostos fenólicos em geral se ligam a íons (minerais) para estabilizar sua conformação química. E, ainda, muitas vezes o mesmo composto é alocado em grupos diferentes, como por exemplo, as antocianinas, que são compostos fenólicos, associados ou não a íons, que podem ser responsáveis a cor e/ou aroma das hortaliças. 3. COLORAÇÃO DAS HORTALIÇAS A coloração das hortaliças é causada pela presença de moléculas químicas naturais produzidas ao longo do metabolismo das células vegetais e funcionam não só para a estética do prato como do ponto de vista nutricional. Afinal, em geral essas moléculas estão associadas ao conteúdo de micronutrientes (vitaminas e sais minerais) dos alimentos. A variedade das classes de pigmentos nos alimentos não é grande, mas há um grande número de moléculas diferentes que integram 36 esses grupos e são responsáveis pelas diferentes cores e tonalidades observadas nos alimentos. Os pigmentos presentes nas hortaliças podem ser divididos em 4 grupos: carotenóides, clorofila, antocianinas/flavonóides e as betalaínas. Mas antes de começarmos a detalhar o conteúdo sobre os pigmentos é importante ter em mente que mesmo fazendo parte do mesmo grupo, os pigmentos podem apresentar cores distintas. A Figura 2 ilustra algumas das cores presentes nas hortaliças, bem como o grupo de moléculas responsáveis pela pigmentação e os alimentos em que eles são encontrados. Figura 2 - Principais pigmentos encontrados nas hortaliças e suas respectivas cores Fonte: Fleren, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A figura ilustra alguns dos pigmentos encontrados em hortaliças, suas respectivas cores e exemplos de alimentos em que eles são encontrados. Os pigmentos citados são moléculas hidrofóbicas e hidrofílicas. Os únicos pigmentos cujas moléculas são hidrofóbicas são os carotenóides, que na Figura 2 temos dois representantes, o licopeno e o beta-caroteno que conferem as cores vermelho e laranja, respectivamente. E, a clorofila (pigmentação em vários tons de verde), as antocianinas (pigmentação com ampla variedade de cores) e as betalaínas (pigmentos amarelos, vermelhos ou roxos) são moléculas hidrofílicas. 37 Os carotenóides são polímeros lipossolúveis formados pela união de 40 unidades de moléculas de isopreno (Figura 3). Inclusive, o isopreno é a molécula precursora de todas as vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). Essas moléculas de localizam em vacúolos em todas as células vegetais, pois são usadas para a construção das membranas celulares. Esses pigmentos podem apresentar variações de cor em amarelo, laranja e vermelho. É importante chamar atenção de que os carotenóides são moléculas muito comuns em todos os tecidos dos vegetais, inclusive nas folhas. Contudo, a coloração verde fornecida pela clorofila mascara sua presença. As variações nas moléculas de carotenóides se dão por reações químicas que acontecem nas moléculas de isopreno (hidrogenação – inclusão de átomos de Hidrogênio; dehidrogenação – retirada de átomos de Hidrogênio; ou ciclização - fechamento da cadeia aberta da molécula). Essas modificações estruturais formam diferentes moléculas que são organizadas em duas classes: os carotenos e as xantofilas. A diferença básica entre essas duas classes é que os carotenos são compostos formados apenas por átomos de carbono e hidrogênio, enquanto que nas xantofilas há a ligação de grupamentos hidroxila (-OH) na cadeia carbônica. Figura 3 - Molécula de isopreno Fonte: Gstraub, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A figura ilustra a molécula de isopreno que é composta por cinco átomos de carbono e 8 átomos de hidrogênio distribuídos em uma cadeia aberta e linear. FIQUE DE OLHO A variação de cor nos alimentos pode ser observada nos pimentões, enquanto essa hortaliça ainda não atingiu seu estado de maturação a presença de clorofila é grande e a cor predominante é verde. Contudo, conforme esse fruto vai amadurecendo e a fotossíntese não é mais necessária, o conteúdo de clorofila reduz e as outras cores, geradas pelos carotenóides, podem ser observadas. 38 A clorofila é o principal pigmento presente nas hortaliças. Pois, além de ser o pigmento presente em maior quantidade, a clorofila é responsável pela reação de fotossíntese que é vital para o desenvolvimento do vegetal. Afinal, a fotossíntese consiste na transformação da energia luminosa em química pela absorção da luz pela clorofila que viabiliza a captação do gás carbônico atmosférico e da água do solo para construção de biomoléculas e, como consequência, produz de gás oxigênio. A reação de fotossíntese e a molécula de clorofila são ilustradas na Figura 4. Figura 4 - Fotossíntese Fonte: Sumstock, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A figura mostra a molécula de clorofila, responsável pela coloração verde das plantas, e um esquema da reação de fotossíntese em que a planta converte a energia solar em energia química, absorvendo água do solo e o gás carbônico atmosférico para a construção das suas moléculas orgânicas e como consequência liberam gás oxigênio. Apenas os tecidos vegetais que fazem fotossíntese têm clorofila, que é a molécula responsável pela absorção da energia luminosa e fica armazenada no citoplasma da célula vegetal em organelas chamadas de cloroplastos. E, uma vez que o pigmento é excitado uma cascata de reações se segue mediada por enzimas e moléculas de ATP. É importante ressaltar que quando falamos em clorofila, estamos nos referindo a 4 pigmentos diferentes: A, B, C e D, mas com estruturas muito parecidas. São moléculas chamadas de porfirinas que no centro interagem com íons de Magnésio, como pode ser visto na Figura 4. A clorofila A é a mais importante e a detectada em maior quantidade, os demais tipos de clorofila como auxiliares 39 servem para ampliar a faixa de comprimentos de onda de luz que os diferentes tipos de pigmento podemabsorver. Os flavonóides, também conhecidos como antocianinas, são os pigmentos com maior número de moléculas diferentes descritas (mais de 9.000), e, consequentemente, os pigmentos com a maior variedade de cores (branco, amarelo, laranja, vermelho, rosa, verde, azul e roxo). Na Figura 2 os integrantes desse grupo estão representados pelas antocianinas (pigmento roxo) e as antoxantinas (pigmento branco). A estrutura química desses pigmentos é composta por diversos anéis fenólicos associados ou não com outros grupamentos funcionais, o que interfere nas suas propriedades e funções biológicas levando a sua distinção em subgrupos (antocianinas, taninos condensados, flavonóis, flavonas, flavanodióis, chalconas, auronas e flobafenos). De modo geral, os integrantes desse grupo são excelentes antioxidantes, e atuam como protetores do estresse oxidativo, causado pelos radicais livres, nas células vegetais. Assim como os carotenóides, os flavonóides são armazenados em vacúolos no citoplasma da célula vegetal e funcionam como coadjuvantes na absorção da energia luminosa, colaborando na reação de fotossíntese. A cor desses pigmentos é sensível a variações no pH, por isso no processo de preparo pode haver alteração no pH e consequentemente nas cores que observamos nos alimentos. Por fim, o último pigmento abordado nessa unidade são as betalaínas, que não foram ilustradas na Figura 2. As betalaínas nunca coexistem com as antocianinas, elas se substituem. A estrutura da betalaínas é semelhante à dos flavonóides, assim como suas propriedades e faixa de cores (amarelo, vermelho e roxo). E, assim como as antocianinas, as betalaínas são armazenadas em vacúolos no citoplasma da célula vegetal e, também, auxiliam na reação de fotossíntese. Esses pigmentos são sintetizados a partir dos aminoácidos com radicais aromáticos (fenilalanina e tirosina). A origem das betalaínas confere a principal diferença entre antocianinas e betalaínas, pois o primeiro grupo não contém nitrogênio, enquanto o segundo, por ser formado a partir de aminoácidos possui nitrogênio na sua estrutura química. FIQUE DE OLHO A alteração de cor baseada no pH do alimento pode ser observada no repolho roxo que nos alimentos in natura apresenta uma cor intensa, pois está em pH ácido aprisionado em vacúolos no citoplasma da célula vegetal. Mas ao processar essa hortaliça no liquidificador com água percebe-se um escurecimento da cor, justamente pela alteração do pH, chegando a um valor próximo da neutralidade. 40 As betalaínas são divididas em dois subgrupos, as betaxantinas (cor amarela) e as betacianinas (vermelho). A estrutura química desses pigmentos também confere a eles um grande potencial antioxidante, importante na preveção do estresse oxidadito, e resistência a variações de pH, mas grande susceptibilidade ao aumento da temperatura, justamente pela sua origem ser a partir de aminoácidos. 4. ALTERAÇÕES NA COLORAÇÃO DAS HORTALIÇAS Em relação às alterações na coloração das hortaliças, dos pigmentos apresentados nesta unidade, todos eles são degradados quando expostos ao calor, mas apenas a clorofila é sensível a variações de pH, pois em ambientes ácidos a clorofila perde a ligação com o Magnésio, perdendo sua função, estrutura e cor. Além do efeito do calor, a coloração pode ser afetada pela presença de enzimas, pois a exposição das hortaliças a condições físicas estressantes pode levar a alterações celulares de modo que os pigmentos (compartimentalizados em vacúolos ou organela) são liberados no citoplasma e entram em contato com enzimas da classe das oxidases (presentes no citoplasma ou na membrana) capazes de degradar os pigmentos, causando o escurecimento dos alimentos. Vale ainda ressaltar que o efeito do gás oxigênio presente na atmosfera tem um efeito semelhante ao da enzima peroxidase em alimentos ricos em carboidratos. Pois, o gás oxigênio (O2) é uma espécie química muito reativa que leva a oxidação dos carboidratos, causando o escurecimento do alimento. O escurecimento das hortaliças também pode ser causado pela reação de Maillard. Conforme foi abordado na Unidade 1, essa reação é causada pela exposição de alimentos contendo carboidratos e proteínas que quando aquecidos formam complexos carboidrato-proteína chamados de melanoidinas que apresentam coloração marrom. As alterações na cor dos alimentos não são causadas apenas por reações químicas entre constituintes do próprio alimento. Esse sinal de deterioração também pode ser causado pela ação de microrganismos contaminantes, que degradam os nutrientes presentes no alimento produzindo pigmentos microbianos, enzimas, ácidos ou outros metabólitos que promovam a deterioração dos alimentos. Considerando que o escurecimento dos alimentos é resultado da deterioração das hortaliças, esse fenômeno, independente da sua causa, precisa ser evitado ao máximo. Para tanto, uma série de medidas podem ser adotadas, como: • Reduzir os danos físicos aos alimentos, que consequentemente, reduz a possibilidade de entrada de microrganismos; 41 • Remover a parte danificada e evitar o contato com o agente escurecedor, inclusive a exposição ao ar; • Uso de compostos químicos capazes de inibir o escurecimento, como, por exemplo, o uso de ácidos para evitar a oxidação de carboidratos Evitar a deterioração dos alimentos é uma etapa fundamental para a entrega de um produto final de qualidade. Aliás, todo o cuidado na execução das etapas de pré-preparo (todos os métodos que antecedem a cocção) e preparo (todos os métodos que ocorrem a partir da cocção) tem como objetivo final a obtenção de alimentos seguros e que atendam às necessidades do consumidor. 5. MÉTODOS APLICADOS NO PRÉ-PREPARO DAS HORTALIÇAS O pré-preparo é uma etapa fundamental no processamento dos alimentos, mas os procedimentos envolvidos podem variar de acordo com a hortaliça a ser processada. De modo geral, os procedimentos realizados antes da cocção envolvem a colheita, armazenamento e transporte até a unidade de processamento. Em seguida, a hortaliça passa pelos processos de lavagem, higienização, retirada da casca, corte e branqueamento. Após a realização de todas essas etapas o vegetal é armazenado, de modo que não sofra deterioração, até a cocção. Portanto, uma vez que o alimento chega à unidade de processamento, seja ela uma cozinha ou uma indústria do ramo alimentício, a primeira etapa é a lavagem das hortaliças para a remoção de sujeiras, partículas de solo, microrganismos e produtos químicos usados no cultivo. O processo de lavagem pode ser feito com ou sem adição de detergente e, em alguns casos, é necessário a utilização de escovas para a remoção mecânica dos resíduos de cultivo. Porém, apenas a lavagem em água potável não é suficiente para a remoção dos microrganismos adquiridos pelas hortaliças durante o cultivo, a colheita ou o transporte até a unidade de destino. Por isso, é necessária a etapa de higienização, realizada com hipoclorito ou outros produtos químicos apropriados para a eliminação dos microrganismos presentes na superfície das hortaliças. 42 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: A higienização/desinfecção é uma etapa muito importante para reduzir as chances de contaminação dos alimentos e, consequentemente, transmissão de doenças de origem alimentar. Inclusive, a partir dessa etapa, o processamento deve se atentar a limpeza e sanitização adequada dos utensílios (talheres, bancadas, recipientes, etc.) utilizados para manipular os alimentos. Na sequência das etapas de pré-preparo as hortaliças são descascadas, quando é possível (vegetais folhosos não passam por essa etapa). A remoção das cascas ou peles dos alimentos pode ser feita mecanicamente com o auxílio de facas, como é o caso de vegetais com casca grossa, como raízes e tubérculos, ou, pela aplicação direta ou indireta de calor. A aplicação direta de calor é feita em hortaliças de pele fina, como tomate e pimentão, expondo o vegetal ao contato direto com a chama.Enquanto que na aplicação indireta, usada em vegetais de pele grossa, como beterraba e batata doce, o alimento é exposto ao vapor de água, que umedece a casca e provoca o seu descolamento da hortaliça. Após a remoção das cascas as hortaliças são cortadas de acordo com a preparação culinária em execução, alguns dos cortes são ilustrados na Figura 6. E, devido à importância da França na gastronomia os nomes dos cortes normalmente são em francês. Sendo os mais básicos: FIQUE DE OLHO Considerando que o produto utilizado na higienização evapora e não fica na solução em que a hortaliça está mergulhada, há sempre uma discussão a respeito da realização de outra etapa de lavagem após a desinfecção com hipoclorito. Contudo, é recomendado que se a escolha for realizar uma nova etapa de lavagem, essa água seja filtrada em filtro biológico. Pois, a água fornecida pelo sistema de abastecimento contém microrganismos que podem contaminar os alimentos e comprometer a segurança do produto final. 43 • Palito ou bastonete – são cortes longitudinais com espessura variada, dão origem ao corte dos cubos. A espessura e comprimento do corte, respectivamente, definem a nomenclatu- ra: Pont-neuf (1,5 cm x 7 cm), batata-frita (1 cm x 5 cm), Bâtonnet (8 cm x 3 cm), Mignonne- te (6 cm x 4 cm), Jardinière (3 cm x 2 cm), Alumette (3 cm x 5 cm) e Julienne (3 cm x 3 mm); • Cubos – para esse corte primeiro são cortados bastões que em seguida são cortados em cubo com tamanhos padronizados e bem definidos. A nomenclatura varia de acordo com o tamanho do cubo: Bretonne (2,0 cm de lado), Mirepoix (1,5 cm de lado), Parmentier (1,2 cm de lado), Macedoine (1 cm de lado), Printanier (8 mm de lado), Parisiènse (5 mm de lado) e Brunoise (3 mm de lado); • Chiffonade – corte usado para fatiar hortaliças folhosas; • Fatia/Rodelas – cortes feitos em formato redondo, com espessura variada que define o nome do corte: Chips (2 mm de espessura), Soufflé/Vichy (3 mm de espessura) ou meda- lhão (fatias espessas); • Paysanne/Concasser – cortes de formatos irregulares. É importante chamarmos atenção para a relação entre os cortes e o impacto na textura e tempo de cocção. Pois, em cortes maiores, há uma maior superfície de contato e a estrutura das hortaliças está mais preservada, fazendo com que leve mais tempo de exposição ao calor para que todo o vegetal atinja o ponto de cocção desejado. Enquanto que nas hortaliças submetidas a cortes menores, observa-se o efeito contrário. Após os cortes, as hortaliças são armazenadas (preferencialmente em temperatura de refrigeração) seguindo as normas assépticas ou ainda podem passar por uma etapa chamada de branqueamento. Muito embora o termo dê a idéia de que o alimento vai perder sua cor original e “embranquecer”, essa técnica é feita justamente para intensificar a cor dos pigmentos presentes nas hortaliças. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 44 6. MÉTODOS APLICADOS NA CONSERVAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE HORTALIÇAS Os caminhos a ser seguido após as etapas de pré-preparo dependem muito da hortaliça e da preparação culinária envolvida. No caso de a hortaliça ser submetida à cocção, ela segue para a área de preparo, onde será submetida à ação do calor até a conclusão do processo. Em contrapartida, se as hortaliças forem para consumo in natura, como, por exemplo, na forma de saladas, ou serem preservadas para utilização posterior, alguns métodos podem ser aplicados para reduzir ou impedir a sua deterioração. Os métodos de conservação são inúmeros, mas todos se baseiam de alguma forma em manter os alimentos próprios para consumo e/ou reduzir as chances de proliferação de microrganismo. Eles podem se basear na redução da temperatura de exposição, retirada de água, adição de conservantes, proteção do contato com ar atmosférico, fermentação ou exposição a solução ácida e salgada (conserva). A refrigeração, associada à proteção contra o contato com o ar atmosférico, é uma alternativa comum para as hortaliças que serão consumidas in natura. A redução da temperatura diminui a proliferação dos microrganismos, enquanto a ausência de contato com o gás oxigênio (presente no ar) impedem ou, ao menos, retardam a deterioração dos alimentos. De acordo com a legislação brasileira, hortaliças podem ser mantidas sob refrigeração (abaixo de 10ºC) por até 3 dias, no caso das folhosas, ou 7 dias, para os demais grupos sem comprometimento da sua qualidade. Outro método de preservação que envolve a temperatura é o congelamento. Nesse caso, o alimento é exposto a temperaturas abaixo de 0ºC, levando as moléculas de água presentes nos alimentos a saírem do estado líquido e passarem para o estado sólido. Esse método também requer a proteção do alimento contra o contato com o ar. Nessas temperaturas os microrganismos reduzem sua taxa metabólica e não conseguem se proliferar e deteriorar os alimentos. A temperatura de congelamento é um fator determinante para o prazo de validade, justamente pela garantia da inibição do desenvolvimento microbiano. De acordo com a legislação brasileira, alimentos mantidos a temperaturas abaixo de -20ºC podem ser armazenados por 3 meses. A embalagem por si só não é um método de preservação eficiente, mas quando combinado com a redução de temperatura constituem o principal método de conservação dos alimentos perecíveis tanto na escala doméstica quanto industrial. Ele é melhorado quando for feito à vácuo, pois nessa condição há a garantia de que o ar foi totalmente removido e não haverá deterioração causada pela reação do oxigênio com os constituintes do alimento, nem o desenvolvimento dos microrganismos que dependem de oxigênio para se proliferar. 45 Além do uso de embalagens, os alimentos podem ser expostos soluções ou condições adversas que impedem a deterioração oxidativa dos componentes do alimento e também o desenvolvimento microbiano. Como, por exemplo, a fermentação de vegetais como picles e repolho em que os alimentos estão expostos a um pH baixo capaz de preservar o alimento. Ou, também a exposição dos alimentos a uma solução de sal (salmoura) com ou sem redução do pH, comum na preservação de alimentos em conserva como azeitonas e palmitos. No primeiro caso, o pH baixo ataca a membrana dos microrganismos contaminantes eliminando-os e estabiliza os carboidratos presentes nos alimentos impedindo sua oxidação. E, no segundo, a alta concentração de sal leva a um desequilíbrio osmótico nas células dos microrganismos contaminantes provocando sua eliminação. Assim como a exposição a soluções salgadas, a desidratação de um alimento é um método de preservação que associa a ausência de água (fundamental para o desenvolvimento de qualquer organismo vivo) com a concentração das moléculas que constituem esse alimento. Dessa maneira, também há um desequilíbrio osmótico nos possíveis microrganismos contaminantes inibindo seu metabolismo até a inativação total. Com exceção dos métodos baseados na redução da temperatura, os procedimentos realizados para a preservação dos alimentos levam a alterações nas características sensoriais dos alimentos. Assim, a escolha do método de preservação deve sempre considerar os objetivos a serem alcançados e as consequências dos métodos escolhidos. Como você pode observar, as hortaliças são um grupo grande e variado de alimentos que devem ser separados para uma melhor abordagem. Nessa unidade o conteúdo não abordou diretamente os conteúdos a respeito das frutas, cereais e leguminosas que serão parte das próximas unidades. FIQUE DE OLHO O uso de embalagens a vácuo elimina o desenvolvimento dos microrganismos aeróbios, ou seja, aqueles que precisam do oxigênio para o processo de respiração. Contudo, existem os microrganismos anaeróbios que utilizam outras moléculas no lugar do oxigênio e são beneficiados pelo ambiente anóxico criado. Assim, é importante deixar claro que os métodos de preservação são aliados às boas práticas na manipulação de alimentos, que visam reduzir a introduçãode microrganismos durante o processamento. 46 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender a definição correta de hortaliças, bem como evitar o uso de termos como sinônimos de maneira inadequada; • compreender os termos dados às partes das plantas usadas como alimentos e que definem a que grupo de hortaliças eles pertencem; • analisar os principais pigmentos encontrados nos alimentos e a sua importância nas funções biológicas e na nutrição humana; • compreender como ocorre a deterioração dos alimentos, em especial seus efeitos na degradação dos pigmentos e, consequentemente, na coloração; • aprender as etapas que compõem o pré-preparo, especialmente a importância da higienização; • analisar os métodos aplicados na conservação e no armazenamento das hortaliças. PARA RESUMIR ALMEIDA, D. Manual de Culturas Hortícolas. Editora Presença, 2006. BELITZ, H. D. et al. Food Chemistry. Springer, 4ª ed., 2009. CHEN, C. Pigments in fruits and vegetables: genomics and dietetics. Springer, 1ª ed., 2015. deMAN, J. M. et al. Principles of Food Chemistry. Springer, 4ª ed., 2018. FILGUEIRA, F. A. R. Novo manual de olericultura. Editora UFV, 1ª ed., 2000. GROSS, J. Pigments in vegetables: Chlorophylls and carotenoids. Springer, 1ª ed., 1991. HUI, YH. Handbook of fruit and vegetables flavors. Wiley, 1ª ed., 2010. JEANET, R.et al. Handbook of Food Science and Technology 3. Wiley, 1ª ed., 2016. MADEIRA, N.R. et al. Manual de produção de hortaliças tradicionais. Embrapa, 1ª ed., 2010. NELSON, D.L. et al. Princípios da Bioquímica de Lehninger. Artmed, 6ª ed., 2014. NUNES, M. C. N. Color atlas of postharvest quality of fruits and vegetables. Blackwell, 1ª ed., 2008. SCHIMDIT, F. L. et al. Pré-processamento de frutas, hortaliças, café, cacau e cana-de- açúcar. Elsevier, 1ª ed., 2015. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Bioquímica das frutas Introdução Você está na unidade Bioquímica das Frutas. Conheça aqui as principais características das frutas, questões relacionadas a classificação e pigmentos. Entenda também as principais mudanças que ocorrem nestes vegetais após a colheita, decorrente do amadurecimento, e por que estas se fazem tão importantes para o nosso dia a dia. Aprenda ainda como armazenar e conservar estes alimentos mantendo a qualidade até chegar à mesa do consumidor. Bons estudos! 51 1. INTRODUÇÃO À BIOQUÍMICA DAS FRUTAS As frutas são alimentos de origem vegetal que compõe a base da alimentação saudável, devendo ser consumida diariamente. Atualmente, o Brasil ocupa o terceiro lugar na produção de frutas em escala mundial com aproximadamente 45 milhões de toneladas produzidas por ano, possuindo oferta de frutas tropicais e clima tropical durante o ano. 1.1 O fruto e suas partes Os frutos são produtos comestíveis de árvores ou plantas, constituídas de sementes e seu invólucro, geralmente suculento. Porém, nem todo fruto é fruta. A palavra fruta vem do latim fructus (fruição), refere-se à parte carnosa e adocicada de uma fruta madura (CHITARRA; CHITARRA, 2005). O fruto é um órgão exclusivo das angiospermas, sua estrutura é formada através do desenvolvimento do ovário após a fecundação, protegendo as sementes podendo auxiliar na dispersão. Geralmente, os frutos são compostos de pericarpo e sementes (LORENZI, 2013). Dentre as camadas dos frutos estão o pericarpo, que constitui o próprio fruto sem as sementes. Ele pode ser dividido em três camadas: o epicarpo que é a casca, mesocarpo a camada intermediária que pode ser chamada de polpa e endocarpo que constitui a camada que envolve a semente (LORENZI, 2013). Em alguns frutos como o pêssego e a manga o endocarpo é rígido formando um caroço. A semente é que abriga o óvulo fecundado que poderá dar origem a outra planta da mesma espécie. De acordo com a classificação morfológica, as frutas podem ser divididas em três tipos. Na tabela “Classificação Botânica das frutas” é possível visualizar que esta divisão está relacionada ao desenvolvimento do ovário podendo denominar de simples, agregada e múltiplas (LORENZI, 2013). Diferente das outras classificações, no caso das frutas que são denominadas acessórias, seu desenvolvimento ocorre a partir de outras estruturas que não são ovários, chamadas de pseudofruto, como, por exemplo, a maçã, caju e pêra (LORENZI, 2013). 52 Figura 1 - Classificação Botânica das Frutas Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra uma tabela na qual as frutas são divididas de acordo com o desenvolvimento do ovário. 1.2 Composição das Frutas As frutas constituem em um dos suprimentos para uma boa alimentação. Elas são compostas por cerca de 75 a 95 % de água, 5 a 25 % de carboidratos representando açucares solúveis, possuem cerca 0 a 60% de lipídeos e baixo teor de proteínas exceto nas oleaginosas como por exemplo, castanha e nozes. Entre os principais minerais encontrados nas frutas banana, laranja, abacate, está o potássio; e na uva passa e damascos desidratado, o ferro. São ricas em fibras insolúveis como a celulose que proporciona firmeza e as fibras solúveis como pectina e gomas que possuem a capacidade de formar géis (FENNEMA, 2019). 53 Figura 2 - Composição das frutas Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra uma mapa da composição das frutas. Nos frutos verdes, são encontradas as protopectinas, caracterizada por uma substância sólida e insolúvel, que a medida que o fruto amadurece se transforma em pectina, substância solúvel e com propriedade de formar géis e posteriormente se converte em ácido péctico que desintegra a polpa da fruta. O teor de pectina e acidez das frutas podem ser considerados importantes na produção de geleias, pois quanto maior a quantidade destes compostos, melhor será a formação do gel (ARAÚJO, 2009). 2. PIGMENTOS NATURAIS A cor é um dos atributos mais importantes de um alimento, pois ela determina fatores como aparência, critérios de identificação além do julgamento da qualidade do produto. A coloração encontrada nas frutas é determinada pela presença de pigmentos naturais. Os pigmentos são substâncias instáveis que 54 participam de diferentes funções, entre elas atuar como indicador de alterações químicas que ocorrem durante o processamento ou armazenamento de frutas (CHITARRA, 2009). Como observamos na tabela “Pigmentos vegetais”, nas frutas predominam pigmentos como a clorofila, carotenóides e flavonóides. Figura 3 - Pigmentos vegetais Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra uma tabela na qual as frutas são divididas por seus pigmentos e as cores correspondentes a eles. 2.1 Clorofila As clorofilas são responsáveis pela cor verde, que é a mais abundante na natureza. Estes pigmentos são encontrados principalmente em frutas que ainda não amadureceram. Durante o processo de amadurecimento, a concentração de clorofila diminui destacando a coloração da fruta madura, como é mostrada na figura “Ciclo de amadurecimento da banana” que ao passar dos dias a clorofila (verde) vai dando lugar ao carotenoide (amarelo). Este pigmento atua como fotorreceptor essencial ao processo de fotossíntese sendo encontrado em suspensão nas células dos cloroplastos associadas a carotenoides, lipídeos e proteínas (FENNEMA, 2019). As propriedades químicas das clorofilas sofrem alterações devido a fatores como pH, aquecimento, presença de luz, oxigênio e enzimas. Quando submetidas ao aquecimento, proteínas que estão ligadas a clorofila irão desnaturar, assim este pigmento ficará desprotegido gerando uma coloração amarelada (feofitina) devido a liberação de magnésio causada pela ação do pH do meio. A clorofila também é protegida contra a degradação quando associada a lipídeos e carotenóides, no entanto quando submetida a luz e oxigênio, o vegetal começa o processo de senescência tornando a clorofila incolor - fotodegradação (FENNEMA, 2019). 55 Figura 4 - Ciclo de amadurecimento da banana Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer:A imagem ilustra o ciclo de amadurecimento da banana e a mudança no seu pigmento e na sua cor, de fruta verde com presença da clorofila, a fruta madura com o caretenoide, através de uma escala de cores que vai do verde escuro, quando o fruto está verde, ao amarelo, quando o fruto está maduro. Em frutas que apresentam coloração verde, ao passar por um processamento em meio ácido pode perder a cor. Contudo, para evitar a formação da coloração verde acastanhada, faz necessário a adição de bicarbonato de sódio ou acondicionar esses alimentos em atmosfera modificada ricas em gás carbônico (CO²) e baixas temperaturas que retardam a ação enzimática (FENNEMA, 2019). 2.2 Carotenoides Os carotenoides são pigmentos encontrados nos vegetais responsáveis pelos tons vermelho, amarelo e laranja em muitas frutas. Estes pigmentos desempenham um papel importante na saúde do vegetal e dos indivíduos que consomem alimentos que possuem estes pigmentos em sua composição. Os carotenoides atuam como antioxidantes naturais, ajudam o sistema imunológico, funcionam como anti-inflamatórios além de serem percussores da vitamina A. O seu consumo pode reduzir risco algumas crônicas a saúde como doenças, cardíacas, degeneração ocular e algumas formas de câncer. No entanto a única maneira de obtê-los é a ingestão de alimentos ou suplementos ricos desta substância (FENNEMA, 2019). Estima-se que os carotenoides vitamínicos A, presentes nas frutas e vegetais forneçam de 30 a 100% da exigência de vitamina da população humana. Existem cerca de 600 carotenoides na natureza, entretanto, apenas de 30 a 40 estão presentes na dieta, e 13 compostos e oito metabólitos são encontrados em tecidos humanos, variando de acordo com as dietas de cada indivíduo. Destes, o α-caroteno, β-caroteno, β-criptoxantina, a luteína, zeaxantina e o licopeno são responsáveis por aproximadamente 90% das concentrações plasmáticas dos carotenoides, entretanto, o plasma apresenta apenas 1% dos carotenoides do corpo (FENNEMA, 2019). 56 Todas as classes de carotenoides são compostos lipofílicos e, portanto, são compostos solúveis em óleos e solventes orgânicos. Eles são moderadamente estáveis ao calor estado sujeitos a perda da cor por oxidação. Os carotenoides podem ser isomerizados por calor, ácido ou luz. Possui uma faixa de cor que varia do amarelo ao vermelho, que serve para auxiliar na identificação (FENEMMA, 2019). 2.3 Flavonoides Os Flavonóides são compostos heterocíclicos com oxigênio, podendo ser encontrados somente em vegetais. Estes pigmentos são subdivididos em antocianinas e outros flavonoides. As antocianinas são encontradas em estruturas vegetais como flores e frutos, podendo entre vermelho intenso ao violeta e azul, atualmente 20 antocianinas são conhecidas e ocorrem naturalmente, apenas 6 são mais frequentes que são: pelargonidina (morango e amora), cianidina (jabuticaba), peonidina (cereja e uvas), delfinidina (berinjela), petunidina e malvidina (uvas). A estabilidade da coloração deve-se a sua degradação que pode ocorrer durante a extração do vegetal ou processamento e estocagem desses alimentos. No entanto a degradação é influenciada por fatores como: pH, temperatura, enzimas, ácido ascórbico, dióxido de enxofre e íons metálicos de ferro. Outros flavanoídes como antoxantinas são encontrados na forma livre ou de glicosídios associados a açúcares e taninos, apresentam coloração claras ou amareladas e são encontrados em alimentos como repolho branco, batata e cebola (FENNEMA, 2019). 2.4 Escurecimentos enzimáticos Os alimentos possuem vários fatores que influem na decisão do consumidor. A cor é um dos fatores que mais chama atenção do consumidor se tornando um aspecto de qualidade do produto. Como o próprio nome já define, escurecimento enzimático são aquelas em reações que depende da ação de enzimas. Em termos gerais as enzimas atuam como catalizadores de reações bioquímicas causando mudanças nos alimentos. As enzimas responsáveis por este escurecimento são as fenolases, polifenoxidases e polinenolases. As enzimas polifenoxidases, por exemplo, pode promover o escurecimento em frutas frescas quando sofrem algum dano físico ou quando cortadas. O escurecimento ocorre quando os compostos fenólicos presentes nas frutas são oxidados pela PPDs, formando melanina (pigmento escuro). Como podemos observar na figura “Oxidação enzimática de compostos fenólicos”, o primeiro produto formado desta oxidação é a quinoa, que resulta na formação de pigmentos escuros (ARAÚJO, 2011). 57 Figura 5 - Operação enzimática de compostos fenólicos Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra como se dá o processo de oxidação enzimática de compostos fenólicos. Esta reação enzimática pode ser desejável em produtos como ameixa seca, conferindo coloração escura. Mas em frutas como maçã é descrita como aspecto negativo, prejudicando a aparência do produto. Lembrando que este escurecimento é irreversível e só ocorrem quando há ruptura por corte ou quando são amassadas. Vale ressaltar que esse escurecimento gerado pela ação de enzimas pode ser prevenido realizando a inativação das enzimas, aplicando calor, reduzindo o pH, além da adição de substancias que inibam a ação enzimática ou a formação da melanina (ARAÚJO, 2011). Em alguns estudos recentes, tem utilizado a combinação do calor com a ultrassom tem sido eficiente na inativação de enzimas em sucos de frutas. Cao et al. (2018) avaliaram o efeito do processo térmico e ultrassom com diferentes temperaturas da água sobre a inativação das enzimas polifenoloxidase e peroxidase. Observou-se que as enzimas foram inativadas em todos os processos estudados além de constatar que o ultrassom pode encurtar o tempo e melhorar a eficiência de inativação em comparação com o tratamento térmico. Illera et al. (2018) utilizaram a termosonicação para inativação enzimática em sucos de maçã. 2.5 Escurecimento não enzimático Diferente das alterações enzimática, a reação de escurecimento não enzimático não depende das enzimas para ocorrer. Esta reação é mais lenta, em comparação com o escurecimento FIQUE DE OLHO Outras substancias que não são enzimas podem participar do processo de escurecimento enzimático como os flavonóis. Flavonóis são pigmentos que possuem cor amarela clara que podem ser encontradas em frutas cítricas. 58 enzimático devido à ausência da enzima catalizadora. A intensidade das reações de escurecimento não enzimático em alimentos depende da quantidade e do tipo de carboidratos presentes e em menor extensão de proteínas e aminoácidos. Sendo assim este escurecimento é resultado da descoloração provocada pela reação entre a carbonoila (aldeídos, cetona e açúcares redutores) e o grupo de amina livres, objetivando a formação do pigmento denominado de melanoidina (ARAÚJO, 2011). Do ponto de vista nutricional e estético, essas reações são indesejáveis. Em alguns produtos, a reação é desejável quando proporciona melhoria na aparência e no sabor, como por exemplo na crosta do pão, no café torrado, chocolate, cerveja, carnes. Porém, é indesejável em produtos como leite e seus derivados, onde ocorre a destruição da lisina durante o tratamento térmico e em sucos, vegetais, alimentos desidratados, concentrados, cerais e derivados que também ocorre a destruição da lisina durante o processo de secagem. Essas reações provocam significantes perdas de aminoácidos como lisina, arginina, histidina e triptofano, diminuição da digestibilidade da proteína, reduzindo assim o valor nutritivo e a formação de alguns inibidores e compostos tóxicos. Sendo assim alimentos ricos em açucares redutores são muito reativos. No entanto, outros fatores influenciam a reação, como a temperatura, pH, umidade, tipos de açúcar e amina, O2 e SO2. Em determinadas condições os açúcares redutores produzem pigmentos marrons que são desejáveis e importantes em alguns alimentos, no entanto existem pigmentos marrons que quando são produzidos por aquecimentoou durante o armazenamento que contém açucares redutores que são considerados como indesejáveis (FENNEMA, 2010). Dentre as reações de escurecimento não enzimático está a reação de Malliard, oxidação do ácido ascórbico e caramelização. A reação de Maillard envolve aldeído que é classificado como açúcar redutor e grupo de aminoácidos, peptídios e proteínas em seu estádio inicial, seguida de várias etapas culminando com a formação do pigmento escuro. Esta reação é a principal causa do escurecimento desenvolvido durante o armazenamento ou aquecimento prolongado do produto. No entanto além dessa tonalidade marrom, esta reação reduz a digestibilidade da proteína, inibe a ação de enzimas digestivas, destrói nutrientes como aminoácidos essenciais e ácido ascórbico e interfere no metabolismo de minerais mediante a complexação dos metais (ARAÚJO, 2011). Na interação do grupo amina com os monossacarídeos envolve inicialmente uma condensação do grupo carbonila com amina, seguida da eliminação de água e da formação da glicosilamina. Quando o aminoácido ou parte da cadeia da proteína participa da reação de Maillard ele tem perdas do ponto de vista nutricional. Esta destruição é importante para os aminoácidos essenciais no qual a lisina como o seu grupo épsilon livre torna mais sensível (ARAÚJO, 2011). Os lipídeos também podem participar desta reação. Para que ocorra a reação é necessária a 59 presença de grupos redutores (grupos carbonilas que são formados durante a oxidação de lipídeos insaturados. Sendo assim no processo oxidativo de ácidos são formados os grupos redutores que vão interagir com os grupos amina dos aminoácidos e das proteínas. Durante a reação de Maillard existem fatores que vão influenciar na reação como: • Temperatura: o aumento da temperatura aumenta a velocidade de escurecimento e também afeta a composição do pigmento formando ou aumentando o teor de carbono e a intensidade do pigmento. • pH: a intensidade da reação aumenta linearmente na faixa de pH de 3 a 8 e atinge a des- coloração máxima ba faixa de pH( 9 a 10). • Tipos de açúcar: a presença do açúcar redutor é essencial para a interação da carbonila om grupos de aminas livres. • Teor de umidade: a taxa de escurecimento é baixa ou nula quando existe atividade de água elevada ou muito baixa. • Sulfito: atua como inibidor da reação bloqueando a carbonila e prevenindo a condensação desses compostos pela formação irreversível de sulfonatos e a formação de melanoidina. Por outro lado, a reação de Maillard pode resultar em compostos de sabor e aromas indesejáveis, esses compostos são produzidos durante a pasteurização, estocagem de alimentos desidratados e durante a produção de carne e peixe. Em muitos alimentos a que passam pela reação de Maillard tem sido implicada a formação de compostos como a acrilamida, devido ao aquecimento em altas temperaturas durante o processamento. Níveis desse composto tem sido observado em vários alimentos que foram elaborados por fritura, panificação, assados entre outros (FENNEMA, 2019). Diversos esforços têm sido utilizados para a minimização desse composto, visto que em diversos estudos dessa substância em animais, a acrilamida e o seu metabolito, a glicidammide, são genotóxicos e cancerígenos: ou seja, causam danos no DNA e podem causar câncer. Já, a evidência derivada de experimentos em seres humanos de que a exposição dietética à acrilamida possa causar câncer, são limitadas e pouco convincentes (YAÑEZ et al., 2017). A principal causa de degradação da vitamina C é a oxidação, aeróbica ou anaeróbica, ambas levando à formação de furaldeídos, compostos que polimerizam facilmente, com formação de pigmentos escuros. A vitamina C oxida rapidamente em solução aquosa por processos enzimático e não enzimáticos, especialmente quando exposta ao ar, calor e a luz. Esta reação é acelerada por íons metálicos de cobre e ferro que em meio de baixa umidade a destruição é dependende da atividade de água (ARAÚJO, 2011). No entanto algumas enzimas presentes nos alimentos como peroxidase e ácido ascórbico 60 oxidade, aceleram a oxidação do ácido ascórbico, sendo assim essas enzimas devem ser inativadas afim de prevenir as perdas oxidativas. Na oxidação aeróbica do ácido ascórbico produz além do deidroácido ascórbico e a água oxigenada resultando assim na destruição da vitamina C. A oxidação indireta do ácido ascórbico ocorre pela ação das quinonas oriundas da oxidação de compostos fenólicos pelas PPOs. A velocidade da oxidação aeróbica é dependente do pH; é mais rápida e a degradação é maior em meio alcalino. Em pH muito ácido, o íon hidrogênio catalisa a decomposição do ácido ascórbico pela hidrólise do anel da lactona e, com a adicional descarboxilação e desidratação, ocorre a formação do furfural e dos ácidos. No entanto na oxidação aeróbica do ácido ascórbico ele produz além do deidroácido ascórbico vai produzir água oxigenada resultando assim na destruição da vitamina C (ARAÚJO, 2011). Em frutas desidratadas o escurecimento ocorre com a interação do deidroácido ascórbico com aminoácidos e/ou proteínas através de reações, que pode ocorrer de duas maneiras ou pela formação de compostos coloridos resultante da reação de deidroácido ascórbico com os aminoácidos ou de forma alternativa através da conversão em 2-aldeidofurano que escurece na presença de aminoácidos (ARAÚJO, 2011). Sendo assim as perdas mais significativas no processamento de alimentos são resultado da degradação química. Em alimentos ricos em ácido ascórbico a perda está associada com as reações de escurecimento não enzimático, no processamento das frutas a utilização de SO2, reduz as perdas de ácido ascórbico durante o processamento e o armazenamento da mesma. Os sucos armazenados sob congelamento sem desidratação podem ser armazenados por longos períodos para que evitar as reações de escurecimento não enzimático, sendo assim um suco concentrado de laranja tendo elevados níveis de ácido ascórbico escurece mais rápido do que o suco de maçã ou de uva por ter níveis menores do ácido. Esses níveis de ácido ascórbico em vegetais podem variar de acordo com as condições de crescimento, maturação e tratamento pós colheita (CREMASCO et al., 2016). A destruição anaeróbica do ácido ascórbico deve ser também levada em consideração, pois a velocidade desta reação é independente do pH, exceto na faixa de 3,0 e 4,0, em que há um ligeiro aumento da oxidação, entre os aceleradores desta reação estão a frutose, frutose – 6 – fosfato, sacarose e frutose caramelizada, sendo o produto final da reação o furfural e o CO2. A reação de caramelização, ocorre devido o aquecimento de carboidratos em particular açucares redutores e sacarose, em ausência de compostos nitrogenados, promovem um grupo complexo de reações envolvidas na caramelização (FENEMA, 2019). Esta reação é facilitada apenas por pequenas quantidades de ácidos (pH de 2 a 4) e sais (pH 9 a 10). No entanto mesmo que não haja carboidratos e nem proteínas a caramelização é similar ao escurecimento enzimático. A reação inicia-se pela desidratação do açúcar redutor com rompimento das ligações glicosídicas, 61 introdução de ligação dupla e formação de intermediários incolores de baixo PM, sendo assim os polissacarídeos são inicialmente hidrolizados em monossacarídeos. Os açucares no estado sólido são relativamente estáveis ao aquecimento moderado, mas em temperaturas acima de 120ºC são pirolisados para diversos produtos de degradação de alto PM e escuros, denominados de caramelo (ARAÚJO, 2011). O caramelo é produzido comercialmente tanto para corante quanto para aromatizante. Existem quatro classes de caramelos reconhecidas: classe I (caramelo claro), classe II (caramelo sulfocáustico) este é utilizado para dar cor a de cervejas e outras bebidas alcoólicas, classe III (caramelo amônio) utilizado na panificação, xaropes e pudins, classe IV (caramelo sulfito-amonio) utilizado na produção de refrigerantes a base de cola, bebidasácidas, xaropes, temperos, assados, doces e rações. Esta reação também pode ocorrer na panificação, principalmente na presença de açúcar, na preparação de chocolate e bombons (FENNEMA, 2019). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3. FISIOLOGIA PÓS-COLHEITA DAS FRUTAS As plantas normalmente transformam energia luminosa em energia química que são armazenadas em carboidratos, lipídeos e outros compostos. Este processo de conversão chamamos de fotossíntese. Posteriormente, ocorre os processos de respiração, onde ocorre a oxidação do CO² e transpiração (saída de água), liberando energia para o vegetal, conforme observado na figura “Processos Fisiológicos dos Vegetais”. As frutas são tecidos vegetais vivos que sofrem alterações continuas após a colheita, no entanto algumas destas modificações são indesejáveis pois diminuem a qualidade do produto podendo proporcionar perdas. Estas alterações não podem ser evitadas, mas podem ser retardadas (CHITARRA, 2009). 62 Figura 6 - Processos Fisiológicos dos Vegetais Fonte: KYTan, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra uma planta realizando três processos fisiológicos: respiração, transpiração e fotossíntese 3.1 Processos pós colheita A aplicação de técnicas pós colheita que retardam estas alterações bioquímicas decorrentes do amadurecimento das frutas, são essenciais para comercialização destes produtos mundialmente consumido. Dentre as causas das perdas das frutas estão: • Perdas fisiológicas • Temperatuas externas • Composição atmosférica • Ponto de colheita inadequado • Injúrias mecânicas por mal manipulação 63 Figura 7 - Processos pós-colheit Fonte: Katrina Brown, Shutterstock, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra o processo de pós-colheita de uma maçã. 4. FASE DE DESENVOLVIMENTO DOS FRUTOS O desenvolvimento dos frutos compreende em uma série de eventos que ocorrem desde o início do crescimento que acontece na planta mãe até a morte do mesmo. Dentre as fases do desenvolvimento dos frutos, podemos citar: • crescimento – ocorrendo a formação da polpa até o término do crescimento do fruto; • maturação: início do amadurecimento até o ponto de consumo; • amadurecimento- estagio onde ocorre o amolecimento, alterações de aroma e cor tor- nando o fruto mais desejável como alimento; FIQUE DE OLHO Um armazenamento que não possui condições ideais para guardar as frutas pode desencadear o amadurecimento das mesmas e que posteriormente pode vir a sofrer danos físicos e proporcionando a entrada de patógenos comprometendo a qualidade do fruto. 64 4.1 Desenvolvimento fisiológico dos frutos Quando a fruta inicia o processo de senescência, a mesma irá predominar as reações de degradação que culmina no apodrecimento do vegetal, tornando impróprio para o consumo. É importante entender as fases de desenvolvimento dos frutos pois podemos estender a vida de útil deste produto durante o armazenamento. Em frutas totalmente desenvolvidas, a textura e doçura são características desejáveis pelos consumidores. Em contrapartida a capacidade de armazenamento deste fruto diminui. Desta forma, faz necessário a colheita antecipada das frutas quando são designadas para o armazenamento, pois aumentam o período de vida útil (FENNEMA, 2019). Figura 8 - Desenvolvimento fisiológico dos frutos Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra como são as etapas do desenvolvimento fisiológico dos frutos. Quando a fruta inicia o processo de senescência, a mesma irá predominar as reações de degradação que culmina no apodrecimento do vegetal, tornando impróprio para o consumo. É importante entender as fases de desenvolvimento das frutas pois podemos estender a vida de útil deste produto durante o armazenamento. Em frutas totalmente desenvolvidas, a textura e doçura são características desejáveis pelos consumidores. Em contrapartida a capacidade de armazenamento deste fruto diminui. Desta forma, faz necessário a colheita antecipada das frutas quando são designadas para o armazenamento, pois aumentam o período de vida útil (FENNEMA, 2019). FIQUE DE OLHO A maioria das frutas são colhidas antes de completar a maturação as frutas antes de completar o seu total amadurecimento. Como exemplo temos a maça que são colhidas quando tiverem alta concentração de amido. O morango aumenta sua vida útil quando colhidos no estágio da ponta branca. 65 4.2 Frutos climatérios e não-climatérios Já sabemos que a fase de maturação termina quando o fruto pronto para ser consumido. E que várias frutas são colhidas antes do processo completo de maturação afim de evitar perdas. Mas devemos entender também que nem todas as frutas colhidas antecipadamente completa seu amadurecimento. Para que isto não ocorra, precisamos observar a produção de etileno e a respiração do vegetal (FENNEMA, 2019). A respiração dos frutos está relacionada à temperatura no qual ele está acondicionado. Assim quanto maior a temperatura, mais elevada vai ser a taxa respiratória, podendo acelerar o amadurecimento do fruto, podendo propiciar danos como por exemplo, o amolecimento. Associado a temperatura e respiração está a produção do etileno que consiste em um hormônio vegetal em forma de gás que regula o desenvolvimento, também promovendo a maturação da fruta. Desta forma, observando estes dois fatores podemos classificar os frutos em climatérios e não climatérios (CHITARRA, 2019). Frutos climatérios são caracterizados naquele que logo após o início da maturação, apresentam rápido aumento da intensidade respiratória e produção continua de etileno, podendo ser colhido em fases anteriores ao amadurecimento. No entanto aqueles classificados como não climatérios necessitam de um longo período para completar o processo de amadurecimento, devido seu processo de respiração ser menor e baixa produção de etileno, devido a estes fatores não podem ser colhidos antes (CHITARRA, 2009). Figura 9 - Classificação conforme modelo respiratório Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer: Vemos na imagem a classificação dos frutos conforme o seu modelo respiratório, dividindo-os entre climatérios e não-climatérios. 66 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 5. AÇÃO DO CALOR NAS FRUTAS Assim como em qualquer alimento que passa pelo processo de cocção, algumas técnicas culinárias são empregadas às frutas com a adição de calor para que a digestão seja facilitada. Isso garante que frutas sazonais possam ser consumidas durante todo ano em forma dos mais variados doces. Sendo eles compotas, geleias, frutas em calda, cristalizadas, desidratadas e em conservas (ARAÚJO, 2005). Veja a seguir alguns dos exemplos mais comuns de cocção das frutas: Fruta assada A fruta pode ser aberta na parte superior e dentro dela podem ser inseridos recheios como mel, açúcar ou até mesmo adoçantes, de acordo com a dieta recomendada. Compotas A fruta é descascada e cortada no formato de sua preferência e colocada em calda rala, cozida brevemente para que não se desmanche. Doce em massa FIQUE DE OLHO Já percebeu que quando compramos e banana em poucos dias ela fica apta para o consumo? Esse amadurecimento ocorre devido a taxa respiração e alta produção de etileno. Se colocarmos a banana em um sistema fechado ela irá amadurecer em menos tempo devido aprisionamento do gás etileno. 67 A fruta é cozida com casca até amolecer e posteriormente é misturada com a mesma quantidade de açúcar de acordo com o peso e cozida até obter o ponto desejado. Geleia Para que ocorra o preparo de geleia, é necessário que a fruta tenha em sua composição acidez, pectina e açúcar em teor adequado. Caso não existam esses elementos, pode ser adicionada a preparação. As frutas cítricas tem maior equilíbrio de quantidades desses componentes e são excelentes para a preparação de geleias. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: FIQUE DE OLHO As frutas podem ser consumidas em seu estado seco ou oleaginoso. No caso das frutas secas, a desidratação das frutas para ser fazerpassas faz com que aumente a concentração de nutrientes e minerais devido a evaporação da agua. Como exemplos têm as ameixas, uvas e figos em passa. Já as frutas oleaginosas, podem ser consumidas inteiras, torradas ou não, até mesmo em pedaços. Também são acrescentadas em bolos, biscoitos, etc. Elas geralmente devem ser consumidas com moderação devido à dificuldade de serem ingeridas, apesar do seu alto teor nutritivo. 68 6. MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO E ARMAZENAMENTO DAS FRUTAS A conservação de frutas é baseada em métodos para evitar a deterioração em um determinado período. Estes processos vêm a partir da forma de obtenção e armazenamento, o que evita a perda de qualidade das frutas. Isso evita que alterações sejam provocadas por enzimas presentes nos próprios frutos ou pela ação de microrganismos que, além de serem deteriorantes devido ao fato de causarem o apodrecimento, também produzem toxinas nocivas à saúde daqueles que consomem. Os métodos de conservação e armazenamento estão diretamente ligados ao fato de manter as qualidades sensoriais das frutas, como o sabor e aparência, bem como os nutrientes (FENNEMA, 2019). As frutas são alimentos perecíveis que após serem colhidos devem ser manuseados o mínimo possível, a fim de manter a qualidade. Devemos lembrar que o comportamento destes alimentos durante o armazenamento até a comercialização depende do manuseio correto, respeitando as características de cada espécie. As frutas após colhidas, passam pelo processo de pré resfriamento, lavagem com agua clorada sendo posteriormente submetidas a secagem e banho de cera melhorando a proteção. Após isto são selecionadas, classificadas e embaladas adequadamente e armazenadas até a comercialização (CHITARRA, 2005). O pré-resfriamento proporciona o rápido resfriamento das frutas depois da colheita, havendo a remoção rápida de calor. No entanto, cada fruta tem sua temperatura específica, dependendo do estágio de desenvolvimento (maturação) e do microrganismo a ser inibido. Como algumas atividades fisiológicas continuam após a colheita é preciso armazenar de maneira adequada afim de manter a qualidade (CHITARRA, 2005). Cuidados durante o armazenamento minimizam e até evitam problemas decorrentes da respiração, maturação e transpiração, aqueles causados por danos mecânicos, temperatura, luminosidade, umidade relativa do ar e até danos causados por insetos e microrganismos. Na etapa do armazenamento, pode-se utilizar refrigeração, congelamento, uso de atmosfera controlada ou modificada além de filmes flexíveis, onde o objetivo principal é manter a qualidade até a comercialização (CHITARRA, 2005). O uso de refrigeração e congelamento retarda processos químicos e microbiológicos que promovem a perda da qualidade. No entanto, o uso de baixas temperaturas as vezes pode ser limitado devido a sensibilidade de algumas espécies ao frio. Assim, com o controle desta temperatura, evitamos queimaduras que consiste no rompimento das células gerando o amolecimento da superfície da fruta. Outros pontos importantes é o controle da umidade relativa e a circulação de ar. A umidade relativa deve ser monitorada durante o período de armazenamento 69 evitando ressecamentos e rachaduras devido à perda de umidade pela transpiração do vegetal. Danos como rachaduras podem proporcionar a entrada de microrganismos, proporcionando a perda de produtos. E a circulação de ar deve ser mantida para que a distribuição do frio e a umidade seja uniforme no ambiente de armazenamento (CHITARRA, 2005). A vida útil da maioria dos alimentos é muito limitada devido a presença do ar, isso porque o oxigênio atmosférico possibilita a proliferação de microrganismos aeróbios, reações químicas oxigênio- dependentes além de aumentar a velocidade de fenômenos respiratórios em frutos. Então com a redução na concentração de oxigênio e o aumento na de dióxido de carbono na atmosfera do alimento é possível reduzir a taxa de respiração, inibir crescimento microbiano e insetos. Quando combinado com a refrigeração a atmosfera modificada ou controlada, possibilita manter a excelente qualidade dos produtos processados durante uma vida de prateleira estendida (FELLOWS, 2006). Na figura “Explicando a implantação de atmosfera modificada” abaixo podemos observar algumas vantagens desta técnica de conservação que promove o aumento da vida de prateleira de produtos vegetais. Figura 10 - Explicando a implantação de atmosfera modificada Fonte: Elaborada pela autora #ParaCegoVer: A imagem ilustra como aumentar a vida útil dos alimentos em função da presença de ar. Na armazenagem em atmosfera modificada (AAM), o armazém é feito à prova de ar e a atividade respiratória de alimentos frescos provoca a alteração da atmosfera à medida que o oxigênio é utilizado e o CO2 é produzido (FELLOWS, 2006), conforme exemplifica a figura “Armazenagem em atmosfera modificada”. 70 Figura 11 - Armazenagem em atmosfera modificada Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra como funciona o processo de armazenagem em atmosfera modificada (AAM). Na armazenagem em atmosfera condicionada (AAC), a concentração de oxigênio, dióxido de carbono e algumas vezes de etileno é monitorada e regulada. Concentrações tão baixas quanto 0% de oxigênio e 20% de CO2 ou mais podem ser produzidas em armazenamento de grãos por exemplo, evitando assim a infestação de insetos e a proliferação de fungos. No entanto ao armazenar frutas, uma maior concentração de oxigênio é necessário afim de evitar a respiração anaeróbia cujo poderia ocasionar a produção de sabores e odores desagradáveis. O uso deste método deve ser avaliado individualmente de acordo com os diferentes tipos de produtos a ser conservado (FELLOWS, 2006). Esses armazenamentos (AAM e AAC) são úteis para produtos vegetais que amadurecem após a colheita ou que se deterioram rapidamente. Mesmo nas temperaturas ideais de estocagem, armazéns de atmosfera controlada (AC), possui umidade relativa maior (90 a 95%) do que os armazéns refrigerados normais, mantendo assim a textura dos alimentos frescos e reduzindo a perda de peso (FELLOWS, 2006). Na figura “Armazenagem de Atmosfera Controlada”, exemplifica como ocorre o processo da AAC. 71 Figura 12 - Armazenagem de Atmosfera Controlada Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem ilustra como ocorre o processo Armazenagem de Atmosfera Controlada (AAC). Uma alternativa é a armazenagem a vácuo parcial, que proporciona a redução do oxigênio na mesma proporção que a redução da pressão de ar. As principais vantagens são a remoção continua de etileno entre outros voláteis da atmosfera e controle preciso da pressão do ar. No entanto, este método não é comumente utilizado devido aos elevados custos (FELLOWS, 2006). Entre as principais desvantagens está o custo pois na maioria das vezes produtos vegetais como não possuem volume suficientes de vendas que possam justificar o investimento. Outras limitações estão: efeito danosos em alguns alimentos, armazenamento em atmosfera controlada podem levar ao aumento na concentração de etileno, propiciando na aceleração do amadurecimento e formação de defeitos fisiológicos, existe variação das concentrações dos gases de acordo com o tipo do produto (FELLOWS, 2006). Outra maneira de preservar alimentos frescos é a utilização de embalagens de atmosfera modificada (EAM). Consiste na introdução de outra atmosfera que não seja ar em uma embalagem alimentícia sem uma modificação ou controle posterior. Estes tipos de embalagens têm por objetivo aumentar a vida de prateleira dos produtos, permitindo que o produtor tenha um tempo para comercializar o alimento sem alterar a qualidade do produto. No entanto a atmosfera utilizada nestas embalagens não é constante em todos os produtos sendo modificada de acordo com a: permeabilidade do material da embalagem, atividade microbiana e respiração do alimento. Sendo assim para o êxito destas embalagens é necessárioque as matérias primas tenham baixa contagem microbiana além de um rigoroso controle da temperatura ao longo do processo (FELLOWS,2006). 72 Mudanças na composição do gás durante a armazenagem dependem da taxa de respiração do alimento e como consequência a temperatura da armazenagem, permeabilidade do vapor de água e gases do material da embalagem, umidade relativa externa que afeta a permeabilidade de alguns filmes e da área superficial da embalagem em relação a quantidade de alimento que ela contém. Segundo Fellows (2006) as vantagens na utilização dessas embalagens propiciam, o aumento da vida de prateleira de 50 a 400%, com o aumento da armazenagem proporciona uma diminuição de perdas econômicas e aumento do raio de distribuição dos alimentos, pouca ou nenhuma necessidade de conservantes químicos, separação mais fácil de alimentos fatiados além de boa apresentação dos produtos. No entanto, apesar destas vantagens citadas anteriormente existem algumas limitações como: necessidade de controle da temperatura e de equipamentos especiais e treinamento de operadores, aumento do tamanho das embalagens tem impacto sobre o custo de transporte e exibição no varejo, os benefícios de conservação são perdidos após a abertura ou vazamento das embalagens (FELLOWS, 2006). FIQUE DE OLHO Novos estudos têm sido realizados para a ampliação dos métodos de conservação. Entre estes novos métodos estão a aplicação de ozônio (O3), aplicação de radiação gama e ultravioleta, garantindo conservação destes vegetais. 73 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender a definição de frutos, suas partes e composição química; • conhecer os pigmentos naturais encontrados nas frutas e suas funções; • compreender sobre as mudanças que ocorrem nos frutos após serem colhidos; • entender as alterações enzimáticas e não enzimáticas que ocorrem nas frutas; • aprender quais os métodos de conservação aplicados os frutos. PARA RESUMIR ARAÚJO, J.M.A Química de alimentos-teoria e prática, 3ª ed. viçosa: UFV, Viçosa-MG, 2011. ARAÚJO, W. M. C et al. Alquimia dos Alimentos. Brasília: Editora Senac, 2009 CAO, X., et al. The inactivation kinetics of polyphenol oxidase and peroxidase in bayberry juice during thermal and ultrasound treatments. Innovative Food Science & Emerging Technologies, v. 45, p. 169-178, 2018. CHITARRA, M. I. F. Pós Colheita de Frutas e Hortaliças, Fisiologia e Manuseio. 2 º ed. Editora Ufla, 2005. FELLOWS, P. J. Tecnologia de processamento de alimentos: princípios e práticas. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. FENNEMA, O.R. Química de alimentos. 5ªed. – Editora Artmed, 2019 ILLERA, A. E. et al. Effect of thermosonication batch treatment on enzyme inactivation kinetics and other quality parameters of cloudy apple juice. Innovative Food Science & Emerging Technologies, v. 80, p. 71-80, 2018. LORENZI, H. Introdução a Botânica: Morfologia. Editora Plantarum, 2013. YAÑEZ, G. P., et al. Revisión: Acrilamida en los alimentos, daños a la salud y estrategias para su inhibición. Boletín de Ciencias Agropecuarias del ICAP, v. 3, n. 5, 2017. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Bioquímica dos cereais e oleaginosas Você está na unidade Bioquímica dos cereais e Leguminosas. Conheça aqui as principais características dos cereais e das oleaginosas, questões relacionadas a sua importância e funcionalidades na alimentação. Entenda ainda os principais métodos de conservação e como armazenar estes alimentos mantendo a qualidade até chegar na mesa do consumidor. Bons estudos! Introdução 77 1. INTRODUÇÃO À BIOQUÍMICA DE CERAIS E LEGUMINOSAS Vamos estudar neste primeiro tópico as características básicas dos cereais e leguminosas, enfatizando os aspectos relacionados à sua morfologia, fisiologia e composição. Os cereais são grãos ou sementes comestíveis oriundas de vegetais em que classificamos como gramíneas. Dentre os exemplos de alguns cerais estão o trigo, arroz, centeio, milho, comumente utilizado na alimentação humana. Diferente dos cerais, as leguminosas são descritas como sementes que estão dentro de uma vagem, logo esta semente chamamos de legume. Entre os legumes popularmente consumidos estãp o feijão, ervilha, soja entre outros. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.1 Cereais O cerais são vegetais comestíveis encontrados na família das gramíneas. A palavra cereal deriva de Ceres, a deusa grega romana da colheita e da agricultura. Conforme Araújo (2009), os cerais mais utilizados na alimentação são o trigo, sorgo, arroz, milho e aveia. Porém diante do grande consumo damos destaque para o arroz e trigo devido representar cerca de 50% da produção no mundo. Os cereais são formados de casca, endosperma e germe, no entanto cada grão de cereal apresenta características próprias. Na figura Características dos grãos de cereais, podemos observar dois exemplos de cereais mais consumidos que são o trigo, milho e arroz. 78 Figura 1 - Características dos grãos de cereais Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, os três cerais mais consumidos com suas respectivas características morfológicas como o pericarpo, endosperma e gérmen, são eles o trigo, o milho e o arroz. Na figura, podemos observar estruturas como pericarpo (casca), endosperma e gérmen. O pericarpo se refere a casca ou farelo que envolve o grão, o endosperma consiste na parte intermediaria e o gérmen corresponde a parte germinativa onde também podemos chamar de embrião. É também observado estas estruturas e composição mudam de acordo com a espécie do vegetal (FENNEMA, 2019). 1.2 Composição dos cereais Os cereais, de modo geral, possuem composição química composta de 11 a 13% de umidade, 58 a 72% de carboidratos, 8 a 13 % de proteínas, 2 a 5 % de lipídeos e 2 a 11% de fibras. Como podemos observar na tabela Composição química dos vegetais, a composição de diferentes cereais ocorre uma variação, isto é devido a espécie, condições climáticas e localização geográfica em que foi realizado o plantio, grau de beneficiamento entre outros. Os cereais também são fontes de vitaminas E e algumas do complexo B como a tiamina, riboflavina e niacina, micronutrientes como cálcio, magnésio e zinco (ARAÚJO et al., 2009). 79 Figura 2 - Composição química dos cereais Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem traz uma tabela da Composição Química dos Cereais. São 6 colunas, sendo elas: Cereal, umidade, carboidratos, proteínas, lipídeos e fibras. Os cereais que aparecerem são o arroz, aveia, centeio, cevada, milho e trigo. Os carboidratos que são encontrados nos cereais são compostos de amido, que corresponde a 60 a 70% do grão, fibras solúveis (substancias pécticas, β-glicanas e arabiloxilanas), fibra insolúvel (celulose) e açucares livres (monossacarídeos e polissacarídeos). Dentre as proteínas encontradas estão a albuminas e globulinas (solúveis), prolaminas e glutaninas (insolúveis), enzimas hidrolíticas e enzimas oxidativas. Os lipídeos encontrados nos cereais são fosfolipideos e glicolipideos, além de tocoferóis e carotenoides (FENNEMA, 2019). No entanto, esta composição pode variar de acordo com a estrutura do grão. No pericarpo que constitui a camada mais externa é rico em fibras, minerais, vitaminas do complexo e proteínas. No endosperma está a fonte energética composta de carboidratos e proteínas, além de pequenas quantidades de vitaminas do complexo B. E no embrião (gérmen) é rica em minerais e lipídeos, vitamina B e E (FENNEMA, 2019). Outro ponto importante é a qualidade proteica de um cereal, visto que maior aporte é de carboidratos. Assim, precisamos entender um pouco sobre os aminoácidos que compõe as proteínas dos cereais. O aporte de proteínas encontrados nestes alimentos não pode ser comparado com aquelas de origem animal. Isto ocorre devido os cereais não possuírem todos os aminoácidos essenciais, desta forma devemos compensar misturando com outros alimentos, como proteína animal ou leguminosas. Aminoácidoscomo lisina, são mais comuns em cereais, no entanto, outros como triptofano, treonina e isoleucina são encontrados em quantidade limitadas (FENNEMA, 2019). Sabendo desta limitação com relação aos aminoácidos essenciais, podemos compensar misturando grupos de alimentos diferentes, como a combinação do arroz (cereal) e feijão (leguminosas), na proporção 3:1. Como por exemplo, a lisina, que é pouco encontrada no arroz, pode ser complementada com a lisina presente no feijão, assim como a metionina deficiente no feijão pode ser compensada por aquela encontrada no arroz. Assim, podemos aumentar o valor nutritivo das proteínas dos cereais realizando combinações (ARAUJO et al., 2009). 80 1.3 Funcionalidade dos cereais Dentre as propriedades funcionais dos cereais, está a sua utilização para elaboração de produtos. Estes produtos dependem da composição do amido (carboidrato) ou até mesmo da presença de glúten (proteínas), para que possam atribuir a estes produtos características sensoriais e estruturais desejadas. Estas características sensoriais e físico-químicas atribuídas aos cereais podem ser observadas na tabela Características dos cereais. Figura 3 - Características dos cereais Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem traz uma tabela das características dos cereiais, divindo-as em sensoriais e físico-químicas. As sensoriais se dividem em aparência, cor, textura, sabor, elasticidade e cremosidade. As físico-químicas se dividem em coesão, viscosidade, crocância, retrogradação, reabsorção de água e solidificação. 1.4 Glúten O trigo em sua composição possui proteínas chamadas de gliadina e glutenina. Estas proteínas também podem ser encontradas em outros cerais, mas em menores quantidades. Em razão destas proporções, a farinha de trigo obtém de maneira eficaz a formação do glúten. Estas proteínas quando são hidratadas e sofrem ação mecânica formam uma rede tridimensional, viscoelástica, aderente e insolúvel em água (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al., 2009). FIQUE DE OLHO Durante o beneficiamento, quando a realizada a retirada da casca (formada de celulose), é removido farelo que é rico em fibras, vitaminas (B e E) e minerais. Através da remoção destas estruturas podemos atribuir as farinhas de trigo por exemplo, características como cor, granulometria diferentes. 81 A formação desta rede tridimensional é chamada de glúten, sendo bastante utilizada na produção de massas e produtos de panificação. A seguir podemos observar como ocorre esta formação na figura Estrutura do glúten. Figura 4 - Estrutura do glúten Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, temos os três elementos para formação do glúten a gliadina, glutenina e a água, juntos através da força mecânica promovem formação de uma massa utilizada principalmente na panificação. Mas qual o motivo dessas duas proteínas formarem o glúten? As gliadinas que são proteínas de cadeia simples, quando adicionadas de água obter uma textura extremamente pegajosa e gomosa, dando consistência e viscosidade a massa. No entanto, esta massa formada apenas de gliadina apresenta pouca resistência a extensão. Já as gluteninas, apresentam cadeias ramificadas e elásticas, o que confere uma melhor extensão da massa. Sendo assim em produtos de panificação, a concentração destas duas proteínas na farinha de trigo é um fator determinante na formação dessa rede tridimensional de glúten durante o processo de mistura da massa (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al., 2009). Vale ressaltar dentre os cereais, o trigo é o único que possuem frações destas proteínas em proporções adequadas para que ocorra a formação do glúten. Outros cereais como aveia e centeio, também possuem estas proteínas, no entanto, as massas com estes cereais tornam menos elásticas e são mais fracas em relação a de trigo (ARAÚJO et al., 2009). FIQUE DE OLHO O glúten possui a capacidade de absorver cerca de 200% do seu peso inicial de água, dependendo da sua quantidade presente na farinha. Lembrando que o para formar o glúten é necessário possuir as duas proteínas que são a gliadina e as gluteninas. 82 O glúten apresenta fragmentos peptídicos o qual denominamos de prolaminas. Estes fragmentos de modo geral constituem cerca de 50% da quantidade total de glúten sendo considerados tóxicos para pessoas que são portadoras de doenças celíacas. No entanto estes fragmentos são diferentes entre os demais cereais como: trigo = gliadina, centeio = secalina e aveia = avenina (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al., 2009). Em preparações de massas como por exemplo, de pão, necessitam de crescimento é importante entender a funcionalidade do glúten, pois o mesmo é responsável por formar membranas finas aprisionando bolhas de gás produzidas pelo fermento biológico adicionado na massa. Quando este pão é assado, o glúten se desnatura, formando uma crosta crocante (FENNEMA, 2019). Esta retenção de gás que proporcionam o crescimento do pão pode ser visualizado na figura “Efeito do glúten no pão”. Figura 5 - Efeitos do glúten no pão Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: Na imagem, temos os elementos que contribui para o aprisionamento do ar na preparação do pão. São eles o fermento biológico que fermentar formando bolhas de gases e que com a formação do glúten vai aprisionar estes gases, conferindo efeito no pão. 1.5 Amido Este carboidrato presente nos grãos de cereais apresentam uma estruturação diferenciada. O amido é um polissacarídeo complexo composto por moléculas de glicose em que formam polímeros de amilose FIQUE DE OLHO Para dar maior estabilidade nas massas de pães, podemos utilizar lipídeos e carboidratos. Estes outros compostos químicos reagem com as proteínas, fortalecendo a estrutura do glúten, além de produzir pães mais atrativos para o consumidor. 83 e amilopectina. Importante saber que esta proporção de amilose e amilopectina pode sofrer variações em decorrência do grau de maturação e espécie. Todos os amidos são constituídos de uma ou das duas moléculas, no entanto, o percentual varia conforme a fonte de amido. Como por exemplo, o milho apresenta 25% a 28% de amilose e o restante da porcentagem de amilopectina. Dentre as fontes de amido mais comuns entre os cereais estão o milho, arroz e trigo (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al., 2009). Durante o processo de cocção, o que ocorre com o amido? Então quando hidratamos o amido e submetemos a uma temperatura gradual, ocorre o rompimento das pontes de hidrogênio entre as cadeias de amilose e amilopectina, começam a intumescer e formar soluções viscosas. Quando resfriadas formam um gel e se tornam esbranquiçadas. Sendo assim, temos duas definições, a gelatinização que é a capacidade de o amido formar gel e o intumescimento quando ocorre o aumento da viscosidade quando o amido é adicionado de água (ARAÚJO et al., 2009). Como exemplo prático do nosso dia a dia, temos a produção de molhos, mingaus, papas que ocorrem devido o processo de gelatinização do amido. No entanto lembre-se que de acordo com cada tipo de alimento (arroz, milho, trigo) o processo de gelatinização irá ocorrer em uma faixa de temperaturas diferentes (ARAÚJO et al., 2009). Este processo de gelatinização do amido, além de depender de temperaturas também depender da proporção de amilose e amilopectina, da adição de açucares ou ácidos durante a preparação. Na indústria existem algumas variações como o amido pre-gelatinizado e dextrinizados. Estes são utilizados em sobremesas instantâneas, recheios entre outros, sendo utilizado esperamos que o produto seja solúvel tanto em agua fria quanto quente. Este procedimento melhora aspectos como confecção de produtos alimentícios que requer um cozimento rápido além de ser de fácil digestão (FENNEMA, 2019). 2. CARACTERÍSTICAS E UTILIZAÇÃO DOS PRINCIPAIS CEREAIS Entre os principais cereais consumidos mundialmente estão o trigo, arroz e milho. Eles fazem parte da matéria prima base de vários alimentos que consumimos diariamente, comobolos, pães, pudins, mingaus entre outros. FIQUE DE OLHO Lembre-se que o tempo de cocção do amido vai depender da sua granulometria, que pode variar entre os diferentes cereais. Sendo assim, quanto menor a granulometria (partícula), menor vai ser o tempo cozimento. 84 2.1 trigo O trigo (Triticum vulgare Vill) é um dos cerais mais produzidos em todo o mundo. As suas variedades se diferem quanto as espécies, à época de plantio e sua composição nutricional. Em sua estrutura e composição é composto de casca que corresponde por volta de 14,5% do grão, apresentando pequena quantidade de proteínas, além disto possui importante teor de vitaminas do complexo, minerais e celulose. A celulose é tida como fibra alimentar e possui baixa digestibilidade (ARAÚJO et al., 2009). O endosperma possui cerca de 83% do peso do grão inteiro e contem maior parte de proteínas, principalmente aquelas que atuam na formação do glúten. Possuem carboidratos como amidos, ferro e vitaminas do complexo B. O gérmen corresponde a cerca de 2,5% do grão, sendo este em sua maioria separado devido a sua quantidade de lipídeos, pois isto interfere na conservação da farinha (ARAÚJO et al., 2009). O produto obtido do trigo mais utilizado é a farinha. No processo de obtenção desta farinha visa-se separar o endosperma do gérmen e do farelo durante a moagem. Desta forma, a qualidade tecnológica da farinha está relacionada a sua capacidade de formar massa devido as proteínas que compõe o glúten. Assim podemos classificar as farinhas em: duro, mole ou durum(ARAÚJO et al., 2009). Assim dentre os alimentos derivado dos trigos e formas de consumo temos: o gérmen de trigo utilizado para preparações de bolos, biscoitos e pães integrais podendo ser incorporado em bebidas ou alimentos assados, o farelo de trigo utilizado em cereais matinais, barras de cerais e ração anima, flocos de trigo incorporado em barras de cereais, atribuindo crocância e farinha de semolinha que é aquela extraída da parte intermediária do grão, ótimo para engrossar caldos ou pudins. 2.2 Arroz O arroz (Oryza sativa L), assim como o trigo é cultivado mundialmente e constitui uma alimento básico. O grão do arroz possui o formato de cariopse possuindo quatro camadas (casca, película, endosperma e gérmen). A casca possui aproximadamente cerca de 20% do grão, a película 5 a 8%, no entanto o gérmen que é rico em proteínas e lipídeos possui cerca de 2 a 3 % do grão. O endosperma forma a maior parte do grão com 89 a 94%, sendo ricas em amido. No entanto esta composição sobre modificações de acordo com as variedades de espécies, clima da região, armazenamento e processamento. Outro critério de classificação do arroz está no teor de amilose e amilopectina (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al., 2009). Existem no mundo muitas variedades de arroz, com diferentes sabores e características, mas todas elas derivam de três subespécies básicas: indica, japonica e a javania. A subespécie indica é originária da Índia com grão longo e fino. É cultivada em regiões de clima quente e 85 suas variedades mais comuns são o Basmati e o Patna, sendo os mesmos muito consumidos no oriente, mas precisamente utilizados na cozinha Tailandesa e Indiana. A subespécie japonica é originária da China com grão curto e arredondado sendo cultivada em regiões de clima frio e possuindo característica de se aglutinar em decorrência ao seu elevado teor de amido, sendo muito apreciado no oriente, mais precisamente no Japão, China e Coréia. No entanto a subespécie javania é endêmica da região da região equatorial da Indonésia sendo denominada de japonica tropical. Esta subespécie apresenta conteúdos intermediários de amido, no entanto possui pouca importância, exceto regionalmente. De acordo com a Embrapa (2010), as espécies mais cultivadas se originam de hibridização de exemplares das subespécies indica e japonica, sendo estes sofrendo processos industriais originando o arroz parboilizado, branco e integral. Dentre os tipos de arroz podemos citar: Arroz branco, polido ou agulhinha É o tipo mais comum no Brasil. É obtido quando o grão tem a sua casca removida após a colheita, fazendo com que ele perca alguns nutrientes, tornando seu cozimento mais rápido. Sua classificação é de acordo com a quantidade de grãos quebrados que possui: o tipo 1 apresenta menos grãos quebrados e, o tipo 5, maior quantidade. Arroz parbolizado O arroz passa por um processo de cozimento com a casca que posteriormente será removida. Através deste processamento alguns nutrientes passam da casca para o interior do grão, tornando-o mais nutritivo. Arroz integral O grão é conservado na sua casca e, portanto, é mais nutritivo e rico em fibras que o branco e o parabolizado, no entanto seu tempo de cozimento é maior. Arroz negro Pouco conhecido, o arroz negro possui um sabor mais marcante, parecido com o de castanha, possui mais fibras e proteínas, quando comparado ao arroz integral, e também um tempo de cozimento maior. Arroz árboreo Com grãos menores e roliços, o arroz arbóreo é o mais indicado para o preparo de risotos, pois possui mais amido - o que confere a cremosidade ao prato. Tem o mesmo valor nutricional do arroz branco. 86 Arroz basmati É aromático e adocicado, dispensando a adição de condimentos. Presente principalmente na culinária indiana e tailandesa é utilizado como acompanhamento de pratos de curry, cordeiro e lentilhas. Arroz vermelho Ainda pouco encontrado no Brasil, vem sendo alvo de diversos estudos, por possuir substâncias potencialmente benéficas à saúde. O arroz é rico em carboidrato que tem como benefício principal para a saúde o fornecimento de energia que pode ser gasta rápido, mas ele também tem aminoácidos, vitaminas e minerais essenciais ao organismo. essa substância em sua composição. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3. LEGUMINOSAS E SUAS PARTES As leguminosas são descritas como sementes que estão dentro de uma vagem, logo esta semente chamamos de legume. As vagens são ricas em tecido fibroso, no entanto em alguns FIQUE DE OLHO Cada grão de arroz possui sua característica particular quando cozinhamos. Estamos falando sobre os grãos: curto e redondo, médio e longo. O grão curto e redondo, sendo utilizado para fazer arroz doce, ele empapa quando cozido e precisa de pouca agua para o cozimento, no entanto o arroz polido médio não empapa tanto, podendo ser utilizado na preparação de risotos e o arroz longo é o famoso arroz branco, quando cozidos são grãos bem soltos e podem servir de acompanhamento para varias preparações. 87 casos a mesma pode ser consumida ainda verdes como as vagens. No Brasil a leguminosa mais consumida é o feijão, havendo regionalidade entre as variedades. Botanicamente são descritas como dicotiledôneas, devido apresentarem dois cotilédones (tecido de reserva da semente) dentre as estruturas das leguminosas estão a casca ou tegumento, embrião (ARAÚJO et al., 2009). Entre os legumes popularmente consumidos está o feijão, ervilha, soja, amendoim, grão-de- bico, lentilha entre outros. Em sua estrutura possui cerca de 2 a 5% de celulose, 50% de amido e 23% de proteínas. Na figura Características dos Grãos de Leguminosas, podemos observar estruturas como pericarpo (casca), cotilédone que é o tecido de reserva, embrião se refere a parte germinativa formado pelo broto e radícula (raiz) hilo que é caracterizado pela cicatriz do pedúnculo (LORENZI, 2013). De modo geral, as leguminosas apresentam as mesmas características, porem apresentam pequenas variações. Figura 6 - Características dos grãos de leguminosas Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #ParaCegoVer: A imagem representa um grão de leguminosa e suas características. Pode-ser ver o broto, a radícula, o hilo, a casca e cotilédone. 3.1 Composição das leguminosas As leguminosas de modo geral possuem composição química composta por 50% de carboidratos (amido), 23 % de proteínas, vitaminas do complexo B e 7 a 12mg de pigmentos não heme.No entanto com relação ao teor de proteínas a soja possui uma exceção possuindo 38% de proteínas (ARAÚJO et al., 2009). Como podemos observar na tabela Composição química das leguminosas, a composição de diferentes leguminosas ocorre uma variação, isto é devido a espécie, condições climáticas e localização geográfica em que foi realizado o plantio, grau de beneficiamento entre outros. 88 Figura 7 - Composição química das leguminosas Fonte: TACO, 2011 #ParaCegoVer: A imagem mostra uma tabela com 5 colunas e seis linhas representando a composição química das leguminosas. Os carboidratos que são encontrados nas leguminosas compostos de amido, que corresponde de 35 a 45% do grão, porem são menos digeríveis, açucares solúveis como monossacarídeos e oligossacarídeos, além de polissacarídeos estruturais como celulose, hemicelulose e pectina. Com relação aos oligossacarídeos presentes nas leguminosas (galactosídeos), possuem atividade probiótica, podendo causar desconforto abdominal devido a fermentação excessiva. Dentre as proteínas encontradas estão as globulinas, legumina e vicilina. As proteínas encontradas nas leguminosas possuem baixa digestibilidade. Em função da variação da composição lipídica podemos classificar em oleaginosas como por exemplo, o amendoim) e não oleagenosas como o feijão. Nas leguminosas há predominância em ácidos graxos de alto peso molecular e insaturados. São encontradas também vitaminas do complexo B e nas oleaginosas vitamina E, além de minerais como ferro, potássio e ferro não heme (FENNEMA, 2019 ; ARAÚJO et al, 2009). Outro ponto importante é a qualidade proteica das leguminosas, resultante da composição dos aminoácidos e da sua digestibilidade. Estes vegetais são relativamente pobres em aminoácidos sulfurados como a metionina e a cistina e triptofano. Possuem conteúdo de lisina em quantidade superior quando comparados com os cereais. Sabendo desta limitação com relação aos aminoácidos, podemos compensar misturando grupos de alimentos diferentes, como a combinação feijão (leguminosas) e do arroz (cereal), na proporção 1:3 ou consumir juntamente com proteína de origem animal (ARAÚJO et al, 2009). 3.2 Componentes Antinutricionais Em grãos de leguminosas também podem ser encontrados inibidores de enzimas proteolíticas contribuindo para a redução dos aminoácidos. Estes compostos são descritos como antinutricionais podendo ser destruídos com tratamento térmico porque são termolábeis. No entanto, atualmente está cada vez mais recorrente o consumo de alimentos in natura ou a aplicação 89 de baixas temperaturas na cocção, podendo expor a população ao efeito destes compostos antinutricionais (BENEVIDES et al., 2011). Na tabela Fatores antinutricionais da leguminosas, podemos observar alguns componentes antinutricionais encontrado nas leguminosas podendo ser classificados como proteico e não proteico. Figur a 8 - Fatores antinutricionais das leguminosas Fonte: Benevides et al. (2011); Silva ( 2000); Fennema (2019). #ParaCegoVer: A imagem mostra uma tabela de fatores antinutricionais das leguminosas. Mostra os fatores proteicos e não proteicos, os contituintes, o que fazem e como eliminar. Dentre os fatores que afetam a digestibilidade das leguminosas estão a parede celular que pode se comportar como uma barreira física, onde o cozimento e a mastigação não são suficientes para que ocorra o rompimento. E os fatores antinutricionais também compromete a digestiblilidade de amido e proteínas (BENEVIDES et al, 2011). 3.3 Cocção das leguminosas As leguminosas podem ser consumidas ainda verdes como as ervilhas e vagem, germinadas (broto de feijão, cozidas em calor seco (soja, amendoim) ou úmido (feijão, grão de bico). Utilizando o calor úmido estas sementes absorvem água tornando macias além de aumentar a digestibilidade e desenvolver sabor. Dentre os fatores que afetam o cozimento das sementes está o tempo em elas ficaram armazenadas, temperatura e grau de umidade do deposito, presença de minerais na agua e a variedade da leguminosa (ARAÚJO et al, 2009). 90 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4. ALTERAÇÕES ENZIMÁTICAS E NÃO ENZIMÁTICAS EM CEREAIS E LEGUMINOSAS Os alimentos possuem vários fatores que influem na decisão do consumidor. A cor é um dos fatores que mais chama atenção do consumidor se tornando um aspecto de qualidade do produto. Neste tópico vamos falar sobre o escurecimento que ocorrem nos cereais e leguminosas, podendo ser decorrente da ação de enzimas ou não. Em termos gerais, as enzimas atuam como catalizadores de reações bioquímicas causando mudanças nos alimentos. Em leguminosas como, por exemplo, no feijão podem ocorrer escurecimento enzimático após a colheita, sendo relacionado a mudanças bioquímicas durante o armazenamento (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al, 2009). Sendo assim, à medida em que os grãos vão envelhecendo, compostos presentes no nestes vegetais podem sofrer oxidação contribuindo para a mudança de cor. O escurecimento pós colheita, ainda não é muito conhecido, porem sabe-se que estas reações são aceleradas quando estas sementes são expostas a luz, altas temperaturas e a umidade quando armazenadas (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al, 2009). FIQUE DE OLHO Durante o beneficiamento, quando é realizada a retirada da casca (formada de celulose), é removido farelo que é rico em fibras, vitaminas (B e E) e minerais. Através da remoção destas estruturas podemos atribuir as farinhas de trigo por exemplo, características como cor, granulometria diferentes. 91 De acordo com alguns estudos, os compostos fenólicos presentes em leguminosas estão relacionadas com o escurecimento destas sementes quando expostas ao oxigênio. Dente estas enzimas que participam destas reações estão a polifenoxidades, que na presença do oxigênio oxidam formando pigmentação enegrecidas chamadas de melanoidinas (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al, 2009). Vale lembrar que estes fenômenos de escurecimento também ocorrem em função das interações genótipo- ambiente, onde as condições de armazenamento são determinantes no processo de conservação destes alimentos, afim de manter a qualidade sensorial. Técnicas objetivando a conservação tem sido desenvolvidas para inibir estes tipos de reações. Dentre os métodos estão aplicação de calor, atmosfera modificada, inibidores químicos (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al, 2009). No entanto reações de escurecimento não-enzimático no qual envolve aminoácidos e açúcares redutores na formação de pigmentos escuros, proporciona perda de compostos nutricionais, como por exemplo, as proteínas no qual ocorre a reação de Maillard. Estas reações de escurecimento não-enzimático inicia na temperatura de 70°C, porém mesmo reduzindo para 20º a produção de melanoidina ainda permance, podendo ser observado em cereais que passam pelo processo de secagem antes de ser armazenado. Outros pontos relevantes são os açúcares presentes no alimentos, pois o mesmo acelera estas reações de escurecimento não enzimático, como glicose, frutose, sacarose e lactose e também atividade de água entre 0,5 e 0,8 (FENNEMA, 2019; ARAÚJO et al, 2009). 5. MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE CEREAIS E LEGUMINOSAS Os métodos de conservação são fundamentais para garantir que estes alimentos cheguem na mesa do consumidor integro e com qualidade. Sendo assim estas técnicas se fundamental no controle dos fatores intrínsecos e extrínsecos destes alimentos, preservando suas características físico-químicas e nutricionais. Dentre as principais técnicas de conservação empregadas, estão a secagem, refrigeração, atmosfera modificada e agentes químicos. Veja a seguir em que eles consistem: Secagem Este método é aplicado afim de reduzir o teor de umidade presente nestes alimentos. Através da redução da água é possível reduzir o desenvolvimento de fungos e bactérias. O teor de umidade ideial para armazenagem é de 13%. Esta secagem pode ser realizada de maneira natural, onde emprega-se a radiação solar ou artificialquando são acondicionadas em secadores (FELLOWS, 2005). 92 Refrigeração Este método é empregado com o intuito de preservar além da qualidade do produto, inviabilizar o desenvolvimento de fungos e insetos. Durante o armazenamento sob condições acima de 25ºC e com umidade acima de 16% promove o desenvolvimento de insetos e fungos. Quando é realizada a secagem desses alimentos deixando a umidade abaixo de 14% inibe o desenvolvimento de fungos, porem nestas condições os insetos podem começar a se desenvolver. Para que os insetos não se desenvolvam é necessário realizar o resfriamento com temperaturas abaixo de 17ºC (FELLOWS, 2005). Atmosfera Modificada Neste método, a armazenagem consiste na concentração de gás carbônico. Colocando estes alimentos sob estas condições inibe o desenvolvimento de insetos em todos os seus estágios (ovos, larva, pupa e adulto). Sendo assim utilizando esta técnica, pode ser uma alternativa para não utilizar inseticidas. Lembrando que o uso desta técnica deve ser combinado com a técnica de secagem, pois o uso do CO2 só possui ação controle sobre os insetos. Sendo assim para controle dos insetos pe indicada uma concentração de 35% do gás (FELLOWS, 2005). 93 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender a definição de cereais e leguminosas, suas partes e composição química; • conhecer as funcionalidades dos cerais e importância para alimentação humana; • compreender quais os principais cerais e leguminosas e sua importância para alimentação; • entender as alterações enzimáticas e não enzimáticas que ocorrem nos cerais e leguminosas; • aprender quais os métodos de conservação aplicados a grãos e sementes. PARA RESUMIR ARAÚJO, W. M. C et al. Alquimia dos Alimentos. Brasilia: Editora Senac, 2009 BENEVIDES, C. M. de J et al. Fatores antinutricionais em alimentos: revisão. Segurança Alimentar e Nutricional, v. 18, p. 67-79, 2011. FELLOWS, P. J. Tecnologia de processamento de alimentos: princípios e práticas. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006 FENNEMA, O.R. Química de alimentos. 5ªed. Porto Alegre: Editora Artmed, 2019 LORENZI, H. Introdução a Botânica: Morfologia. São Paulo: Editora Plantarum, 2013 SILVA, M. R. et al. Fatores antinutricionais: inibidores de proteases e lectinas. Revista de Nutrição, v. 13, n. 1, p. 3-9, 2000. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Qual a importância da água e das interações entre a água e os outros constituintes dos alimentos? O que são macro e micronutrientes? Neste livro, os autores responderão a estas questões, mas também, ampliarão a discussão sobre a bioquímica das hortaliças, das frutas, dos cereais e das leguminosas. Abordaremos as proteínas, os lipídeos, as vitaminas, os sais minerais, além de tantos outros elementos que envolvem a química dos alimentos. Livro fundamental para o estudo dos alimentos e da área da nutrição. Capa do E-book _ Bioquímica dos Alimentos V2 _ CENGAGE E-book Completo _ Bioquímica dos Alimentos V2 _ CENGAGE