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Victor Velloso – FASAI 24.1 1 Sistema urinário e infecção urinária Rins ⇀ Os rins são órgãos retroperitoneais com formato de feijão que se situam na altura da costela 11~12. possuem em média 12 cm de altura, 6 cm de largura e 3 cm de espessura. O rim direito localiza-se mais abaixo (aproximadamente metade de uma vértebra abaixo) devido ao desvio promovido pela presença do fígado. O seu polo superior localiza-se um pouco abaixo do nível da costela XI. A posição dos rins também é dependente da respiração, devido à sua proximidade com o diafragma, de modo que ambos os rins podem descer até 3 cm durante a inspiração. Possuem uma face convexa e uma face côncava, também chamada de hilo. Dos hilos renais saem as veias, vasos linfáticos e ureteres e entram os vasos sanguíneos e alguns nervos. Possui íntima relação com as glândulas suprarrenais, situadas acima de cada rim. ⇀ Uma camada fina e rígida de tecido conjuntivo denso, chamada cápsula fibrosa, adere diretamente à superfície do rim, mantendo sua forma e constituindo uma barreira que pode inibir a disseminação de infecção. Possui gordura perirrenal, uma fáscia renal de tecido conjuntivo (Fáscia de Gerota) e gordura pararrenal. A cápsula adiposa fixa o rim durante a movimentação da respiração. Quando essa cápsula é fortemente reduzida, em casos de anorexia, por exemplo, pode ocorrer um deslocamento do rim no sentido caudal (nefroptose) ou uma rotação do órgão, e o ureter pode ser contorcido e danificado, o que leva a danos renais devido à retenção urinária. ⇀ A anatomia interna do rim é complexa. Após a cápsula fibrosa, adentra-se ao córtex renal, onde se localizam os néfrons. Mais adentro, encontra-se a medula renal, constituída pelos ductos coletores e dispostas em formato de pirâmides renais. Essas pirâmides drenam o filtrado para os cálices renais menores, que confluem para um cálice renal maior. Os cálices renais maiores, por sua vez, confluem para a pelve renal que drena para o ureter. O rim humano possui aproximadamente 7 a 9 (4 a 18) pirâmides renais. Cada pirâmide, associada à região cortical adjacente e às colunas renais formam um lobo renal. Vascularização ⇀ Os rins são supridos pelas artérias renais, que são ramos da aorta abdominal, sendo a artéria renal direita (4-5cm) um pouco maior que a esquerda (2- 3cm). Cada artéria renal se divide em +/- 5 segmentos que irão vascularizar regiões diferentes do rim As veias renais drenam para a veia cava inferior. Victor Velloso – FASAI 24.1 2 Inervação ⇀ Os rins e as glândulas suprarrenais são inervados pelo SNA. Os nervos simpáticos são oriundos dos níveis espinais T10-L2. Os nervos parassimpáticos para os rins e as glândulas suprarrenais trafegam com o nervo vago e estabelecem sinapses sobre neurônios pós- ganglionares no interior do rim e do córtex suprarrenal • excreção de urina e de substâncias endógenas e exógenas • função endócrina (eritropoietina, renina, calcitriol) Aparelho justaglomerular: É um aparelho que controla em parte a pressão arterial. No túbulo contorcido distal, células especializadas denominadas células da mácula densa são capazes de detectar o conteúdo iônico do plasma e estimulam as células justaglomerulares por hormônios parácrinos a secretarem renina. A renina age sobre a secreção de aldosterona, um hormônio da camada cortical da glândula adrenal que aumenta a pressão arterial (ao promover a reabsorção de sódio nos rins). Além disso, ela converte o angiotensinogênio em angiotensina I no plasma sanguíneo. A angiotensina I pode ser convertida em angiotensina II (potente vasoconstritor) na presença de ECA, presente nos capilares pulmonares e no plasma. As células do interstício do córtex renal produzem 85% da eritropoetina do organismo, um hormônio glicoproteico que estimula a produção de eritrócitos pelas células da medula óssea hematopoética. O fígado sintetiza os 15% restantes da eritropoetina necessária para o bom funcionamento Néfron ⇀ A unidade funcional do rim são os túbulos uriníferos, formados por um néfron e um ducto coletor. Em cada rim há mais de 1 milhão de néfrons. Cada néfron é formado por uma porção inicial dilatada, o corpúsculo renal ou corpúsculo de Malphigi, e por uma sequência de túbulos: o túbulo contorcido proximal; as duas porções espessas da alça de Henle, entre as quais se situa a porção delgada da alça de Henle; e o túbulo contorcido distal. Se subdividem em néfrons justamedulares, intermediários ou superficiais. ⇀ O epitélio dos túbulos uriníferos repousa sobre uma lamina basal que está recoberta por interstício renal. No interstício há células intersticiais que liberam hormônios parácrinos e endócrinos. Essas células produzem 85% da eritropoetina do corpo. Problemas renais causam anemia por deficiência de EPO. ⇀ Os corpúsculos renais ou corpúsculos de Malphigi são a primeira parte do néfron e possuem 2 polos: vascular, por onde entram e saem as arteríolas e urinário, dando origem ao túbulo contorcido proximal. O sangue chega pela arteríola aferente, passa por capilares fenestrados recobertos pela camada visceral da cápsula de Bowman (podócitos) e sai pela arteríola eferente. A arteríola eferente possui mais musculatura lisa, então exerce mais controle sobre a pressão no interior dos capilares (em torno de 45- 60mmHg). A diferença de pressão entre os capilares e o glomérulo (10mmHg) faz com que haja uma produção contínua de filtrado que drena para o TCP. A resistência é contraposta pela pressão osmótica coloidal do sangue no glomérulo (32 mmHg) e pela pressão hidrostática do líquido, conhecida como pressão oncótica, no espaço urinário (18 mmHg). Portanto, há uma pressão de filtração efetiva (ou resultante, líquida) de 10 mmHga resistência é contraposta pela pressão osmótica coloidal do sangue no glomérulo (32 mmHg) e pela pressão hidrostática do líquido, conhecida como pressão oncótica, no espaço urinário (18 mmHg). Portanto, há uma pressão de filtração efetiva (ou resultante, líquida) de 10 mmHg O folheto parietal da cápsula de Bowman é constituído de um epitélio simples pavimentoso, que se apoia sobre uma lâmina basal. Essa lamina basal é rica em colágeno tipo IV e exerce função de filtração, retendo moléculas carregadas positivamente, repelindo moléculas carregadas negativamente e filtrando moléculas Victor Velloso – FASAI 24.1 3 maiores que 10nm ou mais pesadas que 69kDa (1/12 do C12) Nos glomérulos há células mesangiais, que são células contráteis que responde à angiotensina II e fator natriurético atrial, diminuindo e aumentando o fluxo sanguíneo para o néfron, respectivamente. O túbulo contorcido proximal possui muitas microvilosidades para aumentar a superfície de absorção. Há também bastante mitocôndrias para suprir a demanda energética das Na+/K+ Atpase que bombeam íons do citoplasma para o interstício, criando um grandiente de concentração que favorece a entrada desses íons na célula. Cerca de 65 a talvez 80% de sódio (Na+), cloreto (Cl–) e água são reabsorvidos do ultrafiltrado glomerular e transportados para o estroma de tecido conjuntivo pelas células do túbulo proximal. Absorve quase toda a glicose e aminoácidos presente no ultrafiltrado. (Os medicamentos para diabetes que atuam nos rins são os inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2), como a dapagliflozina, empagliflozina, canagliflozina e ertugliflozina.) O líquido que entra no espaço de Bowman é chamado de ultrafiltrado glomerular. O segmento delgado da Alça de Henle possui formato de U e células epiteliais pavimentosas. O segmento descendente é altamente permeável à água em função das numerosas aquaporinas-1, e o segmento ascendente é praticamente impermeável à água e faz reabsorçãode íons. Em função dessa propriedade o líquido se torna hiperosmolar à medida em que desce e hipoosmolar à medida em que sobe o tubo. As células do segmento ascendente espesso também produzem a uromodulina. A uromodulina impede a formação de cálculos renais e diminui as chances de infecção do trato urinário. Semelhantemente aos segmentos ascendentes espessos, o túbulo contorcido distal é quase impermeável à água e à ureia. No entanto, na membrana plasmática basolateral de suas células, a alta atividade da Na+-K+ ATPase potencializa as bombas de troca sódio-potássio. Assim, em resposta ao hormônio aldosterona, essas células podem reabsorver ativamente quase todo o sódio remanescente. O túbulo distal comporta parte do aparelho justaglomerular: As células da mácula densa. Essas possuem quimiorreceptores e mecanorreceptores que monitoram as condições do filtrado e, mediante estímulo, liberam fatores parácrinos (renina, ECA, angiotensina I e II) que atuam nas células justaglomerulares e células mesangiais. Não há lâmina basal entre essas células para permitir melhor interação parácrina. No sangue, a reinina converte angiotensinogênio em angiotensina I e nos pulmões, essa é convertida em angiotensina II (pela ECA), a qual estimula a liberação de aldosterona pela suprarrenal. A angiotensina II também contrai as células da arteríola eferente. A aldosterona, por sua vez, atua sobre as células principais dos túbulos conectores e ductos coletores, aumentando a reabsorção de Na+ e de água, bem como a secreção de K+ Os ductos coletores respondem ao hormônio antidiurético, secretado pela neuro-hipófise e secretam K+ e H+ e são permeáveis à água. Victor Velloso – FASAI 24.1 4 Na ausência de ADH são praticamente impermeáveis a água e a urina fica diluída. Os capilares peritubulares se originam na arteríola eferente; são vasos de baixa pressão adaptados para reabsorção em vez de filtração.2 Esses capilares peritubulares com baixa pressão hidrostática circundam todas as partes dos túbulos, viabilizando a rápida reabsorção de água e solutos dos túbulos para o sangue. Ação diuréticos: diuréticos de alça (furosemida) exercem seu efeito no segmento ascendente espesso da alça de Henle. Essas substâncias inibem o sistema de transporte acoplado de Na+/K+/2Cl–. Os diuréticos tiazídicos (hidroclorotiazida) atuam impedindo a reabsorção de cloreto de sódio na parte inicial do túbulo convoluto distal. Os antagonistas da aldosterona (espironolactona), também chamados de diuréticos poupadores de potássio, reduzem a reabsorção de Na+ e a secreção de K+ na parte final do túbulo distal e no túbulo coletor cortical, ambos regulados pela aldosterona. Os diuréticos osmóticos (manitol) atuam no túbulo proximal e no segmento ascendente da alça de Henle, duas seções altamente permeáveis à água. Nefrolitíase ⇀ A nefrolitíase é a deposição de cristais nos rins formados de cálcio, fosfato, oxalato, ácido úrico, amônia etc. A formação dos cálculos se dá quando a solubilidade excede o limite de saturação, começando a precipitar. Epidemiologia ⇀ A A incidência anual de cálculos renais nas nações industrializadas excede 1 por 1.000 pessoas com risco de desenvolvimento em mulheres de 7% e em homens de 11%. A incidência anual atinge seu pico na 3º e 4º década de vida, mas a chance de desenvolvimento continua a aumentar até 60~70 anos. Os cálculos renais são mais comuns em região de clima seco, provavelmente por causa da perda de líquidos pelo suor, o que diminui a diurese. É mais prevalente em países desenvolvidos, tendo sua incidência aumentada em meados de 1990~2000, provavelmente por causa das mudanças no estilo de vida e dieta rica em sódio adotadas. Também é sazonal, aumentando nos períodos secos e de calor. Fisiopatologia Em razões superiores a 1, denominada supersaturação, pode se formar uma fase sólida enquanto as substâncias permanecem em solução em razões menores que 1. Quando a urina está supersaturada, os íons conseguem se ligar para formar a fase sólida mais estável, que é denominada nucleação. Nucleação homogênea refere-se à ligação de íons semelhantes em cristais. A nucleação heterogênea, mais comum e termodinamicamente favorecida, ocorre quando os cristais se tornam cristais ou substâncias diferentes Victor Velloso – FASAI 24.1 5 como restos (debris) celulares na urina. No geral ocorre deposição do mineral ou ácido úrico ao redor do resto celular. O cálcio excedente que não é utilizado para contração muscular, despolarização de membrana ou mineralização óssea é excretado na urina. O mesmo ocorrre com o fosfato que não é utilizado para mineralização óssea.] O oxalato é um produto do metabolismo e de ingesta alimentar que precisa ser excretado na urina. O citrato inibe a formação de cálculos ao se combinar com o cálcio para formar um complexo solúvel que reduz a disponibilidade do cálcio para se ligar ao oxalato ou fosfato. Mais de cinco vezes mais ácido úrico é solubilizado na urina com pH de 6,5 em comparação ao pH de 5,3, mas diarreia e dietas ricas em proteína animal podem contribuir para o pH urinário ácido. Cálculos primariamente associados à infecção são formados por fosfato amônio magnésio ou mais raramente por fosfato de cálcio. A gênese da infecção se dá pro bactérias produtoras de urease (Proteus, Staphylococcus, Providencia, Ureaplasma, menos frequentemente Pseudomonas ou Klebsiella e, quase nunca, E. coli) que desdobram a ureia em amônia, tornando o pH urinário alcalino e favorecendo a cristalização com fosfato e magnésio para formar a estruvita. Cistinúria é uma doença genética de penetrância incompleta em que os indivíduos homozigotos heterozigotos apresentam excreção aumentada de aminoácidos, em especial a cistina (600mg/L) e indivíduos heterozigotos apresentam excreção elevada (400mg/L). Os indivíduos precisam urinar pelo menso 2L por dia para evitar a formação de cálculos. O uso de medicações como sulfato de indinavir para tratamento de infecção pelo HIV está associado à formação de cálculos em até 3% dos pacientes. Ingestão excessiva de vitaminas A e D. Manifestações clínicas Pacientes com cálculos renais frequentemente apresentam dor, hematúria e ocasionalmente infecção urinária. A dor é comum em flanco esquerdo e região lombar e tem caráter excruciante, tendendo a migrar ao longo do abdome até a virilha à medida em que o cálculo passa pelos uretereres até a junção ureterovesical. Pode-se apresentar com náuseas e vômitos, taquicardia e sudorese. A hematúria pode ser microscópica e macroscópica e pode ou não estar acompanhada da dor. Diagnóstico O diagnóstico pode ser feito ao se aliar anamnese, exame físico (pouco específico), exames de imagem e exames laboratoriais. A ultrassonografia é um exame simples à beira-leito que possui sensibilidade de 85% cálculos ureterais que causam sintomas. Aproximadamente 90% dos cálculos renais são radiopacos e podem ser detectados por uma radiografia abdominal. Infelizmente, no entanto, o cálculo costuma ser obscurecido por fezes, pelas vértebras ou por gases abdominais, de modo que a sensibilidade de uma radiografia simples de abdome é de cerca de 55% e sua especificidade é de apenas cerca de 75%. Radiology of renal stone disease Colin J. McCarthy 2016 A urografia excretora (UGE) apresen tava, até um passado próximo, a melhor eficácia entre os exames de diagnóstico por imagem. No entanto, é um método que prescinde da utilização do meio de contraste iodado e que apresenta potencial alérgico e desconforto para o paciente. A tomografia computadorizada helicoidal sem contraste apresente sensibilidade de 90% a 95% para detecção de cálculos ureterais Victor Velloso – FASAI 24.1 6 Há ainda a tomografiade dupla energia, que emite radiação em ondas diferentes e permite melhor visualização com mais contraste. Permite ainda análise da composição do material. O sumário de urina Tipo 1 e a urina 24h analisam a urina. O paciente deve ser instruído a descartar o primeiro jato de urina e coletar o jato médio. Avalia: Características físicas: Volume, aspecto visual (turvo, límpido, cor) pH normalmente de 5 a 5,5. Valores maiores podem ser sugestivos de infecção bacteriana. Presença de nitrito, também indicativo de infecção. Hemácias: Até 3 por campo ou 10.000/mL. Leucocitos: Até 10 por campo ou 10.000/mL. Proteínas A glicose geralmente está ausente. Presença de cilindros [hemáticos, hialinos, leucocitários] (proteínas, restos de degradação celular, gordura que passa pelos túbulos e adquire esse formato) , cristais Victor Velloso – FASAI 24.1 7 Tratamento A terapia medicamentosa consiste muito no controle da dor. Inicialmente essa é feita por via oral e, se o indivíduo apresentar vômitos contínuos, por via parenteral. É recomendado o uso de AINES (diclofenaco, ibuprofeno) para controle da dor por possuírem eficácia semelhante às dos opioides (morfina, hidromorfona) para controle da dor renal, mas apresentarem menos efeitos adversos. Cálculos renais de 5 mm ou menores apresentam cerca de 70% de probabilidade de serem eliminados espontaneamente, enquanto cálculos entre 5 e 7 mm apresentam 60% de chance, cálculos de 7 a 9 mm apresentam 48% de chance e cálculos de 9 mm ou mais têm 25% chance de serem eliminados espontaneamente. A terapia expulsiva pode ser tentada com cautela com cálculos ureterais menores que 10 mm de diâmetro por 4 a 6 semanas se a dor estiver controlada, a função renal estiver normal e não houver evidências de infecção urinária ou obstrução significativa do sistema urinário. Baseia-se no uso de bloqueador seletivo do receptor α1a (silodosina) ou alfa bloqueadores (tansulosina) e bloqueadores de canais de cálcio (nifedipino). O bloqueio desses receptores inibe o tônus do músculo liso e o peristaltismo descoordenado, mantendo as contrações de propulsão. A alcalinização da urina pode dissolver cálculos puros de ácido úrico. A terapia-padrão é realizada com citrato de potássio, com a finalidade de manter o pH urinário entre 6,5 e 7. O tempo para dissolução varia com o tamanho do cálculo e o grau de alcalinização da urina. Por exemplo, um cálculo de ácido úrico de 2 cm, em urina com pH constantemente mantido em torno de 7, leva aproximadamente 9 dias para ser dissolvido. A litotripsia extracorpórea (LECO) utiliza ondas de choque geradas fora do corpo humano e as concentra no trato urinário, diretamente sobre o cálculo. Além da extracorpórea, pode ser realizada a litotripsia ureteral quando houver falha nessa, falha no tratamento, persistência dos sintomas ou obstrução do ureter. Em cálculos renais maiores de 20 milímetros de diâmetro, ou casos de falha da LECO e aqueles em que a indicação da LECO costuma ser evitada, podem ser tratados por meio de cirurgia convencional (CC) O calcibind é um quelante para o cálcio indicado para indivíduos com hipercalcemia