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MELHORAMENTO GENÉTICO VEGETAL AULA 1 Prof. Anderson Roberto Benedetti 2 CONVERSA INICIAL O melhoramento de plantas é a mais importante estratégia para o aumento da produtividade de forma sustentável e ecologicamente equilibrada, pois possibilita o aumento da produção sem a necessidade de expansão das áreas cultivadas e, por esse motivo, é considerado como uma das áreas mais importantes nos estudos da agronomia. Desde os primórdios da agricultura, as sementes já eram selecionadas (empiricamente) as mais desejáveis para a propagação da espécie. Essa seleção de sementes é vista (até os dias atuais) como uma arte que envolve o desenvolvimento de novas variedades de plantas com características desejáveis. Sempre aplicando esse processo com o objetivo de aumentar a produtividade, a resistência a doenças e pragas, além de melhorar a qualidade e o valor nutricional dos produtos agrícolas. Atualmente, com os avanços e conhecimentos científicos, muito se tornou previsível para o melhorista, sempre avançando e acompanhando as questões técnicas, focando esforços no bem-estar da humanidade. Acredita-se que mais da metade da produtividade presente nas principais espécies de interesse agronômico foi decorrente do melhoramento genético de tais espécies nos últimos 50 anos. Com a necessidade da adoção de uma agricultura sustentável e uma crescente ética-ecológica, somada à pressão demográfica das próximas décadas, o melhorista assume ainda mais responsabilidade na evolução da produção mundial de alimentos, na busca de aumentar a produtividade, inserir de novas cultivares e espécies de interesse agronômico, além da diminuição da quantidade de insumos utilizados na produção. O melhoramento de plantas faz parte das Ciências Biológicas, o que significa que não há métodos únicos em busca de um objetivo em comum e de interesse. Uma das principais técnicas utilizadas no melhoramento de plantas é a seleção genética, processo que envolve a escolha de indivíduos com características desejáveis e a reprodução seletiva deles para produzir novas variedades com essas características. Outras técnicas incluem a mutagênese, a engenharia genética e a hibridação. Cada uma dessas técnicas apresenta vantagens e desvantagens, e o seu uso depende das características da planta em questão e do objetivo do melhoramento. 3 O melhorista deve ser crítico em relação às avaliações das técnicas e a quais recursos disponíveis devem ser utilizados para alcançar os objetivos dentro da melhor relação custo-benefício. Esse aprendizado é fundamental para os profissionais da agronomia, pois estes são responsáveis (junto com biólogos) pelo desenvolvimento de novas variedades de plantas que atendam às necessidades. O conhecimento das técnicas de melhoramento de plantas permite avaliar as variedades existentes e selecionar as que melhor atendem às necessidades dos agricultores e dos consumidores. Além disso, o conhecimento dessas técnicas permite o desenvolvimento de novas variedades adaptadas às condições locais, o que é fundamental para a agricultura sustentável. Em resumo, o melhoramento de plantas é uma área essencial, que permite o desenvolvimento de novas variedades de plantas com características desejáveis. O conhecimento das técnicas de melhoramento de plantas é fundamental para os profissionais que trabalham dentro das Ciências Agrárias, pois permite que eles avaliem as variedades existentes, selecionem as que melhor atendem às necessidades dos agricultores e dos consumidores e desenvolvam novas variedades adaptadas às condições locais com um custo aceitável. Essa etapa está estruturada em 5 temas principais: 1. Introdução ao melhoramento genético de plantas; 2. Importância do melhoramento genético de plantas; 3. Planejamento de um programa de melhoramento; 4. Sistemas reprodutivos de espécies cultivadas; e 5. Recursos genéticos. Quero lembrar a todos que aqui me leem que o melhoramento genético de plantas está entrelaçado com diversas disciplinas que se mostram essenciais para o aprendizado robusto e completo, como a estatística, a bioestatística e a estatística experimental e, claro, com a genética (clássica e molecular). No geral, os temas do nosso estudo têm como objetivo apresentar os conceitos relevantes e fundamentais dentro da genética e suas aplicações no melhoramento de plantas e mostrar de forma introdutória quais são as principais características e termos que um melhorista precisa saber e entender para elaborar um programa de melhoramento adequado e de qualidade. Vale ressaltar que esta etapa está estruturada de maneira bastante didática, ensinando a todos os desafios do passado, presente e no futuro no 4 melhoramento vegetal, somados a importantes termos para melhor compreensão da temática, objetivando a apresentação desse importante tema a todos, de forma clara e compreensiva. Iremos comentar sobre as importâncias do estudo e das aplicações de um processo de melhoramento com qualidade e seus impactos dentro a agricultura. Entender como se forma um programa de melhoramento, quais as perguntas que precisamos fazer antes de se iniciar um programa e quais perguntas precisamos ser respondidas ao fim do programa, sempre objetivando o entendimento do passo a passo de um programa de melhoramento vegetal e a importância de seguir determinados padrões (metodologias) somados às boas práticas e questionamentos assertivos. Quando adentrarmos ao tema, os sistemas reprodutivos das plantas serão apresentados com enfoque anatômico e genético, apontando a importância de um sólido conhecimento estrutural do órgão sexual das plantas, que, em sua grande maioria, será o principal instrumento de trabalho de um melhorista. Por fim, objetivando o conhecimento de identificação fenotípica de recursos genéticos com potencial econômico para aplicação no melhoramento de plantas, vamos aprender o que são recursos genéticos, como um melhorista identifica-os na natureza e em populações melhoradas. TEMA 1 – INTRODUÇÃO AO MELHORAMENTO GENÉTICO DE PLANTAS A genética é uma área fascinante que tem sido estudada já há mais de um século. Podemos iniciar essa história na construção do conhecimento com o monge austríaco, Gregor Mendel, considerado o pai da genética moderna, pois em 1865 ele realizou experimentos com plantas de ervilha e descobriu as leis da hereditariedade. Esse foi um grande marco na história da genética, pois pela primeira vez foram estabelecidos princípios científicos para a transmissão de características de uma geração para outra. No início do século XX, cientistas como Thomas Hunt Morgan e seus colegas de trabalho começaram a estudar a genética de organismos mais complexos, como as moscas de frutas. Eles descobriram que os genes estavam localizados em cromossomos e que as mutações em genes específicos podiam levar a mudanças visíveis nas características do organismo. Essas descobertas abriram novas possibilidades para o estudo da genética de plantas e animais. 5 Na década de 1930, iniciou-se o processo de melhoramento genético de plantas de forma mais sistemática. O geneticista russo Nikolai Vavilov e seus colegas começaram a coletar e catalogar variedades de plantas de todo o mundo, criando o primeiro banco de germoplasma vegetal. Esse banco de germoplasma foi uma das bases para o melhoramento genético de plantas, pois permitiu a seleção de variedades adaptadas a diferentes condições ambientais. Ao longo das décadas seguintes, avanços significativos foram realizados na área da genética e do melhoramento de plantas. Em 1983, a técnica de engenharia genética foi desenvolvida, permitindo a inserção de genes específicos em plantas cultivadas. Isso abriu novas possibilidades para o melhoramento genético de plantas, como o desenvolvimento de variedadesmais resistentes a doenças e mais produtivas. Nesse aspecto, as técnicas de biotecnologia têm revolucionado o melhoramento genético de plantas nos últimos anos, permitindo a inserção de genes de interesse em plantas cultivadas, que podem conferir resistência a pragas e doenças, maior tolerância a estresses ambientais, ou até mesmo melhorar a qualidade nutricional das plantas. Atualmente, a genética e o melhoramento de plantas são áreas de grande importância para a agricultura, pois permitem o desenvolvimento de novas variedades de plantas mais produtivas, resistentes a doenças e adaptadas a diferentes condições ambientais. Para estudar o melhoramento vegetal, é necessário compreender os princípios básicos da hereditariedade, como a segregação e a recombinação dos genes durante a formação dos gametas. Além disso, é importante conhecer as técnicas de análise genética, como a eletroforese, a PCR e a sequenciamento de DNA, que permitem identificar os genes responsáveis pelas características desejáveis das plantas. 1.1 Desafios da produção agrícola É bastante desconfortável saber que em 2021 cerca de 811 milhões de pessoas enfrentam a fome no mundo ou estão subnutridas em pleno século XXI (Unicef, 2021). Precisamos lembrar também que no ano de 2023 a população mundial chegou a 8 bilhões de pessoas e ainda se estima que alcançará 9 bilhões de pessoas até o ano de 2050 e que a produção agrícola precisa aumentar 50% da produção atual para atender à demanda de alimentos em apenas 27 anos. Isso representa uma quantidade adicional na produção de 6 cereais de cerca de 833 milhões de toneladas e 166,5 milhões de toneladas de carne. Mesmo com os louváveis avanços da agricultura nos últimos 50 anos, muitos outros desafios ainda têm que ser superados, dentre os quais destaca- se a necessidade de aumentar a produção de alimentos para alimentar uma população crescente, garantindo a segurança alimentar e nutricional global. Além disso, é preciso levar em consideração os efeitos das mudanças climáticas na agricultura, que podem afetar a disponibilidade de água, aumentar a ocorrência de eventos extremos como secas e inundações e tornar a produção mais vulnerável a pragas e doenças. A expansão das áreas agricultáveis é limitada, podendo ser aumentada em apenas 5% (~69 milhões de hectares), considerando que 25% das atuais áreas agricultáveis já estão degradadas, impossibilitando o cultivo e que o aumento de produtividade deve ser de pelo menos o mesmo dos últimos 50 anos para conter os preços dos alimentos e não ocasionar mais insegurança alimentar nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Outro desafio importante é garantir a sustentabilidade da produção, adotando práticas agrícolas que preservem a biodiversidade nativa e das espécies cultivadas, reduzam o uso de defensivos agrícolas (agrotóxicos) e fertilizantes químicos e aumentem a eficiência do uso de recursos naturais, como a água e o solo. É necessário ainda promover o acesso a tecnologias e inovações que possam aumentar a produtividade da agricultura, bem como a sua capacidade de adaptação às mudanças climáticas. A fome no mundo é o mais preocupante dos fatores a serem enfrentados em um futuro próximo, caso algumas mudanças no estilo de vida e produção do ser humano não mudem nas próximas décadas. O aumento populacional andando em paralelo com a insegurança alimentar de milhares de famílias não é algo recente e vem sendo dito há séculos. Um dos pioneiros a estudar essa visão pessimista do aumento da produção de alimentos não ser o suficiente em relação ao crescimento populacional foi o economista inglês Thomas Robert Matheus (1768-1834). Suas ousadas e pessimistas previsões (há cerca de 200 anos atrás) não se concretizaram em sua totalidade até o presente, devido ao surgimento (imprevisto por ele) de novas tecnologias, fronteiras agrícolas, insumos e sistemas de produção. 7 Embora o aspecto da fome ainda seja uma trágica realidade atual, ela tende a se agravar no futuro quando levamos em consideração as mudanças climáticas. Esse aspecto não se reflete unicamente pelas enchentes, falta de água, elevação dos níveis dos oceanos etc., nas grandes metrópoles, e sim nas áreas rurais como um todo, com prejuízos bilionários para os agricultores, falta de água, incapacidade adaptativa das espécies cultivadas em relação às aceleradas mudanças climáticas no mundo. Isso tudo se soma à produção final que não se iguala na necessidade da população humana. São em todos esses pontos em que os investimentos agrícolas atuais precisam pôr em ênfase financeiro em financiamentos à pesquisa e em desenvolvimento científico. E é exatamente nesses aspectos que o melhorista exerce a função de melhorar cultivares que supram a necessidade atual do sistema produtivo agrícola, aumentando a produção das atuais cultivares e disponibilizando ao mercado novas espécies cultivadas com potencial comercial de consumo em larga escala. É o melhorista o responsável por precisar pensar e desenvolver questões que motive a implementação de novas cultivares e que atenda às necessidades presente no cultivo agrícola. Nesse aspecto, podem-se formular algumas questões motivadoras que podem e devem estimular os atuais e novos melhoristas, dentre as quais podemos citar: • Como a produção de alimentos pode aumentar de forma significativa para suprir a demanda mundial de alimentos de forma eficiente? • Quais características podemos melhorar para assegurar e aumentar a segurança alimentar local regional que apresenta baixos índices de desenvolvimento humano? • Como associar a viabilidade econômica das espécies cultivadas respeitando o ambiente e que apresente significativa importância social? • Como associar a agricultura, preservação do ambiente e desenvolvimento humano? • Como e quando desenvolvo novas cultivares que atendam a demanda econômica, social e as necessidades das cultivares já existentes? No decorrer deste estudo, iremos apresentar e aprender diversos conhecimentos científicos de melhoramento de plantas e os seus métodos que estão contribuindo para mitigar a fome e a pobreza causada pela falta de 8 alimentos e na disponibilização de forma economicamente viável de alimentos, fibras, biocombustíveis, biofármacos, tecnologia, restauração de diversidade, ornamentação e despoluição de ambientes para que as novas gerações tenham uma qualidade de vida adequada, assim como nossa geração tem (em grande maioria) uma vida melhor que nossos antepassados. TEMA 2 – IMPORTÂNCIA DO MELHORAMENTO GENÉTICO DE PLANTAS O melhoramento de plantas é um processo fundamental para garantir a segurança alimentar da população mundial e atender às crescentes demandas por alimentos de qualidade e em quantidade suficiente. Por meio desse processo, busca-se desenvolver novas variedades vegetais que sejam mais produtivas, resistentes a doenças, pragas e condições climáticas adversas, além de apresentarem características nutricionais melhoradas. Há na literatura diversas definições de melhoramento de plantas apresentadas por diferentes autores, como: a. “melhoramento é a evolução conduzida pelo homem” de Vavilov (1935); b. “é a adaptação genética das plantas a serviço do homem” de Frankel (1958); c. “é um exercício de exploração de sistemas genéticos das plantas” de Williams (1964); d. “é a ciência e arte da manipulação genética das plantas para torná-las mais úteis ao homem” de Allard (1977); e. “é a aplicação de técnicas para ser explorar o potencial genético das plantas” de Stoskopf et al. (1993); e f. considerado como “a arte, ciência e negócio de alteração genética das plantas para benefício do homem” de Bernardo (2010). Embora haja diversas definições para o melhoramento de plantas, nota- se que essa definição sofreu modificações no decorrer da história.Desse modo, podemos considerar que todos os autores e suas definições estão certas, considerando o conhecimento disponível em suas épocas de publicação. É relevante mencionar que o melhoramento de plantas, ou a seleção de plantas, está presente no dia a dia do agricultor desde os primórdios da domesticação de plantas, há aproximadamente 10 mil anos. Podemos imaginar como ocorreu a adaptação das plantas, principalmente quando os agricultores 9 de maneira empírica selecionavam as plantas que produziam mais sementes, ou aquelas que não ficavam doentes, ou que apresentavam maior fruto, ou as que apresentavam maior vigor etc. Esse melhoramento inconsciente resultou nas primeiras mudanças alélicas dirigidas. Vale ressaltar que esse processo foi fundamental no processo de evolução das espécies cultivadas. Com o passar do tempo (em um passado recente), com o aumento do conhecimento sobre a reprodução sexual do reino vegetal e a hibridização de acessos contrastantes, foram incorporadas as técnicas de melhoramento e houve um salto tecnológico nas metodologias de melhoramentos conhecidas. O início de tudo isso podemos atribuir basicamente a Mendel com seus clássicos experimentos sobre heranças de caracteres e as segregações, e a Teoria de Darwin, que forneceram as bases da teoria da herdabilidade, da seleção de indivíduos, do melhoramento e do desenvolvimento de cultivares. Atualmente, podemos afirmar que o melhoramento de plantas é uma ciência repleta de hipóteses (e continua estabelecendo) e as comprovam por meio dos métodos e metodologias científicas como no conhecimento de diversas áreas. Irei detalhar a interação desses conhecimentos nos tópicos a seguir. 2.1 Genética Entre os temas que iremos ver nas em etapas posteriores estão todos os conhecimentos das leis da genética, os princípios das segregações gênicas e cromossômicas, o entendimento e identificação do grau de parentesco entre indivíduos de uma população e o entendimento das expressões gênicas para identificar e facilitar na escolha dos melhores métodos de melhoramento. Muitos dos conceitos atualmente utilizados e amplamente aceitos na comunidade científica foram fundamentais nos estudos de Mendel e Darwin referente a herdabilidade dos caracteres e seleção natural. 2.2 Estatística Ao avaliar populações de plantas em programas de melhoramento que apresentam milhares de plantas geneticamente distintas só se torna possível com a utilização de modelos genéticos-estatísticos que permitam afirmar com uma certa probabilidade de confianças, possibilitando afirmar quais são os indivíduos (geralmente 20 a 30% da população estudada) que são superiores 10 aos demais. Essa interação da estatística com a genética e melhoramento de plantas iniciaram-se com o inglês R.A. Fisher (1890 – 1962), na Estação Experimental Rothamsted, Inglaterra, e se tornou tão relevante no melhoramento de plantas no século XX, que atualmente não é possível pensar em melhoramento sem a estatística. 2.3 Biologia molecular O conhecimento sobre o DNA, RNA, proteínas, as interações e a importâncias de tais estruturas nos permite organizar, planejar, identificar e até mesmo transferir e modificar genes de interesse agronômico. 2.4 Bioquímica A compreensão dos processos bioquímicos presentes no reino vegetal, as interações das proteínas e enzimas presentes em algumas espécies auxiliam na seleção e na produção de cultivares que apresentem maior produtividade, qualidade nutricional ou sabor e fenótipos específicos de preferência do consumidor. 2.5 Fisiologia O entendimento do processo de crescimento e do ciclo de vida da planta (no geral e da espécie em específico) e da formação das estruturas fundamentais do organismo vegetal se torna fundamental para a padronização de cultivares, identificação para o melhoramento de espécies para climas, solos, altitudes e condições de cultivos específicos onde antes não se mostravam adaptadas para uma produção sustentável e viável economicamente. 2.6 Botânica Com o entendimento adequado da botânica, da anatomia, taxinomia e dos sistemas reprodutivos das espécies, podemos estabelecer melhores estratégias de hibridização e, de acordo com as características botânicas conhecidas, passa a ser possível selecionar somente os indivíduos superiores agronomicamente e que possam deixar descendentes. 11 2.7 Fitopatologia A compreensão da etiologia dos hospedeiros, além das relações genéticas e sua interação patógeno-hospedeiro, nos permite identificar indivíduos resistentes ou com possíveis níveis de resistência das plantas em relação ao patógeno, selecionando, assim, indivíduos superiores. 2.8 Entomologia O conhecimento das relações praga-hospedeiro-ambiente, como ocorre o parasitismo e as estruturas de interação praga-hospedeiro são fundamentais na criação de estratégias (naturais ou artificiais, como a transgenia) para a seleção de indivíduos superiores em um programa de melhoramento. 2.9 Agronomia O conhecimento das plantas, dos métodos de cultivo, dos manejos, de seus sistemas produtivos e das demandas dos produtores, consumidores e indústria é um conhecimento valoroso dentro de um programa de melhoramento, possibilitando a assertividade e a viabilidade financeira. 2.10 Objetivos do melhoramento de plantas no decorrer de sua história Com base nesse tópico, iremos discutir os principais aspectos de foco nos programas de melhoramento no decorrer da história. Antes de iniciarmos, precisamos lembrar que o melhoramento de plantas é uma arte milenar, que foi realizada de forma empírica desde os primórdios da agricultura e, por consequência dessa seleção realizada “ao olho do agricultor” durantes milênios, resultaram nas atuais grandes culturas conhecidas, por exemplo, o trigo (Triticum sp.), cujo centro de origem foi uma área conhecida como Crescente Fértil (Zohary; Hopf, 2000), é cultivado há aproximadamente 10 mil anos; a batata- doce (Ipomoea batata), cujo centro de sua domesticação foi a América do Sul (Roullier et al., 2013), cultivado há aproximadamente 3 mil anos; a soja (Glycine max), cujo centro de origem foi na China e dispersada por toda a Ásia Oriental (Wang et al., 2016); o milho (Zea mays L.), cujo centro de origem foi a América Central (Wang et al., 2020); entre diversas outras culturas. 12 A arte de melhorar uma cultura de acordo com o interesse da humanidade vem acontecendo até os dias de hoje. O desenvolvimento do conhecimento sobre a genética, herdabilidade dos caracteres, estatísticas, genética de população, genética quantitativa e biotecnologia trouxe rapidez em relação ao surgimento de novas cultivares assertivas com o objetivo incialmente idealizado. Os melhoristas sempre atentaram para o desenvolvimento das atuais cultivares, atendendo à necessidade comercial e humanitária. Nos próximos tópicos, iremos falar sobre os principais objetivos em que o melhoramento de plantas tem sido conduzido pelos programas, como aumento ou estabilidade da produtividade; aumento da quantidade ou da qualidade de proteínas, óleos, açúcares, vitaminas, minerais, conservação pós-colheita etc.; cultivares resistentes às doenças; e podemos dizer também na introdução de características exóticas (características inexistentes na espécie). 2.10.1 Produtividade A produtividade de uma cultivar, a chamada produtividade agrícola (que se trata de um fenótipo), de forma geral é determinada pela função genética do ambiente em interação com o genótipo (denominada de interação genótipo versus ambiente). O melhorista de plantas precisa mensurar essa interação para que a seleção se traduza em aumento significativo da produtividade. Desde o início os programas de melhoramento focados no aumento de produtividade em meados de 1950 sempre apresentaram foco para a elevação da produtividade em relação à áreaprodutora, tanto na ampliação da área de produção com a adaptabilidade da cultivar em novas áreas antes não cultivadas quanto no aumento da produtividade na área já cultivada. Já é conhecido que o aumento da produtividade é dependente também da melhoria do manejo cultural, ou seja, do uso dos insumos de forma mais eficiente e práticas agrícolas assertivas para as cultivares, aliados a cultivares geneticamente superiores em relação à produção da cultivar anterior. Além disso, competição com plantas daninhas (qualquer planta que não é a cultivada competindo por energia) e a proliferação de pragas roubando energia da cultura têm impacto negativo direto na produtividade. É função do melhoramento pensar em alternativas para mitigar esse impacto. Em diversas culturas, como soja, milho, arroz, trigo, algodão, feijão, cana- de-açúcar, entre outras, tem-se alcançado um aumento de produtividade anual 13 por volta dos 2%, um valor bastante abaixo do esperado em comparação aos estudos de manejos com as novas cultivares disponibilizadas no mercado. Essa frustração se deve provavelmente às difíceis replicações do manejo em relação às áreas experimentais. 2.10.2 Resistência às doenças A resistência a doenças é um objetivo bastante desejado pelo melhorista e pelos grandes programas de melhoramento em todo o mundo. As doenças bacterianas, virais e fúngicas são os responsáveis pelas máximas perdas de produtividade em todo o mundo e em todas as culturas e, dependendo da virulência da doença, pode até extinguir uma lavoura mal manejada. Isso se tornou uma preocupação bastante relevante nos programas de melhoramento e foi fundamental em diversas culturas. Uma das mais significativas contribuições dos melhoristas de cevada, por exemplo, foi a introdução do gene T, que confere resistência vertical à ferrugem do colmo nos cultivares desenvolvidos durante a Revolução Verde dos anos 50. Com o passar das décadas, novas raças patogênicas foram surgindo do patógeno Puccinia graminis Pers. F. sp. Tritici e vem sendo responsável por inúmeras perdas de produção. Isso decorrente da inserção do gene T como resistência. Saiba mais A Revolução Verde foi um movimento iniciado na década de 1950 para modernizar as técnicas e metodologias de melhoramento com intuito de aumentar a produtividade agrícola. Foi caracterizada pela introdução de variedades de plantas de alto rendimento, uso intensivo de fertilizantes e pesticidas no controle de pragas nas lavouras, além de outras práticas de manejos eficientes para culturas distintas. É natural a adaptação patogênica com o decorrer do tempo, devido à elevada pressão de seleção aplicada na população do patógeno com a inserção de cultivares melhoradas no mercado e, consequentemente, no cultivo em larga escala. 2.10.3 Resistência a insetos A resistência a insetos é algo relativamente novo no melhoramento genético de plantas. Um dos exemplos que podemos citar que foi um sucesso 14 no melhoramento de plantas e comercialmente entre os agricultores para a resistência de insetos é o dos cultivares transgênicos com o gene Bt (Bacillus thuringiensis). A primeira cultivar transgênica com o gene Bt foi lançada nos EUA em uma batata que expressava a proteína cry3A para o controle da broca (Datta, 2007). Posteriormente, a tecnologia foi introduzida em outras culturas, como o algodão (em 1996), considerado o primeiro produto agrícola a ser comercializado com sucesso aderente à tecnologia, seguido pelo milho transgênico. Desde então, várias outras culturas transgênicas com a tecnologia Bt foram desenvolvidas e comercializadas, incluindo soja, batata, abóbora e tomate. O gene Bt codifica uma proteína que confere resistência a algumas pragas de insetos, reduzindo em até 40% a necessidade de uso de defensivos agrícolas (pesticidas químicos) e melhorando a produtividade das culturas. 2.10.4 Qualidade nutricional A desnutrição e a deficiência por micronutrientes é uma triste realidade ainda presente na humanidade, principalmente nos países mais pobres e subdesenvolvidos. O melhoramento de plantas vem contribuindo para reverter esse cenário, elaborando cultivares que apresentem maior conteúdo de minerais e vitaminas de maneira sustentável e de baixo custo. Existem diversos projetos objetivando a liberação de cultivares ricas nutricionalmente para o cultivo em região com populações subnutridas, por exemplo, o programa Harvest Plus. Um exemplo de cultivar desenvolvida para tal finalidade é o milho com alta quantidade proteica (QPM), apresentando 33% a mais na concentração de lisina e triptofano em comparação com as cultivares convencionais. 2.10.5 Tolerância às condições adversas de clima e solo Um dos principais objetivos dos melhoristas é o aumento da produtividade. Como já estudados nos textos anteriores, o objetivo produtividade pode ser alcançado com o lançamento de cultivares que apresentem maior produtividade em sua estrutura genética, podendo obter também o aumento da produtividade e diminuindo a perda enérgica com a competição de patógenos, parasitas e ervas daninhas. Ao aumentar a área plantada (em novos locais), isso se reflete na produtividade de forma proporcional. 15 Para que uma espécie possa ser cultivada em novos ambientes, é preciso que ela se adapte às condições desse novo ambiente, como solo, temperatura, altitude, umidade etc. É nesse momento que o melhorista aplica todo seu conhecimento de seleção e melhoramento, utilizando-se de métodos pertinentes para ampliar essa área plantada, selecionando indivíduos naturalmente resistentes ou que apresentem uma boa adaptabilidade ao novo ambiente de cultivo. 2.10.6 Introdução de caracteres exóticos A introdução de características exóticas em espécies cultivadas se tornou bastante rotineiro nos programas de melhoramento, principalmente com o desenvolvimento da transformação genética de plantas, que abriu novas perspectivas. Antes disso, o melhoramento convencional era limitado às barreiras biológicas de reprodução entre espécies distintas. 2.10.7 Plantas ornamentais As plantas ornamentais são plantas cultivadas unicamente por sua beleza anatômica, sendo decorrente de suas folhas deslumbrantes, tamanho adequado para jardim, caules e galhos com características estéticas agradáveis para decorações e as folhas. O melhoramento de plantas também atua nessa modalidade, merecendo destaque as flores de corte, como: rosas, crisântemos, lírios, gipsófilas, gladíolos, antúrios, orquídeas, bromélias, helicônias, cravos etc. 2.10.8 Biocombustíveis Com a tendência de substituição dos combustíveis fósseis por alternativas naturais e mais ecológicas, o melhoramento de plantas tem obtido diversos cultivares para a produção de combustíveis por meio da cana-de-açúcar, do milho, da soja, da mandioca, do sorgo e da beterraba-açucareira, que trouxeram diversos avanços na produção industrial desses biocombustíveis. No Brasil, há diversas iniciativas de melhoramento de cultivares com potencial na produção bioenergética privadas e também iniciativas públicas preocupadas em desenvolver cultivares eficientes e produtivas. 16 TEMA 3 – PLANEJAMENTO DO PROGRAMA DE MELHORAMENTO Como qualquer projeto científico, é necessário um planejamento. Assim, podemos dizer que, em qualquer programa de melhoramento, se torna necessário fazer um planejamento, definindo quais são os objetivos desse programa a curto, a médio e a longo prazo. O planejamento é importante para entender as etapas subjacentes que precisam ser feitas para cumprir ou responder o(s) objetivo(s) proposto no início do programa. É importante lembrar que imprevistos são relativamente comuns com o passar do tempo, por isso é preciso considerar no planejamento com possíveis imprevistos, além de se mostrar flexível quando eles ocorrem. Outro fatorimportante no planejamento de um programa de melhoramento é a ideia dos custos do programa ao longo do tempo, quantidade e disponibilidade de área para experimentação, quais os genitores serão utilizados na hibridização, como serão produzidas as sementes dos genitores ou híbridos para a comercialização no fim do programa, como será a demonstração do produto final para os agricultores, como será o registro da cultivar ao fim do programa etc. Para iniciar um projeto de melhoramento, é necessário pensar no objetivo final do programa. Entre os objetivos mais comuns nos programas de melhoramento de plantas estão: desenvolver cultivares adaptadas a diferentes regiões geográficas que atualmente não são aptas ao cultivo dessa cultura; atender diferentes nichos de mercado que anteriormente não foram explorados e apresentam potencial comercial, a tolerância ao alumínio do solo, a tolerância às suas principais pragas (pragas universais ou específicas de cada cultura); melhorar a produtividade por área plantada; melhorar a concentração de nutrientes ou molécula especifica de interesse econômico, precocidade das plantas, homogeneidade no ciclo de vida etc. Um melhorista precisa ser bastante flexível durante a execução de um programa de melhoramento, permitindo ajuste para novos objetivos. Além disso, precisa saber identificar possíveis novas oportunidades de mercado e a utilização de novas técnicas e tecnologias que aumentem a eficiência da seleção de plantas superiores. Para isso, o melhorista precisa ter um senso crítico bastante apurado para antever as tendências do mercado futuro, podendo perder o propósito econômico do programa durante sua execução, considerando 17 que o tempo médio de um programa de melhoramento bem-sucedido é de 5 anos, do início até lançar uma nova cultivar no mercado. 3.1 Como conduzir um programa de melhoramento de plantas Para iniciar um programa de melhoramento de plantas bem-sucedido, o melhorista deve se atualizar em relação às tendências que os demais programas de melhoramento estão pesquisando no momento, visitar institutos de produção de sementes (entender o comportamento da demanda do mercado) e os institutos de pesquisas (que estão atualizados com as técnicas e manejos) com o objetivo principal de conhecer o germoplasma disponível. Assim, o primeiro passo para o melhorista iniciar um programa de melhoramento é a realização de uma revisão bibliográfica, incluindo o entendimento de projetos similares que já aconteceram ou estão em andamento; e, paralelamente, consultar o consumidor final para entender quais são as necessidades do agricultor perante a cultura que irá pesquisar. Com as pesquisas referente à cultura que será estudada já feita, torna-se importante identificar o modo de reprodução e a taxa de fecundação cruzada da cultivar ou espécie, verificando se há disponibilidade dessa informação na literatura. Caso a informação não seja encontrada pelo melhorista, torna-se necessária a realização de estudos prévios antecedentes ao programa para caracterizar essa informação. Além disso, é importante conhecer a herança das características e sua interação com o meio ambiente na expressão do fenótipo. 3.2 Principais processos de um programa de melhoramento de plantas Quando pensamos no processo de melhoramento de plantas, ou mesmo no processo do programa de melhoramento de plantas, é importantíssimo que os principais objetivos do programa sejam estabelecidos e coordenados com as demais atividades associadas pós-melhoramento, como a produção de sementes das diferentes classes, lembrando que a cultivar precisa apresentar um bom pegamento e elevado índice de fecundação para ser viável economicamente na produção de sementes; e estar ciente das leis de comercialização de cultivares, para evitar questões fiscais e legais, atrasando o processo de comercialização da nova cultivar. 18 Um programa de melhoramento precisa se desenvolver o mais rápido possível, porém um melhorista não pode se afobar e se esquecer de quantificar com exatidão a produtividade e a interação dessa característica com o ambiente (interação genótipo versus ambiente). Deve haver na mente do melhorista a obviedade de que, para obter tais resultados de forma concreta, leva-se alguns anos. Irei apresentar agora uma forma mais simplificada dos processos associados a um programa de melhoramento na Tabela 1, que mostra um programa de melhoramento de milho híbrido, deixando o conteúdo mais claro e didático para o estudo. Quando pensamos em outras cultivares para elaborar um processo do programa de melhoramento, há apenas algumas modificações a serem feitas. Os processos do programa de melhoramento são iniciados anualmente, de modo que cada um seja cíclico e simultâneo, ou seja, todo ano é iniciado um novo processo enquanto outro chega ao fim. Tabela 1 – Processo para obtenção de híbridos de milho. Estação Atividade de melhoramento Ano 1 – Inverno Cruzamento de pelo menos 50 plantas (S0) com indutores de haploidia. Ano 1 – Verão Obtenção da linhagem duplo-hapoide e autofecundação de 4.000 plantas (DH0), eliminando as estéreis e doentes. Ano 2 – Inverno Obtenção das plantas DH1, selecionando e autofecundando 1.000 plantas da DH0. Ano 2 – Verão Obtenção das plantas DH2, selecionando e autofecundando 500 plantas da DH0. Ano 3 – Inverno Cruzamento entre as 500 linhagens DH com dois testadores-elite de grupos heteróticos diferentes. Ano 3 – Verão Avaliação dos 1.000 test crosses. Ano 4 – Inverno Identificação dos 20 genótipos mais promissores e obtenção de sementes hibridas o suficiente para ensaios em multilocais Ano 4 – Verão Avaliação dos 20 híbridos obtidos em diversas localidades para o ano I do ensaio de Valor de Cultivo e Uso (VCU) do Ministério da Agricultura. Ano 5 – Verão Avaliação dos 10 híbridos superiores do ano I do VCU. No ano 2 de VCU. 19 Ano 6 – Verão Definição dos pacotes tecnológicos para os híbridos superiores, como população e espaçamento de plantas, adubação de plantio etc. Ano 7 – Verão Recepção dos processos anteriores e realização dos ensaios em fazendas nas futuras região de cultivo. Fonte: Elaborado por Benedetti, 2023, com base em Borem et al., 2017. Nota-se que o processo de melhoramento é demasiadamente demorado e relativamente complexo e possui uma enorme quantidade de detalhes a serem seguidos, exigindo do melhorista pensar muito antes de iniciar um programa de melhoramento. Se o programa de melhoramento envolver transgênicos, novos procedimentos precisam ser incorporados ao projeto, justamente para fixar tal transgênico na população melhorada. É importante ressaltar a paridade entre o melhoramento clássico e o transgênico em um mesmo programa, evitando assim um provável atraso no lançamento da cultivar para o mercado. TEMA 4 – SISTEMAS REPRODUTIVOS DE ESPÉCIES CULTIVADAS A maneira como as espécies cultivadas se reproduzem é um dos fatores mais relevantes para um melhorista, já que é o principal mecanismo de formação de descendentes e a forma de hibridização das espécies. É por meio deles que os métodos de melhoramento são usados no desenvolvimento dos cultivares e no tipo de cultivar. As espécies têm diferentes formas de propagação. Na agricultura, há 2 tipos reprodutivos principais, a reprodução sexuada (através de cruzamentos) e a assexuada (produção de clones). A propagação ou reprodução assexuada (chamada também de propagação através de clones) são consideradas como propagados sem alteração genética, ou seja, não há variação genética entre as gerações de clones, podendo citar a batata e a cana-de-açúcar, por exemplo. Esse método de propagação é bastante interessante para o agricultor por apenas um motivo: a produção homogênia da lavoura. Porém, para o melhorista, pode ser uma estratégia inviável financeiramente,considerando que os seus direitos, protegidos pela Lei n. 9.456, de 25 de abril de 1997, podem não ser respeitados e ocorrerem prejuízos ao programa de melhoramento pela distribuição ou venda 20 dos acessos (isso, é claro, sem autorização do melhorista desenvolvedor do cultivar). Já as espécies em que híbridos são comercializados (o milho, o sorgo, o girassol, o arroz, o tomate, entre diversas outras culturas), a produção destes é oriunda dos cruzamentos entre genitores (geralmente contrastantes entre si) que dão origem ao híbrido. Dessa forma, a multiplicação de sementes por terceiros se torna inviável, reservando a produção de semente ao melhorista ou à empresa que detêm os direitos de produção, podendo garantir a qualidade genética e fisiologia adequada para uma lavoura comercial adequada para todos os níveis da agricultura, comercialização e processamento de alimentos. Repare na importância do entendimento das particularidades reprodutivas de cada espécie, ou mesmo da espécie de estudo com interesse de melhoramento. Esse conhecimento facilitará a hibridização e a maximização da variabilidade genética para a seleção, indicando melhor manejo e técnicas para a produção de sementes, a escolha do melhor método de melhoramento aplicável para a cultura, o esquema de condução das populações de segregantes e o tipo de cultivar a ser comercializada ou disponibilizada para o agricultor. 4.1 Reprodução sexuada A reprodução sexuada é definida principalmente pela junção de gametas, sendo baseada no processo meiótico de divisão celular, em que o número de cromossomos nas células é reduzido pela metade para assim formar os gametas (Figura 1), nas plantas chamados: oosferas (gameta feminino) e grão de pólen (gameta masculino). 21 Figura 1 – Diferença entre mitose e meiose para formação dos gametas. Legenda: esquema à direita, representando a mitose e as células diploides; esquema à esquerda, representando a meiose, meiose I, meiose II e os gametas (sentido horário). Crédito: Pikovit/Shutterstock. É importante enfatizar que a divisão meiótica é importantíssima para a maximização de variabilidade genética na população decorrente da segregação, independentemente dos cromossomos e da recombinação genética (crossing over). Torna-se importante relembrar que o número possível de gametas com n pares de cromossomos é de 2n. Diversos autores classificam as espécies de plantas cultivadas que se reproduzem de forma sexuada em três grupos: alógamas, autógamas e autógamas com frequente alogamia ou de reprodução mista. Embora essas três classificações sejam um pouco quanto genéricas para as espécies cultivadas, é importantíssimo classificar a forma reprodutiva da espécie cultivada antes de iniciar um programa de melhoramento. Podemos considerar espécies alógamas aquelas que apresentam um índice de fecundação cruzada superior a 95%, ou seja, menos de 5% de autofecundação. Para as espécies autógamas, consideram-se aquelas que apresentam uma taxa de autofecundação superior a 95%, ou seja, menos de 5% de fecundação cruzada. Por fim, as chamadas espécies de fecundação intermediárias ou mistas serão aquelas que apresentarem uma taxa de 22 autofecundação ou de fecundação cruzada entre 5 e 95%, respectivamente (Figura 2). Figura 2 – Porcentagem de cruzamento e de autofecundação em espécies alógamas, autógamas e intermediárias 4.1.1 Espécies autógamas A autopolinização é basicamente a transição do pólen de uma antera para o estigma da mesma flor ou de outra flor da mesma planta (plantas sem presença de autoincompatibilidade). Ou seja, as espécies autógamas são aquelas que realizam autofecundação. Resumidamente, a fertilização ocorre entre gametas masculinos e femininos da mesma flor ou planta. Essa forma de reprodução permite a produção de sementes e frutos sem a necessidade de outro indivíduo da mesma espécie para fins reprodutivos. Há na natureza diversos fatores que podem favorecer a autogamia ou autofecundação, o mais clássico é a cleistogâmica, na qual a polinização se dá antes da antese. As espécies autógamas possuem vantagens em relação às espécies que dependem da polinização cruzada, como a produção garantida de sementes em ambientes com pouca disponibilidade de polinizadores ou em áreas isoladas. Adicionalmente, a autofecundação permite a manutenção de características genéticas específicas, o que é útil em programas de melhoramento genético de plantas. % de Cruzamentos % de autofecundações Autógamas Autógamas 0 5 1 0 0 95 0 5 95 100 Espécies intermediárias ou mistas 23 Contudo, a autofecundação pode levar à redução da diversidade genética da espécie cultivada, tornando-a mais suscetível a doenças, alterações ambientais e outros fatores. Por esse motivo, muitas espécies autógamas também realizam reprodução sexuada e cruzada, a fim de garantir a variabilidade genética. Para o melhoramento de plantas, a autofecundação é uma boa estratégia para manter a produção homogênea em poucos ciclos de autofecundação no programa de melhoramento, considerando a facilidade de tornar o alelo de interesse homozigoto em toda a população. Em populações autógamas, a fecundação cruzada também é observada, principalmente quando envolvemos os polinizadores. Porém, a taxa de fecundação cruzada é baixa, incapaz de alterar a homogeneidade da população. Por esse motivo, as espécies autógamas são constituídas por uma mistura de linhas homozigotas. Mesmo quando a fecundação cruzada ocorre na espécie ou população, a heterozigose desaparece com sucessivas autofecundações. Atualmente, há duas hipóteses do surgimento da autogamia nas populações naturais. A primeira delas é a ideia de que a autogamia se originou de ancestrais alógamas; ideia trazida por Jain (1976) com diversas evidências evolutivas. A outra é a ideia em que a autogamia surgiu como forma de acumular de forma rápida os alelos favoráveis e manter a constituição alélica superior na população em questão. Por fim, trago a vocês a Tabela 2 com exemplos de espécies cultivadas com importante interesse econômico. Tabela 2 – Espécies autógamas de importância econômica. Alface Batata Ervilha Pêssego Amendoim Berinjela Feijão Soja Arroz Cevada Lentilha Tomate Aveia Crotalária Linho Trigo Fonte: Benedetti, 2023. 4.1.2 Espécies alógamas O número de espécies alógamas presente na natureza ou nas espécies cultivadas é bastante superior em relação às espécies autógamas. Isso se deve à ancestralidade alógama das espécies autógamas. 24 Diversos mecanismos podem prevenir a autogamia e favorecer a alogamia nas plantas. O mais comum entre eles é a dioicia, que se baseia na diferenciação do sexo da flor em plantas masculinas e femininas, como o mamão, o espinafre, a tâmara e a araucária. Acredita-se que esse tipo de reprodução é fundamental para essas plantas justamente pela perda do vigor com o aumento da presença de endogamia (matéria para etapa posterior). Dessa forma, há diversas maneiras para que as plantas se previnam da endogamia por meio da fecundação cruzada, que iremos discutir nos tópicos a seguir. 4.1.2.1 Monoicia Há a presença dos dois órgãos sexuais na mesma planta, porém em estruturas separadas, por exemplo, o milho, o qual apresenta o pendão (estrutura masculina) no ápice do caule; e a espiga (estrutura feminina) presente nas axilas. 4.1.2.2 Protoginia Na protoginia, a maturação do órgão reprodutivo feminino é antecipada ao masculino. Com esse mecanismo, não há a possibilidade de coincidir na liberação do pólen maduro com a da mesma flor (que está imaturo). Exemplo: antúrio. 4.1.2.3 Protandria A protandria é o oposto da protoginia. Nesse caso, o órgão reprodutivo masculino tem a maturação antecipada ao feminino. Então, não há a possibilidade de o pólen maduro fecundara mesma planta. Exemplo: milho. 4.1.2.4 Obstrução mecânica Nesse mecanismo, as estruturas reprodutivas femininas e masculinas ficam distantes na mesma planta e têm estruturas vegetativas para impedir que o pólen da mesma planta entre em contato com o estigma da mesma planta. Um bom exemplo disso é o milho. 25 4.1.2.5 Autoincompatibilidade O sistema de autoincompatibilidade é um mecanismo presente em algumas espécies de plantas que impede a fertilização entre flores que possuem o mesmo genótipo. Esse sistema é importante para promover a diversidade genética e evitar a autofecundação, que pode levar à perda de vigor e à acumulação de mutações deletérias. Existem dois tipos principais de sistemas de autoincompatibilidade em plantas: o sistema de autoincompatibilidade gametofítico (GSI) e o sistema de autoincompatibilidade esporofítico (SSI) (Figura 3). No sistema GSI, a determinação da autoincompatibilidade ocorre no gametófito feminino (o saco embrionário). Cada planta possui um conjunto de alelos do gene S (para self-incompatibility, ou autoincompatibilidade em inglês), que determina a especificidade do sistema. Quando o pólen de uma flor com um alelo S idêntico ao do saco embrionário tenta se desenvolver, ocorre uma rejeição, que pode ocorrer devido a diferentes mecanismos, incluindo morte celular, inibição do crescimento ou rejeição do tubo polínico. Reparem como esse mecanismo funciona na Figura 3 (a). No sistema SSI, a autoincompatibilidade é determinada no esporófito. As plantas com esse sistema possuem dois alelos de genes, um de origem paterna e outro de origem materna. Se uma flor produzir um pólen com um alelo idêntico ao alelo paterno do esporófito, ocorre a autoincompatibilidade. Reparem como esse mecanismo funciona na Figura 3 (b). Esse sistema é menos comum do que o GSI. O sistema de autoincompatibilidade é um mecanismo complexo que envolve interações moleculares complexas entre as células do pólen e do saco embrionário ou do esporófito. Ao contrário das espécies autógamas, as populações de espécies alógamas são marcadas pela sua elevada heterogeneidade. É notável a diferenciação dos indivíduos de uma população heterogênia, já que cada indivíduo da população é altamente heterozigota. Além disso, essas populações são consideradas bastantes flexíveis para ambientes adversos, decorrente à sua alta variabilidade genética. Entretanto, se a autofecundação for estimulada ou mesmo aumentar a endogamia na população, os genótipos irão entrar em homozigose, expondo assim fenótipos deletérios ou indesejados. 26 Figura 3 – Sistemas de autoincompatibilidade. (a) Sistema de incompatibilidade gametofítico (GSI); (b) Sistema de incompatibilidade esporofítico (SSI). Fonte: Elaborada por Benedetti, 2023, com base em Claessen et al., 2019. Em espécies alógamas, os tipos de cultivares mais comuns são os híbridos. Porém, alguns outros tipos de cultivares também são viáveis, como os cultivares de polinização aberta. A seguir, uma lista de algumas espécies alógamas na Tabela 3. Tabela 3 – Algumas espécies alógamas de importância econômica Abacate Cebola Mamona Abóbora Cenoura Mandioca Alfafa Centeio Manga Batata-doce Eucalipto Maracujá Beterraba Goiaba Milho Brócolis Kiwi Pera Cacau Maçã Cana-de-açúcar Mamão Fonte: Benedetti, 2023. 4.2 Reprodução assexuada Algumas espécies cultivadas são perpetuadas por propagação vegetativa, geralmente devido à baixa produção de sementes ou pela manifestação de variabilidade genética indesejável, como autopoliploidia e à presença dos genes deletérios recessivos que são multiplicados na produção da semente. 27 Há na natureza alguns casos em que a formação das sementes nas plantas não segue a sequência normal da gametogênese e da fecundação. Nesses casos, as sementes são resultado de uma reprodução assexuada, chamada de apomixia, como nos citrus e em braquiárias. A reprodução assexuada nas plantas pode ser obtida de diversas maneiras naturais ou in vitro, por mio de cales, bulbos, ramas, tubérculos, rizomas e folhas e a cultura de células in vitro, devido ao fenômeno de totipotência. Considero importante ter em mente que uma planta ou semente oriunda da reprodução assexuada é idêntica geneticamente a planta que a originou, ou seja, um clone. Na agricultura há bastantes espécies de reprodução assexuada de importância econômica, como alfafa, alho, batata-doce, batata, braquiária, cana- de-açúcar, laranja, mandioca, morango etc. 4.3 Métodos de melhoramento para cada sistema reprodutivo Como já mencionado desde o início desta etapa, o conhecimento do sistema reprodutivo de uma espécie é fundamental para pensar, elaborar e executar um programa de melhoramento eficiente e com resultados satisfatórios. Portanto, há preferências de métodos de melhoramento em relação ao sistema reprodutivo que a espécie estudada contém. Esses métodos estão expostos na Tabela 4. Não se preocupe com os métodos de melhoramento neste momento. Juntos, no decorrer deste estudo, iremos aprender cada um deles e assim vocês entenderão a preferência por determinado método. Tabela 4 – Frequência de utilização de alguns métodos de melhoramento de espécies autógamas, alógamas e de reprodução assexuada Método Espécie autógama Espécie alógama Reprodução assexuada Mutação Ocasional Rara Ocasional Introdução de plantas Ocasional Ocasional Ocasional Seleção massal Rara Frequente Frequente Hibridização Genealógico Frequente Frequente Rara 28 SSD Frequente Ocasional Rara Retrocruzamento Frequente Ocasional Rara Seleção recorrente Frequente Frequente Rara População Ocasional Rara Rara TEMA 5 – RECURSOS GENÉTICOS Recursos genéticos são as variações naturais de plantas, animais e microrganismos presentes em uma determinada região ou ecossistema. Eles são a base da diversidade biológica e representam uma fonte valiosa de características desejáveis para a agricultura, como resistência a doenças, tolerância a estresses ambientais e produtividade. A importância dos recursos genéticos para a agricultura está diretamente relacionada à necessidade de produzir alimentos em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas da população crescente. Com a utilização desses recursos, os agricultores podem obter plantas e animais mais resistentes a doenças e pragas, capazes de sobreviver em diferentes condições climáticas e, consequentemente, produzir mais alimentos. Além disso, os recursos genéticos são essenciais para a preservação da biodiversidade, pois permitem que as espécies se adaptem às mudanças ambientais e evoluam ao longo do tempo. A conservação desses recursos é importante para garantir a disponibilidade de plantas e animais que possam ser usados no futuro para a produção de alimentos. Os recursos genéticos também são fundamentais para o desenvolvimento de novas variedades de culturas e raças de animais. Por meio da seleção e do cruzamento de diferentes variedades, os agricultores podem criar novas cultivares mais adaptadas às suas condições locais e às necessidades do mercado. No entanto, a utilização dos recursos genéticos na agricultura deve ser realizada de forma sustentável e responsável, respeitando a diversidade biológica e os direitos dos povos indígenas e comunidades locais que detêm o conhecimento tradicional associado a esses recursos. A preservação da diversidade genética é fundamental para garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade da agricultura no longo prazo. 29 5.1 Centro de diversidade das plantas cultivadas Essa ideia do centro de diversidade se deve ao geneticista russo Nicolai Ivanovich Vavilov, que publicou o primeiro e mais importante trabalho sobre a mensuração e distribuição da diversidade genética das espécies no mundo. Em 1926, Vavilov publicouo tratado sobre os centros de origem das plantas cultivadas, considerado até os dias atuais como um dos grandes avanços na genética. Foi ele que criou a teoria que mostra que “a concentração de alelos recessivos ocorre preferencialmente na periferia no interior dos centros de origem se concentram os alelos dominantes”. Vavilov, em 1934, foi nomeado para academia de Ciência da União Soviética pelo próprio Lenin. Mas tarde, foi acusado de ser um “geneticista burguês”, seguidor das “teorias clássicas de Mendel Morgan”. Após Vavilov morrer esquecido na prisão soviética, em 1943 outros pesquisadores que seguiram a mesma tendência de pensamento de Vavilov provaram a sua teoria do centro de origem, do gênero Solanum. Entende-se por centro de origem o local de provável origem e evolução da espécie. Já o centro de diversidade é o local com maior variabilidade da espécie. Vale lembrar sempre que, em alguns casos, tanto o centro de origem quanto o centro de diversidade podem coincidir, mas outras vezes não, pois o centro de origem da espécie pode ter desaparecido no decorrer dos anos ou a espécie pode ter migrado. Vavilov identificou oito centros de origem de espécies no mundo (Figura 4). Em tais centros de origem, das espécies que ele identificou, 640 espécies foram originárias do Velho Mundo e outras 100 do Novo Mundo. 30 Figura 4 – Centro de origem de Vavilov, locais dos centros de origem das espécies cultivadas Crédito: Jefferson Schnaider. 5.2 Erosão genética A erosão genética é um processo contínuo e gradual de perda da variabilidade genética em uma determinada população ou espécie (Wilcox et al., 2020). Esse processo pode ocorrer em razão da diminuição do número de indivíduos reprodutores ou em decorrência de seleção natural que favorece determinados alelos em detrimento de outros. A diminuição da diversidade genética pode afetar a capacidade adaptativa da população às mudanças ambientais, tornando-a mais vulnerável a doenças e a outros fatores estressantes. A erosão genética pode ser causada por diversos fatores, tais como a fragmentação do habitat, a introdução de espécies exóticas, a exploração excessiva de recursos naturais, a poluição e as mudanças climáticas. Durante a domesticação de diversas espécies cultivadas, a erosão genética se tornou presente graças à falta de compreensão dos mecanismos genéticos presentes nessa população e à necessidade da variabilidade no melhoramento de plantas. Embora esse processo ocorra de forma natural em espécies que estão passando por processos evolutivos e moldadas pelo ambiente, quando falamos de domesticação, essa erosão foi feita de forma pensada para garantir na população de cultivo somente as variações de interesse. 31 5.3 Vulnerabilidade genética Vulnerabilidade genética se refere à limitada capacidade de uma população ou espécie para enfrentar mudanças ambientais e outras pressões que afetam a sobrevivência e capacidade reprodutiva, em decorrência da perda de diversidade genética (Frankham, 2015). A redução na variabilidade genética diminui a capacidade da população em se adaptar a mudanças do ambiente, como a introdução de patógenos ou mudanças climáticas, podendo resultar em problemas na saúde das plantas e animais, baixa fertilidade e aumento no risco de extinção de populações e espécies. Isso ocorre porque a diversidade genética é importante para a defesa contra doenças e para a adaptação a ambientes em constante mudança. Para reduzir a vulnerabilidade genética, é necessário adotar estratégias de conservação que visem aumentar a diversidade genética em populações ameaçadas, como a criação de reservas naturais, o estabelecimento de corredores ecológicos e a translocação de indivíduos entre populações. Quando falamos nas populações ou espécies cultivadas, precisamos manter a variabilidade guardada ou disponível para os melhoristas inserirem nas populações quando necessário e, para isso, temos os chamados germoplasmas. 5.4 Uso e manutenção de germoplasma A primeira vez que houve uma tentativa de definir o termo germoplasma na sociedade científica ocorreu na Conferência sobre Exploração, Utilização e Conservação de Recursos Genéticos Vegetais, em 1967. Um dos principais relatos da conferência foi a de Frankel e Bennett (1970): Para o pesquisador de um amplo campo de estudos, da evolução à genética e da fisiologia à bioquímica, uma completa representação da variação genética das espécies domesticadas e seus tipos silvestres é uma necessidade. Como Harlan sugere, a evolução de uma única espécie ainda não é totalmente conhecida. O que já se conhece não somente explica os caminhos da origem das civilizações, mas também enriquece o entendimento do processo de domesticação e estende a capacidade de desenvolver novos cultivares. Essa fala traz a importância dos recursos genéticos para a evolução e o desenvolvimento de novas cultivares. Dessa forma, criaram o termo germoplasma para referenciar o material hereditário de uma espécie, ou ainda 32 uma amostra capaz de perpetuar parte da variabilidade genética de uma espécie (Witt, 1985). Embora a definição de Witt (1985) faça bastante sentido para a comunidade científica, essa definição (germoplasma) ainda é considerada bastante vaga. 5.4.1 Coleta de germoplasma A coleta de germoplasma é um processo importante para a preservação da diversidade genética das plantas. Aqui estão os passos básicos para realizar uma coleta de germoplasma para um banco de germoplasma: 1. Identifique as plantas que você deseja coletar e pesquise sobre suas características, distribuição geográfica e status de conservação; 2. Obtenha permissões e autorizações necessárias para coletar as plantas. Isso pode incluir permissões de proprietários de terras, governos locais ou autoridades regulatórias; 3. Escolha as ferramentas adequadas para a coleta, incluindo sacolas de coleta, tesouras de poda e etiquetas de identificação; 4. Visite o local de coleta e selecione as plantas que apresentam características desejáveis e que possuem maior valor genético; 5. Colete as sementes, frutos, estacas, bulbos ou outras partes da planta, dependendo da espécie e do tipo de germoplasma que você está coletando; 6. Limpe e seque o material coletado antes de embalar e rotular adequadamente para evitar contaminação; 7. Registre informações detalhadas sobre a coleta, como a localização, a data, as condições ambientais e as características das plantas coletadas; 8. Transporte o material coletado para o banco de germoplasma o mais rápido possível; 9. Armazene o material coletado em condições ideais de temperatura e umidade, conforme orientações do banco de germoplasma; e 10. Mantenha registros precisos do material coletado e disponibilize informações sobre ele para outros pesquisadores interessados em utilizá- lo. 33 5.4.2 Bancos de germoplasma Um banco de germoplasma é uma instalação onde são armazenadas e preservadas amostras de sementes, plantas e outros materiais genéticos com variedade e variabilidade de diferentes espécies de plantas. A sua principal função é conservar a diversidade genética das plantas, garantindo que esses recursos estejam disponíveis para uso atual e futuro. Os bancos são importantes para garantir o acesso em variabilidade genética das plantas quando necessário, principalmente quando falamos em alguma característica que já foram perdidas nas cultivares atuais, principalmente quando falamos da utilização para melhorar a produção, resistência a doenças e adaptação a mudanças climáticas. Com a ausência de tais bancos, muitas espécies poderiam ser perdidas devido a ameaças como a perda de habitat, mudanças climáticas, desastres naturais e atividades humanas. Eles também são importantes para garantir que as variedades cultivadas não percam sua diversidadegenética ao longo do tempo, o que pode levar a problemas como a erosão genética. Alguns exemplos de bancos de germoplasma incluem o Millennium Seed Bank Project no Reino Unido (Figura 5.a), que visa preservar a diversidade de sementes de todo o mundo, e o Svalbard Global Seed Vault (Figura 5.b), localizado na Noruega, que armazena amostras de sementes de todo o mundo em uma instalação subterrânea no Ártico. 34 Figura 5 – Principais bancos de germoplasma do mundo. (a) Millennium Seed Bank Project; e (b) Svalbard Global Seed Vault. Crédito: David Dennis/Shutterstock; Theerasak Namkampa/Shutterstock. FINALIZANDO Vimos nesta etapa os desafios que a agricultura enfrentou, enfrenta e enfrentará perante a sociedade no decorrer de sua história e nos próximos anos. Descobrimos que o melhoramento genético das plantas foi e será o melhor método para suprir a demanda de alimentos do mundo hoje e em um futuro. Além disso, conhecemos os termos que embasam o melhoramento genético de plantas, que serão importantes no decorrer deste estudo. Vale lembrar a importância do estudo básico entre as culturas e um bom planejamento a b 35 em um programa de melhoramento bem-sucedido. Aprendemos também os sistemas reprodutivos das plantas e como é o funcionamento de cada um dos mecanismos das espécies autógamas e alógamas, lembrando sempre que a identificação desses sistemas reprodutivos é de extrema importância antes de iniciar um programa de melhoramento genético de plantas, já que cada um dos mecanismos tem suas particularidades e influencia no manejo dos cruzamentos em um programa de melhoramento. Por fim, vimos a importância da conservação da variabilidade genética para o melhoramento de plantas, evitando assim a erosão genética e não deixando as espécies cultivadas vulneráveis (geneticamente) à variação do ambiente. A melhor forma de garantir a permanência das espécies cultivadas é com a manutenção da variabilidade genética natural em bancos de germoplasma. 36 REFERÊNCIAS BORÉM, A.; GUIDICE, M. P. 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