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Usos da crase No texto abaixo, o escritor Ignácio de Loyola Brandão discute o polêmico projeto de lei no 5.154 que propõe o fim do uso do acento indicativo de crase. Ao longo do texto, o autor, de modo irônico, identifica contextos morfossin- táticos em que a crase poderia ou não ocorrer. Leia com atenção. O fim da temida crase Finalmente estaremos livres da crase. Ela será extirpada, cancelada, deletada, ejetada, expulsa por lei. [...] O deputado João Hermann Neto elaborou o projeto lei 5.154 acabando com a crase, é o que leio na revista Língua Portuguesa, que está no segundo número, mas que eu não conhecia, deve ter ficado sufocada nas milhares de publicações que assolam as bancas. Claro que Língua fica escondida, para dar lugar a coisas como Caras, que é fundamental a (tem crase aqui?) informação, ao conhecimento, a (tem crase aqui?) sociologia e ao entendimento da mente humana. O deputado Hermann, preocupado com o bem escrever, decidiu contribuir para a evolução da gramática, começando por extirpar a crase que tantas dores de cabeça dá. O curioso é que a luta contra a crase não partiu da Academia Brasileira de Letras, a (tem crase aqui?) quem caberia a iniciativa, porque se imagina que a ABL entre outras coisas deva cuidar da língua. Também não partiu dos gramáticos, os homens que normalizam as questões fundamentais, permitindo que o português continue correto, íntegro, bem escrito e bem falado. Nada a ver com Maria Helena de Moura Neves ou com o Evanildo Bechara, que dedicaram suas vidas a (tem crase aqui?) nossa língua. Nem mesmo com o popular Pasquale Cipro. Achando que eles são incompetentes, transferiu-se a tarefa da mudança gramatical para as (tem crase aqui?) Câmaras Legisla- tivas, conhecidas popularmente como Câmaras do Cambalacho. Sabemos todos que os deputados têm a respeito deles mesmos outra imagem. Para eles, não existe em nossas Câmaras, sejam municipais, es- taduais, federais, o mínimo resquício de ignorância. Não e não! São pessoas doutas, preocupadas com as leis e o cumprimento das leis, des- de que sejam os outros que as cumpram, não eles. Quando olhamos os debates, a transmissão das CPIs, os resultados das investigações, as devassas, percebemos que os deputados estão atentos as (crase?) leis, desde que não sejam atingidos por elas. [...] Alguns, como Hermann Neto, estão tentando desfazer a língua portuguesa (que é desfeita em plenário todos os dias, todas as horas), começando por esta infâmia que é a crase. Martírio, agonia, tortura, padecimento, dissabor, desespero. A crase que é a principal causadora dos distúrbios que andam por aí: os sem-terra invadindo, os lucros dos bancos, a queda da bolsa, o aumento do preço do álcool, o crescente poderio dos camelôs, o trânsito congestionado, as filas no INSS, o PCC, os sequestros-relâmpago, o caos do transporte público, a de- gradação do ensino, o mau atendimento dos convênios médicos. A culpa de tudo? A existência da crase. Tão mais fácil escrever, pensar, se comunicar sem ela. [...] 540 U n id ad e 8 • A sp ec to s da c on ve nç ão e sc ri ta R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap29_C.indd 540 10/12/10 3:59:44 PM Com o que aprendeu sobre os contextos morfossintáticos em que se deve utilizar o sinal indicativo da crase na escrita, você deve ser capaz de responder às seis perguntas feitas por Ignácio de Loyola ao longo do texto. Sua tarefa será analisar cada um dos contextos em que o escritor pergunta se o sinal da crase deve ser utilizado e justificar a sua utilização ou não. Seria tão bom se outros deputados [...] se dedicassem a outros as- pectos gramaticais. Cada um deles, e são 500 e tantos, poderia cuidar de um aspecto. Um faria um projeto contra a polissemia, outro contra as locuções conjuntivas, e teríamos uma verdadeira constituição elimi- nando morfemas subtrativos (ficando apenas os aditivos), paronímias, determinantes (e por consequência os pré e pós-determinantes), anexos predicativos, apostos (atenção deputados, não confundir com apóstolos), orações transpostas substantivas. Estudos rigorosos examinariam a questão dos pleonasmos, dos gerúndios, das formas rizotônicas e das metafonias. Viriam em seguida o fim do ponto de exclamação, do ponto e vírgula, dos parênteses, do trema e da reti- cência e do hífen. E uma nova língua, que poderá ser denominada de Parlamentar em lugar de Portuguesa, como homenagem a esse grupo que tanto faz pelo Brasil, por nós, pela sociedade, pela moralização de usos e costumes. E se faltou alguma crase neste texto, é que estou escrevendo regido pela lei Hermann Neto. BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 28 abr. 2006. No texto, Ignácio de Loyola recorre à ironia para questionar a relevân- cia de um projeto de lei que elimine o uso do sinal indicativo da crase na escrita do português. Além de enumerar alguns dos maiores problemas do país (corrupção, invasões dos sem-terra, lucro dos bancos, queda da bolsa, violência urbana, degradação do ensino, etc.), para deixar claro que essas são as questões de que deveriam se ocupar os deputados federais, o escritor também de- monstra, por meio de uma série de perguntas introduzidas no texto (“tem crase aqui?”), como a aprovação do projeto 5.154 teria um efeito mínimo na modalidade escrita do português. Cada uma dessas perguntas chama a atenção do leitor para um contexto morfossintático em que pode ou não ocorrer a crase. Ao longo do texto, elas ocorrem somente seis vezes. Certamente não se trata de uma questão gra- matical que afete de modo dramático a organização do texto. Também não se pode dizer que, por desconhecer as regras de uso do acento indicativo da crase, os falantes tenham maior ou menor dificuldade para se expressar por escrito. Se os responsáveis pela normatização da língua (gramáticos e mem- bros da Academia Brasileira de Letras) não julgam necessário eliminar o sinal de crase da escrita do português, por que um deputado federal deveria legislar sobre essa questão? Pratique 541 C ap ít u lo 2 9 • A c ra se e s eu u so R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap29_C.indd 541 10/12/10 3:59:44 PM Capítulo Pontuação A pontuação no português Leia o anúncio abaixo para responder às questões 1 e 2. 1. Qual é o objetivo do anúncio apresentado? Que aspecto do produto é destacado no texto do anúncio?ff 2. Para chamar a atenção para as qualidades do produto anunciado, o autor do anúncio faz um uso inesperado de um recurso da escrita. Que recurso é esse? Como esse recurso foi utilizado para “demonstrar” ao leitor do anúncio ff a diferença entre o produto anunciado e os similares do mercado? 30 OBJETIVOS Ao final do estudo deste capítulo, você deverá ser capaz de: 1. Conhecer os sinais de pontuação. 2. Saber empregar os sinais de pontuação. 3. Compreender de que modo a pontuação contribui para a construção do sentido do texto. Você. Está. Precisando. Dirigir. Um. Carro. Com. Câmbio. Em. Que. Você. Não. Sente. A. Mudança. De. Marcha. Você está precisando dirigir um carro com câmbio em que você não sente a mudança de marcha. Audi A4 com Multitronic. O único câmbio com velocidade contínua. 28o Anuário. São Paulo: Clube de Criação de São Paulo, 2003. p. 92. 542 U n id ad e 8 • As pe ct os d a co nv en çã o es cr it a R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap30_C.indd 542 10/12/10 4:34:37 PM