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O autor deste livro e a editora empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelo autor até a data de fechamento do livro. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências, as atualizações legislativas, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre os temas que constam do livro, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas no texto estão corretas e de que não houve alterações nas recomendações ou na legislação regulamentadora. Fechamento desta edição: 31.10.2022 O Autor e a editora se empenharam para citar adequadamente e dar o devido crédito a todos os detentores de direitos autorais de qualquer material utilizado neste livro, dispondo-se a possíveis acertos posteriores caso, inadvertida e involuntariamente, a identificação de algum deles tenha sido omitida. Atendimento ao cliente: (11) 5080-0751 | faleconosco@grupogen.com.br Direitos exclusivos para a língua portuguesa Copyright © 2023 by Editora Forense Ltda. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Travessa do Ouvidor, 11 – Térreo e 6º andar Rio de Janeiro – RJ – 20040-040 www.grupogen.com.br mailto:faleconosco@grupogen.com.br http://www.grupogen.com.br/ Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, em quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição pela Internet ou outros), sem permissão, por escrito, da Editora Forense Ltda. Capa: Fabricio Vale Produção digital: Ozone CIP – BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. C365d Cavalcanti, Eduardo Muniz Machado Direito tributário / Eduardo Muniz Machado Cavalcanti. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2023. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-65-5964-620-3 1. Direito tributário – Brasil. I. Título. 22-80649 CDU: 34:336.22(81) Meri Gleice Rodrigues de Souza – Bibliotecária – CRB-7/6439 Capítulo 1 – 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 SUMÁRIO Sobre o autor Agradecimentos especiais Apresentação Prefácio Título I PARTE GERAL DIREITO TRIBUTÁRIO Poder político e as garantias individuais Direito Tributário como ramo do Direito Público Conceito de Direito Tributário Dever fundamental de contribuir (“pagar impostos”) Receitas públicas Repartição de receitas tributárias https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/05_fm03.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/06_fm04.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/07_fm05.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/08_fm06.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/10_part01.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/11_chapter01.xhtml#ch1-1-6 Capítulo 2 – 2.1 2.1.1 2.1.2 2.1.3 2.1.4 2.1.5 2.1.6 2.1.7 2.1.8 2.1.9 2.1.10 2.1.10.1 2.1.10.2 2.1.11 2.1.12 2.1.13 2.1.14 2.2 2.2.1 2.2.2 2.2.2.1 2.2.2.2 2.2.2.3 LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR Princípios constitucionais tributários Princípios e regras Princípio da legalidade tributária Princípio da isonomia Princípio da capacidade contributiva Princípio da generalidade Princípio da segurança jurídica Princípio da seletividade Princípio da anterioridade tributária Princípio da irretroatividade tributária Princípio da vedação ao confisco Aplicação do princípio do não confisco às multas fiscais Princípio da vedação ao confisco na jurisprudência, em especial do STF Princípio da liberdade de tráfego de pessoas e bens, ressalvado o pedágio Princípio da uniformidade Princípio da uniformidade tributária sobre a renda. Vedação à tributação diferenciada sobre a renda da dívida pública e a remuneração dos agentes públicos Princípio da vedação às isenções heterônomas Imunidades tributárias Imunidade, não incidência, isenção e alíquota zero Aspectos gerais sobre imunidade tributária Quanto ao tributo: Quanto aos beneficiados: Quanto à forma: https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-1-5 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Imunidade de fonogramas e videofonogramas NORMAS TRIBUTÁRIAS Fontes do Direito Tributário Fontes formais primárias do direito tributário – lei tributária Normas constitucionais e emendas constitucionais Lei ordinária Lei complementar Lei delegada Medida provisória Decreto legislativo Resolução Tratados e convenções internacionais Fontes formais secundárias do direito tributário – normas complementares Decreto Decisões administrativas com eficácia normativa Práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas Convênios firmados entre União, estados, Distrito Federal e municípioshttps://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-2-2-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-2-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-2-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/12_chapter02.xhtml#ch2-2-2-5 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autoridades administrativas VIGÊNCIA DA LEI TRIBUTÁRIA Atributos da lei tributária Regras de aplicação da lei tributária Vigência da lei tributária no tempo Vigência da lei tributária e o princípio da anterioridade Vigência da lei tributária no espaço Aplicação da lei tributária Retroatividade da lei tributária Interpretação e integração da lei tributária Institutos e princípios de direito privado na legislação tributária Interpretação literal da legislação tributária Interpretação benigna Interpretação econômica da legislação tributária Integração da legislação tributária RELAÇÃO JURÍDICO-TRIBUTÁRIA Considerações iniciais Hipótese de incidência tributária Fato gerador Fato gerador e o princípio do non olet Ocorrência do fato gerador Elisão, elusão e evasão fiscal Domicílio tributário OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA Tipos de obrigação tributária https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/13_chapter03.xhtml#ch3-3-1-2-5 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Responsabilidade de terceiros Responsabilidade por infrações Denúncia espontânea TRIBUTO Conceito de tributo Classificação e natureza jurídica dos tributos Espécies de tributos Imposto Taxa Contribuição de melhoria Empréstimo compulsório Contribuições especiais Contribuições sociais Contribuições de intervenção do domínio econômico (CIDE) https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/16_chapter06.xhtml#ch6-6-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/16_chapter06.xhtml#ch6-6-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/16_chapter06.xhtml#ch6-6-3-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/16_chapter06.xhtml#ch6-6-3-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/16_chapter06.xhtml#ch6-6-3-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/17_chapter07.xhtml https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/17_chapter07.xhtml#ch7-7-1 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11.2.5 11.2.6 11.3 11.3.1 11.3.2 11.3.3 Contribuições de interesse das categorias profissionais ou econômicas Contribuição de iluminação pública (CIP ou COSIP) CRÉDITO TRIBUTÁRIO Lançamento tributário Alteração/revisão do lançamento tributário Modalidades do lançamento tributário Arbitramento da base de cálculo COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA Competência para legislar sobre Direito Tributário Competência tributária Competência tributária e a reponsabilidade fiscal Capacidade tributária ativa SUSPENÇÃO, EXTINÇÃO E EXCLUSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO Considerações gerais Suspensão do crédito tributário Moratória Depósito do montante integral do valor do crédito tributário Reclamações e recursos administrativos Medida liminar em mandado de segurança Tutela antecipada em outras ações judiciais Parcelamento Extinção do crédito tributário Pagamento Compensação Transação https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/18_chapter08.xhtml#ch8-8-3-5-3 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ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Fiscalização Dívida Ativa Certidões Negativas Contagem de prazos Título II PARTE ESPECIAL IMPOSTOS DE COMPETÊNCIA DA UNIÃO FEDERAL Imposto de Importação https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-7 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-8 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-9 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-10 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/21_chapter11.xhtml#ch11-11-3-11 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Anterioridade Imposto de Renda Noções conceituais e propedêuticas Fato gerador Progressividade e combate às desigualdades sociais Imposto SobreProdutos Industrializados – IPI Fato gerador IPI e não cumulatividade Crédito de IPI: aquisição de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem IPI e correção monetária dos créditos Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro e sobre Operações relativas a Títulos e Valores Mobiliários – IOF IOF-Crédito IOF-Crédito incidente sobre contratos de mútuo e de conta corrente. Contexto administrativo e judicial IOF-Câmbio https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-1-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-2-2 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constitucionais Fato gerador Base de cálculo e alíquotas Sujeito ativo e sujeito passivo Conflito de competência com o IPTU Imposto Sobre Grandes Fortunas – IGF IMPOSTOS DE COMPETÊNCIA DOS ESTADOS E DO DISTRITO FEDERAL ICMS Base constitucional Noções gerais e conceituais Fato gerador Sujeito passivo Base de cálculo Alíquota Não cumulatividade e o direito de crédito Seletividade Diferencial de alíquota de ICMS Panorama normativo e histórico do Difal de ICMS https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-5-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-5-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-5-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-5-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/25_chapter14.xhtml#ch14-14-5-6 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15.3.3 15.3.4 15.3.5 15.3.6 Capítulo 16 – A repartição de receita decorrente da EC 87/2015 O Convênio ICMS 93/2015 e o entendimento do STF A Lei Complementar 190/2022 e a situação de momento O DIFAL de ICMS nas aquisições ou contratações realizadas pelo contribuinte de ICMS optante do Simples Nacional ICMS-Importação Hipóteses de não incidência. Exportação, combustíveis e ouro IPVA Base constitucional Noções gerais e conceituais Critérios da incidência do IPVA Sujeito ativo Alíquota ITCMD Base constitucional Noções gerais e conceituais Fato gerador, critério temporal e sujeição passiva do ITCMD causa mortis Fato gerador, critério temporal e sujeição passiva do ITCMD doação Demais critérios de incidência do ITCMD ITCMD sobre bens situados no exterior e outras controvérsias IMPOSTOS DE COMPETÊNCIA DOS MUNICÍPIOS https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-9-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-9-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-9-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-9-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-10 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-1-11 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2-3https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-2-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/26_chapter15.xhtml#ch15-15-3-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml 16.1 16.1.1 16.1.2 16.1.3 16.1.4 16.1.5 16.1.5.1 16.1.5.2 16.2 16.2.1 16.2.2 16.2.2.1 16.2.2.2 16.2.2.3 16.2.2.4 16.2.2.5 16.2.2.6 16.2.2.7 16.2.2.8 16.2.3 Imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana Noções conceituais e base constitucional Materialidade e base de cálculo Alíquotas e progressividade Sujeito passivo – contribuinte e responsável Controvérsias IPTU e ITR IPTU e concessões ISS Base constitucional e função da lei complementar para o ISS Lei Complementar 116/2003. Aspectos gerais e hipótese de incidência Fato gerador. Conceito de serviços conforme jurisprudência do STF Lista de serviços exaustiva ou exemplificativa? O alcance do termo “congêneres” Tributação de serviço-fim. Impossibilidade de tributar os serviços-meio O ISS na importação e na exportação. Conceito de resultado Sujeição passiva. Contribuinte e responsáveis Conceito de estabelecimento prestador e de unidade econômica Sujeição ativa. Competência territorial municipal. CPOM Base de cálculo e alíquotas Controvérsias relacionadas ao ISS https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-5-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-1-5-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-7 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-2-8 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3 16.2.3.1 16.2.3.2 16.2.3.3 16.2.3.4 16.2.3.5 16.2.3.6 16.3 16.3.1 16.3.2 16.3.2.1 16.3.2.2 16.3.2.3 16.3.2.4 16.3.2.5 Industrialização por encomenda – ISS × IPI e ICMS ISS e ICMS × softwares ISS e ICMS × streaming ISS e ICMS × serviços de publicidade ISS e serviços com coleta em domicílio ou mediante estabelecimento veículo: lavanderia, exames e diagnósticos Tributação de sociedades uniprofissionais Imposto de Transmissão de Bens Imóveis – ITBI Noções gerais e conceituais Fato gerador e critérios da regra matriz de incidência Critérios material, temporal e espacial Base de cálculo Alíquotas e progressividade Sujeição ativa e passiva. Responsabilidade tributária Imunidades Referências bibliográficas https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-2-3-6 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2-1 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2-2 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2-3 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2-4 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/27_chapter16.xhtml#ch16-16-3-2-5 https://jigsaw.vitalsource.com/books/9786559646203/epub/OEBPS/Text/28_bibliography.xhtml Título I PARTE GERAL Capítulo � DIREITO TRIBUTÁRIO A definição científica das mais variadas formas de conhecimento, assim como é o Direito Tributário, inserido nas Ciências Jurídicas, não ressoa simples e revela muito mais um lado prático e eficaz de modo a se alcançar maior grau de desenvolvimento e sistematização, que, ao longo do tempo, acaba por adquirir autonomia e reconhecimento de conteúdo e limites próprios. A partir deste momento tem-se uma realidade positiva particular, contando com elementos suficientes de juízo de valor inserido em uma legislação própria, “isolando” a matéria tributária pelo marco inicial do conceito jurídico-positivo de tributos (teoria jurídica do tributo), com princípios jurídicos que passam a inspirar toda esta órbita normativa, sobretudo a relação entre o poder público e os indivíduos, visando, especialmente, mas não somente, ao ingresso de receitas públicas. Trata-se de um processo metodológico-científico, cujas diretrizes passam por fases. A primeira delas é a identificação de normas principiológicas relacionadas à teoria jurídica do tributo, concebendo o embrião do conjunto legislativo próprio. Em um segundo momento, determinado os princípios inspiradores do sistema tratado, valorá-los dentro do contexto da relação Estado e indivíduos a ele submetidos. E, como terceira etapa, elaborar a partir dos princípios definidos deste universo um sistema próprio de normas e institutos coordenados entre si com efeitos práticos e realizáveis no cotidiano da sociedade. O Direito Tributário está contido em um sistema de diretrizes que tem como funções primordiais a organização da vida em sociedade e a solução dos impasses daí decorrentes, tenham esses confrontos contornos próprio de conflito de interesses ou resultem da necessidade de imposição de determinado valor ou ordem de comportamento.Nessa ampla estrutura de normas e teorias que compõem a Ciência do Direito, o Direito Tributário regula um dos principais meios pelos quais se resolve a necessidade de recursos para a consecução de finalidades do Estado, compreendendo execuções de políticas públicas, entre as quais saúde, educação, segurança, ou mesmo para a manutenção da própria estrutura formada para o seu funcionamento, referente à própria administração pública, direta e indireta. Para tanto, seu objeto central são as relações jurídico-tributárias de natureza essencialmente obrigacional que se formam para realização do interesse público primário e secundário que o justifica. Não sem razão um dos seus mais relevantes fundamentos é a supremacia do interesse público que confere poderes estatais e impõe obrigações compulsórias ao particular. A respeito da supremacia do interesse público sobre o privado lembra- se, de imediato, da clássica lição de Hely Lopes Meirelles, cujo fundamento doutrinário está consubstanciado no sentido de que “a interpretação do Direito Administrativo, além da utilização analógica das regras do Direito Privado que lhe forem aplicáveis, há de considerar, necessariamente, esses três pressupostos: 1º) a desigualdade jurídica entre a Administração e os administrados; 2º) a presunção de legitimidade dos atos da Administração; 3º) a necessidade de poderes discricionários para a Administração atender ao interesse público”. O referido autor consagrou, na doutrina brasileira, a proposta teórica de que “enquanto o Direito Privado repousa sobre a igualdade das partes na relação jurídica, o direito Público assenta em princípio inverso, qual seja, o da supremacia do Poder Público sobre os cidadãos [...]” e “dessa desigualdade originária entre a Administração e os particulares resultam inegáveis privilégios e prerrogativas para o Poder Público, privilégios e prerrogativas que não podem ser desconhecidos nem desconsiderados pelo intérprete ou aplicador das regras e princípios desse ramo do Direito”. Para a doutrina administrativista clássica de Hely Lopes Meirelles, concebida também por Celso Antônio Bandeira de Mello e Maria Sylvia Zanella Di Pietro, “sempre que entrarem em conflito o direito do indivíduo e o interesse da comunidade, há de prevalecer este, uma vez que o objetivo primacial da Administração é o bem comum. As leis administrativas visam, geralmente, a assegurar essa supremacia do Poder Público sobre os indivíduos, enquanto necessária à consecução dos fins da Administração. Ao aplicador da lei compete interpretá-la de modo a estabelecer o equilíbrio entre os privilégios estatais e os direitos individuais, sem perder de vista aquela supremacia”. Não se desconhece, e neste ponto faz-se esta ressalva, sobretudo porque o Direito Tributário não pode desconsiderá-lo, de que o postulado da supremacia do interesse público sobre o particular vem sendo abandonado por uma teoria mais moderna do Direito Constitucional e Administrativo, também conhecida como pós-positivista, cujas diretrizes desenham uma complementariedade entre os interesses envolvidos. A Constituição Federal, sob esta leitura vanguardista, teria atribuído relevância a todo conjunto de direitos fundamentais, com interesse público e privado relacionando-se mutuamente na mesma ordem de valores. 1 2 3 Ainda assim, remanescem desta concepção de supremacia do interesse público sobre o interesse privado, atualmente relativa para uma parte da doutrina, regramentos e institutos clássicos e comumente aceitos no Direito Tributário, como o poder de autotutela, natureza unilateral de diversos atos administrativos, presunção de legitimidade e legalidade da inscrição de créditos públicos, imposição de imperatividade em atos de constrição no curso da cobrança tributária, prazos processuais e prescricionais distintos, entre outros. Por isso, entendo, e neste ponto revelo uma posição particular, de que a concepção moderna constitucional-administrativista de “superação” ou “desconstrução” da preponderância do princípio da supremacia do interesse público sobre o particular ainda tem um longo caminho de amadurecimento, sobretudo no Direito Tributário porque o núcleo axiológico mantém-se o mesmo, não mudou, embora sua aplicação, ante a nova realidade social, merece, sim, uma dose distintiva, inclusive pela atual valoração dos direitos e garantias dos contribuintes. �.� PODER POLÍTICO E AS GARANTIAS INDIVIDUAIS A constituição e a cobrança de tributos são historicamente marcadas por diferentes formas de intervenção, que variam em relação aos fundamentos e aos métodos de apuração, como também passam por mudanças refletidas nas alterações experimentadas pelo grupo social. Desde os escritos mais antigos produzidos em peças de barros na mesopotâmia (4.000 antes de Cristo), eram feitas referências a impostos, pagos com a entrega de parte da colheita produzida pelo agricultor, porque ainda inexistente o conceito de moeda em prata ou ouro. A sedentarização humana (antes baseada no nomadismo) trouxe o surgimento da agricultura, no terceiro milênio antes de Cristo, e, com isso, o pagamento de impostos dava-se no modo in natura de arrecadação agrícola pelos coletores em nome das lideranças e governantes à época, também chamada pelos historiadores de Período da Pedra Polida, dando lugar a contribuições em moeda propriamente somente na Idade dos Metais. Na antiguidade, outra característica, era de que os tributos não eram cobrados de toda a sociedade. Ao contrário, os cidadãos, livres, não se sujeitavam ao pagamento de tributos. Havia uma relação muito próxima entre submissão e pagamento de tributos e, por isso, nesta época, os escravos eram aqueles que contribuíam: Parece certa a afirmação de que na antiguidade eram incompatíveis a liberdade e a tributação, enquanto sujeição. O cidadão, porque livre, não estava sujeito a tributos, posto que tivesse seus deveres públicos. Estes, no entanto, longe de serem vistos como restrição de sua liberdade, eram exatamente sua exteriorização. O elevado grau de participação na vida pública tornava indistintos o cidadão e a coletividade.4 O Império Romano aperfeiçoou a técnica de impor e cobrar impostos ao exigir dos estrangeiros, em terras conquistadas, o pagamento em moedas ou, em alguns casos, por meio de serviços prestados. Tem-se notícias de que o governo romano delegava aos “fiscais” o poder de arrecadar dinheiro da população e, muitas vezes, eles adiantavam o valor pelo direito de cobrar com juros, acrescidos dos custos de coleta, recuperando o dinheiro “investido”. No Brasil, especialmente no período chamado por alguns historiadores de pré--colonial, de 1500 a 1530, a Coroa portuguesa, para defender a posse sobre o território brasileiro, arrendava as terras a colonos vindos de Portugal com a finalidade de explorar o pau-brasil. À época, a madeira era vendida a países estrangeiros, em especial à Inglaterra, venda feita exclusivamente pela “Fazenda Pública” Real. O concessionário somente poderia explorá-la mediante contrato com a Coroa portuguesa. Inicia-se daí uma tributação indireta, na qual parte da produção era destinada à Fazenda Real em espécie, não em moeda, inclusive porque neste período era proibida a circulação de moedas portuguesas, além de a dinâmica econômica não facilitar. No início da colonização, propriamente dita, de 1530 a 1580, com o advento das Capitanias Hereditárias, os donatários passaram a exercer a função de agentes fiscais, repassando o arrecadado à Portugal. Os tributos davam-se, então, da seguinte forma: (i) monopólio do comércio do pau- brasil, das especiarias e das drogas; (ii) direitos das alfândegas reais, relativos a mercadorias importadas e exportadas, ou naufragadas, em geral, correspondente a 10% (dez por cento) do valor total; (iii) quintos dos metais e pedras preciosas (outo, prata, coral, pérola, cobre, chumbo, estanho); e (iv) dízima do pescado e das colheitas de todos os produtos da terra, colhidos ou fabricados. O Estado sempre exerceu esse poder político tributário sob regimede monopólio, como define Antonio Berliri, Professor Catedrático da 5 6 Universidade de Bolonha na Itália. O monopólio fiscal compreende a proibição, autoritariamente imposta a todas as pessoas que habitam determinado território, de desenvolver uma atividade reservada a um ente público, que a exerce, na forma de instituição de tributos, única e exclusivamente ante a sociedade. Por isso que se diz que o monopólio fiscal, inserido no poder político, é, antes de tudo, uma proibição, quer dizer, um limite à liberdade dos particulares, inclusive porque sua existência, como regra, independe de o indivíduo valer-se, ou não, do “produto” monopolizado ou mesmo se ele utiliza o serviço reservado ao Poder Público, o que identifica suas principais características de generalidade e territorialidade. Em contrapartida ao monopólio do poder público de tributar, impõe-se como sua própria justificação a entrega de serviços essenciais aos beneficiários, cidadãos. A realidade fática muitas vezes confronta-se com a teoria jurídica, como se enxerga na carência da oferta qualificada de serviços públicos essenciais, como referida contrapartida estatal pelo recolhimento de tributos, identificada, sobretudo, nos países em desenvolvimento. Essa ausência de entrega da compensação socioeconômica pelo Poder Público gera a descrença da sociedade no sistema tributário, e no próprio monopólio do poder de tributar, cuja percepção social é de ineficácia, quando atinge os extremos nas regiões em que o Estado pouco ou nada alcança. Daí a realidade escancarada das comunidades de assentamentos urbanos informais, densamente povoados – as favelas, e com moradias precárias, muitas sob condição de extrema miséria. Nessas situações, não é incomum, o Estado dá lugar a milícias organizadas que exercem a ocupação dos espaços e comandam um sistema paralelo de relação jurídica impositiva. No mais, em geral, outro aspecto relevante é que o caráter intervencionista e compulsório da atividade fiscal do Estado gera constantes questionamentos sobre sua adequação, tanto sob o viés da legitimidade dessa interferência quanto da forma de atuação do poder político que 7 legitima tal atividade. Como a tributação tem um viés primordial de retirar do patrimônio privado em favor do público, são constantes os debates em torno da necessidade, da proporção e da destinação desses recursos. Diz-se comumente que o tributo é o preço da liberdade, e, por isso, ele não é um fim em si próprio, não se justifica enquanto elemento isolado da conjectura socioeconômica e somente deve ser exigido na medida de sua indispensabilidade e, em teoria, na exata extensão e quantidade do que se espera para suprir a atuação estatal visando proporcionar bem-estar coletivo, entendido este como a oferta de saúde, educação, segurança, transporte, entre outros. A força normativa das garantias individuais e coletivas têm exigido mecanismos cada vez mais regulares de atuação do poder de tributar, orientando a produção e a aplicação transparente das normas tributárias, o que significa uma condução dos instrumentos de exercício dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Espera-se do Poder Público a função de agente benfeitor e de anteparo das liberdades individuais e coletivas, porém limitado pela própria sociedade civil, que também reivindica o direito de tutela das correspondentes liberdades quando o Estado se mostra desidioso, inerte ou incapaz. Tanto a instituição de um tributo quanto os meios de sua efetivação, até a destinação dos recursos auferidos pelo Estado, estão diretamente vinculados a formas e meios decisórios decorrentes ou autorizados pelo ordenamento jurídico, impondo-se, cada vez mais, um sistema de maior transparência, e, sobretudo, cooperação. Esses são vetores relevantes no Estado Democrático de Direito, que também agrega ferramentas essenciais para que seja ampliada a participação popular nesses processos decisórios. Não é demais lembrar que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos diretamente (artigo 1º, parágrafo único, da CF/1988). A Constituição Federal também estabelece que são objetivos fundamentais do Estado brasileiro construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Naturalmente, o alcance desses objetivos exige recursos financeiros. Para tanto, o ordenamento jurídico é o meio necessário para a disposição da medida com que cada indivíduo, como integrante da sociedade, deve participar dos valores para a obtenção de resultados financeiros necessários. A operacionalização desse sistema está a cargo do poder estatal, que deve atuar atrelado a diversas diretrizes, entre as quais se tem por mais essencial que “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” (artigo 37, caput, da CF/1988). A tributação de um país, portanto, deve medir, ou ao menos deveria, exatamente o grau necessário para atender as demandas das políticas públicas essenciais e previstas constitucionalmente, não mais que isso, nem poderia ser exigido dos indivíduos este esforço sem o retorno em forma de serviços públicos, qualificados e satisfatórios, sem perder de vista a promoção da correta redistribuição de riquezas de modo a se alcançar uma sociedade mais justa. Não se tem dúvidas de que o tributo é a principal fonte de recursos do Estado, especialmente para fazer frente às finalidades precípuas, mas, por outro lado, não é menos certo que o fenômeno impositivo dos tributos produz efeitos sobre a economia, muitas vezes ocasionando distorções no mercado, ou mesmo servindo-lhe como instrumento eficaz visando atingir os propósitos públicos. Ao interferir na economia de forma lesiva, a) b) c) especialmente no ambiente concorrencial, por exemplo, merece sobrepor as medidas jurídicas de controle. O tributo, na função de arrecadação de receitas financeiras ou recursos públicos, tem a relação mediata com a função fiscal por ser o meio mais relevante para conferir sustentação à existência do próprio Estado, e, quando exerce o papel da função indutora de comportamentos, positivos ou negativos, visando à construção de externalidades, manifesta-se a dinâmica fiscal de sua relação imediata, sobressaindo, por vezes, às próprias distorções produzidas pelo mercado, afetando condutas no setor produtivo. O Estado, no exercício da atividade de indução, evidencia o protagonismo das políticas distributiva, alocativa e estabilizadora . Distributiva: quando o Poder Público pretende, a partir da tributação, equalizar a renda das pessoas, tornando-a menos desigual, com ênfase na redução das desigualdades socioeconômicas. Alocativa: o exercício da política fiscal é inverso à neutralidade do tributo ante a pretensão de impactar ou revelar cenários de divisão dos recursos para utilização no setor público ou privado, ofertando bens ou serviços públicos aos cidadãos, tais como rodovias, segurança, educação, saúde, entre outros. Estabilizadora: o Estado formula políticas de manutenção ou elevação do nível de emprego, estabilidade econômica, inclusive inflacionária, com equilíbrio orçamentário e pretensão de crescimento econômico. A função estabilizadora caracteriza-se, predominantemente, por instrumentos de políticas fiscal e monetária, com vistas a impactar de alguma forma os ciclos econômicos – estes entendidos como oscilações nos níveis gerais de produto, emprego, renda e preços da economia. 8 Ao fixar, por exemplo, um aumento nas faixas progressivas de tributação de renda das pessoas físicas, o Estado exerce a política sob o viés distributivo, enquanto a tributação diferenciada e direcionada a setores específicos com a pretensão de estimulara infraestrutura de desenvolvimento (saneamento básico, transporte, energia e telecomunicações), ampara-se na função alocativa. E, por fim, o efeito da tributação na política estabilizadora tem relação com a diminuição da tributação sobre a folha de salários, por exemplo, quando pretende aumentar ou manter os níveis de emprego e renda. �.� DIREITO TRIBUTÁRIO COMO RAMO DO DIREITO PÚBLICO A denominação Direito Público representa uma parcela do ordenamento voltada essencialmente aos poderes e às prerrogativas próprios do Estado e de suas relações com terceiros, tanto direcionadas ao seu funcionamento como aquelas nas quais há uma posição de prestígio e especificidade em face do particular. Nesse conceito se insere perfeitamente o Direito Tributário, arcabouço normativo que regula a interferência estatal sobre a esfera patrimonial dos indivíduos a pretexto de viabilizar o cumprimento dos deveres estatais em favor da população e a materialização das políticas de modo geral. O Estado, na defesa do interesse público, tem o papel de harmonização dos fatores concretos e limitados da realidade na qual estão as demandas e as perspectivas sociais que, embora em constante evolução, em sua maioria das vezes, estão comprometidas pela limitação ou mesmo pela escassez de recursos materiais. Os tributos são importantes fontes de receitas públicas, cuja captação tem papel de destaque no ordenamento jurídico tendente a regular o poder do Estado de interferir na esfera de direito privado dos particulares, relativizando a garantia do direito de propriedade (artigo 5º, XXII, da CF/1988) a pretexto do interesse público e coletivo. A necessidade de recursos públicos é o objeto central de sua atividade fiscal, que abrange institutos tais como orçamento, finanças, receitas, despesas e tributos, todos eles regulados pelo ordenamento jurídico, sobretudo porque o agente público deve pautar sua atividade pelo princípio da legalidade. O Direito Tributário enquadra-se na categoria mais ampla, compreensiva de todas as prestações de Direito Público, especialmente daquelas nas quais o Estado impõe coativamente ao cidadão valendo-se de seu monopólio sobre a imposição de tributos. Para fins didáticos, como ocorre na ramificação do Direito como um todo que bifurca em categorias de Direito Público ou Privado, os estudos do presente caso concentram-se no ramo de Direito Público subdividido em diversos ramos disciplinares de interesse, tais como Direito Financeiro, Direito Orçamentário e Direito Tributário. As duas primeiras classificações cuidam dos mecanismos de aferição, organização e aplicação dos recursos, mapeando um grande sistema de gestão de orçamento e finanças que orienta o manejo de despesas, receitas, investimentos e demais ações direcionadas ao patrimônio e as finalidades estatais. Já o Direito Tributário disciplina especificamente uma forma de obtenção de receitas públicas e tem justificada sua autonomia científica firmada na capilaridade de sua abrangência por toda a sociedade e na complexidade das relações jurídicas que regula, especialmente porque no mais simples ato da vida cotidiana, seja na compra de um bem, ou na aquisição de um serviço, no recebimento de salário, seja no exercício da propriedade, revela-se a necessidade de pagamento de tributos. Deste contexto, portanto, deriva uma vasta dimensão de teorias e um sistema normativo cuja peculiaridade demanda uma abordagem própria e extensamente reservada. �.� CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO A conceituação do próprio Direito, como ciência, ou de um dos seus ramos, não costuma ser tarefa fácil, daí por que a doutrina muito investe nessa pretensão, em busca da apuração mais precisa dos elementos que o compõe. Essas incursões, por vezes necessariamente sociológicas e filosóficas, não costumam se distanciar da ideia de conjunto de regras por meio do qual o Estado exige determinada conduta em favor de certos objetivos, bem assim abrangem os fins (sociais) aos quais se prestam. Diante de determinado ramo, imprescindível ainda agregar as peculiaridades compostas nas relações jurídicas designadamente tratadas. Desse ponto de partida, são especificados elementos com o objetivo de tornar transparentes as particularidades que justificam a denominação e a independência científica empregada ao Direito Tributário. O Direito Tributário é o ramo do Direito, com autonomia didática, sobretudo para fins acadêmicos, que reúne um conjunto de institutos jurídicos e disposições normativas, cujas diretrizes orientam os agentes e os elementos formais e materiais envolvidos na instituição, na arrecadação e na fiscalização dos tributos. Trata-se de um ramo da Ciência Jurídica, inserido no contexto do Direito Público como uma disciplina que versa sobre as relações formadas entre o Estado tributante e o particular contribuinte, em torno das quais surgem atividades estatais e institutos jurídicos que lhe são próprios. Entre os vários institutos, pode-se eleger como objeto central a obrigação tributária, resultado da subsunção da norma jurídica ao caso concreto, que gera um dever a determinada pessoa ou grupo de pessoas em função do qual o Estado, beneficiado que é por essa obrigação, passa a contar com prerrogativas conferidas pelo ordenamento jurídico dirigidas a ações preventivas e repressivas. Em contraponto ao poder-dever estatal, limitado por regras gerais e específicas, surge um conjunto de direitos e garantias de proteção do particular contra a possibilidade de tributação indevida ou do manejo de meios ilegítimos de persecução do crédito tributário. O propósito da tributação é a arrecadação de receitas para a consecução de finalidade diretamente relacionada a realizações financeiras, mas também com objetivos de ordem social e política. Para tanto, são estabelecidos mecanismos instrumentais de controle e fiscalização (obrigações de fazer ou não fazer), mas que, quando não observados, do mesmo modo acabam por gerar penalidades e obrigações de pagar autônomas. Daí por que o exercício da fiscalização tributária extrapola contornos administrativos e compõe necessariamente objeto de estudo e tem seus desdobramentos tratados pelo conjunto de regras do Direito Tributário. As premissas teóricas mais antigas (HENSEL e BLUMENSTEIN) faziam a distinção de dois planos de expressão do Direito Tributário: o material e o formal, correspondente, respectivamente, à existência da obrigação tributária propriamente dita, a partir do fato imponível, e ao procedimento administrativo indispensável para a satisfação do crédito tributário, cujas bases são a determinação da tutela jurídica visando arrecadar o tributo. As leis que regulam a criação do tributo, contendo a definição de todos os elementos estruturantes, como construção jurídico-normativa, incluindo fato gerador, sujeitos ativo e passivo, critérios de determinação do lançamento (base de cálculo e alíquota), são manifestações dessa noção de Direito Tributário material, enquanto as leis que regulam a manifestação do poder de imposição, a definição e a quantificação da obrigação tributária, bem como a própria fase de arrecadação, estariam na órbita do Direito Tributário formal. Na atualidade, tornou-se uma distinção puramente subjetiva e de certo modo “desagregadora” do fenômeno tributário, cuja compreensão alcança as normas de configuração dos fatos geradores e das relações deles decorrentes, bem assim os pressupostos dos deveres e das obrigações dos sujeitos envolvidos. A doutrina propõe, a partir de então, uma visão integradora do Direito Tributário (SAINZ DE BUJANDA), essencialmente porque são interconectados o aspecto intersubjetivo da imposição com o próprio procedimento de liquidação e cobrança do tributo. A concepção de obrigação tributária tem no íntimo o poder-dever do Estado de aplicação do tributo dentro desse contexto de relação jurídica complexa. As relações jurídicas em torno das quais circunda o Direito Tributário envolvem necessariamente a Fazenda Pública (federal, estadual, distrital ou municipal, conformeo caso), que exerce o poder de tributar e busca ver satisfeita a obrigação tributária. O outro “extremo” dessa relação é composto pelo contribuinte (pessoa física ou jurídica) ou por aquele a quem a lei imputa o dever de cumprimento da obrigação tributária, segundo disposições legais específicas de sujeição. Em contraponto ao poder de tributar, o devedor do tributo conta com regras de limitação da atividade estatal e os instrumentos de direito material e processual de defesa e insurgência contra a exação imposta, por meio de medidas chamadas antiexacionais, entre as quais as defesas e os recursos administrativos, bem como as ações judiciais de contenção em face da cobrança pelo fisco do crédito público, tais como mandado de segurança e ação declaratória de inexistência de relação jurídica. Embora, em regra, se possa estabelecer que o fisco é o sujeito ativo da relação jurídica e que o contribuinte figura como sujeito passivo, não é estática a atuação da Fazenda Pública no polo ativo, sob o viés processual, haja vista o Direito Tributário também estabelecer situações nas quais o contribuinte age ativamente, tal como ocorre na pretensão de repetição do indébito tributário ou nas ações voltadas para a anulação do crédito tributário imposto. DICAS PRÁTICAS Sob o enfoque processual, a identidade de cada polo da lide (ativo ou passivo) depende das circunstâncias subjetivas do processo judicial ou administrativo e de saber quem figura ativamente na defesa de sua pretensão. Para o Direito Tributário, em regra, a Fazenda Pública atua na defesa do crédito, e o particular na defesa dos limites ao poder de tributar. Já o liame jurídico que une o Estado tributante e seu contribuinte é a norma jurídica tributária com estabelecimento dos elementos ou dos requisitos de formação da obrigação tributária e na qual devem estar pautados os atos fiscalizatórios, a constituição do crédito tributário e a imputação da penalidade. OBJETO DO DIREITO TRIBUTÁRIO – RELAÇÕES JURÍDICO- TRIBUTÁRIAS SUJEITOS LIAME JURÍDICO PRESTAÇÃO FISCO (FAZENDA PÚBLICA) NORMA JURÍDICA TRIBUTÁRIA OBRIGAÇÃO DE PAGAR, FAZER OU NÃO FAZER CONTRIBUINTE OU RESPONSÁVEL (PESSOA FÍSICA OU JURÍDICA) �.� DEVER FUNDAMENTAL DE CONTRIBUIR (“PAGAR IMPOSTOS”) A expressão “dever fundamental de pagar impostos” é encontrada na obra clássica de Casalta Nabais como dever fundamental de contribuir para a manutenção das despesas públicas, e, por isso, de caráter autônomo e jurídico, não representando um mero apelo moral, mas, antes de tudo, uma obrigação imposta aos cidadãos que deve ser respeitada, sob pena de repressões ou punições em face de sua transgressão. Os deveres fundamentais, tal como o de “pagar impostos”, refletem uma categoria constitucional própria posta ao lado dos direitos fundamentais e, com esses, mantêm o mesmo nível de igualdade axiológica diante do ordenamento jurídico. Em razão dessa autonomia, os deveres fundamentais expressam imediata ou diretamente valores e interesses comunitários diferentes e, em algumas medidas, contrapostos aos valores e interesses individuais consubstanciados nos direitos fundamentais. Admitindo-se, portanto, que há deveres fundamentais inerentes a cada cidadão, assim como há, da mesma forma, direitos. Os contornos de tais direitos e deveres ligados ao cidadão serão perfilados pela imbricação desses institutos, construindo barreiras recíprocas de atuação. Não há propriamente uma simetria entre direitos e deveres, posto não haver uma correlação direta e imediata de que para cada direito contrapõe- se um dever. Diz-se, portanto, que existe uma assimetria por autonomia própria, seja de um direito ou de um dever. Cristina Pauner Chulvi afirma que, embora não haja uma teoria da correlatividade entre direitos e deveres fundamentais, entende-se no Estado Social Democrático de Direito que os direitos e os deveres são categorias inseparáveis e, portanto, não existem direitos sem o cumprimento de um � 10 11 12 mínimo de deveres. Nem o outro extremo pode ser admitido, qual seja, um Estado baseado em um regime unilateral de deveres impostos aos cidadãos. Em continuação, a referida autora cita exemplos nos quais os deveres constituem verdadeiros pressupostos de proteção dos direitos fundamentais, como o direito à educação, que se garante graças aos recursos obtidos por meio do cumprimento dos cidadãos do dever de pagar impostos; ou mesmo o direito à tutela judicial, que se efetiva, ou se faz possível, com a observância do dever de ser jurado quando chamado; e ainda, o direito ao voto, que só é praticável com a realização do dever de participação cidadã nas mesas eleitorais. A tese da correlatividade entre direitos e deveres é descartada atualmente, pela própria autora espanhola, principalmente no âmbito tributário, pois os impostos, como se sabe, são tributos que não exigem a contraprestação do Estado, ao contrário das taxas e das contribuições de melhoria, e, ainda, das contribuições sociais. Sendo assim, descarta-se a ideia outrora construída de que a cada direito corresponde um dever, pois, especialmente na esfera tributária é preferível adotar a relação entre potestad administrativa (poder administrativo ou, se preferir, poder-dever) e os deveres dos contribuintes. Não é propriamente um direito subjetivo do Estado, mas um poder- dever tributário, pois caso fosse admitida a noção de direitos subjetivos, esses poderiam ser disponíveis, o que não é admissível no âmbito tributário, especialmente no Direito Público, cujos contornos buscam evitar a possibilidade de renúncia do ente público de suas prerrogativas, haja vista estar a serviço da coletividade. A noção acima exposta de deveres fundamentais é decorrência do surgimento do Estado Social. Antes, a ideia de Estado Liberal, cujas diretrizes se baseiam no enaltecimento exagerado e praticamente absoluto dos direitos e das liberdades individuais, cujas “mãos invisíveis do Estado” pouco interferem na dinâmica social, cede espaço a um intervencionismo 13 necessário para satisfazer o interesse da sociedade. O Estado deixa de ser observador para se tornar prestador e garantidor de condições mínimas vitais ao cidadão. Houve uma redefinição da ordem, na qual as relações entre Poder Público e o povo ganharam novo desenho. As liberdades e os direitos individuais, antes invioláveis em sua fase primogênita – Estado Liberal, deveriam ceder espaço aos direitos coletivos, essencialmente dependentes da atuação estatal. Por isso, não se pode mais admitir a existência de direitos absolutos, plenamente resistentes diante das investidas estatais, posto a tutela dos interesses individuais ficar ensombrecida ante a necessidade da tutela do interesse coletivo, identificado, sobretudo, na redistribuição da riqueza, no combate à pobreza e na formação de uma rede de proteção social dos mais vulneráveis. Todos os cidadãos, portanto, ainda que não estejam comprometidos por uma norma textual programática, estão obrigados a “devolver” algo em troca ao coletivo pelo simples dever de solidariedade, cooperação e justiça social. É o “custo”, ou melhor, o “investimento” por estar sob convívio social e desfrutar de benefícios decorrentes dessa circunstância pactual ideológica. Os deveres constitucionais são decorrências do Estado social. Estado esse pautado não só no dever de preservação das liberdades individuais dos cidadãos, mas também responsável pela prestação de serviços que possam atender às necessidades e aos anseios sociais. Esta segunda perspectiva configura-se pela modelagem de uma sociedade, na qual todos tenham condições dignas de sobrevivência e, para que isso seja possível, é imprescindível que existam deveres constitucionais, posto considerar, a partir de tais deveres, existir uma série de obrigações concretas que contribuam para a conformação dessa nova ordem social. Todos os deveres constitucionais, portanto, encontram sua fundamentação jurídica no amplo princípio do Estado social, que deve ser interpretado não sob uma perspectiva individualista, masna ideia de solidariedade porque visa à proteção dos interesses de todos. E é justamente na esteira da noção de solidariedade, como diretriz básica da estruturação do Estado social, que derivam os deveres fundamentais e suas consequentes espécies. O dever de solidariedade é o “supra dever”, como gênero, compreendendo os deveres constitucionais como espécies, em especial o “dever de pagar impostos” ou também conhecido como dever de contribuir. Os deveres fundamentais descansam na solidariedade, que rege todo o sistema do Estado Social e Democrático de Direito. O “dever de pagar impostos” é um desses deveres fundamentais consubstanciados em nossa ordem constitucional. Embora o texto da Constituição Federal nunca tenha abordado a expressão “dever de pagar impostos” como dever fundamental, tal ausência deve ser suplantada a partir de uma exegese constitucional sistêmica, cujas raízes estão relacionadas ao princípio da capacidade contributiva. Por hermenêutica sistêmica entende-se a interpretação harmoniosa do ordenamento jurídico. Não se deve apartar a norma de seu contexto, levando o intérprete a aplicar o direito sistematicamente, sob pena de perda da dimensão global do ordenamento jurídico. Em resumo, a interatividade entre as normas jurídicas é a solução para a coexistência do sistema jurídico de forma a integrar os princípios e deveres entre si, evitando uma visão limitada e muitas vezes injusta que a interpretação unitária e isolada de uma norma jurídica pode propiciar. O “dever de pagar impostos” poderia ser uma decorrência lógica do princípio da eficiência estatal, pois, sem os recursos financeiros suficientes para a manutenção das despesas públicas, certamente a Administração Pública estaria fadada ao colapso e não alcançaria seu fim maior, ou seja, o atendimento às necessidades sociais. Alguns teóricos costumam associar a 14 15 16 ideia de que a fiscalização tributária e a imposição da colaboração com o ente fiscal para se apurar as obrigações fiscais são frutos desse preceito. Entretanto, o que fundamenta a gestão tributária (obrigações tributárias, fiscalizações etc.) ou mesmo a igualdade de que todos devem contribuir para a manutenção das despesas públicas e políticas sociais, decorrência do “dever fundamental de pagar impostos”, é muito mais a justiça tributária, inspirada e concretizada por meio da capacidade contributiva dos cidadãos, que qualquer significado de eficiência na gestão tributária. Na verdade, em muitos dos casos, apenas esconde a comodidade dos serviços sob atribuições das autoridades administrativas. Para Betina Treiger Grupenmacher, é certo que o contribuinte tem direitos a serem respeitados no exercício da competência tributária do poder de tributar, mas é igualmente certo que o dever de “pagar impostos” é ínsito à cidadania e decorre da ideia de solidariedade. Cita Francesco Moschetti, “Quando se fala em ‘concurso para com os gastos públicos’ se trata como veremos, de fazer patente o caráter solidário da contribuição e não de fazer uma distinção tão difícil de fundar a partir do ponto de vista jurídico”. Ricardo Lobo Torres destaca a solidariedade como justificativa da capacidade contributiva e fundamenta a cobrança dos impostos. Enquanto, para Roque Carraza “os impostos, quando ajustados à capacidade contributiva, permitem que os cidadãos cumpram, perante a comunidade, seus deveres de solidariedade política, econômica e social. Os que pagam este tipo de exação devem contribuir para as despesas públicas não em razão daquilo que recebem do Estado, mas de suas potencialidades econômicas. Com isso, ajudam a remover os obstáculos de ordem econômica e social que limitam, de fato, a liberdade e a igualdade dos menos afortunados”. A compreensão do Direito Tributário, como ramo do Direito Público, provoca, portanto, a inclusão do “dever fundamental de pagar impostos”, tendo como objeto pragmático as receitas públicas – próximo subitem a ser 17 18 19 tratado, incluído nas diretrizes da solidariedade, da justiça fiscal e da capacidade contributiva, sob convivência com princípios outros, entre os quais o da liberdade econômica, da propriedade privada e da igualdade. �.� RECEITAS PÚBLICAS Embora as receitas públicas não sejam propriamente objeto de estudo do Direito Tributário, é importante compreender que os recursos auferidos pela tributação têm papel relevante no ordenamento jurídico orçamentário- financeiro. De modo mais simples, receita é a entrada de recursos financeiros nos cofres públicos. Entretanto, há ingressos que não integram em definitivo o patrimônio estatal e têm condições predeterminadas de saída. Essa condição de transitoriedade é observada, por exemplo, com a caução ou a fiança, o depósito prévio, o empréstimo compulsório a ser restituído e o empréstimo público. Já as receitas públicas, reguladas pelo artigo 11 da Lei 4.320/1964 , são economicamente classificadas em corrente e de capital e assim dispostas: São Receitas Correntes as receitas tributárias, de contribuições, patrimonial, agropecuária, industrial, de serviços e outras e, ainda, as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito público ou privado, quando destinadas a atender despesas classificáveis em Despesas Correntes. São Receitas de Capital as provenientes da realização de recursos financeiros oriundos de constituição de dívidas; da conversão, em espécie, de bens e direitos; os recursos recebidos de outras pessoas de direito público ou privado, destinados a atender despesas classificáveis em Despesas de Capital e, ainda, o superávit do Orçamento Corrente. Dentro do grupo das receitas correntes, os tributos são espécie de receita derivada, ao contrário da percepção usual de que, quanto à coercitividade, a arrecadação de tributos seria de ordem originária, em oposição à concepção de receitas decorrentes do próprio patrimônio do 20 a) b) – Estado, que se destinam ao custeio de atividades gerais ou específicas exercidas pelas entidades de direito público que os institui (artigo 9º da Lei 4.320/1994). Receitas públicas originárias são aquelas produzidas pelo próprio patrimônio público, tais como a cessão remunerada de bens e valores, a partir de aplicações financeiras ou por meio da produção de bens e serviços, como exemplo, as receitas de aluguéis e arrendamentos de imóveis públicos, dividendos de empresas estatais, ou receitas de concessões e permissões de serviços públicos. Receitas públicas derivadas são decorrentes do patrimônio privado da sociedade, ou seja, recolhidas em razão da exploração pelo setor econômico produtivo particular e, por isso, consideradas obtidas sob coerção, incluídas aquelas alcançadas pelo pagamento de impostos (receitas tributárias), de contribuições e taxas de serviço (inseridas no conceito amplo de tributo). No que diz respeito à regularidade da incidência dos tributos, as receitas derivadas podem ser ordinárias ou extraordinárias. Enquanto a receita ordinária é a entrada de tributos estabelecidos de modo regular e de periodicidade previsível, a receita extraordinária decorre da incidência tributária excepcional, de caráter temporário e não regular, tal como é a hipótese do imposto extraordinário (artigo 154, II, da CF). Podemos assim resumir a classificação dos tributos do ponto de vista das receitas públicas da seguinte forma: Tributos são receitas públicas: derivadas, quanto ao critério de origem; – – correntes, quanto ao critério econômico; ordinárias ou extraordinárias, quanto ao critério da regularidade. �.� REPARTIÇÃO DE RECEITAS TRIBUTÁRIAS A repartição da receita proveniente da tributação está mais afeta à disciplina de Direito Financeiro porque não trata da relação jurídico- tributária, mas de obrigações decorrentes que se instauram entre os entes políticos a partir da satisfação de determinados créditos tributários. Contudo, a arrecadação, comumente, diante de sua relação direta com o objetivo principal da atividade fiscal, é acolhida na órbita do Direito Tributário. Para além doaspecto de ordem financeira, as regras de repartição de receita tributária têm sustentação na forma federativa do Estado brasileiro, na qual os estados, os municípios e do Distrito Federal compõem uma união indissociável marcada pela definição de competências e por significativa autonomia política e administrativa. A repartição de receitas é justamente um instrumento que se presta à consecução dessas diretrizes estruturantes. A Constituição Federal estabelece um sistema misto no qual alguns tributos beneficiam somente o ente tributante enquanto parte da arrecadação de outros também é destinada a outras unidades federadas, de forma que tributos da União também sejam destinados aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, e, também, aqueles arrecadados pelos estados beneficiem os municípios inseridos em seu espaço territorial. DICAS PRÁTICAS Como o Distrito Federal acumula competência tributária estadual e municipal não lhe cabe repartir sua arrecadação, mas somente o benefício das repartições impostas à União. SÚMULA RELACIONADA Súmula 447 do STJ: Os Estados e o Distrito Federal são partes legítimas na ação de restituição de imposto de renda retido na fonte proposta por seus servidores. A compreensão da jurisprudência firmada na Súmula 447 do STJ está fundamentada nos arts. 157, I, e 158, I, da CF, ao reconhecer que o produto da arrecadação do imposto da União é dos estados e dos municípios sobre renda e proventos de qualquer natureza, incidente na fonte, sobre rendimentos pagos, a qualquer título, por eles, suas autarquias e pelas fundações que instituírem e mantiverem. Ou seja, mesmo o Imposto de Renda sendo de competência da União, como o produto de sua arrecadação é dos referidos entes políticos (estados e municípios), na hipótese de servidores públicos vinculados às unidades federadas, a legitimidade processual nas ações de repetição do indébito é da própria fonte pagadora, na qual incide o imposto de renda retido na fonte (IRRF). Esse foi o entendimento do Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário 1293453, com tese de repercussão geral (Tema 1.130) reconhecida no seguintes termos: “Pertence ao Município, aos Estados e ao Distrito Federal a titularidade das receitas arrecadadas a título de Imposto de Renda retido na fonte incidente sobre valores pagos por eles, suas autarquias e fundações a pessoas físicas ou jurídicas contratadas para a prestação de bens ou serviços, conforme disposto nos artigos 158, I, e 157, I, da Constituição Federal”. A repartição devida pelo órgão tributante (ou a participação na arrecadação dos tributos de outros entes) pode ser realizada de forma direta, à conta do Tesouro, ou indiretamente, com a formação de Fundos Especiais. – • • – • • a) Características da repartição de receitas tributárias previstas na Constituição Federal de 1988: sistema misto composto de: receita do ente tributante (por competência) e repartição de receita com os entes locais (por produto). forma de participação: direta – à conta do Tesouro ou indireta – por meio de fundos especiais. Não está sujeito à repartição de receita o produto da arrecadação decorrente da incidência de taxas e contribuições de melhoria, que retribuem uma atividade estatal específica, bem como dos empréstimos compulsórios, das contribuições especiais e da contribuição de iluminação pública, que são instituídos para determinada finalidade. A contribuição que admite repartição de receita no atual sistema constitucional tributário é a CIDE-Combustíveis, prevista no artigo 177, § 4º, da CF. Os arts. 157 a 159 da CF especificam os impostos cuja receita é (i) particionada com outros entes e não somente aquele que tem competência para sua instituição e cobrança; ou (ii) destinada somente a outro ente que não o instituidor, bem como se a receita deve ser repassada de forma direta ou indireta ao ente de destino. Além disso, outras repartições estão determinadas ao longo do texto constitucional. Por isso, faz-se a opção por apresentar as regras da seguinte forma estruturada: Repasse direto da União aos estados e ao Distrito Federal 100% do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza, incidente na fonte, sobre rendimentos pagos, a qualquer título, por eles, suas autarquias e pelas fundações que instituírem e mantiverem. 21 b) c) d) a) b) c) a) b) 30% do total arrecadado a título de imposto sobre operações financeiras realizadas com ouro utilizado como ativo financeiro ou instrumento cambial, conforme o caso; 29% do valor de CIDE-Combustível destinado ao financiamento de programas de infraestrutura de transportes; 20% do produto da arrecadação dos impostos residuais que venham a ser criados pela União. Repasse direto da União aos Municípios 100% do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza (tributo federal), incidente na fonte, sobre rendimentos pagos, a qualquer título, por eles, suas autarquias e pelas fundações que instituírem e mantiverem; 70% do arrecadado a título de imposto sobre operações financeiras sobre o ouro utilizado como ativo financeiro ou instrumento cambial, conforme a operação realizada, ao município onde houve a extração do ouro; 50% do produto da arrecadação do imposto sobre a propriedade rural (tributo federal), relativamente aos imóveis neles situados, cabendo- lhe 100% caso o próprio município opte por fiscalizar e cobrar o tributo. Repasse indireto da União ao Fundo de Participação dos Estados (FPE): 21,5% da arrecadação com o imposto sobre produtos industrializados e o imposto sobre a renda (não destinado aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios); ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM): 25,5% da arrecadação com o imposto sobre produtos industrializados e o imposto sobre a renda (não destinado aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios), observada a progressão de que tratam os arts. 2º e 3º da EC 121/2021; c) d) aos Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte (FNO), Nordeste (FNE) e Centro-Oeste (FCO): 3% da arrecadação com o imposto sobre produtos industria-lizados e o imposto sobre a renda (não destinado aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios); ao Fundo de Compensação de Exportações (FPEx): 10% da arrecadação com o imposto sobre produtos industrializados (proporcional ao valor das exportações de produtos industrializados, sendo que 25% dessa fração é destinada aos municípios). Justamente porque se presta a viabilizar o exercício da autonomia política e administrativa dos entes federados, a Constituição Federal prevê, no artigo 160, o caráter impositivo de suas disposições sobre repartição de receita (dos seus arts. 157, 158 e 159), na medida em que veda restrições à sua efetivação: Artigo 160. É vedada a retenção ou qualquer restrição à entrega e ao emprego dos recursos atribuídos, nesta seção, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, neles compreendidos adicionais e acréscimos relativos a impostos. Parágrafo único. A vedação prevista neste artigo não impede a União e os Estados de condicionarem a entrega de recursos: I – ao pagamento de seus créditos, inclusive de suas autarquias II – ao cumprimento do disposto no artigo 198, § 2º, incisos II e III. A redação do artigo 198, § 2º, II e III, da CF, dispõe: Artigo 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: [...] § 2º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios aplicarão, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde 22 recursos mínimos derivados da aplicação de percentuais calculados sobre: I – no caso da União, a receita corrente líquida do respectivo exercício financeiro, não podendo ser inferior a 15% (quinze por cento); II – no caso dos Estados e do Distrito Federal, o produto da arrecadação dos impostos a que se refere o artigo 155 e dos recursos de que tratam os arts. 157 e 159, inciso I, alínea a, e inciso II, deduzidas as parcelas que forem transferidas aos respectivosMunicípios; III – no caso dos Municípios e do Distrito Federal, o produto da arrecadação dos impostos a que se refere o artigo 156 e dos recursos de que tratam os arts. 158 e 159, inciso I, alínea b e § 3º. Portanto, não cabe ao ente político condicionar, restringir ou limitar o repasse de receitas, salvo hipóteses constitucionalmente previstas para o caso da União, relativamente à retenção para pagamento de seus créditos, inclusive de suas autarquias, e para garantir o cumprimento, anualmente, do emprego dos recursos mínimos em ações e serviços públicos de saúde, conforme previsão dos percentuais definidos na CF. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA O repasse da quota constitucionalmente devida aos municípios não pode sujeitar-se à condição prevista em programa de benefício fiscal de âmbito estadual. III – Limitação que configura indevida interferência do Estado no sistema constitucional de repartição de receitas tributárias. O instituto da repartição de receitas, previsto constitucionalmente, cujos recursos financeiros de tributos são partilhados entre a União e os entes subnacionais, e entre os estados e os municípios, prestam-se, 23 24 essencialmente, como visto, a assegurar a autonomia política e administrativa das unidades federadas, especialmente porque a própria Constituição Federal reserva-lhes competências privativa, comum, exclusiva e concorrente. Nesse ponto, inclusive, somam-se disputas federativas quando o ente político tributante concede benefícios tributários, como isenções fiscais, em tributos sujeitos a partilha de receitas, por exemplo, quando a União estabelece isenções de IPI, muito comum, sobretudo por ser um tributo com forte carga de natureza extrafiscal. Instalaram-se, neste exemplo citado, discussões judiciais entre municípios e a União relativamente ao cálculo da cota parte a ser destinada do produto da arrecadação do IR e do IPI (artigo 159, I, da CF/1988), insurgindo os municípios a favor da não exclusão dos valores dos benefícios, dos incentivos e das isenções fiscais relativos a esses impostos e que são concedidos pelo Governo Federal em prejuízo do que deveria ser a cota constitucional integral. O tema, sem dúvidas, tem importância constitucional expressiva por afetar a sustentação do sistema federativo, especialmente a autonomia financeira dos municípios e a competência tributária da União, tanto que sobre esse assunto o Supremo Tribunal Federal reconheceu a necessidade de julgamento sob o crivo da repercussão geral por enfrentar aspectos econômicos, jurídicos e políticos. O Supremo Tribunal Federal, na ocasião de julgamento do assunto, reconheceu a autonomia financeira dos municípios, porém, essa prerrogativa política, não lhe confere “o direito subjetivo de índole constitucional com aptidão para infirmar o livre exercício da competência tributária da União, inclusive em relação aos incentivos e renúncias fiscais, desde que observados os parâmetros de controle constitucionais, legislativos e jurisprudenciais atinentes à desoneração”. 25 26 27 Com base nesse entendimento, os municípios não têm o direito de exigir que a União inclua no cálculo do FPM os benefícios fiscais e incentivos validamente aplicados relativamente a tributos federais “à luz do conceito técnico de arrecadação e dos estágios da receita pública”. Fixou-se, então, a tese jurídica 653 da sistemática da repercussão geral: É constitucional a concessão regular de incentivos, benefícios e isenções fiscais relativos ao Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados por parte da União em relação ao Fundo de Participação de Municípios e respectivas quotas devidas às Municipalidades. Além disso, a Constituição Federal, inclusive, com vistas a preservar aplicações de recursos em fontes essenciais, fixa diretrizes de repartição de receita condicionadas às regras de cumprimento de recursos mínimos na área da saúde, de observância obrigatória por estados, Distrito Federal e municípios, segundo o teor do artigo 162 da CF: Artigo 162. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios divulgarão, até o último dia do mês subsequente ao da arrecadação, os montantes de cada um dos tributos arrecadados, os recursos recebidos, os valores de origem tributária entregues e a entregar e a expressão numérica dos critérios de rateio. Parágrafo único. Os dados divulgados pela União serão discriminados por Estado e por Município; os dos Estados, por Município. No segundo semestre de 2021, o Supremo Tribunal Federal, ao tratar da competência tributária e da repartição de receitas do produto da arrecadação, no âmbito da discussão compreendendo o pacto federativo, deliberou sobre o Tema 1.130 de repercussão geral reconhecida, conforme tratado no início deste tópico. Segundo o enunciado, pertence aos municípios, aos estados e ao Distrito Federal a titularidade das receitas arrecadadas a título de imposto de renda retido na fonte incidente sobre valores pagos por eles, suas autarquias e fundações a pessoas físicas ou jurídicas contratadas para a prestação de bens ou serviços, conforme disposto nos arts. 158, I, e 157, I, da Constituição Federal. A compreensão constitucional em torno da destinação do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), que incide sobre os valores pagos pelos entes federados a seus fornecedores de bens ou prestadores de serviços, assemelha-se ao formato adotado para a arrecadação do imposto sobre valores pagos a servidores e empregados públicos de cada ente. O Supremo reconheceu que a ordem constitucional revela a descentralização de competências e receitas, bem como os valores do federalismo de cooperação para fortalecimento e autonomia dos entre federados. Ao concluir que os arts. 157 e 158 da Constituição Federal cuidam da repartição de receita – e não de competência tributária –, prevaleceu o caráter de direito constitucional financeiro desses dispositivos e a independência com as regras de competência tributária que conferem o poder de instituir e cobrar o Imposto Sobre a Renda à União. Foi consagrada a literalidade do texto constitucional, atribuindo-lhe máxima efetividade e abrangência à expressão “rendimentos pagos, a qualquer título”, para que seja considerado todo e qualquer pagamento realizado por aquelas unidades federadas, suas autarquias e fundações. A consequência financeira é o direito à efetiva apropriação dos valores retidos pela incidência do IRRF por cada ente subnacional pagante, na qualidade de destinatário constitucional da arrecadação, permitindo-se, ainda, a defesa de efeitos não só prospectivos como também retroativos ao entendimento adotado. Os valores que pertencem aos municípios, aos estados e ao DF são exatamente aqueles passíveis de retenção, que resultam da aplicação da regra de incidência tributária e seus elementos quantitativos, sem qualquer distinção nos parâmetros regulares determinados pela norma federal para apuração da obrigação tributária. Esse é um exemplo do legítimo papel conferido ao Supremo Tribunal Federal, que envolve a intepretação do texto e a definição de institutos jurídicos eminentemente constitucionais e, no caso concreto, dirimiu conflito de interesses públicos contrapostos relativamente aos fundamentos da tributação e da proteção do pacto federativo. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 29. ed. atual. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 48-49. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 29. ed. atual. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 48-49. Celso Antônio Bandeira de Mello ao tratar da supremacia do interesse público sobre o particular refere-se a “princípio”, em vez de “postulado”, ainda persistindo algumas posições acadêmicas a respeito de sua conformação como axioma, princípio ou finalidade da Administração Pública. SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. 9. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019, p. 20. AMED, Fernando José. História dos Tributos no Brasil. São Paulo: Edições SINAFRESP, 2000, p. 36-37. Idem, p. 44. BERLIRI, Antonio. Principios de Derecho Tributario. Trad.Estudio preliminar y Notas por Fernando Vicente--Arcbe Domingo, Madrid: Editorial de Derecho Financiero, 1964. v. I. p. 511. MUSGRAVE, Richard Abel; MUSGRAVE, Peggy B. Finanças Públicas: teoria e prática. Rio de janeiro: Campus; São Paulo: Edusp, 1980, p. 11. CAVALCANTI, Eduardo Muniz Machado. Dever de colaboração dos contribuintes versus direito ao silêncio no âmbito tributário sancionador. Porto 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Alegre: Sergio Antonio Fabris. Ed., 2009. NABAIS, José Casalta. O dever fundamental de pagar impostos. Coimbra: Livraria Almedina, 1998. CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e teoria da Constituição. 2. ed. Coimbra: Almedina, 1998, p. 479. CHULVI, Pauner Cristina. El deber constitucional de contribuir al sostenimiento de los gastos públicos. Madrid: Centro de estudios políticos y constitucionales, 2001, p. 47. CHULVI, Pauner Cristina. El deber constitucional de contribuir al sostenimiento de los gastos públicos. Madrid: Centro de estudios políticos y constitucionales, 2001, p. 65-66. Cristina Pauner Chulvi, sob o contexto da doutrina estrangeira, expõe que esta tem aceitado unanimemente esta vinculação entre o dever de contribuir (“dever de pagar impostos”) e o princípio da solidariedade, entre eles: F. Pérez Royo. Principio de legalidad, deber de contribuir y decretos-leyes en materia tributaria. Revista Española de Derecho Constitucional, n. 13, 1985, p. 67-68; C. Lozano Serrano. Exenciones tributarias y derechos adquiridos. Madrid: Tecnos, 1988, p. 47-49; MORATAL. Orón Notas sobre el concepto de tributo y el deber constitucional de contribuir. En El sistema económico en la Constitución Española. Madrid: XV Jornadas de Estudio de la dirección general del servicio jurídico del Estado, 1994, p. 1602; PAVÉS, M. J. Fernández. Implicaciones del principio constitucional de legalidad tributaria en el ámbito procedimental de tributo. Estudios de Derecho Público. Homenaje al Profesor J. J. Ruiz Rico, v. I, Madrid: Tecnos, 1997, p 264. Sobre o tema, BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 137; BRITTO, Carlos Ayres. Teoria da Constituição. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 155; PEIXINHO, Manoel Messias. A interpretação da Constituição e os Princípios Fundamentais. Elementos para uma hermenêutica constitucional renovada. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003, p. 50-52. Não menos oportuna é a lição do prof.: Tercio Sampaio Ferraz Júnior ao afirmar que “A primeira e mais importante recomendação, nesse caso, é de que, em tese, qualquer preceito isolado deve ser interpretado em harmonia com os princípios gerais do 10 11 12 13 14 15 sistema, para que se preserve a coerência do todo”. Introdução ao Estudo do Direito. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2001, p. 285. CAYÓN, Antonio Galiardo. Gestión Tributaria y derechos fundamentales. Revista Técnica Tributaria, n. 3, Madrid, p. 17, 1988. GRUPENMACHER, Betina Treiger. Tributação e Direitos Fundamentais. In: FISCHER, Octavio Campos (coord.). Tributos e direitos fundamentais. São Paulo: Dialética, 2004, p. 12. TORRES, Ricardo Lobo. Ética e Justiça Tributária. In: SCHOUERI, Luís Eduardo; ZILVETI, Fernando Aurélio (coord.). Direito Tributário. Estudos em Homenagem a Brandão Machado. São Paulo: Dialética, 1998, p. 188. CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de Direito Constitucional Tributário. 19. ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2003, p. 78. Estatui normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. Artigo 159. A União entregará: [...] III - do produto da arrecadação da contribuição de intervenção no domínio econômico prevista no artigo 177, § 4º, 29% (vinte e nove por cento) para os Estados e o Distrito Federal, distribuídos na forma da lei, observada a destinação a que se refere o inciso II, c, do referido parágrafo. Artigo 158. Pertencem aos Municípios: [...] IV – vinte e cinco por cento do produto da arrecadação do imposto do Estado sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação. Parágrafo único. As parcelas de receita pertencentes aos Municípios, mencionadas no inciso IV, serão creditadas conforme os seguintes critérios: I – 65% (sessenta e cinco por cento), no mínimo, na proporção do valor adicionado nas operações relativas à circulação de mercadorias e nas prestações de serviços, realizadas em seus territórios; II – até 35% (trinta e cinco por cento), de acordo com o que dispuser lei estadual, observada, obrigatoriamente, a distribuição de, no mínimo, 10 (dez) pontos percentuais com base em indicadores de melhoria nos resultados de 16 17 18 19 20 21 22 aprendizagem e de aumento da equidade, considerado o nível socioeconômico dos educandos. No julgamento conjunto de diversas ADIs no STF (2.238, 2.365, 2.241, 2.261, 2.250, 2.238 e 2.256), bem como a ADPF 24, que enfrentavam a constitucionalidade de dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal, foi definido como constitucional a possibilidade de bloqueio da União relativamente aos repasses voluntários a estados e municípios caso eles não cumpram seu dever de instituir e arrecadar tributos locais, segundo previsão do artigo 11 da LRF. STF. RE 572.762, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, julgado em 18.06.2008, DJe 05.09.2008. O artigo 21 da CF trata da competência exclusiva material da União. São competências administrativas, sendo indelegável, cabendo única e exclusivamente à União exercê-la. O artigo 22 da CF trata da competência privativa legislativa da União. Nesse caso, cabe apenas à União legislar sobre os temas previstos no referido dispositivo, contudo, é possível que estados e Distrito Federal venham a legislar sobre questões específicas, desde que a União delegue competência por meio de lei complementar. Se houver delegação ela deverá ser indistintamente a todos os estados e ao DF, sob pena de violação ao pacto federativo. Na competência comum (artigo 23 da CF), União, estados e DF detêm competência administrativa de exercê-la (material e não legislativa), nas mesmas condições de igualdade, sem subordinação, sem que a atuação de um exclua a dos outros. Por fim, a competência concorrente (artigo 24 da CF), também conhecida como repartição vertical de competência, não abrange os municípios, sendo exclusivamente legislativa. A competência é da União, limitando-se às normas gerais, abrindo espaço para a competência suplementar dos estados. Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os estados exercerão a competência legislativa plena. A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário. STF. RE 705.423 RG, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, julgado em 09.05.2013, DJe 27.05.2013. STF. RE 705423, Rel. Min. Edson Fachin, Tribunal Pleno, julgado em 23.11.2016, DJe 05.02.2018. 23 24 25 26 27 Capítulo � LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR A ordem constitucional, vigente desde 1988, possibilita que União, estados, Distrito Federal e municípios instituam e cobrem tributos como instrumento de alcance das políticas públicas. Para o exercício dessa prerrogativa, são estabelecidos preceitos básicos que, de um lado, conferem uma posição de “privilégio” aos entes federados na relações jurídico- tributárias e, de outro, impõem garantias que determinam até que ponto ou sob que condições o Estado pode atingir o patrimônio e os demais direitos individuais do particular. Os denominados limites ao poder de tributar compõem um conjunto não exaustivo de princípios e regras que, para além de direcionar a atuação do Poder Público, protegem os contribuintes de abusos dos entes estatais ou daqueles que atuam em seu nome nas atividades de instituir, fiscalizar e exigir o cumprimento de obrigações tributárias. O poder de tributar do Estado tem limites constitucionais genéricos, conferidos pelas disposições da ConstituiçãoFederal e dos Atos das Disposições Transitórias, que delimitam a atuação estatal no exercício de sua competência tributária, e específicos, decorrentes dos princípios, das regras e das imunidades orientadores do sistema tributário nacional, expressamente dispostas para tanto nos arts. 150 a 152 da CF. DICAS PRÁTICAS Os limites constitucionais ao poder de tributar específicos devem ser observados como garantias individuais dos contribuintes, configuram cláusulas pétreas e não podem ter seu conteúdo e alcance relativizados pelo poder constituinte derivado, nos termos do artigo 60, § 4º, da CF. Os limites ao poder de tributar são, em sua maioria, de origem constitucional, mas, nos termos do artigo 146, II, da CF , podem ser regulados por lei complementar. Uma das principais formas de materialização dessas limitações consiste no instituto da imunidade tributária, cujos objetivos compreendem a proteção de valores políticos, morais, culturais e sociais essenciais e não permitem que os entes tributem certas pessoas, bens, serviços ou situações ligadas a esses valores. As normas a respeito da limitação ao poder de tributar, relacionadas ao exercício das imunidades, são sempre “normas de regulação” às quais o constituinte originário teria feito referência no inciso II do artigo 146 da CF, e, por isso, devem estar dispostas em lei complementar, cabendo à lei ordinária apenas prever requisitos que não extrapolem os estabelecidos no Código Tributário Nacional (CTN) ou em lei complementar superveniente. Portanto, uma imunidade tributária não pode ser atingida por obstáculos criados por lei ordinária, adicionados aos dispostos em lei complementar. Não pode restringir o alcance subjetivo da regra constitucional, ao impor condições formais reveladoras de autênticos limites à imunidade, nem mesmo fixar parâmetros objetivos que desvirtuem a natureza da norma constitucionalmente definida. 1 �.� �.�.� PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS TRIBUTÁRIOS Princípios e regras Por opção didática, são denominados princípios constitucionais tributários todos os comandos da Constituição Federal que podem ser extraídos do rol dos limites ao poder de tributar, não obstante seja importante conhecer o debate doutrinário no sentido de que configuram regras, e não princípios, as disposições reveladoras da impossibilidade de ponderação, mas somente são aplicáveis, ou não, a determinado caso diante de conflito aparente com outras regras ou com princípios. A definição de princípios jurídicos e sua distinção relativamente às regras dependem do critério em função do qual são estabelecidos. Ao contrário dos objetos materiais (coisas), cujo consenso em torno de sua denominação é mais fácil pela referência a objetos sensorialmente perceptíveis, as categorias jurídicas, entre as quais se inserem os princípios, são instrumentos abstratos (linguisticamente formulados). Em razão desse obstáculo conceitual, a distinção entre princípios e regras irá depender intensamente do critério utilizado, ou seja, da referência empregada. Entre tais critérios, podem ser utilizados o conteúdo, a estrutura lógica, a posição no ordenamento jurídico, a função na interpretação e aplicação do direito. Não só do critério utilizado poderá variar a noção conceitual de princípios e regras, mas também do ângulo de visão ou do pano de fundo que se está analisando a distinção, pois tal fundamentação teórica pode se dar pelo positivismo, jusnaturalismo, normativismo, realismo. E, ainda, não se pode descartar a finalidade, também como um aspecto a ser examinado quando da distinção entre as categorias, princípios e regras, podendo ser descritiva, aplicativa. Daí não existir uma definição unitária dos princípios jurídicos. Luis Prieto Sanchís recorda a terminologia de Hart, quem 2 3 afirmou que aqui a “zona de penumbra” resulta mais ampla que o “núcleo de certeza”. Também não se trata de mero preciosismo retórico ou de capricho doutrinário, a distinção entre princípios e regras adquire contornos práticos, sobretudo porque a natureza da norma jurídica assume distintas funções no ordenamento ao desempenhar significativos papéis diante do Poder Público. A depender dessa distinção, os limites de intensidade desses contornos impõem diferentes formas de condução ou do que se espera, como tratamento a ser conferido pelo Estado à norma jurídica. Assim é que “ao utilizar a estrutura das regras, o constituinte cria condutas específicas, obrigatórias, e consequentemente, limites claros à atuação dos poderes políticos”. Luís Roberto Barroso continua no sentido de que os “princípios, diversamente, indicam um sentido geral e demarcam um espaço dentro do qual as maiorias políticas poderão legitimamente fazer escolhas”. Predomina na doutrina, como dito, a noção de princípio como norma geral e fundamental para o sistema jurídico, que, a partir de suas diretrizes, comanda a interpretação dos dispositivos legais: Os princípios jurídicos não têm o caráter de regras concebidas de forma muito geral, às quais se pudessem subsumir situações de facto, igualmente de índole muito geral. Carecem antes sem exceção, de ser concretizados. Mas cabe a este respeito distinguir vários graus de concretização. No grau mais elevado, o princípio não contém ainda nenhuma especificação de previsão e consequência jurídica, mas só uma “ideia jurídica geral”, pela qual se orienta a concretização ulterior como por um fio condutor. A definição de princípios é encontrada na clássica obra de Dworkin. Segundo o autor, os princípios compreendem modelos abertos de 4 5 6 argumentação, perspectiva não desejável no positivismo jurídico. Para ele, analisando a distinção desde o viés pragmático, as regras são aplicadas do modo “tudo ou nada” (all-or-nothing), no sentido de que se a hipótese de incidência de uma regra é preenchida, ou é a regra válida e a consequência normativa deve ser aceita ou ela não é considerada válida. No caso de colisão entre regras, uma delas deve ser considerada inválida. Os princípios, ao contrário, não determinam vinculativamente a decisão hermenêutica, mas somente contêm fundamentos, os quais devem ser conjugados com outros provenientes de outros princípios. Desse contexto, surge a dimensão de peso dos princípios (dimension of weight), quando, no caso concreto, o princípio com peso relativo maior sobrepõe-se ao outro, sem que este último venha a perder sua validade. Desponta-se, portanto, um critério de coerência, pois para ele não há propriamente uma colisão entre princípios, porque não se trata de contradição, mas de concorrência deles para a regência do mesmo caso. No Direito Tributário, muitas vezes a discussão a respeito da constitucionalidade da cobrança de um determinado tributo encontra resistência no exame dos princípios aplicáveis, por exemplo, “liberdade econômica” versus “interesse público”, como nas hipóteses de apreensão de mercadorias. Ou mesmo o “direito ao silêncio do contribuinte”, como princípio, e o seu correspondente “dever de colaboração”, nas situações de fiscalização. O STF, no âmbito tributário, já valeu-se do princípio da proporcionalidade, ou da razoabilidade, como decorrência do devido processo legal em sentido material (artigo 5º, LIV, da Constituição) para solucionar “conflitos” entre princípios constitucionais, como no caso do julgamento proferido na ADI-MC-QO 2551/MG, quando estava sob exame o poder do Estado de tributar contra o direito de propriedade do contribuinte. Nesse julgado o Ministro Celso de Mello usa a expressão 7 8 “insuportabilidade da carga tributária” como mecanismo de proteção dos excessos.9 �.�.� a) b) Princípio da legalidade tributária O princípio da legalidade tributária reserva à lei o estabelecimento de exigências prestacionais, de natureza pessoal ou patrimonial, estando o Estado no exercício do poder de tributar. Trata-se de uma das maiores expressões da representatividade popular, haja vista a indispensável participação do parlamento no processo de tributação, cujas diretrizes advêm do lema clássicoinglês: no taxation without representation. O princípio da legalidade possui uma unicidade conceitual sistêmica no ordenamento jurídico, mas compreende múltiplas concepções teóricas a partir do ramo do Direito aplicável. No Direito Tributário, não há propriamente uma distinção comumente realizada pela doutrina entre legalidade e reserva de lei, embora tenha-se como oportuna a seguinte diferenciação: A legalidade exprime a necessidade de lei para criar o tributo, mas não para regular a totalidade dos elementos prestacionais que o compõem. A reserva de lei consiste na exigência de lei para regular uma determinada matéria. Diz-se absoluta a reserva de lei quando a matéria deve ser integralmente regulada por lei, enquanto a reserva relativa exige que apenas os elementos principais ou fundamentais de sua própria identidade sejam tratados por lei e as demais características podem ser atribuídas ao exercício do poder regulamentar infralegal. Além dessa distinção, a doutrina aponta a tipicidade como outra percepção conceitual do princípio da legalidade, em sua faceta material. Nesse sentido, a tipicidade representa o conteúdo da lei, enquanto norma, já a legalidade formal diz respeito ao veículo de exigência de lei para cominação prestacional diante dos contribuintes. O princípio da legalidade, na origem, restringia-se a exigir lei em sentido formal, como resultado da prescrição jurídica abstrata. Mas não seria suficiente a mera veiculação mediante lei, e, por isso, tornou-se imprescindível tipificar a relação jurídica tributária no próprio conteúdo da norma, com a descrição dos sujeitos ativo e passivos, bases de cálculo, alíquotas, fatores outros de quantificação – como, onde, quando pagar o tributo. O princípio da legalidade é consagrado pela Constituição Federal no artigo 5º, II, segundo o qual “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, mas, em matéria tributária, ganha fundamento próprio pelo artigo 150, I: “é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça”. Pela legalidade tributária, portanto, só lei em sentido estrito pode instituir, majorar e, pelo princípio do paralelismo das formas, reduzir ou extinguir tributos, como mecanismo de soberania estatal que se materializa por meio da representação popular e atrai a participação do Poder Legislativo na definição de uma obrigação compulsória tal como é o tributo. Além dos contornos da obrigação tributária em si, em regra, deve observar o processo legislativo específico a concessão de benefícios fiscais e a aplicação de multa, segundo a leitura do artigo 97 do CTN. Para o STF, esse rol taxativo veicula as matérias tributárias sujeitas à legalidade estrita ou ao princípio da tipicidade tributária, decorrente da legalidade, segundo o qual a lei deve, além de estabelecer a exigência do tributo, dispor sobre os elementos essenciais da hipótese de incidência (material, espacial, temporal, pessoal e quantitativos), na qualidade de veículo introdutor da norma que define a relação jurídico-tributária formada, ou a se formar, entre o fisco e o particular. Por outro lado, não estão compreendidos no âmbito do princípio da legalidade tributária os aspectos acessórios relativos a elementos 10 11 procedimentais ou formais da execução da lei, como lugar do recolhimento do tributo e prazos. Essa é uma diferenciação que pode ser feita entre reserva absoluta e meramente relativa. Na primeira hipótese, os elementos essenciais da hipótese de incidência devem estar prontos, de maneira completa, sem espaço para integração disciplinar por fonte distinta da lei, enquanto na reserva relativa a lei pode limitar-se a estabelecer aqueles critérios fundamentais e uma fonte secundária normativa pode posteriormente complementá-la. O que não pode existir é a delegação “em branco”, quando a lei outorga à norma secundária infralegal a definição de aspectos protegidos pela reserva absoluta. A própria jurisprudência, em matéria de delegação legislativa no âmbito tributário, vem adotando o princípio da legalidade com temperamentos, desde que a lei contenha os caracteres mínimos que evitem o arbítrio, eliminando uma margem desproporcional da discricionariedade legislativa a ser conferida ao agente regulador infralegal. Não pode haver indeterminação sobre elementos essenciais da obrigação tributária na lei, sob pena de transgressão à legalidade. Uma das hipóteses interessantes, inserida neste contexto do princípio da legalidade, é a fixação, pelo Poder Executivo, de variações de alíquotas ou bases imponíveis ad rem, cujas alterações podem ser para mais ou para menos, em relação a classe de produtos ou de sua utilização, quando presentes a função extrafiscal a ser desenvolvida. Segundo o Supremo, a “observância do princípio da legalidade tributária é verificada de acordo com cada espécie tributária e à luz de cada caso concreto”, sendo certo que não existe ampla e irrestrita liberdade para o legislador realizar diálogo com o regulamento relativamente aos aspectos da regra matriz de incidência tributária. Essa premissa é extraída da conclusão do julgamento relativo à possibilidade de restabelecimento de alíquotas das contribuições sociais do PIS e da COFINS. 12 13 14 – – – – Ao se admitir o restabelecimento pelo Poder Executivo, a lei autorizativa deve prever especificamente a possibilidade de redução e restabelecimento de alíquotas das referidas contribuições, sendo imprescindível que o valor máximo dessas exações e as condições a serem observadas sejam prescritos em lei em sentido estrito, bem como exista em tais tributos função extrafiscal a ser desenvolvida pelo regulamento autorizado. A lei em sentido estrito, a depender do tributo sob questão, pode ser lei ordinária (como regra) ou deve ser lei complementar, conforme a matéria exija tratamento por meio de um processo legislativo sujeito à aprovação da maioria absoluta dos membros da Casa Legislativa. Dependem de lei complementar, a instituição e a majoração de: Imposto sobre grandes fortunas; Empréstimos compulsórios; Imposto residual; Contribuição social residual. Desde que configurados os requisitos constitucionais específico e a vedação comum de tratar sobre matéria reservada à lei complementar, é admitida a instituição ou a majoração de tributos por lei delegada ou medida provisória. Enquanto a lei delegada, de que trata o artigo 68 da CF, tem se revelado um instrumento legislativo em desuso, a medida provisória pode tratar de matéria tributária desde que demonstrada a relevância e a urgência, além de condicionantes de constitucionalidade próprias que se extraem do artigo 62 da CF. Sobre o tema da edição de medida provisória em matéria tributária, discussões doutrinárias abordaram o assunto por anos, porém a partir de julgados proferidos pelo STF a questão consolidou-se pela possibilidade – – • • – • • i. ii. iii. legiferante do Chefe do Poder Executivo, observadas as condicionantes previstas na Constituição Federal. A edição de medida provisória sobre matéria tributária: deve demonstrar relevância e urgência da matéria; não pode tratar de: matéria reservada à lei complementar; instituição ou majoração de II, IE, IPI, IOF e IEG; quanto à anterioridade: quando instituir imposto, só produzirá efeitos no exercício financeiro seguinte, se for convertida em lei até o último dia daquele em que for editada; para outros tributos, deve ser observada a data de publicação da MP. Não se condicionam pelo princípio da legalidade: atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo, porque não configura majoração, se limitada aos índices oficiais de correção (artigo 97, § 2º, CTN c/c Súmula 160 do STJ); fixação do prazo de recolhimento do tributo que, segundo o STF, é questão atinente à administração tributária; definição de obrigações acessórias, que pode ser disciplinada pela legislação tributária infralegal, conforme estabelece o artigo 113, § 2º, do CTN . SÚMULA RELACIONADASúmula 160 do STJ: É defeso, ao Município, atualizar o IPTU, mediante decreto, em percentual superior ao índice oficial de correção monetária. 15 16 i. ii. iii. DICAS PRÁTICAS A este respeito, a jurisprudência já está consolidada no sentido de que para a majoração da base de cálculo é indispensável a edição de lei em sentido formal, embora seja permissivo ao ente público, mediante ato do Poder Executivo, corrigir estritamente a atualização das obrigações tributárias pelo índice oficial. Por outro lado, a pretensão de correção monetária da base de incidência do IPTU, por exemplo, revalorando as plantas dos imóveis pelo uso da taxa Selic, como referencial, é inválida porque referido índice, adotado para títulos federais, compreende não somente a atualização monetária, como também juros e, por isso, implicaria acréscimo real do tributo e não simplesmente correção monetária. Além disso, configuram exceções (mitigação) à reserva legal, embora, a princípio, possam ser compreendidas pelo artigo 97 do CTN: definição das alíquotas do ICMS-monofásico sobre combustíveis e lubrificantes, que fica a cargo dos estados e do Distrito Federal, mediante convênio firmado no âmbito do CONFAZ (artigo 155, § 4º, IV, CF); majoração ou redução de alíquotas de II, IE, IPI e IOF, dentro das condições e dos limites estabelecidos pela lei (artigo 153, § 1º, CF ), de modo que o Poder Executivo possa atuar no estímulo dos mercados, com interesses que vão além da finalidade de arrecadação, o que justifica o caráter extrafiscal desses impostos. redução ou restabelecimento de alíquota da CIDE-Combustíveis (artigo 177, § 4º, I, b, CF) por ato do Poder Executivo. DICAS PRÁTICAS 17 Embora seja correta a afirmação de que as hipóteses de flexibilização do princípio da legalidade admitam tratamento da matéria por Decreto do Poder Executivo, deve-se atentar que a Constituição Federal não aponta expressamente esse formato normativo e que é usual que as alíquotas dos impostos aduaneiros (sobre a importação e a exportação) sejam definidas por Resolução da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX). �.�.� Princípio da isonomia O caput do artigo 5º da CF estabelece que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, no que se consubstancia o princípio da igualdade formal, a garantia constitucional de que as pessoas receberão o mesmo tratamento pela lei quando enquadradas em uma mesma situação jurídica ou fática. Esse é um dos pilares de uma sociedade justa. Se duas pessoas praticam o fato gerador de um tributo, em regra, ambas devem figurar no polo passivo da obrigação tributária prevista em lei. Entretanto, para além da perspectiva de tratar todos da mesma forma, a ordem constitucional vigente está pautada pelos preceitos da igualdade material ou substancial, o denominado princípio da isonomia. Com base na isonomia, o Estado deve propiciar tratamento diferenciado para tratar igualmente os iguais e os desiguais de modo desigual, na proporção da distinção e adotar essas premissas em todas as suas esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário). Em síntese, enquanto a igualdade formal (horizontal) busca sanear os fatores de diferenciação que geram prejuízo, a igualdade material (vertical) é uma relativização daquela e está inserida no conceito de justiça distributiva. DIMENSÕES DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE Igualdade formal Horizontal (nivela) Todos são iguais perante a lei Igualdade material Vertical (diferencia) Todos devem ser tratados de forma desigual, na medida de suas desigualdades No campo do Direito Tributário, o princípio da isonomia é pontualmente consagrado pelo artigo 150, II, da CF, de seguinte teor: Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] II – instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos; A Constituição determina tratamento igual a quem está em situação de equivalência, o que revela a acepção material da igualdade. Esse axioma propicia, por exemplo, que duas pessoas que pratiquem o fato gerador da tributação sobre a renda sejam devedoras do imposto, mas que a diferença entre as rendas auferidas ou seu impacto individualizado seja levado em consideração na apuração do imposto. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entende inviável a aplicação do princípio da isonomia estender tratamento diferenciado a destinatários não contemplados na legislação aplicável, sob pena de atuar na condição de legislador positivo. Também é pacífico que a vedação constitucional à discriminação segundo a procedência ou o destino de bens e serviços torna inválidas as distinções em razão do local em que se situa o estabelecimento do contribuinte ou em que produzida a mercadoria, sobretudo nas hipóteses nas quais, sem qualquer base axiológica no postulado da razoabilidade, se engendra tratamento diferenciado. Um viés do princípio da isonomia fiscal é o princípio da neutralidade econômica dos tributos, embora não positivado no ordenamento jurídico 18 brasileiro, conforme lições de Ricardo Lobo Torres , tem significativo impacto na igualdade entre contribuintes e, por isso, na livre-iniciativa e na concorrência. Segundo Humberto Ávila, nesse ponto, “a neutralidade melhor representa uma manifestação estipulada da própria igualdade na sua conexão com o princípio da liberdade de concorrência, notadamente no aspecto negativo da atuação estatal”. E, continua o autor: “a neutralidade não é diferente da igualdade, mas apenas um aspecto dela, precisamente quando se procura, em vez de verificar o direito do contribuinte, analisar o dever negativo por parte do ente estatal, decorrente dos efeitos da livre concorrência”. O sistema tributário de um país deve ser neutro e equitativo, de modo que ele não seja o elemento principal decisório para os agentes econômicos. Isso significa dizer que se a política fiscal é enviesada, construtora de realidades próprias, com privilégios a regiões ou setores produtivos, sem que esteja baseada em fundamentos constitucionais, quebra-se o paradigma essencial da igualdade e, com isso, ocorre uma profunda distorção socioeconômica. O peso econômico dos tributos sem dúvidas, em maior ou menor medida, tem evidente impacto nas escolhas dos contribuintes, e, neste momento, opera-se a ideia de neutralidade fiscal ao pretender atenuar esse efeito, sobretudo por enfrentar o desafio de manutenção das regras do equilíbrio concorrencial de modo que “o estado possa obter as receitas públicas necessárias ao desempenho de suas incumbências constitucionais, sem ensejar desequilíbrio injustificado entre os agentes econômicos”, nas palavras de Lucas Bevilacqua. Essa preocupação, por outro lado, não se sobrepõe ao mecanismo da função de normas tributárias indutoras da própria atividade econômica, por meio de políticas fiscais de natureza extrafiscal. Ao contrário, são instrumentos que convivem no ambiente jurídico. O Estado não pode 19 20 21 22 provocar qualquer intervenção tributária que afete negativamente a competição de mercado, salvo se devidamente justificada na própria concepção de concorrência ou de relevantes interesses econômicos e sociais, constitucionalmente válidos. O legislador constituinte derivado, a respeito do assunto, com a edição da Emenda Constitucional 42, de 2003, ao inserir o artigo 146-A na Constituição Federal, estabeleceu que a “lei complementar poderá estabelecer critérios especiais de tributação, com o objetivo de prevenir desequilíbrios da concorrência, sem prejuízo da competência de a União, por lei, estabelecer normas de igual objetivo”. O princípio da neutralidade econômica do tributo, segundo Fernando Facury Scaff, por manter o mesmo fundamento comum na isonomia, também pode ser enxergado, ainda que remotamente, no princípioda uniformidade dos tributos (artigo 151, I, CF), embora este último tenha maior intensidade no princípio federativo, visando evitar tratamento desigual entre as unidades federadas. A norma constitucional veda à União instituir tributo que não seja uniforme em todo território nacional ou que implique distinção ou preferência em relação a estado, ao Distrito Federal ou a município, em prejuízo a outro, salvo a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferentes regiões do país. A União é a destinatária do dispositivo constitucional, especialmente pela sua competência tributária federal, compreendendo todo o território nacional, e pelo próprio sistema tributário brasileiro, cuja matriz fiscal, além de conferir um intenso grau de autonomia tributária aos entes subnacionais, dentro dos limites das normas constitucionais de padrão de incidência, permite a dinâmica diferenciada na fixação de modelos e alíquotas dos tributos. Justamente por essa diversidade de normas tributárias subnacionais, tanto quanto à existência dos entes competentes, temos, 27 (vinte e sete) 23 microssistemas fiscais do ICMS, com legislações próprias (leis, decretos, portarias, convênios), apenas tomando como exemplo um dos tributos do ordenamento jurídico. Essa conjuntura tributária afeta sobremaneira a composição de preços dos agentes econômicos, cuja variação, na prática, constrói uma relevante distorção, com sérias e graves consequências não somente para os agentes econômicos produtores, como contribuintes de direito, como também para os consumidores, como contribuintes de fato dos tributos. Ao considerar o sistema como um todo, incluindo os impostos sobre serviços de qualquer natureza dos 5.570 municípios, além dos impostos sobre propriedade de veículos automotores (IPVA, dos estados e do DF), sobre transmissão causa mortis e doação (ITCMD, dos estados e do DF), sobre a transmissão de bens imóveis (ITBI, dos municípios), as contribuições de melhorias, as variadas taxas, todos no âmbito dos estados, Distrito Federal e dos municípios, diante deste contexto, a pretensão constitucional da neutralidade econômica dos tributos fica cada vez mais distante. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação – IBPT , em levantamento realizado em 2019, foram editadas mais de 400 mil normas tributárias desde a Constituição Federal de 1988, com mais de 776 normas por dia útil em todas as esferas, e, conforme destacado pelo estudo, cada norma tem em média 3 mil palavras escritas, com expressões e conceitos jurídicos muitas vezes de difícil compreensão. Nesse período, pós-CF/1988, foram instituídos ainda inúmeros tributos, como CPMF, COFINS, CIDES, CIP, CSLL, PIS IMPORTAÇÃO, COFINS IMPORTAÇÃO, ISS IMPORTAÇÃO, além da majoração de praticamente todos os tributos. A complexidade do sistema tributário brasileiro acaba por resultar em insegurança jurídica, falta de transparência, atenta contra a livre concorrência, e, não por outro motivo, segundo o relatório Doing Business 24 do Banco Mundial, no primeiro trimestre de 2020, ao examinar o sistema de pagamento de tributos, constatou-se que no Brasil são gastas, em média, mais de 1500 horas no cumprimento das obrigações acessórias e no recolhimento de tributos das empresas. O estudo ranqueou 190 países conforme a complexidade tributária de cada um, e nesse ranking o Brasil está na 184ª posição, na frente de Congo, Venezuela e Somália.25 �.�.� Princípio da capacidade contributiva O princípio da capacidade contributiva orienta que o poder de tributar observe um critério razoável de distribuição para alcance do patrimônio de terceiros, qual seja, a capacidade de pagar o tributo, segundo a avaliação mais individualizada possível das condições do contribuinte ou do objeto de tributação. Esse axioma representa um mecanismo de consecução do ideal de justiça, mais especificamente, de justiça tributária, que está intimamente ligado ao princípio da isonomia, na sua dimensão vertical, prestando-lhe um papel instrumental. O princípio da capacidade contributiva desempenha basicamente três funções em nosso ordenamento jurídico: a) é fundamento básico da imposição tributária; b) é também um limite para o exercício da atividade legislativa; ao tempo em que deve c) inspirar o exercício desta atividade legiferante na esfera tributária. Na primeira dessas concepções, o princípio da capacidade contributiva revela-se no pressuposto fundamental do sistema tributário porque é uma exigência lógica de que o Estado se obrigue a buscar sinais de “riqueza” onde ela se encontre. Está relacionado ao dever de contribuir de todo cidadão com as despesas públicas, com a própria necessidade inafastável da tributação como subsistência coletiva. Na concepção de limite para o exercício da atividade legislativa, como determinação negativa, significa que o legislador não pode estabelecer tributos sem existir circunstâncias reveladoras de capacidade econômica, sobretudo calibrando a carga tributária de cada cidadão, ou do setor produtivo, em função da intensidade ou do índice mensurável do valor monetário correspondente, seja por obtenção de renda, propriedade, consumo de produtos ou serviços ou aquisição de bens. Essa modulação dos efeitos da capacidade contributiva tem íntima relação com a política econômica e social definida pela Constituição e, por isso, o sistema tributário de um país, especialmente no caso do Brasil, para preservar sua coerência lógica, deve manter relação com o desenvolvimento econômico e com a ampliação da infraestrutura (sanitária, rodoviária, ferroviária, aérea); com uma rede de proteção social dos mais vulneráveis; com a preservação do meio ambiente; com a geração de renda, emprego e bem-estar social. Por último, o princípio da capacidade contributiva deve inspirar a ratio legis ou ao menos orientar o legislador com a construção de um sistema tributário que promova redistribuição da renda ou da realização da igualdade material, sem, contudo, inibir ou provocar qualquer movimento contra a liberdade econômica e de desenvolvimento, de geração de riqueza, essencial para o contínuo investimento do setor produtivo, com efeitos colaterais positivos na geração de emprego e renda para a sociedade. A identificação dos meios para qualificação dos índices presuntivos de capacidade contributiva foi resumida por José Maurício Conti ao apontar três critérios pelos quais se pode mensurá-lo: (i) a renda auferida; (ii) o consumo (ou renda despendida); e (iii) o patrimônio (ou riqueza, renda acumulada). É mais comum enxergar a aplicabilidade do princípio da capacidade contributiva no primeiro critério, como no exemplo das alíquotas progressivas da tributação sobre a renda das pessoas físicas – IRPF. No segundo deles, sobre o consumo, uma das formas de alcançar a capacidade contributiva é por meio da seletividade em função da essencialidade ao calibrar a tributação sobre bens com maior grau de superficialidade. No terceiro critério, um exemplo concreto é a progressividade do IPTU em razão do valor do imóvel ou, ainda, alíquotas diferenciadas de acordo com sua localização e seu uso. 26 Mesmo não tendo sido denominado expressamente pela Constituição Federal, a aplicação do princípio da capacidade contributiva é extraída do que disposto no artigo 145, § 1º, da CF: “sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte”. O STF, sob o crivo da repercussão geral , definiu que todos os impostos podem e devem guardar relação com a capacidade contributiva do sujeito passivo. Tratando-se de imposto direto, a sua incidência poderá expressar, em diversas circunstâncias, progressividade ou regressividade direta, de mais fácil visualização.Muito embora, todos os impostos estão sujeitos ao princípio da capacidade contributiva, não somente os diretos, independentemente de sua denominação como de caráter real ou pessoal, sendo irrelevante a classificação dada. Não se pode relacionar e restringir a aplicação do princípio da capacidade contributiva exclusivamente aos impostos, como espécie de tributo, como sugerido expressa e literalmente pela Constituição Federal. O STF fez incidir o referido princípio a diversas espécies tributárias, tais como taxas e contribuições . Em certa oportunidade, firmou posição de que: “todos os tributos submetem-se ao princípio da capacidade contributiva, ao menos em relação a um de seus três aspectos (objetivo, subjetivo e proporcional), independentemente de classificação extraída de critérios puramente econômicos”. DICAS PRÁTICAS O texto constitucional somente relaciona os parâmetros da capacidade contributiva aos impostos. Entretanto, na linha da jurisprudência do STF, é viável defender a aplicação desse postulado para outras espécies 27 28 29 30 31 tributárias, desde que observadas as características e os limites de incidência de cada uma delas. Além disso, cuida-se de um fundamento que emana da ordem constitucional pela conjugação de diversos direitos e garantias formalmente consagrados, tais como igualdade, razoabilidade, proporcionalidade, vedação ao confisco e dignidade da pessoa. E, por isso, não é demais ressaltar que a tributação se presta ao interesse público comum, nesse sentido, é condizente que quem tenha mais contribua em maior parcela com a coletividade, enquanto quem esteja sob risco de maior dificuldade econômica seja de alguma forma preservado do ímpeto por arrecadação. Assim como os demais princípios, a capacidade contributiva está sujeita à ponderação da sua força normativa, quando, por exemplo, cuida-se de tributação permeada pelo viés da extrafiscalidade, mas, em qualquer caso, não podem ser afastados os parâmetros essenciais desse princípio que conjuga a determinação de manutenção de mínimas condições do contribuinte. Como o próprio texto constitucional preceitua, a capacidade de pagar tributo deve ser considerada sempre que possível. Não se trata aqui de conferir discricionariedade ao poder de tributar, mas de reconhecer que a gradação depende de condições concretas de associação da condição pessoal do contribuinte com um referencial de aferição de riqueza, como facilmente se percebe na hipótese de percepção de renda. Sua aplicação deve estar sempre pautada na capacidade econômica, mas pode ser verificada tanto na adoção de critérios subjetivos, que consideram o contribuinte de modo individualizado, quanto na indicação de uma representação de riqueza tributável, ou seja, de bens ou direitos que colocam ou retiram o particular da linha de atuação do poder tributante. De modo geral, pretendem-se sejam considerados os reais fatores de distribuição dos recursos e direitos tributáveis, afastadas as discriminações infundadas e preservados o mínimo existencial, parâmetros que devem ser empregados pelo legislador na produção de normas tributárias e na efetiva aplicação da lei e dos limites ao poder de tributar, na esfera administrativa ou jurisdicional. O Direito comparado, especialmente porque em certos países sobressai no texto constitucional referência ao mínimo vital ou existencial, aborda esse princípio de forma autônoma como “princípio ao mínimo vital ou existencial” desde o ponto de vista tributário, preservando a proteção dos contribuintes de modo a assegurar recursos necessários para a subsistência das pessoas e das famílias sobre as quais não deve incidir tributação relativamente ao mínimo indispensável. Isso significa que as pessoas não serão chamadas a contribuir enquanto não satisfaçam suas necessidades básicas mais elementares. O mecanismo da progressividade constitui um meio de aplicação da capacidade econômica na medida em que o legislador adota referenciais de externalização de riqueza para aplicação de alíquotas gradativas, a partir de determinado referencial, técnica adotada pela CF para IR, IPTU e ITR (nesses dois últimos, com função extrafiscal) e, autorizada por Resolução do Senado Federal para o ITCMD – norma declarada constitucional pelo STF, ao compreender que as premissas da progressividade devem ser prevista na CF e não é compatível, em regra, com os denominados impostos reais, que incidem sobre bens. No caso do IPTU, a partir da EC 29/2000, que admitiu, expressamente, a progressividade fiscal, instalaram-se discussões judiciais a respeito do assunto, pautadas, sobretudo, nos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, e na distinção entre tributos reais e pessoais. Esse ponto merece maior cuidado porque revela diferentes formas de tratamento do princípio da capacidade contributiva a depender da natureza do tributo. O fenômeno da progressividade pode ser classificado, entre outras formas, em fiscal e extrafiscal. Neste último caso, a finalidade da 32 progressividade extrafiscal está fundamentada no fomento a diretrizes e a condutas julgadas importantes de se estimular, ocorrendo por meio do aumento de alíquotas com propósitos específicos, independentemente das bases valoradas. Um exemplo conhecido é quando a alíquota do IPTU cresce em relação ao tempo sempre que não observadas as disposições do plano diretor do município (artigo 7º da Lei 10.257/2001, Estatuto da Cidade), visando alcançar a função social da propriedade e do bem-estar da coletividade. A progressividade fiscal é mais simples. Nessa hipótese, o aumento da alíquota está associado, e relacionado, ao aumento da própria base de cálculo do imposto. No que diz respeito ao IPTU, por exemplo, admite-se, sem grandes discussões, a progressividade extrafiscal, afinal, a própria CF permite expressamente essa possibilidade. Por outro lado, no caso da progressividade fiscal, no imposto pessoal, a questão ganha diferentes contornos. Segundo a CF, os impostos (leia-se tributos), em regra, devem adotar características pessoais dos contribuintes, por exemplo, as diferentes alíquotas previstas para a incidência do imposto de renda pessoa física, que permitem considerar número de dependentes e despesas com saúde e educação, passíveis de abatimento na declaração anual pelo contribuinte. No caso dos impostos reais, que incidem sobre a propriedade, por exemplo, o IPTU, é difícil dimensionar as características pessoais do contribuinte. Nada obstante, a EC 29/2000, alterando o artigo 156 da CF , passou a prever expressamente a progressividade fiscal desse imposto. O STF, conclusivamente, tratou a questão levando em consideração a alteração constitucional pelo poder constituinte derivado, firmando dois cenários, antes e depois da EC 29/2000. Segundo a Corte, a progressividade fiscal do IPTU é admitida desde que o município tenha instituído o mecanismo da progressividade depois do advento da emenda. 33 34 Para tanto, a Suprema Corte promoveu a interpretação sistêmica do §1º do artigo 156 com o § 1º do artigo 145 da CF, permitindo a extensão da referência à capacidade econômica do contribuinte e à função social envolvidas, e, no caso julgado, revelou constitucional a destinação do imóvel, se residencial, ou comercial, o valor venal, para efeitos de cálculo do tributo. Por fim, entendeu que a EC 29/2000 não afastou direito ou garantia individual, especialmente considerado como cláusula pétrea, haja vista já ter a previsão, antes mesmo de seu advento, dos preceitos da progressividade dos impostos e a consideração da capacidade econômica do contribuinte. �.�.� Princípio da generalidade Em tempos remotos, a cobrança de tributos estava intimamente relacionada a sujeitos passivos na condição de vencidos em guerra ou dos trabalhadores e mais vulneráveis, enquanto uma classe social, especialmente política, gozava de privilégios e da dispensa do pagamento das contribuições compulsórias. A virada histórica mais significativa sobreveio com a Revolução Francesa, cujas bases ideológicascombatiam as práticas discriminatórias, especialmente com a exigência de que as obrigações de tributar alcançassem a generalidade de todos os cidadãos. O princípio da generalidade está próximo do sentido de que o sistema não deve comportar privilégios injustificados, e, por isso, está conectado ao princípio da capacidade contributiva e ao princípio da igualdade e da justiça fiscal. A base imponível do sistema deve distribuir a carga fiscal, correlacionada às despesas públicas, segundo a capacidade econômica dos setores produtivos e dos cidadãos. Não significa que não pode haver exceções ou benefícios fiscais, ao contrário, as normas excepcionais fundamentam a própria capacidade econômica. Não se admite, contudo, o regramento de exceções intuitu personae porque indispensável a observância dos critérios da abstração e da impessoalidade, ou aquelas dirigidas a setores econômicos sem uma política fiscal clara e transparente dos benefícios que se pretendem alcançar, por exemplo, propósitos relacionados à geração de renda, emprego e bem-estar social. No ordenamento jurídico brasileiro, a expressão do princípio da generalidade está associada à conformação da regra-matriz do imposto de renda e proventos de qualquer natureza, segundo o artigo 153, § 2º, inciso I, cujas bases desse tributo exigem observância aos critérios da generalidade, universalidade e progressividade. A hipótese de incidência, como regra, deve estender-se sobre todas as espécies de renda e proventos, auferidas por pessoas físicas e jurídicas. O princípio da generalidade, porém, por sua própria vinculação ao princípio da igualdade e da justiça fiscal, tem sua extensão bem mais ampla do que o imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza, atingindo o próprio sistema tributário. Com o passar do tempo, foram sendo editadas inúmeras exceções ao preceito de que todos devem contribuir, muitas delas injustificadas e sem critérios de política econômica ou social. Ao contrário, revelam uma ligação muito forte com aspectos populistas, eleitoreiros e políticos, certas vezes surgindo da noite para o dia em medidas provisórias, sem o indispensável debate técnico de fundo. O Tribunal de Contas da União tem exames e estudos realizados sobre renúncias fiscais conferidas a setores específicos e muitos deles concluem que tais gastos tributários “não atende(m) aos objetivos republicanos da Constituição Federal, de erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades regionais, pois concentra(m) os benefícios tributários nas duas regiões mais desenvolvidas do País, o Sul e o Sudeste”. Outra revelação do órgão de controle é que, diante de análises comparativas da eficiência e da efetividade das políticas de desoneração tributária da cesta básica versus transferência direta de renda às famílias em situação de pobreza, os dados indicaram que programas assistenciais ensejaram uma redução maior da desigualdade de renda. Ou seja, a transferência direta de renda é capaz de produzir maiores efeitos no combate aos índices de pobreza e desigualdade de renda do que certas renúncias fiscais setoriais. A crise econômica e fiscal agravada pelos efeitos da COVID-19 lançou luzes à discussão das renúncias fiscais. A Emenda Constitucional 109/2021 prevê a necessidade do plano de redução gradual do montante total dos incentivos e benefícios federais de natureza tributária, com as 35 36 correspondentes proposições legislativas e das estimativas dos respectivos impactos. O texto determina que esse plano deve propiciar a redução do montante dos benefícios, no prazo de 8 anos, ao patamar não superior a 2% do PIB (inciso II do § 1º do artigo 4º). O montante atual de todos os benefícios está estimado em R$ 308 bilhões, cerca de 4% do PIB, conforme consta de publicação oficial da Receita Federal (Demonstrativo de Gastos Tributários – DGT). A EC 109 deixa-nos entrever que o objetivo é afastar qualquer discussão sobre a abrangência do conceito de “gasto tributário” ao considerar “incentivo ou benefício de natureza tributária aquele assim definido na mais recente publicação do demonstrativo a que se refere o § 6º do artigo 165 da Constituição Federal”. Esse dispositivo prevê que a lei orçamentária será acompanhada de demonstrativo regionalizado do efeito, sobre as receitas e despesas, decorrente de isenções, anistias, remissões, subsídios e benefícios de natureza financeira, tributária e creditícia. �.�.� Princípio da segurança jurídica Assim como a isonomia, a segurança é um valor supremo no qual se funda a ordem constitucional vigente. A ideia de segurança jurídica está relacionada à estabilização das relações jurídicas e do próprio ordenamento, que se reflete, por exemplo, na preservação dos direitos adquiridos, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada. A segurança jurídica prestigia um ordenamento jurídico claro, estável, seguro e transparente, operacionalizado pelo Estado de forma predefinida e sem sobressaltos e municiando o particular de instrumentos adequados de participação e defesa contra abusos. Quando essas premissas são transportadas para o Direito Tributário, ganha luz a necessidade de que o contribuinte esteja sujeito ao poder de tributar e que este se imponha de forma estável e previsível, de modo a gerar confiança sobre os instrumentos que podem ser manejados no exercício da atividade fiscal ou em defesa dela. O particular, antes de praticar o fato gerador de um tributo, deve ter condições de conhecer a regra de incidência tributária, forjada em adequado veículo legislativo e que disponha de forma clara, ou devidamente regulamentada, sobre os aspectos da obrigação tributária que se constituirá. Por isso, o princípio da segurança jurídica está diretamente ligado ao princípio da não surpresa, que restringe o poder do Estado de impor novas obrigações ou cobranças sem a observância de normas gerais estruturantes do sistema tributário nacional e da espécie tributária em questão, cujas diretrizes buscam evitar um impacto no patrimônio do particular sem uma mínima condição de previsibilidade. A segurança jurídica também agrega um conjunto de outros princípios, como limites ao poder de tributar, tal como o próprio princípio da legalidade que exige forma legislativa ou requisitos de judicialidade, mas também o da irretroatividade e o da anterioridade, que protegem o particular de cobranças, procedimentos e restrição de direitos inesperados. A doutrina tributária tem realçado, assim como a civilista, a aplicação do princípio da boa-fé objetiva. Não obstante, esse princípio tem alicerce normativo no artigo 422 do Código Civil, direcionado especialmente às relações contratuais ao prever que “os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé”. O fundamento contratual não impede que, à luz do Direito Público, e do Direito Tributário em particular, especialmente por suas características de exposição a vulnerabilidades do contribuinte, em muitos casos, tenha-se a imersão da proteção da confiança na dinâmica operacional do sistema fiscal. A Lei 13.874/2020, que institui a Declaração de Direitos de Liberdade Econômica e estabelece garantias de livre mercado, deu ênfase própria à “boa-fé do particular perante o poder público” e o “reconhecimento da vulnerabilidade do particular perante o Estado” (incisos I, II e IV, artigo 2º), além de “gozar de presunção de boa-fé nos atos praticados no exercício da atividade econômica, para os quais as dúvidas de interpretação do direito civil, empresarial, econômico e urbanístico serão resolvidas de forma a preservar a autonomia privada, exceto se houver expressa disposição legal em contrário”. (incisos III e V, artigo 3º). O texto da lei, porém, reprimiu expressamente, de modo geral, sua aplicação ao Direito Tributário e Financeiro (§3º do artigo 1º), para desapontamento dos tributaristas. A expressa referência à exclusão do Direito Tributário e Financeiro das diretrizes programáticas contidas na Lei de LiberdadeEconômica, particularmente, não recusa, por si, a aplicação da boa-fé na dinâmica fisco versus contribuinte. A doutrina, desde a edição do Código Civil de 2002, tem intensificado a concepção do Direito Tributário como “direito de sobreposição”, cuja atuação relacional forma-se a partir das demais normas do ordenamento jurídico. Não por outro motivo, a lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pelas normas de natureza constitucional para definir ou limitar competências tributárias. Justamente por esse referencial teórico do Direito Tributário, com exceção da esfera de demarcação circunscrita à definição ou à limitação da competência tributária, a legislação tributária constrói a órbita jurídica segundo sua realidade própria, especialmente vista, por exemplo, no âmbito das responsabilidades tributárias, como a definida no artigo 134 do CTN, que exige requisitos próprios e diferenciados para a configuração da responsabilidade “solidária”, comparativamente ao Código Civil. A boa-fé, contudo, para além de um conceito imergido no Direito Privado, é um padrão de comportamento geral, cuja revelação produz, ou que se espera sejam produzidos, atos honestos, probos e leais das pessoas envolvidas nas relações obrigacionais, sejam elas de caráter privado ou público. É um instrumento jurídico sofisticado que contribui, sobremaneira, para a construção do ordenamento fundamentado na segurança, com a clara expectativa de que os indivíduos assumam uma postura cooperativa, solidária e verdadeira. A boa-fé objetiva, portanto, é utilizada como cláusula geral na interpretação dos negócios jurídicos ao esperar das partes interessadas e envolvidas na relação jurídica um comportamento ético, digno e de confiança, de lealdade, sem artimanhas. Inseridos nesse contexto da boa-fé objetiva, advêm os institutos jurídicos do venire contra factum proprium (impedimento de atos contraditórios) e da supressio (o não exercício de um direito ao longo do tempo gera a expectativa na parte contrária de que ele não mais será exigido, com a perspectiva de estabilidade). Todos estão conectados à proteção da confiança, como integrante do princípio maior da segurança jurídica. A jurisprudência do STJ, com destaque para o julgamento do REsp 1725452/ RS, de 2021, cuja relatoria para acórdão se deu pela Ministra Regina Helena Costa, exaltou “a proteção da confiança no âmbito tributário, como uma das faces do princípio da segurança jurídica”. No caso concreto , ocorreu uma prematura supressão de benefício fiscal, sujeito à alíquota zero, mediante edição de medida provisória, convertida posteriormente em lei, cujos beneficiários contribuintes, durante mais de uma década, usufruíram da política fiscal indutora de comportamentos direcionados a agentes econômicos, concebido ele [o benefício fiscal] mediante condições onerosas e prazo certo. Pela relevância do tema, e de maneira especial pelas precisas palavras lançadas na decisão do referido recurso especial, segue para leitura o seguinte excerto do voto da Ministra Regina Helena Costa: A atividade econômica produtiva não deve ser vista como se fosse uma coisa improvisada e insubmissa a detalhados planos prévios, como se os compromissos empresariais fossem passíveis de descumprimentos unilaterais e inconsequentes ou os projetos de manutenção e de expansão dos negócios privados fossem independentes dos seus recursos financeiros. O respeito às atividades econômicas privadas é, certamente, um dos mais importantes pressupostos do desenvolvimento social e econômico de qualquer sociedade organizada segundo os padrões democráticos. A afronta a esta premissa encaminha, com certeza, as relações fiscais para o perigoso destino das arbitrariedades e das violências. No cenário de segurança jurídica, presumida a boa-fé nas relações decorrentes de um Estado Fiscal, antes de tudo Democrático de Direito, o contribuinte sabe o que esperar do Poder Público na defesa dos seus 37 interesses e conta com instrumentos confiáveis de insurgência contra excessos, além do que está sujeito a menos alterações sobre as regras incidentes sobre fatos já consumados, ao mesmo tempo que pode fazer uma previsão sobre o estado das coisas, ainda que por curto espaço de tempo. O Estado Democrático de Direito pressupõe, e só existe, com segurança jurídica, sem pensar que lei nova pode afastar ato jurídico perfeito, direito adquirido e coisa julgada. Trata-se de uma confiança mútua entre cidadãos e o Estado, uma espécie de pacto social prévio a qualquer origem constitucional e, com o seu advento, confere--se vigência e eficácia a garantias constitucionais, mesmo que a pretensão vertida de superá-las venha na tonalidade de um modelo interpretativo subjacente. Essa confiança recíproca entre Estado e contribuinte deve ser construída, não só do plano da aplicação tributária em si, como decorrência da vigência e da eficácia das normas, mas também da “boa despesa” e do “bom exemplo”, como resultado do gasto eficiente e honesto por parte do Poder Público e traduzido em retorno à sociedade de modo a provocar um ambiente de satisfação e mais amistoso, qualificando o ente como “bom fisco” e “bom provedor”. O STF, em diversos momentos, ao longo de sua história, como fundamento de decisões, fez referência ao princípio da segurança jurídica em seus julgados, enquanto expressão do Estado Democrático de Direito. Da extensão do princípio da segurança jurídica não tem como desvincular- se da elevada impregnação do conteúdo ético, social e jurídico, projetando- se sobre as relações jurídicas, sejam elas de direito privado ou de direito público, em ordem a viabilizar a incidência desse mesmo princípio sobre comportamentos da sociedade e de qualquer dos Poderes ou dos órgãos do Estado. 38 39 �.�.� Princípio da seletividade O princípio da seletividade está previsto na Constituição Federal ao tratar de dois impostos em especial, o Imposto Sobre Produtos Industrializados – IPI, no artigo 153, § 3º, I, “em função da essencialidade do produto”, e o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços – ICMS, no artigo 155, § 2º, III, “em função da essencialidade das mercadorias e dos serviços”. Ruy Barbosa Nogueira, já sob a Constituição Federal de 1988, distinguiu o princípio da seletividade como específico e direcionado ao ICMS e ao IPI, por expressa disposição, mas sem deixar de reconhecer sua natureza de princípio constitucional. Nessa linha, Paulo de Barros Carvalho também aponta o conteúdo desse princípio para um princípio e para um valor. Nem sempre a seletividade é enxergada como princípio, mas como “técnica de tributação” ou como regra tributária operada no modelo de cobrança do ICMS e do IPI, e, por isso mesmo, não teria aplicação indistinta ao sistema jurídico nem a todo sistema tributário nacional, segundo Lázaro Reis Pinheiro Silva ao mencionar a posição doutrinária de Regina Helena Costa e de Regiane Binhara Esturilio , que, em distintas obras, ao tratar da seletividade, como instrumento extrafiscal, ressaltam o objetivo de onerar menos os bens e os serviços essenciais em relação aos demais. A seletividade tem a função de gravar de forma diferenciada os produtos considerados essenciais, distinguindo-os dos supérfluos. De um lado, protegendo o que é necessário e indispensável e permitindo, por outro viés, dar tratamento específico a certos bens e serviços, especialmente pelo potencial de gerar externalidades negativas ou positivas, na manifestação concreta da extrafiscalidade, cujas diretrizes dizem respeito à incidência do 40 41 42 43 44 tributo com o claro objetivo de interferir na economia e no consumo, assegurando, estimulando ou retraindo produtos, setores econômicos ou regiões. Na maioria das vezes a seletividade aparece com a limitação ou a diferenciação progressiva de alíquotas conferida aos produtos, mas nem sempre se dá dessa forma. É possível que o critério seletivo venhapor meio de distinções na base de cálculo do tributo ou na forma de benefícios fiscais em geral, tais como anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, concessão de isenção, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo. A doutrina ainda se debruça sobre a correlação entre a seletividade e o princípio da capacidade contributiva. Embora fundamentadas manifestações não reconheçam essa comunicação, via de regra, ela existe sim, especialmente porque produtos supérfluos ou de luxo são consumidos pela população de maior renda, como exemplo: joias, perfumes importados; enquanto produtos da cesta básica são essenciais no cotidiano das pessoas mais vulneráveis. Por outro lado, uma infinidade de produtos é consumida por indiferentes classes sociais, por exemplo, no crescimento da demanda por veículos automotores, vestuários, produtos de cuidados pessoais, e, neste momento, para construção do signo presuntivo de capacidade econômica diferenciada, permite-se a criação de isenções fiscais sobre uma base, também conhecida sob o conceito jurídico de mínimo indispensável ou mínimo vital. É uma das formas de operacionalizar a seletividade na tributação indireta, sobre o consumo de bens e serviços. Há situações, porém, nas quais a pretensão do Estado é “monitorar” e “controlar” o setor econômico pela via da intervenção fiscal, sem necessariamente correlacionar à capacidade contributiva, haja vista os efeitos provocados na sociedade, por exemplo, os consumos de bebidas 45 alcoólicas e de cigarros, amplamente adquiridos por diferentes faixas de renda. Enquanto o princípio da capacidade contributiva tem maior grau de afinidade do tributo com a pessoa, a seletividade impõe-se nos tributos que, em maior ou menor medida, conectam-se ao objeto (tributação sobre o consumo de bens e/ou serviços), pela natureza real, sem, contudo, deixar de promover os princípios da justiça fiscal, notadamente por garantir acesso a bens de primeira necessidade (essenciais) e desestimular o consumo de produtos nocivos à saúde ou ao meio ambiente. Pode-se mostrar, ainda, como um importante instrumento de “promoção do desenvolvimento nacional e de superação das desigualdades sociais e regionais”. Portanto, é legítima a utilização do poder de tributar para incentivar ou desestimular o consumo de determinados bens ou serviços (desde que não essenciais), seja, por exemplo, por razões de estratégia econômica ou de proteção a bens jurídicos de alta relevância, como meio ambiente e saúde. Faz parte da noção de extrafiscalidade, o atributo que tem a finalidade de regulação dos mercados e não somente de interesse arrecadatório. Alguns bens ou serviços podem estar cercados de externalidades negativas que exigem do Estado uma associação a medidas regulatórias, de interesses na balança comercial, na política industrial ou de função social. Um contraponto feito ao uso da seletividade como mecanismo de inibição do mercado é que, em certa medida, pode provocar o aumento do mercado informal e clandestino. Esse fenômeno acontece porque parcela significativa dos consumidores mantém a elasticidade da demanda, o que faz que o alto preço final amplie o nicho de mercado de produtos contrabandeados e falsificados, que são produzidos e circulam sem controle das entidades governamentais legitimadas para tanto. A partir desse prisma, que também deve ser enxergada na construção das políticas de tributação, percebe-se que a estratégia da seletividade com finalidade de proteção da saúde pública deixa de alcançar parte do seu 46 propósito. Já sob o viés da segurança pública, as práticas da pirataria e do contrabando se aliam a outros delitos, violentos e não violentos, tais como a lavagem de dinheiro, a corrupção e o crime organizado. Sem contar que o recurso público poderia ser arrecadado e aplicado em políticas públicas e investimentos. A política de tributação, como consequência, portanto, deve ser enfrentada no contexto maior da extrafiscalidade, inserindo problemas de segurança pública que têm ganhado cada vez mais espaço na sociedade brasileira. Ao simplesmente aumentar a carga tributária de produtos nocivos, sem uma métrica clara e transparente do mercado legal, o preço final dessas mercadorias leva o consumidor, sobretudo de renda mais baixa, a optar pelo mercado paralelo, com preço mais acessível e não tributado. A seletividade tributária é, por isso, um importante aliado de outros interesses públicos, tal como a repressão ao crime organizado, violência urbana, geração de mercado paralelo ilegal e outras formas de prejuízo à saúde da população. Considerar todas as variáveis permite uma compreensão mais ampla do mercado que se pretende regular com a seletividade e, muitas vezes, um fino equilíbrio pode ser mais complexo do que se pode pensar aprioristicamente, porque precisa considerar a vontade e o contexto social do consumidor, bem como os reflexos sociais secundários da medida.47 �.�.� Princípio da anterioridade tributária O princípio da anterioridade é um postulado que orienta as relações jurídico-tributárias, no compasso dos princípios da segurança jurídica e da não surpresa, para assegurar aos contribuintes um mínimo de previsibilidade quanto aos tributos que lhe podem ser exigidos. Para tanto, é vedada a aplicação imediata da lei tributária que aumente a carga tributária, condicionando sua eficácia à observância de um espaço de tempo entre sua publicação e o início da sua aplicação. Esse princípio tem envergadura de cláusula pétrea e compõe o rol dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal. DICAS PRÁTICAS A anterioridade tributária está relacionada à eficácia da norma (a partir de quando pode ser cobrada a exação) e não tem como referência o início da vigência, mas a data da publicação da lei que aumenta ou institui o tributo. A CF, no seu artigo 150, III, b e c, estabelece: Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] III – cobrar tributos: [...] b) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou; c) antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou, observado o disposto na alínea b; 48 A anterioridade, portanto, impõe a observância de publicação da lei tributária (i) no exercício financeiro anterior, observado o ano fiscal que coincide com o ano civil (de 1º de janeiro a 31 de dezembro), ou (ii) com o prazo de carência de noventa dias anteriores. Assim, a anterioridade tem duas classificações: anterioridade do exercício e anterioridade nonagesimal. Anterioridade do exercício Genérica, comum, anual Artigo 150, III, b, CF Anterioridade nonagesimal Mitigada, qualificada, noventena Artigo 150, III, c, CF Para terem efeitos no exercício seguinte, as normas que instituem ou aumentam tributos sujeitos à anterioridade do exercício devem ser publicadas até o dia 2 de outubro do exercício anterior. Portanto, como dito, a lei que rege o tributo deve ser editada em certo exercício para observância no subsequente. Como a proteção constitucional, volta-se para assegurar previsibilidade sobre o impacto da elevação da carga tributária, também se sujeitam ao princípio da anterioridade a lei que revoga ou reduz benefícios fiscais, porquanto representam um aumento indireto do tributo, uma vez que sua consequência prática é a majoração do quanto exigível. Segundo o STF, a aplicação do princípio da anterioridade deve observar o resultado da lei tributária. Por isso, tanto o aumento da alíquota incidente como a redução ou a revogação de benefício fiscal que gere aumento da carga tributária devem observância à anterioridade aplicável ao tributo, enquanto medidas de redução do tributo não são compreendidas pelo princípio constitucional. Especificamente sobre a revogação de isenção não onerosa, o STF tem jurisprudência antiga na linha de que tal medida não corresponde à majoração de tributo, mas tão somenteao fim de uma dispensa de pagamento que poderia surtir efeitos imediatamente . No entanto, julgado mais recente entendeu que há aumento indireto do imposto com a revogação de benefício fiscal (redução de base de cálculo) e, por isso, deveria estar sujeita ao princípio da anterioridade , o que sinaliza para uma concepção de maior proteção ao contribuinte. Sobre esse ponto, a questão ainda é alvo de debates e não está totalmente pacificada, o que exige cautela no seu tratamento a depender da abordagem conferida, daí por que importa lembrar que o artigo 104, III, do CTN dispõe que entram em vigor no primeiro dia do exercício seguinte ao da publicação os dispositivos de lei referentes a impostos sobre o patrimônio e a renda que extinguem ou reduzem isenções. Já o resultado em desfavor do contribuinte não é levado em consideração pela jurisprudência do Supremo quando se verifica alteração na forma de pagamento do tributo (mesmo que seja para antecipação), situação que a jurisprudência sumulada entende não atrair a anterioridade tributária. É o teor da Súmula Vinculante 50 do STF: “norma legal que altera o prazo de recolhimento de obrigação tributária não se sujeita ao princípio da anterioridade”. Do mesmo modo, considera-se que não pode ser equiparado à majoração do tributo para fins de aplicação da anterioridade a redução ou a extinção de desconto para pagamento sob determinadas condições previstas em lei, como a antecipação de IPVA em parcela única . A princípio, a anterioridade do exercício e a noventena devem ser conjugadas e aplicadas simultaneamente para todas as espécies tributárias, mas essa cumulatividade é expressa pelo texto constitucional em determinados casos, de forma que é possível um tributo ser cobrado tão logo publicada sua lei instituidora majorante ou que tenha observância 49 50 51 – – – – – – – – – – – – somente a anterioridade genérica ou o prazo de noventa dias. Por isso, deve- se examinar casuisticamente o tributo. Sobre os tributos e a sujeição à anterioridade, pode-se concluir: São exceções à anterioridade do exercício: II, IE e IOF; IPI; IEG; empréstimo compulsório (guerra externa e calamidade); contribuições para o financiamento da seguridade social; restabelecimento da alíquota de CIDE-Combustíveis e ICMS- Combustíveis. São exceções à anterioridade nonagesimal: II, IE e IOF; IR; IEG; empréstimo compulsório (guerra externa e calamidade); base de cálculo do IPTU; base de cálculo do IPVA. No que se refere à aplicação da anterioridade tributária sobre medidas provisórias, o imposto instituído ou majorado sujeito ao princípio só pode ser cobrado no exercício seguinte, caso a MP tenha sido convertida em lei até o último dia daquele exercício em que tenha sido editada, nos termos do artigo 62, § 2º, da CF. A antiga controvérsia sobre a possibilidade de medida provisória versar sobre criação ou majoração de tributos já foi superada pela jurisprudência do STF e, com a edição da Emenda Constitucional 32/2001, por meio da inserção de diversos acréscimos no referido artigo 62 52 da CF, do ponto de vista normativo essa discussão não mais subsiste, embora a própria norma constitucional não permita medida provisória versando sobre impostos, quando houver reserva à lei complementar (inciso III, artigo 62 da CF). Já para os demais tributos, a referência para a aferição do exercício é a publicação da própria MP, mesmo termo inicial de contagem da anterioridade mitigada. Caso sujeita à noventena e prorrogada a medida provisória, o tributo já pode ser cobrado na metade do prazo de vigência e, caso haja alteração substancial na conversão da MP em lei, a noventena deve ser contada da publicação da lei. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA É constitucional o artigo 8º da Lei 9.718/1998, que aumentou a alíquota da Cofins. Precedentes da Corte, reafirmados por ocasião do julgamento do RE 527.602, rel. min. Eros Grau, red. p/ acórdão min. Marco Aurélio, Pleno. O prazo da anterioridade nonagesimal começa a ser contado da publicação da medida provisória que modificou a contribuição em análise, e não da publicação da lei que resultou da sua conversão. Precedentes de ambas as Turmas. Agravo regimental conhecido, mas ao qual se nega provimento ; O inciso I do artigo 3º da Lei 7.787/1989 não é fruto da conversão do disposto no artigo 5º, I, da Medida Provisória 63/89. E, assim sendo, o período de noventa dias a que se refere o disposto no § 6º do artigo 195 da Constituição Federal se conta, quanto a ele, a partir da data da publicação da Lei 7.787/1989, e não de 1º de setembro de 1989 . 53 54 �.�.� Princípio da irretroatividade tributária O princípio da irretroatividade também tem fundamento no princípio da segurança jurídica e está consagrado pelo artigo 5º, XXVI, da CF, segundo o qual “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”, limitando de modo amplo que o advento de uma norma não trará efeitos retroativos a comprometer a segurança jurídica. Especificamente em relação ao sistema tributário nacional, a Constituição Federal dispõe no artigo 150, III: Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] III – cobrar tributos: a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado; Significa dizer que a lei tributária ao instituir ou aumentar um tributo não pode atingir fatos ou situações jurídicas ocorridos antes de sua vigência, momento no que nem mesmo podem ser qualificados como fato gerador ensejador da obrigação, sobretudo porque referida imposição somente foi prevista ou acrescida posteriormente. Trata-se de evidente norma proibitiva que restingue o alcance de uma lei impositiva ou de incremento de uma obrigação tributária. E, nesse sentido, é inconstitucional a hipótese de incidência tributária que se pretenda atingir situações concretas e levadas a efeito antes de sua vigência (fatos geradores ocorridos), porque dela só se pode extrair efeitos prospectivos (sobre fatos geradores futuros). O CTN, ao tratar sobre a aplicação da legislação tributária, dispõe: Artigo 105. A legislação tributária aplica-se imediatamente aos fatos geradores futuros e aos pendentes, assim entendidos aqueles cuja ocorrência tenha tido início mas não esteja completa nos termos do artigo 116. Entende-se por fato gerador futuro aquele cuja situação de fato ou de direito prevista da hipótese de incidência tributária ainda não se materializou. Já quanto aos fatos geradores pendentes, é preciso registrar, de início, que essa classificação guarda objeções sobre sua pertinência, considerando a ideia de que só há fato gerador quando aperfeiçoada a situação de fato ou de direito e os demais elementos previstos pela regra de incidência. Não obstante isso, pode-se entender como pendente o fato gerador continuado ou o fato gerador complexo em que não esteja aperfeiçoado o conjunto de atos ou o curso integral de determinado período, ou seja, que não cumpriu todos os elementos integrantes da incidência. Para fins de aplicação do princípio da irretroatividade, é fundamental que esteja consumado também o requisito temporal da obrigação tributária. Um exemplo dessa possibilidade é a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), cujo fato gerador se consuma no dia 31 de dezembro de cada exercício financeiro (requisito temporal) e abrange todos os eventos de aferição de lucro ou apuração de receita ao longo desse período (critério material). JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A jurisprudência da Corte é firme no sentido da constitucionalidade do aumento da alíquota da CSLL pela Lei 7.856/89, inclusive no que se refere a sua aplicação no ano base de 1989. 55 56 No caso referido da CSLL Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – jurisprudência relacionada, o Supremo entendeu que o aumento da alíquota do tributo de 8% para 10% pela Lei 7.856, editada em 1989, observou a anterioridade nonagesimal em 24 dedezembro de 1989, enquanto o lucro auferido e apurável (fato gerador do tributo) somente ocorreu no dia 31 de dezembro daquele exercício e, portanto, não teria havido violação ao princípio da irretroatividade. Já para o imposto sobre a renda – que tem fato gerador complexo porque pode incidir sobre um conjunto de fatos isolados ao longo de um ano –, a vedação à retroação da lei recebe um tratamento bem específico, por se tratar de imposto que deve observância à anterioridade do exercício (só pode surtir efeitos no exercício financeiro seguinte à sua publicação). O Supremo mantinha entendimento, desde 1976, no sentido de que os eventos de percepção de renda de um exercício financeiro estão sujeitos à norma que inicie seus efeitos no exercício de apresentação da declaração do imposto pelo contribuinte, ou seja, no exercício seguinte ao dos eventos de percepção de renda a serem considerados, desde que observe o princípio da anterioridade. A Súmula 584, contudo, foi cancelada: “Ao imposto de renda calculado sobre os rendimentos do ano-base, aplica-se a lei vigente no exercício financeiro em que deve ser apresentada a declaração”. O tema apresentava-se controverso pela doutrina e também pela jurisprudência, inclusive do STJ e do próprio STF, ante a compreensão de que o entendimento da referida súmula violaria o princípio que preserva os fatos geradores passados dos efeitos de lei de instituição ou majoração de tributos, especialmente por não ter enfrentado pontualmente os precedentes que sustentavam o enunciado. 57 58 A despeito da irretroatividade da norma de instituição ou majoração de tributo, o artigo 106 do CTN estabelece circunstâncias nas quais a lei pode retroagir. Eis o que preceitua o código: Artigo 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: I – em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II – tratando-se de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de defini-lo como infração; b) quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. O princípio da irretroatividade tributária também encontra base normativa no artigo 144 do CTN quando evidencia que o fisco, ao promover o lançamento, deve reportar-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. No caso de a legislação nova, posterior ao fato gerador, tratar exclusivamente a respeito de critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito maiores garantias ou privilégios, aplica-se imediatamente, salvo se, neste último caso, tratar da atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. Trata-se de normas de conteúdo formal, adjetiva ou processual, ao contrário das regras definidoras dos elementos constitutivos do tributo, normas com conteúdo substancial ou material. 59 A ressalva mencionada ocorre, por exemplo, quando lei nova define critérios a respeito da quebra do sigilo bancário para fins fiscais. Nesse caso, a fiscalização poderá examinar fatos geradores anteriores à sua edição e vigência, desde que observado o prazo decadencial. Tome-se, como exemplo, uma alteração legislativa em 2015 sobre tais critérios, quando então seria permitido ao fisco aplicá-la, a teor do artigo 144 do CTN, a fatos geradores ocorridos desde 2010. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA O artigo 144, § 1º, do CTN prevê que as normas tributárias procedimentais ou formais têm aplicação imediata, ao contrário daquelas de natureza material, que somente alcançariam fatos geradores ocorridos durante a sua vigência. 3. Os dispositivos que autorizam a utilização de dados da CPMF pelo fisco para apuração de eventuais créditos tributários referentes a outros tributos são normas procedimentais e, por essa razão, não se submetem ao princípio da irretroatividade das leis, ou seja, incidem de imediato, ainda que relativas a fato gerador ocorrido antes de sua entrada em vigor. O STF, a respeito do assunto, em discussão sobre quebra de sigilo bancário versus dever de pagar tributos, entendeu que a alteração na ordem jurídica, promovida pela Lei 10.174/2001, não atraiu a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez tratar de atribuições de competências conferidas à Secretaria da Receita Federal, preservando seu caráter estritamente instrumental. Sobre o tema, inclusive, formou-se o seguinte enunciado, sob a sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/2001 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, § 1º, do CTN”. 60 61 �.�.�� Princípio da vedação ao confisco O artigo 150, IV, da CF consagra que os entes tributantes não podem utilizar tributo com efeito de confisco, ou seja, não pode ser empregado como punição, nem representar uma invasão do Estado sobre o patrimônio privado que extravase a capacidade contributiva. O limite ao confisco revela um conceito aberto, com certo grau de abstração prática, mas com significativa valoração ideológica e de política tributária, de certo modo até maior do que o efeito jurídico propriamente dito. Cuida-se, portanto, de um evidente limite ao poder de tributar porquanto desvincula a tributação da responsabilidade por ilícitos, inibe tributação excessiva e afasta subjetividades na formação da regra de incidência tributária. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Não há uma definição constitucional de confisco em matéria tributária. Trata-se, na realidade, de um conceito aberto, a ser utilizado pelo juiz, com apoio em seu prudente critério, quando chamado a resolver os conflitos entre o poder público e os contribuintes. A vedação ao confisco, portanto, atinge diferentes aspectos, não somente quanto à calibragem sancionatória pelos atos ilícitos fiscais praticados por contribuintes, mas, sobretudo, no sentido de que a própria tributação imposta, de um modo geral, muitas vezes modulada pela progressividade do sistema via capacidade contributiva, deve preservar o direito de propriedade e de manutenção digna do cidadão. Por isso, pode-se dizer que a vedação ao confisco é a diretriz ofertada à atividade legiferante de regulamentação da tributação para custeio das despesas públicas e o direito de propriedade. 62 Ao Estado somente é devido o tributo que observe a convergência de todos os fatores que compõem o sistema constitucional tributário e dela resulta o poder de alcançar o direito de propriedade dos contribuintes, de modo que todos contribuam dentro dos parâmetros da segurança jurídica, da legalidade, da proporcionalidade, da isonomia e da dignidade da pessoa para a consecução do interesse público ao qual se destina a tributação. A violação dessas premissas resulta no tratamento abusivo dos direitos individuais pelo Estado, tanto se o tributo for usado como penalidade por qualquer ato quanto se incidir de forma desproporcional em relação a esses preceitos limitadores, revelando injusta tributação. O artigo 3º do CTN estabelece que o tributo não constitui sanção de ato ilícito, incluindo no próprio conceito do instituto que nenhuma exação pode representar confisco. Na prática, a definição do que seja ou não confisco é bastante fluida e imprecisa, mas um referencial a ser adotado, além de elementos internos à determinada incidência tributária, é a totalidade da carga fiscal exigida por um ente tributante e seu impacto sobre a capacidade do contribuinte. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A identificação do efeito confiscatório deve ser feita em função da totalidade da carga tributária, mediante verificação da capacidade de que dispõe o contribuinte – considerado o montante de sua riqueza (renda e capital)– para suportar e sofrer a incidência de todos os tributos que ele deverá pagar, dentro de determinado período, à mesma pessoa política que os houver instituído (a União Federal, no caso), condicionando-se, ainda, a aferição do grau de insuportabilidade econômico-financeira, à observância, pelo legislador, de padrões de razoabilidade destinados a neutralizar excessos de ordem fiscal eventualmente praticados pelo Poder Público.63 O princípio da vedação ao confisco deve ser adotado no tratamento de todas as espécies tributárias, desde que consideradas suas peculiaridades. O limite do não confisco na cobrança de taxas, por exemplo, está diretamente ligado à proporção do valor cobrado e o custo da atividade estatal, por se tratar de tributo de caráter contraprestacional. Em certa oportunidade, e com este alcance de aplicação do princípio aos tributos em geral, o Supremo reverenciou o não confisco na pretensão de majoração de contribuições previdenciárias de servidores públicos federais ao deferir medida cautelar na ADI 2.010/DF para suspender o aumento promovido pela Lei 9.783/1999, que, em algumas situações, alcançava o percentual de 25%. Ao ser acrescido da imposição sobre a renda, cujas alíquotas progressivas atingem o patamar de 27,5%, a remuneração bruta do servidor público federal estaria sujeita a mais de 50% de tributação na fonte. E, ainda sob esse contexto, a vedação ao confisco não se restringe ao tributo em si, isoladamente, enxergado sob a perspectiva estática, mas, sobretudo, na dinâmica conjuntural, ou seja, em função da totalidade da carga tributária, mediante exame da capacidade econômica de que dispõe o contribuinte frente aos efeitos da política fiscal dos entes federados no exercício da competência tributária. Já os impostos de finalidade extrafiscal podem estar menos vulneráveis ao debate do que venha a ser alíquotas excessivas, por exemplo, dentro de um contexto de controle ou desestímulo de determinadas operações econômicas. O mesmo deve se considerar em relação aos impostos que contam com o elemento da essencialidade para formação da regra de incidência, tais como o IPI e o ICMS, ou que estejam pautados pela função social da propriedade, como pode ser o caso do IPTU e do ITR. Além disso, a vedação também deve ser observada na aplicação de penalidades pecuniárias , porque o poder tributante não está autorizado a aplicar uma punição excessiva nem usurpar do patrimônio privado a 64 �.�.��.� pretexto de reprimir práticas irregulares no âmbito das relações jurídico- tributárias. Nesse contexto, o STF entende cabível o exame, em sede de controle abstrato da norma tributária, se determinado tributo ofende, ou não, o princípio do não confisco. Essa abrangência conferida ao comando constitucional pelo Supremo Tribunal Federal é antiga, datada de 1975, conforme entendimento do então Ministro Bilac Pinto, proferido no julgamento do RE 80.093-SP : “Devemos deixar claro, porém, que não apenas os tributos, mas também as penalidades fiscais, quando excessivas ou confiscatórias, estão sujeitas ao mesmo tipo de controle jurisdicional”. Aplicação do princípio do não confisco às multas fiscais As multas tributárias são basicamente de três espécies: moratórias, isoladas e punitivas. As multas moratórias são aquelas decorrentes da impontualidade injustificada no cumprimento das obrigações tributárias principais. Já se o descumprimento se referir a obrigações de cunho acessório ou instrumental, sem repercussão no montante do tributo devido, a multa diz-se isolada. E, por último, nas situações em que o contribuinte, nos lançamentos por homologação, declara e deixa de recolher o tributo, de forma parcial ou total, constituem as multas punitivas. Todas elas estão sujeitas ao princípio do não confisco. No âmbito federal, as multas tributárias, nos casos de lançamento de ofício, estão contidas no artigo 44 da Lei 9.430/1996, em regra de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. Trata-se da multa padrão, que pode ser submetida a circunstâncias qualificadoras por identificação de sonegação, fraude ou conluio (§ 1º do artigo 44, Lei 9.430/1996), com duplicação do percentual, alcançando, portanto, 150% do referencial correspondente, ou, ainda, sujeita a 65 66 ocorrências agravantes pelo não atendimento pelo contribuinte, no prazo marcado, de intimação para prestar esclarecimentos e apresentar registros eletrônicos de atividades econômicas ou financeiras, escrituração contábil digital e arquivos magnéticos dos sistemas de processamento de dados (§ 2º do artigo 44, Lei 9.430/1996). No exame das circunstâncias qualificadoras, o aspecto subjetivo do dolo mostra--se premente na apreciação da aplicação de dobra da multa padrão. Por outro lado, a controvérsia é mais evidente em relação à necessidade de apreciação qualitativa e quantitativa quanto aos elementos do dolo na avaliação das circunstâncias agravantes, ou seja, se a simples omissão em atender ao fisco acarretaria a incidência da referida multa ou seria necessário considerar o intuito do sujeito passivo de embaraçar a fiscalização. No repertório de jurisprudência do CARF – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão responsável pelo julgamento em grau recursal de insurgências de contribuintes relativas aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, uma das decisões mais recentes sobre o tema considerou que a inércia do contribuinte, em diferentes graus, é condição jurídica relevante para aplicação da multa, podendo excluir a própria tipicidade de seu agravamento. O Relator, Conselheiro Caio Nader Quintella, destacou a necessidade “subjetiva e consequencial” para aplicação do agravamento, em contraponto à aplicação “literal”, cujo aumento do percentual da multa considera a simples omissão objetiva. Outro assunto relevante, sob controvérsia, e também recente no âmbito do CARF na esfera do “excesso sancionatório”, diz respeito à cumulação da multa de ofício com o lançamento de multa isolada. Segundo os conselheiros julgadores, deve ser aplicado o “princípio da consunção”, de modo que a multa incidente sobre a infração maior (de ofício) absorva a multa relativa à infração menor (isolada), até o limite do valor da multa de ofício lançada. 67 68 �.�.��.� Na prática, os autos de infração são lavrados pela autoridade fiscal com a exigência do tributo devido, acrescido da penalidade de multa de ofício porque deixou de recolher o tributo, e, ainda, da multa isolada como punição por determinada conduta ou omissão, por exemplo, o não pagamento mensal do imposto, além dos demais encargos e consectários legais . O julgamento deu empate, votos dos representantes da Fazenda versus votos dos representantes dos contribuintes, e, haja vista a edição da Lei 13.988/2020, o voto de desempate deu-se a favor do contribuinte de modo a prevalecer a tese de que não poderia ocorrer dupla penalidade pelo mesmo fato, na hipótese a aplicação da multa de 75% (setenta e cinco por cento) ou, ainda, 150% (cento e cinquenta por cento) nos casos de fraude ou simulação, acrescida de mais 50% (cinquenta por cento) da multa isolada. Trata-se de um precedente extremamente simbólico no exame do princípio da vedação ao confisco porque desde a alteração na Lei 9.430/1996, conferida ao artigo 44, a jurisprudência do órgão administrativo federal vinha admitindo a imposição das multas de forma cumulada. Mas essa questão ainda é controvertida no CARF. Princípio da vedação ao confisco na jurisprudência, em especial do STF No âmbito do Supremo Tribunal Federal, em um dos casos mais representativos, afastou-se uma lei estadual que impôs multa fiscal de 300% (trezentos por cento), tomando como base o inadimplemento do tributo. Nas palavras do voto proferido pelo min. Celso de Mello, qualquer pretensão governamental que possa conduzir, no campo da fiscalidade, à injusta apropriação estatalde modo a comprometer, pela insuportabilidade da carga tributária, o próprio exercício do direito à uma existência digna ou a prática de atividade profissional lícita, atenta contra o princípio do não confisco. 69 70 Ainda debruçado sobre o repertório de jurisprudência do STF, e segundo orientação da Corte, reafirmou-se no voto do Ministro Joaquim Barbosa, proferido no RE 523.471-AgR , que o princípio da vedação ao efeito de confisco aplica-se às multas e, na oportunidade, foi apontado que as multas de 20% a 30% do valor do débito são adequadas à luz do princípio da vedação do confisco. Nesse mesmo caso, o Tribunal de origem havia reduzido a multa de 60% para 30%. Segundo o STF, é inconstitucional a imposição de penalidade pecuniária que se traduza em valor superior ao do tributo devido , conquanto a correção da tabela progressiva do Imposto de Renda não afronta os princípios da proibição do confisco ou da capacidade contributiva . Na pesquisa realizada no âmbito dos Tribunais locais e federais, o sentido empregado à vedação ao confisco, relativamente às multas fiscais, vem seguindo a linha do STF. Um detalhe relevante em torno do percentual aplicado a título de multa fiscal versus não confisco diz respeito à base considerável para efeitos de incidência. O percentual da multa aplicada, além de razoável, deve incidir sobre o valor do tributo a recolher, tendo-o como parâmetro, e não o valor da operação ou da prestação do serviço. Se o percentual de 50% (cinquenta por cento) incide sobre o valor da mercadoria e a alíquota do imposto (ICMS, por exemplo) não ultrapassa 25% (vinte e cinco por cento) sobre aquele montante, a multa aplicada sobre o valor total acarretará, ao final, majoração de mais de 100% (cem por cento) do valor do tributo. Tome-se o exemplo abaixo, colhido de julgado a respeito da constitucionalidade da alínea a, inciso XII, do artigo 71, do Código Tributário do Estado de Goiás, pelo Tribunal de Justiça Goiano . Sobre uma mercadoria avaliada em R$ 10.000,00 (dez mil reais), a multa de 50% (cinquenta por cento) incidente sobre este valor corresponderá a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), enquanto o imposto, a depender da mercadoria, 71 72 73 74 75 considerada a alíquota entre 17 a 25%, seria de no máximo R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais). Ou seja, pelo exemplo dado, a multa de 50% (cinquenta por cento), por si, enxergada isoladamente, e nominalmente, como percentual, estaria, segundo a jurisprudência dominante, apta a ser cobrada. Porém, a bem da verdade, se ela estiver sendo considerada sobre o valor da operação ou da mercadoria correlata, na prática, a multa fiscal seria correspondente a 100% do tributo devido. Acaba sendo um truque normativo que disfarça a mácula do efeito confiscatório da multa imposta. Trata-se de uma forma de dissimular a base de incidência da multa para de modo ampliativo encobrir seu caráter confiscatório e a própria incidência da penalidade pecuniária, como obrigação acessória, portanto, superior à obrigação principal. O STF, ao examinar a multa moratória fixada em 20% (vinte por cento) do valor do imposto devido, entendeu não se mostrar abusiva ou desarrazoada, inexistindo ofensa aos princípios da capacidade contributiva e da vedação ao confisco . Para o Tema 214 da Repercussão Geral , firmou- se a tese de que “não é confiscatória a multa moratória no patamar de 20%”. Ainda segundo o Supremo, é possível, inclusive, realizar a dosimetria do conteúdo da vedação ao confisco, e, para tanto, reduziu de 30% (trinta por cento) para 20% (vinte por cento) a multa aplicada em caso concreto sobre o referencial do valor da obrigação principal. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Revela-se constitucional a sanção prevista no artigo 7º, inciso II, da Lei 10.426/2002, ante a ausência de ofensa aos princípios da proporcionalidade e da vedação de tributo com efeito confiscatório . A multa não decorre da hipótese de incidência tributária, é uma prestação pecuniária compulsória, instituída por lei, que deve ser aplicada 76 77 78 79 para punir ações ou omissões contrárias à lei tributária, mas não pode substituir a tributação, nem atingir sob qualquer pretexto o patrimônio privado de forma desproporcional. A matéria realmente merece tratamento constitucional ante a vedação ao confisco que também deve ser aplicável às multas. Embora tenha alguns antigos julgados, de fato, a questão ainda merece a compreensão mais aprofundada e que confira mais segurança jurídica, inclusive porque, como visto, o sistema de penalidades tributárias tem gradações e finalidades diversas que precisam ser conjugadas à luz dos limites constitucionais, dentre os quais, a vedação ao confisco deve ser parâmetro inafastável. No âmbito do Supremo, estão pendentes de julgamento importantes recursos extraordinários, já com repercussão geral reconhecida em todos. O RE 640.452 trata do caráter confiscatório da “multa isolada” fixada em valor variável entre 5% a 40% (Tema 487), já o RE 796.939 vai resolver sobre a constitucionalidade da multa prevista no artigo 74, §§ 15 e 17, da Lei 9.430/1996 para os casos de indeferimento dos pedidos de ressarcimento e de não homologação das declarações de compensação de créditos perante a Receita Federal (Tema 736). No RE 736.090, o Supremo enfrentará o limite da multa fiscal qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio, justamente tendo em vista a vedação constitucional ao efeito confiscatório (Tema 863). Por fim, o RE 1.335.293 tem por objeto a questão relativa à possibilidade de fixação de multa tributária punitiva, não qualificada, em montante superior a 100% (cem por cento) do tributo devido (Tema 1195). O quadro abaixo, elaborado em setembro de 2022, indica os temas sujeitos à repercussão geral, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, a respeito do caráter confiscatório das multas. Tema Descrição Leading case Relator 487 confiscatório da“multa isolada”por de obrigação acessória de dever instrumental. RE 640.452 Min. Roberto Barroso 736 da multa prevista no 74, §§ 15 e 17, da Lei 9.430/1996 para casos de indeferimento dos pedidos de e de não homologação das de compensação de créditos a Receita Federal. RE 796.939 Min. Ricardo Lewandowski 816 Incidência do ISSQN em operação de por encomenda, realizada materiais fornecidos pelo contratante, referida operação configura etapa do ciclo produtivo de merb) Limites para a fixação da multa moratória, tendo em vista a vedação ao efeito confiscatório. RE 882.461 Min. Dias Toffoli Plenário Virtual 863 da multa fiscal qualificada em de sonegação, fraude ou conluio, em vista a vedação constitucional efeito confiscatório. RE 736.090 Min. Luiz Fux 1195 de fixação de multa tributária não qualificada, em montante a 100% (cem por cento) do tridevido. RE 1.335.293 Min. Nunes Marques �.�.�� Princípio da liberdade de tráfego de pessoas e bens, ressalvado o pedágio Conforme o princípio da liberdade de tráfico de pessoas e bens, ou da não limitação ao tráfico, a União, os estados, o DF e os municípios não podem, nos exatos termos do artigo 150, V, da CF, “estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens, por meio de tributos interestaduais ou intermunicipais, ressalvada a cobrança de pedágio pela utilização de vias conservadas pelo Poder Público”. Como o território nacional constitui uma unidade, a divisão da federação em estados e municípios não pode, a princípio, justificar a instituição de tributos em razão do trânsito interestadual ou intermunicipal de pessoas e bens, porque representaria afronta ao direito fundamental à livre locomoção consagrado pelo artigo 5º, XV, da CF. Uma “exceção constitucional” à liberdade de tráfego de pessoas e bens a cobrança de imposto interestadual, tal como o ICMS, pela circulação de mercadorias ou prestação de serviços que envolve um estado de origem e outro de destino. A limitação se materializaria caso a imposição exacional, concretamente, impedisse a circulação de pessoas e bens, direta ou indiretamente. Em 2011, alguns estados firmaramo Protocolo ICMS-CONFAZ 21, cujas diretrizes eram a instituição da cobrança do ICMS – Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços, nos estados destinatários de produtos vindos de outros, quando o adquirente do produto, não contribuinte do imposto, o obtivesse mediante o modelo não presencial (internet, telemarketing, showroom). O STF, provocado mediante ação direta de inconstitucionalidade, reconheceu a nulidade do referido protocolo, que, entre outros motivos, atentava contra a liberdade de tráfico de bens (inciso V, artigo 150, CF). JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA O ICMS incidente na aquisição decorrente de operação interestadual e por meio não presencial (internet, telemarketing, showroom) por consumidor final não contribuinte do tributo não pode ter regime jurídico fixado por Estados-membros não favorecidos, sob pena de contrariar o arquétipo constitucional delineado pelos arts. 155, § 2º, VII, b, e 150, IV e V, da CRFB/1988. (...) O tráfego de pessoas e bens, consagrado como princípio constitucional tributário (CRFB/1988, artigo 150, V), subjaz infringido pelo ônus tributário inaugurado pelo Protocolo ICMS 21/2011 nas denominadas operações não presenciais e interestaduais. Além disso, merece destaque o pedágio, exceção expressa na disposição constitucional do próprio princípio, exatamente pela forma como tratado pelo texto da norma. A natureza jurídica do pedágio é alvo de muito debate pela doutrina. De antemão, a CF trata do instituto como a cobrança pela utilização de vias conservadas pelo próprio Poder Público, do que se infere, pelo contexto e sob a ótica topográfica do texto constitucional, o tratamento de uma espécie tributária que pode ser cobrada. Assim o sendo, o pedágio representaria uma prestação compulsória. O mecanismo atual de cobrança de pedágio, contudo, é reconhecido pelo STF como preço público, de natureza contratual – não de taxa, natureza atribuída ao regime superado que instituiu o “selo-pedágio”, por entender que não se verifica o requisito da compulsoriedade e que somente é devido pela efetiva utilização das rodovias conservadas pelo poder público. “O pedágio cobrado pela efetiva utilização de rodovias conservadas pelo Poder Público, cuja cobrança está autorizada pelo inciso V, parte final, do artigo 150 da Constituição de 1988, 80 não tem natureza jurídica de taxa, mas sim de preço público, não estando a sua instituição, consequentemente, sujeita ao princípio da legalidade estrita”. Menor debate existe quando se trata do pagamento pelo tráfego em vias conservadas e exploradas por pessoas jurídicas de direito privado, em regime de concessão de serviços públicos, haja vista o regime contratual que pauta a atuação da concessionária confere a natureza de tarifa à cobrança. 81 �.�.�� Princípio da uniformidade O exercício da competência tributária conferida à União, ente que representa a unidade federativa, tem a característica natural de surtir efeitos sobre todo o território nacional. Nesse contexto, o princípio da isonomia e a observância ao pacto federativo estão na essência do limite ao poder que se denomina princípio da uniformidade geográfica, segundo o qual os tributos federais devem incidir de modo indistinto, vedadas as diferenciações regionais ou locais infundadas no próprio texto constitucional. O artigo 151, I, da CF proíbe que a União institua qualquer tributo que não seja uniforme em todo o território nacional ou que implique distinção ou preferência em relação a estado, ao Distrito Federal ou a município, em prejuízo de outro, admitida a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferentes regiões do país. Uma política pública de natureza fiscal em benefício do fomento de regiões em situação de desigualdade material pode orientar o tratamento diferenciado entre as regiões sem ofensa à uniformidade dos tributos federais, à seletividade, à livre concorrência e à igualdade. Embora também seja conhecida como o postulado da identidade das alíquotas, o princípio da uniformidade não veda diferenças territoriais em absoluto, mas a discriminação em razão do local do fato gerador que não se justifique pelo propósito de equilíbrio social e econômico entre os entes. O exercício da prerrogativa de estabelecer distinções conforme excepciona o princípio da unidade territorial está inserido no âmbito da discricionariedade do poder público, e, portanto, depende da conveniência e oportunidade do legislador ou do Poder Executivo, a depender do benefício ou do veículo normativo. Por isso, não é dado ao Poder Judiciário estender seus efeitos com fundamento no princípio da isonomia.82 �.�.�� Princípio da uniformidade tributária sobre a renda. Vedação à tributação diferenciada sobre a renda da dívida pública e a remuneração dos agentes públicos Também como proteção ao pacto federativo, a competência da União para instituir tributos está limitada a uma uniformização da tributação sobre a renda. Segundo o artigo 151, II, da CF, é vedado à União “tributar a renda das obrigações da dívida pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como a remuneração e os proventos dos respectivos agentes públicos, em níveis superiores aos que fixar para suas obrigações e para seus agentes”. Trata-se de um princípio direcionado somente à União e, mais especificamente, à tributação sobre a renda, a fim de evitar tratamento diferenciado entre a obrigação tributária a ser instituída entre a União e o particular que aufere renda com os títulos da dívida pública da União ou pela prestação de serviços públicos federais com aquele que aufere renda com títulos da dívida pública ou presta serviço público para os outros entes federados. Não obstante esse princípio constitucional já esteja contido no princípio da isonomia e na essência do pacto federativo, o Poder Constituinte optou por deixar claro que a União não está autorizada a utilizar da sua competência para atrair mais investimentos ou privilegiar seus servidores e funcionários públicos, em prejuízo dos demais entes federados, a quem deve dispensar o mesmo tratamento tributário. �.�.�� Princípio da vedação às isenções heterônomas Outra vedação imposta à União em prestígio ao pacto federativo – razão por que também configura cláusula pétrea – é a impossibilidade de instituir isenções de tributos de da competência dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios, conforme o artigo 151, III, da CF. De forma simples, a isenção é a dispensa de pagamento de um tributo e a competência para fazê-la decorre do poder de instituir o tributo, daí a denominação de isenção autônoma (conferida pelo próprio ente tributante). O que o inciso III do artigo 151 da CF veda é a invasão pela União da competência tributária de outros entes (estados, Distrito Federal e municípios) para isentar do pagamento de tributos que não podem ser por ela instituídos (isenção heterônoma). A chamada isenção heterônoma é aquela concedida por pessoa jurídica diversa da titular da competência original para instituição do tributo. Por exemplo, o estado, como unidade federada, definindo hipóteses de isenção do ISSQN, de competência municipal. É hipótese excepcional e, como regra, vedada pelo ordenamento jurídico, que acolhe a isenção autônoma como premissa de sustentação da autonomia das unidades federadas. O instituto da isenção está compreendido na esfera da competência de tributar, e, portanto, cabe ao ente político adotar regras isencionais de acordo com sua avaliação da capacidade econômico-financeira. O verbete constitucional que proíbe a concessão de isenções heterônomas pode ser visto como uma limitação ao poder de não tributar ou isentar, concebido neste modelo pela CF/1988 com a pretensão de limitar abusos cometidos nos regimes anteriores, fundamentados no artigo 19, § 2 º, da CF de 1967/1969, assim como nas Constituições de 1937 e 1946. À época, acolhia-se a teoria dos poderes implícitos da União, cuja Constituição outorgava-lhe competência para deferiro benefício da isenção sobre impostos de entes subnacionais em defesa do interesse nacional. Pela exata simetria do fundamento, a concessão de isenções heterônomas também é vedada aos estados no tratamento de tributos municipais e se justifica pela possibilidade de um ente federado entender por bem comprometer tributos que não são de sua competência dentro do conjunto de medidas, mesmo consideradas de relevante interesse social ou econômico nacional ou estadual, conforme o caso. Há, no entanto, possibilidades de concessão de isenções heterônomas, hipóteses que excepcionam o princípio constitucional: a) ICMS sobre operações comerciais de exportação. O artigo 155, § 2º, XII, e, da CF, prevê que lei complementar pode excluir da incidência do ICMS nas exportações para o exterior, serviços e outros produtos além dos mencionados no inciso X, a, do mesmo parágrafo (que previa hipótese de não incidência do imposto sobre alguns produtos industrializados). Em razão da matéria essa lei seria de competência da União. O artigo 155, § 2º, X, a, da CF, porém, sofreu significativa alteração com a EC 42, de 2003, a partir da qual o ICMS deixou de incidir sobre todas as mercadorias e os serviços destinados ao exterior , esvaziando a necessidade de concessão de isenção nas operações comerciais, ante a regra constitucional genérica, sem que, contudo, tenha sido revogada expressamente. b) ISS sobre exportação de serviços. O artigo 156, § 3º, II, da CF autoriza a exclusão de incidência de ISS nas exportações de serviços por lei complementar, o que, segundo a doutrina majoritária, permite à União dispor sobre imposto que não é de sua competência. 83 84 c) Tratados internacionais. Uma exceção à proibição de isenções heterônomas não prevista no texto constitucional, mas acolhida pela jurisprudência do STF, é a atuação da União no plano do direito internacional e na defesa de interesses nacionais. Nesse contexto, a República Federativa do Brasil pode celebrar tratados internacionais que disponham sobre isenções de tributos da competência de outros entes federados (estaduais, distritais e municipais). Neste âmbito, uma discussão judicial percorreu longos anos até atingir seu final com a conclusão do julgamento pelo STF, a respeito das isenções concedidas pela União de tributos estaduais, previstas no Acordo Geral de Tarifas e Comércio para as mercadorias importadas dos países signatários (GAAT), quando produtos similares brasileiros tivessem o mesmo benefício. Entendeu o STF que no direito internacional, apenas a República Federativa do Brasil tem competência para firmar tratados (artigo 5, § 2º, da CF), dela não dispondo a União, os estados-membros ou os municípios. O presidente da República não subscreve tratados como chefe de Governo, mas como chefe de Estado, o que descaracteriza a existência de uma isenção heterônoma, vedada pelo artigo 151, III, da Constituição. Ou seja, o Presidente da República ao assinar acordos desta natureza não o faz como representante da União, unidade federada, mas como Chefe de Estado da República Federativa do Brasil. Segundo o STF, o artigo 151 da Constituição Federal não tem por objeto a União, quando se apresenta na ordem da política externa , porque a cláusula que proíbe a concessão de isenções tributárias heterônomas é inoponível ao Estado Federal brasileiro, incidindo, unicamente, no plano das relações institucionais domésticas . Justamente por isso, alguns juristas interpretam que a hipótese nem mesmo trata de isenção heterônoma, a despeito dos seus efeitos práticos equivalentes. 85 86 87 No que diz respeito às isenções contidas em tratados internacionais, somente são válidas e vigentes depois de o tratado ser internalizado pelo Congresso Nacional e promulgado pelo Presidente da República , com força de revogar ou modificar a legislação tributária interna, inclusive devendo ser observados pela que lhes sobrevenha. 88 89 �.� �.�.� IMUNIDADES TRIBUTÁRIAS Imunidade, não incidência, isenção e alíquota zero Embora haja um debate controverso na doutrina em certos aspectos, as características que marcam os institutos tributários da imunidade, da não incidência e da isenção, a partir de elementos mais comumente aceitos, encontram convergência na literatura tributária. A não incidência é a impossibilidade de formação da obrigação tributária por falta de competência, haja vista a situação não ser alcançada por uma regra de tributação (por exemplo, a incidência de imposto sobre a propriedade de bicicletas); pelo não exercício da competência atribuída (como o imposto sobre grandes fortunas não instituído); ou, ainda, por expressa desconsideração do legislador (imunidade ). Por não haver incidência propriamente, não se pode falar em materialização do fato gerador e, por consequência, fica impedida a aplicação da regra tributária, a formação da obrigação jurídico-relacional e a constituição do crédito tributário. A imunidade é uma norma que veicula hipótese de não incidência (não competência) constitucionalmente qualificada, porque relacionada, em certa medida, a direitos e garantias fundamentais, que também obsta a relação jurídico-tributária, a qualificação do sujeito passivo e a constituição do crédito tributário. A imunidade suprime a norma de competência, enquanto a isenção traduz uma supressão tão somente de um dos critérios da regra matriz. Segundo o STF, as imunidades têm o teor de cláusulas pétreas, expressões de direitos fundamentais, na forma do artigo 60, § 4º, da CF/1988 . As imunidades são preceitos constitucionais de não incidência e não podem ser esvaziados ou mesmo mitigados pela norma infraconstitucional, ao mesmo tempo que o texto constitucional não trata de isenção tributária 90 91 em espécie, matéria reservada ao legislador infraconstitucional. Inclusive, é possível identificar no texto constitucional disposições que conferem imunidade, mas que usam a denominação de isenção, tal como o artigo 195, § 7º, da CF . É que a isenção consiste na mera dispensa legal de pagamento do tributo e, sob outra perspectiva, importa vedação legal de lançamento e cobrança do crédito tributário, sem afetar a competência tributária para instituir tributos e a concretização pelo fato gerador. A isenção também se diferencia da imunidade no campo da hermenêutica. Enquanto essa atrai interpretação ampla à luz da ordem constitucional, aquela deve ser aplicada em sua literalidade. No caso da imunidade, o STF tem conferido interpretação extensiva às normas imunizantes, enquanto às isenções sobreleva o critério restritivo ou literal. Por isso o enquadramento da imunidade milita a favor do contribuinte, de modo que seu afastamento só pode ocorrer mediante a constituição de prova em contrário produzida pela administração tributária. O oposto ocorre com a isenção, que constitui mero benefício fiscal por opção do legislador ordinário, o que faz que a presunção se posicione ao lado da Fazenda Pública. Por isso, incumbe ao contribuinte que pretende a fruição da benesse da isenção fiscal o ônus de demonstrar o enquadramento na situação contemplada na norma. Já a alíquota zero é uma técnica do ente tributante, no exercício de sua competência, para tornar despicienda a obrigação tributária pela aplicação de uma alíquota nula, ao implicar inexistência de crédito tributário a ser lançado, o que, em regra, aplica-se para os tributos de finalidade extrafiscal ou de impacto sobre as operações de mercado que estão sujeitas a mecanismos de incentivos ou desestímulo. 92 93 �.�.� Aspectos gerais sobre imunidade tributária As imunidades são limitações ao poder de tributar que estabelecem preceitos negativos de competência (não competência) em relação a determinadas situações. Trata-se de normas que decorrem de princípios e garantias fundamentais e, por isso, têm elevado padrão constitucional na proteção de axiomas de ordem político-social que devem ser protegidos no âmbito das relações de natureza jurídico-tributária. Segundo o STF, as imunidades constituem cláusulas pétreas,ou seja, são limites materiais que se impõem ao poder constituinte derivado reformador e devem ser interpretadas de forma sistemática com as demais normas constitucionais e, sobretudo, levam em consideração o seu caráter finalístico. Há amplo debate sobre se a imunidade limita a competência tributária. Para quem defende que sim, cuida-se de mais uma regra restritiva ao ente tributante. Sobressai, no entanto, a compreensão de que nem mesmo existe poder de tributar diante de uma imunidade. Independente disso, como existe interferência nas competências, somente a Constituição Federal pode dispor a respeito do tema. A regulação das imunidades constitui matéria reservada à lei complementar, segundo previsão do artigo 146, II, da Constituição Federal ao estabelecer caber à lei complementar “regular as limitações constitucionais ao poder de tributar”. Esse assunto produziu intenso debate doutrinário e jurisprudencial no âmbito das aplicações às entidades filantrópicas. É que o § 7º do artigo 195 da CF tratou o tema da seguinte forma: “são isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei”. A controvérsia estava na parte final: “exigências estabelecidas em lei”. Nesse contexto, requisitos então foram sendo criados por meio da edição de lei ordinária para gozo da imunidade por entidades filantrópicas, para além daqueles já existentes no artigo 14 do Código Tributário Nacional, entre os quais não distribuir qualquer parcela do patrimônio ou de rendas, aplicar integralmente no país os recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais e preservar a escrituração de suas receitas e despesas nos livros contábeis e fiscais correspondentes. O STF então, em julgamento virtual, na ADI 4.480/DF, definiu que a fixação de requisitos para o gozo da imunidade por entidades beneficentes de assistência social somente pode se dar por meio de lei complementar, por incluir-se na compreensão das limitações constitucionais ao poder de tributar. A decisão do Supremo que definiu o Tema 32 de Repercussão Geral, no julgamento dos Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário 566.622/RS, estabeleceu a seguinte tese: “A lei complementar é forma exigível para a definição do modo beneficente de atuação das entidades de assistência social contempladas pelo artigo 195, § 7º, da CF, especialmente no que se refere à instituição de contrapartidas a serem por elas observadas”. O voto vencedor da referida decisão proferida pelo STF definiu que os limites da imunidade devem ser disciplinados por lei complementar, embora as normas reguladoras de constituição, funcionamento e fiscalização das entidades imunes podem ser estabelecidas por meio de lei ordinária, especialmente visando evitar que instituições beneficentes disfarçadas sejam eventualmente favorecidas. Uma outra discussão relevante, também objeto de decisão pelo STF, diz respeito à impossibilidade de extensão da imunidade tributária da entidade filantrópica aos fornecedores de mercadorias e prestadores de serviços, haja vista a imunidade subjetiva aplicar-se unicamente a seus 94 95 96 beneficiários na posição de contribuinte de direito. A tese foi assim deliberada: JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Tema 342 da Repercussão Geral: “A imunidade tributária subjetiva aplica- se a seus beneficiários na posição de contribuinte de direito, mas não na de simples contribuinte de fato, sendo irrelevante para a verificação da existência do beneplácito constitucional a repercussão econômica do tributo envolvido”. Na prática, a entidade assistencial imune ao adquirir produtos para a realização de suas atividades, por exemplo, materiais de limpeza, produtos de informática, “recolhe” o ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) pela repercussão indireta do tributo e, portanto, a correspondente imunidade subjetiva não lhe alcança quando na relação jurídica sua participação seja de contribuinte de fato, consumidora da mercadoria ou do serviço ofertado. Pode-se dizer, portanto, que não se considera para fins de interpretação da norma imunizante a repercussão econômica do tributo nas hipóteses de tributos indiretos. Mas é preciso distinguir, por decisão proferida pelo próprio STF, que esse entendimento tem aplicação na operação de aquisição interna de mercadorias ou serviços, ou seja, no mercado nacional, pela correspondente entidade assistencial imune, porque quando ela adquire no mercado externo, seria ela então “contribuinte de direito” do ICMS-importação, como no caso tratado, e, com isso, atrairia a regra imunizante. Também como julgamento relevante sobre o tema imunidades no âmbito do Supremo Tribunal Federal, já em 2021, sob a Repercussão Geral Tema 328, o STF apreciou a discussão sobre a incidência do IOF – Imposto Sobre Operações Financeiras, sob o viés da imunidade, em relação ao patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas 97 98 fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos (artigo 150, § 4º, da CF). Nesse julgamento, entendeu o STF que não se pode conferir interpretação restritiva sobre “patrimônio” e “renda”, para onerar as movimentações patrimoniais (financeiras) e a renda obtida com tais operações, ainda que pela previsão constitucional o IOF tenha incidência sobre “operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários” (artigo 153, V, da CF), porque, na prática, por via indireta, acaba por atingir o patrimônio ou a renda das referidas entidades. O Plenário do STF fixou então a seguinte tese: “a imunidade assegurada pelo artigo 150, VI, c, da Constituição da República aos partidos políticos, inclusive suas fundações, às entidades sindicais dos trabalhadores e às instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, que atendam aos requisitos da lei, alcança o IOF, inclusive o incidente sobre aplicações financeiras”. As imunidades tributárias, em sua maioria, versam sobre impostos, mas podem afetar todas as espécies de tributo e, embora comprometam o exercício da competência do ente federado, seus efeitos atingem somente as obrigações tributárias principais. Ainda que para tanto impeçam a incidência da regra tributária, não têm o condão de exonerar o contribuinte das obrigações acessórias instituídas, nem das regras de responsabilidade tributária. Do mesmo modo, as imunidades não podem ser invocadas para alterar a sujeição passiva de tributos. Considerando a regra geral do artigo 123 do CTN, salvo disposições em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, portanto, um imóvel locado por entidade imune não afasta a incidência de imposto devido pelo proprietário. 99 – – – – �.�.�.� • • �.�.�.� • Portanto, as imunidades podem abranger todas as espécies de tributos, mas não afetam as obrigações acessórias, que continuam exigíveis e não eximem da responsabilidade tributária. São exemplos de imunidades relacionadas a espécies tributárias diversas do imposto: taxas de custas judiciais – ação popular (artigo 5º, LXXIII, CF); taxas de registro cartorário – reconhecidamente pobres (artigo 5º, LXXIV, CF); contribuições sociais e CIDE – receitas decorrentes de exportação (artigo 149, § 2º, I, CF); contribuição para a seguridade social – entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. As imunidades recebem várias classificações, entre as que se destacam: Quanto ao tributo: específica – atinge a competência de determinado ente tributante porque relativa a determinado tributo, tal como a não incidência qualificada de taxas em razão da condição de pobreza da pessoa; genérica – atinge a competência de todos os entes tributantes, porque relativa a vários tributos, por exemplo, quando não podem ser instituídos impostos em geral sobre templos dequalquer culto; Quanto aos beneficiados: subjetiva/pessoal – beneficia determinados contribuintes (pessoas), a exemplo da imunidade de impostos sobre patrimônio, • • �.�.�.� • • �.�.�.� • • renda ou serviços dos partidos políticos (a pessoa jurídica do partido que faz configurar a imunidade); objetiva/real – beneficia determinadas características de bens ou coisas, como a imunidade sobre livros; mista – depende da combinação entre requisitos objetivos (bens/coisas) e subjetivos (da pessoa), tal como a não incidência de ITR sobre pequenas glebas rurais, definidas em lei, quando as explore o proprietário que não possua outro imóvel. Quanto à forma: explícita – expressamente previstas no texto constitucional; implícita – que decorrem da aplicação de princípios constitucionais, mas não são assim tratadas pelo texto constitucional, a exemplo dos efeitos práticos da incidência conjugada da capacidade contributiva com a dignidade da pessoa e o mínimo existencial. Quanto aos requisitos: condicionadas – a norma constitucional tem eficácia limitada, ou seja, o texto constitucional atribui à lei a definição de requisitos a serem cumpridos para a fruição da imunidade. Por exemplo, na imunidade dos partidos políticos (artigo 150, VI, c, CF); incondicionadas – a norma tem eficácia plena, ou seja, seus efeitos não dependem do cumprimento de requisitos que vão além da mera aplicação do texto constitucional, como no caso da imunidade recíproca entre os entes políticos (artigo 150, VI, a, CF). Denomina-se imunidade ontológica aquela cujos efeitos poderiam decorrer da ordem constitucional, ainda que não expressamente previstas no texto da Constituição Federal, por exemplo, aquelas que consagram o princípio da capacidade contributiva e o pacto federativo. �.�.� Imunidade tributária recíproca A imunidade recíproca é aquela que veda a tributação dos entes federados entre si, nos termos do artigo 150, IV, a, da CF: Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] VI – instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; [...] § 2º A vedação do inciso VI, a, é extensiva às autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, no que se refere ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes. § 3º As vedações do inciso VI, a, e do parágrafo anterior não se aplicam ao patrimônio, à renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem exonera o promitente comprador da obrigação de pagar imposto relativamente ao bem imóvel. Segundo a literalidade do dispositivo, os entes políticos não têm competência para exigir impostos sobre patrimônio, renda e serviços uns dos outros (não se aplica a taxas e contribuições), tendo o STF a compreensão de que se trata de cláusula pétrea por permitir a proteção do pacto federativo e, especialmente, para evitar pressões políticas entre as unidades federadas ou para desonerar atividades desprovidas de presunção de riqueza .100 a) b) c) d) Não é aplicável a restrição prevista na limitação do artigo 9º, IV, a, do CTN e por isso é extensível às: instituições de impostos sobre operações financeiras ou outras hipóteses não só relativas a patrimônio, renda e circulação; empresas estatais prestadoras de serviços públicos obrigatórios e exclusivos do Estado, tal como a Empresa de Correios e Telégrafos e a Casa da Moeda do Brasil ; autarquias e empresas públicas que prestem inequívoco serviço público, desde que, entre outros requisitos constitucionais e legais não distribuam lucros ou resultados direta ou indiretamente a particulares, ou tenham por objetivo principal conceder acréscimo patrimonial ao poder público (ausência de capacidade contributiva) e não desempenhem atividade econômica, de modo a conferir vantagem não extensível às empresas privadas (livre- iniciativa e concorrência) ; sociedades de economia mistas prestadoras de serviço público, desde que observados os seguintes parâmetros: (i) a imunidade tributária recíproca, quando reconhecida, se aplica apenas à propriedade, bens e serviços utilizados na satisfação dos objetivos institucionais imanentes do ente federado; (ii) atividades de exploração econômica destinadas primordialmente a aumentar o patrimônio do Estado ou de particulares devem ser submetidas à tributação, por se apresentarem como manifestações de riqueza e deixarem a salvo a autonomia política; (iii) a desoneração não deve ter como efeito colateral relevante a quebra dos princípios da livre concorrência e do exercício de atividade profissional ou econômica lícita ; (iv) a cobrança de taxas a título de serviço deve ter por escopo cobrir os custos operacionais, sem finalidade lucrativa ; (v) configurados o controle acionário quase total do 101 102 103 104 105 106 e) a) b) c) d) ente político, o não comprometimento da livre concorrência e a falta de acúmulo patrimonial público ou privado, a participação privada diminuta não compromete a imunidade extensiva ; sociedades de economia mista e empresas públicas sobre o patrimônio, renda ou serviços inerentes ao desempenho de atividades imanentes ao Estado, independentemente da cobrança por elas de tarifas como contraprestação. Em sentido contrário, a imunidade conferida aos entes políticos: não tem o condão de afastar a incidência de IPTU sobre imóvel de pessoa jurídica de direito público (beneficiada da imunidade constitucional) que é cedido a pessoa jurídica de direito privado, devedora do tributo ; não se aplica à Petrobrás, pois: (i) trata-se de sociedade de economia mista destinada à exploração econômica em benefício de seus acionistas, pessoas de direito público e privado, e a salvaguarda não se presta a proteger aumento patrimonial dissociado de interesse público primário; (ii) visa à distribuição de lucros, e, portanto, tem capacidade contributiva; (iii) a tributação de atividade econômica lucrativa não implica risco ao pacto federativo. Portanto, a condição de monopólio não deve ser analisada de forma isolada ; não abrange aqueles que executem serviços públicos devidamente remunerados, com inequívoco intuito lucrativo, mediante concessão ou delegação, tais como a atividade notarial, conforme o artigo 150, § 3º, da CF , fornecimento de energia elétrica, serviços de comunicações e fornecimento de gás; não desobriga os entes como contribuintes de fato (nos impostos indiretos), nem nas qualidades de responsável ou substituto 107 108 109 110 111 tributário. Neste último item, letra d, em inúmeras situações, no exercício cotidiano das atividades desenvolvidas, os entes políticos, pela administração direta ou indireta, adquirem produtos e serviços de particulares, contribuintes, por meio dos procedimentos regulares administrativos, por compra direta, dispensa ou inexigibilidade, ou por processo licitatório. O fornecimento de mercadorias ou a prestação dos correspondentes serviços incluem a tributação no preço e, com isso, o ente federado paga pelo tributo, mas não como contribuinte de direito, mas sim como contribuinte de fato, especialmente porque nestas relações jurídico- tributárias ocorre o fenômeno da repercussão econômica indireta para o adquirente. Por outro lado, se o ente federado for contribuinte de direito, por exemplo, quando um município realiza a operação de importação de um bem, incide a imunidade recíproca e, por isso, a União deve deixar de cobrar o Imposto de Importação. Nesta situação o município ocupa a posição própria de “contribuinte de direito” (importador) e também de “contribuinte de fato” porque há uma identidade fático-jurídica. Na importação de bens por não contribuintes, o STF tinha entendimento por meio da Súmula 660 de que “não incide ICMS na importação de bens por pessoa física ou jurídicaque não seja contribuinte do imposto”. Esse entendimento do Supremo mudou depois da entrada em vigor da Emenda Constitucional 33/2001, ao definir que é constitucional a incidência de ICMS sobre operações de importação efetuadas por pessoa, física ou jurídica, que não se dedica habitualmente ao comércio ou à prestação de serviços. Segundo o Supremo, a circunstância de o destinatário do bem não ser contribuinte habitual do tributo também não afeta a caracterização da operação de circulação de mercadoria e, além disso, a exoneração das 112 113 114 operações de importação poderia desequilibrar as relações pertinentes às operações tipicamente internas com o mesmo tipo de bem, de modo a afetar os princípios da isonomia e da livre concorrência. Porém, no caso da importação por entes políticos a ratio decidendi desse julgado não se aplica porque prevalece a imunidade recíproca dos entes políticos. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Tema 385 da Repercussão Geral – A imunidade recíproca, prevista no artigo 150, VI, b, da Constituição Federal não se estende a empresa privada arrendatária de imóvel público, quando seja ela exploradora de atividade econômica com fins lucrativos. Nessa hipótese é constitucional a cobrança do IPTU pelo município . Tema 437 da Repercussão Geral – Incide o IPTU considerado imóvel de pessoa jurídica de direito público cedido a pessoa jurídica de direito privado, devedora do tributo . 115 116 �.�.� Imunidade dos templos de qualquer culto Como corolário do direito individual à liberdade de consciência e crença e ao livre exercício dos cultos religiosos (artigo 5º, VI, CF), o artigo 150, VI, b, da CF proíbe a constituição de impostos sobre os templos de qualquer culto, cláusula pétrea do sistema constitucional, vigente também sob denominação de imunidade religiosa. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A imunidade tributária conferida pelo artigo 150, VI, b, é restrita aos templos de qualquer culto religioso, não se aplicando à maçonaria, cujas lojas não se professa qualquer religião . Dentro de uma interpretação finalística, essa imunidade está relacionada à instituição religiosa em todas as suas formas (não só ao templo material) e ao cumprimento de sua finalidade. Por isso, protege os bens móveis e imóveis em nome da entidade; a renda decorrente das práticas religiosas e aplicações financeiras; e os serviços relacionados com as finalidades essenciais (artigo 150, § 4º, CF) e revertidas em favor da atividade, ou seja, não só os prédios empregados ao seu funcionamento. A Emenda Constitucional 116/2022 incluiu o § 1º-A ao artigo 156 para consagrar na previsão constitucional de instituição e cobrança do IPTU a previsão expressa de que o imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana não incidirá sobre os templos de qualquer culto, ainda que as entidades imunes sejam apenas locatárias do bem imóvel. Essa alteração representa uma hipótese de não incidência tributária em razão da destinação do imóvel, não exigindo do possuidor a condição de plena propriedade. Além do local destinado à prática do culto ou liturgia, são exemplos de bens protegidos por essa cláusula pétrea os imóveis de sua propriedade que 117 sejam locados ou utilizados para estacionamento e cemitérios vinculados à atividade religiosa. O mesmo acontece em relação aos veículos automotores registrados em nome da entidade e utilizado para viabilizar a prática religiosa. Em síntese, duas condições são necessárias à imunidade ampliativa dos templos, a destinação dos recursos e a inexistência de atividade econômica dentro do contexto da livre concorrência, uma vez que a proteção constitucional não ampara atividade empresarial. A Suprema Corte entende que há presunção relativa de que os imóveis da entidade religiosa são destinados às finalidades essenciais da instituição, sendo ônus do ente federativo provar eventual desvio de finalidade. O STF também tem o entendimento de que não cabe à entidade religiosa demonstrar que utiliza o bem de acordo com suas finalidades institucionais, ao contrário, compete ao fisco comprovar a aplicação do bem gravado pela imunidade em finalidade diversa da que originalmente foi concebida (tredestinação), alcançando não somente os imóveis alugados, inclusive os vagos. Quanto às espécies tributárias alcançadas pela imunidade, é importante reforçar que somente não há competência para a constituição e cobrança de impostos. Portanto, são devidos taxas, empréstimos compulsórios, contribuição de melhoria e contribuições sociais. No que diz respeito aos impostos indiretos, aplica-se o mesmo raciocínio da imunidade recíproca: os templos são imunes dos impostos incidentes nas operações que figurem como contribuinte de direito, como a venda de determinada produção própria, mas arcam com o imposto na qualidade de contribuintes de fato, quando adquirem mercadoria sujeita à tributação, por exemplo, material para consumo dos estabelecimentos. No julgamento do RE 630790 (Tema 336), o Supremo estabeleceu uma importante distinção quanto aos serviços assistenciais prestados por entidades religiosas e que as coloca em condição de fruição da proteção 118 constitucional contra a tributação relativa ao campo da imunidade conferida à assistência social (artigo 203, CF), desde que não haja discriminação entre os assistidos ou coação para que passem a aderir aos preceitos religiosos em troca de terem suas necessidades atendidas. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Tema 336 da Repercussão Geral: “As entidades religiosas podem se caracterizar como instituições de assistência social a fim de se beneficiarem da imunidade tributária prevista no artigo 150, VI, c, da Constituição, que abrangerá não só os impostos sobre o seu patrimônio, renda e serviços, mas também os impostos sobre a importação de bens a serem utilizados na consecução de seus objetivos estatutários”.119 �.�.� • • • • Imunidade subjetiva Conforme já classificada, a imunidade subjetiva é aquela que beneficia determinados contribuintes. São pessoas que, em razão da sua qualidade ou de circunstância específica, não podem ser atingidas por determinada competência tributária estatal. O artigo 150, VI, c, da CF concentrou as pessoas contempladas por esse tipo de imunidade, preservando-as da incidência de impostos (incidentes as demais espécies tributárias) sobre patrimônio, renda ou serviços relacionados com as finalidades essenciais , desde que atendidos os requisitos da lei: partidos políticos, inclusive suas fundações; entidades sindicais dos trabalhadores; instituições de educação sem fins lucrativos; entidades de assistência social sem fins lucrativos . DICAS PRÁTICAS Na CF de 1998, as imunidades subjetivas (artigo 150, VI, c) são também condicionadas, dependem do cumprimento de requisitos legais para sua fruição. A jurisprudência entende que nesse rol estão incluídas as instituições de ensino profissionalizantes vinculadas ao denominado Sistema “S”, instituições de interesse de categorias profissionais, bem como as instituições de previdência privada, essas enquadradas no contexto de entidade assistencial sem fins lucrativos , nos exatos termos da Súmula 730 do STF: 120 121 122 A imunidade tributária conferida a instituições de assistência social sem fins lucrativos pelo artigo 150, VI, c, da Constituição, somente alcança as entidades fechadas de previdência social privada se não houver contribuição dos beneficiários. Quanto à forma de disposição dos requisitos, o STF consolidou que o alcance da imunidade e seus requisitos podem ser restringidos segundo o conteúdo do artigo 14 do CTN, recepcionado pela CF de 1988. Por isso, outros aspectos intrínsecos das instituições imunes podem ser tratados por lei ordinária, da mesma forma que são utilizados conceitos e categorias do ordenamento jurídico privado, expresso pela legislação infraconstitucional. Somente se exige lei complementar para a definição dos seus limites objetivos (materiais), e não para normas de constituição e de funcionamento das entidades (aspectos formaisou subjetivos) . O CTN estabelece: Artigo 9º É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] IV – cobrar imposto sobre: [...] c) o patrimônio, a renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, observados os requisitos fixados na Seção II deste Capítulo; [...] § 1º O disposto no inciso IV não exclui a atribuição, por lei, às entidades nele referidas, da condição de responsáveis pelos tributos que lhes caiba reter na fonte, e não as dispensa da prática de atos, previstos em lei, assecuratórios do cumprimento de obrigações tributárias por terceiros. Artigo 14. O disposto na alínea c do inciso IV do artigo 9º é subordinado à observância dos seguintes requisitos pelas entidades nele referidas: 123 – – – I – não distribuírem qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas, a qualquer título; II – aplicarem integralmente, no País, os seus recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais; III – manterem escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão. § 1º Na falta de cumprimento do disposto neste artigo, ou no § 1º do artigo 9º, a autoridade competente pode suspender a aplicação do benefício. § 2º Os serviços a que se refere a alínea c do inciso IV do artigo 9º são exclusivamente, os diretamente relacionados com os objetivos institucionais das entidades de que trata este artigo, previstos nos respectivos estatutos ou atos constitutivos. Requisitos básicos para a fruição de imunidade subjetiva: não haver distribuição de renda ou patrimônio; aplicação de recursos integral no país em prol dos interesses institucionais; escrituração de receitas e despesas. Ao apreciar dispositivos da hoje revogada Lei 12.101/2009, que dispunha sobre a certificação das entidades beneficentes de assistência social contempladas pelo artigo 195, §7º, da CF, o STF entendeu que as regras e a definição das contrapartidas a serem observadas pelas entidades filantrópicas para a imunidade tributária deveriam ser feitas por lei complementar, e não por lei ordinária que pode dispor, apenas, de aspectos meramente procedimentais sobre o tema. Atualmente, a matéria é objeto da Lei Complementar 187/2021 . Assim como no caso da imunidade aos templos de qualquer culto, a imunidade conferida da alínea c do inciso VI do artigo 150 da CF protege 124 da incidência de impostos tanto os bens utilizados diretamente pelas pessoas beneficiadas quanto indiretamente (revertido em favor delas), desde que não se verifique excessos ou propósitos econômicos que vão além de suas finalidades essenciais. Por isso, a Constituição Federal afasta a incidência do IPTU sobre os imóveis de propriedade das instituições de assistência social sem fins lucrativos, mesmo que alugados a terceiros, desde que o valor dos aluguéis seja aplicado nas suas atividades essenciais (Súmula 724/STF), sendo que a presunção de que o imóvel ou as rendas estão afetados às suas finalidades institucionais milita em favor da entidade . Esse entendimento, deu ensejo à edição a Súmula Vinculante 52. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA. Ainda quando alugado a terceiros, permanece imune ao IPTU o imóvel pertencente a qualquer das entidades referidas pelo artigo 150, VI, c, da Constituição Federal, desde que o valor dos aluguéis seja aplicado nas atividades para as quais tais entidades foram constituídas. Também estão incluídos os rendimentos decorrentes das aplicações financeiras que são vertidos aos objetivos da própria entidade, como ocorre com a renda auferida a partir das suas atividades assistenciais ou mesmo da comercialização de seus bens. A imunidade não é restrita apenas à renda decorrente do objeto social da entidade, mas, sim, a toda aquela auferida de forma regular visando resguardar o seu patrimônio dos efeitos corrosivos da inflação, como ocorre com as aplicações financeiras . 125 126 �.�.� Imunidade dos livros, jornais, periódicos O artigo 150, VI, d, da CF consagra a imunidade objetiva segundo a qual não podem incidir impostos sobre livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão. A disposição constitucional não cuida de imunidade pessoal, razão pela qual as editoras e livrarias figuram no polo passivo dos impostos que lhes são devidos em razão da sua renda ou do seu patrimônio. Porque a Constituição Federal não faz ressalva sobre valor artístico ou didático, relevância ou qualidade cultural, estão amparados pela imunidade dos livros os jornais, os álbuns de figurinha, as apostilas, os manuais técnicos e as listas telefônicas. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A imunidade tributária sobre livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão tem por escopo evitar embaraços ao exercício da liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação, bem como facilitar o acesso da população à cultura, à informação e à educação. O constituinte, ao instituir esta benesse, não fez ressalvas quanto ao valor artístico ou didático, à relevância das informações divulgadas ou à qualidade cultural de uma publicação. Não cabe ao aplicador da norma constitucional em tela afastar este benefício fiscal instituído para proteger direito tão importante ao exercício da democracia, por força de um juízo subjetivo acerca da qualidade cultural ou do valor pedagógico de uma publicação destinada ao público infantojuvenil. Embora, em muitos casos, não possam ser separadas das coisas imunes as propagandas que porventura as integrem, não devem ser consideradas no bojo da imunidade os encartes e catálogos de finalidade exclusivamente comercial, porquanto não sobressai o cunho cultural ou educacional. 127 128 JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Encartes de propaganda distribuídos com jornais e periódicos. ISS. Artigo 150, VI, d, da Constituição. Veículo publicitário que, em face de sua natureza propagandística, de exclusiva índole comercial, não pode ser considerado como destinado à cultura e à educação, razão pela qual não está abrangido pela imunidade de impostos prevista no dispositivo constitucional sob referência, a qual, ademais, não se estenderia, de qualquer forma, às empresas por eles responsáveis, no que concerne à renda bruta auferida pelo serviço prestado e ao lucro líquido obtido. Quanto aos insumos, a jurisprudência do STF segue uma interpretação mais restritiva e não costuma ampliar a imunidade para outros produtos além do papel, porque esse é individualmente indicado, afastando dos limites de proteção a tinta, a cola, a linha e outros papéis. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA Não há de ser estendida a imunidade de impostos prevista no dispositivo constitucional sob referência, concedida ao papel destinado exclusivamente à impressão de livros, jornais e periódicos, aos serviços de composição gráfica necessários à confecção do produto final. Desse raciocínio, são excepcionados alguns insumos mais específicos, que se mostram mais correspondentes, como papéis e filmes fonográfico (Súmula 657 do STF). A interpretação restritiva ganha reforço quando afastado precedente pontual que estendia a imunidade sobre peças sobressalentes e chapa de impressão offset para jornais . No julgamento do Agravo Regimental no RE 475.798/RJ , o STF conferiu importantes ferramentas de compreensão desse preceito, também 129 130 131 132 reconhecido como imunidade de cultura ou de imprensa. Sobre sua finalidade, entendeu o Supremo: A teleologia dessa imunidade aponta para a proteção de valores tais como a liberdade de expressão, voltada à democratização e à difusão da cultura; a formação cultural do povo indene de manipulações; a neutralidade, de modo a não fazer distinção entre grupos economicamente fortes e fracos, entre grupos políticos etc.; a liberdade de informar e de ser informado; o barateamento do custo de produção dos livros, jornais e periódicos, de modo a facilitar e estimular a divulgação de ideias,conhecimentos e informações etc. Ao adotar uma visão de futuro, conclui que essa imunidade abrange o livro eletrônico e os suportes utilizados para a veiculação, alcançando os componentes eletrônicos destinados exclusivamente à integração da unidade didática e que o vocábulo “papel” não é essencial ao conceito desses bens finais. Em interpretação evolutiva e teleológica adotada na Tese 593 de repercussão geral , a imunidade alcança o denominado “áudio book”, ou audiolivro (livros gravados em áudio, seja no suporte CD-Rom, seja em qualquer outro), os aparelhos leitores de livros eletrônicos (ou e-readers) confeccionados exclusivamente para esse fim, ainda que, eventualmente, estejam equipados com funcionalidades acessórias ou rudimentares que auxiliam a leitura digital, tais como dicionário de sinônimos, marcadores, escolhas sobre a fonte. Esse entendimento, segundo o Supremo, não é aplicável aos aparelhos multifuncionais, como tablets, smartphones e laptops, porque suas funcionalidades vão muito além de meros equipamentos utilizados para a leitura de livros digitais. 133 �.�.� Imunidade de fonogramas e videofonogramas Com o advento da Emenda Constitucional 75, de 2013, o inciso VI do artigo 150 passou a contar com outra categoria de imunidade objetiva, na alínea e, que revela a denominada imunidade musical. Conforme o texto constitucional, não podem ser instituídos impostos sobre: fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser. A inovação constitucional alcança as obras nacionais produzidas em som ou som e imagem, tanto na sua dimensão intelectual quanto dos suportes e arquivos que os veiculem, tanto comercializadas em meio físico (vinil, CD, DVD, Blu-ray) quanto via internet (arquivos disponíveis em plataformas digitais). Verifica-se, com isso, o propósito de redução de custos e, por consequência, dos preços de mercado, o que propicia uma maior difusão cultural e a proteção dos direitos autorais e dos produtos originais, em contraposição à contrafação (pirataria) ou clandestinidade. Da mesma forma que as livrarias não são imunes, também as gravadoras estão sujeitas à incidência de todas as espécies tributárias, inclusive imposto, uma vez que a imunidade sobre fonogramas e videofonogramas musicais não está relacionada às pessoas, mas aos produtos. No entanto, alguns doutrinadores debatem a natureza puramente objetiva da imunidade em razão da restrição do seu alcance a obras artísticas nacionais. Como expresso no texto constitucional, o processo de replicação industrial das mídias ópticas de leitura à laser (suportes materiais) não é alcançada pela imunidade. Entre as mídias mais usuais, essa exceção não se aplica à duplicação do vinil. Uma questão sobre a qual ainda pesam debates está relacionada aos estúdios, músicos e processos de gravação e mixagem. Tratando-se de imunidade objetiva, não são imunes dos impostos que incidem sobre a renda ou a prestação de seus serviços, entretanto, tem lugar a defesa de que a interpretação finalística da regra constitucional abrange as etapas de produção, mas, nesse âmbito, o tratamento do STF sobre a imunidade dos livros não caminha nessa linha argumentativa. A interpretação mais segura orienta que não podem incidir os impostos sobre a industrialização (ressalvada a replicação de mídia óptica a laser), a circulação (distribuição e venda) e a exportação dos fonogramas e videogramas. Artigo 146. Cabe à lei complementar: [...] II – regular as limitações constitucionais ao poder de tributar; ÁVILA, Humberto Bergmann. A distinção entre princípios e regras e a redefinição do dever de proporcionalidade. Revista Diálogo Jurídico, n. 4, Salvador, ano I, v. I, jun. 2001. Comenta o autor: “chega-se a afirmar que haveria quase tantas definições de princípios quantos são os seus autores que sobre eles escrevem”. Excertos que constam da obra de minha autoria: Dever de colaboração dos contribuintes versus direito ao silêncio no âmbito tributário sancionador, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2009. ÁVILA, Humberto Bergmann. A distinção entre princípios e regras e a redefinição do dever de proporcionalidade. Revista Diálogo Jurídico, n. 4, Salvador, ano I, v. I, jun. Excertos que constam da obra de minha autoria: Dever de colaboração dos contribuintes versus direito ao silêncio no âmbito tributário sancionador, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2009. SANCHÍS, Luis Prieto. Ley, Principios, derechos. Cuadernos Bartolome de las Casas, Universidad Carlos III de Madrid, n. 7, Madrid: Dykinson, 1998, p. 49; O autor para demonstrar essa imprecisão terminológica cita alguns exemplos 1 2 3 4 em que se entende o princípio: “Por ejemplo, reciben el nombre de principios las normas que suponen axiológicamente más fundamentales (la libertad o la justicia), las más generales o que inspiran amplios sectores del ordenamiento (la autonomía de la voluntad en Derecho privado o el principio de culpabilidad en Derecho penal), las que indican los fines de la acción estatal (el bienestar o el pleno empleo), las más vagas o que presentan indeterminado el supuesto de hecho de su aplicación (la igualdad), las que recogen algunos tópicos interpretativos (lo accesorio sigue a lo principal, argumento a fortiori), etc.”. BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2018, p. 248-249. LARENZ, Karl. Metodologia da Ciência do Direito. Trad. José Lamego. 3. ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. DWORKIN, Ronald. Taking Righs Seriously. 6. ed., Londres: Duckworth, 1991, p. 26. STF. ADI 1.922 MC, Rel. Min. Moreira Alves, Tribunal Pleno, julgado em 06.10.1999, DJ 24.11.2000. STF. ADI 2.551 MC-QO, Rel. Min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 02.04.2003, DJ 20.04.2006. COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Os Direitos dos Contribuintes e os Princípios Constitucionais em Matéria Tributária. In: SARAIVA FILHO, Oswaldo Othon de Pontes (coord.). Direitos Fundamentais dos Contribuintes: homenagem ao Jurista Gilmar Ferreira Mendes. São Paulo: Almedina, 2021, p. 108. Artigo 97. Somente a lei pode estabelecer: I – a instituição de tributos, ou a sua extinção; II – a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III – a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV – a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; 5 6 7 8 9 10 11 V – a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI – as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. § 1º Equipara-se à majoração do tributo a modificação da sua base de cálculo, que importe em torná-lo mais oneroso. § 2º Não constitui majoração de tributo, para os fins do disposto no inciso II deste artigo, a atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo. [...] O Tribunal, por maioria, conheceu do recurso e lhe deu provimento, declarando a constitucionalidade do artigo 66 da Lei 7.450/85 que atribuiu ao Ministro da Fazenda competência para expedir portaria fixando o referido prazo, ao fundamento de que a fixação de prazo para recolhimento do tributo não é matéria reservada à lei. Vencidos os Ministros Marco Aurélio, Sepúlveda Pertence e Carlos Velloso, por entenderem que a disciplina sobre prazo de recolhimento de tributos sujeita-se à competência legislativa do Congresso Nacional (STF. RE 140.669/PE. Rel. Min. Ilmar Galvão, julgado em 02.12.1998). STF. ADI 2.304, Rel. Min. Dias Toffoli,Tribunal Pleno, julgado em 12.04.2018, DJe 03.05.2018. STF. ADI 5.277, Rel. Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 10.12.2020, DJe 25.03.2021. [...] já se acha assentado no STF o entendimento de ser legítima a disciplina de matéria de natureza tributária por meio de medida provisória, instrumento a que a Constituição confere força de lei (cf. ADI 1.417 MC). STF. ADI 1.667 MC, Rel. Min. Ilmar Galvão, Tribunal Pleno, julgado em 25.09.1997, DJ 21.11.1997. CTN. Artigo 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. [...] § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. Artigo 153. Compete à União instituir impostos sobre: I – importação de produtos estrangeiros; II – exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados; 12 13 14 15 16 17 III – renda e proventos de qualquer natureza; IV – produtos industrializados; V – operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; [...] § 1º É facultado ao Poder Executivo, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei, alterar as alíquotas dos impostos enumerados nos incisos I, II, IV e V. STF. ADI 3.984, Rel. Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgado em 30.08.2019, DJe 23.09.2019. TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional, Financeiro e Tributário. v. II. Valores e Princípios Constitucionais Tributários. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 333-5. A Lei 12.529/2011 estrutura o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência e dispõe sobre a prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica, orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de iniciativa, livre concorrência, função social da propriedade, defesa dos consumidores e repressão ao abuso do poder econômico. ÁVILA, Humberto. Teoria da Igualdade Tributária. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 99. BEVILACQUA, Lucas. Incentivos Fiscais de ICMS e desenvolvimento regional. São Paulo: Quartier Latin, 2013, p. 108. SCAFF, Fernando Facury. Efeitos da coisa julgada em matéria tributária e livre concorrência. Processo Tributário. BUISSA, Leonardo; BEVILACQUA, Lucas (coord.). Processo Tributário. Belo Horizonte: Fórum, 2019. Belo Horizonte: Fórum, 2019. p. 410. Disponível em: https://ibpt.com.br/quantidade-de-normas-editadas-no-brasil- 30-anos-da-constituicao--federal-de-1988. Acesso em: 1º out. 2022. Disponível em: https://portugues.doingbusiness.org/pt/reports/global- reports/doing-business-2020.Acesso em: 1º out. 2022. CONTI, José Maurício. Princípios tributários da capacidade contributiva e da progressividade. São Paulo: Dialética, 1996, p. 41. Artigo 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos: [...] § 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 https://ibpt.com.br/quantidade-de-normas-editadas-no-brasil-30-anos-da-constituicao--federal-de-1988 https://portugues.doingbusiness.org/pt/reports/global-reports/doing-business-2020.Acesso conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte. STF. ARE 1.190.716 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 25.102019, DJe 29.11.2019. STF. RE 562.045, Rel. p/ o ac. Min. Cármen Lúcia, voto do min. Eros Grau, Tribunal Pleno, julgado em 06.02.2013, DJe 27.11.2013, Tema 21. STF. RE 573.675, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, julgado em 25.03.2009, DJe de 22.05.2009, Tema 44. STF. RE 406.955 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 04.10.2011, DJe 21.10.2011. “É um princípio que, via de regra, não é formulado de modo expresso, seja especificamente para o Direito Tributário, seja genericamente para o Direito Constitucional. A fixação concreta desse limite encontra-se, às vezes, conectada à figura do salário mínimo. E, a despeito de que 11 dos 20 países da América Latina (55%) tratem, constitucionalmente, do salário mínimo, não se encontram, geralmente, maiores especificações no plano das Leis Magnas. No que diz respeito às suas finalidades, a Constituição da Costa Rica alude ao “… bienestar…” e a uma “… existencia digna” (artigo 57) e a do Brasil aponta o atendimento às “… necessidades vitais básicas…” do trabalhador e de sua família (artigo 7º, IV). No que tange à sua composição, os textos de El Salvador (artigo 38, 2) e de Honduras (artigo 128, 5) mencionam, genericamente, os índices “… costo de la vida…” e “… las necesidades normales de su hogar…”; o da Venezuela, um pouco menos genérico, refere “… el costo de la canasta básica” (artigo 91); e o do Brasil, mais específico, enumera quais as necessidades básicas que devem ser atendidas pelo salário mínimo, dando substância ao mínimo vital: “… moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social…” (artigo 7º, IV). Todavia, nenhum dos textos constitucionais investigados avança, no particular, até o campo tributário, o que, em rigor, não destoa do cenário constitucional mundial”. VIEIRA, José Roberto. Direito Constitucional Tributário Comparado Latino-Americano: uma perspectiva copernicana. Revista Direito Tributário Atual, v. 47, 2021. Disponível em: 28 29 30 31 32 https://ibdt.org.br/RDTA/direito-constitucional-tributario--comparado-latino- americano-uma-perspectiva-copernicana/. Acesso em: 1º out. 2022. Antes da EC 29/2000: “Artigo 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre: I – propriedade predial e territorial urbana; [...] § 1º – O imposto previsto no inciso I poderá ser progressivo, nos termos de lei municipal, de forma a assegurar o cumprimento da função social da propriedade”. Após a EC 29/2000: “Artigo 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre: I – propriedade predial e territorial urbana; [...] § 1º Sem prejuízo da progressividade no tempo a que se refere o artigo 182, § 4º, inciso II [que visa a cumprir com a função social das propriedades, conforme plano diretor], o imposto previsto no inciso I poderá: I – ser progressivo em razão do valor do imóvel; e II – ter alíquotas diferentes de acordo com a localização e o uso do imóvel” STF. RE 423.768, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 1º.12.2010, DJe 10.05.2011. Acórdão 2.956/2020, Tribunal Pleno, Processo: TC 023.578/2018-1. Sessão: 04.11.2020. Artigo 4º O Presidente da República deve encaminhar ao Congresso Nacional, em até 6 (seis) meses após a promulgação desta Emenda Constitucional, plano de redução gradual de incentivos e benefícios federais de natureza tributária, acompanhado das correspondentes proposições legislativas e das estimativas dos respectivos impactos orçamentários e financeiros. § 1º As proposições legislativas a que se refere o caput devem propiciar, em conjunto, redução do montante total dos incentivos e benefícios referidos no caput deste artigo: I – para o exercício em que forem encaminhadas, de pelo menos 10% (dez por cento), em termos anualizados, em relação aos incentivos e benefícios vigentes por ocasião da promulgação desta Emenda Constitucional; II – de modo que esse montante, no prazo de até 8 (oito) anos, não ultrapasse 2% (dois por cento) do produto interno bruto. 33 34 35 36 https://ibdt.org.br/RDTA/direito-constitucional-tributario--comparado-latino-americano-uma-perspectiva-copernicana/ STJ. REsp 1.725.452/RS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. p/ Acórdão Min. Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 08.06.2021, DJe 15.06.2021. RODRIGUES, Raphael Silva; MURICI, Gustavo Lanna. Limitações Constitucionais ao Poder de Tributar e sua Relação com a Proteção da Confiança Legítima, a Boa-fé e a Resistência à Tributação. In: SARAIVA FILHO, Oswaldo Othon de Pontes (coord.).Direitos Fundamentais dos Contribuintes: homenagem ao Jurista Gilmar Ferreira Mendes, São Paulo: Almedina, 2021, p. 808. STF. RE 646.313 AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Segunda Turma, j. 18.11.2014, DJe 10.12.2014. NOGUEIRA, Ruy Barbosa. Princípio da seletividade do tributo em função da essencialidade do produto. Revista dos Tribunais, Fascículo 1 – Cível, ano 79, v. 651, p. 10, jan. 1990, p. 7-15. CARVALHO, Paulo de Barros. IPI – Comentários sobre as regras gerais de interpretação da Tabela NBM/ SH (TIPI/TAB). Revista Dialética de Direito Tributário, n. 12. São Paulo: Dialética, set. 1996. p. 52. COSTA, Regina Helena. Curso de Direito Tributário. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. ESTURILIO, Regiane Binhara. A seletividade no IPI e no ICMS. São Paulo: Quartier Latin, 2008. SILVA, Lázaro Reis Pinheiro. ICMS seletivo e discricionariedade legislativa. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020, p. 160-161. O autor destaca sua posição de que a seletividade é um princípio constitucional especial ou setorial, apoiado na doutrina de Luís Roberto Barroso. BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2018. O conceito de benefício fiscal pode ser encontrado no artigo 14 da Lei Complementar 101/2000 – Lei de Responsabilidade Fiscal. STF. AI 729.667 AgR-AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, Segunda Turma, julgado em 25.08.2017, DJe 04.09.2017. CAVALCANTI. Eduardo Muniz Machado. Publicado no Portal Jota: https://www.jota.info/opiniao-e--analise/artigos/seletividade-tributaria- 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 https://www.jota.info/opiniao-e--analise/artigos/seletividade-tributaria-questoes-alem-do-desestimulo-ao-consumo-10032021 questoes-alem-do-desestimulo-ao-consumo-10032021. STF. ADI 939, Rel. Min. Sydney Sanches, Tribunal Pleno, julgado em 15.12.1993, DJ 18.03.1994. STF. RE 97.482, Rel. Min. Soares Munoz, Primeira Turma, julgado em 26.101982, DJ 17.12.1982. STF. RE 564.225 AgR, Rel. Min. Marco aurélio, Primeira Turma, julgado em 02.09.2014, DJe 18.11.2014. STF. ADI 4.016 MC, Rel. Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 1º.08.2008, DJe 24.04.2009. STF. ADI 1.005 MC, Rel. Min. Moreira Alves, Tribunal Pleno, julgado em 11.11.1994, DJ 19.05.1995. STF. RE 367.935 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 20.10.2009, DJe 20-11-2009. STF. RE 169.740, Rel. Min. Moreira Alves, Tribunal Pleno, julgado em 27.09.1995, DJ 17.11.1995. CTN. Artigo 116. Salvo disposição de lei em contrário, considera-se ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I – tratando-se de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II – tratando-se de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. STF. ARE 1.030.760 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, Segunda Turma, julgado em 21.08.2017, DJe 04.09.2017. A doutrina majoritária critica em essa conclusão por entender que esse entendimento viola o princípio que preserva os fatos geradores passados dos efeitos de lei que institui ou majora tributos. 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 https://www.jota.info/opiniao-e--analise/artigos/seletividade-tributaria-questoes-alem-do-desestimulo-ao-consumo-10032021 “Inaplicável o verbete sumular 584 do STF, erigido à luz da legislação anterior à atual Carta Magna, vigendo, desde então, os princípios da anterioridade e da irretroatividade da lei tributária. Precedentes do STJ: REsp 222.338/RS, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 1º.09.2005, DJ 03.10.2005; AgRg no Ag 420.635/SP, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 03.10.2002, DJ 28.10.2002; AgRg no REsp 111.745/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 07.05.2002, DJ 16.09.2002; e REsp 41.208/SP, Rel. Min. Adhemar Maciel, Segunda Turma, julgado em 04.12.1997, DJ 16.02.1998”(AgRg no Ag 1.363.478/MS, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 15.03.2011, DJe 25.03.2011). Artigo 144. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. § 1º Aplica-se ao lançamento a legislação que, posteriormente à ocorrência do fato gerador da obrigação, tenha instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito maiores garantias ou privilégios, exceto, neste último caso, para o efeito de atribuir responsabilidade tributária a terceiros. § 2º O disposto neste artigo não se aplica aos impostos lançados por períodos certos de tempo, desde que a respectiva lei fixe expressamente a data em que o fato gerador se considera ocorrido. STJ. REsp 1.039.364/ES, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 26.08.2008, DJe 16.09.2008. STF. RE 601.314, Rel. Min. Edson Fachin, Tribunal Pleno, julgado em 24.02.2016, DJe 16.09.2016, Tema 225. STF. ARE 712.285 AgR, voto do Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 23.04.2013, Segunda Turma, DJe 28.06.2013. STF. ADC 8 MC, Rel. Min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 13.10.1999, DJ 04.04.2003. STF. ARE 851.059 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 1º.03.2016, DJe 16.03.2016. 58 59 60 61 62 63 64 Falência. Multa fiscal de natureza moratória. Sua inexigibilidade, diante de abuso do poder fiscal e ocorrência, em razão da correção monetária, de bis in idem. Recurso extraordinário do estado não conhecido (STF. RE 80.093, Rel. Min. Bilac Pinto, Tribunal Pleno, julgado em 02.04.1975, DJ 07.10.1977.). AI 727.872 AgR, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 28.04.2015, DJe 18.05.2015. Acórdão 9101-005.012, julgado em 09.07.2020. Número do Processo 10665.001731/2010-92, Recurso Especial do Contribuinte, sessão em 1º.09.2020, Acórdão 9101-005.080. Artigo 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II – de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do artigo 8º da Lei 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; [...]. STF. ADI 1.075 MC, Rel. Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 17.06.1998, DJ 24.11.2006. STF. RE 523.471 AgR, Rel. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 06.04.2010, DJe 23.04.2010. STF. ARE 1.158.977 AgR, Rela. Min. Edson Fachin, Segunda Turma, julgado em 14.02.2020, DJe 28.02.2020. STF. ARE 966.484 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 09.08.2016, DJe-200 divulg 19-09-2016 public 20-09-2016. Vide exemplos das decisões proferidas no âmbito dos TRFs da 4ª e 5ª Regiões: “O princípio, segundo o qual é vedado ao Poder Público utilizar tributo com efeito de confisco, consubstanciado no artigo 150, inciso IV, da vigente Constituição Federal, pode ser aplicado à multa no sentido de evitar a 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 desproporcionalidade entre a infração e a falta, quando extrapolado o dimensionamento necessário ao desestímulo da inadimplência, gerando forte lesão ao direito do contribuinte, com correspondente enriquecimento sem causa da União. Precedente do STF (ADIn 1.075-DF, Rel. Min. Celso de Mello)” (TRF-4ª Região, AC 565.765, Rel. Juiz Luis Carlos de Castro Lugon, DJ 13.08.2003). “Tributário.Administrativo. Multa. Percentual de 300%. Respeito ao Princípio da Proporcionalidade. Pronunciamento do E. STF. ADIN 1075/DF. – No âmbito administrativo, mais especificamente no exercício do poder de polícia, deve ser levado em consideração o princípio da proporcionalidade, cabendo ao Fisco quando da fixação das sanções, dosá-las de forma que não se apresentem como verdadeiro confisco. – O E. STF, no julgamento preliminar da ADIN 1075/DF, suspendeu, com eficácia ex nunc, até o julgamento final, a execução e a aplicabilidade do artigo 3º e seu parágrafo único da Lei 8846/94, que previa a aplicação de multa pecuniária no valor de trezentos por cento sobre o valor do bem, objeto da operação ou do serviço prestado, para o contribuinte que não houver emitido a nota fiscal, recibo, ou documento equivalente. – Remessa oficial improvida” (TRF-5ª Região, MS 2001.83.00.0158724, Rel. Juiz Ivan Lira de Carvalho, DJ 31.10.2002). TJGO, Arguição de Inconstitucionalidade de Lei 64753-86.2013.8.09.0000, Rel. Des. Beatriz Figueiredo Franco, Corte Especial, julgado em 11.09.2013, DJe 27.09.2013. STF. RE 239.964, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 15.04.2003, Primeira Turma, DJ 09.05.2003; AI 755.741 AgR, Rel. Min. Cezar Peluso, j ulgado em 29.09.2009, Segunda Turma, DJe 29.10.2009. STF. RE 582.461, Rel. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 18.05.2011, Repercussão Geral – DJe 18.08.2011. STF. AI 727.872 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 28.04.2015, DJe 18.05.2015. STF. RE 606.010, Rel. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 12.11.2020, DJe 13-11-2020. STF. ADI 4.628, Rel. Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgado em 17.09.2014, DJe 24.11.2014. 75 76 77 78 79 80 STF. ADI 800, Rel. Min. Teori Zavascki, Tribunal Pleno, julgado em 11.06.2014, DJe 1º.07.2014. A Constituição, na parte final do artigo 151, I, admite a “concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferentes regiões do país”. A concessão de isenção é ato discricionário, por meio do qual o Poder Executivo, fundado em juízo de conveniência e oportunidade, implementa suas políticas fiscais e econômicas, e, portanto, a análise de seu mérito escapa ao controle do Poder Judiciário. Precedentes: RE 149.659 e AI 138.344 AgR. Não é possível ao Poder Judiciário estender isenção a contribuintes não contemplados pela lei, a título de isonomia (RE 159.026). STF. RE 344.331, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 11.02.2003, Primeira Turma, DJ 14.03.2003. TORRES, Ricardo Lobo. Curso de Direito Financeiro e tributário. Rio de janeiro: Renovar, 2009, p. 310. Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior; [...] § 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: [...] X – não incidirá: a) sobre operações que destinem mercadorias para o exterior, nem sobre serviços prestados a destinatários no exterior, assegurada a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto cobrado nas operações e prestações anteriores;). STF. RE 229.096, Rel. p/ o ac. Min. Cármen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em 16.08.2007, DJe 11.04.2008. STF. AI 235.708 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 24.08.2010, Segunda Turma, DJe 17.09.2010. Vide STF. RE 543.943 AgR, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 30.11.2010, Segunda Turma, DJe 15.02.2011. STF. ADI 1.600, Rel. Min. Sydney Sanches, Rel. p/ Acórdão Min. Nelson Jobim, Tribunal Pleno, julgado em 26.11.2001, DJ 20.06.2003. SRF. RE 543.943 AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Segunda Turma, julgado em 30.11.2010, DJe 15.02.2011. CF, inciso VIII, artigo 84. 81 82 83 84 85 86 87 88 Artigo 98 do CTN. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. Cabe lembrar que alguns doutrinadores entendem que somente configura imunidade o postulado que tenha por escopo a proteção de direito fundamental, caso contrário, trata-se de mera regra de não incidência. STF. RE 636.941, Rel. Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgado em 13.02.2014, DJe 04.04.2014. Artigo 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: [...] § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. STF. RE 385.091, Rel. Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 06.08.2013, DJe 18.10.2013. Artigo 14. O disposto na alínea c do inciso IV do artigo 9º é subordinado à observância dos seguintes requisitos pelas entidades nele referidas: I – não distribuírem qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas, a qualquer título; II – aplicarem integralmente, no País, os seus recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais; III – manterem escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão. § 1º Na falta de cumprimento do disposto neste artigo, ou no § 1º do artigo 9º, a autoridade competente pode suspender a aplicação do benefício. § 2º Os serviços a que se refere a alínea c do inciso IV do artigo 9º são exclusivamente, os diretamente relacionados com os objetivos institucionais das entidades de que trata este artigo, previstos nos respectivos estatutos ou atos constitutivos. STF. ADI 4.480, Órgão julgador: Tribunal Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 27.03.2020, DJe 15.04.2020. 89 90 91 92 93 94 95 Tese de Repercussão Geral: RE 566.622 – Os requisitos para o gozo de imunidade hão de estar previstos em lei complementar. Precedente da tese: Recurso Extraordinário 566.622, Rel. Min. Marco Aurélio, Acórdão da Repercussão Geral, Acórdão do Mérito julgado em 23.02.2017, DJe 23.08.2017. STF. RE 608.872, Rel. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 23.02.2017, DJe 27.09.2017. STF. RE 210.251 EDv, Rel. Ellen Gracie, Rel. p/ acórdão Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 26.02.2003, DJ 28.11.2003. STF. RE 611.510, Rel. Rosa Weber, Tribunal Pleno, julgado em 13.04.2021, DJe 07.05.2021. STF. RE 399.307 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 16.03.2010, DJe 30.04.2010. Artigo 9º É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] IV – cobrar imposto sobre: a) o patrimônio, a renda ou os serviços uns dos outros; STF. ACO 811 AgR-segundo, Rel. Min. Rosa Weber, Primeira Turma, julgado em 21.06.2016, DJe 22.09.2016. STF. ACO 2.179 TA-AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 19.08.2015, DJe 09.03.2016. STF. RE 399.307 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 16.03.2010, DJe 30.04.2010. STF. ACO 2.243 AgR-segundo, Rel. Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 17.03.2016, DJe 27.05.2016. STF. ARE 763.000 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 19.08.2014, DJe 30.09.2014. STF. RE 253.472, Rel. Min. Marco Aurélio, Rel. Acórdão Min. Joaquim Barbosa, Tribunal Pleno, julgado em 25.08.2010, DJe 01-02-2011. STF. RE 918.700-AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, DJe 23.06.2020; ARE 1.173.440-AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia, Segunda Turma, DJe 16.08.2019; ACO 2.149-AgR, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 19.10.2017; ACO 2.304-AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, DJe 96 97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 17.08.2018; RE 1.040.268-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Segunda Turma, DJe 13.06.2018; RE 897.104-AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, Primeira Turma, DJe 11.12.2017; RE 1.003.246-AgR, Rel. Min. Celso de Mello, Segunda Turma, DJe 28.03.2017; ARE 944.558-AgR, Rel. Min. Rosa Weber, Primeira Turma, DJe 20.09.2016; RE773.131-AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia, Segunda Turma, DJe 0702.2014. STF. RE 601.720, Rel. Min. Edson Fachin, Rel. p/ acórdão Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 19.04.2017, DJe 05.09.2017. STF. RE 285.716 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 02.03.2010, DJe public 26.03.2010. STF. ADI 3.089, Rel. Min. Carlos Britto, Rel. p/ acórdão Min. Joaquim Barbosa, Tribunal Pleno, julgado em 13.02.2008, DJe 1º.08.2008. Entre outros, AI 518325 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 06.04.2010, DJe 30.04.2010. AI 518405 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado em 06.04.2010, DJe 30-04-2010. Tese definida no RE 439.796, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Tribunal Pleno, julgado em 06.11.2013, DJe 17.03.2014. STF. RE 594.015, Rel. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 06.04.2017, DJe 25.08.2017. STF. RE 601.720, Rel. Edson Fachin, Rel. p/ acórdão Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 19.04.2017, DJe 05.09.2017. STF, RE 562.351, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 04.09.2012, DJ 14.12.2012. Vide também: O STF consolidou o entendimento de que não cabe à entidade religiosa demonstrar que utiliza o bem de acordo com suas finalidades institucionais. Ao contrário, compete à administração tributária demonstrar a eventual tredestinação do bem gravado pela imunidade. STF. ARE 800.395 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 28.10.2014, Primeira Turma, DJe 14.11.2014. STF. RE 630.790, Rel. Roberto Barroso, Tribunal Pleno, julgado em 21.03.2022, DJe 29.03.2022. 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 Aplica-se à espécie o mesmo § 4º do artigo 150 que orienta a imunidade religiosa. As entidades beneficentes de assistência social também são imunes da incidência de contribuições para a seguridade social, por força do artigo 195, § 7º, da CF. Devem ser fechadas e mantidas somente pelo empregador. STF. RE 636941, Rel. Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgado em 13.02.2014, DJe 04.04.2014. STF. ADI 4.480, Rel. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 27.03.2020, DJe 15.04.2020. STF. ARE 760.876 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 04.02.2014, DJe 02.04.2014. STF. AI 740.563 AgR, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 02.04.2013, DJe 25.04.2013. Que incide em razão de características de bens ou coisas. STF. RE 221.239, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 25.05.2004, Segunda Turma, DJ 06.08.2004. Vide também RE 179.893, Rel. Min. Menezes Direito, julgado em 15.04.2008, Primeira Turma, DJe 30.05.2008. STF. RE 213.094, Rel. Min. Ilmar Galvão, julgado em 03.08.1999, Primeira Turma, DJ 15.10.1999. STF. RE 230.782, Rel. Min. Ilmar Galvão, julgado em 13.06.2000, Primeira Turma, DJ 10.11.2000. Vide também RE 434.826 AgR, Rel. p/ o ac. Min. Celso de Mello, julgado em 19.11.2013, Segunda Turma, DJe 12.12.2013. STF. RE 202.149, Rel. Min. Menezes Direito, Rel. p/ acórdão Min. Marco Aurélio, Primeira Turma, julgado em 26.04.2011, DJe11.10.2011. STF. RE 475.798 AgR, Rel. Min. Marco Aurélio, Primeira Turma, julgado em 15.05.2018, DJe 06.08.2018. STF. RE 330.817, Rel. Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 08.03.2017, DJe 31.08.2017. 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 Capítulo � NORMAS TRIBUTÁRIAS O ordenamento jurídico tributário é composto por uma diversidade de atos normativos, fontes formais primárias e secundárias do Direito Tributário, tal como estabelece o artigo 96 do CTN: Artigo 96. A expressão “legislação tributária” compreende as leis, os tratados e as convenções internacionais, os decretos e as normas complementares que versem, no todo ou em parte, sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes. Três importantes premissas podem ser extraídas desse dispositivo. A primeira delas é que a referência ao termo legislação tributária representa uma relação não taxativa de atos normativos que podem dispor sobre tributos e obrigação tributária. O que vai ditar a pertinência de cada um deles será a adequação do veículo normativo ao seu objeto, a observância das regras de competência e a relação de dependência que determinadas matérias têm em relação ao conteúdo que veiculam, tanto em face da ordem constitucional para as fontes primárias, quanto, no caso das fontes secundárias, em relação à lei em sentido amplo com a qual se relaciona. A segunda observação importante é que, embora não estabeleça um rol taxativo de atos normativos, o atributo de legislação tributária somente recai sobre os atos normativos de caráter genérico e abstrato, do qual são excluídas obrigações tributárias e medidas administrativas de fiscalização aplicáveis ao caso concreto, tal como um lançamento tributário ou uma autuação de infração à norma tributária. Por fim, essa relação extensa exige a distinção entre as expressões “legislação tributária” e “lei tributária” como mecanismo de compreensão e aplicação das normas gerais tributárias, em especial aquelas estabelecidas pelo Código Tributário Nacional. A legislação tributária tem conceito mais amplo que congrega a lei em sentido formal e em sentido amplo (fontes primárias), mas também os atos normativos complementares (fonte secundárias) que são materialmente considerados, mas não são lei em sentido formal, embora adicionem explicação e detalhamento às leis, viabilizando sua aplicação e contribuindo para sua efetividade. A lei tributária é complementada por atos normativos que compõem esse conceito maior de “legislação tributária” feito pelo CTN, mas a lei, ao contrário dos atos infralegais, comporta maiores atributos porque decorre dos requisitos inerentes ao processo legislativo, o que a credencia a dispor sobre determinados temas, inaugurando, extinguindo ou estabelecendo premissas, direitos e obrigações fundamentais ao Direito Tributário. Isso acontece sobretudo em razão do princípio da legalidade, uma das condicionantes do poder de tributar atribuído ao Estado, na medida em que a participação do Poder Legislativo, por meio de representantes eleitos, em ação coordenada com anseios e necessidades financeiras sempre ilimitadas do Poder Executivo, confere maior segurança jurídica ao sistema tributário. Essa conjugação, decorrente da democracia representativa a partir do processo de debate e construção da norma, pretende proporcionar, entre outras coisas, que as soluções adotadas sejam mais perenes e considerem todos os fatores sociais e de poder que giram em torno das questões tributárias. Além disso, ficam mitigadas as margens de discricionariedade do poder público no tratamento de temas sensíveis à ordem econômica e ao direito de propriedade do particular. LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA ≠ LEI TRIBUTÁRIA A expressão “legislação tributária” abrange todos os tipos de atos normativos de caráter genérico e abstrato (fontes formais primárias e secundárias), entre os quais está a “lei tributária”, referência normativa ao ato normativo com força de lei, que resulta de processo legislativo (fonte formal primária). O STJ tem entendimento de que o artigo 96, conjugado com o inciso I do artigo 100 do CTN permite compreender que a expressão “legislação tributária” encarta as normas complementares no sentido de que outras normas jurídicas também podem versar sobre tributos e relações jurídicas a esses pertinentes. Assim, segundo mencionado artigo 100, I, do CTN, integram a classe das normas complementares os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas – espécies jurídicas de caráter secundário – cujo objetivo precípuo é a explicitação e complementação da norma legal de caráter primário, estando sua validade e eficácia estritamente vinculadas aos limites por ela impostos. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A análise conjunta dos arts. 96 e 100, I, do Códex Tributário, permite depreender-se que a expressão “legislação tributária” encarta as normas complementares no sentido de que outras normas jurídicas também podem versar sobre tributos e relações jurídicas a esses pertinentes. Assim, consoante mencionado artigo 100,I, do CTN, integram a classe das normas complementares os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas – espécies jurídicas de caráter secundário – cujo objetivo precípuo é a explicitação e complementação da norma legal de caráter primário, estando sua validade e eficácia estritamente vinculadas aos limites por ela impostos .1 �.� FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO As fontes do Direito Tributário são as referências de origem, das quais emanam as regras jurídicas tributárias, tanto aquelas abstratamente previstas quanto os elementos jurídicos e fáticos necessários à sua produção e aplicação na vida em sociedade. Pode-se assim dizer que são fontes do Direito Tributário a forma, o conteúdo, a extensão e a regra de aplicação da norma jurídica que trata dos mecanismos e dos limites de interferência do Estado sobre o direito de propriedade do particular. O arcabouço normativo tributário agrega toda a previsão dos elementos que dão ensejo à incidência do tributo, o que envolve a consumação do fato gerador, a forma de apuração do crédito e as regras de identificação de quem está sujeito à cobrança. Assim também o são os fatos jurídicos eleitos para a definição das hipóteses abstratas de que resultam as normas hierarquicamente organizadas e que incidirão sobre a concretização da circunstância prevista, às quais são atribuídos efeitos jurídicos. Essa compreensão mais ampla envolve os meios legítimos de produção das normas, por órgãos e agentes, as formas por meio das quais são elaboradas as normas, as circunstâncias fáticas que são adotadas como objeto da norma jurídica e a projeção dessa norma sobre os sujeitos, tanto em alcance como em perspectiva. Trata-se de ampla rede de conexões que pode ser dividida em dois grandes grupos, fontes materiais e fontes formais. As fontes materiais são fatos ou situações que atraem a aplicação do Direito, o que, para o Direito Tributário, são circunstâncias concretas no mundo dos fatos que envolvem bens e pessoas sob o espectro de abrangência da norma tributária e fazendo incidir a tributação ou a aplicação de uma penalidade tributária. São acontecimentos reais, de caráter social ou natural, previamente determinados pela norma tributária em abstrato, descrições hipotéticas que compõem o conteúdo do sistema normativo. A percepção de renda, o patrimônio e a transferência de propriedade, por exemplo, dão ensejo à tributação porque assim foram eleitos como circunstância que produz efeitos jurídicos, assim denominados fatos tributáveis ou pressupostos/elementos/ requisitos fáticos de incidência tributária ou fatos imponíveis. As fontes materiais resultam do contexto sociológico, histórico, político e econômico que compõem a realidade social de poderosa interferência na sistematização do Direito. Daí se falar nas fontes da Ciência do Direito que permitem estabelecer um recorte de compreensão por meio de outros prismas científicos, tais como da História, da Sociologia, da Economia, da Antropologia ou da Ciência Política. Essa perspectiva permite uma compreensão mais ampla do Direito como fator de integração do coletivo e de solução dos impasses decorrentes do atributo conferido ao Estado de poder intervir sobre direitos particulares em favor da sociedade, alcançando o direito de propriedade a partir de certos limites e em prol de determinadas finalidades. A partir desses pontos de partida, é possível compreender a origem das normas jurídicas e definir seus exatos contornos para a tributação, determinando sua finalidade e atribuindo-lhe a melhor interpretação. Já as fontes formais são os atos normativos que estabelecem abstratamente a forma de incidência do sistema tributário sobre as pessoas e suas relações patrimoniais, além de estabelecer os mecanismos de constituição, controle e cobrança do crédito tributário. Paulo de Barros Carvalho denomina de “instrumentos introdutórios de normas” as formas hierarquicamente organizadas por meio das quais são dispostos os textos normativos. Cuida-se, portanto, de todo o arcabouço jurídico que resulta da vontade do legislador e consiste na forma como se 2 manifesta esse ramo do Direito, daí por que veiculam de modo sistemático os limites de atuação do Estado quando concretizado determinado fato social que pode dar ensejo à tributação. As fontes formais do Direito Tributário brasileiro podem ser estruturadas a partir de duas perspectivas, no plano federativo e a partir da hierarquia das normas. No plano federativo, o ordenamento jurídico apresenta as dimensões de normas nacionais, federais, estaduais/distritais e municipais, o que se define pelo espectro de abrangência territorial da norma, dentro das regras de competências política, legislativa e tributária. Já sobre a perspectiva de hierarquia, as fontes formais de legislação tributária dividem-se em primárias ou principais e secundárias ou complementares. As fontes formais primárias são aquelas de hierarquia superior, que têm a força de lei na medida em que observam um rito elaborado de produção, tipicamente atrelado ao processo legislativo, e irradiam conteúdo autonomamente vinculante sob o ponto de vista normativo, não dependendo de qualquer outra fonte formal para estabelecer deveres ou direitos, desde que observada a ordem constitucional vigente. Segundo o artigo 59 da CF, o processo legislativo compreende a elaboração de emendas à Constituição, leis complementares, leis ordinárias, leis delegadas, medidas provisórias, decretos legislativos e resoluções. O que confere peso às fontes primárias é justamente o processo de elaboração ao qual estão submetidas e que legitimam o peso de juridicidade suficiente para inovar o ordenamento jurídico e dispor sobre os tributos e as relações jurídico-tributárias decorrentes de sua instituição, tomando a Constituição Federal como fundamento direto de validade. Já as fontes formais secundárias são os denominados atos normativos infralegais, que complementam os atos normativos com força de lei e, no – seu aspecto formal, denotam maior simplicidade porque requerem os procedimentos próprios do processo legislativo. Sob o ponto de vista material, as fontes secundárias não alteram a estrutura das disposições legislativas e sim se subordinam a elas, que determinam os limites de atuação, inclusive no que se referem aos critérios de competência da autoridade que a elabora e a abrangência do seu conteúdo. Os tipos normativos secundários encontram seu fundamento de validade na norma da qual derivam e à qual estão adstritos materialmente, daí por que denominadas normas complementares. As fontes secundárias ou derivadas não têm o condão de determinar condutas e impor obrigações se não atreladas a uma lei que lhe confira substrato jurídico-normativo, daí por que se diz normas complementares, que não inovam, mas agregam ao ordenamento, vinculadas aos limites já estabelecidos por lei (fonte primária). São secundários os atos instrumentais e regulamentares que esmiúçam os instrumentos necessários e viabilizam a consecução da finalidade da lei, elucidando e complementando suas disposições sem inovar no mundo jurídico, tais como os decretos regulamentares, as normas complementares (portarias, resoluções e instruções), além de decisões dos órgãos administrativos singulares ou coletivos aos quais de atribuam eficácia normativa. Tanto a organização da legislação tributária de competência orquestrada entre os entes federativos quanto a estratificação entre as normas primárias e secundárias estão previstas nos arts. 1º e 2º do CTN , cabendo ressaltar que a referência à EC 18/ 1995 deve ser compreendida como menção à própria Constituição Federal de 1988. Assim temos, em síntese: As fontes do Direito Tributário são classificadas em: materiais – circunstâncias concretas; ou 3 – – – formais – atos normativos As fontes formais do Direito Tributário podem ser: primárias – que têm força de lei, com fundamento de validade na Constituição Federal; secundárias – atos normativos infralegais, que têm fundamento de validade nalei sobre a qual dispõem. Embora não sejam fontes formais, a doutrina e a jurisprudência têm papel de extrema relevância na aplicação do Direito Tributário e podem ser consagradas como fontes impróprias. Dois fatores têm erigido as decisões judiciais como fonte do Direito Tributário, em particular o excesso de normas fiscais no ambiente federativo (União, estados, municípios e Distrito Federal) e a qualidade das correspondentes normas em matéria tributária, que exigem, muitas vezes, a provocação do Poder Judiciário. Na medida em que a qualidade das normas piora, as decisões judiciais, sobretudo dos Tribunais Superiores, ganham espaço e transformam-se em uma das principais fontes do Direito Tributário. A respeito do assunto, valiosas são as palavras do Professor Fernando Aurelio Zilveti ao mencionar que: “Essa patologia sistêmica merece ser observada e evitada. O Legislador precisa, então, ganhar o respeito do contribuinte na sua tarefa parlamentar, ganho proporcional ao acerto das decisões legislativas. Hoje reina a desconfiança. Os alicerces da Justiça fiscal acompanham o trabalho legislativo”. Não se pode negar, neste contexto, a relevância dos precedentes judiciais, em matéria tributária, especialmente nos últimos anos, turbinada em certa medida por alterações no CPC/73 e, sobretudo, com o advento do CPC/2015 ao pretender construir e conferir o prestígio desejado às decisões dos Tribunais Superiores, pela via do recurso representativo de 4 5 controvérsia no âmbito do STJ, e por meio da repercussão geral, enunciados e súmulas vinculantes proferidos pelo STF. A legislação constitucional e processual ambiciona conformar a cultura dos precedentes ao sistema jurisdicional, permitindo aos jurisdicionados um grau relevante de estabilidade, integridade e coerência do repertório de jurisprudência. Essas características, quando preservadas, elevam a fonte material do Direito como matiz fundamental de um Estado Democrático de Direito, revelando na segurança jurídica um dos pilares mais elementares de uma sociedade civilizada. �.�.� Fontes formais primárias do direito tributário – lei tributária Como já dito, o princípio da legalidade é uma das mais relevantes normas constitucionais que orientam o Direito Tributário, consagrada pontualmente pelo artigo 150, inciso I, da CF, como uma vedação a que União, estados, Distrito Federal e municípios exijam ou aumentem tributo sem lei que o estabeleça. E aqui o termo “lei” revela o veículo formal de disposições normativas que se conjuga com o princípio da segurança jurídica, densificado pelo princípio da tipicidade, da legalidade estrita ou da tipicidade fechada ou regrada, por meio dos quais são definidos temas que taxativamente devem ser tratados sob esse formato normativo. São tipos de lei em sentido amplo emendas constitucionais, leis ordinárias, leis complementares, leis delegadas, medidas provisórias, decretos legislativos, resoluções do Senado e os convênios de ICMS firmados do âmbito do CONFAZ. Notadamente, cada um desses veículos normativos tem suas características próprias de elaboração e, algumas vezes, objetos determinados, mas comungam igualmente da característica de derivarem formalmente de processo legislativo e materialmente da Constituição Federal, extraindo dela seu fundamento primeiro de validade. A União, os estados, o Distrito Federal e os municípios comungam competência legislativa concorrente para legislar sobre Direito Tributário, nos termos do artigo 24, I, da CF. Correspondente à esfera de competência tributária de cada entende há a competência legislativa para dispor sobre as leis de instituição e cobrança do respectivo crédito, observadas as especificidades constitucionais para casa espécie de tributo. A União concentra a competência para dispor sobre as normas gerais (artigo 24, § 1º, CF) – na maioria dos casos pela forma de lei complementar, �.�.�.� ante o tratamento constitucional conferido ao Direito Tributário – o que, na sua falta, atrai a competência legislativa suplementar dos estados e do DF para atender suas peculiaridades até que sobrevenha lei federal nesse sentido (artigo 24, § 3º, CF), o que suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário (artigo 24, § 4º, CF). Na ausência de normas gerais no âmbito nacional e estadual, a competência legislativa dos municípios está adstrita aos assuntos de interesse local (artigo 30, I, CF) e a legislação decorrente dessa circunstância deve observar a restrição de objeto e, por isso, não configura exercício de competência suplementar. Normas constitucionais e emendas constitucionais As normas constitucionais são fontes formais de hierarquia superior e de conteúdo político, que veiculam regras estruturantes e orientam a forma como todo o sistema tributário nacional deve ser organizado e efetivamente conduzido. A Constituição Federal de 1988 dispõe sobre as linhas matrizes do sistema tributário nacional, das quais merecem destaques três pilares: os limites ao poder de tributar do Estado, as competências tributárias dos entes federados e a repartição de receitas tributárias. As normas constitucionais são, em verdade, o grande norte do ordenamento jurídico-tributário por se tratar de direito público que tem como característica a atuação do Estado e, portanto, deve ter estreita relação com as regras maiores que orientam a Administração Pública. Além disso, as obrigações tributárias e todo o sistema que se forma em torno dela representam uma interferência direta sobre a esfera de direitos privados do indivíduo, o que atrai normas e institutos constitucionais de proteção do indivíduo contra do abuso de poder estatal. O Sistema Tributário Nacional tem tratamento específico pela Constituição Federal de 1988, nos arts. 145 a 162, que dispõem sobre princípios gerais e as espécies de tributos, mas cujas disposições traçam três grandes pilares do Direito Tributário Nacional: os limites ao poder de tributar do Estado, as competências tributárias dos entes federados e a repartição de receitas tributárias. O texto constitucional não cria tributos, mas tão somente prevê as espécies tributárias que podem ser instituídas pelos entes federados, consagrando os elementos da regra de incidência, mas delegando à produção legislativa no âmbito do exercício da competência tributária o ato de instituição da exação. Naturalmente, a dinâmica social gera demandas de alteração das disposições constitucionais, o que só pode ser levado a efeito por meio de emendas à Constituição Federal que resultam de processo legislativo específico e condicionado a requisitos formais específicos de proposição, tramitação e aprovação conferidos ao poder constituinte derivado reformador . Mesmo as emendas constitucionais contam com limites materiais ou substanciais que restringem o rol de matérias e institutos que podem ser objeto de alteração constitucional. As denominadas cláusulas pétreas consistem em um núcleo duro e inalterável da Constituição Federal composto por regras constitucionais que, embora possam ser tangenciadas, não podem ter alteradas suas características básicas e seu núcleo essencial. Em matéria de Direito Tributário, são limitações expressas ao poder reformador da Constituição as regras de imunidade e de anterioridade tributária, assim como os direitos e as garantias fundamentais dos indivíduos que devem orientar a atividade fiscal do Estado, a constituição e a cobrança do crédito tributário. As Constituições Estaduais e a Lei Orgânica do Distrito Federal, embora estados e DF contem com o atributo constitucional de autonomia e auto-organização, devem exercer o poder constituinte derivado decorrente dentro dos contornos conferidos pela Constituição Federal de 1988 . No que 6 7 �.�.�.� diz respeito às disposições locais de natureza tributária, as constituições locais devem observância a disposições constitucionais que em muito restringem a margem de inovações no campo das relações jurídico- tributárias. Os limites constitucionais ao poder de tributar, além das possibilidadesde tributação já definidas pela Constituição Federal e a normas de alta relevância que também orientam o sistema tributário nacional, tais como o pacto federativo, o princípio da isonomia e do devido processo legal, são regras de observância obrigatória, informadoras de limites precisos de atuação dos entes federados. Lei ordinária A lei ordinária, ou somente a denominada lei, é o ato normativo que resulta de processo legislativo específico, observadas as regras de iniciativa, exigida a aprovação parlamentar por maioria simples ou relativa, ou seja, a proposta deve receber voto favorável da maioria dos membros presentes na sessão legislativa. Cuida-se do veículo mais usual introdutor de normas federais, estaduais e municipais, que exprime o meio ordinário com que é atendido o princípio da legalidade formal de que tratam os arts. 150 da CF e 97 do CTN. Considerando que a Constituição não institui tributos, mas somente os prevê e estabelece competências tributárias, a lei ordinária é a via normativa básica de instituição e majoração dos tributos. O objeto central das leis tributárias em sentido estrito está determinado, a princípio, pela reserva e taxatividade dos aspectos específicos e de maior relevância para a segurança jurídica do sistema tributário, tal como se infere do seu artigo 97: Artigo 97. Somente a lei pode estabelecer: I – a instituição de tributos, ou a sua extinção; II – a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III – a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV – a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; V – a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI – as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. § 1º Equipara-se à majoração do tributo a modificação da sua base de cálculo, que importe em torná-lo mais oneroso. § 2º Não constitui majoração de tributo, para os fins do disposto no inciso II deste artigo, a atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo. As disposições que implicam cobrança de tributo devem ser estabelecidas por lei em sentido estrito, no que se inserem fundamentos sobre os elementos ou os requisitos essenciais da incidência da norma tributária (fato gerador, sujeição passiva, alíquota, base de cálculo), além de penalidades tributárias e de condições de exigência do crédito tributário. No mesmo sentido das regras que orientam as cobranças, também devem ser submetidos ao crivo do Poder Legislativo os mecanismos de isenção, benefícios tributários, prescrição e decadência do crédito tributário. Toda a atuação do Estado em matéria tributária deve decorrer da lei, de um fundamento normativo que observe os ditames constitucionais e disponha sobre a legitimidade dos atos, os exatos contornos do alcance da atividade fiscal e promova o necessário equilíbrio entre o poder-dever de tributar com os interesses privados que também devem ser protegidos pelo ordenamento jurídico. O estudo mais detido do ordenamento, como já sinaliza o próprio artigo 97 do CTN, permite compreender que essa regra geral comporta diversas exceções e exige uma interpretação mais cautelosa da abrangência e contundência do princípio da reserva legal. Se de um lado a necessidade de lei em sentido estrito tende a favorecer a segurança jurídica, como já dito, de outro, as práticas de mercado e as questões de ordem econômica e política impõem um dinamismo que o processo legislativo por vezes não consegue acompanhar. A legalidade estrita vai sendo moldada para se chegar a um ponto de convergência entre os fatores de poder, as necessidades de controle e respostas mais imediatas que não estão diretamente ligadas à tributação, tal como ocorre com a parafiscalidade. Além disso, algumas questões de ordem prática ou mesmo jurídica que tangenciam os temas restritos à lei formal são tratadas pontualmente para se enquadrarem ou serem excluídas da regra geral, como nos casos em que são impostas obrigações acessórias. Outro exemplo dessa equação é a atualização monetária da base de cálculo do imposto, que não configura aumento de tributo, cujos índices podem não ser definidos pela lei, mas por decreto do Poder Executivo, desde que observado exclusivamente o critério da perda inflacionária dos valores. No ponto, merecem registro os limites dessas medidas à finalidade estrita de preservação do critério quantitativo da incidência tributária, tal como orienta a Súmula 160 do STJ . Por isso, o tema é um terreno fértil para os debates acadêmicos, jurisprudenciais e legiferantes. SÚMULA RELACIONADA 8 Súmula 160 do STJ: É defeso, ao município, atualizar o IPTU, mediante decreto, em percentual superior ao índice oficial de correção monetária. Daí por que também é importante saber identificar as circunstâncias fáticas que dão ensejo ao surgimento da obrigação tributária, ou seja, o fato gerador, a sujeição passiva e as regras de solidariedade e responsabilidade pelo crédito tributário, além dos elementos quantitativos de apuração do quanto é devido (alíquota e base de cálculo). Outro assunto que está reservado à lei é a previsão de penalidade a serem aplicadas em face do cometimento de infrações à norma tributária. A imputação de multas e restrições pela prática de atos comissivos ou omissivos de descumprimento de obrigação tributária deve ser prevista pela via de lei tributária. Na maioria das vezes, a penalidade se opera pela aplicação de multa pecuniária que configura obrigação principal diversa do pagamento do tributo devido , mas também podem ser determinadas restrições no exercício de uma atividade ou consumação de uma operação. Também devem receber tratamento por lei as regras de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário, porque são institutos jurídicos que estão diretamente ligados à existência da obrigação tributária e que tem repercussões de efeitos práticos que se contrapõem aos efeitos do lançamento e da constituição definitiva do débito. Cada uma dessas consequências jurídicas diz respeito diretamente à projeção da obrigação tributária no mundo jurídico e interfere na pretensão do fisco em face de determinado crédito tributário, o que requer segurança jurídica no tratamento desses temas e atrai a necessidade de lei formal para estabelecer os requisitos autorizadores de tais medidas. A utilização da lei ordinária como regra para as hipóteses especificadas somente é afastada quando excepcionado o princípio da legalidade estrita ou autorizada disposição nesse sentido na forma de medida provisória, lei 9 �.�.�.� delegada ou se atribuído exclusivamente à lei complementar dispor sobre determinado tema. Lei complementar A lei complementar é uma espécie de lei em sentido formal, ato normativo cuja edição e objeto têm tratamento específico conferido pela ordem constitucional, o que lhe confere maior peso na ordem jurídica, tanto no que diz respeito aos temas por elas dispostos quanto pelo maior grau de estabilidade política necessária para sua edição. O processo legislativo das leis complementares é caracterizado pela aprovação qualificada de maioria absoluta, ou seja, a proposição depende do voto favorável de mais da metade (mínimo de metade mais um) dos membros que compõem a casa legislativa competente para o processo legislativo. REGRAS DE APROVAÇÃO Lei ordinária Maioria simples Metade mais um dos presentes na sessão Lei complementar Maioria absoluta Metade mais um dos membros da casa A Constituição Federal define, expressamente, as normas que devem ser reguladas por lei complementar, do que se infere que essa forma de legislação complementa ou regulamenta o texto constitucional, sobretudo em questões de alto grau de repercussão e que exigem um maior amadurecimento do seu conteúdo,o que se entendeu refletir pelo maior consenso necessário à sua aprovação. A forma de lei complementar é, portanto, excepcional e está vinculada para o tratamento de determinado grupo de matéria, ao passo que as leis a) b) c) ordinárias são utilizadas de forma subsidiária. Isso não confere superioridade hierárquica em relação à lei ordinária quando se toma por referência as normas constitucionais, estando ambas as espécies situadas no mesmo nível normativo infraconstitucional. Já a análise da hierarquia no plano infraconstitucional é alvo de intensos debates no campo da doutrina. Uma parte defende que suas características são meras especificidades, e outra que as leis ordinárias são hierarquicamente inferiores às complementares. O argumento de superioridade das leis complementares decorre do rol taxativo de matérias que somente podem ser tratadas por essa via normativa e da necessidade de quórum especial, o que significa um maior rigor formal para sua aprovação. Ainda que não se reconheça que tais diferenças impõem uma hierarquia sobre as leis ordinárias, é importante lembrar que as leis complementares que regulam temas a ela reservados por determinação da Constituição Federal só podem ser revogadas ou alteradas pela mesma via legislativa. Ao passo que as matérias que porventura sejam dispostas em lei complementar sem essa exigência constitucional podem ter suas disposições posteriormente alteradas por lei ordinária. Em matéria tributária, a Constituição Federal elegeu alguns temas a serem tratados por lei complementar, do que se destacam: dispor sobre conflitos de competência entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios (artigo 146, I, CF) ; regular limitações constitucionais ao poder de tributar (artigo 146, II, CF), sem alterar os contornos definidos pelo texto constitucional; estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: delimitação de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e 10 d) – – – • • • • • • • e) contribuintes; obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários; adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas; e definição do tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas de pequeno porte, inclusive regimes especiais ou simplificados no caso do imposto de ICMS, das contribuições previdenciárias (do artigo 195, I e §§ 12 e 13, CF) e da contribuição ao PIS (artigo 146, III, CF); instituir um regime único de arrecadação dos impostos e contribuições da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, observadas determinadas condições estabelecidas pelo texto constitucional (artigo 146, parágrafo único, CF); O artigo 146 da CF reserva à lei complementar: resolver conflitos de competência; regular limitações constitucionais ao poder de tributar; normas gerais tributárias: definição e espécies de tributos; fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes dos impostos; obrigação tributária; lançamento e crédito tributário; prescrição e decadência; tratamento ao ato cooperativo das sociedades cooperativas; tratamento diferenciado a microempresas e empresas de pequeno porte; estabelecer critérios especiais de tributação, com o objetivo de prevenir desequilíbrios da concorrência (artigo 146-A, CF); – – – – f) g) h) i) – – – – j) – A CF reserva à lei complementar estabelecer os seguintes sistemas de regimes e tratamentos: tratamento adequado ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas (artigo 146, III, c, CF); tratamento diferenciado a microempresas e empresas de pequeno porte (artigo 146, III, d, CF); regime único de arrecadação dos impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (artigo 146, parágrafo único, CF); critérios especiais de tributação, com o objetivo de prevenir desequilíbrios da concorrência (artigo 146-A CF). empréstimo compulsório (artigo 148, CF); contribuições sociais residuais (artigo 149, CF); imposto sobre grandes fortunas (artigo 153, VII, CF); impostos residuais (artigo 154, I, CF); A CF reserva à lei complementar a instituição, a definição dos elementos da regra tributária e de majoração de: empréstimo compulsório (artigo 148, CF); contribuições sociais residuais (artigo 149, CF); imposto sobre grandes fortunas (artigo 153, VII, CF); impostos residuais (artigo 154, I, CF). fixar os critérios de competência do ITCD (artigo 155, § 1º, III, CF); Quanto ao ITCD, a CF reserva à lei complementar: instituir o imposto conforme os critérios de competência definidos na Constituição (artigo 155, § 1º, CF). k) – – – – – – – – – l) quanto ao ICMS: definir seus contribuintes; dispor sobre substituição tributária; disciplinar o regime de compensação, fixar o local das operações para efeito de cobrança e responsabilidade tributária; excluir da incidência do imposto, nas exportações para o exterior, serviços e produtos, além dos mencionados no inciso X, a, do artigo 155, da CF; prever casos de manutenção de crédito, relativamente à remessa para outro estado e exportação para o exterior, de serviços e de mercadorias; regular a forma como, mediante deliberação dos estados e do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados; e definir os combustíveis e lubrificantes sobre os quais o imposto incidirá uma única vez, qualquer que seja a sua finalidade (artigo 155, § 2º, XII); e fixar a base de cálculo, de modo que o montante do imposto a integre; Quanto ao ICMS, a CF reserva à lei complementar: contribuintes; substituição tributária; regime de compensação; local da operação para fins de cobrança e responsabilidade; exclusão da incidência exportações; manutenção de créditos; a forma com que Estado e DF devem deliberar para concessão e revogação de isenções, incentivos e benefícios fiscais; combustíveis e lubrificantes sujeitos ao regime monofásico; base de cálculo que o integre. quanto ao ISS: fixar as suas alíquotas máximas e mínimas; excluir da sua incidência exportações de serviços para o exterior; regular – – – m) n) – a forma e as condições como isenções, incentivos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados (artigo 156, § 3º, CF); Quanto ao ISS, a CF reserva à lei complementar: alíquotas máximas e mínimas; exclusão da incidência exportações para o exterior; regular forma e condições para isenções, incentivos e benefícios. contribuições sociais residuais (artigo 195, § 4º, CF); fixar o montante máximo para concessão de remissão ou anistia das contribuições sociais devidas pelo empregador sobre a folha de pagamento e pelo trabalhador (195, §11, CF); Quanto às contribuições sociais, a CF reserva à lei complementar fixar o montante máximo para concessão de remissão ou anistia das contribuições sociais do empregador sobre a folha de pagamento e do trabalhador (195, § 11, CF). A União, os estados, o Distrito Federal e os municípios compartilham de competência legislativa concorrente para legislar sobre Direito Tributário, nos termos do artigo 24, I, da CF. Correspondente à esfera de competência tributária de cada ente há a competência legislativa para dispor sobre as leis de instituição e cobrança do respectivo crédito. Mas só a União tem competência para dispor sobre as normas gerais (artigo 24, § 1º, CF) – na maioria dos casos pela forma de lei complementar, em face das disposições constitucionais que regem o tema – o que, na sua falta, viabiliza a competência legislativa dos estados e do DF para atender às suas peculiaridades (artigo 24, § 3º, CF), até que sobrevenha lei federal nesse sentido, o que suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário (artigo 24, § 4º, CF). �.�.�.� O Código Tributário Nacional, instituído pela Lei 5.172/1966, estabelece as normas gerais do sistema tributário nacional por lei ordinária federal editada sob ordem constitucional quenão previa a modalidade de lei complementar com os contornos formais e substanciais tal como atualmente adotado. Não obstante isso, o CTN vem absorvendo as alterações sofridas pelo ordenamento jurídico e foi sucessivamente recepcionado pela Constituição de 1988 , que lhe conferiu status e eficácia de lei complementar, fazendo com que suas disposições somente possam ser alteradas pelo advento de lei complementar que observe o processo legislativo vigente. Lei delegada A lei delegada é uma espécie de ato normativo excepcionalmente editado pelo Poder Executivo mediante autorização específica do Poder Legislativo. Para tanto, nos termos do artigo 68 da CF, o Presidente da República deve solicitar a delegação ao Congresso Nacional, que a expede por meio de resolução que detalha o conteúdo e os termos da competência delegada (artigo 68, § 2º, CF). Caso assim entenda, o Congresso Nacional pode, alternativamente, determinar, também por resolução, que seja apresentado projeto de lei, que será apreciado em votação única, vedada qualquer emenda (artigo 68, § 3º, CF). Cabe ressaltar que tanto a edição da lei delegada em si como a tramitação excepcional da proposição de que trata o artigo 68, § 3º, CF, cuidam da edição de lei em sentido formal, fonte primária do direito. Essa alteração do fluxo ordinário de proposição normativa consiste em notória delegação de função típica do Poder Legislativo ao Poder Executivo ou, ao menos, na simplificação do processo legislativo regular de elaboração da lei ordinária, o que somente é possível por expressa autorização constitucional. 11 De outro modo, não há espaço na ordem constitucional para que o chefe do Poder Executivo edite lei à revelia do processo legislativo ou mesmo publique decreto que disponha ou regulamente matéria que deva ser tratada por lei sem sentido formal, haja vista o decreto ser um ato regulamentador e derivado de determinada lei. As únicas possibilidades de normatização pela via do decreto que excepcionam essa regra estão estabelecidas pelo artigo 84, VI, da CF, de seguinte teor: Artigo 84. Compete privativamente ao Presidente da República: [...] VI – dispor, mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos; b) extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos; A lei delegada, portanto, é um ato normativo de limites definidos sobre seu aspecto material, mas que, em regra, pode disciplinar as matérias reservadas à lei em sentido formal. Seus limites materiais estão dispostos pelo artigo 68, § 1º, da CF, dos quais se infere que, em matéria tributária, não serão delegados os atos normativos de competência exclusiva do Congresso Nacional, os de competência privativa da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal e as matérias reservadas à lei complementar, essas detalhadas no tópico anterior. Na prática, a lei delegada é um instituto em desuso, sobretudo porque o Presidente da República dispõe da possibilidade de edição de medida provisória, que não depende de autorização do Poder Legislativo e, embora conte com requisitos que lhe são próprios, confere uma ampla margem de inovação no ordenamento jurídico. Mesmo porque, como já dito, além do – – – �.�.�.� próprio ato de autorização do Congresso Nacional para edição da lei delegada, a resolução que defere o pedido pode veicular restrições específicas de ordem material para o caso concreto. No âmbito do Direito Tributário, não podem ser objeto de lei delegada: matéria reservada à lei complementar; atos de competência exclusiva do Congresso Nacional; atos de competência privativa da Câmara do Deputados ou do Senado Federal Medida provisória Regulada pelo artigo 62 da CF, a medida provisória é um ato normativo excepcional e temporário sobre determinado assunto, que tem força de lei e resulta de competência constitucional atribuída ao Presidente da República . As medidas provisórias são marcadas por forte caráter discricionário e político, uma vez que representam a determinação de uma disposição normativa pelo Poder Executivo, em subversão ao processo legislativo ordinário que precede a vigência de uma lei e, mesmo assim, gerando todos os seus efeitos jurídicos imediatos. O que deve respaldar tal força impositiva são os pressupostos materiais de relevância e urgência, mas, inegavelmente, perpassam um caráter de discricionariedade do Chefe do Poder Executivo em lançar mão dessa medida. Já quanto à possibilidade de edição de MP no âmbito estadual, distrital ou municipal, de se registrar que a Constituição Federal reservou aos estados a competência que não lhes seja vedada (artigo 25, § 1º, CF) e, de fato, não há vedação constitucional nesse sentido. 12 a) A Constituição ou a Lei Orgânica local pode autorizar expressamente a medida, desde que consagrados os limites formais e materiais estabelecidos pela Constituição Federal, em observância ao princípio da simetria . Note- se, portanto, que não se trata de uma norma de reprodução obrigatória pelo poder constituinte derivado decorrente. No campo do Direito Tributário, por muito tempo, o manejo das medidas provisórias foi alvo de debate pela doutrina, considerando a natureza das relações jurídico-tributárias e as circunstâncias restritivas em que se pode inferir, a princípio, o caráter de relevância e urgência. À primeira vista, os critérios de relevância e urgência encontrariam ressonância no ordenamento jurídico tributário nas situações hipotéticas de tributação excepcional que exprimem um caráter de emergência, tal como a instituição do imposto extraordinário na iminência ou caso de guerra (artigo 154, II, CF) e o empréstimo compulsório de calamidade pública e guerra externa (148, I, CF), exigida lei complementar para esse último. Não obstante isso, o Supremo Tribunal Federal firmou posicionamento no sentido de que a Constituição Federal autorizava a instituição e a modificação de tributos pela via da medida provisória, porque dotada de força de lei, desde que cumpridos os requisitos constitucionais . Essa questão, pontualmente, foi suplantada com o advento da EC 32, de 2001, que passou a prever limites mais claros, os quais podem ser assim relacionados: a medida provisória é instrumento normativo apto a dispor sobre matéria tributária, desde que não seja reservado à lei complementar fazê-lo (artigo 62, § 1º, III, CF). Significa dizer que tal via legislativa não é admitida para o tratamento de normas gerais tributárias ou qualquer das matérias que compõem a relação do item anterior (sobre Lei Complementar) ; 13 14 15 b) c) não obstante, excluídas as matérias reservadas à lei complementar, desde que configuradas relevância e urgência, podem ser objeto dessa via normativa excepcional as disposições tributárias, tais como a extinção de tributos e a cominação de penalidades tributárias, assim como outras matérias que só podem ser estabelecidas por lei em sentido estrito, de que tratam o artigo 97 do CTN: Artigo 97. Somente a lei pode estabelecer: I – a instituição de tributos, ou a sua extinção; II – a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III – a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV – a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; V – a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI – as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. podem ser instituídos e majorados por MP impostos não reservados à lei complementar, só produzindo seus efeitos no exercício financeiro seguinte, se houver sido convertida em lei até o último dia daquele em que for editada, regra que não se aplica ao II, IE, IPI, IOF e imposto extraordinário de guerra (artigo154, II, CF); d) – – – – – – na ausência de previsão constitucional expressa sobre as demais hipóteses tributárias, compreende-se que, para os casos de instituição ou majoração de tributos diversos de imposto que não sejam reservados à lei complementar, o início da vigência está sujeito às regras de anterioridade a partir da edição e da publicação da própria medida provisória. Termo inicial de contagem da anterioridade para medida provisória que institui ou majora tributos: impostos – conversão da MP em lei; outros tributos – publicação da MP. Desde que configuradas relevância e urgência, a MP pode tratar de matérias reservadas à lei em sentido estrito relacionadas no artigo 97 do CTN, como, por exemplo: extinguir tributos; instituir ou majorar impostos não reservados à lei complementar; fixar alíquota e base de cálculo de tributo; cominar penalidades. Também ajuda a compor os limites materiais estabelecidos pelo artigo 246 da CF, que retira do espectro de atuação do Poder Executivo via MP a regulamentação de artigo da Constituição cuja redação tenha sido alterada por meio de emenda promulgada entre 1º de janeiro de 1995 e 11 de setembro de 2001, data da promulgação da EC 32/2001, que confere redação a esse artigo. Em síntese, excluídas as temáticas relativas à extinta CPMF, estão vigentes e sujeitos à regulamentação disposições sobre contribuição ao regime de previdência social instituídas pela EC 20, de 1998; a progressividade do IPTU de que trata o artigo 156, § 1º, da CF), nos termos da EC 29, de 2000, e questões relativas ao Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza, instituído pela EC 31, de 2000 (arts. 79 a 81 do ADCT). DICAS PRÁTICAS A possibilidade de medida provisória dispor sobre matéria tributária deve considerar que, embora configuradas a relevância e a urgência, é vedado tratar de matéria reservada à lei complementar e regulamentar matérias versadas pelas emendas constitucionais promulgadas entre 01/01/1995 e 11/09/2001. Diante do caráter político e discricionário da medida provisória, um ponto sensível em torno dela é a margem de intervenção do Poder Judiciário no controle do cumprimento dos seus requisitos circunstanciais. Se de um lado o Poder Executivo pode optar por lançar mão da MP para impulsionar determinadas medidas que julgue socialmente relevantes e prementes, seja sob o ponto de vista emergencial ou estratégico, de outro cuida-se de um campo de vasta abstração ao examinar referidos conceitos e que dão margem a atuações invasivas das funções típicas dos poderes e que podem gerar instabilidade institucional de alta relevância. O papel de legislar é ampliado de modo significativo com a possibilidade constitucional de edição das medidas provisórias, ainda que se possa considerar a atuação posterior do Poder Legislativo, sobretudo porque, ainda que não seja convertida em lei, suas disposições, em regra, geram efeitos imediatos e repercutem nas relações jurídicas que se estabelecem sob sua vigência . O alcance do Poder Legislativo sobre a edição de uma medida provisória está expressamente disposto pelo que estabelecem os §§ 3º a 9º do artigo 62 da CF. Já o controle judicial sobre essa produção legislativa 16 está reservado à uma atuação excepcional do Poder Judiciário diante de flagrante abuso do poder de legislar . O Supremo Tribunal Federal reconhece a possibilidade de análise dos requisitos constitucionais para edição de medida provisória, ainda que após sua conversão em lei, ante o caráter híbrido da norma, considerando que os vícios de que padece a MP contaminam a lei de que resulta, salvo, segundo o próprio STF, se os vícios da medida provisória dizem respeito a aspectos formais. O que não prejudica ante a conversão da medida provisória em lei pelo Congresso Nacional é o debate jurisdicional acerca da “relevância e urgência” dessa espécie de ato normativo. As razões dessa intervenção excepcional, quando se verifica abuso da competência normativa extraordinária pela ausência dos requisitos constitucionais, estão bem delineadas no voto do Ministro Celso de Mello, relator da ADI 2.213-MC , ao consignar: a possibilidade de controle jurisdicional, mesmo sendo excepcional, apoia-se na necessidade de impedir que o Presidente da República, ao editar medidas provisórias, incida em excesso de poder ou em situação de manifesto abuso institucional, pois o sistema de limitação de poderes não permite que práticas governamentais abusivas venham a prevalecer sobre os postulados constitucionais que informam a concepção democrática de Poder e de Estado, especialmente naquelas hipóteses em que se registrar o exercício anômalo e arbitrário das funções estatais. Com a redação conferida pela EC 32, de 2001, a validade da medida provisória é de 60 dias de sua publicação (contagem suspensa nos períodos de recesso do Congresso Nacional), quando perde sua eficácia desde a sua 17 18 19 20 edição, caso já não tenha sido rejeitada ou não seja convertida em lei dentro desse prazo, que é prorrogável uma única vez. A perda de eficácia também pode ser denominada de rejeição tácita. Uma importante observação deve ser feita, sobretudo porque tem grande relevância em matéria tributária. Segundo o STF, a medida provisória não revoga lei anterior, mas apenas suspende seus efeitos no ordenamento jurídico, em face do seu caráter transitório e precário. Assim, aprovada a medida provisória pela Câmara e pelo Senado, surge nova lei, a qual terá o efeito de revogar lei antecedente. Todavia, caso a medida provisória seja rejeitada (expressa ou tacitamente), a lei primeira vigente no ordenamento, e que estava suspensa, volta a ter eficácia. Enquanto a prorrogação da MP se opera automaticamente na hipótese de não ser encerrada a votação nas duas Casas do Congresso Nacional (artigo 62, § 7º, CF), sua reedição é vedada (artigo 62, § 10, CF). Significa dizer que não pode ser publicada nova medida provisória na mesma sessão legislativa que disponha da mesma forma sobre o mesmo objeto daquela que tenha sido rejeitada expressa ou tacitamente (perda de eficácia pelo decurso do prazo). O frequente uso de medidas provisórias sucessivamente por Presidentes da República, apropriando-se muitas vezes do poder legiferante conferido ordinariamente ao Congresso Nacional, e ao Chefe do Executivo apenas em caráter excepcional, sempre despertou preocupações jurídicas porque distorce o sistema jurídico e estabelece uma animosidade institucional entre os Poderes Executivo e Legislativo, e, não raras vezes, desafia engendramentos sórdidos para aprovações legislativas. Além disso, quando ausentes os requisitos de relevância e urgência, ocorre um grave atentado ao equilíbrio que deve existir entre os Poderes da República, fragilizando o clássico sistema de checks and balances. Daí resulta a interferência do Poder Judiciário nesta “disputa” institucional de modo a restabelecer as regras do jogo constitucional. 21 �.�.�.� JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA A crescente apropriação institucional do poder de legislar, por parte dos sucessivos presidentes da República, tem despertado graves preocupações de ordem jurídica, em razão do fato de a utilização excessiva das medidas provisórias causar profundas distorções que se projetam no plano das relações políticas entre os Poderes Executivo e Legislativo. Nada pode justificar a utilização abusiva de medidas provisórias, sob pena de o Executivo, quando ausentes razões constitucionais de urgência, necessidade e relevância material, investir-se, ilegitimamente, na mais relevante função institucional que pertence ao Congresso Nacional, vindo a converter-se, no âmbito da comunidade estatal, em instância hegemônica de poder, afetando, desse modo, com grave prejuízo para o regime das liberdades públicas e sérios reflexos sobre o sistema de checks and balances, a relação de equilíbrio que necessariamente deve existir entre os Poderes da República. Cabe ao Poder Judiciário, no desempenho das funções que lhe são inerentes, impedir que o exercício compulsivo da competênciaextraordinária de editar medida provisória culmine por introduzir, no processo institucional brasileiro, em matéria legislativa, verdadeiro cesarismo governamental, provocando, assim, graves distorções no modelo político e gerando sérias disfunções comprometedoras da integridade do princípio constitucional da separação de poderes. Decreto legislativo O decreto legislativo é um ato normativo que decorre do exercício da competência constitucional atribuída exclusivamente ao Congresso Nacional e que tem força de lei, apesar de não ter seu conteúdo submetido ao crivo (à sanção) do Poder Executivo. Os papéis de maior destaque para os decretos legislativos no âmbito do Direito Tributário são a introdução dos tratados e convenções internacionais no ordenamento jurídico nacional e a recepção em âmbito local dos convênios firmados pelos estados da 22 federação, dos quais se destacam aqueles firmados no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ). Essa via normativa ganha destaque, à luz do princípio da legalidade, como uma roupagem a decisões político-jurídicas cujas repercussões tributárias exigem, para sua regular aplicação e imperatividade, o atendimento ao princípio da legalidade, sobretudo quando seu objeto está relacionado no artigo 97 do CTN. Tanto os convênios interestaduais quanto os ajustes internacionais são desprovidos da força vinculante interna, genérica e abstrata suficiente para submeter o contribuinte ao poder estatal que impõe tributos ou comina penalidades tributárias. Essa condição resta suprida pelo processo de internalização à ordem normativa que culmina na edição e na promulgação do decreto legislativo pelo Chefe do Poder Legislativo da respectiva unidade federativa, mediante aprovação por maioria simples dos membros da Casa Legislativa competente. A denominação decreto aqui utilizada não tem relação com o ato normativo secundário de regulamentação de lei, nem mesmo se equivale ao ato autônomo conferido ao Chefe do Poder Executivo para dispor sobre determinadas matérias. O decreto legislativo é uma fonte formal primária do Direito Tributário, que integra o rol de atos normativos decorrente do processo legislativo de que trata o artigo 59, VI, da CF. Embora não veicule diretamente disposições normativas a serem observadas, constituem um instrumento normativo que confere efeito cogente a disposições, além de integrado ao ordenamento jurídico que compõe. Outro papel de destaque do decreto legislativo nas relações jurídico- tributárias reside na regulamentação das relações afetadas pelas disposições de medida provisória que tenha sido rejeitada ou simplesmente perdido sua eficácia, nos termos dos §§ 3º e 11 do artigo 62 da CF: �.�.�.� Artigo 62 [...] § 3º As medidas provisórias, ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12 perderão eficácia, desde a edição, se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias, prorrogável, nos termos do § 7º, uma vez por igual período, devendo o Congresso Nacional disciplinar, por decreto legislativo, as relações jurídicas delas decorrentes. [...] § 11. Não editado o decreto legislativo a que se refere o § 3º até sessenta dias após a rejeição ou perda de eficácia de medida provisória, as relações jurídicas constituídas e decorrentes de atos praticados durante sua vigência conservar-se-ão por ela regidas. (Incluído pela EC 32, de 2001) Compete ao Poder Legislativo orientar as situações jurídicas geradas ou modificadas pela vigência de uma medida provisória e que remanescem não resolvidas ante os efeitos retroativos decorrentes da frustração do processo legislativo de sua aprovação. Essa via, quando tentada, é uma atribuição de difícil êxito em função de uma grande variedade de situações concretas e de múltiplos resultados que dificultam a identificação de caminhos suficientes. Na prática, acabam ficando lacunas ou controvérsias que precisam ser levadas à solução pelo Poder Judiciário. Resolução Assim como o decreto legislativo, a resolução é também um ato normativo próprio do Poder Legislativo, imbuído de força de lei, que não está condicionado à aprovação (sanção) do Chefe do Poder Executivo e que se perfaz pela aprovação de maioria simples dos membros da casa legislativa competente. A Constituição Federal atribui competência privativa ou exclusiva ao Congresso Nacional , ou a uma de usas casas, Câmara dos Deputados ou23 24 Senado Federal , para a prática de determinados atos que são formalizados pela forma de resoluções. Sobre atos que tangenciam questões de natureza tributária, o texto constitucional atribui competências específicas ao Congresso Nacional e ao Senado Federal. Ao Congresso Nacional é estipulada expressamente a competência para, na forma de resolução, delegar competência legislativa ao Poder Executivo para edição de lei delegada que, como já tratado, pode dispor sobre relações jurídico-tributárias, observados os limites materiais que são próprios dos contornos constitucionais desse instituto (artigo 68, CF). Essa resolução do Congresso, quando autoriza expressamente essa via legislativa excepcional, deve especificar o conteúdo e os termos do exercício dessa delegação ou, ainda, pode veicular uma simplificação do processo legislativo, conduzido pelo Congresso Nacional, determinando que o projeto de lei proposto seja apreciado em votação única, vedada qualquer emenda. Já ao Senado Federal são atribuídos importantes atos normativos, na prática, nem tão excepcionais, que interferem de forma mais direta e ordinária no ordenamento jurídico tributário. Uma medida que tangencia e que pode interferir nas normas tributárias: compete ao Senado Federal suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal (artigo 52, X, CF). Mais especificamente sobre as obrigações tributárias, o Senado Federal concentra o poder de determinar parâmetros uniformes a serem seguidos em todo o território nacional na definição de elementos da hipótese de incidência de tributos de competência de estados, de municípios e do Distrito Federal. Tal medida tem por desígnio mitigar as práticas prejudiciais decorrentes da guerra fiscal, por meio da qual os entes federados utilizam 25 de sua competência tributária para travar uma disputa entre si, na tentativa de atrair maiores níveis de arrecadação tributária ou de resultados indiretos de ordem social e econômica. No detalhamento dessas resoluções, cumpre chamar atenção a uma variedade de matérias, mas também de contextos em que se dá cada hipótese de competência, o que se passa a detalhar. Nesse sentido, compete ao Senado Federal: Primeira hipótese: “fixar alíquotas máximas do ITCD, como dispõe o artigo 155, I e § 1º, da CF: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: I – transmissão causa mortis e doação, de quaisquer bens ou direitos; [...] § 1º O imposto previsto no inciso I: [...] IV – terá suas alíquotas máximas fixadas pelo Senado Federal;” A hipótese trata de competência impositiva estabelecida pela Constituição Federal sem critérios específicos de iniciativa ou aprovação mínima, do que se dessume a necessidade de deliberação pela tomada de maioria dos votos favoráveis, presente a maioria absoluta dos senadores. Segunda hipótese: “compete exclusivamente ao Senado Federal estabelecer as alíquotas aplicáveis ao ICMS nas operações interestaduais e de exportação, nos termos do artigo 155, II, § 2º, IV da CF: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior; [...] § 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: [...] IV – resolução do Senado Federal, de iniciativa do Presidente da República ou de um terço dos Senadores, aprovada pela maioria absoluta de seus membros, estabelecerá as alíquotas aplicáveis àsoperações e prestações, interestaduais e de exportação; A resolução dependerá de iniciativa do Presidente da República ou de 1/3 dos senadores e deve ser aprovada por maioria absoluta dos senadores, o que, no entanto, não pode ser considerada uma atuação facultativa. Apresentada a proposta ao Senado Federal, é obrigatório o exercício dessa competência. Não obstante isso, deve-se atentar ao fato de que, embora não tenha sido alterado o texto constitucional no ponto, a definição de alíquotas de ICMS sobre operações ou serviços de exportação perdeu sua razão de ser com o advento da EC 42, de 2013, que estabeleceu regra de imunidade de ICMS para todas as exportações, ampliando a desoneração antes somente conferida aos produtos industrializados, excluídos ainda alguns semielaborados. Essa discrepância entre prática e teoria não pode escapar, tendo em vista a vigência simultânea de dois dispositivos conflitantes somente nos seus efeitos práticos. Terceira hipótese: “é facultado ao Senado Federal estabelecer alíquotas internas mínimas de ICMS, consoante o artigo 155, II, § 2º, IV, a, da CF: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior; [...] § 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: [...] V – é facultado ao Senado Federal: a) estabelecer alíquotas mínimas nas operações internas, mediante resolução de iniciativa de um terço e aprovada pela maioria absoluta de seus membros; Nesse caso, trata-se de uma competência não impositiva que, para ser exercida, depende de iniciativa de 1/3 dos Senadores e deve ser aprovada por maioria absoluta daquela casa legislativa. Quarta hipótese: “é facultado ao Senado Federal estabelecer alíquotas internas máximas de ICMS, na forma do disposto no artigo 155, II, § 2º, V, b, da CF: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior; [...] § 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: [...] V – é facultado ao Senado Federal: [...] b) fixar alíquotas máximas nas mesmas operações para resolver conflito específico que envolva interesse de Estados, mediante resolução de iniciativa da maioria absoluta e aprovada por dois terços de seus membros; As alíquotas internas mínimas e máximas de ICMS podem ser fixadas por resolução do Senado. Contudo, devem ser observadas as diferenças entre os processos legislativos necessários à edição desses dois atos. Enquanto a determinação de alíquotas internas exige iniciativa de 1/3 dos senadores e aprovação por maioria absoluta, as alíquotas externas, também sem configurar uma obrigatoriedade, só podem ser fixadas para resolver conflito específico, o que exige iniciativa da maioria absoluta dos membros dos senadores e a aprovação por 2/3 deles. Quinta hipótese: “fixar alíquotas mínimas de IPVA, conforme o artigo 155, III e § 6º, I, da CF: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] III – propriedade de veículos automotores. [...] § 6º O imposto previsto no inciso III: I – terá alíquotas mínimas fixadas pelo Senado Federal; A instituição de IPVA pelos estados e pelo Distrito Federal está adstrita a patamar mínimo de alíquota estabelecido pelo Senado Federal, o que visa minimizar práticas competitivas para atração de licenciamentos entes unidades vizinhas. Na ausência de previsão específica, o processo legislativo deve observar as regras ordinárias de iniciativa e para sua aprovação, a deliberação deve atingir a maioria dos votos, presente a maioria absoluta de seus membros (artigo 47, CF). Diante desse apanhado, as resoluções do Senado Federal expressamente previstas pela Constituição Federal sobre matéria tributária podem ser assim sintetizadas: MATÉRIAS TRIBUTÁRIAS PASSÍVEIS DE RESOLUÇÃO DO SENADO FEDERAL �.�.�.� TRIBUTO ELEMENTO INICIATIVA APROVAÇÃO COMPETÊNCIA ITCD Alíquotas máximas Não restrita Maioria Simples Obrigatória ICMS Alíquotas interestaduais e de exportação Pres. da República ou 1/3 dos senadores Maioria absoluta Obrigatória Alíquotas mínimas internas 1/3 dos senadores Maioria Absoluta Facultativa Alíquotas máximas internas (solução de conflito específico) Maioria absoluta 2/3 dos Senadores Facultativa IPVA Alíquotas mínimas Não restrita Maioria Simples Obrigatória Tratados e convenções internacionais Os tratados e as convenções internacionais são fontes principais materiais do Direito Tributário quando suas disposições afetam as relações tributárias no âmbito interno nacional, desde que sejam firmados pelo Presidente da República e referendados pelo Congresso Nacional. A atuação do Presidente da República decorre da competência privativa que lhe é conferida pelo artigo 84, VIII, da CF, enquanto a anuência do parlamento é materializada pela edição de decreto legislativo, nos termos do artigo 49, I, da CF. Contudo, o processo necessário à efetiva produção de efeitos no ordenamento jurídico positivo nacional depende do (a) (b) (c) (d) ciclo de transposição de um tratado nacional ao direito interno, composto por atos de caráter político-jurídico, assim detalhado pela Suprema Corte : celebração do ajuste no plano internacional pelo Presidente da República ou seu representante; aprovação por decreto legislativo, pelo Congresso Nacional, ato normativo que, ao tempo que homologa/referenda o ato internacional, autoriza o Chefe do Poder Executivo a concretizar a internalização definitiva dos seus termos; ratificação por depósito/troca desses atos internacionais, pelo Presidente da República, sendo que há troca de instrumento do caso de acordos bilaterais ou depósito na hipótese de acordos multilaterais, o que representa o compromisso de efetiva observâncias aos termos ajustados; promulgação por decreto de tais acordos ou tratados, pelo Presidente da República, ato normativo que viabiliza e instrumentaliza a produção dos seus efeitos básicos, essencial à sua vigência doméstica, pela (c.1) publicação oficial do texto do tratado e (c.2) executoriedade do ato de direito internacional público. CICLO DE INTERNALIZAÇÃO DOS ACORDOS INTERNACIONAIS ASSINATURA HOMOLOGAÇÃO RATIFICAÇÃO PROMULGAÇÃO A aplicabilidade do que dispõem as convenções internacionais no direito interno depende do cumprimento de todas essas etapas, considerando que a Constituição Federal não confere efeito direto nem aplicabilidade imediata a tais ajustes, razão por que, sem tais condições, não têm vigência 26 automática nem podem gerar direitos e obrigações ou serem invocadas por particulares no plano doméstico. Um dos temas que ganhou espaço na discussão a respeito do assunto foi a possibilidade de prisão do depositário infiel, previsto em nosso ordenamento jurídico. A Convenção Americana sobre Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário, no artigo 7º, § 7º, vedou a prisão civil do depositário infiel, ressalvada a hipótese do devedor de alimentos. Contudo, a jurisprudência pátria sempre se direcionou no sentido da constitucionalidade do artigo 5º, LXVII, da CF, o qual prevê expressamente a prisão do depositário infiel. Este entendimento deve-se ao fato de que referido tratado internacional ter ingressado no ordenamento jurídico na qualidade de norma infraconstitucional. Só com a edição da EC 45/2004 acrescentou-se ao artigo 5º da CF/1988 o § 3º, dispondo que “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. Com isso, estabeleceu-se novo modelo para os acordos internacionaisrelativos a direitos humanos em território nacional. Embora antes da EC 45/2004, a respeito das assinaturas do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa Rica, ambos do ano de 1992, entendeu o STF como sendo ilegal a prisão civil do depositário infiel, fundamentado no caráter especial desses diplomas internacionais sobre direitos humanos, reservando-lhes um espaço específico no ordenamento jurídico brasileiro, abaixo da Constituição, porém acima da legislação infraconstitucional relativamente aos dispositivos conflitantes, anterior ou posterior ao ato de ratificação. O julgamento pelo STF revelou27 a edição da Súmula Vinculante 25: “É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade do depósito”. Para os fins do presente estudo, não se verifica distinção semântica significativa entre as expressões “tratados” e “convenções”, bastando sejam compreendidas como um ajuste de vontades firmado entre o Brasil e um ou mais estados ou organismos internacionais, devidamente revestidos de legitimidade e representados por agente competente, inserido no âmbito do direito internacional e cujos efeitos jurídicos afetam as obrigações tributárias de competência da atividade fiscal nacional. É comum que os ajustes internacionais dessa natureza tenham por objeto questões relativas à bitributação por dois países distintos, a incidência de tributos que têm reflexo sobre operações comerciais (tais como II, IE, ICMS e ISS) ou a circulação de renda com a finalidade de impedir evasão fiscal e, ainda, podem retratar o objetivo de estreitamento cultural entre as nações. Relativamente à atuação do Presidente da República sobre questões que afetam as diversas competências tributárias delineadas pela legislação interna, importante registrar a distinção jurídica reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal entre Estado Federal Brasileiro e União. O Estado Federal Brasileiro retrata a comunidade jurídica total do país, que detém o monopólio da personalidade internacional, e a União, pessoa jurídica de direito público interno, expressa uma comunidade parcial de caráter interno . Enquanto a União tem por competência tributária reger os tributos federais, o Estado Brasileiro representa os interesses nacionais relativos à matéria. Portanto, é munido de sua função de Chefe de Estado, e não de Chefe de Governos, que o Presidente representa o Brasil como signatário de tratado ou acordo internacional, o que lhe autoriza a dispor sobre isenção de impostos estaduais , tal como o ICMS, ou municipais , a exemplo do ISS. 28 29 30 31 Tal possibilidade é viável, sem que se configure isenção heterônoma, benefício instituído pela União relativo à incidência de impostos que são da competência tributária dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios, o que é vedado pela ordem constitucional (artigo 151, II, CF). Esse é o entendimento pacífico do STF sobre a questão: A isenção de tributos estaduais prevista no Acordo Geral de Tarifas e Comércio para as mercadorias importadas dos países signatários quando o similar nacional tiver o mesmo benefício foi recepcionada pela Constituição da República de 1988. 3. No direito internacional apenas a República Federativa do Brasil tem competência para firmar tratados (artigo 52, § 2º, da Constituição da República), dela não dispondo a União, os Estados-membros ou os Municípios. O Presidente da República não subscreve tratados como Chefe de Governo, mas como Chefe de Estado, o que descaracteriza a existência de uma isenção heterônoma, vedada pelo artigo 151, inc. III, da Constituição . Sobre o aspecto material, importante registrar que os tratados e as convenções internacionais não podem transgredir a normatividade da Constituição Federal à qual se subordina, nem dispõem de força normativa para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais e dos preceitos constitucionais . No julgamento do Mandado de Injunção 772, de relatoria do Ministro Celso de Mello, o Pleno do Supremo Tribunal Federal assentou: SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA SOBRE TODOS OS TRATADOS INTERNACIONAIS. – O exercício do “treaty-making power”, pelo Estado brasileiro, está sujeito à observância das limitações jurídicas emergentes do texto 32 33 constitucional. Os tratados celebrados pelo Brasil estão subordinados à autoridade normativa da Constituição da República. Nenhum valor jurídico terá o tratado internacional, que, incorporado ao sistema de direito positivo interno, transgredir, formal ou materialmente, o texto da Carta Política . Outro ponto relevante é que é dado a essa espécie normativa tratar de matéria tributária reservada à lei complementar. Nesse sentido, entende o STF: Os tratados internacionais celebrados pelo Brasil – ou aos quais o Brasil venha a aderir – não podem, em consequência, versar matéria posta sob reserva constitucional de lei complementar. É que, em tal situação, a própria Carta Política subordina o tratamento legislativo de determinado tema ao exclusivo domínio normativo da lei complementar, que não pode ser substituída por qualquer outra espécie normativa infraconstitucional, inclusive pelos atos internacionais já incorporados ao direito positivo interno . Diante de tais características normativas, passa-se à análise do que estabelece o artigo 98 do CTN: Artigo 98. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. De início, não é equivocada a afirmação de que os tratados devidamente internalizados têm força de lei nacional, revogam ou alteram as leis em sentido contrário que os antecede, assim como suas novas disposições normativas devem respeitar suas disposições. 34 35 a) Entretanto, a aplicação prática dessas premissas exige um olhar mais detalhado sobre a eficácia da norma tributária, tanto no que diz respeito à especificidade do objeto desses acordos quanto ao nível hierárquico que ocupam na legislação nacional. Quanto à revogação ou à modificação da norma interna à luz da regra da especialidade A revogação gerada pela internalização de um acordo internacional deve observar o critério de especialidade, segundo o qual norma especial prevalece sobre norma geral sem exatamente modificá-la ou extingui-la, conforme orienta o artigo 1º, § 2º, do Decreto-Lei 4.657/1942, a Lei de Introdução às normas do Direito brasileiro: Artigo 1º Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada. [...] § 2º A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior. Pela regra da especialidade, o direito positivo autoriza a convivência harmônica entre atos normativos oriundos do plano internacional, tendentes a disciplinar relações jurídicas específicas, e o ordenamento jurídico interno preexistente ou superveniente, que cuida de institutos de espectro mais abrangente, típico das normas de caráter geral. Isso porque é firme a compreensão jurisprudencial de que, exceto quando conferido status constitucional aos tratados de direitos humanos, os acordos internacionais são absorvidos pelo ordenamento jurídico doméstico no mesmo nível hierárquico das leis ordinárias. É somente a partir do prisma interpretativo dessa especificidade que se pode atribuir certa superioridade dos tratados em relação à legislação infraconstitucional interna, considerando-se a prevalência das normas especiais em face das normas gerais. Eis o disposto no artigo 85-A da Lei 8.212/1991, com redação conferida pela Lei 9.876/1999: Artigo 85-A. Os tratados, convenções e outros acordos internacionais de que Estado estrangeiro ou organismo internacional e o Brasil sejam partes, e que versem sobre matéria previdenciária, serão interpretados como lei especial. Deve, por exemplo, ser aplicada a regra sobre percepção de rendimentos que envolva o Brasil e um país signatáriode um mesmo acordo que busca evitar a bitributação em detrimento das normas internas sobre imposto de renda. É importante ter a compreensão de que, não obstante o CTN cuide da questão a partir do instituto da revogação, os tratados e os acordos internacionais excepcionam a lei tributária interna, dentro de uma convivência harmônica que deve considerar planos de eficácia distintos, tal como reconheceu o STJ : 1. O mandamento contido no artigo 98 do CTN não atribui ascendência às normas de direito internacional em detrimento do direito positivo interno, mas, ao revés, posiciona-as em nível idêntico, conferindo-lhes efeitos semelhantes. 2. O artigo 98 do CTN, ao preceituar que tratado ou convenção não são revogados por lei tributária interna, refere-se aos acordos firmados pelo Brasil a propósito de assuntos específicos e só é aplicável aos tratados de natureza contratual. 36 b) A jurisprudência dessa Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas jurídicas de Direito Interno, em razão da sua especificidade, ressalvada a supremacia da Carta Magna . Para as relações jurídicas regidas por tratado, aplicam-se as especificidades do acordo, que se destinam às situações que regulam, não mais regidas no ponto pelas normas gerais internas que disciplinam o tema. Ou seja, a norma interna continua em plena vigência, exceto para as relações jurídicas objeto do ajuste internacional. A norma interna perde sua aplicabilidade no caso específico, mas não perde a sua existência e validade em relação ao sistema normativo. Ocorre apenas uma restrição de funcionalidade na medida em que as normas internas passam a ser inaplicáveis às situações previstas no tratado ou no acordo internacional, em relação às pessoas, situações e relações jurídicas específicas, sem implicar revogação da norma interna para as demais situações não envolvidas pelo acordo entre estados. Dessa forma, pode-se afirmar que, segundo a literalidade do CTN, tratados e acordos internacionais revogam ou modificam a legislação interna, embora, em essência, o que se tenha seja aplicação da regra da especialidade que resulta na suspensão de eficácia da norma interna em relação ao objeto do acordo. Caso seja denunciado o acordo pelo Brasil, o que retira sua aplicação normativa no plano do direito positivo nacional, retorna-se à aplicação da regra interna que esteve com sua eficácia suspensa às situações envolvendo os sujeitos e os elementos descritos no ajuste internacional. Quanto à observância dos acordos internacionais pela norma superveniente à luz da hierarquia das normas tributárias Os contornos jurídicos do Direito Tributário conferem pouca margem a que os tratados e acordo internacionais que versam matéria tributária se 37 38 39 enquadrem no tratamento constitucional conferido pelo artigo 5º, § 3º, da CF, relativo aos tratados e às convenções internacionais sobre direitos humanos. É pacífico na jurisprudência que, caso não seja configurada essa hipótese constitucional, os acordos internacionais, devidamente homologados, ratificados e promulgados, ocupam o mesmo nível das leis ordinárias dentro da hierarquia das normas nacionais . Portanto, não se pode conferir relação de superioridade normativa aos ajustes internacionais que veiculam regras tributárias aplicáveis ao ordenamento interno em relação às demais leis em sentido formal até aqui analisadas, que igualmente não ostentam hierarquia constitucional. Por isso, a afirmação do artigo 98 do CTN no sentido de que tratados e convenções internacionais serão observados pela legislação tributária interna que lhes sobrevenha deve ser reconhecida como expressa letra da lei, mas sem os efeitos precisos de sua interpretação literal. É que a posição no plano normativo interno deixa os tratados e os acordos internacionais suscetíveis à revogação ou à alteração por lei ordinária que disponha em sentido diverso das disposições ajustadas no cenário internacional, a despeito dos debates que se possam travar em torno das fragilidades de política externa que possam decorrer dessa constatação. Esses acordos não poderiam estar blindados da competência legislativa e dos poderes político-institucionais que orientam as funções essenciais do Poder Legislativo a ponto de restringir a mutabilidade de suas disposições ao plano internacional quando elas passam a integrar o ordenamento jurídico interno em condição de subordinação à ordem constitucional vigente. Em matéria tributária, a solução das contradições (antinomias) entre as disposições de um tratado ou acordo internacional e a norma interna superveniente é também a regra da especialidade, não havendo falar em revogação se a norma superveniente tem caráter geral e não regula de modo 40 41 42 diverso as relações jurídicas que são objeto especificamente do ajuste internacional. DICAS PRÁTICAS O julgamento de uma assertiva ou a resposta a um questionamento sobre a aplicação dos tratados ou acordos internacionais em matéria tributária deve considerar se a questão tem como enfoque a literalidade da redação do artigo 98 do CTN ou os efeitos normativos práticos conferidos pela regra da especialidade. A abordagem sobre os efeitos normativos dos tratados internacionais de natureza tributária pode ser assim reunida, a partir da conjugação do artigo 98 do CTN com a regra da especialidade, princípio segundo o qual lex specialis derrogat generalis: RELAÇÃO DOS ACORDOS INTERNACIONAIS COM A LEI TRIBUTÁRIA INTERNA QUANTO À NORMA INTERNA ANTERIOR PELA REDAÇÃO DO CTN A vigência do acordo revoga o disposto na lei interna. COM BASE NA REGRA DA ESPECIALIDADE A vigência do acordo suspende a aplicação da lei interna para as relações regidas pelo acordo. QUANTO À NORMA INTERNA POSTERIOR PELA REDAÇÃO DO CTN Lei ordinária deve observância às disposições do acordo. COM BASE NA REGRA DA ESPECIALIDADE Lei ordinária em sentido contrário altera ou modifica internamente as disposições do acordo quando dispõe sobre as mesmas relações jurídicas de que cuida o acordo. �.�.� Fontes formais secundárias do direito tributário – normas complementares As normas complementares do Direito Tributário são os atos normativos formais, de efeitos abstratos e genéricos, que derivam e estão subordinados à autoridade de uma lei em sentido amplo (ato normativo com força de lei), conferindo-lhe detalhamento e viabilizando sua efetiva aplicação. Essa função de dar efetividade tem caráter instrumental e operacional e é cumprido por disposições que regulamentam, esclarecem e uniformizam a melhor compreensão sobre os dispositivos da lei tributária, o que justifica essa posição secundária dentro do sistema das fontes. As fontes formais secundárias não inovam no ordenamento jurídico e devem dispor sobre as relações jurídicas já estabelecidas pela fonte primária da qual deriva e que tem como fundamento primeiro de validade. Categorizadas como fontes formais secundárias, as normas complementares compõem a denominação legislação tributária, associadas às leis tributárias, as fontes formais primárias, que são as normas constitucionais, as leis ordinárias, complementares e delegadas, os decretos legislativos, as resoluções e os convênios de ICMS. O artigo 100 do CTN dispõe: Artigo 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I – os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II – as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III – as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; �.�.�.� IV – os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Antes do detalhamento das normas derivada de lei no Direito Tributário,é importante observar que o parágrafo único acima confere à legislação tributária um caráter vinculante à Administração Tributária, na medida em que protege de qualquer penalidade ou encargo aquele que cumpre suas disposições. Nessa circunstância, é vedada a aplicação de multas, bem como a cobrança de juros de mora ou correção monetária. Por exemplo, caso venha a ser revogado um ato normativo que entenda pela não incidência de um tributo em determinada hipótese, o que torna obrigatório posteriormente, não implica imputação de multa ou cobrança de juros de mora e correção monetária. Relativamente ao período em que esteve vigente a norma complementar revogada, somente é exigível o valor principal do tributo que deixou de ser recolhido, sob pena de se configurar ato contraditório da Fazenda Pública, o que é vedado pela máxima nemo potest venire contra factum proprium. O contribuinte que atua de acordo com as normas estabelecidas pelo artigo 100 do CTN deve estar resguardado do poder discricionário do fisco ante o caráter abstrato e genérico conferido às normas complementares, o que se coaduna com os princípios da legalidade, da segurança jurídica, da confiança e da boa-fé. Decreto Decreto é o ato normativo por meio do qual o Presidente da República (Chefe do Poder Executivo) regulamenta determinada lei, disciplinando a forma do seu cumprimento. A lei regulamentada é o fundamento de validade do decreto, bem como dela se extraem os limites de conteúdo e alcance do regulamento, sob pena de ilegalidade . Significa dizer que, salvo expressa previsão, não é constitucionalmente adequado que decreto inove no ordenamento jurídico e avance daquilo que determina a norma, devendo limitar ao conteúdo e ao alcance da lei que os fundamenta, ou seja, à sua função instrumental e operacional (não constitutiva). O artigo 84, IV, da CF confere competência privativa ao Presidente da República para expedir decretos e regulamentos para fiel execução das leis e revela o caráter secundário dos decretos regulamentadores. No mesmo sentido é o artigo 99 do CTN: Artigo 99. O conteúdo e o alcance dos decretos restringem-se aos das leis em função das quais sejam expedidos, determinados com observância das regras de interpretação estabelecidas nesta Lei. O decreto também é o instrumento normativo empregado pelo artigo 84 da CF para que o Presidente da República disponha, de modo independente de lei em sentido formal que o origine, sobre as seguintes matérias: Artigo 84. Compete privativamente ao Presidente da República: [...] VI – dispor, mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos; b) extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos; 43 É de fácil percepção que, do rol acima detalhado, não se extrai matéria tributária passível de ser tratada por decreto autônomo, o que retira do Poder Executivo a capacidade de dispor sobre obrigações jurídico- tributárias sem a prévia edição de lei tributária. Portanto, pode-se afirmar que, no âmbito do Direito Tributário, o decreto é um veículo introdutor de normas secundárias, derivadas não diretamente da Constituição Federal, mas de uma lei em sentido amplo (ato normativo com força de lei) que será o seu norte e conferirá seus limites materiais, nos termos do artigo 84, IV, da CF e do artigo 99 do CTN. Não obstante isso, deve-se estar atento ao fato de que o artigo 96 do CTN dispõe que o decreto está compreendido na expressão “legislação tributária” sem, contudo, relacioná-la no rol das normas complementares de que trata o artigo 100 do mesmo CTN. Disso resulta uma divergência doutrinária do decreto quanto ao seu enquadramento como fonte primária ou secundária, mas é importante ressaltar que, sob qualquer ótica, o decreto regulamentar é hierarquicamente inferior à lei. O que, à primeira vista, pode ser visto como uma classificação do decreto como fonte formal primária – o que se aplica perfeitamente ao decreto legislativo –, também pode ser interpretado sistematicamente para conduzir à conclusão de que, como ato normativo de conteúdo e alcance restritos ao que dispõe a lei em função da qual é expedido (artigo 99, CTN), os decretos em matéria tributária consistem em fonte formal secundária, característica típica das normas complementares. O decreto regulamentar viola o princípio da legalidade quando define os elementos/aspectos da hipótese de incidência sem que a Constituição Federal autorize essa via normativa para determinado tributo. Contudo, não se caracteriza a mesma violação quando se limita a complementar conceitos ou detalhar parâmetros já definidos pela lei tributária. i. ii. No âmbito do tratamento tributário, os decretos comumente preveem deveres instrumentais dos contribuintes. Essa é a razão pela qual o STJ entende que, nos termos do artigo 113, § 2º, do CTN, em torno das relações jurídico-tributárias vinculadas ao tributo em si, exsurgem outras, de conteúdo extrapatrimonial, consubstanciadas em um dever de fazer, não fazer ou tolerar. Trata-se das obrigações acessórias (i) indispensáveis à regulação das questões instrumentais ou (ii) para que a tributação tenha funcionamento. Uma discussão que, vez por outra, ocupa os julgamentos dos Tribunais diz respeito aos decretos editados com a finalidade de restabelecer alíquotas de tributos, quando a lei assim prevê. Não é incomum uma lei estabelecer que fica autorizado o Chefe do Poder Executivo a reduzir ou restabelecer alíquotas de determinados tributos, por exemplo, PIS/COFINS. Em caso julgado pelo STJ sobre a legalidade do Decreto 8.426/2015, que restabeleceu alíquotas do PIS/COFINS sobre receitas financeiras das pessoas jurídicas sujeitas ao regime não cumulativo, baseado no permissivo contido na Lei 10.865/2004, a Primeira Turma entendeu que o referido ato normativo não estaria majorando tributos. Segundo o Ministro Gurgel de Faria, “ora, se considerarmos legal a permissão dada ao administrador para reduzir tributos, também devemos considerar legal o seu restabelecimento, pois não se pode compartimentar o próprio dispositivo legal para fins de manter a tributação com base em redução indevida”. No ordenamento jurídico tributário o decreto tem papel de destaque para: regulamentar as hipóteses de incidência tributária e a atuação da administração tributária, a partir das definições estabelecidas por lei tributária; tratar de matéria não reservadas à lei tributária, tais como: 44 45 – – �.�.�.� alterações de alíquotas de II, IE, IPI, IOF e redução ou restabelecimento de CIDE-Combustíveis , que representam exceção constitucional ao princípio da legalidade e são previamente autorizadas por lei tributária; disposições sobre obrigações acessórias, atualização monetária da base de cálculo (não configura majoração) e determinações sobre o prazo depagamento dos tributos, exemplo de normas que podem ser tratadas pela legislação tributária, sem observância ao princípio da reserva legal. Embora o CTN não enumere o decreto entre as demais fontes formais secundárias do Direito Tributário, o ordenamento jurídico não confere ao Chefe do Poder Executivo a competência para dispor sobre matéria reservada à lei tributária, restringindo-a aos limites de ato normativo regulamentador, mas, há hipóteses em que o decreto inova no ordenamento jurídico quando a matéria versada não está sujeita ou é excepcionada do princípio da reserva legal. Decisões administrativas com eficácia normativa O artigo 100, II, do CTN estabelece que compõem a legislação tributária as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa à qual a lei atribui eficácia normativa. Entende-se por jurisdição administrativa a atividade exercida pela Administração Pública por meio de órgãos colegiados ou singulares aos quais é atribuída a competência para solucionar os impasses no curso da atividade fiscal, ainda que não componha ordinariamente uma das fases do processo administrativo fiscal. Essa “jurisdição”decorre da necessidade de adoção dos princípios do contraditório e da ampla defesa. Sempre que o exercício da atividade de tributação resulta na imputação de débitos ou penalidades, deve ser 46 47 conferida ao particular a oportunidade de impugnar e recorrer do entendimento adotado pelo fisco como critério decorrente dos limites constitucionais ao poder de tributar. Em regra, as decisões proferidas nesse contexto não são imbuídas de abstração e surtem efeitos específicos sobre as partes que compõem a relação jurídica sob exame no caso concreto, ou seja, aplica-se o teor da decisão administrativa ao contribuinte que tenha subscrito a impugnação ou o recurso examinado pela unidade administrativa julgadora. Nesse ponto, a edição da Lei 13.655/2018, que alterou a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), pretendeu conferir ao ordenamento jurídico brasileiro maior grau de segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito, especialmente ao direito público, sobretudo pela inserção do artigo 24, cuja redação segue abaixo: Artigo 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideram-se orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Há hipóteses, contudo, em que, por força de lei, as decisões tomadas em casos concretos passam a contar com efeito vinculante a todos os administrados (erga omnes) e devem ser obrigatoriamente observadas em casos semelhantes. �.�.�.� A lei que confere essa condição de precedente administrativamente vinculante a determinada decisão deve prever abstratamente os critérios que conferem tal condição a uma decisão, seja relativo, por exemplo, à matéria objeto do julgado ou a características específicas como o quórum de votação. Em qualquer caso, salvo disposição em contrário seus efeitos genéricos entram em vigor 30 (trinta) dias após a data de sua publicação (artigo 103, II, CTN). Práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas A previsão do CTN de que as práticas reiteradas das autoridades administrativas compõem a legislação tributária, para sua adequada compreensão e aplicação, exige uma interpretação sistemática do ordenamento constitucional. Primeiro porque o princípio da legalidade está na essência do sistema tributário nacional que delimita a atuação do Estado sobre o patrimônio do particular e, nesse sentido, confere aos atos normativos com força de lei as disposições centrais sobre as relações jurídico-tributárias. Depois, porque as práticas reiteradas remetem à ideia de normatização dos usos e dos costumes (normas consuetudinárias) que não têm o condão de altera o direito positivo posto ou mesmo no sistema normativo, conceito no qual estão inseridas não só as disposições legais como a jurisprudência. É possível constar que as práticas reiteradas das autoridades administrativas em matéria tributária têm o status de norma complementar no mais estrito sentido da palavra, cabendo-lhe o papel interpretativo, sem a capacidade de inovação do ordenamento, seja para instituir ou afastar obrigações por ele estabelecidas. Isso significa que, sobretudo à luz do parágrafo único do artigo 100 do CTN , as normas gerais de Direito Tributário asseguram aos contribuintes a48 �.�.�.� proteção da confiança e da boa-fé, bem como são vetor do princípio da isonomia, quando sua atuação perante o fisco é pautada justamente naquilo que é adotado por ele, o que se demonstra pela forma como é interpretada e constantemente aplicada a norma. Os atos do particular ficam preservados de resultados gravosos de punição ou encargos pela aplicação retroativa de eventual mudança de entendimento sobre qual a melhor interpretação do ordenamento, bem como se prestigia, dessa forma, a segurança jurídica nas relações de natureza tributária. Segundo entendimento do STJ, diante da prática constante de atos pela Administração , não pode o contribuinte de boa-fé, que se pautou na prática fiscal anteriormente reconhecida válida pela fiscalização tributária, ser penalizado com a cobrança de juros de mora, multa e correção monetária do tributo . Convênios firmados entre União, estados, Distrito Federal e municípios O CTN prevê algumas hipóteses em que União, estados, Distrito Federal e municípios podem firmar convênios tendentes a conferir efetividade à atividade tributária. Entre elas, destacam-se os ajustes para estabelecer extraterritorialidade da lei tributária (artigo 102, CTN) e a mútua assistência para a fiscalização dos tributos respectivos e permuta de informações, na forma estabelecida, em caráter geral ou específico (artigo 199, CTN). A materialização dessa hipótese de mútua assistência para fiscalização dos tributos correspondentes, incluindo a permuta de informações, pode-se enxergar em nosso ordenamento jurídico no que disposto, por exemplo, no artigo 33 da Lei Complementar 123/2006. Segundo essa norma, a competência para fiscalizar o cumprimento das obrigações principais e acessórias relativas ao Simples Nacional e para 49 50 verificar a ocorrência das hipóteses de exclusão de ofício é da Secretaria da Receita Federal e das Secretarias de Fazenda ou de Finanças do Estado ou do Distrito Federal, a depender da localização do estabelecimento, e, tratando-se de prestação de serviços incluídos na competência tributária municipal, a competência será também do correspondente município. A Resolução CGSN 140/2018 estabelece que a competência para fiscalizar o Simples Nacional abrange todos os estabelecimentos da ME (microempresa) e da EPP (empresa de pequeno porte), não restringindo o poder da administração tributária aos contribuintes sob sua jurisdição e independentemente das atividades por eles exercidas. Discute-se se estaria o dispositivo ampliando o poder da fiscalização municipal ao permitir que o fisco alcance também estabelecimento que opere exclusivamente com revenda de mercadorias, base de cálculo do ICMS, de competência estadual. A regulamentação, ainda que possa levantar discussões sobre sua legalidade, tem fundamento na previsão constitucional de integração das administrações tributárias, inclusive no que diz respeito ao compartilhamento de informações fiscais. Em termos gerais, para que os convênios firmados entre unidades federadas revistam-se de validade e eficácia na legislação interna de cada ente federado, pode ser exigido que o ato do Poder Executivo de subscrição do ajuste venha a ser homologado pelo Poder Legislativo local. Isso, no entanto, não se revela uma exigência constitucional, à luz do princípio da separação de poderes, entendimento firmado no âmbito do STF. JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA É inconstitucional, por violar o princípio da separação dos poderes, a submissão prévia ao Poder Legislativo estadual, para aprovação, dos instrumentos de cooperação firmados pelos órgãos componentes do Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA. II – A transferência de 51 52 �.�.�.� responsabilidades ou atribuições de órgãos componentes do SISNAMA é, igualmente, competência privativa do Poder Executivo e, dessa forma, não pode ficar condicionada à aprovação prévia da Assembleia Legislativa. Os convênios aos quais o artigo 100, IV, do CTN confere força normativa complementar não podem imprimir alterações ao que dispõe a lei na qual encontram seu fundamento de validade. Suas disposições entram em vigor na data nele prevista ou devem cumprir vacatio legis de 45 (quarenta e cinco) dias e devem observar os estritos limites da lei tributária em vigor, sobretudo quando dizem respeitoaos elementos ou aos requisitos da hipótese de incidência tributária, assim como qualquer outra matéria reservada à lei em matéria fiscal. Fora desses casos, verifica-se uma maior margem de atuação, por exemplo, para tratar de questões instrumentais, tanto relativa a procedimentos administrativos quanto às obrigações tributárias acessórias. Há um grupo específico de convênios que não se insere nesse contexto restritivo do artigo 100 do CTN porque, muito além de dispor de medidas cooperativas ou questões instrumentais, são ajustes consagrados pela norma constitucional e, por isso, compõem o rol de fontes formais primárias do Direito Tributário. Trata-se dos convênios firmados no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, notadamente aqueles que cuidam de questões específicas de ICMS e que exigem a observâncias de requisitos que lhe são específicos, razão por que seus contornos serão objeto de enfrentamento específico a seguir. Convênios de ICMS O artigo 155, II, da CF estabelece a competência tributária aos estados e ao Distrito Federal para instituição e cobrança do ICMS, imposto que envolve sistema complexo de regras gerais, tais como da não 53 cumulatividade, de creditamento, especificidades de operações internas e interestaduais e destinação da renda auferida. Em razão dessas nuances, a política interna de ICMS de um desses entes pode ser importante para os demais, na medida em que possa gerar desequilíbrios no cenário econômico regional ou nacional. O ICMS é um tributo de significativo potencial arrecadatório e, de fato, consiste em relevante fonte de receita dos estados, o que gera um latente conflito de interesses e um efetivo confronto normativo que ficou conhecido como “guerra fiscal”, na qual as leis que concedem benefícios fiscais de qualquer ordem são efetivas armas na busca por investimentos e maior arrecadação. Ao tempo em que a exigência constitucional dos Convênios de ICMS limita o autogoverno dos entes federados no combate à guerra fiscal, também consagra o pacto federativo, o princípio da isonomia, a segurança jurídica, o objetivo fundamental de redução das desigualdades sociais e regionais, a consecução de objetivos nacionais comuns, o equilíbrio das relações recíprocas entre os entes e a garantia de tratamento uniforme entre os contribuintes. Para harmonizar os interesses, a Constituição Federal estabelece limites e exigências para a concessão de isenções ou qualquer outro tipo de favor fiscal que privilegie a circulação de mercadorias ou a prestação de serviços sujeitas ao ICMS. O primeiro desses requisitos é a necessidade de lei específica, nos termos do artigo 150, § 6º: Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] § 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no artigo 155, § 2.º, XII, g. Quanto ao ICMS, o princípio da legalidade está estampado no artigo 155, § 2º, XII, g, da CF e se estende especificamente para determinar que a concessão ou a revogação de isenções, incentivos e benefícios fiscais relativos a esse imposto devem ser ajustado entre os estados e o Distrito Federal, conforme seja determinado por lei complementar: Artigo 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: [...] § 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: [...] II – operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior; [...] XII – cabe à lei complementar: [...] g) regular a forma como, mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados. Não somente as isenções expressamente concedidas, mas também qualquer forma de concessão ou revogação de benefício de ICMS deve observar o procedimento e a via normativa adequados, o que se aplica para reduções de alíquotas e outros métodos diferenciados de apuração e destinação do imposto. Por exemplo, somente mediante deliberação dos estados e do Distrito Federal pode ser relativizada a premissa de que as alíquotas internas de ICMS não podem ser inferiores às previstas para as operações interestaduais ou podem ser estabelecidas as alíquotas, as regras de apuração e a destinação do ICMS – Combustíveis de incidência única (artigo 155, §§ 2º, VI, 4º, IV, e 5º, da CF). Embora a atual ordem constitucional seja de 1988, na ausência de lei complementar contemporânea, vigoram as disposições da Lei Complementar 24/1975, recepcionada pela Constituição Federal vigente, em atenção ao artigo 34, § 8º, do ADCT : Artigo 34. O sistema tributário nacional entrará em vigor a partir do primeiro dia do quinto mês seguinte ao da promulgação da Constituição, mantido, até então, o da Constituição de 1967, com a redação dada pela Emenda 1, de 1969, e pelas posteriores. [...] § 8º Se, no prazo de sessenta dias contados da promulgação da Constituição, não for editada a lei complementar necessária à instituição do imposto de que trata o artigo 155, I, b, os Estados e o Distrito Federal, mediante convênio celebrado nos termos da Lei Complementar 24, de 7 de janeiro de 1975, fixarão normas para regular provisoriamente a matéria. Segundo a LC 24, de 1975, “benefícios fiscais de ICMS” compreendem: i. redução da base de cálculo; ii. devolução total ou parcial, direta ou indireta, condicionada ou não, do tributo, ao contribuinte, a responsável ou a terceiros; iii. concessão de créditos presumidos; iv. quaisquer outros incentivos ou favores fiscais ou financeiro- fiscais, concedidos com base no Imposto de Circulação de Mercadorias, dos quais resulte redução ou eliminação, direta ou indireta, do respectivo ônus; v. prorrogações e extensões das isenções vigentes. 54 – • • • • • • É inconstitucional o benefício fiscal relativo à incidência do ICMS que não seja instituído sem a aprovação unânime de todos os demais estados que se façam presentes em reunião deliberativa sobre a proposta que seja instaurada no âmbito do CONFAZ, por violação ao artigo 150, § 6º, e 155, § 2º, XII, g, da CF. A deliberação por convênio abrange a dispensa de multas e juros ou a redução de saldo devedor de ICMS a qualquer título, a redução de alíquotas, desonerações ou tratamento diferenciado na apuração do imposto para determinadas operações, diferimento do imposto, a concessão de crédito presumido e empréstimos do Estado a determinados contribuintes para o pagamento do ICMS. Exemplos de matérias sujeitas à deliberação dos estados e do DF: concessão ou revogação de benefícios fiscais de ICMS: redução da base de cálculo; devolução total ou parcial, direta ou indireta, condicionada ou não; concessão de créditos presumidos; quaisquer outros incentivos ou favores fiscais ou financeiro-fiscais dos quais resulte redução ou eliminação, direta ou indireta, do respectivo ônus; dispensa ou redução de multas, juros ou saldo devedor; diferimento do imposto ou tratamento diferenciado de contribuinte. Deve ser sempre observado, como limite material precípuo, que os convênios de ICMS não podem modificar a regra de incidência do ICMS, matéria reservada à lei complementar . Nesse ponto, julgado de 2021 do STF aponta que convênio interestadual não pode suprir a ausência de lei complementar dispondo sobre obrigação tributária, contribuintes, bases de cálculo, alíquotas e créditos de ICMS nas operações ou prestações interestaduais. 55 56 a) b) c) As deliberações dos estados e do Distrito Federal são coordenadas pelo Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, o órgão colegiado do Ministério da Economia,composto pelos Secretários de Estado de Economia, Fazenda, Finanças ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal sob a presidência do Ministro de Estado da Economia . A edição de um convênio de ICMS adequado deve observar: para deliberação, o quórum mínimo é a presença de maioria dos entes federados; quanto à aprovação de convênio, a proposta deve ser acolhida pela unanimidade dos representados presentes; para revogação total ou parcial de um convênio, a proposta depende da aprovação de 4/5 dos presentes (artigo 2º, §§ 1º e 2º, da LC 24, de 1975); Enquanto a aprovação de proposta de benefício fiscal de ICMS somente é aprovada se acolhida pela unanimidade dos representantes dos entes federados presentes, para a revogação, é suficiente que a proposta seja aprovada por 4/5 dos presentes. As resoluções adotadas devem ser publicadas no Diário Oficial da União, no prazo de 10 dias da data da reunião (artigo 2º, § 3º, da LC 24, de 1975). Da data da publicação, tem início o prazo de 15 dias para a ratificação do convênio celebrado. A ratificação é o ato de confirmação do ajuste firmado por cada um dos entes federados, presentes ou não na deliberação. Independentemente de qualquer outra comunicação, o Poder Executivo de cada Unidade da Federação publicará decreto ratificando ou não os convênios celebrados, considerando-se ratificação tácita dos convênios à mingua de manifestação no prazo assinalado. 57 Considera-se rejeitado o convênio que não for expressa ou tacitamente ratificado pelo Poder Executivo de todas as Unidades da Federação ou, nas hipóteses que versem revogação de benefícios já autorizados, quando não ratificado por, no mínimo, quatro quintos dos entes (artigo 4º, § 2º, da LC 24, de 1975). De todo modo, a ratificação nacional do convênio, bem como sua rejeição, consuma-se pela publicação do Ato Declaratório no Diário Oficial da União (artigo 5º da LC 24/1975). Salvo disposição em contrário, o convênio entra em vigor no trigésimo dia após a publicação do ato de sua ratificação. Conforme dispõe o artigo 100 do CTN, os convênios celebrados entre os entes federados são normas complementares das leis, dos tratados, das convenções internacionais e dos decretos, e o Superior Tribunal de Justiça tem precedente que os reconhece como norma infralegal, cuja suposta violação que não constitui fundamento suficiente para conhecimento de recurso especial . Não obstante isso, o Supremo Tribunal Federal já apreciou a constitucionalidade de tais normas, enfrentando os limites materiais de suas disposições, o que reforça a compreensão de que os Convênios de ICMS são classificados como fonte formal principal do Direito Tributário. A despeito de muito já se ter debatido sobre o tema, a doutrina e a jurisprudência avançaram para pacificar a compreensão de que o convênio firmado no âmbito do CONFAZ é apenas uma condição, mas, por si só, não cria benefícios ou impõem regras diretamente aplicáveis ao contribuinte. Por isso, indispensável a internalização dos convênios no âmbito interno de cada unidade federada. São normas que compõem um processo legislativo diferenciado, mais complexo, com fins específicos de concessão de benefícios fiscais, como sendo primeira etapa autorizativa que deve se seguir da edição de norma com força de lei que internaliza o benefício no ordenamento jurídico local 58 59 de determinado ente federado, seja por meio de lei em sentido formal ou de decreto legislativo . Do convênio se extrai vinculação direta aos entes federados, na medida em que, ratificado, impõe o dever de observância dos seus ditames. Contudo, não para diretamente criar uma obrigação ou conceder um benefício na relação entre o fisco e seu contribuinte, mas para permitir a concessão de um benefício ou a alteração de determinado regramento por cada um dos Estados ou pelo DF, nos moldes em que ajustado entre esses mesmos entes. A natureza jurídica dos convênios firmados no âmbito do CONFAZ é autorizativa, uma vez que a deliberação de que trata a Lei Complementar 24/1975 é requisito essencial para concessão de qualquer benesse de ICMS, consoante estabelece o artigo 155, § 2º, XII, “g”, e somente lei específica pode veicular subsídio, isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão , como prevê, por seu turno, o artigo 150, § 6º. Como afirma o STJ, a autorização veiculada em convênio para a concessão de remissão não acarreta direito subjetivo para o contribuinte, se não houver implementação da medida necessária à concessão do benefício. Mesmo que devidamente ratificado, o Convênio de ICMS somente surte seus efeitos se e quando publicado o ato normativo com força de lei que o integre no ordenamento jurídico do ente federado, inclusive para fins de observância ao princípio da anterioridade nonagesimal a que está sujeita a cobrança de ICMS . A previsão contida em um convênio de ICMS vigente é um fundamento de validade para que os Estados e o Distrito Federal internalizem aos seus ordenamentos jurídicos locais aquela previsão ajustada com todos os demais pares. Essa internalização materializa-se por processo legislativo interno que resulta em norma específica a partir da qual, atendido o princípio da 60 61 62 (i) (ii) (iii) legalidade, pode surtir efeitos concretos às disposições do convênio. Trata- se da necessária chancela do Poder Legislativo que confere efeitos concretos às disposições do convênio de ICMS, em atenção ao princípio da legalidade de que trata o artigo 150, § 6º, da CF. Os favores fiscais de ICMS resultam, portanto, de uma série de atos complexos e de natureza híbrida, ora de caráter administrativo – quando os entes federados, por seus respectivos poderes executivos e coordenados por órgão executivo da União, conformam seus interesses e firmam um entendimento que retrate a unidade federativa nacional –, ora inerente ao processo legislativo, sobretudo na fase de internalização do convênio por cada estado e pelo Distrito Federal. A não observância resulta em inconstitucionalidade da norma tributária , mas também, à luz do artigo 8º da LC 24,1975, implica: nulidade do ato e ineficácia do crédito fiscal atribuído ao estabelecimento recebedor da mercadoria. exigibilidade do imposto não pago ou devolvido e ineficácia da lei ou ato que conceda remissão do débito correspondente. possibilidade de presunção de irregularidade das contas correspondentes ao exercício, a juízo do Tribunal de Contas da União, e de suspensão do pagamento das quotas referentes ao Fundo de Participação, ao Fundo Especial e aos impostos referidos nos incisos VIII e IX do artigo 21 da Constituição federal. Muita polêmica ainda circunda a exigência da unanimidade , votação unânime dos estados e do DF para efeito de validade e aprovação de convênios concessivos de benefícios fiscais de ICMS no âmbito do CONFAZ, sobretudo porque não existe paralelo no mundo jurídico. Essa regra não existe nem mesmo para alterar a Constituição Federal. 63 64 O quórum mais qualificado em nosso ordenamento jurídico, para efeito de aprovação de proposições normativas, é o que compreende as propostas de emenda constitucional, com exigência de 3/5 (três quintos) dos votos dos membros do Congresso Nacional. Para além das emendas à CF, todo o processo legislativo possui regras de aprovação inferiores, sendo a mais comum a de metade mais um dos membros das Casas Legislativas. Até mesmo se enxergarmos votações no âmbito do Poder Judiciário, as Súmulas Vinculantes pelo STF exigem votos no mesmo sentido de 2/3 de seus membros. Parte da doutrina, inclusive, defende que sobre essa regra da unanimidade sequer pode-se reconhecer a inconstitucionalidade porque ela não teria sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988. Nessa linha, são estas as palavras de Regis Fernandes de Oliveira : Pela lógica da unanimidade, o Confaz se torna o dono do ICMS e não cada Estado individualmente considerado. O Confaz tem um papel de harmonização fiscal em um Estado Democrático de Direito, e não de Coação Fiscal,