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EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA AULA 2 Profª Paula M. Y. Sakaguti 2 CONVERSA INICIAL Apresentaremos uma breve trajetória histórica da educação especial no Brasil e uma incursão sobre dois fatores que marcaram as práticas educacionais: a identificação de alunos por meio dos testes de inteligência e o princípio da normalização. Ambas permeiam, dentre outros aspetos, as concepções que norteiam as práticas pedagógicas da integração e inclusão. TEMA 1 – INÍCIO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ESPECIAL No século XIX, uma prática comum acontecia na calada da noite às portas da Santa Casa de Misericórdia: alguém toca o sino anunciando que foi deixado um bebê naquele dispositivo de madeira, tendo uma abertura de 50cm voltada para a rua e que girava para o outro lado do muro. Bebês recém-nascidos eram deixados ali na “Roda dos Expostos”, rejeitados pelos responsáveis seja pela impossibilidade financeira, seja pela rígida condenação moral da sociedade ou pela “anomalia” dessas crianças (Jannuzzi, 2004; Torres, 2008). Para Cerqueira (2017), era o retrato de uma sociedade altamente desigual e marcada pela pobreza e preconceito. A mãe que rejeitava o filho era taxada de “mãe desamorosa e ingrata”, situação em que o pai não era sequer lembrado. A institucionalização do abandono de recém-nascidos ilegítimos e/ou com deficiência é um recorte da realidade urbana brasileira que estava assim hierarquizada. Conforme Almeida (2018, p. 75), “divididas em ‘coisas’ (escravos e índios) e ‘pessoas’ que compreendiam a ‘plebe’ (a massa das pessoas livres e pobres) e o ‘povo’ (a classe senhorial dos proprietários)”. A fundação do Imperial Instituto de Meninos Cegos (atual Instituto Benjamin Constant – IBC) ocorreu em 1854 e o Imperial Instituto de Surdos- Mudos (atual Instituto Nacional de Educação de Surdos – Ines) em 1857. Ambos eram voltados, segundo concepção da época, “para os infelizes” e tiveram origem no Rio de Janeiro, criados a partir da influência de figuras próximas de D. Pedro II, que retornavam da Europa trazendo inovações da educação de surdos e cegos (Almeida, 2018). Conforme Mendes (2010), com a criação dessas duas instituições pioneiras no atendimento aos cegos e surdos, de ideias importadas da Europa, registramos o início da educação especial no Brasil. Almeida (2018) aponta que 3 o objetivo das duas instituições especializadas foi regenerar, tanto intelectual quanto moralmente, os surdos e cegos. Rodrigues, Capellini e Santos (2014) descrevem que, de um total de 15.848 cegos e 11.595 surdos, apenas 35 cegos e 17 surdos frequentavam os institutos. Para Almeida (2018), esses dados refletem a condição socioeconômica precária, os valores excludentes e ao aspecto caritativo. Conforme relatório de fiscalização da época, “as crianças oriundas da plebe, que não podiam pagar por seus estudos, eram financiadas ora por ordens religiosas, ora por famílias abastadas que viam nesta modalidade de educação ‘redenção e piedade’ para seus semelhantes” (Almeida, 2018, p. 75). Jannuzzi (2004) analisa o descaso do poder central (governo) não apenas em relação à educação de alunos com deficiência como também à educação popular em geral no período colonial. Grande parte da população era iletrada e somente as crianças consideradas mais lesadas chamavam a atenção e eram atendidas nas raras instituições da época. Observamos o modelo clínico- terapêutico das práticas educacionais, quando, em 1893, a mesma autora cita que, no I Congresso de Instrução Pública, os palestrantes indicados para trabalharem os temas sobre currículo para formação de professor para cegos e surdos foram dois médicos. A atenção formal à pessoa com deficiência, desde o início da educação especial no Brasil, foi de caráter assistencialista, ou seja, visa-se apenas as “necessidades individuais e emergentes por serem pontuais, sem promover mudanças estruturais efetivas e duradouras” (Rodrigues; Capellini; Santos, 2014, p. 4). Nas palavras de Teixeira citado por Mendes (2010, p. 94), analisando a criação dessas duas instituições de educação especial diante do contexto da época: “nada me parece mais significativo desse longo período de omissão e estagnação, com medidas medíocres e lampejos de paternalismo, […] como as principais instituições educativas da capital do país em 60 anos de reinado”. Para Rodrigues, Capellini e Santos (2014), a criação das duas instituições imperiais significou (e ainda significa) uma conquista para o atendimento às pessoas com deficiência, abrindo caminhos para a educação de cegos e surdos. TEMA 2 – O USO DOS TESTES DE INTELIGÊNCIA E EDUCAÇÃO ESPECIAL Após a Proclamação da República, em 1889, profissionais começaram a voltar da Europa entusiasmados com o intuito de modernizar o país. De acordo 4 com Rodrigues, Capellini e Santos (2014) e Mendes (2010), temos as seguintes medidas realizadas na Primeira República: • 1906: escolas públicas do Rio de Janeiro começaram a receber alunos com deficiência intelectual; • 1911: criação do Serviço de Higiene e Saúde Pública do Estado de São Paulo, criando o serviço de inspeção médico-escolar; • 1912 a 1913: criação do Laboratório de Pedagogia Experimental ou Gabinete de Psicologia Experimental; • Introdução e aplicação da escala Binet-Simon (teste para medir a inteligência; • 1917: definição de normas para a seleção de “anormais” (decorrentes da providência anterior); • 1929: chegada de Helena Antipoff, psicóloga russa, a convite do governo de Minas Gerais. Ressaltamos que os médicos foram os primeiros a se interessarem no estudo de crianças com prejuízos mais graves e criaram instituições para as crianças anexas aos sanatórios psiquiátricos (Mendes, 2010). É importante “resgatar que os médicos foram os primeiros a despertar para a necessidade de escolarização de indivíduos com deficiência que se encontravam misturados na população dos hospitais psiquiátricos, sem distinção de patologia” (Glat; Pletsch; Souza Fontes, 2007, p. 346). As autoras salientam que o enfoque clínico tinha precedência, pois na época a deficiência era compreendida como uma doença crônica e mesmo na área educacional, o atendimento era terapêutico. De acordo com Mendes (2010), associado ao movimento da Escola Nova, houve o avanço da psicologia no campo educacional e na identificação de alunos com deficiência intelectual por meio dos testes de inteligência. A partir de então, os testes ganharam força por meio dos estudos desenvolvidos por laboratórios experimentais para avaliar a anormalidade de um aluno a partir do grau de inteligência em relação aos alunos da mesma idade. Desse modo, a autora chama a atenção para “a identificação de casos leves de ‘anormalidade da inteligência’ nas escolas regulares, uma vez que os casos mais graves já eram aprioristicamente considerados rejeitados pela escola pública” (Mendes, 2010, p. 96). 5 Para Teixeira (2019, p. 23), o resultado do teste de Q.I. era utilizado “como base para a organização dos alunos nas denominadas classes homogêneas, ou seja, o agrupamento de alunos em salas de aula era feito de acordo com os níveis alcançados nos testes”. Em 1929, com a chegada da psicóloga Helena Antipoff, são implantados os serviços de diagnósticos, classes e escolas especiais. Ela participou do movimento de implantação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Mendes, 2010). Para Campos (2003), Antipoff introduziu a terminologia excepcional no lugar de retardado (usado na época), pois pretendia evitar a estigmatização e acreditava na mudança pela plasticidade cerebral da criança por meio de medidas psicopedagógicas eficazes. Diante de um cenário de exclusão social, Campos (2003) apresenta a iniciativa de Helena Antipoff, sensibilizada pela precariedade das condições de vida das crianças em situaçãode rua. Atenta aos direitos contidos na Declaração de Genebra, ela fundou a Sociedade Pestalozzi, em 1932, que tinha por objetivo promover programas de assistência às crianças, além de assessorar as professoras das classes especiais das escolas. A autora ainda salienta que o consultório médico-pedagógico instalado na instituição atendia tanto às crianças pobres e abandonadas quanto às crianças com deficiência ou problemáticas — ditas “crianças-problema”. Delou (2007) acrescenta que Antipoff, no estatuto da Sociedade Pestalozzi do Brasil, propôs incluir um parágrafo ao termo excepcional como aquele que se classifica tanto abaixo quanto acima da média, visto que suas características mentais, físicas ou sociais demandam uma educação especial. A partir de 1940, a Sociedade Pestalozzi, ainda sob a liderança de Helena Antipoff, instalou a Escola da Fazenda do Rosário, em propriedade rural localizada no município de Ibirité, Minas Gerais, com a finalidade de educar e reeducar excepcionais ou abandonadas utilizando os métodos da Escola Ativa. A partir da Fazenda do Rosário, nos anos subsequentes, a psicóloga liderou então extensa obra educativa, nas áreas de educação especial, educação rural, criatividade e superdotação, tendo participado ativamente na formação de várias gerações de psicólogos e educadores. (Campos, 2003, p. 222) Delou (2007) destaca o papel de Antipoff na identificação e no atendimento educacional para estudantes com altas habilidades/superdotação. A autora cita os estudos de Maria Helena Novaes ao descrever os atendimentos realizados por Antipoff com “alunos bem-dotados de escolas da zona sul do Rio 6 de Janeiro, que, em pequenos grupos, desenvolveram estudos em literatura, teatro e música”. Esse é o início do que consideramos um atendimento educacional aos estudantes com altas habilidades/superdotação (Delou, 2007). TEMA 3 – PRINCÍPIO DA NORMALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO Na medida em que avançamos com as políticas públicas integracionistas e movimentos populares em favor dos direitos humanos e dos direitos da criança, a sociedade passa a se manifestar contra a institucionalização e a segregação de pessoas com deficiência confinadas em hospitais psiquiátricos, conventos, asilos, instituições residenciais, escolas especiais para a sua integração na sociedade. Para Aranha (2005), a década de 1960 tem como marco a incidência política contra o paradigma tradicional da segregação e institucionalização. Com o fracasso da segregação/institucionalização, abre-se a perspectiva importância das relações sociais, da integração na sociedade e da produtividade da pessoa com deficiência no mundo trabalho, iniciando, assim, o movimento pela desinstitucionalização fundamentado na normalização. A defesa pela integração da pessoa com deficiência na sociedade é caracterizada pelo princípio da normalização. Caberia à escola e à educação especial ajudarem a pessoa com deficiência “a adquirir as condições e os padrões da vida cotidiana, no nível mais próximo possível do normal” (Aranha, 2005, p. 18). Ou seja, o princípio da normalização defendido pela integração dizia respeito à necessidade do aluno em se adaptar ou se ajustar ao ambiente escolar ou social para que possa conviver com os demais. Para operacionalizar o princípio da normalização, foram criados no Brasil, a partir da década de 1960, centros de reabilitação para atender às pessoas com deficiência, seja sensorial ou física, voltados à tentativa de integrá-la à sociedade. Trata-se aqui do paradigma de serviços voltado para a integração ou inserção social (Aranha, 2005). Fernandes (2013, p. 73) destaca que o paradigma de serviços tem como “foco a limitação gerada pela deficiência”. A autora cita o exemplo de uma criança surda, que receberia treinamento intensivo de produção de fonemas, leitura labial e estimulação para aproveitamento do resíduo auditivo no serviço de reabilitação com fonoaudiólogo. Em decorrência de estar impedida de ouvir, 7 ela não desenvolveu a linguagem de forma natural. A comunicação oral seria a forma de o estudante surdo se adequar ao padrão estabelecido como norma. Para Mendes (2006), a ideia de que toda pessoa com deficiência teria o direito de ter um estilo de vida comum a todos de sua cultura, assim como a todas as pessoas deveriam ser dadas oportunidades iguais e participação em todas as mesmas atividades, constitui o princípio da normalidade. TEMA 4 – INTEGRAÇÃO A bandeira da integração foi levantada por um movimento social contra a segregação. Aqui no Brasil, esse debate aconteceu nas décadas de 1960 e 1970, com maior destaque em 1988 com a Constituição Federal, momento em que diversos segmentos da sociedade ampliaram o interesse pelos direitos sociais das pessoas com deficiência (Garcia, 2004). Em linhas gerais, Fernandes (2013) caracteriza a integração como inserção social da pessoa com deficiência nos espaços comuns a todos (escolas, hospitais, serviços públicos etc.). Essa inserção ocorre pelo esforço do sujeito para superar a sua própria deficiência. Conforme a autora, na fase da integração o que se verifica é o caráter passivo da sociedade ligada a uma ação unilateral, apenas da pessoa com deficiência, enquanto a inclusão envolve uma ação bilateral e participativa de ambos — sociedade e pessoa com deficiência. A incidência política para a desinstitucionalização e normalização gera novos conceitos e debates sobre como operacionalizar a inserção da pessoa com deficiência na sociedade. Este seria o novo objetivo da educação especial: ajudar a pessoa com deficiência a ter vivências em ambientes menos restritivos e adequados, ou seja, mais próximo do normal e comum para toda pessoa. Estava instituído o paradigma de serviços e foi organizado em três etapas, conforme Aranha (2005): 1. Avaliação: realizada por uma equipe multiprofissional para identificação do que precisaria ser modificado na criança para torná-la normal; 2. intervenção: sugestão de atendimento formal mediante resultados da avaliação; 3. encaminhamento da pessoa com deficiência à sociedade. Várias especialidades na área de reabilitação foram criadas para intervenção terapêutica aos estudantes com deficiência, por exemplo, 8 fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, psicologia, formando a equipe multiprofissional dos centros de atendimento especializado. Além disso, cada área de reabilitação se ramifica em especialidades como a fisioterapia neurofuncional, especialista em reabilitar a coordenação motora, da marcha e dos movimentos dos membros inferiores. Quanto ao papel da escola, segundo Hessmann (2013), na proposta de integração, era o aluno quem deveria adaptar-se à escola. Numa concepção acrítica da escola, acreditava-se que a responsabilidade do problema estava localizada no aluno, diferentemente da inclusão que tem “como pressuposto a adequação da escola para atender todos os sujeitos na escola comum, admitindo a possibilidade de serviços de apoio à inclusão” (Hessmann, 2013, p. 41). Assim sendo, a partir da década de 1960, o processo de integração reforçou a separação de nosso sistema educacional em dois sistemas paralelos de ensino: a educação comum e a educação especial — ou seja, o regular e o especial. Para Fernandes (2013, p. 47), “as práticas desenvolvidas no segundo tinham como objetivo fazer o aluno ingressar no sistema comum”. O sistema da educação especial era substitutivo ao regular. Rodrigues, Capellini e Santos (2014) enfatizam que neste período houve um aumento quatro vezes maior, em relação ao início da década, de escolas especiais para a área da deficiência intelectual, assim como a quantidade elevada de classes especiais que funcionavam nas escolas da rede pública. Um tipo de raciocínio defensivo e de rejeição que contribui para o aumento do número de classe especiais pode estarrelacionado ao discurso de professores do ensino regular considerarem os professores que atuavam na educação especial como “detentores de uma preparação especial e de uma habilidade especial para o trabalho” (Stainback; Stainback, 1999, p. 38). Dessa forma, com a expansão das instituições privadas e filantrópicas — escolas especiais beneficentes —, o poder público se desobrigava da educação desse segmento da população (Rodrigues; Capellini; Santos, 2014). Glat, Pletsch e Souza Fontes (2007) descrevem que a prática pedagógica que ocorria na maioria das escolas especiais era organizada com base nos atendimentos terapêuticos individuais de reabilitação com uma equipe multiprofissional coordenadas pela medicina. Percebemos que para a atividade acadêmica, não era prioritária, e quando era possível, destinava-se pequena parcela do tempo para o pedagógico; o currículo era voltado para a autonomia 9 nas atividades de vida diária e para os intermináveis exercícios de prontidão para a alfabetização, sem maiores expectativas de avanço, visto que esse segmento de alunos não teria condições de letramento. Nesse sentido, os alunos que não tivessem condições acadêmicas para acompanhar as atividades regulares eram encaminhados para espaços separados (classe especial ou escola especial). Lá, seria planejado um programa de atendimento para minimizar os problemas apresentados. Depois, quando estivessem preparados, eles reingressavam no sistema regular. Santos e Bordas (2013) citam o modelo proposto por Deno, em 1970, que compara a estrutura da educação especial ao sistema de cascata, pretendendo mostrar a gradativa transição de inserção (ou reinserção) do aluno nos diferentes níveis e serviços da educação especial, do menos restritivo (classe regular) até o mais segregado (ensino domiciliar e classe hospitalar), a saber: • classe comum; • classe especial; • escola especial; • atendimento em ambiente domiciliar e/ou hospitalar. Garcia (2004) salienta que o movimento de integração escolar é reconhecido na luta contra as condições excludentes do período da segregação. No entanto, a autora pontua críticas feitas às escolas, pois não se modificavam para atender aos alunos com deficiência, pressupondo o ajustamento deles ao processo educativo e de muitos que foram equivocadamente encaminhados para a classe especial. Fernandes (2013, p. 73) esclarece que a principal crítica feita em relação ao processo de integração é que “as diferenças das pessoas com deficiência não são consideradas, buscando-se sua normalização, ou seja, a tentativa de fazê-la parecer o mais próximo possível ao padrão de normalidade imposto socialmente”. A autora também alerta que a ênfase dada à prática da reabilitação secundariza o caráter pedagógico da atuação do professor. Assim, parafraseando Aranha (2005), quando atuamos na perspectiva da integração, nossa ação estará centrada apenas no sujeito, o alvo da mudança, não contando com as mudanças estruturais da sociedade para a sua inserção. 10 TEMA 5 – INCLUSÃO A década de 1990 é um marco para a educação inclusiva, pois traz o vínculo do movimento mundial de inclusão com a reforma geral das políticas educacionais em proporcionar uma escola para atender a todos os alunos, inserindo também aqueles estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Numa sociedade desigual dominada pelo capitalismo liberal, o debate da inclusão escolar é cada vez mais presente. A inclusão é muito mais que inserção social e admissão nas matrículas escolares, exige mudanças estruturais no cenário político, educacional e cultural. É o sistema de crenças, construído historicamente, que valoriza a diversidade, o respeito pelas diferenças, os valores éticos, a participação e o acesso ao conhecimento para todos os alunos. É o que respalda o processo de construção da cultura inclusiva há 30 anos. Concordando com Rodrigues, Capellini e Santos (2014), na perspectiva da inclusão escolar, trazemos no bojo o direito de todos à educação, ou seja, “promover a participação e o respeito às diferenças significa enriquecer o processo educacional, reconhecendo a importância do desenvolvimento das potencialidades, saberes, atitudes e competências” (Rodrigues; Capellini; Santos, 2014, p. 10). Vale recordar que no processo de integração era o aluno quem deveria se adaptar à escola e o problema/deficiência/dificuldade estava nele. A inclusão escolar avança no sentido de que envolve a adequação da escola para atender a todos os alunos, com a possibilidade de apoio dos diversos serviços, recursos e o desenvolvimento de práticas colaborativas previstos na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008). O Brasil também foi consignatário de diversos documentos mundiais por uma educação inclusiva. Aqui, citamos a promulgação da Declaração de Salamanca, em 1994, que se alicerça no reconhecimento da necessidade de uma escola para todos os alunos e estabelece princípios e diretrizes para atender às necessidades individuais (Garcia, 2004). A autora chama a atenção para o esforço coletivo na implementação da escola para todos. É preciso que todos os setores da sociedade se responsabilizem; “desse modo, propõe-se uma maior participação das famílias e da comunidade nas escolas, uma maior 11 participação da sociedade civil na organização e financiamento da educação” (Garcia, 2004, p. 90). Para Aranha (2005, p. 21), o novo paradigma que se inaugura é o de suporte, imprescindível para a implementação da inclusão escolar, “tem como pressuposto de que a pessoa com deficiência tem direito à convivência não segregada e ao acesso imediato e contínuo aos recursos disponíveis aos demais cidadãos”. A autora salienta que há diversos tipos de suportes (social, econômico, físico e instrumental) para as aprendizagens e tem como objetivo a construção da inclusão social. Conforme Fernandes (2013, p. 34), para a efetivação da inclusão é necessária “uma ação bilateral e combinada entre sujeitos com deficiência, órgãos representativos de classe e grupo social na produção de conhecimentos e tecnologias que promovam recursos e serviços de acessibilidade”. Uma característica comum em escolas inclusivas é que o aluno com deficiência não é responsabilidade somente da professora da Educação Especial — ele é de toda a comunidade escolar. Schaffner e Buswell (1999) nos lembram que todos os defensores pela melhoria das escolas devem se unir no reconhecimento de que “boas escolas são boas escolas para todos os alunos” (p. 69). Dentre os elementos para a criação de comunidades de ensino inclusivo e eficaz, as autoras destacam que a filosofia da escola deve estar fundamentada nos princípios democráticos, desenvolvendo um plano estratégico que permita a participação de todos que estão diretamente envolvidos. 5.1 Acessibilidade e inclusão Para que todos os alunos possam participar do processo de ensino e a deficiência não se torne impeditivo, a garantia da acessibilidade é imprescindível para a eliminação das barreiras que colocam as pessoas com deficiência em desvantagem. A acessibilidade nas escolas é prevista em lei (o Decreto n. 5.296/2004 que regulamentou as leis n. 10.048/2000 e n. 10.098/2000), assim como pelo respaldo da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008), que determina a garantia de “acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação” (Brasil, 2008, p. 10). 12 (i) arquitetônica, envolvendo a eliminação de barreiras ambientais; (ii) atitudinal, voltada para o trabalho de prevenção e eliminação de preconceitos e discriminação; (iii) comunicacional, abrangendo a adequação de formas de comunicação esinalização específicas; (iv) metodológica, que compreende a utilização de abordagens didáticas e metodologias diferenciadas; (v) instrumental, referente à utilização de tecnologias assistivas e adaptação de materiais; (vi) programática, eliminação de barreiras invisíveis existentes nas políticas, normas, portarias, leis e outros instrumentos. (Fernandes, 2013, p. 92) Esses seriam alguns suportes e práticas que permitiriam aos cegos o deslocamento seguro se os locais dispusessem de placas em braile e piso tátil; a surdez não se tornaria impeditivo se houvesse intérprete para surdos; estudantes com altas habilidades/superdotação enfrentam preconceito e carência de programas de enriquecimento curricular. Enfim, tendo como base o papel da acessibilidade em ação conjunta com a educação especial da escola comum, do Estado e de toda sociedade, questionamos: como está a realidade da inclusão no Brasil? As mudanças que acontecem na escola apoiam a inclusão? NA PRÁTICA Assista ao filme Como estrelas na terra: toda criança é especial (Taare Zameen Par). É um clássico que vale a pena assistir. Trata-se da inclusão escolar de uma criança com dislexia e discute o papel da escola e da família. A história mostra as estratégias pedagógicas que possibilitaram mudanças na vida de Ishaan na escola, e a valorização das diferenças nos fazem refletir sobre o nosso sistema educacional. FINALIZANDO Os movimentos da integração e da inclusão se diferenciam, dentre outros aspectos, da seguinte forma: 13 A história da educação especial no Brasil teve seu início com a criação de duas instituições para cegos e surdos, por D. Pedro II. A atenção formal à pessoa com deficiência, desde o seu início, foi de caráter assistencialista e práticas cunho médico. Essas instituições tinham como objetivo regenerar as crianças cegas e surdas, ou seja, é preciso “civilizar”, conformes os ditames morais, éticos e médicos da época que as viam como anormais. O padrão de normalidade e a classificação a partir dos escores de inteligência se intensificaram com o movimento da Escola Nova e da psicologia. Até a atualidade, estão presentes no imaginário popular as ideias equivocadas de que a superdotação é identificada apenas pelos altos escores nos testes de inteligência ou de que a divisão e separação de alunos conforme o “grau de inteligência” traz melhor rendimento e aproveitamento. Escola Escolarização gradativa até chegar no ambiente mais integrador, a escola regular. Não há mudanças na escola para atender as necessidades dos alunos. Educação regular e especial na mesma escola com recursos de acessibilidade para romper barrerias impeditivas da inclusão. Sociedade Caráter passivo, unilateral, inserção do aluno por mérito pessoal Ação bilateral, responsabilidades na promoção da inclusão para todos. Paradigma Serviços Suporte INTEGRAÇÃO INCLUSÃO 14 REFERÊNCIAS ALMEIDA, A. M. “Ver” pelo mundo do toque e “Ouvir pelo silêncio da palavra: a educação de crianças cegas e surdas no Brasil (1854-1937). 234 f. 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