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Heber Carlos de Campos
Não há muito sentido estudar
a respeito do homem sem estudar
sobre o lugar onde Deus o colocou
desde o inido dos tempos
0 tem a paraíso é fascinante, porque nos lembra do
carinho de Deus ao criar o lugar onde, originalmente,
colocou sua obra-prima, o ser humano, assim como
0 rigor de sua justiça ao retirar o homem do paraíso
e o paraíso do homem. E isso tudo se deu por causa
da Queda. Não se pode esquecer, também, de sua
bondade graciosa que nos promete a restauração
do paraíso, para nosso deleite, na consumação de
nossa redenção, no fim dos séculos.
A intenção, portanto, é trazer ao público cristão
uma noção, ainda que não exaustiva, do lugar
origina] que Deus deu para o homem viver em
sua presença e, assim, despertar o povo de Deus
para o estudo de um dos tópicos mais importantes
de nossa vida: o lugar de nossa habitação.
ISBN: 9 7 8 -8 5 -7742 -093-3
9 788577 420933
C a t e g o r i a : R e f e r e n c i a
Heber Carlos de Campos
OHABTTAr
HUMANO
Estudos em
Antropologia
Bíblica
hagnos
©2011 por Heber Carlos de Campos
Revisão
Josemar Souza Pinto
André Lima
Capa
SOUTO CRESCIMENTO DE MARCA
Diagramação
Catia Soderi
la edição - setembro de 2011
Editor
Juan Carlos Martinez
Consultor acadêmico
Luiz Sayão
Coordenador de produção
Mauro W. Terrengui
Impressão e acabamento
Imprensa da Fé
Todos os direitos desta edição reservados para:
Editora Hagnos
Av. Jacinto Júlio, 27
04815-160 - São Paulo - SP - Tel (11) 5668-5668
hagnos@hagnos.com.br - www.hagnos.com.br
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Campos, Heber Carlos de
O habitat humano : o paraíso criado / Heber Carlos de Campo, — São Paulo
Hagnos, 2011.
ISBN 978-85-7742-093-3
1. Antropologia teológica - Cristianismo 2. Criação 3. Deus 4. Homem - Habitat 5 .
Paraíso I. Título.
11-08636 CDD-233
índices para catálogo sistemãtico:
1. Habitat humano : Antropologia bíblica : Cristianismo 233
mailto:hagnos@hagnos.com.br
http://www.hagnos.com.br
À BIANCA,
o amor do vovô,
dedico este livro
A presentação
o projeto apresentado nesta obra é como um gran
de mapeamento teológico, que responde ao anseio legí
timo de cristãos ávidos por uma leitura responsável e
madura das Escrituras. Em muitos casos, o leitor que se
aventura a iniciar uma leitura integral das Escrituras,
seguindo a ordem como os livros se encontram no câ
non, não antecipa ter que carregar o fardo pesado das
dúvidas e tópicos de interesse que se vão acumulando à
medida que lê o texto bíblico, fardo este que se asseme
lha à situação de alguém perdido num grande centro ur
bano. Para os que já experimentaram a angústia de não
saber onde estão nem o caminho que devem seguir, ter o
mapa em mãos não ê tudo de que se precisa — um guia
que nos ensine a olhar os dados contidos nesse mapa, a
saber onde estamos em nossa trajetória e onde devemos
chegar, isso, sim, é o que todos precisamos. É nesse
sentido que O habitat humano: o paraíso criado constitui
um minucioso projeto de mapeamento para todo cristão
desejoso de desbravar um novo horizonte de compreen
são das Escrituras.
Não poucas vezes, seremos surpreendidos pela voz
do nosso coração “Quantas vezes passei por este cami
nho! Como foi que nunca atinei para isso?” . São ma
nifestações como essa que convencerão o leitor de que
uma nova perspectiva de leitura faz toda a diferença em
nosso passeio pelas Escrituras. Mais que isso, tais ma
nifestações refletem a habilidade do “guia” (o teólogo que
nos conduz nesse passeio) em nos fazer maravilhar não
com o seu conhecimento, mas com aquilo que os nossos
olhos agora conseguem ver. Essa foi a minha primeira
impressão, ao 1er o manuscrito desta obra para prepa
rar sua apresentação, impressão que se tem confirmado
cada dia mais. Isso me permite fazer a projeção de que
o impacto da proposta de leitura apresentada aqui terá
efeito duradouro na maneira como lemos nossa Bíblia,
na maneira nova como olharemos para verdades até en
tão tidas como de menor importância, na maneira como
organizávamos verdades apresentadas separadamente
na narrativa bíblica.
Nesta primeira parte do projeto, o autor explora
elementos fundamentais para compreendermos as
implicações mais abrangentes e as ramificações mais
profundas daquilo que os primeiros dois capítulos de
Gênesis descrevem como o habitat humano. Segundo o
autor, tanto as características específicas quanto as gerais
apontam para uma expectativa do Criador em relação
ao ser que ele criou à sua imagem e semelhança. Seu
habitat foi preparado de tal maneira e intencionalmente
condicionado para trazer à luz lembretes constantes da
relação que existe entre a criatura e o seu Criador, seja
no modo como agimos, pensamos ou falamos. Nosso
habitat original no jardim do Éden, conforme veremos
nesta obra, era capaz de refletir sobre a natureza humana
um brilho de originalidade e compatibilidade com a boa
vontade do Deus criador. Quanto mais compreendemos
nosso habitat original, mesmo estando já fora dele, mais
compreenderemos nosso desvio de conduta, melhor
entenderemos a gravidade de nossa natureza caída e
apreciaremos ainda mais a necessidade do novo homem
criado em Cristo Jesus.
Assim, é com muita honra que apresento ao leitor
brasileiro a primeira etapa deste projeto intitulado O ha
bitat humano: o paraíso criado, convicto de que o nos
so bom Deus fará uso desta ferramenta para forjar uma
nova geração de leitores com redobrado ânimo e interesse
pela mensagem contida nas Escrituras, a mensagem de
um Deus amoroso ensinando-nos a amá-lo.
Daniel Santos Jr., ph.D
Professor de Antigo Testamento
Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper
S umário
P r e f á c io .............................................................................................. 11
PARTE 1 - A CRIAÇÃO DO HABITAT HUMANO
C apítulo 1 ........................................................................................... 15
A formação do habitat humano
PARTE 2 - AS QUALIDADES FÍSICAS DO HABITAT HUMAm
C apítulo 2 ............................................................................................. 31
O habitat humano era um jardim verdejante
C apítulo 3 ............................................................................................. 41
O habitat humano era um jardim com toda a provisão de
alimento
C apítulo 4 .............................................................................................45
O habitat humano era um grande jardim muito bem
irrigado
C apítulo 5 .............................................................................................67
O habitat original do homem era um jardim muito rico
PARTE 3 - AS QUALIDADES MORAIS DO HABITAT HUMANO
C apítulo 6 ......................................................................................... 83
O habitat humano era um jardim de trabalho
C apítulo 7 .............................................................................................95
O habitat humano era um jardim de liberdade e
responsabilidade
PARTE 4 - AS QUALIDADES SOCIAIS DO HABITAT HUMAm
C apítulo 8 ........................................................................................ 111
O habitat humano era um jardim de companheirismo
PARTE 5 - AS QUALIDADES ESPIRITUAIS DO HABITAT HUMANO
C apítulo 9 .................................................................. ..................... 159
O habitat humano era um lugar de prestar culto a Deus
C apítulo 1 0 ..................................................................................... 169
O habitat humano era um lugar perfeito
Prefácio
Há alguns meses fui atraido fortemente a escrever so
bre o habitat humano. Certamente o Santo Espírito me
tem conduzido nesta direção. Por anos tenho ministrado
muitas aulas de antropologia bíblica e nunca tive a oportu
nidade de tocar nessa matéria, que agora vejo como muito
importante.
Poucosprofessores de teologia tém-se aventurado a
trabalhar com esse assunto, devido á exiguidade de mate
rial. Eu não tenho visto com frequência, mesmo em língua
inglesa, onde há abundância de material teológico, livros
ou artigos teológicos bem articulados que abordem o as
sunto do habitat humano, muito menos da forma como
estou desenvolvendo neste projeto.
Não há muito sentido estudar a respeito do homem
sem estudar sobre o lugar onde Deus o colocou desde o
início dos tempos. Este assunto do paraíso de Deus tem-
me fascinado, porque ê bom lembrar o carinho que Deus
dispensou na confecção do lugar onde originalmente co
locou sua obra-prima — o ser humano — , assim como
o rigor de sua justiça ao retirar o homem do paraíso, o
paraíso do homem, por causa da Queda, sem esquecer sua
bondade graciosa, que nos tem prometido a restauração
do paraíso, para nosso deleite, na consumação de nossa
redenção, no fim dos séculos.
Veio-me então a ideia de elaborar um pequeno pro
jeto, que abrange trés livros menores dos que estou
acostumado a escrever: o primeiro volume versa sobre
O habitat humano: o paraíso criado; o segundo aborda O
habitat humano: o paraíso perdido, e o terceiro tem a ver
com O habitat humano: o paraíso restaurado. Estou feliz
por haver terminado e por apresentar este primeiro volu
me aos leitores cristãos. Os dois últimos volumes estão
sendo escritos, e espero não demorar em seu término.
Minha intenção é trazer ao público cristão uma no
ção, ainda que não exaustiva, do lugar original que Deus
deu para o homem viver em sua presença. É minha ora
ção que o povo de Deus seja despertado no estudo de
uma das coisas mais importantes de nossa vida: o lugar
de nossa habitação.
Dr. Heber Carlos de Campos
PARTE 1
A CRIAÇÃO DO
HABITAT HUMANO
C apítulo 1
A FORMAÇÃO DO
HABITAT HUMANO
Gênesis 1.1 trata da vinda do mundo material à exis
tência pelo poder da Palavra criadora de Deus. Depois da
criação da matéria, Deus passa a colocá-la em ordem,
distribuindo-a, com sua sabedoria, a fim de torná-la bela.
Esse serviço de organização deu-se nos chamados “dias
da Criação”. O capítulo 2 trata dos detalhes preparató
rios para a existência e desenvolvimento da vida humana.
Deus, o Jardineiro por excelência, cria um ambiente en
cantador para sua criatura mais importante. No meio da
terra que já existia, ele faz um primor de jardim.
1. A PLANTAÇÃO DO JARDIM
E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção do
Oriente, e pôs nele o homem que havia formado (Gn 2.8).
Deus tomou todas as providências para a criação do
habitat humano. Primeiramente, a narrativa das Escrituras
nos diz que a obra do jardim foi divina. Foi Deus que “plan
tou um jardim no Éden”. Ao plantar o jardim, Deus o fez
com os atributos de seu poder e sua sabedoria.
Quando Deus, por seu poder, trouxe á existência to
das as coisas que não existiam (Gn 2.4), não as trouxe
todas ã existência de forma organizada. Depois de criar o
mundo da matéria, Deus começou a organizar seu mundo
material, que era inabitãvel e deserto. Este é o sentido da
expressão “sem forma e vazia” (Gn 1.2).
Ao tempo da criação, não havia ainda nenhuma plan
ta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo
havia brotado (Gn 2.5a). A razão da ausência de plantas
e ervas é dada pelo próprio narrador do texto: porque o
Senhor Deus não fizera chover sobre a terra (Gn 2.5b).
Uma das coisas mais fascinantes que a ciência estu
da é a difusão das sementes. Sabemos que, de uma forma
ou de outra, a semente é dispersa pela face da terra pelo
movimento do vento e a ação benéfica dos pássaros, que
a levam de um lado para o outro. As sementes são espa
lhadas e germinam belamente, fazendo que as plantas e
ervas cresçam, estimuladas e vitalizadas pela água. Mas
antes da ação providencial de Deus de proporcionar uma
neblina que subia da terra e regava toda a superfície do
solo (Gn 2.6), nem as ervas do campo podiam nascer. Sem
essa providência divina, não haveria possibilidade de vida
nem mesmo botânica; antes dessa ação, não havia erva de
tipo algum. O modo natural das coisas acontecerem, para
que surgisse a vida das plantas, dependeu, assim, da ação
providencial de Deus. Então, Deus preparou a neblina^ umi-
dificadora para regar a terra (Gn 2.5-6).
A totalidade da terra estava sendo — não
intermitentemente, mas constantemente — irrigada pelas
águas que brotavam da terra. Ambiente maravilhoso! Livre
de qualquer coisa, exceto do que é bom. E nessa terra
maravilhosa Deus proporcionou tudo para o desfrute do
homem. Tudo era regado...^
Todavia, as ervas naturais que cresciam com a água
procedente dos mananciais subterrâneos não constituíam
o jardim de Deus. O jardim começou a existir após uma
ação especial de Deus. As árvores tiveram que ser planta
das por ele, e sua frutuosidade teria a ver com outra coisa
que estava por acontecer — a existência do homem para
lavrar o solo (Gn 2.5). Não se precisa de cultivador para o
crescimento da erva, mas é necessário um lavrador para
cultivar o solo e a manutenção de um jardim.
Portanto, outra razão para não haver plantas frutí
feras e belas árvores é porque também não havia homem
para lavrar o solo (Gn 2.5c). A única providência até então
nesse particular era que uma neblina subia da terra e rega
va toda a superfície do solo (Gn 2.6).
1 A palavra hebraica traduzida por "neblina" deveria ser traduzida por "água
que brota da terra" ou "manancial". Na criação original não havia vento
nem agitação no ar para mover as nuvens, depositar água na terra ou fazer
chover. Esta é uma providência posterior. Portanto, para trazer alívio à terra
seca, Deus fez vir essa "fonte a jorrar da terra" e posteriormente a chuva.
2 John F. MacArthur Jr., em seu sermão sobre Gênesis 2.8-17. <http://www.
biblebb.com/files/MAC/90-227.htm>, acessado em maio de 2010.
http://www.%e2%80%a8biblebb.com/files/MAC/90-227.htm
http://www.%e2%80%a8biblebb.com/files/MAC/90-227.htm
Então, por sua sabedoria, Deus começou a preparar
um habitat para o homem. Além de sua sapiência em co
locar todas as coisas de um modo extraordinariamente
ordenado. Deus ainda, por sua bondade, cuidou de todos
os detalhes da habitação de sua criatura mais importante.
A primeira grande providência governativa de Deus foi
plantar um jardim, para depois colocar o homem no jardim.
Parece-nos que Deus primeiro organizou o habitat para de
pois criar o homem, embora não pareça ser esta a ordem
cronológica do texto. É a ordem lógica dele.
Deus colocou primeiro as plantas do campo, que não
precisavam ser cultivadas pelo homem, pois crescem pela
polinização causada pelo vento e por pequenos animais,
assim como pela irrigação de fontes subterrâneas e, poste
riormente, também das chuvas, que passaram a cair sobre
a terra. A água dos mananciais e da chuva faz as plantas
do campo crescerem independentemente da ação do cui
dado humano. Todavia, as plantas boas para comer vie
ram depois, quando Deus colocou o homem para cuidar
delas. Deus fez as coisas muito organizadamente para o
deleite do ser humano. O jardim plantado por Deus estava
realmente num lugar — Éden — , que significa “prazer” .
O jardim do Éden é tipo e figura da alegria do povo
de Deus, que será expressa na recriação do mundo edêni
co, na consumação de todas as coisas. Somente um lugar
plantado por Deus pode ser deleitoso e prazeroso para as
suas criaturas! Nada mais pode gerar tanta satisfação às
criaturas do que estar em um lugar carinhosamente pre
parado pelo poderoso, sábio e bondoso Criador!
2. A LOCALIZAÇÃO DO JARDIM
E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção do
Oriente, e pôs nele o homem que haina formado (Gn 2.8).
O texto das Escrituras diz que plantou o Senhor Deus
um jardim no Éden. O jardim que Deus plantou para ali
colocar o homem ficava, então, em uma região mais ampla
chamada Éden. Perceba que o texto diz que Deus preparou
um jardim no Éden. O texto não fala em jardim do Éden,
masde um jardim que estava localizado no Éden.
Na verdade, toda a terra que Deus havia feito era pa
radisíaca. Todavia, na banda oriental do Éden, Deus ha
via pessoalmente plantado um jardim com características
ainda mais belas do que a terra em geral. A Septuaginta,
que é a versão grega do Antigo Testamento, traduz a pa
lavra “jardim” como paradeison, de onde vem o termo
português “paraíso” . O jardim era a expressão maior da
beleza da criação divina. O jardim no Éden é o paraíso
criado por Deus.
Paraíso, portanto, não é sinônimo de Éden, mas de
jardim. Esse jardim estava localizado em uma área de
terra contínua, muitíssimo maior que o jardim (Éden),
e que, com grande possibilidade, incluía toda a porção
seca de um único continente existente, antes da vinda
da grande catástrofe do Dilúvio, no tempo de Noé.
A ideia de que o Éden seria uma porção seca de terra
tem algum fundamento na própria narrativa de Gênesis.
Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos
céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez.
À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das
águas, Mares. E viu Deus que isso era bom (Gn 1.9,10).
A grande porção seca chamada Terra era cercada por
um ajuntamento de águas num só lugar, que o texto sa
grado chama de Mares. Essa porção seca ê que viria a ser
O habitat humano após a Queda e que, posteriormente, foi
dividida em vários continentes.
Há um grupo de cristãos que não encontra dificuldade
em crer que havia um único supercontinente^ no período
da criação, posteriormente dividido em vários continentes,
quando da grande catástrofe do Dilúvio. Esse teórico único
continente é chamado de Pangeia.
O termo “Pangeia” vem do ajuntamento de duas pala
vras gregas: pan (toda) e gaia (terra). Ou seja, a porção cha
mada Terra era uma única massa de terra, não submersa
pelas águas.
A teoria de Pangeia é defendida em alguns círculos
cristãos'' e mesmo em círculos científicos, ainda que com
pressuposições não cristãs.
3 '"Supercontinente' é um termo usado para uma enorme massa de terra
pela convergência de múltiplos continentes. 0 supercontinente mais
frequentemente referenciado é conhecido como 'Pangaea' (também
'Pangeia'), que existiu aproximadamente 225 milhões de anos atrás. É crido
que todos os principais continentes àquela altura foram reunidos num
supercontinente Pangeia" {Pangaea-Supercontinent, artigo encontrado no
site <http://geology.com/articles/supercontinent.shtml>).
4 Essa posição é sustentada por cientistas cristãos que têm a tendência de
ver a Terra como mais jovem. Ver o artigo What about continental drift,
no site <http://creation.com/images/pdfs/cabook/chapterll.pdf>. Nesse
artigo, 0 articulista, que é, na verdade, autor do livro no qual o artigo se
encontra, trabalha com a tese de que os continentes não são produto do
afastamento contínuo e paulatino uns dos outros, mas, que apareceram
rapidamente, por causa do fenômeno cataclísmico do Dilúvio, mediante
a formação célere das placas tectônicas. Os defensores do modelo
evolucionista creem no modelo chamado uniformitário de afastamento
continental. "Existiu uma única massa de terra conhecida como Pangeia? É
possível. Mas se houve, o modelo uniformitário do afastamento continental
provê uma explicação inadequada para sua separação. Os eventos
catastróficos circundando o dilúvio global supre um modelo muito mais
factível para a separação da Pangeia" (Kyle Butt, Pangea and the Flood,
http://www.apologeticspress.org/articles/2808).
http://geology.com/articles/supercontinent.shtml
http://creation.com/images/pdfs/cabook/chapterll.pdf
http://www.apologeticspress.org/articles/2808
Um articulista despretensioso faz uma pergunta e dá
uma resposta a qual muitos deveriam dar ouvidos:
Você se lembra de Pangeia, o continente original descrito pelos
geólogos como tendo existido centenas de milhões de anos
atrás? Moisés o descreve aqui nesses versículos de Gênesis,
milhares de anos antes de as placas tectônicas, muito menos
a Pangeia, se tomarem teorias científicas aceitas.̂
Portanto, podemos dizer com convicção que o jardim
(paraíso) estava localizado em um supercontinente, cha
mado de Éden que era a porção seca originalmente feita
por Deus.
3. A COLOCAÇÃO DO HOMEM NO JARDIM
E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção
do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado
(Gn 2.8; c f Gn 2.15).
É praticamente certo que Deus tenha feito o homem
fora do jardim. Adão foi feito do pó da terra, mas não do pó
do jardim. Não sabemos quanto tempo ele viveu no lugar
onde foi formado, mas certamente por algum tempo, para
que pudesse contemplar e vir a comparar a superioridade
do jardim em relação às outras partes do Éden. Somente
mais tarde Deus o colocou no seu lugar preferido e o mais
elevado em beleza — o jardim. Deus o colocou ali para que
o homem tomasse posse daquela área especial que havia
5 Rick Beckman. Genesis 1 :9 -1 0 : Pangaea\, http://rickbeckman.org/
genesis-19%E2%80%9310-pangaea/.
http://rickbeckman.org/
feito para o deleite de suas criaturas, em razão de sua bon
dade para com elas.
Deus não somente foi o criador do homem e o plantador
do jardim no Éden, mas também o doador das bem-aven-
turanças paradisíacas do jardim. Ele teve o propósito de
fazer sua criatura feliz na terra de encantamento para seu
corpo e seu espírito. Espiritualmente, o homem poderia se
deliciar na beleza do jardim, e fisicamente, desfrutar das
suas provisões.
As Escrituras nos revelam que a terra foi designada
por Deus para ser o lar do homem desde sua criação.
A terra é um lugar perfeitamente adaptado para a vida
humana. O jardim era o cerne deste planeta azul, onde o
ser humano deveria desfrutar de toda a beleza. A terra é
o lar definitivo do homem. Nunca houve ameaça da parte
de Deus de que, se o homem pecasse, seria retirado desse
lugar e colocado em outro habitat. Quando o homem pe
cou, Deus o amaldiçoou, tanto quanto o seu habitat, mas
o deixou em seu lugar próprio. Seria uma infelicidade ex
trema para o homem estar fora do seu habitat.
Muitos cristãos, especialmente os que sofrem, que
rem deixar este mundo e ir para o céu, que é o lugar
para onde vão os remidos quando morrem. No entanto,
o céu não é o lugar definitivo do homem, mas a terra.
O céu é apenas um lugar provisório, até que todo plano
redentor se complete. O homem remido vai para o céu
porque o seu habitat aqui não combina mais com a sua
natureza santificada. Todavia, quando a redenção se
completar. Deus vai fazer o remido voltar para o seu
lar original, que será a terra completamente renovada,
adaptada à santidade do homem. O lar definitivo dos
remidos não é o céu, mas o jardim, que será restaurado.
O jardim de Deus foi estabelecido para sempre para
que os homens desfrutem dele. E construiu o seu santuário
durável como os céus e firm e como a terra que fundou para
sempre (SI 78.69).
Esta terra nunca será destruída [ou aniquilada] por
que ela é o habitat perene dos filhos de Deus. No final do
presente estado da história humana, Deus ateará fogo na
terra, náo para destruí-la, mas para purificá-la, renová-
la, a fim de que o homem possa viver nela da forma como
ele vivia no tempo da sua criação. No decreto de Deus
está claramente inclusa a ideia de a terra ser o lugar defi
nitivo da habitação dos homens, porque a terra é o lugar
original da habitação deles. Nunca a terra será um lugar
vazio [isto é, um ‘caos’], mas será para sempre o lar dos
seres humanos. Não é sem razão que o profeta diz; Porque
assim diz o Senhor, que criou os céus, o Deus que formou
a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou para ser
um caos, mas para ser habitada: Eu sou o Senhor, e não
há outro (Is 45.18).
A verdade de Deus é que os céus são os céus do
Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens (SI
115.16). Sua promessa é que, quando a terra houver
sido restaurada, haverá plena comunhão do homem com
seu Criador, como desde o começo do mundo.Então,
a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as
águas cobrem o mar{ls 11.9). Nesse tempo, o Senhor dos
Exércitos tragará a morte para sempre, e, assim, enxuga
rá o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará
de toda a terra o opróbrio do seu povo, porque o Senhor o
falou (Is 25.8).
Ê falsa a noção de que Deus vai abandonar a terra
e destruí-la. Não há fundamento escriturístico para essa
ideia. O Senhor Deus fez o jardim para ali o homem ha
bitar para sempre. Deus castigou o homem por causa do
pecado, mas não o arrancou definitivamente do seu habi
tat. Quando Deus o tirou do seu habitat foi para que ele
desfrutasse de um lugar adaptado á sua nova condição,
até que sua restauração viesse a se completar. Então, ele
voltará novamente ao habitat original. A terra é o lar do
homem por toda a eternidade. O jardim será recolocado
aqui na recriação de todas as coisas, e os remidos viverão
ali para sempre!
4. O TAMANHO DO JARDIM DO ÉDEN
E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção
do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado
(Gn 2.8; c f 2.15).
Ao falarmos do jardim plantado no Éden, não é para
se ter em mente o tamanho de nossos jardins caseiros ou
mesmo os grandes jardins de palácios ou jardins públicos
que uma cidade possua. O jardim situado no Éden era re
almente imenso!
Se atentarmos para o que Deus criou, veremos que
foi criada uma grande porção seca, que as Escrituras
chamam de Terra (Gn 1.9). Procuremos descrever tal
imagem em círculos concêntricos. No centro, no círculo
menor, estava o jardim, localizado no Éden; no círculo
em torno deste estava o restante do Éden, e no círculo
mais amplo, em volta deste segundo, o que as Escrituras
chamam de mundo e que se refere aos “confins da terra”
ou “quatro cantos da terra” . Os quatro rios que proce
dem do rio nascido no coração do jardim regam o Éden
e os confins da terra.
No círculo menor estava localizado o lar do homem.
Lar é o lugar onde os homens repousam e dormem. Para
ali Adão e Eva voltavam depois do trabalho pesado de cul
tivar o jardim e guardá-lo.
No círculo seguinte em torno estava o lugar onde os
nossos primeiros pais trabalhavam. Ele ia além das fron
teiras do seu lar. Ali Adão e Eva observavam os animais
selváticos, já que os domésticos eles os tinham junto de
sua residência.
No círculo ainda mais amplo estavam as regiões inex
ploradas por Adão e Eva e que vieram a ser exploradas
posteriormente pelos descendentes deles, já no estado de
queda, de que era parte o Éden, formando a porção seca
chamada Terra. O texto das Escrituras menciona essas
terras como sendo terra de Havilá, Cuxe e assim por dian
te. Essas foram as terras dos labores de Caim, de Abel e
de Sete e seus descendentes. Os filhos de Adão provavel
mente nasceram no que eu chamo de segundo círculo con
cêntrico, e seus descendentes se mudaram para o terceiro
círculo concêntrico, para ali procurarem desenvolver os
desígnios culturais estabelecidos por Deus. Ali se multi
plicaram e começaram a habitar as mais variadas regiões
contidas nos quatro cantos da terra, ou confins da terra,
até o dia de hoje, conforme o mandamento divino de cres
cer e multiplicar.
Do jardim fluía um rio enorme, que se dividia em
quatro grandes braços, os quais regavam o restante do
Éden e os confins da terra. Quando falamos desses rios,
não podemos também pensar em córregos ou rios peque
nos. Eram cursos d ’âgua amplos e longos, não simples
riachos que regassem a terra por alguns quilômetros.
Proporcionavam eles toda a irrigação da terra que Deus
havia criado. Todo suprimento aquoso para a subsistên
cia das plantas, dos animais e dos homens vinha desses
rios. São mencionados no texto a seguir, e sua localização
será analisada posteriormente.
E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se
dividia, repartindo-se em quatro braços. O primeiro
chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de Havilá, onde
há ouro [...] O segundo rio chama-se Giom; é o que
circunda a terra de Cuxe. O nome do terceiro rio é Tigre;
é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o
Eufrates (Gn 2.10,11,13,14).
5. A REALIDADE DO JARDIM DO ÉDEN
O jardim de Deus não era uma ilha deserta, não era
uma localidade fictícia; não era um Shangrilá nem uma
terra de Nárnia, criações da imaginação de autores hu
manos. O jardim de Deus não deve ser crido como algu
ma coisa mítica. Cada parte da descrição do jardim nos
inclina a entender que o jardim realmente existiu e que
não é fruto de uma fantasia utópica da imaginação hu
mana. Ele possuía uma localização geográfica, ainda que
após o evento cataclísmico do Dilúvio não possamos sa
ber precisamente onde era a sua localização. No entanto,
sabemos, não somente pela fé, mas também por evidên
cias geológicas, que houve realmente um jardim edênico
onde Deus colocou o homem.
Na mente de Moisés, o autor de Gênesis, o jardim de
Deus era uma realidade clara, um lugar único que foi per
dido e que um dia será reconquistado, no tempo do com-
pletamento da redenção humana.
Deus criou todo o Universo pelo poder de sua pala
vra, mas tomou cuidados específicos e especiais quando
lidou com o habitat humano. Ele mesmo plantou um ja r
dim inigualável para ali colocar a coroa da sua criação.
Tomou várias providências como rios, árvores frutíferas,
animais, aves e répteis, para uso e desfrute do homem.
Nada faltava naquele jardim. Deus teve prazer na sua
criatura mais importante e, mesmo depois da Queda e
manifestação de sua conseqüente ira, Deus se volta de
sua ira e promete a reconquista do paraíso, no estabe
lecimento de nova terra por meio de Cristo Jesus, o se
gundo Adão.
A criação do jardim foi expressão da bondade de
Deus para com a sua criatura, e a reconquista do pa
raíso será expressão do amor perdoador de Deus para
com sua criatura redimida. O custo da reconquista do
paraíso não pode ser comparado ao custo da criação do
paraíso original, porque a reconquista foi feita a preço
de sangue.
Todo cristão deve crer obrigatoriamente nas verda
des descritas anteriormente, porque Jesus Cristo acei
tou as narrativas literais dos dois primeiros capítulos de
Gênesis. Para ele, o jardim no Éden não é uma lenda, um
mito ou uma saga. Veja o que diz Jesus Cristo:
Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam,
perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher
por qualquer motivo? Então, respondeu ele: Não tendes
lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e
mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai
e mãe e se unirá a sua mulher, tomando-se os dois uma
só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma
só came. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o
homem (Mt 19.3-6).
Jesus citou Gênesis 1.27 e 2.24. Se Jesus Cristo
é digno de confiança (e ele o é!), então temos de aceitar
seu testemunho de um lugar que realmente existiu no
início da história humana: o jardim no Éden. Jesus não
considerava a narrativa de Gênesis uma irrealidade! Ele
considerou o paraíso como um lugar vero e que, no tempo
determinado, será restaurado à sua condição primeira!
PARTE 2
AS QUALIDADES FÍSICAS
DO HABITAT HUMANO
C apítulo 2
O HABITAT HUMANO ERA UM
JARDIM VERDEJANTE
Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores
agradáveis à insta e boas para alimento; e também
a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do
conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9).
O jardim no Éden pode ser localizado geograficamen
te, ainda que não com propriedade absoluta. Muitos cien
tistas, ainda hoje, tentam mitificar ou interpretar o livro de
Gênesis de modo alegórico. No entanto, a narrativa bíblica
mostra que o Éden é um lugar de prazer, de encantamen
to, um lugar que Deus preparou para o deleite de sua
criatura mais importante — o ser humano; um lugar que
realmente existiu.
É interessante notar que Deus não fez uma floresta do
tipo tropical, mas um jardim com árvores. A ênfase dada às
árvores pelo autor de Gênesisê muito importante, em vir-'
tude de sua ausência em muitas partes do Oriente Médio,
onde o livro de Génesis foi escrito. Aqui no Brasil estamos
acostumados com árvores, mas naquelas bandas do planeta
a primeira coisa que você tem que aprender é usar óculos
escuros, para proteção contra a luz solar excessiva, porque
as árvores e a verdura da vegetação são quase uma raridade.
Quando visitei algumas partes do Oriente Médio, pude
perceber a falta do verdor tão abundante em nosso país. A
falta das árvores é ainda mais patente nas regiões desér
ticas da Judeia. Imagine o deserto da Arábia, o maior de
serto de areia do mundo, quão árido pode ser. Ao escrever
o Gênesis, Moisés vivia em uma região desértica. Portanto
não é sem razão que, ao narrar o que recebeu diretamente
de Deus, ou por tradição oral fielmente transmitida sobre
a criação do mundo, ele tenha se encantado com a ideia de
um jardim de árvores frondosas, cheias de sombra e frescor!
Além do mais, para haver árvores, tem que haver
água. Esse líquido precioso é tão raro naquelas regiões
que seu valor ali é inestimável! É mediante a água que
as plantas crescem luxuriosamente. Moisés descreve bela
mente o jardim que Deus plantou, enfatizando seu verdor.
Essa minha impressão do encantamento de Moisés está
na expressão que ele usa; “árvores agradáveis à vista”. Por
essa razão, disse Young que “vemos que Deus é abundan
temente gracioso para com o homem”.®
6 Edward J. Young. In the Beginning. Edinburgh: Banner of Truth, 1976, p. 73.
NÓS, que vivemos em um país cheio de verdor, não
conseguimos imaginar um lugar tão seco quanto a re
gião que teria sido o jardim no Éden. As árvores daquele
imenso jardim foram sendo todas, mais tarde, destruídas
e lançadas nas regiões inferiores da terra, formando pos
sivelmente, com os fósseis, os combustíveis de que hoje
fazemos uso, depois de milhares de anos.
Os habitantes daquelas regiões do Oriente Médio,
hoje, não podem sequer imaginar a beleza do verdor do
paraíso plantado por Deus. Nós, que aqui vivemos, co
nhecemos a beleza das árvores e nos encantamos com
elas; todavia, elas não poderiam ser comparadas com as
árvores do jardim de Deus, plantadas em uma terra pura,
sem a maldição divina da queda do homem que recaiu
sobre ela. Não havia sequer espinhos ou abrolhos entre
as plantas, essas pragas apareceram somente com a mal
dição divina. Portanto, o jardim de Deus era belíssimo,
sem nenhuma inconveniência. Tudo era lindo em derre
dor, e a alegria de Deus enchia toda a terra, sobretudo
o jardim. A terra era sem dúvida um lugar da mais alta
perfeição e paz! E havia doçura em todas as coisas colo
cadas por Deus naquele jardim. Adão e Eva certamente
se deliciavam em contemplar a beleza daquela vegetação.
Seus olhos se deliciavam com a visão das árvores, pois
eram admiráveis, “agradáveis á vista” !
Em uma linguagem poética, Matthew Henry disse
que o jardim “era belo e adornado com cada árvore que,
'por sua altura e largura, sua feitura ou cor, sua folha ou
flor, era agradável á vista e charmosa aos olhos; [o jar
dim] era pleno e enriquecido com cada árvore que produ
zia fruto para o paladar e útil para o corpo e muito bom
para se comer” .
7 Matthew Henry. Commentary on Genesis, <http://www.studylight.org/
com/mhc-com/view.cgi?book=ge&chapter=002>, acessado em maio de
2010.
http://www.studylight.org/%e2%80%a8com/mhc-com/view.cgi?book=ge&chapter=002
http://www.studylight.org/%e2%80%a8com/mhc-com/view.cgi?book=ge&chapter=002
O jardim de Deus tinha abundância de tudo o que
era indescritivelmente belo. Era cheio da sombra das ár
vores, do reflexo cristalino das águas dos rios, de frutos
que caíam dos seus galhos, do cântico de passarinhos, da
fragrância das flores e da beleza das verdejantes folhas.
Tudo era perfeito! Deus foi extremamente pródigo no que
fez, sem qualquer miséria. Ê um paraíso assim que cre
mos que Deus fez para o deleite das suas criaturas. O
clima era ideal, o cenário magniflcente, e as cercanias
cheias de paz!
Ê verdade que o pecado trouxe consigo a maldição
divina; mesmo assim, o mundo feito por Deus ainda reflete
(embora imperfeitamente) a beleza de sua criação. Vivendo
em uma época em que a Queda já vigorava há milénios,
ainda assim o Pregador não titubeou em dizer: Tudo fez
Deus formoso no seu devido tempo... (Ec 3.11).
Nenhuma obra de paisagista do nosso tempo pode ser
comparada á beleza do jardim plantado no Éden por Deus.
Nenhum milionário deste mundo pode encontrar jardinei
ros capazes de fazer alguma coisa como Deus fez. Nenhum
resort, por mais rico e luxuriante que seja, é capaz de pro
porcionar os prazeres, o encantamento e o repouso que
Adão e Eva desfrutaram naquele lugar paradisíaco. Era
um lugar de fato magniflcente!
No meio das árvores comuns, “agradáveis ã vista”,
porém, eis que deparamos com duas árvores muito im
portantes, que Deus selecionara para ensinar aos homens
determinadas verdades espirituais: a árvore da vida e a
árvore do conhecimento do bem e do mal. Devido á sua
importância, vamos tratá-las com mais extensão.
Essas duas árvores são reais, mas possuem signifl-
cados que lhes proporcionam destaque maior no jardim
de Deus. Cada uma delas representa algo importante.
Apontam para os fatos de que a comunhão com o Senhor
tem a ver com a árvore da vida, e a quebra dessa comu
nhão, com a árvore do conhecimento do bem e do mal.
Vejamos alguns detalhes sobre este assunto:
1. A ÁRVORE DA VIDA
Do solo fez o Senhor Deus hrotar toda sorte de árvores
agradáveis à vista e boas para alimento; e também
a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do
conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9).
A árvore da vida exerce uma função muito importante
nas Escrituras, por isso aparece no primeiro e no último
livro da Bíblia, além de ser sugerida em Ezequiel 47.12 e
em Provérbios 11.30; 13.12. Ê parte tanto do primeiro pa
raíso (Gn 2.9) como do paraíso definitivo, na consumação
de todas as coisas (Ap 2.7; 22.2).
A despeito da árvore da vida ser uma árvore real, co
mum, uma árvore composta de raiz, caule, galhos, folhas
e frutos, localizada “no meio do jardim”, tem uma signifi
cação espiritual muito característica. Seus frutos são na
turais, mas com propriedades sobrenaturais.
Na verdade, nesse sentido, é uma árvore sobrenatural,
pelos símbolos que comunica: é simbólica de sabedoria;
de retidão; é simbólica da concretização da esperança; é
simbólica de temperança na linguagem. É uma espécie de
árvore sacramental.® É indicativa exterior de manutenção
perene da comunhão com Deus no jardim. Comer do
8 Cf. Geerhardus Vos. Biblical Theology — Old and New Testaments. Grand
Rapids, iViichigan; Eerdmans Publishing Company, 1980, p. 27. V. tb. Louis
Berkhof. Teologia Sistemática. Quinta edição em espanhol. Grand Rapids,
Mich: TELL, 1981, p. 257-258.
fruto dessa árvore é símbolo de vida eterna. Essa árvore
era um sinal para Adão de que a origem da vida está em
Deus e para que soubesse que simbolizava sua condição
de bem-aventurança, que jamais seria perdida se tivesse
cumprido a obediência dele exigida.
Só poderia comer dessa árvore aquele que passasse
no teste da obediência. Se o homem comesse dessa árvo
re, viveria para sempre. No entanto, não podemos dizer
que a perenidade da vida vem do seu fruto, mas, sim, da
obediência, porque a vida eterna, segundo o ensino geral
das Escrituras, ê obtida pela obediência. Por não obede
cer, Adão foi proibido de comer dessa árvore. Então, para
que não comesse dela, foi lançado para fora do paraíso
(Gn 3.22).
2. A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL
Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores
agradáveis à vista e boas para alimento; e também
a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do
conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9).
Esta árvore ê indicativa de realidades espirituais
que Deus queria comunicar às suas criaturas. É possí
vel que também estivesse colocada no meio do jardim,
como a outra árvore —a da vida. Ela, em si mesma, não
era má. Pelo contrário, era não somente também agra
dável à vista, mas seu fruto era bom como o das outras
árvores. MacArthur diz que “ela não era venenosa, não
era uma árvore com fruto tóxico. Não há nada tóxico
na perfeita criação de Deus. Não havia nenhum veneno.
Não havia nada no fruto daquela árvore que, de alguma
forma, houvesse sido alterado geneticamente. Não ha
via nada naquela árvore que, de alguma forma, pudesse
matar algum princípio vital em um indivíduo, como al
gum sopro mortal em sua alma. Era uma árvore boa, e
o seu fruto era perfeitamente bom, porque tudo o que
Deus fez era bom. Não havia nada de danoso no fruto
daquela árvore” .̂
Por que, então, é chamada de “árvore do conhecimen
to do bem e do mal”? Há várias interpretações quanto ao
que seria o mal envolvido;
Há aqueles que entendem, como o comentador Von
Ranke, que a árvore é designada para representar a onis-
ciência e que o homem não deveria cobiçar a onisciência.
Comer dessa árvore significa ter um conhecimento com
pleto e, consequentemente, significa participar da onisci
ência divina. Esta é uma interpretação errônea, porque
a onisciência é um atributo incomunicável ao homem,
pertencente ao Ser único infinito, de quem o homem ê
apenas criatura. A citação de Gênesis 3.22, que fala que
o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem
e do mal, é uma enorme ironia que Deus usa e não deve
ser entendida como o homem tendo o conhecimento que
Deus tem.
Há outros que entendem que o comer dessa árvore
tem a ver com a prática do ato sexual. Este pensamento ê
mais comum dentro da teologia católica romana e é muito
difundido. No entanto, não há nenhuma sugestão de que o
pecado de comer dessa árvore tenha a ver com as relações
sexuais entre Adão e Eva.
A importância dessa árvore, no entanto, está vin
culada à sua significação espiritual. Ela é reveladora da
9 John F. MacArthur Jr., em seu sermão sobre Gênesis 2.5-17. <http://www.
biblebb.com/files/MAC/90-227.htm>, acessado em maio de 2010.
10 Citado por S. Lewis Johnson, em seu sermão Man and his probation,
Gênesis 2,5-17. <http://www.sljinstitute.net/sermons/oid_testament/
pentateuch/pages/genesis6.html>.
http://www.%e2%80%a8bibiebb.com/files/IVIAC/90-227.htm
http://www.%e2%80%a8bibiebb.com/files/IVIAC/90-227.htm
http://www.sijinstitute.net/sermons/oid_testament/%e2%80%a8pentateuch/pages/genesis6.html
http://www.sijinstitute.net/sermons/oid_testament/%e2%80%a8pentateuch/pages/genesis6.html
soberania de Deus, que ordenou que os seres humanos
dela não comessem. Representa claramente a vontade di
vina. Adão e Eva não conheciam experimentalmente o mal,
embora já conhecessem o bem, porque viviam no meio do
bem e haviam vindo daquele que é o Bem Supremo. No en
tanto, Deus os colocou sob a necessidade de obedecer ao
seu mandamento. Eram seres morais e precisavam pres
tar obediência moral ao seu Criador. Quando Deus fez os
seres humanos, colocou no coração deles a distinção entre
o que é bom e o que não ê bom. A continuação da prática
do bem era não comer da árvore, enquanto a prática do
mal era comer dela. Se comessem do fruto da árvore do co
nhecimento do bem e do mal, estariam abandonando tudo
o que é bom; se não comessem, continuariam no bem e
nunca mais perderiam a vida de comunhão relacional com
Deus, com a qual foram criados.
Deus dera aos primeiros pais todas as coisas
necessárias para uma abundante e feliz subsistência no
jardim. O homem não precisava desejar mais nada. Não
precisava querer conhecer como Deus, como Satanás
sugeriu. Deveria estar absolutamente contente com as
provisões divinas. Mas ele desejou alguma coisa mais.
Parece-nos que ele não quis mais ser dependente de
Deus; quis ser como o próprio Deus. Por isso, formalmente,
desobedeceu ao seu Criador. Não se contentou com a vida
de bem-aventurança que tinha. Não se contentou com as
árvores agradáveis ã vista, nem com os frutos que davam.
Preferiu fazer exatamente o que Deus havia proibido e, em
vez de ser como o seu Criador, acabou sendo banido daquela
vida maravilhosa envolvendo em uma grande tragédia de
miséria e condenação, em que imergiu não somente a si,
mas toda a sua progénie pelos séculos.
A árvore fora colocada ali, portanto, para põr o homem
sob prova. Se ele comesse dessa árvore, iria conhecer ex
perimentalmente o mal e morreria — foi exatamente o que
aconteceu. A desobediência foi o primeiro mal formalmente
praticado no mundo dos homens. Assim, no meio daquele
lugar magniflcente, o jardim no Éden, havia uma árvore
para testar a obediência de Adão e Eva. O restante da his
tória todos nós conhecemos não somente de ouvir, mas
também por experimentarmos pessoalmente o que é o mal
e, por estarmos vinculados representativamente a Adão,
também morrermos.
C apítulo 3
O HABITAT HUMANO ERA
UM JARDIM COM TODA PROVISÃO
DE ALIMENTO
Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores
agradáveis à vista e boas para alimento; e também
a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do
conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9).
As árvores que Deus plantou no jardim eram não
apenas para mostrar a beleza de sua criação, mas tam
bém para a provisão diária de suas criaturas. A região
hoje existente no lugar que teria sido o jardim no Éden,
no Oriente Médio, é um deserto inóspito, onde somente
O petróleo tem força. Na verdade, o petróleo ali existen
te é resultado da ação violenta do grande cataclisma do
Dilúvio, que removeu as árvores dali e as sepultou nas ca
madas inferiores do globo terrestre, onde permaneceram
por milhares de anos até se transformarem em lodo sub
terrâneo, o grande lençol petrolífero que por décadas vem
sendo a grande fonte de energia para o mundo. Árvores
e vegetação são coisas raras naquela parte do mundo.
Quando algumas pouquíssimas árvores são encontradas,
esse pequenino pedaço de terra verdejante é geralmente
um oásis em meio ao imenso deserto.
Antes da catástrofe, no entanto, houve naquela re
gião uma enorme quantidade de árvores, sendo muitas
delas frutíferas, quando Deus fez o mundo. Não podemos
imaginar quão belamente arborizada era aquela região ao
tempo da criação! O que é hoje um grande deserto era nos
tempos primevos o grande jardim de Deus. Muitas árvo
res existiam porque havia muitos rios. A água abundante
do jardim produzia inúmeras árvores frutíferas. Elas fo
ram colocadas por Deus ali para o benefício do homem,
para sua subsistência e encanto dos seus olhos.“
O texto de Gênesis diz que Deus fez o jardim para que
o homem desfrutasse da sua beleza e dos seus produtos.
As árvores eram agradáveis à vista e boas para o alimento.
Deus se empenhou por colocar o homem em um lugar
belo e proveitoso. Nossos primeiros pais certamente não
tiveram inicialmente que se esforçar pela sobrevivência.
Deus os colocara em um lugar de abundância e de beleza,
um jardim onde a água era farta e produzia vida, animais
por ali rodeavam e pássaros cantavam, alimentando-se
das folhas, flores, frutos, raízes, troncos e sementes.
Exceto de uma árvore á qual Deus proibiu o comer
do fruto, ao homem foram dadas todas as outras árvores
11 Young, op. cit., p. 73.
frutíferas. Havia riqueza, variedade e abundância de co
mida. Mesmo vivendo milênios depois da Queda, o autor
de Eclesiastes deu uma noção bem nítida da beleza e da
riqueza da criação de Deus: Tudo fez Deus formoso, no seu
devido tempo... (Ec 3.11). A visão desse autor ainda era a
de um mundo sob a Queda. Não temos, na verdade, como
imaginar a criação sem a maldição divina por causa da
Queda. Não foi sem razão que, ao terminar cada etapa da
criação, como dizem as Escrituras, viu Deus que isso era
bom; e ao finalizar sua obra criadora, no sexto dia. Viu
Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom (Gn 1.31).
Deus congratulou-se consigo mesmo pela beleza e riqueza
da própria criação.
Nenhuma região do mundo, no presente ou no pas
sado, pode ser igualada em beleza e riquezacom o jardim
de Deus, nem comparada em provisão alimentícia equi
valente à alimentação natural proporcionada pela bonda
de de Deus no jardim localizado no Éden. Nenhum lugar
específico criado pelo homem, por mais belo que possa
ser, ultrapassa em encanto o jardim, cujo cenário era de
fato magniflcente!
C apítulo 4
O HABITATHUMANO ERA UM GRANDE
JARDIM MUITO BEM IRRIGADO
E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se diindia,
repartindo-se em quatro braços. O primeiro chama-se Pisom;
é o que rodeia a terra de HaiÂlá, onde há ouro [...] O segundo
rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de Cuxe. O nome
do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o
quarto é o Eufrates (Gn 2.10,11,13,14).
1. A IMPORTÂNCIA DO S RIOS
As Escrituras falam da importância que tinham os
rios, por regarem a terra. Eles são a bela providência de
Deus para a sobrevivência da vida, tanto vegetal e animal
quanto humana.
1) Os rios são importantes para as plantas
As Escrituras são muito ricas em informação quanto
ã importância dos rios. Quando descrevem a beleza da jus
teza dos homens, por exemplo, citam um rio. O salmista
diz que o justo é como árvore plantada junto à corrente de
águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folha
gem não murcha... (SI 1.3).
Onde um rio ou mesmo um pequeno córrego pas
sa, às suas margens estão árvores, quase sempre mais
frondosas. Todo vale onde passa um rio é mais verde
jante que qualquer outra área, especialmente em uma
região onde se possa ver o contraste com terras áridas.
As terras são áridas por falta de rios. Quando se sobre
voa o deserto do Saara, dá para perceber a importância
de um rio para as plantas. De cima, podemos ver a ver
dura das margens do rio Nilo. Em ambas as margens
daquele rio há algumas centenas de metros repletos de
intensa vegetação.
Um rio é, enfim, vida para a terra, porque regando-a,
faz que ela produza muitas árvores e vegetação, ao trazer
sempre consigo, além da água em si mesma, preciosos nu
trientes para a vida das plantas. Se um rio se torna seco,
tudo morre ao derredor. O profeta Naum diz que o secar
dos rios está nas mãos do Senhor: ele míngua todos os rios;
desfalecem Basã e o Carmelo, e a flo r do Líbano se murcha
(Na 1.4). A vida das plantas depende dos rios, formados
pela bondade do Senhor!
2) Os rios são importantes para os animais
Onde há rios, sempre haverá animais, os quais depen
dem da água para sua subsistência. Os canais de TV que
tratam do mundo animal dão muita ênfase à importância
dos rios para a vida dos bichos. É comum vermos animais
selváticos se dessedentando à beira dos rios; e, no final da
tarde, após uma jornada de caça, animais domésticos be
bendo nos ribeiros. Se quisermos encontrar animais com
mais frequência, podemos ir a certos lugares preferidos
deles á beira de rios ou lagoas deixadas pelas estações de
chuva. A existência e manutenção deles seriam impossí
veis sem a vida que os rios trazem.
3) Os rios são importantes para os seres humanos
A civilização humana se desenvolveu sempre á bei
ra de rios. No passado, as cidades foram formadas inva
riavelmente às margens deles. Foram sempre a fonte de
desenvolvimento. Precisavam os homens náo somente do
sustento que a água poderia prover para a manutenção de
sua vida, mas também para sua locomoção e descoberta
de novas terras.
Os rios são ferramentas indispensáveis no plano cria
dor de Deus. Sem eles, não haveria vida e manutenção de
tudo o que foi criado na terra.
2. A ARIDEZ DA TERRA ACONTECE PELA
AUSÊNCIA DE RIOS
Qualquer região desértica sobre o nosso planeta ad
vém da ausência de rios e ausência de um bom lençol fre-
ático. Certas terras que outrora eram muito bem regadas,
devido a catástrofes devastadoras, vieram a se tornar ári
das e inóspitas.
As Escrituras nos informam ter havido outrora terras
muito férteis, porque muito bem regadas, terras que foram
no passado referência de abundância, hoje lugares áridos
e sem produtividade;
Levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que
era toda bem regada (antes de haver o Senhor destruído
Sodoma e Gomorra), como o jardim do Senhor, como a
terra do Egito, como quem vai para Zoar (Gn 13.10).
A terra da campina do Jordão e o Egito, antes de gran
des fenômenos catastróficos que vieram sobre o mundo,
eram regiões muito bem regadas. Quem faz essa referência
ê Moisés, autor do livro de Gênesis. Antes do fogo e enxofre
descerem dos céus como expressão do juízo de Deus sobre
os sodomitas, a região que hoje é totalmente desabitada e
inóspita, onde se localiza o mar Morto, região das antigas
Sodoma e Gomorra, era um lugar tão verdejante como o
jardim que foi plantado no Éden. O mesmo acontece com
a terra do Egito. Era uma terra bem regada e vicejante. No
entanto, a vegetação desapareceu de todo o Egito, exceto
ás margens do Nilo, que corre por todo o deserto, do sul
para o norte.
Os rios do Éden tinham, portanto, a função de re
gar a terra para o deleite e o proveito dos habitantes da
cidade de Deus. Não existe terra fértil e bela senão devi
damente irrigada.
O habitat humano era um lugar belo por causa da
beleza serpenteante dos rios que o Senhor ali colocou. Os
rios dão encanto e vida ã vegetação. Não há nada mais
belo do que ver rios cortando uma região, trazendo todos
os elementos necessários á geração da vida! Adão e Eva
possuíam todos os elementos de suprimento, devido às
âguas nascidas no centro do Éden. Tudo o que era neces
sário para comer, beber e banhar-se encontravam-se de
modo abundante por todo o jardim de Deus.
Não é estranho, portanto, que as Escrituras deem
enorme importância aos rios, mesmo quando falam de
realidades espirituais. Como jâ observamos, o justo é
comparado a uma árvore plantada junto ao ribeiro de
âguas (SI 1.3); a presença de um rio alegra a cidade de
Deus (SI 46.4). Os rios foram sempre lembranças agra
dáveis de realidades espirituais, que vinham â mente do
povo de Deus quando cativo na Babilônia. Por isso, à bei
ra dos rios da Babilônia, os cativos cantavam, saudosos,
as bênçãos que vinham da terra de Sião, evocando-as de
longe (SI 137.1)!
Na verdade, o cântico saudoso de todos os cristãos
ê o cântico que nos faz recordar o paraíso de Deus,
plantado no Éden, que expressa o anseio de todos os
que amam as coisas que foram perdidas no passado.
Para passar um pouco dessa dor, existe a promessa
gloriosa de Deus para nós. Na restauração do paraíso
perdido. Deus vai colocar ali um rio que procede do tro
no do Pai e do Cordeiro e que é chamado o rio da água
da vida (Ap 22.1).
Vejamos os cinco primeiros rios mencionados nas
Escrituras:
1. O RIO DO ÉDEN
E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se
dividia, repartindo-se em quatro braços (Gn 2.10).
O habitat original do homem era verdejante, cheio
de árvores agradáveis â vista e rico em alimentação, por
uma razão muito simples: a região toda do Éden era bem
irrigada. A frutuosidade do jardim de Deus era decorren
te do rio do Éden, que banhava o jardim, e dos braços que
dele surgiam.
1) A origem do rio do Eden
Provavelmente havia na região do Éden uma gran
de fonte subterrânea, que dava origem ao rio. Ainda
hoje, os rios procedem de mananciais subterrâneos,
que são o sistema criado por Deus para prover as nas
centes dos rios.
Para poder se dividir em quatro braços, parece-nos
que o rio do Éden devia ser um rio caudaloso, enorme!
Em sua obra criadora. Deus fez que houvesse uma grande
fonte procedente das profundezas da terra. É provável que
isso tenha acontecido no terceiro dia da criação, pois é
quando Deus trata do ajuntamento das águas sob o firma
mento (Gn 1.9). Deus arranjou as coisas de maneira que
naquela região específica houvesse grandes reservatórios
subterrâneos, de onde pudesse surgir imensa quantida
de de água para formar um grande rio. Havia certamente
grande pressão debaixo da terra, que fez que a fonte ir
rompesse, dando origem ao rio do Éden.Aquela região foi
uma espécie de poço artesiano que fez surgir na superfície
grande quantidade de água para regar todo o jardim e ain
da com volume suficiente para dar origem a quatro outros
grandes rios.
2) A finalidade do rio do Éden
E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se
dividia, repartindo-se em quatro braços (Gn 2.10).
A finalidade principal desse rio não era estabelecer
os mapas para que pudéssemos segui-los hoje, mas regar
o jardim no Éden. O habitat humano e animais tinha de
ser irrigado devidamente, a fim de que a vida recebesse a
necessária provisão divina para o sustento. Náo há melhor
meio de haver provisão em uma terra do que a existência
de rios no meio dela. Quanto mais rios, mais beleza luxu
riante possui a terra. Os rios são a bela provisão de Deus
para o sustento de qualquer região. A vida da terra depen
de da existência de rios. Deus iria providenciar a chuva
para cultivar o solo arável, mas agora concedia algo es
pecial para o beneficio da terra, que eram os grandes rios
para torná-la viva. É ele o autor que prove, de maneira
linda, tudo para tornar toda a sua criação belamente viva!
No entanto, os versículos que tratam dos primitivos e
antigos rios têm sido um tanto problemáticos para os es
tudiosos da matéria, se levarmos em conta as possíveis (e
mesmo prováveis!) alterações havidas na conformação do
relevo de nosso planeta, devido aos grandes cataclismos
na História.
3) A possível localização do Rio do Éden
O rio que regava o jardim de Deus procedia da região
do Éden, que ê uma região maior que o próprio jardim.
Para localizar o rio, temos que localizar o próprio jardim
no Éden.
A tarefa dos descendentes de Adão viria a ser a de
seguir os quatro rios que saíam do rio principal e difun
dir pelo restante da terra os padrões do reino da criação,
que haviam adquirido de Adão, o qual, por sua vez, os
havia aprendido experimentalmente e por meio da instru
ção divina. Seguindo o curso dos quatro rios, as famílias
iriam então se espalhando e disseminando, já que os rios
eram (e sempre foram) os grandes instrumentos através
dos quais os homens se locomoveram, especialmente em
lugares onde não havia caminhos naturais ou aqueles
posteriormente abertos pelo próprio homem. Os quatro
grandes rios foram importantes, portanto, para a civili
zação humana se estabelecer nos quatro cantos da terra
conhecida de então.
O texto de Gênesis 2 nos diz que os quatro rios
fluíam do rio que tinha o seu nascedouro no jardim de
Deus. Não devemos esquecer que Moisés, ao relatar os
acontecimentos dos primeiros capítulos de Gênesis, cita
o lugar de onde os rios fluíam. Para James B. Jordan, “o
único modo de um rio poder se dividir em quatro braços
e ir para esses quatro lugares ê se ele surge no norte
ou no sul” ,̂ ̂ e parece que os quatro rios mencionados
procedem do norte em direção ao sul. O primeiro rio, o
Pisom, se dirigia para a terra de Havilá, terra que prova
velmente se refere à Arábia; o segundo rio, Giom, se diri
gia para a terra de Cuxe, provavelmente uma referência
ao rio Nilo, que atravessa a E t i ó p i a ; o terceiro e o quar
to rios, o Tigre e o Eufrates, iriam para o oriente, desem
bocando no que hoje é o golfo Pérsico. Todos eles tinham
uma direção sul em relação á sua fonte de origem.
Não é difícil entender as possíveis localizações dos
rios se partirmos de um ponto hipotético de referência,
chamado norte, podendo este ponto estar ligado á atual
Armênia, lugar onde a arca de Noé pousou. Em Gênesis
8.4, o texto diz: No dia dezessete do sétimo mês, a arca re
pousou sobre as montanhas de Ararate. Foi a partir desse
lugar que a civilização humana teve sua nova origem, e
dali, com os descendentes de Noé, a civilização humana se
espalhou para outras partes da face da terra.
Esses quatro rios partiam do jardim. Isso aponta para
o fato de o jardim ficar numa espécie de planalto, em re
gião mais elevada, já que os rios sempre correm para terras
mais baixas. Essa observação está em consonância com a
região alta e montanhosa da Armênia, lugar onde a arca
12 James B. Jordan. Through new eyes — Developing a biblical view of the
world, <http://www.entrewave.com/freebooks/docs/a_pdfs/jjne.pdf>.
13 Lembremo-nos que o Dilúvio alterou drasticamente a topografia original
do nosso planeta.
http://www.entrewave.com/freebooks/docs/a_pdfs/jjne.pdf
pousou. Obviamente, essa região teve a sua topografia
imensamente alterada pelo Dilúvio.
No entanto, é significativo que o autor de Gênesis te
nha usado as expressões norte e sul, oriente e ocidente, a
partir da geografia da Armênia. A revelação divina, os en
contros divinos com o homem teriam se dado nas terras do
norte, que ê o possível lugar original do Éden. É provável,
ainda, que a arca de Noê tenha pousado na mesma região
original do jardim no Éden, pois a região do Ararate ê a
área do novo começo. O novo começo da civilização se da
ria, assim, no mesmo lugar da primeira civilização, a que
surgira da descendência de Adão. Talvez, por essa razão,
seja dito que a bênção esplendorosa do Senhor, ou a glória
do Senhor, venha das regiões do norte. O norte, dentro
dessa perspectiva, seria a região onde tudo começou no
jardim do Éden e onde tudo recomeçou no período pós-
Dilúvio.^" ̂É significativo, por exemplo, que o autor do livro
de Jó tenha dito: Do norte vem o áureo esplendor, pois Deus
está cercado de tremenda majestade (Jó 37.22). Sugestivo
nesta passagem, assim, é que a localização do jardim do
Éden, nesse ponto de referência chamado norte, possa ter
sido, então, onde estaria localizado o trono de Deus, ou
seja, o lugar glorioso em que Deus habitava originalmente
com Adão e Eva.
Por outro lado, se todos os rios que fluem do Éden
correm para o sul, ê este o lugar para onde foram os des
cendentes de Adão, após a Queda.
A localização da grande região do Éden não ê extrema
mente contestada entre os estudiosos do livro de Gênesis.
A tônica sobre a sua localização parece recair sobre a
14 Não pode ser esquecido que o pacto que Deus fez com Noé é um pacto
de repetição, ou que aponta para a continuidade do pacto da criação feito
com os primeiros pais no Éden. Ao lermos o que Deus promete a Noé,
percebemos que não é nada mais, nada menos, do que um novo começo à
humanidade, com as mesmas bênçãos prometidas no Éden.
região onde está localizada a Armênia. Nenhum estudioso
honesto pode dizer o contrário, ou seja, que aquela região,
que ê o centro geodésico da terra, não tenha sido o lugar
do habitat original do homem.
2. OS QUATRO BRAÇOS QUE FLUÍAM DO RIO
DO ÉDEN
O rio central de onde procedem os quatro rios mencio
nados tinha o seu nascedouro no Éden (Gn 2.10). Do cau
daloso rio do Éden saíam quatro braços que serviam para
irrigar os círculos concêntricos maiores da porção seca,
que era chamada de terra e estava toda reunida em um
só bloco, conforme o ensino de Gênesis 1.9,10. Os nomes
dos rios, como já vimos, são Pisom, Giom, Tigre e Eufrates
(Gn 2.11-14).
É matéria de razoável controvérsia entre os estudio
sos a real localização desses rios.
De um lado, estão os defensores da teoria do catastro-
fismo, especialmente por causa do Dilúvio, que veio sobre
a grande porção seca chamada terra, no tempo de Noé.
Os defensores do catastrofismo afirmam que a superfície
da terra foi drasticamente alterada. Assim, é praticamente
impossível chegar a uma conclusão razoável sobre a loca
lização dos rios que fluíam do rio do Éden.
De outro lado, estão aqueles que querem usar a ar
queologia para tornar rios hoje equivalentes aos rios men
cionados em Gênesis.
1) A opinião dos defensores do catastrofismo
O que podemos dizer com certeza sobre o jardim de
Deus é que havia abundante água para regar o lugar de
habitação do homem. O habitat humano era, sem dúvida.
de beleza ímpar porque os rios sempre trazem beleza a um
jardim, e o texto de Gênesis menciona a presença de cinco
rios ali que traziam encanto à região.É conhecido de todos
que o rio Tigre, que ainda corre pelo lado leste de Asshur, a
saber, da Assíria, e o rio Eufrates ainda possuem os mes
mos nomes hoje, depois de milênios, mas não sabemos os
nomes originais deles. Esses nomes lhes foram dados pelo
autor de Gênesis, milênios depois de sua origem. Hoje eles
correm paralelamente um ao outro, e suas nascentes se
encontram na mesma cadeia de montanhas.
Há uma palavra de observação que devemos fazer,
no entanto, que ê muito importante. Não podemos sa
ber com certeza se Tigre e Eufrates sejam os nomes reais
(nem mesmo, propriamente, se são os mesmos rios) da
queles dois últimos braços que procediam do rio que saía
do Éden. Não há como comparar os rios presentemente
conhecidos como Tigre e Eufrates aos rios existentes no
período prê-diluviano.
Ê possível também que a antiga localização deles não
fosse a mesma que ê hoje. Embora tenhamos afirmado
ser grande a possibilidade de a localização do jardim ser
a região da Armênia (e muitos estudiosos concordam com
isso), muitos cataclismos aconteceram no mundo desde
sua criação, especialmente o Dilúvio. Muita coisa da an
tiga topografia da terra foi severamente alterada.
Portanto, não podemos estar absolutamente certos
de que são estes os mesmos rios que corriam na região
do Éden, pois nomes semelhantes podem ser dados a rios
diferentes. Além destes, mais dois rios, Pisom e Giom,
são mencionados, dos quais iremos falar mais à frente.
Não podemos, na verdade, ter segurança absoluta da lo
calização de qualquer desses rios referidos no Gênesis,
especialmente se levarmos em conta as prováveis mu
danças havidas com o Dilúvio, nem podemos comparar
quaisquer rios do tempo presente com os antediluvianos.
Presume-se, inclusive, como já foi dito, que a porção seca
da terra formava um só continente e que a separação dos
continentes veio por causa desta citada maior catástrofe
já ocorrida no mundo.
2) A opinião dos que negam as mudanças trágicas
do catastrofismo
No entanto, não há acordo entre cristãos sérios e ho
nestos com respeito aos efeitos da catástrofe na confor
mação geográfica da região em que supostamente estava
instalado o paraíso de Deus. Existem apenas algumas ten
tativas de aproximação. Há cristãos que pensam que as
mudanças havidas na terra pela catástrofe do Dilúvio não
teriam necessariamente de desfazer a localização bíblica
dos quatro braços de rios que fluíam do curso d’âgua do
Éden mencionados em Gênesis.
O próprio João Calvino, o grande reformador de
Genebra, não acreditava que as mudanças causadas pelo
Dilúvio tivessem sido tão extremamente radicais que mu
dassem todo o relevo da terra.
Muito antes da teoria do catastrofismo ser afirmada,
no século XX, Calvino dizia duvidar do fato de o Dilúvio
ter transformado tanto a conformação da terra a ponto de
desaparecerem os rios, mudando-os completamente de
rumo. Eis sua argumentação:
Pois Moisés divide o único rio que fluía pelo jardim em
quatro braços. Todavia, parece que as fontes do Eufrates e
do Tigre eram muito distantes uma da outra. A partir desta
dificuldade, alguns se sentiriam livres para dizer que a
superficie do globo pode ter sido mudada pelo Dilúvio; e,
no entanto, eles imaginam que os cursos dos rios poderiam
ter mudado e suas fontes transferidas para outro lugar;
uma solução que me parece de modo algum aceitável. Pois
embora eu reconheça que a terra, desde o tempo em que
ela foi amaldiçoada, se tomou reduzida de sua beleza
nativa para um estado de infeliz corrupção, e para uma
vestimenta de lamentação, e posteriormente se tomou um
estrago em muitos lugares pelo Dilúvio, ainda, eu assevero
ser ela a mesma terra que tinha sido criada no princípio.
Além disso (em meu julgamento), digo que Moisés acomodou
sua topografia à capacidade de sua época. Todavia, nada
é realizado, a menos que encontremos aquele lugar onde o
Tigre e o Eufrates procedam de um rio.̂ ^
Calvino admite que Moisés trata dessas matérias, no
entanto, “não fala pungentemente, nem de maneira filosó
fica, mas popularmente, de forma que cada pessoa menos
informada possa entendê-lo” .̂ ®
Vejamos uma análise dos mencionados quatro rios,
sob o prisma geológico, arqueológico e teológico, de uma
pesquisadora que não crê nas alterações radicais causa
das pelo Dilúvio:
A. O PRIMEIRO BRAÇO DO RIO DO ÊdEN: O PiSOM
O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de
Havilá, onde há ouro (Gn 2.11).
A tentativa de localização do rio Pisom é desafiado
ra e estimulante. Qual a sua localização? Onde é a terra
15 João Calvino. Comentário sobre Gênesis 2. <http://www.ccel.org/ccel/
calvin/calcom01.viii.i.html>.
le ib id .
http://www.ccel.org/ccel/%e2%80%a8calvin/calcom01.viii.i.html
http://www.ccel.org/ccel/%e2%80%a8calvin/calcom01.viii.i.html
de Havilá? Que localização desse rio pode ser adequada à
ideia de estar situado em região da Arábia?
As Escrituras mencionam duas vezes Havilá como
nome de dois homens diferentes. O primeiro é filho de
Cuxe (Gn 10.7), e o segundo, filho de Joctã (Gn 10.29).
Segundo Carol A. Hill “a terra de Havilá tem sido interpre
tada por muitos eruditos bíblicos como sendo a Arábia”.
Ela também sugere que Joctã deva ser considerado “o ca
beça das tribos da Arábia, como a maioria de seus filhos
pode ser pista de lugares e distritos dentro do que são ago
ra a Arábia Saudita e o lémen. Aparentemente, a ‘terra de
Havilá’ se referia a uma região inteira em vez de um lugar
específico, visto que parece ter havido mais que uma tribo
com esse nome”.̂ ®
Mesmo reconhecendo que não há rio algum fluindo
na região da Arábia atualmente, Carol Hill afirma que no
período de alguns milênios atrás a região da Arábia foi
uma terra muito mais cheia de água. Cita estudiosos da
região, como, por exemplo, McClure,^® e afirma que por
volta de 3500 a.C. “lagos antigos eram conhecidos como
tendo existido no ‘Quarteirão Vazio’ da Arábia Saudita,
que é hoje o maior deserto de areia do mundo”. E s s a
17 C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament, vol. 1 — The
Pentateuch. Grand Rapids: Eerdmans, 1975, p. 171; e R. L. Harris. The mist,
the canopy and the rivers of Eden. Bulletin o f the Evangelical Theological
Society 11:4 (1968), p. 179.
18 E. A. Speiser. Anchor Bible Commentary, vol. 1, Genesis. Garden City:
Doubieday, 1981, p. 17. Cf. Carol A. Hill. The Garden o f Eden: a modern
landscape. <http://www.asa3.org/ASA/PSCF/2000/PSCF3-00Hill.html>,
acessado em maio de 2010.
19 H. A. McClure. Late quaternary palaeogeography and landscape
evolution of the Rub'AI Khali, Araby the Blest. D. T. Potts, ed., Carsten
Niebuhr Institute of Ancient Near Eastern Studies. Copenhagen: Tusculanum
Press, 1988, p. 9-13.
20 Hill, op. cit., p. 31-46.
http://www.asa3.org/ASA/PSCF/2000/PSCF3-00Hill.html
região tornou-se muito árida entre 4000 e 2000 anos
a.C. Em uma parte dessa grande região, chamada Wadi
al Batin,^^ encontra-se a evidência de ser ali o lugar do
leito seco do extinto rio Pisom, segundo o entendimento
de Carol Hill.
Alêm do mais, a autora usa outros dados para mos
trar que a Arábia seria o lugar mais adequado para locali
zar o rio Pisom. Em seu artigo, ela menciona James Sauer,
o qual “descreve como imagens de satélite têm detectado
um leito fluvial ao longo de Wadi al Batin {wadi significa o
mesmo que arroio, um leito fluvial seco). Sauer identificou
esse rio como o rio Pisom da Bíblia, um rio que fluía no
tempo em que o clima era mais úmido do que é hoje” .̂ ^
Além da Arábia, outros lugares têm sido sugeridos por
estudiosos, como o Egito^^ e a região do Mediterrâneo,
apenas dois exemplos de vários deles. Calvino expõe um
pensamento diferente sobre a localização da terra de
Havilá. Diz ele:
A terra de Havilá, em meu julgamento, é tida como uma
região adjacente à Pérsia. Porque, subsequentemente,
no capítulo (Gn 25.18), Moisés relata que os ismaelitas
21 O sistema de Wadi ai Batin/Wadi Rimah dista cerca de 43.400 milhas
(setenta milquilômetros, aproximadamente) da Arábia Saudita e do Kuwait.
0 agora seco Wadi al Batin entrava no golfo Pérsico em Umm Qasr, no Kuwait,
mas no passado o Pisom entrava no golfo Norte de Umm Qasr, na bacia dos
rios Tigre-Eufrates (Carol A. Hill. The Garden o f Eden: a modern landscape).
22 A. Sauer. The river runs dry — creation story preserves historical
memory. Biblical Archeology Review 22:4 (1996), p. 52-57, 64.
23 A. 5. Yahuda. The accuracy of the Bible. London: William Heinemann,
1934, p. 160-75.
24 G. R. Morton. The Mediterranean flood. Perspectives on Science and
Christian Faith, 49.4 (1997), p. 238-51.
habitavam desde Havilá até Sur, que é contíguo ao Egito, e
através do qual o caminho conduz à Assíria. Havilá, como
limite, é oposta a Sur, do outro lado, e este limite Moisés
coloca perto do Egito, do lado que aponta para a Assíria.
Consequentemente, segue-se que Havilá (o outro limite) se
estende em direção a Susã e Pérsia.^^
Todavia, o que pesa contra esses outros lugares é que
neles não há nenhum registro das riquezas abundantes
mencionadas no texto bíblico: ouro, bdélio e ônix. Segundo
Carol Hill, “o bdélio somente cresce na parte sul da Arábia
(lémen) e no norte da Somália; sendo assim, este item au
tomaticamente elimina a maioria das localidades suge
ridas. As nascentes do Wadi al Batin escoam as antigas
áreas de ouro e ônix de Mahd adh Dhahab e Wadi al Aqiq,
e todas as três riquezas [ouro, ônix e bdélio] são conhe
cidas como tendo sido transportadas por camelo para a
Mesopotâmia em uma data primitiva. Finalmente, as con-
fiuências do Wadi al Batin com o Tigre e o Eufrates na
terra da Mesopotâmia são exatamente como a Bíblia afir
ma. Tudo acima é evidência de que o Wadi al Batin, agora
seco, é o antigo rio Pisom, e que a terra de Havilá (o filho
de Joctã, não o de Cuxe) é, de fato, a Arábia”.
Outros autores cristãos têm dado suporte à teoria
de Hill, informando que a moderna tecnologia de satélite
tem-nos ajudado a ver um leito de rio seco de mais ou
menos 4.800 metros de largura. Ele fluía das proximida
des de Medina (na atual Arábia Saudita) para o golfo en
tre 5000 e 10000 a.C. O clima não era árido como é hoje.
Parece que ele secou por volta de 2000 a.C. Poderia ser
este o rio Pisom? Não se sabe com certeza. São apenas
25 Calvino, op. cit.
26 Hill, op. cit., p. 31-46.
hipóteses, mas parece haver consenso entre a maioria
dos estudiosos de que a região buscada estaria localizada
no Oriente Médio.
B. O SEGUNDO BRAÇO DO RIO DO ÊdEN: O GlOM
O segundo rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de
Cuxe (Gn 2.13).
A primeira tarefa a ser feita aqui é tentar identifi
car a “terra de Cuxe” , tal informação poderia fornecer
alguma luz à tentativa de resolver a localização do rio
Giom. No entanto, a identificação da terra de Cuxe pare
ce ser ainda mais difícil do que a identificação da terra
de Havilá.
Como no caso do rio Pisom, há também divergên
cias de localização com respeito ao Giom. Alguns estudio
sos pensam que a terra de Cuxe seja uma referência ã
Etiópia, na região do alto Nilo, pela simples razão de a
versão inglesa King James da Biblia ter traduzido o texto
original como que se referindo à Etiópia. Carol Hill con
testa, dizendo que essa tradução “não somente é questio
nável, mas também não faz sentido”. A reivindicação de
o Giom equivaler-se ao rio Nilo cria um problema muito
difícil de interpretação. O rio Giom não pode ser o Nilo
porque suas nascentes estão no meio do continente afri
cano. Ainda que creiamos nos drásticos efeitos causados
pelo Dilúvio do tempo de Noé, temos que enfrentar o fato
de que o rio Nilo corre do sul para o norte, contrariando
a versão de que o Giom, bem como os outros braços do
rio do Éden, correriam do norte para o sul. O rio Nilo
nasce no sul, vindo da região da Etiópia, e corre para o
norte da África.
De acordo com Speiser, “a terra de Cuxe tem sido er
roneamente identificada com a Etiópia em vez de com a
terra dos cassitas”.̂ ® Os cassitas (Kassu) viviam a leste
da Mesopotâmia, no antigo período babilónico (1800-1600
a.C.). Antes disso, no entanto, essa área era conhecida
como terra de Elam ou Susã, onde viviam os habitantes da
planície de Susã.^® Essa região corresponde hoje à parte
ocidental do Irã (que é a antiga Susã).
Os rios mais impoAantes dessa região são o Karkheh
e o Kamn. O Karun é o mais longo dos dois e o único rio
navegável do Irã. Carol Hill parece identificar o Karun como
o candidato mais provável para se equivaler ao Giom, pois
possibilitava a ligação comercial entre a região de Susã e
Acádia e Suméria.®° Diz ainda que “os sumérios estavam
constantemente em guerra contra os elamitas, sendo esta
outra razão pela qual o escritor de Gênesis teria sido le
vado a mencionar esse rio. Qualquer pessoa sabia então
on,de a terra de Cuxe estava localizada”.®̂
Outro argumento usado por Carol Hill em favor do
rio Karun como equivalente ao rio Giom está no pró
prio texto em estudo. O texto de Gênesis 2.13 diz: “O
segundo rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de
Cuxe” . A palavra hebraica, traduzida por circundar sig
nifica “revolver, cercar, contornar, rodear no seu curso,
girar e voltar” . I s s o é exatamente o que o rio faz. Hill
28 Speiser, op. e it, p. 17.
29 Hill, op. d t., p. 31-46.
30 ibid.
31 Ibid.
32 Speiser, op. cit., p. 17.
diz que o rio corre serpenteante, com curvas, por cerca
de 510 milhas (pouco mais de oitocentos quilômetros),
mas a sua real extensão é de apenas 175 milhas (cerca
de 280 quilômetros).^^
Pelas razões afirmadas, a tendência dos estudiosos
não ê localizar Cuxe na Etiópia (região do alto Nilo), mas
na região da Babilônia, que hoje corresponde ao Iraque-Irã.
Talvez possa ser dito que o jardim que Deus plantou tenha
se localizado na região oriental da Turquia e ocidental do
Iraque-Irã. De todo modo, o jardim no Éden não estaria,
sem dúvida, na Europa, na índia ou na China; muito me
nos na América, como o Livro de Mórmon alega.
C. O terceiro braço do rio do Éden: o tigre
O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da
Assíria (Gn 1.14a).
A terra mais fácil de ser identificada dentre as dos
quatro rios ê a do terceiro: o oriente da Assíria. O rio da
Assíria que corresponde ao de nome hebraico Hiddekel,
ou seja, o Tigre, tem seu nascedouro nas regiões mon
tanhosas da Turquia oriental e corre cerca de 1.160 mi
lhas (cerca de 1.867 quilômetros) no seu curso atê o golfo
Pérsico, recebendo água de vários afluentes. Corre do no
roeste para o sudeste. Suas águas são mais abundan
tes no tempo do derretimento da neve das montanhas
Taurus, o que acontece na primavera, de março a maio.
Em junho e julho, as águas baixam. Quando o rio atin
ge Bagdá, tem cerca de quatrocentos metros de largura.
33 M.-C. DeGraeve. The ships of the ancient Near East (c. 2000-500 B.C.).
Lewen: Dept. Orientalistich, 1981, p. 11. Apud Carol Hill, op. cit.
com uma profundidade que varia de um a oito metros,
correndo cerca de seis quilômetros por hora na época da
cheia e quatrocentos metros por hora na vazante. Depois
de Bagdá é navegável, enquanto o alto Tigre é mais difí
cil de navegar. Quando das cheias, o rio Tigre se espraia
sobre várias áreas de terra, já que há grandes planícies
na região.
O Tigre era o grande rio da antiga Assíria, ou terra de
Asshur, conforme o texto de Gênesis 2.14. Em suas mar
gens, desenvolveram-se várias cidades importantes, como,
por exemplo, Nínive, fundada por Ninrode, filho de Cuxe e
bisneto de Noé (Gn 10.8-11).
D. O QUARTO BRAÇO DO RIO DO ÉdEN! O EUFRATES
E o quarto [rio] é o Eufrates (Gn 2.14b).
Não há observação sobre o curso desse rio, como nos
trés anteriores. Ele percorre a região do moderno Iraque,
mas não se sabe se é o mesmo rio mencionado em Gênesis.
Todavia, é maior a probabilidade que o seja, porque nes
sa região é que estava localizado o coração do jardim de
Deus. O Eufrates banha a parte ocidental da Mesopotâmia.
Começa nas terrasaltas do oriente da Turquia, flui pelo
norte do Iraque e entra em seu delta cerca de 120 qui
lômetros a oeste de Bagdá, percorrendo cerca de 2.700
quilômetros até o golfo P érs ico .Q u an do o rio Eufrates
chega a uma região chamada Ash Shamiyah, suas âguas
se perdem em uma imensa região pantanosa. Durante as
34 H. F. Vos. Beginnings in Bible Geography. Chicago: Moody Press, 1973, p. 13.
35 DeGraeve, op. cit., p. 7.
cheias da primavera, essa região toda, desde o oriente do
Eufrates até o Tigre, se torna muito inundada.^®
RESUMO
A evidência geológica e bíblica aponta para os quatro
braços que saem do rio do Éden como sendo: o Pisom, Wadi
al Batin; o Giom, Karun; o Tigre (Hiddekel) e o Eufrates.
Segundo a opinião de Carol Hill (e, certamente, de Calvino),
os rios Tigre e Eufrates não deixam dúvida sobre a locali
zação aproximada do bem irrigado jardim no Éden. O es
tudo feito atê aqui é uma tentativa de harmonizar o que
existe no presente com os parcos dados recebidos do livro
de Gênesis com respeito aos rios que regavam o jardim, o
Éden expandido e toda a porção seca, que o Senhor Deus
chamou de Terra. “Esses rios localizam o jardim no Éden
como sendo o cenário da cabeceira do golfo Pérsico — mas
não a cabeceira do tempo presente do golfo Pérsico.
APLICAÇÃO
Não devemos usar essa narrativa de Gênesis como um
manual de exposição científica. O autor de Gênesis tentou
mostrar a providência divina de uma forma que todos os leito
res de sua época pudessem entender a verdade da sabedoria
e da provisão de Deus. Por essa razão, Geofrey Thomas disse:
O principal propósito desses rios mencionados não é o
de estabelecer um atlas primitivo para nós, mas sim, no
36 Ibid, p. 4.
37 Hill, op. cit., p. 31-46.
mundo antes da Queda onde o homem viuia, estabelecer a
fonte de irrigação e de vida refrescante para a totalidade
da área como uma provisão de Deus. Esta é a razão pela
qual os rios são mencionados; eles são o dom de Deus.^^
Todos os dons procedem de Deus, incluindo os rios e
as fontes de sua provisão para o sustento das árvores, dos
animais e dos homens. A irrigação da terra é fundamental
para a subsistência de todas as coisas criadas que estão
sobre a superfície da terra.
Devemos ensinar a nossos filhos e netos que o Deus
criador também é um Deus providente. Ele manda as chu
vas para regar a terra e distribui os rios que procedem
das águas subterrâneas para uma irrigação constante e
volumosa, para saúde da terra. Quando lhes ensinamos
essas coisas, eles aprendem a amar esse grande e amo
roso Deus! As Escrituras registram o que registram para
que aprendamos todos, crianças e adultos, que a nature
za criada (não a Mãe Natureza) é produto da bondade de
Deus para suas criaturas!
Assim, Adão e Eva foram colocados num habitat imen
samente regado pelas águas da chuva e dos rios, que Deus
fez nascer no Éden, e se espalharam em vários braços para
as extensões daquela terra que, áquela altura, era ainda
uma só porção seca (Gn 1.9). Depois do Dilúvio, é mui
to provável que uma porção de coisas da topografia haja
mudado, mas o modo de Deus regar a terra continuou o
mesmo: o produto de sua bondade providencial!
38 Geofrey Thomas, em seu sermão sobre Gênesis 2 <http://www.
alfredplacechurch.org. uk/>.
http://www.%e2%80%a8alfredplacechurch.org.%20uk/
http://www.%e2%80%a8alfredplacechurch.org.%20uk/
C apítulo 5
O HABITAT ORIGIN AL DO HOMEM
ERA UM JARDIM MUITO RICO
o primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de
Havilá, onde há ouro. O ouro dessa terra é bom; também
se encontram lá o bdélio e a pedra de ônix (Gn 2.11,12).
Deus deu ao homem que colocou no jardim um ha
bitat cercado de riqueza incalculável de pedras preciosas.
A “terra de Havilá” refere-se à parte exterior ao jardim
situada no Éden. A terra de Havilá era também, portanto,
parte do Éden. Se não tivesse ocorrido a Queda, a terra
de Havilá seria também habitada e cultivada por seres
santos, descendentes de Adão e Eva, e toda a cultura
do santo reino de Deus seria implantada nessa terra de
imensa riqueza. Veja o que o texto diz sobre a riqueza da
terra de Havilá:
O ouro dessa terra é bom; também se encontram lá o
bdélio e a pedra de ônix (Gn 2.12).
1. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA OURO
A riqueza do jardim vem do mais precioso e mais de
sejado dos metais: o ouro. Até hoje um país é medido em
sua riqueza pela quantia de ouro que tem guardada como
lastro de sua economia. Mas o jardim de Deus não possuía
ouro simplesmente. O texto aponta para a qualidade do
ouro: bom.
A região de Mahd adh Dhahab (que literalmente sig
nifica “berço do ouro”) foi a maior e a mais rica das minas
de ouro do mundo antigo. Alguns creem que a região seja
equivalente a Ofir, a fonte do ouro de Salomão, segundo
as Escrituras.O bservando a dificuldade dessa equiva
lência, diz Carol Hill: “Presumindo que Mahd adh Dhahab
seja a mina lendária do rei Salomão, foi também a fonte
de 'ouro bom’ de Gênesis 2.12? Afinal de contas. Gênesis
2.12 refere-se a um tempo muito mais antigo do que o de
Salomão”.T o d a v ia , embora reconheça a dificuldade, ela
apresenta trés linhas de evidência, sugerindo que a mina
de ouro de Salomão possa ser a mesma de Mahd adh
39 É curioso que Ofir é um dos filhos de Joctã, da Arábia (Gn 10.29). Além
disso, o ouro de Ofir é citado em muitas passagens das Escrituras: IRs 9.28;
10.11; 22.48; IC r 29.4; 2Cr 8.18; 9.10; Jó 22.24; Si 45,9; Is 13.12.
40 Hill, op. cit.
D hahab.E studiosos creem ainda, baseados no teste de
radiocarbono, que foi extraído ouro dali durante o tempo
do rei Salomão (961-922 a.C.).^^ h íH diz;
Não há maneira de saber com certeza, mas três linhas de
evidência sugerem que o ouro pode ter sido minado em
Mahd adh Dhahab muito mais anteriormente do que no
tempo de Salomão — mesmo tão cedo como no período
patriarcal ou antes ainda^^
As três linhas de evidência apontadas por Hill na ci
tação acima são as seguintes;
a) A primeira, da própria mina de Mahd adh Dhahab.
Durante o ano de 1973, demonstrou-se que aquela re
gião exibia um solo riquíssimo na parte sul de Mahd adh
Dhahab, onde havia alguns vales. Nesses vales havia ca
nais que indicavam erosões que poderiam ter sido depó
sitos de ouro de aluvião no período pré-Salomão."^“̂
b) A segunda linha de evidência ê a referência a Ofir
em Jó 22.24: e deitares ao pó o teu ouro e o ouro de Ofir
entre pedras dos ribeiros. Embora seja muito difícil datar
41 As minas de Mahd adh Dhahab produziram mais de trinta toneladas
métricas de ouro na Antiguidade (R. J. Roberts. Mahd adh Dhahab — the
Ophir of Antiquity? Arabia antiqua, Conferência sobre a Conservação e
Melhora da Herança Arqueológica da Península Arábica. Roma: mai 27-31,
1991, p. 1.
42 R. W. Luce, A. Bagdady & R. J. Roberts. Geology and ore deposits of
the district of Mahd adh Dhahab. Saudi Arabian Kingdom. U.S. Geological
Survey, Saudi Arabian Project Report 195 (1976), 2, p. 15-16.
43 Hill, op. cit.
44 Luce, Bagdady & Roberts, op. cit., p. 25.
O livro de Jó, alguns eruditos das Escrituras o colocam no
período patriarcal, sendo contemporâneo de Abraão, con
forme inferido de sua genealogia.
c) A terceira linha de evidência ê arqueológica. O
ouro repentinamente aparece no registro arqueológico da
Mesopotâmia no período Uruk (cerca de 3500 a.C.).'^® Uma
pequena variedade de artefatos de ouro foi recuperada na
parte sul do Iraque datando de cerca de 3500 a.C.
Essas evidências propostas por Carol Hill têm o pro
pósito de mostrar que a região de Mahd adh Dhahab ê o
lugar na terra de Havilá onde havia muito ouro, e ouro da
melhor qualidade.
2. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA BDÉLIO
É curioso que o bdélio fosse encontrado na região onde,
desde tempos muito remotos, habitavam os filhos de Ismael
(Gn 25.16-18), comerciantes de pedras preciosas, que eram
transportadas por camelos, já então domesticados. Os
descendentes de Ismael vieram a habitar essa terra que
era rica em pedras preciosas, incluindo o bdélioe o ônix.
Essa região hoje corresponde, provavelmente, ao lémen.
1) Qual a aparência do Bdélio?
A única outra referência ao bdélio na Bíblia está em Núme
ros 11.7, onde é dito que a aparência do maná era seme
lhante â dele. Uma vez que o maná era branco (Êxl6.31),
o bdélio também deveria ser branco. É significativo que o
povo de Israel comeu do maná enquanto estava no deserto
de Havilá, terra do bdélio."^®
45 G. Algaze. The Uruk world system. Chicago: University of Chicago Press,
1990, p, 77.
46 Jordan, op. c it , p. 73-74.
2) O que é o bdélio?
Ninguém sabe exatamente o que é o bdélio. Alguns
pensam que o bdélio seja uma pedra preciosa. O doutor
John Currid prefere traduzir bdélio, que é uma pedra pre
ciosa, por um tipo de rubi.'̂ '̂ '
Outros estudiosos são favoráveis ao bdélio ser uma
espécie de resina aromática da família do bálsamo.
Carol Hill diz que o bdélio “é uma substância de algu
ma forma similar à mirra e frequentemente considerada
como mirra — como era nos tempos antigos, quando a
distinção entre esses dois não era clara. As espécies de
bdélio conhecidas na Arábia são Commiphora mukul e
Commiphora schimperi
Essas gomas resinosas (mirra ou bdélio) foram usa
das no antigo Oriente Médio em procedimentos religiosos
(incenso), em cosméticos (perfume) e para fins medicinais.
Os textos cuneiformes da Mesopotâmia observam que a
mirra (bdélio) era usada para fazer uma massa suave para
os cabelos, para o tratamento de doenças dos olhos, nariz
e ouvidos e para outros propósitos medicinais."^® A árvo
re de onde a goma resinosa era extraída existia somente
no sul da Arábia e no norte da Somália. A mirra (bdélio)
crescia no atual território do lémen, na direção do golfo de
Aden.^° Provavelmente, o bdélio fazia parte do grupo de es
peciarias comercializadas no tempo do rei Salomão, quan
do este foi presenteado pela rainha de Sabá com muitas
dessas especiarias (IRs 10.1-13). É importante lembrar
47 Ref. a Carol A. Hill, op. cit.
48 G. Usher. A dictionary of plants used by man. London: Constable, 1974, p.
169-70, apud Hill, op. cit.
49 N. Groom. Frankincense and myrrh: a study in the Arabian incense trade.
London: Longman, 1981, p. 20.
50 Hill, op. cit.
que a rainha que visitou Salomão veio da região de Marib,
antiga Mariaba, agora parte do lêmen, a grande e próspera
cidade, capital do antigo reino dos sabaeanos (relativo a
Sabá), de onde procedia a rainha.®^
Até hoje, essas especiarias são grande fonte de rique
za na região de Havilá, onde supostamente hoje se encon
tram territórios do lémen e da Arábia, com descendentes
de Ismael, filho de Abraão.
3. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA ÔNIX
Outra preciosidade do habitat humano era o ônix. Na
verdade, a única referência na Bíblia sobre a pedra ônix
além de Gênesis 2 está relacionada às vestes do sumo
sacerdote. As pedras nas ombreiras da estola sacerdotal
eram feitas de ônix e levavam nelas gravadas os nomes das
doze tribos (Êx 25.7; 28.9-12).
Não é fácil a identificação da pedra chamada ônix de
Gênesis 2.12. Carol Hill vê duas dificuldades na identifica
ção do ônix:®^
1) A primeira dificuldade com a identificação
do ônix é arqueológica
Carol Hill diz que existe aí uma dificuldade arqueoló
gica muito grande, porque os períodos mais primitivos de
mineração de ouro e de pedras preciosas na região Mahd
adh Dhahab não têm sido adequadamente investigados; e
menos ainda tem havido uma pesquisa para se encontrar
51 Ibid.
52 Jordan, op. cit., p. 73-74.
53 Hill, op. cit.
uma fonte de pedras preciosas conhecidas que hajam sido
comercializadas na Antiguidade. Lembra que, todavia, “al
gumas passagens bíblicas confirmam que pedras preciosas
eram trazidas da Arábia para Israel com ouro e incenso”.®"̂
A rainha de Sabá (reino que hoje equivale ao território do
lêmen) trouxe dali, com o ouro de Ofir, muitas pedras pre
ciosas (IRs 10.2,10,11; cf. 2Cr 9.1, 10).
No entanto, uma pergunta importante a ser feita ê
a seguinte: “O que deveria ser considerado como pedras
preciosas na Antiguidade?” . Uma resposta simples está
na oferta de Davi para o templo de Deus que havia pla
nejado construir:
Eu, pois, com todas as minhas forças já preparei para
a casa de meu Deus ouro para as obras de ouro, prata
para as de prata, bronze para as de bronze, ferro para as
de ferro e madeira para as de madeira; pedras de ônix,
pedras de engaste, pedras de várias cores, de mosaicos
e toda sorte de pedras preciosas, e mármore, e tudo em
abundância (1 Cr 29.2).
O ônix era uma pedra preciosa, mas não de uma úni
ca variedade, pois o texto fala de pedras de ônix. Isso pode
indicar uma variedade de pedras. Convém observar que
modernamente algumas dessas pedras são consideradas
semipreciosas, mas não preciosas.
Além disso, a dificuldade arqueológica torna-se ain
da maior por causa dos termos usados para designar as
pedras preciosas nos períodos mais antigos. Um proble
ma linguístico.
2) A segunda dificuldade da identificação
do ônix é linguistica
Qual o sentido usado para o termo "ônix” pelo autor
de Gênesis? “Na Antiguidade, muitos nomes diferentes
foram usados para pedras, mesmo para o mesmo tipo de
pedra, dependendo da cor, da qualidade e da aparência”,
segundo Moorey.^^
Para Carol Hill, a palavra grega onychion (ônix) é
empregada “como um termo geral, que poderia se refe
rir a cornalina, berilo, lápis-lazúli, pedra de quartzo ou
mesmo mármore, mas comumente era usada para signi
ficar diversas subvariedades de calcedônia (ágata, ônix,
sardónica)” .®®
Por esse motivo, uma grande variedade de pedras
preciosas (ou semipreciosas nos tempos de hoje) estão in
cluídas no termo grego onychion.
No entanto, embora não havendo uma precisão lin
guística para descrever o que onychion possa significar,
parece haver evidências bíblicas de que essa palavra não se
refere a algumas pedras consideradas como semipreciosas:
M ármore
Esta pedra parece ser distinta do ônix de Gênesis
2.12, pois em ICrônicas 29.2 a referência a “mármore”
ê distinta de “pedras de ônix” , sendo, portanto, diferen
tes. Além disso, parece não existir pedras de mármore
na região da Arábia Saudita, que também era parte da
terra de Havilá.
55 P. R. S. Moorey. Ancient Mesopotamian materials and industries. Oxford:
Clarendon, 1994, p. 78.
56 Hill, op. cit.
L ápis-L azúli
Este mineral lazurita, muito comercializado nos tem
pos antigos por toda a Mesopotâmia e usado para a ma
nufatura de joias, nâo é encontrado na península Arábica.
Encontra-se somente na região do moderno Afeganistão.®^
Portanto, esse mineral pode ser excluído também da sig
nificação geral da pedra de ônix em Gênesis 2.12.
B erilo
O berilo é uma pedra semipreciosa de cor azul-claro
ou verde-claro. Parece não ser encontrado na Arábia. O
mais próximo â Arábia foi encontrado nas colinas do mar
Vermelho, nas minas de esmeralda de Sikait e Zabara,
exatamente a oeste de Lúxor, no Egito.®® Portanto, o be
rilo deve ser também eliminado das pedras consideradas
como ônix.
Hâ outras pedras semipreciosas que não precisam
ser incluídas na gama abrangida pelo ônix, por motivos
semelhantes aos citados anteriormente: quartzo, ágata,
cornalina, sardónica etc. Esse problema linguístico da de
nominação de pedras preciosas não é fácil de ser resolvido,
especialmente em uma região que, de acordo com o meu
entendimento, foi enormemente devastada por grandes ca
tástrofes e onde muitos elementos da geografia ficou fora
de lugar. De qualquer forma, o habitat original que Deus
proporcionou aos homens era riquíssimo.
57 E. M. Yamauchi. Persia and the Bible. Grand Rapids: Bal<er Book House,
1990, p. 21.
58 A. Lucas & J. R. Harris. In: Ancient Egyptian materials and industries.
London; Edward Arnold, 1962, p. 389.
CONCLUSÃO
Assim, o ouro, o bdélio e o ônix eram as riquezas do
Éden mais amplo, a grande parte da porção seca cha
mada terra. Essas e outras pedras de rica preciosidade
eram parte também do jardim de Deus, o Éden mais es
trito, ondehabitavam os nossos primeiros pais. O texto
de Ezequiel com referência ao rico rei de Tiro aponta para
uma terra tão rica sô comparável à terra dos nossos pri
meiros pais, o Éden. Embora não se refira diretamente ao
Éden do Gênesis, sugere que o jardim de Deus era rico em
muitas pedras preciosas (cf. Ez 28.13). Deus fez um jardim
muito rico, para deleite de seus habitantes. E a riqueza do
paraíso de Deus restaurado será vista na Nova Jerusalém
(sinônimo de Nova Terra), cheia de ouro e pedras preciosas
(cf. Ap 21—22).
Nesse perfeito habitat humano criado por Deus ha
via muita riqueza que embelezava o ambiente. Deus co
locou sua criatura mais importante em uma terra de
abundância. Não é pecado possuir riquezas, ao menos
no mundo criado por Deus. Pobreza não ê sinônimo de
espiritualidade, nem riqueza, de pecaminosidade. Se a
riqueza fosse alguma coisa má, o próprio Deus não a
teria colocado no habitat dos nossos primeiros pais. Não
nos podemos esquecer de que Adão e Eva não foram
tentados pelo ouro, mas pelas investidas de Satanás ao
desejo deles de serem iguais a Deus.
Deus deu riqueza ao habitat humano como ferra
menta para uso sadio e sensato, ou seja, a fim de ser
utilizada no necessário. Devemos agradecer a Deus pe
las riquezas que nos dá. São um meio usado por Deus
desde o princípio do habitat para que o homem des
frute da criação, para o seu próprio bem e a glória do
seu Criador. Existe um direito natural de propriedade
pessoal que Deus nos deu, e isso está sancionado nos
Dez Mandamentos, que nos ensinam não desejar o que
pertence a outro, a não furtar o que pertence a outro
e, além de tudo, a nos contentarmos com o que Deus
nos dá.
As riquezas do paraíso foram dadas ao ser humano
para que pudessem desfrutar santamente da vida e dela
obtivesse bens e serviços. O ouro e as pedras preciosas
eram necessários ao habitat humano a fim de que ele se
tornasse bom mordomo dos bens e riquezas dados por
Deus e glorificasse o Senhor pelos bens recebidos. Todos
os homens deveriam entender que toda prata e todo ouro
pertencem a Deus (Ag 2.8; Os 2.8) e que ele no-los con
fia para o nosso próprio bem, não para uso indevido. No
entanto, após a Queda, os habitantes do Éden vieram a
usar muito indevidamente as riquezas dadas por Deus.
Em nossa presente geração, vemos com muita tristeza o
amor pelo dinheiro, que se torna cada vez mais a raiz de
todos os males (ITm 6.10). Os homens andam servindo
mais a Mamom que ao verdadeiro Deus. Tém distorcido
a finalidade original das riquezas dadas pelo Criador!
Desde há muito, por causa do pecado, os homens tém-se
esquecido de uma grande verdade: Antes, te lembrarás
do Senhor, teu Deus, porque é ele o que te dá força para
adquirires riquezas; para confirmar a sua aliança, que,
sob juramento, prometeu a teus pais, como hoje se vê (Dt
8.18). Os moradores da terra tém-se esquecido de Deus
e se concentrado nas riquezas que adquiriram com a
força de Deus. Tém idolatrado o ouro e não tém adorado
Deus!
Deus quer que usemos as riquezas para glorificação
de seu nome. Adão e Eva viviam em um mundo cheio
de riqueza e, no entanto, não foram tentados por cau
sa do ouro ou pedras preciosas, mas pecaram porque
quiseram ser iguais a Deus. A riqueza toda do mundo
pertence a Deus, porque ele diz: Minha é a prata, meu é
o ouro... (Ag 2.8).
Temos de reconhecer, todavia, que a inclinação pe
caminosa do homem torna a riqueza uma arma poderosa.
Debaixo da inclinação maligna, somos tentados a pôr o
coração nas riquezas e usá-las para satisfação de nossos
prazeres. Por essa razão, disse Jesus que dificilmente os
que têm riquezas haveriam de entrar no reino de Deus
(Lc 18.24). Vivemos em uma geração em que a riqueza é
que faz girar o mundo dos homens. Todos têm o coração
posto na riqueza porque aprenderam a amar o dinheiro,
o que, como foi dito, o torna a raiz de todos os males. Os
seres humanos passaram a servir ou a Deus e/ ou às ri
quezas. Na verdade, mais às últimas do que ao primeiro!
No entanto, não era assim no paraíso de Deus. Nossos
primeiros pais desfrutavam da riqueza que Deus colocou
em seu habitat. Mesmo neste nosso tempo de paraíso per
dido, ainda entendemos que as riquezas têm a mesma pro
cedência. Quando adotamos a cosmovisão judaico-cristã,
compreendemos que as riquezas que temos procedem das
santas mãos do Criador:
Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder
do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te
lembrarás do Senhor, teu Deus, porque é ele o que te dá
força para adquirires riquezas... (Dt 8.17,18).
Devemos servir a Deus com o que ele nos dá e não po
demos pôr o mérito de nossas riquezas em nossa própria
força, mas na bondade graciosa de Deus. O dinheiro que
Deus nos dá é apenas uma ferramenta para nosso uso vi
sando o que é necessário, sobretudo no serviço do reino. A
riqueza deve ser essencialmente um meio para a promoção
do que é santo e bom. Deus impõe justas proibições no uso
da riqueza.
Quando a redenção humana se completar, Deus ha
verá de restaurar o Éden perdido, e as Escrituras nos mos
tram quão belamente rico será o paraíso de Deus.
PARTE 3
AS QUALIDADES MORAIS
DO HABITAT HUMANO
C apítulo 6
O HABITAT HUMANO ERA UM
JARDIM DE TRABALHO
Algumas pessoas pensam no jardim de Deus como
um paraíso de dolcefa r niente. Imaginam-o como um lu
gar de férias, um resort imenso onde os nossos primeiros
pais viviam em lazer o tempo todo. Os homens sonham
a respeito do paraíso como, por exemplo, um lugar cheio
de coqueiros onde as pessoas, à sua sombra, tomavam
regaladamente água de coco. Jamais contemplam, em
sua mente, o paraíso como um local de trabalho.
Adão e Eva não começaram sua vida em uma es
pécie de aposentadoria antecipada, descansando á bei
ra de uma praia dos rios que banhavam o jardim, se
refrescando, comendo dos frutos das árvores e cochilan
do na hora em que não estavam comendo ou se divertin
do. A vida de Adão e Eva no jardim não era um estado
de indolência e inatividade debaixo das palmeiras onde
canta o sabiá, esperando que tudo viesse das mãos bon
dosas do Criador.
O próprio Deus trabalhou para criar e ordenar o
Universo. Por que, então, o homem haveria de ser di
ferente, se foi criado á imagem e semelhança de Deus?
Comentando Gênesis 2.15, Calvino diz que “a terra foi
dada ao homem com esta condição: que ele se ocupasse
em cultivar o jardim. Consequentemente, segue-se que os
homens foram criados para se envolverem a si mesmos
em algum trabalho, e não para repousar em inatividade
e ociosidade”.®®
Até no jardim no Éden o homem teve de trabalhar
para ganhar seu pão de cada dia. Um provérbio sueco
diz que “Deus dá a cada pássaro o bichinho para ele
comer, mas não o atira no ninho” .“ Mesmo no jardim
paradisíaco de Deus, o homem teve de agir para obter
seu sustento.
1. O TRABALHO NO JARDIM ERA FÍSICO E MENTAL
O trabalho para o ganha-pão no Éden era físico e
mental. O trabalho físico tinha a ver com o cuidado do
jardim (Gn 2.15), e o trabalho “mental” tinha a ver com a
nominação dos animais (Gn 2.19,20). Deus pôs o homem
para trabalhar com a totalidade do seu ser: corpo e alma.
O trabalho feito com o esforço físico não é menos digno
59 Calvino, op. cit.
60 Ditado citado por Steven Cole em seu sermão sobre este texto de
Gênesis, <http://www.fcfonline.Org/content/l/sermons/123195M.pdf>.
http://www.fcfonline.Org/content/l/sermons/123195M.pdf
do que o trabalho feito com o esforço da mente. Ambos
são legítimos e necessários para a subsistência da raça
humana, conforme a prescrição divina.
Esses trabalhos físicos e mentais eram uma emprei
tada legítima que Deus lhe havia concedido. Na verdade, o
homem tinha um “emprego” pago. Era recompensado pelo
que fazia. Obtinha o seu sustento pelo seu trabalho.
A ordem para o trabalho no jardim veio antes da
Queda, e não como castigo por causa dela. O trabalho não
ê uma maldição divina, mas recebeu uma parcela de mal
dição sobre a criação porcausa do pecado (Gn 3.17-19).
Mesmo sob certa maldição, o trabalho físico e mental ain
da ê uma bênção, porque nos proporciona o meio justo de
ganharmos o nosso sustento diário.
No Éden, Adão era mordomo de Deus. Foi colocado
ali para ser servo fiel de Deus. Precisava trabalhar para
cuidar dos recursos que Deus lhe havia concedido. Essas
coisas não são diferentes hoje. Somos mordomos de Deus e
devemos exercer os nossos deveres de modo consciente. Em
última instância, todos os homens são mordomos de Deus
e têm de prestar contas a Deus das responsabilidades que
ele lhes dá. É Deus o real empregador, e nós, empregados.
Todos trabalhamos para Deus, ainda que muitos não
reconheçam isso.
Os cristãos, especialmente, veem-se a si mesmos
como servos de Cristo, para quem trabalham. Por isso,
Paulo lhes lembra:
Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para
o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do
Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é
que estais servindo (Cl 3.23,24).
Seja você um faxineiro, seja um homem graduado,
seja uma dona de casa, seja um engenheiro, pode traba
lhar como se estivesse a serviço do seu Senhor. Todos so
mos mordomos de Deus e trabalhamos para ele. Pelo bom
trabalho prestado com amor, receberemos a recompensa
da herança divina.
2. O TRABALHO DE CUIDAR DA FLORA DO
HABITAT HUMANO
Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no
jardim do Éden para o cultivar e o guardar (Gn 2.15).
Certamente, esse trabalho físico tinha algumas varia
ções. As Escrituras não dão especificações detalhadas do
trabalho, mas não é difícil imaginar o que um homem pode
fazer com a flora do seu jardim. Adão e Eva usaram toda a
sua energia física para dar conta de subjugar e dominar a
terra. Adão ainda não tinha uma família completa que o pu
desse ajudar no cultivo do jardim. Não tinha pai físico, não
tinha filho ou parente homem, nenhum mestre humano
e, muito menos, herança cultural ou tradição que pudes
sem ajudá-lo nessa tarefa. Estava totalmente nas mãos do
Criador para a execução dessa maravilhosa e trabalhosa ta
refa. Deus, o Jardineiro por excelência (pois havia plantado
o jardim), era o único que lhe poderia ser útil no cultivo do
jardim. De quem mais poderia Adão aprender e depender?
Creio pessoalmente que Adão recebeu uma parte pe
quena do jardim para cultivar. Seria um trabalho para o
seu sustento e o de sua esposa. Foi testado em seu traba
lho de cultivo da terra. Tinha de passar no teste do “pou
co” para que pudesse assumir a tarefa do “muito” . Seus
descendentes receberam o “muito” do grande Éden, mas.
como já eram pecadores, não cuidaram devidamente da
terra (cf. Lc 16.1-12).
A palavra “guardar”, aqui, denota a ideia de “man
ter” . O que Deus está ensinando a Adão nesse texto é que
precisa trabalhar para manter o jardim, a fim de que não
venha a ser desordenado. Em outras palavras, se Adão
não guardasse o jardim, rapidamente ele poderia vir a
ser um lugar desordenado. Desde o princípio do mundo.
Deus teve a preocupação de preservar a ecologia do jar
dim. Queria o jardim mantido de maneira conveniente.
A palavra “guardar” denota também a ideia similar
de “proteger” . O cuidado da flora era necessário para a
manutenção do jardim. Toda obra criada, mesmo antes
da Queda, estava sujeita ã deterioração, porque a dete
rioração é própria das coisas finitas que vieram ã exis
tência. Não há nada neste mundo criado que não exija
manutenção. O Universo inteiro não se deteriora a olhos
vistos por causa da manutenção divina. Jesus Cristo, o
Verbo divino encarnado, sustenta todas as coisas pela
palavra do seu poder (Hb 1.3). No entanto, desde o prin
cípio do mundo, os homens tiveram a tarefa de cultivar
e guardar o jardim.
A proteção do jardim não era contra a invasão de
alguma coisa que viesse de fora, forças estranhas aden
trando o paraíso de Deus, mas proteção contra a própria
desordem a que uma coisa criada pode estar sujeita por
causa da sua condição de finitude.
3. O TRABALHO DE CUIDAR DA FAUNA DO
H A B ITA TH U M A N O
Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os
animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os
ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome
que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria
o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais
domésticos, às aves dos céus e a todos os animais
selváticos (Gn 2.19,20).
Primeiramente Deus formou os animais. Eles são
produto do fia t divino, pois, dizem as Escrituras, Deus
ordenou a existência deles a partir dos elementos cons
tituintes da terra do Éden (Gn 1.24,25). O texto diz que
Deus formou da terra todos os animais do campo e todas
as aves dos cêus (v. Gn 2.19). Em certo sentido, a natureza
dos animais é semelhante à natureza física dos seres hu
manos: vieram da terra, ou seja, dos elementos químicos
da terra, e todos eles foram feitos macho e fêmea, a fim de
se reproduzirem conforme sua espécie.
Em seguida, trouxe os animais à presença de Adão.
Não sabemos se Deus fez isso imediatamente, se o fez por
meio do ministério dos anjos, ou, ainda, se instintivamen
te vieram a Adão, mas o fato é que os animais terráqueos
e as aves do céu foram postos perante ele. O homem seria
o dominador de todos, pois esse domínio do homem sobre
eles assim foi determinado por Deus (Gn 1.26).
1) Adão usou A mente para observar e dar nomes
aos animais
Enquanto o trabalho com a flora era mais braçal
(porque Adão tinha, sobretudo, que usar a força física na
manutenção do jardim), o trabalho com a fauna era mais
mental. Adão teve que fazer alguns procedimentos mentais
para obedecer á ordem de Deus.
Dificilmente há dúvida de que Adão haja sido o mais
inteligente dos homens, exceto o Senhor Jesus Cristo.
Adão era um homem de tremenda capacidade de percepção
mental. Não podemos pensar de Adão como um homem
das cavernas, como pintam alguns, mas muito perspicaz
na observação daquilo que Deus havia criado. Ao dar nome
aos animais, podemos ver que ele foi capaz de analisar
sua essência, porque os nomes refletiam o que os animais
faziam e eram. Mentalmente, Adão devia refletir a imagem
de Deus e, por isso, pode (e deve!) ser considerado um ser
mentalmente brilhante!
Os poderes de percepção e de inteligência do homem
lhe foram sobrenaturalmente dados para poder conhecer
os hábitos e os costumes de cada espécie que Deus lhe
apresentou e a ela desse nome.
Deus deu então ao homem poderes mentais e, daí por
diante, exercitando sua capacidade de observação e aná
lise, Adão teve a tarefa de dar nome a todos os animais,
tanto os domésticos quanto os selvagens.
Certamente o nome que Adão lhes deu era devido à
sua aparência, seu comportamento e seus hábitos. Citando
um estudioso, Bochart, John Gill diz que ele “dá muitos
exemplos de criaturas, cujos nomes em língua hebraica
correspondem a alguns aspectos neles”. A d a m Clark re
força essa ideia, dizendo que “é bem sabido que os nomes
dados aos diferentes animais nas Escrituras sempre ex
pressam algum aspecto proeminente e característica es
sencial das criaturas às quais são aplicados” .
61 Citação de John Gill, comentando Gênesis 2.19, em sua obra The new
John Gill exposition o f the entire Bible, <http:// www.studylight.org/
com/geb/view.cgi?book=ge&chapter=002&verse=019>, acessado em
junho de 2010.
62 Adam Clark. The Adam Clark Commentary. <http;// www.studylight.org/
com/acc/view.cgi?book=ge&chapter=002&verse=020#Ge20>, acessado em
junho de 2010.
http://%20www.studylight.org/%e2%80%a8com/geb/view.cgi?book=ge&chapter=002&verse=019
http://%20www.studylight.org/%e2%80%a8com/geb/view.cgi?book=ge&chapter=002&verse=019
http://www.studylight.org/
Alguns estudiosos pensam que Adão tenha recebido
uma revelação divina para colocar os nomes certos nos
animais. Outros, como Adam Clark, dizem que “se ele não
possuísse um conhecimento intuitivo das propriedades
grandes e distintivas desses animais, nunca poderia terdado a eles tais nomes”.“ Pessoalmente, não creio que
esse conhecimento tenha sido intuitivo ou a priori, mas a
posteriori, ou seja, produto da observação. Acredito que,
exercitando seus poderes mentais por meio de análise e
observação, Adão descobriu um nome apropriado para
cada tipo de animal. Deve ter ficado um bocado de tempo
para analisar os comportamentos deles para poder lhes
dar um nome apropriado.
Se Adão teve a capacidade de inteligentemente dar nome
a todos os animais, isso mostra que ele era um homem
brilhante. Visto que, àquela altura, ele não tinha passado
pela queda, ele é provavelmente o mais brilhante homem
que jamais viveu. Adão foi o primeiro e o maior de todos os
biólogos e botânicos.
Ao dar essa tarefa a Adão, Deus fez desenvolver nele a
capacidade de pesquisa, para aumentar seu conhecimen
to do mundo em que o havia posto. Talvez essa tarefa de
Adão tenha sido a primeira observação científica feita an
tes de haver o estudo da ciência.
63 Ibid.
64 David Guzik's Commentaries on the Bible, <http://www.studylight.org/
com/guz/view.cgi?book=ge&chapter=002>, acessado em junho de 2010.
http://www.studylight.org/%e2%80%a8com/guz/view.cgi?book=ge&chapter=002
http://www.studylight.org/%e2%80%a8com/guz/view.cgi?book=ge&chapter=002
2) Adão usou a mente para dar nome aos animais
como sinal de superioridade e autoridade sobre eles
Essa capacidade de análise e avaliação significa que
o homem foi feito superior a todos os outros seres cria
dos, tanto em sabedoria como em poder, e eles foram da
dos ao homem para que o servissem, para que o homem
neles pudesse ter seu prazer e sobre eles exercesse seu
domínio. Deus havia feito Adão com capacidade intelec
tual que o colocava muito acima das outras criaturas (cf.
Jó 35.10,11). Adão veio perfeito das mãos do seu Criador
quando foi colocado no Éden.
Além da superioridade sobre os animais, colocar o
nome em outros é sinal de autoridade (cf. Dn 1.7) e quem
o recebe está sujeito a quem o colocou. Matthew Heniy
diz que “se Adão tivesse continuado fiel ao seu Deus, po
deríamos supor que as próprias criaturas seriam bem co
nhecidas e lembradas pelos nomes que Adão deu a elas
e elas obedeceriam e responderiam em qualquer tempo à
chamada de seus nomes”.®® Se Adão não houvesse caído,
não teríamos os mais variados nomes que uma mesma
espécie de animais recebe nas mais variadas culturas, e a
autoridade do homem seria muito forte sobre os animais,
atributo esse que ficou desfigurado pela Queda.
3) Adão usou a mente para distinguir os animais
domésticos dos selváticos
Adão não somente deu nome aos animais, mas soube
distinguir com muita clareza entre os animais domésticos
e os selváticos. Pela observação do comportamento deles,
pôde diferenciar qual deles era e não era domesticável.
Essa distinção só seria possível por meio de observação,
análise e avaliação comportamental dos animais.
65 Henry, op. cit.
APLICAÇÕES
1) Deus fez um habitat carente de cuidado e
proteção
Deus poderia ter feito um habitat humano sem neces
sidade de trabalho, só para ser contemplado. No entanto,
não foi essa a decisão divina. Resolveu colocar seres hu
manos ali para o cultivar e o guardar. No tempo inicial de
Adão e Eva, não havia “cardos e abrolhos”, porque a mal
dição ainda não estava sobre eles. Todavia, o habitat hu
mano tinha que ser mantido. Mesmo em seu estado mais
primitivo, a natureza deixou lugar para o desenvolvimento
da arte e da indústria. Se a flora tinha que ser trabalha
da naquele estado primitivo, quanto mais agora, quando a
maldição está sobre o habitat humano!
Portanto, você e eu temos o dever de participar na
manutenção e no cuidado deste mundo, ainda mais que
ele se acha afetado pela maldição divina. O trabalho é ain
da necessário e sempre o será. Não negligenciemos o nosso
dever no habitat em que Deus nos colocou.
2) Deus quer que tenhamos vida ocupada
neste mundo
Nenhum de nós foi enviado ao mundo para viver em
ociosidade em nosso habitat.
Segundo Calvino, “este labor, verdadeiramente, era
agradável, e cheio de prazer, inteiramente livre de todo
problema e desgaste; contudo, visto que Deus ordenou
que o homem deveria se exercitar na cultura do solo, con
denou em sua pessoa todo repouso indolente. Por con
seguinte, nada é mais contrário ã ordem da natureza do
que consumir a vida em comer, beber e dormir, enquanto
nesse meio-tempo nada propomos para fazer” .“
Aquele que nos criou nos designou tarefas para reali
zarmos neste mundo, de forma que devemos estar sempre
ocupados em fazer o que Deus nos confiou.
A vida no paraíso não deve ser considerada, portan
to, como sinônimo de vida de férias, nem mesmo de vida
entediante e monótona. Também não deve ser considera
da sinônimo de aposentadoria. A vida no paraíso deve ser
identificada com trabalho sério, exercício da mordoiéia
que Deus havia dado ao homem. Deus colocou o h o i^ ii0
como guardião e cultivador do jardim.
3) Deus quer que tenhamos icupações
em nosso habitat
O lugar em que Deu^^-fS^(c(Slc^Du é lugar de trabalho,
mesmo depois da Queda.Xpa^lhar é ordenação divina e
não é maldição, mnbôí^\D ^ o de cada dia que ganhamos
agora seja acombanhado, muitas vezes, de canseira e en
fado. Se o ordenação divina, deve ser visto
como umá|^em^venturança, mesmo em tempos de para-
ísei p^€f®do^
^ V ^ u a jid o temos o senso de que somos dotados por
'J^us para exercer as mais variadas funções em nosso ha
bitat, devemos exercê-las com alegria. A obra de Adão era,
certamente, feita com tranquilidade e paz de espírito. Era
um prazer trabalhar no jardim de Deus. Mesmo no estado
de queda, é prazeroso trabalhar. Não há coisa mais ente
diante do que ficar sem ter o que fa^er. A indolência nos
torna pessoas não somente inúteis, mas infelizes com nós
mesmos. Não seria jardim de Deus se não houvesse traba
lho alegre para nele realizar.
66 Calvino, op. cit.
C apítulo 7
O HABITAT HUMANO ERA
UM LUGAR DE LIBERDADE E
RESPONSABILIDADE
E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda a árvore do
jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás (Gn 2.16,17).
Deus coloca o homem santo em um lugar santo e,
então, submete-o a uma prova. Em sua soberania. Deus
expõe sua criatura a um teste, já que lhe dá liberdade com
responsabilidade.
A liberdade de Adao está vinculada à sua natureza; a
responsabilidade de Adão está vinculada ã ordenação divina.
1. EM SEU HABITAT, O HOMEM FOI
CONFRONTADO COM A SOBERANIA DIVINA
A responsabilidade do homem como ser moral tem
base no fato de seu Criador ser também um ser moral e,
além disso, um ser moral que impõe soberanamente suas
exigências morais.
Deus não é somente um ser bondoso, benfeitor,
sábio, santo, poderoso, mas também soberano. Ele im
põe todas as regras no seu domínio como Legislador e
Governante. Esse soberano governante põs Adão debaixo
de suas ordens. Deus ordenou não somente que o homem
não ficasse ocioso em seu habitat, mas também prescre
veu que fizesse as coisas da forma que ele. Criador, que
ria. Impõs as regras ao dar ao homem o domínio sobre a
criação e as criaturas e ordenou que tivesse um compor
tamento moral responsável.
1) Soberanamente, Deus estabeleceu um pacto com
Adão. No seu estabelecimento, fez todas as estipulações.
Deus colocou Adão como uma pessoa pública, que seria
representante de toda a raça humana, agindo no lugar de
todos, de forma que os atos dele seriam considerados por
Deus como sendo atos de todos.
As regras de vida no Éden não foram estabelecidas em
um acordo comum entre Deus e o homem, com a participa
ção igualitéiria de ambos os lados, como acontece nos pactos
humanos. Deus tomou a iniciativa de ordenar tudo. Pois, na
verdade, os dois pactuantes não eram iguais em natureza;
não tendo, portanto, direitos iguais de exigências e respon
sabilidades. Deus estabeleceu um pacto soberanamente,
no qual ele impôstodas as regras. Esse status quo pode ser
resumido da seguinte maneira: “Eu mando, você obedece”.
Pode não parecer simpático esse resumo, mas é assim que
as coisas necessariamente acontecem no estabelecimento de
um pacto em que um dos pactuantes é soberano.
2) Deus deu ordens soberanamente a todas as suas
criaturas, de acordo com a capacidade delas.
Aos animais da terra, às aves do céu e aos peixes do
mar, deu leis fixas da natureza, de forma que eles have
riam de se guiar por seus respectivos instintos.
Mais tarde, mesmo depois do Dilúvio, Deus estabele
ceu novas leis que incluíam não somente os seres viventes,
mas toda a criação física, leis essas que não foram altera
das, e toda a massa criada segue essas leis infalivelmente.
Apenas dois exemplos de leis fixas que regem a natureza:
Puseste às águas divisa que não ultrapassarão, para que
não tomem a cobrir a terra (Sl 104.9).
E os estabeleceu para todo o sempre; fixou-lhes uma
ordem que não passará (Sl 148.6).
No entanto, no habitat original, Deus impôs sobera
namente ao homem leis morais para que fossem obedeci
das, assim como leis para que fosse corregente no mundo
criado. Ele recebeu leis que em teologia são comumente
chamadas de “mandato cultural”. A autoridade da sobera
nia divina se vé no fato de o homem não haver discutido
as ordens divinas, porque, em princípio, este reconheceu o
direito de Deus governar e também reconheceu suas obri
gações diante das normas divinas. Ao colocar o homem
em seu habitat edênico. Deus não permitiu que o homem
se colocasse em competição ou em pé de igualdade com
ele. Afinal de contas, Deus era Deus, e o homem, apenas
criatura; um era o soberano, e o outro, súdito. Portanto, a
distância era muito grande entre eles!
2. EM SEU HABITAT, O HOMEM
FOI RESPONSABILIZADO MORALMENTE
Deus nâo somente fez um habitat santo, mas colo
cou sua criatura santa para exercer funções moralmente
responsáveis. Deus é um ser moral e, como o homem foi
criado â sua imagem e semelhança, recebeu também ca
racterísticas eminentemente morais do seu Criador. Deus
deu a ele a capacidade de distinguir entre o que é certo e o
que é errado, porque lhe pôs no coração suas leis e ainda
as deu formalmente em palavras.
Deus confrontou Adão com sua ordem no jardim.
Dentre as muitas árvores agradáveis â vista que havia no
jardim. Deus colocou diante dele duas que apontavam
para o caráter moral que havia dado à sua criatura e que
ria que fosse nele desenvolvido. Por elas, Adão foi confron
tado com o dever de obedecer ao seu Criador.
As duas árvores, as mais importantes do jardim de
Deus, ali estavam para treinar o espírito do homem no ca
minho da obediência e, com isso, transformar a vida natu
ral perfeita que Adão possuía em uma vida eterna ou vida
de comunhão imperdível.
Nossos primeiros pais foram colocados sob o teste da
obediência. Se passassem, obteriam a imperdibilidade da
comunhão relacional que já possuíam com Deus desde que
haviam sido criados. Se não passassem no teste, perderiam
até a vida natural que possuíam. Em suma, morreriam, fi
cando separados da comunhão relacional com Deus.
Calvino diz que “o homem era o governador do mun
do, com esta exceção: ele deveria estar sujeito a Deus.
Uma lei é imposta sobre ele como simbolo de sua sujei
ção; porque não teria feito nenhuma diferença para Deus
se ele tivesse comido indiscriminadamente de qualquer
fruto que lhe agradasse. No entanto, a proibição de uma
árvore era um teste de obediência. Deste modo. Deus de
signou que a totalidade da raça humana se acostumasse
desde o princípio a reverenciar sua deidade” .®'̂
As duas árvores mais importantes que Deus colocou
no jardim revelam que somente Deus sabe o que ê bom e
o que não é para o homem. Na verdade, não havia nenhu
ma árvore ruim, porque tudo o que Deus fez é bom, mas,
quando Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e
do mal, estava pondo Adão sob prova.
Portanto, a abstinência do fruto de uma árvore era uma espécie
de primeira lição na obediência, para que o homem pudesse
saber que tinha um Diretor e Senhor de sua vida, de quem
deveria depender, e que diante de tais ordens deveria aquiescer.
E esta é, verdadeiramente, a única regra de bem viver em c]ue
os homens deveriam se exercitar, a obediência a Deus.̂ ^
Portanto, Deus queria testar a obediência dele.
James Boice observa que “a presença desta árvore teria
lembrado Adão de que ele não era o seu próprio deus e
era responsável todo o tempo perante seu Criador” .®®
67 Ibid.
68 Ibid.
69 James Boice. Genesis. Zondervan (1:104).
3. EM SEU HABITAT, O HOMEM RECEBEU
LIBERDADE PARA DESFRUTAR DA ABUNDÂNCIA
DA PROVISÃO DIVINA
E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: de toda árvore do
jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás (Gn 2.16,17).
A ordem divina para Adão foi que ele podia comer de
todas as árvores que havia no jardim, com toda a liberda
de. Não havia restrições para se alimentar, no paraíso, das
árvores que Deus prescreveu.
Deus deu ordem ao homem para desfrutar livremen
te de todas as árvores do jardim, incluindo a árvore da
vida, que estava no centro do jardim. Eu posso imaginar
simplesmente que havia um grande e delicioso buffet de
saladas de frutas, onde o homem podia comer de tudo e de
modo abundante. É como se Deus houvesse dito aos nos
sos primeiros pais; “Desfrutem da beleza e da gostosura da
minha criação!”.
A mesma ordem o Senhor dá hoje a seu povo, mesmo
depois da Queda. Somos livres para desfrutar de todas as
coisas, exceto do pecado. Deus nos dá liberdade na terra
que criou para fazermos tudo o que lhe agrada. Apenas
uma coisa fica fora dos nossos limites; aquilo que ele nos
proibiu, para o nosso bem. Infelizmente, em nossas pre
sentes condições, a “árvore” do fruto proibido é extrema
mente grande, com muitos galhos, muitas ramificações,
e todos têm-se tornado grandes fontes de tentação para
a raça humana, incluindo os cristãos. Como seres huma
nos caídos que ainda somos, temos a inclinação de fazer
o que Deus proíbe, e ele o proíbe para o nosso próprio
bem-estar. Nossas inclinações não são ainda plenamente
santas. As inclinações para o mal persistentemente nos
assediam e quase sempre nos fazem gravitar em torno
daquilo que Deus proíbe.
Quando não entendemos essas santas e bondosas or
dens, acabamos por preferir desfrutar das coisas proibidas
e deixamos de perceber e desfrutar das coisas belas e líci
tas que existem, ordenadas por Deus.
4. EM SEU HABITAT, O HOMEM RECEBEU
LIMITAÇÕES EM SUA LIBERDADE
E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: de toda árvore
do jardim comerás livremente, mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no
dia em que dela comeres, certamente morrerás
(Gn 2.16,17).
Quando Deus disse ao homem que ele poderia co
mer de todas as árvores, colocou apenas uma proibição,
impondo determinado limite aos apetites naturais do ho
mem. Ele poderia comer de tudo, exceto da “árvore do co
nhecimento do bem e do mal” .
Deus deu aquele grande buffet para que os homens
desfrutassem das maravilhas da criação mediante uma
imensa variedade de árvores frutíferas no jardim de Deus.
Você e eu nem podemos imaginar a riqueza e a multiplicidade
de coisas de que nossos primeiros pais poderiam desfrutar.
O máximo havia sido permitido, e o mínimo, proibido. De
toda árvore do jardim comerás livremente. Somente uma
proibição. Nada mais!
As árvores no jardim serviam, então, para mostrar a
vontade soberana do Criador e ao mesmo tempo testar a
fidelidade da criatura ao Criador-Legislador. Por ser uma
criatura santa (embora não imutavelmente santa!) o ho
mem possuía uma aversão natural pelo mal, porque seu
ser interior não possuía ainda nenhuma inclinação para o
mal. No entanto, Deus não abriu mão de sua prerrogativa
de testar sua criatura quando pôs a árvore “do conheci
mento do bem e do mal” bem no meio do habitatoriginal
do homem. Afinal de contas. Deus exibe sua autoridade
sobre o homem prescrevendo-lhe o que ele deveria e o que
não deveria fazer. Deus impôs, assim, limite ã liberdade
do homem.
Ao impor esse limite á liberdade humana, podemos
ver o cuidado amoroso de Deus para com suas criaturas.
É como se Deus tivesse dito aos nossos primeiros pais;
Continuem santos como vocês têm sido até agora. Façam
tudo de acordo com as minhas prescrições, e, assim,
continuarão desfrutando das delícias do paraíso que criei
para vocês. Eu coloco essa proibição para continuação
da bem-aventurança em que vocês vivem. Comam de
tudo, exceto da árvore do conhecimento do bem e do
mal. Obedeçam-me, e vocês existirão em felicidade para
sempre. Estou testando vocês: se me obedecerem, viverão
em harmonia comigo; se me desobedecerem, serão tão
miseráveis quanto agora são felizes — conhecerão a minha
ira em vez da minha bondade que agora vigora no paraíso.
Obedeçam-me! - Paráfrase do autor.
Sabemos, porém, que nossos primeiros pais não fo
ram felizes para sempre. Avançaram o sinal vermelho,
penetrando na esfera da maldição, com consequências ter
ríveis para toda a sua posteridade.
Ao buscarmos entender o que se passa dentro de
nós, vemos que a situação é muito diferente da de Adão, a
criatura santa que acabou fazendo o que não devia. Hoje,
temos inclinação pecaminosa, que Adão não possuía.
Depois da Queda, todos os filhos de Adão, ao receberem
restrição a uma coisa que não devam fazer, têm neles
logo despertado o desejo de fazê-la. O proibido se torna
desejável. Não era assim com nossos primeiros pais. Eles
não possuíam a inclinação pecaminosa, que ê a fonte do
pecado. A ordem proibitiva imposta por Deus não desper
tou neles desejo de pecar. No entanto, acabaram fazendo
o que não deviam.
A limitação da liberdade humana no habitat foi
imposta por Deus em virtude da sua autonomia sobe
rana em questões morais. Essa proibição aponta para
Deus como o único que pode ter autonomia moral. Ele
ê quem diz o que o homem pode ou não fazer. Quando
Adão e Eva comeram do fruto proibido, admitiram (ain
da que não apologeticamente) que também tinham o
direito de autonomia moral, ditando o que eles próprios
poderiam fazer. O comer do fruto “era um ato de auto
nomia moral — decidindo o que é certo sem referência à
vontade revelada de Deus” .̂ ° Por sugestão de Satanás,
acabaram assumindo o papel de Deus, usurpando de
Deus a prerrogativa de ditar regras morais sobre o que
é certo e o que é errado. Essa atitude de comer desobe
dientemente, com a suposição de que tinham autono
mia moral, lhes trouxe a m o r t e . E s t e mesmo tipo de
comportamento seria confirmado na atitude soberba do
70 Cf. esta ideia em Gordon Wenham. Genesis 1-15. WBC: Waco, TX; Word,
1987, p. 64.
71 R. Kent Hughes. Genesis: beginning & blessing. Wheaton, IL: Crossway,
2004, p. 55.
rei de Tiro, devido à sua soberba. Ele agia como senhor
do mundo, aquele que, à sua própria vista, tinha au
tonomia moral para fazer tudo o que queria fazer, que
combinava com seus pressupostos maus. Essa atitude
de autonomia moral é que o tornou objeto da ira divi
na (cf. Ez 28.6,15-17). Deus condena veementemente a
presunção humana de arrogar-se o direito de autono
mia moral.
Há um sentido em que esse limite imposto por Deus
ainda existe hoje. Deus nos diz em sua Palavra que pode
mos fazer todas as coisas, exceto o pecado. Ainda somos
“administradores” da terra que Deus nos deu (embora ela
já esteja em fase de decomposição) e temos ordens posi
tivas e negativas. As negativas sempre têm a ver com a
proibição com respeito ao pecado.
Ê importante lembrar que a “árvore do conhecimento
do bem e do mal” não era má em si mesma, porque tudo o
que Deus havia criado era bom. O nome dessa árvore nada
diz a respeito de seu caráter. Não havia nada de impróprio
ou de injusto nela. A proibição quanto a ela tinha a ver
com a questão da obediência do homem. O problema era
moral, com respeito ao homem, não á árvore.
A liberdade que Deus deu a Adão ali no Éden não era
liberdade de autonomia ou de independência de Deus. A
liberdade dada ali era para somente fazer o que estivessem
de acordo com suas inclinações santas e o que foi ordenado
por Deus. Sua liberdade possuía limitações, e a limitação
ê uma ordenação divina imposta. Essa imposição divina
aponta para a soberania que Deus tem de estabelecer as
regras para suas criaturas.
Nós, hoje, temos de entender que a verdadeira liber
dade não está em fazer tudo o que ê possível ser feito, mas
fazer as coisas que agradam a Deus, que estão de acordo
com suas prescrições. Essa liberdade é também chamada
de liberdade espiritual.
5. EM SEU HABITAT, O HOMEM RECEBEU
AMEAÇA DE MORTE CASO INFRINGISSE AS
LIMITAÇÕES DE SUA LIBERDADE
E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do
jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás (Gn 2.16,17).
Como o homem é um ser moral, tem de se submeter a
princípios morais estabelecidos pelo seu Criador, que é um
ser moral por excelência. Deus colocou certos princípios no
Universo que não podemos violar, com o risco de sofrermos
consequências danosas. Portanto, as limitações impostas
por Deus às suas criaturas foram para o bem delas.
Quando dizemos a nossos filhos pequenos que não
mexam no fogão quente, nossa ordem é para evitar que
sofram sérias queimaduras. Então, lhes dizemos: “Não to
quem no fogão porque, se fizerem isso, vão se queimar”.
Evidentemente, essa ordem para as crianças não é uma lei
moral, mas a nossa preocupação é para com o bem delas.
No caso do Éden, a lei imposta ao homem era uma lei
moral, por isso era seguida de ameaça em caso de desobe
diência. Deus deu a ordem para o próprio bem de Adão, a
fim de que ele não morresse.
72 Esse tipo de liberdade será analisado em outro trabalho dos "Estudos em
Antropologia".
Se Deus banisse a árvore do conhecimento do bem e
do mal, Adão e Eva não mais poderiam ser seres respon
sáveis, pois a responsabilidade deles estava vinculada à
ordem divina ligada àquela árvore. A responsabilidade mo
ral fornece a base interna para as consequências a que o
homem se sujeitou. Á árvore do conhecimento do bem e do
mal foi posta no jardim para que o homem não confiasse
em seu próprio entendimento, para que não se afastasse
dos limites impostos por Deus e para que ele mesmo ju l
gasse corretamente entre o bem e o mal.
No entanto, nossos primeiros pais ultrapassaram o
sinal. Foram além da liberdade espiritual estabelecida
por Deus. Assim, ao comerem do fruto proibido, estabele
ceram seu próprio padrão de certo e errado, desprezando
os padrões estabelecidos pelo Criador. O resultado foi a
morte e todas as outras consequências que a desobedi
ência trouxe.
A morte, que traz consigo a ideia de separação, tem
trés dimensões: a chamada morte física, a morte espiritu
al e a morte eterna. A morte física de Adão se deu alguns
séculos depois de ele ter sido expulso do jardim de Deus.
Adão morreu quando tinha 930 anos de idade (Gn 5.5). A
chamada “morte física” é uma punição adicional à morte
espirituaF^ e precede a morte eterna.
Todavia, a morte espiritual, que é a separação rela
cional de Deus, aconteceu naquele mesmo dia da deso
bediência. A ameaça de morte feita no jardim de Deus se
cumpriu ali mesmo, conforme o registro das Escrituras.
A frase no dia em que dela comeres, certamente morrerás
teve aplicabilidade imediata após a desobediência. Com
ela, Moisés está mostrando que a penalidade foi impos
ta quando Adão estava ainda dentro do jardim. Isso pode
ser comprovado pelo fato de Adão ter-se escondido da pre-
73 Waltke, Genesis, p. 87-88.
sença de Deus porque o havia desobedecido. Foi expulso,
então, do seu habitat original, além de ser proibido de ali
entrar novamente. Ou seja, com a morte espiritual, não
mais poderia ter, por si mesmo, qualquerrelacionamento
vital com Deus. Sua quebra de relacionamento com Deus
indica sua morte espiritual exatamente no dia em que de
sobedeceu ao Senhor.
PARTE 4
AS QUALIDADES SOCIAIS
DO HABITAT HUMANO
Capítulo 8
O HABITAT HUMANO ERA UM
LUGAR DE COMPANHEIRISMO
(18) Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem
esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.
(19) Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra
todos os animais do campo e todas as aves dos céus,
trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria;
e o nome que o homem desse a todos os seres viventes,
esse seria o nome deles. (20) Deu nome o homem a todos
os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os
animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava
uma auxiliadora que lhe fosse idônea. (21) Então, o
Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este
adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar
com came. (22) E a costela que o Senhor Deus tomara ao
homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. (23)
E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e
came da minha came; chamar-se-á varoa, porquanto do
varão foi tomada. (24) Por isso, deixa o homem pai e mãe
e se une à sua mulher, tomando-se os dois uma só came.
(25) Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus
e não se envergonhavam. Gn 2.18-25
O habitat humano era pleno de tudo. Todas as coi
sas necessárias para o bem viver de Adão estavam feitas,
e o habitat estava pronto para uma habitação prazerosa!
O sistema de irrigação era perfeito. Com a perfeição da
irrigação, havia manutenção das belas árvores; com as
árvores devidamente irrigadas, havia abundância e per
feição de frutos. Os animais davam encanto ao habitat.
O habitat humano de forma alguma era um lugar tedio
so. Deus havia posto tudo ali de maneira que Adão tinha
muita ocupação e muita coisa com que se divertir naquele
paraíso. Deus providenciou satisfação intelectual e labor
físico para Adão em seu jardim paradisíaco, quando orde
nou que classificasse e categorizasse o sistema de fauna
e flora do jardim. Adão tinha muito trabalho com que se
ocupar. Além disso, tinha um perfeito relacionamento com
Deus, e ali Deus andava e comungava com Adão. Havia
plena satisfação espiritual! Mas havia alguma coisa que
ainda estava faltando na vida do primeiro homem.
A única coisa que faltava para Adão no belo habitat
que Deus havia criado para ele foi algo que o próprio Deus
providenciou. Deus lhe deu uma esposa, que lhe foi por
companheira. A criação de Eva preencheu exatamente o
que faltava na vida de Adão. Deus eliminou, de vez, a defi
ciência que havia no paraíso:
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja
só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea (Gn 2.18).
Não há dúvida de que Deus sabia desde o princípio
que faltava uma companheira para o homem. Afinal de
contas. Deus é sapientíssimo, nada escapa ao seu conhe
cimento. Deus conhecia as carências físicas e afetivas de
sua principal criatura. Deus havia formado Adão com um
corpo e uma alma. Essas duas partes constitutivas da sua
humanidade tinham necessidades. Portanto, sabedor des
sas carências, trouxe uma esposa para ele. Não era pró
prio que uma criatura diferente estivesse ao lado de Adão,
porque uma verdadeira comunhão física e afetiva só pode
haver entre seres da mesma natureza. Os animais domés
ticos eram companheiros de Adão ali no seu habitat, mas
eles não preenchiam as carências do homem. Ele mesmo
percebeu suas carências pela observação dos animais (Gn
2.19-20). Cada um deles tinha sua contraparte. Entre to
dos eles havia macho e fêmea. Ele aprendeu a apreciar a
beleza das famílias dos animais, mas ele mesmo, coroa da
criação, estava só!
Por que não se achava uma auxiliadora que lhe fosse
adequada? Pois o texto diz: todavia, não se achava uma
auxiliadora que lhe fosse idônea (Gn 2.19,20).
No meio de todas as criaturas até então existentes
no Éden, nenhuma delas servia aos propósitos de Adão,
nem se enquadrava em suas expectativas. Ele observava
cada animal que o Senhor Deus lhe trazia, mas não con
seguia ver em nenhum deles algum que pudesse servir-lhe
de companhia idônea.
Ao examinar os animais que o Senhor lhe trazia, pa
reço ouvir Adão dizer ao seu Criador: “Senhor, todas essas
criaturas que o Senhor me trouxe para que eu lhes desse
nomes são belas, úteis e ajudadoras, mas não consigo me
ver satisfeito com nenhuma delas. Elas não me servem
como auxiliar apropriado” . Embora Adão tivesse sido cria
do perfeito, não se sentia completo. Por certo, algum sen
timento de ausência havia em sua alma. Por essa razão,
coloquei na boca de Adão tais palavras.
Nenhuma das criaturas trazidas a ele por Deus refletia
a excelência e a dignidade da natureza humana, muito di
ferente da de todas as outras criaturas. Não havia ninguém
semelhante a Adão que lhe pudesse servir de auxílio com
idoneidade. Adão só encontraria uma auxiliadora idônea se
viesse das mãos do Criador. Teria que ser uma criação es
pecial de Deus. Foi exatamente isso o que veio a acontecer!
1. DEUS SE PROPÔS A CRIAR UMA AUXILIADORA
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja
só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea (Gn 2.18).
Deus sabia que a vida isolada de Adão certamente
não seria boa para ele. Então propôs consigo mesmo criar
uma companheira para Adão.
Deus era o grande ajudador (o mais importante de
todos!), mas Deus não era o que faltava na vida dele. Ele
era o supremo auxiliador. Ninguém poderia ser mais auxi
liador do que Deus ali no habitat santo. A ajuda de Deus
era a mais importante e indispensável, mas não preenchia
as carências que o próprio Deus viu em Adão.
Os animais também eram ajudadores. Eram alta
mente auxiliadores, embora bastante inferiores a Deus,
e não há termo de comparação entre eles. Adão se servia
de alguns dos animais para fazer várias coisas no seu
trabalho de cuidar do jardim. Embora muito úteis, belos
e agradáveis, no entanto, os animais não o complemen
tavam. Deus os tinha trazido a Adão (Gn 2.19), mas ne
nhum deles poderia preencher uma necessidade que o
próprio Criador viu nele.
A criatura auxiliadora de que Adão tanto precisava
deveria ser igual a ele, possuir a mesma natureza.
O termo hebraico para auxiliador (ezer) não é
o mesmo que servo. Moisés, que escreveu o livro de
Génesis, usou a palavra ezer no nome de um de seus
filhos (Êx 18.2-4): Eliézer, nome que, na verdade, sig
nifica Deus ajudador, pois, como diz o texto, ele deu esse
nome ao filho dizendo que o Deus de meu pai fo i a mi
nha ajuda (Êx 18.4). O termo auxiliador, portanto, não é
uma palavra degradante, porque descreve o que o próprio
Deus O Antigo Testamento o emprega sem nenhuma
conotação de inferioridade. Quem é auxiliador, de forma
alguma, deve ser considerado de segunda categoria. Deus
é o maior e o mais importante ser existente no Universo e,
no entanto, é o nosso grande ezer, que vem em nosso so
corro em todas as horas.Portanto, Moisés usa esse ter
mo descritivo de Deus para descrever o que uma mulher
deveria ser para o seu marido.
74 0 termo "ajudador" (ezer — auxiliador) é usado com relação a Deus
16 das 19 vezes em que ele aparece no AT. Portanto, quando se atribui à
mulher a qualidade de "auxiliadora" mostra uma alta qualidade essencial
que a mulher merece ter.
75 Moisés usa o term o ezer algumas vezes, referindo-se a Deus
como o ajudador, o auxiliador dos homens, em horas de necessidade
(Dt 33.7,26,29), assim como o fazem outros autores nas Escrituras (cf. Sl
20.2; 33.20; 70.5; 115.9; 121.1,2; 124.8; 146.5).
Adão precisava de alguém que lhe servisse de auxílio
em todas as suas carências. Não tinha ainda a doce com
panhia de que necessitava.
APLICAÇÃO
Maridos cristãos, é muito importante que vocés en
tendam que a esposa é a grande auxiliadora proporciona
da por Deus. Não a considerem como uma pessoa de quem
vocés devam se servir, uma serva a quem sustentam.Não
digam nunca, nem de brincadeira, que o lugar dela é na
cozinha, como se fosse paga para cozinhar, lavar e passar.
Ela está do lado de vocés, deve tomar parte nas decisões de
vocês, pois é nessa função, sobretudo, que ela tem o papel
importante de ser sua auxiliadora. Qualquer marido que
toma sozinho as decisões na vida, no lar, e não consulta
sua esposa, é um homem tolo! A esposa, em sua tarefa de
ajudadora, costuma ser sábia e, por isso, deve ser consul
tada nas decisões mais determinantes para a família. Não
deixem sua esposa de lado. Deus deu a esposa para que
nos auxilie na condução do lar e da vida.
Todos nós, por mais sábios que julgamos ser, carece
mos da ajuda de outros na condução de decisões essen
ciais. O próprio Senhor Jesus Cristo consultou o Pai na
hora de escolher os discípulos que o ajudariam a implan
tar o seu reino neste mundo. Ninguém é independente,
nem mesmo o foi Jesus Cristo, porque, na sua condição
humana, era um ser como nós. Todos os seres humanos
carecem de auxiliares.
A esposa que Deus nos dá é grande auxiliadora, e não
somente nas horas de decisões, mas também nas horas
em que estamos sozinhos. Ê de grande ajuda em nossas
aflições e fraquezas. Na vida conjugal, um cônjuge fortale
ce e encoraja o outro. É assim que a vida deve ser vivida.
Sabedor disso, Deus fez a mulher, Eva, e a deu ao solitário
Adão, para ser sua auxiliadora.
2. DEUS SE PROPÔS A CRIAR UMA
AUXILIADORA IDÔNEA
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem
esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea
(Gn 2.18).
Deus não somente prometeu criar para Adão uma au
xiliadora, mas qualificou o tipo de auxiliadora: idônea.
Esse termo qualificador sugere várias coisas que uma
mulher pode fazer na vida de um homem.
1) Idoneidade sugere a ideia de compatibilidade
Deus criou para Adão uma companheira compatível
com ele. Certamente, Eva era diferente de Adão, mas não
nos podemos esquecer de que polos diferentes, contrários,
se atraem e são perfeitamente compatíveis. As diferenças
não indicam necessariamente incompatibilidade. Deus
nos fez sexualmente diferentes, emocionalmente diferen
tes, fisicamente diferentes, mas nós, homem e mulher, a
despeito das muitas diferenças, somos perfeitamente com
patíveis. As diferenças ressaltam a necessidade que temos
um do outro, pois temos carências que podem ser perfei
tamente supridas somente pelo cônjuge, que é diferente
de nós.
Portanto, não devemos nos espantar de como pesso
as tão diferentes, que parecem extremamente incompa
tíveis, podem ser perfeitamente adaptáveis uma á outra.
Nós todos, no casamento, precisamos de características
opostas, para poder haver um equilíbrio. Uma esposa idô
nea não é necessariamente aquela que combina com o que
já temos, mas poderá ser bem diferente de nós, a fim de
que possamos desenvolver aquilo que não percebemos ser
necessário desenvolver. Somente com uma visão diferente
do cônjuge é que aprendemos a ver de modo correto o que
está diante de nós.
O que é aparentemente incompatível é parte de um
propósito divino em nossa vida. Deus nos dá o cônjuge
de que realmente precisamos. Nesse sentido, a suposta
“incompatibilidade” é uma bênção divina, para o nosso
bem, para o desenvolvimento de nossa personalidade e
do nosso espírito relacional com Deus e com os homens.
Small observou corretamente que “Deus tem designado
conflitos e fardos para serem lições de crescimento espi
ritual. Eles devem estar subservientes a propósitos mais
elevados e santos” ."̂®
2) Idoneidade sugere a ideia de correspondência
Deus deu a Adão uma pessoa que fosse correspon
dente a ele, alguém que tivesse a mesma natureza dele,
que pudesse entendê-lo, amá-lo, compreendê-lo e fosse
capaz de preencher as suas reais necessidades. Eva de
veria ser a ajudadora que “correspondesse” a Adão. Em
outras palavras, a palavra “idônea” pode ser traduzida por
“ajudadora igual a ele”.'̂ ^
Uma esposa correspondente ê aquela que comple
menta o marido e o realiza com toda a compatibilidade. É
76 Dwight Hervey Small, em citação da revista Preaching Today, encontrada
em Leadership, vol. 17, no. 4.
77 Jimmy Townsend, em citação da revista Preaching Today, feita por
Marriage Partnership, vol. 5, no. 1.
curioso que muitos que estão do lado de fora do relacio
namento percebem com mais facilidade as coisas do que
aqueles que estão envolvidos no plano de casamento. Isso
significa que precisamos de ajuda externa para que pos
samos ver com olhos melhores quais as virtudes da outra
pessoa de quem carecemos. Por essa razão, diz um con
selheiro matrimonial, “quando eu aconselho aqueles que
planejam se casar, não procuro descobrir um número tão
maior de similaridades quanto possível. Ao contrário, eu
me preocupo em que cada parceiro tenha uma visão acu
rada do que o outro realmente é e estejam comprometidos
com o fato de que Deus os uniu permanentemente”.'̂ ® A
correspondência pode vir por meio de diferentes peças que
se encaixam, como as coisas realmente são na mecâni
ca da vida: macho e fêmea. Elas são diferentes, mas são
correspondentes.
Quando Deus criou Eva, usando uma costela de Adão,
ele a moldou de tal maneira que ela correspondesse a ele
tanto física, social, intelectual, espiritual e emocionalmen
te. A correspondência ê plena porque há compatibilidade.
O homem e a mulher são seres com características dife
rentes, mas possuem compatibilidade e correspondência.
3) Idoneidade sugere a ideia de
complementaridade
Outra ideia que se une à de compatibilidade e corres
pondência ê a de complementaridade. Um homem não é
completo sem a mulher."^® Deus fez Adão perfeito, mas sua
perfeição não inclui a ideia de independência. Deus ê o
78 Steven Cole, pregador batista de Flagstaff, EUA, em sermão sobre o texto
em estudo. Site <http://www.fcfonline.Org/content/l/sermons/010895M.
pdf>.
79 Walter Elwell. Evangelical Commentary on the Bible, Electronic Ed,
comentando o texto em estudo.
http://www.fcfonline.Org/content/l/sermons/010895M.%e2%80%a8pdf
http://www.fcfonline.Org/content/l/sermons/010895M.%e2%80%a8pdf
Único ser que não precisa depender de ninguém porque é
completo. Nada há que falte nele ou de que ele possa sen
tir falta. No entanto, quando Deus fez a sua criatura mais
importante neste mundo, ele a fez incompleta, carecendo
de uma contraparte.
O jovem cristão que esteja procurando uma esposa
tem de buscar nela aquilo que lhe falta; tem de buscar
nela o que não pode ter por si mesmo e a ela oferecer
o que não pode desfrutar por si mesma. A ideia de
complementaridade é extraordinária no casamento! O
jovem cristão deve buscar de preferência uma mulher que
tenha características diferentes dele. Se buscar uma que
tenha exatamente as mesmas características dele, não
haverá quase ou nenhuma complementaridade. Nesse
caso, homem e mulher podem vir a se tornar mutuamente
dispensáveis e desnecessários. Se ambos possuem as
mesmas características, podem vir a não ter carência
alguma um do outro.
Cole comenta que “a palavra hebraica para ‘idônea’
sugere alguma coisa que completa uma polaridade, como
o polo norte completa o polo sul”.®° Para que tenhamos a
ideia de complementaridade, basta lembrar que não terí
amos noção de norte sem o sul, e vice-versa. Assim, é a
relação de complementaridade entre homem e mulher.
A complementaridade se evidencia na dependência
que um cônjuge tem do outro. Um tem de dar suporte ao
outro. A ajuda mútua é sinônimo de complementaridade.
Há duas coisas muito importantes relacionadas á
ideia de complementaridade e que destroem os argumen
tos extremados da esfera do feminismo, ainda vigente em
algumas sociedades contemporâneas:
80 Steven Cole, em seu sermão sobre o texto em estudo, <http://www.
fcfonline.org/content/l/sermons/010895M.pdf>.
http://www.%e2%80%a8fcfonline.org/content/l/sermons/010895M.pdf
http://www.%e2%80%a8fcfonline.org/content/l/sermons/010895M.pdf
O fato de Deus criar a mulher para ser auxiliadora do homem aponta para o fato de ela ser subordinada
a ele, como dizem as Escrituras, mesmo após a Queda
( ICo 11.9,10).
— No entanto, ao mesmo tempo, as Escrituras ensi
nam que o homem não é superior à mulher, porque pre
cisa dela. É muito interessante a visão que as Escrituras
nos dão da necessidade que o homem tem da mulher
no que tange ã sua dependência dela. Paulo, comumen
te acusado de “machista” nos círculos superfeministas,
“quebra a perna” das feministas extremadas ao destruir
o conceito feminista de que não há distinções baseadas
em gênero. Paulo diz: Porque também o homem não fo i
criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa
do homem ( ICo 11.9). Há várias distinções de gênero
que apontam para a mutualidade de dependência que
os casais têm. Cole diz que “a mulher é a parte que es
tava faltando no homem. Exatamente como um quebra-
cabeça ê incompleto se metade das peças está faltando,
assim um homem ê incompleto sem sua esposa. Deus
designou que o homem tivesse necessidade da mulher e
que a mulher precisasse do homem”. E s t e ê exatamen
te o ensino das Escrituras, que diz: No Senhor, todavia,
nem a mulher é independente do homem, nem o homem,
independente da mulher ( ICo 11.11).
As Escrituras dizem que Deus fez Adão do pó da ter
ra (Gn 2.7). Eva poderia ter sido feita da mesma maneira.
Por que, então. Deus não a fez do pó da terra, mas da
costela de Adão? (Gn 2.21,22). Exatamente porque ela é
a parte dele que faltava e, ao mesmo tempo, um comple
mento dele, sendo da sua mesma essência. Os iguais em
função não podem completar-se. Somente os diferentes é
que podem realizar a ideia de complementaridade e de
pendência mútua.
NÓS, pais cristãos, não podemos nos furtar a ensinar
essas ideias aos filhos da igreja, a fim de que a união con
jugal entre eles seja uma relação de mútua dependência,
porque ambos têm papéis diferentes na vida da família.
Ambos, homem e mulher, são pessoas com a mesma na
tureza (essência), mas possuem funções diferentes que se
completam.
3. OS PROPÓSITOS DIVINOS NA PROVISÃO DE
UMA ESPOSA IDÔNEA
Sempre que Deus faz algo neste mundo, ele faz com
propósitos santos. Nada do que ele fizer aqui, debaixo do
sol, será sem significado. Deus tem um plano para a vida
humana e ele sempre o realiza primeiramente para a sua
própria glória, e, secundariamente, para o bem-estar dos
seres humanos.
O texto afirma que Deus disse: Não é bom que o
homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja
idônea (Gn 2.18). Quais foram os propósitos divinos na
provisão de uma esposa idônea?
1) A PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA VISOU
CUMPRIR A ORDEM DE PROPAGAÇÃO DA RAÇA
HUMANA
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja
só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea (Gn 2.18).
Deus havia posto Adão no jardim que havia plan
tado. Por algum tempo, Adão viveu solitário, fazendo o
trabalho que lhe havia sido ordenado fazer. Quando Deus
disse; Não é bom que o homem esteja só, estava pensando
na propagação da raça que haveria de acontecer. Adão
não tinha a capacidade de se propagar sozinho. Era ne
cessária a presença ativa de uma auxiliadora para que a
propagação acontecesse.
A propagação da raça foi ordenada ali mesmo no jar
dim de Deus:
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, á imagem
de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os
abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos,
enchei a terra e sujeitai-a (Gn 1.27,28).
Quando Deus criou os dois seres humanos, Adão e
Eva, teve em vista a raça humana. Os anjos são compos
tos de muitos milhões, mas eles não são uma raça, porque
eles não vieram a existir por propagação. Deus os criou
todos de uma só vez. Não existe união entre anjos para
haver outros anjos. Não existe noção de familia entre eles,
nunca se multiplicarão, porque não constituem uma raça.
Deus nunca ordenou aos anjos que crescessem e se multi
plicassem, enchendo os céus e a terra. Não há gerações de
anjos. No entanto. Deus deu essa ordem de multiplicação
aos homens. Deus os fez para serem pais de uma imensa
raça que haveria de povoar a terra.
Adão sozinho não poderia ser um multiplicador da
raça. Todos os animais presentes no jardim, que Deus ha
via trazido à presença de Adão para que lhes desse o nome,
eram de natureza diferente da dele. Nenhuma fêmea ali
presente poderia ser contraparte de Adão de maneira com-
pativel, correspondente e complementar, pois nenhuma
delas possuía uma natureza essencial equivalente à dele.
Adão precisava de uma auxiliadora idônea, que fosse sua
contraparte compatível, correspondente e complementar
— humana como ele. Somente os dois, com sexos diferen
tes, mas mutuamente dependentes, em coabitação, pode
riam ser os progenitores de uma imensa raça.
2) A PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA VISOU
SATISFAZER O DESEJO SEXUAL NATURAL
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem
esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea
(Gn2.18).
Quando Deus disse que não seria bom o homem viver
só, já sabia que ele era incompleto e não poderia satisfazer
uma necessidade da natureza com a qual havia sido cria
do. Precisava desfrutar da riqueza dos prazeres físicos que
Deus lhe havia concedido. Adão era um ser fisico-espiritu-
al. Já estava desfrutando dos prazeres do seu relaciona
mento espiritual com Deus, mas ainda não tinha condição
de relacionar-se fisicamente com alguém semelhante a ele,
já que os outros habitantes do Éden não lhe eram adequa
dos. Os prazeres físicos naturais, desfrutados de acordo
com as prescrições divinas, nada têm de errado.
No entanto, não é assim que, por milênios, setores
do povo de Deus tém pensado. Tem havido muitas inter
pretações errôneas a respeito da vida conjugal de nossos
primeiros pais no seu habitat original.
Há muitos tabus sexuais resistentes em nossa presente
sociedade que são produto de interpretações enganosas
dos prazeres físicos, desde há muito. Há até aqueles que
ainda ensinam que o pecado original está ligado ao sexo.
Por que essa resistência? A teologia de muitos foi moldada
pelo conceito de que o pecado original está vinculado ao
sexo; e que, quando Adão e Eva comeram o fruto proibido,
este ato simbolizaria o ato sexual. Grandes pais da igreja
sustentaram no passado essa verdade, e ela persiste até
hoje em vários círculos cristãos.
Um exemplo bastante significativo é o de Agostinho
de Hipona (354-430 d.C.). Sua mãe, Mônica, era cristã e
orava sempre pela conversão dele. Em sua juventude, an
tes de convertido ao cristianismo, Agostinho era, sexual
mente, um devasso. Em suas Confissões, ele revela uma
de suas orações daquela época devassa: “Dá-me castidade
e continência, mas não agora”.
Aos 32 anos, Agostinho se converteu e se tornou um
homem dedicado exclusivamente ã fé e à igreja. Quando
lhe veio á fé, tomou então uma posição extremamente
oposta. Pugnou por extrema repressão sexual. No livro
8 de suas Confissões, ele fala de sua conversão. No iní
cio dos trinta anos, “após anos de busca, Agostinho ti
nha finalmente se convencido de que o cristianismo era
a verdadeira religião e que deveria comprometer-se com
pletamente com a fé”.®̂ Era muito comum entre os seus
contemporâneos pensar como Agostinho pensou: “Para
tornar-se um verdadeiro cristão, teria que renunciar sua
carreira e seus planos de casamento e entrar, de alguma
forma, na vida monástica”.®® Assim, abriu mão completa
mente de seus apetites sexuais, julgando que eles estavam
ligados ao pecado, preferindo, dessa maneira, a vida de
solidão. Realmente rejeitou o sexo e o casamento para si
mesmo e mergulhou na vida monástica. Por qué? Porque a
ideia de Agostinho era: “Quanto mais você abdica do sexo,
mais perto fica de Deus”. Assim, adotou o pensamento de
que o sexo seria produto do pecado original.
82 David G. Hunter, Sex, sin and salvation — w/hat Augustine really said.
<http://wiwiwi.jknirp.com/aug3.htm>.
83 Ibid.
http://wiww.jknirp.com/aug3.htm
Não é justo fazermosa Agostinho as mesmas fortes
afirmações que uma teóloga católica fez na Alemanha,
anos atrás.Todavia, um defensor de Agostinho diz: “Nós
simplesmente temos de admitir que Agostinho cometeu al
guns erros. O mais notável desses erros foi sua ideia de
que o pecado original de Adão e Eva tinha introduzido uma
desordem fundamental no desejo sexual humano”.®®
Além disso, nos seus escritos, principalmente nas
Confissões e no seu ensaio sobre o Bem do casamento,
Agostinho deixa transparecer que o nosso apetite sexual
está ligado ao pecado e que o sexo seria apenas para a
procriação.
Mesmo vivendo mais de 1.500 anos depois, muitos
cristãos ainda têm tabus com respeito ao sexo a ponto de
não falarem dele aos próprios filhos. Esses cristãos vivem
com a consciência de que o desfrute da vida sexual incor
re em alguma prática anticristã e não natural, porque ela
estaria relacionada ao pecado dos nossos primeiros pais.
No entanto, o desejo sexual não decorreu da Queda,
como alguns pensam. Ê parte natural do ser humano criado
84 Há alguns anos, a teóloga católica alemã Uta Ranke-Heinemann
publicou um livro intitulado Eunucos por causa do reino dos céus, em
que apresentava um pensamento muito drástico a respeito das ideias de
Agostinho sobre o casamento e a sexualidade. Eis algumas de suas citações:
"0 homem que fundiu o cristianismo com o ódio ao sexo e ao prazer numa
unidade sistemática foi o maior dos pais da igreja, Santo Agostinho"; "Igual
a muitos neuróticos, ele radicalmente separa o amor da sexualidade";
"Agostinho foi o pai de 1.500 anos de ansiedade a respeito do sexo e
de infindável hostilidade a ele. Ele dramatiza o temor do prazer sexual,
equalizando o prazer à perdição de tal modo que qualquer que tenta seguir
sua linha de pensamento terá o sentido de ser apanhado em um pesadelo";
e, finalmente "a atitude com relação ao celibato da hierarquia é que o locus
por excelência do pecado é o sexo, uma visão baseada nas fantasias de ódio
ao prazer, de Agostinho". (Citações extraídas de Hunter, op. cit.)
85 Hunter, op. cit.
por Deus. O pecado veio trazer, sim, um grande problema
de descontrole, infidelidade e uso indevido do sexo.
Os cristãos são aconselhados a ter uma vida sexual
saudável e constante, uma vez que o sexo não foi instituído
por Deus somente para a procriação. Não podemos esque
cer-nos de que o cristianismo é o início de restabelecimento
da criação original. O homem carece da mulher, e esta do
homem, dentro da relação marido e mulher. As Escrituras
proíbem qualquer manifestação sexual antes ou fora do ca
samento. Nosso desejo sexual deve ser satisfeito dentro dos
princípios estabelecidos por Deus, para que não façamos
coisas que desagradam ao Criador (ICo 7.4,5).
Deus criou o casamento, que inclui o desfrute da vida
sexual. Adão e Eva só tiveram filhos depois da Queda.
Portanto, durante o tempo em que viveram no habitat ori
ginal antes da Queda desfrutaram paradisiacamente da
vida sexual. Provavelmente, nenhum de nós teve a doçura
da vida sexual como eles, pois ainda não estavam macula
dos, pela Queda, em sua sexualidade.
Deus deu uma auxiliadora idônea a Adão a fim de
que ambos pudessem desfrutar das riquezas da bonda
de de Deus no paraíso. Ali mesmo, no paraíso. Deus fez
a auxiliadora, como um grande escultor que é, de forma
cuidadosa e carinhosa, pensando no bem-estar de Adão
e para lhe suprir as necessidades. Visto que Deus a fez,
podemos dizer (sem medo de errar) que ela deveria ser
muito linda! Certamente, Adão se encantou com a beleza
de Eva! Quando Adão despertou do sono, ele viu Eva dei
tada ao seu lado e disse: Esta, afinal, é osso dos meus
ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, por
quanto do varão fo i tomada (Gn 2.23). O texto ainda fala
que os dois estavam nus e não se envergonhavam (Gn
2.25). Não havia nenhum vestido de casamento nela. Ela
estava despida, mas não havia nenhuma impureza na
vida de ninguém ali. A vida sexual deles era pura, perfei
ta, sem mácula, um tipo de relacionamento sexual que
nenhum mortal ainda experimentou. Tinham uma vida
exclusivamente típica do paraíso. Somente eles. Ninguém
mais. Ambos foram feitos um para o outro, a fim de que
desfrutassem dos prazeres da vida conjugal que o Senhor
preparou para o deleite de seus filhos.
Parece estranho aos ouvidos de muitos cristãos, mas
podemos dizer que Deus deu a Adão uma companheira
que fosse seu prazer e vice-versa.
A ideia de prazer cabe perfeitamente no habitat de
Deus. Aliás, a palavra correspondente a “paraíso” em lín
gua hebraica significa “prazer”, porque ali era um lugar
de perfeição. O status quo no paraíso era o mais deleitoso
possível. Além das belas árvores e dos rios serpentean-
tes que enfeitavam o jardim, Adão tinha prazer em tudo o
que Deus lhe havia concedido. E Deus lhe deu algo além,
que tornou maior ainda o desfrute do jardim: deu-lhe uma
companheira, que tornou a vida solitária de Adão praze
rosa. Não sabemos por quanto tempo Adão ficou só, mas
Deus sabia que ele não poderia ficar muito tempo assim.
Por esse motivo, fez a mulher, uma companheira idônea,
que veio trazer-lhe alegria imensa.
O habitat original do homem era um lugar propício
para um real e santo desfrute das relações físicas. Não
havia nada pecaminoso dentro da alma deles e havia mui
tas possibilidades de desfrute da vida conjugal sem quais
quer impedimentos. Havia apenas uma proibição divina:
não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e
do mal. Não lhes faltava nada no jardim de Deus para que
tivessem uma vida idílica. Não havia nenhuma esfera de
atrito entre eles, atritos esses que impedem que tenha
mos hoje as doces alegrias do prazer conjugal. Enquanto
seguissem os preceitos positivos de Deus e obedecessem
ao mandamento proibitivo de Deus, poderiam desfrutar
prazerosamente das delícias sexuais que Deus lhes havia
concedido. Era realmente um lugar onde se podia viver, no
sentido pleno da palavra, paradisiacamente!
3) O PROPÓSITO DA PROVISÃO DA ESPOSA
IDÔNEA FOI SOLUCIONAR A QUESTÃO DA
SOLIDÃO
Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem
esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea
(Gn 2.18).
Por que não era bom que o homem ficasse só? É im
portante recordarmos que Deus sempre faz coisas boas
para o homem. E uma delas é que ele desejava o maior
bem-estar para a sua criatura mais significativa, que re
fletia sua própria imagem. Quando criou uma esposa para
Adão, Deus lhe fez um grande bem. Veja o que o Sábio diz
sobre isso:
O que acha uma esposa acha o bem e alcançou a
benevolência do Senhor (Pv 18.22).
Não há nenhuma indicação, no texto, de que Adão an
dasse insatisfeito sozinho. Provavelmente, não tinha cons
ciência de sua necessidade, porque não sabia de todas as
coisas ainda. Não possuía experiência alguma de viver com
alguém. Ele era a única pessoa humana atê então.
Deus ê um pai amoroso, que tem cuidado de seus
fllhos. Até então, Adão era o único filho terreno de Deus.
Ele se preocupou com o conforto de Adão. Já lhe tinha
dado ordens, já o havia instado a que lhe obedecesse (Gn
2.15,17), mas Deus queria que Adão tivesse alguém com
quem pudesse compartilhar até mesmo as ordens recebi
das do Criador. Ele vivia só no meio da beleza indizível da
quele jardim. Devemos entender corretamente a solidão de
Adão. Não havia nada de imperfeito nele. Era, no entanto,
um ser social e precisava de relacionamento. Os únicos
relacionamentos que possuía até então eram com Deus e
os animais. Tanto o primeiro como os últimos são seres
vivos, mas de natureza diferente da de Adão. Embora hou
vesse sido feito ã imagem e semelhança de Deus, este é de
natureza diferente da de Adão, porque é um ser eminente
e puramente espiritual, além de um ser infinito, imutável,
independente etc., o que o distancia muito da natureza de
Adão. Por outro lado, os animais eram inferiores em natu
reza a Adão, pois tinham corpos físicos, mas não tinham
a alma que Adão possuía.Tanto Deus quanto os animais
eram companheiros em sentidos diferentes, mas muito di
ferentes em natureza a Adão.
Para que não houvesse solidão, seria necessário que
Adão tivesse alguém da mesma natureza, da mesma es
sência, que tivesse as mesmas carências e as mesmas
capacidades de ajuda mútua. Pensando nessas coisas foi
que Deus ponderou: Não é bom que o homem esteja só.
Deus lhe deu uma companheira que pudesse satisfazer
sua solidão. Adão haveria de compartilhar tudo com a sua
mulher, tanto no jardim como quando foi expulso dali.
Definitivamente, Deus não havia feito o homem para viver
em solidão!
O princípio expresso por Deus no Éden sobre o pri
meiro homem de que ele não poderia viver em solidão é re
afirmado por Salomão como um princípio relativo a todos
os homens:
Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor
paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o
companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo,
não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem
juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará?
Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe
resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com
facilidade (Ec 4.9-12).
As Escrituras mostram a provisão de Deus para o
problema da solidão, porque o homem é uma criatura so
cial. Tem necessidade de companhia. O homem é um ser
gregário. Não foi feito para viver só. A vida de Adão seria
melancólica se Deus não tivesse feito a provisão da esposa.
Sozinho, a vida humana no paraíso se tornaria solitária,
e o paraíso se tornaria um deserto para Adão, ainda que
não houvesse entrado o pecado no mundo, porque o ser
humano não foi feito para viver só! Não foi sem razão que
o Criador disse: Não é bom que o homem viva só.
4) O PROPÓSITO DA PROVISÃO DA ESPOSA
IDÔNEA FOI SATISFAZER A NECESSIDADE DE
COMPANHEIRISMO
EHsse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja
só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea (Gn 2.18).
Além da satisfação do prazer sexual legítimo, a pro
visão da mulher tem mais um propósito importantíssimo,
porque aponta para o caráter gregário do ser humano.
Seria possível ao homem não viver só e, todavia, não ter
companheirismo. Se Deus tivesse colocado no Éden outro
ser humano do sexo masculino, Adão não teria solidão,
mas o companheirismo tem características muito mais ín
timas do que simplesmente ausência de solidão. Deus en
tendia que a ausência de solidão é um aspecto negativo,
enquanto o aspecto positivo é o real companheirismo. Por
isso, providenciou para Adão uma companheira idônea, a
mulher, que deveria ser cúmplice de todos os aspectos da
vida do seu marido.
Adão era um homem perfeito, que vivia em perfeita
comunhão com Deus, vivia em perfeita harmonia com a
natureza física, com os animais. Que mais poderia Adão
querer? O próprio Deus entendeu que faltava uma com
panheira compatível, correspondente e complementar.
Deus, o Criador sábio, compreender que Adão não deve
ria ter simplesmente comunhão espiritual com ele, mas
também comunhão íntima com a mulher, para que esta
o completasse. A complementação, no caso, está vincula
da ã ideia de companheirismo. Nesse sentido, ainda que
Deus possa compensá-los de outra maneira, os que vi
vem solteiros carecem dessa complementaridade de com
panheirismo. Deus chamou algumas pessoas para serem
solteiras ( ICo 7.7-9), mas estas sempre ficarão sem esse
aspecto importante das relações humanas, que é o com
panheirismo conjugal. Por essa razão. Deus faz que esses
solteiros se entreguem de corpo e alma ao serviço do rei
no. Nesse sentido, têm a compensação daquilo que lhes
falta — o companheirismo.
Deus, na verdade, não havia chamado Adão para vi
ver só. Ele precisava não simplesmente ser livre da solidão,
mas ser completado por um companheirismo de cumplici
dade de alguém que pudesse realmente completá-lo. Deus
fez Eva e a trouxe a ele. Ela seria sua grande companheira,
cúmplice de todas as horas, sendo osso dos seus ossos e
came da sua came (v. Gn 2.23).
(1 ) C o m pan h eir ism o no casam en to ex ig e um
RELACIONAMENTO PRIORITÁRIO
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher,
tomando-se os dois uma só came (Gn 2.24).
Todos os seres humanos posteriores a Adão tiveram
outros relacionamentos familiares, como pai, mãe, sogro,
sogra, irmãos etc. É lamentável quando um homem e uma
mulher se casam e seus relacionamentos antigos conti
nuem tendo prioridade em sua vida. Não é incomum ver
mos um marido ligado demais à sua mãe a ponto de isso
poder vir a causar mal-estar á esposa; também não é inco
mum vermos uma esposa muito ligada emocionalmente ao
pai em vez de relacionar-se prioritariamente com o marido.
O relacionamento com os pais deve ser deixado para trás
quando o casamento de dois jovens está para se consu
mar. Isso não significa que devam abandonar o amor pelos
pais, muito menos perder o contato com eles, mas signifi
ca, sim, que devem alterar sua prioridade de companhei
rismo. A preferência deverá passar a ser do cônjuge, não
dos pais ou de outros parentes.
As Escrituras são absolutamente claras ao declarar:
... deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, toman
do-se os dois uma só came (Gn 2.24). Essa frase afirma
que todos os demais relacionamentos anteriores devem ser
deixados em plano secundário. O relacionamento de com
panheirismo entre marido e mulher tem toda a prioridade
na vida de familia. Quando esse quesito não é obedecido,
todas as outras coisas desandam na vida familiar.
Adão e Eva foram os únicos que não tiveram relacio
namentos de parentela, enquanto viveram em santidade
no Éden. No entanto, mesmo não os possuindo, o rela
cionamento de Adão com Eva deveria ser prioritário em
relação às outras coisas criadas. Eva era a criatura mais
importante que havia neste mundo para Adão. Portanto,
entre eles deveria haver uma prioridade relacional.
Deus não criou pai ou mãe para Adão, mas sim uma
esposa. O relacionamento deles deveria ser o mais impor
tante dentro do jardim de Deus. O casamento exige um
relacionamento prioritário, um relacionamento preferen
cial, inigualável nas relações deste mundo. Nem mesmo o
relacionamento com os filhos deve suplantar o relaciona
mento primacial entre marido e esposa. Os filhos crescem
e deixam a casa paterna, mas a esposa fica. Se o compa
nheirismo do marido com a esposa não for prioritário, o lar
ficará vazio e destituido de significado. Por essa razão, tem
ocorrido, mesmo em nosso país, a separação de muitos ca
sais porque seu relacionamento maior é com os filhos, não
com o cônjuge. O laço relacional mais forte tem de ser entre
marido e mulher. Os jovens cristãos devem prestar atenção
a esse quesito fundamental: ter um relacionamento priori
tário com o seu cônjuge.
(2 ) C o m pan h eir ism o n o c asam en to ex ig e um
RELACIONAMENTO PERMANENTE
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher,
tomando-se os dois uma só came (Gn 2.24).
Além de o relacionamento com o cônjuge ser prioritá
rio, temos que entender que o relacionamento deverá ser
permanente. Deus não nos fez casados até que um pro
blema nos separe, mas deve haver uma união duradoura,
separada somente pela morte de um de nós. Os filhos que
Deus nos dá ficam conosco por algum tempo, até que al
cem voo para compor a própria família, mas a esposa e o
marido deverão ficar um com o outro para sempre. Essa
é a regra divina, porque Jesus diz que o homem não deve
separar aquilo que Deus ajuntou (Mt 19.6).
O verbo “unir-se” em Gênesis 2.24 significa “juntar-se”,
“apegar-se a” (como a carne se apega aos ossos e à pele),
“grudar” (como se cola e não se pode mais separar). Mesmo
depois da Queda, Adão ficou ligado ã sua companheira de
antes da Queda. O estado de pecado em que agora vivemos
não justifica, portanto, a quebra de relacionamento.
No entanto, nossa presente sociedade tem sido com
placente com respeito à separação de casais. As leis apro
vadas dificultam cadavez mais a aplicação das leis divinas,
pois os homens andam em busca de aprovação para seus
próprios sentimentos pecaminosos divisivos, e as leis esta
belecidas são um prato cheio para os desejos pecaminosos
daqueles que desobedecem aos princípios fijndamentais do
casamento. Tão logo o amor romântico termina, as relações
de compromisso são rompidas. Ê lamentável que o divórcio
tenha se alastrado sobremaneira em países onde os cristãos
foram maioria no passado. É alarmante hoje o número cada
vez mais crescente de pessoas descompromissadas com um
casamento de relacionamento permanente!
As pessoas se esquecem, hoje, de que o casamento
é uma instituição divina, em que o Senhor é testemunha
do pacto entre um homem e sua mulher e que ele se volta
contra aqueles que violam esse pacto (cf. Ml 2.14; v. tb.
Pv 2.17). O casal não tem o direito de se separar, porque
as Escrituras proíbem a separação. A única concessão fei
ta por Jesus Cristo é quando um dos dois se torna infiel
(Mt 19). Os casais cristãos não podem se esquecer de que,
mais importante do que as testemunhas que convidam
para seu casamento, é a suprema testemunha o Senhor,
diante de quem nenhuma de nossas atitudes e intenções
no casamento escapa. Não podem os casais cristãos se es
quecer de que um casamento no Senhor deve ser moldado
por um relacionamento permanente.
(3 ) C o m pan h eir ism o n o c asam en to ex ig e um
RELACIONAMENTO EXCLUSIVO
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher,
tornando-se os dois uma só came (Gn 2.24).
Deus deu ao homem uma só mulher — a sua mu
lher, não mulheres. Embora tenha havido casos no Antigo
Testamento em que homens se casaram com mais de uma
mulher, essa ética tolerada foi deixada de lado à medida
que a revelação divina progrediu. A monogamia é um prin
cipio desde a criação. Deus fez apenas uma mulher para
Adão, não duas ou mais. Um homem para uma mulher.
Não há lugar para terceiros num relacionamento de
casamento. O companheirismo do casamento é exclusivo
para uma só pessoa. Por isso, o texto diz que o homem se
unirá ã sua mulher, e não ã mulher de outro. Este é o de
sígnio de Deus. Tal relacionamento está restrito somente a
duas pessoas, e não mais. O cônjuge é a prioridade de to
dos os relacionamentos humanos e deve ser o único nesse
tipo de relacionamento. O relacionamento com o cônjuge
supera os relacionamentos com os pais, com os irmãos,
parentes e amigos, porque é um relacionamento exclusivo.
Ninguém mais entra nele.
(4 ) C o m pan h eir ism o no casam en to ex ig e um
RELACIONAMENTO ÍNTIMO
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher,
tomando-se os dois uma só came (Gn 2.24).
Nesse relacionamento pessoal, há um quesito que
não está presente em nenhum dos outros relacionamen
tos humanos: o companheirismo de intimidade sexual.
O fato de tornar-se uma só carne diz respeito, evidente
mente, ã união sexual (cf. ICo 6.15). No entanto, a união
sexual é mais do que uma união física, pois envolve as
pectos interiores do nosso ser, como nossos sentimentos
e afeições. Há muitos casais que mantém relações sexu
ais sem um relacionamento de intimidade. Todavia, as
relações de intimidade daqueles que se casam no Senhor
são muito mais profundas e satisfatórias do que a sim
ples união física. Deus deu Eva a Adão a fim de que vi
vessem em intimidade relacional de tal maneira que seu
relacionamento combinasse com a perfeição e harmonia
do habitat em que viviam.
Na verdade, a maioria dos problemas sexuais
existentes em um casamento tem origem na falta de
companheirismo íntimo. A harmonia sexual deve ter
fundamento mais profundo e exclusivo, onde a lealdade
seja levada em conta, em obediência a Deus. Se um
homem se junta a outra mulher que não sua esposa,
ele se contamina, porque se torna um com ela ( ICo
6.16). Essa união sexual não se caracteriza em união
de intimidade, porque é produto da desobediência e da
ausência de exclusividade no casamento. Por outro lado,
um casamento feito somente de relações sexuais, sem
um compromisso de intimidade no companheirismo, terá
um fundamento arenoso e pode ruir muito facilmente. O
sexo simplesmente nunca trará a satisfação desejada por
Deus àqueles que se casam no Senhor.
Nós, cristãos de hoje, ainda que remidos por Jesus
Cristo, não conseguimos ter o mesmo companheirismo de
intimidade que Adão e Eva tiveram no paraíso antes da
Queda. Tal experiência de intimidade plena nunca será
nossa nesta presente existência, porque o pecado que
ainda temos dificulta a obtenção da plena intimidade,
havendo ainda desejos pecaminosos escondidos que nunca
repartimos com o nosso cônjuge atê por medo de perder o
que já possuímos de relacionamento conjugal. Mas ê dever
dos cristãos casados lutar com todas as forças da alma —
e esta é uma luta dura e constante — para se aproximar de
uma vida de relacionamento de intimidade com o cônjuge,
que é o desejo de Deus para a nossa vida neste lugar de
paraíso perdido, mas que haverá de ser restaurado.
4. A FORMAÇÃO DA ESPOSA IDÔNEA
Então, o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o
homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas
e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor
Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e
lha trouxe (Gn 2.21,22).
Ê dito por aí que “Deus criou o homem e disse: ‘Eu
posso fazer melhor do que isso’, e, então, criou a mulher”.®®
Nenhum homem poderia contestar uma afirmação como
esta, pois a esposa é, sem dúvida, a nossa melhor parte. É
a nossa metade mais bonita e um dom precioso que Deus
deu a Adão.
1) Para formar a auxiliadora idônea, Deus fez o
homem adormecer
Grandes coisas que Deus fez vir sobre os homens, ele
as fez quando estavam adormecidos. Grandes revelações
divinas vieram aos homens enquanto estavam dormindo.
Tais experiências começam a ser registradas nas Escrituras
ainda no tempo dos patriarcas (Gn 15.12; 28.11). Não há
por que nos admirarmos com isso, porque essas experi
ências apontam para a gratuidade delas. Apontam para o
fato de que Deus não precisa de nós para fazer coisa algu
ma, pois quem está adormecido não tem consciência nem
domínio sobre o que lhe está acontecendo. Isso significa
que os que dormem não têm participação ativa naquilo
que é feito. A glória da realização é somente de Deus. Os
que dormem são passivos e não recebem glória alguma.
86 Keith Krell. Party in Paradise. Comentário de Gênesis 2.4-25, <http://
bible.org/byverse/genesis%202>.
http://%e2%80%a8bible.org/byverse/genesis%202
http://%e2%80%a8bible.org/byverse/genesis%202
apenas os benefícios do que Deus faz. A mulher que Deus
deu a Adão é produto da sua santa bondade para com ele.
Mesmo depois da Queda, Deus continua a fazer gran
des coisas por nós enquanto estamos dormindo. Sua gra
ça regeneradora nos é dada enquanto estamos mortos, ou
adormecidos, em nossos pecados. Quando Deus nos des
perta, nos faz viver; apenas contemplamos extasiados o
que Deus fez em nós! Ê uma grande bênção para nós o fato
de Deus fazer grandes coisas em nós, por nós e para nós
quando estamos adormecidos, inertes, incapazes de nada
realizar em nosso próprio favor!
Quando Deus resolveu fazer uma grande obra em Adão
— e essa ação não tem nada a ver com redenção, mas é
produto de sua bondade, porque é uma ação feita em favor
dele — , Deus o fez cair num profundo sono. Essas grandes
obras de Deus geralmente não são percebidas senão quan
do seus resultados aparecem. Quando Adão abriu os olhos,
viu a beleza da obra de Deus ã sua frente!
2) Para formar a auxiliadora idônea, Deus fez a
primeira cirurgia da história do homem na terra
(1 ) D eu s tr abalh o u com o um an estesista
A expressão “pesado sono” leva-nos a pensar num
anestésico que Deus usou para fazer a primeira cirurgia,
como o grande cirurgião que é. Na verdade. Deus mostrou
a sua inusitada qualidade de médico anestesista. A propó
sito, comenta Lewis Johnson;
É dito que, incidentalmente — não sei se é verdadeou não
—, sir James Simpson, o famoso médico de Edimburgo,
começou, em 1847, o uso de clorofórmio em anestesia,
porque tinha meditado sobre esta passagem específica,
e seus próprios desejos de pesquisa foram fortalecidos
pelo que leu ali. Se é verdade ou não é, isso eu não sei,
mas é interessante que na narrativa da criação de Eva
temos muita coisa que foi omitida com apenas uma
breve afirmação [...] Eu não tenho dúvida de que esta foi
provavelmente a mais estupenda cirurgia já feita...
O profundo sono que caiu sobre Adão nos remete à
ideia moderna de um anestesista. Ele haveria de cortar o
lado de Adão, e isso iria doer muito. Deus quis livrar sua
criação mais importante da dor, porque a cirurgia iria ser
bastante sanguinolenta.
Deus fez Adão dormir para mexer no físico dele. Adão
não poderia sofrer a intervenção que sofreu sem estar pro
fundamente adormecido. Delitzsch afirma:
... o homem deveria ser colocado numa condição de
sono; porque como toda criação externa a nós é retirada
de nossa percepção, assim também todas as criações
operativas de Deus sobre nós devem ser efetuadas na
região da inconsciência e não devem ir ã nossa consciência
até que sejam realizadas.^^
Deus conhece as limitações da estrutura física de
suas criaturas e fez o que era necessário para que ele não
experimentasse nenhuma dor. O sono de Adão não foi um
sono natural; não foi sonolência, não foi soneca, mas sim.
87 The sermons o f S. Lewis Johnson, Genesis 2:18-25 — The first divine
Institution, http://www.theopedia.eom/S._LewisJohnson
88 Keil & Delitzsch. Comentário sobre Gênesis, <http://www.archive.org/
stream/newcommentaryong01deli#page/142/mode/lup>.
http://www.theopedia.eom/S._LewisJohnson
http://www.archive.org/%e2%80%a8stream/newcommentaryong01deli%23page/142/mode/lup
http://www.archive.org/%e2%80%a8stream/newcommentaryong01deli%23page/142/mode/lup
um sono profundo, sobrenatural, vindo do Senhor, de seu
poder e providência. Os sentidos de Adão ficaram em pro
fundo repouso, de forma que ele não percebeu nada do
que ocorria nele e fora dele. Deus o atingiu com um torpor
profundíssimo que o deixou incapaz de sentir qualquer
dor na incisão em sua carne.
Lembre-se de que a dor que foi causada nada tinha a
ver com pecado, pois era a dor devida a uma intervenção
invasiva, procedente da natureza criada. Obviamente, Deus
não usou nenhum componente químico em sua “aneste
sia”, como os anestesistas de hoje usam, mas com seu po
der criador fez Adão dormir de modo que nada pudesse
acordá-lo, a fim de fazer nele (e dele!) uma grande obra.
(2 ) D eus t r abalh o u co m o um c ir u r g ião o r to ped ista
Além de suas habilidades como anestesista. Deus
mostrou ser um inusitado e criativo ortopedista, porque
ele trabalhou com a carne e os ossos de Adão.
Anatomistas afirmam que o homem possui doze cos
telas. Alguns estudiosos creem que Adão tinha uma déci
ma terceira, que Deus tirou. O TargumP^ de Jonathan diz:
“... e tomou uma de suas costelas; a saber, a décima tercei
ra costela do seu lado direito”.®“ Segundo essa versão das
Escrituras, portanto, Adão teria uma costela a mais que o
homem posterior, da qual Deus teria se servido para a cria
ção de Eva. Essas observações podem, no entanto, não ser a
expressão da verdade. Há séculos, um comentarista já havia
dito coisas interessantíssimas, que são confirmadas cientifi
camente hoje: “Adão provavelmente tinha o mesmo número
89 [NE] Tradução aramaica dos livros bíblicos, para o serviço nas sinagogas,
feita após o cativeiro babilónico.
90 Bartholini. Anatomia, I. 4, c. 17, p. 516. V. Scheuchzer. Physica sacra, vol.
1, tab. 27, p. 28.
de costelas que nós temos hoje. De outra maneira, o código
genético para a criação de uma costela extra causaria ao me
nos o fato de algumas pessoas hoje terem treze costelas. Eu
não conheço nenhum caso”.®̂ O que importa é que Deus tra
balhou habilidosamente para retirar parte do corpo de Adão
e, assim, formar Eva. Foi uma cirurgia extraordinariamente
miraculosa, pois o cirurgião poderoso fez do pouco muito!
3) Para formar a auxiliadora idônea, Deus usou
uma natureza humana já existente
Pessoas incrédulas, mesmo dentro da igreja cristã,
podem pensar que essa narrativa de Gênesis seja um mito
ou fábula, pois acham ridículo o modus operandi da cria
ção da aixxiliadora idônea. O texto aponta para o fato de
Deus não criar outra natureza, mas usar a natureza hu
mana já existente para produzir a companheira idônea.
Delitzsch diz:
... [a mulher] não foi feita do nada, nem foi feita do pó
da terra, mas do primeiro homem, i.e., de sua natureza
material e espiritual e de uma substância já organizada.
Pois é preeminência da raça humana acima dos animais
ter vindo à existência não como pares e espécies, mas
como uma pessoa. Esta preeminência e a unidade da
origem da raça humana em geral seriam perdidas se a
mulher não tivesse procedido de um primeiro homem.^^
91 John Gill, op. cit., Gn 2.21.
92 Keil & Delitzsch, connentário sobre Gênesis, <http://www.archive.org/
stream/newcommentaryong01deli#page/142/mode/lup>.
http://www.archive.org/%e2%80%a8stream/newcommentaryong01deli%23page/142/mode/lup
http://www.archive.org/%e2%80%a8stream/newcommentaryong01deli%23page/142/mode/lup
Calvino diz que o propósito da criação de Eva do modo
como aconteceu nos mostra que
... ambos, macho e fêmea, deveriam proceder de uma e
da mesma origem. Portanto, ele criou a natureza humana na
pessoa de Adão, e daí, formou Eva [...] Desta maneira Adão foi
ensinado a reconhecer-se em sua esposa, como num espelho;
e Eva, por sua vez, deveria se submeter desejosamente a seu
marido, como sendo tomada dele. Mas se os dois sexos tivessem
procedido de fontes diferentes, teria havido ocasião para desres
peito mútuo, ou inveja ou contenda.^^
Não podemos nos esquecer de que a costela
retirada de Adão, que aponta para a natureza humana
preexistente em Adão, não ê tudo da criação de Eva.
Houve sobrenaturalidade também nessa criação. Deus
tomou material preexistente e fez coisas espantosas com
ele. Isso aponta para a sobrenaturalidade da ação divina.
Deus tomou uma parte e, dela, fez o todo. Do particular
fez o universal. De uma costela fez a totalidade de Eva.
Essa ê uma obra sobrenatural!
A sobrenaturalidade fica evidente não somente na
beleza de Eva, mas no fato de em Adão não ficar ne
nhuma ferida aberta. O próprio Deus se encarregou de
fechar o corte com a própria carne de Adão, ou algu
ma provisão especial de carne. Não ficou nenhuma cica
triz porque Deus trabalhou como um cirurgião perfeito.
David Guzik comenta:
93 João Calvino, comentário de Gênesis 2.21, <http://www.ccel.org/ccel/
calvin/calcom01.viii.i.html>.
http://www.ccel.org/ccel/%e2%80%a8calvin/caicom01.viii.i.html
http://www.ccel.org/ccel/%e2%80%a8calvin/caicom01.viii.i.html
O que exatamente Deus tomou do lado de Adão para fazer
Eva? Realmente não sabemos, nem realmente importa.
A pesquisa moderna de clonagem e duplicação genética
mostra que cada célula em nosso corpo contém o projeto
genético total do corpo. Deus tomou algumas das células de
Adão e mudou o projeto genético delas na criação de Eva.’̂^
Afinal de contas, Deus é o Senhor da ciência e co
nhece tudo o que os mais avançados cientistas hoje não
conseguem decifrar.
Quando Adão foi confrontado com a mulher, disse:
Esta, afinal, é osso dos meus ossos e came da minha came
(Gn 2.23). Percebeu claramente que era igual a ele. Não ha
via nada, essencialmente, diferente nela em relação a ele.
Ele se viu nela, ele a viu como se fosse ele. Se Deus hou
vesse formado Eva do pó da terra, como havia feito Adão,
ela pareceria aos seus olhos como um ser distinto, com
quem ele não tinha relação alguma. Adão percebeu que
Eva era da mesma natureza dele, da mesma carne, sangue
idêntico, e da mesma constituição em todos os sentidos.
5. A REAÇÃO DE ADÃO DIANTE DA ESPOSA
IDÔNEA
Calvino diz que Moisés inicia aqui o relato do casa
mento instituídopor Deus.^® À guisa de curiosidade, o sá
bado e o casamento foram duas ordenanças instituídas
94 David Guzii<. David Guzik's commentaries on the Bible, referente
a Gênesis 2.21. <http://www.studylight.org/com/guz/view.
cgi?book=ge&chapter=002>.
95 Calvino, op. cit., Gn 2.22.
http://www.studylight.org/com/guz/view.%e2%80%a8cgi?book=ge&chapter=002
http://www.studylight.org/com/guz/view.%e2%80%a8cgi?book=ge&chapter=002
por Deus no estado de santidade do ser humano no Éden.
O primeiro tem a ver com a preservação da igreja, e o se
gundo, com a preservação da raça humana.®®
O versículo 22 diz que Deus transformou a costela de
Adão “numa mulher e lha trouxe”. Quando Deus aprontou
Eva, ele fez uma surpresa para Adão! Este nem imaginava
o que Deus havia feito. Deus apresentou a Adão sua mu
lher, sua esposa.
1) A reação de Adão mostra que Eva era diferente
de tudo o que ele havia visto antes
Quando Deus trouxe Eva para que Adão a visse, como
Adão reagiu?
E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e
came da minha came; chamar-se-á varoa, porquanto do
varão foi tomada (Gn 2.23).
É curioso que essas palavras do versículo 23 são as
primeiras registradas que o primeiro homem pronunciou.
E dizem respeito ã mulher!
A expressão “afinal” parece apontar para o fato de
Adão ter buscado antes na criação alguém que pudesse ter
alguma semelhança com ele. Certamente, não encontrara
ninguém dentre os seres criados que lhe pudesse servir de
real companhia. Ainda que não tenha sido o propósito de
Deus insinuar que algum dentre os animais serviria como
parceira, a tarefa de observar atentamente os seres vivos
despertou uma expectativa no homem. Daí, o uso da pala
vra “afinal”. Isto nos deixa com uma pergunta interessante:
96 Henry, op. cit.
Por que a mulher foi criada a partir dessa expectativa,
e não como foi o caso dos demais seres viventes?
Porque, certamente, Adão não havia encontrado até
então nada com as mesmas características dele. Para ele,
havia alguma coisa faltando no jardim, uma contraparte
ideal. Adão não havia encontrado ninguém no jardim de
Deus que pudesse ser um reflexo daquilo que ele próprio
era. Então, quando Deus trouxe Eva, apresentando-a a
ele, ele disse: Esta (a mulher), afinal, é osso dos meus
ossos....
Nesta expressão “afinaF podemos perceber o alívio,
o encantamento e o prazer que a surpresa lhe trouxe. É
como se Adão houvesse dito: “Puxa! Até que enfim encon
trei um ser que combina comigo!”. Ou então, para expres
sar ainda esse encantamento cheio de surpresa de uma
forma diferente e moderna, poderíamos dizer: “Uau! Já
não era pra menos!”.
Confessadamente, Adão mostrou que esperava tal
vez por uma providência divina, já que havia tanto procu
rado por alguém que combinasse com ele! Não podemos
esquecer que Adão tinha visto os animais todos passa
rem diante dele, de par em par, e em nenhum havia visto
que pudesse lhe trazer algum sentido diferente de com
panheirismo. Então, ao ver aquela criatura que Deus lhe
trouxera como resultado da cirurgia feita em seu corpo,
pareço até ouvi-lo gritar: “Eurekal” — ele havia encontra
do o dom de Deus!
Eva não era nem um pouco parecida com os animais
do jardim. Era bem diferente. Isso trouxe alegria e encan
tamento para ele! Adão recebeu a mulher como um dom de
Deus. Afinal de contas. Deus havia sido tão sábio e pode
roso para criar um jardim tão belo e tinha mostrado agora,
uma vez mais, sua sabedoria e seu poder ao criar Eva!
2) A reação de Adão mostra que Eva não era
substancialmente diferente dele próprio
Quando Deus fez passar em pares todos os ani
mais, certamente Adão os achou perfeitos e lhes deu
os nomes conforme o que observava neles. Mas não há
nenhum registro da reação de Adão ã passagem desses
animais. Nenhum lhe chamou especialmente a aten
ção, porque não se achava uma auxiliadora que lhe fo s
se idônea (Gn 2.20).®^
Voltando ao raciocínio do texto, queremos dizer que,
quando a mulher apareceu diante dele, ele se sentiu imen
samente atraído por ela, uma atração que a consangui
nidade produz. Era outra pessoa, sim, mas possuía as
mesmas características dele, era bem adequada a ele, ou
seja, simplesmente idônea. Então, as primeiras palavras
registradas de um ser humano são, na verdade, em forma
de poesia:
E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e
came da minha came.
Nessa descrição poética da mulher, Adão mostra a
composição de força e fraqueza da natureza humana. A
parte de ossos vislumbra a força da composição física do
homem. Um dos significados do verbo por trás do substan
tivo “osso” é “ser forte”. Por outro lado, a palavra “carne”
aponta para as partes mais delicadas e fracas num ser hu-
97 Uma tradução em português mais literal e, talvez, mais adequada seria a
adotada na versão Almeida Revista e Corrigida: "... não se achava adjutora
que estivesse como diante dele". A opção por "idônea" é uma interpretação
mais distante do original, que acabou sendo sacramentada, e é dela que
fazemos uso.
mano. Ela era, basicamente, igualzinha a ele. Era o retrato
dele em termos de essência ou substância.
3) A reação de Adão mostra o contentamento pela
procedência dela
... chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.
Adão dera nome a todos os animais que Deus lhe apre
sentou no habitat original. Agora, que Deus havia trazido
a sua companheira idônea, ele dâ um nome a ela: varoa.
E deu a razão para ela ser chamada varoa — porque pro
cedia do varão. Na verdade, a palavra “varão” ê tradução
da palavra hebraica ish, que pode ser traduzida por “ho
mem”. Em hebraico, o feminino correspondente ê ishah.
Assim como na língua hebraica ishah está ligado a ish, os
termos “varão” e “varoa” estão ligados linguisticamente.
A nomeação da esposa, portanto, vem em decorrência do
ponto anterior, que ensina que a mulher nâo era essen
cialmente diferente do homem, porque era uma parte dele.
6. O COMPROMETIMENTO COM A AUXILIADORA
IDÔNEA
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher,
tomando-se os dois uma só came (Gn 2.24).
Ali no paraíso, Adão tinha não somente contemplado
e admirado a mulher que Deus lhe trouxera, mas tinha que
ter um comprometimento com ela. Ela deveria ser o objeto
maior de sua atenção no jardim de Deus. O versículo 24
não tem aplicabilidade direta quanto a Adão e Eva, porque
ambos não tiveram pais humanos para serem deixados. O
casamento original não envolveu pais humanos, sendo a
esposa uma parte da carne do seu marido. Adão tinha vin
do do pó da terra, e Eva, diretamente de Adão — ambas as
procedências, obras sobrenaturais e imediatas de Deus.
O comprometimento entre Adão e Eva, portanto, era ape
nas o de se unirem fisicamente, formando uma só carne.
Esse primeiro casamento, então, aponta para a evidência
da grande importância do relacionamento entre marido e
esposa como algo prioritário no jardim de Deus. Esse laço
entre marido e mulher ê muito maior e mais profundo que
o relacionamento entre pais e filhos.
No entanto, o princípio do comprometimento de dei
xar pai e mãe ensinado pelo escritor de Gênesis tem sua
aplicabilidade pertinente a todos aqueles descendentes
de Adão e Eva, incluindo nós que vivemos milênios de
pois deles, pois, diferentemente de Adão e Eva, todos nós
temos pais que temos de deixar quando resolvemos nos
casar.
Portanto, o comprometimento envolve o abandono
da importância das relações anteriores. Não devemos,
evidentemente, romper as relações anteriores, mas elas
não podem mais ter a intensidade de antes. Nossos laços
mais fortes antes do casamento eram com nossos pais.
Eles foram os instrumentos divinos mediante os quais
viemos ã existência e pelos quais fomos criados. Nunca
poderemos deixar de amá-los. Ao contrário, temos o dever
de amar, honrar e sustentar nossos pais (Ef 6.1-3) quan
do estes estão destituídos de amparo, especialmente na
velhice. Todavia, quando o homem encontra uma mulher
com quem quer casar, tem de entender que o compromisso prioritário, uma vez casado, passa a ser com ela. Esse,
o comprometimento que todo homem e toda mulher deve
ter com seu cônjuge. Os comprometimentos anteriores
com os pais, outros parentes e amigos têm de ficar em
segundo plano. Tais conceitos devem ser entendidos pe
los pais, parentes e amigos, pois da mesma forma todos
tiveram ou terão de assim proceder ao encontrar o seu
parceiro; todos nós temos de nos submeter a esse tipo de
comprometimento.
Não é pequeno o número de pessoas que têm seus
casamentos desfeito porque laços anteriores continuaram
a ser prioritários e, consequentemente, não existe a priori
dade relacional com o cônjuge. Se nos recusarmos a esse
tipo de compromisso prioritário dentro de nossa família
mais íntima, nossas relações com nosso cônjuge estão fa
dadas ao fracasso.
Esse comprometimento com o cônjuge ê um impera
tivo divino. O versículo 24 começa assim: “Por isso (por
essa causa)”. Que causa ê essa? Ela está afirmada no im
perativo divino. Este ordena que o homem deixe pai e mãe,
ou seja, que ele não mais viva dependente deles nem sob
sua tutela. Ao se casar, o homem tem de assumir a res
ponsabilidade de chefia de um lar. Passa da condição de
liderado (no relacionamento anterior com os pais) para a
condição de líder (no relacionamento presente com a espo
sa). A esposa sai do relacionamento de liderada pelo pai e
permanece liderada no relacionamento com seu marido. A
transição para o homem ê mais difícil e de maior responsa
bilidade, pois passa de uma posição a outra. Quando um
homem assume o casamento, passa da dependência para
a independência, sendo o cabeça de toda uma família —
uma transformação radical em sua vida.
Quando o princípio do comprometimento do homem
com a esposa ê posto em ação, podemos perceber então
que a relação entre marido e mulher ê muito mais impor
tante e duradoura do que a relação dos filhos com os pais.
Os filhos crescem e nos deixam. O que resta ê somente o
relacionamento com o cônjuge, que ê o mais duradouro,
por isso o mais importante. Se o relacionamento mais im
portante para nós após o casamento for com nossos pais
OU nossos próprios filhos, em vez de ser com o cônjuge,
quando nossos pais morrerem ou nossos filhos nos dei
xarem, haveremos de ficar sozinhos, e a vida matrimonial
perderá o sentido. Se falharmos na responsabilidade de
comprometimento mais forte com nosso cônjuge, estare
mos fadados ao fracasso na vida da nossa própria família.
Disso haveremos de dar conta a Deus.
7. A SANTIDADE DO HOMEM COM A ESPOSA
IDÔNEA
Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e
não se envergonhavam (Gn 2.25).
Deus deu a mulher a Adão, e este se encantou diante
da beleza de sua auxiliadora idônea. O texto retrata então
como era a vida sexual deles, numa linguagem muito bo
nita e cheia de significado.
Este versículo aponta para algumas verdades a serem
analisadas:
1) A santidade se evidencia na pureza de alma de
nossos primeiros pais
Esta frase registrada em Gênesis 2.25 ê uma evidência
da pureza de alma de nossos primeiros pais na alcova de
seu habitat paradisíaco. Estão desnudos. Não precisavam
de roupa para se enfeitar, porque eram belos! Não preci
savam de defesa contra o frio ou o calor porque o clima
era perfeito! Não precisavam de cobertura para seus órgãos
sexuais porque eles eram moralmente santos, não tinham
pecado algum na alma. As roupas servem para cobrir a
vergonha de nossa nudez, mas eles não tinham de que se
envergonhar porque a pureza impede que alguém se enver
gonhe de algo. Não sabiam o que era vergonha porque ela
não fazia parte do jardim no Éden enquanto obedeciam!
“Estavam nus e não se envergonhavam!” — Adão e
Eva frente a frente não experimentavam nenhum rubor.
Matthew Henry diz que “o rubor é agora a cor da virtude,
mas então era a cor da inocência. Aqueles que não tinham
nenhum pecado em sua consciência poderiam não ter ne
nhuma vergonha em sua face, embora não tivessem ne
nhuma roupa em seus lombos”.
A pureza de alma era a característica de nossos primei
ros pais no seu habitat original. Um dia, quando a redenção
se completar em nós, pela graça redentora do Deus trino,
haveremos também de ter essa pureza de alma. Então, não
conheceremos mais o rubor que ê causado pela vergonha!
2) A santidade se evidencia na transparência
moral de nossos primeiros pais
É admirável que quando Deus põe Adão e Eva frente
a frente, o clímax do paraíso é a nudez! Eles estavam fisi
camente nus. Eles compartilharam o corpo mutuamente,
abertamente um com o outro.
Todavia, a nudez de Adão e Eva não revela simples
mente a aparência física deles, mas seu interior. Eram
moralmente transparentes. Psicológica e afetivamente
não tinham de que se envergonhar. Existia transparên
cia no relacionamento entre eles. Nenhuma rusga. Não
havia nenhuma mancha para ferir sua sensibilidade.
Nenhum desejo de tirar vantagem um do outro, nem
sentimento de temor de ser defraudado. Não havia des
confiança alguma.
98 Henry, op. cit.
A transparência moral só aumenta a confiança, a
verdadeira amizade e o real companheirismo. Eles não ti
nham nenhum temor relacionai.
Não ê assim conosco hoje. Muitos de nós somos ata
cados por muitos temores e desconfiança, porque o peca
do ronda nossa vida. O pecado quebra a beleza de nossas
relações sexuais.
Devemos lutar por transparência moral em nosso ca
samento, a fim de que não tenhamos vergonha daquilo
que fazemos em nossa própria alcova. Não teremos vergo
nha um do outro somente quando estivermos descobertos
diante de Deus, quando experimentarmos a doce sensação
de que todos os nossos pecados conjugais estejam perdo
ados. Peçamos a Deus mais pureza de alma, a fim de que
não tenhamos vergonha alguma diante do outro e, muito
menos, diante de Deus.
3) A santidade se evidencia no desfrute da vida
sexual de nossos primeiros pais
Vivendo milênios depois do habitat original dos ho
mens, temos problemas com o entendimento em relação
ao sexo. Alguns de nós ficamos presos a tabus pela falsa
interpretação de que o sexo ê pecaminoso e que surgiu
como uma consequência da Queda. A experiência sexual
não se originou com a Queda ou após a Queda. Foi uma
experiência do paraíso ordenada por Deus. Em Gênesis
1.28, Deus ordena que Adão e Eva se multipliquem, ou
seja, tenham filhos e desfrutem da vida entre si. Adão e
Eva formaram o casal que melhor desfrutou dos prazeres
da vida sexual, com alma pura. Ninguém mais do que
eles teve uma vida tão cheia dos reais prazeres da vida
conjugal, porque no seu habitat original não possuíam
nenhum pecado que prejudicasse o desfrute prazeroso da
vida de mutualidade.
A experiência sexual em nosso casamento deve ser
desfrutada no sentido pleno, porque faz parte do plano di
vino para aqueles que estão na esfera do casamento.
Quanto mais obedecemos a Deus, mais podemos des
frutar das delícias do sexo sem que marido e mulher te
nham vergonha um do outro. A falta de real intimidade
entre casais ê por causa do pecado. Quando o texto fala
que eles “não se envergonhavam”, a despeito de estarem
nus, indica que a harmonia sexual entre os casais está na
verdadeira intimidade. A verdadeira intimidade ê que faci
lita o desfrute prazeroso da vida conjugal. Quanto menos
intimidade (portanto, mais desobediência), menos prazer
sexual. Se quisermos desfrutar mais docemente da vida
sexual, temos que submeter a Deus a nossa vida de casa
dos de tal forma que a nossa nudez não seja um impedi
mento vergonhoso mesmo diante de Deus.
CONCLUSÃO
Os versículos analisados anteriormente nos ensinam
que Deus ê muito bondoso com suas criaturas. Uma das
grandes manifestações de sua bondade está no fato de ele
nos dar o prazer da vida conjugal. Ele designou o sexo no
paraíso para Adão e Eva. No entanto, nós, que não vive
mos no paraíso, somos confrontados com as tentações do
Maligno e as que vêm de nossa própria alma pecaminosa,
que dificultam o devido desfrute da vida conjugal. O inimigo de nossa alma deseja torcer e deturpar o produto
da bondade de Deus em nós. Quando damos ouvidos ao
pecado, violando as leis divinas na vida familiar, então o
próprio Deus dificulta a nossa vida sexual, para mostrar
seu desagrado conosco.
É necessário que recebamos nosso cônjuge como um
dom de Deus e façamos o melhor com quem Deus nos
deu. Hoje, não estamos mais no paraíso e temos diferen
ças grandes para com o cônjuge que Deus nos deu; mas
ele ainda é o instrumento de Deus para nos aperfeiçoar,
para moldar o nosso caráter, para sermos pessoas que o
Senhor quer que sejamos. Receba alegremente o cônjuge
que Deus lhe dá, para exercer real companheirismo com
ele, a fim de que você viva alegremente neste mundo, a
despeito do mal que ainda existe. Em linguagem muito
poética e doce, disse Matthew Henry:
A mulher foi feita da costela de Adão; não feita de sua
cabeça para governá-lo, nem feita dos seus pés para
pisar nele, mas do seu lado para ser igual com ele, de
sob seu braço para ser protegida e perto do seu coração
para ser amada.^^
Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo
amou a igreja [...] As mulheres sejam submissas ao seu pró
prio marido, como ao Senhor (Ef 5.25,22). Quanto mais es
ses preceitos forem obedecidos, mais parecido o nosso lar
será com o lar original do paraíso de Deus!
Humildemente, peça a Deus uma vida de sincero com
panheirismo conjugal, uma vida de união relacional que
honre a reputação de Deus entre os que convivem com você.
99 Matthew Henry. Commentary on the whole Bible. London: Marshall
Brother, n/d., p. 7.
PARTE 5
AS QUALIDADES ESPIRITUAIS
DO HABITAT mJMAm
C apítulo 9
O HABITAT HUMANO ERA UM
LUGAR DE PRESTAR CULTO A DEUS
Não há nenhuma expressão clara de culto no jardim
no Éden da forma como viemos a conhecer posteriormente
pela revelação bíblica. Se o habitat humano era um lugar
de prestar culto a Deus, onde está então a ideia de culto
ali? A resposta a essa pergunta depende do que entende
mos por culto.
1. A ADORAÇÃO NO HAB/TAT ORIGINAL
ERA PRESENCIAL
O habitat humano, no Éden, era um santuário. Não
havia templo, porque templo (nas religiões pagãs poste
riores) frequentemente servia para a representação de di
vindades. No Éden, não havia motivo para representar
Deus, porque ele estava presente de modo até impensável
para a nossa mente hodierna. Se Adão não tivesse peca
do, a presença de Deus, que enchia todo o paraíso com
sua glória, o levaria a ser adorado pelos descendentes de
Adão mesmo fora do jardim, nas regiões concêntricas de
Havilá e da terra de Cuxe, ou seja, até as extremidades
da porção seca.
Deus estava presente no jardim. Há um sentido, por
tanto, de que o próprio jardim fosse o lugar da habitação
de Deus, sendo assim o “templo” de Deus. A terra do Éden
era a casa de Deus, o lugar da habitação do Altíssimo. O
Altíssimo tinha feito ali sua residência gloriosa na terra.
Estamos acostumados a pensar também que a ado
ração significa unicamente a ideia de sacrifício, como é
apresentada em todo o restante do Antigo Testamento e
também no Novo Testamento. A adoração composta de
sacrifício seria típica do culto pós-Queda. Iria indicar a
ideia de agradar a Deus, irado pelos pecados dos homens.
Todavia, no habitat original, no jardim de Deus, a adora
ção tinha outra conotação. Vemos essa conotação latente
na adoração que ainda hoje prestamos a Deus.
Quando entramos em um lugar para adorar Deus,
a ideia por trás desse ato ê estarmos na presença de
Deus. Se culto, portanto, significa estar na presença de
Deus, ninguém melhor que Adão para adorar Deus. Ele
estava na presença de Deus da maneira mais plena do
que todos nós. Ele e Deus eram companheiros no jardim
e ali conversavam, em grande comunhão. Se adoração
é comunhão com Deus, então Adão adorava Deus mais
que ninguém.
Adão e Eva foram criados por Deus e colocados ali
no jardim. O habitat humano era lugar da presença de
Deus. Era o lugar em que a humanidade tinha acesso
ã sua fonte de vida. A adoração a Deus era inescapãvel,
porque Adão e Eva estavam cercados de todos os lados
pela presença do Senhor e podiam se relacionar com ele
de uma maneira que nós, cristãos, jamais podemos hoje,
na presente existência. Em seu habitat original, o homem
ouvia a voz de Deus, que o instruía e edificava, e certa
mente Adão respondia positivamente. Havia uma comu
nhão dialogai com Deus.
O Deus verdadeiro não é mudo, como os ídolos que
os homens criam. Conversa com suas criaturas e a elas se
revela. Ê um Deus pessoal, que fez seres pessoais. Deus
conversava com Adão e dizia coisas como: “De toda árvore
do jardim você pode comer livremente. Só não coma da
árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, se você
comer você vai morrer” . Deus e Adão mantinham conver
sação de amigos, dia após dia, falavam de coisas que ami
gos falam. Se Adão tinha alguma dificuldade no cultivo
do jardim ou com a nomeação de um animal certamente
ele falava com Deus a respeito da dificuldade. Não havia
barreira alguma entre o Criador e a criatura. A comunhão
relacional deles era perfeita. Adão nunca precisou pedir
perdão a Deus por alguma falha, porque o relacionamen
to dele com Deus era impecável. Ele estava coram Deo, na
presença de Deus, face a face com ele, e nunca precisou
confessar pecados a Deus. Pecar era alguma coisa com
pletamente estranha á santidade de seu caráter, pois ele
refletia perfeitamente a imagem do seu Criador. E Adão e
Eva mantinham-se extasiados na presença do seu Deus
único e verdadeiro.
Portanto, se por culto pretendemos a ideia de estar
na presença de Deus, dialogando com Deus, mais do que
todos nós Adão e Eva cultuavam Deus! Essa era a adora
ção original!
2. A ADORAÇÃO NO fíAB/TAT ORIGINAL ERA
TÍPICA DA ADORAÇÃO FINAL
Não é difícil mostrar que o habitat humano é o lugar
da habitação de Deus também! Originalmente foi assim, e
assim será na consumação de todas as coisas. Deus en
cherá o habitat humano de sua presença. As Escrituras
nos ensinam que Deus descerá dos céus com toda a nova
Jerusalém (que é a igreja redimida) para a nova terra, e ali
estaremos na plenitude da presença de Deus. Não haverá
templos, porque o Senhor será o nosso templo. Nós habita
remos não somente plenamente com o Senhor, mas habi
taremos no Senhor, em comunhão indizível com ele, que é
a mais perfeita forma de adoração (cf. Ap 21.22)! A adora
ção depois do tempo do fim será uma consumação da ado
ração original, porque será uma adoração eminentemente
presencial. Estaremos na presença do Senhor desfrutando
de sua doce companhia!
3. A ADORAÇÃO DE DEUS MOLDAVA O CARÃTER
DE ADÃO
Há um princípio muito importante do qual não pode
mos abrir mão quando estudamos sobre a adoração, mes
mo no Éden; somos moldados por aquele que adoramos.
Como eles se tomam os que os fazem, e todos os que neles
confiam (Sl 135.18).
Este é o princípio ensinado no salmo 135, que trata
da adoração de ídolos. É bem verdade que o salmista está
tratando da adoração de imagens, mas o princípio que jaz
por trás da adoração é o mesmo.
Nossa presente geração, de cultura extremamente se
cular, tem muita coisa de idolatria, que a afeta profunda
mente: adora a riqueza, a segurança, a liberdade. Falando
dessa tríade de divindades do presente paganismo, Thomas
K. Johnson diz:
Onde as pessoas encontram sua esperança afeta
profundamente cada coisa que elas fazem e dizem. E a
cultura do mundo desenvolvido, eu creio, é basicamente o
resultado de adoração de uma impura trindade-substituta:
riqueza, segurança e liberdade. À medida que as pessoas
hoje procuram por esperança, ouvem e confiam nessas
promessas enganosas feitas por outros deuses, embora
essas pessoas não vejam sua confiança na riqueza, na
segurança e na liberdade como um ato religioso. Mas a
vida delas é moldada, embora realmente distorcida, pelo
que elas confiam.^°°
Tratando ainda das mais variadas formas de idolatria
do nosso tempo, Johnson conclui:
Quandopregamos aos nossos vizinhos, precisamos assinalar
que os ídolos deles não podem cumprir suas promessas. A
100 Thomas K. Johnson ensina ética e filosofia da religião na Charles
University, Praga, República Checa. V. artigo dele no site <http://www.
v\/rfnet.org/articles/printarticle.asp?ID=723>.
http://www.%e2%80%a8v//rfnet.org/articles/printarticle.asp?ID=723
http://www.%e2%80%a8v//rfnet.org/articles/printarticle.asp?ID=723
riqueza náo nos conduz à alegria, e a liberdade absoluta não
nos conduz ã realização. Também precisamos assinalar que
os ídolos deles distorcem as vidas. A adoração da liberdade
tem conduzido milhões ao rompimento do casamento e da
família, que tem conduzido a uma vasta quantidade de
dores de toda espécie. A adoração da riqueza tem conduzido
ã falta de significado e ã negligência do amor, da justiça e
da fidelidade. Muita dor em nosso mundo é o resultado da
moderna idolatria. °̂^
O objeto de nossa adoração sempre haverá de moldar
a nossa vida. As coisas que as pessoas recebem são resul
tado da qualidade dos deuses que adoram. Seu caráter é
moldado pelo tipo de ídolos que veneram.
O princípio do salmo 135 pode ser perfeitamente apli
cado tanto à nossa presente situação como cristãos quanto
á situação de Adão no jardim no Éden. Quando cultuamos
Deus, tornamo-nos parecidos com ele. Adão era parecido
com Deus e refletia perfeitamente a imagem de Deus, por
que sua vida era moldada por aquele a quem adorava. O
adorado no culto tem uma influência muito grande na vida
dos adoradores. Adão tinha comunhão de vida com Deus
no jardim. Ele via a forma que Deus tomava, e ambos con
versavam no jardim (cf. Gn 3.8). Eram companheiros no
jardim, ainda que um fosse Criador, e o outro, criatura; um
fosse Deus, e o outro, homem.
“A religião exerce um papel muito grande na moldagem
da vida e da cultura do povo” ( J o h n so n ) . C o m o cristãos
bíblicos, todavia, devemos ir muito além do que acontece
com os idólatras: devemos refletir em grande medida o
101 Ibid.
102 Ibid.
caráter do único Deus verdadeiro, o mesmo que andava
com Adáo pela viração do dia, no jardim do Éden.
4. A ADORAÇÃO PRESENCIAL NO H ABITAT
ORIGINAL FOI PERDIDA POR CAUSA DA QUEDA
A adoração de Adão e Eva no seu habitat original não
durou para sempre. A queda de nossos primeiros pais no
habitat pôs fim à adoração presencial. Ela foi o ponto final
no relacionamento cúltico com Deus, porque, por causa^^
Queda, foram expulsos do seu habitat original, que
lugar da presença de Deus. í ^ \ )
O pecado original destruiu a adoraçap-áraiVim rela
cional. A presença do pecado foi a ba^e;ír^asVerdadeira
adoração. Não mais foi possível oS ^ ttox^ '^u s no habi
tat original dos homens. A p re s^ ^ J d o pecado não dei
xou mais aberto o acess(^<í^^@ ^ça do Senhor! A partir
daquela hora, a adoraçã<Xcre§^iomens passou a ter uma
conotação diferejt;^./í^)s) i ^ i s uma adoração de presen
ça com Deus, nms,,^<ioração com noção sacrificial. Deus
trata com Adão e Eva proporcionando-lhes
roupa œ ^ ^ ^ a o r te de animais (Gn 3.21). Qualquer ma-
niͣsfa^Sb;emtica a partir da Queda tem nela a ideia de
raiD^æ^€Ccrificial.
Se a comunhão com Deus no habitat original era re
lacional, essa relação foi perdida. Por causa da sua de
sobediência, Adão não mais tinha condições de viver em
harmonia com Deus. Por isso, ele se esconde da presença
de Deus. Deus, então, se dirige a ele e lhe pergunta: Onde
estás? (Gn 3.9). E a resposta de Adão foi: Ouvi a tua voz
no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi
(Gn 3.10). Ele havia desobedecido a Deus e morrido espi
ritualmente. Quando o homem está morto, não mais quer
comunhão com Deus porque a morte ê inimiga da Vida;
O pecador é inimigo do Santo; a criatura se torna inimiga
do Criador.
Por causa do pecado, portanto, Adão foi excluído do
jardim-santuário. Perdeu a capacidade de relacionar-se
com Deus, porque o pecado trouxe a morte, que é o íim do
relacionamento vital com Deus.
Somente com o pacto mosaico é que a ideia de san
tuário começa a ser trazida de volta, quando Deus ordena
então a construção de um tabernáculo. Nele, o homem (ex
clusivamente, o sumo sacerdote) entrava para ter comunhão
presencial com Deus, que ali se revelava. Era apenas o início
de um longo processo de volta ã ideia do relacionamento pre
sencial de Deus. Séculos depois, quando a terra havia sido
plenamente conquistada. Deus ordena aos hebreus a cons
trução de um templo permanente, o que ocorreu no tempo
de Salomão. Nesse sentido, não houve progresso na restau
ração da adoração presencial, pois passou a haver apenas
um santuário, e fixo, não mais móvel como o tabernáculo
no tempo do deserto. O templo era uma espécie de “jardim-
santuário provisório”. Houve reconstrução desse templo
duas vezes (uma quando da volta do cativeiro babilónico e
outra imediatamente antes da vinda de Jesus, por Herodes).
Então, surge um modo superior de adoração, uma adoração
espiritual de Deus, para a qual Jesus Cristo faz a transição.
Ela se encontra registrada em João, capítulo 4.
Todavia, o ambiente não é ainda propício à volta da ado
ração edênica, por causa do pecado ainda reinante na ter
ra. Os cristãos tém acesso redentor a Deus mediante Cristo,
mas não se trata ainda de adoração presencial de Deus.
A adoração presencial de Deus, todavia, terá o seu re
tomo e seu ponto mais elevado no jardim a ser restaurado
103 James B. Jordan. High ground — through new eyes — Developing a biblical
view of the world. Brentwood, Tennessee: Wolgemuth & Hyatt, Publishers, Inc.,
p. 155. <http://www.entrewave.com/freebooks/docs/a_pdfs/jjne.pdf>.
http://www.entrewave.com/freebooks/docs/a_pdfs/jjne.pdf
no futuro, no tempo da consumação de toda a redenção
humana, do estabelecimento de novos céus e nova terra.
Até que esse tempo chegue, adoraremos a Deus em espírito
e em verdade, e sempre pela mediação de Jesus Cristo. Já
não estamos mais expulsos do relacionamento com Deus.
Fomos regenerados e restaurados ao favor de Deus, mas
nossa adoração não é ainda como virá a ser, quando esti
vermos na presença gloriosa de Deus e habitarmos nele, na
Nova Terra (cf. Ap 21)! Agora temos a adoração espiritual.
Amanhã teremos novamente (como foi no princípio!) a ado
ração presencial de Deus!
C apítulo 1 0
O HABITAT HUMANO ERA UM
LUGAR PERFEITO
Todas as coisas do habitat feito por Deus para o ho
mem tinham as características de perfeição. Todas re
fletiam o caráter do Criador. Muito mais que o salmista
conseguiu perceber no tempo em que escreveu o seu sal
mo, com maior propriedade nos tempos primevos os céus
manifestavam a glória de Deus e o firmamento anunciava
as obras de suas mãos (v. Sl 19.1).
1. O HABITANTE DO HAß/TAT ORIGINAL
ERA PERFEITO
Ele possuía um entendimento perfeito da lei de Deus;
era obediente a ela e exercia corretamente as funções do
seu mandato cultural. Não havia nele nenhuma inclinação
para o mal. Seu desejo era somente o de agradar ao seu
Criador. Não havia avareza em sua alma nem qualquer
enfermidade em seu corpo. Não havia ingratidão em sua
alma, nem sequer um momento de egoísmo ou egocen
trismo. Certamente ao acordar pela manhã dava graças
pelo belo lugar em que Deus o havia posto. Quando o dia
terminava, ia descansar do trabalho dando graças a Deus.
O trabalho era uma grande bênção para ele. Não havia
pesadelos no seu sono nem havia pensamentos impuros.
Não vivia descontente nem tinha preocupações ímpias.
Nenhum tipo de temor invadia seu interior. Sua vida era
de uma calma e tranquilidade nunca atrapalhada pelos
seus múltiplos afazeres no jardim de Deus.
2. O HABITANTE DO HAß/TAT ORIGINAL ERA
PERFEITO PORQUE ERA GLORIOSO
Por que essa afirmação? Porque nenhum dos outros
seres criados por Deus — como os seres celestiais — ha
via sido feito ã imagem de Deus. Nenhum deles, ainda
que mais poderoso que o homem, podia refletir o seu
Criador. É possível que a glória de Adão, inclusive por
andar constantementecom Deus no jardim, tivesse uma
aparência gloriosa que nunca conhecemos em medida
elevada em outros homens. “Se a face de Moisés brilha
va quando ele desceu do monte, quanto mais a face de
Adão teria brilhado? Seu ser deve ter possuído um brilho
transfigurado”, supõe Derek T h o m a s . S e Moisés teve o
rosto resplandecente no tempo em que os homens já es
tavam debaixo da maldição do pecado, podemos imaginar
que Adão tinha um rosto ainda mais resplandecente por
estar na presença de Deus, em um clima glorioso. A gló
ria do habitante era uma consequencia natural da glória
do habitat e do seu Criador.
3. 0 HABITANTE DO HABITAT ORIGINAL ERA
PERFEITO PORQUE ERA SANTO
As Escrituras ensinam que Deus fez o homem reto
(cf. Ec 7.29), e não havia nele nenhuma impureza. Derek
Thomas afirma que Deus diria do primeiro homem o mes
mo que disse de seu Filho encarnado: “Este é o meu ama
do Adão, em quem tenho meu prazer”. N ã o havia nada
nas atitudes de Adão que pudesse desdizer uma afirmação
como essa. Ele era limpo de caráter, e Deus tinha prazer
na sua criatura preferida.
4. O HABITANTE DO HAB/TAT ORIGINAL ERA
PERFEITO POR CAUSA DO SEU GOVERNO
O texto do salmo 8 retrata perfeitamente o que era
Adão no paraíso. Sua retidão apontava para a perfeição do
seu domínio.
104 Derek Thomas, em seu sermão sobre Gênesis 2.8-17, <http://www.
alfredplacechurch.org.uk/>, acessado em junho de 2010.
105 Ibid.
http://www.%e2%80%a8alfredplacechurch.org.uk/
http://www.%e2%80%a8alfredplacechurch.org.uk/
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos,
e a luz e as estrelas que estabeleceste, que é o homem,
que dele te lembres e o filho do homem, que o visites?
Fizeste~o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e
de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as
obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas
e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do
céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas
dos mares (Sl 8.3-8).
Este salmo é uma referência ao homem em geral (pois
o domínio sobre a natureza ê parte da imagem de Deus) e
a Jesus Cristo especificamente (cf. Hb 2.6-9). No entanto,
podemos tomá-lo e aplicá-lo perfeitamente a Adão, porque
nenhum outro homem neste mundo (exceto Jesus) exer
ceu tão perfeitamente o domínio sobre a natureza do que
ele. Deus havia coroado Adão com glória e honra, e ele
exerceu o seu domínio no paraíso evidenciando a glória e
honra com que havia sido dotado.
Portanto, tudo no jardim apontava para a perfeição!
Nada nele tinha conotação diferente. Tudo ali era a evidên
cia da perfeição do Criador. O habitat refletia a perfeição
de quem o havia plantado!
OHABTTAr HUMANO
Apresentação
Sumário
Prefácio
A FORMAÇÃO DO HABITAT HUMANO
1. A PLANTAÇÃO DO JARDIM
2. A LOCALIZAÇÃO DO JARDIM
3. A COLOCAÇÃO DO HOMEM NO JARDIM
4. O TAMANHO DO JARDIM DO ÉDEN
5. A REALIDADE DO JARDIM DO ÉDEN
O HABITAT HUMANO ERA UM JARDIM VERDEJANTE
1. A ÁRVORE DA VIDA
2. A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL
O HABITAT HUMANO ERA UM JARDIM COM TODA PROVISÃO DE ALIMENTO
O HABITATHUMANO ERA UM GRANDE JARDIM MUITO BEM IRRIGADO
2. A ARIDEZ DA TERRA ACONTECE PELA AUSÊNCIA DE RIOS
1. O RIO DO ÉDEN
2. OS QUATRO BRAÇOS QUE FLUÍAM DO RIO DO ÉDEN
C. O terceiro braço do rio do Éden: o tigre
O HABITAT ORIGIN AL DO HOMEM ERA UM JARDIM MUITO RICO
1. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA OURO
2. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA BDÉLIO
1) Qual a aparência do Bdélio?
2) O que é o bdélio?
3. EM HAVILÁ, NO ÉDEN, HAVIA ÔNIX
1) A primeira dificuldade com a identificação do ônix é arqueológica
CONCLUSÃO
O HABITAT HUMANO ERA UM JARDIM DE TRABALHO
1. O TRABALHO NO JARDIM ERA FÍSICO E MENTAL
2. O TRABALHO DE CUIDAR DA FLORA DO HABITAT HUMANO
2) Adão usou a mente para dar nome aos animais como sinal de superioridade e autoridade sobre eles
3) Adão usou a mente para distinguir os animais domésticos dos selváticos
APLICAÇÕES
1) Deus fez um habitat carente de cuidado e proteção
2) Deus quer que tenhamos vida ocupada neste mundo
O HABITAT HUMANO ERA UM LUGAR DE LIBERDADE E RESPONSABILIDADE
5. EM SEU HABITAT, O HOMEM RECEBEU AMEAÇA DE MORTE CASO INFRINGISSE AS LIMITAÇÕES DE SUA LIBERDADE
O HABITAT HUMANO ERA UM LUGAR DE COMPANHEIRISMO
1. DEUS SE PROPÔS A CRIAR UMA AUXILIADORA
APLICAÇÃO
2. DEUS SE PROPÔS A CRIAR UMA AUXILIADORA IDÔNEA
1) Idoneidade sugere a ideia de compatibilidade
2) Idoneidade sugere a ideia de correspondência
3. OS PROPÓSITOS DIVINOS NA PROVISÃO DE UMA ESPOSA IDÔNEA
1) A PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA VISOU CUMPRIR A ORDEM DE PROPAGAÇÃO DA RAÇA HUMANA
2) A PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA VISOU SATISFAZER O DESEJO SEXUAL NATURAL
3) O PROPÓSITO DA PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA FOI SOLUCIONAR A QUESTÃO DA SOLIDÃO
4) O PROPÓSITO DA PROVISÃO DA ESPOSA IDÔNEA FOI SATISFAZER A NECESSIDADE DE COMPANHEIRISMO
4. A FORMAÇÃO DA ESPOSA IDÔNEA
1) Para formar a auxiliadora idônea, Deus fez o homem adormecer
2) Para formar a auxiliadora idônea, Deus fez a primeira cirurgia da história do homem na terra
3) Para formar a auxiliadora idônea, Deus usou uma natureza humana já existente
5. A REAÇÃO DE ADÃO DIANTE DA ESPOSA IDÔNEA
2) A reação de Adão mostra que Eva não era substancialmente diferente dele próprio
3) A reação de Adão mostra o contentamento pela procedência dela
6. O COMPROMETIMENTO COM A AUXILIADORA IDÔNEA
7. A SANTIDADE DO HOMEM COM A ESPOSA IDÔNEA
1) A santidade se evidencia na pureza de alma de nossos primeiros pais
CONCLUSÃO
O HABITAT HUMANO ERA UM LUGAR DE PRESTAR CULTO A DEUS
1. A ADORAÇÃO NO HAB/TAT ORIGINAL ERA PRESENCIAL
2. A ADORAÇÃO NO fíAB/TAT ORIGINAL ERA TÍPICA DA ADORAÇÃO FINAL
3. A ADORAÇÃO DE DEUS MOLDAVA O CARÃTER DE ADÃO
O HABITAT HUMANO ERA UM LUGAR PERFEITO
1. O HABITANTE DO HAß/TAT ORIGINAL ERA PERFEITO
2. O HABITANTE DO HAß/TAT ORIGINAL ERA PERFEITO PORQUE ERA GLORIOSO
3. 0 HABITANTE DO HABITAT ORIGINAL ERA PERFEITO PORQUE ERA SANTO
4. O HABITANTE DO HAB/TAT ORIGINAL ERA PERFEITO POR CAUSA DO SEU GOVERNO