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EA D Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja 2 1. OBJETIVOS • Compreender a Igreja no Antigo e no Novo Testamentos. • Identificar e conhecer o povo das doze tribos. • Conhecer e analisar a Eclesiologia dentro do Novo Testa- mento. • Avaliar a igreja segundo o evangelho de Lucas, Mateus, João e Paulo. • Conhecer a estrutura da Igreja. 2. CONTEÚDOS • Povo e exército de Deus. • Povo das doze tribos. • Resto santo. • Diáspora e exílio. © Eclesiologia54 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO • Comunidade cultual – assembleia. • Reino de Davi. • Reino de Deus. • Relação com os outros povos. • A serviço do universalismo da salvação. • Solidariedade entre indivíduo e coletividade. • Eclesiologia do Novo Testamento. • A Igreja segundo Mateus. • Escritos de Lucas. • Palavra e Fé. • Como é a vida dessa igreja? • Igreja segundo o evangelho de João. • Estruturas da Igreja. • Igreja segundo as cartas paulinas. • Igreja nas cartas pastorais. 3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE Confira, a seguir, algumas orientações básicas para o estudo da Unidade 2: 1) Como você poderá notar, nesta parte do curso, você não encontrará somente citações do Antigo Testamento. A presença de citações do Novo Testamento justifica-se pelo que você acabou de estudar: no Antigo Testamen- to, a investigação eclesiológica encontra a Igreja prefi- gurada no Israel de Deus, que é o único Povo de Deus; encontra, também, nomes e conceitos que exprimem, explicam e atuam, em seu conjunto, na complexa reali- dade da Igreja. 2) Uma boa síntese sobre a Igreja em Paulo você pode en- contrar em HAWTHORNE, G. F.; MARTIN, R. P. Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Paulus/ Vida Nova/ Loyola, 2008, p. 654-664. 55© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja 3) Os símbolos e as imagens são retomados pelo Novo Testa- mento e aplicados à Igreja. Para constatar isso, leia LG 6. 4) Você pode encontrar uma boa descrição da evolução histórica (até o século 4º) da tensão entre carismáticos e detentores de um ministério na Igreja em ESTRADA, J. Para compreender como surgiu a Igreja. 2005, p. 226- 283. Muito interessante é, também, a reflexão sobre a tensão constitutiva entre o carisma e a instituição na Igreja, presente nessa mesma obra nas páginas de 283 a 302. 4. INTRODUÇÃO À UNIDADE A unidade anterior permitiu-nos compreender a Igreja e analisar os desafios da Eclesiologia, bem como sua posição nos dias atuais. Dando continuidade aos nossos estudos, façamos algumas reflexões iniciais: se a Igreja só apareceu depois de Cristo, por que a Eclesiologia deve estudar o Antigo Testamento? De que maneira a Igreja pode estar presente já no Antigo Testamento? Pode a Igre- ja existir antes dela mesma? Para começar a responder a essas perguntas, leia o texto a seguir: Perscrutando o mistério da Igreja, o sagrado Concílio recorda o vínculo com que o povo do Novo Testamento está espiritualmen- te unido à linhagem de Abraão. A Igreja de Cristo reconhece, com efeito, que os primórdios da sua fé e da sua eleição já se encon- tram, segundo o mistério divino da salvação, nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas. Afirma que todos os fiéis de Cristo, filhos de Abraão segundo a fé, estão incluídos na vocação deste Patriar- ca e que a salvação da Igreja está misteriosamente prefigurada no êxodo do povo eleito da terra da servidão. Eis porque a Igreja não pode esquecer que recebeu a Revelação do Antigo Testamento por meio daquele povo com quem Deus, na sua inefável miseri- córdia, se dignou estabelecer a Antiga Aliança, como não pode esquecer que se alimenta da raiz da boa oliveira, na qual foram enxertados os ramos da oliveira selvagem que são os gentios (cf. Rm 11, 17-24). A Igreja crê, de fato, ter Cristo, nossa paz, recon- ciliado os judeus e os gentios pela cruz, fazendo dos dois uma só coisa nele (cf. Ef 2,14-26) (NA 4). © Eclesiologia56 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO O decreto do Vaticano II, que inaugurou uma nova relação com o judaísmo, recorda os cristãos que a Igreja e Israel não es- tão ligados por laços étnicos ou nacionais, mas por uma relação de união espiritual. Sociologicamente falando, a Igreja não é uma comunidade natural que se forma com base em critérios étnicos, mas é constituída pela escolha pessoal (DIANICH; NOCETI, 2007). A união espiritual dá-se por diversas razões, a saber: a) Em primeiro lugar, a Igreja reconhece que está presente já no chamado divino feito aos Patriarcas e na Aliança de Deus com Abraão. b) Em segundo lugar, a união espiritual verifica-se no êxodo (que é o evento fundador da Aliança), cujo significado e efeito não dizem respeito somente a Israel, mas assinala o início da salvação que Cristo realizou e, por isso, inclui a Igreja. c) Uma vez que os dons de Deus são sem arrependimento, a Igreja reconhece, em terceiro lugar, que é devedora de Israel porque dele recebeu a revelação veterotestamen- tária. Em relação ao Antigo Testamento, a Igreja sente que tanto se apropria dela, quanto é acolhida nela. Em outras palavras, os cristãos sentem-se destinatários da revelação veterotestamentária e, contemporaneamen- te, veem-se inseridos e mergulhados nela. d) A união espiritual, por fim, está fundada na reconcilia- ção e na paz que Cristo estabeleceu pela sua cruz entre os judeus e os gentios, derrubando o muro de separação e fazendo dos dois uma só coisa nele. Com base nessa união espiritual que vincula Israel e a Igreja, podemos estabelecer alguns princípios que possibilitam e guiam a investigação que faremos sobre a Igreja no Antigo Testamento: a) A Eclesiologia encontra no Antigo Testamento a prefigu- ração da Igreja em Israel, que é seu protótipo e modelo estrutural. Assim, o que é Israel e o que ele é chamado a ser dizem respeito, também, à Igreja. b) O desígnio salvador de Deus é um só e, por isso, não há somente continuidade, mas até identidade entre o Israel de Deus e a Igreja de Cristo. A vontade de Deus é a de 57© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja formar o único Povo de Deus, no qual os cristãos são en- xertados. Assim, a Eclesiologia investiga o Antigo Testa- mento consciente de que trata do único Corpus Ecclesiae (Corpo da Igreja), do único e indiviso Povo de Deus. c) Essa identidade do único Povo de Deus possibilita à Ecle- siologia encontrar no Novo Testamento a continuidade da ação divina em favor de Israel, como, por exemplo, a mulher do Apocalipse, que dá à luz e é arrebatada com o seu recém-nascido (cf. Ap 12,1-17), é símbolo da Igreja, mas também de Israel, uma vez que, em Cristo, Deus “se recordou de Israel, seu servo” (Lc 1,54). A promessa feita a Abraão realiza-se no momento em que este se torna, também, “nosso pai” (Rm 4,1; Tg 2,21) (cf. Gl 3,7). Da mesma forma, todos os que forem salvos partilharão da salvação oferecida aos patriarcas do Antigo Testamento: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó, no reino dos céus” (Mt 8,11) (cf. Lc 13,28s). d) Além de identificar, nos escritos do Novo Testamento, o único desígnio salvador de Deus que age tanto na Igreja quanto em Israel, a Eclesiologia encontra no Antigo Tes- tamento nomes e conceitos que exprimem o mistério da Igreja. Para que você possa compreender corretamente o que o Novo Testamento fala sobre a Igreja é impres- cindível assimilar esses nomes e conceitos do Antigo Testamento. Em outras palavras, o Antigo Testamento fornecerá para você um vocabulário rico e variado para compreender a eclesiologia do Novo Testamento. e) Além de constituir um vocabulário, cada um dos nomes e conceitos eclesiológicos do Antigo Testamento indica uma concretização histórica e teológica de um dos múl- tiplos aspectos da mesma complexa realidade eclesial. A Igreja é uma realidade que não se deixa aprisionar em uma só forma e que não pode ser definida por um só de seus aspectos.Por isso, é necessário abordá-la com base no conjunto dos aspectos e modelos que o Antigo Testamento fornece. Assim, é possível nos aproximar de uma resposta às perguntas: o que é a Igreja? O que ela está destinada a ser? © Eclesiologia58 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO 5. POVO E EXÉRCITO DE DEUS Você já notou que, muitas vezes, a Igreja é chamada de “povo de Deus”? Esse modo de nomear vem do Novo Testamento, que, por sua vez, repete o nome que o Antigo Testamento utilizava para exprimir uma identidade e uma relação especial com Deus. Veja, a seguir, duas passagens em que aparece esse nome aplicado à Igreja: Irmãos, escutai-me. Simão acaba de expor-nos como Deus se dig- nou, primeiro, escolher dentre os gentios um povo dedicado ao seu Nome [para si]. Com isto concordam as palavras dos profetas, segundo o que está escrito: Depois disto voltarei e reedificarei a tenda arruinada de Davi, reconstruirei as suas ruínas e a reerguerei. Então o resto dos homens procurará o Senhor, assim como todas as nações dedicadas ao meu Nome, diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde sempre (At 15,14-17; Am 9,11-12). “Em meio a eles habitarei e caminharei, serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (2Cor 6,16; Ez 37,27). Em relação a esses dois textos e em outros análogos do Novo Testamento, você pode notar algumas características importantes para o presente estudo: a) Nos textos, proclama-se o fato de que, cumprindo a pro- messa do Antigo Testamento, Deus decide tirar dos pa- gãos um povo (laós) que lhe pertença. b) O Antigo Testamento é citado nos textos do Novo Tes- tamento para aplicar ao povo da nova aliança o que era dito de Israel. c) O vocábulo “laós”, usado para indicar o “povo”, é a pala- vra que os tradutores gregos do Antigo Testamento es- colheram para conotar Israel e que se tornou, pelo uso, um termo técnico. Esse termo exprime a consciência de uma identidade: como povo de Javé (Laós Theou ou Kyriou), ele se distingue dos povos pagãos e das outras nações. Mais do que isso: além de exprimir a consciên- cia que Israel tem de si, o conceito de “povo” inclui a consciência que Israel tinha de uma relação particular com Javé. Por causa dessa relação especial, “povo” traz 59© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja dentro de si, também, a consciência de um contraste em relação aos outros povos não israelitas, fundado sobre uma base religiosa. d) No conceito de povo, estão implícitas a sua origem e a condição nômade. Note como essa concepção ajuda a compreender a descrição neotestamentária da Igreja: ela é um povo peregrino. Essa condição do povo de Deus afeta de alguma forma a imagem do Deus desse povo. Deus é o Deus dos patriarcas nômades, é um Deus que guia, que caminha com o seu povo, que não pode ser fixa- do em um lugar, mas acompanha os seus na sua viagem por meio dos espaços e tempos. Nesse sentido, o con- ceito “povo de Javé” aparece frequentemente nas mais antigas tradições do Êxodo (Ex 3,7.10; 8,16-19; 9,1.13; 10,3): o Deus de Israel é o Deus do êxodo, e o seu povo, consequentemente, é o povo do êxodo, o povo que al- cança a sua unidade enquanto segue o mesmo Deus. Ligado à expressão “povo de Deus” está o tema do exército de Javé: “Farei sair do país do Egito os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel” (Ex 7,4); “os exércitos de Javé saíram do país do Egito” (Ex 12,41) (cf. Nm 1; 10). Essas poucas citações mostram que Israel se vê como comu- nidade cultual que se reúne em torno do santuário e como exérci- to no campo de batalha. Essa concepção leva o Antigo Testamento a representar a história de Israel como uma guerra santa. Essa ca- racterística “beligerante” constitui um fundamento bíblico para a concepção cristã da Igreja militante: Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo. Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominado- res deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povo- am as regiões celestiais. Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo combate. Portanto, ponde-vos de pé e cingi os vossos rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça e calçai os vossos pés com a pre- paração do evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, © Eclesiologia60 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO com o qual podereis extinguir os dardos inflamados do Maligno. E tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6,10-17). 6. POVO DAS DOZE TRIBOS – AS DOZE TRIBOS Israel considera-se uma confederação de doze tribos. Mes- mo que historicamente essa federação tenha subsistido por pouco tempo, essa autoimagem permaneceu como esperança e como promessa até a era cristã. Paulo, por exemplo, refere-se a essa imagem quando declara no tribunal: Estou sendo aqui julgado por causa da esperança na promessa feita por Deus aos nossos pais, à qual esperam chegar as nossas doze tribos (to dodekaphilon), que servem a Deus noite e dia, com toda a diligência (At 26,6-7). A restauração de Israel em suas doze tribos subsistiu, portan- to, como uma promessa ao longo de todo o Antigo Testamento, e o Novo Testamento viu-a realizada na Igreja. Enquanto Israel de Deus (Gl 6,16), a Igreja é o novo povo das doze tribos. A Jerusalém que desce do céu] está cercada por muralha grossa e alta, com doze portas. Sobre as portas há doze Anjos e nomes ins- critos, os nomes das doze tribos de Israel. A muralha da cidade tem doze alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro (Ap 21,12.14). Nesse conceito, também estão implícitas a condição de vida nômade de Israel e a sua estrutura tribal, anteriores ao processo de fixação em um território. Movendo-se em pequenos grupos, as pessoas não tinham condições de se fixar em um determinado lugar nem podiam constituir um estado. As doze tribos evidenciam que as células sociológicas primi- tivas e as unidades primárias da história de Israel são os clãs ou as famílias (casas paternas). A primazia dos clãs em Israel mostra- se claramente na festa da páscoa celebrada no ambiente familiar. 61© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Tudo isso passa para o Novo Testamento: a Igreja concretiza-se nas diversas comunidades familiares; a páscoa cristã é celebrada nas casas (kat’oikian). O que une as famílias entre si é a relação de parentela que forma as estirpes que se reagrupam nas doze tribos, que podem, por causa de interesses comuns, se reunirem em confederação. O pai comum das doze tribos é Jacó-Israel. Todos sentem-se unidos na comunidade por causa da origem comum e experimen- tam a salvação divina como uma graça que se perpetua e se trans- mite de uma geração para a outra. Por isso, para Israel, a genealo- gia, ainda que parcialmente construída e artificial, tem mais valor teológico do que cartorial. Além disso, a comunidade do povo se percebe como uma realidade que permanece e que transmite para as gerações sucessivas sua forma de vida e sua marca espiritual. A confederação das doze tribos configura-se, também, como uma liga sagrada cujo ponto de referência é o santuário único, no qual é adorado o mesmo Deus Javé (cf. Js 24, 18.22.24) e são cele- bradas as mesmas festas. O santuário comum simboliza a presença divina no meio das doze tribos, que têm em comum o estatuto e o direito (cf. Js 24,25) e se reúnem para condenar a transgressão (Jz 19,30; 20,6.10). Quando as tribos sofrem uma ameaça comum, a comunida- de de fé transforma-se em comunidade guerreira. Assim, o culto a Javé transmuta-se em “guerra de Javé”, e a liga de Javé, em “con- federação guerreira”. 7. RESTO SANTO Como já foi mencionado anteriormente, o povo das doze tri- bos teve uma existência histórica breve. Essa carência de uma ve- rificaçãohistórica duradoura não impediu, porém, que esse povo permanecesse como uma grandeza ideal que inspirava a esperan- ça no cumprimento da promessa divina. © Eclesiologia62 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Por isso, a federação das doze tribos não se configura como mera soma dos membros do povo, mas é uma grandeza que pode ser representada por qualquer quantidade de povo. Em outros termos, Israel não é tanto uma grandeza quantitativa, mas, sobre- tudo, uma realidade qualitativa e aberta. Para exprimir essa con- cepção, o Antigo Testamento lança mão do termo “resto”. Nele, o povo concentra em si a vida e a promessa de Israel. O “resto” é o resultado histórico de uma concentração por redução. Essa concentração não se dá por empobrecimento e eli- tização, mas por adensamento e saturação no resto, o qual é uma concentração porque esse Israel qualitativo experimentou a salva- ção não apenas na desgraça, mas também por meio dela (cf. 1Rs 9,14.18; Rm 11,1-6). Dessa forma, o resto forma-se porque foi escolhido, separa- do e eleito por Deus. Toda a história da salvação testemunha esse processo de redução a um resto. Ao chamar Abraão, por exem- plo, Deus separa-o dos povos (Gn12,1) e dá início a esse processo de redução. Ao longo de toda a história da salvação, Israel expe- rimentará a crise, mediante a qual é constituído um resto. Assim, o grito profético “um resto retorna” (cf. Is 17,3) é uma mensagem de desventura, porque é a denúncia da infidelidade de Israel que lhe atrai o juízo divino, e, ao mesmo tempo, de alegria, porque é a proclamação da fidelidade de Deus ao seu povo no e por meio do juízo. A fidelidade divina, portanto, garante que Israel subsista sempre como uma nova criação. O resto é, pois, o efeito da fideli- dade e do juízo divinos. Essa concepção de resto é o que está subjacente quando São Paulo fala do “Israel segundo o espírito”, que se distingue do “Is- rael segundo a carne”. O “resto” não é uma elite porque o “Israel segundo o espírito” é o depositário da promessa divina não para si mesmo, mas a serviço da salvação e da missão universais. Nesse sentido, a missão do resto é a de realizar o que o povo inteiro escolhido deveria ter feito. Por isso, ele pode ser considera- 63© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja do a verdadeira Israel. Outros nomes estão ligados ao “resto”: ele é a “cepa”, a “semente santa” (cf. Is 6,13; 37,31; Jr 23,3; Esd 9,2). A Igreja e Israel formam, juntos, o povo de Deus, o “povo dos santos do Altíssimo” (Dn 7,18.27). A Igreja, enquanto “pequeno rebanho” (Lc 12,32) é, por essência e pela sua missão, o “santo resto”. 8. DIÁSPORA E EXÍLIO O povo de Deus existiu na condição de exílio e de diáspora. A Igreja considera-se também nessa condição: os fiéis vivem como estrangeiros da diáspora (1Pd 1,1) e constituem “as doze tribos na dispersão” (Tg 1,1). De fato, “em todas as nações da terra está radicado um só povo de Deus” (LG 13). Israel viveu como estrangeiro e escravo no Egito, e essa ex- periência foi assimilada como uma condição permanente. A situa- ção histórica transcende, assim, a limitação do tempo da desgraça e do exílio para se tornar um constitutivo da identidade do povo. Mesmo que resida na terra prometida, o ser estrangeiro é percebido como maneira de ser e de viver: “diante de ti eu não passo de um estrangeiro, um peregrino como todos os meus pais” (Sl 39,13). Essa será, também, a condição fundamental do cristão e da Igreja: ela não se encontra somente na dispersão, mas vive neste mundo como Israel vivia no Egito e no exílio, como um pere- grino e estrangeiro (cf. 1Pd 2,11; Fl 3,20). Não se deve esquecer, porém, de que a dispersão “no de- serto dos povos” (Ez 20,35) é a triste consequência do pecado e da ruptura da aliança que atrai sobre Israel a punição e a maldição (cf. Dt 28,64ss). Mas a infidelidade do povo não é capaz de vencer a fidelidade de Deus que, no fim dos tempos, triunfará reunindo definitivamente o que estava disperso dos quatro cantos da terra (cf. Is 11, 11s). Assim, Ezequiel anuncia em nome de Deus: “eu os recolherei de entre as nações e os reunirei dos países nos quais os dispersei” © Eclesiologia64 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO (Ez 11,17). Essa é a promessa que está na base do anúncio do Novo Testamento: Jesus é exaltado como sinal messiânico que atrai to- dos a si (cf. Jo 12,32; Mt 24,30) para “congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos”. À diáspora e ao exílio está ligada a intuição da sinagoga. Uma vez que estão longe de Jerusalém e não podem render culto no seu templo, os dispersos reúnem-se nas sinagogas que passam a ser o ponto de cristalização das comunidades locais. Nelas, os judeus escutam as Escrituras e reencontram-se com a sua histó- ria, atualizando-a e recebendo-a como história salvífica. O conta- to com as Escrituras leva os dispersos a tomarem consciência de serem membros do povo eleito e pecadores; abre os exilados às promessas de salvação definitiva. Nas Escrituras, os dispersos en- contravam, também, a lei que dava forma à sua vida. A Palavra, portanto, é ouvida como palavra da história, da promessa e da lei. Mesmo que se deva evitar o erro de pensar que seja apenas uma derivação, sem novidade importante, é preciso reconhecer que a assembleia do Novo Testamento recebeu muito do culto sinagogal. Com efeito, a eucaristia anuncia que os cristãos ainda se encontram na “dispersão” e realiza a reunião deles na assem- bleia litúrgica. Fortificados assim pela presença do Ressuscitado, os cristãos serão recolhidos dos quatro ângulos da Terra no Reino de Deus para gozar a presença do Senhor. 9. COMUNIDADE CULTUAL – ASSEMBLEIA As assembleias locais, tanto do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento, não negam nem substituem a ideia da gran- de comunidade de Israel. Para a Eclesiologia do Antigo Testamen- to, a assembleia do Sinai apresenta-se como protótipo e imagem exemplar da comunidade cultual. Essa é a assembleia originária de Israel, da qual as sucessivas assembleias serão cópias e varia- ções. No Sinai, o Povo é reunido pela primeira vez diante de Deus, 65© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja e o que acontece nessa assembleia é constitutivo para todos os tempos (também para o Novo Testamento). O Deuteronômio fala dessa assembleia como “dia da convocação” ou “da assembleia” (cf. Dt 9,10; 10,4; 18,16) e utiliza o termo “assembleia” (quahal/ ekklesia) exclusivamente para indicar a assembleia do Sinai. Você deve estar se perguntando: o que faz de Israel uma co- munidade cultual? Quatro são os elementos constitutivos (Ex 19; cf. também Js 24; Ne 8-9): a) Deus convoca seu povo pelo ministério de Moisés. Foi Deus que teve a iniciativa da salvação (Ex 19,4). Ele en- carrega Moisés de ordenar ao povo que se prepare (vv. 10-15). b) Moisés purifica-se e reúne-se ao pé da montanha (v. 17). c) Tendo Moisés recebido a revelação da Lei formulada no Decálogo (Ex 20), “vem trazer ao povo todas as ordens do Senhor” (Ex 24,3). “Tomou o Livro da aliança e nele fez a leitura ao povo” (v. 17). d) O povo adere a essa aliança (Ex 24,3.7): “tudo aquilo que o Senhor disse nós poremos em prática e obede- ceremos”. A aliança é selada por um sacrifício do qual o sangue lançado sobre o povo é o sacramento: “Isto é o sangue da Aliança que o Senhor concluiu convosco por meio de todas essas cláusulas” (v. 8). Tudo isso vale, também, para a Igreja na sua dupla forma e função de comunidade universal e local: Deus (o Senhor) reúne a sua comunidade, faz-se presente nela e para ela, comunicando-se pessoalmente na Palavra e no sacramento. Cidade santa A assembleia de Javé tem seu protótipo no Sinai, mas é em Jerusalém e Sião que terá o seu cumprimento: Sucederá naquele dia que se tocará uma grande trombeta, e os que andam perdidos na terra da Assíria, bem como os que estão des- terrados na terra do Egito, virão e adorarão a Javéno monte santo, em Jerusalém (Is 27,13). © Eclesiologia66 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO A cidade santa é o centro e o ponto de peregrinação dos dispersos, do resto que Javé deixou. Jerusalém e Sião são usados como sinônimos de Israel (cf. Is 46,13; Sf 3,14s)e de povo de Javé (Is 40,1s; 51,16; 65,19). Os textos do Antigo Testamento falam da cidade santa como uma realidade situada no mundo, mas, na realidade, referem-se à esperança de uma nova e melhor Jerusalém, que somente a ação salvífica de Deus pode criar. De fato, a Jerusalém celeste não é edificada por meios humanos, mas desce do céu (cf. Is 40-66; Ap 21,2.12). A cidade santa é, também, a cidade-mãe (Sl 87). Nela, duas necessidades fundamentais do homem – a salvação e a comunhão – são satisfeitas e descritas com a imagem comovente da criança que é cuidada pela mãe. A imagem da Igreja-Mãe tem seu fun- damento exatamente no modelo da “Jerusalém do alto... que é nossa mãe” (Gl 4,26). “Vós vos aproximastes do monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e de milhões e milhões de anjos reunidos em festa e da assembleia dos primogênitos” (Hb 12,22-23). 10. REINO DE DAVI Com o rei Davi, Israel passa por uma transformação profunda na sua organização sociopolítica: passa a ser um reino, uma nação e um estado. Assim, a condição nômade e a primazia da organi- zação social, fundada sobre a parentela e as tribos, foram suplan- tadas pela união das cidades e das regiões. A confederação tribal ocasional que se formava para combater os perigos provenientes de fora dá lugar ao estado territorial. Evidentemente, a história veterotestamentária mostra que o reino davídico e sua organização subsistiram de maneira muito precária. Mesmo assim, as eras de Davi e de Salomão perdurarão em sua perspectiva festiva e serão conservadas na memória co- 67© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja letiva como uma época ideal. No reino de Davi, cumpriram-se as promessas feitas aos patriarcas, segundo as quais Israel se tornaria um povo numeroso e viveria na paz da terra prometida. A espe- rança messiânica consistirá exatamente na esperança de viver no próprio país sob o próprio rei. Por isso, o Novo Testamento fala dessa esperança ligando-a a Cristo: “Ele será grande, será chamado filho do Altíssimo, e o Se- nhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1,32-33). Duas casas de Israel O grande cisma, que dividiu o reino em dois estados – o de Judá (930-586) e o de Israel (930-722) –, é, de um lado, a consequ- ência da defecção humana e, de outro, correspondente à vontade de Javé. Para compreender esse paradoxo, é preciso levar em con- ta que Israel nunca possuiu uma unidade compacta e monolítica. Pelo contrário, subsistiu sempre como uma confederação de tribos e grupos étnicos. Por isso, o cisma entre sul e norte tem uma data, mas as diferenças entre os reinos eram bem anteriores. Mesmo que estejam na base do cisma entre os reinos de Is- rael, as diferenças étnicas, tribais e teológicas não o determinaram necessariamente. O pluralismo das duas casas de Israel é uma ma- nifestação da unidade na multiplicidade e vice-versa, pois, mesmo separados, os dois reinos sentem-se essencialmente unidos como irmãos (1Rs 12,24). De fato, a história de Israel mostra que permaneceu viva a ideia religiosa da união das doze tribos, apesar das divisões políti- cas dos tempos dos reis. Com efeito, os profetas anunciaram a fu- tura recomposição dessa unidade em termos de uma nova criação: Eis que vou tomar os filhos de Israel dentre as nações, para as quais foram levados, e reuni-lo-ei de todos os povos e os reconduzirei para a sua terra, e farei deles uma só nação na terra, nos montes de Israel, e haverá um só rei para todos eles. Já não constituirão duas nações, nem tornarão a dividir-se em dois reinos (Ez 37,21-22) (cf. Is 11,13). © Eclesiologia68 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO No Novo Testamento, essa unificação será objeto da espe- rança escatológica (cf. Ap 7,4-9). 11. REINO DE DEUS O reino de Deus não é tanto um conceito territorial, mas, ini- cialmente, o exercício efetivo da dignidade e da soberania real de Javé sobre seu povo. Por isso, a tradução mais correta do hebraico “malkut Jahweh” e do grego “Basiléia tou Theou” é “reinado de Deus”. O reinado de Deus não se limita ao âmbito de Israel. Ele se estende – é verdade – de modo particular sobre Israel, mas é em si mesmo universal. Javé é rei de Israel como seu criador e redentor (cf. Is 43,15; 44,6). Com o prodígio da passagem pelo mar, Deus criou para si um povo e Israel torna-se o seu domínio (Sl 114,2). Esse domínio não é, porém, uma tirania: Israel corresponde aceitando voluntariamente sobre si o domínio de Deus, reconhecendo Javé como seu Deus. A realeza de Javé é vivida e atualizada pelo povo no culto (cf. Is 6,1-5). Os salmos de entronização, com a aclamação “Javé rei- na”, recordam as ações salvadoras de Deus no passado, atualizam o encontro histórico de Deus com o povo e proclamam a realeza divina, antecipando, cultualmente, o pleno domínio de Deus. Propriedade de Deus A relação de Israel com Deus é descrita como uma relação especial: Javé é o criador de Israel (Is 43,1.7); Ele o fez (Is 44,2), formou-o e plasmou-o (Is 43,1.721; 44,2.21.24; 45,11). A criação equivale a uma separação: Javé “adquiriu” Israel para si (cf. Ex 1,16) e tomou-o pela mão (Jr 31,32; Hb 8,9). “Eleger” significa, também, “chamar” (Os 11,1) e tem como consequência a separação de Israel do Egito e de todos os outros 69© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja povos (Lv 20,24.26; 1Rs 8,53). Motivo último dessa escolha não re- side no próprio povo, mas no amor por Israel (Os 11,1.4), que sabe que sua condição de povo de Deus é devida unicamente à ação divina que o libertou do Egito. A Eclesiologia do Antigo Testamento é, portanto, soteriologia, e a soteriologia é Eclesiologia. Nesse contexto de propriedade de Deus, compreendem-se as diversas imagens com que o Antigo Testamento exprime essa relação especial que há entre Israel com Deus. Diante de tais infor- mações, podemos dizer que Israel é: a) a plantação de Deus, a sua vinha (Is 5,1-7), a sua videira (Jr 2,21; Sl 80,9); b) o rebanho que ele guia (Sl 95,7); c) antigo servo do faraó que passou para o serviço de Deus (Lv 25,42.55; Is 41,8; 44,1); d) filho de Deus por causa da eleição (Sb 18,13; Os 11.1); e) primogênito (Ex 4,22); f) esposa e consorte (Os 2,17; Jr 2,2). Parceiro da aliança A relação de parceria entre Deus e Israel é expressa pelo con- ceito de aliança: como Javé é o Deus da aliança, Israel é, então, o povo da aliança. A aliança não é meramente um conceito jurídico, mas deve ser entendida no âmbito da relação recíproca de vida e de comunhão que brota da reciprocidade do amor: Javé ama Israel, e Israel ama Javé como resposta e correspondência ao amor divino. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Três verbos entrelaçam-se com o tema da aliança. 1. “Conhecer”: Javé conheceu Israel – “Só eu vos conheci de todas as famílias da terra (Am 3,2)”. Por isso, Israel deve conhecer e reconhecer somente Javé. Conhecer é um ato que concerne todo homem e, por isso, implica comunhão de vida. 2. “Amar”: O imperativo imposto a Israel como povo da aliança – “Amarás o Se- nhor, teu Deus, com todo coração, com toda alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5) – é continuação e consequência do amor precedente de Deus pelo seu povo, resposta ao amor com que Deus, mediante a eleição dos pais, fez de Israel o se povo (Dt 7,7; 10,15; 23,6). Amar equivale, também, a levar Deus a sério (temer), escutá-lo (obedecer), observar e agir segundo os mandamentos. © Eclesiologia70 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO 3. “Hesed” – “Amar com lealdade e solidariedade”: Javé é rico de amor (hesed) e de fidelidade (emet) (Ex 34,6) e conserva a aliança(berit) e o amor (1Rs 8,23). Ele exige, por sua vez, do povo um comportamento social correspondente: “Quero o amor (hesed) e não sacrifício, conhecimento de Deus e não holo- causto” (Os 6,6). Mas como Israel por si mesmo não pode fazer nada, Deus dá ao seu parceiro de Aliança a atitude que ele exige. “Eu te desposarei para sempre, eu te desposarei na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu te desposarei na fidelidade e conhecerás a Javé” (Os 2,21-22). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Santuário de Deus O santuário não é, a princípio, um lugar sagrado, mas depen- de da presença de Deus. Na medida em que se interessa pelo seu parceiro da Aliança, Deus faz-se presente em Israel. Deus é, desde o Antigo Testamento, o Emanuel (cf. Is 7,14; 8,8). De fato, Deus torna-se presente no mundo pelo fato de estar entre os homens, ou melhor, no seu povo. Israel é o lugar primário da presença de Deus no mundo. “Habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu Deus. E eles conhecerão que eu sou Javé, o seu Deus, que os fez sair do país do Egito para habitar no meio deles, eu, Javé, o seu Deus” (Ex 29,45-46). A presença de Deus não é uma garantia mágica. Ao ser in- fiel à Aliança, Israel perde a presença de Deus (cf. Jr 7,3ss). Mas também vale o inverso: quanto mais inviolável for a nova Aliança prometida, mais profunda e eficaz será a presença de Deus: Concluirei com eles uma aliança de paz, a qual será aliança eterna. Estabelecê-lo-ei e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. A minha Habitação estará no meio deles: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo (Ez 37,26-27). É o próprio povo de Deus que se torna o templo-santuário de Deus no mundo. De forma parecida, os cristãos, como novo povo de Deus, são o templo de Deus: “Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: ‘Em meio a eles habitarei e caminharei, serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’” (2Cor 6,16) (cf. Lv 26,12). De fato, todos os fiéis juntos são como que pedras vivas em um edifício, a casa espiritual (1Pd 2,5), a ha- bitação de Deus, o templo santo do Deus vivo (1Cor 3,16s; Ef 2,20; Ap 11,1s). 71© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Assim, o termo “Igreja” não designa na Bíblia um edifício, mas sempre o povo de Deus reunido para o culto. Nele, acontece a presença de Deus tornam-se presentes a glória (kabod) de Deus e a salvação (shalom) do mundo. Israel – e o mesmo pode-se di- zer da Igreja – é o santuário de Deus no meio do mundo e para o mundo. 12. RELAÇÃO COM OS OUTROS POVOS A eleição divina não é um privilégio nem um fim em si mes- ma. Deus elege Israel em vista de uma missão universal: Israel existe para os outros povos e tem uma missão que brota da sua natureza de povo escolhido das nações. Não obstante seu particularismo, Israel não se esquece de que Deus havia feito uma aliança também com Noé e também havia abençoado Ismael, além de Isaac, como igualmente abençoara Esaú, depois de abençoar Jacó (DIANICH; NOCETI, 2007). O particularismo da eleição e o universalismo da missão não se contrapõem na Bíblia; antes, condicionam-se reciprocamente. Em virtude da sua eleição e separação, Israel é o povo santo, e esse dom da santidade é, ao mesmo tempo, uma tarefa enquan- to Israel deve demonstrar-se santo, distinguindo-se dos outros po- vos pelo seu modo de proceder. “Santificar” significa “separar” e implica que os santificados por Deus devem se distinguir e se man- ter distantes de tudo o que não é santo. A distinção dos outros povos é expressa na linguagem dialé- tica da Bíblia como uma rejeição dos não eleitos por parte de Deus (cf. Is 41,9; Sl 78,67) e como ódio: “conforme está escrito: ‘Amei Jacó e odiei a Esaú’” (Rm 9,13; Ml 1,2-3; Gn 25,23). Segregação e serviço O que você leu anteriormente pode o ter levado a pensar que a relação entre Israel e as nações seja somente de contrapo- © Eclesiologia72 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO sição. O Antigo Testamento, no entanto, descreve essa relação de maneira muito mais rica e multifacetada. Ao mesmo tempo em que afirma uma contraposição, o Antigo Testamento não tem pro- blemas em aceitar, também, o contrário: Israel existe para os po- vos – é ordenado a eles. Melhor ainda: a separação dos povos, de fato, é, também, uma separação para eles. A eleição, portanto, não leva a um isolamento, pois, no fundo, a segregação tem em vista um fim superior. Israel é escolhido para uma função e uma tarefa de serviço aos povos. A eleição implica, portanto, um serviço para o qual o eleito deve se mostrar digno. Assim, a glória da eleição é, também, res- ponsabilidade e juízo. “Só a vós eu conheci de todas as famílias da terra, por isso eu vos castigarei por todas as vossas faltas” (Am 3,2). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– O serviço de mediação da salvação para as nações, que Israel é chamado a desempenhar, pode ser descrito sob três aspectos: 1. Israel desempenha o serviço de manifestar e de refletir em si a ação de Javé. Javé age libertando e julgando Israel. Essa ação em Israel acontece diante dos povos aos quais se revelam a glória e o poder divinos. “Os povos conhecerão que eu sou Javé”. Dessa maneira, Israel torna-se para os povos um sinal ilu- minador da ação salvífica de Deus e uma testemunha passiva da realidade de Deus. 2. Israel é, também, o santuário de Deus, por meio do qual Ele está presente entre os povos. Como santuário de Deus, Israel torna-se, ainda, o centro san- tificador, no qual a glória de Deus se concretiza e do qual transborda para toda a terra (Ez 47,1-12). 3. Israel é chamado a ser fonte de bênção para as gentes. Assim o povo de Deus não só recebe, mas também comunica a bênção divina às outras nações. Esse serviço está inserido já na origem de Israel, quando Javé chamou Abraão: “Abençoarei quem te bendizer e amaldiçoarei quem te amaldiçoar. Em ti serão benditas todas as nações da terra” (Gn 12,2). Deus não age somente em e so- bre Israel, mas também mediante Israel. Por isso, mutatis mutandis, vale para Israel o que é dito sobre a Igreja: Israel é o sacramento, o sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– O serviço que Israel deve desempenhar em favor das nações constitui a sua identidade de servo (ebed) escolhido de Javé. Essa identidade implica que Israel colabora ativamente no plano sal- vador de Deus. Ele não é somente um instrumento passivo, mas mediador responsável e livre da salvação. 73© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Israel cumpre seu serviço em favor dos povos mediante duas ações-obrigações: a) Intercessão: como Abraão intercedeu pelos estrangei- ros (Gn 20,7.17), Moisés pediu em favor do Faraó e dos egípcios (Ex 8,4.8) e o servo de Deus intercedeu por mui- tos (Is 53,12); portanto, os Israelitas devem interceder a Deus pelos povos, inclusive pelo país de exílio (Jr 29,7). b) Louvor: o louvor é importante porque nele Israel sai do isolamento, dá razão de sua identidade e cumpre sua missão para a salvação do mundo. “O povo que formei para mim proclamará o meu louvor” (Is 43,21) (cf. Sl 47,2; 66,1.8; 97,1). 13. AO SERVIÇO DO UNIVERSALISMO DA SALVAÇÃO Como você pôde estudar, a eleição de Israel pressupõe, de um lado, o universalismo da salvação e, de outro, exige o serviço. Ao eleger Israel, Javé não rejeita os outros povos; pelo contrário, é exatamente mediante a eleição de Israel que Deus faz valer o seu direito soberano sobre o mundo inteiro. O universalismo da salvação conheceu diversas concretiza- ções históricas. Veja algumas delas: a) Uma delas é a sujeição dos “pagãos” ao domínio de Israel, representado pelo rei davídico: enquanto o “servem”, “in- clinando-se diante dele” e “rendendo-lhe homenagem”, “todos os povos serão nele abençoados” (Sl 72,8-11.17).b) A união com Israel pode se dar por meio da incorporação no povo de Deus. No Êxodo, a confederação das doze tribos não se configurou como uma sociedade fechada e bem delimitada. Para participar dela, as tribos estran- geiras não precisavam ter relações de parentela. Pelo contrário, o que era decisivo era a vontade e a disposi- ção em se submeter ao Deus da aliança. Assim, o povo que surge não é uma entidade natural ligada por laços de sangue, mas uma criação histórico-divina. Os estran- geiros e os escravos circuncidados tornam-se prosélitos © Eclesiologia74 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO e podem participar do serviço divino como membros do povo de Israel. c) A participação conhece também formas mais atenuadas no culto de Israel. É possível que um estrangeiro partici- pe dele sem a plena incorporação. São eles os tementes de Deus. Mesmo o estrangeiro, o que não pertence a Israel, teu povo, se vier de uma terra longínqua por causa de teu Nome – porque ouvirão falar de teu grande Nome, de tua mão forte e de teu braço esten- dido –, se ele vier orar neste Templo, escuta no céu onde resides, atende todos os pedidos do estrangeiro, a fim de que todos os po- vos da terra reconheçam teu Nome e te temam como o faz Israel (1Rs 8,41-43). O universalismo de Israel não se esgota nessas realizações históricas, mas está aberto à promessa de um universalismo esca- tológico. A nova Jerusalém não será somente uma pátria dos isra- elitas e o centro do povo eleito, mas, enquanto cidade aberta (Is 60,5s; Ap 21,24) e centro do mundo, será, também, o centro e o ponto de referência da humanidade, dos povos e das nações. “To- das as nossas fontes estão em ti” (Sl 87,3). 14. SOLIDARIEDADE ENTRE INDIVÍDUO E COLETIVI- DADE Israel não é uma mera reunião de indivíduos, mas uma comu- nidade. É evidente que o acento principal é dado ao caráter social do povo, mas o indivíduo continua a conservar os seus direitos. Mais do que isso: a ele é comunicada uma nova dignidade: além da responsabilidade pessoal, torna-se responsável pelo povo. No Antigo e no Novo Testamentos, indivíduo e coletividade relacionam-se e articulam-se de maneira muito diferente ao que estamos acostumados: individualidade não significa individualis- mo. De fato, principalmente no Antigo Testamento, não existe vida nem verdadeira humanidade sem a comunidade. 75© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja A comunidade de vida torna-se solidariedade (hesed: amor fiel e leal) graças à comunidade que sustenta o indivíduo, e o in- divíduo é responsável pela comunidade, estabelecendo-se, assim, uma comunidade de destino. A solidariedade entre indivíduo e comunidade configura-se como: • solidariedade horizontal: o Israelita está ligado aos “ir- mãos” que vivem contemporaneamente com ele; • solidariedade vertical: o indivíduo reconhece-se depen- dente, no seu ser e no seu agir, das gerações precedentes e responsável em relação àquelas que se seguirão; solidá- rio, portanto, com os pais e com seus filhos. Essa solidariedade (horizontal e vertical) exprime-se de ma- neira muito significativa na liturgia. Ao longo das gerações, a cada “hoje” do seu serviço religioso, o Israelita celebra o que Javé fez por ele, da mesma maneira como o realizou em favor dos pais. “Naquele dia, assim falarás a teu filho: Eis o que Javé fez por mim, quando saí do Egito” (Ex 13,8). O que aconteceu aos pais conserva a sua importância para o indivíduo que vive no presente. Mas o que acontece hic et nunc (aqui e agora) ao indivíduo é também importante para a ekklesia. Papéis do indivíduo e solidariedade orgânica Personalidade corporativa A sociedade só se realiza e só existe a partir de seus mem- bros. Uma vez que ela é mais do que a soma acidental de seus membros, deve-se reconhecer, também, que ela vive, sobretudo, nos seus melhores membros. Personalidade corporativa significa duas coisas: • A comunidade pode ser considerada como uma corpora- ção ou um corpo que se apresenta e age como um grande eu. © Eclesiologia76 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO • Um indivíduo pode representar a comunidade de tal modo que ela possa ser personificada e realizada no seu representante. A personalidade corporativa é um indiví- duo que representa a comunidade e usa o “eu” para falar em nome dela. Por exemplo: quem diz “eu” nos Salmos pode ser tanto Israel quanto um indivíduo. Somente o contexto pode ajudar a estabe- lecer qual dos dois predomina no pensamento e na linguagem do salmista. Em muitos casos, o “eu” dos Salmos é um indivíduo (so- bretudo o rei) que representa e personifica o povo. O Servo de Deus dos cantos do Deutero-Isaías é um caso muito significativo de concentração da esperança escatológica. A missão universal de Israel de ser luz das nações concentrou-se, inicialmente, a um “resto santo” até convergir em um só indivíduo. O servo é, pois, contemporaneamente, o Israel ideal e um indiví- duo que representa toda a comunidade e que cumpre a missão do povo. O mesmo pode-se dizer do Filho do Homem (Dn 7), que vem do céu. Como figura representativa dos santos do Altíssimo, ele é a personificação simbólica de uma coletividade. Na apocalíptica sucessiva do Antigo Testamento, porém, o Filho do Homem tor- nou-se uma figura individual concreta. É evidente a importância da personalidade corporativa para a Eclesiologia do Novo Testamento. Nele, Jesus é o portador das promessas (Gl 3,16) e o realizador definitivo da dignidade e da mis- são real, profética e sacerdotal do povo de Deus. Riqueza de símbolos matrimoniais, no Antigo Testamento, para exprimir o amor de Deus ao seu povo –––– O povo de Israel apóia a sua relação com Deus e o seu conhecimento dEle na experiência do seu amor. Deus o chamou dentre os outros povos para ser o seu povo e concluiu com ele uma aliança eterna (cf. Lv 26,11-12; Ex 29,44-45). Esta consciência permeia cada texto do Antigo Testamento, constitui o próprio fundamento da sua história. Com efeito, Israel experimenta um Deus próximo de si, que o liberta, o salva, o instrui, o conduz, um Deus que o escolheu e se lhe 77© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja revelou, prometendo a sua presença operante no meio dos israelitas. Tanto no tempo dos patriarcas como na aliança do Sinai, Deus promete estabele- cer a sua morada entre os israelitas, caminhar com eles e ser o seu Deus. Também ao revelar o seu nome, indica esta realidade; de fato, “Eu sou aquele que é” significa uma existência sempre presente e eficaz, implica uma presença contínua e ativa com eles e para eles. É essa presença que faz Israel ser de um modo particular “povo de Deus”. Através das vicissitudes históricas a que Israel vai ao encontro com o exílio e a sucessiva libertação tão esperada, invocada, aguardada, compreende-se que a presença de Iahweh no seu povo é uma relação vital, um relacionamento dialó- gico, pessoal. Nos profetas, esta realidade é expressa através de imagens de amor esponsal. Nelas Israel é comparado à virgem (às vezes à cidade, à vinha), ou então à es- posa, à mãe. Os símbolos se sucedem e se entrelaçam, sugerindo cambiantes sempre mais ricos desse amor. A linguagem simbólica é muito usada na Escritura, do Antigo ao Novo Testamen- to, e até mesmo podemos dizer que se mostra eficaz justamente onde a lingua- gem normal seria insuficiente para traduzir toda a realidade. Em nossos dias este pensar por imagens vem sendo sempre mais revalorizado e reconhecido [...] como uma legítima forma de compreender o que é, como uma categoria dada pela revelação e por isso verdadeiramente teológica (MAGNOL- FI, M. A Igreja, esposa de Cristo. In: A Igreja no seu mistério. São Paulo: Cidade Nova, 1984, p. 128-149). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Foi-se firmando, então, a convicção de que a revelação não pode ser separada daquela forma de pensamento em que apare- ceu e que, por isso, se trata de reconquistar essasua linguagem e de deixar que ela nos fale para melhor compreender o que a Bíblia quer transmitir-nos. Veremos, em uma sequência de textos, a riqueza de signi- ficado contida nessa relação esponsal entre Deus e o seu povo, e quanto o Novo Testamento a ela se liga. Leituras complementares –––––––––––––––––––––––––––––– 1) Israel amado qual esposa pelo seu Deus, independentemente de qual- quer infidelidade sua No povo de Israel, pesa cada vez mais forte a consciência da própria infidelidade à aliança estipulada com Deus, de tal forma a se chegar a temer que as promes- sas de Deus não se realizem. Esse abandono de Iahweh assume a gravidade de uma traição conjugal. O infiel e culpado Israel não pode esperar outro tratamento que o reservado à mulher adúltera, feita prostituta. © Eclesiologia78 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Os profetas falam disso com insistência. Em Ezequiel, por exemplo, Deus dirige- se com palavras candentes a Israel, que, como virgem deslembrada dos bene- fícios recebidos, o abandonou (cf. Ez 16); ou, então, em Oséias, com particular força Ele o acusa e desmascara diante dos filhos, dizendo: “Processai a vossa mãe, processai. Porque ela não é a minha esposa, e eu não sou o seu esposo. Que ela afaste do seu rosto as suas prostituições e de entre os seios os seus adultérios. Ela não reconheceu que era eu quem lhe dava o trigo, o mosto e o óleo, que lhe multiplicava a prata e o ouro que usava para Baal! Por isso retomarei o meu trigo a seu tempo e o meu mosto na sua estação, retirarei a minha lã e o meu linho que cobriam a sua nudez. Farei delas um matagal, e os animais selvagens a devorarão” (Os 2,4.10.11.14). Os símbolos da esposa, da terra e da cidade entrelaçam-se, tornando mais clara a identificação da esposa com o povo e sublinhando na esterilidade o sinal da retirada da bênção e do favor de Deus. Em Ezequiel, cap. 16, Deus traça toda a história da jovenzinha Israel, conta como a vê abandonada por todos, socorrendo-a apenas nascida, fazendo-a crescer e, na sua juventude, sela com ela uma aliança, tornando-a sua. Israel, porém, não lhe permanece fiel, e então Deus o recrimina: “Puseste a tua confiança na tua beleza e, segura de tua fama, te prostituíste, prodigalizando as tuas prostituições a todos os que apareciam” (Ez 16,15), e a lista das culpas continua num suceder-se carregado de amargura e indignação. Deus, qual esposo traído, ameaça-o com as piores punições. O pecado de Israel amplia-se numa dimensão vastíssima, quase como símbolo de todos os peca- dos; mas justamente quanto a invectiva chega ao auge, acontece uma coisa imprevisível: Deus apieda-se e, lembrando-se da aliança dos dias da juventude, conclui com ele uma aliança eterna. Promete-lhe: “Lembrar-me-ei da aliança que fiz contigo na tua juventude e estabelecerei con- tigo uma aliança eterna. E tu te lembrarás do teu comportamento e ficarás en- vergonhada [...]; serei eu que restabelecerei a minha aliança contigo e saberás que eu sou Iahweh, a fim de que te lembres e te cubras de vergonha, e na tua humilhação já não tenhas disposição de falar, quando eu tiver perdoado tudo quanto fizeste” (Ez 16,60-62). É o perdão gratuito da parte de Deus, acima de todo mérito. Com os profetas descortina-se, assim, uma nova dimensão do amor de Deus, uma dimensão que pode parecer paradoxal, além de toda lógica humana. Em Ezequiel, com efeito, notamos que a vergonha da esposa se torna sem mais a própria vergonha de Deus. Ele não pode tolerá-la e no seu amor chega até o ponto de assumi-la sobre Si e cancelá-la. Da mesma forma em Oséias, aquela ordem dada ao profeta de ir a uma prosti- tuta, desposá-la e, com ela, gerar filhos (cf. Os 1-3) é um símbolo da atitude de Deus. Deus quer dar às suas relações com o povo uma evidência inaudita, quer mostrar que cultiva com o seu povo uma autêntica relação de amor. Ele, embora humilhado pela traição da esposa e enérgico ao desmascarar-lhe os seus peca- dos, não pode deixar de intervir. “Por isso,” – lemos em Oséias – “eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração. Dali lhe restituirei as suas vinhas, e o vale de Acor será uma porta de esperança. Ali ela responderá como nos dias de sua juventu- de, como no dia em que subiu do país do Egito. Acontecerá, naquele dia, – orá- 79© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja culo de Iahweh – que me chamarás ‘Meu marido’ e não mais me chamarás ‘Meu Baal’. Eu te desposarei a mim para sempre, eu te desposarei a mim na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu te desposarei a mim na fidelidade e conhe- cerás a Iahweh. Eu a semearei para mim no país, amarei a Lo-Ruhamah e direi a Lo-Ammi: ‘Tu és meu povo’, e ele dirá: ‘Meu Deus’” (Os 2,16-18.21-22.25). Era compreensível que a esposa prostituída devesse ser rejeitada e só fosse me- recedora de punições; porém, o amor de Deus abaixa-se, a fim de a reconquistar para Si. Assim Deus, ao retomá-la para Si, ao justificá-la, ao mudar o negativo em positivo o nome dos seus filhos, revela a íntima qualidade do seu amor. Por isso, Israel volta a esperar e, durante o exílio, na maior humilhação, pode, todavia, sentir iminente o tempo da consolação. Os profetas continuam a expressar-se recorrendo à simbologia esponsal. “Não temas, porque não tornarás a ficar envergonhada; não te sintas humilhada, porque não ficarás confundida. Com efeito, hás de esquecer a condição vergo- nhosa da tua mocidade, não tornarás a lembrar o opróbrio da tua viuvez, porque o teu esposo será o teu criador, Iahweh dos Exércitos é o seu nome. O Santo de Israel é teu redentor. Ele se chama o Deus de toda a terra. Como a uma esposa abandonada e acabrunhada, Iahweh te chamou; como à mulher da tua mocidade – poderia ser ela repudiada? – diz o teu Deus. Por um pouco de tempo te aban- donei, mas agora com grande compaixão torno a recolher-te. Em um momento de cólera, escondi de ti o meu rosto, mas logo me compadeci de ti, levado por um amor eterno, diz Iahweh, o teu redentor” (Is 54,4-8). Com o estado de sofrimento, é tirada de Israel a vergonha (sofrimento e vergo- nha em Israel como no mundo circunvizinho eram considerados como o aspecto interior e exterior de um mesmo fenômeno, pois indicam o retirar-se de Deus, o seu distanciar-se). O fato de Deus chamar novamente para Si a esposa provoca uma virada em dire- ção à salvação. A mulher abandonada é recolhida, tem novamente um marido; o estado de solidão e de vergonha passou, a abandonada reencontrou a felicidade e a honra da mulher casada. Os versículos 7 e 8 são um cume: a virada se verificou junto a Deus, em Deus mesmo e por isto tudo se transforma; Ele se dirige novamente a Israel, demons- trando-lhe a sua misericórdia e estreitando-o a Si numa aliança definitiva. 2) Beleza da esposa e sua fecundidade O perdão, a imprevisível resposta de fidelidade à infidelidade de Israel, este amor de Iahweh-Esposo, que chega ao ponto de assumir sobre Si a vergonha da es- posa, provoca principalmente dois efeitos, o de restituir-lhe a antiga beleza e revestir ainda a esposa daquele esplendor de que a tinha adornado o seu Criador (cf. Ez 16,8-14) e de torná-la fecunda de uma forma excepcional. A beleza de agora, que se contrapõe à anterior desolação, é o sinal da realidade do amor do seu Deus e do seu perdão. A essa cidade-esposa é anunciada uma vida nova, um esplendor que deriva de uma vida de união com o seu Esposo. Lê-se em Is 62,2-5: “Receberás um nome novo, que a boca de Iahweh enunciará. Serás uma coroa gloriosa nas mãos de Iahweh, um turbante real na palma do teu Deus. Já não te chamarão ‘Abandonada’, nem chamarão à tua terra ‘Desolação’. Antes, serás chamada ‘Meu prazer’, e à tua terra, ‘Desposada’. Com efeito, Iahweh terá pra- zer em ti e se desposará com a tua terra. Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, tal será a alegria que o teu Deus sentirá em ti”. © Eclesiologia80 Claretiano - REDE DEEDUCAÇÃO O momento em que o marido dá o novo nome à mulher designa o acontecimento das núpcias; o nome que agora a esposa recebe é “a minha amada”, “a minha predileta”. Toda a descrição de Isaías enaltece a beleza: “Serás uma coroa gloriosa”. Jeru- salém, a cidade-esposa, aparece vestida magnificamente, e também este é um sinal que faz honra ao Esposo, a categoria do belo liga-se intimamente à relação com Deus. Assim, a alegria vem da plenitude do dom. O efeito visível, portanto, dessa nova relação esponsal encontra-se justamente na beleza e na nova fecundidade que milagrosamente se realiza: “Antes de sentir as dores de parto ela deu à luz, antes de lhe sobrevirem as con- torções, ela pôs no mundo um menino! Por acaso um país pode nascer em um dia? Pode unia nação ser gerada de uma só vez?” (Is 66,7-8). Não mais desilusão, não mais esterilidade: “Entoa alegre canto, ó estéril, que não deste à luz, porque mais numerosos são os filhos da Abandonada do que os filhos de uma esposa, diz Iahweh” (Is 54,1). O antigo lamento da mulher estéril é transferido a uma coletividade. O convite ao júbilo devia ressoar como um duro paradoxo para os ouvintes; o termo “estéril” faz pensar em alguma coisa que se apaga sem possibilidade de retorno à vida. Como se podia convidar à alegria uma estéril? Mas o autor pretende justamente provocar esse estupor, porque precisa anunciar algo de inaudito, de absoluta- mente incrível: a promessa divina à estéril que terá muitos filhos. Ligada à fecundidade, aparece ainda a descrição da reencontrada beleza: “O aflita, batida de tempestades, desconsolada, certamente vou revestir de car- búnculo as tuas pedras, vou estabelecer os teus alicerces sobre a safira. Farei de rubi as tuas ameias e de berilo as tuas portas, de pedras preciosas todas as tuas muralhas” (Is 54,11-12). É surpreendente como nesta imagem não são a grandeza, nem a segurança ou a estabilidade que têm uma parte importante, mas o esplendor luminoso das cons- truções. Lembra a descrição da nova Jerusalém do Apocalipse (cf. Ap 21,9-23). Essa cidade, na sua beleza, faz honra ao Esposo, ao seu Construtor. As pedras preciosas revestem-na quase a modo de veste nupcial, e o seu esplendor reflete diretamente a majestade de Deus. Agora, finalmente, Israel é digno do seu Deus; Ele mesmo o fez belo e ele agora pode ir-lhe ao encontro como virgem adornada para o Esposo. Os traços de infidelidade desapareceram, a virgem esposa demonstra-se capaz de responder com o mesmo amor. É esse o conteúdo do Cântico dos Cânticos, tão caro aos Padres da Igreja para exprimir a relação esponsal entre a alma e Deus. O motivo é retomado ainda nos Salmos. Particularmente significativo é o Salmo 45, interpretado, já na mais antiga tradição, em chave messiânica. Nele, a descrição da figura do Esposo, revestido de toda beleza, tanto física como interiormente, com as características mais excelsas para um rei, segue a apresentação igualmente solene e majestosa da esposa. Todas as imagens usadas são ricas de significado e expressão. Diz-se, por exem- plo, que os lábios do soberano estão cheios de “graça”; essa “graça” é, antes de tudo, uma qualidade estético-moral, porque é derramada por Deus e transforma- se naquela “graça” que torna o eleito “gracioso” junto aos homens e aos olhos de Deus. Diz-se, ainda, que lhe pertencem “esplendor e majestade”: essas duas palavras são geralmente usadas para revelar qualidades divinas; são como que 81© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja o manto de luz com que Deus se envolve quando aparece ao homem, como em muitos Salmos (cf. Sl 145,5.12; 21,6; 96,6; 104,1; 111,3). Basta essa nota para evocar que tal beleza é um revérbero do esplendor de Deus. Também a carta aos hebreus definirá o Cristo como “resplendor da glória divina” (1,3), pelo que se compreende a aplicação cristológica, feita pela patrística, des- sa beleza do protagonista do Salmo 45. A esposa igualmente é “toda esplendor”, ornada de uma luz semelhante àquela que acompanha a glória divina. Ela, com efeito, é filha de rei e esposa de rei e é, agora, irradiação de esplendor em meio ao cortejo nupcial. Essa beleza tem seu paralelo na simbologia da veste, expressa por aquele seu traje todo tecido de ouro. Não devemos esquecer que o vestido de cerimônia é, em todas as culturas, sinal de uma realidade mais profunda (confrontar a pará- bola dos convidados ao banquete em Mt 22,2). Uma descrição desse tipo voltará no Apocalipse: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro, e sua mulher já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente” (Ap 19,7-8). Compreende-se, assim, como o Salmo 45 tenha sido referido a Cristo e à Igreja. 3) O Messias-Esposo: Jesus, nos evangelhos, é reconhecido e saudado como o Esposo já presente Vimos quão rica era para Israel a imagem da relação esponsal para exprimir o amor de Deus ao seu povo. Tudo isso devemos ter em mente ao abeirar-nos do Novo Testamento. Nele, de fato, imagens explícitas ou também referências implícitas a essa simbo- logia são capazes de evocar justamente aquele amor gratuito de Deus-Esposo, que vai ao encontro da esposa e a ama até o ponto de tomar sobre si a vergonha e transformá-la em plenitude, beleza e fecundidade. Assim, a imagem das núpcias destina-se a designar a era da salvação, do ad- vento do Messias; e o próprio Jesus qualifica-se como Esposo, como o Esposo já presente. a) Nos sinóticos Aos discípulos de João que lhe perguntam: “Por que razão nós e os fariseus je- juamos, enquanto os teus discípulos não jejuam?”, Jesus responde: “Por acaso podem os amigos do noivo estar de luto, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, quando o noivo lhes será tirado; então sim jejuarão” (Mt 9,14-15). O termo “esposo” ou “noivo”, que, no entanto, não é o modo mais corrente de denominar o Messias, não é aqui apenas uma comparação; já é uma autodesig- nação de Jesus. Jesus não avança a pretensão pública de ser o Messias, mas subentende-a e a sua proposta dirige-se àqueles que têm ouvidos para ouvir. A característica de esposo evidencia o fato de Jesus cumprir mais precisamen- te o papel reservado a Deus na união matrimonial. Nos oráculos dos profetas, de fato, o nome de esposo dava-se àquele que viria restaurar Israel; por isso, atribuindo-se esse título, Jesus deixa entender que ele realiza o que fora dito a respeito da ação divina. O Esposo é Ele. © Eclesiologia82 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Os seus discípulos são os convidados ao banquete nupcial, porque, com a ati- vidade de Jesus, teve início o tempo messiânico. Eis porque os convidados ao banquete nupcial não podem jejuar: jejum e festa excluem-se entre si. Os discí- pulos de Jesus são aqui, não apenas – como para João Batista ou os fariseus – aquele núcleo embrionário da nova comunidade de Deus que um dia deve vir; eles são já essa comunidade que se iniciou. Por isso, há alegria nupcial e tempo de alegria. A alegria é um elemento essencial da mensagem de Jesus, e o jejum, como sinal de medo e de luto, desaparece. Jesus, portanto, desempenha o papel de Esposo e inaugura o tempo da salvação messiânica, mas, no horizonte, esboça-se o destino doloroso do Messias, que será lacerado de modo violento como o Servo de Iahweh. Na imagem do Esposo, delineia-se, ao lado da alegria, o componente do sofrimento. “Dias virão, quando o noivo lhes será tirado”. Essas palavras podem ser conside- radas como uma predição da Paixão. E como se pode conciliar o arrebatamento do esposo com a união matrimonial? O afastamento do esposo pertence ainda ao acontecimento das núpcias. Confor- me o costume judaico das núpcias, os amigos do esposo retiram-se, deixando-o a sós com a esposa. Aqui é o esposo que vem afastado; porém, a violência que lhe é imposta não invalida a intenção de tender para a consumação das núpcias. No caso de Jesus, elas se consumam por meio de um sacrifício. No Antigo Testamento, o sofrimentodo povo provinha do afastamento voluntário do esposo; ao contrário, a dor dos discípulos derivará do arrebatamento do Espo- so e terá um significado bem diferente, já que esse arrebatamento não constitui uma suspensão das núpcias e, sim, a sua consumação. Noutras passagens, Jesus compara o Reino dos céus a um banquete organizado por um rei para o casamento do filho (cf. Mt 22,2), ou, então, das virgens saindo ao encontro do esposo que chega (cf. Mt 25,1-13), ou a servos que esperam seu senhor voltar das núpcias (cf. Lc 12,36). Nesses textos, é interessante notar a ausência da esposa. Jesus fala no esposo em forma absoluta. Contrariamente ao Antigo Testamento, que se fixava no comporta- mento da esposa, o olhar concentra-se agora todo sobre Jesus. Nos evangelhos, de fato, a grande novidade é Jesus; é Ele agora em Si mesmo o resto de Israel, o Primogênito do novo povo, o Deus-conosco, o Reino tornado próximo e já no meio de nós; e a Igreja é todo um converter-se a Ele, um pôr-se em seu seguimento. O fato de Jesus afirmar-se Esposo sem aludir à esposa contém um significado mais total, tendo em vista que sugere que toda a união matrimonial se efetua na pessoa de Jesus. Como Jesus não é uma das duas partes que contraem a aliança, mas é Ele próprio a Aliança, que une em Si Iahweh e o povo, não é apenas um esposo na presença de uma esposa; é o Esposo por excelência. Na parábola das dez virgens, a vinda do esposo é sinal do Reino já presente, com uma tonalidade escatológica de encontro final decisivo. Nos preparativos do banquete de casamento, o acento recai nos convivas: acen- tua-se aquele “ir à sua procura”, a sua rejeição, o novo convite estendido a todos e, finalmente, a presença do convidado sem a veste nupcial. No contexto da pa- rábola dos trabalhadores da vinha, a recusa dos convidados ao banquete ressoa com uma gravidade ainda maior. 83© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Também se alude aqui a um aspecto de sofrimento: o esposo será rejeitado, hostilizado. Ao se refletir, portanto, sobre a apresentação que Jesus faz de Si próprio como esposo, é preciso reconhecer que Ele aparece como Esposo de maneira ainda mais profunda de quanto se dizia do Antigo Testamento. Na antiga aliança, a ausência do esposo era sinal da cólera divina; agora, essa ausência será o sinal de um amor mais pleno, que toma o caminho do sacrifício. A realização das núpcias dá-se no momento da Paixão, quando o amor se abre a uma inesperada riqueza e amplidão de matizes. b) Em João O evangelho de João também é permeado dessa simbologia esponsal. As palavras do Batista são uma afirmação belíssima e talvez o reconhecimento mais explícito disso: “Quem tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do esposo. Essa é a minha alegria e ela é completa! É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,29-30). O Batista cede o lugar a Jesus, o Esposo legítimo. Antes, em 1, 27, tinha dito: “aquele do qual não sou digno de desatar a correia da sandália”. Alonso-Schokel estudando a fundo essa simbologia, reconhece aqui uma alusão à lei do goelato: o “goel”, no direito matrimonial hebraico, é aquele parente mais próximo que tem o dever de tomar para si como esposa a mulher tornada viúva. O termo hebraico, difícil de traduzir, aparece vertido por “resgatador”, “redentor” (cf. Is 54,8). João Batista, ao se apequenar, reconhece a Jesus esse direito. Ele deve ser reconhecido e acolhido como Esposo. Nessa perspectiva, pode-se considerar, também, a presença de Jesus nas bodas de Caná. Aquele primeiro milagre, que tem por finalidade salvar a festa de casa- mento e emprestar-lhe um significado novo por meio de um vinho melhor, reveste um valor simbólico. Na narrativa, permanecem na sombra os esposos festeja- dos, enquanto, no primeiro plano, se encontram Jesus, sua mãe e os discípulos: pode-se ver aqui a alusão a Jesus como o verdadeiro Esposo. Todavia, isso não seria suficiente de per si para justificar a atribuição do título de Esposo a Jesus. O evangelho de João está repleto dessa simbologia esponsal que transparece no renascer de Nicodemos, do alto (cf. Jo 3,3), na unção de Betânia (cf. Jo 12,1-8) e, também, na procura de Madalena logo depois do sepultamento de Jesus (cf. Jo 20,11-18). Muitos trechos dessas duas últimas cenas evocam o Cântico dos Cânticos. Os perfumes, a voz e a procura são tomados da simbologia esponsal; embora em forma velada, também nesses textos Jesus é visto como o Esposo. Começa, agora, a delinear-se, também, a esposa. Aquela esposa que se man- tinha ausente, não nomeada nem descrita, que, na parábola dos convidados ao banquete, Agostinho divisa entre os comensais, que um leitor perito do Antigo Testamento pode reconhecer na comunidade, tende agora a identificar-se com uma pessoa, na resposta de quem experimentou a salvação, de quem se sente atingido pelo amor e salvo. © Eclesiologia84 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Nos símbolos matrimoniais usados no Antigo Testamento, vimos como se passa com facilidade da esposa para a cidade, para a terra, para imagens de fertilidade. Uma densidade simbólico-esponsal pode ser reconhecida, também, nas parábo- las de Jesus: “Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não mor- rer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). O ponto de passagem é a morte, é uma alusão à Paixão e ao seu fruto. Escreve Casel: “O verdadeiro momento das bodas, portanto, é a cruz. A morte do Esposo na cruz assinala o momento em que se preparou para Si a sua Esposa, no momento em que a fez sua Esposa, a santificou e a purificou” (CASEL, Mis- terio de la Ekklesia, p. 112 ). “Porque a Esposa se encontrava infinitamente abaixo dEle, baixou-se até ela, fez-se igual a ela, envergou suas vestiduras. Como ela havia caído em peca- do, chegou a revestir-se com a vestidura do corpo humano, que por ela cravou na cruz, e assim a renovou, até devolver-lhe seu esplendor original. Tornou-se desta maneira seu ‘esposo de sangue’ (cf. Ex 4,25). Com sua morte eliminou o impedimento que se opunha às suas núpcias”. (CASEL, Misterio de la Ekklesia, p. 111 ). No momento da Paixão, Jesus torna-se a síntese de todos os amores. Depois de ter cancelado todas as manchas do pecado, puderam fluir do seu cor- po já glorificado “rios de água viva” (Jo 7,38); e isso Ele dissera do Espírito que os que nele cressem deviam receber (cf. Jo 7,39). “Assim, pois, Cristo criou para si a Esposa e ao mesmo tempo se desposou com ela, quando lhe comunicou sua vida, a vida nova de Deus, que brotou de sua morte. O presente de núpcias que o Esposo celestial ofereceu à sua Igreja é, pois, o Espírito Santo” (CASEL, Misterio de la Ekklesia, p. 93). 4) A esposa de Cristo O fato de Jesus identificar-se como o Esposo sublinha no seu amor o aspecto de doação, de íntima compenetração que tende a fazer de dois uma só coisa. Dou- tra parte, reconhecer a Igreja como Esposa é vê-la primariamente como aquele “tu” que se encontra diante do Cristo-Esposo, em um mistério de distinção e de unidade com Ele. Paulo fornece-nos uma reflexão teológica particularmente rica para fazer-nos en- trar nessa compreensão do mistério da Igreja. Sucessivamente poremos em relevo tudo o que aparece no Apocalipse a respei- to da relação Esposo-Esposa. a) Em Paulo Queremos deter-nos na passagem fundamental da carta aos efésios, em 5,21- 33. Com particular eficácia e densidade, Paulo faz uso ali da imagem Esposo- Esposa para tipificar a relação Cristo-Igreja, entrelaçando em uma trama original aquilo que representa uma instrução sobre as relações conjugais entre marido e mulher e a reflexão sobre o mistério de Cristo e da Igreja. Nele, o comportamento do marido em relação à mulher e vice-versa vem sempre ligado à relação de amor de Cristo pela Igreja. Lê-se: “As mulheres estejam sujeitas aos seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça daIgreja e o salvador do 85© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas aos seus maridos. E vós, maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santi- ficá-la pela Palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível”. E, voltando à imagem do corpo, também de Cristo cabeça do corpo, como é típi- co das cartas aos colossenses e aos efésios (cf. Cl 1,18; Ef 1,22), prossegue: “Assim também os maridos devem amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo, pois ninguém ja- mais quis mal à sua própria carne, antes alimenta-a e dela cuida, como também faz Cristo com a Igreja, porque somos membros do seu corpo. Por isso deixará o homem o seu pai e a sua mãe e se ligará à sua mulher, e serão ambos uma só carne. É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja”. “Esta analogia esponsal” – escreve João Paulo II –, “ao menos até certo grau, esclarece o mistério. Mesmo parecendo que seja complementar àquela de corpo místico para explicar o mistério da relação de Cristo com a Igreja”. Todavia, se essa analogia ilumina o mistério, ela mesma, por sua vez, vem ilumi- nada por aquele mistério. O doar-se de Cristo ao Pai por meio da obediência até a morte da cruz adquire aqui um sentido estritamente eclesiológico: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Nessa expressão (que contém o auge do despojamento de Jesus, cf. Fl 2,8), o amor redentor transforma-se em amor esponsal. Cristo, doando-se à Igreja, uniu- se, com o mesmo ato redentor de uma vez por todas, com Ela, como o esposo com a esposa, como o marido com a mulher, dando-se por meio de tudo o que uma vez por todas está incluído naquele seu “dar-se a si mesmo” pela Igreja. Dessa maneira, o mistério da redenção do corpo esconde em si, em certo senti- do, o mistério das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,17). Já que Cristo é cabeça do corpo, todo o dom da redenção penetra a Igreja como o corpo daquela cabeça e forma continuamente a mais profunda, essencial substância da sua vida. Forma-a de maneira esponsal, visto que, no texto citado, a analogia da cabeça- corpo passa pela analogia esposo-esposa. No texto citado de Paulo, chama atenção a alternância de imagens que subli- nham a unidade do Cristo com a Igreja e imagens que lhe sublinham a relação dialógica. Cristo e a Igreja são “um”, enquanto o Cristo não é algo independente ao lado da Igreja, seu corpo; todavia, são também dois. O “dois”, como adverte Santo Agos- tinho (cf. In Ps 142,5), refere-se à grande diferença de altura; Cristo e a Igreja são “um” sem mesclar-se, e “dois” sem separar-se. Este ser “dois-um” é denominado pelos Padres “participação”: é um vital estar um no outro e um estar um com o outro – daquele que dá e daquele que recebe – no ser mesmo daquele que dá; é íntima relação, é o tornar-se um da Igreja que participa e de Cristo que a chama a participar. Mas permanece a distinção. Num recente trabalho, R. Penna distingue, também, noutras passagens da carta aos efésios, essa tensão temática entre o um e os muitos – quando, por exemplo, Paulo fala da unidade em Cristo de hebreus e pagãos no único Homem-Novo (cf. Ef 2,15-16). Distinção e unidade alternam-se. Como compreender essa distinção da Igreja? © Eclesiologia86 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO A Igreja, com efeito, nunca é vista sozinha em Paulo. “Ela recebe todo o seu ser, a sua vitalidade do Ressuscitado, com o qual somente forma como que uma pessoa mística”. É real que Ele a faz “uma” consigo (uma só carne, cf. Ef 5,31); a Igreja, em con- trapartida, é distinta dEle para poder participar da unidade. Portanto, a Igreja está também diante de Cristo, em uma espécie de personalida- de própria e precisamente como sua Noiva e Esposa. Noutra passagem, Paulo diz sem rodeios: “Experimento por vós um zelo semelhante ao de Deus. Desposei-vos a um espo- so único, a Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura” (2Cor 11,2). A relação esponsal compreende em si uma mútua compenetração (cf. 1Cor 6,17): é ali que desemboca na unidade. A Igreja, com efeito, seria bem pouca coisa se consistisse apenas no estar diante de Cristo, objeto do seu amor, mas de um modo puramente passivo e desligado. Ela não é apenas de Cristo (ou então ao lado, diante, paralela ou subjacente a Ele) – muito mais do que isso: ela é Ele, ou, o que é a mesma coisa, Ele está nela. (concorda com a alteração?) Escreve von Balthasar: “A esposa, que nasce do costado do novo Adão, é ao mesmo tempo o seu corpo; é simultaneamente um (com Cristo) e outro (diante dEle), numa dependência e liberdade que não pode encontrar qualquer analogia simplesmente criada, mas somente a trinitária”. É a essa vertiginosa altura que Cristo leva a sua relação com a Igreja. “É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja”, diz Paulo (Ef 5,32). O grande mistério é justamente essa comunhão feita de íntima doação total, na qual a iniciativa cabe a Cristo, e a Igreja, beneficiando-se dessa graça que toda inteira a regenera, responde. As núpcias realizaram-se, não precisando ser celebradas em um futuro escatoló- gico, como se a relação atual Cristo-Igreja estivesse apenas em nível de noivado: já hoje se trata de um matrimônio consumado. No presente, ele vem ritualizado continuamente no banho do batismo. O amor esponsal de Cristo, assim, dirige-se à Igreja toda vez que uma pessoa recebe o batismo, e ela, justamente em virtude do amor redentivo do Cristo, com o batis- mo, torna-se participante do seu amor esponsal. O objetivo da doação de Cristo é apresentar a si a Igreja gloriosa, santa e irre- preensível, sem mancha nem ruga. Dessa vez, é o próprio Jesus que apresenta a esposa a si, sem outros intermediários, e a beleza dela é um reflexo do amor do Esposo. Em Paulo, o velho homem significa o homem do pecado (cf. Rm 6,6); assim, os defeitos do corpo aludem a defeitos morais. Cristo, pois, com o seu amor redentor e esponsal, faz com que a Igreja se torne sem pecado e permaneça eternamente jovem. O batismo, porém, é apenas o início do qual deverá emergir a figura dela – a Igreja gloriosa na progressiva obtenção da sua completa e fúlgida beleza. A comunhão com o Esposo é dinâmica e contínua: ao amor de iniciativa de Deus deve responder o amor da Igreja; de outra maneira, seria um amor sem retorno, sem reciprocidade; e ela pode ser fiel graças ao Cristo glorificado, que a anima e continua a animá-la com o seu Espírito nos séculos, sem esmorecer. 87© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Ele é Esposo e dEle a Igreja recebe toda a própria fecundidade, livrando-se sem- pre, unida a Ele, de todo possível motivo de esterilidade. b) No Apocalipse Passando em revista, o significado que contém em si a afirmação da Igreja como Esposa, a atribuição a ela dessa imagem, não podemos transcurar o Apocalipse. Esse livro é, às vezes, de uma compreensão não imediata, por causa da abun- dância e do entrançamento dos símbolos com que se exprime. Importante é notar que ele não só se dirige à Igreja (como também acontecia com as cartas de Paulo), mas também parece destinado a ser lido, ouvido e interpretado na assembleia litúrgica, de maneira que é justamente no vivo da assembleia, nesse terreno, que a revelação é compreendida e se torna vital para os ouvintes. O contexto eclesial resulta, assim, sempre presente; é a Igreja, como assembleia reunida em nome de Jesus, que fica iluminada e compreende melhor o mistério de Jesus e de si própria. Jesus aparece, dessa forma, como o Cordeiro-Esposo. Nos Sinóticos, nós o ve- mos e o reconhecemos como Esposo; agora, e como primeira imagem, como Cordeiro. É Ele o único capaz, aproximando-se do trono de Deus, de tomar na mão o livro selado comsete selos e abri-lo. Só Ele será capaz de lê-lo, de re- velar-lhe e realizar-lhe dinamicamente o conteúdo. O livro é o projeto de Deus sobre a criação, sobre o mundo. Em 5,6, é a primeira vez que deparamos com essa imagem de Cristo-Cordeiro e vale a pena analisá-la detalhadamente. Com efeito, no Apocalipse há uma extraordinária riqueza de imagens que se acu- mulam e devem ser compreendidas aos poucos, uma de cada vez. Cada trecho simbólico deve ser decifrado e, por assim dizer, traduzido no seu equivalente rea- lístico; depois, deve-se passar ao seguinte, abrindo espaço aos novos elementos simbólicos que seguirão. O termo “Cordeiro”, por exemplo, evoca este significado: lembrando o cordeiro pascal do Êxodo (cf. Ex 12), Cristo ofereceu-se em sacrifício pelos nossos peca- dos, e parece levar ao cumprimento a figura do Servo de Iahweh, o qual, em vista dos sofrimentos padecidos, vem comparado a um cordeiro levado ao matadouro (cf. Is 53,7). O versículo prossegue: “como que imolado” (Ap 5,6). “Estar de pé”, no Apoca- lipse, refere-se à Ressurreição: temos, então, na figura do Cordeiro “de pé” uma evocação precisa do Cristo ressuscitado. Não menos precisa, porém, é a alusão à Paixão e à morte sofrida: diz-se, explicitamente, o termo “imolado”, referindo também ele ao Cordeiro. Trata-se, pois, do Cristo na sua ressurreição e na sua morte, repensado quase simultaneamente nos dois momentos. Em “como que imolado”, o termo “como” põe intencionalmente os dois aspectos em uma relação de simultaneidade. O Cordeiro encontra-se “de pé, como que imolado”: pareceria logicamente im- possível, mas é o Cristo que é, ao mesmo tempo, aquele que morreu e aquele que ressuscitou (cf. Jo 20,20). Investido de toda a sua energia messiânica (sete chifres), tem a plenitude do Es- pírito (sete olhos), que Ele possui como ressuscitado e que envia como energia sua para toda a terra. © Eclesiologia88 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO A figura do Cordeiro exprime, assim, um significado cristológico de grande in- tensidade; é o Cristo com todas as potencialidades da sua morte e ressurreição, empenhado, em cheio, no desenvolvimento da história. Ele introduz na história a sua energia messiânica para combater a violência, a injustiça, a morte, e consegue sobrepujá-las irreversivelmente. Como Cordeiro vitorioso, portanto no seu mistério de Crucificado e Ressuscitado, é Esposo e se apresenta às núpcias: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro, e a sua mulher já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente – pois o linho representa a conduta justa dos santos” (Ap 19,7-8). Estamos, pois, numa perspectiva escatológica, de realização final. Terminou-se a luta contra os animais e contra a mulher prostituta, protótipo de todo pecado; o advento do Reino é festa nupcial. A Igreja foi-se preparando, então, para essa festa. À diferença dos convidados de que fala Mateus (cf. 22,2.11-13), que opõem uma nítida recusa, a Igreja aceitou o convite e preparou, também, aos poucos, a sua veste nupcial. Essa veste exprime a personalidade da Esposa: mas como ela foi preparada concretamente? O autor sente a necessidade de precisar esse fato e diz-nos que o tecido da veste nupcial é a conduta justa dos santos. E, assim, a Igreja “Espo- sa” prepara-se cada dia para o dom nupcial do Reino. O autor do Apocalipse prossegue encorajando a Igreja a tomar consciência da- quilo que Deus opera. A história da salvação, que se desenvolveu entre dois po- los (bem/mal), chega à sua conclusão: realiza-se o verdadeiro mundo desejado por Deus, um mundo do qual o mal está ausente e no qual o bem se encontra potenciado ao infinito: “Vi então um céu novo e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra se foram. Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Je- rusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido. Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: ‘Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (Ap 21,1-3). A cidade-esposa é uma aproximação das duas imagens que já vimos bem ates- tadas na tradição bíblica. Ela, una e, ao mesmo tempo, conjunto de homens, é santa e nova; desce de Deus, é perfeita em tudo e é esposa. O que isso significa? Que ela está diante do Cordeiro, seu Esposo, e, por isso, pode ousar amar Cristo com amor paritário, típico de dois esposos. É a perspectiva vertiginosa da nossa renovação. O autor irá retomá-la e especi- ficá-la em uma segunda descrição, com uma abundância fulgurante de detalhes e em termos e relações novas. Precisará que a cidade é o povo de Deus tornado já universal, as portas da cidade-povo serão abertas em todas as direções; os fundamentos e as colunas de suas portas serão constituídas igualmente pelas 12 tribos de Israel e pelos 12 Apóstolos do Cordeiro em uma visão unitária e toda nova do antigo e do novo povo (cf. Ap 21,12-14). A cidade será bela, tal como o esplendor é para a esposa do Antigo Testamento o sinal do amor do Esposo, da sua extraordinária presença. 89© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Na cidade, com efeito, diz João, desapareceu o templo como lugar de encontro entre Deus e os homens; agora, o encontro realiza-se nessa relação esponsal e será permanente em uma convivência transparente com Cristo. “Para exprimir-se com São Gregório Nisseno quando a comunidade cristã é fiel àquele que a reúne para habitar em seu meio, todos podem contemplar através da esposa a beleza do Esposo”. Na face dessa Igreja, ele projeta um raio da própria beleza, de maneira que cada um possa admirar o que, de outra forma, permaneceria impenetrável às criaturas. Aqui está o grande testemunho da Igreja. É a glória que ela irradia quando apa- rece como Mulher vestida de sol (cf. Ap 12). Se é verdade que essa novidade de vida é anunciada como o cumprimento esca- tológico e definitivo, não é menos verdade que a vitória de Cristo é esta: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Nesse versículo, o termo “eis” é um convite “a olhar ao redor para discernir os germes de vida do mundo novo que Deus já está realizando na linha da renova- ção futura e radical: encontra-se, escondida na Igreja e na humanidade” – escre- ve Vanni – “uma como reserva infinita de generosidade e amor”. E quisera acrescentar que, com renovado interesse, vai amadurecendo na Igre- ja contemporânea a consciência daquela presença, prometida por Jesus, entre dois ou mais unidos em seu nome, que é o próprio Jesus; aquele Jesus que, além de habitar à direita do Pai, habita nas pequenas igrejas que mais cristãos compõem. Dissemos, desde o início, que as palavras do Apocalipse se dirigem à Igreja reunida para ouvir a Palavra e tendem a envolvê-la, a estimular-lhe o contato vivo com Cristo. E, chegando a uma conclusão, podemos dizer: o contato foi tão aprofundado e desenvolvido e ela sente de tal maneira a presença de Cristo que o transforma em protagonista explícito do seu diálogo. Cristo ali intervém em primeira pessoa. Entrementes, a Igreja adquiriu, também, uma consciência mais clara de si mes- ma. Sabia desde o início, e expressou-o em termos de comovida gratidão (cf. Ap 1,5), que fora libertada dos seus pecados, que fora acompanhada sempre pelo amor de Cristo, mas nunca teria imaginado que poderia intercambiar com aquele amor vertiginoso, de igual para igual, que agora começou a possuir: a Igreja sente-se já a Esposa. Nessa maturação alcançada, a Igreja sente-se como que ambientada no Espíri- to; aprendeu o seu estilo, empenhando-se em decifrar sua mensagem, exprime- se agora em perfeita harmonia com Ele: o Espírito e a Esposa rezam juntos: “O Espírito e a Esposa dizem: Vem!” (Ap 22,17). São as únicas palavras na Escritura, em conclusão ao Apocalipse, pronunciadas em primeira pessoa pela Esposa. Acentua-se aquele caráter pessoal da Igreja Esposa, que se fará tão ricamentepresente na Teologia dos padres. Ela, de fato, pode-se dizer que é o corpo de Cristo e, também, que está diante de Cristo como um alguém, um sujeito, uma pessoa. Deve, porém, reproduzir em si a identidade do Cristo, pois Ele quer que a sua Igreja lhe esteja diante como uma Esposa gloriosa e digna dEle. Aqui, intervém-se necessariamente o princípio mariano. © Eclesiologia90 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Maria é membro da Igreja, porque ela mesma é remida, mas primeiro membro, o principal, o mais sublime; é em um sentido único, que se pode dizer igualmente bem, e talvez com maior razão ainda, que a Igreja lhe pertence. Jesus permanece sendo a cabeça única da sua Igreja; o papel de Maria não é, na verdade, o de assumir a direção, mas ela é, por assim dizer, um todo único com a Igreja. Maria é aquela subjetividade que pode corresponder plenamente à subjetividade de Cristo. “Em Maria, a Igreja, que jorra de Cristo, encontra o seu centro pessoal e a plena realização da sua ideia eclesial”. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Para finalizar este tópico, o estudo dos modelos, conceitos e concretizações da ekklesia do Antigo Testamento mostra que, se- gundo a revelação, não há salvação individual. A minha salvação pressupõe a dos outros, do meu próximo, a salvação universal, a salvação do mundo inteiro e a sua transformação. Aprouve [...] a Deus santificar e salvar os homens não singularmen- te, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constitui-los num povo, que O conhecesse na verdade e santamente O servisse. Escolheu por isso a Israel como o Seu povo. Estabeleceu com ele uma aliança. E instruiu-o passo a passo. Na história deste povo de Deus Se manifestou a Si mesmo e os desígnios da Sua vontade. E santificou-o para Si. Tudo isso, porém, aconteceu em preparação e figura para aquela nova e perfeita aliança que se estabeleceria em Cristo, e para transmitir uma revelação mais completa através do próprio Verbo de Deus feito carne [...]. Foi Cristo quem instituiu esta nova aliança [...], chamando de entre os judeus e gentios um povo, que junto crescesse para a unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e fosse o novo Povo de Deus (Vaticano II, “Lumen Gentium” 9). 15. ECLESIOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO Esse título (Eclesiologia do Novo Testamento) não deve levar você a pensar que podemos encontrar no Novo Testamento um tratado sistemático e monolítico de Eclesiologia. Aliás, não é pos- sível sequer falar de uma Eclesiologia do Novo Testamento. Com efeito, as afirmações do Novo Testamento sobre a Igreja são ape- nas acenos e esboços de várias eclesiologias fragmentárias. 91© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Essa constatação, porém, não diminui absolutamente a im- portância do estudo do Novo Testamento para a Eclesiologia, pois as suas afirmações, mesmo que incompletas e parciais, abordam a Igreja na riqueza e na complexidade de seu mistério, bem como não se deixa aprisionar em uma doutrina acabada e definitiva. Diante de tais informações, você deve estar se perguntando: em que reside a importância das afirmações neotestamentárias para a Eclesiologia? Os testemunhos do Novo Testamento sobre a Igreja são apelos vinculantes dirigidos à fé para que ela: • os acolha na sua reflexão; • conforme a eles sua vida; • ao escutá-los, edifique a comunidade segundo as diretri- zes essenciais contidas neles. Antes de iniciar, porém, nosso estudo sobre a Igreja no Novo Testamento, precisamos responder metodologicamente uma per- gunta inevitável: Jesus, de fato, fundou a Igreja? Da resposta a essa pergunta depende o modo como aborda- remos os escritos neotestamentários. Na doutrina pré-conciliar sobre a Igreja, essa questão foi re- solvida recorrendo-se a algumas passagens bíblicas que afirmavam a fundação da Igreja por Jesus (DS 3540), ou seja, defendia-se sim- plesmente que Jesus, na sua condição terrena e pascal, cumpriu, consciente e expressamente, atos jurídicos formais, mediante os quais fundou a Igreja como instituição visível e juridicamente es- truturada em todos os pontos essenciais. No entanto, hoje essa concepção tornou-se problemática por vários motivos: a) Os evangelhos foram escritos na situação eclesial pós- -pascal e transmitem as palavras de Jesus já como pala- vras atualizadas para a situação eclesial existente. Tam- bém o termo “ekklesia”, quando aparece nos sinóticos (Mt 16,18s; 18,17), deriva da situação pós-pascal. © Eclesiologia92 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO b) A pregação pré-pascal de Jesus era o Reino de Deus e, nesse sentido, ele se dirigia a todo o Israel. Sua inten- ção era o de reunir e preparar todo o povo para a vinda iminente do Reino. Ele não quis fundar uma nova comu- nidade religiosa, nem constituir uma comunidade parti- cular dentro de Israel. O fato de que, nesse movimento de congregação, se verificaram a separação e a distinção de uma “Igreja” não dependeu da vontade de Jesus, mas da reação dos interlocutores. c) É preciso que você entenda que “Igreja” e “fundação” são, de fato, termos que podem ter conteúdos e ampli- tudes diferentes. d) Se falarmos de “Igreja” em sentido estrito (a comunidade de fiéis que, sob a direção do Papa e dos bispos, professa a mesma fé eclesial e recebe os mesmos sacramentos), devemos responder que ela não foi fundada por Jesus. e) O aparecimento da Igreja depende de um processo de separação de Israel. f) Ela tem o seu centro e lugar específico na celebração eu- carística. g) Por isso, no sentido estrito do termo, somente depois da Páscoa e Pentecostes, tem lugar a Igreja na sua institu- cionalização concreta. Se, pelo contrário, usarmos o termo “Igreja” em sentido amplo e aberto (a comunidade dos que creem, esperam e amam, inaugurada pelo Pai no Espírito Santo mediante Cristo), é inevitá- vel dar uma resposta positiva: • O desenvolvimento pós-pascal somente é possível com a história de Jesus pré-pascal: o surgimento da Igreja de- pende da pregação do Reino realizada por Jesus. • O movimento de reunião escatológica inaugurado por Je- sus em Israel e os sinais do advento do Reino de Deus por ele realizados e constitutivos da comunidade dos discípu- los formam a base teológica objetiva e histórica da insti- tucionalização pós-pascal da Igreja. 93© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Também o termo “fundação” pode ser entendido segundo modelos diversos que descrevem a relação entre Jesus e a Igreja. São três as abordagens globais dessa relação: fundadora, originá- ria e fundante. Veja, detalhadamente, cada uma delas: • Relação fundadora: a questão da Igreja está ligada e de- pende da pessoa e da consciência pessoal de Jesus. Nesse sentido, podemos falar de uma eclesiologia implícita e processual, uma vez que, dessa maneira, se exprime que há uma continuidade fiel (não de traição nem de mera substituição) entre o Reino de Deus iniciado por Jesus e a Igreja. Somente assim, pode-se falar de uma fundação da Igreja por Jesus (cf. LG 5). • Relação originária: Jesus é origem da Igreja, e esta, na sua formação histórica, é composta por um elemento divino e outro humano em analogia ao mistério do Verbo encar- nado (LG 8). Deve-se sublinhar, portanto, que a Igreja é mistério e sujeito histórico com a consequente plenitude e relatividade de sua existência histórica. • Relação fundante: Jesus é o fundamento da Igreja. Os mistérios salvíficos de Cristo são fundamento da Igreja e foram preparados já desde as origens (Ecclesia ab Abel, LG 2), estando articulados na sua encarnação, no seu mis- tério pascal e no envio do Espírito Santo. A Igreja, como a conhecemos, é resultado de uma longa e in- tricada evolução histórica que durou dois milênios. Ela depende de Jesus, mas essa relação não nos autoriza a pensar que Jesus tenha deixado tudo pronto nem a projetar nos testemunhos vinculantes do Novo Testamento a institucionalização de todas asestruturas sacramentais, institucionais e hierárquicas da Igreja atual. Não é demais insistir que a coexistência de uma pluralida- de de eclesiologias e de formas diversas de viver e de organizar a Igreja não é um fenômeno exclusivo de nossa época. Na Igreja, o pluralismo vem desde o Novo Testamento. A própria formação do cânon manifesta esse pluralismo. É o que nos mostra Estrada (2005): © Eclesiologia94 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO O cânon do Novo Testamento representa a cristalização do con- junto plural de tradições, que vão além de Jesus. Daí a pluralidade de eclesiologias, tanto no que concerne à explicação da origem da Igreja como de seu significado salvífico, de suas instituições e estru- turas, dos estilos de vida das comunidades etc. Esse pluralismo [...] é inevitavelmente fonte de conflitos, tensões e confrontos, tanto cristológicos quanto eclesiológicos (1Cor 1,10-13; 11, 18-19), em todo o NT. Trata-se de um falso mito a ideia de uma Igreja uniforme em sua doutrina, homogênea em suas instituições e convergente em suas teologias [...]. Da mesma forma, as Igrejas primitivas não podem ser identificadas com as que posteriormente foram se de- senvolvendo na história, projetando retrospectivamente no NT so- luções posteriores que naquela época não foram realizadas. Não se pode ler o NT a partir da evolução ocorrida no século II, que levou a uma progressiva convergência factual e doutrinal das diferentes Igrejas. Leitura complementar: Jesus e a fundação da Igreja ––––––– Se partirmos da própria mensagem de Jesus com o fim de reapossar-nos de sua visão e fornecer à Igreja uma imagem viável, nossa primeira questão será: pre- tendeu Jesus a existência de uma Igreja? Que ligação podemos estabelecer – se é que podemos estabelecê-la – entre a autoavaliação da Igreja e a avaliação da Igreja por parte de Jesus? A relação entre o Jesus histórico e a Igreja continua a ser, até nossos dias, um dos maiores problemas da teologia cristã. Até agora, não se encontrou nenhuma solução universalmente aceita, ainda que muitas res- postas tenham sido propostas. Num dos extremos, há a solução que postula um ato direto, explícito e deliberado pelo qual Jesus teria estabelecido uma nova or- ganização religiosa com todas as suas estruturas, com sete sacramentos e uma hierarquia firmemente instituída e detalhadamente delineada. No outro extremo, alega-se que Jesus veio proclamar o Reino de Deus e não tinha intenção alguma de fundar uma Igreja. Ele teria vindo para nos ensinar uma forma de vida centra- da no amor e baseada na liberdade diante de qualquer opressão institucional. Ele teria demonstrado pouco interesse em questões de estrutura e de sua fundação. Seu interesse dirigia-se à renovação de Israel, que já tinha estabelecido formas de culto, sacerdócio e sacrifícios – Jesus não precisava planejar estruturas desse tipo. As posições mais comuns na atualidade As concepções mais comumente representadas na teologia católica de hoje são expressas por autores como Hans Küng, Karl Rahner e Gerhard Lohfink. Os que seguem Küng nesse tema afirmam que Jesus nem fundou nem instituiu uma Igreja, e que é preciso remontar as origens da Igreja à confissão de fé – a fé pascal – da comunidade pós-pascal de Jesus Cristo. Segundo essa concepção, há de situar a fundação e instituição reais da Igreja na fé na ressurreição carac- terística da Igreja primitiva. Hans Küng expressou tal opinião em seus livros A Igreja (1967) e, de modo ainda mais marcante, em Ser cristão (1976). Para Küng, a Igreja representa a continuidade da missão de Jesus e de sua atividade, sendo, porém, um fenômeno pós-pascal. 95© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Robrecht Michiels defende que o melhor ponto de partida para responder à ques- tão da conexão entre Jesus e a Igreja é a posição de Küng. Ele escreve o se- guinte: Nosso ponto de partida será a posição de Hans Küng, que pode ser formulada quer de maneira positiva, quer de maneira negativa. Formulada de maneira negativa, ela diz que se pode admitir somente que a vida do Jesus terreno-histórico não contém nem um momento nem exemplo específi- cos, nem uma palavra nem ato que, estritamente falando, possa pretender repre- sentar a nítida instituição da Igreja. Essa admissão faz justiça à primeira posição, isto é, à posição que afirma que o Jesus histórico não fundou uma Igreja, e que a instituição da Igreja por Jesus tem seus fundamentos na fé na ressurreição da primeira Igreja. Formulada positivamente, essa primeira posição consiste na afirmação de que a Igreja só existiu a partir do momento em que os discípulos creram na ressurrei- ção de Jesus e de que, portanto, ela só existe pela graça do Cristo ressuscitado e glorificado e no poder de seu Espírito. Em consonância com isso, a Igreja nas- ceu ou veio a existir em Pentecostes, sendo “instituída” como o fruto da Páscoa. Quase ninguém afirmaria, hoje em dia, que o desenvolvimento ou a organização concreta da Igreja, inclusive de suas liturgias e ministérios (com a exceção, é claro, do ministério apostólico, entendido como a condição de “ser enviados por Jesus”), tem sua origem no próprio Jesus. Tal organização, com as estruturas que a acompanham, é o resultado de um complexo processo histórico, cuja ne- cessidade deriva do fato de que Deus colocou sua Igreja firmemente na história, com tudo o que implica tal ato de assim colocá-la. Em termos ideológico-ecle- siológicos, pode-se exprimir o fato de que o Jesus terreno-histórico não fundou ou instituiu a Igreja dizendo (primeiro de maneira negativa, depois positiva) que em grande medida a Igreja não é a continuação da humanidade de Jesus ou a perpetuação da encarnação da Palavra, mas sim a missão contínua do Espírito de Jesus, a perpetuação de sua atividade no Espírito de Deus. A verdade subja- cente à visão de Küng no tocante à não instituição da Igreja por Jesus consiste, assim, na percepção eclesiológica de que é o Espírito que efetiva a fundação e instituição real e cabal da Igreja a partir de Pentecostes. Hans Küng insiste em que não deveríamos falar de “Igreja” a menos que te- nhamos, como ponto de partida, a ressurreição de Cristo e o acontecimento chamado Pentecostes. É claro que antes da Páscoa havia uma comunidade de discípulos reunida em torno de Jesus. O próprio Jesus deve ter discernido uma ligação entre este grupo e o surgimento da comunidade escatológica a que todo o povo de Israel fora chamado. Para Küng, porém, não é possível conferir o título de “Igreja” ao grupo composto pelas pessoas que responderam à proclamação do Reino por Jesus. Qualquer que possa ter sido a ligação entre aqueles que se- guiram o Senhor quando ele andava por esta terra e a comunidade surgida após a Páscoa, não deveríamos chamar aquele grupo de “Igreja”. Küng argumenta, com correção, que sem a fé pascal e Pentecostes dificilmente poderíamos falar de Igreja no sentido próprio da palavra. Outros autores, como Karl Rahner, insistem em que o Jesus terreno e histórico de fato estabeleceu o fundamento para uma Igreja. Segundo essa concepção, a fundação da Igreja deve ser situada durante a vida do próprio Jesus. Rahner usa a palavra “fundação”, o que não significa dizer que Jesus “instituiu” a Igreja. Instituição daria a entender um ato jurídico da parte de Jesus, um ato que teria tido como objetivo o estabelecimento de uma nova organização religiosa. © Eclesiologia96 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Uma terceira abordagem da questão relativa à relação de Jesus com a Igreja foi desenvolvida por Gerhard Lohfink em seu artigo Jesus fundou uma Igreja? (1982) e em seu livro Jesus e a comunidade: Jesus fundou uma Igreja? (1985). Lohfink insiste na tese de que Jesus jamais teve a intenção de instituir uma nova religião, um novo grupo religioso ou uma Igreja, e menos ainda uma comunidade pessoal ou distinta dentro do próprio Israel. A Igreja querida por Jesus existira por longo tempo – Israel, o Povo de Deus. Consequentemente,não se deveria situar o início ou surgimento da Igreja num ato ou plano instituinte especial do Jesus histórico, ou em alguma vontade ou testamento finais do Senhor crucificado, mas divinamente ressuscitado. Pelo contrário: a origem da Igreja é um processo, e um processo intimamente ligado à proclamação e práxis do Reino de Deus por Je- sus, e com a resposta de Israel ao mesmo. Esse processo é, em seu todo, obra de Deus; é o caminho de Deus com o Povo de Deus. Essa concepção da Igreja começa com o Antigo Testamento. Ela inclui Jesus, que buscou reagregar seu povo, mas que, tendo encontrado resistências, foi obrigado a concentrar-se em seus próprios seguidores, e nos doze em particular. Estes últimos representavam o todo de Israel, ao qual foram, por sua vez, envia- dos. Tal perspectiva tem continuidade na comunidade pós-pascal dos seguidores de Jesus, que encontraram, eles próprios, resistência da parte dos judeus e que, portanto, no poder do Espírito do Ressuscitado, optaram por seguir o caminho que os levou aos pagãos. Em resumo: Lohfink vê a fundação da Igreja na própria existência de Israel. Quatro representantes das posições comuns Visto que nenhuma das concepções anteriores pode corroborar suas teses a partir das próprias fontes, iremos apresentar, com certa brevidade, quatro es- tudiosos católicos. Eles diferem entre si no tocante a sua formação teológica e representam variações das posições comuns geralmente defendidas na Igreja católica da atualidade. Richard McBrien Seguindo a orientação de Rahner, McBrien estabelece uma distinção entre a ideia de que a Igreja teve sua origem em Jesus e a ideia de que ela foi fundada por Je- sus. Como resposta à primeira ideia, ele diz “sim”; como resposta à segunda, ele diz “não”. Jesus em nenhum momento dirigiu sua mensagem a um grupo seleto de pessoas, mas teve sempre a intenção de que ela valesse para Israel como um todo. A salvação do indivíduo não ficava condicionada a uma norma de vida espe- cífica, e Jesus tampouco exigia, de ninguém, que fosse membro do seu grupo de discípulos. No entanto, Jesus estabeleceu os fundamentos de uma Igreja. Em primeiro lugar, ele reuniu discípulos à sua volta. São discípulos aqueles que aceitaram sua mensagem, e a quem ele concedeu um quinhão em seu ministério enviando-os a pregar (Mt 10,1-16). Em segundo lugar, Jesus previa um período de interinidade entre sua morte e a parousia. Ele podia prever que Israel, tomado como um todo, o rejeitaria e que os gentios assumiriam o lugar do povo judeu, tornando-se, assim, o novo povo escatológico. Em terceiro lugar, o grupo de discípulos manteve-se unido após a rejeição de Jesus. Vista desta perspectiva, a última ceia torna-se um fator decisivo com sua ordem “façam isto em memória de mim”. Do mesmo modo, a palavra dita a Pe- dro sugere que Jesus queria que seus discípulos ficassem unidos: “Eu, porém, 97© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja rezei por você, [Simão] [...] e você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos” (Lc 22,31-32; cf. Mt 16,13-19: “Você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”). Nesse sentido, jamais houve, no Novo Testamento, um período sem Igreja. Gerard Lohfink Lohfink resume sua concepção em sete pontos: (1) Jesus em nenhum momento desejou fundar uma nova organização religiosa distinta de Israel. Ele via sua missão situada dentro das fronteiras de Israel, e assim a compreendia. (2) Jesus não pretendeu fundar uma comunidade diferenciada, um “resto” santo dentro de Israel, à maneira dos essênios. (3) O interesse de Jesus dirigia-se a Israel como um todo; ele queria congregar e renovar o povo todo para a irrupção do Reino derradeiro. A escolha dos doze é sinal claro dessa intenção. Haviam sobrado apenas duas tribos e meia: Judá, Benjamim e a metade de Levi. Esperava-se que a restauração completa das doze tribos acontecesse no tempo escatológico da salvação (cf. Ez 37; 39,23-29; 40-48). (4) A comunidade primitiva considerava- se o povo escatológico de Deus, que, através da fé no Cristo ressuscitado e em sua mensagem, haveria de congregar Israel em seu todo. (5) O fato de que a maioria dos membros de Israel rejeitou Jesus teve uma influência decisiva sobre o fenômeno que denominamos Igreja. (6) Fica difícil fixar um ponto preciso para a origem da Igreja. Tratava-se, antes, de um processo que pouco a pouco produziu o que agora entendemos por Igreja. (7) O estabelecimento da Igreja é obra do Deus que, por meio de Cristo e do Espírito, criou seu povo de fim dos tempos. Walter Kirchschläger A posição de Kirchschläger pode ser condensada em cinco pontos. Em primeiro lugar, a base mais fundamental para o surgimento da Igreja é a proclamação do Reino de Deus por Jesus. Essa proclamação dirige-se a todas as pessoas, a saber, à comunidade daqueles e daquelas que estão dispostos a converter-se e a aceitar a oferta divina de salvação doravante presente em Jesus. A presença do Reino de Deus no momento presente está intrinsecamente ligada à pessoa de Jesus. Por conseguinte, a comunhão com Jesus torna-se um conceito funda- mental no que se refere a qualquer definição ou conceito de Igreja. A revelação final da mensagem salvífica de Deus somente se torna acessível via uma orien- tação para Jesus. Em segundo lugar, Jesus chamou discípulos, homens e mulheres (Lc 8,1-3), vinculando-os a sua pessoa. Dois aspectos distinguem-se claramente nas narra- tivas de vocação do Evangelho (Mc 3,13-15): as pessoas vocacionadas entram numa profunda comunhão com Jesus, sendo depois enviadas a fim de espalhar sua mensagem, o que indica com clareza que Jesus tinha a intenção de multipli- car sua atividade e assegurar a permanência de sua proclamação do Reino atra- vés das pessoas que vocacionou. Por meio da eleição dos doze, Jesus deixou claro que desejava criar um novo Povo de Deus, que obviamente incluiria Israel, porém um Israel restaurado e renovado. Em terceiro lugar, a comunidade que seguia Jesus era estruturada desde o início e exibia um ordenamento incipiente. Havia os doze, que formavam um grupo central em torno de Jesus. Depois, havia aquelas pessoas que constituíam um grupo mais amplo de discípulos, inclusive de homens e mulheres que o acompa- nhavam permanentemente em sua caminhada. Por último, havia outras pessoas, que o seguiam apenas de maneira ocasional. Comum a todas essas pessoas, © Eclesiologia98 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO no entanto, é o fato de que seguiam Jesus, embora tal seguimento pudesse ter assumido diferentes formas, e embora a vida que compartilhavam com Jesus pudesse ter atingido diferentes graus de intimidade e intensidade. Em relação a isso, é importante ressaltar o papel especial que Pedro parece ter desempe- nhado. O nome que Jesus lhe deu, Cefas (Jo 1,42), indicava que Jesus tinha em mente um grupo permanente de pessoas entre as quais Pedro teria uma missão especial a realizar. Em quarto lugar, Jesus reuniu discípulos – tanto homens como mulheres – numa comunhão pessoal consigo. O propósito desta reunião é missionário. Sua mensa- gem não deveria limitar-se às pessoas congregadas à sua volta; antes, ela deve espalhar-se por toda a terra (Mc 6,7-13). A revelação final do amor salvador de Deus por todas as pessoas, que agora se tornara irrevogavelmente presente atra- vés de Jesus de Nazaré, é o fato mais fundamental em que se funda a Igreja. Em quinto lugar, a instituição da ceia do Senhor deixa claro: Jesus tinha a certeza de que seus discípulos continuariam a proclamar sua mensagem de salvação, a qual fora selada por meio de sua morte iminente em favor de muitos. A morte de Jesus torna-se o sim definitivo de Deus em prol da salvação do mundo, ratificada de modo irrevogável na cruz. Nela, Jesus estabeleceu o fundamento para a nova aliança em seu sangue, que criou a nova comunidade da salvação. Essa aliança tornar-se-á presente sempre de novo em qualquer lugar que seus discípulos ce- lebrem essa última ceia, fazendo-o“em memória de mim”. Leonardo Boff O interesse de Jesus estava no Reino de Deus, e não na Igreja como tal. Para ele, o Reino tinha em seu bojo a transformação global do velho mundo, que iria tornar-se o novo mundo sem pecado, doença, ódio e todas as forças alienantes que afetam a vida humana e o cosmos como um todo. Em sua proclamação, Jesus introduziu elementos – como a reunião dos doze apóstolos e a instituição da última ceia – que mais tarde formariam a base da Igreja. Esses elementos, contudo, não constituem a realidade da Igreja por in- teiro. A Igreja somente existe porque o Reino não foi aceito pelo povo judeu, e porque Jesus foi por eles rejeitado. Por conseguinte, a Igreja é um substituto do Reino e deve ser vista como um instrumento para a plena realização do Reino e um sinal de uma realização verdadeira, porém ainda imperfeita, desse Reino no mundo. Também poderíamos dizer que a Igreja é a presença do Reino na história, na medida em que o Cristo ressuscitado se acha presente na comunida- de de crentes. Mas a Igreja não é o Reino, uma vez que o Reino ainda está por realizar-se escatologicamente em sua dimensão universal. A Igreja deve ver-se como comunidade que está totalmente a serviço do Reino. Ela é o sacramento do Reino no sentido de ser um sinal e instrumento do aparecimento e da realiza- ção do Reino na história. Os apóstolos saíram a pregar o Reino a Israel, como Jesus havia feito antes, e esperavam a irrupção iminente do Reino com a vinda gloriosa e definitiva do Senhor ressuscitado. Visto que Israel recusou sua mensagem, como se recusara a escutar o próprio Jesus, eles foram movidos pelo Espírito Santo a voltar-se para os pagãos. Esse direcionamento aos pagãos transformou-se no passo de- cisivo para a fundação de uma Igreja. Ao assumirem os elementos introduzidos pelo Jesus histórico – sua mensagem, sua convocação dos doze, o batismo e 99© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja a eucaristia –, os apóstolos fundaram a Igreja. Em sua forma histórica concreta, a Igreja baseia-se nos elementos essenciais dados por Cristo e na decisão dos apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo. Enquanto instituição no espaço e no tempo, a Igreja surgiu de uma decisão histórica tomada pelos apóstolos, sob a iluminação do Espírito Santo. Assim, para Leonardo Boff, a Igreja somente con- tinuará a existir se pessoas que têm fé no Cristo ressuscitado e em seu Espírito renovarem, continuamente, essa decisão, e se encarnarem a Igreja em situações sempre novas. Reflexões finais Examinamos todo um amplo espectro daquilo que os teólogos católicos afirmam na atualidade. McBrien resume toda uma geração de teólogos como Rahner, Vogtle, Semmelroth, Ratzinger e assim por diante. Para eles, a Igreja é uma realidade pós-pascal produzida mediante o derramamento do Espírito Santo, mas que tem sua origem no Jesus histórico. Na condição de exegeta, Lohfink é mais crítico. Para ele, a Igreja baseia-se em toda uma cadeia de elementos a partir dos quais ela gradualmente surgiu. Não é possível fixar um acontecimento particular e observá-lo como o ato decisivo que criou a Igreja. Em seu interes- se por estruturas flexíveis, Boff, embora não negue uma origem divina à Igreja, considera a forma histórica concreta da Igreja acima de tudo como um resultado das decisões tomadas pelos apóstolos e, depois deles, por seus sucessores. Ao passo que a Igreja se baseia em Jesus e em seu Espírito, a existência da Igreja enquanto realidade histórica também depende da prontidão dos fiéis em continuar a “reinventar” a Igreja em situações sempre novas. A eclesiologia de Boff demonstra grande preocupação por mostrar que as comunidades eclesiais de base são aquelas que, por assim dizer, reinventam a Igreja hoje em novas situações, situações que exigem novas formas estruturais sob a orientação do mesmo Espírito que Jesus prometera aos seus apóstolos e seus sucessores. Para concluir, poderíamos dizer como Michiels: No que diz respeito à instituição da Igreja pelo próprio Jesus, os fatores aí impli- cados não são tanto movimentos ou palavras que fundam a Igreja, mas, antes deles, a continuação da missão de Jesus em e através da missão da Igreja pri- mitiva. Eis o que o Vaticano II tinha a dizer sobre Jesus e a Igreja: O mistério da santa Igreja manifesta-se logo na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Igreja com a pregação da Boa-Nova, quer dizer, da vinda do Reino de Deus. [...] Depois de haver sofrido a morte na cruz pelos seres humanos, Jesus, ressuscitando, [...] derramou sobre os seus discípulos o Espírito prometido pelo Pai [...]. A partir de então a Igreja, enriquecida pelos dons do seu fundador [...] re- cebe a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o Reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na terra o germe e o início deste Reino (LG n. 5). O Concílio concorda em que a capacitação para continuar a missão de Cristo, trazendo o Reino de Deus aos confins da terra, é o aspecto mais essencial da fundação da Igreja pelo próprio Jesus. A base da Igreja continua a ser a decisão de levar avante a missão do Reino de Jesus. Tal decisão decorre do desejo de seguir o Senhor, que havia chamado os discípulos precisamente para aquele propósito, e que lhes tinha prometido sua presença contínua no Espírito Santo. Assim, a Igreja não é, em primeiro lugar, equivalente ao empenho de manter elementos estruturais particulares. Antes, ela envolve obediência no intuito de realizar fielmente a missão que lhe foi conferida, ou seja, levar adiante a mensa- gem do Reino como Jesus a trouxe. © Eclesiologia100 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Embora os diferentes autores possam acentuar aspectos particulares, os pontos em comum que surgem dessas diferentes concepções podem ser resumidos da seguinte maneira: Jesus pregou o Reino como a vinda definitiva de Deus para salvar seu povo. A essa proclamação do tempo final pertence à comunidade escatológica da qual o Reino será parte. Existia a expectativa de que essa comunidade fosse Israel, congregado e restaurado. Só então as nações seriam assumidas na atividade salvífica de Deus. A reunião de Israel teve início com o ministério de Jesus aos discípulos, que foram por ele convidados a segui-lo e a participar em sua missão (cf. Mt 10,5-6). Eles foram as primícias as quais Israel, em sua totalidade, logo se reuniria. A morte de Jesus em favor de seu povo e sua ressurreição mudaram toda a situação. A partir de agora, prega-se sua morte como base da possibilidade de um novo arrependimento da parte de Israel. A salvação é de novo oferecida, em primeiro lugar, a Israel, mas agora ela inclui a exigência de aceitá-la como alcan- çada através da morte e ressurreição de Jesus. Um indivíduo só pode entrar na nova comunidade escatológica por meio do batismo em nome de Jesus. A recusa de Israel em aceitar o Reino de Deus, que tem sua origem na morte e ressurreição de Jesus, leva os discípulos a dirigirem-se aos gentios. O “não” a Jesus cria uma nova situação. Surge a percepção de que agora Deus chama à existência um novo povo constituído dos crentes de Israel e de muitas nações. Essa nova percepção advém por meio dos acontecimentos concretos em que o Espírito de Jesus revela a direção a ser tomada pela comunidade. Embora preservando suas raízes no velho Povo de Deus (“enxertado na olivei- ra selvagem de Israel”, Rm 11,17), este novo Povo de Deus será o novo agente e portador da vontade universal de salvação de Deus em prol de todas as pes- soas. Ele continuará a missão de Jesus ao ser enviado pelo Senhor crucificado e ressuscitado. O conteúdo de sua missão continuará sendo o Reino de Deus realizado através da morte e ressurreição de Jesus. Concluímos com as palavras de Joachim Gnilka: A Igreja teve sua origem na morte e ressurreição de Jesus, através da obra do Espírito Santo. Ela continua a ser uma entidade provisória. O que tem caráter úl- timo é o Reino de Deus. Quanto maior for a capacidadede a Igreja compreender sua situação de interinidade, e quanto mais for determinada pelo elemento último [o Reino], tanto mais ela será capaz de corresponder ao ministério de Jesus. FUELLENBACH, J. Igreja: comunidade para o Reino. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 51-62. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 16. A IGREJA SEGUNDO MATEUS Que relação há entre Igreja e Reino de Deus? A Igreja, compreendida e vivida por Mateus, tem seu início velado com Jesus. Ela está fundamentalmente operante na imi- nência do Reino dos céus e do reino do Filho do Homem anuncia- do por Jesus. 101© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Segundo Mateus, o Reino está presente na pessoa de Je- sus, em sua obra e em sua vida. Nele, o Reino futuro está próximo (4,17; 10,7) mediante: • sua pregação; • seus milagres; • sua paixão. Jesus pronuncia a palavra do Reino (13,19.20), proclama o evangelho do reino (4,23; 9,35). Nos seus ensinamentos (5,2; 7,28; 9,35; 11,1), ele fala com autoridade, e não como ensinam os dou- tores da lei. Em suas parábolas (13,3.10), está escondido o mis- tério do Reino dos céus (13,11), que, porém, é revelado aos que escutam, aos discípulos e aos pequenos (11,25) a fim de que se convertam ao seu consolo e à sua alegria (5,1ss; 11,4s), inclusive às suas exigências (4,17; 11,20s; 12,41) que se resumem no amor a Deus e ao próximo (5,43; 19,19; 22,34s). Esse Reino, revelado pela palavra de Jesus, irrompe para todos os homens, mas se di- rige principalmente aos pecadores (9,12s) e chama os cobradores de impostos (9,9-10). Assim, a palavra do Reino torna-se palavra de perdão (9,2), que triunfa sobre o pecado. O Reino aproxima-se, também, porque a palavra promete aos pobres a intervenção de Deus não como uma esperança futura e indeterminada, mas por- que o tempo da salvação manifesta-se, realiza-se e é atualizado por Jesus. O Reino dos céus está presente, também, nos milagres (11,20-23; 13,54.58; 14,2) de Jesus. Mateus não apresenta Jesus como mero curandeiro. Pelo contrário, destaca que as curas e os exorcismos são inicialmente gestos de compaixão (9,36; 20,34) e obra do Servo de Deus que toma sobre si as nossas fraquezas e carrega as nossas enfermidades (8,17; 12,16s). Constituem, tam- bém, a luta vitoriosa de Jesus contra os demônios e o seu chefe: “se eu expulso os demônios com o Espírito de Deus, é porque a vós chegou o Reino de Deus” (12,28). © Eclesiologia102 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Por isso, diante das palavras e das obras de Jesus, as pessoas não podem ficar indiferentes. Jesus provoca a decisão: diante dele, decide-se a vida ou a morte. Os habitantes de Nínive se levantarão no Julgamento, juntamen- te com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas aqui está alguém maior do que Jonas! A Rainha do Sul se levantará no Julgamento juntamente com esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Mas aqui está alguém maior do que Salo- mão! (12,41-42). O Reino aproxima-se, enfim, por meio da paixão. A hostili- dade explode contra o radicalismo das pretensões e contra a liber- dade diante da Lei que Jesus manifesta (12,1-12; 13,53ss; 15,8-20; 23,34ss). Jesus exprime a consciência das consequências de tal hostilidade como aparece nas três profecias da paixão e nas sen- tenças do esposo retirado do meio dos seus (9,15), na lamentação sobre Jerusalém que mata os profetas (23,37-39) e nas ameaças (23,29-32; 23,34ss). Diante da ameaça de uma morte violenta, Je- sus não recua. Ele continua seu caminho obediente à vontade do Pai. Isso manifesta-se, principalmente, na violenta resposta dada a Pedro (16,23). Jesus permanece na espera de seu tempo, ou seja, da hora estabelecida por Deus (26,18.45). Dessa maneira, ele in- terpreta sua obra e vida como serviço: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (20,28). Discipulado Em Mateus, o Reino dos céus não se aproximou somente em Jesus. O Reino dos céus faz-se presente no discipulado de Jesus, que ele chama de “minha Igreja” (16,18). Com efeito, quando Jesus age em público, ele nunca está sem os discípulos. Eles acompanham Jesus (12,1), são os seus mensageiros (21,1), os seus comensais (9,10s), os seus servidores (14,15ss.22; 15,32ss; 21,2.6; 26,17ss). Eles fazem perguntas a Je- sus, recebem respostas instrutivas (13,10; 17,10; 18,1; 24,3) e são, 103© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja assim, iniciados nos mistérios do Reino dos céus (13,11). O Mes- sias confia-lhes seu destino de sofrimento (16,21; 17,22s; 20,17s; 26,1). O que Mateus escreve sobre os discípulos vale, também, para a Igreja. A descrição do discipulado identifica-se com a des- crição da Igreja: a) Para ser discípulo de Jesus, é necessário o seguimento. Esse seguimento deve ser pronto e resoluto (4,20.22; 8,22), exige o abandono dos bens e das relações (9,9; 10,37; 19,21s) e leva os discípulos a acompanhar o mestre pela via incerta e perigosa da paixão e da cruz (8,19ss). Seguir Cristo exige a cruz, a renúncia de si mes- mo, a perda da vida por amor de Jesus (10,38; 11,29s; 16,24), o passar pela porta estreita (7,13s) e a busca de uma justiça que supere à dos doutores da lei (5,20). Dis- cipulado significa buscar, antes de tudo, o reino e a sua justiça (6,33), ou seja, fazer a vontade do Pai que está nos céus (7,21; 12,50), escutar e colocar em prática a palavra de Jesus (7,24) e, sobretudo, amar Deus e o pró- ximo (22,34ss). b) O discipulado implica não somente essa relação com o Mestre, mas muda, também, a relação com os outros. Aqueles que fazem a vontade do Pai são irmãos de Je- sus e devem viver como tais (5,22ss; 7,3ss; 18,15.21.35; 23,8). Por isso, devem buscar a reconciliação (5,24) e o perdão recíproco (18,21-35), não podem escandalizar os pequenos (18,6s) nem desprezá-los (18,10), mas praticar a correção fraterna (18,15s). O serviço (23,11) é imitação do Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para dar a vida em resgate de muitos (20,26s). c) Os seguidores de Jesus participam da sua missão e são chamados a trabalhar na “colheita” iniciada com a ativi- dade de Jesus (9,37; 10,1ss). Por isso, têm a missão de ser sal da terra e luz do mundo (5,13). d) Os discípulos, no entanto, carregam muitas limitações. Eles demonstram que têm dificuldade de compreender, estão marcados pela fraqueza e caem na infidelidade. Eles não compreendem as palavras (15,15s.; 19,25s) © Eclesiologia104 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO nem as ações e o comportamento de Jesus (15,23; 19,13ss), tampouco sua pessoa e sua missão (16,21ss; 26,8s). Demonstram pouca fé (8,26; 14,31; 16,8s; 17,20), medo (14,26s; 17,6), escandalizam-se de Jesus (26,31) e, na hora da paixão, abandonam-no e renegam-no. Mes- mo diante do Ressuscitado, alguns duvidam (28,17). Os discípulos não são artificialmente idealizados; pelo con- trário, são descritos também em suas fraquezas. Os doze Dentro do grupo dos discípulos, existe o grupo dos Doze (10,5; 20,17; 26,14.20). Eles foram eleitos, chamados, investidos de poder, encarregados e enviados por Jesus. O grupo dos doze constitui o núcleo do Novo Israel: além da clara alusão às doze tribos de Israel, os Doze, como epônimos e como chefes do Novo Israel, conservam nas suas palavras, nos sinais realizados e na sua vida de seguimento de Jesus, a proximi- dade do Reino. Os Doze são, na sua estrutura fundamental, a Igreja no modo de promessa. Entre os Doze, Simão Pedro destaca-se como primeiro. Ape- sar de sua fraqueza humana, ele representa o fundamento do fu- turo discipulado que Jesus chama “minha Igreja”. Seguindo o costume que se afirmou com os últimos papas, o papa Bento XVI pronunciou uma série de catequeses populares sobre a Igrejanas audiências gerais, às quartas-feiras. Na primeira delas, que se deu em 15 de março de 2006, ele discorreu sobre a vontade de Jesus Cristo em relação à Igreja. Leia, a seguir, um ex- trato dessa catequese: Um sinal evidente da intenção de Jesus de reunir a comunidade da aliança, para manifestar nela o cumprimento das promessas feitas aos Pais, que falam sempre de convocação, unificação, unidade, é a instituição dos Doze Apóstolos. O número Doze, que evidente- mente evoca as doze tribos de Israel, já revela o significado de ação profético-simbólica implícito na iniciativa de fundar novamente o Povo Santo. Jesus pretende dizer que chegou o tempo definitivo no qual se constitui um novo povo de Deus, o povo das doze tribos, 105© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja que agora se torna um povo universal, a sua Igreja. Os Doze Após- tolos são, desta forma, o sinal mais evidente da vontade de Jesus em relação à existência e à missão da sua Igreja, a garantia de que entre Cristo e a Igreja não existe contraposição alguma: são insepa- ráveis, não obstante os pecados dos homens que integram a Igreja. Não podemos ter Jesus sem a realidade que Ele criou e na qual se comunica. Entre o Filho de Deus feito homem e sua Igreja existe uma profunda, inseparável e misteriosa continuidade, em virtude da qual Cristo está sempre presente hoje no seu povo (BENTO XVI. A vontade de Jesus sobre a Igreja e a escolha dos doze. Disponí- vel em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audien- ces/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20060315_po.html>. Aces- so em: 13 mar. 2010). Antecipação da Igreja no discipulado Como você pode notar, Mateus descreve o discipulado de maneira que o fiel possa identificar espontaneamente nele a pre- sença velada da Igreja. Há entre a condição pós-pascal da comu- nidade judeu-cristã e o discipulado do Jesus pré-pascal uma conti- nuidade fundamental. Em Mateus, o discipulado de Jesus constitui uma antecipação e uma pré-formação da Igreja. A condição dos discípulos de Jesus é a dos filhos que estão livres do tributo do templo (17,24ss) e o pagam somente para não causar escândalo; a exposição dos deveres fraternos (18,15-35) e a advertência dos irmãos; o discurso do servo fiel e sábio (24,45ss); a parábola dos talentos (25,14-30); a advertência contra os falsos mestres (5,19) e falsos profetas (7,15-23; 23,34); a descrição da comunidade no mundo e sua tarefa missionária (10,17-42) – tudo isso reflete a consciência de uma continuidade entre o discipulado e a comunidade de Mateus. Também a vinda do Reino escatológico é vista na perspectiva da Igreja. Enquanto acolhido e anunciado pelos discípulos, o reino es- catológico do Filho do Homem está já presente na Igreja. Ela é o espaço do Reino. Nesse sentido, a Igreja é como a rede (13,47-50), como o campo em que convivem juntos a boa semente, os filhos © Eclesiologia106 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO do reino, e o joio, os filhos do mal (13, 24-30.37-43). Ambos cres- cem no campo do mundo, e somente no tempo da colheita serão separados pelo Filho do Homem (13,41). Ao mesmo tempo, a Igreja não é o Reino dos céus. Ela é o modo provisório da soberania de Deus no mundo. Mateus reconhece que o ministério de Jesus está limitado ao povo de Israel, mas não deixa de ver os sinais de uma superação dos confins do povo escolhido. No milagre da mulher Cananeia, que consegue arrancar de Jesus a cura de sua filha por causa da sua grande fé (15,21-28), revela-se que a salvação se encontra, também, fora de Israel. A narrativa do centurião de Cafarnaum (8,5-13) é feita como uma cena paradigmática que aponta para uma abertura. Significativa é, também, a parábola do banquete nupcial (22,1-10): o Reino estava destinado para Israel, mas, quando se apresentou em Jesus, ele encontrou uma geração má e adúltera que pede um sinal que lhe será dado (12,38-42). Assim, o Reino é tirado de Israel e passa ao novo “verdadeiro Israel” (21,43). Essa passagem é feita na Igreja, formada por todos os povos (2,1-12; 3,9; 24,14). A ressurreição representa para os discípulos a constituição da Igreja universal. Nesse sentido, devem ser lidos: • o anúncio dramático da grande prova dos discípulos ante a morte de Jesus: “Essa noite todos vós vos escandaliza- reis por minha causa, pois está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão. Mas, depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galileia” (26,31-32); • a confirmação da promessa feita pelo anjo que, no sepul- cro, confia às mulheres a missão de ir “contar aos discípu- los que ele ressuscitou dos mortos, e que vos precede na Galileia. Ali o vereis” (28,7); 107© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja • a tarefa confiada às mulheres de “anunciar a meus irmãos que se dirijam à Galileia; lá me verão” (28,10). Na Igreja sempre haverá uma Galileia na qual os discípulos, que se dispersaram, poderão se reunir de novo com seu pastor. O novo Israel recolhe-se novamente nos onze, com o olhar voltado para a vastidão dos povos. Na cena conclusiva de Mt 28,16-20, aparece o que a ressur- reição representa para os discípulos: Jesus ressuscitado dos mor- tos aparece aos onze discípulos e revela-se como o Senhor univer- sal ao qual foi dado todo poder no céu e na terra. Ele envia os seus discípulos no mundo com a tarefa de fazer discípulos todos os po- vos da terra, ou seja, de fundar o discipulado universal. O encargo da missão universal é transmitido juntamente com a promessa da presença perene do Emanuel e da sua indefectível assistência. Por isso tudo, o discipulado universal é a Igreja. 17. ESCRITOS DE LUCAS A eclesiologia dos escritos de Lucas tem como característica mais evidente a inserção da história particular da Igreja no evento geral da salvação. Em outras palavras, a Igreja não é um evento pri- vado, mas pertence à história geral da salvação. Além da Boa Nova do Reino, também a história dos apóstolos (daí o livro dos Atos dos Apóstolos) tem importância e sentido salvador. Lendo os escritos lucanos (de Lucas), você poderá consta- tar que a Igreja é vista essencialmente como a obra de Deus e não como um mero produto de evolução histórica da sociedade: “Olhai, desprezadores, maravilhai-vos e desaparecei! Porque eu vou fazer, ainda em vossos dias, uma obra tal que não acreditareis, se alguém vo-la narrasse” (At 13,41; Hab 1,5). Com efeito, ela é prodígio escatológico de Deus que não pode ser destruído (At 5,38-39). Para essa obra, conhecida desde sempre (15,18), são chamados Paulo e Barnabé. Eles são separa- dos pelo Espírito Santo para essa missão (13,2). © Eclesiologia108 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Todos os profetas e Moisés anunciaram uma só realidade que é exatamente Jesus: “E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,27; cf. At 28,23). Mas, com Jesus, a promessa da salvação de Israel traz consigo, também, a realidade da Igreja, formada por judeus e pagãos. Assim, a Igreja é o verdadeiro Israel que substitui o antigo. Tempo do espírito Outro elemento importante da eclesiologia lucana é o modo como ela descreve o tempo da Igreja: o tempo da Igreja é o do Espírito que age (At 1,2.5.8.16; 2,4.18). É verdade que o Espírito não começou a agir somente de- pois de Pentecostes. De fato, no Antigo Testamento, o Espírito mostra-se operante na palavra de Davi (1,16; 4,25) e no profeta Isaías (28,25). Mas essa ação do Espírito chega à sua plenitude em Jesus. Por isso, ele é chamado de Espírito de Jesus (At 16,7). Jesus, segundo Lucas, foi gerado pelo Espírito Santo, foi por ele ungido, age, fala e é guiado pelo Espírito Santo; por isso é aquele que “ba- tizará com o Espírito e o fogo” (Lc 24,449). A ação do Espírito não permanece, porém, unicamente em Jesus. Ressuscitado, Ele efunde o Espírito Santo, que recebera do Pai, nos Doze e naquelesque se convertem e são batizados. Assim, com a efusão do Espírito, a Igreja é criada. O Espírito desce sobre os membros da comunidade e “apodera-se” dos Doze. Estes de- sempenham um papel de uma instituição normativa para a Igreja nascente. Os apóstolos, Pedro e a comunidade Outra constatação que você pode fazer é que o grupo dos apóstolos desempenha um papel importante na eclesiologia lu- cana. Lucas descreve-os como os príncipes e os juízes escatoló- gicos em relação à Igreja universal. Evidentemente, os apóstolos 109© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja sozinhos não são a Igreja. Com eles, Lucas menciona sempre a co- munidade de Jerusalém que inclui, também, “algumas mulheres e Maria, mãe de Jesus” (1,14). Os apóstolos possuem a episkopé (encargo; At 1,20) e con- vocam a multidão dos discípulos (6,2). Os diáconos eleitos pela co- munidade “são apresentados aos apóstolos que, depois de terem orado, impuseram sobre eles as mãos” (6,6). Entre os apóstolos, emerge Pedro (Lc 22,31-34). É significativo que os Atos dos Apóstolos falem de “Pedro e dos outros apóstolos” (At 2,37), de “Pedro com os onze” (2,14) e de “Pedro com os apóstolos” (5,29). Pedro sempre aparece como o porta-voz (1,15; 2,14.37; 3,3-12; 4,8.13.19; 8,20). Compete a ele a direção da comunidade. Por sua iniciativa, os doze são completa- dos (1,12-22); Ananias e Safira depõem uma “parte dos bens alie- nados aos pés dos apóstolos” (5,2), ou seja, de Pedro (5,3.8-9). Este é, também, o iniciador da missão entre os pagãos depois de ter trabalhado como missionário na Samaria (9,32-43). Aos doze, é comunicado o Espírito Santo (2,1-4) que tinha sido prometido pelo Ressuscitado (Lc 24,49; At 1,4-5.8). Eles se tornam, assim, os portadores e comunicadores originários do Es- pírito e, por causa disso, as testemunhas de Jesus “em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria até os confins da terra” (At 1,8). Os Doze recebem o Espírito como a dynamis, o poder e a força de serem apóstolos no sentido de testemunhas. Toda vez que falamos de apóstolos, é preciso ter o cuidado de não projetar o nosso conceito dogmático atual sobre o que o Novo Testamento fala deles. Na realidade, a “definição” de apósto- lo é resultado, também, de uma evolução histórica. É o que mostra Estrada (2005) no texto que se segue: Inicialmente o conceito de apóstolo era algo amplo e impreciso, pois ainda não havia recebido a carga dogmática que lhe seria pos- ta mais tarde, na época patrística. Por isso, não há consenso nem precisão na hora de defini-lo, embora as alusões a Cristo ressusci- tado sejam algo comum, tanto para os que defendem a tradição paulina, quanto à lucana. Ocorre que a identidade do apóstolo foi © Eclesiologia110 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO estabelecida na Igreja primitiva, não por Jesus, que só enviou os seus discípulos para a missão de Israel. Atos de Paulo Para Lucas, não há somente os Doze. Um personagem es- tranho, solitário e excepcional torna-se também uma testemunha: Paulo. Por isso, há certa dificuldade de inseri-lo no conjunto total da história salvífica da Igreja primitiva. Para que essa inclusão seja possível, Lucas dedica à narração do apostolado de Paulo toda a segunda parte de Atos, da mesma maneira como a primeira é do- minada pelo apóstolo Pedro. Somente em duas passagens, porém, Paulo é chamado de apóstolo como os Doze (14,4.14). De fato, em relação aos Doze, Paulo era um personagem totalmente novo: não era um doutor carismático nem um diáco- no da comunidade de Antioquia. Depois de sua conversão, Paulo compreende que o seu ser cristão o tornava “instrumento eleito de Deus” (9,15). Assim com a aparição do Senhor Glorificado (9,3- 6; 22,6-21; 26,12-18), Paulo recebe a missão de ser servo e teste- munha do Senhor Jesus glorificado (26,16). Essa aparição tem o mesmo significado das aparições para os onze, ou seja, Paulo não é enviado pelos apóstolos, nem pela comunidade de Jerusalém, tampouco se arroga essa missão: é Deus que, mediante Jesus Cris- to, o envia no Espírito Santo. A Palavra e os sinais dos apóstolos O apostolado dos Doze e o apostolado de Paulo, segundo Lu- cas, são complementares e corrigem-se reciprocamente. Comum entre os dois apostolados é o fato de que, mediante a palavra e os sinais dos apóstolos, o Espírito Santo convoca a Igreja. A palavra “apostólica” é a expressão do Espírito Santo que edifica a Igreja. Seu conteúdo é constituído pela ressurreição de Jesus dos mortos, como se pode ver em At 1,21; 2,30-36; 4,33; 22,14-15; 26,16. A revelação do evento salvífico de Jesus Cristo 111© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja provoca a conversão dos ouvintes, fazendo-os voltarem-se ao Deus vivo, que é o criador e o guia da história (14,15; 26,17-18). A fé concede aos convertidos a prometida remissão dos pecados. Por isso, a pregação de Pedro em Pentecostes termina exortando para a conversão e para o batismo (2,37-38). O Espírito Santo, segundo Lucas, não se serve somente da palavra, mas age, também, por meio de sinais eficazes. A narrati- va do Pentecostes demonstra que o Espírito Santo produz o mila- gre das línguas, com o qual os apóstolos anunciam a palavra que pode ser dita e compreendida em todas as línguas dos ouvintes (2,4.6.11). As curas e os exorcismos realizados por intermédio dos apóstolos (2,43) fazem com que eles se insiram na atividade de Jesus (2,22). Por isso, não são propriamente eles que agem, mas é Cristo que cumpre suas obras por meio deles: “o Senhor dava testemunho à pregação da sua graça operando sinais e prodígios através das mãos deles” (14,3). Essas obras são também realizadas no nome de Jesus Cristo (3,6.16; 4,10.30). Podemos dizer que Deus, mediante a força iluminante e vi- vificante do Espírito Santo, torna Jesus, crucificado e glorificado, íntimo ao homem e o faz ver, no tempo do Espírito Santo, como aquele que foi prometido, que veio e retornará no último dia. Isso acontece mediante a palavra, cheia e transmissora do Espírito San- to, dos Doze e de Paulo. Essa palavra confirma-se como palavra da salvação nos gestos salvíficos que revelam simbolicamente a realidade da salvação. 18. PALAVRA E FÉ Com a palavra apostólica que anuncia Jesus Cristo, nasce a Igreja. De fato, a Igreja é uma comunidade de judeus e pagãos, convocada pelos doze apóstolos e por Paulo mediante a palavra e os sinais. Os membros da Igreja são os que ouviram a palavra e chegaram à fé, convertendo-se, fazendo-se batizar como discípu- los, fiéis e santos. © Eclesiologia112 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Acolher a palavra e, por isso, a realidade salvífica que nela se faz presente equivale a chegar à fé e crer. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– • At 4,4: “Muitos daqueles que tinham ouvido a palavra abraçaram a fé, e o núme- ro dos fiéis, contando apenas os homens, atingiu mais ou menos cinco mil”. • Pedro declara no Concílio de Jerusalém que Deus o escolheu para que “os gen- tios ouçam da minha boca a palavra do evangelho e abracem a fé” (15,7). • A fé é uma atitude que inclui diversos elementos. Por exemplo, Lídia “escutava” a pregação de Paulo e “o Senhor lhe abriu o coração”, de sorte que ela “aderiu às palavras de Paulo”, tornando-se “uma fiel” ao se fazer “batizar” com todos os de sua casa (16,14-15). • “Crer” (pisteuein) é muitas vezes usado em senso absoluto (13,48; 141; 15,5), mas também é indicado o objeto da fé: fé em Jesus (20,21), no Senhor (14,23). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– A fé implica uma conversão (metanoia) que é o conteúdo da pregação universal feita pelas testemunhas na força do Espírito (Lc 24,45-49). Essa conversão implica o afastamento do pecado (At 2,38; 3,19) e a obtenção da remissão (5,31). O objetivo da missão de Paulo entre os gentios, por exemplo, é a conversão: “a fim de abrires os olhos, e assim voltarem das trevas à luz e do império de Satanása Deus, e alcançarem, pela fé em mim, a remissão dos pecados e participarem da herança dos santificados” (26,18). Além disso, a conversão implica os seguintes fatores: a) “converter-se das obras más” (3,26) para “a prática de obras convenientes de penitência” (26,20), pois a fé exi- ge uma existência obediente; b) o “tornar-se” fiel é selado pelo batismo, no qual se co- munica o Espírito Santo mediante a imposição das mãos (8,17; 9,17-18; 19,6); c) essa mudança de rumo representa certamente uma de- cisão, mas é também um dom de Deus para aquele que se converte, pois Deus concede “uma conversão que conduz à vida” (11,18); d) Lucas mostra, em seus escritos, que, onde a palavra é escutada, acolhida e crida e acontece a conversão, se- lada pelo Batismo, surge o discipulado e a fraternidade da Igreja. A Igreja não é o resultado de uma iniciativa 113© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja humana de se congregar, mas nasce da proclamação da palavra e da resposta de fé a ela. 19. COMO É A VIDA DESSA IGREJA? A essa altura de nosso estudo, podemos arrolar sintetica- mente alguns elementos da Igreja primitiva, segundo a descrição que Lucas nos fornece em seus escritos. A comunidade reúne-se desde o princípio (1,4.6.13-15; 2,1.44; 4,31). No início, o ponto de encontro é ainda o templo (Lc 24,53; At 2,46) e as casas dos cristãos (5,42;12,12; 16,5.40; 20,20). Essa flutuação do lugar mostra que não é o ambiente que cria a co- munidade, mas é a comunidade que cria o seu ambiente de culto. Essencial para a edificação da comunidade é a pregação apostólica, mediante a qual a comunidade cresce. Não é mera coincidência que nos Atos o crescimento da comunidade coincida com o crescimento da palavra. As duas coisas acontecem juntas: “E a palavra de Deus crescia. O número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém” (6,7). Muito significativo é o sumário que descreve a vida da Igreja primitiva em termos de culto (At 2,42-47). No culto cristão primiti- vo, estão presentes: a) o ensinamento dos apóstolos (didaké ton apostolon); b) a comunhão (koinonia); c) a fração do pão (klasis tou artou); d) as orações (próseukai). Os membros da Igreja são irmãos (adelphoi). Contudo, isso não significa um nivelamento de todos. Dessa fraternidade, emer- gem dois grupos que, sem destruir a igualdade de base, podem ser identificados como os carismáticos e os detentores de um mi- nistério. © Eclesiologia114 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Na estrutura da Igreja, desde o início, pode-se notar uma ar- ticulação vital entre: • A comunidade, que recebeu o Espírito: o Espírito desceu sobre todos os membros da comunidade (2,4). Também no pentecostes dos gentios, todos os que escutam a pa- lavra de Pedro recebem o Espírito (10,44). Nesse sentido, há igualdade fundamental entre todos os fiéis. • Os carismáticos (ou os profetas): entre esses membros da comunidade, emergem alguns carismáticos. Lucas des- creve a atividade desses carismáticos indicando-os com vários nomes. Profetas como Ágabo (11,27-28), profetas e doutores da Igreja de Antioquia (13,1). Também Judas e Silas são chamados de profetas (15,22.32). Há indivíduos que se demonstram cheios do Espírito, como é o caso de Estevão (6,8.10.15), Filipe (8,29.39) e suas “quatro filhas virgens que profetizavam” (21,9), Barnabé, que era “um homem bom e cheio de Espírito Santo e de fé” (11,24), e Apolo (18,25). A efusão do Espírito em todos não significa uma igualdade nos dons do Espírito. • Os titulares de alguns ofícios, ainda embrionários, de su- pervisão e de governo. A esses últimos compete o poder doutrinal e de decisão: mesmo que todos os membros da Igreja tenham recebido o Espírito, há alguns que são reconhecidos como detentores de um “ministério”. Esse ministério, ainda não bem definido, é, de qualquer forma, continuação do ministério apostólico. Tal ministério apa- rece nos presbíteros (anciãos). As coletas dos irmãos de Antioquia são enviadas “aos anciãos por mãos de Barna- bé e de Saulo” (11,30). Eles são distinguidos dos apósto- los que, por sua vez, se distinguem dos irmãos (adelphoi) (11,1). Em contrapartida, os anciãos são associados aos “irmãos” (15,23). Os presbíteros, segundo At 15,2; 16,4, constituíam em Jerusalém, juntamente com os apóstolos, um senado fechado, mas em si diferenciado. Eles exer- 115© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja ciam a tarefa de guias da comunidade e sua doutrina. Uma espécie de presidência é exercida por Tiago (21,18). 20. IGREJA SEGUNDO O EVANGELHO DE JOÃO No evangelho de João, a palavra “ekklesia” não aparece, mas a sua realidade está sempre presente. João interessa-se pouco pela estrutura concreta da Igreja; a sua atenção concentra-se na comunhão de seus membros e na relação com Jesus. Já que a Igreja é a comunidade dos fiéis que creem, ela já está presente antes da páscoa no discipulado de Jesus terreno e, paradigmaticamente, nos Doze. O que a distingue das multidões e dos incrédulos é exatamente a fé. Várias passagens do Quarto Evangelho mostram a Igreja como a comunidade dos que creem em Jesus em contraposição com os outros. Seus membros são aqueles que o receberam aos quais “foi dado o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creram no seu nome” (1,18). A esses fiéis refere-se, também, 3,18: “quem nele crê não é julgado; quem não crê já está julgado, por- que não acreditou no nome do Filho único de Deus”. Esse grupo permanece aberto, pois há pessoas que creem, mas que não são do círculo dos discípulos (4,39.41.53; 9,38; 11,27). Aqueles que creem se distinguem dos incrédulos (5,38), daqueles que não po- dem acreditar (5,44; 12,39) e dos que, mesmo tendo visto Jesus, não acreditam (6,36; 1024s; 15,24). As diferenças não ocorrem, no entanto, somente entre os fi- éis e os outros. Também entre os fiéis há diferenças. Existem aque- les que creem secretamente (12,42; 19,38), os que acreditam nos sinais, mas nos quais Jesus não confia (2,23s). Por isso, é preciso se dar conta das características da verda- deira fé. São três as marcas da fé verdadeira: • A fé é um permanecer na palavra de Jesus e um habitar da palavra nos discípulos (8,31; 5,38; 15,7). © Eclesiologia116 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO • É uma fé que conhece (6,69). • Uma fé que produz muito fruto (15,8). Exemplos de verdadeiros discípulos que creem dessa manei- ra são os Doze. Apesar de todas as suas incompreensões, eles são vistos por João como discípulos por excelência. Os Doze não são vistos como epônimos do novo Israel, nem como “os apóstolos”, mas sob o prisma do discipulado exemplar de Jesus. Com exceção de Judas Iscariotes e de Tomé em sua dúvida, todos eles são vistos como tipos e representantes dos fiéis. A relação entre Jesus e o discípulo Lendo com atenção o Quarto Evangelho, você poderá obser- var que a eclesiologia de João não se interessa muito pelas es- truturas, nem pelos ofícios, tampouco pela constituição da autori- dade, mas se concentra decididamente na relação dos discípulos com Jesus. Podemos dizer que João não está muito interessado em fun- damentar as estruturas eclesiais e os ministérios, mas em mostrar o tipo ideal de relação que deve haver entre o discípulo e Cristo. Ele não se preocupa tanto com os cargos e as funções, mas com o tipo de relação existente com Cristo. Por isso, a figura do discípulo amado parece até mesmo suplantar a de Pedro. É preciso levar em conta que a relação de fé não é, inicial- mente, uma ação humana. Pelo contrário, a adesão do discípulo é sempre segunda em relação à ação de Deus. Com efeito, João não deixa de ressaltar a primazia da graça em relação à iniciativa humana de crer. Vejamos, juntos, algumas passagens significativas do Quarto Evangelho a seguir. A relação de Jesus com os seus discípulos é marcada pelo fato de que estes são dados pelo Pai.“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair”. “Ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai” (6,65). O discípulo sente-se 117© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja confiado pelo Pai ao Filho. Ele sente-se, também, escolhido por Jesus (6,70; 13,18; 15,19). O Pai confiou os discípulos a Jesus e este imola a sua vida, demonstrando, assim, seu amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1). Ele “dá a vida pelos seus amigos” (15,12s) e morre “pelo povo” (11,50); por isso, ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (1,29.36). A relação entre Jesus e os discípulos não termina com a morte de Jesus. Pelo contrário, Jesus fala de sua morte em termos de par- tida, a qual marca, também, o seu retorno para permanecer com os discípulos que confiaram nele e que foram por ele escolhidos. Ele, porém, retorna e permanece no Espírito. De fato, o Es- pírito é o outro Paráclito que permanece com eles para sempre (14,16). A relação de Jesus com os seus discípulos e, implicitamen- te, com os membros da Igreja é determinada, sobretudo, pela pre- sença futura do Espírito. O outro Paráclito ensinará todas as coisas e recordará tudo o que Jesus tinha lhes dito (14,26). Ele receberá de Jesus e anunciará aos discípulos (16,14), convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo (16,8). Em uma palavra: ele conduzirá à verdade (16,13). Os discípulos e os membros da Igreja (fundada na partida e na imolação e na qual Jesus se faz presente por meio do Espírito) relacionam-se como servos com o seu Senhor (13,13.16; 15,20). Mas esses servos são, também, amigos, uma vez que foram esco- lhidos e destinados a produzir muito fruto (15,14ss). A seus amigos Jesus confia a palavra do Pai e nela são livres (8,31). Eles são filhos e irmãos: irmãos do ressuscitado (20,17a), que, com ele, têm o mesmo Pai e o mesmo Deus (20,17b). Os discípulos são filhos pela mediação do Filho. O discipulado vive de Jesus. Isso é claro em dois textos: a verdadeira vide (15,1ss) e o bom pastor (10,1-17). © Eclesiologia118 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– A imagem da videira apresenta o discipulado de Jesus sob os seguintes pontos de vista: 1. Os discípulos estão unidos a Jesus de maneira muito estreita, quase como se tivessem a mesma natureza. Eles são os ramos da videira. 2. De Jesus os discípulos vivem. Sem ele não podem fazer nada. 3. Na fidelidade da fé nele, a fé produz fruto. Assim, o ramo torna-se vivo no amor e a sua oração é ouvida. Somente enquanto fiéis na fé, eles são realmente os seus discípulos. 4. Deus purifica-os continuamente para que eles possam produzir cada vez mais fruto. 5. Se eles abandonam Jesus, caem no juízo. São cortados e jogados fora, secam e são queimados. A imagem do pastor e de suas ovelhas apresenta Jesus como: 1. Aquele que as ovelhas seguem como o seu legítimo e bem conhecido pastor. Por isso, reconhecem-no imediatamente, confiam nele, pois veio e continuamen- te retorna. 2. Aquele por meio do qual as ovelhas entram e saem e são salvas. 3. O bom pastor que dá a vida para as suas ovelhas. Os discípulos vivem da voluntária dedicação dele. 4. Aquele que guardará eternamente e dará a sua vida para suas ovelhas. Nin- guém as arrancará de sua mão e das do Pai. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Unidade para o mundo A relação de Jesus com os discípulos é tão estreita que os po- vos podem ver Jesus por meio deles. Mas é somente depois da mor- te e do ingresso na glória que isso é possível. Só depois de sua ele- vação é que o Glorificado “atrairá todos para si” (12,32). Para que os discípulos possam realizar obras maiores (14,12) e agir no Espírito que não conhece barreiras, é necessária a glorificação de Jesus. Desse modo, a unidade da Igreja não se confunde com sec- tarismo. Ela não está voltada unicamente para o seu interior, mas abre-se para o exterior. Tal unidade interna em vista da externa, de fato, é a finalida- de da obra de Jesus: “Jesus iria morrer pela nação – e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (11,51-52). Esse é o desejo do bom pastor: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco: devo conduzi-las 119© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (10,16). Também a oração de Jesus é feita no mesmo sen- tido: “a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (17,21). Por isso, Jesus dá aos discípulos a sua glória (a potência e o esplendor do seu amor eterno) “para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me en- viaste e os amaste como tu me amaste” (17,22-23). Essas poucas citações mostram que, para João, a Igreja, una e unificada em Jesus e no Pai, não tem em si sua finalidade, mas encontra seu objetivo no fato de que o mundo, mediante a unida- de da Igreja, possa chegar à fé. O mundo tem necessidade da uni- dade da Igreja para chegar à fé na revelação e ao conhecimento do amor de Deus. Sem a Igreja una, unificante, o mundo não alcança a fé nem a experiência do amor do Pai (o amor com que ele ama o Filho é o mesmo com que ama o mundo). A desunião, portan- to, impede que a Igreja seja crível ao mundo, da mesma maneira como impede que seja crível o amor de Deus pelo mundo. Da relação de Jesus, decorre, portanto, a relação da Igreja com o mundo. Podem definir tal relação como uma relação mis- sionária. Algumas passagens joaninas em que essa relação missionária aparece –––––––––––––––––– Os discípulos são mandados no mundo da mesma maneira como foi mandado Jesus (17,18). Eles não são do mundo (17,14) assim como Jesus. Foram esco- lhidos do mundo por Jesus (15,19), mas mesmo assim estão no mundo. Jesus não intercede para que sejam tirados do mundo, mas para que sejam preserva- dos do mal (17,15). O discipulado crê em Jesus e vive dele; não crê no mundo nem vive dele. “Eu lhes dei a tua palavra, mas o mundo os odiou, porque não são do mundo como eu não sou do mundo” (17,14). O mundo, que vive de si mesmo e se vê a partir de si, percebe os discípulos como uma odiosa contradição. Mes- mo assim, os discípulos são enviados para convencê-lo do amor de Deus por ele, para conduzi-lo à fé e para salvá-lo. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– © Eclesiologia120 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO 21. ESTRUTURAS DA IGREJA Mesmo que João não concentre sua atenção nas estruturas eclesiais, seria um erro pensar que ele considere a Igreja somente como uma realidade espiritual e carismática, oposta a uma Igreja sacramental e ministerial. Pelo contrário, encontram-se nos escri- tos joaninos acenos que falam de uma Igreja visível e exterior. Inicialmente, conforme você já viu anteriormente, existe a mis- são concreta, expressa pelos verbos “apostelein” e “pempein” (do grego, que significa “enviar”). A missão é ação própria dos últimos tempos (ação escatológica), que continua: “como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (17,18). Os discípulos, na condição de enviados de Jesus, continuam sua missão. Importantís- simo é 20,21, quando o Ressuscitado diz solenemente aos dez (os doze sem Tomé e sem Iscariotes): “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Nessa perícope, Jesus, infundindo o Espírito, confere aos discípulos o poder de perdoar os pecados ou de retê-los. Nessas afirmações, apresenta-se a face da Igreja missionária. João menciona, também, o ministério que é reconhecível na pessoa e na função de Pedro. Ele aparece como um dos Doze e, também, como um porta-voz deles. Mas, para João, Pedro é mais do que porta-voz. A ele Jesus dá o nome de “Cefas”, que, na tra- dição, tem o sentido específico de “fundamento da futura Igreja”(1,42). Ao lado dele, aparece a figura misteriosa do discípulo ama- do. Entre eles, estabelece-se uma concorrência: entre aquele que detém o ofício e a pessoa carismática. Quando aparecem juntos (13,23ss; 20,1ss; 21,7.20ss), o discípulo amado tem uma particular intimidade com Jesus, enquanto Pedro é aquele que tem autori- dade (ofício). Em outras palavras, Pedro representa o ministério institucional, definido pelo pastoreio, pelo amor e pelo martírio (Jo 21,15-19); o discípulo amado simboliza aquele que conhece a intimidade de Jesus, é a testemunha por excelência (Jo 21, 23-24) e o modelo para os membros da Igreja. 121© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja No Quarto Evangelho, está presente o princípio da tradição. Nesse particular, é muito significativa a tensão entre o Espírito e a tradição. De uma parte, há uma clara convicção de que, se o Es- pírito não estivesse presente, o que Jesus disse (o que foi e era) seria um evento morto, passado e incompreendido. Em contrapar- tida, se não houvesse a tradição, isto é, o evento-Cristo enquanto é transmitido, o Espírito não teria nada a dizer. O Espírito dá teste- munho de Jesus, mas faz isso por meio dos discípulos que desde o início estão com Jesus e que no presente estão com ele, conser- vando a recordação do que aconteceu nele em virtude do Espírito. Nesse sentido, Jesus identifica-se com a comunidade e afirma que seu conhecimento e visão imediata são assimilados aos da Igreja: “falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, po- rém, não acolheis o nosso testemunho” (3,11). Também o culto da Igreja pode ser encontrado nesse evan- gelho. Os verdadeiros adoradores que adoram o Pai em Espírito e em verdade substituíram todos os cultos até agora existentes. A hora escatológica da verdadeira adoração já começou com Jesus e irrompe com o Espírito (4,19-24). O templo do seu corpo é levan- tado, enquanto o antigo é destruído (2,18-21). Os sacramentos são mencionados de uma maneira peculiar. Do batismo, fala-se expressamente no diálogo com Nicodemos (3,1s). A eucaristia é mencionada com frequência. Os capítulos 14-17, que podem ser designados como discursos da última ceia (19,33-37), são também uma alusão da origem da eucaristia, e o capítulo 6 é inteiramente dedicado a ela. O encargo e o poder de perdoar pecados são recordados em 20,21ss. Nessa aparição, os apóstolos recebem a missão e o poder de julgar os pecados dos discípulos que podem ser perdoados ou retidos. As citações supramencionadas mostram que João não se preocupa tanto em estabelecer como os sacramentos são institu- ídos quanto em acentuar o significado salvífico e de serviço dos sacramentos. © Eclesiologia122 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Leitura complementar: A herança do discípulo amado no Quarto Evangelho: uma comunidade de povo pessoalmente apegado a Jesus –– O conceito de Corpo de Cristo no segmento da herança pós-paulina de Colos- senses/Efésios e o conceito do povo de Deus na herança pós-petrina, apesar de bem diferentes, possuem em comum forte sentido de coletividade eclesial. Chegamos agora a outra herança, a herança joanina ou, mais precisamente, a do Discípulo Amado, como é afirmado no Evangelho e nas epístolas de João. A eclesiologia dessa herança se distingue pela sua ênfase sobre a relação do cristão individualmente com Jesus Cristo. Não quero dizer que João antecipe o individualismo da pregação americana pioneira, encarnada no slogan: “Jesus é meu salvador pessoal”, que passa mais ou menos como sendo bíblico! O AT e as raízes judaicas de João (o do NT em geral) são demasiadamente fortes para che- gar a tanto – em Cristo, Deus salvou um povo. Que o quarto evangelista pensava coletivamente fica demonstrado pelo simbolismo da vinha e dos ramos no cap. 15 e pelo simbolismo do pastor e do rebanho no cap. 10. Não obstante, dentro desse pressuposto coletivo, existe uma concentração sem paralelos na relação de cada crente individualmente com Jesus. Outro aspecto da eclesiologia joani- na é a habitação do Espírito Paráclito no crente, e esse aspecto prossegue nas epístolas de João. Embora esse segundo aspecto esteja relacionado com o pri- meiro, considero mais conveniente dividir a minha abordagem dos dois aspectos, colocando-os em capítulos separados. A eclesiologia do quarto Evangelho é dominada pela extraordinária cristologia jo- anina. Por causa de nossa tendência a reunir as imagens e quadros evangélicos de Jesus, torna-se difícil para nós compreendermos que, entre os quatro evange- lhos, somente João fala explicitamente de carreira preexistente do Filho de Deus. Com efeito, até certo ponto, o retrato que João apresenta de Jesus é único nos escritos do NT. Nos escritos paulinos, existem versículos que foram interpretados como referentes à preexistência, mas a maioria deles é pouco clara ou discutível. Mesmo quando se aceita a interpretação da preexistência, como estou querendo fazer com algumas passagens, as referências paulinas são poéticas e nenhuma delas trata explicitamente de preexistência antes da criação. (As mesmas ob- servações são verdadeiras a propósito do tema da preexistência, relativamente claro, em Hb 1,2-3). A preexistência antes da criação aparece poeticamente em Jo 1,1-3, mas aparece também em prosa como afirmação feita pelo próprio Je- sus em 17,5 (ver 8,58). O Jesus joanino possuía a glória com seu Pai antes que o mundo fosse criado. Ele desceu do céu a esta terra, fez-se carne e revelou ao povo o que vira e ouvira quando estava com o Pai. Em A comunidade do discí- pulo amado, discuti em pormenores o que possa ter contribuído para a evolução da profunda visão joanina sobre a sabedoria e o poder de Jesus e, no princípio do próximo capítulo, mostrarei, muito brevemente, uma história reconstituída da comunidade joanina. Aqui, porém, resumirei a própria cristologia como base para a eclesiologia desenvolvida a partir dela. Um quadro comum na igreja primitiva era o de que, depois de um ministério terre- no que terminou com a crucifixão e a ressurreição, Jesus foi para a direita do Pai, até que finalmente haveria de voltar à terra com glória para fazer o julgamento. Sem negar a vinda final, João transformou radicalmente o quadro evangélico, insistindo em que Jesus já veio à terra, descendo da glória do céu, e, assim, seu ministério público já constituiu um julgamento: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz” (3,19). Até então ninguém 123© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja vira Deus (1,18); mas, como Jesus veio de Deus, quem viu Jesus viu o Pai (14,9). De fato, já que, como Filho, ele recebeu a vida do Pai, ele pode dar-nos a própria vida de Deus (6,57). O pensamento básico é tão simples, que chega a impres- sionar. Um filho recebe a vida dos pais, e a única vida que nossos pais naturais podem dar-nos é a vida da carne (3,6). Se Deus, porém, nos gera, somos filhos de Deus possuindo sua vida eterna. Essa geração passa pela água e pelo Espí- rito, para chegar aos que creem em Jesus (1,12-13; 3,3-6). Os cristãos chegam a ser tais mediante a fé em Jesus e devem continuar unidos a ele a fim de se manterem vivos. Perto do fim do século I, os escritores do NT retratavam Jesus como o construtor, o fundador ou a pedra angular da igreja (Mt 16,18; Ef 2,20). Essa imagem contém visão importante, mas se ressente de algumas limitações impostas pela linguagem construciona. O construtor de um edifício existente agora realizou seu trabalho no passado; está presente apenas como lembrança. Uma pedra angular é necessária na construção enquanto o edifício está sendo levantado; ela, porém, é inerte, e ninguém pensa mais em sua·presença depois que o edifício fica pronto. Em outras palavras, as imagens tiradas da construção podem levar a relacionar Jesus com a Igreja como a al- guém que já passou ou como a uma presença inerte. João evita todas essas imagens. Jesus é a vinha, e os cristãos são os ramosque recebem a vida da vinha. Mais do que o fundador da comunidade, Jesus é o princípio animador, ain- da “vivo e bem presente” no seu meio. Ele é o pastor que cuida do rebanho que lhe pertence, conhecendo as ovelhas e chamando cada uma pelo nome. Para possuirmos a vida eterna, precisamos continuar a seguir o pastor ou a aderir à vinha (Jo 10,27-28; 15,2-6). Esta é uma eclesiologia peculiarmente formada pela cristologia. Dentro das imagens coletivas da vinha e do rebanho, o cerne da eclesiologia reside numa relação pessoal e permanente com o doador da vida que desceu de Deus. Permitam-me ilustrar o caráter único dessa eclesiologia, usando outro exemplo. O Jesus dos evangelhos sinóticos introduz e proclama o reino de Deus, seu do- mínio ou governo no mundo. Grande parte do simbolismo parabólico é aplicado a esse governo celeste: o governo/reino de Deus/céu é semelhante ao semeador ou à semente (Mt 13,3.11.24.31), a um tesouro ou a uma pérola (13,44.45), a uma rede (13,47), ao dono de uma vinha (21,28.31.33.43), ao banquete de núp- cias de um rei (22,2). Mas em João, a exceção para 3,3-5, “o reino/governo de Deus” se acha ausente. Em vez disso, as imagens figurativas ou alegóricas são aplicadas ao próprio Jesus; por exemplo: ele é o esposo (Jo 3,29). Com maior frequência, as metáforas são o predicado do seu soberano “Eu sou”: Eu sou a vinha (15,1.5); Eu sou a porta do rebanho ou o pastor (10,7.9.11.14); Eu sou o pão da vida vindo do céu (6,35.41.51); Eu sou a luz do mundo (8,12; 9,5). Por que a mudança de “o governo/reino de Deus é semelhante” para “Eu sou” como sujeito de tais imagens? Podemos fazer suposições, mas a mudança de sentido em basiléia de “governo”, que implica uma atividade, para “reino”, que implica lugar, pode ter feito parte do tema. Anteriormente, salientei que basiléia não só era localizada e condicionada, mas também (como acontecia com o reino do Filho) era implicitamente identificada com a Igreja. A ausência da terminologia do “reino” em João evita semelhante evolução. Se Jesus e o Pai são um, o governo de Deus é, com maior perfeição, transformado em realidade em Jesus. Em vez de entrar no reino de Deus, como num lugar, precisamos inserir-nos em Jesus para fazer parte da comunidade. Uma história semelhante pode ser detectada em relação aos “sacramentos”. Em Mt 28,19 Jesus ressuscitado ordena aos onze discípulos: “Ide, portanto, e fazei © Eclesiologia124 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Em dois dos quatro relatos eucarísticos do NT, Jesus dá a ordem referindo-se ao seu corpo e ao seu sangue. “Fazei isto em memó- ria de mim” (lCor 11,25; Lc 22,19). Tais diretrizes levaram à afirmação teológica de que Jesus instituiu os sacramentos. Por válido que isso seja, mais uma vez temos a imagem de um fundador: Jesus, perto de sua partida, ordena a seus discípulos fazerem coisas que ele normalmente não fez, pois em lugar algum da tradição sinótica ele batiza e, somente na última ceia de sua vida, ele fala do pão e do vinho como sendo seu corpo e sangue. Assim, existe uma dicotomia: Jesus curou e pregou, mas a Igreja batiza e celebra a eucaristia. (Muitas vezes, isso tem provocado queixas por parte do clero nas igrejas mais litúrgicas; os padres dizem que seu ministério fica por demais envolvido com os sacramentos e não bastante com a ajuda ao povo como Jesus o fez). João evita todo o problema de duas maneiras. Primeiro, o quarto Evangelho não tem mandamentos institucionais relativos ao batismo e à eucaristia. De fato, não existe eucaristia alguma na última Ceia, porém, somente o lava-pés. Segundo, as referências sacramentais joaninas dirigem-se ao que Jesus fez normalmen- te durante sua vida terrena. Por exemplo, a referência mais direta à eucaristia, com uma alusão ao comer a carne de Jesus e ao beber o seu sangue (6,51-58), acha-se ao comentário sobre a multiplicação dos pães, um dos raros eventos no ministério da Galileia a respeito dos quais os quatro evangelhos estão de acor- do. Os outros evangelhos não possuem nenhuma alusão eucarística depois da multiplicação, mas, para João, assim como Jesus alimentou o povo em sua vida terrena, multiplicando o pão físico como sinal do alimento que permanece até a vida eterna (6,27), ele também o alimenta (por meio do pão e do vinho) com sua carne e o seu sangue, que são os alimentos da vida eterna. Outros autores do NT falam da eucaristia como de memorial de Jesus, em que é proclamada a morte do Senhor até que ele venha; mas João ressalta a eucaristia como alimento. No diálogo com Nicodemos (3,3-6), Jesus explica que a vida eterna é dada através da geração/nascimento com a água e o Espírito; no diálogo com os judeus de- pois da multiplicação, Jesus explica que esta vida eterna é alimentada pela sua carne e pelo seu sangue. Esta é a vida “real” ou “verdadeira”, cujos principais sinais são a vida física, o nascimento, o alimento. Permitam-me apresentar-lhes outro exemplo. “Iluminação” era a linguagem cristã primitiva usada para designar o processo de conversão e de entrada na comunidade cristã (Hb 6,4; 10,32; 2Cor 4,6). Jo 9 oferece-nos uma história, contando como Jesus, a luz do mundo, deu a vista física a um homem cego de nascença, uma história que se transformou virtualmente em parábola sobre o modo como a vista (ou visão) espiritual foi alcançada quando o homem chegou à fé em Jesus, depois de ter sido posto à prova pelas autoridades judaicas. Nos capítulos 6 e 9, pois, os leitores joaninos ouviram falar de um Jesus que, durante sua vida terrena, alimentou os famintos e deu a vista aos cegos, por meio de feitos maravilhosos que eram, por sua vez, sinais de realidade celeste. Ao mesmo tempo, pela inclusão da linguagem eclesiástica e sacramental em tais capítulos, o escritor joanino ensinava que Jesus continua a dar a luz da fé e o alimento da vida eterna através dos sinais do batismo e da eucaristia. Jesus não é simplesmente aquele que instituiu os sacramentos da igreja; ele é o doador da vida que permanece ativo nos sacramentos e através destes. Assim, a importân- cia única que João atribui ao relacionamento do cristão com Jesus é sublinhada mediante as imagens sacramentais. 125© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Esse relacionamento com Jesus supera em importância todas as distinções de- correntes do serviço especial na igreja. Neste ponto, podemos contrastar a ima- gem joanina da vinha com a imagem paulina do corpo. Em 1Cor 12, Paulo usou a imagem do corpo como base teológica para rejeitar as invejas suscitadas pelos carismas. Todas as partes ou membros do corpo são indispensáveis; e, assim sendo, não há razão para o pé ter inveja da mão, nem o ouvido ter inveja do olho. “Se o corpo todo fosse olho, onde estaria a audição? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Mas Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade. Se o conjunto fosse um só membro, onde estaria o corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo” (lCor 12,17-20). De modo seme- lhante, não há razão para que aqueles que têm um carisma (apóstolos, profetas, mestres, os que operam milagres, os que têm o dom da cura, os que falam em línguas) desejem outro carisma. De nada adiantaria se todos fossem apósto- los, se todos fossem profetas, etc.; porque a Igreja precisa da diversidade de membros. A vinha joanina também é imagem capaz de tal interpretação. Caule, galhos, ramos, folhas e frutos poderiam igualmente ser utilizados para ilustrar diversos carismas de serviço com a mesma facilidade com que se usaram os membros do corpo. Mas João escreve apenas sobre a vinha (Jesus) e os ramos (os cristãos). O Evangelho não demonstra nenhum interesse pelos diversos ca- rismas que distinguem os cristãos: ele está interessado em um status básico em que a vida é recebida por todos. Havia, porventura, diversos carismas na comunidade joanina? Quanto a profetas e mestres,somente os falsos profetas são mencionados (1Jo 4,1), e a necessida- de de mestres é negada (1Jo 2,27). Uma falta de distinção baseada em carismas ou ofícios é especialmente observável na eclesiologia joanina em relação aos apóstolos. No resto do NT a importância do apóstolo é clara. Nos anos 30 e até os anos 60, isto é, na época em que os apóstolos bem conhecidos estavam vivos e atuantes, encontramos a insistência constante de Paulo em seu próprio apos- tolado (Gl 1,1; 1Cor 15,9-10; 2Cor 11,5). Ele menciona o apostolado em primeiiro lugar entre os carismas que Deus estabeleceu na Igreja (1Cor 12,28; ver também Ef 2,20; 4,11). No último terço do século I, depois que os apóstolos reconhecidos como tais já tinham morrido, eles eram lembrados de maneira proeminente nos evangelhos sinóticos, nos Atos, nos escritos pós-paulinos e pós-petrinos, bem como no Apocalipse. Mas o termo “apóstolo” se acha completamente ausente nos escritos joaninos – tanto no Evangelho quanto (o que é mais de admirar) nas três epístolas. Nenhum apóstolo é citado como o grande herói desta comunida- de, como acontecia nas heranças paulina e petrina. Pelo contrário, a figura por excelência é um discípulo: “o Discípulo que Jesus amava”. Não quero dizer que o evangelista joanino pretendesse negar a existência de apóstolos na história cristã. Ele menciona os doze (Jo 6,67.70.71; 20,24) e dificilmente poderia ter desconhecido que eles fossem considerados apóstolos. Ele tem conhecimento de um envio (apostellein, 17, 18) por Jesus, o qual constitui a base do apostola- do. Evidentemente, porém, o apostolado não representa dignidade prioritária na eclesiologia joanina. O quarto Evangelho enfatiza o discipulado, um status que abrange todos os cristãos; e, dentro desses status que conferem dignidade, está o amor de Jesus. A diferença entre a eclesiologia joanina e a de outros escritores do NT sobre este ponto é ilustrada pelo contraste contínuo entre o Discípulo Amado de João e Pedro, o mais eminente dos doze (pelo menos por volta do fim do século) e o apóstolo mais importante para a maioria dos cristãos. Em Mateus (16,16; 17,24; 18,21), Pedro entre os doze é o porta-voz junto a Jesus; mas, na última Ceia, em © Eclesiologia126 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Jo 13,22-26, Simão Pedro não pode falar diretamente com Jesus, por se encon- trar distante dele. Por isso, Pedro tem de falar com Jesus por intermédio do Dis- cípulo Amado, que está perto de Jesus, reclinado sobre o peito dele. Na tradição sinótica, Pedro é o único dos doze que acompanha Jesus depois de preso até a corte ou palácio do sumo sacerdote. Em Jo 18,15-16, Simão Pedro não con- segue seguir Jesus até o pátio enquanto o Discípulo não intercede para que lhe seja permitida a entrada. Na tradição sinótica, até Pedro por fim abandona Jesus, a tal ponto que nenhum dos seguidores de Jesus se encontra perto dele quando este morre na cruz. Em João, um dos discípulos nunca abandona Jesus, porque ao pé da cruz está o Discípulo Amado, bem como a mãe de Jesus. Na verdade, ao fazer de sua mãe a mãe do Discípulo Amado (19,26-27), Jesus adota esse Discípulo como irmão. Assim, a cena junto à cruz substitui a resposta joanina à pergunta tradicional: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” A posição proeminente de Pedro na Igreja em larga escala foi fortemente influen- ciada pela lembrança em vários círculos do NT de que ele fora o primeiro entre os Doze a ver Jesus ressuscitado (1Cor 15,5; Lc 24,34). Em Jo 20,8, entretanto, quando Simão Pedro e o Discípulo Amado correram e viram o sepulcro vazio, o Discípulo (sozinho) crê sem ver Jesus ressuscitado. Assim, enquanto tradi- cionalmente Pedro pode ter sido o primeiro apóstolo a ver Jesus ressuscitado, a tradição joanina conhece um Discípulo que foi ainda mais abençoado porque creu sem ter tido tal visão. E, mesmo quando esses dois homens juntos veem Jesus ressuscitado, Simão Pedro só reconhece o Senhor depois que o Discípulo diz a Pedro que é o Senhor (21,7). O amor aproximou mais de Jesus o Discípulo do que o apóstolo mais importante e tornou esse Discípulo mais perspicaz. E, se o martírio em Roma fez de Pedro um dos pilares da igreja (1Clem 5,2-4), Je- sus dedicou especial cuidado ao Discípulo, que não foi mártir (21,18-23); e este se transformou na testemunha permanente por excelência, cujo testemunho é verdadeiro (21,24). Enquanto pessoa real, o Discípulo Amado, funciona no Evan- gelho como a encarnação do idealismo joanino, todos os cristãos são discípulos e, entre eles, a grandeza é determinada pela relação de amor com Jesus e não pela função ou ofício. Finalmente, mesmo quando o ofício é reconhecido na tradição joanina como ne- cessidade pastoral, ele é visto através do prisma dos valores joaninos. O cap. 21 (que foi provavelmente um epílogo acrescentado ao Evangelho) traz à baila a questão do zelo permanente por aqueles que foram trazidos para a comunidade cristã pela atividade missionária. Antes, Jo 10,1-18 tornou claro que só Jesus é o modelo do pastor, ao passo que todos os outros são ladrões e bandidos. O traço característico e distintivo de seu pastoreio não é a autoridade ou o poder que exerce sobre o rebanho, mas seu conhecimento íntimo das ovelhas e o amor que lhes dedica. Ele conhece cada uma pelo nome, e elas respondem quando ele chama; ele está sempre disposto a dar a própria vida por elas. No capítulo 21, a Pedro é atribuído o papel de conduzir o rebanho, papel que supõe autoridade, que no último terço do século I era exercido pelos presbíteros em outras igrejas do NT e que provinha de apóstolos como Pedro e Paulo (1Pd 5,1-2; At 20,28; 1Clem 42,4; 44,1-3). Antes, porém, que esse papel fosse dado a Pedro em Jo 21,15-17, Jesus lhe perguntou insistentemente (três vezes!): “Tu me amas?” Se a autoridade é concedida, precisa ser baseada no amor de Jesus. Além do mais, Jesus continua a falar de “meus cordeiros, minhas ovelhas”. O rebanho não per- tence a Pedro nem a nenhum agente da Igreja humana; cordeiros e ovelhas continuam a pertencer àquele que disse: “Eu sou o bom pastor [o pastor-modelo]; conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem” (10,14). E, se 127© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja a Pedro é dada a tarefa de pastor, ele deve preencher os requisitos joaninos para o pastoreio, a saber, que “o bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (10, 11). Por conseguinte, depois de dizer a Pedro três vezes que alimente/conduza o rebanho, no trecho seguinte (21,18-19) Jesus lhe fala sobre a maneira como será levado à morte. Essa morte será a prova de que, no papel de Pedro como pastor, foi dada prioridade ao amor ao discipulado: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros [...]. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (13,35; 15,13). Focalizei a maneira como uma leitura profunda do quarto Evangelho mostra quão importante é o discipulado, e não os ofícios ou carismas, nem outras distinções. Permitam-me chamar-lhes a atenção para o último exemplo do igualitarismo que evidencia forte contraste em relação às tendências das epístolas pastorais. [...] Discuti a possibilidade de que na eclesiologia de tais epístolas a distinção entre os mestres e os que recebiam o ensinamento tendia a tornar-se fixa em vez de flexível, de modo que as habilidades de grande número de cristãos, que consti- tuem “os que recebem o ensinamento”, não eram estimuladas. Os que não eram mestres oficiais, muitas vezes, não mereciam confiança quando se tratava de discernir a verdade por si mesmos. Principalmente, 2Tm 3,1-9 destaca as mu- lheres entre os que recebem ensinamento, apontando-as como excessivamente ingênuas: “Elas ouvirão qualquer pessoa e jamais chegarão à verdade”. Mesmo que o “elas” não signifique todas, a categoria é minimizada; e o resultado prático é claramente articulado pelo “Paulo” de 1Tm 2,12: “Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve,pois, o silêncio”. Havia, pois, tendência para a discriminação contra as mulheres em algumas igrejas do NT, sobretudo nas igrejas em que as funções da comunidade eram mais cuidadosa- mente estruturadas. Atitudes joaninas em relação às mulheres, como as que se encontram no quar- to Evangelho, são impressionantemente diferentes – uma diferença ainda mais interessante se os escritos joaninos tiverem sido contemporâneos das epístolas pastorais. Nos caps. 4, 9 e 11, em narrativas completas bem diversas dos relatos existentes nos evangelhos sinóticos, João apresenta cenários que nos permitem observar a diferenciação e a evolução de caracteres através da reação em face de Jesus. No âmago da mulher samaritana, de Marta e Maria, existem caracteres absolutamente iguais em importância ao cego e a Lázaro. No retrato dos maiores crentes – homens e mulheres –, não existe diferença alguma de inteligência, de vivacidade nem de resposta. Marta serve de porta-voz para uma confissão de fé (11, 27: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”), que é colocada nos lábios de Pedro em Mt 16,16-17, aliás confissão que valeu a este por parte de Jesus uma bênção e um reconhecimento de que a divina revelação agia nele. Se na última Ceia o Jesus joanino reza por aqueles que hão de crer nele através da palavra de seus discípulos – homens – (17,20), uma cidade inteira chega a crer em Jesus por meio da palavra da mulher samaritana (4,39). Em Jo 20,14, quem primeiro vê Jesus ressuscitado não é Pedro, porém, Maria Madalena; e, quando ela vai ao encontro dos discípulos, é a primeira a fazer a proclamação pascal: “Eu vi o Senhor” – privilégio que lhe conquistou na Idade Média a designação de apostola apostolorum (a apóstola dos apóstolos). Se a inserção no discipulado é estabe- lecida pelo amor de Jesus, como vemos exemplificado na frase: “o discípulo que Jesus amava”, diz-se que “Jesus amava Marta, sua irmã e Lázaro” (11,5). Como poderiam os círculos de onde veio este Evangelho concordar na prática com as epístolas pastorais na sua proibição de as mulheres ensinarem e na insinuação de que estas nunca chegam à verdade? © Eclesiologia128 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Força e fraqueza Esbocei o que há de mais importante em consistência na eclesiologia joanina, eclesiologia que possui firmes raízes numa cristologia única. Jesus, como Filho Unigênito de Deus, antes da criação, é a fonte exclusiva de vida divina para os seres humanos. As imagens da vinha e do pastor ilustram ser de absoluta importância para cada pessoa não só crer em Jesus, mas permanecer unida a ele, pois ele continua a ser um doador de vida atuante e alguém que alimenta a vida na comunidade. Em vez de escrever sobre o governo ou o reino de Deus, João centraliza todas as suas imagens em Jesus, como sendo aquele em quem o reino de Deus foi perfeitamente realizado, de modo que pertencer a ele subs- titui a entrada no reino. Os sacramentos são sinais mediante os quais Jesus dá e alimenta a vida. Os ofícios da igreja e mesmo o apostolado são de menor importância, quando comparados ao discipulado que é literalmente questão de vida (eterna) e de morte. Dentro do discipulado, não existem cristãos de segunda classe; e somente o amor de Jesus dá maior status. [...]. Quais os pontos fortes e fracos de um quadro tão fortemente consistente? O primeiro e maior ponto forte provém do fato de que um relacionamento indi- vidual com Jesus por parte dos membros da Igreja é componente necessário a uma sólida eclesiologia. As eclesiologias discutidas nos capítulos anteriores, todas elas, supõem a coletividade da Igreja. Os membros de uma igreja deveriam ter o senso, a convicção de estarem recebendo supervisão pastoral cuidadosa e doutrina cristã merecedora de confiança (as epístolas pastorais). Em momen- tos de crise, os membros de uma igreja deveriam ter o senso de continuidade com uma história passada, em que as crises foram superadas por meio da in- tervenção do Espírito, e com uma história futura que (ainda que desconhecida) se acha incluída no plano de Deus para a evangelização do mundo (Atos). Os membros deveriam ter o senso de sua dignidade, que decorre da pertença à Igreja, e de sua identidade como povo de Deus (primeira epístola de Pedro). Os membros deveriam ter a convicção de que a Igreja é mais do que seus compo- nentes humanos, porque ela é o Corpo de Cristo, que participa de sua santidade (Colossenses/Efésios). Mas nada disso substitui o relacionamento com Jesus. É verdade que a eclesiologia do Corpo de Colossenses/Efésios dá clara centrali- dade ao Cristo, mas, ironicamente, o Cristo que é a Cabeça do Corpo fica sem face. Isso acontece porque a eclesiologia de Colossenses/Efésios se situa na herança paulina; e, em suas epístolas, Paulo (que não conheceu Jesus na carne) não entra na personalidade de Jesus. Quem só dispunha das epístolas paulinas estaria familiarizado com algumas frases de Jesus e saberia que, na noite antes de morrer, Jesus participou de uma refeição eucarística com seus discípulos, que Jesus foi crucificado e sepultado e que Jesus ressuscitou no terceiro dia e apareceu a determinadas pessoas. Mas que tipo de pessoa Jesus era, e porque o povo o seguia durante a sua vida terrena são dados que nunca aparecem em tais epístolas. Assim sendo, embora nos digam em Colossenses/Efésios que os membros do corpo recebem a vida de Cristo como Cabeça e que estão unidos a ele pelo amor, as imagens permanecem abstratas e impessoais. Muitas vezes, elas não satisfazem o anseio religioso de encontrar Deus de maneira pessoal. O retrato que João faz de Jesus vai ao encontro dessa necessidade de modo extraordinariamente positivo. Em parte, esta é a causa por que João usou a forma de Evangelho como veículo de seu pensamento e assim há de introduzir o mistério do ministério de Jesus em sua eclesiologia. Falo de “o mistério” do ministério de Jesus, a fim de fazer justiça a um elemento sobre a vida de Jesus que escapa a descrições discursivas (ou, 129© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja pelo menos, escapa às minhas habilidades discursivas). Mesmo críticos muito céticos do NT têm de admitir que Jesus, durante sua vida na terra, deve ter im- pressionado o povo de maneira extraordinária. No entanto, o tom dos seguidores de Jesus no ministério envolve algo mais do que isso – até mais do que admira- ção e veneração religiosas. Jesus era lembrado como alguém que demonstrava amor no que fazia e que era profundamente amado por aqueles que o seguiam. Detectar o existente entre Jesus e seus discípulos não é aberração da exegese do século XIX; nem é um fato desmentido por tradição de afirmações duras feitas por Jesus, que bem podem ter sido autênticas. O amor não constituía apenas o quadro geral, mas pertencia ao quadro. Se temos o direito de fazer a pergunta que perpassa as páginas deste livro, ou seja, de que modo sobreviveram as igre- jas depois da morte dos apóstolos, poderíamos reconhecer a existência de uma pergunta eclesiológica prioritária: como os seguidores de Jesus, cheios de amor por ele, puderam sobreviver depois que ele morreu? A resposta que sugiro é a de que eles sobreviveram somente porque o amor a Jesus era encarado como elemento permanente, mesmo entre aqueles que nunca chegaram a conhecê-lo durante o seu ministério. Podemos indagar o que quis Paulo dizer exatamente quando afirmou: “A caridade de Cristo nos compele” (2Cor 5,14); entretanto, fica claro que Paulo não só acreditava em Cristo, mas também o amava. (A face de Jesus pode não transparecer nas epístolas de Paulo, mas Jesus tinha uma face para Paulo). E, assim sendo, podemos afirmar que uma relação de amor com Je- sus, que integrava o seguimento de Jesus durante sua vida terrena, permanece como necessidade intrínseca na Igreja. Isso pode parecer romântico e idealista, mas é surpreendentemente verificável na prática. Além de se manter atenta à doutrina e à pastoral, à liturgia e aos sacramentos e a um senso de pertença –que lhe sirva de apoio – a uma comu- nidade acolhedora, uma igreja precisa levar as pessoas a algum contato pessoal com Jesus, de modo que elas consigam experimentar, cada uma à sua manei- ra, o que as fez segui-lo em primeiro lugar. (Às vezes, o termo “espiritualidade” abrange esse aspecto necessário da eclesiologia). As igrejas que fazem isso hão de sobreviver. O fato de Cristo ter querido ou ter fundado a Igreja pode ser uma teologia adequada para alguns; mas uma abstração, focalizada no passado, não será suficiente para conservar outros seguidores leais a uma igreja, a menos que eles encontrem Jesus aí. Eles se reunirão em grupos menores onde veem a pos- sibilidade de encontro com Jesus, mesmo que estes sejam leve e superficialmen- te ligados ou até separados da Igreja. No princípio deste capítulo, fiz referência indireta a uma forma exagerada de individualismo cristão – um modelo do “Jesus e eu”, que torna o povo de Deus irrelevante em importância. A verdadeira atração que o individualismo assim exagerado teve para o povo salienta a necessidade de se considerar o relacionamento de amor pessoal com Jesus como componen- te de quadro cristão mais largo. Nas paróquias católicas romanas, que adotaram seriamente as mudanças do Va- ticano lI, existe muitas vezes participação bem maior dos paroquianos na Liturgia e na vida paroquial em geral. O mais alarmante para os pastores de paróquias assim atuantes reside em perceberem que estão perdendo os paroquianos, que se afastam por preferirem grupos religiosos que acentuem o relacionamento pes- soal com Jesus, baseando-se nas Escrituras (por vezes interpretadas de manei- ra radical). Tais pastores argumentarão com razão que não pode existir paróquia sem haver comunidade de culto; eles, porém, estão achando que o culto em si, sem ser acompanhado de espiritualidade pessoal, não consegue sustentar © Eclesiologia130 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO algumas pessoas. A Igreja, mesmo na celebração litúrgica, pode parecer abstra- ída do Jesus descrito nas páginas do evangelho. [...]. Se isso acontece com o lenho verde, que não acontecerá com o lenho seco? Em muito maior escala, as grandes paróquias impessoais – de qualquer denominação que seja – perderão paroquianos, não só porque os paroquianos não têm senso ativo de pertença à comunidade, mas também porque não encontram Jesus na igreja. A expressão “cristãos renascidos” ou “nascidos de novo” é, às vezes, usada pejorativamente pelos membros da igreja principal, para designar pessoas tão impressionadas pelo relacionamento salvífico individual com Jesus, que parecem construir sua eclesiologia própria. Não há dúvida de que o de João é o Evangelho por exce- lência desses “renascidos” entusiastas. Não obstante, eu diria que João desem- penha papel corretivo nas principais igrejas, quando é lido mais crítica do que harmoniosamente. Ele pode lembrar-lhes, como o fizeram os cristãos no século I, que o ser membro da Igreja não constitui objetivo suficiente, porque a igreja deve levar a Jesus. Os membros da Igreja recebem a vida em decorrência do fato de se acharem unidos a Jesus e devem manter relacionamento de amor com ele. A principal fraqueza desse enfoque da eclesiologia joanina já está incluída no que eu disse acima. A obra de João, tomada em si mesma, sem o contexto judaico de coletividade herdado de Israel, tende a favorecer o individualismo cristão, a ponto de se perder o senso de igreja. (Não é acidental a constatação de que o termo “igreja” no seu sentido amplo não ocorre nos escritos joaninos). Quando o Evan- gelho de João e suas epístolas são lidos com o intuito de sustentar a mentalidade sintetizada na frase: “Jesus é o meu salvador pessoal”, uma conclusão lógica que alguns podem tirar é a de que eles não precisam de comunidade, de que não precisam pertencer a um povo, nem de participar de liturgia e de sacramen- tos. Grupos pietistas, para os quais algumas passagens em João fazem deste o Evangelho, deveriam refletir sobre as epístolas pastorais, sobre Colossenses/ Efésios e sobre a primeira epístola de Pedro, para corrigirem sua posição. O segundo ponto forte na eclesiologia joanina é o seu igualitarismo, isto é, o sen- so de igualdade entre os membros da comunidade. Vemos que o discípulo – ou discipulado – constitui a categoria mais importante e que nem carismas nem ofí- cios dão status. Em outras igrejas do NT, ao mesmo tempo em que se regozijam com os carismas (apóstolos, profetas, mestres, etc., em 1Cor 12,28) ou que de- sempenham ofícios regulares (os presbíteros-bispos e os diáconos das epístolas pastorais), existe a tendência a dar a um carisma ou a um ofício prioridade sobre outro. Esse procedimento decorre, em parte, consciente ou inconscientemente, da imitação das sociedades seculares; e inevitavelmente, como nas sociedades seculares, a precedência será equiparada ao valor. Encontramos um eco disso em várias passagens evangélicas que corrigem as tentativas feitas por alguns membros do grupo dos doze, no sentido de conseguir o primeiro lugar no reino ou de ser o maior (Mc 9,33-37; 10,35-40; e paralelos). Essa tentativa não é re- cordada no quarto Evangelho; a ambição não é fator justificável já que todos são discípulos, e a precedência ou status provém do amor de Jesus. De fato, o autor de 3Jo 9 mostra certa indignação contra Diótrefes, que parece estar querendo introduzir algo semelhante ao ofício episcopal na eclesiologia joanina. O escritor joanino diz com desprezo: “Ele ambiciona o primeiro lugar”; e, no decorrer dos séculos, muitos cristãos experimentaram o mesmo dissabor, por causa da ambi- ção provocada por uma igreja estruturada. Na outra face da moeda, vemos que a correção feita por João talvez seja mais importante hoje, quando muitos se sen- tem como que cidadãos de segunda classe na Igreja, porque não têm autoridade 131© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja – um reconhecimento tácito de como se tornou importante o poder na Igreja. Tanto os que ambicionam a autoridade quanto os que demonstram tristeza por não possuí-la não entenderam a lição da vinha e dos ramos. Existe um problema especial nas igrejas que incluem sacerdócio ordenado em sua estrutura eclesial. Ao discutir [...] a primeira epístola de Pedro, salientei o fato de que a presença do sacerdócio ordenado pode acarretar o infeliz efeito colateral de minimizar a avaliação e o apreço do sacerdócio de todos os crentes. Em relação à igualdade dos cristãos como discípulos, é particularmente difícil ao sacerdócio ordenado conservar-se na categoria de serviço (a Deus e à comuni- dade), pois os sacerdotes ordenados frequentemente hão de ser considerados como mais importantes e automaticamente mais santos. Sendo a ordenação en- carada como sacramento e lidando os padres com coisas sagradas, com frequ- ência se lhes atribui valor maior do que aos simples cristãos. Na minha própria igreja, alguns se sentiriam surpresos diante desta afirmação quase elementar: o dia em que pessoa é batizada é mais importante do que o dia em que uma pes- soa é ordenada padre ou bispo. O primeiro sacramento dentre todos refere-se à salvação; ele faz da pessoa um filho de Deus, dignidade que supera o serviço especial prestado a Deus. Os papas recentes louvavelmente renunciaram a um aparato ligado à realeza, além das cerimônias relacionadas com o ofício papal, por exemplo: a tiara, a coroação, etc. Não sei que impressão causaria um futuro papa que decidisse não aceitar nome especial para o seu reinado e preferisse ficar com seu nome de batismo, explicando que queria ser conhecido pela Igreja através do nome com que foi assinalado como cristão e conhecido por Jesus Cristo. Esse gesto removeria um sentido errado de alguns direitos papais apoia- dos por muitos seculares, pois demonstraria a convicção de que uma identida- de como a de cristão é salvificamente mais importante do que uma identidade decorrente do exercício da autoridade. Tal sugestão não nega a legitimidade da autoridadedo vigário de Pedro reconhecida em minha Igreja; pelo contrário, ela contemporiza o que João tentava dizer ao comparar o Discípulo Amado com Pedro (BROWN, 1986, p. 106-127). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 22. IGREJA SEGUNDO AS CARTAS PAULINAS Iniciemos nosso estudo sobre a eclesiologia paulina concentran- do-nos nos três principais nomes que Paulo usa para designar a Igreja: “Igreja” (ekklesia), “Corpo de Cristo” e “Templo do Espírito Santo”. Igreja Paulo não criou a palavra “ekklesia”. Ela é própria da LXX, que a usa para traduzir a palavra “qahal” (assembleia, povo de Deus enquanto se reuniu para ouvir a Palavra de Deus no monte Sinai). © Eclesiologia132 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO LXX – setenta – septuaginta –––––––––––––––––––––––––––– A versão grega mais importante do AT é chamada dos “Setenta”, porque, segun- do uma lenda, teria sido feita por setenta (ou setenta e dois) estudiosos que tra- balharam cada um ignorando a tradução alheia. Segundo a tradição hebraica, foi comissionada por Ptolomeu Filadelfo (285-246 a.C.) para a sua famosa bibliote- ca de Alexandria. Na verdade, parece ser o resultado de um trabalho conjunto de muitos tradutores e foi concluída mais tarde: aproximadamente em 132 a.C. Em alguns pontos importantes, difere da Bíblia hebraica. Alguns livros que não fazem parte da Bíblia hebraica (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc) foram introduzidos nos “Setenta”, enquanto alguns livros (por exemplo, Ester) apare- cem com uma forma mais longa. Esses livros e passagens tradicionais, chama- dos “Apócrifos” na tradição protestante, são considerados “deuterocanônicos” pelos Católicos e pelos Ortodoxos. Ao citar o AT, os autores neotestamentários seguem muitas vezes os “Setenta” em vez do original hebraico. Muitos Padres da Igreja consideraram os “Setenta” como a versão oficial do AT (O’COLLINS, G.; FARRUGIA, E. Settanta. In: Dizionario sintetico di teologia. Vaticano: Libreria editrice vaticana, 1995, p. 341). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Paulo utiliza o termo “ekklesia” com naturalidade e com fre- quência. Em todo o Novo Testamento, “ekklesia” aparece 114 ve- zes, sendo que aparece 62 vezes só em Paulo. Paulo vê a “ekklesia” de Deus em Cristo como a continuação do povo de Deus/Israel. Ela é preparada em Israel e, agora, no final dos tempos, encontra-se concentrada no Israel de Deus formado de hebreus e pagãos (Gl 3,29; 6,16). Enquanto continuação, a Igreja é, também, cumprimento. O povo de Deus, com o qual Deus se comprometera a estipular um novo pacto (Jr 31,31s), será inicialmente reunido (Jr 31,1s; Ez 48; Zc 9,1ss), tirado da sombra e manifestado como o verdadeiro povo. É exatamente isso que, para Paulo, acontece na Igreja (1Cor 11,25). Importante para o nosso estudo é a expressão “Igreja de Deus” (ekklesia thou Theou; cf. 1Cor 1,2; 10,32; 11,22; 15,9; 2Cor 1,1; Gl 1,13). Mas, o que Paulo quer dizer com isso? Indica, princi- palmente, que a Igreja tem sua fonte e origem de Deus. Ele é fonte da vida e da existência da Igreja. Algumas vezes, Paulo usa, também, a expressão “Igreja de Cristo” (Rm 16,16). Essa expressão não contradiz o fato de que 133© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Deus seja a fonte da vida da Igreja, mas reafirma a convicção de que a iniciativa divina de convocar a Igreja é mediada por Jesus Cristo e seu Evangelho. Assim, a Igreja é uma convocação de Deus em Cristo (1Ts 2,14; Gl 1,22). Em outras palavras, pela pregação de Cristo crucificado, Deus chama a si homens e mulheres e transfor- ma-os em sua “ekklesia”. Esse povo escatológico de Deus aparece em todo o mundo nas comunidades locais e, no entanto, é sempre um único povo. Para Paulo, o termo “ekklesia” sempre designa uma comunidade concreta (Rm 16,1.16.23; 1Cor 4,17; 6,4) ou uma comunidade do- méstica (Rm 16,5; 1Cor 16,19; Cl 4,15; Fm 2) de tal maneira que ele usa muitas vezes a expressão no plural (“ekklesiai”: Rm 16,4; 1Cor 11,16; 14,33s; 16,1.19). Mas a Igreja local também é vista como a Igreja de Deus. Paulo endereça sua carta “à Igreja de Deus que está em Corinto” (1Cor 1,2; 2Cor 1,1), mas tal comunidade local torna presente o único povo de Deus. A Igreja de Deus manifesta-se em Corinto, em Roma, em Tessalônica e em qualquer outro lugar onde exista uma comunidade. Não existem dois ou três povos. Por isso, cada comu- nidade local é a representante do povo de Deus no mundo. Como você pode notar, na eclesiologia de Paulo, a tensão entre o local e o universal mantém-se em equilíbrio e harmonia: cada Igreja local encarna e realiza toda a Igreja de Cristo; cada fiel pertence à Igreja de Cristo por estar inserido numa Igreja local. A Igreja local não é uma parte da Igreja universal. Não há prioridade temporal ou teológica de uma sobre outra: a Igreja universal só pode ser vivida a partir da comunidade eclesial local, e a pluralida- de das Igrejas em comunhão é a realização histórica do universa- lismo da Igreja de Cristo. Dessa forma, o cristão pertence à única Igreja de Cristo, que existe em cada Igreja local. Presente em Jerusalém, em Roma e na Espanha como único povo, a Igreja apresenta-se, ainda, como assembleia (convocação) santa. Essa autoconsciência manifesta-se nas cartas aos Romanos © Eclesiologia134 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO e aos Coríntios, em que Paulo se dirige a eles como “os chamados de Jesus Cristo” (Rm 1,6); “chamados de Deus” (Rm 8,33) e “san- tos” (Rm 8,27; 12,13; 16,2.15; 1Cor 6,1; 14,33). A santidade dos membros dessa convocação santa do novo Povo de Deus funda-se e consiste sempre no fato de que eles são já santos enquanto cons- tituem a ekklesia e a santa assembleia. A essa concepção acrescenta-se, também, o conceito da as- sembleia dos cidadãos da polis (cidade) antiga grega. A Igreja dos cristãos vê-se como comunidade reunida para o serviço religioso e, também, como uma entidade pública. Nesse sentido, Paulo pode dizer que os cristãos estavam antes “excluídos da cidadania em Israel”, mas que agora se tornaram “concidadãos dos santos” (Ef 2,12.19). A Igreja é uma colônia da cidade celeste sobre a terra (Fl 3,20). Corpo de Cristo Para exprimir a relação da Igreja com Cristo, Paulo usou um conceito muito significativo: a Igreja é corpo de Cristo (Soma Kris- tou). O uso específico do conceito corpo de Cristo para designar a Igreja é exclusivo de Paulo e, por isso, pode-se dizer que ele é o inventor dessa expressão. Falando esquematicamente, a eclesiologia do Corpo de Cris- to tem duas vertentes diferentes: uma é exposta em Rm e 1Cor, e a outra, em Ef e Cl. Em Rm 12,4-8 e 1Cor 12,12-30, a imagem do corpo aplica- da à ekklesia serve para mostrar que cada membro, com os seus dons, é necessário para os outros e para o bem do corpo como um todo. Como todas as partes do corpo humano são necessárias e cada membro contribui com todo o corpo, assim cada fiel, com os seus carismas, oferece a sua contribuição para o corpo eclesial. A metáfora do corpo aplicada à ekklesia tem como conse- quência o reconhecimento da igual dignidade dos cristãos na di- versidade de seus dons. Na Igreja, a igual dignidade cristã não se 135© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja realiza em detrimento das diferenças entre os fiéis; pelo contrário, afirma-as e reconhece-as. Não há uniformidade, mas comunhão dos diferentes na única dignidade. A Igreja é o corpo comunitário de Cristo, formado por muitos membros e comunidades. Nesse último sentido, a imagem paulina do corpo de Cristo fundamenta uma visão da Igreja em que esta aparece como comunhão de comunidades locais. Cada uma das Igrejas locais está em comunhão com as outras, consciente de que não pode se fechar em si mesma, nem impor as suas particularida- des como a única maneira de ser Igreja de Cristo. A Igreja de Cristo não se esgota nem se identifica pura e simplesmente com uma Igreja local,tampouco a elege como modelo universal de concre- tização da Igreja universal. A Igreja de Cristo, no entanto, não se separa das Igrejas particulares, uma vez que subsiste nelas. Nas cartas aos Efésios e aos Colossenses, não se fala somen- te da Igreja como corpo de Cristo, mas também de Cristo como cabeça desse corpo (Ef 1,22s; 4,12.16; 5,22-33; Cl 1,24; 2,19). Para a antropologia de Paulo, o homem é homem no seu corpo; por isso, o corpo é o homem e não somente parte dele. Assim, no “corpo-de-Cristo-Igreja” está presente o próprio “Cristo- cabeça-da-Igreja”. A Igreja, enquanto corpo de Cristo, não pode ser separada dele. Ela, porém, não pode identificar-se pura e simplesmente com ele, da mesma maneira como o corpo não se identifica pura e sim- plesmente com o homem. Cristo e a Igreja não são a mesma coisa, mas não se separam. Cristo-Cabeça relaciona-se com seu Corpo-Igreja como a si mesmo. Nessa relação Cabeça-Corpo, exprime-se a relação indis- solúvel de Cristo e a Igreja. A relação entre Cabeça e Corpo / Cristo e Igreja é multiface- tada. Veja algumas consequências dessa relação: © Eclesiologia136 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO • Há, de um lado, uma preeminência de Cristo e, de outro, uma subordinação da Igreja. • Mais do que ter o domínio, Cristo é aquele do qual e em vista do qual o corpo “cresce” (Ef 4,15), ou seja, Cristo é o fundamento da Igreja e o seu fim. Ela procede dele e comparece diante dele. Ele é a origem (arché – princípio; Cl 1,18) e o fim do seu dinamismo interior. • Ao dizer que Cristo é cabeça do seu Corpo, exprime-se, também, que o corpo sobre a terra permite alcançar a sua Cabeça no céu. Cristo traçou no seu Corpo a via para chegar até ele. Essa relação de Cristo-Cabeça e Igreja-Corpo, na carta aos Efésios, é enriquecida pela imagem da relação Esposo-Esposa (Ef 5,21ss). Na Igreja, noiva e esposa, Cristo ama a si mesmo: “quem ama sua esposa ama a si mesmo” (Ef 5,28). A relação de Cristo com sua Igreja é, portanto, uma relação de amor. Evidentemente, trata- se do amor previdente de Cristo e da resposta de amor obediente da Igreja (Ef 5,25ss). A relação dos membros com o corpo é vista a partir de duas perspectivas: • O corpo de Cristo é anterior aos membros individuais; nessa perspectiva, não são os membros que constituem o corpo; pelo contrário, é o corpo que constitui os mem- bros nele unidos (Cl; Ef). A Igreja é um mundo em Cristo. • Mas há outro conceito de Corpo que aparece em 1Cor e Rm. Nessas passagens, o conceito de Corpo considera não tanto a relação com Cristo, mas, inicialmente, a re- lação dos cristãos entre si. O Corpo é a comunidade dos fiéis. São eles que o constituem (Rm 12; 1Cor 12,12s). Os indivíduos existem antes do que a Igreja, que é represen- tada pela união deles. Esses dois aspectos da Igreja não se contradizem, mas com- pletam-se. Para Paulo, a Igreja é sempre o corpo que em Cristo 137© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja unifica (por isso é anterior) muitos fiéis e, ao mesmo tempo, é for- mado por eles (por isso é posterior à reunião deles). A Igreja é o Corpo de Cristo porque tem sua origem no corpo crucificado. Nesse sentido, ela é sempre anterior e mais do que a soma dos indivíduos. É a Igreja que caracteriza todos como Cor- po de Cristo. Em contrapartida, ela tem sua consistência nos seus membros e na sua unidade social. Por isso, é o Corpo de Cristo enquanto organismo que agrega a si novos membros. Templo de Deus (edifício, casa e cidade celeste) Paulo usa a expressão “naos Theou” (templo de Deus) para ressaltar que a Igreja, pela ação santificadora do Espírito Santo, se torna morada de Deus (1Cor 3,16-17; 2Cor 6,16-18; Ef 2,20-22). Leiamos, ao menos, uma dessas citações: “Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1Cor 3,16-17). Dessa passagem, podemos destacar que a Igreja de Corinto é o templo de Deus porque: • o Espírito de Deus habita no povo de Deus reunido; assim, a presença de Deus na terra dá-se mediante a sua presen- ça dentro de seu povo; • os coríntios constituem a morada de Deus e como tal são santos, como o templo de Deus é santo. Ligados a esse conceito estão os de edifício, que é construí- do (Ef 2,19s); de casa, que é empregado para designar tanto uma comunidade local (Gl 6,10) quanto a Igreja universal (Ef 2.19s); e de cidade (polis) celeste (Gl 4,21ss; Fl 3,20s). A Igreja é o templo do Espírito Santo, a santa possessão de Deus entre os homens. Habitada pelo Espírito, a Igreja é também guardiã do Espírito mediante sua santidade. © Eclesiologia138 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Finalidade da Igreja Qual é a finalidade da ekklesia? Para que os cristãos se reú- nem? Paulo responde a essa pergunta dizendo que o propósito da assembleia cristã é a edificação da Igreja. Edificação da Igreja significa, inicialmente, que os cristãos não formam uma mera associação criada para perseguir interesses comuns. A Igreja reúne-se, antes de tudo, para partilhar os benefí- cios da obra salvadora de Cristo. Nesse sentido, é o Espírito Santo que edifica, servindo-se da palavra humana e de determinados si- nais que tornam presente os dons salvíficos para a sua Igreja. Dom salvífico por excelência para a Igreja é a Palavra de Deus e de Cristo, que ressoa na palavra do apóstolo. A Palavra de Deus, de Cristo e a do apóstolo compenetram-se; por isso, Paulo pode agradecer a comunidade de Tessalônica “por terdes acolhido a sua Palavra que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é, Palavra de Deus que está produzindo efeito em vós” (1Ts 2,13). A Palavra Divino-humana atualiza a realidade da cruz e re- vela a realidade da ressurreição para a Igreja. No evangelho do Apóstolo, mediante o Espírito revelador, é revelado o mistério de Deus de modo que a sua verdade secreta agora aparece no edifício da Igreja (cf. Ef 3,8-13). Mas o Espírito não se serve somente do evangelho, mas também de ações e de sinais que hoje chamamos sacramentos. O Espírito “sela” “aqueles que escutaram e creram na palavra da verdade” (Ef 1,13) e que pelo batismo se tornaram novas criaturas e as pedras vivas que formam o templo de Deus (Ef 2,20). A edificação da Igreja atua-se continuamente na refeição do Senhor. Na eucaristia, a Igreja torna-se visível, e está presente o próprio Cristo. 139© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja O Espírito serve-se, também, do ministério e dos carismas para a edificação. Tanto os ministros quanto os carismáticos são suscitados por Deus para que cada um deles, a seu modo e nos seus limites, edifiquem o Corpo de Cristo. Os membros do Corpo de Cristo devem “edificar-se mutuamente” (1Ts 5,11). Os carismá- ticos promovem com os seus dons a vitalidade do seu corpo nos seus membros. Juntamente com os ministros, elemento de ordem na Igreja, constituem a energia vivificadora da Igreja. A Igreja nos desígnios divinos Paulo, na carta aos Efésios, vê a Igreja em sua origem no mis- tério da providência e da predestinação de Deus. Desde a eterni- dade, Deus vê diante de si a Igreja e a quer. Nela, concretizam-se a sabedoria e a vontade eternas de Deus. Ora, a vontade de Deus é o de “encabeçar todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). O mistério dessa vontade e sabedoria realiza-se mediante a Igreja. Para Paulo, ela não tem sua natureza e essência do mundo e da sua história. A sua essência é a essência da insondável vontade salvífica de Deus, que é anterior a toda a criação (Ef 1,5.11). Esse mistério da vontade salvífica de Deus, que se concretiza mediante a Igreja, está presente e escondido no Criador (3,9), e a criação acontece tendo em vista o mistério da Igreja que a prece- de. Em Paulo, entre criação e Igreja há uma recíproca interação.Para Paulo, a Igreja pressupõe a criação como sua condição de possibilidade, e a criação pressupõe a Igreja como sua intenção divina. A criação é secretamente orientada para a Igreja, mas, ao mesmo tempo, a Igreja vem à luz no mistério da criação. O mistério da vontade eterna foi revelado em Jesus Cristo, ou melhor, cumpriu-se onde o Cristo realizou a si mesmo: na sua cruz e na sua ressurreição dos mortos. Por causa disso, nós não vivemos mais para nós mesmos, mas dele, nele e para ele. É ele que, de agora em diante, decide sobre nossa vida. © Eclesiologia140 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO No Cristo, revelou-se e tornou-se presente definitivamente o mistério da vontade salvífica do Pai. Desse desígnio tem origem a Igreja, que é, na força do Espírito, o fruto e a manifestação visível do mistério de Deus sobre a terra que apareceu definitivamente em Jesus Cristo. Assim, tudo o que se fala do corpo de Cristo não é abso- lutamente um discurso puramente metafórico. Entre o corpo de Cristo na cruz, que se tornou o novo fundamento da nossa vida, e o “corpo de Cristo”, Paulo reconhece uma relação e, até mes- mo, uma identidade. Por causa do Espírito, o corpo crucificado de Cristo torna-se acessível no mistério do corpo místico de Cristo. O corpo crucificado, que é já corpo ressuscitado, torna-se, pela ação do Espírito, o corpo salvífico (Igreja). 23. IGREJA NAS CARTAS PASTORAIS As cartas pastorais (1Tm; 2Tm; Tt) apresentam uma eclesio- logia que acentua a importância de uma nova forma de ministério eclesiástico. Essa transformação é uma resposta à urgência da nova situação pós-paulina e é a consequência de uma reinterpretação da pregação paulina e das instruções dadas aos seus discípulos. As transformações na teologia da Igreja e no ministério ecle- sial aparecem, portanto, como uma exigência da nova situação dos últimos decênios do século 1º. Nesse período, as Igrejas são co- munidades de cristãos, provenientes do paganismo, que vivem em uma sociedade pagã. Elas não estão mais animadas pela espera iminente do retorno do Senhor. As Cartas pastorais foram escritas em um período em que os cristãos já estão na sua segunda e tercei- ra gerações. Nessa situação, é inevitável o surgimento da questão da continuidade do Evangelho ao longo do tempo, principalmente porque muitas doutrinas errôneas turbam as comunidades. As Igrejas (1Tm 3,5; 5,16), enquanto realização concreta da Igreja universal (1Tm 3,15s), estão fundadas, como em Paulo, na 141© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja pregação do Evangelho (2Tm 1,6-14). Mas essa pregação apresen- ta agora concretamente como doutrina e ensinamento (didaska- lía) e como depósito confiado da tradição apostólica (1Tm 6,20; 2Tm 1,12.14). A Igreja deriva a sua forma institucional concreta de mode- los da economia doméstica antiga organizada de maneira patriar- cal. Assim, o “Paulo” das Cartas Pastorais pode perguntar: “Pois se alguém não sabe governar bem a própria casa, como cuidará da Igreja de Deus?” (1Tm 3,5). Comparando-a à casa no senso antigo de família, torna-se evidente que a Igreja é uma espécie de família de Deus: “Se eu tardar, saberás como proceder na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo: coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15). Assim, o ordenamento da casa (em sua forma social e eco- nômica própria da antiguidade) torna-se a metáfora eclesiológica fundamental. Nesse sentido, também o ministério apostólico passa por uma transformação segundo a linha paulina. Nas cartas pastorais, tudo (serviço religioso, ordenamento, vida, pensamento eclesiás- tico) é submetido à direção apostólica. O apóstolo tem o poder jurídico de infligir penitências (1Tm 1,20), de ordenar (2Tm 1,6). Timóteo e Tito tornam-se, assim, os tipos de um ministério apos- tólico para a concreta situação pós-apostólica. Aquilo que durante a vida de Paulo, quando o ofício apostólico incluía vitalmente em si todos os ministérios, aparece agora nas cartas pastorais como um ofício que opera jurídica e institucionalmente. O detentor de um ofício tem também o poder administrativo que não partilha com a comunidade, mas somente com os outros titulares de ofício a ele subordinados. Timóteo deve saber “como comportar-se na casa de Deus” (1Tm 3,15). Por isso, deve vigiar não somente os membros da comunidade, mas também os seus ministros. Deve, por exemplo, estabelecer diretrizes para o insti- tuto das viúvas (1Tm 5,7). Tem também o poder de disciplinar os seus presbíteros (1Tm 5,17ss). © Eclesiologia142 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Timóteo e Tito têm, enfim, o poder de ordenar. Eles recebe- ram do Apóstolo a ordem e o poder de constituir presbíteros na comunidade (Tt 1,5). É significativo, também, que a missão pau- lina dos discípulos do Apóstolo e os ministérios reconhecidos por Paulo estão fundados na sucessão ministerial e na ordenação sa- cramental. Também o ensinamento do discípulo e do representante de Paulo tem uma acentuação que deriva da nova situação da Igreja. Timóteo e Tito não transmitem seu próprio ensinamento. Eles en- sinam o que o Apóstolo lhes escreveu. Sobre isso, insiste-se com frequência: “Eis o que deves ensinar e recomendar” (1Tm 6,2); “Recorda todas estas coisas” (2Tm 2,14); “Dize-lhes todas estas coi- sas” (Tt 2,15). Aos discípulos de Paulo é recomendada a tradição apostólica; eles devem custodiar e conservá-la (1Tm 4,16; 6,20). A tradição apostólica é conservada enquanto é acolhida com fé e com amor, é compreendida e interpretada com a assistência do Senhor e com a força do Espírito. Em outras palavras, o detentor de um ofício eclesiástico ensina aderindo com fé e amor à tradição vivente apostólica, continuamente interpretada e traduzida com a ajuda do Espírito. O ensinamento não é do ministro, mas da tradi- ção apostólica por ele aceitada e vinculante para todos. Como já foi dito, esse processo é, de um lado, uma resposta a novas situações em linha de continuidade com a tradição pauli- na. Por outro lado, tende a tornar estável algumas tendências que são próprias do modelo da família patriarcal. É o caso da exclusão da mulher dos ministérios comunitários: ela não pode ensinar em público (1Tm 2,8-15; 2Tm 3,6-9). Outras tendências negativas são: a concentração da pregação nas mãos do presidente da comuni- dade, a remoção do elemento profético, a redução da pregação do evangelho a uma doutrina vinculante. Finalizando esse tema, o Novo Testamento oferece uma pers- pectiva de fundo sobre o nascimento e a natureza da Igreja, mas não uma eclesiologia unitária e uniforme. Quando se pergunta ao 143© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Novo Testamento o que é a Igreja, a resposta é dada por meio de diversos modelos eclesiais que correspondem a diversas condi- ções, situações e finalidades. As imagens de Igreja são diferentes e demonstram um pluralismo que acompanha a própria formação do cânon do Novo Testamento. O Novo Testamento conserva, uma ao lado da outra, diversas teologias da Igreja e formas de ordena- mento eclesiais. O fato de não encontrarmos no Novo Testamento uma ecle- siologia monolítica não deve ser visto como algo negativo. Esse fato mostra que qualquer isolamento ou absolutização de um só modelo neotestamentário vai contra a intenção da própria Igreja apostólica. A lei fundamental e permanente para uma correta au- tocompreensão da Igreja continua sendo a do Novo Testamento: é a de abordar o mistério da Igreja mediante uma pluralidade de modelos e de imagens (no Novo Testamento, podemos encontrar mais de cem imagens para falar da Igreja), o que possibilita uma eclesiologia aberta, dialogante e inclusiva. Leitura complementar: como os primeiros cristãos experimentavam a Igreja? ––––– DIANICH e NOCETI (2007) procuram reconstruir, com base no que o Novo Tes- tamento permite fazer, a autoconsciência da Igreja primitiva. Para auxiliá-lo no aprofundamento desseinteressante tema de Eclesiologia, procure estudar o tex- to reproduzido a seguir, levando em conta as perguntas da autoavaliação. Pretendemos [...] fazer a composição do quadro de consciência do agrupamento cristão: tratar-se-á de recolher, de maneira o mais minuciosa possível, do Novo Testamento, todos os dados dos quais possa surgir a consciência que a igreja teve de si em seu momento fundante. É possível, de fato, individuar nas Escri- turas cristãs alguns dados capazes de nos desvendar os componentes elemen- tares e fundamentais da consciência dos primeiros grupos de crentes, seja dos que se formaram desde os tempos de seus testemunhos oculares, seja daqueles que tomaram forma posteriormente, com os recém-chegados das mais diversas proveniências [...]. Buscaremos, depois, descobrir, além da consciência que os primeiros grupos cristãos tinham de seu viver em grupo, em uma profunda comunhão entre si e com Deus, [...] o modo com que percebiam seu relacionamento com o mundo circunstante, nos confrontos do destino último da história, que em sua fé era totalmente determinada pela esperança do Reino de Deus, alimentada já por sua confiança nas escrituras hebraicas, antes ainda do que pela memória da pregação de Jesus [...]. © Eclesiologia144 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO Não se pode esquecer que a fé da primeira geração cristã era simplesmente a fé de Israel: no interior dela os primeiros discípulos de Jesus e dos apóstolos interpretavam os acontecimentos particulares de que foram protagonistas ou de que haviam ouvido o testemunho. É nesse nicho que se forma as comunidades que foram descobrindo, aos poucos, que eram diferentes do povo de Israel e, ao chegar certo momento, viram-se separadas daquela raiz de que haviam brotado. O processo de diferenciação do cristianismo do hebraísmo é um fator da grande complexidade da nascente consciência eclesial: será necessário estudá-lo com grande atenção porque a aquisição de uma identidade própria por parte da igreja foi influenciada por ele de maneira absolutamente decisiva [...]. I. As primeiras formas de autoconsciência [...] O testemunho do Novo Testamento se estende por um arco de tempo de ao menos cinquenta anos e [...] a existência da igreja, desde sua origem, desen- rolou-se em diversos territórios, dominados por situações culturais, históricas e sociais bastante diversificadas. O que veio determinar, nos vários grupos [...], diversidade de formas em sua autoconsciência, pelo que não se pode pensar em encontrar no Novo Testamento uma espécie de eclesiologia unitária [...]. Nossa tarefa não será apenas descobrir um acontecimento do passado, mas nos colocarmos no lugar em que a revelação de Deus se manifestou a nós. A auto- consciência originária da igreja neotestamentária é o desvelamento da autocons- ciência da igreja, tal como o Senhor a constitui no evento fundante revelador. 1. Assumir um nome Os Atos dos Apóstolos nos informam que “foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos” (At 11,26). Não forma eles que assim se autodenominaram, mas aconteceu por parte de alguém e em alguma circunstância particular. Como havia acontecido também que os cristãos haviam dado um nome a suas reuniões de grupo, pois as denominavam eckklesíai, que nós traduzimos “igrejas” [...]. Esse nome “igreja” evoca dois significados. No ambiente hebraico significava a reunião do povo de Israel e tocava as cordas mais íntimas de sua memória histórica, na medida em que evocava suas antigas assembleias, convocadas por Deus através da palavra de Moisés durante a épica peregrinação do Êxodo. No ambiente grego indicava as assembleias populares da polis. A escolha dessa denominação nos sugere que os primeiros grupos cristãos não se pensavam numa dimensão modesta e escondida de pequenos grupos que se reúnem fur- tivamente em algum ou outro lugar. Mesmo sendo poucos em número, sentiam- se à vontade nas cidades em que viviam. Tinham de si a imagem de um povo convocado por Deus, reunido pela fé em Jesus, o novo Moisés, para cumprir um destino que tomaria conta da cidade e de toda a sociedade [...]. 2. No plural e no singular A população hebraica estava, pelo fenômeno da diáspora, dispersa por muitíssi- mas regiões da bacia do Mediterrâneo e do Oriente Médio: em muitíssimas cida- des os hebreus tinham seus lugares de encontro para a oração, a leitura comum da Escritura e para sua vida comum, chamados synagogai, com esta palavra querendo evidenciar o fato de que ali estavam reunidos como um povo convo- cado por Deus. Mas Israel, não obstante a existência de alguns fenômenos de 145© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja proselitismo, reúne em suas sinagogas, normalmente, apenas os elementos de um povo etnicamente caracterizado. Compreende-se, então, por que os cristãos, já em uma primeira fase, embora muitos deles sendo hebreus pudessem conti- nuar frequentando as sinagogas, tivessem preferido denominar suas reuniões, como vimos, com um nome diferente: sentiam-se convocados por Deus, mas não porque eram da raça hebraica, mas pela fé em Jesus, à qual podiam aderir tanto o judeu como a gente de qualquer outro povo. Trata-se, portanto, de reuniões convocadas por Deus, verdadeiras eckklesiai tou theou, embora não reúnam as mesmas pessoas que se encontram nas synagogai dos hebreus. Submetendo à análise gramatical o uso do termo no Novo Testamento, defron- tamo-nos com o fenômeno norma de seu uso tanto no singular quanto no plural, assim como se dá com o termo sinagoga [...]. Acontece, porém, com o termo “igreja”, algo que não se dá com o uso do termo “sinagoga”, isto é, na literatura cristã posterior não se dá o uso de “sinagoga” no singular, para indicar coletivamente o conjunto das sinagogas, isto é, a unida- de do povo hebraico. Isso acontece, porém, no Novo Testamento, com o termo “igreja”, que em alguns casos é usado no singular, não simplesmente para indi- car uma igreja entre outras, nem para indicar com um único termo genérico os muitos fenômenos de igreja existentes aqui e ali, mas para afirmar que se existe uma igreja em Corinto, uma em Éfeso e uma em Roma, na realidade, em sua dimensão mais profunda a igreja é uma única realidade. Isto se dá, sobretudo, nas cartas aos Efésios e aos Colossenses, em parte também no Apocalipse e por três vezes nos Atos. O conjunto de todos os crentes em Jesus, e, portanto, o conjunto das igrejas, é simplesmente “a igreja”. Obviamente que não se pensa em um único tronco ou herança de vínculo de sangue, como acontece com Isra- el. Os cristãos, existentes em tantas cidades diferentes, como uma só realidade, um único sujeito coletivo, é algo que existia na convicção que cada um deles pos- suía de que todos eles, em conjunto, existem como tal somente pela força de um relacionamento profundo com Cristo. E isto não só no sentido de que as pessoas que formam o todo creem todas em Jesus, mas no sentido de que, crendo em Jesus, sentem-se tão fortemente a ele unidas que formam quase que um único organismo vivo [...]. Nessa situação não vale muito ser membro dessa ou daque- la igreja, porque em qualquer igreja particular a que se pertença, vive-se como membro de um único corpo que é o próprio Cristo. Essa é uma sensação mística tão profunda e decisiva que somente pode ser expressa de maneira adequada pela única palavra “igreja”, evocativa, sim, mas ainda pobre diante da grandeza da fé vivida [...]. 3. A experiência do mistério Os textos do Novo Testamento ressumam o entusiasmo derivado da consciência que os fiéis possuíam de terem sido transportados [...] daquilo que Paulo chama- va de “a escravidão da lei” para a liberdade dos filhos de Deus, para a filial inti- midade com ele. A alegria resultante desse acontecimento foi sentida e expressa como a alegria de uma jovem que se sente amada e pedida em casamento. A imagem do Deus que ama seu povo como se fosse sua esposa é clássica no Antigo Testamento. Naquele tempo, se a mulher não se casasse,sentia-se como vítima de um destino cruel, aquele de uma vida sem filhos, sem futuro, sem amor e sem sentido: pois bem, viver na igreja era sentir-se livre desse grande perigo, porque a igreja é uma mulher profundamente amada e alegremente desposada por Cristo. O próprio Jesus predispunha seus discípulos para esse sentimento © Eclesiologia146 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO de alegria quando os desobrigava do jejum porque – dizia ele – sua companhia era para eles uma festa de núpcias e no decorrer de uma festa de núpcias não se jejua [...]. Não falta para a igreja a alegria da maternidade, pois dela é que nasce o homem novo. A literatura cristã primitiva gostava muitíssimo desse enquadramento da igreja mãe que gera continuamente o Cristo para o mundo, gerando o fiel em Cristo, que é a semente de uma nova humanidade [...]. O parto e o crescimento de uma nova humanidade são ameaçados, de maneira dramática, por um mundo violento, injusto e perseguidor. Mas, não obstante tudo isso, em um cenário dia- bólico, que o Apocalipse nos descreve com grande maestria, usando as imagens de “um grande dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres” que “arrastava um terço das estrelas do céu e as precipitava sobre a terra”, a mulher esposada por Cristo permanece uma figura luminosa: tem a lua sob seus pés e as estrelas lhe servem de coroa (Ap 12,1-6). Sua união com Jesus é profunda: ela se sub- mete a Cristo, mas Cristo a ama a ponto de dar sua vida por ela e formar com ela um só corpo (Ef 5,22-32). Não é de se maravilhar que dentro de tal imaginário coletivo, esplêndido e dra- mático logo, se bem que não mais nas gerações neotestamentárias, a igreja visse em Maria, a mãe de Jesus, o protótipo de sua mais profunda identidade. O Espírito desceu também sobre a igreja. Ela concebe e gera virginalmente, isto é, não por obra do homem, mas sempre por um milagre de Deus, a nova humanidade. Também a igreja se acha chorando aos pés da cruz, por causa da perseguição sofrida por seus filhos, mas, como Maria, espera, com a certeza da fé, a ressurreição e a glória [...]. É muito forte o sentimento da proteção divina de que goza o grupo dos discípu- los: somos o campo que Deus sempre cultivou. Aquilo que em Israel era com- parado a um vinhedo frondoso, objeto do grande amor e dos cuidados divino, também os cristãos o viviam em profundo sentimento. É verdade que a vinha às vezes oferece magníficas colheitas e, outras vezes, uma colheita insignificante; agora, porém, a “verdadeira vinha” é o próprio Jesus, e os discípulos sentem-se como se fossem seus sarmentos, alimentados por sua linfa vital (Jo 15,1-8). O perigo rodeia constantemente esse rebanho de Deus que é a comunidade cristã, mas não é preciso temer, porque ele é guiado e guardado por um pastor fiel, o próprio Jesus, bom e generoso a ponto de dar sua vida para salvar as ovelhas (Jo 10,1-6; 1Pd 5,1-4). Os primeiros cristãos [...], na vida em comunidade passam pelas experiências de dificuldades entre seus membros, quando não de tensões e conflitos. A primeira carta de Paulo aos coríntios é um exemplo interessante do fato [...]. Mas o sen- timento dominante diante da desconcertante e multiforme vivacidade da igreja é sobretudo o de admiração pela ação do Espírito: “Não sabeis que sois o templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós”” (1Cor 3,16) [...]. A visão mística da experiência cristã serve também como principio estruturante: as diversidades de formas e de funções, de inclinações e de atitudes não são senão a riqueza do organismo vivo, no qual a unidade vital se alimenta com a diversidade dos mem- bros com suas diversas e múltiplas funções (Rm 12, 3-8; 1Cor 12,4-27). Esta maneira de pensar a si mesmo como um organismo vivo, o corpo de Cristo, traz consigo, na autoconsciência da igreja primitiva, a sensação de viver em contínuo movimento de crescimento: a vida interna da igreja desenvolve-se como a vida de um corpo e sua idade adulta somente será alcançado com a perfeita identifi- cação com Cristo (Ef 4,13-16) [...]. 147© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Observando, então, quase de fora para dentro, a presença da igreja na socieda- de de seu tempo, os grupos cristãos sentem seu crescimento como a construção de uma casa dentro da cidade (1Cor 3,9-15): é o verdadeiro templo de Deus, é a casa do Espírito Santo, porque é a presença vivificante do Espírito que a faz crescer. O apóstolo sabe que é o arquiteto responsável pela construção, por ele apoiada sobre um fundamento seguro, que é a mensagem de Jesus, ou melhor, a própria pessoa dele. A cidade dos homens sente a necessidade de possuir um templo, mas os cristãos dos primeiros dias não aspiravam, na realidade, a construir templos nas cidades. Eles mesmos, porque transformados pelo Espírito Santo, fundamentam sua existência no relacionamento profundo que vivem com Jesus, são pedras vivas que, fortemente ligadas entre si e bem fundamentadas em Cristo, formam o edifício “espiritual”, isto é, elevado e habitado pelo Espírito (1Pd 2,4-5). Assim, a própria existência da comunidade em meio à cidade é, por si mesma, um verdadeiro ato de culto, na medida em que são chamados para a igreja para dedicar a própria vida a Deus, como se faz quando se oferece um sacrifício à divindade (Rm 12,3). De tal modo que a eckklesia é, pelo próprio fato de existir e de viver em Cristo, o verdadeiro templo ao qual se é convocado para viver, e não apenas para cumprir um ritual, porque a vida, vivida sob a inspiração e a guia do Espírito, é o culto mais autêntico que o homem pode celebrar em honra da divindade. Os cristãos sabem perfeitamente que não são somente eles que formam a cida- de, mas vivem e trabalham na cidade como fermento que leveda a massa, mas têm diante de si a visão do destino último da história, quando Deus fará descer do céu sobre a terra sua Jerusalém, resplandecente de gemas e pedras precio- sas (Ap 3,12; 21,2). Dessa futura cidade de liberdade e de paz é que eles já se sentem cidadãos e filhos [...]. Nesse imenso afresco das figuras que os cristãos criaram para si, e contempla- vam em suas orações, no louvor de Deus e na ação de graças pela missão a que foram chamados para empenhar sua vida, nós encontramos a experiência original da fé, aquela dos apóstolos e das gerações que viveram em contato com eles, e que constitui o evento revelador e fundante de toda a experiência eclesial posterior. II. No horizonte do Reino [...] Para compreender a estrutura original da consciência eclesial devemos interpre- tar o evento de sua origem a partir do ambiente hebraico, de sua cultura, sua visão de mundo e de suas expectativas, porque esse foi o contexto no qual a igreja nasceu [...]. É [...] indispensável procurar compreender a fundo a ideia bíblica do Reino. 1. O Reino: metáfora da esperança [...] A expressão “Reino de Deus” é uma metáfora, proveniente da experiência política dos povos submetidos ao domínio de um rei [...]. É uma metáfora que brota espontaneamente do sofrimento de um povo submetido ao domínio de reis iníquos [...]. A metáfora do Reino de Deus tem, portanto, uma força criativa: ela coloca o homem em um novo estado de tensão positiva em oposição à história e a sue futuro êxito, pois ela quer mostrar que o homem não está nas mãos dos maus, que a história humana não tem um destino obscuro, mas que Deus tem em suas mãos o futuro do mundo e o conduz em direção de um final feliz [...]. A igreja, neste mundo, é a testemunha de Deus e de seu domínio sobre o universo. Ela é © Eclesiologia148 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO portadora, portanto, de uma visão positiva das coisas, não obstante a grandeza dos males que afligem a vida humana, e portadora também de uma perspectiva aberta para um final positivo da história. 2. O Reino contemplado: a glória de Jesus ressuscitado Ao se lerem os testemunhos do Novo Testamento, aparece com clareza que as primeiras comunidades dos discípulos viviam fundamentalmente na certeza ju- bilosade que a espera do Reino havia sido cumprida (Cl 1,13; Mt 5,3.10; 12,28; Lc 11,20; 12,32; 17,31) [...]. A visão do mundo e da história dos discípulos de Jesus, determinada pela fé em sua ressurreição, é dominada pela contemplação do Ressuscitado em sua glória divina: o messias em que acreditavam agora está entronizado à direita do Pai. O que resta esperar agora é o remate de sua obra e seu retorno no final dos tem- pos, que se julga estar próximo. Contudo, a história humana ainda não chegou a seu fim, mas deve continuar “até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo de seus pés” (1Cor 15,24-28). O anúncio do reino agora é o eu-anghélion, que Jesus trouxe ao mundo, isto é, a boa notícia de que a salvação é oferecida a todos os homens. A obra do anúncio que Jesus havia cumprido durante sua vida terrena agora se realiza graças à missão do Espírito que dá aos homens a capacidade e a graça de crer que Jesus ressuscitou e é o Senhor glorioso do mundo. E assim o Espírito reúne os fiéis na igreja, e assim a igreja recebe a missão de transmitir a certeza de que o Reino de Deus, agora, com a ressurreição do Senhor, está instalado, e de manter viva no mundo a esperança certa de que o destino da história se cumprirá em sua plena manifestação no fim dos tempos [...]. A experiência da comunidade da palavra de Deus nunca foi vista como um fato banal, é um acontecimento do Espírito que cria também uma nova situação relacional entre os protagonistas [...]. Os hinos cristológicos de Efésios e Colossenses exaltam o Pai porque criou o mundo fundando-o e modelando-o na pessoa de Cristo (Ef 1,3-14; Cl 1,15). O universo é contemplado como o imenso corpo dos homens e das coisas, das potências escondidas no cosmo, no céu e na terra, sobre as quais Cristo domina como o ponto de partida e de chegada, em quem todas as coisas encontrarão sua perfeição e sua completude. Em seguida [...], eis que surge da imensidão obscura do cosmo a pequena realidade que é a igreja. Ela é um corpo visível, do qual Cristo é [...] a cabeça: ela é o corpo de uma nova humanidade operante já na história, esforçando-se por manifestar a forma perfeita do universo que se completará quando todo o real estiver submetido a Cristo, que é a cabeça desse corpo da nova humanidade (Ef 1,22; 4,15; 5,23; Cl 1,18; 2,19). Subjacente a essa visão cósmica da salvação não faltam, aqui e ali, no Novo Testamento, expressões que desvelam um sentido mais individual do senhorio do ressuscitado no coração do homem, talvez determinadas pela influência de um tipo de espiritualidade helenista, centrada sobre o mundo do espírito [...], na qual se pode perceber certa concepção da esperança cristã de caráter mais indi- vidualista, de tendência espiritualista: o Reino de Deus consistirá essencialmente na salvação das almas. Será essa a tendência que terá [...], em muitas fases da história da igreja, grande aceitação. A esse modo de pensar se opõe de maneira vigorosa o Apocalipse, no qual a figura do Reino de Deus está profundamente en- trelaçada com os dramas da vida terrestre dos homens e da presença constante da comunidade cristã na Roma imperial, corrupta e violenta, que a persegue com firme propósito de destruir, logo em seu nascimento, a nova humanidade que 149© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja aquela está gerando. Se a igreja pode resistir [...], é porque não lhe desfalece a certeza de que Deus firmará sobre o mundo o poder de seu Reino [...]. O Reino de Deus, como forma perfeita do mundo e objeto de esperança segura é, portanto, para a comunidade dos primeiros discípulos de Jesus a realidade já existente do domínio de Cristo sobre o mundo, que se deu em sua ressurreição da morte, com a qual ele venceu os poderes mundanos que o crucificaram, e até o próprio, profundo e misterioso poder da morte. Tudo isso apesar de que, na realidade, as comunidades cristãs ainda estejam sofrendo perseguições, seja por parte das autoridades hebraicas, seja por parte das autoridades romanas. O olhar voltado para os céus, para o Cristo vitorioso que se assenta à direita do Pai permanece um suspiro, exprime uma expectativa: que o Senhor volte e sua glória revista para sempre também aqueles que nele se tornaram filhos de Deus [...]. O relacionamento da igreja com Jesus apresenta-se, pois, em uma tríplice dimensão: a igreja vive da memória histórica daquilo que Jesus de Nazaré foi, disse e fez; ela contempla a glória do Ressuscitado com a certeza de que ele tem em suas mãos, por causa de sua vitória sobre a morte, os destinos do homem; finalmente, a igreja olha para o futuro na esperança de que aquilo que Jesus realizou em sua morte e ressurreição se realize em plenitude no homem e em toda a criatura. 3. O Reino anunciado: a pregação de Jesus Todo esse conjunto de sentimentos não brota espontaneamente do nada, nem é fruto de uma nova revelação: na verdade, tem por detrás de si a memória da pregação de Jesus. Em Mc 1,14-15 encontramos um breve sumário dessa pregação: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus: ‘O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho’”. Não há dúvida de que essas palavras ocu- param lugar importante na memória histórica da comunidade cristã na avaliação da obra terrena de Jesus. Em seus discursos e em seus gestos a expectativa do Reino tinha uma força avassaladora. Eles falavam dela com a forte sensação de um evento que estava se desenrolando, um kairós, isto é, um tempo absolutamente singular no trans- curso da história. Quando, antes dos acontecimentos pascais, Jesus havia envia- do seus discípulos em missão (Mc 6,7-13) [...], havia incutido neles o sentimento de alguma coisa urgente que devia ser feita [...]. Ao caráter de urgência acompanha o imperativo da conversão. Nesse sentido também o batista havia se expressado com veemência (Mt 3,2.10) [...]. Contudo, entre João Batista e Jesus existe uma diferença que deve ser notada. Para o primeiro “já o machado está posto à raiz da árvore” e não existe mais perdão: é necessário converter-se imediatamente. Nas palavras de Jesus, contudo, além da ameaça do julgamento de Deus, existe a revelação de seu perdão e de sua longanimidade. Por esse motivo o anúncio do Reino, para Jesus, é, abertamen- te, um eu-anghélion, isto é, uma “notícia alegre”. Os pobres e os pecadores são seus destinatários, a tal ponto que diante do Reino que está para chegar pode-se prever que haverá uma reviravolta, os que eram julgados indignos, no julgamento comum dos homens, serão tidos como dignos, e vice-versa [...]. Essa espécie de magna charta da esperança e da felicidade que é a passagem das bem- aventuranças coloca em primeiro lugar, para a entrada no Reino, os pobres e os perseguidos pela justiça e enche de consolação e de promessa os aflitos, os humildes, os que têm sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração e os promotores da paz (Mt 5,1-12). © Eclesiologia150 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO A implantação do Reino de Deus neste mundo somente acontecerá com muitas reviravoltas. Antes de tudo, a própria presença de Jesus em meio aos homens, sua mensagem e os sinais de salvação que o acompanham: a cura dos doentes, a libertação dos possessos demoníacos, a cura dos leprosos de sua doença e da segregação social, o perdão concedido aos pecadores. Sua palavra e seu comportamento preconizam assim uma sociedade diferente e um mundo novo, no qual os pequenos, os pobres, os pecadores e os marginalizados se veem colocados em primeiro lugar [...]. Pode-se dizer que para Jesus o ponto crucial da existência de todo ser humano consiste no posicionamento que ele assume diante do grande acontecimento: toda pessoa, bem como a sociedade toda, com suas estruturas, suas organi- zações, suas maneiras de ver e de julgar, estão direcionadas para o juízo final, quando será transformada por ocasião da vinda do Reino. A igreja, portanto, tem sua vocação na imitaçãode Cristo e em oferecer ao mundo, por meio de sua avaliação a respeito dos acontecimentos e por meio de suas atitudes perante cada ser humano e perante toda a sociedade, as novas perspectivas de vida que Jesus havia descortinado para a sociedade de seu tempo. 4. O Reino esperado por Israel Na verdade nem João Batista nem Jesus foram os criadores da metáfora do Rei- no de Deus, como também não foram os primeiros a propor semelhante visão do destino do mundo. O Antigo Testamento está dominado por essa visão [...]. Enquanto durou a monarquia [...] a dolorida experiência dos reis iníquos [...] cria- ram uma nova maneira de viver a esperança do Reino. Os profetas sublinharam sua mensagem, descobrindo sua perspectiva mais verdadeira, a dimensão esca- tológica: a fé deverá ser colocada não no rei, não nos carros e nos cavalos, mas somente em Deus, e será preciso descobrir que seu desígnio de salvação tem dimensões maiores do que aquelas da sorte imediata de Israel [...]. A implantação do Reino agora é considerada um acontecimento planetário e todo povo, assim como todo ser humano estará sob o julgamento divino (Am 5,18- 20). Não se pode ignorar, porém, que no período mais próximo ao evento do surgir da igreja, novamente havia se difundido a esperança de uma intervenção definitiva de Deus na triste situação política de Israel. O domínio grego, e depois o romano haviam exasperado, mais do que no exílio na Babilônia, o sofrimento e o senti- mento de rebelião diante da opressão estrangeira. A esperança escatológica dos profetas tende, então, a se materializar na esperança de algo como uma nova criação imediata: o Reino dos homens alcançou o cúmulo da iniquidade, tanto que fez amadurecer o tempo da irrupção do Reino de Deus que, com seu poder, destruirá, por meio de uma catástrofe universal, a situação humana e estabele- cerá, finalmente, a justiça e a paz. É assim que falam alguns textos do Antigo Testamento e da assim chamada literatura intertestamentária, também chamada de apocalíptica [...]. Para entender a pregação de Jesus é preciso, pois, lembrar que, atrás dela, havia a longa história da pregação profética, com todas essas variáveis. Jesus não se submete a nenhuma dessas perspectivas mais antigas, embora elas pudessem estar ainda vivas em seu tempo [...]. De resto, é significativo que a igreja tenha continuado a ler e a meditar todas as escrituras do Antigo Testamento, recebendo como palavra de Deus mesmo os escritos da história da salvação. É, sem dúvida, 151© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja a esse apego à antiga consciência da fé de Israel que se deve o fato de que o cristianismo não tenha direcionado a mensagem de Jesus para uma perspectiva de caráter espiritualista e individualista, mas tenha desenvolvido continuamente sua missão entrelaçando os interesses mais altos do espírito dos fiéis aos inte- resses presentes na vida cotidiana dos homens e dos povos. 5. O Reino presente: Jesus [...] Na pregação de Jesus não faltam acenos de tom apocalíptico. Também ele sente fortemente como é insuportável a situação iníqua em que vive seu povo [...]. Nessa situação a previsão do fim de Jerusalém e da destruição do templo desempenha um papel importante e toca profundamente o imaginário coletivo do povo. A isto se acrescente a forte sensação de urgência que perpassa sua obra, a expectativa do Reino como um acontecimento iminente que, depois de sua partida deste mundo, os discípulos considerarão cumprido em sua morte, em sua ressurreição e em sua entronização à direita do Pai [...]. Contudo, além de alguns traços apocalípticos da pregação de Jesus, sua obra de taumaturgo e de poderoso exorcista envolve sua figura aos olhos do povo, com uma aura de salvador, e ele, explicitamente, declara que a vinda do Reino de Deus já se está cumprindo desde o momento em que ele se fez presente e operante no meio dos homens. A seu redor difunde-se, então, a ideia de que ele seja verdadeiramente aquele descendente de Davi, prometido pelos profetas, que deverá devolver a liberdade e a dignidade ao povo de Israel [...]. Mas ele se esforçava para manter distância entre esse modelo de messias, calcado no perfil de um descendente de Davi, vitorioso sobre os inimigos, e sua pessoa [...]. O distanciamento parece evidente no episódio da entrada de Jerusalém [...], quan- do Jesus parece querer publicamente ostentar seu messianismo davídico, mas transforma o acontecimento em algo provocadoramente irônico ao montar uma jumenta acompanhada por seu jumentinho [...]. O fato de que a assunção da figura messiânica do poderoso filho de Davi está unida à exigência de reconhecê-lo em sua humildade e com a necessidade de se disponibilizar para a aceitação de uma perspectiva messiânica diversa daquela puramente exterior, importa um convite para se aproximar dele essencialmente por uma atitude de fé [...]. É que, para Jesus, a chegada do Reino muda pro- fundamente a condição humana, e não só os aspectos sociais e políticos da sociedade de seu tempo, por mais dramáticos e importantes que se mostrem. A conversão exigida para se acolher o Reino que chega consiste essencialmente em uma adesão plena e total do homem a sua obra e a sua pessoa [...]. A igreja percebe, então, que sua tarefa é a de perpetuar entre os homens o re- lacionamento de fé com Jesus e a experiência da presença do Reino de Deus, nem que seja apenas de maneira germinal, onde quer que se creia nele, onde quer que se aja em seu nome e até onde ele não é conhecido, mas seu Espírito suscita e sustenta as obras da justiça e da fraternidade entre os homens. 6. O Reino entre a escatologia e a política [...] Jesus nunca aspirou, de modo algum, assumir o poder [...]. Foi, sobretudo, a orientação fundamental de sua missão que impediu que Jesus manifestasse qualquer interesse pela criação de um movimento político [...]. Desses elementos, porém, não se pode deduzir que a obra de Jesus e, por- tanto, a futura presença da igreja na história, nada tenha a ver com os proble- © Eclesiologia152 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO mas sociais e políticos. A narrativa joanina do diálogo de Jesus com Pilatos (Jo 18,33-37) reflete, com notável clareza, a ideia de que a igreja do final do primeiro século era muito consciente de seu relacionamento com o poder político [...]. O Reino anunciado por Jesus é o Reino de Deus, não é, portanto, “deste mundo”, mas tem muitas coisas para dizer a respeito das coisas deste mundo. Será este, de fato, o comportamento constante da comunidade primitiva: respeitar as leis mantendo sempre um comportamento leal para com o Estado (Rm 13,1-7; Tt 3,1; 1Tm 2,1-2; Pd 2,13-17), e ao mesmo tempo afirmar o primado de Deus, a ponto de estarem os cristãos dispostos ao martírio, antes de se dobrar ao reco- nhecimento de qualquer caráter absoluto que a autoridade imperial pretendesse se atribuir [...]. A negação de Jesus de colocar sua obra e a de seus discípulos em grau de competição com os poderes políticos que lutam pelo domínio dos povos, não é fundada em nenhum tipo de espiritualismo nem de algum desejo de fuga deste mundo, mas sim sobre a expectativa e a esperança de um Reino de Deus que coloque todo homem e todo poder humano sob o único poder absoluto, o poder de Deus. Trata-se, pois, de uma perspectiva de relativização dos poderes mun- danos, que abre ao homem os espaços de sua liberdade e de sua dignidade. Será, então, tarefa da igreja a proclamação constante do único senhorio que se possa dizer supremo sobre o mundo e sobre as consciências, o senhorio de Deus, a denúncia de toda forma de dominação do homem sobre o homem. Natu- ralmente uma tarefa desse gênero compromete primeiramente a igreja mesma a se colocar entre Deus e o homem, com a consciência de que este misterioso re- lacionamento é inviolável e que nem mesmo ela pode absolutizar-se a si mesma, mas deve defender para todos aquele espaço de liberdade no qual se manifesta e age exclusivamente o senhorio de Deus. 7. A igrejae o Reino [...] Com o anúncio do Reino, Jesus não teve a pretensão de reunir em torno de sua pessoa ou de sua mensagem um grupo de elite, que mais tarde se trans- formaria em uma espécie de seita no interior da sociedade hebraica. Sua men- sagem foi dirigida a todo o povo de Israel [...]. Não existe, pois, um projeto de restrição elitista do número dos chamados, pelo contrário, a ideia é a de uma extensão do chamamento para o Reino para além dos limites de Israel [...]. Já não importa mais ser hebreu ou de outra raça, para Paulo a igreja é simples- mente formada “por aqueles que foram santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos, com todos os que em qualquer lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1,2). Desse chamamento vai decorrer a exigência de que se comportem [...] “de maneira digna de Deus, que vos chama a seu Reino e a sua glória” (1Ts 2,12). A leitura desses textos não fornece dados para se pensar que os primeiros cristãos se julgavam uma elite espiritual e moral em meio a um mundo corrupto, e muito menos a ideia de que eram uns privilegiados que tive- ram a felicidade de poder se salvar “desta geração perversa” (At 2,40), filiando-se à igreja, como náufragos salvos do mar em tempestade [...]. Do forte sentimento de uma identidade própria e singular, da consciência que lhes foi inculcada por Jesus de “estarem no mundo, mas não serem do mundo” (Jo 17,16), os grupos dos discípulos não concluem, porém, pelo isolamento. Por- que sabem que estão investidos de uma missão que os compromete a irem “por todo o mundo”, levando a todos os povos, até o fim da história, o eu-anghélion, a boa notícia do Reino que vem (Mc 16,15) [...]. 153© Antigo Testamento: A Igreja Antes da Igreja Dessa maneira os grupos cristãos viviam em seu mundo, com a certeza da es- perança de que o Reino de Deus haveria de se impor, e com a consciência de dever cumprir a missão que lhes fora confiada de levar ao mundo a boa notícia, bem como a todos os homens. Não era um movimento político, mas também não era um movimento espiritualista tal que não pudesse suscitar algum temor pela ordem constituída. De outra forma não se poderia explicar porque a autoridade romana, considerando-se sua habitual política liberal no campo religioso e sua inclinação eminentemente pragmática, haveria de tentar reprimi-los. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 24. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS Com os conhecimentos adquiridos nesta unidade, convida- mos você a fazer uma autoavaliação de sua aprendizagem: a) Depois de fazer uma síntese dos principais elementos que compõem a autoconsciência da Igreja que podem ser detectados nos escritos do Novo Testamento, procure confrontá-los com a experiência que os cris- tãos fazem da Igreja. Há correspondência ou contradição? b) Como esses elementos constitutivos da autoconsciência da Igreja primi- tiva podem ser vividos e experimentados pelos fiéis de hoje? É possível fazer uma “tradução” dessa autoconsciência para a vivência eclesial dos cristãos de hoje? c) A autoconsciência da Igreja do Novo Testamento tem influência no modo como os cristãos hoje vivem e experimentam a Igreja? d) Quais são os elementos da autoconsciência da Igreja do Novo Testamen- to que estão mais fortemente presentes na vida dos cristãos? Quais são os mais ausentes na consciência eclesial atualmente? 25. CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, estudamos a Igreja antes mesmo de sua apa- rição, tanto no Antigo como no Novo Testamento, bem como suas características na perspectiva de vários discípulos. Já na terceira unidade, estudaremos a Igreja dentro da His- tória. Até a próxima! 26. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BROWN, R. As Igrejas dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1986. DIANICH, S.; NOCETI, S. Tratado sobre a Igreja. Aparecida: Santuário, 2007. ESTRADA, J. Para compreender como surgiu a Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005. © Eclesiologia154 Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO FÜGLISTER, N. Formas de existência da Ekklesia do Antigo Testamento. In: Mysterium Salutis IV/1, 11-78. LOHFINK, G. Como Jesus queria as comunidades. São Paulo: Paulinas, 1987. ROLOFF, J. A Igreja no Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, CEBI, 2005. SCHLIER, H. A eclesiologia do Novo Testamento. In: Mysterium Salutis IV/1, 1972. 27. E-REFERÊNCIAS CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA LUMEN GENTIUM SOBRE A IGREJA. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_ const_19641121_lumen-gentium_po.html >. Acesso em: 23 fev. 2010. DECLARAÇÃO NOSTRA AETATE SOBRE A IGREJA E AS RELIGIÕES NÃO CRISTÃS. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat- ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html>. Acesso em: 23 fev. 2010.