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1 Comunicação e Expressão 2 Comunicação e Expressão Gestão da Educação a Distância Cidade Universitária – Bloco C Avenida Alzira Barra Gazzola, 650, Bairro Aeroporto. Varginha /MG ead.unis.edu.br 0800 283 5665 Todos os direitos desta edição ficam reservados ao Unis – MG. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume (ou parte do mesmo), sob qualquer meio, sem autorização expressa da instituição. 3 Comunicação e Expressão Doutora e mestre em Estudos Linguísticos na área “Análise de Línguas de Especialidade”. Formada em Letras com Bacharelado em Tradução (português- francês). Atua como professora universitária no Centro Universitário do Sul de Minas desde 2011. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3635809359841101 Profa. Dra.. Ana Amélia Furtado de Oliveira Autoria OLIVEIRA, Ana Amélia Furtado de. Guia de Estudo – Comunicação e Expressão. Varginha: GEaD-UNIS/MG, 2017. 195 p. 1. Comunicação 2. Texto verbal e não verbal 3. Gênero textual. 4. Contexto I. Comunicação e Expressão http://lattes.cnpq.br/3635809359841101 4 Comunicação e Expressão Mestre em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, fez o Bacharelado em Linguística e Licenciatura em Letras pela mesma universidade. É também Especialista em Docência na Educação a Distância pelo Centro Universitário do Sul de Minas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6002360486930674 Doutoranda em Ciências da Linguagem pela Universidade do Vale do Sapucaí. Concluiu o Mestrado em Letras (Linguagem, Cultura e Discurso) em 2008 e graduação também em Letras em 2005. Foi professora efetiva na rede pública de ensino de 2006 a 2009, também trabalhou como professora substituta no Centro Tecnológico de Minas Gerais - CEFET/Varginha no período de 2014 a 2015. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6909130283777291 Possui graduação em Licenciatura Plena em Letras (Português - Espanhol), pelo Centro Universitário do Sul de Minas - Unis/MG (2011) e em Comunicação Social, também pelo Centro Universitário do Sul de Minas - Unis/MG (2003). Especialista em Docência na Educação a Distância, pelo Centro Universitário do Sul de Minas- Unis/MG (2007). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1533428235775539 Ana Paula Martins Corrêa Bovo Coautores Carina Adriele Duarte de Melo Rebeca Nogueira Lourenço Kaus http://lattes.cnpq.br/6002360486930674 http://lattes.cnpq.br/6909130283777291 http://lattes.cnpq.br/1533428235775539 5 Comunicação e Expressão Caro(a) estudante, Este guia tem por objeto o estudo da Língua Portuguesa. Neste período, vamos priorizar a construção de competências e habilidades em leitura, escrita e interpretação. Para trabalharmos a teoria de forma contextualizada, escolhemos gêneros textuais adequados aos objetivos de cada unidade. Inicialmente, veremos um pouco sobre “Linguagem e Comunicação”, analisando os textos verbais, não verbais e mistos. Também veremos a importância do conhecimento de mundo para a construção do sentido. Na unidade seguinte, unidade II, vamos abordar o funcionamento da comunicação e os diferentes objetivos comunicativos para iniciarmos o percurso da leitura crítica e aprofundada. Já na unidade III, para aperfeiçoarmos a produção escrita e oral, conheceremos alguns recursos de inovação textual. Na unidade IV, continuaremos priorizando a construção de competências e habilidades em leitura e escrita, enfocando o texto informativo e gêneros como a notícia e reportagem. Ainda para esse fim, na unidade V, aprenderemos sobre as conexões textuais. A unidade VI nos permitirá refletir sobre a nossa própria língua, o conceito de "erro", questionando concepções mais tradicionais, ampliando para uma visão mais heterogênea da língua. Na unidade seguinte, unidade VII, trabalharemos estratégias argumentativas para que possamos aperfeiçoar a defesa de nossas ideias e posicionamentos, seja como cidadãos ou profissionais. Ainda trabalhando a argumentação, na unidade VIII, adentraremos no mundo do texto acadêmico, que apresenta um estilo e linguagem particular. Na unidade seguinte, unidade IX, para que tenhamos a visão do todo, faremos uma retrospectiva com todos os tipos textuais estudados na disciplina até então. Na unidade X, trataremos dos novos gêneros textuais e comunicação digital. Todo o guia está escrito em uma linguagem bastante dialogal, para que sua leitura seja prazerosa e de compreensão satisfatória. Durante esse estudo, iremos sugerir alguns livros e endereços eletrônicos, é importante que os visite também. Um grande abraço e bons estudos! Ana Amélia. 6 Comunicação e Expressão Fundamentos de teorias da comunicação: signos verbais e não verbais. O papel do leitor na construção do sentido. Níveis de leitura e procedimentos de interpretação textual. Expressão falada e expressão escrita. Processos de normatização da língua. Tipos de texto e gêneros textuais: suas estruturas e funções. Procedimentos e estratégias de construção de textos: o público-alvo, o contexto de produção, recursos de coesão e coerência. O papel da reescrita na construção textual. Texto e hipertexto. Ver Plano de Estudos da disciplina, disponível no Ambiente Virtual. Comunicação. Texto verbal e não verbal. Gênero textual. Contexto. Ementa Orienta çõesEm enta Orientações Palavras- chaveOrientações Palavras-chave Palavras-chave 7 Comunicação e Expressão EMENTA ____________________________________________________________________ 6 ORIENTAÇÕES ______________________________________________________________ 6 PALAVRAS-CHAVE ___________________________________________________________ 6 UNIDADE I – LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO ___________________________________ 10 1.1 A COMUNICAÇÃO ________________________________________________________ 11 1.1.1 TEXTO VERBAL, NÃO VERBAL E MISTO _________________________________________ 13 1.2 GÊNEROS TEXTUAIS ________________________________________________________ 16 1.3 TEXTO E CONTEXTO DE PRODUÇÃO ____________________________________________ 18 UNIDADE II – TEORIA DA COMUNICAÇÃO _____________________________________ 29 2.1 ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO _______________________________________________ 30 2.2 FUNÇÕES DA LINGUAGEM ___________________________________________________ 37 2.3 INTENCIONALIDADE E PÚBLICO-ALVO ___________________________________________ 41 UNIDADE III – PROCEDIMENTOS E ESTRATÉGIAS NA CONSTRUÇÃO DE TEXTOS _____ 46 3.1 O POEMA _______________________________________________________________ 47 UNIDADE IV – A INTERPRETAÇÃO NA LEITURA DE TEXTOS _______________________ 69 4.1 LEITOR CRÍTICO E COMPETENTE ________________________________________________ 70 UNIDADE V – AS CONEXÕES ENTRE AS PARTES DO TEXTO _______________________ 84 5.1 FUNÇÃO EMOTIVA _________________________________________________________ 89 5.2 TEXTO NARRATIVO ________________________________________________________ 93 5.2 COESÃO TEXTUAL _________________________________________________________ 95 UNIDADE VI – FALA, ESCRITA E VARIEDADES LINGUÍSTICAS _______________________ 106 6.1 FALA E ESCRITA __________________________________________________________ 107 6.2 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E NORMATIZAÇÃO ______________________________________ 112 UNIDADE VII – TEXTO DISSERTATIVO E TEXTO ACADÊMICO _____________________ 118 7.1 COERÊNCIA _____________________________________________________________ 119 7.2 O TEXTO DISSERTATIVO ____________________________________________________ 122 UNIDADE VIII – LINGUAGEM ACADÊMICA______________________________________ 138 8.1 OTEXTO ACADÊMICO _____________________________________________________ 139 8.2 O PAPEL DA REESCRITA _____________________________________________________ 144 UNIDADE IX – TEXTO DESCRITIVO E TIPOS TEXTUAIS ___________________________ 161 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724753 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724754 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file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724769 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724773 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724776 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724779 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724782 8 Comunicação e Expressão 9.1 TEXTO DESCRITIVO________________________________________________________ 162 9.1.1 FINALIZANDO OS TIPOS TEXTUAIS ____________________________________________ 165 UNIDADE X – NOVOS GÊNEROS TEXTUAIS ____________________________________ 177 10.1 TEXTO E HIPERTEXTO _____________________________________________________ 178 10.2 NOVOS GÊNEROS TEXTUAIS ________________________________________________ 182 ESTUDO DE CASO _________________________________________________________ 189 REFRÊNCIA BIBLIOGRÁFICA __________________________________________________ 192 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724785 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724788 file://///linguado/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/Comunicação%20e%20Expressão/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Comunicação%20e%20Expressão.docx%23_Toc473724789 9 Comunicação e Expressão 10 Comunicação e Expressão Compreender, analisar e interpretar textos verbais, não verbais e mistos. Construir o sentido de um texto a partir da ativação do conhecimento prévio. Compreender os elementos que compõem os gêneros textuais. Ciclo 01 Atividade: Exercício Individual Título: Análise de anúncio publicitário Unidade I – Linguagem e Comunicação Objetivos da Unidade Plano de Estudos I 11 Comunicação e Expressão 1.1 A Comunicação Para introduzirmos nossos estudos, vamos tentar responder a seguinte pergunta: Segundo o dicionário do nosso grande Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a comunicação se define como: 1. Ato ou efeito de comunicar(-se). 2. Processo de emissão, transmissão e recepção de mensagens por meio de métodos e/ou sistemas convencionados. 3. A mensagem recebida por esses meios. 4. A capacidade de trocar ou discutir ideias, de dialogar, com vista ao bom entendimento entre pessoas. Mas o que o ato de comunicar revela sobre o ser humano? Observe a gravura do famoso quadro A Leitora (1770-1772), de Jean-Honoré Fragonard na imagem abaixo, e veja se essa imagem lhe diz algo: O que é COMUNICAÇÃO? Unidade I 12 Comunicação e Expressão Figura 01: A leitora Fonte: Pintura de Jean-Honoré Fragonard Observe a relação que você estabeleceu com a imagem e pense se está se comunicando com ela... Ao olhar a imagem, podemos nos comunicar com o pintor, com a sua personagem ou nos comunicarmos com nós mesmos, pois, como bem nos lembra a filosofia de Maurice Merleau-Ponty, em sua obra “Fenomenologia da percepção”: [...] Toda linguagem, em suma, ensina-se por si mesma e introduz sentido no espírito do ouvinte. Uma música ou uma pintura que não é compreendida, acaba por criar ela mesma seu público, caso diga alguma coisa. [...] A comunicação ou a compreensão dos gestos se obtém pela reciprocidade de minhas interações e gestos do outro, de meus atos e das intenções legíveis na conduta do outro. [...] Tudo ocorre como se a interação do outro habitasse meu corpo ou como se minhas intenções habitassem o seu. (1971, p. 176) Vamos pensar um pouco?! Como você relaciona a linguagem e a comunicação? Podemos dizer que a palavra é um gesto? Por quê? O que torna possível a comunicação? Unidade I 13 Comunicação e Expressão 1.1.1 Texto Verbal, Não Verbal e Misto Para nos comunicarmos, produzimos textos. Mas o que vem a ser um texto? Comumente, relacionamos texto a conjunto de palavras ou de frases que formam um todo cheio de sentido, não é mesmo? No entanto, a palavra não necessariamente será um requisito mínimo para um texto. Vejamos: O produto final de toda enunciação, feita em linguagem que for, é chamada de texto. Assim, são textos: um gráfico, um cartum, uma pintura, uma melodia, um poema, um filme, uma escultura, etc. Em muitos casos, dependendo da situação, até mesmo o silêncio pode ser considerado um texto. (CEREJA; COCHAR; CLETO 2009: p.14) Sendo assim, a charge abaixo é considerada um texto: Figura 02: Charge Fonte: Autor Duke Unidade I 14 Comunicação e Expressão O autor da charge não utilizou palavras, mas com um tom de humor retratou um aspecto da sociedade contemporânea: a forte presença da tecnologia e das famosas “selfies”. Quando não utilizamos palavras na comunicação, dizemos que o texto é não verbal. São exemplos de comunicação não verbal: gestos, expressões faciais, esculturas, pinturas, apito e cartões do árbitro em um jogo de futebol... Por outro lado, chamamos o texto que faz uso da palavra, ou seja, tem suporte no alfabeto, de verbal. É possível, ainda, sobretudo em charges, haver textos que mesclam os dois tipos de linguagem, sendo considerados mistos: Dica de leitura: Caso queira aprofundar seus estudos sobre a comunicação corporal, leia o livro “O corpo fala”, de Pierre Weil. “Este livro tenta desvendar a comunicação não verbal do corpo humano, primeiramente analisando os princípios que regem e conduzem o corpo. A partir desses princípios, aparecem as expressões, gestos e atos corporais que, de modos característicos, estilizadosou inovadores, expressam sentimentos, concepções, ou posicionamentos internos.” Unidade I 15 Comunicação e Expressão Figura 03: Charge Fonte: Autor Ivan Cabral Veja que, na charge acima, o texto verbal (“Mãe, que cor é essa?”) se soma ao não verbal (o restante da charge: desenho/imagem) para formar o sentido completo da comunicação. Ao ligarmos o questionamento verbal da criança aos itens não verbais chapéu, vegetação, restos de animais, cor, percebemos que o autor quis retratar uma realidade da região nordestina do Brasil. Reflita: Se a cor do lápis fosse outra, o texto teria o mesmo sentido? Qual é o papel das cores na comunicação? Unidade I 16 Comunicação e Expressão 1.2 Gêneros Textuais Como exemplos de textos não verbais e mistos, vimos duas charges. Mas o que é uma charge, afinal? A comunicação ocorre por meio de: A) TEXTO VERBAL. Como o próprio nome sugere, está relacionado ao “verbo”, ou seja, à palavra. Os textos verbais são aqueles que não possuem desenhos, gravuras. São formados apenas por palavras. Exemplos: cartas, textos literários, anedotas... B) TEXTO NÃO VERBAL. São aqueles textos que se caracterizam por usar outras linguagens que não a verbal: fotografias, desenhos, pinturas, ou mesmo, a linguagem da dança... C) TEXTO MISTO. Textos mistos nada mais são do que a junção dos textos verbais e não verbais. Por exemplo, as histórias em quadrinhos são constituídas por desenhos e palavras. GÊNERO TEXTUAL: CHARGE A charge é um gênero textual não verbal ou misto que expõe de forma crítica, sarcástica ou humorística determinado fato ou aspecto da sociedade. Unidade I 17 Comunicação e Expressão Atividade humana Estilo verbal Composição textual Texto ou enunciação Os gêneros textuais são os próprios textos materializados, as formas de organização da língua, formas de direcionar sua manifestação a atividades socialmente reconhecidas. Para escrever um “currículo”, por exemplo, normalmente é preciso fazer perguntas como: o que é um currículo? O que um texto deve ter para ser considerado como tal? Para que ele serve e para quem vou enviar? Quais informações deve conter? Que formato deve ter? Que linguagem devo utilizar? A depender do contexto e da finalidade da comunicação, o texto apresentará um conteúdo temático, uma composição e um estilo de linguagem específicos: Quando você responde aos questionamentos que fizemos sobre o currículo, indiretamente você está refletindo sobre esses aspectos do gênero textual. Reflita: Os gêneros textuais seriam uma proposta teórica de classificação dos textos? Unidade I 18 Comunicação e Expressão O uso da língua como ato comunicativo, um instrumento de comunicação, é invariavelmente um gênero textual. Como toda pessoa eventualmente irá se comunicar de alguma maneira, sempre existirá um gênero textual que ela domina, inserindo o enunciador em outros gêneros. Sendo assim, em nossa vida cotidiana, estamos o tempo todo lidando com gêneros textuais, seja recebendo-os ou produzindo-os. Veja alguns exemplos deles: anúncios publicitários, cartuns, tirinhas, crônicas, reportagens, letras de músicas, conversas informais, conversas telefônicas... Mais especificamente na Educação a distância, a comunicação ocorre por meio de gêneros como: correio (ou e-mail), bate-papo, fórum, slides, videoaula... Em nosso Guia de Estudos, observe que o aprendizado será direcionado pelos gêneros textuais. Nada melhor do que aperfeiçoar a comunicação através de textos utilizados em situações reais, não é mesmo? 1.3 Texto e contexto de produção Continuando nossos estudos sobre o gênero textual “charge”, temos mais especificamente o conceito de charge como sendo: Se entendermos a linguagem como articuladora da vida social e do sistema da língua, estamos pressupondo, acerca do ensino de linguagem, que ensinar uma língua é ensinar a agir naquela língua. Unidade I 19 Comunicação e Expressão desenho humorístico, com ou sem legenda ou balão, geralmente veiculado pela imprensa e tendo por tema algum acontecimento atual, que comporta a crítica e focaliza, por meio de caricatura, uma ou mais personagens envolvidas; caricatura, cartum. (HOUAISS, 2001) Assim, uma das principais características da charge é a temporalidade, ou seja, o fato de remeter necessariamente a uma época, a um contexto específico. Por esse motivo, ela é bastante utilizada em jornais e revistas. Observemos a charge a seguir: Figura 04: Charge Fonte: revista Piauí, v. 82, p. 43 Nós, enquanto leitores, para compreendermos um texto, sobretudo a charge, precisamos entender o contexto de produção, ou seja, as circunstâncias em que foi produzido. Como a charge acima aconteceu há certo tempo, não temos acesso ao seu contexto e sua compreensão fica, de certa forma, comprometida. Então, é importante saber que as condições de produção de qualquer texto podem ser diferentes das da recepção. Unidade I 20 Comunicação e Expressão Enfim, a charge trata-se de uma publicação de julho de 2013, época em que os brasileiros estavam descontentes com os altos gastos investidos na Copa do Mundo de Futebol e saíram às ruas para protestar. Na mesma época, surgiu um polêmico projeto de lei, proposto pelo deputado Marco Feliciano, considerando a homossexualidade como uma doença e propondo a cura. Quando resgatamos o momento, o local e a situação política e econômica em que o texto foi publicado, ele parece se tornar mais claro, não é verdade? De posse dessas informações, vamos iniciar a leitura e compreensão do texto? As charges geralmente utilizam-se de situações verossímeis para produzir um efeito de realidade. Dessa forma, reconhecemos na charge uma situação que pode realmente acontecer. Por esse motivo, muitos consideram a charge como uma “crônica visual”. Nesta, por meio do texto não verbal (imagem, placa, gestos), temos a caracterização de um personagem que se manifesta contra algo. Lembre-se que é um “efeito de realidade” que a charge cria. Se fosse um manifestante realmente presente nas manifestações, não se enquadraria no gênero “charge”, seria “ilustração”, ou algo do tipo. Lembre-se: estamos trabalhando a leitura crítica, e esse tipo de leitura requer uma intensa participação sua, refletindo sobre o texto em si, como ele foi construído e trazendo sua vivência para a construção do sentido. As orientações que darei agora, ao direcionar a leitura, também foram influenciadas pela minha própria vivência. Assim, podemos dizer que é UMA das leituras possíveis. Unidade I 21 Comunicação e Expressão Por que o autor utilizou “acordey gay” em seu texto verbal? Essa construção pode remeter a algo novo, a uma mudança de estado. Costumamos utilizar, no dia a dia, frases do tipo “ele acordou doente hoje”, significando que a pessoa acabou de ficar doente, ou seja, não estava doente no dia anterior, certo? Se transpusermos essa ideia para a charge, podemos visualizar uma crítica ao projeto de lei “A cura gay” na passagem “Acordey gay”, como se o personagem “manifestante” tivesse descoberto naquela noite sua doença, a homossexualidade, e quisesse ser curado. Essa descoberta repentina pode se referir à própria proposta de lei, que caracterizava a partir daquela data os homossexuais como doentes. Além disso, houve uma brincadeira com a escrita da palavra “acordei”, transformando em “acordey” e relacionando à palavra “gay”. No texto, foi utilizado o sarcasmo, pois dá a entender que o manifestante não compartilha realmentedaquela opinião. É como se estivesse dizendo “Certo, vamos seguir sua ideia, deputado. Se eu for homossexual e estiver realmente doente como o senhor diz...” O sarcasmo, a ironia, o humor constituem outra característica das charges. Eles são utilizados como estratégias para surpreender o leitor e despertar o riso. Em meio aos textos informativos das reportagens e notícias, também presentes nos jornais e revistas, a charge aborda algo importante de forma inusitada. Muitas vezes, o riso nas charges pode funcionar também como uma evasão de algo desagradável presente na sociedade. Continuando a análise da charge, podemos perceber uma segunda crítica do autor: a crítica à falta de infraestrutura dos hospitais brasileiros. Aliás, essa era uma das reivindicações das manifestações pré-Copa do Mundo. Na época, houve, inclusive, uma polêmica declaração do ex-jogador de futebol Ronaldo ao dizer “Não se faz copa do mundo com hospitais”. Voltando a comparar a charge a outros gêneros textuais presentes em jornais e revistas, a charge é um dos poucos textos em que está explicitamente marcado o posicionamento de seu autor. Geralmente, os outros textos apresentam-se textualmente “imparciais”1. Unidade I 22 Comunicação e Expressão Viu como conhecer o contexto e o gênero textual nos ajuda a interpretar melhor? Isso ocorre porque, para lermos qualquer tipo de texto, precisamos ativar nosso conhecimento de mundo e termos papel ativo na leitura! 1) Essa questão, extraída do ENADE, demonstra as infindáveis possibilidades de comunicação e as relações que os textos verbais e não verbais podem estabelecer. Veja: Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 23. Vamos fazer uma revisão do conteúdo realizando uma atividade? Após realizar, veja no final os comentários das questões. Unidade I 23 Comunicação e Expressão Cidadezinha cheia de graça... Tão pequenina que até causa dó! Com seus burricos a pastar na praça... Sua igrejinha de uma torre só... Nuvens que venham, nuvens e asas, Não param nunca nem num segundo... E fica a torre, sobre as velhas casas, Fica cismando como é vasto o mundo!... Eu que de longe venho perdido, Sem pouso fixo (a triste sina!) Ah, quem me dera ter lá nascido! Lá toda a vida poder morar! Cidadezinha... Tão pequenina Que toda cabe num só olhar... QUINTANA, Mário. A rua dos cata-ventos. In: Poesia completa. Org. Tânia Franco Carvalhal. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 107. Ao se escolher uma ilustração para esses poemas, qual das obras, abaixo, estaria de acordo com o tema neles dominante? Unidade I 24 Comunicação e Expressão Unidade I 25 Comunicação e Expressão 2) Observe a ilustração abaixo, obra de Henfil, e responda as questões abaixo: Figura 05: Obra de Henfil Fonte:: http://macariocampos.blogspot.com/2010/06/craques-do-cartum-na-copa.html a) Trata-se de uma comunicação não verbal, verbal ou mista? b) Está estruturada em que gênero textual? c) Analise todo o texto e comente o que pretende retratar. Unidade I http://macariocampos.blogspot.com/2010/06/craques-do-cartum-na-copa.html 26 Comunicação e Expressão 3) Observe a charge abaixo, também do cartunista Henfil: Figura 06: Obra de Henfil (Fonte: RODRIGUES, Marly. O Brasil da Abertura. De 1974 à Constituinte. 3. ed. São Paulo: Atual, 1990. p. 62.) Assinale a alternativa que identifica CORRETAMENTE o período da história republicana brasileira contemporânea retratada e ironizada pela charge do cartunista Henfil: a) O impeachment do presidente Collor. b) O início da redemocratização. c) Os chamados “Anos de Chumbo”. d) O período do “milagre brasileiro”. Unidade I 27 Comunicação e Expressão Atividade comentada da Unidade 1) Você acertou se escolheu a opção E, pois a imagem de uma cidade pequena, do interior, como demonstra os poemas, está presente na tela de Guignard. Lembre-se também de que é importante considerarmos as características de cada texto na hora de interpretá-los. 2) Trata-se de uma charge mista. A parte verbal mostra um personagem inicialmente apreensivo e, em um segundo momento, aliviado e sorridente. A presença da televisão e sua comunicação gestual direcionam a leitura para uma “torcida” do personagem. O texto verbal complementa a ideia de “torcida” com os dizeres “Deus é Brasileiro”, ou seja, podemos depreender que esse personagem torcedor pode estar assistindo a um jogo internacional e tem fé de que deus esteja torcendo para o mesmo time, ou seja, para o Brasil. Em nenhum momento o texto deixa claro o esporte “futebol”, mas isso pode ser entendido a partir do texto verbal “opção p/ domingo”, já que no Brasil os jogos de futebol normalmente acontecem aos domingos, e também a partir do conhecimento da cultura brasileira. Dessa forma, o texto retrata o importante papel que esse esporte desempenha na vida do brasileiro. Isso pode ser notado sobretudo pela inversão do texto verbal “deus é brasileiro” em “o brasileiro é deus”, ou seja, aparentemente após um gol, elevando o jogador e, consequentemente, o brasileiro a um status de deus. 3) Aqui, você precisa ter um conhecimento prévio sobre vários aspectos da época em questão para chegar à conclusão de que a charge se refere ao início da redemocratização. Unidade I 28 Comunicação e Expressão Nós falamos nesta unidade sobre os três tipos de linguagens que podemos utilizar para nos comunicarmos: verbal, não verbal e mista. Vimos, ainda, as formas distintas de linguagem no nosso cotidiano, como existe uma linguagem para cada situação social. Damos a estas maneiras singulares de comunicação o nome de gêneros textuais. O romance, uma entrevista, um e-mail, uma receita de bolo, um resumo, um conto, uma aula e até mesmo este guia de estudos que está lendo, é um gênero textual. Por meio do gênero textual “charge”, começamos a desenvolver a leitura crítica, observando a construção do gênero, o contexto comunicativo em que foi produzido e desempenhando nosso papel de leitores ativos e competentes. Unidade I 29 Comunicação e Expressão Relacionar as funções de linguagem com os elementos da comunicação e, com os novos estudos, reconhecer a linguagem como forma de inter(ação). Apreender as relações existentes entre os objetivos que norteiam a elaboração da comunicação. Relacionar os recursos linguísticos empregados na composição do texto aos sentidos e intenções da mensagem. Ciclo 01 Atividade: Exercício Individual Título: Análise de anúncio publicitário Unidade II – Teoria da Comunicação Objetivos da Unidade Plano de Estudos II 30 Comunicação e Expressão Durante muito tempo, pensou-se na interpretação textual como resgate de sentido do texto. Por essa perspectiva, o receptor faria uma mera decodificação de um sentido imanente do texto. Considerando o aspecto social e interacional da comunicação, o papel do leitor passa a ser ativo. Sendo assim, é essencial que esse leitor conheça o funcionamento da comunicação para, então, observar sua construção,identificar os recursos linguísticos empregados pelo emissor na composição do texto e relacioná-los aos sentidos e intenções da mensagem. 2.1 Elementos da Comunicação Para compreendermos um pouco mais sobre o ato de se comunicar, vamos fazer um breve retrospecto da Teoria da Comunicação proposta pelo russo Roman Jakobson. Você, com certeza, se lembrará das aulas no ensino fundamental e médio em que a professora solicitava aos alunos que encontrassem os elementos da teoria da comunicação. O diagrama possuía forma semelhante ao que segue logo abaixo: Figura 1 – Elementos da Comunicação Fonte: A autora Canal Emissor Receptor MENSAGEM Código Referente Unidade II 31 Comunicação e Expressão Aprendíamos que: O emissor ou destinador é quem envia a mensagem; O receptor ou destinatário é quem recebe a mensagem; A mensagem é o objeto de comunicação; O canal é o que garante a circulação da mensagem. O canal pode ser um meio físico ou virtual; O código é a forma como a mensagem se estrutura. É formado por um conjunto de sinais: língua (verbal ou não verbal, oral ou escrita), gestos, Braille... O referente é o contexto em que a mensagem é proferida. Figura 01: Tirinha da Mafalda Fonte: http://www.clubedamafalda.blogspot.com.br Lembrou-se? Observe agora a tirinha da Mafalda, do autor Quino. Unidade II http://www.clubedamafalda.blogspot.com.br/ 32 Comunicação e Expressão Considerando a fala da Mafalda no 1º quadrinho, complete os itens abaixo: a) Remetente (ou emissor):_________________________________ b) Destinatário (ou receptor): _______________________________ c) Mensagem:____________________________________________ d) Canal:________________________________________________ e) Código:_______________________________________________ f) Referente: ____________________________________________ Acertou se você escolheu a Mafalda como remetente, o menino (chamado Felipe) como destinatário, a frase “Era melhor começar de novo para ver se dá certo” como mensagem; a língua portuguesa como o código e a fala como o canal. O referente seria uma afirmação da emissora sobre algo que precisaria ser reiniciado, pois está dando errado. Vamos conhecer um pouco mais sobre o gênero textual tirinha? Na tirinha, a fala entre os personagens é representada por meio de balões. É por isso que foi possível analisar a fala da Mafalda. Fizemos um exercício de imaginar a cena real, como se a personagem estivesse mesmo conversando com o seu colega Felipe. Gênero textual: TIRA (ou tirinha) A tirinha é um texto curto que, por meio do texto não verbal ou misto, utiliza- se de um ou mais quadrinhos para criar uma narrativa. Pode ser cômica ou simplesmente contar uma história. Unidade II 33 Comunicação e Expressão Em alguns casos, inclusive, é preciso considerar o sentido conotativo expresso pela tirinha, já que pode haver a comunicação entre personagens irreais ou inanimados. Em toda comunicação, seja falada ou escrita, podemos, então, encontrar os seis elementos propostos por Jakobson. Observe que a fala do Felipe no primeiro quadrinho é considerada outra comunicação e necessitaria de uma nova análise. Vamos exercitar? a) Remetente (ou emissor):_________________________________ b) Destinatário (ou receptor): _______________________________ c) Mensagem:____________________________________________ d) Canal:________________________________________________ e) Código:_______________________________________________ f) Referente: ____________________________________________ Acertou se você escolheu o Felipe como remetente, a Mafalda como destinatária, a frase “Também acho” como mensagem; a língua portuguesa como o código e a fala como o canal. O referente seria um ato comunicativo que denota que o emissor concorda com a fala anterior de Mafalda. Observe que a diferença entre a mensagem e referente parece ser muito sutil, mas é importante notarmos que a mensagem é o texto acabado, tal como foi produzido pelo emissor. Pense que, para emitir essa mensagem, o personagem Felipe escolheu aquelas palavras “Também acho” e não outras; aquela combinação de palavras e não outra; aquela linguagem e não outra. Ele poderia ter dito “concordo”, poderia ter escolhido se comunicar por gestos fazendo um sinal positivo ou balançando a cabeça... A passagem “concordo” seria outra mensagem, o gesto positivo outra e o gesto de balançar a cabeça outra. Todos com o mesmo referente, ou seja, o mesmo sentido depreendido na comunicação: concordância com algo anteriormente dito. Unidade II 34 Comunicação e Expressão Se considerarmos somente as falas dos personagens, não estamos analisando a “tirinha” como um todo. Enquanto gênero textual, precisamos considerar que se trata de um texto, publicado por alguém, com representação da fala de personagens, por meio de jornais, revistas ou sites. Vamos identificar os elementos da comunicação observando sob esse prisma, ou seja, a comunicação tirinha como um todo? a) Remetente (ou emissor):___________________________________ b) Destinatário (ou receptor): ________________________________ c) Mensagem:______________________________________________ d) Canal:__________________________________________________ e) Código:_________________________________________________ f) Referente: _____________________________________________ Acertou se você escolheu o autor Quito como remetente, os leitores (e também nós) como destinatários, a tirinha toda como mensagem; a língua portuguesa e a comunicação não verbal como o código e o visual (e escrita) como o canal. O referente seria um tipo de crítica do autor à humanidade. Você deve estar se perguntando: Então, o código será sempre a língua portuguesa? Em comunicações verbais, para as quais foi proposta essa teoria de Jakobson, o código será a língua em que o texto foi escrito. Grosso modo, precisamos entender as regras, normas e estruturas do código para entender a mensagem. Por exemplo, a tirinha que acabamos de ler é compreensível aos brasileiros, pois houve a tradução para o português. Seu autor é argentino e a escreveu inicialmente em espanhol. Será que a presença de todos esses elementos da Teoria da Comunicação garante uma interação efetiva? Tal modelo proposto teve grandes contribuições para o estudo da linguagem, mas também sofreu muitas críticas. Unidade II 35 Comunicação e Expressão Algumas delas se baseavam na ideia de que a língua não é um código na verdade, como se a mensagem fosse um bloco congelado com sentido imanente emitida do emissor para o destinatário. De fato, há que se considerar todo o processo comunicativo, sobretudo, o contexto em quem se encontram os interlocutores. É nesse ponto que as pesquisas de Mikhail Bakhtin, referentes aos processos de enunciação, nos ajudarão a compreender um pouco mais sobre a linguagem como interação social. Observe abaixo o fragmento extraído do livro “A Estética da Criação Verbal” (1997, p. 218), de Bakhtin: Unidade II 36 Comunicação e Expressão Na linguística, até agora, persistem funções tais como o “ouvinte” e o “receptor” (os parceiros do “locutor”). Tais funções dão uma imagem totalmente distorcida do processo complexo da comunicação verbal. Nos cursos de linguística geral (até nos cursos sérios como os de Saussure), os estudiosos comprazem-se em representar os dois parceiros da comunicação verbal, o locutor e o ouvinte (quem recebe a fala), por meio de um esquema dos processos ativos da fala no locutor e dos processos passivos de percepção e de compreensão da fala no ouvinte. Não sepode dizer que esses esquemas são errados e não correspondem a certos aspectos reais, mas quando estes esquemas pretendem representar o todo real da comunicação verbal se transformam em ficção científica. De fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (linguística) de um discurso adota simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor. A compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre acompanhada de uma atitude responsiva ativa (conquanto o grau dessa atividade seja muito variável); toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se o locutor. A compreensão passiva das significações do discurso ouvido é apenas o elemento abstrato de um fato real que é o todo constituído pela compreensão responsiva ativa e que se materializa no ato real da resposta fônica subsequente. Uma resposta fônica, claro, não sucede infalivelmente ao enunciado fônico que a suscita: a compreensão responsiva ativa do que foi ouvido (por exemplo, no caso de uma ordem dada) pode realizar-se diretamente como um ato (a execução da ordem compreendida e acatada), pode permanecer, por certo lapso de tempo. [...] O locutor postula esta compreensão responsiva ativa: o que ele espera, não é uma compreensão passiva que, por assim dizer, apenas duplicaria seu pensamento no espírito do outro, o que espera é uma resposta, uma concordância, uma adesão, uma objeção, uma execução, etc. Unidade II 37 Comunicação e Expressão Como se pode notar, não emitimos uma “mensagem congelada” ao nosso estático receptor, a comunicação se constrói por meio da interação entre os interlocutores. Além disso, como vimos na Unidade 1 do nosso Guia de Estudos quando tratamos das charges, o sentido da comunicação depende de fatores externos à frase, o contexto sócio-histórico é um deles. 2.2 Funções da Linguagem O linguista russo Roman Jakobson também se destacou ao reformular o modelo das funções de linguagem. Sobre esse tema, Celestina Magnanti, em seu artigo “O que se faz com a linguagem verbal?”, ressalta que: Jakobson enfoca o perfil da mensagem, conforme a meta ou orientação dessa mesma mensagem em cada fator de comunicação, a saber: emissor, receptor, canal, código, referente, mensagem. Segundo Jakobson, as atribuições de sentido, as possibilidades de interpretação que se possam deduzir e observar na mensagem estão localizadas, primeiramente, na própria direção intencional do fator da comunicação, o qual determina o perfil da mensagem, sua função, a função de linguagem que marca aquela informação Para entendermos o perfil da mensagem e sua função, vamos analisar a comunicação abaixo: De acordo com o fragmento lido, construa um pequeno texto crítico e reflexivo procurando definir o que é a atitude responsiva ativa citada por Mikhail Bakhtin. Unidade II 38 Comunicação e Expressão Figura 02: Anúncio Fonte: http://wearesocial.com/ O texto acima foi produzido pela emissora Omo, por meio da comunicação mista e visual em língua portuguesa. Analisando a mensagem, ou seja, as palavras, as figuras, as cores escolhidas pelo emissor para se comunicar, temos um texto que conversa com o receptor. Esse apelo ao receptor pode ser observado, sobretudo, pelo uso do “seja” (verbo no imperativo = ordem), “se você tem uma família”, “você pode ser uma das primeiras famílias” (uso da interpelação direta = você). Também chamamos esse tipo de texto de “injuntivo”: O texto injuntivo sugere uma ação ou indica os procedimentos para realizar esta ação. Ex.: instruções de jogos, bulas de remédio, receitas, manual de funcionamento de eletrodomésticos, folhetos sobre prevenção de doenças etc. DICA: Na norma culta, sempre usamos o verbo ser no imperativo como SEJA e não SEJE, ok? Essa regra também vale para o verbo estar: que você esteja seguindo conosco a reflexão sobre o anúncio! Unidade II 39 Comunicação e Expressão Quando a comunicação é direcionada ao receptor, com o objetivo de convencê-lo, de causar alguma mudança, seja de pensamento ou atitude, ela tem a função conativa ou apelativa. Tabela 1 – Função conativa FUNÇÕES DA LINGUAGEM E ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO FUNÇÃO CONATIVA É a que se orienta para o destinatário. Tudo o que, na mensagem, remete diretamente ao destinatário dessa mensagem concerne à função conativa, cujas manifestações mais evidentes são os imperativos e os vocativos. Fonte: Vanoye (1998) Somente para você visualizar o esquema de Jakobson na íntegra, temos uma função quando determinado elemento é enfatizado na comunicação: Unidade II 40 Comunicação e Expressão Neste momento do aprendizado, estamos trabalhando a função conativa. No decorrer da disciplina, com outros gêneros textuais, vamos abordar as outras funções da linguagem. A função conativa é uma função muito presente nos anúncios publicitários: Emissor Função Emotiva Receptor Função Conativa MENSAGEM Função Poética Código Função Metalinguística Canal Função Canal Referente Função Referencial Gênero textual: anúncio publicitário É um gênero, geralmente misto, que se utiliza de diferentes veículos de comunicação (revista, jornal, TV) para persuadir o consumo de uma ideia ou produto. Unidade II 41 Comunicação e Expressão Para cativar seu destinatário em meio a tantos outros textos, o gênero “anúncio publicitário” lança mão de diversos recursos argumentativos, não verbais, verbais, figuras de linguagem, jogo de palavras, metáforas, intertextualidade (diálogo com outros textos)... A função referencial, que enfatiza o referente, ou seja, a informação, também pode estar presente nos anúncios, pois uma das estratégicas de persuasão é o realce das qualidades do produto, como na frase: “O melhor Omo dos últimos tempos”. 2.3 Intencionalidade e público-alvo Até o momento, estamos falando de destinatário como um grupo generalizado, aquele que recebe a mensagem. No entanto, a partir da construção da mensagem, do produto em si, do veículo de comunicação, podemos traçar um perfil específico de destinatário: o público-alvo. E qual seria o público-alvo do anúncio da marca Omo acima? Em um primeiro momento, você possivelmente deve ter pensado que seriam as mulheres. Vamos observar a construção da mensagem do anúncio na passagem “seja um dos primeiros”. Foi escolhido o gênero masculino, então, não necessariamente seriam as mulheres. Neste texto, em específico, o autor teve como público-alvo aquela pessoa que é responsável pela limpeza da roupa da casa, não necessariamente a mulher. Muitas vezes associamos o produto a um público-alvo específico, influenciados pela nossa própria cultura ou pela tradição das propagandas, pois estas acabam reforçando determinados aspectos e estereótipos de nossa sociedade. Como exemplo, você pode pensar nas propagandas de cerveja que conhece. Unidade II 42 Comunicação e Expressão A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Figura 03: Anúncio Omo Fonte: http://www.propagandaemrevista.com.br/propaganda/5771/ Toda comunicação é influenciada pela imagem que o emissor constrói de seu receptor. No momento da emissão, planeja-se a comunicação, fazendo hipóteses sobre o conhecimento de mundo do possível receptor, a linguagemque mais se adequaria a seu perfil, os efeitos que esse texto causaria nesse receptor... Compare, por exemplo, a linguagem de um anúncio publicitário para jovens com um anúncio para um público mais adulto e mais culto. Ou então um anúncio de um mesmo produto em revistas diferentes, como Caras e PEGN (Pequenas Empresas Grandes Negócios). Este site é muito interessante, pois reúne propagandas em diferentes revistas e você poderá fazer esse exercício: http://www.propagandaemrevista.com.br/revistas/ Unidade II http://www.propagandaemrevista.com.br/propaganda/5771/ http://www.propagandaemrevista.com.br/revistas/ 43 Comunicação e Expressão Veja que no anúncio acima, de 1999, o público-alvo nitidamente são as mulheres. E não podemos deixar de refletir sobre o papel da propaganda do ponto de vista crítico e ideológico, como reafirmação de valores e estereótipos da sociedade. A publicidade elabora um discurso a partir de dados culturais com o objetivo de provocar o desejo de consumo por meio da identificação, ou seja, o receptor (ou receptora) se vê retratado no personagem elaborado pelo emissor, seja por suas dificuldades, seus hábitos, seu perfil. Assim, durante muito tempo, as propagandas não só da Omo, mas de qualquer produto de limpeza, retrataram a mulher como sendo a única responsável pelas tarefas domésticas. Inicialmente, as personagens criadas ou atrizes utilizavam até mesmo aventais, como domésticas. Com a mudança do papel da mulher na sociedade e sua saída para o mercado de trabalho, a mulher continua como público-alvo, mas é retratada como “moderna”, com roupas mais formais, como se estivesse saindo para o trabalho. Os atributos do produto passam a ser a praticidade, pois essa mulher precisa conciliar muitas tarefas, afinal, é profissional, dona de casa e, muitas vezes, mãe. O lado materno, aliás, está sendo muito valorizado nas propagandas, já que uma das maiores angústias da mulher moderna é deixar o convívio com seus filhos para trabalhar. Como na elaboração de qualquer comunicação, precisamos considerar a aceitabilidade de nosso receptor. Hoje em dia, propagandas que reforçam o estereótipo de mulher “Amélia” foram deixando de ser utilizadas. Isso causaria, em vez de identificação, certa fúria pelo tom sexista. Unidade II 44 Comunicação e Expressão Além da identificação, a propaganda também age para despertar outros sentimentos nos seres humanos: [...] a propaganda é uma das grandes formadoras do ambiente cultural e social de nossa época. Isso porque trabalha a partir de dados culturais existentes, recombinando-os, remodelando-os (até mesmo alterando suas relevâncias), e sobre alguns dos instintos mais fortes dos seres humanos: o medo, a vontade de ganhar, a inveja, o desejo de aceitação social, a necessidade de autorrealização, a compulsão de experimentar o novo, a angústia de saber mais, a segurança da tradição. (SAMPAIO, 2003, p. 38). Outro exercício interessante de leitura é observar que sentimentos determinado anúncio pretendeu despertar no consumidor. Vamos realizar? Assista a comerciais de televisão e tente identificá-los em, pelo menos, dois anúncios! Veja este comercial indiano da marca Ariel, que tenta ir na contramão dos discursos tradicionais de comerciais de produtos de limpeza: http://www.administradores.com.br/noticias/marketin g/comercial-de-sabao-ariel-convoca-homens-a- dividir-a-carga/108701/ Unidade II http://www.administradores.com.br/noticias/marketing/comercial-de-sabao-ariel-convoca-homens-a-dividir-a-carga/108701/ http://www.administradores.com.br/noticias/marketing/comercial-de-sabao-ariel-convoca-homens-a-dividir-a-carga/108701/ http://www.administradores.com.br/noticias/marketing/comercial-de-sabao-ariel-convoca-homens-a-dividir-a-carga/108701/ 45 Comunicação e Expressão Nesta unidade vimos que: - o funcionamento de qualquer comunicação pode ser descrito pelos seis elementos da comunicação (emissor, receptor, canal, código, mensagem, referente). - é importante identificar os elementos da comunicação para iniciarmos a leitura crítica. Por meio deles, podemos observar os recursos disponibilizados ao emissor em sua proposta comunicativa. - quando, a depender dos objetivos comunicativos, há ênfase em um dos elementos da comunicação, dizemos que há função da linguagem. Ou seja, toda comunicação terá UMA ou outra função. Nesta unidade, a função conativa, aquela centrada no receptor, foi colocada em evidência. - a língua não pode ser considerada minimamente “código” e o sentido não está fixo na mensagem. Pela análise do gênero “anúncio publicitário”, concluímos que o texto é influenciado pelo contexto e sociedade, apresentando ideologia e retratação de valores. - ao nos comunicarmos, fazemos hipóteses sobre o perfil do receptor, seus conhecimentos de mundo, de língua, suas vivências e experiências, para, então, formularmos a mensagem mais adequada para cumprir nossos objetivos. Unidade II 46 Comunicação e Expressão Descrever o funcionamento do texto e da leitura a partir do processo da interpretação de texto. Relacionar os recursos linguísticos empregados na composição do texto aos sentidos e intenções da mensagem. Ciclo 02 Atividade: Exercício Individual Título: Texto poético e informativo Unidade III – Procedimentos e Estratégias na Construção de Textos Objetivos da Unidade Plano de Estudos III 47 Comunicação e Expressão O foco principal desta unidade é trazer maneiras para deixar nosso texto mais atrativo e interessante, aumentando sua aceitabilidade. Você já deve ter participado de alguma formatura em que os discursos parecem ser sempre os mesmos, com as ideias de que “foi um caminho difícil”, “noites mal dormidas”, “etapas vencidas”, “todos vamos nos separar”... É tão previsível que os receptores já não dedicam sua atenção. Ao passo que, quando um orador inova em seu discurso, trazendo fatos específicos da turma, um novo olhar ou até uma nova forma de dizer, todos levantam a cabeça para escutar. Repare nisso quando for a uma formatura novamente (ou até mesmo na sua, daqui a alguns anos)! Assim, para que nosso receptor fique atento e com vontade de nos escutar ou ler, precisamos inovar. É por isso também que os manuais de redação orientam para evitar o “lugar-comum” do tipo “O Brasil é um país de dimensões continentais”, ou seja, eles orientam para sairmos do óbvio, para aumentarmos a informatividade do texto, trazer ideias e combinações de palavras novas. Nesta unidade, vamos, então, conhecer o gênero “poema” e alguns procedimentos e estratégias para construção de textos. Ao ler esta unidade, quero que entenda que as inovações aqui destacadas também podem ser utilizadas em outros gêneros, dando mais informatividade ao texto e, consequentemente, maior aceitabilidade. 3.1 O poema Para sermos bons comunicadores, precisamos dedicar um tempo para analisar nossas escolhas, as palavras que vamos utilizar, a organização textual, formas de inovar. Talvez um dos gêneros textuais em que haja mais preocupação nesse projeto de dizer seja o poema. Vamos conhecer um pouco sobre ele? Unidade III 48 Comunicação e Expressão Você deve estar pensando no poema como aquele gênero com palavras mais rebuscadas, rimas ricas, métrica calculada (as quais contávamos nas aulas de literatura), não é mesmo? Na verdade, a composição textual do poema não é única. Essa estrutura mais rígida era típica do movimento parnasiano. Manuel Bandeira, para a Semana de Arte Moderna de 1922, em protesto à rigidez do parnasianismo e em busca de uma liberdade de expressão,escreveu o poema “Os sapos”, que foi recitado. Imagine o espanto da plateia, acostumada com o padrão de poema da época, ao ouvir o poema! Repare que, em alguns momentos, as palavras foram escolhidas como onomatopeia do coaxar dos sapos (“foi”, “não foi”): Gênero textual: poema É um gênero que explora as palavras (e a combinação entre elas) em sua plurissignificação, sua sonoridade. DICA: Sempre leia os poemas em voz alta! Assim, perceberá melhor a sonoridade! Unidade III 49 Comunicação e Expressão Os Sapos (Manuel Bandeira) Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: - "Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. Unidade III 50 Comunicação e Expressão Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas..." Urra o sapo-boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: - A grande arte é como Lavor de joalheiro. Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo". Unidade III 51 Comunicação e Expressão Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas, - "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu Da beira do rio... Unidade III 52 Comunicação e Expressão Ferrenho e criativo, não? Desde então, com o passar do tempo, houve uma mudança do que se pode chamar “poema”. Assim, o gênero pode ser escrito com ou sem rimas, em linguagem mais rebuscada ou cotidiana, em versos e estrofes, em prosa e até utilizar recursos gráficos, explorando o espaço branco no papel, como nos casos abaixo: Figura 01: Poema Xícara Fonte: Fábio Sexugi Unidade III 53 Comunicação e Expressão Gostou desse estilo de poema? Então, pesquise mais sobre “poemas concretos”. Goldstein (2006) considera o poema um texto em forma de rede que exige uma leitura plural ao invés de uma leitura linear, simplesmente informativa. Falando de outra forma, o texto poético apresenta uma plurissignificação que pede diversas leituras. A linguagem do poema é elaborada de maneira que suas características estéticas também sejam relevantes para a interpretação. A seleção e combinação de palavras também são baseadas em critérios rítmicos, sintáticos, sonoros e o resultado de paralelismos e jogos formais, além da significação. A Procura da Poesia Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes. Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. [...] Unidade III 54 Comunicação e Expressão Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Chega mais parto e contempla as palavras. cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave? ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1969. Unidade III 55 Comunicação e Expressão Perceba que os três poemas exemplificados apresentam, coincidentemente, uma característica em comum: a referência ao ato de escrever um poema. No segundo, está menos evidente, pois a referência encontra-se somente na parte “me pergunto já em prosa” (já que ele até aquele momento do poema fez versos). Quando nos comunicamos e refletimos sobre o próprio ato de se comunicar, chamamos isso de “metalinguagem”. Nesses exemplos, o poeta falou sobre escrever poema, mas pode ser o caso de uma música com o tema de escrever ou cantar música; uma propaganda que aborda a própria propaganda; um filme em que seu roteiro trata a história do cinema, ou de um ator, ou que haja uma gravação dentro do próprio filme... Também chamamos de uso metalinguístico da linguagem quando tratamos em nosso texto sobre o próprio código (Lembra que vimos que o código é um elemento da comunicação na unidade 2? Código = língua portuguesa). Ou seja, quando dou uma aula de português, quando explico o significado de uma palavra, como no exemplo abaixo, o texto tem função metalinguística: Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje. (...) (ROUSSEFF, 2011) Repare que a emissora não usou vida, alma, esperança, coragem, sinceridade explorando seu significado de fato como na frase “A vida é bela”. Aqui, ela destacou as três palavras como pertencentes ao código, como substantivo feminino. Assim, dizemos que fez uso da metalinguagem. Aliás, quando classificamos uma palavra em substantivo, adjetivo, aquelas classificações da gramática, é metalinguagem. Unidade III 56 Comunicação e Expressão Tabela 1 – Função Metalinguística FUNÇÃO METALINGUÍSTICA Centrada no código. Tudo o que, numa mensagem, serve para dar explicação ou precisar o código utilizado pelo destinador, concerne a essa função. É uma linguagem que fala da própria linguagem. DICA: Normalmente, destacamos o uso metalinguístico das palavras com uma formatação diferente, aspas ou em itálico, como ocorreu nessa reportagem: Estudos recentes revelam que esse comportamento, que até há bem pouco tempo era considerado inofensivo e que recebe o nome de bullying, pode acarretar sérias consequências ao desenvolvimento psíquico dos alunos. (DREYER. http://www.educacional.com.br/reportagens/bullying/) RESUMINDO: Quando, em nossa comunicação, há ênfase no código, temos a função metalinguística: Unidade III http://www.educacional.com.br/reportagens/bullying/ 57 Comunicação e Expressão Viu como ouvir o poema o torna mais “real” e interessante? E por que este é considerado um poema? Somente porque foi escrito por Carlos Drummond de Andrade? Não se trata de um poema com palavrasdifíceis, que entenderíamos somente após consulta ao dicionário. Talvez sua poesia esteja sobretudo na originalidade das observações do autor sobre a vida, da perspectiva sob a qual vê o ser humano. Quando leio esse poema, lembro muito de charges como essa: Figura 02: Charge Disponível em: http://chebolas.blogspot.com.br/2013/07/charge-foto-e-frase-do-dia_19.html Vamos continuar falando sobre poemas? Agora, convido você a ouvir o poema “Um boi vê os homens”, de Carlos Drummond de Andrade, no vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=82haJI2AXUI Unidade III https://www.youtube.com/watch?v=82haJI2AXUI 58 Comunicação e Expressão Nós costumamos observar tudo a nossa volta como seres superiores, os racionais. Drummond muda o prisma “E se os animais nos observassem? ”, “como nós seríamos? ”. Trata-se de uma descrição inovadora (ele poderia somente dizer simplesmente “O homem é assim...”) e, apesar de ter sido escrita em 1951, ainda é atual, já que retrata a correria do cotidiano dos homens, o “mundo moderno”, sua insensibilidade pela natureza e o ambiente em que vive. O animal observador vê o ser humano como um ser inferior, “sinistro”, “coitado”, “pobre”, “carecido”. Ao escolher o boi como animal observador, Drummond também trabalha na escolha de palavras que remetem a seu universo, como “feno”, “rastro”, “pelos”, “montanha” e, sobretudo, na culminância do poema em “ruminar”. Quando recebemos um texto e nos deparamos com uma negação, como leitores atentos, precisamos analisar mais a fundo essa negação. No poema, temos “Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno”. Toda negação traz consigo a voz da afirmação. Por trás dessa negação, há subentendido que é costume, a partir da perspectiva do boi, escutar o canto do ar e os segredos do feno. Nessa frase, está implícito que o homem deveria realizar essas ações. E o fato de não seguir esse hábito é um espanto para o boi. Você pode fazer o mesmo tipo de análise da negação em: Figura 03: Uso da negação Fonte: http://condominiomaeterra.com/folha-seca-nao-e-sujeira/ Unidade III 59 Comunicação e Expressão A partir de agora, fique de olho nas negações, hein? Elas têm muito a dizer. Nelas, podemos encontrar outras vozes, a polifonia, sobre a qual falaremos com mais detalhes na unidade 9. Finalizando as observações sobre o poema de Drummond... Não havíamos dito que o poema trabalha com a plurissignificação (mais de um significado ou leitura)? No poema, ao ouvirmos/lermos o verbo “ruminar” podemos entender como uma ação fisiológica do boi, típica de sua digestão. Ou então, podemos entender “ruminar nossa verdade” em um sentido simbólico, como o de refletir sobre a verdade, ou até mais um refletir em um tom de culpa, já que, assim como o alimento do boi vai e volta no estômago, os pensamentos sobre a verdade vão e voltam à nossa cabeça, muito típico de quando estamos com a consciência pesada. O verbo “ruminar” pode, então, ser entendido em seu sentido denotativo (ação fisiológica – primeira leitura) e também em seu sentido conotativo (segunda leitura). Veja que essa é uma das leituras possíveis! Você, como leitor, pode valer de seus sentimentos, suas experiências de vida, seu conhecimento e fazer sua leitura! É isso que é poesia! Passando para a análise de outros poemas, vejam os textos a seguir retirados de Fiorin (1994, p.19): Do que a terra mais garrida Teus risonhos, lindos campos têm mais flores; Nossos bosques têm mais vida Nossa vida em teu seio mais amores (Hino Nacional Brasileiro) Unidade III 60 Comunicação e Expressão Nossas flores são mais bonitas Nossas frutas mais gostosas Mas custam cem mil réis a dúzia. (MENDES, Murilo, Canção do exílio) Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. (DIAS, Gonçalves, Canção do exílio) Você notou como eles se relacionam? Esses três textos são exemplos de intertextualidade. Todo texto relaciona- se com outros textos, influenciando explícitamente ou de maneira oculta. Nos exemplos acima, podemos perceber clamentente a intertextualidade entre eles. Tudo que lemos e estudamos passa a fazer parte do nosso conhecimento, que transpomos para o texto de forma consciente ou não. Vamos falar de novo sobre os três textos que usamos como exemplo. O poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, é anterior aos outros dois textos, portanto fica claro ao lê-los, que ambos os textos fazem referência a ele. Esse diálogo entre os textos tem o nome de intertextualidade. Fiorin (1994, p.20) nos mostra que as finalidades do uso da intertextualidade são diferentes. O poema de Gonçalves Dias retrata o sentimento do autor de que nossa pátria é melhor do que qualquer lugar no mundo. O Hino Nacional retoma os versos de Dias para reforçar esse sentimento. Mas, podemos ver intenção inversa nos versos de Murilo Mendes. Unidade III 61 Comunicação e Expressão Ainda conforme o autor, um texto cita o outro com duas finaliades distintas: O Hino Nacional encaixa-se claramente na primeira finalidade parafraseando os versos de Gonçalves Dias e o texto de Murilo Mendes se enquadra na segunda alternativa parodiando os versos originais. Para reafirmar alguns dos sentidos do texto citado Para inverter, contestar e deformar alguns dos sentidos do texto citado; para polemizar com ele. Uma dica de filme intertextual e um ótimo programa para a família toda é "Shrek 2", de Andrew Adamson. EUA, 2003. Dreamworks Unidade III 62 Comunicação e Expressão Como já dizia Fiorin (1994,p.20), a capacidade de detectar as relações intertextuais das referências entre textos é dependente do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimentos acerca da literatura, movimentos sociais e de outras manifestações culturais. Por isso, ler é importante, quanto mais se lê mais se amplia a visão de mundo do leitor, bem como a habilidade de perceber o diálogo que os textos travam entre si, por meio de referências citações e alusões. Cada livro lido aumenta a capacidade de apreender, de maneira mais completa, os sentidos dos textos. Mãos à obra! Vamos botar à prova nossos conhecimentos acerca da intertextualidade e fazer uma reflexão, proposta por Fiorin(1994): Sampa 1. alguma coisa acontece no meu coração 2. que só quando cruza a ipiranga e a avenida são joão 3. é que quando cheguei por aqui eu nada entendi 4. da dura poesia concreta de tuas esquinas 5. da deselegância discreta de tuas meninas 6. ainda não havia para mim rita lee 7. a tua mais completa tradução Unidade III 63 Comunicação e Expressão 8. alguma coisa acontece no meu coração 9. que só quando cruza a ipiranga e a avenida são joão 10. quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto 11. chamei de mau gosto o que vi de mau gosto o mau gosto 12. é que narciso acha feio que não é espelho 13. e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho 14. nada do que não era antes quando não somos mutantes 15. e foste um difícil começo afasto o que não conheço 16. e quem vem de outro sonho feliz da cidade 17. aprende depressa a chamar-te de realidade 18. porque és o avesso do avesso do avesso do avesso 19. do povo oprimido nas filas nas favelas 20. da força da grana que ergue e destrói coisas belas 21. da feia fumaça que sobe apagando as estrelas 22. e vejo surgir teus poetas de campos e espaços 23. tuasoficinas de florestas teus deuses de chuva 24. panaméricas de áfricas utópicas túmulo do samba mais [possível novo quilombo de zumbi 25. e os novos baianos passeiam na tua garoa 26. e os novos baianos te podem curtir numa boa (VELOSO, Caetano. Literatuda comentada. São Paulo: Abril Educação,1981) Unidade III 64 Comunicação e Expressão Questão 1 Sampa refere-se à cidade de São Paulo. O texto relaciona lugares de São Pulo, bem como poetas, músicos e movimentos culturais que agitavam essa cidade na época em que foi escrito. Lendo o texto identifique três dessas referências. ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ _____ Unidade III 65 Comunicação e Expressão Questão 2 A mitologia grega apresenta o mito de Narciso. Conta a narrativa mítica que Narciso, rapaz dotado de grande beleza, um dia ao curvar-se sobre as águas cristalinas de uma fonte, para matar a sede, viu sua imagem refletida no espelho d’água e apixonou- se por ela. Suas tentativas frustradas de aproximar-se dessa bela imagem levaram-no ao desepero e à morte. Transformou-se então na flor que tem o seu nome. Freud, ao estudar esse mito, considera-o uma explicação da existência de personalidades que amam a própria imagem. a) Transcreva a passagem do texto que faz referência ao mito de Narciso. ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ b) Qual é o sentido dessa passagem, tomando como referência o mito de Narciso? ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ Unidade III 66 Comunicação e Expressão Questão 3 É um clichê muito difundido a afirmação de que São Paulo, ao contrário do Rio, nunca produziu samba. Transcreva a passagem do texto que se faz alusão a isso.Transcreva a passagem do texto que faz referência ao mito de Narciso. ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ Questão 4 O sentido global construído pelo poema autoriza concluir que: a) São Paulo é uma cidade feia, que inspira aversão. b) São Paulo é uma cidade que inspira amor à primeira vista. c) São Paulo não inspira amor à primeira vista, mas aos poucos começa-se a perceber os seus encantos e termina-se por gostar dela. d) São Paulo deixa as pessoas indiferentes, não inspira amor nem aversão. e) São Paulo inspira ao mesmo tempo ódio e amor. Unidade III 67 Comunicação e Expressão E aí como você se saiu? Vamos conferir as respostas e podemos dar por encerrado o nosso estudo sobre a intertextualidade! Atividade comentada da Unidade Questão 1 Vamos então referenciar primeiramente os lugares, nas linhas 2 e 9 Ipiranga e Avenida São João. Agora vamos nos referir a músicos e movimentos culturais, Rita Lee, linha 6, Novos Baianos, linha 25 e 26 e Mutantes, linha 14. Questão 2 a) O texto faz alusão à mitologia grega de Narciso mais especificamente na linha 12, mas desde a linha 10 podemos ver esta referência: “quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto chamei de mau gosto o que vi de mau gosto o mau gosto é que narciso acha feio que não é espelho” b) O sentido dessa passagem é que ao chegar na cidade o autor se depara com uma cidade que possui arquitetura, pessoas e hábitos que não eram habituais a ele. Por isso, no primeiro contato ele achou “feia”a cidade de São Paulo. Questão 3 A passagem do texto que faz alusão à incapacidade de São Paulo produzir samba é: 24. panaméricas de áfricas utópicas túmulo do samba mais [possível novo quilombo de zumbi Unidade III 68 Comunicação e Expressão Questão 4 Alternativa correta é a letra “c”. Nesta unidade, vimos que: - Para aumentarmos a aceitabilidade de nosso texto, precisamos inovar, ser criativos. O poema é um gênero que possibilita várias leituras, trabalha a escolha das palavras, explora sua beleza, sua sonoridade, atreladas ao significado. No entanto, o texto poético pode ser utilizado em outros gêneros também. - Podemos fazer uso metalinguístico da comunicação, quando o centro de nosso dizer é o próprio código ou a própria ação de se comunicar. Função metalinguística. - Toda negação precisa ser analisada mais a fundo, já que apresenta a voz da afirmação por detrás dela (polifonia). - A intertextualidade é a remissão a outros textos em um texto novo. Inconscientemente, ao nos comunicarmos, lançamos mão de textos que ouvimos ou lemos em nossa vida. Assim, a intertextualidade é considerada constitutiva da linguagem. Porém, nesta unidade, vimos exemplos em que a intertextualidade é marcada, ou seja, conseguimos localizar o texto original referenciado. Unidade III 69 Comunicação e Expressão Identificar as marcas que levam às intenções do texto. Descrever o funcionamento do texto e da leitura a partir do processo da interpretação de texto. Ciclo 02 Atividade: Exercício Individual Título: Texto poético e informativo Unidade IV – A Interpretação na Leitura de Textos Objetivos da Unidade Plano de Estudos IV 70 Comunicação e Expressão Estamos iniciando a 4ª unidade do nosso GUIA DE ESTUDOS. Aqui, veremos um pouco mais da interpretação de textos: o papel do leitor, a intencionalidade linguística, os contextos dos enunciados. Posteriormente, reconheceremos as características da expressão falada e da expressão escrita e os processos de normatização da língua. Ao longo de todo esse estudo, continuaremos, também, priorizando a construção de competências e habilidades em leitura e escrita. Enfim, essa 4ª parte do guia foi elaborada para você que deseja trilhar “o mundo da leitura para fazer a leitura do mundo”, pois sabemos que, em uma sociedade letrada como a nossa, ler é um ato fundamental. 4.1 Leitor crítico e competente Sabemos que não basta ser alfabetizado para fazer da leitura um ato de crítica que envolve constatação, reflexão e transformação de significados. Uma compreensão crítica do ato de ler leva à tradução dos significados dos enunciados e até ao desenvolvimento do que se oculta por trás deles. Segundo nosso amigo Antônio Houaiss, em seu dicionário da língua portuguesa, a palavra ler possui diferentes sentidos. Dentre eles, podemos destacar: Mas afinal, ler não é apenas decodificar sinais gráficos? Unidade IV 71 Comunicação e Expressão 1 Percorrer com a vista (texto, sintagma, palavra), interpretando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos (alfabéticos, ideográficos) e os sinais linguísticos própriosde uma língua natural (fonemas, palavras, indicações gramaticais). 2 Ter acesso a (texto, obra, etc) através de sistema de escrita, valendo-se de outro sentido que não o da visão. 3 Conhecer, através de exame mais ou menos extenso (o conteúdo de um texto, obra, etc). 4 Dedicar-se, entregar-se à leitura como hábito ou paixão. 5 Interpretar (ideia, conceito mais ou menos complexo ou pensamento de um autor, pensador, etc); compreender. 6 Atribuir (significado, sentido ou forma) a (algo que se vê), interpretar. 7 Perceber, adivinhar, interpretar (sentimentos, pensamentos não formulados ou ocultos), guiando-se por indícios mais ou menos subjetivos, decifrar o que não se revela facilmente, o que está além do literal. 8 Deduzir guiando-se por indícios objetivos (alguma coisa não explícita, não declarada mas indiretamente constatável); inferir. Como se vê, a leitura não se restringe apenas à decodificação de sinais gráficos, mas trata-se de uma atividade bem mais complexa. Por isso, não basta ser alfabetizado para saber inferir sentidos, interpretar, realizar análises críticas. Leitura é processo, leitura é trabalho – e nem sempre é considerado um trabalho prazeroso. Unidade IV 72 Comunicação e Expressão Há algum tempo, vimos circular na mídia a metáfora de que ler é uma viagem, associava-se o ato da leitura com o prazer. Sem dúvida, quem nunca passou tardes entretido em um livro de cabeceira? Mas a leitura não se restringe apenas ao sabor da boa literatura. Como disse anteriormente, ler pode ser bem doloroso e isso acontece quando nos deparamos com aquele texto indicado pelo professor da faculdade: nós o lemos “dez vezes” e nada compreendemos. Segundo Infante (1998), a compreensão de um texto exige que façamos diferentes leituras: Sensorial: importante em nosso relacionamento com a realidade escrita, porque é nessa etapa que observamos cores, formas e embalagens que se apresentam como uma mensagem apelativa aos nossos sentidos. Emocional: permite-nos conhecer o texto propriamente dito, percorrer as páginas e estabelecer contato com o conteúdo. Nessa etapa, a leitura nos remete a emoções de comoção ou tédio, riso ou irritação, prazer ou aborrecimento. É uma experiência sem compromisso, da qual participam nosso gosto e nossa formação. Intelectual: As duas leituras citadas acima oferecem subsídios para a leitura intelectual. Essa, por sua vez, começa por um processo de análise da organização textual (unidades, e como as partes se relacionam para formá-la). Essa análise é fundamental para facilitar a compreensão dos mecanismos de funcionamento da língua escrita. A leitura é intelectual quando o leitor nunca perde de vista o fato de que aquilo que está lendo foi escrito por alguém que tinha propósitos determinados ao fazê-lo. Procurar detectar esses propósitos juntamente com a informação transmitida e com a estruturação do texto é fazer uma leitura intelectual satisfatória, ou seja, é dar sentido ao texto. A leitura intelectual implica uma atitude crítica, voltada não só para a compreensão do conteúdo do texto, mas, principalmente, ligada à investigação dos procedimentos de seu produtor. Por isso, ao ler, levante sempre a questão: “o que pretendia quem escreveu isto?”, “por que esse autor escolheu essa palavra e não outra”? Unidade IV 73 Comunicação e Expressão O primeiro gênero que vamos analisar nesta unidade é a reportagem: O gênero “reportagem” pode ser composto, por sua vez, por outros gêneros, como entrevistas, charges, fotografia, caricatura... Para cumprir seu objetivo, a escrita do texto é realizada no tipo textual informativo. O tipo textual informativo, como o próprio nome já diz, tem como principal característica e função a transmissão uma informação, ou seja, o foco da comunicação é o elemento REFERENTE (Lembra que vimos na unidade 2 sobre o referente? Referente = assunto, contexto a que o texto de refere). Tabela 1 – Função Referencial FUNÇÃO REFERENCIAL Também chamada de denotativa, está centrada no referente. Tudo o que, na mensagem, remete aos referentes situacionais ou textuais, concerne à função referencial. Portanto, os textos informativos têm como intenção informar um fato ocorrido, como as reportagens; explicar um fenômeno ou uma teoria, como nos livros didáticos, que relatam fatos históricos, explicam teorias econômicas, etc. Além Gênero textual: Reportagem Relato de fatos de interesse do público, com acréscimo de entrevistas e comentários para que possa ter uma visão mais ampla do assunto tratado. Nesse tipo de texto, podem ocorrer interpretações e opiniões acerca do fato relatado, baseadas em estatísticas, depoimentos e comparações com acontecimentos relacionados ao assunto tratado. Unidade IV 74 Comunicação e Expressão da reportagem e do livro didático, outros gêneros textuais que apresentam o tipo informativo são: notícia, enciclopédia, bula, receita e manual (os três últimos podem apresentar texto injuntivo também). As principais características do texto informativo são o uso de verbos no presente e/ou no tempo pretérito, linguagem objetiva e sempre focada no assunto; a utilização também de artifícios que enriquecerão a informação como abreviações, indicações numéricas, gráficos e cifras. No texto informativo, ao contrário do texto poético (como vimos na unidade 3), as várias possibilidades de interpretação não são uma qualidade textual, já que o foco é conteúdo da informação. Vamos assistir e analisar uma reportagem para treinar nossa leitura crítica de um texto informativo? Não se esqueça de realizar as três leituras citadas acima: sensorial, emocional e intelectual. Observe também se a reportagem apresenta as características do texto informativo citadas acima. Segundo Cereja, Cochar e Cleto (2009), ser um leitor competente não é apenas compreender o que está explícito, ser um leitor competente é compreender também o não dito, as entrelinhas, o implícito do texto. Link para acesso: Reportagem Record https://www.youtube.com/watch?v=OboP711nO-E Unidade IV https://www.youtube.com/watch?v=OboP711nO-E 75 Comunicação e Expressão Observe que o autor do texto informativo geralmente não aparece, não há marcas textuais do “eu” emissor-jornalista, priorizando a escrita impessoal. Isso acontece, pois quer tentar transmitir a informação com a maior imparcialidade possível. Observe a ênfase que a jornalista dá aos números e informações novas para seu leitor: Em um estudo feito com mais de 2000 pacientes, ele [um médico] observou que a retirada total do alimento da dieta, inclusive integral, trazia melhoras significativas para doenças como diabetes, obesidade, artrite e osteoporose; em alguns casos, até a cura. Outro recurso utilizado na reportagem, que confere mais credibilidade às informações é a referência a estudos científicos e também o uso de entrevistas, dando voz direta a pessoas ligadas ao assunto, muitas vezes especialistas e estudiosos. Também são utilizadas experiências reais de pessoas para exemplificar na prática o que está sendo afirmado. Esse é uma outro exemplo de polifonia, uma polifonia mais evidente, ou seja, o emissor jornalista coloca em sua fala vozes de outras pessoas para sustentar as informações. É preciso sempre considerar que, mesmo nos tipos textuais que aparentam imparcialidade, como o informativo, ao escrever um texto, todos têm uma intenção, na qual o autor procura sempre interagir com um leitor: modificar seu comportamento, suas ideias, informar, argumentar sobre um ponto de vista, ensinar, narrar... Nenhum texto é neutro, despretensioso. Todo texto está carregado de intenções, significados explícitos e implícitos e ideologia que dependem impreterivelmentedo contexto em que foi produzido. Um mesmo texto pode ter, em um e outro contexto, sentidos completamente diferentes, ou seja, a situação participa da construção do sentido do texto. O leitor competente é aquele que, além do sentido das palavras, descobre também o significado das pausas, dos silêncios, da pontuação... Todas as intenções e todos os significados, os explícitos e os implícitos, os subterfúgios, as pausas e o silêncio precisam ser lidos, interpretados de modo crítico e competente. Ler, nesse sentido, é assumir uma Unidade IV 76 Comunicação e Expressão postura ativa diante do que lemos ou escutamos. Só assim podemos ser leitores competentes e críticos, prontos para o exercício da cidadania, prontos para a vida. Essa é a mais desafiante, porém a mais prazerosa tarefa de ler (Cereja; Cochar; Cleto, 2009, p.11). Observe que nesta reportagem em específico, podemos depreender um posicionamento a favor da retirada do trigo da dieta. Todas as entrevistas e dados contribuem para que vejamos o trigo como o vilão. Você deve estar pensando: mas o jornalista só está divulgando uma nova pesquisa! Sim, podemos pensar assim inicialmente, mas nossa leitura aprofundada precisa questionar além disso: por que foi escolhido este tema e não outro? (sim, a escolha de um tema pressupõe a negação de outro); o (a) jornalista utilizou quais palavras e dados para reforçar a informação? Ele(a) demonstrou também o lado oposto? Que partes da economia ou da indústria podem estar sendo beneficiadas com essa defesa? Será que isso não é só mais uma “moda alimentar”, que logo será negada? Hoje mesmo já sabemos que há médicos que defendem a não retirada total de alimentos com glúten da dieta! Viu como temos que ter mais atenção com o texto informativo? Ele costuma nos enganar com essa sensação de imparcialidade. Para trabalhar mais este senso crítico, você pode assistir no mesmo dia a dois jornais televisivos de canais diferentes e comparar como as reportagens são feitas, aliás quais assuntos são escolhidos em detrimento de outros. É um bom exercício! Outro gênero com o tipo textual informativo, bastante presente em nosso dia a dia, é a notícia: Gênero textual: Notícia Relato de fatos ou acontecimentos atuais, geralmente de importância e interesse para a comunidade, sem comentários pessoais ou opiniões. Ou seja, teoricamente, não há interpretações por parte de quem escreve. Os títulos são chamativos (manchetes) para atrair a atenção de quem lê. No início do texto, frequentemente, aparece um pequeno resumo com as informações essenciais do fato noticiado (lide ou lead). Unidade IV 77 Comunicação e Expressão E qual a diferença maior entre reportagem e notícia? A notícia parece ser mais objetiva e mais curta, sem a presença de outras vozes (como entrevistados, depoimentos). Ela vai relatar um fato pontual ocorrido, seu vínculo com a temporalidade é mais evidente. O texto logo abaixo é um texto muito divertido, escrito por Paulo Leminski, que transforma a narração de uma passagem bíblica em uma notícia, muito bem humorada, como se fosse um jornal da época de Jesus, vale a pena ler. Vamos lá! Jerusalém urgente – Na tarde de ontem, alguém que atende pelo nome de Jesus invadiu as dependências do Templo, agredindo e expulsando toda a casta de vendedores que ali exercia seu ofício. O lunático, galileu pelo sotaque, entrou, subitamente, chutando a mesa dos mercadores de pombas e outros animais destinados ao sacrifício. Na confusão que se seguiu ao incidente, entre as moedas que rolavam pelas escadas, gaiolas quebradas, pombas que voavam, acorreram os guardas, que não conseguiram deitar as mãos no facínora. (...) Arrebanhou inúmeros seguidores entre os pescadores do mar da Galileia. Dizem que opera milagres. E descende, por linha direta, do Rei Davi. Entre os seus, fala aramaico, dominando porém, o hebraico dos textos sagrados, que cita com frequência, chegando mesmo a discutir com o doutores da lei, fariseus e saduceus. Muitos veem nele o Messias. As autoridades estão prontas para fazer frente a qualquer nova alteração da ordem provocada pelo tal Jesus ou por seus seguidores. (Paulo Leminski, “Jesus a.C.”, in vida, Porto Alegre, editora Sulina, 1990,p.142) Unidade IV 78 Comunicação e Expressão Vamos então fazer um exercício simples de transformação de gêneros textuais. Leia o poema “Tragédia Brasileira”, de Manuel Bandeira e depois o transforme em um texto no gênero textual notícia. TRAGÉDIA BRASILEIRA Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade. Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria. Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria. Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa. Viveram três anos assim. Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa. Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos... Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul. (Manuel Bandeira disponível em: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet239.htm) Unidade IV 79 Comunicação e Expressão Abaixo, uma sugestão de como a notícia pode ficar, mas esta atividade é livre e, portanto, podem existir diversas versões de um mesmo fato. MULHER ENCONTRADA MORTA NO RIO DE JANEIRO Rebeca Nogueira Lourenço Kaus Ontem, na Rua da Constituição, uma mulher foi encontrada morta, com seis tiros. O principal suspeito do assassinato é o seu marido, funcionário público de 63 anos de idade. O casal estava junto há três anos e tinham uma relação conturbada, pois a vítima Maria Elvira na Lapa havia traído muitas vezes seu marido Misael. Antes de matá-la vizinhos alegam que o funcionário da fazenda se mudou várias vezes de ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ ___________________________________________ Unidade IV 80 Comunicação e Expressão endereço para evitar que as traições continuassem. O casal já teve endereços nos bairros: Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato e Inválidos. A defesa de Misael declara que a vítima é uma ex-prostituta, que o funcionário público retirou da miséria e que sempre cuidou bem dela. O advogado afirma também que o crime foi cometido em um momento de privação de sentidos e de inteligência, portanto, alega insanidade mental temporária. É porque, no jornalismo,o texto tem que informar de maneira dinâmica e rápida, para isso o texto tem uma estrutura diferente dos textos literários; a estrutura de texto mais comum é a pirâmide invertida. A técnica de redação da pirâmide invertida consiste em estruturar um texto iniciando pelas informações mais importantes. Já no primeiro parágrafo temos o lead ou lide, que em português significa “guia” que responde às perguntas: O quê, quem, onde, como, quando e por quê – as mais importantes ao relatar um fato. De acordo com o Manual de Redação do jornal Folha de São Paulo (2002), o lide tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. E depois no desenvolvimento do texto o autor apresenta as informações complementares, menos importantes, organizadas em blocos decrescentes de interesse. Você viu a diferença da construção da notícia para o poema? Entre muitas elas, podemos citar que clímax, ou o ponto alto do poema, está no final do texto. Mas e na notícia? Os fatos mais importantes são contados já no primeiro parágrafo! Unidade IV 81 Comunicação e Expressão Como vimos, há muitos aspectos que devemos considerar ao tentar compreender um texto. Depois de todo esse percurso de análises que fizemos até aqui, convido você a colocar em prática em suas futuras leituras tudo que aprendemos. Introdução fatos mais importantes Desenvolvimento Conclusão fatos menos importantes Leia o texto abaixo e responda à questão: Todo ponto de vista é a vista de um ponto Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. Unidade IV 82 Comunicação e Expressão Desta forma, é imprescindível encarar a leitura não como uma atividade mecânica que determina uma postura passiva, mas sim como uma ação e uma prática que executaremos com o objetivo de dar vida e significação ao interagir com o texto. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. BOFF, Leonardo. A águia e a galinha. 4ª ed. RJ: Sextante, 1999 A expressão “com os olhos que tem” (linha 1), no texto, tem o sentido de: (A) enfatizar a leitura. (B) incentivar a leitura. (C) individualizar a leitura. (D) priorizar a leitura. (E) valorizar a leitura. Justifique o porquê de ser a letra C a alternativa correta. Unidade IV 83 Comunicação e Expressão Cereja, Cochar e Cleto (2009), na obra Interpretação de Textos, falam da linguagem como um poderoso instrumento do ser humano, pois se trata de um meio de inter(ação) e comunhão entre as pessoas. Nesta unidade, vimos que: para sermos um bom leitor, precisamos dedicar à leitura e realizar as leituras: emocional, sensorial e intelectual. o tipo textual informativo tem como principal característica e função a transmissão de uma informação, ou seja, o foco da comunicação é o elemento REFERENTE. (Função referencial). As principais características do texto informativo são o uso de verbos no presente e/ou no tempo pretérito, linguagem objetiva e sempre focada no assunto; a utilização também de artifícios que enriquecerão a informação como abreviações, indicações numéricas, gráficos e cifras. Mesmo os textos informativos apresentando linguagem mais objetiva e impessoal, nenhum texto pode ser considerado imparcial, já que há um projeto de dizer do autor, com suas intenções e escolhas lexicais. Os gêneros textuais reportagem e notícia geralmente são veiculados no mesmo tipo de veículo e apresentam o tipo textual informativo, mas têm suas especificidades. Unidade IV 84 Comunicação e Expressão - Compreender um texto como um todo coerente. - Perceber os elementos de conexão de um texto. Fazer a conexão das partes do texto Ciclo 03 Atividade: Teste Título: Conexões do Texto / Fala, Escrita e Variedades Linguísticas Unidade V – As Conexões entre as Partes do Texto Objetivos da Unidade Plano de Estudos V 85 Comunicação e Expressão Na unidade anterior, conhecemos dois gêneros textuais: a reportagem e a notícia, exemplos de textos informativos. Nesta unidade 5, vamos conhecer a crônica, também muito utilizada em jornais e revistas, mas sua escrita é mais livre, contendo forte presença e até mesmo crítica do emissor. Também nesta unidade, conheceremos um novo tipo textual, o narrativo, e uma das maiores qualidades do texto, a coesão textual. Começamos esta unidade conhecendo um pouco sobre o gênero textual crônica: Veja um exemplo: NÓS E O MUNDO (Carla Dias ) (Publicado em 27 de julho de 2016) Disponível em: http://www.cronicadodia.com.br/ Fica cada vez mais difícil não se desapontar. Não falo sobre desapontamento básico, daqueles que figuram na vida da gente como trampolim para aprendizado. Falo sobre um desapontamento substancial, daquele que nos faz parar e pensar: onde iremos parar? Gênero textual: Crônica Aborda assuntos e acontecimentos do dia a dia, apreendidos pela sensibilidade do cronista e desenvolvidos de forma pessoal por ele. Geralmente, contém ironia e humor, já que seu objetivo principal é fazer uma crítica social ou política. Luís Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro são exemplos atuais desse tipo de texto. Unidade V http://www.cronicadodia.com.br/2016/07/nos-e-o-mundo-carla-dias.html http://www.cronicadodia.com.br/ 86 Comunicação e Expressão De padre sendo degolado às manobras para conter a imigração desencadeada pelo desespero. Das ofensas constantes aos desconhecidos à aniquilação de benefícios básicos aos que, por conta e risco, jamais os alcançariam. Pessoas jogando eu sou melhor do que você. Será? Às vezes, torna-se uma jornada complexa se levantar e encarar o mundo. É tanto desamparo, e muitas observações a respeito do outro e não a respeito de si. Estamos afastando de nós a responsabilidade pela decadência da humanidade, mas somos os autores dela. Alimentamos essa decadência a cada vez que violamos o direito do outro de ser, de estudar, de ter casa e comida na mesa. Quando, em vez de pensarmos a respeito da situação que encaramos, saímos discursando intolerância. O outro nem sempre está errado. Pode ser que ele não caiba no seu entendimento, que aquela não seja a vida que você deseja. Mas, e daí? A vida é dele, certo? A sua vida é sua. Lembro-me de algumas senhoras da minha infância. Eram carolas, que nunca faltavam à missa, que mantinham seus santos em altares em suas casas, que também eram pontos de parada da procissão. Eram devidamente casadas, algumas cuidavam de seus netos, e estavam sempre envolvidas com projetos sociais. Olhando mais de perto — o que tive a oportunidade de fazer —, elas não eram boas pessoas, como a maioria pensava ao observá-las assim, a distância. Lidavam com Deus porque foram educadas para fazê-lo, senão iriam direto para ao inferno. Frequentavam a missa pelo status de devotas, recorriam aos santos com pedidos absurdos. Em dia de procissão, disputavam para ver quem decorava melhor a entrada de casa. Para escolher os beneficiados pelos projetos sociaisdos quais cuidavam, eliminavam aqueles que julgavam pecadores sem chance de serem perdoados por Deus, o que incluía os mais miseráveis, negros, gays, e por aí vai. Lembro-me dessas senhoras e percebo que elas são o retrato do mundo. Enquanto observarmos os acontecimentos com essa distância, seremos incapazes Unidade V 87 Comunicação e Expressão de compreender que a maioria das decisões, sejam políticas, sociais ou pessoais, tem sido feita sem observar aqueles que realmente precisam dos resultados delas. Enquanto não observarmos o mundo, e tudo o que pontua nossa realidade, sem nos antecedermos e decidirmos o que é certo e o que é errado, cometeremos o mesmo erro das tais carolas. Atenderemos a uma agenda na qual não fomos nós que incluímos os eventos, por pura obrigação. E no processo, seremos cruéis, por mais generosos e beneficentes que sejamos na nossa rotina de cidadão que não é do mundo, mas do seu próprio e egoísta universo. Há dias em que é realmente difícil se levantar e encarar o mundo. Mas continuo otimista, que acredito na parcela de pessoas que já compreendeu que faz parte dele, e que escolheu cuidá-lo. Há coisas maravilhosas acontecendo por aí. Não é mesmo? Como vimos, a crônica aborda assuntos e acontecimentos do dia a dia. Após a leitura da crônica, você deve estar se perguntando quais foram os fatos inspiradores, não é mesmo? Conhecer o contexto sociohistórico em que foi publicado o texto auxilia essa compreensão. Veja as manchetes do jornal nos dias anteriores da publicação da crônica: Padre morre degolado após ser feito refém do Estado Islâmico em igreja da França (El Pais, 27/07) 25.jul.2016 - Policial inspeciona mochila usada para carregar explosivos em atentado suicida em Ansbach, Alemanha. Um homem sírio de 27 anos detonou uma bomba caseira perto de um festival de música e feriu 15 pessoas na noite de domingo (24). Ele estava prestes a ser deportado para a Bulgária, depois de ter o pedido de asilo negado pelo governo da Alemanha. Ainda de acordo com a polícia alemã, o homem havia jurado lealdade ao grupo extremista Estado Islâmico (EI) (Site do Uol) Unidade V 88 Comunicação e Expressão 25.jul.2016 - Voluntários da Defesa Civil carregam menino que foi resgatado dos escombros de um edifício destruído por ataques aéreos no norte da cidade de Aleppo, Síria. Pelo menos 19 civis morreram hoje na cidade que, além dos bombardeios, também foi atingida por foguetes disparados por rebeldes contra bairros controlados pelo regime do presidente Bashar al-Assad (Site do Uol) 25.jul.2016 - Pessoas choram em frente à casa noturna Club Blu, em Fort Myers, na Flórida (EUA), onde um tiroteio deixou dois jovens mortos e 17 pessoas feridas. A festa era destinada a adolescentes, e a troca de tiros ocorreu no estacionamento. A polícia deteve três pessoas para interrogatório (Site do Uol) Agora, podemos entender melhor o clima que levou a autor a escrever o texto, não é mesmo? Você consegue perceber alguma característica em comum entre a crônica e os gêneros reportagem e a notícia? A estrutura do texto é bastante diferente, não é? A crônica aproxima-se da reportagem e da notícia em seu veículo de comunicação e também na relação do texto com o momento em que é publicado, ou seja, os três gêneros normalmente são veiculados em revistas e jornais e têm como inspiração os fatos ocorridos no cotidiano. Uma grande diferença entre a crônica e a reportagem/notícia é que na crônica não há a exigência por uma “impessoalidade” do autor, também não há necessariamente a presença da função referencial. Também na crônica há uso de uma linguagem mais coloquial, para trazer esse “ar” de cotidiano e também para se aproximar do leitor. Unidade V 89 Comunicação e Expressão 5.1 Função emotiva Repare que na crônica que vimos acima há amplo uso do “eu”, demonstrando a presença forte da emissora no texto. Volte à crônica e observe as palavras em negrito que retomam os pensamentos, opiniões e sentimentos da emissora. Textos escritos dessa forma, com ênfase no emissor, são considerados por Jakobson com função emotiva ou expressiva: Tabela 1 – Função Emotiva ou Expressiva FUNÇÃO EMOTIVA OU EXPRESSIVA Centrada no destinador (ou emissor) da mensagem, exprime a atitude do emissor em relação ao conteúdo de sua mensagem e da situação. São outros exemplos de textos que podem apresentar função emotiva/expressiva: diários, blogs, artigo de opinião, dissertações... A crônica é um gênero bastante amplo e não apresenta um formato ou tipo textual específico. No exemplo acima, vemos que são manifestadas claramente opiniões sobre um determinado assunto, não há uma história com sequência cronológica, com início, meio e fim, ou seja, não há uma narrativa. Na crônica abaixo, o tipo textual narrativo já está presente! Leia o texto tentando identificar em que parte a narrativa de encontra: Espelho Mágico (Mário Prata – Publicado no Estadão em 2001) Ela, a Ana Catarina, tem quatro anos. Mas tinha três quando teve um dos seus primeiros choques emocionais. E chorou de raiva. Unidade V 90 Comunicação e Expressão Acostumada – desde que nasceu – a ver o avô José Gregori, então ministro da Justiça, toda noite na televisão, num belo dia descobriu que o avô aparecia também na televisão da vizinha. Se sentiu traída. Achava que o bom avô era uma exclusividade dela, neta, e não de toda a vizinhança. Acho que não chegaram a dizer que não era só nas casas da vizinhança que o Zé aparecia. Poderia ter traumatizado a guria para o resto da vida. Deve ter pensado, a Catarina: o que é que o vovô está fazendo aqui nessa casa se ele nem conhece os pais da Carlinha? Ana Catarina, a partir daquele dia, deve ter começado a olhar o mundo com outros olhos. E, sempre que via um senhor de cabelos brancos na televisão da casa dela, devia se vingar: esse cara deve ser avô de alguma menina mas ele está na minha casa. Hahaha! Catarina, filha da Ticha e do Chico Millan, donos do meu bar Balcão, está passando uns dias aqui. E chove lá fora. E, daqui a pouco, não vai ter mais o que fazer aqui dentro. Cinema, sugeriu a mãe. Harry Porter, Xuxa com os Doentes (perdão, duendes) dela. Mas a menina já estava em dia com as películas. Foi quando eu contei alguma história da vida real da Xuxa que ela me olhou incrédula: – Mas a Xuxa existe fora? Nós três olhamos para ela e entre nós: – Fora da onde? – Do vídeo, né? Do cinema, mãe. Das revistas… Ela existe? E primeira coisa que veio na minha cabeça foi: ela deve estar pensando de quem a Xuxa é avó. A segunda: que deve ser avó da Sasha! E continuou a brincar como se nada houvera dito, pensado ou filosofado. Inocente e pura ingenuidade. Essa menina vai crescer e logo mais saberá que existe vida fora do vídeo e da tela do cinema. O sonho vai acabar como acabou até Unidade V 91 Comunicação e Expressão para os Beatles. E que a vida aqui fora não tem duendes e nem justiça, pela qual seu avô tanto lutou. Vai descobrir tanta coisa fora do vídeo que só irá recorrer a ele quando quiser sair – um pouquinho – daqui do lado de fora. Mas a pergunta ficou na nossa cabeça. A Xuxa e todos esses outros personagens da telinha (que Lauro César Muniz chamou de Espelho Mágico, magistralmente) existem? A própria Xuxa, a essa altura do campeonato, sabe quem é? Sabe que existe? Deve saber, pois garante que anda vendo duendes. Como a Catarina, de quatro anos. O que será desta geração que vem nascendo conhecendo primeiro a ficção e depois a realidade? Com certeza não serão iguais a nós. Nossos pais nos ensinaram a realidade, a gente via a realidade nas ruas, nas fazendas. O resto era ficção. Os livros, principalmente. Naquele tempo a ficção era melhor do que a realidade. Avô era avô e nãofalava num tal de Lalau que não era o Papai Noel. Mas tem umas pessoas que nasceram mesmo para só existirem nos vídeos e na imprensa. O Paulo Maluf, por exemplo. Eu tenho certeza que ele não existe fora das telas. Porque interpreta um personagem riquíssimo, inigualável e impagável. Deve decorar bem suas falas e – principalmente – seu franzir de testa. Tudo aquilo é ficção. Aquele homem não existe, Catarina, fica tranquila. Tem outros, menina, também. Tem um tal de Eurico Miranda que é tão engraçado quanto o Chaves. Só que arrota diante das câmeras dentro da sua casa. E o pior, na casa da sua amiga também. Como seria bom, minha menina, se certas pessoas que a gente vê ali no espelho mágico existissem só lá dentro. Que não saíssem nunca, que ficassem presos lá dentro, eternamente. Sim, os bons personagens da história não morrem jamais. O Mickey, por exemplo, está completando 75 anos com corpinho de quinze. E a Cinderela que já passou dos 300 anos? 305 para ser exato. E por que vivem tanto? Por que não estão fora da tela azucrinando a gente. Já pensou aguentar o Mickey numa mesa de bar, setentão, enchendo a cara? Falando mal do Pateta? Jurando que o Walt Disney era bicha? Fora a Minie, ali do Unidade V 92 Comunicação e Expressão lado dele, com cara de sono e com 73 anos, fumando um cigarro atrás do outro. Dois velhos chatos. E a pobre-rica Cinderela se viva fosse, andando pela rua – descalça – dizendo que é a Cinderela e todo mundo rindo dela? Tá bom, Cyndy. Me Tarzã! Hahaha. Acho que o que está faltando ao mundo hoje – principalmente ao nosso Brasil – é separar um pouco mais o que aparece na telinha e o que rola aqui fora. Os personagens do governo (seja ele municipal, estadual ou federal principalmente) vão lá no vídeo e só falam ficção, sorriem ficção. Sabem que ali é lugar de ficção. Você sai na rua, cai na real e não vê nada daquilo. Eles sabem que as crianças acreditam naquilo. Mas são só as crianças, minha gente. Meu sonho é ter um carimbo eletrônico acoplado a todas as televisões do Brasil. E sempre que um deles começasse a mentir eu batia o carimbo em todas as casas: ficção! E quando aparecessem policiais-bandidos eu batia outro: realidade! Assim a gente ia educando melhor nossos filhos e nossos netos. Pois o mundo chegou num ponto que a gente está confundindo a cabecinha deles. E, quando eles crescerem, vão achar que fomos nós que inventamos este processo de aprendizagem. E quando os netos dos nossos netos nascerem, é provável que a primeira coisa que ouçam, antes mesmo do olha que gracinha, seja uma voz rouca de um pai emocionado: – Desculpa, filho, mas hoje em dia é tudo ficção! Se vira! Observou que a narrativa encontra-se desde o início da crônica até a frase “E continuou a brincar como se nada houvera dito, pensado ou filosofado”? Unidade V 93 Comunicação e Expressão 5.2 Texto narrativo Vamos agora conhecer a definição do tipo textual narrativo: A narração é identificada pela sua dinâmica acentuada, por uma sequência de ações e limitada pela temporalidade dessas ações e pela velocidade, maior ou menor com que os eventos vão surgindo, desenvolvendo-se e dando lugar a outros. É o relato de transformações ocorridas a partir de um conflito. No caso da crônica de Mário Prata, o narrador conta a história de um fato ocorrido com personagem Ana Catarina. Observe que há uma sequência de ações: - Ana Catarina, uma menina de 3 anos, tinha um avô que era ministro – esse avô passava na televisão e Ana Catarina assistia – Ana Catarina teve um choque emocional ao saber que o avô também passava na TV dos vizinhos – Ela se sentiu traída e decepcionada – A partir de então cada vez que um senhor aparecia na TV ela pensava que estava tirando a exclusividade da neta dele e achava o máximo... Para Medeiros (1994, p.174), narrar é interpretar e recriar a realidade mediante a palavra. Na narração, os tempos verbais do pretérito (passado) são muito utilizados e o texto é permeado de indicadores temporais como: ontem, depois disso, mais tarde etc. São gêneros que podem ter o tipo textual narrativo: contos, crônicas, romances, entre outros. A narrativa dentro da crônica de Mário Prata serviu para fornecer certa contextualização sobre a realidade que o autor queria retratar e também questionar. Com um fato cotidiano, o autor universaliza as atitudes da menina para mostrar um cotidiano do mundo “virtual” presente naquela época. Você reparou Texto Narrativo O texto narrativo tem como função contar fatos e acontecimentos reais, ou não, vividos por personagens em determinado tempo e lugar. Por esta razão, apresenta fatos em sequência, desenvolvendo assim, relação de causa e efeito. Unidade V 94 Comunicação e Expressão que o autor faz referências a uma época que não é nossa? Parece que o texto está “velho”, não é mesmo? Novamente, a caraterística marcante da crônica: a temporalidade. E se essa crítica ao mundo da ficção, do virtual fosse escrita nos dias atuais, já imaginou que história poderíamos narrar? Como são nossas crianças hoje? No texto da narração também é comum haver a presença de diálogo (discurso direto), no caso desta crônica houve diálogo entre a menina e os outros personagens como, por exemplo, na passagem: – Fora da onde? – Do vídeo, né? Do cinema, mãe. Das revistas… Ela existe? Veja que o autor utiliza da expressão “né?”, muito utilizada por nós na fala, para caracterizar essa conversa entre os personagens. Dizemos que expressões como “né?”, “entende?”, “ouviu?”, “Ei”, “viu?” e até o “alô” apresentam função fática: Tabela 2 – Função Fática FUNÇÃO FÁTICA Centrada no contato (físico ou psicológico); Tudo o que numa mensagem, serve para estabelecer, manter ou cortar o contato (portanto, a comunicação), concerne a essa função, que manifesta, essencialmente, a necessidade e o desejo de comunicar. Eu, quando escrevo este guia de estudos, também estou tentando manter uma conversa com você, leitor, e também questionando se está entendendo o que estou escrevendo. Por isso, utilizo expressões fáticas como “não é mesmo?”, “entende?”, “ok?”. Unidade V 95 Comunicação e Expressão 5.2 Coesão textual Quando você leu a crônica, você enquanto leitor identificou que se tratava de um texto. Mas o que faz de fato um aglomerado de palavras vir a ser considerado realmente texto pelos receptores? Primeiramente, esse aglomerado precisa ter uma harmonia de ideias, formando um todo de sentido, ou seja, precisa ter coerência. Repare que, na crônica acima, as partes formam um todo, há uma sequência lógica das ideias e das críticas, o autor não se contradiz em suas ideias. Ao mesmo tempo, para que as frases não sejam sequências desconexas, é preciso haver coesão textual. Koch (2003) apresenta a coesão textual como as relações de sentido existentes no interior do texto e que o definem como texto. Em outras palavras, é quando a interpretação de algum elemento do discurso é dependente da interpretação de outro. Observe este exemplo simples: E primeira coisa que veio na minha cabeça foi: ELA deve estar pensando de quem a Xuxa é avó. O emprego do pronome “ELA” estabelece uma coesão, pois retoma uma informação anteriormente expressa (Catarina). Porém, não são apenas os pronomes que são elementos conectivos de um texto. Muitas palavras também podem assumir esta função! As preposições: a, de, para, com, por etc.; As conjunções: que, para, que, quando, embora, mas, e, ou etc.; Os pronomes: ele, ela, seu, sua, este, esse, aquele, que, o qual etc.; Os advérbios: aqui, aí, lá, assim etc. Unidade V 96 Comunicação e Expressão De acordo com Fávero (2003), a coesão textual depende de cinco mecanismos: a referência, substituição, elipse, conjunção e léxico. Referência: quando um signo linguístico se relaciona a um objeto, pode ser situacional (fora do texto) e textual (dentro do texto). Quando a relação é textual o elemento de referência pode ser anafórico, que retoma um termo expresso anteriormente, ou catafórico, que antecipa um termo que ainda não foi expresso no texto. Substituição: quando o autor substitui um item por outro(s), ou até de uma oração inteira. A substituição pode ser nominal (feita por meio de pronomes e nomes genéricos como coisa, gente, pessoa etc.) ou verbal. Elipse: quando o autor omite um termo que podemos recuperá-lo pelo contexto. Conjunções: são os termos que estabelecem relações entre orações, período e parágrafos. Podendo estabelecer relações de oposição, tempo, adição, finalidade, explicação, consequência e causa. Vamos fazer juntos a análise do texto retirada da obra de Kock (2003), para que você entenda a coesão textual e seus mecanismos : 1º- Vamos ler o texto: Unidade V 97 Comunicação e Expressão Os urubus e sabiás (1)Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam...(2) Os urubus aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que mesmo contra a natureza, eles haveriam de se tornar grandes cantores. (3) E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam permissão para mandar nos outros. (4) Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a que todos chamavam de Vossa Excelência. (5) Tudo ia muito bem até que a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. (6) A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás...(7) Os velhos urubus entortaram o bico, e o rancor encrespou a testa e eles convocaram pintassilgos, canários e sabiás para um inquérito. (8) “- Onde estão os documentos dos seus concursos?(9) E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. (10) Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. (11) E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...(12)”- Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.”(13) E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...(14) MORAL: Em terra de urubus diplomados não se ouve canto de sabiá. (Rubem Alves, Estórias de quem gosta de Ensinar. São Paulo: Cortez Editora, 1984.) 2º- Agora vamos responder perguntas simples: a) No início do texto em “Tudo aconteceu...”. Que tudo é esse? Que foi que aconteceu numa terra distante, na época que os bichos falavam? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ Unidade V 98 Comunicação e Expressão b) Em (3), temos o termo isto: “E para isto fundaram escolas...” . Isto o quê? De que se está falando? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ c) Ainda em (3), qual o sujeito dos verbos fundaram, importaram, gargarejaram, mandaram, fizeram? É o mesmo de teriam? Fala-se em quais deles: deles quem? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ d) Em (7), a quem se refere o pronome Eles? E seus em (8)? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ e) Quais são as pobres aves de que se fala em (9)? E as tais coisas? Elas em (10) refere-se a tais coisas ou pobres aves? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ f) De que passarinhos se fala em (13)? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ g) A que se relaciona Foi assim em (4)? Ou porque em (9)? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ Unidade V 99 Comunicação e Expressão Então para fechar o nosso estudo sobre coesão textual, vamos raciocinar em cima das perguntas e da reflexão de Koch (2003): Tudo, em (1), remete a toda sequência do texto sendo então, um elemento referencial catafórico. Por sua vez, isto, em (3) , remete a “haveriam de se tornar grandes cantores”, uma oração anterior, portanto , isto, funcionou como um elemento referencial anafórico, do mesmo modo que tudo em (5). Deles em (3), remete a urubus de (2), no qual foi realizado uma substituição nominal. São também os urubus, o sujeito omitido nos verbos fundaram, importaram, gargarejaram, mandaram, fizeram. Sendo assim podemos concluir que se houve a omissão do sujeito, a coesão foi por elipse. Já em teriam, o sujeito seria um subconjunto do conjunto de urubus, e o mecanismo de coesão foi o mesmo utilizado nos verbos anteriores. Em eles (7), retoma os velhos urubus, que por sua vez retoma os urubus citados no início do texto, nas duas vezes houve coesão por substituição nominal. Seus em (8) retoma pintassilgos, canários e sabiás. Pobre aves em (9) também. Tais coisas, substitui documentos na frase anterior. Os passarinhos, em (13), remete a elas, em (10), que por sua vez substituem pobre aves, em (9). Veja que existe outro grupo de mecanismos no texto que ainda não falamos até agora: mesmo(2), Foi assim(4), até que(5), porque(09 e 10), E(11) mas(12) e que (13). Veja que se tais questionamentos podem ser respondidos facilmente é por causa das relações textuais: todos estes elementos são recursos de coesão textual. Unidade V 100 Comunicação e Expressão Estes elementos fazem a coesão por conjunção e têm a função de assinalar determinadas relações de sentidos entre as orações ou períodos dentro do texto, como: relações de oposição, mas (2 e 11), consequência, Foi assim(4), tempo, até que(5), explicação, porque(09 e 10), adição E(11). Depois de realizada a análise dos elementos coesivos do texto de Rubem Alves acima, agora vamos interpretá-lo com mais profundidade. Você reparou que esse texto também foi escrito no tipo textual narrativo? Apresenta uma sequência de ações vivenciada por urubus e sabiás. O autor, por meio da observação do comportamento dos pássaros, fez uma crítica à exigência de títulos e carteiras para oficialização de uma profissão. Veja que ele personifica as aves, conferindo-lhes ares de “humanos”, ações humanas. Essas estratégias textuais são típicas de um gênero textual bem conhecido por nós: a fábula. Você conhece outras fábulas mais famosas como “A lebre e a tartatura”, “A formiga e a cigarra”, “A raposa e as uvas”, não é mesmo? Gênero textual: Fábula Gênero que apresenta uma história narrada breve e simples, em prosa ou em verso, vivenciada por personagens quase sempre animais irracionais ou seres inanimados, apontando para uma conclusão de ensinamento e de moral. Normalmente, apresenta ao final a moral evidenciada. Unidade V 101 Comunicação e Expressão Nesta unidade, vimos que: uma crônica é um gênero textual que aborda assunto e acontecimentos do dia a dia, apreendidos pela sensibilidade do cronista e desenvolvidosde forma pessoal por ele. Ela pode ser narrativa ou não, geralmente apresenta linguagem coloquial. Um texto com função emotiva/expressiva é aquele que apresenta enfoque no emissor, ou seja, o destinador se mostra presente no texto, manifestando sua opinião, seus sentimentos ou posicionamentos. Um texto narrativo é aquele que conta fatos e acontecimentos reais, ou não, vividos por personagens em determinado tempo e lugar. Por esta razão, apresenta fatos em sequência, desenvolvendo assim, relação de causa e efeito. A função fática é centrada no contato (físico ou psicológico); Tudo o que numa mensagem, serve para estabelecer, manter ou cortar o contato (portanto, a comunicação), concerne a essa função, que manifesta, essencialmente, a necessidade e o desejo de comunicar. A fábula é um gênero textual narrativo com história narrada breve e simples, em prosa ou em verso, vivenciada por personagens quase sempre animais irracionais ou seres inanimados, apontando para uma conclusão de ensinamento e de moral. Normalmente, apresenta ao final a moral evidenciada. Unidade V 102 Comunicação e Expressão Nesta unidade, completamos nossos estudos sobre as funções da linguagem. Vamos revisar e fazer uma atividade sobre todas elas? FUNÇÕES DA LINGUAGEM A) FUNÇÃO REFERENCIAL Também chamada de denotativa, está centrada no referente. Tudo o que, na mensagem, remete aos referentes situacionais ou textuais, concerne à função referencial. B) FUNÇÃO EMOTIVA OU EXPRESSIVA Centrada no destinador (ou emissor) da mensagem, exprime a atitude do emissor em relação ao conteúdo de sua mensagem e da situação. C) FUNÇÃO CONATIVA É a que se orienta para o destinatário. Tudo o que, na mensagem, remete diretamente ao destinatário dessa mensagem, concerne à função conativa, cujas manifestações mais evidentes são os imperativos e os vocativos. D) FUNÇÃO FÁTICA Centrada no contato (físico ou psicológico); Tudo o que numa mensagem, serve para estabelecer, manter ou cortar o contato (portanto, a comunicação), concerne a essa função, que manifesta, essencialmente, a necessidade e o desejo de comunicar. E) FUNÇÃO POÉTICA Se centra na própria mensagem. Ela coloca o lado palpável dos signos. Tudo o que, numa Unidade V 103 Comunicação e Expressão mensagem, suplementa o sentido da mensagem através do jogo de sua estrutura, de sua tonalidade, de seu ritmo, de sua sonoridade, concerne à função poética. F) FUNÇÃO METALINGUÍSTICA Centrada no código. Tudo o que, numa mensagem, serve para dar explicação ou precisar o código utilizado pelo destinador, concerne a essa função. É uma linguagem que fala da própria linguagem. Atividades 1. Observe as frases abaixo e identifique qual a função de linguagem que predomina em cada uma delas: a) “Sinto-me derrotada pela minha própria corruptibilidade. E vejo que sou intrinsecamente má.” (Clarice Lispector) b) “No dia 19 de maio de 1974, às 8h37min, segundo fontes de informação extra-oficiais, a Índia procedeu à sua primeira explosão atômica, tornando-se, assim, o sexto país a pertencer ao fechado clube atômico.” Unidade V 104 Comunicação e Expressão Veja se acertou a 1ª atividade: a) “Sinto-me derrotada pela minha própria corruptibilidade. E vejo que sou intrinsecamente má.” (Clarice Lispector) Função Emotiva ou Expressiva. b) No dia 19 de maio de 1974, às 8h37min, segundo fontes de informação extra- oficiais, a Índia procedeu à sua primeira explosão atômica, tornando-se, assim, o sexto país a pertencer ao fechado clube atômico.” Função Referencial. c) “Não deixe de ver aquele filme amanhã.” d) “estética s.f. 1. Parte da filosofia que trata das leis e dos princípios do belo. 2. Caráter estético; beleza. 3. (fig.) Plástica; beleza física.” (LUFT, Celso Pedro. Minidicionário Luft). e) Hum-hum... Concordo com você. Unidade V 105 Comunicação e Expressão c) “Não deixe de ver aquele filme amanhã”. Função Conativa ou Apelativa. d) “estética s.f. 1. Parte da filosofia que trata das leis e dos princípios do belo. 2. Caráter estético; beleza. 3. (fig.) Plástica; beleza física.” (LUFT, Celso Pedro. Minidicionário Luft). Função Metalinguística. e) Hum-hum... Concordo com você. Função Fática. Unidade V 106 Comunicação e Expressão - Construir textos considerando a situação comunicativa. - Compreender a língua como um conjunto de variedades e a variação como fenômeno natural. - Compreender o processo de normatização da língua. - Avaliar as diferentes situações de enunciação e a adequação das produções textuais. - Estabelecer as características básicas da comunicação oral e escrita. - Compreender a fala e a escrita como modalidades diferentes, mas complementares, da língua. Ciclo 03 Atividade: Teste Título: Conexões do Texto / Fala, Escrita e Variedades Linguísticas Unidade VI – Fala, Escrita e Variedades Linguísticas Objetivos da Unidade Plano de Estudos VI 107 Comunicação e Expressão Para além das definições, a importância da língua em nossas vidas é imensa. Nós vivemos a língua em todas as situações da vida humana e o próprio modo como nos organizamos em sociedade reflete isso e, ao mesmo tempo, é consequência do uso dessa capacidade de linguagem. Somos seres “linguageiros”! Esta unidade 6 será um pouco mais reflexiva, se comparada às outras unidades que estudamos. Nela, vamos tratar sobre as duas modalidades de comunicação verbal por meio das quais nos comunicamos: a fala e a escrita. Depois, vamos discutir um pouco sobre a diversidade linguística de nosso país! Vamos lá? 6.1 Fala e escrita Alguma vez você já disse ou ouviu alguém dizer: “não sei português” ou “português é muito difícil”? Pois é, esse é um pensamento comum, mas precisamos questioná-lo! Na esmagadora maioria das vezes, a pessoa, quando expressa uma opinião como as descritas acima sobre a língua, está falando sobre a escrita do idioma. Escrita: ou me decifras ou te devoro? Segundo Marcuschi (2004), hoje é impossível investigar oralidade (fala) e letramento (escrita) sem uma referência direta ao papel dessas práticas na civilização contemporânea, ou seja, já não se podem observar satisfatoriamente as semelhanças e diferenças entre fala e escrita sem considerar a distribuição de seus usos na vida cotidiana. E o próprio autor afirma que, para se pensar desse modo, é necessário realizar uma mudança na visão que se tinha principalmente antes dos anos 80, na qual fala e escrita eram vistas (e ainda o são) como opostas, predominando a supremacia cognitiva da escrita. Mas, mesmo criada pelo engenho humano muito tardiamente em relação ao surgimento da fala, a escrita permeia hoje quase todas as práticas sociais dos povos que a utilizam. Até mesmo os analfabetos, em sociedades com escrita, estão sob a influência do que se convencionou chamar de práticas de letramento. Bem, a Unidade VI 108 Comunicação e Expressão escrita, então, é utilizada em contextos básicos da vida cotidiana, a saber: a família, a escola, o trabalho, o dia a dia, a vida burocrática, a atividade intelectual. Entretanto, não podemos considerar a escrita superior à fala. Afinal, a escrita pode ser vista hoje como indispensável à sobrevivência no mundo moderno. Entretanto, não se tornou indispensável por virtudes que lhe são imanentes, mas pela forma como se impôs e a violência com que penetrou nas sociedades modernas e impregnou as culturas de um modo geral. Espere aí! Por que falamos em violênciada escrita? Após ler o texto indicado no link acima, a ideia faz mais sentido... já que vivemos numa sociedade grafocêntrica. Caro aluno, o primeiro passo para desmistificar aquela ideia segundo a qual escrever é difícil, ainda mais se for português, é compreender as singularidades da fala e da escrita, desconstruindo a crença na superioridade de qualquer dessas modalidades sobre a outra! Caro aluno, é muito importante que você acesse o link abaixo para ler o texto “O significado da oralidade em uma sociedade multicultural”, de Maria Elisa Ladeira. http://seer.ucp.br/seer/index.php?journal=trevo&pag e=article&op=view&path%5B%5D=88 Unidade VI http://seer.ucp.br/seer/index.php?journal=trevo&page=article&op=view&path%5B%5D=88 http://seer.ucp.br/seer/index.php?journal=trevo&page=article&op=view&path%5B%5D=88 109 Comunicação e Expressão Assim, apesar de a escrita ter surgido há pouco tempo na história da humanidade, ela se tornou um bem indispensável em muitas sociedades. A fala é adquirida naturalmente em contextos informais do dia a dia e nas relações sociais e dialógicas que se instauram desde que somos bebês. Mais do que a decorrência de uma disposição genética, o aprendizado e o uso de uma língua é uma forma de inserção cultural. Por outro lado, a escrita, em sua faceta institucional, é adquirida em contextos formais, como a escola. Daí seu caráter mais prestigioso como bem cultural desejável. Segundo Cagliari (2006), quando se diz que a escola precisa levar em conta a fala, muitos pensam que isso significaria ensinar os alunos a “falar bonito” ou mesmo “falar direito”, mas, na verdade, a escola deveria valorizar mais o que é específico da fala, já que, atualmente, encontra-se muito centrada na escrita. Assim, é importante lembrar que a escrita não é a única forma de manutenção da cultura de um povo. Ao contrário, durante muito tempo, as narrativas orais e outros hábitos ligados à oralidade eram os principais responsáveis pela transmissão de informações, lendas, mitos, histórias, enfim, pela transmissão da cultura de uma geração a outra em todas as sociedades. Hoje em dia, continuam existindo várias sociedades que são ágrafas. Encarar a fala e a escrita como práticas sociais complementares significa compreender que são diferentes, mas que cada qual tem seu papel, sua função, e as duas são fundamentais. No entanto, é comum, em nossa sociedade, concebermos a escrita como representação da fala, mas tomando a primeira como parâmetro. Isso traz confusões e sofrimentos para os alunos desde que iniciam sua alfabetização (ou até mesmo antes), pois tomar a escrita como representação da fala e parâmetro Grafocêntrica: significa ter a grafia ou a escrita, no caso, como central. Viver numa sociedade grafocêntrica significa, então, viver num ambiente social e cultural que valoriza as práticas de escrita. Unidade VI 110 Comunicação e Expressão para a última é afirmar que temos que falar como escrevemos, é abrir caminho para o preconceito em relação à linguagem, é dificultar o processo de aquisição da escrita. Afinal, ninguém fala como escreve, há diferentes dialetos e a escrita é e não é a representação da fala. Por que a escrita é considerada como representação da fala? Justamente porque as duas são manifestações da mesma língua, do mesmo sistema organizado de signos, tendo a fala surgido antes na história da humanidade. Por que a escrita não é considerada representação da fala? A escrita não poderia ser considerada como representação da fala porque não consegue reproduzir muitos de seus fenômenos específicos, tais como a gestualidade. Em compensação, possui outros que a fala não tem, como elementos pictóricos e gráficos. Ou seja, o meio básico de realização de cada uma delas é diferente. Além disso, e principalmente, cada uma delas tem usos distintos. Assim, tanto a fala como a escrita permitem a construção de textos coesos e coerentes, ambas permitem a elaboração de raciocínios abstratos e exposições formais e informais, variações estilísticas, dialetais e outras. Sobre a relação entre fala e escrita, o professor Marcuschi utiliza, pela primeira vez, provavelmente, o termo “continuum” tipológico que foi sugerido por Biber (1988), para quem, na comparação entre a fala e a escrita, deve-se considerar seis dimensões significativas de variação linguística e a relação entre os gêneros respectivos a cada um deles, além do contínuo tipológico nos usos linguísticos, O que você pensa sobre isso? Encarar a fala e a escrita dessa forma muda o que você pensava a respeito? Unidade VI 111 Comunicação e Expressão evitando comparações dicotômicas, baseadas apenas em textos prototípicos de cada modalidade. Desta forma, não se pode conceber que qualquer caracterização linguística ou situacional da fala ou da escrita se efetive em todos os gêneros orais ou escritos. No contínuo tipológico, há gêneros orais e escritos muito semelhantes (conferência−artigo acadêmico, conversa entre amigos−carta familiar, entre outros) e outros muito distintos (bate-papo−artigo acadêmico ou um seminário−bilhete). Isto ocorre porque não há homogeneidade na relação oralidade/escrita: Figura 01 – Continuum tipológico Fonte: Marcuschi 2004 Unidade VI 112 Comunicação e Expressão Como se pode ver no quadro acima, que é uma representação do contínuo tipológico proposto por Marcuschi (2004), fala e escrita apresentam-se num “continuum” que abrange vários gêneros textuais. Há os que se aproximam mais da fala e outros mais amplos no contexto que estão mais próximos da escrita. Não há padrão fechado. Os gêneros oscilam em manifestações orais ou escritas, e seu maior ou menor planejamento da linguagem dependerá das intenções do falante e do contexto de uso. A visão funcional sugere que se preserve um continuo de variações, gradações e interconexões entre fala e escrita. Há casos que as proximidades entre fala e escrita são tão estreitas que parece haver uma mescla, ou quase uma fusão entre ambas tanto nas estratégias textuais como nos contextos de realização. Há outros, em que a distância é marcada, mas não a ponto de se ter dois sistemas linguísticos. Nesse parâmetro, as relações entre fala e escrita recebem um tratamento mais adequado, permitindo aos usuários da língua maior conforto e segurança em suas atividades discursivas. Para Kato (1987), o que determina as diferenças entre as modalidades oral e escrita são as diferentes condições de produção, que refletem uma maior ou menor dependência do contexto, um maior ou menor grau de planejamento e uma maior ou menor submissão às regras gramaticais. 6.2 Variação linguística e normatização Podemos dizer que perguntas que frequentemente são formuladas acerca do que é “certo” ou “errado” em português nos levam a refletir sobre a questão da norma linguística de modo geral e sobre a norma prescritiva (a norma da gramática tradicional) de modo particular. O usuário da língua tem sempre a preocupação de “falar bem” a sua língua, o que significa estar alinhado com a prática linguística dos grupos a que pertence e com o que consegue aprender sobre a língua, seja por meio da observação da escrita, seja por meio de metalinguagem. Ora, é essa atitude linguística que tem alimentado a indústria editorial de publicações do tipo “não erre mais”, “1000 erros Unidade VI 113 Comunicação e Expressão de português” etc. Segundo Leite (acesso em 20/06/2010), o usuário, ao adquirir um volume como os descritos, tem a ilusão de que melhorará sensivelmente seu nível de linguagem em todas as situações de comunicação e pensa resolver seus problemas linguísticos, tanto em relação à modalidade falada, quantoà escrita. Provavelmente, o que ocorrerá, porém, é o usuário, se puser em prática de modo indistinto muitas daquelas “recomendações”, se sentir “um estranho no ninho” em muitos momentos de interação. O que ocorre? A norma prescrita nesses manuais não anda junto com a realidade linguística como um todo? Vários estudiosos já sabem que a resposta para a pergunta acima é não! Em muitos e muitos casos, as regras da gramática normativa são extraídas de textos escritos literários, de épocas anteriores à da descrição. Aquela norma, portanto, jamais será integralmente praticada e os pontos de discordância entre o que um usuário culto fala/escreve e o prescrito são muitas vezes os que causam a sensação de desconforto, de haver “erro de português”. Em se tratando de norma culta, as discordâncias existem, mas não são tantas e tamanhas a ponto de se poder dizer que há duas organizações, duas gramáticas, a da língua praticada e a da língua prescrita. A grande diferença entre elas é que a língua praticada é um mecanismo multiforme que toma diferentes configurações, quando posta em discurso, e a prescrita é uma entidade monolítica. É lugar-comum a afirmação de que é próprio à língua mudar, evoluir. Auroux (1992, apud Leite), por exemplo, diz que a mudança é um processo tão natural das línguas vivas que, se não existir, a língua não será mais língua viva. Não faltam, porém, aqueles que se insurgem contra a variação da língua. Para esses, a língua é entendida como uma entidade monolítica, cuja única face é aquela descrita nos manuais de gramática tradicional e nos dicionários. Sob esse ponto de vista, a língua tem apenas uma possibilidade de realização, e as divergências a tal possibilidade são “erros crassos”. Fica a impressão, pelos comentários feitos, de que essa norma da gramática prescritiva é imutável. Isso, porém, não é verdade, mesmo os manuais de gramática normativa acabam aceitando (ainda que lentamente) mudanças que ocorrem na língua. Unidade VI 114 Comunicação e Expressão Segundo Keller (1994, apud Leite), as mudanças na língua não decorrem, como se pensa correntemente, necessária e suficientemente das mudanças do mundo. A necessidade de comunicação e a intenção de os homens exercerem influência uns sobre os outros são decisivas para isso. O próprio autor afirma que as razões da inexorável mudança linguística ainda não foram descobertas, mas que uma teoria da mudança é, também e ao mesmo tempo, uma teoria das funções e princípios da comunicação. O problema da mudança da língua implica o exercício do “pessimismo cultural”. Isso ocorre porque o usuário não tem intenção, nem planos, para promover as mudanças e, também, não tem consciência de que elas existem natural e independentemente de sua vontade. Por isso, o usuário tende a achar que a perfeição se encontra em estágios anteriores da língua, isto é, os estágios descritos nos manuais como a “língua correta”, por meio de exemplos da literatura. Esses, então, passam a constituir o foco de resistência da mudança. Mas, como foi dito anteriormente, nem mesmo esses focos conservadores resistem às mudanças que, ao longo do tempo, precisam não somente ser registradas, mas também assimiladas. Como exemplo, pode-se citar o trecho abaixo, sobre algumas ocorrências de mudanças no texto gramatical de Bechara (1961 e 1999), o qual, em reconhecimento do uso corrente, desautoriza a tradição em benefício da realidade da língua. No capítulo das preposições, Bechara faz uma observação sobre o uso da preposição em, nas expressões tais como General em chefe, Ferro em brasa, VEJA O EXEMPLO ABAIXO! Unidade VI 115 Comunicação e Expressão Imagem em barro, Gravura em aço, antes condenada por galicismo, nos seguintes termos: “Tem-se, sem maior exame, condenado este emprego da preposição “em” como galicismo. Tem-se também querido evitar a expressão em questão, por se ter inspirado em modo de falar francês; mas é linguagem hoje comuníssima e corrente nas principais línguas literárias do mundo.” (MGP, 1999, p. 316) Está claro que o emprego da preposição em expressões como as citadas foram consagradas pela adoção e uso em tais contextos o que, depois, as consagrou como normais na língua, quer na modalidade escrita ou falada, nos registros formais ou informais. Nesse caso, não resta outra alternativa ao gramático sensível aos fatos da língua senão o reconhecimento da existência da expressão. Vale notar a observação de Bechara, a fim de justificar sua opção, ao uso desse tipo de expressão “nas principais línguas literárias do mundo”. Talvez se possa dizer que esse não seja um argumento próprio para justificar um uso vernáculo, mas é válido e pode ser tomado como princípio explicativo para a justificação da novidade nesse campo tão inóspito a inovações. Mas elas existem, como estamos percebendo. A chamada norma padrão (a que é falada pela “classe média”, utilizada pelos meios de comunicação e na escola) aproxima-se mais da escrita, mas mesmo essa sofre variações porque é próprio da língua que isso aconteça! Em vários casos, em outros dialetos (os chamados dialetos não- padrão), há uma série de diferenças em relação à norma culta, as quais, geralmente, dificultam o aprendizado de muitos em relação ao dialeto padrão, pois existe muito preconceito em nossa sociedade em relação aos dialetos não-padrão, que são tomados como errados, mas que na verdade, têm gramática (regras funcionais) muito coerente! Unidade VI 116 Comunicação e Expressão Figura 02: Charge Fonte: http://porquesublimarpreciso.blogspot.com.br/ Costumamos dizer que somos péssimos em português, justamente na língua em que falamos desde a nossa mais tenra infância! Como assim? O processo de normatização, ou padronização, retira a língua de sua realidade social, complexa e dinâmica, para transformá-la num objeto externo aos falantes, numa entidade com "vida própria", (supostamente) independente dos seres humanos que a falam, escrevem, leem e interagem por meio dela. Unidade VI 117 Comunicação e Expressão Muitas vezes, a escola é co-responsável pelos mitos construídos pelos alunos a respeito de suas próprias capacidades, inclusive as linguísticas. Na tirinha acima, a despeito da crítica à mentalidade utilitarista das sociedades capitalistas, o fato é que o papel da escola precisa ser (e já está sendo) repensado de modo a que possa de fato ajudar os alunos no desenvolvimento de suas competências! Precisamos compreender que as línguas variam e isso é algo natural, não há nada de “feio” ou “bizarro’ neste fenômeno. As variações linguísticas podem estar ligadas a diferentes fatores, entre eles o geográfico, o social e o situacional. Sobre o último, é importante dizer que o mesmo falante, em diferentes ocasiões, dentro do mesmo dialeto, pode monitorar mais ou menos a sua linguagem dependendo do contexto no qual está inserido (formal ou informal) e dos objetivos da comunicação. Afinal, não nos expressamos do mesmo modo numa roda de amigos e numa entrevista de emprego. Esse fenômeno é chamado de “diferença de registro” ou de “nível de linguagem”. INADEQUAÇÃO: Há inadequação em relação ao nível de linguagem quando o usuário não leva em conta o contexto e se expressa de forma equivocada em relação a ele, sendo formal, por exemplo, quando a situação exige o inverso. A língua é um conjunto de variedades, de dialetos. Um desses dialetos é eleito (socialmente) como o mais ‘certo’, a chamada norma padrão, que geralmente se aproxima da escrita. As gramáticas tradicionais, ao objetivarem “conservar” essa norma que consideram a ideal, vão de encontro às leis naturais da mudança linguística,causando, consequentemente, um desconforto por parte dos usuários, que acham a língua “difícil” e até mesmo dificultando a aprendizagem da escrita e gerando preconceitos linguísticos. O primeiro passo para nos apropriarmos da nossa língua é entender que as modalidades falada e escrita da língua se complementam, mas são bem diferentes. Além disso, é preciso relativizar as regras ditadas pela gramática normativa levando em conta os usos sociais da escrita. Unidade VI 118 Comunicação e Expressão - Compreender um texto como um todo coerente. - Perceber os elementos de conexão de um texto. - Fazer a conexão das partes do texto. Ciclo 04 Atividade: Wiki Título: Texto Dissertativo e Texto Acadêmico Unidade VII – Texto Dissertativo e Texto Acadêmico Objetivos da Unidade Plano de Estudos VII 119 Comunicação e Expressão Um dos textos mais presentes no nosso dia a dia é o dissertativo, aquele texto por meio do qual expressamos nossa opinião, justificamos nossas ideias. Na vida estudantil, esse tipo de texto está presente, por exemplo, nas respostas das questões abertas de atividades e de provas. Você precisa defender que seu aprendizado está se transformando em conhecimento, não é mesmo? Aquele famoso ditado “porque sim não é resposta” é muito verdadeiro. Precisamos argumentar, exemplificar, organizar ideias para defendermos nossa opinião da melhor forma na tentativa de convencer nosso interlocutor. Na vida profissional, também precisamos justificar nossas escolhas, argumentar sobre decisões, defender novos projetos, não é mesmo? Nesta unidade, vamos aprender algumas estratégias para argumentar melhor. Porém, antes de entrarmos nesse tema, precisamos compreender o conceito de “coerência textual”. Vamos começar? 7.1 Coerência Você já ouviu certos comentários como: “Este texto está incoerente!” ou “Falta coerência entre as ideias”, mas o que é coerência? Em que aspectos ela interfere no texto? De acordo com Kock (1999), o conceito de coerência textual é muito difícil de definir exatamente, mas podemos percebê-la a partir de aspectos que possibilitam a percepção de coerência. Um destes princípios é a atribuição de sentido, isso quer dizer que o texto não é apenas um amontoado de frases, jogadas uma após a outra, mas relacionadas entre si. O estabelecimento da relação entre as frases gera a interpretabilidade e inteligibilidade do texto. Vamos ver um exemplo? Unidade VII 120 Comunicação e Expressão O show O cartaz O desejo O pai O dinheiro O ingresso O dia A preparação A ida O estádio A multidão A expectativa A música A vibração A participação O fim A volta O desejo (s/a apud: KOCK, 1999,p.12) Unidade VII 121 Comunicação e Expressão Veja que interessante! O texto é apenas uma lista de palavras sem qualquer ligação sintática e sem nenhum elemento que explique a relação entre elas. Se você já foi a um show, percebeu nesta sequência linguística uma unidade de sentido, não é mesmo? Isso faz com que o poema “O show”, seja visto como um texto e não um simples amontoado de palavras. O sentido aqui se refere ao todo, porque a coerência textual é global e está diretamente vinculada à capacidade do alocutário de decifrar e compreender o texto. Kock (1999) afirma que o destinatário ao ler o título, ativa em sua memória o que é um show e então realiza ligações não explícitas entre as palavras do poema. Os processos cognitivos operantes entre os agentes do processo comunicativo caracterizam a coerência na medida em que criam um mundo textual que pode ou não concordar com a versão estabelecida de “mundo real”. Veja que Djik (1992), com outras palavras, reafirma as observações de Kock (1999). As pessoas que compreendem acontecimentos reais ou eventos discursivos são capazes de construir uma representação mental, principalmente uma representação mental significativa, somente se tiverem um conhecimento mais geral a respeito de tais acontecimentos. [...] Desta forma, duas pessoas podem interpretar os acontecimentos à luz de suas experiências prévias que podem conduzi-las[...] no processamento de tais acontecimentos. (DJIK, 1992, p.15) Agora vamos observar os trechos abaixo: (1) Raquel tinha lavado o carro quando chegamos, mas ainda estava lavando o carro. (2) Lucas não foi à aula, entretanto estava doente. (3) A galinha estava grávida. Unidade VII 122 Comunicação e Expressão Não houve uma incongruência no sentido textual? Kock (1999) explica porque essas passagens podem ser apontadas como fonte de incoerência. Em (1), a incoerência é criada pelo fato de o autor apresentar o mesmo processo verbal em duas fases distintas da frase, gerando uma ideia de acabado e não-acabado ao mesmo tempo, o que não é aceitável. Já na segunda construção, a conjunção entre as duas orações “Lucas não foi à aula” e “estava doente” estabelece uma relação de oposição, que contraria a relação de causa que parece ser a mais indicada. No trecho (3), a passagem é incoerente por contrariar o conhecimento geral, vale lembrar que o texto (3) só é incoerente se o mundo representado no texto for “real” e não um texto fantástico, mágico, de fantasia. Você percebeu que a incoerência textual pode derivar de problemas de coesão? No exemplo (2), temos o elemento coesivo “entretanto” que normalmente une as orações dando uma ideia de “quebra de expectativa”: Estudei tanto para a prova. Entretanto, não fui aprovado. Veja que o esperado nesse caso era ser aprovado na prova, já que se estudou muito. Então, para haver coerência na frase (2) acima, precisaríamos reescrever: Lucas não foi à aula, entretanto estava bem de saúde. Percebeu que coesão e coerência caminham juntas para a formação do nexo textual? A coesão funciona mais no plano linguístico, ou seja, por meio de palavras da própria língua nós conectamos as ideias do texto. Já a coerência funciona mais no plano das ideias, algo mais abstrato, a harmonia de sentido final do texto. 7.2 O texto dissertativo Segundo Medeiros (1996, p.211), construir um texto dissertativo é apresentar ideias, analisá-las, é formar um ponto de vista fundamentando-se na lógica dos fatos, consolidando então, relações de causa e efeito. Unidade VII 123 Comunicação e Expressão É um tipo de texto muito utilizado no meio acadêmico (e você com certeza irá utilizá-lo). Na dissertação não basta expor, narrar ou descrever, é preciso explicar, explanar, defender uma ideia ou colocar em debate um questionamento sobre determinado assunto. O raciocínio nesta composição deve ser claro, pois quanto maior a argumentação, maior também a credibilidade e persuasão do texto. Precisamos, ainda, ficar atentos na escolha dos argumentos para que não haja uma incoerência argumentativa, por exemplo, em um texto dizermos que todos são iguais perante a lei e, depois, criticarmos o privilégio de outras classes sociais no pagamento de impostos: Assim também é incoerente defender qualquer ponto de vista contrário a qualquer tipo de violência e ser favorável à pena de morte, a não ser que não se considere a ação de matar como uma ação violenta. (IDEM, p.265) A elaboração da dissertação está ligada diretamente à habilidade de argumentação do autor, de costurar o tema e o ponto de vista aos fatos e elementos que comprovam sua teoria distribuídos na estrutura do texto. A maneira que os argumentos são expostos e que o ponto de vista é defendido pode caracterizar o texto como dissertativo expositivo e dissertativo argumentativo. O texto é a apresentação de um ponto de vista sem combater outros.Por esta razão, não se dirige a um interlocutor específico.A dissertação é realizada pela seleção de argumentos que legitimem o ponto de vista defendido.O enunciador se preocupa com a exposição e a defesa de sua tese, a persuasão não se apresenta de forma clara no texto, mas pode ser vista nas entrelinhas.A linguagem é formal, adequada ao assunto. Dissertação Expositiva Unidade VII 124 Comunicação e Expressão O texto dissertativo expositivo ou argumentativo deve ser escrito de maneira que supra os objetivos do autor, de maneira organizada, dando início, meio e fim na linha de raciocínio criada. Normalmente, quando pensamos em texto dissertativo-argumentativo, lembramos das provas de vestibular e concursos, não é mesmo? Talvez ele seja solicitado justamente porque requer organização das ideias, seleção de conhecimento de mundo do produtor, domínio da escrita e da norma padrão. Mas não fique com essa ideia fixa, ok? Podemos produzir textos dissertativos até mesmo em post de Facebook. Esse tipo textual está muito presente em nosso cotidiano. Veja abaixo alguns gêneros que tem caráter dissertativo. Claro que, como você aprendeu sobre os gêneros, cada gênero apresenta sua particularidade em decorrência dos objetivos comunicativos. No caso abaixo, todos os gêneros apresentam similaridade em um aspecto do estilo verbal (tipo textual dissertativo), mas vão apresentar atividade humana e composição textual específicos. O texto é um jogo de ataque e defesa. Expõe um ponto de vista combatendo outros. Dirige-se a um interlocutor explícito ou subentendido. Apresentação de argumentos que legitimem o ponto de vista defendido, mas com o objetivo de enfraquecer a argumentação contrária. O enunciador se preocupa com a exposição e a defesa de sua tese, tentando com isso persuadir o interlocutor (aquele que almeja a adesão deste.)Linguagem adequada ao assunto e ao interlocutor. Dissertação Argumentativa Unidade VII 125 Comunicação e Expressão Resenha crítica Apresenta o conteúdo de uma obra. Indica-se a forma de abordagem do autor a respeito do tema e da teoria utilizada. É uma análise crítica, pois encerra um conceito de valor emitido pelo resenhista sobre a obra em questão. Pode-se fazer uma resenha crítica sobre um livro, um show, um espetáculo teatral, entre outros. Carta do leitor Texto em que o leitor de jornal ou da revista manifesta seu ponto de vista sobre um determinado assunto da atualidade, usando elementos argumentativos. Artigo de opinião Assim como o editorial, também é um texto de caráter opinativo. Porém, ao invés de representar a opinião do veículo em que está sendo divulgado, tem caráter pessoal. Logo, deve vir assinado pelo autor, que se responsabiliza pelo conteúdo, ou seja, pelas opiniões apresentadas. Impessoalidade Quando vamos escrever um texto dissertativo, uma dúvida surge. Posso utilizar “eu”, ou seja, a subjetividade textual, como em “acredito”, “na minha opinião”? É importante analisar sempre o gênero textual que vamos escrever e o contexto comunicativo. Para dissertações tradicionais e textos acadêmicos, o aconselhado é que o texto seja impessoal. A questão da impessoalidade será abordada na próxima unidade, quando falaremos de texto acadêmico, ok? Unidade VII 126 Comunicação e Expressão A dissertação tradicional, aquelas solicitadas em provas oficiais, parece estar se tornando um gênero textual bem rígido, com uma série de orientações a respeito do que se pode ou não fazer. Na sequência dos estudos, não é nosso intuito engessar o processo de produção textual, mas sim fornecer mecanismos que acrescentam qualidade na produção e auxiliam na geração de sentido e unidade. Para isso, apresentamos uma estrutura criada para a organização da dissertação mais tradicional: - Introdução: como o nome indica, deve mostrar de forma clara o assunto que será tratado, segundo Pereira (2010), com o intuito de situar o leitor conduzindo-o para a dinâmica do texto. A introdução demarca os questionamentos que serão tratados no decorrer da discussão. Neste momento pode-se formular uma tese, na qual o interlocutor se torna capaz de perceber a opinião do enunciador sobre o tema que deverá ser debatido e comprovado durante a argumentação. Pereira (2010) ilustra o que dissemos aqui com dois bons exemplos de introdução, com opiniões contrárias sobre a maioridade penal, veja: O ponto de vista de uma advogada e uma antropóloga: “(...) Abre-se o debate sobre uma mudança legislativa como solução mágica e suficiente para transformar práticas institucionais que há muito não se alteram. Definitivamente, não será um tratamento mais rigoroso aos menores de 18 anos (mais do que o já existente e instituído) que trará aos brasileiros a paz e segurança tão almejadas. A simples mudança de lei se apresenta como solução (...), mas pouco se traduz em garantias de que um novo crime trágico (...), não ocorrerá novamente”. Unidade VII 127 Comunicação e Expressão O ponto de vista de um professor de Direito: “A sociedade espera e merece a atuação conjunta dos poderes constituídos para imediata realização das necessárias alterações na legislação sobre delinqüência juvenil. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma das leis mais avançadas na proteção da infância e da juventude, bem como na preservação do bem- estar da família, mas o fenômeno da criminalidade é mutável, e a aplicação prática de toda lei exige aperfeiçoamento e adaptações”. Disponíveis em: www.aescritanasentrelinhas.com.br Ainda segundo a autora, a introdução não pode mostrar tudo do texto, devem existir algumas coisas que introdução também deve esconder, A introdução deve esconder pelo menos algum argumento significativo, garantindo que o leitor, à medida que prossegue na leitura, perceba um acréscimo na carga de informação transmitida. Se todas as ideias* importantes forem apresentadas na introdução, o texto tenderá à redundância, traindo a expectativa do leitor. Assim como um filme deve revelar algo de surpreendente, evitando criar a impressão de que tudo era previsível, o texto precisa surpreender o leitor, oferecendo-lhe informações novas.(PEREIRA, 2010, §11) - Desenvolvimento: É nesta parte do texto que as ideias apresentadas na introdução são discutidas e relacionadas com os fatos, raciocínios e argumentos comprobatórios da tese exposta inicialmente. Pereira diz que no desenvolvimento é que a persuasão se dá (ou não) de fato, pois é quando ele apresenta seus argumentos, nele a dissertação amplia seu foco, inclui dimensões da experiência humana que são relevantes para a sustentação da tese. O exemplo utilizado por Pereira foi: Unidade VII 128 Comunicação e Expressão A visita de Jahangir, que ocupa o posto de relatora especial das Nações Unidas para Execuções Arbitrárias, Sumárias e Extrajudiciais, é um desses raros fatos positivos. Ela está no Brasil a pedido do Governo Federal e deverá apresentar relatório à Comissão de Direitos Humanos da ONU. Os mais cínicos poderão se perguntar por que o Governo traz um estrangeiro que inevitavelmente fará críticas ao país num foro internacional. É justamente sob essa aparente incoerência que se encerra algo alentador no campo dos direitos humanos: o poder central ao menos sinaliza que está disposto a tocar na questão das torturas e ações de extermínio com a participação de policiais. Infelizmente, tal disposição parece mais reduzida em esferas estaduais. Asma Jahangir, que goza da mais sólida reputação internacional, tentou, mas não conseguiu, ser recebida pelo governadorde São Paulo, Geraldo Alckmin. Pior, ela teve seu pedido para visitar a UAI (Unidade de Atendimento Inicial) do complexo da Febem no Brás inicialmente negado. (PEREIRA, 2010, §19) Conclusão: É o momento de desfecho texto, fazendo um apanhado forte e uma “amarração” de tudo o que já foi dito. A conclusão deve fazer uma confirmação final do assunto discutido. Veja no fragmento destacado: Unidade VII 129 Comunicação e Expressão Para finalizarmos nosso aprendizado sobre o texto dissertativo, abaixo listamos algumas estratégias que podem ser utilizadas para sua argumentação. Alguns exemplos foram retirados de redações “nota 1000” no ENEM do ano de 2014, de tema “Publicidade Infantil em questão no Brasil”: Eliminar a chaga da tortura e da violência policial não é tarefa simples. Ela torna-se ainda mais difícil quando altas vozes de comando da polícia paulista parecem preferir a linguagem da força e do confronto e tratar o respeito aos direitos humanos como um empecilho, e não como uma norma inegociável. (PEREIRA, 2010, §22) Parágrafos Na escrita, como afirmam alguns autores, noção de parágrafo é, antes de tudo, visual, mas não menos importante por isso. A constituição do parágrafo pode ser muito variada, contendo apenas uma frase ou várias, mas isso dependerá dos objetivos do texto, do público-alvo do texto e também das intenções do autor. INADEQUAÇÃO: Existem basicamente dois tipos de problemas: quando o texto é excessivamente longo (bloco indivisível!) com poucos parágrafos e quando o texto é truncado pelo excesso de parágrafos. Unidade VII 130 Comunicação e Expressão Definição de um conceito: muito utilizada na introdução do texto, a definição de uma palavra ou conceito auxilia na contextualização. Não é considerada meramente informativa, pois cada interlocutor pode definir determinado conceito a partir de seu ponto de vista. É possível também selecionar uma definição tradicional de dicionário e, a partir da análise de seu texto, iniciar a discussão. Exemplo: A mobilidade urbana, isto é, as condições oferecidas pelas cidades para garantir a livre circulação de pessoas entre as suas diferentes áreas, é um dos maiores desafios na atualidade tanto para o Brasil quanto para vários outros países. (Rodolfo F. Alves Pena – Mundo Educação) Contestação de um conceito ou opinião Exemplo: Há muito tempo as famílias são consideradas aquelas que envolvem a união de um homem e uma mulher que geram filhos e, portanto, esse tornou-se o padrão considerado normal e socialmente aceito. Contudo, não é sempre que o amor acontece somente entre pessoas de sexo oposto, ou até por duas pessoas e, da mesma forma, como indivíduos detentores de direitos, querem formar suas famílias e serem aceitos por suas diferenças. Ênfase da palavra, uso metalinguístico: para sinalizarmos a escolha proposital de uma palavra destaque na argumentação, podemos dar ênfase com a própria repetição dela, com algum destaque de formatação (ou na entonação em comunicações orais), ou por meio de expressões como “isso mesmo”, “quer dizer”, “essa palavra”. Unidade VII 131 Comunicação e Expressão Exemplo: Ler a Bíblia nas escolas é uma opção. Uma opção de leitura. (Discussão da jornalista Rachel Sheherazade sobre o pedido da retirada das Bíblias das bibliotecas públicas) Argumentação por autoridade: consiste em trazer vozes de outros autores para auxiliar na defesa das ideias. Exemplo: Prova disso são os dados da UNESCO afirmarem que cerca de 85% das crianças preferem se divertir com os objetos divulgados nas propagandas, tornando notório que a relação entre ser humano e consumo está “nascendo” desde a infância. (Dandara Luíza da Costa – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) De acordo com Karl Marx, filósofo alemão do século XIX, para que esse incentivo ocorresse, criou-se o fetiche sobre a mercadoria: constrói-se a ilusão de que a felicidade seria alcançada a partir da compra do produto. (Giovana Lazzaretti Segat – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Unidade VII http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/01/nota-mil-na-redacao-do-enem-aluna-do-rs-sonha-em-ser-professora.html http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/01/nota-mil-na-redacao-do-enem-aluna-do-rs-sonha-em-ser-professora.html 132 Comunicação e Expressão Interrogações e questionamentos: Essas questões podem representar sua tese ou então você pode fazer questionamentos com objetivo meramente reflexivo. Exemplo: O governo e setores da grande mídia estão instalando um clima de terrorismo no país e fazendo uma tremenda lavagem cerebral na população, afirmando que se a PEC 241 não for aprovada o Brasil “quebra”, usando ainda o óbvio discurso de que é necessário controlar gastos. Óbvio! Afinal, quem seria contra controlar gastos? As questões que não enfrentam são: O que está “quebrando” o Brasil? Que gastos estão de fato precisando ser controlados? O que a PEC 241 pretende fazer? O que está por trás dessa PEC 241? Por que não são enfrentadas as amarras que impedem que o Brasil, o país da abundância, garanta vida - Observe que no primeiro exemplo temos uma passagem informativa. Podemos sim trazer textos informativos para a dissertação, mas ele deve ser utilizado para auxiliar na comprovação dos seus posicionamentos. - Evite somente utilizar expressões vagas, sem fontes concretas do tipo “segundo estudos”, “segundo teóricos”. - Para textos mais formais e tradicionais, evite utilizar a voz de ditados populares. - A argumentação por autoridade é muito utilizada em textos acadêmicos (tema de nossa próxima unidade). Unidade VII 133 Comunicação e Expressão digna para todas as pessoas? É disso que vamos tratar nesse breve artigo. Causas ou consequências: Consiste em buscar explicações sobre a origem do problema para entendê-lo melhor ou então citar as consequências para a sociedade. Exemplo: (Tema: problema da mobilidade urbana no Brasil) O crescente número de veículos individuais promove o inchaço do trânsito, dificultando a locomoção ao longo das áreas das grandes cidades, principalmente nas regiões que concentram a maior parte dos serviços e empregos. O Brasil, atualmente, vive um drama a respeito dessa questão. A melhoria da renda da população de classe média e baixa, os incentivos promovidos pelo Governo Federal para o mercado automobilístico (como a redução do IPI) e a baixa qualidade do transporte público contribuíram para o aumento do número de carros no trânsito.(CAUSAS) Com isso, tornaram-se ainda mais constantes os problemas com engarrafamentos, lentidão, estresse e outros, um elemento presente até mesmo em cidades e localidades que não sofriam com essa questão (CONSEQUÊNCIAS). (Rodolfo F. Alves Pena – Mundo Educação) Comparação: para elucidar e ilustrar determinada informação, você pode fazer comparações. Unidade VII 134 Comunicação e Expressão Exemplo: A área desmatada da Floresta Amazônica brasileira equivale a um país como a França. Comparação entre país e culturas diferentes: recorrer a outras culturas e experiências de outros países pode ser uma boa estratégia para que o leitor tenha uma visão mais abrangente, para que se desvincule do mundo particular em que vive. Exemplos: Conforme a OMS, no Reino Unido há leis que limitam a publicidade para crianças como a que proíbe parcialmente – em que comerciais são proibidos em certos horários -, e a que personagens famosos não podem aparecer em propagandas de alimentos infantis. Já no Brasil há a autorregulamentação, na qualo setor publicitário cria normas e as acorda com o governo, sem legislação específica. (Giovana Lazzaretti Segat– Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Em Esparta, importante pólis grega, os meninos eram exaustivamente treinados para serem guerreiros que defenderiam sua cidade. Hoje, no Brasil, as crianças não tem essa preocupação: crescem e no futuro, podem escolher suas profissões. (Luis Arthur Novais Haddad – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Exemplificação: uso de fatos, acontecimentos para justificar seu argumento, torná-lo mais palpável. Evite usar casos particulares. Unidade VII 135 Comunicação e Expressão Exemplo: As habilidades publicitárias são poderosas. O uso de ídolos infantis, desenhos animados e trilhas sonoras induzem a criança a relacionar seus gostos a vários produtos. Dessa maneira, as indústrias acabam compartilhando seus espaços; como exemplo as bonecas Monster High fazendo propaganda para o fast food Mc Donalds. (Giovana Lazzaretti Segat – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Além disso, é necessária a introdução de disciplinas de educação financeira e direcionada ao consumo, visando à formação de consumidores conscientes. Assim, a criança deixará de ser alvo dessas práticas apelativas.". (Victoria Maria Luz Borges – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Unidade VII http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/01/nota-mil-na-redacao-do-enem-aluna-do-rs-sonha-em-ser-professora.html http://g1.globo.com/pi/piaui/educacao/ingresso-universitario/2014/noticia/2015/01/jovem-deixa-semiarido-para-estudar-e-conquista-nota-maxima-na-redacao.html http://g1.globo.com/pi/piaui/educacao/ingresso-universitario/2014/noticia/2015/01/jovem-deixa-semiarido-para-estudar-e-conquista-nota-maxima-na-redacao.html 136 Comunicação e Expressão Reciprocidade: lançar uma argumentação do tipo “se agir de determinada forma para um caso, deverá fazê-lo para outro com características similares”, ou seja, aplicar o mesmo tratamento a duas situações correspondentes. Exemplo: (sobre a retirada da Bíblia das bibliotecas nas escolas) Se há uma caça aos símbolos cristãos, por que não combater a imagem do Cristo Redentor? Observe que na parte sublinhada do primeiro exemplo, há a defesa de uma ideia. Se o autor parasse sua argumentação nessa parte, a defesa se tornaria menos contundente. Usamos a exemplificação como estratégia para comprovação do que está sendo dito. A partir dela, leitor vê relação entre as ideias apresentadas e a realidade. - O segundo exemplo é uma proposta de solução para um problema. A tendência em geral é falarmos que a conscientização é a solução para todos os problemas, o que cai no senso comum. Se nós apresentamos ideias reais para essa conscientização, com agentes, espaços definidos, somos mais convincentes. Pense no caso dos candidatos à eleição que costumam prometer “vou melhorar a educação”. Se eles falam algum realmente realizável, há maior engajamento do receptor: “Analisando o repasse dos impostos para a cidade, é possível ampliar 4 turmas na Escola Municipal Domingos Flora em 2017”. Unidade VII 137 Comunicação e Expressão Proposta de intervenção e solução: já que você está debatendo sobre um tema polêmico ou problemático, é interessante que você, enquanto cidadão, reflita sobre possíveis soluções para o caso. Em redações do ENEM, a proposta de intervenção equivale a 20% da nota. Exemplo: Nesse contexto, o governo deve regulamentar a veiculação e o conteúdo de campanhas publicitárias voltadas às crianças, pois, do contrário, elas podem ser prejudicadas em sua formação, com prejuízos físicos, psicológicos e emocionais. (Antônio Ivan Araújo – Redação Nota 1000 no ENEM de tema Publicidade Infantil) Unidade VII 138 Comunicação e Expressão Construir textos considerando a situação comunicativa. Perceber a reescrita de texto como uma reflexão sobre a norma padrão. Ciclo 04 Atividade: Wiki Título: Texto Dissertativo e Texto Acadêmico Unidade VIII – Linguagem Acadêmica Objetivos da Unidade Plano de Estudos VIII 139 Comunicação e Expressão Como vimos, todo gênero textual apresenta características estáveis para ser considerado como tal pela sociedade. Dessa forma, é importante considerarmos a questão da tradição textual de uma comunidade linguística para nos comunicarmos eficientemente. Nesta unidade, vamos trabalhar especificamente com textos acadêmicos, pois parece haver um maior rigor no que diz respeito à linguagem e ao formato do texto e, muitas vezes, se não seguirmos as características tradicionais podemos ser “penalizados” de alguma forma. 8.1 O texto acadêmico O texto acadêmico é aquele que veicula o resultado de uma investigação científica, filosófica ou artística. É preciso, porém, que não confunda “texto acadêmico” com textos de “divulgação científica”: Divulgação científica Textos informativos com vocabulário preciso, frases curtas, ou seja, objetivo. Tem por finalidade divulgar para o grande público as descobertas mais recentes no campo das ciências em geral. Veja que no caso acima o texto é dirigido ao público em geral, pessoas que não necessariamente estudaram academicamente sobre o assunto. Esse é caso das reportagens sobre descobertas científicas em revistas comuns, como Superinteressante, Veja, Isto é... O texto acadêmico, por sua vez, é direcionado a estudiosos, pesquisadores da área em questão. Então, enquanto aluno, precisamos estar cientes de que a linguagem apresenta características mais formais, uso de vocabulário acadêmico e alta densidade de termos específicos da área em questão. Mas como você vai aprender a escrever textos acadêmicos? Não há receita fixa. Você aprenderá lendo e observando outros textos acadêmicos e terá que Unidade VIII 140 Comunicação e Expressão praticar bastante. Hoje em dia, com o auxílio da tecnologia e da web, temos muitos textos acadêmicos ao nosso alcance. O gênero mais acessível são os artigos acadêmicos: É preciso observar que artigos acadêmicos não são aqueles escritos por jornalistas, mas aqueles escritos por pesquisadores para estudiosos daquela área em específico. Hoje em dia, normalmente, os artigos acadêmicos são publicados em revistas acadêmicas online. Você pode procurar na web revistas acadêmicas de sua área! Acesse o site dela e percorra os artigos para observar a linguagem utilizada. Abaixo, para observamos a linguagem acadêmica, veremos o resumo de um artigo da área de Administração e Marketing: RESUMO O comportamento relacionado à compra compulsiva se caracteriza por um impulso incontrolável e irracional que tende a manifestar-se quando os indivíduos vivenciam sentimentos negativos. Apesar de ser intensamente pesquisada, ainda restam dúvidas sobre os fatores influenciadores da compra compulsiva, em especial em públicos potencialmente vulneráveis, como é o caso do público adolescente. Ao considerar tal lacuna, este artigo analisa o comportamento de compra compulsiva, assim, buscando compreender os condicionantes oriundos dos níveis de autoestima, materialismo, estresse e prazer em comprar especificamente de consumidores Gênero textual: artigo acadêmico-científico É um gênero de divulgação científica direcionado a pesquisadores, estudiosos sobre determinado assunto. Normalmente publicado em revistas acadêmicas, apresenta as seguintes partes: Título, nome do(s) autor(es), resumo, resumo em língua estrangeira, introdução (contextualização do tema, objetivos de pesquisa, justificativa),referencial teórico, metodologia, resultados e considerações finais. Linguagem formal e impessoal Unidade VIII 141 Comunicação e Expressão adolescentes. A partir da revisão de literatura, foram definidas quatro hipóteses, que foram testadas a partir de dados coletados junto a uma amostra de 153 sujeitos. No teste das hipóteses, foi utilizada a técnica de regressão da família gama de modelos lineares generalizados, operacionalizados no software R. Os resultados demonstraram que fatores como estresse, materialismo e prazer em comprar influenciam o comportamento de compra compulsiva dos adolescentes, tendo-se constatado ainda que a autoestima não teve influência na compulsividade dos respondentes da pesquisa. A pesquisa inova na operacionalização dos dados e avança no conhecimento acadêmico sobre compulsividade no consumo, gerando conhecimento que pode servir para formuladores de políticas públicas e organizações sociais orientadas ao interesse do consumidor. Palavras-Chave: adolescentes; comportamento do consumidor; compra compulsiva MEDEIROS, F. Gama de et al. Influência de Estresse, Materialismo e Autoestima na Compra Compulsiva de Adolescentes. IN: Revista de Administração Contemporânea. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415- 65552015000800003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Acesso em: 12-12-2016 Observe que o resumo contido no artigo não apresenta parágrafos. É uma característica particular deste gênero. O resumo vai mostrar com poucas palavras todo o conteúdo do artigo. A linguagem é mais formal e apresenta características típicas da linguagem acadêmica: uso de verbos no objetivo de pesquisa: “analisar o comportamento”, “buscando compreender os condicionantes”. Unidade VIII http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552015000800003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt%20 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552015000800003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt%20 142 Comunicação e Expressão A dica para escrita do objetivo é sempre escolher um verbo que exija investigação ou reflexão. Prefira: analisar, investigar, comparar, compreender... Evite: fazer. Uma confusão que também ocorre é colocar um objetivo do tipo “Contribuir para que a sociedade se torne menos preconceituosa”. Este não é um objetivo de pesquisa, mas é um benefício, uma consequência que sua pesquisa trará. O objetivo diz respeito ao que você, investigador, irá fazer, ok? a impessoalidade da escrita acadêmica: “Este artigo analisa”, “foram definidas quatro hipóteses”, “Os resultados demonstraram”. Veja que aqui os autores do artigo poderiam ter escrito “Analisamos no artigo”, “Definimos quatro hipóteses”, “demonstramos que”, mas houve a preferência para uma frase impessoal. Sobre esta questão, assista à videoaula “Impessoalidade”. uso de vocábulos típicos do fazer científico: revisão da literatura, hipóteses, testar hipóteses, coletar dados, amostra, sujeitos. Neste caso específico, são termos mais utilizados para descrever aspectos metodológicos da pesquisa. O termo “revisão da literatura”, por exemplo, também chamada de “revisão bibliográfica” é uma pesquisa mais aprofundada sobre as principais obras que tratam do assunto pesquisado. linguagem formal: Outra característica do texto acadêmico é a formalidade. Precisamos considerar que não se trata de uma conversa entre amigos. Então, no texto acadêmico, a escolha de nossas palavras deve ser refletida. Devemos fazer uso de uma linguagem sem regionalismos, sem gírias... Vamos treinar a questão da formalidade no item a seguir, ok? A questão da autoria é algo muito rígido nos textos acadêmicos. O texto em sua totalidade deve ser escrito com as palavras do pesquisador, sendo que passagens de outros autores devem ser destacadas em forma de citação. Aliás, fazer Unidade VIII 143 Comunicação e Expressão referência a outros autores no texto acadêmico é uma estratégia de argumentação quase que obrigatória. Veja o exemplo: Em um dos primeiros trabalhos relevantes sobre o tema, Arndt (1967) definiu a comunicação BAB como “uma comunicação oral e pessoal entre um emissor percebido como não comercial e um receptor, tratando de uma marca, um produto ou um serviço oferecido para venda” (p. 190). Apesar da sua relevância, essas teorias foram construídas num contexto de marketing sem a presença da internet (Dellarocas, 2003; Hennig-Thurau et al., 2004). No final da década de 1990, Buttle (1998) lançou novas perspectivas sobre o entendimento da comunicação BAB. Segundo o autor, na era da internet, as comunidades on-line geram BAB virtual que não é face a face. Tubenchlak, Daniel Buarque et al. Motivações da Comunicação Boca a Boca Eletrônica Positiva entre Consumidores no Facebook. IN: Revista de Administração Contemporânea. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S14156 5552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 12-12-2016 Lembra que vimos rapidamente sobre “polifonia” na unidade 3? A polifonia é considerada a presença de mais de um locutor no mesmo enunciado (DUCROT, 1984 apud KOCK, 1997) e a voz desses locutores pode estar explícita (podendo resgatar sua autoria) ou implícita no texto. É a ideia de que nosso discurso é composto por mais vozes além de nossa própria voz. No caso do texto acadêmico, temos a voz dos autores renomados e, ao colocarmos essas vozes em nosso texto Unidade VIII http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#B2 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#B16 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#B11 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141565552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141565552015000100008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt 144 Comunicação e Expressão de pesquisa, reforçamos nossa argumentação e a credibilidade das ideias. Toda pesquisa parte do velho para produzir o novo. Pense nisso! - Para trabalhos acadêmicos, evite citar WIKIPÉDIA e textos de sites e blogs. Prefira autores renomados da área e obras publicadas realmente, como livro, teses, dissertações ou artigos acadêmico-científicos. - Para dissertações em geral é preciso citar a fonte real. Na próxima unidade, vamos aperfeiçoar a escrita de textos acadêmicos, mas antes de começarmos a prática, precisamos refletir sobre nossa postura enquanto escritores. 8.2 O papel da reescrita Faraco & Moura (1999, p.21) falam da adequação da linguagem e sobre a noção de erro. Explicam-nos que a sociedade e, portanto, nossa ação social, está permeada de leis e regras que devemos obedecer. Isso acontece também com a linguagem: ela tem normas, princípios, que precisam ser obedecidos. De acordo com os autores, geralmente achamos que essas regras dizem respeito apenas à gramática normativa. Tanto isso é verdade para a grande maioria das pessoas, expressar-se corretamente em língua portuguesa significa não cometer “erros” de ortografia, concordância verbal, acentuação etc. Eles mostram que há, no entanto, outro erro mais comprometedor do que o gramatical: o de inadequação de linguagem ao contexto. Em casa ou com os amigos, nós empregamos uma IMPORTANTE: A credibilidade de sua argumentação é prejudicada se você não souber selecionar as fontes a serem citadas. Unidade VIII 145 Comunicação e Expressão linguagem mais informal, do que em avaliações. Ao conversar com nossos professores ou com alguém que não conhecemos, não é apropriado utilizar algumas gírias, pois a compreensão do diálogo poderia ficar prejudicada. Em uma dissertação solicitada emum concurso público e em texto acadêmicos, é necessário que o candidato utilize uma expressão mais formal. Estes exemplos nos ajudam a concluir que é essencial adequar o nível de linguagem à situação social. Observe o meio em que vive. Pare e pense nos aspectos linguísticos de onde mora. Você poderá perceber que ela apresenta variações. Isso acontece no aspecto social. Todas estas variantes têm seu lugar e momento de uso, não é mesmo? Agora que revimos os aspectos mais importantes do planejamento da comunicação, estamos preparados para o objeto de nossa discussão: a reescrita. A reescrita permite que o autor realize uma reflexão sobre a própria escrita e enquanto ele reescreve seu texto também reconstrói sua percepção da linguagem. Para Mengolo (2005), a importância da reescrita do texto está no fato de que este ato provoca uma interação dialogal entre sujeito autor e seu produto criado, permite o aguçamento, confrontamento e até mesmo a exclusão de alguns enunciados. A autora afirma que o enunciador sai do estado inspirativo, que gera a primeira escrita e racionaliza sobre o que já foi materializado. É uma atitude responsiva ativa de seu próprio discurso. Você se lembra o que é uma atitude responsiva ativa? “[...] a significação linguística de um discurso e adota, simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboraçào constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do dicurso[...]”. (BAKHTIN, 1997, p.289-290.) Unidade VIII 146 Comunicação e Expressão • Estado inspirativo que gera a primeira escrita Texto • Confrontamento, racionalização sobre o que foi materializado Releitura • Exclusão e modificação de enunciados, que produz um novo texto. Nova redação Segundo Mengolo (2005), uma atitude responsiva ativa sobre o próprio texto permite ao autor, que ele veja o que antes ele não era capaz de perceber em seu texto. Bakhtin (1997, p.332) afirma que a reprodução do texto pelo sujeito autor é um acontecimento novo e irreproduzível na vida do texto. Quanto mais o ato de reescrever se repetir, mais o enunciador perceberá que o discurso poderá ser mudado, que o texto não é um produto limitado, ou acabado. De reescrita em reescrita, vai crescendo o domínio da modalidade escrita, porque o autor ao editar o texto trabalha também as regras de composição textual, melhorando seu desempenho redacional. Unidade VIII 147 Comunicação e Expressão Mengolo (2005) diz que o autor ao se deparar novamente com o seu texto, com a condição de reestruturá-lo, percebe que, neste momento, seu texto não tem a mesma significação, pois no ato da releitura ele exerceu outras funções cognitivas. Agora com uma visão de construção textual ampliada, gera um processo analítico de sua própria linguagem. [...] ocorre constantemente na reescritura a troca de papéis de leitor e de escritor: nesse processo interativo, as estratégias do leitor para abordar o texto estão inter- relacionadas com as habilidades do escrtior de ajustar a sua expressão às avaliações do seu outro-leitor. Sendo assim, a reescritura é o momento da produção de um texto em que paralelamente também se produz na leitura”. (GEHRKE, apud: MENGOLO, 2005,p.78) Agora vamos fazer uma atividade de reescrita, mas para reescrever, primeiro temos que escrever. Portanto, este exercício se divide em 3 etapas, ler, escrever e reescrever. VAMOS LÁ! 1ª etapa: Vamos ler o texto do autor Carlos Novaes “A regreção da redassão” e refletir sobre o que o narrador nos expõe: A regreção da redassão “Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever: – Mas, minha senhora – desculpei-me –, eu não sou professor. – Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito. Unidade VIII 148 Comunicação e Expressão – A culpa não é deles. A falha é do ensino. – Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem. – Obrigado – agradeci –, mas não acredite muito nisso. Não coloco vírgulas e nunca sei onde botar os acentos. A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor. [...] Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu: ‘Você não deve se assustar, o estudante brasileiro não sabe escrever’. [...] Impressionado, saí à procura de outros educadores. Todos me disseram: acredite, o estudante brasileiro não sabe escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve mais como antigamente. Ninguém mais faz diário, ninguém escreve em portas de banheiro, em muros, em paredes. [...] – Quer dizer – disse a um amigo enquanto íamos pela rua – que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante o emprego por mais dez anos. – Engano seu – disse ele. – A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão. – Por quê? – espantei-me. – Quanto menos gente sabendo escrever, mais chances eu tenho de sobreviver. – E você sabe por que essa geração não sabe escrever? – Sei lá – dei com os ombros –, vai ver que é porque não pega direito no lápis – Não, senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito de leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem? Unidade VIII 149 Comunicação e Expressão Taí um dado novo que eu não havia considerado. Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue. [...] Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria: – Por favor, amigo, leia – disse, puxando um cidadão pelo paletó. – Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio. [...] – E o senhor, vai? Leva três e paga um. – Deixa eu ver o tamanho – pediu ele. Assustou-se com o tamanho do texto. – O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo para ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas? [...] Não há dúvidas: o estudante brasileiro não sabe escrever. Não sabe escrever porque não lê. E não lendo também desaprende a falar. [...] [...] os estudantes não escrevem, não leem, não falam, não pensam. Tudo isso me faz pensar que estamos muito mais perto do que imaginava da Idade da Pedra. A prosseguir nessa regressão, ou a regredir nessa progressão, não demora muito estaremos todos de tacape na mão reinventando os hieróglifos. Neste dia então a palavra escrever ganhará uma nova grafia:ex-crever.” NOVAES, Carlos Eduardo. Os mistérios Aquém. 2. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1976. http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1 248 Unidade VIII http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1248 http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1248 150 Comunicação e Expressão 2ª etapa: Refletindo sobre a afirmação do autor de que os estudantes brasileiros “não escrevem, não leem, não falam, não pensam”, escreva um pequeno texto dissertativo- argumentativo sobre isso: _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ __________________________________________________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ 3ª etapa: Leia atentamente seu texto e veja os erros que cometeu, quais enunciados podem ser melhorados e reescreva seu texto! _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ _________________________________________ Unidade VIII 151 Comunicação e Expressão Ortografia Apesar das caras de susto que podemos encontrar quando alguém escreve “pesso” ao invés de “peço”, devemos lembrar que a ortografia de nosso idioma é bastante complexa, já que temos vários sons que correspondem a uma só letra e vice-versa. Assim, o domínio da ortografia só pode ser dar de forma gradativa e depende muito do hábito de leitura. Todos já sabem, igualmente, que a ortografia pode mudar de acordo com fatores que não são propriamente linguísticos, mas sociais e políticos. Muitos consideram difícil a missão de colocar os “pensamentos” em palavra escrita e, quando se deparam com a escrita acadêmica, parece um desafio inalcançável. Como toda escrita, é preciso praticar. A leitura de diversos textos da sua área de pesquisa, a escrita refletida e a reescrita são essenciais para que você aperfeiçoe a escrita acadêmica. Vamos trabalhar a revisão de textos de outros alunos? Lembre-se que, quando você for escrever seu próprio texto, você também assumirá o papel de seu próprio revisor, ok? Os textos abaixo apresentam problemas de escrita, seja com relação ao texto acadêmico ou com relação à linguagem acadêmica e os padrões da norma culta. Reescreva-os! Você pode mudar a estrutura do texto, mudar a argumentação, complementar, como quiser, ok? É um exercício para aperfeiçoarmos a escrita. Unidade VIII 152 Comunicação e Expressão Texto 1 No mundo de hoje todos recebem informações e aprendem tudo, na hora e onde quiserem. Muitas vezes, quando o aluno chega na sala de aula, ele não está interessado sobre o assunto da aula, pois ele já ouviu falar sobre o mesmo na televisão, na internet ou nos jornais. Para que o aluno não fique desinteressado sobre o assunto o educador tem que falar sobre ele de maneiras menos paradas e com maior participação. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Considerações sobre o texto original No mundo de hoje todos recebem informações e aprendem tudo, na hora e onde quiserem¹.Muitas vezes, quando o aluno chega na sala de aula, ele não está interessado sobre o assunto da aula, pois ele já ouviu falar sobre o mesmo² na televisão, na internet ou nos jornais. Para que o aluno não fique desinteressado sobre o assunto³ o educador tem que4 falar sobre ele de maneiras menos paradas5 e com maior participação. Comentário1: Estrutura muito informal Comentário2: Pela gramática, não é adequado retomar algo já dito com “o mesmo”, “a mesma”. Comentário3: Muita repetição da palavra “assunto”. Comentário4: Informal Comentário5: Como está sendo criado um texto na área de educação, é necessário escolher melhor as palavras. Unidade VIII 153 Comunicação e Expressão Sugestão de reescrita Atualmente, com a internet e o desenvolvimento da tecnologia1, a informação pode ser acessada em qualquer circunstância. E toda essa facilidade de informação influencia na aprendizagem2. Muitas vezes, o aluno chega à sala de aula desinteressado, pois o assunto já é conhecido. Para diminuir o desinteresse dos alunos, o educador precisa abordar o conteúdo de maneira mais dinâmica e participativa. Comentário1: Melhora da argumentação mostrando a causa. Comentário2: Tentativa de estabelecer relação (coesão) entre as duas frases. Texto 2 No presente trabalho, apresento dados da pesquisa que buscou ver o quanto a pobreza dos guris e gurias tem a ver com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em escolas de ensino fundamental. Analisei os municípios que tem mais de 10.000 habitantes que moram na zona rural, ou seja, estudantes carentes que têm dificuldade grandíssima para ir para a escola. Ao todo, o número é de mais de 5.500 cidades brasileiras. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Unidade VIII 154 Comunicação e Expressão Considerações sobre o texto original No presente trabalho, apresento1 dados da pesquisa que buscou ver2 o quanto a pobreza dos guris e gurias3 tem a ver4 com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em escolas de ensino fundamental. Analisei5 os municípios que tem6 mais de 10.000 habitantes7 que moram na zona rural, ou seja, estudantes carentes que têm dificuldade grandíssima8 para ir para a escola. Ao todo, o número é de mais de 5.500 cidades brasileiras. Comentário1: Retirar subjetividade. Comentário2: Não é um verbo bom para investigação. Comentário3: Evitar regionalismos. Comentário4: Informal Comentário5: Retirar subjetividade Comentário6: No plural tem acento = têm Comentário7: Para deixar o texto mais formal, evite a repetição do QUE. Comentário8: Evitar adjetivação subjetiva. Sugestão de reescrita No presente trabalho, serão apresentados dados da pesquisa que buscou verificar a relação entre a condição financeira das crianças e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em escolas de ensino fundamental. Foram analisados os municípios com mais de 10.000 habitantes vivendo na zona rural, ou seja, municípios em que há uma grande parcela dos estudantes com grande dificuldade de deslocamento para a escola. Ao todo, contabilizam mais de 5.500 cidades brasileiras. Unidade VIII 155 Comunicação e Expressão Texto 3 Neste projeto, foi feito uma pesquisa com donos de empresas sobre a mortalidade das micro e pequenas empresas devido a desconhecerem as ferramentas da gestão financeira, o sócio da empresa 1 falou que muitos amigos dele já tentaram abrir seus próprios negócios, só que não duravam mais que um ano, até ele mesmo já tentou abrir uma empresa da mesma área há seis anos atrás, só que não conseguiu levar para frente seu negócio, pois era muito novo, mais sem experiência e maior medo dele é de não conseguir desta vez, de dar tudo errado e ter que fechar a empresa, pensa em procurar ajuda, mas não sobra tempo, pois ele possui também um curso técnico de elétrica e muitas vezes ele mesmo vai trabalhar nas obras, pois tem muitos serviços e poucos funcionários, isso pensando em cortar gastos com mão de obra e assim esquece a parte administrativa. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Considerações sobre o texto original Neste projeto, foi feito1 uma pesquisa com donos2 de empresas sobre a mortalidade das micro e pequenas empresas devido a desconhecerem3 as ferramentas da gestão financeira, 4 o sócio da empresa 1 falou5 que muitos amigos6 dele já tentaram abrir seus próprios negócios, só que7 não duravam mais que um ano, até ele mesmo já tentou abrir uma empresa da mesma área há seis anos atrás8, só que não conseguiu levar para frente seu negócio, pois era muito novo, mais sem experiência e maior medo dele é denão conseguir desta vez, de dar tudo errado e ter que fechar a empresa, pensa em procurar ajuda9, mas não sobra tempo, pois ele possui também um curso técnico de elétrica e muitas vezes ele mesmo vai trabalhar nas obras, pois tem muitos serviços e poucos funcionários, isso pensando em cortar gastos com mão de obra e assim esquece a parte administrativa. Unidade VIII 156 Comunicação e Expressão Comentário1: Prefira “realizar”. Atenção à concordância: foi realizada uma pesquisa. Da mesma forma que vai para o plural em: Foram realizadas pesquisas Comentário2: Informal para textos acadêmico. Preferir “proprietários” Comentário3: Após a palavra “devido” devemos utilizar um substantivo, como em: devido AO FATO de Comentário4: Atenção à pontuação. Precisamos analisar o conteúdo para colocar a pontuação. Mas considere que uma frase tem em média 2 linhas. Aqui já temos um outro sujeito “O sócio”. O texto também deve ser dividido em parágrafos menores. Comentário5: Informal. Prefira verbos como: relatou, informou, discorreu... Comentário6: Evite subjetividade. Comentário7: Estrutura informal. Comentário8: Retirar a palavra “atrás”, pois o verbo “haver” já dá ideia de passado. Comentário9: Novamente frase muito longa. Sugestão de reescrita Neste projeto, foi realizada uma pesquisa com proprietários de empresas sobre a mortalidade das micro e pequenas empresas em razão do desconhecimento sobre as ferramentas da gestão financeira. Unidade VIII 157 Comunicação e Expressão Em entrevista, o sócio da empresa 1 relatou que muitos conhecidos tentaram abrir suas próprias empresas, porém os empreendimentos não duravam mais de um ano. O próprio entrevistado já havia tentado abrir uma empresa da mesma área seis anos antes. Porém, em decorrência da falta de experiência e por sua pouca idade, não conseguiu prosperar. Neste momento, confessa que tem medo de ter que fechar a empresa atual. Relata, ainda, que pensa em procurar ajuda, mas não tem tempo, já que também presta serviços em obras. Ele acredita que ao realizar tais tarefas estaria cortando gastos com mão de obra. No entanto, acabando esquecendo da parte administrativa do negócio. Texto 4 Prevenção de perdas – a empresa possui um processo de prevenção de perdas onde é gerado um pedido na industria, a industria carrega certa mercadoria entrega nas filiais. O entregador deixa a nota fiscal na entrega e esta é direcionada pelo fiscal de prevenção para o setor de informática, onde o funcionário deste setor de informática onde o funcionário deste setor faz a entrada desta nota e gera um romaneio (espelho da nota) sem a quantidade; só com a descrição do produto; chamado também de romaneio cego. O funcionário da informática (...) ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Considerações sobre o texto original Prevenção de perdas1 – a empresa possui um processo de prevenção de perdas onde é gerado um pedido na industria, a industria carrega certa mercadoria entrega nas filiais. O entregador deixa a nota fiscal na entrega e esta é direcionada pelo fiscal de prevenção para o setor de informática, onde o funcionário deste setor de informática faz a entrada desta2 nota e gera um romaneio (espelho da nota) sem Unidade VIII 158 Comunicação e Expressão a quantidade; só com a descrição do produto; chamado também de romaneio cego. O funcionário da informática (...) Comentário1: Em trabalho acadêmico, todo título deve ser numerado. Comentário2: Observe que neste caso, a escrita está repetitiva. O leitor tem dificuldade para visualizar como se dá o processo. Você enquanto pesquisador poderá esquematizar as ideias com auxílio de recursos não verbais. Sugestão de reescrita 2 Prevenção de perdas A empresa XXXXX possui um processo de prevenção de perdas que pode ser visualizado no organograma abaixo: Figura 01 – Processo de prevenção de perdas Fonte: O autor O funcionário do setor de informática dá a entrada na nota e gera o romaneio cego. O fiscal de prevenção deixa a nota fiscal no setor de informática. A indústria carrega a mercadoria e entrega nas filiais com a nota fiscal. É gerado um pedido na indústria Unidade VIII 159 Comunicação e Expressão O romaneio cego é um espelho da nota que contém a descrição do produto sem a quantidade. Na sequência, o funcionário (...) Viu como você pode inovar e melhorar a organização das informações em seu texto acadêmico? Nos textos acadêmicos a seguir, encontre uma falha, ela pode ser de gramática/ortografia ou de organização do texto acadêmico: Texto 5 Ogden (2002, p. 104), ressalta que “um programa de venda “que indique quando, com que frequência e em que momento os grupos de vendas devem contatar os clientes é uma ferramenta que facilitará muito o trabalho de integração”. Resposta: Vírgula incorreta. Não podemos separar por vírgula o sujeito (Ogden) do predicado (ressalta que...). Observe que a frase abaixo está correta, pois o sujeito passa a ser “um programa de venda”: Segundo Ogden, um programa de venda “que indique quando, com que frequência e em que momento os grupos de vendas devem contatar os clientes é uma ferramenta que facilitará muito o trabalho de integração”. Texto 6 Brito e Dekker afirmam que a Cadeia de Suprimento somente se fecha quando adicionamos a Logística Reversa nos processos. Eles ainda destacam que empresas americanas perderam bilhões de dólares por não estarem preparadas para lidar com os fluxos reversos. Unidade VIII 160 Comunicação e Expressão O retorno como um processo logístico foi incorporado a pouco tempo ao modelo SCOR, destacando sua importância para a gestão da cadeia de suprimentos no futuro. A logística reversa vem se estendendo mundo a fora, envolvendo todas as camadas das cadeias de suprimentos em vários segmentos da indústria. Enquanto alguns participantes da cadeia são forçados a receber seus produtos de volta, outros o fazem de forma proativa, atraídos pelo valor dos produtos usados. Em outras palavras, a Logística Reversa se tornou habilidade chave nas cadeias de suprimentos modernas. (BRITO e DEKKER, p. 2003, tradução nossa.) Resposta: Falta de coesão textual entre o texto do pesquisador e a citação. Toda citação deve ser incorporada ao texto do pesquisador, dando continuidade à sua fala. Não inserir citações soltas. Sempre introduzir com expressões do tipo “segundo os autores”, “sobre essa questão, os autores ainda relatam que...”. Isso também é válido para figuras e tabelas. Acrescente expressões do tipo “Na tabela 1, é possível observar os resultados:”, “conforme evidenciado na tabela abaixo:”. Unidade VIII 161 Comunicação e Expressão Compreender os elementos que compõem cada tipo de texto. Ciclo 05 Atividade: Fórum Título: Comunicando por Diferentes Gêneros Unidade IX – Texto Descritivo e Tipos Textuais Objetivos da Unidade Plano de Estudos IX 162 Comunicação e Expressão No decorrer das outras unidades, aprendemos alguns tipos textuais como: injuntivo (unidade 2), poético (unidade 3), informativo (Unidade 4), narrativo (unidade 5), dissertativo (unidade 7). Nesta unidade, vamos conhecer o texto descritivo e finalizaremos com atividades que envolvam todos os tipos textuais. 9.1 Texto descritivo Quando vimos o texto narrativo, observamos que esse tipo de texto afasta- se das situações estáticas. O texto apresenta-se mais dinâmico, pois há uma sequência de ações, um desenrolar da história. Erauma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de autoestima. Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico... Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo. A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre... Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma: - Eu, hein?... nem morta! Unidade IX 163 Comunicação e Expressão O texto descritivo, ao contrário da narração, incide sobre objetos narrativamente inanimados. Os objetos das descrições funcionam, normalmente, como cenário de uma ação no devir temporal e estão destituídos da transitoriedade das ações acabadas ou em progressão, por isso, o recurso ao Pretérito Imperfeito para consolidar essa intemporalidade. Assim, a descrição é estática e sua função é estimular os sentidos de forma que o leitor crie ambiente, espaços, seres (imaginários ou reais) que não veem. O estabelecimento de elementos sensoriais resulta em efeitos como os de suspense, de surpresa, ou de integração na trama. Veja no fragmento de texto abaixo, como a descrição cria uma tensão no ambiente da história de O Gaúcho, de José de Alencar: IV A BAIA Para ter jeito de montar, afrouxou o paraguaio o laço que prendia os quartos do animal ao tronco; e ajustando as rédeas, pôs o pé na soleira do estribo. Imediatamente aos olhos dos campeiros atônitos passou uma coisa subitânea, confusa e estrepitosa; uma espécie de turbilhão para o qual só há um termo próprio. Foi uma erupção. Abolara-se a égua, como a serpente quando se enrosca para arremessar o bote. Retraiu-se o flanco sobre os quadris agachados, enquanto a tábua do pescoço arqueou dobrando a cabeça ao peito intumescido. De súbito, esse corpo que se fizera bomba, estourou. Espedaçados, voaram os arreios pelos ares e o paraguaio, arremessado pelos cascos do animal, rolava no chão.[...] Unidade IX 164 Comunicação e Expressão Observe que, na segunda parte destacada (texto descritivo), o fluxo de ações da narrativa parece parar, a fim de que o autor descreva os detalhes do animal. Veja que a parte central do texto deixou de ser o verbo para ser o adjetivo: olhar cintilante; gente reunida; suspensa; rijos cascos, longos e delgados; de cabeça levantada; orelhas finas e canutadas; pelo erriçado; cauda opulenta; corrida veloz. — Basta, disse Manuel, agora deixem a moça comigo. Tinha a baia parado a alguma distância e vibrava o olhar cintilante sobre a gente reunida então perto do alpendre. Suspensa na ponta dos rijos cascos, longos e delgados, de cabeça levantada, cruzando a ponta das orelhas finas e canutadas, com o pêlo erriçado e a cauda opulenta a espasmar-se pelos rins, parecia o animal prestes a desferir a corrida veloz. O Canho adiantou-se alguns passos, cravando o olhar na pupila brilhante da baia, ao passo que soltava dos lábios um murmurejo semelhante ao rincho débil do poldrinho recém-nascido, quando busca a teta materna. No semblante rude e enérgico do moço gaúcho se derramava um eflúvio de ternura. (ALENCAR, José de. O Gaúcho. São Paulo. Ed. Saraiva, 1971, p-30 e 31.) Unidade IX 165 Comunicação e Expressão 9.1.1 finalizando os tipos textuais Aqui chegamos ao fim dos estudos sobre os tipos textuais. Aprendemos que, de acordo com a intencionalidade do enunciador, as orientações, ideias, informações e teses são trabalhadas pela palavra, e tomando forma e características que se encaixam em algum tipo de texto. Os mais comuns são: injuntivos, informativos, poéticos, descritivos, narrativos e dissertativos (argumentativos e expositivos), cujas características relembramos no diagrama abaixo: Características dos tipos de texto: É o texto que propõe ou orienta o leitor aceca de uma informação, que procura transformar o comportamento do leitor. Uso recorrente da 2ª pessoa do singular, ou do pronome você(s) com o verbo na 3ª pessoa ou da 1ª pessoa do plural (quando o autor se inclui); emprego do imperativo, do futuro do indicativo, às vezes, do infinitivo. Injuntivo O texto que tem a intenção de transmitir uma informação sem, explicitamente, expor sua opinião. O texto informativo caracteriza-de pela linguagem clara e direta. Suas principais características são o uso de verbos no presente e /ou no tempo pretérito, adora uma linguagem objetiva e referencial; o uso de artifícios que enriquecerão a informação como abreviações, indicações numéricas, gráficos e cifras. Informativo Unidade IX Usuario Manuscrito Usuario Manuscrito 166 Comunicação e Expressão De acordo com Maia (1996), no texto poético o objetivo será a própria mensagem e a sua construção: a mensagem poética está centrada em si mesma. O texto poético valoriza sons, ritmos e a polissemia. Poético Relato de ocorrências que se sucedem. Relato de transformações ocorridas a partir de um conflito. Elementos constitutivos: a) foco narrativo; b) tipos de discurso; c) conflito; d) personagens; e) enredo; f) tempo; g) espaço. Linguagem narrativa: predomínio dos verbos de ação. Eixo progressivo: percurso em que são registradas as transformações. A NARRAÇÃO É DINÂMICA COMO UM FILME. Narrativo Registro de ocorrências concomitantes. Criação com palavras, da imagem de um objeto. Linguagem descritiva: a) predomínio de verbos de estado e frases nominais. b) substantivos responsáveis pela designação dos traços do objeto. c)adjetivos (locuções ajetivas) d) recursos de estilos mais utilizados: metáfora, comparação, metonímia, sinestesia. É um recurso narrativo empregado na caracterização de personagens e de espaço. A DESCRIÇÃO É ESTÁTICA COMO UMA FOTOGRAFIA. Descritivo Unidade IX 167 Comunicação e Expressão Visto tudo que aprendemos até agora, realize a atividade abaixo adaptada da obra de Fiorin e Savioli (2003): A – No âmbito da cultura brasileira, a Rua e a Casa ocupam lugares nitidamente distintos, que por sua vez, condicionam comportamentos francamente diferenciados: o que se faz na rua, não se faz em casa e vice-versa. Se a Casa é o espaço do aconchego e da proteção, a Rua é o do desamparo e do abandono. “Sentir-se em casa” é uma expressão da nossa língua que significa “estar à vontade”, “sentir-se abrigado, protegido”; ao contrário “ir para o olho da rua” denota desamparo social, exposição ao risco, solidão”. A Rua é o espaço da transgressão, onde vivem os malandros e marginais; é o território do salve-se quem puder, onde prevalece a lei do cada um por si. Procura convencer, apresentar e defender uma tese, um ponto de vista. Quando polêmico, tomar partido contra ou a favor de uma pessoa, ou instituição e suas ideias. A linguagem deste texto tem o predomínio do presente do indicativo e/ou pretérito, desenvolve ideias e argumentos. Dissertativo Os três textos que se seguem são exemplos de três tipos de texto, a narração, a descrição e a dissertação, leia-os com atenção classifique-os de acordo com o tipopredominante e explique a classificação dada. Unidade IX 168 Comunicação e Expressão Domínio do anonimato e a despersonalização, é na Rua que um cidadão de bem pode ser molestado por autoridades de segurança pública e tratado como um criminoso. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ B – Aos 100 anos, a Avenida Paulista permanece uma janela aberta para a modernidade. Seus 2,6km de extensão (ou 3818 passos), são percorridos diariamente por 1 milhão de pessoas, em sua maioria mulheres, como releva a pesquisa da companhia que mantém o metrô correndo sob seu asfalto. A Paulista fala 12 línguas, em 18 consulados ali instalados. Ao lado de poucos casarões do passado ela abriga edifícios “inteligentes” e torres de rádio e TV iluminadas como um marco futurista. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ C – No início do século, a Paulista era a avenida mais espaçosa da cidade, com três pistas separadas para bondes, carruagens e cavaleiros. Era a mais bela, com quatro fileiras de magnólias e plátonos. Era um fim-de-mundo no final da Ladeira da Consolação. Lá residiam os imigrantes recém-enriquecidos: Martinelle, Crespi, Matarazzo, Riskalah, Von Bullow. Após isso, aí pelos anos 50 e 60, o acelerado processo de urbanização da cidade varreu dali os 24 casarões como o que ocupava o número 46 da avenida. No seu lugar, surgiram prédios, alguns deles enquadrados entre os mais modernos do mundo, como o Citi Bank e o Banco Sudameris. Unidade IX 169 Comunicação e Expressão Já completamente ladeada de prédios de porte, foi a recente inauguração do metrô que lhe conferiu novo charme. Com todos esses antecedentes, ela é hoje, apesar das contradições, a avenida mais moderna, mais dinâmica, mais nervosa da cidade, eleita pelos próprios moradores como mais fiel retrato de São Paulo. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 2) (FUVEST) Filosofia dos epitáfios Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar a morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos.(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas) Do ponto de vista da composição, é correto afirmar que o capítulo “Filosofia dos epitáfios”: Unidade IX 170 Comunicação e Expressão Vamos conferir nossas respostas? Quaisquer dúvidas não deixe de comunicar seu professor(a), ok?! Questão 1 Texto A – Classificação: Trata-se de um texto predominantemente dissertativo. Justificativa: Este primeiro texto é uma dissertação. A peculiaridade deste texto, e que o difere dos textos B e C, é que não se trata de episódios concretos e particularizados, mas de análises e interpretações genéricas, válidas para fundamentar a opinião do autor de que a Casa é lugar de aconchego e a Rua lugar de desamparo. a) É predominantemente dissertativo, servindo os dados do enredo e dos ambientes como fundo para divagação. b) É predominantemente descritivo, com a suspensão do curso da história dando lugar à construção do cenário. c) Equilibra em harmonia narração e descrição à medida que faz avançar a história e cria o cenário de sua ambientação. d) É predominantemente narrativo, visto que o narrador evoca os acontecimentos que marcaram a sua saída. e) Equilibra narração e dissertação, com o uso do discurso indireto para registrar as impressões que o ambiente provoca no narrador. Unidade IX 171 Comunicação e Expressão Podemos observar que as opiniões e interpretações sobre a Rua e a Casa são dadas de maneira aberta, por meio de ideias pessoais (“A Casa é o espaço do aconchego”; “A Rua é o espaço da transgressão”; “A Rua é o domínio do anonimato”). As relações entre os termos do discurso, na dissertação, obedecem a progressão da linha de raciocínio e não cronológica. Em outras palavras, um enunciado é anterior a outro não do ponto de vista da progressão do tempo, mas do ponto de vista da sua construção lógica. Texto B – Classificação: Trata-se de um texto predominantemente descritivo. Justificativa: Trata-se da enumeração das características da Avenida Paulista, uma das muitas ruas da cidade de São Paulo. Observe atentamente que todos os dados e acontecimentos descritos são estáticos e, portanto, acontecem simultaneamente. Não havendo progressão temporal, do ponto de vista do enunciador. O tempo verbal usado é o presente, que, ao lado do imperfeito, é típico dos textos descritivos. Como não há fatos que se sucedem, a ordem dos enunciados pode ser alterada, sem que isto altere o sentido básico do discurso do autor. Se você lesse este texto em outra ordem ainda sim teria o mesmo significado, veja: A Paulista fala 12 línguas, em 18 consulados ali instalados. Ao lado de poucos casarões do passado, ela abriga edifícios “inteligentes” e torres de rádio e TV iluminadas como um marco futurista. Seus 2,6 km de extensão (ou 3818 passos) são percorridos diariamente por 1 milhão de pessoas, em sua maioria mulheres, como revela a pesquisa da companhia que mantém o metrô correndo sob seu asfalto. Unidade IX 172 Comunicação e Expressão Aos 100 anos, a avenida Paulista permanece uma janela para a modernidade. Texto C – Classificação: Trata-se de um texto predominantemente narrativo. Justificativa: O texto começa como uma descrição. Da linha 1 a 9, o autor enumera de forma estática as características da Avenida Paulista do início do século XX. Mas da linha 9 em diante, o texto avança no tempo, e evidencia a transformação da Avenida Paulista em meados do século XX. Neste momento o texto deixa o caráter descritivo e assume uma postura narrativa, já que relatar mudanças cronológicas é uma característica essencialmente narrativa. Veja que os episódios e acontecimentos contados pelo narrador não são estáticos, mas dinâmicos como um filme. A construção dos prédios e posterior à destruição dos casarões; e o metrô vem depois da edificação dos prédios. Não podemos alterar a ordem dos enunciados sem modificar o sentido do texto. Questão 2 Resposta correta letra “A”. Agora, para finalizar esta unidade, vamos relacionar nosso aprendizado sobre os tipos textuais com o gênero textual “relatório”. Gênero textual: Relatório É um gênero em que são expostos resultados e conclusões de uma pesquisa, um trabalho ou uma observação. É conhecido por sua seriedade e objetividade. Por ocorrer em âmbito profissional ou acadêmico, a linguagem é formal e técnica. A impessoalidade vai depender da natureza do relatório. Unidade IX 173 Comunicação e Expressão O relatório é um gênero que apresenta composição textual muito variada. Existem o relatório técnico, administrativo, científico, policial, de viagem, de estágio... Dentro de áreas específicas, esse gênero tambémpode tomar um formato particular. Portanto, sempre que você tiver que produzir um relatório, procure averiguar o formato normalmente utilizado para aquele fim específico. Lembre-se que, como todo texto, ele precisa ter, mesmo que de forma sucinta, introdução (contextualização do tema e apresentação dos objetivos do relatório), desenvolvimento (apresentação dos dados) e conclusão (fechamento das ideias). O relatório, a depender de seu objetivo comunicativo, também pode conter diferentes tipos textuais. O exemplo abaixo é um relatório estudantil de visita externa, com texto narrativo: Chegando ao Mosteiro Zen Morro da Vargem, paramos na estrada do mosteiro, nas margens da rodovia, para observar o portal, as estátuas dos budas meditando e o jardim zen. Após isso, fomos ao morro que permite o acesso ao mosteiro. Tivemos que fazer uma longa caminhada até chegarmos. Foi possível observar a rica flora do local, com paisagens de tirar o fôlego. Ao chegar ao topo do morro, fomos recepcionados pelo Fábio, um professor do mosteiro. Ele nos apresentou alguns pontos do mosteiro, depois deu uma palestra sobre a história do local. (...) Disponível em: http://www.docsity.com/pt/relatorio-visita-tecnica/636925/ No exemplo acima, o objetivo do relatório era narrar o dia de visita de estudantes de Ensino Médio a um mosteiro. Dessa forma, o detalhamento mais subjetivo é aceito, pois trata-se de uma observação menos técnica do local. São adolescentes contando a própria experiência. Em nossa vida profissional, também podemos escrever um relatório narrativo sobre um determinado dia de trabalho. Nesse caso, a escolha de informações será mais objetiva e técnica (menos pessoal) e direcionadas ao gestor ou funcionário que lerá o texto. Viu como é importante analisar o perfil de nosso receptor para escolher o tipo e o estilo da linguagem? Unidade IX http://www.docsity.com/pt/relatorio-visita-tecnica/636925/ 174 Comunicação e Expressão Talvez o tipo textual mais presente em um relatório seja o informativo, já que o objetivo do gênero é apresentar resultados. É possível apresentar os dados em forma de gráficos, organogramas, tabelas ou, como no exemplo abaixo, em planilhas: Figura 01 – Início do Relatório Geral de Atividades (TCU) Fonte: http://portal.tcu.gov.br/publicacoes-institucionais/relatorios/relatorios-de-atividades/ Também pode haver uso de texto informativo em prosa: A produção de cobre em Voisey’s Bay alcançou 5.600 t no 3T16, ficando 22,9% abaixo do 2T16 e 28,1% abaixo do 3T15. Voisey’s Bay realizou sua parada planejada de manutenção anual em julho de 2016, enquanto no ano anterior a manutenção foi realizada no 2T15. A produção de Unidade IX http://portal.tcu.gov.br/publicacoes-institucionais/relatorios/relatorios-de-atividades/ 175 Comunicação e Expressão cobre é afetada mais diretamente pelas paradas de manutenção se comparada ao níquel, pois é imediatamente vendida ao mercado como concentrado de cobre, enquanto a produção de níquel é processada posteriormente e, por isso, os níveis de estoque em etapas de beneficiamento subsequentes na cadeia suavizam o impacto de interrupções na produção. Relatório de Produção da Vale em 3T16. Disponível em: http://www.vale.com/brasil/pt/aboutvale/reports/paginas/default.aspx É importante observar que podem existir textos híbridos, em que diferentes tipos textuais se misturam no mesmo texto. O relatório pode também conter ainda passagens dissertativas (mais expositivas do que argumentativas), quando o emissor analisa os dados e expõe suas conclusões: Os resultados experimentais relatados neste trabalho estão em plena concordância com a hipótese formulada. A corrente elétrica medida decresce exponencialmente com o tempo conforme prevê a teoria, isto é, não encontramos discordância entre os resultados encontrados e aqueles previstos pela teoria existente. Como esta é uma atividade simples e com resultados bastante coerentes, ela pode ser executada em quaisquer ambientes desde que se possuam os componentes elétricos necessários à pesquisa. Convém deixar claro, entretanto, que ela pode ser melhor explorada, com mais precisão dos resultados, dependendo dos objetivos a que se destina. E isso é perfeitamente natural, pois o conhecimento científico está em constante evolução e as necessidades da humanidade se tornam cada vez mais exigentes. Relatório de pesquisa – Carga e descarge de capacitores. Disponível em: http://www.ifsc.edu.br/modelo-de-relatorio Unidade IX http://www.vale.com/brasil/pt/aboutvale/reports/paginas/default.aspx http://www.ifsc.edu.br/modelo-de-relatorio 176 Comunicação e Expressão É natural que não haja nem o texto poético nem o injuntivo no relatório. O primeiro, porque o texto do relatório tende a ser mais denotativo, ou seja, as palavras são utilizadas no sentido mais referencial, de preferência que não possibilite múltiplas interpretações, para que haja, assim, clareza nas informações passadas. Também não costuma ocorrer texto injuntivo no relatório devido a sua própria natureza, o texto é criado como forma de “prestação de contas”, como relatos de experiências ou fatos e não é comum que haja ordens ou pedidos diretos ao receptor nesse gênero. Unidade IX 177 Comunicação e Expressão Compreender as especificidades do hipertexto e o seu modo de construção. Compreender o contexto sociocultural no qual emerge o hipertexto. Conhecer novas formas de organização no espaço textual. Ciclo 05 Atividade: Fórum Título: Comunicando por Diferentes Gêneros Unidade X – Novos Gêneros Textuais Objetivos da Unidade Plano de Estudos X 178 Comunicação e Expressão Você já reparou que, com fácil acesso à internet e a democratização do uso dos aparelhos celulares, nossa vida mudou consideravelmente? A todo momento estamos em contato com informações novas, a qualquer momento podemos conversar com outras pessoas, mesmo que estejam espacialmente distantes. Toda essa revolução também influenciou na nossa forma de comunicação, na leitura e novos gêneros textuais foram surgindo. Nesta unidade, falaremos sobre a ideia de hipertexto, sobre os gêneros textuais da contemporaneidade e finalizaremos com um estudo de caso como forma de revisão do conteúdo de toda a disciplina. Vamos lá? 10.1 Texto e hipertexto Para iniciarmos, gostaria que você procurasse na WIKIPÉDIA a explicação sobre o termo “hipertexto”. Leia os três primeiros parágrafos que estão disponíveis na página. Você reparou que você, enquanto leitor, poderia escolher seguir uma leitura linear – do primeiro parágrafo até o último – ou então poderia escolher clicar nas palavras em azul (hiperliks, links, 1960, Roland Barthes, sistema, World Wide Web) para ter o detalhamento sobre cada conceito? Observou que o texto principal sobre “hipertexto” está ligado a esses outros textos? Essa é a ideia de “hipertexto”! Tecnicamente, o hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, imagens, gráficos ou partes de gráfico, sequências sonoras e/ou documentos complexos que podem ser eles mesmos hipertextos. Muitos autores, como Braga (1999), afirmam que os tipos de hipertexto existentes hoje expandem, na realidade, possibilidades já exploradas pela escrita convencional, além de integrarem em um único canal outros tipos de linguagem que coexistem na sociedade industrial moderna. O texto acadêmico, por exemplo, seria construído numa perspectiva hipertextual, pois o texto-base traz referências textuais e comentários de outros autores, seja no corpo do texto ou nas notas. É a Unidade X 179 Comunicação e Expressão ideia da polifonia e intertextualidade,não é mesmo? Porém, a tecnologia potencializaria esse efeito. Caros alunos, leiam com atenção o trecho abaixo, de Marcos Silva Palacios, e reflitam: (...) O que percebemos imediatamente é que para um leitor não familiarizado com o funcionamento de um Hipertexto, seja ele ficcional ou não, a questão do Fechamento é posta imediatamente como um problema. Como se chega ao fim desta história ou deste site? A expectativa de um fim, advém, é claro, de nossa experiência com a narrativa tradicional (seja numa narração oral, num texto, numa peça teatral, num filme...). Desde crianças ficamos na expectativa do "fechamento" das histórias que nos são contadas: "... então o caçador chegou, matou o lobo, abriu a barriga dele e a vovó saiu de lá de dentro e Chapeuzinho voltou para casa e prometeu nunca mais desobedecer à mamãe..." ou "...então o Príncipe beijou Branca de Neve e ela despertou de seu sono e a Bruxa Malvada teve o castigo merecido caindo no abismo e sendo comida pelos abutres, etc, etc, etc..." Caro aluno, você concorda com isso? Acha que todos os textos seriam, na realidade, hipertextos? Qual seria a diferença entre TEXTO E HIPERTEXTO? Unidade X 180 Comunicação e Expressão Algo semelhante sucede conosco com relação à música: desde que nascemos ouvimos cantigas de ninar, que são tonais. Não é de se espantar que nossos ouvidos tenham dificuldades quando nos confrontamos, por primeira vez, com composições musicais atonais. Temos que ser "educados" para esse tipo de música que soa "estranha" e "pouco musical" a nossos ouvidos tonalmente afinados. A Poética de Aristóteles (350 a.C.) já determinava claramente que uma Narrativa deve ter Início, Meio e Fim... Uma narrativa tradicional, ou seja, não hipertextual, independentemente de que suporte esteja sendo usado, chega sempre a um fim, ou porque chegamos à última página do livro (mesmo que a "última" não seja fisicamente a última, como no caso de Jogo de Amarelinha de Cortazar, ou até mesmo que não haja “última página”, como no caso de Composition numéro 1, de Marc Saporta, onde o leitor tem que decidir quando encerrar aquela leitura). O mesmo se pode afirmar com relação a produções cinematográficas que pretendem experimentar com a não-linearidade, como A Estrada Perdida (The Lost Highway) de David Lynch (1996) e Prospero´s Book (A Última Tempestade), de Peter Greenaway (1991). Em seu filme, Greenway experimenta com o recurso de "telas dentro de telas" para criar novos efeitos, superpondo vários "tempos narrativos". No entanto, queira-se ou não, eventualmente chegamos a um “fechamento”, representado pela projeção do último fotograma no processo de projeção do filme. Unidade X 181 Comunicação e Expressão Com o Hipertexto, o Fechamento não se dá, ou pelo menos não se dá da forma à qual estamos habituados (...) PALACIOS, Marcos Silva. Hipertexto, Fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva. Lugar Comum, Rio de Janeiro, n. 08, p. 111-121, 1999. Na definição do professor Marcuschi (1999): O hipertexto não é um gênero textual nem um simples suporte de gêneros diversos, mas é como um tipo de escritura. É uma forma de organização cognitiva e referencial cujos princípios constituem um conjunto de possibilidades estruturais que caracterizam ações e decisões cognitivas baseadas em (séries de) referenciações não contínuas e não progressivas. Considerando que a linearidade lingüística sempre constituiu um princípio básico da teorização (formal ou funcional) da língua, o hipertexto rompe esse padrão em alguns níveis. Nele, não se observa uma ordem de construção, mas possibilidades de construção textual plurinearizada (grifos do autor) (Marcuschi ,1999, p. 21). O que acha das palavras do autor sobre a questão de estarmos acostumados com narrativas “fechadas”? Já aconteceu algo assim com você? No final de um filme ou um livro se sentir frustrado por aquela história não ter fim? Será que isso realmente nos influencia quanto ao hipertexto? Será que causa dificuldades quanto à aceitação da natureza do hipertexto? PENSE COM CUIDADO SOBRE AS QUESTÕES ACIMA! Unidade X 182 Comunicação e Expressão Segundo Dias (2000), pensar ou refletir sobre o hipertexto supõe contextualizá-lo, situá-lo no cenário contemporâneo do qual faz parte e em que atua. Temos hoje plena consciência de que a sociedade é regida por novos comandos, por uma tecnociência computadorizada que invade nosso espaço pessoal substituindo livros por microcomputadores e, assistindo a tudo isso, não sabemos onde vamos aportar. Ora, falar ou escrever sobre o mundo contemporâneo é verificar que, ao lado de um progresso material impressionante de descobertas e inovações tecnológicas a que alguns chegam a atribuir poderes quase mágicos, grande parte da população do globo permanece no mais completo estado de subdesenvolvimento e abandono. Vivemos um verdadeiro paradoxo!!! Assim, caro aluno, percebemos, juntamente com Levy (1997), que novas maneiras de pensar e conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. As relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, visão, audição, criação, aprendizagem são capturados por uma informática cada vez mais avançada. Não se pode mais conceber a pesquisa científica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões entre experiência e teoria. Emerge, neste final do século XX, um conhecimento por simulação que os epistemologistas ainda não inventariaram. 10.2 Novos gêneros textuais Quando novas tecnologias são introduzidas, a sociedade se modifica. Com o advento da internet e sua popularização, novos formas e situações comunicativas apareceram. Nós, como bons comunicadores, precisamos observar esse contexto. A primeira questão é que a palavra escrita está sendo amplamente utilizada no cotidiano das pessoas. Se observarmos, há 20 anos um indivíduo se manifestava muito pouco por meio da escrita. Com exceção de algumas cartas (poucas, em decorrência da demora da entrega pelo correio), bilhetes e textos curtos, Unidade X 183 Comunicação e Expressão raramente escrevíamos de forma espontânea para nossos conhecidos. A produção textual ficava mais restrita ao ambiente escolar ou profissional, não é mesmo? Atualmente, as pessoas estão conectadas por meio de redes sociais e aplicativos e a interação dá-se sobretudo pela escrita. Assim, estamos lendo mais e também nos tornamos produtores de textos e, nas redes sociais, produtores de textos com certa audiência pública. Nós nos tornamos potenciais produtores de notícia e mobilizadores de massa. Assim, precisamos refletir sobre nossa responsabilidade enquanto produtores, se essa comunicação vai contribuir para o exercício da cidadania e não prejudicará outras pessoas. A tendência é que, no calor da recepção de determinada informação, compartilhemos informações sem verificar a procedência, a veracidade. Como bons comunicadores, precisamos considerar a fonte da informação. E precisamos considerar também que nossa comunicação pode ganhar repercussões inesperadas. Não são poucos os casos de pessoas que perderam, inclusive, o emprego por postagens inadequadas nas redes sociais. Nas redes sociais, também vemos reforçado o preconceito linguístico em decorrência de incorreções da escrita e da linguagem. Outra preocupação das pessoas com relação à escrita do português por meio da internet são as abreviações e códigos criados para a comunicação pelos chats, o famoso “internetês”: Para refletir: Muitas pessoas, após observarem postagensnas redes sociais com problemas de ortografia e norma culta, dizem que o português está cada vez mais “deteriorado”. Mas isso não decorre do fato de as pessoas escreverem mais, de termos mais contato com a comunicação escrita? Não se trata de uma prática de letramento? Para refletir: Muitas pessoas, após observarem postagens nas redes sociais com problemas de ortografia e norma culta, dizem que o português está cada vez mais “deteriorado”. Mas isso não decorre do fato de as pessoas escreverem mais, de termos mais contato com a comunicação escrita? Não se trata de uma prática de letramento? Unidade X Unidade X 184 Comunicação e Expressão Naum gosto qdo vc fica querenu ir smp pro mesmo lugar. Vamu pro shopping dessa veiz? Esse é um fenômeno que acontece em várias línguas, não só na língua portuguesa brasileira. Na época do telégrafo, também havia mensagens codificadas e nem por isso nosso português foi “prejudicado”. Se considerarmos, o que aprendemos sobre as variantes linguísticas, o internetês acaba não se tornando tão vilão assim. Veja as ponderações acerca do internetês feitas por Teixeira (2012): O uso da comunicação através da Internet acabou por desenvolver a necessidade de uma linguagem própria, que satisfizesse o universo cibernético. A rapidez do que se quer dizer, assim como, o fato de se comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo, possibilitou a criação de uma linguagem especifica que favorecesse as relações. Muitos veem essa linguagem ampla utilizada pelos usuários na Internet, como uma das formas de comunicação existentes e que deve ser reconhecida como tal. Outros consideram tal linguagem um fator de empobrecimento da gramática e da forma de comunicação. Não podemos deixar de enfatizar que a comunicação virtual é singular sendo utilizada por um grupo que instituiu uma linguagem própria. O interlocutor lança mão de vários recursos linguísticos para convencer o outro do que se quer dizer. Na verdade esse tipo de linguagem é uma forma encontrada por um grupo, de interagir uns com os outros de um modo próprio. Afinal, o real motivo da existência dessa linguagem foi o de criar abreviações que acompanhassem a velocidade do pensamento tal qual a oralidade. Assim como existem gírias, jargões profissionais, existe este linguajar típico de conversas virtuais informais. É preciso somente sabermos diferenciar as situações comunicativas e adequar a linguagem. Porém, uma coisa é certa: como a ortografia Unidade X Unidade X 185 Comunicação e Expressão é uma convenção, quando mais praticarmos a escrita ortográfica, mais “fluentes” estaremos na comunicação escrita. O discurso escrito nas redes sociais em geral costuma ser mais informal (isso não implica que não se atente para aspectos gramaticais) que os meios tradicionais. Temos, então, uma prática escrita com características mais próximas da fala cotidiana. No entanto, não podemos acreditar que toda comunicação virtual se dará informalmente. Como vimos na Unidade 6, não basta analisar somente a modalidade FALA e ESCRITA para identificar o nível de linguagem adequado, mas precisamos refletir sobre a situação comunicativa. Vejamos o caso da comunicação por meio de gênero e-mail: Antes de escrevemos um e-mail, além das características acima listadas, precisamos escolher a linguagem adequada. Em contextos profissionais e acadêmicos, como é o caso do correio do ambiente virtual, prefira uma linguagem mais formal. Essa escolha também será influenciada pelo ambiente em que você está inserido. Por exemplo, se você trabalhar em uma agência de publicidade, Gênero textual: E-mail É uma mensagem eletrônica escrita e assíncrona, enviada pela internet. Seu formato assemelha muito ao da carta, mas o texto é mais breve e objetivo. Composição textual padrão: - saudação inicial - corpo da mensagem - fechamento ou despedida - assinatura Estudo de CasoGênero textual: E-mail É uma mensagem eletrônica escrita e assíncrona, enviada pela internet. Seu formato assemelha muito ao da carta, mas o texto é mais breve e objetivo. Composição textual padrão: - saudação inicial - corpo da mensagem Unidade X Unidade X 186 Comunicação e Expressão normalmente a comunicação entre os profissionais tende a ser mais descontraída. Esse clima mais informal também pode acontecer em ambiente acadêmico, caso você crie laços mais próximos com seu tutor ou professor. Cabe a nós, enquanto comunicadores, observar a comunicação já existente e dosar essa formalidade. Outra questão que precisamos considerar é que se trata de uma comunicação assíncrona entre emissor e receptor, ou seja, a emissão não ocorre simultaneamente à recepção da mensagem. Então, é necessário que emissor contextualize mais o assunto, tente ser o mais claro possível para não gerar confusão. Em um primeiro contato por e-mail, é sempre interessante se apresentar. Além disso, pela escrita, não temos recursos da oralidade como entonação, ritmo da voz. Isso pode causar problemas comunicativos. Seu receptor pode entender, por exemplo, que você está bravo quando você simplesmente fez uma afirmação. Então, é preciso escolher bem as palavras, sempre pensando na cortesia. É preciso se atentar também para o fato de que a comunicação por e-mail normalmente é considerada pelas empresas como documentação e comprovação de decisões, fatos, ações. O que se escreve tem um peso maior do que se fala. Daí a importância de se refletir bem antes de enviar uma mensagem e sempre revisar seu texto. Assim como na nossa vida social, na comunicação virtual precisamos seguir regras de “etiqueta” para convivermos bem. Precisamos nos atentar para as seguintes tradições: EVITE ESCREVER SEU TEXTO COM TODAS AS LETRAS EM MAIÚSCULAS. PODE DAR A ENTENDER QUE VOCÊ ESTÁ GRITANDO COM SEU INTERLOCUTOR. Não use recursos em excesso. Evite a cor amarela, pois pode causar problema de legibilidade. Unidade X Unidade X 187 Comunicação e Expressão Para quem está acostumado com a formatação tradicional , a digitação mal feita incomoda. Lembre-se: dê somente um espaço entre as palavras. A pontuação fica sempre grudada na palavra anterior e separada com um espaço da seguinte. Em contexto formal, utilize emoticons com moderação. Nos bate-papos, costumamos utilizar muito kkkkkk, rsrs, ahuahua...Se necessário utilizar o tom descontraído em uma comunicação formal para evitar mal entendido, prefira a expressão (risos). No e-mail, não se esqueça da assinatura. Somente o endereço de e-mail não é suficiente. Escolha bem o campo “assunto” do e-mail, coloque palavras-chave que resumam o propósito da comunicação. Evite escrever “urgente” sem necessidade. O gênero e-mail veio com o advento da internet e, nos dias atuais, parece ter suas características particulares bem estáveis. Então, é preciso sempre ficar atento a elas para uma comunicação eficiente. A internet também trouxe gêneros novos. Vamos conhecer alguns? Site: coleção de arquivos Web sobre um determinado assunto, que pode conter uma ou mais páginas. É muito utilizado por empresas para oferta de produtos e serviços. Blog: coleção de arquivos Web de cunho pessoal, para registro e arquivo de impressões pessoas, hobbies, paixões. Pode ser considerado um diário moderno. Vlog: abreviatura de “videoblog”, um tipo de blog cujos conteúdos principais são vídeos. O vlogger ou vlogueiro, normalmente em um enquadramento muito próximo à câmera, filma a própria fala, que normalmente é mais espontânea e Unidade X Unidade X 188 Comunicação e Expressão descontraída. São abordados os mais diversos assuntos, sejam eles pessoais ou profissionais. Ciberpoema: textos resultantesde novas experimentações poéticas, explorando a tecnologia digital (animação, som..) e a interatividade. Exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=O8csp1L1ns8 Meme: texto verbal, visual (estático ou em animação) ou sonoro relacionado ao humor que se espalha com grande repercussão via internet. Post (ou postagem): texto publicado em blogs e redes sociais. Tem extensão e nível de formalidade variado. Pode ou não conter emoticons. Viu como não podemos listar um número fechado de gêneros textuais? À medida em que o tempo vai passando e a sociedade se modificando, alguns gêneros vão caindo em desuso e novos vão surgindo. Cabe a nós investigarmos e observarmos as características básicas de um gênero a priori desconhecido para que a comunicação seja sempre adequada. Unidade X Unidade X https://www.youtube.com/watch?v=O8csp1L1ns8 189 Comunicação e Expressão Nesta etapa final da disciplina, vamos fazer um estudo de caso. Tente resgatar todo o seu conhecimento aprendido na disciplina, ok? É interessante que escreva, em um papel ou no seu computador, toda a análise, para possa aperfeiçoar sua escrita e argumentação. Marina Andrade trabalha como gerente de relacionamento no banco América, um banco tradicional do Brasil. O país enfrenta uma grave crise financeira e econômica, o que tem refletido nas decisões administrativas tomadas pelo banco. Recentemente, foi abolida uma série de benefícios de clientes, como a isenção de taxas. Uma parte dos correntistas teve a taxa mensal de manutenção da conta elevada em 50%. Em um dia de trabalho, Marina, recebe o seguinte e-mail: Estudo de Caso Refrência BibliográficaEstudo de Caso 190 Comunicação e Expressão Considerando o caso relatado acima, analise detalhadamente a comunicação da cliente Paula e da gerente de relacionamento Marina. Abaixo estão algumas questões norteadoras para análise. Responda-as separadamente para cada situação comunicativa. Você nãoprecisa necessariamente responder na ordem das questões. Organize as informações em seu texto, para que ele fique coeso e coerente. - Quais foram os objetivos comunicativos da emissora? - A forma de comunicação pelo gênero e-mail foi a mais adequada para esse objetivo comunicativo? - Considerando os objetivos comunicativos da emissora, a mensagem pode ser considerada eficiente e eficaz? Por quê? Marina escreve um e-mail de resposta: Estudo de Caso Estudo de Caso 191 Comunicação e Expressão - Considerando todas as características que vimos do gênero e-mail, a mensagem escrita enquadra-se adequadamente no gênero? Por quê? Detalhe sua análise. - A mensagem foi escrita em um nível de linguagem adequado? Por quê? Detalhe sua análise. No caso da situação 2, reflita sobre a comunicação que normalmente ocorre entre cliente e banco. - Qual é o tipo textual (narrativo, informativo, descritivo, injuntivo, dissertativo, poético) predominante na mensagem? - A mensagem apresenta inadequações de escrita (gramática, ortografia, digitação)? Se sim, quais? Estudo de Caso Estudo de Caso 192 Comunicação e Expressão BRAGA, Denise B. A constituição híbrida da escrita na internet: a linguagem nas salas de bate-papo e na construção dos hipertextos. In Leitura: TEORIA & PRATICA – REVISTA SEMANAL DA ASSOCIAÇÃO DE LEITURA DO BRASIL, ano 18 Dez/1999, N 34. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997. CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização & Linguística. São Paulo: Scipione, 2006. CEREJA, Willian, COCHAR, Thereza, CLETO, Ciley. Interpretação de textos. São Paulo: Atual, 2009 DIAS, Maria H. Pereira. Hipertexto - o labirinto eletrônico - uma experiência hipertextual, 2000. Tese. Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Capinas – SP. DJIK, Teun Adrianus van. Cognição discurso e interação. São Paulo: Contexto, 1992. DREYER, D. A brincadeira não tem graça. Disponível em: http://www.educacional.com.br/reportagens/bullying/ FARACO, Carlos Alberto. MOURA, Francisco Marto. Língua e Literatura. 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