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BIOLOGIA CELULAR Maria Carolina Vieira da Rocha M aria Carolina Vieira da Rocha BIOLOGIA CELULAR Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6638-4 9 788538 766384 Código Logístico I000389 Biologia Celular Maria Carolina Vieira da Rocha IESDE BRASIL 2021 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ R574b Rocha, Maria Carolina Vieira da Biologia celular / Maria Carolina Vieira da Rocha. - 1. ed. - Curitiba [PR] : Iesde, 2021. 118 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6638-4 1. Citologia. 2. Biologia molecular. I. Título. CDD: 571.6 21-74827 CDD: 57.6 CDU: 576 Maria Carolina Vieira da Rocha Doutora e mestre em Engenharia de Recursos Hídricos e Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Perícia Criminal pela Faculdade de Ciências Gerenciais da Bahia. Graduada em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia pela UFPR e em Ciências Biológicas pela Universidade Positivo (UP). Professora adjunta e coordenadora dos cursos de Engenharia Ambiental e Engenharia de Produção. Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Recursos Hídricos e Ambiental na Universidade Federal do Paraná (PPGERHA/UFPR). Atua nas áreas de microbiologia e parasitologia ambiental, biologia molecular aplicada ao saneamento, genética de microrganismos, genética forense, tecnologias ambientais, sistemas de tratamento de efluentes, lodos e resíduos sólidos, toxicologia ambiental e biossegurança. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Origem e evolução celular 9 1.1 Origem celular 9 1.2 Tipos celulares 16 1.3 Evolução e especializações celulares 23 2 Tecnologias de análise celular 28 2.1 Tecnologias de pesquisa celular 28 2.2 Microscopia 33 2.3 Identificação de marcadores celulares por imunocitoquímica 44 3 Macromoléculas celulares 49 3.1 Macromoléculas celulares – lipídios e carboidratos 49 3.2 Proteínas 60 3.3 Ácidos nucleicos 64 4 Metabolismo e divisão celular 69 4.1 Geração de energia 69 4.2 Mitocôndrias e cloroplastos 82 4.3 Divisão celular 89 5 Movimentação e comunicação celulares 96 5.1 Movimentação celular 97 5.2 Cílios e flagelos 104 5.3 Comunicação celular química 107 Resolução das atividades 114 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! As primeiras formas de vida surgiram há cerca de 3,8 bilhões de anos e, desde então, elas têm evoluído incessantemente. Cada célula, desde um simples microrganismo até o complexo neurônio humano, apresenta uma infinidade de processos metabólicos, coordenados de maneira primorosa pelo maquinário celular. Na célula também se encerra uma vastidão de informações e processos que ainda não temos conhecimento. É aí que entra a Biologia Celular, ciência que estuda detalhadamente cada sistema e compartimento das células, procurando desvendar os segredos e responder às dúvidas que ainda existem nessas pequenas – e maravilhosas – unidades básicas da vida. Por conta disso, esta obra tem como objetivo apresentar os principais aspectos relacionados às células procariontes e eucariontes, abordando sua morfologia, estrutura, metabolismo, divisão, locomoção e comunicação. Iniciamos, no Capítulo 1, discutindo sobre o princípio da vida no planeta, as hipóteses do surgimento das primeiras células e o desenvolvimento dos organismos pluricelulares. Também nos debruçamos sobre as características das células procariontes e eucariontes – classificação celular mais utilizada em termos de estrutura e configuração celular. No Capítulo 2, abordamos as principais técnicas utilizadas para a investigação analítica das células: citometria de fluxo, microscopia óptica e eletrônica e imunocitoquímica. No Capítulo 3, discutimos sobre as principais macromoléculas de importância celular – lipídios, polissacarídeos, proteínas e ácidos nucleicos – abordando sua composição, sua estrutura e suas funções. Por sua vez, no Capítulo 4, trazemos um panorama sobre o metabolismo celular, apresentando quatro vias de geração de energia: a glicólise, a fermentação, o ciclo do ácido cítrico e a fosforilação oxidativa. Ainda nesse capítulo, abordamos a divisão celular, mitótica e meiótica, discutindo suas diferenças e mecanismos que garantem a propagação das células e a sua variabilidade genética. APRESENTAÇÃOVídeo 8 Biologia Celular Por fim, no Capítulo 5, abordamos a composição, organização e funções do citoesqueleto, sistema que assegura a estrutura e formato celular, além de promover o transporte de organelas e moléculas no interior das células. Nesse capítulo, também nos debruçamos sobre as estruturas de locomoção celular – cílios e flagelos – e os mecanismos de sinalização e comunicação entre células. Portanto, esperamos que essa obra possa contribuir com o desenvolvimento do conhecimento na área, despertando o interesse de estudantes e pesquisadores no estudo das células e de seus mecanismos de manutenção e sobrevivência. Apenas com a educação e a pesquisa poderemos garantir um futuro mais promissor e com mais qualidade de vida a essa e às futuras gerações. Origem e evolução celular 9 1 Origem e evolução celular Você sabe o que é um ser vivo? Essa pergunta parece inusitada, con- siderando que estamos cercados de vida, em suas mais diversas formas. Entretanto, por mais óbvio que possa parecer, essa definição é na verda- de bastante subjetiva. Isso porque os organismos vivos, e seus fantásticos processos bioquímicos, encontram-se em constante evolução, e precisa- mos acompanhar essas mudanças para definirmos o que chamamos de vida. Para contornar essa aparente subjetividade, os cientistas não defen- dem a existência de um conceito definitivo para o termo, e sim a presença de certos atributos capazes de caracterizar um ser vivo, como a capacida- de de reprodução, a transmissão de informações genéticas aos descen- dentes, a presença de metabolismo e a habilidade de evoluir diante de estímulos do ambiente. Entretanto, apesar de essenciais aos organismos de hoje, esses atri- butos nem sempre estiveram presentes, e as primeiras células evoluíram gradativamente até chegarem à complexa configuração que conhecemos atualmente. E como teria sido essa primeira forma de vida? Essa é uma questão que levanta diversas teorias e que permanece ainda uma incógnita no meio científico. Neste capítulo, veremos algumas das teorias sobre a origem da vida, debatendo os prováveis caminhos evolutivos seguidos pelos nossos ances- trais mais primitivos. Também nos debruçaremos sobre os tipos celulares – procariotos e eucariotos – e suas características. Por fim, abordaremos as especializações celulares, mecanismos evolutivos que contribuíram para a disseminação da vida em todos os compartimentos do planeta. 1.1 Origem celular Vídeo Estima-se que as primeiras formas de vidatenham surgido há 3,8 bilhões de anos. Considerando que a Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos, foram necessários aproximadamente 700 milhões de anos para que ela oferecesse as condições adequadas para o surgimento da pri- meira célula (COOPER, 2019). 10 Biologia Celular Figura 1 Linha do tempo da evolução da vida na Terra ar te m _m or te m /S hu tte rs to ck Sol inflama Big Bang Terra Procariotos (células sem núcleo) Eucariotos (células com núcleo) Oxigênio atmosférico Bactéria Protozoários Esponjas e fungos Corais Peixes Águas-vivas Miríapodes Crustáceos Aracnídeos Equinodermos Vermes Moluscos Artrópodes Tetrápodes Insetos Anfíbios Répteis Dinossauros Aves Mamíferos Flores e Abelhas Primatas AustrolopithecusAustrolopithecus Homo sapiens sapiens Bilhões de Bilhões de anos atrásanos atrás Milhões de Milhões de anos atrásanos atrás Milhares de Milhares de anos atrásanos atrás As primeiras teorias sobre a origem da vida foram propagadas na dé- cada de 1920 independentemente por dois pesquisadores: Aleksandr Ivanovich Oparin (1894-1980) e John B. S. Haldane (1892-1964). A ideia central nessas teorias era a de que as moléculas orgânicas foram for- madas na Terra primitiva por meio de reações químicas entre molécu- las inorgânicas, em um ambiente de condições extremas e favoráveis a essa síntese. A hipótese de Oparin e Haldane, como ficou conhecida essa teoria, teve grande respaldo científico e sua viabilidade foi testada em 1952, em um experimento realizado por Stanley Miller (1930-2007) e Harold Urey (1893-1981) na Universidade de Chicago. O experimento de Miller e Urey consistia em reproduzir em labora- tório as condições atmosféricas primitivas e verificar a possibilidade de geração de moléculas orgânicas por meio da combinação de alguns fato- res. Assim, os pesquisadores utilizaram uma mistura de gases – metano Compreender a origem celular e suas teorias. Objetivo de aprendizagem Origem e evolução celular 11 (CH4), amônia (NH3) e hidrogênio (H2) – selada em um recipiente de vidro estéril de 5 litros. Esse recipiente se encontrava conectado a outro, de 500 ml, que continha água, a qual era aquecida e, consequentemente, evaporava, e o vapor d’água era conduzido ao interior do frasco maior. O vapor d’água e a mistura de gases eram então bombardeados com faíscas elétricas geradas entre dois eletrodos, de modo a simular a presença de raios, comuns na atmosfera primitiva. Na sequência, o meio era resfriado novamente, e a água condensada era recolhida no fundo em U do aparato. A Figura 2 apresenta o desenho esquemático dos aparatos utilizados no experimento. Figura 2 Representação esquemática do experimento de Miller e Urey Ca rn y/ W ik im ed ia C om m on s Eletrodos Resfriamento Fonte de calor Faísca H2O, CH4, NH3, H2 CH4, NH3 H2O Entrada de gás D ire çã o de c irc ul aç ão No experimento de Miller e Urey, a mistura de gases com vapor d’água simulava a atmosfera primitiva, e a fonte de água representava os oceanos, que, conforme o aquecimento gradual do planeta, come- çaram a contribuir cada vez mais com o vapor d’água na atmosfera. Ao analisarem o conteúdo condensado no fundo do aparato, os pesquisa- dores descobriram pelo menos cinco aminoácidos: glicina, α-alanina, β-alanina, ácido aspártico e ácido α-aminobutírico. A descoberta confir- mou a viabilidade da hipótese de Oparin e Haldane de que as condições da atmosfera primitiva poderiam conduzir à formação de moléculas orgânicas no planeta (MILLER, 1953). 12 Biologia Celular Em 2007, após a morte de Stanley Miller, cientistas investigaram o conteúdo ainda selado de amostras preservadas do experimento ori- ginal e concluíram que mais de 20 aminoácidos podiam ser detectados em diferentes concentrações, o que corroborou a validade do experi- mento e, consequentemente, a hipótese de Oparin e Haldane. Atual- mente, estudos demonstram que as condições da atmosfera primitiva eram muito provavelmente distintas daquelas definidas por Miller e Urey. Entretanto, experimentos prebióticos 1 similares continuam pro- duzindo compostos orgânicos e têm mantido a veracidade da desco- berta dos pesquisadores (BADA, 2013). Apesar de válida, não podemos afirmar que a hipótese de Oparin e Haldane realmente explica o que aconteceu na Terra há mais de 3,5 bilhões de anos. Assim, outras hipóteses sobre o surgimento de molé- culas orgânicas no planeta foram desenvolvidas, com destaque para a teoria da panspermia. Nessa teoria, acredita-se que corpos celestes, como meteoros e meteoritos, possam ter caído na Terra carregando compostos orgânicos oriundos de outros lugares do Universo. A teoria da panspermia tem ganhado força e muitos adeptos, principalmente após descobertas astrofísicas que indicam a presen- ça de compostos essenciais à vida em outros planetas, como a água. Considerando que a Terra é um sistema fisicamente aberto, é bas- tante plausível a perspectiva de termos recebido muitos compostos extraplanetários durante os bilhões de anos de evolução do planeta (LIMA, 2010). Tendo sido formados pelas condições redutoras da atmosfera pri- mitiva ou trazidos de outros locais no Universo, fato é que os com- postos orgânicos foram essenciais para o surgimento da vida e para a formação das primeiras células. Acredita-se que, após a produção de uma “sopa primordial”, rica em compostos orgânicos, no planeta, estes passaram a reagir entre si, dando origem a longas cadeias orgâ- nicas – os polímeros. Para que essas reações ocorressem, duas hipóte- ses principais foram apresentadas: a polimerização por aquecimento de compostos orgânicos desidratados, e o uso de minerais – como os polifosfatos – para catalisar as reações. O surgimento de longas cadeias orgânicas poliméricas – como aque- las formadas por aminoácidos ou nucleotídeos – deve ter sido o início do que se entende como vida, quando essas cadeias passaram a rea- Refere-se à fase prebiótica na Terra primitiva, antes do surgimento das primei- ras células. 1 No filme A Árvore da Vida, as origens da vida na Terra e o seu significado são apresentados com os dilemas de uma família norte-americana na dé- cada de 1950. Com uma fotografia surpreendente, o filme discute as relações e a existência humanas, dentro da imensidão do surgimento do Universo. Direção: Terrence Malick. Estados Unidos: Cottonwood Pictures; Plan B Entertainment; River Road Entertainment, 2011. Filme Origem e evolução celular 13 lizar a autorreplicação, propagando-se no meio. Mas qual teria sido a molécula precursora, responsável por levar a efeito a replicação, man- tendo-se presente e em grande quantidade no ambiente? Muitos es- tudiosos acreditam que seja a molécula de ácido ribonucleico ou RNA. De acordo com a hipótese conhecida como mundo de RNA, essa molécula teria sido a precursora das primeiras formas de vida, devido a algumas de suas características. • Assim como o DNA, o RNA é uma molécula informacional, que carrega dados em potencial em sua sequência de nucleotídeos. • O RNA pode servir de molde para sua própria replicação, devido à sua con- formação em fita simples e ao pareamento de bases em seus nucleotídeos. • O RNA pode atuar como agente catalisa- dor de reações químicas. Hoje em dia, é sabido que as ribozimas – moléculas de RNA com capacidade catalítica similar às enzimas – são funda- mentais no processamento de diversas moléculas, inclusive do próprio RNA. A hipótese do mundo de RNA foi apresentada inicialmente em 1962, por Alexander Rich (1924-2015), sendo que Walter Gilbert (1932-) cunhou o termo em 1986. no be as ts ofi er ce /S hu tte rs to ck Molécula de RNA. Pela sua capacidade de autorreplicação e potencial de catalisar rea- ções químicas, o RNA tem sido bastante aceito como molécula central da organização celular primitiva. O fato de essa molécula ser bastante instá- vel pode ter sido contornado pela metilação 2 de suas cadeias, aumentan- do assimseu tempo de permanência no meio. Acredita-se que o passo seguinte foi sua associação com proteínas, dando origem a cadeias mais complexas, de riboproteínas. Ao longo da evolução do planeta, esse papel teria passado para o DNA, molécula mais complexa e estável. Apesar de a hipótese do RNA – ou mundo de RNA – ser bastante re- conhecida, colocando essa molécula como o primeiro sistema genético do planeta, há pesquisadores que acreditam que a replicação tenha sido levada a efeito não só pelo RNA, mas por um grupo de moléculas conectadas por reações químicas, em uma hipótese conhecida como mundo metabólico. Ligação de um grupamen- to metila na extremidade da molécula de RNA. 2 14 Biologia Celular De acordo com os defensores dessa hipótese, as interações mole- culares beneficiaram a evolução das moléculas, que em um processo sinérgico promoveram a replicação e as reações químicas necessárias à polimerização e à formação de longas cadeias orgânicas. Os pesqui- sadores do mundo metabólico defendem que o RNA deve ter sido uma das moléculas desse consórcio e que deve ter passado a controlá-lo posteriormente na evolução. Uma vez formadas as macromoléculas com capacidade de autor- replicação, o passo seguinte na evolução celular seria a sua comparti- mentalização. Isso porque não seria benéfica a sua permanência livre no meio, onde as suas reações bioquímicas poderiam ser aproveitadas por outras moléculas. Assim, a presença de fosfolipídios na sopa orgâ- nica primitiva foi fundamental para o encapsulamento dessas macro- moléculas, como o RNA, fornecendo vantagem evolutiva frente àquelas que permaneceram livres no ambiente. Fosfolipídios são moléculas anfipáticas, ou seja, apresentam uma por- ção solúvel em água (hidrofílica), denominada de cabeça fosfato, e uma porção insolúvel (hidrofóbica), definida como cauda de hidrocarbonetos. Essas moléculas apresentam a capacidade de se agregar, quando em solução aquosa, formando uma bicamada lipídica. Nesse caso, a cabe- ça fosfato permanece em contato com o meio aquoso, ao passo que as cadeias de hidrocarbonetos se mantêm internas à membrana (Figura 3). Figura 3 Membrana bilipídica formada por fosfolipídios So le il No rd ic /S hu tte rs to ck Em azul se encontra a porção hidrofílica (cabeça fosfato), e em amarelo a porção hidrofóbica (cauda de hidrocarbonetos). Origem e evolução celular 15 O encapsulamento do RNA e outras macromoléculas por uma bica- mada lipídica pode ter sido a primeira estrutura similar a uma célula na história evolutiva do planeta. As vantagens desse sistema fechado em um ambiente hostil e em constante pressão seletiva são inúmeras. A membrana rudimentar foi uma proteção fundamental contra as ad- versidades do meio externo, além de proporcionar o confinamento das atividades bioquímicas, beneficiando essas estruturas em uma prová- vel evolução darwiniana 3 . O passo seguinte na evolução celular foi o desenvolvimento do metabo- lismo energético, que acompanhou as mudanças das condições de vida no planeta (Figura 4). Em uma atmosfera ainda primitiva, a ausência de oxigê- nio promoveu as reações metabólicas que faziam uso de outros aceptores de elétrons, como hidrogênio e enxofre. A glicólise – quebra anaeróbia da glicose com produção de ácido láctico – foi uma das primeiras vias metabó- licas utilizadas pelas células primitivas para produção de energia. Go vin dj ee , D m itr iy Sh ev el a/ W ik im ed ia C om m on s O 2 a tm os fé ric o Bilhões de anos atrás 10 4.5 3.7 3.2 2.4 2.2 1.6 1.2 1.0 0.5 0.4 0.2 0.0 20 30 0 Fo to ss ín te se a no xi gê ni ca in ic ia Fo rm aç ão d a Te rr a Pr im ei ra s fo rm as de v id a (p ro ca rio to s m ai s si m pl es ) Pr im ei ra s ci an ob ac té ria s pr od ut or as d e O 2 Eu ca rio to s ae ró bi co s En do ss im bi os e de pl as tíd eo s Al ga s Ex pl os ão d o Ca m br ia no Pl an ta s te rr es tr es M am ífe ro s pl ac en tá rio s Fo to ss ín te se o xi gê ni ca in ic ia Figura 4 Relação entre a concentração de oxigênio na atmosfera e o tempo de formação do planeta (em bilhões de anos atrás) Teoria preconizada pelo naturalista e biólogo britânico Charles Darwin (1809-1882), segundo a qual apenas as espécies mais adaptadas ao meio sobrevivem, por meio de um mecanismo de seleção natural. 3 16 Biologia Celular Com as mudanças no meio, formas primitivas de vida também pas- saram a utilizar a energia do sol para direcionar a síntese de glicose por meio de gás carbônico (CO2) e água (H2O). Essa primeira forma de fotossíntese, ainda anoxigênica 4 , promoveu o aumento das concentra- ções de oxigênio na atmosfera, permitindo o desenvolvimento de orga- nismos um pouco mais complexos e capazes de utilizar o metabolismo oxidativo para a produção de energia. As mudanças promovidas no planeta pelos organismos fotossinte- tizantes, principalmente as cianobactérias, estimularam o desenvolvi- mento de células cada vez mais desenvolvidas, dando origem – bilhões de anos após o início dessa jornada evolutiva – às células procariontes e eucariontes que conhecemos atualmente. 1.2 Tipos celulares Vídeo Das primeiras células primitivas às complexas configurações de organismos que encontramos hoje, passaram-se bilhões de anos. E, dentro desse imenso processo evolutivo, duas formas principais de organização celular se destacaram, sendo responsáveis pela configura- ção estrutural de todos os organismos no planeta: as células procarion- tes e as células eucariontes. 1.2.1 Células procariontes As células procariontes apresentam a configuração celular mais simples. Seu nome vem da junção dos termos pro, que significa antes, e cario, que significa núcleo. Desse modo, essas células se caracterizam pela ausência de núcleo verdadeiro em seu interior. De fato, células procariontes não apresentam nenhum sistema interno de membranas, diferentemente das células eucariontes, como veremos na Seção 1.2.2. Seus representantes são os microrganismos – unicelulares – perten- centes aos domínios (grupos biológicos) Bacteria e Archaea. Os principais componentes de uma célula procarionte são quatro – também presentes em células eucariontes: a membrana plasmá- tica, que age como uma barreira seletiva para a entrada e saída de íons e moléculas; o citoplasma, formado por uma solução gelatinosa que preenche todo o interior celular e onde as demais organelas se encontram suspensas; o DNA, material genético da célula; e os Na ausência de oxigênio livre (O2). 4 Diferenciar células proca- riontes de eucariontes. Objetivo de aprendizagem Origem e evolução celular 17 ribossomos, que permanecem livres no citoplasma e são responsá- veis pela síntese proteica. Além desses componentes, algumas células procariontes apresen- tam outras estruturas, como a parede celular e a cápsula. A parede celular é composta de carboidratos e proteínas, tendo como função a proteção mecânica e a prevenção da desidratação celular. A parede celular também pode atuar como estrutura de adesão pela presença abundante de polímeros, como os peptidoglicanos, que auxiliam na formação e coesão de biofilmes bacterianos. A cápsula também funciona como estrutura de proteção e ocorre exclusivamente em bactérias. São estruturas altamente hidratadas que previnem a dessecação das bactérias e também as auxiliam na adesão e formação de biofilmes. Presentes em bactérias patogêni- cas, a cápsula desempenha um papel importante na virulência do or- ganismo, pois o auxilia a se evadir do sistema imune do hospedeiro (CUMMINGS; ESKO, 2009). Outros componentes que podem estar presentes nas células pro- cariontes são estruturas especializadas que as auxiliam na locomoção, adesão e comunicação celular. Entre estas, destacam-se os flagelos, apêndices longos na forma de um chicote que permitem a movimen- tação voluntária da célula; as fímbrias, estruturas mais curtas e nume- rosasque os flagelos e cuja função principal é promover a aderência celular; e os pili, estruturas bastante similares às fímbrias, cujas fun- ções são de adesão e de comunicação entre microrganismos, particu- larmente no processo de troca de material genético, conhecido como conjugação. A Figura 5 representa esquematicamente uma célula pro- carionte e seus principais componentes. Ol ga B ol bo t/ Sh ut te rs to ck Cápsula Pili Parede celular Membrana plasmática Plasmídeo (DNA) Nucleóide (DNA)Ribossomos Citoplasma Flagelo Figura 5 Representação es- quemática em corte da estrutura de uma célula procarionte 18 Biologia Celular Por não haver núcleo, o material genético (DNA) das células pro- cariontes fica concentrado em uma região do citoplasma conhecida como nucleóide. Seu DNA constitui, em geral, um cromossomo único; entretanto, pequenas estruturas de DNA circulares conhecidas como plasmídeos se encontram comumente espalhadas pelo citoplasma, conferindo algumas características de resistência bastante úteis à so- brevivência dessas células. Os microrganismos procariontes se reproduzem de maneira asse- xuada por fissão binária. Nesse processo, o material genético é dupli- cado, e a parede celular sofre uma invaginação 5 , dividindo a célula em outras duas idênticas. Outro modo de reprodução que ocorre entre esses microrganismos é via conjugação, uma forma de recombinação gênica em que um organismo transfere material genético para outro, utilizando apêndices sexuais, os pili. A recombinação gênica pode ocorrer em microrganismos procariontes por três mecanismos distintos: • Conjugação: é a transferência de material genético – plasmídeos – entre dois microrganismos, sendo um deles o doador, e o outro o receptor. • Transformação: ocorre quando um microrganismo incorpora em sua cé- lula o DNA presente livre no meio. • Transdução: transferência de material genético para o interior da célula microbiana com o auxílio de um vírus (bacteriófago). Em relação à conformação celular, organismos procariontes apre- sentam as mais diversas maneiras: esféricos, bacilares, espirais, entre outros. Seu tamanho varia de 0,1 µm 6 a 5 µm, com raras exceções que ultrapassam essas dimensões. Para as células procariontes é extrema- mente vantajoso se manterem pequenas; células grandes apresentam uma pequena relação entre área superficial e volume, o que torna a troca de nutrientes pela membrana plasmática insuficiente para man- ter todo o volume celular funcional. 1.2.2 Células eucariontes Células eucariontes são estruturas mais complexas do que as pro- cariontes. Isso se deve em grande parte à presença de organelas mem- branosas em seu interior (Figura 6). Essas organelas funcionam como Dobramento da membrana plasmática com a formação de sulcos na superfície celular. 5 Micrômetro. 6 Origem e evolução celular 19 pequenos compartimentos com funções bem definidas e reações bio- químicas específicas. Como exemplo, células eucariontes possuem pe- quenas vesículas denominadas de lisossomos, cujo interior é formado por uma solução com pH ácido, que auxilia na digestão dos alimentos absorvidos pela célula. Caso o conteúdo dessa organela estivesse livre na célula, poderia causar danos às demais estruturas celulares. Célula eucarionte Célula procarionte Núcleo Ribossomos Ribossomos Complexo de Golgi Retículo endoplasmático Membrana plasmática Membrana plasmática Mitocôndria Citoplasma Citoplasma Lisossomo Parede celular DNA Cápsula Figura 6 Representação esquemática das diferenças estruturais entre as células eucarionte e procarionte Al do na G ris ke vic ie ne /S hu tte rs to ck O interior da célula eucarionte é constituído por uma solução gela- tinosa, rica em íons e pequenas moléculas, o citosol, onde as organelas encontram-se imersas. Entre as organelas existentes, três se destacam por contribuir com o aumento da sua complexidade e capacidade evo- lutiva: o núcleo (envelope nuclear), as mitocôndrias e o cloroplasto, este último em células vegetais. O núcleo é separado do restante do conteúdo celular por um envelo- pe nuclear. Essa membrana apresenta diversos poros e canais de comu- nicação, por onde vão ocorrer as trocas com o citoplasma. Sua principal função é abrigar o material genético da célula, o DNA, organizado na forma de cromossomos. Diferentemente das células procariontes, que apresentam um único cromossomo, em geral circular, as células euca- riontes possuem diversos cromossomos lineares. A compartimentali- zação do seu material genético garante uma regulação mais complexa O curta metragem de animação A vida interior da célula ilustra o funcio- namento celular e seus mecanismos moleculares, acompanhando a jornada de um leucócito no interior do corpo humano. A animação em 3D, cujos 8,5 minutos levaram 14 meses de produção, foi realizada pelo departa- mento de Biologia Celular e Molecular da Univer- sidade de Harvard, nos Estados Unidos. Direção: David Bolinsky. Estados Unidos: XVIVO, 2006. Filme 20 Biologia Celular dos processos de transcrição e tradução proteica, considerando-se que o RNA, sintetizado a partir do DNA no interior do núcleo, deve ser trans- ferido para o citoplasma para que a síntese das proteínas ocorra. As mitocôndrias e cloroplastos são organelas que apresentam du- pla membrana fosfolipídica e realizam atividades essenciais à manu- tenção celular. Essas estruturas assemelham-se a células procariontes, apresentando inclusive um pequeno genoma próprio. Essas caracte- rísticas levaram à criação de uma teoria de como essas organelas podem ter surgido na evolução celular dos eucariontes: a hipótese endossimbiótica. A hipótese endossimbiótica afirma que mitocôndrias e cloroplastos eram or- ganismos procariontes independentes que foram fagocitados por uma célula eucarionte em algum momento da evolução celular. Uma vez dentro do seu novo hospedeiro, essas células continuaram funcionais, desenvolvendo assim uma relação simbiótica. As vantagens evolutivas que a presença dessas células pro- porcionou alavancaram o desenvolvimento dos organismos eucariontes, que, por sua vez, passaram a proporcionar um ambiente seguro para esses pequenos pro- cariontes. Dadas as suas funções na célula, acredita-se que mitocôndrias tenham evoluído a partir de procariontes aeróbios, ao passo que cloroplastos originaram- -se de microrganismos fotossintetizantes, similares às atuais cianobactérias. J . M ar in i/S hu tte rs to ck Microrganismo procarionte fotossintetizante Mitocôndrias Retículo endoplasmático rugoso (com ribossomos) Núcleo Nucléolo Cloroplastos A origem dos cloroplastos Mitocôndrias apresentam como principal função a produção de energia na célula, convertendo moléculas energéticas, como a glicose, em adenosina trifosfato (ATP). O ATP garante o suprimento energéti- co necessário ao metabolismo celular; quanto maior a quantidade de ATP produzida, mais eficiente a célula poderá ser em suas atividades. A presença da mitocôndria permitiu um rendimento energético bastante superior às células eucariontes, principalmente pelo uso das membra- nas mitocondriais para os processos do metabolismo oxidativo. Células Origem e evolução celular 21 eucariontes podem ser maiores do que as procariontes justamente em razão do seu metabolismo energético mais eficiente. Cloroplastos são organelas presentes em células vegetais e associa- das à fotossíntese – produção de açúcares energéticos, como a glicose, a partir da luz solar, do gás carbônico e da água. Também produzem oxigênio, o que os torna essenciais para a manutenção da vida como conhecemos. A hipótese endossimbiótica explica como mitocôndrias e cloroplastos podem ter surgido em células eucariontes; entretanto, a própria origem das células eucariontes parece estar associada à junção de duas células procariontes. Nessa hipótese, um microrganismo procarionte incorpo- rou uma outra célula, também procarionte. Mantida no interior,essa célula deve ter se dividido e adicionado o DNA do hospedeiro ao seu próprio, mantendo-os isolados no interior de sua membrana plasmática. Com o tempo, essa relação deve ter se tornado permanente, e esse orga- nismo procarionte incorporado pode ter evoluído para o núcleo existen- te em eucariontes. Ainda, outra teoria, chamada de autógena, apresenta a possibilidade de uma célula procarionte – provavelmente com caracte- rísticas similares às arqueas 7 atuais – ter sofrido invaginações de mem- brana que levaram à produção das organelas em seu interior (Figura 7). NN NM M M /S hu tte rs to ck Ondulação de membrana Núcleo primitivo Eucarionte primitivo Formação do citoesqueleto Célula vegetal Vesícula intracelular Mitocôndria Mitocôndria Simbionte Citoesqueleto Cloroplastro Microtúbulos Fibras de actina Célula animal DNA DNA Arquea Lisossoma Proteobactéria Figura 7 Representação esquemática da teoria autógena de geração das células eucariontes Microrganismos pro- cariontes com caracte- rísticas intermediárias entre bactérias e células eucariontes e alocadas em domínio próprio: Archaea. 7 22 Biologia Celular Ambas as teorias, entretanto, adotam a explicação endossim- biótica para a presença de mitocôndrias e cloroplastos nas células eucariontes. Células eucariontes apresentam algumas características comuns e essenciais à sua classificação, como a presença de organelas membranosas e núcleo compartimentalizado, mas podem apresentar diferenças im- portantes entre si. Basicamente existem três configurações de células eucariontes: • Células Vegetais: apresentam parede celular composta de celulose, responsável por manter a estrutura do vegetal e evitar a dessecação. Também possuem cloroplastos, organelas contendo clorofila e responsáveis pela fotossíntese e um grande vacúolo central, que auxilia na manutenção da turgescência 8 celular. • Células Animais: não apresentam parede celular, o que possibilita sua apresentação em uma varieda- de de tamanhos e conformações. A maior mobilidade da membrana plasmática auxilia as células nos processos de fagocitose (ingestão de partículas sólidas) e pinocitose (ingestão de soluções). Possuem centríolos e microtúbulos, estruturas associadas à divisão celular e ao citoesqueleto. LD ar in /S hu tte rs to ck Célula vegetal Célula animal Ribossomos Lisossomos Núcleo Nucléolo Mitocôndrias Retículo endoplasmático rugoso Retículo endoplasmático liso Vacúolo Peroxissomos Complexo de Golg Membrana celular Citoplasma CloroplastosCloroplastos AmiloplastosAmiloplastos Parede celularParede celular MicrotúbulosMicrotúbulos CentríolosCentríolos • Células de Fungos: apresentam parede celular constituída de quitina. Alguns fungos apresentam uma estrutura – o septo – que permite a comunicação entre células adjacentes e a transferência de moléculas e organelas. De si gn ua /S hu tte rs to ck Célula de Fungos VacúoloVacúolo MembranaMembrana SeptoSepto VesículasVesículasGrânulos de Grânulos de lipídioslipídios Grânulos e Grânulos e armazenamentoarmazenamento Parede Parede celularcelular Cicatriz Cicatriz de divisãode divisão Complexo Complexo de Golgide Golgi CitoplasmaCitoplasma NúcleoNúcleoMitocôndriaMitocôndria Retículo Retículo endoplasmáticoendoplasmático Processo de absorção de água e aumento da pres- são interna celular. 8 Origem e evolução celular 23 1.3 Evolução e especializações celulares Vídeo Considerando que o último ancestral comum entre todos os seres vivos (LUCA, do inglês last universal common ancestor, ou último ances- tral comum universal) era formado por uma única célula, em algum momento da evolução do planeta ele deve ter se tornado um organis- mo multicelular com células diferenciadas. A primeira hipótese de multicelularidade foi apresentada pelo bió- logo alemão Ernst Haeckel (1834-1919) em 1874. Observando a simi- laridade entre alguns protistas coanoflagelados e células de esponjas – chamadas de coanócitos (Figura 8) –, o cientista atribuiu a formação do primeiro animal multicelular a uma colônia de coanoflagelados que passaram a trabalhar em conjunto, diferenciando-se posteriormente em células com formatos e atividades distintas. Discutir sobre a evo- lução celular e suas especializações. Objetivo de aprendizagem Figura 8 Representação esquemática de um coanoflagelado (protista) e de uma célula de esponja (animal) – o coanócito Cl ar k M A, C ho i J e D ou gl as M /W ik im ed ia C om m on sCoanoflagelado (protista) Célula de esponja (animal) Esponja A hipótese de Haeckel se manteve predominante por mais de 130 anos. Em 2008, entretanto, alguns pesquisadores questionaram a teoria, por ela pressupor que a diferenciação celular evoluiu apenas após a multicelularidade. Iñaki Ruiz-Trillo, pesquisador do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona, Espanha, juntamente com seus cola- boradores, questionou o fato de que outros animais podem ser ainda mais ancestrais do que as esponjas, como as águas-vivas-de-pente (filo Ctenophora) (Figura 9), conforme dados encontrados por outros gru- pos de pesquisa (DUNN et al., 2008). 24 Biologia Celular Figura 9 Água-viva-de-pente, da espécie Phylum ctenophore Su nfl ow er M om m a/ Sh ut te rs to ck A equipe de Ruiz-Trillo observou que coanoflagelados e outros dois grupos unicelulares evolutivamente próximos aos protistas apresen- tam ciclo de vida complexo, com diferenciação celular ocorrendo em diferentes etapas da vida. Durante essas etapas, esses organismos pas- sam parte do tempo em uma composição multicelular primitiva com outros de sua espécie, formando agregados como colônias. Desse modo, o primeiro animal poderia ter evoluído a partir de uma colônia de organismos em diferentes fases celulares, colocando a di- ferenciação celular evolutivamente antes da multicelularidade. Essa hipótese já havia sido apresentada em 1949 pelo biólogo russo Alexey Zakhvatkin (1905-1950), entretanto, pela ausência de observações que a corroborassem, ficou esquecida por quase 60 anos. Em 2019, novas descobertas trouxeram ainda mais luz à ancestra- lidade dos primeiros organismos multicelulares. Ao estudar a expres- são gênica 9 em células de esponjas, e compará-la com os produtos de expressão de coanoflagelados, os pesquisadores e biólogos marinhos Sandie Degnan e Bernard Degnan, junto com seus colaboradores, ob- servaram que a célula de esponja que mais se assemelhava aos coa- noflagelados não era o coanócito, como esperado, e sim o arqueócito, uma espécie de célula tronco das esponjas, isto é, com elevada plastici- dade e capacidade de diferenciação (SOGABE et al., 2019). Essas descobertas adicionam novas evidências à busca da primei- ra organização multicelular. Células pluripotentes podem ter sido as precursoras dos organismos superiores, devido à capacidade de se A história da vida, sua origem e suas inúmeras incógnitas são abordadas em A Origem da Vida, de Hernani Maia e Ilda Dias. Nessa obra, os autores discutem perguntas que ainda parecem desafiar as fronteiras do conheci- mento científico atual: há quanto tempo existe vida na Terra? Existem outras formas de vida fora do planeta? E se existem, seríamos capazes de reconhecê-las? MAIA, H.L.S., DIAS, I.V.R. Livraria da Física: São Paulo, 2012 Livro Síntese de proteínas a partir do DNA celular 9 Origem e evolução celular 25 adaptarem e se modificarem de acordo com as necessidades da co- munidade em que se encontravam inseridas. Essas pesquisas não in- validam necessariamente a origem teorizada por Heckel, mas trazem novos conhecimentos que podem auxiliar a elucidar as origens e cami- nhos evolutivos das primeiras células no planeta. Atualmente, as células dos organismos multicelulares são extre- mamente especializadas, com atividades e conformações específicas, de acordo com as atividades que devem realizar. Nos seres humanos, por exemplo, células musculares estriadas esqueléticas são adaptadasao movimento voluntário e apresentam diversos filamentos sobre- postos, além de múltiplos núcleos; já as hemácias, responsáveis pelo transporte sanguíneo do oxigênio, são células achatadas e anucleadas. A Figura 10 apresenta algumas especializações celulares encontradas no corpo humano, derivadas das células-tronco dos três tecidos em- brionários – endoderme, ectoderme e mesoderme 10 . Figura 10 Representação esquemática de especializações das células-tronco embrionárias humanas De si gn ua /S hu tte rs to ck Ec to de rm e Endoderm e Mesoderme Melanócito Alvéolos Hepatócitos Células do pâncreas Hemácias Neurônio Cardiomiócitos Osteócito Células epiteliais Camadas de tecidos formadas durante o desenvolvimento embrio- nário, sendo a ectoderme aquela mais externa; a mesoderme a interme- diária; e a endoderme a camada de tecido mais interna. Cada camada será responsável pela formação de um conjunto de órgãos e tecidos espe- cíficos no embrião. 10 26 Biologia Celular O exato mecanismo que desencadeia a diferenciação nas células ainda não está completamente elucidado; sabe-se, no entanto, que está associado à regulação gênica, com a ativação e desativação da transcri- ção do DNA nas células. Ainda, alguns animais são capazes de realizar a desdiferenciação, com células especializadas revertendo o processo e retornando a células básicas pluripotentes. Esse fenômeno ocorre com invertebrados inferiores – como os anfíbios urodelos 11 – como resposta à algum trauma e subsequente regeneração dos tecidos danificados. CONSIDERAÇÕES FINAIS A vida, em suas mais diversas formas, ainda guarda muitos mistérios. A origem das células e seu processo evolutivo são objetos de diversas hipóteses que, aos poucos, vamos corroborando ou refutando, conforme o conhecimento científico progride. Neste capítulo, estudamos sobre a possível origem da vida e as diversas teorias que tentam explicar a atual constituição das células. Também caracterizamos os dois principais tipos celulares, células eucariontes e procariontes, e abordamos os possíveis mecanismos que levam à diferenciação celular. Os temas estudados são essenciais para conhecer um pouco mais sobre o princípio da vida, re- velando informações essenciais para a progressão do pensamento cien- tífico. As respostas obtidas, entretanto, levantam outras dúvidas. Assim, seguimos em nossa jornada de conhecimento, procurando compreender nossas origens e nossa contínua evolução. ATIVIDADES Atividade 1 O que é a hipótese do mundo de RNA? Atividade 2 Por que células eucariontes podem ser maiores do que células procariontes? Atividade 3 Qual é a hipótese da multicelularidade de Ernst Heckel? Anfíbios caudados. 11 Origem e evolução celular 27 REFERÊNCIAS BADA, J. L. New insights into prebiotic chemistry from Stanley Miller’s spark discharge experiments. Chemical Society Reviews, v. 42, n. 5, p. 2186-2196, 2013. COOPER, G. M. The Cell XE: a molecular approach. Sunderland: Sinauer Associates, 2019. CUMMINGS, V. A.; ESKO, J. D. Essentials of glycobiology. 2. ed. Cold Spring harbor: Cold Spring Harbor Laboratory Press, 2009. DUNN, C. W. et al. Broad phylogenomic sampling improves resolution of the animal tree of life. Nature, v. 452, p. 745-749, 2008. LIMA, I. G. P. Novas perspectivas sobre a hipótese da panspermia. Enciclopedia Biosfera, v. 6, n. 11, p. 1-18, 2010. MILLER, S. L. A production of amino acids under possible primitive Earth conditions. Science, v. 117, p. 528-529, 1953. SOGABE, S. et al. Pluripotency and the origin of animal multicellularity. Nature, v. 570, p. 519-522, 2019. 28 Biologia Celular 2 Tecnologias de análise celular Desde as primeiras pesquisas celulares, sempre foi grande o interes- se científico em descobrir as características de cada célula, assim como detalhes das suas morfologia e atividade. Com a evolução tecnológica, a análise celular tornou-se cada vez mais capacitada para responder às per- guntas pormenorizadas da ciência, e uma imensa gama de equipamentos e procedimentos foram e ainda estão sendo desenvolvidos para ampliar cada vez mais os conhecimentos sobre essa unidade fundamental da vida. Neste capítulo, será acompanhado um pouco do desenvolvimento tecnológico da análise celular, conhecendo os fundamentos das princi- pais técnicas analíticas utilizadas na atualidade, além de suas aplicações e perspectivas futuras. 2.1 Tecnologias de pesquisa celular Vídeo A complexidade das células – de uma célula procarionte bacteriana a um enigmático neurônio humano – sempre foi tema de investigações, desde as primeiras análises celulares. Conhecer as características físi- cas e químicas e os mecanismos de funcionamento de cada estrutura e molécula componente da célula tornou-se o principal objetivo da Bio- logia Celular. Seu foco, contudo, não é de mera curiosidade acadêmica; as informações levantadas pelas análises celulares são essenciais para diagnósticos e aplicações terapêuticas em inúmeras doenças crônicas e infecciosas, assim como para prover uma melhor qualidade de vida aos indivíduos. Nas últimas duas décadas, a evolução da tecnologia celular tem sido impressionante. Atualmente, tem-se disponíveis desde sistemas de imagem de células vivas em tempo real até mecanismos de auto- mação de ensaios específicos, permitindo – com elevada acurácia – a contagem celular e a determinação de sua viabilidade, por exemplo. O uso dessa grande variedade de equipamentos e aplicações deve ser considerado com cautela, e as melhores técnicas serão aquelas ca- pazes de suprir a necessidade de cada pesquisa. O uso de acessórios, Conhecer os funda- mentos das principais tecnologias utilizadas em análise celular. Objetivo de aprendizagem Tecnologias de análise celular 29 como injetores e câmaras de simulação ambiental, também aumenta a aplicabilidade das técnicas, permitindo a investigação de células vivas sob diferentes condições de estresse. Além disso, técnicas multiplex 1 também contribuem para a rapidez e eficiência das análises, possi- bilitando a medida simultânea de múltiplos compostos em amostras bem pequenas. Em ensaios laboratoriais é bastante comum o uso dos termos reprodutibilidade, repetibilidade, acurácia e precisão. Mas afinal, o que significa cada um desses aspectos em uma análise? • Reprodutibilidade: refere-se ao quanto de variação em uma análise pode ser causada por diferentes operadores. É um parâmetro relacionado à re- petição da análise em outros laboratórios, por outros operadores. • Repetibilidade: parâmetro que representa o quanto de variação na me- dida está relacionada ao dispositivo de medição. Nesse caso, a varia- ção ocorre dentro da análise de um mesmo operador em um mesmo equipamento/laboratório. • Acurácia: esse parâmetro indica o quanto um valor está próximo de um valor de referência. Quanto maior a acurácia, mais próximo estará o resul- tado do padrão esperado. • Precisão: indica a proximidade entre os valores obtidos pela repetição do processo de medição. Nesse caso, ao repetir as análises, se os valores obtidos tiverem pouca variação entre eles, a precisão do ensaio é alta. Uma das análises pioneiras na determinação das características ce- lulares foi a citometria de fluxo. A primeira patente desse dispositivo ocorreu em 1953, solicitada pelo pesquisador e engenheiro eletricista Wallace Coulter. As primeiras aplicações, entretanto, foram levadas a efeito pelo pesquisador Mack Fulwyler (1936-2001), que desenvolveu o primeiro seletor de células e é reconhecido como um dos precursores do desenvolvimento da análise celular. 2.1.1 Citometria de fluxo As valiosas contribuições de pesquisadores como Coulter, Fulwyler e demais cientistas envolvidos com a pesquisa celular levaram ao de- senvolvimento do citômetro de fluxo conhecido hoje. Técnicas capazes de ana- lisar, simultaneamente, diversas características ou propriedades da amostra. 1 30 Biologia Celular O termo citometria significamedição de métricas celulares. Isto é, a determinação do tamanho, do formato, da quantidade de células em uma suspensão, entre outras variáveis. O princípio da técnica de cito- metria de fluxo, portanto, é realizar as medidas de células individuais – ou partículas – presentes em uma solução, utilizando, para isso, três sistemas acoplados: fluídico, óptico e eletrônico (Figura 1). Figura 1 Sistema de citometria de fluxo contendo os sistemas fluídico, óptico e eletrônico. Amostra de células Bocal Laser Célula Fluido de invólucro Barra de obscuração Sistema computacional de análise Espelho dicróico Filtro SSC FL-2 FL-1 FL-3 FSC PMT PMT PMT PMT ADC PMT Ki er an o/ W ik im ed ia C om m on s PMT – fotomultiplicador; ADC – conversor de sinal analógico-digital; SSC – dispersão lateral de luz visível; FSC – dispersão frontal de luz visível; FL-1, FL-2, FL-3 – canais de fluorescência. O sistema fluídico é responsável pelo transporte das células/par- tículas do tubo de amostra até a câmara de fluxo (também chamada de ponto de interrogação), onde será realizada a medida. Para que as células possam ser transportadas no interior do sistema, é importante que elas estejam livres em uma suspensão. Assim, para amostras de culturas celulares, sangue periférico ou demais fluidos, basta realizar a centrifugação, a contagem celular (para determinação da concentra- ção) e a suspensão em solução-tampão adequada. Para amostras de tecidos sólidos ou células tumorais, entretanto, é necessário utilizar previamente um método de separação, que pode ser mecânico, como solução-tampão: solu- ção formada por uma mis- tura de ácido e base com seu sal correspondente e capaz de atenuar varia- ções de pH, mantendo-o constante no meio. Glossário Tecnologias de análise celular 31 a moagem – na qual as células são separadas por meio de impacto ou abrasão –, ou enzimático, que utiliza moléculas que catalisam a quebra das conexões celulares. Essa etapa de separação é fundamental para o bom funcionamento da técnica, pois evita a formação de aglomerados que prejudicariam a análise das células individualmente. Ainda na etapa de preparação da amostra, caso deseje analisar ca- racterísticas específicas celulares, como a presença de uma molécula ou um marcador de superfície, é necessário adicionar reagentes fluo- rescentes. Esses reagentes podem ser, por exemplo, anticorpos con- jugados com fluoróforos 2 , que vão reconhecer uma estrutura celular específica; corantes fluorescentes ligantes de DNA; corantes de viabili- dade celular; ou proteínas de expressão fluorescentes. Após seu preparo, a amostra é adicionada no sistema, em que é transportada com o auxílio de uma solução-tampão fisiológica, deno- minada fluido de invólucro. Nessa etapa de transporte também é rea- lizada a focalização da amostra, que visa induzir o alinhamento das células para que elas passem individualmente na frente do laser com- ponente do sistema óptico. A focalização pode ser feita de duas formas: hidrodinâmica ou acús- tica. Na focalização hidrodinâmica, as partículas são organizadas me- diante a alteração de pressão diferencial entre os dois fluidos: aquele da amostra e o fluido de invólucro. Essa diferença de pressão altera a vazão por onde as partículas passam, sendo possível aumentar ou di- minuir o fluxo de células em determinado ponto. Já a focalização acústi- ca utiliza ondas de ultrassom para realizar o alinhamento das partículas e garantir sua passagem individual na frente da câmara de fluxo onde se encontra o laser. O sistema óptico de um citômetro de fluxo é formado por uma fonte de luz (laser), lentes, filtros e um sistema de detecção, que gerará uma fotocorrente elétrica. A luz visível, ao incidir sobre as partículas, sofre- rá um espalhamento – conhecido como dispersão – que será indicativo das características celulares, como tamanho e formato. A dispersão para frente dessa luz visível (FSC, do termo em inglês forward scattering, ou espalhamento para frente) fornece informações sobre o tamanho da cé- lula, enquanto a dispersão lateral ou em 90º (SSC, do termo em inglês side scattering, ou espalhamento lateral) indica a complexidade interna celular, como a presença de grânulos 3 (MCKINNON, 2018). Também, a Fluoróforos ou fluoro- cromos são moléculas que absorvem a luz em um comprimento de onda baixo (com elevada energia) e emitem luz em um comprimento de onda maior (com menor energia). Esse fenôme- no é denominado de fluorescência. 2 Partículas intracelulares, em geral vesículas secre- toras ou de armazena- mento celular. 3 32 Biologia Celular incidência de luz nos comprimentos de onda de absorção dos fluorófo- ros utilizados garante a emissão de fluorescência, fornecendo informa- ções sobre a presença de estruturas ou moléculas específicas na célula. A dispersão da luz causada pela passagem de cada célula é captura- da por detectores, que podem ser fotodiodos ou fotomultiplicadores 4 . Esses dispositivos são capazes de converter a luz recebida em corrente elétrica (fotocorrente) e transmitem esse sinal para o sistema eletrôni- co do citômetro de fluxo. O sistema eletrônico funciona como o cérebro do sistema de ci- tometria de fluxo; a corrente gerada é digitalizada e processada para análise por um conversor de análise analógico-digital. Os sinais digitais recebidos são, então, processados e analisados por softwares especí- ficos, capazes de detalhar as características de cada célula avaliada. A Figura 2 apresenta a análise de uma população de picoplâncton 5 em uma amostra marinha em um citômetro de fluxo. Enquanto os fotodiodos realizam a conversão da luz em eletricidade, os foto- multiplicadores, formados por tubos de fotodiodos à vácuo, podem multiplicar a corrente elétrica produzida em cerca de 100 milhões de vezes. 4 Pequenos organismos planctônicos com dimen- sões entre 0,2 e 2 µm. 5 Figura 2 Gráficos bidimensionais e histogramas de análise em citometria de fluxo Da ni el V au lo t, CN RS , S BR /W ik im ed ia C om m on s Cl or ofi la Cl or ofi la FicoeritrinaSide Scatter Picoeucaryotes PicoeucaryotesPicoeucaryotes Synechococcus SynechococcusSynechococcus ProchlorococcusProchlorococcus ProchlorococcusProchlorococcus Prochlorococcus Synechococcus Picoeucaryotes Clorofila Clorofila Clorofila 10 º 20 48 12 8 64 0 0 0 1 1 110 10 10100 100 1001000 1000 100010000 10000 10000 10 º 10º 10º 10 1 10 1 101 101 10 2 10 2 102 102 10 3 10 3 103 103 10 4 10 4 104 104 Tecnologias de análise celular 33 Na Figura 2, observa-se a emissão de fluorescência devido à presen- ça de clorofila e ficoeritrina, dois pigmentos encontrados em células fotossintetizantes e que emitem fluorescência quando excitados em determinado comprimento de onda. Também foi avaliada, nesse es- tudo, a SSC. O cruzamento de informações referentes à emissão de fluorescência (dos pigmentos fotossintetizantes) e à dispersão da luz permitiu identificar três grupos de picoplâncton distintos na amostra: dois gêneros de cianobactérias – prochlorococcus e synechococcus – e um grupo de picoplâncton eucarioto – Picoeucaryotes . As aplicações da citometria de fluxo são as mais diversas, tendo grande utilidade no estudo de moléculas/marcadores de superfície ce- lular ou intracelular, além do estudo da proliferação e do ciclo celular, tornando-se uma ferramenta essencial em estudos de patologias como o câncer e as imunodeficiências. Ademais, a possibilidade de acoplar sis- temas de separação e coleta de células aos citômetros de fluxo permite a purificação e o estudo detalhado de determinadas espécies celulares. O livro Citometria de fluxo: aplicações no laboratório clínico e de pesquisas apresenta a aplicabilidade desse sistema de análise celular em estudos com células humanas, animais e vegetais. Os autores tra- zem experiências atuais de cientistas renomados de diversas universidades brasileiras, como Unicamp e Unifesp,e perspectivas de uso dessa técnica na oncologia, hematologia, imunologia, entre outras áreas clínicas. SALES, M. M.; VASCONCELOS, D. M. São Paulo: Atheneu, 2013. Livro 2.2 Microscopia Vídeo Um dos principais instrumentos para análise celular, o microscópio, teve um longo histórico de desenvolvimento até chegar à concepção conhecida atualmente. Estima-se que o primeiro instrumento rudi- mentar de amplificação tenha sido utilizado há mais de 4 mil anos na China, consistindo em um tubo de água cujo nível variava de acordo com a magnificação desejada. De acordo com textos antigos, esse dis- positivo seria capaz de amplificar em até 150 vezes o objeto observado, o que é extremamente notável, considerando que as primeiras lentes só seriam inventadas milhares de anos depois. As primeiras descrições de uso de lentes curvas vêm da Grécia Antiga, cerca de 400 a.C., e indicam uma ampla aplicação em cirurgias e cauterização de ferimentos. O filósofo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) descreveu em seus tratados o funcionamento de um dispositivo que serviria para amplificar objetos pequenos com o uso de lentes. De fato, o nome microscópio vem do grego uikpos, que significa pequeno, e okottew, que significa visão. As tentativas de se desenvolver um dispositivo de ampliação mais ela- borado, entretanto, só começaram a ganhar força no final do século XIII, Compreender o funcio- namento e as aplicações da microscopia óptica e eletrônica. Objetivo de aprendizagem magnificação: ampliação; aumento do tamanho. Glossário 34 Biologia Celular na Itália, com a criação dos óculos pelos inventores Salvano D’Aramento degli Amati e Alessandro della Spina, que desenvolveram suas pesqui- sas de maneira independente, sem que tivessem conhecimento daquilo que o outro estava produzindo (MIKOS, 2014). Já no século XVI, estudos sobre o telescópio foram desenvolvidos na Inglaterra pelo matemático e astrônomo Thomas Digges (1546-1595) e, na Holanda, pelo fabricante de lentes Hans Lippershey (1572-1602). Uma vantagem considerável, nessa época, foi a invenção da pren- sa de impressão, o que possibilitava uma ampla divulgação das desco- bertas dos pesquisadores. Foi dessa forma que o astrônomo e físico italiano, Galileu Galilei (1564-1642), entrou em contato com esses es- tudos e desenvolveu o primeiro telescópio com dispositivo focalizador. Outro cientista que, motivado pelas descobertas no campo da óptica, decidiu desenvolver suas próprias pesquisas na área foi Isaac Newton (1643-1727), ele criou o telescópio reflexivo, substituindo as lentes por espelhos para a captação de luz (Figura 3). Figura 3 Telescópio newtoniano An dr ew D un n/ W ik im ed ia C om m on s Réplica do telescópio reflexivo criado por Isaac Newton. Tecnologias de análise celular 35 Com a evolução do pensamento científico e as novas descobertas na física e na óptica experimental, tornou-se questão de tempo para que os dispositivos destinados à ampliação de objetos passassem a ser mais elaborados. De fato, Zaccharias Janssen (1580-1638), fabricante de lentes holandês, inventou o primeiro microscópio composto ao aco- plar várias lentes em um tubo, aumentando a capacidade de magnifi- cação (Figura 4). Figura 4 Microscópio composto Al an H aw k, M us eu N ac io na l d e Sa úd e e M ed ic in a, In st itu to d e Pa to lo gi a da s Fo rç as Ar m ad as , D ep ar ta m en to d e De fe sa , G ov er no d os E UA /W ik im ed ia C om m on s Réplica do microscópio composto desenvolvido por Zaccharias Janssen. Em meados do século XVII, o inventor e pesquisador inglês, Robert Hooke (1635-1703), famoso por suas pesquisas em diversos campos como astronomia, química, física e biologia, passou a desenvolver pes- quisas em microscopia. Em 1665, seus estudos resultaram na obra Micrographia (Figura 5), contendo 57 observações realizadas com um microscópio desenvolvido pelo próprio pesquisador. A obra impressio- na pelos desenhos detalhados, abordando desde animais e plantas até materiais inertes, como a cortiça. Foi justamente observando esse ma- terial que Hooke cunhou o termo célula ao se referir aos espaços vazios existentes na cortiça, que lembravam as celas de monges. 36 Biologia Celular Figura 5 Obra Micrographia de Robert Hooke (1665) Bi bl io te ca N ac io na l d o Pa ís d e Ga le s/ W ik im ed ia C om m on s À esquerda, capa da obra de Robert Hooke. À direita, desenho de uma pulga observada pelo autor em seu microscópio e documentada na obra. Contemporâneo a Hooke, Antonie Van Leeuwenhoek (1632-1723), comerciante de tecidos holandês e cientista, fez um trabalho experi- mental com lentes, utilizando-as para visualizar os tecidos com que tra- balhava. Seus experimentos resultaram em um microscópio simples, com uma lente convexa presa a um suporte de metal e com capaci- dade de magnificação de 500 vezes. A amostra era vista por meio de uma abertura do outro lado do microscópio, e o foco era obtido com o auxílio de um parafuso. Com esse dispositivo, Leeuwenhoek conse- guiu observar vários materiais de origens diversas, sendo um dos mais notórios uma amostra de água de lago, em que o pesquisador obser- vou organismos muito pequenos se locomovendo. Esses organismos, nomeados na época como animálculos, eram, na verdade, bactérias, e, por essas descobertas, Antonie Van Leeuwenhoek é considerado o fundador da microbiologia experimental. Dispositivos e técnicas microscópicas continuaram a evoluir nos anos seguintes e aproximadamente em 1730 Chester Hall (1703-1771) inventou as primeiras lentes acromáticas, isto é, capazes de limitar as aberrações cromáticas 6 . Para isso, o cientista utilizou uma segunda lente de diferente formato e com propriedades refratárias, realinhando as cores com mínimo impacto na magnificação da primeira lente. Fenômeno de distorção das cores que resulta em uma imagem borrada devido à focalização dis- tinta da luz em diferentes comprimentos de onda. 6 Tecnologias de análise celular 37 Já em 1830, Joseph Jackson Lister (1786-1869) resolveu o proble- ma da aberração esférica 7 , posicionando lentes a distâncias preci- sas umas das outras. Seus estudos trouxeram mais rigor científico ao desenvolvimento do microscópio, e o pesquisador foi o primeiro a descrever a forma das hemácias no sangue de mamíferos. Também fazendo uso do método científico, o inventor alemão, Carl Zeiss (1816-1888), juntamente com o físico também alemão Ernst Karl Abbe (1840-1905), desenvolveu e comercializou lentes e objetivas cujo design era totalmente fundamentado na física ópti- ca, e não mais em tentativas e erros da óptica experimental. Além disso, Abbe criou um condensador responsável por controlar o foco e a incidência de luz sobre a amostra, enquanto August Köller (1866-1948), também pesquisador membro da equipe de Zeiss, de- senvolveu um método de iluminação para otimizar a fotomicrogra- fia. A partir daí houve um notável e crescente desenvolvimento das técnicas microscópicas, agora fundamentadas em leis e cálculos físicos e matemáticos. Como resultado, foi possível a comercializa- ção dos primeiros microscópios, além do desenvolvimento de téc- nicas inovadoras, por exemplo, o microscópio de contraste de fase e a microscopia eletrônica. 2.2.1 Microscopia óptica Os primeiros microscópios tiveram como princípio o uso da luz visível como fonte de iluminação das amostras. Essa técnica foi aperfeiçoada ao longo dos anos e ainda hoje é essencial nas pes- quisas celulares. A microscopia óptica, como é conhecida a técnica, utiliza a fonte de iluminação e um sistema de lentes – as quais podem variar em número e configuração – para produzir uma imagem amplificada da amostra de interesse. De modo geral, existem duas configura- ções básicas de microscópio óptico: simples e composto. O microscópio óptico simples faz uso de uma única lente ou um conjunto de lentes para magnificação. Seu funcionamento é similaraos dispositivos simples de ampliação, como as lupas e as oculares de telescópios. A Figura 6 apresenta uma representação esquemá- tica do funcionamento de um microscópio de configuração simples. Diferença de refração entre os raios inciden- tes na borda da lente e aqueles que incidem no eixo óptico, gerando uma imagem circular. 7 Figura 6 Princípio de funcionamento do microscópio simples Br yn M aw r/ W ik im ed ia C om m on s Lentes Objeto Imagem 38 Biologia Celular O microscópio composto, por sua vez, utiliza mais de um sistema de lentes e tem a capacidade de gerar uma maior ampliação da amos- tra. Uma lente, ou um conjunto de lentes, denominada objetiva, encon- tra-se próxima do objeto e é responsável por coletar a luz transmitida produzindo uma imagem real 8 dentro do microscópio. Um segundo grupo de lentes – oculares – fornece ao observador uma imagem vir- tual aumentada do objeto. A combinação de lentes objetivas e oculares propicia uma magnificação superior àquela produzida em um micros- cópio de configuração simples. A Figura 7 apresenta um esquema do princípio de funcionamento do microscópio composto. Para formar a imagem que o observador enxerga em um mi- croscópio composto, a luz da lâmpada passa pelo condensador e através do objeto (espécime), que deve ser um meio absorvedor de luz. Parte da luz passa ao redor e através do espécime sem desviar seu caminho; parte dela, entretanto, é desviada quando incide sobre alguns elementos desse objeto, esse fenômeno é conhecido como difração. Assim, um feixe de ondas luminosas que incide e penetra no material é dividido em diversos outros feixes com inten- sidades e ângulos de propagação distintos. Esses feixes di- fratados são responsáveis por gerar a imagem formada pelo sistema de lentes objetivas. Quando presente, as lentes ocu- lares magnificam a imagem, que é, então, projetada na retina em um filme fotográfico ou na superfície de um chip de com- putador (DAVIDSON; ABRAMOWITZ, 2002). A Figura 8 repre- senta um esquema dos principais elementos e uma imagem de um microscópio óptico composto. Imagens reais são aquelas formadas pelo cruza- mento dos raios de luz e encontram-se invertidas em relação ao objeto. Imagens virtuais são for- madas pelo espalhamen- to da luz e apresentam a mesma orientação do objeto observado. 8 Figura 7 Princípio de funcionamento do microscópio composto Br yn M aw r/ W ik im ed ia C om m on s Imagem 1 Imagem 2 Objeto Lentes oculares Lentes Lentes objetivasobjetivas kwanchai.c/Shutterstock À esquerda, imagem de um microscópio óptico composto. À direita, representação esquemática dos seus elementos constituintes. Figura 8 Microscópio óptico composto Roman Bykhalov/ Shutterstock Ocular Tubo da ocular Ajuste macrométrico Porta-objetivas/ revólver Objetiva de alta ampliação Braço Ajuste micrométrico Objetiva de baixa ampliação Presilha Platina Base Condensador Diafragma Iluminação Tecnologias de análise celular 39 Com a evolução tecnológica e objetivando contemplar as ne- cessidades de pesquisas celulares específicas, foram desenvolvidos diferentes tipos de microscópios ópticos. Esses sistemas podem apresentar modificações na configuração, como o estereomicros- cópio – que visa a menores magnificações e faz uso da luz refletida diretamente sobre o objeto, e não através dele; e o microscópio invertido, que apresenta a fonte de iluminação e o condensador no topo do sistema e é útil para visualizar culturas celulares. Podem, ainda, apresentar um sistema de iluminação diferen- ciado, como é o caso do microscópio de contraste de fase – que manipula a luz de modo diferencial, produzindo variações de bri- lho melhorando a observação de alguns espécimes; o microscópio de fluorescência – que utiliza fluoróforos e emite fluorescência no lugar da difração de luz visível; e o microscópio confocal – que usa a fluorescência associada à varredura do espécime por laser, produzindo imagens em corte que serão, depois, agrupadas em alta resolução. 2.2.2 Microscopia eletrônica Comumente, um microscópio óptico composto apresenta uma magnificação máxima de aproximadamente 1000 vezes, que é a ampliação fornecida pela lente objetiva (máximo de 100 vezes) multiplicada pela ampliação da lente ocular (em geral, 10 vezes). Essa limitação se deve às propriedades da luz visível, utilizada como fonte de iluminação nesses sistemas. Com esse aumento máximo, fica bastante difícil visualizar detalhes celulares, ou estruturas bem pequenas, como vírus e macromoléculas. Para sanar essas dificul- dades e permitir o estudo de materiais na faixa dos nanômetros, foram desenvolvidos os microscópios eletrônicos. Microscópios eletrônicos são sistemas que permitem a obten- ção de imagens biológicas detalhadas e de estruturas que necessi- tam de uma maior ampliação. Sua alta resolução se deve ao uso de feixe de elétrons como fonte de iluminação no lugar da luz visível utilizada pelos microscópios ópticos. De modo geral, dividem-se em dois tipos: microscopia eletrônica de transmissão (MET) e mi- croscopia eletrônica de varredura (MEV). 40 Biologia Celular A microscopia eletrônica de transmissão (MET) é indicada para visualizar espécimes em corte, como seções ultrafinas (100 nm 9 ) de tecidos, órgãos ou células. Com essa espessura, torna-se possível a passagem dos elétrons através da amostra, gerando uma imagem pro- jetada da estrutura de interesse. A geração de imagens na MET é similar àquela da microscopia óptica, substituindo a luz visível pelo feixe de elétrons incidente. Devido ao menor comprimento de onda dos elétrons – chamado de comprimento de onda de Broglie, de acordo com a teoria de Louis de Broglie (1892-1987) –, a MET é capaz de fornecer uma resolução bastante superior àquela atingida pelos microscópios ópticos. A Figura 9 demonstra os principais componentes em um sistema de MET e a imagem do primeiro microscópio eletrônico de transmissão, que atualmente é mantido em exposição no Deutsches Museum, em Munique, na Alemanha. Nanômetro 9 Figura 9 Microscópio eletrônico de transmissão À esquerda, primeiro microscópio eletrônico de transmissão, em exposição no Deutsches Museum, na Alemanha. À direita, representação dos principais componentes na MET. J B re w/ W ik im ed ia C om m on s Gr in ge r/ W ik im ed ia C om m on s Canhão de elétrons Abertura do condensador Porta de amostras Abertura das objetivas Lentes objetivas Lentes de difraçãoAbertura das lentes intermediárias Visor Lentes intermediárias Lentes do projetor Tela fluorescente Sistema de gravação de imagens Tecnologias de análise celular 41 Em um microscópio eletrônico de transmissão, a fonte de elétrons está localizada no topo do sistema e é formada comumente por um filamento de tungstênio ou por um cristal de hexaboreto de lantânio, compostos estáveis e com elevada emissividade de elétrons. Essa fon- te, ou canhão, de elétrons está ligada a uma fonte elétrica de alta vol- tagem que produz uma corrente elétrica suficiente para emissão dos elétrons no vácuo. Essa emissão pode decorrer do aumento da tempe- ratura (emissão termoiônica) ou pela indução de um campo eletrostáti- co (emissão de elétrons por campo). Após sua emissão pelo canhão, os elétrons são acelerados por uma série de placas eletrostáticas até atingirem o condensador, que focará e ajustará o tamanho e a localização do feixe de elétrons sobre a amos- tra. Diferentemente do sistema óptico, as lentes, na MET, são magnéti- cas, formadas por um solenoide 10 e seu respectivo campo magnético. Isso permite um ajuste de foco muito mais rápido quando comparado aos microscópios ópticos, além de flexibilidade para ajustar o feixe de elétrons de acordo com a necessidade de análise. A Figura 10 apresen- ta uma imagem de MET de uma célula nervosa, evidenciando algumas das estruturas que constituem um neurônio (célula de Schwann, axô- nio e bainha de mielina). A célulaobservada encontra-se fixada e em corte ultrafino para permitir a passagem do feixe de elétrons e poste- rior revelação da imagem. Figura 10 Neurônio visualizado sob MET Jo se L ui s Ca lvo /S hu tte rs to ck Célula de Schwann em corte (centro) circundada por fibras nervosas (axônio) e fibras da bainha de mielina. Conjunto de fios conduto- res enrolados em espirais circulares e atua como um eletroímã na presença de corrente elétrica, produzin- do um campo magnético constante. 10 42 Biologia Celular Comumente, existem três sistemas de lentes na MET: as lentes do condensador, as lentes objetivas e as lentes do projetor. O condensa- dor forma o feixe primário de elétrons, enquanto as lentes objetivas focam o feixe que passa através da amostra. As lentes do projetor servem para expandir o feixe e o dispositivo de imagem. Como não é possível que enxerguemos as emissões eletrônicas, a imagem final deve ser projetada em um anteparo tratado com material fluorescente que é revelado com a incidência dos elétrons, ou sobre uma placa foto- gráfica, que registra a imagem permanentemente. O sistema de MET inclui, ainda, algumas aberturas que auxiliam o foco e reduzem as aberrações ópticas; defletores que auxiliam o ajuste do ângulo do feixe de elétrons; e estigmatizadores que compensam imperfeições ópticas que causam astigmatismo, isto é, quando a lente apresenta foco em diferentes direções, causando distorção da imagem. A microscopia eletrônica de varredura (MEV) se baseia na emissão de elétrons secundários por meio da superfície da amostra. Esse siste- ma tem como objetivo formar uma imagem tridimensional do objeto observado, similar ao estereomicroscópio, mas com uma resolução e magnificação bastante elevadas. Um sistema de MEV apresenta profundidade de foco e capacidade de visualização de superfícies e organismos inteiros, o que não é pos- sível na MET. A Figura 11 apresenta uma imagem de grãos de pólen obtida por meio de um sistema de MEV. Figura 11 Grãos de pólen observados sob MEV In st al aç ão d e m ic ro sc óp io e le trô ni co d o Da rtm ou th C ol le ge /W ik im ed ia C om m on s Certificado pelo Guiness como o menor filme do mundo, Um menino e seu átomo foi desenvolvido pelo laboratório de pes- quisas da IBM, com base na incrível manipulação atômica. Utilizando uma agulha ultrafina e um mi- croscópio de corrente de tunelamento, que permite a obtenção de imagens a nível atômico, os pesqui- sadores fizeram o uso de centenas de átomos para dar origem à animação de apenas um minuto, rompendo as barreiras da capacidade microscópica de magnificação e mani- pulação da matéria. Direção: Nico Casavecchia. Estados Unidos: IBM, 2013. Vídeo Tecnologias de análise celular 43 A imagem é formada pelo escaneamento – daí o termo varredu- ra – da superfície da amostra por um feixe de elétrons. A interação desse feixe de elétrons primário com a amostra causa a emissão de partículas – elétrons secundários, elétrons retroespalhados, fótons ou raios X – que são coletadas por detectores e convertidas em pontos luminosos em um tubo de raio catódico 11 , formando uma imagem magnificada da amostra. A Figura 12 apresenta os elementos e a imagem do primeiro sistema de MEV, desenvolvido por Manfred von Ardenne (1907-1997) em 1937. Figura 12 Microscópio eletrônico de varredura À direita, primeiro microscópio eletrônico de varredura, desenvolvido em 1937. À esquerda, representação esquemática do sistema e principais elementos de um MEV. Al ex an de r v on A rd en ne /W ik im ed ia C om m on s M in tz /W ik im ed ia C om m on s Canhão de elétrons Primeiras lentes do condensador Segundas lentes do condensador Abertura spray Bobinas de deflexão Abertura final de lentes Detector de elétrons retroespalhados Amostra Bomba de vácuo Detector de elétrons secundários Lentes objetivas Detector de raios X Feixe de elétrons Em relação à microscopia óptica, as principais vantagens da MEV são sua alta resolução, permitindo a visualização de estruturas com até 2 nm de diâmetro; sua elevada profundidade de campo, o que possibilita a magnificação em alta resolução de superfícies; e a fle- xibilidade de ângulos de visualização, que podem ser alterados fa- cilmente, permitindo uma observação tridimensional completa da amostra. As desvantagens incluem a necessidade de alto vácuo, a destruição da amostra pelos feixes de elétrons, a interferência cau- sada pela presença de íons na amostra e o elevado custo de aquisi- ção e manutenção do equipamento. Dispositivo capaz de gerar imagens por meio da incidência de um feixe de elétrons. 11 44 Biologia Celular 2.3 Identificação de marcadores celulares por imunocitoquímica Vídeo Além das técnicas microscópicas, várias técnicas inovadoras de in- vestigação celular foram desenvolvidas nas últimas décadas, auxilian- do importantes descobertas científicas e contribuindo para a evolução de sistemas de diagnóstico e tratamento de patologias. Entre estas, destaca-se a imunocitoquímica, que tem atuado como uma excelente ferramenta de diagnóstico e análise celular. Imunocitoquímica é a técnica que faz o uso de anticorpos para ve- rificar a presença de certos marcadores, ou antígenos 12 , na superfície das células. Dessa forma, é possível detectar determinados tipos celu- lares ou características que diferenciam uma linhagem celular das de- mais, o que é bastante útil em estudos de células cancerígenas ou com algum tipo de mutação, por exemplo. O anticorpo utilizado nos ensaios de imunocitoquímica deve estar ligado – direta ou indiretamente – a uma molécula repórter, como um fluoróforo ou uma enzima. Dessa forma, se o anticorpo se ligar à mo- lécula alvo na célula, a molécula repórter emitirá um sinal, seja pela emissão de fluorescência quando o fluoróforo for excitado em deter- minado comprimento de onda, seja pela reação da enzima com algum substrato adicionado no ensaio. A Figura 13 apresenta uma fotomicro- grafia de neurônios observados sob microscopia de fluorescência após a utilização da técnica de imunocitoquímica. Figura 13 Neurônios observados sob microscopia de fluorescência Sw ha rd en /W ik im ed ia C om m on s Com o uso da técnica da imunocitoquímica, é possível observar os axônios em verde pela marcação da proteína tirosina hidroxilase presente nessas estruturas. Molécula que ativa a reação imunológica e a subsequente produção de anticorpos em um organis- mo. Em imunocitoquímica, refere-se à molécula que é reconhecida pelo anticorpo primário no imunoensaio. 12 Conhecer as técnicas imunocitoquímicas de identificação e caracteri- zação celular. Objetivo de aprendizagem Tecnologias de análise celular 45 A imunocitoquímica destina-se ao estudo de células em cultura ou células individuais isoladas com base em tecidos ou órgãos. De manei- ra geral, os ensaios seguem três etapas. A primeira etapa refere-se à fixação das células em um suporte, comumente uma lâmina ou placa de petri 13 de vidro. Em alguns casos torna-se necessária a incubação das células sob temperatura controlada por algum período, podendo chegar até 24 horas, para aumento da aderência no suporte. A segunda etapa é de imunocoloração, isto é, de adição e ligação do anticorpo à molécula alvo se ela estiver presente nas células aderidas no suporte. Essa etapa envolve a fixação das células para preservação da proteína ou estrutura que se deseja visualizar; a permeabilização da membrana plasmática com o uso de detergentes ou solventes para permitir a entrada dos anticorpos no interior celular; e a incubação para promoção da ligação entre anticorpos e moléculas alvo (antígeno). Após a incubação, as amostras são lavadas para remoção de anticor- pos não ligantes. A terceira e última etapa da imunocitoquímica envolve a revelação do repórter e a visualização das células por microscopia (no caso de a molécula repórter ser um fluoróforo),ou por ensaios bioquímicos com mudança de coloração (com enzimas como repórteres). A peroxidase, por exemplo, é uma enzima bastante utilizada como molécula repór- ter por reagir na presença de peróxido de hidrogênio (H2O2), mudan- do a coloração do meio para marrom. Além dessas, há moléculas que possuem autofluorescência e capacidade de se ligar a outras molécu- las, como a DAPI (4’,6’-diamino-2-fenilindol), que se liga à molécula de DNA e é utiliza- da para evidenciar o núcleo celular. Nesse caso, a molécula é excitada com luz ultravio- leta, emitindo fluorescência no espectro do azul (Figura 14). Recipiente cilíndrico utiliza- do para culturas celulares. 13 Figura 14 Células do endotélio pulmonar bovino Sp le tte /W ik im ed ia C om m on s Núcleo das células endoteliais corado com DAPI: azul; fibras de actina coradas com faloidina: vermelho; proteína tubulina corada com FITC (isotiocianato de fluoresceína): verde 46 Biologia Celular A imunocoloração pode ser direta ou indireta (Figura 15). Caso a mo- lécula repórter esteja ligada diretamente ao anticorpo primário, isto é, naquele que vai reconhecer o alvo ou antígeno, a imunocoloração é di- reta. Esse tipo de ensaio apresenta baixa sensibilidade devido ao redu- zido número de cópias da molécula de interesse na célula investigada. Figura 15 Imunoensaio (imunocoloração) direto e indireto So le il No rd ic /S hu tte rs to ckImunoensaio direto Adição de anticorpos marcados Adição de substrato Antígeno fixado Anticorpo marcado Sinal Substrato Detecção de sinal Superfície Adição do anticorpo primário Anticorpo secundário marcado Adição de substrato Adição de anticorpos secundários marcados Antígeno fixado Superfície Substrato Sinal So le il No rd ic /S hu tte rs to ck Detecção de sinal Imunoensaio indireto O livro Imunoensaios: fundamentos e aplicações aborda os princípios dos testes de imunoensaios – como a imunocitoquí- mica – e de que forma eles podem ser utilizados no acompanhamento terapêutico e no moni- toramento de diversas condições clínicas. A obra apresenta as técnicas utilizadas para detecção de antígenos, anticorpos e marcadores tumorais, tornando-se uma opção de consulta bastante com- pleta para aqueles que desenvolvem pesquisas na área ou que gostariam de aprender mais sobre as novas tecnologias imunológicas. VAZ, A. J. et al. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. Vídeo Tecnologias de análise celular 47 Na imunocoloração indireta, dois anticorpos são utilizados. Um de- les é chamado de primário e vai reconhecer a molécula alvo na célula. Este, entretanto, não está marcado com nenhuma molécula repórter. Na sequência, são adicionados anticorpos secundários, marcados com fluoróforos ou enzimas, que vão se ligar aos anticorpos primários já li- gados ao alvo. Como múltiplos anticorpos secundários podem se ligar a um anticorpo primário, o sinal e a sensibilidade do método indireto são bastante superiores àqueles do método direto. Além disso, é possível utilizar o anticorpo secundário em diferentes imunoensaios realizados em uma mesma espécie, considerando-se que ele se liga à região cons- tante do anticorpo primário, que é preservada dentro de um mesmo grupo taxonômico. CONSIDERAÇÕES FINAIS A evolução tecnológica trouxe inúmeros benefícios às pesquisas bioló- gicas, tornando possível detalhar as características e atividades dos mais diferentes tipos celulares. As técnicas de investigação celular também proporcionaram um incrível avanço aos métodos de diagnóstico e trata- mento de diversas patologias, permitindo a identificação de marcadores celulares e o acompanhamento da dinâmica molecular no interior de ór- gãos e tecidos. Novas técnicas estão, ainda, em crescente desenvolvimen- to e devem contribuir para a evolução das pesquisas de Biologia Celular em um futuro bastante próximo. ATIVIDADES Atividade 1 Qual é o objetivo da focalização na citometria de fluxo? Atividade 2 Por que os microscópios eletrônicos são capazes de maiores magnificações quando comparados com os sistemas de micros- copia óptica? Atividade 3 O que é uma molécula repórter em um ensaio de imunocitoquímica? 48 Biologia Celular REFERÊNCIAS DAVIDSON, M. W.; ABRAMOWITZ, M. Optical microscopy. Encyclopedia of imaging science and technology, v. 2, n. 1.106-1.141, p. 120, jan. 2002. Disponível em: https://onlinelibrary. wiley.com/doi/10.1002/0471443395.img074. Acesso em: 5 nov. 2021. MCKINNON, K. M. Flow Cytometry: an overview. Current Protocols in Immunology, v. 120, p. 5.1.1-5.1.11, fev. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1002/cpim.40. Acesso em: 5 nov. 2021. MIKOS, K. M. The rise of the small: meaning, metaphysics and the microscope. 2014. Dissertação (Doutorado em filosofia) – Faculty of the Graduate School, University of Minnesota, Mineápolis. Disponível em: https://hdl.handle.net/11299/163014. Acesso em: 5 nov. 2021. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/0471443395.img074 https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/0471443395.img074 https://hdl.handle.net/11299/163014 Macromoléculas celulares 49 3 Macromoléculas celulares Cerca de 99% das células dos seres vivos são constituídas por hidro- gênio, carbono, oxigênio e nitrogênio. Esses elementos se organizam em estruturas químicas mais complexas para formar moléculas essenciais à manutenção da vida. De todas as moléculas, a água – formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio – é o elemento mais abun- dante e essencial às atividades dos organismos. Já entre os compostos orgânicos, isto é, aqueles que apresentam carbono como elemento prin- cipal em suas composições, existem quatro grupos de macromoléculas – estruturas orgânicas de massa molecular elevada e que compõem a maior parte do peso seco de uma célula – que se destacam nas células de todos os seres vivos: os lipídios, os polissacarídeos (carboidratos), as proteínas e os ácidos nucleicos. Neste capítulo, será possível conhecer as diferentes composições, es- truturas e funções celulares de cada um desses grupos. Primeiro, será discutida a importância dos lipídios e dos polissacarídeos nas funções estruturais e de reserva energética nas células. Na sequência, serão estudadas as proteínas e seu fundamental papel biológico de controle metabólico celular a partir da aceleração de reações químicas e do trans- porte de moléculas. Por fim, serão abordados os ácidos nucleicos – ma- cromoléculas que carregam informações essenciais para a expressão e transmissão das características hereditárias. 3.1 Macromoléculas celulares – lipídios e carboidratos Vídeo Lipídios são importantes componentes celulares e apresentam funções diversas, entre as quais se destacam: funções estruturais, que compõem organelas como a membrana plasmática; de reser- va energética (originam moléculas de alto teor energético, como os triglicerídeos); e informacionais, quando transmitem alguma in- formação dos processos celulares, como ocorre com os hormônios esteroides. Estudar as macromolécu- las lipídicas e polissaca- rídicas envolvidas em processos moleculares. Objetivo de aprendizagem 50 Biologia Celular A estrutura dos lipídios é bastante diversa. Em geral, apresentam longas cadeias hidrofóbicas 1 – comumente compostas de hidrocar- bonetos – ligadas a cabeças hidrofílicas 2 , formadas por grupos pola- res como carboxilas. Quando constituídos dessa forma, os lipídios são também conhecidos como ácidos graxos (Figura 1). Devido à sua com- posição, uma propriedade comum a todos os lipídios e que permite identificá-los e separá-los em uma mistura celular, é a sua solubilidade em solventes orgânicos, como benzeno, éter e clorofórmio. Figura 1 Estrutura de uma molécula de lipídio (ácido graxo) Bi gB ea rC am er a/ Sh ut te rs to ck Estrutura Grupo carboxila Cadeia de hidrocarbonetos Ácido graxo saturado Ácido graxo não saturado Sem ligação dupla na estrutura Número de ligações duplasPosição da ligação dupla Uma ou mais ligações duplas Ácido láurico Ácido palmitoleico Ácidos graxos são compostos do grupo carboxila e da cadeia de hidrocarbonetos. As diferenças no tamanho e na saturação 3 das cadeias de hidrocar- bonetos são utilizadas para classificar os diferentes lipídios. Alterações nos grupamentos polares, por sua vez, resultam em funções diferen- ciadas dessas macromoléculas. A Figura 2 apresenta alguns exemplos de moléculas lipídicas e suas estruturas químicas. Figura 2 Estrutura química e molecular de alguns ácidos graxos Ba cs ic a/ Sh ut te rs to ckÁcido Eicosapentaenoico Compostos hidrofóbi- cos são insolúveis em água, porém solúveis em solventes orgânicos. São também denominados apolares. 1 Compostos hidrofílicos apresentam elevada solubilidade em água. Também são chamados de polares. 2 Número de ligações duplas e/ou triplas entre carbonos. 3 Ácido linoleico Ácido palmitoleico Os ácidos eicosapentaenoico, linoleico e palmitoleico são conhecidos, respectivamente, como ômega 3, ômega 6 e ômega 7. Em alguns lipídios, os ácidos graxos apresentam diferenças es- truturais, como a presença de anéis aromáticos nas cadeias de hi- drocarbonetos. É o caso da prostaglandina (Figura 3), uma classe de lipídios envolvidos em processos de inflamação e formação de coágu- los sanguíneos. Figura 3 Lipídio prostaglandina E2 Vo lo dy m yr D vo rn yk /S hu tte rs to ck A prostaglandina E2 pertence à classe dos lipídios prostaglandinas; tem a função de aumentar a contração do músculo interno liso uterino, sendo muito utilizada como agente indutora do parto. (Continua) Macromoléculas celulares 51 Ácido linoleico Ácido palmitoleico Os ácidos eicosapentaenoico, linoleico e palmitoleico são conhecidos, respectivamente, como ômega 3, ômega 6 e ômega 7. Em alguns lipídios, os ácidos graxos apresentam diferenças es- truturais, como a presença de anéis aromáticos nas cadeias de hi- drocarbonetos. É o caso da prostaglandina (Figura 3), uma classe de lipídios envolvidos em processos de inflamação e formação de coágu- los sanguíneos. Figura 3 Lipídio prostaglandina E2 Vo lo dy m yr D vo rn yk /S hu tte rs to ck A prostaglandina E2 pertence à classe dos lipídios prostaglandinas; tem a função de aumentar a contração do músculo interno liso uterino, sendo muito utilizada como agente indutora do parto. (Continua) 52 Biologia Celular Ainda, esteróis – lipídios com funções hormonais – não apresentam ácido graxo em sua estrutura. Exemplos são o colesterol (Figura 4), a testosterona e o estradiol. Figura 4 Colesterol, um lipídio com função hormonal Ba cs ic a/ Sh ut te rs to ck A composição lipídica de diferentes organelas celulares varia de acordo com a função que essas moléculas vão exercer (MURO; ATILLA-GOKCUMEN; EGGERT, 2014). Células eucariontes, como aquelas de mamíferos, produzem milhares de moléculas diferentes de lipídios, com funções diversas. A síntese e o transporte desses lipídios ocor- rerão mediados por proteínas encarregadas de auxiliar no processo químico de formação dessas macromoléculas, assim como no seu po- sicionamento em regiões celulares específicas. Tanto a prostaglandina quanto o colesterol são exemplos de lipídios com função informacional, pois atuam como mensageiros químicos, le- vando instruções importantes para células, órgãos e tecidos. Nas célu- las, esses lipídios são produzidos no retículo endoplasmático liso. O retículo endoplasmático liso é uma estrutura formada por uma rede de fi- nas vesículas tubulares de membrana; ocorre em células eucariontes. Além da síntese de hormônios, essa estru- tura é responsável pela solubilização de resíduos metabólicos danosos às células, tornando mais fácil a sua excreção. Difere do retículo endo- plasmático rugoso pela ausência de ribossomos na sua superfície. Te fi/ Sh ut te rs to ckRetículo endoplasmático Envelope nuclear Nucléolo Núcleo Cromatina Poro nuclear Retículo endoplasmático rugoso Ribossomos Retículo endoplasmático liso Macromoléculas celulares 53 A natureza anfipática 4 dos lipídios faz com que eles sejam encon- trados comumente associados a proteínas. É possível observar essa interação na membrana plasmática celular, que é constituída por uma bicamada fosfolipídica com proteínas imersas integralmente (proteí- nas integrais de membrana) ou parcialmente (proteínas periféricas de membrana), assemelhando-se a um mosaico fluido (Figura 5). A pre- sença de lipídios nessa organela é um exemplo de sua função estru- tural nas células, e garante tanto a separação do conteúdo celular do meio externo quanto a seletividade de entrada de compostos no meio intracelular. Figura 5 Estrutura da membrana plasmática celular Glicoproteína Proteína globular Carboidrato Glicolipídio Colesterol Proteína integral Proteína periférica Proteína de canal Proteína alfa-hélice Proteínas de canal e proteínas alfa-hélice atuam mediando a passagem de compostos por meio da membrana, em geral por difusão passiva ou facilitada. A seletividade da membrana plasmática se deve justamente à ca- racterística anfipática da camada fosfolipídica, que apresenta suas ca- deias hidrofóbicas voltadas para o interior da estrutura. A maior parte das moléculas, como carboidratos e proteínas, são solúveis apenas em água e não conseguem atravessar essa barreira apolar. Para entrar nas células, elas dependem da ação de proteínas transportadoras, garan- tindo um controle preciso das entradas e saídas celulares. Pequenas moléculas hidrofílicas, como a água, e moléculas gasosas (oxigênio e gás carbônico, por exemplo) podem entrar na célula por Diz-se que uma molécula é anfipática quando apre- senta porções polares (hidrofílicas) e apolares hidrofóbicas). 4 De si gn ua /S hu tte rs to ck 54 Biologia Celular meio do transporte passivo, isto é, sem gasto energético durante sua passagem. Outras moléculas, entretanto, entrarão apenas pela ação de proteínas transportadoras e mediante consumo de energia, princi- palmente quando a migração ocorre de um local menos concentrado para outro mais concentrado, como é o caso das moléculas de sódio e potássio. Essa diferença no transporte celular de compostos é denomi- nada permeabilidade seletiva de membrana. Membranas plasmáticas também necessitam ter controle de flui- dez, para evitar que a célula fique rígida em excesso. Para isso, outra classe de lipídios – o colesterol – se posiciona entre os fosfolipídios, evitando a sua proximidade em excesso. Assim, reduz-se a rigidez da membrana, ao mesmo tempo que a evita um possível excesso de flexi- bilidade (MARTINEZ-SEARA et al., 2010). Outra função dos lipídios nas células é a de armazenamento. Trigli- cerídeos, por exemplo, são uma classe de lipídios formados pela reação de uma molécula de glicerol e três moléculas de ácido graxo (Figura 6). Essas moléculas são armazenadas como reserva energética em célu- las especializadas; no caso dos vertebrados, podem ser encontrados em células de gordura denominadas adipócitos, e em plantas formam óleos armazenados nas sementes. Enzimas lipases são responsáveis pela quebra dos triglicerídeos, disponibilizando os ácidos graxos para geração de energia quando necessário. Figura 6 Reação química e estrutura dos triglicerídeos Glicerol 3 ácidos graxos Triglicerídeos é liberada Bi gB ea rC am er a/ Sh ut te rs to ck Macromoléculas celulares 55 Os polissacarídeos são moléculas orgânicas formadas pela polimeri- zação 5 de monômeros de monossacarídeos – moléculas de carboidratos (açúcar) que contêm comumente entre três e sete átomos de carbono. Polissacarídeos simples – ou homopolissacarídeos – são forma- dos pela repetição de um único tipo de monossacarídeo. É o caso das moléculas de amido, glicogênio e celulose (Figura 7), todas for- madas pela polimerização da glicose, diferenciando-se pelo tipo de ligação entre seus monômeros (ligação glicosídica) e o organismo em quesão encontradas. Figura 7 Polissacarídeos simples de glicose Sa ns an or th /S hu tte rs to ck Amilose Glicogênio Celulose Amilopectina O amido pode ter em sua constituição cadeias de amilose (linear) e/ou cadeias de amilopectina (ramificada), dependendo do organismo onde é encontrado. Por sua vez, os polissacarídeos complexos (heteropolissacarídeos) são formados pela ligação de diferentes monômeros – como o ácido hialurônico (N-acetil-D-glucosamina e ácido glucurônico), importan- te componente do tecido conjuntivo de animais – e a heparina (ácido L-idurônico e glucosamina N-sulfatada), presente em diversos tecidos em animais, com propriedade anticoagulante (Figura 8). Heteropolissa- carídeos complexos também ocorrem em plantas na produção de gomas 6 – goma arábica, do gênero Acacia, e a goma de tragacanto, do gênero Astragalus, por exemplo. Polimerização é a união de pequenas moléculas (monômeros) para a for- mação de uma molécula extensa - um polímero. Um monômero é a menor unidade de repetição de um polímero. 5 Substâncias produzidas pelas plantas superiores; em geral, como uma proteção pós-agressão a algum de seus tecidos. 6 56 Biologia Celular Figura 8 Estrutura química dos monômeros do ácido hialurônico e heparina kh un ta po l/S hu tte rs to ck Heparina Pa pe r T eo /S hu tte rs to ck Ácido hialurônico Fórmula molecular do ácido hialurônico Fórmula estrutural do ácido hialurônico Nitrogênio Carbono Oxigênio Hidrogênio Assim como os lipídios, as principais funções dos polissacarídeos nas células são estruturais, de reserva energética e informacional. Estruturalmente, os polissacarídeos se encontram em todos os microrganismos, na constituição da substância polimérica ex- tracelular (EPS). Esses polímeros são constituídos não apenas de polissacarídeos, mas também de proteínas e, em menor quan- tidade, lipídios, ácidos nucleicos e substâncias húmicas 7 . São secretados pelas células microbianas no meio externo, proporcio- nando integridade estrutural e funcional aos biofilmes 8 formados, ou auxiliando na adesão celular à superfície (Figura 9) (HUSSAIN et al., 2017). As cadeias de carboidratos também são componentes impor- tantes das membranas plasmáticas dos organismos. Em geral, encontram-se na superfície dessa organela, associadas a outras moléculas, como os lipídios (glicolipídios) e as proteínas (glico- proteínas). A principal função dessas moléculas de superfície é informacional, como o reconhecimento da célula-célula 9 . Assim, glicoproteínas e glicolipídios de membrana podem servir de ponto de ancoragem para outras células, para moléculas – como os hor- mônios – e para mediadores químicos, além de reconhecer estru- turas bacterianas e toxinas. Mistura complexa de vá- rios compostos orgânicos originados da decomposi- ção microbiana. 7 Estruturas microbianas, em geral, aderidas a uma superfície e que contêm os microrganismos e uma espessa camada de po- límeros secretados para proteção e adesão. 8 Processo a partir do qual duas células se reconhe- cem no meio e passam a interagir por meio de estruturas presentes em suas membranas plasmáticas. 9 Macromoléculas celulares 57 Figura 9 Biofilme microbiano contendo substância polimérica extracelular (EPS) Kr zy sz to f A . Z ac ha rs ki /W ik im ed ia C om m on s Apesar de ser um sistema de reconhecimento bastante útil às cé- lulas do sistema imune de animais, muitos vírus, bactérias e parasitas exploram esse mecanismo para entrar na célula hospedeira. Por exem- plo, o vírus da gripe (Influenza) e o parasita Plasmodium falciparum, agente causador da malária, utilizam a glicoforina, uma glicoproteína de membrana, para invadir os glóbulos vermelhos do hospedeiro. O processo de sinalização mediado por moléculas de superfície está re- presentado na Figura 10. Ve ct or M in e/ Sh ut te rs to ck Figura 10 Mecanismo da sinalização celular mediada por moléculas de superfície Molécula sinalizadoraMolécula sinalizadora ReceptorReceptor Moléculas de Moléculas de retransmissãoretransmissão TransduçãoTransdução RespostaResposta Ativação da Ativação da resposta celularresposta celular Via de sinal-transduçãoVia de sinal-transdução RecepçãoRecepção Fluido extracelular Fluido extracelular M em brana plasm ática M em brana plasm ática Citoplasm a Citoplasm a No livro Biofilmes: na saúde, no ambiente, na indústria, Nuno F. Azevedo e Nuno Cerca trazem uma visão ampla sobre a importância dessas comunidades microbianas para o bem-estar humano e em diferentes setores produtivos. A constituição elaborada dos biofilmes – com o auxílio de diversas macromoléculas – e sua rápida adaptação aos mais diversos ambientes evidencia a complexidade dessas verdadeiras cida- des de microrganismos que estão ao redor das pessoas. AZEVEDO, N. F.; CERCA, N. 1. ed. Porto: Publindústria, 2012. Livro https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=User:K.Zacharski&action=edit&redlink=1 58 Biologia Celular Em bactérias Gram-negativas 10 , lipopolissacarídeos (LPS) fazem parte da membrana externa, ligados covalentemente. Além de contri- buírem para a integridade estrutural das células bacterianas, essas ma- cromoléculas também auxiliam o microrganismo a escapar da resposta imune do hospedeiro, pois são capazes de se alterar rapidamente, o que resulta em uma resposta mais fraca das células de defesa do orga- nismo infectado. A função estrutural dos polissacarídeos é bem evidente na compo- sição da parede celular de plantas, fungos e bactérias e na composição do exoesqueleto de alguns artrópodes (composto de quitina, um ho- mopolissacarídeo de N-acetilglicosamina) (GARCIA-RUBIO et al., 2020). Nas plantas, a parede celular é composta de três classes de polissacarí- deos: celulose, pectinas e hemicelulose. Enquanto as fibras da celulose são sintetizadas na membrana plasmática, os demais polissacarídeos são produzidos no complexo de Golgi por enzimas ligadas à membrana dessa estrutura (DRIOUICH et al., 2012). O complexo de Golgi é uma organela encontrada apenas em células eucariontes. Origina-se a partir de um sistema de membranas internas; apresenta o aspecto de vários discos achatados sobrepostos, chamados de cisternas. Sua principal função está associada ao empacotamento e endereçamento de proteínas em vesículas membranosas, adicionando modificações a essas proteínas, que sina- lizarão seu destino na célula. Nas plantas, tem a função adicional de montar e direcionar as moléculas de polissacarídeos não celulósicos para a constituição da parede celular. Te fi/ Sh ut te rs to ck Complexo de Golgi De acordo com sua capacidade de reter um corante primário em um processo de coloração (coloração de Gram), as bactérias são classificadas como Gram-positivas (retêm o corante, apre- sentando coloração roxa) e Gram-negativas (não retêm o corante e são evidenciadas com um contracorante, apresen- tando coloração rosa). Essa classificação será tratada mais adiante. 10 Macromoléculas celulares 59 A parede celular de fungos é composta principalmente de glucanos (homopolissacarídeos de D-glicose), quitina e glicoproteínas. Com essa composição, confere proteção, rigidez e definição estrutural às células. Em bactérias, a parede celular é constituída majoritariamente por peptidoglicanos – polímeros complexos de açúcares e aminoácidos (N-acetil-D-glucosamina e ácido N-acetilmurâmico). Peptidoglicanos são comumente conhecidos como mureína, e sua composição varia de acordo com o grupo de bactérias: Gram-positivas ou Gram-negativas. Bactérias Gram-positivas apresentam uma espessa camada de pepti- doglicanos, e justamente essa característica é utilizada para diferen- ciá-las das bactérias Gram-negativas, cuja camada de mureína é mais delgada e precede uma membrana externa (Figura 11). Devido a essa generosa camada de polissacarídeos em sua parede celular, bactérias Gram-positivas são capazes de reter ocorante primá- rio durante a técnica de coloração de Gram, adquirindo uma coloração roxa, enquanto as bactérias Gram-negativas são facilmente descoradas com álcool. Para evidenciar a presença desse último grupo é, então, utilizado um contracorante que confere a cor rosa a essas bactérias. Figura 11 Estrutura da parede celular de bactérias Gram-negativas e Gram-positivas D es ig nu a/ Sh ut te rs to ck Gram-negativas Gram-positivas Membrana externa Lipoproteínas Lipopolissacarídeos Porina Proteína Peptideoglicanos Espaço periplasmático Membrana citoplasmática Diferentemente de bactérias, o grupo de microrganismos proca- riontes das arqueas não apresenta mureína em sua parede celular. Algumas espécies, entretanto, têm outro polissacarídeo – o pseudo- peptidoglicano – cujas morfologia e função são similares àquelas dos 60 Biologia Celular peptidoglicanos, mas com ácido N-acetil-talosaminurômico no lugar do ácido N-acetil-murâmico. A função energética dos polissacarídeos nas células evidencia-se pela presença de grânulos de reserva, notadamente o glicogênio em células animais e o amido nas células vegetais. Ambas as moléculas são polímeros de D-glicose e podem ser liberados em momentos de demanda energética e utilizados para a realização dos processos me- tabólicos das células. 3.2 Proteínas Vídeo Proteínas são macromoléculas presentes em todas as células e res- ponsáveis por processos bioquímicos essenciais à vida. São constituí- das pela polimerização de aminoácidos, unidos por ligações covalentes denominadas ligações peptídicas (Figura 12). Figura 12 Composição e estrutura química de proteínas Na sk y/ Sh ut te rs to ck ; Ba cs ic a/ Sh ut te rs to ck Conhecer a estrutura, as propriedades e as funções das proteínas. Objetivo de aprendizagem Aminoácidos Peptídeo Proteína Ligação peptídica Cadeia lateral Cadeia lateral Cadeia lateral Ligação peptídica Cadeia lateral Grupo amino Grupo carboxila À esquerda, representação esquemática da constituição das proteínas; à direita, estrutura química dos aminoácidos e representação da ligação peptídica. Macromoléculas celulares 61 Existem mais de cem moléculas de aminoácidos, a maioria presente em plantas; entretanto, apenas 20 delas são encontradas na constitui- ção de proteínas (Figura 13). Figura 13 Estrutura química dos 20 aminoácidos encontrados na constituição de proteínas ch ro m at os /S hu tte rs to ck Glicina Tirosina Histidina Ácido aspártico Ácido glutâmico Asparagina Glutamina Cisteína Metionina Serina Treonina Prolina Triptofano Lisina Arginina Alanina Valina Isoleucina Leucina Fenilalanina Proteínas são específicas para espécies e, mesmo dentro de uma espécie, são produzidas de maneira diferenciada em cada órgão e tecido. Assim, proteínas produzidas nos neurônios de um organismo são distintas daquelas encontradas nas células do fígado ou coração, por exemplo. 62 Biologia Celular Essa especificidade se deve às diversas funções biológicas das proteínas, que são responsáveis por controlar processos metabó- licos, acelerando reações químicas específicas, e podem auxiliar no transporte de moléculas ou compor estruturas e organelas celulares. Moléculas de proteínas são bastante extensas, compostas de diver- sos aminoácidos ligados em sequência. Essa composição e sequência de aminoácidos é o que caracteriza a estrutura proteica primária. A estrutura primária é estabilizada pelas próprias ligações peptí- dicas entre aminoácidos. Entretanto, outras forças são necessárias para que essa molécula possa adotar sua conformação funcional. Isso porque cada proteína apresenta uma estrutura tridimensional característica, denominada de conformação nativa. Apenas nessa configuração é que as proteínas se encontram ativas, realizando perfeitamente suas funções biológicas. Para tanto, são necessários dobramentos e ligações internas, que caracterizam uma estrutura proteica secundária. A estrutura secundária é mantida por ligações de hidrogênio entre aminoácidos que não se encontram em sequência, ou por ligações dissulfeto, que ocorrem entre moléculas do aminoácido cisteína. Uma configuração secundária bem comum em proteínas globulares 11 é a alfa-hélice, que constitui uma forma helicoidal 12 assimétrica. A organização espacial das estruturas primária e secundária, com todas as suas ligações e interações, constitui a estrutura ter- ciária proteica. Essa estrutura se caracteriza principalmente pelas interações entre as cadeias laterais dos aminoácidos, por meio de atração ou repulsão entre regiões polares e apolares, ou negativas e positivas. Quando mais de uma cadeia polipeptídica se une para formar uma unidade proteica funcional, é formada uma estrutura quaterná- ria. É o caso da hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio para os tecidos de diversas espécies de animais. A he- moglobina consiste em quatro cadeias polipeptídicas ligadas entre si por ligações de hidrogênio e interações hidrofóbicas. Devido à proximidade estrutural e funcional dessas cadeias, a hemoglobina é considerada uma macromolécula única. Proteínas com conforma- ção esférica. 11 Semelhante à hélice. 12 Macromoléculas celulares 63 A Figura 14 apresenta os quatro níveis estruturais encontrados em proteínas. É importante ressaltar que nem toda proteína apre- senta estrutura quaternária; apenas aquelas com mais de uma ca- deia polipeptídica em sua constituição. Figura 14 Organização estrutural de proteínas N. Vi no th N ar as in ga m /S hu tte rs to ck Estrutura primária (resíduos de aminoácidos) Estrutura secundária (alfa-hélice) Estrutura terciária (cadeia polipeptídica) Estrutura quaternária (subunidades ligadas) Entre as inúmeras funções exercidas pelas proteínas, destaca-se a capacidade catalítica 13 de algumas dessas moléculas. Essas proteínas, capazes de acelerar uma reação química, são cha- madas de enzimas. Enzimas apresentam em sua conformação uma ou mais regiões onde ocorrerão as reações bioquímicas. Essa região recebe o nome de sítio ativo. O composto que vai ser modificado durante a reação é o substrato, e deve reconhecer o sítio ativo e se ligar a ele de modo complementar. Esse é um dos motivos pelos quais é necessário que as proteínas se encontrem em sua forma tridimensional nativa, para que o substrato reconheça a região de ligação e a reação seja catali- sada adequadamente. Após a catálise química, os produtos gerados são liberados – no interior celular ou no meio extracelular – e a enzima é regenerada e encontra-se pronta para uma nova reação. A Figura 15 é uma representação esquemática do mecanismo de ação das enzimas. Capacidade de aumentar a velocidade em que uma reação química ocorre. 13 https://www.shutterstock.com/pt/g/N_vinoth_narasingam 64 Biologia Celular Figura 15 Representação dos mecanismos enzimáticos para a catálise química de compostos Produtos Substrato Sítio ativo Substratos separados são combinados Substrato Produtos Sítio ativo Enzima altera levemente seu formato quando o substrato se liga An to no v M ax im /S hu tte rs to ck Além da função catalítica, proteínas podem atuar como transpor- tadoras, permitindo a entrada de moléculas na célula (proteínas canal ou proteínas transportadoras de membrana) ou promovendo a trans- ferência entre organelas celulares. Também atuam como importantes constituintes estruturais, sendo essenciais nos processos de divisão e movimentação celular. 3.3 Ácidos nucleicos Vídeo Ácidos nucleicos são as principais moléculas informacionais da célula e responsáveis por coordenar a síntese das proteínas. Consti- tuem a base hereditária das células, transmitindo as características de geração a geração em todos os organismos. As duas classes principais de ácidos nucleicos são o DNA (ácido desoxirribonucleico) e o RNA (ácido ribonucleico). Assim como os polissacarídeos e as proteínas, os ácidos nucleicos também são macromoléculasconstituídas pela junção de vários monô- meros, nesse caso, os nucleotídeos. Cada nucleotídeo é formado por uma base aromática contendo ni- trogênio e ligada a uma pentose (açúcar com cinco carbonos), que, por Baseado em uma história real, o filme O óleo de Lorenzo narra o drama dos pais do jovem Lorenzo Odone, diagnosticado com adre- noleucodistrofia (ADL), uma doença degenerativa rara, provocada por uma falha enzimática que leva ao acúmulo de ácidos graxos no organismo. Ao buscar uma cura para o filho, os pais desenvolvem um óleo capaz de impedir o avanço da doença e prover uma sobrevida a Lorenzo, que nenhum tratamento convencional foi capaz de conseguir. Direção: George Miller. Estados Unidos: Universal Pictures, 1992. Filme Conhecer a estrutura, as propriedades e as fun- ções dos ácidos nucleicos – DNA e RNA. Objetivo de aprendizagem https://www.shutterstock.com/pt/g/Antonov+Maxim Macromoléculas celulares 65 sua vez, está ligada a um grupamento fosfato, conforme ilustra a Figura 16. As bases nitrogenadas podem ser: adenina (A), guanina (G), citosina (C), timina (T) e uracila (U). As bases adenina e guanina são denomina- das purinas; e citosina, timina e uracila são chamadas de pirimidinas. Todos os ácidos nucleicos contêm as bases A, G e C; entretanto, T é apenas encontrada no DNA, enquanto U encontra-se apenas na molé- cula de RNA. Figura 16 Estrutura química de um nucleotídeo ar te m id e/ Sh ut te rs to ck Ligação éster fosfato Base nitrogenada Ligação β-glicosídica Pentose Grupo fosfato X = H no DNA X = OH no RNA Entre os ácidos nucleicos, o DNA é a molécula responsável pelo armazenamento e pela transmissão das informações genéticas. Ele constitui os cromossomos das células procariontes e eucariontes e é duplicado e dividido entre as células filhas durante a divisão celular. A estrutura do DNA é helicoidal, com duas cadeias ligadas por suas bases nitrogenadas e rotacionadas em torno de um eixo (Figura 17). As ligações entre as bases nitrogenadas são específicas, com adenina ligando-se à timina, e guanina ligando-se à citosina, e vice-versa. Essa interação entre as bases nitrogenadas ocorre por meio de ligações de hidrogênio e, portanto, são mais fáceis de serem rompidas do que as li- gações que ocorrem entre nucleotídeos de uma mesma cadeia (ligação nucleotídica covalente). 66 Biologia Celular Figura 17 Estrutura da molécula de DNA De si gn ua /S hu tte rs to ck Timina Adenina Citosina Guanina Pentose Fosfato Ligação de hidrogênio Purinas Pirimidinas O RNA, por sua vez, pode ser encontrado em diversas formas na célula, sendo as principais: RNA mensageiro (mRNA); RNA de transfe- rência (tRNA); e RNA ribossômico (rRNA). Todas essas moléculas estão envolvidas na síntese de proteínas a partir do DNA. O livro Crick, Watson e o DNA em 90 minutos, de Paul Strathern, aborda a descoberta da estrutura do DNA de uma forma leve e descontraída. Em 1962, os pesquisadores Francis Crick e James Wat- son com outros grupos de pesquisadores desven- daram a estrutura em dupla hélice do DNA, uma descoberta que revolucio- nou todo o conhecimento científico da época. STRATHERN, P. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001. Livro O RNA pode ser encontrado com estruturas e funções diversas, e todas elas desempenham um importante papel na síntese proteica: RNA mensageiro: sintetizado a partir de uma sequência de DNA codificante, a partir da ação de enzimas específicas (RNA polimerase, por exemplo). Formado por uma fita simples, com uracila no lugar de timina. Em eucarion- tes, são produzidos no núcleo, processados e enviados ao citoplasma para o processo de tradução proteica. Em procariontes, são sintetizados no próprio citoplasma e não demandam processamento prévio antes da tradução. (Continua) Macromoléculas celulares 67 RNA ribossômico: principal constituinte dos ribossomos, juntamente com as proteínas. Os ribossomos encontram-se livres no citoplasma, no caso das células procariontes, ou associados ao retículo endoplasmático (cons- tituindo o retículo endoplasmático rugoso) nas células eucariontes. São formados por duas subunidades que acoplam-se durante a síntese proteica, realizando a tradução da sequência de nucleotídeos do mRNA em uma se- quência proteica. RNA de transferência: é o menor entre os três RNA e apresenta uma confor- mação específica, similar a um trevo. Tem como principal função transpor- tar os aminoácidos para as posições corretas na cadeia polipeptídica que está sendo sintetizada no ribossomo. am co ra /S hu tte rs to ck Processamento + Aminoácidos + Proteínas ribossomais Ribossoma RNA mensageiro (mRNA): responsável por transmitir as informações dos genes para a produção de polipeptídeos no citoplasma. RNA de transferência (tRNA): responsável pela transferência de aminoácidos aos ribossomos para a síntese de proteínas RNA ribossômico (rRNA): associado com proteínas ribossomais, forma os ribossomos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, estudou-se as principais macromoléculas celulares, que são fundamentais para a sobrevivência dos seres vivos. Foram abordadas a estrutura e as propriedades dos lipídios, importantes moléculas estru- turais e de reserva energética. Ainda, tratou-se dos polissacarídeos, ma- cromoléculas essenciais na construção de organelas celulares – como a parede celular – e na manutenção da energia celular, pelo armazenamento de compostos altamente energéticos – glicogênio e amido, por exemplo. Outras duas macromoléculas de grande importância na manutenção de todas as formas de vida também foram estudadas: as proteínas – res- ponsáveis por conduzir as reações metabólicas celulares com rapidez e precisão – e os ácidos nucleicos, moléculas responsáveis pelas caracte- rísticas de todos os organismos e pela sua transmissão hereditária às gerações subsequentes. 68 Biologia Celular ATIVIDADES Atividade 1 Quais são os grupos químicos que compõem uma molécula de nucleotídeo? Atividade 2 Qual é a importância das enzimas para o metabolismo celular? Atividade 3 Qual é a função da molécula de colesterol na membrana plasmá- tica celular? REFERÊNCIAS DRIOUICH, A. et al. Golgi-mediated synthesis and secretion of matrix polysaccharides of the primary cell wall of higher plants. Frontiers in Plant Science, v. 3, n. 79, abr. 2012. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpls.2012.00079/full. Acesso em: 8 nov. 2021. GARCIA-RUBIO, R. et al. The fungal cell wall: Candida, Cryptococcus, and Aspergillus species. Frontiers in Microbiology, v. 10, jan. 2020. Disponível em: https://www.frontiersin. org/articles/10.3389/fmicb.2019.02993/full. Acesso em: 08 nov. 2021. HUSSAIN, A. et al. Blends and composites of exopolysaccharides; properties and applications: a review. International Journal of Biological Macromolecules, v. 94, p. 10-27, 2017. MARTINEZ-SEARA, H. et al. Cholesterol induces specific spatial and orientational order in cholesterol/phospholipid membranes. Plos One, v. 5, n. 6, jun. 2010. Disponível em: https:// journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0011162. Acesso em: 8 nov. 2021. MURO, E.; ATILLA-GOKCUMEN, G. E.; EGGERT, U. S. Lipids in cell biology: how can we understand them better? Molecular Biology of the Cell, v. 25, n. 12, p. 1819–1823, 2014. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4055261/. Acesso em: 8 nov. 2021. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2019.02993/full https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2019.02993/full Metabolismo e divisão celular 69 4 Metabolismo e divisão celular Para nossa sobrevivência, as células devem ser capazes de promover inúmeras reações bioquímicas em nosso interior, produzindo compostos e energia para nossas atividades. A esse conjunto de reações bioquímicas damos o nome de metabolismo, que deve ser coordenado e controlado rigorosamente por enzimas, coenzimas e outras moléculas específicas.Esses sistemas multienzimáticos são responsáveis por vias metabólicas diversas, as quais têm como objetivos a geração de energia química, a produção de macromoléculas ou a mediação de importantes funções ce- lulares, como a divisão e o crescimento celular. Neste capítulo veremos as principais vias metabólicas de geração energética celular e as moléculas associadas a cada um desses processos. Também exploraremos a estrutura e as funções da mitocôndria – organe- la essencial à sobrevivência e ao sucesso evolutivo das células eucariontes – e os mecanismos associados à fotossíntese pela ação dos cloroplastos nas células vegetais. Por fim, abordaremos as etapas da divisão celular e suas funções de reprodução nos organismos unicelulares e de crescimen- to tecidual e manutenção celular nos organismos pluricelulares. 4.1 Geração de energia Vídeo Em organismos vivos, o conceito de metabolismo está associado ao armazenamento e à conversão de alimentos em energia, permi- tindo sua sobrevivência. De modo similar, o metabolismo celular re- fere-se aos múltiplos processos metabólicos que ocorrem durante o crescimento e a manutenção de cada célula. Em seu pequeno reservatório, as células são capazes de conduzir diversos processos simultaneamente, como crescer, movimentar-se e manter as atividades essenciais à sua sobrevivência funcionais. Entre- tanto, para que isso seja possível, é fundamental que elas possuam mecanismos eficientes de geração de energia, produzindo e armaze- Compreender os pro- cessos intracelulares geradores de energia: fermentação, glicólise, ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa. Objetivo de aprendizagem 70 Biologia Celular nando moléculas que serão utilizadas de acordo com a demanda ener- gética de cada processo celular. Entre as moléculas produzidas durante o metabolismo celular, duas se destacam pelo seu papel chave na geração de energia: a adenosina trifosfato (ATP) e a nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+). A ATP é a principal molécula energética 1 Moléculas energéticas são aquelas cuja quebra libera energia para a realização de atividades celulares. 1 utilizada pelas células devido à sua capacidade de liberar energia rapidamente quando necessário. A energia é libe- rada da ATP quando um de seus grupamentos fosfato é removido e a molécula é convertida em adenosina difosfato (ADP). A molécula de ATP pode ser regenerada com a adição de um novo grupo fosfato, o que ocorre com a absorção de energia, obtida por meio dos alimentos ingeridos pelos organismos heterotróficos ou pela fotossíntese e quimiossíntese em organismos autotróficos 2 Organismos heterotróficos obtêm energia com base em compostos orgânicos ingeridos, isto é, não são capazes de produzir seu próprio alimento a partir de compostos inorgânicos. Por sua vez, organismos autotróficos utilizam com- postos inorgânicos e ener- gia solar (fotossíntese) ou química (quimiossíntese) para gerar compostos orgânicos complexos. 2 . De si gn ua /S hu tte rs to ck Adenina Ribose Ribose Trifosfato Fosfato Fosfato Energia liberada (para a célula) Difosfato Energia absorvida (alimentos ou fotossíntese) ATP ADP Adenina Moléculas de ATP são formadas com absorção de energia e atuam como reserva energética celular, liberando energia (na forma de um grupo fosfato) quando necessário. Metabolismo e divisão celular 71 Em sistemas biológicos, as reações de oxirreduções (reações redox) são responsáveis pela transferência de elétrons entre espécies químicas, forne- cendo energia metabólica para as atividades celulares. Uma das principais formas de transferência desses elétrons ocorre pela ação da coenzima NAD+, a nicotinamida adenina dinucleotídeo. Essa coenzima transfere e recebe íons hidretos H- de enzimas hidrogenases 3 Enzimas que promovem a redução de compostos pela adição de hidretos H–. 3 e desidrogenases 4 Enzimas que promovem a oxidação de compos- tos pela remoção de hidretos H–. 4 , respectivamen- te, agindo como uma transportadora intermediária desse íon no interior das células. Quando reage com o hidrogênio (recebendo duas moléculas de H+ e dois elétrons de uma desidrogenase), essa coenzima encontra-se em sua forma reduzida NADH, isto é, em sua conformação mais energética, con- tendo elétrons livres para transferência para algum processo biológico que demande energia. ch ro m at os /S hu tte rs to ck Reação redox do NAD e–: elétrons; NADox: NAD oxidada; NADred: NAD reduzida. O fluxo de energia nas células é mediado por reações químicas especiais, em que moléculas complexas e altamente energéticas são clivadas 5 Quebradas por meio de processos enzimáticos, produzindo moléculas menores. 5 em moléculas mais simples e com baixo conteúdo de energia. Durante essa quebra, energia – em geral na forma de moléculas de ATP – é produzida para a condução das atividades celulares. Ao conjunto dos processos metabólicos de geração de energia a partir da conversão, ou oxidação, de moléculas comple- xas a moléculas mais simples é dado o nome de catabolismo. 72 Biologia Celular Por outro lado, as células também são capazes de sintetizar os compostos necessários à sua sobrevivência, sejam moléculas de energia, estruturais ou informacionais. Nesse caso, as vias metabó- licas utilizadas compõem os processos de anabolismo, essenciais ao crescimento, reprodução e manutenção celular. A via metabólica, utilizada para gerar energia, depende, em grande parte, do tipo da célula, se esta é procarionte ou eucarion- te. Enquanto células procariontes fazem uso das vias da respiração anaeróbia (glicólise ou fermentação), as células eucariontes utili- zam, em geral, três vias em sequência para garantir uma produção energética mais elevada, em um processo conhecido como respi- ração aeróbia: a glicólise, o ciclo do ácido cítrico e a fosforilação oxidativa. A seguir, discutiremos quatro das principais vias metabólicas de geração de energia celular: glicólise, fermentação, ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa. 4.1.1 Glicólise A glicólise é a via mais ancestral de geração de energia, utiliza- da como via única até hoje por diversos microrganismos. Também é a rota inicial do processo da respiração aeróbia, conduzida por células eucariontes. Nessa via metabólica, a molécula de glicose (um carboidrato contendo seis carbonos) é transformada por meio de uma série de reações químicas mediadas por enzimas até produzir duas mo- léculas de piruvato – carboidrato contendo três átomos de carbo- no. Durante as etapas de transformação, são geradas duas novas moléculas de ATP por molécula de glicose oxidada, e duas molécu- las de NAD+ são convertidas em NADH. A Figura 1 apresenta a via da glicólise com as enzimas responsáveis pela catalisação de cada uma das suas etapas constituintes. Metabolismo e divisão celular 73 Figura 1 Etapas da via metabólica da glicólise Bo tn am Il lu st ra tio ns /S hu tte rs to ck Glicose ADP ADP ATP ATP Glucoquinase Glucose-6-fosfato Hexoisomerase Frutose-6-fosfato Fosfofrutoquinase Frutose 1,6-bifosfato Aldolase Di-hidroxiacetona- fosfato Gliceraldeído 3-fosfato Triose-fosfato isomerase Gliceraldeído 3-fosfato desidrogenase 1,3-bifosfoglicerato1,3-bifosfoglicerato 3-fosfoglicerato 3-fosfogliceratoFosfoglicerato mutase Enolase 2-fosfoglicerato2-fosfoglicerato FosfoenolpiruvatoFosfoenolpiruvato Piruvato Piruvato Gliceraldeído 3-fosfato Gliceraldeído 3-fosfato A glicólise se divide em duas fases, denominadas fase preparató- ria e fase de pagamento. Na fase preparatória, a glicose é fosforilada e convertida em gliceraldeído 3-fosfato e di-hidroxiacetona-fosfato. Essa última molécula é instável e rapidamente é convertida também em gli- ceraldeído 3-fosfato pela enzima triose-fosfato isomerase. Durante a fase preparatória, são consumidas duas moléculas de ATP para as rea- ções de fosforilação. 74 Biologia Celular A segunda etapa, a fase de pagamento,visa compensar a energia gasta na fase preparatória e produzir um saldo positivo de moléculas de ATP. Assim, as moléculas de gliceraldeído 3-fosfato produzidas (duas para cada molécula de glicose utilizada na fase preparatória) são oxida- das em moléculas de piruvato, formando, durante o processo, quatro moléculas de ATP e duas moléculas de NADH. Logo, o saldo energético ao final da glicólise é positivo, com a geração de duas moléculas de ATP e duas moléculas de NADH (Figura 2). Figura 2 Saldo energético final da via metabólica da glicólise Bi ol og i.A ja /S hu tte rs to ck Fase preparatória Glicose utilizado2 4 2 2 ADP + 4 ADP + + 2 H + 2 ADP + NADH P P P Fase de pagamento Formado 2 Piruvato + 4 H2O 2 NAD + 4e- + 4H + Saldo Glicose 4 ATP formado – 2 ATP utilizado 2 Piruvato + 4 H2O 2 ATP 2 NADH + 2 H+2 NAD + + 4e– + 4H+ A via glicolítica ocorre no citoplasma das células e não demanda oxi- gênio para ocorrer. Entretanto, a presença ou não de oxigênio é que vai definir o destino das moléculas de piruvato geradas nessa via. Na presença de oxigênio, as moléculas de piruvato serão utilizadas nas demais vias da respiração aeróbia – ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa. Na sua ausência, entretanto, o piruvato gerado será utilizado para formar outros produtos intermediários, como ácido láctico e ál- cool, no processo de fermentação. Metabolismo e divisão celular 75 4.1.2 Fermentação A fermentação é uma via metabólica de quebra da glicose na ausência de oxigênio para geração de moléculas de ATP. Nesse caso, a molécula de oxigênio não é utilizada como aceptora final de elétrons, como acontece na etapa da fosforilação oxidativa da respiração aeróbia (ver Seção 4.1.4). Essa via metabólica é utilizada por diversos microrganismos proca- riontes e também por algumas células eucariontes. A fermentação é bastante similar à glicólise, com a adição de algumas etapas específicas no final do processo. Entre os processos fermentativos, dois se desta- cam: a fermentação do ácido lático e a fermentação alcoólica. Na fermentação do ácido láctico (Figura 3), após as etapas da glicóli- se, a molécula de NADH transfere elétrons diretamente para o piruvato gerado, produzindo lactato como subproduto. Essa etapa é chamada de fase de regeneração de NAD+, por liberar a coenzima para atuar no- vamente na fase preparatória da oxidação de uma nova molécula de glicose, ou em outro processo metabólico. Figura 3 Etapas da fermentação do ácido lático Ve ct or M in e/ Sh ut te rs to ck Glicose Piruvato Lactato 2 G lic ól is e Re ge ne ra çã o do N AD + 2 2 ADP ATP NAD+ NAD+ NADH NADH 2 2 2 2 2 Esse tipo de fermentação é uma via utilizada por bactérias do ácido lático, como aquelas dos gêneros Lactococcus e Enterococcus (LIMA et al., 2009), e é um processo fundamental para a produção de muitos alimentos, como derivados fermentados do leite (iogurtes, queijos), assim como carnes, peixes, vegetais e cereais que passam 76 Biologia Celular por processos de fermentação para modificação de sabores, texturas e valores nutricionais (BINTSIS, 2018). Além dos organismos procariontes, algumas células eucariontes também utilizam a via fermentativa do ácido lático. É o caso das he- mácias humanas, que não apresentam mitocôndrias e, portanto, não realizam respiração aeróbia, e também das células musculares, que vão utilizar essa via em situações de pouca disponibilidade de oxigênio, como ocorre no caso de exercícios de elevada intensidade. De maneira similar à fermentação do ácido lático, a fermentação alcoólica (Figura 4) também utiliza o piruvato produzido na glicólise. Entretanto, antes de ser reduzida com a doação de hidrogênio pelo NADH, essa molécula é descarboxilada, com a remoção de um grupa- mento carboxila. Esse processo de descarboxilação de cada piruvato leva à liberação de duas moléculas de gás carbônico no meio (uma para cada piruvato) e à formação de duas moléculas de acetaldeído. Figura 4 Etapas da fermentação alcoólica ha ka n. de m ir/ Sh ut te rs to ck Glicose Piruvatos 2 acetaldeídos 2 etanol CO2 CO2 Na sequência, as moléculas de aldeído produzidas serão redu- zidas pela ação do NADH, que vai atuar como doador de elétrons, Metabolismo e divisão celular 77 produzindo duas moléculas de etanol ao final da via e regenerando as moléculas de NAD+. A fermentação alcoólica é uma via bastante utilizada por leveduras, células eucariontes unicelulares. Pela sua capacidade de produzir ál- cool etílico, esses organismos são amplamente aplicados no processo de produção de bebidas alcoólicas, como vinhos e cervejas. 4.1.3 Ciclo do ácido cítrico Em organismos aeróbios, o piruvato produzido na via da glicólise será utilizado para gerar mais energia em duas vias subsequentes: o ciclo do ácido cítrico e a fosforilação oxidativa. Antes de o ciclo do ácido cítrico ter início, o piruvato, que ainda con- tém bastante energia para ser extraída e utilizada pelas células, é oxi- dado em uma molécula de acetil coenzima A. Essa etapa vai acontecer nas mitocôndrias (Figura 5), no caso de eucariotos, ou na parede inter- na da membrana plasmática, em procariotos. Figura 5 Oxidação do piruvato em célula eucarionte Al i D M /S hu tte rs to ck Citosol Piruvato Mitocôndria Acetil CoA Coenzima A Durante essa etapa, a molécula de piruvato é descarboxilada, per- dendo um grupamento carboxila e liberando CO2. Na sequência, ela é oxidada com o auxílio da molécula de NAD+, gerando NADH, e reage com uma molécula de coenzima A. Com isso, é formada uma molécula de acetil coenzima A (acetil CoA) para cada molécula de piruvato oxi- dada. Lembrando que, durante a glicólise, são produzidas duas molé- 78 Biologia Celular culas de piruvato. Ao final dessa etapa de oxidação, o saldo total será de duas moléculas de acetil CoA, duas moléculas de CO2 e dois NADH. Uma vez formado, o acetil CoA vai entrar em uma via de reações cícli- cas, denominada ciclo do ácido cítrico (Figura 6). Figura 6 Ciclo do ácido cítrico g st ra ub / Sh ut te rs to ck acetil CoA citrato água água água cis-aconitato D-isocitrato Ciclo do ácido cítrico succinil-CoA succinato fumarato malato oxaloacetato α-cetoglutarato água O ciclo do ácido cítrico também é conhecido como ciclo de Krebs, em homenagem ao pesquisador que primeiro o descreveu – Hans Krebs –, ou como ciclo dos ácidos tricarboxílicos, devido à presença de três carbo- xilas em alguns dos compostos intermediários presentes no ciclo. Nas células eucariontes, o ciclo do ácido cítrico ocorre na matriz mitocon- drial, assim como a oxidação do piruvato. Em procariontes, as etapas dessa via são conduzidas no citoplasma celular. Todas as etapas, em ambos os tipos celulares, serão mediadas por enzimas específicas, res- ponsáveis por catalisar as reações bioquímicas necessárias. Durante o ciclo do ácido cítrico, a molécula de acetil CoA, formada com base no piruvato, reage com uma molécula intermediária de qua- tro carbonos – o oxalacetato –, dando origem a uma molécula de seis carbonos, denominada citrato. Essa molécula de citrato será oxidada e Metabolismo e divisão celular 79 liberará duas moléculas de CO2 e duas moléculas de NADH, em reações mediadas por enzimas específicas e com produção de compostos in- termediários. Como resultado, ao final dessas reações, é formada uma molécula de succinil CoA. Na etapa seguinte, a coenzima A da molécula de succinil CoA é subs- tituída por um grupamento fosfato que, na sequência, é transferido para uma molécula de ADP, formando uma nova molécula de ATP e um intermediário de quatro carbonos – o succinato. Em algumas células, o grupo fosfato pode ser transferido para uma molécula de difosfato de guanosina (GDP), dando origem ao trifosfato de guanosina (GTP), uma molécula com função energética similar à ATP. O succinato produzido é, então, oxidado, formando outro interme- diário de quatro carbonos– o fumarato. Nessa etapa, uma molécula de flavina adenina dinucleotídeo (FAD) auxiliará na oxidação do succinato, produzindo FADH2, a variante reduzida dessa molécula. O FAD é uma coenzima que, assim como o NAD+, atua como transportadora interme- diária de elétrons. Por ter maior eletroafinidade do que o NAD+, essa molécula é utilizada nessa etapa, considerando-se que o succinato não é um forte doador de elétrons e, portanto, não é facilmente oxidável. A alta afinidade por elétrons da molécula de FAD consegue contornar esse problema, promovendo a oxidação da molécula do succinato. O fumarato produzido reage com água, formando uma molécula de malato, também contendo quatro carbonos. Na última etapa do ciclo do ácido cítrico, o oxalacetato – molécula que iniciou a sequência de reações – é regenerado pela oxidação do malato, com a produção de mais uma molécula de NADH. Ao final de um ciclo completo, são produzidas duas moléculas de CO2, três moléculas de NADH, uma molécula de FADH2 e uma molécula de ATP (ou GTP). Considerando que esse rendimento se refere a uma única molécula de acetil CoA, o saldo será o dobro se for considerada cada molécula de glicose oxidada. Apesar de não produzir uma grande quantidade de ATP, o ciclo do ácido cítrico é bastante importante para o processo de geração de energia, principalmente pela produção dos intermediários NADH e FADH2, que vão transferir os elétrons que trans- portam para a cadeia transportadora de elétrons presente na via da fosforilação oxidativa, última etapa da respiração aeróbia. 80 Biologia Celular 4.1.4 Fosforilação oxidativa A fosforilação oxidativa é a via metabólica que garante o maior ren- dimento energético aos organismos aeróbios. Nessa via, as moléculas de NADH e FADH2 vão fornecer elétrons para uma série de reações em cadeia que promovem a produção de energia. Essas reações – e suas moléculas associadas – recebem o nome de cadeia transportadora de elétrons (Figura 7) e vão ocorrer na membrana interna das mitocôn- drias – nas células eucariontes – ou na face interna da membrana plas- mática, em células procariontes. Associado à cadeia transportadora de elétrons, ocorre o fenômeno da quimiosmose, em que há a difusão de íons hidrogênio por meio da membrana (mitocondrial ou plasmática) e a consequente produção de moléculas de ATP. Figura 7 Cadeia transportadora de elétrons na via da fosforilação oxidativa K al la ya ne e Na lo ka /S hu tte rs to ck MitocôndriaMembrana externa Espaço intermembranar Membrana interna ATP sintase Matriz Ciclo do ácido cítrico Cit c Q – Ubiquinona; Cit c – Citocromo c; I – Complexo enzimático I; II – Complexo enzimático II; III – Complexo enzimático III; IV – Complexo enzimático IV. Metabolismo e divisão celular 81 A cadeia transportadora de elétrons é formada por uma série de proteínas associadas, que formam quatro complexos enzimáticos, vinculados a algumas coenzimas de membrana, como a ubiqui- nona (coenzima Q10), e outras pequenas proteínas, como o cito- cromo c. Ao passar por esses complexos, os elétrons fornecidos pelas moléculas de NADH e FADH2 liberam energia, que é utilizada para bombear prótons H+ do interior da mitocôndria para o espaço intermembranar (entre suas membranas interna e externa). Esse bombeamento forma um gradiente eletroquímico 6 Diferença na concentra- ção de íons entre dois lados de uma membra- na que promove um transporte termodina- micamente favorável, no sentido da maior para a menor concentração. 6 de hidrogênio; o elemento retorna, então, para a matriz mitocondrial a partir de uma enzima de membrana – a ATP sintase – e, durante sua passa- gem por ela, ocorre a formação de moléculas de ATP. A presença do oxigênio ao final da cadeia transportadora de elétrons é fundamental para a continuidade da via e consequente geração de moléculas de ATP. O oxigênio molecular (O2) receberá os elétrons do último complexo enzimático (complexo IV), dividin- do-se em oxigênio elementar (O) e se unindo com prótons H+ para formar água ao final do processo. Como saldo, a fosforilação oxidativa promove a formação apro- ximada de 26 a 28 moléculas de ATP, além de regenerar as molé- culas de NAD+ e FAD, que podem retornar como transportadoras de elétrons em outras vias. O rendimento aproximado energético da respiração aeróbia, por molécula de glicose, é de cerca de 32 moléculas de ATP, considerando as vias da glicólise, o ciclo do áci- do cítrico e a fosforilação oxidativa. Esse valor, entretanto, pode ser bem menor se considerarmos o gasto energético necessário para o transporte das moléculas intermediárias para o interior da mitocôndria, por exemplo. De qualquer forma, o ganho energético associado ao processo aeróbio é bastante superior ao observado em vias anaeróbias e foi um parâmetro evolutivo decisivo para o surgimento e o desenvolvimento de muitos organismos, como as plantas e os animais. Em um formato divertido e bastante didático, o livro Uma aventura pela respiração celular narra a jornada de uma molécula de carboidrato que, após passar pelo processo digestivo, é utilizada para gerar energia durante as etapas da respiração aeróbia – glicólise, ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa. A autora des- creve os mecanismos das principais vias de geração de energia em células eucariontes de maneira leve, o que torna essa obra uma opção interessante para o estudo introdutório do metabolismo celular. CIANNI, J. Curitiba: Brazil Publishing, 2021. Livro 82 Biologia Celular 4.2 Mitocôndrias e cloroplastos Vídeo Mitocôndrias são organelas membranosas presentes em células eucariontes e que possuem um papel fundamental na respiração aeró- bia. Apresentam seu próprio material genético na forma de DNA, her- dado exclusivamente da linhagem materna. Mitocôndrias contêm material genético próprio, o que reforça a hipótese de que essas organelas devem ter se originado de microrganismos procariontes fagoci- tados por células eucariontes em algum momento da evolução celular. Entretanto, ao contrário do que acontece com o DNA nuclear, em muitos organismos (inclusive em humanos) o DNA mitocondrial – também transmitido de maneira hereditária – tem sua origem exclusivamente materna. Isso porque, após a fecundação, as mitocôndrias presentes nos gametas masculinos são degradadas por estruturas denominadas autofagossomos, presentes no óvulo fecundado (SATO; SATO, 2012). Por estar presente em grande número de cópias nas células, o DNA mitocondrial é comumente utilizado em análises forenses 7 Aplicação de conheci- mentos científicos para responder quesitos em questões judiciais. 7 quando o DNA nuclear encontra-se muito degradado. Nesse caso, marcadores forenses 8 Sequências de DNA que são distintas entre dife- rentes indivíduos. 8 convencionais não serão capazes de identificar uma única pessoa, e sim uma linhagem de indivíduos que apresentam a mesma descendência materna. M us eu d e Pa le on to lo gi a da U ni ve rs id ad e da C al ifó rn ia (U CM P) e o Ce nt ro N ac io na l d e Ed uc aç ão e m C iê nc ia s/ W ik im ed ia C om m on s DNA nuclear é herdado de todos os ancestrais DNA mitocondrial é herdado de uma linhagem única Conhecer a estrutura e a organização funcional das mitocôndrias e dos cloroplastos. Objetivo de aprendizagem Metabolismo e divisão celular 83 A estrutura da mitocôndria está dividida em duas membranas – uma interna e outra externa. Os dobramentos da membrana interna originam conformações denominadas cristas, e o espaço interno da or- ganela é chamado de matriz mitocondrial (Figura 8). Figura 8 Estrutura da mitocôndria Matriz Ribossomo Espaço intermembranar Cristas Membrana externa Membrana interna Grânulos ATP sintase DNA LD ar in /S hu tte rs to ck Assim como a membrana plasmática, a membrana externa da mito- côndria apresenta permeabilidade seletiva, permitindo a passagemde pequenas moléculas. Também contém proteínas transmembranares – as porinas – que auxiliarão o transporte passivo de moléculas hidrofíli- cas de tamanhos diversos. Entre as membranas externa e interna está localizado o espaço in- termembranar, um reservatório aquoso responsável por coordenar diversas atividades celulares e metabólicas, como a regulação da respi- ração celular. As porinas presentes na membrana externa permitirão a entrada – sem gasto energético – de íons e pequenas proteínas no es- paço intermembranar que, dessa forma, apresentará uma composição química bastante similar ao citosol celular. Diferentemente da membrana externa, a membrana interna mito- condrial é impermeável e permite apenas a passagem livre de oxigênio, gás carbônico e água. Por não apresentar aberturas como as formadas pelas porinas, necessita de canais específicos de transporte para a en- trada e saída de moléculas na matriz mitocondrial. Dois desses canais – a bomba de prótons 9 Proteína integral de membrana responsável pelo transporte de íons de hidrogênio contra seu gradiente de concentra- ção (da região mais con- centrada para a menos concentrada). Na cadeia respiratória, os complexos enzimáticos I, III e IV apre- sentam essas proteínas em sua constituição. 9 e a ATP sintase – constituem o mecanismo principal de geração de ATP durante a fosforilação oxidativa (Figura 9). 84 Biologia Celular Figura 9 Mecanismo de geração de moléculas de ATP pela enzima ATP sintase M el et io s Ve rra s/ Sh ut te rs to ck Espaço intermembranar Bomba de prótons ATP sintase Membrana mitocondrial interna Matriz mitocondrial Subunidade F0 Subunidade F0 Su bu ni da de F 1 H as te H+ – prótons de hidrogênio; Pi – grupo fosfato A estrutura da membrana interna é bastante compartimentaliza- da, com dobramentos diversos formando as cristas mitocondriais. A presença desses dobramentos garante uma maior área para realizar as atividades celulares, como a cadeia transportadora de elétrons e a quimiosmose, o que aumenta a eficiência da organela na produção de energia. A matriz mitocondrial é o compartimento mais interno da mitocôn- dria. Contém centenas de enzimas e moléculas que auxiliam o processo respiratório e a produção de ATP. Nessa região, encontram-se o DNA mitocondrial, os ribossomos e os grânulos celulares. O número de mitocôndrias por células varia bastante, de acordo com a maior ou menor demanda energética de cada tipo celular. Assim, as hemácias (glóbulos vermelhos do sangue de mamíferos) não apre- sentam mitocôndrias, enquanto uma única célula do fígado pode conter milhares dessas organelas. Células musculares também apresentam um número elevado de mitocôndrias – cerca de 40% do citoplasma de células musculares cardíacas é composto por elas. Metabolismo e divisão celular 85 Além do seu importante papel na respiração celular, as mito- côndrias também desempenham outras funções igualmente fun- damentais para as células. Entre elas estão o armazenamento de cálcio para atividades de sinalização celular (comunicação entre diferentes células do meio externo, ou dentro de um mesmo orga- nismo), a produção de calor e a mediação das atividades de morte e crescimento celular. Cloroplastos são organelas exclusivas de células vegetais e de algas verdes e, assim como as mitocôndrias, apresentam genoma próprio. Constituem o reservatório celular onde serão conduzidas as etapas da fotossíntese, a qual é o mecanismo de geração de energia autotrófico por meio de compostos inorgânicos e da luz solar. A fotossíntese é a via bioquímica pela qual as células de plantas verdes e de ou- tros organismos autotróficos, como algas verdes e cianobactérias, transformam a energia luminosa em energia química. A reação global da via é: 6CO2 + 6H2O + luz → C6H12O6 + 6O2 Assim, para cada seis moléculas de gás carbônico e de água, na presença de luz solar, são produzidas uma molécula de glicose (C6H12O6) e seis moléculas de gás oxigênio (O2). A molécula de glicose é utilizada para a manutenção da célula, en- quanto o oxigênio é liberado como um subproduto no meio. A reação global é uma forma simplificada de demonstrar o processo bioquímico que ocorre na fotossíntese, entretanto, assim como as vias metabólicas de gera- ção de energia, esse processo também ocorre em etapas mediadas por um grande número de enzimas. Na primeira etapa – chamada de fase luminosa –, a energia solar é absorvida e utilizada para conduzir uma série de transferências de elétrons, resultando na produção de ATP e NADPH 10 NADPH é a versão reduzi- da de NADP+ (nicotinami- da adenina dinucleotídeo fosfato) e é estrutural- mente similar ao NAD+, com a única diferença de possuir um fosfato a mais no carbono 2’ da adenina. Entretanto, apresentam algumas diferenças funcionais importantes: enquanto NAD+ transpor- ta elétrons em processos catabólicos, como na geração de energia, NADP+ atua em processos anabólicos, auxiliando na produção de moléculas e componentes celulares. 10 . Na etapa seguinte – fase escura da fotossíntese ou ciclo de Calvin –, as moléculas de ATP e NADPH geradas são utilizadas para reduzir o dióxido de carbono, formando compostos orgânicos de carbono. Esse processo de redução, com consequente produção de moléculas orgânicas, é cha- mado de fixação de carbono. A fotossíntese é uma via metabólica essencial à vida no planeta. É responsável pela produção primária 11 Total de matéria orgânica produzida por organismos autotróficos. 11 , base da cadeia alimentar, e pela manutenção dos níveis de oxigênio no planeta. É uma via anabólica, isso significa que ela consome ener- gia para a produção de compostos orgânicos. As moléculas orgânicas produzidas, por sua vez, poderão ser degradadas para geração de energia na própria célula, por alguma das vias já estudadas na Seção 4.1. (Continua) 86 Biologia Celular gr ay ja y/ Sh ut te rs to ck Fotossíntese Energia luminosa Açúcar Oxigênio Dióxido de carbono Água Apesar de algumas células procariontes, como as cianobactérias, também realizarem fotossíntese, os cloroplastos estão presentes exclusivamente nas células eucariontes. De acordo com a hipótese endossimbiótica, a origem intracelular dos cloroplastos – de modo similar à origem das mitocôndrias – está associada à ingestão e à ma- nutenção de microrganismos fotossintetizantes por células eucarion- tes. Essa relação simbiótica teria levado à evolução celular de algumas dessas células, que passaram a produzir seu próprio alimento de ma- neira autotrófica. Os cloroplastos pertencem a um grupo definido como plastídeos – organelas presentes em células de plantas e algas, apresentam fun- ções de armazenamento e associadas à realização da fotossíntese. Outros plastídeos são os leucoplastos, que não contêm pigmentos e têm função de reserva (principalmente de amido), e os cromoplastos, especializados na síntese e reserva de pigmentos acessórios que não a clorofila, como os carotenóides (pigmentos alaranjados) e licopenos (pigmentos vermelhos). Portanto, os cloroplastos diferenciam-se dos demais plastídeos pela sua cor verde, devido ao armazenamento dos pigmentos clorofila a e clorofila b. Esses pigmentos têm como principal função absorver a energia luminosa para o processo da fotossíntese e são encontrados majoritariamente nas partes verdes das plantas, principalmente nas células do mesófilo foliar 12 Tecido encontrado nas fo- lhas, localizado entre duas camadas de epiderme. 12 . Metabolismo e divisão celular 87 Estruturalmente, os cloroplastos são constituídos por três mem- branas (Figura 10). Duas dessas membranas (externa e interna) for- mam uma estrutura de revestimento, similar a um vacúolo, dentro da qual encontra-se a terceira membrana, extremamente dobrada, dando origem a pequenos discos achatados, denominados tilacoides. Pela presença dessas estruturas, essa membrana também recebe o nome de membrana tilacoide. Figura10 Estrutura do cloroplasto Cloroplasto Tilacoide Membrana externa Espaço intermembranar Membrana interna Lamela Gota de lipídio DNA do cloroplasto RibossomosGrânulo de amido Lúmen do tilacoide Granum Estroma Ka lla ya ne e Na lo ka /S hu tte rs to ck Na maior parte das células vegetais, os tilacoides são organizados em pilhas, denominadas de grana (singular granum), que se comuni- cam entre si por extensões chamadas de lamelas. O espaço interno dos tilacoides é preenchido com uma solução aquosa e recebe o nome de lúmen do tilacoide. O espaço entre a membrana interna e a membrana tilacoide é preenchido por uma solução contendo enzimas, grânulos de amido, DNA e outras moléculas e é denominado estroma. A membrana tilacoide armazena clorofila e apresenta alguns com- plexos proteicos responsáveis pela fase luminosa da fotossíntese, como o fotossistema I, o fotossistema II e a ATP sintase. Ao incidir sobre os tilacoides, a luz solar excita os pigmentos de clorofila, promovendo a liberação de elétrons. Esses elétrons entrarão em uma das cadeias transportadoras de elétrons presentes na membrana tilacoide e pro- duzirão ATP, NADPH e oxigênio (Figura 11). 88 Biologia Celular Figura 11 Representação esquemática das etapas da fotossíntese em um cloroplasto Ka lla ya ne e Na lo ka /S hu tte rs to ck Luz Reações luminosas Ciclo de Calvin Estroma Açúcar Cloroplasto Pi – grupo fosfato; RuBP – 1,5-ribulose bifosfato carboxilase/oxigenase; 3-PGA – 3-ácido fosfoglicérico; G3P – Gliceraldeído 3-fosfato. As moléculas de ATP e NADPH produzidas são utilizadas na fase es- cura da fotossíntese. Nessa etapa, conduzida no estroma dos cloro- plastos, o CO2 absorvido pela planta vai se combinar com uma molécula receptora contendo cinco carbonos – a 1,5-ribulose bifosfato (RuBP). Em seguida, o composto formado divide-se em duas novas moléculas de 3-ácido fosfoglicérico (3-PGA), contendo três carbonos cada. Essa reação é catalisada pela enzima RuBP carboxilase/oxidase, comumente denominada de rubisco. Na sequência, as moléculas de 3-PGA são reduzidas em gliceraldeído-3-fosfato (G3P), com o auxílio da molécula de NADPH. A cada seis moléculas de G3P produzidas, cinco são regeneradas e retornam ao ciclo como RuBP, enquanto uma é direcionada para a síntese da glicose. Ao total, devem entrar seis moléculas de CO2 no ciclo (seis voltas) para serem produzidas doze moléculas de G3P, o que permite que duas dessas moléculas possam reagir produzindo uma molécula de glicose. O documentário A origem do homem apresenta e dis- cute a ideia de que todos os seres humanos descen- dem de uma mesma mãe genética, uma verdadeira “Eva” ancestral. Para corroborar essa teoria, pesquisadores rastrearam o DNA mitocondrial de uma mulher pré-histórica, que habitou o planeta há cerca de 140 mil anos, verificando a passagem do seu material genético de geração a geração, até os dias atuais. Direção: Andrew Piddington. Reino Unido: Granada Media, 2002. Documentário Metabolismo e divisão celular 89 4.3 Divisão celular Vídeo Seja para garantir sua reprodução – e a transferência de seus genes a uma célula filha – ou para repor células mortas ou danificadas em um tecido, as células estão constantemente se dividindo. Quando um organismo cresce, por exemplo, isso não significa que suas células se tornaram maiores; na verdade, o que aumenta é sua quantidade, e isso é assegurado pela divisão celular. Todos os organismos iniciam seu desenvolvimento com uma única célula. Alguns, unicelulares, mantêm-se dessa forma durante todo seu ciclo de vida, utilizando a divisão apenas para produzir no- vos indivíduos. Outros, porém, são multicelulares, e a divisão celular será essencial no processo de embriogênese 13 Desenvolvimento em- brionário a partir de um óvulo fecundado. 13 e na formação de um organismo completo. Existem dois tipos de divisão celular: mitose e meiose. Enquanto a mitose produzirá novas células idênticas, com conteúdo genético igual à célula que lhe deu origem, a meiose é o processo de divisão que visa à produção de gametas, isto é, células sexuais, como os óvulos e os espermatozoides. Nesse caso, as células produzidas terão apenas me- tade do material genético da célula parental, o que é necessário para que o zigoto gerado a partir da fecundação apresente a quantidade de cromossomos própria de cada espécie. 4.3.1 Mitose Em organismos eucariontes multicelulares, a mitose vai ocorrer nas células somáticas, isto é, naquelas que não apresentam função repro- dutiva. Nesse processo, define-se como ciclo celular o período entre as sucessivas divisões celulares, quando o conteúdo genético celular de- verá ser duplicado para que possa ser corretamente dividido entre as células filhas a serem geradas. Células que apresentam o conjunto completo de cromossomos de uma espécie 14 Duas cópias de cada cromossomo, um de herança paterna e outro de herança materna. 14 são denominadas diploides (simbolizadas como 2n, sen- do n a quantidade de cromossomos no organismo). Por outro lado, células que apresentam apenas metade dos cromossomos, como os gametas, são chamadas de haploides (n). A Figura 12 apresenta a diferença entre células haploides e diploides em seres humanos, cujo conteúdo diploide celular é de 46 cromossomos. Conhecer a divisão celular mediante mitose e meiose. Objetivo de aprendizagem 90 Biologia Celular Figura 12 Diferença entre células diploides e haploides na espécie humana ka ny an at w on gs a/ Sh ut te rs to ck Haploide (n) Um conjunto de cromossomos n = 23 Cromossomos não homólogos Pares de cromossomos homólogos Diploide (2n) Dois conjuntos de cromossomos 2n = 46 O processo da mitose é bastante crítico e deve ser controlado criteriosamente por diversos genes e suas enzimas associadas. Quando não regulado de maneira correta, a mitose pode levar ao aparecimento de tumores e câncer. O processo completo é dividido nas etapas: interfase, prófase, prometáfase, metáfase, anáfase, teló- fase e citocinese (Figura 13). Figura 13 Etapas da mitose L Da rin /S hu tte rs to ck Interfase Prófase Prometáfase Metáfase Anáfase Telófase e Citocinese A interfase não é uma fase de divisão, e sim de preparo para que a divisão ocorra. Assim, durante esse período, a célula deve acumular nutrientes e energia e garantir que o material genético esteja duplica- do para iniciar a divisão celular. Essa fase é dividida em três estágios principais: G1, em que a célula se encontra em crescimento; S, quando ocorre a duplicação do material genético; e G2, em que a célula conti- nua seu crescimento e reorganiza seu conteúdo para o início da divisão. A prófase se caracteriza pela condensação da cromatina 15 Cromatina é o comple- xo de DNA e proteínas presente no núcleo celular; trata-se da versão não condensada dos cro- mossomos, encontrada quando a célula não está em divisão. 15 já du- plicada, formando cromossomos extremamente enovelados e visí- veis mesmo sob microscopia óptica. Os cromossomos replicados e Metabolismo e divisão celular 91 condensados apresentam um formato de X, unidos em uma região denominada centrômero, e cada réplica (ou braço do cromossomo re- plicado) é uma cromátide irmã (Figura 14). Figura 14 Diferença entre cromossomos homólogos e cromossomos duplicados, com as cromátides irmãs D es ig nu a/ Sh ut te rs to ck Cromossomos Centrômero Cromossomos homólogos Cromossomo homólogo 1 Replicação Cromossomo homólogo 2 Cromátides irmãs Cromátides irmãs Na etapa da prófase também ocorrerá a formação do fuso mitóti- co. Essa estrutura é constituída de longas proteínas – os microtúbulos – que começam a se formar em extremidades opostas das células. O fuso mitótico será responsável pela separação e pelo direcionamento das cromátides irmãs para as células filhas que serão geradas. Células animais apresentam uma organela essencial para a divisão celular: os cen-tríolos. Trata-se de duas estruturas no formato de barril, localizadas em uma re- gião do citoplasma denominada centrossoma. Sua constituição é de microtúbulos, proteínas longas e filamentosas que estão presentes também no citoesqueleto 16 Conjunto de fibras res- ponsável pela estrutura celular e pela movimenta- ção de organelas internas. 16 celular. No centríolo, os microtúbulos estão em arranjos de três, formando triple- tes. Na divisão celular, os centríolos se separam, indo cada um para um polo da célula, e originarão o fuso mitótico a partir dos seus microtúbulos. Os cromosso- mos condensados se ligam a essa estrutura, e cada cromátide irmã é direcionada para uma extremidade celular, a fim de serem igualmente divididas entre as duas novas células. (Continua) 92 Biologia Celular Sm ar t V ec to rs /S hu tte rs to ck Centríolos Microtúbulos Cromossomos Centríolo Extremidade distal Extremidade proximal Triplete de microtúbulos A prometáfase é a segunda fase da divisão propriamente dita. Nessa etapa a membrana nuclear se rompe liberando as cromátides irmãs no citoplasma. Também é formado o cinetócoro, um complexo de proteínas associadas ao centrômero dos cromossomos e onde os microtúbulos do fuso mitótico vão se ligar. Na fase seguinte – metáfase –, os microtúbulos ligados ao cinetócoro puxam as cromátides até que elas se alinhem no plano equatorial da célula 17 Linha imaginária no meio da célula, também chama- da de placa equatorial. 17 . Nesse estágio ocorre um controle das condições da divisão – chamado de ponto de verificação ou de checagem da metáfase –, no qual a célula garante que está pronta para se dividir. Como a separação das cromátides irmãs é um processo irreversível, a célula precisa garan- tir que todas elas estejam ligadas ao fuso mitótico e em suas posições corretas antes de dar continuidade à divisão celular. Uma vez que esse controle foi estabelecido, a célula pode seguir para a próxima fase da mitose – a anáfase. Durante a anáfase, cada cromátide irmã é separada, dando origem a dois cromossomos idênticos e independentes. Cada cromossomo é, então, puxado pelo fuso mitótico para polos opostos da célula, garan- tindo que cada nova célula receba um conjunto idêntico de cromosso- mos. Em seguida, na telófase, é formada uma nova membrana nuclear ao redor de cada conjunto cromossômico, separando-os do restante do conteúdo citoplasmático. Os cromossomos começam a se descon- densar, tornando-se mais difusos e menos compactos. Juntamente Metabolismo e divisão celular 93 com a telófase, a célula passa pelo processo de citocinese, que divide o conteúdo citoplasmático em duas novas células. Nessa etapa final, um anel de proteínas filamentosas, denominado anel contrátil, forma-se ao redor do equador da célula, imediatamente abaixo da membrana plasmática. Esse anel começa a encolher e induz à compressão interna da membrana plasmática, formando um sulco de clivagem no meio da célula. Com isso, são formadas duas células se- paradas, cada uma contendo sua própria membrana plasmática, assim como seus próprios núcleo e citoplasma. 4.3.2 Meiose Diferentemente da mitose, a divisão celular por meiose produzirá células filhas com conteúdos cromossômicos distintos, o que garante a diversidade genética em organismos que se reproduzem sexuadamente. Nesse tipo de divisão, ocorrerá também um fenômeno conhecido como crossing over. Trata-se de uma recombinação cromossômica, em que uma pequena parte de um cromossomo é clivado e ligado a outro cromosso- mo, aumentando ainda mais a variabilidade genética nos descendentes. A meiose apresenta dois ciclos de divisão, denominados meiose I e meiose II (Figura 15). As etapas, em ambos os ciclos, são bastante similares à mitose, recebendo, inclusive, as mesmas denominações: prófase, metáfase, anáfase e telófase. Entretanto, existem algumas diferenças fundamentais entre os processos mitótico e meiótico, que justamente garantem a redução do conteúdo genético das células a serem geradas na meiose. Figura 15 Etapas da meiose LD ar in /S hu tte rs to ck Meiose I Meiose II Interfase Prófase I Prófase II Metáfase I Metáfase II Anáfase I Anáfase II Telófase I Telófase II O primeiro ciclo – meiose I – visa reduzir pela metade o núme- ro de cromossomos em cada célula. Assim, é nessa etapa que os 94 Biologia Celular cromossomos homólogos serão separados. Uma das primeiras dife- renças entre mitose e meiose já pode ser observada na primeira fase da meiose I, a prófase I, em que os cromossomos duplicados (forman- do duas cromátides irmãs) alinham-se aos seus homólogos e realizam a recombinação por crossing over. Cada par de cromossomos homólo- gos pode realizar diversas trocas de fragmentos, podendo chegar até 25% de recombinações (MANHEIM; MCKIM, 2003). Após a recombinação, o fuso captura os cromossomos e os direcio- na para o centro da célula. Entretanto, diferentemente da mitose, cada cromossomo liga-se a apenas um polo do fuso, com os homólogos de um par ligando-se a polos opostos. Assim, durante a metáfase I, os pa- res homólogos é que serão separados, e não as cromátides irmãs como na mitose. Como consequência, são geradas duas células filhas, con- tendo 46 cromátides irmãs cada, mas com os pares de cromossomos homólogos separados. A meiose II é bastante similar à mitose e promoverá a separação das cromátides irmãs, produzindo, ao final do ciclo, duas células haploi- des, contendo 23 cromossomos para cada célula produzida ao final da meiose I. Ao final da meiose, os gametas produzidos estarão prontos para garantir a reprodução do organismo. Assim, após a fecundação e união dos conjuntos cromossômicos das células reprodutivas masculi- nas e femininas de dois organismos de uma mesma espécie, um novo indivíduo será formado com características genéticas únicas, devido à variabilidade genética proporcionada durante a meiose. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo estudamos dois temas fundamentais para a Biologia Celular: o metabolismo e a divisão celulares. Exploramos o metabolis- mo celular e os mecanismos elaborados que a célula desenvolveu para produzir suas moléculas e seus componentes essenciais (anabolismo) e para gerar energia por meio de compostos como a glicose (catabolismo). Também abordamos as principais vias metabólicas de geração energéti- ca – glicólise, fermentação, ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa, estudamos também a estrutura e o funcionamento de duas organelas essenciais para o metabolismo celular: as mitocôndrias e os cloroplastos. Por fim, debruçamo-nos sobre as duas formas de divisão celular – mito- se e meiose –, compreendendo sua importância para a manutenção de organismos e a garantia da variabilidade genética de inúmeras espécies. Desvendando o fantás- tico desenvolvimento humano, o livro Langman: embriologia médica analisa o processo completo de formação de um embrião a partir de uma única célula. Além de descrever minuciosamente as etapas da divisão celular e da formação do organismo completo, o autor também apresenta exemplos clínicos decorrentes de eventos embriológicos anormais e aborda os prin- cípios genéticos por trás da embriologia humana. SADLER, T. W. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. Livro Metabolismo e divisão celular 95 ATIVIDADES Atividade 1 Qual é a importância da molécula de NAD+ nas vias metabólicas de geração de energia celular? Atividade 2 Por que a presença das mitocôndrias contribuiu para o desenvol- vimento de organismos eucariontes multicelulares? Atividade 3 Qual é a diferença entre as divisões celulares de mitose e meiose? REFERÊNCIAS BINTSIS, T. Lactic acid bacteria: their applications in foods. Journal of Bacteriology and Mycology, v. 6, n. 2, p. 89-94, mar. 2018. Disponível em: https://medcraveonline.com/ JBMOA/lactic-acid-bacteria-their-applications-in-foods.html. Acesso em: 25 nov. 2021. LIMA, C. D. L. C. et al. Bactérias do ácido lácticoe leveduras associadas com o queijo-de-minas artesanal produzido na região da Serra do Salitre, Minas Gerais. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. v. 61, n. 1, fev. 2009. Disponível em: https://www.scielo. br/j/abmvz/a/5GMTXs8mKQxwzBJF5PfFx6y/?lang=pt. Acesso em: 25 nov. 2021. MANHEIM, E. A.; MCKIM, K. S. The Synaptonemal complex component C(2) M regulates meiotic crossing over in Drosophila. Current Biology, v. 13, n. 4, p. 276-285, 2003. Disponível em: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/ S0960-9822(03)00050-2?_returnURL=https%3A%2F%2Fl inkinghub.elsevier . com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982203000502%3Fshowall%3Dtrue. Acesso em: 24 nov. 2021. SATO, M; SATO, K. Maternal inheritance of mitochondrial DNA: degradation of paternal mitochondria by allogeneic organelle autophagy. Autophagy, v. 8, n. 3, p. 424-425, 2012. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.4161/auto.19243. Acesso em: 24 nov. 2021. https://medcraveonline.com/JBMOA/lactic-acid-bacteria-their-applications-in-foods.html https://medcraveonline.com/JBMOA/lactic-acid-bacteria-their-applications-in-foods.html https://www.scielo.br/j/abmvz/a/5GMTXs8mKQxwzBJF5PfFx6y/?lang=pt https://www.scielo.br/j/abmvz/a/5GMTXs8mKQxwzBJF5PfFx6y/?lang=pt https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(03)00050-2?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982203000502%3Fshowall%3Dtrue https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(03)00050-2?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982203000502%3Fshowall%3Dtrue https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(03)00050-2?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982203000502%3Fshowall%3Dtrue 96 Biologia Celular 5 Movimentação e comunicação celulares A organização e a compartimentalização da célula em organelas – e em regiões específicas do citoplasma, no caso de células procariontes – garantem que cada atividade celular seja realizada em condições ótimas e no momento correto para atender cada demanda. Assim como em uma orquestra, em que cada músico é fundamental para o sucesso na execu- ção de uma peça musical, cada sistema celular é importante para o equi- líbrio e êxito da célula em seus processos metabólicos, de crescimento e de reprodução. E entre esses importantes sistemas estão a movimenta- ção e a comunicação celulares, temas deste capítulo. A movimentação celular em células eucariontes se deve, em grande parte, à estrutura e ao nível organizacional providos pelo citoesqueleto, uma rede de proteínas filamentosas que se estende por todo o citoplas- ma. O citoesqueleto também é responsável pela forma da célula e por sua resistência mecânica frente a impactos ocorridos no meio externo. Por muito tempo acreditamos que células procariontes não apresentavam citoesqueleto; com a realização de análises avançadas de imagem, en- tretanto, foi possível determinarmos a existência de filamentos proteicos bastante similares aos presentes em eucariontes, e cuja função asseme- lha-se àquela do citoesqueleto. Neste capítulo, estudaremos a estrutura e o mecanismo de ação do citoesqueleto eucarionte e procarionte, assim como de algumas das estruturas especializadas voltadas para a movimen- tação: os cílios e os flagelos. Além da movimentação celular, o modo como as células se comuni- cam é fundamental para sobrevivência dos organismos. Portanto, na se- quência do capítulo abordaremos também a sinalização e a comunicação intercelular, mecanismos fundamentais para o crescimento e o funciona- mento correto das células. Movimentação e comunicação celulares 97 5.1 Movimentação celular Vídeo Nas células, o citoesqueleto é a estrutura que garante um nível avançado de organização ao manter a forma celular e o posicionamen- to de organelas no citoplasma. Também é ele que estará diretamente associado à movimentação celular tanto de organelas e moléculas in- ternas quanto da própria célula em relação ao meio externo. Apesar do nome, o citoesqueleto não é uma estrutura extremamen- te rígida e molda-se de acordo com a necessidade celular. Por exemplo: durante a divisão celular, a célula modifica sua forma e promove a con- tração da membrana plasmática, originando duas novas células filhas. Esse processo só é possível devido à plasticidade celular proporcionada pelas fibras do citoesqueleto. O citoesqueleto de células eucariontes é formado por três tipos de proteínas filamentosas: microtúbulos, filamentos de actina e filamen- tos intermediários (Figura 1); juntamente com outras proteínas acessó- rias que mantêm a estrutura coesa e funcional. Figura 1 Principais filamentos proteicos encontrados no citoesqueleto eucarionte Sa ku rra /S hu tte rs to ck Filamentos intermediários (FI) Microtúbulos (MT) Filamentos de actina (FA) Os microtúbulos (MT) são o maior tipo de filamento do citoesque- leto, com cerca de 25 nm 1 de diâmetro. São compostos de uma pro- teína denominada tubulina, formada por duas subunidades, α-tubulina e β-tubulina, que se alinham alternadamente em fileiras (Figura 2). Ao Entender os mecanismos de movimentação – intra e extracelular – mediados pelo citoesqueleto. Objetivo de aprendizagem Um nanômetro equivale a 0,000001 mm. 1 98 Biologia Celular total são 13 longas fileiras – também chamadas de protofilamentos – em torno de um eixo cilíndrico. Os 13 protofilamentos, por sua vez, dão origem a um microtúbulo, filamento oco similar a um canudo. Figura 2 Estrutura do microtúbulo Ka te ry na K on /S hu tte rs to ck Microtúbulo α-tubulina Dímero de tubulina β-tubulina Os microtúbulos são bastante dinâmicos e encontram-se em cons- tante alteração no interior da célula. Assim, é comum que reações de polimerização e despolimerização 2 estejam ocorrendo frequentemen- te nessas estruturas. Essas reações promovem adição ou remoção de subunidades de tubulina em suas extremidades, o que resulta na mu- dança de tamanho do filamento. Esse mecanismo é responsável, por exemplo, pela separação dos cromossomos duplicados na divisão ce- lular de células somáticas. Nesse caso, os cromossomos que se encon- tram ligados ao fuso mitótico são separados (e direcionados para polos opostos na célula) pelo encurtamento das fibras do fuso, mediante a despolimerização dos MT. Nas células, os microtúbulos desempenham um papel estrutural importante, auxiliando a resistência celular frente a forças de com- pressão. Além disso, também possuem algumas funções especializa- das, como a formação do fuso mitótico, o posicionamento de organelas e a formação de caminhos ou trilhos para que proteínas motoras possam transportar vesículas no interior celular. A polimerização refere-se à adição de monômeros (subunidades) de tubulina em uma das extremidades do microtúbulo (chamada de extremidade positiva), enquanto a despolimeriza- ção é a reação responsável por remover monômeros da outra extremidade da estrutura (denominada extremidade negativa). 2 Movimentação e comunicação celulares 99 Proteínas motoras são a força motriz que permite a movimentação e o transpor- te interno nas células. Essas proteínas vão se ligar a estruturas celulares, em geral aos filamentos pertencentes ao citoesqueleto celular, e vão se locomover ao longo deles, transportando vesículas ou outras moléculas no citoplasma. Exemplos de proteínas motoras que se ligam aos microtúbulos são as cinesi- nas – responsáveis pelo transporte de mitocôndrias, de vesículas contendo neurotransmissores 3 e de outros microtúbulos – e as dineínas citoplasmáticas, que transportarão organelas e organizarão o centrossoma 4 celular. Ka te ry na K on /S hu tte rs to ck Proteínas motoras cinesinas (em alaranjado) transportam vesículas ao longo de um MT. Os filamentos de actina (FA), também chamados de microfilamen- tos, são os menores componentes do citoesqueleto, com cerca de 6 nm de diâmetro. São formados por monômeros de uma proteínadenomina- da actina, estes são organizados na forma de uma hélice dupla (Figura 3). Figura 3 Estrutura do filamento de actina Ly di aw c1 02 0/ W ik im ed ia C om m on s Actina filamentosa Actina globular Monômeros Microfilamento de actina polimerizado Sinais químicos que estimulam neurônios e demais células nervosas. 3 Centro organizador dos microtúbulos em células animais. 4 100 Biologia Celular Os FA apresentam direcionalidade, o que significa que têm duas ex- tremidades estruturalmente diferentes, uma positiva e outra negativa, similar aos MT. A extremidade positiva é aquela em que serão adiciona- dos novos monômeros de actina (polimerização), com aporte de ener- gia fornecido por moléculas de ATP. Entre as funções dos filamentos de actina, destaca-se seu papel como via de locomoção de uma proteína motora denominada miosina. Pela sua relação com a miosina, os FA estão envolvidos em eventos celulares que demandam movimento, como a divisão celular, a movi- mentação de células sanguíneas e a contração de células musculares. Nestas últimas, actina e miosina se juntam para darem origem a uma estrutura chamada sarcômero. Sarcômero é a unidade de repetição das miofibrilas – organelas tubulares que preenchem quase a totalidade do citoplasma das células musculares. É formado pelas proteínas actina e miosina e pelas proteínas troponina e tropomiosina, res- ponsáveis por regular a ligação actina/miosina, a qual promove a contração do músculo. Apesar da alta afinidade entre actina e miosina, na ausência de cálcio (Ca2+) sua ligação é bloqueada pelo complexo proteico troponina e tropomiosina, e o músculo permanece relaxado. Na presença desse íon, o espaço de ligação entre actina e miosina é liberado, e a união dessas proteínas leva à contração muscular. Células musculares do músculo estriado esquelético de animais apresentam múltiplos núcleos e são formadas por miofibrilas. Cada miofibrila é constituída pela repetição de sarcômeros, contendo as proteínas actina, troponina e tropomiosina (filamento fino em roxo) e miosina (filamento grosso em vermelho). Quando o músculo está relaxado, filamentos finos e grossos estão afastados; na contração muscular, esses filamentos se aproximam pela ligação entre actina e miosina. Al ila M ed ic al M ed ia /S hu tte rs to ck Célula muscular Miofibrila Sarcômero Movimentação e comunicação celulares 101 Filamentos de actina também atuam como vias de locomoção no interior das demais células, transformando-se em trilhos para o trans- porte de proteínas, vesículas e outras organelas. Essas cargas serão transportadas por miosinas, que nesse caso funcionam como proteí- nas motoras individuais para o transporte interno celular. Pela sua capacidade de polimerizar e despolimerizar suas extremi- dades, adicionando ou removendo monômeros de actina, esses microfi- lamentos auxiliam a motilidade celular, promovendo a movimentação da célula dentro de um organismo. Esse mecanismo é bastante útil, por exemplo, para a locomoção das células do sistema imune – como macrófagos e linfócitos 5 , que precisam percorrer diversos tecidos até alcançar o antígeno 6 alvo. Além disso, os FA também contribuem para a manutenção da estrutura celular, formando uma rede proteica de suporte sob a membrana plasmática. Os filamentos intermediários (FI) apresentam diâmetro entre 8 e 10 nm, o que os coloca entre os pequenos filamentos de actina e os largos microtúbulos, daí seu nome. Diferentemente dos demais compo- nentes do citoesqueleto, os FI não são formados por monômeros de uma proteína específica, mas sim por um conjunto de proteínas distintas. Uma das proteínas que constitui os filamentos intermediários é a queratina, encontrada principalmente nas células epiteliais. A querati- na é uma proteína fibrosa, com elevada resistência mecânica e elastici- dade, o que a torna um elemento estrutural importante nos tecidos e anexos epiteliais de animais, como pele, cascos, unhas, pelos e cabelos. Estruturalmente, é formada por uma sequência de estruturas secundá- rias proteicas – α-hélice – formando um motivo proteico 7 denominado superhélice (Figura 4). Figura 4 Motivo proteico superhélice da queratina S tu di oM ol ek uu l/S hu tte rs to ck motilidade: aptidão para se mover; mobilidade. Glossário Células do sistema imune que têm como função identificar a molécula ou o organismo invasores e atuar na defesa do orga- nismo invadido. 5 Substância estranha ao organismo, que desenca- deia uma resposta imune. 6 Conjunto de estruturas secundárias em uma proteína. 7 102 Biologia Celular Além da queratina, outros tipos de filamentos intermediários podem ser encontrados em células específicas. É o caso dos neurofilamentos, presentes exclusivamente em neurônios, onde auxiliam a manutenção da forma do axônio 8 e a mediação entre as demais células do citoes- queleto e os microtúbulos. Ainda, a proteína desmina é encontrada na composição dos FI de células musculares, auxiliando a manutenção da estrutura dos sarcômeros. Alguns filamentos intermediários, por sua vez, podem ter uma dis- tribuição mais ampla, sendo encontrados na maior parte das células. É o caso das laminas, proteínas associadas ao reforço estrutural da mem- brana nuclear, e a vimentina, proteína amplamente encontrada em células mesenquimais 9 , mas também está presente em outros tipos celulares, garantindo suporte às organelas no citoplasma e integridade estrutural celular. Diferentemente dos demais componentes do citoesqueleto, os FI não são estruturas dinâmicas e não estão envolvidos em reações de polimerização e despolimerização associadas a mudanças no tamanho das fibras e ao movimento celular. Entretanto, os FI são essenciais para manutenção da estrutura e do formato das células, trabalhando em conjunto com os microtúbulos por sua elevada ca- pacidade de suportar tensões e ancorar as organelas celulares den- tro do citoplasma. A Figura 5 representa uma célula eucarionte em corte, com os prin- cipais componentes do citoesqueleto representados. Figura 5 Representação das fibras do citoes- queleto em célula eucarionte Bl am b/ Sh ut te rs to ckCitoplasma Microfilamento Filamento intermediário Microtúbulo Organelas imobilizadas pela rede do citoesqueleto Prolongamento único dos neurônios, respon- sável por conduzir os impulsos nervosos. 8 Células-tronco adultas, comumente encontradas na medula óssea. 9 Movimentação e comunicação celulares 103 Por muito tempo, acreditamos que as células procariontes não apresentavam um sistema de citoesqueleto como aquele presente nas células eucariontes. Entretanto, em 1991, pesquisadores descobriram uma proteína associada à divi- são celular em procariontes, a FtsZ, que apresenta função análoga à tubulina em eucariontes (BI; LUTKENHAUS, 1991). A FtsZ atua como uma proteína organiza- dora, sendo necessária para o processo de divisão celular. Durante a citocinese 10 , essa proteína promove a formação do septo de divisão e recruta outras proteínas que auxiliarão a divisão celular. Depois dessa descoberta, outros estudos revelaram a presença de proteínas com função análoga à actina (MreB) e aos filamentos intermediários (crescentina) em células procariontes. Essas proteínas atuam, respectivamente, no fortalecimen- to da membrana plasmática celular e na manutenção do formato de bactérias não esféricas. Além destas, várias outras classes de proteínas, algumas sem análogas conhecidas em eucariontes, já foram descritas como componentes do citoesqueleto procarionte, formando um sistema estrutural bem mais complexo do que se acreditava existir nesse grupo celular. Representação tridimensional da estrutura da proteína FtsZ – primeiro componente observado e descrito do citoesqueleto de células procariontes. Diversas outras proteínas foram descritas na sequência, demonstrando a complexidade desse sistema estrutural. ib re ak st oc k/ Sh ut te rs to ck Em célulaseucariontes pluricelulares, os filamentos do citoesquele- to fornecem a base para o movimento celular. Além dos movimentos proporcionados pela expansão e retração dos filamentos de actina, es- truturas específicas de locomoção – cílios e flagelos – movimentam-se como resultado do deslizamento de microtúbulos, um sobre o outro, no interior celular. Por exemplo: os espermatozoides humanos têm um flagelo formado por onze microtúbulos sobrepostos. A energia forne- cida para o rápido movimento dessa célula vem da sua porção inter- mediária, que apresenta elevado número de mitocôndrias – organela associada à produção de ATP. Etapa da divisão celular em que o citoplasma é repartido entre duas células filhas. 10 A comédia de animação Osmose Jones – Uma aventura radical pelo corpo humano diverte e ensina ao mesmo tempo. Na história, acompanhamos um glóbulo branco – o Osmose Jones – em uma aventura dentro do corpo de um policial que leva uma vida sedentária e pouco saudável. Apesar de leve, o desenho apre- senta diversos conceitos sobre o corpo humano e os mecanismos celulares, incluindo o transporte das células do sistema imune (como o próprio Osmose) para diferentes tecidos dentro do organismo. Direção: Bobby Farrelly e Peter Farrelly. Estados Unidos: Warner Bros., 2001. Filme 104 Biologia Celular Em organismos unicelulares – procariontes e eucariontes – os mo- vimentos estão associados também a estruturas de locomoção, como cílios e flagelos; entretanto, seu mecanismo de ação é diferente daque- le observado nas células eucariontes pluricelulares, como veremos na seção a seguir. 5.2 Cílios e flagelos Vídeo Cílios e flagelos são estruturas citoplasmáticas filamentosas que se projetam através da parede celular em organismos unicelulares. Células pluricelulares – como as células humanas – também podem apresentar essas estruturas, principalmente quando relacionadas à re- tenção e ao transporte externo de substâncias, como ocorre com as cé- lulas ciliadas do trato respiratório e as células das trompas de Falópio 11 . Células ciliadas em organismos pluricelulares podem ser bastante úteis ao pro- mover movimentação ou retenção de substâncias em sua superfície. Em seres humanos, os cílios estão presentes, por exemplo, em células do tecido respira- tório, atuando como mecanismo de defesa contra microrganismos e partículas externas. Ao reter as partículas estranhas, os cílios auxiliam na defesa primária do organismo, permitindo a posterior remoção dessas substâncias pelas células do sistema imune. Bactéria Staphylococcus sp. (em vermelho) retida pelos cílios das células epiteliais da traqueia do corpo humano (em azul). M el et io s Ve rra s/ Sh ut te rs to ck Em organismos unicelulares, cílios e flagelos atuarão como impor- tantes propulsores celulares, auxiliando a orientação e a movimen- tação dos organismos. Diferenciam-se entre si pelo seu número, seu tamanho e sua forma de movimentação. Canais de transporte do óvulo no corpo humano, do ovário até o útero. 11 Conhecer a estrutura e as funções de organelas motoras – cílios e flagelos. Objetivo de aprendizagem Movimentação e comunicação celulares 105 Flagelos são estruturas longas, com cerca de 40 µm de compri- mento. Estão presentes, comumente, em uma estrutura única ou em poucas cópias, com a função de movimentar organismos ou células inteiras, como é o caso da Giardia lamblia, um protozoário patogênico flagelado. Por sua vez, os cílios são mais curtos, com aproximadamen- te 10 µm de comprimento, e estão presentes em grande número na superfície da célula. Um exemplo de organismo unicelular ciliado é o Paramecium caudatum, protozoário de vida livre que habita ambientes de águas doces. Na Figura 6 apresentamos imagens de ambos os organismos, G. lamblia e P. caudatum. Figura 6 Organismos flagelado e ciliado CD C / J an ic e Ha ne y C ar r/ W ik im ed ia C om m on s De ut er os to m e/ W ik im ed ia C om m on s Giardia Lamblia à esquerda e Paramecium caudatum à direita. Com relação ao mecanismo de locomoção, os cílios apresentarão movimento bifásico, similar a um remo. Na primeira fase do movimen- to, a estrutura do cílio mantém-se rígida, e apenas a base é dobrada. Na segunda fase, a curva formada na base passa para a ponta, impul- sionando a célula na direção perpendicular ao movimento ciliar. Cílios podem, ainda, sincronizar seus movimentos, de modo a facilitar a loco- moção de microrganismos unicelulares (GILPIN et al., 2020). O movimento dos flagelos assemelha-se ao movimento de uma hé- lice. A estrutura realiza uma contorção que gera ondas ao longo de seu comprimento. A movimentação da célula, nesse caso, é na mesma dire- ção do eixo de movimentação do flagelo, que pode puxar ou empurrar o organismo no sentido desejado. A Figura 7 apresenta a diferença no mecanismo de movimentação entre as duas estruturas. 106 Biologia Celular Figura 7 Mecanismo de movimentação de um flagelo e um cílio Ko hi da i, L ./W ik im ed ia C om m on s Movimento semelhante à hélice Parte imóvel Flagelo Cílio Corpo basal Batimentos para frente e para trás Apesar das diferenças com relação ao seu tamanho, ao seu número e à sua forma de movimentação, estruturalmente os cílios e os flagelos são bastante similares. Ambos apresentam um feixe de microtúbulos, denominado de axonema, que se encontra circundado por uma exten- são da membrana plasmática. O axonema, por sua vez, está conectado ao corpo basal, componente intracelular citoplasmático que ancora a estrutura de locomoção na célula. Cada axonema apresenta dois microtúbulos centrais e nove pares de microtúbulos cincundantes, chamados dupletos (Figura 8). Cada dupleto apresenta um microtúbulo completo contendo os 13 protofi- lamentos de tubulina – denominado subfibra A – e outro microtúbulo com dez protofilamentos – denominado subfibra B. Figura 8 Estrutura de um axonema Sm ar ts e/ W ik im ed ia C om m on s Membrana plasmática Microtúbulos centrais Raios radiais Bainha interna Nexina Subfibra A Subfibra B Dupletos Braços de dineína O reino Protista é bastante diverso, sendo constituído por proto- zoários, algas e protistas fungoides. Essa grande va- riedade se reflete também em uma diversidade de mecanismos de locomo- ção e adaptação ao meio em que cada espécie vive. A obra Glossário de Protistologia acompanha o panorama atual das pesquisas realizadas mundialmente com pro- tistas e traz uma grande quantidade de verbetes, informações e imagens detalhadas sobre esse grupo amplo e evolutiva- mente bem-sucedido. LOURENÇO, S. O. Rio de Janeiro: Technical Books, 2013. Livro Movimentação e comunicação celulares 107 A subfibra A apresenta extensões (braços) de proteína dineína orientados em sentido horário, que serão responsáveis pelo desliza- mento dos microtúbulos no interior do axonema, o que vai se refletir em movimento. Isso porque a dineína é uma ATPase 12 , capaz de con- verter a energia fornecida pela quebra da molécula de ATP em trabalho mecânico de batimento ciliar ou flagelar. Os dupletos são ligados entre si pela proteína nexina, que evita que a estrutura se desmanche devido à força exercida pelos braços de dineína. As subfibras A estão conectadas aos microtúbulos centrais por raios radiais, contendo diversas proteínas associadas. Apesar de seu meca- nismo de ação ser ainda pouco compreendido, pesquisas indicam que os raios radiais estão associados à ativação e à regulação dos motores de dineína no interior dos axonemas (YANG et al., 2006). Enzima capaz de conver- ter uma molécula de ATP em ADP com liberação de um grupo fosfato e energia no processo. 12 5.3 Comunicação celular química Vídeo Ainda que as células pareçam autossuficientes, considerando sua organização complexa e seu controle de metabolismo apurado, elas precisam de outras células para serem bem-sucedidas em seus am- bientes. Mesmo os organismos unicelulares não vivemisolados e necessitam de outras células, moléculas ou outros organismos para auxiliarem sua sobrevivência. Essa comunicação entre os elementos e as células no meio é de- nominada sinalização celular. O mecanismo de sinalização apresenta diversas funções, podendo indicar, por exemplo, a disponibilidade de nutrientes, as mudanças na temperatura e a luminosidade ou a pre- sença de organismos patogênicos ou moléculas tóxicas no ambiente. A sinalização celular envolve a transmissão de um sinal – por meio de uma célula emissora ou molécula sinalizadora – e a recepção e res- posta a esse sinal, que ocorrerá na célula receptora. Células recepto- ras são aquelas que apresentam um mecanismo de reconhecimento a esse sinal em sua superfície na forma de receptores moleculares. Dependendo do tipo de sinalização, não é necessário que as células estejam próximas; moléculas sinalizadoras podem atravessar tecidos e a corrente sanguínea até atingir a célula receptora. É o caso, por exem- plo, de hormônios, neurotransmissores e citocinas. Compreender a base das comunicações celulares mediante sinais químicos. Objetivo de aprendizagem 108 Biologia Celular Citocinas são uma classe de pequenas proteínas que atuam na sinalização celu- lar. São produzidas por células específicas, comumente aquelas pertencentes ao sistema imune, como os macrófagos e as células NK 13 . Entre as citocinas mais conhecidas estão o interferon – que indica às células do sistema imune a presen- ça de alguns tipos de vírus – e as interleucinas, responsáveis pela diferenciação e pela produção de anticorpos pelos linfócitos B. Algumas células, como os macrófagos, produzirão citocinas quando estimuladas por algum fator do meio (presença de patógenos, por exemplo). As citocinas produzidas migram até encontrar a célula alvo ou receptora, que será reconhecida pela presença de um receptor em sua superfície. A partir disso, o sinal é reconhecido, e uma resposta é gerada na célula receptora. De si gn ua /S hu tte rs to ck Citocinas Célula produtora de citocinas Estímulo Célula alvo Receptor Sinal Efeito Existem várias formas de sinalização celular. Isso porque nem todas as células estão próximas ou em contato, ou também não emitem e recebem sinais da mesma forma. De modo geral, a sinalização química em organismos pluricelulares pode ser realizada de quatro formas: pa- rácrina, autócrina, endócrina e por contato direto. A principal diferença entre essas formas de sinalização refere-se à distância percorrida pela molécula sinalizadora até atingir a célula alvo. A sinalização parácrina envolve a comunicação entre células próxi- mas, com a liberação de mediadores químicos. Esse mecanismo possi- bilita a coordenação de células em um mesmo tecido e é fundamental durante o desenvolvimento dos organismos. Uma forma particular de sinalização parácrina é a que ocorre nas si- napses neurais 14 . Trata-se da sinalização sináptica, em que um neurônio (pré-sináptico) emitirá um impulso elétrico, que percorrerá seu axônio, atingindo a região da sinapse e liberando neurotransmissores (Figura 9). Essas moléculas sinalizadoras migram rapidamente até o próximo neurônio (pós-sináptico), onde vão se ligar a receptores específicos e Células natural killers, ou NK, são células de defesa que atuam no sistema imunológico inato, isto é, aquele que nasce com o indivíduo, sem a necessida- de de contato prévio com antígenos no ambiente. 13 Junção entre dois neurô- nios, onde ocorrerá a liberação e o transporte dos neurotransmissores. 14 Movimentação e comunicação celulares 109 transmitir o sinal. Em geral, esse sinal desencadeia uma mudança no potencial elétrico de membrana, permitindo a entrada e a saída de íons específicos, como Na+ e K+, e gerando um impulso nervoso. Figura 9 Esquema da sinalização sináptica Ch ris to ph B ur gs te dt /S hu tte rs to ckAxônioImpulso nervoso Impulso Impulso nervosonervoso Neurônio pré-sináptico Bulbo da extremidade sináptica Neurotrans-Neurotrans- missoresmissores Canal Ca2+ controlado por potencial elétrico Fenda sináptica Receptor de neurotransmissor Canal de ligação fechado Canal de ligação aberto Potencial Potencial pós-sinápticopós-sináptico Neurônio pós-sináptico Dendrito Na sinalização autócrina, uma célula liberará um sinalizador (agen- te autócrino) que vai se ligar a receptores da própria célula, promoven- do alterações em sua conformação ou suas atividades. Um exemplo desse tipo de sinalização ocorre com os monócitos, células do sistema imune inato dos animais. Essa célula produzirá uma citocina – a inter- leucina 1 – que vai se ligar a um receptor próprio e desencadeará uma resposta inflamatória no organismo. Esse tipo de sinalização também é bastante comum em células cancerígenas, que produzirão fatores de crescimento que se ligarão a receptores na própria célula, induzindo seu crescimento e sua proliferação. A sinalização endócrina é aquela que promove a comunicação en- tre células distantes dentro de um mesmo organismo. Nesse caso, as moléculas sinalizadoras – em geral, hormônios – percorrem longas distâncias pela corrente sanguínea até atingir seu alvo receptor. Como exemplo, as células ósseas e cartilaginosas do corpo humano recebem o hormônio do crescimento (GH) gerado na glândula hipófise, localiza- da no cérebro. Quando ligado a receptores de superfície, o GH induz a célula alvo a se dividir, promovendo o crescimento do organismo. 110 Biologia Celular Na Figura 10 são apresentadas as formas de sinalização celular au- tócrina, parácrina e endócrina. Figura 10 Sinalização celular autócrina, parácrina e endócrina De si gn ua /S hu tte rs to ck Autócrina Citocinas Parácrina Receptor Endócrina Célula produtora de citocina Vaso sanguíneo Célula alvo Uma outra forma de comunicação pode ocorrer por uma junção específica entre as células, denominada de junção gap. Trata-se de ca- nais bem pequenos que conectam diretamente células vizinhas e per- mitem a transmissão de mediadores químicos intracelulares entre as duas células. As vantagens desse sistema estão na rápida transmissão de um estímulo ou uma mensagem de uma célula a todas as demais presentes no tecido, gerando uma resposta imediata para adaptação e manutenção do equilíbrio celular. Células ainda podem apresentar uma forma de sinalização de con- tato direta em que proteínas complementares presentes em suas su- perfícies se ligam e levam a mudanças na conformação ou atividade celular. Esse tipo de sinalização é bastante utilizado no sistema imune para o reconhecimento e a diferenciação entre células próprias do or- ganismo e aquelas que se encontram infectadas por patógenos. Essa forma de comunicação evita o ataque a células sadias e o desenvolvi- mento de patologias autoimunes. Movimentação e comunicação celulares 111 Doenças autoimunes são caracterizadas pelo ataque do sistema imunológico a células e tecidos sadios dos organismos. Normalmente, devido à sinalização ce- lular, as células do sistema imune são capazes de reconhecer tudo aquilo que for próprio do corpo; entretanto, em alguns casos, a resposta imunológica é exacer- bada, e anticorpos e outras células de defesa passam a atacar órgãos e tecidos específicos, podendo também apresentar uma resposta sistêmica em que todo o organismo é visto como um alvo em potencial. Alguns fatores que podem desencadear esse tipo de patologia incluem mutações genéticas em receptores de superfície, que passam a não ser mais reconheci- dos pelas células imunológicas, além de fatores ambientais, como contato com compostos tóxicos, infecções e alimentação inadequada. Exemplos de doenças autoimunes são a artrite reumatoide, a asma, a psoríase, o lúpus eritematoso sistêmico e a esclerose múltipla. Neste último caso, linfócitos T – células da res- posta imune adaptativa 15 – atacam a bainha de mielina de neurônios saudáveis, levando ao desenvolvimento de uma grave doença neurodegenerativa. Respostaimune gerada a partir do contato do organismo com antígenos presentes no ambiente. 15 Ve ct or M in e/ Sh ut te rs to ck Doenças autoimunes Saudável Doença autoimune Neurônio (Célula do sistema nervoso) Neurônio (Célula do sistema nervoso) Linfócito T confuso Núcleo Célula de Schwann Bainha de mielina Linfócito T (Célula imune) Terminais axônicos Linfócitos T atacando vírus Células T atacando mielina Vírus Danos à bainha de mielina devido à inflamação Doenças autoimunes mais comuns Esclerose Múltipla Alergia Esclerodermia Doença celíaca Diabetes Tipo 1 Artrite reumatoide Asma Doença de Addison Psoríase Fenômeno de Raynaud Lúpus Doença de Graves Vitiligo Polimialgia reumática Sarcoidose Alopecia Doença de Crohn Hepatite autoimune 112 Biologia Celular Outros mecanismos de comunicação e troca celular direta incluem os desmossomos, as junções aderentes e as junções rígidas (Figura 11). Essas formas de junção celular atuam como pontes entre as células e são formadas por complexos proteicos que promovem o contato, a troca de sinais e o controle do transporte intracelular. Figura 11 Tipos de junções celulares Li na L un di n/ Sh ut te rs to ck Junção rígida Junções aderentes Desmossomo Junção gap As proteínas associadas às junções rígidas atuarão na regulação de passagem de íons, solutos e água no espaço intercelular. Junções de adesão, por sua vez, são responsáveis por ancorar as células umas nas outras por meio dos filamentos de actina presentes em seus citoplas- mas. Em geral, essas âncoras moleculares são formadas pelas proteí- nas caderinas e integrinas. Desmossomos são junções celulares compostas de duas partes, uma presente no citoplasma de uma das células comunicantes, e outra ancorada na membrana da célula vizinha. São constituídos por placas proteicas circulares, contendo proteínas específicas, como as desmoplaquinas, que se ligam ao interior das células por meio de filamentos intermediários do citoesqueleto celular. Sua principal função é manter a união celular, especialmente em tecidos que são submetidos a forte estresse mecânico, como o epitélio e as células da mucosa gastrointestinal. Trazendo histórias emo- cionantes de superação e recuperação frente a doenças graves, o livro Imune: a extraordinária história de como o organis- mo se defende de doenças aborda os mistérios da saúde e da doença e o papel do sistema imuno- lógico na linha de frente na defesa dos organis- mos. O autor aborda os mecanismos utilizados pelas células imunes para proteger o corpo de patologias e de moléculas tóxicas, e como essa defe- sa tão importante pode se voltar contra nós, gerando doenças autoimunes. RICHTEL, M. Nova York: Harper Collins, 2019. Livro Movimentação e comunicação celulares 113 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo estudamos a movimentação e a comunicação celular, as quais são mecanismos essenciais para a sobrevivência e a manuten- ção das células em organismos eucariontes e procariontes. Abordamos as funções e os principais componentes do citoesqueleto – microtúbulos, filamentos de actina e filamentos intermediários –, estudando as particu- laridades desse sistema tão importante para a preservação da estrutura celular e a movimentação interna e externa das células. Também nos debruçamos sobre a organização e o mecanismo de ação de duas estruturas fundamentais para o movimento celular, prin- cipalmente em organismos unicelulares, os cílios e os flagelos. Por fim, estudamos sobre a comunicação celular e sua enorme importância para o equilíbrio sistêmico de organismos pluricelulares e para a sobrevivência de organismos unicelulares em qualquer ambiente. ATIVIDADES Atividade 1 Quais são os principais componentes do citoesqueleto de células eucariontes e as funções de cada um? Atividade 2 Quais são as principais diferenças entre cílios e flagelos? Atividade 3 Quais são as formas de sinalização celular em organismos pluricelulares? REFERÊNCIAS BI, E.; LUTKENHAUS, J. FtsZ ring structure associated with division in Escherichia coli. Nature, v. 354, n. 6349, p. 161-164, set. 1991. Disponível em: https://doi.org/10.1038/354161a0. Acesso em: 1 dez. 2021. GILPIN, W.; BULL, M. S.; PRAKASH, M. The multiscale physics of cilia and flagella. Nature Review Physics, v. 2, p. 74-88, jan. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s42254-019- 0129-0. Acesso em: 1 dez. 2021. YANG, P. et al. Radial spoke proteins of Chlamydomonas flagella. Journal of cell science, v. 119, n. 6, p. 1165-1174, mar. 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1242/jcs.02811. Acesso em: 1 dez. 2021. Resolução das atividades 1 Origem e evolução celular 1. O que é a hipótese do Mundo de RNA? A hipótese do mundo de RNA afirma que a molécula precursora da vida foi o ácido ribonucleico – o RNA. Algumas características dessa molécula que a tornaram uma candidata adequada à formação das primeiras células são: é uma molécula informacional, assim como o DNA; apresenta capacidade catalítica similar às enzimas; e possui potencial de autorreplicação, podendo gerar cópias de si mesma. 2. Por que células eucariontes podem ser maiores do que células procariontes? Células eucariontes podem ser maiores e mais complexas do que as células procariontes pela presença de mitocôndrias. Essas organelas promovem o metabolismo oxidativo, produzindo uma grande quantidade de moléculas de ATP, o que garante a energia necessária para o crescimento e atividades metabólicas das células eucariontes. 3. Qual é a hipótese da multicelularidade de Ernst Heckel? A hipótese da multicelularidade de Ernst Heckel coloca os coanoflagelados – procariotos unicelulares – como os organismos pioneiros na formação dos primeiros animais multicelulares, as esponjas. Essa hipótese baseia-se na similaridade estrutural e fisiológica entre esses procariotos e algumas células das esponjas, os coanócitos. 2 Tecnologias de análise celular 1. Qual é o objetivo da focalização na citometria de fluxo? A focalização visa induzir ao alinhamento das células para que elas passem individualmente na frente do laser, componente do sistema óptico. Pode ser feita de duas formas: focalização hidrodinâmica, mediante alteração de pressão da amostra, e focalização acústica, com o uso de ondas de ultrassom. 2. Por que os microscópios eletrônicos são capazes de maiores magnificações quando comparados com os sistemas de microscopia óptica? 114 Biologia Celular Sistemas de microscopia eletrônica fornecem maiores resoluções e magnificações das amostras por utilizarem feixes de elétrons, em vez da luz visível, como fonte de iluminação da amostra. Devido ao menor comprimento de onda dos elétrons, a microscopia eletrônica é capaz de fornecer uma resolução bastante superior do que aquela atingida pelos microscópios ópticos. 3. O que é uma molécula repórter em um ensaio de imunocitoquímica? Molécula repórter é uma molécula que se encontra ligada ao anticorpo (primário ou secundário) e emite um sinal sob determinado estímulo. Em geral, são utilizados como moléculas repórteres: os fluoróforos, que emitem fluorescência quando excitados sob determinado comprimento de onda, e as enzimas, que reagem na presença de um substrato, promovendo alteração bioquímica do meio em que se encontram, comumente com mudança de cor. 3 Macromoléculas celulares 1. Quais são os grupos químicos que compõem uma molécula de nucleotídeo? Nucleotídeos são formados por uma base nitrogenada (que pode ser adenina, timina, citosina, guanina ou uracila), uma pentose (açúcar com cinco carbonos) e um grupamento fosfato. 2. Qual é a importância das enzimas para o metabolismo celular? Enzimas são proteínas que apresentam função catalítica, isto é, atuam aumentando a velocidade de reações bioquímicas importantes para a célula, o que mantém a funcionalidade de seus processos e a produção de metabólitos essenciais. 1. Qual é a função da molécula de colesterol na membranaplasmática celular? O colesterol insere-se entre as moléculas de fosfolipídios na membrana plasmática celular, reduzindo a rigidez da célula. Sua presença entre essas moléculas também promove um controle da flexibilidade, evitando o seu excesso. 4 Metabolismo e divisão celular 1. Qual é a importância da molécula de NAD+ nas vias metabólicas de geração de energia celular? Resolução das atividades 115 A coenzima NAD+ transfere e recebe íons de hidrogênio de enzimas hidrogenases e desidrogenases, agindo como uma transportadora intermediária desse íon no interior das células. Quando reage com o hidrogênio, a coenzima encontra-se em sua forma reduzida (NADH) e é capaz de transferir elétrons livres para processos biológicos que demandem energia. 2. Por que a presença das mitocôndrias contribuiu para o desenvolvimento de organismos eucariontes multicelulares? A presença de mitocôndrias possibilitou que as células eucariontes utilizassem a respiração aeróbia para a geração de energia. Essa forma de geração faz uso de três vias metabólicas associadas – glicólise, ciclo de ácido cítrico e fosforilação oxidativa – e garante um rendimento energético, na forma de moléculas de ATP, bastante superior às vias utilizadas na ausência de oxigênio. 3. Qual é a diferença entre as divisões celulares de mitose e meiose? A divisão mitótica ocorrerá em células somáticas e produzirá duas células filhas idênticas à célula parental, com o mesmo conteúdo genético. Essa forma de divisão é utilizada na manutenção de tecidos celulares, na reposição de células danificadas ou mortas, ou ainda na reprodução de organismos unicelulares. A meiose, por sua vez, é a forma de divisão que acontecerá durante a produção de células sexuais – ou gametas. Nessa divisão, o conteúdo genético é recombinado e reduzido pela metade nas células filhas. Assim, torna-se possível a formação de um zigoto com o conteúdo cromossômico completo da espécie por meio da fusão de duas células reprodutivas com metade dos cromossomos cada. 5 Movimentação e comunicação celulares 1. Quais são os principais componentes do citoesqueleto de células eucariontes e as funções de cada um? Em células eucariontes, os principais componentes do citoesqueleto são: os microtúbulos – estruturas com maior diâmetro entre as componentes estruturais e que atuam no transporte interno de vesículas e organelas, na formação do fuso mitótico e na estrutura de cílios e flagelos; os filamentos de actina, ou microfilamentos – que contribuem para o transporte intracelular de moléculas e a movimentação celular; e os filamentos intermediários – que atuam como importantes componentes estruturais, mantendo a forma e a resistência mecânica celular. 116 Biologia Celular 2. Quais são as principais diferenças entre cílios e flagelos? Apesar de serem estruturalmente similares, cílios e flagelos apresentam importantes diferenças, principalmente com relação à sua forma, à sua quantidade e ao seu mecanismo de movimentação nas células. Enquanto os cílios são estruturas mais curtas e numerosas e movimentam a célula tal qual um remo, os flagelos são estruturas alongadas e em pequena quantidade, e o mecanismo de movimentação deste se assemelha à rotação de uma hélice. 3. Quais são as formas de sinalização celular em organismos pluricelulares? As formas de comunicação entre as células pluricelulares são: parácrina – em que a molécula sinalizadora é lançada nas proximidades da célula receptora; autócrina – em que a própria célula produtora da molécula sinal apresentará um receptor para sua ligação; e endócrina, em que o sinal, geralmente na forma de hormônios, percorrerá uma distância mais longa por meio dos vasos sanguíneos até atingir a célula receptora. Outras formas de comunicação incluem ainda as junções celulares, que podem ser do tipo gap, desmossomos, junções rígidas e junções aderentes. Resolução das atividades 117 BIOLOGIA CELULAR Maria Carolina Vieira da Rocha M aria Carolina Vieira da Rocha BIOLOGIA CELULAR Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6638-4 9 788538 766384 Código Logístico I000389