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UNIDADE 4. A prática psicológica frente à deficiência e aos transtornos mentais A prática psicológica com pessoas com deficiência e transtornos Cerca de 17 milhões de brasileiras e brasileiros, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vivem com algum tipo de deficiência, seja esta de origem física, intelectual ou sensorial. Nesse contexto, é possível destacar a importância de estratégias que promovam o respeito e a inclusão dessas pessoas, tendo em vista que a construção histórica da representação social da deficiência em nossa sociedade possui resquícios excludentes e baseados em uma visão que limita a existência de tais indivíduos. O avanço do tempo e as transformações sociais, de certo, representam ganhos e conquistas para pessoas com deficiência, sobretudo no âmbito jurídico e legal. Entretanto, sabe-se que há uma distância significativa entre o que é preconizado pelas leis e o que é aplicado na vivência diária de tais pessoas. Vivência que, muitas vezes, é marcada por violência institucional, social, psicológica e física, geralmente normalizadas no plano da vivência de quem pratica tais atos e até mesmo de quem os recebe. Para falar sobre a questão das deficiências na sociedade brasileira, é preciso considerar três elementos: Figura 1. Três elementos para entender as deficiências na sociedade brasileira. Fonte: Elaborado pela autora. Tais elementos estão intimamente atrelados à forma como as pessoas com deficiência vivem e representam suas existências. A primeira delas diz respeito à visão de si, ou seja, à forma como cada pessoa se implica na vivência social e compreende — ou não — a dimensão complementar entre a sua limitação e a forma como é vista pelo outro. Tal dimensão diz, também, como cada pessoa se afirma socialmente, mobiliza estratégias de coping para enfrentar as adversidades e consegue ultrapassar as barreiras impostas por uma sociedade construída ao redor do entendimento da deficiência como forma de isolamento e obstáculo. Vale ressaltar que analisar o autoconceito do indivíduo não parte de uma lógica meritocrática ou individualizante, que responsabilizaria o indivíduo por seu "sucesso" ou "fracasso" na superação das barreiras. Ao contrário disso, a percepção da existência das próprias barreiras, não como o próprio impedimento em si, mas como as dificuldades impostas pelo funcionamento social capacitista, já comprova que esse enfrentamento não cabe apenas ao sujeito. Porém, como ciência do psiquismo, a psicologia vem evidenciar que ter estratégias subjetivas de enfrentamento, resiliência e resistência frente às barreiras é algo essencial para a socialização do indivíduo, ao passo que a defasagem dessas próprias estratégias leva ao adoecimento psíquico, ao isolamento, e outros transtornos. A segunda dimensão corresponde ao elemento familiar, ou seja, como a deficiência é vista pelas famílias, tanto por aquelas que possuem indivíduos com alguma limitação em sua estrutura, quanto pelas famílias que não possuem. Com isso, é possível compreender como, ao longo do tempo, as famílias em seus diversos arranjos vêm tratando essas pessoas e colaborando — ou não — com o seu desenvolvimento e afirmação social. A terceira e última dimensão é a institucional, que vem falar sobre como as instituições diversas — sejam elas a escolar, profissional, de saúde ou outras — enxergam as pessoas com deficiência, acolhem tais pessoas dentro de sua abrangência ou limitam seu acesso através de barreiras burocráticas e até mesmo de acessibilidade. Essa camada permite compreender como foram instituídas as normas e os conceitos de exclusão ao longo dos tempos. De acordo com Marques (1998), é a partir dessas três dimensões que ocorreu, ao longo dos tempos, a representação da deficiência como forma de inferioridade, que de maneira capciosa reproduz a imagem da pessoa com deficiência como alguém que se sente inferior, à margem da família extensa e com limites de alcance institucional. Essa é uma visão que reduz as possibilidades de expansão do eu, da posição familiar ocupada, da prática profissional e institucional, e que deve, portanto, ser combatida. Nesse ponto, emerge a contribuição da psicologia como forma de levar à compreensão e ao empoderamento das pessoas com deficiência, visando ultrapassar os limites impostos pela construção histórico-social da deficiência no cenário brasileiro e atuando com pessoas com os mais diversos tipos de deficiência. Em outras palavras, a atuação do profissional de psicologia deve abarcar essas três esferas, ajudando, assim, a desenvolver estratégias amplas de enfrentamento e saúde. Não cabe ao psicólogo apenas cuidar do aspecto subjetivo e do autoconceito, mas também dos âmbitos familiar e institucional. No entanto, para melhor compreender como chegamos até o presente momento, que embora ainda não seja o ideal, oferece ganhos legais e institucionais, é preciso voltar no tempo e compreender a história da deficiência e como a mesma foi construída ao longo do tempo. HISTÓRICO DO CUIDADO Como a psicologia foi implicada no cuidado com as pessoas com deficiência? Antes de falar sobre a história do cuidado propriamente dito, é necessário entender que nem sempre a pessoa com deficiência foi cuidada de fato. Ao contrário, ao longo da história da humanidade, inúmeras foram as formas de violação de direitos praticadas contra tais indivíduos, todas elas validadas e sancionadas pela norma social. Segundo Goffman (1974), houve uma clara definição de fases históricas da representação da deficiência na sociedade e da forma de lidar com as diferenças impostas. O quadro a seguir resume as fases históricas de compreensão da deficiência e como se dava o tratamento para com essas pessoas em cada uma delas: Quadro 1. Fases históricas da noção de pessoa com deficiência. Para Lorentz (2006), a exclusão social permanece e marca a forma através da qual a pessoa com deficiência ainda é tratada na sociedade, sobretudo na área profissional. Entretanto, ainda que a curtos passos, observa-se uma evolução do tratamento e da forma como tais pessoas são vistas e passam a escrever suas próprias histórias. ASSISTA O filme Extraordinário, de 2017, do diretor Stephen Chbosky, conta a história de um menino chamado Auggie Pullman, que nasceu com uma doença rara e que provoca deformações em seu rosto. Mesmo após passar por diversas cirurgias plásticas, o garoto ainda possui uma aparência diferente. Através das aventuras do menino, o filme fala sobre a educação inclusiva e sobre como a aparência pode resultar em situações de exclusão na vida das pessoas com algum tipo de deficiência, expondo essa realidade de forma interessante e emocionante. AS DIFERENÇAS NA PRÁTICA Na prática profissional, o psicólogo atua com pessoas com deficiências e possui um papel fundamental para o desenvolvimento de suas potências, seja no âmbito educacional, clínico ou da saúde É importante salientar que, quando falamos de pessoas com deficiência, não se trata de falarmos de um construto inerte, mas sim de um ser humano dotado de desejos e capacidades. É importante destacar, porém, que as estratégias e técnicas utilizadas variam de acordo com o tipo de deficiência e com o nível de comprometimento funcional. Os tipos de deficiência também ditam o caminho que o profissional deve tomar na condução de sua intervenção. Para isso, é necessário diferenciar as técnicas utilizadas para cada tipo de deficiência. Em tese, o psicólogo pode atuar frente a deficiências de todos os tipos, não se restringindo a nenhuma delas. Uma das principais contribuições possíveis ao profissional de psicologia é atuar na ênfase da pessoacom deficiência como um sujeito dotado de desejo. Isso, porque uma das principais formas de capacitismo é a compreensão da PCD como um ser infantilizado, sem capacidade de decidir por si, de escolher e de autodeterminação. Essa limitação da vontade da pessoa com deficiência, sempre em detrimento de outro ser "completo", é uma forma de violência e desumanização. Quando as liberdades da PCD são cerceadas e ela é vista como alguém que deve ser apenas cuidado, carregado para os lugares e sustentado, ela ocupa o papel, tanto no âmbito familiar quanto institucional, de uma coisa. Porém, quando o profissional de psicologia dá ênfase à capacidade de desejar e decidir da PCD, este evidencia a própria humanidade destas pessoas, garantindo seu direito à dignidade. Essa humanização cabe desde o processo de psicoterapia até a promoção de políticas públicas. Veja como o capacitismo opera nas crenças dos indivíduos, as quais cabe ao psicólogo combater. Porém, para além dessa contribuição, que é ampla e deve atingir indivíduos com todos os tipos de deficiência, existem outras, mais específicas. Cada forma de atuação apresenta peculiaridades que apontam para o uso de determinadas técnicas. Faz-se necessário diferenciar cada uma delas, com o intuito de oferecer intervenções que gerem ganhos e avanços significativos para a vida das pessoas e para o trabalho profissional. O TRABALHO COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIAS FÍSICAS E SENSORIAIS As deficiências físicas correspondem àquelas ligadas a causas congênitas ou adquiridas, associadas ao prejuízo na execução de funções físicas e na locomoção. As pessoas com esse tipo de deficiência são atingidas por preconceito e sofrimento, sobretudo pela discriminação no mercado de trabalho, na vida social e nas questões referentes à acessibilidade. As deficiências físicas são de diversos tipos: aquelas ligadas aos movimentos, à limitação da mobilidade, ao uso de próteses e órteses, entre outros, podendo ser causadas por fator inato ou adquiridas a partir de agravo durante a vida dos indivíduos. Há deficiências ligadas à amputação ou à ausência de alguma parte do corpo, decorrentes de má formação fetal ou resultantes de acidente. Quanto às deficiências sensoriais, as principais são a visual e a auditiva, caracterizadas pelos prejuízos nesses sentidos, podendo gerar dificuldades na comunicação, mobilidade, acesso à educação, entre outras formas de interagir no mundo. É válido salientar que, com as tecnologias adequadas, tais deficiências podem ser assistidas de forma satisfatória, permitindo que as pessoas possam realizar suas atividades da vida diária de forma autônoma e eficiente. O trabalho do psicólogo, nesses casos de deficiências físicas, possui um caráter motivador e preventivo, voltado a permitir que tais indivíduos elaborem suas vivências e compreendam que os impedimentos existentes podem ser ressignificados, tornando-se meios para superar as dificuldades e atingir um grau satisfatório de autonomia. Além disso, o profissional deve atentar para os mecanismos de enfrentamento das adversidades. No contexto escolar, deve prestar atenção, também, para elementos ligados à aprendizagem, por meio das adaptações razoáveis e das ferramentas de inclusão, bem como para o enfrentamento à baixa autoestima, às barreiras atitudinais e ao bullying. O TRABALHO COM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL A deficiência intelectual, também chamada de deficiência mental, é aquela que prejudica as funções cognitivas superiores e, consequentemente, a realização de tarefas do dia a dia. Nos casos mais severos, quando há uma deficiência de nível elevado, a intervenção psicoterapêutica possui limites que se restringem a função catártica e com baixo grau de elaboração. CITANDO “Consistem no modo de funcionamento psicológico tipicamente humano, tais como a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, etc. Estes processos mentais são considerados sofisticados e ‘superiores’, porque referem- se a mecanismos intencionais, ações conscientes controladas, processos voluntários que dão ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às características do momento espaço presente” (REGO, 2000, p. 39). Nos casos de menor comprometimento, o trabalho psicoterápico envolve questões ligadas ao direcionamento das pulsões e desejos, bem como promove maior nível de compreensão da realidade e adequação comportamental, a depender da abordagem psicoterapêutica do profissional. Aqui, a valorização das capacidades do indivíduo e da sua autopercepção é essencial, sendo uma forma de exercer o cuidado em saúde mental e de promover o desenvolvimento neuropsicológico. De acordo com Fédida (1984), durante muito tempo o atendimento às pessoas com deficiência mental foi negligenciado pela psicologia e, até certo ponto, foi negada a sua importância e eficácia. Tal representação se deve ao preconceito da sociedade com relação a aceitar a humanidade dessas pessoas, principalmente quando nos deparamos com um sistema psiquiátrico que há poucas décadas encarcerava a liberdade de pessoas com deficiência, com a máscara da loucura. O TRABALHO COM PESSOAS COM TRANSTORNOS MENTAIS No que diz respeito à atuação do psicólogo junto aos transtornos mentais, pode-se destacar também a diversidade da atuação neste contexto. Devido ao excesso de demandas, a atuação do psicólogo se diversifica à medida que este adentra em cada cenário. A psicologia, de modo geral, é bastante atribuída ao tratamento de transtornos mentais. Os conteúdos relacionados à psicopatologia são frequentes em diversos currículos do curso, e a atuação junto a eles também são bastante discutidas. Isso fortalece a atuação profissional junto a esse público. De modo geral, quando falamos da atuação profissional, dividimos a questão em duas: a atuação do psicólogo em serviços de caráter público e de caráter privado. Quando falamos de transtorno, o psicólogo pode muito bem atuar nesses dois setores. Como cada prática psicológica é singular, é importante discutir e apresentar a particularidade de cada uma, visando contribuir para um melhor entendimento dos fatores mais gerais e também dos fatores específicos que cada cenário demanda. Em um primeiro momento, é importante definir bem o fenômeno que se estuda. Quando falamos de transtornos mentais, falamos da atuação do psicólogo no campo da saúde mental. Esse campo, como já vimos, é bastante discutido em psicologia, mas muitas vezes não se sabe do que se trata. Por esse motivo, recorremos a uma definição que apresenta melhor o campo: Saúde mental é um estado de relativo equilíbrio e integração entre os elementos conflitivos constitutivos do sujeito, da cultura e dos grupos, com cser_educacionals previsíveis e imprevisíveis, registrado objetiva e subjetivamente, no qual as pessoas ou os grupos participam ativamente em suas próprias mudanças e nas do contexto social (GALLI, 1990, p. 34).[FS1] A atuação do psicólogo no âmbito público pode se dar tanto em serviços de cser_educacional e urgência quanto em serviços como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). No primeiro caso, entende- se que mesmo com a importância da queda dos manicômios e da construção de um cuidado psicossocial em liberdade, muitos casos de atendimento são de caráter de urgência. O paciente atendido pode estar tendo algum tipo de surto e demandar intervenções que necessitem da ida ao hospital. No que diz respeito ao quadro clínico do paciente em urgência e emergência, os pacientes podem estar com estados mentais diversos. Como os próprios transtornos são diferentes, as demandas também variam, podendo ser desde uma cser_educacional de ansiedade generalizada até mesmo um estado de alucinação que torne o paciente violento. Nesse caso, o psicólogoé convocado para atuar, não apenas pela gravidade do problema, como também para mediar a equipe. É importante situar que o tratamento de transtornos mentais se faz em conjunto e, por isso, é necessária a presença de outros profissionais para intervir junto ao psicólogo. Veja na Figura 3 alguns aspectos referentes ao atendimento psicossocial em casos de urgência psiquiátrica: Um dos perfis frequentes de pacientes de urgência e emergência é o das pessoas com dificuldade de adaptação ao internamento e também o de baixa adesão ao tratamento em geral. Nesses casos, o psicólogo auxilia na adaptação à hospitalização, tornando este período mais seguro para o paciente e mais tranquilo para a equipe multiprofissional, que por sua vez, a partir do diálogo com o profissional de saúde mental adquire maior compreensão do caso, da história de vida, bem como pela situação de cser_educacional que se instala no sujeito" (DIAS et. al, 2017, p. 6). É importante situar que esse trabalho nem sempre é fácil. Por se tratar de um atendimento em hospital, há sempre outros fatores que mede a prática do psicólogo. Um deles é a relação de saberes com os profissionais de medicina, assim como a pressão da família no tratamento é outro. Um bom profissional precisa saber ponderar esses aspectos em busca do oferecimento do cuidado com os pacientes. Por fim, pode-se dizer que: O trabalho do psicólogo, no cenário da urgência e emergência hospitalar, se constrói sob a ótica do acolhimento integral, da escuta ativa, do contato com a rede de serviços de saúde mental. Delimita seu trabalho, na troca com outros profissionais, na construção de vínculos, compreendendo o sujeito na sua complexidade, realizando avaliação psicológica e promovendo cuidado através de uma construção de intervenção terapêutica que acolha o paciente psiquiátrico no decorrer da internação oferecendo cuidado. O tratamento de emergência busca facilitar o momento de internação, trabalhando de forma operacional para a melhor readaptação, intervindo de forma breve e focal, sem pretensão de alterar estruturas psíquicas básicas do paciente. (DIAS et. al, 2017, p. 8).[FS1] Quanto à atuação do psicólogo em cenários como o CAPS, este exerce uma função dinâmica, como o serviço. Antes de tudo, é necessário apresentar um pouco do cenário dos Centros de Atenção Psicossocial para que se entenda o nível de complexidade da atuação do profissional de psicologia neste serviço. A imagem abaixo retrata a maneira estratégica de atuação do SUS no cuidado com o CAPS. Os CAPS foram criados como uma das formas de substituir o tratamento manicomial, que era feito de maneira desumana e penosa. Por meio do CAPS, os usuários do serviço são atendidos, durante o dia, com diversos recursos terapêuticos e retornam para casa ao final do dia. Os CAPS funcionam em três grandes grupos: o CAPS Adulto, que atende demandas de transtorno mental com pessoas acima dos 18 anos; o CAPS AD, que atende pessoas adultas com transtornos mentais por intercorrência do uso abusivo de álcool e outras drogas; e o CAPS I, que atende crianças e adolescentes com algum tipo de transtorno. Cada tipo de CAPS demanda aspectos particulares da atuação do psicólogo, bem como exige, também, focos de estudos e intervenções diferentes. Discutiremos, aqui, aspectos comuns da atuação profissional em CAPS que levem em consideração todos esses cenários. É papel do psicólogo realizar o suporte ao paciente e à família, com consultas de caráter psicológico e orientações acerca do tratamento. O psicólogo também realiza atendimentos em grupo, conduzindo grupos terapêuticos com foco na psicoeducação e em fornecer um espaço seguro de escuta para os usuários do serviço. Ele também atua como técnico de referência de alguns pacientes, acompanhando de maneira mais próxima tratamento. Quanto ao âmbito do tratamento privado, dá-se principalmente pela psicoterapia. A busca pelo profissional de psicologia no contexto dos transtornos mentais geralmente é uma das primeiras ações realizadas quando se percebe alguma alteração no psiquismo do indivíduo. Isso ocorre por conta da compreensão de que o psicólogo pode ajudar o paciente a lidar com o sofrimento ou com questões emocionais. Quando se trata de crianças, essa busca pode ocorrer após encaminhamentos por parte da escola. Entretanto, é necessário compreender que o cuidado integral passa pela atuação psicológica, mas não se limita a ela. Por isso, em alguns contextos, é necessário que o profissional de psicologia realize encaminhamentos para outros profissionais que possam atuar frente a outras necessidades do indivíduo — esse é o caso da deficiência e também dos transtornos mentais. A Psicoterapia não é compreendida como um complemento, pois ela possui um valor próprio e específico, que não consegue ser alcançado por outros profissionais. A perspectiva do complemento sugere que essa atividade seria dispensável ou que ela seria subordinada a outras, como a medicina, por exemplo. Entretanto, é preciso compreender que, apesar de não ser complementar, a Psicoterapia não é absoluta. Ela não é substituível, pois tem um objeto de atuação específico, mas também não é capaz de substituir outras terapias. Por isso, cabe ao profissional desenvolver a capacidade de identificar comportamentos e demandas que exigem encaminhamento. De forma prática, podemos pensar em um indivíduo que busca a psicoterapia por estar apresentando uma compulsão alimentar associada a sentimentos de ansiedade. A psicologia poderá contribuir para a percepção de gatilhos e aspectos da sua subjetividade que estão causando esse comportamento. Assim, poderá ajudá-lo a desenvolver melhor a gestão das suas emoções e impulsos, e também a lidar melhor com a comida. Entretanto, é possível que o indivíduo necessite de medicações que o ajudem a estabilizar seus níveis de ansiedade e controlar a compulsão alimentar. Também pode ser necessário um profissional da nutrição que o ajude a lidar com os impactos da compulsão e a comer de forma mais equilibrada. Essa compreensão não limita a atuação do psicólogo, mas aumenta as chances de efetividade do seu trabalho, pois ao reconhecer os limites da sua atuação, o profissional compreende a integralidade do indivíduo e a diversidade de contribuições que a ciência pode proporcionar em termos de promoção da saúde mental. Vale ressaltar que o encaminhamento não é uma ação de passagem de responsabilidade. O profissional que acompanha o indivíduo — tenha ele um transtorno mental ou uma deficiência — precisa manter-se disponível e engajado no trabalho multidisciplinar, que pode, a depender do contexto, incluir o contato entre esses profissionais. A Inclusão Social da pessoa com deficiência Toda a luta das pessoas com deficiência pode ser resumida, sem prejuízo, em uma busca por inclusão. Isso não seria reduzir sua luta, pois o conceito de inclusão é extremamente amplo. Estar incluído vai além de estar dentro. Tem a ver com ser parte, ter espaço, importância e valor. Entretanto, não podemos trabalhar com o conceito de inclusão de forma unicamente abstrata. É necessário que ele se torne prático e real. Mas como isso poderia ser feito? Se compreendermos a pessoa com deficiência como alguém que encontra, em sua vida social, barreiras de diversas ordens, a melhor estratégia de promoção da inclusão é o enfrentamento a essas barreiras. A barreira pode ser definida como qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdadede movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros" (BRASIL, 2015). Para promover a inclusão de forma efetiva, é necessário reconhecer os principais tipos de barreiras enfrentados pelas pessoas com deficiência e como esses podem ser diminuídos ou superados. TIPOS DE BARREIRAS Essas barreiras demonstram que a inclusão e o combate ao preconceito não dizem respeito apenas a uma mudança na mentalidade das pessoas, mas também à necessidade de transformação de toda a estrutura social. Do ponto de vista urbanístico, por exemplo, é necessário que os projetos urbanos de locomoção, de lazer e das cidades como um todo levem em conta as necessidades de pessoas com as mais diversas deficiências. Isso vai desde o material dos pisos utilizados até a presença de sinais sonoros nos semáforos, por exemplo. No contexto arquitetônico, percebe-se a necessidade das instituições e prédios serem construídos e pensados para serem acessíveis a todos. A presença de rampas, elevadores, portas largas e sinalizações em braile são exemplos de estratégias necessárias. Já nos transportes, faz-se necessária a promoção da acessibilidade tanto nos transportes públicos quanto nos carros e veículos privados. Isso inclui o acesso ao interior do veículo, a segurança e a capacidade de locomoção autônoma no mesmo e até a possibilidade de a PCD conduzir o veículo, utilizando-se das adaptações necessárias. As barreiras na comunicação e informação afetam a capacidade de trocar mensagens e informações, o que, dada a importância da linguagem, gera grande prejuízo para o processo de socialização e de subjetivação. Para combater essas barreiras e garantir que o indivíduo possa se comunicar com autonomia, podem-se utilizar recursos como a Libras e o Braile, que devem estar disponíveis também em serviços e instituições públicas e privadas. Além disso, o uso de tecnologias assistivas, como leitores para livros e o uso de ferramentas digitais, deve ser popularizado e se tornar acessível. Isso, porque, considerando o contexto atual, a inclusão na comunicação e na informação só pode ser considerada, de fato, efetiva se houver também inclusão digital. Assim, chegamos às barreiras tecnológicas. Essas dizem respeito ao acesso da PCD a recursos tecnológicos diversos. Ao se tratar da tecnologia principalmente como os recursos digitais, as tecnologias da comunicação e o acesso à Internet, essas barreiras podem ser encontradas tanto nos dispositivos (hardware) quanto em aplicativos e sistemas (softwares). Para aumentar a acessibilidade, são utilizadas as tecnologias assistivas dos mais diversos tipos, como leitores de texto. Entretanto, para superar essa barreira, faz-se necessária a preocupação com a acessibilidade no momento da própria criação dos recursos, de modo que sejam acessíveis para o maior número de pessoas possível. Cabe, porém, ampliar o conceito de tecnologia. Sabemos que, para além da informação e da comunicação, são construídas tecnologias no ramo da saúde, do transporte, das ciências ambientais, entre outros. Em última análise, podemos pensar a tecnologia como construtos resultantes do avanço da ciência. Para que haja, efetivamente, essa inclusão tecnológica, é necessário, portanto, que cada passo dado pela humanidade, em termos de conhecimento e utilidades, seja dado considerando as especificidades de cada um. É necessário, assim, que os serviços e produtos sejam pensados para serem acessíveis desde a sua origem. Por fim, temos as barreiras atitudinais. Essas podem ser chamadas de barreiras de origem, pois é a partir delas que todas as outras se constituem. Elas dizem respeito às atitudes que prejudicam a participação social das pessoas com deficiência. Essas atitudes podem ser divididas em três vertentes: as crenças e pensamentos, os comportamentos, os sentimentos e as emoções. São esses três aspectos que levam à reprodução de práticas, intencionais ou não, de discriminação. Também são eles que permeiam a negligência ou a ignorância acerca da acessibilidade por parte das pessoas, resultando, assim, em todas as outras barreiras. As barreiras atitudinais devem ser combatidas por meio das mais diversas frentes de intervenção, como a educação formal, o direito, a saúde, a família, entre outras. Ao psicólogo cabe ser promotor da conscientização da presença dessas barreiras e de sua desmistificação, seja na psicoterapia ou em qualquer um desses contextos onde atue. DESENHO UNIVERSAL E ADAPTAÇÃO RAZOÁVEL Como vimos, a inclusão é um processo que exige mudanças. Um dos braços da inclusão é a acessibilidade, que abarca, principalmente, a superação das barreiras arquitetônicas, urbanísticas e de transporte. Entretanto, como essas mudanças são executadas? O que é necessário fazer, do ponto de vista prático, para promover a acessibilidade? Existem dois caminhos principais para a superação dessas barreiras e a garantia do acesso igualitário para as pessoas com deficiência: o desenho universal e as adaptações razoáveis. Esses dois meios são promotores de mudança aplicados em contextos diferentes, como vemos na Figura 6: O desenho universal, podemos resumir, é uma construção inclusiva que atinge a todos e que é aplicada como forma de inovação. Vamos compreender: uma sala de aula pensada em desenho universal é aquela acessível para pessoas com deficiência, com transtornos, com quaisquer diferenças e, também, para pessoas consideradas típicas. Ela deve ser acessível do ponto de vista arquitetônico, metodológico, comunicativo, entre outros. Esse conceito — o de desenho universal — trata-se de um grande desafio. É um chamado para que as pessoas que constroem novas estratégias, serviços e produtos estejam atentos às PCD e promovam a acessibilidade como parte integrante, ao invés de um acessório opcional, para suas produções. Entretanto, sabemos que nem tudo que temos em nossa sociedade foi pensado em desenho universal. Na verdade, estamos bem longe dessa realidade. Qual a melhor opção então? Seria descartarmos todos os objetos, demolirmos todas as estruturas e acabarmos com os serviços que não atendem a esse critério? A resposta para essas perguntas é a adaptação razoável. A adaptação razoável consiste em promover adequações e mudanças que tornem esses produtos, ambientes, serviços e programas, anteriormente inacessíveis, acessíveis para a população com deficiência. Partindo do critério da razoabilidade, essas adaptações não devem trazer prejuízos desproporcionais para a funcionalidade desses itens, mantendo a sua qualidade e segurança. Podemos considerar a adaptação razoável como uma forma de "dar um jeito", sendo um recurso transitório e viável para que as pessoas com deficiência tenham seu direito à acessibilidade garantido, enquanto não existe uma sociedade plenamente acessível. O objetivo da inclusão é a mudança, e o ideal é que todos os espaços de convívio social sejam plenamente acessíveis para todas as pessoas, havendo igualdade de oportunidades, tanto do ponto de vista atitudinal quanto do ponto de vista da autonomia. Porém, não parece viável que as PCD precisem esperar pela reconstrução de uma nova sociedade. Cabe, portanto, que todas as adaptações razoáveis sejam feitas, a fim promover praticidade e autonomia. Cabe, também, às instituições, indivíduos e empresas a busca pela aplicação do desenho universal em suas criações futuras, visando, assim, à inclusão plena. Os novos direitos da pessoa com deficiênciaComo já vimos, os direitos assegurados a todo ser humano e compreendidos como direitos naturais nem sempre foram vistos dessa forma. Na verdade, é perceptível, ao estudar a história da inclusão, que o conceito de direito é extremamente recente, já que a visão assistencialista baseia suas ações na perspectiva da caridade. Com influência da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Cidadã, ficou cada vez mais evidente a necessidade do país estabelecer leis especificamente voltadas para as pessoas com deficiência. Dois documentos legais foram decorrentes dessa busca por garantia de direitos no Brasil: O Estatuto da pessoa com deficiência e a Declaração de Salamanca. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA A Declaração de Salamanca é um documento internacional produzido em 1994, na cidade de Salamanca, na Espanha, com o fim de estabelecer diretrizes para a construção de práticas inclusivas para pessoas com deficiência nos mais diversos contextos, especificamente os educacionais. Essa declaração teve enorme influência dos movimentos antimanicomiais, devido à ênfase dada ao valor da interação social como estratégia de cuidado e garantia de dignidade. Dentre as muitas propostas, está a de destinar os estudantes com deficiência preferencialmente para escolas regulares, a fim de evitar o isolamento e a segregação. Já a Lei brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, foi instituída em 2015 e é “destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.” (BRASIL, 2015). Ela rege os mais diversos âmbitos da vida cotidiana de pessoas com deficiência, não se detendo apenas ao aspecto da educação. Ela estabelece, também, o conceito de deficiência reconhecido no país, bem como outros conceitos, como os de acessibilidade, pessoa com mobilidade reduzida, tecnologia assistiva, adaptação razoável, entre outros. EXPLICANDO O conceito de pessoa com mobilidade reduzida, por vezes, é confundido com o de pessoa com deficiência. Segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência, a pessoa com mobilidade reduzida é aquela que tenha, por ququem vai alquer motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança de colo e obeso" (BRASIL, 2015). Veja na Figura 7 o resumo dos principais avanços propostos pela Lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência: Podemos compreender que essa lei teve um impacto significativo para a garantia dos direitos da pessoa com deficiência no Brasil. Ela se propôs a abarcar os mais diversos aspectos da vida das PCD, saindo do modelo assistencialista recorrente anteriormente. A lei também ampliou a execução das diretrizes deixadas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição de 1988, que enfatizam os valores de dignidade, igualdade e respeito. Sua implementação veio para aplicar esses valores de forma prática, integral e organizada. As formas de tratamento e intervenção das instituições particulares e públicas Precisamos ter em vista que, diferentemente de como foi compreendida por muitos anos, a deficiência não é uma doença. Por isso, ela não precisa ser tratada, nem cabe aos profissionais que trabalham com o fenômeno reduzi-la ou escondê-la. Entretanto, os impactos de viver como uma PCD na sociedade atual podem ser adoecedores, a depender do indivíduo e do contexto em que está inserido. Por isso, a fim de promover o tratamento e intervenções assertivas frente ao fenômeno da deficiência, podemos pensar em duas atuações principais: a psicoterapia e psicoeducação, a habilitação e reabilitação. PSICOTERAPIA E PSICOEDUCAÇÃO Não há dúvidas de que a experiência de pessoas com deficiência é marcada por sofrimento. Isso ocorre não porque a deficiência, por si só, leva ao sofrimento, mas porque o capacitismo atua como forma de violência simbólica e psicológica, por meio da exclusão ou da inferiorização. Assim, a atuação do profissional em psicoterapia se faz essencial. Ele deve acolher as demandas, os sofrimentos e os relatos, visando à redução do impacto emocional do capacitismo, por meio da criação de estratégias psicológicas de resistência. Além disso, o trabalho do profissional deve ser, também, o de olhar para o indivíduo para além de sua deficiência, não o limitando a essa característica, mas respeitando e acolhendo suas outras demandas de fala. Nesse contexto, entra também a psicoeducação. Ela tem como objetivo compartilhar, de forma acessível, conhecimento acerca do funcionamento psíquico. A psicoeducação é especialmente importante nos casos de deficiência intelectual, onde existe prejuízo direto às funções cognitivas, mas pode ser parte das intervenções com relação a qualquer tipo de indivíduo. A ideia da psicoeducação é a de que os conhecimentos da psicologia não são propriedade dos psicólogos e que é direito do indivíduo compreender os fenômenos que ele vivencia, não apenas do ponto de vista da experiência, mas também da ciência. A psicoeducação, como essa forma de explicar e instruir sobre os fenômenos psíquicos por meio de uma linguagem acessível, alcança não apenas a pessoa com deficiência, mas também a sua família, escolas e profissionais que intervêm no seu desenvolvimento. HABILITAÇÃO E REABILITAÇÃO A habilitação e a reabilitação são direitos garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Ambos tem por objetivo o desenvolvimento de potencialidades, talentos, habilidades e aptidões físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais, atitudinais, profissionais e artísticas que contribuam para a conquista da autonomia da pessoa com deficiência e de sua participação social em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas (BRASIL, 2015). Enquanto a habilitação diz respeito ao alcance dessas potencialidades ao longo do processo de desenvolvimento do indivíduo, a reabilitação visa suprir competências que, anteriormente, já haviam sido alcançadas, mas que foram perdidas ou prejudicadas por algum episódio experimentado. De acordo com o conceito, habilitação e reabilitação são processos que envolvem diversos aspectos do indivíduo, desde as questões cognitivas, passando pelas físicas e incluindo as atitudinais. Dessa forma, os processos não podem ocorrer isoladamente e demandam intervenções multidisciplinares. O profissional de psicologia pode atuar na habilitação e reabilitação de diversas formas. Como cientista da subjetividade, ele pode atuar tanto no desenvolvimento de potencialidades da mesma quanto em intervenções em casos onde o psiquismo esteja afetando o desenvolvimento de competências em outras áreas. O profissional pode, por meio da psicoterapia, promover recursos subjetivos, como a autoestima e a autonomia, e trabalhar na elaboração de traumas decorrentes do capacitismo ou de episódios que levaram à necessidade de reabilitação. Fora do âmbito individual, o psicólogo também pode atuar no contexto familiar, no sentido de ajudar a família a reestruturar funcionamentos no âmbito afetivo ou mesmo dos hábitos que possam ser nocivos à habilitação ou reabilitação. O acolhimento à família é a promoção da saúde mental na mesma e também faz parte do papel do profissional Já no contexto institucional, como em clínicas multidisciplinares, escolas ou serviços de saúde, cabe ao psicólogo promover a saúde mental e o respeito à subjetividade da PCD. Ele pode atuar, também, tanto nas instituições quanto na clínica, no desenvolvimento de funções cognitivas - atenção, controleinibitório, planejamento, flexibilidade cognitiva, entre outros - por meio de técnicas psicológicas. Agora é a hora de sintetizar tudo o que aprendemos nessa unidade. Vamos lá?! SINTETIZANDO A prática psicológica abrange os mais diversos grupos de pessoas, com suas necessidades distintas e peculiaridades específicas. Com isso, se faz possível compreender a responsabilidade de uma categoria profissional que se dedica aos estudos e cuidados com os seres humanos em suas mais variadas vivências e experiências. Dentre os grupos de pessoas que são atendidos pela psicologia, estão as pessoas com deficiência. Compreendemos que a depender do tipo de deficiência e das demandas do indivíduo a atuação do psicólogo se dará de forma diferente, porém sempre incentivando a capacidade do indivíduo de desejar, decidir e ter autonomia e autodeterminação sobre si mesmo. Mas como essas pessoas com necessidades e com deficiência podem ser incluídas na participação social de forma efetiva? Vimos que as duas principais formas de promover a acessibilidade e a inclusão das pessoas com deficiência na participação social são o desenho universal e as adaptações razoáveis. O desenho universal, que permite o uso por todas as pessoas, tem importância no âmbito da inovação e da criação de novos projetos. Assim, as Adaptações Razoáveis proporcionam a possibilidade de que as medidas necessárias sejam tomadas, mesmo em contextos não plenamente acessíveis, para que a presença e a acessibilidade da pessoa com deficiência sejam asseguradas. Essas adaptações têm como alvo as situações em que a construção do projeto, produto ou lugar não foram pensadas previamente para receber pessoas com deficiência. Nesse sentido, se faz necessário compreender o papel do psicólogo no contexto da experiência das pessoas com deficiência, buscando o respeito aos pilares de humanidade, respeito e inclusão, entendendo que tais indivíduos possuem direitos que não excluem seus deveres. Dessa forma, normaliza-se a vivência. Além disso, é necessário se atentar para o aparato legal que assegura tais direitos, levando ao empoderamento e ao conhecimento de tais dispositivos, que foram construídos visando o bem-estar e as oportunidades. Vimos que as pessoas com deficiência, por meio de intensas reivindicações e organização popular, têm alcançado uma série de novos direitos. Esse processo, no Brasil, tem como principais influências a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição de 1988. Na atualidade, temos a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, que trata a questão da deficiência de forma abrangente, estabelecendo diretrizes para a inclusão social nos mais diversos contextos - educacional, do transporte, da saúde, do direito, entre outros. Por fim, conhecemos as duas grandes formas de intervenção do profissional de psicologia: psicoterapia e psicoeducação e habilitação e reabilitação. A primeira visa lidar com o acolhimento e a educação acerca de fenômenos psíquicos, promovendo a saúde mental, enquanto a última diz respeito ao papel do psicólogo no desenvolvimento de funções e competências que contemplem seu convívio social.