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UNIDADE 4. A prática psicológica frente à deficiência e aos transtornos 
mentais 
A prática psicológica com pessoas 
com deficiência e transtornos 
 
Cerca de 17 milhões de brasileiras e brasileiros, de acordo com Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística (IBGE), vivem com algum tipo de deficiência, seja esta 
de origem física, intelectual ou sensorial. 
Nesse contexto, é possível destacar a importância de estratégias que 
promovam o respeito e a inclusão dessas pessoas, tendo em vista que a 
construção histórica da representação social da deficiência em nossa 
sociedade possui resquícios excludentes e baseados em uma visão que limita 
a existência de tais indivíduos. 
O avanço do tempo e as transformações sociais, de certo, representam 
ganhos e conquistas para pessoas com deficiência, sobretudo no âmbito 
jurídico e legal. Entretanto, sabe-se que há uma distância significativa entre 
o que é preconizado pelas leis e o que é aplicado na vivência diária de tais 
pessoas. Vivência que, muitas vezes, é marcada por violência institucional, 
social, psicológica e física, geralmente normalizadas no plano da vivência de 
quem pratica tais atos e até mesmo de quem os recebe. 
Para falar sobre a questão das deficiências na sociedade brasileira, é preciso 
considerar três elementos: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1. Três elementos para entender as deficiências na sociedade brasileira. Fonte: 
Elaborado pela autora. 
Tais elementos estão intimamente atrelados à forma como as 
pessoas com deficiência vivem e representam suas existências. A 
primeira delas diz respeito à visão de si, ou seja, à forma como cada 
pessoa se implica na vivência social e compreende — ou não — a 
dimensão complementar entre a sua limitação e a forma como é 
vista pelo outro. Tal dimensão diz, também, como cada pessoa se 
afirma socialmente, mobiliza estratégias de coping para enfrentar as 
adversidades e consegue ultrapassar as barreiras impostas por uma 
sociedade construída ao redor do entendimento da deficiência 
como forma de isolamento e obstáculo. 
Vale ressaltar que analisar o autoconceito do indivíduo não parte de 
uma lógica meritocrática ou individualizante, que responsabilizaria 
o indivíduo por seu "sucesso" ou "fracasso" na superação das 
barreiras. Ao contrário disso, a percepção da existência das próprias 
barreiras, não como o próprio impedimento em si, mas como as 
dificuldades impostas pelo funcionamento social capacitista, já 
comprova que esse enfrentamento não cabe apenas ao sujeito. 
Porém, como ciência do psiquismo, a psicologia vem evidenciar que 
ter estratégias subjetivas de enfrentamento, resiliência e resistência 
frente às barreiras é algo essencial para a socialização do indivíduo, 
ao passo que a defasagem dessas próprias estratégias leva ao 
adoecimento psíquico, ao isolamento, e outros transtornos. 
A segunda dimensão corresponde ao elemento familiar, ou seja, 
como a deficiência é vista pelas famílias, tanto por aquelas que 
possuem indivíduos com alguma limitação em sua estrutura, quanto 
pelas famílias que não possuem. Com isso, é possível compreender 
como, ao longo do tempo, as famílias em seus diversos arranjos vêm 
tratando essas pessoas e colaborando — ou não — com o seu 
desenvolvimento e afirmação social. 
A terceira e última dimensão é a institucional, que vem falar sobre 
como as instituições diversas — sejam elas a escolar, profissional, 
de saúde ou outras — enxergam as pessoas com deficiência, 
acolhem tais pessoas dentro de sua abrangência ou limitam seu 
acesso através de barreiras burocráticas e até mesmo de 
acessibilidade. Essa camada permite compreender como foram 
instituídas as normas e os conceitos de exclusão ao longo dos 
tempos. 
 
De acordo com Marques (1998), é a partir dessas três dimensões 
que ocorreu, ao longo dos tempos, a representação da deficiência 
como forma de inferioridade, que de maneira capciosa reproduz a 
imagem da pessoa com deficiência como alguém que se sente 
inferior, à margem da família extensa e com limites de alcance 
institucional. Essa é uma visão que reduz as possibilidades de 
expansão do eu, da posição familiar ocupada, da prática profissional 
e institucional, e que deve, portanto, ser combatida. 
Nesse ponto, emerge a contribuição da psicologia como forma de 
levar à compreensão e ao empoderamento das pessoas com 
deficiência, visando ultrapassar os limites impostos pela construção 
histórico-social da deficiência no cenário brasileiro e atuando com 
pessoas com os mais diversos tipos de deficiência. Em outras 
palavras, a atuação do profissional de psicologia deve abarcar essas 
três esferas, ajudando, assim, a desenvolver estratégias amplas de 
enfrentamento e saúde. Não cabe ao psicólogo apenas cuidar do 
aspecto subjetivo e do autoconceito, mas também dos âmbitos 
familiar e institucional. 
No entanto, para melhor compreender como chegamos até o 
presente momento, que embora ainda não seja o ideal, oferece 
ganhos legais e institucionais, é preciso voltar no tempo e 
compreender a história da deficiência e como a mesma foi 
construída ao longo do tempo. 
HISTÓRICO DO CUIDADO 
 
Como a psicologia foi implicada no cuidado com as pessoas com 
deficiência? Antes de falar sobre a história do cuidado propriamente 
dito, é necessário entender que nem sempre a pessoa com 
deficiência foi cuidada de fato. Ao contrário, ao longo da história da 
humanidade, inúmeras foram as formas de violação de direitos 
praticadas contra tais indivíduos, todas elas validadas e sancionadas 
pela norma social. Segundo Goffman (1974), houve uma clara 
definição de fases históricas da representação da deficiência na 
sociedade e da forma de lidar com as diferenças impostas. 
O quadro a seguir resume as fases históricas de compreensão da 
deficiência e como se dava o tratamento para com essas pessoas em 
cada uma delas: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Quadro 1. Fases históricas da noção de pessoa com deficiência. 
Para Lorentz (2006), a exclusão social permanece e marca a forma 
através da qual a pessoa com deficiência ainda é tratada na 
sociedade, sobretudo na área profissional. Entretanto, ainda que a 
curtos passos, observa-se uma evolução do tratamento e da forma 
como tais pessoas são vistas e passam a escrever suas próprias 
histórias. 
ASSISTA 
O filme Extraordinário, de 2017, do diretor Stephen Chbosky, conta a história de um menino 
chamado Auggie Pullman, que nasceu com uma doença rara e que provoca deformações em 
seu rosto. Mesmo após passar por diversas cirurgias plásticas, o garoto ainda possui uma 
aparência diferente. Através das aventuras do menino, o filme fala sobre a educação inclusiva e 
sobre como a aparência pode resultar em situações de exclusão na vida das pessoas com algum 
tipo de deficiência, expondo essa realidade de forma interessante e emocionante. 
AS DIFERENÇAS NA PRÁTICA 
 
Na prática profissional, o psicólogo atua com pessoas com deficiências e possui 
um papel fundamental para o desenvolvimento de suas potências, seja no âmbito 
educacional, clínico ou da saúde 
É importante salientar que, quando falamos de pessoas com 
deficiência, não se trata de falarmos de um construto inerte, mas 
sim de um ser humano dotado de desejos e capacidades. É 
importante destacar, porém, que as estratégias e técnicas utilizadas 
variam de acordo com o tipo de deficiência e com o nível de 
comprometimento funcional. 
Os tipos de deficiência também ditam o caminho que o profissional 
deve tomar na condução de sua intervenção. Para isso, é necessário 
diferenciar as técnicas utilizadas para cada tipo de deficiência. Em 
tese, o psicólogo pode atuar frente a deficiências de todos os tipos, 
não se restringindo a nenhuma delas. 
Uma das principais contribuições possíveis ao profissional de 
psicologia é atuar na ênfase da pessoacom deficiência como um 
sujeito dotado de desejo. Isso, porque uma das principais formas de 
capacitismo é a compreensão da PCD como um ser infantilizado, 
sem capacidade de decidir por si, de escolher e de 
autodeterminação. Essa limitação da vontade da pessoa com 
deficiência, sempre em detrimento de outro ser "completo", é uma 
forma de violência e desumanização. 
Quando as liberdades da PCD são cerceadas e ela é vista como 
alguém que deve ser apenas cuidado, carregado para os lugares e 
sustentado, ela ocupa o papel, tanto no âmbito familiar quanto 
institucional, de uma coisa. Porém, quando o profissional de 
psicologia dá ênfase à capacidade de desejar e decidir da PCD, este 
evidencia a própria humanidade destas pessoas, garantindo seu 
direito à dignidade. Essa humanização cabe desde o processo de 
psicoterapia até a promoção de políticas públicas. Veja como o 
capacitismo opera nas crenças dos indivíduos, as quais cabe ao 
psicólogo combater. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Porém, para além dessa contribuição, que é ampla e deve atingir 
indivíduos com todos os tipos de deficiência, existem outras, mais 
específicas. Cada forma de atuação apresenta peculiaridades que 
apontam para o uso de determinadas técnicas. Faz-se necessário 
diferenciar cada uma delas, com o intuito de oferecer intervenções 
que gerem ganhos e avanços significativos para a vida das pessoas 
e para o trabalho profissional. 
O TRABALHO COM PESSOAS COM 
DEFICIÊNCIAS FÍSICAS E SENSORIAIS 
As deficiências físicas correspondem àquelas ligadas a causas 
congênitas ou adquiridas, associadas ao prejuízo na execução de 
funções físicas e na locomoção. As pessoas com esse tipo de 
deficiência são atingidas por preconceito e sofrimento, sobretudo 
pela discriminação no mercado de trabalho, na vida social e nas 
questões referentes à acessibilidade. 
As deficiências físicas são de diversos tipos: aquelas ligadas aos 
movimentos, à limitação da mobilidade, ao uso de próteses e 
órteses, entre outros, podendo ser causadas por fator inato ou 
adquiridas a partir de agravo durante a vida dos indivíduos. Há 
deficiências ligadas à amputação ou à ausência de alguma parte do 
corpo, decorrentes de má formação fetal ou resultantes de acidente. 
Quanto às deficiências sensoriais, as principais são a visual e a 
auditiva, caracterizadas pelos prejuízos nesses sentidos, podendo 
gerar dificuldades na comunicação, mobilidade, acesso à educação, 
entre outras formas de interagir no mundo. 
É válido salientar que, com as tecnologias adequadas, tais 
deficiências podem ser assistidas de forma satisfatória, permitindo 
que as pessoas possam realizar suas atividades da vida diária de 
forma autônoma e eficiente. 
O trabalho do psicólogo, nesses casos de deficiências físicas, possui 
um caráter motivador e preventivo, voltado a permitir que tais 
indivíduos elaborem suas vivências e compreendam que os 
impedimentos existentes podem ser ressignificados, tornando-se 
meios para superar as dificuldades e atingir um grau satisfatório de 
autonomia. Além disso, o profissional deve atentar para os 
mecanismos de enfrentamento das adversidades. No contexto 
escolar, deve prestar atenção, também, para elementos ligados à 
aprendizagem, por meio das adaptações razoáveis e das 
ferramentas de inclusão, bem como para o enfrentamento à baixa 
autoestima, às barreiras atitudinais e ao bullying. 
O TRABALHO COM PESSOAS COM 
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 
A deficiência intelectual, também chamada de deficiência mental, é 
aquela que prejudica as funções cognitivas superiores e, 
consequentemente, a realização de tarefas do dia a dia. Nos casos 
mais severos, quando há uma deficiência de nível elevado, a 
intervenção psicoterapêutica possui limites que se restringem a 
função catártica e com baixo grau de elaboração. 
CITANDO 
“Consistem no modo de funcionamento psicológico tipicamente humano, tais 
como a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, etc. Estes 
processos mentais são considerados sofisticados e ‘superiores’, porque referem-
se a mecanismos intencionais, ações conscientes controladas, processos 
voluntários que dão ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às 
características do momento espaço presente” (REGO, 2000, p. 39). 
Nos casos de menor comprometimento, o trabalho psicoterápico 
envolve questões ligadas ao direcionamento das pulsões e desejos, 
bem como promove maior nível de compreensão da realidade e 
adequação comportamental, a depender da abordagem 
psicoterapêutica do profissional. Aqui, a valorização das 
capacidades do indivíduo e da sua autopercepção é essencial, sendo 
uma forma de exercer o cuidado em saúde mental e de promover o 
desenvolvimento neuropsicológico. 
De acordo com Fédida (1984), durante muito tempo o atendimento 
às pessoas com deficiência mental foi negligenciado pela psicologia 
e, até certo ponto, foi negada a sua importância e eficácia. Tal 
representação se deve ao preconceito da sociedade com relação a 
aceitar a humanidade dessas pessoas, principalmente quando nos 
deparamos com um sistema psiquiátrico que há poucas décadas 
encarcerava a liberdade de pessoas com deficiência, com a máscara 
da loucura. 
 
O TRABALHO COM PESSOAS COM TRANSTORNOS 
MENTAIS 
 
No que diz respeito à atuação do psicólogo junto aos transtornos 
mentais, pode-se destacar também a diversidade da atuação neste 
contexto. Devido ao excesso de demandas, a atuação do psicólogo 
se diversifica à medida que este adentra em cada cenário. 
A psicologia, de modo geral, é bastante atribuída ao tratamento de 
transtornos mentais. Os conteúdos relacionados à psicopatologia 
são frequentes em diversos currículos do curso, e a atuação junto a 
eles também são bastante discutidas. Isso fortalece a atuação 
profissional junto a esse público. 
De modo geral, quando falamos da atuação profissional, dividimos 
a questão em duas: a atuação do psicólogo em serviços de caráter 
público e de caráter privado. Quando falamos de transtorno, o 
psicólogo pode muito bem atuar nesses dois setores. 
Como cada prática psicológica é singular, é importante discutir e 
apresentar a particularidade de cada uma, visando contribuir para 
um melhor entendimento dos fatores mais gerais e também dos 
fatores específicos que cada cenário demanda. 
Em um primeiro momento, é importante definir bem o fenômeno 
que se estuda. Quando falamos de transtornos mentais, falamos da 
atuação do psicólogo no campo da saúde mental. Esse campo, como 
já vimos, é bastante discutido em psicologia, mas muitas vezes não 
se sabe do que se trata. Por esse motivo, recorremos a uma 
definição que apresenta melhor o campo: 
Saúde mental é um estado de relativo equilíbrio e 
integração entre os elementos conflitivos constitutivos 
do sujeito, da cultura e dos grupos, com 
cser_educacionals previsíveis e imprevisíveis, 
registrado objetiva e subjetivamente, no qual as 
pessoas ou os grupos participam ativamente em suas 
próprias mudanças e nas do contexto social (GALLI, 
1990, p. 34).[FS1] 
A atuação do psicólogo no âmbito público pode se dar tanto em 
serviços de cser_educacional e urgência quanto em serviços como o 
Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). No primeiro caso, entende-
se que mesmo com a importância da queda dos manicômios e da 
construção de um cuidado psicossocial em liberdade, muitos casos 
de atendimento são de caráter de urgência. O paciente atendido 
pode estar tendo algum tipo de surto e demandar intervenções que 
necessitem da ida ao hospital. 
No que diz respeito ao quadro clínico do paciente em urgência e 
emergência, os pacientes podem estar com estados mentais 
diversos. Como os próprios transtornos são diferentes, as 
demandas também variam, podendo ser desde uma 
cser_educacional de ansiedade generalizada até mesmo um estado 
de alucinação que torne o paciente violento. 
Nesse caso, o psicólogoé convocado para atuar, não apenas pela 
gravidade do problema, como também para mediar a equipe. É 
importante situar que o tratamento de transtornos mentais se faz 
em conjunto e, por isso, é necessária a presença de outros 
profissionais para intervir junto ao psicólogo. Veja na Figura 3 alguns 
aspectos referentes ao atendimento psicossocial em casos de 
urgência psiquiátrica: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um dos perfis frequentes de pacientes de urgência e emergência é 
o das pessoas com dificuldade de adaptação ao internamento e 
também o de baixa adesão ao tratamento em geral. Nesses casos, o 
psicólogo 
auxilia na adaptação à hospitalização, tornando este período mais seguro para 
o paciente e mais tranquilo para a equipe multiprofissional, que por sua vez, a 
partir do diálogo com o profissional de saúde mental adquire maior 
compreensão do caso, da história de vida, bem como pela situação de 
cser_educacional que se instala no sujeito" (DIAS et. al, 2017, p. 6). 
É importante situar que esse trabalho nem sempre é fácil. Por se 
tratar de um atendimento em hospital, há sempre outros fatores 
que mede a prática do psicólogo. Um deles é a relação de saberes 
com os profissionais de medicina, assim como a pressão da família 
no tratamento é outro. Um bom profissional precisa saber ponderar 
esses aspectos em busca do oferecimento do cuidado com os 
pacientes. 
Por fim, pode-se dizer que: 
O trabalho do psicólogo, no cenário da urgência e emergência 
hospitalar, se constrói sob a ótica do acolhimento integral, da 
escuta ativa, do contato com a rede de serviços de saúde mental. 
Delimita seu trabalho, na troca com outros profissionais, na 
construção de vínculos, compreendendo o sujeito na sua 
complexidade, realizando avaliação psicológica e promovendo 
cuidado através de uma construção de intervenção terapêutica 
que acolha o paciente psiquiátrico no decorrer da internação 
oferecendo cuidado. O tratamento de emergência busca facilitar 
o momento de internação, trabalhando de forma operacional 
para a melhor readaptação, intervindo de forma breve e focal, 
sem pretensão de alterar estruturas psíquicas básicas do 
paciente. (DIAS et. al, 2017, p. 8).[FS1] 
Quanto à atuação do psicólogo em cenários como o CAPS, este 
exerce uma função dinâmica, como o serviço. Antes de tudo, é 
necessário apresentar um pouco do cenário dos Centros de Atenção 
Psicossocial para que se entenda o nível de complexidade da 
atuação do profissional de psicologia neste serviço. A imagem 
abaixo retrata a maneira estratégica de atuação do SUS no cuidado 
com o CAPS. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os CAPS foram criados como uma das formas de substituir o 
tratamento manicomial, que era feito de maneira desumana e 
penosa. Por meio do CAPS, os usuários do serviço são atendidos, 
durante o dia, com diversos recursos terapêuticos e retornam para 
casa ao final do dia. 
Os CAPS funcionam em três grandes grupos: o CAPS Adulto, que 
atende demandas de transtorno mental com pessoas acima dos 18 
anos; o CAPS AD, que atende pessoas adultas com transtornos 
mentais por intercorrência do uso abusivo de álcool e outras drogas; 
e o CAPS I, que atende crianças e adolescentes com algum tipo de 
transtorno. 
Cada tipo de CAPS demanda aspectos particulares da atuação do 
psicólogo, bem como exige, também, focos de estudos e 
intervenções diferentes. Discutiremos, aqui, aspectos comuns da 
atuação profissional em CAPS que levem em consideração todos 
esses cenários. 
É papel do psicólogo realizar o suporte ao paciente e à família, com 
consultas de caráter psicológico e orientações acerca do tratamento. 
O psicólogo também realiza atendimentos em grupo, conduzindo 
grupos terapêuticos com foco na psicoeducação e em fornecer um 
espaço seguro de escuta para os usuários do serviço. Ele também 
atua como técnico de referência de alguns pacientes, 
acompanhando de maneira mais próxima tratamento. 
Quanto ao âmbito do tratamento privado, dá-se principalmente pela 
psicoterapia. A busca pelo profissional de psicologia no contexto dos 
transtornos mentais geralmente é uma das primeiras ações 
realizadas quando se percebe alguma alteração no psiquismo do 
indivíduo. Isso ocorre por conta da compreensão de que o psicólogo 
pode ajudar o paciente a lidar com o sofrimento ou com questões 
emocionais. Quando se trata de crianças, essa busca pode ocorrer 
após encaminhamentos por parte da escola. 
Entretanto, é necessário compreender que o cuidado integral passa 
pela atuação psicológica, mas não se limita a ela. Por isso, em alguns 
contextos, é necessário que o profissional de psicologia realize 
encaminhamentos para outros profissionais que possam atuar 
frente a outras necessidades do indivíduo — esse é o caso da 
deficiência e também dos transtornos mentais. 
A Psicoterapia não é compreendida como um complemento, pois ela 
possui um valor próprio e específico, que não consegue ser 
alcançado por outros profissionais. A perspectiva do complemento 
sugere que essa atividade seria dispensável ou que ela seria 
subordinada a outras, como a medicina, por exemplo. 
Entretanto, é preciso compreender que, apesar de não ser 
complementar, a Psicoterapia não é absoluta. Ela não é substituível, 
pois tem um objeto de atuação específico, mas também não é capaz 
de substituir outras terapias. Por isso, cabe ao profissional 
desenvolver a capacidade de identificar comportamentos e 
demandas que exigem encaminhamento. 
De forma prática, podemos pensar em um indivíduo que busca a 
psicoterapia por estar apresentando uma compulsão alimentar 
associada a sentimentos de ansiedade. A psicologia poderá 
contribuir para a percepção de gatilhos e aspectos da sua 
subjetividade que estão causando esse comportamento. Assim, 
poderá ajudá-lo a desenvolver melhor a gestão das suas emoções e 
impulsos, e também a lidar melhor com a comida. Entretanto, é 
possível que o indivíduo necessite de medicações que o ajudem a 
estabilizar seus níveis de ansiedade e controlar a compulsão 
alimentar. Também pode ser necessário um profissional da nutrição 
que o ajude a lidar com os impactos da compulsão e a comer de 
forma mais equilibrada. 
Essa compreensão não limita a atuação do psicólogo, mas aumenta 
as chances de efetividade do seu trabalho, pois ao reconhecer os 
limites da sua atuação, o profissional compreende a integralidade 
do indivíduo e a diversidade de contribuições que a ciência pode 
proporcionar em termos de promoção da saúde mental. 
Vale ressaltar que o encaminhamento não é uma ação de passagem 
de responsabilidade. O profissional que acompanha o indivíduo — 
tenha ele um transtorno mental ou uma deficiência — precisa 
manter-se disponível e engajado no trabalho multidisciplinar, que 
pode, a depender do contexto, incluir o contato entre esses 
profissionais. 
A Inclusão Social da pessoa com 
deficiência 
Toda a luta das pessoas com deficiência pode ser resumida, sem prejuízo, 
em uma busca por inclusão. Isso não seria reduzir sua luta, pois o conceito 
de inclusão é extremamente amplo. Estar incluído vai além de estar dentro. 
Tem a ver com ser parte, ter espaço, importância e valor. 
 
Entretanto, não podemos trabalhar com o conceito de inclusão de 
forma unicamente abstrata. É necessário que ele se torne prático e 
real. Mas como isso poderia ser feito? Se compreendermos a pessoa 
com deficiência como alguém que encontra, em sua vida social, 
barreiras de diversas ordens, a melhor estratégia de promoção da 
inclusão é o enfrentamento a essas barreiras. 
A barreira pode ser definida como 
qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a 
participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus 
direitos à acessibilidade, à liberdadede movimento e de expressão, à 
comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com 
segurança, entre outros" (BRASIL, 2015). 
Para promover a inclusão de forma efetiva, é necessário reconhecer 
os principais tipos de barreiras enfrentados pelas pessoas com 
deficiência e como esses podem ser diminuídos ou superados. 
TIPOS DE BARREIRAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Essas barreiras demonstram que a inclusão e o combate ao 
preconceito não dizem respeito apenas a uma mudança na 
mentalidade das pessoas, mas também à necessidade de 
transformação de toda a estrutura social. Do ponto de vista 
urbanístico, por exemplo, é necessário que os projetos urbanos de 
locomoção, de lazer e das cidades como um todo levem em conta as 
necessidades de pessoas com as mais diversas deficiências. Isso vai 
desde o material dos pisos utilizados até a presença de sinais 
sonoros nos semáforos, por exemplo. 
No contexto arquitetônico, percebe-se a necessidade das 
instituições e prédios serem construídos e pensados para serem 
acessíveis a todos. A presença de rampas, elevadores, portas largas 
e sinalizações em braile são exemplos de estratégias necessárias. Já 
nos transportes, faz-se necessária a promoção da acessibilidade 
tanto nos transportes públicos quanto nos carros e veículos 
privados. Isso inclui o acesso ao interior do veículo, a segurança e a 
capacidade de locomoção autônoma no mesmo e até a 
possibilidade de a PCD conduzir o veículo, utilizando-se das 
adaptações necessárias. 
As barreiras na comunicação e informação afetam a capacidade de 
trocar mensagens e informações, o que, dada a importância da 
linguagem, gera grande prejuízo para o processo de socialização e 
de subjetivação. Para combater essas barreiras e garantir que o 
indivíduo possa se comunicar com autonomia, podem-se utilizar 
recursos como a Libras e o Braile, que devem estar disponíveis 
também em serviços e instituições públicas e privadas. Além disso, 
o uso de tecnologias assistivas, como leitores para livros e o uso de 
ferramentas digitais, deve ser popularizado e se tornar acessível. 
Isso, porque, considerando o contexto atual, a inclusão na 
comunicação e na informação só pode ser considerada, de fato, 
efetiva se houver também inclusão digital. 
 
Assim, chegamos às barreiras tecnológicas. Essas dizem respeito ao 
acesso da PCD a recursos tecnológicos diversos. Ao se tratar da 
tecnologia principalmente como os recursos digitais, as tecnologias 
da comunicação e o acesso à Internet, essas barreiras podem ser 
encontradas tanto nos dispositivos (hardware) quanto em 
aplicativos e sistemas (softwares). Para aumentar a acessibilidade, 
são utilizadas as tecnologias assistivas dos mais diversos tipos, como 
leitores de texto. Entretanto, para superar essa barreira, faz-se 
necessária a preocupação com a acessibilidade no momento da 
própria criação dos recursos, de modo que sejam acessíveis para o 
maior número de pessoas possível. 
Cabe, porém, ampliar o conceito de tecnologia. Sabemos que, para 
além da informação e da comunicação, são construídas tecnologias 
no ramo da saúde, do transporte, das ciências ambientais, entre 
outros. Em última análise, podemos pensar a tecnologia como 
construtos resultantes do avanço da ciência. Para que haja, 
efetivamente, essa inclusão tecnológica, é necessário, portanto, que 
cada passo dado pela humanidade, em termos de conhecimento e 
utilidades, seja dado considerando as especificidades de cada um. É 
necessário, assim, que os serviços e produtos sejam pensados para 
serem acessíveis desde a sua origem. 
Por fim, temos as barreiras atitudinais. Essas podem ser chamadas 
de barreiras de origem, pois é a partir delas que todas as outras se 
constituem. Elas dizem respeito às atitudes que prejudicam a 
participação social das pessoas com deficiência. Essas atitudes 
podem ser divididas em três vertentes: as crenças e pensamentos, 
os comportamentos, os sentimentos e as emoções. São esses três 
aspectos que levam à reprodução de práticas, intencionais ou não, 
de discriminação. Também são eles que permeiam a negligência ou 
a ignorância acerca da acessibilidade por parte das pessoas, 
resultando, assim, em todas as outras barreiras. 
As barreiras atitudinais devem ser combatidas por meio das mais 
diversas frentes de intervenção, como a educação formal, o direito, 
a saúde, a família, entre outras. Ao psicólogo cabe ser promotor da 
conscientização da presença dessas barreiras e de sua 
desmistificação, seja na psicoterapia ou em qualquer um desses 
contextos onde atue. 
 
 
 
 
 
 
 
 
DESENHO UNIVERSAL E ADAPTAÇÃO 
RAZOÁVEL 
 
Como vimos, a inclusão é um processo que exige mudanças. Um dos 
braços da inclusão é a acessibilidade, que abarca, principalmente, a 
superação das barreiras arquitetônicas, urbanísticas e de 
transporte. Entretanto, como essas mudanças são executadas? O 
que é necessário fazer, do ponto de vista prático, para promover a 
acessibilidade? 
Existem dois caminhos principais para a superação dessas barreiras 
e a garantia do acesso igualitário para as pessoas com deficiência: o 
desenho universal e as adaptações razoáveis. Esses dois meios são 
promotores de mudança aplicados em contextos diferentes, como 
vemos na Figura 6: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O desenho universal, podemos resumir, é uma construção inclusiva 
que atinge a todos e que é aplicada como forma de inovação. Vamos 
compreender: uma sala de aula pensada em desenho universal é 
aquela acessível para pessoas com deficiência, com transtornos, 
com quaisquer diferenças e, também, para pessoas consideradas 
típicas. Ela deve ser acessível do ponto de vista arquitetônico, 
metodológico, comunicativo, entre outros. 
Esse conceito — o de desenho universal — trata-se de um grande 
desafio. É um chamado para que as pessoas que constroem novas 
estratégias, serviços e produtos estejam atentos às PCD e 
promovam a acessibilidade como parte integrante, ao invés de um 
acessório opcional, para suas produções. Entretanto, sabemos que 
nem tudo que temos em nossa sociedade foi pensado em desenho 
universal. Na verdade, estamos bem longe dessa realidade. Qual a 
melhor opção então? Seria descartarmos todos os objetos, 
demolirmos todas as estruturas e acabarmos com os serviços que 
não atendem a esse critério? 
A resposta para essas perguntas é a adaptação razoável. A 
adaptação razoável consiste em promover adequações e mudanças 
que tornem esses produtos, ambientes, serviços e programas, 
anteriormente inacessíveis, acessíveis para a população com 
deficiência. Partindo do critério da razoabilidade, essas adaptações 
não devem trazer prejuízos desproporcionais para a funcionalidade 
desses itens, mantendo a sua qualidade e segurança. 
Podemos considerar a adaptação razoável como uma forma de "dar 
um jeito", sendo um recurso transitório e viável para que as pessoas 
com deficiência tenham seu direito à acessibilidade garantido, 
enquanto não existe uma sociedade plenamente acessível. O 
objetivo da inclusão é a mudança, e o ideal é que todos os espaços 
de convívio social sejam plenamente acessíveis para todas as 
pessoas, havendo igualdade de oportunidades, tanto do ponto de 
vista atitudinal quanto do ponto de vista da autonomia. 
Porém, não parece viável que as PCD precisem esperar pela 
reconstrução de uma nova sociedade. Cabe, portanto, que todas as 
adaptações razoáveis sejam feitas, a fim promover praticidade e 
autonomia. Cabe, também, às instituições, indivíduos e empresas a 
busca pela aplicação do desenho universal em suas criações futuras, 
visando, assim, à inclusão plena. 
 
Os novos direitos da pessoa com 
deficiênciaComo já vimos, os direitos assegurados a todo ser humano e 
compreendidos como direitos naturais nem sempre foram vistos 
dessa forma. Na verdade, é perceptível, ao estudar a história da 
inclusão, que o conceito de direito é extremamente recente, já que 
a visão assistencialista baseia suas ações na perspectiva da caridade. 
Com influência da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da 
Constituição Cidadã, ficou cada vez mais evidente a necessidade do 
país estabelecer leis especificamente voltadas para as pessoas com 
deficiência. Dois documentos legais foram decorrentes dessa busca 
por garantia de direitos no Brasil: O Estatuto da pessoa com 
deficiência e a Declaração de Salamanca. 
 
DECLARAÇÃO DE SALAMANCA 
 
A Declaração de Salamanca é um documento internacional produzido em 1994, 
na cidade de Salamanca, na Espanha, com o fim de estabelecer diretrizes para a 
construção de práticas inclusivas para pessoas com deficiência nos mais diversos 
contextos, especificamente os educacionais. 
Essa declaração teve enorme influência dos movimentos 
antimanicomiais, devido à ênfase dada ao valor da interação social 
como estratégia de cuidado e garantia de dignidade. Dentre as 
muitas propostas, está a de destinar os estudantes com deficiência 
preferencialmente para escolas regulares, a fim de evitar o 
isolamento e a segregação. 
Já a Lei brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também 
conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, foi instituída 
em 2015 e é “destinada a assegurar e a promover, em condições de 
igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais 
por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e 
cidadania.” (BRASIL, 2015). Ela rege os mais diversos âmbitos da vida 
cotidiana de pessoas com deficiência, não se detendo apenas ao 
aspecto da educação. Ela estabelece, também, o conceito de 
deficiência reconhecido no país, bem como outros conceitos, como 
os de acessibilidade, pessoa com mobilidade reduzida, tecnologia 
assistiva, adaptação razoável, entre outros. 
 
EXPLICANDO 
 
 O conceito de pessoa com mobilidade reduzida, por vezes, é confundido com o 
de pessoa com deficiência. Segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência, a 
pessoa com mobilidade reduzida é aquela que tenha, por ququem vai alquer 
motivo, dificuldade de movimentação, permanente ou temporária, gerando 
redução efetiva da mobilidade, da flexibilidade, da coordenação motora ou da 
percepção, incluindo idoso, gestante, lactante, pessoa com criança de colo e 
obeso" (BRASIL, 2015). 
 
Veja na Figura 7 o resumo dos principais avanços propostos pela Lei 
brasileira de inclusão da pessoa com deficiência: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Podemos compreender que essa lei teve um impacto significativo 
para a garantia dos direitos da pessoa com deficiência no Brasil. Ela 
se propôs a abarcar os mais diversos aspectos da vida das PCD, 
saindo do modelo assistencialista recorrente anteriormente. A lei 
também ampliou a execução das diretrizes deixadas pela 
Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição de 
1988, que enfatizam os valores de dignidade, igualdade e respeito. 
Sua implementação veio para aplicar esses valores de forma prática, 
integral e organizada. 
As formas de tratamento e 
intervenção das instituições 
particulares e públicas 
 
Precisamos ter em vista que, diferentemente de como foi 
compreendida por muitos anos, a deficiência não é uma doença. Por 
isso, ela não precisa ser tratada, nem cabe aos profissionais que 
trabalham com o fenômeno reduzi-la ou escondê-la. 
Entretanto, os impactos de viver como uma PCD na sociedade atual 
podem ser adoecedores, a depender do indivíduo e do contexto em 
que está inserido. Por isso, a fim de promover o tratamento e 
intervenções assertivas frente ao fenômeno da deficiência, 
podemos pensar em duas atuações principais: a psicoterapia e 
psicoeducação, a habilitação e reabilitação. 
 
 PSICOTERAPIA E PSICOEDUCAÇÃO 
Não há dúvidas de que a experiência de pessoas com deficiência é 
marcada por sofrimento. Isso ocorre não porque a deficiência, por 
si só, leva ao sofrimento, mas porque o capacitismo atua como 
forma de violência simbólica e psicológica, por meio da exclusão ou 
da inferiorização. 
Assim, a atuação do profissional em psicoterapia se faz essencial. Ele 
deve acolher as demandas, os sofrimentos e os relatos, visando à 
redução do impacto emocional do capacitismo, por meio da criação 
de estratégias psicológicas de resistência. Além disso, o trabalho do 
profissional deve ser, também, o de olhar para o indivíduo para além 
de sua deficiência, não o limitando a essa característica, mas 
respeitando e acolhendo suas outras demandas de fala. 
Nesse contexto, entra também a psicoeducação. Ela tem como 
objetivo compartilhar, de forma acessível, conhecimento acerca do 
funcionamento psíquico. A psicoeducação é especialmente 
importante nos casos de deficiência intelectual, onde existe prejuízo 
direto às funções cognitivas, mas pode ser parte das intervenções 
com relação a qualquer tipo de indivíduo. 
A ideia da psicoeducação é a de que os conhecimentos da psicologia 
não são propriedade dos psicólogos e que é direito do indivíduo 
compreender os fenômenos que ele vivencia, não apenas do ponto 
de vista da experiência, mas também da ciência. A psicoeducação, 
como essa forma de explicar e instruir sobre os fenômenos 
psíquicos por meio de uma linguagem acessível, alcança não apenas 
a pessoa com deficiência, mas também a sua família, escolas e 
profissionais que intervêm no seu desenvolvimento. 
 
HABILITAÇÃO E REABILITAÇÃO 
A habilitação e a reabilitação são direitos garantidos pela Lei 
Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Ambos 
tem por objetivo o desenvolvimento de 
potencialidades, talentos, habilidades e aptidões 
físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais, atitudinais, 
profissionais e artísticas que contribuam para a 
conquista da autonomia da pessoa com deficiência e 
de sua participação social em igualdade de condições 
e oportunidades com as demais pessoas (BRASIL, 
2015). 
Enquanto a habilitação diz respeito ao alcance dessas 
potencialidades ao longo do processo de desenvolvimento do 
indivíduo, a reabilitação visa suprir competências que, 
anteriormente, já haviam sido alcançadas, mas que foram perdidas 
ou prejudicadas por algum episódio experimentado. 
De acordo com o conceito, habilitação e reabilitação são processos 
que envolvem diversos aspectos do indivíduo, desde as questões 
cognitivas, passando pelas físicas e incluindo as atitudinais. Dessa 
forma, os processos não podem ocorrer isoladamente e demandam 
intervenções multidisciplinares. 
 
 
O profissional de psicologia pode atuar na habilitação e reabilitação 
de diversas formas. Como cientista da subjetividade, ele pode atuar 
tanto no desenvolvimento de potencialidades da mesma quanto em 
intervenções em casos onde o psiquismo esteja afetando o 
desenvolvimento de competências em outras áreas. O profissional 
pode, por meio da psicoterapia, promover recursos subjetivos, 
como a autoestima e a autonomia, e trabalhar na elaboração de 
traumas decorrentes do capacitismo ou de episódios que levaram à 
necessidade de reabilitação. 
Fora do âmbito individual, o psicólogo também pode atuar no 
contexto familiar, no sentido de ajudar a família a reestruturar 
funcionamentos no âmbito afetivo ou mesmo dos hábitos que 
possam ser nocivos à habilitação ou reabilitação. O acolhimento à 
família é a promoção da saúde mental na mesma e também faz 
parte do papel do profissional 
Já no contexto institucional, como em clínicas multidisciplinares, 
escolas ou serviços de saúde, cabe ao psicólogo promover a saúde 
mental e o respeito à subjetividade da PCD. Ele pode atuar, também, 
tanto nas instituições quanto na clínica, no desenvolvimento de 
funções cognitivas - atenção, controleinibitório, planejamento, 
flexibilidade cognitiva, entre outros - por meio de técnicas 
psicológicas. 
 
Agora é a hora de sintetizar tudo 
o que aprendemos nessa unidade. 
Vamos lá?! 
SINTETIZANDO 
 
A prática psicológica abrange os mais diversos grupos de pessoas, 
com suas necessidades distintas e peculiaridades específicas. Com 
isso, se faz possível compreender a responsabilidade de uma 
categoria profissional que se dedica aos estudos e cuidados com os 
seres humanos em suas mais variadas vivências e experiências. 
Dentre os grupos de pessoas que são atendidos pela psicologia, 
estão as pessoas com deficiência. 
Compreendemos que a depender do tipo de deficiência e das 
demandas do indivíduo a atuação do psicólogo se dará de forma 
diferente, porém sempre incentivando a capacidade do indivíduo de 
desejar, decidir e ter autonomia e autodeterminação sobre si 
mesmo. Mas como essas pessoas com necessidades e com 
deficiência podem ser incluídas na participação social de forma 
efetiva? Vimos que as duas principais formas de promover a 
acessibilidade e a inclusão das pessoas com deficiência na 
participação social são o desenho universal e as adaptações 
razoáveis. 
O desenho universal, que permite o uso por todas as pessoas, tem 
importância no âmbito da inovação e da criação de novos projetos. 
Assim, as Adaptações Razoáveis proporcionam a possibilidade de 
que as medidas necessárias sejam tomadas, mesmo em contextos 
não plenamente acessíveis, para que a presença e a acessibilidade 
da pessoa com deficiência sejam asseguradas. Essas adaptações 
têm como alvo as situações em que a construção do projeto, 
produto ou lugar não foram pensadas previamente para receber 
pessoas com deficiência. 
Nesse sentido, se faz necessário compreender o papel do psicólogo 
no contexto da experiência das pessoas com deficiência, buscando 
o respeito aos pilares de humanidade, respeito e inclusão, 
entendendo que tais indivíduos possuem direitos que não excluem 
seus deveres. Dessa forma, normaliza-se a vivência. Além disso, é 
necessário se atentar para o aparato legal que assegura tais direitos, 
levando ao empoderamento e ao conhecimento de tais dispositivos, 
que foram construídos visando o bem-estar e as oportunidades. 
Vimos que as pessoas com deficiência, por meio de intensas 
reivindicações e organização popular, têm alcançado uma série de 
novos direitos. Esse processo, no Brasil, tem como principais 
influências a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a 
Constituição de 1988. Na atualidade, temos a Lei Brasileira de 
Inclusão da Pessoa com Deficiência, também chamada de Estatuto 
da Pessoa com Deficiência, que trata a questão da deficiência de 
forma abrangente, estabelecendo diretrizes para a inclusão social 
nos mais diversos contextos - educacional, do transporte, da saúde, 
do direito, entre outros. 
Por fim, conhecemos as duas grandes formas de intervenção do 
profissional de psicologia: psicoterapia e psicoeducação e 
habilitação e reabilitação. A primeira visa lidar com o acolhimento e 
a educação acerca de fenômenos psíquicos, promovendo a saúde 
mental, enquanto a última diz respeito ao papel do psicólogo no 
desenvolvimento de funções e competências que contemplem seu 
convívio social.

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