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LINGUÍSTICA TEXTUAL
DEFINIÇÃO DO OBJETO: TEXTO
	MARCUSCHI, L. A. Linguística de texto: o que é e como se faz? São Paulo: Parábola Editorial, 2012.
Algumas definições de texto (p. 21)
Há duas possibilidades de definir teoricamente o que é texto:
a) partindo de critérios internos ao texto (olhando-o do ponto de vista imanente ao sistema linguístico);
- ZELLIG HARRIS (1952): “um texto (discurso) compõe-se de uma sequência de expressões ou sentenças ligadas, podendo ir além desde sentenças de uma só palavra até uma obra e vários volumes”.
- ROLAND HARWEG (1968, p. 148): “Texto é uma sucessão de unidades linguísticas constituída por uma cadeia pronominal ininterrupta”.
- IRENE BELLERT (1970, p. 335): “Um texto é uma sequência de sentenças S¹, S²... Sn de tal modo que a interpretação semântica de cada sentença Si (para 2> i>n) depende da interpretação da sequência S¹... Si”.
- HARALD WEINRICH (1971, p. 186-187): “texto é uma sequência ordenada de signos linguísticos entre duas interrupções comunicativas importantes”.
b) partindo de critérios temáticos ou transcendentes ao sistema (considerando o texto como uma unidade de uso ou unidade comunicativa).
- JANOS PETÖFI (1972, p. 31): “Uma sequência de elementos linguísticos escritos ou falados organizada como um todo, com base em algum critério qualquer (geralmente extralinguístico), resulta num texto”.
- TEUN VAN DIJK (1978, 1977): O texto é “uma estrutura superficial governada por uma estrutura semântica profunda motivada”, ou seja, “um conjunto ordenado de sentenças da estrutura profunda”.
- SIEGFRIED SCHMIDT (1973, p. 237): “Texto é qualquer expressão de um conjunto linguístico num ato de comunicação (no âmbito de um jogo-de-ação comunicativo), sendo tematicamente orientado e preenchendo uma função comunicativa reconhecível, ou seja, realizando um potencial ilocutivo reconhecível”.
- HALLIDAY e HASAN (1972, p. 1-2): “Um texto é uma unidade em uso. Não é uma unidade gramatical, tal como uma frase ou uma sentença; e não é definido por sua extensão. (...) Um texto é uma unidade semântica: não uma unidade de forma e sim de sentido”
TEXTO COMO PROCESSO DE MAPEAMENTO COGNITIVO (MARCUSCHI, [1983] 2012)
- O TEXTO NÃO É uma unidade virtual E SIM concreta e atual;
- O TEXTO NÃO É uma sequência de sentenças E SIM uma ocorrência comunicativa.
Portanto:
A) Embora desejável e aconselhável do ponto de vista do procedimento de elaboração de teorias científicas, parece impossível uma teoria formal abstrata e geral que permita a geração ou explicação de todos os textos possíveis de uma dada língua;
B) Não é possível aplicar ao texto as mesmas categorias gramaticais que possuímos para o estudo da frase.
- MARCUSCHI (2012 [1983], p. 30): “O texto é o resultado atual das operações que controlam e regulam unidades morfológicas, as sentenças e os sentidos durante o emprego do sistema linguístico numa ocorrência comunicativa. [...] O texto é uma rede em várias dimensões e se dá como um complexo processo de mapeamento cognitivo de fatores a serem considerados na sua produção e recepção”.
- MARCUSCHI (2012 [1983], p. 33): a Linguística textual é “o estudo das operações linguísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais. Seu tema abrange a coesão superficial ao nível dos constituintes linguísticos, a coerência conceitual ao nível semântico e cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações ao nível pragmático da produção de sentido no plano das ações e intenções.
	LINGUÍSTICA DE TEXTO: COMO SE FAZ?
Algumas categorias textuais e sua aplicabilidade
- Fatores de contextualização
- Fatores de conexão sequencial (coesão)
- Fatores de conexão conceitual-cognitiva (coerência)
- Fatores de conexão de ações (pragmática)
	
KOCH, I. V. Introdução à Linguística Textual. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
Trajetórias da Linguística textual:
1. Análises interfrásticas e gramáticas do texto;
2. A virada pragmática;
3. A virada cognitivista:
- “texto passa a ser considerado resultado de processos mentais: é a abordagem procedural, segundo a qual os parceiros da comunicação possuem saberes acumulados quanto aos diversos tipos de atividades da vida social, têm conhecimentos representados na memória que necessitam ser ativados para que sua atividade seja coroada de sucesso” (KOCH, 2004, p. 21).
- A perspectiva sócio-cognitiva-interacionista
“Na concepção interacional (dialógica) da língua, na qual os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e por ele são construídos. A produção de linguagem constitui atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer não apenas a mobilização de um vasto conjunto de saberes (enciclopédia), mas a sua reconstrução – e a dos próprios sujeitos – no momento da interação verbal” (KOCH, 2004, p. 33)
	MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola, 2008.
- O texto é uma unidade comunicativa e uma unidade de sentido que é “realizada tanto no nível do uso como no nível do sistema. Tanto o sistema como o uso têm suas funções essenciais na produção textual. Mas, de qualquer modo, o texto não é uma unidade formal da língua como, por exemplo, o fonema, o morfema, a palavra, o sintagma e a frase” (MARCUSCHI, 2008, p. 76).
- “o texto acha-se construído na perspectiva da enunciação. E os processos enunciativos não são simples nem obedecem a regras fixas. Na visão que aqui se está propondo, denominada sociointerativa, um dos aspectos centrais no processo interlocutivo é a relação dos indivíduos entre si com a situação discursiva. Estes aspectos vão exigir dos falantes e escritores que se preocupem em articular conjuntamente seus textos ou então que tenham em mente seus interlocutores quando escrevem”. (MARCUSCHI, 2008, p. 76).
- “o texto se dá como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas interativas e colaborativas” (MARCUSCHI, 2008, p. 79).
	Exemplo:
PRETO E BRANCO
 Perdera emprego, chegara a passar fome, sem que ninguém soubesse: por constrangimento afastara-se da roda boêmia que antes costumava frequentar - escritores, jornalistas, um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas.
 De repente, a salvação lhe apareceu na forma de um americano, que lhe oferecia emprego numa agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade, vale dizer, ao americano, para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. 
 E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México, já distraídos de seus passados tropeços, mas, tropeçando obstinadamente no inglês com quem se entendiam - quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. 
Era o sambista seu amigo.
 Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade, e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Por via das dúvidas, correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que ele atravessa a rua e vinha em sua direção, sorriso aberto e braços prontos para um abraço.
 Pensou rapidamente em se esquivar - não dava tempo: o americano também se detivera, vendo o preto aproximar-se. Era seu amigo, velho companheiro, um bom sujeito, dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora, com o gringo ali ao seu lado, todo branco e sardento, é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto.Sendo assim, tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo, haveria de compreender. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsun, lidos depois do jantar, e sem credores à porta. Não teve mais dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via, que não era com ele.
 E não era mesmo com ele.
 Porque antes de cumprimentá-lo, talvez ainda sem tê-lo visto, o sambista abriu os braços para acolher o americano - também seu amigo.
SABINO, Fernando. A Mulher do vizinho. 7. ed. Rio de Janeiro, Record, 1962. p.163-4
ANÁLISE:
- ANTECIPAÇÕES E HIPÓTESES:
“Perdera emprego, chegara a passar fome, sem que ninguém soubesse: por constrangimento afastara-se da roda boêmia que antes costumava frequentar - escritores, jornalistas, um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas.”
Nesse parágrafo, tem-se a introdução de dois personagens:
- personagem principal, referido sob a forma da elipse (verbo na terceira pessoa)
- sambista de cor.
Nesse momento do texto, não é possível inferir, com base nos elementos linguísticos, se o personagem principal é um homem.
Com base em um conhecimento enciclopédico (ou de mundo), pode-se pressupor que o personagem é um homem com base nos elementos:
- Por tratar-se de um texto da década de 1960, o fato de ter um emprego, remete, provavelmente a um homem;
- frequentar roda boêmia;
- amigo de um sambista, companheiro de noitadas.
A referência ao “sambista de cor”, permite ao leitor inferir que:
- trata-se de um personagem negro, com base na expressão linguística “de cor”, hoje em desuso, para se referir às pessoas negras.
- com base em um conhecimento enciclopédico, pode-se inferir, a partir do contexto, que os demais personagens são brancos, uma vez que não se faz alusão à cor.
“De repente, a salvação lhe apareceu na forma de um americano, que lhe oferecia emprego numa agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade, vale dizer, ao americano, para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. 
 E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México, já distraídos de seus passados tropeços, mas, tropeçando obstinadamente no inglês com quem se entendiam - quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele.”
- É introduzido um terceiro personagem: o americano, chefe do personagem principal;
- Começa a descrição de uma cena do encontro entre os três personagens: o personagem principal, sambista negro, e o americano.
“Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade, e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Por via das dúvidas, correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que ele atravessa a rua e vinha em sua direção, sorriso aberto e braços prontos para um abraço.
 Pensou rapidamente em se esquivar - não dava tempo: o americano também se detivera, vendo o preto aproximar-se. Era seu amigo, velho companheiro, um bom sujeito, dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora, com o gringo ali ao seu lado, todo branco e sardento, é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. Sendo assim, tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo, haveria de compreender. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsun, lidos depois do jantar, e sem credores à porta. Não teve mais dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via, que não era com ele.”
A partir desse encontro, a narrativa centra-se nos pensamentos do personagem principal, o qual, faz uma série de pressuposições em relação ao americano e em relação ao sambista negro:
- julgou, com base em estereótipo (“o americano em geral...”), que o seu chefe americano fosse racista seguindo o silogismo:
O americano em geral é racista.
O chefe é americano.
Logo, o chefe americano e racista.
- Esse estereótipo de que todo americano é racista tem como base o fato de, por muito tempo, o racismo ser amplamente legitimado pela lei nos EUA. Somente no final da década de 1950 que as leis de segregação racial passam a ser duramente contestadas. Esse é o contexto em que o texto foi publicado.
- Ainda que tal comportamento racista não tenha sido explicitamente solicitado como parte de sua função na agência, o personagem principal julgou que este seria o comportamento esperado dele. Trata-se de uma inferência sem base textual. Por julgar tratar-se de uma condição imposta ao seu cargo, alheia a sua vontade, acreditou que seu amigo sambista entenderia a sua posição. Entre manter o emprego e o amigo, optou por manter o emprego, certo de que seu amigo entenderia. 
“E não era mesmo com ele.
 Porque antes de cumprimentá-lo, talvez ainda sem tê-lo visto, o sambista abriu os braços para acolher o americano - também seu amigo.”
Após o clímax da narrativa, é introduzido o desfecho.
O leitor é surpreendido juntamente com o personagem principal:
- o personagem principal estava equivocado: o americano não era racista; o cumprimento do sambista não era para ele.
- o americano e o sambista não perceberam o comportamento racista do personagem principal;
- o personagem principal não se considera racista, tendo em vista que seu comportamento foi determinado por um motivo alheio a sua vontade, ainda que fosse uma inferência equivocada.
- o racismo é praticado de forma velada no texto, de modo que é mascarado até mesmo para aquele que o pratica.
	Identifique os elementos linguísticos que estabelecem a coesão textual dos seguintes referentes:
	Personagem principal
	Sambista negro
	americano
	Exemplo:
Elipse do sujeito
[ ] Perdera o emprego
[ ] Chegara a passar fome
	Exemplo:
- um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas.
- um preto agitar a mão para ele. Era o sambista seu amigo.
	Exemplo:
- um americano, que lhe oferecia emprego numa agência.
- com o chefe pela Rua México...
	1. A elipse, que é o apagamento de um termo da frase, geralmente é um recurso usado para evitar a repetição. No texto “Preto e branco”, o personagem principal é introduzido e reiterado ao longo do texto sob a forma da elipse, de modo que não poderíamos dizer que, nesse caso, a elipse foi usada para evitar repetições. Que efeito de sentido a elipse do personagem principal produz no texto?
	1. PRODUÇÃO TEXTUAL:
ESCREVA UM TEXTO NARRATIVO, DO GÊNERO CRÔNICA, SOBRE A SEGUINTE TEMÁTICA: PRECONCEITO.
Pode ser uma história real ou inventada. A história pode ser narrada em primeira ou terceira pessoa. 
OU
A partir da crônica “Preto e Branco”, escreva um texto narrativo sob a perspectiva do sambista negro ou do americano.

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