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1www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL CONCAUSAS II Nas concausas absolutamente independentes (preexistentes, concomitante ou superve- nientes), o agente somente responde pela forma tentada. São situações que não interferem no resultado. Há quebra da relação de causalidade, por isso, o agente somente responde pela intenção, na forma tentada. O resultado não é atribuído ao agente. Concausas relativamente independentes Essas concausas não existiriam se não fosse a atuação do agente. A conduta do agente interfere no resultado. Somente tem a possibilidade de produzir o resultado se for conjugada a uma conduta do agente. Originam-se da própria conduta praticada pelo agente. Não existiriam sem a atuação cri- minosa. Por isso são chamadas relativamente independentes. Podem ser preexistentes (antes da conduta), concomitantes (durante a conduta) ou supervenientes (após a conduta) Causa relativamente independente preexistente: já existia antes do comportamento do agente e, quando a ele conjugada, surge uma relação de complexidade que produz o resultado. A que mais aparece em prova é a hemofilia. Nessa doença, os ferimentos cicatrizam com dificuldade, o sangue tem dificuldade de coagular. Exemplo: A desfere um disparo em B. O ferimento se agrava em razão de condição de saúde prévia da vítima, que não tem capacidade de coagular o sangue (hemofilia). Causa relativamente independente preexistente. A questão médica só se torna relevante em razão do disparo. Caso ele não tivesse sofrido disparo, o ferimento não teria se agravado pela hemofilia. A, conhecedor da hemofilia de B, responderá pelo resultado morte. A, sabedor que B é hemofílico, desfere golpe de faca com intenção de matar. O golpe atinge região não letal, mas a condição fisiológica da vítima se conjuga ao golpe e acarreta a morte. Ao eliminar o golpe a morte não ocorre, pois o ferimento não se agrava sozinho pela hemofilia. O golpe (a conduta do agente) é a causa do resultado. A responderá pelo resultado morte, considerando o dolo de matar e que sabia da hemofilia. 5m 25.02.2024 2www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL Se eu elimino o comportamento de A, B não morreria. Isso indica que a conduta é rele- vante para o resultado, razão pela qual o resultado deve ser imputado ao agente. Se A, sabedor da hemofilia, aplica o golpe apenas com a intenção de lesionar, mas a morte sobrevém, responderá pela lesão corporal seguida de morte, já que a morte estava no campo de previsibilidade (art. 19 do CP). Se A não era sabedor da hemofilia, não poderá responder pelo resultado morte, pois ele não tinha intenção de matar e ele não conhecia a condição clínica da vítima, considerando que não se pode consagrar a responsabilização penal objetiva. Ele responde pela tentativa de homicídio. Não pode haver responsabilização objetiva, é preciso verificar se a condição pessoal da vítima estava na consciência do agente. Causa relativamente independente concomitante: é simultânea à conduta do agente. Exemplo: A dispara um tiro em B, que se apavora e, no exato instante, sofre um ataque cardíaco. Tanto o disparo quanto o ataque são, conjuntamente, causadores do resultado morte. O agente responderá pelo homicídio consumado. Se A não tivesse disparado, B não teria ficado nervoso, não teria tido o ataque cardíaco. As causas são conjugadas e produzem, juntas, o resultado morte. Ao retirar a conduta de A, o resultado não acontece. Até esse ponto, as análises seguem o caput do art. 13 (teoria da equivalência dos ante- cedentes causais, pelo método da supressão hipotética), e o resultado é imputado ao agente segundo o seu dolo. O contexto muda a partir das concausas relativamente independentes supervenientes. Concausas relativamente independentes supervenientes Essas concausas são muito cobradas em prova. Situação tratada pelo art. 13, § 1º, do CP § 1º - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. É relativamente independente pois tem ligação com a conduta criminosa. É superveniente pois é posterior à conduta criminosa. Causa que ocorre posteriormente à conduta do agente e que com ela tem ligação. Exemplos: 1. Pessoa que, em razão de facadas, é internada. No hospital, contrai infecção hospita- lar e falece. 10m 25.02.2024 3www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL 2. Indivíduo que, ferido por disparos, é transportado em ambulância, sofrendo acidente (fato absolutamente imprevisível) e falecendo em razão deste. O resultado morte pode ser atribuído ao agente? Ao retirar a conduta, a pessoa não entra na ambulância. Pela teoria da causalidade sim- ples, o comportamento foi a causa do resultado. Porém, esse acidente da ambulância é muito provável de ocorrer? Não. É raro. São hipó- teses raras, são eventos extraordinários. Diante dessas situações extraordinárias, adota-se a teoria da causalidade adequada. Adotando-se a teoria da conditio sine qua non aos exemplos acima, o resultado natura- lístico seria imputado ao agente. O art. 13 adota a teoria da equivalência dos antecedentes ou da condição simples, como regra. Porém, no § 1º do art. 13 temos a adoção da teoria da causalidade adequada. Conduta idônea a gerar o resultado. A contribuição deve ser eficaz. Regularidade estatística, com a exclusão de acontecimentos extraordinários, fortuitos. Verifica se não foi um acontecimento absolutamente extraordinário, fortuito. Assim, o aci- dente da ambulância quebra a relação de causalidade natural. Há um rompimento. Por isso, o indivíduo apenas responde pela TENTATIVA. Segundo a teoria da causalidade adequada, somente haverá imputação do resultado se a conduta do agente, segundo a experiência comum, for a mais adequada para a produção do evento. “A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou.” A análise é feita de acordo com a teoria da causalidade adequada. Diante da quebra do curso causal natural por evento extraordinário, o agente responde por tentativa. O agente somente responde pelos resultados que decorrerem de um desdobramento natural, sem quebra. Esse exemplo da ambulância é que mais aparece em prova. Significado da expressão “por si só”: significa que somente aqueles resultados que se encontrarem como um desdobramento natural da ação, ou seja, na linha de desdobramento físico, é que poderão ser imputados ao agente (Rogério Greco) 2 5 . 0 2 . 2 0 2 4 4www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL Exemplo da ambulância: João dispara contra Pedro, com intenção de matar. Pedro é socorrido por uma ambulância que se envolve em acidente de trânsito. Pedro morre em razão da colisão, preso às ferragens. João responderá pela tentativa de homicídio (na medida da intenção), pois a morte em acidente automobilístico não está na linha de desdobramento natural daquele que foi alvejado por disparos de arma de fogo. O natural seria ele entrar na ambulância e chegar ao hospital, receber o socorro e ficar recuperado ou falecer em razão do disparo. O acidente com a ambulância corta o desdobramento causal natural. O acidente é um evento imprevisível, que inaugura um novo curso causal. O acidente, por si só, causa o resultado e, segundo a experiência de vida, é improvável. Portanto, se a concausa relativamente independente superveniente, por si só, produziria o resultado, o agente só responderápelos atos até então praticados (rompimento do nexo causal, teoria da causalidade adequada) Se, no entanto, a causa relativamente independente superveniente não produziria, por si só, o resultado, a consequência é a adoção da teoria da conditio sine qua non, respondendo o agente pelo resultado naturalístico. O resultado somente poderá ser imputado ao agente se estiver na mesma linha de des- dobramento natural da ação. Quando a causa relativamente independente superveniente, por si só, vier a produzir o resultado, por não estar no mesmo plano de desdobramento físico, o agente só responderá pelo seu dolo (responde na medida da sua intenção, pelos atos, até então, praticados) – art. 13 § 1º - teoria da causalidade adequada. Isso porque há um rompimento na cadeia causal, não podendo o agente responder por um resultado que não foi uma consequência natural de sua conduta inicial (Greco). 1. (XXIX Exame de Ordem) Após discussão em uma casa noturna, Jonas, com a intenção de causar lesão, aplicou um golpe de arte marcial em Leonardo, causando fratura em seu braço. Leonardo, então, foi encaminhado ao hospital, onde constatou-se a desne- cessidade de intervenção cirúrgica e optou-se por um tratamento mais conservador com analgésicos para dor, o que permitiria que ele retornasse às suas atividades normais em 15 dias. A equipe médica, sem observar os devidos cuidados exigidos, ministrou o remédio a Leonardo sem observar que era composto por substância à qual o paciente informara ser alérgico em sua ficha de internação. Em razão da medicação aplicada, 20m 20m 2 5 . 0 2 . 2 0 2 4 5www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL Leonardo sofreu choque anafilático, evoluindo a óbito, conforme demonstrado em seu laudo de exame cadavérico. Recebidos os autos do inquérito, o Ministério Público ofe- receu denúncia em face de Jonas, imputando-lhe o crime de homicídio doloso. Diante dos fatos acima narrados e considerando o estudo da teoria da equivalência, o(a) advogado(a) de Jonas deverá alegar que a morte de Leonardo decorreu de causa superveniente: a. absolutamente independente, devendo ocorrer desclassificação para que Jonas res- ponda pelo crime de lesão corporal seguida de morte. b. relativamente independente, devendo ocorrer desclassificação para o crime de lesão corporal seguida de morte, já que a morte teve relação com sua conduta inicial. c. relativamente independente, que, por si só, causou o resultado, devendo haver des- classificação para o crime de homicídio culposo. d. relativamente independente, que, por si só, produziu o resultado, devendo haver desclassificação para o crime de lesão corporal, não podendo ser imputado o resul- tado morte. COMENTÁRIO Jonas tinha o intuito apenas de causar lesão leve. Não está na linha de desdobramento causal natural o falecimento. O medicamento é uma concausa superveniente relativamente independente que quebra o curso causal natural. De acordo com a teoria da causalidade adequada não é possível imputar o falecimento a Jonas, sob pena de enquadrar a responsabilidade penal objetiva. Essa imputação é infundada de acordo com o art. 13, § 1º do CP pois a concausa super- veniente relativamente independente, por si só, causou o resultado. De acordo com a regularidade estatística, não é normal falecimento por choque anafilático por causa de um golpe. A concausa inaugurou um novo curso causal. Por isso, a morte não pode ser imputada a Jonas. A lesão corporal deve ser imputada a Jonas, mas a morte em razão do choque anafi- lático, não. 25m 2 5 . 0 2 . 2 0 2 4 6www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL 2. (XIV Exame de Ordem) Wallace, hemofílico, foi atingido por um golpe de faca em uma região não letal do corpo. Júlio, autor da facada, que não tinha dolo de matar, mas sabia da condição de saúde específica de Wallace, sai da cena do crime sem desferir outros golpes, estando Wallace ainda vivo. No entanto, algumas horas depois, Wallace morre, pois, apesar de a lesão ser em local não letal, sua condição fisiológica agravou o seu estado de saúde. Acerca do estudo da relação de causalidade, assinale a opção correta. Hemofilia: concausa preexistente relativamente independente. a. A O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa relativamente independente preexis- tente, e Júlio não deve responder por homicídio culposo, mas, sim, por lesão corporal seguida de morte. b. B O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa absolutamente independente pree- xistente, e Júlio não deve responder por homicídio culposo, mas, sim, por lesão cor- poral seguida de morte. c. C O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa absolutamente independente conco- mitante, e Júlio deve responder por homicídio culposo. d. D O fato de Wallace ser hemofílico é uma causa relativamente independente conco- mitante, e Júlio não deve responder pela lesão corporal seguida de morte, mas, sim, por homicídio culposo. COMENTÁRIO Hemofilia é uma doença preexistente. Júlio sabia da condição de hemofilia de Wallace. Conjugação da hemofilia com golpe de faca. A hemofilia é causa relativamente independente preexistente. Júlio tinha intenção de ape- nas lesionar. Júlio toma atitude negligente, pois sabe da hemofilia, e deixa de socorrer o Wallace. É um crime preterdoloso. Júlio deve responder por lesão corporal (dolo) seguida de morte (culpa, negligência). 30m 2 5 . 0 2 . 2 0 2 4 7www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ E S Concausas II DIREITO PENAL 3. (XII Exame de Ordem) Paula, com intenção de matar Maria, desfere contra ela quinze facadas, todas na região do tórax. Cerca de duas horas após a ação de Paula, Maria vem a falecer. Todavia, a causa mortis determinada pelo auto de exame cadavérico foi envenenamento. Posteriormente, soube-se que Maria nutria intenções suicidas e que, na manhã dos fatos, havia ingerido veneno. Veneno: concausa preexistente absolutamente independente a. Paula responderá por homicídio doloso consumado. b. Paula responderá por tentativa de homicídio. c. O veneno, em relação às facadas, configura concausa relativamente independente superveniente que por si só gerou o resultado. d. O veneno, em relação às facadas, configura concausa absolutamente independente concomitante. COMENTÁRIO O veneno é uma concausa preexistente absolutamente independente. Esse tipo de concausa faz com que o agente somente responda por tentativa. O comportamento paralelo é sempre punido na forma tentada. GABARITO 1. d 2. a 3. b ��Este material foi elaborado pela equipe pedagógica do Gran Cursos Online, de acordo com a aula preparada e ministrada pela professora Michelle Tonon. A presente degravação tem como objetivo auxiliar no acompanhamento e na revisão do conteúdo ministrado na videoaula. Não recomendamos a substituição do estudo em vídeo pela leitura exclu- siva deste material. 2 5 . 0 2 . 2 0 2 4