Prévia do material em texto
1 UEL 2014 Leia o poema a seguir, de Castro Alves. Boa-noite Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora. A lua nas janelas bate em cheio. Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde... Não me apertes assim contra teu seio. Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite. Mas não digas assim por entre beijos... Mas não m´o digas descobrindo o peito, — Mar de amor onde vagam meus desejos. Julieta do céu! Ouve... a calhandra Já rumoreja o canto da matina. Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira... ... Quem cantou foi teu hálito, divina! Se a estrela-d’alva os derradeiros raios Derrama nos jardins do Capuleto, Eu direi, me esquecendo d’alvorada: “É noite ainda em teu cabelo preto...” É noite ainda! Brilha na cambraia — Desmanchando o roupão, a espádua nua – O globo de teu peito entre os arminhos Como entre as névoas se balouça a lua... É noite, pois! Durmamos, Julieta! Recende a alcova ao trescalar das flores. Fechemos sobre nós estas cortinas... — São as asas do arcanjo dos amores. A frouxa luz da alabastrina lâmpada Lambe voluptuosa os teus contornos... Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos Ao doudo afago de meus lábios mornos. Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma, como a lira ao vento, Das teclas de teu seio que harmonias, Que escalas de suspiros, bebo atento! Ai! Canta a cavatina do delírio, Ri, suspira, soluça, anseia e chora... Marion! Marion!... É noite ainda. Que importa os raios de uma nova aurora?!... Como um negro e sombrio firmamento, Sobre mim desenrola teu cabelo... E deixa-me dormir balbuciando: — Boa-noite! –, formosa Consuelo!... ALVES, Castro. “Boa-noite”. Espumas flutuantes. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. p. 67-8. De que forma os sinais de pontuação, especialmente as reticências, os pontos de exclamação e as interjeições, contribuem para um modo de expressão romântica? Cite exemplos do texto. 2 PUC-Rio 2015 A amizade Já farto da vida, dos anos na flor, O peito me rala pungente saudade; Traído nas crenças, traído no amor, Meu canto recebe, celeste amizade. Poeta e amante, eu um mundo sonhei Repleto de gozos, um mundo ideal, Quando terna outrora a mulher que eu amei A mim me jurara ser sempre leal. Ó tu, meu amigo, permite que um pouco A fronte recline num peito de irmão; Enxuga, se podes, o pranto do louco, Que em paga de afetos só teve a traição! Em tempos felizes, num dia formoso, Na relva sentados, bem juntos, unidos, No peito encostado seu rosto mimoso, A ingrata me dava sorrisos… fingidos! Ai! crente, eu beijava seus lábios corados Com beijos ardentes, com beijos de amor, E Laura jurava que, quando apartados, Viver não queria, morreria de dor! Partir foi preciso… abracei-a chorando… E Laura chorou!… eu de dor solucei… Mas tempos depois que, contente voltando... Julgava beijá-la, já não a encontrei! Mulher enganosa, quebraste essas juras Que em prantos me deste diante de Deus! Mas tu não te lembras que as faces impuras, Que os lábios corados roçaram os meus?! Poeta e amante, eu um mundo sonhei Repleto de gozos, um mundo ideal… Fugiram os sonhos que eu tanto afaguei, Como flor tombada por um vendaval. Errante vagando por vales sombrios Co’a mente em delírio, em cruel ansiedade; A morte buscando nas águas dos rios, Me disse uma voz: — «Inda resta a amizade! «Esquece esse fogo, esse amor, um delírio «Que aqui te cavava profundo jazigo; «Ao mundo de novo, termina o martírio, «A fronte reclina num peito de amigo.» — Ao mundo voltei, esqueci os amores No peito apagando uma forte paixão; Agora a amizade mitiga-me as dores, Sê tu meu amigo, serei teu irmão! Agosto, 1853. Exercícios propostos LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 4 Romantismo: o arrebatamento das emoções346 a) Há no poema de Casimiro de Abreu a exaltação da amizade como um sentimento de compreen- são, acolhida e apoio. Comente com suas próprias palavras os motivos que levaram o eu poético a valorizar a amizade como um contraponto à triste- za, à solidão e ao delírio. b) Determine o gênero literário predominante no texto, associando-o às características do estilo de época do qual Casimiro de Abreu foi um dos expoentes. 3 UCS 2015 Os excertos a seguir são cantados por Lulu Santos e fazem parte da música “O último romântico”. Talvez eu seja o último romântico Dos litorais desse Oceano Atlântico Só falta reunir a Zona Norte à Zona Sul Iluminar a vida já que a morte cai do azul [...] Tolice é viver a vida assim sem aventura Deixa ser Pelo coração Se é loucura então melhor não ter razão SANTOS, Lulu; CÍCERO, Antonio; SOUZA, S. “O último romântico”. Intérprete: SANTOS, Lulu. In: Tudo azul, 1984. Disponível em: <www. vagalume.com.br/lulu santos/o ultimo-romantico.html#ixzz396NxiaEM>. Acesso em: 10 out. 2014. Como o título da canção indica, é correto armar que a composição recupera traços do Romantismo ao A satirizar os costumes e valores burgueses, marcan- do as distinções sociais, expressas na divisão entre a Zona Norte e a Zona Sul. enfatizar o conflito entre corpo e alma, expresso na relação entre as palavras coração e razão, nos últi- mos versos. c explorar a antítese como recurso para exprimir a dualidade humana, manifestada no terceiro verso. d tematizar o amor e o arrebatamento passional que pode conduzir à loucura, valorizando o sentimento em oposição à razão. E contrariar o subjetivismo e o desabafo sentimental. 4 Uefs 2014 Amar e ser amado Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desvelo! Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! Em teus olhos mirar meu pensamento, Sentir em mim tu’alma, ter só vida P’ra tão puro e celeste sentimento: Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano —, Beijar teus dedos em delírio insano Nossas almas unidas, nosso alento, Confundido também, amante — amado — Como um anjo feliz... que pensamento!? ALVES, Castro. “Amar sem ser amado”. Disponível em: <www.jornaldepoesia. jor.br/calves15.html#amar>. Acesso em: 16 out. 2013. Referendado pelas condições de produção do Ro- mantismo, o sujeito poético, no texto, vê o amor como A um sentimento incapaz de mudar a realidade, ca- racterizado pelo pessimismo e pela insatisfação existencial. uma constante evasão através de um sonho capaz de idea lizar a relação amorosa intensa em que os amantes se fundem em um único ser. c uma metáfora da união dos amantes, mesmo diante de todas as dificuldades descritas para a realização da experiência amorosa. d uma idealização do sentimento platônico que se torna suficiente para satisfazer o eu poético e aban- donar o seu projeto de concretização amorosa. E uma expressão carregada de sensualidade que descreve, de forma surrealista, o contato físico en- tre o ser que ama e que é amado. 5 Unifesp 2013 Um sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau todo o mun- do tem que fazer. O diplomata ajusta, com um copo de champagne na mão, os mais intrincados negócios; todos murmuram, e não há quem deixe de ser murmu- rado. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo, e o moço goza todos os regalos da sua época; as moças são no sarau como as estrelas no céu; estão no seu elemento: aqui uma, cantando suave cava- tina, eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos, por entre os quais surde, às vezes, um bravíssimo inopinado, que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida no écarté, mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente, desafinando um sustenido; daí a pouco vão outras, pelos braços de seus pares, se deslizando pela sala e marchando em seu passeio, mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional, ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. Outras criticam de uma gorducha vovó, que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que veio para o chá, e que ela leva aos pequenos que, diz, lhe ficaram em casa. Ali vê- -se um ataviado dandy que dirige mil finezas a uma se- nhora idosa,tendo os olhos pregados na sinhá, que senta-se ao lado. Finalmente, no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns é regra, du- rante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos. E o mais é que nós estamos num sarau. Inúmeros batéis conduziram da corte para a ilha de... senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidades; alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto. Entre todas essas elegantes e agradáveis moças, que com aturado empenho se esforçam para ver qual delas vence em graças, encantos e donaires, certo sobrepuja a travessa Moreninha, princesa daquela festa. MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha, 1997. F R E N T E 2 347 Levando em conta o contexto em que oresceu a lite- ratura romântica, as informações textuais reetem, com A ufanismo, uma vida social de bem-aventurança. desprezo, a cultura de uma sociedade poderosa. c entusiasmo, uma sociedade frívola e hipócrita. d nostalgia, os valores de uma sociedade decadente. E amenidade, uma visão otimista da realidade social. 6 Unicamp 2015 Um elemento importante nos anos de 1820 e 1830 foi o desejo de autonomia literária, tornado mais vivo depois da Independência. […] O Roman- tismo apareceu aos poucos como caminho favorável à expressão própria da nação recém-fundada, pois fornecia concepções e modelos que permitiam afirmar o particularismo, e portanto a identidade, em oposição à metrópole […]. CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2004. p. 19. Tendo em vista o movimento literário mencionado no trecho anterior e seu alcance na história do período, é correto armar que A o nacionalismo foi impulsionado na literatura com a vinda da família real, em 1808, quando houve a introdução da imprensa no Rio de Janeiro e os pri- meiros livros circularam no país. o indianismo ocupou um lugar de destaque na afir- mação das identidades locais, expressando um viés decadentista e cético quanto à civilização nos trópicos. c os autores românticos foram importantes no perío- do por produzirem uma literatura que expressava aspectos da natureza, da história e das sociedades locais. d a população nativa foi considerada a mais original dentro do Romantismo e, graças à atuação dos lite- ratos, os indígenas passaram a ter direitos políticos que eram vetados aos negros. 7 UFSM 2013 A literatura romântica é conhecida por re- presentar as doenças da alma. O poeta romântico não tenta controlar, esconder seus sentimentos, como fa- zia o poeta clássico. Ao contrário, ele confessa seus conflitos mais íntimos. Por isso, predominam no Ro- mantismo o desespero, a aflição, a instabilidade, a sensação de desamparo que leva a maioria dos poe- tas a pensar na morte, como acontece no fragmento do poema “Mocidade e morte”, de Castro Alves: E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito Um mal terrível me devora a vida: Triste Ahasverus, que no fim da estrada, Só tem por braços uma cruz erguida. Sou o cipreste, qu’inda mesmo flórido, Sombra de morte no ramal encerra! Vivo – que vaga sobre o chão da morte, Morto – entre os vivos a vagar na terra. Ahasverus: Jesus ter-lhe-ia amaldiçoado, condenando-o a vagar pelo mundo sem nunca morrer. Qual o estado sentimental do sujeito lírico nessa estrofe? A Sente-se muito próximo da morte, devido aos ma- les causados por uma grave doença física. Deseja a morte, pois só na eternidade seria capaz de encontrar a paz do espírito. c Sente-se muito próximo da morte, devido à tristeza profunda que lhe devora a alma. d Sente-se totalmente morto, pois não lhe resta ne- nhum sinal de vida. E Sente-se muito próximo da morte, pois não é capaz de lutar pela vida. 8 Uefs 2014 Texto I Ternura Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das [promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem [fatalidade o olhar extático aurora. MORAES, Vinicius de. “Ternura”. Antologia poética. 16. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p. 76. Texto II Amar e ser amado Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desvelo! Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! Em teus olhos mirar meu pensamento, Sentir em mim tu’alma, ter só vida P’ra tão puro e celeste sentimento: Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano –, Beijar teus dedos em delírio insano Nossas almas unidas, nosso alento, Confundido também, amante – amado – Como um anjo feliz... que pensamento!? ALVES, Castro. “Amar sem ser amado”. Disponível em: <www.jornaldepoesia.jor.br/calves15.html#amar>. Acesso em: 16 out. 2013. Comparando os aspectos temáticos do texto “Ter- nura”, de Vinicius de Moraes, com os de “Amar e ser amado”, de Castro Alves, é correto armar: LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 4 Romantismo: o arrebatamento das emoções348