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Eneida, de Virgílio, na tradução de
Manuel Odorico Mendes (século XIX)
Livro I
Eu, que entoava na delgada avena
Rudes canções, e egresso das florestas,
Fiz que as vizinhas lavras contentassem
A avidez do colono, empresa grata
Aos aldeãos; de Marte ora as horríveis
Armas canto, e o varão que, lá de Tróia
Prófugo, à Itália e de Lavino às praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vêm da sublimada Roma.
VÍRGILIO. Eneida. [livro eletrônico].
MENDES, Manoel Odorico (Trad.). [s.l]:
Centaur Editions, 2013.
Os Lusíadas, de Camões
Canto I
As armas e os Barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
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)
Fig. 13 António Ramalho, Camões lendo Os Lusíadas para D. Sebastião, 1893-1916,
litografia, Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, Portugal.
E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
— Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
A estrutura de Os Lusíadas
Os Lusíadas é um hino ao povo português: com base na narração da viagem de Vasco da Gama às Índias, Camões celebra
toda a história e a cultura lusitanas ao longo de 8 816 versos, divididos em 10 cantos, com mais ou menos 100 estrofes cada
um sendo cada estrofe de 8 versos em decassílabos heroicos segundo o esquema rítmico ABABABCC. Essa obra segue a
estrutura da epopeia clássica:
1. Introdução
a. Proposição: três primeiras estrofes do Canto I (apresen-
tado anteriormente), em que o poeta expõe o assunto
que abordará – os grandes feitos dos portugueses.
b. Invocação: estrofes 4 e 5 do Canto I, nas quais o poe-
ta roga às musas que o ajudem em sua empreitada
poética. Tradicionalmente, as musas são as deusas
que sopram a poesia nos lábios do poeta. Camões
inventa musas propriamente portuguesas, as quais
seriam ninfas do Rio Tejo, chamadas de Tágides.
c. Dedicatória: estrofes 6 a 18 do Canto I, em que o poeta
dedica a obra ao rei em exercício, D. Sebastião, ainda
um jovem.
2. Narração
Estrofes de 19 do Canto I a 144 do Canto X, em que
se desenvolve a narrativa do poema propriamente dita,
contando a viagem de Vasco da Gama à Índia in media res
(técnica literária pela qual o autor começa sua narrativa no
meio da história), iniciadas já com as navegações no meio
do caminho.
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branda escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando [...]
CAMÕES, Luís de. “I”. Os Lusíadas. São Paulo:
Melhoramentos, 2014.
3. Epílogo
Estrofes 145 a 156 do Canto X, em que o poeta se
mostra desiludido com os rumos que o projeto colonial
português vinha levando naquelas últimas décadas do
século XV, quando o reino estava politicamente enfra-
quecido e mal conseguia sustentar suas colônias, tão
dificilmente conquistadas, em solos sul-americano, afri-
cano e asiático.
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 2 Trovadorismo, Humanismo e Classicismo: as origens da Literatura em Língua Portuguesa242
Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
CAMÕES, Luís de. “X”. Os Lusíadas. Paris:
Livraria Europea de Baudry, 1846.
O episódio do Velho do Restelo
No canto IV de Os Lusíadas, há o conhecido episódio do
Velho do Restelo, que versa sobre uma figura profética que
se levanta para criticar o projeto expansionista, o qual iria des-
povoar a capital portuguesa. Essa personagem introduz uma
reflexão anacrônica, relacionada ao momento de escrita de
Os Lusíadas, quando Portugal sofria dificuldades de sustentar
as suas terras ultramar.
Mas um velho d’aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
— Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
O fraudulento gosto, que se atiça
Cũa aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
[...]
CAMÕES, Luís Vaz de. “IV”. Os Lusíadas. 4. ed. Lisboa: Ministério dos
Negócios Estrangeiros; Instituto Camões, 2000. p. 190.
A voz grave e reprovadora do Velho do Restelo marca
o encerramento da narração da história de Portugal nas ins
tâncias 94 a 104 do Canto IV. Com o aspecto de um profeta,
ele traz a atenção para o lado negativo do expansionismo
português: o despertar da vaidade e da cobiça. Na voz do
Velho do Restelo, o poeta adverte que a fama é infame e a
vaidade, o grande engano dos homens.
O episódio do Gigante Adamastor
Após o episódio do Velho do Restelo, as naus de Vasco
da Gama deixam Melinde e prosseguem viagem rumo à
Índia. Em alto-mar, acontece outro fato marcante: o encontro
com o Gigante Adamastor, o qual personifica a força da
natureza sobre a tecnologia humana e traz grandes difi-
culdades à viagem. Trata-se da passagem pelo Cabo das
Tormentas (hoje, Cabo da Boa Esperança) no Sul da África,
no clímax da missão marítima.
[...]
— Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.
Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
Qual Encélabo, Egeu e o Centimano;
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pudesse serra sobre serra,
Mas, conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Neptuno, que eu buscava.
[...]
CAMÕES, Luís Vaz de. “V”. Os Lusíadas. 4. ed. Lisboa: Ministério dos
Negócios Estrangeiros; Instituto Camões, 2000. p. 225.
Ocupando as instâncias 37 a 60 do Canto V, o epi-
sódio do Gigante Adamastor compõe um eco à crítica
apresentada no episódio do Velho do Restelo. O gigante
de pedra (como o passado simbolicamente apresenta-
do) profetiza desgraças aos navegadores que pretendem
novos caminhos para as Índias, advertindo que essas
viagens resultariam em guerras, naufrágios, perdições
e misérias. O gigante aborda, ainda, o tema do amor
honesto e da libertação do corpo pela morte. É uma
personagem que causa piedade ao mesmo tempo que
suscita medo, pois foi transformado pelos deuses naquela
ilha de pedra horrenda como castigo por ter perseguido
a amada de Neptuno.
Vários escritores e artistas portugueses construíram diálogos intertex-
tuais com Os Lusíadas. Um exemplo dessa intertextualidade citado
com bastante recorrência é o poema “Mar português”, de Fernando
Pessoa (1888-1935). Outra obra mais recente com o mesmo diálogo
é o livro Uma viagem à Índia (2010), do premiado escritor português
contemporâneo GonçaloM. Tavares (1970-). Uma epopeia composta
em dez cantos em torno da viagem de Bloom à Índia, o livro propõe
um itinerário da melancolia contemporânea em um diálogo amargo
com o passado glorioso narrado em Os Lusíadas e a necessidade
portuguesa de repensar o seu lugar no mundo.
Atenção
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O texto a seguir deverá servir de base para responder às questões 1 a 3.
Ondas do mar de Vigo
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai, Deus!, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus!, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus!, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus!, se verrá cedo!
CODAX, Martim. “Ondas do mar de Vigo”. Cantigas trovadorescas:
seleção de cantigas. São Paulo: Melhoramentos, 2014.
levado: cheio de ondas.
verrá: virá.
1 O poema é um exemplo de cantiga medieval de amigo. Justifique tal afirmativa demarcando algumas características que
diferenciam cada uma das modalidades de cantigas líricas do Trovadorismo.
2 No texto, o trovador transpõe para seu lirismo os sentimentos de um eu lírico feminino que se encontra distante do
ser amado. Podemos perceber que, nos versos, a distância do amado se converte em
A ansiedade pela volta do amigo (amado), como está expresso no refrão da cantiga.
b contentamento diante da possibilidade do aparecimento de um novo amigo (amado), como está expresso no 2o
verso da 3a estrofe.
 revolta do eu lírico em virtude de o Todo Poderoso não atender aos seus apelos, como está suspirado no refrão.
D constrangimento do eu lírico por se ver abandonada pelo amigo, como está expresso na última estrofe da cantiga.
E alívio pela ruptura da relação amorosa, como está expresso no 2o verso da 2a estrofe.
3 Além de contribuir para a ambientação cenográfica do texto, as ondas do mar de Vigo constituem importante papel
no contexto da cantiga como
A confidentes do eu lírico, pois é a elas que ele se dirige.
b bálsamo, pois aliviam o eu lírico de suas tensões ao mergulhar nelas.
 videntes, uma vez que o eu lírico lê predições nos movimentos delas.
D antagonistas, uma vez que o amado se atirou no mar de vigo em busca de aventuras.
E conselheiras, pois o mar orienta o eu lírico como deverá proceder diante da perda do amado.
Leia o seguinte trecho da novela de cavalaria Amadis de Gaula, em versão adaptada ao português moderno por
Afonso Lopes Vieira, datada de 1922. A seguir, responda às questões 4 e 5.
E contou-lhe mestre Elisabat de como ali reinava Madarque, o gigante cruel de cuja sanha lhe foi dizendo os feitos, contra
a lei de Cristo cometidos.
Mas a Amadis respeitava limpar o mundo de traição, de maldade e de êrro; e, alcançando terra em um batel onde levava o
cavalo, foi subindo um escarpado monte, coroado no cimo por um castelo. Logo de uma tôrre do alcáçar deu sinal o fero som de
uma buzina, cujo clamor foi tangendo o recôncavo das furnas. Não tardou Madarque em descer a terreiro, e viu-o Amadis vestido
Revisando

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