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Maria da Conceição Passeggi Maria Helena Menna Barreto Abrahão (Organizadoras) PUCRS Universidade Federal do Universidade Católica do Universidade do Estado Rio Grande do Norte Rio Grande do Sul da Bahia Reitora Reitor Reitor Maria Paiva Cruz Joaquim Clotet Lourisvaldo Valentim da Silva COLEÇÃO PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA Vice-Reitora Vice-Reitor Diretora da EDUNEB temas transversais Maria de Fátima Freire Melo Ximenes Evilázio Teixeira Maria Nadja Nunes Bittencourt Diretor da EDUFRN Diretor da EDIPUCRS Conselho Editorial Margarida Maria Dias de Oliveira Jerônimo Carlos Santos Braga Atson Carlos de Souza Fernandes Liege Maria Sitja Fornari Editor Editor Luiz Carlos dos Santos Helton Rubiano de Macedo Jorge Campos da Costa Maria Neuma Mascarenhas Paes Maria Hetkowski Conselho Editorial Conselho Editorial Cipriano Maia de Vasconcelos Jorge Luis Nicolas Audy Suplentes Dimensões epistemológicas (Presidente) (Presidente) Edil Silva Costa Ana Luiza Medeiros Ana Maria Mello Gilmar Ferreira Alves e metodológicas da pesquisa Humberto Hermenegildo de Araújo Armando Luiz Bortolini Leliana Santos de Sousa Herculano Ricardo Campos Augusto Buchweitz Mariângela Vieira Lopes Mônica Maria Fernandes Oliveira Beatriz Regina Dorfman Miguel Cerqueira dos Santos (auto)biográfica Cristina Meira Garcia Bettina Steren dos Santos Técia Maria de Oliveira Maranhão Carlos Graeff Teixeira Tomo II Virgínia Maria Dantas de Araújo Clarice Beatriz de C. Sohngen Willian Eufrásio Nunes Pereira Elaine Turk Faria Érico João Hammes Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jane Rita Caetano da Silveira Lauro Kopper Filho Luciano Klöckner Nédio Antônio Seminotti Nuncia Maria S de Constantino C. Alvim 2016 Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica: temas transversais Coordenação Maria Helena Menna Barreto Abrahão Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Maria da Conceição Passeggi Universidade Federal do Rio Grande do Norte Elizeu Clementino de Souza Universidade do Estado da Bahia Parcerias Editora da UFRN Coleção Pesquisa (Auto)biográfica Educação Natal: EDUFRN Collection "(Auto)biographie Education" Natal Porto Alegre Salvador Colección "Narrativas, autobiograflas y Educación" Buenos Aires: FFyL UBA- CLACSO 2012Apresentação da coleção Grafia atualizada segundo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Editoração eletrônica: Paola Fernandes A Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica: temas trans- Capa: Wilson Fernandes versais oferece à comunidade científica os avanços Revisão e normatização: as organizadoras mais recentes da Pesquisa (Auto)Biográfica, propos- Impressão e acabamento: EDIPUCRS tos por pesquisadores que vêm consolidando essa jovem ciên- cia em países das Américas e da Europa. Os livros da Coleção Divisão de Serviços Técnicos verticalizam debates sobre o estatuto epistemológico das fontes Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Central Zila Mamede biográficas e autobiográficas, seus potenciais teórico-metodo- lógicos e suas contribuições para a produção do conhecimento Dimensões epistemológicas e metodológicas da pesquisa (auto)biográfica Tomo II em diferentes áreas das Ciências Humanas e Sociais, mais espe- / organização Maria da Conceição Passeggi, Maria Helena Menna Barreto Abrahão Natal: EDUFRN; Porto Alegre: EDIPUCRS; Salvador: EDUNEB, 2012. 312 p. cificamente em Educação. Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica: temas transversais. Por conseguinte, apresentar à comunidade científica e à so- ISBN 978-85-7273-939-9 (EDUFRN) ciedade em geral a coleção Pesquisa (Auto)Biográfica: temas ISBN 978-85-397-0232-9 (EDIPUCRS) transversais é um momento feliz por três razões principais: ISBN 978-85-7887 (EDUNEB) pela internacionalização da pesquisa em Educação, que encon- 1. Pesquisa autobiográfica 2. Epistemologia. 3. Metodologia. I. Passegi, Maria da tra na realização das edições do Congresso Internacional de Conceição. II. Abrahão, Maria Helena Menna Barreto Pesquisa (Auto)Biográfica um espaço privilegiado de alianças e de debate; pela consolidação de redes de pesquisa, que vem CDD 808.06692 RN/UF/BCZM 2012/29 CDU 303.422 enriquecendo o movimento biográfico em âmbito nacional e internacional e, finalmente, pela oportunidade de agradecer Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada aos nossos pares por suas valiosas contribuições e às agências sem a autorização expressa das Editoras. de fomento, em particular ao CNPq e à CAPES, pelo auxílio a projetos e programas de cooperação e de mobilidade acadêmi- EDUFRN ca, realizados por pesquisadores vinculados aos Programas de Editora da UFRN Pós-Graduação no Brasil. © Editora da UFRN 2012 © Editora da PUCRS 2012 Editora da UNEB 2012 Av. Senador Salgado Filho, 3000 Av. Ipiranga, 6681 Rua Silveira Martins, 2555 Lagoa Nova Natal/RN-Brasil Prédio 33 Caixa Postal 1429 Cabula Salvador/BA-Brasil 59.078-970 Porto Alegre/RS-Brasil 41.150-000 Os organizadores Tel.: (84) 3215-3236 90.619-900 Tel.: (71) 3117-5342 Fax: (84) 3215-3206 Tel.: (51) 3320.3711 Maria Helena Menna Barreto Abrahão PUCRS edufrn@editora.ufrn.br Fax: (51) 3320.3882 editora@listas.uneb.br edipucrs@pucrs.br Maria da Conceição Passeggi UFRN eduneb.secretaria@gmail.com Elizeu Clementino de Souza UNEB Impresso no Brasil, 2012Tempos e lugares: arte e dever da memória Prefácio 203 71 Memoria y testimonio en tiempos de oscuridad "De onde viemos? que somos? Para onde vamos?" Gabriel Jaime Murillo Arango 205 8| A liturgia do tempo: Marc-Antoine Jullien e a arte de governar-se e educar-se Maria Helena Camara título da célebre tela de Gauguin "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?" poderia muito bem resumir o 235 entendimento que inspirou a concepção do V Congresso 9| Devenires auto|biográficos: los objetos, el tiempo, el lugar Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica (V CIPA): fazer um ba- Leonor Arfuch lanço do estado da pesquisa (auto)biográfica, hoje, reencontrar e re- 247 pensar seus lugares de origem e examinar suas perspectivas, à luz de 10| Da utopia em Penedo a uma casa na floresta: Mnemósina e um presente, alimentado pelas fontes do passado e enriquecido pelas trajetória biográfica em Dora Ferreira da Silva promessas e desafios futuros. Nesse sentido, esta Coleção Pesquisa Enivalda Nunes Freitas e Souza 279 (Auto)Biográfica: temas transversais oferece uma excelente amos- Organizadores e Autores tragem dos principais trabalhos apresentados no Congresso pelos 305 professores convidados. CIPA, que nasceu em Porto Alegre, em 2004, retorna a Por- to Alegre sob a mesma presidência de Maria Helena Menna Bar- reto Abrahão, oito anos depois. Esse retorno é a metáfora concreta de um ciclo, que só se fecha para poder voltar-se sobre si mesmo e encadear um novo ciclo, a semelhança do trabalho autobiográfico em sua dinâmica continuamente retrospectiva e prospectiva. Assim, Porto Alegre de 2012, não é Porto Alegre de 2004. Entre uma e ou- tra, uma história aconteceu, uma história foi escrita: a história desta instituição no Brasil, provavelmente, sem paralelo no mundo, que é o Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica. Por isso, ela merece ser brevemente lembrada, a fim de melhor situar os desafios e as perspectivas de sua quinta edição. As edições do CIPA, que reúnem, a cada dois anos, professores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros de instituições de pesquisa, de ensino e de formação, constituem, de fato, momentos altamente significativos da pesquisa (auto)biográfica internacional, pois per- mitem dar visibilidade aos trabalhos dos grupos de pesquisa e às ex- periências de pesquisa-formação, realizadas em países do Novo e do Velho Mundo. Essas reuniões do CIPA, que congregam atualmente cerca de mil participantes, representam um espaço muito expressivo de questionamento e de debate sobre os aspectos científicos e pe- dagógicos da pesquisa (auto)biográfica. Através de suas sucessivas edições, consolidou-se a articulação entre os grupos de pesquisa, fo-10 De onde viemos? que somos? Para onde vamos? Christine Delory-Momberger 11 ram amplamente alargados e aprofundados os debates teóricos quisas que utilizavam as histórias de vida e de suas implicações em diferentes setores da investigação científica e da formação, enquanto práticas de formação e de investigação científica. O criaram-se associações muito ativas e os Encontros Intermediá- objetivo era claramente um aprofundamento das discussões te- rios, no Brasil, tornaram-se uma prática de trocas institucionais óricas e metodológicas vinculadas à pesquisa (auto)biográfica, para pensar a organização do Congresso. assim como do estado da arte dos trabalhos e atividades susci- Graças à participação de um grande número de pesquisado- tadas por essa abordagem em diferentes contextos, dos avanços res estrangeiros, a cooperação científica internacional também teóricos e empíricos que ela havia permitido, mas também de se estabeleceu amplamente entre os países da América Latina suas lacunas e dos progressos que devia ainda realizar. (Argentina, México, Colômbia, Chile, Brasil ...), da América do A segunda edição do CIPA, realizada pela Universidade Norte (Estados Unidos e Canadá) e da Europa (França, Ale- do Estado da Bahia (UNEB), em setembro de 2006, em Sal- manha, Suíça, Portugal, Espanha, Dinamarca, Itália, Polônia, Inglaterra). vador, alcançou um grande sucesso, tanto pela participação de numerosos pesquisadores e professores, quanto pelo interesse Uma rica atividade editorial acompanhou a história do despertado pelos temas escolhidos. Sob o título Tempos, nar- CIPA. Mais de vinte livros foram publicados por suas quatro rativas e a invenção de si, os trabalhos do Congresso primeiras edições, aos quais se somam os nove livros deste foram organizados em seis grandes eixos temáticos, concebidos quinto Congresso. Múltiplas publicações surgiram das trocas e para integrar a grande diversidade de experiências e de práticas dos projetos tecidos durante os CIPAs, entre as quais se destaca criativas, segundo as quais os seres humanos se constroem so- a parceria na criação de três coleções de codireção internacio- cial e historicamente, em tempos e espaços diversos. Em terre- nal: "(Auto)biographie que nasceu, em 2008, na no propriamente brasileiro, o tema da "invenção de si", com as França, na Editora Téraèdre, rapidamente, seguida pela Cole- potencialidades que ele abrange em termos de construção dos ção brasileira "Pesquisa (Auto) Biográfica 8 e depois sujeitos, é um tema extremamente promissor, na medida em pela Coleção argentina "Narrativas, autobiografias y que se refere muito diretamente à multiplicidade das configura- Podemos então dizer, hoje, que o objetivo do CIPA de consti- ções culturais brasileiras e à variedade das construções identitá- tuir e de ampliar uma rede internacional de pesquisa, que per- rias e biográficas, tal como elas se inscrevem na realidade em mitisse consolidar e fazer reconhecer as contribuições teóricas realidades plurais do país e de sua população. A publicação e metodológicas da pesquisa (auto)biográfica como um campo de livros organizados por Souza e Abrahão (2006) e por Souza de conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais, está em boa (2006) mostram essas aberturas e essas perspectivas e marcam via de realização. os pontos de junção da pesquisa brasileira com as tendências O I CIPA, organizado em Porto Alegre, em 2004, pela Pon- conhecidas em outros países. A abordagem biográfica não é tifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mais concebida apenas para fornecer instrumentos de pesquisa dava sequência à publicação do livro coordenado por Maria a diversas disciplinas. Ela se torna um modo de compreensão Helena Menna Barreto Abrahão (2004) A aventura (auto) bio- por si mesma, trazendo dentro de si seu próprio valor herme- gráfica: teoria e empiria do qual retomava título e os eixos te- nêutico e heurístico. Por essa razão, ela pode, portanto, preten- máticos. O Congresso respondia ao cuidado de por em comum der constituir-se um espaço de pesquisa autônomo. reflexões recentes sobre a pesquisa biográfica e promover Essas são as vias que o III CIPA, promovido pela Universi- uma aproximação entre pesquisadores brasileiros e estrangei- dade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em setembro de ros. A gênese desse primeiro Congresso estava marcada por 2008, em Natal, continua a explorar sob o tema central (Auto) reflexões epistemológicas e metodológicas a respeito das pes- Biografia: formação, territórios e saberes. Entre as objetivos fi-12 De onde viemos? que somos? Para onde vamos? Christine Delory-Momberger 13 xados por essa terceira edição, além de dar continuidade ao trabalho de análise das referências epistemológicas, teóricas e pesquisadores convidados do IV CIPA estão reunidos nos seis metodológicas das histórias de vida em Educação, observa-se volumes que constituem a coleção intitulada Artes de Viver, Co- em particular o cuidado de, sob ângulo da pesquisa (auto) nhecer e Formar (2010), coordenada por Paula Perin Vicentini, biográfica, favorecer a interface das Ciências da Educação com presidente do IV CIPA. outras Ciências Sociais e Humanas. O tema escolhido para o Mas é tempo de voltar à atualidade deste V CIPA, promo- Congresso dá uma dimensão concreta a esse projeto, pois trata- vido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do -se de por em debate as relações dialéticas entre os indivídu- Sul (PUCRS) e pela Associação Brasileira de Pesquisa (Auto) os e os territórios e de analisar os "saberes" de todas as ordens Biográfica (BIOgraph), de 16 a 19 de outubro de 2012. A novi- que essas relações podem produzir em espaços institucionais, dade de sua temática Pesquisa (auto)biográfica: lugares, traje- sociais, ambientais, culturais e interculturais, considerados en- tos e desafios deve ser apreendida não apenas na forma como quanto lugares de formação e de transformação, de ecoforma- o Congresso se inscreve numa filiação e numa continuidade ção e de (auto)biografização. Com esse alargamento dos cam- daqueles que o precederam mas como ele afirma a intenção de pos de investigação da pesquisa (auto)biográfica, o Congresso avançar, de assumir referências para o amanhã e de se dar os aprofundou a interrogação sobre a reflexividade autobiográfica meios para responder aos desafios do futuro. E para a pesqui- como modelo hermenêutico de compreensão de um mundo sa (auto)biográfica, esses desafios parecem ser de duas ordens. humano em perpétua transformação. Os cinco livros resultan- Por um lado, a consolidação de seu estatuto de jovem corrente tes do III CIPA foram publicados sob a coordenação de Maria científica, e por outro lado, a definição de seus campos de inves- da Conceição Passeggi com vários pesquisadores como coorga- tigação e a elucidação de seu alcance social e político. nizadores (2008a, b, d, e). A questão metodológica é, em geral, inerente à pesquisa O IV CIPA aconteceu em julho de 2010 e foi promovido qualitativa e aos estudos empíricos que dela decorrem, e essa pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo questão encontra-se no centro da pesquisa (auto)biográfica, na (FEUSP-USP), sob o título Espaço (auto)biográfico: artes viver, medida em que toma por objeto de estudo a gênese individual do conhecer e formar. O Congresso propôs como objetivo explorar social nos processos de biografização. Situada entre a singulari- os diferentes lugares de investimento de um espaço biográfico dade de alguma forma definicional de seu objeto e a necessida- em suas dimensões sócio-histórica, psicológica e estética. Foca- de de uma formalização científica, a pesquisa (auto)biográfica lizou a noção de "arte", que abrange tanto as formas e as práticas deve elaborar instrumentos e métodos que lhe permitam, não artísticas explícitas, quanto as "artes de fazer", no sentido utili- apenas conciliar essas duas exigências, mas também respon- zado por Michel de Certeau. Essa quarta edição ressaltou nota- der metodologicamente à pergunta que coloca teoricamente, a damente as dimensões da criação, da invenção e da produção, saber, a fabricação "do mundo interior do mundo exterior", a inerentes à vida, ao conhecimento e à formação. A narrativa metabolização e a apropriação pelo indivíduo de todos os tipos (auto)biográfica é seguramente um desses lugares privilegiados de ambientes aos quais pertence. Portanto, não é surpreendente de criação e de produção, o que lhe dá poder de vincular, que essa preocupação, em conceber e em praticar abordagens entre si, os domínios do vivido, do conhecimento e do forma- metodológicas adequadas ao que constitui o projeto específico tivo. O Congresso atribuiu um lugar de destaque à Literatura, da pesquisa (auto)biográfica, volte de congresso em congresso, à música, à fotografia, ao cinema e seu Programa pode mostrar de colóquio em colóquio, no Brasil e na América Latina, assim que as formas e as práticas artísticas são também "artes de fa- como na Europa. E, por conseguinte, não é também surpre- zer", artes de viver, de conhecer e de formar. Os trabalhos dos endente que essas questões epistemológicas e metodológicas sejam postas em destaque neste V CIPA, em que a ocasião é14 De onde viemos? que somos? Para onde vamos? Christine Delory-Momberger 15 amplamente favorável para anunciar outras perspectivas epis- de ser interpelada pela distribuição desigual social e geografi- temológicas e metodológicas. Isso passa seguramente por uma camente dos recursos diretamente relacionados à capacidade visão crítica da ciência e da produção do saber científico, pela das pessoas de elaborar e de fazer compreender uma linguagem superação de pontos de vista estritamente disciplinares e pelo aceitável sobre elas mesmas e de ter acesso aos meios de expres- desenvolvimento de uma abordagem que visa a elaborar os ter- são e de afirmação que as tornarão social e politicamente reco- mos de uma pesquisa e de um saber firmemente ancorados na nhecidas. Tais questões relacionam a pesquisa (auto)biográfica dimensão concreta e singular da experiência humana. ao que constitui a dimensão ética de seu método, a saber, a pre- Os eixos do Congresso dão uma ideia da diversidade e da ocupação em esclarecer as condições sob as quais a palavra de riqueza dos campos de investigação propícios à pesquisa (auto) si pode constituir para o sujeito um vetor de apropriação de sua biográfica. Ao lado do domínio instituído da formação e da história e de seu projeto e, assim, contribuir para uma perspec- educação, encontra-se tudo o que faz a "constituição humana". tiva "emancipadora" das pessoas e dos grupos humanos. E, para retomar as palavras de Lucien Sève (2008, p.105), Pela intenção que conduz sua concepção, por suas orienta- conjunto dos processos biográficos mediante os quais o indiví- ções e pelos temas escolhidos, o V Congresso Internacional de duo da espécie humana torna-se psiquicamente societário do Pesquisa uto)Biográfica coloca essas preocupações no centro gênero humano" é o que constitui o espaço reservado à pesqui- de seus trabalhos e de suas reflexões. sa (auto)biográfica, uma vez que ela toma como tarefa apreen- der a experiência subjetiva. Notemos que esse espaço expandi- do inclui a "formação" como uma das dimensões constitutivas do fato de ser e de tornar-se humano. Para a pesquisa (auto) Paris, 24 de julho de 2012 biográfica, com efeito, os indivíduos não cessam de "dar forma" à sua experiência e à sua existência no interior do espaço histó- rico e social. Nesse sentido, e quase por definição, a dimensão Christine Delory-Momberger da formação está sempre presente entre os objetos da pesqui- Universidade de Paris 13|Nord sa (auto)biográfica, no espaço social e no tempo da existência, pois se trata sempre de compreender como se forma e se cons- Tradução trói o ser social singular. Maria da Conceição Passeggi Essa preocupação com a "formação humana" dá à pesqui- Universidade Federal do Rio Grande do Norte sa (auto)biográfica uma responsabilidade particular, que não é apenas de ordem científica, mas também de ordem ética e política. Se a "palavra de si", em todos os seus registros e em to- das as suas variedades, constitui o material privilegiado de um saber (auto)biográfico, ela é também o vetor pelo qual os seres humanos têm acesso, por si mesmos, a um saber e a um poder que lhes dá a capacidade para se desenvolver e agir enquan- to "sujeitos" entre os outros e no interior de uma comunidade politicamente organizada. Nesse ponto, em que o vocabulário pretensamente neutro da ciência cede diante da linguagem da ética e do político, a pesquisa (auto)biográfica não pode deixar16 De onde viemos? que somos? Para onde vamos? Christine Delory-Momberger 17 Referências PASSEGGI, M. C.; SILVA, V.B. (Orgs.) Invenções de vidas, com- preensão de itinerários e alternativas de formação. São Paulo: ABRAHÃO, M. H. M. B. (Org.) A aventura (auto)biográfica: Cultura Acadêmica, 2010. teoria e empiria. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. MORAES, D. Z.; LUGLI, R. S.G. (Orgs.) Docência, aprendi- PASSEGGI, M. C.; SOUZA, E. C. de (Orgs.). (Auto)Biografia: zagem e pesquisa: (auto) espaços de formação-investigação. São formação, territórios e saberes. São Paulo: Paulus, Natal: EDU- Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. FRN, 2008. SOUZA, E. C.; GALEGO, R.C. Espaços, tempos e gerações: Pers- PASSEGGI, M. C. (Org.) Tendências da pesquisa (auto)biográfi- pectivas (auto) biográficas. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. ca. São Paulo: PAULUS, Natal: EDUFRN, 2008. BARBOSA, R. L.; PINAZZA, M. A. (Orgs.) Modos de narrar a PASSEGGI, M. C.; SOUZA, E. C. de; ABRAHÃO, M.H.M.B. vida: cinema, fotografia, literatura e educação. São Paulo: Cultu- (Orgs.) Pesquisa (auto) biográfica e práticas de formação. São ra Acadêmica, 2010. Paulo: PAULUS, Natal: EDUFRN, 2008. SILVA, V.L. G.; CUNHA, J.L. (Orgs.) Práticas de formação, me- PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Orgs.) Narrativas de mória e pesquisa (auto) biográfica. São Paulo: Cultura Acadê- formação e saberes biográficos. São Paulo: PAULUS, Natal: mica, 2010. EDUFRN, 2008. PASSEGGI, M. C.; SOUZA, E. C. de (Orgs.) Pesquisa (auto)bio- Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica: temas transversais gráfica: cotidiano, Imaginário e Memória. São Paulo: PAULUS; Natal: EDUFRN, 2008. ABRAHÃO, M. H. M. B.; PASSEGGI, M. C. (Org.). Dimensões SÈVE, L. Penser avec Marx aujourd'hui. Tome 2: "L'Homme"? epistemológicas e metodológicas da pesquisa (auto)biográfica. Paris: La Dispute, 2008. Tomo I. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. SOUZA, E. C. de Histórias de vida e formação: pesquisa PASSEGGI, M. C. ; ABRAHÃO, M. H. M. B. (Org.). Dimensões e ensino. Porto Alegre: EDIPUCRS, Salvador: EDUNEB, 2006. epistemológicas e metodológicas da pesquisa (auto)biográfica. SOUZA, E. C. de; ABRAHÃO, M. H. M. B. (Orgs.) Tempos, Tomo II. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: Narrativas e ficções: a invenção de si. Porto Alegre: EDIPUCRS, EDUNEB, 2012. Salvador: EDUNEB, 2006. SOUZA, E. C. de; BRAGANÇA, I. F. S. (Org.). Memória, Di- (2008) mensões Sócio-históricas e Trajetórias de Vida. Porto Alegre: SOUZA, E. C. de. Histórias de vida e de pesquisa biográfica EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. no Brasil. In: DELORY-MOMBERGER; SOUZA, E. C. de (éd.). EGGERT, E. ; FISHER, B. D. (Org.). Gênero, geração, infância, Parcours de vie, apprentissage biographique et formation. Paris: juventude e família. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDU- Téraèdre, 2009, p. 33-47. FRN; Salvador: EDUNEB, 2012. ABRAHÃO, M. H. M. B.; FRISON, L. M. (Org.). Práticas do- Série Artes de viver, conhecer e formar (IV CIPA) centes e práticas de (auto)formação. Porto Alegre: EDIPUCRS; VICENTINI, P. P.; ABRAHÃO, M. H. M. B. (Orgs.) Sentidos, Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. potencialidades usos e da (auto)biografia. São Paulo: Cultura ANTUNES, H.S.; OLIVEIRA, V.F. (Org.). Diversidade: culturas, Acadêmica, 2010. ruralidades, migração, formação e integração social. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012.18 De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? CUNHA, J. L.; VICENTINI, P. P. (Org.). Corpos, saúde, cuida- dos de si e aprendizagens ao longo da vida: desafios (auto)bio- Apresentação gráficos. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. DIAS, C. M. S.; PERES, L. M. V. (Org.). Territorialidades: imagi- Narrativas autobiográficas: porque narrar a vida? nário, cultura e invenção de si. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. Começamos muito cedo nossa vida comum com as histórias, e elas nos acompanham durante toda nossa vida. Como supre- ABRAHÃO, M. H. M. B. (Org.). Pesquisa (auto) biográfica em ender-nos que nos acomodemos tão bem a elas? É realmente rede. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: necessário escrever um livro para tratar de uma coisa tão evi- EDUNEB, 2012. dente quanto as narrativas? Jerome Bruner¹ Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica Educação DELORY-MOMBERGER Christine. A condição biográfica. S estudos da narrativa desde a Poética de Aristotó- Ensaios sobre as escritas de si na modernidade avançada. Trad. teles tematizam a atividade mimética da linguagem: Nelson Patriota; Carlos Eduardo Galvão Braga; Maria da Con- criar, imitando a vida; imitar, criando a vida. As narra- ceição Passeggi. Natal: EDUFRN, 2012. tivas autobiográficas trazem, por excelência, em sua gênese, os VEIGA SIMÃO, A. M. FRISON, L. M. B. ; ABRAHÃO, M.H. benefícios e os riscos dessa estranha simbiose entre a lingua- M. B. (Orgs.). Autorregulação da Aprendizagem e Narrativas gem e a vida, entre a narrativa e o ser. E por nos acomodarmos Autobiográficas: epistemologia e práticas. Porto Alegre: EDI- tão bem a elas, essa simbiose nos cega e nos ensurdece, por isso PUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: EDUNEB, 2012. nos custa explicar o papel que as narrativas desempenham em nossas vidas comum e individual. Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica Educação Um dos propósitos dos textos reunidos neste livro Dimen- Série das Histórias de Vida" sões epistemológicas e metodológicas da pesquisa (auto)biográfi- ca repousa, por um lado, na tentativa de validar (in)certezas epistemológicas, políticas e metodológicas, que orientam as Christine. As histórias de vida. Da pesquisa com fontes biográficas e autobiográficas e, por outro invenção de si ao projeto de formação. Tradução: Albino Po- lado, aprofundar a reflexão sobre a capacidade, a necessidade, zzer. Porto Alegre: EDIPUCRS; Natal: EDUFRN; Salvador: o prazer ou a dificuldade humana de narrar a vida. Sem esse EDUNEB, 2012. (Coord. ABRAHÃO, m. h. m. b.; PASSEGGI, permanente questionamento, o conhecimento tende a se escle- M. C.). rosar e a se aproximar do mito ou da ideologia, arriscando-se a PINEAU, Gaston; LE GRAND, Jean-Louis. As histórias de vida. se tornar sua própria negação. Trad. Carlos Eduardo Galvão Braga; Maria da Conceição Pas- É, portanto, inegável que o conhecimento para se tornar seggi. Natal: EDUFRN, 2012. fecundo precisa avançar retomando suas hipóteses, assina- lando seus limites e suas aberturas. Mas, ele deve também se Jerome Bruner. Pourquoi nous racontons-nous des histoires. Le récit au fondement de la culture et de l' identité individuelle, Paris: RETZ, 2005, p.15.20 Narrativas (auto)biográficas: por que narrar a vida? Maria da Conceição Passeggi e Maria Helena Menna Barreto Abrahão 21 fortalecer pela pesquisa concreta, fundada em dados empíri- importância de reler a concepção filosófica, política do sujeito cos que sustentam e fortalecem o pensamento. Essa relação à luz do que nos faz passar da suspeição do eu seu empode- teoria|empiria constitui a base da contribuição dos autores ramento como um marco histórico de nosso témpo. que se interrogam aqui sobre as narrativas autobiográficas em Martine Lani-Bayle, em Narrativas de vida: motivos, limites e culturas e situações as mais diversas. A leitura de cada texto nos perspectivas, começa lembrando que a narrativa ou a escrita bio- permite explorar, à luz de olhares vindos de horizontes diferen- gráfica, em nosso tempo, conhece uma popularidade crescente tes, a riqueza e as potencialidades dessas narrativas como fontes em diferentes domínios da formação do adulto. Mas essa con- de pesquisa e práticas de formação. figuração narrativa não é neutra, as palavras podem modular a O livro está organizado em três partes: representação e o pensamento. Daí a sua utilização também em 1. A pesquisa (auto)biográfica: questionamentos teóricos; pesquisa. Mas, tal palavra só pode ocorrer e se articular, pro- 2. As dimensões do sensível: o corpo, a literatura e o lúdico longar-se se ela "corresponde" ao que as palavras-ditas evocam. na pesquisa (auto)biográfica; Quando ouvir e ser ouvido se correspondem, o que se aprende se descobre com a linguagem em sua dimensão interativa, me- 3. Tempos e lugares: arte e dever da memória. diante as experiências de vida. A autora chama a atenção sobre A coletânea reúne a reflexão atual de professores-pesquisa- o fato de que a narrativa de vida é um forma que não convém a dores de universidades européias (Espanha, França e Suíça) e todos, por essa razão discute a importância de relativizar o seu da América Latina (Argentina, Brasil e Colônbia), que renovam alcance, sem impor, mas propor, se necessário, outras vias. problemáticas, multiplicam os achados e liberam a imaginação O pensamento de Antonio Bolívar conclui essa primeira metodológica e epistemológica, sem medo de transgredir, ao parte. Em seu texto Metodología de la investigación biográfi- deixar que a experiência humana se imponha por ela mesma. co-narrativa: recogida y análisis de datos, 0 autor sintetiza as O texto, Reabrir o passado, inventar o devir: a inenarrável matrizes metodológicas da abordagem narrativa-biográfica condição biográfica do ser, de Maria da Conceição Passeggi, como uma forma legítima de construção do conhecimento na Christine Delory-Momberger e Maria Helena Menna Barre- pesquisa educacional e social. texto se abre por uma visão to Abrahão, abre a primeira parte do livro: A pesquisa (auto) geral da investigação narrativo-biográfica, como uma vertente biográfica: questionamentos teóricos. As autoras aprofundam a da pesquisa qualitativa, com a qual partilha princípios metodo- discussão sobre as dimensões epistemológica e política da in- lógicos, especialmente a perspectiva interpretativa ou herme- vestigação científica com fontes biográficas e autobiográficas nêutica, cujo objeto são, fundamentalmente, textos discursivos. em Educação. Se o uso das escritas de si surge nos anos 1980 Bolivar expõe, em seguida, e mais especificamente, a investiga- como uma prática de liberdade e de emancipação na formação ção que realizou sobre a crise da identidade de professores do do adulto, o que garante essa mirada epistemopolítica, nos anos ensino secundário. Lembra que esse trabalho se inscreve em 2000, diante da injunção a se dizer na sociedade biográfica? As uma ampla linha de investigação de seu grupo de pesquisa, que autoras partem dos conceitos de fato biográfico e biografização começou com os ciclos de vida profissional, continuou com o para problematizar os desafios que o uso dessas fontes impõe interesse pela abordagem biográfico-narrativa e desdobrou-se quando se trata de apreendê-las como objeto de pesquisa e, na investigação sobre a crise da identidade profissional dos pro- notadamente, como prática de formação em Educação. A refle- fessores. No que concerne à análise dos relatos, deve-se levar xão prossegue articulando a perspectiva ricoeriana da tríplice em conta as complexas relações entre os narradores e os leitores mimese com as noções de reflexividade autobiográfica e cons- que interpretam as formas narrativas a partir de seus marcos ciência histórica no processo de biografização, sinalizando a de referência. As narrativas to)biográficas são textos a inter-22 Narrativas (auto)biográficas: por que narrar a vida? Maria da Conceição Passeggi e Maria Helena Menna Barreto Abrahão 23 pretar (interpretandum) por meio de outro texto (interpretans). Defende que, num sentido amplo, pode se entender que toda mútua revela ter um papel decisivo na aprendizagem de um investigação qualitativa é de fato uma pesquisa narrativa pois autoconhecimento renovado mediante a perspectiva de um si suas bases são relatos e seus modelos teóricos fundamentam- somatopsíquico do qual se cuida. Esse "cuidado de si", por sua vez, revela novas modulações das faces das ligações, das figuras se em estruturas narrativas como guia da investigação. Mas a investigação narrativa introduz uma séria "fissura" na pesqui- da relação de ajuda, ou de tratamento, do acompanhamento for- sa qualitativa habitual: a experiência vivida não é algo a captar mador e do acompanhamento em pesquisa-formação. Aparece, pela investigação, é de fato criada no próprio processo investi- então, na pesquisa-formação, uma nova forma de acompanha- gativo, o que leva a afirmar que pesquisa biográfica se desen- mento a partir de uma reciprocidade agindo entre o acompa- volve dentro da pluralidade de perspectivas ou paradigmas que nhante e a pessoa acompanhada. proliferam nessa área, no contexto atual. A contribuição de Marcos Vilella Pereira, no seu texto (Auto) No início da segunda parte do livro: As dimensões do sensí- formação e o potencial das novelas de formação, estabelece a re- vel: o corpo, a literatura e o lúdico na pesquisa (auto) biográfica, lação entre Literatura e Educação. autor toma como objeto de Marie-Christine Josso traz uma nova abertura para a pesquisa análise, três grandes obras escritas no limiar do século XIX: Os (auto)biográfica em sua reflexão sobre a Fecundação mútua de anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe, publica- metodologias e de saberes em pesquisa-formação experiencial. da em 1796, Hipérion, de Hölderlin, publicada em dois volumes, Observações fenomenológicas de figuras do acompanhamento em 1797 e 1799, e Henrique de Ofterdingen, de Novalis, deixada incompleta quando de sua morte, em 1801. Essas obras narram e novas conceituações. Para a autora, temos de aprender vá- rias linguagens que colocam em cena o corpo biográfico: corpo as histórias de formação de seus protagonistas e representam um falado e corpo falando. A abordagem biográfica da formação, profundo exercício de seus autores que, afetados pelo ideário mediante as histórias de experiências formativas, nos permite da Revolução Francesa e do Iluminismo, vivem em um mundo identificar, segundo Josso, as várias faces do acompanhamento política, social e culturalmente confuso, cujo caos a razão bus- ca resolver mediante o postulado das luzes e do esclarecimento. que marcam o curso da vida. Assim, com uma análise trans- versal de centenas de histórias escritas, recolhidas ao longo dos Suas narrativas, entretanto, exploram caminhos como o irracio- últimos trinta anos em culturas diferentes, em ambientes pro- nalismo, a solidão e o sombrio isolamento do indivíduo que se fissionais diversos, abordagens individuais e coletivas, admite confronta com seus dilemas e angústias de maneira trágica e ir- que é possível desenvolver formas características dos modos de reversível. Os personagens são tomados como casos exemplares viver com os outros e consigo mesmo, de estar em relação com de processos e modelos de subjetivação, assumindo-se a ideia de que as narrativas não são apenas formas de expressão, mas for- os outros no vasto do mundo. A metodologia utilizada para a construção de narrativas autobiográficas, relevantes para a mas de conhecimento e de pensamento, o que as tornou atrativas descrição do problema e a compreensão dos processos de for- para os currículos. A análise específica desse dispositivo é atrela- mação, transformação e produção do conhecimentos que as da à análise da difusão da força emancipatória das narrativas de acompanham, oferece por sua vez a emergência das figuras de formação presentes tanto no campo da formação de professores acompanhamento e da relação entre pesquisador-formador e quanto nas teorias contemporâneas do currículo. Coloca-se em aprendentes-pesquisadores O surgimento de uma experiência questão o valor da experiência narrativa e do conteúdo autorre- biográfica do corpo, dito Sensível, enriquece essas figuras do ferente como componentes curriculares emancipatórios nos dias acompanhamento. Na relação entre profissional em soma- atuais, sustentando essa crítica no contexto de crise da racionali- dade ocidental. Esse estudo se desenvolve numa zona de interfa- topsicopedagogia e a pessoa que ele acompanha, a implicação ce em que a Filosofia e a História da Educação se implicam para as mais recentes discussões das teorias do currículo.24 Narrativas (auto)biográficas: por que narrar a vida? Maria da Conceição Passeggi e Maria Helena Menna Barreto Abrahão 25 O texto Ludobiografia: uma invenção metodológica em pes- quisa (auto)biográfica em educação, de autoria de Tania Fortu- como toda narração parece invocar na primeira instância a na, encerra essa segunda parte. A autora descreve o processo de temporalidade, esse arco existencial que se desloca a partir de invenção da ludobiografia como modalidade de narrativa (auto) um começo imaginário e percorre, de modo contingente, as es- biográfica, explicitando as condições teóricas e metodológicas tações obrigatórias da vida entre diferença e repetição, entre o que favoreceram a sua transposição para o domínio da investi- que torna a experiência comum e o que distingue cada trajetó- gação educacional. Originalmente desenvolvida para trabalhar ria. Para a autora, se a pergunta: Como se narra uma vida? pode ludicamente com as crianças as suas próprias biografias, a lu- se responder com certeza, talvez seja mais difícil perguntar: Em dobiografia foi transformada em um procedimento específico que lugares transcorre uma biografía? E como se vinculam o afeto de produção de relatos dos professores sobre a sua formação e o lugar? São essas perguntas que marcam o desemvolvimento lúdica, por meio da metodologia de pesquisa qualitativa com de seu texto em sintonia com a temática do V CIPA Pesquisa histórias de vida, no enquadre mais amplo da investigação nar- (auto)biográfica, lugares, trajectos e desafíos -, em torno da qual rativa, prestando-se, assim, a investigar a formação docente. articula, cuidadosamente, o espaço biográfico, tema já clássi- Essa invenção funda-se na de que a ludobiografia em suas pesquisas, com as experiencias de escrita literá- tem potencial para oferecer-se como uma alternativa realmen- ria Sebald e das artes visuais Christian Boltanski que te inovadora no âmbito das diferentes abordagens da pesquisa trazem justamente respostas inusitadas e até perturbadoras (auto) biográfica em Educação, podendo vir a ser utilizada em no jogo, sempre renovado, de "manter a morte em seu lugar", outras investigações que desejam prospectar, de forma mais am- segundo Michael Holroyd, conhecido biógrafo inglês. pla e com mais profundidade, as narrativas de seus sujeitos, per- Na sequência da problemática do tempo como marca do hu- mitindo-lhes que digam mais e melhor aquilo que têm a dizer. mano, Maria Helena Camara Bastos, em A liturgia do tempo: Na última parte, intitulada: Tempos e lugares: arte e dever da Marc-Antoine Jullien e a arte de governar-se e educar-se, inicia memória, Gabriel Murillo Arango, em Memoria y testimonio en sua reflexão pela constatação do gesto de olharmos, cotidia- tiempos de oscuridad, enfatiza as múltiplas funções da narrativa namente, as horas em inúmeros dispositivos que controlam o em Educação e defende a validade de uma pedagogia da me- tempo. Dos métodos mais simples aos mais complexos, o ho- mória e do testemunho como uma resposta incondicional que mem buscou formas de controlar o tempo e de se controlar nes- nada espera em troca, alheia, portanto, à noção mesquinha de se tempo. Interiorizamos e naturalizamos tais procedimentos, utilidade. Com ela é assumido desafio de lidar com o jogo de pois fazem parte da cultura individual e coletiva, dos hábitos e tensões e revezes de uma época caracterizada paradoxalmente costumes da sociedade contemporânea. A modernidade é um pelo "boom da memória" e de uma cultura do esquecimento, período histórico privilegiado para estudar os dispositivos de que imprime sua nuance própria aos trabalhos da memória poder-saber dos processos de assujeitamento do homem mo- histórica, desenvolvida em um país como a Colômbia atingido derno, com vários procedimentos e técnicas de governo de si. por uma guerra prolongada. Seu texto mostra um crescimento Na perspectiva da educação e normatização do tempo reside notável na produção social da memória no campo das artes, da o presente estudo, que busca analisar a contribuição de Marc- narrativa testemunhal, das Ciências Sociais, ainda que não en- Antoine Jullien (1775-1848), especialmente suas obras para o contre correspondência semelhante em outras esferas da vida emprego do tempo, que estabelecem princípios de práticas de nacional, incluindo a vida no cotidiano escolar. escrita de si, de subjetivação do sujeito e de construção da me- Leonor Arfuch defende, em Devenires auto/biográficos: los mória individual e social. Objetiva discutir a organização do objetos, el tiempo, el lugar, que a narrativa auto|biográfica tempo, seu poder pedagógico, que o autor propõe para a for- mação moral e social do homem, permitindo-lhe desenvolver26 Narrativas (auto)biográficas: por que narrar a vida? a capacidade de governar-se e educar-se. Metodologicamente, situa-se na perspectiva das práticas de escrita e das representa- ções do tempo. O tempo, ontem como hoje, continua sendo um conceito e uma prática emblemática para o homem. O texto de Enivalda Nunes Freitas e Souza conclui esse per- curso acrecentando à ideia de tempo a dimensão do espaco, do lugar como coordenada inseparável do sujeito. No capítulo Da utopia em Penedo a uma casa na floresta: Mnemósina e trajetória biográfica em Dora Ferreira da Silva, a autora inicia discorrendo sobre as relações estreitas que Dora Ferreira da Silva estabeleceu entre sua atividade de tradutora e de poeta, mostrando que rastros dos poetas místicos, de Rilke e de Jung, admiravelmente A pesquisa traduzidos por Dora, são confessadamente verificáveis em sua questionamentos teóricos poesia premiada. Para explorar esse vínculo entre biografia e obra, o texto resgata uma parte importante da vida da célebre poeta que faleceu em 2006, aos 87 anos, a comunidade utópica que ela e o marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, fundam com o amigo e também filósofo Agostinho da Silva, a Utopia de Penedo, na Serra do Itatiaia, nos fins dos anos 40. Analisando alguns poemas, Enivalda mostra que o espaço utópico na poeta, Maria da Conceição Passeggi sobretudo o dos poemas da série "Ciclo da Montanha", está para Maria Helena Menna Barreto Abrahão além de um arquétipo coletivo, uma vez que Dora Ferreira da Silva lança sobre Itatiaia uma memória afetiva e pessoal que só Christine Delory-Momberger as Musas podem preservar. Martine Lani-Bayle Parece que nada pode caracterizar tanto o humano do que Antonio Bolívar dom de contar histórias. Tudo indica que é nossa maneira natu- ral de ser e de viver em comum. Que a leitura desse livro possa iluminar novas formas de pensar e de narrar a vida. Natal, Porto Alegre, 10 de julho de 2012 Maria da Conceição Passeggi Universidade Federal do Rio Grande do Norte Maria Helena Menna Barreto Abrahão Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul1| Reabrir o passado, inventar o devir: a inenar- rável condição biográfica do ser Maria da Conceição Passeggi Universidade Federal do Rio Grande do Norte|Brasil Maria Helena Menna Barreto Abrahão Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul|Brasil Christine Delory-Momberger Université de Paris 13-Nord|França Para começar... A linguagem não cria propriamente o mundo; o mundo já está aí. A virtude da linguagem é portanto constituir a partir de sen- sações incoerentes um universo à escala da humanidade. E desde as origens, cada indivíduo que vem ao mundo retoma essa obra da espécie humana por sua própria conta. Vir ao mundo é tomar a palavra transfigurar a experiência em um universo do discurso. Georges Gusdorf P erder a memória ou sofrer a interdição da memória é como levitar na amplidão abissal do não-ser. Quer quei- ramos ou não, poder reabrir o passado e inventar o por- vir, pela mediação da palavra, constituem a inefável condição biográfica do humano. Na sequência de trabalhos anteriores sobre a pesquisa com fontes biográficas e autobiográficas², nos propomos a sintetizar aqui uma reflexão, em andamento³, sobre os desafios epistemológicos e políticos do processo de biogra- fização, quando buscamos apreendê-lo como objeto de estudo da pesquisa em Educação. 1 George Gusdorf, 1998, p.12, grifos do autor, tradução nossa. 2 Passeggi, 2010; 2011.; 2011. 3 presente estudo situa-se no âmbito de pesquisas conduzidas pela primeira auto- ra no pós-doutorado, realizado com a supervisão das professoras Maria Helena M. B. Abrahão, na PUCRS e Christine Delory-Momberger na Universidade de Paris 13|Nord (2011.2 2012-2). 4 Cf. outras denominações: biographique en Education; Biographical research; Biographieforschun; Investigación biográfico-narrativa en educación.30 Reabrir o passado, inventar o devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 31 Focalizaremos os conceitos de fato biográfico e de biogra- fização, sobre os quais Christine Delory-Momberger (2008) Da militância contra o apagamento do sujeito à inquietude chama nossa atenção ao estabelecer relações entre biografia e da exposição permanente de si Educação. Nosso olhar recai sobre o percurso (ainda que infi- nitesimal) entre fato biográfico e biografização, entendendo-o [...] dar às declarações de um operário metalúrgico o aco- como um ato de linguagem, pelo qual o narrador se apropria da lhimento fervoroso que certa tradição de leitura reserva às formas mais altas da poesia ou da filosofia. palavra para falar de si. Nosso propósito é reler o processo de Pierre Bourdieu⁷ biografização à luz da concepção filosófica do sujeito como ser Reconhecer, não apenas o direito deles à expressão, mas tam- capaz de autoconhecimento e de tomar em mãos a sua própria bém a validade dessa expressão é uma opção epistemopolítica. história como pessoa responsável por seu destino. Gaston Pineau; Jean-Louis Le Começaremos lembrando a emergência do sujeito como ator-autor-em-devir, na década de 1980, momento em que se instituem as histórias de vida em para discutir em se- Sabemos que a emergência das narrativas autobiográficas guida as possibilidades de desvios, a partir dos anos 1990, dessa em Educação, a partir dos anos 1980, situa-se na sequência de percepção do sujeito numa sociedade dita biográfica. Passamos um movimento histórico e cultural que considera o indivíduo então a abordar vínculos entre fato biográfico e biografiza- como sujeito-ator-autor-em-devir, por oposição aos paradig- ção e, a partir da indagação por que e para que contamos histó- mas dominantes à época (behaviorismo, marxismo, estrutura- rias? -, procuramos sintetizar as funções social e psicológica da lismo), que tendiam a apagar o sujeito nas Ciências Sociais e narrativa no conhecimento de si. Nos dois últimos pontos, com Humanas. As palavras de Pierre Bourdieu (2002, p. que apoio nos trabalhos de Paul Ricoeur (1994, 2008, 2011), intenta- alertou contra o perigo das histórias de vida, em Sociologia, como uma "ilusão biográfica", seguidas das de Pineau e Le mos aproximar a tríplice mimese e as operações de interpretação (compreender e explicar) do processo de biografização. Trata-se Grand, que as legitimaram em Educação como expressão hu- de pensar, tanto para o sujeito, quanto para nós que recorremos mana, guiam nossa reflexão sobre a pesquisa (auto)biográfica às escritas de si como prática de pesquisa e de formação, os ques- como uma opção epistemopolítica na pesquisa e na formação. tionamentos epistemológicos dessas narrativas na modernidade Como nos lembram Brockmeier e Harré (2003), reflexiva⁶ e de tematizar a condição biográfica como uma dispo- sição do ser humano e não como uma vã utopia. A origem do interesse pela narrativa nas ciências humanas parece ser a "descoberta", na década de 1980, de que a forma de estória, tanto oral quanto escrita, constitui um parâmetro linguístico, psicológico, cultural e filosófico fundamental para nossa tentativa de explicar a natureza e as condições de nossa existência (BROCKMEIER; 2003, p. 526). O reconhecimento da "validade objetiva" de falas autorrefe- 5 Referimo-nos aos trabalhos desenvolvidos nos últimos 30 anos por um grupo de renciais torna-se então um desafio primordial para a pesquisa, quisadores de língua francesa, reunidos em torno de Gaston Pineau (França e Canadá), pes- Pierre Dominicé (Suíça) e Guy de Villers (Bélgica), cuja repercussão foi determinante para Pierre Bourdieu, 2002, 712. sua difusão em língua portuguesa a partir dos trabalhos de Antonio Nóvoa, nos anos 90. 8 Gaston Pineau; Jean-Louis Le Grand, 2012, p.116. BECK, U.; GIDDENS, A.; LASH, S. (orgs). Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna, São Paulo: Editora Unesp, Bourdieu (2002) recorre à pesquisa com entrevistas narrativas em A Miséria do Mun- do e escreve sua autobiografia intelectual em Esboço de autoanálise (2005).32 Reabrir 0 passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 33 a formação e a produção do conhecimento. Mas, sobretudo, informação e do conhecimento, enquanto imperativo socio- para os próprios indivíduos, que devem|desejam|podem escre- profissional. Delory-Momberger (2009) alia-se a esse ques- ver sua história e, por extensão, para a sociedade em geral, que fomenta e se apropria do conhecimento por ela e para ela pro- tionamento ao se referir à condição biográfica na modernidade duzido. Reconhecer o direito e a validade dessas falas tardia. Em nossos dias, tornou-se um imperativo dizer quem somos, o que fazemos, explicar nosso percurso, falar de nossos projetos de vida. É reconhecer que a luta pela vida desenvolve nesses atores, tal- Os usos "confessionais" do eu nas redes sociais, dos quais vez, tanto poder e tanto savoir-vivre válido, ainda que à sua re- velia e clandestinamente, quanto as tentativas de gestão dessas no fala Sibilia (2008), em O show do eu, parecem responder a mesmas vidas por dispositivos instituídos externos. É aceitar, essa inelutável condição biográfica. Basta pensar na vida adulta na sociedade, zonas de indecidibilidade externa e, portanto, o e no mundo do trabalho, onde se situa grande parte de nossos surgimento de poderes e de savoir-vivre autônomos, imprevisí- investimentos em pesquisa, para constatar que em situações es- veis (PINEAU; LE GRAND, 2012, p. 116, grifos nossos). pecíficas de inserção profissional, por exemplo, já não são su- ficientes a objetividade do curriculum vitae e o prolongamento Trata-se, portanto, da emergência de um paradigma epis- da formação graduada e pós-graduada. Entram ainda em conta temológico, enraizado no terreno fértil da luta pela vida como na apreciação do indivíduo seu modo de perceber a vida, o tra- práxis social e cotidiana dos indivíduos. Perspectiva que os balho, a família, suas emoções. Não se trata pois apenas de ser: considera capazes, em sua singularidade histórica, de se lançar "Eu "Eu era..."; "Eu fui..."; "Eu "Ser ou não ser!" na aventura do conhecimento de si e construir, mesmo à sua já não é a questão! Mas, como nos ensinaram na escola, são revelia, saberes tão válidos quanto aqueles legitimados pelas os verbos auxiliares modais, aparentemente secundários, que instituições (jurídicas, educacionais, religiosas...), reguladoras se tornaram agora mais preciosos para dizer quem somos, pois de sua ação social. eles permitem que nos sondem como nos percebemos em ação: Para o movimento socioeducativo das histórias de vida em "Eu posso ser..., eu quero..., eu preciso..., eu tenho que A formação e da pesquisa (auto)biográfica em Educação, refletir vida pessoal e a vida profissional se sobrepõem, tornam indis- e escrever sobre as experiências e expectativas de vida, justifi- sociáveis o privado e o público. A quem interessa esse entrela- ca-se pela mirada de uma formação-emancipação, cujas ori- çamento? As entrevistas, as cartas de motivação, os memoriais gens estão culturalmente enraizadas no poder-emancipador apresentam-se como espaços para se "descobrir" não apenas do retorno reflexivo sobre si mesmo: "Conhece-te a ti mesmo a competência do indivíduo no que sabe fazer, mas também a e conhecerás os deuses e o universo". Preceito cultuado como intensidade da paixão que o move naquilo que faz. É preciso ter prática pedagógico-filosófica pelos socráticos, que deram iní- paixão! Comprometer-se de corpo e alma! Critérios que não cio à "arte de falar de si e da vida, com suas contradições, seus podem ser medidos (ainda), mas que podem ser humanamen- balbucios, suas como nos lembram Pineau e Le te, ou intuitivamente, sentidos. Grand (2012, p. 48), e sobre a qual desejamos insistir por nos A capacidade de falar de si torna-se então uma condição fazer adentrar no terreno movente da linguagem. de inserção socioprofissional e de interação social na sociedade Para Dominicé (2008), a intenção "militante" dos anos 1980 biográfica. paradoxo histórico é que esse imperativo a falar tendeu a se arrefecer na década de 1990. E o que era uma prá- (bem) de si se situa num momento de plena metabolização dos tica de liberdade e uma força de mobilização dos "esquecidos" modelos (profissionais, intelectuais, pessoais, existenciais...), da história foi, gradativamente, incorporado pela sociedade da culturalmente herdados. Na ausência de modelos, ou no exces- so deles (pensemos no sucesso midiático de biografias, auto-34 Reabrir o passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 35 biografias, cinebiografias, facebooks, twiters de "celebridades"), o indivíduo deve assumir a tarefa de se reinventar a cada dia, narrador e pelo pesquisador decorre do que nos diz Gadamer, diante das mais inesperadas situações, criadas pelos processos na epígrafe, sobre a linguagem como um mundo intermediário, intensos de conectividade e de mobilidade (social, acadêmica, em suspenso, entre o ser e a vida. Para o autor (op. cit. p. 391), professional), além dos efeitos e dos desafios da era digital que a "interpretação é o que oferece a mediação nunca acabada e acrescentam a permanente sensação de instabilidade, no imen- pronta entre o homem e mundo, e nesse sentido a única ime- so mundo líquido, atormentado pela obsessão da mudança e da diatez verdadeira e o único dado real é o fato de compreender- flexibilidade, nas palavras de Bauman (2004, 2007). mos o algo como algo". A liberdade de agir, ou mesmo de transgredir, subjacente à Os conceitos de fato biográfico e biografização, sobre os concepção da formação-emancipação do sujeito, esteve sempre quais Delory-Momberger (2008) se detém para fundamentar, acompanhada do ideário da responsabilidade de o indivíduo como já mencionamos, as relações entre Educação e biogra- tomar em suas próprias mãos a sua vida. Contra as teorias da fia, ainda não foram suficientemente explorados para pensar a suspeição e do apagamento do sujeito retomam-se os víncu- pesquisa e a formação com fontes biográficas e autobiográfi- los entre o sujeito-ator-autor-em-devir e o poder da palavra cas. Para Delory-Momberger (2008, p. 37), o fato biográfico é como fonte de empoderamento e de resiliência. Problemáticas uma representação mental. Ele precede qualquer ato de escrita. de interesse atual e marcante para a pesquisa (auto)biográfica. "Esse espaço-tempo de representação biográfica toma do dis- curso narrativo seus princípios de organização e de E por necessitar desse processo de enunciação, oral ou escrita, o Fato biográfico e biografização: linguagem e fato biográfico se confunde com a própria narrativa que o atu- conhecimento de si aliza e o A relação entre fato biográfico e biografização nos parece Frente à ilusão da autoconsciência e frente à ingenuidade de um ganhar todo o seu peso epistemológico quando nos pergunta- conceito positivista dos fatos, o mundo intermediário da lin- mos, como faz Gadamer (2002, p. 390) "pela enigmática relação guagem aparece como a verdadeira dimensão do real, do dado. entre o pensar e o falar", ou ainda entre o pensar e o ato de to- Hans-Georg Gadamer¹⁰ mar a palavra. Assunto inesgotável, ambicioso demais, pois nos leva diretamente a teorias do conhecimento e à linguagem: esse A disposição do humano a se tornar sujeito, mediante o ato maravilhoso mundo nosso. de narrar a história de sua vida, constitui um postulado da pes- A noção de biografização, sobre a qual a autora se detém quisa (auto)biográfica, fundamentado numa concepção filosó- mais longamente, é entendida como um trabalho de interpreta- fica do sujeito como ser capaz e pleno de potencialidades para ção (busca de sentido) e um trabalho de textualização (escrita se apropriar do seu poder de reflexão. Nesse sentido, é que as ou oral), pelos quais o narrador organiza os fatos pessoais tem- narrativas autorreferenciais são consideradas como objeto de porais de sua história (autobiografia) ou da história de outrem estudo primordial para a pesquisa (auto)biográfica, pois são (biografia), mediante a apropriação de um gênero discursivo, suscetíveis de revelar os modos como os indivíduos de uma de- culturalmente herdado. Nessa tarefa de tentar expressar, por terminada época e cultura interpretam o mundo e como dão escrito, algo que deseja ser compreendido, o narrador também forma a suas experiências. A função de intérprete ocupada pelo se compreende. 10 Gadamer, 2002, p. 11 Num sentido lato, a grafia integra outros instrumentos semióticos no processo de biografização: fotobiografia, videobiografia, cinebiografia, webgrafia,36 Reabrir passado, inventar o devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 37 Entre fato biográfico, como atividade mental, potencial- marmos" ao que "as convenções exigem". Essa afirmação é sufi- mente consciente, e a biografização, como um ato de linguagem cientemente forte para nos ajudar a pensar que nos construímos consciente e consentido, entram em jogo aspectos das mais di- como sujeitos a favor contra as convenções veiculadas pelo versas ordens: linguísticos, culturais, psicológicos, sociológi- imaginário social, nas narrativas (cantigas) do cotidiano. As fi- cos, históricos, filosóficos, antropológicos... A certeza de não guras do herói, do viajante, do anti-herói, do vilão... que remon- poder nos acercar devidamente desses múltiplos aspectos não tam às "grandes narrativas" servem de balizas, inconscientes, nos impede de pensar a riqueza epistemológica da articulação para justificar os fatos e elaborar projetos pessoais e sociais. É entre fato biográfico, como virtualidade, e biografização, como nesse sentido que podemos compreender as funções sociais das enunciação, enquanto uma via estimulante de pesquisa sobre narrativas. Quando um acontecimento foge aos padrões habitu- as narrativas autobiográficas, pois evidencia a estreita relação ais, nos diz Jerome Bruner (1997, p. 50), propósito da história entre pensamento, linguagem e práxis social. contada (cantada), em suas mais diversas versões, encontrar A própria estrutura da língua nos oferece um bom come- um estado intencional que atenue ou pelo menos torne compre- ço para pensar porque a narrativa está tão presente em nossa ensível um afastamento do padrão cultural canônico". vida. Basta ultrapassar o domínio da palavra (isolada) para en- Arango (2012)¹² enfatiza essa indeia ao se referir às narrativa, trarmos de imediato na narrativa. Uma frase mínima (sujeito sob a forma de testemunhos, de memórias, de obras de arte que + verbo) coloca em cena um personagem no tempo e, portan- falam do conflito armado recente, na Colômbia. Elas buscam to, numa história. Por esse viés podemos ver na narrativa uma compreender e explicar os fatos, apropriando-se das potenciali- condição constitutiva do pensamento e, portanto, da História e dades de diversas linguagens para estreitar os vínculos existen- das histórias, da epopeia e do drama, da tragédia e da comédia, tes entre biografização, reconstrução da memória e democracia. dos mitos e das ciências... Não é sem razão que Jovchelovich e As narrativas são, nesse caso, "una forma de um Bauer (2003, p. 91) retomam o que nos diz Roland Barthes: "a "derecho a la memoria y el reconocimiento de la verdad como narrativa começa com a própria história da humanidade e nun- derechos inalienables de las víctimas y de la ca existiu em nenhum lugar e em tempo nenhum, um povo sem No campo da Psicologia da Linguagem, Jean-Paul Bronckart narrativa". Pelo uso da linguagem, o humano construiu narra- (1999, p. 62) ressalta a função psicológica das narrativas nos tivas míticas em diversas culturas. "A linguagem e o mito, nos processos de desenvolvimento humano, defendendo que elas diz Cassirer (1994, p.181), são parentes próximos. [...] São dois nos permitem enfrentar as pressões de interpretações conflitan- brotos diferentes de uma única raiz. Sempre que encontramos tes, porque nos ajudam a (re)construir narrativamente imagens homem, vemo-lo em possessão da faculdade da fala e sob a clarificadas das ações humanas: "é por meio da interpretação influência da função de fazer mitos". dos discursos narrativos que o funcionamento psíquico huma- Narrar é, pois, humano! A criança constitui-se narrador ou- no se expande, se enriquece e se reestrutura vindo histórias: o peso (ou a leveza) da transmissão intergera- Se temos dificilmente consciência da intermediação da lin- cional é belamente expresso por Heilbrun (1988), nessa citação guagem em nosso cotidiano, essa consciência torna-se evidente que retomamos de Connelly e Clandinin (2008, p.11): "Puedem no testemunho de pessoas que foram de algum modo privadas ser textos leídos, cantados, experimentados eletronicamente, o de uma expressão linguística. Citamos três situações que nos puedem venir a nosotros como los murmullos de nuestra madre, diciéndonos lo que las convenciones exigen". O autor chama nossa atenção, tanto para os modelos narrativos que incorporamos ao 12 As citações retiradas dos textos dos autores que participam deste livro não trazem a longo da vida, quanto para os riscos|benefícios de nos "confor- indicação da página por problemas de diagramação, mas leitor não terá dificuldade de situá-las na leitura dos próximos capítulos.38 Reabrir passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 39 parecem exemplares para compreender o impacto da ativida- de de reflexão, proporcionada pela apropriação da linguagem A possibilidade de comunicar, ou sua impossibilidade, nos sobre o funcionamento psíquico, em suma, sobre a construção mostra que a linguagem pode se tornar uma ponte ou uma pelo sujeito de sua própria história. Em seu livro O Grito da barreira como nos lembra Gadamer (2002, p. 388). Uma ponte, Gaivota, Emmanuelle Laborit (2003), surda profunda, atriz e quando se trata da "comunicação de um com o outro" e quan- diretora do Teatro Internacional Visual, conta como, aos sete do se trata de "construir identidades sobre o rio da anos, tomou consciência de si mesma como sujeito e de sua Mas também, "uma barreira que limita nossa autoentrega e identidade surda, mediante a língua francesa de sinais: nos priva da possibilidade de expressar-nos e comunicarmo- nos plenamente". Martine Lani-Bayle (2012) discute outro tipo de privação Eu tinha uma definição de mim do tipo: "Emmanuelle, você não ouve". Depois de ter compreendido o "eu", eu me chamo pela linguagem. Trata-se desta vez da proibição de saber e de Emmanuelle, naquela noite, eu compreendi, como num clarão: poder contar sua história. É o caso de crianças abrigadas com "Eu sou surda". Naquele dia, eu cresci em minha mente. Enor- percursos de vida extremos a quem lhes era negado conhecer memente. Eu me torno um ser humano dotado de linguagem. o motivo do abandono sob o pretexto de proteção. Para a au- Os ouvintes utilizam a Eu utilizo minhas mãos. Eu tenho simplesmente outra língua (LABORIT, 2003, p.70, tradução e tora, essas crianças transferiam às palavras o perigo das situa- grifos nossos). ções às quais sobreviveram e associavam a interdição de saber ao sentimento de serem protegidas contra as palavras. O efeito A metáfora "compreendi como num clarão", que utiliza La- dessa interdição torna-se mais perceptível nas mudanças ines- borit para dar sentido ao fato de compreender quem é ela, per- peradas de seu desempenho escolar. Elas recuperam um déficit mite fazer uma analogia com o ingresso da criança no universo de aprendizagem acima da média, depois que lhes é permitido conhecer e refazer sua da linguagem como uma passagem do não saber (a escuridão) para o saber (a luz), uma abertura para o conhecimento, que se A relação entre narrativa e conhecimento de si tornou-se o torna a partir de então uma luz que não mais se apaga. tema central da Literatura alemã no século XVIII, sob a forma Gianini (2012), ao estudar o percurso de professores surdos do Bildungsroman, como descreve Pereira (2012), no quinto da língua brasileira de sinais (Libras), defende que os efeitos capítulo deste livro. Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meis- da privação do contato da criança surda com a Libras, na mais ter, de Goethe, publicado em 1796, é um marco do gênero e tenra infância, só podem ser compreendidos no diálogo com se singulariza por sua dimensão didática. Escritor-personagem os surdos, jamais sem eles. A citação, a seguir, retirada do cor- e leitor-personagem, nos diz Pereira (op. cit.), "realizam uma pus de sua pesquisa é também exemplar. Flávio se descobre, aos experiência de confronto com possibilidades de vir-a-ser de oito anos, como alguém privado de uma língua. Ele lembra seu modo a consolidar um processo de constituição de si que, em primeiro dia na escola: certa medida, viabiliza uma maneira possível de chegar a ser o que cada um é. O que desejamos ainda reter das palavras do autor, é que os romances de formação Bildungsroman Eu comecei a falar inventando barulhos e todo mundo estra- veiculam uma virada na concepção da consciência de si, pois nhou. As pessoas olhavam para mim e pensavam que eu era doido, mas eu sabia que não era doido, deficiente mental, eu legitimam a condição de interioridade do sujeito que ao se con- não tinha nada, só não era ouvinte. (Flávio, entrevista narrati- frontar com seus dilemas, angústias, nostalgias... não mais se va, linhas 80-86). submete às condições da Razão, defendidas pelo Iluminismo, mas se reconhece nos seus desejos de errância, sentimentos de solidão e de abandono....40 Reabrir passado, inventar o devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 41 A privação de uma língua e as tradições discursivas herda- das nos sensibilizam para as dificuldades de interpretação e a suficientemente boas de si para melhor agir no mundo. A difi- construção da representação que fazemos de nós mesmos e do culdade, como sinaliza Parré (2003, p.11), é compreender que outro nos processos de biografização para dar sentido ao que a escrita é uma arte que nos conduz não à "expressão de uma acontece, ao que nos acontece e ao que pode nos acontecer. história que nos habita", mas a elaboração de versões inespera- Consideraremos agora fato biográfico e a biografização na das de nós mesmos. elaboração do projeto de si. O projeto de si, tal como é defendido por Delory-Momberger (2008, p. 63), se situaria mais no plano da ontologia do que no da fenomenologia. Por isso, ele "não deve ser compreendido como Biografização e projeto de si uma construção consciente, visando imediatamente a realiza- ções concretas, mas como um impulso para frente, uma orienta- A obra está ao mesmo tempo sob a dependência de um desti- ção para o futuro" Se o situarmos no plano do fato biográfico e no vivido e de um futuro imaginado, Escolher como princípio da biografização, diremos que o indivíduo se forma e se constrói explicativo somente a dimensão do passado (infância etc.) é transformar a obra em consequência, quando ela é muitas ve- como sujeito na dialética do trajeto e do projeto de zes, para o escritor, uma forma de antecipar. Analisando as condições societais da biografização (percur- Jean Starobinski¹³ so e projeto), Delory-Momberger (2008, 2009) chama a atenção para o projeto de si como um imperativo da sociedade contem- que constitui o verdadeiro impulso de biografização? Para porânea. Essa concepção do sujeito como ser fundamental- o saber do senso comum, o ato de escrever sobre si mesmo tem mente arremessado no futuro, "projetado", nos faz pensar no como finalidade rememorar a experiência vivida. Para evitar que nos diz Ricoeur (2008, p. 99) sobre utopia e ideologia. As essa redução a uma via de mão única, na direção retrospectiva, ideologias "olham para trás, ao passo que as utopias olham para Delory-Momberger (2008, p. 66) defende, como Starobinski, frente. As ideologias se acomodam à realidade que justificam e que o verdadeiro impulso do sujeito é o movimento que o leva dissimulam, ao passo que as utopias enfrentam a realidade e a adiante dele mesmo, como uma ficção da qual se apropria para fazem explodir". As ideologias seriam, para o autor, preferen- construir uma figura de si: "Só pode haver sujeito de uma his- cialmente, professadas pelas classes dirigentes, as utopias pelas tória a ser feita, e é, à emergência desse sujeito, que intenta sua classes ascendentes, sobretudo em épocas de crise. história e que se experimenta como projeto, que responde o Essa projeção de si vista como uma necessidade social pri- movimento da mordial, no cotidiano, impregna a construção do ser desde a Esse é certamente o posicionamento epistemopolítico que mais tenra infância: que você quer ser quando crescer?"; a autora vislumbra na perspectiva da pesquisa (auto)biográfi- "Esse menino não 'tem ele não quer nada da A ca em seus estudos sobre a relação entre biografia e Educação: pressão para projetar-se em devir imprime no espírito marcas a dimensão da construção biográfica numa dinâmica tempo- sócio-históricas indeléveis. Em nossas pesquisas com narrati- ral na qual a projeção do devir torna-se fundante do sujeito. vas infantis, como revelam Silva e Silva (2012), a criança, entre Traduzir a vida em palavras promete ao narrador obter, con- oito e dez anos, justifica sua ida à escola com o discurso her- tra o risco de se expor, o benefício de clarificar suas atitudes e dado do projeto de si: "para ser alguém na A ausência de decisões e, sobretudo, o mérito de aprender a compor versões projeto, ou o fechamento de tal horizonte, é motivo de inquie- 13 Jean Starobinski, 1970, p.283, citado por François Dosse (2009, p.333). 14 Ver em Delory-Momberger (2008) o capítulo 4 "Biografia e formação continuada: a experiência e o projeto".42 Reabrir o passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 43 tação para os pais e para a escola. Mas, essa mesma inquietação pode igualmente ser para a criança e mais tarde para o adulto colocar em risco a liberdade do sujeito e inibir o direcionamen- uma condição fundante de estados de depressão profunda. to emancipador das escritas de si, provocando o efeito inverso. A pertinência desse questionamento nos alerta para a tênue Ehrenberg (2000, p. 291) sugere que a ascensão da depres- fronteira (inconsciente) entre assujeitamento e empoderamen- são, na segunda metade do século XX, estaria associada à in- to, pela apropriação da palavra, e nos torna mais vigilantes para trojeção da responsabilidade de iniciativa pelo sujeito. A con- nos indagar sobre como a linguagem favorece a emancipação frontação com a pressão do "peso do possível" entraria em do ser e não a sua alienação no processo de biografização. confronto com a dificuldade de formular projetos e a falta de motivação ou do impulso para realizá-los. Nesse sentido, para Uma criança de 05 (cinco) anos pode nos dizer: "Quando o autor (op. cit., p. 294), "as noções de projeto, de motivação ou eu era pequeno eu não gostava de tomates"; "Quando eu cres- de comunicação dominam nossa cultura normativa. Elas são as cer, eu quero ser grande". Mediante essas pequenas narrativas, palavras de ordem da A depressão estaria assim associa- a criança se desdobra como objeto de reflexão e como ser refle- da, simultaneamente, a "uma patologia do tempo" (incapacida- xivo, coloca-se em cena como espectador e espetáculo, obser- de de projetar-se no futuro) e a "uma patologia da motivação" va-se, avalia-se, projeta-se como pensador e objeto pensado, (falta de energia para "seguir em frente"). Se adotarmos a hi- É essa dialética entre o ser e a representação do ser, mediada pótese da biografização numa perspectiva ontológica, podemos pela interpretação, nas narrativas de si, que nos permite falar de reflexividade autobiográfica. Ela confere um modo próprio de acrescentar ao que nos diz Ehrenberg (2000), que a depressão seria igualmente uma "patologia da linguagem": o indivíduo existência ao humano: a capacidade de se voltar sobre si mesmo deprimido vive o desconforto de transitar mal entre presen- como um outro, como nos diz Ricoeur (1990). Mediante a lin- te, passado e futuro (temporalidade); de não se aceitar como é guagem e a narrativa é possível reabrir o passado e se projetar (identidade); de amargurar-se pela busca de sentido para a vida em devir. O bom uso dessa reflexão sobre a experiência vivida (interpretabilidade), seja pela falta, seja pelo excesso de sentido, constitui o propósito das escritas de si como prática de forma- que o impede de compreender o que lhe acontece e, finalmente, ção, numa perspectiva epistemopolítica: a de tomar consciência da consciência histórica. do desejo de isolamento (incomunicabilidade). Nos estado de- pressivos, o indivíduo é um ser "cansado de si". conceito de "consciência histórica" é definido por Reis (2011, p. 23), "como a capacidade que cada época tem de se re- presentar e se atribuir uma identidade e um sentido, mesmo se Reflexividade autobiográfica: interpretação ainda está no tempo, inacabada e incompleta e não pode ter de e consciência histórica de si si mesma uma visão global". Ricoeur (1994) propõe uma "her- menêutica da consciência discutindo a estreita rela- que caracteriza o conceito de texto é que somente se apresen- ção entre o tempo e a narrativa. que lhe permite conceber a ta à compreensão no contexto da interpretação e aparece como história fora de uma perspectiva monolítica, totalitária, e situá- uma realidade dada à luz da interpretação. la entre o "espaço de (permanência do passado no Hans-Georg Gadamer¹⁵ presente) e o "horizonte de expectativa" (inquietações sobre o devir, incluido temor e esperança). Em Ricoeur, o que é válido Pineau e Le Grand (2012) chamam a atenção para as práti- para a grande História é valido para as história do indivíduo e cas de injunção de biografização que poderiam, eventualmente, vice-versa. Na elaboração da narrativa de sua vida, o narrador se apropria do tempo cronológico e transforma em tempo hu- 15 Hans-Georg Gadamer, 2002, p.392. mano, à escala de uma vida, em que o passado inaugura come-44 Reabrir o passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 45 ços. A expectativa é que pelo processo de biografização, a pes- soa compreenda as marcas de sua historicidade para ir além da dilacerante do que dar-se conta de não ter projetos. Se como nos imediatez do tempo cronológico e venha a tomar consciência dizem Bruner e Weisser (1995 p.142), as vidas são textos sujeitos que pode examinar o passado à luz do presente e projetar-se no à exegese, um projeto "envelhecido" é futuro: O que me tornou quem sou? Por que penso desse modo? um texto hermético, que ecoa em nossa mente, sempre do mes- Em que e como posso mudar a minha vida? mo modo, sem se deixar reinterpretar ou permitir que encontre- Nossos estudos sobre os memoriais no ensino superior mos para ele um novo enredo, um outro desfecho. (PASSEGGI, 2008a, 2008b; 2011b; 2011c; ABRAHÃO; 2008, Para Ricoeur (1994, p. 56), existiria uma relação vital en- 2011; 2012) e o acompanhamento do processo de biografiza- tre a atividade de narrar e a percepção do tempo. Relação que ção (PASSEGGI, 2008a, 2009, 2011b) nos levaram a observar o autor toma como hipótese para desenvolver sua proposta da que nesse itinerário, o narrador vive a experiência de existir na tríplice mimese, em Tempo e narrativa (tomo 1), com base nos fronteira entre duas posições: permanecer no lugar de resistên- conceitos "de tessitura da intriga (muthos)" e de "atividade mi- cia (na sua história, no seu projeto) ou aceitar a possibilidade mética (mimese)". A arte de tecer um enredo se realiza median- da emergência de uma versão diferente de si. Nesse intervalo, o te o encadeamento de três movimentos miméticos. O primeiro acompanhamento pelo formador (ou pelos pares) desempenha movimento, mimese I, está enraizado na pré-compreensão do um papel crucial como espaço de solidariedade na co-constru- mundo e da ação, de suas estruturas inteligíveis, suas fontes ção do sentido, suscetível de assegurar uma transição identitá- simbólicas e seu caráter temporal. O segundo momento, mime- ria, relativamente salutar, pois para muitos nem toda mudança se II, consiste em interpretar (compreender e explicar) os fatos, é desejada. O papel do outro no processo de biografização é operação que permite configurar a intriga, ou seja, atribuir uma constitutivo da ação de linguagem que o promove. Duas pro- ordem aos acontecimentos narrados e conferir uma totalidade postas exemplares desse processo de acompanhamento são temporal à história. A mimese III conclui o percurso. Se os dois apresentadas por Josso (2012) e Fortuna (2012) na segunda movimentos anteriores concernem ao processo de elaboração parte do presente livro. Josso faz uma releitura das figuras an- do texto, a mimese III se situa do lado de sua recepção e acom- tropológicas do acompanhamento, fundamentada em sua ex- panha o movimento de leitura de escuta de uma história periência de trinta anos de pesquisa-formação e as enriquece, singular. Essa atividade mimética se realiza, portanto, do lado não mais como a que acompanha do ouvinte e do leitor. outro a "caminhar para si", mas como o ser que se descobre du- O encadeamento desses três movimentos nos ajuda a com- rante o acompanhamento. Fortuna (2012) discute a ludobio- preender o enlace do fato biográfico com o processo de bio- grafia na formação docente e o seu poder de provocar, e não de grafização. O fato biográfico se aproxima da mimese I, ou seja, impor a reflexão, assim como de acolher as histórias pessoais caracteriza-se como um movimento de pré-compreensão de si: que emergem, voluntariamente, no jogo. um saber biográfico que nos constitui, enraizado no imaginário, A propósito da problemática levantada, anteriormente, sobre social, tecido de narrativas possíveis: uma textura antes de ser o projeto de si, admitimos como hipótese de trabalho que no texto e que se torna condição para que possamos experimentar adulto é comum a coexistência de pelo menos dois projetos de si: que vem ao nosso encontro no processo de escrita. Ricoeur um projeto anterior, amarelecido pelo tempo, e que já não satisfaz (2008, p.103) aponta a dificuldade de uma ruptura total com à condição atual do sujeito, e um projeto de si a ser elaborado as ideias recebidas, pois o indivíduo se encontra jamais no processo de biografização. A dificuldade do sujeito para se na posição soberana de separar de si mesmo a totalidade de desvencilhar de um projeto que perdeu suas cores pode ser mais seus condicionamentos". É a tomada de consciência dessa difi- culdade e a humildade de lutar contra o que nos enclausura que46 Reabrir passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 47 percorre o processo de biografização nas fases das mimeses II e III, nas quais se desenvolve o trabalho de interpretação e de su significado en función del todo, y el informe como totalidad textualização da história de vida e do projeto de si. depende a su vez del significado de cada parte". O trabalho de textualização exige que nos apropriemos de Mas é preciso lembrar que quando estamos diante de um texto (produzido ou em elaboração), encontramo-nos situados um gênero discursivo adequado à situação cultural de produ- ção e de recepção do texto. A elaboração de um diário íntimo entre o que lemos e nossas próprias experiências. O distancia- não é a mesma de um memorial ou de um curriculum vitae mento crítico exige o esforço de conferir essa autonomia ao texto, ter consciência de que ele nos diz "algo de algo" em si que exigem códigos diferentes, grades mais ou menos difusas, roteiros de contornos frouxos ou rígidos, que determinam as mesmo, e que inclusive pode nos impor um sentido inesperado ao que lemos. Quando o narrador não consegue se distanciar, operações de interpretação e de elaboração do texto e do ser, construído com o texto. Por sua vez, o trabalho de interpreta- por exemplo, do texto de seu projeto de vida para alterá-lo ou ção tem como propósito a apropriação do sentido despertado atualizá-lo, instala-se um círculo vicioso que se volta contra ele pela reflexão, permitindo ao narrador tomar consciência de sua mesmo. Esse poder da palavra vem do que se fixou no que foi historicidade. O trabalho de interpretação instala um circulo biografado. Como sair dessa versão de si? Considerando-se o hermenêutico entre compreender (voltar-se para si em busca de texto na perspectiva hermenêutica, que é a perspectiva do lei- sentido) e explicar (expressar o que compreendeu) num movi- tor, podemos dizer que cada texto produzido seria apenas um mento que transita de um para o outro: elo intermediário no processo permanente da compreensão de si, uma fase na realização dessa busca. Para Reis (2011, p. 297), "a narrativa emerge do segredo vivido e volta a ele, sem des- Da primeira vez a compreensão será a captação ingênua do mas biografar permite ao narrador reconhecer que a sentido do texto enquanto todo. Da segunda, será um modo sofisticado de compreensão apoiada em procedimentos experiencia vivida continua misteriosa e muda. A biografiza- explicativos. No princípio, a compreensão é uma conjectura, ção, enquanto ato de linguagem, envolvendo os processos de no fim satisfaz o conceito de apropriação [...] como a resposta textualização e de interpretação, não alcança jamais o mistério associada à plena objectivação do texto. A explicação surgirá, inefável do si mesmo. Nisso consiste a inenarrável condição pois, como a mediação entre dois estádios de compreensão (RICOEUR, 2011, p.105-106). biográfica do ser. Quando Enrenberg (2000) se refere às noções de "projeto", "motivação" e "comunicação" como palavras de ordem da nossa Para Ricoeur (2008, 2011) a hermenêutica do texto repousa época e as associa a estados de depressão que crescem desme- numa condição fundamental: a autonomia do texto ou da obra. suradamente na modernidade avançada, ou quando Bauman que caracteriza a obra é que ela transcende as condições psi- (2007) teoriza o efêmero sob a forma de tempos e amores líqui- cossociológicas de sua produção para se abrir, como nos diz o dos, podemos nos perguntar se os processos de biografização autor, a ilimitadas leituras e releituras. Essa autonomia é a con- dição necessária ao distanciamento crítico no trabalho de inter- respondem às condições turbulentas, por vezes dilacerantes, do clamor e do furor de autoconhecimento. Uma função psíquica pretação do mundo criado pelo texto. Para o autor, a distância importante do ato de narrar, como já afirmamos anteriormente, é um fato, o distanciamento é um método. Isso é válido para é a (re)elaboração de temas complexos e dramáticos da expe- quem narra; para quem acompanha, assim como para o pes- riência humana, não necessariamente para resolver seus dile- quisador que interpreta as narrativas com fins científicos. Para mas, sua tragicidade, mas para conferir aos acontecimentos um Bolivar (2012), o pesquisador na análise das narrativas realiza sentido que pode ser reinterpretado continuamente pelo indi- "una interpretación hermenéutica, donde cada parte adquiere víduo. Brandão (2012), ao investigar o universo mítico da iden-48 Reabrir 0 passado, inventar o devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M.B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 49 tidade docente a partir de fotografias produzidas por profes- sores, defende que as representações de si ali encontradas são as coisas, é um deus entre os deuses, que pretende disputar com verdadeiras "metáforas vivas", cuja análise permitiu depreender eles a posse do A linguagem (logos) como "tecnologia" três arquétipos diretores da identidade docente: Prometeu, inventada pelo humano faz dele, como sugere Cassirer (1994, Hermes e Narciso, suscetíveis de interferir, insidiosamente, nas p. 50), um animal simbólico, mais do que um animal racional. práticas cotidianas da sala de aula. As fotografias articulariam, Um ser paradoxalmente acorrentado à sua própria invenção, numa temporalidade criada pela biografização, o passado oci- da qual não pode escapar, mas que dela se serve como única dental e o presente dos professores, no contexto sociocultural via acesso à sua libertação. Como não fazer uma analogia com brasileiro. Em outras palavras, as "grandes" narrativas herdadas os mitos de Prometeu, Adão e Ícaro? Como não aproximar essa atravessam as "pequenas" narrativas do cotidiano; o imaginário busca da relação mítica do humano com a linguagem como um mítico formata as figuras do indivíduo-projeto. Não podemos, poder, um saber para ir mais longe, voar próximo da luz... portanto, ignorar as analogias inconscientes que essas figuras A fala, esse terreno movediço, onde mora e se debate o ser, míticas produzem em nossas vidas. Para Cassirer (1994, p.181) também é fonte do medo, da insegurança, da instabilidade, da existe uma relação tão íntima entre os mitos e a linguagem que incerteza crônica que experimentamos desde sempre. O que é impossível separá-los. caracteriza nosso tempo é que estamos cada vez mais conscien- A tese de Brandão (op. cit.) nos sensibiliza para a possibili- tes do poder da linguagem sobre nossa consciência e do que dade estabelecer uma analogia entre a biografização, enquanto podemos fazer com ela. Mas também estamos conscientes do busca irrefreável do conhecimento de si, e as grandes narrativas perigo de uma solidão cósmica, semelhante à descrição piage- que tematizam no imaginário ocidental a busca do conheci- tiana do egocentrismo infantil, situação em que todos falam mento. No mundo judaico-cristão: o mito de Adão; na mitolo- sem se falar propriamente. O sujeito que emerge do texto no gia grega: os mitos de Prometeu e Ícaro. Trata-se, nos três casos, processo de biografização permanecerá um ser que quer ser de seres castigados por se aproximarem indevidamente do co- compreendido e se compreender. Que assume criticamente a nhecimento, simbolizado pela árvore do bem e do mal, o fogo consciencia histórica de si sem abrir mão da busca da expres- e o sol. Mas,eles se apresentam também no imaginário como são de sua subjetividade. Essa é a dimensão simbólica de sua desafios face ao saber proibido, ao poder do outro e aos perigos condição biográfica da qual não pode escapar como ser que se da travessia. O processo de biografização como busca do (auto) anuncia e se constitui pela linguagem. O processo de biografi- conhecimento, pela apropriação da palavra, despertaria no nar- zação ao enlaçar o humano e a linguagem constitui o momento rador os mitos de Prometeu, Adão e Ícaro, que nos habitam à mítico em que duas histórias se encontram, trazendo em si o nossa revelia? Tudo conhecer (onisciência), tudo poder (oni- germe de sua fragilidade e a fonte de sua fortaleza. potência), ultrapassar os limites do aqui e do agora, estar no presente, no ontem e no amanhã (onipresença). Não teria sido Inconclusões essa a utopia do humano permitida, no Ocidente, desde que o pensamento grego descobriu a autonomia à linguagem? Como nos lembra Gusdorf (1998, p.22, tradução nossa), "a aventu- Nas palavras de Lechner (2011, p. 216), o processo de ra do pensamento ocidental começa quando a reflexão grega biografização oferece a pessoa que narra a possibilidade de se lança uma luz sobre a autonomia da palavra humana. Cabe ao apropriar de "uma 'liberdade' e de uma que todos os homem criar, senão as realidades da natureza, mas pelo menos indivíduos e todas as sociedades estão longe de o sentido dessas realidades. Por ela, o homem, medida de todas É a partir desse posicionamento que a pesquisa (auto)biográfica dá ao processo de biografização, realizado pelo homem comum50 Reabrir passado, inventar o devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 51 mesmo "acolhimento fervoroso" que a "tradição de leitura reserva às formas mais altas da poesia ou da filosofia". É nessa códigos operamos a ressignificação da experiência quando re- perspectiva que podemos pensar também a reflexividade fletimos sobre nós mesmos? É possível, como afirma Cassirer autobiográfica numa tripla direção: a situação de escrita; a do (1994, p.184), "que não haja problema mais desconcertante e acompanhamento e a da investigação científica, envolvendo, controvertido que o 'do significado do significado' respectivamente, narrador, o formador e o pesquisador no A escolha da obra de Ricoeur, em nossas pesquisas sobre processo de biografização: textualização e interpretação das o fato biográfico e biografização, deve-se à sua postura ética narrativas de si. de conceber o "si mesmo" em igual distância do "eu exaltado", Concordamos, ao longo de nossa reflexão, com o que nos que tem origem no Cogito cartesiano, do "eu humilhado", "de- diz Ricoeur (2008, p.104) a propósito do distanciamento do terminado", "assujeitado", que emerge como figura central em texto como instância de interpretação crítica dos fatos narra- diversas linhas de estudo, nas quais a subjetividade é vista com dos, na busca do sentido, sabendo-se que todo sentido é um as escritas de si como uma ilusão biográfica. Tal- sentido histórico. É sobre os pilares dessa instância crítica que vez também porque Ricouer considera em sua reflexão o ter- podemos pensar o trabalho de biografização como o esforço de reno movediço e plástico da linguagem e por tentar encontrar um "distanciar-se positivo" dos preconceitos, das ideias e das categorias que representem de algum modo a estabilidade e a convenções herdadas. Mas também como um distanciamento coerência (mesmo provisórias) que nos permite "navegar" no crítico das injunções que afligem e desestabilizam o ser-em- mundo da linguagem. Para Ricoeur (1990), o uso do si, por devir. Dessa consciência de nossa historicidade decorre a com- exemplo, tem a intenção de fazer um contraponto com a po- preensão da consciência histórica do nosso tempo. sição imediata do sujeito, tal como ela se expressa na primeira pessoa do singular "Eu "Eu sou". O si seria um pronome Discutimos que o processo de biografização, considerado omnipessoal e omnitemporal, ao qual acedemos pela mediação como espaço de reinvenção do ser, dá também lugar à reflexão reflexiva do eu: o si mesmo seria o eu refletindo, sofrendo e sobre os efeitos da privação do acesso à linguagem; da interdi- agindo. A originalidade de Ricoeur e sua contribuição à com- ção de memória; e o dever da memória para com os esquecidos preensão do humano apresenta-se como um marco filosófico da História. Em todos os casos, biografar implica para o sujei- to o direito de ser. Pois, é graças ao exercício da reflexividade que nos ajuda a pensar a condição biográfica em tempos de amores e de sociedades líquidos. O passado não seria imutável, autobiográfica, que o sujeito toma consciência de sua histori- ele pode ser reaberto e podemos lhe dar uma nova versão, re- cidade e de sua disposição para se manter aberto ao diferente, vivendo suas potencialidades ainda não realizadas. Os projetos a outros pontos de vista menos individuais e mais solidários. de si não teriam pressa de acontecer, não seria necessário reali- Vimos também que esse distanciamento implica a possibilida- de de contradições, crises, rejeição, desejos de reconhecimen- zar de imediato a travessia em busca de si, nem precipitar uma mudança para conhecer o desfecho. to, dilemas... Mas, se não entrássemos em contradição com a interpretação dada anteriormente às nossas experiências e aos Reconhecemos ter apenas ousado puxar alguns fios que nossos projetos, como poderíamos ir além da nossa individua- unem os conceitos de fato biográfico e biografização, na ten- lidade, ultrapassar a imediatez do presente, desfazermo-nos do tativa de nos acercar de questões epistemológicas das escritas projetos que se entulham e ir ao encontro de outras versões de da vida (auto.bio.grafias) que evidenciam 0 destino do humano nós mesmos e do outro? Nesse sentido, a consciência, funda- como ser dotado de linguagem sem a qual fenecem sua capa- da no interesse da emancipação, critica sua própria capacidade cidade de memória, seu poder para retraçar sua história e seu de reflexão e de interpretação. De fato, perguntamos com que querer projetar-se em devir. A nossa intenção acima de tudo foi falar das veredas em Educação, abertas pela pesquisa (auto)bio-52 Reabrir 0 passado, inventar devir: a inenarrável condição... Maria Passeggi, Maria Helena M. B. Abrahão e Christine Delory-Momberger 53 gráfica, que operam a passagem das teorias da suspeição do su- Referências jeito a teorias que conferem à subjetividade e à apropriação da palavra uma nova importância. Parece-nos que nada poderia melhor sintetizar nossas inconclusões do que esse pensamento ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. Le récit autobiogra- de Gusdorf (1998, p. 77, tradução nossa) do qual nos apropria- phique temps et dimensions de l'invention de soi. In: Souza E. C. (Org.). 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