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Aula 31 – Geração de 45 - Prosa 159 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Com base numa ideia central de Lucien Goldmann, o crítico e historiador Alfredo Bosi propõe, para a moderna ficção brasileira, enquadramentos como estes: I. romances de tensão mínima: as personagens não se destacam visceralmente da estrutura social e da paisagem que as condicionam. Exemplos, as histórias populistas de Jorge Amado. II. romances de tensão crítica: o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e da exploração social. Exemplos, os romances de Graciliano Ramos. III. romances de tensão transfigurada: o herói procura ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade: Exemplos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. (Apud História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970) Questão 01 (Puccamp 2016) Na literatura de Gracialiano Ramos, a luta contra as pressões da natureza e da exploração social ocorre de modo exemplar em I. Sagarana, em que a violência do meio e dos homens traz também consigo um voto de esperança na regeneração do espírito, tal como ocorre com os protagonistas. II. Caetés, romance em que o autor, retomando a dicção do indianismo romântico, dispõe-se a narrar a saga de uma tribo oprimida. III. Vidas secas, romance “em quadros”, como já foi classificado, no qual se relata o esforço de sobrevivência de Fabiano e de sua família. Atende ao enunciado o que está APENAS em a) I. b) II. c) III. d) I e II. e) II e III. Questão 02 (Ufrgs 2015) Considere os segmentos abaixo, retirados de Água Viva, de Clarice Lispector. Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não é possível cantá-la sem, tê-la decorado. E corno decorar uma coisa que não tem história? (...) Isto tudo que estou escrevendo é tão quente como um ovo quente que a gente passa depressa de uma mão para a outra e de novo da outra para a primeira a fim de não se queimar — já pintei um ovo. E agora como ria pintura só digo: ovo e basta. Leia as seguintes afirmações sobre os segmentos e a autora. I. Clarice Lispector é a grande representante da narrativa intimista brasileira, com sua prosa que explora a subjetividade, a partir do eu que absorve os temas do mundo. II. O enredo, na narrativa, está a serviço das reflexões e dos sentimentos, motivo pelo qual é possível chamá-la de prosa poética. III. A narradora tem consciência da limitação da palavra para representar a complexidade da vida e do mundo, por isso se contenta com a palavra mínima/a palavra básica. Quais estão corretas? a) Apenas I. d) Apenas I e III. b) Apenas II. e) I, II e III. c) Apenas I e II. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS QUESTÕES: O milagre das folhas 1Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes 2isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? 3Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria”. 4Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. 5Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou 6daqueles que rolam pedras durante séculos, e não 7daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes. Milagre, não. Mas as coincidências. 8Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada. 9Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. 10Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. 11Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. 12Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza. LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Organização e introdução. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 186-187. Questão 03 (Uece 2015) O personagem do texto percorre etapas para chegar, ao final, a um estado de epifania ou iluminação. Identifique esse percurso na ordem em que ele acontece. a) esperança; revolta; ceticismo (irônico); aceitação; certeza (do não merecimento de milagres); iluminação. b) revolta; certeza (do não merecimento de milagres); aceitação; ceticismo (raivoso); iluminação. c) conformação; revolta; ceticismo (raivoso); certeza (do não merecimento de milagres); iluminação. d) revolta; esperança; certeza (do não merecimento de milagres); ceticismo (raivoso); aceitação; iluminação. Questão 04 (Uece 2015) O texto diz que a) o fenômeno do milagre é privativo das pessoas que abraçam abertamente uma religião. b) é importante ver as pequenas coisas do cotidiano como milagres, ou manifestações de Deus. c) saber-se indignas de milagres deixa todas as pessoa confusas e revoltadas contra Deus. d) nem todo mundo é digno de receber um milagre da divindade. Questão 05 (Uece 2015) O pronome “isso” (ref. 2) constitui uma anáfora. Sobre ele é correto afirmar que I. além de anafórico, o “isso” aponta para a posição que o substantivo milagre ocupa no plano do texto, posição de anterioridade. 160 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) II. retoma a expressão “ouço falar” (ouvir falar de milagres) e aponta para a anterioridade dessa expressão no texto. III. tem conotações afetivas. Estão corretas as complementações contidas em a) I, II e III. b) I e III somente. c) II e III somente. d) I e II somente. Questão 06 (Uece 2015) O texto estrutura-se em pares opositivos. Marque com S a(s) oposição(ões) que se encontra(m) no texto e, com N, a(s) que não se encontra(m). ( ) milagres × esperança ( ) esperança × revolta ( ) milagre × coincidências ( ) folha × diamante ( ) (d)aqueles que rolam pedras durante séculos × (d)aqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos Está certa, de cima para baixo, a seguinte sequência: a) S, N, N, S, S. b) N, S, S, N, S. c) N, S, N, S, N. d) S, S, S, N, N. A sensível Foi então que ela atravessou uma crise que nada parecia ter a ver com sua vida: uma crise de profunda piedade. A cabeça tão limitada, tão bem penteada, mal podia suportar perdoar tanto. Não podia olhar o rosto de um tenor enquanto este cantava alegre – virava para o lado o rosto magoado, insuportável, por piedade, não suportando a glória do cantor. Na rua de repente comprimia o peito com as mãos enluvadas – assaltada de perdão. Sofria sem recompensa, sem mesmo a simpatia por si própria. Essa mesma senhora, que sofreu de sensibilidade como de doença, escolheu um domingo em que o marido viajava para procurar a bordadeira. Era mais um passeio que uma necessidade. Isso ela sempre soubera: passear. Como se ainda fosse a menina que passeia na calçada. Sobretudo passeava muito quando “sentia” que o marido a enganava. Assim foi procurar a bordadeira, no domingode manhã. Desceu uma rua cheia de lama, de galinhas e de crianças nuas – aonde fora se meter! A bordadeira, na casa cheia de filhos com cara de fome, o marido tuberculoso – a bordadeira recusou- se a bordar a toalha porque não gostava de fazer ponto de cruz! Saiu afrontada e perplexa. “Sentia-se” tão suja pelo calor da manhã, e um de seus prazeres era pensar que sempre, desde pequena, fora muito limpa. Em casa almoçou sozinha, deitou-se no quarto meio escurecido, cheia de sentimentos maduros e sem amargura. Oh pelo menos uma vez não “sentia” nada. Senão talvez a perplexidade diante da liberdade da bordadeira pobre. Senão talvez um sentimento de espera. A liberdade. (Clarice Lispector. Os melhores contos de Clarice Lispector, 1996.) Questão 07 (Unifesp 2014) A narrativa delineia entre as personagens da senhora e da bordadeira uma relação de a) cumplicidade, entendida como ajuda entre duas mulheres cujas vidas mostram-se tão distintas. b) animosidade, marcada pela recusa afrontosa da segunda em atender ao pedido emergencial da primeira. c) oposição, determinada pela superioridade social e econômica da primeira e a liberdade da segunda. d) sujeição, fortalecida naturalmente pelas condições econômicas da primeira, superiores às da segunda. e) incompreensão, decorrente do desejo da primeira de que a segunda trabalhasse num dia de domingo. Questão 08 (Ufsc 2014) Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão – os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabeça porque o cocoruto de uma cabeça devia ser, imaginava a tia, um ponto vital. Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na cabeça de ossos fracos por falta de cálcio. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual – a tia que não se casara por nojo – é que também considerava de dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem. Embora a menina não tivesse dado mostras de no futuro vir a ser vagabunda de rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. A 1mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. As pancadas ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor termina por passar. Mas o que doía mais era ser privada da sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão de sua vida. Pois não era que esse castigo se tornara o predileto da tia sabida? A menina não perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante de sua vida. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 28. Com base no texto, na leitura do romance A hora da estrela, lançado em 1977, e no contexto de sua publicação, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S). 01) Macabéa, personagem central de A hora da estrela, mantém ao longo da vida uma crença cega na igreja, traço incutido pela tia beata que a obrigara a decorar e a repetir os padre-nossos e as ave-marias desde menina. 02) No romance A hora da estrela, a autora tentou ocultar-se por trás do pseudônimo de Rodrigo S. M., um narrador onisciente intruso que busca o tempo todo problematizar o processo de criação. 04) O vocábulo "mulherice" (ref. 1) é um neologismo derivado do substantivo mulher. Diferentemente da condição física atribuída automaticamente às pessoas do sexo feminino, o narrador dá a entender que a "mulherice" seria constituída pela personagem ao longo do tempo, física e psicologicamente. 08) A datilógrafa Macabéa adorava goiabada com queijo, divertia- se recortando anúncios de jornais velhos, bebia o mesmo refrigerante que todos bebem, passeava aos finais de semana no cais e dividia seu quarto com outras cinco meninas, todas de nome Maria. Essa associação de Macabéa a banalidades, gostos, comportamentos e pessoas comuns ajuda a compor a imagem de uma mulher sem traços próprios, cópia sem viço de tantas outras sertanejas indigentes. 16) O romance de Clarice Lispector distancia-se, pelo tempo e pela temática, da geração de 1930; ainda carrega parte da crítica social característica daquele momento, mas a imagem da menina cuja herança do sertão é o raquitismo de retirante fica em segundo Aula 31 – Geração de 45 - Prosa 161 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência plano, ganhando maior relevo a problemática da modernização das cidades de Maceió e do Rio de Janeiro, locais onde Macabéa tenta ganhar a vida. 32) O título da obra revela forte ironia, tendo em vista que é algo que nunca se concretiza: a hora da estrela, quando finalmente Macabéa brilharia tal qual suas artistas de cinema preferidas, não ocorre, devido ao acidente fatal sofrido pela protagonista. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES: Mas eu vinha bem-andante, e ávido, aberto a todas as alegrias, querendo agarrar mais prazeres, horas de inteira terra. Por que vim? Foi-me dado, ainda no último momento, dizer que não, recusar-me a este posto. Perguntaram-me se eu queria. Ante a liberdade de escolha, hesitei. Deixei que o rumo se consumasse, temi o desvio de linhas 1irremissíveis e secretas, sempre foi a minha ânsia querer 2acumpliciar-me com o destino. E hoje, tenho a certeza: toda liberdade é fictícia, nenhuma escolha é permitida; já então, a mão secreta, a coisa interior que nos movimenta pelos caminhos árduos e certos, foi ela que me obrigou a aceitar. O mais-fundo de mim mesmo não tem pena de mim; e o mais-fundo de meus pensamentos nem entende as minhas palavras. ¹irremissível: imperdoável, irremediável, inevitável. ²acumpliciar-se: tornar-se cúmplice. (Guimarães Rosa, “Páramo” in: Estas Estórias) Questão 09 (Espm 2016) Segundo o texto: a) o que mais importa na vida é abraçar a liberdade. b) o maior desejo da personagem era ver trocado o próprio destino. c) o narrador não acredita na existência da liberdade de escolha. d) a “mão secreta” é responsável pela liberdade de escolha. e) o rumo da vida conduz inevitavelmente aos prazeres. Questão 10 (Espm 2016) Pela leitura do texto, pode-se concluir que o autor: a) tinha temor em tornar-se cúmplice do destino. b) desejava com alegria ludibriar a sorte da vida. c) recusou-se a aceitar o destino como é. d) julgava-se a princípio um ser livre. e) buscava caminhos certos no destino. Questão 11 (Espm 2016) Depreende-se da leitura do trecho final do texto que: a) a personagem se confunde, porque não consegue resolver o enigma de seu destino. b) o protagonista cumpre uma sina previamente traçada da qual não consegue escapar. c) o desentendimento entre pensamentos e palavras conduz o autor a um destino inesperado. d) o protagonista revela possuir tendências masoquistas ao dizer que não sente pena de si mesmo. e) O indivíduo que não toma as rédeas do destino acaba trilhando caminhos árduos. Questão 12 (Upe 2015) A terceira margem do rio Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente - minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhidaforte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: - "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: - "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.” ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. Analise as afirmativas a seguir: I. No fragmento do conto A terceira margem do rio, o leitor pode perceber que a linguagem utilizada pelo narrador tem especificidades que dão à narrativa um ritmo próprio e uma originalidade quando comparada a outros textos produzidos na mesma época, no Brasil. II. O narrador, um menino que presencia a partida do pai, também presencia a discordância da mãe em relação à atitude paterna. Em muitos momentos do conto, a linguagem do sertanejo, com seus trejeitos e modos, é enunciada pelo autor, confirmando seu estilo que merece sempre destaque. III. Os irmãos do narrador, mesmo diante da decisão do pai de ir embora, não esboçam qualquer reação. Eles sabem que o pai não voltará, mas não se importam. Essa declaração é confirmada pelo narrador do conto A terceira margem do rio, no momento em que ele diz: “Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um adeus para a gente”. IV. O pai do narrador, embora diante das contrariedades da esposa: “Nossa mãe jurou muito contra a ideia”, não mudava de ideia: “Nosso pai nada não dizia”. Em razão da qualidade narrativa, da história, do enredo, da boa psicologia das personagens, o conto de Guimarães Rosa permite muitas interpretações, muitas impressões sobre a atitude do pai do narrador. V. A decisão do pai do narrador de sair de casa foi motivada pelo fato de não suportar mais a convivência com aquela família repleta de problemas, vivenciando muitos desafios a serem vencidos. Isso fica evidenciado na hora em que o narrador diz: “Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.” 162 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) Está CORRETO a) I, II e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) II, III e IV. e) III, IV e V. Questão 13 (Ufsm 2015) Em A hora e a vez de Augusto Matraga (1946), de Guimarães Rosa, o personagem título, após longa penitência, tem uma espécie de revelação: Nhô Augusto sentia saudades de mulheres. E a força da vida nele latejava, em ondas largas, numa tensão confortante, que era um regresso e um ressurgimento. Assim, sim, que era bom fazer penitência, com a tentação estimulando, com o rasto no terreno conquistado, com o perigo e tudo. Nem pensou mais em morte, nem em ir para o céu [...]. Bastava-lhe rezar e aguentar firme, com o diabo ali perto, subjugado e apanhado de rijo, que era um prazer. A partir do fragmento, assinale a alternativa que expressa a visão de Matraga relativa às provações. a) A tentação é incorporada pelas mulheres que, segundo a perspectiva do personagem, são a origem de todos os tormentos. b) As dificuldades parecem positivas na concepção de Nhô Augusto, pois valorizam ainda mais a sua capacidade de resistência. c) A visão do personagem demonstra a sua admiração pelo Mal, elemento que se sobrepõe ao Bem. d) As tentações, de acordo com o pensamento de Matraga, devem ser evitadas a todo custo, já que aproximam o homem da danação. e) Segundo o pensamento de Matraga, deve-se, eventualmente, ceder à tentação para lembrar que somos apenas humanos. Questão 14 (Ufrgs 2016) Leia o trecho do romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, abaixo. Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa. Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. E para o dito volto. Como eu estava, com o senhor, no meio dos hermógenes. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o trecho. ( ) Riobaldo, narrador da história, tem consciência de que sua narrativa obedece ao fluxo da memória e não à cronologia dos fatos. ( ) A ignorância de Riobaldo é expressa pelos erros gramaticais e pela inabilidade em contar sua história, que carece de ordenação. ( ) “A sobre-coisa, a outra-coisa”, que o compadre Quelemém quer, é a interpretação da própria vivência e não o simples relato dos acontecimentos. ( ) O ouvinte exerce um papel importante, pois obriga Riobaldo a organizar a narrativa e a dar significado ao narrado. a) F – V – V – F. b) V – V – F – V. c) V – F – V – V. d) F – F – V – F. e) F – V – F – V. Questão 15 (Uneb 2014) [...] Vinham vindo, com o trazer de comitiva. Aí, paravam. A filha–a moça–tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras–o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espantados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas– virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam. Soroco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Soroco–para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele espondia: – “Deus vos pague essa despesa...” O que os outros diziam: que Soroco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. [...] Tomara aquilo acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre. [...] Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido,e virou, pra ir-s’ embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta. Mas parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido — ele começou a cantar, alterando, forte, mas sozinho para si-e era a cantiga, mesma de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando. ROSA, João Guimarães. “Soroco sua mãe, sua filha”. Primeiras estórias. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olyimpio, s.d. p. 16-18. Guimarães Rosa, escritor inserido na chamada Geração de 45 — Modernismo Brasileiro —, apresenta uma obra de cunho universalista. O texto comprova isso porque a) se trata de uma prosa poética. b) revela o pitoresco de uma cidade interiorana. c) é escrito numa linguagem rica em neologismos. d) enfoca um tema de caráter intimista e ligado à condição humana. e) evidencia um problema de ordem social que atinge os mais pobres. CURSO ANUAL DE LITERATURA Prof. Steller de Paula – VOLUME 2 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência AULA 32 - REALISMO E NATURALISMO A GERAÇÃO DE 45 - POESIA Por volta de 1945, um grupo de poetas passou a problematizar a linguagem literária brasileira. Sob a liderança de Ledo Ivo, esse grupo de poetas reuniu-se em torno da publicação de uma revista literária, chamada Orfeu, com o objetivo de “exprimir um novo estágio da inteligência e da capacidade de rebelião brasileira”, segundo Ledo Ivo e “conciliar os objetivos estéticos do Modernismo com os princípios mais sólidos e permanentes da técnica de composição literária”, segundo Domingos Carvalho da Silva. Perseguiu-se, então, o rigor da expressão, ao ponto de a crítica falar em neoparnasianismo, tal a obsessão rigorosa com a perfeição formal. São dessa geração, dentre outros: João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barro, Ledo Ivo, Geir Campos, Domingos Carvalho da Silva, Paulo Mendes Campos, Hélio Pelegrino, Péricles Eugênio da Silva Ramos, José Paulo Paes e Hilda Hilst. As Necessidades Uma porta fechada não é suficiente para que o homem Esconda o seu amor. Ele também necessita de uma porta aberta Para poder partir e se perder na multidão quando esse amor explodir Como o barril de pólvora no arsenal alcançado pelo raio. Um telhado não basta para que o homem se proteja Do calor e da tempestade. Para fugir ao relâmpago Ele precisa de um corpo estendido na cama E ao alcance da mão ainda temerosa De avançar no escuro quando a chuva cai no silêncio do mundo aberto como uma fruta Entre dois estrondos. Na noite que declina, no dia que nasce, O homem precisa de tudo: do amor e do raio. Ledo Ivo Texto Crítico “Ao fim da Segunda Guerra, um grupo de poetas constituiu a “geração de 45”, assim chamada porque é possível anotar algumas direções – genéricas embora – que em maior ou menor grau estavam presentes em sua obra naquele momento. Veja-se, no exemplo sempre citado da obra de João Cabral de Melo Neto, a necessidade de expressão rigorosa, a busca da palavra única que circunscreve de maneira exata e precisa a feição substantiva do tema. Se a poesia de 45 foi tida como neoparnasiana, o fato vem de que se entrevê, nela, a tendência formalista, decorrentes das exigências a que submetia o modo de dizer as coisas. Tal procedimento não obstou ao surgimento de um lirismo novo, agressivo e intenso, a depor sobre um tempo que, parece, desdenhava a manifestação poética.” Amauri Sanches JOÃO CABRAL DE MELO NETO Obras principais: Pedra do sono (1942); O engenheiro (1945); Psicologia da composição (1947); O cão sem plumas (1950); Morte e vida severina (1956); A educação pela pedra (1966); Museu de tudo (1975). “Sou um poeta intelectual, não sou lírico; sou um poeta construtor, construtivista, e não um poeta espontâneo.” Guiado pelo raciocínio lógico, João Cabral voltou-se para a concretude, para a análise objetiva da realidade. João Cabral de Melo apresentava uma grande preocupação com a construção formal de seus textos, procurando eliminar tudo o que fosse supérfluo. Caracterizou-se pela linguagem direta e precisa, contrária ao subjetivismo. Para ele os poemas não eram fruto de inspiração, mas de construção. Daí ser conhecido como o “engenheiro das palavras”. Sua obra se articula como uma profunda reflexão sobre o fazer poético. A poesia é entendida como esforço em busca da síntese, do despojamento total. Poesia é lenta e sofrida pesquisa de expressão: “Não a forma encontrada como uma concha, perdida nos frouxos areais como cabelos; não a forma obtida em lance santo ou raro, tiro nas lebres de vidro do invisível; mas a forma atingida como a ponta do novelo que a atenção, lenta, aranha; como o mais extremo desse fio frágil, que se rompe ao peso, sempre, das mãos enormes.” João Cabral de Melo Neto Catar feijão se limita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar o dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a com o risco. João Cabral de Melo Neto A educação pela pedra Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal SEMANA 32 - LITERATURA - Realismo e Naturalismo - STELLER