Logo Passei Direto
Buscar

Literatura II -33

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Aula 31 – Geração de 45 - Prosa 
 
 
 
 
 
 
159 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
Com base numa ideia central de Lucien Goldmann, o crítico e 
historiador Alfredo Bosi propõe, para a moderna ficção brasileira, 
enquadramentos como estes: 
I. romances de tensão mínima: as personagens não se destacam 
visceralmente da estrutura social e da paisagem que as 
condicionam. Exemplos, as histórias populistas de Jorge Amado. 
II. romances de tensão crítica: o herói opõe-se e resiste 
agonicamente às pressões da natureza e da exploração social. 
Exemplos, os romances de Graciliano Ramos. 
III. romances de tensão transfigurada: o herói procura 
ultrapassar o conflito que o constitui existencialmente pela 
transmutação mítica ou metafísica da realidade: Exemplos, 
Guimarães Rosa e Clarice Lispector. 
(Apud História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970) 
 
Questão 01 (Puccamp 2016) 
Na literatura de Gracialiano Ramos, a luta contra as pressões da 
natureza e da exploração social ocorre de modo exemplar em 
I. Sagarana, em que a violência do meio e dos homens traz 
também consigo um voto de esperança na regeneração do espírito, 
tal como ocorre com os protagonistas. 
II. Caetés, romance em que o autor, retomando a dicção do 
indianismo romântico, dispõe-se a narrar a saga de uma tribo 
oprimida. 
III. Vidas secas, romance “em quadros”, como já foi classificado, no 
qual se relata o esforço de sobrevivência de Fabiano e de sua 
família. 
Atende ao enunciado o que está APENAS em 
a) I. b) II. c) III. d) I e II. e) II e III. 
 
Questão 02 (Ufrgs 2015) 
Considere os segmentos abaixo, retirados de Água Viva, de Clarice 
Lispector. 
Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha 
música, não é possível cantá-la sem, tê-la decorado. E corno 
decorar uma coisa que não tem história? 
(...) 
Isto tudo que estou escrevendo é tão quente como um ovo quente 
que a gente passa depressa de uma mão para a outra e de novo 
da outra para a primeira a fim de não se queimar — já pintei um 
ovo. E agora como ria pintura só digo: ovo e basta. 
 
Leia as seguintes afirmações sobre os segmentos e a autora. 
I. Clarice Lispector é a grande representante da narrativa intimista 
brasileira, com sua prosa que explora a subjetividade, a partir do 
eu que absorve os temas do mundo. 
II. O enredo, na narrativa, está a serviço das reflexões e dos 
sentimentos, motivo pelo qual é possível chamá-la de prosa 
poética. 
III. A narradora tem consciência da limitação da palavra para 
representar a complexidade da vida e do mundo, por isso se 
contenta com a palavra mínima/a palavra básica. 
Quais estão corretas? 
a) Apenas I. d) Apenas I e III. 
b) Apenas II. e) I, II e III. 
c) Apenas I e II. 
 
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS QUESTÕES: 
O milagre das folhas 
1Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes 2isso 
me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a 
mim? Por que só de ouvir falar? 3Pois já cheguei a ouvir conversas 
assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada 
palavra, um objeto de estimação se quebraria”. 4Meus objetos se 
quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. 
5Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou 6daqueles 
que rolam pedras durante séculos, e não 7daqueles para os quais 
os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões 
fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi 
tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), 
capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes. 
Milagre, não. Mas as coincidências. 8Vivo de coincidências, vivo de 
linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento 
formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que 
mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria 
falando em nada. 
9Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando 
pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A 
incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma 
única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. 
10Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar 
modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a 
folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto 
diamante. 
11Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha 
seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche 
morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas 
coincidirão comigo. 
12Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma 
grande delicadeza. 
LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Organização e introdução. As 
cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 186-187. 
 
Questão 03 (Uece 2015) 
O personagem do texto percorre etapas para chegar, ao final, a um 
estado de epifania ou iluminação. Identifique esse percurso na 
ordem em que ele acontece. 
a) esperança; revolta; ceticismo (irônico); aceitação; certeza (do 
não merecimento de milagres); iluminação. 
b) revolta; certeza (do não merecimento de milagres); aceitação; 
ceticismo (raivoso); iluminação. 
c) conformação; revolta; ceticismo (raivoso); certeza (do não 
merecimento de milagres); iluminação. 
d) revolta; esperança; certeza (do não merecimento de milagres); 
ceticismo (raivoso); aceitação; iluminação. 
 
Questão 04 (Uece 2015) 
O texto diz que 
a) o fenômeno do milagre é privativo das pessoas que abraçam 
abertamente uma religião. 
b) é importante ver as pequenas coisas do cotidiano como 
milagres, ou manifestações de Deus. 
c) saber-se indignas de milagres deixa todas as pessoa confusas e 
revoltadas contra Deus. 
d) nem todo mundo é digno de receber um milagre da divindade. 
 
Questão 05 (Uece 2015) 
O pronome “isso” (ref. 2) constitui uma anáfora. Sobre ele é correto 
afirmar que 
I. além de anafórico, o “isso” aponta para a posição que o 
substantivo milagre ocupa no plano do texto, posição de 
anterioridade. 
 
 
 
 
 160 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
II. retoma a expressão “ouço falar” (ouvir falar de milagres) e 
aponta para a anterioridade dessa expressão no texto. 
III. tem conotações afetivas. 
Estão corretas as complementações contidas em 
a) I, II e III. 
b) I e III somente. 
c) II e III somente. 
d) I e II somente. 
 
Questão 06 (Uece 2015) 
O texto estrutura-se em pares opositivos. Marque com S a(s) 
oposição(ões) que se encontra(m) no texto e, com N, a(s) que não 
se encontra(m). 
( ) milagres × esperança 
( ) esperança × revolta 
( ) milagre × coincidências 
( ) folha × diamante 
( ) (d)aqueles que rolam pedras durante séculos × (d)aqueles 
para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos 
Está certa, de cima para baixo, a seguinte sequência: 
a) S, N, N, S, S. 
b) N, S, S, N, S. 
c) N, S, N, S, N. 
d) S, S, S, N, N. 
 
A sensível 
Foi então que ela atravessou uma crise que nada parecia ter a ver 
com sua vida: uma crise de profunda piedade. A cabeça tão 
limitada, tão bem penteada, mal podia suportar perdoar tanto. Não 
podia olhar o rosto de um tenor enquanto este cantava alegre – 
virava para o lado o rosto magoado, insuportável, por piedade, não 
suportando a glória do cantor. Na rua de repente comprimia o peito 
com as mãos enluvadas – assaltada de perdão. Sofria sem 
recompensa, sem mesmo a simpatia por si própria. 
Essa mesma senhora, que sofreu de sensibilidade como de 
doença, escolheu um domingo em que o marido viajava para 
procurar a bordadeira. Era mais um passeio que uma necessidade. 
Isso ela sempre soubera: passear. Como se ainda fosse a menina 
que passeia na calçada. Sobretudo passeava muito quando 
“sentia” que o marido a enganava. Assim foi procurar a bordadeira, 
no domingode manhã. Desceu uma rua cheia de lama, de galinhas 
e de crianças nuas – aonde fora se meter! A bordadeira, na casa 
cheia de filhos com cara de fome, o marido tuberculoso – a 
bordadeira recusou- se a bordar a toalha porque não gostava de 
fazer ponto de cruz! Saiu afrontada e perplexa. “Sentia-se” tão suja 
pelo calor da manhã, e um de seus prazeres era pensar que 
sempre, desde pequena, fora muito limpa. Em casa almoçou 
sozinha, deitou-se no quarto meio escurecido, cheia de 
sentimentos maduros e sem amargura. Oh pelo menos uma vez 
não “sentia” nada. Senão talvez a perplexidade diante da liberdade 
da bordadeira pobre. Senão talvez um sentimento de espera. A 
liberdade. 
(Clarice Lispector. Os melhores contos de Clarice Lispector, 1996.) 
 
Questão 07 (Unifesp 2014) 
A narrativa delineia entre as personagens da senhora e da 
bordadeira uma relação de 
a) cumplicidade, entendida como ajuda entre duas mulheres cujas 
vidas mostram-se tão distintas. 
b) animosidade, marcada pela recusa afrontosa da segunda em 
atender ao pedido emergencial da primeira. 
c) oposição, determinada pela superioridade social e econômica da 
primeira e a liberdade da segunda. 
d) sujeição, fortalecida naturalmente pelas condições econômicas 
da primeira, superiores às da segunda. 
e) incompreensão, decorrente do desejo da primeira de que a 
segunda trabalhasse num dia de domingo. 
 
Questão 08 (Ufsc 2014) 
Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão – os maus 
antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam 
morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o 
diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia 
beata, única parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava de 
coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da 
cabeça porque o cocoruto de uma cabeça devia ser, imaginava a 
tia, um ponto vital. Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na 
cabeça de ossos fracos por falta de cálcio. Batia mas não era 
somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual – a tia 
que não se casara por nojo – é que também considerava de dever 
seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças 
que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando 
homem. Embora a menina não tivesse dado mostras de no futuro 
vir a ser vagabunda de rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma 
mulher não parecia pertencer à sua vocação. A 1mulherice só lhe 
nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. 
As pancadas ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor 
termina por passar. Mas o que doía mais era ser privada da 
sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão 
de sua vida. Pois não era que esse castigo se tornara o predileto 
da tia sabida? A menina não perguntava por que era sempre 
castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte 
importante de sua vida. 
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 28. 
 
Com base no texto, na leitura do romance A hora da estrela, 
lançado em 1977, e no contexto de sua publicação, assinale a(s) 
proposição(ões) CORRETA(S). 
01) Macabéa, personagem central de A hora da estrela, mantém 
ao longo da vida uma crença cega na igreja, traço incutido pela tia 
beata que a obrigara a decorar e a repetir os padre-nossos e as 
ave-marias desde menina. 
02) No romance A hora da estrela, a autora tentou ocultar-se por 
trás do pseudônimo de Rodrigo S. M., um narrador onisciente 
intruso que busca o tempo todo problematizar o processo de 
criação. 
04) O vocábulo "mulherice" (ref. 1) é um neologismo derivado do 
substantivo mulher. Diferentemente da condição física atribuída 
automaticamente às pessoas do sexo feminino, o narrador dá a 
entender que a "mulherice" seria constituída pela personagem ao 
longo do tempo, física e psicologicamente. 
08) A datilógrafa Macabéa adorava goiabada com queijo, divertia-
se recortando anúncios de jornais velhos, bebia o mesmo 
refrigerante que todos bebem, passeava aos finais de semana no 
cais e dividia seu quarto com outras cinco meninas, todas de nome 
Maria. Essa associação de Macabéa a banalidades, gostos, 
comportamentos e pessoas comuns ajuda a compor a imagem de 
uma mulher sem traços próprios, cópia sem viço de tantas outras 
sertanejas indigentes. 
16) O romance de Clarice Lispector distancia-se, pelo tempo e pela 
temática, da geração de 1930; ainda carrega parte da crítica social 
característica daquele momento, mas a imagem da menina cuja 
herança do sertão é o raquitismo de retirante fica em segundo 
Aula 31 – Geração de 45 - Prosa 
 
 
 
 
 
 
161 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
plano, ganhando maior relevo a problemática da modernização das 
cidades de Maceió e do Rio de Janeiro, locais onde Macabéa tenta 
ganhar a vida. 
32) O título da obra revela forte ironia, tendo em vista que é algo 
que nunca se concretiza: a hora da estrela, quando finalmente 
Macabéa brilharia tal qual suas artistas de cinema preferidas, não 
ocorre, devido ao acidente fatal sofrido pela protagonista. 
 
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES: 
Mas eu vinha bem-andante, e ávido, aberto a todas as alegrias, 
querendo agarrar mais prazeres, horas de inteira terra. Por que 
vim? Foi-me dado, ainda no último momento, dizer que não, 
recusar-me a este posto. Perguntaram-me se eu queria. Ante a 
liberdade de escolha, hesitei. Deixei que o rumo se consumasse, 
temi o desvio de linhas 1irremissíveis e secretas, sempre foi a 
minha ânsia querer 2acumpliciar-me com o destino. E hoje, tenho a 
certeza: toda liberdade é fictícia, nenhuma escolha é permitida; já 
então, a mão secreta, a coisa interior que nos movimenta pelos 
caminhos árduos e certos, foi ela que me obrigou a aceitar. O 
mais-fundo de mim mesmo não tem pena de mim; e o mais-fundo 
de meus pensamentos nem entende as minhas palavras. 
¹irremissível: imperdoável, irremediável, inevitável. 
²acumpliciar-se: tornar-se cúmplice. 
(Guimarães Rosa, “Páramo” in: Estas Estórias) 
 
Questão 09 (Espm 2016) 
Segundo o texto: 
a) o que mais importa na vida é abraçar a liberdade. 
b) o maior desejo da personagem era ver trocado o próprio destino. 
c) o narrador não acredita na existência da liberdade de escolha. 
d) a “mão secreta” é responsável pela liberdade de escolha. 
e) o rumo da vida conduz inevitavelmente aos prazeres. 
 
Questão 10 (Espm 2016) 
Pela leitura do texto, pode-se concluir que o autor: 
a) tinha temor em tornar-se cúmplice do destino. 
b) desejava com alegria ludibriar a sorte da vida. 
c) recusou-se a aceitar o destino como é. 
d) julgava-se a princípio um ser livre. 
e) buscava caminhos certos no destino. 
 
Questão 11 (Espm 2016) 
Depreende-se da leitura do trecho final do texto que: 
a) a personagem se confunde, porque não consegue resolver o 
enigma de seu destino. 
b) o protagonista cumpre uma sina previamente traçada da qual 
não consegue escapar. 
c) o desentendimento entre pensamentos e palavras conduz o 
autor a um destino inesperado. 
d) o protagonista revela possuir tendências masoquistas ao dizer 
que não sente pena de si mesmo. 
e) O indivíduo que não toma as rédeas do destino acaba trilhando 
caminhos árduos. 
 
Questão 12 (Upe 2015) 
A terceira margem do rio 
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim 
desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas 
sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu 
mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste 
do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era 
quem regia, e que ralhava no diário com a gente - minha irmã, meu 
irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer 
para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de 
pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como 
para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, 
escolhidaforte e arqueada em rijo, própria para dever durar na 
água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. 
Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora 
para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, 
no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de 
légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que 
sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E 
esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem 
alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um 
adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula 
e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente 
achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, 
mascou o beiço e bramou: - "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" 
Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me 
acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa 
mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, 
chega que um propósito perguntei: - "Pai, o senhor me leva junto, 
nessa sua canoa?" Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a 
bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas 
ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na 
canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a 
sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. Nosso pai 
não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a 
invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a 
meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.” 
ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In Primeiras Estórias. 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 
 
Analise as afirmativas a seguir: 
I. No fragmento do conto A terceira margem do rio, o leitor pode 
perceber que a linguagem utilizada pelo narrador tem 
especificidades que dão à narrativa um ritmo próprio e uma 
originalidade quando comparada a outros textos produzidos na 
mesma época, no Brasil. 
II. O narrador, um menino que presencia a partida do pai, também 
presencia a discordância da mãe em relação à atitude paterna. Em 
muitos momentos do conto, a linguagem do sertanejo, com seus 
trejeitos e modos, é enunciada pelo autor, confirmando seu estilo 
que merece sempre destaque. 
III. Os irmãos do narrador, mesmo diante da decisão do pai de ir 
embora, não esboçam qualquer reação. Eles sabem que o pai não 
voltará, mas não se importam. Essa declaração é confirmada pelo 
narrador do conto A terceira margem do rio, no momento em que 
ele diz: “Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e 
decidiu. Um adeus para a gente”. 
IV. O pai do narrador, embora diante das contrariedades da 
esposa: “Nossa mãe jurou muito contra a ideia”, não mudava de 
ideia: “Nosso pai nada não dizia”. Em razão da qualidade narrativa, 
da história, do enredo, da boa psicologia das personagens, o conto 
de Guimarães Rosa permite muitas interpretações, muitas 
impressões sobre a atitude do pai do narrador. 
V. A decisão do pai do narrador de sair de casa foi motivada pelo 
fato de não suportar mais a convivência com aquela família repleta 
de problemas, vivenciando muitos desafios a serem vencidos. Isso 
fica evidenciado na hora em que o narrador diz: “Ele só retomou a 
olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando 
para trás.” 
 
 
 
 
 162 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
Está CORRETO 
a) I, II e III. 
b) I, II e IV. 
c) I, III e IV. 
d) II, III e IV. 
e) III, IV e V. 
 
Questão 13 (Ufsm 2015) 
Em A hora e a vez de Augusto Matraga (1946), de Guimarães 
Rosa, o personagem título, após longa penitência, tem uma 
espécie de revelação: 
Nhô Augusto sentia saudades de mulheres. E a força da vida nele 
latejava, em ondas largas, numa tensão confortante, que era um 
regresso e um ressurgimento. Assim, sim, que era bom fazer 
penitência, com a tentação estimulando, com o rasto no terreno 
conquistado, com o perigo e tudo. Nem pensou mais em morte, 
nem em ir para o céu [...]. Bastava-lhe rezar e aguentar firme, com 
o diabo ali perto, subjugado e apanhado de rijo, que era um prazer. 
A partir do fragmento, assinale a alternativa que expressa a visão 
de Matraga relativa às provações. 
a) A tentação é incorporada pelas mulheres que, segundo a 
perspectiva do personagem, são a origem de todos os tormentos. 
b) As dificuldades parecem positivas na concepção de Nhô 
Augusto, pois valorizam ainda mais a sua capacidade de 
resistência. 
c) A visão do personagem demonstra a sua admiração pelo Mal, 
elemento que se sobrepõe ao Bem. 
d) As tentações, de acordo com o pensamento de Matraga, devem 
ser evitadas a todo custo, já que aproximam o homem da danação. 
e) Segundo o pensamento de Matraga, deve-se, eventualmente, 
ceder à tentação para lembrar que somos apenas humanos. 
 
Questão 14 (Ufrgs 2016) 
Leia o trecho do romance Grande sertão: veredas, de João 
Guimarães Rosa, abaixo. 
Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, 
em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no 
contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, 
quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o 
compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso: quer 
não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa. 
Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando com 
devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar 
corrigido. E para o dito volto. Como eu estava, com o senhor, no 
meio dos hermógenes. 
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações 
sobre o trecho. 
( ) Riobaldo, narrador da história, tem consciência de que sua 
narrativa obedece ao fluxo da memória e não à cronologia dos 
fatos. 
( ) A ignorância de Riobaldo é expressa pelos erros gramaticais 
e pela inabilidade em contar sua história, que carece de 
ordenação. 
( ) “A sobre-coisa, a outra-coisa”, que o compadre Quelemém 
quer, é a interpretação da própria vivência e não o simples relato 
dos acontecimentos. 
( ) O ouvinte exerce um papel importante, pois obriga Riobaldo a 
organizar a narrativa e a dar significado ao narrado. 
a) F – V – V – F. b) V – V – F – V. c) V – F – V – V. 
d) F – F – V – F. e) F – V – F – V. 
 
Questão 15 (Uneb 2014) 
 [...] Vinham vindo, com o trazer de comitiva. 
Aí, paravam. A filha–a moça–tinha pegado a cantar, levantando os 
braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer 
das palavras–o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem 
os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num 
aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas 
cores, uma carapuça em cima dos espantados cabelos, e enfunada 
em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, 
dependuradas– virundangas: matéria de maluco. A velha só estava 
de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos 
docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam. 
Soroco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em 
mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. 
Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não 
querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e 
despropósitos, de fazer risos, e por conta de Soroco–para não 
parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de 
paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os 
maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam 
a ele seus respeitos, de dó. Ele espondia: – “Deus vos pague essa 
despesa...” 
O que os outros diziam: que Soroco tinha tido muita paciência. 
Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, 
era até um alívio. [...] 
Tomara aquilo acabasse. O trem chegando, a máquina 
manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e 
passou, se foi, o de sempre. [...] 
Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido,e virou, 
pra ir-s’ embora. Estava voltando para casa, como se estivesse 
indo para longe, fora de conta. 
Mas parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de 
si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E 
foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num 
rompido — ele começou a cantar, alterando, forte, mas sozinho 
para si-e era a cantiga, mesma de desatino, que as duas tanto 
tinham cantado. Cantava continuando. 
ROSA, João Guimarães. “Soroco sua mãe, sua filha”. Primeiras estórias. 4. ed. Rio 
de Janeiro: José Olyimpio, s.d. p. 16-18. 
 
Guimarães Rosa, escritor inserido na chamada Geração de 45 — 
Modernismo Brasileiro —, apresenta uma obra de cunho 
universalista. 
O texto comprova isso porque 
a) se trata de uma prosa poética. 
b) revela o pitoresco de uma cidade interiorana. 
c) é escrito numa linguagem rica em neologismos. 
d) enfoca um tema de caráter intimista e ligado à condição 
humana. 
e) evidencia um problema de ordem social que atinge os mais 
pobres. 
 
 
 
 
 
 
 
CURSO ANUAL DE LITERATURA 
Prof. Steller de Paula – VOLUME 2 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
AULA 32 - REALISMO E NATURALISMO 
A GERAÇÃO DE 45 - POESIA 
Por volta de 1945, um grupo de poetas passou a problematizar a 
linguagem literária brasileira. Sob a liderança de Ledo Ivo, esse 
grupo de poetas reuniu-se em torno da publicação de uma revista 
literária, chamada Orfeu, com o objetivo de “exprimir um novo 
estágio da inteligência e da capacidade de rebelião brasileira”, 
segundo Ledo Ivo e “conciliar os objetivos estéticos do Modernismo 
com os princípios mais sólidos e permanentes da técnica de 
composição literária”, segundo Domingos Carvalho da Silva. 
Perseguiu-se, então, o rigor da expressão, ao ponto de a crítica 
falar em neoparnasianismo, tal a obsessão rigorosa com a 
perfeição formal. São dessa geração, dentre outros: João Cabral 
de Melo Neto, Manoel de Barro, Ledo Ivo, Geir Campos, Domingos 
Carvalho da Silva, Paulo Mendes Campos, Hélio Pelegrino, 
Péricles Eugênio da Silva Ramos, José Paulo Paes e Hilda Hilst. 
As Necessidades 
Uma porta fechada não é suficiente para que o homem 
Esconda o seu amor. Ele também necessita de uma porta aberta 
Para poder partir e se perder na multidão quando esse amor 
explodir 
Como o barril de pólvora no arsenal alcançado pelo raio. 
 
Um telhado não basta para que o homem se proteja 
Do calor e da tempestade. Para fugir ao relâmpago 
Ele precisa de um corpo estendido na cama 
E ao alcance da mão ainda temerosa 
De avançar no escuro quando a chuva cai no silêncio do mundo 
aberto como uma fruta 
Entre dois estrondos. 
 
Na noite que declina, no dia que nasce, 
O homem precisa de tudo: do amor e do raio. 
Ledo Ivo 
Texto Crítico 
“Ao fim da Segunda Guerra, um grupo de poetas constituiu a 
“geração de 45”, assim chamada porque é possível anotar algumas 
direções – genéricas embora – que em maior ou menor grau 
estavam presentes em sua obra naquele momento. 
Veja-se, no exemplo sempre citado da obra de João Cabral de 
Melo Neto, a necessidade de expressão rigorosa, a busca da 
palavra única que circunscreve de maneira exata e precisa a feição 
substantiva do tema. 
Se a poesia de 45 foi tida como neoparnasiana, o fato vem de que 
se entrevê, nela, a tendência formalista, decorrentes das 
exigências a que submetia o modo de dizer as coisas. Tal 
procedimento não obstou ao surgimento de um lirismo novo, 
agressivo e intenso, a depor sobre um tempo que, parece, 
desdenhava a manifestação poética.” 
Amauri Sanches 
JOÃO CABRAL DE MELO NETO 
Obras principais: 
Pedra do sono (1942); O engenheiro (1945); Psicologia da 
composição (1947); O cão sem plumas (1950); Morte e vida 
severina (1956); A educação pela pedra (1966); Museu de tudo 
(1975). 
“Sou um poeta intelectual, não sou lírico; sou um poeta construtor, 
construtivista, e não um poeta espontâneo.” 
Guiado pelo raciocínio lógico, João Cabral voltou-se para a 
concretude, para a análise objetiva da realidade. 
João Cabral de Melo apresentava uma grande preocupação com a 
construção formal de seus textos, procurando eliminar tudo o que 
fosse supérfluo. Caracterizou-se pela linguagem direta e precisa, 
contrária ao subjetivismo. Para ele os poemas não eram fruto de 
inspiração, mas de construção. Daí ser conhecido como o 
“engenheiro das palavras”. 
Sua obra se articula como uma profunda reflexão sobre o fazer 
poético. A poesia é entendida como esforço em busca da síntese, 
do despojamento total. Poesia é lenta e sofrida pesquisa de 
expressão: 
 
“Não a forma encontrada 
como uma concha, perdida 
nos frouxos areais 
como cabelos; 
 
não a forma obtida 
em lance santo ou raro, 
tiro nas lebres de vidro 
do invisível; 
 
mas a forma atingida 
como a ponta do novelo 
que a atenção, lenta, 
aranha; como o mais extremo 
desse fio frágil, que se rompe 
ao peso, sempre, das mãos enormes.” 
João Cabral de Melo Neto 
 
Catar feijão se limita com escrever: 
joga-se os grãos na água do alguidar 
e as palavras na folha de papel; 
e depois, joga-se fora o que boiar. 
Certo, toda palavra boiará no papel, 
água congelada, por chumbo seu verbo: 
pois para catar esse feijão, soprar nele, 
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco: 
o de que entre os grãos pesados entre 
um grão qualquer, pedra ou indigesto, 
um grão imastigável, de quebrar o dente. 
Certo não, quando ao catar palavras: 
a pedra dá à frase seu grão mais vivo: 
obstrui a leitura fluviante, flutual, 
açula a atenção, isca-a com o risco. 
João Cabral de Melo Neto 
A educação pela pedra 
Uma educação pela pedra: por lições; 
para aprender da pedra, frequentá-la; 
captar sua voz inenfática, impessoal 
	SEMANA 32 - LITERATURA - Realismo e Naturalismo - STELLER

Mais conteúdos dessa disciplina