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1 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA DA COGNIÇÃO E ATENÇÃO 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA ................................................. Erro! Indicador não definido. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 3 A IMPORTÂNCIA DA ATENÇÃO PARA APRENDIZAGEM ............................. 6 ATENÇÃO, MEMÓRIA E LINGUAGEM..............................................................9 DESENVOLVIMENTO PERCEPTIVO E COGNITIVO.......................................13 ESTRATÉGIAS DE DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA..............17 FUNÇÕES COGNITIVAS DA APRENDIZAGEM..............................................23 REFERÊNCIAS.................................................................................................27 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO Segundo Fitts & Posner (1967), durante a aprendizagem de uma habilidade um indivíduo passa por três estágios: cognitivo, associativo e autônomo. Dentre as diversas características de cada estágio, uma importante mudança decorrente da prática ocorre nos processos da atenção. No estágio cognitivo o indivíduo está tentando compreender os objetivos da tarefa, o que sobrecarrega os mecanismos da atenção, proporcionando uma “performance” inconsistente. Após um certo período de prática, ele passará para o estágio associativo, no qual consegue manter uma “performance” mais estável, sendo capaz inclusive de detectar alguns erros. As necessidades de atenção neste estágio decrescem significativamente. Depois de muita prática, ele será capaz de atingir o terceiro e último estágio (autônomo), no qual a habilidade está bem desenvolvida, permitindo que o indivíduo realize-a com consistência e “quase sem pensar”. As exigências nos processos da atenção são mínimos, permitindo que ele direcione o foco da atenção para outros aspectos importantes da “performance”. Um exemplo da transição entre estes três estágios é o de uma criança aprendendo a driblar no basquetebol, partindo do movimento estático em que necessita olhar para a bola, passando para movimentos em deslocamento, até chegar a driblar de diversas formas ao mesmo tempo em que observa os companheiros e adversários durante o jogo. A transição até a automaticidade poderá ocorrer naturalmente, porém o tempo necessário para que isto aconteça irá depender da quantidade de prática e do grau de complexidade da tarefa. Por mais que isto possa ocorrer em função da prática, é importante também que professores de educação física e técnicos desportivos tenham conhecimento das diferenças existentes entre crianças e adultos em termos da utilização de estratégias de atenção seletiva, velocidade no processamento de informações, uso dos processos de controle para processar e armazenar informações, as quais poderão dificultar a aprendizagem. De posse destas informações, podemos criar um ambiente que facilite a aprendizagem, diminuindo as exigências nos processos da atenção através da utilização de estratégias cognitivas. A aprendizagem de qualquer habilidade motora requer a seleção de informações que podem estar contidas no meio ambiente e/ou fornecidas pelo professor ou técnico. Para que esta informação seja retida, para posterior 4 interpretação e possível armazenamento na memória de longa duração, o processo da atenção é fundamental. A FIGURA 1 exemplifica os passos da informação, desde o “input” até o “output”, com destaque à função dos processos da atenção seletiva na escolha e codificação da informação. Quando ensinamos algo, o que desejamos é que o indivíduo assimile a informação, retendo-a para uso posterior. Aprendizagem neste caso, é conseguirmos realizar uma atividade, mesmo após muitos anos sem a termos praticado, como por exemplo, andar de bicicleta ou nadar. A atenção exerce uma função muito importante na capacidade de retenção de informações relevantes, pois é através dela, associada aos processos de controle, que guardamos informações na memória de longa duração. Com a prática, a capacidade de seleção e retenção de informações relevantes à atividade que estamos realizando, é aperfeiçoada. A melhora na seleção de informações relevantes poderá facilitar a antecipação da resposta, e consequentemente, facilitar a “performance”. Um bom zagueiro por exemplo, além de possuir ótimas capacidades físicas, deve possuir uma grande habilidade para “ler” o posicionamento dos jogadores adversários, antecipando possíveis jogadas. Em qualquer atividade, um indivíduo que possuir esta habilidade (de antecipação), possuirá uma vantagem sobre os demais. Durante o processo da aprendizagem de qualquer atividade, passamos por estágios em que ocorrem diversas mudanças, entre elas, nas exigências nos processos da atenção. Estas mudanças vão desde o momento em que estamos sendo expostos pela primeira vez a atividade e não temos a menor ideia do que fazer primeiro, até o momento em que já conseguimos realizar a atividade quase sem nenhum esforço cognitivo. Um exemplo simples desta situação é uma criança aprendendo driblar a bola no basquete. Dentro de uma progressão pedagógica, mesmo estática, ela necessita olhar para a bola o tempo todo. Após um certo tempo de prática, introduzimos os deslocamentos e a atenção na bola continua grande. Quando ela atinge o último estágio, consegue realizar o drible, sem olhar para a bola, ao mesmo tempo em que observa outros jogadores na quadra. É claro que para isto acontecer, muitas horas de prática serão necessárias, sendo que o grau de dificuldade e complexidade da tarefa é que ditarão a quantidade de prática necessária para que possamos realizar a tarefa 5 “sem pensar”. Entenda-se “sem pensar”, a realização de uma atividade, a execução de um movimento automaticamente, ou o “processo automático” definido por Schneider & Shiffrin (1977) e Shiffrin & Schneider (1977) como sendo “rápido, paralelo, basicamente sem esforço e com possibilidades de não sofrer interferência de atividades paralelas”. FIGURA 1 - Os sistemas da memória e sua relação com a resposta. 6 A IMPORTÂNCIA DA ATENÇÃO PARA APRENDIZAGEM O estudo da atenção tem despertado a curiosidade de inúmeros pesquisadores há mais de um século. A atenção de uma maneira abrangente pode ser definida como o processo que direciona, seleciona, alerta, delibera, contempla (The Random House Thesaurus, 1987). Segundo Abernethy (1993), atenção é um termo global utilizado para definir vários processos que variam da concentração à vigilância. A busca de melhores explicações para o fenômeno da atenção direcionou pesquisadores à concentrarem seus esforços em favor da criação de teorias, as quaisconsideravam a atenção como um mecanismo tipo filtro. A hipótese geral era que o mecanismo da atenção possuía uma capacidade fixa para processar informações e cada vez que esta capacidade fosse ultrapassada pelos requerimentos da tarefa, a “performance” decairia (Kahneman, 1963). Assim, no início a atenção era vista como um canal único (filtro) (Broadbent, 1958; Wellford, 1952), surgindo a seguir a hipótese dos canais múltiplos (Deutsch & Deutsch, 1963; Treisman, 1960, 1964, 1969; Keele, 1973). Mais recentemente, a atenção passou a ser vista como um processo automático versus controlado (Posner & Snyder, 1975; Schneider, Dumais & Shiffrin, 1984; Schneider & Fisk, 1982; Schneider & Shiffrin, 1977; Shiffrin & Dumais, 1981; Shiffrin & Schneider, 1977). A hipótese de um único filtro ou canal indicava que todos os processos requeriam atenção e somente uma operação de estímulo - resposta poderia ser executada de cada vez (Welford, 1952), ou o que Broadbent (1958) definiu como o processamento serial de informações. Esta idéia foi contestada mais tarde por diversos pesquisadores, entre eles Deutsch & Deutsch (1963), Treisman (1960, 1964, 1969) e Keele (1973), os quais demonstraram que os indivíduos eram capazes de lidar com mais de um estímulo de cada vez. A teoria da “atenuação” de Treisman por exemplo, utilizou-se de experimentos em que mensagens gravadas de características coerentes e incoerentes eram transmitidas através de um fone de ouvido, passando do ouvido esquerdo para o direito e viceversa. A autora concluiu que os indivíduos foram capazes de “seguir” as mensagens coerentes, independentemente da mudança de ouvido, sugerindo que as mensagens incoerentes eram atenuadas, mas não desapareciam. A mensagem era enfraquecida (atenuada) quando não tinha relevância à tarefa, sendo que os 7 indivíduos utilizavam-se do conteúdo das mensagens para selecioná-las e decidirem entre os tópicos relevantes e irrelevantes. A grande diferença entre estas teorias é a localização do filtro, ou seja, enquanto Broadbent (1958) e Welford (1952) colocaram o filtro no início do processo de seleção, Treisman (1960, 1964, 1969), Deutsch & Deutsch (1963) e Keele (1973), propuseram que o filtro se encontrava mais além dentro desse processo que seleciona as informações. Porém, todos estes autores concordam que o estímulo antes do filtro é livre de atenção, sendo processado em paralelo (simultaneamente) e quando atinge o filtro, passa a ser processado de maneira serial (individualmente), exigindo atenção. Entretanto, nenhuma destas teorias obtiveram sucesso em apontar com precisão o local do filtro. Abernethy (1993) por outro lado, menciona que a posição do filtro varia de acordo com o tipo de atividade realizada, podendo existir vários filtros, dependendo das combinações da tarefa e as estratégias utilizadas pelos indivíduos. Apesar de não haver concordância entre os autores previamente mencionados quanto a localização do filtro, eles concordam que a atenção possui duas características marcantes: 1) capacidade limitada; 2) processa a informação de maneira seriada. Abernethy (1993), Anderson (1990), Broadbent (1958), Cherry (1953), Kahneman (1973), Magill (1989), Schmidt (1988), Treisman (1960, 1964, 1969), Schneider & Shiffrin (1977), Shiffrin (1989), Shiffrin & Schneider (1977), Shiffrin & Dumais (1981), Schneider, Dumais & Shiffrin (1984) definem capacidade limitada como sendo a dificuldade do indivíduo em atender diversos estímulos ao mesmo tempo. Kahneman (1973) vai além, concluindo que atividades diferentes impõem diferentes demandas nesta capacidade limitada da atenção e que quando ocorre um desequilíbrio entre a capacidade da atenção e a demanda, a “performance” deteriorar-se-á consideravelmente. Este fato foi comprovado nos experimentos de tarefas simultâneas (“dual task”), onde os sujeitos tiveram dificuldades em realizar as duas atividades com a mesma precisão, sem que ocorresse uma queda de rendimento em uma das tarefas. Os resultados demonstraram uma troca, quando a tarefa “A” recebia mais atenção, a “performance” da tarefa “B” deteriorava e vice-versa. Entretanto, se caso uma destas tarefas estiverem automatizadas pelo sujeito, a quantidade de atenção necessária será menor, facilitando a realização de tarefas simultâneas. Para 8 exemplificar esta situação, retornamos ao exemplo da criança que está aprendendo a driblar uma bola de basquete, citado anteriormente. Após uma quantidade considerável de prática, ela consegue, ao mesmo tempo, driblar a bola e observar a posição dos companheiros e dos adversários em uma partida. A distribuição da atenção, durante a realização de atividades paralelas, pode variar em função da complexidade da tarefa (Shiffrin, 1989), as instruções fornecidas ao indivíduo e o seu nível de habilidade (Ivry, 1996). Anderson (1990), investigando habilidades altamente sofisticadas, concluiu que as demandas no processo de atenção diminuem quando o indivíduo atinge uma fase autônoma. O autor, aliado aos resultados previamente obtidos por Shiffrin (1989) concluiu que existe uma relação negativa entre a prática e os requerimentos da atenção, suportando também a ideia da transição entre os estágios da aprendizagem. 9 ATENÇÃO, MEMÓRIA E LINGUAGEM Ao longo das últimas décadas, o conceito de atenção sofreu muitas modificações devido à algumas confusões e ambiguidades do termo, assim como inserções de novos elementos (Allport, 1993). Para Mesulam (2000), os principais aspectos que definiriam a integridade da atenção seriam a orientação, a exploração, a concentração e a vigilância. Atualmente, podemos defini-la como o meio pelo qual uma informação é processada ativamente em quantidade limitada, sendo selecionada a partir de uma grande quantidade disponível (Sternberg, 2008). Fica evidente que a atenção não poderia representar um fenômeno unitário. Esta é um processo complexo e multifacetado, que está em constante monitoramento do ambiente, como um fenômeno que envolve outros processos de aprendizagem e/ou cognitivos como percepção, memória, motivação e níveis de consciência. Consequentemente, um déficit atencional pode se manifestar por diferentes sintomas em múltiplas áreas da vida diária (Helene e Xavier, 2003; Jacoby, Lindsay e Toth, 1992). Os mecanismos atencionais atuam de modo dinâmico. Outra maneira de se classificar a atenção é pensando em seus aspectos clínicos como o conceito de ativação, seletividade, alternância, divisão e sustentação (Coutinho, Mattos e Abreu, 2010; Lezak, Howieson e Loring, 2004; Leclercq, 2002; Dalgalarrondo, 2000; Posner e Petersen, 1990). Desde seu nascimento, a criança está inserida num mundo repleto de informações e cercada por uma grande quantidade de estímulos, relevantes ou não, que são selecionados de acordo com motivações e objetivos específicos. Entretanto, a atenção ainda é elementar e se enquadra num plano mais involuntário, não havendo assim o controle da atenção (Nahas e Xavier, 2005). A partir da maturação de determinadas estruturas corticais e subcorticais, há o desenvolvimento e consequente aparição de novas habilidades e comportamentos. Além disso, deve-se atentar ao fato de que alguns mecanismos e componentes atencionais apresentam definições similares e com limites tênues entre eles, podendo haver diferença entre autores. 10 A memória, assim com a atenção, é uma das mais importantes funções cognitivas, pois é através dela que formamos a base para o processo de aprendizagem. De acordo com Bear, Connors e Paradiso (2002), o aprendizado pode ser visto como um processo de aquisição de novas informações, enquanto a memória como a consolidação e recuperação desse conhecimento adquirido. Este constructo sofreu modificações ao longo dos anos a partir de estudos comanimais e em humanos lesionados. De fato, diversos modelos de memória foram elaborados. Desde William James (1890), passando por Waugh e Norman (1965), Atkinson e Shiffrin (1968), Baddeley e Hitch (1974) entre outros. Para compreender como a memória funciona, é necessário antes conhecer os processos que envolvem a aquisição, a codificação, o armazenamento e a evocação (Izquierdo, 2002). Desta forma, o primeiro passo que se deve tomar é saber que a memória não é um armazenador unitário, existindo vários sistemas e subsistemas, cada qual com sua especificidade, tempo de duração e conteúdo (Schacter, Wagner e Buckner, 2000). A formação das memórias se dá pela entrada das informações pelas vias sensoriais na forma de estímulos, sendo então processados pelo cérebro em diferentes regiões, resultando em memórias. As memórias podem ser classificadas em memórias de curta duração, atualmente denominada memória operacional/de trabalho ou memórias de longa duração (Strauss, Sherman e Spreen, 2006). A memória de curto prazo, atualmente denominada memória de trabalho ou operacional, mantêm e retêm informação que está sendo processada, por um curto período de tempo, segundos ou poucos minutos, antes de desaparecerem por completo (Gathercole, 1999). É um espaço de trabalho em que a informação evocada é efetivamente usada, manipulada e relacionada a outras informações e/ou processos cognitivos (Yudofsky e Hales, 2006). A memória de trabalho é constituída por quatro componentes: o executivo central, a alça fonológica, o esboço vísuo-espacial e o retentor episódico, cada qual com uma função específica (Baddeley, 2002). Lembrando que esse tipo de memória também tem sido classificado como um subcomponente das Funções Executivas. A memória de longo prazo é aquela que retém de forma definitiva a informação, permitindo sua recuperação ou evocação. Sua capacidade de armazenamento é ilimitada, podendo permanecem durante dias, semanas e até 11 mesmo anos. Contém informações necessárias para a constituição do indivíduo e para nossas atividades cotidianas. Elas são divididas em dois tipos: a memória explicita ou declarativa e a memória implícita ou não-declarativa (Tulving, 1985). Para cada modalidade de memória, há um período de desenvolvimento diferente, devido às fatores tais como a interação com outras funções cognitivas e o amadurecimento de estruturas subcorticais e corticais. De uma maneira geral, sua capacidade vai se aprimorar com o avanço da idade, principalmente devido ao foco atencional, uso de estratégias de memória, velocidade de processamento e domínio da linguagem (Ornstein e Haden, 2001). A linguagem é provavelmente uma das faculdades mais típicas da espécie humana, que individualiza, distingue e demarca a condição humana dos demais seres vivos (Lima, 2000). Diferentes de outros animais, nossa linguagem não é apenas um sistema de sons, mas também de símbolos e gestos que são usados para a comunicação (Bear et al., 2002). Ela é o produto da confluência de múltiplas capacidades que ao longo do tempo foram somadas e organizadas para um objetivo comum (Castro-Caldas, 2004). Estudiosos como Chomsky (1968) e Pinker (2002) tem discutido sobre as origens da linguagem e seu caráter biológico ou social. De uma maneira geral, podemos considerá-la como uma forma de comportamento usada pelos seres humanos num contexto social, que serve para a representação, expressão e comunicação de pensamentos e/ou ideias, mediante o uso de um sistema de símbolos e a possibilidade de combinação dos mesmos (Castro, 1997; Habib, 2000; Kandel e Kupfermann, 1997; Ruiz e Ortega, 1993). Para um estudo mais minucioso desta função cognitiva, Pereira (2004) classificou a linguagem em quatro domínios: a fonológica, a semântica, a morfossintaxe; e por fim, a pragmática. Por sua vez, Bloom e Lahey (1978) simplificaram em três dimensões: o conteúdo (semântica), a forma (fonologia e sintaxe) e o uso (pragmática). Cada domínio linguístico interage e se desenvolve paralelamente, resultando nas habilidades comunicativas do ser humano. A linguagem, apesar de possuir mecanismos geneticamente preparados para a comunicação, necessita também das interações sociais para munir-se das competências 12 necessárias para ser capaz de dominar a estrutura da língua (Borges e Salomão, 2003). Portanto, o desenvolvimento de certas dimensões da linguagem parece ter relação com o desenvolvimento de outros domínios como o desenvolvimento cognitivo ou social. FIGURA 2 – Funções Cognitivas 13 DESENVOLVIMENTO PERCEPTIVO E COGNITIVO Entender sobre o desenvolvimento de habilidades mentais é fundamental para compreender a organização e o funcionamento da mente humana. Uma abordagem comum em neurociência é correlacionar à maturação de funções cognitivas específicas com um estágio particular do desenvolvimento neural. Segundo Gazzaniga, Ivry e Mangun (2006), a diferença existente entre as capacidades dos recém-nascidos e a dos adultos são visíveis. Recém-nascidos não caminham, não seguram objetos, não falam nem compreendem quando falamos com eles. Essas diferenças podem ser elucidadas de duas maneiras: os recém-nascidos podem ter todas as capacidades dos adultos, mas ainda não obtiveram, pela experiência, suas habilidades; e, em contraste, recém-nascidos podem diferir dos adultos em capacidades neurais e/ou cognitivas. A primeira hipótese coloca os recém-nascidos como possuidores de um circuito neural completamente formado, à espera das aferências e dos sinais do ambiente para que o desenvolvimento ocorra. A última propõe que recém-nascidos ainda não possuem estruturas neurais e cognitivas para agir como um adulto e que esse desenvolvimento abarca mudanças radicais e qualitativas. Essa visão tem sido amplamente aceita pelas teorias do desenvolvimento com base em evidências tanto neurais quanto psicológicas. Uma teoria clássica de que recém-nascidos diferem significativamente dos adultos vem do cientista suíço Jean Piaget. Piaget considerava que a aquisição do conhecimento é um processo e como tal deveria ser estudado de maneira histórica, abarcando o modo como o conhecimento muda e evolui. Desse modo, define sua epistemologia genética como a disciplina que estuda os mecanismos e processos mediante os quais se passa de “[...] estados de menor conhecimento aos estados de conhecimento avançado.” (PIAGET, 1971, p.8). Para Piaget, no processo de aquisição de novos conhecimentos, o sujeito é um organismo ativo que seleciona as informações que lhe chegam do mundo exterior, filtrando-as e dando-lhes sentido. (PIAGET, 1971). Conhecer, em sua percepção, é atuar diante da realidade modificando-a por meio de ações. Nesse sentido, atuar não significa essencialmente realizar movimentos e ações externas. Esse seria o caso de crianças pequenas que precisam manipular a 14 realidade que as envolve, para entendê-la. Na maioria dos casos, essa atividade é interna, mental, ainda que possa se basear em objetos físicos. Ao contar, comparar, classificar, embora haja imobilidade do sujeito, ele está ativo mentalmente. De acordo com Piaget, todas as crianças passam por quatro estágios cognitivos mais ou menos na mesma idade, independentemente da cultura em que vivem. Nenhum estágio pode ser omitido, uma vez que as habilidades adquiridas em estágios anteriores são essenciais para os estágios seguintes. No estágio sensório-motor a criança explora o mundo e desenvolve seus esquemas principalmente por meio de seus sentidos e atividades motoras. Vai do nascimento até o período de “linguagem significativa” (por volta de 2 anos). Durante esse estágio, as crianças têm conceitos rudimentares dos objetos de seu mundo. Um conceito adquirido durante esse estágio é o de permanência do objeto: habilidade de saberque um objeto não deixa de existir simplesmente porque saiu de nosso campo de visão. Aos quatro meses, crianças que brincam com um objeto que será depois escondido, agem como se ele jamais estivesse existido. Ao contrário, um bebê com 10 meses procura ativamente um objeto que foi escondido embaixo de um pano ou por trás de uma tela. “Ele tem a consciência de que o objeto continua existindo, mesmo quando não está visível.” (PIAGET; INHELDER, 2003, p.20). O sucesso em tarefas como essa marca o fim do estágio de inteligência sensório-motora, pois é o resultado de uma habilidade recém-desenvolvida para representar objetos e atos que não estão mais em seu campo de visão. Assim, as crianças exibem a permanência de objetos quando não tem mais dificuldade de conceitualizar a presença de um objeto fora do campo de visão. Estudos sugerem que Piaget possa ter subestimado as habilidades infantis, questionando sobre a natureza limitada das capacidades de um recém- nascido no domínio da integração sensório- -motora, da integração intermodal e da percepção de objetos. Os críticos de Piaget argumentam que um recém- nascido tem alguma forma de integração de experiências sensoriais por meios das modalidades da visão, da audição e do tato. Por exemplo, crianças recém- nascidas, quando dado suporte de cabeça é adequado, podem buscar localizar, 15 visualmente, a origem de sons emitidos no ambiente. Isso sugere uma habilidade bem-desenvolvida de integração intermodal visual e auditiva. (GAZZANIGA; IVRY; MANGUN, 2006). Baillageron (1990) demonstrou que crianças pequenas de apenas alguns meses, normalmente percebem objetos parcialmente escondidos. Ela mostrava um objeto para as crianças e colocava-o atrás de um painel vertical que impedia sua visão. O painel era, então, derrubado, de duas formas distintas. Na primeira, o painel era derrubado e batia no objeto colocado atrás dele, como seria esperado. Na segunda, o painel era derrubado, mas o objeto havia sido removido secretamente, fazendo com que o painel caísse direto na superfície da mesa. Nestas tarefas, as crianças mostravam mais surpresa na segunda condição que na primeira. Após vários estudos em cognição, Flavell et al. (1999) assim se manifestam a respeito da teoria de Piaget, quanto aos estágios: A teoria de Piaget, entretanto, não faz afirmações apenas gerais, mas muito fortes e específicas a respeito da preponderância dos estágios da cognição em bebês, e estas afirmações não têm se sustentado em pesquisas recentes. Existem simplesmente muitos exemplos de competência mais precoce do que a esperada, muitas discrepâncias no nível de desempenho que não parecem depender dos processos construtivos de ação sobre o mundo com os quais Piaget definiu seus estágios. (FLAVELL, et al., 1999, p.64). No modelo de Piaget, temos ainda três estágios que seguem o estágio de inteligência sensório-motora. No estágio pré-operacional (dos 2 aos 7 anos), a linguagem progride substancialmente e a criança começa a pensar simbolicamente, usando símbolos, tais como palavras, para representar conceitos. No entanto, a criança ainda não consegue fazer operações ou processos mentais reversíveis. Neste estágio, a criança também é egocêntrica, isto é, não consegue distinguir suas próprias perspectivas das de outras pessoas, nem consegue entender que há pontos de vista diferentes dos seus. (PIAGET, 1971). Dos 7 aos 11 anos, encontra-se o estágio de operações concretas. Nesse período, há a emergência de muitas habilidades importantes de raciocínio. O pensamento da criança, agora mais organizado, possui características de uma 16 lógica de operações reversíveis. Entretanto, durante esse estágio, elas inicialmente podem realizar operações quantitativas somente com eventos concretos. Não é capaz de operar com hipóteses. (PIAGET, 1971). E dos 11 anos em diante, durante o estágio o estágio de operações formais, as crianças aprendem a fazer representações abstratas de relações, de acordo com Piaget. Crianças nessa idade podem generalizar relações matemáticas e manifestar pensamento hipotético-dedutivo – a habilidade de gerar e testar hipóteses sobre o mundo. Piaget trouxe contribuições importantes, delimitando a linha do tempo do desenvolvimento cognitivo e tentando mostrar quando as crianças são capazes de realizar tarefas perceptivos, motoras e cognitivas complexas. O fato de que a idade exata para um processo particular possa ocorrer ser antes do que Piaget propôs, ou de que os estágios descritos por Piaget possam ser mais graduais do que os mencionados, não diminui significativamente o valor de seu conceito de desenvolvimento cognitivo. Além disso, descrever uma linha do tempo de maturação cognitiva é, com modificações adequadas, útil, porque um objetivo da neurociência cognitiva é relacionar a linha do tempo de desenvolvimento cognitivo com o desenvolvimento neural para esclarecer as bases biológicas da cognição. 17 ESTRATÉGIAS DE DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA O conceito de diagnóstico tem origem na palavra grega diagnõstikós, que significa discernimento, faculdade de conhecer, de ver através de. Na forma como vem sendo utilizado, na atualidade, significa estudo aprofundado realizado com o objetivo de conhecer determinado fenômeno ou realidade, por meio de um conjunto de procedimentos teóricos, técnicos e metodológicos. Tradicionalmente usado na Medicina, o termo foi incorporado aos discursos e às práticas profissionais de diferentes áreas de conhecimento. No âmbito da Psicologia, as práticas de diagnóstico e avaliação psicológica tiveram, e têm ainda hoje, um papel fundamental na formação e constituição da identidade profissional do psicólogo. A avaliação psicológica é um procedimento clínico que envolve um corpo organizado de princípios teóricos, métodos e técnicas de investigação tanto da personalidade como de outras funções cognitivas, tais como: entrevista e observações clínicas, testes psicológicos, técnicas projetivas e outros procedimentos de investigação clínica, como jogos, desenhos, o contar estórias, o brincar etc. A escolha das estratégias e dos instrumentos empregados é feita sempre de acordo com o referencial teórico, o objetivo (clínico, profissional, educacional, forense etc.) e a finalidade (diagnóstico, indicação de tratamento e/ou prevenção), conforme Ocampo et al. (2005), Arzeno (2003) e Trinca (1984a). Nos últimos anos, o ensino e a prática da avaliação psicológica têm sido objetos de inúmeros estudos (JACQUEMIN, 1995; CUSTÓDIO, 1995; ANDRIOLA, 1996; GOMES, 2000; ALVES; ALCHIERE; MARQUES, 2001, e 2002; ALCHIERE; BANDEIRA, 2002; NORONHA et al. 2003; AFFONSO, 2005). Embora desenvolvidos sob diferentes enfoques, todos eles têm preocupações comuns como a qualidade da formação em avaliação psicológica, o conteúdo das disciplinas, o uso e a validação dos testes psicológicos, e a integração ensino-aprendizagem e aplicação destes à prática profissional. Tais preocupações ganharam maior relevância com as crescentes críticas dirigidas aos testes psicológicos, entre elas, a falta de respaldo científico e o mau 18 uso e elaboração de laudos psicológicos, que em geral “rotulam” e repetem jargões psicológicos sem fundamentação teórica (PATTO, 1998). Tudo isso levou o Conselho Federal de Psicologia (CFP) a criar, em 1997, a Câmara Interinstitucional de Avaliação Psicológica, com o objetivo de fazer um diagnóstico das condições de ensino na área, e, posteriormente, implantar um Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos usados no Brasil. Com a implantação desse sistema e entrada em vigor da Resolução no 02/2003, o CFP passou a recomendar somente o uso dos testes avaliados com parecer favorável da Comissão Consultiva. Os demais, com parecer desfavorável ou ainda não avaliados, continuam sendousados apenas em pesquisa. Embora essas medidas tenham sido cuidadas para dar maior cientificidade aos instrumentos, na opinião de alguns autores ocorre um fenômeno contraditório que diz respeito à desvalorização dos testes psicológicos nas práticas de avaliação. Por exemplo, Affonso (2005) comenta que, após a Resolução CRP no 02/2003 e divulgação da lista dos testes com condições de uso, docentes e profissionais tiveram que rever suas estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica. Muitos cursos de Psicologia reduziram a oferta de disciplinas de testes psicológicos e técnicas projetivas e, também, alteraram o seu conteúdo para dar maior ênfase às técnicas de entrevistas e a outras áreas como a Psicologia Hospitalar, a Psicologia Jurídica etc. É possível que essa medida tenha acentuado um processo que já vinha em curso, conforme aponta pesquisa realizada por Alves, Alchieri e Marques (2001) sobre o panorama geral do ensino das técnicas de exame psicológico no Brasil. Segundo essa pesquisa, a média geral dos cursos avaliados (64) é de 3,98 disciplinas, mas alguns têm apenas uma disciplina de testes e técnicas de avaliação psicológica. Sabe-se que essa desvalorização dos testes psicológicos e, por extensão, da área de avaliação psicológica é consequência também das mudanças ocorridas nas demandas de intervenção e atuação da Psicologia, na atualidade, em razão de novos processos de subjetivação e de questões sociais e políticas que interferem diretamente na qualidade de vida e saúde da população e exigem de nossas teorias e práticas constantes revisões e atualizações. Como apontam Féres-Carneiro e Lo Bianco (2005), no âmbito da Psicologia Clínica isso resultou 19 numa enorme expansão de abordagens teóricas – psicanalíticas, fenomenológico-existenciais, cognitivas, comportamentais, sistêmicas, corporais etc.; no desenvolvimento de novas modalidades de intervenção – grupal, familiar, comunitária; e na atuação em outros settings – instituições públicas e privadas, hospitais, unidades de saúde etc. Neste cenário, cresceram entre os alunos de Psicologia o ceticismo em relação aos testes psicológicos e o desinteresse pela área de avaliação psicológica. As críticas mais frequentes dos alunos é que os testes “rotulam” e não são confiáveis como instrumentos de diagnóstico e avaliação da personalidade, segundo apontam pesquisas (PEREIRA; CARELLOS, 1995; GOMES, 2000). Daí a importância de envolver docentes e pesquisadores nessa discussão não só para resgatar o valor da área na formação profissional, mas, especialmente, para incorporar as recentes mudanças e oferecer aos alunos uma fundamentação teórica e técnica mais ampla que lhes permita trabalhar com criatividade e flexibilidade, com as inúmeras possibilidades de diagnóstico e avaliação, tendo em vista os diferentes contextos e necessidades. Sabe-se que, além das questões apontadas, a forma como essas técnicas são ensinadas interfere no interesse dos alunos, na apreensão e aplicação prática destas. Infelizmente, há professores que continuam reproduzindo mecanicamente o ensino de testes e técnicas sem nenhum questionamento ou articulação com as novas práticas e demandas da Psicologia. A Psicologia, assim como o desenvolvimento de suas práticas de avaliação psicológica, foi, ao longo da história, influenciada por duas principais tradições filosóficas: o positivismo e o humanismo. O positivismo, corrente filosófica que tem Augusto Comte (1973) como principal representante, defende o conhecimento objetivo, por meio da neutralidade científica e da experimentação. Essa corrente de pensamento fundamenta o método científico adotado pelas ciências naturais que foi, durante muito tempo, considerado “o modelo de ciência”. Na ótica positivista, o homem pode ser estudado como qualquer outro fenômeno da natureza, ou seja, pode ser tomado como um objeto de estudo observável e mensurável. 20 Apoiam-se nessa tradição as práticas de avaliação psicológica, identificadas com os modelos médico e psicométrico, que caracterizam a primeira fase de atuação profissional do psicólogo – práticas que valorizam o uso dos testes psicológicos, a eficiência e a objetividade do diagnóstico como forma de garantir a cientificidade da psicologia (TRINCA, 1984a; ANCONA-LOPEZ, 1984). O modelo médico influenciou enormemente as práticas de avaliação psicológica, principalmente no início da expansão da Psicologia, quando os psicólogos atuavam, basicamente, como auxiliares do médico no diagnóstico diferencial de psicopatologias. Preocupados em avaliar com objetividade, para indicar o tratamento mais eficaz, os psicólogos incorporaram às suas práticas de avaliação características do modelo de diagnóstico médico, tais como: a ênfase nos sintomas, o uso da classificação nosológica e o emprego de testes (exames), para identificar determinadas características patológicas da personalidade do indivíduo. O modelo psicométrico manteve a preocupação de avaliar com objetividade e neutralidade e inaugurou uma fase de maior prestígio da Psicologia, em que os testes psicológicos passaram a ser usados na classificação e medida da capacidade intelectual e aptidões individuais. A Psicometria ampliou a área de atuação da Psicologia – da clínica para as áreas escolar (diagnóstico de dificuldades de aprendizagem das crianças) e profissional (seleção de indivíduos para funções específicas). Com essa expansão, o psicólogo ganhou maior autonomia: os resultados dos testes deixaram de ser obrigatoriamente entregues ao médico ou a outros profissionais; os próprios psicólogos começaram a prestar orientação aos pais e professores e até mesmo aos médicos. No modelo psicométrico, tornou-se menos importante detectar e classificar os distúrbios psicopatológicos; a ênfase passou a ser dada à identificação das diferenças individuais e orientações específicas. Esse modelo foi muito valorizado nos Estados Unidos, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando se atribuiu à Psicologia a função de selecionar indivíduos aptos e não-aptos para o exército, bem como avaliar os efeitos da guerra sobre os que retornavam (ANCONALOPEZ, 1984). 21 O humanismo apoia-se em correntes filosóficas que se contrapõem à visão positivista e questionam a aplicação do método das ciências naturais às ciências humanas. Defende que não é possível uma total separação entre o sujeito e o objeto de estudo, pois a subjetividade tem uma importância essencial: o sujeito está implicado com o seu objeto de estudo, ele constitui o objeto e é constituído por ele. Se todo o conhecimento é estabelecido pelo homem, não se pode negar a participação da sua subjetividade, portanto não é possível estudar o homem como um mero objeto fazendo parte do mundo, pois o mundo não passa de um objeto intencional para o sujeito que o pensa (ANCONA-LOPEZ, 1984). Essa forma de pensar teve um papel marcante no desenvolvimento de uma Psicologia humanista, influenciada por vertentes teóricas ligadas principalmente à Fenomenologia e à Psicanálise que enfatizam a subjetividade, a intencionalidade, o sentido e o significado das experiências (e dos sintomas), o inconsciente e a relação entre sujeito e objeto de estudo. Entre suas principais influências, estão Heidegger e Freud (FIGUEIREDO, 2004). Contrapondo-se à visão reducionista da vertente positivista, a Psicologia humanista buscava uma compreensão global do homem, na apreensão do mundo e do seu significado. Sob esse influxo, passou-se a questionar os modelos de avaliação classificatória, baseados apenas nos testes psicológicos (estruturados e padronizados). Outras práticas de diagnóstico, mais identificadas com a Psicanálise e a Fenomenologia, foram surgindo dentro do chamado modelo psicológico, que deu origem ao psicodiagnóstico e a outros procedimentos de avaliação, como asentrevistas diagnósticas, com ou sem o uso de testes ou técnicas (estruturadas ou não) de investigação da personalidade. O psicodiagnóstico inaugurou uma nova visão da avaliação psicológica, diferente da realizada pelos “testólogos” da Psicometria. Ao adotar uma perspectiva clínica, mais identificada com a teoria psicanalítica ou fenomenológica, distanciou-se da preocupação com a neutralidade e a objetividade, passando a enfatizar a importância da subjetividade e dos aspectos transferenciais e contratransferenciais presentes na relação. E o uso dos testes passou a ser complementado com outros procedimentos clínicos, com o objetivo 22 de integrar os dados levantados nos testes e na história clínica, para obter uma compreensão global da personalidade. No Brasil, o modelo de psicodiagnóstico, desenvolvido por Ocampo et al. (2005) e Arzeno (2003), tem norteado o trabalho de grande parte dos profissionais da área. Além dele, os modelos compreensivo (TRINCA, 1984a, 1984b) e fenomenológico (ANCONA-LOPEZ, 1995; CUPERTINO, 1995; YEHIA, 1995) também são bastante utilizados. O psicodiagnóstico proposto por Cunha (2000) é outra referência, não incluída no recorte aqui feito, mas igualmente importante no contexto brasileiro. 23 FUNÇÕES COGNITIVAS DA APRENDIZAGEM Explicar a cognição e intervir na sua modificabilidade, que é um dos objetivos cruciais da educabilidade do ser humano, a que já nos referimos em outras obras, pressupõe, em primeiro lugar, concebê-la como tendo origem social e como sendo composta por três componentes principais do processo total de informação em estreita conectividade, sequencialidade e interatividade, conforme modelo simplificado apresentado na imagem abaixo: FIGURA 3 – Modelo de Processamento de Informação da Aprendizagem O termo cognição é, consequentemente, sinônimo de "ato ou processo de conhecimento", ou "algo que é conhecido através dele", o que envolve a coativação integrada e coerente de vários instrumentos ou ferramentas mentais, tais como: atenção; percepção; processamento (simultâneo e sucessivo); memória (curto termo, longo termo e de trabalho); raciocínio, visualização, planificação, resolução de problemas, execução e expressão de informação. Naturalmente que tais processos mentais decorrem por um lado da transmissão cultural intergeracional, e por outro, da interação social entre seres humanos que a materializam. A cognição é, portanto, sistêmica, emerge do cérebro como o resultado da contribuição, interação e coesão do conjunto de funções mentais acima apontadas que operam segundo determinadas propriedades fundamentais a saber: 24 Totalidade (noção de integração); Interdependência (noção de coibição); Hierarquia (noção de maturidade e complexidade); Autorregulação (noção de busca de objetivos e fins a atingir); Intercâmbio (noção de referência e efeito da experiência); Equilíbrio (noção de homeostasia); Adaptabilidade (noção de modificabilidade); Equifinalidade (noção de vicariedade, ou seja, de execução e duplicação do pensamento pela ação). Para simplificar, diremos que a aprendizagem humana espelha uma mudança de comportamento provocada pela experiência prolongada (no mínimo 2.000 horas de prática sistemática), sendo este descrito como uma sequência de operações e estádios mentais que compreendem, conforme o modelo acima apresentado, uma outra tríade de funções e subfunções cognitivas: Funções de input, de recepção ou de captação (atenção sustentada; percepção analítica; sistematização na exploração de dados; discriminação e ampliação de instrumentos verbais; orientação espacial com sistemas de referência automatizados; priorização de dados; conservação e agilização de constâncias (tamanho, forma, quantidade, profundidade, movimento, cor, orientação, dados intrínsecos e extrínsecos, etc); precisão e perfeição na apreensão de dados; filtragem, fixação, focagem e flexibilização enfocada de fontes de informação simultânea; etc; Funções de integração, retenção e de planificação (definição detalhada de situações-problema; seleção de dados relevantes; minimização e eliminação de dados irrelevantes; comparação, classificação e escrutínio de propriedades comuns e incomuns de dados; estabelecimento de comparações, ligações, semelhanças, dissemelhanças, analogias; memorização, retenção, localização, manipulação e recuperação da informação; ampliação do campo mental em jogo; integração sistemática da realidade; estabelecimento de relações e de sistemas de relações; organização e monitorização dos meios necessários; supervisão das 25 situações e dos problemas; elaboração conceptual; formulação ideacional; utilização de comportamentos quantitativos; exploração da evidência lógica; utilização do pensamento dedutivo, inferencial, crítico e criativo; desenho de estratégias para testagem de hipóteses; planificação, antecipação e pragmatização de objetivos, fins e resultados; visualização e interiorização da informação; flexibilização de procedimentos; etc. Funções de output, de execução ou de expressão (comunicação clara, conveniente, compreensível, desbloqueada e contextualizada; projeção de relações virtuais; transposição psicomotora (transporte ideatório, ideomotor e visuográfico); expressão verbal fluente e melódica; regulação, inibição, iniciação, persistência, perfeição, verificação, conclusão e precisão de respostas adaptativas; enriquecimento de instrumentos não-verbais e verbais de expressão; avaliação e retroação das soluções criadas; etc). Embora a cognição humana não possa ser reduzida a um modelo de processamento de informação puro (metáfora computacional), por efetivamente ilustrar um modelo exageradamente simples, é consensual equacionar que a cognição e o ato de aprender envolvem a integração dinâmica, coerente e sistêmica das três ferramentas cognitivas principais acima referida. Trata-se de uma teoria que foi fundadora das ciências cognitivas, principalmente da inteligência artificial, da cibernética e da robótica, que serve para explicar, de modo fácil e acessível, o que é a cognição e o que se passa mais ou menos na cabeça dos alunos quando aprendem ou quando pensam e agem de forma inteligível. Identificar naquelas três funções principais do ato mental as suas subfunções ou capacidades componentes fortes, proximais ou fracas é um primeiro passo para avaliar dinamicamente, e depois, intervir personalizadamente na cognição do indivíduo (aluno, formando, etc.), não esquecendo que, quando falamos de cognição, na nossa ótica falamos, simultaneamente, de conação e de execução, a tríade funcional da aprendizagem a que já nos referimos. 26 Aprender a aprender é, portanto, praticar, treinar, aperfeiçoar e redesenvolver tais funções e capacidades cognitivas, integrando harmoniosamente as capacidades conativas e executivas, que são pouco estimuladas culturalmente e escolarmente, por isso, mal adaptadas, deficitárias, frágeis ou fracas em muitas crianças e jovens que lutam diariamente na sala de aula para terem mais rendimento e aproveitamento na aprendizagem. O treino de funções cognitivas, conativas e executivas é, quanto a nós, uma das chaves do sucesso escolar e do sucesso na vida, quanto mais precocemente for implementado, mais facilidade tende a emergir nas aprendizagens subsequentes. O aperfeiçoamento e o enriquecimento da tríade de funções mentais da aprendizagem resulta de uma alquimia neuropsicopedagógica complexa porque elas influenciam-se mutuamente em termos de comportamento, de performance e produtividade. 27 REFERÊNCIAS Ladewig, I. (2017). À importância da atenção na aprendizagem dehabilidades motoras. Revista Paulista De Educação Física, (supl.3), 62-71. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2594-5904.rpef.2000.139614. Acesso em: 10/out. Funções Cognitivas: Ontogênese/Desenvolvimento. PUC – RIO – CERTIFICAÇÃO DIGITAL Nº0812172/CA. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/35595/35595_5.PDF. Acesso em: 10/out. Carlos Alberto Mourão-Júnior, Andréa Olimpio Oliveira e Elaine Leporate Barroso Faria. 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