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2 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 3 1 BASES HISTÓRICAS DA PSICOPEDAGOGIA A psicopedagogia surge como campo científico em meados do século XIX, com foco na interdisciplinaridade, vinculando educação e saúde mental. No campo da epistemologia, a Psicopedagogia se fundamenta na concepção histórico-cultural, na epistemologia genética de Piaget, na Psicanálise e na Psicologia Social de Pichon. Caracteriza-se por práticas de intervenção no processo de aprendizagem do sujeito no âmbito da prevenção, diagnóstico e tratamento de potenciais dificuldades de aprendizagem, quer em contexto individual quer em grupo. Segundo Muller (2000), a psicopedagogia se preocupa com a forma como a criança aprende, como essa aprendizagem evolui e como ela se relaciona com outros aspectos do desenvolvimento humano. Preocupa-se também em reconhecer e tratar possíveis alterações na aprendizagem causadas por diversos fatores internos ou externos, por meio da promoção de recursos e oportunidades de aprendizagem que estabeleçam um novo sentido para o aprendiz. Segundo Bossa (2011), a psicopedagogia busca recursos para reduzir potenciais obstáculos à aprendizagem, ao desenvolvimento de práticas educativas e à interação do sujeito com o mundo, levando em conta as particularidades e a subjetividade do sujeito em decorrência de sua vida biopsicossocial. Considera o sujeito em situação de aprendizagem como público-alvo da psicopedagogia, tendo em conta todas as suas dimensões constitutivas: biológica, cultural, histórica, cognitiva e afluente. Dessa forma, o domínio da área está vinculado ao assunto que se aprende e se ensina, ao objeto do conhecimento e às dimensões do mesmo. Como as atividades psicopedagógicas transitam entre os domínios comportamentais, cognitivos e de aprendizagem compartilhados por educadores e psicólogos, muitas atividades são comparáveis àquelas realizadas por profissionais da saúde e da educação. Dentre vários conceitos em psicopedagogia, Bossa (2007) concorda com o seguinte trabalho de Golbert: “Não devemos nos limitar a uma escola”, ou seja, devemos ampliar nossos horizontes, não devemos focar em um diagnóstico, sim, múltiplos diagnósticos até encontrarmos uma solução Nos casos problemáticos, não podemos deixar de envolver a família para que seu apoio contribua para um melhor tratamento. Jorge Huesca relata: 4 “A psicopedagogia foi uma ação subsidiária da medicina e da psicologia, perfilou-se como um conhecimento independente e complementar, possuidora de um objeto de estudo – o processo de aprendizagem – e de recursos diagnósticos, corretores e preventivos próprios” (Bossa, 2007, p.23). Divida seu trabalho em duas áreas: institucional e clínica. Segundo Bossa (2011): A Psicopedagogia institucional se caracteriza pela própria intencionalidade do trabalho. Atuamos como psicopedagogos na construção do conhecimento do sujeito, que, neste momento, é a instituição com a sua filosofia, valores e ideologia. A demanda da instituição está associada à forma de existir do sujeito institucional, seja ele a família, a escola, uma empresa industrial, um hospital, uma creche, uma organização assistencial (p.139). A psicopedagogia clínica, que se dá em consultórios ou em hospitais, o psicopedagogo busca não só compreender o porquê de o sujeito não aprender algumas coisas, mas também o que ele pode aprender e como. À busca desse conhecimento inicia-se no processo diagnóstico, momento em que a ênfase é a leitura da realidade daquele sujeito, para então proceder à intervenção, que é o próprio tratamento ou o encaminhamento (p.150). No campo institucional, as atribuições do psicopedagogo têm tido maior impacto, pelo fato de as ações e atribuições desta profissão estarem indissociavelmente ligadas às de outros profissionais da área da educação. Esse cenário não minimiza ou descarta a importância e a presença crescente da psicopedagogia em outros contextos, como o empresarial e o educacional. É fundamental ressaltar que o psicopedagogo não atua como psicólogo específico, nem serve como reforçador escolar no desenvolvimento de suas habilidades. Para evitar vieses, o psicopedagogo se concentra no seguinte conceito de triângulo: sujeito x objeto do conhecimento x ele mesmo na função de professor. É uma disciplina que, como muitas outras, é regida por certos princípios. • O princípio da prevenção: refere-se às ações que podem ser tomadas para que o aluno não enfrente mais dificuldades de aprendizagem, mas aprenda a lidar com elas. • O princípio do desenvolvimento: está intimamente ligado ao princípio anterior; um sujeito pode não só superar as dificuldades de aprendizagem, como também aprimorou seu tal. 5 • O princípio da ação social: tem a ver com a forma como um indivíduo interage com os outros e constrói relacionamentos. Ter relacionamentos positivos (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Nesses termos, a terapia psicopedagógico equilibra um aluno com dificuldades de aprendizagem e um profissional que entende a linguagem dramática do aluno e controla os aspectos que influenciam o aprendizado. Como resultado, o relacionamento está se tornando mais equilibrado. Como o equilíbrio é essencial em qualquer relação, o psicopedagogo deve estabelecer uma relação afetiva e de confiança com o educando, a fim de restituir-lhe o desejo de aprender, ou restabelecer a relação do educando com o objeto de conhecimento, concedendo-lhe autoridade para pensar. As origens da Psicopedagogia Como se aprende? Todas as pessoas aprendem da mesma maneira? As crianças têm um estilo de aprendizagem único que difere dos adultos. O que pode ser feito para dificultar o aprendizado de uma criança? Essas questões, principalmente aquelas relativas ao desenvolvimento infantil, começaram a surgir entre filósofos e teóricos por volta do século XVII, ao mesmo tempo em que desenvolviam uma concepção de infância. Antigamente, a criança era vista como um mini adulto e não recebia nenhum cuidado especial. Não havia educação oficial; sua aprendizagem ocorreu como resultado de suas interações com os adultos. Como resultado dos estudos sobre a infância, iniciou-se a educação formal para crianças, mas apenas para um pequeno número delas. Segundo Mota e Gomes (2004), houve um aumento do interesse pelo estudo das dificuldades de aprendizagem ao longo dos séculos XIX e XX. As crianças que não aprendiam eram consideradas anormais, apesar de não haver estudos científicos sobre elas e de uma educação marcada pela severidade e rigidez. O campo da psicopedagogia surgiu na fronteira entre os setores da saúde e da educação. Segundo Bossa (2000, p. 19), a necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem surgiu em decorrência da produção do conhecimento. 6 A preocupação decorre de como o aluno lida com as vantagens e desvantagensda aprendizagem, bem como de como o conhecimento é retido. Em princípio, a psicopedagogia estava ligada à medicina e à psicologia. Além dos professores, as conferências psicopedagógicos incluíam médicos, psicólogos e psicanalistas. Segundo Barbosa (2007, p. 91), a psicopedagogia Nasceu como uma área que possuía a missão de superar a “compartimentalização” do aprendiz, da sua forma de lidar com as facilidades e dificuldades para aprender e do conhecimento a ser aprendido. No seu trajeto, no entanto, não conseguiu evitar a contaminação pelo que já estava posto, pelas ciências que já possuíam seu estatuto estabelecido como tal. No entanto, esses movimentos foram prejudicados pelo final da Segunda Guerra Mundial. Apesar das contribuições de pesquisadores da Itália, Bélgica e Alemanha, foram os franceses que mais influenciaram os estudos psicopedagógicos na Europa (CLARO, 2018). Em 1946, J. Boutonier e George Mauco fundaram o primeiro centro psicoeducacional da Europa, fornecendo tratamento médico e educacional para crianças com problemas escolares e comportamentais. Nesses centros, crianças que apresentavam comportamentos socialmente inadequados na escola e em casa eram tratadas com conhecimentos psicológicos, psicanalíticos e pedagógicos. Por meio dessa trindade, precisamos conhecer a criança e seu meio para entender o caso e determinar o rumo da reeducação (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Um movimento semelhante foi feito nos Estados Unidos. O foco da pesquisa esteve relacionado aos métodos e conceitos construídos em torno da deficiência. Por exemplo, como podemos determinar se uma criança realmente não está aprendendo por causa de uma deficiência, ou o que a leva a não aprender apesar de ter estruturas cognitivas para essa aprendizagem. Entre os investigadores americanos, destaca-se Samuel Orton. O movimento europeu deu origem à psicopedagogia. Por outro lado, o movimento americano promoveu a crença de que os problemas de aprendizagem têm causas orgânicas e requerem tratamentos específicos, influenciando assim parte do movimento da psicologia escolar, segundo Bossa (2011), determinou a forma de tratamento dada ao fracasso escolar. 7 A preocupação com crianças com dificuldades de aprendizagem surgiu nos Estados Unidos a partir da década de 1930, com a criação dos primeiros centros reeducacionais para atender delinquentes juvenis. Em 1931, a educação especial é incluída nas escolas e, em 1941, formam-se as primeiras associações de pais de crianças com dificuldades de aprendizagem, nomeadamente na área da linguagem escrita. Nesse período, houve um aumento significativo no número de escolas especiais para o atendimento de crianças classificadas como lentas (CLARO, 2018). É fundamental notar que a ênfase recaiu sobre os aspectos médicos, o que implica que as dificuldades de aprendizagem foram examinadas apenas do ponto de vista biológico. Quando se trata da América Latina, vale destacar que a Argentina foi pioneira no continente, influenciando a forma como a psicopedagogia é praticada no Brasil. A psicopedagogia argentina foi fortemente influenciada pela literatura francesa (CLARO, 2018). Na prática, as atividades psicopedagógicos na Argentina começaram antes do surgimento do curso de Psicopedagogia. Profissionais com outra formação sentiram a necessidade de ocupar um espaço que nenhum psicólogo ou pedagogo nasceram e, assim, iniciaram a reeducação com o objetivo de sanar os fracassos escolares. Nas palavras de Bossa (2011, p. 40), nesse período, “trabalhava-se as funções egoicas, tais como memória, percepção, atenção, motricidade e pensamento, medindo-se os déficits e elaborando planos de tratamento que objetivavam vencer estas faltas”. Uma formação que incluiu influências da epistemologia genética (Jean Piaget), psicanálise (Freud e pós-Freudiana) e psicologia social (Pichon Rivière) e focada em problemas de aprendizagem. Os teóricos argentinos como Dr. Quirós, Jacob Feldmann, Sara Pain, Alcia Fernandez, Ana Maria Muiz, e Jorge Visca foram responsáveis pela criação de metodologias sobre problemas de aprendizagem e disseminar o conhecimento da psicopedagogia no Brasil, enriquecendo o desenvolvimento dessa área de conhecimento. A Psicopedagogia no Brasil 8 A Psicopedagogia foi fundada na Europa ao longo do século XIX com o objetivo de tratar os casos de insucesso escolar por meio da avaliação psicológica e terapêutica das crianças envolvidas. Mais tarde, à medida que os fundamentos da psicopedagogia evoluíram e se expandiram, começaram a ser estudados os problemas externos e internos que dificultavam o aprendizado. As primeiras salas de aula especiais foram criadas nos Estados Unidos por volta da virada do século, e os centros de orientação infantil e educacional surgiram na França (BOSSA, 2011). Verifica-se de que não houve nenhuma formação especializada em psicopedagogia nesse período. Situações relacionadas ao processo de aprendizagem e suas dificuldades foram tratadas e estudadas, principalmente por médicos, psicólogos e outros especialistas. A psicopedagogia, como campo de estudo e conhecimento, foi estabelecida na Argentina, e todas as atividades de avaliação e intervenção foram estabelecidas, assim como os testes e medidas que poderiam ser usados nas sessões psicopedagógicos. É importante reconhecer as contribuições de Jorge Visca, Alicia Fernandez e Sara Pan para o desenvolvimento e construção dos fundamentos teóricos necessários para a compreensão das dificuldades e transições de aprendizagem e seus respectivos tratamentos (AZEVEDO, MORAES, FONSECA, 2022). Na década de 1960, a psicologia clínica surgiu no Brasil e na Argentina. Nesse período foram inauguradas as primeiras turmas da Faculdade de Psicopedagogia de Buenos Aires. Uma colaboração entre medicina e educação resultou na criação das Clínicas de Leitura no Rio Grande do Sul. Desde essa década, alguns autores brasileiros preocupam-se com as dificuldades de aprendizagem causadas por deficiências e introduzem no país o conceito de Psicopedagogia. No entanto, não foi até a década de 1970 que a ideia de que os problemas de aprendizagem eram causados por diferenças neurológicas ganhou força, de acordo com o DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística sobre Dificuldades de Aprendizagem). Nesse contexto, o Brasil incluiu a proposta de construção de psicopedagogos para tratar os problemas de repetência e evasão escolar. Bossa (2000) afirma que, segundo Sergio Leite, os psiquiatras foram impedidos de exercer a profissão na Argentina e, por conta disso, passaram a atuar 9 na educação, desenvolvendo um método de enfrentamento das chamadas dificuldades de aprendizagem, tornando-se pioneiros nessa área na América do Sul. Vale ressaltar que, apesar da existência de alguns programas de pós- graduação, a maior parte da formação em Psicopedagogia no Brasil ocorre em programas de pós-graduação. Também foram realizados encontros nacionais nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, que contribuíram para o fortalecimento da Psicopedagogia em nosso país, culminando com a formação da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPP) em 1980 em São Paulo, que vem sendo lutando pela regulamentação da profissão de psicopedagogo no Congresso Nacional desde a aprovação do Projeto de Lei 31/2010. Segundo Bossa (2011, p. 88), a Associação, além de se preocupar com a regulamentação profissional, também é “responsável pela organização de eventos nacionais, bem como pelas publicações cujos temas retratam as preocupações e as tendências na área”. ABPq A Associação de Psicopedagogos de São Paulo foi fundada em 1980 por iniciativa de professores e alunos matriculados no curso de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae. Sua principal preocupação é definir o perfil do profissional da área, apresentou no oferecimento de pequenos encontrospara reflexo e troca de experiências sobre o trabalho com os problemas de aprendizagem (BOSSA, 2000). A primeira grande reunião foi realizada em 1984, tendo como preocupação primordial não apenas a discussão dos problemas de aprendizagem, mas também a reflexão sobre as ações que podem levar à melhoria da qualidade educacional. Com o crescente desenvolvimento do campo de atuação psicopedagógico no contexto brasileiro e a necessidade antiga desses profissionais de se engajarem em um trabalho mais multidisciplinar, a Associação passou a oferecer cursos, oficinas e seminários e outros incentivos aos alunos de graduação em Psicologia, Neurologia, Psiquiatria, Pedagogia e outras áreas, facilitando a troca de experiências e conhecimentos. Nessa época, vários outros estados, a exemplo do Brasil, estabeleceram seus próprios (RAMOS, 2009). Assim, em 1988, a Associação Paulista de Psicopedagogia passou a se chamar Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). Tornou-se uma entidade de representação do grupo que cadastrava seus profissionais e atuava na legalização da 10 identidade da categoria, na elaboração, divulgação e revisão de conhecimentos e tendências da área, bem como na organização de eventos. Uma de suas primeiras iniciativas nacionais foi a promoção do “I Congresso Brasileiro de Psicopedagogia” em conjunto com o “III Encontro de Psicopedagogos”, cujo objetivo era enfatizar a importância da integração do conhecimento para a compreensão do processo de aprendizagem como um todo- algo que já havia tentado como Associação Paulista. Após esse encontro, a ABPp promoveu diversos outros eventos. Além de promover encontros, conferências e seminários, a ABPp está agora envolvida na formação de psicólogos do país. Com esse objetivo em mente, o Conselho Nacional da ABPp aprovou um trabalho em 2000 intitulado “Diretrizes Básicas da Formação de Psicopedagogos no Brasil e Eixos Temáticos para Cursos de Formação em Psicopedagogia” que continha recomendações para a formação nacional de psicopedagogos (RAMOS, 2009). Segundo Bossa (2011, p.113), “a Associação Brasileira de Psicopedagogia continua na luta pela regulamentação profissional, graças à aprovação do Projeto de Lei nº 3.124/97 do Deputado Barbosa Neto”. Entre outras coisas, o Conselho recomendou que os cursos de Psicopedagogia fossem oferecidos prioritariamente em nível de pós-graduação e contemplassem as áreas institucional e clínica, com carga horária mínima de 600 horas (75% de aulas teóricas e 25 % de estágios supervisionados). Segundo o jornal, os coordenadores de curso devem ser formados em Psicopedagogia, e grande parte do corpo docente (70%) deve ser composta por psicopedagogos com experiência prática e de pesquisa na área. Como podemos ver, o número de profissionais psicopedagógicos está aumentando. Este campo de trabalho surgiu com o objetivo de resolver problemas educacionais de longa data relacionados às dificuldades de aprendizagem. Como resultado disso, o reconhecimento legal da profissão tornou-se cada vez mais importante (ARAUJO, 2014). 2 APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO Como muitos documentos antigos encontrados em cavernas sugerem, é milenar o desejo espontâneo de compartilhar informações com outras pessoas, com 11 o objetivo de ensinar aos outros primeiros a experiência e depois as ideias sobre essa experiência. Como resultado, é razoável acreditar que esse interesse começou com o primeiro homem. Mais tarde, os pedaços de pedra esculpida permitem a transmissão de informações de um local para outro, assim como a cerâmica reproduz o cotidiano. Na sequência do papel nas suas formas iniciais, materiais mais quebradiços, mas consistentes, como o papiro, juntaram-se a este processo de partilha de representações da realidade e pontos de vista (DÍAZ, 2011). Na Antiguidade, encontramos os primeiros sinais de sistematização educacional nas aldeias egípcias, chinesas e indianas, com o objetivo de preservar costumes, regras e tradições, utilizando o ambiente familiar e transmitindo conhecimentos de geração em geração. No Império Romano, e particularmente na Grécia, último grande centro do saber antigo (Platão, Aristóteles...), a educação formalizou-se há muito tempo, sem substituir totalmente a educação parental; assim, o Estado assumiu a responsabilidade de educar a população, decidindo quem deveria e quem não deveria, com base em objetivos políticos e militares (escravos e servos) (DÍAZ, 2011). Durante a Época Moderna (século XVII ao século XIX), a educação baseou- se em grandes descobertas científicas, sobretudo nos campos da medicina e da biologia, bem como em significativas invenções tecnológicas, principalmente de notáveis pensadores que revolucionaram os campos da filosofia, psicologia e educação (Voltaire, Rousseau, Kant, Pinel, Pestalozzi, Itard, ...). Como se sabe, ao longo da segunda metade do século XIX, os vários ramos da filosofia começaram a se separar e desenvolver suas próprias capacidades. Psicologia (Wundt, 1879) é uma delas, e contribui significativamente para o desenvolvimento de muitas teorias sobre a aprendizagem, que, por meio de uma série de encontros e desencontros, permite evoluir o conhecimento sobre essa capacidade humana (Stern, Catell, James, Stanley...) (DÍAZ, 2011). Ainda no século XX, fruto deste rápido progresso científico e tecnológico, várias “teorias de aprendizagem” começam a ser organizadas, dando ênfase a certos aspectos relacionados com os seus mecanismos produtivos, o papel da educação e a atividade do aprendem-te, dentro o enquadramento dos vários “paradigmas 12 educativos” desenvolvidos no decurso da relação entre a psicologia e a educação (paradigmas comportamentais, psicogenéticos, sócio históricos e culturais). Entre o ensino e a aprendizagem A educação e a aprendizagem são dois processos dos quais o indivíduo participa para obter significados que promovam a interação cultural e social. O processo educacional produz um conjunto de transformações sistêmicas nos indivíduos, uma série de mudanças incrementais cujas etapas ocorrem em ordem. Como resultado, é um processo progressivo, dinâmico e contínuo. Como resultado do processo de aprendizagem, ocorrem interrupções repetidas e intermitentes na atividade cognitiva do aluno (sujeito). Nosso processo, o docente é o que dirige, guia uma atividade condutora ou orientadora, bem como a formação de habilidades e hábitos de acordo com a concepção. Como resultado, o indivíduo obterá uma compreensão da ciência do mundo, proporcionando uma visão da realidade material e social (JERÔNIMO SOBRINHO, 2016). Todo processo de ensino é uma força motriz para o desenvolvimento e um mecanismo de feedback positivo. Este processo pedagógico deriva de uma poderosa força desenvolvimentista que promove a utilização dos conhecimentos necessários para assegurar a transformação constante do sujeito e do seu meio em prol dos seus próprios interesses como sujeito humano e social. Não se esqueça que o próprio conteúdo de ensino determina em grande parte seu efeito educacional; o ensino está sujeito a mudanças devido ao desenvolvimento histórico e social. O ensino existe fora da aprendizagem. Assim, esses dois aspectos – partes de um mesmo processo de ensino e aprendizagem – guardam sua própria especificidade ao mesmo tempo em que formam uma unidade entre o papel orientador do professor e as atividades dos alunos (JERÔNIMO SOBRINHO, 2016). A educação tem um ponto de partida e uma premissa geral em seus objetivos educacionais. Eles determinam os conteúdos, métodos e formas organizacionais de desenvolvimento de acordo com as mudanças planejadas que devem ser promovidas no indivíduo que os recebe. Essas metas também ajudam a direcionar o trabalho de professores e alunos no processo de aprendizagem, além de servir como um indicador de primeira classe paraavaliar a eficiência a do ensino, a aprendizagem é um processo de natureza 13 extremamente complexo, uma essência da qual é uma aquisição de novos conhecimentos, habilidades ou recursos. Para que um processo seja considerado verdadeiramente como aprendizado, ele deve se expressar em algum momento no futuro, ao invés de ser uma simples tarefa ou retenção temporária (JERÔNIMO SOBRINHO, 2016). O aprendizado não é restrito às crianças. A aprendizagem é uma via de mão dupla com dois atores: um que aprende e outro que ensina (professor ou instituição de ensino, pai, filho, amigo ou qualquer pessoa que invista no assunto). A aprendizagem também pode ser vista como produto ou resultado de uma interação social e, desta forma, é um processo inerentemente social, tanto pelo seu conteúdo quanto pelas formas como aprendizagem; um tolerante com os outros; nessa interação se desenvolve a prática e inteligência reflexiva, constroem-se e se internalizam novos conhecimentos ou recursos. Dimensões do processo de aprendizagem Aprendizagem e desenvolvimento são processos interligados que são influenciados por elementos internos e externos do ser humano. Os fatores internos abrangem três aspectos inter-relacionados: o corpo como instrumento responsável pelos automatismos, coordenação e articulação, cujo organismo representa a infraestrutura que permite ao indivíduo perceber, registrar, reconhecer e registrar os diversos estímulos que o cercam; estruturas cognitivas responsáveis por organizar estímulos e transformá-los em conhecimento, que representam a base da inteligência; e a dinâmica da cognição. Os fatores externos são aqueles que são afetados pelas condições proporcionadas pelo meio em que o indivíduo está inserido (PAÍN, 1985). A autora citada insere o processo de aprendizagem na dinâmica da transmissão cultural, ampliando o significado do termo educação. Reitera que a educação serve a quatro propósitos: 1. Mantenedor/conservador - reproduz as regras que regem as ações, garantindo a sobrevivência da espécie humana; transmissão cultural; 2. Socializadora - transforma o indivíduo em sujeito que se identifica com o grupo e passa a internalizar seu conjunto de normas por meio da língua, da cultura, do meio; 14 3. Repressora - utiliza-se de meios para garantir a manutenção do sistema que rege a sociedade conservando e reproduzindo as restrições existentes; 4. Transformadora - quando os constrangimentos do sistema são reconhecidos e reconhecidos, e os sujeitos adotam uma postura de resistência a esses constrangimentos, a aprendizagem torna-se uma possibilidade libertadora. Nesse sentido, o autor observa que o conhecimento é um esforço colaborativo entre quem ensina e quem aprende; é construção e produção humana. Os processos de aprendizagem são bastante diversos, necessitando de um olhar mais amplo e atento a todos os fatores que os compõem. Muito complicadas porque envolvem questões cognitivas, psicológicas, materiais e humanas indissociáveis. Segundo Paín (1985), a educação não é uma estrutura, mas sim um lugar de articulação de ideias. Não é isolado porque abarca “momentos históricos, organismos, etapas da inteligência genética” e um sujeito vinculado a outras estruturas teóricas “que servem de material de pesquisa para “o materialismo histórico, a teoria piagetiana da inteligência e à teoria psicanalítica de Freud” (PAÍN, 1985, p. 15). Como resultado, o autor apresenta quatro dimensões que envolvem os processos de aprendizagem, conforme mostra a Figura 1. Figura 1 – Aprendizagem e as quatro dimensões propostas por Paín. Fonte: Piovesan et al., 2018 • A dimensão biológica - é o organismo, suas especificidades e a possibilidade de aprendizagem e construção de esquemas de ação sobre o mundo, bem como instrumentalidade para agir sobre ele; • A dimensão cognitiva - a partir de uma estrutura orgânica inicial, o sujeito constrói o conhecimento; isso se refere mais a construções pessoais. 15 • A dimensão social - é constituída pela aprendizagem/avanço individual em contextos adaptados a cada sujeito, englobando todos os comportamentos de transmissão cultural. • A dimensão da aprendizagem em função do eu - ou seja, a constituição do sujeito (PAÌN, 1985). De que maneira cada uma delas pode influenciar a aprendizagem? A dimensão biológica do processo de aprendizagem refere-se ao organismo, sua especificidade e possibilidade de aprender, e ao estabelecimento de um plano de ação no mundo e aos instrumentos para atuar sobre ele. A esse respeito, Piaget apontou que a vida e o conhecimento têm duas funções comuns: a conservação da informação e a antecipação. A preservação da informação tem a ver com a memória. A princípio, algum tipo de conhecimento é adquirido, posteriormente, ocorre a preservação do conhecimento adquirido. Piaget apontou que as informações obtidas de fora são o resultado de uma estrutura ou plano interno de um indivíduo, que pode ser mais ou menos estruturado. Esse processo ocorre tanto para o aprendizado mais complexo quanto para o aprendizado mais básico (PIOVESAN et al., 2018). Dessa forma, o indivíduo cria condições para se adaptar adequadamente a novas situações, mantendo esquemas previamente construídos por meio de um comportamento espontâneo exploratório. Piaget destaca que toda aprendizagem humana resulta de uma construção. “As estruturas do conhecimento apresentam uma característica específica de serem construídas, motivo pelo qual não podem ser consideradas inatas, apesar do caráter hereditário da inteligência como restrito do ser humano” (PAÍN, 1985, p. 16). Sua construção requer experiência ou manipulação do ambiente, bem como funcionamento interno do sujeito, ambos levando à elaboração gradual da coordenação da ação do sujeito. Paín (1985) propõe três tipos de conhecimento que englobam a dimensão biológica: • Conhecimento das formas Hereditárias - Combina as informações hereditárias do sujeito com informações sobre o meio em que o sujeito irá operar. 16 • Conhecimento das formas lógico-matemáticas - construídas de forma incremental, de acordo com as fases de equilíbrio crescente e via organização progressiva das ações realizadas com os objetos, mas sem eles enquanto tais. • Conhecimento da forma adquirida - as experiências que o sujeito tem com o objeto lhe fornecem informações sobre suas características e propriedades. Conhecimento das formas lógico-matemáticas e das formas adquiridas integram e complementam o funcionamento do conhecimento das formas hereditárias, “já que, se por um lado, toda ação é ação sobre um objeto, por outro lado, esta ação se melhorou com certa organização, impresso no marco das estruturas lógicas que permitem uma leitura correta da experiência”. Com base nos princípios biológicos e na epistemologia genética de Piaget, é possível reconhecer a existência de um processo de aprendizagem mais amplo causado pelo desdobramento funcional de uma atividade estruturante que, ao final, cria estruturas operacionais esquematizadas (PIOVESAN et al., 2018). Há também um aprendizado mais restrito que permite a compreensão das propriedades e leis de cada objeto especificamente, por meio da assimilação de tais estruturas que permitem uma organização abrangente do mundo real. A dimensão cognitiva do processo de aprendizagem refere-se especificamente aos aspectos psicológicos da aprendizagem. Paín distingue 3 tipos de aprendizagem: • O primeiro tipo de aprendizagem refere-se ao processo pelo qual um indivíduo adquire um novo comportamento, adaptado a novas situações encontradas, e apoiado na experiência adquirida através de uma tentativa falhada e erro face a uma situação desconhecida. A tentativa e erro não são ocasionais, mas dirigida ao sujeito e conduza uma aprendizagem, independentemente de ter alcançado ou não. • No segundotipo há uma aprendizagem da regulação que conduz as mudanças dos objetos e suas relações recíprocas. A experiência tem a capacidade de confirmar ou ajustar hipóteses e previsões internas que o sujeito construiu a partir da manipulação de objetos. • O terceiro tipo, aprendizagem estrutural, diz respeito ao surgimento de estruturas lógicas de pensamento que permitem ao sujeito organizar realidades compreensíveis e cada vez mais equilibradas. Tais estruturas são construídas 17 ao longo do processo de aprendizagem. Com isso, a experiência tem a capacidade de verificar constantemente esquemas já construídos que são ineficientes para uma determinada transformação. Paín (1985) usa o exemplo da experiência de retenção de líquidos para mostrar como se processa a compensação intuitiva nas crianças, observando que as respostas que a satisfaziam aos cinco anos de idade já não a satisfaziam aos seis anos em decorrência das experiências que possui, que lhe permitem modificar esquemas previamente construídos e construir novos. A experiência cria, assim, um novo esquema que encoraja a aplicação de estruturas já construídas à realidade e, ao mesmo tempo, permite que os sujeitos compreendam sua própria realidade e potencial transformador de maneira coordenada (PIOVESAN et al., 2018). Em nível social, podemos pensar na educação como uma das duas metades da equação ensino-aprendizagem, a última das quais constitui o processo educacional. Este processo engloba todos os comportamentos de transmissão cultural, incluindo os objetivos das instituições que promovem a educação de forma específica (escola) ou indireta. Por meio dela, o sujeito histórico exercita, assume e incorpora uma determinada cultura, na forma como fala, obedece, usa ferramentas, artesãos e dorme de acordo com as modalidades de seu próprio grupo de pertencimento. Educar é ensinar no sentido de demonstrar, estabelecer normas e marcar como algo pode ser feito. A criança aprende a se expressar, a se vestir, a escrever, a não se atrasar e a não chorar. O método de fazer o que a educação exige tem por objetivo a formação do tipo de pessoa que determinado grupo social exige: respeito, asseio, pontualidade, etc. Ela ação desenvolvida e refinada, o sujeito incorpora uma representação do mundo, que por sua vez incorpora e é submetido (PIOVESAN et al., 2018) Assim, toda transmissão cultural requer uma amostra, uma seleção de modos de ação, cujo determinante é a situação educacional em relação à produção, juntamente com outros fatores como nacionalidade, geração, profissionalização etc., da família do aluno e grupo social. Nesse sentido, a educação garante a continuidade do processo histórico e a preservação da sociedade como um todo por meio de suas transformações evolutivas e estruturais. Mas também tem um papel importante na 18 implementação dessas mudanças, pois é óbvio que assim como os sistemas estabelecidos usam a educação para se manterem, os revolucionários precisam da educação para conscientizar e motivar seus seguidores (PAÍN, 1985). A transmissão da cultura é sempre ideológica, no sentido de que é seletiva e serve para preservar modos únicos de operação e, portanto, serve para manter estruturas de poder definidas. Métodos de análise baseados no materialismo histórico e apoiados em outros recursos, particularmente os inspirados na linguística estrutural, permitem identificar representações implícitas nos conteúdos veiculados; análise das formas e métodos de transmissão torna-se mais difícil, e enfrentaremos sua crítica do ponto de vista ideológico e epistemológico no contexto da programação (PIOVESAN et al., 2018) O processo de aprendizagem em função do meu. Os processos de aprendizagem também têm impacto na composição da disciplina. A educação nos permite manter seu pulso sob controle, permitindo-nos canalizar nossa energia para empreendimentos culturais. A criança aprende a regular a pressão dos impulsos usando formas substitutas de satisfação que permitem à criança intercalar necessidade e desejo. Aprender a organizar a informação sensorial transformando-a em elementos utilizáveis que podem ser pensados, registrados e sonhados. Esses elementos se combinam para construir uma barreira que protege a emoção da realidade e a realidade da emoção (PAÍN, 1985). A função mediadora do ego permite a aceitação da realidade diante do princípio do prazer, pois sua capacidade de pensar lhe permite distinguir entre o que vai e o que não vai acontecer em determinada situação, evitando a necessidade de repreensão. A capacidade de compreender e lembrar a inteligência humana também é essencial para que o indivíduo consiga satisfazer desejos impulsivos. A aprendizagem integra educação e pensamento em um único processo, pois ambos são viáveis na aplicação do princípio da realidade. Desenvolver a capacidade de se entregar e se frustrar é fundamental, pois saber também implica não saber. É preciso atentar para a “inversão do aprendizado”, ou seja, para o que se esconde no ensino e se revela no aprendizado. 19 Considerando os vários níveis de interpretação da realidade, entender a aprendizagem como um objeto único e científico é extremamente difícil, pois a aprendizagem não ocorre no nível teórico, mas no nível fenomenológico (PAÍN, 1985). O sujeito aprende que pertence a um determinado grupo social, com um equipamento mental determinado pela genética e uma continuidade biológica funcional, e tudo isso para cumprir o destino do outro. 3 O PROCESSO DE APRENDIZAGEM E SUAS DIFICULDADES Aprender é uma possibilidade que todo ser humano tem ao longo de sua existência, incorporando experiências e conhecimentos de forma exitosa que, por sua vez, afeta e produz mudanças em seu meio. A aprendizagem inclui não apenas aspectos intelectuais, mas também aspectos emocionais e relacionais, tanto conscientes quanto inconscientes. Cada pessoa tem sua própria maneira de aprender com base em suas próprias regras, história e relacionamento com os outros. Ao longo do desenvolvimento, a formação da personalidade se faz por meio da resolução de conflitos de aquisições, sendo a aprendizagem o produto da interação das necessidades que vão se modificando e, assim, configurando novos conflitos, que influenciam a maneira como as etapas posteriores do desenvolvimento serão experimentadas (PORTO, 2009, p. 40). Existem também barreiras duradouras à aprendizagem que resultam de uma variedade de causas. Todo mundo tem, em graus variados, equívocos, lacunas, resistência e ansiedade sobre o processo de aprendizagem. Os problemas de aprendizagem aparecem durante os anos escolares, principalmente nas crianças. É certo que as dificuldades e insucessos escolares têm impacto em todos os aspetos da personalidade da criança e colocam-na em desvantagem no acesso às manifestações culturais e, em muitos casos, às futuras oportunidades sociais e laborais. Podemos considerar a dificuldade de aprendizagem um sintoma no sentido de que nenhuma aprendizagem está isolada de uma série de outros comportamentos. Nenhum fator determina sua ocorrência, pois a questão da aprendizagem surge de uma confluência de elementos. Podemos definir uma dificuldade de aprendizagem como uma palavra geral que descreve problemas específicos de aprendizagem. É um distúrbio que pode 20 prejudicar a capacidade de uma pessoa de adquirir, compreender, organizar e armazenar informações. Essa desordem prejudica a aprendizagem de indivíduos que têm um nível de inteligência média ou superior à média. Tal problema pode levar uma pessoa a ter dificuldades em aprender e a usar certas habilidades. Segundo Jerônimo Sobrinho: O problema de aprendizagem é um conjunto de obstáculos ou transtornos que inferem no desenvolvimento normal das atividades escolares de uma criança, o que a impede de realizar os objetivoseducativos propostos. (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015 p.59). Uma pessoa com um problema de aprendizagem pode ter um tipo diferente de problema do que outra pessoa. Ou seja, uma pessoa pode ter dificuldades para ler e escrever; outro pode ter dificuldades com a compreensão matemática; e ainda outro pode lutar em todas as três áreas. Em outras palavras, as dificuldades de aprendizagem diferem de pessoa para pessoa. As habilidades que são mais frequentemente prejudicadas pelas dificuldades de aprendizagem incluem: • Leitura (visual): a criança segura o livro próximo; diz palavras em voz alta; substitui, omite e inverte palavras; vê dobras; pula e lê as mesmas • Linha duas vezes: não lê fluentemente; tem má compreensão de leitura oral; omite consoantes finais na leitura oral; pisca excessivamente; tende a esfregar os olhos e reclama de coceira; tem problemas de deficiência visual; erros de ortografia, etc.; • Escrita: Inverte e muda a altura das letras; sem espaços entre as palavras, sem quebras de linha; segura o lápis desajeitadamente, sem lateralidade; move e carrega o papel incorretamente; tenta escrever com os dedos; confusão; • Audição e Fala: A criança frequentemente apresenta apatia, resfriado, alergia e/ou asma, pronuncia errado, respira pela boca, reclama de problemas de ouvido, sente tonturas, fala alto; não pode seguir mais de uma instrução por vez; coloca a televisão e o rádio com volume alto; • Matemática: a criança inverte os números; tem dificuldade em contar as horas; tem pouca compreensão e memória de números; e não responde a dados matemáticos, áticos, e a uma tarefa individual. 21 É consequência de processos em que se valoriza a colaboração e a partilha. Cada indivíduo aprende com base em sua história pessoal e familiar, bem como no período histórico em questão. Quando se trata de cultura, que influencia e é influenciada pelo ser humano, ela não pode ser ignorada. Se alisar a aprendizagem, corre-se o risco de “fragmentar” o processo, como demonstra o fracasso dos modelos educativos nas culturas originárias O ser humano é por natureza multidimensional; é um sistema complexo de relações e funcionamentos. Quando ele está́ em uma situação de aprendizagem, reproduz as características desta complexidade, portanto, não podemos observá-lo. Os seres humanos são multidimensionais por natureza; eles são um sistema complexo de relacionamentos e funções. Quando estiver em situação de aprendizado, deve imitar as características desse composto. Como resultado, não podemos observá-lo, nem tentar trabalhar com ele considerando apenas seus aspectos comportamentais. Também é necessário avaliar as relações estabelecidas. Portanto, ao analisar a etiologia dos problemas de aprendizagem, devemos levar em consideração fatores fisiológicos, emocionais, sociais e históricos. Paín (1989) identifica quatro fatores que influenciam os problemas de aprendizagem dos alunos: orgânicos, específicos, psicogênicos e ambiental. Fatores orgânicos A origem de todo aprendizado está nos padrões de comportamento existentes no corpo. Portanto, a integração anatômica e funcional dos órgãos envolvidos com os sistemas nervoso central e sensorial é essencial. Nesse contexto, Paín (1989) sugere estudar os estados visual e auditivo. A alteração de alguns desses recursos pode interferir no aprendizado da matéria. Por exemplo, crianças com perda auditiva ou miopia geralmente optam por se isolar ou pedir a alguém que repita o que foi dito. Se tais problemas são causados por defeitos orgânicos corticais, glandulares e crônicos, isso deve ser esclarecido por investigações neurológicas. Esses distúrbios podem levar a problemas cognitivos mais ou menos graves não é, em si, um problema de aprendizagem. Também é importante saber se seu filho está comendo corretamente e em quais quantidades e variações. Os efeitos da desnutrição no atual sistema nervoso 22 central em níveis anatômicos, neuroquímicos e fisiológicos prejudicam aspectos cognitivos, comportamentais e motores da memória e cognição. Crianças desnutridas interagem menos com seu ambiente, o que afeta suas relações com outras pessoas e objetos da vida cotidiana. Paín (1989) afirma que a desnutrição crônica causa uma distrofia generalizada que prejudica gravemente a capacidade de aprender. Eles também têm um sistema imunológico enfraquecido, tornando-os mais propensos a desenvolver infecções. A dieta da mulher também deve ser levada em consideração, pois a desnutrição em mulheres grávidas pode afetar diferentes aspectos do desenvolvimento infantil. Também é importante conhecer as condições de proteção e conforto do sono do seu filho, pois são fatores fundamentais para um melhor aproveitamento da experiência. Fatores específicos Existem problemas decorrentes da adequação dos movimentos perceptivos. Eles estão associados à dificuldade de não conseguir provar uma origem orgânica. Tais problemas afetam particularmente os níveis de aprendizado de idiomas, pronúncia, leitura e escrita. É impossível criar uma imagem clara de fonemas, sílabas, palavras, imperfeições gráficas, etc. Estes também são encontrados na análise e síntese simbólica e nas habilidades sintáticas. Certas dificuldades de aprendizagem são frequentemente associadas à incerteza na idade lateral do sujeito. O termo "dislexia" como entidade específica merece atenção especial nos problemas de aprendizagem. De fato, neste caso, a dislexia é um problema dentro da agnosia que não impede que crianças ou adultos afetados a tenham, por isso pode ser considerada um único tipo de dislexia que ocorre com pouca frequência (PAÍN, 1989). Em tais casos, é extremamente doloroso e deve se desenvolver por meio de canais compensatórios para manter a saúde. Em todos os outros casos, a dislexia é usada como um nome chique simplesmente para traduzir dificuldade de aprenda a ler e escrever. Tais dificuldades sempre podem ser diagnosticadas, é multifatorial e sua peculiaridade reside na dificuldade de adaptação. Nesses casos, se o diagnóstico estiver correto, o tratamento psicoeducativo é de rápido sucesso. 23 Fatores psicogênicos Para reconhecer a expressão do conflito no psiquismo, é necessário recorrer à história pessoal do sujeito. O significado do problema de aprendizagem deve buscar tanto o conteúdo material sobre o qual opera quanto a manipulação do mesmo. As próprias operações e as fontes podem ser vistas como significantes associados a significados reprimidos inerentes ao funcionamento das estruturas neurais. Para interpretar seu significado, podemos observar o significado que uma tarefa de aprendizagem adquiriu em um determinado assunto. Paín (1989) discute a não-aprendizagem usando os termos sintoma e inibição descritos por Freud. Primeiro, a não-aprendizagem tem um significado inconsciente. Há uma supressão prévia de eventos que de alguma forma implica um processo de aprendizagem. Na segunda, há uma retratação intelectual do ego (eu), o que provoca uma redução das funções cognitivas, acarretando problemas na aprendizagem. Em outras palavras, a inibição seria uma diminuição da função cognitiva da aprendizagem e o sintoma, a transformação dessa função. A supressão é uma peculiaridade dos fenômenos neuróticos e, segundo Freud (1996), implica a retirada do “ego” que ocorre em três casos. Primeiro, em relação à sexualização dos órgãos envolvidos na conspiração. Em segundo lugar, quando o sucesso é evitado ou forçado a falhar diante do sucesso. E terceiro, quando “eu” está preocupado com outras tarefas mentais que consomem toda a energia disponível. Os fatores psicogênicos dos problemas de aprendizagem estão, portanto, relacionados à sua importância e não podem ser inferidos sem considerar a matéria orgânica e o ambiente. A não aprendizagem é geralmente construída como um sintoma quando existemoutras condições que facilitam esse caminho. A chave aqui é que, para que os sintomas de aprendizagem ocorram, o sujeito deve ser um indivíduo dividido pela repressão. Desta forma, distinguimos entre dificuldades de aprendizagem e transtornos mentais graves que causam distúrbios do pensamento e deficiências intelectuais (autismo, psicose, transtornos narcísicos). Tais disfunções são distúrbios que, como antecedentes da formação dos sintomas, apresentam deficiências na organização do aparelho mental. O defeito do recalque originário indica um dispositivo que não se 24 constitui plenamente e, portanto, funciona segundo sua estrutura particular, sob o domínio do processo primário. Quando falamos desse tipo de transtorno, não estamos necessariamente nos referindo a problemas de aprendizagem, mas os transtornos psicoestruturais fazem com que as crianças percam o potencial de ordem simbólica, afetando seus sistemas de pensamento e aprendizagem. Como os pacientes psicóticos não se envolvem na repressão, todo o processo secundário fica comprometido. O sujeito fica prisioneiro das múltiplas associações apresentadas, e o significante perde sua própria função de ser móvel e intercambiável. Fatores ambientais As dificuldades de aprendizagem são causadas por problemas fisiológicos, a frequência com que as crianças são afetadas depende do ambiente em que vivem. Na verdade, a situação em casa e na escola pode significar a diferença entre uma deficiência leve e um problema de deficiência agravante. Precisamos entender como isso afeta o desenvolvimento intelectual e a capacidade de aprendizagem de uma criança (SMITH; STRICK, 2007). Este fator se concentra em questões escolares, em vez de questões de aprendizagem em si. Este fator contempla características como moradia, bairro, escola, acesso a locais de entretenimento e esportes, acesso à informação e cultura (jornais, televisão, rádio, livros, etc.) e a abertura profissional que a mídia oferece (PAÍN, 1989). Tais fatores permitem compreender sua correspondência (acréscimo) às ideologias e valores familiares. Os problemas de aprendizagem não são vistos da mesma forma em famílias onde a aprendizagem está num lugar privilegiado (onde a aprendizagem é valorizada e vista como importante) e em famílias onde não existe motivação para aprender. Portanto, é importante compreender o lugar da aprendizagem dentro dos grupos familiares e não deixar que a classe social seja o determinante da aprendizagem. Exemplos de fatores ambientais incluem baixo nível socioeconômico, mães sem família ou apoio social e baixa escolaridade dos pais. Nesses casos, é mais provável que a criança experimente alterações no desenvolvimento. A educação dos pais é fundamental para a sobrevivência e educação de uma criança. 25 Outro exemplo é a exposição de crianças à violência doméstica. Essa situação se manifesta nas crianças por meio de sintomas psicológicos comportamentais, emocionais e físicos. O impacto varia de acordo com a idade, reticência familiar, características residenciais, experiência anterior com abuso, proximidade com os fatos, sua gravidade, tipo ou forma de abuso e familiaridade com a vítima ou perpetrador. Uso de substâncias, transtornos emocionais ou psiquiátricos graves, falta de cuidados pré-natais e falta de habilidades parentais no manejo pediátrico também são exemplos de fatores ambientais. As crianças formam um vínculo ou vínculo com seus pais ao longo do tempo. Esse vínculo é bidirecional e não instantâneo, e começa no útero quando a mãe sente os primeiros movimentos do feto. Construir um apego seguro requer a presença constante de um adulto que atenda com amor às necessidades emocionais e físicas de uma criança. Existem fatores pré-natais e pós-natais que colocam em risco os apegos. Por exemplo, gravidez indesejada, perda de filhos anteriores e bebês nascidos com malformações. A separação dos filhos dos pais por meio de hospitalização, divórcio e prisão dos pais é outro fator ambiental. O fator ambiental é muito importante no diagnóstico de problemas de aprendizagem, pois permite entender nosso alinhamento com a ideologia e os valores do grupo. Não basta simplesmente colocar o paciente em uma classe social. Também é necessário determinar o nível de conscientização e participação. A dificuldade de aprendizagem que surge em cada caso terá um significado diferente, pois diferem o padrão contra o qual se dirige e a expectativa que desqualifica (PAÍN, 1989). A abordagem psicopedagógica, com sua multiplicidade de olhares, permite que educadores e familiares modifiquem suas atitudes diante das dificuldades de aprendizagem de qualquer pessoa; analisá-los a partir da dialética cada vez maior entre os equipamentos biológico-hereditários materializados em um corpo e um organismo, e os ambientes nos quais o educador vive e existe como ser de desejos, pensamentos e ações. Utilizo a contribuição de Scoz (1994) porque ela sintetiza a mensagem que se buscava compartilhar: (...) os problemas de aprendizagem não são restringíveis nem a causas físicas ou psicológicas, nem a análises das conjunturas sociais. É preciso compreendê-los a partir de um enfoque multidimensional, que amalgame fatores orgânicos, cognitivos, afetivos, sociais e pedagógicos, percebidos dentro das articulações sociais. Tanto quanto possível, a análise, as ações 26 sobre os problemas de aprendizagem devem inserir-se num movimento mais amplo de luta pela transformação da sociedade (p.22) Espera-se que a abordagem psicopedagógica permita compreender melhor as dificuldades de aprendizagem sem penalizar os afetados, mas sim buscar a melhor ajuda para todos. Após o término da escola, o aprendizado é considerado a mãe da própria vida e, por isso, a compreensão e o tratamento dispensado às pessoas - com ou sem problemas de desenvolvimento - não devem mais se basear em teorias que promovem o sentimento de inferioridade e diferença, que leva ao preconceito. Por conta desse entendimento, a psicopedagogia é o tratamento mais indicado para os problemas de aprendizagem. A psicopedagogia contribui abrindo possibilidades de mudança a partir das diferenças, incutindo no aluno a vontade de aprender e tornando o único aos seus próprios olhos, aos olhos de sua família e aos olhos da escola. Psicopedagogos e alunos criam estratégias juntos para um melhor desempenho de acordo com possibilidades e interesses. 4 INTRODUÇÃO AS TEORIAS PSICOPEDAGÓGICAS Em geral, uma teoria é uma tentativa humana de sistematizar um campo de conhecimento, uma forma específica de ver as coisas, explicar e antecipar observações e resolver problemas. Uma teoria de aprendizagem é, portanto, uma construção humana para interpretar sistematicamente a área do conhecimento que chamamos de aprendizagem. Representa o ponto de vista de um autor ou pesquisador sobre como perceber o tema da aprendizagem, incluindo se as variáveis são independentes, dependentes e intervenientes. Tente explicar o que é aprendizagem e por que funciona da maneira que funciona (MOREIRA, 2023). Na prática, a expressão “teoria da aprendizagem” é usada livremente. Por exemplo, a teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget é uma teoria em que a aprendizagem não é um conceito central. No entanto, esta teoria tem tantas implicações para a aprendizagem que é frequentemente referida como teoria da aprendizagem. Em geral, todas essas “definições” de aprendizagem referem-se à aprendizagem cognitiva, que resulta no armazenamento organizado de informações 27 e conhecimentos na memória do ser que aprende, e esse complexo organizado é conhecido como estrutura cognitiva. Costuma ser distinguida da aprendizagem emocional e psicomotora, embora algumas experiências emocionais sempre envolvam aprendizagem cognitiva e estas geralmente estejam envolvidas naaquisição de habilidades motoras (MOREIRA, 2023). A aprendizagem cognitiva se concentra na cognição, o ato de conhecer. A aprendizagem afetiva está mais preocupada com experiências como prazer e dor, satisfação e insatisfação, alegria e medo. A aprendizagem psicomotora está relacionada com as respostas musculares obtidas através do treino e da prática. As teorias que o ser humano constrói para sistematizar seus conhecimentos, explicar e prever eventos são constituídas de conceitos e princípios. Conceitos são signos que indicam regularidades em objetos ou eventos, e são usados para pensar e responder de forma previsível e consistente ao fluxo de eventos. Princípios são relacionamentos significativos entre conceitos. As teorias também expressam relações entre conceitos, mas são mais amplas, incluindo muitos conceitos e princípios. Subordinados às teorias estão os sistemas de valores, que podem ser referidos como filosofias ou visões de mundo. No caso das teorias de aprendizagem, há três subfilosofias a serem consideradas: behaviorista (behaviorismo), humanista (humanismo) e cognitiva (construtivismo), embora nem sempre seja possível encapsular uma teoria de aprendizagem bem definida em uma única corrente filosófica. Comportamentalismo O foco da cosmovisão behaviorista está no comportamento observável e mensurável do sujeito, a resposta a estímulos externos. Também está no que acontece depois que você envia a resposta, o resultado. Uma ideia-chave do behaviorismo moderno é que as ações são governadas por consequências. Se o resultado for positivo para o sujeito, a frequência do comportamento tende a aumentar e, inversamente, se o resultado for desagradável, a frequência da reação tende a diminuir. Isso significa que, manipulando principalmente os eventos que seguem a exibição comportamental, podemos, em princípio, controlá-la sem recorrer a suposições sobre a atividade mental entre estímulos e respostas específicas (MOREIRA, 2023). 28 O behaviorismo, aliás, surgiu na virada do século, principalmente nos Estados Unidos, como uma reação ao mentalismo que dominava a psicologia europeia. Essa ideia tem sido a base de toda a abordagem educacional tecnológica que dominou a atividade educacional em todas as disciplinas, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Grande parte da ação educativa é a apresentação de estímulos e, o mais importante, reforço positivo (bons resultados para os alunos) na quantidade certa e no momento certo para aumentar ou diminuir a frequência de determinados comportamentos do aluno). Cognitivismo A filosofia cognitiva, por sua vez, destaca exatamente o que é ignorado pelas visões behavioristas: a cognição, o ato de saber como o ser humano percebe o mundo. É interessante notar que o surgimento do cognitivismo praticamente coincidiu com o nascimento do behaviorismo. Para os cognitivistas, o foco deve estar nas chamadas variáveis intervenientes entre estímulos e respostas, cognição, processos mentais superiores (percepção, resolução de problemas, tomada de decisão, processamento de informações, compreensão) (MOREIRA, 2023). A filosofia cognitivista está, portanto, preocupada principalmente com os processos mentais. Trata da atribuição de significado e da compreensão, transformação, armazenamento e uso de informações relevantes para a percepção. Na medida em que essa perspectiva reconhece que o conhecimento vem por construção, chega-se ao construtivismo apregoado na década de 1990. O construtivismo é a posição filosófica do cognitivista interpretativo. Os cognitivistas estão preocupados com a cognição, como os indivíduos sabem como construir estruturas cognitivas. Isso ocorre porque assume que eventos e objetos cósmicos são interpretados por um sujeito que percebe. Os seres humanos têm a capacidade criativa de interpretar e expressar o mundo, bem como reagir a ele (MOREIRA, 2023). Humanismo A filosofia humanista vê a aprendizagem como uma pessoa em primeiro lugar. A importância da autorrealização e do crescimento pessoal não pode ser exagerada. A aprendizagem é vista como um todo, incluindo sentimentos, pensamentos e ações, ao invés de apenas inteligência. Nesse contexto, a aprendizagem é mais do que 29 apenas um aumento de conhecimento: ela é penetrante, visceral e influencia as escolhas e atitudes de um indivíduo. Pensamentos, sentimentos e ações estão todos interligados para o bem ou para o mal. Não faz sentido falar sobre comportamento ou cognição sem considerar o domínio afluente, os sentimentos do aprendiz. A teoria do cognitivismo de Piaget A posição filosófica de que o conhecimento humano é uma construção humana, coletiva e individual, é bastante antiga. Mas Piaget foi indiscutivelmente o pioneiro da abordagem construtivista da cognição humana no século passado. Suas propostas formam uma teoria construtivista do desenvolvimento cognitivo humano. Embora algumas de suas obras importantes remontem à década de 1920, Piaget foi “redescoberto” muito mais tarde, como na década de 1970. Talvez a ascensão do cognitivismo e o declínio do behaviorismo tenham começado em termos de seu impacto no ensino/aprendizagem e na pesquisa nesse campo. Como já foi mencionado, a obra de Piaget é tão diversa que serão enfatizados apenas os períodos de desenvolvimento mental por ele propostos e alguns conceitos- chave de sua teoria, como assimilação, adaptação e equalização. Entre os leigos, talvez Piaget seja mais conhecido pelos quatro estágios do desenvolvimento cognitivo do que por tais conceitos, mas seu construtivismo reside justamente nesses conceitos. Período de desenvolvimento mental Piaget distingue entre quatro estágios gerais do desenvolvimento cognitivo: sensório-motor, pré-operatório, operacional-concreta, operacional formal. Cada um desses períodos é dividido em estágios ou níveis (SERRA, 2009). • Período sensório-motor (0-2 anos) Como o nome sugere, as crianças conquistam o mundo através de seus sentidos e percepções. A inteligência é prática neste estágio e se manifesta através do movimento. Não há diferença entre o eu e o mundo, e o desenvolvimento muscular nos ajuda a administrar melhor nosso ambiente. • Período Pré-operatório (2-7 anos) O surgimento da linguagem é característico desse período, por meio do qual a criança pode expressar seu mundo interior. Os pensamentos são desenvolvidos por meio do surgimento da linguagem, e a realidade é transformada para atender às 30 necessidades da criança. Necessidade de um mundo simbólico. Nesta fase, a maturação neurofisiológica está completa e a criança adquire a coordenação motora. O interesse por várias atividades é alto, surgem os primeiros sentimentos morais (SERRA, 2009). • Período das operações concretas (7-12 anos) Nesta fase, a criança abandona o egocentrismo e torna-se cooperativa com a criança. Outros desenvolvem o trabalho em grupo enquanto ganham autonomia para tarefas individuais. Um plano pode ser feito: as relações de causa e efeito são reveladas, os conceitos numéricos já estão incorporados (SERRA, 2009). • Período das operações formais A principal característica é a transição do pensamento concreto para o pensamento. É abstrato porque você só pode realizar operações no plano mental. Por exemplo, os alunos já entendem o conjunto Z de números inteiros e podem realizar operações com números negativos. Isso ocorre porque o número já pode ser menor que 0. De uma perspectiva social, os adolescentes internalizam as normas sociais e primeiro rejeite, depois adapte-se a eles. Esta é a fase de reflexão sobre o conceito de sociedade e o desejo de mudança. Os adolescentes vivenciam conflitos emocionais que são parte integrante de sua constituição adulta (SERRA, 2009). Assimilação, acomodação e equilibração Segundo Piaget, o crescimento cognitivo da criança ocorre por meio da assimilaçãoe da adaptação. Assimilação significa o fato de que a iniciativa na interação entre sujeito e objeto pertence ao organismo. Os indivíduos constroem esquemas de assimilação mental para se aproximar da realidade. Todos os esquemas de assimilação são construídos e todas as abordagens da realidade pressupõem um esquema de assimilação. Conforme o organismo (mente) se adapta, ele incorpora a realidade em seu plano de ação e influencia o ambiente. Por exemplo, quando dizemos que uma quantidade física é um vetor, incluímos essa quantidade no esquema “vetor”. Outro exemplo: Ao medir distâncias, o esquema de “medição” é usado para registrar a situação. Observe, no entanto, que o organismo não muda em nenhum dos casos. Ou seja, no processo de assimilação, a mente não muda e o conhecimento da realidade 31 não muda (no exemplo dado, o vetor e o esquema de medição não mudaram) (MOREIRA, 2023). Obviamente, muitas vezes, os padrões de ação de uma criança (ou adulto) são incapazes de imitar uma determinada situação. Nesse caso, o organismo (mente) morre ou muda. No caso da modificação, ocorre o que Piaget chama de acomodação. É por meio das acomodações (que, por sua vez, levam ao desenvolvimento de novos padrões de assimilação) que ocorre o desenvolvimento cognitivo. Se não houver problemas ou dificuldades, a atividade da mente é apenas assimiladora, mas diante deles ela se reestrutura (acomodação) e se desenvolve. Não há acomodação sem assimilação, porque a acomodação é a reorganização da adaptação. O equilíbrio entre assimilação e acomodação é a adaptação à situação. Esse processo de equilibração prossegue até o período das operações formais e continua, na idade adulta, em algumas áreas de experiência do indivíduo (MOREIRA, 2023). É possível falar em ação sensório-motora, ação verbal e ação mental. Dito de forma simples, pensar é a interiorização da ação (embora geralmente concomitante de atividade motora residual, como, por exemplo, gestos e movimento dos olhos). Figura 1 – Resumo esquemático do processo de desenvolvimento intelectual Fonte: https://bit.ly/3TN3eY5 Ações 32 Piaget considera as ações humanas (mais do que os sentimentos) como o fundamento do comportamento humano. Tudo no comportamento faz parte da ação. Mesmo a percepção é uma atividade para ele, e a imagem mental é uma imitação interna do objeto. “Comportamento (motor, verbal e mental) é simplesmente a organização dos movimentos de um organismo em modelos gráficos que evoluem para modelos matemáticos de grupo ou rede (passando por grupamentos em seu processo genético” (OLIVEIRA, p. 33, 1980). Aprendizagem segundo Piaget Até agora, ninguém mencionou aprender, mesmo que seja possível. É possível que a teoria de Piaget não seja uma teoria da aprendizagem, mas sim uma teoria do desenvolvimento mental. Piaget não enfatiza o conceito de aprendizagem, talvez porque não concorde com a definição padrão de “modificação do comportamento como resultado da experiência”. Essa definição me dá a impressão de dependência passiva do ambiente, mas durante a assimilação, de acordo com Piaget, o organismo é influenciado pelo ambiente - a mente é reestruturada para se adaptar ao ambiente. Já Piaget prefere falar em “conhecimento adquirido”, analisando como isso ocorre: só há aprendizado (expansão do conhecimento) quando o modelo assimilador é acomodado. Algumas implicações da teoria de Piaget para o ensino Tentando resumir o que foi dito até aqui, pode-se dizer que, segundo Piaget, o desenvolvimento mental de uma criança pode ser descrito a partir dos esquemas de assimilação que ela emprega. Esses motivos caracterizam o desenvolvimento intelectual como uma série de estágios (sensório-motor, pré-operacional, operacional- concreto e operacional-formal), cada um dos quais pode ser subdividido em estágios - ou seja, a criança desenvolve motivos assimiladores para abordar a realidade; no entanto, esses motivos evoluem à medida que a criança cresce mentalmente. Os padrões de assimilação de uma criança de dois anos diferem dos de uma criança de quatro anos, que, por sua vez, diferem dos de uma criança de sete ou oito anos, e assim por diante. Por outro lado, segundo Piaget, há apenas aprendizagem por acomodação, ou seja, reestruturação das estruturas cognitivas do indivíduo (esquemas de assimilação existentes) levando a novos padrões de assimilação. A mente, sendo uma 33 estrutura (percepção), tende a funcionar em estado de equilíbrio, aumentando constantemente o grau de organização interna e adaptação ao meio. No entanto, quando esse equilíbrio é perturbado por experiências que não podem ser assimiladas, o organismo (mente) se reestrutura (acomoda) para construir novos padrões de assimilação e atingir o equilíbrio. Para Piaget, esse reequilíbrio, que ele chama de equilíbrio primário, é o fator mais importante na evolução, no desenvolvimento intelectual e na aprendizagem (aumento do conhecimento) da criança. É por meio desse maravilhoso processo de equilíbrio que o comportamento humano é “completamente construído em interação com o ambiente físico e sociocultural”; assim, o comportamento humano (motor, verbal e mental) não possui padrão genético prévio segundo Piaget. O bebê nasce com apenas alguns padrões sensório-motores - como sugar, olhar, estender a mão e pegar - usados para as primeiras interações do bebê com o ambiente, mas a partir daí o equilíbração é o principal impulsionador do desenvolvimento intelectual. A equilíbração está presente em todas as fases e fases do desenvolvimento cognitivo e é, de fato, o responsável por isso. As implicações dessas propostas para a educação (e para a educação em geral) são óbvias e significativas: ensinar (ou, em um sentido mais amplo, educar) implica provocar um desequilíbrio no corpo (mente) da criança para que ela busque o reequilíbrio (equilíbrio majoritário) e aprenda. O mecanismo de aprendizagem da criança é sua capacidade de se reestruturar mentalmente em busca de um novo equilíbrio (novos padrões de assimilação para se adaptar a uma nova situação). Como resultado, a educação deve ativar esse mecanismo. Nas escolas, essa necessidade de compatibilizar o ensino com o nível de desenvolvimento mental da criança é frequentemente negligenciada: por exemplo, procuramos ensinar conteúdos hipotéticos sobre conservação e reversibilidade para crianças que ainda não possuem esses conceitos devido ao seu estágio de desenvolvimento. Outro erro muito comum, principalmente nos últimos anos do ensino médio e até mesmo nos primeiros anos da faculdade, é dar aulas em nível puramente formal (assumindo assim que esse grau já foi alcançado) em muitos campos, numa fase de raciocínio de operações específicas. Em termos de ensino, Piaget também argumentou que a suposta disposição diferencial de "bons alunos" em matemática ou física, por exemplo, no mesmo nível 34 de inteligência, reside principalmente em sua capacidade de adaptação ao tipo de instrução que lhes é oferecida. Os “pobres alunos” dessas disciplinas, apesar de serem bem-sucedidos em outras disciplinas, na verdade são perfeitamente capazes de dominar disciplinas que parecem não entender, desde que essas disciplinas cheguem a seus fins por outros meios: as “lições” oferecidas podem fugir compreensão, não importa. Piaget também acreditava que é perfeitamente possível que o fracasso escolar em um ou outro assunto resulte, por exemplo, de uma estrutura qualitativa de problemas (sem introduzir o raciocínio lógico no formalismo matemático) para uma estrutura quantitativa ou significativa de equações preparadas). 5 AS TEORIAS DE SKINNER E VYGOTSKY A teoria Behaviorista de Skinner A abordagem skinneriana é de natureza periférica. Ele não leva em conta o que está acontecendo na mente de um indivíduo durante o processo de aprendizagem. Ocomportamento observável é importante. Skinner não se preocupa com os processos intermediários entre o estímulo (E) e a resposta (R). Ele (Skinner) não está preocupado com processos, construtos intermediários, mas sim com o controle do comportamento observável por meio das respostas do indivíduo. Isso não significa negar que esses processos existam, mas que ele acredita serem eles neurológicos em sua natureza e que obedecem a certas leis. Desde que são previsíveis e obedecem a leis que podem ser identificadas, esses processos intermediários geram e mantêm relações funcionais entre as variáveis que o compõem, quais sejam, variáveis de “input” e variáveis de “output” (Estímulos e Respostas). (Oliveira, 1973, p. 49). As variáveis de input mais importantes na abordagem de Skinner são (Oliveira, 1973): estímulos (eventos que afetam os sentidos do aluno); reforço (eventos que levam a uma maior probabilidade de que a ação imediata ocorra); contingência de reforço (a ocorrência de reforço depende da ocorrência imediata da resposta aprendida) (projetar situações para os alunos que acontecem como a variável de saída é a resposta dada pelo aluno. Figura 1 – Teoria de Skinner 35 Fonte: https://bit.ly/3ZoqInx As variáveis de output são as respostas que o aprendiz dá. Existem dois tipos amplos de reações ou ações de Skinner: operante e respondente. Segundo Millhollan e Forisha (1978, pp. 71-72), os comportamentos responsivos (“reflexivos” ou “involuntários”) incluem humanos (e outros biológicos) contendo todas as reações. Por exemplo, quando um raio de luz atinge o olho, a pupila se contrai e, quando se respira ar frio, os pelos da pele vibram. Em geral, todas as respostas que podem ser identificadas como “reflexos” são exemplos de comportamento de resposta. O comportamento operante abrange um espectro muito mais amplo de respostas. Na realidade, a maior parte do comportamento humano é operante. Um indivíduo age (manipula) o ambiente. O comportamento operante inclui todas as nossas ações que afetam ou afetam o mundo exterior. O comportamento nos respondentes é automaticamente evocado por estímulos específicos, mas isso não ocorre nos operantes. Estes podem ou não ser exibidos por um indivíduo na presença de um estímulo particular. Não se sabe a priori quais estímulos eliciam uma resposta particular. Cada um desses comportamentos envolve condicionamento. Assim, o comportamento respondente está relacionado ao condicionamento respondente. Skinner acreditava que o condicionamento respondente desempenha um papel menor na maior parte do comportamento humano. Segundo ele, a maior parte do comportamento humano é adquirida por meio do condicionamento operante. Segundo Bock (2008), o mecanismo do condicionamento operante, Skinner acredita que é importante: 36 • Reforço ou recompensa positiva: todo evento aumenta a probabilidade futura da resposta que a produziu; • Reforço negativo: cada um aumenta a probabilidade futura de eliminar ou mitigar sua resposta; • Ausência ou ausência de reforço: resposta inexistente, os reforços são menos propensos a se repetir (ignorando má conduta do aluno, comportamento esperado deve ser extinto). • Castigo: respostas de ser punido podem produzir consequências adversas (punição adiada alunos podem não ter efeito) Bock (2008) também afirmou que o condicionamento operante envolve uma ampla gama de atividades e comportamentos humanos, o presente mais requintado do berço ao adulto. Nesse sentido, segundo Bock (2008), o comportamento operante inclui todos os movimentos de um organismo em algum momento pode-se dizer que tem um efeito, pelo mundo ao seu redor. Ação atua sobre o mundo, por assim dizer, direta ou indiretamente. O processo instrucional segundo a abordagem skinneriana Para Skinner, o reforço (positivo) e as contingências de reforço têm papel preponderante na aprendizagem (Oliveira, 1973, p. 50-51): Skinner não enfatiza a análise de estímulos. Para ele o importante é não concentrar-se no lado dos estímulos, mas sim do lado do reforço, sobretudo nas contingências de reforço. Isso também significa que numa situação de aprendizagem, a partir das respostas do sujeito e a partir do reforço estabelecido para essa resposta, é que vamos analisar a probabilidade daquela resposta ocorrer novamente e, assim, controlar o comportamento. Para Skinner, aprendizagem ocorre devido ao reforço. Não é a presença do estímulo ou a presença da resposta que leva à aprendizagem, mas, sim, é a presença das contingências de reforço. O importante é saber arranjar as situações de maneira que as respostas dadas pelo sujeito sejam reforçadas e tenham sua probabilidade de ocorrência aumentada. Na perspectiva skinneriana, o ensino se dá apenas quando o que precisa ser ensinado pode ser colocado sob controle de certas contingências de reforço. O papel do professor no processo instrucional é o de arranjar as contingências de reforço de modo a possibilitar ou aumentar a probabilidade de que o aprendiz exiba o comportamento terminal, isto é, que ele dê a resposta desejada (a ser aprendida). 37 Portanto, a programação de contingências, mais do que a seleção de estímulos propriamente dita, é a função principal do professor. Programar contingências significa dar o reforço no momento apropriado, significa reforçar respostas que provavelmente levarão o aprendiz a exibir o comportamento terminal desejado. Estão aí implícitas as ideias de aproximações sucessivas e modelagem (MOREIRA, 2009). Para Moreira (2009), na teoria behaviorista desenvolvida por Skinner, os ensinamentos são adquiridos quando o que é ensinado pode ser colocado em prática. A condição de controle sob o comportamento observável; assim, o quando o comportamento indesejado é punido e o comportamento desejado é alcançado, reforce e encoraje com estimulação até que se torne automático. A principal objeção ao sistema de Skinner é que ele focar apenas nos efeitos causados por uma determinada tarefa aprenda e ignore os processos cognitivos internos que ocorrem no aprendiz (COELHO; DUTRA, 2018). A teoria Construtivista de Vygotsky Ao contrário de Piaget, que aceitava o equilíbrio como princípio fundamental para explicar o desenvolvimento cognitivo, Lev Vygotsky (1896-1934) defendia que esse desenvolvimento deve referir-se ao contexto social e cultural em que ocorre. Em outras palavras, o desenvolvimento cognitivo não ocorre independentemente do contexto social, histórico e cultural. Além disso, Vygotsky enfoca os mecanismos pelos quais ocorre o desenvolvimento cognitivo, em vez dos estágios de desenvolvimento e outros produtos propostos por Piaget e Bruner. Para ele, tais mecanismos são de origem social e naturais, inerentes ao ser humano (Garton, 1992, p. 87). Aliás, a afirmação de que os processos mentais superiores do indivíduo surgem de processos sociais é um dos pilares da teoria de Vygotsky. Outra é a ideia de que esses processos mentais só podem ser compreendidos se compreendermos os meios e os signos que os comunicam, foram usados para analisar o desenvolvimento cognitivo de (DRISCOLL, 1995, p. 225). É claro que a ênfase de Vygotsky nas origens sociais dos processos psicológicos superiores e a priorização do processo sobre o produto que caracteriza seu método de análise sugere as raízes marxistas de sua proposta. Talvez por isso, e pela forte preponderância do ativismo no passado (e no caso recente de Piaget), a abordagem de Vygotsky permaneceu amplamente utilizada como referência de ensino 38 e aprendizagem até as últimas décadas do século passado. Este trabalho pretende mostrar, a teoria de Vygotsky tem profundas implicações didáticas. Instrumentos e signos Segundo Vygotsky, os processos mentais superiores (pensamento, linguagem, ação voluntária) têm sua origem nos processos sociais. O desenvolvimento cognitivohumano não pode ser entendido sem considerar o ambiente social. No entanto, não consideramos apenas o ambiente social como uma variável importante no desenvolvimento cognitivo. Para ele, o desenvolvimento cognitivo é traduzir as relações sociais em funções mentais. Não é por meio do desenvolvimento cognitivo que os indivíduos se tornam sociais (MOREIRA, 2009). Os instrumentos, porém, são elementos externos ao indivíduo, voltados para fora dele: sua função é provocar mudanças nos objetos, controlar processos da natureza. Os signos por sua vez, também chamados por Vygotsky de "instrumentos psicológicos", são orientados para o próprio sujeito, para dentro do indivíduo: dirigem-se ao controle de ações psicológicas, seja do próprio indivíduo, seja de outra pessoa. São ferramentas que auxiliam nos processos psicológicos e não nas ações concretas, como o instrumento. (OLIVEIRA 2006, p. 30) A socialização leva ao desenvolvimento de processos mentais superiores (Driscoll, 1995, p. 229). Mas como as relações sociais são traduzidas em funções psicológicas individuais? A resposta está na mediação, ou atividade indiretamente mediada que Vygotsky tipificou a cognição humana. É por meio da mediação que ocorre a internalização (reconstrução interna da manipulação externa) da atividade e do comportamento sócio-histórico e cultural, típico do reino humano (Garton, 1992, p.89). Isso significa que a transmissão das relações sociais às funções mentais superiores não é direta: é mediada. Esta mediação é conseguida através do uso de ferramentas e símbolos. Um instrumento é algo que pode ser usado para fazer algo; E o signo é outra coisa. Eles são divididos em três tipos: 1. Indicadores que têm uma relação causal com o que significam (por exemplo, indicam fogo porque a fumaça é causada pelo fogo); 2. Ícones que são imagens ou figuras de significado; 3. Simbólicas, são coisas que têm uma relação abstrata com o que significam. Por exemplo, as palavras são símbolos linguísticos. Os números são símbolos 39 matemáticos. As línguas - faladas e escritas - e a matemática são sistemas simbólicos. O uso de ferramentas na mediação do homem e do ambiente – que essencialmente distingue o homem dos outros animais e domina a natureza em vez de simplesmente usá-los como animais – foi influenciado por Marx e Engels, que influenciaram Vygotsky, estendeu essa ideia ao uso de símbolos. A sociedade cria sistemas simbólicos, bem como ferramentas. Ambos ocorrem ao longo da história dessas sociedades, modificando e influenciando o desenvolvimento social e cultural. Para Vygotsky, o desenvolvimento cognitivo ocorre por meio da internalização de ferramentas e sistemas de signos produzidos culturalmente (Vygotsky, 1988). A combinação de uso instrumental e de signos é característica apenas dos humanos e permite o desenvolvimento de funções ou processos mentais superiores. Interação social Em contraste com outros teóricos cognitivos, como Piaget e Ausubel, que se concentram no indivíduo como unidade de análise, Vygotsky se concentra na interação social. Sua unidade de análise não é o indivíduo nem o contexto, mas a interação entre eles (MOREIRA, 2009). No ponto de vista de Vygotsky, portanto, a interação social é um meio fundamental de transferência dinâmica (do interpessoal para o intrapessoal) do conhecimento construído social, histórica e culturalmente. O que é, entretanto, interação social? Segundo Garton (1992, p. 11): Uma definição de interação social implica um mínimo de duas pessoas intercambiando informações. (O par, ou díade, é o menor microcosmo de interação social.) Implica também um certo grau de reciprocidade e bidirecionalidade entre os participantes. Ou seja, a interação social supõe envolvimento ativo (embora não necessariamente no mesmo nível) de ambos os participantes desse intercâmbio, trazendo a eles diferentes experiências e conhecimentos, tanto em termos qualitativos como quantitativos. As crianças geralmente não crescem isoladas elas interagem com os pais, outros adultos da família, outras crianças, etc. Adolescentes, adultos, jovens e idosos, geralmente não vivem isolado, está constantemente interagindo socialmente em casa, na rua, na escola, etc. Para Vygotsky, essa interação é fundamental para o desenvolvimento cognitivo e de linguagem de cada indivíduo. No entanto, é difícil identificar, qualificar e quantificar com precisão esse mecanismo. 40 Significados A aquisição de significado está diretamente relacionada à interação social. Um sinal significa outra coisa. Por exemplo, as palavras são símbolos linguísticos. Gestos também são exemplos de signos. O significado das palavras e dos gestos é socialmente construído. Considere a palavra “mesa”: é socialmente aceito que esse signo linguístico significa algo regular em um conjunto infinito de objetos de um tipo particular. Considere o gesto de apontar: para ele, aceitação social significa, antes de tudo, apontar para um objeto, desejar esse objeto. No entanto, o significado depende do contexto. Em outro idioma, a palavra "mesa" pode não significar nada ou ter um significado diferente. Por exemplo, a palavra "pesquisa" em português geralmente se refere à atividade científica, enquanto em espanhol se refere a investigações policiais. Gestos que têm conotações obscenas em uma cultura podem não fazer sentido em outra (MOREIRA, 2009). A internalização (reconstrução interna) dos símbolos é fundamental para o desenvolvimento humano. Os signos medeiam as relações humanas com os outros e consigo mesmo. Tem literalmente uma origem cultural e ao mesmo tempo uma função instrumental adaptativa. Por esta razão Vygotsky afirma que “a análise dos signos é o único método adequado para estudar a consciência humana” (RIVIÈRE, 1987, p. 93). Zona de desenvolvimento proximal A teoria social e instrumental das funções mentais superiores necessita examinar a questão do desenvolvimento cognitivo e da aprendizagem de uma perspectiva diferente: Desde o momento em que o desenvolvimento das funções mentais superiores exige a internalização de instrumentos e signos em contextos de interação, a aprendizagem se converte na condição para o desenvolvimento dessas funções, desde que se situe precisamente na zona de desenvolvimento potencial do sujeito, definida como a diferença entre o que ele é capaz de fazer por si só e o que pode fazer com ajuda de outros. Este conceito sintetiza, portanto, a concepção de desenvolvimento como apropriação de instrumentos e, especialmente, signos proporcionados por agentes culturais de interação, a ideia de que o sujeito humano não é só um destilado da espécie, mas também – em um sentido menos metafórico do que possa parecer – uma criação da cultura. (RIVIÈRE, 1987, p. 96) Mais formalmente, Vygotsky define a zona de desenvolvimento proximal como o nível real de desenvolvimento cognitivo de um indivíduo medido por sua capacidade 41 de resolver problemas independentemente e seu nível potencial de desenvolvimento medido pela resolução supervisionada de problemas, definido como a distância entre (por adultos, em crianças) ou em cooperação com pares mais capazes (VYGOTSKY, 1988). A zona de desenvolvimento proximal define funções imaturas, mas em amadurecimento. É uma medida do potencial de aprendizagem. Representa a área onde ocorre o desenvolvimento cognitivo. É dinâmico e em constante mudança. As interações sociais que conferem aprendizagem devem ocorrer dentro da zona de desenvolvimento proximal, mas ao mesmo tempo desempenham um papel importante na determinação dos limites dessa zona. Por definição, o limite inferior é determinado pelo nível de desenvolvimento real do aluno. Os supervisores são determinados por brincadeiras, educação formal ou informal e processos educacionais que podem ocorrer no local de trabalho. A interação social é importanteindependentemente do contexto (DRISCOLL, 1995, p. 233). Aprendizagem e ensino Quanto à importância do ensino, “a partir do momento em que o desenvolvimento das funções mentais superiores exige a internalização de ferramentas e símbolos em contextos interativos, a aprendizagem torna-se condição para o desenvolvimento dessas funções localizadas justamente na área de desenvolvimento latente do sujeito” (Riviere, 1987, p.96). Outras perspectivas teóricas têm interpretado o desenvolvimento cognitivo como necessário para a aprendizagem, ou quase como sinônimo. Para Vygotsky, a aprendizagem é necessária para o desenvolvimento. Por analogia, as interações sociais indutoras de aprendizado devem ocorrer dentro de uma zona de desenvolvimento potencial, mas ao mesmo tempo desempenham um papel importante na determinação dos limites dessa zona. Por definição, o limite inferior é determinado pelo nível de desenvolvimento real do aluno. Os supervisores são determinados por brincadeiras, educação formal ou informal e processos educacionais que podem ocorrer no local de trabalho. Seja qual for o contexto, a interação social é importante” (DRISCOLL, 1995, p. 233). Para Vygotsky, o único bom ensino precede e orienta o desenvolvimento cognitivo. Da mesma forma, o único bom aprendizado é o avançado. Do ponto de vista 42 do desenvolvimento cognitivo dos aprendizes, aprender com base em níveis de desenvolvimento já alcançados não é uma boa ideia. É claro que as ideias de Vygotsky sobre a formação de conceitos são interessantes do ponto de vista pedagógico, mas certamente o papel fundamental do professor como mediador na aquisição de significados contextualmente aceitos reside no desenvolvimento próximo do aprendiz, significado entre professores e alunos no âmbito da , as origens sociais das funções mentais superiores e a linguagem como o sistema de sinais mais importante para o desenvolvimento cognitivo são muito mais importantes a serem considerados na sala de aula (MOREIRA, 2009). 6 PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA As áreas de trabalho da psicopedagogia É incomum não encontrar alguém que teve dificuldades de aprender um dia. Os obstáculos são necessários para o processo de aprendizagem. Porém, quando são realmente intensos e persistentes, é preciso intervir. E é justamente nesse ponto que a psicopedagogia oferece seu auxílio a alunos, professores e pais no sentido de otimizar o processo educacional. A psicopedagogia era vista como a fusão de várias áreas do conhecimento, principalmente a pedagogia, a psicologia, a didática, entre outras, estabelecendo-se como um corpo de conhecimento complexo que requer proximidade interdisciplinar (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Esta ciência permite-nos compreender a situação de aprendizagem do sujeito e intervir para a melhorar de forma a ajudar o aluno a aprender de forma eficaz. Ela pode afetar a vida de um aluno ao se envolver em seu processo de aprendizagem ou na vida de professores e recursos externos ao incorporar conhecimentos e habilidades para melhorar o aprendizado do aluno. O psicopedagogo é o profissional que atua na prevenção, diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem e acadêmicas em sentido amplo. Dedica-se à análise, ao planejamento, ao desenvolvimento e à adequação dos procedimentos educacionais. Possui um conhecimento aprofundado e realiza pesquisas sobre os fatores que afetam os processos de aprendizagem, tanto do ponto de vista do sujeito que está sendo ensinado (fatores neurofisiológicos, intelectuais e afetivos específicos) quanto dos contextos em que está inserido (socioculturais e educativos). 43 Os campos institucionais e clínico de atuação da psicopedagogia ele trabalhará primeiro em instituições educacionais, aconselhando pais e professores sobre como ensinar e aprender. Também poderão desempenhar funções de apoio e orientação no caso de crianças com dificuldades de aprendizagem, a fim de assegurar a sua adequada integração na instituição. Isso inclui desde orientação e assessoramento a docente e famílias, coordenação de especialistas para planejar estratégias comuns para lidar com o caso em questão, até adaptações de currículo no caso de dificuldades mais severas, permitindo, assim, a integração de alunos portadores de necessidades educacionais especiais (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Outra tarefa da psicopedagogia institucional é participar do desenvolvimento e implementação de programas e projetos que visam atualizar e capacitar profissionais nas áreas de educação e saúde mental, bem como supervisionar equipes multidisciplinares que atuam nessas instituições de educação. Na segunda área, clínica, o psicopedagogo tem como foco principal o diagnóstico da aprendizagem infantil. O trabalho é feito individualmente com o paciente e em coordenação com a escola, a família e outros profissionais (fonoaudiólogos, psicomotricistas, neurologistas, psiquiatras, neuropsicólogos, assistentes sociais e psicólogos), que são os mais frequentemente ligados à saúde mental o trabalho em psicopedagogia (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Por envolver um sujeito com dificuldades de aprendizagem e um profissional especializado, um psicopedagogo, a psicologia clínica assume o papel de intervenção terapêutica. Por outro lado, a psicopedagogia institucional desempenha um papel preventivo ao perceber possíveis interrupções no processo de aprendizagem e promover orientações metodológicas de acordo com as características individuais e grupos. A psicopedagogia clínica Tradicionalmente, existe um vínculo entre a clínica e a doença. Na verdade, o nome derivado da medicina porque a raiz da palavra “clinica” é “kline”, que em grego significa “cama”. Portanto, não é difícil conectar essa frase com doença. Mas, se partimos da premissa de que o objeto de estudo da psicopedagogia é o ser humano, devemos nos deter agora para avaliar o objetivo da clínica: um ser humano singular, dividido em metades culares e integrais. Uma pessoa com quem o mapa genético foi criado. Assim, a clínica não foca em uma doença ou dificuldade de aprendizagem, 44 mas sim em uma pessoa específica, única, que sente e pensa e encontra obstáculos em seu caminho no processo de aprendizado (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Assim, a palavra clínica remete a duas questões fundamentais: em primeiro lugar, implica uma escuta particular do que sente/vivencia o sujeito; em segundo lugar, a possibilidade de teorizar acerca de modelos teóricos que dão conta do funcionamento do sujeito como tal. Com essa perspectiva, o objetivo da psicopedagogia clínica é abordar o sintoma, abordar suas causas e estimular o desenvolvimento de um novo processo cognitivo, mais saudável e benéfico, voltado para o sujeito que apresenta o sintoma. A clínica indagará por que o sujeito não aprende, se pode, se quer e se isso tem a ver com sua motivação interna. Ele também irá perguntar se há alguma família e oportunidades sociais. Uma visão clínica substitui uma visão homogênea, como mostra a administração de testes prescritos, sem uma análise qualitativa que forneça insights mais subjetivo na minha percepção (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Diagnostico e intervenção na clínica psicopedagogia O processo de diagnóstico psicológico envolve descrever, categorizar e explicar o comportamento de um sujeito no contexto da aprendizagem. Incluir uma série de atividades para medir e avaliar o desempenho de um indivíduo (ou grupo) com o objetivo de compreender como o paciente aprende e os desvios que ocorrem nesse processo. O diagnóstico psicopedagógico é um processo em que se procura encontrar o sentido histórico subjetivo (conhecer a natureza) dos problemas de aprendizagem de um sujeito através da análise de suas dificuldades de aprendizagem (sinais e sintomas). As crianças com problemas em sua aprendizagem apresentam restrições em sua produção simbólica,além de distúrbios significativos no domínio de algumas ou de todas as áreas do conhecimento. (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). O diagnóstico psicopedagógico tem como objetivos ou propósitos: • Verificar o progresso do sujeito em direção as metas educativas estabelecidas previamente no âmbito cognitivo, afetivo e psicomotor; • Identificar fatores da situação de ensino-aprendizagem que podem interferir no ótimo desenvolvimento individual; 45 • Adequar a situação de ensino-aprendizagem as características e necessidades de cada sujeito, a fim de assegurar seu desenvolvimento contínuo e ajudá-lo a superar as dificuldades. Levando em consideração esses objetivos, as funções principais do diagnóstico psicopedagógico são: • Função preventiva e preditiva: trata de conhecer as possibilidades e limitações do indivíduo para prever o desenvolvimento e o aprendizado futuros; • Função de identificação do problema e da sua gravidade: pretende averiguar as causas, os fatores pessoais ou ambientais, que prejudicam o desenvolvi- mento do sujeito a fim de modificá-los ou corrigi-los; • Função de orientação: sua finalidade é propor pautas para a intervenção, de acordo com as necessidades identificadas; • Função corretiva: reorganizar a situação atual mediante a aplicação da intervenção e de recomendações oportunas. O diagnóstico é uma investigação em si, uma pesquisa (Weiss, 2012). Ele se torna necessário quando o sujeito não se comporta como esperado diante do comportamento esperado, quando o sujeito não aprende, ou aprende de forma difícil. Segundo Weiss (2004, p.27): Todo diagnóstico é, em si, uma investigação, é uma pesquisa do que não vai bem com o sujeito em relação a uma conduta esperada. Será, portanto, o esclarecimento de uma queixa, do próprio sujeito, da família e na maioria das vezes, da escola. No caso, trata-se do não-aprender, do aprender com dificuldade ou lentamente, do não-revelar o que aprendeu, do fugir de situações de possível aprendizagem. Segundo Fernandez (1991), o diagnóstico serve ao mesmo propósito que a rede para um equilibrista, ou seja, serve de base para a intervenção. A relação entre o psicólogo e o paciente também é crucial para o procedimento diagnóstico. Ter empatia, ou seja, ser capaz de se relacionar e confiar em outra pessoa ao mesmo tempo em que demonstra respeito por ela, contribuirá para sua validade e qualidade. O inter-relacionamento dinâmico e de condutas interdependentes, a comunicação estabelecida entre os dois faz com que o psicopedagogo aja sobre o paciente sempre que ele apresente. Tudo na comunicação do paciente deve ser observado, inclusive a fala do paciente, uma frase, gestos, etc. 46 O processo do diagnóstico psicopedagógico clínico abarca várias etapas: motivo da consulta, história vital, hora do jogo, provas projetivas, entre outras. Motivo da consulta Entrevistam-se os pais para extrair dados importantes sobre as estruturas predominantes entre filhos e pais, a partir da análise da forma como estes últimos se apresentam e se posicionam frente ao problema da criança. Pain (1985) destacou a necessidade de anotar o percurso do paciente até o psicopedagogo, inclusive se foi por recomendação da escola, professor, pais ou profissional médico. Além disso, a autora afirma que o encontro inicial com a família é para colher informações sobre alguns aspectos fundamentais das dificuldades de aprendizagem: o significado dos sintomas para a família e as expectativas que a família tem em relação à intervenção psicológica. É fundamental deixar os pais falarem livremente sem que o psicólogo faça perguntas, conforme orientação pedagógica etc. É nesse momento que a família é ouvida, e ela é solicitada a listar os motivos pelos quais procurou ajuda psicopedagogia e, também, os fatores que acredita serem os causadores da não aprendizagem do paciente. A entrevista do motivo da consulta possibilita conhecer as expectativas que os pais têm em relação à intervenção psicopedagógica. História vital Após conhecer um pouco seu paciente, o psicopedagogo realiza uma segunda entrevista com os pais: o momento da história vital no diagnóstico. Dá-se a palavra aos pais, principalmente à mãe, que falam livremente, sendo instruídos somente quanto ao tema geral. Nessa etapa, o psicopedagogo utiliza a anamnese (do grego “anamnesis” = trazer à mente) significa “reunião”, “reminiscência”, “recordação”. A anamnese tem como objetivo geral trazer para o presente as lembranças do passado, recuperando informações registradas em épocas anteriores. O processo de anamnese ajuda o psicólogo a reconstruir a história de vida do paciente para que ele possa entender o que levou ao surgimento das dificuldades de aprendizagem. Essa entrevista é fundamental para o procedimento diagnóstico, pois possibilita o resgate de eventos anteriores significativos na história do sujeito que podem impactar em suas limitações simbólicas. Para identificar alguns dos fatores 47 que contribuem para a restrição ou fragilidade da criança, é necessário reconstruir a história de vida da criança com os pais, permitindo encontrar alguns dos fatores que operam na fratura ou na restrição de suas produções (JERÔNIMO SOBRINHO, 2015). Hora do jogo Na clínica psicopedagógica, o jogo parece ser um dado adquirido. Ele é essencial para observar o desenvolvimento motor, social, cognitivo e afetivo do paciente. Alguns questionamentos são feitos: de qual jogo se está falando ou a qual se refere? Qual é o jogo e a jogada passível de se realizar? As indagações são diversas. Quando trabalhamos na clínica psicopedagogia com crianças, quer individual- mente ou em grupos, é o jogo que se “desenrola” diante de nós ou com os outros. Os fatores que influenciam são vários: o contexto clínico é um deles. Segundo Paín (1985), o lúdico oferece informações de esquemas que integram e organizam o conhecimento em uma esfera representativa. Por isso, o jogo (a observação do jogo e do paciente) assume o papel de grande importância no diagnóstico das dificuldades de aprendizagem na infância. Provas projetivas Outro momento importante do diagnóstico são as provas projetivas. Estes são instrumentos considerados sensíveis para revelar aspectos inconscientes do indivíduo, provocando uma grande variedade de respostas subjetivas. Geralmente, o material estimula o ambíguo, a imaginação do sujeito. Nele, não há resposta certa ou errada e a sua interpretação dependerá de uma análise global. Segundo Paín (1985, p. 61): O exame das provas projetivas permitirá em geral avaliar a capacidade do pensamento para construir, no relato ou no desenho, uma organização suficientemente coerente e harmoniosa como para veicular e elaborar a emoção; também permitirá avaliar a deteriorização que se produz no próprio pensamento, quando o quantum emotivo resulta excessivo. O pensamento incoerente não é a negação do pensado, ele fala ali mesmo onde se diz mal ou não se diz nada e isto oferece a oportunidade de determinar a norma no incongruente e saber como o sujeito ignora. O principal interesse das provas projetivas reside precisamente na sua capacidade para demonstrar a estrutura básica da personalidade, já́ que, por serem procedimentos indiretos, não estão submetidos ao controle voluntário do sujeito. Ao tratar de estímulos e tarefas novas e incomuns, as respostas não são determinadas 48 por convenções sociais, que podem mascarar a personalidade. Existem diversas técnicas projetivas. Dentre as mais comuns estão o desenho da figura humana e o questionário desiderativo. Segundo Paín (1985), o desenho da figura humana permite avaliar os recursos simbólicos do sujeito para referir a diferenças como criança/adulto; femininos/masculinos; fada/bruxa, etc., o que revela o nível de sua adequação semiótica, cuja relação com a aprendizagem se teve oportunidadede enfatizar na ocasião em que se analisou a hora do jogo. Nas provas de relatos, Paín (1985) comenta que elas têm como instrução criar uma história ou antecipar seu final. São oferecidos ao sujeito estímulos gráficos ou verbais que sugerem certas relações ou transformações viáveis. O sujeito percorre um dos caminhos insinuados trazendo elementos mais ou menos originais (ARAGÃO, 2010). Síntese Diagnóstica – Prognóstico A Síntese Diagnóstica é toda a compilação de dados detectados no processo diagnóstico, propiciando uma hipótese para justificar a queixa trazida pelo sujeito que foi avaliado. Esse resumo do diagnóstico realizado e as implicações dos resultados na vida do sujeito avaliado gera um prognóstico e a indicação para encaminhamento do caso. Esses dados fazem com que, posteriormente, na Entrevista de Devolução, haja consistência no que é verbalizado e encaminhado, envolvendo a aprendizagem do sujeito avaliado. Entrevista de Devolução e Encaminhamento A Entrevista de Devolução é o momento em que o psicopedagogo devolve, ao sujeito avaliado e à sua família, as conclusões de todo o processo diagnóstico psicopedagógico. É a entrevista que marca a finalização da avaliação realizada pelo psicopedagogo. A Entrevista de Devolução é um espaço de relato, análise e síntese dos resultados, definindo, a partir destes, o encaminhamento. Nessa entrevista, a ansiedade do sujeito que foi avaliado e de sua família é bem evidente. Por isso, é fundamental que todas as indagações sejam esclarecidas e que todos os caminhos que estavam confusos sejam clarificados. A participação da escola na avaliação psicopedagógica clínica 49 Ao pensar na participação da escola na avaliação psicopedagógica clínica, temos que ter em mente uma análise reflexiva sobre o processo de avaliação no contexto da educação escolar. Na avaliação clínica, a participação de fonoaudiólogos, professores e gestores educacionais deve contribuir com a prática no sentido de mediatizar as aprendizagens dos alunos. Quando temos vários profissionais envolvidos auxiliando com seus pareceres em um processo avaliativo, a conclusão do diagnóstico tem mais validade. Afinal, sempre que contamos com uma equipe multidisciplinar, temos a participação de várias áreas do conhecimento (HADDAD, 2020). O processo avaliativo deve começar pelos fatores internos, ou seja, por questões relacionadas a funcionalidade cerebral e lesões. Quando isso é verificado, precisamos de outros profissionais para auxiliarem no diagnóstico, entre eles neuropediatras, neurologistas, psicólogos e fonoaudiólogos. A escola, ao elaborar um parecer sobre o aluno, contribui com seu processo de aprendizagem, com o desenvolvimento e o comportamento do aluno. Dessa forma, é possível compreender como ocorre a aprendizagem formal do aluno que está sob a responsabilidade do psicopedagogo (HADDAD, 2020). Assim, podemos chegar a compreender como está a aprendizagem e o desenvolvimento. Segundo Vygotsky (2001), a aprendizagem em si não é desenvolvimento, mas a organização correta da aprendizagem de uma criança leva ao desenvolvimento psicológico, ativando todo um conjunto de processos de desenvolvimento que não seriam possíveis sem a aprendizagem. A aprendizagem é, portanto, um momento intrinsecamente necessário e universal no desenvolvimento desses traços humanos não naturais nas crianças, mas é historicamente formado (HADDAD, 2020). Quando temos instituições escolares envolvidas no processo, conseguimos entender melhor como realmente funciona a aprendizagem do aluno. 7 PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL Nas instituições educacionais, os psicoeducadores observam e analisam todos os aspectos de várias disciplinas as falhas na abordagem ponderada e crítica do ensino e das equipes docentes, incluindo suas dinâmicas cotidianas, estruturas 50 organizacionais, processos de distribuição do trabalho, relacionamentos e questões metodológicas do ensino, visando contribuir para o encolhimento escolar. Atualmente, observamos que as instituições de ensino que desejam oferecer educação de qualidade estão trabalhando na criação de salas de aula e medidas educacionais, bem como desenvolvendo oportunidades de treinamento para professores. Para Pamplona (2022), o psicopedagogo institucional e o profissional que: “A partir de um macro visão da instituição, como um todo, proporcionada através do diagnóstico psicopedagógico institucional que poderá tomar decisões mais acertadas nos momentos de crise. A previsão de tais momentos e as estratégias para evitá-los e ainda o adequado planejamento culminarão para o alcance dos objetivos da instituição. Evidencia-se assim, ser esta uma atividade constante”. (p.1) Diferente do campo clínico, na psicopedagogia institucional o psicopedagogo se encarrega de ir além da criança e perpassar outras instituições, não apenas as clínicas, como por exemplo, as escolas. No campo institucional, além de considerar o aluno, o psicopedagogo expande sua atuação para o espaço escolar, com a intenção de assessorar a escola ou Instituição de ensino e todos aqueles que dela fazem parte, na realização de suas funções (MARTINI, 1999, p. 3). Dessa forma, o trabalho psicopedagógico institucional não se encarrega apenas no auxílio das instituições escolares, o que é mais comum de pensar visto que a escola é o ambiente responsável pelo processo de ensino e aprendizagem. O objeto de estudo são instituições como um todo que, de alguma forma participam no processo de aprendizagem dos sujeitos, como por exemplo, hospitais ou empresas, locais onde pessoas se relacionam, ensinam e aprendem (GRASSI, 2009). É na escola que a não-aprendizagem se mostra efetivamente e é também nela que os problemas se destacam, seja por parte do alunado, do professorado, dos funcionários ou dos dirigentes. Mas é na sociedade e em suas instancias que se sentem os efeitos do fracasso escolar, da exclusão escolar, das dificuldades de aprendizagem, da não-aprendizagem (GRASSI, 2009, p. 146). Já Porto (2006), vê o psicopedagogo institucional como um mediador entre o sujeito e sua história, intervindo nos fatores que causaram a dificuldade de aprender deste aluno. Nessa perspectiva existem preocupações que um psicopedagogo deve ter em sua atuação em uma instituição de ensino as quais seguem em elenco: 51 • Garantir a coerência entre o processo de aprendizagem do aluno e as recomendações metodológicas da instituição. • Intervir para resolver problemas de aprendizagem e ensino. • Fazer diagnósticos e intervir psicoeducacionalmente usando teorias, métodos, ferramentas e técnicas psicopedagogicamente específicas. • Desenvolvimento de pesquisas e pesquisas científicas relacionadas ao processo de aprendizagem de diferentes faixas etárias dos corpos discente. • Avaliar todo o trabalho nas instalações escolares numa perspectiva psicopedagógica. • Orientar, coordenar e acompanhar as questões de ensino e aprendizagem decorrentes da estrutura curricular da instituição. • Observar e intervir subjetivamente nas relações professor-aluno. • Aconselhar os alunos em questões profissionais. • Assessoria e apoio na aplicação de projetos políticos educacionais e na implementação de novos projetos e/ou propostas de métodos educacionais. • Incentivar o convívio entre professores, alunos, equipes pedagógicas, administrativas e de apoio. • Capacitar as equipes educativas para a reflexão sobre o processo sistemático de educação. • Mediação no processo de construção cognitiva do aluno. • Explorar dificuldades no processo de aprendizagem do aluno e intervir para superá-las. • Mediar a construção do conhecimento dos alunos para a formação de uma consciência analiticamente crítica. O papel do psicopedagogo na instituição é ainda muito pequeno e desacreditado, porém de grande importância, pois cabem a ele a formação ea orientação dos pedagogos que atuam diretamente com o aluno. Ocorre muitas vezes que o psicopedagogo é contratado apenas para realizar o diagnóstico na escola, sem que, contudo, tenha vínculos com os professores, com a equipe gestora e com todos os que atuam dentro da instituição, além de não conhecer a clientela atendida pela escola. Este profissional é encarado pela equipe mais como um intruso querendo responsabilizar alguém pelo diagnóstico da instituição (CARVALHO, 2016). 52 Teóricos nos orientam que o psicopedagogo deve fazer parte do quadro de funcionários da instituição, seja ela uma escola ou um hospital, pois o conhecimento e o contato com os pares tornam o trabalho investigativo mais efetivo. Bossa (2007) em um de seus livros vai pontuar os vários contextos que a psicopedagogia institucional pode entrar em ação, entre eles estão: a psicopedagogia escolar que se encarrega de ampliar a percepção dos pais quanto ao processo de aprendizagem de seu filho; a psicopedagogia empresarial que amplia as formas de treinamentos, na qual trabalha a criatividade e sentimentos; a psicopedagogia hospitalar que possibilita o desenvolvimento de atividades com os internos; a instrumentalização de professores e agentes educacionais da escola sobre novas formas de aprender; entre outros aspectos envolvendo família, o sujeito com dificuldades e instituições que trazem consigo dúvidas e dificuldades sobre os processos de aprendizagem. São nesses espaços institucionais, seja ele a escola, empresas, hospitais ou outros, que diferentes sujeitos – família, professores, comunidade, colegas de trabalho, médicos, etc. - entram em ação para ajudar no diagnóstico e nos possíveis caminhos a serem seguidos, assim como na psicopedagogia clínica (MILANI, 2018). Essas pessoas são importantes visto que apresentam muita influência nos processos de aprendizagem (direta ou indiretamente) podendo afetar todo e qualquer processo educacional exercido pelas instituições. Nesse sentido, serão apresentadas a seguir três possibilidades de atuação institucional psicopedagógica: psicopedagogia escolar, psicopedagogia empresarial e psicopedagogia hospitalar. Psicopedagogia escolar Como já visto, a psicopedagogia trata diretamente do processo de aprendizagem e das dificuldades e obstáculos que surgem no andamento do mesmo. Dessa forma, a psicopedagogia institucional pode ser pensada a partir da instituição escolar, a responsável pelo ensino e aprendizagem das crianças e jovens. É também a escola a grande preocupação da psicopedagogia devido seu compromisso com a ação preventiva, diminuindo as chances de possíveis dificuldades e fracasso escolar (BOSSA, 2007). É importante também pensarmos que, embora a gestão pedagógica e os professores auxiliem as crianças nas dificuldades e desenvolvam projetos a fim de 53 diminuírem os índices de fracasso escolar, os psicopedagogos possuem uma formação na qual os ajuda ter um olhar diferenciado perante a instituição e os problemas que perpassam o ambiente escolar. O psicopedagogo na escola atua como facilitador e auxiliador nos processos e nas relações que nela se desenvolvem. [...] o psicopedagogo está preparado como o especialista em aprendizagem para acompanhar a equipe pedagógica na adequação de programas, projetos, bem como atender às questões relacionais envolvidas no contexto escolar. O “professor tem a chave” na sala de aula, “o psicopedagogo tem a chave” para que a instituição Escola possa lidar melhor com a complexidade das questões envolvidas na rede composta pelos agentes envolvidos dentro e fora dos muros da instituição (RUBINSTEIN, 2017, p. 312). Assim sendo, os psicopedagogos que atuam nas instituições escolares dedicam-se a auxiliar os professores e a gestão no planejamento educacional para assim buscar minimizar grandes obstáculos e barreiras que atingem a sala de aula, e que resultam, na maioria das vezes, em fracasso escolar (MILANI, 2018). A psicopedagogia, no âmbito da sua atuação preventiva, preocupasse especialmente com a escola. Dedicando-se a áreas relacionadas ao planejamento educacional e assessoramento pedagógico, colabora com os planos educacionais e sanitários no âmbito das organizações, atuando em uma modalidade cujo caráter é clínico, ou seja, realizando diagnostico institucional e propostas operacionais pertinentes (BOSSA, 2007, p. 89). Segundo Fernández (2001), ao desenvolver seu trabalho na instituição escolar, o psicopedagogo deve ficar atento às relações que se estabelecem entre o sujeito ensinante e o sujeito aprendente que há em cada aluno e em cada professor, pois a modalidade de ensino do professor é consequência de sua própria modalidade de aprendizagem, assim como a relação particular do professor com seus alunos e seu grupo está diretamente relacionada ao grupo real ou imaginário a que pertence o professor e, por fim, ao sistema educativo como um todo. Psicopedagogia empresarial O trabalho psicopedagógico institucional empresarial se parece com o desenvolvido nas escolas. Em uma empresa (seja um hospital, uma loja, uma fábrica), o trabalho se desenvolve com base na análise da estrutura organizacional, representada pelo organograma (gráfico representativo a estrutura hierárquica), e das relações estabelecidas nessa hierarquia, percebidas por meio das dinâmicas 54 (ações) e temáticas (discurso) apresentadas pelos sujeitos. (GRASSI, 2009, p. 152). Assim como nas escolas, as empresas possuem diversos sujeitos com histórias e contextos diferenciados, o que faz delas únicas. Dessa forma, o psicopedagogo deve atuar ajudando na melhoria das relações desses indivíduos com eles mesmos e com os outros, aprimorando assim as relações sociais na empresa (MILANI, 2018). A intervenção psicopedagógica no hospital O hospital, assim como a escola, é uma instituição com características únicas e com necessidades diferenciadas. Logo, para que o psicopedagogo possa prevenir ou minimizar os problemas que possam vir a interferir nos processos de aprendizagem dos indivíduos inseridos nesse contexto, é preciso que se faça uma investigação minuciosa a fim de diagnosticar os prováveis fatores que estão interferindo negativamente nas interações desenvolvidas no interior dessa instituição para, a partir de então, planejar estratégias facilitadoras no que tange à dinâmica e à organização do hospital, buscando uma maior integração da equipe médica, enfermeiros e demais funcionários, com vistas ao bem-estar do indivíduo hospitalizado. São várias as possibilidades de intervenção psicopedagógica nesse ambiente, contudo vamos enfocar a atuação do psicopedagogo na classe e na brinquedoteca hospitalares, a partir da concepção de que esse espaço é propício para a revitalização das aprendizagens cognitiva e afetiva, apesar dos limites impostos aos indivíduos pela doença e pelos medicamentos, dando ênfase ao afeto e à cognição como características diferenciais e significativas da atuação psicopedagógica (SILVA, 2012). O contato com o professor e, por que não dizer, com o psicopedagogo, funciona como um elo entre a criança e os padrões da vida cotidiana das demais crianças, entre a vida em casa e a vida na escola. Além disso, a autora enfatiza que a função do educador, nesse contexto, não é apenas a de manter as crianças ocupadas, uma vez que a infância se caracteriza por ser uma fase de crescimento e de desenvolvimento, estejam ou não as crianças hospitalizadas. Logo, a atuação de educadores no ambiente hospitalar é importante, não só para a aprendizagem formal da leitura e da escrita, mas para o desenvolvimento global 55 do indivíduo, favorecendo não só a aprendizagem, mas também o resgate da saúde da criança hospitalizada (SILVA, 2012). Processo de diagnóstico institucional educacional No diagnóstico psicopedagógico institucional, é importanteanalisar o conteúdo programático da escola, conferindo se o que está sendo oferecido ao aluno está e acordo com a idade e com a capacidade, ou seja, a habilidade cognoscitiva do aluno. Havendo uma parceria entre professores, psicopedagogo e coordenador, haverá um empenho em se discutir os problemas da instituição e buscar soluções por meio da multidisciplinaridade. Dessa forma, o resultado da investigação será obtido mais rapidamente, pois todas as partes envolvidas conhecem o problema e terão mais condições, sob a orientação do psicopedagogo, de compreender e de fazer as adequações necessárias (CARVALHO, 2016). Segundo a pedagogia do passado, o professor era o detentor do saber. Não era comum o professor entrar em contato com a emoção do seu aluno. Ao aluno cabia apenas receber o conhecimento, não era possível construir o seu aprendizado. O psicopedagogo em seu diagnóstico deve mostrar ao grupo de professores que muitas vezes o problema ocorre porque eles estão voltados para o passado, enquanto os alunos vivem no presente e no futuro. Um bom exemplo é o fato de o aluno utilizar computadores, tablets ou celulares, enquanto o professor mal sabe ligar um computador, recurso que na maioria das escolas já́ existe, mas que o professor se recusa a aprender a utilizar (CARVALHO, 2016). A proposta da psicopedagogia é a aquisição do conteúdo por meio das relações interpessoais integrativas, nas quais o aprendiz seja capaz de construir seu conhecimento. A psicopedagogia na instituição atualmente detém duas funções: Função curativa: voltada ao trabalho efetivo com grupos de alunos que apresentem dificuldades de aprendizagem. Na função curativa, o psicopedagogo: • Investiga as condições físicas, mentais, psicológicas e socioculturais do aluno para compreender o que está impedindo o seu rendimento escolar. • Encaminha o aluno para um atendimento com especialista após concluir que o rendimento escolar está sendo prejudicado por questões externas. Função preventiva: colaborar orientando pedagogos, coordenadores e professores. Na função preventiva, o psicopedagogo: 56 • Orienta no processo do relacionamento afetivo entre professor e aluno. • Ajuda a estabelecer metas nos procedimentos pedagógicos e nos programas curriculares, levando em consideração os aspectos afetivos cognitivos dos alunos. • Analisa o conteúdo programático da escola. • Proporciona o contato com matérias (textos, livros, pesquisas) que venham a melhorar e a colaborar com o desempenho tanto dos professores quanto dos alunos Um diagnóstico psicopedagógico envolve o professor, o aluno e o conhecimento contextualizado da escola, principalmente a sala de aula, um dos locais onde acontece a aprendizagem. Três eixos são importantes no diagnóstico psicopedagógico na instituição: 1. Sociopolítico 2. Pedagógico 3. Psicopedagógico O eixo sociopolítico refere-se à organização educacional; O eixo pedagógico refere-se ao processo educativo, que inclui relação de conteúdo e ensino efetivo, com resultados positivos que avançam e tornam o aluno autônomo. O eixo psicopedagógico prioriza o assunto e o local de aprendizagem. Identifique onde e por que as dificuldades de aprendizagem estão ocorrendo, bem como a razão pela qual as dificuldades surgiram. Procura soluções com o grupo numa ação multidisciplinar. Nos parágrafos seguintes serão abordadas várias questões essenciais para a avaliação diagnóstica da instituição. Sendo o professor corresponsável pelo aluno que a escola produz, sugere-se uma proposta para o início da avaliação diagnostica psicopedagógica. Como a escola é um local de análise crítica e de transformação do processo de construção e de produção do conhecimento, propõe-se uma reflexão com esse professor. Acredita-se ser este o primeiro passo para que se conheça a equipe docente da escola, aquela que atua diretamente com o aluno (CARVALHO, 2016). Para diagnosticar as dificuldades de aprendizagem do aluno em sala de aula, desenvolve-se a psicopedagogia “(...) por meio de um olhar nutrido por esse campo de conhecimento, é possível identificar as dificuldades, obstáculos, relações e possibilidades dos alunos envolvidos na instituição”. 57 Diagnóstico de um problema e investigação de métodos para identificar um problema de uma escola em relação ao processo de ensino e aprendizagem, bem como compreensão fundamental de tais processos. O diagnóstico psicopedagógico institucional, de acordo com Bassedas, (1996, p.24): (...) busca conhecer, olhar e escutar a relação do sujeito com o conhecimento objetivando a melhoria do ensino e da aprendizagem, ou seja, para ajudar a família, a escola (em todos os níveis - administrativo, docente, técnico, discente) a cumprir o seu papel, atuando como um articulador do ensino e da aprendizagem. Para chegar a um diagnóstico educacional, o psicopedagogo coleta dados, processo que inclui atividades como análise documental, entrevistas com o aluno, professores e equipe pedagógica, família do aluno e observações diretas da aprendizagem e das relações do aluno. (PORTO, 2006) Rubinstein (1996) compara o diagnóstico psicopedagógico a um processo de investigação, onde o psicopedagogo assemelha-se um a detetive a procura de pistas, selecionando-as e centrando-se na investigação de todo processo de aprendizagem, levando-se em conta a totalidade dos fatores envolvidos neste processo. Após a recolha de dados, procede-se à tabulação dos dados, à análise geral de cada turma e à avaliação das dificuldades dos alunos. Depois de receber um diagnóstico, é necessário desenvolver um plano de ação que inclua uma intervenção adequada e eficaz. Organizar planos de ação para o aluno e sua família, os professores e a turma em que está matriculado, iniciando assim o processo de intervenção. 8 PSICOMOTRICIDADE O corpo e a aprendizagem caminham juntos. É pelo corpo que o indivíduo entra em contato com o conhecimento. No seu processo global, o desenvolvimento inclui dois processos complementares: a maturação e aprendizagem. A maturação é a soma de características da evolução neurológica que apresenta a maioria dos indivíduos nas diferentes idades da vida e que permite a aparição e uso das capacidades potenciais inatos, expressas na área de seu comportamento. A aprendizagem é o resultado da estimulação advinda do ambiente sobre o indivíduo já maduro que se expressa diante de uma situação-problema, sob a forma 58 de uma mudança de comportamento em função de experiência. Aprendizagem é um fenômeno que não depende somente do potencial psiconeurológico endógeno, depende também de fatores quantitativos, qualitativos, temporais e dos estímulos que a criança recebe do meio ambiente (PEREIRA, 2017). A aprendizagem, entendida como a aquisição de novos conhecimentos, é a função mais transcendente de nosso cérebro. Essa aprendizagem se produz pela interconexão contínua entre o nosso cérebro, como principal órgão de recepção e processamento, e o meio ambiente, como fonte de informação e estímulos A aprendizagem pode ser aprimorada por meio do conhecimento de suas bases neurobiológicas (Relvas, 2017); no entanto, a aprendizagem nunca pode transcender a maturação. Para que a aprendizagem se processe, é necessário que o organismo esteja suficientemente maduro para recebê-la. Oliveira, (2004, p. 20-21) ressalta a importância da maturação para o desenvolvimento da aprendizagem ao afirmar que: “A aprendizagem não poderá proporcionar um desenvolvimento superior à capacidade de organização das estruturas do sistema nervoso do indivíduo; uma criança não poderá aprender das experiências vividas, conhecimento para os quais não tenha adquirido, ainda, uma suficiente maturidade. A maturidade é, no entanto, dependente, em parte, do que foi herdado, e, em parte, do que foi adquirido pelas experiências vividas.” A aprendizagem refere-sea aspectos funcionais e resulta de toda estimulação ambiental recebida pelo indivíduo no decorrer da vida. A troca de experiências com os demais membros da mesma espécie é indispensável. A aprendizagem envolve uma grande integração sensorial ao nível do sistema nervoso central onde é organizada, armazenada e depois elaborada para originar as respostas e as reações motoras. A aprendizagem envolve a integração polissensorial em estruturas cada vez mais complexas. Aprendemos por nós mesmos, não sendo possível aprendermos pelos outros. As novas aprendizagens dependem das experiências anteriores do indivíduo; sendo assim, as primeiras aprendizagens servem de pré-requisito para as subsequentes. “O preparo para iniciar a leitura e a escrita (alfabetização) depende de uma complexa integração dos processos neurológicos e de uma harmoniosa evolução de habilidades básicas, como percepção, esquema corporal, lateralidade, orientação espacial e temporal, coordenação visomotora, ritmo, análise e síntese visual e auditiva, habilidades visuais e auditivas, memória cenestésica, linguagem oral. ” (Alves, 2003, p. 98) 59 A base fundamental de todo comportamento, inclusive o linguístico, é a experiência. A maneira pela qual o indivíduo participa do meio ambiente depende das vivências experimentais e da interpretação afetiva que se dá a essas experiências. É agindo no mundo que o observamos. Daí a grande importância da motricidade em todo o processo de desenvolvimento do indivíduo. Embora não possamos descrever plenamente uma experiência, é útil considerá-la em termos de níveis ou hierarquias. Deste modo podemos comparar a experiência do homem à de outras formas de vida. Distúrbios de Aprendizagem Explicar a natureza do problema à criança, com a maior clareza possível, será o primeiro passo para o tratamento de qualquer transtorno de aprendizagem. Quando a aprendizagem não ocorre conforme o esperado para a criança, pais e professores, aparecem as “dificuldades de aprendizagem” Um distúrbio de aprendizagem não pressupõe uma lesão cerebral, sendo a inteligência da criança normal. Ocorre um atraso, um transtorno em um ou mais processos da linguagem falada, leitura, ortografia, caligrafia e aritmética, que pode resultar de uma possível disfunção do Sistema Nervoso Central que se pode manifestar em privações na percepção, atenção, conceitualização memória, linguagem e funções motoras. É um processo desarmonioso no desenvolvimento integrativo das funções. “A criança pode apresentar dificuldades na aquisição dos conhecimentos da leitura e da escrita por várias causas, tanto de ordem emocional, quanto estrutural. Cada sujeito é único, portanto, é diferente, e diferentes causas podem criar obstáculos no aprender, independente de uma lesão cerebral. Assim, podemos dizer que o termo” distúrbio de aprendizagem" está mais ligado a fatores orgânicos. Os problemas de aprendizagem estão mais ligados às questões emocionais, sociais e familiares. As dificuldades de aprendizagem estão mais ligadas ao processo de aprendizagem normal e podem ser decorrentes de oscilações que marcam as diferentes etapas do desenvolvimento, mas podem ter como causa uma inadaptação a uma metodologia, ou a uma relação mal estabelecida com a escola ou o professor." Costa (2002, p. 35) As dificuldades de aprendizagem podem ser naturais ou secundárias. Dificuldades Naturais: referem-se àquelas dificuldades experimentadas por todos os indivíduos em alguma matéria e/ou algum momento de sua vida escolar. São dificuldades transitórias, que tendem a desaparecer a partir de um esforço maior do aprendiz ou de intervenção na sua rede de relações. Fatores causadores: proposta 60 pedagógica, capacitação do professor, padrões de exigência da escola e/ou dos pais, falta de assiduidade do aluno, conflitos familiares. Dificuldades secundárias a outros quadros diagnósticos: problemas na aprendizagem escolar decorrentes de alterações que atuam primariamente sobre o desenvolvimento humano normal e secundariamente sobre a aprendizagem. Nessa subcategoria estão os indivíduos portadores de deficiências mental, sensorial e com quadros neurológicos ou com transtornos emocionais significativos. Segundo Alves (2003, p. 98), os distúrbios de aprendizagem podem ser atribuídos às mais variadas causas. Como: • Orgânicas: cardiopatias, encefalopatias, deficiências motoras, deficiências intelectuais, disfunção cerebral e outras enfermidades de longa duração. • Cognitivas: são as que se referem à inteligência da criança, ou seja, a capacidade de conhecer e compreender o meio ambiente em que vive, de raciocinar sobre os seres (animados ou inanimados) que a cercam, além de estabelecer relações entre eles. • Neurológicas: compreendem as alterações nas estruturas do sistema nervoso, cérebro, cerebelo, bulbo, ponte, medula espinal, nervos, etc., que têm papel fundamental na aprendizagem escolar, porque interferem em várias atividades, comandando todos os outros sistemas do corpo humano. • Psicológicas: desajustes emocionais provocados pela dificuldade em aprender, o que gera ansiedade, insegurança e autoconceito negativo. • Pedagógicas: métodos inadequados de ensino; falta de percepção, por parte da escola, do nível de maturidade da criança, iniciando uma alfabetização precoce; relacionamento professor-aluno deficiente; não domínio do conteúdo e do método por parte do professor; atendimento precário das crianças decorrente da superlotação das classes. • Emocionais: são distúrbios psicológicos ligados às emoções e aos sentimentos dos indivíduos e à sua personalidade. Esses problemas geralmente não aparecem sozinhos, eles são associados a problemas de outras áreas, como, por exemplo, área motora, sensorial, etc. Podemos dividir os distúrbios de aprendizagem em: Dislexia, Disgrafia, Disortografia e Discalculia. Dislexia 61 A dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e por dificuldade na habilidade de decodificação e soletração. Essas dificuldades resultam tipicamente do déficit no componente fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas consideradas na faixa etária. A Organização Mundial de Saúde classifica atualmente a dislexia como uma função simbólica, já que ler é associar os símbolos expressos ou escritos graficamente aos símbolos auditivos, conferindo a estes um significado. Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem, caracterizada por problemas nas linguagens receptiva e expressiva, oral ou escrita. As dificuldades podem aparecer na leitura e escrita, soletração e ortografia, fala e compreensão, e em matemática. As inversões, omissões e substituições de letras ou sílabas que com frequência os disléxicos cometem são causadas por um defeito nos sistemas cerebrais envolvidos na linguagem (PEREIRA, 2017). Não podemos classificar como Dislexia as dificuldades que resultem de uma falha ou deficiência de iniciação, de motivação, ou de exercícios insuficientes, como também as trocas por problemas auditivos, visuais ou de coeficiente intelectual. Os disléxicos nem sempre apresentam os mesmos sintomas, mas desenvolvem algumas características em comum. Dentre elas destacamos: • Demora em aprender a falar, a fazer laços de sapato, a reconhecer as horas, a pegar e chutar bola, a pular corda etc. • Dificuldade para escrever números e letras corretamente, ordenar as letras do alfabeto, meses do ano e sílabas de palavras compridas. • Distinguir esquerda e direita Disgrafia Transtorno funcional na execução da escrita, que afeta a forma, a inteligibilidade, o ritmo ou o significado da mesma, sem alterações intelectuais, sensoriais, neurológicas, motoras ou afetivas que justifiquem. É uma dispraxia do movimento, dificuldade de elaboração e realizaçãodo movimento sem comprometimento muscular. Caracteriza-se por alterações na pressão da letra, signos gráficos indiferenciados, falta de harmonia e movimentos dissociados. É disgráfica toda criança cuja qualidade da escrita é deficiente, não sendo ela portadora de qualquer déficit neurológico importante ou intelectual que explique está deficiência. 62 Trata-se, portanto, de crianças intelectualmente normais, que vêm à consulta por causa de sua escrita ilegível ou muito lenta, dificuldades estas que prejudicam, em geral, a marcha normal de sua escolaridade. Disortografia Alteração na planificação da linguagem escrita, que causa transtornos na aprendizagem da ortografia, gramática e redação. É a incapacidade de escrever corretamente a linguagem oral, havendo trocas ortográficas, confusão de letras, problemas de ligação lógica de ideias (subordinação e coordenação) etc., podendo acarretar a diminuição da qualidade do traçado das letras. As trocas ortográficas são normais durante a 1ª e 2ª séries do ensino fundamental, porque a relação entre a palavra impressa e os sons ainda não está totalmente dominada. A partir daí os professores devem avaliar as dificuldades ortográficas apresentadas por seus alunos, principalmente por aqueles que trocam letras ou sílabas de palavras já conhecidas e trabalhadas em sala de aula. Os principais tipos de erro que a criança com disortografia costuma apresentar são: • Confusão de letras (trocas auditivas): consoantes surdas por sonoras e vogais nasais por orais. • Confusão de sílabas com tonicidade semelhante. • Confusão de letras (trocas visuais): simétricas e semelhantes. Discalculia A discalculia vem do Grego e significa dis + cálculo, ou seja, dificuldade ao calcular. É um distúrbio do pensamento quantitativo. As crianças são capazes de compreender a linguagem, ler e escrever, mas não conseguem entender os princípios e processos matemáticos. Para algumas pessoas, as dificuldades em matemática são agravadas pela dificuldade inata de processar números, executar cálculos aritméticos e resolver problemas. É a dificuldade em aprender aritmética, podendo ter várias causas, como: pedagógicas; capacidade intelectual limitada; disfunção do Sistema Nervoso Central; dificuldade de identificação dos símbolos visuais; dificuldade de cálculo, de concepção de ideias, de aspectos verbais e não verbais; problemas emocionais; falta de aptidão e ausência de fundamentos matemáticos. Considerada uma linguagem universal, é uma linguagem simbólica, que envolve relações de quantidade e relações de espaço. 63 Envolve igualmente noção de número, de contagem, de identificação e de seriação. A matemática envolve, portanto, estruturas e relações que devem emergir de experiências concretas (PEREIRA, 2017). Psicomotricidade e os aspectos do desenvolvimento psicomotor Para entender o termo psicomotricidade, nos debruçamos sobre o legado teórico de diversos autores, entre eles Gibelli (2009), que o define como um movimento baseado nas experiências que um sujeito acumula ao longo de seu processo de desenvolvimento, no qual a ação ocorre como indivíduo respostas e depende da linguagem e da socialização. Psicomotricidade, ou “psicologia do movimento”, é o estudo do corpo humano e suas relações internas e externas. As habilidades psicomotoras estão relacionadas ao processo evolutivo do corpo. O movimento corporal é a principal característica que distingue as habilidades psicomotoras de outras disciplinas. Por meio do movimento, o indivíduo busca expressar suas emoções, realizar gestos e construir sua personalidade. Segundo Vilar (2010), as capacidades psicomotoras devem ser analisadas juntamente com o comportamento e a aprendizagem individual para fins de atos educativos que utilizem movimentos, expressões do ser. É atribuir a cada movimento um objetivo cognitivo e prático que justifique o movimento como expressão da personalidade e como forma de relação entre as pessoas e as coisas do mundo. A psicomotricidade, em suas atividades preventivas e terapêuticas, visa alcançar a organização neuropsicomotora do conceito corporal como referencial espaço-temporal fundamental para qualquer processo comportamental ou de aprendizagem. Ou seja, as relações que formam o esquema de representação. Dessa forma, ele quer transformar o corpo em uma ferramenta de ação no mundo, uma ferramenta de expressão e uma ferramenta para expressar as relações com os outros (CIBELLI, 2014). A psicomotricidade é a capacidade de realizar movimentos e se engajar em atividades mentais que traduzem imagens em ações de estímulo para manipulação muscular apropriada (MACHADO; TAVARES, 2010). Ela está ligada a personalidade e a afetividade, por que para o indivíduo demonstrar o que sente precisa de seu corpo, e uma pessoa com problemas motores passa a ter dificuldades para se expressar através dos movimentos. 64 Etapas do desenvolvimento psicomotor De acordo com Gonçalves (2004), as fases do desenvolvimento psicomotor levam em conta não somente os aspectos da maturação neurológica, mas também o resultado de um processo relacional. A motricidade pode ser organizada nas seguintes fases: 1ª fase: a primeira fase é caracterizada pela estruturação motora, do tônus de fundo, e do não aparecimento das reações primitivas. 2ª fase: nesta fase através das relações sociais há o aperfeiçoamento do espaço temporal. 3ª fase: Através da ação do sujeito as aquisições motoras serão automatizadas. Função motora A função motora refere-se a fatores que envolvem a habilidade de usar e controlar os músculos estriados, responsáveis pela movimentação voluntária e é mais usada na área de coordenação motora. A estruturação do esquema corporal Este desempenha um papel importante no desenvolvimento do tema, pois é o principal ponto de partida para o mesmo ato. A construção do esquema corporal infantil ocorre por meio de atividades como: controle do tônus muscular, mudança geral do corpo e equilíbrio corporal. Imagem corporal Ainda segundo (ALVES, 2008), a imagem corporal é a forma como o corpo se apresenta. A relação entre o corpo e os objetos em seu espaço. Sua imagem de si mesmo é construída como qualquer outra estrutura mental. Esboce as ideias espaciais iniciais por meio da distância percebida entre as crianças e os objetos. Coordenação facial geral Durante esta fase, o desenvolvimento de todas as habilidades perceptivas do indivíduo é registrado. A coordenação geral requer um equilíbrio perfeito dos músculos em repouso e em movimento. Cinco tipos de coordenação motora podem ser enfatizados. • Coordenação motora fina: a coordenação motora fina é responsável por utilizar pequenos músculos que estão no corpo, e é usada para escrever, 65 digitar, recortar. A criança que tiver alguma dificuldade em realizar tais movimentos, principalmente com as mãos, não conseguirá controlar grupos pequenos de músculos em suas mãos. Essa dificuldade interfere no desempenho escolar das crianças, pois prejudica a mesma de realizar atividades de escrita. A criança terá letras malformadas, tornando sua letra ilegível. • Coordenação motora ampla: está tem a capacidade de usar grandes músculos, da melhor maneira possível, através de engatinhar, andar, pular, correr. • Coordenação visomotora: capacidade de coordenar a musculatura com o olhar. É o deslocamento dos olhos ao longo da linha. Essa habilidade ajuda a criança a ler e escrever. • Coordenação audiomotora: transforma em movimentos um comando pelo aparelho auditivo. Pode ser realizada através de brincadeiras rítmicas, como por exemplo, brinquedos cantados. • Coordenação Facial: capacidade de expressão facial. É feita através de exercícios faciais, como por exemplo, a mastigação (GOLÇALVES, 2004). Equilíbrio De acordo com o crescimento da criança,o equilíbrio torna-se cada vez mais fundamental, podendo ser estático em movimentos não locomotores, e dinâmico em movimentos locomotores. Lateralidade Esta é uma fase importante no desenvolvimento pessoal. Para dar ideias próprias aos sujeitos, formar um esquema corporal, perceber o corpo. Segundo Oliveira (2004), a lateralidade no ser humano é uma especialização progressiva de dois hemisférios cerebrais. A lateralidade em humanos é preferível a um lado do corpo: mãos, olhos, pés. Isso significa que um lado do corpo humano domina o outro. É um erro pensar nas diferenças esquerda-direita como conhecimento “esquerda-direita”. Como afirma Oliveira (2004), o conhecimento de "esquerda e direita" vem do conceito de dominância lateral. É uma generalização da percepção do eixo corporal a tudo o que cerca a criança, e esse conhecimento é mais facilmente adquirido quanto mais pronunciada e homogênea for a lateralidade da criança. Com efeito, se a criança 66 percebe que trabalha naturalmente com “aquela mão”, que “aquela mão” é a mão direita ou esquerda. A estrutura espacial A criança necessita de um espaço para se mover. A criança adquire estruturação espacial quando: reconhece a realidade no qual ela representa; aprende a orientar e ocupar o espaço. Fonseca (1997), afirma que a estruturação espacial está integrada nas regiões posteriores do córtex, que subentendem as funções de analise, processamento e o armazenamento das informações que foram adquiridas. Esquema corporal O esquema corporal é estruturado a partir do momento em que o sujeito descobre e utiliza seu corpo no meio em que vive. A criança irá desenvolver: a percepção do corpo, o equilíbrio, a lateralidade, a independência dos membros, o controle muscular e o controle da respiração. Quando o indivíduo descobre, utiliza e controla seu corpo, o esquema corporal é estruturado e passa a ter consciência da sua relação com o mundo que o cerca (ALVES, 2008). A relação da psicomotricidade e aprendizagem Diante da dualidade educacional do bem-sucedido e do malsucedido, cria-se um olhar de intersecção entre a Psicopedagogia e a Psicomotricidade. Considerando o problema de aprendizagem como um “sintoma no sentido de que não aprender não configura um quadro permanente, mas ingressa numa constelação peculiar de comportamentos nos quais destaca como sinal de descompensação” (Paín, 1985) os profissionais de Psicopedagogia e de Psicomotricidade devem ter clareza de que as questões do não-aprender, diferenciam-se entre distúrbios, problemas e dificuldades de aprendizagem. Crianças com dificuldades de aprendizagem, dificuldades de aprendizagem ou dificuldades de aprendizagem precisam de tratamento para atingir seus objetivos de aprendizagem. Quando não está aprendendo, há aspectos emocionais, cognitivos e motores. A psicopedagogia deve preservar o desejo de aprender, aliado às habilidades psicomotoras que contribuem para o processo de aprendizagem, pois “a aprendizagem passa pelo corpo do começo ao fim” (Fernandez, 1990, p. 28). Nesse sentido, o comportamento corporal e o comportamento objetal da criança são fundamentais para o desenvolvimento das estruturas cognitivas e perceptivas, bem 67 como das habilidades motoras. A psicomotricidade é uma ferramenta muito rica que facilita a prevenção e intervenção e ajuda a alcançar resultados satisfatórios em situações desafiadoras no processo de ensino e aprendizagem. A Psicopedagogia e a Psicomotricidade foram marcadas por cortes epistemológicos demonstrando diferenças específicas de uma época para a outra. O primeiro corte foi “marcado pela prática educativa e pelo conceito de paralelismo mental-motor” (Levin, 1995, p.25). Neste momento a neurologia contribuiu para uma nova visão dos problemas da aprendizagem e dos problemas psicomotores. Neste período, a psicopedagogia e psicomotricidade adotam uma abordagem em que o motor é separado do cognitivo. No diagnóstico e na intervenção Psicopedagógica, a psicomotricidade contribui, portanto, se considerada a importância quando, diante de bloqueios cognitivos, forem avaliados, também os aspectos psicomotores. Segundo Sanches (2003), muitas crianças com bloqueio cognitivo muitas vezes são despreparadas ou imaturas na dimensão mais profunda da existência. Influência e desenvolvimento psicomotor. Esse aspecto dificulta a capacidade da criança de descentralizar, de realizar análises conceituais do mundo real. A falta de descentralização, portanto, impossibilita que as crianças analisem as informações que recebem de uma perspectiva cognitiva. 68 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES F. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção. Rio de Janeiro: WAK Editora; 2003. ARAGÃO, C. G. Psicopedagogia Clínica e as Dificuldades de Aprendizagem: diagnóstico e intervenção. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) - Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC, Criciúma, 2010. 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