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Fisiologia do parto
DURAÇÃO DA GESTAÇÃO
A duração da gestação é calculada como
sendo o intervalo entre o serviço fértil e o
parto, e varia conforme a espécie animal:
Asininos: 343 a 375 dias
Equinos: 330 a 340 dias
Bovinos zebuínos: 286 a 296 dias
Bovinos taurinos: 280 a 290 dias
Caprinos e ovinos: 150 dias
Suínos: 114 a 120 dias
Cães e gatos: 58 a 64 dias.
HORMÔNIOS DA GESTAÇÃO
Em todas as espécies a produção de
estrógeno e progesterona continua
elevando -se durante a maior parte da
gestação. A implantação é especialmente
dependente de níveis críticos e do equilíbrio
entre progesterona e estrógeno.
Inicialmente, é necessário a presença da
progesterona e, depois, do estrógeno para
desencadear as reações que levam à
implantação.
Entretanto, altos níveis de estrógeno
podem também impedir a nidação por
modificar o trânsito do embrião para o
útero, bem como o ambiente uterino.
A progesterona é necessária para a
manutenção da gestação em todas as
espécies domésticas. Ela é inicialmente
produzida pelo corpo lúteo (CL) e, depois,
também pela placenta.
O estrógeno atua sobre o endométrio
provocando proliferação do epitélio e
crescimento dos ductos retos das
glândulas endometriais. O miométrio
responde a níveis crescentes de estrógeno.
A progesterona atua de modo sinérgico
com o estrógeno, provocando ramificação
das glândulas endometriais que adquirem
forma convoluta e passam a secretar um
material mucoso espesso que, juntamente
com fluido tubário, secreções cervicais e
células de descamação, formam o assim
chamado leite uterino, que nutre o embrião
antes da implantação.
Além disso, a progesterona favorece uma
economia do metabolismo do corpo durante
a prenhez, levando a uma utilização mais
eficiente dos nutrientes. O apetite
aumenta durante a gestação devido à
influência da progesterona, e também há
diminuição da atividade física, o que
contribui para o aumento de peso da fêmea.
Além do estrógeno e da progesterona, a
prolactina, produzida pela hipófise e
também pelo CL, é um hormônio
importante durante a gestação devido a
seu efeito luteotrófico. A prolactina
estimula o metabolismo do colesterol nas
células luteínicas por meio da ativação da
enzima colesterol sintetase. Esta enzima é
responsável pela esterificação das
reservas celulares de colesterol,
aumentando o colesterol livre na célula, o
qual é utilizado para produção de
hormônios esteróides como o estrógeno e
a progesterona. A prolactina induz, ainda, o
aparecimento e a manutenção de
receptores para LH nas células luteínicas e
Fisiologia do parto
inibe a degradação da progesterona para
di hidroxiprogesterona. Além disso, os
efeitos psíquicos da progesterona
associados aos da prolactina favorecem a
conduta materna, como preparação de
ninho e cuidados com o neonato.
Outro hormônio, também secretado pelo
CL e importante na preparação para o
parto dos animais domésticos, é a relaxina.
Este hormônio é produzido no final da
gestação em várias espécies,
provavelmente pelo CL e/ou pela placenta,
e sua função é particularmente importante
próximo ao momento do parto, levando ao
relaxamento da cérvix, sínfise púbica,
tecidos e ligamentos pélvicos.
MODIFICAÇÕES FÍSICAS DA FÊMEA GESTANTE
A gestação requer que a mãe sustente o
feto com substâncias essenciais para o seu
crescimento.
Balanço hídrico-eletrolítico
Para que uma quantidade adequada de
sangue seja destinada à circulação
placentária, sem comprometer a irrigação
dos tecidos maternos, a vascularização
materna é expandida.
Durante uma gestação normal, os rins
maternos retém sódio, o qual é distribuído
entre o concepto e o espaço extracelular
do tecido materno. Ao mesmo tempo
ocorre retenção de potássio e de cálcio.
Esta retenção de eletrólitos é
acompanhada por um aumento da água
corpórea, 75% da qual é mantida no espaço
extracelular dos tecidos maternos.
O volume plasmático que começa a
aumentar no início da gestação sofre um
rápido acréscimo a partir da metade do
período gestacional. No final da gestação,
o aumento do volume plasmático continua
ocorrendo, mas em índices menores.
A expansão do volume total de células
vermelhas se inicia na metade da gestação,
ocorrendo um grande aumento no 1/3 final.
Após o parto, a diurese é a principal
responsável pela redução do volume
plasmático. As células vermelhas que
foram adicionadas ao contingente materno
normal, durante a gestação, permanecem
durante sua sobrevida natural; entretanto,
devido a uma provável depressão da
eritropoetina, não há renovação deste
estoque.
MODIFICAÇÕES HEMODINÂMICAS
O comprometimento hemodinâmico
materno durante a gestação é bastante
complexo. Além do estabelecimento de um
aporte sanguíneo uterino adequado, a
circulação materna é responsável pelas
trocas de calor do feto e preparo da
glândula mamária para a lactação.
O fluxo sanguíneo para o útero aumenta
progressivamente conforme a gestação
avança.
Além do aumento do fluxo sanguíneo
uterino, durante a gestação, ocorre
também redistribuição do fluxo. Antes da
Fisiologia do parto
gestação, o fluxo para o miométrio,
endométrio e sítios de futura implantação
da placenta é o mesmo. Quando a gestação
se estabelece, conforme esta progride, os
cotilédones placentários passam a ser
favorecidos e, próximo ao parto, 83% do
fluxo sanguíneo uterino é destinado aos
cotilédones.
Quando o trabalho de parto se inicia, o
débito cardíaco aumenta a cada contração
uterina, retornando a seus níveis basais
durante a fase de descanso. Logo após o
parto, o débito cardíaco aumenta ainda
mais, provavelmente devido à
descompressão das veias abdominais
pressionadas pelo aumento do volume
uterino. Esta elevação permanece por
alguns dias, acompanhada de uma leve
bradicardia, mas dentro de poucas semanas
o estado fisiológico não prenhe se
estabelece.
MODIFICAÇÕES METABÓLICAS
A necessidade de energia e nutrientes
aumenta durante a gestação e,
principalmente, durante a lactação. O feto
é totalmente dependente de substratos e
energia obtidos a partir das reservas
maternas, e o neonato, da produção láctea
da mãe. As modificações metabólicas que
ocorrem durante a gestação visam, então:
- Suprir adequadamente o feto em
desenvolvimento de oxigênio e nutrientes
- Fornecer ao feto condições de manter
um estoque de energia adequado a suas
necessidades no início da vida neonatal
- Armazenar energia suficiente para
garantir a sobrevivência do produto no
caso de eventual restrição alimentar
durante o período de lactação.
Durante o período inicial de gestação, a
única preocupação é manter a fêmea em
boa condição física, visto que o
desenvolvimento fetal nesses estágios
iniciais parece não exigir grandes demandas
nutricionais da mãe.
A necessidade de água aumenta durante a
gestação devido à expansão do
compartimento fluido extracelular, tecidos
maternais e fetais e lactação. Este
aumento pode variar de acordo com a
necessidade de manutenção da mãe, o tipo
de alimentação, e em razão da produção de
leite.
Cálcio e fósforo são requeridos em
quantidade maiores do que na manutenção
para suportar o desenvolvimento do
esqueleto fetal e a lactação.
Os ajustes metabólicos se tornam mais
importantes da metade para o final da
gestação, com o aumento da produção de
progesterona pela placenta e o
crescimento do concepto. Nesta fase,
ocorre um decréscimo das concentrações
de glicose no sangue materno e o
metabolismo materno passa a utilizar
outras fontes de energia, como o lactato e
Fisiologia do parto
a gordura, poupando assim glicose para o
feto.
MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTIVOS
Vulva e vagina: Durante o início da
gestação, a mucosa vaginal torna-se
progressivamente pálida e seca,
permanecendo assim durante a maior parte
desta. No final do período gestacional,
edema e aumento da vascularização
constituem as principais alterações da
vulva. As modificações vulvares são mais
evidentes em vacas que em éguas e se
iniciam ao redor do5º e do 7º mês de
gestação em novilhas e em vacas,
respectivamente.
Cérvix: Durante a gestação o orifício
cervical permanece completamente
fechado. As criptas endocervicais
aumentam em número e produzem um muco
altamente viscoso que oclui o canal. Este é
o chamado tampão mucoso, que se liquefaz
momentos antes do parto.
Útero: À medida que progride a gestação, o
útero aumenta gradativamente para
permitir a expansão do feto, porém o
miométrio permanece quiescente para
prevenir a expulsão prematura.
Em todos os animais domésticos o útero se
desloca para frente e para baixo na
cavidade abdominal à medida que progride a
gestação. Na vaca e na égua, depois do 4º
ou 5º mês, o útero repousa no assoalho
abdominal abaixo das alças intestinais. Nos
ruminantes, o útero geralmente se aloja do
lado direito do abdome, uma vez que o
rúmen ocupa o lado esquerdo. Nos animais
multíparos, como a cadela, a gata e a porca,
o corno gravídico é tubular e com quase o
mesmo diâmetro em todo o seu
comprimento. Os cornos repousam no
assoalho da cavidade abdominal de forma
dobrada, semelhante ao intestino.
Ovário: A principal modificação é a
transformação do corpo lúteo cíclico em
corpo lúteo gravídico. Em consequência
disto, os ciclos estrais são interrompidos.
Ligamentos pélvicos e sínfise púbica: O
relaxamento dos ligamentos pélvicos que
ocorre gradativamente durante o curso da
gestação é acelerado com a aproximação
do parto. Esse relaxamento é mais evidente
em ruminantes que em equinos.
DESENCADEAMENTO DO PARTO
A atividade da musculatura uterina é
fundamental no trabalho de parto e as
mudanças fisiológicas entre a gestação e o
nascimento envolvem a liberação do
miométrio de seu estado de quiescência
para a aquisição da capacidade contrátil. O
corpo lúteo (CL) ou a placenta produz
progesterona que induz no miométrio a
condição de relaxamento, permitindo o livre
crescimento do feto.
O fator humoral mais importante no início
do desencadeamento do parto é a remoção
do bloqueio da contratilidade uterina
causado pela ação da progesterona.
Fisiologia do parto
O final da gestação é acompanhado por um
aumento significativo na concentração
plasmática de cortisol fetal devido a
estímulos no eixo hipotálamo -hipófise.
Com isso, o hipotálamo fetal passaria a
responder aos efeitos de hormônios
placentários como estrógeno,
progesterona, prostaglandina E (PGE) ou
aos fatores de liberação de corticotrofinas.
Associado a isso, fatores estressantes
fetais como hipóxia, mudanças na pressão
sanguínea e na disponibilidade de glicose
levariam a um aumento na secreção de
cortisol pela adrenal do feto. O aumento
no cortisol fetal estimula a placenta a
converter progesterona em estrógeno por
meio da ativação de enzimas relacionadas à
esteroidogênese.
Os elevados níveis de estrógeno têm
inicialmente uma ação direta sobre o
miométrio, aumentando sua responsividade
à ocitocina.
=> Na égua, a progesterona aumenta nos
últimos 30 dias de gestação, seguindo-se
uma rápida queda na época do parto.
Apesar disso, próximo ao parto se
estabelece um alto índice
estrógeno/progesterona. Este predomínio
do estrogênio parece ser importante para
o desenvolvimento do parto
PARTO
O parto inicia-se com o início das
contrações peristálticas e regulares do
miométrio uterino ao mesmo tempo que o
colo do útero se dilata progressivamente.
Nas fêmeas que gestam um único feto
(unípara), as contrações começam na
extremidade anterior do córneo uterino,
enquanto que nas espécies que gestam
vários fetos (multípara) as contrações
começam pela extremidade cervical para
começar a expulsar o feto que se encontra
mais próximo do cérvix. Durante o parto
são reconhecidas três fases:
1. Fase preparatória - Na qual as
contrações uterinas estimulam a rotação
do feto para adotar a posição dorsal
(extremidades anteriores e cabeça
forçadas contra o cérvix) que lhe permite
oferecer a menor resistência para sua
expulsão. A PGF2a provoca as contrações
miometriais e a dilatação do cérvix,
deslocando o feto contra e através desta
estrutura.
2. Fase de expulsão - A passagem do feto
através do colo uterino e da vagina causam
a completa dilatação destas estruturas,
originando a secreção de oxitocina (reflexo
de Ferguson), que provoca contrações de
maior frequência e intensidade. Por sua
vez, estas contrações uterinas são
reforçadas pela pressão e contração dos
músculos abdominais, chegando estes
últimos a ser a força principal (forças de
expulsão) envolvida no processo de
expulsão do feto. O cordão umbilical
rompe-se bem ao levantar-se a mãe ou
pelos movimentos do recém-nascido.
Fisiologia do parto
3. Fase de expulsão da placenta - Após o
parto, as contrações rítmicas do útero
continuam a facilitar a expulsão da(s)
placenta(s). O tempo necessário para este
processo varia de acordo com a espécie
animal.