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AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTERNACIONALIZAÇÃO DA 
SAÚDE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. José Benedito Caparros Junior 
 
 
2 
TEMA 1 – INTERNACIONALIZAÇÃO DA SAÚDE: ESTUDO INTRODUTÓRIO 
O que vem a sua mente quando falamos em internacionalização da 
saúde? Pode parecer um tanto quanto vago, não é mesmo? Contudo, esse é um 
assunto cada vez mais presente na sociedade, bem como nas áreas da saúde e 
das relações internacionais. Afinal, recentemente, enfrentamos uma pandemia 
que chacoalhou todas as estruturas mundiais. A pandemia de COVID-19 é 
apenas um exemplo do que pode ser a internacionalização da saúde. 
Quando falamos em internacionalização da saúde, estamos nos referindo 
a todos os fenômenos internacionais que envolvem governos, leis (domésticas 
ou internacionais), desafios globais, organizações internacionais 
governamentais ou não governamentais, entre outros assuntos. Assim, em 
outros termos, estamos falando sobre a cooperação internacional na área da 
saúde. 
Por sua vez, a cooperação internacional nada mais é que o 
comportamento dos atores internacionais, que visam, por meio de relações 
coordenadas de cooperação, satisfazer as próprias necessidades. No 
entanto, as “próprias necessidades”, muitas vezes, são “as necessidades de 
todos”. 
Talvez você possa estar um pouco confuso agora, mas prometemos que 
tudo fará sentido ao longo desta discussão, pois, a partir deste momento, iremos 
estudar a forma como o assunto saúde é conduzido na sociedade internacional. 
Para alcançarmos esse objetivo, a nossa discussão está dividida da seguinte 
maneira: 
• alicerces teóricos das relações internacionais; 
• saúde no âmbito internacional contemporâneo; 
• alguns dos principais desafios à saúde global; 
• Organizações internacionais governamentais (OIGs); 
• Organizações Internacionais não governamentais (OINGs); 
• pandemias e sistemas de saúde estrangeiros. 
Nesta etapa, nos dedicaremos ao estudo dos alicerces teóricos das 
relações internacionais, isto é, assuntos importantes deste campo de atuação e 
pesquisa que servem de sustento teórico para todas as discussões seguintes. 
Nesta oportunidade, estudaremos os seguintes tópicos: 
 
 
3 
• Tópico 1 – Internacionalização da saúde: estudo introdutório; 
• Tópico 2 – Globalização: definição, caraterísticas e fases; 
• Tópico 3 – Globalização: contextos de análise e áreas de impactos; 
• Tópico 4 – Sociedade internacional (SI); 
• Tópico 5 – Direito Internacional (DI). 
Em outro momento, estudaremos sobre a Saúde no âmbito internacional 
contemporâneo. Em outras palavras, vamos nos debruçar sobre o conceito de 
saúde e os determinantes sociais de saúde (DSS) sob a óptica da ONU, bem 
como entenderemos o que é saúde internacional e saúde global (alerta de 
spoiler: existe diferença entre ambos os conceitos). 
Depois, estudaremos alguns dos principais desafios à saúde global, ou 
seja, os problemas existentes no mundo que impedem as pessoas de viver com 
mais saúde e dignidade. 
Por sua vez, será destinada ao estudo das organizações internacionais 
governamentais (OIGs), em especial àquelas que atuam direta e indiretamente 
no campo da saúde. Veremos o quão importantes elas são, bem como os papéis 
que elas desempenham no mundo. 
Na sequência, está reservada para investigarmos as ONGs que atuam na 
esfera internacional, que chamaremos de organizações internacionais não 
governamentais (OINGs). Da mesma forma como as OIGs, as OINGs 
desempenham um grande papel na sociedade internacional. 
Por fim, estudaremos a respeito das pandemias, em especial a da COVID-
19, e alguns sistemas de saúde estrangeiros. Nesta ocasião, também 
reservaremos um momento para a síntese de nossa discussão, que também é 
muito importante. 
Perceberam que esse caminho, metodológico e didático, conduzirá vocês 
a uma jornada sobre como a saúde é tratada no âmbito internacional? Esse é o 
nosso objetivo e a forma como podemos entender o termo internacionalização 
da saúde nesta discussão. 
TEMA 2 – GLOBALIZAÇÃO: DEFINIÇÃO, CARATERÍSTICAS E FASES 
Com certeza você já se deparou inúmeras vezes com o termo 
globalização, correto? Esse é aquele tipo de vocábulo que já faz parte do nosso 
dia a dia, mas que, inversamente, poucos conhecem seus componentes 
 
 
4 
constituintes: conceito, caraterísticas, fases, bem como seus contextos de 
análise e suas áreas de impacto. 
Em outros termos, sabemos que a globalização influencia nossa rotina, 
mas que, ao contrário, poucos conseguem perceber minuciosamente sua 
manifestação em diferentes esferas sociais, a exemplo: a educação, a 
segurança, a economia e, especialmente para esta caminhada, a saúde. 
Inicialmente, cabe destacar que devemos nos debruçar sobre o estudo de 
seus componentes constituintes para que, então, percebamos que esse 
fenômeno é o pano de fundo para processos de internacionalização, celebração 
de cooperações internacionais, operação da diplomacia e tantos outros 
fenômenos internacionais existentes, incluindo aqueles que dizem respeito à 
saúde. Ou seja, a globalização é o pano de fundo para estudos tanto para as 
relações internacionais quanto para a saúde global, dando-lhe forma e conteúdo. 
Com vista a isso, estudaremos o conceito, as caraterísticas e as fases. 
2.1 Globalização: definição, caraterísticas e fases 
Mas qual é o conceito de globalização contemporânea? Para responder 
a essa pergunta e, consequentemente, delinear o objeto de estudo deste tópico, 
recorremos às contribuições de dois grandes teóricos das relações 
internacionais: Robert Jackson1 e Georg Sørensen2. De acordo com os autores, 
a globalização pode ser conceituada como o fenômeno de “difusão e 
intensificação das relações culturais, sociais e econômicas através de fronteiras 
internacionais, engloba praticamente tudo: a economia, a política, a tecnologia, 
a comunicação etc.” (Jackson; Sørensen, 2018, p. 275). 
No que se refere às características da globalização contemporânea, 
Castells3 (2002) argumenta que as novas tecnologias da informação e 
comunicação (NTICs), os polos globais de inovação, a reconfiguração da 
economia global e a multiculturalidade são os pilares desses fenômenos na 
contemporaneidade. 
 
1 Robert Jackson é professor de ciência política na Universidade de Boston e autor de, dentre 
outros, “Introdução às Relações Internacionais”, livro-base para estudiosos da área. 
2 George Sørensen é professor de ciência política na Universidade de Aarhus e autor de, dentre 
outros, “Introdução às Relações Internacionais”, livro base para estudiosos da área. 
3 Manuel Castells é professor da Universidade da Catalunha e autor de, entre outros, "A 
Sociedade em Rede" e "Fim de Milênio" (ed. Paz e Terra). Trata-se de um autor base para todos 
aqueles que se debruçam sobre o estudo da sociedade em rede e outros temas correlatos. 
 
 
5 
As NTICs encurtaram as distâncias entre pessoas, empresas, instituições 
e governos ao redor do mundo, proporcionando comunicação síncrona em larga 
escala (Castells, 2002). No entanto, como você já deve imaginar, esse 
estreitamento não é homogêneo entre os Estados. Melhor dizendo, alguns 
países detêm maior poderio tecnológico em relação a outros. Por exemplo, os 
Estados Unidos possuem maior domínio tecnológico em comparação à Serra 
Leoa, que é um dos países menos desenvolvido do mundo (UNCTAD4, 2021). 
Se, por um lado, há países periféricos no que se refere ao 
desenvolvimento tecnológico, por outro, há países que se enquadram como 
polos globais de inovação, que é o caso de boa parte dos países do hemisfério 
norte (Castells, 2020). Diante dessa conjuntura, podemos perceber a existência 
de uma reconfiguração da economia global, que hoje está muito ligada ao 
domínio de tecnologias. Afinal de contas, economia, política e todas as áreas do 
conhecimento se beneficiam da tecnologia atualmente, proporcionando-lhes 
inovação,aceleração da economia e desenvolvimento de práticas e saberes. 
Além da definição e das características da globalização contemporânea, 
precisamos saber que a globalização não é um fenômeno recente, pelo contrário. 
Ainda não há um consenso sobre o período específico em que esse fenômeno 
iniciou, porém muitos autores costumam dividi-la em quatro fases, que são: 
• 1ª: situa-se entre os séculos XV e XIX, período histórico em que ocorreram 
as Grandes Navegações, que são compreendidas pelas primeiras 
grandes explorações marítimas realizadas pelos europeus entre os 
séculos XV e XVII (Pena, 2020). Essas explorações tiveram como objetivo 
descobrir novas rotas para a Ásia, como também se apropriar de 
conhecimentos, riquezas e produtos de outros povos. As grandes 
navegações transformaram os modos de produção, a economia e a 
cultura mundial (Pena, 2020). A primeira grande navegação foi realizada 
por Cristóvão Colombo, que iniciou sua jornada em 1492. Após a sua 
viagem, outros navegadores também realizaram explorações, como 
Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e Pedro Álvares 
 
4 United Nations Conference on Trade and Development, ou, na língua portuguesa, 
Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, que foi criada em 1964 na 
Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A UNCTAD é uma organização 
intergovernamental que se compromete a apoiar países em desenvolvimento para uma melhor 
e mais eficiente integração na economia global. 
 
 
 
6 
Cabral (Pena, 2020). Essas explorações marítimas levaram os europeus 
para outros continentes em busca de riquezas e novas terras, causando 
grande impacto no crescimento das potências coloniais europeias, pois 
contribuíram para a colonização de novas terras e para o domínio de 
outras nações (Pena, 2020). 
Saiba mais 
Durante o período das Grandes Navegações, que iam à Ásia e América, 
produziu-se um imenso intercâmbio de enfermidades. A partir de então, foram 
sistematicamente transmitidas patologias, tanto entre europeus e nativos 
quanto entre indígenas americanos e africanos. Essa circulação de doenças 
produziu grandes epidemias que, muitas vezes, foram fatais para os grupos 
aos quais essas enfermidades eram desconhecidas. A mais conhecida dessas 
epidemias foi a varíola, que produziu grandes mortes e contribuiu para o 
declínio de diversas civilizações. 
Gosta deste conteúdo e quer saber mais sobre ele? Então, veja o texto 
a seguir. 
Disponível em: <https://www.ghtc.usp.br/Contagio/cap06.html>. 
Acesso em: 27 jan. 2023. 
• 2ª: situa-se entre o século XIX e meados do século XX, período histórico 
marcado pela formação do Capitalismo Industrial (Pena, 2020). A 
expansão colonial europeia sobre o território asiático e africano foi um dos 
principais fatores que contribuíram para a formação da segunda fase da 
globalização. Na época, os europeus começaram a explorar novas terras, 
com o objetivo de conquistá-las e obter matérias-primas, riquezas e 
mercados para expandir seus impérios e, durante esse período, 
alcançaram praticamente todos os continentes, com suas forças militares 
invadindo e conquistando territórios asiáticos e africanos (Pena, 2020). A 
Europa implantou governos coloniais em diversos países, em um 
processo de "dominação direta" ou "dominação indireta", que incluiu a 
criação de leis, imposição de impostos, controle da economia, da 
educação e da cultura (Pena, 2020). Essa expansão colonial europeia foi 
marcada por atrocidades, escravidão, exploração econômica, destruição 
de culturas indígenas e discriminação racial. A colonização europeia 
 
 
7 
resultou na perda de terras, riquezas, direitos e liberdades dos povos 
colonizados; além disso, a colonização europeia criou divisões entre os 
países colonizados que ainda hoje são sentidas (Pena, 2020). 
Saiba mais 
A pandemia de Gripe Espanhola é um marco histórico nesse período, 
matando mais de 50 milhões de pessoas no mundo. Tratou-se de uma das 
piores doenças infecciosas da história. De acordo com Neufeld (2020, online), 
“a doença afetou quase um terço da população mundial, que era de menos de 
2 bilhões de pessoas, e vitimou por volta de 2,5% dos indivíduos acometidos. 
Em termos numéricos, cerca de 500 milhões de pessoas foram infectadas e 
em torno de 40 a 100 milhões foram a óbito”. 
Gosta deste conteúdo e quer saber mais sobre ele? Então, veja o vídeo 
sobre o assunto. Disponível: 
<https://www.youtube.com/watch?v=N5MigQGOAzU&ab_channel=Estad%C
3%A3o>. Acesso em: 27 jan. 2023. 
Adicionalmente, leia o texto a seguir sobre o mesmo assunto. 
Disponível em: 
<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141013_gripe_espanhola
_licoes_ebola_fd>. Acesso em: 27 já. 2023. 
• 3ª: situa-se entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e o ano de 
1991, período histórico marcado pela Guerra Fria. A economia durante a 
Guerra Fria foi principalmente caracterizada por dois diferentes blocos 
econômicos, o Bloco Ocidental e o Bloco Oriental (Pena, 2020). O Bloco 
Ocidental foi, predominantemente, liderado pelos Estados Unidos e pela 
economia de mercado capitalista, enquanto o Bloco Oriental foi liderado 
pela União Soviética e marcado pelo socialismo (Pena, 2020). 
Saiba mais 
No início dos anos 1980, os primeiros casos HIV/Aids eram relatados nos 
Estados Unidos. De lá para cá, a doença foi identificada em todos os países e, 
atualmente, a Uniaids se refere a ela como uma pandemia. 
 
 
8 
Gosta deste conteúdo e quer saber mais sobre ele? Então, leia o texto 
a seguir. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/ha-40-anos-
primeiros-casos-de-aids-eram-relatados-nos-eua/>. Acesso em: 27 jan. 2023. 
Cabe lembrá-los de que a quarta fase é o que chamamos de globalização 
contemporânea, assunto que abordamos ao logo deste tópico, a partir das 
contribuições teóricas de Robert Jackson e Georg Sørensen (2018) e Manuel 
Castells (2002). 
Mas será que esses são os únicos elementos importantes a serem 
estudados sobre a globalização? A resposta é: não. Para estudarmos 
adequadamente a globalização, precisamos também saber de seus contextos 
de análise e de suas áreas de impacto. 
TEMA 3 – GLOBALIZAÇÃO: CONTEXTOS DE ANÁLISE E ÁREAS DE 
IMPACTOS 
Como havíamos comentado anteriormente, a globalização 
contemporânea (quarta fase da globalização) é um fenômeno que engloba 
praticamente tudo. No entanto, é impossível apresentar um estudo e, 
consequentemente, uma teoria sobre “tudo”, já que aspectos variados da 
realidade precisam ser avaliados de formas diferentes (Jackson, Sørensen, 
2018). 
Portanto, a globalização contemporânea é mais bem analisada quando 
separada em contextos de análise e quando suas áreas de impactos são 
definidas previamente, que são os assuntos a serem estudados a seguir. 
3.1 Globalização: contextos de análise e áreas de impactos 
Com base nisso, seguem alguns dos principais exemplos de contextos 
para análise da globalização contemporânea e suas respectivas explicações. 
• Contexto político: o modo como os Estados se relacionam. Para Doğan e 
Arslan (2017), aqui podemos analisar as missões internacionais, as 
cooperações internacionais, a criação e a participação dos Estados em 
organizações internacionais etc., de maneira mais ampla. 
• Contexto cultural: o fenômeno da globalização pode resultar na perda da 
identidade de certas culturas e, consequentemente, na “uniformização” 
 
 
9 
cultural. Isso ocorre porque existe uma intensificação da comunicação 
entre os Estados, culminando em comportamentos cada vez mais 
semelhantes entre os povos (Doğan; Arslan, 2017). 
• Contexto de mercado e produção: aqui fazemos referência direta à 
“integração econômica contínua e a interdependência crescente entre os 
países do mundo” (Cavusgil; Knight; Resenberg, 2010, p. 485). Em outros 
termos, trata-se da interdependência econômica emergente entre Estados 
que estimula e favoreceo fluxo de negócios internacionais (Cavusgil; 
Knight; Resenberg, 2010). Assim, conduzir estudos sobre a globalização 
por esse contexto significa estudar a criação de vínculos econômicos 
profundos e irreversíveis entre os Estados (Cavusgil; Knight; Resenberg, 
2010). 
Obviamente, esses não são os únicos contextos passíveis de serem 
analisados, pelo contrário. São incontáveis os contextos5! Neste presente 
momento, o fundamental é que tenhamos noção de que análises sobre a 
globalização são mais bem-sucedidas quando um contexto é definido 
previamente. 
Em adição, o estudo sobre globalização também se beneficia quando é 
determinada antecipadamente a área de impacto que se pretende investigar. 
Em outras palavras: investigar os impactos da globalização, analisada a partir de 
um contexto predefinido, em determinada área. 
Por exemplo, podemos nos debruçar sobre uma análise da globalização 
no contexto cultural e seus impactos na área da saúde, estudando o aumento da 
cultura de consumo de fast-food em diversos países e seus efeitos sobre a saúde 
da população local. Outro exemplo é que podemos nos debruçar sobre uma 
análise da globalização no contexto de mercado e produção e seus impactos na 
esfera da economia, estudando o aumento de investimento externo e geração 
de emprego e renda com a chegada de redes de fast-food de diversos Estados 
em território brasileiro. 
Com base nos exemplos anteriores, podemos perceber que o objeto de 
estudo foi fast-food, mas que ele foi analisado a partir de diferentes contextos e, 
na sequência, investigados os impactos sobre áreas específicas. Estudar a 
 
5 No contexto da saúde, a globalização culminou no surgimento de um campo de estudo 
conhecido como saúde global. Trataremos sobre esse assunto quando nos aprofundarmos a 
respeito do conceito de saúde, saúde internacional e saúde global. 
 
 
10 
globalização a partir de seu contexto de análise e de sua área de impacto nos 
mostra o quão dual é este fenômeno: 
Para alguns, ‘globalização’ é o que devemos fazer se quisermos ser 
felizes; para outros, é a causa da nossa infelicidade. Para todos, 
porém, ‘globalização’ é o destino irremediável do mundo, um processo 
irreversível; é também um processo que nos afeta a todos na mesma 
medida e da mesma maneira. Estamos todos sendo ‘globalizados’ — 
e isso significa basicamente o mesmo para todos. (Bauman, 1999). 
Em síntese, uma coisa é certa: a globalização é um fenômeno que afeta 
todas as pessoas, coisas e lugares; por essa razão, estudá-la a partir de 
contextos de análises e áreas de impactos é a melhor maneira de investigação. 
TEMA 4 – SOCIEDADE INTERNACIONAL (SI) 
Uma vez que tenhamos adquirido conhecimento mais apurado e técnico 
sobre a globalização, precisamos aprender sobre a Sociedade Internacional (SI) 
e o Direito Internacional (DI), que são fundamentais para um entendimento 
técnico sobre as relações internacionais e essenciais para compreendermos a 
estrutura, a dinâmica e as ações dos Estados, organizações internacionais 
governamentais (OIGs) e organizações internacionais não governamentais 
(OINGs). 
No que se refere à SI, neste quarto tópico estudaremos o seu conceito, 
sua principal característica [anarquia], sua dinâmica, os fenômenos 
internacionais e os atores internacionais. 
4.1 Sociedade Internacional (SI) 
A SI é um termo que foi introduzido na literatura das relações 
internacionais, em grande parte, por grupos de estudiosos ingleses6 nas décadas 
de 1950 e 1960, os quais observaram e se pautaram na ideia da natureza "social" 
das relações interestatais. 
Para Jackson e Sorensen (2018), conceitua-se a SI como o local onde 
ocorre o conjunto de relações entre Estados, as quais são mediadas por leis7, 
tratados, acordos e outras formas de interação global, que visam conquistar 
interesses comuns e dividir valores coletivos. Em outras palavras, trata-se do 
 
6 Também conhecida como Escola Inglesa de Relações Internacionais. 
7 No decorrer desta etapa, entenderemos que as leis internacionais se diferem muito das leis 
internas de um Estado, especialmente quando estudarmos a anarquia internacional. 
 
 
11 
locus em que as interações sociais internacionais, formais e informais, ocorrem 
entre Estados a fim de influenciar profundamente suas realidades políticas, 
econômicas, jurídicas, sociais, culturais e estruturais. 
Lançando mão do lúdico para explicar didaticamente a SI, pedimos que 
visualizem mentalmente o mapa-múndi, no qual você pode ver as linhas que 
dividem todos os Estados. Visualizou? A SI é esse espaço onde estão todos 
esses países e onde ocorrem todas as relações entre eles. 
A principal característica da SI é a anarquia internacional, pois não há 
um governo central que governe hierarquicamente todos os Estados e demais 
atores internacionais. Isso significa que não há um governo internacional “que 
detenha o monopólio do uso legítimo da força, uma polícia e um tribunal 
internacional que o administrem, nem mesmo um consenso universal e 
inequívoco sobre quais os valores e normas fundamentais que devem regulá-lo” 
(Rocha et al., 2020, p. 129). 
Os Estados são independentes uns dos outros, o que significa que eles 
são soberanos. Porém, isso não significa que eles ajam isoladamente em 
completo caos, pelo contrário. Eles precisam se relacionar entre si para que 
possam encontrar meios de coexistir e lidar uns com os outros (Jackson, 
Sørensen, 2018). 
Entendemos essas relações como a dinâmica operante na SI, que 
viabiliza aos Estados estabelecer trocas comerciais, acordos políticos, criação 
de organizações internacionais governamentais (OIGs), responder a catástrofes 
internacionais, defenderem-se de guerras, enfrentarem pandemias e assim por 
diante. Afinal de contas, nenhum Estado é autossuficiente, o que significa que 
sozinho ele não é capaz de gerar, por exemplo, alimento, tecnologia, pesquisas, 
energia, conhecimento, segurança e saúde para sua população. 
Para finalizar nossa discussão sobre a SI, precisamos entender o que são 
os atores internacionais, que são definidos como todos aqueles que 
influenciam e sofrem influência da sociedade internacional. De acordo com 
Rocha et al. (2021), vemos o que se segue. 
• O Estado se diferencia de todos os outros atores internacionais, visto que 
ele é o único que goza de soberania, que é compreendida pelo poder 
absoluto exercido sobre o seu território (Rocha et al., 2021). Exemplos: 
Brasil, Argentina, Estados Unidos da América, França, Angola, China, 
Emirados Árabes Unidos, Nova Zelândia e assim por diante. Atualmente, 
 
 
12 
existem 195 Estados reconhecidos pela ONU, embora apenas 193 
tenham se tornado Estados-Membros. 
• As organizações internacionais governamentais (OIGs)8: tratam-se de 
instituições voltadas para cooperação internacional, formadas a partir da 
associação entre Estados soberanos, cujo objetivo é perseguir interesses 
comuns de seus membros. 
• As Organizações internacionais não governamentais (OINGs)9 
representam os interesses de grandes coletividades, mas não estão 
ligadas aos Estados. Pelo contrário, elas buscam atingir objetivos que, 
muitas vezes, foram negligenciados por eles (Guimarães, 2021). Em 
outros termos, elas não são criadas pelos Estados e não lhes devem 
“obediência” administrativa interna, diferentemente do que ocorre com as 
organizações internacionais governamentais (OIGs). Além disso, no 
âmbito internacional, as “OINGs possuem papel fundamental de auxílio à 
humanidade e sua existência e atuação é muito prestigiada, a exemplo da 
Cruz Vermelha Internacional” (Guimarães, 2021, p. 63). 
• A opinião pública, em resumo, é a posição expressa publicamente por um 
grande número de pessoas acerca de uma questão de interesse coletivo, 
gerando grande uma influência na política internacional. Pode ser 
considerada como uma expressão da vontade popular, influenciando a 
decisão de governantes numa democracia,além de ser responsável, por 
exemplo, por eleger ou destituir presidentes, por nortear a criação de leis, 
por definir assuntos que irão compor as políticas domésticas, externas e 
internacionais. 
• As firmas multinacionais são as empresas também conhecidas apenas 
como multinacionais ou transnacionais. Essas instituições privadas com 
fins lucrativos são caracterizadas pelo seu tamanho, diversidade de 
produtos e serviços oferecidos, com capacidade de influenciar a 
economia, a política e a sociedade como um todo. Por possuírem 
operações em mais de um Estado, caracterizam-se por serem um dos 
 
8 Estudaremos as organizações internacionais governamentais (OIGs) com profundidade em 
outro momento. 
9 Estudaremos as organizações internacionais não governamentais (OINGs) com profundidade 
em outra ocasião. 
 
 
13 
principais vetores de investimentos internacionais e, por essa razão, 
grandes atores das relações econômicas internacionais. 
• A Santa Sé, atualmente, desempenha um papel ativo nas relações 
internacionais, apresentando-se como um ator importante na articulação 
de soluções pacíficas para conflitos internacionais e promovendo a 
promoção dos direitos humanos. A Santa Sé atua de modo a ajudar na 
formulação regras e normas para a conduta ética dos Estados, 
defendendo a liberdade e a tolerância religiosa e contribuindo para a 
promoção de um diálogo intercultural e inter-religioso entre as diferentes 
nações. 
• Sobre os grupos terroristas, vale frisar, inicialmente, que existe uma 
grande variedade de atores que podem ser categorizados como 
terroristas, podendo ser distinguidos em três tipos principais: os 
movimentos de libertação, os Estados e as seitas políticas. 
Entretanto, é importante sabermos que ainda há uma discussão entre os 
estudiosos e pesquisadores da área sobre quem são de fato os atores 
internacionais (Pecequilo, 2012). A justificativa para isso se pauta no fato de que 
a definição de atores internacionais ainda é muito ampla e genérica (Pecequilo, 
2012). 
Ainda que já tenhamos falado sobre o Estado ser um ator internacional, 
reservamos este momento para dar ênfase neste assunto. Isso se faz necessário 
porque o Estado é o principal ator internacional10. 
De acordo com Orihuela (2015), o “Estado é a instituição mais poderosa, 
complexa e dinâmica construída pelos seres humanos em sociedade, pela 
humanidade”. Além disso, Jackson e Sorensen (2012) complementam a ideia ao 
afirmar que o Estado é uma instituição presente na vida de todo e qualquer ser 
humano, sem exceções; em outros termos, todas as ações e decisões tomadas 
pelos Estados influenciam a vida de todos os indivíduos no planeta. Perante o 
seu povo, o Estado está comprometido em: 
[...] protegê-las e fornecer-lhes segurança, tanto pessoal quanto 
nacional, em promover sua prosperidade econômica e bem-estar 
social, em lhe cobrar impostos, em educá-las, em licenciá-las e 
regulamentá-las, em mantê-las saudáveis, em construir e preservar a 
 
10 Também é o principal sujeito de Direito Internacional, conforme iremos ver no decorrer desta 
etapa. 
 
 
14 
infraestrutura pública (estradas, pontes, portos, aeroportos etc.), entre 
muitas outras coisas. (Jackson; Sorensen, 2012, p. 26). 
Em termos jurídicos, o Estado é constituído por três elementos. 
• povo: trata-se da “comunidade nacional correspondente àqueles que 
detêm a cidadania” (Rocha et al., 2021, p. 623). 
• território: trata-se da “dimensão espacial na qual se desenvolvem 
comunidades humanas de forma estável desde a sedentarização”, 
abrangendo “o território terrestre, as vias aquáticas, o mar territorial e, 
bem assim, o espaço aéreo” (Rocha et al., 2021, p. 624). 
• poder político soberano: a soberania política implica capacidade de fixar, 
implementar e gerir regras válidas para seu povo, assim como de regular 
e de controlar as relações internacionais, por meio da celebração de 
tratados (Rocha et al., 2021). 
Podemos, então, conceituar o Estado como “um território dotado de 
fronteiras e contornos distintos [território], com uma população permanente 
[povo], sob a jurisdição de um governo supremo constitucionalmente separado, 
isto é, independente de todos os governos estrangeiros [poder político 
soberano]” (Jackson; Sorensen, 2012, p. 27). 
TEMA 5 – DIREITO INTERNACIONAL (DI) 
Como já comentamos anteriormente, na SI não existe nenhuma 
autoridade que seja superior aos Estados e que, consequentemente, desvalide 
suas respectivas soberanias. Isto é, a SI é caracterizada principalmente pelo seu 
estado de anarquia, conforme comentados anteriormente. Em outras palavras, 
não há um governo (executivo, legislativo e judiciário) que obrigue os Estados a 
cumprir suas decisões de modo cogente (Varela, 2017). 
Diferentemente do que muitos pensam, anarquia não é sinônimo de caos! 
A anarquia internacional refere-se ao fato de que não há nada acima dos 
Estados. 
Então, você deve estar se perguntando: se não há autoridade suprema 
internacional, de que modo as relações entre os Estados são regulamentadas? 
Este é o assunto deste tópico: o Direito Internacional (DI). 
Portanto, neste tópico, iremos conceituar o Direito Internacional (DI), o 
Direito Internacional Privado (DIPr), o Direito Internacional público (DIP), 
 
 
15 
seus respectivos sujeitos de direito (DIPr vs DIP) e, por fim, os tratados 
internacionais. 
5.1 Direito Internacional (DI) 
O termo Direito Internacional (DI) não é tão antigo, tendo sido introduzido 
por Jeremy Bentham (An Introduction to the Principles of Moral and Legislation, 
1780) no século XVIII (Rocha et al., 2021). Até essa ocasião, utilizava-se 
comumente o termo Direito das Gentes, que é tradução literal da expressão 
latina ius inter gentes, a qual fora utilizada nos séculos XVI e XVII (Rocha et al., 
2021). 
Podemos conceituar o DI como “o conjunto de regras e princípios que 
regem as relações jurídicas entre Estados” e “um sistema de princípios e normas 
que regulam as relações de coexistência e de cooperação, frequentemente 
institucionalizadas, além de certas relações comunitárias entre Estados, dotados 
de diferentes graus de desenvolvimentos socioeconômico e de poder” (Velasco, 
2007). No entanto, cabe destacar que o conceito de DI é um guarda-chuva, sob 
o qual há ramificações, quais sejam: i) Direito Internacional Privado (DIPr) e 
Direito Internacional Público (DIP). 
Figura 1 – Principais ramificações do Direito Internacional (DI) 
 
Fonte: Junior, 2022. 
Direito Internacional
(DI)
Direito 
Internacional 
Privado
(DIPr)
Direito 
Internacional 
Público
(DIP)
 
 
16 
Conceituamos o DIPr como “um conjunto de princípios e regras sobre 
qual legislação é aplicável à solução de relações jurídicas privadas quando 
envolvidos nas relações mais de um país, ou seja, a nível internacional” 
(Wierzchón, 2012, online). O DIPr aponta para as leis que auxiliam na regulação 
de contratos firmados por particulares de Estados diferentes, tratando de 
situações como: adoções, em que a criança e os pais são de diferentes países; 
relações familiares, em casos de heranças; trabalhistas, quando um profissional 
é empregado por uma empresa sediada no estrangeiro, entre outras. Portanto, 
os sujeitos de Direito Internacional privado são os particulares, tais como 
pessoas e empresas. 
Ao trabalhar com o DIPr, algumas perguntas são importantes para a sua 
prática: em qual jurisdição deve ser decidida a disputa? A lei de qual país deve 
ser aplicada? Como deve ser executada uma decisão estrangeira? 
Embora o DIPr não seja o foco aqui11, é importante que o entendamos já 
que ele faz parte do DI. Além disso, entender o seu conceito central nos ajuda a 
compreender melhor o Direito Internacional Público, o qual é de extrema 
relevância para nós. 
Por sua vez, conceituamos o DIP como “um corpo de regras produzido 
pelos Estados para reger as suas relações”, que se aplicam também às 
OrganizaçõesInternacionais (Rocha et al., 2021, p. 514). 
O DIP trata de questões relacionadas à soberania dos Estados, direitos 
humanos, direitos das nações unidas, direito marítimo, direito internacional 
penal, direitos do trabalho, direito dos refugiados e outros (Varella, 2018). 
Inclusive, é por meio do DIP que as organizações internacionais governamentais 
(OIGs) são criadas pelos Estados, as quais são formalizadas por meio de 
tratados internacionais. 
O DIP é constituído pelos sujeitos de direito internacional público, que são 
aqueles que possuem personalidade jurídica. Isto é, aqueles que estão sujeitos 
às regras, princípios e costumes internacionais. De acordo com Guimarães 
(2020), os sujeitos de direito internacional público são os Estados e as 
Organizações Internacionais. 
 
11 Naturalmente, existem situações em que o DIPr é utilizado na área da saúde, como em casos 
de cooperações técnicas entre centre de pesquisa e hospitais, por exemplo. No entanto, a 
essência desses assuntos é jurídica e administrativa, o que não faz parte do escopo desta nossa 
discussão. 
 
 
17 
No entanto, cabe salientar que as normas do DIP são criadas pelos 
próprios Estados, o que significa que são eles que acordam o que pode ou não 
pode ser feito na SI. Além disso, esses acordos devem ocorrer de modo 
consensual, isto é, um Estado não pode forçar outro Estado a aceitar regras e 
princípios. Conforme melhor explica Guimarães (2021, p. 55): 
As “normas jurídicas” que existem do direito internacional, são aquelas 
que regem essas relações entre os Países, e são criadas pelos 
próprios Estados, em suas combinações, nos Tratados que firmam, 
estipulando direitos e deveres recíprocos. Outrossim, as regras de 
condutas que orientam tais relações jurídicas advêm dos próprios 
acordos firmados pelas partes, e tal como são combinados, também 
são desfeitos da mesma forma. 
Por seu turno, conceituamos tratados internacionais como 
instrumentos fundamentais do DIP para a regulação das relações internacionais, 
sendo usados para estabelecer direitos e obrigações entre Estados e 
Organizações Internacionais. Os tratados podem versar sobre os mais diversos 
assuntos, como: fronteiras, comércio, direitos humanos, saúde, desenvolvimento 
econômico, direitos de propriedade intelectual e assim por diante, podendo ser 
bilaterais ou multilaterais, dependendo do número de partes envolvidas. Cabe 
salientar que uma das principais características dos tratados internacionais é 
consensualidade, ou seja, são aderidos pelos Estados de forma consensual. 
Pode-se então dizer que, nos dias de hoje, a vida internacional 
funciona quase que primordialmente com base em tratados, os quais 
exercem, no plano do Direito Internacional, funções semelhantes às 
que têm no Direito interno as leis (caso em que se fala estar diante dos 
tratados normativos) e os contratos (dizendo-se, nesse caso, tratar-se 
dos assim chamados tratados-contrato), regulamentando uma gama 
imensa de situações jurídicas nos mais variados campos do 
conhecimento humano, o que já justifica o seu estudo mais 
aprofundado. São os tratados internacionais, enfim, o meio que têm os 
Estados e as organizações intergovernamentais de, a um só tempo, 
acomodar seus interesses contrastantes e cooperar entre si para a 
satisfação de suas necessidades comuns (Mazzuoli, 2019, p. 120). 
Eles são baseados na confiança mútua entre as partes envolvidas, e sua 
implementação é essencial para o bom funcionamento das relações 
internacionais. 
Apesar de já termos estudado o que são atores internacionais e os 
sujeitos de direito internacional, reservamos este momento apenas para frisar 
suas diferenças a fim de que confusões não ocorram. Para tanto, vejamos a 
figura seguinte. 
 
 
 
18 
Figura 2 – Diferenciação e relação entre atores internacionais e sujeitos de direito 
internacional 
 
Fonte: Junior, 2022. 
Com base na figura anterior, apresentamos uma máxima que explica a 
diferença e a relação entre ambos os conceitos, qual seja: “todos os atores 
internacionais são sujeitos de direito internacional, mas nem todos os sujeitos de 
direito internacional são atores internacionais.” 
 
 
 
19 
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