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Introdução às Relações Internacionais

Livro didático: Introdução às Relações Internacionais (UNIASSELVI, 2020). Apresenta conceitos, níveis de análise e atores internacionais; sintetiza correntes teóricas clássicas e modernas (realismo, idealismo, liberalismo, marxismo, Escola Inglesa, neorealismo/neoliberalismo) e debates pós‑Guerra Fria.

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Indaial – 2020
Introdução às relações 
InternacIonaIs
Prof. Anderson de Miranda Gomes
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2020
Elaboração:
Prof. Anderson de Miranda Gomes
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
G633i
Gomes, Anderson de Miranda
Introdução às relações internacionais. / Anderson de Miranda 
Gomes. – Indaial: UNIASSELVI, 2020.
246 p.; il.
ISBN 978-65-5663-035-9
1. Relações internacionais. - Brasil. 2. Sociologia política. – Brasil. 
II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 327
III
apresentação
Caro acadêmico! 
Seja bem-vindo à disciplina Introdução às Relações Internacionais! 
A Ciência das Relações Internacionais corresponde ao conjunto de teorias 
relativamente recentes, as quais tiveram sua maior divulgação e importância 
após ao período das Grandes Guerras Mundiais. Seu desenvolvimento 
foi fomentando e teve sua maior visibilidade durante a Guerra Fria, se 
transformando constantemente após a dissolução do sistema bipolar 
(extinção da antiga URSS).
 As Teorias de Relações Internacionais desempenham o papel de 
instrumentos teórico-conceituais capazes de entender e explicar os fenômenos 
relativos à ação humana que transcende o espaço interno dos Estados 
(países). Em outras palavras, esse conjunto teórico nos ajuda a compreender 
a interação dos diferentes atores no cenário internacional.
 A primeira unidade trata dos conceitos e os pontos de análise da 
disciplina. São abordados alguns pontos-chave necessários para se pensar 
o relacionamento dos Estados e outros atores internacionais. Também é 
apresentada uma série de nomenclaturas próprias da disciplina, necessárias 
para se entender as teorias de Relações Internacionais. Ainda, o ambiente 
internacional direcionado às diferentes hierarquias de interações é 
apresentado nessa unidade. Outro ponto imprescindível para se entender 
essas teorias é conhecer os níveis de análise segundo atores e área de 
atuação nas relações internacionais. A compreensão da Ordem Internacional 
e da Ordem Mundial propiciará o melhor entendimento das divisões que 
existem dentro das arenas domésticas e internacionais dos Estados. Além 
disso, permite compreender o papel nessa interação entre os outros atores 
como as Organizações Internacionais, Organizações não governamentais 
Internacionais, empresas transnacionais etc.
 A Unidade 2 corresponde a uma síntese das principais teorias de 
relações internacionais em sua configuração clássica e moderna. O Tópico 1 
trabalha o primeiro debate teórico das Relações Internacionais, o Realismo 
vs. Idealismo. Nesse contexto, temos o Realismo e o Idealismo Clássico, como 
os pensamentos introdutórios da Teoria de Relações Internacionais. Apesar 
de se apropriar de outras disciplinas como as ciências sociais e filosóficas 
para construir um campo próprio de estudos, percebe-se a necessidade de 
se pensar um campo próprio das Relações Internacionais. Posteriormente, o 
Idealismo e o Realismo Moderno irão trazer um amadurecimento das relações 
internacionais como ciência. No Tópico 2 dessa unidade, as correntes teóricas 
trabalhadas são o Liberalismo, o Marxismo e a Escola Inglesa. Estas correntes 
IV
teóricas trazem novos pontos de vista para a disciplina de RI, abordando 
visões diversas no entendimento da relação entre Estados. No Tópico 3, tem-
se o terceiro grande debate das Relações Internacionais, o do Neoliberalismo 
vs. Neorrealismo. Essa seção traz uma preparação para se entender as 
organizações internacionais, os processos de integração internacional e o 
fenômeno da Globalização, que serão abordados no final da Unidade 3.
A Unidade 3 está dividida na perspectiva de propiciar um entendimento 
das Teorias de Relações Internacionais pós-Guerra Fria. Esse arcabouço 
teórico reúne o diálogo inicial do debate das teorias do Pós-Modernismo, 
Teoria Crítica e do Construtivismo nas Relações Internacionais. Também será 
abordado fenômenos recentes nas Relações Internacionais como a influência 
da Psicologia Cognitiva e do Feminismo. Ainda nessa unidade será revisitado 
as novas interfaces do terceiro debate das Relações Internacionais, para se 
debater uma próxima fase, as características do Realismo Estrutural. Por fim, 
continuando o pensamento neoliberal, serão abordadas as vertentes teóricas 
acerca da Globalização, fenômeno que corresponde a uma realidade mundial, 
sendo a versão mais contemporânea do capitalismo. Nesse contexto, em que as 
relações entre os Estados têm se tornado cada vez mais fluidas e amplamente 
facilitadas pelas inovações tecnológicas e de comunicação, propomos uma 
reflexão inicial e abrangente das Teorias de Relações Internacionais como 
forma de capacitar os acadêmicos a compreender essa temática recente. 
Nessa nova face das Relações Transnacionais, preocupada no aumento da 
cooperação e minimização dos conflitos no Sistema Internacional, tem-se a 
introdução das teorias de integração regional, outro fenômeno recente que 
atribui uma nova configuração dos Estados, propiciando uma maior fluidez 
das fronteiras nacionais de algumas regiões.
 Destarte, a disciplina Introdução às Relações Internacionais representa 
uma importante ferramenta, que irá lhe oferecer os conceitos e discussões 
iniciais a respeito das teorias que você vivenciará durante todo o seu curso 
de graduação. Trata-se do início de uma jornada conceitual da ciência de 
Relações Internacionais que será muito importante para sua capacitação 
profissional e ampliação do seu campo de atuação como internacionalista. 
Bons estudos! 
Prof. Anderson de Miranda Gomes
V
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
VI
VII
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela 
um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro 
que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá 
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, 
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
LEMBRETE
VIII
IX
UNIDADE 1 – GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: 
DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES ...............1
TÓPICO 1 – A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS 
RELAÇÕESINTERNACIONAIS ....................................................................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3
2 O ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ........................................................................7
3 OS NÍVEIS DE ANÁLISE SEGUNDO ATORES E ÁREA DE ATUAÇÃO NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS .....................................................................................................10
4 A ORDEM INTERNACIONAL E ORDEM MUNDIAL ...............................................................14
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................17
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................18
TÓPICO 2 – O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ...........19
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................19
2 COMPONENTES MODELADORES DO COMPORTAMENTO DOS ESTADOS .................27
2.1 OS PARTIDOS POLÍTICOS ............................................................................................................28
2.2 OS GRUPOS DE INTERESSES E A OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL E 
INTERNACIONAL ..........................................................................................................................30
3 OS ESTADOS E OS RECURSOS DE PODER .................................................................................33
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................38
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................39
TÓPICO 3 – OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS .......41
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................41
2 AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS INTERGOVERNAMENTAIS (OIS) ..................42
2.1 ALGUMAS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS DAS ORGANIZAÇÕES 
INTERNACIONAIS .........................................................................................................................44
2.2 FUNÇÕES E ATUAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ................................45
2.3 PRINCIPAIS OBJETIVOS DAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ...............................46
2.4 ALGUMAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS .................................................................47
3 AS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS INTERNACIONAIS (OINGS) .............48
4 EMPRESAS TRANSNACIONAIS (ETNS) ......................................................................................50
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................53
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................57
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................58
UNIDADE 2 – SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES 
DA GUERRA-FRIA ......................................................................................................59
TÓPICO 1 – REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ....................61
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................61
2 REALISMO CLÁSSICO ......................................................................................................................65
2.1 TUCÍDIDES (471 a.C. - 400 a.C.) ....................................................................................................65
sumárIo
X
2.2 MAQUIAVEL (1469-1527) ..............................................................................................................69
2.3 THOMAS HOBBES (1588-1679) .....................................................................................................71
3 IDEALISMO CLÁSSICO ....................................................................................................................73
3.1 MARSÍLIO DE PÁDUA (1275-80-1342-43) ..................................................................................74
3.2 THOMAS MORE (1478-1535) ........................................................................................................75
3.3 ABADE DE SAINT-PIERRE (1658-1743) ......................................................................................76
3.4 HUGO GROTIUS (1285-1343) ........................................................................................................77
3.5 JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1722-1778) ...................................................................................78
4 IDEALISMO MODERNO ...................................................................................................................79
5 REALISMO MODERNO .....................................................................................................................83
5.1 EDWARD HALLETT CARR (1892-1982) .....................................................................................83
5.2 HANS MORGENTHAU (1904-1980) ............................................................................................86
5.3 CARL VON CLAUSEWITZ (1780-1831) E RAYMOND ARON (1905-1983) ...........................91
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................93
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................94
TÓPICO 2 – LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA ...............................................95
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................95
2 LIBERALISMO .....................................................................................................................................97
2.1 VARIAÇÕES DO LIBERALISMO ..................................................................................................97
3 MARXISMO ........................................................................................................................................100
3.1 A IMPORTÂNCIA DO MANIFESTO COMUNISTA PARA AS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS ......................................................................................................................100
3.2 O IMPERIALISMO DE LENIN E BUKHARIN .........................................................................102
4 ESCOLA INGLESA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS .....................................................103
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................109
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................110
TÓPICO 3 – O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS ................................................................................111
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................111
2 NEORREALISMO ..............................................................................................................................113
3 NEOLIBERALISMO INSTITUCIONAL ........................................................................................1174 O DEBATE NEORREALISMO VERSUS NEOLIBERALISMO .................................................122
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................127
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................132
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................133
UNIDADE 3 – SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS 
PÓS-GUERRA-FRIA ..................................................................................................135
TÓPICO 1 – PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA .....137
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................137
2 ACONTECIMENTOS QUE PAUTARAM O PERÍODO MODERNO .....................................137
3 PÓS-MODERNISMO ........................................................................................................................148
3.1 DESCONSTRUINDO AS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS .........................150
3.2 DESCONSTRUÇÃO DA SEGURANÇA INTERNACIONAL ................................................152
4 TEORIA CRÍTICA .............................................................................................................................154
5 TEORIA CONSTRUTIVISTA ..........................................................................................................160
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................167
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................169
XI
TÓPICO 2 – OUTRAS INFLUÊNCIAS NA TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ....171
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................171
2 A INFLUÊNCIA DA PSICOLOGIA COGNITIVA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS .......172
2.1 DILEMA DO PRISIONEIRO ........................................................................................................172
2.2 CHICKEN GAME – JOGO DA GALINHA ...............................................................................174
2.3 BATALHA DOS SEXOS ................................................................................................................175
2.4 JOGO DA CAÇA AO CERVO ......................................................................................................177
3 O FEMINISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ............................................................186
4 O TERCEIRO DEBATE DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ...............................................192
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................196
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................197
TÓPICO 3 – A GLOBALIZAÇÃO E AS TEORIAS DE INTEGRAÇÃO .....................................199
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................199
2 TRANSFORMAÇÕES LOCAIS E TENDÊNCIAS DA GLOBALIZAÇÃO ............................201
3 O MUNDO GLOBALIZANTE .........................................................................................................204
4 GLOBALIZAÇÃO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS ..............................................................207
5 DESENVOLVIMENTO NA ESTRUTURA GLOBAL ..................................................................210
6 TEORIAS DE INTEGRAÇÃO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS...................................213
7 TEORIA DA INTEGRAÇÃO ECONÔMICA OU TEORIA PURA DA INTEGRAÇÃO ......220
8 A TEORIA POLÍTICA DA INTEGRAÇÃO ..................................................................................221
9 SUPRANACIONALIDADE, PERSONALIDADE INTERNACIONAL E DIREITO 
DA INTEGRAÇÃO .............................................................................................................................224
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................229
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................232
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................234
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................237
XII
1
UNIDADE 1
GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO 
DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: 
• possibilitar aos acadêmicos uma visão sistêmica do estudo das Relações 
Internacionais como um campo específico dentro das Ciências Políticas;
• compreender o objeto, campo de estudo, gênese e desenvolvimento das 
principais teorias de Relações Internacionais;
• compreender como se dá a ordem dos atores internacionais dentro do 
sistema e sociedade internacional;
• apresentar aos acadêmicos uma estrutura organizacional das Teorias de 
Relações Internacionais, a qual será referência para os estudos futuros na 
temática desta ciência.
Esta unidade está dividida em três tópicos. Ao final de cada um deles, 
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo 
apresentado. 
 
TÓPICO 1 – A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E 
OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
TÓPICO 2 – O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
TÓPICO 3 – OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E 
OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
1 INTRODUÇÃO
As Relações Internacionais remetem a um campo científico? Pode-se falar 
de uma ciência das Relações Internacionais? Como se desenvolveram as teorias 
clássicas e modernas nas Relações Internacionais? Qual seu campo de abrangência 
e como estudá-lo? De que maneira as principais teorias do saber internacional se 
apresentam ao sujeito como síntese dogmática? Tais perguntas são o cerne e o 
desafio de introduzir ao acadêmico uma parte das ciências políticas que muitas 
vezes é negligenciada, não por sua falta de importância, mas pela complexidade 
e amplitude do campo teórico. As Relações Internacionais se materializam na 
forma de contatos, de articulações e de interações constantes e recorrentes entre 
os diversos atores (estatais, não estatais e individuais), em negociações (fechadas 
ou abertas) e em diversas formas de interlocução (pacíficas ou belicosas). As 
Relações Internacionais reúnem diversas forças dinâmicas que sintetizam e 
distribuem capitais de força-poder-interesse em tempo real e em diversas escalas 
(níveis de análises) (CASTRO, 2012).
Esse contexto, de inúmeras perguntas e de complexidade inesgotável 
na interação de variáveis e atores irá fazer parte de toda a sua formação como 
estudioso da área de Relações Internacionais. Esta disciplina objetiva trazer uma 
síntese do conteúdo teórico que você, acadêmico de Relações Internacionais, 
irá ver no decorrer do seu curso. Trata-se das primeiras discussões sobre temas 
que serão aprofundados nos semestres futuros, sendo que você poderá sempre 
recorrer a esse material para resgatar as informações conceituais e retornar asperguntas iniciais de seus estudos.
Neste livro, o acadêmico irá compreender o cerne e as motivações 
iniciais das Relações Internacionais como ciência. Assim sendo, tem-se que a 
busca pelo conhecimento sempre motivou estudiosos a questionar os problemas 
percebidos em determinado tempo e espaço, não sendo diferente no campo de 
estudo das Relações Internacionais. Tais questionamentos instigam a tentativa de 
compreender como se organizam as sociedades, seus costumes e suas formas de 
governo. Por meio de instrumentos teórico-conceituais buscou-se compreender e 
explicar os fenômenos relativos à ação humana que transcende o espaço interno 
de determinado território. Percebeu-se assim a necessidade de se pensar o 
ambiente externo dos diferentes grupos e sociedades por meio de suas interações 
(SALDANHA, 2005).
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
4
O que se tem que primar é que as Relações Internacionais se dão por 
meio de uma complexa rede de atores num espaço transnacional. Tal interação é 
construída numa arena além das fronteiras políticas e geográficas caracterizada 
por um estado de anarquia. Ou seja, não havendo (pelo menos legalmente) um 
poder ou autoridade global, busca-se a tentativa de entender os acontecimentos 
e fenômenos que não respeitavam uma delimitação fronteiriça tanto na sua 
formação quanto em seus efeitos. Em outras palavras, a disciplina de relações 
internacionais anseia a compreensão da evolução dos relacionamentos entre 
diferentes territórios (além-fronteiras), a ampliação da esfera internacional com o 
surgimento de diferentes atores internacionais e as capacidades de poder que são 
construídas dentro do sistema internacional (SARFATI, 2005).
A anarquia nas relações internacionais é um conceito que considera que, 
na ordem mundial, não existe governos soberanos ou universais. Ou seja, não existe 
hierarquicamente um poder coercitivo para resolver os problemas, conflitos, julgar o que 
é certo e errado, ou coordenar a ordem do sistema, como acontece dentro da política 
doméstica (interna de um país). A anarquia é amplamente aceita como o ponto de partida 
para a Teoria das Relações Internacionais.
NOTA
Para tentar entender essa interação, tente responder mentalmente os 
seguintes questionamentos: quantos Estados (países) existem atualmente? Como 
esses países surgiram? Eles são imutáveis? Existem Estados mais fortes, ricos, 
com melhores recursos que outros? Existe uma força ou poder que comanda ou 
diz a esses Estados como eles devem se comportar? Por que alguns Estados têm 
mais prestígio ou respeito que outros? Existem outros atores internacionais além 
dos Estados? Existem organizações ou ferramentas que são capazes de regular a 
atuação desses atores internacionais? O que mantém a paz ou a guerra entre os 
territórios no globo? Quando você começa a pensar sobre possíveis respostas a 
esses questionamentos, você verifica como é complexa a relação entre os diferentes 
atores no cenário internacional. Nessa complexidade de interações e na tentativa de 
responder essas questões, surgiu o objeto e a disciplina de Relações Internacionais. 
Dessa forma, as Relações Internacionais, como objeto e disciplina, surgem 
pela necessidade de as sociedades compreenderem suas realidades internas e 
externas aos seus limites territoriais. O objeto de estudo das Relações Internacionais 
são os “atores, os acontecimentos e fenômenos que existem e interagem no 
sistema internacional, ou seja, além das fronteiras domésticas das sociedades” 
(PECEQUILO, 2010, p. 14, grifo nosso). Por sua vez, como disciplina, encontra-se 
no agrupamento das Ciências Sociais, pois é por meio do estudo das sociedades 
que a investigação teórica se desenvolve. Também pode ser considerada dentro 
da Área de Ciências Humanas, se pensarmos que a menor unidade dentro de 
uma sociedade ou grupo sempre será o indivíduo (humano).
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
5
FIGURA 1 – O OBJETO DE ESTUDOS E A DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Fonte: O autor
As Teorias das Relações Internacionais almejam tornar o mundo mais 
compreensível para seus interlocutores, trazendo em alguns momentos a proposta 
de previsibilidade dos diversos atores do ambiente internacional. Nas relações 
internacionais existe uma dualidade de pensamento e autores que trabalham 
seu objeto de estudo (seja qual for a amplitude de seu nível de análise). Existem 
os que trabalham com as teorias positivistas, os quais acreditam em verdades 
universais e científicas, e os que abordam as teorias pós-positivistas, ou seja, 
aquelas que duvidam da legitimidade do conhecimento científico e contestam 
as bases epistemológicas, metodológicas e teóricas dos discursos dominantes. 
Independente de qual perspectiva teórica se adote, as Relações Internacionais 
possuem origens e fontes históricas, geográficas e socioculturais vastas e distintas, 
que irão pautar as observações no comportamento humano em sociedade. 
O saber internacional, como objeto categórico analítico, é antiquíssimo 
e remonta à investigação positiva, normativa e descritiva do enigmático 
fenômeno humano em suas múltiplas teias de relacionamento 
interativo social e em vários compartimentos. O ser humano é meio 
e fim das entranhas das Relações Internacionais. Sendo o destinatário 
primaz de tais estudos, o ser humano com suas encruzilhadas e seus 
labirintos representa, portanto, o foco da ciência política internacional 
(CASTRO, 2012, p. 52).
As relações internacionais sempre foram estudadas, principalmente 
com a formação do sistema europeu de Estados, após a Paz de Vestefália. Nessa 
ocasião, os diversos interesses dos Estados europeus foram avaliados. Propiciou 
a percepção da expansão naval da Grã-Bretanha no processo de equilíbrio do 
poder marítimo holandês e a investida de contenção do expansionismo francês. 
“Percebeu-se a ascensão da Rússia como potência expansionista no Leste; a 
competição da Áustria e Prússia pelo domínio do fragmentado espaço alemão” 
(MAGNOLI, 2008, p. 99).
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
6
A Paz de Vestefália foi o resultado da assinatura de uma série de tratados que 
puseram fim à Guerra dos Trinta Anos, em 1648. Esta garantiu o direito de cada Estado 
manter a religião escolhida por seu príncipe, bem como sua organização política, sem 
interferências externas. Inaugurou-se assim o sistema laico de relações internacionais, 
reconhecendo uma sociedade de Estados fundada nos princípios da soberania territorial e 
da não intervenção de cada um desses Estados nos assuntos internos dos demais. 
FONTE: <http://www.ojs.ufpi.br/index.php/cadernosdepesquisa/article/view/1954/1383 >. 
Acesso em: 18 out. 2019.
IMPORTANTE
O debate intelectual adveio com o fim da Primeira Guerra Mundial e 
a transformação tecnológica e estrutural do cenário mundial. Houve comoção 
internacional sobre os efeitos deste conflito coletivo de dimensão global (para 
a época). O rastro de devastação nunca vislumbrado foi narrado com precisão 
contabilizando não somente as perdas materiais, mas principalmente humanas.
Com o fim do conflito, os líderes das potências vencedoras (principalmente 
Grã-Bretanha e França) sofreram pressão de suas populações para criarem 
mecanismos que evitassem a repetição de um acontecimento tão traumático. 
A capacidade bélica por meio dos avanços tecnológicos, o fortalecimento do 
capitalismo e o socialismo da revolução russa promoveram os estudos das 
relações internacionais de maneira mais organizada e sistematizada. Houve 
assim, a necessidade de se explicar a realidade internacional e a criação de um 
campo de estudos específico.
 
Diferentemente das Ciências Exatas e Biológicas, em que a investigação 
do objeto de estudo se dá por meio de métodos científicos baseados em modelos 
mais concretos, nas Relações Internacionaistem-se a tradição da interpretação e o 
subjetivismo. Trata-se de um campo de estudos considerado recente, nascido na 
época de Guerra Fria e desenvolvido basicamente a partir da década de setenta. 
É uma construção teórica condicionada por uma participação racional, empírica 
e crítica do sujeito e dependente do paradigma e instrumentos analisados. Em 
outras palavras, as relações internacionais podem ser conceituadas de diferentes 
formas a partir de suas perspectivas teóricas (SALDANHA, 2005). Será visto nos 
próximos tópicos diferentes visões e paradigmas de seu arcabouço teórico.
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
7
FIGURA 2 – CHARGE SATIRIZANDO AS DISPUTAS ESTRATÉGICAS ENTRE EUA E URSS DURANTE 
A GUERRA-FRIA
FONTE: https://escolaeducacao.com.br/wp-content/uploads/2018/08/filmes-guerra-fria-750x430.jpg>. 
Acesso em: 18 out. 2019.
A Guerra Fria iniciada após a Segunda Guerra Mundial (1945), durou até 
a extinção da União Soviética (1991). Esta é a designação atribuída ao período histórico 
de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética, 
disputando a hegemonia política, econômica e militar no mundo. Tem esse nome pois, 
apesar de um estágio de tensão entre os dois blocos políticos (Capitalismo – EUA e 
Socialismo – URSS), os dois países nunca se confrontaram belicamente de forma direta.
ATENCAO
2 O ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
As Relações Internacionais como ciência teve sua formação baseada na 
influência da filosofia durante o século XVIII. Grandes filósofos como Espinoza, 
Rosseau e Kant tiveram importante papel no processo de examinar as relações 
entre os Estados, baseados em sua força e poder. No entanto, como visto 
anteriormente, no período das grandes guerras essa ciência se desenvolveu e 
passou a ser estudada nas principais universidades anglo-saxônicas. A ciência 
primeiramente se orientou na explicação da política externa desses Estados, nas 
suas relações de conflito e cooperação nos campos políticos e econômicos.
A expressão relações internacionais remete a uma ambiguidade de 
entendimentos, ou pelo menos uma imprecisão conceitual. No Brasil, as Relações 
Internacionais estão ainda muito direcionadas à interação estabelecida entre as 
unidades políticas (Estados Nacionais) se confundindo com a área de Política 
Internacional (diplomacia e questões de segurança militar). No entanto, as 
relações que os países mantêm entre si, transcorrem não somente na arena 
política, sendo essas afetadas em diversas outras áreas. “As relações econômicas, 
jurídicas, geográficas, linguísticas, históricas, religiosas, ambientais - todas elas 
têm sua “autonomia”, isto é, sua dinâmica própria e não são redutíveis à política 
internacional” (LACERDA, 2006, p. 57). 
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
8
Nesse contexto, as relações internacionais podem ser definidas “como 
o conjunto de relações e comunicações suscetíveis de ter dimensões política, 
econômica, social e cultural, estabelecidas entre grupos sociais, atravessando as 
respectivas fronteiras” (BRAILLARD; DJALILI, 1988, p. 11). 
Durante o século XX, as relações internacionais passaram a ter papel 
de visibilidade na vida cotidiana devido às trocas internacionais, à conexão 
e ao crescimento sem precedentes da revolução industrial e tecnológica. A 
divisão internacional do trabalho e a constituição de um mercado mundial 
conduziram uma série de inter-relações de conflito e cooperação entre os 
Estados e demais atores internacionais. A necessidade de garantir a soberania 
dos Estados e paralelamente o seu desenvolvimento econômico orientou novos 
sistemas de armamento e consequente busca pelo entendimento da dinâmica 
na ordem internacional. Assim, a nova disciplina das relações internacionais é 
a consequência do desejo fortemente sentido nos Estados Unidos no clima dos 
pós-Primeira Guerra Mundial de compreender as origens de um tal conflito e de 
construir uma sociedade internacional pacífica (RODRIGUES, 2004; CARR, 1964).
Percebe-se uma multiplicidade de interpretações nas relações dos 
diferentes atores (Estados, Organizações institucionais, indivíduos, empresas 
multinacionais etc.) dentro do cenário internacional. Tal cenário, antes, era 
abordado e entendido exclusivamente por outras disciplinas como história, 
economia ou pelo direito internacional.
A primeira abordagem das relações internacionais sustentou-se sobre a 
prerrogativa da existência de um ordenamento moral. Tratava-se da discussão 
de pressupostos abstratos e universalmente válidos no ambiente internacional. 
Pensava-se no possível processo de desenvolvimento das instituições da sociedade 
como uma evolução do ordenamento internacional (MORGENTHAU, 2003).
Nessa perspectiva, havia uma despreocupação sobre a sustentabilidade 
desse desenvolvimento, na confiança de que o senso de humanidade seria 
um processo evolutivo natural e capaz de superar a instabilidade da ordem 
internacional. Supunha-se que os objetivos da sociedade internacional seriam 
coordenados pelas recém-criadas organizações internacionais na metade do 
século XX. Não obstante, a natureza humana, dotada de imperfeições resultou 
em interesses contrários aos pressupostos dos princípios morais no ordenamento 
internacional (DUTRA, 2015).
Assim, o desenvolvimento progressivo do ambiente internacional fora 
frustrado, experimentando equilíbrios temporários devido a soluções precárias 
dos conflitos no ordenamento internacional. Ou seja, a natureza conflituosa das 
sociedades no ambiente internacional sempre retornava após esses equilíbrios 
temporários (MORGENTHAU, 2003). 
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
9
A variável “poder” dominou a discussão sobre o espaço ambiental, tanto 
que no início o termo “política de poder” foi muito utilizado como sinônimo de 
política internacional. Nesse contexto, as relações internacionais eram entendidas 
como a capacidade de um ator internacional interferir nas ações de outros, 
impondo sua vontade aos demais (ARON, 2002). 
Na metade do século XX, outras variáveis se tornaram o cerne da discussão 
das relações internacionais. Essa discussão passou a ser pautada nas relações do 
homem dentro da sociedade em detrimento do entendimento da natureza do 
homem como fator absoluto. Buscou-se assim uma conexão entre o indivíduo e 
o agrupamento a que este pertencia. Da mesma maneira buscou-se entender o 
comportamento do homem, do Estado e de um sistema de Estados para entender 
o ambiente internacional (DUTRA, 2015). 
Assim, a evolução da ciência das relações internacionais passou a discorrer 
sobre um ambiente ainda mais complexo, no entendimento da atuação dos 
Estados no cenário internacional. Buscava-se, assim, a explicação dos interesses 
comuns das comunidades no sistema internacional (WIGHT, 2002).
Então, as relações internacionais passam a ser percebidas como um 
campo de estudo complexo, que por um lado tem a percepção de um cenário 
internacional complexo que interfere e constrange as ações dos Estados em suas 
políticas externas. De outra perspectiva, tem-se uma maior inter-relação entre os 
atores (Estados, indivíduos políticos, organizações institucionais supranacionais, 
ONGs, empresas transnacionais etc.) no cenário internacional. “Tais perspectivas 
originam um debate internacional que passou a considerar novos padrões da 
existência internacional. Inaugurando no último quarto do século XX um campo 
original de ideias sobre novos paradigmas aceitos pela política internacional” 
(DUTRA, 2015, p. 113).
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
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FIGURA 3 – CAMPO DE ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS SEGUNDO CENÁRIO 
COMPLEXO DE INTER-RELAÇÃO ENTRE OS ATORES INTERNACIONAIS
Fonte: O autor
Isto posto, as Relações Internacionais,tanto como ciência autônoma, quanto 
como práxis atrelada aos atos e fatos gerados pelos sujeitos (atores internacionais) 
irão se materializar na forma de contatos, articulações e interação constante em 
diversas formas de interlocução (pacíficas ou belicosas). Essas dinâmicas de força-
poder-interesse se dão em diferentes escalas (níveis de análises), sendo necessário 
entender qual a abrangência em que se irá estudar essas relações.
3 OS NÍVEIS DE ANÁLISE SEGUNDO ATORES E ÁREA DE 
ATUAÇÃO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS 
A importância do estudo das Relações Internacionais é auto evidente, 
porque estão em toda parte; fazem parte do nosso cotidiano, quer queiramos ou 
não. O saber internacional perpassa nossas vidas, amplia nossas visões, redefine 
quem somos como cidadãos e disseca a forma de analisar e tratar o outro. Sua força 
questiona e transforma o Estado, seu papel e suas atribuições, (re)equacionando 
a lógica de poder entre cidadãos, empresas, unidades subnacionais (divisões 
político-administrativas dentro dos Estados), sociedade civil e organismos 
multilaterais (CASTRO, 2012).
Quando não havia os institutos acadêmicos de Relações Internacionais, 
os eventos e fatos vinculados a essa área temática eram tratados pela ótica do 
direito internacional, da diplomacia e da história (SALDANHA, 2005). Com a 
necessidade de explicar as novas questões internacionais tais como o comércio 
exterior, a economia internacional e o surgimento de novas potências, a disciplina 
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
11
de relações internacionais foi objetivada sob a perspectiva da realidade e da 
soberania estatal. No processo de unificação nacional dos Estados, este conceito 
de soberania ganhou duas faces: no ambiente interno, configurou a concentração 
do poder político nas mãos do “soberano” (líder da unidade estatal) e a submissão 
dos indivíduos ao ordenamento jurídico estatal. No ambiente externo, trouxe a 
possibilidade de que o Estado mantivesse relações econômicas e políticas entre si, 
mesmo em estado de guerra.
Nesse sentido, para se discutir as relações internacionais, o estudioso 
precisa escolher um nível de análise e os protagonistas (atores mais importantes) 
para se pautar nos debates. As teorias de Relações Internacionais consideram os 
seguintes atores:
• Indivíduos: Donald Trump; Nicolás Maduro; Angela Merkel; Kim Jong-Un etc.
• Órgãos Burocráticos Governamentais: Ministério das Relações Exteriores; 
Departamento de Defesa; Câmara dos Deputados etc.
• Estados: Brasil; Estados Unidos da América; Alemanha; República da Coreia; 
Arábia Saudita; China; Nigéria; Austrália etc.
• Organizações Intergovernamentais Internacionais: ONU; OEA; UA; OTAN; 
Liga Árabe etc.
• Organizações Não Governamentais: WWF; Cruz Vermelha; Anistia 
Internacional; Green Peace; Médicos Sem Fronteira etc.
• Outros atores: empresas transnacionais; grupos terroristas; Igreja; grupos com 
conhecimento específico (Comunidades Epistêmicas) etc.
Por sua vez, a análise se dá do nível mais micro (o indivíduo) ao mais macro 
(Sistema Internacional). Essa representação pode ser observada na Figura 4:
FIGURA 4 – NÍVEIS DE ANÁLISE EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS
FONTE: Sarfati (2005, p. 31)
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
12
O nível individual de análise concentra-se sobre a natureza dos homens 
em sua explicação. Por meio desta natureza, objetiva-se explicar a causa das guerras 
e de todas as outras interações segundo a racionalidade dos líderes dos Estados 
e detentores de poder político. Pode-se pensar, por exemplo, a postura de um 
presidente frente a outro em diferentes mandatos políticos. Um líder político atual 
pode estar mais inclinado às questões militares e de segurança do que seu antecessor. 
O nível societal está associado quando se analisa os grupos de interesse 
e os diferentes setores da burocracia estatal. Continuando o exemplo da guerra, 
o interesse de diferentes grupos como a indústria bélica, os articuladores do 
Ministério da defesa podem direcionar as ações de maior ou menor propensão 
aos conflitos ou corrida armamentista.
A análise pelo nível estatal concentra-se no comportamento desta unidade 
(Estado; país) como o cerne dos acontecimentos e interação internacional. A 
guerra seria explicada, por exemplo, como a maneira de garantir a segurança e a 
integridade do Estado, promovendo assim sua soberania e integridade.
O nível supraestatal de análise foca na explicação das relações internacionais 
por meio dos atores intragovernamentais como a ONU e outros atores não estatais 
como as ONGs internacionais e as Empresas transnacionais. Ainda com a questão 
das guerras, o Conselho de Segurança da ONU seria o cerne da análise de como as 
relações de paz entre os atores estatais tendem a ser conduzidas. 
 
O último nível de análise é o do Sistema Internacional. Trata-se no nível 
macro das relações internacionais, englobando todas as ações dentro de um 
sistema e suas relações com o seu meio ambiente. Em relações Internacionais, 
o Sistema Internacional engloba todas as relações entre os atores internacionais. 
Uma explicação sistêmica da guerra seria embasada na natureza anárquica das 
relações internacionais. Ou seja, não há uma estrutura hierárquica internacional 
capaz de coordenar as unidades (Estados) e suas ações de demonstração de poder 
(guerra). Não se tem (pelo menos eficiente e suficiente capaz) um organismo ou 
poder supranacional capaz de “ditar as regras de convívio” ou “balancear” as 
estruturas de poder dos atores estatais.
 
Para revisarmos esses pontos até agora estudados, pega-se como exemplo 
o conflito entre Síria e Estados Unidos da América. Os atores são os protagonistas 
e o nível de análise seria o foco da explicação do conflito. Ao considerar o nível 
sistêmico de análise, temos a anarquia como a explicação do conflito. Porém os 
Estados Unidos, a Síria, as Forças Beligerantes e até a ONU correspondem os 
atores deste evento.
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
13
O adjetivo beligerante vem da raiz latina “bellum” e significa guerra. As Forças 
Beligerantes, então, são as forças ou indivíduos relacionados à guerra, ou seja, são atitudes agressivas 
ou bélicas da qual um exército enfrenta o outro com determinação (CONCEITOS.COM, 2018).
NOTA
No entanto, se o nível de análise for o indivíduo, os protagonistas seriam 
os Estados, por meio de seus líderes e o foco da explicação estaria na natureza 
humana agressiva. Faz-se necessário também chamar a atenção de que a escolha de 
análise se dará ao modelo teórico escolhido e que uma variedade destes modelos 
será vista na próxima unidade. Independente do modelo teórico escolhido, tem-
se que entender que os Estados sempre foram os principais atores das relações 
internacionais. Não se descarta a importância das empresas transnacionais ou as 
organizações internacionais estatais e não governamentais, mas é fato o eminente 
papel do ator estatal.
Por que os Estados são considerados como os principais atores das relações 
internacionais? Trata-se de um questionamento de difícil explicação, sendo que 
há muitos estudiosos que rejeitam essa máxima. No entanto, tem-se uma resposta 
“tradicional” no estudo da política internacional que sinaliza a legitimidade da 
supremacia destes atores nas inter-relações do ambiente internacional. Como 
antes mencionado, com o Acordo de Vestefália, de 1648, os Estados surgem como 
dotados de soberania sobre determinada porção territorial. Nestes territórios 
foi convencionado um estado de liberdade intrínseca, não sofrendo intervenção 
de outras entidades soberanas estrangeiras. Em outras palavras, dentro destas 
porções territoriais, os governantes têm o direito de ação porque os outros agentes 
externos às fronteiras consideram legítima a soberania dentro da região.
Na contemporaneidade,os outros atores internacionais, além dos Estados, 
passaram a ser considerados de alta relevância nas relações internacionais. Isso 
se dá porque as dinâmicas que outrora aconteciam respeitando a tradicional 
visão de territorialidade, agora se tornaram fluidas, de caráter transnacional 
(não estando ligadas aos territórios nacionais de forma estática). Nesse 
contexto, aumenta-se o número e a intervenção dos Organismos Burocráticos 
Internacionais (OIs), Organizações Internacionais não Governamentais (OINGs), 
Empresas Transnacionais (ETNs) etc. Esses atores não poderiam ser contidos nas 
fronteiras territoriais estatais, passando a cumprir ou exercer algumas funções 
antes delegadas exclusivamente aos Estados.
 
Tendo essa breve introdução apresentada, passa-se a entender o ambiente 
internacional em que os atores internacionais estabelecem suas relações e como se dá a 
Ordem Mundial dentro de um sistema de relações denominado Sistema Internacional.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
14
4 A ORDEM INTERNACIONAL E ORDEM MUNDIAL
A ordem internacional “refere-se a um padrão de atividades que sustenta 
os objetivos elementares ou primários da sociedade dos estados, ou sociedade 
internacional” (BULL, 2002, p. 13). O autor discute a existência dessa “ordem” 
na interpretação de alguns conceitos como “Estados”, “Sistemas de Estados” e 
“Sociedade de Estados” também chamada de Sociedade Internacional.
Por ordem internacional ou Ordem Mundial entende-se uma função 
à estrutura de poder das Relações Internacionais em um determinado período 
histórico, com sua governança estabelecida pela polaridade (multipolar, bipolar 
ou unipolar). Nestes determinados períodos se estabelecem um conjunto dos 
valores sociais, morais, intelectuais e filosóficos de um determinado grupo 
hegemônico aos demais Estados.
Assim, a ordem mundial dita forma os padrões comportamentais e os 
alinhamentos dos demais países aos centros hegemônicos daquele período. 
Nesse contexto, por meio da governança mundial, se tem o estabelecimento do 
relacionamento internacional entre os atores no complexo do cenário internacional.
Governo e Governança são termos diferentes. O governo representa a 
concessão de poderes do povo para o uma representação política doméstica. No contexto 
internacional, por sua vez, não há um governo mundial, daí a diferença do uso dos termos 
governo e governança.
ATENCAO
Em toda a história da humanidade nunca houve um único sistema político 
que abrangesse todos os Estados ou unidades territoriais. Assim, a sociedade 
humana, até a segunda metade do século XIX, era representada por uma ordem 
mundial que nada mais era do que a soma dos vários sistemas políticos que 
impunham ordem a diferentes partes do globo. No entanto, a partir do fim do 
século XIX e do princípio do século XX houve o surgimento de um sistema político 
caracteristicamente global. A ordem em escala local passa para escala global com 
a soma da ordem existente dentro dos estados da Europa e da América, com as 
dos Impérios Otomano, Chinês e Japonês e Sultanatos e Principados do Saara à 
Ásia, dentro dos sistemas políticos primitivos na África e na Oceania. Trata-se 
de um sistema político que funcionava em todo o mundo, ligando todas essas 
unidades (BULL, 2002).
TÓPICO 1 | A DISCIPLINA, AS PRINCIPAIS TEORIAS, O CAMPO E OBJETO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
15
A transformação dessa nova realidade de uma recente ordem internacional 
foi a expansão do sistema de estados europeu por todo o globo, propiciando a sua 
transformação em um sistema de estados de dimensão global. Essa transformação 
permitiu certo grau de interação entre os sistemas políticos em todo o mundo, 
abrangendo todos os continentes. A primeira fase deste processo começou com 
os descobrimentos portugueses e espanhóis no século XV até a partilha da África, 
no século XIX. A segunda fase na transformação da Ordem Mundial sobrepôs 
em determinado período a primeira, quando algumas regiões dominadas se 
livraram do controle europeu, assumindo seus lugares como estados membros da 
sociedade internacional. Trata-se de um período que se iniciou com a Revolução 
Americana e desencadeou a revolução anticolonialista da África e da Ásia. 
A Revolução Americana também é conhecida como a Guerra da Independência 
dos Estados Unidos ou ainda Revolução Americana de 1776, teve suas raízes na assinatura 
do Tratado de Paris, que, em 1763, finalizou a Guerra dos Sete Anos. Trata-se do evento 
revolucionário que levou a primeira colônia na história da expansão europeia a tornar-
se independente. Tal evento influenciou a Revolução Francesa (1789) e as subsequentes 
revoluções na Europa e América do Sul (HOFFMANN; ALBERT, 1981).
IMPORTANTE
Um ponto interessante e que deve ser questionado é: a Ordem Internacional 
significa o mesmo que a Ordem Mundial? De maneira direta e sintética, a diferença 
entre esses dois conceitos é que “a ordem no conjunto da humanidade é mais 
abrangente do que a ordem entre os estados: algo mais fundamental e primordial, 
e que moralmente a precede” (BULL, 2002, p. 29). Assim, podemos dizer que 
a ordem mundial é mais ampla do que a ordem internacional porque “para 
descrevê-la precisamos tratar não só da ordem entre os estados, mas também da 
ordem em escala interna ou local, existente dentro de cada Estado, assim como 
da ordem dentro do sistema político mundial mais amplo, em que o sistema de 
estados é apenas um componente” (BULL, 2002, p. 30).
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
16
FIGURA 5 – ELUCIDAÇÃO DAS ORDENS MUNDIAL E INTERNACIONAL NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Fonte: O autor
Entende-se, dessa forma, que a ordem mundial é mais fundamental 
e importante do que a ordem internacional, pois as unidades primárias da 
sociedade internacional não seriam os estados, mas sim os seres humanos 
individuais que são os elementos indissociáveis em qualquer estrutura política 
ou social do mundo. Não obstante, para se verificar o valor da ordem no conjunto 
da sociedade humana (valor maior), precisa-se da instrumentação orientada pela 
ferramenta macro das relações internacionais, a da ordem dos Estados. Nesse 
contexto, verifica-se no próximo tópico uma investigação do ator mais relevante 
das relações internacionais: o Estado.
17
Neste tópico, você aprendeu que:
• As Relações Internacionais reúnem diversas forças dinâmicas que sintetizam 
e distribuem capitais de força-poder-interesse em tempo real e em diversas 
escalas (níveis de análises).
• Os questionamentos sobre as Relações Internacionais instigam a busca por 
entender com se organizam as sociedades, seus costumes e suas formas de 
governo.
• Por meio de instrumentos teórico-conceituais buscou-se compreender e explicar 
os fenômenos relativos à ação humana que transcende o espaço interno de 
determinado território.
• As Relações Internacionais, como objeto e disciplina, surgem pela necessidade 
de as sociedades compreenderem suas realidades internas e externas aos seus 
limites territoriais.
• A variável “poder” dominou a discussão sobre o espaço ambiental, tanto que 
no início o termo “política de poder” foi muito utilizado como sinônimo de 
política internacional.
• A evolução da ciência das relações internacionais passou a discorrer sobre um 
ambiente mais complexo, no entendimento da atuação dos Estados no cenário 
internacional. Buscava-se, assim, a explicação dos interesses comuns das 
comunidades no sistema internacional.
• As teorias de Relações Internacionais consideram os seguintes atores: 
indivíduos; órgãos burocráticos governamentais; Estados; Organizações 
Intergovernamentais Internacionais; Organizações Não Governamentais; e 
outros atores.
• A análise das Relações Internacionais se dá do nível mais micro (o indivíduo) 
ao mais macro (Sistema Internacional): indivíduos; sociedades; Estados; 
supraestatal; e SistemaInternacional.
• A ordem internacional refere-se a um padrão de atividades que sustenta os 
objetivos elementares ou primários da sociedade dos estados, ou sociedade 
internacional.
RESUMO DO TÓPICO 1
18
1 Sobre a ciência das Relações Internacionais, assinale V para as assertivas 
verdadeiras e F para as falsas.
( ) Teve sua formação baseada na influência da filosofia durante o século XVIII, 
mas se desenvolveu nas principais universidades na tentativa de explicar a 
política externa dos Estados, nas suas relações de conflito e cooperação nos 
campos políticos e econômicos.
( ) Estudam o conjunto de relações e comunicações suscetíveis de ter 
dimensões política, econômica, social e cultural, estabelecidas entre grupos 
sociais, atravessando as respectivas fronteiras.
( ) As relações econômicas, jurídicas, geográficas, linguísticas, históricas, 
religiosas, ambientais não são vistas por sua “autonomia”, sendo redutíveis 
à política internacional.
( ) A expressão “relações internacionais” remete à uma precisão de 
entendimentos, isto é, o conceito trazido pela ciência é bem definido.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) V – V – F – F.
b) ( ) F – F – V – V. 
c) ( ) V – F – V – F.
d) ( ) V – F – F – V.
2 Quanto aos atores das Relações Internacionais, associe os itens a seguir:
I- Indivíduos.
II- Órgãos Burocráticos Governamentais.
III- Estados.
IV- Organizações Intergovernamentais Internacionais.
V- Organizações Não Governamentais.
VI- Outros atores.
( ) OMS.
( ) Anistia Internacional.
( ) Kim Jong-Un.
( ) Coca-Cola.
( ) Jamahiria Árabe Popular Socialista da Líbia.
( ) Itamaraty.
3 Diferencie a Ordem Mundial de Ordem Internacional.
AUTOATIVIDADE
19
TÓPICO 2
O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
A evolução do Estado está ligada na revisão das organizações territoriais 
segundo o seu desenvolvimento econômico e social, desde a antiguidade, até alcançar 
a sua configuração contemporânea. Apesar das inúmeras definições e conceitos de 
Estado, distribuídas nas mais diversas correntes filosóficas, políticas, jurídicas para 
indicar a finalidade ou a causa material da sociedade politicamente organizada, foi 
a partir da obra de Maquiavel que o termo Estado passou a designar uma “unidade 
política global”. Nesse contexto, o conceito moderno de Estado trabalhado no curso 
é “a nação politicamente organizada, um complexo político, social e jurídico, que 
envolve a administração de uma sociedade estabelecida em caráter permanente em 
um território e dotado de poder autônomo” (NADER, 2014, p. 130).
 
O conceito de Estado mais elucidativo refere-se a sua complexidade 
institucional, que confere a unidade e o reconhecimento de suas atribuições 
e ações tanto no cenário doméstico (interior) quanto internacional. Essa 
configuração é aceita pela sociedade civil e pelos demais atores internacionais, 
caracterizando a legitimidade de ser representado sobre diferentes aspectos na 
política internacional. Assim, este conceito pode ser sintetizado como:
Estado é um corpo político-jurídico-diplomático complexo dotado 
de unidade territorial, governo reconhecido interna e externamente, 
regido por um sistema jurídico-administrativo, tendo centralidade 
no plano da articulação na arena internacional e comportando uma 
determinada sociedade civil (CASTRO, 2012, p. 110).
Como dito no capítulo anterior, os Estados representam os atores mais 
importantes das relações internacionais, sendo o ponto de partida da inter-
relação das dinâmicas além das fronteiras territoriais. Representam comunidades 
políticas independentes, possuindo governos próprios que afirmam sua soberania 
através de seu povo e território. 
Existe muita confusão ao se trabalhar o conceito de Estado, sendo 
que este, muitas vezes, é colocado como país ou nação. Para o acadêmico de 
Relações Internacionais esses termos devem estar bem diferenciados, destarte, 
sinteticamente traz-se uma elucidação desses termos a seguir:
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
20
O país é uma designação geográfica, a qual abrange tudo o que se 
encontra em um determinado território administrado por um Estado. Em outras 
palavras, enquanto o Estado relaciona população, território e governo, um País 
abrange características físicas, sociais, culturais, econômicas, ou seja, todas as 
características presentes no território. Então, tem-se como exemplo o Brasil como 
país e a República Federativa do Brasil como Estado.
País é a porção territorial, são as terras, os mares e o espaço aéreo de 
determinada limitação geográfica. O Estado são comunidades políticas independentes 
e possuem um governo próprio que afirma sua soberania por meio de seu povo e seu 
território: Exemplo: a Inglaterra, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte são diferentes 
países. A união desses quatro países é reconhecida como um ator soberano que une o 
governo, o seu povo e o território desses países formando um único Estado. Em outras 
situações como no Brasil, o país (território) coincide com o Estado (entidade soberana 
reconhecida por ter um povo e território).
ATENCAO
Por sua vez, o termo Nação, do latim natio — de natus (nascido) — representa 
a um grupo ou comunidade estável, historicamente constituída por vontade 
própria de indivíduos com base num território, língua e aspirações comuns. 
Trata-se da reunião de indivíduos de um mesmo grupo étnico que comungam 
de uma mesma cultura que lhes mantêm unidos pelos hábitos, tradições, religião, 
língua e consciência nacional. Nesse sentindo, o “povo é entidade jurídica: nação 
é uma entidade moral no sentido rigoroso da palavra” (AZAMBUJA, 2008, p. 36). 
O termo Nação, tem que ser compreendido dentro de uma definição sociológica. 
Os limites de Nação estão dentro de Estado, todavia, esteja sempre submissa ao 
mesmo. Para que tenha valor jurídico os seus hábitos devem adaptarem-se dentro 
da legislação. Assim, temos a “Nação como uma sociedade natural de homens, 
na qual a unidade de território, origem costumes, língua e a comunhão de vida 
criaram a consciência social” (FILOMENO, 2006. p. 58). Um Estado pode ser 
formado por diversas nações, assim como uma nação pode estar dividida em 
diversos Estados.
Exemplos: o Canadá é um Estado que abriga duas nações: uma de origem 
francesa e outra de origem inglesa, além dos nativos americanos. A Escócia e o 
País de Gales são dois países diferentes, com suas respectivas nações (diferentes) 
e estão inseridos dentro do Estado do Reino Unido.
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
21
Existem nações sem Estado?
Os curdos correspondem à um povo, uma nação com cerca de 35 milhões de 
pessoas divididas no Iraque, Irã, Turquia e Síria, mas que não possuem um Estado próprio. Os 
Curdos são um povo, que tem sua origem indo-europeia, estão estabelecidos em uma área 
de cerca de meio milhão de quilômetros quadrados, os quais conseguiram preservar seus 
diferentes dialetos, suas tradições e um modo de organização baseado em clãs. Os curdos, 
apesar de serem povos nômades, anseiam a sua maioria pela criação de um Curdistão 
unificado. Devido a isso, são percebidos como uma ameaça à integridade territorial dos 
países em que estão estabelecidos.
INTERESSANTE
FIGURA – REGIÃO ESTIMADA DE REIVINDICAÇÃO DOS CURDOS PARA A CRIAÇÃO DO CURDISTÃO
FONTE: <https://s3.static.brasilescola.uol.com.br/img/2015/08/curdistao.jpg>. 
Acesso em: 18 de out. 2019.
Os Estados até o século XX foram como os únicos atores internacionais 
no cenário internacional. Apesar da entrada de novos atores nas dinâmicas do 
ambiente internacional, a autonomia dos Estados continua sendo indiscutível e 
indissolúvel, mesmo frente às novas dinâmicas de mercado e do fluxo tecnológico. 
O que irá se diferenciar entre os Estados é a importância relativa entre um e outro, 
baseada nas suas capacidades de poder e negociação. Ou seja, suas possibilidadesinternas e externas que definiram suas condições de soberania. Com o fim da 
Guerra de 30 anos e o acordo de Vestefália, a determinação do território e o 
reconhecimento dos outros Estados, em valer a soberania, foram ratificados. 
Neste momento, tais atores têm sua origem jurídica no direito internacional lhes 
garantindo a plena autonomia de ação e decisão dentro das suas fronteiras.
O Estado fundamenta-se em três aspectos materiais: o território, 
a população e o governo. “O Estado, personalidade originária de direito 
internacional público, ostenta três elementos conjugados: uma base territorial, 
uma comunidade humana estabelecida sobre essa área, e uma forma de governo 
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
22
não subordinada a qualquer autoridade exterior” (REZEK, 2005, p. 161). A 
apreciação desses três aspectos materiais é detalhada a seguir, segundo Pecequilo 
(2010, p. 43, grifo nosso):
• Território: este aspecto está relacionado ao espaço geográfico de 
cada Estado, tendo as fronteiras delimitadas e reconhecidas por 
outros Estados. Nesta unidade política individual existe a soberania 
e a autonomia política. Ou seja, dentro desta arena, o Estado tem 
poder total sobre sua população, realizando ações de acordo com 
seus interesses domésticos (internos). Esses interesses tem uma 
racionalização que vislumbra os custos e benefícios de todas suas 
ações, as quais os outros Estados não podem interferir (pelo menos 
diretamente) nos fluxos internos. Assim, o reconhecimento do 
poder do Estado é soberano e supremo dentro das suas fronteiras. 
Trata-se do princípio da territorialidade.
• População: trata-se do quadro de habitantes de um Estado que 
possuem uma identidade comum e estão inseridos dentro de uma 
unidade política, linguística, cultural, econômica e social. Existem 
muitos Estados formados por uma única nação, conferindo uma 
nacionalidade. No entanto, a maioria dos Estados modernos é 
formada por povos de diferentes nacionalidades não constituindo 
um grupo homogêneo. O Brasil, por exemplo, é um Estado em 
que sua população é proveniente de diversos povos oriundos da 
Europa, África e Ásia. Tais povos integram-se formando um grupo 
que tem uma unidade cultural e linguística nacional comum, 
a nacionalidade brasileira. No caso do Brasil, essa interação é 
pacífica, o que não ocorre em muitos lugares do mundo, como 
aconteceu na ex-Iugoslávia.
• Governo: trata-se do terceiro elemento material do Estado 
representado pela centralização das autoridades dentro do território 
nacional. O governo representa a organização do comando político 
e da administração pública do Estado. Pode-se dizer que o governo 
seria uma das instituições que compõem o Estado, o responsável 
por administrar o Estado. Os governos podem mudar e apresentar 
diferentes formas, variando de um lugar para outro. O governo 
detém o monopólio da força legítima, comandando os fluxos 
internos de sua sociedade. Esse é aceito legal e legitimamente nas 
suas relações domésticas pela sua sociedade. 
FIGURA 6 – OS TRÊS ASPECTOS MATERIAIS DO ESTADO
Fonte: O autor
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
23
A Federação Iugoslava ou antiga Iugoslávia originou-se após a Primeira Guerra 
Mundial, a partir de territórios que faziam parte dos Impérios Austro-Húngaro e Turco-
Otomano. Era composta por diferentes povos: croatas, eslovenos, sérvios, muçulmanos, 
albaneses, macedônios, entre outros. Esses povos tinham diferentes características culturais, 
como a língua, os hábitos e a religião, tão específicos que chegaram a entrar em conflito 
várias vezes no decorrer da história. Estes conflitos geraram os seguintes estados: Eslovênia, 
Croácia, Macedônia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Sérvia e Kosovo (este último é um 
Estado de reconhecimento limitado, sendo que somente 111 dos 193 países que pertencem 
a ONU reconhecem sua independência) (TUCKER; ROBERTS, 2005).
IMPORTANTE
Nesse contexto, os Estados possuem prerrogativas privativas e inerentes 
a suas condições, remetendo-os como principais “engrenagens” das Relações 
Internacionais. Dentre essas prerrogativas têm-se: população permanente, 
território reconhecido, governo aceito e exercício de soberania interna e externa. 
Assim, o sistema estatal instrumentaliza o conceito de summa potestas (soberania). 
A soberania reflete o exercício pleno, efetivo e de direito de poder decretar 
guerra e celebrar a paz com outros Estados. Também, de ter representação diplomática 
e consular, de celebrar tratados, de solicitar prestação jurisdicional em tribunais 
internacionais e de representar e ser representado em instâncias multilaterais com 
exercício de voto, de voz e de agenda. Em suma, O Estado é uma macro projeção dos 
indivíduos, de suas instituições e seus processos internos e com relação ao exterior 
que estão tutelados sob sua summa potestas (CASTRO, 2012, p. 110). 
A Figura 7 apresenta um esquema com os quatro elementos constitutivos do 
Estado: População permanente adstrita ao jus dominium próprio, reconhecimento 
(interna e externamente), Governo aceito e Soberania interna e externa. 
FIGURA 7 – ESQUEMA SINTÉTICO SOBRE OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO
FONTE: CASTRO, 2012, p. 111
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
24
A Convenção Interamericana de Direitos e Deveres dos Estados firmada 
em Montevidéu, em 1933, entende que a população de determinado Estado 
representa a coletividade de indivíduos, nacionais e estrangeiros, que habitam 
o território em determinado momento. Essa expressão demográfica, como 
mencionada na primeira parte do capítulo está ligada ao seu jus dominium (direito 
de governar). Ou seja, dentro do território, o governo tem sua autonomia de 
gestão política, institucional e poder de polícia. 
O reconhecimento do Estado conjuntamente com o começo das relações 
diplomáticas bilaterais é de real significância para o surgimento e confirmação 
do Estado. Trata-se de uma concretização da aceitação da personalidade jurídica 
internacional não só para o Estado que reconhece como para todos os demais no 
âmbito multilateral das organizações internacionais. Representa o início dos atos 
com fé pública do novo Estado, revelando sua existência e sua oficialidade como 
ator internacional. Tal ação discricionária, unilateral e soberana no reconhecimento 
dos Estados preexistentes aos novos, representa uma prerrogativa política de cada 
Estado individualmente (CASTRO, 2012). O reconhecimento do Estado pode ser 
explícito ou implícito, individual ou coletivo:
• O reconhecimento explícito se dá por nota, declaração ou acordo diplomático 
do Estado já existente ao novo Estado.
• O reconhecimento implícito pode ocorrer através de tratado comercial ou 
envio de representação diplomática mútua entre os Estados pactuantes.
• O reconhecimento individual se dá através de uma relação bilateral ou 
unilateral de um país independente ou liberto do jugo colonial.
• O reconhecimento coletivo quando um grupo de novos Estados passa a ser 
reconhecido por uma organização internacional ou por um único Estado.
Duas questões estão, diretamente, associadas ao reconhecimento de novos 
Estados: a retroatividade e a irrevogabilidade (MELLO, 2002). 
• Princípio da retroatividade: o reconhecimento de um Estado é válido desde o 
momento em que ele surgiu e não pode ser suspenso. 
• Princípio da irrevogabilidade: uma vez aceito o novo Estado, não se pode mais 
retirar o reconhecimento deste, pois produziria uma enorme instabilidade nas 
relações interestatais.
A seguir se tem um exemplo do reconhecimento do Estado Palestino com 
fronteiras anteriores ao ano de1967 por parte do Estado brasileiro, que ocorreu 
em 3 de dezembro de 2010. Este reconhecimento foi explícito por meio de carta 
oficial enviada pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chefe de Estado 
Mahmoud Abbas:TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
25
A Sua Excelência 
Mahmoud Abbas 
Presidente da Autoridade Nacional Palestina 
Senhor Presidente, 
Li com atenção a carta de 24 de novembro, por meio da qual Vossa 
Excelência solicita que o Brasil reconheça o Estado palestino nas fronteiras de 1967. 
Como sabe Vossa Excelência, o Brasil tem defendido historicamente, 
e em particular durante meu Governo, a concretização da legítima aspiração 
do povo palestino a um Estado coeso, seguro, democrático e economicamente 
viável, coexistindo em paz com Israel. 
Temos nos empenhado em favorecer as negociações de paz, buscar a 
estabilidade na região e aliviar a crise humanitária por que passa boa parte do 
povo palestino. Condenamos quaisquer atos terroristas, praticados sob qualquer 
pretexto.
Nos últimos anos, o Brasil intensificou suas relações diplomáticas com 
todos os países da região, seja pela abertura de novos postos, inclusive um 
Escritório de Representação em Ramalá; por uma maior frequência de visitas 
de alto nível, de que é exemplo minha visita a Israel, Palestina e Jordânia em 
março último; ou pelo aprofundamento das relações comerciais, como mostra 
a série de acordos de livre comércio assinados ou em negociação.
Nos contatos bilaterais, o Governo brasileiro notou os esforços bem-
sucedidos da Autoridade Nacional Palestina para dinamizar a economia da 
Cisjordânia, prestar serviços a sua população e melhorar as condições de 
segurança nos Territórios Ocupados. 
Por considerar que a solicitação apresentada por Vossa Excelência é justa 
e coerente com os princípios defendidos pelo Brasil para a Questão Palestina, o 
Brasil, por meio desta carta, reconhece o Estado palestino nas fronteiras de 1967.
Ao fazê-lo, quero reiterar o entendimento do Governo brasileiro de 
que somente o diálogo e a convivência pacífica com os vizinhos farão avançar 
verdadeiramente a causa palestina. Estou seguro de que este é também o 
pensamento de Vossa Excelência. 
O reconhecimento do Estado palestino é parte da convicção brasileira 
de que um processo negociador que resulte em dois Estados convivendo 
pacificamente e em segurança é o melhor caminho para a paz no Oriente Médio, 
objetivo que interessa a toda a humanidade. O Brasil estará sempre pronto a 
ajudar no que for necessário.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
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Desejo a Vossa Excelência e à Autoridade Nacional Palestina êxito na 
condução de um processo que leve à construção do Estado palestino democrático, 
próspero e pacífico a que todos aspiramos. Aproveito a ocasião para reiterar a 
Vossa Excelência a minha mais alta estima e consideração.
Palácio do Planalto, 1° de dezembro de 2010.
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República Federativa do Brasil
FONTE: <http://ramala.itamaraty.gov.br/pt-br/carta_de_reconhecimento.xml>. Acesso em: 
12 nov. 2019.
O reconhecimento interno do Estado está baseado na legitimidade em que 
sua população passa a reconhecer tanto o território e o governo que se instaura 
sobre ela. Esse tipo de reconhecimento é tão importante quanto o reconhecimento 
externo, pois é um fator essencial para que as atividades políticas possam se 
desenvolver dentro do território. Voltando ao caso da Ex-Iugoslávia, verifica-se 
que o processo de desmantelamento do Estado se deu em função dos conflitos 
multidimensionais entre os povos que foram vinculados naquele território. As 
questões étnicas e religiosas acabaram por não permitir uma identidade comum 
e o não reconhecimento do Estado da Iugoslávia por sua própria população, 
ocasionando um sucessivo processo de desmembramento de outros Estados que 
queriam sua independência política.
FIGURA 8 – ANTIGA IUGOSLÁVIA E A SEPARAÇÃO DE NOVOS ESTADOS
FONTE: <https://www.colegioweb.com.br/wp-content/uploads/2014/06/Iugoslavia.jpgl>. 
Acesso em: 18 de out. 2019. 
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
27
Outro elemento constitutivo do Estado é o Governo aceito, ou seja, 
a legitimidade do poder exercido pelo governo que é delegado pelo povo 
aos seus representantes eleitos. Esse elemento está intimamente ligado ao 
elemento soberania. O Governo aceito representa um conjunto complexo de 
funcionalidades imprescindíveis para a conservação das determinações jurídicas 
e da administração pública (ORIHUELA, ).
Existe diferença entre reconhecimento de Estado e de governo aceito. Os 
governos (forma regiminis) são dinâmicos a partir de condicionantes eleitorais 
domésticos, espelhando a pluralidade das forças partidárias dos Estados. Por sua 
vez, os Estados (forma imperi) como pessoa jurídica de Direito Público, permanece 
de forma perene, embora se reconheça, na doutrina do Direito Internacional, a 
sucessão e a extinção de Estados bem como sua união real e pessoal, transformando, 
substancialmente, sua existência, sua continuidade e sua personalidade jurídica 
perante o cenário internacional (CASTRO, 2012).
Assim, com essa breve introdução do principal ator internacional, o 
Estado e seus elementos constitutivos, passa-se a verificar no próximo capítulo 
importantes componentes que irão modelar as ações dos Estados dentro do 
Sistema Internacional.
2 COMPONENTES MODELADORES DO COMPORTAMENTO 
DOS ESTADOS
Para verificar como os Estados se comportam no Sistema Internacional, 
não se pode estudar o Estado como um “ser” independente, pois sobre ele se 
insere uma variedade de necessidades e circunstâncias que irão modelar seu modo 
de agir e inter-relacionar. Desta maneira, é preciso considerar as diversas forças 
vinculadas à governabilidade e as decorrentes transformações internacionais 
advindas de cada atividade política no Estado. Assim, destacam-se neste 
subtópico três forças principais: os Partidos Políticos, os Grupos de Interesse e a 
Opinião Pública nacional e internacional. 
FIGURA 9 – COMPONENTES MODELADORES DO COMPORTAMENTO DOS ESTADOS
Fonte: O autor
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
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2.1 OS PARTIDOS POLÍTICOS
No interior da estrutura institucional dos Estados, os Partidos Políticos 
representam elementos organizados da ação política que tem a tarefa de representar 
os anseios da sociedade civil. Esses partidos, por meio das eleições disputam as 
vagas de poder, representando constantes e permanentes fóruns de negociação. 
Eles têm a capacidade de influenciar a formação de políticas públicas e tomada 
de decisão em dada sociedade. Os Partidos Políticos são os mediadores entre o 
poder público e a sociedade, sendo considerados como “agentes da conquista 
e exercício do poder político” (MERLE, 1981, p. 228). Ou seja, são fatores extra 
institucionais que estão numa posição privilegiada (PECEQUILO, 2010).
Os Partidos Políticos têm diferentes características ideológicas e, 
consequentemente, prioridades almejadas. Além da força, a ação dos partidos 
políticos está relacionada à condição das regras do sistema partidário e do jogo de 
poder dentro dos Estados. Sua atuação se dá mais no ambiente doméstico, porém 
também atuam na agenda internacional, de acordo com os anseios da população 
interna, que lhes confere poder.
As questões internacionais são recorrentes quando estas produzem 
significativo impacto dentro do Estado ou quando são úteis para o interesse da 
ampliação do poder de um partido.
Motivados pelos grandes temas da agenda internacional na década de 
1980, os partidos passaram a se interessar pelas relações internacionais 
brasileiras. Começa-se a buscar explicações para essa mudança 
comportamental dos partidos. De atores marginalizados, os partidos 
políticos passam a atores-chave no processo de discussão e formulação 
da política externa atual (MESQUITA, 2012, p. 151).
Alguns exemplos de como os partidos tendem a politizar nas relações 
internacionais, se aproximando dos assuntos de política externa têm-se os casos de 
oposição e defesada participação do Brasil na crise de Honduras, a tentativa de atuar 
como mediador nas questões nucleares iranianas; o tema dos direitos humanos; as 
discussões englobando a expansão do Mercosul etc. (MESQUITA, 2012).
Em regimes democráticos, os partidos políticos exercem sua função de 
maneira a permitir que dentro do Estado ocorra uma alternância de poder, que 
Castro (2012, p. 132) chama de uma “oxigenação na alternância de poder do 
Estado”. Ou seja, os partidos políticos aglomeram iniciativas e ideários comuns 
sobre projetos estatais e plataformas políticas de seus interesses e com isso, há 
uma possibilidade cíclica de uma renovação no exercício do poder. Em suma, todo 
partido político deseja conquistar o poder político e exercê-lo em consonância 
com seus ideais, prolongando sua permanência ao máximo do exercício de suas 
atribuições (DUVERGER,1970).
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
29
Por outro lado, também existe uma dinâmica específica em sistemas 
autoritários. Esses regimes, geralmente, tem uma censura considerável que inibe 
o livre exercício partidário, materializando frequentemente um único partido. 
É compreensível que nesses sistemas autoritários haja o sufocamento da livre 
iniciativa de associação partidária. E ainda, quando há um direcionamento de 
vinculação partidária nesses regimes autoritários, essa se dá por meio de rebeliões 
e guerras civis visando à modificação do status quo (CASTRO, 2012).
Status quo é uma expressão do latim que significa “estado atual”. Neste sentido, 
quando se diz que “devemos manter o status quo”, significa que a intenção é manter o atual 
cenário, situação ou condição.
NOTA
Os partidos políticos representam grupos que são ouvidos em matérias 
complexas como renegociação de dívida externa, negociações comerciais, políticas 
de desarmamento, questões ambientais etc. Ou seja, os partidos políticos não 
estão à margem da formulação e da execução das políticas externas do Estado, 
mas atuam como influenciadores na tomada de decisão do governo vigente e a 
nova postura de ações consonantes com o Congresso e o poder executivo.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
30
Você sabe quantos partidos políticos existem atualmente no Brasil?
O Brasil tem hoje 35 partidos registrados no TSE e um total de 75 partidos políticos em 
processo de formação. Isso significa que essas legendas já obtiveram um mínimo de 101 
fundadores e comunicaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que estão devidamente 
registradas como pessoa jurídica no cartório de registro civil.
E quantos partidos políticos existem nos Estados Unidos da América?
O sistema político-partidário atual dos Estados Unidos é o bipartidarismo; dominado 
pelos partidos Republicano e Democrata. Esses dois partidos ganharam todas as eleições 
presidenciais no país desde o pleito de 1852. Eles têm se revezado no controle do Congresso 
desde 1856. No entanto, Os Estados Unidos possuem mais de 30 partidos organizados em 
seu território. Muitos deles são irrelevantes, outros focam em temas específicos, como 
partidos de liberalização da maconha, outros mais relevantes como o Partido Libertário e 
o Partido Verde e, apesar do macarthismo, o país possui um partido comunista organizado 
em seu interior (MAYER, 2019).
FONTES: <http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2019/Janeiro/brasil-tem-75-
partidos-politicos-em-processo-de-formacao>; <https://www.pragmatismopolitico.com.
br/2016/11/estados-unidos-possuem-2-partidos.html>. Acesso em: 18 out. 2019.
INTERESSANTE
2.2 OS GRUPOS DE INTERESSES E A OPINIÃO PÚBLICA 
NACIONAL E INTERNACIONAL
Também exerce influência nas relações internacionais dos Estados os 
chamados Grupos de Interesses. Esses seriam grupos privados com objetivos 
próprios, que usam sua influência frente aos partidos políticos e governos na 
busca por benefícios.
Os grupos de interesses aprovam ou desaprovam as diversas ações 
governamentais de acordo com os seus objetivos, influenciando a política externa 
do Estado. Fazem parte dessa categoria os grupos ideológicos com interesses 
diversos, como busca pela paz mundial, veganismo, racismo, proselitismo 
religioso etc. A militância é a palavra-chave que move a ação desses atores, 
fazendo pressão sobre os governos e provocando ações de aproximação ou 
afastamento diplomático entre Estados e demais grupos. Nos Estados Unidos da 
América, por exemplo, existem grupos a favor e contrários da aproximação das 
relações socioeconômicas e políticas com Cuba. Dependendo das circunstâncias 
e o partido que está no poder, os EUA respondem de forma diferenciada a esses 
grupos (PECEQUILO, 2010).
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
31
No estado da Flórida, Sudeste dos Estados Unidos, há um significativo número 
de cubanos exilados, sendo que a política local representa uma postura muito mais propensa 
ao embate contra o atual governo Cubano.
ATENCAO
Os grupos de interesses funcionam como facções de interesses particulares 
que atuam sobre um determinado Estado. Algumas vezes, não são condizentes 
com os objetivos da nação, sendo passíveis de manipulação, de sofrerem pressões 
e recorrerem às trocas internas que maximize os seus interesses. “Diferentes 
grupos possuem diferentes interesses que, em princípio são organizados 
hierarquicamente no campo das decisões políticas e muitas vezes escondem-se 
atrás do que se define como interesse nacional” (KEOHANE; NYE, 1989, p. 155).
No entanto, os grupos de interesse têm sua influência duradora associada 
aos valores democráticos, com capacidade de barganha e de voz, possibilitados 
nesse regime. O próprio desequilíbrio de poder entre os grupos dentro do Estado 
faz com que os interesses dos que tem uma maior capacidade de força e pressão 
ditem a agenda política nacional. É interessante notar que a mesma condição 
democrática que permite a participação dos grupos de interesse faz com que esses 
grupos violem o ideal da igualdade democrática e gerem resultados coletivos 
deficitários (SANTOS, 2011). 
Por sua vez, nos regimes autoritários, a incapacidade de questionamento, 
ou seja, de manifestação da sociedade civil em relação aos atos do governo nacional 
é limitada. Essa limitação não se resume ao exercício livre da imprensa, da atuação 
dos sindicatos e de demais entidades não governamentais de monitoramento do 
Estado. Os grupos de interesse são subjugados e muitas vezes dão a impressão de 
não existirem no modelo de um regime autoritário.
Correlacionado aos grupos de interesse, tem-se a atuação de um elemento 
de mesma grandeza segundo a importância na governabilidade e atividade 
política no Estado, a opinião pública. Alguns autores não consideram a opinião 
pública como um elemento influenciador da governabilidade em si, mas o 
resultado ideológico de uma situação ou processo social dentro do Estado. Não 
obstante o crescimento do seu papel na política doméstica é inegável, sendo 
fortalecida pela evolução dos meios de comunicação.
Assim, a opinião pública passa a ter uma abrangência que transpõe o cenário 
nacional, traçando uma rede de relacionamentos em nível global, conectando os 
diversos Estados. Isso remete a chamada Opinião Pública Internacional. Essa força 
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
32
influenciadora do processo de governabilidade e porque não dizer governança 
(abrangência transnacional), é formada por três elementos: governos; opiniões 
públicas nacionais; e os grupos ideológicos (PECEQUILO, 2010).
• Governos: trata-se da opinião oficial do Estado. O órgão competente sobre 
determinado assunto é escolhido por uma maioria e expressa a ideologia dessa 
coletividade. 
• Opiniões Públicas Nacionais: trata-se de uma espécie de consenso trazido pela 
mídia, os valores culturais e ideológicos e os problemas ou affairs presentes nos 
Estados.
• GruposIdeológicos: movimentos organizados juntos da população em nome 
de uma causa específica ou cobrando um posicionamento político por parte 
dos governos sobre determinadas situações nacionais e/ou internacionais.
Destarte, “a opinião pública internacional não atua com autonomia no 
cenário mundial, pois depende dos fatores mencionados” (PECEQUILO, 2010, 
p. 55). A legitimidade da opinião pública advém da sua expressão por meio do 
Governo. Referente às opiniões públicas nacionais, tem-se o ponto fraco, devido 
a inconstância das posições dentro do cenário nacional. Essa inconstância se dá 
pela “manipulação” que a população sofre pela mídia, não tendo uma visão clara 
do cenário nacional, construindo sua opinião moldada e manobrada conforme o 
interesse de quem domina os meios de comunicação.
Nesse contexto, percebe-se que em meio aos diferentes assuntos e 
interesses de grupos dentro dos Estados, há consequentemente muitas disputas 
e conflitos de opiniões e ideologias. Então, a opinião pública nacional não é um 
ator autônomo, mas sim o derivado das opiniões e ideologias que podem ser 
consonantes ou divergentes (PECEQUILO, 2010).
As opiniões se atêm aos temas e tópicos com maior repercussão ou que 
chama mais a atenção da população nacional. Geralmente, esses temas não tem 
uma análise tão profunda e por isso tendem a durar pouco, caracterizando sua 
volatilidade e dispersão (PECEQUILO, 2010).
Após verificar os elementos que compõe o comportamento do Estado no 
ambiente internacional, passa-se a pensar a dimensão e as capacidades desse ator 
internacional. Assim, a próxima seção deste tópico se refere aos recursos de poder 
do Estado e sua influência nas relações Internacionais.
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
33
3 OS ESTADOS E OS RECURSOS DE PODER
Nas Relações Internacionais, o poder representa um meio e um fim que 
define uma relação de dominação entre dois ou mais sujeitos. Trata-se de uma 
relação de autoridade e subordinação entre os diferentes atores, no intuito de 
conduzir o comportamento de um sobre o outro e garantir a maximização dos 
interesses daquele que tem a capacidade para tal.
O poder no sentido restrito está ancorado nos vários cenários do 
estudo tradicional da ciência política contemporânea envolvendo 
os órgãos do Estado em todos os seus níveis, e fora dele, com direto 
interesse e conjugação. Em segundo lugar, é necessário, por meio da 
diferenciação acima, estabelecer mecanismos que possibilitem seu maior 
conhecimento, atrelando-o às Relações Internacionais, desenvolvendo, 
assim, uma capacidade de sua mensuração e adequação científica por 
meio de índices de poder (CASTRO, 2012, p. 163).
Neste livro, optou-se pela definição de poder voltada para o cenário 
político-decisório internacional “a capacidade de influenciar o ambiente 
circundante na maneira como se assim prefere e determina” (ROSATI, 1993, p. 
95). Ainda, “no campo das relações internacionais, poder é a capacidade que tem 
uma unidade política de impor sua vontade aos demais. Em poucas palavras, 
poder político não é um valor absoluto, mas uma relação entre os homens” 
(ARON, 2002, p. 101).
Neste contexto, o poder pode ser exercido por duas maneiras: a violência 
(sustentada pela força física) ou pela racionalidade (baseada pelo convencimento). A 
primeira maneira, a violência, “o poder como essência e como matéria e seu dinamismo 
voraz trazem em si as sementes das várias formas de dominação e de controle sobre os 
indivíduos, sobre resultados esperados utilitariamente e sobre instituições no campo 
doméstico e no exterior” (CASTRO, 2012, p. 162). Ou seja, pela capacidade bélica, 
política ou econômica um Estado exerce sua superioridade na coação dos outros. A 
outra face do poder se dá pela racionalidade dos Estados, ou seja,
[...] são afetados por constrangimentos dos mais diversos que 
amoldam ou alteram essa racionalidade decisória e processual. [...] os 
policy makers estatais — processam e tomam decisões políticas na arena 
internacional com base em uma miríade de influências simultâneas 
internas e externas [...] sendo, vários jogos simultâneos em múltiplos 
tabuleiros de xadrez da esfera internacional (CASTRO, 2012, p. 104, 
grifo do original).
Nessa perspectiva, o poder materializado pela racionalidade dos Estados 
diz respeito à conformidade de suas crenças sobre as suas próprias capacidades 
e dos outros na conquista dos melhores resultados em suas múltiplas e incertas 
relações. Nesse processo, as alianças são traçadas e o convencimento do outro de 
suas capacidades de ajudar ou subjugar irão estabelecer a relação de poder entre 
os Estados.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
34
O conceito básico de poder é a capacidade de influenciar os outros para 
que façam o que você quer. Basicamente, há três maneiras de se fazer 
isto: uma delas é ameaçá-los com porretes; a segunda é recompensá-los 
com cenouras; e a terceira é atraí-los ou cooptá-los para que queiram 
o mesmo que você. Se você conseguir atrair os outros, de modo que 
queiram o que você quer, vai ter que gastar muito menos em cenouras 
e porretes (NYE, 2004, p. 10)
 
Faz-se necessário diferenciar o poder potencial do poder real no que se 
refere à posse e a conversão dos recursos de poder (PECEQUILO, 2010):
• Poder potencial: “Qualquer recurso que exista em estado bruto, não podendo 
ser utilizado. Trata-se do poder que existe, mas que ao não ser transformado 
em algo prático, não agrega valor ou capacidade” (PECEQUILO, 2010, p. 57). 
Exemplo: reservas de petróleo sob o solo de determinado Estado que não 
utiliza ou não tem tecnologia de extração. Esse Estado tem um poder potencial 
de produção de petróleo, mas que por qualquer motivo não exerce tal poder.
• Poder real: “Esse é determinado pela capacidade de conversão, sendo possível 
sua utilização para o exercício do domínio ou projeção. Quanto mais eficiente 
for a conversão de poder potencial em poder real, maior será a possibilidade de 
um Estado agir no sistema internacional” (PECEQUILO, 2010, p. 58). Exemplo: 
os países do Oriente Médio, produtores de petróleo converteram seu poder 
potencial (reservas de petróleo) em poder real (capacidade de extração e venda 
do recurso).
Por sua vez, o poder também pode ser diferenciado de acordo com a posse 
e a utilização dos recursos. Essa distinção dos tipos de recursos de poder se dá em 
hard power e soft/cooptive power.
• Hard power: tradução literal de “poder duro”, trata-se dos recursos de 
poder tradicionais, percebidos e sentidos sem dificuldade. É a capacidade 
de um Estado influenciar ou exercer poder sobre o comportamento de outro, 
mediante o emprego de recursos bélicos e econômicos. Exemplos: “Geografia 
de um país, a sua localização e natureza das fronteiras (se são pacíficas ou 
conflituosas), a população de um Estado, referente a sua organização interna e 
estabilidade, quantidade e distribuição (...) recursos militares, matérias-primas 
e a capacidade industrial instalada” (PECEQUILO, 2010, p. 58).
• Soft/cooptive power: poder “suave” e de cooptação (admissão ou aceitação) 
refere-se aos elementos intangíveis e que não podem ser percebidos na prática. 
Este se dá por meio do convencimento, das ideias, da diplomacia, da cooptação, 
ideologia, tecnologia e a cultura.
Por fim, os Estados podem ser classificados de acordo com seus recursos 
de poder: superpotências, potências regionais e papel local (MERLE, 1981; 
PECEQUILO, 2010).
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
35
As superpotências (também chamadas de potências mundiais ou globais) são 
aqueles Estados que possuem a capacidade e controle tanto do hard power quanto do 
soft power. Essas possuem recursos capazes de exercer poder de maneira significativa 
no sistema internacional. Neste caso, não é apenas a quantidade de recursos 
empregados, mas a qualidade dos mesmos em permitir com que os outros Estadoslhe percebam como um ator de superioridade dentro das relações internacionais.
Na medida em que os Estados consigam controlar os recursos de poder, 
diminui-se a sua dependência frente aos outros Estados dentro do Sistema 
Internacional, firmando sua maior autonomia. Numa tentativa de exemplificação 
dessa situação de dominação por meio da quantidade e qualidade dos recursos, 
Pecequilo (2010) descreve a comparação entre três Estados: EUA, Brasil e Japão.
Segundo a autora, tanto o Brasil quanto os EUA possuem uma grande 
quantidade de recursos do tipo hard power, aqui citando o território e a quantidade 
de matérias-primas. Por sua vez, no Japão esses tipos de recurso são restritos 
e muito menores que nos outros Estados citados. No entanto, a capacidade de 
conversão desses recursos pelo Brasil é muito menor que a do Japão e dos EUA, 
tendo que exportar os seus recursos de hard power para outros Estados. Dessa 
forma, os Estados Unidos possuem uma elevada capacidade de conversão dos 
recursos hard e um amplo conjunto de recursos soft. O resultado desta rápida 
análise mostra que a hegemonia se apresenta ao ator que tem tanto o poder 
da força, quanto o da racionalidade, conferindo-lhe o status de liderança e 
consequentemente de superpotência.
Dotados destes recursos e condição, as potências mundiais terão como 
fundamento de sua ação o avanço de seus interesses e o comando 
do sistema, projetando poder globalmente. Tal projeção permitirá 
que estes países influenciem diretamente os fluxos e fenômenos do 
sistema, interferindo na política mundial de forma a alcançar seus 
interesses e maximizar sua posição de liderança. Estando no topo da 
hierarquia de poder, estes países dominarão os demais pertencentes 
à ordem, estabelecendo-se entre eles uma relação de subordinação. 
A hegemonia, assim, controlará o cenário, ditando o ritmo de seus 
processos sociais, políticos e econômicos (PECEQUILO, 2010, p. 60).
Como mencionado, os EUA ainda exercem um papel de hegemonia no 
sistema internacional, assumindo a supremacia do status de Superpotência depois 
da Guerra-Fria em 1989. Não obstante, o que se pode presenciar é a progressão do 
poder da China que tem se despontado como uma futura superpotência. Claro, 
que está aqui se tratando de uma especulação, ou melhor, uma prospecção de um 
futuro de substituição ou coexistência de poderes hegemônicos. Porém o que não 
se pode negar é a premissa que o status quo de hegemonia é mutável.
Antes dos EUA estarem na atual posição de liderança hegemônica, 
havia uma coexistência hegemônica com a extinta URSS (União das Repúblicas 
Socialistas Soviéticas ou União Soviética) até 1989. Essa coexistência nasceu do pós-
guerra em 1945 devido ao estado de devastação em que a Europa se encontrava. 
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
36
Anterior a esse período, tinha-se a Grã-Bretanha como ator hegemônico desde 
o Século XIX, quando se iniciou a revolução industrial. No século XVIII o ator 
hegemônico era a França, no século XVII a Holanda e Portugal e Espanha nos 
séculos XV e XVI.
O que se quer chamar a atenção aqui é que a história mostra que sempre 
houve uma alternância das superpotências no sistema internacional. Estas são 
superadas por seus rivais por meio de guerras ou mesmo por transições pacíficas. 
Paul Kennedy (1991) chama esse fenômeno de ascensão e queda das grandes 
potências. O autor considera tal fenômeno como um ciclo em que todas as 
superpotências passam pelos estágios de amadurecimento, domínio e declínio.
Paralelo a essa ideia, Giovanni Arrighi (1996 apud BRUSSI, 2011) trabalha 
a proposição, expansão e retração na evolução das hegemonias dentro do sistema 
internacional. Então, existe uma fase de expansão da produção e do comércio, 
resultando na financeirização e acumulação. Nesse momento o Estado acumula 
mais poder do que os outros, tornando-se, portanto, hegemônico. Por sua vez, 
“o declínio cíclico da hegemonia enseja um período de dispersão de poder e 
competição entre os países rivais centrais no sistema” (LOBATO; AMIN, 2015, p. 
176).
Por sua vez, as potências regionais são classificadas em Nível I e Nível II. 
Os Estados de Nível I são aqueles que possuem uma projeção de poder limitado a 
determinada região, combinando um certo grau de recursos hard e soft. Entende-
se que tais Estados já assumiram no passado algumas importantes posições de 
líderes no sistema internacional (ou tentaram fazê-lo por meio da força). Essas 
tentativas do passado geraram alguma influência residual, mas que não ameaçam 
a hegemonia da superpotência.
Os Estados de Nível I possuem um patamar de desenvolvimento 
socioeconômico e político mais homogêneo e um grau tecnológico mais avançado. 
Compreendem a este grupo de Estados: a Inglaterra, a França, a Alemanha e o Japão. 
“Tais países detêm um elevado nível de autonomia, muitas vezes concentrando 
seus recursos mais no campo econômico do que militar (o que representa um dos 
impedimentos a sua projeção global)” (PECEQUILO, 2010, p. 62).
As potências regionais de Nível II são aqueles Estados que exercem uma 
projeção regional com um potencial de desenvolvimento menor que os Estados de 
Nível I. Esses Estados, na sua maioria foram colônias no passado, subordinadas às 
potências do Nível I. Em determinada época conseguiram sua autonomia, que, devido 
a sua situação tardia, acumularam características de subdesenvolvimento e problemas. 
Dentre esses países estão: Brasil, China, México, Índia, Nigéria entre outros.
TÓPICO 2 | O ESTADO – PRINCIPAL ATOR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
37
Referem-se a nações sem condição de consolidar uma maior atuação 
política mundial, limitando-se a uma área de influência regional. 
Seu poderio depende da combinação do hard e soft power, somadas 
a sua estabilidade interna e à de sua região, na qual podem existir 
desequilíbrios e disputas estratégicas. Algumas classificações também 
os denominam de grandes países periféricos, potências médias, 
baleias, continentais ou países emergentes (PECEQUILO, 2010, p. 63, 
grifo do original).
Essas potências regionais de Nível II possuem um desenvolvimento 
maior que a das nações pequenas, devido seus recursos, mas também podem 
estar subordinados aos atores mais poderosos, limitando sua atuação e alcance de 
poder. Dentro dessa classificação, obviamente alguns Estados tem um destaque 
maior devido sua capacidade bélica e tecnológica, como é o caso da China e da 
Índia. Não obstante, sua capacidade de maior barganha. Esses Estados possuem 
uma série de problemas e características socioeconômicas que os impede de uma 
maior projeção no sistema internacional.
É incontestável que a China tem alcançado cada vez mais sua autonomia 
no Sistema Internacional. Isto se dá porque se apresenta como um “Grande 
Estado Periférico”.
[...] de grande população e de grande território, não inóspitos, 
razoavelmente passíveis de exploração econômica e onde se 
constituíram estruturas industriais e mercados internos significativos, 
sendo que, o desenvolvimento de todas potencialidades traria efeito 
notável sobre a capacidade econômica e o potencial militar e, em 
consequência, sobre a capacidade de exercer influência Política nos 
âmbitos regional e mundial (GUIMARÃES, 1999, p. 23).
Por fim, os Estados com papel local têm uma relação limitada na busca 
da preservação de sua existência política e territorial. São Estados com poder 
relativamente limitado, atuando no sistema internacional de maneira condicionada 
aos demais atores estatais mais relevantes e com maior autonomia. Esses tendem 
a se alinhar às superpotências e às potências regionais para aumentar suas 
capacidades de barganha e garantir o cumprimento de seus interesses. Alguns 
exemplos desses Estados são: Equador, Portugal, Mongólia, Emirados Árabes, 
Sudão e Nova Zelândia.
No próximo tópico serão abordados os outros atores internacionais, no 
âmbito não estatal, tais como as Organizações Internacionais(OIs), as Organizações 
Internacionais Não governamentais (OINGs), as Empresas Transnacionais e 
demais grupos internacionais. 
38
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• Os Estados representam os atores mais importantes das relações internacionais, 
sendo o ponto de partida da inter-relação das dinâmicas além das fronteiras 
territoriais.
• O Estado fundamenta-se em três aspectos materiais: o território, a população e 
o governo.
• Os Estados possuem prerrogativas privativas e inerentes a suas condições, 
remetendo-os como principais engrenagens das Relações Internacionais. Dentre 
essas prerrogativas têm-se: população permanente, território reconhecido, 
governo aceito e exercício de soberania interna e externa.
• O reconhecimento do Estado pode ser explícito ou implícito, individual ou 
coletivo.
• Outro elemento constitutivo do Estado é o Governo aceito, ou seja, a legitimidade 
do poder exercido pelo governo que é delegado pelo povo aos seus representantes 
eleitos. Este elemento está intimamente ligado ao elemento soberania.
• As forças vinculadas à governabilidade e as decorrentes transformações 
internacionais advindas de cada atividade política no Estado são: partidos 
políticos, os grupos de interesse e a opinião pública nacional e internacional. 
• Os Partidos Políticos representam elementos organizados da ação política que 
tem a tarefa de representar os anseios da sociedade civil.
• Os Grupos de Interesses são grupos privados com objetivos próprios, que usam 
sua influência frente aos partidos políticos e governo na busca por benefícios.
• O poder também pode ser diferenciado de acordo com a posse e a utilização 
dos recursos. Essa distinção dos tipos de recursos de poder se dá em hard power 
e soft/cooptive power.
• As superpotências são aqueles Estados que possuem a capacidade e controle 
tanto do hard power quanto do soft power. Possuem recursos capazes de exercer 
poder de maneira significativa no sistema internacional. 
• A as potências regionais são classificadas em Nível I e Nível II. Os Estados de 
Nível I possuem um patamar de desenvolvimento socioeconômico e político 
mais homogêneo e um grau tecnológico mais avançado que as potências 
regionais de Nível II. 
• Os Estados com papel local têm uma relação limitada na busca da preservação 
de sua existência política e territorial. São Estados com poder relativamente 
limitado, atuando no sistema internacional de maneira condicionada aos 
demais atores estatais mais relevantes e com maior autonomia.
39
1 Sobre os três aspectos materiais do Estado, assinale V para as assertivas 
verdadeiras e F para as falsas:
a) ( ) Muitos Estados são formados por uma única nação, conferindo uma 
nacionalidade. No entanto, a maioria dos Estados modernos é formada por 
povos de diferentes nacionalidades não constituindo um grupo homogêneo.
b) ( ) O Brasil é um Estado cuja população é proveniente de diversos povos 
provenientes da Europa, África e Ásia, lhe conferindo diversas nacionalidades.
c) ( ) O governo está relacionado ao espaço geográfico de cada Estado, tendo 
as fronteiras delimitadas e reconhecidas por outros Estados.
d) ( ) O território é representado pela centralização das autoridades do Estado.
e) ( ) Os governos podem mudar e apresentar diferentes formas, variando de 
um lugar para outro.
2 Sobre os componentes modeladores do comportamento dos Estados, associe 
os itens a seguir:
I- Partidos Políticos.
II- Grupos de Interesse.
III- Opinião Pública nacional e internacional.
( ) Representam elementos organizados da ação política que tem a tarefa de 
representar os anseios da sociedade civil.
( ) Grupos privados com objetivos próprios, que usam sua influência frente 
aos partidos políticos e governo na busca por benefícios.
( ) Força influenciadora do processo de governabilidade e porque não dizer 
governança (abrangência transnacional), é formada por três elementos: 
governos; opiniões públicas nacionais; e os grupos ideológicos.
3 Referente à posse e à conversão dos recursos de poder diferencie o poder 
potencial do poder real. 
AUTOATIVIDADE
40
41
TÓPICO 3
OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Após o século XIX, principalmente com a expansão do processo de 
globalização, os Estados continuaram como os principais atores no sistema 
internacional e no sistema mundial. No entanto, o desenvolvimento e a importância 
dos atores não estatais se têm mostrado cada vez mais evidente nas relações 
internacionais. “Na sociedade global, os Estados dividem parte de seu poder com 
outras entidades transnacionais e supranacionais” (MATIAS, 2005, p. 445). Os 
atores não estatais podem ser Organizações Burocráticas Internacionais, ONGs, 
os indivíduos, empresas transacionais, grupos de guerrilheiros (terroristas), 
movimentos sociais, dentre outros.
Um ponto importante, o qual se deve entender sobre os atores não estatais, 
é que estes não podem ser considerados por si só como tomadores de decisão, 
mas irão conduzir a atuação dos Estados para tal.
Os atores não estatais, sejam as organizações empresariais, sejam os 
movimentos e redes de ativismo político, não podem ser considerados 
tomadores de decisão em política externa, muito embora tenham 
capacidade de articulação de interesses e de influência, ou seja, são dotados 
de forte poder de agência. A atuação desses atores amplia a contribuição 
propriamente política dos atores da sociedade para a estruturação da 
política externa do país (OLIVEIRA; MILANI, 2012, p. 368).
Nas próximas seções deste tópico, serão vistos alguns atores não estatais 
como as Organizações Intergovernamentais Internacionais, as Organizações não 
Governamentais, os Movimentos de Libertação Nacional e Oposições Armadas, 
e as Empresas Multinacionais ou Transnacionais.
O impacto das atividades dos atores não estatais está crescendo a tal ponto 
que o papel exclusivo dos Estados nas áreas tradicionais do direito internacional, 
como, por exemplo, legislação e solução de controvérsias, é questionado. No 
entanto, estes não possuem uma personalidade jurídica internacional, não 
podendo ingressar nos processos de criação de normas internacionais ou 
participar das decisões sobre assuntos internacionais, mesmo que sejam capazes 
de influenciar (em diferentes graus) os resultados dos processos sociais no âmbito 
internacional (GARCEZ; FREITAS, 2015).
42
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
2 AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 
INTERGOVERNAMENTAIS (OIS)
Como visto anteriormente, em meados do século XIX, os Estados passaram 
a não deter o monopólio das relações internacionais. Os atores que mais tiveram 
sua importância aumentada desde então foram as Organizações Burocráticas 
Internacionais (OIs). Essas realçam o significado e a disposição dos Estados na 
organização da ordem internacional, agrupando-os em órgãos específicos e de 
vontade comum. Essa iniciativa se dava na tentativa de conseguir uma gestão de 
tarefas e a maximização dos interesses dos Estados.
As primeiras organizações internacionais foram construídas pelas 
comissões fluviais, através do princípio de circulação sobre os rios internacionais, 
estabelecido pelo Congresso de Viena (1814-1815). Tinham autonomia estrutural 
e poder normativo próprio. No entanto, só no final do século XIX que apareceram 
as primeiras Uniões Administrativas de aspecto internacional que prestavam 
serviços públicos. Exemplos são: a Secretaria Internacional do telégrafo (1868), 
a União Geral dos Correios (1874) e a Secretaria Internacional de Saúde (1907) 
(STRENGER, 1998).
O Congresso de Viena consistiu numa Conferência entre embaixadores das 
potências europeias da época, que aconteceu na capital austríaca, entre setembro de 1814 e 
junho de 1815. A intenção do Congresso era a de redesenhar o mapa político do continente 
europeu após a derrota da França napoleônica na primavera anterior.Este congresso 
pretendia também restaurar os tronos das famílias reais derrotadas pelas tropas de Napoleão.
IMPORTANTE
Nesse contexto, uma Organização internacional é uma entidade constituída 
pela vontade comum dos Estados, dotada de órgãos próprios investidos de uma 
certa permanência e encarregada de cumprir as funções de tipo internacional que 
lhe são atribuídas por ato constitutivo (MANIN, 1979). 
Atualmente existe mais de 500 Organizações Internacionais, cada uma 
com uma finalidade diferente (BARRETO, 2007). Em geral, as OIs são dedicadas 
a tarefas especializadas, como, por exemplo a Organização Mundial da Saúde 
(OMS) que foi constituída como fomentadora e protetora da saúde. Outras têm 
a pretensão de enquadrar a sociedade internacional por inteiro, como era a 
Sociedade das Nações (SDN – 1919) que deu lugar a Organizações das Nações 
Unidas (ONU – 1945). Algumas buscam encarnar a solidariedade regional em 
escala continental como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União 
Africana (UA). Também existem aquelas que estimulam a construção de uma 
união política de seus membros como é o caso da União Europeia.
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
43
FIGURA 10 – ASSEMBLEIA GERAL DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
FONTE: <http://twixar.me/G8YT>. Acesso em: 18 out. 2019.
Você sabia que o Brasil sempre é o primeiro país a discursar na Assembleia 
Geral das Nações Unidas? Não existe nenhum texto escrito que traz essa particularidade, 
ou seja, a obrigatoriedade desse ato simbólico não é formalmente institucionalizada, mas 
sim um costume que se manteve desde a segunda reunião da Assembleia Geral. Alguns 
autores acreditam que é porque o discurso do Brasil (considerado como um Estado neutro) 
evitaria as tensões entre os EUA e a URSS na época da Guerra-fria. Outros acreditam que esse 
privilégio seria uma compensação à não participação do Brasil na cadeira permanente do 
Conselho de Segurança da ONU (uma ambição perseguida pelo Itamaraty até os dias atuais).
INTERESSANTE
As Organizações Internacionais surgiram da urgência de encontrar soluções 
para questões internacionais, além da diplomacia tradicional, de maneira a criar 
uma discussão permanente na agenda internacional, funcionando como uma fonte 
mediadora. “Adicionalmente, convertem-se em canais e redes de comunicação 
entre os Estados menos desenvolvidos, garantindo sua autonomia e legitimidade 
política, e um ponto moderador para os mais desenvolvidos, barrando seu avanço 
político e militar sobre os demais” (PECEQUILO, 2010, p. 67).
As OIs possuem um caráter dinâmico, o qual acompanha as mudanças 
políticas no sistema internacional, assim como as necessidades dos Estados-
membros. As organizações internacionais são mais do que a soma de vários 
Estados reunidos. Trata-se de um ambiente com uma dinâmica interna própria com 
autonomia relativa. A ONU, por exemplo, tem suas regras próprias, mas depende 
das contribuições espontâneas para sua manutenção econômica e de infraestrutura.
44
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
2.1 ALGUMAS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS DAS 
ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
As organizações internacionais para existirem, necessitam de uma série 
de artefatos institucionais que lhes permita exercer suas atividades resguardadas 
de legitimidade. Essas devem entre outras prerrogativas possuir um estatuto 
interno, órgãos internos e funcionarem na forma estabelecida pelo tratado de 
criação. Assim, as Organizações Internacionais se mantêm dotadas e passíveis de 
responsabilidade internacional.
Toda organização internacional, para ser considerada como tal, deve 
apresentar, no mínimo, uma Assembleia Geral e Secretariado Permanente (SILVA, 
2008). Segundo o autor, existem outras características que completam a definição 
das organizações internacionais:
• Ordenamento Jurídico Próprio: as Organizações Internacionais devem possuir 
um sistema normativo, que estabeleça uma ordem hierárquica jurídica que 
oriente as ações a luz das normas estabelecidas.
• Personalidade Jurídica de Direito Internacional Público: as Organizações 
podem celebrar tratado em nome próprio, por meio de seus representantes.
• Existência de órgãos próprios e permanentes: para que a Organização 
funcione, deve haver uma estrutura administrativa, com um Conselho, uma 
assembleia e secretarias. 
 ◦ Conselho: órgão executivo no qual as decisões mais importantes são tomadas.
 ◦ Assembleia: a união participativa de todos os membros da Organização.
 ◦ Secretaria: serviço burocrático da organização tais como organização de 
reuniões, arquivamento de documentos etc.
• Poderes próprios: a Organização deve ter poderes para agir, em contrapartida 
os seus Estados-membros devem abrir mão de parte de sua Soberania. 
• Sede própria: toda Organização deve ter sua infraestrutura física própria. 
Ainda, é importante esclarecer que qualquer Estado pode se tornar 
membro de uma organização internacional, desde que esteja comprometido e 
consonante como os objetivos da mesma. Caso o objetivo de uma organização 
seja destinado a determinada delimitação geográfica, os Estados que não tem 
aderência a essa região não poderão fazer parte da mesma. Um exemplo seria a 
incapacidade de o Brasil fazer parte da União Africana (UA), por não pertencer 
ao continente africano. 
Referente à autonomia das organizações internacionais, suas 
personalidades jurídicas internacionais possuem ordem jurídica própria, 
determinando como cada um dos órgãos irá executar suas atividades. Também, 
as organizações internacionais têm o direito de legação, ou seja, a capacidade de 
envio e recebimento de representantes e agentes diplomáticos independentes dos 
Estados membros (CASSANTE, 2015). 
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
45
Ainda que o orçamento da organização internacional dependa da contribuição 
dos Estados-membros, essas instituições burocráticas possuem independência para 
decidir como se irá utilizar os recursos financeiros de acordo com seus procedimentos 
próprios e comprovação de finalidade (MAZZUOLI, 2011).
2.2 FUNÇÕES E ATUAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES 
INTERNACIONAIS
As Organizações Internacionais são designadas para a cooperação entre 
os Estados. Estas não têm soberania e dispõem de competências limitadas, as 
quais são atribuídas aos Estados que lhe criaram. A formação das organizações 
internacionais se dá por tratados internacionais. “Os tratados constitutivos das 
Organizações Internacionais são bastante parecidos com Constituições dos países. 
Os estatutos têm repartição de competência, tem Secretaria Geral e todo o chefe 
de Organização Internacional chama-se Secretário Geral” (BARRETO, 2007, s.p.).
É possível que uma organização já existente crie outra, como é o caso 
da UNCTAD ou CNUCED, Conferência das Nações Unidas para o Comércio e 
Desenvolvimento, que foi criada a partir da Assembleia Geral das Nações Unidas 
(AGNU).
Alguns autores acreditam que essas organizações criadas a partir de outras 
não sejam “verdadeiras organizações”, mas sim órgãos subsidiários.
ATENCAO
O poder de representação estatal não impede que a organização tenha 
existência independente aos Estados-membros. A organização internacional tem 
personalidade jurídica própria, sendo essa um sujeito de direito internacional 
com direitos e obrigações. No entanto, não tem competência geral absoluta como 
os Estados, mas sim funcional de acordo com a finalidade que esta foi criada.
As organizações internacionais têm suas ações limitadas pela existência 
de um domínio reservado reconhecido aos Estados, a soberania. Esses não 
estão dispostos a abandonar seus interesses vitais, contestando muitas vezes 
a competência das organizações Internacionais. “A natureza particular da 
organização, a existência de força coercitiva a sua disposição explica porque os 
poderes se apresentam em princípio sob forma que exclui a decisão obrigatóriae executória [...] quando toca o domínio econômico” (STRENGER, 1998, p. 109, 
grifo nosso). Por sua vez, os Estados são mais dispostos a reconhecer a autoridade 
das organizações quando se trata do domínio técnico.
46
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
Além da questão financeira, o problema se refere essencialmente à 
vontade de os estados respeitarem ou não as regras da OI da qual fazem 
parte, mesmo que eventualmente isso possa significar uma diminuição 
de sua autonomia ou abrir mão de parte de sua soberania. Uma vez 
que permanecem soberanos dentro das Ois e que podem apenas ser 
punidos marginalmente por estes órgãos, também dependendo de sua 
influência dentro deles, os Estados tendem, em situações específicas, 
a fazerem uso da justificativa do interesse nacional para não seguir as 
regras da OI (PECEQUILO, 2010, p. 67).
Neste contexto, alguns Estados tendem a desrespeitar as regras que eles 
mesmos criaram dentro das Organizações Internacionais. Essas regras que foram 
criadas para garantir interesses e benefícios de outrora, são colocadas de lado e 
colocam em risco a integridade e a manutenção da organização.
Nas Organizações Internacionais, o poder de recomendação é uma 
característica comum e intrínseca. Indiferente do campo de alcance da 
organização, do tipo de questão pacífica, da aplicação de um tratado ou a adoção 
de um regulamento, não existe um caráter obrigatório nessas recomendações. 
Em outras palavras, o caráter recomendatório não vincula o Estado à obrigação, 
sendo que esse permanece livre em seu comportamento.
2.3 PRINCIPAIS OBJETIVOS DAS ORGANIZAÇÕES 
INTERNACIONAIS
Dentre a seara de atuação das Organizações Internacionais, pode-se 
elencar estes principais objetivos:
• Atuar em conjunto, de forma cooperativa, para buscar avanços econômicos, 
sociais e políticos para os países membros. Um exemplo é o Programa das 
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que é o órgão da Organização 
das Nações Unidas (ONU) responsável por promover o desenvolvimento e 
erradicar a pobreza no mundo.
• Buscar soluções em comum na resolução de conflitos de interesses entre os 
estados membros. A Organização Mundial do Comércio (OMC) representa um 
bom exemplo na disposição deste objetivo, pois busca resolução de conflitos, 
reforçando a adesão dos participantes aos acordos comerciais sejam quais 
forem seus interesses individuais.
• Estabelecer políticas de cooperação técnica e científica entre os Estados nos 
seus diferentes graus de desenvolvimento. A Comissão de Ciência e Tecnologia 
para o Desenvolvimento (CCTD), um dos comitês subordinados ao Conselho 
Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC) tem essa atribuição e é 
responsável por disseminar os avanços tecnológicos em todo o globo.
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
47
• Estabelecem normas e parâmetros comuns em todo o globo. A Organização 
Internacional para Padronização, ou International Organization for Standardization 
(ISO) é uma organização que congrega os grêmios de padronização/
normalização de 204 países. A ISO estabelece as normas técnicas de basicamente 
todos os campos, sendo a representante brasileira na ISO a ABNT (Associação 
Brasileira de Normas Técnicas).
• Traçar estratégias para resolução de problemas de urgência como, por exemplo, 
guerras e outros conflitos militares. O Conselho de Segurança da ONU é 
responsável pela paz e segurança internacionais.
• Fiscalizar, através de órgãos específicos, o cumprimento das regras estabelecidas 
pelos acordos. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) exerce o papel 
de fiscalizar o cumprimento das normas (convenções e recomendações) 
internacionais sobre as condições de trabalho.
2.4 ALGUMAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
Como forma elucidativa, foram escolhidas algumas outras organizações 
internacionais dentre a extensa gama de instituições em todo o mundo.
• ONU (Organização das Nações Unidas): fundada em 1945 é a maior 
organização internacional do mundo, possuindo como objetivos principais 
a manutenção da paz mundial, respeito aos direitos humanos e o progresso 
social da humanidade.
• OEA (Organização dos Estados Americanos): fundada em 1948, possui 35 
membros. Seus objetivos principais são: a integração econômica, a segurança 
(combate ao terrorismo, tráfico de drogas e armas), combate a corrupção e o 
fortalecimento da democracia no continente.
• OMC (Organização Mundial do Comércio): fundada em 1994, conta com a 
participação de 149 países membros. Atua na fiscalização e regulamentação do 
comércio mundial e administra os acordos comerciais dos Estados.
• FMI (Fundo Monetário Internacional): criado em 1945, tem como objetivos 
principais a manutenção da estabilidade financeira e monetária no mundo, 
o aumento do nível de emprego e a diminuição da pobreza. Conta com a 
participação de 188 nações.
• OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte): criada em 1949, possui 
28 países membros e tem como objetivo principal a manutenção da segurança 
militar na Europa.
• Liga Árabe: fundada em 1945, com objetivo principal de aproximar as relações 
entre os estados membros, coordenar a colaboração entre eles para proteger 
sua independência e soberania, e considerar, de uma forma geral, os negócios 
e os interesses dos países árabes.
48
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
FIGURA 11 – ALGUMAS LOGOS E SÍMBOLOS DE ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
Fonte: O autor
Além das Organizações Internacionais, existem outros atores que não 
estão dentro da área de controle dos Estados e de seus governos. Tais atores são 
chamados de Forças Transnacionais ou Atores Transnacionais. Essas forças tem 
o caráter multifacetado e extraterritorial. Ou seja, agrupam um significativo e 
rápido número de membros e ideias que não estão vinculados ao Estado, tendo 
uma natureza fluida de atuação. Dentre esses atores estão as Organizações 
não Governamentais, as empresas transnacionais e outros grupos associados à 
opinião pública internacional.
3 AS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS 
INTERNACIONAIS (OINGS)
As Organizações Internacionais Não Governamentais (OINGs), também 
denominadas de Organizações não Governamentais Sem Fins Lucrativos são 
associações do terceiro setor e organizadas pela sociedade civil. Essas se declaram 
possuidoras de propósito e com finalidades públicas sem fins lucrativos, 
desenvolvendo ações em diferentes áreas de atuação. As OINGs mobilizam a opinião 
pública e buscam o apoio da população para modificar determinados aspectos 
socioeconômicos das camadas mais fragilizadas da sociedade internacional.
As OINGs são instituições de origem privada, isto é, não 
governamentais, caracterizadas pelo seu caráter espontâneo, solidário 
e formado por indivíduos de diversas nacionalidades. Sua atuação 
estende-se além do poder de alcance da influência governamental 
e do direito internacional. Adotam o sistema jurídico do país 
escolhido para sediá-la devido à falta de outro mais adequado as suas 
necessidades. Atuam assim dentro e fora dos Estados e nascem para 
lidar com questões específicas de interesse dentro de uma determinada 
sociedade, cujas demandas não têm sido adequadamente atendidas 
por este Estado ou pela necessidade de chamar a atenção para um 
tópico particular (PECEQUILO, 2010, p. 72).
Organização das Nações Unidas Tratado do Atlântico Norte
Organização Mundial
do Comércio Fundo Monetário Internacional Liga Árabe
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
49
Geralmente, as OINGs surgem quando há uma determinada preocupação 
sobre alguns temas de significativa comoção pública, como as questões ambientais, 
direitos humanos, saúde pública, refugiados etc. Mesmo não dispondo de uma 
definição jurídica, as OINGs auxiliam os governos sobre esses temas, principalmente 
quando o Estado não consegue suprir todas as necessidadesdas populações.
Um crescimento significativo no número de OINGs se deve aos 
problemas contemporâneos não se manterem dentro das fronteiras nacionais e 
estarem visíveis à muitas pessoas por meio da mídia internacional. “Assim, por 
meio da identificação de um objetivo particular, elas formam grupos compostos 
por pessoas de diversas nacionalidades para dar conta destas demandas” 
(PECEQUILO, 2010, p. 73).
As OINGs se mantêm através de recursos conseguidos por financiamento 
dos governos, empresas privadas, venda de produtos e por meio de doações 
pela população. Muitas vezes a mão de obra que atua nas ONGs é formada por 
voluntariados que se organizam frente à uma comoção social coletiva. Alguns 
exemplos de OINGs:
• Ambientais: 
◦ WWF (Worldwide Fund for Nature) – organização que atual no mundo todo, 
destinada à proteção do meio ambiente; 
◦ Greenpeace – missão de preservação da natureza e conservação da 
biodiversidade.
• Saúde e ajuda humanitária: 
◦ Cruz vermelha/Crescente Vermelho – é um movimento internacional 
humanitário, neutro e imparcial, não vinculado a qualquer Estado, presente 
em aproximadamente 97 milhões de voluntários mundialmente. Seu objetivo 
é proteger a vida e a saúde humana, e prevenir e aliviar sofrimento humano, 
sem discriminação baseado em nacionalidade, raça, sexo, religião, classe 
social ou opiniões políticas; 
◦ Médicos Sem Fronteiras (MSF) – é uma organização humanitária 
internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves 
crises humanitárias.
• Direitos humanos: 
◦ Anistia Internacional – é um movimento global com mais de 7 milhões de 
apoiadores, que realiza ações e campanhas para que os direitos humanos 
internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos. 
50
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
FIGURA 12 – ALGUMAS LOGOS E SÍMBOLOS DE ORGANIZAÇÕES NÃO 
GOVERNAMENTAIS INTERNACIONAIS
Fonte: O autor
4 EMPRESAS TRANSNACIONAIS (ETNS)
As empresas transnacionais também são conhecidas na literatura por 
alguns autores como empresas multinacionais. Essas correspondem a empresas 
que têm sua origem em determinado Estado, mas que sua atuação não está 
delimitada pelas fronteiras nacionais, ou seja, atuam no sistema internacional em 
diversas localidades. As ETNs atuam internacionalmente, apesar de ter uma sede 
originária em um Estado do sistema e filiais em outros.
As Empresas Transnacionais são entidades mercantis que apresentam 
como principal desígnio a expansão de suas atividades além das 
fronteiras dos países em que estão sediadas. Evidentemente que o 
fenômeno da globalização impulsionou a prática de tais empresas, 
sobretudo em razão da facilidade engendrada pelos avanços 
tecnológicos (WINTER; NASSIF, 2016, p. 171).
Este caderno irá utilizar a nomenclatura Empresas Transnacionais ao invés de 
Empresas Multinacionais devido haver uma corrente doutrinária que coloca o segundo 
termo como empresas que buscam “explorar mercados externos sem identificar a sua 
origem, porquanto tornaria mais fácil exercer as suas atividades ao largo das leis do 
país em que estavam se instalando” (CARVALHO FILHO, 2011, p. 91).
Ainda, como mencionado por Celso Albuquerque Mello, o conceito 
multinacional dá uma conotação errada de que a empresas teria muitas 
nacionalidades (MELLO, 1993). Destarte, o conceito mais coerente deste ator não 
estatal é o de Empresa Transnacional, que é explícito pela Conferência das Nações 
Unidas (UNCTAD):
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
51
[...] a Empresa Transnacional (ETN) é geralmente considerada como 
uma empresa que compreende as entidades em mais de um país que 
operam sob um sistema de tomada de decisão que permite políticas 
coerentes e de uma estratégia comum. As entidades são tão ligadas, 
por posse ou não, que uma ou mais delas podem ser capazes de 
exercer uma influência significativa sobre os outros e, em particular, 
partilhar conhecimentos, recursos e responsabilidades com os outros 
(UNCTAD, 2010 apud CARVALHO FILHO, 2011. p. 91).
A importância das ETNs nas relações internacionais é explícita, assumindo 
cada vez uma maior importância no Sistema internacional. Suas receitas muitas 
vezes ultrapassam o PIB de muitos Estados, sendo suas reservas de capital 
maiores do que as de importantes bancos centrais (RAMONET, 1998).
Considerando seu status jurídico e influência no sistema, as ETNs devem 
submeter-se às regras dos Estados nos quais estão instaladas e não de seu Estado 
de origem. Não existe, uma legislação internacional que dê conta do problema 
das ETNs, definindo-se sua situação e atuação a partir de país no qual se instala. 
“Assim, cada ETN estará submetida a um certo padrão de comportamento 
e funcionamento legal, definido pelo local de sua instalação” (PECEQUILO, 
2010, p. 77). Alguns exemplos de Empresas Transnacionais instaladas dentro do 
território brasileiro:
• IBM (Estados Unidos): fundada em 1924, a empresa é voltada para a área de 
informática com mais de 390 mil colaboradores sendo a maior empresa da área 
de TI no mundo.
• Volkswagen (Alemanha): fundada em 1937, a empresa é a maior fabricante 
de automóveis do mundo, tendo sua sede na cidade de Wolfsburg. Em 2015 
possuía mais de 580.000 colaboradores em todo o mundo.
• Fiat (Itália): fundada em 1999, FIAT é um acrônimo de Fábrica Italiana 
Automobilística de Turim", mas também pode significar "faça-se" em Latim. Em 
2013 a FIAT possuía 10 fábricas, 11000 centros de Pesquisa e Desenvolvimento 
e mais de 10 mil empregados.
• Nokia (Finlândia): fundada em 1865, até 1960 produzia pneus e botas de 
borracha, porém em 1963 entrou no mercado de telefonia. Em 2014, a Nokia 
empregava mais de 60.000 pessoas em 120 países, operando em mais de 150 
Estados, com receita anual de mais de12 bilhões de euros.
• Nestlé (Suíça): fundada em 1866, é uma empresa transnacional suíça do setor 
de alimentos e bebidas com sede em Vevey, Vaud. Possui mais de 450 fábricas, 
operando em 194 países e empregando mais de 340 mil pessoas.
• Sony (Japão): fundada em 1946, a Sony é uma empresa multinacional japonesa 
com sede em Minato, Tóquio, sendo o quinto maior conglomerado de mídia do 
planeta e fabricando uma infinidade de produtos eletrônicos.
• Peugeot (França): fundada em 1896, Sochaux, França, a Peugeot é uma 
fabricante de automóveis pertencente ao Grupo PSA Peugeot Citröen. 
52
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
FIGURA 13 – ALGUMAS LOGOS E SÍMBOLOS DE EMPRESAS TRANSNACIONAIS
Fonte: O autor
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
53
LEITURA COMPLEMENTAR
BRASIL, UM PÁRIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
 
Marcelo Zero*
Com o golpe, o Brasil se tornou um pária das Relações Internacionais. Como 
efeito, ninguém quer muita conversa com um governo que surgiu da “assembleia-
geral de bandidos” de Eduardo Cunha e que já foi definido como a “quadrilha 
mais perigosa” do país.
Em cenário inconcebível há pouco tempo, líderes mundiais vêm à América 
do Sul sem passar pelo Brasil, o maior país do subcontinente.
Angela Merkel visitou a Argentina há poucas semanas e voou direto para 
o México, sem sequer fazer uma pequena escala em Brasília. Sergio Matarella, 
presidente italiano, também esteve recentemente em Buenos Aires e Montevidéu, 
mas evitou contatos com governo da “turma da sangria”.
Em janeiro, François Hollande esteve no Chile e na Colômbia, mas recusou-
se a fazer visita oficial aos golpistas. Mesmo o generoso Papa Francisco tem se 
recusado a vir ao Brasil, maior país católico do mundo, por receio a uma associação 
espiritual e moralmente condenável.
Até agora, o governo do golpe só conseguiu ser anfitrião de Macri, que se 
dispôs a vir ao Brasil para alinhar-se ao governo golpista com o intuito de expulsar 
a Venezuela do Mercosul.
Nas pouquíssimas viagens internacionais, a situação não é melhor.Em sua 
estreia no cenário mundial, a imagem patética percorreu o mundo: Temer, anônimo, 
desconfortável, literalmente escanteado na foto oficial do G20, a qual revelou, de 
forma crua, incontestável, o isolamento de um governante sem um único voto, 
que causa constrangimento e embaraço por onde passa. No cenário internacional, 
o “fora Temer” sempre foi uma realidade.
A viagem à Rússia não mudará esse fato. Moscou está preocupado com a 
guinada escancarada pró-EUA da política externa brasileira. Quer preservar uma 
relação estratégica com um Estado que faz parte do BRICS. Engole Temer para 
continuar próximo ao Brasil.
Ninguém pode culpar a comunidade internacional por evitar contatos 
maiores com um governo ilegítimo e corrupto, fruto de um anacrônico golpe de 
Estado, que nos fez retroceder ao lamentável status de uma república bananeira.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
54
Política externa "ativa e altiva"
A questão maior não é essa. O atual isolamento do Brasil decorre 
essencialmente de uma política externa equivocada, que colide com as grandes 
tendências geopolíticas mundiais.
Nos anos pré-golpe, a política externa “ativa e altiva” dos governos 
progressistas alterou profundamente a inserção internacional do país.
As relações bilaterais foram diversificadas, ampliaram-se as parcerias 
estratégicas com países emergentes, investiu-se mais na integração regional e a 
cooperação Sul-Sul adquiriu centralidade.
Abandonou-se a ideia ingênua de que a submissão aos desígnios da única 
superpotência e a inclusão acrítica no processo de globalização nos faria aceder a 
um Brave New World de independência e prosperidade.
Enterrou-se a agenda regressiva da ALCA assimétrica, e o Brasil passou 
a criar espaços próprios de influência, articulando-se com outros emergentes em 
foros como o BRICS. Investimos no multilateralismo e na conformação de um 
mundo menos desigual.
Com essa política externa, acumulamos superávit comercial de US$ 308 
bilhões (até 2014) e reservas líquidas de US$ 375 bilhões e eliminamos nossa dívida 
externa líquida.
Tornamo-nos credores internacionais, inclusive do FMI, aumentamos 
nossa participação no comércio mundial de 0,88% (2001) para 1,46% (2011) e 
obtivemos protagonismo mundial inédito, com Lula se convertendo numa liderança 
internacional cortejada e respeitada, figura central em qualquer foro mundial.
Celso Amorim chegou a ser classificado como o melhor chanceler do mundo, 
pela prestigiada revista Foreign Policy. Ao contrário do que diz o ridículo clichê 
conservador, foi justamente na época dessa política externa “isolacionista” que o 
Brasil teve mais influência no mundo.
Agora, contudo, o governo ilegítimo substituiu a política externa altiva e 
ativa por uma política externa omissa e submissa. Trata-se, na realidade, de mero 
aggiornamento da fracassada política externa dos tristes e descalços tempos de 
FHC, que, ao buscar a chamada “autonomia pela integração”, conseguiu apenas 
mais dependência, menos integração e protagonismo reduzido.
Apostando tudo nas relações bilaterais com os EUA nos tornamos um país 
menor, de escasso prestígio mundial, além de economicamente dependente e débil. 
Não chegamos ao ponto da Argentina, que conseguiu a proeza de ter “relaciones 
carnales” com os EUA, mas chegamos perto. Nossa soberania foi bastante bolinada.
TÓPICO 3 | OUTROS ATORES NÃO ESTATAIS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
55
No cômputo geral, todo esse disciplinado investimento vira-lata em 
dependência, combinado com a âncora cambial, resultou em déficit comercial total 
de US$ 8,6 bilhões em oito anos, reservas líquidas próprias de minguados US$ 
16 bilhões, dívida externa líquida de 37% do PIB, uma participação no comércio 
mundial de mero 0,9 %, três idas ao FMI para pedir alívio financeiro e um baixo 
protagonismo internacional.
Entretanto, o retorno à mesma política externa fracassada ocorre num 
contexto inteiramente diverso. Na época de FHC, o mundo vivia o auge do 
paradigma neoliberal. O Consenso de Washington dominava corações e mentes.
As autoridades europeias e norte-americanas estavam empenhadíssimas 
na abertura comercial e financeira em todo o mundo, que era socada goela abaixo 
dos países em desenvolvimento.
Os EUA exerciam liderança praticamente inconteste na ordem mundial 
marcada pelo unilateralismo belicista.
Ademais, a economia e o comércio internacional iam de vento em popa, 
com pequenos sobressaltos causados por crises regionais e locais autocontidas. No 
entanto, hoje o mundo vive a pior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929.
Crise profunda e sistêmica causada justamente pela desregulamentação 
neoliberal, que aprofundou desigualdades e fez colapsar as economias reais.
O Consenso de Washington virou uma piada anacrônica e a liderança antes 
inconteste dos EUA atualmente convive com a ascensão meteórica do BRICS e 
fraturas entre seus aliados históricos.
Assim, a ordem mundial é hoje muito diferente da que prevaleceu na década 
de 1990, quando os ideólogos do “fim da História” proliferaram como fungos. Além 
disso, está claro que o novo governo norte-americano e alguns governos europeus 
não têm mais o menor interesse em promover livre comércio.
Dessa forma, a tragédia de ontem se repete hoje como farsa. Farsa guiada 
por inacreditável miopia estratégica. Enquanto em quase todo o mundo há 
questionamentos referentes à globalização assimétrica guiada pelo fracassado 
neoliberalismo, o governo do golpe investe numa arcaica e ingênua integração às 
“cadeias internacionais de valor”, que nos fará chutar a escada do desenvolvimento, 
convertendo-nos definitivamente num país pequeno e periférico.
Em meio à venda do pré-sal, de terras e do patrimônio público a preço 
de banana, em meio a exercícios militares conjuntos com os EUA na Amazônia, 
em meio à ridícula adesão do país à OCDE, em meio à destruição do Mercosul e 
da integração regional, e, last but not least, em meio aos coices diplomáticos dos 
folclóricos chanceleres do PSDB, o governo do golpe cava o buraco onde será 
enterrada a soberania do Brasil.
UNIDADE 1 | GÊNESE DA DISCIPLINA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS: DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS E OS PRINCIPAIS ATORES
56
Quem investe contra si mesmo vira pária. No máximo, vira-lata. Em 
qualquer cenário, é país a ser pouco visitado.
* Marcelo Zero, brasileiro, sociólogo e especialista em Relações Internacionais. 
Integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.
FONTE: <https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/brasil-um-paria-das-relacoes-
internacionais>. Acesso em: 18 out. 2019. 
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CHAMADA
57
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Na sociedade global, os Estados dividem parte de seu poder com outras 
entidades transnacionais e supranacionais.
• Alguns atores internacionais não estatais são: as Organizações 
Intergovernamentais Internacionais, as Organizações não Governamentais, 
os Movimentos de Libertação Nacional e Oposições Armadas, e as Empresas 
Multinacionais ou Transnacionais.
• Organizações internacionais são entidades constituídas pela vontade comum 
dos Estados, dotada de órgãos próprios investidos de uma certa permanência e 
encarregada de cumprir as funções de tipo internacional que lhe são atribuídas 
por ato constitutivo.
• Ainda que o orçamento da organização internacional dependa da contribuição 
dos Estados-membros, essas instituições burocráticas possuem independência 
para decidir como se irá utilizar os recursos financeiros de acordo com seus 
procedimentos próprios e comprovação de finalidade.
• As Organizações Internacionais não Governamentais (OINGs), também 
denominadas de Organizações não Governamentais Sem Fins Lucrativos 
são associações do terceiro setor e organizadaspela sociedade civil. Essas 
se declaram possuidoras de propósito e com finalidades públicas sem fins 
lucrativos, desenvolvendo ações em diferentes áreas de atuação.
• As OINGs se mantêm através de recursos conseguidos por financiamento dos 
governos, empresas privadas, venda de produtos e por meio de doações pela 
população. Muitas vezes a mão de obra que atua nas ONGs é formada por 
voluntariados que se organizam frente à uma comoção social coletiva.
• A Empresa Transnacional (ETN) é geralmente considerada como uma empresa 
que compreende as entidades em mais de um país que operam sob um sistema 
de tomada de decisão que permite políticas coerentes e de uma estratégia 
comum. As entidades são tão ligadas, por posse ou não, que uma ou mais delas 
podem ser capazes de exercer uma influência significativa sobre os outros e, em 
particular, partilhar conhecimentos, recursos e responsabilidades com os outros.
58
1 (NUCEPE, 2016) Entende-se por organizações ou organismos internacionais 
as instituições internacionais que agregam em si ações de vários países sob 
um objetivo ou bem comum. Os organismos internacionais, de um modo 
geral, podem atuar em diversas frentes, tanto no campo econômico quanto 
no âmbito social, mas exercem um peso primordial no cerne das relações 
geopolíticas. Dentre as diversas organizações internacionais em atuação no 
mundo, exerce papel de destaque na atualidade a Organização Mundial do 
Comércio (OMC), fundada em 1995 em substituição ao antigo GATT (Acordo 
Geral de Tarifas e Comércio), que havia sido criado em 1947. Constitui o 
objetivo principal da Organização Mundial do Comércio (OMC):
FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/5eb35990-7f>. 
Acesso em: 18 out. 2019. 
 
a) ( ) A centralização da elaboração das políticas sobre produção e venda do 
petróleo dos países integrantes, controlando a partir da fixação de cotas 
de produção, o preço do produto em escala global. 
b) ( ) Conceder crédito e empréstimos a países que necessitam de ajuda 
econômica, exigindo em contrapartida uma série de medidas político-
econômicas internas, relacionadas, em geral, com corte de gastos e 
desregulação da economia. 
c) ( ) Configurar-se como um instrumento militar estratégico e um meio 
de pressão pelas grandes potências ocidentais, com grande poder de 
intervenção sobre outros países. 
d) ( ) Promover a liberalização do comércio mundial, diminuindo ou 
extinguindo as barreiras comerciais e alfandegárias para facilitar as 
trocas econômicas em âmbito internacional. 
e) ( ) Atuar em decisões soberanas e específicas, sobretudo em questões 
referentes à segurança e à iminência de conflitos internacionais, 
propugnando pela estabilidade e paz mundiais.
2 Por que o termo Empresas Transnacionais é preferível a nomenclatura 
Empresas Multinacionais?
AUTOATIVIDADE
59
UNIDADE 2
SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• desenvolver uma visão sistêmica das principais Teorias de Relações 
Internacionais nas suas abordagens clássicas e contemporâneas anteriores 
à Guerra-fria;
• compreender o objeto, campo de estudo e abordagens das Teorias de 
Relações Internacionais no Realismo, Idealismo, Liberalismo e Marxismo;
• compreender como se dá o comportamento dos atores internacionais 
dentro da perspectiva de cada Teoria das Relações Internacionais do 
período anterior à Guerra-fria;
• traçar apontamentos prévios que conectem os eventos e teorias anteriores 
à Guerra-fria ao período contemporâneo das relações internacionais.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. 
TÓPICO 1 – REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
TÓPICO 2 – LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
TÓPICO 3 – O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
60
61
TÓPICO 1
REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
As Teorias das Relações Internacionais correspondem a instrumentos 
teórico-conceituais capazes de fornecer auxílio na compreensão e na explicação 
de fenômenos da inter-relação humana (nos diferentes níveis de análise) que 
transcende o espaço interno dos Estados. 
As relações internacionais dos Estados possuem suas particularidades 
de acordo com as realidades domésticas nas dimensões territoriais, culturais, 
econômicas e ideológicas. Essas particularidades moldam o comportamento 
dos Estados no sistema internacional sobre dois eixos básicos: a cooperação 
e o conflito. Esta unidade traz uma discussão didática entre os diversos eixos 
teóricos das relações internacionais. O Tópico 1 aborda as concepções clássicas e 
modernas de dois movimentos teóricos: o realismo e o idealismo.
FIGURA 1 – EIXOS BÁSICOS NA INVESTIGAÇÃO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
FONTE: O autor
O Realismo representa a abordagem teórica mais tradicional das Relações 
Internacionais, sendo articulado por dois conceitos-chave (poder e conflito). 
Também é pressuposto dessa corrente teórica a identificação da natureza humana 
como egoísta, predatória e propensa à conquista (PECEQUILO, 2009).
Cooperação Conflito
Relações
Internacionais
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
62
O Realismo tem como pressuposto que os indivíduos são primordialmente 
movidos pelo desejo de poder e segurança. E nesta busca pelo poder e segurança, 
agem segundo o seu próprio interesse e não o da coletividade. Essa maximização 
dos interesses individuais motivou e direcionou o processo de organização dos 
Estados. Assim, o interesse nacional, igualmente definido em termos de poder, 
tanto militar quanto econômico é construído e dita as relações entre os Estados 
do Sistema Internacional.
Para os realistas, o contexto do sistema internacional é anárquico (sem 
um governo ou parâmetros regulatórios das relações entre os Estados) e inseguro 
(cada um desses Estados deve conter os demais, procurando manter um certo 
equilíbrio de poder, de modo a minimizar a insegurança ligada às ameaças 
externas) (MINGST, 2009). 
FIGURA 2 – PRESSUPOSTOS DO REALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
FONTE: O autor
Por sua vez, a Teoria Idealista, ou o Idealismo, refere-se ao conjunto de 
fatores, comportamentos e condições para a manutenção da paz e para evitar 
o conflito. Trabalha primeiramente com autores clássicos da área da filosofia 
política que buscam compreender as condições e a natureza das relações entre 
os Estados, assim como suas estruturas políticas, culturais e administrativas. 
O estudo desses autores clássicos permitirá entender o Idealismo Moderno, 
a escola de pensamento nas ideias de Woodrow Wilson, também conhecida 
como idealismo wilsoniano. A teoria idealista teve influência dos pensadores 
do iluminismo europeu, como Immanuel Kant, se contrapondo à teoria realista. 
Esse pensador buscou entender as causas da guerra e prescrever formas de evitar 
outro conflito de amplas proporções. 
PODER
CONFLITO
Segurança
REALISMO
Natureza Humana:
Egoísta – Predatória – Conquistadora
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
63
FONTE: O autor
FIGURA 3 – PRESSUPOSTOS DO IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Woodrow Wilson foi um estadista e acadêmico americano que serviu como 
o 28º presidente dos Estados Unidos de 1913 a 1921. Wilson liderou os Estados Unidos 
durante a Primeira Guerra Mundial, estabelecendo uma política externa ativista conhecida 
como "Wilsismo" ou Idealismo.
IMPORTANTE
FIGURA – WOODROW WILSON
FONTE: <http://www.claseshistoria.com/1guerramundial/imagenes/%2Bwilson.jpg>. 
Acesso em: 9 set. 2019.
Manutenção
da paz
Evitar 
o conflito
IDEALISMO
Estruturaspolíticas,
culturais e administrativas
dos Estados
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
64
Immanuel Kant foi um filósofo prussiano do século XVI, famoso pela elaboração do 
denominado idealismo transcendental, o qual remete que todos trazemos formas e conceitos 
a priori (aqueles que não vêm da experiência) para a experiência concreta do mundo.
FIGURA – IMMANUEL KANT
FONTE: <http://www.filosofia.com.br/figuras/biblioteca/Immanuel%20Kant.jpg>. 
Acesso em: 9 set. 2019.
Alguns autores consideram o Idealismo como a primeira formulação 
teórica das Relações Internacionais e a versão mais utópica do Liberalismo 
(que será vislumbrado no Tópico 2). Em seu surgimento, o Idealismo Moderno 
oferece “uma visão americana de Relações Internacionais, quebrando os padrões 
europeus clássicos do equilíbrio de poder e interesse internacional, oferecendo 
uma perspectiva opcional de ordem que não contemplava o conflito como uma 
única realidade” (PECEQUILO, 2009, p. 114). Em outras palavras, o Idealismo 
Moderno traz em sua concepção os valores de liberdade e democracia americanos, 
evocando a possibilidade de construção de um mundo pacífico e próspero sem a 
necessidade de relações conflituosas, como é o caso do Realismo.
O Idealismo propôs a apresentação de reorganizar o cenário internacional, 
de forma que os choques de interesse dos Estados, na busca pelo poder, fossem 
superados e criassem um novo cenário internacional. Tal cenário “não conflituoso” 
seria mantido por um ordenamento criado pelas leis e mecanismos cooperativos 
multilaterais. Essas novas estruturas e parâmetros de relacionamento interestatal 
se orientariam pela cooperação econômica e política e possibilitariam ganhos de 
prosperidade individual e consequentemente um estado de bem-estar universal, 
livre de conflito e do instrumento de guerra.
Para compreender melhor as duas correntes teóricas das Relações 
Internacionais, esse tópico foi dividido na apresentação clássica do Realismo e do 
Idealismo, e posteriormente, a apresentação moderna das duas vertentes. 
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
65
2 REALISMO CLÁSSICO
O Realismo Clássico é composto por autores que formam a tradição 
realista das Relações Internacionais num período que a disciplina denomina “pré-
história das Relações Internacionais”. Esse período é assim classificado, porque 
advém antes da fundação oficial do campo de estudos das RI, que, como visto na 
Unidade 1, teve início em 1919 (SARFATI, 2005).
Os autores desse período são muito conhecidos nas teorias das Ciências 
Sociais, especialmente nas Ciências Políticas. Assim, não podem ser considerados 
exclusivamente autores de Relações Internacionais, mas são “emprestados” 
pela academia para a construção das teorias modernas da área de estudos. Nos 
itens a seguir serão abordados de forma sucinta os conhecimentos e lições de 
Tucídides, Maquiavel e Hobbes, autores fundamentais para se entender as teorias 
contemporâneas de Relações Internacionais. 
2.1 TUCÍDIDES (471 a.C. - 400 a.C.)
Tucídides foi um historiador grego que narrou a Guerra do Peloponeso, 
conflito entre as cidades-estados Atenas e Esparta que aconteceu de 431 a.C. a 404 
a.C. Esse autor clássico se faz importante no nosso estudo porque seus relatos 
trazem todos os elementos modernos de relações internacionais, tais como a 
importância do comércio, as negociações, alianças e a tecnologia em eventos de 
um momento conflituoso.
Atenas é descrita como uma nação desenvolvida, despreocupada com a 
militarização e focada no comércio. Por sua vez, Esparta é tida como uma cidade-
estado muito militarizada e com numerosos aliados.
O conflito entre atenienses e espartanos teve início devido a uma série de 
alianças com outras cidades. Os corcírios derrotaram os coríntios em uma guerra 
anterior, e estes armaram-se novamente para uma nova investida. Os corcírios 
enviaram embaixadores a Atenas para pedir apoio e aliança. Os coríntios, ao 
saberem disso, também enviaram seus representantes para pleitearem essa 
aliança. Atenas escolheu ficar ao lado de Córcira, que era uma potência naval. Não 
obstante, a aliança não teria um caráter de ataque, mas sim de defesa. Ou seja, caso 
alguma das cidades aliadas fossem atacadas, a outra socorreria. Tal aliança militar 
lembra muito as alianças contemporâneas de defesa, como a OTAN (Organização 
do Tratado do Atlântico Norte) ou do Pacto de Varsóvia. Tais alianças têm como 
principal peculiaridade a demonstração de não terem intenções bélicas, mas que 
possuem uma posição legítima de direito de defesa.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
66
A OTAN, também chamada Aliança Atlântica, é uma aliança militar 
institucionalizada, constituindo um sistema de defesa coletiva através do qual seus Estados-
membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade 
externa à organização.
O Pacto de Varsóvia, também chamado de Tratado de Varsóvia, foi uma aliança 
militar formada em 14 de maio de 1955 pelos países socialistas do Leste Europeu e pela União 
Soviética que contrapunha a iniciativa militar da criação da OTAN. O tratado estabeleceu 
um compromisso de ajuda mútua em caso de agressões militares fora do eixo de seus 
países membros. Sua dissolução ocorreu em 1991 com a dissolução do bloco socialista.
ATENCAO
Os coríntios, por sua vez, foram a Esparta pedir apoio contra os corcírios. 
Na ocasião, havia uma delegação comercial ateniense em Esparta e esses pediram 
o direito de palavra na assembleia (um recurso comum na época em que as 
principais discussões se davam em praça pública, sendo que, com o consentimento 
da liderança da cidade, as delegações estrangeiras poderiam ter a palavra). Em seu 
discurso, os atenienses admitiram ter montado a aliança com os corcírios e que as 
razões foram: “segurança, honra e interesse próprio” (TUCÍDIDES, 1972, p. 80).
FIGURA 4 – DIVISÃO DE ALIANÇAS NA GUERRA DO PELOPONESO
FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f5/Map_Macedonia_336_
BC-de.svg/600px-Map_Macedonia_336_BC-de.svg.png>. Acesso em: 14 nov. 2019.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
67
Nesse contexto, Atenas tornou-se rica e, caso não se defendesse, estaria 
sujeita às ameaças e à invasão de outras cidades-estados. Essa prerrogativa 
remediava aos atenienses o direito legítimo de se defender e não poderia ser negado 
por Esparta. Trazendo para a contemporaneidade, a segurança é preconizada por 
muitos Estados quando se armam sob a alegação de se defenderem das ameaças 
externas. As grandes potências buscam, assim, construir alianças em torno de 
seus países.
Em relação à honra, a construção do império por Atenas era motivo de 
orgulho para os seus cidadãos e por serem considerados líderes na região. Em 
termos modernos, pode parecer algo em desuso e arcaico. Não obstante, ainda faz 
parte do discurso de segurança dos Estados modernos. Um exemplo é a necessidade 
de Nixon sair de forma honrosa da Guerra com o Vietnã, independentemente 
de chegar ao ponto de lançar uma bomba atômica para forçar os vietnamitas à 
mesa de negociação em Paris. “A questão da honra é constante, pois esses países 
tendem a se ver como exemplos para o restante do mundo e, por conseguinte, 
sempre farão o possível para manter seus impérios” (SARFATI, 2005, p. 65).
A última justificativa dada pelos atenienses em Esparta, o interesse próprio, 
talvez seja o fator mais evidente nas relações internacionais da contemporaneidade. 
Trata-se da racionalidade, uma premissa lógica em que cada indivíduo, ou Estado, 
busca trazer a si o maior número de benefícios e diminuir seus custos em consegui-
lo. Isso é pleiteado independente do impacto que possa trazer ao seu redor. Trata-
se, portanto, da sua capacidade e o poder de ser líder, trazendo consequentemente 
as beneficies e satisfazerem os interesses de seus cidadãos. Assim seria irracional 
ter as capacidadesde liderança e não assumir esse papel, ou ter a potencialidade 
de ganhar algo e não reivindicar esse direito. Dessa forma, “Atenas passa uma 
mensagem a Esparta de que formou um império, porque isso era o melhor que ela 
poderia fazer para si mesma e, se Esparta estivesse em posição semelhante, faria 
certamente o mesmo” (SARFATI, 2005, p. 66).
No final da assembleia, os espartanos votaram que os atenienses haviam 
quebrado um antigo tratado (ao se voltar contra seus aliados). Porém, para 
Tucídides, o que motivou o conflito entre Esparta e Atenas foi a questão de os 
espartanos se sentirem ameaçados.
Nesse sentido, a narrativa de Tucídides apresenta uma das primeiras 
lições das Teorias de Relações Internacionais: o crescimento de um Estado, seja 
em termos econômicos ou militares, gera uma insegurança aos seus vizinhos e 
em especial às grandes potências. Essas veem o Estado em ascensão como uma 
ameaça a sua segurança, honra e interesses, fazendo-o buscar equilíbrio de poder 
por meio de investimentos militares e econômicos. Quando se tem esse equilíbrio 
de poder, maiores são as chances da manutenção de paz, pois nenhum Estado 
sentiria que tivesse as condições de derrubar o outro. Por sua vez, quanto maior 
o desequilíbrio de poder, maiores as chances de resultar a eclosão de conflitos.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
68
Outras ocasiões inflamaram os espartanos contra os atenienses. Esses 
convocaram os seus aliados para entrarem em confronto com Atenas. Um dos 
discursos mais importantes que impulsionaram a guerra foi de um cidadão 
Coríntio: “A Guerra dá à paz sua segurança” (TUCÍDIDES, 1972, p. 108).
Essa frase, ainda hoje, é uma das grandes justificativas que levam os 
Estados modernos a entrarem em conflitos de intervenção militar. Trata-se da 
prerrogativa de que uma guerra seria uma justificativa para restabelecer os 
mecanismos de equilíbrio de poder e, assim, garantir a paz. Tal justificativa 
foi usada pelos EUA para invadir o Iraque em 2003, obtendo o apoio do Reino 
Unido. O regime de Saddam Hussein era tido como uma ameaça (paz insegura) 
devido ao armamento que estaria desenvolvendo. Tal armamento poderia ser 
usado a qualquer momento contra os EUA e seus aliados, necessitando assim, 
que o regime de Hussein fosse neutralizado de maneira a trazer a verdadeira paz, 
ou paz segura.
FIGURA 5 – SOLDADO AMERICANO NA TOMADA DE BAGDÁ: MOMENTO SIMBÓLICO DA 
DERRUBADA DA ESTÁTUA DE SADAN HUSSEIN
FONTE: <https://www.bbc.com/staticarchive/d42ef24240f25a1edd68e16374598f4495ff9681.jpg>. 
Acesso em: 22 out. 2019.
Retomando a narrativa da Guerra do Peloponeso, Tucídides demonstrou 
que Atenas era uma cidade capaz de trazer paz e guerra à região. Para o autor, 
Atenas era o ator hegemônico (legitimidade de liderança), pois dava segurança 
aos aliados, tanto no sentido físico (capacidades econômicas e bélicas) quanto 
no sentido legal (como árbitro dos conflitos entre aliados). Em outras palavras, 
“Atenas era hegemônica porque tinha a legitimidade concedida pelos aliados que 
preservavam seus interesses próprios, segurança e honra” (SARFATI, 2005, p. 67).
Em suma, o relato de Tucídides mostra que na perspectiva realista, 
a segurança internacional só pode ser alcançada por meio de uma potência 
hegemônica capaz de trazer ordem ao império, não só pela força (guerras), mas 
também pelo acesso econômico de seus mercados (desenvolvimento econômico 
dos aliados). Ainda, que os impérios baseados apenas na força não tendem a 
durar, pois os estados hegemônicos não possuem capacidade militar e econômica 
indefinidamente para reprimir seus aliados e seus párias. Faz-se necessário que 
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
69
sua posição seja assegurada por uma afirmação ideológica e com recompensas 
tangíveis. Ou seja, os aliados devem perceber que se beneficiam da situação 
hegemônica e que esta é a melhor situação naquele momento. Não obstante, o 
crescimento hegemônico de uma potência sempre trará desconfiança e ameaça 
àqueles que não fazem parte do império, ou de potências menores e emergentes 
que tentaram reduzir o poder da hegemonia. 
Alguns pontos importantes trazidos por Tucídides (1972) à Teoria do 
Realismo Clássico das Relações Internacionais são:
• Os Estados buscam sempre maximizar o seu poder (garantir o maior número 
de seus interesses).
• Os Estados tendem a balancear o poder (buscam maneiras de se equiparar com 
os outros Estados para que não possam ser subjugados pela força militar e 
econômica dos outros).
• Os Estados são dirigidos por seus próprios interesses e pela questão da 
segurança.
• A cooperação entre os Estados e a Lei são fatores secundários e instáveis.
• A hegemonia é baseada na legitimidade do Estado através do poder econômico, 
militar e ideológico.
• As pretensões imperialistas de domínio aceleram a queda do hegemônico, que 
perde sua legitimidade ao fazer imposições tiranas aos seus aliados.
2.2 MAQUIAVEL (1469-1527)
Nicolau Maquiavel, nascido na república de Florença, em 1469, foi um filósofo, 
historiador, poeta, diplomata e músico. É um dos mais reconhecidos pensadores da 
ciência política moderna. Seu trabalho se imortalizou ao descrever as relações sobre o 
Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser. 
Maquiavel viveu a juventude sob a República Florentina durante o 
governo de Lourenço de Médici e entrou para a política aos 29 anos de idade no 
cargo de Secretário da Segunda Chancelaria. Nesse cargo, Maquiavel observou o 
comportamento de grandes nomes da época, e a partir dessa experiência retirou 
alguns postulados para sua obra. Suas obras principais foram O príncipe e Os 
discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Essas obras foram escritas em uma 
época em que a Itália era dividida em principados e repúblicas, todas rivais entre 
si, sendo as traições e a astúcia muito frequentes, inclusive no clero.
O foco dos escritos de Maquiavel sempre foi o Estado (aquele capaz de 
impor a ordem) e o ponto de partida a realidade corrente, ou seja, a realidade 
como realmente é e não como gostaríamos que fosse. O cerne das discussões do 
autor era como o príncipe (soberano) deveria garantir a segurança de seu Estado. 
Para isso, ele descreve a natureza como desordenada e pautada em duas forças 
seja qual for a sociedade:
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
70
• Ninguém quer ser dominado e oprimido pelos maiores.
• Os maiores querem dominar e oprimir.
Quando Maquiavel diz que a relação entre os Estados é desordenada 
do ponto de vista internacional, ele entende que as grandes nações querem 
sempre dominar as menores e que por outro lado, todos os Estados querem ser 
independentes. Com essa máxima, Maquiavel acreditava que o príncipe seria o 
responsável e quem teria as forças militares e legais para conservar o seu Estado e 
conquistar os outros. “Os principais fundamentos que todos os Estados possuem, 
tanto novos, como velhos ou mistos, são boas leis e bons exércitos. E porque não 
pode haver boas leis sem bom exército e como há exércitos, convém que haja boas 
leis” (MAQUIAVEL, 1997, p. 81).
Nesse contexto, a segurança internacional para Maquiavel se dá pela 
prerrogativa de que todos os Estados devem estar prontos para fazer guerra, 
seja para conquistar outros ou para não serem conquistados. Ou seja, somente 
por meio da demonstração da força de coação internacional constante é que os 
Estados estariam em segurança.
Apesar de parecer incoerente, Maquiavel não estava encorajando aos 
Estados realizarem guerras permanentemente. Para ele, o príncipe deveria estar 
sempre pronto para a guerra de modo a defender o seu principado, mas não deveria 
promover ataques indiscriminadamente. Não obstante, um questionamento sobre 
esse pensamento pode ressoar em nossas mentes: se um exército seria necessário 
para manter a segurança, por que haveria guerras? A resposta parece ser lógica 
e até simplista,porém Maquiavel lembra que a natureza do homem é conduzida 
pela riqueza e glória e o príncipe é de mesma forma guiado por essas ambições. 
Essa situação perpassa a pura vaidade, mas representa uma condição já vista 
por Tucídides: a demonstração do poder, tanto para os cidadãos quanto para os 
outros Estados. “Alguns príncipes podem ser guiados por um ímpeto ou pela 
violência como forma de alcançar os seus objetivos” (MAQUIAVEL, 1997, p. 156). 
Faz-se importante ressaltar que Maquiavel não via espaço no sistema 
internacional para cooperação entre os Estados. Essa cooperação ocorreria 
em períodos muito curtos, sendo o tempo necessário para defender ou atacar 
determinados Estados. Maquiavel ainda busca aconselhar ao príncipe em não se 
aliar a ninguém mais forte que ele, a não ser que a necessidade lhe obrigue. Essa 
prerrogativa se dá com a justificativa de que após o conflito o menor sempre se 
torna refém do maior, aliado ou não.
Alguns pontos importantes trazidos por Maquiavel (1997) à Teoria do 
Realismo Clássico das Relações Internacionais são:
• O foco da obra de Maquiavel sempre foi o Estado capaz de impor a ordem e o 
ponto de partida à realidade corrente.
• O Príncipe é o responsável por garantir a segurança de seu Estado.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
71
• A natureza das relações entre os Estados é desordenada, sendo que ninguém quer 
ser dominado e oprimido pelos maiores e os maiores querem dominar e oprimir.
• A segurança internacional para Maquiavel é pautada pela máxima de que 
todos os Estados devem estar prontos para fazer guerra, seja para conquistar 
outros ou para não serem conquistados.
• A demonstração do poder se faz necessário tanto para os cidadãos, quanto 
para os outros Estados.
• Não há espaço para cooperação entre os Estados no sistema internacional.
2.3 THOMAS HOBBES (1588-1679)
Thomas Hobbes foi um matemático, filósofo e teórico político na Inglaterra 
durante o século XVII. Sua maior e mais conhecida obra é o Leviatã (1651), na qual 
explanou os seus pontos de vista sobre a natureza humana e sobre a necessidade 
de um governo e de uma sociedade fortes. Para esse pensador, no estado de 
natureza, embora alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do 
que outros, não se tem a segurança e a isenção de que seu semelhante possa lhe 
fazer mal. Para Hobbes, todos os homens têm direito a tudo e, uma vez que todas 
as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos (Bellum 
omnia omnes). No entanto, os homens têm um desejo, que é também de interesse 
próprio, de acabar com a guerra e, por isso, formam sociedades através de um 
contrato social. Por isso, também é conhecido como um autor contratualista da 
filosofia política.
Os principais autores contratualistas são: Johannes Althusius (1557-1638), 
Thomas Hobbes (1588-1679), Baruch Spinoza (1632-1677), Samuel Pufendorf (1632-1694), 
John Locke (1632-1704), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Immanuel Kant (1724-1804) 
(MATTEUCCI, 1998).
NOTA
Hobbes viveu numa época em que as guerras religiosas, políticas e 
provincianas eram constantes. Esse contexto fez com que seu pensamento se 
voltasse à preocupação de investir contra a anarquia e, por conseguinte, se pensar 
na união da Inglaterra. Tais pensamentos refletiram nas ideias de apoio ao Estado 
absoluto, soberano e centralizado.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
72
Um adendo importante para entender o interesse e o pensamento de Hobbes 
é ter a ciência de que, em 1629, ele fez a primeira tradução para a língua inglesa da Guerra 
do Peloponeso de Tucídides. Esses estudos dizem muito a respeito de como ele via a inter-
relação dos Estados no sistema internacional.
IMPORTANTE
Ao construir sua obra sobre a teoria do Estado, descreve o Estado de 
natureza do homem como um estado de liberdade. Nesse estado de natureza, o 
homem nasce livre para fazer o que deseja e usufruir de seu poder e vida da forma 
que achar melhor (jus naturale). Podendo fazer o que bem quiser, poderia cobiçar 
algo, ao mesmo tempo em que outra pessoa, sendo necessário uma contenda 
entre ambos, os tornando inimigos (HOBBES, 2000).
Em outras palavras, o estado de natureza representa um estado de 
guerra de todos contra todos. Este estado de natureza pode ser “controlado” por 
meio de um “contrato social” no qual o homem abriria mão de sua liberdade, 
submetendo-se a um soberano, em prol de garantir a sua segurança. Assim, o 
soberano, absoluto e com um poder centralizado institucionalizado pelo Estado 
absolutista garantiria que os homens não se destruíssem. Os Estados existiriam 
para controlar a natureza de guerra do ser humano, o qual é norteado pela 
competição e desconfiança. O jus naturale passa a ser o lex naturale, o preceito ou 
regra geral que proíbe o homem de fazer tudo o que quer e que possa destruir o 
seu entorno. 
Quando transpomos o pensamento hobbesiano para as Relações 
Internacionais, vemos que o estado de natureza humana se repete no estado de 
natureza dos Estados. Ou seja, o estado natural das relações internacionais é o 
da guerra. Isso se dá porque não existe um contrato social entre os países que os 
submetam a um poder centralizado e soberano. No realismo clássico, nenhuma 
instituição internacional é capaz de impedir o confronto entre os Estados. 
Assim, “na ausência desse poder soberano, absoluto e universal 
que disponha do monopólio da violência, todos os Estados podem dispor 
legitimamente da força” (BEDIN, 2000, p. 61).
Todavia, como a segurança internacional poderia ser alcançada nesse 
contexto? Esse estágio poderia ser alcançado somente pelo intermédio de uma 
política de equilíbrio de poder, em que os Estados poderiam limitar o poder um 
dos outros e inibir a tendência de expansão territorial que lhes é natural.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
73
Alguns pontos importantes trazidos por Hobbes (2000) à Teoria do 
Realismo Clássico das Relações Internacionais são:
• O apoio ao Estado absoluto, soberano e centralizado para evitar as guerras.
• O estado de natureza sem o contrato social representa um estado de guerra de 
todos contra todos.
• O estado de natureza pode ser “controlado” por meio de um “contrato social” 
no qual o homem abriria mão de sua liberdade, submetendo-se a um soberano, 
em prol de garantir a sua segurança.
• Nenhuma instituição internacional é capaz de impedir o confronto entre os Estados.
• Na ausência do poder soberano, absoluto e universal que disponha do monopólio 
da violência, todos os Estados podem dispor legitimamente da força.
• A segurança internacional pode ser alcançada somente pelo intermédio de uma 
política de equilíbrio de poder, em que os Estados poderiam limitar o poder 
um dos outros e inibir a tendência de expansão territorial que lhes é natural.
Por fim, Sarfati (2005, p. 72) enumera algumas características do Realismo 
Clássico:
• Concepção Estadocêntrica: apenas o Estado é considerado como 
ator relevante das Relações Internacionais.
• Concepção Racionalista: os Estados calculam coerentemente os 
custos e benefícios de suas ações.
• Concepção baseada nas ideias de poder e força: os Estados definem 
seus interesses em termos de poder e sempre estão prontos para 
usar a força.
• Distinção entre Política Interna e Externa: na política externa, as 
principais questões são poder e segurança.
• As relações internacionais têm uma estrutura anárquica, já que não 
há um poder central mundial.
3 IDEALISMO CLÁSSICO
O Idealismo clássico, assim como o Realismo Clássico, faz parte do 
período denominado Pré-história das Relações Internacionais. Durante nossos 
estudos, trabalharemos alguns dos principais autores que configuram os 
ensinamentos teóricos desse período: Marcílio de Pádua, Thomas More, Abade 
de Saint-Pierre, Hugo Grotius e Rousseau. Esses ensinamentos podem servir de 
base para compreender o Idealismo Moderno (no contexto do pós-guerra e quedireciona o paradigma das Relações Internacionais durante as Décadas de 20 e 
30) e, posteriormente, a investida do Realismo Moderno. 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
74
3.1 MARSÍLIO DE PÁDUA (1275-80-1342-43)
Marsílio de Pádua foi um filósofo, médico, teólogo e pensador político 
italiano da região de Pádua. Escreveu O defensor da paz (1314), que objetivava 
descrever como se mantem a paz e aponta os fatores que podem suprimi-la ou 
bloqueá-la. Na sua visão utópica, Pádua acreditava que o homem nascia puro e 
inocente como Adão (primeiro homem, segundo os credos Judaico-cristãos) e que 
ia se modificando devido ao pecado original e lançado na sociedade. 
Devido à impossibilidade do homem viver em paz em uma sociedade 
civil, inspirado nas seis partes da cidade de Política de Aristóteles, Pádua 
conclama a criação de uma comunidade perfeita para se alcançar a paz, que 
está organizada em: agricultura, produção de alimentos; artesanato, criação de 
melhores condições de existência; governo, responsável por regular os excessos, 
atos de inteligência e vontade; exército, responsável pela segurança interna e 
externa; financeiro, responsável pela administração da riqueza, das atividades 
internas e das necessidades futuras; e o clero, responsável pelas atividades de 
Deus (PÁDUA, 1997).
FIGURA 6 – COMUNIDADE PERFEITA PARA SE ALCANÇAR A PAZ SEGUNDO PÁDUA
Fonte: O autor
Os escritos de Pádua acontecem em meio a Idade Média, muito antes 
do Estado Moderno. O aspecto importante do Idealismo trazido por Pádua é a 
divisão de atividades para superar as dificuldades de sobrevivência na sociedade. 
É interessante verificar que mesmo com a organização comunitária, este previu a 
instabilidade de ocorrência dos conflitos. Ele então pensa numa autoridade que seria 
tanto deliberativa quanto jurídica (governo) para trazer ordem para a comunidade. 
Pensa também sobre um dispositivo de apoio a essa autoridade (o exército).
Comunidade
Perfeita
PAZ
Governo
Agricultura
Artesanato
Exército
Financeiro
Clero
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
75
3.2 THOMAS MORE (1478-1535)
Thomas More foi filósofo, homem de estado, diplomata, escritor, advogado 
e homem de leis londrino, considerado como um dos grandes humanistas do 
Renascimento. Sua principal obra literária foi Utopia, de 1516, na qual descreve uma 
ilha perfeita constituída por 54 cidades, que tinham a mesma língua, leis e instituições.
 
Os governantes eram eleitos pelas famílias, assemelhando muito ao 
presidencialismo, diferente apenas no fato de que o príncipe eleito pelos 
legisladores governava até a sua morte, quando havia novas eleições. Tal 
instrumento era previsto para evitar que o governo se tornasse tirano.
Para as Relações Internacionais, o ponto mais importante dessa obra 
está relacionado à guerra. Para os utopianos a guerra era um evento brutal e 
abominável. Não obstante, tanto os homens quanto as mulheres deveriam reservar 
alguns dias no ano para exercícios militares de modo que a Utopia sempre tivesse 
um contingente militar de defesa. "More não concebe um Estado que seja pacífico 
sem que esteja pronto para se defender, mas enfatiza que a doutrina militar é 
baseada somente na prontidão de defesa" (SARFATI, 2005, p. 77).
Assim, a Utopia representa uma república pacífica devido a sua natureza 
organizacional, com um mecanismo de executivo democrático que impede o 
abuso de poder interno e externo. Os Estados agressores seriam aqueles que não 
possuem uma organização institucional sobre esses moldes e que permitem a 
ascensão de tiranias. Esses Estados violam gratuitamente o território dos outros 
Estados e para eles a guerra sempre seria justa. No contexto atual das Relações 
Internacionais, ainda há uma divisão entre o que é considerado uma guerra justa e 
injusta. Os Estados que se consideram agredidos justificam sua entrada na guerra, 
conclamando a comunidade internacional o direito de defesa (guerra justa).
Em outras situações, esses termos são polêmicos como foi o caso da Guerra 
do Iraque em 2003, em que os EUA tentaram legitimar perante o Conselho de 
Segurança da ONU a intervenção militar no país. A organização não reconheceu 
a legitimidade da ação militar, porém os EUA conseguiram, no Congresso, sua 
legitimação de investida com o argumento que os iraquianos possuíam armas 
químicas e colocavam o país e seus aliados sobre ameaças. Essa legitimidade 
continuou mesmo depois da invasão ao Iraque, onde alguns Estados aliados se 
tornaram presentes no conflito.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
76
A posição dos 15 Estados membros do Conselho de Segurança na ONU em 
relação a Guerra no Iraque foi a seguinte: Estados Unidos da América (Membro permanente), 
Reino Unido (Membro permanente), Chile (Membro não permanente), Angola (Membro 
não permanente), Camarões (Membro não permanente) e Guiné Equatorial (Membro não 
permanente) estavam a favor da intervenção; Paquistão (Membro não permanente) tinha uma 
posição neutra; França (Membro permanente), Rússia (Membro permanente), China (Membro 
permanente), Alemanha (Membro não permanente), Síria (Membro não permanente) e México 
(Membro não permanente) eram contrários a investida militar no Iraque.
IMPORTANTE
3.3 ABADE DE SAINT-PIERRE (1658-1743)
Charles-Irénée Castel ou Abade de Saint-Pierre foi um filósofo francês e 
talvez um dos primeiros pensadores das instituições e organizações internacionais. 
Defendia a unificação da Europa e escreveu a obra Projeto para tornar perpétua a 
paz na Europa (1713). Pode-se dizer que é o pioneiro ao pensar no processo de 
integração europeu, que começou a se concretizar apenas em 1958.
Para o filósofo, a Europa contemporânea não estava propícia para que as 
guerras deixassem de acontecer. De mesma forma, não acreditava que os Estados 
respeitariam os acordos internacionais e que o equilíbrio de poder da França e da 
Áustria era insuficiente para garantir a paz entre as nações europeias, assim como 
dentro de seus territórios (MIYAMOTO, 2000).
Devido a essa instabilidade, Saint-Pierre (2003) acreditava que os Estados 
Católicos Europeus (França, Inglaterra, Holanda, Portugal, Suíça, Florença, 
Veneza etc.) deveriam assinar um Tratado de União e formalizar um Congresso 
Perpétuo. Isso impediria o mau uso do poder, desestimulando invasões de 
outros territórios e bloqueios ao comércio internacional. Isso garantiria uma paz 
dentro da Europa e fortaleceria as alianças contra outros povos (não católicos), 
dissuadindo-os de atacar uma aliança tão grande.
A ideia do Abade nos lembra o momento inicial do processo de integração 
europeu, o qual antecede inclusive o Tratado de Roma de 1958, ou seja, a 
constituição da Comunidade Europeia de Carvão e Aço em 1951, formada por 
seis países (França, Alemanha Ocidental, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo). 
Como o carvão e o aço eram matéria-prima da indústria bélica, os mecanismos 
da comunidade asseguravam aos seus membros a supervisão da quantidade 
produzida e comerciada dessas commodities. Ou seja, na base do processo de 
integração econômica, está a ideia de assegurar a paz na Europa pela criação de 
mecanismos institucionais comuns, interdependência econômica e um processo 
gradual de construção de uma confiança mútua (SARFATI, 2005, p. 79).
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
77
Outro elemento importante no pensamento de Saint-Pierre (2003) é a 
convicção de que a paz na Europa poderia ser expandida para todo o mundo. 
Como visto anteriormente, essa paz estaria baseada nos "valores católicos". Com 
a derrota dos "bárbaros" haveria uma expansão do catolicismo e com isso o 
aumento da área pacífica no mundo. 
3.4 HUGO GROTIUS (1285-1343)
Hugo Grotius foi um jurista a serviço da República dos Países Baixos, 
considerado como fundador, com Francisco de Vitória e Alberico Gentili, do 
direito internacional, baseando-se no direitonatural. Também atuou como 
filósofo, principalmente no ramo da política internacional. Sua principal obra 
foi Direito de Guerra e Paz (1625). Deu origem à grande e importante tradição 
grotiniana das Relações Internacionais, ao postular que a anarquia, proposta por 
Hobbes e Maquiavel, poderia ser contida pelas regras e leis concebidas e aceitas 
pelos Estados.
Entende-se que Grotius aceitava os preceitos realistas sobre a natureza 
humana e dos Estados, porém não aceitava suas consequências: guerras. Para ele, 
as guerras poderiam ser contidas pelos princípios do direito internacional, cujas 
fontes estariam baseadas no direito natural. Trata-se da observação dos costumes no 
relacionamento dos governos e das regras e acordos entre os Estados. Para Grotius 
(1993), esses acordos internacionais seriam vinculantes, ou seja, na ausência de uma 
autoridade central mundial capaz de forçar a aderência a esses princípios, todos os 
Estados deveriam se sentir obrigados a tomá-los como correto e segui-los.
Grotius tenta normatizar o comportamento dos soberanos e das sociedades 
por meio do direito. O respeito aos princípios, normas e instituições além de serem 
a base do direito internacional, seriam também a solução para os conflitos entre 
os Estados. O autor não ignora as diferenças de poder entre os Estados, contudo 
ele entende que mesmo os mais poderosos precisam de aliados para questões 
de segurança e de comércio. Assim, a não observância de normas de direito 
internacional aumentariam a insegurança, mesmo desses Estados mais poderosos. 
Grotius entende que mesmo em tempo de guerra, a lei não desaparece. 
Ainda, que a "guerra não poderia ocorrer, exceto pelo legítimo direito de se fazer 
cumprir a lei" (SARFATI, 2005, p. 81). Como saber se o conflito é legítimo e deve 
acontecer? Grotius sugere que no campo internacional existem regras de direito 
comuns no convívio das nações e que a observância dos princípios de direito 
internacional traria o impedimento da guerra. 
O trabalho de Grotius foi fundamental para o Idealismo Clássico porque 
trouxe o desenvolvimento do direito internacional, que até hoje é atuante 
apesar das duas grandes guerras e inúmeros conflitos isolados pelo mundo. 
Isoladamente, o direito internacional não foi capaz de inibir as guerras, porém 
tem-se o que é aceitável ou não dentro dos conflitos, estabelecendo parâmetros 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
78
de ética em uma guerra. Ainda, vemos que no processo de institucionalização das 
organizações internacionais, os princípios grotianos ainda sobrevivem na relação 
entre os Estados.
3.5 JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1722-1778)
Rousseau foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor 
autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um 
precursor do romantismo. Ele reeditou os trabalhos de Abade de Saint-Pierre em 
1756, fazendo uma série de críticas ao mesmo, em 1782. Uma de suas críticas 
mais ferrenhas é a impossibilidade do legislativo se subordinar ao executivo 
como pensava o Abade. Outra crítica era a discussão das condições para o 
estabelecimento da paz. O regime político interno, era para Rousseau, fundamental 
para estabelecer a possibilidade de cooperação (BENEVIDES, 1999). Ou seja, um 
regime despótico poderia se unir a um regime democrático mesmo sendo os dois 
católicos? A resposta defendida por Rousseau era que não adiantava os valores 
comuns se a natureza política das soberanias fosse excludente ou incompatível.
Rousseau também discordava com o teórico realista Thomas Hobbes, 
ao acreditar que a natureza do homem não está ligada inerentemente à guerra. 
Esta seria o produto da vida social, lembrando muito o pensamento de Marsílio 
de Pádua. Ainda, o Estado não teria forças suficientes para conter os conflitos 
(nem internos) e sua materialização como guerra. Para Rousseau, os Estados 
absolutos trazem para o campo das relações internacionais mais competição, 
consequentemente mais conflitos de interesses e a guerra em última instância.
A ideia de interdependência econômica entre os Estados como forma 
de fomentar a paz, também é fantasiosa para esse pensador. Isso se dá por que 
sempre há a dependência de uma das partes, resultando no aumento de tensão 
entre os Estados. O equilíbrio de poder e a paz não são naturais e deveriam 
ser trabalhados apenas em condições ideais. Essas condições ideais significam: 
Estados pequenos, democráticos, soberanos segundo suas relações exteriores e 
legítimos internamente.
Por fim, Rousseau sugere que a paz seria factível pela formação de 
uma federação de Estados, soberanos internamente, ligados pela economia 
e conjuntamente armados contra as agressões externas. Em outras palavras, 
Rousseau acreditava que a solução pacificadora seria um processo de integração 
político, não baseada em valores (como o catolicismo de Saint-Pierre), mas na 
ideia da união de pequenos Estados democráticos.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
79
4 IDEALISMO MODERNO
O Idealismo Moderno propõe maneiras de organizar o cenário 
internacional, superando a situação de choque de interesses e de disputa de 
poder que levaram os grandes conflitos internacionais, que culminaram na 
Primeira Guerra Mundial de 1914. Tais formas de ordenamento foram pensadas 
para promover a moderação e a estabilidade nas Relações Internacionais, seja 
por meio de leis ou de mecanismos cooperativos multilaterais no controle do 
relacionamento interestatal. Trata-se de providenciar a definição de estruturas e 
parâmetros de interação claros e sobre regras internacionais (PECEQUILO, 2009).
No Idealismo, os relacionamentos entre os Estados se orientam por 
meio da cooperação econômica e política, fortalecendo os laços entre as nações, 
culminando na prosperidade individual e no bem comum e universal do sistema. 
Destarte, a guerra como instrumento de política internacional seria eliminada, ou 
pelo menos, dificultada.
O Idealismo Moderno nas Relações Internacionais tem como seu maior 
expoente contemporâneo o ex-presidente americano Thomas Woodrow Wilson 
(1856-1924). Desde 1913, Wilson tinha o objetivo de acabar com a diplomacia de 
guerra, que, em suas palavras, tratava os povos e províncias como mercadoria e 
peões num tabuleiro de xadrez. Foi contrário à política do Big Stick de Roosevel e a 
Dollar Diplomacy de Howard Taft. Sua vitória nas eleições de 1916 foi resultado de 
sua campanha de não intervenção norte-americana na Primeira Guerra-Mundial.
Apesar da sua campanha de não intervenção militar, em 1917, declarou 
guerra à Alemanha sob o slogan Safe for Democracy (Seguro para a Democracia). 
Apesar de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz em 1919, não conseguiu que o 
senado ratificasse os acordos de paz.
A Política do Big Stick refere-se ao estilo de diplomacia usado pelo presidente 
Theodore Roosevelt, no qual os EUA deveriam exercer a sua política externa como forma de 
deter as intervenções europeias no continente americano. Objetivava que os americanos 
assumissem a liderança dentro do continente. Roosevelt tomou o termo emprestado de 
um provérbio africano, "fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete", ou seja, 
busque o diálogo, mas use o poder para retaliar se necessário.
Dollar Diplomacy é uma diplomacia aplicada principalmente durante o mandato do 
presidente William Howard Taft, objetivando que a política externa americana promovesse 
intervenções na América Latina e na Ásia Oriental através do uso de seu poder econômico, 
por meio de empréstimos feitos a esses países.
IMPORTANTE
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
80
Em 1918, Wilson endereça uma mensagem pessoal para as duas Câmaras 
do Congresso contendo os famosos "14 pontos" que constituem os principais 
pontos do discurso idealista nas Relações Internacionais (SARFATI, 2005, p. 86):
1. Tratados de paz após negociações à luz do dia, a fim de acabar com 
a diplomaciasecreta.
2. Livre navegação em todos os oceanos, em tempo de paz e em 
tempo de guerra.
3. Tanto quanto possível, supressão de todas as barreiras alfandegárias 
(isto é, o livre acesso das mercadorias americanas aos mercados até 
então protegidos).
4. Desarmamento, sempre que possível, sem ameaçar a ordem interna.
5. Resolução dos problemas coloniais, respeitando o bem-estar dos 
colonizados tanto como as exigências dos colonizadores.
6. Evacuação dos territórios russos ocupados, direito das populações 
de disporem de si próprias, com a assistência de outras nações.
7. Evacuação e restabelecimento da Bélgica.
8. Evacuação e restabelecimento dos territórios Franceses da Alsácia-
Lorena à França.
9. Retificação das fronteiras italianas numa base nacionalista.
10. Autonomia dos povos que compõem o Império Austro-Húngaro.
11. Evacuação e restabelecimento da Romênia, da Sérvia e de 
Montenegro; livre acesso ao mar pela Sérvia; revisão das fronteiras 
nos Balcãs para satisfazer as aspirações nacionais históricas.
12. Autonomia para os povos não turcos do Império Otomano; 
independência da Turquia; garantias para a livre passagem pelo 
Bósforo e pelos Dardanelos.
13. Fundação de um Estado polaco independente, com livre acesso ao mar.
14. Criação de uma Sociedade das Nações que assegure a independência 
política e integridade dos Estados grandes e pequenos.
Dentre esses 14 pontos, o último era de especial interesse para Wilson, 
pois representava a confirmação e o fortalecimento do direito internacional capaz 
de garantir a paz mundial. A Liga das Nações foi materializada em 1919 segundo 
esse ponto imaginado por Wilson. E embora tenha fracassado no objetivo 
de manutenção da paz mundial, foi o ensaio das organizações burocráticas 
intergovernamentais que surgiriam no pós-guerra.
A Liga das Nações representa a base do Idealismo Moderno, teoria que 
dominou o debate das Relações Internacionais nas décadas de 1920 e 1930. Tal 
teoria criada com a organização internacional pregavam que a paz mundial 
poderia ser alcançada por meio dos esforços conjugados num fórum internacional 
que reunisse todas as nações na discussão e respeito das regras do direito 
internacional.
Elihu Root, secretário do ex-presidente Roosevelt em 1922, escreveu 
na Revista Foreign Affairs que os homens não poderiam viver em um cenário 
desprovidos de obrigações e direitos e que o reconhecimento das obrigações 
e direitos são necessários para se criar uma comunidade. Tal comunidade 
não é criada por vontade própria, mas sim na percepção da necessidade de 
autoproteção. Todos devem ter a ciência de certas regras de convivência, caso 
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
81
contrário, a comunidade tende a ser destruída. Essa máxima também se aplicaria 
para às nações, sendo que a criação da Liga das Nações seria um contrato entre os 
Estados, no qual esses concordam que sendo signatários, estariam vinculados os 
usos, costumes, leis, direitos e obrigações entre eles (ROOT, 1997).
Liga das Nações foi uma organização internacional criada em abril de 1919, 
quando a Conferência de Paz de Paris adotou seu pacto fundador, posteriormente inscrito 
em todos os tratados de paz. Foi idealizada a criação de um organismo que pudesse trazer 
a manutenção da paz e a resolução dos conflitos internacionais por meio da mediação e 
do arbitramento. A Liga possuía uma Secretaria Geral permanente, sediada em Genebra, 
e era composta de uma Assembleia Geral e um Conselho Executivo. A Assembleia Geral 
reunia, uma vez por ano, representantes de todos os países membros da organização, 
cada qual com direito a um voto. O Conselho, órgão político e decisório, era composto de 
membros permanentes (Grã-Bretanha, França, Itália, Japão e, posteriormente, Alemanha e 
União Soviética) e não permanentes, escolhidos pela Assembleia Geral. Não possuía forças 
armadas próprias, sendo que o poder de coerção era por meio de sanções econômicas e 
militares. Em abril de 1946, o organismo se autodissolveu, sendo suas responsabilidades 
transferidas para a recém-criada Organização das Nações Unidas, a ONU (FGV, 2019).
IMPORTANTE
“Root indica que não existe outra opção, senão a convivência pela lei 
entre os Estados, independentemente da existência da Liga das Nações, ou seja, 
é apenas a lei que permite a boa convivência entre os países” (SARFATI, 2005, p. 
84). Neste contexto, o cerne do idealismo está na certeza da adesão pelos Estados, 
aceitando as regras do direito internacional não por vontade de ajudar um ao 
outro, mas pelo interesse próprio de sobrevivência. Ou seja, a falha na observação 
das regras de direito seria uma falha na convivência ideal com a comunidade, 
resultando na guerra. Não existe assim, uma força coercitiva para que o direito 
internacional fosse cumprido, mas a racionalidade dos Estados na observação 
dos seus princípios, garantindo um objetivo comum, a construção da paz.
Por fim, faz-se necessário enfatizar que os três princípios básicos do 
Idealismo Moderno: “a democracia e a disseminação de seus valores e práticas; a 
segurança coletiva; e a autodeterminação” (PECEQUILO, 2009, p. 145).
• Democracia: uma vez que a criação de um sistema é baseada na igualdade 
e solidariedade, ele tende a eliminar os incentivos à conquista, levando ao 
compartilhamento dos princípios entre os homens. Tal compartilhamento 
promove a homogeneização e paz entre as sociedades. Essa premissa está baseada 
no pensamento que as democracias não vão à guerra umas com as outras.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
82
• Segurança coletiva: este princípio visa incentivar a cooperação entre todos os 
Estados, tornando-os parceiros e não competidores. Essa cooperação se dá por 
meio de arranjos multilaterais, nos quais os Estados compartilharão decisões e 
ações (o que foi imaginado na Liga das Nações).
• Autodeterminação: também podemos entender como a “soberania” de um 
Estado, no qual se tem garantido o direito do autogoverno de todos os povos 
que possuem uma unidade estatal. Essa unidade é reforçada por sua identidade 
política, cultural, étnica, econômica, fazendo tanto os seus membros internos 
(cidadãos) quanto os membros externos (outros Estados) lhe reconhecer como 
um Estado soberano.
FIGURA 7 – OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO IDEALISMO MODERNO
Fonte: O autor
Com o fracasso da construção da ordem no pós-guerra em 1918, a qual 
tinha a finalidade de instaurar uma estrutura cooperativa entre os Estados, o 
Idealismo Moderno foi acusado de ser excessivamente utópico. Ainda, o Idealismo 
foi responsabilizado pelo surgimento de eventos mundiais como a Grande 
Depressão, a ascensão do Nazifascismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. 
Nesse contexto, as antigas ideias realistas voltam às discussões acadêmicas das 
Relações Internacionais, representadas pelo Realismo Moderno.
A Grande Depressão foi um evento que caracterizou a Crise de 1929, uma grande 
depressão econômica que perdurou até a Segunda Guerra Mundial. Trata-se do mais longo 
período de recessão econômica do sistema capitalista do século XX. A Grande Depressão 
resultou em altas taxas de desemprego, quedas acumulativas da riqueza dos Estados, 
estagnação produtiva no setor industrial e quedas catastróficas nas ações das empresas.
NOTA
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
83
5 REALISMO MODERNO
O Realismo moderno nasce com o resgate das ideias dos realistas clássicos, 
como uma reação ao sentimento de falha empírica do Idealismo. Essa falha estaria 
na incapacidade de prevenção da violência interestadual que crescia não só na 
Europa, mas em todo o mundo depois de 1918. O nacionalismo exacerbado e o 
contínuo processo de agressões entre os Estados culminaram na Segunda Guerra 
Mundial em 1939.
Nesse sentido, as bases teóricas do Idealismo Moderno, aplicadas e 
defendidas na década de 1920 pela academia de Relações Internacionais se 
mostraram ineficientes no processo de cooperação interestatale no funcionamento 
da Liga das Nações. As falhas apontadas na ideia de respeito ao direito 
internacional sobre a ótica idealista fizeram surgir uma reação intelectual com 
críticas muito contundentes ao modelo teórico. Os grandes críticos da corrente 
idealista foram Edward Hallett Carr (com o seu livro Vinte anos de Crise, publicado 
em 1939) e Hans Morgentau (A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz, 
publicado em 1948). 
O papel de Carr não foi propriamente a construção da teoria realista, mas 
sim a desconstrução das teorias idealistas por meio de uma série de críticas. Por 
sua vez, Morgenthau foi considerado o percussor da teoria realista moderna nas 
Relações Internacionais, sendo o paradigma dominante desde o seu surgimento 
até a década de 1970. Esta teoria acabou por ser o Norte na formulação das 
políticas externas dos Estados.
Além desses autores, outros nomes importantes e pensadores 
fundamentais do Realismo Moderno são Carl von Clausewitz (general prussiano 
do início do século XIX) e Raymond Aron. Para Clausewitz (1997, p. 11), “a guerra 
é a continuação da política por outros meios”. Este autor sugere que nas relações, 
seja qual for sua amplitude, há aqueles que mandam e aqueles que obedecem. 
Nesse contexto, a guerra seria um meio para se conseguir obediência, na tentativa 
de se estabelecer tal relação de poder, por meio da violência generalizada. Já 
Raymond Aron, distinguiu o seu pensamento em duas divagações: não há lei no 
mundo que regule as Relações Internacionais e é tácito o livre recurso à força.
5.1 EDWARD HALLETT CARR (1892-1982)
Como dito anteriormente, Carr foi o principal crítico da Teoria Idealista. 
Sua obra tem duas características principais: o foco no Estado-nação como único 
ator relevante das relações internacionais; e o foco no poder como motivador das 
ações dos Estados.
Sendo os Estados as entidades soberanas e unitárias no sistema 
internacional, independentemente das suas divisões políticas internas, têm-se 
que as ações dos governos são as ações dos Estados. O governo sendo constituído 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
84
por uma única autoridade legítima na arena doméstica (dentro do Estado), fala 
no exterior de forma de igualdade com os outros Estados. Ou seja, nenhuma 
Organização Internacional estaria acima dos Estados, ou sequer poderia ser 
considerado um ator de Relações Internacionais. A participação dos Estados 
dentro dessas organizações estaria subordinada ao interesse nacional e seu 
benefício próprio. Assim, na racionalidade realista, quando o custo de se participar 
de uma Organização Internacional for maior do que os benefícios trazidos por 
ela, o Estado deveria se retirar dessa instituição burocrática.
O que importa na relação entre os Estados seria o poder e não a observância 
ao direito internacional, como dizia o Idealismo. Para Carr, ignorar a relação de 
poder entre os Estados seria ignorar suas motivações básicas de existência no 
sistema internacional, ou seja, a defesa de sua sobrevivência.
Outro ponto resgatado por Carr ao realismo clássico, está relacionado às 
ideias de Maquiavel. Para ele a ética não deve ser vista como independente da 
política ou sua norteadora, tal “inocência” seria o que ocasionou o fracasso da 
Liga das Nações. Para Carr (1981), os Estados são guiados por uma certa evolução 
política (darwinismo político), em que somente os mais fortes e bem preparados 
se manteriam no sistema internacional.
Carr (1981) acredita que não é a moral ou a ética o cerne da política internacional, 
mas sim a capacidade do Estado de se adaptar e sobreviver no sistema internacional.
IMPORTANTE
O autor ressalta que os idealizadores e defensores da Liga das Nações 
esqueceram que a política internacional é conflituosa. Os Estados podem ter 
interesses distintos e irão defendê-los até as últimas instâncias. Devido a essa falta 
de harmonia de interesses preconizada pela teoria idealista, Carr (1981) constrói 
sua crítica baseada na centralidade do poder nas Relações Internacionais. Para 
fundamentar sua crítica, ele define o poder sobre três categorias:
• Poder militar: também definido como High Politics, é a expressão máxima de poder.
• Poder econômico: este se submeteria ao poder militar, podendo estar a serviço 
do poder político, no sentido de interesses do Estado (Low Politics).
• Poder sobre a opinião: representa a persuasão política do Estado. 
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
85
FIGURA 8 – AS TRÊS CATEGORIAS DO PODER PARA CARR
Fonte: O autor
Todas essas categorias são interdependentes, integrando um poder 
indivisível. Não obstante, a diferença entre elas está na “força militar [que] 
apresenta a última ratio do poder, que é a guerra, ou seja, todo Estado está 
dirigido para a guerra, não como um objetivo, mas como seu último recurso de 
sobrevivência” (BEDIN, 2000, p. 119).
Sendo a principal preocupação dos Estados, suas próprias sobrevivências, 
o modo de se manterem capazes está nas capacidades de relação entre eles. A 
força militar representa a garantia de sobrevivência dos Estados, ao passo que o 
poder econômico é complementar ao objetivo principal, sendo subordinado aos 
objetivos da política dos Estados. O poder econômico garante o desenvolvimento 
e manutenção do Estado, além de ser um mecanismo de dominação aos 
outros Estados. Não obstante, está sempre submetido ao objetivo primário das 
preferências políticas.
Por sua vez, o poder sobre a opinião complementa o poder militar 
através da diplomacia e no convencimento das boas intenções das relações entre 
os Estados. Isso se dá por meio da representação diplomática em territórios 
estrangeiros ou por negociações multilaterais. Trata-se de um instrumento do 
poder militar e não uma esfera autônoma com um fim em si mesmo. 
Sobre outra perspectiva, o poder de opinião está ligado às qualidades 
intrínsecas da liderança. Resgatando o clássico O Príncipe, de Maquiavel, o 
governante deve ser estimado por sua população e pelos outros líderes estatais. Isso 
ajuda no processo de governabilidade doméstica e respeitabilidade internacional. 
Um líder fraco e sem o respeito de seu povo, pode passar a impressão aos outros 
países de que o Estado é frágil, podendo ser derrotado e dominado.
Por fim, vale ressaltar que Carr (1981) não constrói uma teoria realista 
ligada à segurança internacional, porém, sua contribuição está na retomada do 
pensamento realista baseada no controle do sistema internacional por intermédio 
da força. Ou, seja, a segurança internacional não estaria submetida a um conjunto 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
86
de leis internacionais, mas sim pelo uso da força nas relações entre os Estados. 
Trata-se de uma prática aceitável nas Relações Internacionais e que pode gerar 
uma mudança pacífica na relação entre os Estados.
5.2 HANS MORGENTHAU (1904-1980)
O grande expoente da teoria realista moderna nas Relações Internacionais, 
Hans Morgenthau (2003) propôs investigar as relações entre os Estados, assim 
como as forças envolvidas nessa interação. Este autor procurou delinear como 
seriam as relações norte-americanas com os outros Estados no período do pós-
guerra. Segundo ele, esse contexto seria:
• Substituição do multipolarismo pelo bipolarismo, sendo que os centros de 
poder estariam fora da Europa Ocidental. 
• A divisão da “unidade moral” em dois sistemas antagônicos de pensamento 
político e econômico que disputam entre si a lealdade dos homens.
• O desenvolvimento da tecnologia nuclear que poderia levar a destruição da 
humanidade.
O pensamento de verificar a orientação da nova política externa 
norte-americana levou Morgenthau à investigação da bipolaridade de poder 
protagonizada entre EUA e a ex-URSS. Constata-se em seus estudos que ambas 
potências estariam clamando por uma “correta moralidade”, que deveria ser 
seguida por toda humanidade. De um lado o capitalismoe do outro o socialismo, 
ambos expondo os seus valores. Os Estados tenderiam a se associar a um 
desses blocos de acordo com sua unidade moral. Por último, a tecnologia bélica 
representada pelas armas nucleares seria o aspecto que os líderes mundiais 
deveriam levar em consideração em seus cálculos políticos.
Assim como Carr, Morgenthau tem duras críticas à visão idealista das 
Relações Internacionais. Para o autor a paz mundial estaria relacionada ao 
mecanismo de equilíbrio de poder. Este poder determina os seis princípios 
realistas das relações internacionais (MORGENTHAU, 2003):
1) A política obedece a leis objetivas que são fruto da natureza humana e, por 
isso, qualquer melhoria social deve levar isso em conta.
2) O interesse dos Estados é sempre definido em termos de poder.
3) O conceito de interesse traduzido em poder é uma categoria objetiva de 
validade universal (ou seja, é constante na história da humanidade).
4) Os princípios morais universais não podem ser aplicados aos atos dos Estados, 
senão filtrados e analisados a partir das circunstâncias de tempo e lugar.
5) As aspirações morais de uma nação em particular não podem ser identificadas 
com os preceitos morais que governam o universo.
6) A esfera política é autônoma, ou seja, não é subordinada a nenhuma outra esfera.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
87
O primeiro princípio está relacionado à avaliação da natureza humana. 
Tal natureza não foi alterada desde os tempos antigos. Assim, nossa natureza, tal 
como a política, obedece às leis objetivas, que não podem ser ignoradas, caso o 
desejo seja mudar um eventual estado de guerra (SARFATI, 2005).
O segundo princípio refere-se aos Estados, unidades básicas da política 
internacional, os quais são governados segundo seus próprios interesses, 
maximizando os seus ganhos e minimizando os seus custos. Esses interesses são 
sempre definidos em termos de poder e não condicionados a julgamentos morais.
 
O terceiro princípio está intrinsecamente ligado ao segundo, mostrando 
que cada categoria de poder sempre existiu e sempre existirá nas relações entre 
os povos. As relações de poder eram as mesmas nas Cidades Gregas, no tempo de 
Tucídides, que as relações de poder nos Estados, como conhecemos atualmente.
O quarto princípio está relacionado à separação entre moral e ação 
política. Ou seja, a política é dominada pelo poder, sendo que quando se 
analisam a influência da moral e da ética na política, deve-se entender os valores 
da época. Esses valores nas Relações Internacionais são usados como justificativa 
e legitimação da ação dos Estados e não servem para julgar o comportamento 
como uma categoria objetiva. Em outras palavras, deve-se analisar racionalmente 
a relação de poder e sobrevivência do Estado, mesmo que uma ação possa ser 
considerada imoral.
O quinto princípio aponta que os preceitos morais de uma nação não 
podem ser considerados como aqueles que governam os povos. Cada nação clama 
que sua visão de mundo é melhor e superior, mas nenhuma pode ser considerada 
como verdadeira. Assim, quaisquer que sejam os valores morais de um povo, a 
análise deve sempre recair sobre os interesses definidos em termos de poder.
O sexto princípio diz que a política internacional não depende nem da 
economia e nem do direito, sendo uma esfera autônoma. Ou seja, a política define 
como os Estados tomam as suas decisões, independente da moral e da riqueza, 
porque o universo político internacional tem suas próprias lógicas e leis.
Assim como Carr (1981), Morgenthau (2003) explica que a política 
internacional é definida por meio da luta pelo poder. Esse poder pode ser exercido 
por meio de ameaças, carisma, ordens ou a conjugação destes. No entanto, o 
poder não pode ser limitado ao exercício da violência física, mas que no sistema 
internacional é imprescindível compreender a força política de uma nação. Para 
Morgenthau (2003, p. 53, grifo nosso), o poder pode ser classificado sobre as 
seguintes formas:
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
88
• Poder utilizável: aquele que pode ser exercido com o uso da força militar, com 
guerras e com armas convencionais.
• Poder não utilizável: representado pela impossibilidade da utilização das 
armas nucleares, pois num conflito, se ambos Estados tiverem acesso a esse 
arsenal, cada parte acaba se anulando, pois teriam uma destruição mútua.
• Poder legítimo: a legitimidade tem o sinônimo de legal ou moralmente 
justificável. Estaria relacionado à guerra num contexto de apoio aos aliados ou 
de autodefesa. Teria o sentido de “guerra justa” ou mesmo pela aprovação das 
Nações Unidas.
• Poder ilegítimo: não encontra respaldo na moralidade ou legalidade, como 
as guerrilhas, governos não reconhecidos internacionalmente ou processo 
expansionista de um Estado.
Ainda, Morgenthau (2003) continua sua análise na busca de entender 
como os Estados configuram sua natureza política no cenário internacional:
• Política de defesa do status quo: política que prima a conservação do poder e 
busca evitar transformações no sistema internacional, alterando sua posição.
• Política de Imperialismo: é orientada para aquisição de aumento de poder por 
meio da transformação da estrutura vigente.
• Política de prestígio: busca a ostentação e o ritualismo como maneira de 
aumentar o poder do Estado. É desempenhada pela diplomacia e representa 
um complemento às outras políticas.
Ao confrontar essas políticas externas, Morgenthau traz sua maior 
contribuição para a teoria realista das Relações Internacionais: a discussão do 
balanço ou equilíbrio de poder na segurança internacional. Para Morgenthau: 
“quando os Estados, que a princípio são iguais, tentam manter ou derrubar o 
status quo, entram num balanço de poder” (MORGENTHAU, 2003, p. 321).
Esse balanço pode ser garantido com o aumento do poder da parte mais 
fraca ou diminuição do poder da parte mais forte. Segundo o autor, existem 
várias maneiras de chegar ao balanço de poder entre os Estados ou grupos de 
Estados. As principais formas são: “dividir e conquistar territórios inimigos, pagar 
compensações aos derrotados, estimular a corrida armamentista ou estabelecer 
uma polícia de aliançar” (MORGENTHAU, 2003, p. 339). 
Pode-se dizer que, em todo o desenvolvimento de sua teoria, ele está 
preocupado com a construção da segurança internacional, e por consequência, 
da paz mundial. Para Morgenthau, dentro da nossa realidade internacional, a 
segurança internacional somente pode ser alcançada por meio de políticas que 
persigam o equilíbrio de poder.
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
89
QUADRO 1 – OS ELEMENTOS DO PODER NACIONAL
Geografia
Extensão territorial: o tamanho dos Estados pode conferir grandes potencialidades materiais e 
humanas, aumentando suas capacidades de poder.
Localização em relação aos outros Estados: a Inglaterra, por exemplo, por ser uma ilha, tem sua 
defesa facilitada em comparação aos países continentais.
Relevo: regiões mais montanhosas oferecem uma maior capacidade de defesa devido à dificuldade 
de acesso.
Clima: temperaturas e condições extremas podem dificultar ou facilitar as investidas de 
segurança nos Estados.
Recursos Naturais
Alimentos: autossuficiência na produção de alimentos confere importantes vantagens em caso de 
guerras. Por sua vez, ser dependente do fornecimento de alimentos é uma fraqueza.
Matérias-primas: autossuficiência em matérias-primas traz uma grande vantagem para o Estado, 
principalmente se essas estão associadas à produção de insumos bélicos. Essas matérias-primas 
estão associadas à tecnologia da época. Na primeira e segunda guerra, o carvão e o aço eram 
matérias-primas essenciais para as questões de segurança e poder do Estado. Atualmente, esse 
poder está mais associado às tecnologias de comunicação, softwares e capacidades de desenvolver 
tipos alternativos de energia.
Petróleo: apesar de ser uma matéria-prima, Morgenthaudistingue o petróleo das demais devido 
à potencialidade de abertura da cadeia de produção dele advinda. Ainda, as questões energéticas 
fazem do petróleo uma enorme vantagem econômica e militar a uma nação. 
Capacidade Industrial: o acesso às matérias-primas não é suficiente para o estabelecimento de 
uma estrutura de poder. Faz-se necessário a capacidade industrial para transformá-las e dar-lhes 
aplicabilidade para os fins civis ou militares.
Liderança: também é fundamental para o estabelecimento do poder, a capacidade de aliar boas 
estratégias à tecnologia disponível no Estado. Isso se dá por meio de uma liderança que escolha 
os melhores caminhos e recursos para ações civis e militares.
Quantidade das forças armadas: o poder de uma nação está associado à quantidade de pessoas 
disponíveis para atuar no conflito.
Qualidade das forças armadas: as qualidades do treinamento das pessoas disponíveis para 
atuar no conflito armado, assim como suas capacidades estruturais e de organização, trazem 
vantagens significativas para o êxito nas ações militares.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
90
População
Distribuição: o tamanho da população deve ser associado com a sua disponibilidade e 
distribuição dentro do território.
Tendências: deve-se avaliar a taxa de crescimento populacional para o futuro, pois o 
decréscimo de população no futuro pode enfraquecer as capacidades bélicas ao longo prazo. A 
faixa-etária também é um valor que deve ser observado, sendo necessária uma população produtiva 
suficiente para a estrutura organizacional do Estado e que seja uma desejável reserva militar.
Índole Nacional: a índole nacional está relacionada às qualidades intelectuais e morais 
de uma nação.
Moral Nacional: trata-se do grau de determinação com que uma nação apoia as políticas 
externas de seu governo, na guerra e na paz.
Qualidade da diplomacia: em tempos de paz, a estratégia internacional do Estado depende 
da qualidade de seus diplomatas e das capacidades de fazer acordos.
Qualidade do governo: busca-se um equilíbrio entre os recursos materiais e humanos 
de um lado, e a política externa a ser implementada do outro.
FONTE: Sarfati (2005, p. 95)
Segundo Morgenthau (2003), o equilíbrio de poder possui os seguintes 
limites:
• Grau de incerteza: há possibilidade de erro no cálculo dos atores Estatais nas 
relações de poder.
• Grau de irrealidade: os juízos sobre o poder e sobre a força de cada participante 
pode estar errado.
• Grau de insuficiência: mesmo que todos os cálculos estejam corretos, é possível 
haver falhas que só podem ser corrigidas pelo reconhecimento dos valores 
morais, pela influência das relações jurídicas e da opinião pública.
FIGURA 9 – OS LIMITES DE PODER SEGUNDO MORGENTHAU
Fonte: O autor
TÓPICO 1 | REALISMO E IDEALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
91
Por fim, Morgenthau (2003) apresenta uma ideia diferente ao equilíbrio de 
poder como forma de alcançar a segurança internacional. Trata-se da criação de 
um Estado Mundial, com uma única personalidade jurídica e uma única estrutura 
estatal. Nesse Estado haveria uma organização capaz de atender às demandas 
de vários grupos humanos e intervir nos conflitos. Esse organismo deveria ter 
uma força militar que impedisse qualquer instabilidade no cenário mundial. Não 
obstante, o autor reitera que vivemos numa ordem internacional anárquica em 
que prevalece o balanço de poder no alcance da segurança internacional.
5.3 CARL VON CLAUSEWITZ (1780-1831) E RAYMOND 
ARON (1905-1983)
Segundo o pensador, militar e estrategista prussiano, Carl Phillip 
Gottlieb von Clausewitz, a guerra tem papel central em todas as teorias de 
relações internacionais. Este assunto tornou-se muito discutido após as guerras 
napoleônicas, sendo que Clausewitz refletiu que a guerra é parte da política e, 
portanto, não pode ser vista independentemente dela. Nas suas mais famosas 
palavras, “a guerra é a continuação da política por outros meios”, o autor assume 
que a guerra é conduzida por Estados que, por meio de seus governos, levam as 
guerras (CLAUSEWITZ, 1997, p. 7, tradução nossa).
A Prússia foi uma poderosa nação europeia que dominou boa parte do centro 
do continente no século 19. Suas raízes, porém, vêm da Idade Média, quando o país era 
habitado por caçadores e criadores de gado. Do século XIII em diante a área caiu na mão 
de reinos germânicos, que impuseram costumes próprios e transformaram a Prússia em 
uma máquina de guerra. O auge dessa fera militar ocorreu em 1871, quando o ministro-
presidente prussiano Otto von Bismarck liderou a unificação dos Estados de origem 
germânica para criar um novo país, o Império Alemão. Depois desse processo, a Prússia 
passou a ser um Estado dentro do Império Alemão, com uma constituição própria e relativa 
liberdade de decisão em relação ao governo central. Essa organização começaria a ruir 
com a derrota alemã na Primeira Guerra, em 1918.
FONTE: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-prussia/>. Acesso em: 
11 out. 2019.
IMPORTANTE
Ainda em seu raciocínio, Clausewitz (1997) acredita que mesmo durante 
a guerra, a política não é interrompida, independentemente dos rumos tomados. 
O que é a guerra? Segundo a definição de Clausewitz (1997), a guerra é um ato 
de violência destinado a compelir o seu oponente a realizar seus desejos. Ou seja, 
um Estado deve tentar convencer ao outro a realização de determinadas ações 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
92
por intermédio da negociação e da diplomacia. Não obstante, caso não haja o 
resultado desejado, o Estado pode utilizar a força como último recurso, para 
atingir seus objetivos políticos (SARFATI, 2005).
Deste modo, uma das razões primárias da existência do Estado, segundo 
Clausewitz (1997), é a proteção de seus cidadãos. Nessa visão realista clássica, a 
guerra ocorre para proteger um país da ameaça oferecida por outro Estado. Em 
outras palavras, a guerra ocorre com o objetivo de desarmar o inimigo.
Assim, um Estado fortalecido militarmente em relação a outro, pode 
gerar a percepção de ser uma ameaça no Sistema Internacional. Essa sensação 
de desequilíbrio de poder pode conduzir à guerra. É inegável que existem outras 
motivações políticas que podem conduzir à guerra, como conquistas territoriais, 
comerciais, território ou o interesse econômico, porém todas essas variáveis, para 
os autores do realismo clássico, são secundárias e ligadas ao primeiro desejo de 
segurança militar estatal (CLAUSEWITZ, 1997).
Raymond Aron foi um filósofo, sociólogo e cientista político francês, autor 
de Paz e Guerra Entre as Nações, de 1962. Essa obra teve o intuito de explorar e 
analisar a realidade da Guerra Fria sob o conflito ideológico-militar entre EUA 
e a ex-URSS. Este trabalho tratou da temática de dissuasão atômica e da divisão 
bipolar do mundo, mas a principal preocupação estava no destino da humanidade 
sob a destruição mútua pelo armamento atômico.
Aron, baseado nos estudos de Max Weber, identificou no Estado o 
monopólio do uso legítimo da força. No mundo estatocêntrico de meados do 
século XX, Raymond Aron identificou a especificidade das Relações Internacionais 
verificando: “[o que] diferencia as relações entre comunidades politicamente 
organizadas de todas as outras relações sociais” (ARON, 1990, p. 148). E essa 
diferença, segundo o autor, seria o fato de, nas relações entre comunidades 
politicamente organizadas, o uso da violência ser admitido como norma legal e 
legítima (MALLMANN, 2006).
A consequência imediata do ambiente de permanente disputa entre os 
Estados para garantirem sua existência, é que eles vivem “à sombra da guerra” 
(ARON, 1990, p. 52). Isso implica uma disputa pelo poder, especialmente na 
forma do poder militar, embora outras formas também sejam possíveis, desde 
que convertíveis no militar. Da mesma forma, a segurança nacional não implica 
uma atitude defensiva de um país frente aos demais, poisé perfeitamente 
possível que, em seu nome, um país anexe um vizinho, em busca de mais terras, 
de mais recursos naturais ou humanos, ou simplesmente de modo “preventivo” 
(LACERDA, 2006).
Nesse sentido, o pensamento de Aron (1990) converge com o de Clausewitz 
(1997) no sentido de mostrar que o uso da força é uma condição natural das 
relações entre os Estados. Essa relação de conflito é advinda da incapacidade 
de regulação por órgãos ou instituições internacionais aos Estados. Em última 
instância, os Estados tendem a utilizar a força para garantir sua sobrevivência.
93
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• As Teorias das Relações Internacionais correspondem a instrumentos teórico-
conceituais capazes de fornecer auxílio na compreensão e na explicação de 
fenômenos da inter-relação humana (nos diferentes níveis de análise) que 
transcendem o espaço interno dos Estados.
• O comportamento dos Estados no sistema internacional sobre dois eixos 
básicos: a cooperação e o conflito, representados por concepções clássicas e 
modernas de dois movimentos teóricos: o realismo e o idealismo.
• O Realismo tem como pressuposto que os indivíduos são primordialmente 
movidos pelo desejo de poder e segurança.
• A Teoria idealista, ou o Idealismo, se refere ao conjunto de fatores, 
comportamentos e condições para a manutenção da paz e evitar o conflito.
• O Realismo Clássico é composto por autores que formam a tradição realista 
das Relações Internacionais num período em que a disciplina denomina como 
“pré-história das Relações Internacionais”: Tucídides, Maquiavel e Hobbes.
• O Idealismo clássico, assim como o Realismo Clássico, faz parte do período 
denominado Pré-história das Relações Internacionais: Marcílio de Pádua, 
Thomas More, Abade de Saint-Pierre, Hugo Grotius e Rousseau.
• O Idealismo Moderno propõe maneiras de organizar o cenário internacional, 
superando a situação de choque de interesses e de disputa de poder que 
levaram os grandes conflitos internacionais, que culminaram na Primeira 
Guerra Mundial de 1914.
• No Idealismo, os relacionamentos entre os Estados se orientarão por meio da 
cooperação econômica e política fortalecendo os laços entre as nações, culminando 
na prosperidade individual e no bem comum e universal do sistema.
• O Realismo Moderno nasce com o resgate das ideias dos realistas clássicos, 
como uma reação ao sentimento de falha empírica do Idealismo.
94
AUTOATIVIDADE
1 Qual é a principal diferença entre as correntes teóricas realistas e idealistas 
em relação à paz mundial?
2 Sobre as correntes teóricas realistas e idealistas em suas versões clássicas e 
modernas, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Para Tucídides, o crescimento de um Estado, seja em termos econômicos 
ou militares, gera uma insegurança aos seus vizinhos e em especial às 
grandes potências.
( ) Maquiavel diz que a relação entre os Estados é desordenada do ponto de 
vista internacional e é pautada por duas forças: ninguém quer ser dominado 
e oprimido pelos menores; e os menores querem dominar e oprimir.
( ) Para Hobbes, o estado de natureza pode ser “controlado” por meio de 
um “contrato social” no qual o homem abriria mão de sua liberdade, 
submetendo-se a um soberano, em prol de garantir a sua segurança.
( ) Para Rousseau, as guerras poderiam ser contidas pelos princípios do 
direito internacional, cujas fontes estariam baseadas no direito natural.
( ) Os três princípios básicos do Realismo Moderno são: a democracia 
e a disseminação de seus valores e práticas; a segurança coletiva; e a 
autodeterminação.
( ) Carr acredita que não é a moral ou a ética o cerne da política internacional, mas 
sim a capacidade do Estado de se adaptar e sobreviver no sistema internacional. 
( ) Para Morgenthau, a paz mundial estaria relacionada ao mecanismo de 
equilíbrio de poder.
( ) Morgenthau apresenta uma ideia diferente ao equilíbrio de poder como 
forma de alcançar a segurança internacional, a criação de um Estado Mundial. 
95
TÓPICO 2
LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Apesar da vitória do Realismo sobre o Idealismo no primeiro grande 
debate das Relações Internacionais, muitos conceitos apropriados pelo 
Liberalismo continuam nos debates teóricos contemporâneos. Muitos autores 
colocam o Idealismo como parte do Liberalismo, sendo que apesar destes últimos 
terem absorvido muitos pontos comuns à corrente idealista, principalmente em 
relação ao pacifismo de Kant (pacifismo democrático).
O Liberalismo é um dos paradigmas dominantes na teoria das Relações 
Internacionais e está voltado às questões econômicas na organização do sistema 
internacional. Os autores liberais têm uma visão positiva sobre a natureza 
humana, e veem o Estado como um mal necessário. Para o Liberalismo as relações 
internacionais podem envolver cooperação e paz. Tal situação corrobora para o 
crescimento do livre comércio, e, consequentemente, para a expansão dos direitos 
humanos universais.
Outro ponto importante do Liberalismo é a sua visão de que nas Relações 
Internacionais existe uma infinidade de atores importantes e não só o Estado. 
Assim, as organizações internacionais, as empresas transnacionais e os indivíduos 
compartilham responsabilidade na interação dentro do cenário internacional. Por 
esse pensamento, os teóricos do Liberalismo também são chamados de Pluralistas.
Talvez o ponto mais importante do Liberalismo está na sua crença de que 
as Relações Internacionais podem acontecer, evitando-se as guerras (por isso 
muitos denominam os liberalistas como uma corrente ou o próprio Idealismo) 
por meio da motivação básica do livre comércio. Será vislumbrado na próxima 
seção as variáveis do Liberalismo: Liberalismo Pacifista, Liberalismo Imperialista 
e Liberalismo Internacionalista.
Por sua vez, o Marxismo é uma corrente teórica não tão automática nas 
Relações Internacionais como as anteriores. Na verdade, Marx nunca teve a 
preocupação de trabalhar e construir diretamente uma teoria para esse campo 
de estudos. Sua aplicação direta às Relações Internacionais não foi idealizada 
previamente, porém é inegável que contribuiu muito para o debate acadêmico, 
porque traz visões estruturais sobre o mundo e explica criticamente a realidade 
econômica e social do ambiente doméstico e internacional.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
96
Muitos autores como Lênin e Trotsky realizaram algumas divagações 
teóricas sobre a relação entre os Estados. A própria teoria do materialismo 
histórico de Marx traz a previsão de que o sistema capitalista de produção tende a 
se universalizar, tornando-se o modo de produção dominante em todo o mundo.
No Marxismo, o capitalismo representa uma fase histórica de 
desenvolvimento econômico caracterizada por algumas contradições. Uma dessas 
contradições apontadas é o surgimento de duas classes sociais antagônicas, a 
burguesia (detentora dos meios de produção e exploradora da força de trabalho) 
e o proletariado (detentor de força de trabalho e explorado pela burguesia). Em 
relação ao papel do Estado, este atuaria como propiciador da segurança na ordem 
burguesa estabelecida, fazendo com que os trabalhadores se comportassem sob 
as normas do capitalismo.
A sociedade, por meio da luta de classes, seria transformada e a classe 
social explorada (proletariado) transformaria a ordem em seu favor por meio de 
uma revolução política. Assim, para Marx, o proletariado seria uma categoria 
social universal. Com base nesse pensamento, a teoria marxista deveria ser 
compreendida como uma teoria com paradigmas das Relações Internacionais. 
Historicamente, a teoria marxista ganha grande fôlego no início do século 
XX e vai até meados dos anos 1950. Muitos Estados colocaram em prática as 
premissas marxistas, baseando suas estruturas sociais e políticas nesta teoria. 
Exemplos dessa apropriação pelos Estados foram: a Revolução Russa de 1917, 
pormeio da construção do bloco socialista pela ex-URSS na Europa Oriental; e a 
Revolução Chinesa em 1949 (PECEQUILO, 2009).
Referente à Escola Inglesa das Relações Internacionais, esse movimento 
intelectual se iniciou com a criação do Comitê Britânico de Teoria de Política 
Internacional. O propósito era a discussão das relações entre os Estados na 
Inglaterra e que houvesse um intercâmbio teórico com o Comitê Americano. As 
premissas básicas que estão por trás dos estudos do comitê eram “as atividades 
diplomáticas, as razões pelas quais um país conduzia determinada política 
externa, as premissas éticas de conflitos internacionais e a possibilidade do estudo 
científico da política internacional” (SARFATI, 2005, p. 121).
A Escola Inglesa das Relações Internacionais apresenta para o contexto 
teórico da política internacional um avançado estudo baseado em três grandes 
elementos: a anarquia internacional (multiplicidade de comunidades políticas 
independentes que exercem sua soberania no cenário internacional sem 
reconhecer nenhuma comunidade política superior a elas); as relações habituais 
no cenário internacional (exemplificadas pelas instituições, o direito internacional, 
o comércio entre as nações, entre outras); e a solidariedade moral (um tipo 
de comunhão entre os atores internacionais, mais profunda que a política e a 
economia, descrita pelos fatores psicológicos e culturais que estabelecem um 
conceito de humanidade) (WIGHT, 2005).
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
97
Para os estudos sobre a Escola Inglesa das Relações Internacionais, 
primeiramente serão revisadas as fases de sua evolução de 1959 até o presente. 
Num segundo momento, também será revisado o conceito de Sociedade Mundial, 
de Immanuel Kant, os “três erres” de Wight, o conjunto resumido da obra de 
Hedley Bull, evocando conceitos já prefaciados na Unidade 1, como Sistema de 
Estados, Sociedade Internacional e Ordem Mundial. 
2 LIBERALISMO 
Com o surgimento e consolidação do Estado moderno nos séculos XVI e 
XVII uma nova estrutura socioeconômica e política emergiu e trouxe uma série 
de revoluções, denominadas “Liberais”, no século XVIII. O surgimento de uma 
nova classe social, a burguesia e consequentemente da propriedade privada e 
do trabalho individual transformou completamente as relações não somente 
dentro dos Estados, mas nas suas Relações Internacionais. Com o declínio do 
absolutismo e do poderio da nobreza, surge o movimento conhecido como 
Liberalismo Clássico.
No campo político, os principais autores são John Locke, Montesquieu e 
Immanuel Kant. Na economia, a tendência é representada por Adam Smith. Em 
termos gerais, o Liberalismo defende que o progresso das sociedades humanas se 
dá a partir da segurança nas condições legais e legítimas dos indivíduos que nelas 
habitam. Esse progresso deve ser efetivo e sem constrangimentos ou temores e só 
é possível a partir da existência de um Estado regente das relações humanas. Essa 
regência se dá a partir de um pacto coletivo que permite a realização dos potenciais 
inerentes à razão humana de progresso e liberdade (PECEQUILO, 2009).
2.1 VARIAÇÕES DO LIBERALISMO
A primeira vertente do Liberalismo a ser estudada é a do Liberalismo 
Pacifista. O economista Schumpeter, em sua obra Sociologia dos imperialismos (1919), 
escreve sobre a associação entre os fundamentos capitalistas e a democracia, 
que trazia os benefícios da paz duradoura. O imperialismo era uma disposição 
estatal de expansão da força. Ou seja, o desejo de dominação econômica leva ao 
Estado a guerra, na tentativa de conquistar novos territórios para satisfação das 
necessidades de expansão do capital. É pressuposto que as fronteiras do território 
nacional ficam saturadas e se enfrenta o desafio de barreiras tarifárias impostas 
por outros Estados. “O problema é que, uma vez que a máquina de guerra é 
acionada, ela assume vida própria e passa a controlar a política externa do Estado, 
criando outras guerras que alimentem essa máquina” (SARFATI, 2005, p. 102).
Para o autor, capitalismo e a democracia são forças pacíficas, se devidamente 
fortalecidas. Esses poderiam derrubar o imperialismo, pois produzem indivíduos 
econômicos e consequentemente racionais. Essa racionalidade dos indivíduos os 
faz buscar trabalhar e ganhar mais capital e impulsionam a democracia baseada 
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
98
no princípio de liberdade de escolha da população. Em suma, o capitalismo 
democrático seria capaz de gerar a paz pelo expansionismo de uma elite que 
não vê a vantagem em arcar com os custos de uma guerra. O livre-comércio 
prevalecendo, os Estados têm acesso às matérias-primas mais facilmente, 
importando suas necessidades e exportando os seus excedentes.
Uma tese curiosa que associa os ensinamentos de Schumpeter é a teoria do 
jornalista Thomas L. Friedman (1999), a Teoria dos arcos dourados. Nessa hipótese, 
o jornalista expõe que não existe guerra entre dois países que tenham a rede de 
fastfood McDonald’s. O que parece, a princípio, um pensamento inusitado e 
exótico, traz evidências históricas que sustentam a teoria. Israel, Líbano, Jordânia 
e Arábia Saudita possuem a rede de lanchonetes, e não entraram em guerra entre 
si desde a implantação em seus territórios. O mesmo não podemos dizer do Irã, 
Iraque e Síria, que não possuem a rede. A Guerra das Malvinas entre Argentina e 
Inglaterra aconteceu, e somente em 1986 o McDonald’s foi instalado na Argentina 
(quatro anos depois da guerra). Essa teoria não leva em conta as guerras civis, 
como é o caso da Iugoslávia (FRIEDMAN, 1999).
Mesmo que pareça bizarra a observação de Friedman, percebe-se que há 
certa coerência. Não é a presença em si da lanchonete que faz a paz nos países, 
mas sim o processo de globalização e o aprofundamento da interdependência 
econômica entre os Estados. Ou seja, os custos econômicos para entrada em 
uma guerra são muito altos e podem fazer as empresas instaladas nos Estados 
perderem muito dinheiro e mercado. Assim, o McDonald’s é uma metáfora que 
explica que as empresas multinacionais se instalam em Estados com estabilidade 
financeira e política, com pessoas com desejos em consumir. As sociedades 
capitalistas tendem a pressionar seus governos a se preocuparem mais com suas 
economias do que com os conflitos externos (SARFATI, 2005).
 
Por sua vez, na vertente do Liberalismo Imperialista, o povo também 
controla o Governante por meio da democracia. Está associada às ideias de 
Maquiavel, em que o povo mesmo em uma democracia tem o desejo da formação 
de um exército tal como seu governante. Isso acontece, pois, nenhum povo deseja 
ser oprimido por outros, não estando apenas preocupados com a satisfação de 
suas necessidades materiais. Essa busca geraria o Imperialismo, que é discutido 
desde os escritos de Tucídides sobre Atenas (cidade democrática) até as teorias 
contemporâneas que falam das intervenções norte-americanas.
 Por fim, o Liberalismo Internacionalista está vinculado às ideias 
de Kant em sua obra Paz Perpétua (1795). Os Estados deveriam ser repúblicas em 
que os cidadãos possam expor suas vontades. O governante deve pesar essas 
vontades nas decisões, o que ocorre opostamente nos governos absolutistas ou 
ditatoriais. No entanto, a democracia por si só não seria suficiente para garantir 
a paz. Deve-se haver o reconhecimento e respeito entre os Estados por meio de 
um federalismo. Ou seja, há necessidade da promoção de regras comuns de 
relacionamento que impeçam que os Estados interfiram nos assuntos internos 
uns dos outros.
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
99
FIGURA 10 – VARIAÇÕES DO LIBERALISMO E SUAS CARACTERÍSTICAS
Fonte: O autor
É importante frisar que o Liberalismo não é pacifista em relação a regimes 
não liberais. Ao contrário, em muitos casos, os Estados liberais responderam aos 
ataques de países que tinham características autoritárias. A teoria internacionalista 
de Kant ensinaque o caminho para a paz se dá por meio da observação de 
três artigos: uma constituição republicana dos Estados; uma federação (união) 
pacífica; e estabelecimentos de Lei Cosmopolitana (KANT, 1989).
Por republicana entende-se que a sociedade conseguiu resolver o problema 
de combinar autonomia moral, individualismo e ordem social. Na esfera privada, 
tudo é resolvido por meio da economia de mercado e da propriedade privada. 
Já na esfera pública, a tirania é evitada pela liberdade jurídica, com governo 
representativo e com separação de poderes. A federação visa defender o direito 
dos Estados sem o aspecto de organização, mas como um grande pacto de não 
agressão. É pautada no direito internacional que garante a soberania dos Estados. 
Já a Lei Cosmopolitana buscaria um tratamento hospitaleiro aos estrangeiros, 
promovendo o comércio e o turismo nos Estados.
Os Liberais acreditam que “o poder está baseado na disposição dos Estados 
em gastar seus recursos ou realizar concessões em função de suas preferências” 
(SARFATI, 2005, p. 107). Em outras palavras, é por meio da barganha e da 
negociação que as relações de poder são estabelecidas. Por fim, tem-se que a 
ação estatal no cenário internacional não é necessariamente racional, porque ela é 
resultado das preferências do Estado formadas no ambiente interno.
LIBERALISMO
Pacifista
Imperialista
Internacionalista
Capitalismo
Democracia
Segurança
Democracia
Democracia
Normas
Reconhecimento
da Soberania
PAZ
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
100
3 MARXISMO 
Como já mencionado, a corrente teórica marxista emerge nas Relações 
Internacionais de forma independente. Teve seu espaço conquistado no século XX 
quando a economia se consolidava no sistema internacional. Para entendermos 
como se dá a apropriação dos marxismos pelas Relações internacionais, 
precisamos revisar alguns pontos importantes, como o surgimento do Manifesto 
Comunista (1884), de Marx e Engels e visitar alguns pontos sobre o imperialismo 
de Lenin e Bukharin.
3.1 A IMPORTÂNCIA DO MANIFESTO COMUNISTA PARA 
AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS 
O trabalho de Marx e Engels ocorreu num período em que a Alemanha 
ainda não havia sido unificada e toda Europa tinha passado por várias 
revoluções burguesas. A Revolução Industrial trouxe o proletariado para as 
grandes cidades e a concepção marxista do materialismo constitui um fator 
determinante na organização política e das representações intelectuais da época. 
Em outras palavras, as atividades produtivas refletirão como as relações sociais 
se organizaram e estabeleceram os entendimentos das classes.
A medida que se desenvolvem as forças produtivas, essas trouxeram 
o conflito entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. O 
materialismo histórico aparece no início do Manifesto e expõe que “a história de 
toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes” (MARX; ENGELS, 1987, 
p. 35). Nessa frase os autores expressam alguns conceitos básicos:
• Determinismo histórico: a história se desenvolve a partir da luta de classes, o 
que significa que sempre houve classes e que esta é a base estrutural da história.
• A explicação das mudanças através do tempo: as transformações históricas se 
dão nas alterações das estruturas econômicas. Tendo um modelo econômico 
modificado, tem-se uma ruptura e novo rumo histórico.
• Importância da estrutura: a estrutura das ciências sociais é explicada pelo 
modelo econômico e pela forma que as classes se relacionavam e não pelos 
agentes. O Estado foi transformado e o proletariado poderia transformar a 
estrutura pela primeira vez na história.
A importância desses conceitos para as Relações Internacionais está muito 
além de entender os regimes comunistas. “O comunismo só seria alcançado caso 
todos os Estados tivessem chegado à ditadura do proletariado” (SAFARTI, 2005, p. 
114). Nessa situação, as classes seriam abolidas e o próprio Estado desapareceria. 
Então, quais seriam os pontos para entender o Marxismo sob a perspectiva das 
Relações Internacionais? Sarfati (2005, p. 114-115, grifo nosso) enumera alguns 
desses pontos:
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
101
• A concepção estruturalista: a história da sociedade pode ser 
explicada em função do modo de produção e de como as classes 
se relacionam. Ou seja, os Estados, ou mesmo as organizações 
internacionais, refletem o modelo dominante de produção e de 
relacionamento social.
• O papel menor do estado: como dissemos, os estados são atores 
de Relações Internacionais, no entanto, não são seus agentes na 
concepção marxista, porque os Estados, por meio da superestrutura, 
têm o papel de reproduzir o modelo de dominação vigente. Assim 
sendo, se o modelo for de produção industrial e burguês, o Estado 
defenderá os interesses dos grupos sociais dominantes, portanto, 
a política externa de um Estado sempre refletirá os interesses 
dominantes da burguesia daquele país.
• A Guerra: a guerra é a consequência natural do modelo econômico 
capitalista. O modelo burguês pressupõe que, com a expansão do 
capitalismo, novos mercados devem ser encontrados. A busca por 
mercados gera conflitos por terras entre os países que são grandes 
potências e aqueles menores (colonialismo/imperialismo) ou 
mesmo conflitos locais entre os países menores, que, movidos pela 
ganância burguesa, buscariam a revisão das suas fronteiras.
• A paz mundial: é interessante observar que, assim como Kant 
considera a democracia o grande elemento pacificador das 
Relações Internacionais, Marx e Engels apontam a ascensão do 
comunismo como o fim dos conflitos entre os povos, porque as 
guerras acontecem pela ganância das classes dominantes. Dessa 
maneira, quando a classe explorada finalmente tomar o poder, a 
solidariedade global eliminará os Estados e, portanto, a razão para a 
competição, que é a mesma da existência de guerras, desaparecerá.
• A irrelevância da anarquia: a anarquia, presença constante nas 
teorias de relações internacionais, não tem relevância dentro do 
marxismo, pois a razão para o conflito não é dada pela anarquia ou 
pela natureza humana ou dos Estados e sim pela natureza econômica 
e de classes dos Estados (estrutura), ou seja, o revisionismo burguês 
é verdadeiro dentro e fora do seu próprio país. O conflito está 
sempre presente em Relações Internacionais em função do modo de 
produção (capitalista) e da consequente luta de classes.
As Relações Internacionais por Marx deveriam ser vistas em nível de 
análise da sociedade. Assim, a política externa de um Estado é explicada em 
função dos interesses burgueses dominantes. Em um Estado com uma estrutura 
social baseada na produção agrícola, refletirá esse grupo dominante, assim 
como, um Estado com uma forte burguesia baseada nos setores metalúrgicos 
pensará nas preferências desses grupos sociais. Então, no campo internacional 
será pautado pelos interesses da burguesia dominante, seja preferindo a guerra 
ou a cooperação. Em outras palavras, um Estado com uma burguesia desejosa 
de um revisionismo territorial, tenderá a investir numa guerra; caso tenha uma 
burguesia interessada no livre acesso a mercados de outros Estados, favorecerá a 
cooperação internacional.
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
102
3.2 O IMPERIALISMO DE LENIN E BUKHARIN
Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo de Lenin, em 
sua obra Imperialismo: o estágio mais elevado do capitalismo (1916), faz explanações 
sobre como o capitalismo na livre concorrência exerce o seu mais caro fundamento, 
o Imperialismo. Na época de Lenin, havia uma concentração na produção de 
commodities e formação de monopólios, situação contrária ao da competição. 
Isso gerou a falência de pequenas empresas, desempregando milhares de 
trabalhadores em função do deslocamento da produção para plantas de larga 
escala. Para Lenin, o capitalismo transitava para um novo estágio: o Imperialismo 
traduzido pelamonopolização do capitalismo. Segundo Lenin, o imperialismo 
possui cinco características básicas (LENIN, 2005):
• A concentração de produção e capital propiciador de monopólios que tem um 
papel central na economia dos países. 
• A fusão do capital bancário com o capital industrial na criação da oligarquia 
financeira (capital financeiro).
• A exportação do capital de forma diferenciada da exportação das commodities.
• As formações de capitalistas monopolistas internacionais que, combinando 
suas participações, dominam o mundo.
• A divisão territorial entre as grandes potências capitalistas. 
No Imperialismo, o capital financeiro adquiriu a importância de prestação 
de serviço à classe burguesa, sendo que o capital se remunerava por meio de 
empréstimos, ações etc. Tal situação trouxe a necessidade do capital financeiro 
de se internacionalizar em busca de mais lucros. “Portanto, era fundamental uma 
associação política entre bancos, indústrias e pessoal do governo para assegurar 
a expansão do capital, especialmente do capital refletido nas grandes empresas 
multinacionais” (SARFATI, 2005, p. 116).
Pode-se deduzir então que a natureza do capitalismo imperialista era 
essencialmente conflituosa, pois os grandes interesses econômicos representados 
pelos Estados inevitavelmente entrariam em conflito por zonas de lucro. Buscava-
se, por meio da expansão territorial, o aumento de participação no mercado 
mundial. Essa corrida pela expansão do mercado gerou muitos conflitos e guerras, 
principalmente entre os grandes impérios. 
No século XIX, o capitalismo enfrentava alguns problemas como 
o excesso de produção, o baixo consumo dos trabalhadores e o excesso de 
poupança dos capitalistas. Começou a haver um excesso de produção sem quem 
tivesse capacidade de consumir esses bens. A saída encontrada foi o escoamento 
desses bens por meio do colonialismo, refletido nas políticas imperialistas dos 
países europeus. Em função de um mercado encolhido, os monopólios se viram 
obrigados a expandir suas fronteiras de mercado. Além da venda dos excedentes, 
os monopólios extraíam a matéria-prima, reforçando o modelo imperialista de 
exploração de colônias.
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
103
Nikolai Ivanovich Bukharin foi um revolucionário bolchevique russo, 
político soviético e em sua obra Economia mundial e o imperialismo (1915) discutiu 
que as causas da guerra e dos conflitos estão na natureza da economia mundial 
imperialista na época, no sentido de o capital buscar o lucro a qualquer custo em 
qualquer lugar do planeta. Assim, a lógica produtiva em âmbito internacional 
leva à divisão internacional do trabalho. Essa divisão se insere na prerrogativa 
de que os Estados e suas sociedades acabam se especializando na produção de 
determinados bens e serviços.
Em sua percepção, Bukharin (1986) entende que quanto mais desenvolvido 
um Estado, menor a sua lucratividade, por isso é preciso buscar um mercado 
menos desenvolvido para auferir lucros maiores. Dessa forma, a natureza 
do capitalismo busca a expansão de seus nacionais, na forma de expansão do 
território econômico nacional.
 Tanto Lenin quanto Bukharin defendem a natureza pacificadora do 
socialismo em termos de seu papel nos conflitos internacionais. Tal defesa 
se dá no entendimento de que a revolução socialista viria de movimentos 
proletários nacionais, se unificando no cenário internacional. Ou seja, os 
comunistas ao tomar o poder instituiriam uma sociedade socialista, combatendo 
os contrarrevolucionários burgueses. Essa nova ordem, com todos os Estados 
socialistas, resultaria num mundo cada vez mais pacífico até a abolição das 
guerras no mundo.
4 ESCOLA INGLESA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A Escola Inglesa das Relações Internacionais é uma corrente das Relações 
Internacionais, situada entre duas posições dominantes da disciplina, o Realismo 
e o Liberalismo. Trata-se de uma terceira via intermediária que valoriza os 
estudos históricos das relações humanas no reflexo das relações entre os Estados. 
A Escola Inglesa possui como principais autores: Martin Wight, Hedley Bull, 
Herbert Butterfield e Adam Watson. Tais autores foram, durante muito tempo, 
subestimados devido aos debates de Teoria das Relações Internacionais estarem 
focados na discussão Realismo/Liberalismo.
Como já mencionado, a história é a fonte de análise dessa escola, sendo que 
os autores sempre recorreram à observação do que seria um composto de valores 
nacionais na decisão dos atores e não simplesmente fatos repetidos, regidos por leis 
dentro de uma estrutura das relações entre os Estados. Trata-se de uma investigação 
de como os pensamentos e as ideias influenciam as políticas externas. Portanto, 
o aprendizado de Relações Internacionais significa alcançar o mundo social das 
relações internacionais por meio da “compreensão de seus praticantes, tanto do 
passado, quanto do presente” (JACKSON; SORENSEN, 2007, p. 198).
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
104
Portanto, a Escola Inglesa busca interpretar a relação entre os Estados, 
por meio do Direito, da Sociologia e da Filosofia, não enxergando a disciplina 
de Relações Internacionais como um campo autônomo perante as outras áreas 
do conhecimento. Mais do que isso, além do Estado, os demais atores têm papel 
fundamental dentro dessa abordagem, pois estes compõem o próprio Estado. Em 
outras palavras, o que era estudado era uma interação entre pessoas, instituições 
e governo, analisando os seres humanos e não a estrutura. O cientista político 
Little (2003) sugere uma evolução histórica na Escola Inglesa em quatro fases:
• Fase 1 (de 1959 até 1966): o comitê encontrou o foco das suas discussões em 
torno do tema sobre a diferenciação entre Sistema Internacional e Sociedade 
Internacional.
• Fase 2 (de 1966 até 1977): os estudos se pautaram sobre as obras fundamentais 
da Escola, sendo desenvolvidas e publicadas (O sistema de Estados, de Wight, 
e A sociedade anárquica, de Bull).
• Fase 3 (de 1977 até 1992): período de consolidação da Escola Inglesa e de 
transição para uma nova geração de intelectuais. Nessa fase, o comitê deixa de 
se reunir, mas, apesar disso, diversos autores, como R. J. Vincent, James Mall e 
Cornelia Navari, prosseguem no desenvolvimento das ideias da escola. Ainda, 
o nome Escola Inglesa é dado por Roy Jones, que inicia o ciclo de reflexões 
sobre a situação da corrente.
• Fase 4 (de 1992 até o presente): é marcada pela chegada da terceira geração de 
acadêmicos, com pouca ou nenhuma ligação com o Comitê Britânico de Teoria 
Política Internacional. Esses se propõem a debater as ideias da Escola Inglesa 
dentro da grande discussão teórica de Relações Internacionais, confrontando o 
Neorrealismo e o Construtivismo.
Representamos a seguir, a diferenciação entre Sistema Internacional e 
Sociedade Internacional, conforme estudamos na Unidade 1. 
• Sistema Internacional: diz respeito à política de poder entre os Estados, sendo 
que a escola inglesa é bastante similar ao realismo moderno. Sendo que a 
configuração do poder em uma ordem anárquica leva os Estados a balancear 
o poder, especialmente em termos militares. Ou seja, está mais relacionado à 
relação entre os Estados.
• Sociedade Internacional: representa que tanto os Estados como as pessoas são 
constituídos em sociedade e que nela os seus membros dão forma à sociedade 
tanto quanto ela os molda. Assim, um grupo de Estados não forma meramente 
um sistema, mas os obrigam a levar em conta o comportamento dos outros 
Estados em suas políticas e passam a conduzir um diálogo e a consentir em 
regras comuns e instituições na condução de suas relações.
Em síntese, para a existência de um Sistema Internacional, basta a 
existência dos Estados e que estes tenham qualquer tipo de interação, como 
guerras e comércio. Para a construção de uma Sociedade Internacional, precisa-
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
105
se do sistema internacional ea construção de elementos que permitam o 
desenvolvimento de uma ordem internacional, com certos valores em comum 
que se pretende manter em longo prazo.
A fronteira entre o sistema internacional e a sociedade internacional 
é estabelecida quando os Estados não só se reconhecem uns aos 
outros como unidades independentes (soberanas), mas também estão 
preparados a tratar uns aos outros sob a mesma base legal. Dessa forma, 
é fácil perceber que a sociedade internacional diz respeito à adoção do 
direito internacional como norma de relacionamento em determinado 
grupo de Estados. Entretanto, nota-se que a centralidade da ordem 
legal entre os Estados só passa a ocorrer quando eles possuem certos 
valores, inclusive culturais, que permitem a institucionalização do 
relacionamento entre si (SARFATI, 2005, p. 123).
Antes de passarmos para a análise de autores como Wight e Bull, faz-se 
necessário entender outro conceito importante, a Sociedade mundial. Esta leva em 
consideração não somente a relação dos indivíduos e Estados, como também as 
organizações não governamentais e as empresas transnacionais. Sua ordem está 
baseada em normas e valores compartilhados por indivíduos internacionalmente 
transcendendo a ordem de Estados. A sociedade mundial identificada como um 
ideal kantiano não é uma realidade internacional, mas algo que pode ser alcançado.
 Se compararmos com Morgenthau, o Estado mundial pressupõe a 
presença de uma sociedade mundial, pois, apenas com os valores e as normas 
comuns em nível individual seria possível criar um Estado em nível mundial. 
Entretanto, há uma clara tensão entre uma ordem estabelecida em Estados e uma 
ordem baseada em indivíduos, porque, quando OINGs, ETNs e indivíduos como 
um todo ganham personalidade jurídica internacional, equivalente à dos Estados, 
a ordem internacional com base na soberania estaria claramente ameaçada.
O historiador e diplomata britânico Martin Wight foi um dos pioneiros 
a investigar as origens das Relações Internacionais, nos seguintes autores do 
pensamento político ocidental: Nicolau Maquiavel, Immanuel Kant e Hugo 
Grotius. A escolha desses autores pela Escola Inglesa ratificou a importância 
do pluralismo para entender a Teoria das Relações Internacionais. Tem-se a 
apresentação dos pensamentos de Wight explícitos pelos chamados “três erres”: 
realismo, racionalismo e revolucionismo.
 O realismo é associado às relações entre os Estados e suas soberanias. 
Num sistema anárquico, cada Estado busca sobreviver balanceando o seu poder 
em relação aos outros Estados. Trata-se da face positivista da Escola Inglesa 
que apresenta a observação de que o sistema anárquico leva ao comportamento 
recorrente, repetitivo e regular de balanceamento de poder. Não obstante, “os 
realistas estariam deixando de explicar uma série de acontecimentos à luz da 
história, para explicar processos e estruturas abstratamente, o que invalidava, 
também, a ideia de mudança, já que uma estrutura estaria determinando todos 
os processos” (NASCIMENTO, 2011, p. 160).
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
106
O racionalismo é associado à construção da sociedade internacional, ou 
seja, às relações internacionais definidas em termos do diálogo entre os Estados e 
pelas normas e leis. Nesse ponto, a face da Escola Inglesa é de interpretação, em que 
os Estados passam a aumentar o grau de comunicação entre si. O campo de estudo 
nesta fase está baseado na sociologia e na história das Relações Internacionais. 
Assim, quanto mais os Estados compartilharem os valores culturais comuns, 
maior a probabilidade de cooperação entre eles. Trata-se do segundo grande 
debate das relações internacionais: o cientificismo versus historicismo. “Essa 
abordagem era completamente oposta ao realismo convencional, já que não se 
centrava no Estado, mas sim no ser humano. Portanto, o discurso revolucionista 
é repleto de otimismo, de uma crença na humanidade, de uma paz perpétua e no 
seu potencial emancipatório” (NASCIMENTO, 2011, p. 160).
O revolucionismo está associado à sociedade mundial (de Kant) e à ideia 
da centralidade do indivíduo nas relações internacionais. Essa centralidade do 
indivíduo tem precedência em relação aos Estados e às instituições internacionais, 
sendo um ideal e uma presença contemporânea nas Relações Internacionais. 
Ou seja, seria algo que ainda não existe e estaria por vir, com valores latentes 
e compartilhados por todos os seres humanos no mundo, como a ideia de que 
todos temos o direito a uma vida digna baseada na liberdade de expressão e na 
ausência de miséria, exploração etc. 
Além de Martin Wight, a Escola Inglesa também dispõe do teórico Hedley 
Bull, um dos mais importantes autores do pensamento político internacional. 
Bull foi aluno de Wight na London School of Economics and Political Science. Ele foi 
responsável por Wight ser conhecido, pois, além de sistematizar e aprimorar as 
ideias de Wight, foi responsável pela publicação de seu trabalho após a sua morte. 
Bull também aderiu ao racionalismo grotiano, sistematizando ainda mais os 
pressupostos da Escola Inglesa, contidos na Sociedade Internacional, mas trouxe 
elementos para o debate, como a noção de ordem internacional. A sistematização 
de uma sociedade de Estados surgiu no seu livro A Sociedade Anárquica (1977), 
livro clássico da disciplina de Relações Internacionais e Política Internacional. Para 
Bull, a ordem na Sociedade Internacional representa um modelo de atividades 
entre os Estados.
Existe uma sociedade de estados (sociedade internacional) quando um 
grupo de estados, conscientes de certos valores e interesses comuns 
formam uma sociedade, no sentido de se considerarem ligados, no seu 
relacionamento, por um conjunto comum de regras, e participam de 
instituições comuns (BULL, 2002, p. 19).
O ordenamento defendido por Bull, ordenamento no plano internacional, 
seria semelhante à ordem na vida social. Também acreditava que as instituições 
internacionais configuram agentes decisivos para manutenção da ordem 
internacional. Ainda, que esse arranjo institucional só poderia acontecer por 
meio da cooperação fomentados pelos corpos diplomáticos, organizações 
internacionais e o direito internacional.
TÓPICO 2 | LIBERALISMO, MARXISMO E ESCOLA INGLESA
107
Como já verificado, a Escola Inglesa aderiu ao pressuposto realista de 
sistema internacional, pelo menos no início, mas também discutiu a possibilidade 
de ordem através de valores, como a justiça e a soberania dos povos. Segundo Bull, 
a ordem mundial deveria ser mantida pelas grandes potências, reconhecendo a 
desigualdade de poderes entre os Estados. Ou seja, os autores da Escola Inglesa 
não descartaram a ideia de balança de poder, nem a de Sistema Internacional. 
Ainda, é importante frisar que a noção de Sociedade Internacional, defendida por 
Bull, não veio substituir o antigo conceito realista de Sistema Internacional.
 Para ele, a sociedade internacional, obrigatoriamente, pressupõe um 
Sistema Internacional. Em outras palavras, o sistema de estados se formaria 
quando dois ou mais estados têm contato entre si, com impacto recíproco em 
suas decisões (BULL, 2002). Tal contato poderia assumir a forma de cooperação 
ou de conflito, traduzida em matéria econômica, militar, estratégica e outras. 
Caso os Estados compartilhem os valores comuns tende-se ao estabelecimento 
da Sociedade Internacional. Caso contrário, “teríamos então apenas um sistema 
internacional à moda realista” (NASCIMENTO, 2011, p. 164).
 Por último, Bull (2002, p. 26) define a ordem mundial como “os padrões 
ou disposições da atividade humana que sustentam os objetivos elementares 
ou primários da vida social na humanidade considerada em seu conjunto”. A 
ordem internacional é aquela entre os Estados, mas estes são agrupamentos de 
indivíduos que podem assumir várias faces que não a de um Estado. E mesmo os 
Estados, quando agrupados, ainda possuem outra natureza, portanto, a ordem 
mundial é maisampla que a internacional por incluir não só o relacionamento 
entre os Estados, mas também ETNs, OINGs etc. Bull (2002) argumenta que o 
Realismo indica que a sustentação de uma sociedade internacional não é possível 
em função da anarquia internacional, entendida como a ausência de um governo 
internacional. Apesar de não discordar da existência dessa anarquia internacional, 
sustenta que as sociedades internacionais podem ser mantidas em um ambiente 
anárquico. Nesse caso, em primeiro lugar, o sistema internacional moderno não 
se parece com o Estado de natureza hobbesiano e, em segundo lugar, a aplicação 
da anarquia internacional conduzida pelos realistas é incorreta, visto que se 
baseia na premissa errônea das condições de ordem dentro de um Estado, ou 
seja, somente há ordem interna porque há um governo supremo. Na verdade, a 
ordem existe porque os homens são capazes de uma coexistência social ordenada 
dentro de um Estado impulsionado por ideias como o sentido de comunidade, 
hábito, inércia etc.
 Além disso, a argumentação não leva em conta os limites da anarquia, 
em que um certo grau de anarquia internacional é tolerável nas relações entre 
os Estados, o mesmo não pode ser dito em relação aos indivíduos (SARFATI, 
2005, p. 129). A ordem dentro de uma sociedade internacional é mantida pelos 
seguintes elementos (BULL, 2002):
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
108
• Interesses em comum: trata-se das percepções de elementos e princípios comuns 
à ordem de Estados que levam a um cálculo racional da ação de política externa. 
É pensado sobre as consequências de invadir o território de outro Estado, por 
exemplo, resultado no direito de autodefesa assistido por aliados.
• Regras: também são refletidas no direito internacional, sendo a manifestação 
formal dos interesses comuns dos Estados e servem, portanto, de orientação 
para as ações estatais. 
• Instituições: o papel das instituições internacionais é o de garantir a eficácia 
das regras internacionais, ou seja, garantir que as regras sejam obedecidas. 
Portanto, as instituições acabam servindo de fórum, onde as regras são feitas, 
socializadas, administradas, interpretadas, aplicadas e protegidas.
Após descrever sobre o Sistema de Estados, Sociedade de Estados e a 
Ordem Mundial, Bull começa a pensar sobre as possibilidades de como a relação 
no cenário internacional poderia caminhar (SARFATI, 2005, p. 130-131).
1. Um mundo desarmado: cenário de desarmamento amplo e 
irrestrito que somente seria possível por meio de uma autoridade 
mundial com acesso irrestrito à fiscalização dos armamentos. 
2. Solidariedade dos Estados: seria uma nova fase do sistema de 
Estados caracterizada pela estrita observância da Carta da ONU. 
Nesse sentido, faz-se necessário um grau extremo de solidariedade 
entre os Estados.
3. Mundo com muitas potências nucleares: para que houvesse algum 
equilíbrio da ordem internacional, o acesso às armas deveria ser 
garantido a grande parte dos países.
4. Homogeneidade ideológica – triunfo do Liberalismo ou 
comunismo: pode exibir um elevado grau de ordem internacional, 
mas é questionável se algum dia haverá tal uniformidade ideológica.
Assim, podemos concluir que a Escola Inglesa é uma construção teórica 
que enxerga a possibilidade de mudança no sistema internacional, ou seja, por 
meio de instituições, da justiça e da ordem. A Escola Inglesa reconhece que o 
mundo representa uma sociedade partilhada entre os Estados. Apesar de se 
apresentar como uma terceira via entre os realistas e os liberais reivindicando 
um sistema mais harmônico, por entenderem que, assim, os países poderosos 
realizariam seus interesses mais rapidamente e a custos menores, não conseguiu 
explicar como os Estados mais menos expressivos em capacidades de poder, 
ascenderiam na ordem internacional mantida pelos maiores Estados. No entanto, 
conseguiu direcionar a importância do seu método de análise sobre os fatos 
internacionais, por meio do entendimento da história, da cultura e dos valores 
individuais e coletivos dos atores internacionais. 
109
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• O Liberalismo é um dos paradigmas dominantes na teoria das Relações Internacionais 
e está voltado às questões econômicas na organização do sistema internacional.
• O Liberalismo tem na sua visão que nas Relações Internacionais existem uma 
infinidade de atores importantes e não só o Estado.
• O Marxismo é uma corrente teórica não tão automática nas Relações 
Internacionais, sendo que sua aplicação trouxe visões estruturais sobre o 
mundo e explica criticamente a realidade econômica e social do ambiente 
doméstico e internacional.
• A Escola Inglesa das Relações Internacionais apresenta para o contexto 
teórico da política internacional um avançado entendimento baseado em três 
grandes elementos: a anarquia internacional, as relações habituais no cenário 
internacional e a solidariedade moral.
• Os Liberais acreditam que o poder está baseado na disposição dos Estados em 
gastar seus recursos ou realizar concessões em função de suas preferências, ou seja, 
por meio da barganha e da negociação que as relações de poder são estabelecidas.
• O Liberalismo tem que a ação estatal no cenário internacional não é 
necessariamente racional, porque ela é resultado das preferências do Estado 
formadas no ambiente interno.
• As Relações Internacionais, segundo Marx, deveriam ser vistas em nível de 
análise da sociedade. Assim, a política externa de um Estado é explicada em 
função dos interesses burgueses dominantes.
• Tanto Lenin quanto Bukharin defendem a natureza pacificadora do socialismo 
em termos de seu papel nos conflitos internacionais.
• A nova ordem segundo o marxismo, seria que todos os Estados fossem 
socialistas, resultaria num mundo cada vez mais pacífico até a abolição das 
guerras no mundo.
• A Escola Inglesa é uma construção teórica que enxerga a possibilidade de 
mudança no sistema internacional, ou seja, por meio de instituições, da justiça 
e da ordem.
• A Escola Inglesa se apresenta como uma terceira via entre os realistas e os liberais 
reivindicando um sistema mais harmônico, por entenderem que assim os países 
poderosos realizariam seus interesses mais rapidamente e a custos menores.
110
AUTOATIVIDADE
1 Sobre o Liberalismo, assinale V para as assertivas verdadeiras e F para as 
falsas:
( ) O Liberalismo acredita que, nas Relações Internacionais existe uma 
infinidade de atores importantes e não só o Estado. Por esse pensamento, 
os teóricos do Liberalismo também são chamados de Pluralistas. 
( ) Para o Liberalismo, as relações internacionais se dão por meio do conflito 
e da guerra.
( ) O Liberalismo é pacifista em relação aos regimes não liberais.
( ) Para o Liberalismo, a história se desenvolve a partir da luta de classes, o 
que significa que sempre houve classes e que esta é a base estrutural da 
história.
( ) As variáveis teóricas do Liberalismo são: Liberalismo Pacifista, Liberalismo 
Imperialista e Liberalismo Internacionalista.
2 Com relação ao Marxismo, sob a perspectiva das Relações Internacionais, 
associe os itens a seguir:
I- Concepção estruturalista.
II- Menor papel do Estado.
III- Guerra.
IV- Paz Mundial.
V- Irrelevância da anarquia.
( ) O Estado defende os interesses dos grupos sociais dominantes, portanto, a 
política externa de um Estado sempre refletir os interesses dominantes da 
burguesia daquele país.
( ) Os Estados, ou mesmo as organizações internacionais, refletem o modelo 
dominante de produção e de relacionamento social.
( ) Consequência natural do modelo econômico capitalista.
( ) O conflito está sempre presente em Relações Internacionais em função do 
modo de produção (capitalista) e da consequente luta de classes.
( ) Quando a classe explorada finalmente tomar o poder, a solidariedade 
global eliminará os Estados e, portanto, a razão para a competição.
3 Sintetize a visão da Escola Inglesa nasRelações Internacionais:
111
TÓPICO 3
O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
As teorias de Relações Internacionais no pós-Segunda Guerra Mundial 
sofreram uma reformulação de seus paradigmas teóricos, necessária para 
redirecionar as suas interpretações do cenário internacional com os acontecimentos 
da contemporaneidade. Após as décadas de 1970 e 1980, os paradigmas do 
Neorrealismo e do Neoliberalismo dominaram o debate teórico acerca das 
Relações Internacionais. Neste tópico, foram traçadas as principais características 
das teorias realista e liberal, traduzidos nos paradigmas neoliberal e neorrealista. 
Atualmente, existe um significativo debate entre as escolas neorrealistas e 
neoliberais, dividindo as agendas de investigação sobre a disciplina de Relações 
Internacionais. Em síntese, a diferença entre as duas correntes acontece em 
alguns pontos específicos: primeiramente, os neorrealistas consideram que a 
anarquia internacional limita a atuação do Estado, o que não é tão expressivo 
para os neoliberais. Ou seja, os neorrealistas estão preocupados com as questões 
de segurança e com as causas e efeitos das guerras enquanto os neoliberais se 
concentram na otimização da economia, comércio, aperfeiçoamento das relações 
diplomáticas e da política internacional, assim como harmonizar a relação entre 
desenvolvimento e meio ambiente.
Também os neorrealistas são mais pessimistas em relação à cooperação 
internacional, sendo que sua manutenção ocorre pelo poder que os Estados 
possuem. Os neoliberais acreditam que essa cooperação é mantida pela estrutura 
das relações de interdependência institucional que se dá no cenário internacional. 
Ainda, sobre as relações de cooperação internacional, os neoliberalistas enfatizam 
na capacidade de ganhos absolutos da cooperação internacional (onde todos os 
Estados ganham por cooperar), enquanto os neorrealistas o fazem com ressalvas 
e esperando os ganhos relativos (ganhos menores ou que somente alguns os 
obtém no processo de cooperação). Em outras palavras, os neorrealistas fazem os 
cálculos de quem ganha mais com a cooperação internacional, enquanto que os 
neoliberais buscam dinâmicas e maneiras de maximizar o nível total de ganhos 
de todas as partes.
112
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
Os neorrealistas se concentram nas capacidades dos Estados, antes de 
suas intenções, enquanto os neoliberais observam quais são as intenções dos 
atores internacionais, e consequentemente, avaliam as suas capacidades. Talvez 
o ponto mais importante da diferença entre os neorrealistas e neoliberais está 
na sua confiança sobre estruturas interestatais ou intergovernamentais como 
as instituições internacionais. Os neorrealistas não acreditam que instituições 
e regimes internacionais possam mitigar os efeitos limitadores da anarquia na 
cooperação internacional. Por sua vez, a confiança nas instituições internacionais 
é o cerne do pensamento neoliberal para as Relações Internacionais, facilitando o 
processo de cooperação internacional.
FIGURA 11 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO
Fonte: O autor
A seguir são apresentados os dois paradigmas das Relações Internacionais 
(Neorrealismo e Neoliberalismo) e um aprofundamento do debate entre as duas 
correntes. Desta forma, podem-se compreender essas duas interpretações teóricas 
como instrumentos analíticos das Relações Internacionais contemporâneas.
NEORREALISMO NEOLIBERALISMO
Guerra e Segurança Diplomacia, Comércio, 
Economia, Desenvolvimento
Pessimismo sobre a 
cooperação Otimismo sobre a cooperação
Anarquia limita a 
ação do Estado
Menor relevância da 
Anarquia nas ações do Estado
Cooperação de dá
pelos Poder
Cooperação se dá pela 
Interdependência Institucional
Ganhos relativos Ganhos Absolutos
Observação das capacidades 
dos Estados
Observação das intenções 
e capacidades dos atores 
internacionais
Instiruições são ineficientes 
para a cooperação
Instituições são o cerne para a 
cooperação
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
113
2 NEORREALISMO
O Neorrealismo surge no final da década de 1970, tendo como um 
grande expoente, o trabalho de Kenneth Waltz. Este teórico em sua obra Theory 
of international politics (1979), representa uma renovação crítica da teoria realista 
moderna, sendo que a diferença principal a esse período está no nível de análise. 
Ou seja, enquanto o Realismo Moderno foca sua análise sobre o Estado e sua 
atuação, o Neorrealismo se concentra no Sistema Internacional (SAFARTI, 2005). 
Em sua obra, Waltz pretendia apresentar uma Teoria Geral de Relações 
Internacionais, discutindo o significado de leis que estabelecem as relações entre as 
variáveis (um padrão) e teorias (conjunto de leis pertencentes a um comportamento 
particular ou a um fenômeno). Destarte, as teorias são necessárias para explicar as 
leis, trazendo as hipóteses como explicações alternativas para a realidade.
 Depois de descrever o significado das teorias em geral, Waltz (1979) 
propõe a tarefa de classificação das teorias de política internacional. Para ele, 
as teorias que se concentram sob o nível de análise “indivíduos ou nações” são 
consideradas teorias reducionistas, enquanto as que focam no nível de análise 
“Sistema Internacional” são consideradas teorias sistêmicas.
FIGURA 12 – CLASSIFICAÇÃO DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PARA WALTZ
Fonte: O autor
 No reducionismo, o todo pode ser entendido a partir dos atributos e da 
interação das suas partes. Para Waltz (1979), o reducionismo é inadequado para 
a compreensão da política internacional. Algumas vezes, os Estados, mesmo com 
diferentes capacidades, produzem resultados similares. Em outras ocasiões, os 
Estados com capacidades semelhantes podem fornecer resultados diferentes. Ou 
seja, as mesmas causas podem levar a diferentes efeitos, e os mesmos efeitos são, 
muitas vezes, o resultado de causas diferentes.
TEORIAS 
REDUCIONISTAS
TEORIAS
SISTÊMICAS
Análises dos Indivíduos 
e Nações
Análise do Sistema
Internacional
114
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
FIGURA 13 – INEFICIÊNCIA DE TEORIAS REDUCIONISTAS NA COMPREENSÃO DA 
POLÍTICA INTERNACIONAL
O sistema internacional é estabelecido em termos de sua estrutura, ou seja, 
a regra de posicionamento das unidades, umas em relação às outras, adicionado 
o padrão de relacionamento entre as unidades. As estruturas domésticas são 
definidas como hierárquicas, sendo que as instituições se relacionam entre si 
e se submetem a um poder central. No âmbito internacional, o ordenamento 
anárquico faz com que, em tese, nenhum Estado “mandaria” um no outro. Ou 
seja, o posicionamento das unidades no Sistema Internacional não é determinado 
somente pelo ordenamento, mas pelas capacidades relativas das unidades (o que 
elas podem ou não fazer em termos da política internacional).
 Um ponto interessante sobre o neorrealismo apontado por Waltz (1979) é 
que existem atores não estatais na política internacional. No entanto, eles não são 
relevantes para as relações internacionais, pois não têm a capacidade de alterar a 
estrutura internacional. Ou seja, a estrutura é definida pelos grandes atores e não 
pelos pequenos. De mesma maneira, na economia, as pequenas empresas seguem 
as regras do mercado, enquanto os oligopólios determinam o seu comportamento. 
E mesmo que algumas grandes corporações internacionais sejam maiores que 
a maior parte dos Estados pequenos, os neorrealistas argumentam que essas 
empresas não possuem exércitos que defendam os seus cidadãos. Também, as 
empresas dependem de ordens jurídicas estabelecidas pelos Estados para atuarem 
em seus territórios. Um terceiro ponto é que, segundo os neorrealistas, as pessoas 
não são fiéis às empresas e, sim, a seus Estados. Por fim, é importante dizer que 
os Estados têm a característica de serem soberanos,ou seja, eles decidem por si 
só como lidar com os seus problemas internos e externos, incluindo a decisão de 
procurar ou não ajuda externa.
Waltz (1979) aborda a questão do Equilíbrio de poder no contexto da 
teoria neorrealista. Os Estados, sendo unidades que desejam preservar a si 
próprios (intenções mínimas) e conquistar outros territórios (intenções máximas), 
utilizam os meios internos e externos para alcançar esses interesses. Os meios 
internos seriam as estratégias de aumento da força militar ou econômica, e meios 
externos, o aumento da aliança contra um Estado opositor. Assim, num sistema 
competitivo, os Estados olham as suas capacidades relativas e mantém atentos 
Fonte: O autor
ESTADO A
com capacidade X
ESTADO B
com capacidade X
ESTADO A
com capacidade X
ESTADO C
com capacidade X
RESULTADO Y RESULTADO Z RESULTADO Y RESULTADO Y
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
115
ao seu objetivo mínimo de sobrevivência. Então, equiparam suas capacidades 
com as dos outros Estados, especialmente com relação à segurança (capacidades 
militares). Tendo o constante medo de serem atacados e destruídos pelo Estado 
mais forte, o mais fraco sempre buscará balancear o poder do mais forte, criando 
o equilíbrio de poder.
Nesse sentido, a primeira preocupação dos Estados não seria a de 
maximizar o seu poder e, sim, garantir a sua posição no sistema internacional. 
Não obstante, diferente do Realismo Moderno, os Estados não se balanceiam 
automaticamente, podendo exibir um comportamento de grupo (bandwagon). Ou 
seja, no momento em que fica caracterizado que um Estado é líder, mesmo que 
regional, todos os outros tendem a segui-lo, porque eles podem querer (assim 
como as pessoas) estar próximos dos ganhadores.
 No Realismo Moderno deveria se haver um balanço de poder entre todos 
os Estados vizinhos. Pegando o exemplo da América do Norte, tanto o Canadá 
quanto o México tenderiam a balancear os seus poderes com os Estados Unidos, 
buscando uma similaridade de forças. Porém, o que ocorre é que esses Estados 
seguem os EUA, fortalecendo posição estadunidense como a de líder. 
Em um mundo multipolar, o agrupamento se dá em torno de vários polos que 
vão se balancear entre si. Já em um mundo unipolar, os Estados tendem a se balancear 
entre si, buscando diminuir a força da grande potência mundial. Traduzindo para 
uma linguagem bem simples, num cenário em que se tem vários Estados considerados 
fortes, os Estados mais fracos não irão tentar se tornar mais fortes, mas sim eleger um 
líder e se aliar contra outro Estado forte que possa ameaçar a sua soberania. Em uma 
situação em que exista somente um ator mais forte, os outros Estados mais fracos 
tendem a se unir contra aquele que é mais forte, pois esse é a verdadeira ameaça a 
sua soberania. É importante frisar que para o neorrealismo, o tema da segurança 
é o principal nas relações entre os Estados, porém o poder é medido ou traduzido 
pelas capacidades conjugadas do Estado. Ou seja, a combinação dos setores políticos, 
econômicos e militares mostra a força de um Estado.
Para Waltz (1979), a manutenção da estabilidade do Sistema Internacional 
é dada enquanto se tem um cenário anárquico e sem uma diferença no número 
de unidades que cause a expectativa de uma mudança estrutural. Para o autor, 
as grandes variações no número de Estados, tanto para mais como para menos, 
significam a integração e a desintegração deles.
Ao compararmos sistemas internacionais unipolares, bipolares e 
multipolares, a estabilidade maior segundo os neorrealistas estaria no sistema 
bipolar. Ou seja, dois Estados são necessários para haver balanceamento de poder 
(duopólio). Mais do que o duopólio, implicaria várias partes tentando barganhar, 
trazendo instabilidade para o sistema (distúrbio no balanço de poder). Por outro 
lado, com apenas um monopólio, outros Estados tentariam diminuir o poder da 
grande potência pelo temor de que uma ordem unipolar signifique a diminuição 
de suas soberanias em relação à grande potência.
116
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
O Neorrealismo, na década de 1980, por muito tempo, foi considerado 
um mainstream das Relações Internacionais. Mesmo hoje, muitos acadêmicos, 
principalmente nos EUA adotam o neorrealismo como a base de seus estudos 
sobre as Relações Internacionais. Grande parte do mundo acadêmico adere 
à teoria neorrealista em função de sua capacidade para explicar o contexto da 
Guerra Fria (1945 a 1990). Durante a década de 1980, a teoria rivalizou com o 
Neoliberalismo e com o fim do período de Guerra Fria houve o aparecimento de 
diversas teorias que questionaram o neorrealismo.
Mainstream é um conceito que expressa uma tendência, moda ou corrente 
principal e dominante.
NOTA
Não é redundância rever mais detalhadamente a diferenciação entre o 
Realismo Moderno e o Neorrealismo. O Realismo é baseado na ideia de que: (i) os 
Estados são a unidade básica das relações internacionais; (ii) os Estados querem 
poder, seja como meio de sobrevivência, seja como forma de alcançar outros 
objetivos de dominação; e (iii) os Estados comportam-se racionalmente.
 O Realismo Moderno tem grande e fácil capacidade em analisar o poder 
dos Estados e a dimensão de suas intenções. Ou seja, se um Estado vizinho tem um 
crescente poder econômico e militar, a teoria realista interpreta isso como ameaça 
e, portanto, a necessidade de buscar e balancear o seu poder, dissuadindo-o de 
eventuais intenções hostis. O Neorrealismo não diverge fundamentalmente do 
Realismo Moderno, sendo que em ambos os Estados são apontados como as 
unidades fundamentais das relações internacionais. Porém, os realistas modernos 
acreditam que determinados comportamentos dos Estados se repetem em função 
da premissa da racionalidade do comportamento estatal. Para os neorrealistas, 
apesar dos Estados se comportarem racionalmente, eles levam em consideração 
o comportamento dos outros Estados. Portanto, a diferença fundamental entre 
o Realismo e o Neorrealismo está na questão do nível de análise. Enquanto o 
Realismo atribui os resultados das relações internacionais ao comportamento 
individual dos Estados, o Neorrealismo atribui esses resultados à estrutura do 
sistema internacional.
Outra diferença está na definição do conceito de equilíbrio de poder, 
sendo que para os realistas os Estados se balanceiam automaticamente, enquanto 
os neorrealistas acreditam que além da estratégia de equilíbrio de poder, também 
podem buscar uma estratégia de bandwagon. E ainda, o comportamento que o 
Estado vai perseguir dependerá da sua posição na estrutura internacional. Por 
exemplo: durante a Guerra Fria, os EUA e a ex-URSS balanceavam o poder da 
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
117
mesma forma que Israel balanceava poder com o Egito. No entanto, dentro do 
contexto da Guerra Fria é impossível entender o conflito local e limitado fora do 
jogo político mundial bipolar. Assim, Israel e Egito também fizeram bandwagon 
porque a estrutura internacional assim impunha.
FIGURA 14 – PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE REALISMO MODERNO E NEORREALISMO
Fonte: O autor
3 NEOLIBERALISMO INSTITUCIONAL
Para a Teoria Neoliberal, conhecida como Institucionalista, os Estados 
também são considerados como os principais atores das Relações Internacionais. 
Nesta abordagem, o Sistema Internacional é considerado descentralizado e 
anárquico, ou seja, todos os Estados são iguais e nenhum deve ser subjugado 
pelo outro. No entanto, o mundo moderno das relações internacionais possui 
certo grau de ordenamento, propiciado pelas Instituições Internacionais. Então, 
segundo a visão neoliberal, para se compreender o mundo moderno, deve-se 
observar os conceitos de descentralização e institucionalização.
 A institucionalização pode ser compreendida como um conjunto 
de regras, normas, convenções, reconhecimento diplomático, governados por 
entendimentosformais ou não formais. Ou seja, há um grau de institucionalização 
no Sistema Internacional que não confere a anarquia descrita pelos neorrealistas. 
Em outras palavras, os Estados têm seu relacionamento ditado por um nível 
de institucionalização. A capacidade dos Estados se comunicarem e adotar o 
comportamento de cooperação depende da construção de instituições, as quais 
irão variar em termos de suas naturezas e força. Vale aqui ressaltar que os Estados 
não ignoram o poder ou a riqueza uns dos outros, mas que as suas ações não 
dependerão apenas dessa percepção, mas dos arranjos institucionais presentes que 
REALISMO
MODERNO NEORREALISMO
Comportamento individual
dos Estados
Equilíbrio do Poder
automático
Estrutura do Sistema
Internacional (outros Estados)
Bandwagon
118
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
podem afetar o fluxo de informações e a oportunidade de negociar; a habilidade 
dos governos de monitorar os compromissos assumidos pelos outros países; e a 
expectativa sobre a solidez dos acordos internacionais (SARFATI, 2005).
Robert Owen Keohane, cientista político norte-americano, foi o autor de 
After Hegemony (1984), um dos principais expoentes da teoria institucionalista 
neoliberal nas relações internacionais. Em outra obra de mesma importância, 
International institutions and state power, Keohane (1989, p. 1) define as instituições 
como “grupos de regras (formais e informais) persistentemente conectadas 
que prescrevem o comportamento, constrangem as atividades e definem as 
expectativas”. Para o autor, as instituições assumem os seguintes formatos:
• Formal intergovernamental ou organizações não governamentais 
internacionais: instituições desenhadas pelos Estados com algum propósito 
específico, uma organização burocrática e regras específicas, como, por exemplo, 
a ONU ou a OMC. Da mesma forma, as OINGs têm propósito específico e um 
corpo burocrático, porém não são controladas pelos governos nacionais.
• Regimes internacionais: os regimes são instituições com regras explícitas 
acordadas entre os governos para determinado assunto de relações internacionais. 
Os exemplos incluem o regime monetário internacional organizado em 1944 em 
Breton Woods e a Lei do Mar negociada na década de 1970.
• Convenções: instituições informais com regras e entendimentos implícitos que 
incentivam a coordenação. As convenções nascem espontaneamente, como nos 
casos da tradição da imunidade diplomática e da ideia de reciprocidade na 
relação entre os Estados.
Ainda, segundo Keohane (1989, p. 4-5), o grau de institucionalização entre 
os Estados pode ser medido de acordo com as seguintes dimensões:
• Comum: grau sob o qual as expectativas a respeito do 
comportamento esperado são divididas entre os participantes do 
sistema (entendimento comum).
• Específico: grau sob o qual essas expectativas são especificadas na 
forma de regras.
• Autonomia: extensão na qual as instituições podem alterar suas 
regras sem contar com os agentes externos para isso.
As instituições são responsáveis pelo relacionamento entre os Estados, 
afetando os seus incentivos de cooperação. A ONU atua como um ator 
interveniente e intercessor em diversos acordos de paz entre Estados que se 
encontram em situação de tensão ou conflito, principalmente relacionados nas 
questões de desarmamento. 
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
119
As instituições afetam de mesma forma os custos das alternativas 
possíveis pela ação dos Estados. Um exemplo seria um membro da Organização 
Mundial do Comércio (OMC) que venha aumentar aleatoriamente suas tarifas 
alfandegárias. Certamente, ele será advertido ou até mesmo punido por essa ação 
que desrespeita às normas acordadas na instituição burocrática.
Ainda, as instituições podem afetar a compreensão do papel dos chefes 
de Estado e os pressupostos da motivação dos outros estadistas, ajudando a 
definir e a interpretar os seus interesses. Um governante que decida invadir outro 
Estado, deverá levar em consideração, em seu cálculo, o risco da formação de 
uma coalizão com legitimidade para combater o seu ataque, bem como o risco de 
embargos econômicos com a legitimidade de uma votação na ONU.
 O Neoliberalismo considera a definição estrutural neorrealista limitada, 
criticando o pensamento de que o Neorrealismo pode explicar as mudanças 
causadas por alterações das capacidades relativas dos Estados que são traduzidas 
essencialmente por sua capacidade econômica, militar e política. Ao invés dessa 
prerrogativa, o Neoliberalismo indica que as convenções na política internacional 
são tão importantes quanto à distribuição das capacidades. Um exemplo é que a 
aceitação da soberania é a mesma de uma convenção internacional, dando forma 
ao comportamento dos Estados.
O Neoliberalismo institucional também critica alguns pontos da Teoria 
Liberal, como a questão do Pacifismo Republicano e do Liberalismo Comercial 
Schumpeteriano. A primeira ideia denota que as repúblicas democráticas 
cooperam entre si, enquanto o Liberalismo Comercial constrói relações pacíficas 
entre os Estados. Nesses dois casos, para o Liberalismo, o regime ou a economia 
tendem a trazer a harmonia nas relações entre os Estados. O Neoliberalismo 
acredita que o comportamento pacífico pode ser estimulado por uma economia 
aberta com trocas mutuamente benéficas sob o regime de regras e normas. Não 
obstante, a cooperação acontece de um processo de negociação e planejamento e 
não como uma consequência.
Referente aos atores transnacionais, no Neorrealismo, o foco nas Relações 
Internacionais sempre foram os Estados, cuja preocupação básica é a luta pelo 
poder e pela sobrevivência traduzida por meio do poder militar. Assim, a visão 
do Neorrealismo é estatocêntrica, conforme o esquema a seguir:
120
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
FIGURA 15 – VISÃO TRADICIONAL (ESTATOCÊNTRICA) DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
FONTE: Sarfati (2005, p. 159)
Nesse esquema, as interações entre dois Estados, caracterizados por seus 
governos, (G1 e G2) indicam essencialmente as relações interestatais no modelo 
estatocêntrico. O modelo também indica que os Estados podem se relacionar por 
meio das organizações intergovernamentais internacionais (OIGs), enquanto esses 
fóruns satisfizerem os seus interesses egoísticos. As relações entre os governos e 
suas sociedades (G1/S1 e G2/S2) são típicas da política doméstica e não são objeto 
das relações internacionais. Deste modo, a única forma da sociedade de um certo 
Estado (S1) se relacionar ou com o governo de outro Estado ou sua sociedade (G2 
ou S2) é por meio da política doméstica e da ação de seu governo (G1).
 No entanto, em uma perspectiva neoliberal, os atores não estatais são 
considerados relevantes para a nossa compreensão das relações internacionais (as 
empresas transnacionais – ETNs, Organizações Não Governamentais – OINGs e 
Organizações Intergovernamentais – OIGs, terroristas, traficantes internacionais, 
máfias e outros ‘vilões’ transnacionais em geral, outros atores não estatais, 
como a Igreja, os partidos políticos e até as prefeituras municipais). As relações 
envolvendo esses atores são as chamadas relações transnacionais, caracterizadas 
por “interações regulares entre fronteiras nacionais em que ao menos um ator é 
um agente não estatal ou não opera em nome de um governo nacional ou uma 
organização intergovernamental” (RISSE-KAPPEN, 1995, p. 3).
Essas interações são mantidas e estruturadas por governos, não obstante, 
os atores não estatais têm um papel muito importante. As relações transnacionais 
assumem o seguinte esquema:
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
121
FIGURA 16 – RELAÇÕES INTERNACIONAIS SEGUNDO O NEOLIBERALISMO
FONTE: Sarfati (2005, p. 161)
As relações entre governos e organizações intergovernamentais (G1/G2/
OIG) são as tradicionais relações interestataisda política internacional, sendo 
que as demais interações são transnacionais. Essas últimas, podem assumir as 
mais diversas formas: as do tipo entre sociedades de diferentes Estados (S1/S2); 
organizações não governamentais, como o Greenpeace pressionando empresas 
transnacionais como a Shell (OINGs/ETN), referente a vazamento de um petroleiro; 
as do tipo em que as sociedades de Estados diferentes (grupo de empresários) 
promovam pressão sobre alguma organização burocrática internacional como 
a Organização Mundial do Comércio (S1.S2/OIG); também há as relações do 
tipo (S1/G2 e S2/G1), em que as empresas transnacionais, ETNs, como a Ford, 
negociando com diversos governos, buscam ampliar seu parque fabril em seus 
territórios. 
O institucionalismo neoliberal relata como as relações transnacionais 
podem afetar as relações internacionais (KEOHANE; NYE, 1971, p. XVII):
• Mudança de atitude: o contato com outros povos pode mudar a atitude 
em relação a eles. Ex.: Compra de carros Toyota pode influenciar a visão de 
sociedades sobre os japoneses.
• Pluralismo internacional: novas atitudes podem ser estimuladas, como 
o crescente interesse pela proteção e preservação ambiental, resultado do 
trabalho de grandes OINGs, como o GREENPEACE e o WWF.
• Aumento de dependência e interdependência: os Estados podem depender 
da comunicação internacional, da ajuda humanitária ou mesmo de arranjos 
comerciais internacionais. Por outro lado, as relações entre os Estados também 
podem promover uma interdependência, como a OMC, que vem aumentando 
a mútua dependência comercial entre os países, à medida que cada vez mais as 
economias se internacionalizam.
122
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
• Aumento da capacidade de influência de alguns governos: os governos 
podem usar as organizações transnacionais para manipular os seus interesses. 
As empresas transnacionais ETNs e os Estados numa relação simbiótica de 
interesses. Ex.: Caso Enron-Índia, no qual a empresa queria instalar uma 
megaplanta de energia na Índia, e os Estados Unidos tinham interesse em 
aumentar sua influência sobre o governo indiano. O resultado esperado é 
que a megaplanta estimularia uma dependência energética em relação a uma 
empresa de origem norte-americana.
• Emergência de atores autônomos com suas próprias políticas externas: a 
Igreja, empresas transnacionais e OINGs podem ter suas próprias agendas 
internacionais que, eventualmente, podem colidir com as dos seus Estados. Ex.: 
Uma empresa decide fechar suas fábricas em um Estado (mesmo que esse tenha 
interesse e promova ações para que isso não aconteça) e transferi-las a outro.
Por sua vez, Risse-Kappen (1995, p. 3) explica que dois fatores influenciam 
no impacto dos atores transnacionais em políticas dos Estados:
 
• As diferenças em termos das estruturas domésticas, entendidas 
como os arranjos normativos e organizacionais que formam o Estado.
• O grau de institucionalização internacional, refletido na extensão 
com que os assuntos específicos são regulados por acordos 
bilaterais, regimes multilaterais e/ou organizações internacionais.
Assim, quanto mais o Estado dominar a estrutura política, mais difícil 
serão os atores não estatais influenciarem nas políticas de determinado país. 
Assim, os agentes transnacionais exercem maior influência em Estados, como os 
da Europa Ocidental, do que na China (que tem uma tradição menos democrática). 
Ainda, quanto maior o grau de institucionalização, maior será a influência desses 
atores. À medida que a burocracia dos governos coopera de forma sistemática 
(como no caso da UE), começam a se formar coalizões burocráticas que nem 
sempre representam o interesse dos Estados dos quais eles são representantes. 
Essas redes podem, inclusive, afetar decisivamente as posições oficiais estatais 
nos fóruns internacionais (SARFATI, 2005).
4 O DEBATE NEORREALISMO VERSUS NEOLIBERALISMO
O debate entre as correntes teóricas do Neorrealismo e Neoliberalismo 
dominou as discussões acadêmicas de Relações nos anos 1980 e 1990. Ainda 
hoje, os grandes periódicos internacionais como International Organization e 
International Security trazem artigos sobre esse debate. Seis dos grandes pontos 
desse debate foram escritos por Baldwin (1993): a natureza e as consequências da 
anarquia; cooperação internacional; ganhos absolutos versus ganhos relativos; 
prioridades dos Estados; intenções versus capacidades; instituições e regimes.
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
123
As duas correntes concordam que o Sistema Internacional é anárquico, 
entretanto, discordam sobre a natureza e as consequências dessa anarquia nas 
relações internacionais. Os neorrealistas enfatizam que na anarquia há uma restrição 
no comportamento dos Estados, fomentando os seus comportamentos egoístas 
em busca da sobrevivência. Já os neoliberais enfatizam que a anarquia se refere 
apenas à ausência de um governo central mundial. Nessa situação está propensa 
a interações entre os Estados e outros atores internacionais e transnacionais, 
traduzida sob o conceito de interdependência. Essa interdependência, não 
necessariamente levaria os Estados a balancear o poder.
 Duas formulações sobre a anarquia são descritas por Powell (1994). 
Na primeira, a anarquia significa a ausência de um governo mundial, fazendo 
com que os Estados se relacionem de forma soberana e participem de acordos 
internacionais, porém nenhum poder supranacional é capaz de trazer retaliação 
ao comportamento adverso ao acordado. A segunda formulação refere-se à 
relação entre as entidades soberanas dedicadas à sua própria sobrevivência. Ou 
seja, a anarquia refere-se à disponibilidade de meios de força para sobreviver.
Em relação à cooperação internacional, as duas correntes teóricas 
acreditam que essa situação é possível. Os neorrealistas acreditam que embora 
a cooperação internacional seja possível, trata-se de uma empreitada difícil de 
ser construída. E ainda, se construída, é ainda mais difícil de ser mantida. Por 
sua vez, os neoliberais também entendem que a cooperação seja difícil de ser 
alcançada, no entanto, considerando a interdependência entre os Estados, esse 
caminho é o único viável para lidar com os conflitos internacionais.
Para ambos, a cooperação internacional está ligada à questão da anarquia 
no sistema internacional. Os neorrealistas pensam que a estrutura anárquica 
obriga os Estados a pensar de forma egoísta. A reflexão é que, na ausência de um 
poder supremo internacional, qualquer Estado pode ameaçar a sobrevivência de 
outro, portanto, as relações internacionais são basicamente definidas em termos 
de sobrevivência e do poder para garanti-las. Assim, a anarquia limita ao estímulo 
dos Estados para cooperar, pelo medo de que isso possa significar um aumento 
do poder relativo dos outros. No entanto, a cooperação ocorre segundo essa 
corrente teórica, quando e enquanto os interesses egoísticos dos Estados forem 
satisfeitos por esse arranjo.
 Quando a cooperação não mais satisfaz os interesses do Estado, ele a 
interrompe. Em um sistema bipolar, o comportamento de bandwagon garante 
esquemas de cooperação mais estáveis em torno dos polos. Isso se dá porque 
cada polo é responsável por garantir a sobrevivência das unidades em seu campo. 
Por sua vez, num sistema unipolar, a cooperação assume a forma de sobrepeso, 
em que os Estados mais fracos buscam se unir para contrabalancear o poder 
hegemônico. Em um sistema multipolar os arranjos de cooperação são mais 
instáveis, pois os Estados teriam um incentivo maior em balancear entre si.
124
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
 Para os neoliberais, a cooperação é a única opção para o conflito, sendo 
prudente estratégias para aumentar a sua probabilidade no Sistema internacional. 
O incentivo para cooperar aumenta quando existe uma ligação de assuntos de 
interesse entre os Estados. Emoutras palavras, buscam-se conjugar interesses em 
diferentes áreas para se alcançar maiores ganhos. O Brasil, por exemplo, entrou 
na Segunda Guerra Mundial em troca de benefícios econômicos, como a ajuda 
norte-americana para a construção da indústria siderúrgica.
 Outra circunstância facilitadora da cooperação para os neoliberais são 
as instituições internacionais, que funcionam como um canal de incentivo, 
dando estrutura para que as aproximações interestatais sejam mais eficientes. 
Portanto, avaliar a probabilidade de ocorrência de cooperação internacional está 
fundamentalmente ligado à construção de instituições e regimes internacionais.
Em relação aos ganhos absolutos versus ganhos relativos, que são os 
ganhos advindos da cooperação, os paradigmas teóricos se divergem. Para os 
neorrealistas, os Estados estão preocupados com os ganhos relativos, ou seja, 
quanto o Estado X está ganhando em relação ao Estado Y. Isso se dá devido à 
prerrogativa já estudada de que os Estados estão preocupados com as ameaças 
que os outros podem representar à sua posição no sistema internacional. Nesse 
contexto, os Estados estariam sempre maneiras de garantir o balanço de poder. 
Sendo os Estados X e Y vizinhos, e na cooperação Y ganhar mais que X no arranjo 
cooperativo, o resultado seria um desequilíbrio de poder. Consequentemente, o 
Estado X declinará da participação do esquema cooperativo ou procurará uma 
forma de aumentar os seus ganhos ou diminuir os ganhos do Estado Y.
 Por sua vez, os neoliberais entendem que os Estados se preocupam com 
os ganhos absolutos e que diante de uma situação de cooperação, esses tendem 
a avaliar suas funções de maximização de poder. Pouco lhes importa se os 
outros Estados estão ganhando mais ou menos que eles diante da situação de 
cooperação, mesmo porque uma negociação não é exatamente uma competição 
(POWELL, 1994).
Powell (1994) também sugere que a chave para compreender esse debate 
é a distinção de duas possibilidades. A primeira possibilidade consiste em saber 
qual o grau de preocupação de um Estado com seus ganhos relativos segundo 
o seu ambiente estratégico. Em outras palavras, qual é a importância do dilema 
da segurança em seu contexto. Em uma segunda possibilidade, o grau de 
preocupação com os ganhos relativos independe do ambiente.
Dois exemplos dessa concepção neoliberal podem ser descritos sobre 
regiões do planeta. Em um contexto de cooperação no Oriente Médio, os Estados 
se preocupam mais com seus ganhos relativos, dado o contexto de insegurança 
na região. No entanto, no contexto do MERCOSUL, os Estados focariam mais 
seus ganhos absolutos. Os neorrealistas, por sua vez, acreditam que em ambos os 
casos, os Estados focariam nos ganhos relativos, mas, logicamente, no primeiro 
caso, a sensibilidade deles ao ganho relativo seria muito maior que no segundo.
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
125
O quarto ponto desse debate são as prioridades dos Estados que estão 
associadas à agenda em que esses atores internacionais adotam segundo os seus 
interesses. Os neorrealistas assumem a tradicional posição de que a agenda dos 
Estados é hierárquica e a segurança assume o lugar de prioridade máxima. Por 
sua vez, os neoliberais entendem que a agenda dos Estados não é hierárquica, isto 
é, há Estados que podem se preocupar mais com o tema de segurança, ao passo 
que outros focam os temas econômicos. 
O quinto ponto, a disputa entre intenções e capacidades, traz interessantes 
diferenças de análise entre as correntes teóricas. Enquanto os neorrealistas enfatizam 
as capacidades dos Estados, refletidos em seu poder, os neoliberais focam as 
intenções dos Estados. Ou seja, é claro que os Estados tendem a se preocupar muito 
mais com os ganhos relativos de seus inimigos que dos seus aliados.
Para os neorrealistas, quando um Estado é muito poderoso em economia 
ou força militar, assumem-se as intenções dele. Em outras palavras, o Estado X 
tendo uma capacidade relativa maior que a do Estado Y, assume as intenções de 
X em relação a Y. O Estado X não aumentaria suas capacidades frente ao Estado Y, 
se o mesmo não tivesse a intenção de ameaçar ou dissuadi-lo. Portanto, fica claro 
que o dilema da segurança torna irrelevante uma suposta avaliação objetiva das 
intenções do Estado, pois se Y presume que as intenções de X sejam benévolas, 
pode correr o risco da ingenuidade que pode resultar em sua destruição.
Os neoliberais acreditam que é fundamental avaliar a percepção dos 
líderes dos Estados sobre as intenções dos outros Estados. As diferenças de poder 
econômico e militar não estariam associadas à intenção de ameaçar os outros 
Estados, pelo menos num primeiro momento. Devem visualizar as relações 
diplomáticas e comerciais dos Estados na dedução de suas intenções. Trata-se de 
uma visão bem mais otimista das relações internacionais. 
O último ponto do debate “neo-neo” é a discussão em torno do papel que as 
instituições e os regimes internacionais têm dentro das Relações Internacionais. Os 
neorrealistas minimizam a importância das instituições e regimes internacionais, 
pois, para eles, estes somente existem enquanto respondem aos interesses dos 
Estados poderosos. Os neoliberais atribuem importância central às instituições 
e aos regimes internacionais como catalisadores da cooperação internacional e 
mitigadores dos efeitos da anarquia internacional. Por isso os neoliberais também 
são chamados institucionalistas.
Assim, os neorrealistas reconhecem que os Estados podem operar por meio 
das instituições, entendendo que as regras construídas dentro delas refletem os 
cálculos egoísticos de interesse próprio, baseados primariamente na distribuição 
internacional do poder. Portanto, os Estados mais poderosos criam, dão forma 
e mantêm as instituições como uma forma de administrar as suas participações 
de poder ou até mesmo de aumentá-las. As críticas dessa corrente teórica aos 
institucionalistas são pautadas no entendimento que a teoria diz muito pouco a 
respeito de como os Estados cooperam em termos de segurança e qual o impacto 
das instituições em relação à segurança internacional.
126
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
QUADRO 2 – NEORREALISMO VS NEOLIBERALISMO
NEORREALISMO NEOLIBERALISMO
Sistema Internacional Anárquico representado 
pela restrição no comportamento dos Estados.
Sistema Internacional Anárquico representado 
pela ausência de um poder central.
Comportamento Egoísta. Interação entre Estados e outros atores 
internacionais.
Busca pela sobrevivência. Interdependência.
Cooperação possível, mas difícil de ser 
mantida.
Cooperação possível por meio da 
interdependência.
Estados preocupados com os ganhos relativos. Estados preocupados com os ganhos 
absolutos.
Agenda de interesses hierárquica baseada na 
segurança.
Agenda de interesses não-hierárquica baseada 
em vários temas.
Capacidades do Estado refletidas no poder. Intenções dos Estados.
Menor importância das Instituições. Importância central das Instituições.
Fonte: O autor
Os neoliberais refutam as críticas neorrealistas, explanando que os Estados 
decidem cooperar por meio de instituições que constroem um diálogo e relações 
pacíficas uns com os outros. Além disso, os neoliberais tendem a indicar a construção 
da integração europeia como um importante exemplo de uma cooperação funcional 
econômica com claros efeitos no campo da segurança na Europa Ocidental. A 
integração regional interestatal será discutida na próxima unidade.
Em suma, o debate entre essas duas correntes teóricas não revela a oposição 
de uma pela outra. Busca-se entender que o propósito do neoliberalismo não é 
o de explicar as condições de guerra e paz nas relações internacionais, como é o 
caso do neorrealismo. O neoliberalismo busca focar na cooperação internacional, 
por meio de instituições, as quais têm um importante papel para o sucesso 
dessa empreitada. Além disso, o neoliberalismo entendeque muitos Estados 
não estão preocupados primordialmente com sua segurança em um mundo de 
interdependência complexa.
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
127
LEITURA COMPLEMENTAR
A CRISE DOS MÍSSEIS
Délcio Garcia Gomes
Desde os Anos 50 os Estados Unidos, por meio de seus novos aviões 
de espionagem U2, realizavam voos de reconhecimento sobre o território 
soviético, inclusive sobre as cidades de Moscou e Leningrado. Os soviéticos 
ainda não possuíam a capacidade para derruba-los, coisa que só conseguiram 
fazer em 1960, momento em que capturaram o piloto estadunidense Francis 
Gray, posteriormente trocado por um espião soviético também capturado nos 
Estados Unidos. O clima internacional era de competição espacial, lançamento 
de satélites, aprimoramento de armadas nucleares de longo alcance, bombas 
de hidrogênio, entre outras excentricidades que reforçavam o medo quanto aos 
possíveis resultados de um descontrole político de um dos lados da Cortina 
de Ferro. Neste cenário, o governo de Nikita Kruschev autorizou a instalação 
de bases de lançamento de mísseis nucleares em território cubano. Até hoje os 
historiadores e outros especialistas especulam acerca das razões que teriam 
levado os soviéticos a instalarem os mísseis. Provavelmente foram duas: a 
primeira delas, da ordem da busca por um “equilíbrio de poder”, justificava-se 
na retaliação a instalação de bases americanas na Inglaterra, Itália e na Turquia1. 
Nesta direção, as bases em Cuba compensavam uma possível inferioridade bélica 
dos soviéticos e proporcionava um evidente efeito psicológico dentro dos Estados 
Unidos. Vale ressaltar que os mísseis instalados - R-12 Dvina, como os soviéticos 
chamavam ou SS-4 Sandal, denominação usada no Ocidente pela OTAN- tinham 
a capacidade de atingir alvos no sudeste dos Estados Unidos como Miami, New 
Orleans, Houston, St. Louis e até Washington, além de outras regiões até mais 
distantes, apesar da falta de consenso entre as informações.
1 Os Estados Unidos colocaram mísseis Júpiter em Esmirna, na Turquia, e em Giogia del Cole, na 
Itália.
128
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
Outro fator responsável pela polêmica decisão de Kruschev diz respeito 
ao agravamento das divergências entre Cuba e os Estados Unidos, com destaque 
para a fracassada tentativa de invasão da ilha em abril de 1961. Depois deste 
episódio, a União Soviética entendeu que era necessário criar em Cuba um 
mecanismo de dissuasão, evitando-se novas ações contrarrevolucionárias. O 
próprio Kruschev possuía uma forte simpatia pela luta revolucionária travada 
por Fidel Castro, sendo necessária preserva-la.
Os Estados Unidos, por sua vez, tomaram conhecimento das bases em 
meados de outubro de 1962, data reconhecida até hoje como o marco inicial 
dos “13 dias que abalaram o mundo”. Aviões U2 sobrevoavam Cuba, como de 
costume, em 14 de outubro de 1962. Porém, desta vez, as fotografias tiradas pelos 
pilotos trouxeram um elemento inesperado: foram descobertas diversas bases 
de mísseis nucleares sendo construídas em Cuba. “Segundo a CIA, os mísseis 
tinham alcance de 1600 km1 e tinham capacidade de atingir grande parte da orla 
marítima oriental do país.
Uma vez armados e prontos para o disparo, poderiam explodir sobre 
Washington em 13 minutos. Essa informação foi passada ao presidente dos Estados 
Unidos no dia 16 de outubro – data que passou a ser conhecida como “o primeiro 
dia da crise dos mísseis”. O presidente convocou seus principais assessores para 
uma reunião de emergência: a questão que se coloca neste momento é “o que 
fazer?”. As opções acabam se restringindo a duas alternativas: invadir Cuba ou 
realizar um bloqueio marítimo, denominado “quarentena”.
2 Neste caso, vale ressaltar que os dados técnicos de alcance dos mísseis variam muito, conforme a 
fonte consultada.
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
129
Os primeiros dias da crise foram marcados pela indefinição. Afinal, qual 
a melhor alternativa para resolver a delicada situação? Alguns parlamentares 
republicanos da oposição e oficiais das Forças Armadas defendiam ações mais 
radicais, como, por exemplo, bombardeios aéreos a ilha e até mesmo a invasão 
militar direta. Outros, principalmente os líderes civis que compunham o governo, 
defenderam medidas mais brandas, como o bloqueio marítimo.
 Nesta direção, John Kennedy e seu Secretário de Defesa Robert S. Mc 
Namara decidiram pela chamada “quarentena” em 22 de outubro de 1962. Neste 
mesmo dia, o presidente estadunidense fez um pronunciamento onde oficializava 
a crise perante a nação.
 As ações de Kennedy se estenderam do bloqueio naval — em um momento 
em que vários navios soviéticos estavam a caminho de Cuba —, passando pelo 
reforço da vigilância aérea até a convocação de uma reunião de consulta da 
Organização dos Estados Americanos e de emergência do Conselho de Segurança 
das Nações Unidas.
Durante uma das sessões do Conselho de Segurança, o diplomata dos 
Estados Unidos Adlai Stevenson apresentou as provas fotográficas das instalações 
em Cuba e consequentemente pediu ao Conselho a aprovação de uma resolução 
pedindo o desmantelamento e a retirada das bases de mísseis soviéticos de Cuba 
sob supervisão das Nações Unidas. Até então, o embaixador soviético Valerian 
Zorin afirmava categoricamente sobre a não-existência dos mísseis.
130
UNIDADE 2 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ANTES DA GUERRA-FRIA
Historicamente, os Estados Unidos não admitiram qualquer participação 
de Cuba no processo de negociações. Na SIMUNA 2016, entretanto, não apenas 
Cuba mas outras delegações foram convidadas. A ideia é permitir um maior 
dinamismo aos debates.
Não seria incorreto afirmar que a Crise dos Mísseis se desdobrou 
perigosamente pelos dias seguintes, no final de outubro de 1962. Um dos momentos 
mais tensos ocorreu no sábado, 27 de outubro, quando um avião estadunidense 
U2 foi abatido em Cuba, ao mesmo tempo em que navios e submarinos soviéticos 
se aproximaram da zona de “quarentena”. Apenas nas décadas seguintes é que o 
mundo pôde tomar conhecimento de determinados episódios que mostraram a 
situação trágica que poderia ter se desdobrado da crise dos mísseis.
Um sujeito chamado Arkhipov salvou o mundo”, disse Thomas 
Blantom, do Arquivo de Segurança Nacional em Washington, (...). 
Ele se referia a Vasili Arkhipov, um oficial da Marinha soviética que, 
a bordo de um submarino, barrou uma ordem de lançar torpedos 
nucleares em 27 de outubro, no momento mais tenso da crise, quando 
os submarinos estavam sendo atacados por destroieres americanos. 
Era de se esperar uma reação devastadora, detonando uma guerra de 
grandes proporções1. 
Por fim, o desfecho da crise acabou ocorrendo de negociada. O primeiro 
passo aconteceu ainda em 26 de outubro, quando o primeiro-ministro soviético 
Kruschev decidiu enviar uma carta ao presidente Kennedy defendendo um 
acordo: os soviéticos retirariam o armamento nuclerar de Cuba em troca da 
preservação da ilha socialista de Fidel Castro, sem quaisquer tentativas de 
invasão. No dia seguinte, a proposta foi completada com outra reivindicação: a 
retirada dos mísseis da Turquia.
3 AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. SP: Editora da UNESP, 2004. Página 50.
TÓPICO 3 | O DEBATE DO NEORREALISMO E NEOLIBERALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
131
Por mais que os Estados Unidos não tenham declarado publicamente o 
cumprimento da segunda parte do acordo, eles acabaram retirando os mísseis 
sigilosamente depois. Deste modo, a crise dos mísseis terminou sem resultar no 
tão temido conflito nuclear. Mas a história poderia ter ocorrido de forma muito 
diferente, potencialmente mais trágica, caso algumas escolhas tivessem sido 
diferentes, ou mesmo sob uma ação precipitada de alguns dos lados do conflito.
FONTE: <https://www.nacionalnet.com.br/wp-content/uploads/2015/05/Guia-de-Estudos-CSNU-
Hist%C3%B3rico-Crises-dos-M%C3%ADsseis-PDF.pdf>.Acesso em 31 jan. 2020.
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pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
132
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Após as décadas de 1970 e 1980, os paradigmas do Neorrealismo e do 
Neoliberalismo dominaram o debate teórico acerca das Relações Internacionais.
• Os neorrealistas consideram que a anarquia internacional limita a atuação do 
Estado, o que não é tão expressivo para os neoliberais.
• Os neorrealistas estão preocupados com as questões de segurança e com as 
causas e efeitos das guerras enquanto os neoliberais se concentram na otimização 
da economia, comércio, aperfeiçoamento das relações diplomáticas e da política 
internacional, assim como harmonizar a relação entre desenvolvimento e meio 
ambiente.
• Os neorrealistas são mais pessimistas em relação à cooperação internacional, 
sendo que sua manutenção se dá pelo poder que os Estados possuem.
• Os neoliberais acreditam que essa cooperação é mantida pela estrutura das 
relações de interdependência institucional que se dá no cenário internacional.
• Os neoliberalistas enfatizam a capacidade de ganhos absolutos da cooperação 
internacional (onde todos os Estados ganham por cooperar), enquanto os 
neorrealistas o fazem com ressalvas e esperando os ganhos relativos (ganhos 
menores ou que somente alguns os obtém no processo de cooperação).
• Os neorrealistas se concentram nas capacidades dos Estados, antes de suas 
intenções, enquanto os neoliberais observam quais são as intenções dos atores 
internacionais, e, consequentemente, avaliam as suas capacidades.
• Os neorrealistas não acreditam que instituições e regimes internacionais possam 
mitigar os efeitos limitadores da anarquia na cooperação internacional. Por 
sua vez, a confiança nas instituições internacionais é o cerne do pensamento 
neoliberal para as Relações Internacionais, facilitando o processo de cooperação 
internacional.
• O propósito do neoliberalismo não é o de explicar as condições de guerra e paz 
nas relações internacionais, como é o caso do neorrealismo. O neoliberalismo 
busca focar na cooperação internacional, por meio de instituições, as quais têm 
um importante papel para o sucesso dessa empreitada.
133
1 Qual é a principal diferença entre o Realismo Moderno e o Neorrealismo?
2 Referente aos atores transnacionais, no Neorrealismo, o foco nas Relações 
Internacionais sempre foram os Estados. Explique a visão estatocêntrica do 
Neorrealismo:
3 Explique como acontecem as relações referentes aos atores transnacionais 
no Neoliberalismo. 
AUTOATIVIDADE
134
135
UNIDADE 3
SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• desenvolver uma visão sistêmica das principais teorias de relações 
internacionais nas suas abordagens posteriores à guerra-fria;
• compreender o objeto, campo de estudo e abordagens das teorias de 
relações internacionais na contemporaneidade;
• compreender como se dá o comportamento dos atores internacionais 
dentro da perspectiva de cada teoria das relações internacionais do 
período posterior à guerra-fria;
• revisitar alguns tópicos contemporâneos que permeiam as teorias de 
relações internacionais na nova ordem mundial.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. 
TÓPICO 1 – PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA 
CONSTRUTIVISTA 
TÓPICO 2 – OUTRAS INFLUÊNCIAS NA TEORIA DAS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
TÓPICO 3 – O FENÔMENO DA GLOBALIZAÇÃO E AS TEORIAS DE 
INTEGRAÇÃO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
136
137
TÓPICO 1
PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA 
CONSTRUTIVISTA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Conforme abordado ao longo deste livro didático, o estudo das Relações 
Internacionais não é compreendido de uma ciência exclusiva. Pelo contrário, 
é necessário um conhecimento amplo e multifacetado nos diversos campos 
de estudo, proporcionando assim a capacidade de reflexões críticas sobre as 
interações entre os diferentes atores sobre as diversas abordagens. Dessa maneira, 
imperiosa é a breve retrospectiva histórica sobre alguns fatos e circunstâncias que 
levarão à plena compreensão sobre o Pós-Modernismo, Teoria Crítica e a Teoria 
Construtivista, objeto de estudo deste tópico da última unidade.
 
Também reiteramos que não é possível afirmar com clareza o momento 
exato em que as relações internacionais surgiram, mesmo porque, certamente, 
houve grande evolução até a ciência debatida atualmente. Foi visto na unidade 
anterior, uma apresentação das teorias de Relações Internacionais no período 
anterior ao da Guerra-Fria. Para se iniciar a Unidade 3, precisa-se uma retomada 
histórica de acontecimentos que pautaram o período chamado Modernidade, 
para assim se discutir a primeira corrente teórica do período Pós-Guerra-Fria, a 
Teoria Pós-moderna das Relações Internacionais.
2 ACONTECIMENTOS QUE PAUTARAM O PERÍODO 
MODERNO
A busca pelo poder, supremacia econômica, social e cultural de um 
povo sobre o outro sempre foi uma prática da humanidade desde os tempos 
da Idade Antiga e Idade Média, sendo assim, notoriamente classificadas como 
os rudimentos das relações internacionais. Não obstante, com o surgimento do 
Estado Moderno essa dinâmica ficou mais evidente, sendo referenciada a sua 
trajetória histórica:
 
Porém, foi durante a Idade Moderna que traços iniciais das dinâmicas 
entre Estados se consolidaram. Sistemas de tratados e normas 
internacionais sobre soberania, guerra e paz, bem como políticas 
econômicas e a aproximação comercial entre Estados e tantos povos 
conquistados e explorados ao redor do planeta, marcaram o período 
de transição entre as relações internacionais do Estado moderno 
absolutista e do Estado nacional (FERREIRA; MÈRCHER, 2015, p. 8).
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
138
Outros fatores fundamentais que contribuíram ao encadeamento da 
construção das relações internacionais, certamente em algum momento de 
sua trajetória acadêmica já foram estudados por você: a Revolução Francesa, 
Revolução Industrial e Revolução Americana (processo de independência 
das colônias nos EUA). Para fins de contextualização, como também facilitar 
o entendimento da matéria que adiante será abordada, se faz necessária breve 
retrospectiva destes importantes acontecimentos ocorridos na história mundial.
Vencido o domínio dos senhores feudais e Igreja Católica durante a Idade 
Média, deu-se início a Idade Moderna. Essa transição levou séculos para ser 
consumada. O enfraquecimento do poder dos senhores feudais, a peste negra 
(Século XIV), o retorno do comércio mediante escambo e depois via moeda e 
o êxodo dos camponeses para as cidades, foram fatores que contribuíram para 
o Renascimento e Mercantilismo que, consequentemente, culminaram com o 
surgimento da Idade Moderna (FERREIRA; MÈRCHER, 2015). 
Como visto na Unidade 1, em 1648 foi assinado o Tratado de Vestefália, que 
garantiria a paz entre alguns estados europeus depois de um longo período de disputas, 
sendo este conhecido como Guerra dos Trinta Anos. A assinatura deste tratado é 
considerada o início da Idade Moderna.
IMPORTANTE
No entanto, o Estado-nação, como conhecemos hoje, somente surgiu em 
meados do Século XVII:
 
O surgimento do Estado moderno e de suas relações de poder 
ocorreu em um cenário externo que mais tarde originaria as relações 
internacionais como são conhecidas atualmente. No entanto, este 
movimento não significou o surgimento das nações, muito menos 
do Estado-nação, o que só ocorreria em meados do Século XVIII, 
com as mudanças na concepçãode sociedade, política e identidade 
(FERREIRA, MÈRCHER, 2015, p. 46). 
Dessa maneira, cabe relembrar que inicialmente a Idade Moderna exigia 
uma centralização do poder, que possibilitasse desenvolvimento e maiores 
liberdades do que aquelas usufruídas pela maioria da população no período 
medieval. Destaca-se o importante papel que a classe da burguesia (comerciantes) 
paulatinamente adquiriu ao longo dos séculos.
 
A centralização supramencionada se deu na pessoa do monarca que, com 
o passar do tempo, deixou de governar para a maioria, atendendo aos próprios 
interesses. Portanto, a chamada Monarquia Absolutista culminou na Revolução 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
139
Francesa (1789), fruto da sucessão de arbitrariedades acometidas contra as 
classes menos favorecidas economicamente, em que o clero e nobreza sempre 
eram beneficiados.
FIGURA 1 – TOMADA DA BASTILHA – SÍMBOLO CENTRAL DA REVOLUÇÃO FRANCESA
FONTE: <https://www.colegioweb.com.br/wp-content/uploads/21960.jpg>. Acesso em: 21 out. 2019. 
O povo, cansado dos abusos e inflamado pelos ideais iluministas – 
igualdade, liberdade e fraternidade – com a burguesia, realizou verdadeira 
revolução ao depor o monarca que lhe usurpava o que possuía; não somente bens 
materiais, e sim direitos e garantias individuais. Por causa da Revolução Francesa, 
o Estado francês passou de absolutista para uma forma de governo que, mesmo 
sob o comando do monarca, contava de certa maneira com a participação popular. 
A essa altura, o Estado adquiriu as características atuais. “O Estado Moderno, [...] 
ao final da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, passa a atuar nas 
relações internacionais como Estado-nação” (FERREIRA, MÈRCHER, 2015, p.47). 
É exatamente nesse contexto que os historiadores e filósofos consideram 
efetivamente surgiu a Idade Contemporânea (Pós-Moderna), em que os Estados, 
paulatinamente, por meio de agressivas ou “pacíficas” revoluções, começaram a 
aderir aos ideais de todas as camadas sociais, objetivando a asseguração de direitos 
e garantias individuais, além de objetivar sempre o crescimento e fortalecimento 
do próprio Estado.
Importante mencionar também que a Revolução Industrial (1760-
1820/1840), no âmbito internacional, surtiu efeitos que efetivamente contribuíram 
à queda da Idade Moderna e ascensão da Idade Contemporânea. Por não 
possuir colônias que lhe possibilitavam a exploração desenfreada dos insumos 
naturais (tal como ocorria com Portugal e Espanha) – e o mercantilismo, a 
Inglaterra necessitava urgentemente de uma reinvenção, uma alternativa. Caso 
contrário, além de não ter suas necessidades básicas atendidas, retrocederia suas 
capacidades de poder em comparação aos demais Estados. 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
140
Com o declínio das políticas feudais, o mercantilismo surgiu na Europa 
no Século XV, possuindo como características a intervenção do Estado na economia, 
acumulação de metais preciosos e incentivo à exportação, e não importação, o que 
fortaleceria a indústria nacional.
ATENCAO
Dessa maneira, a ideologia do liberalismo, cujo criador foi Adam Smith 
(1723-1790), surgiu como solução em meio à adversidade enfrentada.
 
[...] defendeu que uma economia controlada seria prejudicial aos 
indivíduos e, consequentemente, não levaria à riqueza da nação. Os 
Estados precisariam diminuir suas intervenções no mercado e deixar 
que este se regulasse por meio da lei de oferta e demanda (FERREIRA, 
MÈRCHER, 2015, p. 156). 
Ao propiciar o desenvolvimento tecnológico, substituindo a manufatura 
por máquinas – acelerando o processo produtivo dos bens materiais, ocorreu 
exatamente a situação supracitada: fomento do comércio interno e externo 
na Inglaterra, e, consequentemente, o surgimento da riqueza das camadas da 
sociedade, como burguesia e até mesmo àqueles que no movimento do êxodo 
rural haviam deixado o campo e aderido ao meio urbano como novo lar. 
FIGURA 2 – AMBIENTE FABRIL QUE CARACTERIZOU A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
FONTE: <http://www.historiadetudo.com/wp-content/uploads/2015/03/revolucao-industrial-1.jpg> 
Acesso em: 21 out. 2019.
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
141
Percebe-se que o caminho adotado pela Inglaterra foi de encontro às 
práticas até então realizadas nos outros países. No cenário internacional, pode-
se dizer que na Inglaterra as mudanças apresentadas, que estava longe de se 
priorizar o bem-estar social dos cidadãos ingleses, ainda sim diferenciavam 
das demais potências da época, em atender às necessidades da nobreza e altas 
camadas sociais. O resultado desta nova prática liberalista foi: 
Os Estados europeus também começaram a rever seus modelos 
coloniais de exploração e produção, preferindo mão de obra 
assalariada para sustentar a comercialização e o consumo de sua 
produção e defendendo uma complementariedade de produção entre 
os diversos agentes internacionais que passaram a surgir (FERREIRA; 
MÈRCHER, 2015, p. 159). 
O liberalismo econômico (não confundir com a teoria de relações 
internacionais do liberalismo) defendia que o mercado – pautado nas leis, ética e moral de 
determinado Estado – deveria se autorregular, ou seja, não seria admissível a intervenção 
estatal sob qualquer hipótese. Surgiu em razão do declínio do mercantilismo.
NOTA
Ao mesmo tempo em que a Revolução Francesa e Revolução Industrial 
indubitavelmente foram o gatilho para que as relações internacionais progredissem 
e, de maneira geral, proporcionassem a evolução da história, é impossível deixar de 
mencionar a Revolução Americana – processo de independência das colônias inglesas 
nos EUA. Pode-se afirmar que este movimento fomentou a Revolução Industrial.
 
Em suma, a Revolução Americana ocorrida em 1776, deu origem aos 
Estados Unidos da América do Norte. As colônias do Norte e Sul proclamaram sua 
independência neste ano, por várias razões. Dentre elas, certamente prepondera 
a econômica: altos impostos e pouco retorno por parte da metrópole, além de 
que os colonos buscavam também a garantia dos direitos à liberdade, igualdade 
e soberania popular. Tal passagem da história é relevante pois, um novo ator 
internacional independente surgia com força suficiente para influenciar as demais 
nações, como um agente hegêmona na contemporaneidade.
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
142
FIGURA 3 – DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA SENDO ASSINADA – REVOLUÇÃO AMERICANA
FONTE: <https://news.yale.edu/sites/default/files/styles/featured_media/public/1-declaration-of-
independence-trumbull.jpg?itok=HWmPtf9p>. Acesso em: 21 out. 2019.
Já na Idade Contemporânea, o estudo que se desenvolve, imperiosa se 
faz a menção quanto ao expansionismo russo. Atualmente a Federação Russa é o 
país com maior área territorial, fruto de sucessivas disputas territoriais e guerras 
com outros povos, especialmente ocorridas no Século XIV e XV, sob o comando 
do conhecido Czar Ivan IV, o Terrível. As relações políticas e comerciais com a 
Inglaterra fortaleceram tal posição de tal modo que no Século XVIII já era vista 
como potência internacional, ao ponto de superar outros Estados europeus, que 
outrora preponderavam sobre todo o território (FERREIRA; MÈRCHER, 2015). 
FIGURA 4 – CZAR IVAN IV, O TERRÍVEL – RESPONSÁVEL PELA EXPANSÃO DO 
TERRITÓRIO DA ATUAL RÚSSIA
FONTE: <http://ruhistory.narod.ru/history/tsar/Ivan_Gr.jpg>. Acesso em: 21 out. 2019.
Sua ascensão não terminou com a Idade Moderna; pelo contrário, 
continuou ao longo do Século XIX, até alcançar importantes êxitos 
e reconhecimentos durante o Século XX nas duas Grandes Guerras 
Mundiais e, sobretudo, ao longo da bipolaridade da Guerra Fria na 
Idade Contemporânea (FERREIRA; MÈRCHER, 2015, p. 159).
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
143
Em continuidade ao estudo da linha evolutiva dos importantes 
acontecimentos que nos levam ao objetivo desta unidade,brevemente abordar-
se-ão as Primeira e Segunda Guerras Mundiais, bem como a Guerra Fria. 
 
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ocorreu em território europeu, 
envolvendo praticamente todas as nações deste continente. Diversos assuntos 
mal resolvidos, especialmente no que tange ao aumento de fronteiras e cessões 
de territórios; movimentos e acordos políticos realizados entre os países, e 
algumas guerras como Ítalo-Turca, e a dos Balcãs foram os ingredientes que 
progressivamente induziram à grande guerra (SONDHAUS, 2013). 
FIGURA 5 – SOLDADOS NAS TRINCHEIRAS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
FONTE: <https://es.historia.com/wp-content/uploads/2017/04/primera-guerra-mundial-
trinchera-alemana.jpg>. Acesso em: 21 out. 2019.
“Em âmbito internacional, os anos anteriores à guerra testemunharam a 
criação das condições em que a Guerra Mundial teve início e foi gradativamente 
aumentando de intensidade” (SONDHAUS, 2013, p. 49). Interessante observar 
as alianças militares que, a essa altura, foram formadas, com objetivo de 
fortalecimento mútuo. Por exemplo: França, Reino Unido de um lado, e Império 
Russo; Itália, Alemanha e Áustria-Hungria do outro.
 Outro fato que merece destaque é o papel das colônias inglesas (Austrália, 
Canadá, Nova Zelândia e África do Sul) na guerra, que, ao invés de simples 
subservientes de sua metrópole, atuaram como parceiros destas. Ademais, os 
Estados Unidos, nação já independente, em determinado também tomou partido 
na guerra, combatendo corpo a corpo, literalmente, ao enviar milhões de soldados, 
já treinados e aptos ao combate (SONDHAUS, 2013).
O cenário final, portanto, é o total envolvimento de muitas nações – não 
somente europeias. A Alemanha, principal opositora da França e Grã-Bretanha, 
declarou armistício, por perceber que não teria mais condições bélicas de continuar 
na disputa. “Assim, a Primeira Guerra Mundial terminou como tinha começado, 
como uma guerra de desgaste, mas que acentuou o papel norte-americano no fim 
do jogo na Europa” (SONDHAUS, 2013, p. 481). 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
144
Armistício significa cessar-fogo por tempo indeterminado; não 
necessariamente implica em acordo de paz.
NOTA
Por sua vez, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) novamente teve 
como um de seus principais agentes fomentadores a Alemanha. Certamente um 
dos conflitos mais violentos de toda a história, calcula-se que, aproximadamente, 
70 milhões de pessoas vieram a óbito. Sucintamente, a causa da Segunda 
Guerra Mundial se deu por razões econômicas, políticas e territoriais, tanto 
que doutrinariamente é consenso considerar como ponto de partida a invasão 
da Polônia pela Alemanha em 1939. Muitas alianças foram formadas. Estados 
Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, uma união improvável, mas que 
se mostrou necessária para combater à ideologia da Alemanha Nazista, sob o 
comando do Führer Adolf Hitler (1889-1945).
 
A segunda guerra mundial teve como característica determinante 
o fato de que países em conflitos visavam pretensões ilimitadas. 
Em outras palavras, tinham como objetivo a submissão absoluta do 
adversário. Se na primeira guerra mundial o objetivo das nações em 
combate era a derrota do inimigo no campo de batalha e a imposição 
de condições de paz, isso não era exatamente válido para a Segunda 
Guerra Mundial. A Alemanha de Hitler, por exemplo, pretendia 
dominar a Europa e transformar os países do Ocidente em estados 
vassalos. O plano nazista para o lado oriental era reduzir a União 
Soviética à condição de colônia e transformar sua população em 
serviçais dos “senhores” germânicos. Do lado dos Aliados, isto é, da 
Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética, os objetivos não eram 
limitados: só a rendição incondicional é que valeria. Não se aceitaria 
uma paz negociada, não haveria condições. O inimigo seria combatido 
até a última bala (MAGNOLI, 2006, p. 357). 
FIGURA 6 – HITLER, LÍDER ALEMÃO QUE COLABOROU COM O INÍCIO DA 
SEGUNDA GUERRA MUNDIAL AO INVADIR A POLÔNIA EM 1939.
FONTE: <https://www.estudopratico.com.br/wp-content/uploads/2013/01/segunda-guerra-
mundial-historia-causas-e-consequencias.jpg>. Acesso em: 21 out. 2019.
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
145
Não cabe ao presente estudo detalhar minuciosamente todos os fatos 
ocorridos ao longo dessa guerra, que terminou somente graças à forte resistência 
dos Estados ao nazismo. Outros fatores foram decisivos que levaram a Alemanha 
a perder sua hegemonia e consequentemente ser derrotada, ocorreram no período 
denominado “Dia D” – invasão à uma base alemã em uma das praias da Normandia; 
os atentados contra a vida de Adolf Hitler; a expressiva superioridade dos demais 
exércitos face ao exército alemão (MAGNOLI, 2006). Por fim, após a morte de 
Hitler, seu sucessor, Almirante Doenitz, negociou um cessar fogo e consequente 
rendição total, declarando-a por meio de nota no dia 2 de maio de 1945.
Como resultado da Segunda Guerra, a economia mundial ficou abalada por 
alguns anos, com exceção de algumas nações que se recuperaram mais rapidamente, 
como Estados Unidos (que para obter o aparato bélico necessário se reinventou 
tecnológica e militarmente) e União Soviética. Outro fruto proveniente da guerra 
foi a criação do organismo supranacional, ONU (Organização das Nações Unidas), 
em junho de 1945, cujo caráter e funções deveriam ser aptos a coordenar e prover a 
manutenção da paz recém adquirida. Para tanto, o órgão máximo da mesma foi 
intitulado “Conselho de Segurança”, composto permanentemente por cinco países: 
Estados Unidos, União Soviética, Grã-Bretanha, França e China; e rotativamente por 
mais dez países (MAGNOLI, 2006). 
FIGURA 7 – ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS - ONU
FONTE: <https://www.lifegate.it/app/uploads/assemblea-generale.jpg>. Acesso em: 21 out. 2019.
Em que pese, todo o aparato jurídico e moral estabelecido pós Segunda 
Guerra, incluindo a criação deste importante órgão (ONU), cuja atuação é 
expressiva até os dias atuais, a humanidade enfrentaria mais um momento 
delicado de disputa entre nações. Este acontecimento transcorrido no período 
contemporâneo foi o último a suceder à pós-modernidade: a Guerra Fria.
 
A bem da verdade, a Guerra Fria teve seu prelúdio ainda durante a Segunda 
Guerra Mundial, e foi se intensificando nos anos posteriores. Os vencedores, por 
mútuo acordo decidiram que cada um seria responsável por governar parte do 
território alemão, além de erradicar qualquer foco remanescente do pensamento 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
146
nazista. A Rússia, por sua vez, tinha um objetivo maior que este: fortalecer suas 
fronteiras e estabelecer cada vez mais influência no Leste Europeu – somente 
depois que os ideais comunistas surgiram de modo a se contrapor à política 
estadunidense (MAGNOLI, 2004).
 
O cenário seguinte pode ser retratado pela paulatina demonstração de 
força e supremacia norte-americana que, aliada à Grã-Bretanha, conseguiu por 
meio de muitas doações de suprimentos e demais itens essenciais à sobrevivência 
humana (cooperação internacional), reerguer uma Alemanha devastada (à parte 
que lhe cabia). Iniciava-se, então, o desenrolar do sistema bipolar da Guerra Fria 
(MAGNOLI, 2004).
 
A Doutrina Truman e o Plano Marshall foram fundamentais para a 
recuperação da Europa num geral, e, principalmente, visavam conter qualquer 
avanço ideológico, militar ou econômico da União Soviética frente ao continente. 
Doutrina Truman: orientação política externa definida pelo presidente 
americano Harry Truman em 1947, cuja finalidade consistia em 
assegurar a “contenção” da União Soviética. A Doutrina Truman 
funcionou como eixo da política externa de Washington durante a 
Guerra Fria (MAGNOLI, 2004, p. 98). 
Já o Plano Marshall efetivamente envolveu a questão financeira, em que 
a nação dos Estados Unidos doou o montante de 18 bilhões de dólares aos países 
europeus para recuperá-losda devastação causada pela segunda grande guerra. 
Com base no exposto, é possível a indagação e esclarecer, objetivamente o que foi a 
Guerra Fria. Não houve conflito armamentista direto entre Estados Unidos e União 
Soviética – e sim, apoio direto às nações que neste período entraram em conflitos, 
por exemplo, Guerra da Coreia e Guerra do Vietnã. Ou seja, o palco da Guerra Fria 
que outrora seria apenas na Europa, foi estendido aos demais continentes.
 O interesse econômico e a busca pela supremacia, escondidos nas 
ideologias do Capitalismo vs Socialismo fez com que as duas nações afetassem 
todo o cenário mundial. As fronteiras estratégicas (cortina de ferro e cortina de 
bambu), aliadas ao equilíbrio do terror (capacidade nuclear das superpotências) 
dominaram as décadas em que a Guerra Fria se alongou (MAGNOLI, 2004).
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
147
Cortina de ferro: expressão usada para designar a divisão da Europa em 
duas partes, a Europa Oriental e a Europa Ocidental como áreas de influência política e 
econômica distintas após a Segunda Guerra Mundial. Essa expressão foi utilizada para 
designar o domínio da extinta União Soviética sobre os países do leste da Europa, sendo 
proferido pela primeira vez pelo primeiro-ministro britânico Winston Churchill em março 
de 1946.
 Cortina de bambu: foi a versão asiática da cortina de ferro, que marcou a divisão 
ao redor de estados comunistas do leste da Ásia durante a Guerra Fria.
NOTA
Foi exatamente o reconhecimento do poder bélico e nuclear que uma nação 
tinha em relação à outra que fez com que a Guerra fosse “fria”. Nas palavras de 
MAGNOLI (2004, p. 116), a dissuasão nuclear configurou-se como: “Capacidade 
de represália nuclear suficiente para dissuadir o Estado rival de empreender um 
primeiro ataque”. 
O Muro de Berlim foi construído no período da Guerra Fria, e é considerado 
um símbolo da materialização do conceito de “cortina de ferro”. A iniciativa da construção 
partiu dos soviéticos, e tinha por objetivo cessar a fuga da mão de obra ao “lado ocidental” 
– números relatam que, ainda assim, ao menos 800 pessoas perderam suas vidas tentando 
transpor o obstáculo. O muro foi derrubado em 1989, representando o início de uma 
reunificação da Alemanha Ocidental e Oriental (FARIA; MIRANDA, 2016).
INTERESSANTE
FIGURA 8 – O MURO DE BERLIM, SÍMBOLO QUE DIVIDIA FISICAMENTE O TERRITÓRIO 
CAPITALISTA E SOCIALISTA NA CIDADE ALEMÃ
FONTE: <https://gradoceroprensa.files.wordpress.com/2015/06/1313060798422.jpg>. 
Acesso em: 21 out. 2019.
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
148
Finalmente, a hegemonia do sistema bipolar da Guerra-Fria em algum 
momento haveria de encerrar. A razão desse desfecho foi que a União Soviética, 
frente a economia Norte Americana, não dispunha de mais poderes econômicos 
para qualquer manobra. As décadas anteriores exigiram um grande investimento 
nos campos militares e tecnológicos (desenvolvimento nuclear e corrida espacial, 
por exemplo). Isso fez com que a União Soviética entrasse em crise, ao ponto de 
começar a faltar comida aos cidadãos. Assim sendo, algumas medidas foram 
adotadas, e, como efeito, houve a queda sucessiva do socialismo nos países que antes 
aderiram ao movimento, o que representou, em tese, a vitória do “capitalismo”.
A pequena contextualização apresentada se fez necessária para se gerar 
a exata compreensão da importância, momento histórico e motivos que levaram 
às transformações na sociedade e diferenciar dos aspectos da era moderna da 
história. Passa-se a viver num contexto “pós-moderno” em que as relações 
internacionais passaram a ser delineadas com maior clareza, sendo aperfeiçoadas 
ao longo da Idade Contemporânea. O próximo subtópico traz um resumo das 
teorias do pós-modernismo nas Relações Internacionais.
3 PÓS-MODERNISMO
O Pós-Modernismo nas Relações Internacionais é considerado por muitos 
autores (e seguiremos essa perspectiva) como o momento em que a sociedade 
vive atualmente. Seu início ocorreu na década de 80, concomitante ao declínio 
da Guerra-Fria e ascensão da nova Ordem Mundial. As teorias que sucedem esse 
momento histórico, ao modernismo, são pautadas pelos ideais iluministas, sendo 
que estes visavam ao bem-estar do cidadão, aos direitos e garantias fundamentais 
e demais questões que o pós-modernismo considera como uma utopia. O pós-
modernismo tem como objetivo principal a desconstrução das teorias dominantes 
de Relações Internacionais, como a Realista, a Idealista e a Liberal, consolidadas 
nesta área de conhecimento. 
Nesse sentido, o principal foco de ataque é o Realismo/Neo-realismo, 
e o produto deste ataque é a demonstração de que não existem teorias 
objetivas de Relações Internacionais tanto quanto não existe uma 
realidade objetiva de relações internacionais (SARFATI, 2005, p. 240). 
A primeira lição importante que se deve observar é que não existe um 
conceito próprio e universal quanto ao pós-modernismo. Diversos filósofos 
extremamente respeitados procuram não sacramentar este conceito, e sim, 
trabalhar com as ideias do mundo atual, as condições históricas vividas hoje em 
que o conhecimento é gerado, sendo que a partir disso, gera-se reflexões sobre o 
pensamento vigente. Outros autores, por sua vez, trabalham com o entendimento 
de que não existe uma verdade absoluta, e sim perspectivas concorrentes; ou 
seja, todos os lados de um fato específico devem ser analisados e a partir daí a 
construção de um novo mundo é iniciada. Existem também, os pensadores que 
trabalham com afinco para desconstruir os pensamentos filosóficos ocidentais, 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
149
com objetivo de buscar a versão mais pura possível sobre determinado fato: uma 
vez que, as análises científicas seriam “contaminadas” pela própria opinião de 
quem as elaborou (SARFATI, 2005).
 
Nessa primeira perspectiva, pode-se verificar que o pós-modernismo não 
possui ciência objetiva, mas sim, diversos pontos de vista que trabalham com 
diferentes formas para analisar as situações cotidianas em diferentes níveis e 
assuntos. A noção de relativismo talvez seja a que mais se aproxime da filosofia 
pós-modernista. Isso se estende também aos acontecimentos de interesse das 
Relações Internacionais. 
O Relativismo é um conceito atribuído aos pontos de vista sobre determinado 
assunto ou situação. Para essa corrente filosófica não se têm uma verdade absoluta ou 
validade intrínseca, mas apenas um valor relativo, subjetivo, e de acordo com diferenças na 
percepção e consideração dos indivíduos.
NOTA
A segunda lição importante a ser aprendida é que em todos os campos 
de estudo, é comum haver uma espécie de teoria dominante e amplamente 
defendida por teóricos/filósofos, como também, existir a parcela de pensadores 
que se antagonizam a ela. No campo das Relações Internacionais não poderia 
ser diferente. Portanto, existem aqueles que fortemente buscam desconstruir 
as teorias das Relações Internacionais (SARFATI, 2005). Nesse momento, não é 
cabível juízo de valor quanto às ideias que serão abordadas; o intuito tão somente 
é demonstrar que, mais do que nunca, o pós-modernismo propicia o espaço para 
que todos apresentem, ontologicamente, suas concepções. 
A ontologia se preocupa com a natureza do “ser”, sua existência e realidade.
ATENCAO
É possível afirmar que essa desconstrução na realidade busca por novas 
visões, interpretar determinada situação por um novo prisma, uma nova ótica, 
indo a fundo na questão epistemológica, de modo a não somente reproduzir 
determinado acontecimento, e sim, explicá-lo.
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
150
3.1 DESCONSTRUINDO AS TEORIAS DE RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS 
A premissa mais importante nas teorias das relações internacionais 
certamente diz respeito ao Estado enquanto ente federativo detentor de soberania 
e legalidade para representar e efetivar os interessesde seus cidadãos, tanto 
no âmbito interno, quanto no âmbito internacional. O fato de que este mesmo 
Estado é constituído de uma população, sobre determinado território e que 
necessariamente deve ter um governo para que assim, seja configurado não é 
mais questionado.
 
A pós-modernidade possibilitou a consideração sobre a tese supracitada, 
sendo Ashley (1986) um dos filósofos que questionam tal pensamento. Nesse 
sentido, o Estado não seria uma produção natural do meio, e sim artificial, devendo 
ser pensado e questionado. “Dessa forma, as fronteiras são intencionalmente 
construídas para criar uma diferenciação entre interno e externo, em que o interno 
é ordenado hierarquicamente pelos donos do poder e separados e protegidos do 
caos da anarquia do mundo externo” (SAFARTI, 2005, p. 241). 
A teoria prossegue sua análise de desconstrução em relação a anarquia 
internacional, repartindo-a em duas linhas: Na primeira linha, os elementos 
centrais da anarquia são apresentados, sendo que o sistema internacional é visto 
como constituído dos múltiplos Estados e seus interesses identificáveis. Trata-se 
uma arena com diferentes capacidades de poder. A segunda linha de raciocínio, 
tem a soberania e a anarquia como contrapostas. A soberania é vista como um ideal 
regulativo e a anarquia uma antítese da soberania. “O mundo soberano não admite 
diferenças que firam um centro hegemônico, ao passo que o mundo anárquico é 
caótico o suficiente para que nenhuma ordem impere” (SARFATI, 2005, p. 242). 
Por esses motivos, que Ashley (1986) considera que o Estado não existe 
antes de tomar suas medidas ante ao povo ou demais nações. Para ele o Estado é 
um ente que se transforma diante das situações, não devendo ser estudado como 
um “dado”, mas por sua história e discursos de acordo com a época vigente. Ele 
faz questão de “quebrar” a lógica territorialista, provando que esta ideologia 
assume um “plano de fundo”, ao apresentar os fenômenos de migração e 
refugiados, por exemplo. Se efetivamente o Estado for interpretado por meio 
de dados, nunca o seria verídico, justamente porque o elemento humano é um 
dos mais importantes que o constitui. Ou seja, sem povo, sem ter para quem 
governar, não existe Estado (SARFATI, 2005).
 
Outra ideia extremamente relevante ao presente estudo diz respeito à 
lógica instrumentalista das teorias clássicas das Relações Internacionais. O pós-
modernismo visa criticar qualquer teoria que baseada em conceitos “fechados 
e objetivos”. Essa crítica faz questão de separar dois elementos presentes em 
qualquer teoria: o sujeito e o objeto da análise, procurando sair do comum até 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
151
então vivido, e não simplesmente reproduzir um momento histórico sem explicá-
lo ou refletir sobre os reflexos e consequências. O ápice desta teoria ocorre quando 
ao invés de simplesmente ocorrer uma interpretação simplista de determinado 
fato ou momento histórico, esta passa a modificar a realidade existente. 
Se as teorias deveriam explicar uma determinada realidade pela 
formulação de hipóteses testáveis, estas são a ligação fundamental 
entre a realidade e as estruturas teóricas. Desse modo, elas não têm a 
simples função de interpretar uma realidade, mas, sim, de alterar uma 
realidade ou mesmo de construir uma realidade que não existe de fato, 
ou seja, a teoria e realidade se misturam e não é possível separar o que 
é teoria do que é real (SARFATI, 2005, p. 243). 
Afinal, o que isso quer dizer? De acordo com os pós-modernistas a lógica 
instrumentalista representa a reprodução mecanizada da história, o que de fato 
não existe. Na realidade, os agentes são capazes de, por meio de teorias, prever 
cenários e quiçá alterar o futuro das dinâmicas à medida que vão acontecendo. 
Parece confuso, mas, um clássico exemplo seria o que ocorre nas bolsas de valores 
pelo mundo a fora. Diversas projeções e estatísticas são realizadas, e apontam 
para uma direção (teoria): mas não necessariamente elas irão ocorrer, somente se 
concretizarão se os operadores a seguirem (prática). 
 
Por fim, imperioso mencionar o poder dos discursos no pós-modernismo. 
O conhecimento sobre determinada situação é refletido nos “discursos”, estes que 
apontam a ideia do que efetivamente é importante e relevante – abrindo margem 
para excluir ou constituir determinadas verdades. Entretanto, ao considerar 
a realidade globalizada vivida pela população, o referido tipo de discurso só 
pode ser propagado por determinados agentes, como especialistas ou oficiais 
do Ministério das Relações Exteriores. Em suma, “o projeto emancipatório pós-
modernista consistiria na apresentação do discurso dos dissidentes, seja lá o que 
for dissidente em cada momento histórico; é o eterno discurso do ‘outro’, da 
oposição a qualquer ordem estabelecida” (SARFATI, 2005, p. 245). 
Diante de todo o exposto, pode-se concluir que o pós-modernismo traz 
a proposta de revolucionar o pensamento das relações internacionais, pois 
passa uma leitura de não ser apenas um relator dos acontecimentos por meio 
de uma visão única e imposta. Sua própria essência, ao não possuir conceito 
exato e majoritário entre os doutrinadores lhe garante essa particularidade de 
constante reflexão, exposição, e desconstrução de qualquer argumento. Porém, 
a desconstrução não é restrita apenas ao campo das ideias, como se verá adiante. 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
152
3.2 DESCONSTRUÇÃO DA SEGURANÇA INTERNACIONAL
Embora extremamente contemporâneo e relevante, a segurança é um 
fenômeno que passa despercebido por grande parte da população, ou pelo menos 
é ignorada frente as dinâmicas socioeconômicas que “distraem” os indivíduos 
nas sociedades em todo o globo. A expansão tecnológica proporcionou diversos 
avanços ao longo dos séculos, conforme evidenciado no início deste capítulo; 
todavia, é possível afirmar que a maior evidência de tal progresso se mostra no 
período da pós-modernidade.
 Um exemplo trivial, mas de fácil assimilação para a analogia com as relações 
internacionais é a relação da infância de gerações passadas e a atual: as gerações 
passadas brincavam despreocupadamente na rua em muitas localidades. Havia 
o contato humano, a despreocupação com os males do mundo. Contrariamente, a 
geração atual não brinca na rua, mas em frente a um computador, celular, tablet, 
videogame. Os amigos são, na maioria, virtuais, sendo que muitos estão em 
localidades diferentes. Não que essas crianças estão mais seguras, na verdade os 
perigos são outros e muito mais complexos. O que se quer chamar a atenção é que 
a sociedade está cada vez mais imersa e presa às tecnologias. Nas residências dos 
“cidadãos comuns”, a tecnologia não é mais luxo e sim necessidade, de convívio e 
interação social. Essa relação, no entanto, não resguarda as pessoas de problemas 
de segurança, visto os diferentes tipos de “golpes de extorsão”, cyberbullying, 
roubo de informações etc.
Trata-se de uma tentativa de não sucumbir às mazelas dos perigos da 
modernidade, a tecnologia trouxe benefícios de segurança, mas também gerou 
“inseguranças” de outras naturezas e de caráter imediato, em tempo real. Além 
disso, uma disfunção do que é real e o que é virtual desvia o foco da percepção das 
pessoas para a dimensão dos problemas envolvendo a sua segurança. O fenômeno 
retratado, sobre o qual se desenvolve este subtópico, é chamado de “hiper-
realidade”. Terrif (1999 apud SARFATI, 2005, p. 245), explica: “[...] a mídia forma e 
representa a realidade social. Na hiper-realidade, ninguém consegue discernir se 
são soldados morrendo em um jogo de computador ou se são pessoas reais que 
estão morrendo”. Isso acontece porque, conforme mencionado, desde a Guerra Fria 
e o advento de tecnologias, como a internet, os Estados realizam suas projeções 
de proteção das fronteiras digitalmente. O mesmo ocorre quando algum deles se 
envolve em uma “guerra real”, por exemplo, conforme observadopor Sarfati (2005, 
p. 246): “as guerras são planejadas em computadores e simuladas virtualmente em 
programas desenhados para testar estratégias e combatentes em ação”. 
A “infoguerra”, portanto, mostra-se extremamente prejudicial e perigosa a 
toda humanidade, especialmente quando aliada aos efeitos causados pela mídia. 
Nesse cenário, é possível identificar pessoas e ideologias diferentes umas das outras, 
mas capazes de produzir efeitos globais, ou seja, afetar a todos (SARFATI, 2005).
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
153
Em sua forma mais pura, a infoguerra é o combate sem guerra, é uma 
batalha epistêmica de opiniões, crenças e decisões criadas e destruídas 
por redes de informação e sistemas de comunicação. [...] Em sua 
forma bruta, a infoguerra prevê a batalha pela dominação do espaço 
em combates travados por mísseis e bombas guiados por sistemas 
monitorados por GPS e, em sua forma suave, guerras de vírus de 
computador, invasões de sistemas e sites de internet, além de guerras 
e ataques simulados terroristas, como no filme Mera coincidência (Wag-
the-Dog) (SARFATI, 2005, p. 247). 
 
Um exemplo recente de infoguerra, o teste realizado pela Coreia do Norte com 
relação aos mísseis nucleares desenvolvidos pelo Estado. O objetivo foi “verificar o 
alcance dos mísseis”; estes, foram direcionados ao mar. Eventualmente, a infoguerra 
pode chegar às vias de fato, como ocorrido na guerra do Iraque, em 2003. 
Vale assistir ao filme Mera Coincidência! Leia a sinopse: o presidente dos Estados 
Unidos (Michael Belson), a poucos dias da eleição, se vê envolvido em um escândalo sexual 
e, diante deste quadro, não vê muita chance de ser reeleito. Assim, um dos seus assessores 
entra em contato com um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este "invente" 
uma guerra na Albânia, na qual o presidente poderia ajudar a terminar, além de desviar a 
atenção pública para outro fato bem mais apropriado para interesses eleitoreiros. 
FONTE: <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-17370/>. Acesso em: 11 dez. 2019.
DICAS
Em suma, o pós-modernismo pode ser entendido como o momento em que 
se percebeu que a Modernidade e sua visão de mundo baseada no Racionalismo, 
no Cientificismo e do Positivismo possuía limitações e por que não dizer falhas 
em explicar as relações internacionais. Essa nova alternativa buscou a formação 
de uma visão de mundo mais fluida, sustentada agora pelo Reflexivismo, pelo 
Relativismo e pelo Pós-Modernismo. A Condição Pós-Moderna tem a intenção 
principal de compreender o papel do conhecimento dentro da sociedade em 
seu estágio avançado de industrialização e mercantilização, criando um campo 
teórico, que inclusive transbordou os limites das disciplinas em si e influencia 
outras áreas, como as Relações Internacionais. 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
154
4 TEORIA CRÍTICA 
Independentemente da corrente doutrinária, o “poder” na maioria das 
vezes se torna tema central em qualquer discussão no campo das Relações 
Internacionais. A Teoria Crítica não poderia trazer temática diferente; todavia, 
diferentemente de tudo o que já foi explanado até o momento, ela basicamente 
procura estudar e entender os motivos pelos quais existem “excluídos” na 
sociedade, para então procurar soluções com o objetivo de reverter tal quadro.
 
Nascida na década de 1930, a Escola de Frankfurt, na Alemanha, berço da 
Teoria Crítica, contava com nomes importantes, por exemplo Walter Benjamin, 
Herbert Marcuse e Jurgen Habermas. Inicialmente era tomada pelos ideais 
marxistas, que posteriormente passou a ser aperfeiçoada com as concepções de 
outros filósofos, como Kant, cujo escopo final mostrou ser o alcance do projeto 
emancipatório, com a consequente superação do Estado (SARFATI, 2005). Ou 
seja, a Teoria Crítica busca um ideal em que uma nova sociedade seja firmada 
sem a dominação absoluta de um Estado, no sentido de não haver “margem” 
para discriminações ou excluídos sociais. Percebe-se que o objeto não é a 
anarquia, e sim, simplesmente evitar as discriminações contra qualquer grupo ou 
comunidade.
A Escola de Frankfurt rudimentarmente utilizava os ideais marxistas 
como fundamento de seu discurso. Justamente em razão da originalidade e 
excentricidade de seus pensamentos e teorias, o filósofo Karl Marx (1818-1883) 
é um dos grandes nomes da ciência social até os dias de hoje. Basicamente, 
Marx defendia que as pessoas contemporâneas a sua época apenas avançariam 
na escala evolutiva caso houvesse uma luta de classes. Esse pensamento adveio 
porque na época vivida por Marx, havia uma enorme diferença econômica 
e social entre a burguesia e proletariado. Desta forma, para ele, o sistema 
capitalista deveria ser derrubado com o Estado (pois este serviria apenas 
para atender às necessidades das classes dominantes, e não da grande massa 
trabalhadora), dando início ao “comunismo”.
FIGURA 9 – KARL MARX 
FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcQYqyJvgXqFTLPCL 
PWSDNKbvZmfzaIjkRMxklYeEqs74VwcZVsg>. Acesso em: 7 fev. 2020
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
155
Aos poucos, a Escola de Frankfurt avançou em sua ideologia ao aderir 
elementos kantianos a ela. Immanuel Kant (1724-1804) dedicou grande parte de 
sua vida ao estudo da epistemologia, à razão humana como principal elemento 
no processo de produção de conhecimento e diversas outras teorias. 
FIGURA 10 – IMMANUEL KANT 
FONTE: <https://i2.wp.com/bienheureusement.fr/wp-content/uploads/2015/06/Emmanuel-
Kant-Jeune.jpg?resize=559%2C640&ssl=1>. Acesso em: 7 fev. 2020
Após esse avanço, a Teoria Crítica entendeu que havia importância na 
ênfase entre o conhecimento e a sociedade, uma vez que os tipos de conhecimento 
existentes levariam a sociedade a diversos níveis de evolução; dentre eles, o 
emancipatório da liberdade. 
QUADRO 1 – TIPOS DE CONHECIMENTO
FONTE: Adaptado de Sarfati (2005)
O conhecimento empírico-analítico está baseado no método de observação 
utilizado para aprofundar o estudo dos fenômenos, podendo estabelecer leis 
através da conexão existente entre causa e efeito em um determinado contexto. 
Ele se baseia na análise estatística e ainda é muito utilizado no ramo das ciências 
sociais na busca por explicar o valor da experiência prática para o conhecimento 
da realidade. Por sua vez, o conhecimento histórico-hermenêutico busca por 
meio da interpretação dos acontecimentos lidar com a relação entre o significado 
e a compreensão dos fatos históricos. “As proposições da hermenêutica visam um 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
156
contexto de aplicação correspondente – elas apreendem interpretações da realidade 
em vista da intersubjetividade de uma compreensão mútua, suscetível de orientar 
a ação para uma situação hermenêutica inicial” (HABERMAS, 1987, p. 217).
Na Teoria Crítica, o conhecimento é muito importante, pois não existe uma 
realidade única e imutável; a construção do conhecimento pode ser realizada por 
meio de diversas maneiras, por meio da ótica da ética. Todavia, essa construção e 
desconstrução do conhecimento é: “[...] a primeira tarefa da Teoria Crítica: despir 
a epistemologia das teorias de Relações Internacionais” (SARFATI, 2005, p. 250). 
Epistemologia é um ramo da filosofia que procura validar todo o conhecimento 
científico produzido, especialmente por meio de fundamentos lógicos. 
NOTA
É exatamente nesse ponto que é possível perceber a grande diferença entre 
a Teoria Crítica e as teorias defendidas pelos pós-modernistas. Ambas acreditam 
no poder do discurso e construção/desconstrução do conhecimento; entretanto, 
a Teoria Crítica procura ir além, ao utilizar essas ferramentas “filosóficas” para 
beneficiar os excluídos da sociedade, ou seja, promover o tão falado projeto 
emancipatório (SARFATI, 2005). É comum que qualquer comunidade primeiro 
pense em suas próprias necessidades, para então pensarnos outros. Entretanto a 
Teoria Crítica também procura desmistificar esse preceito natural do ser humano 
ao analisar as relações entre sociedades.
 
Num apanhado geral, Sarfati (2005, p. 251) evoca as ideias de Linklater 
(1996) sobre os quatro tópicos que são as características da Teoria Crítica:
• Construção do conhecimento: o pesquisador e seus objetos 
de estudo são ontologicamente indissociáveis. Significa que o 
pesquisador apenas consegue analisar e identificar algo que lhe é 
comum e real.
• Derrubada da tese da imutabilidade social: na qual há 
demonstração de “como as ordens são constituídas e os caminhos 
alternativos para o status quo”; 
• O marxismo fora superado: ao passo que a Teoria Crítica chega à 
conclusão de que existem diversas maneiras de exclusão social, e 
não unicamente em razão do modo de produção (empregadores vs 
empregados).
• Promoção do diálogo na sociedade internacional: objetiva novas 
maneiras de organização política – de modo a impossibilitar 
qualquer possível exclusão. 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
157
Status quo é uma expressão latina que significa “estado atual”. Nas Relações 
Internacionais é muito utilizado no sentido de manutenção da Ordem Mundial segundo os 
detentores de poder.
INTERESSANTE
Por sua vez, Robert Cox (1986 apud SARFATI, 2005), pautado na lógica da 
teoria crítica, questiona as origens da ordem social e estruturas políticas, e como 
estas podem ser modificadas, ao passo que salienta que a lógica dominadora 
do tempo presente, o positivismo visa simplesmente legitimar a ordem social e 
estruturas políticas. Para ele, a Teoria Crítica é superior a qualquer outra teoria ou 
modelos tradicionais, visto que não se contenta por si só, e sim, busca melhorar e 
superar os problemas das ordens dominantes. Ainda:
Segundo a visão da Teoria Crítica, todas as teorias de Relações 
Internacionais são normativas à medida que são construídas a 
partir de determinado ponto de vista. Da mesma forma, essa teoria 
é explicitamente normativa quando adota o projeto emancipatório 
sugerido pela Escola de Frankfurt. Declaradamente, essa teoria contém 
em si um elemento utópico da construção de alternativas à ordem 
dominante. Assim, o papel da teoria é expor os limites das opções de 
transformação dentro do processo histórico (SARFATI, 2005, p. 250). 
Andrew Linklater (1996) também contribui ao entendimento geral 
da matéria quando associa ao domínio da Teoria Crítica a tese do combate 
à imutabilidade social, comum ao Neorrealismo e às teorias positivistas. 
Basicamente essa imutabilidade afirma que não existe possibilidade de alteração 
entre as classes sociais. Sarfati (2005) expõe sucintamente as ideias de Linklater 
no trecho a seguir: 
O papel da Teoria Crítica é denaturalizar as explicações tradicionais 
das Relações Internacionais, ou seja, mostrar que não há fenômenos 
naturais na vida política e social e, por conseguinte, sempre há 
caminhos alternativos que podem ser perseguidos pelas sociedades 
(SARFATI, 2005, p. 252). 
Dessa maneira, Linklater (1996) encontra na Teoria Crítica a chave para 
a criação de alternativas que levem às classes menos favorecidas ou excluídas à 
emancipação social. Basicamente o objetivo fundamental seria a possibilidade de 
aumentar a liberdade e autodeterminação de cada ser humano.
 
Diante de todo o exposto, fica claro que a Teoria Crítica, inicialmente 
pautada somente na teoria marxista, materialismo histórico e no papel das 
forças produtivas, com grande esforço, vem construindo uma espécie de 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
158
teoria pós-marxista e pós-kantiana. Robert Cox demonstra de que forma essa 
nova concepção vem surgindo, por meio das capacidades materiais, ideias e 
instituições. As capacidades materiais seriam os meios positivos ou negativos 
para o desenvolvimento ou não das pessoas. As ideias, por meio das diversas 
percepções e imagens coletivas trazem a perpetuação ou não de determinados 
comportamentos sociais e da disposição do poder. Por fim, as instituições seriam 
o meio em que as ordens dominantes seriam legitimadas e se perpetuassem num 
ambiente estável.
QUADRO 2 – CATEGORIAS E CARACTERÍSTICAS DA TEORIA CRÍTICA
FONTE: Adaptado de Sarfati (2005)
Cox (1986) ainda realiza uma leitura coerente, ao destacar que as ordens 
mundiais (grandes potências, política internacional, balanço econômico do 
mundo) podem ser transformadas somente quando a estrutura dos Estados 
sofrerem mudanças, e que isso somente seria possível quando as formas de 
produção gerassem novas forças sociais. 
As mudanças nas forças sociais vêm formando, por exemplo, uma classe 
global de executivos que tem suas próprias ideologias, estratégias e 
instituições de ação coletiva. Os membros dessa classe transnacional 
não envolveriam apenas os executivos das multinacionais, como 
também os oficiais das agências internacionais e membros burocráticos 
dos governos, que, de alguma forma, estão ligados à produção 
internacional (COX, 1986 apud SARFATI, 2005, p. 255). 
Por fim, na concepção de Cox (1986), ainda que o Estado estivesse 
enredado à economia capitalista – especialmente em razão da globalização, 
haveria possibilidades de mudança quando houvesse uma aliança entre os países 
do “Terceiro Mundo”. Para ele, com a união de diversos órgãos internacionais, 
como sindicatos, ONGs, entre outros, o movimento social internacional teria 
força suficiente para redefinir a ordem vigente.
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
159
A expressão Terceiro Mundo foi, por muito tempo, usada para se referir aos 
países subdesenvolvidos que não se enquadravam nos outros blocos, Primeiro Mundo 
(Países desenvolvidos, industrializados e ricos) e Segundo Mundo (Países do antigo bloco 
Socialista de Economia Planificada).
IMPORTANTE
A Teoria Crítica, independentemente de suas vertentes ou pensadores, 
possui profunda preocupação e procura efetivar os direitos dos excluídos por meio 
de uma “ética discursiva universal” – na qual há o diálogo livre de julgamentos 
e exclusões entre as comunidades. Para tanto, Sarfati (2005, p. 257) apresenta 
os seguintes argumentos: “o progressivo reconhecimento de que os princípios 
morais, políticos e legais devem ser universalizados, as desigualdades materiais 
devem ser reduzidas e deve haver um aumento do respeito pelas diferenças 
culturais, étnicas e as baseadas no gênero sexual”. No âmbito internacional, 
seriam três as maneiras de organização social:
FIGURA 11 – DIFERENTES MANEIRAS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL
FONTE: Adaptado de Sarfati (2005)
Evidenciada está, portanto, a importância da ética discursiva internacional 
no campo das relações internacionais de acordo com a Teoria Crítica. Somente por 
meio dela, num ambiente de mediação entre as nações, que haveria espaço para 
que finalmente os excluídos se fizessem percebidos e, com isso, uma possível 
alteração nos princípios de inclusão e exclusão na política internacional. 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
160
5 TEORIA CONSTRUTIVISTA
A Teoria Construtivista é relativamente nova para as Relações 
Internacionais, tendo surgido na década de 1990. O próprio nome já sugere algo 
relacionado à “construção”. Significa dizer, portanto, que esta teoria procura 
construir algo novo, nunca preestabelecido pela doutrina. Um novo pensamento, 
uma nova ideologia, uma nova forma de ver o mundo. E é exatamente esta a 
proposta da Teoria Construtivista, construir um ponto comum entre as teorias 
positivistas (explicar empiricamente as relações internacionais) e pós-positivistas 
(entender do que são feitas as relações internacionais), e, a partir disso, seguir 
nessa “terceira via” (SARFATI, 2005).
Alexander Wendt (1958-), renomado autor que trabalha e defende 
essa teoria, apresenta como um dos pilares da Teoria Construtivista o papel 
da identidade na formação do interesse dos Estados.Inicialmente a reflexão é 
pautada em questões tradicionais de qualquer pensamento concernente às 
relações internacionais. Como são formados os interesses dos Estados? De onde 
vem estes interesses? Desconsiderando os pensamentos do Neoliberalismo e 
do Neorrealismo, a primeira grande conclusão é que os sujeitos (Estados) ao se 
relacionarem com entidades semelhantes, desenvolvem certo “convívio social”, 
que, aliados às construções sociais de sua própria história interna, convertem 
exatamente em seus interesses próprios (SARFATI, 2005).
 
Dessa maneira, as três premissas fundamentais delineadas por Wendt (2000) 
são: os Estados são a principal unidade de análise das relações internacionais; as 
estruturas-chave do sistema de Estados são intersubjetivas, em vez de materiais; 
e os interesses e as identidades dos Estados são construídos por essas estruturas 
sociais e não determinados pela natureza humana ou política doméstica. 
A primeira premissa fundamental do construtivismo tem o reconhecimento 
de que os Estados seriam a única estrutura política internacional com a legitimidade 
para exercer a violência em caso de necessidade. Contudo, esta mesma teoria já 
admite que os atores não estatais paulatinamente vêm adquirindo mais poder 
e importância no cenário internacional, de modo a, num futuro distante (ou 
não), podem eventualmente se equilibrarem com a influência exercida pelos 
Estados soberanos. “Ainda assim, as mudanças sistêmicas acontecem por meio 
dos Estados e, consequentemente, eles seguem como unidades básicas de análise 
das relações internacionais, sem que com isso se excluam ontologicamente outros 
atores das relações internacionais” (SARFATI, 2005, p. 261). 
A segunda premissa, de que as estruturas-chave do sistema de Estados 
são intersubjetivas, em vez de materiais, diz respeito as capacidades dos Estados. 
Significa dizer que os Estados são construídos socialmente, e não objetivamente, 
ou seja, não são entes que nasceram prontos, imutáveis e com natureza rígida.
 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
161
Por fim, a terceira premissa diz que os interesses e as identidades dos 
Estados são construídos por essas estruturas sociais e não determinados pela 
natureza humana ou política doméstica. Nesse contexto, a identidade de um 
Estado é construída ao longo de sua história e sociedade, possuindo quatro eixos 
principais de interesse, sendo eles: a segurança física; a segurança ontológica; o 
reconhecimento; e o desenvolvimento. 
QUADRO 3 – OS QUATRO EIXOS DE INTERESSE NA CONSTRUÇÃO DA 
IDENTIDADE DE UM ESTADO
FONTE: Adaptado de Sarfati (2005)
A Segurança Física diz respeito às capacidades do Estado de se garantir 
como ente próprio, autônomo e forte o suficiente para existir frente as ameaças e 
existência dos outros atores. A Segurança Ontológica diz respeito a diferenciação 
de um Estado a outro por meio de seus recursos materiais (Território, povo e 
governo), trazendo uma identidade existencial única a cada Estado na Ordem 
Mundial. O Reconhecimento segue os mesmos moldes apresentados na Unidade 
1 deste livro, ou seja, pode ser explícito, implícito, individual ou coletivo. Trata-
se de uma prerrogativa que está associada com o poder do Estado de garantir as 
condições de segurança em seu território e fazer parte da Sociedade Internacional. 
O desenvolvimento, assim como a segurança são os principais desejos das 
sociedades dentro dos Estados, sendo que a própria sobrevivência do Estado está 
ligada as suas capacidades de garantir a qualidade de vida em seus territórios e a 
sua sustentabilidade econômica e social.
É exatamente neste ponto que a Teoria Construtivista assume uma nova 
forma. Aos Estados, portanto é devida a possibilidade de criar uma identidade. 
Na realidade, cada um deles, possui de acordo com seus eixos de interesses e 
relações sociais formadas uns com os outros ao longo do tempo o conceito de 
“identidade própria”. São várias as características que constroem a identidade de 
um Estado e a percepção que este tem sobre si mesmo; porém, é necessário frisar 
que tal identidade é adquirida mediante o processo de relacionamento uns com 
os outros. “A identidade é a base da construção dos interesses e somente passa a 
existir quando ambos começam a se relacionar” (SARFATI, 2005, p. 262). 
Assemelha-se ao Estado, portanto, ao que acontece com qualquer indivíduo 
“pessoa física”. A construção da identidade de uma pessoa ocorre mediante 
seus interesses e vontades, quando esta se relaciona com as demais pessoas da 
sociedade, e, de maneira automática, passa a procurar por seus “iguais” para 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
162
estabelecer relacionamento mais próximo. Com os Estados ocorre este mesmo 
fenômeno natural. “Os Estados que se identificam positivamente entre si tendem 
a cooperar, enquanto aqueles que se identificam negativamente tendem a manter 
uma relação conflituosa” (SARFATI, 2005, p. 262). Nesse sentido, a construção da 
identidade continua ao passo que um Estado avalia o outro mediante os “sinais” 
que são emitidos em razão de suas atitudes e políticas adotadas em determinados 
temas. Obviamente, mesmo que as nações se reconheçam umas às outras como 
soberanas, também há uma reciprocidade em tipificar a conduta e classificar 
como possível “aliada” ou não.
Esse argumento implica dizer que, se dois Estados continuamente 
emitem sinais de parte a parte, em que cada um representa ameaça 
em relação ao outro, veremos que o mecanismo de reforço vai produzir 
identidades negativas, ou seja, cada Estado se vê como o oposto do 
outro, cada um atribui ao outro qualidades negativas de um agressor. 
Nesse sentido, o significado da anarquia para esses Estados produzirá 
o comportamento egoístico de autodefesa e balanceamento de poder 
(SARFATI, 2005, p. 263).
A soberania novamente aparece como princípio norteador das ações 
Estatais, pois confere aos mesmos a base necessária para que desenvolvam 
sua individualidade, identidade e a própria segurança. Nesse sistema, inexiste 
a anarquia, pois o fato de construir e desenvolver a própria identidade e 
interesses, faz com que os Estados além de reconhecer a soberania uns dos 
outros, institucionalizem determinadas práticas que configuram num “esquema 
cooperativo” (SARFATI, 2005).
 
O que isso significa? Sarfati (2005, p.263) leciona: “isso quer dizer que o 
significado da anarquia é construído socialmente e, portanto, entre os Estados 
com identidade negativa, deve ocorrer o balanceamento de poder, enquanto, 
entre aqueles com identidade positiva, deve ocorrer a cooperação”. Dois exemplos 
podem ser citados para ilustrar a teoria mencionada.
Primeiro, a cooperação existente entre os países da América do Sul, ao criarem 
o MERCOSUL. Aqui a identidade dos Estados fez com que desejassem cooperar 
mutuamente no âmbito econômico, ao reduzir taxas e juros, facilitar o acesso das 
pessoas entre os países, entre outros aspectos. Por sua vez, num segundo exemplo, 
a identidade negativa pode ilustrada com o caso das nações Estado Unidense e 
Mexicana: o alto índice de imigração dos mexicanos ao território norte americano fez 
com que houvesse uma ruptura no processo de identidade entre as nações, tornando 
a relação “negativa”. Portanto, em comportamento que pode ser identificado como 
“autodefesa”, os Estados Unidos vêm construindo um muro que visa ao combate da 
imigração ilegal, além de também utilizar em caso de necessidade de armas de fogo 
entre outros artifícios para “defender” suas fronteiras. 
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
163
FIGURA 12 – FRONTEIRA EUA X MEXICO
FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-kWzWlWyernY/TuuW0mUZqGI/AAAAAAAAH5s/Qi0Glii0YcY/
s640/muro+mex-eua+7.jpg>. Acesso em: 12 fev. 2020.
Ainda, é importante mencionar que, tal como ocorre nas relações interpessoais, 
existe a possibilidade de “reversão” do tipo de identificação entre os Estados. Por 
exemplo, onde anteshavia uma identidade negativa e por consequência de disputas, 
pode surgir uma cooperação. Isso demonstra que a comunidade internacional não é 
estática, pelo contrário: o tempo todo os Estados procuram satisfazer seus interesses 
e rever seus conceitos e imagem diante das demais soberanias caso seja necessário. 
Sarfati (2005, p. 264) corrobora: “mover-se, de uma lógica de conflito para uma de 
cooperação, presume que os Estados se engajem em um processo de autorreflexão 
que vai resultar na mudança de sua identidade”.
 
Não necessariamente a mudança de identidade significa algo ruim, 
pelo contrário, nestes casos o Estado apenas toma maior precaução em suas 
decisões. Na maioria dos casos em que ocorre este fenômeno, a motivação é de 
cunho “personalíssimo”, em que algum fato pode desencadear uma alteração 
social, que faz com que o Estado se veja de forma obsoleta; ou então, em razão 
de pressões sofridas pelo próprio meio internacional (sanções caso não deixe 
determinada prática ou recompensas caso as faça) corrobora à autorreflexão e 
possível mudança de identidade.
 
Perceba que em toda a teoria apresentada até o momento é possível 
realizar uma conexão com o que ocorre com as pessoas “comuns”. Por exemplo, 
a identidade de uma pessoa pode variar de acordo com o tema em questão: ao 
mesmo tempo em que dois colegas concordam com a qualidade de determinado 
produto, podem entrar em conflito em relação ao preço. Nas relações entre 
Estados é a mesma coisa, existem diferentes níveis de identificação (podem ser 
econômicas, sociais, de segurança, políticas). Ainda assim, existe muito espaço 
para o egoísmo estatal, que não seria uma determinação exógena como pautada 
no Neorrealismo, mas sim nas determinantes domésticas e sistêmicas.
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
164
QUADRO 4 – DETERMINANTES QUE DEFINEM O EGOÍSMO ESTATAL 
SEGUNDO O CONSTRUTIVISMO
FONTE: Adaptado de Sarfati (2005)
De outro Norte, Wendt (2000) também apresenta possibilidades em que a 
identidade pode materializar-se em interesses coletivos:
QUADRO 5 – IDENTIDADE COLETIVA SEGUNDO O CONSTRUTIVISMO
FONTE: Adaptado de Wendt (2000)
TÓPICO 1 | PÓS-MODERNISMO, TEORIA CRÍTICA E TEORIA CONSTRUTIVISTA
165
Outro ponto interessante da Teoria Construtivista diz respeito à 
internacionalização dos Estados. Basicamente, há a formação de uma identidade 
coletiva dos Estados que se dá por meio da segurança ou da economia num processo 
de institucionalização da sua ação coletiva. Como fruto desse entendimento 
comum, são produzidas normas, regras, e princípios comuns que são seguidos 
pelos cidadãos dos Estados em questão — a identidade supranacional passa a 
existir, como, por exemplo, as relações da União Europeia.
Todavia, Wendt (2000) vislumbra ao menos dois obstáculos para que o 
processo de internacionalização dos Estados tenha êxito. 
Primeiro, o sistema westfaliano estaria sendo gradualmente 
transformado da anarquia para a autoridade, não em um sentido de 
autoridade única, mas em torno de um sistema soberano desarticulado, 
no qual as funções estatais são ‘performadas’ por níveis de agregação, 
ou um neomedievalismo, em que a autoridade estatal é dividida 
por atores estatais e não estatais. A segunda implicação diz respeito 
ao problema da relação entre governança global e democracia. Na 
medida em que a autoridade funcional é transferida para outros 
níveis diferentes do nível estatal, começa a surgir um problema de 
representatividade do povo em relação às decisões tomadas nesses 
níveis [...]. Trata-se do problema chamado déficit democrático 
(SARFATI, 2005, p. 266, grifo nosso).
Em que pese o exposto até o momento, deve-se ter em mente que 
o Construtivismo procura, sobretudo, trabalhar como “via média” entre 
a epistemologia positiva e a ontologia pós-positivista. Basicamente, seria 
assumir uma linha mediana entre as teorias que 1) buscam explicar as relações 
internacionais; e 2) as que buscam entender do que as relações internacionais 
são constituídas. Em meio ao mar de teorias e conceitos, o ponto de equilíbrio 
que tende a trazer segurança às relações internacionais no pano de fundo 
do Construtivismo, a Teoria Crítica e inclusive Pós-Modernismo, estão as 
denominadas comunidades epistêmicas. A atuação dessas comunidades está 
mais associada ao fortalecimento da construção do profundo conhecimento em 
determinado assunto que se reúnem à fim de emitir pareceres ou realizar estudos 
mais aprofundados sobre eles: o núcleo de conhecimento sobre algo. 
As comunidades epistêmicas como uma rede de profissionais 
com reconhecidas especialização e competência em uma área de 
conhecimento que possuem um conjunto de crenças e princípios 
normativos em comum que proveem uma racionalidade de ação para 
os membros da comunidade, crenças causais derivadas da análise das 
práticas e que contribuem para responder a um problema central na 
disciplina e constituem a base para entender relacionamento entre 
possíveis ações políticas e os resultados desejados (HAAS, 1992, p 272). 
As comunidades epistêmicas ao longo do tempo ganharam notoriedade 
em razão do conhecimento que produzem (independentemente de financiamento 
governamental ou não); e, justamente em razão da excelência do material 
produzido, continuamente são convidadas/convocadas pelos Estados ou 
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
166
comunidade internacional para auxiliar com as demandas e interesses da 
sociedade. Como isso ocorre na prática? O conhecimento produzido efetivamente 
interfere nas decisões estratégicas e políticas internacionais adotadas nos mais 
diversos setores da sociedade. 
Um exemplo? O protocolo de Kyoto (ratificado por mais de 175 países), 
originou-se em decorrência dos estudos realizados pela comunidade científica 
(diversos campos), que demonstrou as consequências ao planeta caso a emissão 
de CO² continuasse no mesmo ritmo da época. 
O impacto das comunidades epistêmicas na coordenação 
política internacional deve ser visto de modo evolutivo, ou 
seja, essas comunidades produzem, de forma independente 
do governo, ideias que eventualmente são institucionalizadas 
dentro de um Estado em um processo de formação de políticas 
públicas (SARFATI, 2005, p. 272). 
A atuação das comunidades epistêmicas é tão interessante que não ocorre 
somente em nível nacional. Ou seja, nestas comunidades há contínua troca de 
informações e contatos realizados no âmbito transnacional – pois a produção do 
saber é o seu principal objetivo. Entretanto, inegável o fato de que as comunidades 
epistêmicas, ainda que não intencionalmente, impactam direta e indiretamente 
os assuntos das agendas governamentais em nível nacional e internacional. Por 
esse prisma, as comunidades epistêmicas são fortes influenciadoras políticas ao 
delimitar os pontos cruciais que efetivamente merecem ser discutidos em torno 
de um assunto, poupando tempo e recursos, o que inevitavelmente define os 
interesses dos Estados, consequentemente também os padrões de julgamento ou 
regulação (SARFATI, 2005). 
 
Ainda nesse contexto, existem aqueles que defendem a teoria da governança 
global pautada exclusivamente no “poder” exercido pelas comunidades 
epistêmicas. Para Adler e Bernstein (2004), por exemplo, o entendimento comum 
proporcionado pelos estudos das comunidades epistêmicas tem a legitimidade 
(aceite total), a justiça (no sentido de responsabilidade das informações) e as 
capacidades materiais e conhecimento necessário que lhes conferem a autoridade 
necessária para gerar o consenso sobre determinado tema entre as nações.
 
Considerando que as nações soberanas tendem a defender seus interesses 
nacionais perante as outras, a teoria da governança global traria a segurança 
necessária ao garantir o consenso sobre determinado tema, uma vez que 
normas, valores, crenças e a definição de boas práticas seriam construídas e/ou 
apresentadas mediante os estudos apresentados e validadospela comunidade 
epistêmica (SARFATI, 2005). Por fim, sobre determinado tema cabe à comunidade 
epistêmica além de apresentar as normas, valores, crenças e boas práticas, 
proporcionar o correto diagnóstico do problema identificado e a solução. Caso 
não o faça (apresentar o problema e apontar solução), há o sério risco de que toda 
a credibilidade construída frente ao cenário internacional seja perdida. 
167
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• Para se ter uma compreensão das teorias pós-modernas das Relações 
Internacionais deve-se entender o que foi o período Histórico Idade Moderna 
e os eventos que se seguiram. 
• O pós-Modernismo nas Relações Internacionais é considerado por muitos 
autores como a ascensão da Nova Ordem Mundial. 
• O pós-Modernismo enquanto teoria de Relações Internacionais tenta demonstrar 
que as teorias dominantes. Ou seja, o que prega o pós-modernismo, em muitos 
aspectos, é a obsolescência geral do modernismo e sua a forma positivista de 
se fazer ciência das relações entre os Estados.
• Para os teóricos pós-modernos, o Estado é uma construção social e não natural 
do meio, devendo sim ser questionado.
• As relações de poder, segundo o pós-modernismo, marcaram a construção de 
um sistema internacional de Estados.
• Os atributos soberania e fronteiras foram construídos e concedidos aos Estados 
como forma de justificação das relações de poder, por aqueles que no poder 
estavam designando inclusive a anarquia como padrão internacional de 
comportamento ainda para atender estes interesses.
• A condição pós-moderna tem a intenção principal de compreender o papel do 
conhecimento dentro da sociedade em seu estágio avançado de industrialização 
e mercantilização, criando um campo teórico, que inclusive transbordou 
os limites das disciplinas em si e influencia outras áreas, como as Relações 
Internacionais. 
• A Teoria Crítica das Relações Internacionais está ligada às abordagens marxistas, 
Gramscianas (neomarxistas) e tem sua origem na Escola de Frankfurt.
• A Teoria Crítica denuncia e contesta as formas de injustiça, de supressão de 
direitos ou de negação de autonomia e liberdade humana, e luta pela sua 
emancipação. 
• As Teorias Críticas partilham dois pressupostos básicos e interligados: uma 
atitude crítica e alternativa sobre a forma de estudar e compreender o mundo; 
e a posição ética (crítica) sobre a responsabilidade das relações internacionais 
em se envolverem na possibilidade de mudarem o mundo.
168
• O construtivismo é sobretudo uma teoria social que demonstra a importância 
decisiva das relações constitutivas que se estabelecem entre as ideias, o 
conhecimento e os fatos.
• O argumento do construtivismo está na demonstração de que todas as variáveis 
relevantes das relações internacionais (segurança, economia, instituições) não 
são apenas fatos materiais objetivos, mas tem significados sociais e singulares 
interpretações ideacionais.
• Na Teoria Construtivista, as comunidades epistêmicas além de apresentar 
as normas, valores, crenças e boas práticas sobre os temas de importância 
coletiva, buscam também trazer o correto diagnóstico dos problemas e a sua 
correspondente solução para a Sociedade Internacional.
169
1 Na passagem da Idade Moderna para a Pós-Moderna, alguns eventos no 
cenário Internacional foram marcos importantes para as transformações 
econômicas e sociais as quais vivemos na contemporaneidade. Sobre esses 
eventos, analise as alternativas em verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) A Revolução Francesa foi resultado da revolta da população com a 
burguesia, cansados dos abusos da monarquia e inflamados pelos ideais 
iluministas igualdade, liberdade e fraternidade.
( ) A Revolução Industrial trouxe o desenvolvimento tecnológico, substituindo a 
manufatura por máquinas e acelerou o processo produtivo dos bens materiais. 
( ) As relações políticas e comerciais com a Inglaterra enfraqueceram a 
posição da Rússia, ocasionando o que se chamou Revolução Russa.
( ) A Primeira Guerra Mundial se deu por razões econômicas, políticas e 
territoriais, tanto que doutrinariamente é consenso considerar como ponto 
de partida a invasão da Polônia pela Alemanha em 1939.
( ) Diversos assuntos mal resolvidos, especialmente no que tange ao aumento 
de fronteiras e cessões de territórios; movimentos e acordos políticos 
realizados entre os países, e algumas guerras como Ítalo-Turca, e a dos 
Balcãs foram os ingredientes que progressivamente induziram à Segunda 
Guerra Mundial.
2 Sobre as características das Teorias Críticas, analise as seguintes asserções:
I- O pesquisador e seus objetos de estudo são ontologicamente separados. 
II- As ordens são constituídas e existem caminhos alternativos para o status quo. 
III- O Marxismo é superado, pois existem diversas maneiras de exclusão 
social, e não unicamente em razão do modo de produção (empregadores x 
empregados).
IV- Promoção do diálogo na sociedade internacional é equivocada, havendo 
uma dada organização política e com isso, processos de exclusão.
A respeito dessas asserções, é CORRETO afirmar que:
a) ( ) I e IV são corretas.
b) ( ) I e III são corretas.
c) ( ) II e III são corretas.
d) ( ) II e IV São corretas.
e) ( ) Todas as asserções são corretas.
3 Na Teoria Construtivista, o papel das comunidades epistêmicas foi muito 
evidenciado. O que são comunidades epistêmicas?
AUTOATIVIDADE
170
171
TÓPICO 2
OUTRAS INFLUÊNCIAS NA TEORIA DAS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, serão abordadas algumas influências contemporâneas 
na Teoria das Relações Internacionais. Varemos, a perspectiva da psicologia 
cognitiva em contraposição à psicologia behaviorista do neoinstitucionalismo 
irá pautar as discussões a respeito da percepção e atuação dos Estados no 
Sistema Internacional. Será discutido o processo de racionalização dos Estados, 
primeiramente, por meio do modelo de alguns exemplos da Teoria dos Jogos 
e posteriormente pela Análise Psicopolítica e a Teoria Prospectiva nas Relações 
Internacionais. Na psicologia cognitiva têm-se os cruzamentos de informações de 
modo que, com o passar do tempo e das experiências vividas por um indivíduo, 
novas conexões cognitivas são formadas e as já existentes, aprimoradas.
O segundo ponto a ser estudado neste tópico diz respeito às abordagens 
feministas para as Relações Internacionais. O encontro entre os campos dos 
Estudos de Gênero e Relações Internacionais também é muito recente, menos de 
três décadas, e adveio do "terceiro debate" em RI. A proposta de nosso estudo é 
investigar como foi inserido a discussão e a aplicação do gênero como categoria 
de análise para as relações internacionais. Nesse sentido, busca-se pensar como 
a argumentação dessa aplicação está ligada às teorias convencionais de relações 
internacionais. Será mostrado que, com o fim da Guerra Fria, foi propício para 
que no sistema internacional houvesse um distanciamento das preocupações 
tradicionais de segurança e alta política, permitindo que assuntos tidos como de 
segunda agenda pudessem ser debatidos. 
Por fim, o Tópico 2 da terceira unidade se encerra com a discussão do 
Terceiro Debate das Relações Internacionais. Esse debate se deu entre as teorias 
positivistas e as teorias pós-positivistas das relações internacionais. Esse debate 
se dá em torno da epistemologia das escolas racionalistas e reflexivistas. É 
evidenciado aspectos do paradigmatismo (o debate científico não está isolado 
em termos de teorias, e, sim, em torno da escolha da estrutura analítica), 
o perspectivismo (a discussão axiológica, epistemológica e ontológica de 
determinada teoria sendo mais importante do que a própria teoria) e o relativismo 
(pluralismo metodológico). 
172
UNIDADE 3 | SÍNTESE DAS TEORIAS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS PÓS-GUERRA-FRIA
2 A INFLUÊNCIA DA PSICOLOGIA COGNITIVA NAS 
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
As teorias de Relações Internacionais, em sua grande maioria, procuram 
maneiras empíricas para entender

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