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N.º 225 Janeiro 2017 Mensal l Portugal € 3,50 (Continente) Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciência I Tecnologia I Ambiente I Comportamento 5 6 0 1 7 5 3 0 0 2 0 9 6 00 22 5 Astrofísica O poder das supernovas Saúde Não maltrate os dentes! História A tragédia do Somme Pombais Património do Nordeste Chegou a REALIDADE VIRTUAL Vamos usá-la para viajar, fazer compras, estudar, ir ao médico... 2 SUPER 3Interessante SOFTWARE ABRANGIDO PELO SUPORTE Windows XP, 7 e 8 / Office 2007, 2010 e 365 / Adobe CC / Outros (sob consulta) A melhor solução de suporte informático para a sua empresa. Tenha sempre um técnico disponível através de acesso remoto para apoiar os seus utilizadores a um custo reduzido. www.helpmydesk.com O fim dos seus problemas informáticos, a partir de 12€ por mês, por computador. Grupo GRÁTIS 1.º MÊS 21 415 45 40 Observatório 4 O Lado Escuro do Universo 5 Motor 8 Histórias do Tejo 10 Caçadores de Estrelas 14 Sociedade Digital 18 Flash 74 Céu e Terra 96 Marcas & Produtos 98 C omo se sabe, a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção. Outras vezes, ultrapassa-se a si própria, uma espécie de Lucky Luke para acontecimentos improváveis. Quero eu dizer que, antes de a realidade vir- tual, tema de capa desta edição, ter tido tempo para se instalar e gozar um breve idílio com a fama, já estamos no pós-realidade: não interessa se existe ou existiu, se é real ou verdadeiro, importa a manipulação que podemos fazer, o aproveitamento possível dos três ou quatro segundos que a televi- são vai dedicar ao assunto, e depois quantas vezes vai o caso ser replicado no Twitter e no Facebook, se se torna “viral” (devia haver uma vacina...). Lamento, mas não concordo com quem considera um pesadelo a eleição de Donald Trump. Tenho pesadelos, como toda a gente, mas acordo e eles passam. Com Trump, acordamos todos os dias e ele ainda lá está, a nomear as pessoas mais desqualificadas para cargos que vão deixar os Estados Uni- dos, o mundo, a humanidade e o planeta, de uma forma geral, mais pobres, vulneráveis e infelizes. Todos os dias Donald Trump faz um show (ele gosta muito de fazer shows) de ignorância. Todos os dias mente, oculta, mani- pula, aproveita. Uma vez que é inútil fazer de conta que Trump (e quem o apoia) não existe, só nos resta empenharmo-nos mais ainda, opor o conhe- cimento à ignorância e os valores ao vale-tudo oportunista. Bem-vindo ao novimundo em que a realidade parece um pormenor dispensável. Não é, e cabe-nos a todos insistir nisso, todos os dias, até que o pesadelo acabe, na esperança de que não seja tarde demais. CM Na lama Fez um século em 2016: tropas britânicas e francesas (e de outros países) tentaram desalojar os alemães das margens do Somme. Foi uma carnificina monumental. Pág. 76 Papiroflexia para engenheiros Talvez nunca tenha ouvido falar em papiroflexia, mas por certo conhece a antiga arte japonesa do origami. Descubra as suas bases matemáticas e como é útil à ciência e à tecnologia do nosso dia a dia. Pág. 56 N.º 225 Janeiro 2017 Mensal Portugal € 3,50 (Continente) Saúde I Natureza I Hi stória I Sociedade I C iência I Tecnologia I A mbiente I Comportam ento 5 6 0 1 7 5 3 0 0 2 0 9 6 00 22 5 N.º 225 Janeiro 2017 Mensal Portugal € 3,50 (Continente) 0 1 7 5 3 0 3 0 0 2 0 9 6 00 22 5 5 6 5 6 0 1 7 5 Astrofísica O poder das supernovas Saúde Não maltrate os dentes! História A tragédia do Somme Pombais Património do Nordeste Chegou a REALIDADE VIRTUAL Vamos usá-la para viajar, fazer compras, estudar, ir ao médico... Admirável mundo novo? Janeiro 2017225 SECÇÕES www.superinteressante.pt Estardalhaço A morte de uma estrela é um fenómeno extraordinariamente energético. Se acontecesse um nas redondezas cósmicas, seríamos afetados. Pág. 26 ÓCIO À volta do tabuleiro 44 Retratos orbitais TERRA 20 www.assinerevistas.com Espertos Porque é que não estamos rodeados de robôs que nos ajudem nas tarefas diárias? Porque ainda não sabemos ensinar-lhes as coisas mais fáceis... Pág. 62 Assine com um clique! O coração da NASA ASTRONÁUTICA 32 ASTRONOMIA O poder das supernovas 26 TECNOLOGIA Viva a realidade virtual 50 SOFTWARE ABRANGIDO PELO SUPORTE Windows XP, 7 e 8 / Office 2007, 2010 e 365 / Adobe CC / Outros (sob consulta) A melhor solução de suporte informático para a sua empresa. Tenha sempre um técnico disponível através de acesso remoto para apoiar os seus utilizadores a um custo reduzido. www.helpmydesk.com O fim dos seus problemas informáticos, a partir de 12€ por mês, por computador. Grupo GRÁTIS 1.º MÊS 21 415 45 40 TECNOLOGIA A hora do origami 56 V IN C E N T L A FO R E T FOTOGRAFIA No trilho do lobo 82 HISTÓRIA O inferno do Somme 76 S H A U L S C H W A R Z TECNOLOGIA A Fórmula elétrica 68 A G E SAÚDE Direto aos dentes 38 TECNOLOGIA Como treinar o seu robô 62 N A S A / J P L- C A LT E C H AMBIENTE O regresso dos pombais 88 SUPER4 Observatório L owline: será este o nome do primeiro parque verde subterrâneo, que poderá surgir em Nova Iorque dentro de cinco anos. A localização proposta para o jardim, que terá um pouco mais de 4000 metros quadrados, é um terminal de elétricos abandonado, construído em 1908 perto da Ponte Williamsburg, no sul de Manhattan. O projeto parece tecnicamente realizável, como demonstrou a experiência-piloto, levada a cabo graças a uma campanha de angariação de fundos que obteve 212 mil euros numa plataforma de Jardim subterrâneo crowdfunding. No parque experimental, que deverá manter-se aberto até março, realizam- -se desde aulas de ioga a jogos infantis de caça ao tesouro. Quanto ao orçamento para o parque real, deverá rondar os 75 milhões de dólares. Se os seus promotores conseguirem o financiamento, prevê-se que as obras do oásis urbano arranquem no outono de 2018. Entre as plantas, haverá frutas e legumes. Londres, Paris, Moscovo e Seul mostraram interesse em estudar a ideia com os impulsionadores da proposta nova-iorquina. RAA D S T U D IO Interessante 5 U m objeto com a massa da Terra trans-formado num buraco negro (BN) teria um raio de Schwarzschild do tamanho de um berlinde! No centro da Via Láctea, há um BN galáctico com cerca de quatro milhões de massas solares (MS), do tamanho do Sistema Solar. Já aqui referimos igualmente BN de massa intermédia (com milhares de MS), BN primordiais (BNP), BN quânticos e os mais frequentes BN estelares. Dado que as estrelas mais maciças são também as mais raras (com massa até ~200 MS), os BN estelares com cerca de 30 MS são os mais maciços e raros que se conhecem. Uma estrela progenitora com massa maior do que 9 ou 10 MS irá acabar em supernova de colapso central, atin- gido o limite da fusão termonuclear do ferro. Daqui resulta tipicamente uma estrela de neutrões ou BN, conforme a massa inicial da progenitora e a massa que restará no núcleo estelar colapsado. É mais provável encontrar BN de massa estelar baixa, andando pelas ~4 MS o BN mais leve conhecido. Para se ter uma ideia, uma estrela de neutrões, tipica- mente abaixo das 3 MS, terá um raio de cerca de 10 km, ou seja, o tamanho de uma cidade. Recentemente, a hipótese de os BNP serem massa escura ganhou nova atenção com a descoberta fenomenal do Observatório de Ondas Gravíticas por Interferometria Laser (LIGO, na sigla inglesa). Os BN que colidi- ram, produzindo as primeirasondas gravíticas detetadas diretamente, tinham 29 e 36 MS. Não se sabe bem, porém, se este evento, cha- mado GW150914, implica BNP ou estelares. Probabilisticamente, o LIGO deveria detetar um caso entre os mais prováveis, mas BN es- telares com estas massas serão notoriamente menos comuns. Ou o LIGO detetou um caso anormal, ou estes BN não terão uma natureza estelar. Muitos BNP são excluídos enquanto massa escura por razões de dinâmica estelar, ou devido a limites em lentes gravitacionais, ou ainda devido à radiação de Hawking (os mais leves já deveriam ter decaído). Um intervalo que está ainda por excluir categori- camente permite, porém, a existência de BNP entre cerca de 1 e 100 MS, vindo assim ao encontro da descoberta do LIGO. No futuro, uma capacidade direcional do LIGO em conjunto com outros observatórios associados talvez permita a localização mais exata dos BN, esclarecendo se são estelares ou não. Os BNP ter-se-ão formado logo um segundo após o Big Bang, podendo portanto ser feitos de massa escura não bariónica, pois não estão sujeitos aos limites severos impostos pela nucleossíntese primordial. Terminando entre 3 e 5 minutos após o Big Bang, a massa dita “normal” que se formou na era da nucleossín- tese apenas pode representar cerca de 5% do total de massa-energia do universo. Este limite ditou o fim dos MACHOs (sigla inglesa para objetos maciços e compactos a encontrar nos halos galácticos), de que são exemplos anãs castanhas e anãs brancas, objetos bariónicos de baixa luminosidade. Os MACHOs poderão estar de volta enquanto candidatos a massa escura, caso os BNP se confirmem, mesmo que não representem a totalidade da massa escura. No outro lado desta aventura escura, os WIMPs (sigla inglesa para partículas maciças de baixa interação) continuam a “acobardar-se” e teimam em não dar sinais de vida categóricos, enquanto constituintes da massa escura. O LIGO detetou um segundo evento chamado GW151226, produzido pela colisão de dois BN, desta vez com 8 e 14 MS. Esperemos por mais observações para alargar a amostra estatística, antes de tirarmos conclusões. Entretanto, o cerco aperta-se noutras frentes no que respeita aos valores mais elevados destes BNP enquanto MACHOs. Um estudo publicado em junho passado baseou-se numa galáxia esferoide anã descoberta, em 2015, pela Câmara de Energia Escura (do telescópio Blanco, no Chile), a Erí- dano II (Eri II). Com cerca de 99% de massa escura, a Eri II tem apenas um enxame estelar brilhante no seu centro que é relativamente compacto. Se BNP com ~10 MS existissem no centro de galáxias como a Eri II, tais enxames estelares seriam mais difusos, com aqueci- mento dinâmico devido a interações com os MACHOs. O estudo mostrou igualmente que outras dez galáxias anãs semelhantes à Eri II teriam dimensões maiores, com maiores dispersões de velocidades devidas a interações com tais BNP putativos centrais. Não é isso que se observa, porém, uma vez que as estrelas destas galáxias sobreviventes a tais BN não se dissolveram ainda na Via Láctea. Isto impõe limites sérios aos BNP do tipo potencialmente detetado pelo LIGO enquanto totalidade da massa escura, mas não os exclui em absoluto. Bom, ainda sobram igualmente os BNP com massas entre as de um asteroide e abaixo da massa lunar, que nem a existência de estrelas de neutrões (não destruídas por BNP mais maciços) pode excluir. Se os BNP com massas menores do que as dos asteroides já teriam desaparecido devido à radiação de Hawking, os de massa sublunar terão apenas o diâmetro de um cabelo humano! Dadas as dimensões absurdas do espaço cósmico, a probabilidade de detetar tais BNP ultraminorcas seria tam- bém absurdamente pequena… O Lado Escuro do Universo Buracos negros primordiais escuros PAULO AFONSO Astrofísico N.R. – Paulo Afonso escreve segundo o novo acordo ortográfico, embora sob protesto. Espelhos captadores de luz solar e cabos de fibra ótica compõem a tecnologia que faz chegar os raios de Sol do exterior até às plantas do jardim subterrâneo. O sistema foi batizado como “claraboias remotas”. K R IS T IN E P A U LU S SUPER6 Observatório Em busca do oceano Sob a superfície gelada de Plutão, talvez haja um vasto oceano de água e amoníaco. D esde que os norte-ameri-canos chegaram à Lua, em 1969, os russos têm uma espinha na garganta: nenhum dos seus cosmonautas pôs um pé na super- fície do nosso satélite. Ao que pa- rece, estão na intenção de arran- car a espinha. A empresa espacial russa RKK Energiya, que fabrica foguetes e componentes para estações espaciais, colocou como objetivo ter a pegada de um cos- monauta russo na superfície lunar até 2030. O programa iniciar-se-á em 2026, com uma missão orbi- tal não tripulada. Seguir-se-á a aterragem de uma sonda, no ano seguinte. Será a primeira desde 1976. Os responsáveis da RKK Energiya esperam que a União Europeia e os Estados Unidos participem na iniciativa. Na foto, simulação da nave Federação, que a Rússia terá de construir para le- var a missão a bom termo. Rússia aponta à Lua O s dados obtidos pela sonda New Horizons sugerem que sob a super-fície de Plutão poderia existir um oceano. Isto porque a Sputnik Pla- nitia, uma das características mais chamativas do planetão-anão, não está onde deveria estar. De facto, a estrutura em forma de coração mede uns 1300 quilómetros de comprimento por 900 de largura. O mais curioso é que, por assim dizer, tem uma massa negativa. Como, na realidade, se trata de um buraco no solo, parcialmente cheio de azoto gelado, em princípio deveria ter menos massa do que se estivesse cheio de rochas. Se assim fosse, o desequilíbro na distribuição de massas do planeta deveria fazê-lo rodar, e a Sputnik Planitia deveria situar-se junto a um dos polos e não onde se encontra agora, perto do equador. A única explicação é que, sob ela, haja mais massa do que a esperada. As observações da superfície levaram os astrónomos a suspeitar que esta massa extra talvez esteja no estado líquido. Num artigo publicado na revista Nature, Francis Nimmo, especialista em ciências planetárias da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, destaca que esse oceano subter- râneo teria um volume semelhante ao dos da Terra e que poderia ser habitável. E S O / L . C A LÇ A D A P. E N G E B R E T S O N / U C LA -S A N TA C R U Z As máquinas do tempo Já à venda! OS MELHORES ENSAIOS DE AUTOMÓVEIS CLÁSSICOS NUMA SÓ EDIÇÃO N ão é a primeira vez que é experimen-tado um sistema de distribuição para motores térmicos sem a uti-lização de árvores de cames, mas as tentativas anteriores nunca passaram do estado de protótipo, por claras insuficiências. Agora, a marca sueca de hipercarros Koenig- segg apresentou uma solução nova que desig- nou Freevalve. Ao contrário dos sistemas do passado, que faziam abrir e fechar as válvulas dos cilindros com volumosos sistemas eletro- magnéticos, o Freevalve substitui as árvores de cames, as rodas dentadas e a corrente de distribuição por um compacto conjunto de atuadores eletro-hidráulicos pneumáticos. O sistema, que a Koenigsegg aplica no motor do seu modelo Regera, foi agora desenvol- vido para um vulgar motor de quatro cilin- dros, 1.6 turbo a gasolina da marca chinesa Qoros. Cada válvula tem acoplado um atuador com controlo eletrónico, capaz de fazer a abertura de cada uma no tempo e com a ampli- Sem árvores de cames Motor 8 SUPER tude ótimas para cada situação de utilização do motor. Apenas as molas helicoidais de retorno são mantidas. No caso de o sistema determinar que um conjunto de cilindrosnão precisa de funcionar, por exemplo numa condução a baixa velocidade estabilizada, as válvulas respetivas permanecem fechadas. A flexibilidade do sistema é um dos seus grandes trunfos, tal como a simplificação do motor e a redução de altura e peso. Claro que a eficiência também sobe. Segundo dados fornecidos pela Qoros, que está a financiar a adaptação do Free- valve para motores de produção em grande série, a melhoria de eficiência é notória, com subidas de potência e binário próximas dos 50 por cento e descidas de consumos na casa dos 1,5 litros aos 100 quilómetros. Para já, o custo do sistema ainda é superior ao de uma distribuição convencional, mas, assim que a produção indus- trial arranque, é muito fácil inverter a situação. É uma tecnologia com reais possibilidades de fazer evoluir os motores térmicos a curto prazo. Raio X 1 2 A marca inglesa de propriedade indiana Jaguar estreou-se nos veí- culos elétricos com o I-Pace, para já na forma de um concept-car que em 2017 será visto na versão final, para estar à venda em 2018. O estilo exterior junta a estética de um modelo desportivo com um SUV e consegue um Cx de 0,29, tendo sensivelmente o mesmo com- primento de um F-Pace, mas com uma distância entre-eixos maior, permitindo maximizar o espaço no habitáculo, que tem um piso totalmente plano. 1 – A plataforma é nova e utiliza a caixa da bateria, sob o habitáculo, como ele- mento estrutural. Será utilizada em futu- ros modelos elétricos da Jaguar. Fiat 124 Spyder O novo descapotável de dois lugares da Fiat nasceu de uma colaboração com a Mazda que, inicialmente, previa a produção do novo MX-5 e de um novo Alfa Romeo Spyder sobre a mesma plataforma, ambos fabricados no Japão. Quando foi decidido que todos os Alfa Romeo tinham de ser cons- truídos em Itália, para não perderem a auten- ticidade, o grupo FCA, que inclui as duas marcas italianas, passou o projeto para a Fiat, que decidiu reinterpretar o seu clássico 124 Spyder. Daí o estilo nostálgico, a fazer lem- brar o modelo dos anos 60/70, uma estraté- gia que tem tido grande sucesso no Fiat 500. Entre o Fiat e o Mazda, as diferenças chegam também aos acertos de suspensão e direção, além do motor, que no 124 Spyder é o 1.4 Multiair, com turbocompressor e 140 cava- los. Se, por fora, o Fiat e o Mazda são muito diferentes, por dentro apenas os símbolos e as cores de alguns revestimentos mudam, o que não é um problema, pois o tablier tem uma boa organização e a posição de con- dução é muito boa, baixa, com a alavanca da caixa manual de seis velocidades mesmo onde a mão direita vai à procura dela e o CARRO DO MÊS Jaguar I-Pace A poupança anunciada chega aos 1,5 litros de combustível por cem quilómetros. A s notícias sobre o atual estado da Tesla estão longe de ser totalmente tranquilizantes. Há muitas dúvidas sobre o modelo de negócio, incógnitas sobre as características definitivas e o início de comercialização do seu modelo mais barato, o Model 3, e ceticismo relativo à construção da Gigafactory. Porém, a verdade é que a marca norte-americana conseguiu abanar a indústria automóvel tradicional, obrigando-a a desenvolver modelos e tecnologias semelhantes às vistas nos modelos da Tesla. Não que a receita da Tesla seja muito complicada, pois resume-se a usar baterias enormes, montadas em plataformas leves, e usar motores elétricos com imensa potência. A grande conquista da Tesla não foi técnica, foi de marketing, ao conseguir encontrar clientes dispostos a comprar automóveis elétricos de luxo, com pre- ços a condizer. A indústria tradicional não podia deixar de ver o potencial de lucro que aqui estava e não perdeu muito tempo a seguir o mesmo cami- nho. Todas as marcas de luxo estão a tra- balhar em projetos deste tipo, e não só as alemãs. A Jaguar foi a última a mostrar o seu anti-Tesla, na forma de um SUV de aspeto desportivo a que deu o nome de I-Pace (na foto), sugerindo com esta nomenclatura o futuro desenvolvimento de uma família de modelos elétricos, com nomes a começar pela letra “I”. A Audi já tinha mostrado, no ano pas- sado um concept-car designado e-tron quattro, outro grande SUV elétrico para combater o Tesla Model-X. A Mercedes- -Benz e a Porsche também trabalham ativamente no assunto, para terem carros deste tipo à venda dentro de dois anos, no máximo. O que vai acontecer nessa altura não é difícil de prever. Com as suas potentes máquinas de produção, distribuição e marketing, as marcas tra- dicionais vão tomar conta deste novo mercado e relegar a Tesla para um canto. Isto se, entretanto, Elon Musk não decidir deixar de vez os automóveis e centrar-se na produção de energia solar. Opinião Anti-Tesla 2 – Suspensões independentes às quatro rodas e derivadas das usadas noutros mode- los correntes da marca, mas adaptadas e com elementos pneumáticos. No concept- -car, os pneus são de medida 265/35 R23, mas os da versão final serão mais pequenos. 3 – Bateria de iões de lítio com 90 quilo- watts-hora. Demora 90 minutos a carregar 80 por cento da capacidade, num carrega- dor de 50 kw. A autonomia em ciclo NEDC é de 500 quilómetros, mas, numa utilização real, a Jaguar anuncia 354 km. 4 – Existem dois motores, um para as rodas da frente e outro para as de trás, conferindo assim tração total. Foram feitos pela pró- pria Jaguar e cada um tem 200 cavalos de potência e 350 newtons-metro de binário máximo, o que resulta numa potência máxima combinada de 400 cv, suficien- tes para acelerar dos 0 aos 100 km/h em quatro segundos. 5 – O reduzido tamanho dos motores permitiu avançar a posição do tablier e aproveitar melhor o espaço interior. 6 – O I-Pace tem cinco lugares e os bancos têm uma estrutura fina, para não ocuparem muito espaço, mas proporcio- nando conforto. O banco do condutor é bem mais baixo do que nos SUV con- vencionais, mas, como o tablier é muito baixo, permite manter uma posição ainda assim alta e com boa visibilidade para diante, a que a Jaguar deu o nome de Sports Command. Interessante 9 4 5 6 FRANCISCO MOTA Diretor técnico do Auto Hoje 3 volante com excelente pega. Como sempre aconteceu no MX-5, também aqui a caixa de velocidades tem um tato mecânico e um curso muito curto, que exige intenção à mão direita, mas que dá um certo gozo. O som do escape de dupla saída é alto e des- portivo, mas a resposta do motor é um pouco lenta nos regimes baixos, enquanto o turbo não enche, por volta das 2500 rotações por minuto, altura em que a aceleração dá um salto que leva a fazer os 0-100 km/h em 7,5 segundos. Com uma direção direta e uma suspensão de curso relativamente curto, o comportamento em estradas secundárias com muitas curvas é sempre animado, produzindo sensações vivas, sobretudo se se baixar a capota, o que se faz facilmente com a mão direita. Para os condutores mais exigentes, o 124 Spyder é um pouco macio de suspensão, o que, dado não existir diferencial autoblocante, faz patinar a roda tra- seira do lado de dentro da curva, quando se conduz de maneira mais rápida, ou em piso molhado. Por 27 794 euros, na versão sem opcionais, só tem um rival no mercado: o MX-5. SUPER10 Da velha travessia romana de Alcántara, do lado de lá da fronteira, à moderna Vasco da Gama, o Tejo é atravessado por dezenas de pontes, em Portugal e Espanha. A conquista do grande rio sempre desempenhou um papel crucial na história de Lisboa e, mesmo, dos dois países, mas as dificuldades em atravessá‑lo também jogaram a nosso favor. Histórias do Tejo O s pilares das pontes sobre o Tejo confundem‑se com os pilares da história da Península Ibérica. A travessia do rio começou por fazer parte dos planos básicos dos romanos, que suportavam o Império numa rede de infraes‑truturas viárias, ligadas a Roma, para manter a sua cidade no centro do mundo ocidental. O Tejo, o maior e mais importante rio da His‑ pânia, tinha obrigatoriamente de ser cortado por estradas, onde quer que fosse possível. Por outro lado, o próprio rio funcionava como caminho, levando matérias‑primas do centro da península para o porto de Lisboa, de onde seguiam para a metrópole. Por razões óbvias, o território que hoje é Portugal não possui uma única obra de arte de engenharia romana sobre o Tejo: o rio é dema‑ siado largo do lado de cá da fronteira para a tecnologia existente há dois mil anos. Mesmo assim, a ponte romana de Alcántara, já quase encostada ao nosso país, é um prodígio de exe‑ cução técnica. Erguida no início do século II, na vigência de Trajano (provavelmente o impe‑ rador romano que mais investiu em infraestru‑ turas, e que nascera na província da Hispânia, na região hoje ocupada pela Andaluzia), tem praticamente 200 metros de comprimento e 70 metros de altura, dimensões impressionan‑ tes para a época. As verbas para a sua cons‑ trução vieram de uma taxa especial imposta sobre sete vilas lusitanas (as que beneficiariam diretamente com a ponte). Obras de arte O nome de batismo da ponte não é conhe‑ cido. Uma inscrição gravada no granito, a meio da travessia, dedica‑a apenas a Trajano. A designação “Alcántara” nasceu, como se percebe, na época árabe: al‑qantara significa, simplesmente, “a ponte”. Os árabes, aliás, destruíram uma parte da passagem, no século XIII, no calor das guerras da Reconquista. Em 1475, em pleno conflito que opunha Portugal e Castela, também os castelhanos tomaram a difícil e dolorosa decisão de destruir a ponte, para evitar que o exército de Afonso V a apro‑ veitasse para lhes invadir o reino (o português tinha pretensões ao trono). Porém, o rei, hor‑ rorizado com a perspetiva de ver desaparecer a histórica obra de arte, revelou‑se um cava‑ lheiro: prometeu ao líder das tropas inimigas que daria a volta e não passaria por Alcántara, porque não queria “o reino de Castela com menos aquele edifício”. ARCO APÓS ARCO Mais de dois séculos depois, na Guerra da Sucessão, os espanhóis destruíram mesmo o arco principal: nas batalhas, as pontes estão sempre no coração das maiores preocupações estratégicas. No princípio do século XIX, Alcán‑ tara voltou a ser vítima da guerra, com os nos‑ sos vizinhos a destruírem o segundo arco para impedir a passagem do exército de Napoleão, durante as invasões francesas. A primeira invasão ficou definitivamente marcada pelas dificuldades em atravessar o rio. Depois do primeiro contratempo em Alcán‑ tara, as tropas de Junot voltaram a deparar com a necessidade de cruzar um afluente do Tejo (o Zêzere, neste caso, já muito perto do local onde os dois rios se encontram). Consta que um oficial português destruiu a ponte de barcas que havia em Constância, atrasando fatalmente as tropas. Por causa disso, o gene‑ ral francês chegou demasiado tarde a Lisboa. A família real acabara de embarcar em direção ao Brasil, de onde podia continuar a gerir o reino, pelo menos no papel, e mantendo, assim, a independência da Coroa. A primeira verdadeira ponte sobre o Tejo em Portugal foi construída, por acaso, a meros três quilómetros do sítio onde Junot se atrasou. A honra cabe à Ponte Ferroviária de Praia do Ribatejo, de 1862, que entretanto, 130 anos mais tarde, foi adaptada para receber tam‑ bém tráfego automóvel. Oito anos depois, surgiu a primeira travessia rodoviária, a Ponte Interessante 11 de Abrantes. Em 1881, inaugurou‑se a Ponte D. Luís, entre Santarém e Almeirim, com uns estonteantes 1200 metros de comprimento, que faziam dela, à época, a maior da península Ibérica e a terceira maior da Europa. Seria preciso, no entanto, esperar pela década de 50 do século XX para que Lisboa visse uma tra‑ vessia nascer nas suas imediações. A Marechal Carmona, inaugurada em dezembro de 1951 e batizada em honra do presidente da República morto nesse mesmo ano, colmatou uma falha de séculos, ligando Vila Franca de Xira à margem esquerda do Tejo. A ordem para a sua cons‑ trução partira do popular ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, que, no entanto, morreria num acidente de viação antes de as obras começarem. TRAVESSIA EM LISBOA No entanto, a ponte ficava ainda muito longe da capital, atendendo às estradas existentes. No dia a dia, Lisboa continuava a contar exclusi‑ vamente com os cacilheiros como meio de ligar as duas margens, apesar de serem discutidas propostas para uma travessia citadina desde o século XIX. Após inúmeros avanços e recuos, o governo português anunciou, finalmente, em 1959, a abertura de um concurso público para a construção de uma ponte entre Lisboa e Almada. Das quatro propostas, venceu a da americana United States Steel Export Company (que, na verdade, já tinha entregado uma 25 anos antes). A empresa ostentava no currículo a Ponte da Baía de Oakland, em San Francisco (e não a Golden Gate, como muita gente julga), o que lhe dava uma vantagem na aplicação de medidas antissísmicas: a cidade do sudoeste americano carrega consigo um violento histo‑ rial de tremores de terra, tal como Lisboa. A empreitada começou em 1962 e revelou‑se uma das mais exigentes e monumentais da his‑ tória portuguesa. Os números são monstruo‑ A ponte romana de Alcántara é um prodígio de engenharia, para a era em que foi construída. Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, de Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013) http://bit.ly/1hrY8Zc sos: 72 mil toneladas de aço importado dos Estados Unidos, 54 quilómetros de fio de aço só nos cabos principais e 20 mil quilómetros nos secundários (metade do perímetro da Terra), 2270 metros de largura de margem a margem, tabuleiro a 70 m de altura, pilares 190 m acima da linha de água e enterrados até 80 m abaixo da superfície do rio. No pico da obra, três mil pessoas chegaram a trabalhar simultanea‑ mente na ponte. Em 1966, quatro anos e oito meses após ser lançada a primeira pedra, e uns insólitos seis meses antes da data prevista, as principais figuras do Estado Novo inauguraram a obra, orçada em 2,2 milhões de contos (180 milhões de euros, ao câmbio atual). A imponente obra de arte recebeu como nome oficioso Ponte Salazar, evocando o bafiento culto da per‑ sonalidade do ditador da época. Em 1974, a substituição das letras em bronze por graffiti a anunciarem “25 de Abril” simbolizou o corte definitivo com o passado autoritário e a espe‑ rança num futuro apoiado num regime demo‑ crático. Curiosamente, a Ponte Marechal Carmona nunca perdeu o nome, apesar de tam‑ bém estar associada a uma das figuras máxi‑ mas do regime autoritário. Em 1999, a ponte passou a dispor de linha férrea, coisa que, aliás, fazia parte das intenções iniciais, mas o tráfego não parou de aumentar. Hoje passam na ponte, todos os dias, 150 mil carros. AS DUAS MAIORES DA EUROPA Trinta e dois anos após a abertura da Ponte 25 de Abril, Lisboa ganharia uma segunda travessia sobre o Tejo, e a primeira feita em betão. A Ponte Vasco da Gama, inaugurada em 1998, a tempo de servir a Expo 98 e de celebrar os 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia, era e continua a ser a mais longa da Europa, com os seus 17,2 km. É tão comprida que os engenheiros tiveram de levar em conta, nos seus cálculos, a linha de curvatura do pla‑ neta. O tamanho também se nota no preço: foi cinco vezes mais cara do que a sua congénere SUPER12 25 de Abril. O protagonismo como postal ilus‑ trado de Lisboa, no entanto, continua a per‑ tencer à travessia mais velha. Muito menos famosa é a Ponte da Lezíria, que liga o Carregado a Benavente, pelaA10, aberta ao trânsito em 2007, e ainda menos conhecido é o facto de esta ser, com 11,6 km, a segunda ponte rodoviária mais longa do Velho Continente, a seguir à Vasco da Gama. Ou seja, o Tejo é cruzado pelas duas maiores travessias da Europa. No total, só o curso português do grande rio tem atualmente 16 pontes, e os seus nomes sublinham bem a diversidade da história do país. Além da Ponte Salazar/25 de Abril e da Marechal Carmona, que recordam a ditadura e a transição para a democracia, e da travessia com o nome do maior explorador luso de todos os tempos, Vasco da Gama, o Tejo é atraves‑ sado pelas pontes Salgueiro Maia (herói da revolução de 1974), D. Luís (antepenúltimo monarca português) e Rainha D. Amélia (última rainha de Portugal). Rainha na mó de baixo A primeira ponte que o Tejo encontra quando chega a Portugal é a das Portas de Ródão, junto a Vila Velha de Ródão. As “portas” propriamente ditas são duas escarpas que se agigantam e ladeiam o rio, estreitando‑lhe o curso, numa das mais fotogénicas imagens que o Tejo oferece. Além da beleza natural da região, repleta de grifos, abutres‑pretos e cegonhas‑pretas, há um interessante pedaço de história na escarpa da margem direita, contado pelas ruínas do Castelo do Rei Wamba, sobranceiro às águas ziguezagueantes que passam lá em baixo. Fala‑se que, no final do século VII, aqui morou o último monarca visigodo, o tal Wamba, que tinha por esposa uma for‑ mosa mulher. O rei, porém, mostrava‑se mais adepto de caçadas do que de confor‑ tos caseiros. Era uma questão de tempo até a rainha despertar a paixão – e a ela sucumbir – do rei mouro que governava as terras do outro lado do rio. Para poder ir ter com a sua amada e atravessar o Tejo sem ser visto, o mouro escavou um túnel por baixo do leito do rio. Só que fez mal as contas e foi sair mesmo junto ao local onde Wamba se encontrava. A reação do visigodo pareceu amigável: prometeu ao seu inimigo enviar‑lhe a rainha no dia seguinte, de presente. Cumpriu, com um senão: atou a pobre dama à mó de pedra de um moinho e largou‑a encosta abaixo, em direção ao Tejo. No carreiro feito pela mó nunca mais nasceu o mais leve tufo de vegetação. Claro que não se sabe onde acabam os factos e começa a lenda, mas a história não perde charme por isso. A Ponte Vasco da Gama, além de ser uma das mais belas do mundo, é a maior da Europa. A segunda também cruza o Tejo, entre o Carregado e Benavente. 13Interessante 2ª A 6ª FEIRA, 9H30-13H00 E 14H30-18H00 [Fax] 21 415 45 01 [E-mail] assinaturas@motorpress.pt LINHA DIRETA ASSINANTES 21 415 45 50✆ AGORA MAIS FÁCIL www.assinerevistas.com PEÇA A SUA REFERÊNCIA ✁ SI 225 ASSINE A * Valor por exemplar na assinatura por 24 edições. Promoção válida até à publicação da próxima edição. Sim, quero assinar a Super Interessante durante: 12 edições 25% desconto por 31,50€ (ex. 2,63€) 24 edições 35% desconto por 54,60€ (ex. 2,28€) Favor preencher com MAIÚSCULAS (oferta e preços válidos apenas para Portugal) Nome Morada Localidade Código Postal - Telefone e-mail Profissão Data de Nascimento - - Já foi assinante desta revista? 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Algés - 1496-901 Algés NÃO ACEITAMOS CARTÕES VISA ELECTRON Indique aqui os 3 algarismos à direita da assinatura no verso do seu cartão SUPER14 D os fenómenos astronómicos que todos os anos se repetem, certa-mente o mais regular é o das vulgar-mente designadas “estrelas caden- tes”, acontecimento que sempre leva a desejar ocasiões de céu limpo e sem luar para que a observação dos meteoros seja mais aliciante. O ano começa com as Quadrântidas, que pare- cem provir da região do céu outrora ocupada pela constelação do Quadrante, depois substi- tuída pela atual Coroa Boreal. Depois, virão as Líridas, em abril, as Aquáridas, em maio e julho, as Perseidas, em agosto, as Oriónidas, em outu- bro, as Táuridas e as Leónidas, em novembro, e, finalmente, as Géminidas e as Ursidas, em dezembro. Dos habituais quatro eclipses (dois do Sol e dois da Lua) anuais, em 2017 serão percebidos apenas os do Sol e um parcial da Lua, pois o outro lunar será apenas “de penumbra”, o que significa que só muito dificilmente se percebe a passagem da Lua pela zona de penumbra que a Terra cria no espaço. A 26 de fevereiro, ocor- rerá um eclipse anular do Sol, infelizmente não observável em Portugal, dado que a zona de visibilidade se situa quase toda no Atlântico Sul e parte do Pacífico, abrangendo apenas peque- nas porções continentais no sul da América do Sul e na costa ocidental de África. Cerca de seis meses depois – a 21 de agosto –, repete-se o fenómeno, então um eclipse total do Sol cuja faixa de centralidade se estende desde o Pací- fico até meio do Atlântico (nas proximidades de Cabo Verde), depois de atravessar a parte norte do continente americano. Em Portugal, o eclipse será visto como parcial, já perto do fim do dia. Para o princípio do ano, estão marcados momentos de evocação da descoberta de Plu- tão (18 de fevereiro de 1930), por Clyde Tom- baugh, e a comunicação de alguns elementos obtidos em observações que sugerem que o “planeta-anão gelado” se assemelha mais a um cometa, bloco de gelo que parece sublimar continuamente. Igualmente se celebrará o Dia Internacional do Asteroide, recentemente estabelecido pela ONU na data de 30 de junho, evocando-se assim a queda do “asteroide de Tunguska”, em 1908, que devastou uma vasta área de floresta da Sibéria, aproveitando-se a ocasião para apre- sentar a evolução nas técnicas de rastreio de asteroides e nas capacidades técnicas de, eventualmente, intercetar algum deles em que se identifique “rota de colisão” com a Terra. No último fim de semana de julho, decor- rerá a XXIV edição da Astrofesta nacional, um evento que reúne centenas de amadores de astronomia em palestras e observações, desta vez em redor de um observatório recente- mente instalado na Reserva Alqueva Dark Sky, nas proximidades de Reguengos de Monsaraz. Depois das Perseidas, a 12 de agosto, este ano ligeiramente prejudicadas pelo luar, o mês de setembro será propício a observar Urano (então em oposição, em plena constelação dos Peixes) e Neptuno, que agora se projeta sobre estrelas do Aquário. A parte final do ano contém momentos inte- ressantes, como a evocação da observação, pelo astrónomo dinamarquês Tycho Brahe, da “supernova da Cassiopeia” e a apresentação de resultados de investigações sobre a evolução estelar e as circunstâncias que determinam as explosões (mais ou menos violentas) de estre- las em fase final de vida, bem como a observa- ção da superlua de 3 de dezembro.No domínio da investigação espacial, para além do permanente lançamento de satélites para órbitas em volta da Terra, existe grande expectativa quanto ao projeto da NASA – com a importante e efetiva colaboração da Agên- cia Espacial Europeia (ESA) – de construção e lançamento da nave Orion, princípio de um projeto que prevê um voo automático à Lua e regresso à Terra, a velocidades superiores às já experimentadas, ao qual se seguirão outros, tripulados, que levarão os astronautas pro- gressivamente mais longe. Caçadores de Estrelas 2017 astronómico MÁXIMO FERREIRA Diretor do Centro Ciência Viva de Constância O lançamento da Orion para o primeiro teste, em 2014. O céu de janeiro A s associações de estrelas designa-das por “constelações de inverno” são agora bem visíveis, pois, de acordo com a classificação, elas se observam ao princípio das noites iniciais da res- petiva estação do ano e – apesar da rotação aparente do céu – permanecem acima do horizonte até ao amanhecer seguinte. Erídano, a mais extensa do grupo (geralmente constituído por oito constelações), é a que se situa mais à direita de todas elas e constituída por estrelas de fraco brilho. A mais notável – a estrela alfa do Erídano – marca a foz do rio onde, segundo uma lenda, caiu Faetonte. Brilha um pouco mais do que a Polar, mas não se avista de Portugal, por ficar sempre abaixo do nosso hori- zonte, aproximadamente a sul. A nas- cente do rio corresponde à estrela Cursa, que se avista muito “perto” da notável Rígel, da constelação do Orionte. Esta última, que ocupa a região central das “constelações de inverno”, é das mais interessantes de todo o céu, não só por a figura que as suas estrelas podem sugerir (um pastor, um caçador ou um lutador gigante) ser facilmente imaginada, mas também por conter estrelas de grande brilho e colorações diversas e ainda nebulosas que, observadas e registadas através de telescópios, constituem moti- vos de rara beleza que os astrónomos amadores muito apreciam e, ao mesmo tempo, autênticos “laboratórios” para os astrofísicos, que se dedicam ao estudo da formação e evolução de estrelas no interior de tais massas gigantescas de gases ionizados. À direita do Orionte (e um pouco acima), situa-se o Touro, cuja estrela mais notável – em brilho e colo- ração – é Aldebarã, a qual, numa antiga interpretação, marca um dos olhos do animal cujos chifres se estendem até ao Cocheiro, constelação em que as estrelas mais notáveis parecem desenhar um pentágono. Um dos vértices daquela figura geométrica é marcado por Capela (a quinta estrela mais brilhante de todas as que se podem avistar a partir de Por- tugal) e noutro situa-se Alnath, que, simultaneamente, corresponde à extre- midade de uma das hastes do Touro. O Cão Maior (não representado no mapa das páginas seguintes por só emergir do horizonte um pouco mais tarde do que as 18h30, hora a que se refere o desenho) e o Cão Menor situam-se à esquerda do Orionte, a primeira delas sendo facilmente comparável à figura ali imaginada – se a observação for efetuada em locais razoavelmente escuros – e em Interessante 15 O planeta Urano e os seus anéis, fotografados pelo telescópio espacial Hubble, em 1998. vão levá-los para os Peixes, embora com amplitudes de deslocamento diferentes, por também serem diferentes as suas velocidades. No último dia do mês, vê- -los-emos mais “próximos” um do outro, com Vénus ligeiramente a sul das cinco estrelas (pouco brilhantes) com que é costume imaginar um pentágono para representar a cabeça de um dos peixes e, logo à esquerda, o vermelho Marte. Embora de maior dificuldade na obser- vação – por a luz solar refletida ser tão atenuada pela distância que o coloca no limiar da perceção do olho humano –, o planeta Urano há muito que se encontra na constelação dos Peixes. Natural- mente, a utilização de um binóculo e o conhecimento das estrelas que com ele se podem avistar naquela direção permitirão identificar um outro ponto luminoso (de coloração ligeiramente baça e que não figura nos vulgares mapas de estrelas), que corresponde ao último planeta teoricamente observável à vista desarmada. que se destaca Sírio, a estrela mais brilhante de todo o céu; Mirzam marca uma das patas dianteiras do cão, enquanto Wezen e Adhara assinalam uma pata traseira do animal. Sírio com Prócion (do Cão Menor) e Betelgeuse (do Orionte) constituem o que vulgarmente se designa por “triângulo de inverno”. Entre os dois cães situa-se o Unicórnio, constituído por estrelas de fraco brilho, e, finalmente, os Gémeos, onde é fácil identificar as estrelas com os seus nomes, Pólux e Castor. Quanto a alterações que podemos perceber na esfera celeste, elas são, como sempre, as relacionadas com a Lua, que, noite após noite, aparece projetada na direção de constelações dife- rentes e apresentando um aspeto que se vai alterando ao longo do mês. É claro que tam- bém os planetas se deslocam em relação às estrelas, em particular aqueles que são agora visíveis ao início das noites; Vénus e Marte situam-se ambos na constelação do Aquá- rio, nos primeiros dias deste mês de janeiro, mas os seus movimentos em volta do Sol – conjugados com a translação da Terra – SUPER16 Mapa do Céu Vire-se para sul e coloque a revista sobre a cabeça, de modo que a seta fique apon ta da para norte. Se se voltar em qual quer das outras direções (norte, este, oeste), pode ro dar a revista, de modo a facilitar a leitura, desde que mantenha a seta apontada para norte. Os planetas e a Lua estarão sempre perto da eclíptica. O céu representado no mapa (no que se refere às estrelas) corresponde às 18h30 do dia 5. A alteração que se verifica ao longo do mês, à mesma hora, não é muito importante. No entanto, com o decorrer da noite, as estrelas mais a oeste irão mergulhando no horizonte, enquanto do lado este vão surgindo outras, inicialmente não visíveis. Como usar As fases da Lua Quarto Crescente Dia 5 às 19h47 Lua Cheia Dia 12 às 11h34 Quarto Minguante Dia 19 às 22h13 Lua Nova Dia 28 às 00h07 Interessante 17 NORTE SUPER18 A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos apanhou toda a gente de surpresa. Em primeiro lugar, porque as son- dagens não apontavam nesse sentido; em segundo, porque parecia uma regra de bom senso não eleger para o cargo político mais importante do mundo alguém com o perfil e as propostas de Donald Trump. Porém, foi mesmo isso que aconteceu! À incredulidade sucedeu a inevitável procura de “culpados”: os media, os democratas, os próprios eleitores e, final- mente, o Facebook! A maior rede social da atualidade foi acusada de ter contribuído deci- sivamente para o resultado da eleição, por ter permitido a propagação de notícias falsas. Esta “narrativa” envolve duas falácias e um perigo grave! A primeira falácia é que foi o Facebook que “elegeu” Donald Trump. Dizer isso é mais ou menos o mesmo que dizer que a rádio foi a responsável pela ascensão de Hitler em 1933. Os fascismos europeus dos anos 30 usaram a rádio, então um media relativamente novo, como ferramenta fundamental para a sua ascensão ao poder, algo que está amplamente documentado, mas houve razões profundas e complexas que levaram as populações a esta- rem recetivas ao tipo de mensagens que o fas- cismo veiculou nessa época. O mesmo se pode dizer de Trump em 2016: aproveitou bem as redes sociais para propagar a sua mensagem, mas as razões porque ela encontrou eco junto do eleitorado são mais profundas e complexas. O ANO DA “PÓS-VERDADE” A segunda falácia é que o Facebook seja um veículo de falsas notícias e que existam hoje mais notícias falsas do que no passado. É claro que existem mais notíciasem quantidade abso- luta, uma vez que há milhões de entidades e indivíduos que há uma década não dispunham de instrumentos para produzir informação e hoje têm um alcance global. Antes de haver uma ferramenta de comunicação global como o Facebook, é possível que houvesse uma men- tira em cada bairro. A diferença para hoje é que essas mentiras tinham um alcance muito limi- tado e não se propagavam como acontece nos nossos dias. No seu formato atual, o Facebook tem apenas dez anos e chega a mais de 1,7 mil milhões de utilizadores em todo mundo, o que significa que estamos todos a aprender a usar esta nova ferramenta de comunicação e infor- mação. Ou seja, não é só a ideia de que foi o Facebook que ganhou as eleições que é paternalista face aos eleitores que democraticamente elegeram um presidente. É igualmente presunçoso pen- sar que os utilizadores do Facebook têm de ser “ajudados” a distinguir o verdadeiro do falso na rede social que utilizam. Pelo contrário, eles ape- nas terão de a usar para aprenderem a usá-la. O REGRESSO DOS GATEKEEPERS O perigo que decorre destas duas falácias é a restauração de uma aliança perigosa entre os media tradicionais, ávidos de recuperar as receitas perdidas, e o poder político, desejoso de controlar aquilo que lhe escapa por entre os dados. Numa declaração recente, o ministro da Justiça alemão afirmou que o Facebook devia ser considerado uma empresa de media, como as estações de rádio ou a televisão. A pressão para que o Facebook se assuma como uma empresa de media não é de agora e já existia antes do “fenómeno” Trump. A decorrência lógica de considerar o Facebook como uma Sociedade Digital Não culpem o Facebook! Na sequência do terramoto político provocado pela eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, os media e os analistas procuraram “culpados” em vários lados e acabaram apontando baterias ao Facebook e às notícias falsas propagadas durante a campanha. Será que a acusação tem realmente razão de ser? empresa de media é que ele deve assegurar critérios de edição sobre os seus conteúdos, nomeadamente separando aquilo que é verda- deiro daquilo que é falso. Ora, isso não é mais do que a restauração do gatekeeper, numa versão moderna e global. Aqueles que sugerem que o Facebook devia ter uma equipa editorial própria não explicam como essa equipa pode- ria editar conteúdos em Portugal, nos Estados Unidos, na Índia e no Nepal, para utilizadores católicos, muçulmanos e judeus, etc., e tam- bém não esclarecem como se poderia controlar o poder monumental de uma tal entidade. UM PROBLEMA DE CONFIANÇA Obviamente, o problema da confiança na informação que circula no corpo social – e hoje grande parte dela circula no Facebook – é um problema complexo e da maior relevância, sobretudo numa época de desregulação como aquela em que vivemos, mas essa questão não pode ser analisada sem entender a mudança de paradigma que está subjacente à era digital e à sociedade em rede. No passado, a nossa informação socialmente relevante vinha quase exclusivamente através dos mass media, com a mediação profissional de jornalistas cuja fun- ção era exatamente assegurar a fiabilidade e veracidade da informação. Hoje, na era das redes sociais, com uma infinidade de canais de comunicação disponíveis e com a democrati- zação do acesso à produção e distribuição de informação, precisamos de novos sistemas de verificação da veracidade daquilo que é tornado público. Pressionar o Facebook para assumir o papel de mediação que antes era o dos mass media não faz sentido num novo paradigma de informação que não é mediado e centralizado, mas sim desintermediado e distribuído. Jeff Jarvis, jornalista, e John Borthwick, tec- nologista, assinaram um artigo conjunto dias depois da eleição em que sugerem 15 medidas para melhorar a deteção de notícias falsas nas redes sociais, quase todas dirigidas à melhoria dos sistemas de gestão de informação ou des- tinadas a fornecer sinais de verificação aos utili- zadores. Melissa Zimdars, professora de comu- nicação no Merrick College, de Boston, fez uma lista dos sites mais associados à propagação de notícias falsas, mas, sobretudo, deu uma série de dicas práticas – regras de bom senso, na rea- lidade – para os utilizadores poderem eles pró- prios verificar e desmontar as notícias falsas. Ao olhar para essas dicas, é impossível não pen- sar no conceito de literacia digital e de como é afinal da falta dela que estamos a falar quando falamos de notícias falsas no Facebook. Estas duas propostas vão num sentido dife- rente da tese dominante nos mass media e atribuem a responsabilidade de desmontar as inverdades no meio digital aos utilizadores, em primeiro lugar, e aos algoritmos, em segundo. John Borthwick faz um paralelo com a forma como hoje controlamos o spam nos nossos sistemas de email e como a Google demorou anos para controlar os efeitos perniciosos das “click farms” que desvirtuavam os seus resul- tados de pesquisa. Ou seja, em vez de colocarmos a enorme responsabilidade de determinar o que é verda- deiro ou falso nas mãos de um “editor global” como o Facebook, devíamos seguir o exemplo da Wikipedia e atribuir essa tarefa ao conjunto dos utilizadores, secundados por algorit- mos de deteção de falsidades. Existe um site (http://www.snopes.com) cuja função é preci- samente desmontar notícias falsas, mediante sugestão dos utilizadores. Aquilo que Jarvis e Borthwick estão a recomendar é uma aborda- gem distribuída do estilo Wikipedia para essa função, mas de forma que ela possa ser inte- grada com as redes sociais existentes: uma espécie de Wikipedia para memes. T odos os progressos feitos até hoje no setor da internet resultam do facto de ela ser um sistema aberto, ou seja, um sistema que qualquer utiliza- dor pode ajustar às suas necessidades e no qual as comunidades de programa- dores podem procurar soluções coleti- vas e colaborativas para os problemas que vão surgindo. A criação da world wide web com um protocolo aberto teve esse objetivo. Para um utilizador experiente da internet e das redes so- ciais, é normalmente fácil detetar que uma notícia que circula no Facebook não é verdadeira. As regras de bom senso referidas por Melissa Zimdars são suficientes. Para a generalidade dos utilizadores, o ideal seria que a comunidade global de programadores e developers pudesse desenvolver uma API que permitisse denunciar em tem- po real as informações que são falsas usando como input as investigações prévias de outros utilizadores. Ou seja, os metadados são fundamentais na de- teção e denúncia de falsidades online, assim como os sistemas automáticos de reputação, como aqueles que vigo- ram no eBay, por exemplo. O proble- ma é que o Facebook não é um sistema aberto. Pelo contrário, é um sistema fechado e proprietário. No nosso mundo digitalmente conectado, existe uma contradição fundamental entre o valor económico do “fechamento” e o valor social da “abertura”. Como o Facebook amplamente demonstra, o valor económico resulta da capacidade de fechar os dados dos utilizadores na plataforma e fazê-los gastar o máximo de tempo possível dentro dela, mas o valor social da ferramenta aumenta com as conexões que ela permite fazer e com as utilizações colaborativas que pode engendrar. Por isso, a pressão para fazer do Facebook “editor” dos nossos conteúdos é a estratégia errada. Se os media, os governos e os cidadãos querem mesmo “corrigir” o Facebook, então a pressão é para que ele seja aberto e não fechado. O caráter fe- chado do Facebook já é, em si mesmo, um importante obstáculo ao desen- volvimento da world wide web. Querer torná-lo no novo gatekeeper global da era digital é uma regressãohistórica tão grave e perigosa como a eleição de Donald Trump! Opinião Um sistema aberto JOSÉ MORENO Mestre em Comunicação e Tecnologias de Informação jmoreno@motorpress.pt 19Interessante O Facebook foi acusado de ter ajudado a eleição de Donald Trump por causa das notícias falsas que circularam na rede social durante a campanha. SUPER20 Retratos ORBITAIS Terra Um planeta espetacular O artista Benjamin Grant recolheu, no seu livro Overview, uma série de fotografias únicas, captadas por satélite, que pretendem evocar as sensações dos astronautas quando olham para baixo e veem a Terra no seu conjunto. Expansão explosiva O vulcão da ilha japonesa de Nishinoshima, 940 quilómetros a sul de Tóquio, entrou em erupção em novembro de 2013 e esteve ativo até 2015. Nesse período, a ilha cresceu continuamente, graças ao fluxo de magma. 21Interessante Vagões de mentiras Esta imagem mostra o porto de Qinhuangdao, o mais ativo da China em embarque de carvão. Em 2015, soube-se que o gigante asiático estava a queimar, desde 2000, mais carvão (até 17%) do que reconhecia internacionalmente. Isso significa que emitiu para a atmosfera, por ano, quase mil milhões de toneladas adicionais de dióxido de carbomo. SUPER22 Paraíso. As praias idílicas do Rio de Janeiro dividem-se em segmentos marcados pelos “postos” (as torres dos nadadores-salvadores). Cada um deles atrai gente diferente (surfistas, milionários, famílias...). Aqui, Ipanema. Flores alucinantes. Os campos de tulipas de Lisse (Países Baixos) atingem a floração máxima no final de abril. Todos os anos, produzem-se naquele país do norte da Europa 4300 milhões de bolbos. Tecnologia de ponta. A Gemasolar, uma central de energia fotoelétrica situada perto de Sevilha, reduz em 30 mil toneladas anuais as emissões de dióxido de carbono. Interessante 23 SUPER24 Ameaça fantasma. Diversas organizações ibéricas já alertaram que as alterações climáticas poderão acabar com olivais como este nos arredores de Córdova. Zen. Construído no século XII, no Camboja, o templo de Angkor Vat (primeiro hindu, depois budista) é a maior estrutura religiosa do mundo. Interessante 25 À beira do lago. A cidade de Delray Beach, na Flórida, fundada em 1911, tem uma superfície total de cerca de 41 quilómetros quadrados. As casas estão dispostas em torno de lagos. Urbanizar o deserto. Em Marabe Al Dhafra (Abu Dabi), vivem cerca de 2000 pessoas. É um dos locais mais quentes do mundo. O seu record está em 49,2 ºC. FO T O S : O V E R V IE W , D E B E N JA M IN G R A N T – IM A G E N S D E S A T É LI T E : D IG IT A LG LO B E , I N C (2 01 6) SUPER26 O poder das SUPERNOVAS Astronomia Como podem afetar-nos A morte de uma estrela é um dos espetáculos mais violentos do universo. Quando ocorre, o brilho que se produz ultrapassa o emitido por toda a galáxia, e desencadeia-se um processo com impacto nos sistemas vizinhos. K E N C R A W FO R D / W W W .IM A G IN G D E E P S K Y. C O M 27Interessante O rasto do cataclismo. Há entre 5000 e 8000 anos, uma estrela muito maciça chegou ao final da sua vida e explodiu como supernova, na constelação do Cisne. Os seus restos formam hoje a nebulosa do Véu, com 50 anos-luz de diâmetro. São o mais perigoso fenómeno astronómico conhecido SUPER28 E m março passado, uma equipa inter-nacional de astrónomos liderada por Peter Garnavich, astrofísico da Uni-versidade de Notre Dame em Indiana (Estados Unidos), anunciou que tinha conse- guido registar, pela primeira vez na história, o shock breakout de uma supernova, isto é, o clarão provocado pela onda de choque da explosão que acompanha a morte mais catas- trófica de uma estrela. A explosão que a definiu, denominada KSN 2011d, alcançou o máximo bri- lho passados catorze dias, embora o fenómeno tivesse durado apenas vinte minutos. Este êxito exigiu uma grande quantidade de sorte e muita paciência. Sorte, porque o teles- cópio espacial Kepler, com o qual foi captada, observou a estrela durante esse breve período de resplendor; paciência, porque não foi fácil descobri-la entre a enorme quantidade de observações efetuadas pela ferramenta. A estrela em questão, situada a 1200 milhões de anos-luz, era uma supergigante vermelha, quinhentas vezes maior do que o Sol. Quando o núcleo colapsou, produziu-se uma violentís- sima libertação de energia, transformando-a num objeto 130 milhões de vezes mais lumi- noso do que o astro-rei. No ponto culminante, o brilho excedeu o de toda a nossa galáxia. UMA LUTA INTERIOR Porque acontecem estes fenómenos? Para podermos entendê-lo, devemos tomar em con- sideração que a vida de uma estrela é, desde o seu nascimento no interior de uma nuvem de gás e poeira interestelar, uma luta contínua contra a gravidade, que tende a concentrar toda a massa no centro. A única forma de impedi-lo é usar a energia que emana do seu forno nuclear. Ora bem: o que acontece quando se esgota o combustível? A gravidade continua a atuar e o colapso gravitacional ameaça o seu futuro. No caso do Sol, isso sucederá quando se aca- bar o hidrogénio do seu núcleo. Nessa altura, terminará a vida nuclear da nossa estrela. Porém, nas que são muito mais maciças, a situa- ção é totalmente diferente: uma vez consu- mido o hidrogénio, o núcleo contrai-se, a tem- peratura sobe e inicia-se a combustão do hélio. Só esse facto exerce um impacto considerável no cosmos. Em 1957, o heterodoxo astrónomo inglês Fred Hoyle assinou, juntamente com William Fowler e o casal Margaret e Geoffrey Burbidge, um dos artigos científicos mais importantes do século passado, intitulado “Síntese dos Ele- mentos nas Estrelas”. Como o nome indica, descreve como se geram nas estrelas muito maciças os diferentes elementos químicos, desde o hélio até ao ferro. Hoyle descobriu um dos processos fundamentais, a fusão do hélio em carbono. Neste, liberta-se menos energia do que quando se passa do hidrogénio para o hélio, pelo que a reação tem de ser mais rápida para a estrutura da estrela se poder manter. A CAMINHO DA EXPLOSÃO Antes de todo o hélio se consumir, o que leva cerca de um milhão de anos, o núcleo volta a contrair-se e aumenta a sua temperatura, até se produzir a fusão do carbono e do hélio em oxigénio. Esgotado o primeiro, a temperatura do núcleo sobre até aos 600 milhões de graus. Além de oxigénio, formam-se outros elemen- tos, como sódio e magnésio. A estrela só conse- gue manter esta reação durante cem mil anos. Em seguida, é a vez do oxigénio, que produz silício e enxofre, numa série de reações que se prolongam apenas por dez mil anos. Esta mudança de escala será uma constante no que resta de vida ao objeto: cada reação nuclear produzirá cerca de dez vezes menos energia do que a anterior. Contudo, no momento em que principia a fusão do silício para produzir ferro, o destino da estrela está traçado. Sucede desta forma: à medida que a com- bustão do silício termina, o núcleo começa a contrair-se e a sua temperatura sobe acima dos 5000 milhões de graus. A energia libertada é tão Histórica. A supernova que deu origem à nebulosa Cassiopeia A pode ter sido a “estrela” que, segundo as crónicas, assinalou o nascimento de Carlos II de Inglaterra, em 1630. N A S A / J P L- C A LT E C H N A S A / E S A / A S U Uma nova estrela no céu? Em 1054, astrónomos chineses eárabes registaram a explosão que criou a nebulosa do Caranguejo, a 6300 anos-luz. Expande-se a 1500 quilómetros por segundo. Interessante 29 Óbitos estelares E m 1931, o físico Subrahmanyan Chandrasekhar descobriu que as estrelas que têm até 1,44 vezes a massa do Sol acabam por se transformar em anãs brancas, um remanescente estelar do tamanho da Terra. A grande maioria, incluindo a nossa, tem de passar pelo processo. Se a sua massa ultrapassar esse limite, terminará como uma estrela de neutrões, um denso cadáver estelar, do tamanho de uma cidade. Quando a massa final da estrela é, pelo menos, 3,5 vezes maior do que a do Sol, surge um buraco negro. Na ilustração em baixo, pode ver um esquema da evolução dos diferentes tipos de estrelas, das mais maciças, em ci- ma, às de menor massa, em baixo. O Sol é uma estrela comparativamente pequena. intensa que a estrela começa a desfazer o traba- lho que foi desenvolvendo ao longo de toda a sua existência, pois os fotões que se criam são tão energéticos que desintegram os núcleos de ferro em hélio, num processo que também rouba energia à estrela. Para poder manter a sua estru- tura e não entrar em colapso, o núcleo começa a comprimir-se cada vez mais depressa, o que faz aumentar a sua densidade. Quando chega às dez mil toneladas por centímetro cúbico, os eletrões alcançam a energia suficiente para transformar os protões em neutrões, o que acaba por retirar ainda mais energia à estrela. O processo liberta neutrinos, que escapam de forma torrencial. A perda de energia é rápida é inexorável, e a gravidade vai fazendo o seu trabalho, desintegrando cada vez mais depressa o núcleo da estrela, o que aumenta a densidade e faz disparar a produção de neu- trões. Para fazermos uma ideia dessa espécie de fuga para a frente, basta imaginar a Terra a comprimir-se para alcançar o tamanho de Lis- boa em menos de um segundo. SOPA DE NEUTRÕES Quando a densidade atinge cem milhões de toneladas por centímetro cúbico, os núcleos atómicos desintegram-se. O que resta é uma sopa de neutrões e de outras partículas suba- tómicas. O núcleo, que iria colapsar por ação da gravidade, mantém-se devido à chamada “pressão de degeneração”; o peso da estrela, que tende a concentrar toda a massa no centro, não vence porque duas partículas de matéria não PROTOESTRELA PROTOESTRELA SUPERNOVA BURACO NEGRO SUPERBOLHA ESTELAR SUPERNOVA DE TIPO II SUPERNOVA DE TIPO II SUPERNOVA DE TIPO IA PROTOESTRELA PROTOESTRELA PROTOESTRELA PROTOESTRELA CRECHE ESTELAR SUPERGIGANTE AZUL GIGANTE AZUL GIGANTE VERMELHA ANÃ BRANCA ANÃ BRANCA ESTRELA (SOL) ANÃ VERMELHA ANÃ CASTANHA ANÃ CASTANHA N A S A / C X C / M . W E IS S SUPERGIGANTE AZUL BURACO NEGRO GIGANTE VERMELHA ANÃ VERMELHA NEBULOSA PLANETÁRIA ESTRELA DE NEUTRÕES PROTOESTRELA SUPERGIGANTE AZUL SUPERGIGANTE AZUL podem estar no mesmo sítio ao mesmo tempo. O colapso detém-se. Diferentes fenómenos produzem-se em zonas distintas da estrela. Enquanto a parte mais densa do núcleo, no centro, se afunda em menos de um segundo, a região exterior fica sem sustentação e desmorona-se a 60 mil qui- lómetros por segundo. Essa matéria em queda livre colide contra um muro cem milhões de vezes mais duro do que se fosse feito de tijolo, o centro degenerado de neutrões, e ressalta: sai disparada para fora, criando uma onda de choque que viaja a 10 000 km/s. À medida que avança em direção ao exte- rior, aumenta de velocidade, pois a matéria que encontra pelo caminho possui uma densidade menor. Em poucos minutos, alcança a superfície, SUPER30 Calcula-se que na Via Láctea ocorra uma, em média, a cada 50 anos projetando a matéria a milhares de quilóme- tros por segundo e provocando um extraordi- nário clarão. Em poucas semanas, gera-se tanta energia como a produzida pelo Sol desde que existe. A estrela explode, mas nem tudo é des- truição... Na região situada por detrás da onda de cho- que, rica em elementos pesados e em neutrões, surgem em poucos segundos todos os átomos que ficam acima do ferro na tabela periódica, como ouro, prata, platina e urânio. A matéria proveniente da estrela colide com as poeiras e os gases interestelares circundantes e aquece- -os a uma temperatura de um milhão de graus, enquanto prossegue uma expansão que irá durar milénios, até que os restos do que foi outrora uma estrela gigante se dissolvam no meio inter estelar, passados uns cem mil anos. O material expulso acabará por formar nuvens de gás, nas quais poderão surgir, com um pouco de sorte, milhões de anos depois, novas estrelas. Foi essa a origem do Sistema Solar: os átomos de cálcio dos nossos ossos ou os de ferro presentes no nosso sangue foram cozinhados no interior de uma estrela gigan- tesca que morreu há milhares de milhões de anos. Poder-se-ia dizer que somos filhos dos seus restos. RISCO DE EXTINÇÃO A faceta romântica das supernovas, por assim dizer, acaba aqui, pois trata-se de um dos mais perigosos fenómenos astronómicos, e nada podemos fazer para evitá-lo. Alguns cientistas suspeitam que uma supernova próxima talvez tenha sido responsável por algumas das extin- ções em massa que assolaram o nosso planeta. A única forma de sabê-lo com alguma certeza seria encontrar depósitos de material radioa- tivo que só pudesse ter sido formado por uma estrela moribunda. No final dos anos 90, um grupo de investigadores da Universidade Téc- nica de Munique (Alemanha) decidiu procurá- -los no fundo marinho; andavam atrás da pista do isótopo radioativo ferro-60. Em 2004, sur- giu num extrato datado de há 2,8 milhões de anos, mas a data não coincide com qualquer grande extinção. Em 2013, Shawn Bishop, um físico nuclear da mesma instituição, anunciou que tinha encon- trado pequenas quantidades desse composto em amostras com 2,2 milhões de anos obtidas no Pacífico equatorial. Ao que parece, certas bactérias, que utilizam o ferro do seu meio ambiente para criar cristais magnéticos e orien- tar-se em relação ao campo magnético da Terra, captaram o isótopo, que lhes chegou, literal- mente, caído do céu. Que supernova poderia ter estado na sua origem? UM PAPEL NA EVOLUÇÃO Alguns astrónomos já tinham assinalado antes que se produziram, nos últimos onze milhões de anos, vinte supernovas num grupo de estrelas jovens, a Associação Escorpião- -Centauro. Algumas ocorreram a apenas 130 anos-luz. Outros sugerem que a contaminação lumi- nosa que tais fenómenos provocam pode afe- tar os animais. Por exemplo, sabe-se, através de diferentes estudos, que há espécies que utilizam o brilho do nosso satélite para se guiar ou reproduzir, e que a quantidade de luz intervém na produção de certas hormonas, como a mela- tonina. Esta é fundamental, entre outras coisas, para regular os ritmos circadianos. Pois bem: algumas supernovas são mais luminosas do que a Lua cheia; uma delas, registada em 1006, foi observada durante um ano inteiro. Poderiam ter tido alguma forma de inter- venção na evolução dos nossos antepassados? O astrónomo Brian Thomas, da Universidade Washburn (Kansas), acha que sim. O investiga- dor indica que, após a explosão de duas super- À beira da crise. A Eta Carinae pertence a um sistema binário situado a 7500 anos-luz. É uma estrela cem vezes mais maciça do que o Sol, e pode rebentar como hipernova a qualquer momento. Interessante 31 novas há cerca de dois milhões de anos, o nosso planeta recebeu um banho de radiação três vezes superior àquela a que estamos expostos de forma natural, o que terá aumentado, na sua opinião, a possibilidade de várias geraçõesdos primeiros Homo erectus terem sido vítimas de cancro. Outros cientistas consideram que isso é improvável. Os habitantes de Karunagappally, uma cidade da Índia, recebem vinte vezes mais radiação natural do que o resto do mundo, mas um estudo de 2009 não encontrou ali maior incidência de cancro. Quanto mais próxima se encontrar uma supernova, mais perigosa será. Os seus efeitos seriam devastadores se ocorresse a poucas centenas de anos-luz de nós uma como a des- crita por uma equipa de atrónomos da Univer- sidade do Ohio, da Institução Carnegie para a Ciência e da Fundação Kavli. No início de 2016, anunciaram na revista Science a descoberta da maior dessas explosões de que se tem conheci- mento, duzentas vezes superior às supernovas normais. VINTE VEZES A IDADE DO SOL Ocorreu em junho de 2015 e foi detetada por observatórios de todo o mundo. O seu nome é ASASSN-15lh, acrónimo do projeto da Univer- sidade do Ohio, All Sky Automated Survey for Supernovae, que utiliza telescópios robóticos para esquadrinhar o céu. Situada a 3800 milhões de anos-luz, a ASASSN-15lh pertence a uma nova categoria de supernovas descoberta há pouco mais de duas décadas, tornando-se conhecidas por “hipernovas”. Contudo, esta ultrapassou a escala: foi 570 mil milhões de vezes mais lumi- nosa do que o Sol, e vinte vezes mais brilhante do que todas as estrelas da nossa galáxia juntas. Para podermos fazer uma ideia, nos quatro primeiros meses de observação, emitiu tanta energia que, para igualá-la, o Sol teria de bri- lhar ininterruptamente durante 90 mil milhões de anos (vinte vezes a sua idade atual). Da devastadora explosão só restou um objeto, muito compacto, de não mais de 10 km de diâ- metro. A maior parte dos astrónomos inclina-se para a hipótese de se tratar de um dos corpos estelares mais exóticos do universo, um mag- netar. Um magnetar é, essencialmente, uma estrela de neutrões com um campo magnético muito potente. Tal como elas, tem rotação, mas é mais lenta: demora entre um e dez segundos para completar uma volta. O seu campo magnético é responsável por se produzirem as caracte- rísticas explosões de raios X e gama, as quais ocorrem quando o objeto atravessa uma etapa de ajustamento repentino, conhecida por “sismo estelar” (starquake). Dado o número de magnetares visíveis, estima-se que haja, na Via Láctea, trinta milhões já inativos, pois perdem muito rapidamente a sua energia em cerca de dez mil anos. M.A.S. Ofuscantes hipernovas É assim que se designa uma variedade de supernovas que são centenas de milhares de milhões de vezes mais brilhantes do que o Sol (muito mais do que as que são geralmente detetadas). O processo é extremamente energético e, de facto, alguns astrofísicos pensam que é nas hipernovas que reside a origem dos surtos de raios gama de longa duração. Contudo, trata-se de fenómenos raros; na nossa galáxia, poderia ocorrer uma em cada duzentos milhões de anos. Para explicar a sua formação, foram sugeridas duas hipóteses. Uma fala em colapso gravitacional: pensa-se que as hiperno- vas ocorrem em estrelas muito maciças que rodam a grande velocidade. Outra, conhecida por “modelo MCS”, toma em consideração o material circum-estelar: produzir-se-ia quando uma estrela muito maciça está rodeada de uma nuvem de gás, o que lhe conferiria essa lumino- sidade extraordinária no momento da explosão. N A T H A N S M IT H / U N IV E R S IT Y O F C A LI FO R N IA -B E R K E LE Y / N A S A SUPER32 O coração da NASA Astronáutica Centro Espacial Kennedy Local mítico da conquista espacial, peregrinação obrigatória entre os marcos importantes na história da humanidade, é aqui que se constrói o futuro da NASA e se preparam ativamente as primeiras viagens tripuladas a Marte. Paulo Afonso visitou o Centro Espacial Kennedy e conta-nos o que por lá viu. sigla inglesa). Em Washington D.C., fica o quar- tel-general da NASA, onde tive reuniões com equipas científicas luso-brasileiras e com alguns dos principais diretores da NASA, do oficial de proteção planetária ao vice-administrador. Faltava-me, porém, ver as plataformas de lançamento das missões lunares tripuladas, o colossal Saturn V, o enorme edifício onde o vaivém espacial era montado na vertical para depois ser movido muito lentamente (a velocidades da ordem de um quilómetro por hora!) por lagartas mecânicas do tamanho de dinossauros. ALEGRIAS E TRISTEZAS O meu grupo subiu ao Centro de Controlo e Lançamento do Centro Espacial Kennedy (KSC, na sigla inglesa) no mesmo elevador em que muitos presidentes norte-americanos fizeram a visita ritual. Dali aplaudiram muitas vezes, e ali se sofreu igualmente, em 1986, com a explosão do Challenger. O horizonte distante no KSC é feito de silhuetas desses momentos, de plataformas ativas e desativadas de vários foguetes, de várias missões. Estamos no coração da NASA: se algo impor- tante explodir, é aqui que se chora primeiro; se enviarmos astronautas a Marte, é muito provavelmente daqui que partirão. Lá está em transformação a histórica plataforma 39-A, que antes serviu o programa Apollo e o vai- J á tive ocasião de visitar vários centros da NASA, a agência norte-americana para os assuntos aeronáuticos e espa-ciais. Perto de Los Angeles, o Laborató- rio de Propulsão a Jacto (JPL, na sigla inglesa) impressiona qualquer um com a vaga de explo- rações planetárias: dos múltiplos exploradores robotizados na superfície de Marte à passagem recente da sonda New Horizons por Plutão. Como diz uma placa de vidro no chão do Centro de Operações de Voos Espaciais do JPL: “Aqui é o centro do Universo”, onde tudo acontece! Ficamos igualmente boquiabertos no meio do deserto do Mojave, dado o tamanho monu- mental das antenas do espaço profundo do Centro Espacial Goldstone, parte fulcral das telecomunicações da NASA. De referir ainda as experiências de microgravidade e câmara de vácuo gigante do Centro Espacial Glenn, em Cle- veland (Ohio). Gigantesco é também o termo que melhor designa o túnel de vento do Centro Espacial Ames, perto de San Francisco, mais conhecido pela excelência do seu trabalho em astrobiologia. Ainda no Mojave, no Centro Espacial Arms- trong, podemos vivenciar o calor do deserto e os feitos de Chuck Yeager e do primeiro grupo de astronautas dos Estados Unidos, que fez fama com as cápsulas tripuladas Mercury, uma histó- ria que começou na adjacente Base Edwards, da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF, na vém espacial, agora alugada por vinte anos à companhia privada Space-X, que a está a desmantelar e adaptar para futuras missões. Um pouco mais a norte, da plataforma 39-B, já totalmente transformada, a NASA planeia vir a lançar o descomunal foguete SLS (mais pode- roso do que o Saturn V) e a cápsula Orion, com destino aos asteroides e a Marte. Com uma vasta frota de autocarros que dia- riamente transportam milhares de visitantes através do KSC (com multidões por vezes vindas da Disneylândia), podem escolher-se vários percursos e visitas guiadas. Recomendo cla- ramente o simulador do vaivém ao lado da exposição onde quase pode tocar o Atlantis – sim, o próprio vaivém Atlantis! Igualmente é a não perder o Centro Apollo -Saturn V, com a reconstituição da sala de controlo do programa Apollo e um foguete Saturn V restaurado (com mais de cem metros de comprimento!) pai- rando sobre as nossas cabeças. Disneylândia para adultos O Jardim dos Foguetes recebe os visitantes, que ali acorrem aos milhares por dia. 33Interessante Tive a sorte de assistir em direto ao lança- mento (e correspondente estrondo!) de um foguete Atlas 5 a partirde cabo Canaveral, com um satélite de recolha de informações militares (NROL-61). Já não tive tempo, porém, de visitar o próprio cabo Canaveral, ao lado do KSC, hoje uma base da USAF. No mínimo, conte com três dias de visita. O PROGRAMA APOLLO Foi daqui que partiram todas a missões tri- puladas à Lua. Metaforicamente, quase pode- mos ver o infante D. Henrique lado a lado com D. João II a dar as ordens de lançamento a estas novas caravelas. Da era do vaivém, a silhueta intemporal da plataforma 39-A impõe um silên- cio respeitoso, uma introspeção quase exis- tencial em memória desses tempos e glórias passadas. A fragilidade da natureza humana logo nos chama, porém, para dentro dos autocarros com ar condicionado. Estamos na Flórida, com calor e humidade em combinações inclementes. Os jacarés crocodilinos, esses adaptam-se bem, mesmo num pequeno lago logo ao lado da pla- taforma 39-A, o que faz os nossos guias contar um sem-número de histórias acerca de tais ani- mais: desde edifícios forçados a ter sensores de proximidade mais altos para não abrir portas de laboratórios a corpos rastejantes, às omni- presentes vedações de cerca de dois metros de altura curvadas para fora, dada a surpreen- dente agilidade dos répteis. Na plataforma 39-B, que as transformações em curso deixaram já mais historicamente desfigurada, apenas as torres pára-raios de 181 metros de altura nos fazem lembrar a lição aprendida com a Apollo XII. Atingida por raios duas vezes logo no início do lançamento, per- deu eletricidade em muitos dos seus sistemas, mas tudo acabou por correr bem, indo à Lua e voltando. Hoje, há pára-raios por todo o lado, vários em torno de cada plataforma de lança- mento dos diferentes foguetes, com missões muitas vezes adiadas pelo mau tempo. No capítulo das pequenas histórias, o Saturn V também tem muito a contar. Todos sabiam que se tratava do foguete mais poderoso do mundo, para irmos à Lua. Ninguém esperava, porém, que o estrondo do seu lançamento fosse tão letal, e uma estação de transformadores elétri- cos foi destruída a alguns quilómetros da plata- forma. Ainda lá estão as paredes em ruínas da estação, próxima da costa, para lembrar por- que se passaram a despejar toneladas de água durante os lançamentos do vaivém, em que a cabine e as asas poderiam sofrer danos acús- ticos significativos. A água absorve muita da pressão sonora do lançamento e é barata e fácil de manipular. As cabines tripuladas Apollo situavam-se mais alto, mais longe do ruído dos motores, com- parando com as dimensões mais compactas A vida dos templários não era um mar de rosas SUPER34 do vaivém. Isso não impediu, porém, que a NASA se visse forçada a contratar uma empresa de serviços domésticos aquando dos lançamen- tos Apollo para substituir os vidros partidos nas janelas de muitos dos residentes nas paradisía- cas localidades costeiras circundantes! Para se ter uma ideia da bestialidade destes lançamentos, mesmo a cerca de cinco quilóme- tros das plataformas 39, as janelas exteriores do Centro de Controlo e Lançamento do KSC têm cinco centímetros de espessura e podem ser cobertas por grandes telas deslizantes para segurança quase imediata, em caso de explosão de algum foguete. Tempos modernos de tecnologia sem fios, muito diferentes dos primórdios em cabo Canaveral, quando tudo dependia ainda de cabos elétricos e era neces- sário estar mais próximo dos foguetes, em estruturas militares do tipo das casamatas subterrâneas. Destas janelas espessas, podemos admirar ao longe o percurso das plataformas lançadoras móveis, imaginando viagens que começariam ao cair da noite, acabando pela madrugada. Transportava-se assim o Saturn V ou o vaivém espacial em lagartas mecânicas sobre um solo de cascalho especial, que não podia (claro!) gerar faíscas quando submetido a tamanhas pressões. Tudo era feito muito lentamente, com muito cuidado, sobretudo na rampa de aproximação final ao local de lançamento, onde estas maravilhas mecânicas conseguiam manter as naves espaciais sempre bem alinha- das, nunca com maior desvio da verticalidade do que uma bola de pinguepongue. Diziam os nossos guias, com algum sentido de humor, que isso afinal não seria de surpreender, pois um dos membros da equipa da lagarta mecânica tinha apenas como responsabilidade verificar se alguma tartaruga ou outro animal se aproximava no caminho. Se viesse ao encon- tro do vaivém, ele teria de correr para espan- tar o animal do cascalho. Se o movimento fosse de afastamento, então não havia preocu- pações, pois mesmo as tartarugas conseguiriam aumentar a distância a estas plataformas móveis! Isto já para não falar nas paragens obri- gatórias a meio da viagem, impostas pelo sin- dicato dos trabalhadores de turnos noturnos da NASA. “A sério, as paragens existiam mesmo”, diziam eles, tentando simultanea- mente emendar a mão, garantindo que os sin- dicatos sempre foram assunto de grande res- peito na NASA. A gargalhada era geral no auto- carro, cheio de gente vinda dos quatro cantos do mundo. Poucos saberão, mas o KSC tornou-se uma das maiores áreas de proteção ambiental da Flórida. Por razões de segurança inerentes às atividades espaciais, nem barcos nem atividades indus- triais são permitidas nas suas proximidades, o que acaba por tornar o KSC um santuário para vários animais terrestres e marinhos, de tar- tarugas a águias pesqueiras de cabeça branca (o símbolo dos Estados Unidos), de que vi um casal num ninho enorme. Todo o pessoal do KSC tem orgulho nisso. O FIM DO VAIVÉM Pois é: acabaram-se os voos do vaivém e, parecendo que não, já lá vão cinco anos! Lem- bro-me claramente de estar a almoçar com a minha família e o meu pai dizer, ao ver as notícias na televisão, em 1981: “Olha, os ame- ricanos têm uma nova nave espacial.” Para a criança que eu era então, aquilo era fascinante, era real – eu que vibrava com o Flash Gordon, o Buck Rogers, o Espaço 1999 e as outras séries televisivas de fição científica orientadas para a exploração espacial. As missões do vaivém, A NASA está agora vocacionada para Marte e o espaço profundo Reutilização. A histórica plataforma 39-A, que antes serviu o programa Apollo e o vaivém, está agora alugada à Space-X. Interessante 35 A um palmo. O vaivém Atlantis, o último a ser desativado, faz parte da exposição e quase se pode tocar. desde o telescópio espacial Hubble às expe- riências realizadas com laboratórios e ao lan- çamento de satélites, deixaram um legado ímpar. Balanço de 30 anos: 135 missões, 355 astronautas e mais de 1320 dias no espaço. Em 2011, o Atlantis fez o último voo de uma epopeia que acabou essencialmente por quatro razões. A primeira prende-se com a natureza do vaivém, uma nave pensada e desenvolvida inicialmente antes dos anos 80 para a explo- ração da baixa órbita terrestre. Hoje, a NASA quer ir mais longe, com Marte no horizonte. Depois, a destruição das naves Challenger e Columbia deixou marcas, sendo também muito caro construir mais para as substituir. Outra razão prende-se com a complexidade do vai- vém, que possui mais de dois milhões e meio de componentes, e a subjacente natureza perigosa. Com o fim da construção da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa), completou-se a grande tarefa ulterior do vaivém. Resta-nos agora contemplar a magnificência destas naves em exposições impressionantes como a do Atlantis, no KSC. Logo à entrada, passamos por baixo de uma réplica mastodôn- tica (em tamanho real) do tanque de combus- tível externo e dos foguetes laterais de prope- lente sólido. Depois, entramos numa espécie de convés ótico (não, ainda não é o convés holográfico de Star Trek) que procura simular Osimulador do vaivém N o mesmo edifício onde podemos admirar o vaivém Atlantis, encon- tra-se também uma das maiores atrações para o público mais graúdo: o simulador. Após algumas explicações do que vamos encontrar e desaconselhando adultos com problemas de costas ou outras ma- leitas, entramos para o interior do simu- lador, com 44 assentos em estilo monta- nha-russa, com as devidas barras laterais peitorais a servir de segurança extra. De facto, fiquei impressionado. Desde logo, parecia que os maxilares iam sair do crâ- nio a cada grande abanão do simulador na fase de ascensão, em que ao mesmo tempo parece que somos esmagados contra o assento. Ainda tenho boas cos- tas, mas deu para sentir o aperto. Além disso, pratiquei boxe inglês (quando entre cavalheiros, é uma arte de ataque e defesa) durante um par de anos, pelo que foi interessante voltar a tentar man- ter os dentes no sítio, sem ter ninguém a socá-los. Dá para perceber quando se ejetam os propulsores sólidos laterais na ascensão e, quando se chega a órbita e desligam os motores (largando o tanque de combustível externo), parece que de facto flutuamos, e então valem-nos as barras peitorais, para não “levantarmos” do assento. Trata-se, claro, de uma ilusão do nosso sistema vestibular e dos canais semicirculares em alinhamento XYZ e da endolinfa que os percorre no ouvido interno, um processo que se conhece bem da fisiologia de voo. Na realidade, o simulador passa de uma posição inclina- da a cerca de 70 graus da vertical (como eram lançados os astronautas do vai- vém) para uns 50 graus, e daí o “entrar- mos” em imponderabilidade. Os críticos dizem que, para uma cavalgada cheia de adrenalina que dura apenas cerca de cinco minutos, é exagerado que o seu desenvolvimento tenha custado cerca de 60 milhões de dólares. O criador do simulador, Bob Rogers, (diretor da em- presa BRC Imagination Arts), diz em sua defesa que vários astronautas foram ou- vidos e consultados no desenvolvimento do simulador. De facto, são os próprios astronautas a afirmar que o simulador reproduz bem os sons, as vibrações, as vistas do interior, a hipergravidade no lançamento e a microgravidade aquando em órbita terrestre. SUPER36 o interior do Atlantis e o que se vê nas dife- rentes fases do seu voo. Finalmente, abrem-se “as portas do espaço”, surgindo por detrás em apoteose o Atlantis, suspenso por cabos titâni- cos na sua exibição pública de vários andares, em que ficamos a pouco mais de um braço de conseguir tatear, abraçar tal maravilha. Entre outros atrativos, os miúdos deliram ao senta- rem-se numa réplica da cabina de pilotagem, alguns meio alucinados, outros aguardando com educação a sua vez, como foi o caso de um par de crianças portuguesas que lá encontrei. O FUTURO DOS VOOS ESPACIAIS A NASA não abandonou a exploração da órbita baixa terrestre, estabelecendo parcerias com empresas privadas que permitam desen- volver a nova era de acesso espacial. Com a NASA totalmente dependente da Rússia para chegar à ISS e estando as coisas azedas com Putin, os contratos celebrados com a Space-X e a Boeing procuram lançar novamente astro- nautas norte-americanos, de solo norte-ameri- cano, em naves norte-americanas. Isto implica uma filosofia orientada para desenvolver o setor privado espacial, enquanto a NASA se ocupa de continuar a ir mais longe no espaço profundo. Espera-se que, a partir de 2018, o Starliner da Boeing leve astronautas para a ISS, estando a sua construção a fazer-se (sinais dos tempos) no antigo hangar do KSC onde decor- ria a montagem pré-voo do vaivém. Para além da Boeing, a Space-X desenvolve também as suas cápsulas tripuláveis Dragon, tendo anteriormente transportado equipa- mento para a ISS, com lançamentos dos fogue- tes Falcon a partir da plataforma 40, em cabo Canaveral. São também sobejamente conhe- cidos os planos audaciosos de Elon Musk para levar astronautas a Marte com foguetes da O Centro Apollo-Saturn V A grande atração no Centro Apollo-Saturn V é a reconsti- tuição do centro de operações da missão Apollo VIII, onde ainda se podem ver computadores e mesas de trabalho usados durante a primeira missão tripulada a orbitar a Lua. Numa encenação muito realista, a simulação das vibrações induzidas pelo estrondo do Saturn V nas janelas do anfiteatro onde nos sentamos é im- pressionante. Também aqui sentimos alguma nostalgia por esta epopeia e profundo respeito pelos astronautas que morreram na Apollo I (Grissom, White e Chaffee), heróis primeiros de tudo o mais que se lhes seguiu. No Centro encontram-se ainda, entre outras coisas, o módulo de comando da Apollo XIV, o módulo lunar LM- 9 (nunca usado), uma pedra lunar que podemos tocar, e uma exposição acerca da evolução dos fatos espaciais usados pelos astronautas. Tudo isto, claro, sob a omnipresente figura de um Saturn V quase completo, que ocupa grande parte do edifício. Passei algumas horas a admirar os seus gi- gantescos segmentos. Lá fora, o calor já é terrível, mesmo às oito da manha. Estávamos no fim de julho quando assisti ao lançamento do foguete Atlas V com o satélite NROL-61. Depois de torrar na zona de observação de lan- çamentos, soube muito bem voltar ao interior do Centro: era tempo de re- frescar e fazer algumas compras, mas tive de regressar no dia seguinte, para olhar novamente para o Saturn V! A exploração da órbita baixa ficará para as empresas privadas Memória. Reconstituição do centro de operações onde se comandaram as missões Apollo, que levaram os primeiros homens à Lua Interessante Memória antiga. As embarcações mais famosas do Mondego eram as barcas serranas, de fundo chato e emproadas em bico, que circulavam sobretudo entre o Porto da Raiva, localizado alguns quilómetros a norte de Penacova, e a Figueira da Foz. 37 Space-X. Ao sair do KSC, vi ainda o início da construção dos terrenos da fábrica de foguetes da Blue Origin, a empresa de exploração espacial privada de Jeff Bezos, dono da Amazon e do jornal Washington Post. De referir, por fim, as empresas Sierra Nevada Corporation e o seu vaivém de pequenas dimensões, o Dream Chaser, e a Orbital ATK e a sua cápsula Cygnus, com contratos assinados com a NASA para abastecer a ISS. O futuro não parece, porém, muito risonho, considerando que a Rússia dá mostras de não querer pro- longar a parceria com a NASA na ISS para lá de 2024 (data do seu encerramento), dadas as tensões nas relações com os Estados Unidos. O novo foguete em desenvolvimento pela NASA, o Sistema de Lançamento Espacial (SLS, na sigla inglesa) é mais poderoso do que o Saturn V, sendo o seu grande objetivo levar seres humanos a Marte, na década de 2030. Embora o primeiro lançamento do SLS apenas esteja previsto para 2018, a NASA e a Marinha dos EUA já levaram a cabo exercícios de recu- peração da cápsula tripulada Orion, ao largo da costa de San Diego, na Califórnia. DE OLHOS NOS ASTEROIDES Para além de Marte, os asteroides são o outro grande objetivo e preocupação da NASA. Como me foi lembrado no KSC, já por várias vezes tivemos asteroides a passar entre a Terra e a Lua, alguns dos quais em anos recentes. Estas passagens “rasantes” levam a NASA e a USAF a assumir claramente que não se trata de saber se irá ou não ocorrer um potencial impacto desastroso com a Terra, mas sim de estar preparado para o evitar, porque ele vai acontecer de certeza, mais cedo ou mais tarde. Algumas estimativas apontam para probabili- dades de 50 por cento de ocorrência de um impacto por século com um asteroide de mais de 30 metros de diâmetro. O perigo é real e a USAF tem investido em programas de rastreio celeste e na construção de telescópios dedicados, como o PanSTARRS, em parceria com a Universidadedo Hawai. Entre os asteroides próximos mais perigosos, estão os do grupo Apolo, que cruzam a órbita da Terra. Nas últimas décadas, temos também descoberto alguns asteroides (do grupo Aton) entre a Terra e o Sol que partilham par- cialmente a sua órbita com a Terra. Sabemos igualmente que outros asteroides são riquíssi- mos em metais preciosos, estando na base do aparecimento de empresas como a Planetary Resources e a Deep Space Industries. Para além dos aspetos de segurança plane- tária, os asteroides ficam a caminho de Marte e servirão de passo intermédio para a NASA, que lançou em setembro a missão OSIRIS-REx ao asteroide Bennu (do grupo Apolo), onde che- gará em 2018, devendo regressar à Terra com amostras em 2023. O programa de exploração de asteroides da NASA inclui ainda a Missão de Redirecionamento de Asteroides (ARM, na sigla inglesa), em que um braço robótico irá apanhar uma fraga de várias toneladas de um asteroide (ainda por definir) e trazê-la para uma órbita lunar estável. O braço espacial robótico e a fraga capturada servirão ainda de defletor gravítico atrativo, orbitando o asteroide em testes para desviar um pouco a sua órbita. Astronautas de uma futura missão Orion/SLS analisarão a tal nova fraga nas proximidades da Lua. P.A. Avassalador. O estrondo do lançamento do Saturn V, o foguete mais potente de sempre, partia vidros a quilómetros de distância. SUPER38 Direto aos DENTES Saúde O risco de descurar a boca Não é apenas uma questão estética. Estudos recentes demonstram que uma dentadura saudável afasta a ameaça de doenças graves, como a diabetes ou os problemas cardíacos. sentavam problemas de gengivas ou oclusão dentária.... Depois, compararam os dados obtidos com a informação da equipa médica do clube sobre as lesões desportivas. A conclusão era inequí- voca: os jogadores com pior saúde oral eram, também, os que mostravam maior probabilidade de sofrer lesões. Ao que parece, quando surge uma infeção na boca, produz-se uma série de mediadores químicos que podem chegar aos músculos, através do sangue, e enfraquecê-los. GRUPOS DE ALTO RISCO “Os desportistas de alto rendimento são, em geral, um grupo com um índice de cáries muito elevado. Consomem muitos hidratos de carbono ricos em açúcares, barrinhas ener- gizantes, bebidas com açúcar… O exercício seca a boca e deixa-os sem saliva, um fluido que protege contra as cáries. Uma boca com problemas pode ter um grande impacto no seu rendimento”, explica a dentista Luísa Solé. Os especialistas observaram que um terço do plantel sofria de bruxismo: devido ao stress, rangiam os dentes enquanto dormiam. À semelhança de Ronaldinho, dois terços dos jogadores tinham dentes desalinhados. Não se trata apenas de uma questão estética: no caso do E se as lesões de Pepe, Fábio Coentrão ou Gareth Bale tivessem começado nas suas... bocas? Ou se a culpa por Cristiano Ronaldo falhar um penálti ou por Messi não estar em forma fosse das suas gengivas? Quanto mais cáries, menos golos e mais lesões. É essa a conclusão dos primeiros estudos científicos realizados no Reino Unido, em Espanha e no Brasil (e publicados nos últi- mos cinco anos), os quais indicam que, quando os jogadores profissionais de futebol não se preocupam com a saúde dos seus dentes como fazem com os joelhos ou os quadríceps, têm maior propensão para sofrer lesões e bai- xar de rendimento. A última investigação, desenvolvida em 2015 pelo University College London, com oito equi- pas da Premier League, mostrou que a maioria dos jogadores apresenta graves queixas buco- dentárias: quase 40 por cento possuem cáries ativas, 50% sofrem de erosão dentária e 45% reconhecem ter problemas na boca. Alguns (7%) afirmam mesmo que isso os prejudica tanto nos treinos como nos desafios. Em 2011, foi publicado outro estudo, desta vez sobre a saúde bucodentária dos jogadores do FC Barcelona: os futebolistas tinham nada menos do que duas cáries ativas cada um! Durante três temporadas, entre 2003 e 2006, investigadores da Universidade de Barcelona e do Instituto de Investigação Biomédica de Bell- vitge acompanharam os jogadores da equipa principal: que lesões ou traumatismos bucais tinham, como era a sua higiene oral, se apre- Uma vez por ano É preciso visitar regularmente o dentista. Se não o fizermos, pagá-lo-emos caro em dentes perdidos, dores e doenças. 39Interessante Num mililitro de saliva, há mil milhões de bactérias SUPER40 brasileiro, também provocava dificuldades respiratórias. Luísa Solé explica que está cientificamente provado que “as doenças orais, sobretudo as relacionadas com as gengivas, podem provocar problemas de saúde no resto do organismo”. De facto, podem criar desde distúrbios no equi- líbrio e lesões musculares até dores de cabeça e cãibras, ou mesmo agravar a diabetes e aumentar o risco de cardiopatias. Os portugueses, no entanto, não parecem estar muito conscientes disso. Segundo as conclusões do segundo Barómetro Nacional de Saúde Oral, de 2015, 46,7% não consultam um dentista há mais de um ano, e 9,5% nunca foram a uma consulta de medicina dentária. Segundo o bastionário da Ordem dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, os dados do Barómetro mostram que “são as pessoas mais desfavorecidas quem tem maiores dificul- dades no acesso a consultas de medicina den- tária, com consequências terríveis para a saúde em geral”. 700 ESPÉCIES DE BACTÉRIAS A saúde bucodentária está intimamente asso- ciada às bactérias que existem na nossa boca: são mais de 700 espécies diferentes e, num mili- litro de saliva, vivem tantos micro-organismos como há habitantes na China. A maior parte ajuda a decompor os alimentos, mas outros podem causar problemas de saúde se conseguirem proliferar e desequilibrar a microbiota bucal. Um dos micro-organismos que se devem man- ter à distância é o Streptococcus mutans, a bac- téria que provoca as cáries. Contudo, como manter o equilíbrio da micro- biota bucal? Através de uma boa higiene e evi- tando fatores de risco, como entrar em con- tacto com bactérias patogénicas. Isso é assim desde a própria gestação: se a grávida tiver uma carga bacteriana elevada, o mais provável é que uma parte desses micróbios passe para a boca do filho; se forem do género que provoca infeções, poderão causar problemas. Transmitem-se pela saliva, de modo que podemos, com um gesto tão habitual como lim- par a chucha do bebé levando-a à nossa boca, transmitir-lhe micro-organismos patogénicos. Os casais também partilham microbiomas bucais muito semelhantes, pois há uma troca de bactérias em cada beijo; se algumas forem indesejáveis, poderão provocar cáries. A alimentação, sobretudo uma ingestão elevada de açúcar, é fundamental para alterar a microbiota oral. Não nos referimos apenas ao pacotinho que deitamos no café ou às guloseimas, mas também aos refrigenrantes, aos sumos industriais, ao pão, às massas, ao ketchup… O açúcar pode alterar o colagénio e também acidifica o meio bucal, o que afeta os dentes através da erosão do esmalte, deixando- -os sem proteção perante as bactérias que provocam cáries. O PAPEL DA SALIVA A saliva desempenha um papel protetor fun- damental. Está cheia de iões de fosfato e de cálcio, e também de flúor, que remineralizam as superfícies do esmalte que o ácido ataca. No entanto, a produção de saliva diminui em algumas etapas da vida, como quando enve- lhecemos. Algumas profissões também fazem salivar menos (as que exigem falar muito em público ou o desporto de alto rendimento); por isso, são considerados grupos de risco em termos de doenças bucodentárias. Se a comunidade de micro-organismos entrar emdesequilíbrio e houver uma proliferação dos micróbios patogénicos, podem surgir cáries ou a doença periodontal. Embora a maior parte das pessoas imagine as cáries como buraquinhos que aparecem nos dentes, o problema começa com a desmineralização da peça, que fica sem camada protetora. Felizmente, é possível reverter a situação: “Podemos controlar e evi- tar os fatores patológicos em cada paciente, e potenciar aqueles que nos ajudam a ter dentes e uma microbiota compatíveis com uma boa saúde oral”, explica Luísa Solé. FO T O S : M A R T IN B A U E N D A H L Mais vale prevenir Devemos lavar os dentes após cada refeição, pelo menos duas vezes por dia, e sempre antes de deitar, para não deixar as bactérias tantas horas numa boca seca. Interessante 41 Ajuda no telefone É fantástico. Será muito útil para os meus pacientes, que costu- mam deixar partes da boca por esco- var”, comentou um dentista durante a apresentação do novo sistema de higiene oral da Oral-B durante o Mobile World Congress, que decorreu em fevereiro passado, em Barcelona. A maior parte das pessoas escova muito algumas zonas, outras menos, ou faz demasiada força com a escova de dentes, o que prejudica o esmalte. Para resolver o problema, os enge- nheiros da Oral-B conceberam uma escova de dentes elétrica que tem um sensor de localização e uma aplicação que utiliza a câmara do telemóvel para detetar com precisão as zonas da boca que se está a escovar. A apli- cação encoraja o utilizador a dedicar mais tempo a uma zona que escovou pouco, e orienta-o de forma a deixar a boca impecável. Há também uma versão para crianças que as ensina a deslocar a escova pelos dentes e como devem segurá-la. A aplicação permite ainda ao utilizador falar com o seu dentista para criar uma rotina totalmente personalizada, incidindo nas áreas que mais precisam. São também úteis certos produtos profissio- nais que se põem nos dentes durante a noite, ricos em fosfato de cálcio, que ajudam a recu- perar a mineralização da dentadura, ou os que possuem xilitol ou flúor, que também devolvem o esmalte aos dentes. A doença periodontal torna-se mais compli- cada, pois é infeciosa, inflamatória e crónica, destruindo também os tecidos que servem de suporte ao dente: o osso alveolar. A primeira fase é a gengivite, ou seja, a infla- mação das gengivas, que é reversível. Quando se elimina as bactérias patogénicas ou se melhora a higiene, o problema desaparece. No entanto, em alguns casos, a periodontite evolui e produz-se uma perda de osso. “Algu- mas bactérias afetam diretamente o esmalte, e outras colonizam o espaço entre a gengiva e o dente. Vão destruindo o osso, até chegar ao momento em que o dente abana e pode cair”, explica a dentista. SANGRA? VÁ AO DENTISTA! Se for detetada nas primeiras fases, o trata- mento permite manter os dentes; porém, se for diagnosticada numa fase avançada, não se consegue muitas vezes conservar a dentadura. Uma primeira pista para saber se tem periodon- tite é as gengivas sangrarem com frequência: “Podem sangrar quando temos uma ferida ou em situacões como a gravidez, devido às alte- rações hormonais. Contudo, uma hemorragia habital é sintoma de que existe um problema.” A doença periodontal tem duas consequên- cias. A primeira é local e envolve a perda de dentes. A outra é sistémica e pode tornar-se grave: a presença de uma grande quantidade de bactérias patogénicas sob a gengiva pode permitir que elas passem para o sangue e inva- dam diferentes tecidos e órgãos. De facto, a má saúde oral já foi relacionada com um aumento do risco de doença cardiovascular, parto prematuro, diabetes e síndrome metabó- lica, entre outras complicações. Por outro lado, segundo a Associação Portuguesa de Higienis- tas Orais, há doenças que, pela influência que exercem no sistema imunitário, podem aumen- tar o risco de desenvolvimento ou de progres- são de problemas periodontais: diabetes, infeção por VIH, obesidade e insuficiência renal crónica, entre outros. O dentista pode personalizar a aplicação segundo as necessidades do cliente O R A L- B SUPER42 Ao contrário do que se pensa, os implantes não são para sempre As doenças sistémicas em que foi descoberta uma maior relação com a periondontite são a diabetes e as cardiopatias. O risco de sofrer de periodontite entre os diabéticos é muito maior e o reverso também se verifica: a doença perio- dontal, devido à inflamação crónica que produz, deixa passar os mediadores dessa inflamação para o sangue, o que afeta o controlo metabó- lico do açúcar. Da mesma forma, quando se diagnostica periodontite a alguém, aumenta o risco de desenvolver uma doença do coração. De facto, as pessoas que foram vítimas de um enfarte do miocárdio devem cuidar ainda mais das suas gengivas: um estudo recente concluiu que os enfartes são mais frquentes e graves entre os doentes com problemas periodontais por tratar. DEMASIADOS IMPLANTES Por outro lado, verifica-se por vezes uma ten- dência para um recurso excessivo aos implan- tes, criticado por muitos especialistas, que acusam certas clínicas dentárias de se preocu- parem mais com os lucros do que com a saúde dos pacientes. No fim de contas, manter um dente na boca dá mais trabalho e é mais com- plexo, enquanto o implante é mais lucrativo e exige menos técnica e tempo. Só se deve fazer um implante quando tudo o Abusar dos dentes. As pessoas que sofrem de bruxismo rangem e apertam os dentes durante a noite, sem darem por isso. A doença é muitas vezes causada pelo stress, e pode ser mitigada e tratada. Ensinar a escovar S egundo um estudo promovido pela Oral-B em parceria com a Associação Portuguesa de Higie- nistas Orais (APHO), 90 por cento da população portuguesa escova os dentes todos os dias, mas os seus hábitos de higiene oral limitam-se, em grande parte, a isso. A utilização de fio dentário, elixir e flúor é ainda reduzida, e 42% só trocam de escova quando acham que esta já não exerce a limpeza de forma adequada. Por outro lado, segundo outro inquérito da APHO em parceria com a Colgate, a maior parte das crianças não escova corretamente os dentes (47,6% das mães inquiridas acham que os filhos não os escovam o tempo suficiente, e 40% das crianças só escovam os den- tes da frente). A Ordem dos Médicos Dentistas defende a “técnica 2x2x2” para manter a boca saudável: escovar os dentes duas vezes por dia; dois mi- nutos de escovagem; duas horas sem comer a seguir à escovagem e às refei- ções principais. Além disso, a escova deve ser mudada a cada três meses e também se deve usar fio dentário e es- covilhão, sempre que for necessário. É importante escovar também a língua. resto falhou. O melhor material para a boca é o próprio dente. É o mais biocompatível e une-se à gengiva de forma perfeita, protegendo-a da entrada de bactérias. Os implantes, ao contrário do que se costuma pensar, não são para toda a vida, e acarretam um risco associado elevado de a pessoa acabar por desenvolver peri- -implantite, “doença que envolve uma perda de osso devido a uma infeção em redor do implante”, explica Luísa Solé. Os implantes são geralmente feitos de titâ- nio e, nos últimos anos, evoluíram em termos de design, materiais, superfícies e tipos de parafuso. O mesmo acontece em relação à sua colocação: “Agora, recorremos à cirurgia guiada por computador. Com base num TAC da boca do paciente e através de um programa específico, podemos virtualmente saber qual a melhor opção para efetuar o implante: o ângulo, a profundidade e a posição exata”, explica a dentista. Esta técnica melhora muito “a previsibilidade, abrevia o tempo cirúrgico e,se for possível, conseguimos mesmo evitar levantar a gengiva, o que é muito mais cómodo para o paciente; apesar disso, os conhecimentos e a experiência do dentista continuam a ser essenciais para o êxito dos tratamentos”, diz Luísa Solé. C.S./I.J. Interessante 93 Especiais SAÚDE PERDEU ALGUMA EDIÇÃO? Inverno 2016 Veja o catálogo completo em http://www.superinteressante.pt/saude e receba em sua casa ou descarregue a versão digital Outono 2016 Verão 2016 Primavera 2016 Inverno 2015 Outono 2015 SUPER44 À volta do TABULEIRO Ócio Jogos de mesa ganham adeptos FO T O S : P A U LA V IE G A S Há milhares de anos que o ser humano se diverte a mover peças e imaginar estratégias num tabuleiro desenhado para o efeito; após o boom dos videojogos, os sucessores do xadrez, das damas ou do mancala estão de regresso. mente, não só a nível nacional mas também internacional. D’Orey, que trabalhou muitos anos em publicidade, não tem dúvidas sobre a razão do fascínio destes entretenimentos mile- nares: “Houve uma altura em que se disse que os livros em papel iam acabar, e nunca houve tantos e tão bons livros. Quando apareceram os videojogos, também se disse o mesmo sobre os jogos de tabuleiro, mas estes jogos têm coisas que outros nunca terão, sobretudo a capacidade para juntarem as pessoas à volta da mesa, podendo conversar enquanto jogam.” Esta é a principal razão da paixão, visível, de Gil d’Orey por esta área: o lado social. “A minha avó dizia uma coisa assim um bocado antiquada: há três mesas onde uma pessoa se educa; é a mesa da missa, é a mesa da comida.. e é a mesa do jogo. Eu vivi em Macau dois anos, e os chineses convidam o futuro genro a jogar uma noite de majong... majong e copos, para ver como ele se comporta. Essa parte é que é importante: como nos comportamos no jogo e nos sabemos relacionar com as outras pessoas. É isso que terá voltado a trazer os jogos de tabuleiro e torná-los tão importantes. Isto não se consegue com o computador. Passamos o dia agarrados ao computador, quando chega a noite já não pode- mos ver aquilo à nossa frente. Quero é estar com pessoas, a conversar, e o jogo de tabuleiro permite isso.” A mesma ideia é referida por Catarina Jervell, diretora-geral da recém-regressada Majora: “O mercado de jogos de tabuleiro tem vindo a crescer, algo que parece ter muito a ver com E m 1939, ano triste para a história do mundo, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, alguém trabalhava para a alegria, numa cave da Avenida da Boavista, no Porto: Mário José António de Oliveira, um técnico de contas então na casa dos 30 anos, começou a desenhar jogos e a fabricar cubos de madeira. Uma viagem à Ale- manha (ironicamente, uma inspiração para ele e também a origem da guerra) fizera-o descobrir um género de jogos que juntava a família à mesa e gerava momentos de grande diversão. A partir das primeiras letras do seu nome criou, então, a Majora, que se tornaria uma empresa de refe- rência no mercado de jogos de tabuleiro em Portugal. Em 2013, porém, numa fase de grande implantação dos videojogos, a empresa fechou, 74 anos e mais de 300 jogos depois. Foi “fecho” de pouca dura: a Majora já está de volta. Ela e os jogos de tabuleiro. Quando se pensava que tinham sido vencidos pelos com- putadores e pelos telemóveis, os jogos de tabu- leiro começaram subitamente a ganhar espaço nas prateleiras das lojas e superfícies comer- ciais. Afinal, têm uma história milenar, muito para lá de 1939 e da Avenida da Boavista, e essa história ainda não terminou. ÉPOCA DE OURO “Estamos numa época de ouro. Nunca houve tantos e tão bons jogos”, assegura Gil d’Orey, designer de jogos de tabuleiro, que criou em 2010 a Mesa Board Games, uma empresa por- tuguesa que tem vindo a afirmar-se gradual- esta ‘geração milénio’, que regressa aos conví- vios familiares, a atividades em que as pessoas gostam de estar umas com as outras, e o jogo de tabuleiro é ideal para isso.” Os estudos de mercado confirmam a ten- dência, mas bastaria um olhar atento pelas pra- teleiras de supermercados ou lojas mais espe- cializadas, como a Fnac ou a Bertrand, para percebermos que há um aumento significativo na oferta de jogos de tabuleiro. Se há oferta, é porque há procura. A conjuntura é confirmada pela Fnac: “Os jogos de tabuleiro têm vindo a ser uma aposta renovada no mercado dos jogos e brinquedos. Surgiram novas marcas e novos jogos e, para- lelamente, foram relançadas marcas da ‘nossa infância’. Os grupos de boardgamers formam uma comunidade muito ativa, e a Fnac está muito atenta a essa tendência.” A marca, com várias lojas em Portugal, reserva cada vez mais espaço nas suas prateleiras para este tipo de jogos, e tem uma explicação: “No segmento das famílias, é possível que haja cada vez mais uma tendência dos pais para incenti- varem os filhos a jogar mais jogos de tabuleiro 45Interessante De Portugal para o mundo Gil d’Orey considera que estamos a viver uma época de ouro, no que diz respeito aos jogos de mesa, e vende no estrangeiro a maior parte dos jogos que cria. por oposição aos digitais, numa tentativa de diminuirem a crescente dependência do digital por parte dos mais jovens e mesmo por uma questão de necessidade de atividades que possam ser desenvolvidas em família.” CAFÉS PARA JOGADORES O fenómeno não é nacional, é internacional, e vai, pelo menos, da Europa aos Estados Unidos. Num trabalho publicado em setembro último, no jornal britânico The Guardian, intitulado “The rise and rise of tabletop gaming”, é traçado um cenário bem elucidativo sobre a crescente comunidade de jogadores: os autores começam por descrever o funcionamento de vários “cafés de jogos de tabuleiro” em Oxford e Londres, nos quais a ementa é feita de jogos e não pro- priamente de sandes e sumos. Os board-game cafes são uma tendência crescente, a acom- panhar as indicações do mercado: a NPD, um grupo de pesquisa de mercado do Reino Unido, anunciou ter registado um aumento de 20 por cento nas vendas de jogos de tabuleiro durante o último ano. Conclusões idênticas foram tiradas por Catarina Jervell, através dos estudos de mercado feitos pelo The Edge Group para ava- liar a pertinência da aposta na Majora: “Entre 2011 e 2013, houve, de facto, um crescimento na venda dos jogos digitais, mas isso tem vindo a decrescer, embora seja pouco significativo, e a venda de jogos de tabuleiro tem vindo a aumentar.” O local onde melhor se constata a pujança deste mercado é a Spiel Essen, na Alemanha, a maior feira de jogos de tabuleiro no mundo, que se realiza todos os anos em outubro. Gil d’Orey, que não falha o evento e o descreve com notório entusiasmo, estima que todos os anos são ali lançados cerca de 700 novos jogos! De Essen, e também de Nuremberga – a maior feira de brinquedos do mundo – ou da GenCon, a versão norte-americana do evento alemão, também ela absolutamente gigantesca, saem depois os novos jogos para o resto do mundo. Alguns desses chegam depois a Portugal, como Missão a Marte 2049, na nova Majora, ou os muito populares Ticket to Ride, Pandemic ou Desco- bridores de Catan. “O grande boom internacional foi com o Catan... Apareceu em 1995, alemão, de estra- tégia, com princípios que se tornaram funda- mentais”, conta D’Orey, que não vê qualquer interesse nos jogos de sorte e azar: “Os euro- gamers detestam isso, e com um argumento válido: não vou gastar duas horas da minha vida para estar dependente de um dado!” O sucesso de Catan abriu as portas para um novo estilo de jogos, que não eliminam jogadores, que não decidem por mera sorte, com design e histórias muito ricas, e cenários capazes defazer frente aos fascinantes gráficos dos jogos digitais. Na verdade, a renovação dos jogos de tabu- leiro parece, em grande parte, dever-se a uma necessidade de resposta ao domínio dos video- jogos: “Hoje em dia, a aposta no design e na ilustração é determinante”, assegura Catarina Jervell, dando o exemplo da Majora, que entregou essa parte à empresa BBDO, para transmitir uma nova imagem à marca no seu regresso ao mercado. De facto, o lado gráfico é fundamental. Gil d’Orey também revela grande cuidado com esse setor, e até entregou as ilustrações de um dos seus jogos mais bem sucedidos (Estoril 1942) a um ilustrador macedónio, Mihajlo Dimitrovski, SUPER46 que, a milhares de quilómetros de distância, soube interpretar na perfeição as suas indi- cações para um jogo sobre espiões no Estoril durante a Segunda Guerra Mundial. Lá estão personagens como Salazar, António Ferro ou Alexei Alekhine, mais a Boca do Inferno e o Hotel Atlântico, desenhados por Dimitrovski como se alguma vez estivesse estado em Portugal. O artista macedónio também desenhou, entre- tanto, o jogo D. Afonso Henriques, e será tam- bém o autor das ilustrações do novo jogo da Mesa Board Games, Viral, a lançar em 2017. DO DIGITAL À MESA Este estilo de jogos, com boas ilustrações e cenários, responde bem ao grafismo dos videojogos, mas Gil d’Orey não gosta muito da associação: “A sensação que me dá é que se vai aos videojogos mais para ir buscar o tema, mas tentar imitar é um erro, pois as características são diferentes. Costumo dizer às pessoas nas feiras: ‘Asseguro-lhe que, se comprar este jogo, o sistema operativo é eterno...’ ” O certo é que no mercado estão a surgir várias associações entre jogos de tabuleiro e videojo- gos, como por exemplo as versões Assassin’s Creed e Final Fantasy do clássico Monopólio. Também há jogos de tabuleiro que usam apli- cações para telemóvel, como o Alchemists, e outros com versões Legacy, em que a interativi- dade é tal que o jogador vai rasgando cartas e eliminando partes do jogo, até à altura em que este não pode ser mais jogado. No trabalho publicado pelo The Guardian, Ben Hogg, responsável pela Esdevium Games, uma das principais distribuidoras de jogos no Reino Unido, tem uma visão interessante sobre este assunto: “Os videojogos e os jogos de tabuleiro aprenderam muito uns com os outros.” Esta interação é possibilitada pelas novas tecno- logias, desde as telecomunicações à internet, passando neste caso, pelo crowdfunding, atra- vés do qual a produção de jogos se torna aces- sível a mais pessoas, e por páginas de eventos e grupos de interesse. Neste último caso, vale a pena referir a dimen- são da página BoardGameGeek, que reúne tudo o que interessa à comunidade, imensa, de apreciadores de jogos de tabuleiro. As con- venções também têm cada vez mais impacto, mesmo em Portugal, com a LisbonCon (organi- zada pelo Grupo de BoardGamers de Lisboa), que teve este ano a sua sétima edição, a Leiria- Con (organizada pela Spiel Portugal, foi a pri- meira convenção do género do nosso país, atri- buindo um prémio de Jogo do Ano) e páginas de entusiastas, entre as quais sobressai a Abre o Jogo (http://www.abreojogo.com), que se apresenta como “Comunidade Portuguesa de RPG e Jogos de Tabuleiro”. No fundo, é uma espécie de bola de neve ainda a crescer. Há uma comunidade cada vez maior, mas, segundo Gil d’Orey, o mercado português ainda tem muito para crescer: “Portugal está, a este nível, muito pouco desenvolvido, é um mercado muito pouco maduro. Isso é uma das funções da minha empresa: criar um mercado, educar as pessoas, mas temos de ser interna- cionais, senão não há dimensão para o negócio. O jogo que mais vendemos foi o Panamax, cerca de 8000 unidades; em Portugal, vendemos umas cem... Às vezes, nas feiras em que partici- pamos, as pessoas vêm dizer-nos que não con- seguiram jogar aquele jogo... Porquê? Porque não temos o hábito de ler e interpretar regras! Por outro lado, sendo este um negócio sazonal, em Portugal essa característica é brutal! Na Ale- manha já não é tanto, porque os adultos estão habituados a comprar muitos jogos, e em várias épocas do ano...” TRENCH: UMA HISTÓRIA EXEMPLAR Uma história exemplar é a de Rui Alípio Mon- teiro, que criou um jogo capaz de desafiar a própria Microsoft. O jogo em causa, inspirado na Primeira Guerra Mundial, de cariz abstrato e geométrico, e com algumas semelhanças com o xadrez, chama-se Trench, e foi criado em 2008 por este português apaixonado pela arte, que registou a criação em devido tempo, ante- cipando-se à poderosa Microsoft. A gigante norte-americana preparava-se para lançar, em 2011, um jogo com nome semelhante (Tren- ched): porém, face às patentes já obtidas pelo criador português, viu-se obrigada a alterar o nome do seu próprio jogo, para Iron Brigade. Uma situação contada assim pelo próprio Monteiro: “Por ser uma marca internacional, registada desde 2011, quer na classe de jogo de tabuleiro, quer na digital, o Trench obrigou a Microsoft a mudar o nome e o conceito de um videogame que pretendia lançar. Isso foi notícia, durante meses consecutivos, em toda a imprensa internacional, e especulou-se muito, pois, à última hora, após uma intensa campa- nha de marketing a anunciar o lançamento do Trenched, a Microsoft voltou atrás e não lançou o jogo tão esperado na Europa. A verdade é que não foi necessária uma batalha jurídica, bastou o registo internacional da marca Trench ter sido efetuado atempadamente por mim, aquando da concepção do jogo, nas duas classes, uma vez que o objetivo era também o Trench ter a sua versão digital.” Monteiro não deixa de fazer um comentário apropriado à situação: “É motivo para dizer que David venceu o Golias! Um português que, em tempos de crise, a viver do orçamento familiar e com parcos recursos, não deixou de fazer o seu trabalho de casa, contrariamente à gigantesca e multimilionária Microsoft, que primeiro fez a campanha de marketing e só depois, nas véspe- ras do lançamento do jogo, decidiu registar a marca…No comments!” A verdade é que o jogo se impôs internacio- nalmente, havendo mesmo quem o considere Os jogadores da atualidade são exigentes no design Entretenimento Para Catarina Jervell, diretora-geral da recém-regressada Majora, o novo auge dos jogos de mesa está relacionado com a procura de convívio. Interessante 47 O regresso da Majora N o panorama português dos jogos de tabuleiro, o regresso da Majora, em 2016, é um acontecimento relevante. A histórica empresa, fundada em 1939, no Porto, por Mário José de Oliveira (as ini- ciais e as últimas letras do nome estão na origem da marca), encerrara a produção de jogos em março de 2013, dispensando então os já poucos trabalhadores que ain- da mantinha. A crise, um mercado mais concorrencial, com a chegada a Portugal de novas marcas, e o boom dos videojo- gos estiveram na origem desta situação. Lamentava-se, porém, o desaparecimento de uma marca portuguesa, que durante 74 anos fabricara imensas diversões para a família, tornando populares jogos como o Sabichão, o Jogo da Glória, o Loto ou o Mikado. Foi também a Majora que intro- duziu o Monopólio no mercado nacional. Em 2014, porém, a empresa foi adquirida pelo The Edge Group, que se propôs relançar a marca em 2016. A tarefa foi en- tregue a Catarina Jervell, diretora-geral, que nos recebeu no escritório da Majora, em Lisboa: “O timing para o regresso não foi premeditado, foi um pouco por impul- so, porque a Majora é uma marca muito querida, que faz parte do património co- letivo, da memória de todos os portugue- ses, e porque faz parte da filosofia do The Edge Group apostar e fazer crescer mar- casportuguesas.” O processo de compra demorou cerca de um ano, e havia muito a fazer para preparar o relançamento: “Só tínhamos uma marca, mais nada, foi co- meçar tudo do zero... Primeiro, perceber onde estávamos, como estava o mercado de brinquedos e dos jogos, a nível euro- peu, perceber as tendências do mercado, definir um portfolio, entendendo o que querem os novos consumidores de jogos e de brinquedos, porque isto é uma marca de 1939, e as crianças dessa altura eram um bocadinho diferentes das crianças de hoje... Hoje, são mais exigentes, a nível gráfico, de design, de tudo...” Assim, foi planeada uma renovação da imagem da marca, a começar pelo logotipo: “Agora são duas crianças, do Tangram... Antes era apenas uma criança, mas mudámos porque a mensagem da Majora é promo- ver mais as relações humanas, entre famí- lia, primos, irmãos... A ideia é convidar as crianças a brincarem mais umas com as outras.” Assim, e definido um público que vai até aos 12 anos, os jogos da Ma- jora, tanto os clássicos como os novos, foram alvo de grande cuidado gráfico: “Trabalhámos com a BBDO, com uma equipa de designers e ilustradores que nos surpreendeu muito.” Por essa razão, quem estava habituado à imagem clássica do Loto, ou do Jogo da Glória, talvez se surpreenda ao encontrar os novos jogos no mercado. No total, a Majora reaparece com 33 jogos, dos quais onze são clássi- cos: Ludo, Jogo da Glória, Desafio, Sabi- chão, Sílabas, Números, Letras.... Entre os novos, merece destaque o Missão a Marte 2049, o jogo mais complexo da marca, que implica pensamento estratégico, e cujo lançamento coincide com a estreia da série Marte, no National Geographic Channel. “Foi uma feliz coincidência, e a parceria aconteceu naturalmente”, expli- ca Catarina Jervell. O jogo, para crianças a partir dos nove anos, inclui um QR code que permite explorar os conteúdos da série televisiva. Missão a Marte 2049 é um dos novos jogos da marca. o “xadrez do século XXI”, tendo tido, por exemplo, grande destaque na 19.ª edição das Olimpíadas da Mente (Mind Sports Olympiad), em Londres, em 2015. Num mar de elogios, o Trench prepara novas etapas. “Brevemente, todo o mundo vai ter oportunidade de jogar Trench, por opção, na ‘montra mundial’ da internet. O meu objetivo vai ser realizado”, anuncia o criador, perspetivando um futuro empolgante: “Por se tratar de uma trilogia, quando estiverem reunidas as condições ideais serão publicados os dois que faltam, dando lugar a uma verdadeira antologia, de jogos abstra- tos, geométricos, intelectuais e temáticos.” E tudo isto cem por cento português, feito em casa. “Criei o Trench a solo, desde o início até ao fim, sem interrupções nem influências! Após criar o conceito do jogo e o protótipo, pas- sei à fase de testes com a ajuda de amigos e da família, especialmente da minha mulher, Maria Luísa. O esboço do tabuleiro e das peças foi desenhado à mão, num momento de pura ins- piração, num papel de dimensões reduzidas (cinco por cinco centímetros) e realizado em apenas 15 minutos. O design do Trench, na sua génese, ficou desde logo intimamente asso- ciado à sua temática, a guerra das trincheiras. As regras foram inspiradas na mecânica da guerra das trincheiras: o ataque direto e pelos flancos ao inimigo; o poder da metralhadora; a defesa, a proteção e o ataque nas trincheiras; a dissimulação; a hierarquia das patentes mili- tares…” Depois vieram os protótipos, testes, registos, e um lançamento oficial, de que Mon- teiro muito se orgulha, realizado no Palácio da SUPER48 Histórias milenares B rincar é uma atividade inerente à existência humana. Por isso, há jogos e brincadeiras desde que há huma- nidade. É muito difícil, assim, datar os primeiros divertimentos, mas há registos de jogos de tabuleiros desde há cerca de cinco mil anos, em civilizações como as do Egito e da Mesopotâmia. Mancala e Senet – Um dos jogos que se crê, historicamente, ser dos mais antigos, é o Mancala. Curiosamente, mais do que o nome de um jogo, como tantas vezes cremos, Mancala é o nome dado a uma família de jogos, também chamados “jogos de semeadura” ou “ de contagem e captura”. São jogados em todo o mundo, sendo mais conhecidos no mundo ocidental o Oware, o Kalah, o Sungka, o Omweso e o Bao. O que frequentemente encontramos nas lojas, denominado como Mancala, é o Kalah. Crê-se que o Mancala é originário da Etiópia e da Eritreia, tendo na sua ori- gem a atividade agrícola (semeadura e captura de sementes), como se explica pelo tema e pela ausência de necessidade de equipamento especializado, pois po- de até ser jogado fazendo cavidades no chão e usando sementes ou pedrinhas. Outro jogo muitas vezes indicado como um dos mais antigos é o Senet, sendo o mais antigo hieróglifo que o representa datado de 3500 a.C. É considerado um antecessor do gamão e, como já se perce- beu, é originário do Antigo Egito. Gravados em pedra – Em Portugal, há vestígios de jogos de tabuleiro desde o tempo dos romanos, sobretudo em gravações feitas em pedra, no centro do país. Um dos destaques é naturalmente a estação arqueológica de Conímbriga, onde foram identificados os jogos do moinho, dos doze em linha e do soldado. Porém, um levantamento feito em 2009 catalogou mais de uma centena de jogos gravados na pedra, espalhados por todo o país. Na verdade, são testemunhos arqueológicos de uma atividade que nos foi deixada pelos romanos, muitos sécu- los antes do Pontapé ao Goal criado por Mário José de Oliveira no arranque da Majora, em 1939. Xadrez – Desporto, arte, ciência? O xadrez é tudo isto. Jogado por milhões de pessoas em todo o mundo, é um dos mais prestigiados, pela ausência do fator sorte, pelos contributos para a tecnolo- gia dos jogos online e até para os estudos sobre inteligência artificial. São contados vários mitos reportando a sua origem e criação, da Índia à Grécia, passando pela Roma Antiga, mas na generalidade acredita-se que será originário da Índia, por volta do século VI, com um antecessor de- nominado Chaturanga. Há quem defenda que possa ter surgido na China, por volta de 204 a.C. Certo é que, através das caravanas, o xadrez chegaria ao Ocidente, disseminan- do-se pela Europa à passagem do primeiro milénio, com chegada à península Ibérica por volta do século X. Na Europa, as regras começaram a sofrer algumas modificações, como a possibilidade de o primeiro peão avançar duas casas e de a rainha se transfor- mar na peça mais poderosa do jogo. A sua crescente popularidade originou depois a multiplicação dos estudos, a criação de clu- bes e o nascimento de um desporto. Damas – Se milhões jogam xadrez em todo o mundo, o que dizer das damas? Com um tabuleiro semelhante ao do xadrez, as damas são mais simples e fáceis de jogar, e por isso terão, certamente, ainda mais praticantes. É um jogo também muito antigo, havendo registos de um tabuleiro similar datado de 3000 a.C.! Em diversas culturas, há vestígios de jogos semelhantes; atualmente, há diversas versões e formas de jogar, com ligeiras diferenças, por exemplo, entre as damas inglesas, italianas ou russas. Em julho de 2007, um grupo de pesquisa da Universidade de Alberta (Canadá) anun- ciou ter resolvido o jogo das damas através do programa informático Chinook. O grupo demonstrou que as damas são um jogo de empate: terminará sempre empatado se os dois adversários realizarem as jogadas corretas. Monopólio – No século XX, a indústria dos jogos de tabuleiro cresceu muito, e al- guns tornaram-se verdadeiros fenómenos à escala mundial. É o caso do Monopólio, que se tornou extremamente popular pelo facto de se ligar diretamente às questões econó- micas. A sua criação é atribuída, em 1935, a Charles Darrow, um vendedor de sistemasde aquecimento, então desempregado, que o teria inventado para entreter a família, mas, de facto, a origem do jogo situa-se no século XIX, quando o movimento feminista Pandemic Legacy: Season 1 é atualmente o jogo mais votado pelos frequentadores da página BoardGameGeek, a principal referência do setor. criou grandes alterações sociais. “Lizzie” Maggie, uma das apoiantes desse movi- mento, criou o jogo para ajudar a divul- gar as ideias do economista Henry Geor- ge (inventor da teoria do imposto único) e alertar para os perigos da monopoliza- ção. Patenteou-o em 1903 e chamou-lhe “Jogo do Senhorio”. Mais tarde, passou a chamar-se Monopólio, uma vez que era usado para relevar o lado negativo da monopolização. A primeira versão do jogo tinha dois conjuntos de regras diferentes: a regra antimonopólio, pela qual todos os jogadores eram recompen- sados quando se criava riqueza, e a regra monopolista, na qual o objetivo era criar monopólios e esmagar os adversários. “Lizzie” pretendia demonstrar que no seu sistema de imposto único todos fica- vam a ganhar, enquanto no outro apenas ganham alguns, que se apoderam de tudo. Foi o segundo conjunto de regras que chegou aos nossos dias: quando a empresa Parker Brothers adquiriu os direitos do jogo, em 1935, deu Charles Darrow como inventor e eliminou o conjunto de regras que permitiam jogar o Monopólio de forma colaborativa, transformando-o num jogo competitivo baseado na acumulação de riqueza. Pandemic – O velhinho xadrez é o jogo de tabuleiro mais vendido de sempre, e o já clássico Monopólio ocupa o terceiro lugar da lista. Porém, o século XXI trouxe uma nova era na história dos jogos de ta- buleiro, agora plenos de aventuras, estra- tégias e personagens fantásticas. Por isso, os mais populares de 2016 já pertencem a um novo universo de jogos: na página rainha do setor, a BoardGameGeek, uma votação para os mais aguardados do ano dá o primeiro lugar ao jogo Scythe. O mais votado é, atualmente, Pandemic Legacy: Season 1 (12 mil votos). É um jogo de 2015, cooperativo, no qual uma equipa de especialistas percorre o mundo para combater as pragas antes que elas fiquem fora de controlo. Interessante Cidadela, em Cascais, com o alto patrocínio do Museu da Presidência da República e apresen- tação pelo general Loureiro dos Santos. UM MUNDO DE AVENTURAS Um dos objetivos declarados por Gil d’Orey é a criação de uma editora portuguesa de jogos. “Comecei a criar jogos de tabuleiro porque não tinha os jogos que queria, que achava adequa- dos... Criá-los deu-me algum prazer, mas o meu objetivo, como empresa, é criar uma editora de jogos, e arranjar autores, pessoas que sejam melhores do que eu a fazer jogos...” Os chamados “designers de jogos”, sucessores do “senhor Majora”, começam a aparecer. Na Mesa Board Games, um dos jogos mais recen- tes, I Love Portugal, é criação de Nuno Bizarro Sentieiro e Paulo Soledade, dois leirienses que se empenham na organização, todos os anos, da LeiriaCon. A dupla já deixou também a sua assinatura nos jogos Madeira, Panamax, Nippon, Brasil, Reis de Portugal e Poupar para Ganhar. A maior parte destes novos criadores nacio- nais vem da área do design gráfico e da publici- dade. Entende-se porquê, face à exigência de jogos muito apelativos do ponto de vista gráfico. Neste pormenor, merece também relevo o lan- çamento, no próximo ano, do jogo Lisboa, pela Eagle-Gryphon Games, criado por Ian O’Toole e pelo designer português Vital Lacerda. Trata- -se de um jogo sobre a reconstrução da capital portuguesa após o terramoto de 1755. Lacerda é mestre em marketing e publici- dade e, depois de ter trabalhado nesta última área, dedicou-se, nos últimos oito anos, ao design gráfico, com relevo para esta paixão pela cria- ção de jogos de tabuleiro. “Cheguei aqui por curiosidade: primeiro comecei por descobrir os eurogames, ou jogos de autor, e um dia desenhei um mapa de Portugal para um dos meus jogos preferidos, o Age of Steam, que tinha mapas do mundo inteiro. Fiz upload do mapa para a internet, recebi muitos comentá- rios positivos e achei que talvez conseguisse fazer um jogo completo.” Foi assim que nasceu Vinhos, o seu primeiro jogo, publicado por um produtor italiano em 2010. Hoje, Lacerda já deixou a sua assinatura nos jogos Age of Steam, Expansion: Portugal (2008), CO2 (2012), Kanban: Automotive Revolu- tion (2014), The Gallerist (2015) e Vinhos Deluxe Edition (2016). Para 2017, e para além de Lisboa, está previsto o lançamento de Dragon Kee- pers, em que faz parceria com a sua filha mais nova, Catarina Lacerda. O jogo, imagine-se, terá ilustrações de... Mihajlo Dimitrievski, o artista macedónio que também colabora em jogos com a portuguesa Mesa Board Games. Desta vez, a editora é a Knight Works. Lacerda é um caso notável de internaciona- lização, trabalhando em jogos que estão tra- duzidos em mais de dez línguas e podem ser encontrados em todo o mundo. “Como o público que joga os meus jogos é muito reduzido no nosso país, tinha de tentar chegar ao mercado global”, explica, convencido de que o recente boom nesta área tem uma explicação de cariz social: “As pessoas sentem cada vez mais a necessidade de estar na presença umas das outras, e os jogos de tabuleiro proporcionam convívio, ajudam a falar sobre temas, as pes- soas podem competir a olhar nos olhos umas das outras. Os jogos modernos, ou euroga- mes, também trouxeram coisas diferentes, jogos mais divertidos, muito bem feitos, com grande variedade de temas, de tal forma que saem cerca de mil novos jogos por ano.” “O JOGO É APENAS UM VEÍCULO” Outro caso de internacionalização é o de Manuel Correia, designer português atual- mente a trabalhar na InnoGames, em Ham- burgo. “Porque é que ainda ninguém fez um jogo assim?” A partir desta interrogação, Cor- reia aventurou-se por um hobby que já o levou a criar jogos como Multiuniversum, Don’t Wake the Dragon ou Agent Decker. Estão todos no seu blog (https://gamesbymanuel.com), em conjunto com os jogos digitais que vai criando. Correia trabalha nos dois campos, analógico e digital, e isso não lhe parece complicado: “Para mim, o elemento mais importante é o convívio entre jogadores, que tanto se pode conseguir à volta de uma mesa como de um ecrã. O jogo é apenas um veículo que estabe- 49 lece regras para aquela sessão. De uma forma mais literal, há cada vez mais adaptações digi- tais de jogos de tabuleiro. É uma forma acessí- vel de experimentar jogos, e em vários casos incluem oponentes de inteligência artificial ou até modos online. Há jogos de tabuleiro tão complexos que, na minha opinião, resultariam melhor em formato digital.” Apesar da sua rica produção, Correia conti- nua a considerar que se trata “apenas de um hobby, que se pode fazer em casa, esteja em que país estiver”. Durante o dia, é game desig- ner na Inno Games: “Comecei em estúdios portugueses e a minha busca de projetos dife- rentes acabou por me levar para fora do país: primeiro a Irlanda, agora a Alemanha.” Numa lista publicada no site BoardGame- Geek (BGG), é feito um pequeno balanço sobre as criações de portugueses, concluindo-se ter havido um ligeiro crescimento de 2015 para 2016; nas listas do BGG, as mais importantes a nível mundial, o jogo português que atingiu o ranking mais elevado foi The Gallerist (45.º entre os jogos de estratégia, 87.º na tabela geral). Certo é que a criatividade lusitana já é, tam- bém, uma realidade no universo dos jogos de tabuleiro, mesmo em termos internacionais. Embora Portugal continue a não ter uma fábrica especializada nesta área (Alemanha, Polónia e República Checa são as principais referências europeias; a Mesa Board Games produz na Ale- manha, a Majora na Polónia), algomudou nos últimos anos, em consequência dos cursos de design e da globalização de conhecimentos e experiências proporcionada pela internet. Longe, muito longe vai o tempo em que Mário José de Oliveira fabricava, pacientemente, bonequinhos de madeira numa cave da Avenida da Boavista. J.S. À baliza. Pontapé ao Goal foi o primeiro jogo da Majora. Portugal ainda não tem fábricas especializadas SUPER50 Viva a REALIDADE VIRTUAL Tecnologia Ócio, sexo, educação, saúde Assistimos à explosão de uma tecnologia que irá chegar a muitos milhões de lares, talvez já este Natal, na forma de óculos e capacetes. É sobretudo conhecida pelos jogos, mas outras aplicações irão transformar as nossas vidas. se fosse verdadeira, a possibilidade de interagir com esse mundo virtual através do corpo e do olhar e o caráter acessível de uma tecnologia que se pensava pertencer ao futuro.” Só resta experimentar a RV; por exemplo, num dos setores que referimos a seguir, que se afigu- ram ideais para o seu desenvolvimento. NOVOS TRATAMENTOS Um dos caminhos mais trilhados em termos de realidade virtual é o da formação médica, nomeadamente no que se refere à cirurgia. O guru nesse âmbito é o cirurgião britânico Shafi Ahmed, fundador da empresa Medical Reali- ties: em abril passado, transmitiu em direto, em realidade virtual, uma operação para extirpar um tumor do intestino de um doente. Cirurgiões de todo o mundo puderam pôr-se na pele de Ahmed e viram e escutaram o mesmo que ele. O passo seguinte, não muito distante, segundo a Medical Realities, será transmitir estímulos táteis com recurso a luvas que recebem sinais eletromagnéticos, de modo que os médicos em formação terão a sensação física de estarem eles próprios a operar. No campo da psicologia, a RV é utilizada há décadas em casos de soldados com stress A realidade virtual (RV) é o último objeto de desejo das massas. A che-gada da PlayStation RV da Sony jun-tou-se ao lançamento do Oculus Rift e do HTC Vive para computador, do Samsung Gear VR para telemóveis e da plataforma de con- teúdos VR Daydream dA Google, numa ofensiva tecnológica que promete emoções fortes. Contudo, é apenas o princípio. “Embora já tenhamos os dispositivos e sejam acessíveis, resta o mais importante: que as pessoas expe- rimentem e vejam o seu potencial. Até o faze- rem, não podem entender o que é e o que nos traz”, afirma Sara Antequera, especialista na tecnologia da realidade virtual. Os números permitem antecipar um negócio colossal. A consultora CCS Insight estima que se venderão, em 2017, doze milhões de capa- cetes e óculos de realidade virtual em todo o mundo. Em 2020, segundo um estudo da SuperData,o mercado global deste segmento irá movimentar 40 mil milhões de dólares. Porque é QUE esta inovação irá conquistar- -nos? “Há três coisas que surpreendem aqueles que experimentam”, explica Sara. “A impres- são de mergulharem numa situação que, sem ser real, provoca sensações e emoções como A FP / B O R IS H O R VA T 51Interessante A RV vai revolucionar a forma como compramos roupa, casas... SUPER52 pós-traumático. Porém, graças à sua demo- cratização, passou a constituir um novo aliado contra a dor. No Hospital Infantil Shriners, de Galveston (Texas), distrai crianças com tumo- res ou queimaduras graves. Cura também a dor do “membro ausente”, que afeta sete em cada dez pessoas que sofreram uma ampu- tação, levando-as a sentir dor no membro perdido: especialistas da Universidade Tecno- lógica Chalmers (Suécia) comprovaram que a RV, em conjunto com a colocação de elétrodos no local afetado, ajuda a eliminá-la. Por outro lado, uma empresa espanhola, a Psious, dedica-se a instalar em consultórios médicos de vários países um programa informático para tratar fobias comuns (medo das alturas, de voar...), com base na terapia da exposição progressiva. A realidade virtual também se tem revelado útil em campos como os da motricidade e da geriatria. Um sistema desenvolvido pela Uni- versidade Pompeu Fabra, de Barcelona, é utili- zado para reabilitar doentes que sofreram um AVC. Por outro lado, uma ferramenta criada pela Universidade Politécnica de Tomsk e pela Faculdade de Medicina da Sibéria permitirá, através de sensores de movimento, o diagnós- tico precoce de doenças como a de Parkinson e a esclerose múltipla. NO MUNDO DAS COMPRAS A publicidade e as compras formam um habi- tat propício à realidade virtual. Muitas grandes empresas já lançaram campanhas que fazem apelo à tecnologia. É o caso da McDonald’s, com uma dupla aposta. Na primavera passada, promoveu uma experiência na Suécia que per- mitia às crianças transformar as suas caixas de HappyMeal (a ementa infantil da marca) em óculos de realidade virtual, ao estilo das Cardboard da Google. Pouco tempo depois, a filial britânica colocava na rua um camião que oferecia uma experiência com os Oculus Rift para efetuar uma visita virtual às quintas da empresa. Objetivo: publicitar a qualidade da sua carne. A RV está a transformar-se num aliado das vendas, tanto nos próprios estabelecimentos como em casa. No primeiro caso, podemos apontar o exemplo da Leroy Merlin, que intro- duziu em alguns dos seus armazéns, no verão de 2015, uma aplicação que permitia visualizar e modificar, através de Oculus Rift, os elementos de uma cozinha. No mesmo sentido, a Ikea, em colaboração com a HTC, lançou uma aplicação destinada a testar diferentes configurações de cozinha. As compras online também vão ser uma experiência mais completa com a expansão da tecnologia, pois poderemos entrar num novo modelo de automóvel sem sair de casa ou pro- var virtualmente um par de calças para ver se combina com outra peça. Segundo os peritos, esse cenário é, por enquanto, experimental. Contudo, em maio passado, o eBay lançou na Austrália a “primeira loja em realidade virtual do mundo”, e o gigante chinês Alibaba montou o primeiro ecossistema do género durante o Dia dos Solteiros, em novembro. Embora a oferta de produtos fosse limitada (apenas para a Austrália) e a qualidade da tec- nologia não se aproxime ainda da que poderá vir a ter, o eBay indicou o caminho e os outros gigantes das vendas online não poderão deixar de apanhar o comboio virtual, que deverá proporcionar constantes e chorudos lucros. Para já, o Alibaba vai à frente, e é possível que tenha definido as regras para os tempos mais próximos. PARA VIAJAR A realidade virtual permite-nos estar no centro da ação, interagir com o que nos rodeia, viver uma quimera. Talvez por isso, o turismo é a aplicação da tecnologia que mais interessa os consumidores, segundo um relatório da con- sultora Greenlight Insights. O setor das viagens já começou a demonstrar as possibilidades que oferece. Uma é que permite visitar qualquer destino antes mesmo de se decidir a conhecê-lo. Operadoras, agências de turismo, cadeias hoteleiras, companhias aéreas, etc., já aderiram. Um dos pioneiros foi a multinacional de turismo Thomas Cook, que começou a oferecer nas suas lojas, em 2015, experiências de RV nas quais os clientes podiam sobrevoar Manhattan de helicóptero ou admirar a necrópole de Gizé como se lá estivessem. A cadeia de hotéis Mar- Estrela minha. O futuro de qualquer país depende da educação, cada vez mais tecnológica. Estes alunos de uma escola de Pequim aprendem astronomia recorrendo a óculos de RV. Interessante 53 Janelas para outros mundos E stes são os primcipais dispo-sitivos que protagonizam a revolução atualmente em marcha no campo da realidade virtual. Os preços indicados são aproximados e podem mudar com o tempo. Sony Playstation VR Funcionam com a PlayStation4 e exigem proces- sadores sofistica- dos. €399. Oculus Rift Dispõem da sua própria loja virtual de videojogos e exigem compu- tadores de grande potência. €699. HTC Vive É preciso um computador topo de gama para mostrar as suas potencia- lidades. €899. Samsung Gear VR Pensados para os telemóveis da Samsung, possuem centenas de jogos, embora menos sofisticados do que os da con- corrência. €100. Google Daydream View O sucessor dos Cardboard funciona com os telemóveis Google e termi- nais compatíveis. Custa 79 dólares; ainda não há um preço para a Europa. riott inclui em alguns dos seus estabelecimentos o VRoom Service, uma pasta que contém o equipamento necessário para nos transportar- mos aos Andes, a Pequim ou ao Ruanda. Com a aplicação Lufthansa VR, podemos voar virtual- mente num Airbus A380 ou num Boeing 747, ou damos um passeio de grande realismo por Tóquio, San Francisco ou Nova Iorque. A outra grande aposta deste novo tipo de turismo é proporcionar a oportunidade de visitar lugares aos quais dificilmente se vai. Por exemplo, o Evereste (graças à experiência Eve- rest VR). Aplicações como a Ascape ou Littlstar irão saciar a fome dos viajantes virtuais. APRENDIZAGEM EM PRIMEIRA MÃO E se pudéssemos entrar no interior do corpo humano? Já é possível, graças a um dos proje- tos educativos mais fortes baseados na reali- dade virtual: The Body VR, desenvolvido para os Oculus Rift e o Samsung Gear VR. Trata-se de uma viagem através da corrente sanguínea durante a qual aprendemos, de forma visual, como trabalham as células para transportar oxigénio por todo o organismo. Segue-se o Titans of Space, criado pela Drash VR para os Oculus Rift, um périplo pelo Sistema Solar e pelo espaço interestelar. Há também pla- taformas educativas multidisciplinares de RV, como as Unimersiv, nas quais se pode apren- der desde história da cultura romana (Tarraco VR) até línguas (House of Languages). A iniciativa pedagógica mais bem-sucedida até agora é o Google Expeditions, um programa lançado no outono de 2015 que convida crianças de escolas de todo o mundo a empreender excursões virtuais a lugares como Machu Picchu (Peru) e a Grande Barreira de Coral australiana, guiadas pelo seu professor através de óculos Google Cardboard. Estes óculos de cartão não proporcionam uma qualidade ótima, mas apresentam a grande vantagem de ter um preço abaixo dos 15 euros, o que permite que possam chegar a escolas G E T T Y SUPER54 Com técnicas imersivas, podemos assistir a um espetáculo noutro país de todo o planeta. Assim, mais de um milhão de crianças tiveram acesso em apenas um ano. Seja como for, os novos óculos de realidade virtual da Google (os Daydream View) vão tam- bém cobrir este campo. Oferecem visitas a museus, viagens interestelares e outras aven- turas educativas. CONCERTOS NO SOFÁ DE CASA O que pode levar a maior promotora de con- certos do mundo a explorar a via da realidade virtual? Está mais perto de se concretizar do que nunca o sonho de assistir a um concerto da sua banda preferida noutro país, rodeado de milha- res de almas e sem sair de casa. É o que promete a aposta nesta tecnologia da Live Nation, a qual já anunciou uma aliança com a Next VR. Nas palavras de Jordan Zachary, responsável pela estratégia da Live Nation: “Não procuramos imitar a experiência de estar na primeira fila de um concerto, mas criar outra diferente.” Segundo a multinacional, programar concertos em direto em RV, longe de prejudicar a venda de bilhetes, irá atrair mais pessoas aos seus eventos. Além disso, poderá ver os lucros aumentar através de conteúdos suplementares: por exemplo, oferecendo a possibilidade de acesso aos bastidores. A realidade virtual já é utilizada para a trans- missão em streaming de acontecimentos des- portivos. Tivemos um exemplo nos Jogos Olím- picos do Rio, emitidos pela NBC em RV graças à aliança estabelecida com a Samsung. Por sua vez, a colaboração entre a Fox Sports e a Next VR permitiu que, em agosto, pessoas de todo o mundo pusessem os seus Samsung Gear RV e se sentissem como qualquer outro espetador no Allianz Arena, durante o jogo da primeira jornada da Liga alemã, entre o Bayern de Munique e o Werder Bremen. VIDEOJOGOS DO FUTURO... JÁ HOJE Em outubro, a Sony lançou a PlayStation VR, o dispositivo de realidade virtual compatível com a sua consola. Para muitos analistas, as ven- das do produto determinarão o futuro desta tecnologia e a sua implantação entre os consu- midores. O aparelho possui um design inovador, pois os óculos estão inseridos numa espécie de diadema ajustável que inclui um ecrã de alta definição e som tridimensional. Permite mergulhar em tantos mundos quanto o número de jogos compatíveis que sejam comercializados. Já há títulos como Resident Onde vamos hoje? Os clientes do Sublimotion podem fazer viagens para destinos distantes enquanto saboreiam a sua refeição. Evil 7: Biohazard, Grande Turismo Sport ou Batman: Arkham VR. Não é a única alternativa para jogar em ambientes de RV, mas é, teorica- mente, a que oferece mais realismo por menos dinheiro, e estará certamente em muito sapa- tinho, este ano. A “NÃO CASA” DOS SEUS SONHOS Mais de 2300 milhões de euros. Segundo a Goldman Sachs, é a soma que será movimen- tada, no ano 2025, pelas aplicações de reali- dade virtual no setor imobiliário. Em princípio, a tecnologia irá trabalhar com dois cenários. Por um lado, permitirá que o cliente possa entrar numa agência e visitar, com óculos de RV, uma casa ou um local, guiado pelo agente imobiliário. A outra possibilidade é que qualquer utilizador possa realizar a visita através do seu próprio telemóvel ou computador, enquanto um assis- tente comercial o orienta à distância. Além disso, a realidade virtual permite pas- sear por espaços que ainda não foram cons- truídos, de forma a tornar obsoletas as tradi- cionais maquetas. Durante a visita, é possível modificar os elementos (chão, portas, janelas...) consoante os desejos do cliente. As duas ver- tentes já foram lançadas, mas há uma grande diferença na qualidade dos projetos dispo- níveis. A maior parte dos que já funcionam baseiam-se apenas em fotografias de 360 graus, pelo que a experiência é passível de ser muito melhorada. Neste setor, a produção de vídeo em 360 não se tornou generalizada devido ao seu elevado preço. Contudo, o montante das operações com moradias de luxo permite, efetivamente, uma aposta no conceito, pois também poupa outros custos, como uma viagem eventual- mente longa por parte do cliente para ver a propriedade. Empresas de RV como a Transpor- ted ou a You Visit, ambas sediadas nos Estados Unidos, já exploram esse filão com excelentes resultados. COMER EM UNIVERSOS PARALELOS O Sublimotion gaba-se de ser o restaurante mais caro do mundo e, para justificá-lo, oferece uma experiência que transcende o fator gas- tronómico. Situado no Hard Rock Hotel de Ibiza e dirigido pelo chef Paco Roncero, possui uma única mesa para doze clientes, que podem apreciar uma ementa de quinze pratos por 1650 Interessante 55 euros. Fazem-no num cenário escolhido para a ocasião pela equipa de cozinheiros do restau- rante, que cria uma experiência multissensorial com base em técnicas de realidade virtual (ape- tece-lhe jantar como se estivesse no centro da Terra? no espaço?). A sessão é complemen- tada com realidade aumentada para proporcio- nar informação sobre os pratos e a respetiva elaboração. NO CENTRO DA NOTÍCIA O que sente um ocidental quando deixa o conforto do sofá para se encontrar no meio de uma planície do Sudão do Sul, observando os aviões da ONU a bombardear a zona com sacos demantimentos? Se uma das premissas do jor- nalismo é ser porta-voz de realidades a que não temos acesso pessoalmente, o chamado “jor- nalismo imersivo” destina-se a agitar consciên- cias. A cena anterior faz parte de The Displaced, um dos primeiros trabalhos da secção de RV do New York Times, jornal que apostou forte na tecnologia. Além de produzir peças como esta, que aborda o drama dos deslocados em várias regiões do mundo, ou como The Fight for Fallujah, onde nos vemos imersos na ofensiva das forças iraquianas para recuperar o bastião rebelde, já distribuiu mais de um milhão de Google Cardboards entre os seus assinantes. A colaboração irá prosseguir com os novos óculos da Google, os Daydream View. Em Espanha, o diário El País apresentou, em maio passado, a experiência Fukushima – Vidas Contaminadas, sobre a cidade japonesa vítima do acidente na central nuclear ocorrido em março de 2011. O jornal dispõe também de uma aplicação (El País VR) que dá acesso ao conteúdo de RV que vai produzindo. SEXO SENTIDO Um coitus interruptus. Deve ter sido uma experiência semelhante a vivida pelos organi- zadores da primeira edição do Festival de Por- nografia para Realidade Virtual de Tóquio ao ter de cancelar o evento apenas 30 minutos depois de abrir as portas. Aconteceu no início de julho, e a razão para tão drástica decisão foi a ava- lancha de adeptos que queriam entrar num recinto que de imediato se revelou demasiado pequeno para os receber. As pessoas que conseguiram passar tiveram oportunidade de comprovar que o sexo RV não se cinge a uma mera imersão visual. Nesta matéria, e tal como acontece nos videojogos, os periféricos desem- penham um papel essencial. Em Tóquio, por exemplo, foram mostrados desde aparelhos de masturbação a bonecas insufláveis criadas para ser utilizadas com a tecnologia. Fabricantes de brinquedos sexuais, como a Kiroo e a Lovense, trabalham com produtoras como a PornHub ou a VirtualRealPorn para tornar efetiva a sincronização entre o material audiovisual de realidade virtual e os acessórios e permitir uma experiência total. A ideia é que a cadência de um vibrador, por exemplo, seja exatamente a mesma da exibida pelo ator ou pela atriz. A velocidade a que a tecnologia avança é diretamente proporcional à expectativa criada pela sua aplicação. Contudo, nem todos estão satisfeitos: os responsáveis pela PornHub reve- laram as dificuldades que os atores enfrentam quando estão a ser filmados para RV: muitas vezes, ter de aguentar no pescoço o peso do equipamento de gravação (os vídeos são gra- vados pelo próprio) impede-os de manter a ereção o tempo suficiente. D.L. S U B LI M O T IO N SUPER56 A hora do ORIGAMI Tecnologia Papiroflexia científica 57 A hora do ORIGAMI Papiroflexia científica Interessante Aliada à matemática, a arte de dobrar papel está na base de importantes inovações tecnológicas, no campo da investigação. Mestre a dobrar. O físico Robert J. Lang, um dos maiores especialistas mundiais em origami, usa fórmulas matemáticas e programas de computador para criar as suas figuras e aplicar as descobertas a problemas de engenharia. S H A U L S C H W A R Z A NASA criou painéis solares que se dobram e desdobram SUPER58 A viões, barcos, pássaros, rãs... Quem nunca tentou dobrar um pedaço de papel para reproduzir uma destas figuras? Conhecido a nível interna- cional, o origami está ao alcance de todos. Poderá parecer que essa arte de origem japonesa é uma mera diversão, mas isso não corresponde à realidade. As suas vertentes criativas e artísticas são evidentes, mas outras características também lhe permitiram conver- ter-se na base de importantes inovações tecno- lógicas. De facto, se observarmos com atenção o mundo que nos rodeia, encontraremos nas dobras e pregas da natureza a fonte de inspira- ção para o origami. Na companhia da matemá- tica, tornou-se uma ferramenta de investigação que tem produzido avanços surpreendentes. A relação entre o origami e conceitos geomé- tricos surge de forma natural: quando se dobra um papel, estamos a desenhar linhas nele. Se nos concentrarmos, conseguimos distinguir, entre outros, segmentos, ângulos, pontos comuns a segmentos, polígonos, figuras planas e figuras tridimensionais. Se compararmos, além disso, a folha de papel a um plano, dotando-a de um sistema de coordenadas em que cada ponto passa a ser descrito por um par de números, surgirão conceitos numéricos, direções e dimensões. Essa nova perspetiva permite ampliar o campo de investigação e abordar os problemas relacionados com o origami através da teoria dos números, o ramo da matemática pura que estuda propriedades dos números, em particular dos inteiros. Após anos de esforços e de investigação por parte de engenheiros, físicos e matemáticos para formalizar a relação entre a matemática e a arte do origami, foi possível desenvolver as bases e regras teóricas com o objetivo de deter- minar se uma figura pode ser criada através dessa técnica, que tipos de manobras se tem de fazer e quais as características do origami. A teoria foi sendo consolidada nos últimos quinze anos e constitui a base para aplicações em diversos setores tecnológicos. TRANSMISSÃO ORAL No início, os passos para elaborar um modelo de origami eram comunicados de forma oral, o que dificultou a sua transmissão entre as dife- rentes gerações (alguns modelos tradicionais perderam-se pelo caminho). Foi apenas no final do século XX que o japonês Akira Yoshizawa dotou a dobragem criativa de uma linguagem simbólica própria, que permitia, pela primeira vez, uma nova forma de transmissão. O mestre do origami inventou códigos basea- dos em linhas e setas para descrever os passos necessários para “dobrar” um modelo. O con- junto de todos esses símbolos é designado por “diagrama”. Paralelamente aos diagramas, é possível reproduzir uma figura pela interpre- tação do seu padrão de vincos, o qual mostra as marcas deixadas no papel depois de completada uma figura. Hoje, o origami é uma arte de fácil acesso: através da internet, onde se partilham diagra- mas, padrões de dobras e material audiovisual diversificado, ou de associações de origami, que organizam encontros periódicos com o obje- tivo de partilhar conhecimentos e criações. Na sua versão mais ortodoxa, as regras para criar origami são claras: uma única folha de papel, nada de cola ou tesoura. A elaboração é dividida em duas partes: a dobragem da base e a dos pormenores. A base é uma figura geométrica de estrutura semelhante à forma do objetivo; a matemática intervém no processo de elabora- ção. Por sua vez, os pormenores transformam a base num modelo mais elaborado e constituem a vertente mais artística da figura. As técnicas podem aproveitar bases conhecidas, mas estas são cada vez mais utilizadas para criar novas. MÉTODOS CONSAGRADOS Há diversos métodos consagrados, como os que permitem transformar uma única dobra de papel em várias, sem necessidade de cortar ou colar. Originalmente, eram utilizados para criar figuras com diversas extremidades. Podemos Interessante 59 também encontrar técnicas para reproduzir padrões em forma de mosaico e conseguir, assim, um efeito de textura. O empacotamento de círculos é outra técnica comum, que utiliza círculos para criar bases com combinações de dobras de tamanho diferente. Outros exemplos são a teoria da árvore, que associa um grafo de árvore ao padrão de dobras de um modelo (e que foi, curiosamente, desenvolvido por duas pessoas ao mesmo tempo: o bioquímico japo- nês Toshiyuki Meguro e Robert J. Lang, figura essencial do origami a nível mundial),e o estilo que utiliza dobras em forma de acordeão, geralmente para criar caixas desdobráveis Estas técnicas são utilizadas tanto para cria- ções artísticas como para desenvolver apli- cações no campo da tecnologia. Através de algoritmos de dobras clássicas em vale ou em monte, é possível obter estruturas complexas; aplicadas a outros materiais, como certos metais (bronze ou alumínio), são a base para adaptar as vantagens e as propriedades do origami a uti- lizações práticas e reais. As propriedades inatas do material (leveza, força, resistência, transpa- rência) irão torná-lo apto para um uso ou outro. Quanto às medidas dos modelos de origami, podem variar de tamanhos muito reduzidos à escala de verdadeiros edifícios. Uma aplicação que encontramos no nosso quotidiano e a que talvez nunca tenhamos pres- tado atenção é a configuração de recipientes. É o caso das caixas de cartão e das embalagens Tetrabrik. O origami tem muito para oferecer numa questão que adquire cada vez maior A caminho do céu. Uma vez no espaço, o telescópio James Webb, que deverá ser lançado em 2018, abrir-se-á como uma folha de origami. Na imagem, um técnico verifica uma das 18 peças que compõem o espelho. Robôs para engolir O Instituto Tecnológico do Mas-sachusetts (MIT) tem consa- grado muitos recursos à investigação das possíveis aplicações do origami no campo da robótica e da nanotec- nologia, tendo já obtido resultados surpreendentes. Depois de apresentar robôs que se dobram, feitos de po- límeros com memória, e outros que podem ser montados com recurso a materiais planos e calor, o seu traba- lho mais recente é um robô-origami comandado à distância. O corpo do robô incorpora um íman programado para se deslocar através de um campo magnético. O robô, que é inicialmen- te plano, ergue-se, autoformando-se e dobrando-se. Desempenha as tarefas que lhe são atribuídas e desaparece, degradando-se sozinho. Este enge- nho pode transportar objetos, passar por obstáculos e seguir a trajetória que lhe foi indicada. Depois de ter completado todas as tarefas, possui o dom de se autorreciclar, dissol- vendo-se num líquido. Segundo os investigadores, os robôs inspirados em origami possuem a vantagem de ser mais rápidos e fáceis de fabricar, sendo também mais económicos. São uma ferramenta para desempenhar tarefas de inspeção, mas a versão mais recente, elaborada com material biocompatível, possui também uma aplicação prometedora no campo da biomedicina: é possível ingerir o ro- bô, inserido numa cápsula. Nos testes que foram desenvolvidos, foi introdu- zido num esófago e estômago artifi- ciais e, uma vez ali chegado, a cápsula dissolveu-se e o robô expandiu-se. Poderá ser utilizado para extrair uma pilha ou colocar um penso numa ferida, sem necessidade de recorrer à cirurgia. Incorpora um pequeno íman para ser guiado por campos magné- ticos externos; o próximo objetivo é conseguir que se desloque de forma autónoma. E S A / N A S A / C . G U N N M E LA N IE G O N IC K / M IT SUPER60 As “dobras” genéticas permitirão fazer novos medicamentos importância na nossa sociedade. Referimo- -nos à reciclagem; em concreto, ao armaze- namento dos objetos recicláveis. Modelos adequados podem contribuir para otimizar o espaço que os resíduos ocupam. As embalagens de pipocas para uso exclusivo no micro-ondas são outro exemplo de origami industrial; uma caixa pode conter vários pacotes, praticamente planos, que se expandem e adquirem uma estrutura tridimensional quando o milho explode no interior. Outra configuração comum na criação de embalagens é a estrutura em favo de mel, que ajuda a proteger o con- teúdo, pois reduz as vibrações. Quais as suas aplicações? Serve tanto para caixas de cartão como para a construção das paredes dos foguetes de satélites artificiais. INOVAÇÕES NA ENGENHARIA O origami também deu importantes frutos no setor da engenharia. Na indústria automóvel, são desenvolvidos algoritmos para permitir que os airbags dos veículos mantenham uma forma plana depois de dobrados. Curiosamente, os algoritmos para dobrar os airbags nos seus compartimentos recorrem ao modelo de ori- gami utilizado inicialmente para reproduzir aves de grande tamanho. É um exemplo dos inventos e das configurações que partem da mesma base das criações artísticas. Por outro lado, diversas equipas de investi- gadores da Alemanha e do Japão foram buscar inspiração ao origami para aproveitar as van- tagens que proporciona no inovador campo da impressão tridimensional. Um dos inconve- nientes das atuais impressoras 3D é a sua lenti- dão, pelo que o objetivo de recorrer ao origami é conseguir que o computador descomprima dados tridimensionais para imprimir objetos praticamente planos, através de uma série de cortes e padrões previamente estabelecidos. Depois de impressos, os objetos estão prepa- rados para ser facilmente dobrados e trans- formar-se, posteriormente, em objetos volu- mosos. Já todos perceberam que este tipo de impressão é mais rápido e económico. A astronáutica também está muito interes- sada em estudar as possíveis aplicações da papiroflexia. Cientistas da NASA estão a tra- balhar num projeto para lançar satélites de modo que os seus painéis solares sejam enviados dobrados e, depois, se abram no espaço, uma situação simulada por computador com recurso a técnicas e cálculos baseados na matemática do origami. Para elaborar as estruturas, as gre- lhas dos painéis solares são reproduzidas numa folha de papel a fim de estudar os diferentes métodos de poder dobrá-las. O modelo de dobragem de painéis solares mais conhecido é a dobra de Miura: faz parte de um género de origami que envolve lâminas planas rígidas ligadas entre si por dobradiças. Há também um projeto que junta diversos investigadores norte-americanos do Laborató- rio de Propulsão a Jato da NASA e da Universi- dade Brigham Young com o objetivo de conse- guir reduzir dez vezes o tamanho dos painéis solares depois de dobrados, de modo a ocupa- rem o mínimo volume possível. Ainda no campo da astronáutica, foram criados espelhos dobrá- veis de telescópios espaciais, como é o caso do telecópio espacial James Webb, formado por dezoito elementos hexagonais de berílio. TAMBÉM NA MEDICINA Por outro lado, o origami constitui uma fonte de inspiração no campo da medicina e da biotecnologia. Alguns modelos são copia- dos e adaptados a instrumentos médicos. Na cirurgia cardiovascular, foram criados disposi- Interessante 61 tivos em forma de mola que ajudam a corrigir o estreitamento das artérias. Referimo-nos aos stents, que se mantêm achatados e que, depois de introduzidos no corpo, se expandem para formar uma estrutura 3D em forma de tubo (à semelhança de um barco dentro de uma gar- rafa). Através de um catéter, o stent viaja até ao vaso com estenose e, ao abrir-se, aumenta de diâmetro, para melhorar a circulação sanguínea. Consoante a aplicação, o tecido pode mesmo crescer em redor do stent, que permanece para sempre no organismo do doente. Existem igualmente projetos de investigação baseados no origami para melhorar o movi- mento alveolar nos doentes a ser tratados para doenças pulmonares, ou mesmo para desen- volver implantes de retina. Outro dos campos em que o origami constitui uma fonte de inspiração é a nanotecnologia. Após dez anos de evolução e investigação do origami, já é possível hoje dobrar moléculas de ADN para obter formas concretas. Este avanço poderá ter aplicações importantes, como a criação de novos fármacos, de dispositivos fotónicos (com as mesmas funções do que os dispositivos eletrónicos, mas queusam a luz como veículo de transmissão) ou de reações químicas na indústria. Obviamente, o origami também tem uma relação próxima com a física. Uma aplicação direta neste campo é a criação de sistemas óti- cos em que se recorre ao origami para simular o comportamento dos reflexos de raios de luz. Na Austrália, o artista Matthew Gardiner criou um novo campo de investigação, denominado oribotics, que combina arte e ciência. As suas obras, conhecidas por oribots, são estrutu- ras estáticas, sem qualquer programa, que usam a eletricidade como fonte de vida. É o caso de certas lâmpadas, com uma estrutura seme- lhante a uma flor, que se abrem (desdobram) quando se aproxima um objeto, e fecham quando é afastado. Também os arquitetos mostram interesse pelo origami. Estuda-se a forma de conseguir dobrar madeiras ou panéis metálicos destina- dos à construção de estruturas e a projetos de edifícios e coberturas dobráveis. Até o universo da moda aproveitou as vantagens do origami: vestidos inspirados em padrões de dobragem de flores na natureza, como um modelo de Issey Miyake; guarda-chuvas e leques, etc. NOS DOIS SENTIDOS A matemática está presente em todos estes avanços, mas a verdade é que a relação entre a ciência e o origami funciona em ambos os sentidos: por um lado, os avanços no campo da matemática contribuem para a criação de novas figuras; por outro, os progressos em matéria de papiroflexia colocam desafios que se traduzem em avanços para a investigação matemática. Os resultados destes estudos refletem-se em múltiplos artigos publicados em revistas como a Nature Materials. Alguns destes trabalhos deram mesmo origem a teses de doutoramento em matemática, algo que seria impensável há alguns anos. Uma forma de divulgar estas conclusões científicas é através dos congressos de origami que são organizados em diferentes países, como os OSME (sigla de Origami in Science, Mathematics and Education), que mostram as aplicações e a utilidade da transversalidade de conhecimentos. Estão presentes arquitetos, artistas, desenhadores, engenheiros, matemá- tico, pessoas de esferas muito diferentes que partilham o mesmo interesse pelo origami. O que nos guarda o futuro neste campo? Teremos microtelemóveis que se desdobram quando são utilizados? Poderemos trabalhar a uma escala ainda menor, ao nível dos átomos? Ajudar-nos-á a conquistar o espaço? Estamos na era do origami, uma arte e uma ciência a que se dedicam milhares de pessoas no mundo e que afeta e continuará a afetar o nosso quoti- diano, muito mais do que pensamos. E.T. E fez-se luz. Os oribots são o trabalho do artista Matthew Gardiner, que explora a ligação entre a natureza, o origami e a robótica M A T T H E W G A R D IN E R SUPER62 Tecnologia 63 Como treinar o seu ROBÔ Máquinas que aprendem por si Interessante Já há autómatos que falam, andam e gesticulam. Agora, os especialistas em inteligência artificial pretendem criar algoritmos que lhes permitam relacionar conceitos. O nde está a revolução da robótica que nos foi prometida? Há décadas que inúmeros cientistas e autores de ficção científica vaticinam um futuro em que os seres humanos coexistiriam, lado a lado, com máquinas autónomas que os entenderiam e lhes facilitariam a vida. Contudo, a verdade é que, apesar de haver um número crescente de humanoides a falar e a desempe- nhar as mais diversas tarefas, o único autómato que parece ter conseguido introduzir-se verda- deiramente na nossa sociedade é um aspirador em forma de ringue chamado Roomba. Todavia, os avanços neste campo não ces- saram desde que o Unimate, o primeiro robô industrial da história, começou a trabalhar numa cadeia de montagem da General Motors, em 1961. No último meio século, conseguiu-se melhorar as capacidades deste tipo de máquinas e o modo como colaboram com os seres huma- nos. Se ainda não nos habituámos a vê-las no nosso quotidiano é, sobretudo, porque se encontram nas fábricas. De facto, o Unimate era um braço automatizado que pesava quase duas toneladas. O gigante da indústria automo- bilística utilizava-o para deslocar e soldar gran- des peças de metal aquecido, uma tarefa que acarretava riscos para os operários. SUBSTITUIÇÃO DOS HUMANOS Foi a primeira vez que uma máquina substituiu por completo um ser humano no trabalho. As novas tecnologias que emanaram da Revolução Industrial, como os tratores e as máquinas de ceifar, permitiam reduzir o número de trabalha- dores, mas não os eliminavam por completo, pois tratava-se de dispositivos que tinham de ser conduzidos ou supervisionados por pessoas. Porém, o Unimate não era uma simples máquina: podia encarregar-se de uma tarefa de forma autónoma. No último meio século, o número de robôs a desempenhar algum tipo de trabalho em pro- cessos industriais não parou de crescer. Em 2014, já havia 478 por cada dez mil operários GET T Y As máquinas autónomas saberão reagir ao inesperado SUPER64 cérebro humano faz quando processa os sinais visuais captados pelos olhos. O Wall-B possui várias câmaras e algoritmos de inteligência artificial que lhe permitem processar as imagens e entender o que vê. “As garrafas não se encontram sempre na mesma posição, e chegam geralmente amolgadas e misturadas com outros objetos”, explica Belén Garnica, responsável pelo desenvolvimento de negó- cios da Sadako Technologies. Por isso, o robô teve de aprender a reconhecer as embalagens que procura e a efetuar os movimentos neces- sários para recuperar as garrafas. Os autómatos como o Wall-B acabam por saber o que têm de fazer graças à técnica de treino robótico mais utilizada atualmente: a aprendizagem de máquinas. Consiste em mos- trar-lhes milhares ou milhões de exemplos, até conseguirem inferir um comportamento. “Trata-se de levar o robô a aprender com a experiência, sem ter sido explicitamente programado para isso, e conseguir que o seu conhecimento aumente com cada nova tarefa, objeto ou situação que enfrente”, explica Car- los Balaguer, especialista no tema. ACELERAR A APRENDIZAGEM É assim que funciona, por exemplo, o sistema de reconhecimento de rostos do Facebook. O algoritmo foi exposto a milhões de fotografias que tinham sido previamente etiquetadas à mão por pessoas, as quais assinalavam em cada uma a área da imagem em que se encontrava a cara. Depois, o programa informático examinou-as até Ao trabalho! Os robôs colaborativos, como o Sawyer (aqui, num armazém da DHL) percebem alterações no ambiente e podem adaptar-se. Este tem uma interface que mostra expressões, para ser mais fácil o convívio com os “colegas” humanos. humanos na Coreia do Sul, o que significa que quase cinco por cento da força de trabalho naquele país é composta por esses engenhos. A Coreia do Sul encabeça a classificação, seguida do Japão, com 315 autómatos por dez mil, e da Alemanha, com 292, segundo dados da Fede- ração Internacional de Robótica. Se há tantas máquinas a fabricar veículos e trabalhar com componentes eletrónicos e metais pesados, porque não acontece o mesmo nas lojas, nos hotéis ou mesmo nas nossas casas? Porque será que ainda não podemos ter empre- gados robóticos e androides que façam as tare- fas domésticas? A resposta é que não é fácil, para uma máquina, gerir o desconhecido. TAREFAS REPETITIVAS A maior parte dos robôs industriais desem- penha, geralmente, tarefas repetitivas em que não deparam com situações para as quais não foram preparados. Nas cadeias de montagem, as peças com que trabalham estão sempre no mesmo sítio, têm sempre o mesmo tamanho e são manipuladas da mesma forma. Para apren- der a fazê-lo,o robô precisa de saber onde deve atuar e a que velocidade, assim como as ações concretas que a tarefa exige. É assim que fun- ciona a programação convencional, um pro- cesso rudimentar em que é necessário voltar ao início sempre que se altera um pormenor. “Os robôs possuem o potencial para melhorar a vida das pessoas. Poderiam ajudar os astro- nautas que viajem até Marte, os doentes num hospital ou os trabalhadores nas fábricas”, explica Stefanie Tellex, especialista em ciências da computação na Universidade Brown (Esta- dos Unidos), que estuda a forma como os enge- nhos poderiam comunicar connosco através de uma linguagem natural. A programação clássica permite-lhes desempenhar tarefas, mas não lidar com acidentes, por exemplo. Para isso, teriam de conseguir entender o mundo e tudo o que os rodeia, de modo a poder reagir de forma autónoma em qualquer situação. APRENDER A DISTINGUIR Na indústria do tratamento de resíduos, já existem máquinas especializadas na recupera- ção de garrafas de tereftalato de polietileno (PET), um plástico utilizado no fabrico de emba- lagens. Um exemplo é o Wall-B (que recorda o nome do simpático robô do filme WALL-E), desenvolvido pela Sadako Technologies. O engenho distingue os recipientes PET de todos os outros resíduos através de um sistema de visão artificial que procura reproduzir o que o Interessante 65 conseguir distinguir cada indivíduo com preci- são. Através desta estratégia, os robôs come- çam a adquirir autonomia e uma certa capaci- dade de raciocínio. Todavia, se a ideia é que nos tornem a vida mais fácil, o facto de a sua aprendizagem depender de haver um grande número de pessoas a inves- tir esforço e tempo para rotular milhões de dados não parece muito eficiente. A fim de ace- lerar o processo, uma equipa de investigadores da Universidade de Stanford (Estados Unidos) lançou o projeto RoboBrain, com o objetivo de fazer os robôs aprenderem uns com os outros. O RoboBrain funcionaria como uma espécie de Google para autómatos, que cada máquina poderia consultar em busca de um conheci- mento específico previamente adquirido por outra. Assim, poderia tentar aprender, por exemplo, como agarrar corretamente uma chá- vena pela asa, ou a melhor forma de rodar uma maçaneta para abrir uma porta. Depois de fazer o download desse conhecimento específico e utilizá-lo para resolver o problema que enfrenta, o robô devolve a sua experiência à base de dados RoboBrain. Desse modo, o próximo engenho a utilizar o serviço poderá dispor de ainda mais informação. “Quanto mais dados entrarem, melhor será o rendimento dos robôs”, afirma o especialista em ciências da computação Ashutosh Saxena, responsável pela iniciativa. Na sua opinião, o facto de um robô ter maior ou menor difi- culdade para aprender a fazer algo também depende do contexto. “Se um programador o Disciplinas robóticas A técnica de aprendizagem utiliza-da para treinar os robôs consis- te, essencialmente, em fazê-los extrair por si próprios a informação de que necessitam a partir dos dados que lhes são proporcionados. Há diferen- tes estratégias para o conseguir. Aprendizagem reforçada – Inspira- -se no comportamento condicionado de Ivan Pavlov. Tal como o fisiólogo russo fazia com os cães, a ideia é trei- nar as máquinas com a ajuda de estí- mulos positivos e negativos. O algo- ritmo é programado para maximizar a recompensa. Recebidas as instruções, o software ensina simplesmente a si próprio como desempenhar uma tarefa ou disputar um jogo. O prémio, neste caso, seria vencê-lo. Aprendizagem profunda – Con- siste em imitar o funcionamento do cérebro humano através de redes neuronais artificiais, estruturadas em diferentes camadas: cada uma extrai um tipo de informação que alimenta a seguinte. Trata-se da abordagem que o Facebook utilizou para conceber o software de reconhecimento facial. A primeira camada de ciberneuró- nios obtém dados básicos sobre a imagem, como as cores; a seguinte analisa as formas, e assim por diante até conseguir captar os mais ínfimos pormenores. Árvore de decisões – Baseia-se em criar um esquema através do qual se sucedem as diferentes possibilidades de um cenário e as soluções concre- tas. Funcionaria de forma semelhante ao do manual de respostas utilizado pelas equipas de atendimento ao cliente. Cada situação é associada a uma reação, e o algoritmo navega entre elas, aplicando a lógica para en- contrar a mais adequada. Otimização – É a lei do menor es- forço. Trata-se de treinar o software para resolver da forma mais eficiente possível qualquer problema que surja. O método que utiliza não interessa; o único requisito é que o faça da forma mais fácil. Esta abordagem é utilizada, por exemplo, para os robôs aprende- rem a levantar-se quando caem. Fa- zem-no, essencialmente, do mesmo modo que a mente de um bebé, a qual dedica muito tempo a averiguar como deslocar o corpo e, depois, usa esse conhecimento para planear novos movimentos com maior rapidez. D H L SUPER66 Algumas máquinas já trocam conhecimentos treinar para determinada situação, poderá não funcionar bem se alguma coisa mudar, nem que seja minimamente”, explica Saxena. “Para poder fazer algo aparentemente tão simples como preparar uma omelete, deverá tomar em consideração dezenas de variáveis, como o aspeto e a disposição da cozinha, e não há duas rigorosamente iguais”, diz. TECNOLOGIA EMERGENTE Todavia, se um robô aprender a pegar num ovo sem o partir, a sua experiência poderá servir para outro que precise, por exemplo, de trocar uma lâmpada (claro que ainda terá de aprender como enroscar e desenroscá-la, mas saberá, pelo menos, como pegar-lhe com cuidado). Saxena acredita que esses conhecimentos partilhados irão multiplicar enormemente a capacidade das máquinas, o que se tornará visível em menos de dez anos. O enorme potencial desta estratégia despertou o interesse de muitos especialistas, e foi considerada pelo Instituto Tecnológico do Massachusetts, através da sua publicação MIT Technology Review, uma das dez tecnologias emergentes mais destacadas de 2016. Stefanie Tellex lançou uma iniciativa seme- lhante, o projeto Um Milhão de Objetos. A ideia é que todas as unidades de um tipo concreto de robô, o Baxter, distribuídas por diferentes cadeias de montagem em todo o mundo, par- tilhem os seus conhecimentos e formem uma grande base de dados sobre como trabalhar com peças muito diferentes. IR À ESTANTE E VOLTAR Uma das empresas mais interessadas na capacidade dos robôs para identificar e mani- pular objetos é a Amazon. Nos seus enormes armazéns, milhares de produtos de diferentes formas e tamanhos amontoam-se à espera de serem adquiridos. Quando isso acontece, um operário tem de percorrer as instalações para localizá-los e embalá-los. A companhia, cons- ciente da fraca eficácia do processo e da perda de tempo que acarreta para os funcionários, organizou um concurso para “moços de arma- zém” robóticos. Os engenhos que participa- ram tinham de encontrar, recolher e emba- lar 25 objetos diferentes, desde pacotes de bolachas até patinhos de borracha. Contudo, nenhum dos 31 robôs candidatos conseguiu completar todas as provas com êxito. Por exemplo, os livros de bolso foram um grande problema para a máquina apresentada pela Uni- versidade de Alberta (Canadá), equipada com uma mão de três dedos. Por serem tão finos, a câmara do robô quase não os detetava e, quando o fazia, não conseguia agarrá-los bem. A iniciativa, denominada Amazon Picking Challenge, demonstrou que, por muito sofisti- cado que seja o hardware de um robô, de nada serve se o software que o controla não entender o contexto. “Há robôs incríveis, masnão conse- guem funcionar no máximo das suas capacida- des porque não temos os algoritmos necessá- rios”, diz o neurocientista Demis Hassabis, que lidera o programa de investigação sobre inteli- gência artificial da Google. Em 2010, Hassabis fundou a companhia Deep- Mind, especializada neste tipo de tecnologias, que seria depois adquirida pelo gigante dos motores de busca. Em março passado, o seu sistema AlphaGo, concebido para disputar desafios de go, um milenar jogo de estraté- gia criado na China, derrotou o campeão sul- -coreano Lee Sedol, um dos melhores jogado- res do mundo. Para treinar, a máquina compe- tiu contra si própria milhões de vezes. “Nunca senti que estava em vantagem”, admitiu Sedol após a competição. APRENDER SOZINHO A história recorda a do xadrezista Garry Kas- parov. Em 1997, foi derrotado pelo computador Deep Blue, da IBM. Era a primeira vez que um computador se impunha a um campeão do mundo, nas mesmas condições em que são dis- putados os torneios de xadrez. Porém, a proeza da Google é mais complexa. Um jogador de xadrez tem de lidar com uma média de 35 movi- Interessante 67 mentos possíveis em cada jogada, número que, no caso do go, ascende a 250. “O xadrez é um jogo de cálculo, o go é muito mais complexo; baseia-se, em grande medida, na intuição”, explica Hassabis. O computador da IBM possuía grande potência de cálculo, mas a máquina da Google conseguiu imitar um processo intuitivo. É um avanço espetacular, que os peritos não esperavam nas próximas décadas. Obviamente, o objetivo da Google não é que as máquinas dominem neste tipo de jogos, tal como a Amazon não pretende que um robô seja capaz de agarrar patinhos de borracha. O que este tipo de iniciativas visa é o desenvolvi- mento de uma inteligência artificial capaz de compreender o mundo e enfrentá-lo. No entanto, ainda estamos longe de conse- gui-lo, como demonstram os carros autóno- mos, que a Google também está a desenvolver. Apesar de terem sido preparados para entender os sinais de trânsito, por vezes os veículos não cessam de andar às voltas nas rotundas, porque não sabem sair dali. Algo de semelhante aconte- cia com as primeiras versões do ciberaspirador Roomba quando um animal de estimação lhe subia para cima e tapava acidentalmente a câmara. São apenas dois exemplos que mos- tram os numerosos desafios que a robótica ainda tem pela frente antes de se poder chegar ao que pode ser considerado o maior desafio: o desenvolvimento de robôs-companheiros que convivam connosco, algo que as máquinas ainda têm de aprender. M.A. Plano ético contra os robôs maus C omo poderão os robôs rebelar--se contra a humanidade se ainda não são capazes de limpar a cozinha?”, interrogava-se o ex- -presidente executivo da Google, Eric Schmidt. O antigo CEO da companhia pertence à corrente de investigadores e especialistas em tecnologia que tem consciência de que a inteligência artificial (IA) ainda terá de percorrer um longo caminho antes de poder tornar-se uma ameaça. Contudo, nenhum ne- ga que isso possa ocorrer. “Não nos encontramos perto de algo que nos deva preocupar, nem de longe, mas isso não significa que não chegue- mos a essa situação um dia”, recorda Demis Hassabis, que hoje dirige os programas de IA da Google. O físico Stephen Hawking e Elon Musk, cofundador das companhias SpaceX e Tesla Motors, também alertaram para os possíveis riscos de desenvol- ver a IA. O que aconteceria se uma máquina se tornasse tão inteligente que fosse capaz de conceber e uti- lizar de forma autónoma armas de destruição maciça? O que se passa- ria se uma empresa resolvesse criar uma que fosse deliberadamente má? Em maio passado, as autoridades norte-americanas organizaram uma reunião para analisar eventual legis- lação destinada a assegurar que a IA será segura, controlável e previsível à medida que se torna cada vez mais potente. Por sua vez, Elon Musk, em colaboração com outros pesos pesa- dos do mundo tecnológico, decidiu criar a OpenAI, uma organização sem fins lucrativos destinada ao desenvolvimento de software desse tipo que tenha por objetivo benefi- ciar a humanidade. Os responsáveis pelo projeto irão consagrar mais de 900 milhões de euros à criação de um corpus ético e de conhecimento sobre o tema. Musk tem boas razões para fazê-lo: a condução autónoma, um campo que está a explorar nos seus automóveis cem por cento elétricos, é um dos que mais pro- blemas éticos suscitam. Se os carros chegarem, algum dia, a circular de forma autónoma, poderão ter de enfrentar decisões dramáticas, como escolher entre atropelar uma criança ou deixar que os passageiros sofram um despiste. Precisão. O “cibermoço de recados” criado na Universidade Técnica de Berlim consegue encontrar objetos em prateleiras e levá-los para outro local. LA B O R A T Ó R IO D E R O B Ó T IC A E B IO LO G IA / U N IV E R S ID A D E T É C N IC A D E B E R LI M SUPER68 A Fórmula ELÉTRICA Tecnologia Novo laboratório automóvel A Fórmula E entrou na sua terceira temporada, evoluindo o conceito das corridas com monolugares elétricos, disputadas em circuitos desenhados nas ruas de grandes cidades. Com soluções técnicas inovadoras e uma organização única, quer ser a competição automóvel líder, no mundo digital. 69Interessante A caminho do futuro. Poderá a Fórmula E destronar a Fórmula 1? Só o tempo o dirá, mas a verdade é que o seu futuro parece eletrizante. SUPER70 O primeiro ePrix disputou-se a 1 de setembro de 2014, em Pequim, e desde logo com nomes famosos na grelha de partida, como Senna, Prost e Piquet, neste caso sobrinhos e filhos dos grandes pilotos do passado da Fórmula 1. Porém, a eficiente divulgação da Fórmula E depressa atraiu outros pilotos mais experien- tes, alguns desempregados da F1, e também jovens à procura de um lugar ao sol nas corridas de monolugares. A divulgação deste campeo- nato, quer pelas grandes cadeias de TV, quer pelas redes sociais, arrancou com grande força, chegando a 190 milhões de telespetadores. As grandes marcas de automóveis não podiam ficar indiferentes a este fenómeno e, após um primeiro ano de expectativa, começaram a aderir à disciplina, que neste terceiro ano inclui oito construtores de primeiro plano. As corridas muito disputadas têm sido a melhor promoção de um campeonato que começou de maneira original, com carros iguais fornecidos a todas as equipas, uma maneira de garantir a competitividade e de controlar os custos. Com o passar do tempo, o regulamento técnico foi sendo mais liberal e, este ano, cada equipa pode apresentar o seu conjunto motor/transmissão, suspensão traseira e inver- sor de corrente, mas o chassis de fibra de car- bono e alumínio, fabricado por uma empresa italiana especializada no assunto (Dallara), a bateria, feita pela equipa de F1 da Williams, e o sistema de gestão eletrónica, fornecido por outra equipa de F1, a McLaren, continuam a ser iguais para todos os concorrentes. Também os pneus são iguais para todos, sendo fornecidos pela Michelin, em número de oito para cada equipa usar em cada carro, por corrida, sendo montados em jantes de 18 polegadas, bem maiores do que as de 13” que ainda são usadas na F1. É permitido utilizar dois pneus usados do ePrix anterior. MUITAS ORIGINALIDADES Há mais originalidades na Fórmula E, desde logo os locais das corridas, que se disputam exclusivamente em circuitos não permanentes, com uma extensão que varia entre os 2,5 e os 3,0 quilómetros por volta, e são desenhados nas ruas de algumas das maiores cidades do mundo. Hong-Kong, Marraquexe, Buenos Aires,Cidade do México, Mónaco, Paris, Berlim, Bruxelas, Nova Iorque e Montréal são os palcos para os doze ePrix que se disputarão esta tempo- rada. Para não colidir com o calendário da Fór- mula 1, as corridas da Fórmula E começam em outubro e acabam em julho do ano seguinte, aproveitando grande parte do defeso da F1. Claramente, a maior originalidade do regula- mento e, ao mesmo tempo, o maior ponto fraco do conceito está no facto de todos os pilotos terem de trocar de carro a meio de cada corrida de 50 minutos. Por mais eficiente que seja a bateria, a realidade é que a sua carga não chega para aguentar uma corrida dessa distância, pelo que, sendo impraticável trocar de bateria a meio da corrida (pesa mais de 200 quilos), cada piloto entra na box e salta do carro para outro igual com a bateria carregada, prosseguindo até ao final. É também proibido carregar a bateria durante a qualificação e durante a corrida, o que dificilmente alguém quereria fazer… Claro que está a ser desenvolvida uma bateria que consiga durar uma corrida do princípio ao fim, e essa é mesmo uma condição que algumas marcas de automóveis colocam para se envol- verem neste campeonato. Afinal, se o objetivo número um de qualquer desporto motorizado é publicitar alguma coisa, neste caso a mensa- gem que se quer passar é a das virtudes dos automóveis elétricos, o que cai um pouco pela base com esta contingência. Para a quarta temporada, de 2017/2018, essa questão deverá ficar resolvida. Para já, isso só acontece durante os treinos de qualificação para a corrida, que duram uma hora e em que os carros têm 200 quilowatts (272 cavalos) de potência máxima. Os cinco melhores classifica- dos, no final, têm ainda de fazer uma volta lan- çada a solo que, essa sim, dará a sua posição na grelha de partida. Outra particularidade: à partida para a corrida, não há volta de aqueci- mento, é logo a valer, assim que se apagam os sinais vermelhos. RAINHA DO MUNDO DIGITAL A ambição de tornar a Fórmula E rainha do mundo digital, no que aos desportos motori- zados diz respeito, levou à invenção de outra característica única, o chamado Fanboost. Uma vez que, para a corrida, a potência máxima dos motores está limitada por regulamento a 170 kW (231 cv), a ideia é proporcionar aos três pilo- tos preferidos dos espetadores um acréscimo de 100 quilojoules de energia, equivalente a 30 kW suplementares, durante cinco segundos. Para o obter, o público só tem de votar no seu piloto preferido num período que começa 12 dias antes da corrida e termina seis minutos depois da partida. A votação é feita de forma muito fácil, através do Twitter, e os pilotos premiados só podem usar essa vantagem quando trocarem para o seu segundo carro. Para a terceira tem- porada, o regulamento mudou um pouco e o piloto pode dosear esta potência acrescida, gerindo a relação potência/tempo como enten- der. Por exemplo, em vez de gastar os 100 kJ em cinco segundos a 200 kW, pode descer para os 180 kW e usá-los durante mais tempo. A adesão do público cresceu muito em dois anos Disputa de talentos Originalmente, os carros eram todos iguais, mas, este ano, cada equipa pode apresentar o seu próprio conjunto motor/transmissão, além da suspensão traseira e do inversor de corrente. Tudo o resto é partilhado. Integrada num chassis rígido, a bateria de iões de lítio faz a ligação entre as diversas partes da estrutura. Interessante 71 Para juntar ainda mais o público e os pilotos, no dia 7 de janeiro vai ser feita uma corrida vir- tual em simulador, num circuito especialmente idealizado para o efeito em Las Vegas. Nesse evento único, os vinte pilotos da Fórmula E vão correr juntamente com dez jogadores de simuladores, que estão neste momento a ser apurados em várias fases de qualificação. Claro que, passando-se tudo em Las Vegas, há milhões de dólares em prémios para os melhores pilotos e jogadores. Há mais! A empresa Kinetic está a preparar uma corrida de apoio do programa da Fórmula E disputada com fórmulas sem condutor, a cha- mada Roborace, que pretende demonstrar as possibilidades da condução autónoma em condições de corrida. Vão ser distribuídos dois destes Robocars, que foram desenhados por Daniel Simon (conhecido de filmes como Tron: Legacy, Oblivion e Capitão America) a cada equipa, todos iguais, e depois cabe aos enge- nheiros de cada marca desenvolver os algorit- mos de condução autónoma, parte deles em tempo real, e a inteligência artificial. Para já, está prometido que serão feitas algumas cor- ridas de uma hora integradas em alguns dos doze eventos da Fórmula E. António Félix da Costa, o português que che- gou a ser piloto de testes da equipa Red Bull de Fórmula 1 e que participa há dois anos no cam- peonato alemão de veículos de turismo DTM, também participa na Fórmula E. Segundo declarou ao semanário Autohoje, “toda a com- petição se destina a um público muito dife- rente: aqui, nota-se que são pessoas que se preocupam com o ambiente e que valorizam o facto de os carros não serem poluentes e não fazerem barulho”. Segundo ele, “lá dentro, para os pilotos, é uma corrida como as outras, em que cada um tenta fazer o melhor que pode, mas não ouve nada!”. COMO SE FAZ UM FÓRMULA E Um monolugar de Fórmula E é feito com base numa estrutura monobloco central em fibra de carbono, na qual estão ancorados subsistemas em alumínio. A bateria de 28 kilowatts-hora (equivalente a 300 baterias de computador portátil) é de iões de lítio e é de longe o com- ponente mais volumoso. Está protegida numa caixa de carbono e posicionada ao centro, logo atrás do piloto, onde se encontra o depósito de gasolina num monolugar convencional. Devido ao esforço a que é submetida durante a corrida, gera calor que tem de ser rapidamente dissi- pado, por isso tem um sistema de arrefecimento por líquido com um radiador lateral. Logo atrás da bateria está o motor elétrico, um dos componentes mais pequenos e que, em 2014, quando os monolugares eram rigoro- samente iguais, era o propulsor usado pelo hipercarro McLaren P1. Depois, vinha uma caixa sequencial de cinco velocidades, necessária porque o motor tinha um binário máximo rela- tivamente baixo e era preciso desmultiplicá-lo para ter performances aceitáveis. Na terceira temporada, o tipo de motor e de transmissão passou a ser livre e cada construtor tem a sua ideia do que deverá ser a melhor solução. Uma das tendências é a utilização de motores transversais muito estreitos, o que permite usar dois, lado a lado, e depois ter uma única relação de transmissão. Outras equipas preferem usar apenas um destes motores com duas, três ou quatro velocidades, e alguns ainda A partir deste temporada, cada equipa pode desenvolver o seu próprio motor e a caixa de velocidades. O sistema de proteção dos pilotos é uma imposição da organização. SUPER72 se mantêm fiéis aos motores longitudinais, com caixa de quatro ou cinco velocidades. Dependendo do motor, podem chegar a fazer um máximo de 20 mil rotações por minuto. Quanto a prestações, se bem que não sejam anunciados dados precisos, sabe-se que a velo- cidade máxima ronda os 220 quilómetros por hora e que a aceleração dos 0 aos 100 km/h é feita em cerca de três segundos. Tudo isto por- que a relação peso/potência de um F1 é muito melhor do que a de um Fórmula E: 1,08 kg/cv contra 3,26 kg/cv. FÓRMULA 1 VERSUS FÓRMULA E Hoje em dia, um Fórmula 1 é movido por um sistema híbrido que junta um motor V6 1.6 tur- bocomprimido com um motor elétrico, debi- tando um total de 750 cv, contra os 272 cv do Fórmula E. Tem dois sistemas de recuperação de energia cinética nas travagens, um ligado à cambota e outroà turbina. O peso total é de 691 kg, contra os 888 kg do Fórmula E, 320 dos quais são da responsabilidade do sistema elé- trico. Um F1 acelera dos 0 aos 100 km/h em 2,4 segundos, o Fórmula E precisa de três segun- dos e, quanto à velocidade máxima, estamos a falar de mais de 370 km/h, para um F1, contra os 230 km/h de um Fórmula E. O desenvolvimento de todos os componentes de um Fórmula E está a seguir um ritmo muito acelerado, típico daquilo que acontece na Fór- mula 1, ou não estivessem várias equipas da F1 envolvidas na Fórmula E. Por exemplo, uma das equipas passou a usar uma caixa de velocidades com invólucro em fibra de carbono, enquanto outra decidiu passar a posição da caixa de gestão do sistema para uma zona mais baixa. Como a suspensão traseira é de desenho livre, pois depende do tipo de motor usado, abre-se mais uma área de desenvolvimento. Este ano, estão presentes vinte pilotos ao volante de dez carros diferentes, inscritos por marcas de automóveis como a Audi, a DS, a Faraday, a Jaguar, a Mahindra, a Renault e a Venturi. De entre os nomes mais conhecidos, destacam-se Nelson Piquet Júnior, Sebastien Buemi, Jean-Eric Vergne e Nick Heidfeld, todos com experiência de Fórmula 1, e pilotos oriun- dos de outros campeonatos, como José-Maria Lopes, tricampeão do WTCC, ou Loic Duval, vencedor das 24 Horas de Le Mans. Na primeira temporada, Piquet foi o campeão, a que se seguiu Buemi, que também liderou o campeo- nato deste ano, ao volante do seu Renault. Para garantir que os espetadores se podem divertir mesmo quando não há carros em pista, a organização da Fórmula E monta em cada corrida aquilo a que chama eVillage. Trata-se de um espaço por detrás das boxes a que os por- tadores de bilhetes podem aceder livremente, ao contrário da F1, e onde podem experimentar simuladores, ver exposições de automóveis elé- tricos, ir às sessões de autógrafos dos pilotos, que são obrigatórias para eles, ouvir música de um “EJ” residente e até participar na ceri- mónia do pódio e do champanhe, no final da corrida. AGRADAR AO PÚBLICO Aqui, tudo é feito para agradar aos espe- tadores, desde logo organizando as corridas em locais de fácil acesso e não em zonas distan- tes, como muitas vezes acontece com os autó- dromos convencionais, e incentivando o con- tacto entre o público e os pilotos, que aqui têm forçosamente de ter uma atitude muito mais aberta do que noutras disciplinas motorizadas. As marcas estão a aderir em força à Fórmula E por vários motivos. Em primeiro lugar, por- que é um excelente palco para promover os seus veículos elétricos, se já os têm ou se os vão ter no futuro próximo. É um campeonato “limpo” de emissões poluentes, algo a que qualquer construtor se quererá associar. É também uma boa maneira de estimular o desenvolvimento dos sistemas elétricos aplica- dos aos automóveis, num ambiente de grande competitividade, o que tem sempre o condão de fazer acelerar os processos e de fazer todos os envolvidos dar o seu melhor, o que pode ter repercussões positivas nos automóveis elé- tricos de grande série. Por fim, e pelo menos por enquanto, é um campeonato aberto ao público e sem o peso político que a Fórmula 1 assumiu. Tratando-se de uma competição com a chancela da FIA, tem toda a credibilidade que exige qualquer marca que se queira associar. Se será a anti-F1, do ponto de vista de lhe retirar audiência, para já isso não parece muito provável, mas que o seu crescimento nos últi- mos meses é impressionante, tanto ao nível de envolvimento de marcas como de desen- volvimento técnico, disso não restam dúvidas. É claro que houve o cuidado de não fazer coin- cidir as datas dos dois campeonatos e de levar a Fórmula E a alguns locais onde a F1 não orga- niza corridas, mas não se pode negar que a Fórmula E está a gerar um fenómeno de popu- laridade como não se esperava ainda há ape- nas três anos. Tudo isto com a vantagem de conseguir atrair uma franja de público muito diferente daquele que frequenta as corridas de F1, um público tal- vez menos conhecedor do desporto automóvel tradicional, mas que se interessa pela questão da eletrificação da mobilidade e vê nesta com- petição uma maneira de se divertir sem ter de esquecer questões de consciência ecológica. A médio prazo, a Fórmula E terá capacidade de destronar a F1, junto de um público mais abran- gente? Só o futuro dirá, mas o facto de cada vez mais construtores de automóveis estarem interessados em participar é um sinal muito forte de que a Fórmula E tem um futuro eletri- zante à sua frente. F.M. Já há reservas de construtores para a próxima temporada Na ponta dos dedos. Ao contrário do volante dos Fórmula 1, nos Fórmula E o piloto tem pouco com que se preocupar. Regular a regeneração e gerir a bateria e o Fanboost são os pontos principais. De resto, é estar atento ao que diz o engenheiro através do rádio. 73Interessante Especiais HISTÓRIA PERDEU ALGUMA EDIÇÃO? Novembro 2016 Veja o catálogo completo em http://www.superinteressante.pt/historia e receba em sua casa ou descarregue a versão digital Outubro 2016 Agosto 2016 Julho 2016 Maio 2016 Abril 2016 SUPER74 Flash Interessante 75 Papa-moscas portuguesa Segundo Charles Darwin, muito antes de ser inventado o papel apanha-moscas, já os portugueses penduravam estas plantas nas suas casas para matar os aborrecidos insetos. Os ingleses, aludindo à sua origem lusa, chamam-lhe “portuguese dewy pine”, a comunidade científica conhece-a por Drosophyllum lusitanicum e o povo, inspirado pelas suas gotas brilhantes de mucilagem, que fazem lembrar o orvalho matinal, batizou-a de pinheiro-baboso, orvalho-do-sol e erva-pinheira-orvalhada. É uma das mais raras e peculiares plantas carnívoras e a sua distribuição geográfica encontra-se confinada a Portugal, ao sul de Espanha e ao norte de Marrocos, sendo por isso considerada um endemismo ibero-marroquino. Foto: Jorge Nunes. SUPER76 História O inferno do SOMME Batalha mortífera em 1916 1 de julho de 1916: perto do rio Somme, no norte de França, desenrola-se uma das piores carnificinas de todos os tempos, agravada pela obstinação dos oficiais e pela inexperiência dos soldados britânicos. E R N S T B R O O K S / A G E 77Interessante Sangue, lama e lágrimas Um soldado inglês do 11.º Batalhão do Regimento do Cheshire assoma ao parapeito da trincheira, onde jazem companheiros mortos. SUPER78 Q uando foi colocado em frente ao pelotão de fuzilamento, o soldado Albert Ingham, do 18.º Batalhão do Regimento de Manchester, terá seguramente recordado com pesar o dia em que, juntamente com o seu amigo Alfred Longshaw, se alistara no exército britânico. Em segundos, as balas puseram fim à vida de ambos os milita- res, acusados de deserção, um final que nunca teriam imaginado quando, instigados pelo fer- vor patriótico da época, deixaram para trás as suas vidas como trabalhadores ferroviários. O que sabia este soldado inglês da Grande Guerra? O mesmo que os outros: que era preciso defender o país dos odiosos alemães e que era... uma oportunidade de sair da rotina, conhecer o mundo e viver novas aventuras. Esta ingenui- dade pouco informada, característica do início do século XX, revelar-se-ia fundamental para as potências ocidentais conseguirem engrossar os seus exércitos, arrastando para o massacre gerações inteiras de jovens. Um dos dois blocos em liça na Primeira Guerra Mundial era a Tríplice Aliança, formada pela Itália e pelos impérios alemão e austro- -húngaro, ansiosos por se desforrarem de terem perdido o comboio do colonialismo. Assim, com Inglaterra, França e Rússia coliga- das na TrípliceEntente, só faltava acender o rastilho: o assassínio do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, perpetrado a 28 de junho de 1914 em Sarajevo, iria desencadear uma das guerras mais sangrentas da história, na qual perderam a vida dez milhões de soldados e, pelo menos, vinte milhões de civis. CANÇÕES E ANEDOTAS Nunca Albert poderia imaginar o desastre em que se dispunha a participar quando, juntamente com Alfred e um monte de colegas de trabalho, entoava canções patrióticas e contava anedotas sobre os boches, naqueles dias risonhos da recruta. Risonhos, sim, pois integrava um dos chamados pals battalions (batalhões de cama- radas), formados por voluntários recrutados pela intensa campanha lançada por Horatio Kitchener, secretário de Estado da Guerra britânico, e que juntavam amigos, vizinhos, parentes ou colegas, a fim de estimular o ardor patriótico. Esses jovens formavam um exército inex- periente, com chefias improvisadas devido à pressa em substituir os numerosos militares caídos na frente. Quando atravessavam o canal da Mancha e chegavam aos enlameados campos de batalha do norte de França, deparavam com a verdade: nem grandeza nem glória, apenas horror e morte. Foi o que aconteceu aos solda- dinhos do 18.º batalhão, mas tinham de seguir em frente, como impunham as regras e os vete- ranos. Amedrontados, chegaram, em finais de junho de 1916, à frente que se estabelecera em redor do rio Somme, perto da fronteira francesa com a Bélgica. Nem Albert nem o seu amigo (nem nenhum dos outros) sabiam que o pior estava para vir. Explicações? Poucas. Apenas que os alemães já tinham chegado. Ao ouvir a voz de ataque, deviam avançar e enfrentá-los, a fim de manter ocupada a tropa inimiga para os franceses poderem recuperar Verdun. Portanto... Calma, rapazes, que isto é uma manobra de distração e foi muito bem planeada. Tal era o otimismo antes de um confronto no qual chegariam a No início, a batalha foi descrita como uma manobra de distração A G E Tempestade de fogo. A confusão que caracterizou a batalha, sobretudo no início, está bem patente nesta foto. Um século depois, continuam a recolher-se na zona, todos os anos, 60 toneladas de explosivos. A G E Interessante 79 Sequelas A batalha do Somme e a derrota alemã no final da guerra desen- cadearam no soldado Adolf Hitler a raiva e a obsessão que iriam marcar o seu destino posterior. Sobretudo depois de ter sido ferido numa perna, em Bapaume (França), a 7 de outubro de 1916, o que o forçou a abandonar o exército. Uma lição muito diferen- te foi a retirada da experiência pelo escritor britânico J.R.R. Tolkien, que serviu no 11.º Batalhão de Fuzileiros do Lancanshire. Terá seguramente sobrevivido devido à chamada “febre da trincheira”, que o enviou para o hospital. Estudos aprofundados de O Senhor dos Anéis (1954) demonstram a nítida influência do que viu e viveu na criação das personagens e paisa- gens da obra. Outro livro impregnado do fragor da batalha é Tempestades de Aço (1920), no qual o escritor Ernst Jünger relata o que foi, para ele, uma grande experiência pessoal. Apesar de ser alemão, tinha-se alistado, an- tes da guerra, na Legião Estrangeira francesa, e foi por esse país que lutou heroicamente na batalha do Somme. Quem também ali combateu ao lado dos seus foi o pintor alemão Paul Klee, cujas experiências são narradas nos seus Diários (1898–1918). ser disparados 250 mil projéteis por dia. Foi o pior desastre militar do Reino Unido. Tanto os amigos de Manchester como os outros camaradas, entre os quais se incluíam australianos, canadianos, neozelandeses e de outras nacionalidades da Commonwealth, foram posicionados ao longo de 40 quilómetros de frente, a sul do Somme. Estavam muito perto do inimigo, a norte do rio, separados por uma distância de 300 a 600 metros. Ao ocupar os seus postos, Albert e os outros olharam com receio para as posições ameaçadoras que ocu- pavam as poucas elevações do terreno plano; era evidente que estavam bem fortificadas. Sem o saber, lutariam contra soldados veteranos, dado que a Tríplice Aliança não sofrera tantas baixas até então. Os jovens britânicos troca- vam olhares inquietos, tal como os restantes soldados distribuídos pela extensa trincheira. Acalmaram-se ao recordar o plano traçado: antes da sua intervenção, a artilharia iria mas- sacrar sem piedade as posições alemãs. Tinham sido escavados dez túneis para se poder detonar minas em locais estratégicos. Além disso, tinham o apoio da aviação, que por essa altura já pusera termo à supremacia dos temidos Fokker alemães. Aliás, o próprio comandante-em-chefe das forças britânicas, Douglas Haig, afirmara que, depois da intervenção da artilharia, a vitória estava no papo. A frase era recordada com risos pelos oficiais e pelos veteranos, e o ânimo regressou. Um passeiozinho a caminho da glória! No dia 1 de julho, às 7h20 da manhã, come- çaram as explosões, que terminariam passado dez minutos e pareciam ter fulminado o 2.º Exército alemão, do general Fritz von Below, formado por meio milhão de homens. Às 7h30, depois de um silêncio tenso, foi dada a ordem: “Vamos lá, rapazes, vamos acabar com eles!” Albert e os de Manchester saltaram da trincheira. O FIM DA FANFARRONICE A marcha sobre o inimigo seria integrada pelos 3.º e 4.º exércitos britânicos e por nove corpos do 6.º Exército francês: cerca de 750 mil soldados, no total. Foi como um presságio fatal: nesse primeiro dia, havia na frente quase o mesmo número de efetivos do que os que mor- reriam ao longo da batalha, mesmo após os reforços e as substituições. Nessa altura, ainda estavam inteiros: cada homem carregava um equipamento de 32 quilos e todos marchavam a compasso. Vamos, Alfred! Já vou, Albert! A fanfarronice não tardou a desaparecer: os que vinham atrás viam como os mais adiantados caíam como moscas, e os disparos e as explosões pareciam vir de todos os lados. A confusão tor- nou-se generalizada. O que se passava? Quem disparava assim? Não era suposto os alemães estarem feitos em pedaços? A notícia foi-se espalhando por entre o ruído das detonações e o sangue dos que não cessavam de tombar: a artilharia quase não fizera mossa nos bunkers. Foi erro, excesso de confiança, inépcia dos voluntários, que não tinham fabricado bem as munições? A verdade é que se tornara um massa- cre e ninguém falava. Onde estavam os coman- dantes? Tão assustados e desconcertados como todos os outros, pois eram também inexperien- tes. Um inferno! O soldado Frank Lindley, do 14.º Regimento de York e Lancaster, relatou assim o pavor daquele momento: “Eu ia na primeira fila e já não havia cânticos. Continuávamos a avançar conforme podíamos, mas nem sequer conse- guíamos pensar. O ruído das balas e das bom- bas engolia tudo. Pelo canto do olho, espreitá- vamos os companheiros que sabíamos terem uma pistola para disparar contra aqueles de nós que, atordoados e aterrorizados, se atre- vessem a retroceder.” No entanto, apesar da magnitude do desas- tre, os generais britânicos não se inteiraram da situação até 4 de julho, devido a deficiências A G E Atascados. As chuvas outonais complicaram ainda mais as operações logísticas e a remoção dos feridos. No final, as condições meteorológicas adversas detiveram a ofensiva aliada. SUPER80 0 10 km 1 2 “As tropas de assalto devem ser lançadas a um bom ritmo, em vagas sucessivas.” Era a ordem cheia de otimismo dada pelos generais aliados no primeiro dia da batalha. Contudo, a resistência alemã iria revelar-se muito mais feroz do que tinham previsto: o pesadelo da guerra de trincheiras regressou em força, como acontecera noutros cenários do grande conflito europeu.Durante os quatro meses e meio das hostilidades, as linhas da frente moveram-se lentamente. O último capítulo foi a captura británica de Beaumont-Hamel. JO S É A N T O N IO P E Ñ A S Línha da frente a 1 de julho 3.º Exército, de Allenby 4.º Exército, de Gough A nc re Som me Courcelette Pozières Bazentin Mametz GuillemontMontauban 5.º Exército, de Rawlinson (reserva) 6.º Exército, de Fayolle Segunda e terceira linhas alemãs Linha da frente a 19 de novembro Avanço das tropas aliadas Linha da frente a 14 de setembro Estas valas eram dispostas em degraus para formar duas, três ou mesmo quatro linhas defensivas Para minimizar os danos da metralha, as linhas defensivas eram construídas em ziguezague O fundo era coberto de madeira, para não se pisar lama Entre cada duas trincheiras, havia uma linha de arame farpado, para o caso de o atacante conseguir ultrapassar a primeira A vala tinha duas alturas: uma mais profunda (1), com a altura de um homem, para dar passagem, e outra mais elevada (2), onde estava o parapeito O horror das trincheiras Linha da frente a 14 de julho BAPAUME PÉRONNE ALBERT SEP ARA ÇÃO EN TRE ING LES ES E F RAN CES ES 2.º Exército, de Von Bellow Muito ruído e pouco avanço nas comunicações. Não cessaram de dar ordens para avançar naqueles primeiros dias. Só muito depois do confronto viriam a saber que, só naquela primeira jornada, tinha havido 19 240 mortos, 35 493 feridos, 2152 desapa- recidos e 585 soldados feitos prisioneiros entre os homens de Sua Majes- tade. Era impossível recolher os cadáveres e os pedaços de corpos... Ao horror juntava-se o fedor, que também chegava da retaguarda, onde os hospitais improvisados não tinham mãos a medir. Os tiroteios e as explo- sões não paravam, e as crateras deixadas pelas bombas eram uma arma- dilha fatal devido à lama. Nada se sabia; apenas que tinham de continuar a avançar para esse campo aberto que se transformara num matadouro... A expressão “carne para canhão” parecia inventada para aquela chacina. Entre os dias 3 e 13 de julho, só o 4.º Exército britânico lançou 46 ações ofensivas, que causaram 25 mil baixas nas suas fileiras. Por detrás de seme- lhante calamidade, não estava apenas a eficácia germânica, mas também a confusão. Em muitas ocasiões, o caos tornava-se maior por falta de entendimento entre os generais britânicos, que queriam manter uma pres- são incessante, e os franceses, partidários de recuar para depois desferir o golpe de misericórdia. O resultado seria operações tão nefastas como o confronto em Fromelles, em que morreram 7080 soldados britânicos e australianos, sem que se tivesse ganho qualquer terreno. ATAQUES ININTERRUPTOS Outras ofensivas, sempre sangrentas, conseguiram efetivamente o seu objetivo, como foi o caso da conquista da quinta Mouquet, que os alemães tinham fortificado, após dez dias de combates corpo a corpo. Contudo, ainda se estava em setembro e não começara o pesadelo da lama que as chuvas de outono iriam trazer, transformando os campos de batalha em pântanos, como aconteceu no confronto de Le Transloy, no início de outubro. Albert ia tendo notícia de amigos e companheiros caídos, mas continuaria a obedecer às ininterruptas ordens de ataque nos dias que se seguiram. O contingente alemão teve tempo para se reorganizar, mas os oficiais britânicos (que incluíam alguns aristocratas) cumpriam o plano à risca, cegos pela ambição e fiéis às rigídas normas militares que exigiam manter o brio e não questionar as ordens. Cada vez mais mortos e feridos; novos sol- dados para substituí-los; grandes e pequenas ofensivas, diárias ou sema- nais, de infantaria, cavalaria, artilharia, mas a frente mal se deslocava, e entretanto aproximava-se o inverno. Bazentin, Arras, Longueval, Pozières, a fortaleza Thiepval, Guillemont, a floresta de Delville… Lugares onde os combates foram especialmente Os aliados tinham estratégias opostas Interessante 81 0 10 km 1 2 Direção Canhão de seis libras Escape Torreta de artilharia Na frente da primeira linha, havia várias fileiras de arame farpado, para travar o ataque inimigo Os restos de árvores e as ruínas eram as únicas marcas visíveis num terreno lunar, coberto de lama e crateras. O primeiro tanque da história. A infantaria não conseguia atravessar a terra de ninguém, pelo que se procurou ultrapassar o problema com veículos com lagartas, como o Mark I britânico, que se estreou no Somme. Ficha técnica do Mark 1 Peso: 28 toneladas Velocidade: 4,5 km/h Couraça: 12 mm Tripulação: 8 soldados Armamento: dois canhões de seis libras e três metralhadoras (nos modelos Macho), ou cinco metralhadoras (Fêmea) encarniçados, sobretudo depois de o calor pegajoso de agosto ter ficado para trás e che- gar um outono que parecia mais frio do que nunca. À carnificina própria dos combates, alegadamente bem planificados, juntava-se a mortandade resultante dos constantes erros, como na ocasião em que se anunciou a vitória (não confirmada) da 29.ª Divisão em Beaumont- -Hamel e se enviou para o local o 1.º Regimento de Terranova, que seria totalmente massacrado. No final, o que fora conquistado? Uma insigni- ficância, apesar de os alemães terem criado um vasto sistema de defesa com fortificações (a Linha Hindenburg ou Linha Siegfried), e apesar de os ingleses terem colocado em cena a sua arma secreta: o tanque. Seria a primeira vez que se utilizava na história das guerras, e estreou-se no ataque a Flers-Courcelette, a 15 de setembro. Embora se tratasse de modelos muito lentos e rudimentares (e apesar de apenas 21 dos 49 disponíveis terem conseguido entrar em ação), a verdade é que fizeram mossa nas posições germânicas. Albert e os seus companheiros contempla- riam a chegada desses ogres de metal com espanto e um certo alívio. Talvez, agora, se acabasse a maldita batalha. Terminou, após muito mais violência e sofrimento, a 18 de novembro, não sem que antes houvesse uma última tentativa de Haig para ganhar uma medalha noutro combate sangrento, em redor do rio Ancre. Era o fim de um confronto atroz que faria, em quatro meses e meio, mais de 700 mil vítimas mortais entre as tropas da Entente, e cerca de meio milhão entre os alemães. TRAGÉDIA SEM VENCEDOR Foi uma tragédia em que nem sequer houve um vencedor claro. Contudo, teria consequên- cias posteriores, pois, no pavoroso desgaste das trincheiras, o exército alemão perdeu os seus homens mais experientes (38 mil foram feitos prisioneiros), pelo que teria de substituí- -los, à semelhança do britânico, por voluntários inexperientes. Desse modo, gerações inteiras de jovens europeus desapareceriam nos quatro anos que durou a Primeira Guerra Mundial. Antes de terminar a batalha do Somme, Albert Ingham, de 24 anos, e o seu amigo Alfred Long- shaw, de 21, já se tinham apercebido da inuti- lidade dessa monstruosidade que lhes tocara viver e de como fora ingénuo o sentimento nacionalista que os levara até ali. A 5 de outu- bro, decidiram desertar. Com roupas civis e viajando de noite, chegaram à cidade portuária francesa de Dieppe, onde conseguiram embar- car no Belleville, um navio sueco que os trans- portaria até Inglaterra. Infelizmente, foram localizados por um guarda militar e devolvidos à frente, onde um tribunal marcial os condenou à morte por fuzilamento, o mesmo destino de outros 384 soldados britânicos, pelo menos que se saiba, pois tais condenações eram mantidas em segredo. O pai de Albert soube a verdade pela boca dos companheiros de trincheirado filho, e foi a França para localizar o seu túmulo. Encontrou-o no cemitério de Bailleulmont, onde fora enter- rado ao lado do amigo. Então, decidiu mandar colocar uma lápide com a seguinte inscrição: “Soldado A. Ingham. 1 de dezembro de 1916. Fuzilado ao amanhecer. Um dos primeiros a alistar-se. Digno filho do seu pai”. M.M. Tecnologia de ponta. As armas químicas e as metralhadoras, montadas sobre tripés, foram duas novidades da Primeira Guerra Mundial. A G E SUPER82 No trilho do LOBO Fotografia Quatro anos de trabalho 83Interessante No seu novo livro, o fotógrafo de natureza João Cosme pretendeu retratar a vida dos lobos em estado selvagem e o habitat em que se movem. Nestas páginas, mostramos-lhe algumas das imagens que integram a obra. SUPER84 Interessante 85 Acossados. A longa história de convivência entre o homem e o lobo ensinou os bichos a manterem-se atentos. Ao menor sinal, fogem para local seguro. SUPER86 Presas. O lobo alimenta-se de outros mamíferos selvagens, só raramente se aventurando a cruzar-se com o homem. Entre as suas presas naturais em Portugal, contam-se o veado (nesta foto) e o corço (em baixo). Interessante 87 Espera. Só uma em cada vinte saídas para o campo resultam em avistamento. Cada uma das fotos do livro foi obtida graças a muita paciência e ao estudo antecipado dos hábitos dos animais. N uma noite fria, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ouvi pela primeira vez os uivos de uma alcateia em estado selvagem. Um som arre- piante e inesquecível. Na manhã seguinte, antes de nascer o sol, dirigi-me para o local com a esperança de observar este magnífico preda- dor. Após algumas horas de espera, de binó- culos em punho, dois lobos dirigiam-se para um vale repleto de vegetação onde, provavel- mente, iriam passar as horas de maior calor. Foi a primeira vez que vi este animal em plena liberdade. Fiquei emocionado, pois estava ciente de que ter um contacto visual com esta espécie, em plena natureza, em Portugal, não era fácil. Quando iniciei este projeto, sabia das enor- mes dificuldades que iria encontrar com um dos mamíferos mais esquivos e míticos da nossa fauna. Apesar de ser um grande desafio, sempre acreditei que seria possível. Foi um processo de superação e de autoexigência que, em alguns casos, se verificou muito duro. Uma das dificuldades era conseguir imagens com diver- sidade que representassem toda a beleza ine- quívoca deste predador. Durante quatro anos, visitei algumas regiões do país para trabalhar fotograficamente esta espécie. Foi necessário fazer um estudo prévio das deslocações e dos trilhos que a alcateia fazia com regularidade. Passei inúmeras horas de espera em abrigos camuflados e, muitas vezes, o clima rigoroso dificultava todo o processo. O trabalho de um fotógrafo de natureza parece algo fácil quando vemos o resultado final, mas engana-se quem pensa assim. Na maior parte das saídas de campo, o resultado é negativo. Neste meu projeto, mais de 95% das saídas de campo foram um fracasso, sem qualquer imagem da espécie alvo. Passados estes anos, considero-me um privilegiado por ter conseguido dezenas de imagens de lobos, quer de crias quer de adultos, todas em estado selvagem, em Portugal. Procurei abordar vários temas, sempre com o cuidado de ter imagens com algum impacto. Achei necessário fazer uma abordagem não só com o protagonista deste livro, mas também com o que o rodeia, desde as suas presas ao habitat e outros seres vivos que coabitam no mesmo ambiente. Espero dar continuidade a este projeto, com outro conceito, em que o lobo será, mais uma vez, uma espécie fundamental a retratar. As criaturas selvagens e os espaços natu- rais representam a esperança de um planeta mais equilibrado. Através das imagens deste livro, espero conseguir passar uma mensagem de respeito para com os outros seres vivos e, assim, ajudar a sua conservação. Este é e será sempre o meu objetivo como fotógrafo de natureza e da vida selvagem. J.C. SUPER88 O regresso dos POMBAIS Ambiente Animais nocivos ou amigos? FO T O S : J O R G E N U N E S Fala-se em pombos e pensa-se de imediato em pragas urbanas que podem causar vários problemas ambientais e de saúde pública. Porém, em Trás-os-Montes, estas aves são vistas com outros olhos: complementam a atividade agropecuária, auxiliam na conservação da natureza e mantêm viva a herança cultural. pouco mais de meia centena, maioritariamente idosos, lá vivem em permanência. No entanto, a população aumenta durante os meses de verão, com o regresso a casa dos filhos e netos emigrantes. Estranhamente, este lugarejo, totalmente afastado das rotas turísticas nacio- nais, recebe também dezenas de jovens oriun- dos de países europeus e asiáticos, tornando-se um lugar cosmopolita, onde se cruzam hábitos e linguajares muito diferentes. O que leva tantas pessoas a viajar milhares de quilómetros para visitar Uva? A resposta, por incrível que pareça, é simples: os pombais tra- dicionais. Afinal, esta povoação transmontana possui a maior concentração de columbários do país, totalizando 44 estruturas destinadas à criação de pombos. ALDEIA DOS POMBAIS Desde tempos imemoriais que as pessoas de Uva vivem sobretudo da agricultura, como o cultivo de trigo, centeio, aveia, milho e batata, e da pecuária, tanto de gado bovino como ovino. No entanto, também se afeiçoaram de tal forma aos pombos que não pararam de construir estruturas adequadas ao seu acolhimento. Assim, não é de estranhar que Uva seja conhe- cida, atualmente, como “aldeia dos pombais”. Porém, não se pense que os palombares, denominação dos pombais em língua mirandesa (reconhecida como língua oficial em 1999), são A palavra “Uva” diz-lhe alguma coisa? Com certeza, pensou no fruto da videira, utilizado frequentemente como sobremesa ou para produzir preciosos néctares, como o vinho do Porto. Reparou, no entanto, que foi escrita com maiúscula inicial? Neste caso, não se trata de um nome comum, mas de um nome próprio toponímico, que se refere a uma aldeia, loca- lizada no concelho transmontano do Vimioso. O mais curioso, porém, é que o saboroso topónimo de Uva parece nada ter a ver com grandes vinhedos, que realmente não existem nem nunca terão existido na região, mas ser oriundo da palavra “huba”, que correspondia, em português arcaico, a um casal ou pequena quinta, formado por uma casa e campos, onde vivia uma família rústica. Esta é a interpretação de vários investigadores, como o arqueólogo e historiador Francisco Manuel Alves, mais conhecido como abade de Baçal, que registou: “No Censo da população de Trallos Montes feito em 1530 aparece esta povoação com 28 mora- dores [leia-se “28 fogos”, a que deviam corres- ponder cerca de 70 a 80 habitantes, de acordo com os cálculos que habitualmente se fazem para estas situações e para a época], a fazer parte do termo da vila de Algoso e escrita Huva.” Volvidos quase quinhentos anos, Uva con- tinua a ser uma pequena aldeia, onde estão registados apenas 172 habitantes, dos quais só Revitalização. Após décadas de abandono e destruição, a partir de 1997 os pombais foram sujeitos a um programa de recuperação, conservação e revitalização. Nos últimos anos, essa ação tem sido coordenada pela Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural. 89Interessante SUPER90 um exclusivo de Uva ou sequer do concelho do Vimioso, pois existem em quase todo o território do nordeste de Trás-os-Montes, coincidindo, sensivelmente, com os limites do distrito de Bragança, e da Beira Alta raiana, sobretudo na zona norte do distrito da Guarda, totalizando3450 edificações. Nestas regiões, a criação de pombos e a construção de columbários sempre foi uma prática comum desde épocas remotas: os mais antigos que ainda existem foram construídos em meados do século XIX, tendo a grande maioria sido edificada na primeira metade do século XX. Antigamente, os pombais eram uma tradição arreigada, uma vez que proporcionavam um complemento importante à atividade agro- pecuária dos seus proprietários. Além de con- tribuírem para a produção de carne, uma vez que os borrachos (pombos jovens) constituíam uma fonte alimentar muito apreciada (tal como os estorninhos, que também ocupavam os pom- bais durante o inverno), produziam grandes quantidades de estrume de elevada qualidade, o pombinho. Este fertilizante orgânico era utili- zado principalmente nas culturas agrícolas adja- centes aos pombais, como é o caso das hortas e dos amendoais e olivais. Tudo isto a troco de quase nada: bastava que os donos disponi- bilizassem regularmente alimento (algumas sementes que as aves complementavam com outras recolhidas na natureza, bem como insetos, vermes e frutos). Os pombais tradicionais da Beira Alta e de Trás-os-Montes, construídos, geralmente, no termo das aldeias ou em montes remotos, são únicos no país. Do ponto de vista arquitetónico, são construções com diversas formas e dimen- sões e paredes caiadas de branco, nas quais existem inúmeras cavidades que permitem locais seguros de nidificação para a variedade doméstica de pombo-das-rochas. Embora mui- tas dessas rústicas torres de pedra continuem a salpicar a paisagem rural da raia nordestina e chamem a atenção dos viandantes, que as con- fundem, amiúde, com moinhos de vento, têm sido vítimas de abandono generalizado, acom- panhando o êxodo rural verificado um pouco por toda a região. De modo a contrariar esta tendência, o Parque Natural do Douro Internacional, onde existem 650 columbários tradicionais inventariados, levou a cabo um programa para a sua recupe- ração, conservação e revitalização, entre 1997 e 2000. No sentido de lhe dar continuidade, evitando que voltassem a degradar-se rapida- mente por falta de uso e de manutenção, dei- tando assim a perder todo o investimento feito, incentivou alguns donos a criarem uma asso- ciação que ficasse responsável pela gestão dos cerca de 60 pombais reabilitados. Foi assim que nasceu a Associação de Proprietários de Pombais do Nordeste, com a sigla Palombar (http://www.palombar.pt). A entidade sem fins lucrativos teria ainda como objetivo valori- zar as construções, alertando para o seu valor patrimonial e incentivando à sua recuperação, mas também trabalhar diretamente com os seus proprietários no sentido de os sensibilizar e apoiar a manterem-nas ativas. Com esse pro- pósito, foi criado um sistema de apoio finan- ceiro para a realização de obras de restauro, apoio técnico a ações de repovoamento e inventariação do património columbino, que decorreu entre 2001 e 2004, no nordeste do país e no distrito da Guarda. Teresa Nóvoa, atual presidente da Palombar, revela-nos que, de facto, nos anos seguintes, foram vários os pombais recuperados e manti- dos pela associação, mas a sua ação foi-se alar- gando, tendo acabado por extravasar as cons- truções que motivaram a sua criação, o que levou mesmo à alteração do seu nome para Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e à mudança da sua sede de Vila Chã (Miranda do Douro) para... Uva. FUNÇÃO ECOLÓGICA Em pleno século XXI, quando os borrachos já não são essenciais para matar a fome, embora continuem a ser apreciados como petisco gas- tronómico, e o pombinho já não é vital para adubar os terrenos depauperados, apesar das Os pombais eram complemento da atividade agropecuária Atração turística. Uva possui a maior concentração de columbários do país, totalizando 44 estruturas destinadas à criação de pombos. Interessante 91 existindo também características que se repetem em quase todos os columbários tradicionais, independentemente da região onde tenham sido edificados. Assim, é habitual encontrar no chão, no centro do pombal, mesas, geralmente circulares, feitas de pedra maciça, nas quais era depositado o cereal nos perío- dos de maior escassez de alimento. Além disso, as paredes interiores, edificadas em alvenaria de xisto ou granito miúdo, consoante a matéria-prima existente em cada lugar, mostram a terra argilosa usa- da como ligante e o reboco de argamassa de cal que tapa todas as fissuras entre as pedras, isolando assim o interior do frio e da humidade. De modo a aumentar a impermeabilização das construções e proteger o reboco, era adicionada à arga- massa uma gordura animal, usualmente de cabra. As paredes interiores encon- tram-se repletas de cavidades em toda a sua extensão, geralmente conhecidas por “buracas”, onde os pombos se abrigam e nidificam. Também é habitual encon- trar pedras salientes, que tanto servem para o poiso das aves como para facilitar o acesso dos proprietários aos ninhos, com o intuito de recolher os borrachos. Olhando para cima, vê-se o telhado. As vigas principais, apoiadas nas paredes, eram feitas em madeira da região, como olmo, carvalho, freixo ou zimbro. Nelas assentavam os caibros, mais longos e grossos, e nestes, por sua vez, as ripas. Teresa Nóvoa e Nuno Martins recor- dam que, “na zona de Bragança e Vi- nhais, alguns telhados eram encimados por lajes de xisto; no entanto, o mais comum era usar-se a telha de canudo ou telha portuguesa, também ela produzida localmente”. Radiografia de um pombal A s habitações dos pombos, tal como as casas das pessoas, não são todas iguais. Na verdade, conhecem-se quatro tipologias diferentes no Nordeste portu- guês. Na Terra Fria Transmontana, que inclui os concelhos raianos de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro e Mogadouro, onde se verifica maior precipitação e temperaturas mais baixas durante o inverno, são mais comuns os pombais com plantas em ferradura e circulares, com telhados de uma água. Na Beira Alta e na Terra Quente Trans- montana, que inclui os concelhos de Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Macedo de Cavaleiros, Mirandela e Vila Flor, onde existe escassa precipitação e amenas temperaturas invernais, surgem, sobretudo, as construções com planta quadrada e planta circular com telhado cónico. Estes últimos, devido à sua im- plantação em zonas escarpadas ou sobre os fraguedos, são confundidos, amiúde, com moinhos de vento. Qualquer que seja a sua arquitetura exterior, é possí- vel encontrar características comuns à grande maioria dos pombais, o que de- monstra que, de facto, a funcionalidade foi o pilar da sua conceção, lembram Teresa Nóvoa e Nuno Martins, técnicos da Palombar. Os atributos idênticos incluem, por exemplo, a orientação a sul, a edificação com xisto ou granito, as paredes exteriores rebocadas e caiadas, as portas pequenas e colocadas a cerca de um metro do chão, as saídas de voo com cerca de 12 centímetros, localizadas perto do telhado e direcionadas para o lado em que o terreno apresenta maior inclinação, e a existência de beirais em pedra sob as saídas de voo ou a toda a volta da construção. Como seria de esperar, nenhuma destas características arquitetónicas é obra do acaso, mas, pelo contrário, tem um objetivo concreto que visa melhorar as condições de vida das aves, assegurando a sua sobrevivência e aumentando a sua produtividade. A orientação a sul, por exemplo, pretende maximizar a exposição solar, permitindo que os pombos façam do seu telhado um poiso soalheiro e seguro. A segurança também é assegurada pelo exterior re- bocado e caiado e pela existência de um beiral em pedra, uma vez que criam uma superfície lisa e uma barreirafísica que impedem a subida de predadores terres- tres. Além disso, a cal também funciona como desinfetante, que ajuda a regular o estado sanitário do pombal, e o beiral pétreo facilita o poiso e permite uma rápida entrada e saída das aves. Para minimizar o ataque de predadores vindos do céu (aves de rapina), as saídas de voo têm a medida exata para que apenas os pombos consigam entrar e encontram-se direcionadas para o lado em que o terreno apresenta maior inclinação: isto não só evita a entrada de inimigos como possibilita um voo mais rápido e desimpedido de obstáculos. Os pombais de uma água, típicos da Terra Fria Transmontana, apresentam ainda, na sua maioria, um pequeno muro elevado acima do telhado que funciona como corta-vento, permitindo assim que os pombos estejam abrigados no exterior. Todavia, as suas peculiaridades construtivas não se ficam por aqui: são comummente encimados por pináculos de quartzo que serviriam, acima de tudo, um propósito estético, mas que cumpririam também a função de engodo, ou seja, no ato da caçada, as aves preda- doras não distinguiriam os pombos dos pináculos e, ao investirem nestes últimos por engano, dariam uma oportunidade de fuga às verdadeiras presas, revelam Teresa Nóvoa e Nuno Martins. Os técnicos da Palombar também levantam o véu sobre as pequenas portas, que mais parecem janelas, nomeadamente sobre a sua colocação a cerca de um metro do solo. As suas reduzi- das dimensões visam impedir a entrada de predadores e poupar madeira, enquanto a sua localização alteada permite a acumula- ção de estrume (pombinho), sem que isso impeça o funcionamento da porta e o aces- so ao interior do columbário. Concluída a vistoria exterior aos pombais, é chegada a hora de abrir a porta e de espreitar o inte- rior, onde os pombos se refugiam, nidificam e criam as suas proles. Se por fora nada é deixado ao acaso, por dentro muito menos, Qualquer que seja a sua arquitetura exterior, é possível encontrar características comuns à maioria dos pombais, o que demonstra que a funcionalidade foi o pilar da sua conceção. SUPER92 suas reconhecidas propriedades como fertili- zante orgânico, a Palombar “decidiu apostar na recuperação da função ecológica dos pom- bais tradicionais, o que exige uma intervenção mais abrangente ao nível da manutenção dos ecossistemas”, destaca Teresa Nóvoa. Assim, nos últimos anos, a intervenção da associação tem ocorrido, sobretudo, nos pombais localizados dentro do território de aves de rapina cuja presença em Portugal está ameaçada, como as águias-reais e as águias de Bonelli, podendo servir igualmente para revi- talizar as populações de falcões-peregrinos, açores e gaviões, entre outras aves de presa. O objetivo de incrementar as populações columbófilas e de outras espécies que lhes estão associadas, como estorninhos e pardais, é aumentar a disponibilidade de presas, sobre- tudo durante a época de nidificação das aves de rapina, de modo a colmatar a escassez de ali- mento natural, uma vez que os bandos selva- gens de pombo-das-rochas são cada vez mais raros. Nesse sentido, após a recuperação e o repovoamento dos antigos columbários, sobretudo os que se localizam nas margens escarpadas dos rios Douro, Sabor e seus afluen- tes, procede-se ao seu abastecimento regular com cereal (trigo) ou fomenta-se o cultivo dos campos cerealíferos ao seu redor, adubados com o pombinho. Deste modo, não só se con- tribui para a preservação da natureza como se restituem as práticas agrícolas típicas. Além de se ter passado a olhar para os pom- bos e para os pombais com outros olhos, Teresa Nóvoa salienta que também se evoluiu no pro- cesso de recuperação dos edifícios arruinados: “Enquanto, num primeiro momento, os pom- bais eram reconstruídos sem olhar aos materiais e às técnicas de construção, nos últimos anos estes aspetos têm sido acautelados. Foi-se tor- nando claro que não eram apenas os pombais que estavam a ficar em ruínas, mas também o conhecimento relativo à sua construção. Além do património construído, também estava em risco o património imaterial a ele associado.” Nuno Martins, estudioso e divulgador da arquitetura vernacular do Nordeste e técnico da Palombar há 15 anos, explica que, nos últi- mos tempos, “passaram a ser exclusivamente utilizados materiais e técnicas tradicionais de construção, no sentido de recuperar e dar con- tinuidade a esse conjunto de saberes que, por ser tão específico, é particularmente vulnerá- vel”. Além disso, “esta abordagem é mais sus- tentável do que a anterior, já que quase todos os materiais são locais e naturais”. O preço a pagar é que esta é uma solução mais trabalhosa, sendo já poucos os construtores que conhecem as técnicas tradicionais. Assim, a Palombar tem tido um papel ativo na recupera- ção e transmissão destes conhecimentos, não só a profissionais, mas também a jovens interes- sados em aprender. Aqui chegados, percebe- -se melhor a razão por que a pequena aldeia transmontana de Uva se enche de visitantes estivais, oriundos dos quatro cantos do mundo, que chegam com vontade de, literalmente, pôr as mãos na massa. A revitalização das técnicas de construção tradicionais usadas nos pombais acabou por inspirar a intervenção da Palombar noutras construções rurais, como os moinhos de água, os fornos de pão tradicionais e até uma forja, onde outrora se trabalhava o ferro forjado. Também têm promovido intervenções em muros de pedra, característicos da paisagem do Nordeste, que são usados para separar pro- priedades, marcar caminhos ou suster terras em zonas com acentuado declive. Além destas importantes funções humanas, também cum- prem outras, ecológicas, “uma vez que servem de abrigo a diferentes espécies de insetos, rép- teis e anfíbios, contribuindo para o aumento da biodiversidade, e provando, uma vez mais, a utilidade de aliar a conservação da arquitetura vernacular à preservação da natureza”, diz Nuno Martins. Assim, na atualidade, a Palombar tem como principais objetivos a conservação dos ecos- sistemas agrícolas, florestais e selvagens, bem como a preservação do património edificado e das técnicas tradicionais de construção. O seu lema é “investigar, experimentar e divulgar”, de modo a que o conhecimento empírico e científico adquirido não se perca, mas possa ser usado e rentabilizado, tanto por especialistas (arquitetos, engenheiros agrícolas e florestais, biólogos, etc.) como por pessoas sem formação académica superior, como construtores civis, agricultores, trabalhadores rurais, etc. DESENVOLVIMENTO DO INTERIOR Com a sua missão de preservar o património natural e construído, dando-lhe continuidade pela conservação dos recursos e pela transmis- são do conhecimento, através de uma abor- dagem pedagógica e de cooperação que se pretende que resulte no enriquecimento dos indivíduos e na dinamização do mundo rural, a Palombar tem-se constituído como um polo de dinamização do interior do nordeste trans- montano, atraindo inúmeros curiosos e espe- cialistas até à região. A maioria das pessoas vai apenas durante alguns dias, para participar em encontros, seminários, palestras, oficinas, cursos, inter- câmbios, campos de trabalho, etc. Para ilustrar o que acaba de ser dito, olhemos, com brevi- Sem velas. Alguns columbários têm planta circular e telhado cónico. Devido à sua implantação em zonas escarpadas ou sobre os fraguedos, são muitas vezes confundidos com moinhos de vento. Os pombos alimentam várias rapinas em risco Interessante 93 Praga urbana O apreço pelos pombos nas aldeias rurais de Trás-os-Montes e da Beira Alta raiana pode parecer algo estra- nho aos olhos dos residentes citadinos, onde estes seres emplumados são vistos, geralmente, comovizinhos indesejáveis. Os pombos prosperam nas cidades, tornando-se, muitas vezes, “pragas urba- nas”, porque existe grande quantidade de alimentos disponíveis, desde os resí- duos provenientes da atividade humana até à alimentação oferecida pelas pessoas de forma pontual ou permanente. Além disso, quase não têm predadores, como as aves de rapina, que costumam ser os seus principais caçadores em ambien- tes naturais. Como se não bastasse, os espaços citadinos oferecem inúmeros abrigos onde as aves se protegem das intempéries e nidificam. Para não serem importunadas, instalam-se, geralmente, em locais altos, como telhados, beirais, peitoris de janelas, orifícios nas paredes, campanários de igrejas, equipamentos de ar condicionado, etc. As passeatas que os pombos fazem ao nível do solo ser- vem sobretudo para procurar alimento, que inclui sementes e sobras alimentares humanas (deitadas ao lixo ou colocadas intencionalmente). Quanto maior for a disponibilidade de alimento, maior será a quantidade de aves e, concomitan- temente, de descendentes produzidos pelas mesmas: cada casal pode ter cinco ou seis ninhadas por ano, cada uma com até dois filhotes, e um bando de pombos citadinos não controlado pode duplicar de tamanho a cada ano! Os pombos das cidades, sobretudo quando têm efetivos populacionais elevados, podem causar diversos problemas ambientais e de saú- de pública. É habitual provocarem a con- taminação do ambiente por bactérias, fungos e parasitas, que podem transmitir várias doenças aos humanos. Sem espaço nem tempo para nos referirmos a todas, deixamos apenas alguns exemplos, como a salmonelose (intoxicação alimentar que se caracteriza por vómitos, diarreia, febre e dores abdominais) e a ornitose (cujos sintomas são vómitos, diarreia e problemas pulmonares). Também é im- portante lembrar os parasitas, como, por exemplo, os piolhos, os percevejos e os ácaros, que infestam tanto as aves como os seus ninhos e abrigos e as casas e apar- tamentos que se localizam nas proximi- dades. Estes podem fomentar problemas respiratórios e alérgicos, como a rinite, a asma ou a bronquite. As fezes dos pom- bos também provocam, habitualmente, danos materiais avultados. Isto acontece porque são ácidas e, além de sujarem os prédios e as ruas, danificam as pinturas e corroem as rochas e as superfícies me- tálicas usadas na construção de edifícios e monumentos. Além disso, provocam o entupimento de caleiras, telhados e condutas de ventilação e contribuem para a proliferação de ratos, baratas e moscas. Se pensarmos que cada pombo produz cerca de 2,5 quilos de fezes por ano, podemos ter uma ideia mais exata da dimensão do problema. Conscientes destas graves consequências, diversas autarquias têm vindo a sensibilizar os seus munícipes para a necessidade de colaborarem no controlo destas pragas aladas. Assim, recomendam que não se alimente os pombos e que se evite dei- xar comida ao seu alcance; que se tape o acesso a caleiras e outras aberturas nos telhados e terraços, aplicando rede metálica; que se bloqueiem todos os in- terstícios, fissuras ou buracos em que os pombos se possam instalar, usando, por exemplo, madeira prensada, outro mate- rial sólido e leve ou arame de galinheiro enrolado; que se destruam regularmente os materiais de nidificação e ovos que sejam encontrados; que se façam espan- talhos artesanais, usando, por exemplo, garrafas plásticas vazias, latas e tiras de alumínio (estes devem ser substituídos regularmente, para evitar a habituação das aves); que se perturbe amiúde os pombos, enxotando-os para fora dos seus poleiros. Recorde-se que estas medidas não deverão afetar, de modo algum, a segurança das pessoas, pelo que os materiais devem estar firmemente fixados para evitar acidentes. Em alguns casos, pode ser necessário contactar a administração do condomínio ou reque- rer uma autorização municipal (o ideal será informar-se junto do seu município sobre a melhor forma de atuar). dade, para algumas das atividades realizadas pela Palombar no segundo semestre de 2016: Intercâmbio Internacional “BaSuF – Building a Sustainable Future”, 4.º Encontro de Arquite- tura Tradicional e Sustentabilidade, 44.º Campo de Trabalho Voluntário Internacional: Cons- trução de Alimentador de Aves Necrófagas, 45.º Campo de Trabalho Voluntário Internacio- nal: Reconstrução de Pombais Tradicionais, Ofi- cina de Rebocos de Terra e Cal, 46.º Campo de Trabalho Voluntário Internacional: Prospeção e Escavação Arqueológica no Castro de São João das Arribas e Encontro Leguminosas, da Terra à Mesa – Perspetivas Multidisciplinares, entre outras. Sem tempo nem espaço para abordar todas estas atividades, que envolvem, sobretudo, troca de experiências internacionais, espreita- mos apenas algumas das mais curiosas, como o Intercâmbio Internacional BaSuF, que envol- veu três entidades europeias: a Dala Founda- tion, da Roménia, a Grada Dragodid, da Croá- cia, e a Union Rempart, que congrega 170 asso- ciações francesas de salvaguarda e restauro do património. Durante 15 dias, 23 jovens rome- nos, croatas, franceses e portugueses junta- ram-se em Uva para partilhar as técnicas tradi- cionais de construção dos seus países, não só na teoria, mas também na prática. Também com o intuito de pôr as mãos na massa, reuniram-se na aldeia transmontana, Os pombos prosperam nas cidades porque existe grande quantidade de alimentos disponíveis. SUPER94 nomeadamente através da distribuição gratuita de dispositivos espanta-pássaros e de redes de exclusão. Ao contrário dos primos pombos, que trajam de cinzento, as rolas vestem-se, sobretudo, de tons acastanhos, sendo também de menores dimensões. Estas encontram- -se representadas em território luso pela rola-brava (Streptopelia turtur), também chamada “rola-comum”, e pela rola- -turca (S. decaoto), também conhecida por “rola-de-colar”, devido ao meio- -colar preto que ostenta na parte poste- rior do pescoço. A rola-brava é a mais pequena representante da família dos columbídeos em Portugal, atingindo, no máximo, 27 cm de comprimento. Visita- -nos apenas na primavera e no verão, uma vez que passa o inverno em África, e é uma espécie migradora de longa distância, que pode percorrer mais de dez mil quilómetros. Apresenta a parte superior do corpo malhada de laranja e preto, o abdómen claro e a parte inferior das asas muito escura. Esta espécie foi eleita pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves como Ave do Ano em 2012, porque tem tido um decréscimo acentuado em Portugal e na maior par- te dos países europeus: as populações europeias desta espécie diminuíram em média 69 por cento entre 1980 e 2009. Em Portugal, em apenas seis anos, entre 2004 e 2010, as populações nacionais registaram uma diminuição média de 31%. Entre as causas para o decréscimo populacional contam-se a caça exces- siva, a perda e a degradação do habitat de reprodução, desde a destruição de sebes e linhas de água, a simplificação do mosaico agrícola e florestal e a expansão de monoculturas até ao uso intensivo de fitofármacos agrícolas. A rola-turca, originária da Ásia, é uma espécie exótica, que se instalou no nosso país em 1974, tendo-se expandido com espantosa rapidez: na atualidade, encontra-se com facilidade do Minho ao Algarve, sendo mais abundante do que a espécie nativa, a rola-brava. Esta ave tem a plumagem castanha-creme, com cinzento nas asas. Em voo, a cauda mostra uma barra es- branquiçada na parte inferior, que é in- terrompida no centro pelos tons acasta- nhados da restante plumagem. Nidifica ao longo de todo o ano, em árvores ou em arbustos, e os seus ninhos toscos são constituídos unicamente por um aglo- merado de pequenos ramos secos. Pombos e parentesT odos conhecemos bem os pombos domésticos, muito vulgares nas aldeias, vilas e cidades do país. No en- tanto, no território nacional e em estado selvagem, podemos encontrar parentes próximos, pertencentes à mesma família (os columbídeos), que inclui quatro espécies de pombos e duas de rolas. De um modo geral, os columbídeos caracte- rizam-se por terem um tamanho médio (aproximadamente 30 centímetros de comprimento e cerca de 70 de enver- gadura) e um peso que ronda os 350 gramas. Apresentam a cabeça pequena, o pescoço curto, as asas pontiagudas e a cauda comprida, o que lhes permite um voo rápido e resistente. Alimentam-se sobretudo de sementes, que apanham no solo, e bebem, geralmente, com o bico totalmente mergulhado na água, o que não acontece com outras aves, que costumam encher o bico e depois inclinar a cabeça para trás para engolir. Outra curiosidade desta família é que os filhotes são alimentados com um líquido especial, “o leite de pombo”, produzido no papo. O pombo-doméstico (Colum- ba livia domestica), muito comum em zonas habitadas pelo homem, resultou da domesticação do pombo-das-rochas (C. livia), que, tal como o nome indica, habita zonas rochosas e escarpadas, on- de também nidifica. Embora apresentem uma silhueta idêntica, tanto pousados como em voo, a forma selvagem exibe sempre uma plumagem cinzenta, com a base da cauda, também chamada “uro- pígio”, branca e duas barras pretas nas asas, enquanto a forma doméstica pode ser similar ou apresentar uma grande variedade de cores e padrões, que vão desde o branco até ao preto, passando pelos castanhos, avermelhados e ma- lhados. No pombo-das-rochas, a parte inferior das asas é branca, o que permite distingui-lo, em voo, do pombo-bravo (C. oenas), que exibe essa região pintada de cinzento, bem como todo o restante corpo, incluindo o uropígio. Não apre- senta quaisquer manchas brancas na plu- magem, notando-se apenas vestígios de barras escuras na parte superior da base das asas. Esta espécie é muito comum, surgindo em campos agrícolas, parques, jardins e orlas dos bosques, e recorre aos buracos das árvores, dos edifícios e das rochas para nidificar. O pombo-torcaz (C. palumbus) é o maior representante desta família, podendo atingir 40 cm desde a ponta do bico até à extremidade da cauda. Tal como os seus parentes, veste-se predominantemente de cinzen- to. No entanto, apresenta manchas brancas características no pescoço e nas asas, o que, a par das suas grandes dimensões, ajuda a distingui-lo dos demais. Habitualmente, ao levantar voo, as asas produzem um baru- lho característico, idêntico a castanholas, que serve de sinal de alarme para os seus congéneres. É sobretudo uma espécie flo- restal, que se reproduz em frágeis ninhos construídos com galhos. Curiosamente, é vulgar em parques e jardins citadinos, misturando-se, amiúde, com os bandos de pombos-domésticos. Além de existir em todo o território continental, também pode ser observado em algumas ilhas do arquipé- lago dos Açores, onde ocorre a subespécie endémica C. palumbus azorica. Oriundo exclusivamente do arquipélago madeirense temos o pombo da Madeira, também co- nhecido como “pombo-trocaz” (C. trocaz). Devido à insularidade, esta espécie evoluiu a partir do C. palumbus. Porém, apresenta- -se muito mais escura do que esta, com o dorso e as asas cinzento-azulado escuro, sem barras brancas nas asas e com a marca alva no pescoço mais esbatida. A plumagem iridescente do pescoço apresenta tons acas- tanhados e esverdeados e é mais baça do que na sua congénere continental. O bico é vermelho, apresentando o olho amarelo pálido com um anel orbital também verme- lho, um comprimento médio de 38 a 40 cm e uma envergadura de 72 a 76 cm. Segundo a Secretaria Regional do Ambiente e Re- cursos Naturais da Madeira, esta ave goza de grande impopularidade junto das po- pulações rurais, que a envenena e abate ile- galmente, uma vez que causa estragos nos campos agrícolas. Todavia, como se trata de um endemismo exclusivo da Madeira, que não ocorre em qualquer outro sítio do mundo, têm sido implementadas me- didas que visam protegê-lo, mitigando os danos causados na agricultura. Assim, têm sido concedidos apoios aos agricultores, Em Portugal, podemos encontrar vários parentes próximos dos pombos comuns. A família inclui quatro espécies de pombos e duas de rolas. Aqui, um pombo-torcaz. Interessante Os columbários têm fixado técnicos nas aldeias do interior 95 em geração e que correm o risco de desapa- recer, mas alicerça o seu trabalho quotidiano e os diversos projetos em conhecimentos cien- tíficos atualizados e em parcerias com centros de investigação e instituições de ensino superior. Atualmente, a Palombar dá emprego a dez pessoas a tempo inteiro e diversas a tempo par- cial, a que se juntam inúmeros colaboradores voluntários. Entre os vários especialistas que trabalham na Palombar e se fixaram em Trás- -os-Montes, incluem-se, por exemplo, os biólo- gos José Pereira, de 32 anos, natural do Porto, e Américo Guedes, de 30 anos, oriundo do Peso da Régua. Este último é um dos responsáveis pelo repovoamento dos pombais e, juntamente com o veterinário Miguel Nóvoa, pela vigilância médico-veterinária das populações de pombos, que podem conter parasitas capazes de afetar gravemente as aves de rapina raras e amea- çadas. O repovoamento de um pombal faz-se, geralmente, com cerca de 20 juvenis voadores, maioritariamente fêmeas, que apresentem bom estado de saúde. As análises parasitológi- cas realizam-se a partir do conteúdo fecal, que permite identificar, por exemplo, a presença de coccidias (Eimeria columbarum, etc.), res- ponsáveis pela coccidiose, de esfregaços da mucosidade do fundo da garganta, que possi- bilita a deteção do parasita Tricomonas colum- bae, responsável pela tricomonose, e da obser- vação das penas e da pele, onde se alojam ectoparasitas, como piolhos, ácaros e carraças. Após a verificação médico-sanitária de cada exemplar e o registo de alguns parâmetros biométricos, como a quantidade de músculo e o comprimento do tarso, do bico e da asa, os pombos recebem uma anilha identificativa e são colocados no novo pombal, onde perma- necerão fechados durante cerca de três meses. Findo esse período de reclusão e aclimatação, abrem-se as saídas de voo e as aves passam a circular livremente. No caso dos columbários situados no território das aves de rapina, retoma-se uma relação ancestral entre predador e presa. As rapinas têm a seu favor a velocidade, a força, o efeito surpresa, as garras e o bico impiedosos, mas os pombos não estão total- mente indefesos: dispõem do efeito de bando, de rápidas manobras de fuga e têm sempre o pombal como abrigo seguro. Assim, o mais comum é serem predados os exemplares mais envelhecidos e debilitados ou os que apresen- tam colorações (fenótipos) muito diferentes das variedades selvagens, que, recorde-se, exi- bem sempre uma plumagem cinzenta. Muito mais haveria para dizer sobre os pom- bos e os pombais, mas a falta de espaço obriga- -nos a ficar por aqui. Resta o convite para que o leitor ponha pés ao caminho e vá até Trás- -os-Montes ver com os seus próprios olhos os columbários tradicionais, que constituem, indubitavelmente, um ex-libris da região e uma herança cultural que vale a pena preservar. J.N. durante 15 dias, outros 23 jovens oriundos de China, Croácia, Espanha, Finlândia, França, Itá- lia e Portugal, para reconstruir dois pombais tradicionais, que tinham sido deixados ao aban- dono nas últimas décadas. Os voluntários do 45.º Campo de Trabalho Voluntário Internacional tiveram a oportunidade de aprender e experi- mentar todas as técnicas tradicionais de cons- trução que fazem parte do processo,nomea- damente picar o reboco, preparar e aplicar a argamassa e reparar o telhado. Por último, referiremos apenas o 4.º Encontro de Arquitetura Tradicional e Sustentabilidade, que levou a Uva cerca de 50 participantes (apro- ximadamente o número de residentes per- manentes na aldeia), para palestras, oficinas e partilha de conhecimento rigoroso sobre a arquitetura vernacular e as suas potencialida- des, de olhares multidisciplinares sobre as suas inúmeras dimensões, e de experiências mais ou menos formais que fazem da recuperação do património rural e das artes construtivas uma ferramenta para mudar o mundo. Todavia, o mais curioso não é a atração sazo- nal de visitantes, sobretudo jovens adultos, até Uva, mas a sua fixação permanente em Trás- -os-Montes, nomeadamente de especialistas em várias áreas, como a biologia. Isto porque a Palombar valoriza os saberes locais e os conhe- cimentos tradicionais que passam de geração Casas móveis. Com o objetivo de incrementar as populações columbófilas nos territórios das aves de rapina raras e ameaçadas, a Palombar desenvolveu pombais que podem ser facilmente colocados em posições estratégicas. SUPER96 Céu e Terra Longitude: zero O meridiano de Greenwich separa leste e oeste, da mesma forma que o Equador separa o norte do sul. Intimamente ligado ao Greenwich Mean Time (GMT), também está no centro do nosso sistema de fusos horários. O seu caminho é determinado pela localização de um telescópio histórico, o Airy Transit Circle, que está localizado no Real Observatório de Greenwich, em Londres. Desde 1999, é assinalado por um potente laser verde que aponta para norte e que, em dias claros, pode ser visto a olho nu a mais de 50 quilómetros de distância. Foto: Miguel Claro (http://www.miguelclaro.com). Interessante 97 SUPER98 Marcas & Produtos Diretor Carlos Madeira (cmadeira@motorpress.pt) Coordenador Filipe Moreira (fmoreira@motorpress.pt) Colaboraram nesta edição Francisco Mota, José Moreno, Máximo Ferreira, Miguel Claro e Paulo Afonso (colunistas), Alfredo Redinha, Cristina Saez, David Losa, Eulàlia Tramuns, Isabel Joyce, João Cosme, Joaquim Semeano, Jorge Nunes, Marta del Amo, Miguel Ángel Sabadell e Miguel Mañueco. Assinaturas e edições atrasadas http://www.assinerevistas.com Sara Tomás (pedidos@motorpress.pt) Tel.: 21 415 45 50 – Fax: 21 415 45 01 Coordenadora de Publicidade Marisa Folgado (mfolgado@gjportugal.pt) Edição, Redação e Administração G+J Portugal – Edições, Publicidade e Distribuição, Lda. Rua Policarpo Anjos, 4 1495-742 Cruz Quebrada-Dafundo Capital social: 133 318,02 euros. 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A gama de produtos adaptou- -se aos tempos de hoje e inclui um grande número de pro- dutos para a casa e a cozinha, nomeadamente para o micro- -ondas. Recentemente, foi apresentada mais uma inova- ção a nível mundial: o Micro- Pro Grill, que permite fazer grelhados no micro-ondas de forma rápida e saudável. O artigo estará disponível numa primeira fase em exclusivo para a rede de vendas. Grelhar no micro-ondas