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N.º 225
Janeiro 2017
Mensal l Portugal
€ 3,50 (Continente)
Saúde I Natureza I História I Sociedade I Ciência I Tecnologia I Ambiente I Comportamento
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Astrofísica
O poder das 
supernovas
Saúde
Não maltrate 
os dentes!
História
A tragédia 
do Somme
Pombais
Património 
do Nordeste
Chegou a 
REALIDADE
VIRTUAL
Vamos 
usá-la 
para 
viajar, 
fazer 
compras, 
estudar, 
ir ao médico...
2 SUPER
3Interessante
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Grupo
GRÁTIS 1.º MÊS
21 415 45 40
Observatório 4
O Lado Escuro do Universo 5
Motor 8 
Histórias do Tejo 10
Caçadores de Estrelas 14
Sociedade Digital 18
Flash 74
Céu e Terra 96
Marcas & Produtos 98
C omo se sabe, a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção. Outras vezes, ultrapassa-se a si própria, uma espécie de Lucky Luke para 
acontecimentos improváveis. Quero eu dizer que, antes de a realidade vir-
tual, tema de capa desta edição, ter tido tempo para se instalar e gozar um 
breve idílio com a fama, já estamos no pós-realidade: não interessa se existe 
ou existiu, se é real ou verdadeiro, importa a manipulação que podemos 
fazer, o aproveitamento possível dos três ou quatro segundos que a televi-
são vai dedicar ao assunto, e depois quantas vezes vai o caso ser replicado 
no Twitter e no Facebook, se se torna “viral” (devia haver uma vacina...). 
Lamento, mas não concordo com quem considera um pesadelo a eleição 
de Donald Trump. Tenho pesadelos, como toda a gente, mas acordo e eles 
passam. Com Trump, acordamos todos os dias e ele ainda lá está, a nomear 
as pessoas mais desqualificadas para cargos que vão deixar os Estados Uni-
dos, o mundo, a humanidade e o planeta, de uma forma geral, mais pobres, 
vulneráveis e infelizes. Todos os dias Donald Trump faz um show (ele gosta 
muito de fazer shows) de ignorância. Todos os dias mente, oculta, mani-
pula, aproveita. Uma vez que é inútil fazer de conta que Trump (e quem o 
apoia) não existe, só nos resta empenharmo-nos mais ainda, opor o conhe-
cimento à ignorância e os valores ao vale-tudo oportunista. Bem-vindo ao 
novimundo em que a realidade parece um pormenor dispensável. Não é, e 
cabe-nos a todos insistir nisso, todos os dias, até que o pesadelo acabe, na 
esperança de que não seja tarde demais. CM
Na lama
Fez um século 
em 2016: 
tropas britânicas 
e francesas (e 
de outros países) 
tentaram desalojar 
os alemães 
das margens 
do Somme. 
Foi uma carnificina 
monumental. 
Pág. 76
Papiroflexia para engenheiros
Talvez nunca tenha ouvido falar em 
papiroflexia, mas por certo conhece a antiga 
arte japonesa do origami. Descubra as suas 
bases matemáticas e como é útil à ciência 
e à tecnologia do nosso dia a dia. Pág. 56
N.º 225
Janeiro 2017
Mensal  Portugal
€ 3,50 (Continente)
Saúde I Natureza I Hi
stória I Sociedade I C
iência I Tecnologia I A
mbiente I Comportam
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N.º 225
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Mensal  Portugal
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Astrofísica
O poder das 
supernovas
Saúde
Não maltrate 
os dentes!
História
A tragédia 
do Somme
Pombais
Património 
do Nordeste
Chegou a 
REALIDADE
VIRTUAL
Vamos 
usá-la 
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viajar, 
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Admirável mundo novo? Janeiro 2017225
SECÇÕES
www.superinteressante.pt
Estardalhaço
A morte de uma estrela é um 
fenómeno extraordinariamente 
energético. Se acontecesse 
um nas redondezas cósmicas, 
seríamos afetados. Pág. 26
ÓCIO
À volta do tabuleiro
44
Retratos orbitais
TERRA 20
www.assinerevistas.com
Espertos
Porque é que 
não estamos 
rodeados 
de robôs que 
nos ajudem nas 
tarefas diárias? 
Porque ainda 
não sabemos 
ensinar-lhes 
as coisas 
mais fáceis...
Pág. 62
Assine com um clique!
O coração da NASA
ASTRONÁUTICA 32
ASTRONOMIA
O poder das supernovas
26
TECNOLOGIA
Viva a realidade virtual
50
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Grupo
GRÁTIS 1.º MÊS
21 415 45 40
TECNOLOGIA
A hora do origami
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FOTOGRAFIA
No trilho do lobo
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HISTÓRIA
O inferno do Somme
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TECNOLOGIA
A Fórmula elétrica
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SAÚDE
Direto aos dentes
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TECNOLOGIA
Como treinar o seu robô
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AMBIENTE
O regresso dos pombais
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SUPER4
Observatório
L owline: será este o nome do primeiro parque verde subterrâneo, que poderá surgir em Nova Iorque dentro de cinco anos. A localização proposta 
para o jardim, que terá um pouco mais de 4000 
metros quadrados, é um terminal de elétricos 
abandonado, construído em 1908 perto da 
Ponte Williamsburg, no sul de Manhattan. O 
projeto parece tecnicamente realizável, como 
demonstrou a experiência-piloto, levada a cabo 
graças a uma campanha de angariação de fundos 
que obteve 212 mil euros numa plataforma de 
Jardim subterrâneo
crowdfunding. No parque experimental, que 
deverá manter-se aberto até março, realizam-
-se desde aulas de ioga a jogos infantis de 
caça ao tesouro. Quanto ao orçamento para 
o parque real, deverá rondar os 75 milhões de 
dólares. Se os seus promotores conseguirem o 
financiamento, prevê-se que as obras do oásis 
urbano arranquem no outono de 2018. Entre 
as plantas, haverá frutas e legumes. Londres, 
Paris, Moscovo e Seul mostraram interesse 
em estudar a ideia com os impulsionadores da 
proposta nova-iorquina. RAA
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Interessante 5
U m objeto com a massa da Terra trans-formado num buraco negro (BN) teria 
um raio de Schwarzschild do tamanho de um 
berlinde! No centro da Via Láctea, há um 
BN galáctico com cerca de quatro milhões de 
massas solares (MS), do tamanho do Sistema 
Solar. Já aqui referimos igualmente BN de 
massa intermédia (com milhares de MS), BN 
primordiais (BNP), BN quânticos e os mais 
frequentes BN estelares. Dado que as estrelas 
mais maciças são também as mais raras (com 
massa até ~200 MS), os BN estelares com 
cerca de 30 MS são os mais maciços e raros 
que se conhecem. Uma estrela progenitora 
com massa maior do que 9 ou 10 MS irá 
acabar em supernova de colapso central, atin-
gido o limite da fusão termonuclear do ferro. 
Daqui resulta tipicamente uma estrela de 
neutrões ou BN, conforme a massa inicial da 
progenitora e a massa que restará no núcleo 
estelar colapsado. É mais provável encontrar 
BN de massa estelar baixa, andando pelas ~4 
MS o BN mais leve conhecido. Para se ter 
uma ideia, uma estrela de neutrões, tipica-
mente abaixo das 3 MS, terá um raio de cerca 
de 10 km, ou seja, o tamanho de uma cidade. 
Recentemente, a hipótese de os BNP serem 
massa escura ganhou nova atenção com a 
descoberta fenomenal do Observatório de 
Ondas Gravíticas por Interferometria Laser 
(LIGO, na sigla inglesa). Os BN que colidi-
ram, produzindo as primeirasondas gravíticas 
detetadas diretamente, tinham 29 e 36 MS. 
Não se sabe bem, porém, se este evento, cha-
mado GW150914, implica BNP ou estelares. 
Probabilisticamente, o LIGO deveria detetar 
um caso entre os mais prováveis, mas BN es-
telares com estas massas serão notoriamente 
menos comuns. Ou o LIGO detetou um caso 
anormal, ou estes BN não terão uma natureza 
estelar. Muitos BNP são excluídos enquanto 
massa escura por razões de dinâmica estelar, 
ou devido a limites em lentes gravitacionais, 
ou ainda devido à radiação de Hawking (os 
mais leves já deveriam ter decaído). Um 
intervalo que está ainda por excluir categori-
camente permite, porém, a existência de BNP 
entre cerca de 1 e 100 MS, vindo assim ao 
encontro da descoberta do LIGO. No futuro, 
uma capacidade direcional do LIGO em 
conjunto com outros observatórios associados 
talvez permita a localização mais exata dos 
BN, esclarecendo se são estelares ou não. Os 
BNP ter-se-ão formado logo um segundo 
após o Big Bang, podendo portanto ser feitos 
de massa escura não bariónica, pois não estão 
sujeitos aos limites severos impostos pela 
nucleossíntese primordial. Terminando entre 
3 e 5 minutos após o Big Bang, a massa dita 
“normal” que se formou na era da nucleossín-
tese apenas pode representar cerca de 5% do 
total de massa-energia do universo. Este limite 
ditou o fim dos MACHOs (sigla inglesa para 
objetos maciços e compactos a encontrar nos 
halos galácticos), de que são exemplos anãs 
castanhas e anãs brancas, objetos bariónicos 
de baixa luminosidade. Os MACHOs poderão 
estar de volta enquanto candidatos a massa 
escura, caso os BNP se confirmem, mesmo 
que não representem a totalidade da massa 
escura. No outro lado desta aventura escura, 
os WIMPs (sigla inglesa para partículas 
maciças de baixa interação) continuam a 
“acobardar-se” e teimam em não dar sinais de 
vida categóricos, enquanto constituintes da 
massa escura. O LIGO detetou um segundo 
evento chamado GW151226, produzido 
pela colisão de dois BN, desta vez com 8 e 
14 MS. Esperemos por mais observações 
para alargar a amostra estatística, antes de 
tirarmos conclusões. Entretanto, o cerco 
aperta-se noutras frentes no que respeita aos 
valores mais elevados destes BNP enquanto 
MACHOs. Um estudo publicado em junho 
passado baseou-se numa galáxia esferoide anã 
descoberta, em 2015, pela Câmara de Energia 
Escura (do telescópio Blanco, no Chile), a Erí-
dano II (Eri II). Com cerca de 99% de massa 
escura, a Eri II tem apenas um enxame estelar 
brilhante no seu centro que é relativamente 
compacto. Se BNP com ~10 MS existissem no 
centro de galáxias como a Eri II, tais enxames 
estelares seriam mais difusos, com aqueci-
mento dinâmico devido a interações com os 
MACHOs. O estudo mostrou igualmente 
que outras dez galáxias anãs semelhantes à Eri 
II teriam dimensões maiores, com maiores 
dispersões de velocidades devidas a interações 
com tais BNP putativos centrais. Não é isso 
que se observa, porém, uma vez que as estrelas 
destas galáxias sobreviventes a tais BN não se 
dissolveram ainda na Via Láctea. Isto impõe 
limites sérios aos BNP do tipo potencialmente 
detetado pelo LIGO enquanto totalidade da 
massa escura, mas não os exclui em absoluto. 
Bom, ainda sobram igualmente os BNP com 
massas entre as de um asteroide e abaixo da 
massa lunar, que nem a existência de estrelas 
de neutrões (não destruídas por BNP mais 
maciços) pode excluir. Se os BNP com massas 
menores do que as dos asteroides já teriam 
desaparecido devido à radiação de Hawking, 
os de massa sublunar terão apenas o diâmetro 
de um cabelo humano! Dadas as dimensões 
absurdas do espaço cósmico, a probabilidade 
de detetar tais BNP ultraminorcas seria tam-
bém absurdamente pequena…
O Lado Escuro do Universo
Buracos negros primordiais escuros
PAULO AFONSO
Astrofísico
N.R. – Paulo Afonso escreve segundo o novo 
acordo ortográfico, embora sob protesto.
Espelhos 
captadores 
de luz solar 
e cabos 
de fibra 
ótica 
compõem 
a tecnologia 
que faz 
chegar 
os raios 
de Sol do 
exterior até 
às plantas 
do jardim 
subterrâneo. 
O sistema 
foi batizado 
como 
“claraboias 
remotas”.
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SUPER6
Observatório
Em busca do oceano
Sob a superfície gelada de 
Plutão, talvez haja um vasto 
oceano de água e amoníaco.
D esde que os norte-ameri-canos chegaram à Lua, em 
1969, os russos têm uma espinha 
na garganta: nenhum dos seus 
cosmonautas pôs um pé na super-
fície do nosso satélite. Ao que pa-
rece, estão na intenção de arran-
car a espinha. A empresa espacial 
russa RKK Energiya, que fabrica 
foguetes e componentes para 
estações espaciais, colocou como 
objetivo ter a pegada de um cos-
monauta russo na superfície lunar 
até 2030. O programa iniciar-se-á 
em 2026, com uma missão orbi-
tal não tripulada. Seguir-se-á a 
aterragem de uma sonda, no ano 
seguinte. Será a primeira desde 
1976. Os responsáveis da RKK 
Energiya esperam que a União 
Europeia e os Estados Unidos 
participem na iniciativa. Na foto, 
simulação da nave Federação, que 
a Rússia terá de construir para le-
var a missão a bom termo.
Rússia aponta 
à Lua
O s dados obtidos pela sonda New Horizons sugerem que sob a super-fície de Plutão poderia existir um oceano. Isto porque a Sputnik Pla-
nitia, uma das características mais chamativas 
do planetão-anão, não está onde deveria estar. 
De facto, a estrutura em forma de coração mede 
uns 1300 quilómetros de comprimento por 900 
de largura. O mais curioso é que, por assim dizer, 
tem uma massa negativa. Como, na realidade, se 
trata de um buraco no solo, parcialmente cheio 
de azoto gelado, em princípio deveria ter menos 
massa do que se estivesse cheio de rochas. Se 
assim fosse, o desequilíbro na distribuição de 
massas do planeta deveria fazê-lo rodar, e a 
Sputnik Planitia deveria situar-se junto a um dos 
polos e não onde se encontra agora, perto do 
equador. A única explicação é que, sob ela, haja 
mais massa do que a esperada. As observações 
da superfície levaram os astrónomos a suspeitar 
que esta massa extra talvez esteja no estado 
líquido. Num artigo publicado na revista 
Nature, Francis Nimmo, especialista em ciências 
planetárias da Universidade da Califórnia em 
Santa Cruz, destaca que esse oceano subter-
râneo teria um volume semelhante ao dos da 
Terra e que poderia ser habitável.
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As máquinas do tempo
Já à venda!
OS MELHORES ENSAIOS 
DE AUTOMÓVEIS CLÁSSICOS 
NUMA SÓ EDIÇÃO
N ão é a primeira vez que é experimen-tado um sistema de distribuição para motores térmicos sem a uti-lização de árvores de cames, mas 
as tentativas anteriores nunca passaram do 
estado de protótipo, por claras insuficiências. 
Agora, a marca sueca de hipercarros Koenig-
segg apresentou uma solução nova que desig-
nou Freevalve. Ao contrário dos sistemas do 
passado, que faziam abrir e fechar as válvulas 
dos cilindros com volumosos sistemas eletro-
magnéticos, o Freevalve substitui as árvores 
de cames, as rodas dentadas e a corrente de 
distribuição por um compacto conjunto de 
atuadores eletro-hidráulicos pneumáticos. 
O sistema, que a Koenigsegg aplica no motor 
do seu modelo Regera, foi agora desenvol-
vido para um vulgar motor de quatro cilin-
dros, 1.6 turbo a gasolina da marca chinesa 
Qoros. Cada válvula tem acoplado um atuador 
com controlo eletrónico, capaz de fazer a 
abertura de cada uma no tempo e com a ampli-
Sem árvores de cames
Motor
8 SUPER
tude ótimas para cada situação de utilização 
do motor. Apenas as molas helicoidais de 
retorno são mantidas. No caso de o sistema 
determinar que um conjunto de cilindrosnão 
precisa de funcionar, por exemplo numa 
condução a baixa velocidade estabilizada, as 
válvulas respetivas permanecem fechadas. A 
flexibilidade do sistema é um dos seus grandes 
trunfos, tal como a simplificação do motor e a 
redução de altura e peso. Claro que a eficiência 
também sobe. Segundo dados fornecidos pela 
Qoros, que está a financiar a adaptação do Free-
valve para motores de produção em grande 
série, a melhoria de eficiência é notória, com 
subidas de potência e binário próximas dos 50 
por cento e descidas de consumos na casa dos 
1,5 litros aos 100 quilómetros. Para já, o custo do 
sistema ainda é superior ao de uma distribuição 
convencional, mas, assim que a produção indus-
trial arranque, é muito fácil inverter a situação. 
É uma tecnologia com reais possibilidades de 
fazer evoluir os motores térmicos a curto prazo.
Raio X
1
2
A marca inglesa de propriedade indiana Jaguar estreou-se nos veí-
culos elétricos com o I-Pace, para já na 
forma de um concept-car que em 2017 
será visto na versão final, para estar à 
venda em 2018. O estilo exterior junta a 
estética de um modelo desportivo com 
um SUV e consegue um Cx de 0,29, 
tendo sensivelmente o mesmo com-
primento de um F-Pace, mas com uma 
distância entre-eixos maior, permitindo 
maximizar o espaço no habitáculo, que 
tem um piso totalmente plano. 
1 – A plataforma é nova e utiliza a caixa 
da bateria, sob o habitáculo, como ele-
mento estrutural. Será utilizada em futu-
ros modelos elétricos da Jaguar. 
Fiat 124 Spyder
O novo descapotável de dois lugares da Fiat nasceu de uma colaboração com a 
Mazda que, inicialmente, previa a produção 
do novo MX-5 e de um novo Alfa Romeo 
Spyder sobre a mesma plataforma, ambos 
fabricados no Japão. Quando foi decidido 
que todos os Alfa Romeo tinham de ser cons-
truídos em Itália, para não perderem a auten-
ticidade, o grupo FCA, que inclui as duas 
marcas italianas, passou o projeto para a Fiat, 
que decidiu reinterpretar o seu clássico 124 
Spyder. Daí o estilo nostálgico, a fazer lem-
brar o modelo dos anos 60/70, uma estraté-
gia que tem tido grande sucesso no Fiat 500. 
Entre o Fiat e o Mazda, as diferenças chegam 
também aos acertos de suspensão e direção, 
além do motor, que no 124 Spyder é o 1.4 
Multiair, com turbocompressor e 140 cava-
los. Se, por fora, o Fiat e o Mazda são muito 
diferentes, por dentro apenas os símbolos e 
as cores de alguns revestimentos mudam, o 
que não é um problema, pois o tablier tem 
uma boa organização e a posição de con-
dução é muito boa, baixa, com a alavanca 
da caixa manual de seis velocidades mesmo 
onde a mão direita vai à procura dela e o 
CARRO DO MÊS
Jaguar I-Pace
A poupança anunciada 
chega aos 1,5 litros 
de combustível
por cem quilómetros.
A s notícias sobre o atual estado da Tesla estão longe de ser totalmente 
tranquilizantes. Há muitas dúvidas sobre 
o modelo de negócio, incógnitas sobre 
as características definitivas e o início 
de comercialização do seu modelo mais 
barato, o Model 3, e ceticismo relativo 
à construção da Gigafactory. Porém, a 
verdade é que a marca norte-americana 
conseguiu abanar a indústria automóvel 
tradicional, obrigando-a a desenvolver 
modelos e tecnologias semelhantes às 
vistas nos modelos da Tesla. Não que a 
receita da Tesla seja muito complicada, 
pois resume-se a usar baterias enormes, 
montadas em plataformas leves, e usar 
motores elétricos com imensa potência. 
A grande conquista da Tesla não foi 
técnica, foi de marketing, ao conseguir 
encontrar clientes dispostos a comprar 
automóveis elétricos de luxo, com pre-
ços a condizer. A indústria tradicional 
não podia deixar de ver o potencial 
de lucro que aqui estava e não perdeu 
muito tempo a seguir o mesmo cami-
nho. Todas as marcas de luxo estão a tra-
balhar em projetos deste tipo, e não só 
as alemãs. A Jaguar foi a última a mostrar 
o seu anti-Tesla, na forma de um SUV 
de aspeto desportivo a que deu o nome 
de I-Pace (na foto), sugerindo com esta 
nomenclatura o futuro desenvolvimento 
de uma família de modelos elétricos, 
com nomes a começar pela letra “I”. 
A Audi já tinha mostrado, no ano pas-
sado um concept-car designado e-tron 
quattro, outro grande SUV elétrico para 
combater o Tesla Model-X. A Mercedes-
-Benz e a Porsche também trabalham 
ativamente no assunto, para terem 
carros deste tipo à venda dentro de dois 
anos, no máximo. O que vai acontecer 
nessa altura não é difícil de prever. Com 
as suas potentes máquinas de produção, 
distribuição e marketing, as marcas tra-
dicionais vão tomar conta deste novo 
mercado e relegar a Tesla para um canto. 
Isto se, entretanto, Elon Musk não 
decidir deixar de vez os automóveis e 
centrar-se na produção de energia solar.
Opinião
Anti-Tesla
2 – Suspensões independentes às quatro 
rodas e derivadas das usadas noutros mode-
los correntes da marca, mas adaptadas e 
com elementos pneumáticos. No concept-
-car, os pneus são de medida 265/35 R23, 
mas os da versão final serão mais pequenos. 
3 – Bateria de iões de lítio com 90 quilo-
watts-hora. Demora 90 minutos a carregar 
80 por cento da capacidade, num carrega-
dor de 50 kw. A autonomia em ciclo NEDC 
é de 500 quilómetros, mas, numa utilização 
real, a Jaguar anuncia 354 km. 
4 – Existem dois motores, um para as rodas 
da frente e outro para as de trás, conferindo 
assim tração total. Foram feitos pela pró-
pria Jaguar e cada um tem 200 cavalos de 
potência e 350 newtons-metro de binário 
máximo, o que resulta numa potência 
máxima combinada de 400 cv, suficien-
tes para acelerar dos 0 aos 100 km/h em 
quatro segundos. 
5 – O reduzido tamanho dos motores 
permitiu avançar a posição do tablier e 
aproveitar melhor o espaço interior. 
6 – O I-Pace tem cinco lugares e os 
bancos têm uma estrutura fina, para não 
ocuparem muito espaço, mas proporcio-
nando conforto. O banco do condutor 
é bem mais baixo do que nos SUV con-
vencionais, mas, como o tablier é muito 
baixo, permite manter uma posição 
ainda assim alta e com boa visibilidade 
para diante, a que a Jaguar deu o nome 
de Sports Command.
Interessante 9
4
5
6
FRANCISCO MOTA
Diretor técnico do Auto Hoje
3
volante com excelente pega. Como sempre aconteceu no MX-5, 
também aqui a caixa de velocidades tem um tato mecânico e um 
curso muito curto, que exige intenção à mão direita, mas que 
dá um certo gozo. O som do escape de dupla saída é alto e des-
portivo, mas a resposta do motor é um pouco lenta nos regimes 
baixos, enquanto o turbo não enche, por volta das 2500 rotações 
por minuto, altura em que a aceleração dá um salto que leva a 
fazer os 0-100 km/h em 7,5 segundos. Com uma direção direta e 
uma suspensão de curso relativamente curto, o comportamento 
em estradas secundárias com muitas curvas é sempre animado, 
produzindo sensações vivas, sobretudo se se baixar a capota, o 
que se faz facilmente com a mão direita. Para os condutores mais 
exigentes, o 124 Spyder é um pouco macio de suspensão, o que, 
dado não existir diferencial autoblocante, faz patinar a roda tra-
seira do lado de dentro da curva, quando se conduz de maneira 
mais rápida, ou em piso molhado. Por 27 794 euros, na versão 
sem opcionais, só tem um rival no mercado: o MX-5.
SUPER10
Da velha travessia romana de Alcántara, do lado 
de lá da fronteira, à moderna Vasco da Gama, 
o Tejo é atravessado por dezenas de pontes, 
em Portugal e Espanha. A conquista do grande 
rio sempre desempenhou um papel crucial 
na história de Lisboa e, mesmo, dos dois países, 
mas as dificuldades em atravessá‑lo 
também jogaram a nosso favor.
Histórias do Tejo
O s pilares das pontes sobre o Tejo confundem‑se com os pilares da história da Península Ibérica. A travessia do rio começou por fazer 
parte dos planos básicos dos romanos, que 
suportavam o Império numa rede de infraes‑truturas viárias, ligadas a Roma, para manter 
a sua cidade no centro do mundo ocidental. 
O Tejo, o maior e mais importante rio da His‑
pânia, tinha obrigatoriamente de ser cortado 
por estradas, onde quer que fosse possível. 
Por outro lado, o próprio rio funcionava como 
caminho, levando matérias‑primas do centro 
da península para o porto de Lisboa, de onde 
seguiam para a metrópole.
Por razões óbvias, o território que hoje é 
Portugal não possui uma única obra de arte de 
engenharia romana sobre o Tejo: o rio é dema‑
siado largo do lado de cá da fronteira para a 
tecnologia existente há dois mil anos. Mesmo 
assim, a ponte romana de Alcántara, já quase 
encostada ao nosso país, é um prodígio de exe‑
cução técnica. Erguida no início do século II, 
na vigência de Trajano (provavelmente o impe‑
rador romano que mais investiu em infraestru‑
turas, e que nascera na província da Hispânia, 
na região hoje ocupada pela Andaluzia), tem 
praticamente 200 metros de comprimento e 
70 metros de altura, dimensões impressionan‑
tes para a época. As verbas para a sua cons‑
trução vieram de uma taxa especial imposta 
sobre sete vilas lusitanas (as que beneficiariam 
diretamente com a ponte).
Obras 
de arte
O nome de batismo da ponte não é conhe‑
cido. Uma inscrição gravada no granito, a meio 
da travessia, dedica‑a apenas a Trajano.
A designação “Alcántara” nasceu, como se 
percebe, na época árabe: al‑qantara significa, 
simplesmente, “a ponte”. Os árabes, aliás, 
destruíram uma parte da passagem, no século 
XIII, no calor das guerras da Reconquista. Em 
1475, em pleno conflito que opunha Portugal 
e Castela, também os castelhanos tomaram a 
difícil e dolorosa decisão de destruir a ponte, 
para evitar que o exército de Afonso V a apro‑
veitasse para lhes invadir o reino (o português 
tinha pretensões ao trono). Porém, o rei, hor‑
rorizado com a perspetiva de ver desaparecer 
a histórica obra de arte, revelou‑se um cava‑
lheiro: prometeu ao líder das tropas inimigas 
que daria a volta e não passaria por Alcántara, 
porque não queria “o reino de Castela com 
menos aquele edifício”.
ARCO APÓS ARCO
Mais de dois séculos depois, na Guerra da 
Sucessão, os espanhóis destruíram mesmo o 
arco principal: nas batalhas, as pontes estão 
sempre no coração das maiores preocupações 
estratégicas. No princípio do século XIX, Alcán‑
tara voltou a ser vítima da guerra, com os nos‑
sos vizinhos a destruírem o segundo arco para 
impedir a passagem do exército de Napoleão, 
durante as invasões francesas.
A primeira invasão ficou definitivamente 
marcada pelas dificuldades em atravessar o 
rio. Depois do primeiro contratempo em Alcán‑
tara, as tropas de Junot voltaram a deparar 
com a necessidade de cruzar um afluente do 
Tejo (o Zêzere, neste caso, já muito perto do 
local onde os dois rios se encontram). Consta 
que um oficial português destruiu a ponte de 
barcas que havia em Constância, atrasando 
fatalmente as tropas. Por causa disso, o gene‑
ral francês chegou demasiado tarde a Lisboa. 
A família real acabara de embarcar em direção 
ao Brasil, de onde podia continuar a gerir o reino, 
pelo menos no papel, e mantendo, assim, a 
independência da Coroa.
A primeira verdadeira ponte sobre o Tejo em 
Portugal foi construída, por acaso, a meros três 
quilómetros do sítio onde Junot se atrasou. 
A honra cabe à Ponte Ferroviária de Praia do 
Ribatejo, de 1862, que entretanto, 130 anos 
mais tarde, foi adaptada para receber tam‑
bém tráfego automóvel. Oito anos depois, 
surgiu a primeira travessia rodoviária, a Ponte 
Interessante 11
de Abrantes. Em 1881, inaugurou‑se a Ponte 
D. Luís, entre Santarém e Almeirim, com uns 
estonteantes 1200 metros de comprimento, 
que faziam dela, à época, a maior da península 
Ibérica e a terceira maior da Europa.
Seria preciso, no entanto, esperar pela década 
de 50 do século XX para que Lisboa visse uma tra‑
vessia nascer nas suas imediações. A Marechal 
Carmona, inaugurada em dezembro de 1951 e 
batizada em honra do presidente da República 
morto nesse mesmo ano, colmatou uma falha 
de séculos, ligando Vila Franca de Xira à margem 
esquerda do Tejo. A ordem para a sua cons‑
trução partira do popular ministro das Obras 
Públicas, Duarte Pacheco, que, no entanto, 
morreria num acidente de viação antes de as 
obras começarem.
TRAVESSIA EM LISBOA
No entanto, a ponte ficava ainda muito longe 
da capital, atendendo às estradas existentes. 
No dia a dia, Lisboa continuava a contar exclusi‑
vamente com os cacilheiros como meio de ligar 
as duas margens, apesar de serem discutidas 
propostas para uma travessia citadina desde o 
século XIX. Após inúmeros avanços e recuos, 
o governo português anunciou, finalmente, 
em 1959, a abertura de um concurso público 
para a construção de uma ponte entre Lisboa 
e Almada. Das quatro propostas, venceu a da 
americana United States Steel Export Company 
(que, na verdade, já tinha entregado uma 25 
anos antes). A empresa ostentava no currículo 
a Ponte da Baía de Oakland, em San Francisco 
(e não a Golden Gate, como muita gente julga), 
o que lhe dava uma vantagem na aplicação de 
medidas antissísmicas: a cidade do sudoeste 
americano carrega consigo um violento histo‑
rial de tremores de terra, tal como Lisboa.
A empreitada começou em 1962 e revelou‑se 
uma das mais exigentes e monumentais da his‑
tória portuguesa. Os números são monstruo‑
A ponte romana de Alcántara é um prodígio de 
engenharia, para a era em que foi construída.
Este artigo é 
uma adaptação 
de um dos 
capítulos do livro 
Histórias do Tejo, 
de Luís Ribeiro
(A Esfera dos 
Livros, 2013)
http://bit.ly/1hrY8Zc
sos: 72 mil toneladas de aço importado dos 
Estados Unidos, 54 quilómetros de fio de aço só 
nos cabos principais e 20 mil quilómetros nos 
secundários (metade do perímetro da Terra), 
2270 metros de largura de margem a margem, 
tabuleiro a 70 m de altura, pilares 190 m acima 
da linha de água e enterrados até 80 m abaixo 
da superfície do rio. No pico da obra, três mil 
pessoas chegaram a trabalhar simultanea‑
mente na ponte.
Em 1966, quatro anos e oito meses após ser 
lançada a primeira pedra, e uns insólitos seis 
meses antes da data prevista, as principais 
figuras do Estado Novo inauguraram a obra, 
orçada em 2,2 milhões de contos (180 milhões 
de euros, ao câmbio atual). A imponente obra 
de arte recebeu como nome oficioso Ponte 
Salazar, evocando o bafiento culto da per‑
sonalidade do ditador da época. Em 1974, a 
substituição das letras em bronze por graffiti 
a anunciarem “25 de Abril” simbolizou o corte 
definitivo com o passado autoritário e a espe‑
rança num futuro apoiado num regime demo‑
crático. Curiosamente, a Ponte Marechal 
Carmona nunca perdeu o nome, apesar de tam‑
bém estar associada a uma das figuras máxi‑
mas do regime autoritário. Em 1999, a ponte 
passou a dispor de linha férrea, coisa que, aliás, 
fazia parte das intenções iniciais, mas o tráfego 
não parou de aumentar. Hoje passam na ponte, 
todos os dias, 150 mil carros.
AS DUAS MAIORES DA EUROPA
Trinta e dois anos após a abertura da Ponte 
25 de Abril, Lisboa ganharia uma segunda 
travessia sobre o Tejo, e a primeira feita em 
betão. A Ponte Vasco da Gama, inaugurada em 
1998, a tempo de servir a Expo 98 e de celebrar 
os 500 anos da descoberta do caminho marítimo 
para a Índia, era e continua a ser a mais longa 
da Europa, com os seus 17,2 km. É tão comprida 
que os engenheiros tiveram de levar em conta, 
nos seus cálculos, a linha de curvatura do pla‑
neta. O tamanho também se nota no preço: foi 
cinco vezes mais cara do que a sua congénere 
SUPER12
25 de Abril. O protagonismo como postal ilus‑
trado de Lisboa, no entanto, continua a per‑
tencer à travessia mais velha.
Muito menos famosa é a Ponte da Lezíria, 
que liga o Carregado a Benavente, pelaA10, 
aberta ao trânsito em 2007, e ainda menos 
conhecido é o facto de esta ser, com 11,6 km, a 
segunda ponte rodoviária mais longa do Velho 
Continente, a seguir à Vasco da Gama. Ou seja, 
o Tejo é cruzado pelas duas maiores travessias 
da Europa.
No total, só o curso português do grande rio 
tem atualmente 16 pontes, e os seus nomes 
sublinham bem a diversidade da história do 
país. Além da Ponte Salazar/25 de Abril e da 
Marechal Carmona, que recordam a ditadura 
e a transição para a democracia, e da travessia 
com o nome do maior explorador luso de todos 
os tempos, Vasco da Gama, o Tejo é atraves‑
sado pelas pontes Salgueiro Maia (herói da 
revolução de 1974), D. Luís (antepenúltimo 
monarca português) e Rainha D. Amélia (última 
rainha de Portugal).
Rainha na mó de baixo
A primeira ponte que o Tejo encontra quando chega a Portugal é a das 
Portas de Ródão, junto a Vila Velha de 
Ródão. As “portas” propriamente ditas 
são duas escarpas que se agigantam e 
ladeiam o rio, estreitando‑lhe o curso, 
numa das mais fotogénicas imagens que 
o Tejo oferece. Além da beleza natural da 
região, repleta de grifos, abutres‑pretos 
e cegonhas‑pretas, há um interessante 
pedaço de história na escarpa da margem 
direita, contado pelas ruínas do Castelo 
do Rei Wamba, sobranceiro às águas 
ziguezagueantes que passam lá em baixo. 
Fala‑se que, no final do século VII, aqui 
morou o último monarca visigodo, o tal 
Wamba, que tinha por esposa uma for‑
mosa mulher. O rei, porém, mostrava‑se 
mais adepto de caçadas do que de confor‑
tos caseiros. Era uma questão de tempo 
até a rainha despertar a paixão – e a ela 
sucumbir – do rei mouro que governava 
as terras do outro lado do rio. Para poder 
ir ter com a sua amada e atravessar o Tejo 
sem ser visto, o mouro escavou um túnel 
por baixo do leito do rio. Só que fez mal 
as contas e foi sair mesmo junto ao local 
onde Wamba se encontrava. A reação 
do visigodo pareceu amigável: prometeu 
ao seu inimigo enviar‑lhe a rainha no dia 
seguinte, de presente. Cumpriu, com um 
senão: atou a pobre dama à mó de pedra 
de um moinho e largou‑a encosta abaixo, 
em direção ao Tejo. No carreiro feito pela 
mó nunca mais nasceu o mais leve tufo 
de vegetação. Claro que não se sabe onde 
acabam os factos e começa a lenda, mas a 
história não perde charme por isso.
A Ponte Vasco da Gama, além de ser 
uma das mais belas do mundo, é a maior 
da Europa. A segunda também cruza 
o Tejo, entre o Carregado e Benavente.
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da assinatura no verso do seu cartão
SUPER14
D os fenómenos astronómicos que todos os anos se repetem, certa-mente o mais regular é o das vulgar-mente designadas “estrelas caden-
tes”, acontecimento que sempre leva a desejar 
ocasiões de céu limpo e sem luar para que a 
observação dos meteoros seja mais aliciante. 
O ano começa com as Quadrântidas, que pare-
cem provir da região do céu outrora ocupada 
pela constelação do Quadrante, depois substi-
tuída pela atual Coroa Boreal. Depois, virão as 
Líridas, em abril, as Aquáridas, em maio e julho, 
as Perseidas, em agosto, as Oriónidas, em outu-
bro, as Táuridas e as Leónidas, em novembro, 
e, finalmente, as Géminidas e as Ursidas, em 
dezembro. 
Dos habituais quatro eclipses (dois do Sol e 
dois da Lua) anuais, em 2017 serão percebidos 
apenas os do Sol e um parcial da Lua, pois o 
outro lunar será apenas “de penumbra”, o que 
significa que só muito dificilmente se percebe 
a passagem da Lua pela zona de penumbra que 
a Terra cria no espaço. A 26 de fevereiro, ocor-
rerá um eclipse anular do Sol, infelizmente não 
observável em Portugal, dado que a zona de 
visibilidade se situa quase toda no Atlântico Sul 
e parte do Pacífico, abrangendo apenas peque-
nas porções continentais no sul da América do 
Sul e na costa ocidental de África. Cerca de seis 
meses depois – a 21 de agosto –, repete-se o 
fenómeno, então um eclipse total do Sol cuja 
faixa de centralidade se estende desde o Pací-
fico até meio do Atlântico (nas proximidades de 
Cabo Verde), depois de atravessar a parte norte 
do continente americano. Em Portugal, o eclipse 
será visto como parcial, já perto do fim do dia.
Para o princípio do ano, estão marcados 
momentos de evocação da descoberta de Plu-
tão (18 de fevereiro de 1930), por Clyde Tom-
baugh, e a comunicação de alguns elementos 
obtidos em observações que sugerem que o 
“planeta-anão gelado” se assemelha mais a um 
cometa, bloco de gelo que parece sublimar 
continuamente. 
Igualmente se celebrará o Dia Internacional 
do Asteroide, recentemente estabelecido pela 
ONU na data de 30 de junho, evocando-se assim 
a queda do “asteroide de Tunguska”, em 1908, 
que devastou uma vasta área de floresta da 
Sibéria, aproveitando-se a ocasião para apre-
sentar a evolução nas técnicas de rastreio 
de asteroides e nas capacidades técnicas de, 
eventualmente, intercetar algum deles em que 
se identifique “rota de colisão” com a Terra.
No último fim de semana de julho, decor-
rerá a XXIV edição da Astrofesta nacional, um 
evento que reúne centenas de amadores de 
astronomia em palestras e observações, desta 
vez em redor de um observatório recente-
mente instalado na Reserva Alqueva Dark Sky, 
nas proximidades de Reguengos de Monsaraz.
Depois das Perseidas, a 12 de agosto, este ano 
ligeiramente prejudicadas pelo luar, o mês de 
setembro será propício a observar Urano (então 
em oposição, em plena constelação dos Peixes) 
e Neptuno, que agora se projeta sobre estrelas 
do Aquário.
A parte final do ano contém momentos inte-
ressantes, como a evocação da observação, 
pelo astrónomo dinamarquês Tycho Brahe, da 
“supernova da Cassiopeia” e a apresentação de 
resultados de investigações sobre a evolução 
estelar e as circunstâncias que determinam as 
explosões (mais ou menos violentas) de estre-
las em fase final de vida, bem como a observa-
ção da superlua de 3 de dezembro.No domínio da investigação espacial, para 
além do permanente lançamento de satélites 
para órbitas em volta da Terra, existe grande 
expectativa quanto ao projeto da NASA – com 
a importante e efetiva colaboração da Agên-
cia Espacial Europeia (ESA) – de construção 
e lançamento da nave Orion, princípio de um 
projeto que prevê um voo automático à Lua e 
regresso à Terra, a velocidades superiores às já 
experimentadas, ao qual se seguirão outros, 
tripulados, que levarão os astronautas pro-
gressivamente mais longe.
Caçadores de Estrelas
2017 astronómico
MÁXIMO FERREIRA
Diretor do Centro Ciência Viva de Constância
O lançamento 
da Orion para 
o primeiro teste, 
em 2014.
O céu de janeiro
A s associações de estrelas designa-das por “constelações de inverno” 
são agora bem visíveis, pois, de acordo 
com a classificação, elas se observam 
ao princípio das noites iniciais da res-
petiva estação do ano e – apesar da 
rotação aparente do céu – permanecem 
acima do horizonte até ao amanhecer 
seguinte. Erídano, a mais extensa do 
grupo (geralmente constituído por oito 
constelações), é a que se situa mais à 
direita de todas elas e constituída por 
estrelas de fraco brilho. A mais notável 
– a estrela alfa do Erídano – marca a foz 
do rio onde, segundo uma lenda, caiu 
Faetonte. Brilha um pouco mais do que 
a Polar, mas não se avista de Portugal, 
por ficar sempre abaixo do nosso hori-
zonte, aproximadamente a sul. A nas-
cente do rio corresponde à estrela Cursa, 
que se avista muito “perto” da notável 
Rígel, da constelação do Orionte. Esta 
última, que ocupa a região central das 
“constelações de inverno”, é das mais 
interessantes de todo o céu, não só por a 
figura que as suas estrelas podem sugerir 
(um pastor, um caçador ou um lutador 
gigante) ser facilmente imaginada, mas 
também por conter estrelas de grande 
brilho e colorações diversas e ainda 
nebulosas que, observadas e registadas 
através de telescópios, constituem moti-
vos de rara beleza que os astrónomos 
amadores muito apreciam e, ao mesmo 
tempo, autênticos “laboratórios” para os 
astrofísicos, que se dedicam ao estudo 
da formação e evolução de estrelas no 
interior de tais massas gigantescas de 
gases ionizados. À direita do Orionte (e 
um pouco acima), situa-se o Touro, cuja 
estrela mais notável – em brilho e colo-
ração – é Aldebarã, a qual, numa antiga 
interpretação, marca um dos olhos do 
animal cujos chifres se estendem até ao 
Cocheiro, constelação em que as estrelas 
mais notáveis parecem desenhar um 
pentágono. Um dos vértices daquela 
figura geométrica é marcado por Capela 
(a quinta estrela mais brilhante de todas 
as que se podem avistar a partir de Por-
tugal) e noutro situa-se Alnath, que, 
simultaneamente, corresponde à extre-
midade de uma das hastes do Touro. O 
Cão Maior (não representado no mapa 
das páginas seguintes por só emergir 
do horizonte um pouco mais tarde do 
que as 18h30, hora a que se refere o 
desenho) e o Cão Menor situam-se à 
esquerda do Orionte, a primeira delas 
sendo facilmente comparável à figura ali 
imaginada – se a observação for efetuada 
em locais razoavelmente escuros – e em 
Interessante 15
O planeta Urano e os seus anéis, fotografados pelo telescópio espacial Hubble, em 1998.
vão levá-los para os Peixes, embora com 
amplitudes de deslocamento diferentes, 
por também serem diferentes as suas 
velocidades. No último dia do mês, vê-
-los-emos mais “próximos” um do outro, 
com Vénus ligeiramente a sul das cinco 
estrelas (pouco brilhantes) com que é 
costume imaginar um pentágono para 
representar a cabeça de um dos peixes 
e, logo à esquerda, o vermelho Marte. 
Embora de maior dificuldade na obser-
vação – por a luz solar refletida ser tão 
atenuada pela distância que o coloca no 
limiar da perceção do olho humano –, o 
planeta Urano há muito que se encontra 
na constelação dos Peixes. Natural-
mente, a utilização de um binóculo e 
o conhecimento das estrelas que com 
ele se podem avistar naquela direção 
permitirão identificar um outro ponto 
luminoso (de coloração ligeiramente 
baça e que não figura nos vulgares mapas 
de estrelas), que corresponde ao último 
planeta teoricamente observável à vista 
desarmada.
que se destaca Sírio, a estrela mais brilhante 
de todo o céu; Mirzam marca uma das 
patas dianteiras do cão, enquanto Wezen 
e Adhara assinalam uma pata traseira do 
animal. Sírio com Prócion (do Cão Menor) 
e Betelgeuse (do Orionte) constituem o 
que vulgarmente se designa por “triângulo 
de inverno”. Entre os dois cães situa-se o 
Unicórnio, constituído por estrelas de fraco 
brilho, e, finalmente, os Gémeos, onde 
é fácil identificar as estrelas com os seus 
nomes, Pólux e Castor. Quanto a alterações 
que podemos perceber na esfera celeste, 
elas são, como sempre, as relacionadas 
com a Lua, que, noite após noite, aparece 
projetada na direção de constelações dife-
rentes e apresentando um aspeto que se vai 
alterando ao longo do mês. É claro que tam-
bém os planetas se deslocam em relação às 
estrelas, em particular aqueles que são agora 
visíveis ao início das noites; Vénus e Marte 
situam-se ambos na constelação do Aquá-
rio, nos primeiros dias deste mês de janeiro, 
mas os seus movimentos em volta do Sol 
– conjugados com a translação da Terra – 
SUPER16
Mapa do Céu
Vire-se para sul e coloque a revista sobre 
a cabeça, de modo que a seta fique apon ta da 
para norte. Se se voltar em qual quer das outras 
direções (norte, este, oeste), pode ro dar 
a revista, de modo a facilitar a leitura, desde 
que mantenha a seta apontada para norte. 
Os planetas e a Lua estarão sempre perto 
da eclíptica. O céu representado no mapa 
(no que se refere às estrelas) corresponde 
às 18h30 do dia 5. A alteração que se verifica 
ao longo do mês, à mesma hora, não é muito 
importante. No entanto, com o decorrer 
da noite, as estrelas mais a oeste 
irão mergulhando no horizonte, 
enquanto do lado este vão surgindo 
outras, inicialmente não visíveis.
Como usar 
As fases da Lua
Quarto Crescente Dia 5 às 19h47
Lua Cheia Dia 12 às 11h34
Quarto Minguante Dia 19 às 22h13
Lua Nova Dia 28 às 00h07
Interessante 17
NORTE
SUPER18
A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos apanhou toda a gente de surpresa. Em primeiro lugar, porque as son-
dagens não apontavam nesse sentido; em 
segundo, porque parecia uma regra de bom 
senso não eleger para o cargo político mais 
importante do mundo alguém com o perfil e as 
propostas de Donald Trump. Porém, foi mesmo 
isso que aconteceu! À incredulidade sucedeu 
a inevitável procura de “culpados”: os media, 
os democratas, os próprios eleitores e, final-
mente, o Facebook! A maior rede social da 
atualidade foi acusada de ter contribuído deci-
sivamente para o resultado da eleição, por ter 
permitido a propagação de notícias falsas. Esta 
“narrativa” envolve duas falácias e um perigo 
grave!
A primeira falácia é que foi o Facebook que 
“elegeu” Donald Trump. Dizer isso é mais ou 
menos o mesmo que dizer que a rádio foi a 
responsável pela ascensão de Hitler em 1933. 
Os fascismos europeus dos anos 30 usaram a 
rádio, então um media relativamente novo, 
como ferramenta fundamental para a sua 
ascensão ao poder, algo que está amplamente 
documentado, mas houve razões profundas e 
complexas que levaram as populações a esta-
rem recetivas ao tipo de mensagens que o fas-
cismo veiculou nessa época. O mesmo se pode 
dizer de Trump em 2016: aproveitou bem as redes 
sociais para propagar a sua mensagem, mas 
as razões porque ela encontrou eco junto do 
eleitorado são mais profundas e complexas.
O ANO DA “PÓS-VERDADE”
A segunda falácia é que o Facebook seja um 
veículo de falsas notícias e que existam hoje 
mais notícias falsas do que no passado. É claro 
que existem mais notíciasem quantidade abso-
luta, uma vez que há milhões de entidades e 
indivíduos que há uma década não dispunham 
de instrumentos para produzir informação e 
hoje têm um alcance global. Antes de haver 
uma ferramenta de comunicação global como 
o Facebook, é possível que houvesse uma men-
tira em cada bairro. A diferença para hoje é que 
essas mentiras tinham um alcance muito limi-
tado e não se propagavam como acontece nos 
nossos dias. No seu formato atual, o Facebook 
tem apenas dez anos e chega a mais de 1,7 mil 
milhões de utilizadores em todo mundo, o que 
significa que estamos todos a aprender a usar 
esta nova ferramenta de comunicação e infor-
mação. 
Ou seja, não é só a ideia de que foi o Facebook 
que ganhou as eleições que é paternalista face 
aos eleitores que democraticamente elegeram 
um presidente. É igualmente presunçoso pen-
sar que os utilizadores do Facebook têm de ser 
“ajudados” a distinguir o verdadeiro do falso na 
rede social que utilizam. Pelo contrário, eles ape-
nas terão de a usar para aprenderem a usá-la. 
O REGRESSO DOS GATEKEEPERS
O perigo que decorre destas duas falácias é 
a restauração de uma aliança perigosa entre 
os media tradicionais, ávidos de recuperar as 
receitas perdidas, e o poder político, desejoso 
de controlar aquilo que lhe escapa por entre os 
dados. Numa declaração recente, o ministro da 
Justiça alemão afirmou que o Facebook devia 
ser considerado uma empresa de media, como 
as estações de rádio ou a televisão. A pressão 
para que o Facebook se assuma como uma 
empresa de media não é de agora e já existia 
antes do “fenómeno” Trump. A decorrência 
lógica de considerar o Facebook como uma 
Sociedade Digital
Não culpem 
o Facebook!
Na sequência do terramoto político provocado 
pela eleição de Donald Trump para presidente 
dos Estados Unidos, os media e os analistas 
procuraram “culpados” em vários lados e 
acabaram apontando baterias ao Facebook e às 
notícias falsas propagadas durante a campanha. 
Será que a acusação tem realmente razão de ser?
empresa de media é que ele deve assegurar 
critérios de edição sobre os seus conteúdos, 
nomeadamente separando aquilo que é verda-
deiro daquilo que é falso. Ora, isso não é mais 
do que a restauração do gatekeeper, numa 
versão moderna e global. Aqueles que sugerem 
que o Facebook devia ter uma equipa editorial 
própria não explicam como essa equipa pode-
ria editar conteúdos em Portugal, nos Estados 
Unidos, na Índia e no Nepal, para utilizadores 
católicos, muçulmanos e judeus, etc., e tam-
bém não esclarecem como se poderia controlar 
o poder monumental de uma tal entidade.
UM PROBLEMA DE CONFIANÇA
Obviamente, o problema da confiança na 
informação que circula no corpo social – e 
hoje grande parte dela circula no Facebook – é 
um problema complexo e da maior relevância, 
sobretudo numa época de desregulação como 
aquela em que vivemos, mas essa questão não 
pode ser analisada sem entender a mudança 
de paradigma que está subjacente à era digital 
e à sociedade em rede. No passado, a nossa 
informação socialmente relevante vinha quase 
exclusivamente através dos mass media, com 
a mediação profissional de jornalistas cuja fun-
ção era exatamente assegurar a fiabilidade e 
veracidade da informação. Hoje, na era das 
redes sociais, com uma infinidade de canais de 
comunicação disponíveis e com a democrati-
zação do acesso à produção e distribuição de 
informação, precisamos de novos sistemas 
de verificação da veracidade daquilo que é 
tornado público. Pressionar o Facebook para 
assumir o papel de mediação que antes era 
o dos mass media não faz sentido num novo 
paradigma de informação que não é mediado 
e centralizado, mas sim desintermediado e 
distribuído.
Jeff Jarvis, jornalista, e John Borthwick, tec-
nologista, assinaram um artigo conjunto dias 
depois da eleição em que sugerem 15 medidas 
para melhorar a deteção de notícias falsas nas 
redes sociais, quase todas dirigidas à melhoria 
dos sistemas de gestão de informação ou des-
tinadas a fornecer sinais de verificação aos utili-
zadores. Melissa Zimdars, professora de comu-
nicação no Merrick College, de Boston, fez 
uma lista dos sites mais associados à propagação 
de notícias falsas, mas, sobretudo, deu uma série 
de dicas práticas – regras de bom senso, na rea-
lidade – para os utilizadores poderem eles pró-
prios verificar e desmontar as notícias falsas. 
Ao olhar para essas dicas, é impossível não pen-
sar no conceito de literacia digital e de como 
é afinal da falta dela que estamos a falar quando 
falamos de notícias falsas no Facebook.
Estas duas propostas vão num sentido dife-
rente da tese dominante nos mass media e 
atribuem a responsabilidade de desmontar as 
inverdades no meio digital aos utilizadores, em 
primeiro lugar, e aos algoritmos, em segundo. 
John Borthwick faz um paralelo com a forma 
como hoje controlamos o spam nos nossos 
sistemas de email e como a Google demorou 
anos para controlar os efeitos perniciosos das 
“click farms” que desvirtuavam os seus resul-
tados de pesquisa. 
Ou seja, em vez de colocarmos a enorme 
responsabilidade de determinar o que é verda-
deiro ou falso nas mãos de um “editor global” 
como o Facebook, devíamos seguir o exemplo 
da Wikipedia e atribuir essa tarefa ao conjunto 
dos utilizadores, secundados por algorit-
mos de deteção de falsidades. Existe um site 
(http://www.snopes.com) cuja função é preci-
samente desmontar notícias falsas, mediante 
sugestão dos utilizadores. Aquilo que Jarvis e 
Borthwick estão a recomendar é uma aborda-
gem distribuída do estilo Wikipedia para essa 
função, mas de forma que ela possa ser inte-
grada com as redes sociais existentes: uma 
espécie de Wikipedia para memes.
T odos os progressos feitos até hoje no setor da internet resultam do 
facto de ela ser um sistema aberto, ou 
seja, um sistema que qualquer utiliza-
dor pode ajustar às suas necessidades e 
no qual as comunidades de programa-
dores podem procurar soluções coleti-
vas e colaborativas para os problemas 
que vão surgindo. A criação da world 
wide web com um protocolo aberto 
teve esse objetivo. Para um utilizador 
experiente da internet e das redes so-
ciais, é normalmente fácil detetar que 
uma notícia que circula no Facebook 
não é verdadeira. As regras de bom 
senso referidas por Melissa Zimdars 
são suficientes. Para a generalidade 
dos utilizadores, o ideal seria que a 
comunidade global de programadores 
e developers pudesse desenvolver uma 
API que permitisse denunciar em tem-
po real as informações que são falsas 
usando como input as investigações 
prévias de outros utilizadores. Ou seja, 
os metadados são fundamentais na de-
teção e denúncia de falsidades online, 
assim como os sistemas automáticos 
de reputação, como aqueles que vigo-
ram no eBay, por exemplo. O proble-
ma é que o Facebook não é um sistema 
aberto. Pelo contrário, é um sistema 
fechado e proprietário. No nosso 
mundo digitalmente conectado, existe 
uma contradição fundamental entre 
o valor económico do “fechamento” 
e o valor social da “abertura”. Como 
o Facebook amplamente demonstra, o 
valor económico resulta da capacidade 
de fechar os dados dos utilizadores na 
plataforma e fazê-los gastar o máximo 
de tempo possível dentro dela, mas 
o valor social da ferramenta aumenta 
com as conexões que ela permite fazer 
e com as utilizações colaborativas que 
pode engendrar. Por isso, a pressão 
para fazer do Facebook “editor” dos 
nossos conteúdos é a estratégia errada. 
Se os media, os governos e os cidadãos 
querem mesmo “corrigir” o Facebook, 
então a pressão é para que ele seja 
aberto e não fechado. O caráter fe-
chado do Facebook já é, em si mesmo, 
um importante obstáculo ao desen-
volvimento da world wide web. Querer 
torná-lo no novo gatekeeper global da 
era digital é uma regressãohistórica 
tão grave e perigosa como a eleição de 
Donald Trump!
Opinião
Um sistema aberto
JOSÉ MORENO
Mestre em Comunicação e Tecnologias de Informação
 jmoreno@motorpress.pt
19Interessante
O Facebook foi acusado de ter ajudado 
a eleição de Donald Trump por causa 
das notícias falsas que circularam 
na rede social durante a campanha.
SUPER20
Retratos 
ORBITAIS
Terra
Um planeta espetacular
O artista Benjamin Grant recolheu, 
no seu livro Overview, uma série 
de fotografias únicas, captadas 
por satélite, que pretendem evocar 
as sensações dos astronautas quando 
olham para baixo e veem a Terra 
no seu conjunto.
Expansão explosiva
O vulcão da ilha japonesa 
de Nishinoshima, 940 
quilómetros a sul de 
Tóquio, entrou em erupção 
em novembro de 2013 
e esteve ativo até 2015. 
Nesse período, a ilha 
cresceu continuamente, 
graças ao fluxo de magma.
21Interessante
Vagões de mentiras
Esta imagem mostra 
o porto de Qinhuangdao, 
o mais ativo da China 
em embarque de carvão.
Em 2015, soube-se que 
o gigante asiático estava 
a queimar, desde 2000, 
mais carvão (até 17%) 
do que reconhecia 
internacionalmente. 
Isso significa que emitiu 
para a atmosfera, por 
ano, quase mil milhões 
de toneladas adicionais 
de dióxido de carbomo.
SUPER22
Paraíso. As praias idílicas do Rio 
de Janeiro dividem-se em segmentos 
marcados pelos “postos” (as torres 
dos nadadores-salvadores). Cada um 
deles atrai gente diferente (surfistas, 
milionários, famílias...). Aqui, Ipanema.
Flores alucinantes. Os campos de 
tulipas de Lisse (Países Baixos) atingem 
a floração máxima no final de abril. Todos 
os anos, produzem-se naquele país do 
norte da Europa 4300 milhões de bolbos.
Tecnologia de ponta. A Gemasolar, 
uma central de energia fotoelétrica situada 
perto de Sevilha, reduz em 30 mil toneladas 
anuais as emissões de dióxido de carbono.
Interessante 23
SUPER24
Ameaça fantasma. Diversas 
organizações ibéricas já alertaram 
que as alterações climáticas poderão 
acabar com olivais como este 
nos arredores de Córdova.
Zen. Construído no século XII, 
no Camboja, o templo de Angkor Vat 
(primeiro hindu, depois budista) é 
a maior estrutura religiosa do mundo.
Interessante 25
À beira do lago. A cidade de Delray 
Beach, na Flórida, fundada em 1911, 
tem uma superfície total de cerca de 
41 quilómetros quadrados. As casas 
estão dispostas em torno de lagos.
Urbanizar o deserto. Em Marabe Al 
Dhafra (Abu Dabi), vivem cerca de 2000 
pessoas. É um dos locais mais quentes 
do mundo. O seu record está em 49,2 ºC.
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SUPER26
O poder das 
SUPERNOVAS
Astronomia
Como podem afetar-nos
A morte de uma estrela é um dos espetáculos 
mais violentos do universo. Quando ocorre, 
o brilho que se produz ultrapassa o emitido 
por toda a galáxia, e desencadeia-se um processo 
com impacto nos sistemas vizinhos.
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27Interessante
O rasto do cataclismo. Há entre 5000 
e 8000 anos, uma estrela muito maciça 
chegou ao final da sua vida e explodiu 
como supernova, na constelação do Cisne. 
Os seus restos formam hoje a nebulosa 
do Véu, com 50 anos-luz de diâmetro.
São o mais 
perigoso
fenómeno 
astronómico 
conhecido
SUPER28
E m março passado, uma equipa inter-nacional de astrónomos liderada por Peter Garnavich, astrofísico da Uni-versidade de Notre Dame em Indiana 
(Estados Unidos), anunciou que tinha conse-
guido registar, pela primeira vez na história, 
o shock breakout de uma supernova, isto é, o 
clarão provocado pela onda de choque da 
explosão que acompanha a morte mais catas-
trófica de uma estrela. A explosão que a definiu, 
denominada KSN 2011d, alcançou o máximo bri-
lho passados catorze dias, embora o fenómeno 
tivesse durado apenas vinte minutos. 
Este êxito exigiu uma grande quantidade de 
sorte e muita paciência. Sorte, porque o teles-
cópio espacial Kepler, com o qual foi captada, 
observou a estrela durante esse breve período 
de resplendor; paciência, porque não foi fácil 
descobri-la entre a enorme quantidade de 
observações efetuadas pela ferramenta.
A estrela em questão, situada a 1200 milhões 
de anos-luz, era uma supergigante vermelha, 
quinhentas vezes maior do que o Sol. Quando 
o núcleo colapsou, produziu-se uma violentís-
sima libertação de energia, transformando-a 
num objeto 130 milhões de vezes mais lumi-
noso do que o astro-rei. No ponto culminante, 
o brilho excedeu o de toda a nossa galáxia. 
UMA LUTA INTERIOR
Porque acontecem estes fenómenos? Para 
podermos entendê-lo, devemos tomar em con-
sideração que a vida de uma estrela é, desde 
o seu nascimento no interior de uma nuvem 
de gás e poeira interestelar, uma luta contínua 
contra a gravidade, que tende a concentrar toda 
a massa no centro. A única forma de impedi-lo é 
usar a energia que emana do seu forno nuclear. 
Ora bem: o que acontece quando se esgota o 
combustível? A gravidade continua a atuar e 
o colapso gravitacional ameaça o seu futuro. 
No caso do Sol, isso sucederá quando se aca-
bar o hidrogénio do seu núcleo. Nessa altura, 
terminará a vida nuclear da nossa estrela. 
Porém, nas que são muito mais maciças, a situa-
ção é totalmente diferente: uma vez consu-
mido o hidrogénio, o núcleo contrai-se, a tem-
peratura sobe e inicia-se a combustão do hélio. 
Só esse facto exerce um impacto considerável 
no cosmos. 
Em 1957, o heterodoxo astrónomo inglês 
Fred Hoyle assinou, juntamente com William 
Fowler e o casal Margaret e Geoffrey Burbidge, 
um dos artigos científicos mais importantes do 
século passado, intitulado “Síntese dos Ele-
mentos nas Estrelas”. Como o nome indica, 
descreve como se geram nas estrelas muito 
maciças os diferentes elementos químicos, 
desde o hélio até ao ferro. Hoyle descobriu um 
dos processos fundamentais, a fusão do hélio 
em carbono. Neste, liberta-se menos energia do 
que quando se passa do hidrogénio para o 
hélio, pelo que a reação tem de ser mais rápida 
para a estrutura da estrela se poder manter. 
A CAMINHO DA EXPLOSÃO
Antes de todo o hélio se consumir, o que leva 
cerca de um milhão de anos, o núcleo volta a 
contrair-se e aumenta a sua temperatura, até se 
produzir a fusão do carbono e do hélio em 
oxigénio. Esgotado o primeiro, a temperatura 
do núcleo sobre até aos 600 milhões de graus. 
Além de oxigénio, formam-se outros elemen-
tos, como sódio e magnésio. A estrela só conse-
gue manter esta reação durante cem mil anos. 
Em seguida, é a vez do oxigénio, que produz 
silício e enxofre, numa série de reações que se 
prolongam apenas por dez mil anos. Esta 
mudança de escala será uma constante no que 
resta de vida ao objeto: cada reação nuclear 
produzirá cerca de dez vezes menos energia do 
que a anterior. Contudo, no momento em que 
principia a fusão do silício para produzir ferro, 
o destino da estrela está traçado. 
Sucede desta forma: à medida que a com-
bustão do silício termina, o núcleo começa a 
contrair-se e a sua temperatura sobe acima dos 
5000 milhões de graus. A energia libertada é tão 
Histórica. A supernova que deu 
origem à nebulosa Cassiopeia A 
pode ter sido a “estrela” que, segundo 
as crónicas, assinalou o nascimento 
de Carlos II de Inglaterra, em 1630.
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Uma nova estrela no céu? 
Em 1054, astrónomos chineses 
eárabes registaram a explosão 
que criou a nebulosa do Caranguejo, 
a 6300 anos-luz. Expande-se 
a 1500 quilómetros por segundo.
Interessante 29
Óbitos estelares
E m 1931, o físico Subrahmanyan Chandrasekhar descobriu que as 
estrelas que têm até 1,44 vezes a massa 
do Sol acabam por se transformar em 
anãs brancas, um remanescente estelar 
do tamanho da Terra. A grande maioria, 
incluindo a nossa, tem de passar pelo 
processo. Se a sua massa ultrapassar esse 
limite, terminará como uma estrela de 
neutrões, um denso cadáver estelar, do 
tamanho de uma cidade. Quando a massa 
final da estrela é, pelo menos, 3,5 vezes 
maior do que a do Sol, surge um buraco 
negro. Na ilustração em baixo, pode ver 
um esquema da evolução dos diferentes 
tipos de estrelas, das mais maciças, em ci-
ma, às de menor massa, em baixo. O Sol é 
uma estrela comparativamente pequena.
intensa que a estrela começa a desfazer o traba-
lho que foi desenvolvendo ao longo de toda a 
sua existência, pois os fotões que se criam são 
tão energéticos que desintegram os núcleos de 
ferro em hélio, num processo que também rouba 
energia à estrela. Para poder manter a sua estru-
tura e não entrar em colapso, o núcleo começa 
a comprimir-se cada vez mais depressa, o que 
faz aumentar a sua densidade. Quando chega 
às dez mil toneladas por centímetro cúbico, 
os eletrões alcançam a energia suficiente para 
transformar os protões em neutrões, o que 
acaba por retirar ainda mais energia à estrela.
O processo liberta neutrinos, que escapam 
de forma torrencial. A perda de energia é 
rápida é inexorável, e a gravidade vai fazendo 
o seu trabalho, desintegrando cada vez mais 
depressa o núcleo da estrela, o que aumenta 
a densidade e faz disparar a produção de neu-
trões. Para fazermos uma ideia dessa espécie 
de fuga para a frente, basta imaginar a Terra a 
comprimir-se para alcançar o tamanho de Lis-
boa em menos de um segundo. 
SOPA DE NEUTRÕES
Quando a densidade atinge cem milhões de 
toneladas por centímetro cúbico, os núcleos 
atómicos desintegram-se. O que resta é uma 
sopa de neutrões e de outras partículas suba-
tómicas. O núcleo, que iria colapsar por ação 
da gravidade, mantém-se devido à chamada 
“pressão de degeneração”; o peso da estrela, 
que tende a concentrar toda a massa no centro, 
não vence porque duas partículas de matéria não 
PROTOESTRELA
PROTOESTRELA
SUPERNOVA
BURACO NEGRO
SUPERBOLHA
ESTELAR
SUPERNOVA 
DE TIPO II
SUPERNOVA DE TIPO II
SUPERNOVA 
DE TIPO IA
PROTOESTRELA
PROTOESTRELA
PROTOESTRELA
PROTOESTRELA
CRECHE 
ESTELAR
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GIGANTE
AZUL
GIGANTE 
VERMELHA
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BRANCA
ANÃ 
BRANCA
ESTRELA 
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SUPERGIGANTE 
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VERMELHA
NEBULOSA PLANETÁRIA
ESTRELA 
DE NEUTRÕES
PROTOESTRELA
SUPERGIGANTE 
AZUL
SUPERGIGANTE 
AZUL
podem estar no mesmo sítio ao mesmo tempo. 
O colapso detém-se. 
Diferentes fenómenos produzem-se em 
zonas distintas da estrela. Enquanto a parte 
mais densa do núcleo, no centro, se afunda em 
menos de um segundo, a região exterior fica 
sem sustentação e desmorona-se a 60 mil qui-
lómetros por segundo. Essa matéria em queda 
livre colide contra um muro cem milhões de 
vezes mais duro do que se fosse feito de tijolo, 
o centro degenerado de neutrões, e ressalta: 
sai disparada para fora, criando uma onda de 
choque que viaja a 10 000 km/s. 
À medida que avança em direção ao exte-
rior, aumenta de velocidade, pois a matéria que 
encontra pelo caminho possui uma densidade 
menor. Em poucos minutos, alcança a superfície, 
SUPER30
Calcula-se que 
na Via Láctea 
ocorra uma, 
em média, 
a cada 50 anos
projetando a matéria a milhares de quilóme-
tros por segundo e provocando um extraordi-
nário clarão. Em poucas semanas, gera-se tanta 
energia como a produzida pelo Sol desde que 
existe. A estrela explode, mas nem tudo é des-
truição...
Na região situada por detrás da onda de cho-
que, rica em elementos pesados e em neutrões, 
surgem em poucos segundos todos os átomos 
que ficam acima do ferro na tabela periódica, 
como ouro, prata, platina e urânio. A matéria 
proveniente da estrela colide com as poeiras e 
os gases interestelares circundantes e aquece-
-os a uma temperatura de um milhão de graus, 
enquanto prossegue uma expansão que irá 
durar milénios, até que os restos do que foi 
outrora uma estrela gigante se dissolvam no 
meio inter estelar, passados uns cem mil anos. 
O material expulso acabará por formar 
nuvens de gás, nas quais poderão surgir, com 
um pouco de sorte, milhões de anos depois, 
novas estrelas. Foi essa a origem do Sistema 
Solar: os átomos de cálcio dos nossos ossos ou 
os de ferro presentes no nosso sangue foram 
cozinhados no interior de uma estrela gigan-
tesca que morreu há milhares de milhões de 
anos. Poder-se-ia dizer que somos filhos dos 
seus restos. 
RISCO DE EXTINÇÃO
A faceta romântica das supernovas, por assim 
dizer, acaba aqui, pois trata-se de um dos mais 
perigosos fenómenos astronómicos, e nada 
podemos fazer para evitá-lo. Alguns cientistas 
suspeitam que uma supernova próxima talvez 
tenha sido responsável por algumas das extin-
ções em massa que assolaram o nosso planeta. 
A única forma de sabê-lo com alguma certeza 
seria encontrar depósitos de material radioa-
tivo que só pudesse ter sido formado por uma 
estrela moribunda. No final dos anos 90, um 
grupo de investigadores da Universidade Téc-
nica de Munique (Alemanha) decidiu procurá-
-los no fundo marinho; andavam atrás da pista 
do isótopo radioativo ferro-60. Em 2004, sur-
giu num extrato datado de há 2,8 milhões de 
anos, mas a data não coincide com qualquer 
grande extinção. 
Em 2013, Shawn Bishop, um físico nuclear da 
mesma instituição, anunciou que tinha encon-
trado pequenas quantidades desse composto 
em amostras com 2,2 milhões de anos obtidas 
no Pacífico equatorial. Ao que parece, certas 
bactérias, que utilizam o ferro do seu meio 
ambiente para criar cristais magnéticos e orien-
tar-se em relação ao campo magnético da Terra, 
captaram o isótopo, que lhes chegou, literal-
mente, caído do céu. Que supernova poderia 
ter estado na sua origem?
UM PAPEL NA EVOLUÇÃO
Alguns astrónomos já tinham assinalado 
antes que se produziram, nos últimos onze 
milhões de anos, vinte supernovas num grupo 
de estrelas jovens, a Associação Escorpião-
-Centauro. Algumas ocorreram a apenas 130 
anos-luz. 
Outros sugerem que a contaminação lumi-
nosa que tais fenómenos provocam pode afe-
tar os animais. Por exemplo, sabe-se, através de 
diferentes estudos, que há espécies que utilizam 
o brilho do nosso satélite para se guiar ou 
reproduzir, e que a quantidade de luz intervém 
na produção de certas hormonas, como a mela-
tonina. Esta é fundamental, entre outras coisas, 
para regular os ritmos circadianos. Pois bem: 
algumas supernovas são mais luminosas do que 
a Lua cheia; uma delas, registada em 1006, foi 
observada durante um ano inteiro. 
Poderiam ter tido alguma forma de inter-
venção na evolução dos nossos antepassados? 
O astrónomo Brian Thomas, da Universidade 
Washburn (Kansas), acha que sim. O investiga-
dor indica que, após a explosão de duas super-
À beira da crise. A Eta Carinae 
pertence a um sistema binário 
situado a 7500 anos-luz. É uma 
estrela cem vezes mais maciça 
do que o Sol, e pode rebentar como 
hipernova a qualquer momento.
Interessante 31
novas há cerca de dois milhões de anos, o nosso 
planeta recebeu um banho de radiação três 
vezes superior àquela a que estamos expostos 
de forma natural, o que terá aumentado, na sua 
opinião, a possibilidade de várias geraçõesdos 
primeiros Homo erectus terem sido vítimas de 
cancro. Outros cientistas consideram que isso 
é improvável. Os habitantes de Karunagappally, 
uma cidade da Índia, recebem vinte vezes mais 
radiação natural do que o resto do mundo, mas 
um estudo de 2009 não encontrou ali maior 
incidência de cancro. 
Quanto mais próxima se encontrar uma 
supernova, mais perigosa será. Os seus efeitos 
seriam devastadores se ocorresse a poucas 
centenas de anos-luz de nós uma como a des-
crita por uma equipa de atrónomos da Univer-
sidade do Ohio, da Institução Carnegie para a 
Ciência e da Fundação Kavli. No início de 2016, 
anunciaram na revista Science a descoberta da 
maior dessas explosões de que se tem conheci-
mento, duzentas vezes superior às supernovas 
normais. 
VINTE VEZES A IDADE DO SOL
Ocorreu em junho de 2015 e foi detetada por 
observatórios de todo o mundo. O seu nome é 
ASASSN-15lh, acrónimo do projeto da Univer-
sidade do Ohio, All Sky Automated Survey for 
Supernovae, que utiliza telescópios robóticos 
para esquadrinhar o céu. Situada a 3800 milhões 
de anos-luz, a ASASSN-15lh pertence a uma nova 
categoria de supernovas descoberta há pouco 
mais de duas décadas, tornando-se conhecidas 
por “hipernovas”. Contudo, esta ultrapassou a 
escala: foi 570 mil milhões de vezes mais lumi-
nosa do que o Sol, e vinte vezes mais brilhante 
do que todas as estrelas da nossa galáxia juntas. 
Para podermos fazer uma ideia, nos quatro 
primeiros meses de observação, emitiu tanta 
energia que, para igualá-la, o Sol teria de bri-
lhar ininterruptamente durante 90 mil milhões 
de anos (vinte vezes a sua idade atual).
Da devastadora explosão só restou um objeto, 
muito compacto, de não mais de 10 km de diâ-
metro. A maior parte dos astrónomos inclina-se 
para a hipótese de se tratar de um dos corpos 
estelares mais exóticos do universo, um mag-
netar. 
Um magnetar é, essencialmente, uma estrela 
de neutrões com um campo magnético muito 
potente. Tal como elas, tem rotação, mas é mais 
lenta: demora entre um e dez segundos para 
completar uma volta. O seu campo magnético 
é responsável por se produzirem as caracte-
rísticas explosões de raios X e gama, as quais 
ocorrem quando o objeto atravessa uma etapa 
de ajustamento repentino, conhecida por 
“sismo estelar” (starquake). Dado o número de 
magnetares visíveis, estima-se que haja, na Via 
Láctea, trinta milhões já inativos, pois perdem 
muito rapidamente a sua energia em cerca de 
dez mil anos.
M.A.S.
Ofuscantes 
hipernovas
É assim que se designa uma variedade de supernovas que são centenas 
de milhares de milhões de vezes mais 
brilhantes do que o Sol (muito mais do 
que as que são geralmente detetadas). O 
processo é extremamente energético e, 
de facto, alguns astrofísicos pensam que 
é nas hipernovas que reside a origem dos 
surtos de raios gama de longa duração. 
Contudo, trata-se de fenómenos raros; 
na nossa galáxia, poderia ocorrer uma 
em cada duzentos milhões de anos. Para 
explicar a sua formação, foram sugeridas 
duas hipóteses. Uma fala em colapso 
gravitacional: pensa-se que as hiperno-
vas ocorrem em estrelas muito maciças 
que rodam a grande velocidade. Outra, 
conhecida por “modelo MCS”, toma em 
consideração o material circum-estelar: 
produzir-se-ia quando uma estrela muito 
maciça está rodeada de uma nuvem de 
gás, o que lhe conferiria essa lumino-
sidade extraordinária no momento da 
explosão.
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O coração 
da NASA
Astronáutica
Centro Espacial Kennedy
Local mítico da conquista espacial, peregrinação 
obrigatória entre os marcos importantes 
na história da humanidade, é aqui que se constrói 
o futuro da NASA e se preparam ativamente 
as primeiras viagens tripuladas a Marte. 
Paulo Afonso visitou o Centro Espacial Kennedy 
e conta-nos o que por lá viu.
sigla inglesa). Em Washington D.C., fica o quar-
tel-general da NASA, onde tive reuniões com 
equipas científicas luso-brasileiras e com alguns 
dos principais diretores da NASA, do oficial de 
proteção planetária ao vice-administrador.
Faltava-me, porém, ver as plataformas de 
lançamento das missões lunares tripuladas, 
o colossal Saturn V, o enorme edifício onde 
o vaivém espacial era montado na vertical 
para depois ser movido muito lentamente (a 
velocidades da ordem de um quilómetro por 
hora!) por lagartas mecânicas do tamanho de 
dinossauros. 
ALEGRIAS E TRISTEZAS
O meu grupo subiu ao Centro de Controlo e 
Lançamento do Centro Espacial Kennedy (KSC, 
na sigla inglesa) no mesmo elevador em que 
muitos presidentes norte-americanos fizeram a 
visita ritual. Dali aplaudiram muitas vezes, e ali 
se sofreu igualmente, em 1986, com a explosão 
do Challenger. O horizonte distante no KSC é feito 
de silhuetas desses momentos, de plataformas 
ativas e desativadas de vários foguetes, de 
várias missões.
Estamos no coração da NASA: se algo impor-
tante explodir, é aqui que se chora primeiro; 
se enviarmos astronautas a Marte, é muito 
provavelmente daqui que partirão. Lá está em 
transformação a histórica plataforma 39-A, 
que antes serviu o programa Apollo e o vai-
J á tive ocasião de visitar vários centros da NASA, a agência norte-americana para os assuntos aeronáuticos e espa-ciais. Perto de Los Angeles, o Laborató-
rio de Propulsão a Jacto (JPL, na sigla inglesa) 
impressiona qualquer um com a vaga de explo-
rações planetárias: dos múltiplos exploradores 
robotizados na superfície de Marte à passagem 
recente da sonda New Horizons por Plutão. 
Como diz uma placa de vidro no chão do Centro 
de Operações de Voos Espaciais do JPL: “Aqui 
é o centro do Universo”, onde tudo acontece! 
Ficamos igualmente boquiabertos no meio 
do deserto do Mojave, dado o tamanho monu-
mental das antenas do espaço profundo do 
Centro Espacial Goldstone, parte fulcral das 
telecomunicações da NASA. De referir ainda as 
experiências de microgravidade e câmara de 
vácuo gigante do Centro Espacial Glenn, em Cle-
veland (Ohio). Gigantesco é também o termo 
que melhor designa o túnel de vento do Centro 
Espacial Ames, perto de San Francisco, mais 
conhecido pela excelência do seu trabalho em 
astrobiologia.
Ainda no Mojave, no Centro Espacial Arms-
trong, podemos vivenciar o calor do deserto e 
os feitos de Chuck Yeager e do primeiro grupo 
de astronautas dos Estados Unidos, que fez fama 
com as cápsulas tripuladas Mercury, uma histó-
ria que começou na adjacente Base Edwards, 
da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF, na 
vém espacial, agora alugada por vinte anos 
à companhia privada Space-X, que a está a 
desmantelar e adaptar para futuras missões. 
Um pouco mais a norte, da plataforma 39-B, já 
totalmente transformada, a NASA planeia vir a 
lançar o descomunal foguete SLS (mais pode-
roso do que o Saturn V) e a cápsula Orion, com 
destino aos asteroides e a Marte.
Com uma vasta frota de autocarros que dia-
riamente transportam milhares de visitantes 
através do KSC (com multidões por vezes vindas 
da Disneylândia), podem escolher-se vários 
percursos e visitas guiadas. Recomendo cla-
ramente o simulador do vaivém ao lado da 
exposição onde quase pode tocar o Atlantis 
– sim, o próprio vaivém Atlantis! Igualmente 
é a não perder o Centro Apollo -Saturn V, com 
a reconstituição da sala de controlo do programa 
Apollo e um foguete Saturn V restaurado (com 
mais de cem metros de comprimento!) pai-
rando sobre as nossas cabeças. 
Disneylândia para adultos 
O Jardim dos Foguetes recebe os visitantes, 
que ali acorrem aos milhares por dia.
33Interessante
Tive a sorte de assistir em direto ao lança-
mento (e correspondente estrondo!) de um 
foguete Atlas 5 a partirde cabo Canaveral, com 
um satélite de recolha de informações militares 
(NROL-61). Já não tive tempo, porém, de visitar 
o próprio cabo Canaveral, ao lado do KSC, hoje 
uma base da USAF. No mínimo, conte com três 
dias de visita.
O PROGRAMA APOLLO
Foi daqui que partiram todas a missões tri-
puladas à Lua. Metaforicamente, quase pode-
mos ver o infante D. Henrique lado a lado com 
D. João II a dar as ordens de lançamento a estas 
novas caravelas. Da era do vaivém, a silhueta 
intemporal da plataforma 39-A impõe um silên-
cio respeitoso, uma introspeção quase exis-
tencial em memória desses tempos e glórias 
passadas.
A fragilidade da natureza humana logo nos 
chama, porém, para dentro dos autocarros com 
ar condicionado. Estamos na Flórida, com calor 
e humidade em combinações inclementes. 
Os jacarés crocodilinos, esses adaptam-se bem, 
mesmo num pequeno lago logo ao lado da pla-
taforma 39-A, o que faz os nossos guias contar 
um sem-número de histórias acerca de tais ani-
mais: desde edifícios forçados a ter sensores 
de proximidade mais altos para não abrir portas 
de laboratórios a corpos rastejantes, às omni-
presentes vedações de cerca de dois metros 
de altura curvadas para fora, dada a surpreen-
dente agilidade dos répteis.
Na plataforma 39-B, que as transformações 
em curso deixaram já mais historicamente 
desfigurada, apenas as torres pára-raios de 181 
metros de altura nos fazem lembrar a lição 
aprendida com a Apollo XII. Atingida por raios 
duas vezes logo no início do lançamento, per-
deu eletricidade em muitos dos seus sistemas, 
mas tudo acabou por correr bem, indo à Lua e 
voltando. Hoje, há pára-raios por todo o lado, 
vários em torno de cada plataforma de lança-
mento dos diferentes foguetes, com missões 
muitas vezes adiadas pelo mau tempo.
No capítulo das pequenas histórias, o Saturn V 
também tem muito a contar. Todos sabiam que 
se tratava do foguete mais poderoso do mundo, 
para irmos à Lua. Ninguém esperava, porém, 
que o estrondo do seu lançamento fosse tão 
letal, e uma estação de transformadores elétri-
cos foi destruída a alguns quilómetros da plata-
forma. Ainda lá estão as paredes em ruínas da 
estação, próxima da costa, para lembrar por-
que se passaram a despejar toneladas de água 
durante os lançamentos do vaivém, em que a 
cabine e as asas poderiam sofrer danos acús-
ticos significativos. A água absorve muita da 
pressão sonora do lançamento e é barata e 
fácil de manipular. 
As cabines tripuladas Apollo situavam-se mais 
alto, mais longe do ruído dos motores, com-
parando com as dimensões mais compactas 
A vida dos 
templários
não era um 
mar de rosas
SUPER34
do vaivém. Isso não impediu, porém, que a 
NASA se visse forçada a contratar uma empresa 
de serviços domésticos aquando dos lançamen-
tos Apollo para substituir os vidros partidos nas 
janelas de muitos dos residentes nas paradisía-
cas localidades costeiras circundantes!
Para se ter uma ideia da bestialidade destes 
lançamentos, mesmo a cerca de cinco quilóme-
tros das plataformas 39, as janelas exteriores 
do Centro de Controlo e Lançamento do KSC 
têm cinco centímetros de espessura e podem 
ser cobertas por grandes telas deslizantes 
para segurança quase imediata, em caso de 
explosão de algum foguete. Tempos modernos 
de tecnologia sem fios, muito diferentes dos 
primórdios em cabo Canaveral, quando tudo 
dependia ainda de cabos elétricos e era neces-
sário estar mais próximo dos foguetes, em 
estruturas militares do tipo das casamatas 
subterrâneas.
Destas janelas espessas, podemos admirar ao 
longe o percurso das plataformas lançadoras 
móveis, imaginando viagens que começariam 
ao cair da noite, acabando pela madrugada. 
Transportava-se assim o Saturn V ou o vaivém 
espacial em lagartas mecânicas sobre um solo 
de cascalho especial, que não podia (claro!) 
gerar faíscas quando submetido a tamanhas 
pressões. Tudo era feito muito lentamente, 
com muito cuidado, sobretudo na rampa de 
aproximação final ao local de lançamento, 
onde estas maravilhas mecânicas conseguiam 
manter as naves espaciais sempre bem alinha-
das, nunca com maior desvio da verticalidade 
do que uma bola de pinguepongue. 
Diziam os nossos guias, com algum sentido de 
humor, que isso afinal não seria de surpreender, 
pois um dos membros da equipa da lagarta 
mecânica tinha apenas como responsabilidade 
verificar se alguma tartaruga ou outro animal 
se aproximava no caminho. Se viesse ao encon-
tro do vaivém, ele teria de correr para espan-
tar o animal do cascalho. Se o movimento 
fosse de afastamento, então não havia preocu-
pações, pois mesmo as tartarugas conseguiriam 
aumentar a distância a estas plataformas 
móveis! Isto já para não falar nas paragens obri-
gatórias a meio da viagem, impostas pelo sin-
dicato dos trabalhadores de turnos noturnos 
da NASA. “A sério, as paragens existiam 
mesmo”, diziam eles, tentando simultanea-
mente emendar a mão, garantindo que os sin-
dicatos sempre foram assunto de grande res-
peito na NASA. A gargalhada era geral no auto-
carro, cheio de gente vinda dos quatro cantos 
do mundo.
Poucos saberão, mas o KSC tornou-se uma das 
maiores áreas de proteção ambiental da Flórida. 
Por razões de segurança inerentes às atividades 
espaciais, nem barcos nem atividades indus-
triais são permitidas nas suas proximidades, 
o que acaba por tornar o KSC um santuário para 
vários animais terrestres e marinhos, de tar-
tarugas a águias pesqueiras de cabeça branca 
(o símbolo dos Estados Unidos), de que vi um 
casal num ninho enorme. Todo o pessoal do 
KSC tem orgulho nisso.
O FIM DO VAIVÉM
Pois é: acabaram-se os voos do vaivém e, 
parecendo que não, já lá vão cinco anos! Lem-
bro-me claramente de estar a almoçar com 
a minha família e o meu pai dizer, ao ver as 
notícias na televisão, em 1981: “Olha, os ame-
ricanos têm uma nova nave espacial.” Para a 
criança que eu era então, aquilo era fascinante, 
era real – eu que vibrava com o Flash Gordon, 
o Buck Rogers, o Espaço 1999 e as outras séries 
televisivas de fição científica orientadas para 
a exploração espacial. As missões do vaivém, 
A NASA está agora vocacionada 
para Marte e o espaço profundo
Reutilização. A histórica plataforma 
39-A, que antes serviu o programa Apollo 
e o vaivém, está agora alugada à Space-X.
Interessante 35
A um palmo. O vaivém Atlantis, 
o último a ser desativado, faz parte 
da exposição e quase se pode tocar.
desde o telescópio espacial Hubble às expe-
riências realizadas com laboratórios e ao lan-
çamento de satélites, deixaram um legado 
ímpar. Balanço de 30 anos: 135 missões, 355 
astronautas e mais de 1320 dias no espaço. 
Em 2011, o Atlantis fez o último voo de uma 
epopeia que acabou essencialmente por quatro 
razões. A primeira prende-se com a natureza 
do vaivém, uma nave pensada e desenvolvida 
inicialmente antes dos anos 80 para a explo-
ração da baixa órbita terrestre. Hoje, a NASA 
quer ir mais longe, com Marte no horizonte. 
Depois, a destruição das naves Challenger e 
Columbia deixou marcas, sendo também muito 
caro construir mais para as substituir. Outra 
razão prende-se com a complexidade do vai-
vém, que possui mais de dois milhões e meio 
de componentes, e a subjacente natureza 
perigosa. Com o fim da construção da Estação 
Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa), 
completou-se a grande tarefa ulterior do vaivém.
Resta-nos agora contemplar a magnificência 
destas naves em exposições impressionantes 
como a do Atlantis, no KSC. Logo à entrada, 
passamos por baixo de uma réplica mastodôn-
tica (em tamanho real) do tanque de combus-
tível externo e dos foguetes laterais de prope-
lente sólido. Depois, entramos numa espécie 
de convés ótico (não, ainda não é o convés 
holográfico de Star Trek) que procura simular 
Osimulador do vaivém
N o mesmo edifício onde podemos admirar o vaivém Atlantis, encon-
tra-se também uma das maiores atrações 
para o público mais graúdo: o simulador. 
Após algumas explicações do que vamos 
encontrar e desaconselhando adultos 
com problemas de costas ou outras ma-
leitas, entramos para o interior do simu-
lador, com 44 assentos em estilo monta-
nha-russa, com as devidas barras laterais 
peitorais a servir de segurança extra. De 
facto, fiquei impressionado. Desde logo, 
parecia que os maxilares iam sair do crâ-
nio a cada grande abanão do simulador 
na fase de ascensão, em que ao mesmo 
tempo parece que somos esmagados 
contra o assento. Ainda tenho boas cos-
tas, mas deu para sentir o aperto. Além 
disso, pratiquei boxe inglês (quando 
entre cavalheiros, é uma arte de ataque 
e defesa) durante um par de anos, pelo 
que foi interessante voltar a tentar man-
ter os dentes no sítio, sem ter ninguém 
a socá-los. Dá para perceber quando se 
ejetam os propulsores sólidos laterais na 
ascensão e, quando se chega a órbita e 
desligam os motores (largando o tanque 
de combustível externo), parece que de 
facto flutuamos, e então valem-nos as 
barras peitorais, para não “levantarmos” 
do assento. Trata-se, claro, de uma ilusão 
do nosso sistema vestibular e dos canais 
semicirculares em alinhamento XYZ e 
da endolinfa que os percorre no ouvido 
interno, um processo que se conhece 
bem da fisiologia de voo. Na realidade, o 
simulador passa de uma posição inclina-
da a cerca de 70 graus da vertical (como 
eram lançados os astronautas do vai-
vém) para uns 50 graus, e daí o “entrar-
mos” em imponderabilidade. Os críticos 
dizem que, para uma cavalgada cheia 
de adrenalina que dura apenas cerca de 
cinco minutos, é exagerado que o seu 
desenvolvimento tenha custado cerca 
de 60 milhões de dólares. O criador do 
simulador, Bob Rogers, (diretor da em-
presa BRC Imagination Arts), diz em sua 
defesa que vários astronautas foram ou-
vidos e consultados no desenvolvimento 
do simulador. De facto, são os próprios 
astronautas a afirmar que o simulador 
reproduz bem os sons, as vibrações, as 
vistas do interior, a hipergravidade no 
lançamento e a microgravidade aquando 
em órbita terrestre.
SUPER36
o interior do Atlantis e o que se vê nas dife-
rentes fases do seu voo. Finalmente, abrem-se 
“as portas do espaço”, surgindo por detrás em 
apoteose o Atlantis, suspenso por cabos titâni-
cos na sua exibição pública de vários andares, 
em que ficamos a pouco mais de um braço de 
conseguir tatear, abraçar tal maravilha. Entre 
outros atrativos, os miúdos deliram ao senta-
rem-se numa réplica da cabina de pilotagem, 
alguns meio alucinados, outros aguardando 
com educação a sua vez, como foi o caso de um 
par de crianças portuguesas que lá encontrei.
O FUTURO DOS VOOS ESPACIAIS
A NASA não abandonou a exploração da 
órbita baixa terrestre, estabelecendo parcerias 
com empresas privadas que permitam desen-
volver a nova era de acesso espacial. Com a 
NASA totalmente dependente da Rússia para 
chegar à ISS e estando as coisas azedas com 
Putin, os contratos celebrados com a Space-X 
e a Boeing procuram lançar novamente astro-
nautas norte-americanos, de solo norte-ameri-
cano, em naves norte-americanas. Isto implica 
uma filosofia orientada para desenvolver 
o setor privado espacial, enquanto a NASA se 
ocupa de continuar a ir mais longe no espaço 
profundo. Espera-se que, a partir de 2018, o 
Starliner da Boeing leve astronautas para a ISS, 
estando a sua construção a fazer-se (sinais dos 
tempos) no antigo hangar do KSC onde decor-
ria a montagem pré-voo do vaivém.
Para além da Boeing, a Space-X desenvolve 
também as suas cápsulas tripuláveis Dragon, 
tendo anteriormente transportado equipa-
mento para a ISS, com lançamentos dos fogue-
tes Falcon a partir da plataforma 40, em cabo 
Canaveral. São também sobejamente conhe-
cidos os planos audaciosos de Elon Musk para 
levar astronautas a Marte com foguetes da 
O Centro 
Apollo-Saturn V
A grande atração no Centro Apollo-Saturn V é a reconsti-
tuição do centro de operações da 
missão Apollo VIII, onde ainda se 
podem ver computadores e mesas de 
trabalho usados durante a primeira 
missão tripulada a orbitar a Lua. 
Numa encenação muito realista, a 
simulação das vibrações induzidas 
pelo estrondo do Saturn V nas janelas 
do anfiteatro onde nos sentamos é im-
pressionante. Também aqui sentimos 
alguma nostalgia por esta epopeia e 
profundo respeito pelos astronautas 
que morreram na Apollo I (Grissom, 
White e Chaffee), heróis primeiros 
de tudo o mais que se lhes seguiu. No 
Centro encontram-se ainda, entre 
outras coisas, o módulo de comando 
da Apollo XIV, o módulo lunar LM-
9 (nunca usado), uma pedra lunar 
que podemos tocar, e uma exposição 
acerca da evolução dos fatos espaciais 
usados pelos astronautas. Tudo isto, 
claro, sob a omnipresente figura de 
um Saturn V quase completo, que 
ocupa grande parte do edifício. Passei 
algumas horas a admirar os seus gi-
gantescos segmentos. Lá fora, o calor 
já é terrível, mesmo às oito da manha. 
Estávamos no fim de julho quando 
assisti ao lançamento do foguete Atlas 
V com o satélite NROL-61. Depois de 
torrar na zona de observação de lan-
çamentos, soube muito bem voltar ao 
interior do Centro: era tempo de re-
frescar e fazer algumas compras, mas 
tive de regressar no dia seguinte, para 
olhar novamente para o Saturn V!
A exploração da órbita baixa 
ficará para as empresas privadas
Memória. Reconstituição do centro de 
operações onde se comandaram as missões 
Apollo, que levaram os primeiros homens à Lua
Interessante
Memória antiga. As embarcações 
mais famosas do Mondego eram as barcas 
serranas, de fundo chato e emproadas 
em bico, que circulavam sobretudo entre o 
Porto da Raiva, localizado alguns quilómetros 
a norte de Penacova, e a Figueira da Foz. 
37
Space-X. Ao sair do KSC, vi ainda o início da 
construção dos terrenos da fábrica de foguetes 
da Blue Origin, a empresa de exploração espacial 
privada de Jeff Bezos, dono da Amazon e do 
jornal Washington Post.
De referir, por fim, as empresas Sierra Nevada 
Corporation e o seu vaivém de pequenas 
dimensões, o Dream Chaser, e a Orbital ATK e 
a sua cápsula Cygnus, com contratos assinados 
com a NASA para abastecer a ISS. O futuro não 
parece, porém, muito risonho, considerando 
que a Rússia dá mostras de não querer pro-
longar a parceria com a NASA na ISS para lá 
de 2024 (data do seu encerramento), dadas as 
tensões nas relações com os Estados Unidos.
O novo foguete em desenvolvimento pela 
NASA, o Sistema de Lançamento Espacial (SLS, 
na sigla inglesa) é mais poderoso do que o 
Saturn V, sendo o seu grande objetivo levar 
seres humanos a Marte, na década de 2030. 
Embora o primeiro lançamento do SLS apenas 
esteja previsto para 2018, a NASA e a Marinha 
dos EUA já levaram a cabo exercícios de recu-
peração da cápsula tripulada Orion, ao largo da 
costa de San Diego, na Califórnia.
DE OLHOS NOS ASTEROIDES
Para além de Marte, os asteroides são o 
outro grande objetivo e preocupação da NASA. 
Como me foi lembrado no KSC, já por várias 
vezes tivemos asteroides a passar entre a Terra 
e a Lua, alguns dos quais em anos recentes. 
Estas passagens “rasantes” levam a NASA e a 
USAF a assumir claramente que não se trata 
de saber se irá ou não ocorrer um potencial 
impacto desastroso com a Terra, mas sim de 
estar preparado para o evitar, porque ele vai 
acontecer de certeza, mais cedo ou mais tarde. 
Algumas estimativas apontam para probabili-
dades de 50 por cento de ocorrência de um 
impacto por século com um asteroide de mais 
de 30 metros de diâmetro.
O perigo é real e a USAF tem investido em 
programas de rastreio celeste e na construção 
de telescópios dedicados, como o PanSTARRS, 
em parceria com a Universidadedo Hawai. 
Entre os asteroides próximos mais perigosos, 
estão os do grupo Apolo, que cruzam a órbita 
da Terra. Nas últimas décadas, temos também 
descoberto alguns asteroides (do grupo 
Aton) entre a Terra e o Sol que partilham par-
cialmente a sua órbita com a Terra. Sabemos 
igualmente que outros asteroides são riquíssi-
mos em metais preciosos, estando na base do 
aparecimento de empresas como a Planetary 
Resources e a Deep Space Industries.
Para além dos aspetos de segurança plane-
tária, os asteroides ficam a caminho de Marte e 
servirão de passo intermédio para a NASA, que 
lançou em setembro a missão OSIRIS-REx ao 
asteroide Bennu (do grupo Apolo), onde che-
gará em 2018, devendo regressar à Terra com 
amostras em 2023.
O programa de exploração de asteroides da 
NASA inclui ainda a Missão de Redirecionamento 
de Asteroides (ARM, na sigla inglesa), em que 
um braço robótico irá apanhar uma fraga de 
várias toneladas de um asteroide (ainda por 
definir) e trazê-la para uma órbita lunar estável. 
O braço espacial robótico e a fraga capturada 
servirão ainda de defletor gravítico atrativo, 
orbitando o asteroide em testes para desviar 
um pouco a sua órbita. Astronautas de uma 
futura missão Orion/SLS analisarão a tal nova 
fraga nas proximidades da Lua.
P.A.
Avassalador. O estrondo do lançamento 
do Saturn V, o foguete mais potente de sempre, 
partia vidros a quilómetros de distância.
SUPER38
Direto aos 
DENTES
Saúde
O risco de descurar a boca
Não é apenas uma questão estética. 
Estudos recentes demonstram 
que uma dentadura saudável afasta 
a ameaça de doenças graves, como 
a diabetes ou os problemas cardíacos.
sentavam problemas 
de gengivas ou oclusão 
dentária.... 
Depois, compararam 
os dados obtidos com 
a informação da equipa 
médica do clube sobre 
as lesões desportivas. 
A conclusão era inequí-
voca: os jogadores com 
pior saúde oral eram, 
também, os que mostravam 
maior probabilidade de sofrer lesões. Ao que 
parece, quando surge uma infeção na boca, 
produz-se uma série de mediadores químicos 
que podem chegar aos músculos, através do 
sangue, e enfraquecê-los. 
GRUPOS DE ALTO RISCO
“Os desportistas de alto rendimento são, 
em geral, um grupo com um índice de cáries 
muito elevado. Consomem muitos hidratos 
de carbono ricos em açúcares, barrinhas ener-
gizantes, bebidas com açúcar… O exercício 
seca a boca e deixa-os sem saliva, um fluido 
que protege contra as cáries. Uma boca com 
problemas pode ter um grande impacto no 
seu rendimento”, explica a dentista Luísa Solé. 
Os especialistas observaram que um terço 
do plantel sofria de bruxismo: devido ao stress, 
rangiam os dentes enquanto dormiam. À 
semelhança de Ronaldinho, dois terços dos 
jogadores tinham dentes desalinhados. Não se 
trata apenas de uma questão estética: no caso do 
E se as lesões de Pepe, Fábio Coentrão ou Gareth Bale tivessem começado nas suas... bocas? Ou se a culpa por Cristiano Ronaldo falhar um penálti ou 
por Messi não estar em forma fosse das suas 
gengivas? Quanto mais cáries, menos golos e 
mais lesões. É essa a conclusão dos primeiros 
estudos científicos realizados no Reino Unido, 
em Espanha e no Brasil (e publicados nos últi-
mos cinco anos), os quais indicam que, quando 
os jogadores profissionais de futebol não se 
preocupam com a saúde dos seus dentes 
como fazem com os joelhos ou os quadríceps, 
têm maior propensão para sofrer lesões e bai-
xar de rendimento. 
A última investigação, desenvolvida em 2015 
pelo University College London, com oito equi-
pas da Premier League, mostrou que a maioria 
dos jogadores apresenta graves queixas buco-
dentárias: quase 40 por cento possuem cáries 
ativas, 50% sofrem de erosão dentária e 45% 
reconhecem ter problemas na boca. Alguns 
(7%) afirmam mesmo que isso os prejudica 
tanto nos treinos como nos desafios. 
Em 2011, foi publicado outro estudo, desta vez 
sobre a saúde bucodentária dos jogadores 
do FC Barcelona: os futebolistas tinham nada 
menos do que duas cáries ativas cada um! 
Durante três temporadas, entre 2003 e 2006, 
investigadores da Universidade de Barcelona e 
do Instituto de Investigação Biomédica de Bell-
vitge acompanharam os jogadores da equipa 
principal: que lesões ou traumatismos bucais 
tinham, como era a sua higiene oral, se apre-
Uma vez por ano
É preciso visitar regularmente 
o dentista. Se não o fizermos, 
pagá-lo-emos caro em dentes 
perdidos, dores e doenças.
39Interessante
Num mililitro 
de saliva,
há mil milhões 
de bactérias
SUPER40
brasileiro, também provocava dificuldades 
respiratórias. 
Luísa Solé explica que está cientificamente 
provado que “as doenças orais, sobretudo as 
relacionadas com as gengivas, podem provocar 
problemas de saúde no resto do organismo”.
De facto, podem criar desde distúrbios no equi-
líbrio e lesões musculares até dores de cabeça 
e cãibras, ou mesmo agravar a diabetes e 
aumentar o risco de cardiopatias. 
Os portugueses, no entanto, não parecem 
estar muito conscientes disso. Segundo as 
conclusões do segundo Barómetro Nacional 
de Saúde Oral, de 2015, 46,7% não consultam 
um dentista há mais de um ano, e 9,5% nunca 
foram a uma consulta de medicina dentária.
Segundo o bastionário da Ordem dos Médicos 
Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, os dados 
do Barómetro mostram que “são as pessoas 
mais desfavorecidas quem tem maiores dificul-
dades no acesso a consultas de medicina den-
tária, com consequências terríveis para a saúde 
em geral”.
700 ESPÉCIES DE BACTÉRIAS
A saúde bucodentária está intimamente asso-
ciada às bactérias que existem na nossa boca: 
são mais de 700 espécies diferentes e, num mili-
litro de saliva, vivem tantos micro-organismos 
como há habitantes na China. A maior parte ajuda 
a decompor os alimentos, mas outros podem 
causar problemas de saúde se conseguirem 
proliferar e desequilibrar a microbiota bucal. 
Um dos micro-organismos que se devem man-
ter à distância é o Streptococcus mutans, a bac-
téria que provoca as cáries. 
Contudo, como manter o equilíbrio da micro-
biota bucal? Através de uma boa higiene e evi-
tando fatores de risco, como entrar em con-
tacto com bactérias patogénicas. Isso é assim 
desde a própria gestação: se a grávida tiver uma 
carga bacteriana elevada, o mais provável é que 
uma parte desses micróbios passe para a boca do 
filho; se forem do género que provoca infeções, 
poderão causar problemas. 
Transmitem-se pela saliva, de modo que 
podemos, com um gesto tão habitual como lim-
par a chucha do bebé levando-a à nossa boca, 
transmitir-lhe micro-organismos patogénicos. 
Os casais também partilham microbiomas 
bucais muito semelhantes, pois há uma troca de 
bactérias em cada beijo; se algumas forem 
indesejáveis, poderão provocar cáries. 
A alimentação, sobretudo uma ingestão 
elevada de açúcar, é fundamental para alterar 
a microbiota oral. Não nos referimos apenas 
ao pacotinho que deitamos no café ou às 
guloseimas, mas também aos refrigenrantes, 
aos sumos industriais, ao pão, às massas, ao 
ketchup… O açúcar pode alterar o colagénio e 
também acidifica o meio bucal, o que afeta os 
dentes através da erosão do esmalte, deixando-
-os sem proteção perante as bactérias que 
provocam cáries. 
O PAPEL DA SALIVA
A saliva desempenha um papel protetor fun-
damental. Está cheia de iões de fosfato e de 
cálcio, e também de flúor, que remineralizam 
as superfícies do esmalte que o ácido ataca. 
No entanto, a produção de saliva diminui em 
algumas etapas da vida, como quando enve-
lhecemos. Algumas profissões também fazem 
salivar menos (as que exigem falar muito em 
público ou o desporto de alto rendimento); por 
isso, são considerados grupos de risco em termos 
de doenças bucodentárias. 
Se a comunidade de micro-organismos entrar 
emdesequilíbrio e houver uma proliferação 
dos micróbios patogénicos, podem surgir cáries 
ou a doença periodontal. Embora a maior parte 
das pessoas imagine as cáries como buraquinhos 
que aparecem nos dentes, o problema começa 
com a desmineralização da peça, que fica sem 
camada protetora. Felizmente, é possível 
reverter a situação: “Podemos controlar e evi-
tar os fatores patológicos em cada paciente, e 
potenciar aqueles que nos ajudam a ter dentes 
e uma microbiota compatíveis com uma boa 
saúde oral”, explica Luísa Solé. 
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Mais vale prevenir
Devemos lavar os dentes 
após cada refeição, pelo 
menos duas vezes por dia, 
e sempre antes de deitar, 
para não deixar as bactérias 
tantas horas numa boca seca.
Interessante 41
Ajuda no telefone
É fantástico. Será muito útil para os meus pacientes, que costu-
mam deixar partes da boca por esco-
var”, comentou um dentista durante 
a apresentação do novo sistema de 
higiene oral da Oral-B durante o 
Mobile World Congress, que decorreu 
em fevereiro passado, em Barcelona. 
A maior parte das pessoas escova 
muito algumas zonas, outras menos, 
ou faz demasiada força com a escova 
de dentes, o que prejudica o esmalte. 
Para resolver o problema, os enge-
nheiros da Oral-B conceberam uma 
escova de dentes elétrica que tem um 
sensor de localização e uma aplicação 
que utiliza a câmara do telemóvel 
para detetar com precisão as zonas 
da boca que se está a escovar. A apli-
cação encoraja o utilizador a dedicar 
mais tempo a uma zona que escovou 
pouco, e orienta-o de forma a deixar 
a boca impecável. Há também uma 
versão para crianças que as ensina 
a deslocar a escova pelos dentes e 
como devem segurá-la. A aplicação 
permite ainda ao utilizador falar com 
o seu dentista para criar uma rotina 
totalmente personalizada, incidindo 
nas áreas que mais precisam.
São também úteis certos produtos profissio-
nais que se põem nos dentes durante a noite, 
ricos em fosfato de cálcio, que ajudam a recu-
perar a mineralização da dentadura, ou os que 
possuem xilitol ou flúor, que também devolvem 
o esmalte aos dentes. 
A doença periodontal torna-se mais compli-
cada, pois é infeciosa, inflamatória e crónica, 
destruindo também os tecidos que servem de 
suporte ao dente: o osso alveolar. 
A primeira fase é a gengivite, ou seja, a infla-
mação das gengivas, que é reversível. Quando 
se elimina as bactérias patogénicas ou se 
melhora a higiene, o problema desaparece. 
No entanto, em alguns casos, a periodontite 
evolui e produz-se uma perda de osso. “Algu-
mas bactérias afetam diretamente o esmalte, 
e outras colonizam o espaço entre a gengiva e 
o dente. Vão destruindo o osso, até chegar ao 
momento em que o dente abana e pode cair”, 
explica a dentista. 
SANGRA? VÁ AO DENTISTA!
Se for detetada nas primeiras fases, o trata-
mento permite manter os dentes; porém, se for 
diagnosticada numa fase avançada, não se 
consegue muitas vezes conservar a dentadura. 
Uma primeira pista para saber se tem periodon-
tite é as gengivas sangrarem com frequência: 
“Podem sangrar quando temos uma ferida ou 
em situacões como a gravidez, devido às alte-
rações hormonais. Contudo, uma hemorragia 
habital é sintoma de que existe um problema.”
A doença periodontal tem duas consequên-
cias. A primeira é local e envolve a perda de 
dentes. A outra é sistémica e pode tornar-se 
grave: a presença de uma grande quantidade 
de bactérias patogénicas sob a gengiva pode 
permitir que elas passem para o sangue e inva-
dam diferentes tecidos e órgãos. De facto, 
a má saúde oral já foi relacionada com um 
aumento do risco de doença cardiovascular, 
parto prematuro, diabetes e síndrome metabó-
lica, entre outras complicações. Por outro lado, 
segundo a Associação Portuguesa de Higienis-
tas Orais, há doenças que, pela influência que 
exercem no sistema imunitário, podem aumen-
tar o risco de desenvolvimento ou de progres-
são de problemas periodontais: diabetes, 
infeção por VIH, obesidade e insuficiência renal 
crónica, entre outros.
O dentista pode personalizar a aplicação 
segundo as necessidades do cliente
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SUPER42
Ao contrário do que se pensa, 
os implantes não são para sempre
As doenças sistémicas em que foi descoberta 
uma maior relação com a periondontite são a 
diabetes e as cardiopatias. O risco de sofrer de 
periodontite entre os diabéticos é muito maior 
e o reverso também se verifica: a doença perio-
dontal, devido à inflamação crónica que produz, 
deixa passar os mediadores dessa inflamação 
para o sangue, o que afeta o controlo metabó-
lico do açúcar. 
Da mesma forma, quando se diagnostica 
periodontite a alguém, aumenta o risco de 
desenvolver uma doença do coração. De facto, 
as pessoas que foram vítimas de um enfarte do 
miocárdio devem cuidar ainda mais das suas 
gengivas: um estudo recente concluiu que os 
enfartes são mais frquentes e graves entre os 
doentes com problemas periodontais por tratar. 
DEMASIADOS IMPLANTES
Por outro lado, verifica-se por vezes uma ten-
dência para um recurso excessivo aos implan-
tes, criticado por muitos especialistas, que 
acusam certas clínicas dentárias de se preocu-
parem mais com os lucros do que com a saúde 
dos pacientes. No fim de contas, manter um 
dente na boca dá mais trabalho e é mais com-
plexo, enquanto o implante é mais lucrativo e 
exige menos técnica e tempo.
Só se deve fazer um implante quando tudo o 
Abusar dos dentes. As pessoas 
que sofrem de bruxismo rangem 
e apertam os dentes durante a noite, 
sem darem por isso. A doença é 
muitas vezes causada pelo stress, 
e pode ser mitigada e tratada.
Ensinar a escovar
S egundo um estudo promovido pela Oral-B em parceria com 
a Associação Portuguesa de Higie-
nistas Orais (APHO), 90 por cento 
da população portuguesa escova os 
dentes todos os dias, mas os seus 
hábitos de higiene oral limitam-se, 
em grande parte, a isso. A utilização 
de fio dentário, elixir e flúor é ainda 
reduzida, e 42% só trocam de escova 
quando acham que esta já não exerce 
a limpeza de forma adequada. Por 
outro lado, segundo outro inquérito 
da APHO em parceria com a Colgate, 
a maior parte das crianças não escova 
corretamente os dentes (47,6% das 
mães inquiridas acham que os filhos 
não os escovam o tempo suficiente, e 
40% das crianças só escovam os den-
tes da frente). A Ordem dos Médicos 
Dentistas defende a “técnica 2x2x2” 
para manter a boca saudável: escovar 
os dentes duas vezes por dia; dois mi-
nutos de escovagem; duas horas sem 
comer a seguir à escovagem e às refei-
ções principais. Além disso, a escova 
deve ser mudada a cada três meses e 
também se deve usar fio dentário e es-
covilhão, sempre que for necessário. É 
importante escovar também a língua.
resto falhou. O melhor material para a boca é o 
próprio dente. É o mais biocompatível e une-se 
à gengiva de forma perfeita, protegendo-a da 
entrada de bactérias. Os implantes, ao contrário 
do que se costuma pensar, não são para toda 
a vida, e acarretam um risco associado elevado 
de a pessoa acabar por desenvolver peri-
-implantite, “doença que envolve uma perda 
de osso devido a uma infeção em redor do 
implante”, explica Luísa Solé. 
Os implantes são geralmente feitos de titâ-
nio e, nos últimos anos, evoluíram em termos 
de design, materiais, superfícies e tipos de 
parafuso. O mesmo acontece em relação à 
sua colocação: “Agora, recorremos à cirurgia 
guiada por computador. Com base num TAC 
da boca do paciente e através de um programa 
específico, podemos virtualmente saber qual 
a melhor opção para efetuar o implante: o 
ângulo, a profundidade e a posição exata”, 
explica a dentista. 
Esta técnica melhora muito “a previsibilidade, 
abrevia o tempo cirúrgico e,se for possível, 
conseguimos mesmo evitar levantar a gengiva, 
o que é muito mais cómodo para o paciente; 
apesar disso, os conhecimentos e a experiência 
do dentista continuam a ser essenciais para o 
êxito dos tratamentos”, diz Luísa Solé.
C.S./I.J.
Interessante 93
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SUPER44
À volta do 
TABULEIRO
Ócio
Jogos de mesa ganham adeptos
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Há milhares de anos que o ser humano 
se diverte a mover peças e imaginar estratégias 
num tabuleiro desenhado para o efeito; após 
o boom dos videojogos, os sucessores do xadrez, 
das damas ou do mancala estão de regresso.
mente, não só a nível nacional mas também 
internacional. D’Orey, que trabalhou muitos 
anos em publicidade, não tem dúvidas sobre a 
razão do fascínio destes entretenimentos mile-
nares: “Houve uma altura em que se disse que 
os livros em papel iam acabar, e nunca houve 
tantos e tão bons livros. Quando apareceram os 
videojogos, também se disse o mesmo sobre os 
jogos de tabuleiro, mas estes jogos têm coisas 
que outros nunca terão, sobretudo a capacidade 
para juntarem as pessoas à volta da mesa, 
podendo conversar enquanto jogam.”
Esta é a principal razão da paixão, visível, de 
Gil d’Orey por esta área: o lado social. “A minha 
avó dizia uma coisa assim um bocado antiquada: 
há três mesas onde uma pessoa se educa; 
é a mesa da missa, é a mesa da comida.. e é a 
mesa do jogo. Eu vivi em Macau dois anos, e os 
chineses convidam o futuro genro a jogar uma 
noite de majong... majong e copos, para ver como 
ele se comporta. Essa parte é que é importante: 
como nos comportamos no jogo e nos sabemos 
relacionar com as outras pessoas. É isso que 
terá voltado a trazer os jogos de tabuleiro e 
torná-los tão importantes. Isto não se consegue 
com o computador. Passamos o dia agarrados ao 
computador, quando chega a noite já não pode-
mos ver aquilo à nossa frente. Quero é estar 
com pessoas, a conversar, e o jogo de tabuleiro 
permite isso.”
A mesma ideia é referida por Catarina Jervell, 
diretora-geral da recém-regressada Majora: 
“O mercado de jogos de tabuleiro tem vindo 
a crescer, algo que parece ter muito a ver com 
E m 1939, ano triste para a história do mundo, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, alguém trabalhava para a alegria, numa cave da Avenida 
da Boavista, no Porto: Mário José António de 
Oliveira, um técnico de contas então na casa 
dos 30 anos, começou a desenhar jogos e a 
fabricar cubos de madeira. Uma viagem à Ale-
manha (ironicamente, uma inspiração para ele e 
também a origem da guerra) fizera-o descobrir 
um género de jogos que juntava a família à mesa 
e gerava momentos de grande diversão. A partir 
das primeiras letras do seu nome criou, então, 
a Majora, que se tornaria uma empresa de refe-
rência no mercado de jogos de tabuleiro em 
Portugal. Em 2013, porém, numa fase de grande 
implantação dos videojogos, a empresa fechou, 
74 anos e mais de 300 jogos depois.
Foi “fecho” de pouca dura: a Majora já está 
de volta. Ela e os jogos de tabuleiro. Quando se 
pensava que tinham sido vencidos pelos com-
putadores e pelos telemóveis, os jogos de tabu-
leiro começaram subitamente a ganhar espaço 
nas prateleiras das lojas e superfícies comer-
ciais. Afinal, têm uma história milenar, muito 
para lá de 1939 e da Avenida da Boavista, e essa 
história ainda não terminou.
ÉPOCA DE OURO
“Estamos numa época de ouro. Nunca houve 
tantos e tão bons jogos”, assegura Gil d’Orey, 
designer de jogos de tabuleiro, que criou em 
2010 a Mesa Board Games, uma empresa por-
tuguesa que tem vindo a afirmar-se gradual-
esta ‘geração milénio’, que regressa aos conví-
vios familiares, a atividades em que as pessoas 
gostam de estar umas com as outras, e o jogo 
de tabuleiro é ideal para isso.”
Os estudos de mercado confirmam a ten-
dência, mas bastaria um olhar atento pelas pra-
teleiras de supermercados ou lojas mais espe-
cializadas, como a Fnac ou a Bertrand, para 
percebermos que há um aumento significativo 
na oferta de jogos de tabuleiro. Se há oferta, é 
porque há procura.
A conjuntura é confirmada pela Fnac: “Os 
jogos de tabuleiro têm vindo a ser uma aposta 
renovada no mercado dos jogos e brinquedos. 
Surgiram novas marcas e novos jogos e, para-
lelamente, foram relançadas marcas da ‘nossa 
infância’. Os grupos de boardgamers formam 
uma comunidade muito ativa, e a Fnac está 
muito atenta a essa tendência.”
A marca, com várias lojas em Portugal, reserva 
cada vez mais espaço nas suas prateleiras para 
este tipo de jogos, e tem uma explicação: “No 
segmento das famílias, é possível que haja cada 
vez mais uma tendência dos pais para incenti-
varem os filhos a jogar mais jogos de tabuleiro 
45Interessante
De Portugal para o mundo
Gil d’Orey considera que estamos 
a viver uma época de ouro, 
no que diz respeito aos jogos 
de mesa, e vende no estrangeiro 
a maior parte dos jogos que cria.
por oposição aos digitais, numa tentativa de 
diminuirem a crescente dependência do digital 
por parte dos mais jovens e mesmo por uma 
questão de necessidade de atividades que 
possam ser desenvolvidas em família.”
CAFÉS PARA JOGADORES
O fenómeno não é nacional, é internacional, 
e vai, pelo menos, da Europa aos Estados Unidos. 
Num trabalho publicado em setembro último, no 
jornal britânico The Guardian, intitulado “The 
rise and rise of tabletop gaming”, é traçado um 
cenário bem elucidativo sobre a crescente 
comunidade de jogadores: os autores começam 
por descrever o funcionamento de vários “cafés 
de jogos de tabuleiro” em Oxford e Londres, 
nos quais a ementa é feita de jogos e não pro-
priamente de sandes e sumos. Os board-game 
cafes são uma tendência crescente, a acom-
panhar as indicações do mercado: a NPD, um 
grupo de pesquisa de mercado do Reino Unido, 
anunciou ter registado um aumento de 20 por 
cento nas vendas de jogos de tabuleiro durante 
o último ano. Conclusões idênticas foram tiradas 
por Catarina Jervell, através dos estudos de 
mercado feitos pelo The Edge Group para ava-
liar a pertinência da aposta na Majora: “Entre 
2011 e 2013, houve, de facto, um crescimento na 
venda dos jogos digitais, mas isso tem vindo 
a decrescer, embora seja pouco significativo, 
e a venda de jogos de tabuleiro tem vindo a 
aumentar.”
O local onde melhor se constata a pujança 
deste mercado é a Spiel Essen, na Alemanha, 
a maior feira de jogos de tabuleiro no mundo, 
que se realiza todos os anos em outubro. Gil 
d’Orey, que não falha o evento e o descreve 
com notório entusiasmo, estima que todos os 
anos são ali lançados cerca de 700 novos jogos! 
De Essen, e também de Nuremberga – a maior 
feira de brinquedos do mundo – ou da GenCon, 
a versão norte-americana do evento alemão, 
também ela absolutamente gigantesca, saem 
depois os novos jogos para o resto do mundo. 
Alguns desses chegam depois a Portugal, como 
Missão a Marte 2049, na nova Majora, ou os muito 
populares Ticket to Ride, Pandemic ou Desco-
bridores de Catan.
“O grande boom internacional foi com o 
Catan... Apareceu em 1995, alemão, de estra-
tégia, com princípios que se tornaram funda-
mentais”, conta D’Orey, que não vê qualquer 
interesse nos jogos de sorte e azar: “Os euro-
gamers detestam isso, e com um argumento 
válido: não vou gastar duas horas da minha vida 
para estar dependente de um dado!” O sucesso 
de Catan abriu as portas para um novo estilo de 
jogos, que não eliminam jogadores, que não 
decidem por mera sorte, com design e histórias 
muito ricas, e cenários capazes defazer frente 
aos fascinantes gráficos dos jogos digitais.
Na verdade, a renovação dos jogos de tabu-
leiro parece, em grande parte, dever-se a uma 
necessidade de resposta ao domínio dos video-
jogos: “Hoje em dia, a aposta no design e na 
ilustração é determinante”, assegura Catarina 
Jervell, dando o exemplo da Majora, que 
entregou essa parte à empresa BBDO, para 
transmitir uma nova imagem à marca no seu 
regresso ao mercado. 
De facto, o lado gráfico é fundamental. Gil 
d’Orey também revela grande cuidado com esse 
setor, e até entregou as ilustrações de um dos 
seus jogos mais bem sucedidos (Estoril 1942) a 
um ilustrador macedónio, Mihajlo Dimitrovski, 
SUPER46
que, a milhares de quilómetros de distância, 
soube interpretar na perfeição as suas indi-
cações para um jogo sobre espiões no Estoril 
durante a Segunda Guerra Mundial. Lá estão 
personagens como Salazar, António Ferro ou 
Alexei Alekhine, mais a Boca do Inferno e o Hotel 
Atlântico, desenhados por Dimitrovski como se 
alguma vez estivesse estado em Portugal. 
O artista macedónio também desenhou, entre-
tanto, o jogo D. Afonso Henriques, e será tam-
bém o autor das ilustrações do novo jogo da 
Mesa Board Games, Viral, a lançar em 2017.
DO DIGITAL À MESA
Este estilo de jogos, com boas ilustrações 
e cenários, responde bem ao grafismo dos 
videojogos, mas Gil d’Orey não gosta muito da 
associação: “A sensação que me dá é que se vai 
aos videojogos mais para ir buscar o tema, mas 
tentar imitar é um erro, pois as características 
são diferentes. Costumo dizer às pessoas nas 
feiras: ‘Asseguro-lhe que, se comprar este jogo, 
o sistema operativo é eterno...’ ”
O certo é que no mercado estão a surgir várias 
associações entre jogos de tabuleiro e videojo-
gos, como por exemplo as versões Assassin’s 
Creed e Final Fantasy do clássico Monopólio. 
Também há jogos de tabuleiro que usam apli-
cações para telemóvel, como o Alchemists, e 
outros com versões Legacy, em que a interativi-
dade é tal que o jogador vai rasgando cartas e 
eliminando partes do jogo, até à altura em que 
este não pode ser mais jogado.
No trabalho publicado pelo The Guardian, Ben 
Hogg, responsável pela Esdevium Games, uma 
das principais distribuidoras de jogos no Reino 
Unido, tem uma visão interessante sobre este 
assunto: “Os videojogos e os jogos de tabuleiro 
aprenderam muito uns com os outros.” Esta 
interação é possibilitada pelas novas tecno-
logias, desde as telecomunicações à internet, 
passando neste caso, pelo crowdfunding, atra-
vés do qual a produção de jogos se torna aces-
sível a mais pessoas, e por páginas de eventos 
e grupos de interesse. 
Neste último caso, vale a pena referir a dimen-
são da página BoardGameGeek, que reúne 
tudo o que interessa à comunidade, imensa, de 
apreciadores de jogos de tabuleiro. As con-
venções também têm cada vez mais impacto, 
mesmo em Portugal, com a LisbonCon (organi-
zada pelo Grupo de BoardGamers de Lisboa), 
que teve este ano a sua sétima edição, a Leiria-
Con (organizada pela Spiel Portugal, foi a pri-
meira convenção do género do nosso país, atri-
buindo um prémio de Jogo do Ano) e páginas 
de entusiastas, entre as quais sobressai a Abre 
o Jogo (http://www.abreojogo.com), que se 
apresenta como “Comunidade Portuguesa de 
RPG e Jogos de Tabuleiro”.
No fundo, é uma espécie de bola de neve ainda 
a crescer. Há uma comunidade cada vez maior, 
mas, segundo Gil d’Orey, o mercado português 
ainda tem muito para crescer: “Portugal está, 
a este nível, muito pouco desenvolvido, é um 
mercado muito pouco maduro. Isso é uma das 
funções da minha empresa: criar um mercado, 
educar as pessoas, mas temos de ser interna-
cionais, senão não há dimensão para o negócio. 
O jogo que mais vendemos foi o Panamax, cerca 
de 8000 unidades; em Portugal, vendemos 
umas cem... Às vezes, nas feiras em que partici-
pamos, as pessoas vêm dizer-nos que não con-
seguiram jogar aquele jogo... Porquê? Porque 
não temos o hábito de ler e interpretar regras! 
Por outro lado, sendo este um negócio sazonal, 
em Portugal essa característica é brutal! Na Ale-
manha já não é tanto, porque os adultos estão 
habituados a comprar muitos jogos, e em várias 
épocas do ano...”
TRENCH: UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
Uma história exemplar é a de Rui Alípio Mon-
teiro, que criou um jogo capaz de desafiar a 
própria Microsoft. O jogo em causa, inspirado 
na Primeira Guerra Mundial, de cariz abstrato e 
geométrico, e com algumas semelhanças com 
o xadrez, chama-se Trench, e foi criado em 2008 
por este português apaixonado pela arte, que 
registou a criação em devido tempo, ante-
cipando-se à poderosa Microsoft. A gigante 
norte-americana preparava-se para lançar, em 
2011, um jogo com nome semelhante (Tren-
ched): porém, face às patentes já obtidas pelo 
criador português, viu-se obrigada a alterar o 
nome do seu próprio jogo, para Iron Brigade. 
Uma situação contada assim pelo próprio 
Monteiro: “Por ser uma marca internacional, 
registada desde 2011, quer na classe de jogo de 
tabuleiro, quer na digital, o Trench obrigou a 
Microsoft a mudar o nome e o conceito de um 
videogame que pretendia lançar. Isso foi notícia, 
durante meses consecutivos, em toda a 
imprensa internacional, e especulou-se muito, 
pois, à última hora, após uma intensa campa-
nha de marketing a anunciar o lançamento do 
Trenched, a Microsoft voltou atrás e não lançou 
o jogo tão esperado na Europa. A verdade é 
que não foi necessária uma batalha jurídica, 
bastou o registo internacional da marca Trench 
ter sido efetuado atempadamente por mim, 
aquando da concepção do jogo, nas duas 
classes, uma vez que o objetivo era também o 
Trench ter a sua versão digital.”
Monteiro não deixa de fazer um comentário 
apropriado à situação: “É motivo para dizer que 
David venceu o Golias! Um português que, em 
tempos de crise, a viver do orçamento familiar 
e com parcos recursos, não deixou de fazer o seu 
trabalho de casa, contrariamente à gigantesca 
e multimilionária Microsoft, que primeiro fez a 
campanha de marketing e só depois, nas véspe-
ras do lançamento do jogo, decidiu registar a 
marca…No comments!”
A verdade é que o jogo se impôs internacio-
nalmente, havendo mesmo quem o considere 
Os jogadores 
da atualidade 
são exigentes 
no design
Entretenimento
Para Catarina Jervell, 
diretora-geral da 
recém-regressada 
Majora, o novo auge 
dos jogos de mesa 
está relacionado com 
a procura de convívio.
Interessante 47
O regresso da Majora
N o panorama português dos jogos de tabuleiro, o regresso da Majora, em 
2016, é um acontecimento relevante. A 
histórica empresa, fundada em 1939, no 
Porto, por Mário José de Oliveira (as ini-
ciais e as últimas letras do nome estão na 
origem da marca), encerrara a produção 
de jogos em março de 2013, dispensando 
então os já poucos trabalhadores que ain-
da mantinha. A crise, um mercado mais 
concorrencial, com a chegada a Portugal 
de novas marcas, e o boom dos videojo-
gos estiveram na origem desta situação. 
Lamentava-se, porém, o desaparecimento 
de uma marca portuguesa, que durante 
74 anos fabricara imensas diversões para 
a família, tornando populares jogos como 
o Sabichão, o Jogo da Glória, o Loto ou o 
Mikado. Foi também a Majora que intro-
duziu o Monopólio no mercado nacional. 
Em 2014, porém, a empresa foi adquirida 
pelo The Edge Group, que se propôs 
relançar a marca em 2016. A tarefa foi en-
tregue a Catarina Jervell, diretora-geral, 
que nos recebeu no escritório da Majora, 
em Lisboa: “O timing para o regresso não 
foi premeditado, foi um pouco por impul-
so, porque a Majora é uma marca muito 
querida, que faz parte do património co-
letivo, da memória de todos os portugue-
ses, e porque faz parte da filosofia do The 
Edge Group apostar e fazer crescer mar-
casportuguesas.” O processo de compra 
demorou cerca de um ano, e havia muito 
a fazer para preparar o relançamento: “Só 
tínhamos uma marca, mais nada, foi co-
meçar tudo do zero... Primeiro, perceber 
onde estávamos, como estava o mercado 
de brinquedos e dos jogos, a nível euro-
peu, perceber as tendências do mercado, 
definir um portfolio, entendendo o que 
querem os novos consumidores de jogos 
e de brinquedos, porque isto é uma marca 
de 1939, e as crianças dessa altura eram 
um bocadinho diferentes das crianças de 
hoje... Hoje, são mais exigentes, a nível 
gráfico, de design, de tudo...” Assim, foi 
planeada uma renovação da imagem da 
marca, a começar pelo logotipo: “Agora 
são duas crianças, do Tangram... Antes 
era apenas uma criança, mas mudámos 
porque a mensagem da Majora é promo-
ver mais as relações humanas, entre famí-
lia, primos, irmãos... A ideia é convidar 
as crianças a brincarem mais umas com 
as outras.” Assim, e definido um público 
que vai até aos 12 anos, os jogos da Ma-
jora, tanto os clássicos como os novos, 
foram alvo de grande cuidado gráfico: 
“Trabalhámos com a BBDO, com uma 
equipa de designers e ilustradores que 
nos surpreendeu muito.” Por essa razão, 
quem estava habituado à imagem clássica 
do Loto, ou do Jogo da Glória, talvez se 
surpreenda ao encontrar os novos jogos 
no mercado. No total, a Majora reaparece 
com 33 jogos, dos quais onze são clássi-
cos: Ludo, Jogo da Glória, Desafio, Sabi-
chão, Sílabas, Números, Letras.... Entre os 
novos, merece destaque o Missão a Marte 
2049, o jogo mais complexo da marca, 
que implica pensamento estratégico, e 
cujo lançamento coincide com a estreia 
da série Marte, no National Geographic 
Channel. “Foi uma feliz coincidência, e a 
parceria aconteceu naturalmente”, expli-
ca Catarina Jervell. O jogo, para crianças 
a partir dos nove anos, inclui um QR code 
que permite explorar os conteúdos da 
série televisiva.
Missão a Marte 2049 é um 
dos novos jogos da marca.
o “xadrez do século XXI”, tendo tido, por 
exemplo, grande destaque na 19.ª edição das 
Olimpíadas da Mente (Mind Sports Olympiad), 
em Londres, em 2015. Num mar de elogios, o 
Trench prepara novas etapas. “Brevemente, 
todo o mundo vai ter oportunidade de jogar 
Trench, por opção, na ‘montra mundial’ da 
internet. O meu objetivo vai ser realizado”, 
anuncia o criador, perspetivando um futuro 
empolgante: “Por se tratar de uma trilogia, 
quando estiverem reunidas as condições ideais 
serão publicados os dois que faltam, dando lugar 
a uma verdadeira antologia, de jogos abstra-
tos, geométricos, intelectuais e temáticos.”
E tudo isto cem por cento português, feito 
em casa. “Criei o Trench a solo, desde o início 
até ao fim, sem interrupções nem influências! 
Após criar o conceito do jogo e o protótipo, pas-
sei à fase de testes com a ajuda de amigos e da 
família, especialmente da minha mulher, Maria 
Luísa. O esboço do tabuleiro e das peças foi 
desenhado à mão, num momento de pura ins-
piração, num papel de dimensões reduzidas 
(cinco por cinco centímetros) e realizado em 
apenas 15 minutos. O design do Trench, na sua 
génese, ficou desde logo intimamente asso-
ciado à sua temática, a guerra das trincheiras. 
As regras foram inspiradas na mecânica da 
guerra das trincheiras: o ataque direto e pelos 
flancos ao inimigo; o poder da metralhadora; a 
defesa, a proteção e o ataque nas trincheiras; 
a dissimulação; a hierarquia das patentes mili-
tares…” Depois vieram os protótipos, testes, 
registos, e um lançamento oficial, de que Mon-
teiro muito se orgulha, realizado no Palácio da 
SUPER48
Histórias milenares
B rincar é uma atividade inerente à existência humana. Por isso, há 
jogos e brincadeiras desde que há huma-
nidade. É muito difícil, assim, datar os 
primeiros divertimentos, mas há registos 
de jogos de tabuleiros desde há cerca de 
cinco mil anos, em civilizações como as 
do Egito e da Mesopotâmia.
Mancala e Senet – Um dos jogos que 
se crê, historicamente, ser dos mais 
antigos, é o Mancala. Curiosamente, 
mais do que o nome de um jogo, como 
tantas vezes cremos, Mancala é o nome 
dado a uma família de jogos, também 
chamados “jogos de semeadura” ou “ de 
contagem e captura”. São jogados em 
todo o mundo, sendo mais conhecidos 
no mundo ocidental o Oware, o Kalah, 
o Sungka, o Omweso e o Bao. O que 
frequentemente encontramos nas lojas, 
denominado como Mancala, é o Kalah. 
Crê-se que o Mancala é originário da 
Etiópia e da Eritreia, tendo na sua ori-
gem a atividade agrícola (semeadura e 
captura de sementes), como se explica 
pelo tema e pela ausência de necessidade 
de equipamento especializado, pois po-
de até ser jogado fazendo cavidades no 
chão e usando sementes ou pedrinhas. 
Outro jogo muitas vezes indicado como 
um dos mais antigos é o Senet, sendo o 
mais antigo hieróglifo que o representa 
datado de 3500 a.C. É considerado um 
antecessor do gamão e, como já se perce-
beu, é originário do Antigo Egito.
Gravados em pedra – Em Portugal, há 
vestígios de jogos de tabuleiro desde 
o tempo dos romanos, sobretudo em 
gravações feitas em pedra, no centro do 
país. Um dos destaques é naturalmente 
a estação arqueológica de Conímbriga, 
onde foram identificados os jogos do 
moinho, dos doze em linha e do soldado. 
Porém, um levantamento feito em 2009 
catalogou mais de uma centena de jogos 
gravados na pedra, espalhados por todo 
o país. Na verdade, são testemunhos 
arqueológicos de uma atividade que nos 
foi deixada pelos romanos, muitos sécu-
los antes do Pontapé ao Goal criado por 
Mário José de Oliveira no arranque da 
Majora, em 1939.
Xadrez – Desporto, arte, ciência? O 
xadrez é tudo isto. Jogado por milhões 
de pessoas em todo o mundo, é um dos 
mais prestigiados, pela ausência do fator 
sorte, pelos contributos para a tecnolo-
gia dos jogos online e até para os estudos 
sobre inteligência artificial. São contados 
vários mitos reportando a sua origem 
e criação, da Índia à Grécia, passando 
pela Roma Antiga, mas na generalidade 
acredita-se que será originário da Índia, por 
volta do século VI, com um antecessor de-
nominado Chaturanga. Há quem defenda 
que possa ter surgido na China, por volta de 
204 a.C. Certo é que, através das caravanas, 
o xadrez chegaria ao Ocidente, disseminan-
do-se pela Europa à passagem do primeiro 
milénio, com chegada à península Ibérica 
por volta do século X. Na Europa, as regras 
começaram a sofrer algumas modificações, 
como a possibilidade de o primeiro peão 
avançar duas casas e de a rainha se transfor-
mar na peça mais poderosa do jogo. A sua 
crescente popularidade originou depois a 
multiplicação dos estudos, a criação de clu-
bes e o nascimento de um desporto.
Damas – Se milhões jogam xadrez em todo 
o mundo, o que dizer das damas? Com 
um tabuleiro semelhante ao do xadrez, as 
damas são mais simples e fáceis de jogar, 
e por isso terão, certamente, ainda mais 
praticantes. É um jogo também muito 
antigo, havendo registos de um tabuleiro 
similar datado de 3000 a.C.! Em diversas 
culturas, há vestígios de jogos semelhantes; 
atualmente, há diversas versões e formas de 
jogar, com ligeiras diferenças, por exemplo, 
entre as damas inglesas, italianas ou russas. 
Em julho de 2007, um grupo de pesquisa da 
Universidade de Alberta (Canadá) anun-
ciou ter resolvido o jogo das damas através 
do programa informático Chinook. O grupo 
demonstrou que as damas são um jogo de 
empate: terminará sempre empatado se 
os dois adversários realizarem as jogadas 
corretas.
Monopólio – No século XX, a indústria 
dos jogos de tabuleiro cresceu muito, e al-
guns tornaram-se verdadeiros fenómenos à 
escala mundial. É o caso do Monopólio, que 
se tornou extremamente popular pelo facto 
de se ligar diretamente às questões econó-
micas. A sua criação é atribuída, em 1935, a 
Charles Darrow, um vendedor de sistemasde aquecimento, então desempregado, que 
o teria inventado para entreter a família, 
mas, de facto, a origem do jogo situa-se no 
século XIX, quando o movimento feminista 
Pandemic Legacy: Season 1 é atualmente o jogo mais votado pelos 
frequentadores da página BoardGameGeek, a principal referência do setor.
criou grandes alterações sociais. “Lizzie” 
Maggie, uma das apoiantes desse movi-
mento, criou o jogo para ajudar a divul-
gar as ideias do economista Henry Geor-
ge (inventor da teoria do imposto único) 
e alertar para os perigos da monopoliza-
ção. Patenteou-o em 1903 e chamou-lhe 
“Jogo do Senhorio”. Mais tarde, passou 
a chamar-se Monopólio, uma vez que 
era usado para relevar o lado negativo 
da monopolização. A primeira versão 
do jogo tinha dois conjuntos de regras 
diferentes: a regra antimonopólio, pela 
qual todos os jogadores eram recompen-
sados quando se criava riqueza, e a regra 
monopolista, na qual o objetivo era criar 
monopólios e esmagar os adversários. 
“Lizzie” pretendia demonstrar que no 
seu sistema de imposto único todos fica-
vam a ganhar, enquanto no outro apenas 
ganham alguns, que se apoderam de 
tudo. Foi o segundo conjunto de regras 
que chegou aos nossos dias: quando a 
empresa Parker Brothers adquiriu os 
direitos do jogo, em 1935, deu Charles 
Darrow como inventor e eliminou o 
conjunto de regras que permitiam jogar 
o Monopólio de forma colaborativa, 
transformando-o num jogo competitivo 
baseado na acumulação de riqueza.
Pandemic – O velhinho xadrez é o jogo 
de tabuleiro mais vendido de sempre, e 
o já clássico Monopólio ocupa o terceiro 
lugar da lista. Porém, o século XXI trouxe 
uma nova era na história dos jogos de ta-
buleiro, agora plenos de aventuras, estra-
tégias e personagens fantásticas. Por isso, 
os mais populares de 2016 já pertencem 
a um novo universo de jogos: na página 
rainha do setor, a BoardGameGeek, uma 
votação para os mais aguardados do ano 
dá o primeiro lugar ao jogo Scythe. O mais 
votado é, atualmente, Pandemic Legacy: 
Season 1 (12 mil votos). É um jogo de 
2015, cooperativo, no qual uma equipa 
de especialistas percorre o mundo para 
combater as pragas antes que elas fiquem 
fora de controlo.
Interessante
Cidadela, em Cascais, com o alto patrocínio do 
Museu da Presidência da República e apresen-
tação pelo general Loureiro dos Santos.
UM MUNDO DE AVENTURAS
Um dos objetivos declarados por Gil d’Orey é a 
criação de uma editora portuguesa de jogos. 
“Comecei a criar jogos de tabuleiro porque não 
tinha os jogos que queria, que achava adequa-
dos... Criá-los deu-me algum prazer, mas o meu 
objetivo, como empresa, é criar uma editora 
de jogos, e arranjar autores, pessoas que sejam 
melhores do que eu a fazer jogos...”
Os chamados “designers de jogos”, sucessores 
do “senhor Majora”, começam a aparecer. Na 
Mesa Board Games, um dos jogos mais recen-
tes, I Love Portugal, é criação de Nuno Bizarro 
Sentieiro e Paulo Soledade, dois leirienses que 
se empenham na organização, todos os anos, 
da LeiriaCon. A dupla já deixou também a sua 
assinatura nos jogos Madeira, Panamax, Nippon, 
Brasil, Reis de Portugal e Poupar para Ganhar.
A maior parte destes novos criadores nacio-
nais vem da área do design gráfico e da publici-
dade. Entende-se porquê, face à exigência de 
jogos muito apelativos do ponto de vista gráfico. 
Neste pormenor, merece também relevo o lan-
çamento, no próximo ano, do jogo Lisboa, pela 
Eagle-Gryphon Games, criado por Ian O’Toole 
e pelo designer português Vital Lacerda. Trata-
-se de um jogo sobre a reconstrução da capital 
portuguesa após o terramoto de 1755. 
Lacerda é mestre em marketing e publici-
dade e, depois de ter trabalhado nesta última 
área, dedicou-se, nos últimos oito anos, ao design 
gráfico, com relevo para esta paixão pela cria-
ção de jogos de tabuleiro. “Cheguei aqui por 
curiosidade: primeiro comecei por descobrir 
os eurogames, ou jogos de autor, e um dia 
desenhei um mapa de Portugal para um dos 
meus jogos preferidos, o Age of Steam, que 
tinha mapas do mundo inteiro. Fiz upload do 
mapa para a internet, recebi muitos comentá-
rios positivos e achei que talvez conseguisse 
fazer um jogo completo.” 
Foi assim que nasceu Vinhos, o seu primeiro 
jogo, publicado por um produtor italiano em 
2010. Hoje, Lacerda já deixou a sua assinatura 
nos jogos Age of Steam, Expansion: Portugal 
(2008), CO2 (2012), Kanban: Automotive Revolu-
tion (2014), The Gallerist (2015) e Vinhos Deluxe 
Edition (2016). Para 2017, e para além de Lisboa, 
está previsto o lançamento de Dragon Kee-
pers, em que faz parceria com a sua filha mais 
nova, Catarina Lacerda. O jogo, imagine-se, 
terá ilustrações de... Mihajlo Dimitrievski, o 
artista macedónio que também colabora em 
jogos com a portuguesa Mesa Board Games. 
Desta vez, a editora é a Knight Works. 
Lacerda é um caso notável de internaciona-
lização, trabalhando em jogos que estão tra-
duzidos em mais de dez línguas e podem ser 
encontrados em todo o mundo. “Como o público 
que joga os meus jogos é muito reduzido no 
nosso país, tinha de tentar chegar ao mercado 
global”, explica, convencido de que o recente 
boom nesta área tem uma explicação de cariz 
social: “As pessoas sentem cada vez mais a 
necessidade de estar na presença umas das 
outras, e os jogos de tabuleiro proporcionam 
convívio, ajudam a falar sobre temas, as pes-
soas podem competir a olhar nos olhos umas 
das outras. Os jogos modernos, ou euroga-
mes, também trouxeram coisas diferentes, 
jogos mais divertidos, muito bem feitos, com 
grande variedade de temas, de tal forma que 
saem cerca de mil novos jogos por ano.”
“O JOGO É APENAS UM VEÍCULO”
Outro caso de internacionalização é o de 
Manuel Correia, designer português atual-
mente a trabalhar na InnoGames, em Ham-
burgo. “Porque é que ainda ninguém fez um 
jogo assim?” A partir desta interrogação, Cor-
reia aventurou-se por um hobby que já o levou 
a criar jogos como Multiuniversum, Don’t Wake 
the Dragon ou Agent Decker. Estão todos no 
seu blog (https://gamesbymanuel.com), em 
conjunto com os jogos digitais que vai criando. 
Correia trabalha nos dois campos, analógico 
e digital, e isso não lhe parece complicado: 
“Para mim, o elemento mais importante é o 
convívio entre jogadores, que tanto se pode 
conseguir à volta de uma mesa como de um 
ecrã. O jogo é apenas um veículo que estabe-
49
lece regras para aquela sessão. De uma forma 
mais literal, há cada vez mais adaptações digi-
tais de jogos de tabuleiro. É uma forma acessí-
vel de experimentar jogos, e em vários casos 
incluem oponentes de inteligência artificial ou 
até modos online. Há jogos de tabuleiro tão 
complexos que, na minha opinião, resultariam 
melhor em formato digital.”
Apesar da sua rica produção, Correia conti-
nua a considerar que se trata “apenas de um 
hobby, que se pode fazer em casa, esteja em 
que país estiver”. Durante o dia, é game desig-
ner na Inno Games: “Comecei em estúdios 
portugueses e a minha busca de projetos dife-
rentes acabou por me levar para fora do país: 
primeiro a Irlanda, agora a Alemanha.”
Numa lista publicada no site BoardGame-
Geek (BGG), é feito um pequeno balanço sobre 
as criações de portugueses, concluindo-se ter 
havido um ligeiro crescimento de 2015 para 
2016; nas listas do BGG, as mais importantes a 
nível mundial, o jogo português que atingiu o 
ranking mais elevado foi The Gallerist (45.º entre 
os jogos de estratégia, 87.º na tabela geral).
Certo é que a criatividade lusitana já é, tam-
bém, uma realidade no universo dos jogos de 
tabuleiro, mesmo em termos internacionais. 
Embora Portugal continue a não ter uma fábrica 
especializada nesta área (Alemanha, Polónia e 
República Checa são as principais referências 
europeias; a Mesa Board Games produz na Ale-
manha, a Majora na Polónia), algomudou nos 
últimos anos, em consequência dos cursos de 
design e da globalização de conhecimentos e 
experiências proporcionada pela internet. Longe, 
muito longe vai o tempo em que Mário José de 
Oliveira fabricava, pacientemente, bonequinhos 
de madeira numa cave da Avenida da Boavista.
J.S.
À baliza. Pontapé ao Goal
foi o primeiro jogo da Majora.
Portugal 
ainda não tem 
fábricas 
especializadas
SUPER50
Viva a 
REALIDADE 
VIRTUAL
Tecnologia
Ócio, sexo, educação, saúde
Assistimos à explosão de uma tecnologia 
que irá chegar a muitos milhões de lares, talvez 
já este Natal, na forma de óculos e capacetes. 
É sobretudo conhecida pelos jogos, mas outras 
aplicações irão transformar as nossas vidas.
se fosse verdadeira, a possibilidade de interagir 
com esse mundo virtual através do corpo e do 
olhar e o caráter acessível de uma tecnologia 
que se pensava pertencer ao futuro.” Só resta 
experimentar a RV; por exemplo, num dos 
setores que referimos a seguir, que se afigu-
ram ideais para o seu desenvolvimento.
NOVOS TRATAMENTOS
Um dos caminhos mais trilhados em termos 
de realidade virtual é o da formação médica, 
nomeadamente no que se refere à cirurgia. O 
guru nesse âmbito é o cirurgião britânico Shafi 
Ahmed, fundador da empresa Medical Reali-
ties: em abril passado, transmitiu em direto, em 
realidade virtual, uma operação para extirpar 
um tumor do intestino de um doente. Cirurgiões 
de todo o mundo puderam pôr-se na pele de 
Ahmed e viram e escutaram o mesmo que ele. 
O passo seguinte, não muito distante, segundo 
a Medical Realities, será transmitir estímulos 
táteis com recurso a luvas que recebem sinais 
eletromagnéticos, de modo que os médicos em 
formação terão a sensação física de estarem eles 
próprios a operar.
No campo da psicologia, a RV é utilizada 
há décadas em casos de soldados com stress 
A realidade virtual (RV) é o último objeto de desejo das massas. A che-gada da PlayStation RV da Sony jun-tou-se ao lançamento do Oculus Rift 
e do HTC Vive para computador, do Samsung 
Gear VR para telemóveis e da plataforma de con-
teúdos VR Daydream dA Google, numa ofensiva 
tecnológica que promete emoções fortes.
Contudo, é apenas o princípio. “Embora já 
tenhamos os dispositivos e sejam acessíveis, 
resta o mais importante: que as pessoas expe-
rimentem e vejam o seu potencial. Até o faze-
rem, não podem entender o que é e o que nos 
traz”, afirma Sara Antequera, especialista na 
tecnologia da realidade virtual.
Os números permitem antecipar um negócio 
colossal. A consultora CCS Insight estima que se 
venderão, em 2017, doze milhões de capa-
cetes e óculos de realidade virtual em todo 
o mundo. Em 2020, segundo um estudo da 
SuperData,o mercado global deste segmento 
irá movimentar 40 mil milhões de dólares. 
Porque é QUE esta inovação irá conquistar-
-nos? “Há três coisas que surpreendem aqueles 
que experimentam”, explica Sara. “A impres-
são de mergulharem numa situação que, sem 
ser real, provoca sensações e emoções como 
A
FP
 /
 B
O
R
IS
 H
O
R
VA
T
51Interessante
A RV vai 
revolucionar
a forma como 
compramos 
roupa, casas...
SUPER52
pós-traumático. Porém, graças à sua demo-
cratização, passou a constituir um novo aliado 
contra a dor. No Hospital Infantil Shriners, de 
Galveston (Texas), distrai crianças com tumo-
res ou queimaduras graves. Cura também a 
dor do “membro ausente”, que afeta sete em 
cada dez pessoas que sofreram uma ampu-
tação, levando-as a sentir dor no membro 
perdido: especialistas da Universidade Tecno-
lógica Chalmers (Suécia) comprovaram que a 
RV, em conjunto com a colocação de elétrodos 
no local afetado, ajuda a eliminá-la. Por outro 
lado, uma empresa espanhola, a Psious, 
dedica-se a instalar em consultórios médicos 
de vários países um programa informático para 
tratar fobias comuns (medo das alturas, de 
voar...), com base na terapia da exposição 
progressiva.
A realidade virtual também se tem revelado 
útil em campos como os da motricidade e da 
geriatria. Um sistema desenvolvido pela Uni-
versidade Pompeu Fabra, de Barcelona, é utili-
zado para reabilitar doentes que sofreram um 
AVC. Por outro lado, uma ferramenta criada 
pela Universidade Politécnica de Tomsk e pela 
Faculdade de Medicina da Sibéria permitirá, 
através de sensores de movimento, o diagnós-
tico precoce de doenças como a de Parkinson 
e a esclerose múltipla.
NO MUNDO DAS COMPRAS
A publicidade e as compras formam um habi-
tat propício à realidade virtual. Muitas grandes 
empresas já lançaram campanhas que fazem 
apelo à tecnologia. É o caso da McDonald’s, 
com uma dupla aposta. Na primavera passada, 
promoveu uma experiência na Suécia que per-
mitia às crianças transformar as suas caixas 
de HappyMeal (a ementa infantil da marca) 
em óculos de realidade virtual, ao estilo das 
Cardboard da Google. Pouco tempo depois, 
a filial britânica colocava na rua um camião 
que oferecia uma experiência com os Oculus Rift 
para efetuar uma visita virtual às quintas da 
empresa. Objetivo: publicitar a qualidade da 
sua carne.
A RV está a transformar-se num aliado das 
vendas, tanto nos próprios estabelecimentos 
como em casa. No primeiro caso, podemos 
apontar o exemplo da Leroy Merlin, que intro-
duziu em alguns dos seus armazéns, no verão 
de 2015, uma aplicação que permitia visualizar e 
modificar, através de Oculus Rift, os elementos 
de uma cozinha. No mesmo sentido, a Ikea, em 
colaboração com a HTC, lançou uma aplicação 
destinada a testar diferentes configurações de 
cozinha.
As compras online também vão ser uma 
experiência mais completa com a expansão da 
tecnologia, pois poderemos entrar num novo 
modelo de automóvel sem sair de casa ou pro-
var virtualmente um par de calças para ver se 
combina com outra peça. Segundo os peritos, 
esse cenário é, por enquanto, experimental. 
Contudo, em maio passado, o eBay lançou na 
Austrália a “primeira loja em realidade virtual 
do mundo”, e o gigante chinês Alibaba montou 
o primeiro ecossistema do género durante o 
Dia dos Solteiros, em novembro.
Embora a oferta de produtos fosse limitada 
(apenas para a Austrália) e a qualidade da tec-
nologia não se aproxime ainda da que poderá 
vir a ter, o eBay indicou o caminho e os outros 
gigantes das vendas online não poderão deixar 
de apanhar o comboio virtual, que deverá 
proporcionar constantes e chorudos lucros. 
Para já, o Alibaba vai à frente, e é possível que 
tenha definido as regras para os tempos mais 
próximos.
PARA VIAJAR
A realidade virtual permite-nos estar no centro 
da ação, interagir com o que nos rodeia, viver 
uma quimera. Talvez por isso, o turismo é a 
aplicação da tecnologia que mais interessa os 
consumidores, segundo um relatório da con-
sultora Greenlight Insights. O setor das viagens 
já começou a demonstrar as possibilidades que 
oferece. Uma é que permite visitar qualquer 
destino antes mesmo de se decidir a conhecê-lo. 
Operadoras, agências de turismo, cadeias 
hoteleiras, companhias aéreas, etc., já aderiram. 
Um dos pioneiros foi a multinacional de 
turismo Thomas Cook, que começou a oferecer 
nas suas lojas, em 2015, experiências de RV nas 
quais os clientes podiam sobrevoar Manhattan 
de helicóptero ou admirar a necrópole de Gizé 
como se lá estivessem. A cadeia de hotéis Mar-
Estrela minha. O futuro de qualquer 
país depende da educação, cada vez 
mais tecnológica. Estes alunos de 
uma escola de Pequim aprendem 
astronomia recorrendo a óculos de RV.
Interessante 53
Janelas para 
outros mundos
E stes são os primcipais dispo-sitivos que protagonizam a 
revolução atualmente em marcha no 
campo da realidade virtual. Os preços 
indicados são aproximados e podem 
mudar com o tempo.
Sony Playstation VR
Funcionam com 
a PlayStation4 
e exigem proces-
sadores sofistica-
dos. €399.
Oculus Rift 
Dispõem da sua 
própria loja virtual 
de videojogos e 
exigem compu-
tadores de grande 
potência. €699.
HTC Vive
É preciso um 
computador 
topo de gama 
para mostrar 
as suas potencia-
lidades. €899.
Samsung 
Gear VR
Pensados 
para os 
telemóveis 
da Samsung, 
possuem centenas de jogos, embora 
menos sofisticados do que os da con-
corrência. €100.
Google Daydream View
O sucessor dos Cardboard funciona 
com os telemóveis Google e termi-
nais compatíveis. Custa 79 dólares; 
ainda não há um preço para a Europa.
riott inclui em alguns dos seus estabelecimentos 
o VRoom Service, uma pasta que contém o 
equipamento necessário para nos transportar-
mos aos Andes, a Pequim ou ao Ruanda. Com a 
aplicação Lufthansa VR, podemos voar virtual-
mente num Airbus A380 ou num Boeing 747, 
ou damos um passeio de grande realismo por 
Tóquio, San Francisco ou Nova Iorque. 
A outra grande aposta deste novo tipo de 
turismo é proporcionar a oportunidade de 
visitar lugares aos quais dificilmente se vai. Por 
exemplo, o Evereste (graças à experiência Eve-
rest VR). Aplicações como a Ascape ou Littlstar 
irão saciar a fome dos viajantes virtuais.
APRENDIZAGEM EM PRIMEIRA MÃO
E se pudéssemos entrar no interior do corpo 
humano? Já é possível, graças a um dos proje-
tos educativos mais fortes baseados na reali-
dade virtual: The Body VR, desenvolvido para 
os Oculus Rift e o Samsung Gear VR. Trata-se 
de uma viagem através da corrente sanguínea 
durante a qual aprendemos, de forma visual, 
como trabalham as células para transportar 
oxigénio por todo o organismo.
Segue-se o Titans of Space, criado pela Drash 
VR para os Oculus Rift, um périplo pelo Sistema 
Solar e pelo espaço interestelar. Há também pla-
taformas educativas multidisciplinares de RV, 
como as Unimersiv, nas quais se pode apren-
der desde história da cultura romana (Tarraco 
VR) até línguas (House of Languages). 
A iniciativa pedagógica mais bem-sucedida 
até agora é o Google Expeditions, um programa 
lançado no outono de 2015 que convida crianças 
de escolas de todo o mundo a empreender 
excursões virtuais a lugares como Machu Picchu 
(Peru) e a Grande Barreira de Coral australiana, 
guiadas pelo seu professor através de óculos 
Google Cardboard.
Estes óculos de cartão não proporcionam uma 
qualidade ótima, mas apresentam a grande 
vantagem de ter um preço abaixo dos 15 euros, 
o que permite que possam chegar a escolas 
G
E
T
T
Y
SUPER54
Com técnicas 
imersivas, 
podemos assistir 
a um espetáculo 
noutro país
de todo o planeta. Assim, mais de um milhão 
de crianças tiveram acesso em apenas um 
ano. Seja como for, os novos óculos de realidade 
virtual da Google (os Daydream View) vão tam-
bém cobrir este campo. Oferecem visitas a 
museus, viagens interestelares e outras aven-
turas educativas.
CONCERTOS NO SOFÁ DE CASA
O que pode levar a maior promotora de con-
certos do mundo a explorar a via da realidade 
virtual? Está mais perto de se concretizar do que 
nunca o sonho de assistir a um concerto da sua 
banda preferida noutro país, rodeado de milha-
res de almas e sem sair de casa. É o que promete 
a aposta nesta tecnologia da Live Nation, a qual 
já anunciou uma aliança com a Next VR. Nas 
palavras de Jordan Zachary, responsável pela 
estratégia da Live Nation: “Não procuramos 
imitar a experiência de estar na primeira fila 
de um concerto, mas criar outra diferente.” 
Segundo a multinacional, programar concertos 
em direto em RV, longe de prejudicar a venda de 
bilhetes, irá atrair mais pessoas aos seus eventos. 
Além disso, poderá ver os lucros aumentar 
através de conteúdos suplementares: por 
exemplo, oferecendo a possibilidade de acesso 
aos bastidores.
A realidade virtual já é utilizada para a trans-
missão em streaming de acontecimentos des-
portivos. Tivemos um exemplo nos Jogos Olím-
picos do Rio, emitidos pela NBC em RV graças 
à aliança estabelecida com a Samsung. Por sua 
vez, a colaboração entre a Fox Sports e a Next VR 
permitiu que, em agosto, pessoas de todo o 
mundo pusessem os seus Samsung Gear RV e 
se sentissem como qualquer outro espetador 
no Allianz Arena, durante o jogo da primeira 
jornada da Liga alemã, entre o Bayern de 
Munique e o Werder Bremen.
VIDEOJOGOS DO FUTURO... JÁ HOJE
Em outubro, a Sony lançou a PlayStation VR, o 
dispositivo de realidade virtual compatível com 
a sua consola. Para muitos analistas, as ven-
das do produto determinarão o futuro desta 
tecnologia e a sua implantação entre os consu-
midores. O aparelho possui um design inovador, 
pois os óculos estão inseridos numa espécie de 
diadema ajustável que inclui um ecrã de alta 
definição e som tridimensional.
Permite mergulhar em tantos mundos quanto 
o número de jogos compatíveis que sejam 
comercializados. Já há títulos como Resident 
Onde vamos hoje?
Os clientes do Sublimotion 
podem fazer viagens para 
destinos distantes enquanto 
saboreiam a sua refeição.
Evil 7: Biohazard, Grande Turismo Sport ou 
Batman: Arkham VR. Não é a única alternativa 
para jogar em ambientes de RV, mas é, teorica-
mente, a que oferece mais realismo por menos 
dinheiro, e estará certamente em muito sapa-
tinho, este ano.
A “NÃO CASA” DOS SEUS SONHOS
Mais de 2300 milhões de euros. Segundo a 
Goldman Sachs, é a soma que será movimen-
tada, no ano 2025, pelas aplicações de reali-
dade virtual no setor imobiliário. Em princípio, a 
tecnologia irá trabalhar com dois cenários. Por 
um lado, permitirá que o cliente possa entrar 
numa agência e visitar, com óculos de RV, uma 
casa ou um local, guiado pelo agente imobiliário. 
A outra possibilidade é que qualquer utilizador 
possa realizar a visita através do seu próprio 
telemóvel ou computador, enquanto um assis-
tente comercial o orienta à distância.
Além disso, a realidade virtual permite pas-
sear por espaços que ainda não foram cons-
truídos, de forma a tornar obsoletas as tradi-
cionais maquetas. Durante a visita, é possível 
modificar os elementos (chão, portas, janelas...) 
consoante os desejos do cliente. As duas ver-
tentes já foram lançadas, mas há uma grande 
diferença na qualidade dos projetos dispo-
níveis. A maior parte dos que já funcionam 
baseiam-se apenas em fotografias de 360 
graus, pelo que a experiência é passível de ser 
muito melhorada.
Neste setor, a produção de vídeo em 360 não 
se tornou generalizada devido ao seu elevado 
preço. Contudo, o montante das operações 
com moradias de luxo permite, efetivamente, 
uma aposta no conceito, pois também poupa 
outros custos, como uma viagem eventual-
mente longa por parte do cliente para ver a 
propriedade. Empresas de RV como a Transpor-
ted ou a You Visit, ambas sediadas nos Estados 
Unidos, já exploram esse filão com excelentes 
resultados.
COMER EM UNIVERSOS PARALELOS
O Sublimotion gaba-se de ser o restaurante 
mais caro do mundo e, para justificá-lo, oferece 
uma experiência que transcende o fator gas-
tronómico. Situado no Hard Rock Hotel de Ibiza 
e dirigido pelo chef Paco Roncero, possui uma 
única mesa para doze clientes, que podem 
apreciar uma ementa de quinze pratos por 1650 
Interessante 55
euros. Fazem-no num cenário escolhido para a 
ocasião pela equipa de cozinheiros do restau-
rante, que cria uma experiência multissensorial 
com base em técnicas de realidade virtual (ape-
tece-lhe jantar como se estivesse no centro 
da Terra? no espaço?). A sessão é complemen-
tada com realidade aumentada para proporcio-
nar informação sobre os pratos e a respetiva 
elaboração.
NO CENTRO DA NOTÍCIA
O que sente um ocidental quando deixa o 
conforto do sofá para se encontrar no meio de 
uma planície do Sudão do Sul, observando os 
aviões da ONU a bombardear a zona com sacos 
demantimentos? Se uma das premissas do jor-
nalismo é ser porta-voz de realidades a que não 
temos acesso pessoalmente, o chamado “jor-
nalismo imersivo” destina-se a agitar consciên-
cias. A cena anterior faz parte de The Displaced, 
um dos primeiros trabalhos da secção de RV 
do New York Times, jornal que apostou forte 
na tecnologia. Além de produzir peças como 
esta, que aborda o drama dos deslocados em 
várias regiões do mundo, ou como The Fight 
for Fallujah, onde nos vemos imersos na ofensiva 
das forças iraquianas para recuperar o bastião 
rebelde, já distribuiu mais de um milhão de 
Google Cardboards entre os seus assinantes. 
A colaboração irá prosseguir com os novos 
óculos da Google, os Daydream View.
Em Espanha, o diário El País apresentou, 
em maio passado, a experiência Fukushima – 
Vidas Contaminadas, sobre a cidade japonesa 
vítima do acidente na central nuclear ocorrido 
em março de 2011. O jornal dispõe também de 
uma aplicação (El País VR) que dá acesso ao 
conteúdo de RV que vai produzindo. 
SEXO SENTIDO
Um coitus interruptus. Deve ter sido uma 
experiência semelhante a vivida pelos organi-
zadores da primeira edição do Festival de Por-
nografia para Realidade Virtual de Tóquio ao ter 
de cancelar o evento apenas 30 minutos depois 
de abrir as portas. Aconteceu no início de julho, 
e a razão para tão drástica decisão foi a ava-
lancha de adeptos que queriam entrar num 
recinto que de imediato se revelou demasiado 
pequeno para os receber. As pessoas que 
conseguiram passar tiveram oportunidade de 
comprovar que o sexo RV não se cinge a uma 
mera imersão visual. Nesta matéria, e tal como 
acontece nos videojogos, os periféricos desem-
penham um papel essencial. Em Tóquio, por 
exemplo, foram mostrados desde aparelhos de 
masturbação a bonecas insufláveis criadas para 
ser utilizadas com a tecnologia.
Fabricantes de brinquedos sexuais, como a 
Kiroo e a Lovense, trabalham com produtoras 
como a PornHub ou a VirtualRealPorn para 
tornar efetiva a sincronização entre o material 
audiovisual de realidade virtual e os acessórios 
e permitir uma experiência total. A ideia é que 
a cadência de um vibrador, por exemplo, seja 
exatamente a mesma da exibida pelo ator ou 
pela atriz.
A velocidade a que a tecnologia avança é 
diretamente proporcional à expectativa criada 
pela sua aplicação. Contudo, nem todos estão 
satisfeitos: os responsáveis pela PornHub reve-
laram as dificuldades que os atores enfrentam 
quando estão a ser filmados para RV: muitas 
vezes, ter de aguentar no pescoço o peso do 
equipamento de gravação (os vídeos são gra-
vados pelo próprio) impede-os de manter a 
ereção o tempo suficiente.
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SUPER56
A hora do 
ORIGAMI
Tecnologia
Papiroflexia científica
57
A hora do 
ORIGAMI
Papiroflexia científica
Interessante
Aliada à matemática, a arte de dobrar papel 
está na base de importantes inovações 
tecnológicas, no campo da investigação.
Mestre a dobrar. O físico Robert J. 
Lang, um dos maiores especialistas 
mundiais em origami, usa fórmulas 
matemáticas e programas de computador 
para criar as suas figuras e aplicar as 
descobertas a problemas de engenharia.
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A NASA criou 
painéis solares
que se dobram 
e desdobram
SUPER58
A viões, barcos, pássaros, rãs... Quem nunca tentou dobrar um pedaço de papel para reproduzir uma destas figuras? Conhecido a nível interna-
cional, o origami está ao alcance de todos. 
Poderá parecer que essa arte de origem 
japonesa é uma mera diversão, mas isso não 
corresponde à realidade. As suas vertentes 
criativas e artísticas são evidentes, mas outras 
características também lhe permitiram conver-
ter-se na base de importantes inovações tecno-
lógicas. De facto, se observarmos com atenção 
o mundo que nos rodeia, encontraremos nas 
dobras e pregas da natureza a fonte de inspira-
ção para o origami. Na companhia da matemá-
tica, tornou-se uma ferramenta de investigação 
que tem produzido avanços surpreendentes.
A relação entre o origami e conceitos geomé-
tricos surge de forma natural: quando se dobra 
um papel, estamos a desenhar linhas nele. Se nos 
concentrarmos, conseguimos distinguir, entre 
outros, segmentos, ângulos, pontos comuns a 
segmentos, polígonos, figuras planas e figuras 
tridimensionais. Se compararmos, além disso, 
a folha de papel a um plano, dotando-a de um 
sistema de coordenadas em que cada ponto 
passa a ser descrito por um par de números, 
surgirão conceitos numéricos, direções e 
dimensões. Essa nova perspetiva permite 
ampliar o campo de investigação e abordar os 
problemas relacionados com o origami através 
da teoria dos números, o ramo da matemática 
pura que estuda propriedades dos números, 
em particular dos inteiros. 
Após anos de esforços e de investigação por 
parte de engenheiros, físicos e matemáticos 
para formalizar a relação entre a matemática 
e a arte do origami, foi possível desenvolver as 
bases e regras teóricas com o objetivo de deter-
minar se uma figura pode ser criada através 
dessa técnica, que tipos de manobras se tem de 
fazer e quais as características do origami. A 
teoria foi sendo consolidada nos últimos quinze 
anos e constitui a base para aplicações em 
diversos setores tecnológicos. 
TRANSMISSÃO ORAL
No início, os passos para elaborar um modelo 
de origami eram comunicados de forma oral, o 
que dificultou a sua transmissão entre as dife-
rentes gerações (alguns modelos tradicionais 
perderam-se pelo caminho). Foi apenas no final 
do século XX que o japonês Akira Yoshizawa 
dotou a dobragem criativa de uma linguagem 
simbólica própria, que permitia, pela primeira 
vez, uma nova forma de transmissão. 
O mestre do origami inventou códigos basea-
dos em linhas e setas para descrever os passos 
necessários para “dobrar” um modelo. O con-
junto de todos esses símbolos é designado 
por “diagrama”. Paralelamente aos diagramas, 
é possível reproduzir uma figura pela interpre-
tação do seu padrão de vincos, o qual mostra as 
marcas deixadas no papel depois de completada 
uma figura. 
Hoje, o origami é uma arte de fácil acesso: 
através da internet, onde se partilham diagra-
mas, padrões de dobras e material audiovisual 
diversificado, ou de associações de origami, que 
organizam encontros periódicos com o obje-
tivo de partilhar conhecimentos e criações. 
Na sua versão mais ortodoxa, as regras para 
criar origami são claras: uma única folha de papel, 
nada de cola ou tesoura. A elaboração é dividida 
em duas partes: a dobragem da base e a dos 
pormenores. A base é uma figura geométrica 
de estrutura semelhante à forma do objetivo; a 
matemática intervém no processo de elabora-
ção. Por sua vez, os pormenores transformam 
a base num modelo mais elaborado e constituem 
a vertente mais artística da figura. As técnicas 
podem aproveitar bases conhecidas, mas estas 
são cada vez mais utilizadas para criar novas. 
MÉTODOS CONSAGRADOS
Há diversos métodos consagrados, como os 
que permitem transformar uma única dobra 
de papel em várias, sem necessidade de cortar ou 
colar. Originalmente, eram utilizados para criar 
figuras com diversas extremidades. Podemos 
Interessante 59
também encontrar técnicas para reproduzir 
padrões em forma de mosaico e conseguir, 
assim, um efeito de textura. O empacotamento 
de círculos é outra técnica comum, que utiliza 
círculos para criar bases com combinações de 
dobras de tamanho diferente. Outros exemplos 
são a teoria da árvore, que associa um grafo de 
árvore ao padrão de dobras de um modelo (e 
que foi, curiosamente, desenvolvido por duas 
pessoas ao mesmo tempo: o bioquímico japo-
nês Toshiyuki Meguro e Robert J. Lang, figura 
essencial do origami a nível mundial),e o estilo 
que utiliza dobras em forma de acordeão, 
geralmente para criar caixas desdobráveis 
Estas técnicas são utilizadas tanto para cria-
ções artísticas como para desenvolver apli-
cações no campo da tecnologia. Através de 
algoritmos de dobras clássicas em vale ou em 
monte, é possível obter estruturas complexas; 
aplicadas a outros materiais, como certos metais 
(bronze ou alumínio), são a base para adaptar 
as vantagens e as propriedades do origami a uti-
lizações práticas e reais. As propriedades inatas 
do material (leveza, força, resistência, transpa-
rência) irão torná-lo apto para um uso ou outro. 
Quanto às medidas dos modelos de origami, 
podem variar de tamanhos muito reduzidos à 
escala de verdadeiros edifícios. 
Uma aplicação que encontramos no nosso 
quotidiano e a que talvez nunca tenhamos pres-
tado atenção é a configuração de recipientes. 
É o caso das caixas de cartão e das embalagens 
Tetrabrik. O origami tem muito para oferecer 
numa questão que adquire cada vez maior 
A caminho do céu. Uma vez no 
espaço, o telescópio James Webb, 
que deverá ser lançado em 2018, 
abrir-se-á como uma folha de origami. 
Na imagem, um técnico verifica uma 
das 18 peças que compõem o espelho.
 
Robôs para engolir
O Instituto Tecnológico do Mas-sachusetts (MIT) tem consa-
grado muitos recursos à investigação 
das possíveis aplicações do origami 
no campo da robótica e da nanotec-
nologia, tendo já obtido resultados 
surpreendentes. Depois de apresentar 
robôs que se dobram, feitos de po-
límeros com memória, e outros que 
podem ser montados com recurso a 
materiais planos e calor, o seu traba-
lho mais recente é um robô-origami 
comandado à distância. O corpo do 
robô incorpora um íman programado 
para se deslocar através de um campo 
magnético. O robô, que é inicialmen-
te plano, ergue-se, autoformando-se e 
dobrando-se. Desempenha as tarefas 
que lhe são atribuídas e desaparece, 
degradando-se sozinho. Este enge-
nho pode transportar objetos, passar 
por obstáculos e seguir a trajetória 
que lhe foi indicada. Depois de ter 
completado todas as tarefas, possui 
o dom de se autorreciclar, dissol-
vendo-se num líquido. Segundo os 
investigadores, os robôs inspirados 
em origami possuem a vantagem de 
ser mais rápidos e fáceis de fabricar, 
sendo também mais económicos. São 
uma ferramenta para desempenhar 
tarefas de inspeção, mas a versão 
mais recente, elaborada com material 
biocompatível, possui também uma 
aplicação prometedora no campo da 
biomedicina: é possível ingerir o ro-
bô, inserido numa cápsula. Nos testes 
que foram desenvolvidos, foi introdu-
zido num esófago e estômago artifi-
ciais e, uma vez ali chegado, a cápsula 
dissolveu-se e o robô expandiu-se. 
Poderá ser utilizado para extrair uma 
pilha ou colocar um penso numa 
ferida, sem necessidade de recorrer à 
cirurgia. Incorpora um pequeno íman 
para ser guiado por campos magné-
ticos externos; o próximo objetivo é 
conseguir que se desloque de forma 
autónoma.
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SUPER60
As “dobras” 
genéticas 
permitirão 
fazer novos 
medicamentos
importância na nossa sociedade. Referimo-
-nos à reciclagem; em concreto, ao armaze-
namento dos objetos recicláveis. Modelos 
adequados podem contribuir para otimizar o 
espaço que os resíduos ocupam. 
As embalagens de pipocas para uso exclusivo 
no micro-ondas são outro exemplo de origami 
industrial; uma caixa pode conter vários pacotes, 
praticamente planos, que se expandem e 
adquirem uma estrutura tridimensional quando 
o milho explode no interior. Outra configuração 
comum na criação de embalagens é a estrutura 
em favo de mel, que ajuda a proteger o con-
teúdo, pois reduz as vibrações. Quais as suas 
aplicações? Serve tanto para caixas de cartão 
como para a construção das paredes dos 
foguetes de satélites artificiais. 
INOVAÇÕES NA ENGENHARIA
O origami também deu importantes frutos no 
setor da engenharia. Na indústria automóvel, 
são desenvolvidos algoritmos para permitir que 
os airbags dos veículos mantenham uma forma 
plana depois de dobrados. Curiosamente, os 
algoritmos para dobrar os airbags nos seus 
compartimentos recorrem ao modelo de ori-
gami utilizado inicialmente para reproduzir 
aves de grande tamanho. É um exemplo dos 
inventos e das configurações que partem da 
mesma base das criações artísticas. 
Por outro lado, diversas equipas de investi-
gadores da Alemanha e do Japão foram buscar 
inspiração ao origami para aproveitar as van-
tagens que proporciona no inovador campo 
da impressão tridimensional. Um dos inconve-
nientes das atuais impressoras 3D é a sua lenti-
dão, pelo que o objetivo de recorrer ao origami 
é conseguir que o computador descomprima 
dados tridimensionais para imprimir objetos 
praticamente planos, através de uma série 
de cortes e padrões previamente estabelecidos. 
Depois de impressos, os objetos estão prepa-
rados para ser facilmente dobrados e trans-
formar-se, posteriormente, em objetos volu-
mosos. Já todos perceberam que este tipo de 
impressão é mais rápido e económico. 
A astronáutica também está muito interes-
sada em estudar as possíveis aplicações da 
papiroflexia. Cientistas da NASA estão a tra-
balhar num projeto para lançar satélites de 
modo que os seus painéis solares sejam enviados 
dobrados e, depois, se abram no espaço, uma 
situação simulada por computador com recurso 
a técnicas e cálculos baseados na matemática 
do origami. Para elaborar as estruturas, as gre-
lhas dos painéis solares são reproduzidas numa 
folha de papel a fim de estudar os diferentes 
métodos de poder dobrá-las. O modelo de 
dobragem de painéis solares mais conhecido 
é a dobra de Miura: faz parte de um género 
de origami que envolve lâminas planas rígidas 
ligadas entre si por dobradiças. 
Há também um projeto que junta diversos 
investigadores norte-americanos do Laborató-
rio de Propulsão a Jato da NASA e da Universi-
dade Brigham Young com o objetivo de conse-
guir reduzir dez vezes o tamanho dos painéis 
solares depois de dobrados, de modo a ocupa-
rem o mínimo volume possível. Ainda no campo 
da astronáutica, foram criados espelhos dobrá-
veis de telescópios espaciais, como é o caso do 
telecópio espacial James Webb, formado por 
dezoito elementos hexagonais de berílio. 
TAMBÉM NA MEDICINA
Por outro lado, o origami constitui uma 
fonte de inspiração no campo da medicina e 
da biotecnologia. Alguns modelos são copia-
dos e adaptados a instrumentos médicos. Na 
cirurgia cardiovascular, foram criados disposi-
Interessante 61
tivos em forma de mola que ajudam a corrigir 
o estreitamento das artérias. Referimo-nos aos 
stents, que se mantêm achatados e que, depois 
de introduzidos no corpo, se expandem para 
formar uma estrutura 3D em forma de tubo (à 
semelhança de um barco dentro de uma gar-
rafa). Através de um catéter, o stent viaja até ao 
vaso com estenose e, ao abrir-se, aumenta de 
diâmetro, para melhorar a circulação sanguínea. 
Consoante a aplicação, o tecido pode mesmo 
crescer em redor do stent, que permanece para 
sempre no organismo do doente. 
Existem igualmente projetos de investigação 
baseados no origami para melhorar o movi-
mento alveolar nos doentes a ser tratados para 
doenças pulmonares, ou mesmo para desen-
volver implantes de retina. 
Outro dos campos em que o origami constitui 
uma fonte de inspiração é a nanotecnologia. 
Após dez anos de evolução e investigação do 
origami, já é possível hoje dobrar moléculas de 
ADN para obter formas concretas. Este avanço 
poderá ter aplicações importantes, como a 
criação de novos fármacos, de dispositivos 
fotónicos (com as mesmas funções do que os 
dispositivos eletrónicos, mas queusam a luz 
como veículo de transmissão) ou de reações 
químicas na indústria. 
Obviamente, o origami também tem uma 
relação próxima com a física. Uma aplicação 
direta neste campo é a criação de sistemas óti-
cos em que se recorre ao origami para simular 
o comportamento dos reflexos de raios de luz. 
Na Austrália, o artista Matthew Gardiner criou 
um novo campo de investigação, denominado 
oribotics, que combina arte e ciência. As suas 
obras, conhecidas por oribots, são estrutu-
ras estáticas, sem qualquer programa, que 
usam a eletricidade como fonte de vida. É o caso 
de certas lâmpadas, com uma estrutura seme-
lhante a uma flor, que se abrem (desdobram) 
quando se aproxima um objeto, e fecham 
quando é afastado. 
Também os arquitetos mostram interesse 
pelo origami. Estuda-se a forma de conseguir 
dobrar madeiras ou panéis metálicos destina-
dos à construção de estruturas e a projetos de 
edifícios e coberturas dobráveis. Até o universo 
da moda aproveitou as vantagens do origami: 
vestidos inspirados em padrões de dobragem 
de flores na natureza, como um modelo de Issey 
Miyake; guarda-chuvas e leques, etc. 
NOS DOIS SENTIDOS
A matemática está presente em todos estes 
avanços, mas a verdade é que a relação entre 
a ciência e o origami funciona em ambos os 
sentidos: por um lado, os avanços no campo 
da matemática contribuem para a criação de 
novas figuras; por outro, os progressos em 
matéria de papiroflexia colocam desafios que 
se traduzem em avanços para a investigação 
matemática. Os resultados destes estudos 
refletem-se em múltiplos artigos publicados 
em revistas como a Nature Materials. Alguns 
destes trabalhos deram mesmo origem a teses 
de doutoramento em matemática, algo que 
seria impensável há alguns anos. 
Uma forma de divulgar estas conclusões 
científicas é através dos congressos de origami 
que são organizados em diferentes países, 
como os OSME (sigla de Origami in Science, 
Mathematics and Education), que mostram as 
aplicações e a utilidade da transversalidade de 
conhecimentos. Estão presentes arquitetos, 
artistas, desenhadores, engenheiros, matemá-
tico, pessoas de esferas muito diferentes que 
partilham o mesmo interesse pelo origami. 
O que nos guarda o futuro neste campo? 
Teremos microtelemóveis que se desdobram 
quando são utilizados? Poderemos trabalhar a 
uma escala ainda menor, ao nível dos átomos? 
Ajudar-nos-á a conquistar o espaço? Estamos na 
era do origami, uma arte e uma ciência a que 
se dedicam milhares de pessoas no mundo e 
que afeta e continuará a afetar o nosso quoti-
diano, muito mais do que pensamos.
 E.T.
E fez-se luz. Os oribots são o trabalho do 
artista Matthew Gardiner, que explora a ligação 
entre a natureza, o origami e a robótica
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SUPER62
Tecnologia
63
Como treinar 
o seu ROBÔ
Máquinas que aprendem por si
Interessante
Já há autómatos 
que falam, andam 
e gesticulam. Agora, 
os especialistas em 
inteligência artificial 
pretendem 
criar algoritmos 
que lhes permitam 
relacionar conceitos.
O nde está a revolução da robótica que nos foi prometida? Há décadas que inúmeros cientistas e autores de ficção científica vaticinam um 
futuro em que os seres humanos coexistiriam, 
lado a lado, com máquinas autónomas que os 
entenderiam e lhes facilitariam a vida. Contudo, 
a verdade é que, apesar de haver um número 
crescente de humanoides a falar e a desempe-
nhar as mais diversas tarefas, o único autómato 
que parece ter conseguido introduzir-se verda-
deiramente na nossa sociedade é um aspirador 
em forma de ringue chamado Roomba. 
Todavia, os avanços neste campo não ces-
saram desde que o Unimate, o primeiro robô 
industrial da história, começou a trabalhar 
numa cadeia de montagem da General Motors, 
em 1961. No último meio século, conseguiu-se 
melhorar as capacidades deste tipo de máquinas 
e o modo como colaboram com os seres huma-
nos. Se ainda não nos habituámos a vê-las no 
nosso quotidiano é, sobretudo, porque se 
encontram nas fábricas. De facto, o Unimate 
era um braço automatizado que pesava quase 
duas toneladas. O gigante da indústria automo-
bilística utilizava-o para deslocar e soldar gran-
des peças de metal aquecido, uma tarefa que 
acarretava riscos para os operários.
SUBSTITUIÇÃO DOS HUMANOS
Foi a primeira vez que uma máquina substituiu 
por completo um ser humano no trabalho. As 
novas tecnologias que emanaram da Revolução 
Industrial, como os tratores e as máquinas de 
ceifar, permitiam reduzir o número de trabalha-
dores, mas não os eliminavam por completo, 
pois tratava-se de dispositivos que tinham de ser 
conduzidos ou supervisionados por pessoas. 
Porém, o Unimate não era uma simples máquina: 
podia encarregar-se de uma tarefa de forma 
autónoma. 
No último meio século, o número de robôs a 
desempenhar algum tipo de trabalho em pro-
cessos industriais não parou de crescer. Em 
2014, já havia 478 por cada dez mil operários GET
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As máquinas 
autónomas
saberão reagir 
ao inesperado
SUPER64
cérebro humano faz quando processa os sinais 
visuais captados pelos olhos. 
O Wall-B possui várias câmaras e algoritmos de 
inteligência artificial que lhe permitem processar 
as imagens e entender o que vê. “As garrafas 
não se encontram sempre na mesma posição, 
e chegam geralmente amolgadas e misturadas 
com outros objetos”, explica Belén Garnica, 
responsável pelo desenvolvimento de negó-
cios da Sadako Technologies. Por isso, o robô 
teve de aprender a reconhecer as embalagens 
que procura e a efetuar os movimentos neces-
sários para recuperar as garrafas. 
Os autómatos como o Wall-B acabam por 
saber o que têm de fazer graças à técnica de 
treino robótico mais utilizada atualmente: a 
aprendizagem de máquinas. Consiste em mos-
trar-lhes milhares ou milhões de exemplos, até 
conseguirem inferir um comportamento. 
“Trata-se de levar o robô a aprender com 
a experiência, sem ter sido explicitamente 
programado para isso, e conseguir que o seu 
conhecimento aumente com cada nova tarefa, 
objeto ou situação que enfrente”, explica Car-
los Balaguer, especialista no tema. 
ACELERAR A APRENDIZAGEM
É assim que funciona, por exemplo, o sistema 
de reconhecimento de rostos do Facebook. O 
algoritmo foi exposto a milhões de fotografias 
que tinham sido previamente etiquetadas à mão 
por pessoas, as quais assinalavam em cada uma 
a área da imagem em que se encontrava a cara. 
Depois, o programa informático examinou-as até 
Ao trabalho! Os robôs colaborativos, 
como o Sawyer (aqui, num armazém da 
DHL) percebem alterações no ambiente 
e podem adaptar-se. Este tem uma interface 
que mostra expressões, para ser mais fácil 
o convívio com os “colegas” humanos.
humanos na Coreia do Sul, o que significa que 
quase cinco por cento da força de trabalho 
naquele país é composta por esses engenhos. A 
Coreia do Sul encabeça a classificação, seguida 
do Japão, com 315 autómatos por dez mil, e da 
Alemanha, com 292, segundo dados da Fede-
ração Internacional de Robótica. 
Se há tantas máquinas a fabricar veículos 
e trabalhar com componentes eletrónicos e 
metais pesados, porque não acontece o mesmo 
nas lojas, nos hotéis ou mesmo nas nossas casas? 
Porque será que ainda não podemos ter empre-
gados robóticos e androides que façam as tare-
fas domésticas? A resposta é que não é fácil, 
para uma máquina, gerir o desconhecido. 
TAREFAS REPETITIVAS
A maior parte dos robôs industriais desem-
penha, geralmente, tarefas repetitivas em que 
não deparam com situações para as quais não 
foram preparados. Nas cadeias de montagem, 
as peças com que trabalham estão sempre no 
mesmo sítio, têm sempre o mesmo tamanho e 
são manipuladas da mesma forma. Para apren-
der a fazê-lo,o robô precisa de saber onde deve 
atuar e a que velocidade, assim como as ações 
concretas que a tarefa exige. É assim que fun-
ciona a programação convencional, um pro-
cesso rudimentar em que é necessário voltar 
ao início sempre que se altera um pormenor. 
“Os robôs possuem o potencial para melhorar 
a vida das pessoas. Poderiam ajudar os astro-
nautas que viajem até Marte, os doentes num 
hospital ou os trabalhadores nas fábricas”, 
explica Stefanie Tellex, especialista em ciências 
da computação na Universidade Brown (Esta-
dos Unidos), que estuda a forma como os enge-
nhos poderiam comunicar connosco através de 
uma linguagem natural. A programação clássica 
permite-lhes desempenhar tarefas, mas não 
lidar com acidentes, por exemplo. Para isso, 
teriam de conseguir entender o mundo e tudo o 
que os rodeia, de modo a poder reagir de forma 
autónoma em qualquer situação. 
APRENDER A DISTINGUIR
Na indústria do tratamento de resíduos, já 
existem máquinas especializadas na recupera-
ção de garrafas de tereftalato de polietileno 
(PET), um plástico utilizado no fabrico de emba-
lagens. Um exemplo é o Wall-B (que recorda 
o nome do simpático robô do filme WALL-E), 
desenvolvido pela Sadako Technologies. O 
engenho distingue os recipientes PET de todos 
os outros resíduos através de um sistema de 
visão artificial que procura reproduzir o que o 
Interessante 65
conseguir distinguir cada indivíduo com preci-
são. Através desta estratégia, os robôs come-
çam a adquirir autonomia e uma certa capaci-
dade de raciocínio. 
Todavia, se a ideia é que nos tornem a vida mais 
fácil, o facto de a sua aprendizagem depender 
de haver um grande número de pessoas a inves-
tir esforço e tempo para rotular milhões de 
dados não parece muito eficiente. A fim de ace-
lerar o processo, uma equipa de investigadores 
da Universidade de Stanford (Estados Unidos) 
lançou o projeto RoboBrain, com o objetivo de 
fazer os robôs aprenderem uns com os outros. 
O RoboBrain funcionaria como uma espécie 
de Google para autómatos, que cada máquina 
poderia consultar em busca de um conheci-
mento específico previamente adquirido por 
outra. Assim, poderia tentar aprender, por 
exemplo, como agarrar corretamente uma chá-
vena pela asa, ou a melhor forma de rodar uma 
maçaneta para abrir uma porta. Depois de fazer 
o download desse conhecimento específico 
e utilizá-lo para resolver o problema que 
enfrenta, o robô devolve a sua experiência 
à base de dados RoboBrain. Desse modo, o 
próximo engenho a utilizar o serviço poderá 
dispor de ainda mais informação.
“Quanto mais dados entrarem, melhor será 
o rendimento dos robôs”, afirma o especialista 
em ciências da computação Ashutosh Saxena, 
responsável pela iniciativa. Na sua opinião, 
o facto de um robô ter maior ou menor difi-
culdade para aprender a fazer algo também 
depende do contexto. “Se um programador o 
Disciplinas 
robóticas
A técnica de aprendizagem utiliza-da para treinar os robôs consis-
te, essencialmente, em fazê-los extrair 
por si próprios a informação de que 
necessitam a partir dos dados que 
lhes são proporcionados. Há diferen-
tes estratégias para o conseguir.
Aprendizagem reforçada – Inspira-
-se no comportamento condicionado 
de Ivan Pavlov. Tal como o fisiólogo 
russo fazia com os cães, a ideia é trei-
nar as máquinas com a ajuda de estí-
mulos positivos e negativos. O algo-
ritmo é programado para maximizar a 
recompensa. Recebidas as instruções, 
o software ensina simplesmente a si 
próprio como desempenhar uma 
tarefa ou disputar um jogo. O prémio, 
neste caso, seria vencê-lo. 
Aprendizagem profunda – Con-
siste em imitar o funcionamento do 
cérebro humano através de redes 
neuronais artificiais, estruturadas em 
diferentes camadas: cada uma extrai 
um tipo de informação que alimenta a 
seguinte. Trata-se da abordagem que 
o Facebook utilizou para conceber o 
software de reconhecimento facial. 
A primeira camada de ciberneuró-
nios obtém dados básicos sobre a 
imagem, como as cores; a seguinte 
analisa as formas, e assim por diante 
até conseguir captar os mais ínfimos 
pormenores. 
Árvore de decisões – Baseia-se em 
criar um esquema através do qual se 
sucedem as diferentes possibilidades 
de um cenário e as soluções concre-
tas. Funcionaria de forma semelhante 
ao do manual de respostas utilizado 
pelas equipas de atendimento ao 
cliente. Cada situação é associada 
a uma reação, e o algoritmo navega 
entre elas, aplicando a lógica para en-
contrar a mais adequada. 
Otimização – É a lei do menor es-
forço. Trata-se de treinar o software 
para resolver da forma mais eficiente 
possível qualquer problema que surja. 
O método que utiliza não interessa; o 
único requisito é que o faça da forma 
mais fácil. Esta abordagem é utilizada, 
por exemplo, para os robôs aprende-
rem a levantar-se quando caem. Fa-
zem-no, essencialmente, do mesmo 
modo que a mente de um bebé, a qual 
dedica muito tempo a averiguar como 
deslocar o corpo e, depois, usa esse 
conhecimento para planear novos 
movimentos com maior rapidez.
D
H
L
SUPER66
Algumas 
máquinas 
já trocam 
conhecimentos
treinar para determinada situação, poderá não 
funcionar bem se alguma coisa mudar, nem 
que seja minimamente”, explica Saxena. “Para 
poder fazer algo aparentemente tão simples 
como preparar uma omelete, deverá tomar 
em consideração dezenas de variáveis, como 
o aspeto e a disposição da cozinha, e não há 
duas rigorosamente iguais”, diz. 
TECNOLOGIA EMERGENTE
Todavia, se um robô aprender a pegar num ovo 
sem o partir, a sua experiência poderá servir 
para outro que precise, por exemplo, de trocar 
uma lâmpada (claro que ainda terá de aprender 
como enroscar e desenroscá-la, mas saberá, pelo 
menos, como pegar-lhe com cuidado). Saxena 
acredita que esses conhecimentos partilhados 
irão multiplicar enormemente a capacidade das 
máquinas, o que se tornará visível em menos de 
dez anos. O enorme potencial desta estratégia 
despertou o interesse de muitos especialistas, 
e foi considerada pelo Instituto Tecnológico do 
Massachusetts, através da sua publicação MIT 
Technology Review, uma das dez tecnologias 
emergentes mais destacadas de 2016. 
Stefanie Tellex lançou uma iniciativa seme-
lhante, o projeto Um Milhão de Objetos. A ideia 
é que todas as unidades de um tipo concreto 
de robô, o Baxter, distribuídas por diferentes 
cadeias de montagem em todo o mundo, par-
tilhem os seus conhecimentos e formem uma 
grande base de dados sobre como trabalhar 
com peças muito diferentes. 
IR À ESTANTE E VOLTAR
Uma das empresas mais interessadas na 
capacidade dos robôs para identificar e mani-
pular objetos é a Amazon. Nos seus enormes 
armazéns, milhares de produtos de diferentes 
formas e tamanhos amontoam-se à espera de 
serem adquiridos. Quando isso acontece, um 
operário tem de percorrer as instalações para 
localizá-los e embalá-los. A companhia, cons-
ciente da fraca eficácia do processo e da perda 
de tempo que acarreta para os funcionários, 
organizou um concurso para “moços de arma-
zém” robóticos. Os engenhos que participa-
ram tinham de encontrar, recolher e emba-
lar 25 objetos diferentes, desde pacotes de 
bolachas até patinhos de borracha. 
Contudo, nenhum dos 31 robôs candidatos 
conseguiu completar todas as provas com êxito. 
Por exemplo, os livros de bolso foram um grande 
problema para a máquina apresentada pela Uni-
versidade de Alberta (Canadá), equipada com 
uma mão de três dedos. Por serem tão finos, 
a câmara do robô quase não os detetava e, 
quando o fazia, não conseguia agarrá-los bem. 
A iniciativa, denominada Amazon Picking 
Challenge, demonstrou que, por muito sofisti-
cado que seja o hardware de um robô, de nada 
serve se o software que o controla não entender 
o contexto. “Há robôs incríveis, masnão conse-
guem funcionar no máximo das suas capacida-
des porque não temos os algoritmos necessá-
rios”, diz o neurocientista Demis Hassabis, que 
lidera o programa de investigação sobre inteli-
gência artificial da Google. 
Em 2010, Hassabis fundou a companhia Deep-
Mind, especializada neste tipo de tecnologias, 
que seria depois adquirida pelo gigante dos 
motores de busca. Em março passado, o seu 
sistema AlphaGo, concebido para disputar 
desafios de go, um milenar jogo de estraté-
gia criado na China, derrotou o campeão sul-
-coreano Lee Sedol, um dos melhores jogado-
res do mundo. Para treinar, a máquina compe-
tiu contra si própria milhões de vezes. “Nunca 
senti que estava em vantagem”, admitiu Sedol 
após a competição. 
APRENDER SOZINHO
A história recorda a do xadrezista Garry Kas-
parov. Em 1997, foi derrotado pelo computador 
Deep Blue, da IBM. Era a primeira vez que um 
computador se impunha a um campeão do 
mundo, nas mesmas condições em que são dis-
putados os torneios de xadrez. Porém, a proeza 
da Google é mais complexa. Um jogador de 
xadrez tem de lidar com uma média de 35 movi-
Interessante 67
mentos possíveis em cada jogada, número 
que, no caso do go, ascende a 250. “O xadrez é 
um jogo de cálculo, o go é muito mais complexo; 
baseia-se, em grande medida, na intuição”, 
explica Hassabis. O computador da IBM possuía 
grande potência de cálculo, mas a máquina da 
Google conseguiu imitar um processo intuitivo. 
É um avanço espetacular, que os peritos não 
esperavam nas próximas décadas. 
Obviamente, o objetivo da Google não é que 
as máquinas dominem neste tipo de jogos, tal 
como a Amazon não pretende que um robô seja 
capaz de agarrar patinhos de borracha. O que 
este tipo de iniciativas visa é o desenvolvi-
mento de uma inteligência artificial capaz de 
compreender o mundo e enfrentá-lo. 
No entanto, ainda estamos longe de conse-
gui-lo, como demonstram os carros autóno-
mos, que a Google também está a desenvolver. 
Apesar de terem sido preparados para entender 
os sinais de trânsito, por vezes os veículos não 
cessam de andar às voltas nas rotundas, porque 
não sabem sair dali. Algo de semelhante aconte-
cia com as primeiras versões do ciberaspirador 
Roomba quando um animal de estimação lhe 
subia para cima e tapava acidentalmente a 
câmara. São apenas dois exemplos que mos-
tram os numerosos desafios que a robótica 
ainda tem pela frente antes de se poder chegar 
ao que pode ser considerado o maior desafio: o 
desenvolvimento de robôs-companheiros que 
convivam connosco, algo que as máquinas ainda 
têm de aprender.
M.A.
Plano ético contra 
os robôs maus
C omo poderão os robôs rebelar--se contra a humanidade se 
ainda não são capazes de limpar 
a cozinha?”, interrogava-se o ex-
-presidente executivo da Google, 
Eric Schmidt. O antigo CEO da 
companhia pertence à corrente de 
investigadores e especialistas em 
tecnologia que tem consciência 
de que a inteligência artificial (IA) 
ainda terá de percorrer um longo 
caminho antes de poder tornar-se 
uma ameaça. Contudo, nenhum ne-
ga que isso possa ocorrer. “Não nos 
encontramos perto de algo que nos 
deva preocupar, nem de longe, mas 
isso não significa que não chegue-
mos a essa situação um dia”, recorda 
Demis Hassabis, que hoje dirige os 
programas de IA da Google. O físico 
Stephen Hawking e Elon Musk, 
cofundador das companhias SpaceX 
e Tesla Motors, também alertaram 
para os possíveis riscos de desenvol-
ver a IA. O que aconteceria se uma 
máquina se tornasse tão inteligente 
que fosse capaz de conceber e uti-
lizar de forma autónoma armas de 
destruição maciça? O que se passa-
ria se uma empresa resolvesse criar 
uma que fosse deliberadamente má? 
Em maio passado, as autoridades 
norte-americanas organizaram uma 
reunião para analisar eventual legis-
lação destinada a assegurar que a IA 
será segura, controlável e previsível 
à medida que se torna cada vez mais 
potente. Por sua vez, Elon Musk, em 
colaboração com outros pesos pesa-
dos do mundo tecnológico, decidiu 
criar a OpenAI, uma organização 
sem fins lucrativos destinada ao 
desenvolvimento de software desse 
tipo que tenha por objetivo benefi-
ciar a humanidade. Os responsáveis 
pelo projeto irão consagrar mais de 
900 milhões de euros à criação de 
um corpus ético e de conhecimento 
sobre o tema. Musk tem boas razões 
para fazê-lo: a condução autónoma, 
um campo que está a explorar nos 
seus automóveis cem por cento 
elétricos, é um dos que mais pro-
blemas éticos suscitam. Se os carros 
chegarem, algum dia, a circular de 
forma autónoma, poderão ter de 
enfrentar decisões dramáticas, como 
escolher entre atropelar uma criança 
ou deixar que os passageiros sofram 
um despiste.
Precisão. O “cibermoço de recados” 
criado na Universidade Técnica de 
Berlim consegue encontrar objetos em 
prateleiras e levá-los para outro local.
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SUPER68
A Fórmula 
ELÉTRICA
Tecnologia
Novo laboratório automóvel
A Fórmula E entrou na sua terceira temporada, 
evoluindo o conceito das corridas com 
monolugares elétricos, disputadas em circuitos 
desenhados nas ruas de grandes cidades. 
Com soluções técnicas inovadoras e uma 
organização única, quer ser a competição 
automóvel líder, no mundo digital.
69Interessante
A caminho do futuro. Poderá 
a Fórmula E destronar a Fórmula 1?
Só o tempo o dirá, mas a verdade é 
que o seu futuro parece eletrizante.
SUPER70
O primeiro ePrix disputou-se a 1 de setembro de 2014, em Pequim, e desde logo com nomes famosos na grelha de partida, como Senna, 
Prost e Piquet, neste caso sobrinhos e filhos 
dos grandes pilotos do passado da Fórmula 1. 
Porém, a eficiente divulgação da Fórmula E 
depressa atraiu outros pilotos mais experien-
tes, alguns desempregados da F1, e também 
jovens à procura de um lugar ao sol nas corridas 
de monolugares. A divulgação deste campeo-
nato, quer pelas grandes cadeias de TV, quer 
pelas redes sociais, arrancou com grande força, 
chegando a 190 milhões de telespetadores. 
As grandes marcas de automóveis não podiam 
ficar indiferentes a este fenómeno e, após um 
primeiro ano de expectativa, começaram a 
aderir à disciplina, que neste terceiro ano inclui 
oito construtores de primeiro plano.
As corridas muito disputadas têm sido a 
melhor promoção de um campeonato que 
começou de maneira original, com carros iguais 
fornecidos a todas as equipas, uma maneira de 
garantir a competitividade e de controlar os 
custos. Com o passar do tempo, o regulamento 
técnico foi sendo mais liberal e, este ano, 
cada equipa pode apresentar o seu conjunto 
motor/transmissão, suspensão traseira e inver-
sor de corrente, mas o chassis de fibra de car-
bono e alumínio, fabricado por uma empresa 
italiana especializada no assunto (Dallara), a 
bateria, feita pela equipa de F1 da Williams, e 
o sistema de gestão eletrónica, fornecido por 
outra equipa de F1, a McLaren, continuam a ser 
iguais para todos os concorrentes. Também os 
pneus são iguais para todos, sendo fornecidos 
pela Michelin, em número de oito para cada 
equipa usar em cada carro, por corrida, sendo 
montados em jantes de 18 polegadas, bem 
maiores do que as de 13” que ainda são usadas 
na F1. É permitido utilizar dois pneus usados 
do ePrix anterior.
MUITAS ORIGINALIDADES
Há mais originalidades na Fórmula E, desde 
logo os locais das corridas, que se disputam 
exclusivamente em circuitos não permanentes, 
com uma extensão que varia entre os 2,5 e os 
3,0 quilómetros por volta, e são desenhados nas 
ruas de algumas das maiores cidades do mundo. 
Hong-Kong, Marraquexe, Buenos Aires,Cidade 
do México, Mónaco, Paris, Berlim, Bruxelas, 
Nova Iorque e Montréal são os palcos para 
os doze ePrix que se disputarão esta tempo-
rada. Para não colidir com o calendário da Fór-
mula 1, as corridas da Fórmula E começam em 
outubro e acabam em julho do ano seguinte, 
aproveitando grande parte do defeso da F1. 
Claramente, a maior originalidade do regula-
mento e, ao mesmo tempo, o maior ponto fraco 
do conceito está no facto de todos os pilotos 
terem de trocar de carro a meio de cada corrida 
de 50 minutos. Por mais eficiente que seja a 
bateria, a realidade é que a sua carga não chega 
para aguentar uma corrida dessa distância, pelo 
que, sendo impraticável trocar de bateria a meio 
da corrida (pesa mais de 200 quilos), cada piloto 
entra na box e salta do carro para outro igual 
com a bateria carregada, prosseguindo até ao 
final. É também proibido carregar a bateria 
durante a qualificação e durante a corrida, o 
que dificilmente alguém quereria fazer…
Claro que está a ser desenvolvida uma bateria 
que consiga durar uma corrida do princípio ao 
fim, e essa é mesmo uma condição que algumas 
marcas de automóveis colocam para se envol-
verem neste campeonato. Afinal, se o objetivo 
número um de qualquer desporto motorizado 
é publicitar alguma coisa, neste caso a mensa-
gem que se quer passar é a das virtudes dos 
automóveis elétricos, o que cai um pouco pela 
base com esta contingência. 
Para a quarta temporada, de 2017/2018, essa 
questão deverá ficar resolvida. Para já, isso só 
acontece durante os treinos de qualificação 
para a corrida, que duram uma hora e em que 
os carros têm 200 quilowatts (272 cavalos) de 
potência máxima. Os cinco melhores classifica-
dos, no final, têm ainda de fazer uma volta lan-
çada a solo que, essa sim, dará a sua posição 
na grelha de partida. Outra particularidade: à 
partida para a corrida, não há volta de aqueci-
mento, é logo a valer, assim que se apagam os 
sinais vermelhos.
RAINHA DO MUNDO DIGITAL
A ambição de tornar a Fórmula E rainha do 
mundo digital, no que aos desportos motori-
zados diz respeito, levou à invenção de outra 
característica única, o chamado Fanboost. Uma 
vez que, para a corrida, a potência máxima dos 
motores está limitada por regulamento a 170 
kW (231 cv), a ideia é proporcionar aos três pilo-
tos preferidos dos espetadores um acréscimo 
de 100 quilojoules de energia, equivalente a 30 
kW suplementares, durante cinco segundos. 
Para o obter, o público só tem de votar no 
seu piloto preferido num período que começa 
12 dias antes da corrida e termina seis minutos 
depois da partida. 
A votação é feita de forma muito fácil, 
através do Twitter, e os pilotos premiados só 
podem usar essa vantagem quando trocarem 
para o seu segundo carro. Para a terceira tem-
porada, o regulamento mudou um pouco e o 
piloto pode dosear esta potência acrescida, 
gerindo a relação potência/tempo como enten-
der. Por exemplo, em vez de gastar os 100 kJ 
em cinco segundos a 200 kW, pode descer para 
os 180 kW e usá-los durante mais tempo.
A adesão 
do público 
cresceu muito 
em dois anos
Disputa de talentos
Originalmente, os carros eram todos iguais, 
mas, este ano, cada equipa pode apresentar 
o seu próprio conjunto motor/transmissão, 
além da suspensão traseira e do inversor 
de corrente. Tudo o resto é partilhado. 
Integrada num chassis rígido, 
a bateria de iões de lítio faz 
a ligação entre as diversas 
partes da estrutura.
Interessante 71
Para juntar ainda mais o público e os pilotos, 
no dia 7 de janeiro vai ser feita uma corrida vir-
tual em simulador, num circuito especialmente 
idealizado para o efeito em Las Vegas. Nesse 
evento único, os vinte pilotos da Fórmula E vão 
correr juntamente com dez jogadores de 
simuladores, que estão neste momento a ser 
apurados em várias fases de qualificação. Claro 
que, passando-se tudo em Las Vegas, há milhões 
de dólares em prémios para os melhores pilotos 
e jogadores.
Há mais! A empresa Kinetic está a preparar 
uma corrida de apoio do programa da Fórmula E 
disputada com fórmulas sem condutor, a cha-
mada Roborace, que pretende demonstrar 
as possibilidades da condução autónoma em 
condições de corrida. Vão ser distribuídos dois 
destes Robocars, que foram desenhados por 
Daniel Simon (conhecido de filmes como Tron: 
Legacy, Oblivion e Capitão America) a cada 
equipa, todos iguais, e depois cabe aos enge-
nheiros de cada marca desenvolver os algorit-
mos de condução autónoma, parte deles em 
tempo real, e a inteligência artificial. Para já, 
está prometido que serão feitas algumas cor-
ridas de uma hora integradas em alguns dos 
doze eventos da Fórmula E.
António Félix da Costa, o português que che-
gou a ser piloto de testes da equipa Red Bull 
de Fórmula 1 e que participa há dois anos no cam-
peonato alemão de veículos de turismo DTM, 
também participa na Fórmula E. Segundo 
declarou ao semanário Autohoje, “toda a com-
petição se destina a um público muito dife-
rente: aqui, nota-se que são pessoas que se 
preocupam com o ambiente e que valorizam o 
facto de os carros não serem poluentes e não 
fazerem barulho”. Segundo ele, “lá dentro, 
para os pilotos, é uma corrida como as outras, 
em que cada um tenta fazer o melhor que pode, 
mas não ouve nada!”.
COMO SE FAZ UM FÓRMULA E
Um monolugar de Fórmula E é feito com base 
numa estrutura monobloco central em fibra de 
carbono, na qual estão ancorados subsistemas 
em alumínio. A bateria de 28 kilowatts-hora 
(equivalente a 300 baterias de computador 
portátil) é de iões de lítio e é de longe o com-
ponente mais volumoso. Está protegida numa 
caixa de carbono e posicionada ao centro, logo 
atrás do piloto, onde se encontra o depósito de 
gasolina num monolugar convencional. Devido 
ao esforço a que é submetida durante a corrida, 
gera calor que tem de ser rapidamente dissi-
pado, por isso tem um sistema de arrefecimento 
por líquido com um radiador lateral. 
Logo atrás da bateria está o motor elétrico, 
um dos componentes mais pequenos e que, em 
2014, quando os monolugares eram rigoro-
samente iguais, era o propulsor usado pelo 
hipercarro McLaren P1. Depois, vinha uma caixa 
sequencial de cinco velocidades, necessária 
porque o motor tinha um binário máximo rela-
tivamente baixo e era preciso desmultiplicá-lo 
para ter performances aceitáveis. 
Na terceira temporada, o tipo de motor e de 
transmissão passou a ser livre e cada construtor 
tem a sua ideia do que deverá ser a melhor 
solução. Uma das tendências é a utilização de 
motores transversais muito estreitos, o que 
permite usar dois, lado a lado, e depois ter uma 
única relação de transmissão. Outras equipas 
preferem usar apenas um destes motores com 
duas, três ou quatro velocidades, e alguns ainda 
A partir deste temporada, 
cada equipa pode desenvolver 
o seu próprio motor 
e a caixa de velocidades.
O sistema de proteção 
dos pilotos é uma imposição 
da organização.
SUPER72
se mantêm fiéis aos motores longitudinais, 
com caixa de quatro ou cinco velocidades. 
Dependendo do motor, podem chegar a 
fazer um máximo de 20 mil rotações por minuto. 
Quanto a prestações, se bem que não sejam 
anunciados dados precisos, sabe-se que a velo-
cidade máxima ronda os 220 quilómetros por 
hora e que a aceleração dos 0 aos 100 km/h é 
feita em cerca de três segundos. Tudo isto por-
que a relação peso/potência de um F1 é muito 
melhor do que a de um Fórmula E: 1,08 kg/cv 
contra 3,26 kg/cv.
FÓRMULA 1 VERSUS FÓRMULA E
Hoje em dia, um Fórmula 1 é movido por um 
sistema híbrido que junta um motor V6 1.6 tur-
bocomprimido com um motor elétrico, debi-
tando um total de 750 cv, contra os 272 cv do 
Fórmula E. Tem dois sistemas de recuperação 
de energia cinética nas travagens, um ligado à 
cambota e outroà turbina. O peso total é de 
691 kg, contra os 888 kg do Fórmula E, 320 dos 
quais são da responsabilidade do sistema elé-
trico. Um F1 acelera dos 0 aos 100 km/h em 2,4 
segundos, o Fórmula E precisa de três segun-
dos e, quanto à velocidade máxima, estamos 
a falar de mais de 370 km/h, para um F1, contra 
os 230 km/h de um Fórmula E.
O desenvolvimento de todos os componentes 
de um Fórmula E está a seguir um ritmo muito 
acelerado, típico daquilo que acontece na Fór-
mula 1, ou não estivessem várias equipas da F1 
envolvidas na Fórmula E. Por exemplo, uma das 
equipas passou a usar uma caixa de velocidades 
com invólucro em fibra de carbono, enquanto 
outra decidiu passar a posição da caixa de 
gestão do sistema para uma zona mais baixa. 
Como a suspensão traseira é de desenho livre, 
pois depende do tipo de motor usado, abre-se 
mais uma área de desenvolvimento.
Este ano, estão presentes vinte pilotos ao 
volante de dez carros diferentes, inscritos por 
marcas de automóveis como a Audi, a DS, a 
Faraday, a Jaguar, a Mahindra, a Renault e a 
Venturi. De entre os nomes mais conhecidos, 
destacam-se Nelson Piquet Júnior, Sebastien 
Buemi, Jean-Eric Vergne e Nick Heidfeld, todos 
com experiência de Fórmula 1, e pilotos oriun-
dos de outros campeonatos, como José-Maria 
Lopes, tricampeão do WTCC, ou Loic Duval, 
vencedor das 24 Horas de Le Mans. Na primeira 
temporada, Piquet foi o campeão, a que se 
seguiu Buemi, que também liderou o campeo-
nato deste ano, ao volante do seu Renault.
Para garantir que os espetadores se podem 
divertir mesmo quando não há carros em pista, 
a organização da Fórmula E monta em cada 
corrida aquilo a que chama eVillage. Trata-se de 
um espaço por detrás das boxes a que os por-
tadores de bilhetes podem aceder livremente, 
ao contrário da F1, e onde podem experimentar 
simuladores, ver exposições de automóveis elé-
tricos, ir às sessões de autógrafos dos pilotos, 
que são obrigatórias para eles, ouvir música 
de um “EJ” residente e até participar na ceri-
mónia do pódio e do champanhe, no final da 
corrida. 
AGRADAR AO PÚBLICO
Aqui, tudo é feito para agradar aos espe-
tadores, desde logo organizando as corridas 
em locais de fácil acesso e não em zonas distan-
tes, como muitas vezes acontece com os autó-
dromos convencionais, e incentivando o con-
tacto entre o público e os pilotos, que aqui têm 
forçosamente de ter uma atitude muito mais 
aberta do que noutras disciplinas motorizadas.
As marcas estão a aderir em força à Fórmula E 
por vários motivos. Em primeiro lugar, por-
que é um excelente palco para promover os 
seus veículos elétricos, se já os têm ou se os 
vão ter no futuro próximo. É um campeonato 
“limpo” de emissões poluentes, algo a que 
qualquer construtor se quererá associar. É 
também uma boa maneira de estimular o 
desenvolvimento dos sistemas elétricos aplica-
dos aos automóveis, num ambiente de grande 
competitividade, o que tem sempre o condão 
de fazer acelerar os processos e de fazer todos 
os envolvidos dar o seu melhor, o que pode 
ter repercussões positivas nos automóveis elé-
tricos de grande série. Por fim, e pelo menos 
por enquanto, é um campeonato aberto ao 
público e sem o peso político que a Fórmula 1 
assumiu. Tratando-se de uma competição com 
a chancela da FIA, tem toda a credibilidade que 
exige qualquer marca que se queira associar.
Se será a anti-F1, do ponto de vista de lhe 
retirar audiência, para já isso não parece muito 
provável, mas que o seu crescimento nos últi-
mos meses é impressionante, tanto ao nível 
de envolvimento de marcas como de desen-
volvimento técnico, disso não restam dúvidas. 
É claro que houve o cuidado de não fazer coin-
cidir as datas dos dois campeonatos e de levar 
a Fórmula E a alguns locais onde a F1 não orga-
niza corridas, mas não se pode negar que a 
Fórmula E está a gerar um fenómeno de popu-
laridade como não se esperava ainda há ape-
nas três anos. 
Tudo isto com a vantagem de conseguir atrair 
uma franja de público muito diferente daquele 
que frequenta as corridas de F1, um público tal-
vez menos conhecedor do desporto automóvel 
tradicional, mas que se interessa pela questão 
da eletrificação da mobilidade e vê nesta com-
petição uma maneira de se divertir sem ter de 
esquecer questões de consciência ecológica. 
A médio prazo, a Fórmula E terá capacidade de 
destronar a F1, junto de um público mais abran-
gente? Só o futuro dirá, mas o facto de cada 
vez mais construtores de automóveis estarem 
interessados em participar é um sinal muito 
forte de que a Fórmula E tem um futuro eletri-
zante à sua frente.
F.M.
Já há reservas 
de construtores 
para a próxima 
temporada
Na ponta dos dedos. Ao contrário do volante dos Fórmula 1, nos Fórmula E o piloto 
tem pouco com que se preocupar. Regular a regeneração e gerir a bateria e o Fanboost 
são os pontos principais. De resto, é estar atento ao que diz o engenheiro através do rádio.
73Interessante
Especiais
HISTÓRIA
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Novembro 2016
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Outubro 2016 Agosto 2016
Julho 2016 Maio 2016 Abril 2016
SUPER74
Flash
Interessante 75
Papa-moscas portuguesa
Segundo Charles Darwin, muito antes 
de ser inventado o papel apanha-moscas, 
já os portugueses penduravam estas plantas 
nas suas casas para matar os aborrecidos 
insetos. Os ingleses, aludindo à sua origem 
lusa, chamam-lhe “portuguese dewy pine”, 
a comunidade científica conhece-a por 
Drosophyllum lusitanicum e o povo, 
inspirado pelas suas gotas brilhantes 
de mucilagem, que fazem lembrar o orvalho 
matinal, batizou-a de pinheiro-baboso, 
orvalho-do-sol e erva-pinheira-orvalhada. 
É uma das mais raras e peculiares plantas 
carnívoras e a sua distribuição geográfica 
encontra-se confinada a Portugal, 
ao sul de Espanha e ao norte de Marrocos, 
sendo por isso considerada um endemismo 
ibero-marroquino. Foto: Jorge Nunes.
SUPER76
História
O inferno 
do SOMME
Batalha mortífera em 1916
 1 de julho de 1916: perto do rio Somme, no norte 
de França, desenrola-se uma das piores carnificinas 
de todos os tempos, agravada pela obstinação dos 
oficiais e pela inexperiência dos soldados britânicos.
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77Interessante
Sangue, lama e lágrimas
Um soldado inglês do 11.º Batalhão 
do Regimento do Cheshire assoma 
ao parapeito da trincheira, onde 
jazem companheiros mortos.
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Q uando foi colocado em frente ao pelotão de fuzilamento, o soldado Albert Ingham, do 18.º Batalhão do Regimento de Manchester, terá 
seguramente recordado com pesar o dia em que, 
juntamente com o seu amigo Alfred Longshaw, 
se alistara no exército britânico. Em segundos, 
as balas puseram fim à vida de ambos os milita-
res, acusados de deserção, um final que nunca 
teriam imaginado quando, instigados pelo fer-
vor patriótico da época, deixaram para trás as 
suas vidas como trabalhadores ferroviários. 
O que sabia este soldado inglês da Grande 
Guerra? O mesmo que os outros: que era preciso 
defender o país dos odiosos alemães e que era... 
uma oportunidade de sair da rotina, conhecer 
o mundo e viver novas aventuras. Esta ingenui-
dade pouco informada, característica do início 
do século XX, revelar-se-ia fundamental para as 
potências ocidentais conseguirem engrossar 
os seus exércitos, arrastando para o massacre 
gerações inteiras de jovens. 
Um dos dois blocos em liça na Primeira 
Guerra Mundial era a Tríplice Aliança, formada 
pela Itália e pelos impérios alemão e austro-
-húngaro, ansiosos por se desforrarem de 
terem perdido o comboio do colonialismo. 
Assim, com Inglaterra, França e Rússia coliga-
das na TrípliceEntente, só faltava acender o 
rastilho: o assassínio do arquiduque Francisco 
Fernando da Áustria, perpetrado a 28 de junho 
de 1914 em Sarajevo, iria desencadear uma das 
guerras mais sangrentas da história, na qual 
perderam a vida dez milhões de soldados e, 
pelo menos, vinte milhões de civis. 
CANÇÕES E ANEDOTAS
Nunca Albert poderia imaginar o desastre em 
que se dispunha a participar quando, juntamente 
com Alfred e um monte de colegas de trabalho, 
entoava canções patrióticas e contava anedotas 
sobre os boches, naqueles dias risonhos da 
recruta. Risonhos, sim, pois integrava um dos 
chamados pals battalions (batalhões de cama-
radas), formados por voluntários recrutados 
pela intensa campanha lançada por Horatio 
Kitchener, secretário de Estado da Guerra 
britânico, e que juntavam amigos, vizinhos, 
parentes ou colegas, a fim de estimular o ardor 
patriótico. 
Esses jovens formavam um exército inex-
periente, com chefias improvisadas devido à 
pressa em substituir os numerosos militares 
caídos na frente. Quando atravessavam o canal 
da Mancha e chegavam aos enlameados campos 
de batalha do norte de França, deparavam com 
a verdade: nem grandeza nem glória, apenas 
horror e morte. Foi o que aconteceu aos solda-
dinhos do 18.º batalhão, mas tinham de seguir 
em frente, como impunham as regras e os vete-
ranos. Amedrontados, chegaram, em finais 
de junho de 1916, à frente que se estabelecera em 
redor do rio Somme, perto da fronteira francesa 
com a Bélgica. Nem Albert nem o seu amigo 
(nem nenhum dos outros) sabiam que o pior 
estava para vir.
Explicações? Poucas. Apenas que os alemães 
já tinham chegado. Ao ouvir a voz de ataque, 
deviam avançar e enfrentá-los, a fim de manter 
ocupada a tropa inimiga para os franceses 
poderem recuperar Verdun. Portanto... Calma, 
rapazes, que isto é uma manobra de distração 
e foi muito bem planeada. Tal era o otimismo 
antes de um confronto no qual chegariam a 
No início, a batalha foi descrita
como uma manobra de distração
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Tempestade de fogo. A confusão que 
caracterizou a batalha, sobretudo no início, 
está bem patente nesta foto. Um século 
depois, continuam a recolher-se na zona, 
todos os anos, 60 toneladas de explosivos.
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Interessante 79
Sequelas
A batalha do Somme e a derrota alemã no final da guerra desen-
cadearam no soldado Adolf Hitler a 
raiva e a obsessão que iriam marcar 
o seu destino posterior. Sobretudo 
depois de ter sido ferido numa perna, 
em Bapaume (França), a 7 de outubro 
de 1916, o que o forçou a abandonar 
o exército. Uma lição muito diferen-
te foi a retirada da experiência pelo 
escritor britânico J.R.R. Tolkien, que 
serviu no 11.º Batalhão de Fuzileiros 
do Lancanshire. Terá seguramente 
sobrevivido devido à chamada “febre 
da trincheira”, que o enviou para o 
hospital. Estudos aprofundados de O 
Senhor dos Anéis (1954) demonstram 
a nítida influência do que viu e viveu 
na criação das personagens e paisa-
gens da obra. Outro livro impregnado 
do fragor da batalha é Tempestades de 
Aço (1920), no qual o escritor Ernst 
Jünger relata o que foi, para ele, uma 
grande experiência pessoal. Apesar 
de ser alemão, tinha-se alistado, an-
tes da guerra, na Legião Estrangeira 
francesa, e foi por esse país que lutou 
heroicamente na batalha do Somme. 
Quem também ali combateu ao lado 
dos seus foi o pintor alemão Paul 
Klee, cujas experiências são narradas 
nos seus Diários (1898–1918).
ser disparados 250 mil projéteis por dia. Foi o 
pior desastre militar do Reino Unido. 
Tanto os amigos de Manchester como os 
outros camaradas, entre os quais se incluíam 
australianos, canadianos, neozelandeses e de 
outras nacionalidades da Commonwealth, 
foram posicionados ao longo de 40 quilómetros 
de frente, a sul do Somme. Estavam muito perto 
do inimigo, a norte do rio, separados por uma 
distância de 300 a 600 metros. Ao ocupar os 
seus postos, Albert e os outros olharam com 
receio para as posições ameaçadoras que ocu-
pavam as poucas elevações do terreno plano; 
era evidente que estavam bem fortificadas. Sem 
o saber, lutariam contra soldados veteranos, 
dado que a Tríplice Aliança não sofrera tantas 
baixas até então. Os jovens britânicos troca-
vam olhares inquietos, tal como os restantes 
soldados distribuídos pela extensa trincheira. 
Acalmaram-se ao recordar o plano traçado: 
antes da sua intervenção, a artilharia iria mas-
sacrar sem piedade as posições alemãs. Tinham 
sido escavados dez túneis para se poder detonar 
minas em locais estratégicos. Além disso, 
tinham o apoio da aviação, que por essa altura já 
pusera termo à supremacia dos temidos Fokker 
alemães. Aliás, o próprio comandante-em-chefe 
das forças britânicas, Douglas Haig, afirmara 
que, depois da intervenção da artilharia, a vitória 
estava no papo. A frase era recordada com risos 
pelos oficiais e pelos veteranos, e o ânimo 
regressou. Um passeiozinho a caminho da glória! 
No dia 1 de julho, às 7h20 da manhã, come-
çaram as explosões, que terminariam passado 
dez minutos e pareciam ter fulminado o 2.º 
Exército alemão, do general Fritz von Below, 
formado por meio milhão de homens. Às 7h30, 
depois de um silêncio tenso, foi dada a ordem: 
“Vamos lá, rapazes, vamos acabar com eles!” 
Albert e os de Manchester saltaram da trincheira. 
O FIM DA FANFARRONICE
A marcha sobre o inimigo seria integrada 
pelos 3.º e 4.º exércitos britânicos e por nove 
corpos do 6.º Exército francês: cerca de 750 mil 
soldados, no total. Foi como um presságio fatal: 
nesse primeiro dia, havia na frente quase o 
mesmo número de efetivos do que os que mor-
reriam ao longo da batalha, mesmo após os 
reforços e as substituições. Nessa altura, ainda 
estavam inteiros: cada homem carregava um 
equipamento de 32 quilos e todos marchavam 
a compasso. Vamos, Alfred! Já vou, Albert! 
A fanfarronice não tardou a desaparecer: os 
que vinham atrás viam como os mais adiantados 
caíam como moscas, e os disparos e as explosões 
pareciam vir de todos os lados. A confusão tor-
nou-se generalizada. O que se passava? Quem 
disparava assim? Não era suposto os alemães 
estarem feitos em pedaços? A notícia foi-se 
espalhando por entre o ruído das detonações 
e o sangue dos que não cessavam de tombar: 
a artilharia quase não fizera mossa nos bunkers. 
Foi erro, excesso de confiança, inépcia dos 
voluntários, que não tinham fabricado bem as 
munições? A verdade é que se tornara um massa-
cre e ninguém falava. Onde estavam os coman-
dantes? Tão assustados e desconcertados como 
todos os outros, pois eram também inexperien-
tes. Um inferno! 
O soldado Frank Lindley, do 14.º Regimento 
de York e Lancaster, relatou assim o pavor 
daquele momento: “Eu ia na primeira fila e já 
não havia cânticos. Continuávamos a avançar 
conforme podíamos, mas nem sequer conse-
guíamos pensar. O ruído das balas e das bom-
bas engolia tudo. Pelo canto do olho, espreitá-
vamos os companheiros que sabíamos terem 
uma pistola para disparar contra aqueles de 
nós que, atordoados e aterrorizados, se atre-
vessem a retroceder.” 
No entanto, apesar da magnitude do desas-
tre, os generais britânicos não se inteiraram da 
situação até 4 de julho, devido a deficiências 
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Atascados. As chuvas outonais 
complicaram ainda mais as operações 
logísticas e a remoção dos feridos. 
No final, as condições meteorológicas 
adversas detiveram a ofensiva aliada.
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“As tropas de assalto devem ser lançadas a um bom ritmo, 
em vagas sucessivas.” Era a ordem cheia de otimismo 
dada pelos generais aliados no primeiro dia da batalha. 
Contudo, a resistência alemã iria revelar-se muito mais feroz 
do que tinham previsto: o pesadelo da guerra de trincheiras 
regressou em força, como acontecera noutros cenários 
do grande conflito europeu.Durante os quatro meses 
e meio das hostilidades, as linhas da frente moveram-se 
lentamente. O último capítulo foi a captura británica 
de Beaumont-Hamel.
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Línha 
da frente 
a 1 de 
julho 
3.º Exército, 
de Allenby
4.º Exército, 
de Gough
A
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Som
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Courcelette
Pozières
Bazentin
Mametz
GuillemontMontauban
5.º Exército, 
de Rawlinson (reserva)
6.º Exército, 
de Fayolle
Segunda 
e terceira 
linhas 
alemãs 
Linha da frente 
a 19 de novembro
Avanço das
tropas aliadas
Linha da frente 
a 14 de setembro
Estas valas 
eram dispostas 
em degraus para 
formar duas, três 
ou mesmo quatro 
linhas defensivas 
Para minimizar 
os danos 
da metralha, as 
linhas defensivas 
eram construídas 
em ziguezague 
O fundo 
era coberto 
de madeira, 
para não 
se pisar lama 
Entre cada duas 
trincheiras, havia 
uma linha de arame 
farpado, para 
o caso de o atacante 
conseguir ultrapassar 
a primeira 
A vala tinha duas 
alturas: uma mais 
profunda (1), com 
a altura de um homem, 
para dar passagem, 
e outra mais elevada 
(2), onde estava 
o parapeito
O horror 
das trincheiras
Linha 
da frente 
a 14 de 
julho
BAPAUME
PÉRONNE
ALBERT
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TRE
 
ING
LES
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RAN
CES
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2.º Exército, 
de Von Bellow
Muito ruído e pouco avanço
nas comunicações. Não cessaram de dar ordens para avançar naqueles 
primeiros dias. Só muito depois do confronto viriam a saber que, só naquela 
primeira jornada, tinha havido 19 240 mortos, 35 493 feridos, 2152 desapa-
recidos e 585 soldados feitos prisioneiros entre os homens de Sua Majes-
tade. Era impossível recolher os cadáveres e os pedaços de corpos... 
Ao horror juntava-se o fedor, que também chegava da retaguarda, onde 
os hospitais improvisados não tinham mãos a medir. Os tiroteios e as explo-
sões não paravam, e as crateras deixadas pelas bombas eram uma arma-
dilha fatal devido à lama. Nada se sabia; apenas que tinham de continuar a 
avançar para esse campo aberto que se transformara num matadouro... 
A expressão “carne para canhão” parecia inventada para aquela chacina. 
Entre os dias 3 e 13 de julho, só o 4.º Exército britânico lançou 46 ações 
ofensivas, que causaram 25 mil baixas nas suas fileiras. Por detrás de seme-
lhante calamidade, não estava apenas a eficácia germânica, mas também 
a confusão. Em muitas ocasiões, o caos tornava-se maior por falta de 
entendimento entre os generais britânicos, que queriam manter uma pres-
são incessante, e os franceses, partidários de recuar para depois desferir 
o golpe de misericórdia. O resultado seria operações tão nefastas como 
o confronto em Fromelles, em que morreram 7080 soldados britânicos 
e australianos, sem que se tivesse ganho qualquer terreno. 
ATAQUES ININTERRUPTOS
Outras ofensivas, sempre sangrentas, conseguiram efetivamente o seu 
objetivo, como foi o caso da conquista da quinta Mouquet, que os alemães 
tinham fortificado, após dez dias de combates corpo a corpo. Contudo, ainda 
se estava em setembro e não começara o pesadelo da lama que as chuvas de 
outono iriam trazer, transformando os campos de batalha em pântanos, 
como aconteceu no confronto de Le Transloy, no início de outubro. 
Albert ia tendo notícia de amigos e companheiros caídos, mas continuaria 
a obedecer às ininterruptas ordens de ataque nos dias que se seguiram. 
O contingente alemão teve tempo para se reorganizar, mas os oficiais 
britânicos (que incluíam alguns aristocratas) cumpriam o plano à risca, 
cegos pela ambição e fiéis às rigídas normas militares que exigiam manter o 
brio e não questionar as ordens. Cada vez mais mortos e feridos; novos sol-
dados para substituí-los; grandes e pequenas ofensivas, diárias ou sema-
nais, de infantaria, cavalaria, artilharia, mas a frente mal se deslocava, 
e entretanto aproximava-se o inverno. 
Bazentin, Arras, Longueval, Pozières, a fortaleza Thiepval, Guillemont, 
a floresta de Delville… Lugares onde os combates foram especialmente 
Os aliados tinham
estratégias opostas
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Direção
Canhão 
de seis 
libras
Escape
Torreta 
de artilharia
Na frente da primeira 
linha, havia várias 
fileiras de arame 
farpado, para travar 
o ataque inimigo
Os restos de árvores 
e as ruínas eram as únicas 
marcas visíveis num terreno 
lunar, coberto de lama 
e crateras.
O primeiro tanque da história. A infantaria não 
conseguia atravessar a terra de ninguém, pelo que se 
procurou ultrapassar o problema com veículos com lagartas, 
como o Mark I britânico, que se estreou no Somme.
Ficha técnica do Mark 1
Peso: 28 toneladas 
Velocidade: 4,5 km/h
Couraça: 12 mm
Tripulação: 8 soldados
Armamento: dois canhões 
de seis libras e três metralhadoras 
(nos modelos Macho), ou cinco 
metralhadoras (Fêmea)
encarniçados, sobretudo depois de o calor 
pegajoso de agosto ter ficado para trás e che-
gar um outono que parecia mais frio do que 
nunca. À carnificina própria dos combates, 
alegadamente bem planificados, juntava-se a 
mortandade resultante dos constantes erros, 
como na ocasião em que se anunciou a vitória 
(não confirmada) da 29.ª Divisão em Beaumont-
-Hamel e se enviou para o local o 1.º Regimento 
de Terranova, que seria totalmente massacrado. 
No final, o que fora conquistado? Uma insigni-
ficância, apesar de os alemães terem criado um 
vasto sistema de defesa com fortificações (a 
Linha Hindenburg ou Linha Siegfried), e apesar 
de os ingleses terem colocado em cena a sua 
arma secreta: o tanque. Seria a primeira vez que 
se utilizava na história das guerras, e estreou-se 
no ataque a Flers-Courcelette, a 15 de setembro. 
Embora se tratasse de modelos muito lentos 
e rudimentares (e apesar de apenas 21 dos 49 
disponíveis terem conseguido entrar em ação), 
a verdade é que fizeram mossa nas posições 
germânicas. 
Albert e os seus companheiros contempla-
riam a chegada desses ogres de metal com 
espanto e um certo alívio. Talvez, agora, se 
acabasse a maldita batalha. Terminou, após 
muito mais violência e sofrimento, a 18 de 
novembro, não sem que antes houvesse uma 
última tentativa de Haig para ganhar uma 
medalha noutro combate sangrento, em redor 
do rio Ancre. Era o fim de um confronto atroz 
que faria, em quatro meses e meio, mais de 700 
mil vítimas mortais entre as tropas da Entente, 
e cerca de meio milhão entre os alemães. 
TRAGÉDIA SEM VENCEDOR
Foi uma tragédia em que nem sequer houve 
um vencedor claro. Contudo, teria consequên-
cias posteriores, pois, no pavoroso desgaste 
das trincheiras, o exército alemão perdeu os 
seus homens mais experientes (38 mil foram 
feitos prisioneiros), pelo que teria de substituí-
-los, à semelhança do britânico, por voluntários 
inexperientes. Desse modo, gerações inteiras de 
jovens europeus desapareceriam nos quatro 
anos que durou a Primeira Guerra Mundial. 
Antes de terminar a batalha do Somme, Albert 
Ingham, de 24 anos, e o seu amigo Alfred Long-
shaw, de 21, já se tinham apercebido da inuti-
lidade dessa monstruosidade que lhes tocara 
viver e de como fora ingénuo o sentimento 
nacionalista que os levara até ali. A 5 de outu-
bro, decidiram desertar. Com roupas civis e 
viajando de noite, chegaram à cidade portuária 
francesa de Dieppe, onde conseguiram embar-
car no Belleville, um navio sueco que os trans-
portaria até Inglaterra. Infelizmente, foram 
localizados por um guarda militar e devolvidos 
à frente, onde um tribunal marcial os condenou 
à morte por fuzilamento, o mesmo destino de 
outros 384 soldados britânicos, pelo menos que 
se saiba, pois tais condenações eram mantidas 
em segredo. 
O pai de Albert soube a verdade pela boca 
dos companheiros de trincheirado filho, e foi a 
França para localizar o seu túmulo. Encontrou-o 
no cemitério de Bailleulmont, onde fora enter-
rado ao lado do amigo. Então, decidiu mandar 
colocar uma lápide com a seguinte inscrição: 
“Soldado A. Ingham. 1 de dezembro de 1916. 
Fuzilado ao amanhecer. Um dos primeiros a 
alistar-se. Digno filho do seu pai”.
M.M.
Tecnologia de ponta. As armas químicas e 
as metralhadoras, montadas sobre tripés, foram 
duas novidades da Primeira Guerra Mundial.
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No trilho do LOBO
Fotografia
Quatro anos de trabalho
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No seu novo livro, 
o fotógrafo de natureza 
João Cosme pretendeu 
retratar a vida 
dos lobos em estado 
selvagem e o habitat 
em que se movem. 
Nestas páginas, 
mostramos-lhe algumas 
das imagens que 
integram a obra.
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Interessante 85
Acossados. A longa história de convivência entre 
o homem e o lobo ensinou os bichos a manterem-se 
atentos. Ao menor sinal, fogem para local seguro.
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Presas. O lobo alimenta-se de outros 
mamíferos selvagens, só raramente 
se aventurando a cruzar-se com 
o homem. Entre as suas presas 
naturais em Portugal, contam-se o 
veado (nesta foto) e o corço (em baixo).
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Espera. Só uma em cada vinte saídas 
para o campo resultam em avistamento. 
Cada uma das fotos do livro foi obtida 
graças a muita paciência e ao estudo 
antecipado dos hábitos dos animais.
N uma noite fria, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ouvi pela primeira vez os uivos de uma alcateia em estado selvagem. Um som arre-
piante e inesquecível. Na manhã seguinte, 
antes de nascer o sol, dirigi-me para o local com 
a esperança de observar este magnífico preda-
dor. Após algumas horas de espera, de binó-
culos em punho, dois lobos dirigiam-se para 
um vale repleto de vegetação onde, provavel-
mente, iriam passar as horas de maior calor. 
Foi a primeira vez que vi este animal em plena 
liberdade. Fiquei emocionado, pois estava 
ciente de que ter um contacto visual com esta 
espécie, em plena natureza, em Portugal, não 
era fácil. 
Quando iniciei este projeto, sabia das enor-
mes dificuldades que iria encontrar com um dos 
mamíferos mais esquivos e míticos da nossa 
fauna. Apesar de ser um grande desafio, sempre 
acreditei que seria possível. Foi um processo 
de superação e de autoexigência que, em 
alguns casos, se verificou muito duro. Uma das 
dificuldades era conseguir imagens com diver-
sidade que representassem toda a beleza ine-
quívoca deste predador. Durante quatro anos, 
visitei algumas regiões do país para trabalhar 
fotograficamente esta espécie. Foi necessário 
fazer um estudo prévio das deslocações e dos 
trilhos que a alcateia fazia com regularidade. 
Passei inúmeras horas de espera em abrigos 
camuflados e, muitas vezes, o clima rigoroso 
dificultava todo o processo. 
O trabalho de um fotógrafo de natureza 
parece algo fácil quando vemos o resultado 
final, mas engana-se quem pensa assim. Na 
maior parte das saídas de campo, o resultado 
é negativo. Neste meu projeto, mais de 95% 
das saídas de campo foram um fracasso, sem 
qualquer imagem da espécie alvo. Passados 
estes anos, considero-me um privilegiado 
por ter conseguido dezenas de imagens de 
lobos, quer de crias quer de adultos, todas 
em estado selvagem, em Portugal. Procurei 
abordar vários temas, sempre com o cuidado 
de ter imagens com algum impacto. Achei 
necessário fazer uma abordagem não só com 
o protagonista deste livro, mas também com 
o que o rodeia, desde as suas presas ao habitat 
e outros seres vivos que coabitam no mesmo 
ambiente. Espero dar continuidade a este 
projeto, com outro conceito, em que o lobo 
será, mais uma vez, uma espécie fundamental 
a retratar.
As criaturas selvagens e os espaços natu-
rais representam a esperança de um planeta 
mais equilibrado. Através das imagens deste 
livro, espero conseguir passar uma mensagem 
de respeito para com os outros seres vivos e, 
assim, ajudar a sua conservação. Este é e será 
sempre o meu objetivo como fotógrafo de 
natureza e da vida selvagem.
J.C.
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O regresso 
dos POMBAIS
Ambiente
Animais nocivos ou amigos?
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Fala-se em pombos e pensa-se de imediato 
em pragas urbanas que podem causar vários 
problemas ambientais e de saúde pública. 
Porém, em Trás-os-Montes, estas aves são vistas 
com outros olhos: complementam a atividade 
agropecuária, auxiliam na conservação da 
natureza e mantêm viva a herança cultural. 
pouco mais de meia centena, maioritariamente 
idosos, lá vivem em permanência. No entanto, 
a população aumenta durante os meses de 
verão, com o regresso a casa dos filhos e netos 
emigrantes. Estranhamente, este lugarejo, 
totalmente afastado das rotas turísticas nacio-
nais, recebe também dezenas de jovens oriun-
dos de países europeus e asiáticos, tornando-se 
um lugar cosmopolita, onde se cruzam hábitos 
e linguajares muito diferentes.
O que leva tantas pessoas a viajar milhares de 
quilómetros para visitar Uva? A resposta, por 
incrível que pareça, é simples: os pombais tra-
dicionais. Afinal, esta povoação transmontana 
possui a maior concentração de columbários 
do país, totalizando 44 estruturas destinadas 
à criação de pombos.
ALDEIA DOS POMBAIS
Desde tempos imemoriais que as pessoas de 
Uva vivem sobretudo da agricultura, como o 
cultivo de trigo, centeio, aveia, milho e batata, e 
da pecuária, tanto de gado bovino como ovino. 
No entanto, também se afeiçoaram de tal forma 
aos pombos que não pararam de construir 
estruturas adequadas ao seu acolhimento. 
Assim, não é de estranhar que Uva seja conhe-
cida, atualmente, como “aldeia dos pombais”.
Porém, não se pense que os palombares, 
denominação dos pombais em língua mirandesa 
(reconhecida como língua oficial em 1999), são 
A palavra “Uva” diz-lhe alguma coisa? Com certeza, pensou no fruto da videira, utilizado frequentemente como sobremesa ou para produzir 
preciosos néctares, como o vinho do Porto. 
Reparou, no entanto, que foi escrita com 
maiúscula inicial? Neste caso, não se trata de 
um nome comum, mas de um nome próprio 
toponímico, que se refere a uma aldeia, loca-
lizada no concelho transmontano do Vimioso.
O mais curioso, porém, é que o saboroso 
topónimo de Uva parece nada ter a ver com 
grandes vinhedos, que realmente não existem 
nem nunca terão existido na região, mas ser 
oriundo da palavra “huba”, que correspondia, 
em português arcaico, a um casal ou pequena 
quinta, formado por uma casa e campos, onde 
vivia uma família rústica. Esta é a interpretação 
de vários investigadores, como o arqueólogo 
e historiador Francisco Manuel Alves, mais 
conhecido como abade de Baçal, que registou: 
“No Censo da população de Trallos Montes feito 
em 1530 aparece esta povoação com 28 mora-
dores [leia-se “28 fogos”, a que deviam corres-
ponder cerca de 70 a 80 habitantes, de acordo 
com os cálculos que habitualmente se fazem para 
estas situações e para a época], a fazer parte do 
termo da vila de Algoso e escrita Huva.”
Volvidos quase quinhentos anos, Uva con-
tinua a ser uma pequena aldeia, onde estão 
registados apenas 172 habitantes, dos quais só 
Revitalização. Após décadas de 
abandono e destruição, a partir de 1997 
os pombais foram sujeitos a um programa 
de recuperação, conservação e revitalização. 
Nos últimos anos, essa ação tem sido 
coordenada pela Associação de Conservação 
da Natureza e do Património Rural.
89Interessante
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um exclusivo de Uva ou sequer do concelho 
do Vimioso, pois existem em quase todo o 
território do nordeste de Trás-os-Montes, 
coincidindo, sensivelmente, com os limites do 
distrito de Bragança, e da Beira Alta raiana, 
sobretudo na zona norte do distrito da Guarda, 
totalizando3450 edificações.
Nestas regiões, a criação de pombos e a 
construção de columbários sempre foi uma 
prática comum desde épocas remotas: os mais 
antigos que ainda existem foram construídos em 
meados do século XIX, tendo a grande maioria 
sido edificada na primeira metade do século XX.
Antigamente, os pombais eram uma tradição 
arreigada, uma vez que proporcionavam um 
complemento importante à atividade agro-
pecuária dos seus proprietários. Além de con-
tribuírem para a produção de carne, uma vez 
que os borrachos (pombos jovens) constituíam 
uma fonte alimentar muito apreciada (tal como 
os estorninhos, que também ocupavam os pom-
bais durante o inverno), produziam grandes 
quantidades de estrume de elevada qualidade, 
o pombinho. Este fertilizante orgânico era utili-
zado principalmente nas culturas agrícolas adja-
centes aos pombais, como é o caso das hortas 
e dos amendoais e olivais. Tudo isto a troco de 
quase nada: bastava que os donos disponi-
bilizassem regularmente alimento (algumas 
sementes que as aves complementavam com 
outras recolhidas na natureza, bem como insetos, 
vermes e frutos).
Os pombais tradicionais da Beira Alta e de 
Trás-os-Montes, construídos, geralmente, no 
termo das aldeias ou em montes remotos, são 
únicos no país. Do ponto de vista arquitetónico, 
são construções com diversas formas e dimen-
sões e paredes caiadas de branco, nas quais 
existem inúmeras cavidades que permitem 
locais seguros de nidificação para a variedade 
doméstica de pombo-das-rochas. Embora mui-
tas dessas rústicas torres de pedra continuem 
a salpicar a paisagem rural da raia nordestina e 
chamem a atenção dos viandantes, que as con-
fundem, amiúde, com moinhos de vento, têm 
sido vítimas de abandono generalizado, acom-
panhando o êxodo rural verificado um pouco 
por toda a região.
De modo a contrariar esta tendência, o Parque 
Natural do Douro Internacional, onde existem 
650 columbários tradicionais inventariados, 
levou a cabo um programa para a sua recupe-
ração, conservação e revitalização, entre 1997 
e 2000. No sentido de lhe dar continuidade, 
evitando que voltassem a degradar-se rapida-
mente por falta de uso e de manutenção, dei-
tando assim a perder todo o investimento feito, 
incentivou alguns donos a criarem uma asso-
ciação que ficasse responsável pela gestão dos 
cerca de 60 pombais reabilitados. Foi assim 
que nasceu a Associação de Proprietários de 
Pombais do Nordeste, com a sigla Palombar 
(http://www.palombar.pt). A entidade sem 
fins lucrativos teria ainda como objetivo valori-
zar as construções, alertando para o seu valor 
patrimonial e incentivando à sua recuperação, 
mas também trabalhar diretamente com os 
seus proprietários no sentido de os sensibilizar 
e apoiar a manterem-nas ativas. Com esse pro-
pósito, foi criado um sistema de apoio finan-
ceiro para a realização de obras de restauro, 
apoio técnico a ações de repovoamento e 
inventariação do património columbino, que 
decorreu entre 2001 e 2004, no nordeste do 
país e no distrito da Guarda.
Teresa Nóvoa, atual presidente da Palombar, 
revela-nos que, de facto, nos anos seguintes, 
foram vários os pombais recuperados e manti-
dos pela associação, mas a sua ação foi-se alar-
gando, tendo acabado por extravasar as cons-
truções que motivaram a sua criação, o que 
levou mesmo à alteração do seu nome para 
Associação de Conservação da Natureza e do 
Património Rural e à mudança da sua sede 
de Vila Chã (Miranda do Douro) para... Uva.
FUNÇÃO ECOLÓGICA
Em pleno século XXI, quando os borrachos já 
não são essenciais para matar a fome, embora 
continuem a ser apreciados como petisco gas-
tronómico, e o pombinho já não é vital para 
adubar os terrenos depauperados, apesar das 
Os pombais eram complemento 
da atividade agropecuária
Atração turística. Uva possui 
a maior concentração de columbários 
do país, totalizando 44 estruturas 
destinadas à criação de pombos.
Interessante 91
existindo também características que se 
repetem em quase todos os columbários 
tradicionais, independentemente da 
região onde tenham sido edificados.
Assim, é habitual encontrar no chão, no 
centro do pombal, mesas, geralmente 
circulares, feitas de pedra maciça, nas 
quais era depositado o cereal nos perío-
dos de maior escassez de alimento. Além 
disso, as paredes interiores, edificadas 
em alvenaria de xisto ou granito miúdo, 
consoante a matéria-prima existente em 
cada lugar, mostram a terra argilosa usa-
da como ligante e o reboco de argamassa 
de cal que tapa todas as fissuras entre as 
pedras, isolando assim o interior do frio 
e da humidade. De modo a aumentar a 
impermeabilização das construções e 
proteger o reboco, era adicionada à arga-
massa uma gordura animal, usualmente 
de cabra. As paredes interiores encon-
tram-se repletas de cavidades em toda a 
sua extensão, geralmente conhecidas por 
“buracas”, onde os pombos se abrigam 
e nidificam. Também é habitual encon-
trar pedras salientes, que tanto servem 
para o poiso das aves como para facilitar 
o acesso dos proprietários aos ninhos, 
com o intuito de recolher os borrachos. 
Olhando para cima, vê-se o telhado. As 
vigas principais, apoiadas nas paredes, 
eram feitas em madeira da região, como 
olmo, carvalho, freixo ou zimbro. Nelas 
assentavam os caibros, mais longos e 
grossos, e nestes, por sua vez, as ripas. 
Teresa Nóvoa e Nuno Martins recor-
dam que, “na zona de Bragança e Vi-
nhais, alguns telhados eram encimados 
por lajes de xisto; no entanto, o mais 
comum era usar-se a telha de canudo ou 
telha portuguesa, também ela produzida 
localmente”.
Radiografia 
de um pombal
A s habitações dos pombos, tal como as casas das pessoas, não são todas 
iguais. Na verdade, conhecem-se quatro 
tipologias diferentes no Nordeste portu-
guês. Na Terra Fria Transmontana, que 
inclui os concelhos raianos de Vinhais, 
Bragança, Vimioso, Miranda do Douro 
e Mogadouro, onde se verifica maior 
precipitação e temperaturas mais baixas 
durante o inverno, são mais comuns os 
pombais com plantas em ferradura e 
circulares, com telhados de uma água. 
Na Beira Alta e na Terra Quente Trans-
montana, que inclui os concelhos de 
Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, 
Macedo de Cavaleiros, Mirandela e Vila 
Flor, onde existe escassa precipitação e 
amenas temperaturas invernais, surgem, 
sobretudo, as construções com planta 
quadrada e planta circular com telhado 
cónico. Estes últimos, devido à sua im-
plantação em zonas escarpadas ou sobre 
os fraguedos, são confundidos, amiúde, 
com moinhos de vento. Qualquer que 
seja a sua arquitetura exterior, é possí-
vel encontrar características comuns à 
grande maioria dos pombais, o que de-
monstra que, de facto, a funcionalidade 
foi o pilar da sua conceção, lembram 
Teresa Nóvoa e Nuno Martins, técnicos 
da Palombar. Os atributos idênticos 
incluem, por exemplo, a orientação a 
sul, a edificação com xisto ou granito, as 
paredes exteriores rebocadas e caiadas, 
as portas pequenas e colocadas a cerca 
de um metro do chão, as saídas de voo 
com cerca de 12 centímetros, localizadas 
perto do telhado e direcionadas para o 
lado em que o terreno apresenta maior 
inclinação, e a existência de beirais em 
pedra sob as saídas de voo ou a toda 
a volta da construção. Como seria de 
esperar, nenhuma destas características 
arquitetónicas é obra do acaso, mas, pelo 
contrário, tem um objetivo concreto que 
visa melhorar as condições de vida das 
aves, assegurando a sua sobrevivência 
e aumentando a sua produtividade. A 
orientação a sul, por exemplo, pretende 
maximizar a exposição solar, permitindo 
que os pombos façam do seu telhado um 
poiso soalheiro e seguro. A segurança 
também é assegurada pelo exterior re-
bocado e caiado e pela existência de um 
beiral em pedra, uma vez que criam uma 
superfície lisa e uma barreirafísica que 
impedem a subida de predadores terres-
tres. Além disso, a cal também funciona 
como desinfetante, que ajuda a regular 
o estado sanitário do pombal, e o beiral 
pétreo facilita o poiso e permite uma rápida 
entrada e saída das aves. Para minimizar o 
ataque de predadores vindos do céu (aves 
de rapina), as saídas de voo têm a medida 
exata para que apenas os pombos consigam 
entrar e encontram-se direcionadas para 
o lado em que o terreno apresenta maior 
inclinação: isto não só evita a entrada de 
inimigos como possibilita um voo mais 
rápido e desimpedido de obstáculos. Os 
pombais de uma água, típicos da Terra Fria 
Transmontana, apresentam ainda, na sua 
maioria, um pequeno muro elevado acima 
do telhado que funciona como corta-vento, 
permitindo assim que os pombos estejam 
abrigados no exterior. Todavia, as suas 
peculiaridades construtivas não se ficam 
por aqui: são comummente encimados por 
pináculos de quartzo que serviriam, acima 
de tudo, um propósito estético, mas que 
cumpririam também a função de engodo, 
ou seja, no ato da caçada, as aves preda-
doras não distinguiriam os pombos dos 
pináculos e, ao investirem nestes últimos 
por engano, dariam uma oportunidade de 
fuga às verdadeiras presas, revelam Teresa 
Nóvoa e Nuno Martins. Os técnicos da 
Palombar também levantam o véu sobre as 
pequenas portas, que mais parecem janelas, 
nomeadamente sobre a sua colocação a 
cerca de um metro do solo. As suas reduzi-
das dimensões visam impedir a entrada de 
predadores e poupar madeira, enquanto a 
sua localização alteada permite a acumula-
ção de estrume (pombinho), sem que isso 
impeça o funcionamento da porta e o aces-
so ao interior do columbário. Concluída a 
vistoria exterior aos pombais, é chegada a 
hora de abrir a porta e de espreitar o inte-
rior, onde os pombos se refugiam, nidificam 
e criam as suas proles. Se por fora nada é 
deixado ao acaso, por dentro muito menos, 
Qualquer que seja a sua arquitetura exterior, é possível encontrar características comuns 
à maioria dos pombais, o que demonstra que a funcionalidade foi o pilar da sua conceção.
SUPER92
suas reconhecidas propriedades como fertili-
zante orgânico, a Palombar “decidiu apostar 
na recuperação da função ecológica dos pom-
bais tradicionais, o que exige uma intervenção 
mais abrangente ao nível da manutenção dos 
ecossistemas”, destaca Teresa Nóvoa.
Assim, nos últimos anos, a intervenção 
da associação tem ocorrido, sobretudo, nos 
pombais localizados dentro do território de 
aves de rapina cuja presença em Portugal está 
ameaçada, como as águias-reais e as águias de 
Bonelli, podendo servir igualmente para revi-
talizar as populações de falcões-peregrinos, 
açores e gaviões, entre outras aves de presa. 
O objetivo de incrementar as populações 
columbófilas e de outras espécies que lhes 
estão associadas, como estorninhos e pardais, 
é aumentar a disponibilidade de presas, sobre-
tudo durante a época de nidificação das aves de 
rapina, de modo a colmatar a escassez de ali-
mento natural, uma vez que os bandos selva-
gens de pombo-das-rochas são cada vez mais 
raros. Nesse sentido, após a recuperação e 
o repovoamento dos antigos columbários, 
sobretudo os que se localizam nas margens 
escarpadas dos rios Douro, Sabor e seus afluen-
tes, procede-se ao seu abastecimento regular 
com cereal (trigo) ou fomenta-se o cultivo dos 
campos cerealíferos ao seu redor, adubados 
com o pombinho. Deste modo, não só se con-
tribui para a preservação da natureza como se 
restituem as práticas agrícolas típicas.
Além de se ter passado a olhar para os pom-
bos e para os pombais com outros olhos, Teresa 
Nóvoa salienta que também se evoluiu no pro-
cesso de recuperação dos edifícios arruinados: 
“Enquanto, num primeiro momento, os pom-
bais eram reconstruídos sem olhar aos materiais 
e às técnicas de construção, nos últimos anos 
estes aspetos têm sido acautelados. Foi-se tor-
nando claro que não eram apenas os pombais 
que estavam a ficar em ruínas, mas também o 
conhecimento relativo à sua construção. Além 
do património construído, também estava em 
risco o património imaterial a ele associado.”
Nuno Martins, estudioso e divulgador da 
arquitetura vernacular do Nordeste e técnico 
da Palombar há 15 anos, explica que, nos últi-
mos tempos, “passaram a ser exclusivamente 
utilizados materiais e técnicas tradicionais de 
construção, no sentido de recuperar e dar con-
tinuidade a esse conjunto de saberes que, por 
ser tão específico, é particularmente vulnerá-
vel”. Além disso, “esta abordagem é mais sus-
tentável do que a anterior, já que quase todos 
os materiais são locais e naturais”.
O preço a pagar é que esta é uma solução mais 
trabalhosa, sendo já poucos os construtores que 
conhecem as técnicas tradicionais. Assim, a 
Palombar tem tido um papel ativo na recupera-
ção e transmissão destes conhecimentos, não 
só a profissionais, mas também a jovens interes-
sados em aprender. Aqui chegados, percebe-
-se melhor a razão por que a pequena aldeia 
transmontana de Uva se enche de visitantes 
estivais, oriundos dos quatro cantos do mundo, 
que chegam com vontade de, literalmente, pôr 
as mãos na massa.
A revitalização das técnicas de construção 
tradicionais usadas nos pombais acabou por 
inspirar a intervenção da Palombar noutras 
construções rurais, como os moinhos de água, 
os fornos de pão tradicionais e até uma forja, 
onde outrora se trabalhava o ferro forjado. 
Também têm promovido intervenções em 
muros de pedra, característicos da paisagem 
do Nordeste, que são usados para separar pro-
priedades, marcar caminhos ou suster terras 
em zonas com acentuado declive. Além destas 
importantes funções humanas, também cum-
prem outras, ecológicas, “uma vez que servem 
de abrigo a diferentes espécies de insetos, rép-
teis e anfíbios, contribuindo para o aumento 
da biodiversidade, e provando, uma vez mais, a 
utilidade de aliar a conservação da arquitetura 
vernacular à preservação da natureza”, diz 
Nuno Martins.
Assim, na atualidade, a Palombar tem como 
principais objetivos a conservação dos ecos-
sistemas agrícolas, florestais e selvagens, bem 
como a preservação do património edificado e 
das técnicas tradicionais de construção. O seu 
lema é “investigar, experimentar e divulgar”, 
de modo a que o conhecimento empírico e 
científico adquirido não se perca, mas possa ser 
usado e rentabilizado, tanto por especialistas 
(arquitetos, engenheiros agrícolas e florestais, 
biólogos, etc.) como por pessoas sem formação 
académica superior, como construtores civis, 
agricultores, trabalhadores rurais, etc.
DESENVOLVIMENTO DO INTERIOR
Com a sua missão de preservar o património 
natural e construído, dando-lhe continuidade 
pela conservação dos recursos e pela transmis-
são do conhecimento, através de uma abor-
dagem pedagógica e de cooperação que se 
pretende que resulte no enriquecimento dos 
indivíduos e na dinamização do mundo rural, a 
Palombar tem-se constituído como um polo 
de dinamização do interior do nordeste trans-
montano, atraindo inúmeros curiosos e espe-
cialistas até à região.
A maioria das pessoas vai apenas durante 
alguns dias, para participar em encontros, 
seminários, palestras, oficinas, cursos, inter-
câmbios, campos de trabalho, etc. Para ilustrar 
o que acaba de ser dito, olhemos, com brevi-
Sem velas. Alguns columbários têm 
planta circular e telhado cónico. Devido 
à sua implantação em zonas escarpadas 
ou sobre os fraguedos, são muitas vezes 
confundidos com moinhos de vento.
Os pombos 
alimentam 
várias rapinas 
em risco
Interessante 93
Praga urbana
O apreço pelos pombos nas aldeias rurais de Trás-os-Montes e da 
Beira Alta raiana pode parecer algo estra-
nho aos olhos dos residentes citadinos, 
onde estes seres emplumados são vistos, 
geralmente, comovizinhos indesejáveis. 
Os pombos prosperam nas cidades, 
tornando-se, muitas vezes, “pragas urba-
nas”, porque existe grande quantidade 
de alimentos disponíveis, desde os resí-
duos provenientes da atividade humana 
até à alimentação oferecida pelas pessoas 
de forma pontual ou permanente. Além 
disso, quase não têm predadores, como 
as aves de rapina, que costumam ser os 
seus principais caçadores em ambien-
tes naturais. Como se não bastasse, os 
espaços citadinos oferecem inúmeros 
abrigos onde as aves se protegem das 
intempéries e nidificam. Para não serem 
importunadas, instalam-se, geralmente, 
em locais altos, como telhados, beirais, 
peitoris de janelas, orifícios nas paredes, 
campanários de igrejas, equipamentos 
de ar condicionado, etc. As passeatas que 
os pombos fazem ao nível do solo ser-
vem sobretudo para procurar alimento, 
que inclui sementes e sobras alimentares 
humanas (deitadas ao lixo ou colocadas 
intencionalmente). Quanto maior for a 
disponibilidade de alimento, maior será 
a quantidade de aves e, concomitan-
temente, de descendentes produzidos 
pelas mesmas: cada casal pode ter cinco 
ou seis ninhadas por ano, cada uma com 
até dois filhotes, e um bando de pombos 
citadinos não controlado pode duplicar 
de tamanho a cada ano! Os pombos das 
cidades, sobretudo quando têm efetivos 
populacionais elevados, podem causar 
diversos problemas ambientais e de saú-
de pública. É habitual provocarem a con-
taminação do ambiente por bactérias, 
fungos e parasitas, que podem transmitir 
várias doenças aos humanos. Sem espaço 
nem tempo para nos referirmos a todas, 
deixamos apenas alguns exemplos, como 
a salmonelose (intoxicação alimentar 
que se caracteriza por vómitos, diarreia, 
febre e dores abdominais) e a ornitose 
(cujos sintomas são vómitos, diarreia e 
problemas pulmonares). Também é im-
portante lembrar os parasitas, como, por 
exemplo, os piolhos, os percevejos e os 
ácaros, que infestam tanto as aves como 
os seus ninhos e abrigos e as casas e apar-
tamentos que se localizam nas proximi-
dades. Estes podem fomentar problemas 
respiratórios e alérgicos, como a rinite, a 
asma ou a bronquite. As fezes dos pom-
bos também provocam, habitualmente, 
danos materiais avultados. Isto acontece 
porque são ácidas e, além de sujarem os 
prédios e as ruas, danificam as pinturas 
e corroem as rochas e as superfícies me-
tálicas usadas na construção de edifícios 
e monumentos. Além disso, provocam 
o entupimento de caleiras, telhados e 
condutas de ventilação e contribuem 
para a proliferação de ratos, baratas e 
moscas. Se pensarmos que cada pombo 
produz cerca de 2,5 quilos de fezes por 
ano, podemos ter uma ideia mais exata 
da dimensão do problema. Conscientes 
destas graves consequências, diversas 
autarquias têm vindo a sensibilizar os 
seus munícipes para a necessidade de 
colaborarem no controlo destas pragas 
aladas. Assim, recomendam que não se 
alimente os pombos e que se evite dei-
xar comida ao seu alcance; que se tape 
o acesso a caleiras e outras aberturas 
nos telhados e terraços, aplicando rede 
metálica; que se bloqueiem todos os in-
terstícios, fissuras ou buracos em que os 
pombos se possam instalar, usando, por 
exemplo, madeira prensada, outro mate-
rial sólido e leve ou arame de galinheiro 
enrolado; que se destruam regularmente 
os materiais de nidificação e ovos que 
sejam encontrados; que se façam espan-
talhos artesanais, usando, por exemplo, 
garrafas plásticas vazias, latas e tiras de 
alumínio (estes devem ser substituídos 
regularmente, para evitar a habituação 
das aves); que se perturbe amiúde os 
pombos, enxotando-os para fora dos 
seus poleiros. Recorde-se que estas 
medidas não deverão afetar, de modo 
algum, a segurança das pessoas, pelo que 
os materiais devem estar firmemente 
fixados para evitar acidentes. Em alguns 
casos, pode ser necessário contactar a 
administração do condomínio ou reque-
rer uma autorização municipal (o ideal 
será informar-se junto do seu município 
sobre a melhor forma de atuar).
dade, para algumas das atividades realizadas 
pela Palombar no segundo semestre de 2016: 
Intercâmbio Internacional “BaSuF – Building a 
Sustainable Future”, 4.º Encontro de Arquite-
tura Tradicional e Sustentabilidade, 44.º Campo 
de Trabalho Voluntário Internacional: Cons-
trução de Alimentador de Aves Necrófagas, 
45.º Campo de Trabalho Voluntário Internacio-
nal: Reconstrução de Pombais Tradicionais, Ofi-
cina de Rebocos de Terra e Cal, 46.º Campo de 
Trabalho Voluntário Internacional: Prospeção 
e Escavação Arqueológica no Castro de São 
João das Arribas e Encontro Leguminosas, da 
Terra à Mesa – Perspetivas Multidisciplinares, 
entre outras.
Sem tempo nem espaço para abordar todas 
estas atividades, que envolvem, sobretudo, 
troca de experiências internacionais, espreita-
mos apenas algumas das mais curiosas, como 
o Intercâmbio Internacional BaSuF, que envol-
veu três entidades europeias: a Dala Founda-
tion, da Roménia, a Grada Dragodid, da Croá-
cia, e a Union Rempart, que congrega 170 asso-
ciações francesas de salvaguarda e restauro 
do património. Durante 15 dias, 23 jovens rome-
nos, croatas, franceses e portugueses junta-
ram-se em Uva para partilhar as técnicas tradi-
cionais de construção dos seus países, não só 
na teoria, mas também na prática.
Também com o intuito de pôr as mãos na 
massa, reuniram-se na aldeia transmontana, 
Os pombos prosperam nas cidades 
porque existe grande quantidade 
de alimentos disponíveis.
SUPER94
nomeadamente através da distribuição 
gratuita de dispositivos espanta-pássaros 
e de redes de exclusão. Ao contrário 
dos primos pombos, que trajam de 
cinzento, as rolas vestem-se, sobretudo, 
de tons acastanhos, sendo também de 
menores dimensões. Estas encontram-
-se representadas em território luso pela 
rola-brava (Streptopelia turtur), também 
chamada “rola-comum”, e pela rola-
-turca (S. decaoto), também conhecida 
por “rola-de-colar”, devido ao meio-
-colar preto que ostenta na parte poste-
rior do pescoço. A rola-brava é a mais 
pequena representante da família dos 
columbídeos em Portugal, atingindo, no 
máximo, 27 cm de comprimento. Visita-
-nos apenas na primavera e no verão, 
uma vez que passa o inverno em África, 
e é uma espécie migradora de longa 
distância, que pode percorrer mais de 
dez mil quilómetros. Apresenta a parte 
superior do corpo malhada de laranja e 
preto, o abdómen claro e a parte inferior 
das asas muito escura. Esta espécie foi 
eleita pela Sociedade Portuguesa para o 
Estudo das Aves como Ave do Ano em 
2012, porque tem tido um decréscimo 
acentuado em Portugal e na maior par-
te dos países europeus: as populações 
europeias desta espécie diminuíram em 
média 69 por cento entre 1980 e 2009. 
Em Portugal, em apenas seis anos, entre 
2004 e 2010, as populações nacionais 
registaram uma diminuição média de 
31%. Entre as causas para o decréscimo 
populacional contam-se a caça exces-
siva, a perda e a degradação do habitat 
de reprodução, desde a destruição de 
sebes e linhas de água, a simplificação do 
mosaico agrícola e florestal e a expansão 
de monoculturas até ao uso intensivo 
de fitofármacos agrícolas. A rola-turca, 
originária da Ásia, é uma espécie exótica, 
que se instalou no nosso país em 1974, 
tendo-se expandido com espantosa 
rapidez: na atualidade, encontra-se com 
facilidade do Minho ao Algarve, sendo 
mais abundante do que a espécie nativa, 
a rola-brava. Esta ave tem a plumagem 
castanha-creme, com cinzento nas asas. 
Em voo, a cauda mostra uma barra es-
branquiçada na parte inferior, que é in-
terrompida no centro pelos tons acasta-
nhados da restante plumagem. Nidifica 
ao longo de todo o ano, em árvores ou 
em arbustos, e os seus ninhos toscos são 
constituídos unicamente por um aglo-
merado de pequenos ramos secos.
Pombos e parentesT odos conhecemos bem os pombos domésticos, muito vulgares nas 
aldeias, vilas e cidades do país. No en-
tanto, no território nacional e em estado 
selvagem, podemos encontrar parentes 
próximos, pertencentes à mesma família 
(os columbídeos), que inclui quatro 
espécies de pombos e duas de rolas. De 
um modo geral, os columbídeos caracte-
rizam-se por terem um tamanho médio 
(aproximadamente 30 centímetros de 
comprimento e cerca de 70 de enver-
gadura) e um peso que ronda os 350 
gramas. Apresentam a cabeça pequena, 
o pescoço curto, as asas pontiagudas e a 
cauda comprida, o que lhes permite um 
voo rápido e resistente. Alimentam-se 
sobretudo de sementes, que apanham 
no solo, e bebem, geralmente, com o 
bico totalmente mergulhado na água, 
o que não acontece com outras aves, 
que costumam encher o bico e depois 
inclinar a cabeça para trás para engolir. 
Outra curiosidade desta família é que os 
filhotes são alimentados com um líquido 
especial, “o leite de pombo”, produzido 
no papo. O pombo-doméstico (Colum-
ba livia domestica), muito comum em 
zonas habitadas pelo homem, resultou 
da domesticação do pombo-das-rochas 
(C. livia), que, tal como o nome indica, 
habita zonas rochosas e escarpadas, on-
de também nidifica. Embora apresentem 
uma silhueta idêntica, tanto pousados 
como em voo, a forma selvagem exibe 
sempre uma plumagem cinzenta, com a 
base da cauda, também chamada “uro-
pígio”, branca e duas barras pretas nas 
asas, enquanto a forma doméstica pode 
ser similar ou apresentar uma grande 
variedade de cores e padrões, que vão 
desde o branco até ao preto, passando 
pelos castanhos, avermelhados e ma-
lhados. No pombo-das-rochas, a parte 
inferior das asas é branca, o que permite 
distingui-lo, em voo, do pombo-bravo 
(C. oenas), que exibe essa região pintada 
de cinzento, bem como todo o restante 
corpo, incluindo o uropígio. Não apre-
senta quaisquer manchas brancas na plu-
magem, notando-se apenas vestígios de 
barras escuras na parte superior da base 
das asas. Esta espécie é muito comum, 
surgindo em campos agrícolas, parques, 
jardins e orlas dos bosques, e recorre aos 
buracos das árvores, dos edifícios e das 
rochas para nidificar. O pombo-torcaz 
(C. palumbus) é o maior representante 
desta família, podendo atingir 40 cm 
desde a ponta do bico até à extremidade 
da cauda. Tal como os seus parentes, 
veste-se predominantemente de cinzen-
to. No entanto, apresenta manchas brancas 
características no pescoço e nas asas, o que, 
a par das suas grandes dimensões, ajuda a 
distingui-lo dos demais. Habitualmente, ao 
levantar voo, as asas produzem um baru-
lho característico, idêntico a castanholas, 
que serve de sinal de alarme para os seus 
congéneres. É sobretudo uma espécie flo-
restal, que se reproduz em frágeis ninhos 
construídos com galhos. Curiosamente, 
é vulgar em parques e jardins citadinos, 
misturando-se, amiúde, com os bandos de 
pombos-domésticos. Além de existir em 
todo o território continental, também pode 
ser observado em algumas ilhas do arquipé-
lago dos Açores, onde ocorre a subespécie 
endémica C. palumbus azorica. Oriundo 
exclusivamente do arquipélago madeirense 
temos o pombo da Madeira, também co-
nhecido como “pombo-trocaz” (C. trocaz). 
Devido à insularidade, esta espécie evoluiu 
a partir do C. palumbus. Porém, apresenta-
-se muito mais escura do que esta, com o 
dorso e as asas cinzento-azulado escuro, 
sem barras brancas nas asas e com a marca 
alva no pescoço mais esbatida. A plumagem 
iridescente do pescoço apresenta tons acas-
tanhados e esverdeados e é mais baça do 
que na sua congénere continental. O bico 
é vermelho, apresentando o olho amarelo 
pálido com um anel orbital também verme-
lho, um comprimento médio de 38 a 40 cm 
e uma envergadura de 72 a 76 cm. Segundo 
a Secretaria Regional do Ambiente e Re-
cursos Naturais da Madeira, esta ave goza 
de grande impopularidade junto das po-
pulações rurais, que a envenena e abate ile-
galmente, uma vez que causa estragos nos 
campos agrícolas. Todavia, como se trata 
de um endemismo exclusivo da Madeira, 
que não ocorre em qualquer outro sítio 
do mundo, têm sido implementadas me-
didas que visam protegê-lo, mitigando os 
danos causados na agricultura. Assim, têm 
sido concedidos apoios aos agricultores, 
Em Portugal, podemos encontrar vários 
parentes próximos dos pombos comuns. 
A família inclui quatro espécies de pombos 
e duas de rolas. Aqui, um pombo-torcaz.
Interessante
Os columbários têm fixado 
técnicos nas aldeias do interior 
95
em geração e que correm o risco de desapa-
recer, mas alicerça o seu trabalho quotidiano 
e os diversos projetos em conhecimentos cien-
tíficos atualizados e em parcerias com centros 
de investigação e instituições de ensino superior.
Atualmente, a Palombar dá emprego a dez 
pessoas a tempo inteiro e diversas a tempo par-
cial, a que se juntam inúmeros colaboradores 
voluntários. Entre os vários especialistas que 
trabalham na Palombar e se fixaram em Trás-
-os-Montes, incluem-se, por exemplo, os biólo-
gos José Pereira, de 32 anos, natural do Porto, 
e Américo Guedes, de 30 anos, oriundo do Peso 
da Régua. Este último é um dos responsáveis 
pelo repovoamento dos pombais e, juntamente 
com o veterinário Miguel Nóvoa, pela vigilância 
médico-veterinária das populações de pombos, 
que podem conter parasitas capazes de afetar 
gravemente as aves de rapina raras e amea-
çadas.
O repovoamento de um pombal faz-se, 
geralmente, com cerca de 20 juvenis voadores, 
maioritariamente fêmeas, que apresentem 
bom estado de saúde. As análises parasitológi-
cas realizam-se a partir do conteúdo fecal, que 
permite identificar, por exemplo, a presença 
de coccidias (Eimeria columbarum, etc.), res-
ponsáveis pela coccidiose, de esfregaços da 
mucosidade do fundo da garganta, que possi-
bilita a deteção do parasita Tricomonas colum-
bae, responsável pela tricomonose, e da obser-
vação das penas e da pele, onde se alojam 
ectoparasitas, como piolhos, ácaros e carraças.
Após a verificação médico-sanitária de cada 
exemplar e o registo de alguns parâmetros 
biométricos, como a quantidade de músculo e 
o comprimento do tarso, do bico e da asa, os 
pombos recebem uma anilha identificativa e 
são colocados no novo pombal, onde perma-
necerão fechados durante cerca de três meses. 
Findo esse período de reclusão e aclimatação, 
abrem-se as saídas de voo e as aves passam a 
circular livremente. No caso dos columbários 
situados no território das aves de rapina, 
retoma-se uma relação ancestral entre predador 
e presa. As rapinas têm a seu favor a velocidade, 
a força, o efeito surpresa, as garras e o bico 
impiedosos, mas os pombos não estão total-
mente indefesos: dispõem do efeito de bando, 
de rápidas manobras de fuga e têm sempre o 
pombal como abrigo seguro. Assim, o mais 
comum é serem predados os exemplares mais 
envelhecidos e debilitados ou os que apresen-
tam colorações (fenótipos) muito diferentes 
das variedades selvagens, que, recorde-se, exi-
bem sempre uma plumagem cinzenta.
Muito mais haveria para dizer sobre os pom-
bos e os pombais, mas a falta de espaço obriga-
-nos a ficar por aqui. Resta o convite para que 
o leitor ponha pés ao caminho e vá até Trás-
-os-Montes ver com os seus próprios olhos 
os columbários tradicionais, que constituem, 
indubitavelmente, um ex-libris da região e uma 
herança cultural que vale a pena preservar.
J.N.
durante 15 dias, outros 23 jovens oriundos de 
China, Croácia, Espanha, Finlândia, França, Itá-
lia e Portugal, para reconstruir dois pombais 
tradicionais, que tinham sido deixados ao aban-
dono nas últimas décadas. Os voluntários do 
45.º Campo de Trabalho Voluntário Internacional 
tiveram a oportunidade de aprender e experi-
mentar todas as técnicas tradicionais de cons-
trução que fazem parte do processo,nomea-
damente picar o reboco, preparar e aplicar a 
argamassa e reparar o telhado.
Por último, referiremos apenas o 4.º Encontro 
de Arquitetura Tradicional e Sustentabilidade, 
que levou a Uva cerca de 50 participantes (apro-
ximadamente o número de residentes per-
manentes na aldeia), para palestras, oficinas 
e partilha de conhecimento rigoroso sobre a 
arquitetura vernacular e as suas potencialida-
des, de olhares multidisciplinares sobre as suas 
inúmeras dimensões, e de experiências mais ou 
menos formais que fazem da recuperação do 
património rural e das artes construtivas uma 
ferramenta para mudar o mundo.
Todavia, o mais curioso não é a atração sazo-
nal de visitantes, sobretudo jovens adultos, 
até Uva, mas a sua fixação permanente em Trás-
-os-Montes, nomeadamente de especialistas 
em várias áreas, como a biologia. Isto porque a 
Palombar valoriza os saberes locais e os conhe-
cimentos tradicionais que passam de geração 
Casas móveis. Com o objetivo de incrementar as 
populações columbófilas nos territórios das aves de rapina 
raras e ameaçadas, a Palombar desenvolveu pombais que 
podem ser facilmente colocados em posições estratégicas.
SUPER96
Céu e Terra
Longitude: zero
O meridiano de Greenwich separa leste 
e oeste, da mesma forma que o Equador 
separa o norte do sul. Intimamente ligado 
ao Greenwich Mean Time (GMT), também 
está no centro do nosso sistema de fusos 
horários. O seu caminho é determinado 
pela localização de um telescópio histórico, 
o Airy Transit Circle, que está localizado no 
Real Observatório de Greenwich, em Londres. 
Desde 1999, é assinalado por um potente 
laser verde que aponta para norte e que, 
em dias claros, pode ser visto a olho nu 
a mais de 50 quilómetros de distância. Foto: 
Miguel Claro (http://www.miguelclaro.com).
Interessante 97
SUPER98
Marcas & Produtos
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Coordenador Filipe Moreira (fmoreira@motorpress.pt)
Colaboraram nesta edição Francisco Mota, José Moreno, 
Máximo Ferreira, Miguel Claro e Paulo Afonso (colunistas), 
Alfredo Redinha, Cristina Saez, David Losa, Eulàlia Tramuns, 
Isabel Joyce, João Cosme, Joaquim Semeano, Jorge Nunes, 
Marta del Amo, Miguel Ángel Sabadell e Miguel Mañueco.
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N o dia 13 de janeiro, a Renault Pro+ apresentará no Salão de Bruxelas a sua mais recente novidade em comerciais elétricos, o novo Kan-
goo Z.E. O Kangoo Z.E. tem um novo motor e 
uma nova bateria que oferecem uma autono-
mia 50 por cento superior, ou seja, 270 quiló-
metros em regime NEDC, contra os atuais 170 
km. Com 200 km em utilização real, o novo 
Kangoo Z.E. oferece a maior autonomia de 
todos os comerciais ligeiros elétricos disponí-
veis no mercado. 
Ainda mais 
eficiente
A tualmente, a Tupperware produz e vende muito 
mais do que as simples caixas 
de conservação e congelação. 
A gama de produtos adaptou-
-se aos tempos de hoje e inclui 
um grande número de pro-
dutos para a casa e a cozinha, 
nomeadamente para o micro-
-ondas. Recentemente, foi 
apresentada mais uma inova-
ção a nível mundial: o Micro-
Pro Grill, que permite fazer 
grelhados no micro-ondas de 
forma rápida e saudável. O 
artigo estará disponível numa 
primeira fase em exclusivo 
para a rede de vendas. 
Grelhar no micro-ondas

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